• SCRIPTORES RERVM LVSITANARVM (série A) RELAÇÃO ANUAL DAS COISAS QUE FIZERAM os * Padres da Companhia de Jesus NAS SUAS MISSÕES Do Japão, China, Cataio, Tidore, Temate,Ambóino, Malaca, Pegu, Bengala, Bisnaga, Madure, Costa da Pescaria, Manar, Ceilão, Travancor, Malabar, Sodomala, Goa, Salcetc, Lahor, Diu, Etiópia a alta ou Preste João, Monomotapa, Angola, Guine', Serra Leoa, Cabo Verde e Brasil NOS ANOS DE ióoo A 1600 E DO PROCESSO DA CONVERSÃO E CRISTANDADE DAQUELAS PARTES: TIRADA DAS CARTAS QUE OS MISSIONÁRIOS DE LA ESCREVERAM. Pelo Padre FERNÃO GUERREIRO DA COMPANHIA DE JESUS, NATURAL DE AI.MODOVAR DE PORTUGAL NOVA EDIÇÃO DIRIGIDA E PREFACIADA POR ARTUR VIEGAS TOMO SEGUNDO 1604 A íócó COIMBRA Imprensa da Universidade 1931
  • RELAÇÃO ANUAL DAS COISAS QUE FIZERAM os PADRES DA COMPANHIA DE JESUS NAS SUAS MISSÕES
  • SCRIPTORES RERVM LYSITANARVM (SÉRIE A) RELAÇÃO ANUAL CjM.Mf- Padres da Companhia de Jesus NAS SUAS MISSÕES Do Japão, China, Cataio, Tidore, Ternate, Ambóino, Malaca, Pegu, Bengala, Bisnaga, Madure, Costa da Pescaria, Manar, Ceilão, Travancor, Malabar, Sodomala, Goa, Salcete, Lahor, Diu, Etiópia a alta ou Preste João, Monomotapa, Angola, Guiné, Serra Leoa, Cabo Verde e Brasil NOS ANOS DE 1600 A 1609 E DO PROCESSO DA CONVERSÃO E CRISTANDADE DAQUELAS PARTES: TIRADA DAS CARTAS QUE OS MISSIONÁRIOS DE LÁ ESCREVERAM. Pelo Padre FERNÃO GUERREIRO DAS COISAS QUE FIZERAM OS DA COMPANHIA DE JESUS, NATURAL DE ALMODOVAR DE PORTUGAL NOVA EDIÇÃO DIRIGIDA E PREFACIADA POR ARTUR VIEGAS TOMO SEGUNDO 1604. A 1606 COIMBRA Imprensa da Universidade 1931
  • Desta edição fez-ie uma tiragem especial de 100 exemplares de papel de linho, numerados e rubricados
  • RELAÇÃO ANUAL DAS COISAS QUE FIZERAM OS PADRES DA COM- panhia de JESUS nas partes da índia Oriental, e em algumas outras da conquista deste reino nos anos de 604 e 6o5 e do processo da conversão e cristandade daquelas partes. Tirada das cartas dos mesmos padres que de lá vieram, pelo Padre Fernão Guerreiro da mesma Companhia, natural de Almo- dôvar de Portugal. 11 Vai dividido em quatro livros. O primeiro de Japão. O II da China. O 111 da Índia. O IV de Etiópia e Guiné. (Corresponde ao 3.® volume da i.a edição) 1 Com licença da Santa Inquisição. Em Lisboa, impresso por Pedro Crasbeeck. Ano de 1607.
  • LICENÇAS Vi esta relação Anual dos Padres da Companhia de Jesus, da índia Orien- tal, etc., posta em ordem pelo Padre Fernão Guerreiro da jnesma religião, e me pareceu meio muito acomodado para inflamar o ânimo dos fiéis e excitar à ajuda de tão santas conquistas, e assim mui digna de se imprimir. Em Lisboa em S. Francisco d'Enxobregas, a 2 de Abril de 607. Fr. Luís dos Anjos. Vista a informação pode-se imprimir esta relação anual dos Padres da Companhia de Jesus, da índia Oriental, e depois de impressa torne a êste con- selho para se conferir e dar licença para poder correr, e sem ela não correrá. Em Lisboa, aos 3 de Abril de 607.3 Marcos Teixeira. Rui Pires da Veiga. Eu, António de Mascarenhas, Provincial da Companhia de Jesus, da Pro- víncia de Portugal, por particular comissão que para isso tenho do muito Reverendo Padre Cláudio Aquaviva, nosso prepósito geral, dou licença para que se imprima a Relação Anual das coisas da índia, Japão, China, Etiópia, que fizeram os padres da nossa Companhia, na conversão dos infiéis daquelas partes, a qual pôs em ordem o Padre Fernão Guerreiro da mesma Companhia e tirou das cartas que os padres que por aquelas partes andam nos enviaram, a qual Relação foi também examinada por pessoas doutas e graves de nossa Compa- nhia, e por verdade disto, dei esta assinada de meu sinal em l.isboa, a 22 de Maio de 607. António Mascarenhas.
  • AO LEITOR TÃO grande a consolação que recebem os fiéis a cuja notícia veem estas relações que fazemos das coisas que nas partes do Oriente e das mais conquistas deste reino, sucedem na conversão da gentilidade e glória de nosso Senhor que disto resulta, que nos obriga a lhe não faltarmos com elas todas as vezes que se oferece matéria de as podermos fazer, pois não sòmente dêste reino donde os operários saem, mas dos de Castela, França, Itália, Alemanha, são sumamente desejadas e estimadas e com muito afecto no-las mandam pedir, e até o,s próprios hereges desejam de as saber em particular, quando em geral ouvem falar delas, pelo que em Ale- manha o sereníssimo Duque de Bavária, como tão católico e zeloso Príncipe que é da verdadeira religião, por si próprio as traduz em tudesco, para confirmação de nossa santa Fé e confusão dos hereges. Nesta presente trataremos das coisas que os anos de 604 e 6o5 aconteceram nos reinos de Japão, China, Maluco, Pegu, Bengala, índia, Etiópia, Guiné; sòmente faltam as da província de Goa, cujas cartas se não receberam, por não chegarem as naus que daquela cidade partiram. Contam-se nela várias coisas de grande edificação e exemplo e que muito provocaram aos fiéis a louvarem e glorificarem a nosso Senhor autor verdadeiro delas, ao qual só por tudo se dê a glória.
  • * L I V R O PRIMEIRO DAS COISAS DE JAPÃO CAPÍTULO PRIMEIRO Do estado em geral das coisas de Japão, assim no temporal como 710 espiritual, pelos anos de i6o3 e 1604 01 gozando o Japão, por todo êste tempo, de grande paz e quietação, debaixo do governo de Daifuçama, senhor univer- sal de todo êle, o qual agora se chama Cuboçama, que é título de uma dignidade que de novo tomou, maior que a de Taico, seu antecessor, porque quere dizer o mesmo que capitão uni- versal de toda a milícia de Japão; a qual dignidade êle tomou da mão do Dairi que, na realidade, é o verdadeiro e legítimo rei de todo Japão, pôsto-que, de muitos anos a esta parte, não tem mais que o nome. E para receber esta dignidade de sua mão, mandou concertar magni- ficamente as ruas por onde havia de passar, derrubando grande número de casas, para as endireitar. Saiu de seus paços com grande pompa e majestade, acompanhado de todos os senhores e príncipes de Japão, que para isto fêz vir à corte, os quais iam vestidos mui lustrosamente, e êle em um carro mui rico; e desta maneira se foi ao paço do Dairi, de quem recebeu o novo grau, sendo dêle tratado com as cortesias devidas à dignidade a que subia. *E porque, vivendo ainda Taico, seu antecessor, se tinha concertado com .fi.it êle, que chegando o príncipe Fim de Ioriçama, filho do mesmo Taico, à idade competente casaria com uma neta sua do mesmo Cubo, filha de seu filho mor- gado, fazendo agora êste príncipe os doze anos, efeituou logo o casamento com extraordinária solenidade e aparato, para o que também fêz ajuntar todos os senhores e príncipes de Japão. E porque é costume entre êles, em semelhan- tes casamentos, irem dar depois os parabéns aos noivos e visitá-los com pre- sentes (além dos muitos, mui ricos e custosos, com que todos os senhores de Japão visitaram êste príncipe, esmerando-se nisto com muita vantagem os que foram feitura de seu pai, por se mostrarem agradecidos), o Cubo o visitou tam- bém com um de barras de oiro e prata, que importaram duzentos e cincoenta mil cruzados, e depois lhe acrescentou de renda sobre a que já tinha, setecentos mil cruzados. E como é tão prudente e vê a mudança que pode ter êste impé- rio de Japão (coisa tão ordinária nêle), desejando que, por qualquer via que se variar, fique esta monarquia perpetuada em sua família e sangue, não só fêz o
  • 6 Das coisas de Japão casamento acima dito de sua neta com o príncipe, filho de Taico, mas com todos os demais príncipes e senhores mais poderosos procurou liar-se por via de casamentos, dando a uns os netos, a outros as netas e mais parentes, para com isto os obrigar mais a se unirem com êle e encostarem as suas partes, em todo tempo que se oferecer haver alguma perturbação ou alteração no império. E porque também para isto viu que o ajudava muito o estimar e engrandecer as coisas do Taico, e mostrar-se agradecido a seus benefícios, pois com tanta con- fiança, antes de morrer, lhe tinha entregue seu próprio filho e com êle todo o govêrno da Tença; e quanto com isto ganhava as vontades dos senhores que foram feitura do mesmo Taico, por isso não somente tratou sempre com tanta cortesia e respeito a pessoa do príncipe e sua mãe e a mulher principal do mesmo Taico, mas sobretudo lhe não faltou em ponto algum em que o pudesse honrar, e engrandecer suas coisas. Pelo que, no ano de 1604 determinou de o honrar e como canonizar por um dos principais Camis de Japão, fazendo-o • FU2. igual ou ainda su*perior a todos êles, e ao próprio que êles chamam Fachimão que é o Cami e falso deus que invocam nas batalhas, como os antigos, romanos e gregos invocavam a Marte; isto porém fêz, não porque cresse, como é pro- vável, que nele havia alguma divindade escondida ou coisa mais que humana, pois há tão pouco tempo, que todos o conheceram por homem mortal e cheio de tantos vícios e maldades, mas somente para com estas honras do mundo se lhe mostrar agradecido pelos benefícios que dêle recebeu, e juntamente mostrar aos da obrigação do mesmo Taico o respeito e reverência que lhe tem, e desejo de ainda depois de morto o engrandecer, e os obrigar com isto mais, e lhes ganhar as vontades para lhe nunca faltarem na lealdade e amor; e também, segundo alguns cuidam, para desta maneira abrir caminho a lhe fazerem outro tanto a êle depois de sua morte, que tudo não deixa de ser invenção do demónio que com semelhantes honras persuade aos ignorantes que agora vivem, que pode haver em Taico alguma coisa mais que humana, e aos vindoiros para que o venham a reverenciar e adorar, como tão cegamente agora fazem aos demais Camis que desta maneira chegaram a ser surpersticiosamente adorados e invo- cados desta nação. E ainda que por este respeito se tinha já feito a Taico um templo sum- ptuosíssimo, que agora é o mais lustroso e rico de todos os que há em Japão, e onde todos os anos, no dia em que êle morreu, de sua obrigação lhe celebravam sua festa mui solene como a Cami; esta porém que agora lhe fêz o Cubo, como era para o canonizar, e confirmar na dignidade e falsa divindade de Cami, foi a mais solene, não sòmente das que até então se tinham feito ao Taico, mas porventura de quantas desta sorte se fizeram em Japão. Chegado pois o dia, se fêz uma soleníssima procissão, na qual, além de infinita variedade de danças e invenções que nela iam, se levavam mais de duzentos cavalos a destro, que conforme a ordem do Cubo os senhores princi- pais do Japão mandaram ornados mui ricamente, e levados por homens mui • Fi.jv. bem vestidos de várias cores e libreas, acompanhando-os * outros muitos tam- bém não menos lustrosos: e chegando desta maneira todos por sua ordem ao templo de Taico, assim naquele dia como em alguns outros seguintes se con- tinuaram as festas com tanto custo e aparato, quanto até então se não tinha
  • Das coisas de Japão 7 visto. Houve por todos estes dias autos e representações mui grandes diante do templo de Taico, para os quais se lançou finta em todo o Meaco. Gas- tou-se muito nestas festas, e os que mais nelas se assinalaram, foi o príncipe e sua mãe, e a própria mulher do Taico, que a nenhuns gastos perdoaram, como a quem nisto mais ia; mas o que entre tudo foi bem empregado e gas- tado, foi o muito que se deu aos pobres, por ser esta uma coisa em que esta nação, pôsto-que gentia, se esmera sobre todas as outras, quando faz seme- lhantes festas e solenidades em honra de seus Camis ou defuntos. É êste grande rei, em género de soldado, mui esforçado e excelente capi- tão, mas de sua natureza brando e bem inclinado, e juntamente inteiro e amigo da justiça. E por isso, ainda que é temido, muito mais é amado; porque debaixo da sombra de seu govêrno todos, assim grandes como pequenos, sol- dados e mercadores, se logram pacificamente de suas fazendas e terras, sem haver comumente injustiças públicas nem extorsões, tiranias ou queixumes do senhor da Tença; antes, com verem a igualdade e justiça que em tudo guarda (que é muito de maravilhar num senhor gentio, e mais no Japão onde os senho- res são tão livres e absolutos), mais lhe desejam a vida que o contrário. E assim parece que lhe paga Deus estas virtudes morais cá nesta vida, não somente com a paz universal de todo o Japão, e sujeição tão grande com que todos lhe obedecem, senão também com as prosperidades e riquezas que lhe dá, des- cobrindo-lhe em seu tempo muitas e grandes minas de prata, e que cada dia mais se vão achando, principalmente no reino de Sando que é uma ilha para a parte do Norte, afastada de Japão quinze ou vinte léguas, das quais minas lhe vem cada ano perto de um milhão e meio de oiro, que todo entesoira com o demais que de outras minas e de suas rendas ordinárias recolhe, e vai * ajun- • fi. 3. tando em tanta quantidade, que êle mesmo quási não sabe o que tem. Quanto ao estado espiritual, andam da Companhia, nestes reinos, cento e vinte e três religiosos, divididos todos por dois colégios e um noviciado e vinte e duas casas ou residências. Teem à sua conta dois seminários de mais de trezentos moços estudantes, naturais de Japão, e todos os dógicos ou cate- quistas que ajudam na conversão das almas, e os ministros que estão no ser- viço das igrejas, homens provados na virtude e dedicados ao culto divino, que farão por todos número de mais de oitocentas pessoas, aos quais todos a Com- panhia ali sustenta à sua custa, afora o grande número de cristãos pobres que quási não teem mais que o que a Companhia lhes dá para ajuda de seu remédio. E como a Companhia lá não tem outras rendas, senão as esmolas que Sua San- tidade de cá lhe manda e Sua Majestade lhe faz também na índia, pôsto-que esta mal ou nunca se lhe paga, o qual tudo da China se lhe manda metido no cabedal e massa da nau que cada ano vai a Japão, por parecer da Santidade do Papa Gregório XIII que assim julgou que convinha para aqueles padres terem remédio de sustentação, e licença dos Vizo-Reis da índia, em qualquer ano que esta falte, lhes falta também todo o remédio, como lhes aconteceu nestes anos de seiscentos e três e seiscentos e quatro, que tomando-a os corsários holan- deses no porto de Macau, e com ela todo o cabedal e remédio que ia. para os padres e para os mais, ficaram em notáveis apertos de necessidade; pelo que era forçado aos padres ou largarem muita parte das casas e residências que
  • \ 8 Das coisas de Japão tinham por aqueles reinos e virem-se para a índia, ou despedirem dos seminá- rios os moços que nêles se criavam, e os ministros que serviam nas igrejas; cada uma das quais coisas era de mui grande dor e lástima para eles. Encomen- daram-se muito a Deus, e tiveram sobre isto muitas consultas, e pôsto-que os mesmos padres todos, com muita alegria, se ofereceram a comer ervas e padecer em suas pessoas todas as necessidades que Deus fosse servido, por não largarem aquelas casas e residências em que tanto serviço se fazia a Deus Nosso Senhor • Fi.3v.no bem das almas, com tudo * não puderam fazer menos que despedir os meninos dos seminários, pois nenhum remédio tinham de os poder sustentar; porém isto foi com tanta dor, e mágoa sua, quanto se pode entender que lhes causaria ver a tantos moços e mancebos, que desde sua meninice não conhe- ciam outros pais nem mestres senão os padres, oferecerem-se a jejuar todo o ano, e banhando-se em lágrimas de tristeza e sentimento, pedirem que os dei- xassem ficar, pelo menos para servirem em lugar dos moços de casa, por se não apartarem dos padres. Já, se isto fôra com alguma esperança de poderem cedo tornar a ser admitidos, algum alívio tiveram, assim os padres como eles; mas de todo estavam cortadas estas esperanças, porque nem aos próprios padres ficava remédio algum, se Deus não movera o coração do próprio Cuboçama, senhor de Japão, com ser gentio, que sabendo da tomada da náu, e da pobreza e necessidade em que os padres ficavam, lhes mandou de esmola trezentos e cincoenta taéis, que monta cada um, de nossa moeda, seis tostões, e de em- préstimo, sem os padres lho pedirem, cinco mil, para que se pudessem ajudar e remediar com êles, até terem com que lhe pagar. Foi isto coisa como vinda do céu, porque com esta esmola e com alguma outra com que ainda os mesmos cristãos que tinham mais posse, lhes socorreram, puderam passar aquele ano, pôsto-que com muito trabalho, até ir o seguinte a nau da viagem, com que tiveram algum remédio, por via das esmolas dos mercadores portugueses e de algum outro socorro que da China lhes mandou o Padre Visitador daquelas partes; o qual foi assaz pequeno e havido de empréstimos de mercadores chinas, porque o ordenado, e esmola que Sua Majestade manda dar, na Índia e em Malaca, para sustentação dos padres que andam naquelas partes ocupados na conversão dos gentios, nada lhes foi dêle, porque, como já dissemos, se lhe não paga e lho estão devendo de muitos anos. Quanto à cristandade, esta geralmente, cada vez mais vai crescendo no número das almas que se veem sujeitar ao jugo de Cristo, e resplandecendo na devoção, conhecimento de Deus, culto divino, virtudes e costumes cristãos, e sobretudo na constância da fé, em que se vêem [em] muitos as finezas antigas • fi 4. da * primitiva Igreja, glorificando a Deus até com darem por Ele as próprias vidas e sangue, como adiante se verá. Com o que, vai nossa santa fé ganhando tanto crédito nestes reinos do Japão, que os mesmos gentios, vendo esta vir- tude e bom procedimento dos cristãos, e a vida tão irrepreensível dos minis- tros e prègadores do evangelho, e tão diferente da de seus bonzos e sacerdotes dos ídolos, não podem deixar de confessar a verdade dela, e dizer: digitus Dei est hic. E há muitos senhores grandes e poderosos, que a estimam muito e favorecem em suas terras. E pôsto-que a não recebem, não é por não enten- derem e confessarem ordinàriamente a verdadeira salvação que nela há, senão
  • Das coisas de Japão 9 por não se atreverem a guardar nossa santa lei nem se poderem desarreigar de seus vícios e costumes gentílicos e liberdade de vida em que vivem; mas não deixam contudo de se ir continuamente convertendo muitos, que seriam os dês- tes dois anos até dez mil almas. E ainda que na dependência que esta cris- tandade tem do senhor universal da Tença, que é o Cubo, não há estorvo algum nem impedimento para deixar de viver em sua liberdade, e se converte- rem muitos, nem da parte dêle tem trabalho ou contradição alguma; contudo, da parte de alguns senhores particulares, padeceu e padece em alguns reinos grandes perseguições, como se dirá em seus lugares; porque, como estes se- nhores do Japão ainda que sejam sujeitos ao senhor universal da Tença, em seus reinos e estados particulares sejam absolutos e independentes no que toca ao governo dêles, não teem nesta parte a quem respeitar nem temer, para deixarem de fazer o que quiserem. Por onde, sendo assim que na paz como na guerra em que esta nova cristandade se vê, é necessário nunca serem de- samparados dos padres, esta é a causa por que sua vida, por todos êstes reinos, não é outra senão andarem em contínua peregrinação de terra em terra, de cidade em cidade, visitando as igrejas, e não lhe ficando lugar nem aldeia em que vivam cristãos, a que não acudam muitas vezes no ano, prègando-lhes, instruindo-os, administrando-lhes os sacramentos, levantando os caídos, esfor- çando os fracos, baptizando os que de novo se convertem, ajudando, ainda no temporal com sua pobreza, aos necessita*dos, e pobres, que são muitos, e »fi.4t. aonde há perseguição de tiranos, ou pessoalmente ou por cartas e outros meios, acudindo àquelas partes mais perigosas, para ajudarem e animarem aos cris- tãos a ter mão na fé e a fazer rosto aos tiranos, e a reconciliar e a levantar fracos, que também algumas vezes caem; o que não pode ser sem muitas vezes padecerem muitos e grandes trabalhos de fomes, sêdes, vigias, pobrezas, perigos e sobressaltos da vida. Pôsto-que (como o negócio é de Deus, e tudo isto fazem e padecem por seu puro amor e serviço) Ele lhes paga mui bem, e ainda nesta vida, com tantos alívios e consolações espirituais, que lhes faz não sòmente não sentirem tantos trabalhos, mas nêles mesmos viverem cheios de tanta alegria, que bem parece especial concurso da mão divina. CAPÍTULO II Do que passou nas cidades de Nangasáqui, Arima e Omura DESCENDO agora ao particular dos reinos, estados e cidades, por os quais está espalhada esta cristandade, são as primeiras e mais antigas estas três acima ditas, as quais com suas comarcas todas são de cris- tãos e governadas por cristãos. Arima e Omura, por seus príncipes que são cristãos; Nangasáqui, por quatro cidadãos cristãos, naturais da mesma terra, mas em nome do Cubo, senhor do Japão, cuja é a cidade. E assim por isto como por nestas cidades principalmente residir de ordinário o Bispo e estarem os dois colégios e o noviciado e uma principal casa da Companhia e também os dois seminários dos 2
  • 10 Das coisas de Japão meninos cristãos que nêles se criam, floresce aqui grandemente a cristandade e o culto divino. Porque na celebridade das confrarias do Santíssimo Sacramento, Nossa . fi.5. Senhora da Anunciada e da Misericórdia, que já nesta cristandade do Japão estão introduzidas, pelo menos em muitas partes, na solenidade, majestade, aparato de capelas e instrumentos músicos, riqueza de ornamentos, com que aqui se fazem os ofícios divinos e celebram as festas, e na multidão e devoção do povo que a êles concorrem e ainda nos dias de semana às missas ordinárias e finalmente na frequência dos sacramentos da confissão e comunhão, podem competir estas três cidades com quaisquer partes da cristandade de Europa, onde todas estas coisas sejam mais avantajadas; e ainda que a conversão dos gentios não é tanta, por todas estas terras serem já de cristãos, contudo dos forasteiros que de fora veem a viver nelas e dos adultos gentios que há pelas residências de cada uma destas cidades, se baptizaram muitos e levantaram de novo bom número de igrejas. E pôsto-que em cada uma destas partes acontecem continuamente vários casos mui notáveis e com que estas novas plantas da fé se confirmam muito nela, nós por ter conta com a brevidade, não referiremos mais que alguns prin- cipais, donde se poderão coligir os outros. Um mancebo gentio, senhor duma povoação, inspirado por Deus e por via dum seu amigo cristão, com quem tratava familiarmente, determinou fazer todos seus criados cristãos, comunicou a coisa com um padre, o qual lhe louvou e agradeceu sua determinação, como a razão pedia, porém que havia de ser de modo que não houvesse pôr-lhes força ou obrigação alguma, se não que ficassem para isso em tôda sua liberdade; pareceu-lhe bem e prometeu ao padre de o fazer assim; e chamando o bonzo gentio do mesmo lugar, lhe disse que, se êle persuadisse a todos os seus fregueses daquela povoação se fizessem cristãos, lhe daria com que se pudesse sustentar tôda a vida, mas que se por outra via se fizessem cristãos, o havia de lançar fora da terra. Viu-se o bonzo em apêrto por o senhor querer que, sendo êle até agora prègador da seita dos gentios, tão de repente o fôsse da lei dos cristãos; con- tudo fazendo da necessidade virtude, começa a prègar e persuadir a uns e a • fi. 5*. outros que se fizessem cristãos, dando-lhes * para isso várias razões. Espan- tam-se todos da novidade e não podiam cuidar senão que algum grande mis- tério havia em tão repentina mudança; finalmente o bonzo os persuadiu de modo que êles quiseram ouvir as prègações da lei de Deus, que o padre lhes pregou, e em breve tempo se baptizaram sessenta. Contente com êstes bons princípios o bom mancebo não cessa de persuadir a todos que sejam bons cris- tãos e favorecendo ao padre em tudo, dando também êle boas esperanças de se baptizar e receber a luz que, por seu meio, Deus Nosso Senhor comunicou a tantos. Um gentio era tão contrário e inimigo da nossa santa lei, que sendo casado com uma mulher cristã a fêz tornar atrás, porém vendo este um dia o enter- ramento que se fêz a um parente seu cristão, e muito mais a caridade e con- selhos com que o padre o ajudou na hora da morte, se rendeu tanto, que com muita instância pediu que queria ouvir as prègações, e com elas fêz tal enten-
  • Das coisas de Japão dimento nas coisas da fé, que se baptizou com toda sua casa e procede como muito bom cristão, com admiração de todos os que dantes o conheciam tão inimigo da lei de Deus. Um bonzo muito visto nos livros e seitas de Japão, quis ouvir as prègaçoes dos cristãos, mais com ânimo de zombar que de as entender para se fazer cristão, parecendo-lhe que não acharia entre os cristãos quem em disputa o pudesse vencer, nem refutar as razões de seus livros, que êle tinha por verda- deiras. Prègou-lhe um irmão, e por espaço de quatro dias houve entre êles mui travadas disputas, no cabo das quais de tal maneira ficou convencido, que não podendo resistir à fôrça da verdade, se rendeu a ela e recebeu o sagrado baptismo com não pequena alegria dos cristãos que com isto ficaram mui confirmados na fé, porque nenhum deles cuidava que o bonzo chegasse a se render; e o mesmo aconteceu a outro bonzo, superior de um mosteiro muito bem afreguesado. Um menino gentio adoeceu à morte e estando já no cabo, os pais que também eram gentios, pelo grande conceito que tinham das coisas da nossa santa fé, mandaram o menino à igreja para ser baptizado, com desejos de o verem são por aquela via que também cuidavam lhe daria saúde ao coipo; não faltou Deus a seus desejos e esperanças, como quem também por aquela via «d.6. determinava de lhes dar a êles a saúde da alma. Recebeu o menino o baptismo e ficou são da alma e do corpo. Vendo os pais tamanha maravilha, não espe- raram mais e logo se fizeram cristãos, não se fartando de dar graças ao Senhor pela mercê que fêz a êles e a seu filho. Um cristão que morava em terra de gentios, acertou de ter umas diferenças com um bonzo sobre certo negócio. Os gentios que isto viram, ameaçaram ao cristão, dizendo-lhe que atentasse por si, que aquele bonzo era um grande feiticeiro e que tinha por oficio fazer entrar o demónio em corpos humanos e muito mais nos daqueles a quem êle queria mal; riu-se disso o bom cristão, dizendo que os demónios não tinham poder para entrar nos cristãos, nem o bonzo, por mais que fizesse, poderia efeituar isso*, ouvindo isto o bonzo, tira fora todos seus instrumentos e entre êles, como principal, o ídolo de Xaca, ao qual lançando-o de bruços no chão começou a dar muitas pancadas, para que o demónio agravado da injúria que faziam a Xaca, acudisse por sua honra, mas vendo que tardava, não fazia o bonzo senão, como antigamente os sacer- dotes de Baal, chamar e bradar por êle com suas deprecaçoes, para que entrasse no cristão. . . „ A conclusão foi que o Xaca ficou espancado, o demónio confuso, o cristão seguro e alegre, zombando do demónio como dantes e muito mais do bonzo feiticeiro, que vendo o abatimento em que ficara diante dos gentios que tudo isto viram, se foi muito envergonhado. Um mancebo que andava em mau estado e apartado de sua mulher, sem dar pelo conselho e aviso dos padres, continuando nisto muito tempo, veio a adoecer gravemente, e estando já quási desconfiado da vida, viu uma vez em sonhos (segundo êle afirmou) uma figura horrenda e espantosa, que o tomava e queria botar em umas grandes e mui acesas fogueiras e que lhe dizia que a causa por que o deitava nelas, era pelo mau estado em que andava, sem se
  • 12 Das coisas de Japão querer confessar nem ir à igreja como cristão que era. Vendo-se o pobre neste apêrto, prometeu com grande eficácia que êle se emendaria dali por diante, se o não lançasse naqueles fogos; e nêste ponto acordou tão cheio de espanto e • fi. 6▼. medo, que logo mandou cha*mar um padre e contando-lhe o que vira e ouvira, se confessou muito bem com firmes propósitos de se emendar do passado, se Deus lhe dava vida, como logo deu; e êle vai cumprindo mui bem o que pro- meteu. Dois homens andavam também em mau estado sendo cristãos, e adoe- cendo ambos e chegando a ponto de morte, mandou cada um dêles chamar o padre, a quem antes não queriam obedecer, confessando-se com bons propósitos de se emendarem; tomou o padre uma relíquia do Beato Padre Inácio e a lançou ao pescoço de cada um dêles e logo, pelos merecimentos dêsíe santo, ambos em breve sararam e viveram dali por diante com bom exemplo. Uma mulher de repente, com um forte acidente, perdeu a fala: foi chamado um padre, e como não falava nem ouvia, não se pôde confessar; o padre lhe rezou um evangelho e pôs na cabeça uma imagem e relíquia do Beato Padre Inácio, e foi Deus servido que no mesmo ponto falou e se confessou e ficou sã. Estando outra mulher muito doente e tendo perdido a fala foi chamado um padre muito de-pressa e achando a sala cheia de cristãos que a estavam ajudando a bem morrer e a pobre acabando com arrancos de morte, se pôs de joelhos rogando Nosso Senhor que, se fôsse para maior glória sua, quisesse pela vir- tude daquela relíquia que tinha do Beato Padre Inácio e pelos merecimentos dêste santo dar algum remédio àquela mulher para se confessar e sarar na alma e, se fôsse servido, também no corpo, e pondo sôbre ela a dita relíquia, em continente tornou sôbre si e cobrou a fala, confessou-se, recebeu saúde, ficando todos aqueles cristãos mui edificados e glorificando a Deus em seu Santo. Um cristão havia alguns dias que estava com umas dores intrínsecas tão agudas, que o tinham quási tolhido; era êste o único remédio dum pai entrevado e de sua mãe velha, pelo que o padre desejava muito de lhe dar algum remédio com que sarasse. Mas havendo que o não havia humano, lhe disse que com muita fé se encomendasse ao Beato Padre Inácio cuja relíquia lhe lançou ao pescoço; fê-lo êle assim, fazendo também um voto de servir na igreja, dando-lhe Deus saúde. Foi o Senhor servido que logo se começou a achar cada vez melhor, e • F1.7. quando os parentes cuidavam que já que se escapasse com vi*da, não podia deixar de ficar entrevado como seu pai, êle se levantou muito são e inteiro e ficou melhor do que nunca esteve, sem acabar de dar graças a Deus e ao Beato Padre Inácio pela saúde que, por sua intercessão, alcançou. Havia cinco anos que uma mulher se não confessava, e ou fôsse por isso ou por outros ocultos juízos de Deus, havia dois que padecia grandes assombramentos do demónio; tocando-a Deus, desejou de se confessar; chamou-lhe o marido um padre, confessou-a e dali por diante nunca mais sentiu semelhantes assombra- mentos e fantasmas. Movidos com isto os daquele lugar e vendo tão claramente os efeitos e virtude dêste salutífero sacramento, se confessaram também todos.
  • Das coisas de Japão i3 CAPÍTULO III De outros casos de edificação que mais sucederam pela cristandade das residências de Arima e Nangasáqui NAS residências sujeitas a Nangasáqui e entre aspovoações que caem no distrito dos padres, há muitas cujos senhores são gentios, mas tão bem afectos a nossas coisas e com tão bom conceito de nossa santa fé, que pôsto-que a não abraçam, por ainda o não merecerem, todavia consentem que seus vassalos se façam cristãos, dos quais se baptizaram este ano um bom número, e que os cristãos vivam e corram como tais; e assim, os padres que dêles teem cuidado, os visitam livremente tôdas as vezes que querem, detendo se com eles o tempo que lhes parece, sem nenhum estorvo. Visitam também os padres êstes senhores quando é necessário e eles também veem a nossas casas visitar os padres, mostrando-se muito familiares e bem-afectos, posto-que, por respeitos humanos e por se não atreverem a guardar o que nossa santa lei manda, não ousam ainda abraçá-la e segui-la. Um senhor gentio, diferente dêstes, e que o é de umas ter*ras que estão .FI.7V. perto de Nangasáqui, vindo-as visitar e com determinação de destruir as igrejas e fazer tornar atrás os cristãos delas, em chegando, mandou logo que todos os cristãos que havia deixassem de o ser; e o sinal que haviam de dar de como retrocediam, era dar as contas e imagens, e ir fazer a reverência ao pagode que ali havia, por serem os mais daquela povoação gentios. Responderam os cristãos que isto ouviram, que nem haviam de dar as contas nem ir ao fotoque ainda que por isso lhes tirassem a vida, porque eram cristãos, e como tais haviam de morrer, e assim perseveraram e perseveram sem terem de ver com o mandado do gentio. Aqui mesmo, ouvindo uma menina cristã de dez anos o pregão em que se mandava aos cristãos tornassem atrás se foi chorando à mãe e dizendo que lhe pedia muito que não tornassem atrás, porque, ainda que não houvera outra razão mais que por amor dos padres que as fizeram cristãs e lhes mostravam tanto amor, isto só bastava para o não fazerem, quanto mais, sendo isto coisa da salvação, que por nenhuma outra se deve trocar; acalen- tou-a a boa mãe, e assegurou, dizendo que estivesse descansada, que assim o faria como lhe aconselhava; e assim fazem ambas, mãe e filha, como boas cristãs. Alguns cristãos que moravam entre gentios nas terras de Pirando, sendo por êles perseguidos e importunados que ou tornassem atrás ou, não o querendo fazer, se saíssem das terras de Firando, escolheram antes desterrar-se com perda de seus bens e fazenda que os senhores gentios lhes tomaram, que deixar de ser cristãos com perda de suas almas; assim, muito alegres e con- tentes se foram para terras de cristãos, escolhendo antes viver entre êles, pobres com Deus, que sendo ricos, entre gentios. Não é para passar pelo que fêz um menino de treze anos cujos pais, pouco depois de se baptizarem, por fraqueza sua e persuasão dos gentios seus paren- tes, entre os quais viviam, retrocederam; porém o bom menino, abominando o •que seus pais fizeram, tomou uma cruz e diante dela se punha a rezar de ordi-
  • H Das coisas de Japão nário, rogando a Nosso Senhor que o guardasse de fazer o que fizeram seus pais, os quais por vezes o persuadiram a fazer o mesmo, sem poderem acabar * fi. 8. com êle, até lhe tomarem a*cruz, parecendo-lhes que com isto [o] enfraqueces- sem; porém o menino, ora chorando, ora pelejando com êles, ora usando de outros meios que melhor pôde, a tornou a haver, e chegando a festa do Natal, a enramou com ramos verdes por festa, e chamando alguns outros meninos cristãos, celebrou com êles alegremente aquele santo dia, rezando todos diante da cruz, o que seus pais lhe não puderam impedir, ainda que fizeram muito por isto. Indo um senhor gentio para outro reino mui longe, lhe aconselharam os bonzos quisesse tomar para todos seus criados que o acompanhavam, certas nóminas que êles costumavam a dar, para que os defendessem dos perigos de tão comprido caminho. Havia entre os criados gentios um só cristão, o qual ouvindo o que se passava, se foi ao viador da casa e por êle mandou dizer ao Tono que êle era cristão e que portanto lhe pedia escusasse de tomar nómina para êle, porque êle a não havia mister, por ter outras em quem mais espe- rava, que o guardavam de todo perigo; veio o senhor nisto, e fazendo-se sua jornada, sucedeu que os gentios adoeceram de doenças mui trabalhosas, mas o bom cristão sempre foi são e bem disposto, dando graças a Deus pelo benefício alcançado por meio da verdadeira nómina de sua fé e esperança, o que vendo um parente muito chegado do Tono, disse por vezes que nunca mais adoraria os Camis e Fotoques, que tão pouco podiam e aproveitavam a quem nêles esperava, ' Uma mulher cristã, por nome Maria, natural das ilhas do Goto, foi levada por força para os reinos de Móri, no tempo que êle florescia, e por suas boas partes a casaram com um gentio nobre, e no tempo em que um padre esteve em Firoxima, corte que então era de Móri, teve modo para se ver, e tratar com êle das coisas de sua alma, e de quando em quando vinha à igreja a consolar-se com Deus e com o padre, dos desgostos e trabalhos que padecia, por tanto contra sua vontade se ver casada com um gentio tão contrário da lei de Deus. Depois que o Móri passou sua corte para Iamangúchi, onde também foi residir um padre, nunca a pobre mulher, emquanto êle ali esteve, se pôde ver com êle, nem ir à igreja, por lho defender o marido mui estreitamente, o que muito lhe • fi. g y. chegava à alma e muito * mais, quando o marido apertava com ela que deixasse de ser cristã, ao que ela com grande fortaleza respondia que por nenhum mal que lhe fizesse, deixaria a fé que desde menina recebera e fora da qual sabia que não havia salvação. Via-se o marido em aperto vendo esta sua fortaleza, e foi pairando com ela algum tempo, esperando ocasião para poder efeituar o que desejava, de a fazer retroceder, a qual lhe pareceu acomodada quando o Moridono, por ser inimigo da nossa santa fé, lançou o padre fora da cidade de Iamangúchi, e então acometeu mais rijamente, panecendo-lhe que a acharia mais fraca para deixar a fé, especialmente dizendo-lhe que, pois Moridono, seu senhor, mandava que todos os cristãos retrocedessem, ela também não podia deixar de o fazer, para que do contrário não lhe viesse algum mal a êle, seu marido, e seus filhos que dela tinha. Nada disto abrandou a fortaleza da boa mulher, respondendo-lhe que, se sòmente com a não deixar ir à igreja no tempo que o padre ali esteve, era para ela tão grande pena, que só por isto desejava
  • Das coisas de Japão 15 de se apartar dele, quanto mais seria agora falar-lhe era negócio de se apartar de Deus, coisa que ela por nenhum caso faria. Pelo que, se a não queria cristã como até agora foi, lhe desse licença para se ir aonde pudesse correr como tal; porque, pôsto-que sentisse muito apartar-se dêle com quem, havia tantos anos, estava casada e muito mais de cinco filhos que tinha, todavia, como era maior a perda da salvação, que a do marido e filhos e todo o universo, que por isso nada lhe dava perder tudo isto, antes que a Deus. Sentiu muito o marido esta tão firme resolução da mulher, mas como desejava mais de a fazer tornar atrás, para a poder ter pelo amor que lhe tinha a ela e aos filhos, que de a lançar de si, por espaço de dois anos, não cessou de a combater, instando muitas vezes e buscando vários modos e caminhos para sair com a sua; porém, como ela estava bem fundada na pedra viva da fé, nenhuma coisa aproveitou, antes quanto mais a combatia, tanto mais forte a achava. Mas vendo-se ela apertada desta maneira, como estava já resoluta a deixar tudo, antes que a Deus, insistia também da sua parte, que lhe desse licença para ir a terra de cristãos, já que não queria que vivesse como tal. Continuando de ambas * as of-9- partes a contenda, pôde finalmente mais sua fortaleza, com que não sòmente venceu a instância que o marido lhe fazia mas também ao próprio amor dos filhos e das comodidades e honras do mundo, que tinha, estando casada com uma pessoa tão principal e tão rica, e assim houve licença do marido para se poder ir para terra de cristãos; mas na repartição dos filhos houve outra con- tenda, porque a mãe queria que de cinco lhe desse alguns, o pai por ser pai os queria ter todos, até que se conformaram com o costume que no Japão se usa em semelhantes divórcios, que a mae fique com as filhas e o pai com os filhos; e assim com duas filhas se foi a boa mulher para terra de cristãos e direito a Nangasáqui que de Iamangúchi dista como cem léguas, onde foi recebida com muito amor e gasalhado, por tão heróico feito e tão digno de memória, que a todos pode ser exemplo de constância e fortaleza na fé. Chegando, se confes- sou e crismou logo, e baptizou as filhas com grande consolação sua e confiança em Deus, que pois por seu amor deixaram todo seu remédio e amparo tem- poral, ele como pai terá cuidado delas. No reino de Satsuma vivem, como em outras relações se disse, os cristãos que das terras de Dom Agostinho no tempo das guerras se passaram para aquele reino e estão no serviço do rei dêle. Cabeça dêstes cristãos foi Jácome Mima Sacadono, que há dois anos faleceu, em cujo lugar ficou Isabel, sua mulher, e seu filho morgado, Sacojamon Jacobe, os quais em sua casa teem uma capela mui bem ornada, com um altar bem concertado, com imagens mui devo- tas, onde todos vão fazer oração, e assim, depois de Deus, a esta senhora e a seu filho se deve a conservação daqueles cristãos e a perseverança que teem na fé, no meio de uma gentilidade que entre todas as de Japão é a mais dada ao culto e superstição dos ídolos; e principalmente não lhe faltando vários combates com que os demónios, por meio de seus ministros os gentios, tomaram alguns para os derrubar da fé; entre os quais foi um, ao qual por ser homem esperto e diligente, mandou El-Rei de Satsuma que tomasse o assunto das obras de um templo que de novo mandava edificar a Fachimão, deus das batalhas em Japão, de quem êle, e todos os seus * são mui devotos, por se prezarem de grandes #fi.9
  • i6 Bas coisas de Japão soldados. A este recado respondeu o nosso cristão com muita cortesia e liber- dade, dizendo que em tudo o mais estava aparelhado para o que El-Rei lhe mandasse, mas como êle era cristão e a lei que professava lhe proibia tomar assunto de tais obras, o não podia servir neste particular; e pôsto-que muitos amigos seus gentios lhe persuadiam obedecesse ao mandado de El-Rei, pondo-lhe diante dos olhos o perigo a que se punha de perder toda sua casa e família, e ainda de outro mais rigoroso castigo, de nada se deu por achado, mas respon- dendo Deus à sua fortaleza, ordenou que El-Rei ouvindo sua resoluta resposta, não somente o não tomasse mal, mas antes ficasse com maior conceito dêle, tendo-o por homem animoso e que fazia mais caso de sua salvação que dos bens temporais dêste mundo, e que da própria vida. Não foi menor a constância de um filho seu, a quem mandando o mesmo rei que fizesse um certo juramento, como costumam fazer os gentios, respondeu com muita liberdade que o não havia de fazer, èenão como costumam os cris- tãos, e assim o fêz, maravilhando-se os gentios do valor e constância que viam num mancebo de tão pouca idade. Mas o que mais espantou a El-Rei e a todo aquele reino, foi a fortaleza e ânimo cristão de Sacojamon Jacobe e Isabel sua mãe: dela por ser mulher, e do filho por ser menino de catorze anos; e foi a ocasião, que desejando El-Rei casar este menino, por ser nobre, com uma parente sua, e fazê-lo de sua mesma casa e família, acrescentá-lo em renda e honras e fazer-lhe muitas outras avan- tagens, e parecendo-lhe que sendo Jacobe cristão não poderia isto efeituar-se, intentou o ano passado persuadi-lo com muitas razões que deixasse de ser cris- tão, pondo-lhe diante os acrescentamentos de renda e honras que por isso ganha- ria; mas respondendo o menino que por nenhuma coisa do mundo tal faria, não quis por então apertar muito com êle, dilatando o negócio para outro tempo. Passados alguns meses, indo Jacobe à cidade de Cangoxima, onde El-Rei reside e tem sua côrte, um dos principais fidalgos do reino, e como governador de todo êle, vendo-se com o menino, lhe disse que seria bom fazer a vontade de El-Re* • F1.10. e deixar de ser cristão. Calou-se o * menino sem dar resposta alguma, ficando porém muito quieto e serêno; o que vendo o gentio, lhe falou mais brando, e propondo-lhe os favores e mercês que El-Rei lhe faria, se deixasse de ser cris- tão, lhe ajuntou que êle, como menino, não entendia agora o que lhe isto im- portava, e por isso se não espantava de lhe não dar resposta de sim ou de não, mas que contudo tinha para si que, pelo tempo em diante, cairia na conta e faria a vontade a El-Rei, acrescentando a isto palavras muito amorosas e brandas com várias razões que lhe dava, para o persuadir ao que queria. Ouviu tudo Jacobe, e parecendo-lhe que já não era tempo de se calar, lhe respondeu, não como menino que era, mas como forte e animoso cristão, que êle agradecia muito a Sua Alteza as honras e mercês que desejava de lhe fazer, mas que, se havia de ser à conta de deixar de ser cristão, que neste ponto não havia que falar, porque êle por nenhum caso o havia de fazer, nem por mais honras e promessas de rendas nem por tudo o mais de mêdo e rigor com que por ventura o ameaçassse. Espantado o fidalgo gentio de tão constante resposta, não sòmente não instou, mas antes, louvando muito a lei dos cristãos, que tão grande ânimo dava aos que a professavam, disse que não podia deixar de haver algum grande mistério
  • Das coisas de Japão *7 em lei que ainda aos meninos de tão pouca idade fazia tão fortes, que antes queriam perder tudo que deixá-la. Depois disto, como Jacobe não podia deixar de ir muitas vezes à corte para cumprir com a obrigação e serviço que deve a El-Rei, e pela renda que dele recebe, estando uma vez de caminho para lá, lhe disse um criado seu que já que o rei pretendia, ainda que com intento de lhe fazer bem, como cuidava, que êle deixasse de ser cristão, seria bom, por escusar enfadamentos e moléstias, que ora escondesse o relicário que levava ao pescoço, de modo que não fôsse visto; ao que respondeu o menino que não era coisa nova aparecer (1) êle na corte com relicário ao pescoço, pois o mesmo rei sabia que era êle cristão: mas que antes agora, que El-Rei lhe dizia que o não fôsse, havia de levar outro melhor e mais galante; e assim o fêz, que logo pôs ao pescoço um que êle tinha por mais * formoso, e com êle se partiu para Can- • Fi. 10 v. goxima e apareceu diante de El-Rei muito confiado. E nos tempos que se detinha em Cangoxima, assim êle como os seus não faltavam nada nos serviços de um bom cristão, tendo seus tempos pela manhã e à noite em que todos faziam suas devoções e orações, e tão pontuais nisto, que até os mesmos gentios que os viam, se espantavam. Continuando assim Jacobe, chegou finalmente o tempo em que pareceu a El-Rei haver de apertar mais com êle, para deixar de ser cristão, o que fez, não por sua pessoa mas por um dos principais senhores do reino e parente chegado seu, ao qual (como é costume em Japão) o mesmo Jacobe tinha tomado por protector seu nos negócios do mundo. Este mandou dizer a Isabel que pois El-Rei desejava de casar seu filho Sacojamon Jacobe, seria bom deixasse de ser cristão e se fizesse da seita que El-Rei professava. Mas como a resposta fôsse mui desviada do que êle imaginava, não se conten- tando o gentio com um recado, lhe mandou quatro no mesmo dia, instando fortemente e persuadindo-a, com muitas razões, que para seu bem, honra e conservação no estado convinha que fizesse a vontade a El-Rei. A virtuosa matrona que nesta parte não era menos valorosa que o filho, vendo os frequen- tes recados que o gentio lhe mandava e instância que fazia no negócio, logo se resolveu a dar a última resposta, a qual foi, que se casar seu filho com a pessoa que dizia era contra a lei de Deus, em nenhum modo consentiria, quanto mais se com isso houvesse de deixar de ser cristão, e deixar a fé que ela e êle desde meninos professavam. Pelo que, estivesse certo que ainda que lhe dessem todos os tres reinos de Satsuma, não deixaria seu filho de ser cristão, e que esta era nesta matéria a última resolução sua e de seu filho, na qual resolução vieram também todos os seus criados, dizendo todos unidos e feitos num corpo, que êles eram do mesmo parecer e estavam todos apostados a fazer o mesmo que seu senhor, com que a mãe e filho se alegraram muito; e deram logo ordem, como todos juntos fizessem a oração de quarenta horas, para que Nosso Senhor os ajudasse, dispondo as coisas como fôsse serviço e glória sua. Deu princípio a ela Jacobe com seus pagens, seguindo-se depois os mais da casa por sua ordem; e o que * não é pouco para estimar, que tendo por costume, como «FLn. menino que era, dormir logo, tanto que anoitecia, naquela noite tôda não pregou olho, mas tôda a passou esperto, ocupado em ver se os que faziam oração, (1) Nt.: parecer. 3
  • i8 Das coisas de Japão dormiam ou se descuidavam nela. Feita a oração perguntou Jacobe a sua mãe, se eram também mártires os meninos que morriam por amor de Deus; ao que respondeu a mãe que naquele negócio nao havia diferença de velhos a meninos, senão qualquer que dava a vida por amor de Deus e de sua santa fe, era na terra honrado e venerado dos homens como santo mártir. Com a qual íesposta alegre o menino e com um semblante risonho tira o íelicário do pescoço, beija-o com reverência e pondo-o também sobre a cabeça, o torna a lançar ao pescoço, e com este aparelho estava Jacobe, sua mãe Isabel e todos os seus esperando em que parava o negócio. Porém o gentio vendo sua resolução, e que conforme a resposta que dera Isabel, perdia o tempo em instai mais na demanda, não curou de mandar mais recado, e assim desistiu do negócio sem mais falar nisso. Nesta conjunção foi de Arima um padre a visitar El-Rei de Satsuma e juntamente aqueles cristãos. De El-Rei foi recebido, despedido com muitos favores, porque se mostra muito amigo dos padres; dos cristãos com muita consolação; e êle a não recebeu menor, sabendo o que tinha passado, principalmente vendo com os olhos o mesmo ^nimo e constancia daquele me- nino, porque vindo-se êle confessar, depois de o fazer mui exactamente, sem o padre lhe perguntar nada do que passara, alevantando-se de seus pés, o abraçou o menino, dizendo: «Esteja Vossa Reverência descansado, que em coisa de cristão não há de haver cm mim mudança alguma, por mais que me digam e persuadam o contrário»; o que disse com tanto afecto e resolução, que o padre não pôde reprimir as lágrimas de alegria; e não foi pequena a reputação, que assim cristãos como gentios ficaram formando de seu valor e fortaleza, e o exemplo que ficavam dando a tôda esta cristandade. * CAPÍTULO IV Do que sucedeu na cristandade das ilhas de Amacusa e Xtqui, e perseguição grande que padeceu ESTAS ilhas foram os anos passados de Dom Agostinho, senhor que então era do reino de Fingo a que elas estão vizinhas; mas por sua morte foram dadas a Tarazava Ximono Cami, um gentio perverso e capital inimigo do nome de Cristo, que no tempo da perseguição universal do Taico derrubou as igrejas, tirou as cruzes e fêz outros muitos males por tôda esta cristandade do Ximo. E ainda que êle, com ser êste, não por bem da cristan- dade, senão por seu interêsse e para que se lhe não despovoassem estas ilhas, tinha dado licença que os cristãos de que elas são povoadas, vivessem como tais, e os padres residissem com êles, do que se seguia muito grande fruto, e esta cristandade ia mui florente; não podendo sofrer o demónio isto, o tornou a tomar por instrumento de a perturbar toda, outra vez, e levantar contra ela uma grave perseguição; a ocasião foi esta. Havia dois anos que Tarazava estava fora da graça do Cubo, senhor universal de Japão, sem dêle ser visto, mas não privado da renda que dêle e de Taico tinha recebido. E porque, estando desta maneira, não estava seguro em seu estado, andava mui inquieto
  • Das coisas de Japão 19 e perplexo e sentia grandemente esta desgraça, por ser êste modo de castigo, para os nobres, um dos graves e pesados de Japão. Pelo que, buscou muitos meios humanos para ser restituído à antiga graça; e vendo que nenhum lhe aproveitava, se acolheu aos que ele cuidava que eram divinos, encomendando mui de propósito seu negócio aos Camis e Fotoques, fazendo-lhes por êsse res- peito muitas devoções e diversos votos; entre êles foi um, de não se servir em sua casa de cristãos, a quem os ditos Camis e Fotoques tanto aborreciam e, como se viu pelo efeito, de também derrubar as igrejas e cruzes em tôdas suas terras, e fazer tornar atrás todos os cristãos que pudesse. E para o de*mónio • fi. 12. mais se acreditar a si e se fazer ser servido e adorado de seus ministros, de tal maneira concorreu com êste em fazer com que lhe acontecesse tudo con- forme a seu desejo, que facilmente lhe pôde persuadir que lhe foram provei- tosos os votos que fizera aos Camis e Fotoques, porque logo neste mesmo ano, por intercessão de um criado do Cubo, muito seu familiar, veio a ser restituído a sua antiga graça; pelo que, vindo do Meaco a Carateu, cidade neste Ximo, onde êle reside, começou logo a pôr em execução o ímpio voto que fizera, desta maneira. Tinha êle em sua casa e serviço alguns soldados cristãos, e entre êles um pagem, por nome João, de idade de treze anos, que êle cuidava ser gentio, o qual andando servindo à mesa em um banquete que o próprio Tarazava dava a certos gentios, um dêles, vendo a boa graça e ar com que o menino servia, lhe perguntou donde era; respondendo que de Nangasáqui, tornou o hóspede, que provàvelmente seria cristão, pois todos o eram em Nangasáqui. Aqui se viu o menino em apêrto, porque, sabendo que o senhor era inimigo de cristãos, dizendo que o era, não sendo tido dele por tal, via o risco a que se punha; dizendo que o não era ou calando-se em tal ocasião, era contra o que a lei de Deus o obrigava de a confessar pela bôca, sendo necessário; porém pôde mais com êle a fé que o temor humano e confessou claramente que era cristão. O que ouvindo o Tarazava, mudou as côres e perguntou-lhe se dizia aquilo de verdade; respondeu-lhe o menino mui animosamente ainda mais do que lhe perguntava, dizendo: Senhor, eu sou cristão e não posso deixar de o ser. Havia pouco que Tarazava tinha chamado também o pai dêste menino, para lhe dar renda e se servir dêle em sua casa, e ouvindo a resposta do me- nino, lhe perguntou se seu pai também era cristão; respondeu que sim, de que ficou muito mais espantado pela informação contrária que lhe tinham dado e disse ao menino: Tu és menino e não sabes o que dizes, que eu estou infor- mado que teu pai não é cristão. Respondeu o menino outra vez que êle era cristão e seu pai cristão, e que nem êle nem seu pai o haviam de deixar de ser, por mais que o contrário lhes persuadisse. Ficou Tarazava mui enfadado com * esta resposta, pois, conforme a ela, *fi. 12v. por não quebrar o voto que tinha feito, lhe era forçado lançar de seu serviço o menino que êle por suas partes amava e desejava conservar nêle. Parecendo-lhe porém que atalhava a tudo isto se o fizesse tornar atrás, lhe disse que logo deixasse de ser cristão, mas como a resposta do menino fôsse sempre a mesma e tão resoluta, que lhe tirava tôdas as esperanças de alcançar dêle o que dese- java, perturbou-se mais e indignou-se tanto contra o menino, que os que estavam presentes, viram o negócio em tais termos, que imaginaram não poderia deixar
  • 20 Das coisas de Japão de chegar a mais. Pelo que, um deles e de mais autoridade que ali estava, intercedeu pelo menino e rogou a Tarazava que tivesse por bem de o deixar ser cristão e daquela maneira se quisesse servir dêle, pois sabia de-certo quão ordinário era dos cristãos, depois de o serem, não tornarem atrás. Não se abrandou nada com isto o Tarazava, antes, sentindo a liberdade com que o menino lhe respondeu, ficou mui pensativo e como deliberando no que faria, e retirando-se o menino para seu aposento, Tarazava mandou um recado ao pai que naquele tempo estava na mesma cidade de Carateu, dizendo que êle o chamara para se servir dêle, parecendo-lhe que não era cristão; mas ouvindo agora dizer que o era, o avisava que se não podia servir dêle, se não deixasse de o ser, pelo que logo tomasse outra lei. A êste recado respondeu Jorge (que assim se chamava êste bom homem) que êle era cristão, e que deixar de o ser, nem o podia nem devia fazer, pois nisso faltava no serviço que devia a Deus que lhe tinha feito maiores promessas, não de rendas temporais mas eternas; o que disse por uma e muitas vezes com tão grande resolução, que os amigos e principalmente aqueles que fizeram com Tarazava o chamasse para seu serviço, sentiram muito tal resposta. Continuavam os recados e persuasões de Tarazava, assim ao pai como ao filho, mas nada podiam, respondendo am- bos sempre com a mesma constância. Até que os amigos tomaram o negócio a peito, armando-se todos contra os dois com várias e aparentes razoes que lhes traziam, das misérias, pobrezas, e desterros de que se forravam, das rendas, honras e favores que ganhavam, se fizessem a vontade a seu senhor. •fi. i3. *Mas, por mais de dois dias que durou esta bateria, não cessando de dia nem de noite, nenhuma coisa montou para abrandarem ponto da fortaleza dos dois soldados de Cristo; pelo que, vendo que perdiam o tempo, os deixaram e foram dizer a Tarazava, como não havia mais que fazer com êles; o qual vendo isto, ainda que o sentiu mortalmente, lhes deu licença que se fossem para onde quisessem. Tinha mais Tarazava em seu serviço duas famílias honradas de cristãos, os quais sabendo o que passava, tomaram também o negócio por seu, e pôsto-que, por então, lhe não tinham ainda falado em coisa contra a fé, toda- via dois mancebos irmãos, de uma família, dos quais o mais moço era também pagem de Tarazava e mui favorecido dêle, ouvindo dizer como não queria cris- tãos em seu serviço, determinaram antecipar os recados e baterias que, sobre deixar de ser cristãos, poderiam ter. Mandam-lhe dizer que êles eram cristãos com tôda sua família e como tais correram sempre, como êle sabia; mas que ouvindo agora dizer que êle se não queria servir de cristãos, estavam prestes para uma das duas coisas, ou para servirem, se como cristãos se quisesse ser- vir dêles, ou para serem desterrados, se isso lhe não agradasse: o mesmo fize- ram também os da outra família. Mas(i) como Tarazava estava resoluto em todos deixarem de ser cristãos, se o quisessem servir, a nenhuma outra coisa deferiu senão a isto; pelo que logo todos os amigos e conhecidos se houveram com êstes como com os primeiros, dando-lhes fortíssimas baterias e usando de todos os meios que puderam, para os persuadir a deixar a fé e não perderem as comodidades da vida, que tinham, ficando no serviço de Tarazava; e como (i) Nt.: E mas.
  • Das coisas de Japão 21 em ambas estas famílias havia algumas sessenta pessoas, todos cristãos, e que todos haviam de ser desterrados e ficar sem remédio temporal, muito mais se compadeciam dêles, não entendendo (i) quanto mais ricos e de melhor sorte ficavam os que por Cristo padeciam. Finalmente pronunciou contra êles Tara- zava a mesma sentença de destêrro e privação de bens, que contra os primeiros pronunciara, pelo que logo os santos confessores de Cristo se saíram de Carateu e se foram a seu destêrro muito alegres e contentes:* Qitia digni habiti sunt »fi.i3y. pro nomine Jesu contumeliam paíi. No tempo que estas coisas passavam, não deixavam os gentios de se espan- tar muito da fortaleza e constância que estes verdadeiros cristãos mostravam na fé e religião que professavam; e assim não falavam em outra coisa. Pelo que, ainda [que] sentiam sua perda temporal, não deixavam de os louvar muito, e muito mais nossa santa fé que tais os fazia. Desterrados desta maneira todos os cristãos que Tarazava tinha em seu serviço, faltava-lhe pôr em execução a destruição das igrejas e cruzes que havia em suas terras, conforme ao voto que tinha feito a seus Camis e Fotoques. E envergonhado de se ver vencido ainda de meninos, se partiu de sua cidade de Carateu para as ilhas de Xíqui, Amacusa, Conzura (que, como acima se disse, todas são povoadas de cristãos e os mais dêles lavradores). Chegando a elas, visitou todos os lugares e povoações, e no cabo chamando a seus criados que nelas tinha posto para as governar, lhes mandou que, tirando somente duas igrejas em que os padres residiam de ordinário, todas as mais ou derrubassem ou se servissem delas em outros usos, e que da mesma maneira o fizessem às cruzes que em várias partes se levantaram; além disso que trabalhassem todo o possível por fazerem tornar atrás os cristãos que pudessem. Ouvindo esta nova de tanta desconsolação, assim para os padres como para os cristãos, bus- caram todos os meios que puderam, para ver se de alguma maneira podiam abrandar aquele tirano, mas nenhum aproveitou. E assim se começou a exe- cutar o que tinha ordenado, derrubando-se algumas igrejas e deixando em pé as que lhe podiam servir para outra coisa, tirando as cruzes e fazendo tudo o mais. Neste tempo os cristãos e padres não tinham mais que fazer que chorar, vendo diante de seus olhos tão lastimoso espectáculo, sem lhe poderem dar remédio; só se consolavam com pôr os olhos em Deus, oferecendo-lhe suas lágrimas e encomendando-lhe todo êste negócio. Houve alguns cristãos que vendo como se havia de derrubar sua igreja, se foram todos primeiro despedir dela com infinitas lágrimas que todos derramavam e principalmente as mulheres, cha- mando-lhe seu pai e sua mãe, sem a qual agora ficavam ór*fãos e desampara- *fi. 14. dos; e isto parece que adivinhava a grande devoção e concurso que na quaresma precedente houve às igrejas, freqúentando-as tantas vezes, ajuntando-se nelas em muitos lugares três dias na semana a tomar disciplina, e o correr e visitar das cruzes, descalços por penitência, como quem de antemão se despedia já delas, pois tão cedo os inimigos da fé lhas haviam de tratar tão mal e tirar de diante dos olhos. Particularmente fizeram grandes extremos de sentimento uns três cristãos principais de uma povoação, onde havia uma formosa igreja e tal, (1) Ní.: entendeo.
  • 22 Das coisas de Japão que a mandou o tirano levar para Carateu, os quais vendo-se com ela derru- bada, vieram em nome e da parte de todos, aonde estava o padre a dar-lhe conta do que passava, ao qual, referindo-lhe o triste sucesso, disseram tais e tantas coisas e com tantas lágrimas que atravessavam os corações dos que os ouviam; pedindo por derradeiro com muita humildade, os não desamparasse, já que tinham perdido sua igreja em que tinham pôsto todo seu amparo; e que ainda que estavam sem igreja os fôsse muitas vezes visitar, porque esta só con- solação e alívio lhes ficaria do sentimento que tinham de perder a sua formosa igreja, e também lhes serviria de fortaleza e ânimo para terem mão na verda- deira Igreja que era a fé de suas almas. Feito êste estrago e destruição das igrejas e cruzes, entenderam logo os ministros da maldade noutro negócio mais árduo e que mais chegava ao vivo, que era fazer tornar atrás os valorosos cristãos; e assim os começaram a per- suadir que o deixassem de ser, ameaçando-os com grandes castigos e males, se assim o não fizessem. Mas aqui concorreu Deus, dando tão particular cons- tância e fortaleza a todos, e que entre tão grande número de cristãos como há por tôdas aquelas ilhas e terras, que são mais de dez mil, pouquíssimos se acharam que fizessefm] caso de seus mandados e tornassem atrás da lei de Deus que professavam. Havia entre êstes ministros do inferno um, principal e cabeça de todos, o qual mais que os outros parecia que em nenhuma outra coisa entendia e imaginava, senão como faria mal aos cristãos, buscando todos os meios que parajisso o demónio lhe descobria, para intentar de os fazer tornar • ki. 14.T. atrás, ora com rigores e ameaças, ora com branduras e promessas, ora * com razões aparentes e falsas. Mas como nem achava entre todos quem em coisa alguma destas lhe desse orelhas ou fizesse caso dele, bramia como um leão assanhado, fazendo muitos juramentos que os havia de matar a todos, se não deixavam de ser cristãos como lhes mandava. Andando pois com esta fúria por vários lugares e povoações, acertou uma vez de encontrar de rosto com um cristão, por nome Miguel, que trazia as contas ao pescoço e de propósito as pusera por ser mui fervoroso e determinado; em o vendo com tal insígnia, manda-lhe logo com muita fúria que as tirasse, e deixasse aquela lei; o bom cristão sem nenhuma perturbação respondeu que antes morreria que fazer o que êle mandava. Com esta resposta ficou tão assanhado, que começou logo a entender com as contas e relicários dos cristãos (por não advertir nisto não tinha proibido) e mandou logo lançar um pregão que nenhum cristão fôsse ousado a trazer insígnia que denotasse ser cristão, nem menos que sacristão algum da igreja, que tem por ofício enterrar os defuntos, enterrasse mais daí por diante algum. Mas quando alguém morresse, mandassem chamar para o enterrar um bonzo que êle para isso tinha deputado. Tanto era o desejo que êste malvado infiel tinha de extinguir o nome de Cristo naquelas ilhas, se o pudera efeituar como desejava. Em todo o tempo que durou a perseguição, não faltaram os padres que ali residem, em fazer seu ofício animando aos cristãos conforme ao que em tal tempo era necessário, o que faziam, ora por si discorrendo por diversas partes, ora por irmãos e dógicos que mandavam aonde êles não podiam ir; e assim, principalmente com a graça e fortaleza que Deus lhes comunicava, e por êstes
  • Das coisas de Japão 23 meios, se houveram da maneira que temos dito e se podia desejar; e como os padres ainda ficam na terra, com licença do mesmo tirano que os deixou ficar, mais por respeito de seu interesse que por nenhum outro, e por os cristãos lhe não despovoarem as terras, que por gosto que lhes queira dar, por lhes deixar os padres; não somente confiamos em Nosso Senhor que com este esforço os cristãos permanecerão sempre na fé, mas disporá as coisas de maneira, que as igrejas e cruzes se tornem a levantar. * CAPÍTULO V «F1..5. Do que sucedeu na cristandade do reino de Fingo, e perseguição que nela se tornou a renovar FOI esta cristandade mui florente em vida de D. Agostinho que foi senhor deste reino, mas sucedendo-lhe depois Canzugedono, gentio grande ini- migo seu, e muito maior do nome de Cristo, levantou contra ela aquela rija perseguição que na relação passada do ano de 1602 se escreveu; e cuidan- do-se que ficava já este tirano quieto, por ter feito aos cristãos o mal que lhes pôde fazer, desterrando a tantos e roubando-lhes suas fazendas, e que não entenderia mais com os outros que ficavam, que eram ainda muitos, não lhe consentiu o demónio, a quem êle tanto serve, mas antes, outra vez o tornou a provocar contra os que ficavam, chegando ainda a mais com êles do que che- gara com os passados, que foi a tirar-lhes as vidas, e passou a história desta maneira. Entendeu êste tirano que havia ainda em Iatçuxiro (que é uma povoação grande de seu estado, de muito tráfego e comércio) que muitos cristãos e alguns destes, homens nobres e soldados, que tinham renda dele; encomendou a um dos governadores daquela terra, chamado Cacuzaimon, que tirasse isto ao limpo (e não tratando dos do povo nem dos mercadores, porque com êles não quis entender por lhe não despovoarem a terra e se irem para outras partes, senão só dos soldados e nobres que tinham renda sua); dêles achando alguns que fossem cristãos, os fizesse retroceder, e que por isso êle mandaria logo ir a Iatçuxiro um bonzo foqueixo, a cuja casa faria ir os mesmos soldados, para que todos da mão do bonzo tomassem o Foquéquio, que é um livro da sua seita, e pusessem sobre suas cabeças, como professando serem da seita dos foqueixos, e daqui se ficasse entendendo os que eram cristãos ou não; e se porventura houvesse * algum que recusasse fazer isto, sem mais dúvida o man- «fi. i5v. daria matar. Veio o bonzo, e logo o governador mandou dizer por escrito a todos os soldados nobres que o dia seguinte à tarde se começavam as prègações do mesmo bonzo, que todos se achassem presentes a elas. Os que eram cris- tãos se juntaram logo todos, e consultando entre si sobre êste negócio, se resol- veram que, ouvirem sómente a pregação por cumprimento e por não mostrarem que desprezavam Canzugedono, pouco importava, mas que porem sobre sua cabeça o livro, isso por nenhum caso o haviam de fazer, por ser sinal de deixar a fé, e tomar a seita dos foqueixos; e assim ao tempo assinalado foram somente
  • 24 Das coisas de Japão a ouvir a prègação e por então se não tratou de mais. No dia seguinte man- daram os governadores lançar pregão que todos os soldados e nobres cristãos fossem naquela tarde e a tal hora, aonde estava o bonzo, para aí porem sobre suas cabeças o Foquéquio ou livro, conforme ao mandado de Canzuge. Com êste ímpio pregão houve entre os soldados não pequeno alvoroço e desunião, porque alguns, como mais fracos, se renderam logo, outros depois de resistirem por alguns dias, emfim obedeceram, indo secretamente a casa do bonzo. Mas catorze deles se viram entre si, e feita sua consulta em casa de um deles, por nome Gorozaimon João, resistiram fortemente e se resolveram todos de, por nenhuma maneira, consentirem em tal abominação, ainda que por isso perdes- sem tudo o que se podia perder; e destes catorze foram as cabeças Gorozaimon João e outro por nome Gofioge Simão. E pôsto-que Canzuge não tinha dado ordem que se entendesse com mais que com os soldados cristãos, e nada tinha ordenado que se fizesse com os do povo e mercadores pela razão que acima disse, contudo os governadores por se mostrarem zelosos, assim do serviço de Canzuge como muito mais do de seus Camis e Fotoques, não se contentaram nesta água envolta com entenderem sòmente com os soldados, mas também começaram a entender com os do povo e querê-los obrigar a, deixando a fé, se fazerem foqueixos. Porém êstes se mostraram tão fortes e valorosos, que tomaram por partido os governadores desistir da emprêsa e dissimular com êles, • h 16 assim por * não ficarem afrontados de não poderem sair com seu intento, como por temerem que se ausentassem muitos da terra com suas famílias, o que Canzuge não tomaria bem. E os que entre êstes cristãos, mais fortes e reso- lutos se mostraram, e em nome de todos fizeram mais rosto aos governadores, foram três homens, por nome Joaquim, João e Miguel, de que nesta história ao diante faremos muitas vezes menção, os quais em Japão se chamam Iifiacos, que quere dizer oficiais da caridade, que ali se deputaram (como também se cos- tumam a deputar em todas as demais partes desta cristandade) para ajudarem aqueles cristãos nas ocasiões e necessidades espirituais que se oferecessem; e tal espírito deu Deus a estes três de que falamos, que não se pode fàcilmente dizer de quanto proveito foram ao bem espiritual daquele povo, e quanto o ajudaram, não sòmente para se conservarem mas também para crescerem na fé, exemplo de vida e devoção: êstes (como digo) depois de fazerem sua consulta com alguns dos principais cristãos do povo, assentaram todos nela que não sòmente não haviam de pôr sôbre sua cabeçá o livro dos foqueixos, mas nem (i), ainda que fôsse por cumprimento, haviam de ir à prègação do bonzo. E com esta resolução se foram os três Iifiacos correndo tôda a povoação a dar conta disto aos cristãos, e prometendo todòs que assim o cumpririam, ordenaram logo de todos se ajuntarem, como fizeram, em casa de Joaquim, um dos três, a faze- rem a oração das quarenta horas, revezando-se todos, cada um pelas suas, para pedirem a Nosso Senhor os tivesse de sua mão e lhes desse fôrças para perseverarem até o fim. Mas como os cristãos eram muitos (porque são nesta cidade mais de mil) e ao entrar e sair a fazer a oração não pôde deixar de haver algum reboliço, atentando nisso os Governadores, mandaram chamar a (i) Nl.: mais nara.
  • Das coisas de Japão 25 um oficial principal que era como cabeça daquela povoação, por nome Fabião' e perguntando-lhe a causa daquele reboliço, respondeu que, como quási todos os daquela povoação eram cristãos, ouvindo dizer que era vindo um bonzo de Sumamoto para lhes prègar e fazer pôr sobre a cabeça o Foquéquio, que por isso andavam desinquietos; ao que um dos Governadores disse:
  • 26 Das coisas de Japão CAPÍTULO VI Do glorioso martírio de Goro\aimon João TÃO firme estava na fé êste santo e valoroso soldado de Cristo, que es- tando em sua casa e entendendo que certas pessoas que o vieram visitar, vinham de parte dos Governadores para o persuadir ao mandato do tirano, ainda antes de começarem a falar se antecipou, dizendo-lhes: jComo é certo, senhores, que vindes determinados a me persuadirdes que deixe de ser cristão! Pois digo-vos que ainda que, por espaço de vinte dias, me arranqueis as unhas dos vinte dedos que tenho nos pés e nas mãos, e me corteis todo em pedacinhos, começando da ponta dos pés até à cabeça, por nenhum modo hei de deixar de ser cristão. E parecendo-lhe que nesta mesma noite o pren- deriam para o justiçarem, mandou dizer a João, um dos três Iifiacos, que lhe pedia viesse ter com êle e trouxesse um livro da Paixão, onde estava o passo da prisão de Cristo Nosso Senhor. Veio João em companhia dos outros dois, Joaquim e Miguel, e depois de lido o passo, se despediu com sinais de muita benevolência dos três, como quem havia de morrer cedo. Chorando algumas pessoas honradas que então o vieram visitar e se acharam também presentes à lição espiritual, e tornando depois a ler outro pedaço, se foram os três para • fi. 17». suas casas. Neste tempo, perdendo já o governador C.acuzaimon as * esperan- ças de acabar coisa alguma com os dois, depois de fazer ainda algumas diligên- cias que abaixo diremos, para render a Simão, pelo muito que desejava livrá-lo da morte, não sabendo que mais fizesse, se partiu para Sumamoto, que está de Iatçuxiro uma jornada pequena, para dar conta a Canzuge do que passava. Partido êle e ainda antes de falar a Canzuge, se fêz a João em Iatçuxiro uma grande violência, e foi vir a sua casa um tropel de gente (o que parece devia ser por ordem dalgum dos Governadores) e arrebatando-o -como quem leva um corpo morto, o levaram a casa do bonzo, para ali lhe porem o livro Foqué- quio sôbre a cabeça, o que vendo Madalena, sua mulher, lhe disse: Senhor, olhai o que fazeis, que se em casa do bonzo consentis que vos ponham o livro sôbre a cabeça, eu me hei de embarcar logo e vos hei de deixar sem mais vos reconhecer por marido. Ao que êle respondeu que estivesse segura. Estava perto do bonzo um dos Governadores, o qual temendo que João usasse de alguma descortesia com o bonzo, lhe pediu muito que tal não fizesse, ao que respondeu João: Antes porei estéreo sôbre minha cabeça que o livro de Fo- quéquio. E levando-o por força diante do bonzo, lhe disse o mesmo bonzo que se chegasse a êle; respondeu João que não tinha para quê. O bonzo se levan- tou então do lugar onde estava, com o livro nas mãos para lho pôr sôbre a cabeça, mas João lhe cuspiu duas vezes nêle e indo para falar, assim contra a violência que lhe faziam, como contra o bonzo, em manifestação de sua fé, foi tão veemente o zêlo que lhe veio, que lhe atou a língua neste passo, e não pôde falar palavra; e também os que o tinham nos braços, vendo que queria falar, o tiraram logo para fora. E, com o valoroso soldado de Cristo ter dado tão
  • Das coisas de Japão 27 evidentes mostras de sua fé e de não consentir na cerimónia gentílica, e ser notório em tôda aquela cidade que cuspira duas vezes no livro Foquéquio, estava contudo com muito grande pena, por lhe parecer que o poderiam ter por caído. E estando cuidando que remédio daria a isto e como tornaria por sua honra, que nesta parte havia que era mais de Deus que sua, senão quando veio ter com êle um gentio dos principais criados do Governador Cacuzaimon, o qual lhe disse que ou*vira dizer como êle já recebera o livro Foquéquio, porém • fi que desejava saber dêle se fora assim, e se o recebera de coração, deixando de ser cristão, para poder avisar a seu amo que para esse efeito o deixara em Iatçuxiro, à sua partida para Sumamoto. Respondeu João com grande alegria: «Agora me parece que veio ter comigo um anjo do céu e que sois um homem mandado por Deus; muito boa pergunta é esta que me fazeis; agora estava cuidando se iria dar razão de mim a Sumamoto. Digo que por nenhuma via recebi o Foquéquio sôbre minha cabeça, que sou cristão como dantes e que se apareci diante do bonzo, foi porque me levaram por força». ^Pois, disse o gen- tio, mandarei dizer isso a Cacuzaimon?» Respondeu João: «Antes, isso é o que desejo e vos peço que logo lhe façais a saber». Mandou logo o gentio um homem com o recado a Sumamoto, mas temen- do-se João que lho não mandasse dizer tão fielmente como êle lho pedia, êíe próprio lhe escreveu uma carta pelo mesmo homem, neste teor: «Estando Vossa Mercê ausente, me levaram hoje diante do bonzo, porém saiba Vossa Mercê que não recebi o livro sôbre minha cabeça e que não há em mim mu- dança e sou cristão como dantes, porque eu tenho um Senhor a quem adoro, o qual não trocarei por mil Canzugedonos, nem posso quebrantar seus manda- mentos; pelo que, peço a Vossa Mercê dê de mim a Canzugedono a mesma informação que de Gofioge Simão, porque ambos temos a mesma determina- ção». E não se contentando com esta carta, lhe tornou a escrever outras duas ou três do mesmo teor, para que em todo caso soubesse como êle não tinha caído. Respondeu-lhe o governador que estivesse descançado, que já todos sabiam que êle era cristão. Além desta carta, escreveu João outras a diversos religiosos da Companhia, contando-lhes a verdade do que tinha passado e asse- gurando-os no negócio de sua fé, porque êle estava determinado e confiado na misericórdia de Deus, que desta vez havia de glorificar seu santo nome; e levando-lhe nesta conjunção Joaquim, o Iifiaco, uma carta que o Bispo lhe escre- vera de Nangasáqui, comum a todos os doze que no principio começaram a ter mão, em que os animava a perseverar até o fim, êle a pôs sôbre sua cabeça e lendo-a, ficou ainda mais consolado e animado*. »fi. 18v. Passando isto desta maneira e certificado o Governador Cacuzaimon que estava em Sumamoto, da inteireza de João e também de Gofioge Simão, pôsto- -que dêste com muita dor de seu coração, pela grande amizade que com êle tinha, não pôde al fazer, que dar conta a Canzuge do que passava, o qual logo mandou que os dois fôssem degolados, e os de sua família crucificados, e a forma da sentença, trasladada fielmente de japão em português, foi esta: «Estes Minómi, Gorozaimon e Zaquede Gofioge, com terem dado papel com juramento de deixarem de ser cristãos e se fazerem de qualquer outra seita, não o cumpriram; assim, eram cristãos como dantes; portanto, para escarmento
  • 28 Das coisas de Japão dos outros, são justiçados com suas famílias, por mandado de Canzuge. Feita aos 7 da undécima lua». Acêrca desta sentença se há de notar que, no que diz que Gofioge Simão tinha dado assinado que deixava de ser cristão, não diz bem, porque nunca tal assinado deu; mas passou a coisa desta maneira, que mandando Canzuge na primeira perseguição que os soldados nobres de Iatçuxiro dessem êstes assina- dos, e mandando os governadores daquela cidade notificar-lhes êste mandado, começando eles a repugnar, os governadores lhes fizeram o negócio tão fácil dizendo-lhes que contemporizassem exteriormente com darem êstes assinados, ficando cristãos como dantes, que êles, uns pelo temor da morte com perda e destruição das mulheres e filhos, outros por fraqueza, emfim todos assinaram, tirando só Gofioge Simão que dez anos antes recebera o santo baptismo, e tinha tão bom conhecimento das coisas de Deus e tanto temor seu, que sempre onde esteve, foi singular exemplo de virtude e devoção, o qual sempre disse que não podia nem se queria assinar em tal papel, e por mais bateria que os outros então lhe deram, e sobre todos o governador Cacuzaimon, seu grande amigo, nunca o puderam dobrar. Pelo que o mesmo governador dissimulando então com êle e pelo livrar da morte, secretamente deu ordem que outra pessoa se assinasse falsamente por êle. O que vindo a notícia de Simão, se foi logo • fi. 19. ao governador, que por nenhuma via tal coisa fizesse, porque * êle não dava nem podia dar seu consentimento para ela; mas o governador o despediu bran- damente e se partiu logo para Sumamoto a apresentar a Canzuge os assinados de todos e entre êles o que mandou contrafazer em nome de Simão, ficando por esta via Simão tido e havido diante de Canzuge por homem que retroce- dera com os demais, do qual o bom mancebo ficou por extremo desconsolado e triste e com grande remorso de não ter com efeito procurado que Canzuge soubesse como êle se não tinha assinado nem queria deixar a fé. E não se podendo aquietar, passou a Arima onde então o Bispo estava, a perguntar-lhe o que era obrigado a fazer neste caso, protestando que a tudo o que se lhe ordenasse, obedeceria à risca, ainda que lhe houvesse de custar a própria vida; e dando-se-lhe a resposta que pareceu conveniente, se tornou com novo fervor e determinação de em outra semelhante ocasião que se oferecesse, glorificar perfeitamente a Nosso Senhor, o qual desde então lhe comunicou particular desejo do martírio a que agora aqui está sentenciado. E quanto a Gorozaimon João, é verdade que foi um dos que na primeira perseguição deram seus assi- nados e caíram, mas também foi o primeiro que então se levantou com tão grande fervor e firmeza, quanta agora aqui mostrou, com chegar a dar sua vida como logo veremos. Pronunciada a sentença mandou também Canzuge ao governador que fizesse vir a Sumamoto a João e a Simão para aí serem justiça- dos, e que suas famílias padecessem em Iatçuxiro. Ao que respondeu o gover- nador que quanto a João logo o mandaria chamar, mas Gofioge Simão que era um soldado tão terrível e valente (no que dizia verdade), que como soubesse que havia de morrer, por ventura mataria primeiro a alguns; que porisso seria melhor tomá-lo por manha e matá-lo em Iatçuxiro, o que o tirano houve por bem. Mas porque êste governador isto disse, foi por não se fazer a Gofioge Simão seu amigo, esta afronta nem lhe dar esta moléstia de o fazer ir morrer
  • Das coisas de Japão 29 a Sumamoto; e também porque o mesmo Simão lhe tinha dito que esta amizade só aceitaria dêle: fazer que o matassem em Iatçuxiro, para aí poder morrer com mais aparelho; e muito bem sabia o governador que nenhuma resistência havia de fazer Simão * em sua morte, pôsto-que tão valente e terrível soldado .n. i9*. como era. Mandou logo o governador Cacuzaimon a Iatçuxiro a chamar João, o qual, sem dilação alguma, se partiu para Sumamoto; e pela pressa com que se foi, não se podendo despedir dos três lifiacos, Joaquim, Miguel e João, deixou dito a um cristão honrado que em seu nome se despedisse dêles e lhes pedisse o encomendassem a Deus, porque entendia que desta vez sem dúvida ia a morrer e padecer por Cristo. Partido de Iatçuxiro foi ter a um lugar daí a quatro léguas, por nome Ongava, onde morava uma devota cristã viúva, por nome Sabina, em cuja casa êle costumava de se agasalhar, e por um seu pagem lhe mandou dizer que ia chamado a Sumamoto; que rogasse a Deus por êle para que sem estorvo algum pudesse ser mártir. Sabina lhe saiu logo ao encontro e com muita caridade o constrangeu que entrasse em sua casa, o que êle fêz, detendo-se um pouco, e entre outras coisas que lhe disse, foi pedir-lhe que, havendo algum portador que fôsse para Iatçuxiro, mandasse dizer aos três lifiacos que de novo lhe tornava a pedir o encomendassem a Deus, o que Sabina logo fêz. Chegando pois a Sumamoto, se foi logo direito a casa do governador Cacuzaimon que o mandara chamar e porque também o governador lhe man- dou ao caminho, antes que entrasse na cidade, um criado seu que o acompa- nhasse e encaminhasse para sua casa; ao qual em entrando disse logo Cacuzai- mon: O mandar-vos eu chamar não foi para outra coisa, senão para vos dizer que o mesmo Canzuge diz que não fizestes bem em não ouvirdes os conselhos que desde princípio até agora vos tenho dado acêrca de mudardes a lei e obe- decerdes a seu mandado. E dizendo-lhe a êste propósito muitas outras coisas, acrescentou que aquele era o derradeiro conselho que lhe dava na hora de sua morte. Ao que respondeu João desta maneira: Se eu houvera de obedecer aos conselhos que Vossa Mercê agora aqui me dá, já o tivera feito em Iatçuxiro. As coisas desta vida são mui breves e passam logo, e como êste negócio sobre que Vossa Mercê me fala, é # de salvação eterna, ainda que por êle me façam »f<- so- em pedacinhos, não há de haver em mim mudança alguma. Com esta resposta o deixou por então Cacuzaimon e o convidou a comer, e acabada a mesa, se apressou para irem a casa do principal governador de todo o reino de Fingo e estado de Canzuge. E antes de sair de casa, disse a João: Até agora vos não tenho dito isto: sabei que conforme a determinação em que estais de não obe- decer, assim vós, como vossa mulher e filho, haveis de ser espetados. ^Porven- tura não é isto coisa que põe terror e pouco imaginado de vós? Respondeu João: Antes, isto é o que eu desejo e por que devo dar muitas graças a Deus. Dito isto se saíram ambos e chegando a casa do governador geral, entrou Cacuzaimon mais para o interior da casa, parece que para dar conta ao outro do que passava; o qual saindo, fêz também uma fala a João, trazendo-lhe à memória as muitas mercês que de Canzuje recebera, e como não estava em razão não lhe obedecer no que mandava, o que também ali procuraram de lhe persuadir alguns amigos, dando-lhe uma grande bateria, e finalmente lhe disse
  • 3o Das coisas de Japão o governador, da parte de Canzuge, que deixasse de ser cristão. Ao que tudo respondeu João mui honrada e cristãmente: que quanto às mercês que Canzuge lhe tinha feito, êle conhecia muito bem a grande obrigação em que lhe estava, e que por elas também estava aparelhado para em seu serviço, quando se ofe- recesse ocasião, pôr não sòmente a fazenda mas a vida. Porém, que em negó- cio contra a fé e salvação eterna lhe não falassem, porque neste não podia obedecer. Ouvindo esta tão resoluta resposta o governador principal do reino mandou logo secretamente recado a Canzuge, o qual lhe mandou dizer que o matasse como de feito mataram desta maneira. Encaminharam a João para uma sala grande onde entrou sem espada, por- que êle mesmo a deixou na mão de um pagem seu que ficou com ela fora da sala em uma varanda. Em entrando viu nela três homens, postos em diversos lugares, de feição que logo entendeu que o queriam matar; pôs-se diante dêles, • fi. aov. e saindo mais outros dois de dentro com suas espadas nas mãos e * dizendo: «Toi», que quere dizer, «é mandado do Senhor», o começaram a ferir. Estendeu logo João o pescoço, dizendo duas vezes em voz alta, JESUS, Maria, os quais nomes santíssimos foi sempre nomeando, até que acabou de morrer de quatro cutiladas com que lhe cortaram o pescoço. Foi isto no mesmo dia que chegou a Sumamoto e aos oito de Dezembro, dia da Conceição da Virgem Nossa Senhora, de mil e seiscentos e três. Dois de seus pagens que ali estavam, dos quais um era cristão, outro gentio, toma- ram logo seu sagrado corpo e o enterraram; mas algum tempo depois, por indústria dos padres, foi trasladado dali para a casa de Arima da Companhia de Jesus, onde agora está. Acharam êstes pagens que o enterraram, e assim constou depois por outras vias, que trazia o santo mártir na túnica mais inte- rior (parece que por devoção, em sinal de sua fé, para ainda depois de morto constar que era cristão) três cruzes pintadas, duas nos peitos, em cada um sua, e a terceira nas costas. Era êste glorioso mártir natural do reino de Xamato e de idade de 35 anos. CAPÍTULO VII Do glorioso martírio do bem-aventurado Gofioge Simão MARTIRIZADO o glorioso mártir João, se partiu logo no mesmo dia à tarde o governador Cacuzaimon a Iatçuxiro para. executar a mesma sentença de morte em seu amigo Gofioge Simão, o que êle grande- mente sentia pelo especial amor que sempre lhe teve. E esta foi a causa por que, por tantas vias, tinha procurado que não sòmente Gofioge Simão mas também os outros se tornassem atrás, parecendo-lhe que, se os outros se rendessem também Simão daria alguma coisa de si e com qualquer pequena palavra que dera, mostrando querer obedecer, se contentava e prometia de o livrar. Mas como visse que nenhum dos meios que tinha • fi. 31. tomado, aproveitava, * antes de se partir para Sumamoto a dar conta a Can- zuge do que passava, tomou também êste, de ver se o podia persuadir por via
  • Das coisas de Japão 31 de Joana, sua mãe. Para isto lhe mandou dizer que estava de caminho para Sumamoto mas que antes de partir, se queria vir despedir dêle. Veio, e come- çou a chorar, sem poder dizer palavra; e como Simão também se calasse, disse emfim o governador a Joana, sua mãe: Eu me parto para Sumamoto a informar a Canzuge dêste negócio; e pois Gofioge, vosso filho, não se faz capaz, vós, senhora, que sois sua mãe e velha, porque o não aconselhais bem? ^Vós não vedes que estão para cortar a cabeça a vosso filho, diante de vossos olhos? ^Porque o não persuadis que dê boa resposta a Canzuge e com isso conserva- reis a vida e estado de vosso filho? Respondeu a boa mãe: Senhor, quanto para as coisas dêste mundo, não há mais conselho que o que me dais; mas como êste negócio é de salvação, ainda que por êle hajam de cortar a cabeça a meu filho, nada sinto isso. Antes, se a esta conta vir que, por espaço de vinte dias, começando pelas pontas das unhas, o estão cortando em pedaci- nhos, será para mim coisa de grande alegria. Mas uma coisa, senhor, vos peço e é que me não faleis mais nesta matéria, antes me fareis mercê de pela mesma causa me mandardes também justiçar juntamente com meu filho. Agastou-se terrivelmente Cacuzaimon com esta resposta e disse-lhe: Mulher, vós que sois? ^Sois diabo ou alimária ou que sois? Outra vez se veio uma noite a casa de Simão, trazendo consigo sòmente um homem honrado, seu criado, por nome Ichicava Jifioge, executor que depois foi de seu martírio, como adiante se dirá, e depois de lhe dar uma grande bateria mas sem efeito, lhe disse, que já que não queria tomar seu conselho em obedecer a Canzuge, se saísse pelo menos do reino, para desta maneira salvar a vida. E porque isto se havia de fazer em grande secreto, e Simão por causa das muitas vigias que em várias partes do reino o tirano tinha pos- tas, não podia levar consigo sua mulher e mãe, lhe disse o governador que não tivesse disso pena, porque êle tomava sobre si êste negócio, e se obrigava a pô-las ambas em salvo, e lhas entregar no lugar para que êle se acolhesse. E porque sabia * bem que Simão, como homem liberal que era, não tinha #fi.»iy. dinheiro, lhe ofereceu duzentos cruzados, dados de amor em graça, para se negociar; ao que o Santo Simão respondeu que lhe agradecia muito o grande amor que lhe mostrava, mas que por nenhum caso se havia de sair daquela cidade, ainda que soubesse que o podia fazer a seu salvo, e sem sua vida cor- rer perigo algum e com se sair havia de ficar senhor do reino de Fingo; porque, pôsto-que o sair-se em semelhantes ocasiões não era pecado nem contra a lei dos cristãos, era todavia contra a determinação firme e promessa que tinha feito a Deus de se deixar estar em Iatçuxiro; e se Canzugedono lhe desse licença para viver como cristão, o serviria como até agora tinha feito, e sendo caso que lhe não desse e antes mandasse matar por isso, êle folgava muito de morrer pela santa lei que professava e pela honra e glória do verdadeiro Deus a quem adorava. Tornou o governador a batê-lo com várias razões e a derra- deira foi esta: — Bem sabeis, senhor, que um homem aprimorado e que tem verdadeiro amor a um amigo seu, não sòmente a vida presente, mas também a salvação da alma há de arriscar a perder por seu amigo, como eu estou pres- tes para ambas estas coisas perder por vós e até agora cuidei que o mesmo faríeis vós também por mim; porém agora que vejo o contrário, fico com pouca
  • 32 Das coisas de Japão satisfação de vossa amizade e amor para comigo. A esta razão e argumento parece que não quis o santo dar ao governador as razões que o moviam a de- sejar tanto o martírio, parecendo-lhe que como gentio que era, não ficaria capaz delas; pelo que, deixando as demais lhe deu sòmente uma com que lhe pareceu o poderia convencer e principalmente por ser êste governador um homem mui cortezão e que professava sumo primor e lealdade para com Canzuge, seu senhor, e foi esta: —Tendes, senhor, muita razão em dizer que o verdadeiro e aprimorado amigo deve perder a vida, e sofrer ainda quaisquer tormentos por seu amigo, mas isto há se de entender, podendo ser sem encontrar o primor e lealdade que deve para com seu Deus e Senhor, a quem adora. Pelo que se eu (sem ofender ao Deus verdadeiro, a quem adoro e sem encontrar o primor spi. 22. e lealdade que lhe devo) pudera fazer o que me pedis, digo, por amor vosso * perdera a vida corporal, e sofrera também quaisquer tormentos. Porém eu, como cristão que sou, por nenhum caso vos posso fazer esta vontade, nem dar êste gôsto que neste particular desejais tanto vos dê, sem cometer traição e deslealdade contra o verdadeiro Deus do céu e da terra e Senhor meu, a quem adoro; por isso só, o não faço: pelo que vos peço que neste caso me perdoeis. Ficou o governador Cacuzaimon com esta razão tão atado de pés e mãos que não teve mais palavras que responder nem replicar. E não achando caminho por onde pudesse salvar a vida a Simão, rompeu em lágrimas de sorte que, sem falar palavra, esteve por um espaço chorando, o que vendo Simão e o amor tão entranhável que êste homem lhe tinha, não se pôde também ter que não chorasse. E depois de ambos estarem assim um pedaço, sem um nem outro falar, o governador, sem se despedir nem dizer palavra, se saiu e tornou para sua casa, indo grandemente admirado do primor e constância na fé do santo e todavia magoadíssimo por ver que não tinha remédio para lhe salvar a vida; pelo que, perdidas todas as esperanças do que pretendia, se foi mui triste para Sumamoto a dar conta de tudo ao tirano, mas antes de lhe falar, como o coração lhe fervia e não lhe podia sofrer ver deixar morrer a Simão, de lá lhe mandou ainda êste recado: «Conforme ao que vejo, vós tinheis pejo de serdes o primeiro, que pusesse o livro Foquéquio sôbre a cabeça e por isso, para vos eu poder livrar da morte, acabei com muita gente nobre, ainda que por importunação e fôrça, que o pusessem primeiro sôbre suas cabeças: pelo que tendo eu feito isto por amor de vós e salvando a todos os outros, haverdes vós só agora de^morrer, é coisa que me dá grande aflição. Por onde vos peço muito que não atenteis neste caso já pelo que vos a vós toca, senão pelo que toca a minha honra; pois todos os que sabem de nossa amizade, vendo-vos assim acabar, me porão a mim a culpa, cuidando que não fiz eu o que devia por vos salvar, o que para mim ficará de muita desonra». Mas como a êste recado Simão não deu outra resposta, que a que sempre dera, nunca mais Cacuzaimon lhe mandou outro. E mais por sua traça se entende que outros lhe vieram a dar ainda depois disto, • fi. 22 t. muitas e várias baterias, ou por * escritos, como fizeram os outros dois gover- nadores de latçuxiro, ou por suas pessoas, como foi um homem nobre, por nome Girozaimon, grande amigo de ambos, o qual veio de Sumamoto sòmente a o persuadir. Porém agradecendo-lhe Simão a trabalho que por êle tomara
  • Das coisas de Japão 33 e o amor e a boa vontade que lhe mostrava, do conselho que lhe dava, não fez caso; antes lhe pediu que quando se tornasse dissesse a Cacuzaimon, que lhe rogava desse conta e declarasse bem a Canzuge como êle era cristão, que isto só era o que queria e desejava; o que ouvindo Girozaimon, entrou para dentro para falar a Joana e a aconselhar que aconselhasse seu filho, a qual lhe respon- deu o mesmo que acima dissemos respondera a Cacuzaimon, o governador, quando lhe falara; ao que tornou Girozaimon: Ora bem; diz êle em Suma- moto diante de quem o quere ouvir, que Gofioge tem uma mãe que merece que lhe quebrem a cabeça em mil pedaços, por ajudar a sustentar seu filho em sua pertinácia. Ao que respondeu Joana com muita alegria: ^Isso disse de mim Cacuzaimon? Pois eu vos digo, senhor, que lhe não tenho nenhum ódio por isso, antes folgara que todos os que em Sumamoto lhe ouvem dizer isso, vieram a Iatçuxiro, e todos por essa causa me esmiuçaram esta cabeça. E por- que o mesmo Girozaimon para lhe meter mêdo lhe disse mais que, morto seu filho, havia de ficar cativa, respondeu ela, que essa seria sua glória e contenta- mento, ser cativa e servir tôda a vida os pobres e lavar os leprosos por amor de Deus; o mesmo disse também Inês, mulher de Simão, que a tudo isto estava presente e tinha a mesma fé e constância nela que Joana, sua sogra. Outra bateria foram dar ao santo em sua casa sete ou oito homens nobres, amigos seus, e cristãos dos que tinham caído. E porque sabiam que já tudo era dito e não tinham de novo que lhe pôr diante, se deixaram estar um pedaço sem falar, até que um dêles começou e arrazoou como pôde. Mas depois que Simão o ouviu, sem lhe deferir a nada do que êle tinha dito, disse falando com todos: Ainda que seja grande atrevimento comparar-me eu a Jesus Cristo, Senhor nosso e tenha mêdo de o fazer, contudo uma coisa acho neste meu negócio semelhante ao que aconteceu na paixão do Senhor. Havia então em Je*rusalém *Fi.i3. três juízes ou governadores, Pilatos, Anás e Caifás. Pilatos, a quem tocava o dar da sentença e mandá-la executar, procurou muito livrar a Cristo, mas como Êle tinha determinado de morrer por sua livre vontade e pela salvação do mundo, não permitiu que o livrasse: nem êle também o livrou por não perder seu estado, mas antes o condenou. Da mesma maneira aqui há três governa- dores, Cacuzaimon, a quein toca condenar-me, o qual pelo amor que me tem, procura livrar-me: mas eu não posso deixar de dar a minha vida por amor de Jesus Cristo, que a deu por mim: nem também Cacuzaimon por não perder seu estado e cair em desgraça de Canzuge, há de deixar de em efeito me matar. Que vos parece, senhor? ^Isto não tem alguma semelhança com a paixão de Jesus Cristo, nosso Senhor? Ao que êles, não tendo que responder, ficaram envergonhados, e com as faces vermelhas saíram para fora, um após outro. Com outra coisa pretendeu também Cacuzaimon tentá-lo: foi com o mandar tirar de sua casa e pô-lo, como em depósito, na de um gentio, cuidando que aí o pudessem perverter; é verdade que foi por breve tempo, mas quando o leva- vam, disse a Joana, sua mãe, e a Inês, sua mulher: Sabei, senhoras, que nenhuma mudança há de haver em mim nas coisas da fé, e fazei conta que estou feito uma dura pedra; a vós encomendo também que persevereis. Ao que respondeu a mãe: Folgo, filho, de vos ouvir dizer isso; e que vossa fé seja semelhante à de S. Pedro. Quando soube da violência que se fêz ao santo 5
  • 34 Das coisas de Japão mártir João e a alguns dos outros soldados nobres, levando-os por força a casa do bonzo para lá lhe porem, em que lhes pês, o livro Foquéquio sobre a cabeça, pôs vigias em sua casa para que não entrassem com êle a fazer coisa semelhante e frequentemente mandava chamar os três cristãos Iifiacos, acima ditos, e com êles se aconselhava nas dúvidas que tinha, e tratava das coisas espirituais, e tôda sua ocupação neste tempo não era outra, senão aparelhar-se para o martírio, o qual sucedeu desta maneira: Partido o governador Cacuzaimon de Sumamoto, no mesmo dia à tarde em que foi martirizado o santo mártir João, com ordem de Canzuge que jus- tiçasse também a Gofioge Simão e lhe mandasse sua cabeça a Sumamoto, che- •fi. 23v. gou a Iatçuxiro à meia * noite; e escrevendo logo uma carta, chamou a um homem honrado, criado seu, por nome Ichicava Jifioge, do qual acima fizemos menção e lhe disse: Está determinado que Gofioje morra. Já que vós sois seu amigo, conhecido de muito tempo, vós lhe cortareis a cabeça dentro de sua casa. Tomai esta carta, ide a sua casa, dai-lha na mão, que nela lhe digo a conclusão de seu negócio; e vós fazei lá tudo de boa maneira. Como eram estas horas, estava já a porta fechada; mas dizendo Ichicava quem era, e como trazia um recado do governador Cacuzaimon, lhe abriram logo a porta e entrou para dentro. Foi um criado dar aviso a Simão, o qual, dormindo tôda a mais gente, só estava acordado e velando, ao que parece em oração. Saiu logo a uma das salas dianteiras; entregou-lhe Ichicava a carta do governador; e lida, arrebenta em lamentações devotíssimas e como de quem sabia estimar o alvitre e nova que nela lhe vinha; as palavras suas foram: ;0 coisa para muito agradecer a Deus! Agora fico descansado e quieto. ;Ó nova de grande alegria! E deixando Ichicava na sala, entrou na outra casa mais inte- rior e pondo-se de joelhos diante dum Ecce homo que ali tinha, fêz oração. E depois entrando mais para dentro noutra câmara onde estava sua mãe e sua mulher, assentando-se defronte delas lhes deu conta a ambas do que passava, e sem nenhuma delas se perturbar, antes cheias de alegria e consolação disse- ram ambas: O nova para muito agradecer e estimar. Estes dias estávamos com temor e aflição, duvidando em que pararia êste negócio; mas agora que já está concluído que morrais, ;ó ditoso Simão e bem-aventurado! E dizendo isto mandaram logo ajuntar água para Simão lavar o corpo, como muitas vezes costumam fazer os japoes por limpeza e especialmente quando hão de sair a algum acto público, e de festa. E porque sabia muito bem Simão que todos seus bens conforme ao cos- tume de Japão haviam de ser confiscados, e para que seus criados, depois dêle morto, não fossem sôbre isto molestados como muitas vezes acontece, impon- do-lhes que sonegaram algum fato, pôs logo em rol tôdas as alfaias que havia em sua casa, e em cada câmara pregou na parede um papel assinado por sua mão, em que estavam escritas as alfaias que na tal câmara havia. • fi. 24. Isto feito es*creveu muitas cartas para diversas partes. E estando já a água quente lavou o corpo, e tomou os melhores vestidos que tinha, os quais Joana sua mãe perfumou, e Inês sua mulher lhos ajudou a vestir, para com êles sair vestido naquele acto de tanta solenidade e festa, para ir limpo na alma e lustroso no corpo.
  • • . Das coisas de Japão 35 Depois de vestido se despediu da mãe e da mulher: e mandou também chamar a todos seus criados, homens e mulheres, para se despedir deles como fêz, fazendo-lhes uma fala desta maneira: Assim como há muito tempo que me servis, assim não há dúvida senão que conforme a condição e fraqueza humana terei feito muitas coisas de desgosto vosso; como o serviço de Canzuge na fábrica desta fortaleza foi muito rigoroso e duro, e as obras em que andá- mos, dificultosas, não poderá ser menos, senão que vos terei dado pena e tra- balho, para eu poder cumprir com o que estava a meu cargo. Mas peço-vos me perdoeis; e os que sois cristãos persevereis na fé até à morte, como vedes que eu faço; e dizendo isto, a todos deu alguma coisa para que se lembrassem dele e juntamente alguns conselhos tocantes à obra da alma e do corpo. E vendo-os tristes e que choravam, os repreendeu amorosamente dizendo-lhes: Este meu sucesso não é para vos entristecerdes, senão para vos alegrardes. Aqui pediu Inês a Simão que lhe cortasse os cabelos, que no Japão nas mulheres é sinal de deixarem o mundo e não haverem mais de casar: Porque, se eu, senhor, dizia ela, ficar viúva pudésseis cuidar que me casarei outra vez; ao que respondeu Simão que não era necessário. Mas porque Joana, sua mãe, lhe disse que consolasse a Inês e fizesse o que lhe pedia, lhos cortou logo. Depois disto, com licença do soldado que o havia de matar, mandou cha- mar aos três cristãos Iifiacos, Joaquim, João e Miguel; e chegando êles lhes disse diante da mãe e mulher e do soldado que o havia de degolar: ^Não vedes minha felicidade que a um homem como eu, sem merecimentos, faz Deus fazer mártir?
  • 36 Das coisas de Japão gente do governador Cacuzaimon, que estavam ali fazendo guarda; no cabo vinham os criados de casa. Estava na sala pendurada a imagem do Ecce homo, de que acima tocámos à qual o santo Simão tinha particular devoção. E saindo à sala, com esta procissão assim ordenada se pôs logo de joelhos com as mãos alevantadas diante dela, e defronte dêle se pôs também Miguel com a imagem do Salvador, e João e Joaquim com as velas acesas se puseram um à mão direita outra à esquerda do santo mártir. Joana e Inês se ficaram afastadas um pouco detrás; estando todos desta maneira postos de joelhos se persignaram • fi 25. e juntamente com # Simão tornaram a dizer em voz alta a confissão geral e três vezes o Pater Noster e a Ave Maria. Neste passo chegou um soldado nobre, 'cristão, dos que tinham caído, por nome Fequida Tarazuge, para se despedir do santo, e vendo tão devoto espectáculo e aparelho, exclamando disse como pasmado: ó animoso Gofioge e único entre muitos, nem nos tempos antigos nem nos de agora tenho visto nem ouvido tal morte como esta. Simão lhe agradeceu com rosto alegre o amor que lhe mostrava em se vir despedir dêle naquela hora. Tirou logo um relicário que tinha ao pescoço e o deu a Joana, sua mãe, e as contas a Inês, sua mulher; o que vendo o sobredito cristão, chegando-se para êle lhe pediu que lhe desse também alguma coisa santa que tivesse por memória sua. Res- pondeu-lhe Simão: eu vo-la darei se me vós prometerdes que vos haveis de tornar a alevantar, doutra maneira não pode ser; porém êle mostrando que tinha pejo dos ministros da justiça que ali estavam e eram gentios, nada res- pondeu; até que Simão lhe tornou a dizer: Se vós vos alevantardes, eu vo-la darei, repetindo estas palavras duas vezes: e então Tarazuge prometeu que êle se levantaria e correria como cristão dali por diante. Pois, disse Simão, aqui dentro desta orelha tenho uma conta benta; como eu morrer, bem a podeis tomar; dito isto pediu ao soldado que o havia de degolar,-que o deixasse pri- meiro estar um pouco em oração, e abaixando o colar do vestido descobriu o pescoço, e fechando os olhos, esteve desta maneira orando por um grande espaço; e acabando adorou a imagem, e pondo com muita reverência a cabeça no chão, a tornou a alevantar, e estando de joelhos com o pescoço estendido, o soldado lhe cortou a cabeça; a qual caindo para a mão direita onde estava Joaquim, êle a tomou nas mãos, e levantando-a com muita reverência a pôs sôbre sua cabeça. Estavam presentes a êste espectáculo e vendo tudo com seus olhos Joana, sua mãe, e Inês, sua mulher, mas com tanta fortaleza de ânimo e da fé, que não sòmente não choraram, antes estiveram sempre mui inteiras, e com um semblante sereno, e logo a mãe se chegou a Joaquim que • fi. 25 v. tinha â cabeça do santo nas mãos e correndo * com a sua pelo rosto do filho, disse com muito afecto: Ó que formosa cabeça! ;Ó ditoso e bem-aventurado filho meu, Simão, que assim merecestes dar vossa vida por serviço de Deus! ;0 quanto me alegro de, ainda que pecadora, me ver mãe de um mártir: e oferecer agora aqui a Deus em sacrifício um só filho que tinha, e que por espaço de tantos anos com tanto amor criei! Acudiu também Inês, vindo de-pressa, e tocando também com suas mãos na cabeça, disse as mesmas palavras que a sogra, pedindo juntamente ao santo que rogasse a nosso Senhor que juntamente com êle as quisesse levar para si. Não se fartavam ambas de dar graças a
  • Das coisas de Japão 37 nosso Senhor, dizendo coisas de muita devoção por esta tão maravilhosa e singular misericórdia que com elas usara. Passou isto um pouco antes de ama- nhecer em nove de Dezembro de i6o3. Os que estavam presentes e ainda os gentios ficando como pasmados, não acabavam de louvar, assim o género de morte como o esforço e ânimo daquelas mulheres, dizendo uns para os outros: Rara coisa é esta, e que poucas vezes tem acontecido. O soldado que degolou o santo mártir, tomou logo a cabeça e a levou aos Governadores que a man- daram a Sumamoto, conforme a ordem do tirano Canzuge, onde se pôs junta- mente com a do santo mártir João, em um lugar público, e junto delas se fixou também a causa e sentença de sua morte escrita em uma tábua, na forma que acima fica dito. As mulheres Joana e Inês se recolheram para dentro; os três cristãos Iifiacos ficaram rezando junto do corpo, ao qual depois meteram decen- temente em um caixão de pau que fizeram de um altar portátil que acertou de estar na mesma casa do santo, parecendo-lhes ficar mui próprio para êste uso; e também para que não viesse às mãos dos gentios, pois nêle tantas vezes se tinha dito missa. Depois que o santo corpo esteve posto neste caixão, tornaram a sair Joana e Inês para o verem e se despedirem dêle, antes que lhe dessem a sepultura; e depois de várias orações que junto dêle lhe rezaram, se tornaram para dentro; porém, ainda que os três cristãos Iifiacos pretenderam dar sepul- tura ao corpo do santo mártir, não no poderam contudo efeituar, porque os guardas que aí estavam, lho impediram; mas o Governador Cacuzaimon o man- dou * sepultar, pôsto-que depois, por indústria dos padres da Companhia, o sagrado corpo foi trasladado para Nangasáqui e depositado no lugar de todos os santos e na casa do Noviciado da mesma Companhia, que ali está. Era êste santo natural do reino de Tamixiro; padeceu de idade de trinta e cinco anos. CAPÍTULO VIII Do glorioso martírio das santas mulheres Joana, Inês e Madalena e do menino Luís RECOLHIDAS para dentro estas santas mulheres, depois do sagrado corpo do santo ficar posto no caixão, estavam mui suspensas por não saberem, até então, o que havia de ser delas; e arreceosas que porventura desta vez poderiam ficar vivas, sem irem acompanhar ao santo Simão, seu filho e marido, se começaram a entristecer e chorar. O que vendo aquele cristão caído que se veio a despedir do santo quando estava para padecer, lhes disse que êle ouvira dizer como Madalena, mulher que fôra do santo mártir João, havia tam- bém de morrer e que, conforme a isto, elas não poderiam escapar. Nada disto tinha ouvido êste homem, mas só lho disse para as consolar, vendo-as tão tris- tes e chorosas; com a qual nova foi tamanho o seu alvoroço como se vê na resposta, a qual foi esta: 1 Senhor, que é o que dizeis? ^Havemos também de morrer? Pois não temos que nos entristecer. Nós arreceávamos que, como pecadoras, nosso Senhor nos deixasse neste miserável mundo e por isso nos entristecíamos, porém agora que nos dizeis que nos quere levar pelo mesmo
  • 33 Das coisas de Japão caminho de Simão, ficamos muito consoladas e alegres; e com isto as lágrimas se lhes enxugaram e sua alegria foi tanta que disse depois o mesmo Tarazuge que não se podia declarar. Neste tempo os três cristãos que até então estive- ram com o corpo do santo, entraram para dentro para as visitarem e conso- larem. Elas lhes agradeceram muito o amor que sempre tiveram e na hora da •Fi.26*. morte mostraram a * Simão. E contando-lhes como lhes tinham dito que tam- bém haviam de morrer, lhes pediram que as não desamparassem nem deixassem de ajudar naquele passo, com seus conselhos, ajuntando mais, com grande afecto estas palavras: ,;Vós não vêdes a mercê tão grande que Nosso Senhor nos faz, que sendo nós pecadoras, e gente sem merecimento, nos queira ale- vantar a tão alta dignidade? ^Haverá alguém que entenda quão grande mercê é esta e quão digna de infinito merecimento? O que repetiam algumas vezes, e porque já era manhã, imaginando elas que naquele mesmo dia as crucificariam, como de feito crucificaram, se puseram ambas de joelhos, diante de uma ima- gem de nossa Senhora para se despedirem dela e em voz alta lhe rezaram suas ladainhas. Depois do qual afirmaram os três Iifiacos cristãos, os quais, sempre as acompanharam até que espiraram na cruz, que foi tão extraordinária a alegria destas santas mulheres e tão santas e maravilhosas as palavras que diziam, que não se podem nem ainda imaginar, e que logo parecia que o Espí- rito Santo estava nelas e falava por sua boca, de maneira que até a mesma gente da guarda que ali estava posta pelo governador, com serem gentios, ouvindo-as falar porque estavam perto, ficaram grandemente maravilhados di- zendo: Isto não é coisa ordinária nem humana; a muitas temos vigiado e guar- dado e ouvimos as coisas que neste passo costumam a dizer semelhantes pessoas, mas até agora não vimos pessoa que dissesse coisas tão maravilhosas e divinas, por onde se deixa ver manifestamente que na lei dos cristãos há salvação. Estas e outras coisas diziam os guardas entre si, não com pequena admira- ção, de modo que, com antes mostrarem que não folgavam de os três cristãos Iifiacos fazerem o ofício de caridade e misericórdia que faziam em acompa- nharem estas santas mulheres em tal passo, depois se abrandaram e lhes mos- traram bom rosto, com que os três se animaram a prosseguir aquela obra de piedade. Neste tempo disse Inês a um dos cristãos que lhe lesse um pouco de um livro dos mártires que ali tinha, e tão consolada e cheia de fervor ficou com a lição e tão desejosa de se ver já derramando sangue por Cristo, que, depois de encarecer a alteza do benefício que Deus lhe fazia em as pôr no número •F1.Í7. dos verdadeiros mártires, ajuntou mais estas palavras: * «Não sei porque tar- dam tanto em nos matar, nem qual será a causa desta tardança; uma hora me parece muito tempo». Vendo os três Iifiacos quão evidentemente o Espírito Santo morava nos corações destas santas mulheres, estavam descansados pelo que tocava a elas, mas com muito cuidado e pena por não saberem como estaria Madalena, mulher do santo mártir João; e tratando entre si de algum dêles a ir visitar, o intentaram por vezes, mas não lho permitiram os guardas. O que vendo Joana, a quem pareceu muito bom o intento dos Iifiacos, mandou logo um recado ao governador Cacuzaimon, pedindo-lhe que já que todas três, ela, Inês e Madalena, haviam de morrer, lhe fizesse mercê de haver por bem que tôdas três estivessem juntas no mesmo lugar, para todas também morrerem juntas
  • Das coisas de Japão 39 e juntas entrarem no paraíso; e que para isso lhe desse licença que Madalena viesse ali para sua casa, pois isto lhe seria também a êle menos trabalho tê-las tôdas juntas e mandá-las justiçar juntas. Concedeu-lhe com muita facilidade o governador e emquanto se negociava que Madalena viesse, muitos dos soldados nobres dos cristãos que tinham caído se vieram despedir de Joana e Inês, aos quais Joana não falava outra coisa senão que se arrependessem da fraqueza que tinham mostrado na perseguição e se tornassem a alevantar e correr como cris- tãos. E causava espanto as coisas que esta santa mulher dizia para os persua- dir, e aos que prometiam de o fazer, se despedia dêles, com particular bene- volência e lhes repartia algumas coisas de devoção que tinha, como contas bentas, relíquias, etc. Entre outras coisas que a êste propósito lhes disse, com grande fervor de espírito, foi: Vendo vós, senhores, êstes anos atrás, a grandeza, poder e majestade de Taicoçama, senhor universal de Japão, é certo que vos parecia coisa muito grande e lhe tinheis inveja e eu também antes cuidava o mesmo; porém agora tôda esta grandeza vejo muito bem que não merece ser comparada com a glória que hei de receber pelo caminho do martírio. Gofioge Simão, meu filho, como sabeis, foi morto por amor de Deus, e estando agora determinado que nós outras também padeçamos por esta causa, não vos sei declarar nossa alegria e a mercê grande que Deus nisto nos faz; pelo que será bem que vós também, senhores, tendo contrição da culpa que cometestes vos torneis * ao serviço de nosso Senhor e acabeis nêle. Atentai que os prazeres »fi. 27». dêste mundo acabam logo, mas estas alegrias são eternas; pelo que conside- rando vós isto bem em todo o caso vos alevantai. Na mesma conformidade falava Inês a qual entre outras coisas lhes disse: Vós, senhores, cuidareis que falo muito e em parte tendes razão, pois sou mulher, mas eu vos afirmo que não está mais em minha mão nem posso al fazer, porque Deus está em mim, e ainda que queira nem posso encobrir a alegria que tenho em minha alma por ser tão grande que trasborda em mim; e isto dizia com diversas palavras mui afectuosas; e pedindo-lhes êstes homens que rogassem no céu por êles para se poderem alevantar, lhes prometeram que assim o fariam. Despediram-se também das mulheres de casa que as serviam pedindo-lhes perdão e dando-lhes bons conselhos e encomendando-lhes perseverassem firmes na fé; e no tempo que isto diziam e outras coisas similhantes de edificação, se punham de quando em quando de joelhos diante de um crucifixo que ali tinham dando-lhe graças pela mercê que lhes fazia em morrerem por seu amor. Outras vezes punham-se a fazer oração em silêncio, outras se despediam da Virgem nossa Senhora, e desta maneira se estavam aparelhando para aquela ditosa hora e morte pela qual esperavam. Ia já anoitecendo e Madalena não chegava; pelo que Joana e Inês tornaram a mandar outro recado ao governador que emfim deu ordem que viesse como veio já de noite, a qual trazia diante de si um menino que se chamava Luís; Joana e Inês saíram a recebê-la e foi êste encontro para tôdas três de tão grande consolação e alegria que o que entre elas ali passou dizem as testemunhas que se acharam presentes, e que o Bispo de Japão perguntou no sumário que tirou do glorioso martírio dêstes santos que se não pode escrever. Venhais muito em boa hora nossa companheira, disseram as duas, muito folgamos de vos ver e
  • 4o Das coisas de Japão daqui nos iremos todas juntas para o paraíso. Eu também, disse Madalena, me alegro muito de irmos juntas. E ainda que neste mundo nos não víramos, pouco importava pois no espírito e corações estávamos juntas e unidas em Cristo. Em minha casa estava em oração aparelhando-me para morrer mas contudo •Fl.s8. agradeço muito a lembrança e cuidado que tivestes de mim * procurando que eu viesse para cá. E não sòmente se não via nela sinal algum de perturbação antes se enxergava estar sua alma cheia de alegria do Espírito Santo. Depois se pediram todas três perdão entre si e sempre estiveram ocupadas em falar de coisas divinas, atribuindo esta graça do martírio que Deus lhes concedia aos merecimentos e intercessão dos santos mártires Simão e João. Estava com elas o menino Luís que era de sete ou oito anos, o qual, disse Madalena, e filho de meu irmão mais velho, mas eu e Gorozaimon João o tínhamos perfilhado; e alcançar êle agora tão grande bem como este que Deus lhe faz de também ser mártir é para mim coisa de grande alegria. Tinha Madalena mui bem instruído este menino de como se havia de haver neste presente trabalho, de modo que ainda entre sonhos fazia o menino actos de fé. Porque estando uma vez nestes dias da perseguição em sua casa João e Madalena praticando ao logo em uma câmara interior onde êle de ordinário estava, ^estava também ali dormindo o menino Luís-, senão quando de súbito acordou dizendo: Senhora mãe, senhora mãe, eu por nenhum caso hei de receber o livro Foquéquio sôbre minha cabeça. Ao que a mãe respondeu que não temesse que lho não haviam de fazer pôr na cabeça; tornou êle outra vez que não havia de consentir que lho pusessem, e mandando a mãe levá-lo para dentro para que o deitassem na cama, depois que esteve dormindo torna outra vez a espertar e a bradar, repetindo por vezes que por nenhuma via havia de receber o livro sôbre a cabeça, de que os cir- cunstantes ficaram não pouco espantados e edificados. Estando pois estas três santas mulheres nas práticas santas que dissemos, cerrou-se de todo a noite, pela qual parece que o governador esperava para a execução desta justiça e para não haver tanto concurso de gente a ela e nisto fazer também favor às padecentes. Mandaram-lhes logo os ministros recado que se aparelhassem para saírem. O qual ouvido, tôdas três com o menino Luís (estando a tudo presentes os três cristãos Iifiacos e outras muitas pessoas cristãos e gentios) se puseram de joelhos diante de uma imagem que ali estava e ben- • fi.38». zendo-se primeiro, disseram em voz alta a confissão geral, Cre*do, Salve Regina, e Joana fez uma prática ou colóquio de que todos os circunstantes ficaram ma- ravilhados vendo a fôrça do espírito de Deus que falava nesta mulher. Primei- ramente pediu a Deus perdão de seus pecados e aos circunstantes disse que ninguém tivesse compaixão de a ver assim morrer, porque para ela era esta morte uma mercê assinalada de Deus e coisa de grande consolação e alegria; e falando com Deus dizia: Não sei, Senhor, que vistes em mimn em como me fizestes mercê tão grande, nem menos como vo-la posso dignamente gratificar. Já, Senhor, hoje vos ofereci em sacrifício um só filho que tinha; agora vos ofereço a mim mesma e vos peço que êste que vos faço de minha alma e corpo mo queirais aceitar. Juntamente vos rogo que os que estão em pecado mortal lhes deis graça para se arrependerem e se porem em vossa amizade e que ordeneis que os gentios que vos não conhecem se façam cristãos. E particularmente vos
  • Das coisas de Japão 4i encomendo a Canzuge do qual nenhum queixume tenho, antes lhe agradeço esta boa obra que me faz em me mandar crucificar por vossa santa fé e o que desejo é que assim ele com todos os seus descendentes floreçam, possuam e governem este reino de Fingo em paz, e que todo ele se faça cristão e que os que nesta perseguição caíram se tornem outra vez a alevantar; e por esta tenção (falando então com os circunstantes) digam todos o Miserere; e começando-o ela o rezaram juntamente com ela todos os cristãos que ali estavam e três vezes o Pater Noster e Ave Maria. E como neste colóquio Joana se detivesse por um bom espaço e fosse já tarde e os oficiais da justiça se dessem pressa, mandou- lhes dizer Joana com as demais que pôsto-que para eles seria trabalho esperar^ que todavia como isto era aparelho para morrer, lhes pedia quisessem esperar mais um pouco. E logo com muita paz começou as Ladainhas que todos com ela disseram com mais algumas orações, as quais acabadas disse com grande alvoroço: Agora saiamos, saíamos, e saíram com tanta alegria que como testi- ficaram os que estiveram presentes, não pareciam senão uns anjos. Aqui disse Inês a Joaquim que jâ que Gofioge Simão morrera diante da imagem do Ecce homo a levasse também agora diante para as * ajudar a elas a bem morrer, «fi.29. Fê-lo assim Joaquim, e Miguel levou também um vaso de água benta. Estavam aparelhados três norimonos, que assim se chamam em Japão, que são umas como andas pequenas ou cadeiras que se levam em ombros de homens e em que costuma andar a gente nobre, especialmente mulheres; e como estas eram tais e o governador Cacuzaimon amigo, quis usar com elas, pôsto-que gentio, dêste favor e primor. Entraram todas três cada uma no seu e no de Madalena ia também o menino Luís, a qual antes que entrasse no seu chamou junto de si o Iifiaco João e lhe disse: João, os cristãos que êstes dias recebe- ram sobre suas cabeças o livro Foquéquio não perderam interiormente a fé mas sòmente caíram por fraqueza, pelo que agora parece que terão pejo e vergonha de nos vêrem; peço-vos muito que os não desampareis, nem quando os encon- trardes façais que os não vêdes, antes lhes faleis e os ajudeis, procurando que se alevantem, e animando-os para que não percam as esperanças, porque tempo virá que pela misericórdia de Deus se poderão alevantar. A gente que concorreu a êste espectáculo e ia acompanhando estas santas padecentes não tinha número; os três cristãos Iifiacos iam repartidos com cada uma delas, e da casa do santo Simão donde saíram até o lugar das cruzes, sem- pre por todo êste caminho Madalena e o menino Luís seu filho, foram dizendo e revezando-se como em coro: Jesus, Maria. Chegando ao entrar de uma rua muito comprida, no cabo da qual estavam as cruzes, disse João a Inês: Se- nhora lembre-se v. m. agora, como Nosso Senhor Jesus Cristo no tempo de sua paixão foi levado pelas ruas de Jesusalém, e vá meditando nisto. Ao que ela respondeu: A muito bom tempo vos lembrastes, e pois Cristo Nosso Senhor quando foi a padecer foi a pé e descalço, por nenhuma via convém ir eu em norimono, e assim fêz muita instância por se descer e andar aquele caminho até à cruz com os pés descalços, mas João lhe foi à mão e a aquietou, porque assim como assim os guardas o não haviam de consentir. Quando passavam pelas ruas os cristãos se chegavam às andas em que iam, e pegando delas, por mais aue os guardas os tratavam mal, pediam às santas que no paraíso se lembrassem 6
  • 42 Das coisas de Japão • fi. 29v. dêles diante de Deus, o que elas lhes prometiam de fazer com * muita benegni- dade e caridade, preguntando a cada um pelo nome de cristão, lhe encomen- davam que perseverassem na fé e no serviço do Senhor. Chegando finalmente ao lugar em que haviam de ser crucificadas, pondo os norimonos ou andas no chão, Miguel, que ia acompanhando a Madalena, lhe disse: Senhora, é chegada a hora; se fica ainda a vossa mercê alguma coisa de devoção, peço-lhe que ma dê para memória sua. Ela respondeu que só lhe ficava uma conta de Boémia que levava na bôca, com a qual queria morrer, o que Miguel lhe louvou muito. Também Joaquim e João tomaram as imagens uma do Ecce homo e outra do crucifixo e acendendo as velas, as levaram a todas três, que ainda estavam dentro nas andas para que as adoras- sem e particularmente João levando a Inês a imagem do Ecce homo como ela lha pedira, e pondo a santa mulher os olhos nela, disse com muita devoção: Quando levaram Cristo nosso Senhor a crucificar, êle mesmo levou a cruz às costas e com ela subiu descalço ao monte Calvário e a mim trouxeram-me aqui em andas. Isto foi misericórdia sua e mimo particular que êle me quis fazer; pois digo que ainda que não fôra mais que por êste benefício ficava eu obrigada a dar de muito boa vontade a vida por seu amor. A primeira que crucificaram foi Joana, à qual disseram os algozes que se pusesse na cruz ao que ela respondeu: Eu não sei o modo como me hei de pôr; jnas o que sei é que morrendo Cristo nosso Senhor na cruz, morrendo eu também da mesma maneira, é uma assinalada mercê e muito grande glória para mim. E dizendo aos algozes que esperassem mais um pouco, se benzeu e disse a confissão geral, três vezes o Pater Noster e Ave Maria, e pondo-a logo os algozes na cruz, lhes disse ela: Quando Jesus Cristo nosso Senhor foi crucificado, padeceu muito grandes dores; e porque eu desejo de o imitar, peço-vos que vos hajais comigo muito cruelmente e me aperteis com as cordas os pés e as mãos muito rijamente. E porque lhe apertaram também muito o pescoço, disse: A garganta folgara eu que me deixásseis algum pouco folgada, para que possa falar e rezar. E ali bebeu uma pouca de água benta que Joa- • fi.3o. quim lhe deu. Alevantaram-na na cruz, e vendo tão gran*de multidão de gente, que concorreu a êste espectáculo, e a lua que ainda se não tinha acabado de pôr, disse em voz alta: Ouvi os que estais presentes: ^Vêdes vós aquela lua e estrêlas? pois daqui por diante me ficarão muito debaixo dos pés. Olhai todos que não há outra lei em que os homens se possam salvar, senão a dos cristãos; as outras tôdas são trevas e cegueira; portanto desejo muito e assim vo-lo peço, que todos os que sois gentios vos façais cristãos, porque se assim o fizerdes então entendereis'a verdade do que agora vos digo, e aos que caístes peço que vos arrependais e alevanteis, e aos que tendes fé firme que mais e mais vos fortifiqueis nela, lançando profundas raízes e perseverantes até à morte. Estando assim falando e pregando desta maneira em alta voz e cheia do espírito de Deus, lhe deram uma lançada, e porque o algoz não acertou bem, e a lança não entrou, disse ela de cima: Não corta, não corta a lança; e após isto, Jesus, Maria, Jesus, Maria. E tornando-lhe o algoz logo a dar outra lançada pela ilharga esquerda lhe foi sair o ferro por riba do ombro direito, e a santa sem- pre continuando com o nome de Jesus, Maria na bôca, até que nas mãos de
  • Das coisas de Japão 43 ambos entregou seu espírito. Era esta santa mulher natural do reino de Ixe, padeceu de idade de cincoenta e cinco anos. No segundo lugar crucificaram a Madalena e seu filho Luís. Pediu esta santa aos algozes que porquanto queria orar, esperassem um pouco, o que eles fizeram, emquanto ela depois de se benzer disse a confissão geral, três vezes o Pater Nostre e Ave Maria. E porque quando a amarraram na cruz o fizeram com muito crueldade deu ela por isto muitas graças a nosso Senhor. O me- nino Luís chegou-se também para a sua cruz para o porem nela, e preguntan- do-lhe um dos circunstantes: 1 Menino, haveis de morrer e não vos perturbais? Respondeu êle: Nenhuma perturbação sinto em mim. E porque quando o amarravam, o apertavam mui rijamente, pediu aos algozes que quisessem afrouxar mais um pouco as cordas, o que o algoz ouvindo se enterneceu tanto que chorou e afrouxou as cordas; amarrados assim ambos, mãe e filho em suas cruzes os levantaram nelas, e de modo que o menino sempre esteve virado para a mãe. E porque parece que o tinha ela dantes assim instruído, come*çando • Madalena a chamar por Jesus, Maria, Luís respondia chamando pelo mesmo -nome, e assim o estiveram ambos repetindo alternatim, respondendo um ao outro como em coro, e cantando ao Senhor aquelas suavíssimas matinas, como dissemos que também vieram fazendo pelo caminho dentro nas andas. O pri- meiro dos dois que alancearam foi o menino, e dando-lhe uma lançada resvalou o ferro e não entrou: pelo que receando Miguel, que por ser menino se ma- goasse muito e perturbasse, correndo se chegou a êle, e lhe disse que invocasse o nome de Jesus; deram-lhe nisto a segunda lançada e sem mostrar sinal algum de dor, com grande esforço ia dizendo Jesus, Maria, Jesus, Maria, e até espirar foi sempre com êstes santíssimos nomes na bôca, ficando todos os cir- cunstantes maravilhados da fortaleza e ânimo com que êste menino morreu. Logo alancearam a sua mãe Madalena, a qual em alta voz dizia: Jesus, Santa Maria, Jesus, Santa Maria, e dando-lhe a lançada debaixo do peito direito e não passando a lança por um pedaço, o que não podia deixar de lhe causar mui grande tormento, esteve ela contudo sempre sem dar mostra alguma de senti- mento, antes sem cessar, não fazia senão chamar pelo nome santíssimo de Jesus, e porque nêste tempo a beatilha lhe caiu sôbre os olhos, disse: ;Ah que não posso ver o céu! até que expirou e entregou sua alma àquele por cujo amor morria. Foi esta santa mulher Madalena natural do reino de Teunocumi, e padeceu de idade de trinta e três anos, e o santo menino Luís foi natural do reino de Xamaxiro, e padeceu de idade de sete ou oito anos. No derradeiro lugar foi crucificada Inês a qual saindo das andas se assentou logo sôbre a cruz, e benzendo-se primeiro, dizendo a confissão e rezando algumas orações vocais teve também uma pouca de oração mental. E depois de dar graças a Deus por haver de morrer em cruz, disse aos ministros que fizessem seu ofício, mas porque nenhum algoz houve que ali chegasse, (porque ao que se entendeu todos andavam como pasmados de ver o ânimo e devoção daquelas santas) outros gentios a quem isto por ofício não pertencia se chegaram e amarraram e levan- taram na cruz e a começaram a alancear. E porque a lan*ça não entrava bem, • lhe deram muitas lançadas com as quais não podia deixar de ter grandíssimo tormento; mas ela o não mostrou, antes desde o princípio até o fim esteve
  • 44 Das coisas de Japão r sempre invocando o nome santíssimo de Jesus; e porque também lhe caiu a beatilha sobre os olhos, se queixou que não podia ver bem o céu, até que expirou, e entregou seu espírito a Deus, sendo de idade de trinta anos e natural do reino de Ixe. Desta maneira passaram desta vida à eterna, aquelas bem- -aventuradas e ditosas almas em nove de Dezembro de i6o3. j Os que se acharam neste espectáculo não somente cristãos, mas também gentios, que foram inumeráveis, todos ficaram atónitos com a fortaleza e ânimo com que estas servas de Deus morreram, dizendo todos que tal morte não era coisa que saísse de fôrças humanas, e até os mesmos gentios confessavam que nisto se via ser verdade que na lei dos cristãos havia salvação; e com o tempo ser de perseguição, mostraram contudo os cristãos neste acto tão grande fervor e devoção, que não obstante as pancadas que os soldados lhes davam com as lanças, e a ira com que o superintendente daquela justiça os fazia afastar, con- tudo acudiram todos com lenços e papel, e com os próprios vestidos a recolher o sangue que corria dos santos mártires; alguns chegando-se às cruzes, se afer- ravam e abraçavam com elas, banhando-se no sangue que corria, outros cor- tavam o que podiam alcançar dos vestidos dos crucificados, e porque por ser de noite se não via bem o sangue que pela terra corria, na manhã seguinte recolheram os cristãos tôda aquela terra que com êle estava banhada, do que muito se edificavam e louvavam até os próprios gentios. Afirmaram os guardas, que seriam como trinta homens que ao tempo que em sua casa foi degolado o santo mártir Simão estavam de fora, que viram na mesma conjunção em que êle padeceu, sôbre a casa do mesmo santo Simão um maravilhoso resplendor do céu, apontando as particularidades e circunstâncias desta aparição. Algumas pessoas dizem também que naquela mesma noite que os quatro crucificados padeceram, viram a tempo que acabavam de morrer outro grande resplendor sôbre as quatro cruzes. Porém estas duas aparições se não puderam • fi.3iv.. averiguar com tanta certeza, como tô*da a mais história deste martírio, que temos referido, e as mais particularidades que nêle houve. Do qual tudo o Bispo de Japão D. Luís Cerqueira, pela obrigação que disso tem, tirou um sumário de testemunhas juradas, o qual mandou a Sua Santidade e a Sua Majestade, donde tirámos tudo o que aqui temos escrito. As relíquias dêstes santos quatro mártires, que morreram crucificados, deseja- ram muito os Padres da Companhia haver às mãos. Mas porque o tirano Canzuge que os mandou crucificar, os mandou também vigiar por espaço dum ano, para que os não furtassem, vista esta dificuldade, se encomendou aos três cristãos Iifiacos acima ditos, que tivessem feitos para isso quatro caixões distin- tos com seus letreiros: e assim como os ossos de cada um dos santos fossem caindo, ou estivessem em disposição para se poderem tomar, assim os fossem recolhendo com resguardo poucos e poucos; o que os bons e fervorosos cristãos fizeram com sumo cuidado, e diligência, sem fazerem caso de qualquer trabalho, que por isso lhes pudesse vir, se o tirano Canzuge o viesse a saber. E assim recolhidas as santas relíquias as levaram a Nangasáqui com grande consolação sua e dos padres que tanto as desejavam, onde agora estão depositadas naquele colégio e estimadas como tão precioso tesoiro merece. Da mesma maneira desejaram também de haver as cabeças dos santos
  • Das coisas de Japão 45 mártires, Simão e João, mas por nenhum caso puderam, porque sabendo o tirano os desejos que os cristãos tinham de as tomar e venerar, como era razão, as mandou pôr em lugar seguro ameaçando os guardas a quem estavam entre- gues, que se por seu descuido e negligência as deixassem tomar aos cristãos, os havia de castigar rigorosamente. CAPÍTULO IX Como se converteu à nossa santa fé o soldado que degolou e martirizou os santos, e os três cristãos lifiacos foram presos por ela "v EPOIS do martírio destes gloriosos santos, foi tão grande a força do «Fi-ji. 1 exemplo que deram com a constância de sua fé, que muitos dos que •*— tinham enfraquecido e caído nas perseguições passadas, arrependidos de seu pecado, se foram ter com os padres a Arima e a outras partes a se reconciliar com Deus e com sua Igreja, e fazer penitência de sua pouca cons- tância. Entre êstes foi mui insigne a constância de um soldado, o qual se reduziu tão de-veras e entrou em tanto 'fervor de espírito, que parece não desejava outra coisa que oferecer-se ocasião para êle também dar a vida por Cristo. Pelo que na festa do Natal que logo depois do martírio dos santos se seguiu, com estar ainda tão fresco seu sangue, determinou de publicamente celebrar êste santo dia; com viver e estar em Sumamoto, onde o tirano reside e tem sua corte, fêz nêle uma grande festa, chamando para ela assim cristãos como gentios, convidando-os a todos e dizendo que o Natal era o ano novo dos cristãos. E com seus amigos e conhecidos lhe irem à mão, parecendo-lhes que por ser isto depois da morte dos santos mártires, lhe podia vir algum grande mal, o forte soldado de Cristo se não deu por achado destes mêdos que os amigos lhe punham, mas tão pública e livremente corria com seu fervor e manifestação da fé que professava, que chegou sua fama às orelhas do tirano Canzuge. O qual considerando seu ânimo e fortaleza e temendo porventura que, se quisesse entender com êle, ficaria vencido, como ficou dos outros santos mártires, houve por melhor não somente dissimular, mas dar-lhe licença que vivesse como cristão. Outra conversão se seguiu depois do martírio dos santos, que foi tanto mais gloriosa, quanto mais se viu nela evidentemente o fruto e merecimento do seu sangue. Esta foi do próprio algoz ou soldado que degolou o santo mártir Simão e foi executor do martírio dos quatro que foram crucificados. Chama-se êste homem como acima fica dito Ichicava Jifioje, é mancebo de ge- ração, honrado, de boa natureza, mui afável e bem inclinado. E ainda que no martírio do santo Simão exercitou o ofício de algoz, pois foi o que lhe cortou a cabeça, não é isto contudo em Japão nota de ignomínia, antes estilo en*tre »fi.3jv. os nobres, quando hão de padecer semelhantes mortes serem degolados por pessoas honradas. Êste pois como no martírio dos santos e execução dêle os favoreceu tanto deixando-lhes fazer e ter todo o aparelho que quiseram e usando
  • 46 Das coisas de Japão com êles de tôda humanidade possível como na história atrás fica referido, parece que os gloriosos mártires em recompensa dêste benefício intercederam por êle diante de Deus e lhe alcançaram de nosso Senhor graça e luz para conhecer a verdade de nossa santa fé, pela qual tão liberalmente deram a vida. O principal motivo e com que mais interiormente sentiu mover-se, foi, segundo êle mesmo contou, por ver a grande constância e veemente desejo que todos tiveram de morrer pela fé e alegria com que receberam tão ditosa morte. E em particular os extremos de fortaleza e constância que viu no santo mártir Simão, quando se achava presente a tudo o que com êle passou de pessoa a pessoa o governador Cacuzaimon, como acima fica referido, do qual tudo êle também foi testemunha no sumário que o Bispo tirou; e isto tudo, como digo, e a lealdade grande de amor que nêles notou para com Deus, afirmou êste bom homem que lhe fora motivo para acabar de entender que a lei dos cris- tãos era verdadeira e fundada em sólidas razões. E que se assim não fora, Gofioje Simão, que era homem de bom entendimento e tão discreto não hou- vera de perder a vida por ela, nem deixar de fazer a vontade de Cacuzaimon, que tanto amor lhe mostrava e a tantos extremos chegava por lhe salvar a vida. Movido pois desta maneira êste bom soldado, se foi de Iatçuxiro a Nan- gasáqui a buscar os padres para tratar com êles de ouvir prègações, e receber o sagrado baptismo, como tudo fêz; e as prègações particularmente ouviu muito de vagar e com grande atenção, como quem desejava saber tudo muito de raiz, pondo diversas dúvidas ao que ouvia. E para que não lhe estranhassem isto, dizia aos padres: Não se espantem vossas reverências de eu ser tão miúdo em preguntar pelas coisas desta lei, porque como é lei que os que a recebem são obrigados a morrer por ela antes que deixá-la, e eu determino de o fazer assim, é razão que antes que a tome tenha mui inteira notícia dela. E assim como o disse o cumpriu, porque primeiro que se baptizasse fêz mui • F1.33. grande entendimento dos mistérios de nossa santa fé; e * com tão boa disposi- ção e aparelho recebeu o santo baptismo. E tornando-se depois para sua casa, deu tais mostras de verdadeiro cristão que vindo à notícia de Canzuge que o era, e mandando-lhe que o deixasse de ser ou perderia a renda que dêle tinha, quis antes perder a renda que era mui boa, que faltar ponto no que devia à fé que recebera. Ainda que por algum tempo depois do martírio dos santos a Igreja do reino de Fingo teve paz, contudo não se pôde sofrer o demónio muito tempo que lha não perturbasse, tomando por instrumento ao governador Cacuzaimon; e para que se entenda o fundamento desta perturbação, há se de saber que havia na cidade de Iatçuxiro, onde os santos mártires padeceram, três governadores, e dêstes, dois eram os principais, convém a saber: Cacuzaimon, que tinha a seu cargo a fortaleza e tôda a gente de guerra e soldadesca, de que era cabeça, e outro que se chamava Jenzuge, que tinha a cargo a gente do povo; o qual era homem poderoso e que nenhum caso fazia de Cacuzaimon, antes ambos anda- vam pouco correntes. O Jenzuge era muito amigo dos cristãos e os favorecia, o Cacuzaimon pôsto-que foi amicíssimo do santo mártir Simão e fêz os extremos acima ditos por lhe salvar a vida, era contudo inimigo dos cristãos, e mnito maior o foi depois da morte do santo Simão que por ser cristão morreu e êle
  • Das coisas de Japão 47 perdeu tão grande amigo; pelo que cresceu nêle mais o ódio que tinha contra os cristãos. E em particular o cobrou mui grande contra os três cristãos, oficiais da caridade, João, Joaquim e Miguel de que nesta história tantas vezes fizemos menção, por ter para si que pelos ofícios que estes fizeram com o santo Simão, e conselhos que lhe davam, não poderá acabar com êle que deixasse de ser cristão; e também por saber que estes três eram os que sustentavam a gente do povo para não deixar a fé. Porém ainda que lhe tinha esta má von- tade, não lhes podia fazer mal algum, porque estavam debaixo da jurisdição, e protecção do outro governador Jenzuge que os favorecia e amparava. Sucedeu neste comenos, que o tirano Canzugedono tirou do ofício a Jenzuge e o deu a outra pessoa de menos quilates, e homem que quási em tudo ficava sujeito a Cacuzaimon e como criado seu. Estando assim as coisas e vendo os bonzos * »fi.33t. foqueixos, que são absolutamente os mores inimigos que nossa santa lei tem em Japão, novo governador na terra e não tão favorecedor dos cristãos do povo, como era Jenzuge, havendo ser esta boa conjunção para os perseguir, os foram acusar diante do novo governador, dizendo que os cristãos lhes cortaram certas árvores da cêrca do seu mosteiro e lhes trataram mal e com desacato do seu Fotoque. Mandou logo o governador, por conselho e ordem de Cacuzaimon por quem tudo se regia, chamar um cristão principal, cabeça do povo de Iatçuxiro que em Japão se chama Beto, mas seu nome de cristão era Fabião, de que acima já se falou, e repreendeu do caso gravemente assim a êle como aos mais cristãos, ajuntando-lhe grandes ameaças pela injúria que tinham feito a seus Camis e Fotoques. O cristão como estava inocente lhe respondeu que nada daquilo sabia, mas que iria contudo falar com os outros e faria inquirição, e do que achasse o informaria fielmente. Satisfeito o governador com a res- posta se foi Fabião, e feitas suas diligências, nenhuma coisa pôde achar do que os bonzos assacaram, pelo que veio trazer esta resposta ao governador, acres- centando que não era possível sair tal coisa dos cristãos, pelo grande resguardo que traziam em não fazer coisa por onde entre êles e os gentios houvesse per- turbação, e que sabida coisa era que entre os gentios havia muitos que faziam escárneo dos ídolos; e como naquele tempo houvera grande concurso de gente em Iatçuxiro, que vieram de diversas partes por mandado de Canzuge para trabalhar nas obras de uma fortaleza que fazia, o mais certo era que algum déles faria aquele desacato aos Camis e Fotoques de que os bonzos se queixa- vam. Não se deu o governador por satisfeito com esta resposta, antes daqui tomou ocasião para intentar o negócio principal a que todos êstes estratagemas se dirigiam, que era a que os cristãos retrocedessem. Pelo que se declarou logo com Fabião e lhe disse que o que convinha era que para os cristãos se livrarem de semelhantes enfadamentos e calúnias, deixassem sua dureza e con- tumácia em que estavam, e fizessem o que Canzuge mandava, que será, dei- xando a lei de Cristo, tornarem ao culto e veneração dos Fotoques; e em sinal disso fossem logo ouvir as prègaçóes dos bonzos * foqueixos e que nisto não «fi.3*. houvesse réplica. Ao que Fabião lhe respondeu que se êle fora só o que lhe houvera de dar a resposta de sim ou não, que o fizera logo; mas como este negócio dependia de muitos, que iria primeiro falar com êles e conforme o que nêles achasse traria a resolução. Foi o bom cristão; ajunta todos os outros
  • 48 Das coisas de Japão que eram muitos; dá-lhes conta do que passava. — Assentam todos que se res- pondesse ao governador com muita clareza, que de nenhuma maneira haviam de ouvir as pregações dos bonzos, ainda que por isso fossem desterrados ou lhes dessem qualquer outro castigo. Contentíssimo Fabião de ver tal ânimo naqueles de quem êle era cabeça, levou esta resposta ao governador que com ela ficou grandemente descontente e enfadado, e começou a romper em grandes ameaças. Indo porém dar conta de tudo ao outro governador Cacuzaimon por cuja ordem tudo fazia, assentaram ambos que se não devia de ir com êste negócio adiante, nem apertar mais com os cristãos em ponto de deixarem de o ser, mas que esperassem por Canzugedono que estava para vir da corte e que então se concluiria com êles. Veio Canzuge, foi a latçuxiro: deu-lhe conta Cacuzaimon como naquela cidade havia muitos cristãos com os quais por ne- nhum caso se podia acabar que obedecessem a seu mandado em deixarem de, o ser. Ao que respondeu Canzuge que como os nobres e soldados o não fôs- sem, pouco se lhe dava dos outros. Não se aquietou porém com isto o danando coração do governador Cacuzaimon, antes andava sempre buscando ocasiões para levar ao cabo seu perverso intento; e porque via muito bem que as colunas que sustentavam todos estes cristãos eram os três Iifiacos acima ditos, contra estes converteu tôda sua fúria para ver se os podia derrubar, ou com os fazer deixar a fé ou com lhes tirar a vida. E assim em certa ocasião que se ofereceu, os mandou prender e meter no cárcere a todos três. Se foi com ordem de Canzuge ou não, isso se não soube por ora, pôsto-que se teve por mais provável que fôra sem ela. Porém permitiu Deus que logo depois de presos êstes cris- tãos, Cacuzaimon caísse em desgraça de Canzuge, de modo que o tirou do • fi.34t. ofício e o mandou ir para a cidade de Sumamoto, * onde êle reside; pelo que e por naquela conjunção cair a festa do ano novo dos japões em que êles se não ocupam por muitos dias em outra coisa senão em festas e passatempos, não foi o negócio dos presos mais por diante, (como referem as últimas cartas que nêste mesmo tempo se escreveram) mas na prisão dos três cristãos aconteciam coisas de muita edificação e entre elas foi uma disputa mui notável que um dêles por nome João teve com o governador Cacuzaimon acerca de nossa santa fé, coisa que bem mostra como o Espírito Santo nêle falava conforme à pro- messa que Cristo nosso Senhor fêz a seus apóstolos: Dabitur, vobis iti illa hora quid loquamini. Os presos glorificavam muito a nosso Senhor com grande edificação dos cristãos e admiração dos gentios, porque, como refere uma carta do mesmo Bispo de Japão: Além da devoção, alegria e fortaleza cristã com que tomam êste trabalho êstes santos confessores de Cristo, que é para louvar muito a nosso Senhor, todo o tempo gastam em falar de coisas divinas, ani- mando-se para o martírio,, porque estão juntos todos no mesmo cárcere e em oração a seus tempos; e daí animam aos outros cristãos que há naquela cidade, como faziam antes de os prenderem. De modo que de qualquer maneira que êste negócio seja, já não poderá deixar de ser senão com uma grande vitória da fé, com a graça e favor divino.
  • Das coisas de Japão 49 CAPÍTULO X Do que se fi\ nos reinos de Iamangúchi, e constância na fé daquela cristandade UM dos mores inimigos que nossa santa fé tem em Japão é Moridono, rei de Iamangúchi, o qual antigamente o foi de oito ou nove reinos, e agora o não é mais que de dois, dos quais é cabeça esta cidade, onde êle tem sua corte, e donde haverá dois anos lançou fora os padres que aqui residiam; pelo que aquela cristandade, que ali era já muito grande, ficou em muita des- consolação e desamparo. Porém não deixam * os padres de buscar todas as »fi.35. ocasiões e meios para ajudarem aqueles cristãos, dos quais ainda que com a perseguição de Moridono (que fêz quanto pôde para que tornassem atrás) alguns deram sinais de fraqueza, os outros contudo, que foram o corpo maior e prin- cipal dêles, ficaram fortes e constantes, e se conservam até agora com muita edificação e exemplo, com o qual eles mesmos vão animando aos outros mais fracos. E pôsto-que o rei Moridono nunca deixa de manifestar nas obras e palavras o mortal ódio que tem a nossa santa fé, contudo não deixam os cristãos de buscar meios com que secretamente os padres possam ir àquela cidade de quando em quando, para se confessarem e consolarem, e quando os lá vêem é tamanha sua alegria e contentamento, que muitos choram de prazer. E não é menor a que os padres teem pelo ânimo, e constância que neles vêem para pas- sarem quaisquer trabalhos pela confissão da fé, no que particularmente se avantajavam aos demais alguns velhos do tempo do Beato Padre Francisco, e do Padre Cosme de Torres. Em uma destas idas vieram pedir misericórdia ao padre que lá foi uns poucos de lavradores de uma aldeia vizinha de Iamangúchi, que no tempo da perseguição, por fraqueza e mêdo tinham contemporizado no exterior com o ímpio mandado do tirano, mas passada esta borrasca, logo começaram a correr como verdadeiros cristãos, ajuntando-se com os demais todos os domingos em uma casa para isso deputada, a fazer oração e tratar das coisas de Deus. O padre depois de lhes fazer êste negócio muito caro, como a graveza do caso requeria, lhes mandou que ou cada um por si ou todos juntos na mesma casa diante dos mais cristãos, tomassem uma disciplina pública, e lhes pedissem com muita humildade perdão do escândalo que em matéria tão grave lhes tinham dado, protestando juntamente como nunca mais passaria por êles semelhante fraqueza contra a lealdade que deviam à nossa santa fé; e que depois intercederia por êles com o Bispo que estava em Nangasáqui para os tornar outra vez a reconciliar à Igreja. Aceitaram tudo com muita alegria, e logo tornaram com seu presente visitar o padre agradecendo-lhe muito o remé- dio que lhes dera para suas almas. * Uma das coisas em que Deus nosso Senhor mostra a providência grande -fi.35v. que tem sobre êstes cristãos, e particularmente sôbre os que vivem entre gen- tios e em terras de senhores que perseguem nossa santa fé, é em ter sempre ali alguns esdolhidos seus, a quem para espelho e exemplo dos outros comunica tal espírito de fortaleza e constância na fé, que com êles os fracos cobram 7
  • 5o Das coisas de Japão ânimo, e a virtude de nossa santa fé se manifesta para confusão e desengano dos infiéis. E destes tem o Senhor aqui alguns nesta cristandade de Iaman- gúchi, (como se verá no que logo iremos dizendo). É a principal coluna dos cristãos dêstes dois reinos um fidalgo nobilíssimo, e capitão insigne, por nome Bujendono Belchior. Contra este parece que meteu o demónio o resto de todos os meios e ardis que pôde para ver se o podia derrubar; porém Deus lhe tem dado tanta graça e tal dom de fortaleza em sua fé, que de todos os combates saiu vitorioso, e não com menos merecimento diante de Deus que honra e louvor diante dos homens. Pouco antes de tornar Moridono das partes do Meaco, convidando êle um dia em sua casa a Saxodono, que é o principal na privança e valia com o mesmo Mori, e governador geral de seus reinos, e que ainda que no exterior se mostra propício aos cristãos, a verdade é que no coração os aborrece, no fim do banquete veio este gentio a enfiar a prática de maneira que tratando de nossa santa lei, veio a dizer que êle tinha ouvido alguma coisa dela a certo homem rapado da igreja, e que não acham de que lançar mão, pelo que tudo tinha por negócio de pouca substância; e que também via por expe- riência que homem nenhum de ser a recebia, e se alguns a receberam que vie- ram a perder desastradamente seus estados, como Teunocami Agostinho e o rei de Bungo e outros. Ao que respondeu Belchior que quanto a não ter êle feito conceito da lei de Deus que ouvira, nao era de espantai, pois estava tão cego e casado com seus êrros; e que em dizer que as pessoas de tômo que tomavam esta lei acabavam miseravelmente, nenhuma razão tinha, pois o mesmo Moridono seu senhor que era tao devoto dos Camis e Fotoques, foi a também desapossado de seu estado, e Ancolúgi, com ser bonzo, e tão favorecedor das •;fi.36. seitas de Japão, e * Gibunozo e outros perderam as fazendas e as mesmas vidas, e muitos senhores gentios também ficaram pobres e desterrados, sem poder, sem ser e sem valia. Em fim, tornou Saxodono, ou eu tenha razão no que digo, ou não, a verdade é que nenhum homem de ser se faz cristão. Aqui pendeu Bugendono Belchior a paciência, e virando-se para êle com as cores mudadas lhe disse. E bem; ^na casa de El-Rei Moridono não sou tão bom como vós? ipois porque haveis de dizer nas minhas barbas, que nenhum homem de ser se faz cristão? E dizendo isto, cego de cólera, leva da adaga. O que vendo o governador Saxodono se levantou mais depressa do que se assentara, e começou a caminhar para se sair pela sala fora. Mas passada aquela pri- meira fúria, caindo Bugendono no que tinha feito, lançou da mão a adaga e se foi a êle, detendo-o que se não fôsse, e pedindo-lhe perdão, pois aquilo fôra uma paixão repentina, das que soem às vezes sobrevir aos homens; e que ainda que levara da adaga, nem pela imaginação lhe passara ofendê-lo com ela; e em sinal disto se o quisesse matar por ser cristão, que ali o tinha e lhe dava palavra de nenhum movimento fazer de si. Dizendo isto descobriu e abaixou o vestido dos ombos, e estendendo o pescoço, como quem esperava o golpe, repetia as mesmas palavras, que se o quisesse matar por ser cristão que ali o tinha. Meteram-se também logo no meio alguns homens nobres, que ali se acharam, e havendo que era bom fazerem-se as amizades em fresco, porque, se escapava dali, seria dificultoso de soldarem, fizeram tornar para dentro a Saxo- dono, e depois das devidas descargas, que cada um da sua parte deu, se fize-
  • Das coisas de Japão 51 ram amigos, prometendo Saxodono a Belchior, que nunca mais emquanto vivesse lhe seria molesto, nem tocaria naquela matéria. Não havia muito que isto era passado, quando Moridono tornou da corte para suas terras, e logo que chegou começou a vomitar a peçonha que no peito tinha contra a lei de Deus, tratando com alguns de seus mais privados, que meio teria para extinguir totalmente o nome cristão naqueles reinos. E como sabia que o esteio de todos os mais cristãos era Bugendono Belchior, consultou se seria melhor cometê-lo a êle primeiro, porque * rendido este forte, fácil »fi.36t. seria dar também por terra com todos os outros; ou se porventura viria mais a propósito começar pelos outros, para que baqueados êles e vendo-se Bugendono só, não pudesse deixar de se render e seguir o exemplo de tantos. Teve notícia destas traças Belchior, e chamando em secreto alguns cristãos da cidade, dos que não eram soldados, lhes deu parte de tudo, avisando-os, que se com êles entendessem, que para escusar dares e tomares enfadonhos se remetessem em tudo ao que êle respondesse e fizesse. Porque lhes empenhava sua palavra, que ainda que lhe custasse a vida, nenhuma coisa faria contra o que devia à lei de bom e verdadeiro cristão. Em fim El-Rei Moridono determinou enrestar primeiro com êle, crendo que se o vencia lhe ficaria o campo franco, e sem achar quem lhe resistisse. Pelo que um dia lhe mandou por três homens fidal- gos e principais um recado em forma, cujo teor em suma era que deixada a lei de Cristo vivesse na crença de seus antepassados. E como Belchior havia dias que andava apercebido para êste assalto, sem mostrar mudança nem turbação alguma, lhes respondeu que dissessem a Moridono seu senhor, que no que tocava às coisas desta vida, o mandasse, porque em tudo lhe obedeceria com muita lealdade, como sempre fizera. Porém que deixar a lei que professava, na qual sabia consistir a verdadeira salvação, em nenhuma maneira o podia nem havia de fazer; e que se por isso o quisesse mandar justiçar, lhe pedia muito que mandando-o primeiro despojar de seus vestidos, e amarrado com uma corda o fizesse levar três vezes por todas as ruas de Iamangúchi por algum dos que teem por ofício esfolar bêstas mortas (que é a mais abatida e vil sorte de gente que há em Japão), com público pregão, que lhe mandava fazer aquilo por ser cristão, e depois lhe mandasse muito em boa hora cortar a cabeça. Ficaram enleados e confusos os três fidalgos com esta nova linguagem, parecendo-lhes que ou aquele homem estava fora de si, ou não era possível aventurar-se a tanto na vida e honra pela lei que professava, sem ter mui clara notícia de haver nela a salvação, que por tão custoso meio pretendia. Começaram porém cada um de sua parte a batê-lo com muitas razões e conselhos que lhe davam, para que * se rendesse a fazer o que Moridono lhe pedia, e tanto mais trabalhavam • fi. 3y. nisto, e com mais instância, quanto mais desejavam de ganhar a vontade a Moridono, se por seu meio lhe rendiam Belchior ao que tanto desejavam. Porém de tudo mostrava que nenhum caso fazia o soldado de Cristo, ficando sempre imóvel a quantas razões e argumentos lhe traziam para o poderem dobrar, e mostrando que nenhuma outra coisa desejava, senão que Cristo, ou por vida ou por morte, fosse nêle glorificado. E porque se temeu que os mensageiros, movidos de falsa compaixão, não quisessem relatar fielmente esta sua resposta a Moridono, seu senhor, escreveu
  • 0 52 Das coisas de Japão pouco depois uma carta a certos privados do mesmo Mori, para que êles lha mostrassem, cuja substância traduzida de japão em português é esta. Porque êste inverno passado entendi de algumas pessoas graves o conceito de meu senhor acêrca de eu ser cristão, quero nesta declarar meu ânimo, pedindo-vos muito que havendo boa conjunção lha queirais comunicar. Pri- meiramente haverá como quinze anos que me fiz cristão, e pôsto-que depois disto algum tempo andei frio e indevoto, sem me acabar de resolver, contudo de quatro ou cinco anos a esta parte, entrando mais em mim, procuro minha salvação, entendendo ser ela de maior importância que tudo quanto há nesta vida. De tôdas as seitas de Japão tenho ouvido algum pouco, e nenhuma delas há que mostre a verdadeira salvação, antes ensinam que tudo fenece e se acaba com esta vida. Mas a lei dos cristãos não adora mais que o Senhor do céu e da terra, mandando tambe'm ter respeito e obediência ao senhor temporal, a pai e mãe, e amor aos outros próximos como a si mesmo, com outras coisas que se encerram nos dez mandamentos dela. E pois eu em tudo mais não discreparei em coisa alguma do que meu senhor me mandar, peço-lhe que me deixe viver em minha lei. E se isto me conceder, lho agradecerei e estimarei em mais que se me acrescentara vinte mil fardos de renda. Quanto ao cuidar êle que quebramos os Camis e Fotoques, é verdade que alguns mancebos com demasiado fervor excedem às vezes nesta parte. Porém não são só os da nossa lei, os que isso fazem, porque também os foqueixos e icoxos e outros gentios qnebram e destroem os Camis e Fotoques. Quando juramos pelo Senhor do • fi. 37v. céu e da terra, ainda que nos façam em postas e nos * ofereçam montes de riquezas, em nenhuma maneira podemos faltar. Pelo que se Moridono meu senhor me mandar que deixe esta lei, ainda que me mande cortar a cabeça não o hei de fazer, e o ser degolado por esta causa, para nós é uma singular alegria sobre tôdas as alegrias, e todo o mais temos por cisco, e pôsto-que não há coisa mais penosa que perder a vida, contudo, além de ser ordenação divina, como é, por amor da salvação o estimamos em muito e o temos por uma alegria sem medida. Pelo que vos peço que digais a meu senhor, que com uma só palavra que diga, em que me mande justiçar por esta causa, de qualquer ma- neira que seja, sem lançar mão às armas, me deixarei sem resistir amarrar com uma corda, e assim sairei amarrado; e porque esteja mais seguro disto haver de ser assim, digo que juro pelo Senhor do céu e da terra e por minha salvação, de não discrepar em nada do que digo. Até aqui a carta de Bugendono Belchior. Assim com a resposta de palavra tão resoluta, como com esta carta, ficou Moridono totalmente desconfiado de poder sair com seu intento. Porém como o demónio sente tanto ver, que quanto Bugendono na fortaleza e constância mais se esmerava, tanto os outros cristãos com seu exemplo cobravam mais forças para resistir a semelhantes baterias, outra vez o intrigou, com representar outro meio, por onde cuidou que o levasse. Este foi mandar ao seu capitão geral por nome Guiçava, que é primo e mui particular amigo de Bugendono, que trabalhasse por ver se o podia perverter. Veio êste logo e trouxe em sua companhia outros três gentios principais, para dêles se ajudar, e convidando a jantar em sua casa a Bugendono, depois de outras práticas que foi metendo,
  • Das coisas de Japão 53 veio a dar na que pretendia, de estranhar a Bugendono o não obedecer a seu rei e senhor, em deixar de ser cristão, como tinham feito outros; a que acudiu um dos três fidalgos gentios dizendo-lhe também quanto devia estimar o amor que Guiçava lhe mostrava em lhe dar um tão acertado conselho e tão impor- tante para seu bem. Mas o soldado de Cristo que já se não achava novo em semelhantes assaltos, com muita paz e sossêgo lhe respondeu, que pôsto-que Moridono tinha tão grande ódio à lei de Deus, contudo essa mesma lei era tão justa e santa, que aos que a seguiam obrigava * que servissem e obedecessem «fi.33. a seus senhores com toda a fidelidade, nas coisas que não fossem contra Deus, e que prova disto era que com alguns senhores de Japão depois das guerras passadas lhe terem oferecido a êle mesmo quarenta mil fardos de renda para que os quisesse servir, nunca porém os quisera aceitar, por não ir contra a lealdade que devia a seu natural senhor; pelo que desejava muito, que no .que toca a tôdas as mais coisas da vida, o mandasse em tudo o que lhe aprouvesse, mas só no negócio da sua salvação se não metesse, porque êle tinha mui bem entendido o que nesta parte mais lhe cumpria. Acrescentou também que pois todos os que ali se achavam eram soldados, mais lhes quadrava tratar de como se fortalece e petrecha bem uma fortaleza, que não quererem-se fazer prega- dores da salvação, principalmente não sabendo o em que ela consistia. Por derradeiro a modo de graça concluiu: Emfim senhores, se vir que todos me tendes aborrecimento por ser cristão, sair me hei do serviço de Moridono, e se houver qualquer revolta na Tença, como sei tôdas as entradas e saídas dêstes reinos, hei de vir na dianteira de quem os quiser conquistar, e se assim acon- tecer bem sabeis que me haveis de achar um pouco têso. Festejaram-lhe logo todos o dito, e eom uma grande risada mudaram a prática; o que sabendo Moridono ficou tão desenganado de o poder render, que disse, falando com os seus: ^Para que é lidar mais com êste? Deixemo-lo já porque não tem remédio. Não sòmente aos fidalgos e soldados persegue Moridono por serem cristãos, mas também à gente do povo e aos lavradores e mercadores, os quais todos vivem com uma contínua perseguição. E pôsto-que alguns poucos enfraque- ceram, os outros mostraram sempre grande constância. A causa porque êste homem tem tão grande ódio à lei de Deus, é não sòmente pela falsa opinião que concebeu, dela ser origem da destruição total e perdimento dos reinos em que entra, como seus bonzos lhe teem persuadido, mas por ser tão dado ao culto e veneração dos ídolos; tendo para si que todo bem lhe vem dêles, que ficando tantos senhores desbaratados e perdidos no tempo das guerras passadas, o deixar-lhe o Cubo a êle dois reinos, do modo que tinha, cuida que é mani- festo sinal do muito * que os Camis e Fotoques o favorecem, pela devoção que »PL38». sempre lhes teve. E assim com professar no exterior a seita dos genxus, os quais como creem que depois desta vida não há coisa alguma, nem fazem caso dos Camis e Fotoques, nem de cerimónias algumas tocantes a seu culto e veneração, êle contudo não há superstição gentílica que não faça, não há seita que não favoreça, nem há ídolo que não adore, até adorar ao deus piolho, coisa que se não acha em todo Japão de quem êste tão vil e baixo deus seja adorado, senão só dêste miserável rei, que em várias partes de seu reino lhe tem feito
  • 54 Das coisas de Japão ermidas, e uma em certo bosque junto da mesma cidade de Iamangúchi. E êste ódio que tem a nossa santa fé lhe vão sempre atiçando e fomentando os bonzos que nunca de si aparta, dizendo-lhe mil males dos padres e da sua dou- trina. De maneira que está tão obstinado, que dizem alguns cristãos nobres seus criados, que ainda que todo Japão se convertesse, só Moridono se não faria cristão. O mesmo ódio contra nossa santa fé mostram também à sua imitação os senhores gentios seus vassalos, e com a mesma fôrça procuram fazer voltar atrás aos criados cristãos que teem; porém em muitos se vê grande fortaleza, respondendo com muita resolução que antes perderão as vidas e tudo o mais dêste mundo; pelo que alguns senhores, que mais se deixam entrar da razão, os ficam por isso mesmo estimando mais, e tendo por homens de valor e pri- mor. E entre êstes é mui nomeado e estimado um por nome Mâncio, criado de Saxodono, bem exercitado em baterias que pela fé tem padecido, ficando sempre delas tão vitorioso e com tanta honra e crédito, que não sòmente Saxo- dono o tem em muita conta, mas até ao próprio Moridono tem ganhada a vontade, de modo que pouco há lhe acrescentou a renda quasi em dôbro. A êste mancebo aconteceu um caso que ainda que gracioso é porém digno de ser sabido. Como êle é natural das partes de Guantó, indo à cidade de lendo a certo negócio, quis dar uma chegada a sua pátria, que dista dali três dias de caminho, assim para visitar seus pais, como principalmente para os persuadir a se fazerem cristãos. Estando com eles os repreendeu de certas superstições .39. que lhes * viu fazer e delas tomou ocasião para lhes falar da verdade de nossa santa fé, e como fora dela não há salvação. Teve isto por então pouco efeito, antes o pai havendo o filho por pervertido e enganado, determinou de o reduzir por êste modo: Está junto de suas casas um célebre mosteiro de bonzos cha- mado Majundo, ao qual de vários reinos de Japão concorrem muitos a estudar e aprender as seitas gentílicas. Foi-se o velho ao superior dêste mosteiro dar-lhe conta do que passava, roga-lhe queira desenganar e reduzir aquele man- cebo seu filho da cegueira em que estava; promete-lhe o bonzo fazê-lo assim. Ao outro dia leva o velho ao filho consigo, com o pretexto de se irem recrear ao mosteiro. O mancebo, como é avisado, entendeu o negócio. Põe ao pes- côço de propósito umas contas mui formosas que tinha de cavalo marinho, e assim em companhia do pai entra pelo pátio, em conjunção que o mesmo supe- rior por sua recreação andava varrendo um terreiro cercado de vários alegretes e arvorezinhas graciosas à vista, que os japões, particularmente bonzos, com muita limpeza e curiosidade concertam diante das casas onde agasalham os hóspedes; e vendo entrar os dois, se pôs mui de propósito a olhar para o cris- tão que trazia as contas ao pescoço, e chegando mais perto o saudou com umas palavras chinas e muito escuras, que o mancebo de nenhum modo entendeu, mas sem mostrar enleio respondeu com muita segurança: Credo in Deum. E feitas suas cortesias entraram para dentro. Depois de algumas práticas disse o bonzo: Eu conforme ao costume que temos de às vezes dizer algumas autoridades dos livros, vos saudei com certas palavras, cujo sentido é, que estando no meio do caminho uma serpente de ferro, ^como pudestes vir aqui? quero dizer, sendo este mosteiro tao nomeado em letras, ^ coroo vos atrevestes
  • Das coisas de Japão 55 a vir a êle? e vós me respondestes não sei quê, de que não pude fazer conceito. O cristão lhe declarou então que respondera que cria em Deus que criou os céus e a terra; ^tornou o bonzo a preguntar-lhe se era cristão? E dizendo que sim, lhe disse que aquela lei era falsa e diabólica. Com esta ocasião começou Mâncio a dizer o que sabia de Deus, da criação e governo do mundo, da alma racional, e outras coisas, que assim o superior, como outros * bonzos ouviram »fi.39v. com atenção, confessando que tudo era conforme à razão, e ainda que com eles se não seguiu mais fruto, contudo o pai e mãe do mancebo, assim pelo que êle lhes praticou, como pela instância com que lho pediu até derramar lágrimas, lhe prometeram que iriam a lendo a ouvir de propósito as prègações, e receber o santo baptismo, com que se tornou mui consolado. Para que concluamos as coisas de Iamangúchi no que pertence à cidade, referirei um caso notável com que os cristãos se animaram e confirmaram muito. Quando Moridono veio da côrte, se aposentou nas casas do governador Saxo- dono, o qual pelas despejar e dar a El-Rei, se passou para as casas e igreja em que moravam os padres, que Moridono dali mandou deitar fora; e ainda que acomodou os mais aposentos a seu modo, contudo à capela e altar em que se dizia missa teve muito respeito, com ser gentio, de modo que por todas as par- tes a mandou taipar para que de nenhuma houvesse serventia para ela, temendo que se profanasse aquele sagrado lugar, lhe viria algum grande castigo do céu. Em uma noite dando um grande acidente a sua mulher de fluxo de sangue, começou a tresvariar e dizer tais coisas, que a julgaram por endemoninhada; fizeram logo vir um iamabuxe (que são certa casta de bonzos grandíssimos fei- ticeiros e de muito grande trato com o diabo) e lhe pediram que o diabo que estava apoderado da senhora se metesse com suas deprecações em uma moça de serviço, preguntando-lhe que era o que queria; e para isto trouxeram ali uma das criadas bem contra sua vontade. Fêz o iamabuxe suas deprecações, e logo a triste moça começou a fazer grandes esgares, e com uma fúria tão diabólica, que não havia fôrça que tivesse mão nela; donde se viu claramente que o diabo se tinha apoderado dela. Fizeram-lhe várias preguntas que por não serem a nosso propósito deixo; por derradeiro concluiu que como aquele chão e casas foram dos padres, estava em guarda delas e não se podia dali apartar. E afir- mam alguns cristãos dignos de fé, que visivelmente, de dia e de noite, se vê andar muitas vezes por dentro das casas uma rapoza pequena, que é a figura em que o diabo ordinàriamente aparece a êstes japões * e entra até nos mais »fi.4o. secretos aposentos dela, abrindo as portas com grande estrondo, ainda que por dentro estejam fechadas, com não pequeno temor e espanto dos que estão na casa. O que sabendo Bugendono Belchior, disse ao mesmo Saxodono que se desenganasse, que como Iamangúchi foi a primeira pedra fundamental da igreja de Japão, assim êle como todos os mais cristãos rogavam cada dia a Deus que aquele chão e casas tornassem a poder dos padres, pelo que lhe não havia de vir bem em pousar ali. Ao que respondeu Saxodono que assim o tinha já deter- minado fazer, e que sòmente esperava que se acabassem umas novas casas que andava fazendo, para se passar a elas. Depois que o padre confessou e consolou os cristãos de Iamangúchi, foi continuando sua missão, e correndo alguns lugares de cristãos, que estavam por
  • 56 Das coisas de Japão aquela comarca. Um deles foi Xihúqui, o qual é todo de cristãos. Está este lugar situado em um vale entre duas fragosas serras, e é todo de três irmãos mance- bos nobres e cristãos e entre si mui unidos, pelo qual vivem os cristãos aqui com muita liberdade, e correm em todos seus exercícios, sem haver quem lhes dê moléstia alguma. Todos êles, alem da extraordinária alegria com que receberam ao padre, se confessaram até os meninos, filhos de lavradores, que para isto tinham idade; recebeu também o sagrado baptismo com tòda sua família outro mancebo nobre, primo dos três, que para ali viera de fora. O irmão do meio, por nome Cuiamam André, e depois os três com outros principais, se convidam uns aos outros ao domingo, segundo cabe a vez a cada um, e juntos tratam das coisas de Deus, e de como resistirão aos encontros que pela fé se lhe oferecerem. Teem além disto uma casa mui decentemente concertada com uma imagem, onde cada domingo se ajuntam todos os cristãos a fazer oração. Quando acerta de adoecer algum cristão logo os dois irmãos menores que estão sempre na terra de assento, o visitam e persuadem a ter contrição de seus pecados, e quando está em passamento o ajudam a bem morrer, e ao enterramento convocam aos demais cristãos a se acharem presentes e rogarem pela alma do defunto, e nisto particularmente se esmera o mais pequeno que será mancebo de .vinte anos. * fi. 40v. * Vendo o diabo como todas aquelas ovelhas do Senhor se conservam daquela maneira, pela boa diligência e indústria daqueles três irmãos, não cessa de os combater rijamente por várias vias, sabendo que se dêles ficar vencedor, fàcilmente derribará todos os mais. A principal lança que para isto lhes arre- messa, é sua própria mãe que junto dêles poisa, porque como é ainda obstinada gentia, não sòmente pelo sentimento que tem de lhe parecer que seus filhos vão errados no caminho da salvação, mas muito mais pelo temor de que Aloridono lhos mande matar por serem cristãos, nenhum meio deixa de intentar assim por terceiras pessoas, como por si mesma, para os persuadir a deixar nossa santa fé; o mesmo fazem os parentes, dos quais alguns teem muita entrada com Moridono e o mesmo faz sobretudo o próprio Moridono, o qual por vezes tem dito que acrescentaria a renda e se serviria em coisas maiores de André por ser de muito boas partes e nomeado por seu esforço, se deixasse de ser cristão. Estimando êle mais as riquezas da fé e opróbrios de Cristo que todos os tesoiros e honras dêste mundo, a nada disto lhe defere. Quatro léguas dali está um lugar por nome Fíqui, onde Bugendono Bel- chior tem a mor parte de sua renda, e lá tinha assentado de se encontrar com o padre, não o podendo fazer no tempo que o mesmo padre estivera na cidade, por estar com Moridono, que fora ver a nova fortaleza, que anda fazendo. E quanto mor era o desejo que êle tinha de se confessar e consolar com o padre, tanto parece que o diabo mais estorvos lhe punha para isso, porque tornando-se o Mori para Iamangúchi, e havendo de deixar encarregado o assunto daquelas obras a dois homens principais, mandou lançar sortes entre alguns, e três vezes caiu sôbre Bugendono. Porém êle, como estava determinado de cortar por tudo, depois de ido Moridono rogou a um seu amigo que por quatro ou cinco dias ficasse em seu lugar, porque lhe relevava muito dar uma chegada a Fíqui. Embarcou-se para ir por mar mas não tinha andado três léguas quando sobre- veio uma borrasca tão forte, que o fêz outra vez arribar.
  • Das coisas de Japão 57 Embarcou a segunda, e desta chegou, com grande contentamento de se ver com o padre, que já lá estava esperando, ao * qual êle agasalhou em uma *fi. 41. igreja que êle mesmo tem edificada, e muito decentemente concertada. Con- fessou-se e comungou com muita devoção, e o mesmo fizeram quási todos seus criados, que havia pouco se baptizaram. Uma prima sua e outra sua ama receberam o sagrado baptismo. Ali contou ao padre as baterias que tivera e tinha cada dia por causa da fé, e como sempre andava com o pescoço no talho esperando que x\loridono cansado de lidar com êle, tivesse um dia tal cólera que lhe mandasse cortar a cabeça. CAPÍTULO XI Da missão que se fê\ ao reino de Bungo Amór parte do ano se ocupam dois padres e um irmão em acudir à cris- tandade do reino de Bungo, discorrendo por várias partes, sem ter lugar determinado para residir. Porque como os senhores que agora pos- suem aquele reino são quási todos gentios, quando muito não consentem mais que andarem os padres em contínua missão, visitando e consolando aqueles cristãos, com que êles tomam grande alento para perseverarem tantos até agora firmes na fé, e os que com as perseguições e mudanças do reino se esfriaram e caíram, se tornarem a levantar, como fazem com grande arrependimento da fraqueza passada. Dos gentios também se convertem muitos e de novo se baptizaram quinhentos e quarenta. Além doutros oratórios que teem, onde se ajuntam a fazer oração, ouvir missa e confessar-se quando o padre os visita, se levantaram três igrejas em diversos lugares. Alguns houve que nas baterias que padeceram pela fé foram mui assinalados, dos quais só tratarei aqui de um ou dois. Um homem mui rico e abastado não sòmente retrocedeu de nossa santa fé, mas ainda a fêz deixar a sua mulher e a todos os de sua casa. Como estava em tal estado feito * da seita dos icoxus, tornando um dia para sua casa «fuíiv. dos templos dos Camis, deu uma queda de que ficou tão maltratado que se não pôde levantar de uma cama, com tão grandes dores que parecia que os demó- nios lhe atormentavam já o corpo. Tinha êste um só filho que perseverava ainda cristão, casado com uma cristã chamada Maxência, e parece que por persuasão dos demónios imaginou êste homem que o desastre que lhe aconte- cera e as veementes dores que padecia era por seu filho e nora serem ainda cristãos. Pelo que logo lhes mandou um recado a ambos, que êle não tinha outros filhos que lhe herdassem sua fazenda senão êles, e que sendo isto assim lhes pedia que se desejavam de o ver são e livre daquelas dores, deixassem de ser cristãos, pois estava persuadido que pelo serem padecia aquele trabalho. Ao que a nora tomou a mão e respondeu que ela era cristã e que por nenhum caso podia nem havia de deixar de o ser, pelo que escusasse de lhe mandar semelhantes recados, porque os não havia de ouvir. Vendo isto o mau sogro, se ajudou das forças do governador da terra, que era gentio, e tratou de fazer logo retroceder o filho, como o fêz. Parecendo-lhe que por esta via poderia 8
  • 58 Das coisas de Japão também levar a nora, fêz com o governador que lhe mandasse um recado que logo deixasse de ser cristã; ao que ela respondeu como da primeira vez ao sogro. Tornou a segundar o governador com grandes ameaças e rigores e mui indignado, ao que Maxência lhe deu tão determinada e resoluta resposta, pro- testando que antes perderia a vida e tudo quanto no mundo há, que não ousa- ram de ir adiante com ela. Não parou aqui êste mau homem, mas vendo que não podia derrubar a nora e persuadindo-se que o que padecia era por ter cris- tãos em seu serviço, mandou a um criado seu por nome Romão, que só entre todos os seus era ainda cristão e sempre desprezara seu mandado quando o obrigava a deixar a fé, que desta feita se determinasse, ajuntando a isto sumo rigor e grandes ameaças se o não fazia. Zombava de tudo Romão e não lhe dava outra resposta senão que bem lhe podia tirar a vida do corpo, mas a fé de Cristo que lha não havia de tirar do coração. Indignou-se tanto o perverso • fi. 42. amo que logo se determinou que fosse morto Romão, * o qual também se começou a aparelhar com muita alegria para receber a morte por Cristo. Era êste bom cristão casado com uma mulher, a qual também por mandado do amo enfraquecera na fé; a qual vendo agora o ânimo com que o marido se aparelhava para receber a morte por tão santa causa, movida com seu exemplo e tocada da graça do Espírito Santo que por êste meio a quis alevantar, se foi de noite à igreja a buscar o padre, dizendo que ela se arrependia muito da fraqueza passada em que caíra, e que agora não sòmente se queria alevantar mas morrer junta- mente com seu marido pela mesma causa. Consolou-se muito o padre com sua redução, e depois de fazer a devida satisfação, conforme ao que para semelhan- tes pessoas está determinado, o padre a confessou e aparelhou para um acto tão heróico como era o de dar a vida por Cristo, e com isto se tornou mui alegre e consolada para casa, onde juntamente com seu marido estavam esperando pela morte que lhes haviam de dar; mas vendo isto o perverso amo, ou fôsse por arreceio algum que tivesse, ou por lhe não dar tão gloriosa corôa, emfim desistiu da determinação de os mandar matar, não lhes podendo porém tirar o mereci- mento do santo desejo e determinada vontade que tinham de morrer pela fé. Uns poucos de cristãos de uma povoação, ainda que perseveravam na fé, eram porém tão frios nas coisas da salvação, que entre todos não havia mais que dois que se confessassem, sem os mais se quererem dispor para isso; acon- teceu um dia pôr-se fogo na povoação, e queimando-se todas as casas, só as duas dos dois, com estarem no meio delas, ficaram livres e intactas do fogo. Atribuíram todos o caso a milagre com que Deus quis castigar os que se não confessavam, avisando-os com isto de sua negligência e frieza, e guardar a os que o faziam; porém mais rigoroso foi outro castigo que Deus deu a outro cris- tão, o qual havendo anos que o era, nunca se tinha confessado, nem mesmo o queria fazer. Êste andando uma vez aparelhando uma pouca de madeira para fazer umas casas, sentiu de repente darem-lhe invisivelmente como uma estocada no corpo, que o atravessava de parte a parte, com a qual logo caiu e no mesmo •FI.41V. dia morreu sem remédio, de que todos os cristãos que o * souberam, ficaram espantados e entendendo quanto desagrada a Nosso Senhor vida negligente, e não querer um cristão usar para sua salvação de um poderoso remédio como êste que em sua Igreja nos deixou, do sacramento da confissão.
  • Das coisas de Japão 59 CAPÍTULO XII Do que se fè\ nas residências de Facata e Aqui\úqut, no reino de Chicugém ESI DEM em ambas as residências deste reino quatro da Companhia, dois sacerdotes e dois irmãos; dois dêles estão de ordinário na cidade de Facata, na casa e igreja que ali temos. Os outros dois, ainda que fazem seu assento em Aquizúqui, dali, como de lugar mais acomodado, acodem a toda mais cristandade que está espalhada por êste reino, e também pelo de Chicungo. Esteve até agora a cristandade de Facata um pouco encolhida, e por conseguinte também os padres para a puderem ajudar com a liberdade que noutras partes: e a razão era por Cainocami, senhor deste reino, até agora se não mostrar tão favorável e afeiçoado às coisas dos cristãos, como dele se esperava, assim por seu pai Simeão Cambiogedono ser cristão, como por outras razões que para isso havia. Porém êste ano, por ocasião da morte do pai se mudou tanto, quanto se dêle não esperava. Morreu Simeão Cambiogedono na corte de Fuximi, no Meaco, e encomendou a seu filho trouxesse seu corpo para ser sepultado na igreja de Facata, deixando mais de mil cruzados de esmola para edificação dela. Mas por entretanto depositaram os nossos seu corpo noutro lugar com parecer do filho. O que fizeram com o maior aparato que lhes foi possível e o tempo lhes deu lugar, achando-se presente o mesmo Cai- nocami com muitos principais dos seus, que acompanharam o corpo até à sepultura com suas velas nas mãos, ainda que gentios. Os quais não se farta- vam de louvar o modo de que usavam os cristãos nos enterramentos, a devoção com que o faziam, * a limpeza e concêrto que nisso tinham. Muitos bonzos vieram a ver êste enterramento, mas de longe, por não consentir Cainocami que chegassem perto mais que as pes"soas que tinham determinado para isto, que todos eram seculares seus criados. Os bonzos ainda que inimigos, não deixavam também de louvar o modo de enterrar dos cristãos, mas mais que todos Cainocami, o qual ficou tão obrigado e agradecido ao que tinham feito a seu pai, e sobre tudo tão edificado do que vira, que logo (o que nunca até aqui fizera) veio a nossa casa a dar as graças aos padres do trabalho que levaram; o que fêz com tanta cortesia e reverência, que todos se espanta- ram, por ser coisa contra sua natureza tão sobarba e altiva; e porque costumam ainda os gentios dar esmolas em semelhantes tempos, quis êle também fazê-las pela alma de seu pai, mandando logo à igreja mil fardos de arroz, parte para es pobres e parte para os gastos do enterramento. Com a morte do pai e com ver mais de perto o modo dos cristãos, se mudou noutro êste príncipe, dizendo dali por diante mil bens dos cristãos, e de nossa santa lei, e não menos da igreja e dos padres, ficando-lhes tão fami- liar e bem afecto que algumas vezes quis vir comer com êles, de que todos muito se maravilharam. E com tal conceito ficou da lei de Deus, que declarou a todos os seus, que ela só era a verdadeira e de salvaçao dos homens. E que por tanto ainda que êle, parte pelo receio que tinha do senhor da Tença, de
  • 6o Das coisas de Japão quem dependia sua vida e estado, e muito mais pelo que tinha de sua fraqueza para a não poder guardar, não ousava ainda professá-la, que com tudo todos os seus que quisessem a podiam tomar; coisa que até então nunca tinha dito, antes significado sempre o contrário. E agora até à sua própria mãe que é grande gentia disse e pediu que já que Cambiogedono seu pai morrera cristão, devia ela também de se fazer cristã se desejava de se salvar, pois fora da lei dos cristãos não havia salvação. Com isto respiraram os padres e os cristãos daquela cidade e de todo o reino, dando graças a Deus por tamanho bem. Mandou também Cainocami que de novo e publicamente se levantasse uma igreja em Facata a qual pôsto-que • fi. 43 y. até então * não deixou de haver, mais se podia porém chamar casa da feição das outras que igreja, por êle mesmo assim o ter ordenado. Acrescentou mais a Cainocami a obrigação do amor em que ficou à cris- tandade e à nossa santa lei e aos padres a devoção, aparato e sucesso das exé- quias que depois se fizeram por seu pai na nossa igreja. Para as quais se ajuntaram o mor número de padres e irmãos que foi possível, com muitos dógicos cantores, que vieram de diversas partes, e os melhores ornamentos e peças que havia em Japão. Pasmaram os que se acharam presentes, e particularmente Cainocami com todos os seus principais fidalgos e criados, os quais não se fartavam de olhar e ver a perfeição, solenidade, gravidade e devoção, e todas as mais cerimónias da igreja, que em semelhantes ofícios se costumam, e os padres que particular- mente se esmeravam em tudo, pelo muito que importava ao crédito e autoridade das coisas da igreja; pelo que Cainocami e os demais não acabavam de louvar e gabar tudo tanto, havendo as exéquias que costumam fazer os bonzos em comparação destas por coisa tão baixa, que não foi para êles ocasião de pequena dor por todos estes dias, nos quais também muitos se ajuntaram na cidade de Facata, e alguns se acharam presentes às exéquias. Baptizaram-se este ano de 1604 assim na cidade de Facata como em Aqui- zúqui e no reino de Chicungo perto de oitocentos gentios, e a mor parte desta conversão foi em Aquizúqui, terra de Sogemondono Miguel, tio de Cainocami, excelente cristão, e zelosíssimo do serviço de Deus, como se tem visto no fruto que em sua terra se tem feito, e cada dia se vai fazendo, e cujo zelo se estende ainda a outras partes mui remotas, pois a êle se pode atribuir depois de Deus a residência que temos em Firoxima, de que logo se dirá, por ser íntimo amigo de Fucoximadono, senhor daquela cidade e reinos, e o principal que a procurou. Ã sua sombra está o padre em Aquizúqui, onde tem feito muito fruto, e a terra está de tal maneira disposta, que tem muita esperança de a fazer toda cristã, • fi «. e outras muitas vizinhas, de que já há grandes princípios. * Entre os que se baptizaram em Facata foi um mancebo soldado, o qual se converteu só de ver a solenidade e devoção com que se fizeram as exéquias de Simeão. Êste se baptizou sem licença de seu senhor, que é um grande gentio nada afecto à nossa santa lei; o qual tanto que soube que o criado de quem êle se servia muito familiarmente se fizera cristão, o repreendeu asperamente por tal coisa, mandando-lhe que logo tornasse atrás, e isto com tanto rigor e tais ameaças, que arreceando os companheiros que o negócio chegasse a mais, o aconselharam
  • Das coisas de Japão 61 que para abrandar a fúria e indignação do amo, respondesse de palavra que sim, e no interior fosse cristão, mas que no exterior corresse por diante do senhor como se o não fôsse, dissimulando desta maneira para se poder con- servar e se não perder de todo. O pobre mancebo movido com os conselhos dos amigos, e cuidando que nisto não ia coisa alguma, pois em seu coração não havia mudança, respondeu ao senhor da maneira que os amigos lhe aconselha- ram. O que feito, muito seguro e quieto por haver pouco tempo que recebera o baptismo, e não sabia o mal que era a tal dissimulação, se foi ao outro dia à igreja, e contou o que lhe acontecera, e a resposta que dera a seu senhor de si, não de coração mas sòmente de boca, para por então se livrar; mas um dos cristãos a quem isto contou lhe disse que tal resposta era pecado, pois os cristãos não sòmente com o coração, mas também com a bôca haviam de con- fessar a lei que professavam quando fôsse necessário. Espantado com o que ouviu e não menos arrependido do que fizera, disse que já que assim era, que logo se ia desdizer diante do senhor. Com êste santo intento e fixa determinação, se partiu da igreja o bom mancebo, e chegado a casa mandou logo um recado a seu senhor, dizendo que a resposta que lhe dera de si, sendo por êle mandado que tornasse atrás, a não dera de coração, mas sòmente por cumprimento, cuidando que não era pecado. Mas como agora tinha ouvido que a lei dos cristãos que êle abraçava, não sofria semelhantes fingimentos, êle se desdizia, e lhe fazia saber que era cristão, e que se como tal se queria servir dêle estava muito prestes para o servir, em qualquer ofício, por baixo e vil que fôsse. Com êste recado se * alterou e indignou o senhor grandemente contra êle, • dizendo que se não tornava atrás o havia de matar. Não se moveu nada com estas ameaças o bom mancebo nem menos com as mais persuasões de muitos, principalmente dos companheiros, que movidos iniqua miseratione (i) se doíam de seu provável destêrro, quando o negócio não chegasse a mais, segundo mos- trava o grande agastamento e cólera que o senhor tinha contra êle. Mas o forte mancebo, tão pouco caso fêz de tudo isto, que para mais mostrar a pron- tidão de ânimo e aparelho com que estava para dar a vida por Cristo e por sua santa fé, mandou ao senhor a espada e adaga que tinha, para lhe dar a entender que naquele caso não havia de morrer como soldado, resistindo, ou pelejando com armas, senão como cristão, oferecendo o pescoço sem nenhuma resistência. Ouviu um fidalgo cristão o apêrto em que estava o mancebo com bem de sentimento por uma parte, mas com muita alegria por outra, por ver tal ânimo e aparelho para morrrer pela fé, naquele de quem êle mesmo fôra padrinho no baptismo, e porque prometera a Deus de lha manter e guardar fielmente até morrer por ela: contudo pareceu-lhe bem por então interceder por êle, e assim procurou quanto pôde aplacar o amo; mas como era um gentio tão cruel, e estara tão tomado da resoluta resposta que o mancebo lhe dera que quando muito acabou com êle trocar-lhe a pena da vida pela do destêrro, lançando-o fora de sua casa, com lhe tomar não sòmente as armas mas também os vestidos. Mas o fidalgo seu padrinho o recolheu logo e o tratou com muito (i) Cora má compaixão.
  • 62 Das coisas de Japão amor, e lhe buscou remédio com que passasse honradamente. Soube este caso outro fidalgo gentio, grande amigo do senhor do mancebo, e indo-o visitar lhe disse: É coisa de espanto esta destes cristãos que tanto folgam de morrer pela lei que confessam; eu tenho outro criado que também é cristão, e por mais ameaças que lhe faço, não há remédio para o deixar de ser, pelo que já de cansado não quero entender com êle. De Aquizúqui foi o padre que ali estava visitar os cristãos do reino de Chicungo, cujo senhor, pôsto-que gentio, os favorece muito e faz muitos gasa- • fi.45. lhados e honras ao padre quando * lá vai. Consolaram-se grandemente os cristãos com a vista do padre, o qual os confessou, e baptizou de novo mais de 5o gentios, e se mais tempo se pudera deter, mais foram os baptizados, pela grande disposição que para isso há naquele reino e principalmente na cidade Ianegava, onde o senhor do reino reside. Mas dava-se ordem para o padre estar naquele reino mais devagar, e colher o fruto que a disposição de todo êle está prometendo. Havia nesta cidade um gentio que trazia grandes desejos de se fazer cristão, esperando cada dia pelo padre para os cumprir. Andando assim com estes desejos ouviu uma voz de uma espantosa figura que de noite lhe apareceu, a qual lhe disse que em todo caso cortasse a bar- riga; e assim a voz como a figura e medo dela lhe ficou tão impressa, que lhe parecia ao pobre homem que sempre a trazia nos ouvidos e diante dos olhos. Pelo que enganado pelo demónio que tal lhe persudira, se resolveu em cortar a barriga como logo fêz, mas de tal maneira que não acabou de todo; acudiu gente ao caso e entre êles alguns cristãos, os quais como sabiam de seus dese- jos, ficaram maravilhados e lhe estranharam muito o que tinha feito, contando- -lhes êle tudo o que passara. E também o admoestaram que se arrependesse e baptizasse, que ainda nosso Senhor lhe perdoaria e salvaria. Fê-lo assim o pobre, mas por outra parte ditoso homem, porque instruído segundo o tempo pedia e baptizado (coisa que êle tanto desejava) se foi a gozar de Deus, ficando o demónio confuso e vencido, onde cuidou ficar vitorioso. Passando o padre por um caminho viu estar muita gente junta em um lugar onde queriam justiçar um homem; foi-se logo lá, e pediu à justiça lhe desse licença para ver se aquele queria ser e morrer cristão. Concedeu-lha fàcilmente pôsto-que todos eram gentios; fêz logo o padre seu ofício com aquele homem, declarando-lhe o que podia ganhar ou perder naquela hora; emfim o homem se lhe rendeu, e instruído pelo padre nas coisas da fé quanto a brevidade do tempo sofreu, que foi bastante para receber o santo baptismo, lho deu logo, e não se foi daí até o mandar para o céu, porque Deus o tinha predestinado por meio • fi.4ít. daquela hora. Da mesma maneira * lhe aconteceu com uma gentia muito velha, e tão chegada à morte de uma nojenta doença, que a tinham lançado, como se fora um jumento, na cova de uma fortaleza para ali acabar de morrer. Acer- tou o padre de passar por aquele lugar, e vendo muita gente que estava olhando como acabava a desamparada velha, informado do que era, a fêz recolher em uma casa, e falando-lhe se queria ser cristã e no que nisto ganhava, dizendo a boa velha pelo que ouviu que folgaria muito de o ser, a instruiu e logo baptizou, e o mesmo dia se foi para o paraíso, ficando os gentios muitos edificados da caridade e misericórdia do padre que usou com aquela velha, como também o
  • Das coisas de Japão 63 ficaram do que lhe viram usar com outros desamparados e lançados fora de casa por doenças, aos quais o padre sarou no corpo e alma, fazendo-os curar, dando-lhes o santo baptismo. CAPÍTULO XIII Do que se fê\ na residência de Conjura, no reino de Bugém r Eesta cidade de Conzura a cabeça e corte do reino de Bugém, e ainda que não há mais que dois anos que se edificou, tem crescido tanto que haverá nela como seis ou sete mil vizinhos. Fundou-a Jecundono, senhor dêste reino, e fêz nela uma fortaleza, a qual a enobrece muito mais pelos sum- ptuosos edifícios e grande casaria que tem, com seus muros mui altos e covas mui fundas ao redor, com que fica uma coisa inexpugnável, e das melhores que há em Japão. Tem a Companhia nesta cidade uma muito boa e acomodada casa e de grande momento para a prègação do Evangelho, não sòmente por estar em uma terra tão nobre, mas por ser paragem por onde passam ordinà- riamente todos os que do reino de baixo, a que chamam Ximo, vão para as partes do Meaco, os quais comumente vão ter a nossa casa com o desejo de ouvir prè*gação. Residem nela três da Companhia, que à sombra de Jecundono, • senhor daquele reino, e amicíssimo dos mesmos padres e dos cristãos, vivem em muita quietação, ocupando-se continuamente na conservação dos cristãos já feitos, e em fazer outros de novo, dos quais êste ano se baptizariam quatro- centos adultos. Como os cristãos desta cidade e reino, com os favores de Jecundono seu senhor, vivem em tanta quietação e liberdade, é ocasião de tôdas as festas e solenidades da Igreja celebrarem com grande perfeição e devoção, e êste ano particularmente tôdas as festas, e principalmente a da Páscoa, foi celebrada com estranho concurso de cristãos não sòmente naturais mas forasteiros das terras e reinos comarcãos. Neste dia Faitó Henrique, o principal cristão de tôda Conzura, e sumamente privado de Jecundono, e um dos que governam o reino, deu a todos os homens cristãos, assim soldados como mercadores, e principais da cidade, um solene banquete em nossa casa. E sua mulher Águeda o deu em sua casa a tôdas as mulheres dos convidados do marido; o que fizeram êstes nobres cristãos, que são ali as colunas de todos os outros, para mais festejarem a santa festa da Páscoa e darem mostras da alegria que tal dia merece. O que vendo muitos fidalgos gentios e entre eles os principais de tôda a terra, sabendo a festa que era, vieram à igreja a visitar o padre, dizendo que queriam também ajudar a festejar nossa Páscoa, como o fizeram todo o dia até noite, com a sua costumada música e vários entremeses; o que muito alegrou aos cristãos e padres, vendo o favor que faziam à igreja os principais da terra, com serem gentios, e a grande estima que mostravam ter das coisas de nossa santa fé, fes- tejando-as tanto. Ainda que Jecundono é gentio, contudo todos os anos no dia em que morreu Gracia, sua mulher, que foi cristã, quere que os padres lhe façam suas exéquias, e ainda que se não pôde achar presente às que êste ano
  • 64 Das coisas de Japão se fizeram por estar doente, mandou contudo que viessem todos seus fidalgos e alguns hóspedes gentios que então tinha, os quais vendo a nossa capela tão • fi. 46 v. bem armada, o concerto, ordem, devoção, e * aparato com que tudo se fêz, se tornaram maravilhados; e mui edificados foram logo contar tudo a Jecundono dizendo que nunca viram coisa tão santa e devota. Neste dia além das esmolas que Jecundono mandou ao padre para repartir pelos pobres, quis fazer uma assinalada misericórdia pela alma de sua mulher, que foi perdoar a morte a alguns homens que no tronco estavam sentenciados a ela; e para isto mandou o dia antes das exéquias chamar um irmão nosso, japão, e dando-Ihe conta do que determinava fazer, preguntou se folgaria o padre com tal presente; e res- pondendo o irmão que nenhuma coisa lhe seria de mor gosto, lhe mandou logo entregar sete homens que entre outros muitos estavam sentenciados à morte, os quais o irmão levou e ofereceu ao padre de sua parte. Ao outro dia acaba- das as exéquias mandou outro recado, dizendo que o dia dantes lhe mandara as vidas de sete homens mas que não estava satisfeito com isto em seu coração, parecendo-lhe que fôra muito curto em não oferecer ao padre todos os presos. Pelo que agora mandava de novo abrir o tronco e soltar a quantos nele estives- sem, e oferecê-los ao padre pela alma de sua mulher. Causou isto em todos notável admiração, e aos condenados excessiva alegria e agradecimento por tão grande misericórdia. Foram logo ao tronco, tiraram dele todos os condenados à morte, que eram vinte, vieram com eles a nossa casa e apresentaram-nos ao padre. Vinha após êles grande multidão de gente, que não fazia senão engran- decer e louvar a liberalidade e misericórdia de Jecundono, e também o caso que fazia do padre da igreja, por cujo respeito dava a vida àqueles homens. Logo os perdoados em recompensação do benefício recebido por via da igreja, pedi- ram ao padre com grande instância lhes fizesse prègar e ensinar o verdadeiro caminho da salvação, porque dai por diante o queriam tomar por pai da alma, assim como o fôra do corpo em lhes dar a vida. Prègou-se-lhes alguns dias o catecismo, e com bom entendimento e grande consolação sua se fizeram todos cristãos. Com êstes tão grandes favores, que este príncipe faz ao padre e à igreja, cresce admiravelmente assim em seu reino para com seus vassalos, •Fi.47. como em outros diversos, o conceito e estima da nossa santa * fé; e tanto mais, quanto conhecem a Jecundono por um príncipe tão grande, e o teem por homem dos melhores intendimentos de todo o Japão; e que com tudo isso, e com ser gentio, estima e favorece tanto os padres e a lei de Deus que prègam. Tem ele por muitas vezes ouvido prègaçao e posto suas dúvidas, ficando sempre satisfeito das respostas que os nossos lhe dão. E assim mui de ordinário se põe a praticar com outros senhores gentios nas coisas de nossa santa fé, dizendo mil louvores dela, e também da vida e exemplo dos que a prègam. E por outra parte tem tão baixo conceito das leis do Japão, que diz quanto mal pode dos bonzos que as ensinam, e com elas enganam os homens. Contudo não se acaba de converter; e a razão é pela dificuldade que sente na observância de nossa santa lei; há contudo razão para se poder esperar, que Deus nosso Senhor lhe remunerará com lhe dar sua luz a honra que êle faz à sua santa fé, e o muito que favorece as coisas de seu serviço. No tempo que um bonzo principal do Japão por autoridade, e consenti-
  • Das coisas de Japão 65 mento do Cubo, procurou que os senhores japões, em cujas terras havia padres, os botassem fora delas (que foi haverá um ano ou dois). Entre os senhores a quem disto avisou foi o nosso Jecundono, não só então por cartas mas presencial- mente, dizendo entre outras coisas que não estava bem a um senhor como êle, favorecer tão publicamente em seu reino aos padres, especialmente sendo isto contra o mandado e vontade do senhor universal do Japão; pelo que convinha os lançasse logo fora de suas terras. A isto respondeu Jecundono de sorte, que sem perder o respeito ao senhor da Tença, tapou a boca ao bonzo de tal maneira que nem êle nem outros ousaram mais a falar-lhe nesta matéria; e a razão que lhes deu foi esta. Primeiramente que êle não era cristão, mas que sua mulher Grácia o fora, e como tal morrera, oferecendo a vida pela honra de seu marido, e honra de Daifu, senhor agora de Japão. Pelo que êle não podia deixar de ser agradecido a tão fiel mulher, ajudando-lhe sua * alma para a sal- »fi.47t. vação, da maneira que lhe era possível, e assim para suas exéquias tinha padre em seu reino. E que não podia deixar de o favorecer por justo respeito; que fazer êle isto devia de parecer bem a todo o mundo, dando outras muitas razões de tanta força que os contrários se calaram, e êle ficou muito alegre e seguro, mandando avisar ao padre do que passava, e que estivesse em seu reino livre- mente e à sua vontade. Com esta segurança, o padre e irmãos começaram a cultivar e cultivam aquela cristandade sem nenhum impedimento. E os gentios, assim nobres como plebeus, vendo o amor e favor que Jecundono mostra aos padres, todos lhes teem mui grande respeito e não há quem se atreva a falar contra nossa santa lei, antes sentindo bem dela, teem muito trato e familiaridade em nossa casa, com o qual muitos se vão dispondo para a receberem, de modo que poucos são os dias em que não haja algum ou alguns que se baptizem, dando bem em que intender a dois ou três prègadores que nisso de ordinário se ocupam. CAPÍTULO XIV Do que se na casa e residência de Firoxima r Eesta cidade cabeça dos dois reinos de Aqui e Fingo, de que é senhor Fucuximadono, príncipe mui estimado em todo o Japão, e de quem o mesmo Cubo faz muito caso. Êste, sabendo que antes dêle ser senhor de Firoxima, e no tempo que o era Moridono, estivera nela um padre, e que por causa das guerras e mudança dos reinos se saíra, ficando ainda a casa nossa como dantes, como êle já do Meaco e de muito tempo conhecia os padres, e sempre lhes fora propício e amigo, e porque também alguns cristãos nobres vassalos seus lho pediam com instância, desejou e procurou muito que o padre tornasse e fizesse assento naquela sua cidade, que é uma das mais nobres e principais de Japão, prometendo-lhe * em tudo seu favor. Mas como estas casas e residências em terras de senhores gentios são de muito custo, e os padres não tinham com que a poder sustentar, foram dilatando sua petição e acudindo cada ano à mesma cidade por via de missão, para consolarem os cristãos que nela havia. Mas porque êste senhor ia já quási desconfiando, 9
  • 66 Das coisas de Japão parecendo-Ihe que não faziam os padres caso dêle, e havia perigo de nos ficar adverso, e por outra parte se abria ali uma porta tão grande ao Evangelho e alguns cristãos honrados e nobres ofereciam também suas esmolas para ajuda de sustentação, foram forçados neste ano de 604 porem ali um padre e um irmão de assento, para fundar residência e casa, o qual Fucuximadono recebeu com muita cortesia e sinais de amor, dizendo-lhe que estivesse descansado em sua terra; e porque êle estava de caminho para a corte, como tornasse lhe faria muito agasalhado, mandando-lhe logo juntamente setecentos fardos de arroz de esmola, deixando-o muito encomendado ao seu principal governador do reino. Mas depois que tornou cumpriu mui bem sua palavra, porque sabendo que a casa e sítio em que os padres estavam era muito estreito e em lugar incómodo, lhes deu os melhores paços e de melhor sítio que havia em tôda aquela grande cidade, e tão capazes, que se acomodou nêles igreja e casa para receber hós- pedes, escola para os meninos, aposentos para os nossos, com todas as oficinas necessárias, sem ter necessidade de mais que de algum pequeno concêrto, para que tudo ficasse mais acomodado para nosso uso. Foi isto grande mercê de Nosso Senhor, porque além de ficarem os padres tão bem acomodados para seus ministérios, deu êste príncipe com tal favor um pregão, não sòmente em seu estado, mas cm todo o Japão, do muito que estimava nossa santa lei e os padres que a prègam. E assim os cristãos com êstes favores e com verem cumpridos seus desejos de terem consigo o padre, não cabiam de prazer, e começaram logo a confessar-se todos, até os meninos que para isso tinham idade, e não se fartavam de dar graças a Nosso Senhor, por lhes ter concedido o que com tantas orações lhe pediam tanto havia. Vindo aqui Sogimondono • fi. 48V. (tio de Cainocami senhor do reino de * Chicugém de que acima falámos) a visitar a Fucuximadono, por serem grandes amigos desde a meninice, e tratan- do-se de nossa doutrina, disse o mesmo Fucuximadono, que se entendera que nela havia salvação, logo a recebera de boa vontade; e respondendo um dos gentios que naquele tempo ali se acharam, que não armava nossa lei aos senho- res japões pois vedava rigorosamente os deleites sensuais, tornou êle que não era aquilo o que lhe fazia dificuldade, porque se decerto soubera que nesta lei havia salvação, pouco caso fizera disso, mas que como tivesse tempo ouviria as pregações. Porém ainda que o fazer-se cristão será coisa mui dificultosa, pelos muitos impedimentos e dificuldades que para isso teem as pessoas de sua qua- lidade, contudo o ouvir êle as prègações dá muito grande autoridade às coisas de nossa santa fé e facilita muito para que os seus as oiçam também, com as quais o padre vai fazendo muito fruto, baptizando algumas pessoas principais e outras de tôda sorte. Entre os que vieram ouvir foi um dêles Foquedono, perfilhado do mesmo Fucuximadono e mancebo muito querido de todos por suas boas partes, o qual na primeira prática que ouviu das coisas de nossa santa fé, se ficou tão satis- feito, que disse não haver ali que replicar senão cruzar-se, pois tudo era tão conforme ao que o lume da razão ensina; mas que era lei rigorosa e mui re- pugnante à natureza. E pôsto-que anda abalado, não ouza contudo ainda a declarar seus desejos. Josaimondono sogro de Fucuximadono, pai de sua pri- meira mulher já defunta e avô de Fachisúqui, seu filho morgado, louvando-lhe
  • Das coisas de Japão 67 muito nossa doutrina alguns que a ouviram, mandou também seus criados que fossem ouvir prègação, porque êle também por derradeiro a queria ouvir. De modo que com a gente nobre que consigo trouxe Fucuximadono, quando veio para êste reino, acham os padres menos dificuldade para as coisas^ de nossa santa fé; antes os acham mui afeiçoados a ela e em tal disposição que se Fucuximadono der de si, haverá nestes reinos sem dúvida mui grande conversão. Mais dificuldade se acha nos naturais antigos da terra. Porque como esta cidade por espaço de tantos anos foi corte e assento de * Moridono, quando.fi.«. possuía oito reinos, e êle é tão dado a todo o género de superstições gentílicas, como atrás fica dito, florescia aqui a idolatria de maneira que ainda agora fica- ram nela passante de sessenta mosteiros de bonzos entre grandes e pequenos, os quais todos (tirando três a quem o tono dá alguma renda) se manteem das esmolas que seus frègueses lhes oferecem, e assim procuram quanto podem de os conservar, pois com eles conservam também sua sustentação. Esta venera- ção e culto dos ídolos fomenta também um afamado templo que haverá qui- nhentos anos edificou em uma pequena e graciosa ilha, perto desta cidade peio rio abaixo, um senhor de Japão chamado Quiomori, muito nomeado em suas histórias, aonde cinco vezes no ano concorrem, não somente quási todos os desta cidade, mas outra muita gente de diversos reinos, que ali veem em romaria, e • por êste respeito se fazem então naquele lugar algumas feiras célebres. E teem todos êstes gentios de Firoxima tão grande mêdo do Cami que ali é venerado, que as mais das doenças graves e outros desastres que lhes sucedem, atribuem a castigo seu; pelo que alguns, cuidando que se indignará contra eles se se fizerem cristãos, deixam de receber o santo baptismo. Ajunta-se a isso serem os gentios desta terra pela maior parte icoxos, que são os mais duros e obsti- nados em seus erros que todos os das mais seitas de Japão. E há aqui bonzo que tem dêstes, passante de dez mil frègueses; pelo que ainda que muitos dos naturais mostrem sentir bem de nossa santa lei, não ousam porém até agora tomá-la, esperando que outros a tomem primeiro, dos mais poderosos e honra- dos, para terem costas com que se possam defender e resistir às baterias e con- tradições que não sòmente os bonzos, mas também seus parentes e amigos lhes hão de fazer; de modo que de cento e tantos adultos gentios que se baptizaram depois que o padre ali está, muito poucos foram dos naturais da terra; porem, como não deixam de vir às prègações, pode-se esperar que por elas o Senhor lhes comunicará, como costuma, sua divina luz para que o venham a conhecer e receber sua santa fé. Entre os criados de Fucuximadono que se baptizaram, foi um deles um mancebo soldado nobre, com tôda sua família; * o qual quando gentio era tao devoto de sua seita que à sua custa sustentou por alguns anos ao superior de um dos principais mosteiros desta terra, e agora a graça do Senhor o trocou de tal maneira que é dos melhores e mais finos cristãos de Firoxima; e indo depois de baptizado ao mosteiro cujo freguês fôra, encontrando-se com alguns bonzos, lhes propôs algumas dúvidas acêrca do que dêles tinha aprendido; mas tão enleados ficaram, que nenhum houve que lhe saísse nem soubesse responder. Êste, como é mui zeloso, sempre procura de tratar aos gentios seus compa- nheiros da verdade de nossa santa fé, e persuadi-los a que oiçam prègaçao,
  • 68 Das coisas de Japão pelo que parece que o demónio determinou de o assombrar e fazer o mal que pudesse, desta maneira. Aconteceu-lhe uma vez já alta noite e dormindo já todos os seus, ir a certo lugar de sua casa e abrindo uma porta, eis que de repente sentiu um bafo ou vento muito quente que de dentro lhe dava no rosto, e viu juntamente diante de si uma figura na qual não divisou feição alguma de rosto, e após isto ouviu em cima de sua cabeça dar uma grande pancada no telhado, e com tanto estrondo e fôrça que parecia se vinha abaixo. Logo lhe sobreveio um súbito tremor e arrepiamento, de modo que ficando como inteiriçado, não podia nem benzer-se nem dizer Jesus Maria, ainda que procurava de o fazer; querendo voltar atrás, puxavam por êle e o detinham; até que fazendo fôrça quási meio caindo se tornou à cama onde deixara dormindo um filhinho seu de dois ou três anos, a qual criança tanto que o pai chegou, despertando com grande tremor se encolheu tôda como em um novêlo e deu dois gritos mui altos, ficando pouco depois quieta. No dia seguinte levantando-se antes jde amanhecer para ir à igreja, como tem de costume, ainda que poisa bem longe, ao sair da casa e pelo caminho sentia que o detinham de maneira que escassamente se podia bolir; mas entendendo que era o diabo, como é mancebo naturalmente colérico e valente, leva do terçado, como quem jogava às cutiladas, dizendo-lhe juntamente algumas palavras injuriosas; tornando porém sobre si e parecendo- -lhe que quem o ouvisse com a espada nua daquela maneira no meio da rua, • fi.5o. sem inimigo algum com quem brigasse * o teria por doido, a tornou logo a embainhar e com trabalho pôde chegar à igreja ao romper da alva; e depois de ouvir missa, ainda como homem assombrado, contou ao padre tudo o que lhe tinha sucedido, andando ainda depois dois ou três dias como espantado. Já dantes um môço criado seu em algumas noites padecia os mesmos assombra- mentos e por vezes ficava como fora de si, dizendo muitos tresvarios, com que causava temor aos que o viam. O padre então declarando-lhe ser tudo isto operação do demónio e ódio que contra êle tinha, assim por lhe ter escapado das mãos, como por procurar com tanto zêlo de trazer outros ao conhecimento de seu verdadeiro Deus, o animou e segurou que estivesse descansado, que nenhum dano nem mal lhe podia fazer tal inimigo, senão quando Deus lhe desse licença, a qual, permanecendo êle na divina graça e temor de Deus, nunca passaria adiante do que tinha chegado. Juntamente com isto lhe emprestou uma imagem de nosso beato padre Inácio, que por alguns dias teve em sua casa e pelos merecimentos dêste santo (como piamente se pode crer), a quem o demónio na vida e na morte confessou pelo mor inimigo que tinha, nunca mais sentiu semelhantes assombramentos, nem ainda o seu mesmo moço que dantes tantas vezes o padecia. Outro soldado honrado, criado também de Fucuximadono, que primeiro fôra bonzo e era ainda agora muito supersticioso e dado ao culto dos ídolos, tendo muitos escritos, sinais e figuras dêles, que os bonzos de alguns templos afama- dos de Japão vendem, persuadido de um seu amigo cristão, veio ouvir as prè- gações e depois de propor suas dúvidas e ficar satisfeito com a resposta que se lhe deu, se baptizou e logo tornando a casa tomou todos quantos papeis daque- les tinha, arrancando a muitos das paredes e portas, onde os gentios os costu- mam pregar, por defensa e protecção dos que ali moram, e feitos em um feixe
  • Das coisas de Japão 69 os trouxe à igreja para se queimarem. A mulher que também era gentia e fora biconi que é o mesmo que freira, vendo ao marido tratar com tanto des- prezo e vitupério aqueles escritos e figuras que até então tivera em tanta estima, e que os levava para os meter no fogo, não somente teve aquilo por intolerável desatino, mas esteve quási * determinada, segundo ela mesma depois contou ao *fi.5o». padre, a se sair de casa e ir-se por esse mundo, mas que fôsse pedindo esmola de porta em porta, antes que viver com homem tão desalmado, crendo que sem dúvida os Camis e Fotoques o haviam de castigar mui rigorosamente por tão grande atrevimento. Porém passado aquele primeiro ímpeto, vendo o tão mudado em seus costumes, tão brando para com os de casa, tão moderado em outros excessos que pela maior parte os outros gentios teem, lhe pareceu que aquela mudança não era coisa ordinária; e em sua ausência abria um liviinho por onde êle aprendia as orações, que no cabo tem resumidos em breves artigos os prin- cipais mistérios de nossa santa fé; e praticando depois naquilo com o marido, que tudo lhe ia declarando, como o tinha ouvido, emfim no cabo de um mês ou dois, ela veio também ouvir as prègações, e na primeira se resolveu logo a ser cristã, aprendendo desde então todas as orações com muita diligência, ate que recebeu o santo baptismo com um filhinho seu único e algumas criadas; e depois rendeu também sua própria mãe a ouvir, a qual se fez cristã com quási todos os mais de sua família, e vive mui agradecida ao Senhor, pela grande mercê que de sua mão recebeu. Havia aqui um mancebo gentio de uma nobre e mui antiga família do Japão, o qual fôra pagem de Taicosama e agora serve a Fucuximadono e e filho morgado de um dos mores privados que êle tem. Era êste da seita genxu e tinha feito certas meditações que os bonzos daquela^ seita costumam dar a alguns que por isso lhes pagam muito bem, as quais tôdas se resumem em que não há salvação e que tôdas estas coisas corporais que vemos não teem verdadeiro ser senão aparente; e finalmente que tudo com esta presente vida se acaba. E como naturalmente o mancebo é agudo de engenho e elo- quente, sempre tinha grandes debates com alguns soldados cristãos seus amigos. Até que uma vez cabendo-lhe a sorte de vigiar certo logar desta fortaleza com outros dois cristãos, foram tantas as porfias, que gastaram a noite tôda nelas até enrouquecer, concluindo por derradeiro que viesse ouvir de propósito as prègações, e veria quão errado andava. Consentiu no que lhe diziam, e veio ouvir, mais com desejo de altercar, que de se converter. E assim na * primeira prègação foram tantos os brados que deu e as instâncias que fez, que nao havia quem se pudesse ouvir com êle na sala onde lhe prègavão. Na segunda já estava um pouco mais brando, vendo a eficácia das razões com que se lhe provou que havia criador do céu e da terra e de tôdas as criaturas. Pelo que começou depois a ir consigo só considerando o que ouvira, e achando tudo tão conforme ao que o lume natural ensina, uma noite em que o céu estava mui claro e sereno, se pôs por largo espaço com muita atenção olhando para a lua e as estrêlas, notando com quanto compasso iam fazendo seu curso, chegando-se pouco a pouco para o ocidente até que totalmente algumas se encobriram debaixo do horizonte; e daqui foi discorrendo pela ordem e concerto deste mundo, de modo que com o favor divino se resolveu que tudo isto nao podia
  • 70 Das coisas de Japão ser senão efeito manifesto daquela primeira causa de todas as coisas, a qual a lei dos cristãos chamava Deus, e por conseguinte esta só era a verdadeira, e que tudo quanto dos bonzos tinha aprendido eram meros enganos e fingimentos. E dali por diante com mais gosto continuou todas as pregações, até que por derradeiro se baptizou com tão bom entendimento das coisas de nossa santa fé, que quanto dantes procurava de a contrariar, tanto agora trabalha pela louvar e manifestar a todos seus amigos e conhecidos, aos quais sua mudança causou mui grande espanto, sendo primeiro tão obstinado e contumaz. Alguns por seu meio veem ouvir as prègações e como êle juntamente assiste nelas sabe já quási de cor o catecismo e não se farta de dar graças a nosso Senhor pela assinalada mercê que lhe fêz. Logo também quási todos seus criados rece- beram o santo baptismo, e por derradeiro persuadiu a sua mulher, que por algum tempo esteve muito dura e incapaz, ouvisse as prègações e se baptizasse, como fêz com outras dez ou doze mulheres de sua casa e cinco filhos pequenos, dos quais pouco depois levou nosso Senhor para si um. E como tem boas partes naturais, confiamos que o tomará sua divina majestade por instrumento para trazer a seu pai, mãe e irmãos, com muitos outros, ao caminho da verdade. Em uma pequena vila do reino de Suvo vive um mancebo * nobre gentio, criado de Mori, o qual era tão dado à superstição e culto dos ídolos, que mui- tas vezes, por espaço de largas horas, se punha em pé, com os pés ambos juntos e fixos em um logar e sem mover nem bolir, estava esperando até sair a lua, que é certo género de penitência, que alguns dêstes gentios soem fazer. Outras vezes pelo mesmo respeito, no coração do inverno quando os frios são mais intensos, se metia na água fria até que a mesma lua aparecia. Aconteceu que um soldado cristão seu amigo lhe tratou um dia como não havia outro caminho da salvação, senão o que os cristãos seguiam, dizendo-lhe de nossa santa fé algumas coisas assim em grosso, as quais o penetraram tanto, que vindo a Firoxima em tempo que ainda aqui não estava padre, andou por várias ruas buscando algum cristão e finalmente encontrou com um oficial mecânico e a êste preguntou se haveria quem lhe prègasse as coisas de Deus. Encami- nhou-o êle a casa de um homem natural do Meaco, cristão antigo e inteligente nas coisas da fé, ao qual pediu lhe praticasse alguma coisa de nossa santa lei. Na primeira prática que ouviu propôs muitas dúvidas debatendo fortemente sobre elas, e por derradeiro lhe pareceu que o que ouvira ia fundado em razão, pôsto-que muitas coisas não entendeu bem, e não lhe dando o tempo lugar para mais, se tornou; e tendo ouvido que os cristãos adoravam a cruz, grudando algumas folhas de papel umas nas outras, por sua mão pintou nelas uma grande cruz de tinta, e dependurando-a em uma parede de sua casa, cada dia a ado- rava e fazia adorar aos seus, dizendo que era o sinal do Criador do mundo, sem saber mais outras particularidades. Depois alcançando uma imagem do Salvador de certo cristão, da mesma maneira a dependurou e adorava com muita reverência. Soube que na mesma ilha vivia um ourives cristão; logo se fêz seu familiar e o convidava em sua casa cada domingo; e sabendo dêste as festas mais principais, as guarda com muita pontualidade, de modo que no Natal se vestiu de novo com todos os seus, e chamando os vizinhos lhes deu um banquete, dizendo que aquele era o seu ano novo. E quando depois veio
  • Das coisas de Japão 71 o primeiro dia dos japões, * que êles celebram muito festivalmente, se deixou «fi.5j. estar sem fazer demonstração alguma de se dar por achado dêle. Morreu-lhe nesta conjunção sua mulher, e todos os gentios e parentes seus e amigos, tendo aquilo por manifesto castigo dos ídolos, aos quais deixara, por tomar uma lei nova e peregrina, lhe davam rija bateria que não fôsse por diante naquela teima para que os Camis lhe não dessem outro castigo maior. Sabendo que o padre era chegado a Firoxima, veio logo ouvir as prègações, mas não tendo ouvido mais que a primeira, lhe sobreveio certo negócio que lhas fêz interpolar; tor- nando depois com outro mancebo honrado e ouvindo ambos, fizeram muito conceito de tudo; mas como o diabo sentia tanto sair-lhe das mãos esta presa, urdiu outro estorvo com que lhe foi necessário tornar-àe, posto-que muito con- tente, parecendo-lhe que já era cristão, e com determinação de logo vir receber o santo baptismo com seu companheiro, e de persuadir a outros amigos seus que também venham. A coluna principal de todos os cristãos dêste reino é um fidalgo e senhor nobilíssimo, por nome Chicugodono Luis, o qual com ser pessoa tão abalisada e conhecida em Japão por seu esforço e valentia, contudo na afabilidade e cha- neza com que trata e agasalha a qualquer cristão por pobre que seja, parece qualquer do povo, guardando ainda aquele seu bom e antigo costume de con- vidar em sua casa a todos nas principais festas do ano, servindo à mesa ele mesmo com seu filho morgado aos homens, e sua mulher Catarina fazendo também o mesmo às mulheres. Com muita liberalidade remedeia a pobreza dos que sabe padecem necessidades; com igual zelo e brandura aconselha e procura de encaminhar não somente aos cristãos que vê se desviam de sua obrigação, mas ainda de persuadir a muitos gentios nobres que oiçam prègação das coisas de nossa santa fé, trazendo-os êle mesmo; e depois com particular gosto se faz padrinho dalguns que recebem o sagrado baptismo. Deixo a humildade e res- peito com que trata e fala com o padre; com passar já de 6o anos e sua casa distar da igreja um grande pedaço, todos os dias, não se oferecendo algum negócio de qualidade que o impeça, * vem de madrugada a encomendar-se a .fi.52». Deus e a ouvir sua missa e prègação quando a há. Confessa-se cada mes e comunga com muita devoção, e em tudo o mais vive com tal exemplo e piedade, que não sòmente dos cristãos é amado e tido em conta de pai, mas até os mesmos gentios se espantam de sua virtude e inteireza de vida. Não é menor a devoção que vai mostrando Zazuche Simeão, seu filho morgado, o qual com ser muito amado de todos por sua discrição e boas partes naturais, e viver entre tantos outros mancebos nobres e gentios que todo seu intento põem em gastar a vida em prazeres e passatempos, e êle estar ainda na flor e primavera da idade, pois não chega a dezoito anos, contudo além de vir sempre com seu pai ouvir missa, comummente gasta a maior parte do dia na igreja, ou rezando diante do altar, ou lendo livros espirituais, ou praticando com os de casa, pro- curando sempre de aprender alguma coisa da salvação que não sabia, confes- sando-se finalmente quási cada mês, com tanta devoção que nunca o faz sem derramar muitas lágrimas; e porque Fucuximadono tem por vezes mostrado desejos de o tomar por pajem, receando-se êle que isto se efeituasse, um dia pediu afincadamente ao padre, que com particular cuidado rogasse a nosso
  • 72 Das coisas de Japão Senhor que não permitisse tal, porque não sòmente não teria tempo para con- tinuar seus bons exercícios, como agora fazia, mas que se temia muito que a conversação e familiaridade dos outros pajens gentios, lhe esfriasse o fervor e devoção que nas coisas de Deus agora sentia. CAPÍTULO XV Das coisas que se fizeram na casa e residência de 0\aca RESIDE nesta cidade, por ser uma das duas cabeças de Japão e a prin- cipal depois do Meaco, o Príncipe Findeiorisama, filho de Taico, por • ••"• cujo respeito esta cristanda*de se viu no ano de i6o3 em um grande sobressalto, de que nosso Senhor por derradeiro a livrou, e passou a coisa desta maneira: Mandou Cubosama aos governadores de Ozaca, que servem ao príncipe e lhe governam sua casa, que trouxessem muita vigia sobre êle, para que lhe não dessem peçonha. E para eles executarem isto assentaram que seria bem se tomasse juramento a todos os tendeiros da cidade, que não vendessem peçonha a pessoa alguma. Havia entre os governadores um que era amigo dos cristãos, e tratando-se isto, acudiu dizendo que nesta cidade havia muitos cristãos, e que como estes não adoravam os Camis e Fotoques, não se lhes podia tomar juramento ao uso do Japão. Foi logo isto denunciado ao Cubo, o qual respondeu que se procurasse que nenhum criado do príncipe se fizesse cristão. Bastou isto para logo dois dos governadores, que eram os principais, mandarem lançar pregão por tôda a cidade que, sob pena de vida e perdimento de fazen- das, ninguém daí por diante se fizesse cristão. Ao que acrescentaram os ofi- ciais subordinados, por quem o negócio corria, outra coisa mais rigorosa, que foi fazer lista de todos os cristãos, o que se não costuma a fazer ordinàriamente nestas partes, sem se seguir desterro ou perdimento de bens. Causou esta novidade mui grande alvoroço em tôda a cidade por haver nela muitos cristãos? os quais começaram logo a ser combatidos de seus parentes e amigos, para que deixassem a lei de Deus; mas viu-se em todos geralmente muito ânimo e for- taleza. Durou este sobressalto poucos dias, porque vendo os mesmos governa- dores por uma parte o grande alvoroço que havia na cidade, por outra que o Cubo não proibira fazerem-se cristãos senão os criados do príncipe, êles próprios procuraram aquietar o negócio, para o que muito ajudou achar-se presente um dos governadores em Meaco, numa conjunção em que o padre Morejon, Vice- -Reitor daquela casa, foi dar ao Cubosama os parabéns de seu ano bom, e ver as demonstrações de amor e gasalhado com que o Cubo o recebeu e tratou. Acrescentou-se também a isto, que preguntando este mesmo governador ao fi.53v. Cubo, se tomaria juramento aos criados * do príncipe, que se não fariam cris- tãos, respondeu-Ihe o mesmo Cubo que não havia para quê, porque era coisa desnecessária. E assim tôda aquela borrasca com o favor divino ficou serenada, e a cristandade correndo com muita quietação e paz e crescendo cada vez mais em número de fiéis; entre os quais recebeu nossa santa fé e se baptizou uma nobilíssima senhora, filha de Nobunanga, aquele grande monarca que foi de
  • Das coisas de Japão 73 Japão, antecessor de Taico, a qual é também prima e grande amiga da mãe do príncipe Fideiorisama. Moveu-se esta senhora a receber nossa santa fé, assim por seu marido a ter também recebido haverá dois anos, como por per- suasões de Júlia, uma cristã muito nobre, de que já se falou noutras relações e adiante também se falará; e sem ter respeito à amizade tão estreita e depen- dência que tem da mãe do príncipe, tão dada ao culto dos Camis e Fotoques, nem menos ao estar de ordinário junto dela, com tanto perigo de vir a saber que se baptizou e o tomar mal, depois de feita cristã fêz tão bom entendi- mento das coisas de nossa santa fé e da falsidade de todas as seitas de Japão, que não podendo encobrir o bem que sente em sua alma, a todos o deseja comunicar, principalmente a sua mãe, persuadindo-lhe muitas vezes que se faça cristã; a qual já ouviu duas vezes pregação, com o que ficou tão movida que prometeu de se baptizar. E como é prima da mãe do príncipe e lhe tem amor, tem grande pena e sentimento, por ver que assim ela como seu filho se não hão de salvar; pois falando humanamente não deixarão os erros e cegueira da ido- latria em que estão; do que tem suma compaixão por a ver de tão boa natureza, tão dada a esmolas e obras pias, que tão pouco lhe aproveitam, pois todas são feitas em honra dos Camis e Fotoques, de que é tão devota que perde esta as esperanças de sua conversão, maiormente tendo sempre à sua ilharga tanta multidão de bonzos que muito mais a persuadem a perseverar no culto e ado- ração do demónio. Não deixa porém esta senhora em tôda boa ocasião que se oferece de lhe dizer algumas coisas dos cristãos e dos padres, como que as ouviu de outrem, com o que se vê que pelo menos vai sentindo melhor de nossas coisas e falando doutra maneira do que dantes falava. E no príncipe seu filho * se vêem também algumas demonstrações de ter boa vontade à Igreja • e bom conceito dos padres. Porque estando um dia um bonzo grave escre- vendo-lhe uns títulos no seu mapa-múndi, a que eles chamam ximixém, mandou a nossa casa pedir o nosso mapa e um instrumento, como esfera, em que se mostra o movimento do sol e lua, e levou-lhos um irmão, com que sumamente folgou. E perguntando ao bonzo algumas coisas dos instrumentos e mapa, querendo-se êle mostrar muito letrado, disse mil disparates. Mas com o que o irmão disse e boas razões com que o provou, ficou o príncipe e todos os mais que estavam presentes mui satisfeitos e não menos admirados do engenhoso e raro artifício com que se mostrava o dito movimento; pelo que o bonzo ficou muito melanconizado, sem poder dizer palavra, nem contradizer ao irmão. O que vendo o príncipe se chegou ao bonzo e dando-lhe um piparote no nariz lhe disse: Anda bonzo que não sabes nada. Uma mulher muito principal, ouvindo das coisas da lei de Deus, desejou tanto de se baptizar, que querendo-a sua mãe levar para terras de um senhor grande e suspeitando ela que era para ruim fim, rogou a umas amigas suas que a escondessem, porque ela queria ser cristã; e já que tinha achado o caminho da salvação, que o não havia de deixar, por tôdas as honras e riquezas do mundo. E assim instou muitas vezes que a baptizassem; mas por justos res- peitos pareceu melhor diferir-lhe o baptismo, o qual também se diferiu a outra senhora das mais principais de Japão, irmã de Fingendono, senhor de três reinos, e mulher de um senhor, que ainda que agora está desterrado, quando estava IO
  • 74 Das coisas de Japão em sua prosperidade o era também de dois reinos. Esta senhora tem estranhos desejos de se baptizar, buscando para isso todos os meios que pode, gostando grandemente que se lhe cumpram; mas assim para a provar e dispor melhor, como também por outros justos respeitos, se dilata por agora seu baptismo. Estes desejos de receber nossa santa fé em que entram estas senhoras e outras, se devem em muita parte àquela nobre e virtuosa mulher, Júlia, irmã de Neito Findandono João, que foi senhor do reino de Tamba, da qual se tem - fi. 54 v. já escrito * outras vezes. E como por se ocupar em semelhantes obras e per- suadir a muitas senhoras nobres que se façam cristãs, fôra preseguida por mandado do Cubo, a instância dos bonzos, por este respeito por conselho dos padres se retirara para as partes do Ximo; porém tornando depois para as partes do Meaco não deixou de continuar com seu santo exercício, persuadindo a estas senhoras de que acima falámos e a outras que se fizessem cristãs, prè- gando-lhes e ensinando-lhes as coisas de nossa santa fé. E ainda que por se ela nisto haver com tão bom modo, não houve no Meaco o reboliço e trabalho que sôbre ela houvera os anos atrás, não pôde porém livrar-se de todo, para maior seu merecimento. Porém tendo os bonzos notícia de sua tornada, e ainda que andava pelas casas das senhoras e por outras menos principais fazendo o que dantes, sentidos de lhes tirar das unhas suas frèguesas, e muito mais de lhes descobrir suas falsidades e a suma desordem que teem na vida, como tão bem o sabia de raiz, traçaram de lançar mão dela e prendê-la no caminho, quando fôsse de Ozaca para Meaco, pondo para isto gente que a esperasse; e depois de presa pedirem ao Cubo que, ou a desterrasse para onde mais não pudesse exercitar o ofício de prègadora da lei dos cristãos, ou lhe desse outro mais rigoroso castigo. Esta traça dos bonzos, a qual êles comunicaram a algu- mas mulheres gentias, suas frèguesas, que vivem dentro do paço do Cubo e imediatamente o servem, souberam logo duas mulheres cristãs que Deus parece que pôs também no serviço do mesmo Cubo para darem aos padres semelhantes avisos. E assim estas avisaram logo disto a uma senhora cristã por nome Quiegócu Maria, amiga íntima de Júlia, a qual logo também deu rebate aos padres, que com tôda diligência acudiram a isso, impedindo a Júlia para que não saisse de casa, o que ela bem sentiu, por lhe tirarem a j>casião que se lhe oferecia de padecer por tão santa causa, ainda que fôsse a morte que ela tanto desejava; mas parecendo o contrário mais serviço de Deus, a mandaram os padres ao reino de Tamba, onde fêz muito fruto com suas persuasões e conse- lhos. E quieto o negócio com se ausentar por então, tornou depois para a cidade de Ozaca, onde reside. • fi. 55. * Morrendo a uma mulher cristã sua mãe gentia foi muito persuadida pelos parentes e marido que fizesse por sua mãe as exéquias acostumadas ao modo gentílico; e ainda que apertaram muito com ela, nunca porém o quis fazer, dando por razão que era cristã. Pelo que agastando-se rijamente o marido contra ela, lhe disse que os cristãos eram uma gente medonha e inumana e sem nenhuma piedade nem amor aos pais, pois não tinham conta com lhes fazer exéquias depois de mortos e ajuda-los com isto para a salvação; pelo que a não queria por mulher; que se fôsse logo de sua casa. A isto respondeu a mulher que quanto ao fazer das exéquias, os cristãos as faziam por seus defuntos muito
  • Das coisas de Japão 75 bem e mui perfeitamente, e que estando a mãe viva lhe aconselhara muitas vezes que se fizesse cristã para se salvar e para ela lhe fazer as exéquias pela alma; mas que nunca quisera ouvir os bons conselhos que nesta parte lhe dera e se tinha ido ao inferno por sua vontade; pelo que tendo-se condenado não lhe podia ela fazer sufrágios que sabia não lhe haviam de aproveitar; e que quanto ao se sair de sua casa por esta causa, que o faria logo, como fêz a boa e forte cristã, estimando mais não perder a sua alma, que perder seu marido. Porém como sua virtude e constância merecia todo o bem, ordenou nosso Senhor as coisas de maneira que se aplacou o marido; e feitas as amizades, vivem agora ambos como dantes. A mesma constância se viu em um mancebo honrado, que sendo fortemente persuadido do pai e parentes que fizesse certas cerimónias gentílicas nas exequias de sua mãe que morrera gentia, nunca o puderam mover a isso; o qual vendo que nao valiam os rogos e instâncias que fêz ao pai, que a tal coisa o não obrigasse, por lhe ser proibida na lei dos cristãos, se resolveu sair-se da casa do pai, com sua mulher e tudo o mais que tinha, com ser morgado e único herdeiro. O que vendo o pai desistiu do intento, ficando o filho vencedor mui consolado. Outro mancebo cristão haverá dois anos que pelo ser foi desterrado por mandado do governador de Ozaca, e estando já quieto, eis quando tornou a ser perseguido e molestado dos parentes gentios, que doendo-se muito de o ver pobre e desterrado, sendo antes tão principal e rico na povoação donde morava, lhe persuadiram * muito que pelo «fi.55t. menos no exterior dissimulasse por-ora, e mostrasse não ser cristão, para por esta via poder ser restituído ao antigo estado e se ver livre das misérias e necessidades que padecia; do que tudo o bom cristão fêz tão pouco caso, que de novo rapou a cabeça (que em Japão é geralmente sinal de um homem deixar o mundo) e foi morar à cidade de Fuximi perto da igreja, com tenção de servir a Deus, como faz ajudando aquela cristandade, incitando a muitos a se fazerem cristãos, ensinando a todos a doutrina, e lendo-lhes livros devotos, no que tam- bém se ocupa sua mulher, não menos devota que fervorosa e constante cristã. Era o governador de Ozaca que perseguiu e desterrou êste cristão mui grande inimigo de todos os cristãos e que por algumas vezes tinha causado grandes apêrtos e inquietações aos desta cidade; e foi o que no ano de oitenta e sete entregou à morte aos nossos Irmãos Miche Paulo, João, Diogo. Este neste ano adoeceu a morte, e sem lhe valerem os Camis e Fotoques de que era tão devoto, acabou seus dias; e os males que tinha feito foi pagar por junto ao inferno. Na doença mostrou ter algum escrúpulo dos males que fizera, e apertado da morte, lhe veio à memória que poderia haver outra vida, e assim chegou a dizer que folgaria de ouvir nossas coisas, mas como não o mei eceu a Deus, não pôs em efeito seus desejos, e assim morreu miseravelmente, desa- pressando aos cristãos e a tôda a terra de suas tiranias; e foi nosso Senhor servido que em seu lugar sucedesse outro bem diferente, por ser mui propício às coisas de nossa santa lei. Na cidade de Sacái mora um gentio desterrado que, ainda que tal, se pode contudo chamar superior e cabeça de todos os que em Japão adoram ao demó- nio, porque antes de seu destêrro era superior de um dos principais mosteiros e romarias de todo o Japão, no qual está um Cami mui famoso e por extremo
  • 76 Das coisas de Japão venerado de toda esta gentilidade, e onde particularmente o demónio mais domina e engana os miseráveis japões. Êste gentio, de tanto nome e autori- dade em Japão, e sua mulher tiveram muitos filhos, mas todos lhes morreram • fi 56. de pouca edade, por mais romarias e votos que faziam aos Ca*mis e Fotoques, rogando-lhes pela vida dos filhos. Pelo que desconfiando dêles e de seu pouco poder, e ouvindo dizer que o Deus dos cristãos tinha poder para dar vida e saúde a quem queria, determinaram fazer cristão a um só filho que tinham. E dando conta disto ao padre que naquele tempo foi ao Sacái, a petição da mesma mãe gentia, com aprovação do marido, o padre lhe declarou a verdade do que ouviram e logo baptizou o menino tomando primeiro bons fiadores de que sempre o deixariam correr e continuar como cristão, sem lhe fazerem cere- mónias algumas nem superstições gentílicas nem lhe mandarem que êle as faça. Feito o menino cristão, dali a poucos meses adoeceu. Mandaram logo seus pais chamar um devoto cristão por nome Roque (que naquela cidade tem cuidado de ajudar aos cristãos) para fazer oração pelo menino. Fê-lo assim o bom Roque e logo o menino se achou bem; pelo que os pais ficaram confir- mados na devoção e confiança que tinham nas coisas dos cristãos. E assim muitas vezes o mandam à igreja bem acompanhado de criados, por ser pessoa tão conhecida, e com êle vai também uma sua tia, a qual diz que o Deus dos cristãos tem tomado à sua conta aquele menino e que ela também quere ouvir prègação e fazer cristãos aos outros meninos que servem a êste, para que tenha companhia de cristãos com que se crie. O menino parece um anjo e é muito querido dos pais, por cujo meio pode ser que assim êles como outros muitos venham a receber o santo baptismo. Uma menina de quatro ou cinco anos de idade, filha de um senhor gentio, adoeceu a morte. Tinha esta por aio a um cristão, o qual vendo como ela morria, desejando de lhe salvar a alma, veio à igreja a perguntar ao padre o que faria para isso. Consultando-se sobre o remédio, ocorreu que seria bom que um irmão nosso se fizesse como médico para que com esta capa pudesse entrar na casa da enferma, e ir em companhia do cristão que a tinha em sua guarda como a visitar a enferma e dar-lhe algum remédio1, o qual lhe deu o melhor que podia ser, que foi o sagrado baptismo, com que sarando na alma, dali a dois ou três dias, se foi a gozar de Deus. Morta a menina, declarou o aio à mãe como a fizera cristã, com o que ela muito .56v. folgou e mandou lo*go à igreja a pedir fizessem pela filha o que se costuma por semelhantes cristãos, e com esta ocasião veio ela também, ouviu as prègações e se baptizou. CAPÍTULO XVI Das coisas que passaram tia cidade de Meaco RESIDEM nestas partes do Meaco dezassete da Companhia, repartidos em quatro casas, que são duas na mesma cidade, uma na de Ozaca, de que até agora falámos, outra na cidade de Fuximi, que está pegada com a mesma do Meaco, onde particularmente está o Cuboçama e reside toda a côrte. E esta a principal estância dos padres em Japão, de cujo bom processo e quie-
  • Das coisas de Japão 77 tacão depende a de todas as outras partes em que os padres residem nestes reinos, como também qualquer adversidade ou trabalho que aqui haja na cris- tandade, todas as outras ficam participando da mesma. Pelo que com suma diligência e cuidado procuram os padres ganhar a benevolência do Cuboçama, senhor universal do Japão, e dos mais senhores de sua corte, pela experiência que teem de quanto isto importa não sòmente para a paz e quietação de tôda a cristandade dêstes reinos, mas para o crédito e autoridade de nossa santa fé ir sempre crescendo, e os gentios e bonzos nossos inimigos se irem mais enfreando na liberdade do falar contra nossa santa lei. E esta mercê faz nosso Senhor nestes anos à cristandade de a deixar viver nestas partes em muita paz e quie- tação debaixo do govêrno temporal do Cuboçama, senhor universal e monarca que agora é de todo o Japão. O qual como atrás dissemos, como é de tão bom natural e amigo de quietação e tão amado e temido de todos, de tal ma- neira procede em seu govêrno, que nunca Japão esteve tão pacífico e tão fora de tumultos e guerras como ao presente está, o que grandemente ajuda para ir crescendo a promulgação do santo Evangelho e * estendendo-se cada vez »fi. s7, mais a notícia de nossa santa fé, e os cristãos já feitos poderem ser livre e quietamente cultivados pelos padres, e com o uso dos sacramentos, celebração das festas, exercício das coisas divinas, poderem crescer cada vez mais nos bons costumes e virtudes cristãs. E ainda que Cuboçama naqueles primeiros tempos de sua monarquia e govêrno universal, tinha mandado que os senhores grandes se não fizessem cris- tãos, e também até agora não tenha revogado o édito ou proibição de Taico seu antecessor, que os padres de nossa Companhia não estivessem mais que em certas partes de Japão e ainda que também algumas vezes naqueles princípios por falsas informações dalguns gentios e bonzos inimigos da cristandade, soltasse algumas palavras contra ela e contra os padres, contudo, como é de boa condi- ção e amigo de justiça e verdade, como logo a sabia se rendia a ela, e nunca depois por mais que soube que os padres andavam espalhados por todo o Japão e faziam cristãos a todos os que se convertiam, o proibiu, nem se deu por achado disso nem usou de rigores, antes sempre foi mostrando em várias ocasiões benevolência e boa vontade aos padres, como se viu no que atrás tocámos quando soube a extrema necessidade e pobreza em que os padres ficaram pela falta da náu do Japão que os holandeses tomaram; porque de amor e graça lhes mandou trezentos e cincoenta taéis, que importam na nossa moeda passante de quinhentos cruzados, e emprestados sem os padres lhos pedirem cinco mil taéis, que importam passante de sete mil e quinhentos cruzados, para que se ajudassem dêles na presente necessidade em que estavam, e depois lhos pagassem quando pudessem; que naquela conjunção e apêrto em que os padres então estavam se teve como uma coisa miraculosa inspirar Deus esta vontade e humanidade tão grande a um fiel idólatra, para uns homens estrangeiros e prègadores de uma religião e lei tão contrária às que êle e outros do Japão professam. Pouco depois sucedeu também que certos mercadores gentios (dos que costumam vir à cidade e porto de Nangasáqui a tratar com os portugueses quando ali vai a náu da China) tomados de se lhes não dar a quantidade da seda e mercadorias que * queriam, por meio de certos senhores principais, criados »fi. 57*.
  • 78 Das coisas de Japão do Cubo, a quem tomaram por terceiros, lhe deram capítulos e acusações contra os portugueses e contra um dos principais moradores de Nangasáqui, metendo também nisso os mesmos padres; pelos quais o Cubo se alterou e indignou grandemente e chegou a soltar algumas palavras pesadas contra os acusados e contra todos os mais cristãos, atiçando êste fogo cada vez mais os dois senhores gentios de quem os acusadores se valeram. Porém sucedendo logo depois (permitindo-o assim o autor da verdade para que ela sempre fique manifesta) serem os mesmos acusadores compreendidos em uma grande falsi- dade sobre as mesmas coisas que tinham dito com que de todo ficaram desa- creditados, veio o Cubo por aqui a saber a verdade do que passava, e assim indo nesta conjunção o padre João Rodrigues a dar-lhe o parabém de seu ano novo e visitá-lo da parte da Companhia e portugueses da mesma cidade de Nangasáqui, com outro homem honrado dos principais dela, por nome António, muito bom cristão e zeloso da honra de Deus, êle os recebeu a ambos com muitas demonstrações dc amor e benevolência sem lhes tocar palavra das calú- nias sobreditas; antes acontecendo estar nesta conjunção em sua desgraça Tarazava Ximano Cami, que havia muitos anos corria com o govêrno de Nan- gasáqui (com grandíssima aflição e tribulação daquela cristandade por ser êste infiel inimigo capital dos cristãos) êle lho tirou e o deu ao próprio António, fazendo-o cabeça com os outros quatro dos mais honrados e melhores cristãos, passando logo provisão para todos, e ao padre João Rodrigues encomendou também o bom govêrno desta cidade; o que foi um benefício singular que nosso Senhor lhe fêz e quis inspirar a êste gentio, e de que resultou grandís- simo bem para aquela cristandade, para os portugueses que ali vão com a náu, e para paz e quietação dos padres, e por se verem livres daquele outro tirano que até então os governara. Com êste tão bom e inesperado sucesso e favor de Cuboçama não somente os acusadores se acharam tão alcançados que houveram ser-lhes necessário pedir perdão aos acusados do que tinham feito, e os que os favoreceram darem também suas descargas, mas outros que nem •fi.58. aos padres nem à cristandade tinham tão boa vontade se enfrearam para * não ousarem tão fàcilmente alevantar semelhantes calúnias. E para que Deus nosso Senhor mais claramente mostrasse que Ele foi o que deu tão bom fim a êste negócio, aconteceu também pouco depois que um daqueles senhores que tomaram as partes dos caluniadores e terçavam por êles, em certa ocasião desa- gradou ao Cubo, de sorte que privando-o do ofício de governador do Meaco, o mandou desterrar, e o outro seu companheiro morreu subitamente. Não foi menor o favor e gasalhado com que o mesmo Cubo no ano de 1604 recebeu o padre Organtino em uma visita que lhe fêz, o qual como havia muito tempo que o não fôra ver, tantas foram as festas de alegria e amor com que o recebeu, que estando as salas cheias de muitos senhores e de bonzos muito principais e de outra gente nobre, que de diversas partes o vinham visi- tar, sem dar audiência a nenhum dêles nem os querer ver naquele dia, só o fêz ao padre Organtino tanto que soube que estava ali; e assim mandou logo dois criados seus, os mais privados e de que mais se serve, que lho trouxessem, como fizeram chamando-o do meio de tanta gente e levando-o consigo para dentro onde o Cubo estava; o qual por espaço de duas horas se deteve com o
  • Das coisas de Japão 79 padre, falando com êle várias coisas com muita benevolência e afabilidade, e não sem espanto dos bonzos e dos mais que isto viram, os quais dantes z°m- bando diziam que por mais que o padre esperasse não teria entrada, pois eles a não podiam ter. Êstes favores que o Cubo faz aos padres são também ocasião e motivo para que façam o mesmo muitos outros senhores, e entre estes muitos dos que andam perto dêle e os mais privados e familiares seus, entre os quais é o principal Consuquedono, por quem correm todos os negócios de importância, o qual nos defende e fala por nossas coisas \ como aconteceu uma vez que falando diante do Cubo alguns malévolos contra os cristãos e padres e contra a casa de Meaco, dizendo que se prègava nela publicamente a lei dos cristãos e que os padres em Japão era gente desnecessária, acudiu logo Consuquedono e outros dois ou três senhores, nossos amigos, dizendo que antes os padres eram de muito proveito para Japão, pois à sua sombra vinham a êle * os portugueses • fi. 58▼- na náu de China; e aprovando isto o Cubo, não ousaram os outros dali por diante de se desmandar mais em falar. Pelo que vivem os padres nestas par- tes do Meaco com muita segurança em duas casas que teem na mesma cidade do Meaco e outra como dissemos na côrte de Fuximi logo pegada, nas quais todas além do fruto que se colhe na cultivação dos cristãos já feitos, que é mui grande, não é menor o dos que de novo se convertem, que foram neste ano de 1604 passante de novecentos, parte soldados e gente nobre, parte mercado- res e gente comum, que por serem feitos onde tanto floresce a gentilidade tão inimiga de nossa santa fé, se devem estimar por muitos mil. E porque sempre neste trato das almas acontecem muitos casos particulares notáveis e dignos de memória, iremos apontando alguns. Alegrou e consolou muito aos padres do Meaco a redução de um nobre e principal fidalgo, irmão de um senhor de um reino, o qual andando há muito tempo como caído sem fazer muito caso das coisas da salvação, movido êste ano de Deus, mandou chamar um irmão nosso a sua casa e perguntando-lhe todas as dúvidas que tinha acêrca da fé e outras coisas de nossa santa lei, ficou tão satisfeito das respostas e com tão bom entendimento, que tirados todos os impedimentos que até agora o detinham, e declaradas as dúvidas que o traziam perplexo, corre como cristão, vindo muitas vezes à igreja, confes- sando-se e havendo-se em tudo de maneira que sem lhe dar dos pais gentios a cuja sombra está, não sòmente procura sua salvação, mas ainda a de muitos, trazendo alguns fidalgos a ouvir prègação, e dando a todos grande exemplo com sua mudança e redução. Um soldado cristão, havendo poucos dias que recebera o baptismo e enfadado do serviço da fortaleza de Fuximi onde servia ao Cubo, pediu licença ao capitão da mesma fortaleza para se mudar para outra parte. Indignou-se tanto o capitão por lhe pedir tal licença, que mandou logo lhe cortassem a cabeça, o que indo outros para executar, podendo-se o bom cristão defender a matar primeiro alguns, conforme ao costume de Japão, lar- gou as armas e se deixou amarrar, dizendo que êle era cristão * e que não .fi.s». havia de fazer coisas de gentios. Tomou logo o relicário e meteu na boca e as contas também da melhor maneira que pôde e juntas as mãos diante do peito, posto de joelhos esperou o golpe invocando o nome de Jesus, Maria, o
  • 8o Das coisas de Japão qual a cabeça já fora dos ombros e xaida no chão pronunciou claramente dizendo Jesus, Maria, não sem espanto dos gentios que isto viram. Baptizou-se outro soldado no qual obrou tanto a graça do Espírito Santo que no mesmo dia que o recebeu no baptismo, desejou tanto que também os de sua casa a recebessem, que logo lhes começou a prègar o que êle tinha ouvido, persua- dindo-os que deixadas as falsas seitas de Japão em que não havia salvação, abraçassem a lei dos cristãos que só a dava; o que fêz com tanto fervor, que quási todos os seus se converteram e receberam o santo baptismo. O mesmo persuadiu a alguns seus amigos e conhecidos, e pôde com êles tanto seu zêlo e eficácia, que alguns se fizeram cristãos. Assiste sempre às prègações que se fazem e aos que êle converte, animando-os e admoestando-os a que façam entendimento em coisa tão importante. No tempo que êle se catequizava para receber o baptismo, escreveu todas as orações em um abano de que usava conforme ao costume de Japão. E com tanto desejo as aprendia, que as andava decorando pelas ruas e caminhos que fazia, e assim em oito dias as soube todas. Baptízou-se mais êste ano, entre outras pessoas nobres, um nobre mancebo, sobrinho da mulher principal que foi de Taico e que agora reside no Meaco, e irmão de alguns senhores que o foram já de reinos. E êste mancebo pessoa de muito bom entendimento, e como tal vendo que nas seitas de Japão, de que êle se tinha feito grande discípulo, não achava salvação nem coisa que aquie- tasse sua alma, ouvindo dizer já de muito tempo que nossa santa lei ensinava o caminho da salvação, desejou de a ouvir com propósito de a abraçar e seguir, se nela achasse o que desejava, como tantos lhe afirmavam. Pelo que mandou um recado à igreja, que êle desejava de ouvir prègação e de se fazer cristão, se achasse na lei dos cristãos a verdade que buscava. Vendo isto os padres, e como êle era uma pessoa tão nobre e tão aparentado com aquela senhora, que • Fi.5gv. ainda agora é tão poderosa, e sobre isso tão pouco afeiçoada às coisas * de nossa santa fé, depois de lhe louvarem grandemente seus bons desejos, lhe responderam que como êle era sobrinho daquela tão grande senhora e era pro- vável ou certo que nem ela nem o príncipe Findoriçama, nem menos o Cubo, por serem pouco afeiçoados à lei dos cristãos e proibirem que pessoas de sua qualidade a não recebam, tomariam bem sua conversão, convinha que consi- derasse mais o negócio, pois humanamente parecia que não poderiam deixar de se seguir de sua mudança alguns inconvenientes graves e trabalhosos, assim para a Igreja e cristandade, como para êle; o que tudo também se lhe disse para mais prova de seus desejos, e para que vistos todos os inconvenientes que depois poderia haver, se aparelhasse melhor, e com mais resolução e firmes propósitos na perseverança da fé e de contrastar com todos os encontros que 1 nela tivesse. Dada esta resposta, respondeu a ela, que seus desejos eram anti- gos e não de agora, e que como êle estava no Meaco desterrado, era certo que nenhuma memória dele tinha o Cubo nem menos o príncipe. Pelo que nesta parte nem êle tinha que se temer nem menos a Igreja; e que quanto à rainha sua tia, pôsto-que por ora dependia dela, que o sustentava e o tinha à sua sombra, êle tomava o negócio sobre si, para sair com êle de modo que nenhum trabalho para a Igreja se seguisse. E que procuraria também fazer tudo de
  • Das coisas de Japão 81 tal maneira que sua tia não soubesse de sua conversão, e que também afirmava que fazendo-se cristão como desejava, ainda que lhe custasse a vida, não havia de tornar atrás, pois entendia muito bem quanto lhe convinha não trocar a salvação por coisa alguma deste mundo. Que êle fôra já da seita dos genxus, e deixada esta se fizera da dos icoxos, mas que em nenhuma delas achara haver salvação, por serem tôdas coisas de zombaria; pelo que como era homem racional e por outra parte enfermo, que não sabia se morreria amanhã, não queria que o tomasse a morte como um bruto animal, sem ter feito o que devia para se poder salvar. O que sendo assim, não havia para que arrecear de o fazer cristão, depois dêle ter feito entendimento da verdade de nossa santa lei e estando êle tão resoluto a depois de baptizado haver de perseverar e por nenhuns respeitos humanos haver de deixar a * verdade, ainda que por «fi.6». isso o fizessem em pedaços. Vendo os padres esta sua resolução e firmeza e as mais razões que dava, o admitiram às pregações, e antes de acabar de as ouvir tôdas, chamou seus criados e lhes declarou seu intento, ajuntando que os que deles se quisessem fazer cristãos o podiam fazer, mas que havia de ser de sua livre vontade, não por força alguma; quatro dêles o quiseram logo acom- panhar; os outros lhe responderam, que se queriam ficar antes na seita dos icoxos que seguiam, a qual tinham por boa; ao que êle respondeu que boa não era ela, antes falsa e enganosa, mas que se êles assim nela queriam ficar, que lá se aviessem. Lançou logo fora de si todos os instrumentos que tinha de gentio, e com muito bom entendimento das coisas de nossa santa fé recebeu o santo baptismo, e com êle mui grande consolação, a qual também tiveram os padres, vendo no curral de Cristo uma pessoa de tanta qualidade. Era seu nome de gentio Jusumandono e o que tomou de cristão foi Pedro. E em tanta devoção e conhecimento das coisas de Deus entrou depois de baptizado que se vê nele evidentemente que Deus o chamou de verdade. E um exemplo a todos de devoção e resguardo de sua alma; sua casa é um mosteiro, não admitindo para seu serviço mulher alguma (que em senhores japões é coisa rara) mas somente se serve de homens em tudo, e para maior sua devoção fêz em sua casa uma capela muito limpa e bem concertada, onde só êle entra, e de que tem a chave sem de ninguém a fiar; tem nela muito boas imagens, ouve muitas vezes missa na semana, e em seu oratório toma muitas vezes dis- ciplina; tem sua campainha para tanger as Ave Marias. E para que não haja falta nisto, tem feito um rol e pegado publicamente na sua sala aonde tem escritos os nomes dos pajens principais, para que cada um tenha cuidado de tanger o seu dia e dar sinal com a campainha às Ave Marias, e para lhes dar exemplo, está êle também escrito no meio do rol, e infalivelmente no dia que lhe cabe por ordem, tange também a campainha a suas horas; confessa-se mui- tas vezes; da mesma maneira o fazem seus criados movidos com tal exemplo, imitando-o também no tomar das disciplinas, principalmente às sextas-feiras, e com êste mesmo exemplo os criados que no princípio se não quise*ram bapti- •ti.6o*. zar se moveram tanto, que êles mesmos depois vieram pedir o baptismo e o recebiam já muitos. Tudo isto faz Jusumandono Pedro publicamente, sem ter de ver com a tia junto da qual mora, nem menos com outros respeitos huma- nos, e cada dia mais vae crescendo na fé e devoção, desejando de comunicar a ii
  • 82 Das coisas de Japão outros o tesoiro que achou, como tem feito a alguns que Deus por seu meio trouxe a conhecimento da verdade. Não foi de menor consolação e edificação a notável conversão de uma moça de idade de i5 ou 16 anos. Havia já alguns que esta desejava de ser cristã sem nunca o poder efeituar por todos seus parentes serem gentios, e o pai entre todos inimicíssimo de nossa santa lei, da seita dos foqueixos, homem assomado e furioso, de quem a filha tinha grande medo. Esta moça desde idade de dez anos, vendo a má vida que seu pai dava a sua mãe, fêz muitos votos e devoções gentílicas a Atango (que é um Cami ou para melhor dizer demónio que se adora em um monte perto do Meaco) para que tirasse a seu pai a ocasião donde lhe nascia tratar tão mal a sua mãe; e vendo que por mais votos e devoções que fazia, nunca seu pai acabava de ser o mesmo, e ouvindo algumas vezes dizer como os cristãos adoravam o verdadeiro Deus do céu e da terra, lhe vieram grandes desejos de se fazer cristã; e levada com êles, ia de quando em quando a casa de um cristão que morava perto de sua casa, e pra- ticando-lhe a mulher do cristão e uma sua filha da mesma idade as coisas de nossa santa fé, particularmente os mistérios de Cristo nosso Senhor, pelos saberem muito bem, e juntamente como depois da morte havia de haver juizo e inferno para os gentios e máus, e paraíso para os bons cristãos que guardam os mandamentos de Deus, os quais ela ouvia e lhe pareciam muito bem, cho- rava muitas vezes e dizia: Ó bemaventurados vós outros que servis ao verda- deiro Deus dos céus e da terra e haveis de gozar sempre do paraíso; e triste de mim que inda que queira ser cristã o não posso ser, e de dia e de noite sou forçada a estar entre demónios, adorando o demónio contra minha vontade, por assim me mandar meu pai e meus parentes que o faça. Ouviu nosso Senhor os desejos e lágrimas desta moça e deu-lhe ânimo para mais de pro- •Fi.61. pósito em casa deste cristão ouvir as coi*sas de nossa santa fé, e depois de sabidas veio um dia em companhia da mulher do mesmo cristão e da filha à nossa igreja, e declarando ao padre seus desejos tão antigos e contínuos, lhe fêz o padre praticar uma tarde as coisas do catecismo por não poder vir muitas vezes ouvi-las. E fazendo delas bom entendimento, a baptizou logo e se foi muito alegre, sem dar disto conta mais que a sua mãe, na qual só achava algum favor. Mas não se podendo isto por muito tempo encobrir, vieram a saber seus parentes que era cristã, pelas contas e Agiius Dei que lhe viram, pelo que apertaram com ela muito que deixasse de o ser, ameaçando-a que se o não fizesse o haviam de dizer a seu pai; porém nenhuma mossa fizeram nela todas estas ameaças, mostrando-se sempre muito constante. Pelo que vendo-a os parentes tão resoluta em ser cristã, temendo que se o pai o soubesse, não poderia deixar de fazer algum desatino contra a filha e contra o cristão seu vizinho, lhe tiraram por força as contas e o Agiius Dei, mandando uma coisa e outra à casa do cristão. Nada se perturbou com isto a moça, mas para que o cristão não cuidasse dela outra coisa, mandou-lhe logo um recado que ainda que lá visse aquelas peças, não era ela a que as mandava, nem deitava de si, pois estava muito firme na santa fé que recebera, mas que as guardasse muito bem, que quando ela da casa dos parentes, onde então estava, fôsse ver sua mãe, iria a sua casa e tornaria a cobrar ambas as coisas, como logo fêz; e
  • Das coisas de Japão 83 porque não podia ter imagem em sua casa publicamente para se encomendar a Deus por razão do pai e tôda a mais família que são tão grandes gentios, houve um relicário que traz consigo, onde tem pintada uma imagem, diante da qual às escondidas se encomenda a Deus. Aconteceu no Meaco que manda- ram em um dia de verão da casa do Dairi avisar a gente daquela parte da cidade onde ela mora, que havia de haver naquela noite um grande tremor de terra, que cada um se vigiasse. Assombrados os gentios se sairam todos fora de suas casas para as ruas e conforme a devoção de cada um invocavam seus fotoques chamando por Xaca e Amida e por outros semelhantes demónios, a quem pediam que os livrassem do terremoto. Mas a boa moça neste tempo estava-se * encomendando à Virgem nossa Senhora, e pedindo-lhe que não per- • fi. 61 mitisse morrer ela entre tantos gentios; que em caso que houvesse de morrer, que ordenasse fôsse seu corpo enterrado entre cristãos; porém nem ela morreu nem houve tremor da terra. E o cristão seu vizinho, em cuja casa ela muito corre, conta tantas coisas ao padre de sua virtude e constância, que são ocasião de muita glória de nosso Senhor. Aconteceu nesta cidade do Meaco um caso que ainda que não é de cris- tãos, é todavia tão notável por ser entre gentios, que merece ser posto em memória. Havia nesta cidade uma mãe que tinha três filhos, e porque não tinham pai, todos êles se juntaram para sustentar a mãe por ser muito pobre. E não o podendo bem fazer, fizeram um concerto entre si, o qual foi que um deles se fingisse ladrão corta-bôlsas e os dois o fossem acusar ao juiz, para que morrendo êle com título de ladrão desse a vida para remediar e a dar a sua mãe, porque estava posta uma chapa em público ou provisão, que a todo o que trouxesse algum ladrão dêstes amarrado, lhe dariam de prémio certas barras de oiro, fazendo conta que com este prémio que lhes dariam aos dois por leva- rem amarrado o terceiro e o entregarem à justiça por ladrão corta-bôlsas, pode- riam sustentar sua mãe. E tinham tratado de lançar sortes entre si sôbre quem se havia de fingir o ladrão, para que aquele em quem ela caísse, se deixasse atar e dizer de si que era o que os outros afirmavam. Caiu esta sorte sôbre o mais pequeno, o qual logo se deixou atar dos dois que o levaram a casa do juiz, acusando-o por ladrão. E êle à primeira pergunta que o juiz lhe fez, confessou logo de si que o era. Mandou logo o juiz dar aos dois o prémio das barras de oiro que estava proposto, o qual recebido e querendo-se ir com elas, se foram primeiro despedir do menor que ficava atado para logo ser jus- tiçado. Nesta despedida o preso começou a chorar e os dois não podendo também reprimir as lágrimas não faziam senão alimpar os olhos. Vendo o juiz isto, e que os dois se despediam do terceiro nao como malfeitoi senão como amigo, em êles se saindo, mandou um criado seu que fosse após eles, e seguindo-os visse onde entravam e o que faziam ou diziam; entretanto mandou que * não executasse o preso, mas o tivesse guardado. Chegando os dois a »fi.6í. casa da mãe, lhe deram conta de tudo o que passava e tinham feito; a pobre em ouvindo se começou a carpir e dizer com grandes gritos, que não queria seu oiro, que o fossem botar no mar, e que antes queria morrer à pura fome que morrer por sua causa filho algum seu. Ouvindo isto o criado do juiz foi contar tudo a seu senhor, o qual chamando o moço e fazendo-lhe perguntas, o
  • 84 Das coisas de Japão pobre lhe contou tudo quanto passava; e como era um caso tão raro, o juiz foi logo dar conta de tudo ao Cobuçama, o qual ficou muito maravilhado, e se espantou muito mais do amor e piedade natural dos filhos para com sua mãe e chamando-os a todos três os louvou muito e deu de renda ao menor que se ofereceu à morte mil taéis que são de nossa moeda mil e quinhentos cruzados e quinhentos a cada um dos outros dois. CAPÍTULO XVII De algumas missões que se fizeram da casa de Meaco a diversas partes e reinos POR algumas vezes foi um padre às serras do reino de Teunocúmi a visitar e confessar aquela cristandade, que é uma das melhores de todo Japão e muito antiga e do tempo que Justucundono era senhor daquelas terras; e como êstes cristãos são gente muito singela, vivem com tanta pureza de alma e inteireza na fé que parecem umas rosas puríssimas entre aqueles matos e serras, cercadas todas de espinhos da gentilidade que por ali há. Também se visitaram por duas vezes os cristãos do reino de Tamba, os quais pôsto-que ao princípio eram poucos em número, com estas visitas se começou o fogo divino a atear de maneira que se vai já fazendo naquele reino uma arrazoada cristandade; para o que ajudou e ajuda muito o bom exemplo que dão os fidalgos cristãos que ali vivem, criados de Xugendono, tão bom cristão e senhor daquele reino. E de mui grande estima e glória de Deus a notável »fi.62v. edifica*ção com que procedem êstes fidalgos não se achando entre êles quem em sua vida se desmanche nem se desordene, mas como se foram uns reli- giosos assim se conservam e vivem, não sòmente procurando em tudo o proveito de suas almas, mas também o das dos gentios, persuadindo a muitos se façam cristãos e desejando de acrescentar muito nossa santa fé; para o que por muitas vezes teem pedido lhes deem um padre que resida com êles, oferecendo-se a o sustentar à sua custa e lhe fazer a casa e igreja. E pôsto-que isto seja de todos em geral, há um em particular tão fervoroso que fêz em sua casa uma igreja muito bem acabada, pondo êste título com letras abertas por sua mão em uma táboa muito limpa e bem concertada sobre o arco da capela, o qual diz. Teu Teugi, que quere dizer: Templo que tem comunicação com o céu; dando a entender que pelo caminho da igreja de Deus se comunicam o céu e a terra. Levantou mais, em cima de um monte a cujo pé está esta igreja edificada, uma formosa cruz, indo êle em pessoa a um bosque cortar o páu para ela, o qual com festas e danças trouxe; e depois da cruz bem lavrada a arvorou no alto daquele monte, como estandarte de Cristo que dali tomava posse de tôdas aquelas terras; e ante dela fêz uma casa mui limpa a modo de alpendre para os cristãos dali adorarem a santa cruz; e ainda que os mais da terra são gentios, não houve quem nisto lhe fosse à mão, e os cristãos se alegraram tanto com isto que teem êste logar por uma devota romaria, onde vão algumas vezes na semana a fazer sua adoração diante da santa cruz. A êste fervor e zêlo dêste
  • Das coisas de Japão 85 nobre cristão, se acrescenta a grande caridade que tem para com os enfermos, ajudando-os quanto pode em suas enfermidades, e se porventura algum morre êle é o que em ausência do padre e irmão faz o ofício, indo em pessoa enter- rá-lo e rezar-lhe as orações. E com isto que nele viam os lavradores gentios de suas terras, e com os conselhos bons que êle sempre lhes dava, se moveram de sorte que todos, sem ficar um só, se fizeram cristãos. Outra missão se fêz aos reinos de Mino e Voari, em que se visitaram aqueles cristãos que ali há, os quais ainda que ao presente não são tantos como foram os anos atrás antes * das guerras, por cuja ocasião se espalharam por »fi. 63. diversas partes, ainda contudo há um bom número dêles, que como semente ficaram para nosso Senhor dela ir produzindo e alevantando uma grande cris- tandade. Consolou-se muito o padre que foi a esta missão, vendo como aquêles cristãos no meio de tantos gentios, entre os quais vivem, se conservam todos com tanta inteireza em nossa santa fé e na guarda da lei de Deus. Confessa- ram-se todos, levantaram-se alguns soldados honrados, que por andarem muitos anos por reinos mui afastados dos padres, tinham caido em algumas fraquezas nas coisas da fé. Ouviram de novo as prègações e receberam nova luz; e de novo se fizeram cristãos quatro soldados nobres e dois pagens principais de Ximuteuquedono, senhor do reino de Voari e filho do Cubo. Outra missão se fêz aos reinos de Focócu que estão para a parte do norte cinco ou seis dias de caminho do Meaco. Nestes reinos está Justo Ucondono tão antigo e conhecido cristão, com muitos criados seus todos cristãos. Há também aqui muitos que vieram de diversas partes, e outros que pelo tempo se foram fazendo, de modo que serão por todos perto de mil e quinhentos. Nesta missão gastou o padre seis meses ou mais, fazendo-lhe sempre Justo (por cujo respeito principalmente ela se fêz) muito grande gasalhado. É Justo a cabeça de todos os cristãos que ali há, pôsto-que também há muitos outros mui honrados e criados graves de Fingendono, senhor daqueles reinos, dos quais é um Naito Fidandono João, de que acima falámos, mui antigo e nobre cristão, e que depois de desterrado por causa da fé do reino de Fingo, por mandado de Canzuge, senhor daquele reino, como em outras relações se disse, se foi para os de Focócu, onde serve a Fingendono com a mesma renda ou melhor da que tinha quando servia a Canzuge. Há nestes reinos três igrejas, uma no reino de Canga, na mesma cidade e corte de Fingendono, duas no reino de Noto nas terras de Justo Ucundono. Aproveitaram-se muito os cris- tãos do tempo que ali residiu o padre, assim com o uso dos sacramentos, como também com as prègações, missas e práticas contínuas de boas coisas, que sempre havia com a presença do padre e do irmão; com o que todos fica- ram * consolados e animados a ir por diante no bem. Baptizaram-se passante "FI.63V. de oitenta adultos e entre êles algumas pessoas graves. Baptizou-se um bonzo muito visto nas letras de Japão. E porque feito cristão ficava desacomodado e com pouco remédio, Justo o tomou à sua conta para o prover do necessário. Êste dizia que com ser antes pouco inclinado às coisas de salvação, depois de baptizado não sabia o que era que sentia, totalmente mudado, e não somente com grande satisfação e alegria de alma, mas com uns grandes estí- mulos de tratar das coisas de que dantes não gostava; pelo que êle mesmo se
  • 86 Das coisas de Japão espantava de si e tinha isto por um grande argumento da verdade de nossa santa fé. Com a presença e doutrina do padre se espertaram alguns que andavam tíbios e fracos, outros que por fraqueza tinham caído e retrocedido na fé se tornaram a alevantar. E entre estes o fizeram quatro criados honrados de Fingendono; um dêles muito privado seu, a quem o mesmo Fingendono repre- endeu porque se não reduzia, pois o padre estava na terra e a lei de Deus tinha para isso um remédio tão fácil como era o arrependimento e confissão. Donde se pode coligir o entendimento que êste senhor tem das coisas de Deus e dos cristãos, pois as sabe tão miudamente e lhe tem tal afeição que se fêz prègador delas. Visitou o padre a êste Rei com um presente que lhe levou conforme ao costume de Japão; êle o estimou e agradeceu muito tudo, e por esta ocasião falou por um grande espaço de nossas coisas, dizendo diante de todos que eram muito para se ouvir, e que ainda que um não fôsse cristão, eram elas tais que qualquer homem se havia de prezar de as saber, pois eram coisas de muito entendimento e mui subidas; que êle as desejava de ouvir e que de dez partes às seis se havia de fazer cristão; que conforme a frase de Japão quere dizer que, ouvindo-as, estava mui perto de ser cristão. Final- mente falou tão por extenso nesta matéria com Justocundono e tantas coisas disse diante de todos em louvor de nossa santa lei e dos padres que a prega- vam, que foi necessário encolher-se por modéstia e mudar a prática, por alguns gentios mal afectos à nossa santa lei lhe não cobrarem algum ódio e rancor pelos bens que dela dizia Fingendono. Uma das mulheres da casa dêste prín- «Fi.64. cipe, só com o que êle tem dito de nossa santa * fé, fêz tal entendimento e se afeiçoou tanto a ela, que renunciando de todo à adoração dos ídolos, se tem e professa por cristã, o que êle não sòmente consente, mas antes a exorta e lhe diz sempre que seja muito boa cristã. E assim procedendo a boa mulher nesta simplicidade sem ser baptizada, pois está em poder dêste senhor gentio que a tem por uma de suas mulheres, corre com todas as coisas como crista, e isto com tanta devoção e cuidado de cumprir com todas as coisas que costumam a fazer os cristãos, que a muitos que de verdade o são leva vantagem. Sabe quando são os domingos e as festas, jejua e toma suas disciplinas. Finalmente nenhum outro cuidado tem maior que das coisas da salvação, pelo que é muito de esperar que nosso Senhor haja misericórdia dela e lhe abra caminho com que se possa baptizar e salvar; porque como está em poder de um príncipe gentio do qual se não pode livrar, não é possível receber o santo baptismo. Vendo-se esta mulher com outras suas companheiras em uma ocasião de certo trabalho de que já todas se davam por mortas, as companheiras fizeram suas deprecaçoes aos Camis e Fotoques; mas ela escreveu a Justo Ucundono uma carta dizendo-lhe que estava naquele apêrto e que como era cristã (que por tal se tem) não podia rogar aos Camis e Fotoques e pedir-lhes socorro como faziam as outras, pois sabia que êles lho não podiam dar, lhe pedia rogasse a Deus por ela e procurasse que o mesmo fizessem os cristãos. Foi o Senhor servido que saisse bem do apêrto em que se via, pelo que mandou logo dar as graças, atribuindo tão boa conclusão de seu negócio às orações que por ela se tinham feito, com que ficou mais confirmada em seu bom propósito. Ajuntou
  • Das coisas de Japão 87 mais que estando daquela maneira, poderia acontecer ver-se outra vez em semelhante aperto, sem culpa sua, como agora não tivera, pelo que estava com grande e contínua aflição, da qual desejava de se livrar, ainda que fosse com se matar. E por isso folgaria de saber se o poderia fazer sem pecado, ao que se lhe respondeu como não era possível, animando-a a que se encomendasse muito a Deus e confiasse muito nele. Assim por esta boa mulher como pelo que Fingendono fala sempre das coisas de nossa santa fé, é mui ordinário entre as mulheres e gente de sua casa falar-se das coisas dos cristãos e ainda o pró- prio Fingendono se diz que as persuadirá à sua própria e legítima mulher, que é uma filha de Nobunanga * e não há pequenos fundamentos e esperanças para • nosso Senhor nesta casa e gente fazer alguma grande maravilha de sua glória, na conversão de gente tão disposta e bem afecta para as coisas de nossa santa fé. E assim com êstes tão bons princípios e sinais de poder haver grande conversão naqueles reinos, e também por haver nêles tão bom número de cris- tãos, se moveu Justo Ucundono a pedir agora com mais instância se pusesse ali um padre de assento, pois não havia que duvidar do bom ânimo de bingen- dono para com as coisas de nossa santa fé o qual tantas vezes manifestou. E conforme ao que dêle se entendia, se não fôra o respeito do Cubo já ouvira mais de propósito as prègações, e não menos do fruto que com a residência do padre ali se colheria, pelo que pareceu conceder-se tão justa petição e fundar de novo esta residência, a qual se faz na cidade principal do íeino de Canga, onde Fingendono tem sua côrte. E pôsto-que o fruto que dela se espera é muito grande, ainda que não fôra mais que desejá-lo Justo para sua consolação e dos seus, bastava sòmente isto para se lhe conceder, pois tão bem o merece sua tão antiga, provada e conhecida cristandade; e êle próprio à custa de sua fazenda, tem já feito casas e igreja de novo para agasalhar o padre e o irmão e todos os mais que levar consigo e toma à sua conta a sustentação daquela nova e tão importante residência. Em o reino de Jechigem, que e também para a parte do noite e caminho para o reino de Canga, há alguns cristãos, que ainda que poucos em número, unidos porém todos e conformes se conservam na fé no meio daquela gentili- dade. Visitou-os o padre com o que grandemente se consolaram, por haver muito tempo que o não tinham visto. Deteve-se com êles o tempo que pareceu neces- sário, administrando-lhes os sacramentos com muita consolação sua, por ver a fortaleza e constância daqueles fiéis, que vivendo entre gentios não faltam em sua obrigação, antes lhes dão tal exemplo que com êle os movem a pedir o sagrado baptismo, o qual o padre deu a dez ou doze que êles já tinham bem catequizados; e antes de o receberem já jejuavam a Quaresma, tomavam suas disciplinas, festejavam os domingos e dias santos, ajuntando-se com os outros cristãos em uma casa que para isso teem a fazer oração e a praticar das coisas de Deus.
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  • * L I V R O SEGUNDO DAS COISAS DA CHINA CAPÍTULO PRIMEIRO Do colégio de Macau e estado em geral das coisas da China acerca da cristandade ABEÇA e seminário principal das duas grandes missões dos reinos da China e Japão é o colégio que a Companhia tem na cidade de Macau, porto que ainda que o é do reino da China é quási todo povoado de portugueses; o qual colégio depois que se fêz, com pela maior parte se sustentar das esmolas que os moradores da terra lhe Jazem, foi tanto crescendo assim em número como na qualidade de sugeitos que dêle saem todos os anos para todos os reinos, feitos teólogos e letrados suficientes para a pregação do santo Evangelho; que é coisa para dar muitas graças a nosso Senhor, ver o serviço seu que dêle resulta na conversão da gentilidade, e no que nesta própria cidade também se faz com os moradores dela. E deixando as coisas do Japão para seu lugar, tratando só o que per- tence à China, com muita razão se pode alegrar e glorificar muito a Deus tôda a cristandade da Igreja Universal, por se ver já naquele grande e poderoso reino o Evangelho de Cristo tão entrado, e o estandarte real de sua santíssima Cruz levantado e prègado nas principais cabeças * dêle, que são as duas cortes • de Nanquim e Pequim e noutras cidades e lugares; e os prègadores dêle anda- rem já com tanta liberdade por todo aquele reino, indo e vindo da corte, como se fôra por qualquer outro reino da cristandade de Europa. Coisa que (para quem sabe o estilo da China e de seu governo, e quão odioso é naquele reino o nome de estrangeiros, e quão fechada está para êles a entrada nêle) nunca se cuidou que dentro em cem anos se pudesse ver. Mas como Deus é mais poderoso que todas as indústrias e governos humanos, favoreceu tanto a paciên- cia de sessenta anos que há que os padres de nossa Companhia andam batendo a esta porta, que emfim lhes deu a vitória que desejavam; o que estava bem fora de se alcançar por fôrça alguma, nem de poderosas armadas, nem de grandes exércitos que de Portugal ou Castela puderam ir, se por fôrça de armas ou conquista se pretendera introduzir o Evangelho naquele grande reino. Porque a gente, ainda que de sua natureza é fraca e pouco belicosa e para se lhe fazer guerra houvera justa causa, conforme porém à experiência que teem 12
  • 9o Das coisas da China da China os que nela andam há tantos anos, coisa de sonho fôra cuidar que por via de armas nem a China se poderia conquistar, nem pregar nela o sagrado Evangelho. Porque quando o valor da gente faltasse, a multidão dos soldados e o poder das armadas que nela há e o governo com que tudo se governa é tal, que bastara para se poder defender a mui grande poder do mundo. E é certo que se agora em alguma maneira se tentasse fazer-lhes alguma sombra de guerra, com qualquer pretexto que fosse, como desejam alguns mal informados e mais levados por seu interesse particular e cobiça que por zêlo do bem comum nem do serviço de Deus e de Sua Magestade, e ou fosse por via dos portugueses pela parte da índia Oriental, ou dos espa- nhoes pelas Filipinas, além de nem uns nem outros poderem fazer coisa de proveito nem de dura, e de por isso se perder de todo aquele comércio tempo- ral, também o que está ganhado por parte do sagrado Evangelho sem dúvida de todo se perderia, nem poderia o diabo achar invenção mais eficaz que esta para de todo outra vez tornar a fechar a porta daquele grande reino à prègação da fé, que agora pela misericórdia de Deus está tão aberta. •fi. 66. * E ainda que os cristãos até agora não são muitos em número, pois não passam de mil em tôdas as quatro casas de Pequim, Nanquim, Nanchão, Xaucheu, contudo a qualidade de muitos dêles e o grande crédito que nossa santa lei e os prègadores dela cada dia vão ganhando em todo o reino, e prin- cipalmente na côrte, estão dando mui certas esperanças que êste grãozinho de mostarda, que já está nascido naquele grande campo, venha a crescer em uma árvore tão formosa, que faça uma das maiores e mais formosas cristandades do mundo. E assim dizem os padres que lá andam que pela disposição que vêem naquele grande reino e gente dêle, e crédito em que já está nossa santa lei, lhes parece que para conversão daquele reino tem nosso Senhor já feito de sua parte quanto era necessário; que só falta da nossa parte cooperar com muitos obreiros e fervor de espírito, pois os mesmos mandarins grandes e poderosos da côrte se lhes estão oferecendo com muita instância para imprimirem à sua custa os livros e tratados que fazem e assim se puderem espalhar pelo reino; de modo que escassamente lhes sai livro das mãos que logo não seja impresso pelos mesmos mandarins letrados, e ornados por êles com proémios mui ele- gantes e honrosos, como abaixo se dirá; chamando ao padre Mateus Ricio que os compõem, já grande mestre, já santo, já^céu e terra, porque tratando tão alta e súbtilmente do céu e da terra, parece conforme a frase sínica, que um e outro traz metido no peito. Outros lhe dizem que façam ir mais companheiros, outros os convidam com instância queiram ir com êles para suas terras para nelas divulgarem tão santa lei. De modo que se houvera com que os prover e sustentar, muitas outras casas e residências se puderam fazer além das que já estão feitas. Porém a falta do necessário para a sustentação não sòmente im- pede aceitarem-se novas residências, mas nem ainda as que estão feitas se puderam sustentar nem ser socorridas com mais companheiros, se não foram alguns devotos moradores de Macau, que movidos com o fruto que viam se ia começando a colher, lhes pareceu coisa indigna da piedade cristã deixá-lo per- der à míngua do provimento ordinário para os padres que eram necessários. • fi. 66 v. E assim se ofereceram quatro ou * cinco que ajudariam a os sustentar, emquanto
  • Das coisas da China 9' se dava conta do estado desta nova conversão ao Vizo-Rei e a Sua Magestade. E sobre esta boa vontade e palavra, nomeou logo o Padre Visitador daquelas partes seis padres, todos teólogos de boas partes e idade, para poderem apren- der a língua, e ir acudir àquela grande messe. Para o qual começaram tam- bém logo a criar o cabelo e deixar crescer a barba como lá a trazem os padres pela terra dentro, com muita edificação dos seculares da cidade e de outros religiosos que se não fartavam de falar nisso. Mas andando-se aviando, foi nosso Senhor servido que por falta do necessário se estorvasse sua ida, de modo que só três puderam partir, e a ocasião foi a seguinte: Aos trinta de Julho do ano de seiscentos e três, entre as onze e meio-dia, chegou à cidade de Macau um junco de Sião com novas como no Março pas- sado a nau da China que ia para Malaca, a mais carregada e rica que há muitos anos fôra outra, fôra tomada pelos holandeses no estreito de Singapura. E logo na mesma tarde estando já abarrotada e pronta para partir na seguinte a nau que ia da China para Japão, chegaram ao mesmo porto de Macau duas naus e um pataxo dos mesmos inimigos e a tomaram sem nenhuma resistência, por não haver nela gente, que tôda andava em terra aparelhando-se para se ir embarcar. E como os moradores da cidade de Macau perderam nestas duas naus quási todo seu cabedal, que lhes importaria em ambas perto de um conto de oiro, e na de Japão mandavam ainda mais do que tinham em fazendas que compraram fiadas, ficaram todos mais em estado de pedir esmola que de a poder dar; pelo que os seis padres que se andavam aparelhando para as mis- sões da China com fundamento das esmolas que os devotos e amigos tinham prometido, não puderam ir pelo menos todos, mas foram somente três, e êstes ainda com muita dificuldade, e com os padres se empenharem para os poderem aviar, porque as necessidades chegaram a ponto, que se tratou não sòmente de não irem, mas das quatro residências da China tirarem duas, por não haver com que as sustentar. Porém considerando o Padre * Visitador Alexandre *fi.67. Valinhano, por outra parte, quão grande quebra era do próspero curso que levava aquela missão de tanta glória de Deus e quão lastimosa coisa seria desamparar os cristãos que já estavam feitos e tornar atrás em uma obra tão divina, não lhe podendo sofrer o zêlo grande que tem do aumento da fé que o demónio ficasse com esta vitória, êle mesmo por si e os demais padres, tra- tando com os próprios mercadores gentios, houveram dêles empréstimos com que não sòmente se pôde efeituar a ida dos três, mas ainda se negociou algum remédio que se pudesse mandar aos padres de Japão. Impediu esta perda outra coisa das melhores e mais eficazes que se acha- vam poderem ajudar para a conversão da China, que era um seminário dos meninos filhos dos cristãos que se fossem baptizando, que se entende seria na China, e será, se alguma hora se fizer, ainda mais importante que no próprio Japão e que em nenhuma outra parte da cristandade. E a razão é esta; porque como na China o caminho mais certo para os homens virem a valer e crescer é o das letras, pelas quais montam mais que por via de armas, nem de qual- quer outro meio dos humanos, os naturais as teem em tão grande estima e são tão dados a elas, que até os oficiais mecânicos como teem para pagar o mestre, mandam estudar seus filhos. Donde se segue um grande perigo aos meninos
  • 92 Das coisas da China cristãos, que como nas escolas onde hão de aprender e estudar hão de andar entre condiscípulos e mestres gentios, não poderá deixar de lhes acontecer o que diz o profeta: Commixti sunt inter gentes dedicerunt opera eorum, que misturados entre gentios farão o que êles fazem e fàcilmente perderão com êles o que aprenderem com os padres. Pelo que tratavam o Padre Visitador e os demais padres de por via das esmolas dos moradores e mercadores de Macau que para isto mostravam tanta piedade, darem nestes anos algum prin- cípio a êste seminário, recolhendo em nossa casa os meninos cristãos que hou- vessem de mais habilidade natural para a virtude; porque aprendendo nela suas letras juntamente com as virtudes e santos costumes da fé e religião cristã, fi. 67 v. se podiam esperar deles todos êstes proveitos. O primeiro, que * os pais ficariam mais benévolos e afeiçoados a nossas coisas, vendo que dando êles aos padres seus filhos meninos e ignorantes, os padres lhos mantinham e ensi- navam por tantos anos e no cabo deles lhos tornavam a mandar para casa feitos homens e letrados, coisa que êles tão grandemente estimam. O segundo, que os que tivessem vocação poderiam entrar na religião, como fazem os japões, e ajudar aos padres no meneio da cristandade, pois teem para isso bastante sufi- ciência. O terceiro, que os que Deus não chamasse para ser religiosos sairiam pelo menos de nossa casa letrados e bons cristãos, e chegando a ser mandarins, como é ordinário depois de graduados, favoreceriam os cristãos, autorizariam a cristandade, levariam os padres às cidades e comarcas onde fossem com ofícios e assim à sua sombra se espalhariam por todo o reino com muita facilidade e quietação. O quarto, que se El-Rei pelo tempo em diante movesse perseguição como fêz o de Japão, êstes os amparariam e recolheriam, como agora fazem os mandarins a seus amigos quando andam homiziados. Finalmente o quinto, que governariam com mais justiça, inteireza, suavidade e fidelidade, do que fazem os gentios, o que também seria um grande meio para El-Rei folgar com os padres, vendo a boa gente que lhe faziam para o servir no govêrno do reino, e estimaria mais a lei de Deus, pois os cristãos pelo que nela aprendiam faziam melhor seus ofícios. Por todas estas razões desejavam os padres tanto começar esta criação de meninos, que faziam conta privar-se assim de uma grande parte das esmolas que os devotos e amigos lhes prometiam e gastá-las nesta obra tão pia, até que Sua Magestade ou algum senhor de Europa quisesse dar fundação para um dêstes seminários, que ainda que tão remoto destas partes de cá, tanto mais aceito seria a nosso Senhor, quanto mais ajudaria para o aumento da Igreja Católica e exaltação de sua fé naquele tão grande e cego reino da gentilidade, que depois de convertido virá a ser tão ilustre na Igreja. Mas tôda esta traça se desfêz com a tomada daquelas duas naus, nem parece que tão cedo se poderá pôr por obra. E ainda que no ano seguinte depois desta perda nosso Senhor • fi. 68. trouxe a salvamento a nau de Ja*pão, que com empréstimos e fazendas fiadas dos mesmos gentios se pôde mandar lá, contudo, como os homens estavam tão quebrados, ainda que todos fizeram suas esmolas para ajuda desta obra da con- versão da China, não puderam porém arribar a mais que para se poderem mandar outros três padres, que não foi pequena mercê de nosso Senhor; por- que com êles estão agora pela terra dentre dêstes reinos dezasseis da Compa-
  • Das coisas da China g3 nhia, divididos pelas quatro residências dêle, três padres e um irmão em cada uma, para que desta maneira se possam consolar e animar uns com os outros nos trabalhos e perseguições que nunca faltam entre gentios; e além disto sair de uma parte para outra a fazer suas missões, ficando sempre a residência pro- vida. Isto quanto ao que toca ao colégio de Macau, seminário destas missões, Japão e China. Nele houve também alguns gentios que de novo se converte- ram a nossa santa fé, e todos ou os mais dêles por meio de um cristão por nome André, que havia um ano se convertera, o qual entrou em tamanho fervor de espírito e conhecimento das coisas de nossa santa fé, que não contente dêle só gozar de tamanho bem, determinou de fazer também participantes a muitos, e assim depois de êle por si lhes prègar, os trazia a um padre dêste colégio, que sabe a língua, para que também lhes pregasse; e dia houve em que viriam mais de cincoenta ou sessenta ouvir as coisas de Deus, dos quais, ainda que a maior parte se não convertia logo, ficaram pelo menos com grande conceito das coisas de nossa santa lei, confessando-a por boa e verdadeira. E o bom André desejando também de anunciar o nome de Deus à sua própria pátria, que dista daqui um mês de caminho, se partiu para lá, não fazendo caso dos muitos peri- gos a que por tão justa causa se punha; e foi com intenção de, havendo dispo- sição para em sua terra se poder prègar o Evangelho, haver licença dos man- darins para lá ir um padre. Outro homem de muita importância se converteu aqui, que foi um médico do Daifu, senhor do Japão, o qual é china de nação, e veio êste ano de Japão a Macau, por mandado do mesmo Daifu seu senhor, a buscar para êle algumas medecinas, que lá não há, e com seu exemplo fêz o mesmo um criado seu. E porque é bem que * se saiba alguma coisa mais em particular do que pela • terra dentro se faz, trataremos das casas cada uma por si, começando pela corte por ser cabeça. CAPÍTULO II Da residência e casa de Pequim e do que nela se fe\ ESTIVERAM êstes anos na residência e casa desta côrte três de nossa Companhia, que foram o padre Mateus Ricio e o padre Diogo Pantoja e o Irmão Jacobe, japão de nação, com três estudantes que em tudo cor- rem como irmãos nossos. A ocupação de todos é ir lançando os fundamentos e usando de meios, cada um conforme o seu talento, para o edifício da fé que vão começando a fabricar: os padres com prègar, ensinar, escrever livros acomo- dados e tratar com os próximos, como abaixo se dirá; o irmão que é excelente pintor, com suas pinturas, com as quais (usando das palavras do padre Mateus Rício) faz pasmar todo aquele mundo da China, tanto que confessam todos que não há pintura na China em comparação da sua, estando dantes perábadidos que não havia outra senão a da China. É verdade que até agora usa o irmão desta arte com tanto segrêdo que só dois cristãos muito fiéis sabem parte disto; e a razão é porque vindo a saber El-Rei, não se poderá ocupar em outra coisa que em obras suas e de mandarins grandes e ficava exposto a perigo de não
  • 94 Das coisas da China podermos deixar de ter agravados, se não pudesse satisfazer a todos os que quisessem alguma peça de sua mão. O padre Pantoja se ocupa principal- mente em catequizar e instruir os que se hão-de baptizar por saber já ler bem a lingua da China que todo êste tempo estudou com um mestre cristão. O padre Mateus Rício acode às visitas com as quais não pode deixar de correr, assim fazendo-as como recebendo as que veem a casa, que na China especial- «fi 69. mente na côrte é uma ocupação tão grande que ninguém * que com olhos o não veja e experimente o poderá crer, por serem os chinas principalmente gente nobre nisto tão miúdos e pontuais, que há mister particular estudo para se aprender o estilo das cortesias e visitas, que entre si usam; e é êste um dos meios por onde os padres teem adquirido e conservam por amigos a maior parte dos grandes desta côrte. Na qual para se ver a altura da opinião e cré- dito em que os nossos padres estão assim de letras como de virtude e de ver- dadeiros na lei que ensinam, porei aqui um capítulo de uma carta que o padre Mateus Ricio escreveu ao padre Visitador da China e Japão, em Abril de 1604, que diz assim: Como esta côrte é aonde El-Rei está e concorrem a ela tão grande número de mandarins de tôdas as partes do reino, vendo que nela tratamos com todo género de pessoas e que somos tratados dêles com muita cortesia, não sòmente aqui mas em tôdas as mais residências cresce cada vez mais o respeito e autoridade dos padres. E nesta côrte pela misericórdia de Deus estamos já em tal fôro, que nem os Colaus, que são os supremos do conselho do estado de El-Rei e o mais alto de todos, nem os Xanxus, que são as cabeças e presi- dentes dos seis tribunais que há de todo o govêrno dêste reino, que são o da justiça, da fazenda, das obras de El-Rei, dos exames dos letrados, dos negócios dos estrangeiros, das coisas tocantes à pessoa do rei, nem os mesmos parentes de El-Rei se desdenham de tratar connosco com tanta familiaridade e cortesia, como se fôramos seus iguais; donde pelo conseguinte todos os mais manda- rins nos tratam com a mesma cortesia e benevolência. E não imagine V. R. que temos alcançado pouco depois que nesta côrte estamos, porque podemos dizer que com nossa entrada e estada nela se tem movido e revolvido todo êste mundo de cá, mudando muitas opiniões erradas que primeiro tinham; e todos estão espantados das muitas verdades e tão importantes que por todo êste tempo com tanta clareza lhes temos descoberto, porque além das sobre- naturais e divinas, ficam muito admirados das naturais que lhes ensinamos, como são do céu se dividir em dez orbes, da terra estar no meio da máquina dêste mundo e ser redonda e por riba e por baixo e por tôda a parte habitada, •fi. 69v coisas nunca para êles ouvidas, dos eclipses * do sol e da lua, da variedade que há em diversas partes de noites e dias e da causa desta diversidade, que nasce da diversidade do caminho que o sol pelo Zodíaco vai fazendo, da qual também se causa serem os dias em umas partes e as noites maiores ou menores que em outras de vinte e quatro horas, até chegarem algumas delas a ser por seis meses contínuos noite ou dia, e mostrar-lhes tôdas estas coisas naturais muito claramente como também serem os elementos quatro e haver fogo debaixo da esfera da lua, com que se lhes declara fàcilmente as causas dos cometas e outras exalações; das quais coisas tôdas, como nelas antes iam tão errados e agora
  • Das coisas da China g5 as entendem com tanta clareza, ficam admirados; e não menos se espantam dos globos e mapas que fazemos, pondo-lhes como em uma palma da mão diante tôda a redondeza da terra com todos os reinos dela e graduando não sòmente de norte a sul mas de leste a oeste, com que fàcilmente se dão razão e se resolvem infinitas questões, nas quais tôdas estavam com tão grandes enganos e erros; por onde tendo primeiro aos estrangeiros todos por homens de tão pouco saber que nenhum caso faziam deles, agora confessam que se enganavam e que eles são os que nada sabem em comparação dos nossos e com declara- ção tão clara destas e outras coisas naturais, imos também com eles alcançando grande crédito para os mover a crer as coisas sobrenaturais de nossa santa fé que lhes dissemos. E assim até os mesmos cristãos, quando falam com os gentios e disputam, usam deste argumento irrefragável: se os nossos pagodes e letrados disseram tão grandes disparates das coisas visíveis e desta vida, e se os nossos padres e mestres são tão verdadeiros nas coisas naturais que nos des- cobrem, como o não serão também nas coisas sobrenaturais que nos ensinam ? Até aqui o padre Mateus Rício. Mas para que mais em particular se entenda o que o padre no capítulo acima resumiu em geral, de dois meios principais que usou até agora, que foram causa de tudo isto, um deles foi a doutrina da matemática a que os manda- rins e letrados da China por extremo são inclinados, sobre o qual escreveu diversos * tratados e fêz globos e mapas de que acima fala, tudo na língua da »fi.7c. China e com suas declarações muito copiosas e pinturas excelentes, os quais foram tão estimados e causaram tanto espanto na corte, que diversos manda- rins grandes os fizeram imprimir por várias vezes e fizeram deles biombos preciosíssimos que teem em suas casas armados e ornados com vários proémios, que um cunhado de El-Rei, casado com sua irmã, e outros mandarins grandes e pessoas nobres fizeram em louvor dos autores e da obra; e não se pode crer o crédito que isto tem dado e caminho que tem aberto para as coisas de nossa santa fé, não só por ficarem os chinas desenganados, porque dantes cuidavam que não havia mais mundo que êles, mas por se ver nele a falsidade da patra- nha que seus pagodes fingiram do céu e da terra, de modo que quando os padres os vão visitar a suas casas, acham seus mapas armados nas salas com seus nomes; e com seus louvores os recebem e festejam aqueles a quem vão visitar, donde cobram grande ânimo e autoridade para daquelas coisas visíveis e naturais lhes irem descobrindo as coisas invisíveis e sobrenaturais de nossa santa fé. O outro meio de que usou foi de vários tratados que compôs de coisas e sentenças morais, tiradas de nossos santos e filósofos, obra tão excelente e esti- mada naquela côrte que não se pode encarecer; mas sôbre tudo o catecismo da fé que acabou de aperfeiçoar e imprimir neste ano foi a coisa que mais tem acreditado nossa santa lei e dado a conhecer não sòmente na côrte mas por todo o reino que até agora se fêz; e para o apurar na língua política da China se ajudou o padre de dois mandarins gravíssimos; um deles do conselho que chamam Compú que é das obras de El-Rei, grande discípulo do mesmo padre na matemática, e assim esperamos que o será também nas coisas da fé; o qual foi um dos que à sua custa mandou estampar o mapa que o padre tinha feito.
  • g6 Das coisas da China Outro que fora Tau ou governador de duas comarcas na província de Hun- ção, homem de tanta autoridade e reputação na China quanto se poderá coligir do que é bem que se não cale dele para que se veja o exemplo de vir- tudes morais e inteireza que ainda num gentio e infiel se acha. Andava nesta • F1.70T. provín*cia de Huncão um eunuco arrecadando os direitos reais, como andam por mandado de El-Rei por tôdas as províncias da China, porque só destes eunucos se serve El-Rei para isto. Porém eram tão grandes as tiranias e extorsões que êste com seus ministros fazia a todos aqueles povos sob capa do serviço de El-Rei e do proveito de sua fazenda que a província o não podia sofrer. Mandaram-se queixar a El-Rei por várias vezes, mas nunca foram ouvidos. Acertou nesta conjunção de ir por mandado de El-Rei a governar aquela província um mandarim gravíssimo por nome Fumucão, homem mui douto e de muita bondade e inteireza. Este entrando no ofício começou mui de propósito a procurar o bem do povo e com muito zelo pôs o peito a reprimir as tiranias do eunuco. Para isso mandou algumas petições e memoriais a El-Rei, mas nenhum deles foi ouvido, porque como o eunuco paleava tudo com o serviço de El-Rei e proveito de sua fazenda, e tinha na câmara de El-Rei outros eunucos e ministros seus consortes que o favoreciam, estes faziam com que El-Rei não desse ouvidos aos clamores do povo antes fingiam muitos crimes e mentiras contra o Fumucão para o poderem odiar com El-Rei. Vendo isto o povo daquela província não podendo já mais sofrer as maldades do eunuco se alterou de modo que tomando as armas estiveram muito perto de o matar, pelo que El-Rei o mandou vir à côrte, mas nem por isso o bom Fumucão ficou seguro, ou apremiado por seus serviços, antes tão desacreditado com El-Rei pelos ofícios que os eunucos fizeram controu êle que o privou do ofício e man- dou que se fôsse para sua casa fora de seu serviço, com grande sentimento de todo o povo; não se atrevendo por então fazer-lhe outro mal. Porém depois o privou de todos seus graus e dignidade e o mandou trazer prêso de sua casa a Pequim, onde foi metido num estreito cárcere c tão fechado que nem os seus criados lhe podiam falar nem vêl-o; até chegar a o mandar açoitar e atormentar muito cruelmente, coisa que na China se faz tão fàcilmente, ainda a Mandarins gravíssimos, qual êste era, como El-Rei tem deles qualquer paixão, como cá nestas partes se açoitam os meninos na escola, o qual tormento e açoites êle • Fi.71. sofreu com grande âni*mo e alegria, dizendo que nada se arrependia do que tinha feito. Porém tão longe esteve de com esta afronta e açoites perder ponto da reputação e autoridade, que antes a cobrou muito maior e ficou muito mais afamado, não sòmente na côrte mas em tôda a China; e a província de Hun- cão mostrou por êle tanto sentimento que se pôs em armas; pelo que, foi necessário mandar El-Rei àquela província tirar o Tutão ou Vizo-Rei, que favo- recia ao eunuco e pôr em seu logar outro, pessoa muito grave, o qual com sua prudência pacificou tudo e os de Huncão em reconhecimento e memória do bom tratamento com que os governara Fumucão e dos trabalhos e prisões que por êles padecera, primeiramente compuseram um livro cheio todo de seus lou- voures e saudades que dele tinham estampando-lhe na primeira fôlha seu retrato ao natural e depois disso lhe edificaram muitos e mui sumptuosos templos, onde lhe puseram sua estátua e por tôdas as casas da província lhe teem seu retrato,
  • Das coisas da China 97 a que põem cheiros e veneram com muito respeito como a santo; e num dos templos lhe puseram uma bota sua e outras coisas de sua pessoa que lhe lá ficaram, metidas em charolas, onde as guardam como relíquias. Este, pois, ainda antes de seus trabalhos pela fama que tinha dos padres formou tão grande conceito deles, assim de letras como de virtude e da verdade da lei que ensinavam, que mandou um discípulo seu à província de Quiansi, onde tinha por notícia que os padres estavam, para aprender deles e lhe vir ensinar a êle o que dêles soubesse e não os achando ali foi a Nanquim e desencontrando-os também ali, porque estava já em Pequim, vindo àquela cidade quando o trouxe- ram preso, a primeira coisa que fêz, ainda antes de entrar na prisão, foi mandar logo o mesmo discípulo seu ao padre Mateus Rício, com um muito bom pre- sente, rogando-lhe quisesse ser seu mestre e ensinar-lhe algumas coisas da matemática, para acabar um livro muito erudito que tinha começado a imprimir na província de Huncão, para o qual lhe faltava certa coisa da descrição do céu e da terra. O padre que já sabia a grande fama que corria dêste homem em tôdas as partes se alegrou muito com seu recado e lhe mandou dizer que de muito boa vontade lhe daria toda a ajuda que pudesse, mas que por êste respeito * não havia de receber o seu presente e logo após isto o foi visitar e »fi. 71 praticaram ambos nas coisas das virtudes morais com tanta familiaridade, como se toda a vida se conheceram. Ali se ofereceu ao padre por palavras e depois muitas vezes por cartas, que tôdas quantas forças tivesse havia de pôr em dilatar por tôda a China uma lei tão santa como era a de Deus que o padre prègava. E com muita eficácia animou e exortou o padre se desse pressa em trasladar os livros de nossa lei, porque a China estava perdida e não era tempo de lhe tardar mais com o remédio. Nesta mesma conjunção lhe veio às mãos o tratado de amicitia que o padre Mateus Rício fizera na província de Quiansi e oferecera a um parente de El-Rei que ali estava, e que foi obra muito aceita em tôda a parte, o qual lhe contentou tanto, que sem o fazer a saber ao padre, o mandou imprimir e o comunicou por tôda aquela côrte, mandando-o de pre- sente a seus amigos; e o que mais se estimou foi um proémio que lhe fêz no princípio, mui erudito, assim em louvor da obra, como dando razão do intento com que os padres foram à China; que por ser de um homem de raras quali- dades, foi de grande crédito e autoridade para nossas coisas. Trabalharam muito os mandarins principais por livrar êste homem do tronco e prisão em que El-Rei o tinha, e entendendo quão injustamente fôra preso; mas nunca El-Rei o quis soltar com haver três anos que o tem desta maneira; e vendo êle como sua soltura se não efectuava com tantos ofícios como sôbre ela se faziam pelos mandarins, escreveu uma carta aos padres em que lhe dizia como folgaria já de estar ali, porque pelas leis da China, saindo da prisão se havia de ir fora da côrte. Tê-lo Deus nela preso, lhe parecia que era para não se afastar dos padres e poder aprender as coisas de sua santa lei, pelo que pedia, já que de presença e palavra não podia ser lha ensinassem por escrito. Mandou-lhe o padre lá dentro o catecismo que tinha feito para que por êle pudesse entender as coisas de nossa santa fé e juntamente revê-lo no que tocava à pureza da língua. Quadrou-lhe tanto tudo o que nele viu que logo tornou a escrever outra carta em que dizia que até agora nada soubera porque todo o seu bem i3
  • g 8 Das coisas da China *fi. 72. obrar fôra como de corpo sem cabeça porque * não conhecia o fim que havia de pôr em suas obras. Trasladou logo todo o catecismo de sua mão com intento de o mandar imprimir, mas os padres o impediram; e ainda que a causa era porque até então, não lhe tinha ido licença para o imprimirem, a cor que lhe deram foi que tinha necessidade de sér mais e emendado na composição da língua e que isto lhe pediam que êle tomasse à sua conta; fê-lo éle em algumas coisas que lhe pareceu; mais forçado, como dizia, por lhe pedirem que por julgar que o livro tinha disso necessidade. E vendo que os padres ainda com isso não lhe permitiam imprimi-lo, lhes tornou a mandar um recado dizendo que olhassem o que faziam em dilatar a impressão de tal livro, pois o negócio da China nas coisas de sua salvação estava em tão mau estado que todo o remédio lhe vinha já tarde e que assim não lhe parecia coisa de homens prudentes, estando um seu irmão doente para morrer e tendo-lhe já feita a receita da mèzinha em que consiste sua vida, dizer-lhe esperai um pouco mais, porque quero fazer esta receita com mais elegância de palavras. E que êle não somente tinha visto aquele livro, mas também o tinha mostrado a outro letrado maior que êle e que lhe dissera que não havia mais que fazer na com- posição, nem mudar letra alguma; finalmente chegando a licença para se im- primir êste catecismo e dando-lhe o padre licença para que êle pudesse fazer nisso o que lhe parecesse para efeito da estampa, êle lhe fêz um proémio no princípio conforme ao estilo da China, tão douto e erudito que foi uma grande parte para se lhe dar o crédito e autoridade que agora tem; a qual é tão grande que escassamente há letrado na China que o não busque e em muito breve tempo lhe gastaram todos os volumes que se fizeram e se compraram mui caros e por preço mui excessivo ao que em efeito valiam; e além da notícia que por êles se vai tendo de verdade das coisas de nossa santa fé e falsidade da seita dos pagodes, por êle acabam de entender todos o que nunca por palavra os padres lhe puderam persuadir que é o intento de sua ida aos reinos da China. E não sòmente êste bom mandarim se não contentou com a impressão do cate- cismo, mas como é tão grande o crédito que dá a nossas coisas, tudo quanto • F1.72V. delas pode alcançar vai trasladando * e imprimindo na língua da China; de modo que é necessário irem os padres encolhendo a mão em lhe comunicarem as coisas que vão fazendo, por logo lhas não imprimir e divulgar; e para que êste catecismo se pudesse dilatar mais por toda a China e por êle a notícia do nome de Cristo, ordenou Deus por sua providência uma tal ocasião para isso qual outra não pudera haver melhor e foi a seguinte. E costume nesta corte fazer-se de certos em certos anos um exame geral dos letrados da China, para dêles se escolherem os que hão de entrar no ser- viço de El-Rei; e uma audiência e juizo universal de todos os mandarins que governam por todo o reino, assim ausentes como presentes conforme as devassas e informações que de seu procedimento se tem tirado pelos visitadores, que cada ano saem pelas províncias a fazer estas diligências. Este ano de seiscentos e quatro foi o dêste juizo e exame e para uma coisa e outra concorreram de tôdas as quinze províncias da China mais de trinta mil homens a esta corte de Pequim e se deu o grau de doutor a trezentos que entre cinco mil licenciados se escolheram; e o juízo é coisa muito para ver, porque deixando os que o
  • Das coisas da China 99 fazem bem que são acrescentados cada um conforme a seus graus, os que saem condenados se repartem em quatro classes: a primeira dos cubiçosos e que tomam peitas e êstes não só perdem o ofício, mas obrigam-nos a vir ouvir a pena que se lhes dá. A segunda dos que foram desatentados em seus ofícios, os quais ficam privados dêles e os mandam ir para sua terra depostos dos ves- tidos e insígnias de mandarins. O terceiro dos que são já velhos ou doentes e brandos nos castigos, aos quais depõem do ofício e os mandam para suas terras como se êles para isso pedissem licença, mas com insígnias de mandarins até morrer. A quarta dos que foram arrebatados nos juízos e êstes mudam para outros lugares inferiores dos que dantes tinham e às'vezes os abaixam dois e três graus. A sentença dêste juízo, que êste ano se fêz, se divulgou impressa e por êle se viu que entraram nestas quatro classes mais de três mil mandarins condenados donde se pode coligir a grandeza dêste reino e também o número dos ruins mandarins, que nele há, porque isto é * além dos que cada ano se »fi. 73. castigam assim por ordem de El-Rei como dos magistrados que teem êste ofício; e também além dos mandarins que residem nas duas cortes Nanquim e Pequim que serão perto de três mil, em cada uma delas, dos quais se não faz êste exame de três em três anos, mas de seis em seis. Esta digo, que foi a ocasião de se divulgar muito a notícia de nossa santa fé neste reino, porque como concorreu tanto número de gente letrada a esta corte e tanto pela fama que ouviam dos padres em suas terras, vinham com desejos de os ver e lhe falar, foram tantas as visitas que tiveram dêles e o concurso dos que vinham a casa que os padres tiveram por todo êste tempo muito grande ocupação e trabalho em os agasalhar e receber; mas contudo foi p trabalho mui bem empregado, porque por êste meio travaram amizade com muito número de gente, dando-lhes muitos mapas de presente, pôsto-que muitos mais compraram êles, por haver já muita cópia de venda; deram também a muitos o livro do catecismo e outras obras que tinham estampadas e iam tão contentes e tão avantajados ainda no conceito de nossas coisas, que muitos se ofereceram aos padres para imprimirem à sua custa todas as obras que fizes- sem, para que se pudessem divulgar na China por seu meio, coisas tão sólidas e verdadeiras como nós prègamos e outros deixaram boa cópia de dinheiro nas mãos de um cristão, para lhes comprar tudo o que saísse impresso e feito das mãos dos padres. CAPÍTULO III De algumas contradições que se alevantaram contra os padres e do sucesso que tiveram COMO é costume de Deus nas coisas de seu serviço e dos que nêle andam ocupados mistura-lhes sempre as coisas prósperas com algumas adver- sas, para que nem umas os levantem demasiadamente, nem as outras os derrubem, assim o usou * também com os nossos padres. Porque, para lhes »fi. 73». temperar a grande consolação que recebiam com o bom sucesso de suas coisas e com a geral aceitação que havia naquêle grande reino e côrte do catecismo e
  • IOO Das coisas da China mais obras suas que saíam impressas, permitiu também que não lhes faltas- sem émulos que os exercitassem e os pusessem em temores de correrem algum perigo. Foram êstes alguns mandarins grandes letrados e poderosos, muito devotos dos pagodes, os quais vendo como no catecismo e mais tratados se descobria com tanta liberdade a falsidade e patranhas dos pagodes, não o podendo sofrer, se começaram a alterar contra êles e fazer todos os ofícios que puderam pelos encontrar, a ver se lhes podiam fazer algum mal. Èstes foram primeiramente dois grandes mandarins do tribunal a que chamam Nanlijuem, a quem pertence tratar os negócios tocantes à pessoa real e onde se metem os maiores e melhores letrados do reino, e donde sobem ao tribunal dos colaos, que são os imediatos à pessoa real e sobre todos os outros tribunais. Êstes dois, como digo, dos quais um é mestre do príncipe, glosaram os tratados do padre Mateus Rício, por falar contra os pagodes de quem êles são mui devotos. E lhe toma- ram tanta aversão, que diziam publicamente haviam de dar queixume a EI-Rei contra êle, por prègar uma lei nova e destruir a dos pagodes, e outras coisas semelhantes. Andando êle nisto entrou na côrte um bonzo, com tanto nome de virtude e sciência de pagodes, que muitos Mandarins graves o foram visitar e bater-lhe a cabeça; e até a rainha que se preza de muito devota, porque o não podia ver, lhe mandou pedir um vestido seu, ao qual lá dentro no paço fêz reverência, como a relíquia de homem santo. Na mesma conjunção andava perto da côrte um letrado muito grave, por nome Chuiu, que depois de se aposentar e deixar o ofício de mandarim, deixou também a mulher e se rapou como bonzo e se deu todo a compor e comentar livros de pagodes. E era tido geralmente em tanta conta de santo que todos os mandarins e até os mesmos tutões ou Vizo-Reis, que queriam reformar os costumes de suas províncias, ou dar-se mais à devoção, o mandavam buscar e tinham consigo, como prègador • fi.74. ou padre espiritual; e assim * andava sempre de umas cidades em outras, a quem o poderia haver. Com êstes dois padroeiros ficaram os devotos dos pagodes mui soberbos e os dois letrados do tribunal Nanlijuem muito mais furiosos contra os padres, e alguns amigos dos padres mui medrosos arrecean- do-lhes algum mal. Pelo que não faziam senão dizer-lhes que não se metessem em falar ou escrever mal dos pagodes, para que não irritassem contra si aqueles dois mandarins grandes que glosaram os livros dos padres e estoutros dois prè- gadores dos pagodes que eram tão letrados na seita e tão acreditados na vida. Porém a tudo nosso Senhor atalhou por meios não esperados, porque alguns mandarins dos grandes, tomando muito mal irem os outros visitar o bonzo e bater-lhe a cabeça e muito peor rapar-se o Chuiu depois de velho e entregar-se tanto aos pagodes, deram petição contra êles a El-Rei, dizendo que muitos mandarins se davam todos a seguir a seita dos ídolos e desamparavam as dos letrados e que até os estudantes nos temas e composições dos exames não alegavam já sentenças do Cum, (que foi um grande filósofo e letrado antiquís- simo da China, cuja doutrina seguem os letrados) mas as sentenças e doutrina dos pagodes. Que por tanto devia sua alteza mandar que quem nos exames as alegasse mais, só por isso não fôsse graduado. Despachou El-Rei esta petição dos mandarins, como êles lhe pediam, e tinha já neste tempo mandado prender o velho rapado, o qual tanto que êste despacho se publicou, êle mesmo
  • Das coisas da China ior por suas mãos se matou logo na cadeia, e o bonzo da rainha desapareceu uma noite, sem se saber para onde fôra. E em esta ruína destas duas colunas e prègadores dos pagodes, seus devotos, ficaram tão descaídos os dois mandarins grandes do Nanlijuem, competidores e ameaçadores dos padres, tão confusos e /|o^Íy'>y encantoados, que um sem licença de El Rei se foi logo para sua terra, deixando / : ' quanto tinha; e o outro fazendo-se doente, a pedia para se ir curar a sua pátria, , . *. , ' '?i ficando os padres desabafados dêles e os amigos tão contentes e consolados, .VV ./ que um letrado mui principal, só por ver isto se fêz cristão, de cuja conversão • diremos abaixo. Dois ou três mandarins do conselho ou tribunal do Lipo, onde correm os negócios dos estrangeiros, e a quem os padres * por o serem estão como subor- «fi. 74*. dinados, trataram também de lhes fazer mal, cada um por seu modo; e tudo pelo sentimento que tiveram dos padres prègarem e escreverem contra os pagodes. E assim um dêles foi fazer queixume ao Chanceler mór do Lipo, dizendo-lhe que se devia tirar o ordenado que El-Rei mandava dar aos padres porque ensi- navam coisas nunca ouvidas na China. Mas como êste Chanceler era muito amigo dos padres e entendeu a malícia do acusador, a resposta que lhe deu foi que êle conhecia os padres desde Nanquim; e que quanto à doutrina da matemática que os padres ensinavam e coisas que diziam do céu e da terra dessas não sabia êle se eram verdade, se mentira. Mas o que ensinavam e diziam da virtude e bem viver, sabia muito bem que era tudo conforme à razão e à doutrina de seus santos e letrados antigos, como êle tinha mui bem visto nos livros e escritos dos padres; com a qual resposta o acusador ficou confuso e de todo desistiu de sua acusação. Outro mandarim grande e principal da corte e que tira e põe os mandarins dela, com dantes mostrar ao padre muita amizade, depois que viu o Catecismo e como o padre nele descobria a falsidade dos pagodes, de quem era muito devoto, se começou a queixar dos padres, dizendo, que ainda que Deus era grande no Céu, deviam êles de entender e saber que também os pagodes eram grandes na terra. Mas andando com estas queixas que não eram pouco perigosas para os padres, por serem de um tão grande mandarim, El-Rei por um agastamento que contra êle teve, lhe tirou o ofício e o mandou viver privadamente em sua terra. Mas não foi nada o que estes fizeram contra os padres, para o que intentou outro também do tribunal do Lipo, que foi procurar de os meter em uma revolta das maiores e mais tra- balhosas para os mandarins, que sucederam há muitos anos, a qual para que se entenda melhor e também por ser coisa curiosa, tomaremos a história dela um pouco de mais alto. Tem El-Rei da China muitas mulheres, mas uma principal que é a rainha, e após esta outras cinco ou seis que também têm títulos de rainhas; depois outras, quantas quere, mas sem êste título. As quais mulheres todas, assim a rainha como as demais, não tomam por nobreza de san- gue, porque a não há na China, senão só por partes naturais e bons costumes. Donde veem muitas vezes a ser rainhas, filhas * de pais muito baixos; e a escolha • fi.7S. destas se faz pelos eunucos, que para isso estão deputados. O herdeiro do reino pelas leis é sempre o primeiro filho da rainha principal; e em defeito de filhos legítimos desta, herda o da segunda ou da terceira ainda que não seja legítimo; e tal é êste rei que agora reina e foi o passado antes dêle. E tendo
  • 102 Das coisas da China êste agora filho legítimo da rainha principal e outro filho da segunda mulher, determinou por ter muita afeição à segunda mulher de tirar o reino ao prín- cipe filho da primeira e dá-lo ao filho da segunda, nomeando-o por príncipe herdeiro seu. Mas ao tempo que quis pôr isto em execução lhe foram à mão com tanta inteireza com os seis conselhos ou tribunais da côrte, com todos os mais mandarins dela, que o fizeram desistir e nomear por príncipe e herdeiro o que o era legítimo. Correndo o tempo, depois disto, neste ano de 1604 se botaram uns livros impressos por modo de libelos infamatórios em que notavam sete ou oito mandarins principais, assim dos eunucos que estão dentro do paço, como dos outros que vivem fora dele dizendo que tratavam com El-Rei de tirar o reino ao príncipe morgado que já está jurado e dá-lo ao outro segundo filho, a quem acima dissemos: Já dantes o quisera dar se os príncipes e os princi- pais do reino lhe não resistiram. Pelo que El-Rei ficou grandemente assanhado e fez excessos grandes por saber o autor dêstes libelos, para o que propôs gran- des promessas de dinheiro e dignidades a quem o descobrisse, o que foi ocasião de muitas maldades e vinganças de que muitos, por este meio, quiseram usar contra quem tinham ódio. Porque uns pela cobiça do prémio, outros por vin- gança e ódio, outros por ganhar a graça de El-Rei, acusaram a muitos inocentes e foi causa de muita admiração e temor a revolta em que se viu esta côrte tôda, prendendo-se cada dia muitos e dando-se-lhes tratos e tormentos mui horrendos, porque muitas vezes chegaram a lhes meter pelas unhas e carnes pregos mui agudos. Pelo que todos os mandarins grandes e principais andavam tão assom- brados que uns não saíam de casa, outros se saíam da côrte disfarçados, outros, saindo-se, foram presos no caminho; nenhum se fiava do outro, nem se falava •fi. 75 v. desta matéria, senão em voz baixa, e as * portas fechadas, porque as espias eram tantas por tôdas as partes, que até os que falavam prendiam; o rei com tudo a queixar-se dos mandarins que faziam nisto pouca diligência. Neste tempo que duraria perto de dois meses, ainda que os padres estiveram descan- sados e quietos de visitas, coisa até então nunca acontecida, porque ninguém naqueles dias saía a fazê-Ias; contudo não deixavam de estar em muitos receios de não lhes faltarem alguns inimigos, principalmente os zeladores dos pagodes, que os quisessem caluniar e meter também nestas revoltas. E com muito mor razão os tiveram, se então souberam o que depois lhes veio à notícia, do que neste tempo fizera contra êles um mandarim que é o que tem cuidado da cerca dos estrangeiros; o qual como é da seita dos pagodes e mui dado a êles, ainda que no princípio se mostrou muito amigo do padre Mateus Rício, vendo porém depois o catecismo e o que o padre nele dizia contra os pagodes, lhe cobrou tamanho ódio, que no tempo destas revoltas procurou também de o meter nelas, e fêz os ofícios que pôde para que os que devassavam do libelo infamatório, entendessem também com os padres; e para isto se quis ajudar do principal mandarim do tribunal ou conselho do Lipo que novamente era vindo de Nan- quim e pôsto nesta dignidade. Porém Deus nosso Senhor que tem aos seus debaixo da sua protecção e amparo e tem tomado à sua conta êste seu negócio, desfez todos os desenhos e conselhos dêste infiel idólatra, porque o mesmo mandarim de quem êle se quis ajudar para destruir os padres tomou Deus por meio de os conservar, porque com êste nunca os ter visto nem os conhecer mais
  • Das coisas da China io3 que pela fama que dêles corria e pela notícia que já tinha da doutrina que ensi- navam ser tão boa e tão conforme à razão, por isto só os defendeu com muita inteireza segurando que não havia que suspeitar mal de tão bons homens. E insistindo o outro que pelo menos tornassem os padres a ser metidos na cêrca dos estrangeiros pois andavam pela cidade prègando coisas que por serem con- tra os pagodes, os homens não folgavam de as ouvir (que em efeito era ficarem presos), respondeu o bom mandarim: não há na cêrca dos estrangeiros lugar onde possam poisar tais pessoas como são os padres. E tor*nando o outro »fi. 76- que poderiam poisar nos aposentos dos embaixadores da Coreia por serem muito bons, lhe deu tal desvio que enfim o adversário não teve mais que ir por diante e os padres ficaram livres do perigo em que os pudera meter. Duas coisas aconteceram nesta revolta, ambas dignas de serem notadas; uma em favor da fé e outra para se ver o bom natural dos Chinas. A primeira foi que andavam nesta conjunção naquela corte três bonzos mui afamados, que traziam após si muita gente principal não só de mandarins mas também alguma das rainhas de que acima falámos. As quais ainda que êstes bonzos não tinham entrada por estarem dentro no paço, contudo por cartas e por meio dos eunu- cos, internuncios, se comunicavam entre si havendo-se elas com êles como dis- cípulas e mandando-lhes grande quantidade de dinheiro para edificarem templos e gastarem em serviço dos pagodes. O principal dêstes por nome Fachicon não sofria ser visitado ainda que fôsse de mandarins se se lhe não pusessem de joelhos. E porque tendo um mandarim grande dado a El-Rei um memorial contra êle, El-Rei o não despachou, ficou êle com isso tão soberbo que cuidou que tinha El-Rei por si; pelo que cada vez se fazia mais arrogante e ia tendo mor número de discípulos, assim bonzos como outras pessoas graves da corte. E também por se autorizar com ser visitado de um homem tão afamado em letras como era assim na corte como no reino o padre Mateus Ricio, preten- dendo por muitos meios que o padre o visitasse; a que o padre respondeu que se tivera que aprender dêle alguma coisa o fora visitar, mas como não tinha que aprender não havia para que o ir vêr. Este pois nesta revolta com os outros dois companheiros seus, como eram os em que principalmente se podia ter suspeita, foram logo presos; e dando-lhes em casa, lhes tomaram todos seus escritórios e papéis nos quais ainda que não houve indícios do libelo infama- tório, houve porém de outras coisas mui enormes. Mas o que maior mal lhe fêz foi uma carta do Tachão que se achou no escritório de um dos outros bonzos em que dizia mal de El-Rei e de sua mãe; pelo qual logo foi preso e conforme às leis houvera de ser condenado à morte; mas antes que o fôsse, morreu * de oitenta cruéis açoites que à entrada do tronco lhe deram; de que »fi.;6v. fizeram grande festa os mandarins seus adversários, principalmente vendo os vivos gritos de sentimento e dôr com que acabou, porque quando prègava dizia sempre que aquele seu corpo não lhe pertencia a êle, nem lhe dava nada dêle. Os outros dois companheiros também foram condenados e desterrados com vários castigos com que a seita dos bonzos e pagodes ficou mui abatida e os cristãos por isto mui alegres e animados. Para se entender melhor a segunda coisa notável que dissemos acontecera nesta revolta, se hà de notar que uma das nações do mundo em que maior res-
  • 104 Das coisas da China peito e piedade natural se vê de filhos-para pais são os chinas, porque além das grandes penas que há em suas leis para filhos desobedientes a seus pais, é coisa ordinária que muitos homens graves e mandarins pedem licença a El-Rei para deixarem seus ofícios e magistrados e se irem a suas pátrias e estar com seus pais, dando por razão que são velhos e que os querem ir servir. E é esta uma petição tão justa diante de todos que mui de ordinário se concede logo a quem a pede, e deste respeito e piedade sucedeu agora aqui um notável exemplo. Porque entre os que fôram presos por suspeita do libelo infamatório foi também um mandarim muito grande e nobre a quem El-Rei tinha feito muitos favores; e isto por indústria e calúnia (como se dizia) dum colega do seu mesmo tribunal por arreceios que tinha de lhe ser anteposto em uma dignidade, estando o pobre inocente do crime. Com êle foram também presos todos quantos havia em sua casa, mulheres, filhos, assim grandes como crianças, e todos quantos criados tinha. Chegado a juízo, vendo diante de si o eunuco que presidia no tribunal um homem tão grave e de tanta autoridade posto de joelhos com todos seus filhos e mulheres, foi tamanha sua compaixão que se não pôde ter que não chorasse; e encomendando aos criados que tivessem muito cuidado daquelas crianças disse ao pai que pois El-Rei em todo caso queria saber a verdade do autor daquele livro, êle confessasse se o fizera. Ao que respondeu o mandarim «Fi. 77. que quem tão grandes benefícios tinha recebidos de El-Rei como ê*le, pois dentro cm dois anos, e fora de todo costume dos outros, o levantára tanto e fizera tão grande, não havia razão por que êle fôsse tão ingrato a El-Rei que cometesse contra êle tal crime. O que ouvindo o eunuco (ainda que teve tanta compaixão dêle, que virou o rosto para outra parte) contudo o mandou pôr a tormento. Em êste ponto acudiu um filho do mesmo mandarim, mancebo de dezoito anos, que ali estava e batendo com a cabeça no chão pediu ao eunuco, que pois seu pai era velho e não estava para sofrer aqueles tormentos, lhe pedia muito por mercê lhos mandasse dar a êle em lugar de seu pai; e moveu isto tanto ao eunuco por ser de boa condição e natureza que fêz logo um livro do processo dêste negócio, e dos tormentos que a tantos inocentes injustamente se davam, e o ofereceu a El-Rei, ajuntando mais, que êle estava ali para o servir, mas não para ser carniceiro e algoz de inocentes; que portanto Sua Alteza o tirasse daquele ofício; o que foi causa de El-Rei abrandar e cessar da crueldade com que nisto procedia. CAPÍTULO IV Da devoção e bom procedimento dos cristãos de Pequim AINDA que os cristãos que de presente há nesta cidade de Pequim são poucos em número, procedem porém com tanta edificação e exemplo, que escrevem os padres que mais estimam o bom conceito que os chinas teem de nossa santa fé, pela vida e exemplo dos que já são baptizados, que se actualmente tiveram feito muitos milhares de cristãos; porque não acabam de louvar os mesmos gentios a lei que tão bons homens faz. E particularmente
  • Das coisas da China io5 encarecem o amor que entre si teem uns aos outros, dizendo que nem o amor de entre irmãos nascidos dos mesmos pais lhe pode chegar. Recebeu o sagrado baptismo haverá dois anos um homem mui honrado e que tem ofício num dos tribunais da corte, o qual no dia que se * baptizou, *fi. 77 v. que foi o do Apóstolo São Mateus, trouxe uma protestação por escrito, a qual depois dos exorcismos leu e fêz de joelhos antes do baptismo diante de um crucifixo; e que por ser digna de memória e causar muita devoção a quem a lê, me pareceu pôr aqui tirada à letra da língua sínica, a qual diz assim: Eu Livuxi discípulo, que fielmente professo o santo ensino, falo de todo o coração; e levantando os olhos para o trono da Divina Magestade, humilde- mente confesso que desde meu nascimento nesta terra até agora nunca ouvi o santo ensino de Deus, e tambe'm nunca me cheguei para receber a caridade dos homens virtuosos e santos. Por isso ficando rude e escurecido, nem falava nem obrava coisa que prestasse. Agora, por minha grande dita, encontrei com os esclarecidos sábios de Europa, os padres Mateus Ricio e Diogo Pantoja, que andam divulgando e ensinando a santa doutrina de Deus, e assim atentando e reverenciando aquele santo rosto, comecei a saber que meu pai está no Céu e daí veio ensinar e acudir ao mundo. jComo poderei atrever-me a não esgotar todas as minhas forças para seguir e obrar o santo ensino? Desde que nasci até êste ponto, por espaço de qua- renta e três anos, não pude ouvir a grande lei; quanto fazia não carecia de faltas e culpas, tudo foi maldade, roubos, fingimentos, falsidade, incontinência, tor- peza, avareza, cobiça; vãmente falei, temerariamente cuidei, desfiz nos homens, tratei mal as coisas; por todos meus pecados assim graves como leves, ora fossem com advertência, ora sem advertência, igualmente peço ao meu pai do Céu que use comigo de sua grande misericórdia e me conceda total perdão dêles. Desde agora por diante, tendo recebido com tanta reverência a água do santo baptismo, fugirei de pecar e seguirei nova vida, com reverência exal- çarei o santo ensino, e altamente darei crédito à divina Escritura; com cautela guardarei os dez mandamentos, e servindo sempre com tremor não ousarei por um momento ser preguiçoso e descuidado. Os afectos seculares aos quais de menino me acostumei, se porventura acontecesse que não se conformem com o santo ensino da grande lei, para sempre os tirarei e alongarei de mim, não tornando a ser rebelde e contrário. Torno outra vez a pedir perdão, se eu ouvindo nêste princípio o santo en*sino, não entendo a sua delicadeza e perfeição, pois ainda quaisquer homens »fi. 78. prudentes acham que não a podem penetrar, e com quaisquer forças não se lhe pode chegar. Por tanto meu Pai que com vossa misericórdia fizestes todas as coisas, peço que me deis bom entendimento e prontidão para fazer obras de perseverante fortaleza e me livreis de tentação, assim na vida como na morte, nunca me desmandarei, veja eu cedo, ó meu Pai, o vosso verdadeiro rosto e receba o vosso santo ensino. Concedei-me também que à imitação do padre Mateus Rício divulgue a santa lei por tôdas as partes do universo, fazendo que todos os homens a creiam e sigam; rogo finalmente que tenhais por bem de atentar por êste meu pequeno oferecimento e ouvir estas rudes palavras que apresento a Vossa Divina Magestade. '4
  • io6 Das coisas da China Até aqui a protestação dêste novo cristão. Outro mui bom letrado, de singular engenho e habilidade, se baptizou com tôda sua casa, mulher e filhos, e comunicou-lhe Deus tanto fervor e espírito seu que parece não sabe falar nem tratar de outras coisas senão das divinas; e porque uma das coisas em que os chinas acham maior dificuldade em nossa santa lei era na confissão, parecendo-lhes coisa mui árdua pôr-se um homem de joelhos diante de outro e descobrir-lhe ali todos seus pecados, vão os padres com muito tento com os cristãos ainda depois de baptizados, para os aplicar a êste santo sacramento, de modo-que caiam na sustância e necessidade dêle. Porém êste cristão, que no baptismo tomou o nome de Paulo, ouvindo que os padres falavam dêste sacramento, fez logo tão bem o entendimento dêle que não quis dilatar o uso e exercício de tão salutífera mezinha, e assim se con- fessou logo com sua mulher e filhos. E porque também fêz grande entendi- mento do Santíssimo Sacramento da Eucaristia e que a confissão bem feita era o aparelho para receber tão alto mistério, com o desejo de o receber se começou a confessar cada três dias, a que todavia o padre lhe foi à mão por ver que não tinha para a fazer tão a miúdo; mas foi grande e extraordinária a devoção e consolação, e dos padres, com que êste bom cristão comungou pela primeira vez. Todas as orações da Igreja sabe muito bem e vai trasladando em língua china • fi.78v. com outras * muitas coisas pias e devotas que os padres determinam imprimir, para bem de muitos. Foi de muita estima para os padres a devoção e cuidado com que fêz aprender a um filho seu, menino de catorze anos, o ajudar à missa, e assim quando ajudou a primeira vez veio êle com tôda sua casa a se achar presente com tanta festa, como entre nós vão os pais ouvir a primeira missa nova de seus filhos. Preza-se muito de saber os vocábulos eclesiásticos, como Igreja, Papa, Bispo, sacerdote e os demais semelhantes, sem querer usar de outros por reverência das coisas da Igreja. Não perde ponto em coisa de devo- ção, como em vir ouvir missa todos os domingos e dias santos trazendo consigo tôda sua casa, jejuar tôdas as vigílias, têmporas e dias da Quaresma, sem fal- tar um só. Ouvindo praticar das indulgências que se ganham pelas contas bentas, e dando-lhe os padres uma que tinha indulgência plenária para cada vez que convertesse algum à nossa santa fé, arde por isso em zêlo de converter outros, e emfim não há poder-se sair de casa nem apartar dos padres, de cuja vida se edifica tanto que quando fala com os chinas lhes diz, para lhes enca- recer as coisas de nossa santa fé e virtude dos que a prègam, que não lhes quere alegar com os mesmos padres, a cuja virtude êles não podem aspirar, mas que se contenta sòmente com lhes pôr diante a virtude dos moços estu- dantes e ainda dos de serviço que há em casa; continuamente anda traçando meios para ajuda de se fundar bem e dilatar nossa santa fé no reino da China. Outro cristão também por nome Paulo veio êste ano de Nanquim a Pequim, o qual não dá vantagem a estoutro nas partes que tem, assim naturais como sobrenaturais, antes nas naturais lha faz em muito, porque é grande letrado e agraduado de doutor, e tem muita autoridade. A êste baptizou em Nanquim o padre João da Rocha, e teve já uma dignidade muito grande nêste reino, e quando êste ano se fizeram os exames em Pequim veio êle tomar o grau de doutor que alcançou com muita honra, e saiu depois despachado com o govêrno
  • Das coisas da China de uma comarca que está perto de Japão por via da Coreia, e deseja muito levar consigo o padre João da Rocha, para pregar o Evangelho naquelas partes. Êste como é grande letrado escre*veu todas as coisas de nossa santa fé que • i;i. 79- ouviu aos padres e tudo o mais que eles tinham escrito tocantes à cristandade, e também outras muitas sentenças, respostas, ditos e feitos de nossos filósofos e santos, do que tudo faz um livro mui grave e curioso, que na China será de mui grande momento para o crédito e notícia de nossa santa fé. Outro doutor e mandarim mui principal se fêz cristão; êste por muitos ofícios foi subindo até chegar a ser governador de uma comarca, e de presente o ia ser em outra província; o qual veio têr com os padres pela fama grande da doutrina que prègavam e contentou-lhe tanto que a recebeu e com ela o santo baptismo, e vai com muito desejo de dilatar nossa santa fé e a ensinar a todos quanto puder. Êste foi o mais grave homem que até agora na China se fêz cristão, não por ser mandarim, mas por ser grande e agraduado e de muita autoridade. Outro mandarim dos maiores e mais graves da corte chamado Lingocão, que logo quando os padres entraram em Pequim começou a têr tanta amizade com êles, levado pelo desejo das sciências que neles via, que se fêz discípulo dos padres na matemática, e nela aproveitou tanto que tem trasladado alguns livros inteiros com muito seu gosto e admiração, e feito muitos instrumentos em sua casa de globos e relógios e esferas, e o principal foi um astrolábio de lâminas tão bem feito e primo, e com um livro juntamente de sua declaração, que o padre Mateus Rício se maravilhou. Êste, com saberem todos a grande opinião que tinha dos padres e as coisas que à bôca cheia dizia de seus louvores, assim de sciência como de costumes, lhes tem dado grande crédito naquela corte; e já estivera baptizado se não tivera uma segunda mulher que não sabe ainda o modo como a possa largar, por ser esta a mais dificultosa coisa que na China há, por razão do modo dos casamen- tos com duas mulheres de ordinário; mas êle está tão bem nas coisas da fé, que com a ajuda de Deus esperam os padres que cedo dê a isto algum remédio. Ajudou também êste muito ao padre Mateus Rício na revista * da composição • pi. 79*• do catecismo e orações; e no tempo dos exames que se fizeram dos licenciados em cada província, foi nomeado por*um dos prefeitos do exame dos da província de Foquiem, que é uma das da China em que há mais letrados; e antes de acabar o exame subiu a um ofício grande na província de Xantum. E ainda que veio à corte a dar relação a El-Rei de seus licenciados, logo contudo se tornou a seu govêrno. Mas emquanto esteve em Pequim foi estranho o amor que mostrou aos padres, que parece não podia estar nem viver sem êles, e tratou de levar consigo o padre Mateus Rício para acabar com êle muitas coisas que tinha começadas; mas não foi possível a êste deixar a côrte, assim pelo muito que sua presença ali importa como por se não poder sair de lá sem licença de El-Rei. Tinham os padres nêle em quanto ali esteve um grande protector em vários trabalhos e perigos, que nunca faltavam no meio de tanta gente não santa. À despedida mandou muitas coisas aos padres e nada lhes quis tomar; deixou- -lhes dadas muita parte de suas alfaias, o demais em depósito, mas que de tudo se servissem e de tudo usassem como de próprio. Este foi o que a primeira
  • io8 Das coisas da China vez imprimiu naquela corte o mapa de seis quinas do padre Mateus Rício e lhe fêz as declarações e lhe procurou tantos proémios e encómios de letrados exímios quantos nele vão. Já escreveu aos padres, da terra onde reside com seu oficio, que por sua jurisdição chegar até uma légua dos muros de Pequim pelo rio abaixo, determinava vir a visitar aquelas partes e então deter-se com êles alguns dias, indo o padre ao último termo da sua jurisdição, o que podem fazer por ser tão perto. Um mancebo neto de um mandarim da côrte, o segundo no tribunal do crime, se baptizou, mas foi nosso Senhor servido que quinze depois se fôsse para o céu; cuja morte ainda que os padres sentiram muito pelo que esperavam fazer por seu meio pelo fervor e espírito com que se baptizou, por outra parte se consolaram de Deus recolher para o ramalhete dos viventes aquela rosa que ali tinha entre tantas espinhas. Um mancebo, excelente pintor na China, e principalmente de pagodes, pelo que tinha grande fama e ganhava muito, se moveu a ser cristão; mas primeiro • fi.8o. teve grande dúvida se era melhor a nossa lei que * a sua, e se poderia viver sem a ajuda do ganho que tinha da pintura dos pagodes. Tirando com tudo mais por ele o que a razão e a consciência lhe ditava; quis satisfazer a ela com pelo menos dar um filho que tinha de doze anos para se fazer cristão; mas não se aquietando com isto pelo muito que a consciência o estimulava, final- mente, antes que seu filho se baptizasse, êle se resolveu de todo a queimar os pagodes e seguir a Deus deixando de pintar tudo o que na nossa santa lei não fôsse lícito, e baptizar-se após o filho. Acertando um dia o padre Mateus Rício de praticar com Paulo, aquele cristão de Pequim de que acima falámos, sobre as coisas do sagrado baptismo, como em caso de necessidade um leigo também podia baptizar, parece que foi Providência Divina para efeito da predestinação de sua alma; porque logo ao outro dia depois disto, aconteceu que veio ter com o mesmo Paulo um velho seu parente gentio que ganhava sua vida em deitar os diabos fora de casa com certos exorcismos gentílicos e pacto que com êles tinha, ou por melhor dizer metê-los mais, e lhe deu conta como tinha em casa uma criança sobrinha sua enfêrma sem lhe poder achar remédio. Ao que Paulo lembrado do que o padre lhe tinha dito respondeu que na nossa santa lei tínha- mos a água do santo baptismo que, quando menos o corpo não recebesse saúde, serviria para lhe salvar a alma e a levar ao paraíso que era o que mais importava. Folgou muito o velho de o ouvir e logo Paulo de sua casa mandou recado ao padre que quisesse lá mandar um dos mancebos de casa para que fôsse baptizar aquela criança. Foi-se logo o padre mui depressa ter com êles, e dizendo ambos que não quisesse tomar trabalho em ir tão longe porque era dali uma légua onde estava a criança, pois bastava mandar um dos mancebos, respondeu-lhes o padre que donde êle viera nove mil léguas a buscar aquela alma, não era longe para êle ir mais uma; o que aos dois não passou por alto mas entre si o ponderaram e falaram muito nisto. Foi o padre, baptizou a criança, e encomendando depois que se vivesse não fizesse caso dos pagodes, não sòmente a mãe e todos os de casa prometeram que assim o fariam e que êles a ofereciam a Deus viva e morta; mas também o mesmo velho, falso exor- • fi.8ot. cista, o qual viran*do-se para os pagodes de que tinha cheia a sala em que
  • Das coisas da China estava (de modo que parecia um templo dêles), disse para o padre: Eu não ando com estes senão para sustentar esta bôca, que no demais em nada creio neles; antes todas as vezes que vou a casa de meu tio (que era Paulo) faço reverência e adoro a imagem de Deus. E daí a poucos dias veio dar os agra- decimentos porque sua sobrinha morrera e se fôra para o paraíso. Não é bem que passemos sem dizer o grande gosto e satisfação que rece- bem os letrados da China e todos os mais homens de entendimento, quando os padres lhes contam do grande concerto, harmonia e mistério das coisas e ceri- mónias sagradas de nossa santa lei em Europa e a ordem da jerarquia eclesiás- tica e subordinação que há dos ministros inferiores aos superiores até se rematar tudo em uma cabeça universal de tôda a igreja que é o Sumo Pontífice que está em lugar de Cristo. E não se pode encarecer quanto isto lhes quadra ao entendimento haver uma cabeça universal de todos os cristãos, que esteja em lugar de Deus na terra. Nem se fartam de ouvir falar nas coisas do Papa e de lhes dizerem a obediência e subordinação que todos os reis temporais da cris- tandade lhe teem, e a humildade e devoção com que prostados de joelhos diante dêle lhe beijam o pé; e que com ser uma cabeça tão grande, universal da Igreja, é posto no trono do Sumo Pontificado não por sucessão de geração, senão por eleição dos príncipes da Igreja, como são os cardeais, e dependerem de sua aprovação e ordem as coisas pertencentes à Igreja e bons costumes dela. E é tão grande a consolação e gosto que recebem de ouvirem dizer isto que com muita razão se pode esperar que abrindo-lhes Deus mais os olhos para recebe- rem nossa santa fé, serão uns filhos mui leais e obedientes à Santa Igreja e ao Sumo Pontífice Romano. Mas à volta disto não deixam também alguns de sair com gracioso desdém e de lhes dizerem aos padres quando lhes falam e contam desta matéria, que se tornassem a sua terra sem dúvida os haviam de fazer Papas; e a razão que dão é porque sobre todos os outros homens de Europa ficavam com uma grande vantagem que era terem visto e estudado por seus livros, os quais êles cuidam que só podem # fazer um homem consumado, «fi.si. Tanta é a opinião que teem dos livros de seus filósofos e de todos os mais por onde êles estudam, ainda que outros confessam abertamente que viviam enga- nados em cuidar que todo o saber do mundo se encerrava na China, pois por experiência vêem agora que todo o seu é nada em comparação do nosso. Há na China muitos milhares de milhares de moiros, os quais ficaram aqui do tempo dos tártaros que por duzentos anos possuíram êste reino, no cabo dos quais os chinas os lançaram fora; e dos que então ficaram descenderam e se foram multiplicando êstes que agora vivem. Êstes teem suas mesquitas e se diferençam muito dos chinas nas figuras e rostos, e pôsto-que dos naturais poucos ou nenhuns se fazem moiros, não deixam porém os padres de os desen- ganarem e declarar a perversidade e malícia da nefanda lei de Mafamede, para que não cuidem dela o que até agora cuidavam que podia ser boa. Em um dêstes anos depois que lá estão os padres, chegaram àquela corte de Pequim obra de setenta ou oitenta moiros de touca, com título de trazerem presente a El-Rei em nome de quatro ou cinco reis, mas a verdade era que vinham a vender suas mercadorias. Falou o padre com êles e folgaram muito de ver um homem que de tão longe viera, cuidando dêle que podia ser judeu
  • I 10 Das coisas da China porque também há muitos na China. Mas tanto que souberam que comia carne de porco, entenderam logo que era cristão e assim lhe começaram a preguntar por Portugal, Espanha, Alemanha, Veneza e por outras muitas terras de Europa. Também sabiam muito bem de Goa e Ormuz e quiseram saber em particular se Veneza era maior que Pequim. O que vinha mais de longe e entre eles sabia mais de Europa, era um que se fazia natural de Alepo, e por- que viera muitas vezes à China, sabia já falar tanto da língua que o padre e êle falavam ambos quási sem intérprete. Alguns havia que eram de Samachão, e preguntando o padre a um deles se era aquela a terra do Tamorlão que des- baratou o grão-turco e o levou preso a sua terra, começou de ferver de alegria que parecia não cabia em si por ver que o padre sabia tanto das coisas da sua terra. Souberam mais dêles que entre os chins e aqueles reinos vizinhos da • fi.8iv. Pérsia, há um areal muito grande e de muitos * dias de caminho onde não há água nem coisa alguma de comer, porque tudo está despovoado e esta é a causa porque aquela gente tão belicosa, e que sabe da fraqueza da China, a não vem conquistar, porque parece impossível poder-se passar aquele areal com exército grande; e pode ser que êste é o areal que Ptolomeu põe na táboa da Ásia, cuja situação por erro está posta na Arábia. v CAPÍTULO V Do que se fê\ na residência e casa da cidade de Namchão COMO esta é a primeira vez que de propósito se começa a escrever do fruto e conversão que os padres de nossa Companhia fizeram e vão fazendo na cidade de Namchão, é bem que declaremos primeiro a qua- lidade da cidade e a natureza da gente dela para que depois se veja melhor a eficácia da divina graça com que Deus a vai começando a mover. É esta cidade cabeça e metrópole da província que se chama Quiansi; será na grandeza como a cidade de Évora de Portugal, mas a multidão de gente outro tanto maior; a qual se divide em duas sortes, uma dos descendentes da casa real, a quem os reis ordináriamente mandam viver nesta cidade, de que há mui grande número; outra de letrados que teem já seus estudos acabados e alcançado seus graus e estão aqui esperando até serem chamados para o serviço de El-Rei. Porém a superstição da idolatria e gentilidade reina aqui mais que em nenhuma outra parte da China, de modo que com muita razão se pode chamar como antigamente São Leão Papa chamou a Roma antiga, uma mata de bestas feras e um profundo oceano onde reside junto tudo o que de supers- tição e idolatria por todas as outras partes da China está espalhado; porque três seitas diferentes que há na China, além da dos moiros que (como acima • fi. 83. dissemos) também teem seu lugar, tôdas aqui reinam * com grande prosperi- dade. Destas a mais antiga é a dos letrados que conforme a suas histórias começou com êste império há perto de quatro mil anos, no meio dos quais a reformou e ordenou melhor e ilustrou com exemplo e doutrina um filósofo famosíssimo seu, por nome Cum, o qual ainda que ensina viver conforme a
  • Das coisas da China 111 razão, tem contudo alguns erros crassíssimos, porque adora o céu e a terra, concede muitas mulheres se da legítima não há filhos, e outras coisas seme- lhantes que alguns negam ser do texto, senão graças e tradições que os comen- tadores fizeram. A segunda é dos que chamam tauxus, nascida também na China há dois mil e oito anos pouco mais ou menos, de um tauxu, que quere dizer filho velho, porque dizem que antes de nascer andou oitenta anos no ven- tre da mãe, e como veio tão bem criado, promete sua seita com certa mèzinha vida comprida, e conservar os homens sem morrer, subi-los ao céu em corpo e em alma, fazer prata de qualquer metal, chover, serenar o tempo e ainda resuscitar os mortos. E além deste fundador, tem seus que eles chamam santos, de que dizem que fizeram e alcançaram tudo isto, e contam nesta matéria mil patranhas e falsidades, como as do Talmud dos judeus, com que encobrem suas mentiras. A terceira é dos pagodes trazida à China de fora há mil e quinhentos anos pouco mais ou menos, e a terra donde veio chamam eles Fiancho que por algumas conjecturas parece que é o reino de linde ou as terras do Indostão. Dá esta seita imortalidade da alma, dá transmigração como Pitágoras até seis vezes em diversos animais, dá paraíso e inferno de que teem em suas varelas ou templos muitos retratos de vulto e grandes representações. Seus ministros são os bonzos, maiores hipócritas que os tauxus, e de muitos fingimentos de devoção. Todas estas três seitas ainda que em todo reino são gerais, nesta província de Quianci e sua metrópole Namchão florecem muito mais e com tanta superstição que a fazem mais afamada e avantajada no paga- nismo que todas as outras da China. Grande parte do povo miúdo e muitos letrados graves seguem esta dos pagodes com tanto afecto e devoção, que não há casa por pequena que seja que ao sol pôsto lhes não queime cheiro, acenda candeia, e em sinal disto tanja sua campainha; e porque cuidam que suas almas depois da morte hão-de en*trar em animais e as de seus antepassados podem «fi.sjv. estar já em alguns dos que se comem ordinariamente, são infinitos os que nunca comem carne nem peixe, senão arrôs e legumes, por não matar algum daqueles em que eles se hão-de converter e em que já seus avós podem estar conver- tidos. A dos tauxus tem outra parte da gente popular e muitos outros ricos e honrados com desejo de vida comprida e de fazer prata como ela promete. Nas outras cidades esta seita está mais descaída, mas nesta muito acreditada, principalmente agora de pouco tempo para cá, por respeito da ocasião seguinte: Tem aqui um templo mui formoso de grande frequência e veneração dedi- cado a um seu santo que êles chamam Kiuchinkium, do qual êles afirmam, e muitos o crêem, que subiu ao céu vestido e calçado com toda sua família, e até os ratos que lhe andavam em casa; e porque um dos ratos indo voando caiu como outro ícaro, o Kiuchinkium desceu a buscá-lo por não querer ir nem ainda morar no céu sem êle, nem ainda deixar na terra aquela pequena relíquia de sua casa, e daqui veio que em toda a China aos de Namchão e sua província Quiansi chamam ratinhos como em Portugal aos da Beira. Este templo como muitos outros estava feito um bazar ou praça de feira pública e cheio, da cêrca para dentro, de tendas de bufarinheiros e diversos oficiais que vendiam ali suas obras, a uns dos quais haverá três ou quatro anos, estando jogando de noite, ou de embebidos no jogo ou de tomados do vinho, se lhes pegou o fogo
  • 1 12 Das coisas da China à casa, com que ardeu todo o templo. Os tauxus que ali moravam como o não puderam apagar fingiram duas grandes mentiras que publicaram pela cidade para mais confirmarem os erros e crença de sua seita. A primeira que aquele incêndio não fôra caso nem por desastre, senão que estava o céu muito irado e assanhado contra Namchão, e determinando queimar-lhe quinhentas ou seis- centas casas, o seu Kiuchinkium intercedeu que lhe perdoasse, e para o poder alcançar oferecera a sua própria para que fosse castigada pelas outras, e que por isso o céu a queimara, e não fogo da terra. E para que a mentira ficasse autêntica com fé de oficial público e aprovada no foro secular, acharam logo o chifui, que é ouvidor geral ou corregedor da comarca, que disse como na • fi. 83. mesma * noite tivera em sonhos esta visão, porque na verdade, mentira tão abalizada não se podia ver senão dormindo, nem provar-se com outros teste- munhos que de sonhos. A segunda mentira foi que pouco depois chegaram pelo rio muitos merca- dores de madeira, com muita e mui grossa como sempre vem, os quais levan- taram os tauxus que vieram também milagrosamente, porque estando todos num monte longe, onde não havia quem comprasse a madeira por estar fora de mão nem se poder deitar ao rio para a levarem por êle abaixo, fôra ter com êles o seu Kiuchinkium disfarçado, e dissera que a troussessem a Namchão que ali lha comprariam muito bem; e respondendo êles que não podiam porque estava muito pela terra dentro, êle lhes dissera que dali a pouco cresceria o rio tanto que a água chegaria ao pé do monte de modo que a pudessem lançar, o que tudo acontecera assim; e que chegando à cidade e achando o templo queimado de fresco, entenderam que aquele homem era o Kiuchinkium, que assim como no céu com caridade oferecera sua casa ao sacrifício para livrar as outras do incêndio, assim na terra com aquele conselho e milagre da enchente do rio provera de madeira grossa para lha tornarem a reedificar. Com estas duas tão bem postas e fingidas mentiras dos tauxus se foi ateando tanto a devoção ao demónio Kiuchinkium, que além dos devotos antigos se con- firmarem e fortificarem em sua devoção, se lhe acrescentaram muitos de novo e deram tão grossas esmolas, que com elas a varela se tornou a restaurar e fazer mais sumptuosa do que dantes estava, pelo que a seita dos tauxus ficou muito mais autorizada e acreditada. A dos letrados tem também muitos e mui graves que a seguem. Porque como nesta terra floresceram sempre os engenhos e estudo das letras sínicas, há muitos graduados que professam acreditá-la, defendê-la e dilatá-la. E par- ticularmente há sempre um como colégio de nove ou dez homens que teem nome de mestres delas, e são como prègadores gerais, os quais se ajuntam cada mês sete ou oito vezes em várias casas, uns dias uns outros dias outros, e ali * fi. 83 v. * a declaram e ensinam como se há de entender e guardar a muito número de gente que concorre a os ouvir. E quando cada três anos se faz o exame geral para os licenciados, a que acodem de tôda a província os bacharéis, chegam êstes auditórios a concurso de milhares. E esta era a primeira causa porque os padres quando entraram nesta cidade arrecearam que não teriam nela tão depressa cristandade alguma, pelo muito que estas três seitas aqui estavam arraigadas e o diabo com elas apoderado da cidade. Porque por parte da dos
  • Das coisas da China letrados temiam a grande resistência que lhes haviam de fazer aqueles dez prègadores que são um vivo retrato dos fariseus da Judeia, soberbos, ambi- ciosos, arrogantes, cheios de si que até aos homens graves falam com soberania. Pelo que era mais que provável haverem de sentir muito se os padres mos- trassem alguns erros (como não podiam escusar) na doutrina que eles ensina- vam e levantar-se contra êles como os fariseus em Jerusalém contra Cristo nosso Senhor e contra seus Apóstolos; porque não são menos zelosos da con- servação da sua seita do que aqueles eram de sua lei, nem amam menos o nome de mestres e cortesias dos discípulos que lhes fazem os que os ouvem, do que aqueloutros o de rabi, salutationes in foro et primas cathedras in sjna- gogis. Os tauxus tinham por si a assunção do seu Kiuchinkium tão crida com os mais milagres falsos e mentiras que dele contam; os pagodes a fúria de todo o povo, que assim como nesta terra os creem com maior cegueira e ser- vem com mais devoção, assim estava menos capaz de entender suas falsidades; reforçava esta dificuldade um colao que é um mandarim mui poderoso que foi do conselho supremo do estado de El-Rei e imediato a êle, que agora aqui está aposentado a quem pela dignidade que tem e de cujo título ainda goza, e por sua grande autoridade o povo e todos os mais teem tamanho respeito que fazendo neste ano os setenta de sua idade lhe festejaram com grandes festas por seis ou sete meses. Este pois se fez protector de todas as três seitas; e assim como Mafamede antigamente ajuntou na miscelânea do seu Alcorão as cerimónias da lei dos judeus que mamou no leite da mãe, os ritos da dos gen- tios que herdou do pai, os erros * das seitas dos herejes que lhe ensinaram • n. &»• João Escargio, arrianos e nestorianos e a fortaleceu com poder, riquezas e nome que tinha de prudente e experimentado, assim êste homem fêz de si um alcorão de confusão, seguindo tôdas as três seitas da China, pelo que por uma parte ajunta era sua casa os prègadores dos letrados e ouve suas colacções, por outro é grande devoto do Kiuchinkium, para cuja varela queimada êle concorreu com dar a telha, e essa tôda verde com grandes canos aljerozés e pássaros formosís- simos para ornamento do cume do telhado, e por outra parte comentou e imprimiu à sua custa um livro da dos pagodes para se darem aos devotos dêles; e como sôbre tudo isto tem muita autoridade pela dignidade de colao, crédito de letras, opinião de prudência e muito poder de riquezas e dinheiro, bem se deixa ver quão grande padrasto seria para os prègadores do Evangelho que naquele primeiro ano não foi mais que um só padre, por nome João Soeiro, que ainda então não sabia da língua para tratar com a gente; e depois que soube alguma coisa dela, por uma doença em que caiu de deitar sangue pela bôca, por um ano todo esteve doente e quási tísico confirmado, pelo que neste primeiro ano escassamente foi conhecido nem houve quem fizesse caso da dou- trina de nossa santa fé para a receber, mais que um só velho barbeiro de setenta anos. E assim parecia coisa quási impossível (vista a dificuldade acima dita e potência da parte das seitas dos gentios e a pouca possibilidade, auto- ridade e fraqueza do instrumento que havia de nossa parte) fazer-se fruto algum de conversão nesta cidade. Porém para Deus mostrar quão curtos são nossos discursos e quanto mais se esmera sua divina virtude na fraqueza dos instru- mentos que nesta matéria toma para confundir a fortaleza do mundo, dentro i5
  • IH Das coisas da China em pouco mais de um ano quis logo mostrar quantos tinha escolhidos nesta cidade para o rebanho de sua igreja; porque no cabo deste tempo foi servido dar saúde ao padre de sua tísica, e ajudá-lo no aprender da língua, com que logo começou de visitar e grangear amigos os quais adquiriu e obrigou de modo que, donde no primeiro ano novo dos chinas que ali esteve (no qual tempo se •fi.84v. visi*tam todos uns aos outros) escassamente houve um que o visitasse, no segundo já eram tantos que era coisa maravilhosa; porque foram mais de ses- senta pessoas graves e nobres; e o primeiro foi um dos parentes de El-Rei dos dois maiores que há nesta cidade que então tinha título de príncipe e agora o tem de rei, com dois irmãos seus c outros dezoito ou vinte do mesmo sangue real. Dos mandarins do governo muitos, dos pregadores gerais de que acima falámos alguns, os quais todos o trataram e visitaram com muita afabilidade e cortesia, e assim estava aquela pequena casa dos padres como se fora um colégio muito grande de Europa onde tivéssemos muitos devotos e amigos; porque tôda a rua estava cheia de cadeiras, de sombreiros, de pagens, o qual tudo depois cada vez foi crescendo mais com a vinda dos outros dois padres que depois vieram para aquela casa, e assim se começou a atear o fogo da conversão de modo que haverá já agora naquela residencia alguns trezentos cristãos pouco mais ou menos que para a pouca esperança que havia de con- versão naquela cidade é um grande fruto; os quais procedem com muita devo- ção presando-se muito de serem cristãos, e porque na conversão de alguns deles há algumas coisas particulares de muita edificação, as iremos apontando. Um mancebo natural da província Fuquiem é de uma família que nela chamam Lini que quere dizer dos Matos, tão afamada com engenhos e habili- dades para letras, que é já provérbio na China que se não faz exame de licen- ciados em que não entrem alguns Matos pelo que tem muitos letrados que a ennobrecem muito. Foi êste filho de um mandarim de que ficou bem herdado mas quási como outro filho pródigo: Dissipavit substantiam suam em mocidades e correr terras e buscar a alquimia para fazer prata (ocupação e desejo uni- versal neste reino, e baixo cm que muitos ricos teem perdido muito sem ganha nenhuma) e antes de gastar a sua tôda casou na pátria honradamente. Porém vindo depois a esta cidade de Namchão, soube dêle um parente de El-Rei e •fi. 85. de sua honra e partes e como era casado, mas contudo * por justiça o forçou a casar com uma sua filha dando primeiro conta a El-Rei que lhe deu tença perpétua. E não é isto de espantar, porque, como já tocámos acima, não se fazem os casamentos na China por via de fidalguia ou nobreza, senão da apa- rência exterior e principalmente os parentes de El-Rei; desta maneira se des- carregam das filhas, casando-as com quem bem lhes parece, pedindo a El-Rei lhes dê tença em lugar de dote, porque não teem outro, e nem assim acham fàcil- mente quem lhas queira, porque as tenças espiram com elas sem passar aos filhos, mas os parentes de El-Rei à força e por justiça lhas fazem tomar ainda que noutra parte sejam casados. E por esta via fizeram casar o Matos, que tendo sua mulher na província de Fuquiem e tinha dela três ou quatro filhos, por força lhe fizeram também aqui tomar estoutra de que tem já três filhos e uma filha. Êste pois vindo visitar o padre João Soeiro por ocasião de um relógio de que é muito curioso, o padre à volta da matemática lhe falou, como costumam êle
  • Das coisas da China e os mais, da lei de Deus, cuja divina palavra o foi penetrando pouco e pouco, até que se resolveu de ser cristão. Deu-lhe o padre o catecismo para que o fôsse passando devagar; êle não só o passou mas todo trasladou por sua própria mão com ter mais de três de papel, e com morar dos padres mais de meia légua, por espaço de vinte dias veio todos a-reio falar com o padre e pregun- tar-lhe diversas dúvidas das coisas da fé, com tanta curiosidade, que quando entendia a resposta ficava tão contente e alegre, que batia com os pés e mãos levado da força do gosto. Deitou neste tempo os pagodes fora e mandou pin- tar uma imagem do Salvador que pôs em seu lugar; trouxe ao padre muitos livros que tinha de superstição gentílica, aprendeu a doutrina e prometeu que também os filhos se haviam de fazer cristãos. Na maior parte deste tempo procedeu o bom homem bem inocente do estado em que vivia, porque como a poligamia é na China coisa tão geral, não cuidava êle que a sua montava para se deixar de baptizar, até que chegando no catecismo à declaração do sexto mandamento, viu o impedimento que por ela tinha. # Deu conta dêla pedindo . fi. 85 v. remédio; respondeu-lhe o padre que bem via a dificuldade; que encomendaria o negócio a nosso Senhor e veria o que nisto se podia fazer. Foi-se o Matos para casa e ao outro dia escreveu uma carta ao padre, a qual diz assim: Tor- nando ontem do ensino de Vossa Mercê, cuidei nêle miudamente e no meio dêste discurso me pareceu de repente que via em visão um como espirito que me dizia que assim como o santo Junípero (tinha êle lido esta história no cate- cismo do padre Rício) nem por amor do paraíso, nem por amor do inferno, deixou de servir a Deus, como pretendia o diabo, assim eu não devo deixar por nenhum impedimento de me baptizar e ser cristão. Lembra-me que diz a dou- trina «perdoai-nos nossas dívidas como nós perdoamos aos nossos devedores», e no Credo que nosso Senhor perdoa os pecados a quem se arrepende, o que tudo procede de querer Deus que sejam os homens bons e se salvem. Também entendo, que se um ladrão se arrepender de sua má vida, e de coração se quiser emendar e restituir o que furtou, que o não há Deus de enjeitar, pois sua von- tade é que todos se salvem. Assim eu não é razão que V. M. me deite de si, pois me arrependo do mal que fiz. Esta carta lhe peço me faça mercê de queimar no turíbulo diante de Deus. Até aqui a carta de Matos. Nesta conjunção chegou a esta residência o padre Manoel Dias, e tratando ambos os padres sobre o caso, viram logo a impossibilidade que havia para êste bom homem se baptizar, porque o sogro parente de El-Rei em nenhuma maneira havia de consentir que êle deixasse a filha e se tôsse para a primeira e legítima mulher que tinha em Foquiem. Deixar ambas e largar casa e filhos e ir-se para outras terras, além de ser tão dificultoso de fazer e aconselhar, evidente- mente se via que seria de pouco efeito, porque com a China ser tão grande e de tão incrível número de gente, é coisa maravilhosa que se não pode nela esconder um homem que El-Rei não saiba onde está, pelo que não havia dúvida que indo-se êste para outra parte, El-Rei o havia de mandar buscar e trazer, pois era casado com sua parenta, com sua ordem e com sua tença, e pode ser também que o mandasse matar. Nem também havia dúvida de os pa*dres com «fi.£6. isso ficarem em grande perigo, porque logo se havia de entender que por seu conselho se ausentara, de que podia resultar perder-se tudo o que se ia fazendo
  • Das coisas da China em serviço de Deus, além de outros inconvenientes. Dispensação aqui não tinha lugar para ficar com a segunda, porque a primeira estava em parte onde se podia requerer, (antes êle ia lá às vezes e duma levou a segunda e as teve ambas na mesma casa) e é certo morara com elas sine contumelia Salvatoris, nem neste caso parecia que tinha lugar o breve do Santo Padre Gregório XIII, que tivesse das portas a dentro a segunda mulher como irmã, pois nem ela que- reria ficar nesse foro, nem os padres se deviam fiar disso e seria grande escân- dalo, porque ninguém lho havia de crer. Pelo que nenhum caminho acharam os padres para que pudessem dar remédio a este bom homem, o qual como soube que o padre Manoel Dias era chegado, o veio visitar por várias vezes, e nas prá- ticas que com êle tinha, que sempre eram de coisas divinas, lhe preguntou muitas dúvidas como aquela de Jeremias: Qiiare via impiorumprosperatur, etc. Por- que dá nosso Senhor aos maus bens, e aos bons males? Porque não mata alguns ruins que tanto danam o mundo? Porque criou os que sabia que se não haviam de salvar?
  • Das coisas da China 117 e êles continuaram para se baptizar no dia de São Matias, mas os quatro ou cinco dias antes nevou muito, pelo que não puderam vir acabar o catecismo, por morarem muito longe. No mesmo dia à tarde que os padres o não espe- ravam senão quando o pai entra com ambos e com o terceiro de oito ou nove anos para todos receberem o santo baptismo; acabaram porém os padres de os instruir e ao dia seguinte os tornou a trazer, fazendo vir até o pequenino a pé todo o caminho, o que êle bem mostrava na côr, dizendo que pois vinha tomar a água santa era bem que padecesse por ela aquele pequeno trabalho. Foram baptizados com nomes de Àliguel, Gabriel, Rafael, que o terceiro não parecia menos que os outros. Esteve o pai ao baptismo com o pequeno no colo para que estivesse quieto. Êle os chegava * para as cerimónias, êle os desabotoava • fi.87. para receberem os óleos, êle dizia o Credo juntamente, êle respondia às pre- guntas, de abrenuncias, Vis bapti\ari etc., como se fora um pai de cristãos muito versado em baptismos. Deram-lhe os padres no fim os parabéns com as cortesias, e êle e os filhos maiores com as mesmas lhes deram as graças pelo baptismo que receberam, ficando êle com muita alegria de ver já seus filhos cristãos e igual sentimento de ficar de fora, e os padres com não menor de H10 não poder dar; Como é tão avisado e cortesão, a primeira vez que propôs suas dúvidas ao padre lhe quisera no cabo das respostas fazer pai, isto é, reve- rência como discípulo a mestre, que era estando o padre assentado na cabeceira da sala e êle pôr-se de joelhos quatro vezes a bater a cabeça no chão, levan- tando-se a cada uma, e assim em pé tornando-se a inclinar até ajuntar a cabeça com os pés. Mas como viu que o padre de nenhum modo lhe consentia isto, pelo menos a cada resposta lhe dava graças. À vespera de seu ano novo veio em forma de visita fazer pai à imagem do Salvador in gratiarum acliottem e dá-las também aos padres pelo ensino que lhe deram por todo aquele ano que acabava. Depois que os padres lhe disseram como por hora se não podia baptizar, pediu lhe ensinassem algum exercício de cristão para o fazer entre- tanto que o Senhor lhe não fazia esta mercê. Dando os padres aos meninos depois do baptismo, a cada um sua nómina, e não a dando a êle de propósito, tornou ao outro dia e preguntou se os gentios também podiam trazer nóminas, e com a resposta que se lhe deu pediu logo três, para si, para a mulher e para a filha, preguntando miudamente como as haviam de trazer de dia e onde as haviam de pôr de noite, com suas rasões de duvidar em que não sei se reparam todos os cristãos antigos que trazem relíquias ao pescoço. Pediu ao padre João Soeiro dissesse a um parente de El-Rei, seu amigo, que tinha filhas e suspeitava que as queria casar com seus filhos, como êle vinha a nossa casa e os tinha feito cristãos. Quando o padre Manuel Dias se partiu dali para Xaucheu lhe tomou palavra que à tornada o havia de baptizar, repetindo muitas vezes que ficava esperando lhe * trouxesse remédio para seu impedimento, com tanta ins- .F1.87V. tância e eficácia que acrescentava a mágoa de o ver ficar assim. Um homem que era escrivão em um dos tribunais dos mandarins se con- verteu à nossa fé, e porque antes em seu ofício tinha muitas ocasiões de fazer muitas injustiças, depois de baptizado escreveu logo um papel o qual foi pregar na sala onde se faziam as audiências, no qual dizia que êle já agora seguia a lei do verdadeiro Deus e guardava seus mandamentos, por onde ninguém mais
  • Das coisas da China o requeresse para coisas impertinentes e injustas, porque fazia juramento a Deus verdadeiro de as não fazer mais dali por diante. Este mostrou tanto fervor e zêlo de dar a conhecer nossa santa fé, que até aos padres punha espanto, porque quási não havia dia em que não trouxesse gente de novo a ouvir as coisas de Deus, dos quais alguns se fizeram cristãos e outros andavam nisso. Ele mesmo ensinou a doutrina a sua mulher, que já também é baptizada, a qual tendo por vezes vários sonhos de coisas e pessoas nunca vistas, êle lhos interpretava tão espiritualmente atribuindo tudo a Deus, que a confirmou muito na fé. Indo um dia a casa de um seu amigo, e achando que estava para por mandado de seu pai ir chamar os bonzos e negociar outras coisas para virem rezar a sua casa e oferecer sacrifício aos pagodes pela saúde de um seu irmão doente, êle o tirou disso, persuadindo-o que tudo aquilo era perdido e debalde, mas que se quisesse fosse com êle a casa do padre que prègava a lei do ver- dadeiro Deus em cujas mãos estava a saúde e vida dos homens, e que com verdadeira fé lhe pedisse a água benta, que êle lhe prometia que com ela seu irmão receberia saúde. Fê-lo assim, foi com êle, deu-lhe o padre a água, fê-la beber a seu irmão, recebeu a saúde, pelo que logo o amigo se fêz cristão, e o pai andava já catequizando-se. Indo uma vez com um cristão a casa de um gentio que tinha um filho doente, e vendo ali muitos pagodes, fêz uma grande cruz para êles como quem com ela os queria castigar, ccmo causadores daquela doença, dizendo-lhes palavras afrontosas, e persuadiu ao pai do doente que se queria saúde para seu filho, tirasse logo dali aqueles pagodes e os levasse ao •fi. fs8. padre para que os queimasse e tratasse como êles * mereciam, e que em lugar dêles lhe pedisse a água benta, que com ela sararia logo; fê-lo assim o bom homem, e enchendo logo um cêsto dêles, que eram bem doirados, os levou ao padre, e com a água benta que dêle trouxe alcançou a saúde ao filho em poucos dias, pelo que ambos foram fazer reverência e dar graças a Deus, e deram palavra de se fazerem cristãos. Outros dois homens se converteram também por meio dêste, os quais ambos cada um por si tinha sua ocasião fortíssima de mulheres, com quem estavam embaraçados, e porque no apartamento delas havia muito grandes dificuldades, andaram muito tempo sem estas se poderem tirar, desejando cada um dêles o baptismo e salvação com grandíssimo afecto; até que por derradeiro buscaram meios com que de todo se puderam apartar para receberem o santo baptismo, coisa que para os padres foi de muita conso- lação e alegria por verem, pressupostas as circunstâncias de cada um dos casos, quão poderosamente Deus movia os corações dos homens que nunca souberam que coisa era Deus nem lei pela qual chegavam a fazer coisas tão árduas e em que os cristãos mui antigos e criados desde meninos com o leite da fé e no grémio da Igreja houveram de ter bem de dificuldade e porventura que alguns nunca a venceram. Andando nêste fervor nosso bom Cosme, o provou Deus em uma tentação que para cristão de novo e mais na China, não foi pequena. E foi que poucos dias depois de se baptizar, quando mais aceso andava em acarretar gente para Deus, lhe assaltou um ladrão sua casa de noite e lhe levou toda a prata e outras coisas que tinha num caixão; o qual caso, pôsto-que êle não pôde deixar de sentir muito por lhe tocar no dinheiro que é a vida dos chinas, todavia se mostrou mui paciente sem rogar nenhum mal nem lançar
  • Das coisas da China 119 pragas ao ladrão, que é a primeira coisa que eles em semelhantes casos fazem, dizendo que êle era cristão e não queria fazer aquilo pois era coisa proibida na lei de Deus, mas que nosso Senhor teria cuidado de castigar ao ladrão como seu pecado merecesse. E fazendo um rol de tudo o que lhe furtaram o veio queimar diante da imagem do Salvador, como dando-lhe conta do que passava e pedindo-lhe descobrisse o ladrão para * poder cobrar o seu. Sentiram os .fi.88v. padres grandemente este caso por ser em planta tão nova e arrecearem de assim cie como os mais cristãos se esfriarem e tomarem disto algum agoiro, a que os chinas são mui dados. Mas quis nosso Senhor que tudo sucedesse pelo con- trário, porque todos se fizeram capazes das razões que os padres lhes deram, porque Deus às vezes permite semelhantes provas, trazendo-lhes o exemplo de Job e outras coisas a êste propósito. E já que falámos na tentação com que nosso Senhor provou a Cosme, diremos também doutra com que permite sejam provados todos os mais cris- tãos, para que se veja a sua fineza e bondade, que são muitas injúrias e afrontas que, por seguirem a nossa santa lei, lhes fazem cada dia os gentios, escarnecendo deles que vão errados e que cometem um grande desbarate em adorarem a imagem de um moiro extrangeiro (que assim chamam ao padre) que lhes mete em cabeça que é a de Deus, deixando de adorar os pagodes que o mesmo Rei, mandarim e todo o mundo adora. E para os assombrarem, lhes dizem que o padre a quem êles teem por mestre não pretende outra coisa senão com capa da lei que prega, ajuntar gente para depois se levantar com o reino, afirmando que só esta lhe falta, que quanto é prata para o gasto êle a sabia fazer, assim por via de alquimia, como por outro artifício diabólico com que também faz vir para si tôda a prata que vê nas mãos dos outros, sem êles o advertirem senão quando se acham sem ela; por onde vejam o que fazem, porque antes de muito tempo o padre havia de ser preso e todos os que o seguissem sem se poderem livrar. E alguns acrescentavam que já estavam prendendo; o que ouvindo um cristão veio logo ver o que passava e contar tudo ao padre, e isto de quererem os padres ajuntar gente se espalhou pelos bairros da cidade em que havia alguns cristãos; o qual é um grande ardil do diabo inventado por seus ministros os bonzos, e de tanta força para na China estorvar a conversão, que não se pode bem saber senão dos que andam lá por dentro e sabem o ódio e mêdo que os chinas teem aos estrangeiros. E assim não fundiu tão pouco ao diabo, porque por esta causa deixaram muitos de ouvir as coisas de Deus como * tinham determinado. Porém nos cristãos, pela bondade de Deus, »fi.89. nenhum abalo fêz, antes com isso parece que se fortificam mais na fé, conti- nuando como dantes em sua devoção e exercícios cristãos, vindo todos os domingos e dias santos à missa ainda que por meio de inimigos, que quando os vêem vir lhes batem as palmas e lhes dizem muitas injúrias, o que é coisa de mui grande estima em gente tão nova na fé e em terra em que nunca se ouviu que era virtude sofrer injúrias e afrontas por amor de Deus. Mas pôsto-que nosso Senhor por uma parte os prova com estas tentações, por outra os anima com algumas coisas maravilhosas com que muito os consola. Uma foi que havendo êste ano muita seca e falta de chuva, foram os mandarins por parte do povo pedi-la aos pagodes por meio dos bonzos e outros feiticeiros
  • I 20 Das coisas da China que aqui há, os quais o povo crê que podem fazer chover; mas por mais que nisso andaram dez ou doze dias inteiros a não puderam alcançar. Vindo ao domingo os cristãos à missa, disse-lhes o padre que seria bom pedirem esta mercê a Deus, que a podia dar fàcilmente se quisesse, e que êle diria missa por esta tenção. Folgaram todos muito e assim o fizeram rezando umas ladainhas em voz alta e algumas outras orações, e foi nosso Senhor servido que nêste mesmo dia, não havendo até então rasto de nuvens no céu, depois do meio-dia e sobre a tarde foi tanta a chuva que ficaram espantados. Logo ao outro dia pela manhã tornaram à igreja a dar graças a Deus e pedir-lhe mais chuva que nosso Senhor também lhes deu, com o que ficaram mui alegres e confortados na fé, crendo que lhes dera nosso Senhor a êles aquela chuva por meio de suas orações, que os bonzos e feiticeiros não puderam alcançar. Achando-se um cristão em uma aldeia, aconteceu que uma mulher na mesma casa em que êle poisava, por desgostos que tivera com sua sogra, não estando o marido em casa se enforcou por si mesma de noite; acertou este cristão de a ouvir estando já arrancando, e chamando o dono e mais gente da casa, acudindo a acharam já quási sem fôlego, com as mãos frias e dentes fechados e botando escuma pela bôca, tiraram-na mui depressa, mas quási sem sinal de vida. O cristão movido por uma parte de compaixão da mulher, e *fi. 89 v. por outra de arreceio de lhe * poder vir algum mal culpando-o no caso, disse aos que ali estavam que êle rogaria por ela ao Deus que adorava, mas que se vivesse se havia de fazer cristã. Com isto se pôs de joelhos, tendo primeiro armado uma mesa com cheiro, e levantando os olhos para o céu começou a rogar a Deus com grande afecto e devoção que livrasse a mulher e lhe desse vida, que êle prometia por ela de se fazer cristã; e rezando algumas vezes o Pater Noster e Ave Maria se alevantou para ir ver a que já tinha por morta; a qual achou com os olhos abertos e que já ia tornando em si; com isto animado tornou com o mesmo afecto e devoção a continuar sua oração, a qual acabada a mulher se achou bem e se levantou por si, e vendo o que aquele homem por si tinha feito e que por seu meio a livrou nosso Senhor, prometeu logo de se fazer cristã; e assim vindo o marido de fora, dali a alguns dias o fêz vir de sua parte dar graças a Deus à igreja, e ambos se fizeram cristãos. Outro cristão, parindo uma sua nora ainda gentia um filho, e não podendo a criança mamar nem chorar, atribuindo-o êles, pelo agoiro que nisto teem, a ter ali entrado um homem com uma bôlsa fechada com a qual, dizem, fechou a bôca do menino, se pôs em oração diante da imagem do Salvador que tinha em casa, e rezando umas orações lhe pediu abrisse a bôca àquele menino, e que a mãe e êle se fariam logo cristãos. Foi nosso Senhor servido de o ouvir, porque logo o menino começou a chorar e mamar, com o que todos ficaram mui con- tentes, e cumpriram o que prometeram, fazendo-se ela cristã com dois filhos e uma filha. Mandou El-Rei este ano o título de rei a um parente seu que mora nesta cidade, o mais grave de todos, e para lhe darem esta dignidade vieram dois mandarins da côrte por mandado de El-Rei, por assistentes e presidentes dêste acto que se faz com grandes cerimónias, indo êle três dias antes com todos os mandarins e mais parentes de El-Rei (que são muitos) a cavalo, vestido do trajo
  • Das coisas da China 121 e libré com que em Pequim se faz reverência ao Rei, a fazer a mesma a uma cadeira, dentro da qual está o nome do Rei, que para êste efeito se tinha armado em um paço; e depois dos três dias foram os mandarins ao seu paço com todos * os mais parentes de El-Rei, a dar-lhe o título e vestido real, com • fi. 90. presente que o Rei juntamente lhe mandava. Costuma ser o concurso da gente que lhe vai dar os parabéns tão grande naqueles primeiros três dias, que acon- selharam os amigos ao padre esperasse até o quarto para o poder visitar mais devagar e à sua vontade; mas achou ainda tanta gente, que lhe foi necessário esperar uma grande hora em uma casa, acompanhado de um irmão do mesmo Rei, antes que êle pudesse despedir os hóspedes que sucessivamente o visita- vam, até que furtando o corpo o veio a receber em uma sala interior da casa, para lhe mostrar mais amor e lhe fazer mais honra; aonde depois de o padre lhe fazer as devidas cortesias, que êle por favor lhe não deixou acabar de fazer, e depois de lhe oferecer o presente que levava, que por ser de coisas nossas recebeu, não recebendo o dos outros, se assentou com o padre e falou com êle familiarmente. Depois de alguns dias, saindo a pagar as visitas, vestido de insígnias reais e com grande aparato em uma cadeira que levavam oito pessoas, a foi também pagar ao padre como costumam. CAPÍTULO VI Das residências de Xaucheu e Nanquim POR quanto de ambas estas residências não chegaram as cartas a nós, para se poder referir o que em cada uma particularmente se fêz, con- tudo por não ficarem sem delas se dar alguma notícia, poremos aqui uma carta que o padre Gaspar Correia indo para Pequim e passando por ambas estas cidades de Xaucheu e Nanquim, escreveu ao padre visitador do que nelas viu acêrca da cristandade e doutras coisas de sua jornada, ainda que breve- mente. A qual diz assim: Por esta quero agradecer a V. R. a grande cari- dade que me fêz em me escolher para uma empresa tão gloriosa como é esta da China, sendo eu tão indigno dela e de tão pouco cabedal de virtudes e letras, * havendo outros muitos tão avantajados a mim e que tanto mais que eu .H.90Y. a houveram de acrescentar e acreditar. E por esta mesma causa vou com grande ânimo, consolação e alegria, confiado em nosso Senhor que tomou a V. R. por instrumento para me fazer êste tão assinalado benefício que não tenho por menor que o da vocação, que me há de dar forças, espírito, e língua para o servir; e também nas orações e sacrifícios de V. R., com os mais nossos, que V. R. há de mandar fazer para o bom sucesso desta missão, cujo efeito já experimentamos nos muitos favores que nosso Senhor nos fêz nêste caminho, com bem manifestos sinais de se querer servir de nós, ordenando as coisas de maneira que estando no rio de Cantão, onde os portugueses nos deixaram, duas noites e um dia no meio de trezentas embarcações, e vindo-nos ali visitar alguns estudantes da cidade, nunca houve quem reparasse em nossa vinda, antes parece que todos nossos inimigos: Facti sunt immobiles, quasi lápis donec pertran- 16
  • 122 Das coisas da China siret populus Christi. Donde com muita razão podemos dizer: Cantemus Do- mino, gloriosa enitn tnaguijiccttus sst m nobis, etc. Pois que direi à vista de Xaucheu, (onde chegámos domingo da quinquagésima) e onde diante de todo o mundo nos saiu o Padre Longobardo com os cristãos a receber ainda no rio, com charamelas e outros tangeres próprios de mandarins, e com os mesmos nos acompanharam até nossa casa, onde todos os dias fomos visitados dos cristãos, ainda dos que moram nas aldeias, com seus presentinhos. O mandarim Jorge logo naquela noite nos veio ver, e muito sentido de o padre o não fazer sabedor de nossa vinda mais cedo, porque determinava de nos ir tomar ao caminho. Convidou nos para ao outro dia nos banquetear em sua casa, e porque nós nos escusámos, nos mandou o banquete à nossa por Vito seu filho mais velho, menino de onze anos, mas ancião na polícia e bom ensino. As iguarias foram muitas, todas feitas pelas mãos de Ana, Paula e Luzia, sua avó, mãe e mulher, que todos aqueles dias de carne nos fizeram o gasto, além do vinho e arroz que mandaram para muitos dias. Dia de cinza nos mandaram outro presente de quaresma, além do de peças de seda e outras coisas curiosas, que Jorge nos mandou a todos até aos estudantes, em retorno do que também o Padre Reitor •Fi.91. lhe mandou em nome de todos. * Quási todos os dias gastava em nossa casa, tendo a sua cheia de oficiais, com tanto gôsto e alegria conversava connosco como se nos tratáramos e conversáramos toda a vida, e deseja muito ir ver êsse colégio, do qual tem muita notícia que lhe dão os que lá nos conversam, como são o Atai e outros semelhantes. Também oferecia a sua embarcação man- darínica com upos, que são beleguins e soldados, até Macau, para V ossa Reve- rência vir nela. Está já muito afeiçoado ao padre Tedesco e IJie mandou logo cortar pelo seu alfaiate um vestido de cortesia. Deseja muito que se passem os padres do arrabalde onde estão para a cidade, e tratou connosco este ponto muito devagar, dando o modo que nisto havíamos de ter e que seria mais acer- tado, oferecendo êle logo para isso umas suas casas. O Tauli corre bem com o padre. Este ano no princípio do seu novo lhe mandou doze soldados vestidos de vermelho, carregados de um grosso presente; o mesmo fêz o governador da cidade. E os bonzos que havia mais de oito anos que não entravam em nossa casa, nem conversavam ao padre, este ano lhe foram dar obediência, prognóstico bom de ainda a darem a nossa santa fé e se sugeitaram de-veras ao suave jugo do Senhor. Daqui de Xaucheu nos par- timos aos seis de Março com o mesmo acompanhamento de cristãos e festa de charamelas, com tanta alegria sua e nossa que bem parecia morar já nêles a fé e graça do Divino Espírito que no baptismo receberam. Ao outro dia se foram ainda alguns cristãos despedir de nós à embarcação, com um presente de várias coisas para o caminho, tratando-nos com tanto amor e respeito que nos metiam em confusão. Bemdito seja o Senhor que assim toca e muda os ânimos e corações daqueles que ontem nos apedrejavam, e hoje nos buscam e respeitam, não sòmente como a mestres, mas (si fas est dicere) como alguns homens divinos. Em Nan-kiong nos detivemos três ou quatro dias era uma boa estalagem, por não podermos passar o monte ou a serra por causa da chuva. Mas passámo-la aos 16 de Março, e no mesmo dia chegamos à cidade Nangão onde nos detivemos outros três dias, esperando pelo fato que não acabava de
  • Das coisas da China 123 chegar. É o caminho desta serra mui frequentado de gente e connosco iriam como cinco mil pessoas, coisa muito para ver, porque só * os de nossa obriga- «Fi.giv. ção eram setenta. O caminho com ser de dez léguas sínicas, é todo calçado e no alto do monte cortado ao picão. Por todo o caminho a passos estão bonzos que pedem esmola aos passageiros para o concêrto da estrada. Os estalaja- deiros destas duas cidades, princípio e termo de duas províncias, teem tal ordem entre si, que mandam o fato que se lhes entrega uns aos outros por sua conta, com tanta fidelidade que não falta coisa alguma. De modo que o estalajadeiro de Nangão recolhe todo o fato que lhe manda o seu respondente de Nankium e também os donos, sem por isso lhes levar nada, antes lhes dá os primeiros comeres, aposentos e catres tudo de graça, e vê se o fato tem todo o pêso e número que lhe vem no rol. Indo caminhando pelo monte, não faltou quem nos chamou padres de S. Paulo, e aqui me veio visitar um mancebo muito honrado, filho de um mandarim de Chequião, louvando muito nossa lei e mos- trando desejos que a fôssemos divulgar à sua província. Daqui nos partimos dia de S. José, aos dezanove de Março, e chegámos a Nan-chang onde achámos doente o padre João Soeiro, mas quando dêle nos partimos já ficava quási são pela grande alegria que teve com nossa vista. Antes que chegássemos a esta cidade, passámos por outra onde está uma ponte fechada e não se abre sem ordem do mandarim e sem se pagarem primeiro o direito de todas as fazendas que os upos ou beleguins vêem. Quando aqui chegámos estavam muitas outras barcas esperando que o mandarim as viesse despachar, e entre elas algumas de gente honrada e letrados; mandaram êles seu papel e nós o nosso, e veio-nos por despacho que passássemos diante sem direitos e sem darmos vista do que levávamos. Mas êstes favores e honras que os mandarins, gente grave e apri- morada, nos fizeram assim, aqui como em Nan kiong, nos tirou o eunuco que reside em outra alfandega por onde passámos antes de chegar a Nan-chang, e os direitos que até aqui nos perdoaram aqui os pagámos, porque os upos nos revolveram quanto fato trazíamos e ainda os escritórios e puseram a mór parte a rol donde escolheram algumas peças para levarem ao eunuco, em que entrou um cravo, alguns vidros, mas tudo por derradeiro se nos tornou. Nem se espante Vossa Reverência desta descortesia que * aqui nos fizeram, porque, 'Fi.ga. pôsto que somos já conhecidos de tôda a China da gente limpa e honrada e nos tratam todos com muito respeito, a gente baixa e principalmente criados dos eunucos que arrecadam os direitos não teem êste primor, porque outro tanto fazem aos mesmos mandarins. De Nan-chang a Nanquim pusemos nove dias com vento próspero e as águas que nos ajudavam, e chegámos a tempo que pudemos fazer a solenidade dos Ramos, ofícios da Semana Santa e festas da Páscoa. O padre João da Rocha está nesta cidade mui acreditado e conhecido dos maiores e menores mandarins que há nela, e quási todos os dias tem visitas de semelhantes pessoas; folgam muito de ouvir as coisas de nossa santa fé e estão às vezes aqui com o padre perguntando várias coisas. Em todos os seis tribunais ou conselhos tem conhecidos e amigos; dos presidentes, dois, e doutros menores sem número, e corre com êles com todas as cortesias sínicas, e êles com êle como com igual, e outros como com superior e mestre. Até aqui a carta do padre Gaspar Correia.
  • I 24 Das coisas da China Noutra carta do padre Diogo Pantoja, entre outras coisas vinha um capítulo que dizia assim: No tempo que os padres aqui vieram a esta cidade com tenção de ficar nela, havia uma grande dificuldade para isto, que era temerem que não consen- tissem os mandarins que tomassem casa dos muros a dentro; mas a Divina Providência deu para isso um meio mui fácil e suave que foi êste: Vivem naquela cidade os mandarins em casas não suas, mas próprias dos ofícios que teem, e assim acabado um ofício, o que sucede nêle sucede nas casas, que todas são edificadas à custa de El-Rei; neste tempo tinha um mandarim grande edificado uma destas casas em que por obrigação de seu ofício havia de morar, mas acabada quis Deus nosso Senhor que êle não gozasse dela, e mandou entrar nela (como entraram) muitos demónios, que com figuras medonhas ate- morizavam a todos quantos nela poisavam, particularmente de noite; e durou tanto tempo isto que todos se sairam da casa sem ninguém querer morar nela. Estava em um posto excelente da cidade e era mui boa, e com tudo isto ainda que a desejavam vender mui barata, nem de graça havia quem a quisesse. Andando o padre Mateus Rício, que era o que negociava isto, como superior desta missão, neste tempo buscando casa para comprar, como por zombaria lhe • ki.92v. ofereceram se que*ria comprar uma casa cheia de demónios; respondeu o padre que êle o não tomava por zombaria, mas que se a casa lhe contentasse não repararia nisso, porque servia a um Deus a quem os demónios temiam e tremiam e que confiado em sua ajuda nenhum mêdo tinha dêles por ser servo de tal Senhor. Foram ver a casa a qual logo contentou, e como por aquela tacha que tinha a davam barata, em breve se concertaram, e o mandarim folgou tanto que nos deu patentes para possuí-las perpètuamente na China, coisa que em nenhum lugar se pode alcançar doutro algum mandarim. Passaram-se logo para a casa, e entrando benzeram-na conforme ao costume da Igreja Católica e pela graça de Deus nunca mais houve nela nem por sonhos coisa que inquie- tasse. Estavam esperando todos em que isto parava e como viram a grande quietação, sem fumo de fantasma, ficaram grandemente espantados e dizendo que sem dúvida aquele Deus era grande e quisera morar naquela casa e por isso mandara aos demónios poisassem nela e impedissem a entrada a outros e em Êle entrando se foram logo. Outro capítulo de uma carta do padre Nicolau Longobardo escrita em Xaucheu a i3 de Novembro de 604, diz assim: Há alguns anos que os nossos andam pela China dentro, vivendo sempre com muitos trabalhos e contradições, pela suspeita que os chinas teem de serem espias e principalmente porque nos princípios não entenderam tanto o intento nosso de introduzir nela a lei de Deus que êles chamam do grande Ocidente; porque, como não sabíamos de raiz a língua e as seitas da China, não tínhamos tanto crédito com os letrados e mandarins; e também porque como andávamos vestidos em hábitos de bonzos, que são os seus sacerdotes, os quais nesta terra contra o estilo de todas as outras nações do mundo, são tidos em baixíssima e vilíssima conta, ficámos nós no mesmo fôro que êles, e por isso não éramos respeitados nem estimados. Porém de sete ou oito anos a esta parte que tomá- mos o traje de letrados em os quais na China está toda a honra e riqueza dela,
  • Das coisas da China I 25 começámos a levantar cabeça e ganhar reputação de modo que com isso e com os livros e opúsculos que deitou à luz o padre Mateus Rício, que logo por várias vezes se imprimiram, foi tal a fama que se espalhou de nós, que é coisa maravilhosa o desejo que em muitas partes teem de nos te*rem consigo. E se • fi. 93. tivéramos com que sustentar os sugeitos e residências, pelo menos agora nestes princípios, muito número dos nossos pudera viver dentro na China e fazer maravilhas com a prègação do Evangelho. Mas é a mágoa que não temos com que os sustentar nem ainda nas quatro residências que estão fechadas e se não foram algumas ajudas dos mesmos chinas que se convertem, não fôra possível poder ir adiante esta emprêsa. E verdade que toda esta dificuldade da sustentação esperamos que não seja mais que agora no princípio, porque indo a conversão por diante e dando-nos El-Rei licença para ficarmos livremente na terra, como esperamos, esperamos que êle mesmo nos dará com que nos sustentemos, ainda que não seja mais que das rendas dos bonzos aplicar-nos alguma para os prègadores do Evangelho; porque são elas tantas que parece sem encarecimento poderem sustentar não digo só a tôda a nossa Companhia, senão a todas as religiões de Europa. Porque há V. R. de saber que o reino da China é igual ou ainda maior que tôda a Europa junta, e cotejando cidade por cidade e terras por terras, são nelas os bonzos mais em número e de mais rendas do que são todas as religiões juntas em Europa. De modo, Padre meu, que temos cá um mare magnum, um mundo novo, uma terra de promissão larguíssima para sugeitar ao jugo de Cristo, e sòmente nestes princípios temos necessidade de subsídio para a sustentação, por lho não pedirmos a eles nem lhe darmos ocasião a cuidarem que vimos cá buscar outra coisa que suas almas, e creia que da conversão da China resultará maior glória de Deus que de todas quantas tem a Companhia à sua conta no mundo universo. Entre as obras que tem feito até agora o padre Rício, as que mais ajudam ao negócio da conversão são um mapa-mundi e um catecismo. Pelo pnmeiro se dá luz aos ohinas que os europeus não são aqueles estrangeiros que referem os seus livros com tanta ignomínia e desprêzo, mas outros que professam vir- tude, letras e todo o género de polícia como êles. Pelo segundo se confusam os erros que entre êles há acêrca do primeiro princípio, e isto de tal maneira que destruindo a seita dos pagodes e ídolos, se deixe em pé a dos letrados, que é a mais principal da China, pelo que quási todos êles e aos mandarins temos de nossa banda. E quanto a nosso Deus e Senhor do universo, muito bem o conheceram os antigos da China e adoraram por mais de três mil anos, como consta de seus livros; porém depois que entraram os pagodes * se esqueceram »fi.93y. quási de todo dêle, não ficando mais lembrança dêle que nos mesmos livros, e assim ouvindo agora que nós lhes prègamos uma lei dada pelo mesmo Deus a quem êles chamam Xanti, folgam grandemente com isso e de muito boa von- tade adoram e reverenceiam sua imagem e isto todos à mínimo usque ad ma- ximum. Porém discrepamos que queriam êles ter em seus oratórios a imagem de Deus junto com as dos pagodes, parecendo-lhes que êstes não foram mais que uns vassalos leais de Deus, como nós dizemos dos nossos santos. Mas já se lhes vai tirando êste êrro que êles também conhecem claramente como homens de bom juizo, de modo que para tôda a China se converter e se tirarem dela
  • J 26 Das coisas da China os pagodes, não há mister mais que um fiat de El-Rei, do qual dependem todos neste grandíssimo reino como qualquer religião de seu geral. Entre os cristãos que se tem feito em cada residência, há alguns muito nobres, e assim quando acontece pôr-se em controvérsia nosso negócio, nos é grande escudo e amparo dizer que fuão e fuão seguem já esta nova lei. E assinalado o amor e respeito que teem aos padres e às coisas da fé, e não lhes custa pouco a alguns, principalmente aqui em Xaucheu onde lhes não faltam adversários. São mui dados a rezar principalmente as mulheres, às quais parece que não levam vantagem as mais devotas e recolhidas de Europa. Quando ouvem missa ou fazem oração, procedem com tanta modéstia e devoção que nos representam um coro de devotos religiosos. Não temos aqui trabalho em lhes ensinar a doutrina, porque todos sabem ler e escrever, até os lavradores e pescadores, e assim não fazemos mais que declarar-lha, em que também há muita facilidade, porque todos tomam pelos ares qualquer coisa que lhes ensi- nam. Em suma é tão grande a união que entre si teem, que parecem outros tantos irmãos de um pai e mãe, como êles se chamam filhos de Deus e da Virgem nossa Senhora. (.?.)
  • # LIV R O TERCEIRO DAS COISAS DE MALUCO CAPÍTULO PRIMEIRO Do que se fé\ na casa de Ambóino em Maluco ESIDIAM em Ambóino, êstes dois anos, padres assás poucos para o muito que por aquelas partes e ilhas havia que fazer, especialmente depois do bom sucesso que nossa armada no ano de 602 teve naquelas ilhas, como já na relação passada se escreveu, porque logo se começou a recolher o fruto que se esperava. Fizeram-se dois baptismos solenes, um de noventa pessoas, outro de setenta, afora outros de pessoas particulares, como foram doze moiros, os quais movidos com as boas obras e socorro que receberam dos padres em uma doença geral que houve naquela terra, se vieram a converter e os mais deles morreram logo. Pelas ilhas adjacentes a esta de Ambóino baptizaram os padres por vezes que por elas discorreram duzentos meninos e quatrocentos adultos, que deixando a lei de Mafamede receberam a de Cristo. E passando um padre de largo por um lugar sem entrar nêle, lhe sairam os mais honrados a pedir que também os fosse ensinar e baptizar e levantar-lhes a santa cruz em sua povoação, ajun- tando que ainda tinham guardados os pedaços de uma cruz que aí esteve anti- gamente e os tinham escondido no mato onde os foram pôr, para que não viessem às mãos dos moiros quando tomaram aquele lugar. Vendo o padre sua justa peti#ção, e o bom coração com que o faziam os foi consolar e achou sertFi.94 verdade o que lhe disseram da cruz, e logo lhes levantou outra nova e baptizou todos os que no lugar estavam para isto, catequizando-os primeiro. Muitos que dantes se tinham lançado com os moiros se reduziram e foram reconciliados com a igreja; e emfim se ia colhendo em todas estas terras glorioso fruto para a igreja. Mas o diabo invejoso de tanto bem, magoado de tantas almas quantas lhe iam tirando de seu poder, procurou buscar meios para tornar a perturbar tôda a paz daquelas terras e ilhas, e estorvar o serviço tão grande que nelas se ia fazendo a Deus nosso Senhor. Os instrumentos que para isto tomou foram seus acostumados ministros, os herejes e piratas holandeses, os quais em vinte e dois de Fevereiro do ano 6o5 deram sôbre aquela fortaleza com catorze relas, convém a saber, seis naus grossas, duas navetas, cinco patachos e uma galeota, indo de propósito para conquistarem aquele forte e o de Tidor em
  • 128 Das coisas de Maluco Maluco, e assim lançarem os portugueses fora de todo aquele arquipélago. Estava nêste tempo aquela fortaleza mui desapercebida de munições, manti- mentos e tiros grossos, pelo que o capitão e mais soldados julgando que o forte por nenhum caso se podia defender se deliberaram de se entregar a partido, pôsto-que os padres e os cristãos da terra andavam bradando pelas ruas o contrário e fazendo requerimentos, que se defendesse a fortaleza de sua mages- tade e pelejassem com os inimigos. Emfim a fortaleza se entregou aos holan- dezes por assim parecer melhor aos que a entregaram, mas prouve a Deus haver entre aqueles holandezes alguns capitães católicos, e sê-lo também o general, os quais não permitiram que à gente se fizesse mal algum nem nas pessoas nem nas fazendas como desejavam os soldados e moiros que com êles vinham; mas dando seguro e perdão a todos os naturais os fêz jurar fidelidade e vassalagem ao conde Maurício; e aos portugueses deu licença que os que quisessem se fossem embora, dando-lhes para isto embarcações nas quais se foram muitos casados. Entre os concertos que se fizeram da entrega se fêz um capítulo, que os padres pudessem ficar em sua própria casa e nas mesmas ilhas de Ambóino • fi.95. correndo na cultivação dos * cristãos e conversão dos gentios, como dantes; e disto lhes passou um papel o general católico; mas depois dele dali partido, o governador que ficou na fortaleza o guardou mui mal; porque um dia, que foi a nove de Maio, mandou chamar alguns portugueses principais dos que ali fica- ram, e ao padre Lourenço Massonio, Superior daquela casa, com seu compa- nheiro, e sem nenhum dêles saber a causa, lhes mandou que dentro em seis dias se fossem todos quantos havia na fortaleza e povoação, portugueses, místicos e padres. E aos que foram chamados para lhes darem êste aviso, a todos os mandou logo meter no cárcere até se embarcarem, como fizeram dentro em três dias, todos em um navio mui pequeno que seriam cento e cincoenta pes- . soas, sem piloto nem aparelho de vélas, senão mui pouco e com falta de outras muitas coisas necessárias. Fizeram-se na volta de Manila, não tendo outra guia senão o Espírito Santo que como tão bom piloto em quarenta dias, contra monção e tempo, os pôs na ilha de Zobu que é uma das Filipinas. Emquanto estiveram presos no cárcere lhes saquearam os holandeses as casas e particu- larmente a dos padres onde roubaram tudo quanto acharam, tirando alguma coisa de importância que já dantes estava posto em côbro e os ornamentos da igreja, que o padre depois de prêso mandou queimar por um português, para que os herejes não usassem mal dêles. Ao partir dos padres, foram de grande mágoa para êles os extremos que faziam aqueles pobres cristãos, de lástimas, de lágrimas de sentimento por se verem ficar em tanto desamparo e em poder dos inimigos da fé, sem padre, sem pastor e sem o refúgio que nêles tinham em todas suas necessidades espirituais e temporais.
  • Das coisas de Maluco 129 CAPÍTULO II Do que sucedeu na casa e residência de Tidor em Maluco COM muito grande alvoroço estavam os padres desta residência e todos os mais portugueses e cristãos, que naquela ilha e fortaleza vivem, esperando pela nossa * armada do ano de seiscentos e três, e pelo general . Fi.g5T. dela, André Furtado de Mendonça, que depois de compor as coisas de Ambóino, havia de ir sobre Ternate, que está meia légua da nossa fortaleza de Tidor, cuidando que com sua chegada se lhes acabariam os trabalhos que tantos anos há que padecem, com a guerra contínua que os ternates lhes fazem, e princi- palmente depois que são ajudados nela das naus holandesas que àquelas partes vão. Porem Deus por seus justos juízos, parece que não foi servido que êste castigo por agora tivesse ainda fim, porque ainda que o general chegou com sua armada, não teve porém em Ternate tão bom sucesso como tivera em Ambóino, porque depois de ter a nossa gente desembarcado naquela ilha, com muita vantagem da nossa parte e muitos danos da do inimigo, e tendo-lhe já os nossos tomados dois baluartes, foram tantas as doenças que recresceram aos soldados, e tanta a falta de mantimentos e munições para se poder continuar a guerra, e indo-se já também acabando o tempo da monção para tornar aquele ano a Malaca, que foi necessário, para tudo se não perder, desistir da emprêsa e deixá-la por acabar, ficando os moiros com isto mais soberbos e assanhados contra os nossos, e os padres defraudados das esperanças que tinham do grande fruto que naquelas partes se pudera fazer, se o sucesso saíra como desejavam. Não estiveram porém ociosos, porque além do trabalho ordinário nos ministérios de prègar, confessar, ensinar a doutrina, foi extraor- dinàriamente grande o que tiveram, assim emquanto ali esteve a nossa armada, como depois, tanto pela grande fome e falta que houve das coisas necessárias, como por razão das gravíssimas doenças que houve naquelas partes, por espaço de dois anos; das quais também os padres não ficaram isentos. Porque no tempo que ali esteve a nossa armada, chegaram a estar todos juntamente doentes em cama, e se não fôra um que convalesceu mais depressa, o que parece Deus ordenou para curar aos outros, e lhes buscar o remédio, assim de comer como de mezinhas, muito mais houveram de padecer, e porventura que alguns deles acabaram, por serem as febres como peste, e com grandíssimos agastamentos de coração, que chegavam a pôr todos em agonia de morte. Mas foi nosso Senhor servido * que no meio de tanta pobreza e necessidade todos sarassem • fi. 96. para que se ocupassem em curar e ajudar assim a gente da nossa armada como a da terra, e a que viera de Ambóino*, que certo depois de Deus à diligência e caridade dos padres se pode atribuir a saúde dos que escaparam com vida; e o mesmo escaparem parece coisa milagrosa, assim pela graveza das doenças, como pela falta dos remédios humanos, assim de comer como de mezinhas. Não se faltou também neste tempo com toda a possível caridade ao espiritual das almas daqueles cristãos, especialmente na ilha de Labua que dista vinte léguas de Tidor, cujo senhor é também cristão, mas vassalo do rei de Bachão, 17
  • i3o Das coisas de Maluco que é móiro arrenegado, com cujas perseguições e tiranias, padecem os padres mui grandes trabalhos na conservação daquela cristandade. Também se acudiu à cristandade da ilha e reino de Sião, que dista de Tidor como quarenta léguas, onde haverá catorze ou quinze anos que não entraram padres por não poderem ir nem se prover do necessário, senão de ano em ano, e com muitos perigos, por razão dos ternates nossos inimigos, que tudo salteiam e roubam. Porém agora, sem embargo de tudo, se mandou lá um padre e um irmão que nosso Senhor quis que chegassem a salvamento àquela ilha, onde (pôsto-que não havia recado do que tinham feito) havia mui grandes esperanças de fazerem muito fruto naqueles povos, que todos como seu rei são cristãos tirando os meninos que neste tempo nasceram, e se prezam tanto de o serem, que vindo alguns a Tidor a baptizar-se, tanto que ficam cris- tãos, compram logo chapéus, para com êles o parecerem, e são tão grandes inimigos dos moiros, que até agora não entrou naquela ilha a maldita seita de Mafamede nem moiros, porque o não consentem. E sobretudo são tão grandes inimigos dos ternates, que com todas aquelas ilhas vizinhas se lhes sujeitarem, êles sós lhes resistem. E tanto que souberam que a nossa armada estava sobre Ternate, veio logo seu rei com três ou quatro embarcações e em tempo que o arraial padecia muita fome ao qual, logo que chegaram, o proveram de muito peixe, por serem estremados pescadores. E acertando de ver um nosso padre . •FI.96Y. no meio dos soldados, arremeteram a êle, levando-o * nos braços e dizendo: Cristão, cristão! De modo que nesta ilha de Sião e na dos Celebes que lhe é sujeita e vizinha, esperamos que o padre que lá foi faça muito fruto com a graça divina; e que será uma principal missão ou das principais de Maluco. Tornando à fortaleza, dois baptismos houve nela de grande glória de nosso Senhor, além doutros, pôsto-que poucos, por causa das guerras. Um dêles foi de um moiro, o qual apertado de graves dores que padecia de um mal de que morreu, tão fortemente chamava e bradava pelo nome de Jesus, que dava matéria de espanto aos que o ouviam, e passando um padre nosso por um lugar onde êle estava, ouvindo os brados e parecendo-lhe que eram de cristão, se chegou a êle; o qual lhe pediu com muita instância que o baptizasse, ajun- tando que pelo desejar muito, bradava tão fortemente por aquele santíssimo nome, sem dêle se poder esquecer; e que êle via que morria, por isso lhe acudisse logo. O padre o catequizou com a maior brevidade que pôde, e bapti- zado deu a alma a seu criador. Outro padre foi chamado para fazer cristã uma moira muito velha, a qual estava doente e desejava muito de o ser; chegou o padre, e instruindo-a quanto bastou, lhe deu o sagrado baptismo, e ao dia seguinte se foi a gozar de Deus. E dêstes casos e demonstrações tão mani- festas da divina predestinação, acontecem muitos contlnuamentes nestas partes e outras onde se anda prègando o Santo Evangelho; e com estes e outros semelhantes bocados de consolações, vai nosso Senhor sustentando aqueles padres no meio de tantos e tão contínuos trabalhos de que sempre andam cer- cados, e aliviando-lhes aquele grande destêrro em que vivem por seu amor, dando-lhes nêle tanta consolação e gôsto, que nenhuma outra coisa mais esti- mam nem desejam, como se poderá entender de uma carta que um dêles sobre isto escreveu de Maluco ao Padre Provincial da índia, suspeitando que outros
  • Das coisas de Maluco i3i lhe negociavam que o mandasse vir de lá por suas indisposições e pouca saúde; a qual por ser de tanto espírito e tão própria de um varão apostólico quis pôr aqui; e diz assim: «Dando a vossa reverência conta de mim em particular, pôsto-que a saúde não é muita é to*davia bastante para levar a carga; que nunca, pela bondade .Fi.97. de Deus, minhas indisposições são- tais que de todo me privem de remar méu remo. K porque os padres, que vieram com a armada, medindo minhas enfer- midades por outra medida lhes pareceu me faziam graça de tratar com os superiores da mudança, dado que lhes pedi que se não metessem nisso, se por ventura isto não bastou, baste para com vossa reverencia saber de mim, que sl engana quem cuida que por minhas indisposições hei mister mudança; pois como digo, não são tais que me impidam trabalhar, e muito menos lequeiem outros ares ou outro posto, como requere o Irmão Brito, que vossa reverência manda ir, e o padre Rogeiro, e em particular o padre Luís Fernandes, cujos males realmente se não compadecem, nem com os ares e posto, nem com os comeres destas terras. De mim pois digo só que não há para que vossa reve- rência faça caso de coisa que alguém lhe disser ou escrever de minhas indis- posições: porque para que diga alguma coisa dos afectos de meu ânimo, pela misericórdia do Senhor nunca vida tive mais alegre nem de mor contentamento, que a que tenho passado, e passo entre as incomodidades dêste Maluco, e se o papel o permitira, vira vossa reverência quão liberal e o Senhor onde os homens não abrangem, e onde de contínuo faltam todas as comodidades humanas; e como êstes poucos servos do Senhor que por cá andam, tenham dêle tais mimos e prendas, não teem por menos crime a mudança, quando alguma coisa levasse de culpa, que a tornada dos filhos de Israel para o Egito, com saudades de cebolas e alhos, depois de terem gostado do maná do céu. E pois o Senhor nos pôs neste lugar de suas batalhas, por meio da santa obediência, como sol- dados e cavaleiros seus, não é muito que todos desejemos morrer na demanda de tão árdua emprêsa, por sair desta vida miserável, e aparecer diante de nosso Rei e Senhor, com mais gloriosas vitórias. Messis multa, e operarii pauci, e por isso rogamos a vossa reverência, nos mande obreiros dignos, que partici- pando de nossos trabalhos, alcancem gloriosas coroas, para que mais nos ani- memos e consolemos todos em o Senhor. De Maluco, 17 de Maio, 1604; * filho .fi.Wv. em o Senhor de vossa reverência, Jorge da Fonseca». Em remate das coisas de Maluco, não é bem que deixemos de contar outro novo e mui perigoso trabalho em que se viram aqueles padres, com todos os mais portugueses e cristãos daquela fortaleza de Tidor, que pôsto-que se não saiba por carta particular dos nossos que lá estão, sabe-se porém por rela- ção de muitos; e foi o cêrco que os holandeses com os ternates puseram àquela fortaleza, depois que no ano de 6o5 tomaram, como fica dito, o forte de Am- bóino. Foram pois os inimigos com sua armada à ilha de Ternate, e ai, ajun- tando-se com o rei dela, como inimigo capital do nome cristão, como tòdas as forças que puderam ajuntar, deram sôbre a nossa fortaleza de Tidor, que não dista mais que meia légua de Ternate; porém quis Deus nosso Senhor que não tomassem os nossos desapercebidos; porque um mês antes, teve aviso o nosso capitão, de como os inimigos em Ambóino se aprestavam para vir sôbre ela, e
  • I 32 Das coisas de Maluco também foi de grande momento para bem de nossa fortaleza, uma nau inglêsa, que de Ambóino partiu e chegou lá primeiro que os holandeses, cujo capitão deu ao nosso uma boa soma de barris de pólvora, oferecendo o mais, e junta- mente suas pessoas. Aceitou-lhe o nosso capitão a pólvora sòmente, não con- sentindo que desembarcassem. Com estas munições e com os mais aparelhos, trincheiras e fortificações que o capitão fêz, estava esperando os inimigos. Havia também no posto duas naus nossas, cujos capitães as negociaram para receber o combate, como costumam em Maluco, que é abarbando-as com a fortaleza, e passando a artilharia toda para os lados do mar; e nesta ordem receberam os holandeses quando vieram, e porque a sua «almirante» chegou primeiro, as nossas naus a receberam com tão boa salva de artilharia, que a meteram no fundo; mas chegando depois sua armada, e vendo os capitães que as naus lhe não podiam resistir, recolheram-se com tôda a artilharia para o forte, pondo-lhes o fogo, para que os inimigos se não aproveitassem delas. Começaram os holandeses por uma parte a bater a fortaleza, com a arti- lharia das suas naus, não saindo porem delas, e os ternates por outra saltando • fi. em terra, e pelejando nela com os # tidores, e durou a bataria das naus e a guerra seis dias inteiros, defendendo-se sempre os nossos com muito esforço, sem nêles se enxergar temor algum: e à sua sombra também os tidores peleja- ram de tal maneira com os ternates, que no cabo dos seis dias, uns e outros se retiraram com muita gente morta, assim dos holandeses como dos ternates. Mas a guerra com estes infiéis, que aqui se não pôde acabar, foi nosso Senhor servido se acabasse no ano seguinte, vindo das Filipinas Dom Pedro da Cunha, governador daquelas ilhas, com uma grossa armada de espanhóis, e naturais da terra, o qual, dando de súbito sôbre a ilha de Ternate, a tomou e entrou na fortaleza, onde tomou vivos o rei e o príncipe, e fêz grande estrago nos moiros, matando muitos, e todos os holandeses e estrangeiros que com eles estavam, e tornou a reduzir aquela fortaleza e reino, ao serviço de sua magestade. CAPÍTULO III O que sucedeu na missão dos reinos de Bengala NA relação passada se escreveu o muito que os padres padeceram na mis- são destes reinos e principalmente os que estavam na residência da cidade de Chatigão, porto grande; e como os mogos, senhores do reino de Aracão, gente mui atraiçoada, no mês de Novembro de 1602 destruíram não sòmente a casa e igreja que tínhamos em Chatigão, mas também outros lugares vizinhos de portugueses, abrasando tudo juntamente com as igrejas, e cruzes, por onde foram forçados os padres a se recolherem na ilha Sundiva, que pouco antes fora tomada aos mogos pelos portugueses, sendo capitão Domingos Carvalho, homem de grande valor e esforço e mui temido em todos • Fi.gsv. aqueles reinos. Nesta ilha iam os padres * fazendo casa e igreja e começavam já a entender na conversão dos naturais, mas como o rei do Aracão a trazia mui atravessada, não cessava com seus capitães de ir negociando como a
  • Das coisas de Bengala 133 pudesse outra vez tornar a tomar aos portugueses, o que fazia não sòmente por reputação sua, mas pela importância da mesma ilha que é de muito proveito e renda; e com ela juntamente trazia o ôlho a outros reinos de Bengala que desejava conquistar. Emfim êle se aparelhou de modo e com tanto poder para este feito, que saiu seu capitão geral com uma armada de mil velas, as mais delas jáleas, que são umas embarcações de trinta remos mui ligeiras, e algumas outras maiores, como catures e outras que chamam cossas. Com esta tão grande e poderosa armada se foi na volta da Sundiva, onde estava Domingos Carvalho, o qual em nossa armada não tinha mais que cincoenta jáleas, quatro catures e um navio, e ainda destas se foi diminuindo o número, porque tanto que viram vir aos inimigos com tão grande número de velas que coalhavam o mar, as mais das nossas se puseram em fugida, ficando sòmente Domingos Carvalho com um seu navio e com outras doze ou quinze embarcações. E como era tão esforçado, com estas determinou esperar o ímpeto dos inimigos, como fêz intrepidamente sem nunca lhes virar as costas, mas pelejando sempre, desde uma hora que a batalha começou até o sol posto, com tanto ânimo que fazia pasmar os mesmos inimigos. Tinha consigo ao padre Braz Nunes, da nossa Companhia, que em todo este tempo da batalha nunca cessou de animar os soldados, e confessara todos os que podia. Concluiu-se a batalha com a noite, e foi nosso Senhor servido, para confusão daqueles infiéis e manifestação da virtude da sua cruz que nas nossas bandeiras aparecia, e de seu santíssimo nome a quem os cristãos invocavam, que com ser o número das nossas embar- cações tão incomparàvelmente desigual, pois eram só dezasseis contra mil, a vitória contudo ficasse com os nossos, os quais desbarataram aos inimigos, metendo-lhes no fundo passante de cem embarcações, queimando-lhes trinta zoens, que são como catures grandes, e matando-lhes mais de dois mil homens, não morrendo dos nossos * mais que seis ou sete. Com esta afronta se recolhe- »fi. 99. ram os inimigos destroçados; e o rei de Aracão sentiu tanto esta perda e injúria, que em satisfação da paixão que tomou, mandou vestir a muitos de seus capitães em trajes de mulheres, por lhe não levarem um só português, nem morto nem vivo. t Os nossos, pôsto-que ficaram tão bem do partido e com grande vitória, vendo porém a falta que tinham de munições com que pudessem refazer as dezasseis embarcações que permaneceram no conflito, e que as outras que tinham eram fugidas, vendo também o pouco aparelho que tinham para poder sustentar por então a ilha Sundim, e esperar outro semelhante encontro com os inimigos que estava certo haviam de voltar sobre êles, se resolveram a largar a ilha por então, para noutra melhor conjunção a tornarem a recuperar; e se embarcaram todos aquela noite, assim os portugueses como os mais cristãos da terra que eram muitos, e o nosso padre com o fato da igreja que levou con- sigo, com muitos moços e meninos cristãos, e se foram todos, espalhando-se pelas terras de Siripur, Bachalá e Chandecão, onde o nosso padre se recolheu com os outros três que estavam na casa que ali tínhamos, e que só ainda ficava em pé em Bengala. Depois de se terem perdidas tôdas as mais que havia naqueles reinos, tinham para si os padres que pelo menos nesta casa e reino de Chandecão teriam mais algum sossêgo, por estarem em terras mui afastadas
  • Das coisas de Bengala dos mogos e de seu rei, tanto nossos inimigos; mas não sucedeu assim. Porque o Rei de Aracão, depois de recuperar Sundiva, soberbo com a presa, foi pros- seguindo seus intentos e deu sobre o reino de Bachalá, que com facilidade tomou, por o Rei ser moço e estar ausente. Daí, com este sucesso deter- minou também ir sobre Chandecão, onde estavam os Padres e muitos outros portugueses. Nesta conjunção sucedeu que estando Domingos Carvalho em Siripur, onde se recolheu depois de largar Sundiva, e onde foi muito bem recebido do Cadarrai, senhor daquelas terras, e estando bem descuidado com trinta jáleas que já tinha consigo prestes para qualquer feito, eis que em uma manhã, 28 • de Abril, aparece sobre ele uma armada de cem * velas, que chamam cossas, a qual era do Manassingâo, capitão geral do Mogor naquelas partes e conquista, ■em que anda há alguns anos naqueles reinos, a qual armada êle mandava directamente sôbre o Cadarrai, e por Gem capitão mor dela vinha um gentio, por nome Mundarrai, mui esforçado e temido em todo Bengala. Vendo Domingos Carvalho esta armada sôbre si, e julgando, como outro Judas Macabeu, ser grande menoscabo da sua honra virar as costas ao inimigo, e com trinta velas que tinha fugir de cento, pois tão pouco havia que só com dezasseis desbaratara mil dos mogos, com tanto ímpeto arremeteu e deu nos inimigos, que em pouco espaço de tempo desbaratou tôda aquela armada, metendo-lhe muitas velas no fundo, e com morte de muita gente. Onde também acabou o Mundarrai, general dela, que da pôpa de seu navio caiu com três espingardadas que junta- mente lhe deram pela cabeça. h. não foi a vitória sem perigo e sangue de Domingos Carvalho, porque lhe deram uma frechada pela garganta que o pôs em risco de morte; a qual se não fôra, sem falta fôra naquele dia a vitória dos nossos muito mais alegre e gloriosa. Passados alguns dias depois disto, e convalecido já Domingos Carvalho, se foi de Siripur para Goli, pôrto pequeno de Bengala, para ali se refazer e tornar outra vez contra o mogo a recuperar a sua ilha de Sundiva. E aqui neste pôrto pequeno teve outro grande sucesso, e não menor em seu género que os passa- dos; porque os mogores, que são senhores daquelas terras, para senhorearem mais aos portugueses que naquele antigo bandel ou povoação moram, onde havia passante de cinco mil almas, e os constrangerem a novos tributos e im- posições, fizeram naquele tempo, perto da nossa povoação ao longo do rio, uma fortaleza em que estavam de presídio quatrocentos mogores, os quais tam- bém faziam muitas vexações e tiranias aos cristãos da terra; porque quando passavam pelo rio em suas embarcações lhas roubavam e matavam a muitos, executando neles crueldades tão feias e abomináveis, que se não podem escrever. O mesmo quiseram fazer um dia a Domingos Carvalho; porque passando êle •fi. 100. com suas trinta jáleas ao longo da fortaleza, os mogores dela * o começaram a servir com muitas espingardadas. O que vendo Domingos Carvalho, e não lhe podendo sofrer o coração tal atrevimento, salta logo em terra com oitenta sol- dados portugueses; e tomando-lhes do primeiro ímpeto a porta da fortaleza, e trepando outros pelos muros, a entraram; e dando nos inimigos, foram fazendo nêles tal matança, que todos os quatrocentos mogores ficaram alastrados por terra, sem escapar vivo mais que um cafre que varou fora por um cano. Com
  • Das coisas de Bengala 135 estas vitórias ficou Domingos Carvalho tão temido, que era o terror de todos aqueles reinos de Bengala, do modo que ainda por sonhos fugiam dêle os inimigos; o que aconteceu uma vez, que estando cincoenta jáleas dos mogores na bôca de um rio, vigiando de noite sonhou o capitão mor delas que vinha Domingos Carvalho; e tal matinada fèz, que dando também o medo nos outros, a armada se meteu toda pelo rio dentro, e não parou fugindo até chegar onde estava El-Rei; o qual, sabendo do caso, mandou logo cortar a cabeça ao capitão, pelo medo com que o foi inquietar. Da prisão e morte de Domingos Carvalho, destruição da casa da Companhia e da cristandade de Chandecão Depois dos sucessos acima ditos de tanta prosperidade do capitão Domin- gos Carvalho, virando-lhe o mundo a roda, como costuma, permitindo assim Deus por seus secretos juízos, quando e onde menos cuidava veio a ser preso, e morto por êste modo. Estava-se refazendo no Goli, como dissemos, para tornar sobre os mogos com sua armada; e como eles depois de tomar Sundiva, e o reino de Bachalá, estavam já para ir sobre o Chandecão, vendo o Rajá, rei do mesmo Chandecão, como não tinha forças para resistir aos mogos, quis usar de manha para se livrar daquela fadiga; e esta foi, que sabendo quão sentido estava o rei mogo de Domingos Carvalho, e quanto se temia dêle, determinou de o haver * às mãos, para com sua cabeça o aplacar, e desta *fi. ioov. maneira conservar seu reino. E assim aconteceu: porque o Rajá mandou logo seus embaixadores a Domingos Carvalho, oferecendo-lhe largos partidos, para que o fôsse ajudar contra o mogo. Houve Domingos Carvalho êste por grande alvitre, parecendo-lhe, que com esta ocasião satisfaria com as obrigações que por outros respeitos tinha ao mesmo Rajá, e depois alcançaria dêle ajuda contra o mogo. E assim com tôda a brevidade possível se foi logo ajuntar com o Rajá, levando consigo mui bem petrechados, e com mui boa soldadesca, três navios, seis catures, e cincoenta jáleas, armada poderosa para um grande feito. O Rajá o recebeu com extraordinárias demonstrações de alegria, fazendo-lhe muitas honras, dando-lhe uma cabaia de brocado, e um cavalo de preço, e pro- metendo-lhe que em três dias proveria de tudo o que fôsse necessário contra o mogo: mas passaram depois quinze sem lhe falar a propósito. Antes neste meio tempo se concertou em secreto com o mogo prometendo-lhe a cabeça de Domingos Carvalho. Com estas dilações, e outros sinais se ia cada vez mais descobrindo a peçonha que o Rajá tinha no coração: pelo que assim os nossos padres como os portugueses, não faziam senão aconselhar a Domingos Car- valho, que se retirasse a logar seguro até que as coisas dessem mais de si, e dali se negociasse com o Rajá, mas que por nenhum caso se tornasse a ver com êle; e principalmente, porque já andava roto entre os mesmos gentios, que o Rajá pretendia matá-lo. Porém nunca já Domingos Carvalho se pôde dobrar a estes bons conselhos, mas por comprazer a alguns de seus capitães, se foi a Jasor, onde o Rajá residia, e ali esteve três dias sem jamais poder alcançar dele audiência dando para isso o falso rei tais achaques, e escusas, que
  • 13 6 Das coisas de Bengala bem bastavam para Domingos Carvalho se desenganar, se o fim de sua vida não estivera já determinado. No cabo dos três dias o mandou o Rajá levar em um elefante por um seu capitão, com quatrocentos homens de armas, que o levaram com grande grita, e meneio das armas, como quem se gloriava da presa, que já lhe tinha caído nas mãos. Iam em sua companhia alguns poucos portugueses, aos quais, depois que meteram a Domingos Carvalho pela porta • fi. ioi. derra*deira do paço, deixaram todos de fora, fechando-lhe a porta. K mos- trando logo ali o que pretendiam, os despiram todos, e lhes lançaram grilhões com muitas pancadas, que lhes deram. O que daqui por diante se fêz de Domingos Carvalho nunca se pôde saber de certo, mais que ser morto, e o modo da morte disseram uns que fora cortando-lhe a cabeça: mas que antes de o matarem, pediu êle a El-Rei que o deixasse confessar-se primeiro com os padres: e não lhe querendo conceder se pusera de joelhos por um pouco de tempo pedindo perdão a Deus de seus pecados, e que depois êle mesmo dissera ao próprio algoz, que fizesse seu ofício, como fêz cortando-lhe a cabeça. Outros disseram que depois de lhe cortarem a cabeça, ficara assim de joelhos um grande pedaço, até levarem sua cabeça ao Rajá. Outros que o não mataram logo, mas que o guardaram vivo alguns meses com muita vigia. Foi logo recado à povoação dos portugueses e cristãos desta traição, e como chegasse quási a meia noite, foi tão grande o sentimento e perturbação, que não se sabiam os portugueses dar a conselho: uns diziam que nas embarcações e armada que ali tinham se fossem logo pelo rio abaixo; e isto era o mais acertado. Outros pelo contrário vendo que, ainda que o Rajá matasse a Domingos Carvalho por queixas antigas que dele tinha, nao passaria adiante seu furor, com isto se aquietaram, e deixaram ficar, não se precatando dos trabalhos que ao diante os esperavam; porque logo com estas novas os Patanes moiros, nossos glandes inimigos, que moravam perto do nosso bandel, ou povoação, começaram naquela mesma noite a sair queimando, roubando tudo quanto podiam, e matando os que achavam desgarrados, até com esta fúria chegarem a querer entrar na casa da Companhia, cuidando terem nela boa presa por estarem ali quatro padres. Mas os portugueses que ali se ajuntaram lhe defenderam a entrada com suas armas. Ao dia seguinte mandou El-Rei tomar todas as embarcações da armada de Domingos Carvalho, e após isso os portugueses com suas armas e fato, e que lhos levassem todos presos, como levaram, e despidos, aos quais logo man- dou pôr cm estreita prisão, onde padeceram muitas fomes e trabalhos, espe- rando cada dia pela morte, que já viam andar diante dos olhos, porque logo o • fi.ioiv. falso rei, mandou * cortar as cabeças a dois portugueses, e alancear outros dois com muita crueldade. Neste tempo os nossos padres, não lhes podendo ser bons aos corpos, pro- curaram com tôda a possível diligência acudir-lhes às almas confessando-os a todos, assim aos que já estavam presos, como aos mais; e porque os gentios quando viam o que os padres faziam com os portugueses no tempo em que os estavam confessando, não entendiam o que aquilo era, tomavam tudo a mal; cuidavam que os padres andavam persuadindo aos portugueses, que não pagas- sem a El-Rei certa quantidade de dinheiro que lhes pedia, pelo que faziam grandes feros, e ameaças contra os mesmos padres, e lhes vieram a casa buscar
  • Das coisas de Bengala e revolver tudo, dizendo, que tinham armas, e dinheiro escondido; e o mesmo Rajá lhes mandou dizer também muitas vezes, que logo se fossem das suas terras, porque não queria que houvesse nela padres. Duraram estes sobressaltos por espaço de um mês inteiro, até que os que estavam presos vieram a resgate de três mil pardaus. Pelo que, assim disto como pelo que nas relações passa- das do ano de 6o3 se escreveu, se pode coligir quão impossibilitadas estão estas terras, e reinos de Bengala, para nelas se poder plantar seguramente nossa santa fé, e fazer fundamento de conversão, enquanto não forem conquistadas, nem houver nelas fortalezas nossas a que estejam sujeitas, e de quem aqueles reis e tiranos hajam mêdo, o que sem muita dificuldade, e com muita justiça se podia já fazer, pois com tantas afrontas, e contumélias de Cristo, e de seu sagrado Evangelho, destruíram em espaço de um ano toda a cristandade, que naquelas partes havia, não ficando em pé igreja, nem cruz, que tudo não asso- lassem, e queimassem com quatro casas da Companhia, que ali já estavam fundadas, e mui bem acomodadas. E por este respeito, vendo os quatro padres que ali estavam, como já não havia que esperar destes falsos reis, nem lugar algum onde quietamente pudessem estar, se resolveram de tornarem todos para a índia até haver melhor disposição naquelas terras; mas neste mesmo tempo receberam cartas de seu provincial, em que lhes mandava que dois dos padres que ali estavam se fossem para o reino de Pegu por * as grandes esperanças »11.101. que de novo havia de se poder fazer ali grande cristandade, o que logo fize- ram; porque vindo-se dois,para a índia, os outros dois cumprindo sua obediên- cia se passaram para Pegu como veremos no capítulo seguinte. CAPÍTULO IV Da missão do reino de Pegu, e do que nêle sucedeu NAS relações passadas se tratou da fortaleza que um homem nobre, por- tuguês, por nome Felipe de Brito de Nicode, edificou à sua custa na barra de Sirião, principal pôrto do reino de Pegu, o qual reino El-Rei de Aracão, que havia dois ou três anos o conquistara (pôsto-que tão assolado, e despovoado de gente, que quási não havia nêle mais que matos, e bêstas feras) deu ao dito Felipe de Brito em satisfação dos muitos e grandes serviços que lhe tinha feitos. E moveu-se êste português a tomar sôbre si a emprêsa dêste reino, e fazer nela aquela fortaleza, por tôda ela estar dissoluta, e haver esperança, que com isto poderia tornar, quando não à sua antiga nobreza, e formosura, pelo menos a muita parte dela, e assim fundar ali uma grande cris- tandade, e haver de ser aquela terra de mui grande proveito ao estado da índia e coroa dêstes reinos restaurando-se o antigo comércio, como já em efeito se começa a fazer, e cada vez irá crescendo mais. Além disto entre outras mui grandes razões, o obrigou esta, de se poder com esta fortaleza impedir, que os turcos da Meca não pudessem pôr ali pé, como há muitos anos, que desejam, por haver naquelas partes infinita madeira, com que se podem fazer naus e galés, a qual antigamente levavam dali para Suez por lhes sair muito mais 18
  • 138 Das coisas de Pegu barata, que trazida de qualquer outra parte. E se os portugueses não acudiram com tempo, e Deus não inspirara no coração de Felipe de Brito a tomar sôbre si «fi. 101 v. esta emprêsa, * e ir prosseguindo nela à custa de sua fazenda própria, sem dúvida os moiros e turcos a tiveram prevenida, e estiveram de posse dela com detrimento irremediável de todo o estado da índia. E para melhor se assegu- rarem os negócios desta fortaleza, o mesmo Felipe de Brito veio a Goa no ano de 6o3 para a entregar, e fazer menagem dela a sua magestade e assentar com o Viso-Rei algumas coisas tocantes àquela emprêsa. E depois de fazer ' negociar tudo como era necessário, se tornou logo no mesmo ano para Pegu. Nesta volta que fêz, passando por Cochim, e falando com o padre provincial da Companhia, lhe pediu padres para levar consigo, afirmando que, pôsto-que neste princípio tivessem trabalho em roçarem aquele tão fechado mato, ao diante receberiam mui doce fruto. Com estas esperanças escreveu logo o padre provincial a Bengala, onde estavam os quatro padres de que acima falá- mos, para que dois dêles se passassem a Pegu, suposto que naqueles reinos de Bengala se iam cada vez mais fechando as portas ao sagrado Evangelho. E parece que foi inspiração de nosso Senhor, porque neste mesmo tempo tinham já as coisas de Bengala dado a queda que acima relatámos, e estavam os padres determinados de se virem todos para a índia; mas com êste recado vindo-se dois para Cochim, os outros dois se partiram para Pegu, onde chegaram no mês de Fevereiro de 604 com notável alvoroço e contentamento de todos os portu- gueses que na fortaleza estavam. Porque sabendo-se de noite na fortaleza da chegada dos padres, foi tal a alegria de todos, que se puseram em folias com muitos instrumentos músicos, dizendo que Deus os vinha ver, e que já agora podiam crer que aquela fortaleza iria por diante, pois os padres entravam nela. E tanto que amanheceu os foi logo o capitão-mor Felipe de Brito, com todos os mais portugueses, buscar à praia com tanta festa, e alegria, que não cabiam de prazer. Tinham-lhes já aparelhado uma casa onde foram mui bem agasalhados, e visitados de todos com grande benevolência. Começaram logo a exercitar seu ofício, prègando, confessando, ensinando a doutrina, entendendo na con- versão, e fazendo todas as mais obras pias que a Companhia costuma, e tudo • fi. 103. com muita satisfação e emenda de vida * daquela gente; porque todos os por- tugueses se confessaram, e muita outra gente cristã da terra, e se tiraram muitas ocasiões de pecado, que naquelas terras nunca faltam. Os soldados da forta- leza, os mercadores da terra, todos em suas coisas recorrem aos padres, e êles são o único alívio e consolação de tôda aquela gente. O capitão geral Felipe de Brito, pôsto-que tivesse mui grandes desejos de dar aos padres todo o necessário para se poderem sustentar mui abundantemente, contudo pelos muitos gastos que tem naquela fortaleza, e estar quebrado de perdas que teve, não pode por agora fazer tanto quanto era seu desejo, mas contudo isso nada falta ali aos padres, os quais teem já feito umas casas ainda que de madeira, e uma igreja pequena, emquanto se não faz outra maior, em que gastaram quatrocentos pardaus os quais em Pegu para semelhante fábrica montam mais que quatro mil em Portu- gal, pela muita madeira que há naquelas terras. Tem nosso Senhor favorecido esta emprêsa com extraordinárias mercês e favores seus, que a todos dão gran- des esperanças de se abrir naquele reino uma grande porta ao sagrado Evan-
  • > Das coisas de Pegu 139 gelho, porque, estando a fortaleza por vezes em grandíssimos apêrtos de fome, Deus a socorria quási milagrosamente com muitos mantimentos, que de diversas partes vinham. Sôbre tudo isto deu nosso Senhor aos nossos tão grandes vitó- rias dos mogos de Aracão, cruéis inimigos do nome cristão, que a quem os não viu porá dúvida de as poder crer; e passou a coisa desta maneira: Vendo os moiros que andam na côrte de El-Rei de Aracão, o muito que ia prevale- cendo a fortaleza de Pegu, que Felipe de Brito tinha feito, magoados de por esta via se lhes tirar aquele bocado daquele reino, em que eles tanto desejavam de pôr pé, prometiam ao rei de Aracão muitas barras de oiro de tributo cada ano, se, deitando dali Felipe de Brito, os deixasse a êles ficar em seu lugar. Foram tantas as instâncias que lhe fizeram, e os medos que lhe meteram em cabeça de males, que lhe haviam de vir deixando ficar ali os portugueses, que de todo o transtornaram da amizade e confiança que tinha em Felipe de Brito. E assim depois de muitas vezes tentar de o fazer vir à côrte por manha e com boas palavras, e vendo que lhe não saía, depois de também o mandar ameaçar senão desfazia, e arrazava a fortaleza * que tinha começada, determinou de *fi. io3v. pôr tôdas as suas forças para o deitar dali, e lhe tomar aquela fortaleza, e extinguir totalmente em tôdas aquelas partes o nome português. E assim não contente com o que nos fizera em Ratigão, pôrto grande de Bengala, em Novem- bro de 602, fora aqueles males que na relação passada se escreveram, assolando muitos lugares de cristãos, queimando as igrejas, cativando e matando muita gente, em que entrou também o padre Francisco Fernandes de nossa Companhia, e depois de nos ter tomado em Março de 6o3 a ilha Sundiva, querendo agora tirar da garganta esta outra espinha, que ainda lhe ficava nela, e mais o ma- goava, que era a nova fortaleza de Pegu, pôs no mar no fim do ano 604 uma armada, perto de quinhentas e cincoenta velas, com quinze mil homens de peleja; e por cabeça dela seu próprio filho morgado, dando-lhe por acompa- nhado o seu capitão geral com todos os mais principais capitães que tinha em seu reino, parecendo-lhe que por esta via não sòmente extinguiria todos os portugueses de Pegu, mas conquistaria muitas outras terras e fortalezas que desejava senhorear por aqueles reinos. Antes de sair esta armada, lançou fama, que era para Segu com pretexto de ir sôbre outro rei gentio: mas a verdade era para dar sôbre nossa fortaleza em Pegu, e depois de a tomar ir sôbre os portos e cidades de Martavão, Teva e Tanaçari, como depois se soube do regimento que levava. O que não passou por alto ao capitão geral Felipe de Brito, porque como conhecia tão bem as malícias do mogo, e entendeu seus desenhos, não lhe querendo faltar com o primor que devia, pois de sua mão recebera aquele reino, lhe mandou dizer que não quisesse passar a Pegu com sua armada, porque lhe havia de resistir e pelejar com êle. Não se deu o mogo por achado deste recado, mas logo fêz sair sua armada, que eram quinhentas jáleas, e quarenta catures com muita artelharia. Os nossos se aparelharam de sua parte com número de velas e de gente bem diferente, porque as velas não eram mais que oito navios, mas mui bem apetrechados, soldados portugueses cento e oitenta. E tanto que souberam que o inimigo se vinha chegando o foram receber no mar largo e se encontraram com êle a uma ponta * que se chama de Negrais, onde logo de parte a parte romperam uma • fi. 104.
  • 140 Das coisas de Pegu com outra em uma batalha tão travada, que três vezes se retiraram e outras tantas tornaram a ela, e de tôdas foi Deus servido que sempre os nossos ficassem com a vitória, metendo no fundo aos inimigos muitas jáleas e catures, matando-lhe como mil homens e cativando quinhentos; não ficando dos nossos morto algum, mas só três ou quatro feridos. Vendo os inimigos quão mal lhes saíra do partido no mar alto, e como também era seu intento desembarcarem para combater a nossa fortaleza, se chegaram mais a terra com sua armada; pelo que os nossos assim por terem navios maiores, e que demandavam mais fundo, como por se refazerem, se meteram pela barra, e recolheram para a fortaleza. Porém vendo que os inimigos se vinham metendo pelo rio, e com tanta determinação que algumas embarcações que vindo ao longo da terra, e ficando por entre sêco e res- tingas, as levavam às mãos, se aperceberam com tôda a brevidade, e se foram logo pôr em uma paragem por onde os inimigos necessàriamente haviam de passar se quisessem vir sôbre os nossos, como em efeito vieram dali a poucos dias, depois de também êles se refazerem que foi aos 28 de Janeiro de 6o5, no qual dia ambas as armadas se encontraram à vista da nossa fortaleza e tiveram a quarta batalha tão travada, que por um pedaço não se enxergou melhoria por alguma das partes; porém depois foi nosso Senhor servido que a vitória se começasse a ver pelos nossos, de tal sorte, que os inimigos não tiveram outro remédio, que meterem-se por um esteiro, onde ficaram tão encurralados e im- possibilitados a poderem escapar por água, que naquele dia e no seguinte os nossos se apoderaram de tôda aquela tão grande e numerosa armada, sem esca- par uma só embarcação que pudesse levar a nova ao seu rei, do sucesso dela. Nesta entrada que a armada fêz por êste esteiro dentro, vendo o príncipe herdeiro do reino de Aracão, e os mais capitães que consigo trazia, que eram os melhores do reino, e tôda a mais gente, que por nenhum modo podiam escapar por água, desamparando tudo se lançaram em terra metendo-se pelos matos para verem •F1.104T. se pelo menos podiam salvar as vidas, e * irem-se por terra para Aracão. Porém foram tantos os trabalhos e fomes que padeciam, que pouco a pouco, desamparando o príncipe, alguns dêles se vieram para os nossos e outros se foram para o Tangu e para o Parão, de maneira que de quinze mil homens que trouxe, somente até três mil ficariam com o príncipe. Sabido isto por Felipe de Brito se foi logo com muita presteza a tomar-lhe certo passo onde sabia que haviam de vir demandar; e dali lhe saíram os nossos que não eram mais que cincoenta portugueses e duzentos pegus vassalos nossos, e pôsto que no prin- cípio os inimigos fizeram alguma resistência cuidando que o haviam somente com pegus, todavia depois, que se viram com portugueses, logo muitos se puseram em fugida, mas os mais se entregaram, particularmente o príncipe, e o seu capitão geral, e outros capitães grandes, e um filho bastardo do rei pas- sado, que foi de Pegu, os quais todos foram levados presos à nossa fortaleza para se fazer dêles o que parecesse ao Viso-Rei da índia, e principalmente do príncipe pcfr quem El-Rei seu pai promete grande soma de dinheiro; o qual pode mui bem dar e muito mais, por ser o mais rico e poderoso rei que agora há por tôdas aquelas partes e reinos de Bengala. Nem se pode fàcilmente dizer de quão grande importância foi esta vitória, e de quanto proveito temporal para se assegurar a posse, que já os portugueses teem daquele grande reino de Pegu,
  • Das coisas de Pegu 141 e se principiar o grande estado que naquelas partes se pode fundar para a coroa dêste reino. Mas de mais importância foi para se principiar a grande igreja, e conversão de infiéis que se pode fazer por todos aqueles reinos, onde o demónio até agora foi tão venerado. A presa desta vitória foi mui grande, porque se tomariam como mil peças de artelharia grossa e miúda, muitas mu- nições e mantimentos com que a fortaleza fica mui bem provida, afora as embarcações e cativos. Em tôdas estas batalhas e vitórias se achou sempre o padre Natal Talerno um dos dois que lá estão, que no meio das batalhas sempre andou animando e confessando aos nossos e ajudando-os com suas orações às quais eles atribuíam suas vitórias, pelo grande conceito que teem de sua virtude e assim o escreve também o capitão geral Felipe de Brito ao padre provincial, o qual nunca o larga de si; mas só a Deus de quem todo o bem procede, se dê toda a gloria e honra. * CAPÍTULO V Das coisas do reino de Bisnaga, do que se fê\ tio colégio de S. Tomé, e missão de Chattdegri NESTE colégio, e suas residências vivem sete padres e dois irmãos da Companhia, que fazem o mesmo fruto nas almas dos cristãos e gentios que em tôdas as mais partes da índia. Baptizaram-se em uma igreja, fre- guesia que está à conta dos padres, cento e vinte gentios, acabou-se uma capela unida ao colégio, que se tem por um dos santuários antigos do glorioso Após- tolo S. Tomé, e no monte pequeno, que é também outro santuário do mesmo Apóstolo, se fizeram algumas coisas dignas daquele, lugar para maior veneração dêle, como foram: pôrem-se umas grades de ferro doiradas, onde é tradição, que orava o sagrado Apóstolo, cobrir-se com uma abóbada uma cruz, que estava expressada na rocha viva, que denota muita antiguidade e devoção; e com outra fundada sobre quatro colunas se cobriu uma fonte, que está na mesma rocha, que ainda há fama ser do tempo do santo Apóstolo. Outra se fêz por cima de um padrão, que também se diz ser do mesmo tempo, e com uma cruz em cima da forma das do santo Apóstolo; com o que cresceu muito mais a devoção e reverência, que se deve a tão santo lugar, pisado com os pés, santificado com a presença, e regado com o sangue de tão grande Após- tolo, de cujas maravilhas antigas, que nestas terras obrou quando nelas prègou o saftto Evangelho, se vão descobrindo cada vez novas memórias. Das quais referirei aqui uma, das mais notáveis que até agora se acharam; e o autor dela é o bispo que ao presente é da serra e cristãos de S. Tomé nos reinos do Malabar, D. Francisco Ros, padre que foi de nossa Companhia; o qual, como é tão douto na língua caldeia e suriana, que aqueles cristãos usaram até agora nos livros eclesiásticos e continuamente anda revolvendo êstes livros para os alimpar de muitos êrros que os herejes nestorianos nêles meteram, * entre . fi. .o5 y. outros, foi dar com uns mui antigos, donde tirou o que logo direi, e êle refere em uma carta de 11 de Dezembro de 6o5.
  • 142 Das coisas de Bisnagá «Na costa do reino de Bisnagá, havia antigamente igrejas que fundou o Apóstolo S. Tomé, o qual (como consta pelos livros antigos caldeus, que aqui temos) principiou oito sedes arquiepiscopais nestas partes, das quais algumas totalmente se extinguiram, e os nomes delas; e pôsto-que estão em caldeu escri- tos, não sabemos os logares que significam. Das que sabemos a primeira é Hendu, convém a saber, Malabar; a outra Socotorá, e a outra Cambaia, a outra Mogor, a outra China, e a outra a grande China, que deve ser o Cataio. Con- verteu o santo a seis reis, três dêles imperadores, e um dêles o de Bisnagá, e outro do Malabar todo (que agora está dividido em muitos reis) e outro do Paude, donde agora é o cabo de Comorim, com as terras que veem ter à índia, e as mais que agora possuem muitos senhores. Achei aqui em um livro antigo caldeu de mão, um cânon do Concílio Niceno, que não está no latim, e diz assim tresladado verbo ad verbum: Sic sit polestas Patriarchce Romani super omnes Palriarchas, sicut Beato Petro super totum universum, quo loco Petrum observai ortmis Ecclesia, eo illum qui Romce est; et horum transgressor em, ana- themati\at synodus: o qual por ser do primado da Igreja romana o quis aqui trasladar. Mandei também ao nosso Padre Geral com outros cânones do mesmo concílio que achei no dito livro; serão por todos quarenta e seis, os mais não estão no latim. E juntamente os cânones dos Apóstolos, oitenta e três, com outras tradições da adoração da cruz, e outras constituições apostó- licas». Até aqui o bispo em sua carta. E porque nela também diz do muito fruto que sc faz no reino de Bisnagá, e milagres evidentes com que nosso Senhor concorre com aquela gente, trataremos agora disto mais miudamente, pois pertence à residência, e missão em que os nossos estão neste reino, e na própria cidade real de Chandegri, em que El-Rei tem sua corte. Estão, pois, aqui sempre dois dos nossos, cujo ofício e ocupação é a que •Fi.106. costumam, de prègar o Evangelho, e dar a * conhecer o nome de Cristo em todas as partes; e nesta o fazem também buscando todas as ocasiões e meios possíveis, para darem notícia das coisas de Deus a êstes badagás (que assim se chamam também os naturais dêste reino) os quais mostram tanta capacidade, e fazem tanto entendimento em tudo que se lhes diz nesta matéria, que fàcil- mente veem logo em conceder seus êrros, e cegueira, e a falsidade de suas idolatrias, e confessam serem as coisas que os padres lhes ensinam sólidas, ver- dadeiras e sem enganos: e é prática comum entre êles, que se o rei e os grandes se convertessem, êles se converteriam também: mas é tão poderoso o respeito humano, e o amor que os homens teem ao corpo, e às comodidades da vida, e o arreceio de perderem crédito, e reputação entre os seus, que isto só os detém para se não sugeitarem ao que o entendimento e razão os está obrigando. Mas como o conceito que teem das coisas de Deus, e de nossa santa fé, é tão grande, e no entendimento se vêem tão convencidos da verdade, isto mesmo nos está prometendo que indo-se cada vez mais espalhando a noticia do santo Evangelho, êles também vão perdendo o mêdo, e cruzem de todo as mãos ao verdadeiro Deus, e tanto maiores esperanças temos disto, quanto mais no prin- cípio pelos mesmos respeitos humanos, que acima digo, fugiam dos padres, e agora concorrem a nossa casa em magotes, com tanto desejo pedindo que lhes pratiquem das coisas de nosso Deus, que põem espanto: e como vão achando
  • Das coisas de Bisnagá i43 por experiência que nenhum mal, nem desonra lhes vem disso entre os seus, é muito para confiar que de todo vão perdendo o temor para receberem a nossa santa fé. Quanto à outra coisa que disse, que muito ajudava para esta gentilidade ir perdendo o medo de tratar, e conversar com os padres, e de se afeiçoarem às coisas de nossa santa fé, é o favor grande que vêem no mesmo rei, para nossas coisas, e o muito amor que mostra aos padres. Este se vai sempre vendo, e acrescentando cada vez mais, assim nêle, como nos grandes de sua côrte, e pôsto-que os padres saibam já bem a língua badagá, que é a ordinária dêste reino, e * se vão cada vez mais aperfeiçoando nela, para tratarem com a »fi. 106*. gente: contudo, como há outra língua mais política, e cortesã, a que êles cha- mam ossaoescrestam, que responde entre nós à língua latina, e nesta estão escritas as coisas de sua lei, e nela se praticam, e é a que mais se usa na côrte, e de que El-Rei faz muito caso, procuraram os padres também de a aprender e estudar com muita diligência, por quão importante era o sabê-la, assim por razão do trato da côrte, em que estão, como para notícia que relevava ter das coisas de suas seitas, para melhor lhas confutar. E assim nesta língua falam e tratam com o rei, o qual cada vez mais, como disse, parece que se vai avan- tajando no amor que tem aos padres, e honras que lhes faz. Andou êle êste ano mui embaraçado com guerras as quais ordinariamente faz contra os seus próprios vassalos: porque como é rei tão poderoso, e tem suas terras e reinos distribuídos por senhores particulares, vassalos seus, onde entram os três nai- ques de Gingi, Tanjaor e xMaduré e outros régulos, que lhe pagam tributo e vassalagem, e acontece algumas vezes não lhe pagarem como devem, outros levantarem-se-lhe com o mesmo tributo e vassalagem, é-lhe necessário por isto, trazer sempre em campo seus capitães, reprimindo e castigando semelhantes rebeliões. E neste ano êle mesmo em pessoa foi sôbre uma fortaleza que se chama Velur, que dista de Chandegri dia e meio de caminho, onde se tinha fortalecido um alevantado, a quem os mesmos três naiques favoreciam, por terem naquela fortaleza um grande padrasto por si contra El-Rei. O qual, porém, depois de grandes combates e mortes de ambas as partes a rendeu, e o alevantado se foi lançar a seus pés, dizendo que confessava ser seu vassalo, e que tinha confiança na misericórdia e clemência de sua alteza que lhe per- doaria. O rei, como é muito benigno e de boa condição, lhe perdoou e deu logo seguro de o não castigar. Tomou, porém, posse da fortaleza, e se agasa- lhou com a rainha em uns paços novos, que custaram a fazer cem mil cruzados, com portas de pedraria com tanto artifício, que ficou El-Rei maravilhado de vêr coisa tão rica. Junto com El-Rei na primeira cêrca da fortaleza, se alojaram quatro centos fidalgos, e outra muita gente: na segunda o seu capitão * geral • fi. 10. de campo com sua gente, e os mais senhores por fora da fortaleza. O alevan- tado ofereceu um presente a El-Rei de vinte leques, que são a modo de abanos pequenos, todos guarnecidos de pedraria e aljôfar, que foi avaliado cada um em duzentos mil pardaus, afora muitos cavalos e elefantes. Enquanto El-Rei esteve em Velur, quási sempre residiu ali um padre nosso por ordem sua, ao qual êle mandou dar casas junto de seus paços, onde acomodou uma capela, em que dizia missa. E indo o padre provincial visitar o colégio de S. Tomé4
  • 144 Das coisas de Bisnagá e suas residências se foi dali também a ver El-Rei, que então estava nesta for- taleza, levando consigo ao padre reitor do colégio e a um irmão. O rei o recebeu com notável alvoroço e alegria: e foi coisa notada e falada entre os seus, que o Rei de Bisnagá fazia mais honra aos padres, que ao seu supremo sacerdote, a quem êles reverenceiam com grandíssimo acatamento. Estimou também El-Rei muito o presente que lhe ofereceu o padre provincial, onde entravam, além de outras peças miúdas, brincos da China, um elefante de Ceilão pequeno, mas com bons sinais, não porque não haja infinitos em Bisnagá, mas por serem de muita estima, e grau distinto os de Ceilão. Ofereceu-lhe mais um libréu muito feroz, de que El-Rei muito gostou, e também uma cachorrinha felpuda, a qual com aventages que fêz diante de El-Rei com sua cólera e braveza causou muito aplauso. Finalmente depois de largas práticas, em que mostrou o amor que aos padres tinha, despediu ao padre provincial com muita honra, dando-lhe para o caminho seis centos pardaus, e uma joia que valia cento, com muitos pachavelhões, que são certos vestidos, e côvados de veludo, assim ao padre provincial, como ao padre reitor, e aos dois companheiros, e topazes, ou intérpretes, que com êles iam. A êste tão grande amor que El-Rei mostra aos padres e honras com que os trata, procuram os nossos corresponder, com todas as demonstrações de agradecimentos que podem. Para o que houve grande ocasião em uma doença que El-Rei neste ano teve, na qual chegou ao extremo perigo de morte, porque em todo o tempo da doença o padre Belchior Coutinho que aí estava, o mandou visitar muitas vezes, fazendo-lhe a saber, como todos os padres o encomenda- • fi. 107 v. vam * a Deus, e jejuavam e faziam romarias por êle: e quando já foi melho- rando, lhe mandou um vidrinho doirado com água rosada, que êle muito estimou, e festejou (porque não sabem estilar os daquelas partes semelhantes águas) com sua irmã; e com a rainha praticou um pedaço sôbre os padres e das muitas razões que tinha para os estimar muito. Depois que sarou, o foram todos os da sua corte visitar com seus presentes, lançando-se por terra como é costume entre êles: foi também o padre a mostrar-lhe êste reconhecimento, e com o joelho quási no chão, lhe deu os parabéns da saúde, e lhe ofereceu outra âmbula de vidro, com água rosada, a qual tomando na mão esteve cheirando todo o tempo, que os da corte lhe iam fazendo êste ofício. Ao dia seguinte lhe foi o padre fazer o mesmo em nome do padre reitor do colégio de S. Tomé, e com um presente que o mesmo padre lhe mandou de água de Angeles, confeitos, e conservas, o que tudo lhe foi apresentado juntamente com uma carta que o padre reitor lhe escrevia, na qual lhe dava os parabéns da saúde, e contava o que os padres por ela tinham feito de orações, romarias, jejuns, e outras peni- tências, e foi extraordinária a alegria que com esta carta recebeu. E porque o padre no remate da carta dizia, que rogava a Deus verdadeiro por sua alteza, disse o seu supremo sacerdote, que ali estava, a El-Rei: Senhor, chama o padre ao seu Deus verdadeiro. Sim disse El-Rei, porque fala de Deus que é um só. Não fala dêsse, tornou o sacerdote, senão do seu, acudiu logo o padre que aí estava, e dirigindo a prática a El-Rei, lhe disse: Senhor, o Deus de quem fala o padre, é o Deus único do céu e da terra, como vossa alteza diz, que é tam- bém o Deus do padre, e de toda a criatura; e logo propôs e declarou algumas
  • Das coisas de Bisnagá 145 propriedades de Deus, que todos muito celebraram, e um cunhado do mesmo rei, que estava presente, muito mais, dizendo em voz alta: grande é a sciência dos padres e grande lei. Ao que acudiu o seu sumo sacerdote, dizendo lhe que já ele era como português, pois falava daquela maneira. O qual dito fes- tejaram todos, louvando por derradeiro ao padre reitor pelo bom cuidado, e lembrança que tivera, assim da saúde de El-Rei, como de o mandar visitar. Não é menor o amor e estima com que também trata nossas coisas o prín- cipe herdeiro de todo este império, o qual está lá mais * pela terra dentro, nas «fi-ios. suas terras que êle mesmo governa, e quando os padres, haverá três anos, iam com os embaixadores que El-Rei mandou a Goa, lhes fêz muitas honras, e gasalhados passando por suas terras: e de então para cá sempre pediu padres, escrevendo sobre isso muitas cartas; mas pelos não haver, se não satisfez até agora com seus desejos. E para que se veja quão verdadeiros são, e o amor que lhes tem, porei aqui uma carta com que respondeu a outra que os padres lhe escreveram a qual diz assim: «No ano de Subarcutu no mês de Dezembro, dez dias depois da lua cheia: Ola de Trimalá Raju, filho de Ramá Raju, príncipe mui grande, raio entre os raios, escrita ao padre de Chandegri. A ola que vossas reverências me escreveram pelo seu Raifu, recebi, e meti no coração. Recebi tudo o que me mandaram, convém a saber a espingarda de pederneira, o arco, rodela, escritório, púcaro de vidro, e mais vidros, e dantes por via de Ramaná quatro espelhos, e os dois vidros e o açúcar. Também fol- guei de saber que vossas reverências falaram nessa corte para me fazerem lá ir. Agora escrevo eu olas a El-Rei e à rainha, e aos capitães, sobre minha ida. Vossas reverências quando passaram por cá para Goa disseram que haviam de vir aqui morar, e não vieram. Agora venham e não tardem. O demais tudo dirá o meu embaixador». Daqui se pode coligir quanto Deus nosso Senhor vai favorecendo esta mis- são e estabelecendo-a com meios tão eficazes, como é o favor do rei e dos gran- des, e do mesmo príncipe herdeiro de todos êstes reinos. E para que também a rainha não faltasse em a favorecer, ela mesma pediu aos padres quisessem fazer residência no pôrto de Paliacate, que está seis léguas de S. Tomé, para a banda do norte, ao longo do mar, donde lhe entra um esteiro muito capaz de navios e galeotas, que são as embarcações de que ordinàriamente usam os chatins por aquelas partes, e que pelo pôsto em que está fica sendo mui célebre, e muito mais o seria se nêle morassem portugueses como em S. Tomé; e por esta causa a rainha quis que os padres fizessem nêle residência, para que os portugueses viessem ali morar, e tanto instou nisto, que meteu ao mesmo rei por intercessor. Pelo que para satisfazer a um e outros, os padres o aceitaram, e deu princípio a esta residência o padre Simão de * Sá, com uma formosa cruz *Fi.io8v. que aí arvorou e começando também logo uma igreja que se vai fazendo, dan- do-lhe até agora a mesma rainha os gastos; pôsto-que não faltaram perseguições de alguns moiros que naquela povoação há, e sentem muito metermos nós ali pé; os quais com falsas informações e calúnias pretenderam fazer afracar o fervor com que a rainha nos ia favorecendo e ajudando, mas nem por isso afracou a paciência do padre; com o que vai continuando nesta santa obra de que se espera grande glória de Deus e conversão de muitas almas, não somente '9
  • 146 Das coisas de Bis nagá por ser muito fácil poder-se ali fazer uma grande povoação de cristãos, senão também por com isto se abrir caminho para se converterem os gentios das outras povoações que ao longo do mar correm dali até S. Tomé. CAPÍTULO VI Do que sucedeu na Costa da Pescaria ERA os anos passados cabeça desta costa e de todas as povoações dela, a povoação de Tutucorim na qual estava o colégio da Companhia, a que eram anexas todas as residências e igrejas que por espaço de cincoenta léguas havia por tôda aquela costa e as que se iam fazendo pela terra dentro. Mas porque havia três anos que o rei ou régulo do mesmo Tutucorim por os cristãos lhe resistirem a um novo e pesado tributo que tirânicamente lhe quis pôr; e porque também os padres não quiseram persuadir aos mesmos cristãos que lho dessem, como êle lhes pedia, veio com gente de guerra sôbre êste e outros lugares e entrando no nosso colégio prendeu um padre que ali ficou depois de recolhidos os outros, e roubou tudo quanto achou; e além disso entrando na igreja fêz nela muitos desacatos e insultos. Por esta causa e por o rei depois disto não dar a devida satisfação, os padres se passaram para uma ilha então despovoada, que estará meia légua da praia e se chama a ilha dos •fi. 109. Reis, para onde também mudaram o colégio * que nela de novo vão edificando e onde ficará para sempre por ser lugar mais seguro para no tempo das guer- ras, que nunca faltam por estas partes, se pôr o fato das mais igrejas e residên- cias da costa, e também se poder recolher a gente fraca como mulheres e meninos, e para aqui se passarem também a mor parte dos moradores de Tutucorim, com o que quási ficou de todo despovoado. Desta ilha se corre agora com todo o govêrno desta cristandade, que de três anos a esta parte padece muito grandes necessidades e pobrezas, por em todo êste tempo por causa das guerras e perturbações, não haver pescaria de aljôfar que é todo seu remédio. Pelo que foi necessário aos padres porem tôdas as possíveis indús- trias por acudir a êstes pobres cristãos; para o que houveram muitas e grossas esmolas de gente rica e poderosa com que lhes remediaram e vão remediando sua grande pobreza, assim no vestido como na sustentação; dando-se em todos os lugares de comer cada dia uma vez a todos os pobres dêles. No espiritual se corre com êles como sempre; erç que se ocupam dezassete padres que numa roda viva andam em contínua peregrinação por tôda aquela costa, visitando e cultivando aquela vinha do .Senhor. Baptizaram-se na ilha dos Reis trezentos gentios adultos, que pelas grandes tiranias que os régulos e senhores que há pela terra dentro lhes fazem, recolhem a ela como a lugar seguro, tomando Deus por meio as vexações que padeciam, para os trazer aonde o conheces- sem e alcançassem tamanho bem como é o do lume da fé que ali recebem. Outros quinhentos e vinte se baptizaram nas outras povoações, nas quais tam- bém acontecem continuamente casos notáveis e miraculosos com que Deus vai criando aquela nova cristandade e dando a conhecer seu grande poder
  • Das coisas da Costa da Pescaria 147 aos gentios que ainda não teem notícia dêle, dos quais para glória sua diremos alguns. Havia em um dos lugares que estão pela terra dentro uma igreja, que de todo não estava ainda acabada, pôsto-que havia tempos que se começara, por as guerras e perturbações que então houve, não darem lugar para isso. Acertou de vir ali ter um senhor gentio que o era também * daquele lugar e doutros »Fi. 109 v. daquela comarca, o qual sabendo que aquele edifício que estava começado era igreja dos cristãos, mostrou por palavras pouco gôsto dela se fazer naquele lugar, e cobrando com isto alguns moiros e gentios atrevimento, determinaram de fazer um escárneo em despeito da mesma igreja. Para isto tomaram um candieiro de barro novo, enchem-no de água, levam-no à igreja e fingindo que era alampada, põem-lhe uma torcida e chegam-lhe o fogo dizendo uns para os outros, que a queriam acender como as outras alampadas dos cristãos que estão na igreja. Mas Deus para mostrar seu poder àqueles infiéis e a santidade do lugar e templo que para ele estava dedicado e se edificava (ainda antes que com sua real presença, no santíssimo Sacramento e sacrifício da Missa, fôsse san- tificado) foi servido que o fogo logo no mesmo ponto pegou na torcida e ficou ardendo na água como se fôra em azeite, de que os moiros e gentios ficaram confusos e o senhor do lugar que estava presente tão maravilhado, que disse logo aos cristãos do mesmo lugar, que a igreja dali por diante não estivesse assim por acabar, e que escrevessem ao padre, que não sòmente a mandasse acabar, mas que em todos os lugares de sua jurisdição, que são muitos, pudesse fazer as igrejas que quisesse, pôsto-que não houve possibilidade para se fazerem mais de novo que duas. E é para dar muitas graças a Deus quanto com estas igrejas, que se vão fazendo pelas terras dos gentios adentro, se vai diminuindo a devoção e adoração dos pagodes e crescendo a da santa cruz e das mais coisas da nossa santa fé. Um gentio ofendido gravemente dum cristão correu após êle com a espada nua para o ferir ou matar; e não tendo o cristão já outro remédio se abraçou com o pé de uma cruz, que estava em o meio do lugar, esperando ali o golpe. Mas chegando o gentio perto dêle e vendo-o abraçado com a cruz, parou dizendo: a cruz santa te valha; retirando-se logo por reve- rência dela. Uma mulher cristã esteve cinco meses cega. E um domingo depois de todos irem à missa, achando-se só disse consigo mui desconsolada: todos vão à igreja e eu só fico, e falando com Deus disse mais: se Vós, Senhor, me derdes vista como de primeiro, eu visitarei sete igrejas de sete lugares e nelas ouvirei * missa e darei oferta e mandarei dizer uma missa à santa cruz ! Kl. no. e darei de comer a cinco pobres cegos. Dito isto chorando muitas lágrimas adormeceu, até que tangendo a Santos e ao levantar a Deus, acordou vendo como dantes; e com muita alegria se foi logo fazer oração à santa cruz. Um cristão cegou de todo duma doença que teve e foi tanta a paixão que disso tomou, que tentado do diabo determinou de se enforcar com suas mãos. Para êste efeito tomou uma toalha nova e bem forte e amarrando-a ao pescoço e a uma trave da casa antes de se lançar chamou pela Virgem nossa Senhora, dizendo com sua simplicidade, porque era dantes pio e devoto: Senhora eu entrego minha alma nas vossas mãos, bens sabeis, que por não ter vista, não quero mais viver. E dito isto se lançou. Porém a Virgem gloriosa lhe não
  • 148 Das coisas da Casta da Pescaria faltou, porque por sua intercessão permitiu Deus que a toalha se fêz logo em dois pedaços ficando um pedaço na trave e outro no pescoço do pobre homem. O qual maravilhado do sucesso e compungido de seu pecado, desistiu daquele mau propósito, e ainda que depois de algum tempo pela vergonha que tinha de descobrir tal pecado, se foi ter com um padre e se confessou com tantas lágri- mas e sinais de contrição, que as fêz também derramar ao mesmo padre. Foi muita a edificação e exemplo que deram alguns cristãos em ocasiões que tiveram de mostrar a constância da sua fé e temor de Deus. Estando um cativo em terra de moiros, lhe fizeram grandes promessas se se fizesse moiro, ao que êle resistindo, o ameaçaram com a morte; e desprezando também esta, lhe mos- traram um elefante bravo dizendo que o haviam de botar a êle. Mas deu-lhe Deus tanto ânimo e fortaleza, que também aceitou o partido, antes que negar a fé. Porém não se efectuando por parte dos moiros sua morte, se resgatou com dinheiro que êles antes quiseram que fazê-lo mártir. Outro, estando em uma povoação de gentios, viu a um cristão andar passeando com cinza na testa, que é sinal de gentio; no mesmo ponto arrebatado do zêlo da fé, como Fineias, arremeteu a êle e o começou a servir de muitas bofetadas. Acudiram • fi.nov. logo alguns soldados gentios e preguntando-lhe porque dava * naquele homem? respondeu, que porque sendo cristão punha cinza 11a testa como gentio. Pois, e vós, disseram os soldados, ,jque fareis se nós por fôrça vo-la pusermos na testa? Respondeu o bom cristão: A cabeça consentirei eu que me vós corteis, mas que me ponhais cinza na testa isso não. Com cuja resposta os gentios ficaram maravilhados e o outro cristão que êle castigara mui confundido de sua fraqueza e edificado do zêlo do que o castigou. Outro cristão, estando diante dum senhor gentio cujo vassalo era, lhe preguntou o senhor 1 porque se tinham feito tantos cristãos pela terra dentro? Respondeu o cristão: Porque nós, senhor, fazemos cristãos a todos os que de sua vontade o querem e ainda que seja de qualquer casta. Dessa maneira, tornou o gentio, ^ fareis também cristão ao senhor da terra onde estiverdes? Sim, senhor, respondeu o cristão, e ao próprio naique, senhor grande, se êle quisesse. Logo também a mim, tornou o gentio. Sim, senhor, e ainda muito mais a vós que sóis vassalo do naique grande. Do que, agastado o gentio grandemente, o ameaçou que o mandaria fazer em quartos. Bem podeis, senhor, respondeu o cristão, dizer, e fazer, que eu não hei de deixar de falar a verdade. Estava, quando isto passou, êste gentio no campo com um exército e presentes a êste dialogo muitos capitães e soldados gentios que ficaram mui maravilhados da confiança e constância daquele cristão; o qual preguntado depois de outros cristãos ,;que cuidava naquele tempo e porque falava com tanta confiança? Respondeu, que não cuidava mais que em estar aparelhado para morrer por Cristo e que isto lhe tirava todo o mêdo. Não foi de menos edificação e louvor em outra matéria o que fizeram duas mulheres cristãs e honradas as quais sendo solicitadas de certos homens com dinheiro e peças de oiro que lhes mandaram, não sòmente não consentiram com seus diabólicos intentos, mas com grande ânimo tomaram o dinheiro e peças e mandaram tudo à igreja para que se desse a pobres. Outra moça sendo solici- tada de muitos com dinheiro e importunada por sua mãe a que consentisse pois eram pobres e morriam de pura fome, respondeu com muita constância, que
  • Das coisas da Costa da Pescaria 149 melhor lhes era morrerem ambas, que ofenderem a Deus, com cuja resposta a mãe ficou tão confusa * e compungida, que logo fêz penitência de seu pecado, »fi. m. Em Ceilão pôsto-que na residência de Columbo, se fêz muito grande fruto assim com os portugueses, como com os mais cristãos da terra e em um lugar perto da cidade que se deu aos nossos, onde se converteram e baptizaram todos os que ainda não eram cristãos sem ficar já gentio algum nêle, não se espalharam, porém, ainda pelo restante desta ilha, por esperarem melhor conjunção, que será depois que tôda se acabar de conquistar, o que com o favor divino parece se poderá fazer em breve, porquanto tudo o que na rebelião passada se tinha perdido, está já outra vez recuperado; porque com a morte de D. João o ale- vantado, que se dizia rei de Cândia, e de muitos outros principais da ilha nossos inimigos que foram os autores do alevantamento dela, ficaram as forças dos rebeldes tão quebrantadas, que pôde D. Jerónimo de Azevedo, general desta con- quista, castigar a muitos dos rebeldes e aquietar tôda a ilha, e conquistar muitas terras dêla de novo, e só lhe falta entrar no reino de Cândia para toda a con- quista ficar acabad» e com ela lugar livre para os nossos poderem seguramente discorrer e pregar o Evangelho por tôda esta ilha, em que se fará uma grande e formosa cristandade. CAPÍTULO VII Do que se fê\ no colégio de Coulão e reino de Travancor e perseguição que ali padeceu aquela cristandade ESTÃO neste colégio oito padres e três irmãos; os cinco sacerdotes andam ordinàriamente tôda a costa do reino de Travancor, que será vinte e cinco léguas de Coulão ate o cabo de Comorim, discorrendo por quatro igrejas em que aquela cristandade está dividida, trinta e cinco ao longo da costa e nove pela terra dentro. Baptizaram-se sòmente cento e cincoenta gentios, * não .fuu.t. porque não houvesse disposição para muitos mais, mas porque o tempo o não deu de si, por uma grande perseguição, que o demónio urdiu e fêz levantar contra aquela cristandade, que tao florente ia por todos estes anos atrás, e com tanta bonança e aumento de conversão, que bem lhe arreceavam os mesmos padres, alguma grande borrasca, e que o demónio, inimigo de todo o bem e raivoso de se ver ir perdendo tanto das terras de que estava feito senhor, não poderia deixar de urdir alguma teia por onde impedisse o curso da grande con- versão que se ia fazendo, igrejas e cruzes que se iam alevantando, não sòmente por tôda aquela costa mas também pela terra dentro em postos e lugares onde nunca até então o nome de Cristo fora conhecido, E com o íei destas tcnas ser o mais benévolo e afeiçoado aos padres e favorecedor dos cristãos, que havia rei gentio naquelas partes, e em tempo que acabava de mandai lançai um pregão, que nenhum gentio vexasse cristão algum, nem por tôda a praia fizesse coisa alguma se não o que os padres ordenassem e mandassem; então de im- proviso arrebentou o demónio com uma das mores perseguições e tormentas que aqueles cristãos nunca padeceram. E passou a coisa desta maneira. Houve no mês de Abril de 004 um eclipse do sol, e como êstes gentios e
  • Das coisas de Coulão infiéis são tão agoireiros e supersticiosos nestas coisas naturais, ajuntou El-Rei de Travancor seus brâmenes e feiticeiros e preguntando-lhes que significava aquilo, respondeu um, instigado pelo diabo, que prognosticava haver de vir algum grande mal sobre sua alteza e que para o divertir de si era necessário mandar que se pusesse o fogo a algumas povoações e houvesse mortes (que é o remédio que estes gentios e feiticeiros costumam dar para semelhantes casos); mas já que isto havia de ser, era bem que se executasse antes nas povoações dos cristãos que estão na praia, que nas dos gentios que estão pela terra dentro. Ficou El-Rei com isto mui confuso e embaraçado porque corria muito bem com os cristãos e era mui grande amigo dos padres e não havia uma semana que mandara lançar o pregão que acima dissemos; mas contudo não deixou de ficar • fi. lu. mui atemorizado com o * dito do feiticeiro. Neste comenos para o demónio levar ao cabo o que determinava, urdiu mais que houvesse na praia, numa povoação que chamam de Paião, uma diferença entre os cristãos e gentios que nela moram, fundada sobre nada, porque não foi mais que uma palavra de pouca cortesia com que um gentio tratou mal um cristão passageiro; ao que acudindo os outros cristãos, houve entre êles uma briga da qual, pôsto-que não houve mortos, os gentios porém se deram por tão injuriados, que se foram a El-Rei e lhe deram uma boa quantidade de dinheiro para que lhes desse licença e gente de guerra para darem nos cristãos. E como El-Rei estava tão medroso pelo que o feiticeiro lhe dissera do eclipse, lhes deu a licença e concedeu um capitão com soldados (pôsto-que com muito sentimento seu e com dizer: que dirá agora o padre André); mas como gentio venceu a força do medo. Havida esta licença e soldados, os gentios se ajuntaram em número de mais de dois mil e se foram com grande fúria sobre a povoação de Paião onde então estava um dos padres; os cristãos como os viram, não sabendo da licença e gente que tinham alcançado de El-Rei, mas cuidando que não o haviam mais que com os Carias seus inimigos, juntando-se como quatrocentos homens, lhes saíram com suas armas a recebê-los em um campo e pelejaram com tanto esforço que durou a batalha desde pela manhã até à tarde, onde mataram dos inimigos um golpe deles, ferindo outros muitos que depois morreram, sem da parte dos cristãos perigar e morrer mais que um; e indo os cristãos com esta vitória cuidando que só pelejavam com os Carias seus inimigos, no tempo que os iam desbaratando e pondo em fugida, eis que acode o capitão e gente de El-Rei que até então estiveram afastados e encobertos: os quais como os cristãos os vissem pararam logo, sem prosseguirem mais a vitória nos que iam fugindo, porque é costume seu não pelejarem com gente do seu rei mas só defenderem-se dos inimigos vizinhos quando os acometem; pelo que retirando-se logo foram largando o campo e se recolheram para a povoação. Mas entendendo que o negócio não havia de parar ali, como foi noite a deixaram, e com suas mulheres, filhos e • fi. ii!». fato que puderam levar * se foram com o padre para uma povoação do cabo de Comorim; ao outro dia tornam logo os gentios para darem outra batalha, e achando a povoação sem gente lhe puseram o fogo e a queimaram tôda com a igreja e casa dos padres; e indo por diante com seu furor, se foram discorrendo por outras povoações, donde também os mais dos cristãos se tinham já ido, e queimaram onze logares com suas igrejas, cruzes e casas fazendo em tudo
  • Das coisas de Coulão grande estrago. E conforme ao ódio que p demónio que os regia, lhes tinha metido no coração, todos os mais lugares de cristãos houveram de queimar, se eles se não fizeram fortes na povoação de Tengapatão, onde por ser mais de- fensável os não derrocaram entrar e lhes fizeram rosto esforçadamente matando alguns deles; com isto cessou o fogo e os gentios se recolheram mui contentes do que tinham feito. Foi porém mui grande a perda que os cristãos com este incêndio receberam em suas casas e fazendas, mas muito maior a afronta que sentiram pela queima das igrejas e cruzes. O que sabendo o Bispo de Cochim proibiu por sua excomunhão que nenhuns cristãos portugueses nem da terra fossem tratar nem comerciar na costa, que para aquela gente é mui áspero castigo, por não terem outro remédio de sua sustentação e vida, senão o que por mar lhes vai por via dêste comércio; e fez isto o Bispo com muita prudência, para que por este meio e vèxação o Rei tornasse sobre si e caísse no mal que tinha feito, e desse dêle satisfação devida; do que já vai dando mostras e falando a propósito. E cêdo se espera que se concluam os concertos da paz para que compostas as coisas se torne a prosseguir no negócio da conversão e cristandade. E vai nosso Senhor dando sinais de haver de tirar mui grandes bens dêstes trabalhos e com muito maior aumento de sua igreja; e pôsto-que o demónio com esta revolta pretendeu vingar-se e impedir o fruto que se ia fazendo pela terra dentro, confiamos na divina misericórdia que lhe há de custar mais caro; porque já com esta ocasião se fêz uma igreja num lugar dos em que êle era mais venerado, com muita confusão sua e de todos os gentios destas partes; e passou a coisa desta maneira. Há na ponta do cabo de Comorim e dentro no mar, afastada * dêle como quinhentos passos, uma pedra que com ser só naquele • lugar tem como duzentos e cincoenta braças de circuito, medidas ao lume de água, e de altura sôbre o mar quinze ou vinte, na qual os gentios e brâme- nes, conforme as suas diabólicas superstições, tinham mui antiga devoção pelas fábulas que contam de seu pagode Perunal ter passado daquela pedra para a ilha de Ceilão em figura de bugio, e para memória disto estavam no mais alto dela umas como pegadas que parece os brâmenes e sacerdotes dos ídolos ali cavaram juntamente com o sinal de um bordão, que tudo diziam ser do gigante bugio, as quais coisas sempre tiveram os gentios e tinham ainda agora em mui grande veneração; e uma vez cada ano em dia para isso assinado concorria inu- merável multidão de gentios a adorar e visitar estas pègadas; e os brâmenes de um pagode que aí está perto davam um grande banquete a todos os passageiros, e faziam certas cerimónias e superstições a que chamavam Tongavale; porém, foi 'nosso Senhor servido que o diabo que tinha urdido as revoltas que acima dissemos começasse a pagar aqui sua maldade, como por esta mesma ocasião que êle deu, ser lançado deste covil onde tão venerado era. Porque ao tempo que os cristãos dos lugares da praia se recolheram com os padres André Bucério e Diogo Gonçalves, deixando suas povoações por darem logar ao furor dos gen- tios; os padres os trouxeram a esta pedra como a lugar mais seguro e defensá- vel, onde também recolheram o fato das igrejas que poderam salvar do incêndio, e onde por espaço de três meses que ali estiveram, converteram aquele lugar da fortaleza que antes era do diabo em uma formosa e mui acomodada fortaleza de Cristo. Porque"no lugar das pègadas do gigante bugio que primeiro fizeram
  • 152 Das coisas de Coulâo * desfazer com um picão, arvoraram uma mui formosa cruz que por todo aquele mar se descobre dos navegantes, e perto dela fundaram uma igreja que se fez muito bem feita de pedra e cal, com seu alpendre e coberta de telha, a qual dedicaram à Virgem nossa Senhora, amparo único e verdadeiro de todos os fiéis em seus trabalhos, para com isto particularmente confundirem os gentios e brâmenes, e darem de rosto a um pagode seu que ali teem mui vizinho na ponta do cabo de Comorim, no qual veneram a uma mais monstruosa que verdadeira • fi.113 v. virgem * de suas fábulas, cuja história deixo por ser não sòmente vã, mas cheia de muitas torpezas como são tôdas as coisas dos gentios; os quais e muito mais seus brâmenes sentiram mui grandemente esta injúria, assim por lhes tira- rem e desfazerem sua antiga devoção das pègadas do seu bugio, como pela afronta que haviam recebia o seu pagode por ter a igreja tão vizinha; e amea- çavam os cristãos que o seu pagode lhes havia de fazer muito mal e mata-los de fome. Mas para que ficassem mentirosos, lhes deu nosso Senhor logo ali tanto peixe, que mataram com suas redes ao longo da pedra, não morrendo outro nenhum pela praia; que foi coisa de admiração e com que os cristãos ficaram mui animados e triunfando dos gentios. E além disso lhes fizeram fazer também os padres na mesma pedra um formoso tanque que sempre está cheio de água doce da chuva, com que o lugar fica mui acomodado para os cristãos se poderem nele recolher em qualquer necessidade de guerra e juntamente de muita devoção à Virgem nossa Senhora. Antes e depois desta perseguição aconteceram algumas coisas mui notáveis; e uma delas foi em Cocate, que é um logar que está pela terra dentro, onde no terreiro da igreja teem os padres arvorada uma formosa cruz. E sucedeu que no fim de Janeiro de 604 em uma sexta-feira, do braço esquerdo da mesma cruz começou a sair um licor que a todos pareceu sangue, e foi crescendo de modo que molhou o pau da cruz, e se estendeu em figura de cruz, que por muitas semanas durou como fresco; e do meio dele saia um resplendor que parecia como de uma pedra preciosa. Foi isto coisa de grande maravilha, a qual acudiram a ver inumeráveis gentios e cristãos, e por ela se pode presumir que a quis nosso Senhor dar como sinal aos cristãos da praia dos trabalhos que lhes haviam de suceder, e do resplendor da glória da sua cruz que deles havia de resultar: porque saía licor por aquela parte da cruz que estava para a banda da praia onde os cristãos moravam. Sobre êste milagre se fizeram muitas e novas cantigas, como costumam fazer os naturais em sucessos e casos grandes e extranhos, as quais os novos cristãos andavam cantando com muita glória de Deus. Outra coisa notável sucedeu também e • fi. 114. foi que pondo os * gentios fogo à igreja da povoação de Colchete, ficou intacta e sem dano algum uma grande cruz que no meio dela estava; e o mesmo acon- teceu a um retábulo de pau que estava num dos altares. Aconteceu mais no lugar de Vaviacorim, que depois de queimada e feita cinza a igreja do Apóstolo S. Tiago que nela havia, estando uma mulher mui atribulada de um trabalhoso parto de duas crianças, porque tendo lançado uma não podia lançar a outra, pediu ao tesoureiro da igreja lhe desse algum remédio para aquele trabalho. Não achou o bom homem outro melhor que uma pouca de terra daquele lugar onde estivera a imagem do Santo Apóstolo, a qual lhe deu a beber em uma pouca de água, e foi coisa maravilhosa, que no mesmo ponto que a bebeu,
  • Das coisas de Coulão 153 lançou a criança morta e ficou livre de todo o perigo; mostrando Deus àqueles novos cristãos e aos gentios a virtude divina sua que comunica até à cinza e pó dos lugares sagrados onde êle é invocado e venerado. Não foi de pequena consolação a constância e fortaleza que nosso Senhor deu a estes novos cristãos, no meio dêstes trabalhos e perdas temporais que padeceram, porque sendo muitas vezes tentados dos gentios, que quando os viam tristes pelas igrejas e cruzes que lhes tinham queimado lhes diziam o mesmo que antigamente os infiéis a David: ,;Onde está vosso Deus, e se a vossa lei é verdadeira, porque não acode a castigar os que com tanto desacato lhe queimam suas igrejas? Outros, que porque se fizeram cristãos, lhes vieram aqueles trabalhos, e que a causa daquele ano ser muito seco e falto de chuvas fora por se fazerem igrejas e levantarem cruzes pela terra dentro. Contudo, ainda que estas tentações para os novos cristãos não eram pequenas, êles mostraram tanta fortaleza e cons- tância, como se foram cristãos de muitos anos. Entre os que se converteram houve duas conversões mui notáveis e em que muito se viu a predestinação divina. Uma foi que indo um padre pela terra dentro, passou por uma casinha pobre onde morava uma velha gentia, que havia dez anos estava aleijada com umas chagas incuráveis nos pés, sem poder fazer outro caminho mais que até à povoação dos mesmos gentios, a pedir esmola, e logo se tornava a recolher na sua pobre casinha, sem * ter *fi. h4y. nela mais alfaias que uma tigela em que comia; sem outro amparo de filhos nem de parentes. Alegrou-se muito com ver o padre e, como é próprio de gente miserável, logo lhe começou a contar suas misérias e o diabólico conse- lho que lhe davam os amigos gentios, para delas se livrar, que era, tomasse a morte com suas mãos, já que vinha tão devagar, e a vida que vivia se podia melhor chamar comprida morte; ao que ela respondia que a vida e a morte estavam nas mãos de Deus e que portanto por mais misérias e trabalhos que padecesse, não queria sair desta vida senão quando Deus o ordenasse. Come- çou-lhe logo o padre a falar das coisas da salvação e da vida eterna da qual iam gozar os verdadeiros cristãos quando desta vida saíam: ao que a ditosa velha logo se rendeu e pediu ao padre que a baptizasse; o que fêz depois de bem instruída, deixando-a bem animada e consolada, para padecer aqueles trabalhos com viva esperança dos bens eternos. Outra velha gentia por desastre caiu em um tanque de água, da qual saiu mui maltratada, por ser de mais de setenta anos, e como atordoada; acertou de estar ali um padre perto, que com outra gente acudiu à pobre da velha, e estando ela quási para morrer lhe começou a falar de Deus e da salvação, a qual sem ser cristã não podia alcançar. Foi coisa maravilhosa que tão inteiro juízo e tanto conceito mostrou fazer das coisas da fé que bem parecia que Deus a tinha no número dos predestinados, porque logo pediu o baptismo com tanta fé, devoção e alegria, que lhe parecia que estava já na glória, e pelo menos tão segura de a alcançar pelos merecimentos de Cristo, que logo prometeu ao padre de se lembrar dêle quando lá se visse. Em Caicoulão, que é a fortaleza de El-Rei de Travancor, se pôs uma for- mosa cruz diante da igreja para consolação e amparo dos cristãos que ali viviam e de outros que êstes anos se fizeram: entre os quais foi um que por ser rico e dos principais e ter cuidado dum pagodinho, nem êle, nem seus parentes se 20
  • Das coisas de Coulão queriam baptizar. Adoecendo nesta conjunção e chegando a muito perigo de morte foi o padre a sua casa com alguns seus parentes cristãos, e lhe pregou • da salvação que a não podia alcançar sem se baptizar; pelo que, êle se veio a render e a pedir o santo baptismo, o qual se lhe deu logo depois de catequizado •fi. u5. brevemente por * estar muito mal. E pondo-lhe o padre umas contas ao pes- coço, lhe encomendou que chamasse frequentemente pelo nome de Jesus, o que êle fêz com tanta fé, que indo o padre o outro dia a sua casa o achou são, dc modo que o veio receber fora da porta com muitos agradecimentos, pelo bem que lhe tinha feito. Renderam-se com sua conversão alguns parentes seus e receberam também o santo baptismo*, e logo, de consentimento de todos, o pagode que ali tinham se mudou em ermida; e pondo-se também ali uma cruz, diziam os gentios publicamente que os demónios, assombrados dela, fugi 1 am dali daquela parte da povoação para outra que está afastada, em que fica um pagode grande dos gentios. Pelo que, os mesmos gentios da povoação vizinha não quiseram consentir aos cristãos que alevantassem lá outra cruz, dizendo que eles tinham seu remédio com as ofertas que se davam ao seu pagode e se a lâ pusessem logo os diabos haviam de fugir.
  • DAS COUSAS DO MALABAR CAPÍTULO VIII Do que se fê\ no colégio de Cochim e nas residências a éle anexas COLÉGIO de Cochim é a cabeça da província que a Com- panhia tem nas partes do sul, que compreende todos os colégios e casas que estão no reino de Malabar, Bisnagá, Pegu, Malaca e Maluco; e no que toca à cristandade, estão anexas a este colégio as residências de São Tiago em Vaipim, de S. André no reino de Palurte e a de Calecut, cabeça do Malabar. Assim na casa dos catecúmenos que há em Cochim, como nas mais residências se converteram alguns gentios à nossa santa fé; e mais houveram de ser, principalmente nas terras sujeitas * a Cochim, se não • fôra a tirania dêste Rei que por seus regedores usa contra os cristãos, tratando-os mal porque o são, e fazendo-se fazer olas a seus vassalos, nas quais se assinas- sem e certificassem que, fazendo-se cristãos, perderiam tôda a sua fazenda; e tantas são as calúnias de que usa para perseguir e roubar as fazendas aos que já são feitos, que isso só se pode ter por grande testemunho da firmeza que teem em sua fé, perseverarem nela no meio de tantas perseguições e tiranias. E o que nisto acrescenta a mágoa é poder tudo ter remédio sem muito cusío nem perigo, e não no darem os que podem. Tinham os nossos largado há já anos a freguesia de S. Tiago que dista de Cochim uma légua, e, entre outras razões, por parecer que como já ali não havia matéria de nova conversão, poderia bastantemente qualquer clérigo secular curar as almas daqueles novos cristãos que a Companhia ali tinha feito. Porém, em breve tempo, não sòmente se sentiu a falta dos padres para com os cristãos já convertidos, indo-se cada vez Miais fazendo agrestes nas coisas da fé, mas foram as coisas dando de si de maneira, e com tantas esperanças de nova conversão por algumas ilhas e lugares adja- centes, que o mesmo Bispo pediu com muita instância tornassem os padres a tomar à sua conta aquela cristandade. Ao que logo se acudiu como era razão; e no mês de Junho de 6o5 se pôs ali um padre, que sabe muito bem a língua, com um irmão, e daí a um mês, no mesmo dia de S. Tiago se fêz um baptismo de duzentos e cincoenta, entre homens e mulheres e meninos; e daí a poucos dias se baptizaram outros cincoenta e cada dia vão-se ajuntando outros de novo; mostrando Deus com êste novo fruto o muito que lhe agrada o serviço que a Companhia ali e nas mais partes onde anda lhe pode fazer na conversão das almas. Entre os que se converteram em Cochim foi uma mulher moira, a qual, vindo com seu marido para ambos se baptizarem, arrependendo-se o marido e tornando atrás dos propósitos que trazia, determinou de tornar a levar
  • 156 Das coisas de Malabar a mulher consigo e embarcá-la enganosamente; porém a mulher lhe resistiu e começou a gritar em altas vozes que havia de ser crista, ainda que por isso a matasse. Acudiram a seus gritos dois portugueses que, entendendo o que pas- sava, deram ordem com que foi outra vez trazida à casa dos catecúmenos, da •fi. n6. qual seu marido a tinha tirado, * onde feita cristã, daí a poucos dias adoeceu e confessada com mostras de verdadeira cristã se foi para o céu. Outra moça, também moira, cuja mãe havia anos era cristã, estava tão obstinada, que nem rogos de mãe, nem de parentes a puderam divertir de sua falsa seita; e pre- guntando-lhe o padre, pai dos cristãos, se queria ser cristã, dizia que não, ainda que a queimassem. Porém, parte com os mimos da mãe, e parte com as exortações do padre, finalmente se converteu e recebeu a água do santo baptismo, com grande solenidade, juntamente com quatro criadas suas, porque era rica e honrada. Aconteceu nesta cidade de Cochim um caso que por ser mui notável é bem que fique em memória. Um homem português encontrou a um jogue fora da cidade, e cuidando que seria algum moço cativo de portugueses (porque costu- mam êstes muitas vezes fazerem-se jogues para serem menos conhecidos) o mandou amarrar ao pé de uma palmeira e dar-lhe alguns açoites. Sofreu-os o joque sem confessar nada, pelo que o mandou soltar e foi-se embora. Vindo-se o português para casa, sentiu daí a um pedaço dentro em seu coração uma dor e aflição tão grande, que acudindo-lhe os de casa, o fizeram deitar na cama e chamaram logo um padre para que o confessasse. O qual chegando o viu com o rosto e cores tão extraordinárias que parecendo-lhe seria aquilo algum assom- bramento ou mêdo que tivesse dalguma coisa, o foi dispondo para o confessar; e rogando-lhe muitas vezes que fizesse o sinal da cruz, nunca o doente o quis fazer, até que o padre com a sua própria mão tomando a do enfermo lho fêz fazer. E querendo ir por diante para o confessar, lhe não achou disposição para isso; pelo que, levantando-se para se ir e querendo-lhe primeiro rezar o evangelho, o enfêrmo tomando a mão ao padre com muita força, e falando-lhe outra linguagem que o padre não entendia, lhe dava sinais que o não rezasse. Mas acudindo a gente de casa e subjugando-o emquanto o padre lho rezou, mostrou bem o demónio estar apoderado daquele pobre homem, pelo grande tormento e aflição que lhe começou a dar. Recolheu-se o padre por ser noite, e tornando ao outro dia, nem uma só palavra lhe pôde tirar, porque o diabo • fi. n6v. lhe tinha tomado * a garganta e o não deixava falar. Trouxeram logo ao padre uma carta que o mesmo enfêrmo tinha escrito de noite na qual dizia que ê!e era um demónio e que estava feito senhor daquele corpo, do qual se não havia de sair, até que aquele homem não desse satisfação duma injúria que lhe tinha feito. No fim da carta pintou uma carranca muito feia e medonha, com a bôca e dentes arreganhados, que bem representava seu autor. Vendo o padre todos êstes sinais, fêz que se chamasse o vigário da freguesia, para que lhe fizesse os exorcismos da igreja, por aquela ser a mezinha com que aquele doente se havia de curar; fêz-lhos o vigário e logo o diabo sentindo a virtude divina se saiu daquele corpo, pelo que ao outro dia tornando o padre, o achou mais leve e desassombrado; e lhe contou como o diabo, depois de sair dêle por virtude dos exorcismos, lhe aparecia muitas vezes na figura daquele jogue que êle mandara
  • Das coisas de Malabar 157 açoitar, e que de uma lhe dissera que não havia de tornar a entrar em seu corpo, pelo ter já deitado dêle o vigário no dia atrás, porém que lhe havia de aparecer muitas vezes e fazer-lhe todo o mal que pudesse: e era tão medonha a figura com que lhe aparecia, que o pobre homem ficava logo perturbado e fora de si, com muitos acidentes; e algumas vezes chegou a lhe dar de bofetadas. Pediu êste enfermo a todos os de casa, que quando o vissem perturbado com alguma agonia se pusessem logo de joelhos a rezar pelas contas e fazendo assim sentia-se logo o doente aliviado e o demónio desaparecia. Outras vezes vindo o demónio, deixando de entender com o doente, se punha a praticar com os circunstantes, aos quais disse uma vez que não tinha medo de sua água benta nem de seus rosários com que estavam rezando. E para mostrar isto, acon- teceu uma vez, que estando todos rezando, só uma moça que ali estava não rezava, pôsto-que tinha o rosário ao pescoço, o qual o demónio lhe tomou e lhe quebrou as contas, porém isto fêz o imigo, não por não temer os rosários, pois logo fugia como por êles via rezar, mas deu-lhe Deus esta licença por então, para que se visse a diferença de quem usa das contas e se aproveita delas, e em castigo da negligência de não rezar, quando todos estavam rezando. Em todas estas práticas que o diabo tinha com os de casa, nunca lhes apareceu em * forma visível, mas falava e respondia sem ninguém ver coisa alguma. Nesta . fi. 117. conjunção vendo o padre o enfermo com outro semblante melhor e mais desa- liviado, lhe preguntou se se queria confessar e se estava aparelhado para isso: respondeu que sim e que o desejava muito, e estando-se confessando, eis que no meio da confissão veio o diabo na mesma figura de jogue, mas mui medonha, fazendo-lhe grandes ameaças; e dizendo o enfêrmo isto ao padre lhe mandou o padre que não olhasse para aquela parte mas para uma imagem da Virgem nossa Senhora que lhe pôs diante, com o que ficou aliviado. Neste tempo pediu uma pouca de água para beber e dando o padre sinal que lha trouxessem, nesta breve interrupção, lhe deu o demónio uma grande bofetada, e o mesmo padre ouviu o golpe dela, sem ver coisa alguma. Ficou logo o doente como morto e o padre com toda a mais gente de casa se puseram de joelhos em oração, rezando o Padre Nosso, a Avé Maria e Credo; e estando assim todos orando por espaço de meio quarto, tornou o penitente outra vez em si e ficando como dantes, continuou e acabou a sua confissão. Vindo o padre para casa, pediu a alguns padres que oferecessem a Deus algumas missas e orações por êste enfêrmo e foi o Senhor servido que logo se seguiu o efeito delas. Porque o mesmo demónio descobriu toda a maranha, dizendo que fôssem a tal parte e ao pé de uma pal- meira (que foi a mesma em que o jogue fora amarrado e açoitado) achariam enterrados uma ola e dois coquinhos, com certas coisas dentro. Mandaram logo cavar naquele lugar e achando tudo isto e trazendo-o a casa, disse o diabo que lessem a ola. Responderam-lhe que não sabiam ler aquela letra; decla- rou-lhes então que o que na ola estava escrito, era o seu nome e o mal que aquele homem fizera naquele logar ao jogue. E preguntando-lhe o que se havia de fazer da ola e cocos, respondeu que a ola se queimasse e os cocos se deitas- sem no mar. E continuando o diabo naquela casa, aparecendo muitas vezes e trazendo amedrontados a todos os que nela moravam, tornando lá o padre lhe fêz os exorcismos da igreja que se costumam fazer nas casas infestadas dos
  • Das coisas de Malabar demónios; e com isto aprouve à divina Bondade tirar a licença que tinha dado àquele demónio para infestar aquelas e assombrar a gente delas; de modo • fi. 117que * nunca mais ali apareceu. E assim, depois disto, fez o padre ajuntar todos os daquela casa e lhes fêz uma exortação da grande confiança que devemos ter em Cristo nosso Senhor, pelos merecimentos de sua sagrada paixão e orações da Igreja Católica, e como não nos pode fazer mal algum sem Deus lho per- mitir: e que no que tinha acontecido quis nosso Senhor mostrar-lhes as coisas da outra vida e do caso que havemos de fazer da salvação de nossas almas, e quanto havemos de trabalhar por não ofender a Deus, nem fazer coisa pela qual mereçamos largar êle licença ao demónio, para que nos possa fazer mal; porque ainda que aquele jogue era infiel e membro seu, contudo não deixou de ser injustiça a que aquele homem sem nenhuma causa lhe fêz: pela qual deu licença ao demónio para que lhe fizesse aquela pequena vexação penal no corpo, para que daí tirasse outro bem maior, que foi o da salvação de sua alma e temor de o ofender. Em Calecut cabeça de tôda a província do Malabar, e reinos de Samorim, onde os padres residem há alguns anos, o principal fruto que se faz acerca da cristandade, é a clara, e pública notícia que no meio daquela grande cidade, e mata brava de infidelidade, se dá da verdade de nossa santa fé, e falsidade dos ídolos, e seita de Mafamede, e isto pelas praças, e lugares públicos, e diante dos próprios grandes do reino, e do mesmo Samorim, com o qual o padre que ali reside teve duas vezes várias práticas, e disputas sobre estas matérias, em que êle ficou assaz confuso, sem saber responder, mais que dizer que êle não sabia falar com o padre, mas que era necessário algum brâmene letrado, que lhe respondesse. Doutra vez se achou presente também El-Rei de Cranganor, que é brâmene, e outros alguns regedores do reino, e tratando-lhe o padre das desonestidades e vilezas que se contam de seus deuses, ambos os Reis, e os mais ficaram maravilhados, e confusos sem responderem palavra, mais que El-Rei de Cranganor, que nunca vira o padre senão então, que já que seus brâmenes não podiam falar com o padre, pois lhes sabia todos seus erros, que era necessário esconderem-se e não aparecerem diante dêle. E assim não • fi. 118. sòmente na corte do Samorim, mas fora dela, não há gentio nem brâmene * que não fique mudo diante do padre quando trata destas coisas: muitos tomam antes por partido fugirem do encontro que verem-se nêle tão envergonhados e con- fusos; outros exclamam e confessam que sua lei é falsíssima e a nossa verda- deira; e quando lhes preguntam porque a não recebem, respondem: por não perder a honra e crédito que teem entre os seus, mas que mui bem entendem que andam enganados. E pôsto-que até agora acêrca da cristandade de Calecut a conversão desta gente não vai tanto por diante pelas razões ditas, não se tem contudo a resi- dência dos padres ali por pouco frutuosa e importante, antes por uma das mais que há na índia, ainda para bem de tôda a cristandade dela, pelas pazes que conservam do Samorim com o Estado, que sem dúvida que se os nossos não foram, muitas se quebraram, e o Estado da Índia tivera muitos trabalhos. E bem se experimentou êste ano em duas coisas: uma foi na ida da armada holan- desa àquela costa, a qual chegando à barra do rio de Chatua desembarcou seus
  • Das coisas de Malabar i5g embaixadores, que cora um presente mandou ao Samorim que estava ali perto, e procurando com todos os meios que pôde de se confederar com êle; contudo como ali estava o padre Jácome Fenício, que sempre reside na corte, e a quem o Samorim tem tão grande respeito, que nada do que pertence a estas matérias do Estado faz sem seu conselho, êle os despediu de si sem lhes conceder coisa alguma do que pretendiam, respondendo-lhes que êle tinha feito havia poucos anos paz e amizade com os portugueses, com quem havia tantos que andava em guerra; e que esta não havia razão para a êle quebrar emquanto êles como diziam não tomassem Goa e Cochim, e lançassem os portugueses fora da índia. A outra coisa foi que, queimando os nossos navios da armada a um navio do Samorim que ia carregado de fazenda, ferindo e matando-lhe muitos moiros que nele iam, por não mostrarem o devido reconhecimento, ficou toda a terra tão amotinada contra os portugueses, que assim alguns que estavam em Calecut como o mesmo padre estiveram em muito perigo, ou de os matarem ou de os cativarem. Porém com o talho e meios que o padre deu neste negócio de tanta importância, o ímpeto e furor dos inimigos se aplacou de maneira que o mesmo Samorim * ficou atónito de se poder com tanta facilidade, e em tal ocasião • pacificac tamanho tumulto; e depois por muitas vezes, diante dos próprios seus, deu agradecimentos ao padre e parabéns da vitória (como êle dizia) que tinha alcançado, pois por seu meio se não alevantara com armas toda a terra. Estando em guerra os portugueses com El-Rei de Cranganor, vassalo do Samorim, o mesmo Samorim pediu ao padre que fôsse fazer estas pazes, como fêz com satisfação de todos no cabo de quatro meses, que nisso andou, não desistindo também em todo êste tempo de acudir a outros ministérios santos, fazendo grande fruto, e serviço a nosso Senhor em quatro igrejas de cristãos de S. Tomé, que estavam por aquela parte; confessando muitos que tôda sua vida o não tinham feito, e instruindo-os nos mistérios, e doutrina da nossa santa fé. Estava uma destas igrejas em Panur, terra dum rei gentio, dos daquele Malabar, o qual tinha ordenado a seus regedores, que também eram gentios, não deixassem entrar na igreja o vigário dela, sem primeiro lhe pagar um novo tributo que lhe queria pôr: foi o nosso padre falar com o rei, mas não querendo êle desistir de sua tirania recorreu ao Samorim, e lhe deu conta do que passava: o qual lhe escreveu logo que não vexasse, nem impedisse o vigário entrar na igreja a fazer seu ofício, porque era coisa sua. No mesmo ponto desistiu, e o vigário ficou correndo sem impedimento com sua igreja, e todos assim gentios, como cristãos com grande respeito ao padre, por verem o muito que o Samorim lhe tinha. Era também esta igreja a mais antiga que havia no Malabar, e que fôra feita no tempo que os cristãos de S. Tomé vieram povoar aquelas partes; e por ser tão pequena que não caberiam nela mais, que quarenta ou cincoenta pessoas, concorrendo ali às vezes mil cristãos, o padre com sua indústria lhes fêz fazer outra capaz da gente que ali havia, com grande consolação e agrade- cimento dos mesmos cristãos.
  • 16o Das coisas de Malabar • fi. .19. * CAPÍTULO IX Do que se fê\ com os cristãos da serra de S. Tomé NESTA terra, que também se chama da pimenta, há uma povoação prin- cipal, que se chama Vaipicota, cm que está um colégio de nossa Com- panhia, a que estão anexas as residências de Porca e de Paliporta; e todos os nossos que aqui residem que são dez religiosos, se empregam com os cristãos antigos, que chamam de S. Tomé, com singular fruto das almas, e glória de nosso Senhor; discorrendo por aqueles lugares, em várias missões, prègando, confessando, e ensinando a doutrina, e exercitando com êles todas as outras obras pias que a Companhia costuma. E como estes cristãos se consolam tanto com os padres, e ouvem com tanto gosto suas prègações, e desejam tanto de se confessar com êles particularmente, ainda que todas em suas igrejas teem seus curas e vigários, não se pode encarecer o gosto, e aivo- rôço com que os recebem, e agasalham em seus lugares quando os padres a êles vão, e a devoção com que os ouvem, e com que se confessam com êles, e concorrem às prègações e doutrinas, que até os doentes se fazem trazer à igreja. E às vezes acontece que quando se querem tornar para o colégio, os não querem largar, pedindo-lhes com muitos rogos os não deixem desamparados e que melhor empregados são ali, e mais serviço fazem a Deus com êles, que nas casas e colégios das cidades, onde não faltam outros. Um dêstes padres é companheiro perpétuo do padre Bispo desta cristan- dade D. Francisco Ros, com quem sempre anda em contínua peregrinação, discorrendo por todo o bispado em roda-viva de trabalhos por se estender esta cristandade por várias terras, sujeitas a diversos reis gentios, e no meio de • fi. ngv. infiéis bárbaros, com os quais nunca faltam encontros, que dão * assaz matéria de paciência por serem tiranos, e fazerem muitas injustiças aos cristãos, aos quais o prelado sempre acode pelo melhor modo que pode ser. E porque esta cristandade (como em outras relações passadas dissemos) há tão pouco tempo que foi reduzida dos erros de Nestório, e sujeição dos Bispos de Babilónia à fé católica e sujeição da Igreja Romana, por grande zêlo, e singular indústria e diligência que nisso pôs o ilustríssimo senhor D. Francisco Aleixo de Meneses Arcebispo primaz da índia, a coisa que mais se procura por parte do Bispo D. Francisco Ros, seu prelado, e dos padres, é conservá-los nesta obediência, apurando-os dos erros heréticos em que até agora viveram, e introduzindo entre êles os ritos e costumes católicos, e para isso se buscam todos os meios e remédios possíveis, e entre êles se introduziu um de mui grande importância, que foi a impressão caldeia, que sua Santidade lhe mandou há tres ou quatro anos pelo padre Alberto Laércio: e a primeira coisa que com ela se imprimiu foi o ritual dos sacerdotes, traduzido ad verbum pelo cerimonial romano. Tam- bém para êste mesmo intento se instituiu um seminário, em que se criam muitos meninos, que se escolhem dos filhos dos mais honrados cristãos de S. Tomé, que nêle são instruídos em todos os bons costumes cristãos, juntamente com as letras; donde depois se tomam os mais aprovados para serem sacerdotes e ensi- 1
  • Das coisas de Malabar 161 narem o povo, pregando nossa santa fé, não somente aos cristãos mas também aos gentios, dos quais se convertem e baptizam muitos. Nas residências de Porca, e Paliporto se faz o mesmo fruto, que em Vaipicota, assim nos cristãos como nos gentios, dos quais em Paliporto se fêz um solene baptismo de cem pessoas, e dos mais principais gentios daquela povoação; e em Porca se bapti- zaram cincoenta e dois, e também alguns principais daquela terra. Aconteceram nesta cristandade muitos e vários casos milagrosos, com que os cristãos se confirmam muito na fé, e os gentios se confundem, e outros também se convertem. Entre êles foi um em Vaipicota a um moiro com sua mulher; ao qual alevantando outros moiros um testemunho falso, que * furtara .fi. 120. certa quantidade de dinheiro, negando êle, corria a demanda diante de um regedor gentio, o qual querendo que o réu se justificasse, e alimpasse da culpa, a mulher do mesmo réu quis tomar isso sobre si, usando para isto da prova que por aquelas partes muitas vezes se costuma. Chegado, pois, o dia deter- minado, em que esta se havia de fazer, veio o regedor ao lugar deputado, aonde também concorreu grande número de gente para ver êste acto. Apareceu a mulher do réu diante dêle, o qual fêz logo pôr um ferro no fogo, o qual depois de estar todo vermelho, e abrasado, chega a mulher do réu, e protes- tando a inocência sua e de seu marido, e invocando em testemunho disso o autor da verdade, Deus verdadeiro, estendeu ambas as mãos para que lho pusessem nelas, como logo puseram, tirando-o do fogo em umas tanazes, não tendo ela nas mãos mais que umas folhinhas verdes. Ela o tomou com muita confiança, tendo-o até que, dizendo-lhe o regedor que bastava, o deixou cair, e concorrendo Deus por parte da verdade, ainda que fôsse em favor de moiros e infiéis, a moira não sòmente se não queimou, mas nem as folhinhas verdes, que tinha na mão, se murcharam. E não lhe rendeu isto tão pouco; que lhe não fizesse abrir os olhos da alma, a ela, e a seu marido, assim para verem a falsi- dade da lei de Mafamede, onde, como êles diziam, e com verdade, havia tantas injustiças, como para verem a verdade e pureza da nossa santa lei, a qual logo receberam ambos pedindo o santo baptismo, que com muita alegria sua se lhes deu. Em certa parte desta serra havia muitos cristãos espalhados pelo mato, sem terem igreja a que pudessem acudir nos tempos devidos; quis-lha nosso Senhor dar, e ajuntá-los todos em uma povoação com o caso seguinte. Estava uma noite dormindo o rei daquela terra, e em sonhos viu duas pessoas, que à cabeceira lhe falavam com muita eficácia, e lhe disseram que ajuntasse os cris- tãos em tal parte que logo lhe apontaram. Acordou êle com isto, e não duvi- dando de fazer o que disseram, fêz logo alimpar aquele lugar do mato de que estava coberto e, mandado recado ao Bispo do que queria fazer, foi logo lá o prelado, e deu ordem com que no mesmo lugar, estando o rei presente, se arvorasse uma formosa cruz, declarando-lhe os mistérios * dela, e fazendo »fi. 120v. ajuntar aos cristãos todos em uma povoação se deu também com grande alegria princípio à igreja. Em Porca adoecendo gravemente um cristão baptizado de pouco, e estando o padre ausente, os gentios seus vizinhos e amigos lhe persua- diram rijamente, fizesse voto ao pagode para que lhe desse saúde. Respondeu êle que depois de ser cristão dissera muitas injúrias contra o pagode, pelo que 21
  • 102 Das coisas de Malabar não era razão fazer voto a quem não dava credito, e de quem não esperava bem algum; mas que viria o padre e rezaria por êle e que logo sararia; e assim foi Deus servido que acontecesse, porque vindo o padre, logo que teve recado seu, depois de o confessar lhe deu a beber uma pouca de água benta, e lhe rezou um Evangelho, e não houve mister mais mezinha para logo alcançar saúde, zombando depois muito mais assim dos pagodes como dos gentios. Com o mesmo remédio alcançaram saúde muitas outras pessoas enfermas, com grande espanto dos gentios, que com estas e outras coisas semelhantes, que Deus obra entre os cristãos, cobram grande respeito às coisas da nossa santa fé, e ficam desprezando as dos seus ídolos. É o Orago da igreja de Porca, da Exaltação da Cruz, e a festa dela se fêz êste ano com grande solenidade, e com extraordinário concurso de gente, por razão de um milagre grande que acontecera não havia muito, e que os mesmos gentios contaram e afirmaram da santa cruz. E foi que, indo uns trinta vassalos do rei desta terra a uma guerra, passando pelo lugar .dos cristãos, e vendo uma cruz, que estava no meio da povoação, começaram a zombar dela, preguntando por escárneo que forca e que pau era aquele. Mas não tardou muito o castigo de Deus, porque embarcando-se aquela mesma tarde e indo pelo rio, os inimigos lhes saíram ao encontro, e pelejando com eles os mataram a todos, sem ficar um só, tomando-lhes a embarcação. Ao dia seguinte o regedoi gentio da terra, sabendo a nova, se foi ter com o padre e lhe contou o que passava, dizendo que Deus castigara aqueles naires, pelo desacato que fizeram à santa cruz, contan- do-lhe as mesmas zombarias, que êles tinham feito dela, de que o padre ainda não sabia. E diante do mesmo padre disse logo ali o regedor aos naires que o •Fi.mi. acompanhavam: * Vós outros guardai-vos de zombar com coisa de cruz, nem lei dos padres, porque não venha logo sobre vós castigo; e assim ficaram dali por diante os gentios com muito mais respeito à cruz, e quando passam por defronte da nossa igreja lhe fazem suas reverências, e zumbaias. Este mesmo castigo dos naires contou depois ao padre o mesmo rei, dizendo-lhe que aqueles naires não tiveram saber, pois se puseram a zombar da santa cruz. E poique esta mesma cruz estava defronte da casa do regedor, e o padre a quis tirar dali por umas cerimónias gentílicas que uns gentios faziam, ainda que de longe à vista dela, o regedor acudiu logo a pedir ao padre com muita eficácia que não bulisse com ela, nem a tirasse dali, porque emquanto estava defronte de sua casa nenhum mal lhe fazia o demónio, sendo assim, que antes lhe fazia muitos; e juntamente castigou aos que faziam as cerimónias defronte da cruz. E porque neste tempo o padre a tinha já no chão para a levar, os fêz vir, para que a ajudassem a levantar outra vez, e êle mesmo também ajudou pessoalmente com muita consolação dos cristãos, por verem que até os gentios reconheciam sua virtude e poder divino. Estava perto da igreja um feiticeiro, grão ministro do diabo, o qual, falando com um cristão, lhe disse que confessava que não tinha na terra outro maior inimigo que o padre; porque com as cerimónias que fazia na igreja, não deixava obrar seus feitiços. Respondeu o cristão: Para vós não há mister padre, nem para o vosso diabo, porque eu só basto. Ora já que vós zombais, respondeu o feiticeiro, eu aposto convosco que esta noite vos hei de tirar de casa a melhor
  • Das coisas de Malabar 163 peça que tendes. Sou contente, respondeu o cristão, e se ma tirardes vos darei sôbre isso outra melhor, qual vós escolherdes; e se eu vencer não quero mais prémio que conhecerdes, que para vós, e para o vosso demónio, não há mister padre, mas que eu só basto. Foi-se o cristão para casa com esta aposta, e deitando-se a dormir, põe uma cruz junto de si. Havia na casa um buraco, e estando o cristão- vigiando, ouviu falar duas pessoas e sentiu que uma delas entrava pelo buraco. Fêz o sinal da cruz, e deixou-se estar, mas o que ia entrando se saiu logo para fora, dizendo que estava a cruz no meio daquela casa, e que o cristão * se estava benzendo, que por isso não podia entrar, nem • lhe podia fazer mal algum. E cometendo outra vez a entrada, também não pôde efeituar o que queria, dizendo ao companheiro que a cruz lho impedia. Ao outro dia pela manhã foi-se o cristão ter com o padre, e lhe contou tudo, o qual, para mais se certificar, deu ordem por meio doutro cristão, para se tirar do mesmo feiticeiro a verdade do caso. Ele a confessou com muita confusão sua, dizendo que assim passara tudo, e que por amor da cruz lhe não pudera fazer mal. Um grande privado de El-Rei, ainda que gentio, pediu ao padre com muita instância um papel, onde estivesse escrito o Evangelho, para sua mulher, que estava doente e padecia muitas vexações do demónio, e tinha já experimentado muitos remédios de feiticeiros, sem melhoria. O padre o foi dilatando sem lho dar logo, para mais provar sua devoção. Ao outro dia tornou o gentio a casa, e com muita mais instância lho pediu, trazendo um canudo de oiro, em que o havia de meter. Preguntou-lhe o padre quem lhe dissera que pedisse aquele papel. Respondeu que outro gentio, também privado do rei, a quem o padre dera outro semelhante, com que se livrou de grandes assombramentos do de- mónio, que de noite o atormentava. Deu-lho, foi mui contente. E com o mesmo remédio do sagrado Evangelho escrito, ou água benta, obra nosso Senhor por esta terra contínuos milagres, assim sarando de várias enfermidades, como livrando de feitiços e vexações dos demónios, não sòmente aos cristãos mas ainda a muitos gentios.
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  • "LI V RO QUARTO Fl. 121. DAS COISAS DE ETIÓPIA CAPÍTULO PRIMEIRO Das coisas do reino de Etiópia, e do que néle fè\ o padre Pero Pais A relação passada do ano de 6o3, deixámos o padre Pero Pais entrado em Etiópia, e já em Fremoná, povoação dos católicos, esperando que passasse o inverno, como o rei daqueles reinos lhe tinha mandado que o fizesse, para logo depois ir à corte. Emquanto aqui esteve, a primeira coisa em que se ocupou de propósito, para bem daqueles católicos e hereges, foi em tras- ladar na língua Amará, que é a mais política, a cartilha da santa doutrina, a qual logo fêz aprender e decorar aos meninos, filhos dos portugueses católicos, que até então nenhum ensino tinham. E dia de S. Mateus, padroeiro daqueles reinos, fêz a primeira vez dizer a dois deles alguns capítulos na igreja, depois da missa, com tanto gosto e consolação dos católicos, que de devoção e alegria não podiam ter as lágrimas, por ouvirem o que nunca tinham ouvido, e verem dizer a seus filhos coisas tão altas. E como neste livrinho, ainda que tinha título de cartilha da doutrina, se continha uma suma de toda a teologia, e declaração dos maiores e principais mistérios de nossa santa fé, não sòmente foi gratíssima aos católicos para a fazerem aprender a seus filhos, e êles mesmos os que sabiam * ler também a decoraram, mas os próprios hereges e scismáticos ficaram pas- »fi. m». mados; e todos os frades, que ouviam falar os meninos, a pediam ao padre com muita instância, para a trasladarem de modo que, se tivera cópia para dar a , todos, em breve se espalhara por todo o reino. Mas à fama dela vinham muitos a ouvir: e um frade muito privado de El-Rei vindo a negócios com o Vizo-Rei de Tigré, rodeou um pedaço de caminho por vir a ouvir: e quando falavam dos meninos consolava-se tanto, e ficou tão cheio, que onde-quer-que depois se oferecia tratar de nossas coisas as engrandecia muito. Outro fidalgo veio tam- bém, e trouxe uma vaca de presente ao padre, e muito vinho de mel, porque naquela terra não há uvas; e por dois dias leu, e ouviu tôda a cartilha, e depois pediu ao padre que lhe falasse êle também de Deus, e declarasse algum lugar do Evangelho, o que o padre fêz escolhendo aquele: Euntes docete omnes gen- tes bapti\antes eos, etc. por vir a propósito para lhes refutar os erros que teem acêrca do mistério da Santíssima Trindade, e em se rebaptizarem cada ano; com que ficou convencido de modo, assim desta vez como de outras que falou
  • 166 Das coisas de Etiópia com o padre, que últimamente lhe disse, que entendia mui bem os erros em que estavam todos os cristãos daquele reino, mas que se não atrevia a mani- festar por católico, pelo temor que tinha do mal que lhe fariam; que só lhe pedia com muita instância lhe desse modo como se passasse para índia, onde livremente pudesse viver católico. Outro frade velho veio muitas vezes falar com o padre, e tratando muito de vagar sobre seus erros, convencido dêles lhe pediu, que o quisesse confessar, botando-se-lhe aos pés com muita humildade, mas pedindo-lhe juntamente que fôsse isto em muito grande segrêdo. Levantou-o o padre nos braços e, pregun- tando-lhe que o movia a se querer confessar, respondeu o velho que cinco noites havia que estando dormindo lhe parecera que via um homem muito venerando, o qual lhe dizia que, se se queria salvar, se fôsse confessar com o mesmo padre, porque êste tinha poder para o absolver de seus pecados, e que fizesse o que o mesmo padre lhe dissesse, mas que não fazendo êle caso disso, • fi. u3. parecendo-Ihe que era sonho, naquela última noite lhe tornara a aparecer, * e mui indignado o repreendeu, porque não fizera o que lhe tinha dito, pelo que acordando com grande medo se viera logo a confessar, e pôr em suas mãos, para que lhe encaminhasse sua alma. Disse-lhe o padre que êle estava mui prestes para tudo, mas que dali por diante êle frade não havia de correr mais com as coisas dos hereges. Respondeu que êle não podia deixar de correr com as coisas do mosteiro, e com suas missas e baptismos, porque era dos mais antigos; se não acudisse a tudo isto como dantes, lhe seria mui notado; mas que se viria confessar secretamente tôdas as vezes que o padre quisesse. Res- pondeu-lhe o padre como aquilo não podia ser, porque era mostrar-se católico no secreto e herege no público e que pois o que lhe aparecera lhe mandara que fizesse tudo o que êle padre lhe dissesse, assim como fazia uma coisa que era o confessar-se, fizesse também a outra, pois era tão necessária, que sem ela se não podia salvar. Pediu quatro dias de espaço para se determinar, mas nunca se acabou de resolver. E dêste mesmo frade contou o capitão dos portugueses ao padre que, encontrando-se uma vez com êle a casa, antes de saber coisa alguma da vinda do padre, lhe dissera o frade: capitão, sabeis que sonhei? que saía do mar um padre nosso, que tinha na testa um corno de oiro e outro de prata, e que vós o íeis a buscar e trazer. E foi assim, ajuntou mais o capitão que dali a poucos dias me deram a carta de vossa reverência, pela qual logo me parti a o receber. Houve nestes reinos, neste tempo, mui grandes fomes, em todo êste inverno, e entrando o verão, estando as sementeiras muito boas, foi tão grande a praga dos gafanhotos que veio sôbre elas, que onde-quer-que chegavam destruíam tudo sem deixarem fôlha verde; o que causou mui grande angústia e aflição naquela gente, por verem perdido todo o remédio com que esperavam socorrer suas necessidades. E vindo um dia pela manhã os da povoação dos católicos dizer ao padre com muitas lágrimas que já os gafanhotos estavam juntos de suas sementeiras, que aquele dia lhas destruiriam, lhes disse o padre, tendo muita compaixão dêles, que logo se ajuntassem todos na igreja, onde lhes disse missa, e depois de lhes rezar as tadainhas lhes benzeu muita água e lhes man- dou que fossem lançá-la sôbre suas sementeiras; e foi Deus servido, que em
  • Das coisas de Etiópia 167 nenhuma dos * católicos entrassem os gafanhotos, comendo todas as dos hereges 'Fi.itív. que estavam à roda, não havendo em algumas mais que um valadinho no meio que as dividia. E para nosso Senhor mostrar a estes hereges a virtude das coisas sagradas, e bentas pela igreja católica, sucedeu que tendo uma mulher portuguesa semeadas duas terras, entre as dos hereges, e botando água benta em uma, deixando a outra, os gafanhotos comeram tôdas as dos hereges que por ali estavam, e aquela em que não botou água benta: e não tocaram na outra em que a botou, antes, quando acabavam de comer as que estavam junto dela, voa- vam por cima e passavam às outras. Tendo dois hereges semeadas suas terras, uma junto da outra, vendo um dêles a um católico que levava água benta, lhe pediu dela, e a botou na sua terra, o que vendo o outro herege se pôs a zombar dêle, e o repreendeu, dizendo para que tomava água de gente que não tinha lei; mas vindo logo os gafanhotos lhe comeram tôda a sua seara, sem fazerem dano algum na do outro que tinha botado água benta nela. Disto ficaram os hereges mui maravilhados, mas como costumavam fazer sempre caluniar as coisas sagra- das, diziam que aquela água não obrava aquele efeito por virtude divina que tivesse, senão que o padre tinha alguma mezinha que botava na água, a qual afugentava os gafanhotos, e pediam mui instantemente lhes quisesse dar dela, ao que o padre respondia, que a mezinha que deitava naquela água, era a bênção da igreja católica, por cuja causa Deus obrava por ela aquelas maravi- lhas, mas como duros e obstinados não o criam. Todavia um mancebo nobre, filho de um grande capitão, veio ao padre dizendo, que naquele dia vira com seus olhos as mesmas maravilhas que tinha ouvido que fazia o padre Patriarca, pelo que não podia ser senão que a fé dos católicos era verdadeira, pois Deus pelos que a tinham fazia tais obras; e continuando em ouvir as práticas do padre, finalmente se reduziu e confessou, e outros alguns fizeram também o mesmo por meio das pregações que todos os domingos e festas o padre faz, a que se acham sempre muitos hereges, que folgam muito de o ouvir, porque em suas igrejas nunca teem prègação. Um capitão grande mandou dizer ao padre que o queria vir ver, e ouvir, e porque isto era em vés*pera da Anunciação de »fi. 124. nossa Senhora, e ele havia de vir ao outro dia, concertou o padre a igreja o melhor que pôde. Veio êle no dia de nossa Senhora pela manhã acompanhado com muita gente de cavalo, ouviu prègação a que esteve mui atento. Acabada, êle se saiu para fora esperando ao padre até se acabar a missa, e tão satisfeito do que ouvira, que falando com os católicos que ali estavam lhes dizia: não podeis vós outros deixar de ser muito bons cristãos, pois tendes tal doutrina, e saindo o padre o foi acompanhando até a casa mostrando-lhe muitos desejos de estar perto para muitas vezes o poder ouvir, pedindo-lhe que fôsse tanto seu amigo, como êle já o era de sua reverência; mandando-lhe depois um bom pre- sente. Outro capitão letrado veio falar ao padre e tratando sôbre a circuncisão e outras cerimónias da lei velha que êles guardam, mostrando-lhe o padre pelas Escrituras os erros que nisso cometiam, lhe respondeu que para êle já não tinha necessidade de lhe trazer as Escrituras, porque sabia muito bem quão certo era o que dizia, que só lhe pedia declarasse aquilo a todos. No fim de Setembro, estando o padre para se aparelhar para a côrte, como El-Rei lhe tinha mandado, eis que veem novas que os seus por traição o tinham preso e
  • 168 Das coisas de Etiópia levantado outro rei. Foi a cabeça dos que isto fizeram um seu cunhado, a quem o próprio rei á antes tivera preso, por se rebelar contra êle, mas per- doando-lhe depois, e tornando-lhe a dar suas terras o soltou; porém êle nem por isso foi melhor, nem mais leal, porque vendo-se livre e com poder, tratou logo com alguns dos grandes, que não estavam bem com El-Rei, que visto ser El-Rei filho bastardo, como de feito era, o depusessem do reino, e levantassem outro, filho de um irmão do rei passado, que havia sete anos estava preso, por se não levantar com o reino, que diziam muitos lhe pertencia. E assim o tila- ram uma noite secretamente da prisão, onde estava bem descuidado de sua ventura. Teve aviso do que passava o rei deposto, mas tão tarde que não teve mais lugar, que para tomar um cavalo e fugir com outros cinco ou seis que o acompanhavam. Correram tôda a noite, com intenção de se irem metei em umas terras mui fortes, que tinha dadas a um judeu parente de sua mãe. e • fi. 124 v. chegando a um lugar em que quis comer alguma coisa, para logo * passar, ura dos que iam com êle, parecendo-lhe que ganharia muito diante do novo rei, disse aos moradores daquele lugar quem êle era, e como ia fugido, porque tinham levantado outro rei; que lançassem mão dêle, porque se o deixassem passar lhes viria mal; pelo que logo acudindo todos o prenderam, e levaram ao novo rei, o qual mandou que o guardassem muito bem. Dois dos conjurados contra êle, querendo mostrar que o tinham deposto com muita justiça, o toma- ram diante de muita gente, sem o rei novo saber disso, e fazendo-o estai em pé diante de si, e êles assentados, o acusaram de muitas coisas, e entre elas que não era cristão, senão gentio, porque tinha guarda de gentios, e os favorecia muito; nem era filho de El-Rei, senão de um homem baixo que se chamava Batio. Calou-se o rei preso a tudo isto; e preguntando-lhe porque não respon- dia, disse: porque sendo vós outros meus criados vos fazeis meus juízes, mas uma só coisa digo, que emquanto por eu ser menino me comestes o reino, me conhecestes por filho de El-Rei, e me nomeastes por rei; e agora que sendo já homem comecei a reinar, dizeis que sou filho de Batio, e o mais que vos vem à vontade. Soube o rei novo isto e repreendendo-os muito, lhes disse: se El-Rei meu tio o nomeou por filho, jcomo vos atreveis vós outros agora a dizer que o não é? Depois o mandou levar a uma terra muito longe, que chamam Damiet onde o tem com guarda. Como o padre soube que êste rei era preso, dilatou sua partida, até ver em que paravam as coisas, porque se começava a revolver a terra com esta mudança. Entretanto chegou o Vizo-Rei de Tigre, que se chama Clafea, genro de El-Rei passado, que vinha da côrte, e partira dela antes de deporem seu cunhado, no que êle também se dizia fora parte. Chegando meio dia de cami- nho da nossa igreja, o foi o padre visitar com alguns portugueses. Acharam-no no campo em sua tenda, e mandando que entrasse fêz logo assentar o padre na alcatifa em que êle estava, ficando em pé todos os mais: preguntou-lhe muitas coisas da índia, e porque os portugueses não vinham ao estreito com suas arma- das, se era porventura por terem mêdo dos turcos. Respondeu o padre que antes os turcos eram os que tinham tão grande mêdo dos portugueses que •fi.iíj. somente de ouvirem * dizer que vinham, se despovoavam as terras que estavam perto do mar, como sua senhoria sabia, que o tinham feito em Maçuá. iMas
  • Das coisas de Etiópia 169 que a causa porque não vinham, era porque todas as naus que vinham da índia para o estreito, partiam de seus portos, e muita da fazenda que traziam era sua, pelo que não tinham êles que vir ao estreito, senão a tomar sua mesma fazenda. Mudou logo a prática, e disse que folgava muito de o padre ser vindo a sua terra, mas que lhe parecia que havia de morrer cedo, se era ver- dade, como lhe diziam, que não bebia vinho. Respondeu-Hie o padre que assim era, mas que também na sua terra nunca o bebera, do que se maravilhou muito mais, porque êles desde meninos o bebem. E logo mandou agasalhar o padre em uma tenda, fazendo prover, assim para êle como para os que o acompanhavam, mui abundantemente. Aqui nesta comarca foi o padre ver uma igreja de cónegos, que estava mui perto; ajuntaram-se muitos dêles, e lhe foram mostrando tudo, e antes de chegarem ao altar, passaram por três cortinas que tomavam de parede a parede, com a igreja ser de três naves. Fôra esta igreja antes coberta de abóbada, mas depois que os moiros lha quebraram, quando destruíram esta terra, a cobri- ram de palha, como agora está, pelo que fica muito escura. Mostraram-lhe um crucifixo que tinham pintado em pano, por coisa muito rara, mas não era tal a pintura. Feita oração lhe puseram uma cadeira com uma alcatifa, que era assento do Vizo-Rei, quando ouvia missa, e fazendo assentar o padre por força na cadeira, êles com os portugueses se assentaram pelo chão, pedindo com muita instância lhes quisesse fazer alguma prática de Deus; e fazendo-lha o padre por condescender com seus desejos, ficaram muito satisfeitos. Defronte da porta principal desta igreja, em um lugar que antes fôra crasta, estão dez ou doze pedras mui grandes, bem lavradas, e na do meio que está debaixo de uns arcos abobadados, dizem que se assenta o Imperador, quando o hão de coroar, e então as cobrem todas de seda e brocado. Mais adiante estão treze pedras alevantadas como pirâmides; a maior tem doze palmos de largura por banda e pelas ilhargas, e de alto sessenta ou setenta; e teem muitas molduras, que parece coisa impossível trazer-se ali tão grande máquina de pedras, porque não há naquele lugar pedraria nem rocha, donde se pudessem ir cortando de ma- neira que ficassem em pé. * Ao outro dia pela manhã do dia que chegou, o mandou chamar o Vizo-Rei *fj. 125 v. a quem achou almoçando, e como acabou mandou sair todos fora, ficando só um português, que era língua, e por êle lhe disse que tinha muito boa informa- ção de sua pessoa, que folgaria de o ter por amigo e que o aconselhasse em suas coisas, porque assim esperava que todas lhe sucedessem bem; e depois de várias práticas que teve com o padre, ao tempo que o padre se quis des- pedir, lhe falou sobre um seu juiz que queria levar uma grande pena a todos os católicos, dando-lhes por culpa que mataram um homem, o qual se achara morto em um campo perto da igreja. Êste pobre homem morrera de sua doença e o mesmo padre lhe fôra acudir na hora da morte, para ver se o podia confessar; e com ter dito isto ao juiz não deu por isso, com os olhos que tinha no interêsse; e dando conta de tudo ao Vizo-Rei, se enfadou grandemente, jurando pela vida de El-Rei que o havia de castigar; mas a rogos do padre lhe perdoou e mandou que dali por diante não entrasse mais justiça sua no lugar dos católicos e que êle julgasse tudo como lhe bem parecesse. Daqui foi o 23
  • 170 Das coisas de Etiópia Vizo-Rei sôbre um capitão que estava alevantado, e depois que o sujeitou, tor- nou a pôr seu arraial perto da nossa igreja, onde o padre o visitou outra vez e lhe levou algumas coisinhas que êle muito estimou; oferece-se ao padre, que lhe daria muitas vacas e o faria muito rico; e porque o padre lhe respondeu que não vinha buscar vacas, nem riquezas, senão a confessar e ensinar os por- tugueses que estavam naquela terra, de maneira, tornou êle, que não quereis tomar nada de mim porque arreceais que seja mal ganhado, e maravilhou-se muito disto. CAPÍTULO II Como o novo Rei e Imperador de Etiópia mandou chamar o padre à corte, e do que lá passou com êle COMO a fama do padre andava já tão estendida por tôda a Etiópia, eram tantas as coisas que os grandes da côrte diziam ao novo Rei sôbre êle e os encarecimentos que * lhe faziam de suas coisas, que o Rei dese- jando grandemente de o ver lhe despachou um correio com uma carta, a qua traduzida da língua amara em português, dizia assim: «Carta dEl-Rei Malác- Cegued-cheque ao honrado padre dos portugueses com a paz de Deus. Como estais? Ouvi estas coisas, e boas novas do que nos fêz Deus. Estivemos presos sete anos, e padecemos tantos trabalhos que não teem conta. Mas como viu Deus nossa miséria tirou-nos da prisão e deu-nos o reino e pôs-nos por cabeça de todos, assim como diz: Lapidem quem reprobaverunt edificantes hic factus est in caput anguli', agora o mesmo Deus acaba em bem aquilo que nos come- çou. Ouvi mais; desejamos muito que nos tragais o livro da justiça dos Reis de Portugal, porque estou muito desejoso de o ver e juntamente nos trazei os livros que tinha o Patriarca, e vinde logo com tudo». Recebida esta carta que por ser transladada das palavras que estavam nela, não vai tao conforme ao corte de nossa linguagem, avisou logo o padre ao Vizo-Rei, despedindo-se dele. Porém o Vizo-Rei, não lhe querendo responder por escrito, tomou o homem que o padre mandou, e lhe deu juramento que não descobrisse a resposta que lhe dava, mais que ao mesmo padre; a qual foi esta: «Dizei ao padre que se faça doente e que por nenhum caso vá agora, que ainda não é tempo». E depois por um frade, de que se fiava, lhe mandou dizer como tinha novas que o senhor daquela terra, onde mandaram preso o rei deposto, o soltara e que estava para vir outra vez com muita gente que se lhe ajuntava da mesma deste outro íei, pelo que o padre tornou a despachar o correio de El-Rei, escrevendo-lhe uma carta mui a-propósito em resposta da sua, e que iria o mais preste que pudesse. E foi mercê de nosso Senhor mui grande não ir naquela conjunção, porque no caminho houvera de ser tomado e morto dos galas que são uns cafres gentios que fazem muito dano neste reino, e êste ano determinaram de o destruir de todo, parecendo-lhes boa ocasião as alterações que nêle havia, com as mudanças dos reis; e no caminho por onde o padre houvera de ir os houvera de encon- trar e ser morto dêles, como foram outros que lhes caíram nas mãos. Mas ainda nem com isso deixaram de lhe dar muito trabalho, e de pôr em grande
  • Das coisas de Etiópia 171 risco de vida a êle e a todos os católi*cos de Fremoná, porque deram junta- »fi. 116». mente em muitas partes, e um dia pela manhã teve o padre aviso que chegavam a mui perto de nossa povoação, pelo que com muita pressa fêz ajuntar todas as mulheres e meninos dos católicos, que os mais dos pais estavam muito longe com o Vizo-Rei, e tomando o fato da igreja os levou a todos a uma serra mui alta, com não pequeno trabalho, onde estiveram oito dias, padecendo muitas fomes e frios, mas quis nosso Senhor, que se tornassem os inimigos antes de chegar onde êles estavam, porque, se chegaram, nenhuma defensão tinham contra êles. Foram também dar êstes bárbaros em o reino de Narea e o rei dêle que é vassalo dêste da Etiópia lhe saiu com muita gente; mas tendo postas suas tendas em um campo que tomava mais de uma légua ao longo de uma ribeira, deram os inimigos de noite nele pela parte donde estava El-Rei e o mataram com muitos de seus capitães. Porém ao outro dia levantaram.logo por rei a um sobrinho do morto, o qual dando batalha aos inimigos os venceu matando a muitos e lhes tomou setecentos cavalos. No mesmo tempo veio outro exército destes bárbaros sobre o mesmo rei de Etiópia; mas primeiro que chegassem onde êle estava, encontraram dois capitães seus dos mais principais, e pelejando com êles os desbarataram, morrendo ali cinco portugueses mui esforçados; o que sabendo El-Rei acudiu com muita pressa caminhando dois ou três dias, mas os galas que vinham vitoriosos lhes não deram lugar para assentar o seu arraial senão que rompendo logo, o acometeram com tanta força, que fizeram virar as costas aos capitães que levavam a dianteira, ficando só os portugueses pelejando no campo com tanto esforço e valor que vendo-os El-Rei se apeou do cavalo e tomando uma espada e uma rodela, disse aos seus: fugi vós outros e ponde-vos em salvo, que eu aqui quero morrer pelejando, e ao menos não vos podereis excusar que se diga de vós, que ao rei a quem fizestes, deixastes pele- jando no campo e fugistes. Com isto envergonhados, tornaram a pelejar e foi Deus servido que tiveram uma grande vitória, ficando mortos mil e setecentos galas. Acabada a batalha, chamou El-Rei os portugueses e lhes disse que bem tinha visto que não tinha mais que a êles, que * acudissem por sua honra, que • fi. u?- êle se lembraria de os remunerar. Estando ainda El-Rei no campo, eis-que chega outro exército de galas que não sabiam do desbarato dos primeiros e arremetendo logo e começando a pelejar também foram vencidos. Tornando-se El-Rei com estas vitórias, se descobriu o que o Vizo-Rei tinha dito ao padre, da gente que pretendia tornar a trazer o rei preso, pelo que logo prendeu a alguns capitães, que achou culpados; e chegando a sua casa, lhe deu o correio a carta do padre; e recebendo-a, mandou logo sair a todos para fora, sem ficar com êle mais que um seu privado e o correio, leu-a, que ia na sua língua, e com muita alegria disse aos outros: Olhai que palavras tão boas tem êste padre; tornai logo amanhã e trazei-o, que desejo já há muito de o ver e logo lhe escreveu outra carta em que o mandou ir com muita pressa. Esta se deu ao padre véspera de Pascoa e logo passada a festa se foi despedir do Vizo-Rei que estava daí a algumas léguas, o qual lhe rogou, que se não partisse logo, porque não estavam os caminhos seguros, mas que esperasse por êle, que iriam ambos, • como foram, daí a alguns dias, pôsto-que fizeram caminho com muito vagar, porque levava o Vizo-Rei consigo uma sua filha e principalmente porque teve
  • 172 Das coisas de Etiópia novas que El-Rei ia contra um capitão seu, que se levantara e trazia guerras contra êle. Fez o Vizo-Rei neste caminho muito grandes mimos e gasalhados ao padre, mandando-o chamar muitas vezes à tenda de sua filha e uma vez lhe deu de comer por sua própria mão metendo-Ihe os bocados na bôca, que é coisa que só os príncipes fazem quando querem honrar e mostrar muito amor a uma pessoa. Um domingo, que não caminhavam, disse que desejava de ver como diziam os meninos a santa doutrina, porque lha tinham louvado muito alguns frades: mandou-os o padre que a dissessem, estando a tenda cheia de gente. Ficaram todos pasmados: e o Vizo-Rei, louvando tudo muito, ajuntou: êstes meninos nos podem ensinar a sermos cristãos. À noite mandou a filha pedir ao padre que lhos mandasse, porque os não tinha ouvido. Foram e folgando muito de os ouvir, disse: não ensinam nossos frades como ensina este padre: quem me dera ouvir sempre estas coisas. E dali a poucos dias pediu ao pai • F1.127T. que os fizesse tornar a dizer # a doutrina diante dela. E desta vez além dou- tros muitos que estavam presentes estava também um senhor grande, de muitas terras que até então os não ouvira; o qual, acabada a doutrina, virando-se para o Vizo-Rei lhe disse: debalde sustentamos tantos frades que nada nos ensinam, e êstes meninos os podem ensinar a êles. Aos 8 de Junho chegando perto donde estava a Rainha sogra dêste Vizo-Rei, disse êle ao padre que queria deixar a? tendas e ir-se com vinte ou trinta de cavalo a vê-la, e que fosse êle padre também, porque ela folgaria. Fê-lo assim; acharam-na fora da cidade em tendas e ela só tinha uma casa pequena. En- trando o Vizo-Rei mandou que entrasse também o padre e o capitão dos por- tugueses para ser língua. Estava sentada sobre um esquife coberto com uns panos de sêda, porque estava mal disposta. Fêz assentar o padre junto do Vizo-Rei, dizendo-lhe que folgava muito de o ver chegado a sua terra com saúde, com outras muitas palavras de cumprimento. E depois de ter falado em várias coisas mandou que lhe armassem sua própria tenda e dizendo o capi- tão que levavam uma, deixai essa, respondeu ela, que não há de ser senão a minha. ^Vem o padre a minha casa e não quereis que o agasalhe? Disse logo ao padre que se fosse a descansar, e entrando na tenda, logo em suas costas entrou também a ceia, a qual ela lhe mandou de sua cozinha, muito copiosa, para todos os que com êle estavam. Ao outro dia muito cedo lhe mandou dizer um seu Bispo que desejava de o ver; e ajuntaram-se com êle dois frades, dos quais um que era já conhecido do padre e sabia de um tratado que tinha feito contra os erros dos abexins, lhe pediu que o mostrasse; do qual lendo-lhe o padre alguma parte, ficaram muito satisfeitos; mas disse a um dos frades, que é tido por grande, letrado, que só uma coisa lhe não parecia bem, que era dizer que o Espírito Santo procedia do Filho. Daqui tomou o padre ocasião para com muita eficácia e autoridade da Escritura lhe disputar contra êste seu êrro e por- que nesta conjunção o mandou chamar a Rainha, se foi logo lá, onde teve diante dela outra mais travada disputa com o mesmo Bispo e frades sôbre as cerimó- nias da lei velha de que êles guardam algumas; e ali diante da Rainha lhes • fi. 128. pro*vou pelas escrituras os erros que nisto tinham; com o qual vendo-se con- vencidos lhe disse o frade letrado que tudo aquilo estava muito bem, mas que não dissesse aquelas coisas senão entre letrados. Não farei tal, respondeu o
  • Das coisas de Etiópia padre, mas com todos e diante de todos os que me quiserem ouvir; e vós ten- des também obrigação de o declarar a todos; e, se o não fizerdes, Deus vos pedirá conta dos que por esta causa se perderem. Virou-se logo o frade para a Rainha, dizendo: ^Vossa Alteza não vê a carga que põe sôbre minha cabeça? Ao que ela respondeu: o padre diz muito bem; e logo mudou a prática, pre- guntando ao capitão que coisa folgava o padre mais de comer, para lha mandar fazer; e respondendo-lhe o capitão que o comer do padre era muito pouco, que com qualquer coisa se contentava, com tudo isso, mandou dizer à sua cozinha que concertassem mui bem o comer do padre; pediu-lhe logo o padre licença para se partir; ela lha deu, dizendo que se lembrasse de a encomendar a Deus, já que não havia tempo para falarem mais. Estimou muito o padre estas de- monstrações de benevolência da Rainha pela muita parte que ela pode ser de reconciliação daquele reino à Igreja Romana e bem de tantas almas. Daqui se partiu o padre para onde estava El-Rei; despedindo-se primeiro do Vizo- -Rei, que havia de partir ao outro dia, e foi dormir a um lugar de que são senhores três homens, gregos de nação, dois dos quais tinha cada um três mulheres e diziam que confessando-se com seu Patriarca, lhes dissera que melhor era tê-las em casa que deitá-las fora, porque se perderiam; que não tomassem outras, que para terem aquelas lhes dava licença. Declarou-lhes o padre quam perdidos estavam, e acabou com êles que casassem com uma e lançassem as outras fora e deixassem de seguir os erros dos abexins. Fizeram todos três assim, e se reduziram à Igreja Romana com todos seus criados, porque são mui poderosos e teem casas mui grandes. Aos 17 de Junho chegou o padre à côrte juntamente com o Vizo-Rei, o qual antes de entrar na cidade, mandou recado a El-Rei, como estava ali junta- mente com o padre. Respondeu El-Rei que entrasse, e chegando à porta de uma cêrca do paço se apeou e mandou outro recado. Veio a segunda resposta de El-*Rei, que fosse. Entrou mais dentro e o padre com êle; e detendo-se um «ri. i*8v. bom pedaço à porta de outra cêrca, saiu um governador do reino e o levou para dentro dos paços, e dali a pouco mandou El-Rei que entrasse o padre. Entrando, o achou sentado em um lugar alto, e o Vizo-Rei e muitos fidalgos e frades em pé, beijou-lhe o padre a mão e, afastando-se, logo lhe disse El-Rei pelo capitão, que era língua, que se assentasse e cobrisse; deteve-se o padre contudo um pouco, mas El-Rei lhe fêz logo sinal com a mão, que se chegasse perto e assen- tasse sôbre uma alcatifa. Preguntou-lhe logo por sua majestade; a quem tinha posto por governador em Portugal; e como depois de tão comprido cativeiro se atrevera êle padre a oferecer-se a tão grandes perigos. Estava ali um frade que, vendo as honras que o Vizo-Rei primeiro fazia ao padre, queixando-se dêle, disse: a um estrangeiro assenta o Vizo-Rei junto de si e faz tantos mimos, e de nós que somos seus mestres não faz caso. Soube o Vizo-Rei isto, e vendo agora o gasalhado com que El-Rei recebia o padre, chegando-se ao capitão dos portugueses lhe disse manso, diante de El-Rei:
  • 174 coisas de Etiópia junto de si, e lhe preguntou se trazia o livro da justiça que lhe mandara pedir; e respondendo que o não tinha, lhe preguntou por algumas coisas dela, e pelo modo de vida dos frades, e clérigos e outras muitas coisas acerca de nossos costumes, no que se gastou até perto da noite que o despediu. No seguinte dia logo pela manhã o tornou a chamar e tinha consigo quatro frades e alguns seculares que todos, como se dizia, eram os maiores letrados do reino; fê-lo sentar pegado consigo à mão esquerda e à direita tinha um seu cunhado; man- dou também assentar os frades um pouco afastados e disse que folgaria de ouvir alguma coisa sobre a lei. Respondeu o padre que preguntassem o que quisessem, e assim o fizeram porque um dos frades quis defender a guarda da lei • fi. 129. velha que êles guardam em muitas coisas; um dos seculares preguntou * porque púnhamos duas vontades em Cristo e porque dizíamos que havia Purgatório. A todas estas três coisas respondeu o padre mui doutamente, refutando por muitos lugares das Escrituras os erros que nelas tinham; mas pôsto-que ficaram convencidos e emmudecidos sem terem que responder, não ficaram porém con- vertidos, porque a isto não os deixa chegar tão fàcilmente a dureza tão envelhe- cida de seus corações. Pediu, porém, o cunhado de El-Rei (que é um homem mui discreto e letrado) ao padre, que tôdas aquelas coisas que tinha tratado lhas desse por escrito para que cada um as pudesse ver à sua vontade; o que o padre folgou muito de lhe conceder e assim as ia já escrevendo na mesma lingua da terra. Pediu El-Rei aqui ao padre que ao outro dia que era Domingo infra octavam Corports Christi, lhe dissesse missa, porque desejava de a ver e ouvir. Respondeu-lhe o padre que missa perfeita não podia ser, porque não tinha vinho, mas que se quisesse ver as cerimónias santas da missa e ouvir prègação, que diria missa sêca. Folgou muito e para isso mandou armar uma tenda muito grande defronte do paço e outra pequena dentro da grande, onde puseram seu estrado. E concertando o padre um altar o melhor que pôde, disse missa e prègou sobre o Evangelho do dia: Homo quidam fecit coenam magnam, etc. Estavam pre- sentes muitos capitães e muitos frades e tendo o padre pregado meia hora dando jeito de querer acabar por não ser molesto a El-Rei, êle lhe mandou dizer man- samente que fôsse por diante e não deixasse nada, porque folgava muito de o ouvir, e assim prègou mais de uma hora, de que El-Rei ficou tão satisfeito que não acabava de louvar aos seus coisas tão boas como o padre tinha dito, e. mandou-lhe dizer por um pajem que lhe queria logo falar como descansasse; e indo o padre logo, êle o dilatou para a tarde em que o mandou chamar, e lhe disse tantas coisas de louvores diante de todos que o meteu em bem de confusão, concluindo a prática com estas palavras: dai graças a Deus que em tão pouco tempo como há que estais em Etiópia tendes alcançado muito grande nome de virtude e letras; encomendo-vos muito que correspondais sempre com obras ao •FL139*. conceito * que temos de vós e que atenteis muito que a carne sempre peleja con- tra nós, e tem vitória de todos aqueles que se descuidam. Beijou-lhe o padre a mão pela mercê que lhe fazia com tal lembrança, e que confiava em nosso Senhor lhe daria graça para corresponder a tal conceito que sua majestade e os mais tinham dêle. Disse-lhe logo El-Rei que mandasse vir os meninos da santa doutrina, porque lhe tinha dito um fidalgo que era muito para ouvir; vieram logo e depois que a disseram diante dêle e dos principais da sua corte
  • Das coisas de Etiópia i75 disse El-Rei: ^que necessidade tem o padre de falar com nossos frades que nem a estes meninos saberão responder? Ora a verdade é que nós não temos doutrina nem ensino nem mais que o nome de cristãos. E preguntou ao padre se tinha escrito o que diziam aqueles meninos. Respondendo que sim, lhe ofe- receu logo uma cartilha que para isso fêz escrever de propósito, dizendo-lhe juntamente que El-Rei Josafat de Jerusalém, querendo renovar o culto divino em seu reino mandou por todo ele Levitas e Sacerdotes com o livro da lei para que ensinassem; e foi isto tão agradável a Deus que, como diz a Escritura, deu tão grande medo aos reis vizinhos inimigos seus, que não se atreveram mais a levantar a espada contra Josafat; e que o mesmo serviço faria êle a Deus em mandar ensinar os meninos, pois eles são os que depois hão de governar. Ten- des muita razão, respondeu El-Rei. No dia de S. Pedro e S. Paulo pediu a Imperatriz velha ao padre que lhe quisesse pregar. Fê-lo o padre, achando-se El-Rei também presente e como não houvesse ali púlpito começou o padre a pregação em pé, o que advertindo El-Rei se levantou logo de sua cadeira real em que estava e assentando-se em um estrado mandou ao padre que se assen- tasse na sua cadeira, e dela pregasse; exemplo raro e de grande admiração para tôda aquela côrte, e que bem ensina o respeito e reverência que se deve ter aos sacerdotes e pregadores do Evangelho. Depois da pregação mandaram El-Rei e a Imperatriz chamar o padre a sua casa e lhe disseram muitas coisas em seu louvor e estando ali também um Bispo, disse: ,jnão sei quem nos afasta desta gente? o que este ensina não são coisas divinas? * CAPÍTULO III Da missão de quatro padres que fizeram aos reinos de Etiópia, dois no ano de 604 e dois no de 606 RECEBIDAS as cartas que o padre Pero Pais escreveu de Etiópia, e as novas que dava do estado da terra e do fruto que nela se podia fazer na redução daquele grande império à obediência da santa Igreja Romana, ou quando menos de muitas almas daqueles tão antigos cristãos, pareceu logo ao padre Manuel da Veiga, provincial da índia, e aos mais padres, que logo naquele ano se procurasse a passagem de outros dois padres, e pelo mesmo caminho e modo que passara o padre Pero Pais em nau e companhia de moiros e turcos, confiando na divina Providência, que ainda que sua viagem fosse tão arriscada, pois era em companhia de gente naturalmente tão inimiga do nome cristão, o Senhor a quem todas as criaturas obedecem, vendo a intenção de tanta glória sua, pela qual só se arriscavam a tão perigosa jornada, os levaria a salvamento. E não ficaram enganados desta confiança como depois o mostrou o sucesso. Foram logo nomeados para esta emprêsa o Padre António Fer- nandes, natural de Lisboa, e o padre Francisco António de Angelis, italiano de nação, ambos pessoas de muita religião e virtude e de muitos grandes desejos da salvação das almas, e pelo bem delas se verem em ocasiões de padecerem muito até darem a vida por Cristo. Foram logo mandados de Goa para a casa da
  • 17Õ Das coisas de Etiópia Companhia da cidade de Dio, para que aí esperassem ocasião de sua jornada, e entretanto se aparelhassem espiritualmente para ela. O que os bons padres fizeram com tal espírito e devoção qual se pode ver de uma carta que o padre Gaspar Soares, superior daquela casa, escreveu sobre isto, a qual me pareceu pôr aqui em suma pela muita devoção e consolação que não poderá deixar de • fi. i3ov. causar a todos os que a lerem. A qual diz assim: * Os padres António Fer- nandes e Francisco António se partiram para sua ditosa missão; porém, antes de se embarcarem, fizeram sua matalotagem espiritual e se aperceberam do que mais haviam mister para a emprêsa de Etiópia, que foi de muitas orações, devoções e penitências em que se exercitaram por muitos dias antes de sua embarcação. Tomaram os exercícios espirituais, e com eles começaram tam- bém sua quaresma fazendo particulares penitências e com tanto rigor que me pareceu lhes devia de atalhar, temendo se debilitassem para a viagem; e por isso lhes não consenti estarem nos exercícios recolhidos mais que oito dias. Porém, todo o tempo antes da partida continuaram sempre ambos com muitas devoções e práticas espirituais com que se animavam para tão santa emprêsa; por muitas vezes os achei de joelhos em oração assim em suas celas como diante do Santíssimo Sacramento, diante do qual também na noite de sua des- pedida, como bons cavaleiros de Cristo, velaram as armas, passando-a toda até perto da meia-noite que os chamaram para a nau, em oração contínua, com tanta devoção e mostras de muito espírito com que empreendiam esta jornada, que além de nos deixarem assaz penhorados e invejosos de tão ditosa sorte, não posso eu deixar de escrever êste seu aparelho e despedida pela muita con- solação e edificação que sei receberão nisso nossos padres e irmãos a cuja notícia isto chegar. A 23 de Março à tarde, fechadas as portas da igreja, de- sencerrámos o Santíssimo Sacramento, e nos pusemos diante dêle em ora- ção, e antes de entrarmos nela, lavei eu os pés aos dois peregrinos; e êles, deixados os trajos ordinários, se vestiram em trajos de arménios, e assim já disfarçados, nos fomos para a capela mor todos, onde estava o Santíssimo Sacramento desencerrado. O padre António Fernandes, ao entrar da capela moç, como Moisés para ver a sarça ardendo e pisar a terra santa, descalçou os sapatos, e com os pés descalços, e os olhos arrasados em lágrimas, postos no Santíssimo Sacramento, disse em voz que o ouvimos: Deus meu e senhor meu. E subindo descalço os degraus do altar se debruçou diante do Senhor com • fi. i3i. tão notável abalo de * lágrimas e tão impetuosos soluços que os suspiros lhe cortavam a fala; mas no meio dêles lhe entendemos somente estas palavras: eis-me aqui Senhor, em Vossas santíssimas mãos me ponho, de mim Vos faço total entrega, Vós disponde de mim como fordes mais servido. Tudo mais eram soluços e contínuos suspiros com que seu coração falava com Deus. O padre Francisco António fêz o mesmo, ficando com as mãos levantadas e o peito inclinado derramando muitas lágrimas, postura que a todos nos fêz muita de- voção. Tivéramos nós sempre em muito segrêdo a ida dos padres, mas por alguns indícios veio à notícia do padre guardião dos Capuchos que pelo menos se partia o padre Francisco António, pelo que desejou muito de o ver e se des- pedir dêle. E assim às cinco da tarde e no tempo em que eu estava para lavar os pés aos peregrinos me deram recado que estava na portaria; mandei um
  • Das coisas de Etiópia 177 padre que os fôsse entreter eraquanto durava o lavatório; e por entender que se não arriscava o segredo de sua partida com tais pessoas de tanta religião e santidade, me pareceu que lhos devia de mostrar, e assim vindo entraram na capela mor onde a majestade do Senhor, a devoção do lugar, o trajo dos padres mudado, o espirito e devoção com que se estavam oferecendo em sacrifício àquele senhor, causou nos bons religiosos tanto de devoção que sem poderem ter as lágrimas se deixaram estar um bom pedaço de joelhos, e mais tempo se detiveram se eu não fôra a levantar e avisar os dois peregrinos para se virem despedir deles, o que fizeram com íntimos abraços de caridade. E apartados já, me disse o padre guardião: até aqui tive muito amor à Companhia, mas esta vista mo acrescentou em dôbro e a venero e respeito muito mais, obrigado de tal representação. Eu vinha-me despedir de um, e achei dois apóstolos. Imensa é a fôrça do amor de Deus, grande império da caridade de Cristo, pois acaba com seus servos desnaturarem-se de suas pátrias e deixarem o precioso delas por irem buscar a saúde das almas, e sendo cordeiros, cobrirem-se de peles de lôbos, e disfarçados nos trajos fiarem suas vidas da crueldade dos tur- cos para mostrarem o muito que fiam de Deus. O padre Fr. António, irmão do nosso padre João da Costa, que era companheiro do padre guardião, também disse chorando: Deus nos dê, padres meus, forças para imitarmos e seguirmos tão grandes * exemplos. Respondi-lhe: nós, reverendos padres, imos detrás • fí. i3i v. de vossas reverências e, por muito que nos estendamos, sempre vossas reverências nos irão muito por diante e nós teremos que imitar; com isto se despediram e nós ficámos continuando a oração e com os irmãos rezando as Ladainhas da Virgem nossa Senhora, do nome de Jesus, do Espírito Santo, do Santíssimo Sacramento. E porque se ia chegando o tempo de os padres se irem embarcar se levantou o padre António Fernandes do chão em que estava debruçado, e ficando de joelhos com as mãos e os olhos alevantados para o Santíssimo Sacra- mento, disse com muitas lágrimas e soluços: meu Jesus, não me desconheçais neste trajo em que estou, tomado por vosso amor; debaixo dêle tenho vossa lei, vossa cruz e a Vós, meu Senhor, para nunca Vos largar; e se na fragili- dade humana cabe com vosso amor prometer, digo, Senhor, que nem cárceres, nem cadeias, nem ferros, nem a própria morte temo. Não lhe deu a devoção nem o ímpeto mais lugar que para se deixar cair debruços diante do mesmo Senhor. O mesmo que aqui disse, me tinha já dito em seu cubículo, onde uma vez entrando o achei em oração, que lhe dava Deus a sentir que nem os mes- mos tormentos do inferno lhe seriam estorvo para deixar de seguir sua empresa, e que por todos romperia com ânimo ainda que neles deixasse a própria vida. O padre Francisco António pediu à Virgem nossa Senhora e a todos os Anjos o favor e ajuda para agradecer a sua Divina Majestade tão assinalada mercê como era escolhê-lo para esta missão e emprêsa e para quaisquer trabalhos, des- terros e morte ainda que fôsse de cruz para se mais parecer com Cristo Jesus. Isto, dizia o bom padre, é o que vim buscar à índia, isto é o que desejo e peço a sua Divina Majestade, que antes de minha morte padeça alguma coisa por seu amor. Vinte e dois anos há que Deus me dá êstes desejos, como me são testemunhas meus Superiores em Itália, com quem os comuniquei, e nenhuma coisa mais desejava nesta vida que a própria salvação minha e a do próximo »3
  • Das coisas de Etiópia ainda que fôsse à custa de meu sangue e de minha vida para imitar a Cristo nosso Senhor que deu a sua por me salvar. E particularmente desejava de poder ajudar a gente desamparada, quais são estes a que agora vou. É verdade *Fi. i3a. que pondo os olhos em * mim conheço minha fraqueza: mas postos em o Senhor que tenho diante, omnia possum itt Eo qui me confortai. Padres e irmãos meus da minha alma, seja eu tal, qual deve ser todo o verdadeiro filho da Companhia, que eu estou certo que todos os azedos da viagem do estreito e de Etiópia con- verterá Deus em favores, e doçuras do céu em tanta abundância que chegue a dizer com nosso beato padre Francisco: satis est, Domine, satis est.
  • Das coisas de Etiópia 179 cadeias, e correntes em que estava preso. E assim animados com tais exem- plos se meteram êstes dois padres na nau dos turcos, entregando-se todos à divina Providência, a cuja conta ficavam, e que disporia dêles o que mais fosse sua glória. E para nosso Senhor logo os começar a provar e exercitar na confiança que nêle queria que tivessem, sucedeu que a nau, não tendo navegado mais que espaço de uma légua, e esta só em traquete, nem se desferindo a vela grande, pendeu de modo à banda, que quási esteve virada. Pelo que foi neces- sário mandarem pedir socorro à cidade de alguns barcos de lastro, para a nau poder fazer viagem; o que logo tudo se lhe mandou e a nau deu à vela, e no cabo de dois meses de viagem, depois de muitos trabalhos e perigos chegou a salvamento a Suaquém. E foi coisa muito notável, que ao tempo que os padres partiram de Dio, partiram também quatro naus, para Dalaca, e estando os padres determinados de irem em uma das de Dalaca, se resolveram depois que fossem na de Suaquém; o que se viu bem ser disposição da divina Providencia, porque das quatro de Dalaca, uma foi ter ao pôrto de Moca, que é da jurisdição do baxá do monte Sinai, onde os dois padres António de Monsarrate e Pero Pais estiveram cativos, e êstes dois * se ali foram portar, sem dúvida o ficaram tam- »fi. 133. bém; e outras duas naus, em que ia o fato dos mesmos padres, e a esmola dos católicos de Etiópia, ambas desapareceram e só a em que os padres iam chegou, como dissemos, a Suaquém. Porém antes de chegar, indo um dia navegando com todas as velas, subitamente deu e ficou em seco, sem nenhuma esperança humana de remédio; mas Deus, pelos merecimentos dos católicos de Etiópia, e ouvindo as muitas orações que por esta emprêsa se faziam, contra toda a espe- rança humana os tirou daquele perigo. Chegados a Suaquém, e desembarcando os padres, foi tanta a multidão de gente e de meninos que correram para os ver, que não se podiam valer. Os moiros e turcos, que os levavam, lhes fizeram muito bom tratamento, e gasalhado, assim na viagem como em Suaquém, aonde quando chegaram não acharam o baxá, por ser ido em romaria à casa de Meca; mas o governador que ficou em seu lugar os recebeu e agasalhou quanto se podia desejar, vestindo logo a cada um sua cabaia de brocado, que os turcos costumam dar quando querem fazer alguma grande honra. E vindo o baxá no cabo de um mês, lhe foram os padres levar um presente que de Dio lhe man- dava o capitão, o qual êle grandemente estimou e festejou, dizendo aos-padres que lhe declarassem tudo o que desejavam e queriam, e isto sem nenhum pejo mas fazendo conta que estavam em suas terras, cidades, e casas; e que êle sabia muito bem as honras e favores que os mesmos padres tinham feito em Dio ao seu feitor da nau, que êle pelo mesmo modo desejava também fazer-lhes outras tantas e maiores. Responderam os padres, que êles o que queriam não era mais que vê-lo, beijar-lhe a mão, e haver dêle licença para se partirem. Disse-lhes que lhes mandaria o seu secretário a casa onde poisariam e que êles fizessem apontamento do que desejavam; que nisto e no mais poria logo seu sêlo, e faria tudo o que fosse de seu serviço e gosto. Ao outro dia lhes man- dou dizer que se fizessem prestes para partir, porque tudo lhes tinha já nego- ciado. Juntamente lhes mandou, para ajuda de custo do caminho, vinte e cinco venezianos, que na nossa moeda importam mais de quarenta cru*zados, deu-lhes »fi. >33 v. guarda de soldados para o caminho, e entre êles uma pessoa grave, a quem
  • i8o Das coisas de Etiópia muito os encomendou. O que se contém no formão ou patente que lhes deu é o seguinte: «Mandamos a todos os oficiais da nossa jurisdição deem viva passagem aos padres para irem ao Abexim: e também damos licença para tor- narem em todo o tempo, que aqui estivermos: e se quiserem partir de Suaquém venham a Suaquém, e de Dalaca, venham a Dalaca: e se desejarem ir a Jeru- salém venham aqui onde lhes daremos todo o necessário». E desta maneira os mandou até serem entregues aos católicos de Etiópia. Pelo mesmo modo e ordem levou nosso Senhor no ano de 6o5 aos padres Luís de Azevedo e Lourenço Romano, os quais partindo de Dio, ainda que chegando a Suaquém acharam morto o baxá de que agora falámos e que deu passagem aos padres acima ditos, o que sucedeu a este lhes não fêz menos honras e gasalhados em Suaquém, onde primeiro desembarcaram, e as mesmas mandou lhes fizessem em Maçuá, donde o capitão daquela cidade e ilha, man- dando naquela conjunção um presente ao Vizo-Rei de Tigré, que é nas terras do Preste, e com êle trinta turcos espingardeiros de guarda, lhes mandou, que depois de entregarem seu presente acompanhassem também os padres três dias de caminho até certo passo, onde tomaram entrega deles doze portugueses, que os levaram até outro passo perigoso, onde já os outros padres que estavam em Etiópia os estavam esperando com gente, em cuja companhia ficaram com grandíssima consolação sua, e dos outros padres, que já lá estavam, por se verem já cinco companheiros juntos, e com muitas esperanças de fazerem mui- tos e grandes serviços a nosso Senhor naquele tão grande e scismático império. Para o que lhes não dava pouco ânimo uma profecia, que nesta conjunção cor- ria, e se praticava muito entre os Abexins, que um frade grande do ermo, tido por santo^ tinha dito que era chegado o tempo, em que por meio dos portu- gueses tôda aquela terra havia de ficar com grande paz e união: e que havia isto de ser no tempo em que reinasse êste rei, que agora actualmente reina, por se terem cumprido algumas coisas, e circunstâncias mui particulares, que haviam •fi. i34. de suceder para êste imperador, que agora é, vir a reinar, * as quais foram coisas mui notáveis. Também os animou muito uma carta, que escreveu aos padres um frade grande daquele deserto, que os abexins teem por santo, a qual trasla- dada em nossa língua à letra diz assim: «Palavra mandada dos frades do deserto da terra de Mazba, os quais são mais de mil, a um frade que chamam Abibe superior de um mosteiro, que se chama Baganá, terra de Sarzete. Com a paz de Deus chegue esta aos padres de Roma que estão em Fremoná, que são irmãos muito amigos. Ouvi, senhores, a causa porque vos escrevo agora esta carta; é porque me mandaram que escrevesse a vossas reverências como lhes revelou Deus, e viram sua misericórdia sobre vossas reverências, porque a oito de Janeiro, à meia-noite, desceu o Espírito Santo sôbre vossas reverências, e disse, que quem se confessar convosco e tomar o santo Sacramento de vossas mãos, será salvo. E isto viram-no no espelho do espírito aqueles mil padres do deserto, que estavam escondidos sem tratarem com outra gente alguma, e disseram-me que escrevesse a vossas reverências isto, e eu também me en- comendo nas orações de vossas reverências; e mais, alegrai-vos, que já se chega o tempo de virem os portugueses para ajudarem a Etiópia, e livrar-nos das mãos de nossos inimigos. Paz à vossa igreja, morada do Espírito Santo».
  • Das coisas de Etiópia 181 CAPÍTULO V Informação que o Arcebispo Prima$ da índia Oriental, Dom Aleixo de Meneses, mandou tirar da vida e morte do Padre Dom André de Oviedo, Patriarca de Etiópia, e dos mais padres da Companhia de Jesus, que com éle foram, e lá acabaram PELA relação passada, e histórias, que andam escritas da índia se pode ver, como no ano de 1556 foram mandados pelo padre Dom João * Nunes *fi. 134 v. Patriarca, que então era de Etiópia, o padre Bispo Dom André de Oviedo, e os padres António Fernandes, Gonçalo Cardoso, Manuel Fernandes, Gualda- nhes, Francisco Lopes, a descobrir aquela terra e ver a disposição que havia naquela antiga cristandade do Preste João, para êle depois ir em pessoa. Porém sendo Deus servido de o levar para si, depois de êles lá estarem, lhe ficou suce- dendo na dignidade de Patriarca o padre Bispo Dom André, conforme a ordem e breves, que para isso tinha do Sumo Pontífice Júlio III. E exercitando seu ofício por muitos anos, ajudado dos padres seus companheiros, vieram por dis- curso do tempo a morrer todos, sem da índia poderem ir outros, ainda que muito se procurou, por estarem todos os caminhos tomados e impedidos pelos turcos do mar roxo, até que no ano de 1598 foi mandado pelo mesmo senhor Arcebispo Primaz, e pelo conde almirante D. Francisco da Gama, que então era Vizo-Rei, um sacerdote natural da índia virtuoso e bom teólogo, para que naque- las partes servisse de vigário geral e pastor daquelas ovelhas. E porque os católicos tinham escrito por vezes do padre Patriarca e dos mais companheiros coisas grandes e de grande edificação e santidade ordenou o mesmo senhor Arcebispo Primaz ao mesmo sacerdote seu vigário geral, que autenticamente e com averiguação de testemunhas juradas, tirasse um sumário e fizesse as devi- das diligências para verificar as obras e milagres destes santos, notando tudo com muita fidelidade; o que êle mui bem cumpriu, averiguando tudo com teste- munhas de vista, que Deus para isto parece que permitiu se achassem ainda vivas. E porque ainda que as coisas são antigas no feito, não no são na notícia, pois nunca se teve tão clara del,as como agora, não nos pareceu justo deixá-las em silêncio e privar aos fiéis da consolação e edificação que com elas receberão, e do louvor e glória, que darão a Deus por se mostrar tão grande e maravilhoso em seus santos. Afirmaram pois as testemunhas juradas aos santos Evangelhos que, em geral, assim o Patriarca, como os mais padres seus companheiros fizeram sem- pre uma vida santa e apostólica: e que sempre foram tidos por varões de Deus e verdadeiramente san*tos, e isto não somente de todos os católicos, mas tam- .fi. 135. bém de toda a gente da terra e dos hereges e scismáticos e do mesmo imperador. Que todos trabalharam sempre com o imperador, e seus vassalos, e particular- mente com os frades e religiosos daquela nação, por lhes ensinar, e persuadir a verdade da fé católica, e com sua doutrina lhes tirarem seus êrros. Que tive- ram muitas disputas com os mais letrados dos seus religiosos, e convencendo-os se reduziam muitos a nossa santa fé. Pelo que o mesmo Patriarca, e padres
  • T 82 Das coisas de Etiópia padeceram grandes perseguições, desterros, fomes, sedes e desamparos de todo o humano auxílio, como ao diante se dirá. E vindo em particular ao padre Patriarca, que tinha umas entranhas cheias de tanta caridade para com os pobres que não lhe ficando uma vez já que lhes dar senão sòmente um boi que lhe servia de levar o fato da igreja de uma parte para a outra, este lhes man- dou matar e repartir pelos pobres, e dizendo-lhe um homem, que foi o que disto deu testemunho, que não se devia de matar o boi, pois tinha dêle tanta necessidade para a igreja, respondeu o santo: filho, deixai-o matar, e repartir hoje todo aos pobres, que amanhã Deus nos proverá; como de feito assim foir porque sabendo um senhor herege o que êle fizera com os pobres, e a neces- sidade em que estava, movido de tão grande exemplo de caridade e pobreza, lhe mandou logo quarenta vacas e outro muito mantimento, com setenta ou oitenta panos, o que tudo o padre estimou muito, não por si, senão pelos pobres. Nunca sua comida foi outra senão yma certa semente amargosa, que é mantimento de gente pobre e baixa, e vindo uma vez uma grande praga de gafanhotos sobre as sementeiras daqueles lugares, em tanta multidão que que- bravam os ramos das árvores com o pêso deles, acudiram todos ao santo padre pedindo-lhe sua ajuda. Acudiu logo à igreja com os católicos, e depois de fazer oração, e rezadas as ladainhas de nossa Senhora e dos santos, saindo fora da igreja acharam a todos os gafanhotos mortos e secos. Estando uma vez os católicos do lugar onde êle morava, com mui grande medo e aflição, por razão dos turcos e galas que estavam ali perto e vinham matando, queimando, e asso- lando tudo, se foram a seu bom pastor pedindo-lhe conselho e remédio do que • fi. 135 v. fariam * pois nem ali estavam seguros, nem tinham para onde se pudessem ir. Animou-os o santo padre exortando-os a que pusessem tôda sua confiança em Deus e foi-se dizer missa por aquela necessidade e para que nosso Senhor lhe ensinasse o que haviam de fazer aqueles católicos; e estando nela ouviu uma clara voz que lhe disse: «Fremoná permanecerá»; e é Fremoná o lugar onde moravam e estavam os católicos. Acabada a missa aquietou e assegurou a todos que se não bulissem, porque nenhum perigo correriam, e assim foi, por- que vindo os inimigos e passando à vista do lugar queimando e assolando todos^ os outros vizinhos com serem bem fortes e defensáveis, este só ficou livre com estar em um plano descoberto, e tão perto como meia légua de caminho direito* por onde os inimigos passaram. Disse uma vez a uns portugueses, que com o imperador iam a uma guerra, que se deixassem ficar e não fossem por aquela vez, porque haviam de morrer se lá iam. Não no quiseram ouvir, nem deixar de ir, e assim ficaram lá quási todos mortos pelos inimigos. Oferecendo-se-lhe uma vez ocasião de casar uma pobre órfã e não tendo já nada que lhe dar para seu casamento, lhe deu uma mula que lhe servia quando fazia caminhos compridos, indo daí por diante num jumento, e faltando-lhe êste, a pé; e chegou a tanta pobreza que veio a não ter alva com que dizer missa, o que sabendo um senhor herege, lhe mandou muito pano com que fêz algumas alvas e teve com que repartir com os pobres. Tendo-lhe dado logo no princípio muitos daqueles senhores, assim católicos como hereges, cópia de oiro e muita roupa, nunca jamais guardou nada para si, mas tudo logo repartia de maneira com os pobres que nada lhe ficava para o dia seguinte, e êste estilo guardou sempre
  • Das coisas de Etiópia 183 em toda sua vida; e quando não tinha que dar aos pobres, êle mesmo ia a pé pelos lugares vizinhos, e às vezes dois e três dias de caminho, a pedir e buscar esmola para êles, vindo muito contente e alegre quando lha trazia. E de uma destas vezes se encontrou no caminho com uns elefantes bravos, que o houve- ram de matar, se Deus não livrara o seu santo. Estando uma vez um herege muito doente, e duma doença tão contagiosa e asquerosa que não havia quem o quisesse curar, nem ainda os próprios parentes, o santo Pa*triarca se foi a . pi. i36. sua casa, e se pôs a servi-lo em tudo, com mui grande caridade, dando-lhe de comer com suas mãos, varrendo-lhe a casa, lavando-lhe os panos sujos, com mais diligência do que o fizera um muito leal criado, de que o herege ficou tão edificado e rendido, que deixando seus erros, se reduziu à fé. Mandando uma vez o Imperador da Etiópia prender ao santo Patriarca, o homem que o levou preso lhe pediu que lhe pagasse seu trabalho, mas não tendo o padre que lhe dar, o outro lhe tomou a sobrepeliz e a estola que consigo levava. Não lhe resistiu o padre, nem mostrou sinal algum de indignação, mas levantando os olhos e as mãos ao céu sòmente, disse: «Ah! Senhor, ah! Senhor». Sucedeu pouco depois que apartando-se dêle aquele mancebo para ir a uma parte, e estando já dêle como um quarto de légua, tornou correndo com mui grande pressa e botando a sobrepeliz e estola diante do padre, voltou com a mesma correndo como veio, e de tal maneira desapareceu que nunca jamais o puderam achar os parentes e conhecidos, tendo feito sôbre isso tôdas as possíveis dili- gências. Tendo o santo Patriarca reduzido com sua doutrina a muitos hereges, e a muitos frades da terra, o Imperador, sentido disto muito, o mandou chamar e o repreendeu com muita indignação dizendo-lhe: Não basta deixar-vos eu estar em minhas terras e dar-vos licença que trateis e tenhais cuidado dos vossos portugueses, senão que também queirais com vossa falsa doutrina levar após vós os meus frades e a minha gente tôda? Avisai-vos que daqui por dianté não entendais mais que com os vossos, nem ensineis vossa doutrina a minha gente. Ao que o santo respondeu com grande liberdade de espírito, dizendo: o que eu faço é meu ofício, e êste por nenhum respeito o hei de deixar de fazer, e de ensinar a todos os que me quiserem ouvir a santa, verdadeira e católica fé, ainda que me custe a própria vida. O mau Imperador, ouvidas estas palavras, se acendeu em tanta ira e furor, que com grande agastamento lhe chamou mui- tos nomes, e disse muitas injurias, e para que vinha com mentiras e patranhas enganar sua gente; com tanto furor remeteu a êle, que travando-lhe da roupa lha rasgou. Mas acudindo alguns fidalgos seus, e estranhando-lhe o que fazia, e que não convi*nha a sua majestade tratar daquela maneira um Patriarca, o •fi.i36v. largou das mãos, mas com muita cólera o mandou degradar, juntamente.com o padre Francisco Lopes, seu companheiro, para uns montes mui altos e tão áspe- ros e estéreis, que quási ninguém morava nêles, e lhes mandou sob pena de morte que se não descessem dali; e para mais os magoar lhes mandou tomar o sagrado cális, para com isto os privar da consolação e alívio que podiam ter, com o sacrossanto sacrifício da missa. Recebeu o santo padre com seu com- panheiro a sentença do degrêdo com grande humildade e paciência, e nêle padeceram mui grandes trabalhos de dia e de noite, com muitas fomes, sêdes,
  • 184 Das coisas de Etiópia calmas, frios e falta de todo o necessário, e sobretudo com perigo de cada hora serem mortos pelos ladrões. Sua casa era uma choupaninha muito pobre na qual se recolhiam de noite; suas camas as duras pedras, e neste desterro esti- veram sete ou oito meses. Aqui os foi visitar uma senhora que era daquela terra e parenta do Imperador, e chegando à choupana onde os padres moravam lhe pareceu que via dentro um resplandor como do sol ou da lua, de que muito espantada, e atemorizada se tornou sem os ver, mas com tão grande conceito de sua santidade, que com muita instância fêz com o Imperador lhes levantasse o destêrro e os deixasse vir para a povoação; o que êle concedeu, mas man- dando que ninguém lhes desse nada, nem de comer, nem de beber, nem de algum outro mantimento. Outra testemunha que foi de vista, e sempre acom- panhou os padres, ajunta que quando o Imperador chamou o santo Patriarca, que todos cuidaram que era para o mandar matar; e que, quando o repreendeu, o adoestou de traidor e enganador, e que se não desistia de ensinar sua gente lhe mandaria cortar a cabeça; e que quando o padre lhe respondeu, lhe disse que não havia de desistir, ainda que sua majestade o mandasse matar ou lançar aos leões, porque para tudo estava prestes; e que logo botando o mantéu abaixo ficou em corpo com seu roquete, e levantadas as mãos e os olhos ao céu ofereceu a Deus seu espírito e o corpo ao Imperador, para por confissão e de- fensão da santa fé católica padecer até derramar o próprio sangue; o que vendo Fi.137. o Imperador ainda que estava muito furioso e agastado * lhe dissera: Tu que- rias agora morrer mártir nas minhas mãos, vai-te de diante de mim. E então o mandou ao destêrro com o padre Francisco Lopes como atrás fica dito. Depois de o Imperador ter desterrado ao santo Patriarca e a seu compa- nheiro mandou logo prender todos aqueles que se tinham reduzido à nossa santa fé, e repreendendo-os mui àsperamente os ameaçou com a morte, se não torna- vam atrás, e porque alguns se mostraram mui constantes e protestaram que antes derramariam o sangue que tornar atrás, ficou o tirano tão sentido que logo ali diante de si e de muita outra gente, mandou lançar aos leões, que para isso estavam aparelhados, quatro ou cinco deles. Porém aconteceram aqui as maravilhas antigas, que Deus obrou pelos santos mártires da primitiva Igreja, porque os leões ainda que bravos e ferozes, se deixaram estar quedos, sem tocar nos santos cavaleiros de Cristo, de que o Imperador e os mais ficaram pasma- dos, e a tudo esteve presente a própria testemunha que isto jurou. Depois disto mandou o Imperador degradar, e desterrar a todos os católicos que se mostraram constantes na fé, juntamente com o mesmo santo Patriarca, e indo para este destêrro, chegaram a tão grandes necessidades de fome, que por não comerem havia já muitos dias iam caindo e desfalecendo de pura fra- queza; e indo caminhando ao longo de uma grande ribeira com o padre Patriarca, se assentaram todos à borda da água e ali foi de tanta eficácia diante de Deus a oração do santo Patriarca, como antigamente a de S. Gregório taumaturgo em secar uma grande lagoa, para evitar discórdias entre dois irmãos, porque assim aqui para remédio da necessidade daqueles fiéis o santo Patriarca com sua ora- ção de tal maneira secou aquela grande ribeira, que com a grande multidão de peixes que no sêco ficaram, não sòmente remediaram sua fome presente mas carregaram algumas mulas para o diante; e logo a ribeira se tornou a encher e
  • Das coisas de Etiópia 185 correr como dantes, ficando êles cheios de grande consolação e ânimo para padecerem como padeceram por Cristo todas as incomodidades do desterro em que es*tavam, até que êle foi servido de lhes ser levantado. E a êste milagre »fi. i37». se achou presente a mesma testemunha que era um criado do Imperador, que levava preso e ao destêrro o santo Patriarca e os mais. Outra vez o mandou chamar o Imperador e, tratando-o mui áspera e desu- manamente de palavras, o ameaçou que lhe havia de mandar cortar a cabeça, se não desistia de prègar aos seus. Mas o santo que não desejava menos de ser morto por esta causa, que o Imperador de o matar, cruzando as mãos ante o peito, abaixou a cabeça dando a entender que ali lha dava. O que vendo o Imperador cheio de furor leva da espada, e levantando o braço para descarregar com ela, tendo-o levantado e antes de o abaixar com o golpe, lhe caiu a espada da mão, com o que êle mesmo e todos os mais que estavam presentes, em que entrava também a testemunha que isto jurou, ficaram pasmados. Estava também ali a Rainha que, vendo o que passava, a grande pressa se levantou e abraçou com o santo Patriarca para o defender, estranhando muito ao Imperador o que fazia em tratar daquela maneira a um tão santo varão. Mas o mau Imperador com ver tudo isto, não se melhorando de sua malícia, o mandou que se fôsse logo de diante de si, e em secreto ordenou que o matassem; e assim houvera de acontecer, se uns senhores hereges, que o souberam, o não impediram; os quais, edificados grandemente de sua santidade, sempre procuraram de o favorecer, principalmente quando o Imperador o perseguia e tratava mal; e então lhe davam mais esmolas, e lhe acudiam em todas suas necessidades. Por outra vez indignado o Imperador de o santo ter reduzido certos hereges lhe mandou que se fôsse logo de suas terras e levasse consigo todos seus por- tugueses, mas que as mulheres e filhos lhe deixassem, porque eram seus cativos. Fizeram-no assim, e foram levados a um destêrro muito longe, onde o tirano os mandou, e em que padeceram muitos trabalhos e necessidades, pôsto-que depois lho tornou a levantar, e alguns meses depois foram o santo Patriarca e o padre trancisco Lopes a ter com o Imperador, que naquela conjun*ção estava com • fi. ijs. seu exército sôbre um Vizo-Rei, vassalo seu, que se lhe tinha rebelado. Che- gando ao arraial, acharam ali os outros padres seus companheiros, com que foi tão grande a consolação que uns e outros receberam, que lhes parecia estavam no paraíso. Mas estando assim todos tratando dos trabalhos que padeceram no destêrro, vieram de improviso os inimigos e deram no arraial do Imperador com tanta fúria que todo o desbarataram e destruíram; e como o sobressalto e a perturbação foi grande, e o arraial todo num momento se revolveu e os padres se espalharam todos, de modo que o padre Patriarca, e o padre Francisco Lopes, e um homem de casa ficaram sós no campo, e no meio do arraial sem saberem parte dos demais, puseram-se logo em oração, e estando no meio do campo, e sem nenhum amparo, andavam por ali os inimigos ao longo dêles e passaram de uma parte para a outra, matando e ferindo a quantos achavam diante, sem nunca darem fé dêles nem lhes tocarem. E depois de largo espaço de oração, e sendo já passados os inimigos, se levantou o santo Patriarca dizendo: Bemdito seja Deus, que os nossos padres são vivos e entregues nas mãos dos inimigos, mas roguemos a Deus por êles que não será nada. E passou a coisa, 24
  • 186 Das coisas de Etiópia que os padres foram cativos pelos turcos que naquele exército contrário vinham, e dêles bem mal tratados, mas do cativeiro os livrou Deus maravilhosamente por meio de um cristão, que era capitão da parte dos inimigos, o qual os pediu de mercê ao baxá general dos turcos. Dêste lugar se foi o padre para onde estavam os portugueses, que andavam no exército do Imperador, e indo em uma mula encontrou no caminho com um soldado abexim que era da parte dos inimigos, o qual lha tomou e levou, ficando o padre a pé, e chegando ao passo onde estavam os portugueses, vieram dali a pouco ter com ele os mais padres cativos, e que por via do capitão cristão os turcos largaram, do que todos se consolaram grandemente. E estando assim juntos, eis-que aquele soldado abexim, que lhe tomara a mula no caminho, veio • fi. i38 v. com muita pressa restituir-lha, por que, ementran*do com ela em sua casa, de improviso lhe morreu a mulher e dois filhos, do que pasmado e entendendo ser castigo de Deus, pelo desacato que tinha feito ao santo Patriarca, lha tornou a trazer logo, e cheio de mui grande temor se lançou aos pés do santo padre, pedindo-lhe perdão e que rogasse a Deus por ele que não morresse também. O padre lhe respondeu com umas entranhas cheias de piedade que não houvesse medo; e êste depois foi grande seu amigo, e de quando em quando lhe trazia alguma coisa. O tempo que havia de tomar para descansar, êle tomava para trasladar as coisas de nossa santa fé na língua da terra, e isto fazia com tão grande amor e aplicação, que nem se lembrava de dormir nem de comer, e uma vez lhe acon- teceu, estando escrevendo, estar tão embebido no que fazia, que bebeu uma vasilha de azeite da terra, cuidando que era água. E os mesmos hereges tinham tão grande conceito dêle, que todos o julgavam e nomeavam por santo. Um tio do Imperador dizia dêle e dos mais padres seus companheiros, que eram semelhantes aos grandes santos do êrmo; e depois de morto, quando queriam fazer algum juramento de grande importância, o vinham fazer sôbre sua sepul- tura com muita reverência. Tendo os turcos cercadas as terras onde êle estava, um dos frades, que por ali havia, e que era o mais grave dêles, mandou dizer a um português, que não deixassem ir o Patriarca dali, porque tinha por certo que à sombra de tão grande santo não se perderia aquela terra. Outro, que era a segunda pessoa do reino, se foi a um fidalgo herege e lhe disse: Senhor, êste padre é grande santo, e por suas orações conserva Deus esta terra, atentai por êle e acudi-lhe a suas necessidades; o que êle fez então, e dali por diante muitas vezes, mandando-lhe muitas e mui grossas esmolas, que o santo muito estimava mais pelos pobres, que por si. E êste mesmo fidalgo, quando soube de sua morte, dando com ambas as mãos em seu rosto, dizia: iMorreu o padre Patriarca? morreu o padre Patriarca? Acabados e destruídos somos todos, pois •fi. 139. onde êle não está * quem somos nós, e sem êle não somos gentes. Afirmou uma testemunha de si mesmo que, sendo herege e morando longe das terras, onde estava o santo Patriarca, trinta e cinco dias de caminho, tivera uma visão de noite dormindo, na qual lhe parecia ver o santo padre e o padre Manuel Fernandes, sem os conhecer, nem ter visto, e que êstes lhe davam de beber por um cálice, e daí a dois anos indo fazer negócio pela terra onde mora- vam os padres e, vendo ao Patriarca e ao padre Manuel Fernandes, os conheceu
  • Das coisas de Etiópia 187 logo, que aqueles eram os que vira na visão, e falando com êles lhes contou tudo, pedindo o fizessem católico como daí por diante viveu. Disse mais que, estando êle uma vez cativo de turcos, e querendo-lhe fazer fôrça que arrene- gasse a fé, mandou pedir ao padre Patriarca o encomendasse a Deus naquele perigo, e que logo na mesma noite fugiu do cativeiro e passou um braço de mar muito grande sem saber nadar, e se veio onde estava o santo padre a dar as graças pelo bem que por suas orações recebera. Morreu este santo varão de Deus no mês de Setembro de 1579, de dor de pedra, com a qual estando uma vez mui atribulado, lhe disseram uns amigos e devotos seus, que o visitavam, movidos de compaixão do que lhe viam padecer, que, se Deus fora servido, melhor fôra levá-lo para si. Ao que êle lhes respon- deu: não digais isso, filhos, porque se desta maneira eu puder servir a nosso Senhor, assim com estas dores folgarei de viver. Depois de morto, assim cató- licos como hereges, iam frequentemente à sua sepultura encomendar-se a êle, e o santo padre lhes socorria em suas necessidades; e obrando Deus por êle muitos milagres, só com a terra de sua sepultura. E um dêles fêz em uma parenta do Imperador, que, tendo uma grave doença e bebendo com água uns pós da terra da sepultura do santo, ficou logo sã. O mesmo aconteceu a uma menina que, tendo uma chaga num pé, incurável, pondo-lhe nela a terra da sepul- tura do santo padre, no mesmo ponto que lhe tocou ficou sã. O mesmo acon- teceu a muitas mulheres em perigo de parto, e a outros enfermos de várias enfermidades. * Afirmou outra testemunha que tendo uma grande chaga numa ilharga, «Fi. i39v. que, com ser físico e cirurgião, nunca pôde curar com quantos remédios lhe aplicou, e estando uma noite dormindo lhe pareceu que ouvia uma voz que lhe dizia: para que buscas tantas mezinhas, vai tomar da terra da sepultura do santo Patriarca e logo ficarás são. Fê-lo assim com grande fé e no mesmo ponto sarou. Disse mais que, sendo uma vez mandado do Imperador, depois da morte do santo, a uma fortaleza, o cativaram os turcos e o puseram em ferros para no dia seguinte o espetarem. Arreceando êle aquela crua morte, se encomendou com grande eficácia ao santo padre, e que logo naquela mesma tarde, estando êle com as portas e janelas fechadas, lhe apareceu o santo e o tomou pela mão e levanlando-o do chão lhe disse: Baylu Georges, não temas a morte porque não hás de morrer agora; e logo desapareceu. E assim foi, por- que ao outro dia o soltaram os turcos sem lhe fazerem mal algum. Disse mais êste que, indo êle uma vez antes de amanhecer a fazer oração à igreja, onde estava sepultado o corpo do santo, chegando perto da porta viu dentro uma luz mui grande e resplandecente, da qual teve muito temor e não ousando a entrar se tornou para casa; e indo ao outro dia antes de sair o sol, viu uma candeia acesa; e indo para a tomar, porque não viu ninguém na igreja, lhe desapareceu de diante; o que tudo julgava que Deus fizera para honrar o seu servo e mani- festar sua santidade. Estes e outros muitos milagres se afirmam dêste grande santo com que se prova sua santidade, pela qual Deus quis nêle ser glorificado.
  • 188 Das coisas de Etiópia CAPÍTULO VI Da vida e morte dos mais padres companheiros do santo Patriarca O padre António Fernandes foi admirável no amor para com todos os próximos e particularmente na caridade para com os pobres e doentes; • e pelos socorrer em * suas necessidades corporais e espirituais, era diligentíssimo e incansável em trabalhar de dia e de noite. Foi de grande pru- dência acompanhada com santa simplicidade, estremado na paciência e humil- dade, com uma maravilhosa paz e quietação de alma por mais e maiores que fôssem os trabalhos em que se via; ficou por superior de todos depois da morte do santo Patriarca e com o grande zelo e fervoroso desejo, que tinha de reduzir e salvar aquelas almas, fêz ir sempre por diante aquela empresa, emquanto viveu; tido e havido sempre por varão verdadeiramente apostólico e santo, e por tal venerado, na vida e morte, de tôda aquela gente. O padre Gonçalo Cardoso foi varão de insigne virtude e raro exemplo de tôda a santidade, como dêle testificaram as testemunhas; do qual não somente os católicos mas ainda os hereges ficaram muito edificados e movidos do exem- plo de suas virtudes. Tôda sua vida gastou em trabalhar de dia e de noite incansàvelmente na redução daquelas almas e por as arrancar de suas heresias. Passou muitos trabalhos e cativeiros e falta de todo o necessário; mas tudo padecia com tanto gôsto e alegria, como se estivera abundantíssimo de tôdas as coisas temporais. Deu Deus a êste padre uma tão grande graça e talento de conversar com todos, assim católicos como hereges, e particularmente em fazer amizades, que uma só palavra sua parecia que rendia os corações por mais duros e obstinados que estivessem. A êste padre revelou Deus o dia de sua morte, porque mandando-o o superior a visitar e confessar uns católicos, que estavam em Dambeá, quinze dias de caminho de Fremoná, juntamente com o padre Fran- cisco Lopes, disse êle, quando se despediu, ao padre superior que o mandava: Padre, eu vou a cumprir com muito gôsto a santa obediência, mas sei de-certo que não hei de chegar a Dambeá nem hei de tornar cá; e, feitas já algumas jor- nadas, disse ao padre Francisco Lopes, seu companheiro: padre, já me falta pouco para o fim de minha vida. E assim foi, porque indo mais por diante em seu caminho, foram salteados dos ladrões, que o mataram a êle e feriram ao padre Francisco Lopes. • fi. i4o v. O padre Gualdanhes foi de tanta inocência e pureza da * alma, que se podia dizer dêle: vere israelita iti quo dolus non erat; fervorentissimo no zêlo de aju- dar aquelas almas, e, em chegando a Etiópia, com tanta aplicação se deu ao estudo da língua que, sem ter mestre, em cinco meses a soube muito perfeita- mente; pelo que logo dali por diante se pôs a trasladar nela tôdas as coisas de nossa santa fé, que podiam ajudar para instruir os católicos e reduzir os here- ges. Sua morte foi gloriosa, porque indo por obediência a Maçuá, ilha do mar Roxo, o encontraram os Turcos, e arremetendo logo a êle como lôbos, arrebata- dos do ódio entranhável que teem ao nome de Cristo, o mataram cruelmente a êle e a um português que ia em sua companhia, atravessando-os às lançadas.
  • Das coisas de Etiópia 189 O padre Manuel Fernandes foi um varão verdadeiramente de Deus, cheio de espírito e caridade com que nunca descansava no procurar o bem e salva- ção daquelas almas, as quais ia buscar pelos caminhos, ainda que fossem muito compridos e ásperos, e sempre a pé, para as confessar e administrar os sacra- mentos. A nenhum trabalho se escusava e a todos se oferecia, quer fosse de dia quer de noite e sempre com alegria tão grande que só com sua vista e pre- sença consolava a todos. Teve dom de profecia, como se viu em muitas coisas que disse, antes de acontecerem; assinalando também o dia que havia de ser de sua morte. Tendo um frade daqueles hereges persuadido o Imperador, de quem era mui estimado, que mandasse matar todos os abexins que se tinham reduzido, sabendo isto o santo padre, disse a um católico, que assim o jurou em seu testemunho, que nenhum medo tivesse, porque o Imperador a nenhum cató- lico havia de fazer mal e que aquele frade morreria dentro em dois meses; e assim aconteceu uma coisa e outra. Despedindo-se uma vez desta mesma tes- temunha para se tornar ao lugar e casa, aonde morreu o santo Patriarca, lhe disse: não vos entristeçais com a minha partida, porque o tempo de minha morte é já chegado e vou-me para ser enterrado junto do padre Patriarca. E assim aconteceu, porque poucos dias depois de chegar a casa morreu e foi enterrado onde tinha dito. Outra testemunha disse que, vindo visitar êste santo padre quando estava doente, lhe perguntara o mesmo padre quando era dia de Natal; e respondendo-lhe que o Domingo seguin*te, lhe tornara o padre a dizer: pois »Fi.i4i. por esse dia espero eu. Chegado êste solene dia mandou vir todos os católicos à missa, a qual êle também ouviu, e depois os mandou a todos que se fossem jantar a suas casas mas que logo depois de jantar tornassem à igreja. Fize- ram-no assim e, quando chegaram, o acharam já na outra vida. Pouco antes de expirar disse ao padre Francisco Lopes, que com êle estava, que benzesse um canto da casa que lhe êle apontou com o dedo e, virando-se para a outra parte, disse com muita devoção: ah minha Senhora, ah minha Senhora! E logo disse ao padre Francisco Lopes: agora vi a Virgem nossa Senhora tão bela e tão formosa. E assim consolado com uma tão ditosa vista e presença da Mãe de Misericórdia, que é particular protectora dos filhos da Companhia e princi- palmente dos que trabalham nas missões e conversão das almas, expirou e se foi para o céu em sua companhia. O padre Francisco Lopes, que foi o derradeiro de todos os companheiros do padre Patriarca, que morreu em Maio de 1697, foi tido por tôda aquela gente pelo mais santo de todos, depois do santo Patriarca, como escreveram os por- tugueses que lá estavam e o testemunharam depois na inquirição as testemunhas que foram preguntadas. Depois da morte de todos ficou só trabalhando com aquela cristandade emquanto viveu, com raro exemplo de virtude, fazendo êle só o que dantes faziam muitos. Passou todos os trabalhos, desterros e neces- sidades que atrás se teem referido do padre Patriarca, porque sempre foi seu companheiro inseparável; sua vida foi pobríssima e de grande mortificação e penitência. Chegou a não ter mais que a pele e os ossos de maneira que o superior lhe mandava por obediência que comesse. Entranhàvelmente tinha no coração esta verdade impressa, que esta vida não nos era concedida mais que para trabalhar e fazer penitência, e conforme a isso governava a sua. Tinha
  • Das coisas de Etiópia umas entranhas cheias de amor e caridade para com os pobres, de modo que não podia ter consigo coisa alguma que lhes não desse. Dando-lhe uma vez um cristão um saco de esmola para dormir sobre ele, êle o tornou logo a dar • fi. 141 v. aos pobres, havendo que * era mais justo dormir êle no clião que dormirem os pobres. Pedindo-lhe um pobre uma esmola, não tendo que lhe dar, cortou um pedaço da roupeta que trazia bem velha e lha deu. Outra vez achando uma pobre mulher morta, que por sua pobreza não tinha em que ser amortalhada, se foi despir a camisa, que trazia no corpo, e dela lhe acomodou a mortalha. Outra vez não tendo que dar deu o mantéu; e quando pelo inverno havia de fazer alguns caminhos para acudir aos católicos e aos pobres, se cobria com uma pele de animal, por não ter outra coisa para se defender das chuvas e grandes frios. E como era tão grande esta sua caridade para os pobres, que nenhuma coisa podia ter que lhes não desse, veio no cabo da vida, quando mor- reu, a não ter com que fôsse amortalhado, nem se achar mais em sua pobre casa que um pedaço de coiro rôto e velho, em que dormia e sôbre o qual morreu. Não sòmente acudia às necessidades dos pobres com o que tinha e lhe vinha às mãos de fato e roupa e outras coisas, mas também com a sua própria pessoa indo-os a servir em suas doenças, ainda que fossem contagiosas e de ruim cheiro, estando logo com êles, três ou quatro meses, dando-lhes de comer com sua mão, varrendo-lhes as casas, lavando-lhes seus panos, de que todos assim católicos como hereges ficavam pasmados e se reduziram, vendo tal exemplo. Uma vez servindo desta maneira a um doente cheio de bichos, vieram uns cafres salteadores, que chamam Galas, a destruir aquele lugar onde o doente estava, e vendo o padre o perigo, o tomou às costas e o levou a um monte alto onde estava com êle até que os inimigos se foram; que sem dúvida o mataram como fizeram a outros, se o padre o não salvara. Dando nesta terra uma praga de certos bichos acudiram todos ao santo padre que lhes socorresse com suas ora- ções. Benzeu logo muita água e mandou aos católicos que a lançassem pelas sementeiras e foi nosso Senhor servido que ficaram livres daquela praga. Foi visto muitas vezes, quando dizia missa, com o rosto tão resplandecente como o sol. Outra testemunha diz que, como de Anjo, e que quási tirava a vista dos olhos; e que seus cabelos pareciam fios de oiro, ficando depois da missa brancos •fi. 142. como dantes. Estando muito doente, * e sentindo-o muito os católicos, arre- ceando o desamparo em que podiam ficar com sua morte, sem pai, sem pastor, sem sacerdote, iam cada dia muitas vezes à igreja a rogar a Deus por sua saúde e pedir-lhe com muitas lágrimas que os não desamparasse. Ouviu Deus suas orações; deu saúde ao padre, o qual depois de são, indo dizer missa à igreja, com grande consolação de todos lhes fêz uma devota prática no cabo da qual lhes disse: sabei, filhos, que os dias de minha vida já eram acabados, mas Deus nosso Senhor pelas orações que lhe viestes fazer à igreja me dilatou mais dois anos de vida; com que folgo muito para vos servir e ajudar. E assim dali por diante naqueles dois anos, como quem não havia já de ter mais campo para merecer, trabalhou com muito mais fervor. No cabo dêles, uma semana antes de sua morte, disse a muitos católicos que dali a uma semana havia de morrer, mas que não se desconsolassem, porque não estariam mais que um ano sem pai ou sem sacerdote, e que no cabo dele Deus os proveria de todo o necessário.
  • Das coisas de Etiópia 191 E assim foi, porque passando êle no dia que disse, que foi no mês de Maio de 1597, cheio de merecimentos desta vida para a outra a descansar e gozar eter- namente de Deus, dali a um ano passou de Goa àquelas partes, mandado pelo Arcebispo e Vizo-Ilei, como fica dito, o sacerdote Belchior da Silva, o qual com muita caridade e edificação dos católicos por espaço de sete anos trabalhou e conservou aquela vinha do Senhor, até que êle foi servido que no ano de 6o3 passasse a Etiópia o padre Pero Pais de nossa Companhia; e êle se veio a Goa no ano de 604, trazendo consigo as cabeças dos santos padres Patriarca e Fran- cisco Lopes e o instrumento que fêz da vida e morte dêstes santos, donde se tirou tudo o que dêles aqui fica dito para honra e glória de Deus nosso Senhor. * CAPÍTULO VII • FI. 141 *. Da missão e residência do reino de Angola e do que sucedeu a dois padres que para lá foram NAQUELE reino e conquista não sucedeu mais coisa notável afora o que se disse nas relações passadas; mas não pareceu dever-se deixar em silêncio a viagem que fizeram três de nossa Companhia, convém a saber, o padre Francisco de Góis e o padre Duarte Vaz e o irmão António de Barros, por sucederem nela coisas de tanta edificação que não deixarão de consolar muito em o Senhor aos que as souberam, para glória sua. E, para que se enten- dam melhor, poremos aqui a própria carta que o padre Francisco de Góis escre- veu ao padre António Mascarenhas, provincial desta província de Portugal, em que lhe refere o que nesta viagem lhe aconteceu; donde se poderá ver alguma parte dos perigos e trabalhos a que os filhos desta nossa Companhia se ofere- cem e padecem nas missões marítimas e peregrinações que fazem nas várias partes das conquistas dêste reino e que tomam por santa obediência de seus superiores, levados do zêlo e desejo da conversão da gentilidade e dilatação de nossa santa fé. Diz assim a carta: —Farei nesta o que vossa reverência me mandou, que é dar-lhe conta de nossa viagem e das mercês que nosso Senhor nela nos fêz. Foi êle servido que o navio, em que vínhamos, vinha todo aberto, pelo que foi necessário arribar à ilha da Ma- deira, donde nos partimos aos i3 de Fevereiro; e aos 18 nos deu uma tão grande tormenta que três dias fomos sempre, Deus misericórdia, com um só bolso de pano de uma parte, fazendo o navio tanta água que duas ou três vezes nos demos por afogados. Mas Deus, que determinava outra coisa de nós, nos livrou desta. * Na linha tivemos muitos trabalhos, porque por espaço de vinte dias an- . n. 143. dámos ardendo como num purgatório. Tivemos depois por algumas vezes vento mas, como era contrário e os mares grandes e o navio se ia alagando por ir tão aberto que quási parecia uma canastra, foi necessário cingirem-no com quatro calabres e arrocharem-no fortemente para não abrir de todo e se afundir. Fazia contudo tanta água que nos vimos com a morte diante dos olhos, chorando já todos sua ventura. Porque com duas bombas não podía- mos vencer a água, e aos 17 de Março nos demos por acabados. Neste tempo
  • 192 Das coisas de Angola procurávamos de animar a gente e, desejando eu fazer uma prática a todos, em que os dispusesse para aquela hora, não era possível ajuntá-los pela perturbação e ocupação em que todos andavam; mas quando algum me caía a lanço fazia com êle meu ofício mostrando-lhe o perigo em que estávamos, para que cada um se aparelhasse como convinha. Contudo quis Deus que, chegando a noite, de cansados os acolhi todos juntos e então lhes declarei o que naquele passo lhes relevava e como para Deus pôr em nós os olhos de sua divina misericórdia era necessário porem-se bem com êle e confessarem-se todos. Fizeram-no assim, aparelhando-se primeiro e foi coisa mui notável que com todo o dia andarem buscando uma grande água que o navio fazia, eis-que acabando de se confessar o primeiro e entrando pelo segundo, o mestre, que tinha o leme na mão, o deixou com muita pressa e às escuras se foi debaixo da coberta e a primeira coisa que fêz foi dar logo com a água, bradando com grande alegria que não temessem, o que todos atribuíram ser efeito da divina misericórdia pelo firme propósito que todos tinham de se pôr bem com Deus. Fomos depois navegando sete ou oito dias quietamente. No fim dêles, es- tando uma noite todos juntos às 10 ou 11 horas e o mar bonança e nós pratican- do-lhes das coisas de Deus, subitamente começam a bradar: leme fora, leme fora; e acudindo todos, êle ia já pelo mar, o que atribuí a efeito do demónio por nos im- pedir a prática em que estávamos, da qual êle tão pouco gostava. E tanto mais • fi. i43v. me persuadi a isto quanto nenhuma causa • houve para o leme saltar fora. E assim meteu isto a todos muito espanto e principalmente por terem poucos dias antes passado tão cruéis tormentas sem dar de si jeito de poder saltar fora. Toma- ram logo os do navio o leme e tornaram a recolher; e ainda que o não puseram logo por ser de noite, foi nosso Senhor servido que sem êle navegou o navio tôda ela com cinco velas cheias, tão direito e melhor do que nunca até então navegara, de que os próprios homens do mar ficaram mui maravilhados; mas eu atribuí a Deus querer confundir a malícia do demónio que nos quis perturbar nas coisas de seu serviço. Dia da cruz de Maio lhe fizemos a festa o melhor que pudemos, armando um altarzinho, em que pusemos as relíquias que trazíamos, em que en- trava uma do santo lenho, à qual todos se vieram oferecer. Ao dia da Ascensão fizemos uma coisa com que grandemente se consolaram todos os do navio, por- que, como êles diziam, poucas vezes ou nunca se faria outra semelhante, no mar; e foi que ordenámos um céu, o melhor que pudemos, com algodão e outras coisas, e o pusemos em um mastro coberto de' uma ou duas peças de veludo aleonado e neste céu estava uma formosa nuvem que se abria e fechava por umas cordas, e nelas pegados alguns relicários de fio de oiro que lhe davam muita graça. Ao pé do mastro estava um altar pequeno com três imagens que tínhamos de vulto, uma de nossa Senhora, outra de S. João e outra de Cristo nosso Senhor que estava no meio, pôsto sôbre uma pedra a modo de monte, donde começou a subir, representando-nos aquele devoto passo de sua gloriosa Ascensão e assim tivemos ali a nossa hora com muita alegria e edificação de todos, porque só esta lhes procurámos e buscámos em tôda esta viagem por todos os modos que podía- mos. E verdade que na maior parte do caminho nunca nos faltaram trabalhos com esta gente pelas muitas brigas que havia todos os dias, nas quais muitas vezes estiveram a risco de se perderem e matarem, com dantes em terra serem
  • Das coisas de Angola 193 muito amigos; mas parece que todo o inferno se armava contra êles e contra nós, pai ticularmente pelo muito trabalho que padecíamos em os apaziguar e muito maior em ouvir e ver tantos desatinos em gente cristã. E assim de dia e de noite não cuidá*vamos senão nos modos que havíamos de ter para impedir • fi. 144. as ofensas que nisto faziam a Deus e os aquietarmos uns com os outros, e piouve a nosso Senhor emfim o alcançámos de modo que todos por derradeiro ficaram muito amigos. Indo continuando nossa viagem, tivemos um temporal mui trabalhoso, mas fazendo todos um voto à Virgem nossa Senhora do Rosário, imediatamente abran- dou o tempo. Nesta conjunção tomando os oficiais do navio o sol para verem a distância em que estávamos da terra e dando cada um seu parecer, foi coisa graciosa que um errou quinhentas léguas, outro perto de trezentas e oitenta, o piloto trezentas e tantas e o mestre mais de trezentas, porque, depois que se fizeram com ela, cada um conforme ao que lhe parecia, andámos mais de vinte dias sem a poder achar, até que aos 22 de Junho à meia-noite fomos dar com ela; e amanhecendo que nos chegámos mais e começámos ir ao longo da costa eis-que lá pelo meio-dia tivemos vista de dois navios, um grande e outro pequeno. Recearam-se logo do que podia ser e com razão, porque eram inimigos holan- deses, os quais tanto que nos viram nos começaram a dar caça seguindo-nos o restante daquele dia e a noite toda e o dia seguinte, no qual sôbre a tarde che- gando um dêles a tiro de artilharia, nos tirou quatro, que qualquer deles bastava para nos afundar; mas o Senhor, que ainda então lhes não tinha dado poder sôbre nós, nos livrou daquele perigo, porque nenhum nos chegou com estarmos nós muito perto; e assim lhes fomos fugindo até meia-noite. No qual tempo não estando nós já mais que sete léguas do pôrto de Angola e véspera de S. João, nos alcançou o outro navio e, começando a disparar sua artilharia, lhe bradaram os do nosso que podiam vir, que já estavam rendidos. Que quere vossa reverência que houvesse neste passo de tristeza nos pobres homens que todos não tinham mais que o dia e a noite e a pobreza que cada um ali levava. Mas, deixando a êles com sua miséria, pois lhes não podíamos valer, tratarei do que nós passámos. Chamei logo ao padre Duarte Vaz e ao Irmão e lhes disse o que o Senhor naquela hora me comunicou e foi que com grande esforço e ânimo nos aparelhássemos para o martírio, pois estávamos na*quela hora de tanta importância e tanto para desejar; porque, conforme ao que nos diziam os próprios do navio, se aqueles inimigos eram holandeses, porque ainda então não estávamos disso certificados, sem dúvida morreríamos e executariam em nós o ódio que teem à nossa santa fé católica. Consolei-me muito de ver a prontidão e esforço de meus companheiros e a alegria com que me respondiam, quam aparelhados estavam para tão ditosa hora e mais em tal dia que era de S. João, o que nos causava ainda mais devoção. Tomei logo nas mãos um crucifixo que levava e com êle me determinei de morrer, mas não fui tão ditoso que mere- cesse tal sorte; porém confiado estou que ainda nosso Senhor me há de fazer esta mercê e dar para isto o esforço que eu não tenho. Confessaram-se todos os do navio, porque já o dia atrás os tinha exortado a isso numa prática onde houve muitas lágrimas. Chegaram os holandeses, entraram no navio; logo um dêles se veio a mim e com grande cortesia me tomou a mão, dizendo-me que não 25
  • 194 Das coisas de Angola temesse. Começaram logo a abrir caixas e levaram o melhor que acharam e era lástima ver o estrago que em tudo faziam. Idos estes vieram outros e assim como eram mais baixos, ao que mostravam, assim usaram também doutro modo semelhante a êles. Porém, o maior trago que aqui levámos e pelo qual antes tomáramos perder muitas vidas foi ver o tratamento que fizeram a quantos Agiius Dei, nómims, relíquias, verónicas, e coisas pias e sagradas achavam e o que fizeram a um crucifixo pequeno, os nomes que lhe punham, porque como outros judeus tornando a repetir os opróbrios e afrontas que fizeram a Cristo na cruz, moviam as cabeças uns para os outros e, rindo e escarnecendo, lhe diziam muitas blasfémias, e certo que aquele mesmo Senhor, que tudo sofreu por nós com tanta mansidão, nos teve neste passo para que não fizéssemos alguma coisa. Levantaram logo êstes fogo aos da outra nau grande em que vinha o capitão, o qual chegando perto bradou aos seus lhe levassem logo o mestre e o pilôto; após êstes, que lhe levassem os passageiros, que foram tremendo, cuidando que os iriam deitando no mar pouco a pouco. Pela manhã mandou por nós que • fi. 14S. fomos aparelhados a segunda vez para o martírio, se fôssemos tão * ditosos que o merecêssemos. Chegando à nau aonde estavam todos com grande alegria, e pondo os pés nela, que fui o primeiro, me levaram o mantéu dos ombros. E entrando aonde estava o capitão assentado, fiz-lhe cortesia e êle a mim; disse-me que não temêssemos, que nada se faria a nossas pessoas. Respondi-lhe que podia fazer quanto quisesse, que para tudo estávamos aparelhados. Falava êste ladrão português melhor que nós, porque tôda a vida se criara em Lisboa e fora caixeiro de uns mercadores e estivera já em Angola quatro ou cinco anos e sabia melhor os portos, entradas e saídas que nenhum marinheiro português. Dizia que ainda havia de ser outro Drache contra El-Rei de Portugal e sobretudo era um grande herege. Começou a tratar com o mestre e piloto de resgatar o navio, e para isto se ir pôr no pôrto de Angola, mas caro lhe houvera de custar se assim o fizera. Estando nisto aparecem três velas pequenas. Mandou a elas o seu patacho, que endireitou com a maior, a qual, vendo-se apertada, foge para a nau grande, cuidando que era de paz; e chegando a ela obra de um tiro de pedra, lhe bradou de cá o capitão, que estava comigo, que amainasse as velas; e porque neste tempo ainda o capitão do nosso patacho e os negros que nêle vinham o não conheciam por ladrão, não faziam senão bradar e pedir-lhe: senhor, valha-nos vossa mercê, que vimos fugindo dêste ladrão. O qual me dizia rindo que já aquele estava nas mãos; mas tanto que o conheceram, fingindo que vinham amainando as velas, sem todavia as derrubarem, se lhe puseram por pôpa. O ladrão a desfazer-se com brados que amainasse de todo; o piloto a dizer-lhe: senhor, é governo de negros, iça, iça; o que êles fizeram com tanta destreza que, estando ao pé do leme, largam as velas tôdas e começam a fugir. Mandou logo o ladrão disparar um tiro, mas não lhe fêz mal, e assim lhe esca- param tão ligeiramente que todos ficaram espantados, mas o ladrão comendo-se com raiva e mais triste que a noite. Após isto aparecem seis velas; e porque o nosso patacho, que ia fugindo, se foi meter entre elas, imaginou o ladrão que fôra espia e os navios vinham contra êle, como na verdade vinham, porque já na cidade se sabia que êles andavam pela costa. Fêz-se o ladrão na volta do mar com tão grande mêdo que não sabia por onde ia nem comeu naquele dia
  • Das coisas de Angola bocado. Os navios também se fizeram com êle ao mar e sem dúvida o tomaram, se quiseram; mas o capitão-mor dêles * não era pessoa nem de casta de quem • fi. mív. se pudesse esperar êste bom feito e, como anoiteceu, mais cheio de medo do que estavam os ladrões, fazendo-se na volta da terra, se tornou para casa. Estes ladrões, em ambos navios, não eram mais que vinte ou vinte e dois; no patacho sete e os mais na nau, e dêstes alguns doentes e outros meninos, mas como trazem artilharia com que assombram e nossos navios vão sem ela, nem sabem o pouco número de gente que vem nos seus; por isso não ousam de lhes fazer rosto quando os encontram. Ao outro dia, pela manhã, que êles se viram livres do perigo em que estiveram, foi tanta sua festa e o comer e beber, como quem tinha escapado da morte; é verdade que se a coisa chegara a briga também nós houvéramos de acabar, porque o ladrão estava resoluto, vendo-se em perigo, de pôr fogo ao navio antes que render-se, mas nosso Senhor dispôs tudo como mais foi servido. Andámos cinco dias cativos em poder deste ladrão, e alguns dos seus nos diziam que já que suas naus não traziam clérigos, que agora lhes vinha bem levá-los consigo; o que, se Deus assim permitira, nenhuma pena me dera, pois via que tudo vinha de sua mão. Neste tempo tivemos muitas disputas êle e eu, principalmente sôbre as imagens a quem êle mostrava figadal ódio, sôbre o Papa, sôbre o Purgatório, sôbre os Sacramentos e principalmente da peni- tência, porque tudo o que a fé católica e a Igreja Romana nisto confessa, ne- gava êste malvado herege com se criar em Lisboa, como acima disse; e afirmo a vossa reverência que em tôdas as disputas que tive com êste herege, com eu ser idiota e sem letras (diz isto êste padre por sua humildade, mas é letrado teólogo), admiràvelmente sentia em mim cumprir-se aquela palavra do Senhor: cuttt steteritis atile reges et prcesides, nolite cogitare quomodo ant quid loquamini; dabitur etiim vobis in illa hora etc. Porque eu lhe falava e o convencia de maneira que o fazia ficar confuso e mui triste, e quando muito me respondia com risinhos como escarnecendo; e outras vezes me dizia que, se êle fôsse revolver seus livros, que trazia muitos, eu veria o que êle me respondia; rogava-lhe que o fizesse assim, mas sempre ficou o mesmo. Sôbre uma imagem da Virgem nossa Senhora disputámos um dia e, porque eu lhe falei com tanta liberdade e confiança, a qual sentia em mim que me dava a mesma Virgem, que o metia em grande confusão, chegou a me dizer que não me estendesse tanto, por # que *fi. i46. faria e aconteceria. Respondi-lhe que o maior mal que me podia fazer era matar-me ou deitar-me ao mar, mas que soubesse que para mim era êsse tama- nho bem que nenhum outro desejava mais nem buscava nesta vida e que por isso o fazer-me êste era fazer-me grande mercê. Com isto ficou mais brando, dizen- do-me que se guardaria de disputar comigo em Lisboa, e mandando logo buscar vinho me fêz cortesia com êle, ajuntando que tanto podíamos andar ambos até que ou eu fôsse de sua seita ou êle da minha. Ao que lhe tornei a dizer que quanto eu da sua, estava bem fora disto; êle da minha que bem podia ser, se êle quisesse. A tôdas estas disputas se achou presente um mancebo, que não sei se era católico ou o fôra já, porque, depois que acabámos, saindo-se o capitão e ficando êle só comigo na câmara, me disse: padre, mais me valeu agora isto que até aqui ouvi dizer e mais o prezei que ter na bôlsa duzentos mil cruzados. Preguntei-lhe se
  • 196 Das coisas de Angola se confessara alguma hora. Disse-me que sim; que agora folgaria muito de o fazer comigo, mas não pôde ser nem o tempo deu lugar, porque logo o capitão nos deitou fora. Era este herege mui grande mentiroso e a cada passo o colhíamos em fal- sidades e mentiras e não é de espantar, pois tinha perdida a fé, e assim tendo-nos prometido de nos acomodar bem quando nos largasse, em tudo nos faltou; antes de tal modo nos lançou fora que, conforme ao que os seus próprios disseram, foi sua tenção que nos afogássemos todos no mar; porque nos meteu a vinte e cinco pessoas, que por todos éramos, no batelinho do nosso navio, que por ser tão pequeno e irmos tão apertados não havia lugar para se poder remar, e nem um pedaço de vela nos quis dar de que nos pudéssemos ajudar; e como a gente era tanta e estávamos da costa perto de três léguas, ia-se o barco alagando connosco e duas vezes de dia e outras tantas de noite estivemos perdidos, se Deus por cujas mãos nos vinham todas estas provas e mercês suas e que é Senhor dos mares, ventos e de todas as creaturas, nos não tomara a seu cargo. Saindo pois da nau dos inimigos e ao tempo que me quis descer dela para o batel, arremetem uns comigo e me tornam a tirar o mantéu dos ombros, que o capitão me mandara dar; e, querendo o padre Duarte Vaz tornar a falar', ao capitão, endireitou um com êle com um terçado nas mãos, pegando nêle è • fi. 146v. dizendo: não vás, mas * dá cá o teu. E logo ali o começaram a despir e bus- cando todo lhe deram com um cilício que trazia, mas cuidando que era dinheiro porque estava duro ficaram mui alvoroçados; porém, depois que o descobriram e viram o que era, o deixaram dizendo que se fôsse, que não queriam nada dêle. Eu, arreceando que me fizessem outro tanto, me deitei logo mui de-pressa no batel e a causa principal foi porque tinha escondido comigo um crucifixo o qual todos os cinco dias que estivemos cativos trouxe sempre no peito debaixo do braço esquerdo e sabia muito bem as afrontas que de novo lhe haviam de fazer aqueles malvados hereges se mo achavam, como fizeram a uma Senhora da dou- trina, pela qual lhes pedi eu muito quisessem fazer comigo um partido que era darem aquela Senhora aos padres por lhes fazerem afrontas e a tratarem mal, e que eu ficaria cativo por ela. Preguntaram-me de que lhes podia eu servir se não de comer pão. Respondi-lhes que os serviria de cozinheiro. A isto disse- ram que era doidice querer um homem perder a vida por um pau. Tornei-lhes a fazer sobre isto muitos rogos, mas nada aproveitou com êles, e afirmo a vossa reverência que se êles nisto vieram, que deliberado estava a me deixar ficar cativo e não me vinha mal do partido, porque só com muita consolação que nisto sentia ficava o meu muito avantajado; mas nem também mereci ao Senhor esta mercê e por isso digo que me apressei a saltar no batel, por não me ver em apêrto de me acharem o crucifixo e fazerem-lhe outro tanto como fizeram à ima- gem de Sua Santíssima Mãe e a outro crucifixo que o piloto levava, o qual com muitos risos e afrontas lançaram no mar. E tornando aos perigos que acima apontei, que tivemos depois de estar no barco, foi um dêles que indo nós já desviados dos hereges três ou quatro léguas ao longo da costa, eis-que vem uma baleia maior que o batel em grande ma- neira, e endireita connosco chegando com a cabeça junto dos remos; com cuja vista todos ficaram esmorecidos porque não havia ali mais espaço entre nós e
  • Das coisas de Angola 197 a morte que a distância dos remos junto aos quais a baleia estava. Um daqueles homens caiu logo como esmorecido e sem fala e os outros todos enfiados. Eu ia assentado ajudando também a remar mas, vendo o perigo em que estávamos, me alevantei com o * crucifixo nas mãos bradando: Jesus, valei-nos; dizendo o . fi. 147- mesmo comigo todos os mais. Foi Ele servido de nos valer, porque a baleia no mesmo ponto se meteu por baixo do batel e esperando nós quando nos havia de revolver nunca mais a vimos, entendendo todos que aquele Senhor por quem bradámos, a quem tudo obedece e as bestas feras mais pontualmente que muitos dos homens, a fêz desaparecer no fundo do mar para que nos não empecesse. Não foi esta só mercê a que recebemos deste Senhor; antes, daí a poucas horas estivemos em outro perigo quási perdidos por duas ou três vezes. Este foi que a coisa que os homens mais arreceavam era levantar-se vento, porque, como o batel era tão pequeno e a gente tanta que sem vento se ia alagando connosco, tinham por certo que com qualquer vento que se alevantasse e fizesse ondas, não havia que fazer caso das vidas, pôsto-que eu neste tempo ia já com espe. rança tão certa na divina misericórdia que não havíamos de perigar nas ondas, que, a não ter esta, merecera um grande castigo del)eus, porque via muito bem que todos aqueles perigos em que nos víamos eram mêdos e carrancas com que o diabo raivoso contra nós nos queria assombrar, mas que não tinha poder nem licença de Deus para nos fazer mais. E assim procurava quanto podia animar a êstes pobres homens que não temessem, que Deus nos havia de livrar de tudo, como livrou das ondas, que com um rijo vento se levantaram e nos puseram no apêrto que acima disse, que foi dos maiores em que nos vimos. Indo mais adiante tornámos a ver outra baleia, que parece o demónio as trazia por ali naquela conjunção para com elas nos fazer guerra; vinha esta saltando e deitan- do-se tôda fora de água, caminhando direita para nós; e vindo já mui perto torná- mos a bradar pelo nosso piloto e verdadeiro salvador que eu levava nas mãos, o qual a fêz fundir-se nos abismos, que nunca mais apareceu. íamos neste tempo tão perto da terra que não seria mais que quási um tiro de pedra e mui- tos eram de parecer que fôssemos a terra, outros resistiram a isto, arreceando que os negros nos matassem, porque não sabiam se eram dos que estavam em paz connosco, e assentaram todos que antes nos fiássemos * das criaturas irra- «fi 147»• cionais e insensíveis, esperando na misericórdia de Deus que elas usariam con- nosco melhor do qde até então tinham feito os homens. Chega-se nisto a noite e nós não sabíamos se íamos para diante, se tornávamos para trás, por razão da grande corrente das águas que nos detinha. As ondas eram grandes e nos iam enchendo o barco de água, que não bastavam para deitar fora quatro homens que nisso se ocupavam, dos quais era um o padre Duarte Vaz, que foi mui bem baptizado das ondas que, entrando pela parte onde êle estava, por algumas vezes o cobriram todo, e assim andámos parte do dia e a noite tôda com a morte diante dos olhos, sem comermos mais o padre e eu, por estes dois dias e noite, que assim andámos, que quantidade de um dedo de pão com um trago de água, porque não havia mais; e ainda que o tivéramos, não havia ali fome nem lem- brança de comer. Amanheceu e nós sem dormir e sem nos bulirmos do lugar onde cada um ia assentado e todos molhados e com frio da noite estávamos como aleijados, sem nos podermos menear, mas alegres, pois o Senhor nos tinha
  • 198 Das coisas de Angola livrado de tão triste e escura noite, onde não sabíamos quando vinha a onda para podermos fugir dela, nem víamos as pedras em que nos pudéramos ir despe- daçar, se o mar com o fogo, que nelas fazia, nos não avisara para nos desviarmos. Ajuntava-se a isto e acrescentava mais a tristeza a confusão em que nos víamos, por não sabermos onde estávamos nem se íamos errados; até que, desfazendo-se mais as névoas, vimos a terra que os homens conheceram e que estávamos três ou quatro léguas da cidade de Loanda, para onde íamos. Com esta nova ale- gria cobrámos ânimo e esforço e, revezando-se todos aos remos, emfim chegámos a desembarcar uma légua da cidade, onde, saindo eu em terra e não me podendo ter em pé de fraqueza, acudiram logo uns poucos de pretos cristãos e me leva- ram nos braços um pedaço até acudirem outros de uma povoação que ali estava, aos quais, em chegando, dei a beijar o crucifixo que levava nas mãos, que eles postos de joelhos e com muita devoção adoravam, vindo também as mulheres correndo, com as crianças no colo. E ainda que fomos um pouco por terra «fi. 148. como era já meio-dia e não tínhamos comido coisa alguma, não * podíamos dar passada; pelo que nos tornámos ao batel, onde os outros iam ao longo da terra. Chegando perto da cidade e sabendo o governador de nossa vinda nos veio receber. Saímos em terra e eu com o crucifixo nas mãos, como sempre trouxe. Abraçou-me o governador, chorando, e eu a êle, dizendo-lhe que a Virgem Mãe daquele Senhor, que tinha nas mãos, ficava cativa em poder dos hereges; que Sua Senhoria devia de acudir para resgatar e livrar de seu poder, porque ainda se podia achar o ladrão. Tomou-me o crucifixo das mãos e com lágrimas o beijou, dizendo que êle o vingaria. Mandou logo ajuntar gente e fazê-los prestes para irem; e pôsto-que nisto se gastaram dois dias, emfim não foram, parte por- que não deu lugar a isso a cobiça, que então andava mui ocupada com uma nau da índia, que aí chegara, parte porque as pessoas e capitães que houveram de ir não eram pessoas de sorte que os magoassem muito as injúrias de Cristo e de sua Santíssima Mãe para que por elas arriscassem as vidas, nem também as quebras do bem comum, porque não pretendiam mais que o seu particular. E assim, pôsto-que o governador fêz quanto pôde, não pôde com êles acabar que fossem a tomar aquele ladrão; que sem dúvida, que se os nossos foram e quise- ram pelejar, êle pagara os males que tinha feito. Este foi o discurso de nossa viagem e navegação que durou cinco meses e os trabalhos e perigos que nela tivemos, os quais eu estimo tanto ter passado por amor de Cristo e da santa obediência que, ainda que a navegação fôra muito próspera e eu viera muito à minha vontade e com muito gôsto, nem o estimara tanto; e assim não acabo nem acabarei, emquanto viver, de agradecer a nosso Senhor a mercê que me fêz -com êstes trabalhos, pelos quais agora cuido que sou da Companhia de Jesus e tenho umas grandes esperanças que o Senhor se há de servir de nós nesta mis- são, para o qual vossa reverência nos deite sua bênção e me encomende a nosso Senhor, que me confirme nestas mercês com me dar um grande espírito seu e desejo de todo o empregar na salvação das almas. A 10 de Julho de 606^ Francisco de Góis.
  • 4 Das coisas de Guiné e Serra Leoa igg * CAPÍTULO VIII • fi. 148▼. Da missão de Guiné, e Serra Leoa e do fruto que nela se fè\ NA relação passada, tratando desta missão, que no ano de 604 se começou, dissemos como depois da morte de um dos três padres que a ela foram, o padre Manuel de Barros ficava na ilha de S. Tiago, e o padre Baltasar Barreira com um irmão se passara à terra firme da costa de Guiné. O padre Manuel de Barros continuou por alguns meses em sua estância, prègando e confessando e fazendo a doutrina naquela ilha com muito grande proveito e fruto das almas. E porque tinha sabido da grande necessidade de doutrina, em que estavam os moradores da ilha do Fogo, se resolveu a ir lá, para os ajudar; mas pouco depois de estar nela veio a adoecer, e querendo-lhe Deus pagar o prémio de seus trabalhos, e caridade com que o servia, se aprouve levá-lo para si, com bem de desamparo e falta de tôda a consolação e socorro humano, mas muito do divino. O padre Baltasar Barreira, depois de estar alguns meses em Biguba, povoa- ção e porto dos portugueses no rio grande, onde foi muito o fruto que fêz naquela terra, assim nos portugueses como nos naturais, se partiu só para a Serra Leoa, com intento de por aquela vez não fazer mais que descobrir a terra e saber a disposição que nela havia para se poder plantar nossa santa fé por aquelas bárbaras nações e tornar-se logo. Mas foram tais as minas e riquezas que descobriu de almas dispostas para todo o bem de sua salvação, que se sentiu obrigado a não tornar, senão avisar do que lá achava, e escrever a sua majestade e a seus superiores para que lhe mandassem socorro de seus com- panheiros, para prosseguir naquela grande e gloriosa messe de almas, que ali estava já de vez, e porta tão larga que se abria para o Evangelho. E porque não se poderá isto referir nem declarar melhor que por sua carta, a porei aqui tôda pe*las mesmas palavras do santo velho, pois são elas tais, e por tal estilo, «fi. >49. que não podemos nós desejar nem chegar a outro melhor; a qual diz assim: «Soube tão tarde dos navios, que êste ano vieram a estas partes, por entra- rem em outro reino e estão já tão a pique para se tornar, que assim por esta razão, como por me tomar isto apertado de ocupações, no negócio das almas, não poderei fazer carta de novo, em que dê conta a vossa reverência das coisas que o Senhor vai obrando nestas partes; e assim me contentarei com repetir nesta o que escrevi ao padre Manuel de Barros, em Outubro de 6o5. E se o tempo me der lugar acrescentarei o mais que de então para cá tem sucedido. De Biguba parti para esta Serra Leoa aos i3 de Julho, com intento de ver a disposição que achava nos reis destas partes para receberem nossa santa fé, e se a terra era tão sadia e de tão frescos ares, como me diziam, para poder conforme disso escrever meu parecer acêrca de nossa ficada nestas partes. Movi-me a vir neste tempo, porque se fazia prestes uma lancha para esta terra, parecendo-me, como me diziam, que poderia tornar antes do advento e quaresma para gastar êste tempo, ou parte dêle, em Cacheu, que é a povoação de mais portugueses, e mais grosso trato, que há nesta Guiné, e onde há mais desor-
  • 200 Das coisas de Guiné e Serra Leoa dens e maiores necessidades espirituais; mas como o tempo era de águas e ventos contrários, e a lancha de uma só coberta, que dava pelos peitos a quem entrava dentro, passámos grandes trabalhos e perigos. Muitos dias houve com suas noites, em que não podíamos andar uma légua inteira, e outros em que se não fazia de comer por não darem lugar para isso as contínuas chuvas e tormen- tas, e assim pusemos na jornada dois meses e meio, não gastando outros ordiná- riamente mais que cinco ou seis dias. Mas parte deste tempo estivemos ancorados em alguns portos, como logo direi. A principal causa desta detenção foi faltar-nos o mantimento, e acharmos em umas ilhas, a quem chamam os ídolos, um por- tuguês que nos disse havia na terra ou barra dela navios de piratas, que poucos dias antes tinham passado por ali. Assim uma coisa como a outra obrigava o nosso piloto a se recolher no posto de um reino de amigos, por nome Pogomo, • fi.X49v. aonde achou um homem destas partes, grego de nação, * que estava carregando de sal, o qual aquela gente faz com artifício a poder de fogo, e vale muito nestas partes. Este nos deu as mesmas novas dos piratas, por haver pouco tempo que tinha vindo dos mesmos ídolos; aonde, por temor de alguns que passaram por ali, encalhou a lancha em um lugar que foi mercê de Deus não se lhes fazer em pedaços. A êste pôrto chegámos dia do Apóstolo S. Tiago. Veio logo a nós o rei desta terra, que mais propriamente se pode chamar régulo, por ser senhor de poucos vassalos e sujeito a outro rei grande, por nome Fatema. Recebeu-nos com amor e alegria, e fêz logo aparelhar umas casas, para me agasalhar em- quanto ali estivesse. Disse que era necessário fazer no pôrto uma igreja para poder dizer missa os dias que ali estivesse. Aceitou isto com mostras de con- tentamento e com o mesmo assistiu à obra até se acabar. O qual nestas partes não é dificultoso, por haver nelas muita madeira, e se cobrir tudo de palha, ou fôlha de palmeira. A primeira noite, que dormi em terra, ouviu-nos dizer a ladainha de nossa Senhora e a doutrina, como fazíamos pelo mar, e queixou-se o dia seguinte, porque o não chamámos para se achar presente a estas coisas santas, que assim lhe chamava; pelo que foi necessário avisá-lo daí por diante cada dia, e estava todo o tempo de joelhos como os cristãos. E quando na confissão, que dizíamos no cabo, batíamos nos peitos, fazia êle o mesmo. Da mesma maneira acudiu sempre às missas, que ali disse, ficando sempre fora da igreja e fazendo tudo o que via fazer aos cristãos que estavam dentro dela. Fui-lhe dando alguma notícia de nossa santa fé, e êle se ia afeiçoando cada vez mais a ela mostrando os desejos que tinha de ser cristão, mas que se não atre- via, até que Fatema o fôsse. Aqui confessei e sacramentei alguns portugueses dos que andam nestas par- tes, como ovelhas sem pastor, feitos montezinhos na vida, mais gentios que cristãos, passando muitos anos sem sacramentos e sem missa e sem ouvir a palavra de Deus, e por ventura sem se lembrar dêle. Aos seis de Agosto, obrigados da falta que havia de mantimento, porque tôda a gente andava em suas lavoiras, e se se achava algum arroz, que é o que • fi. i5o. nesta terra se semeia, as chuvas con*tínuas não davam lugar para se pilar. Despedidos do rei nos partimos para a barra e pôsto-que os dois dias seguintes procurámos sair de uma grande baía que nela há, por mais voltas que demosr por ser o vento contrário, nunca pudemos vencer uma ponta que sai muito aa
  • Das coisas de Guiné e da Serra Leoa 201 mar, e assim, forçados da fome, nos tornámos para o pôrto donde tínhamos saído, e nêle nos detivemos mais cinco dias, no qual tempo se foi a diversas partes buscar mantimento, e com algum que se achou, ainda que pouco, torná- mos a partir para â mesma baía. Feitos à vela ao dia seguinte achámos tão grandes mares e ventos tão contrários, que quási se perderam as esperanças de poder vencer desta segunda vez a ponta que disse. Andámos todavia bor- deando dois dias até que a noite seguinte, fazendo-nos à vela e tornando a por- fiar para ir por diante, nos saltou o leme fora e caiu no mar, e por ser de pau pesado se foi ao fundo. Imaginei muitas vezes que tudo isto fôra procurado pelo demónio, para se vingar de mim, por ter tirado secretamente da casa em que o rei me agasa- lhou e êle soía dormir, certas coisas, em que êle se faz adorar, as quais deitei no mar; mas é Deus tão bom que, tendo já todos perdidas as esperanças de remédio, e tratando de arribar com as escotas nas mãos, fazendo-nos à vela o dia seguinte sem leme, vencemos a ponta, que com êle nunca pudemos vencer, e passando ao longo da ilha Tâmara, entrámos pela barra de outro reino por nome Buré, cujo rei é também sujeito a Fatema, e por se criar com portu- gueses, entende e fala arrazoadamente a nossa língua. Recebeu-nos com ale- gria e bons oferecimentos. Declarei-lhe o que vinha buscar a estas partes e pedi lhe me mandasse fazer logo igreja para dizer missa emquanto se fazia outro leme para a lancha, que foi a causa principal porque tomámos êste pôrto. Pôs logo isto por obra com muita diligência e achou-se sempre às missas ficando fora da igreja, e não se fartava de engrandecer as coisas de nossa santa fé. Encomendei-lhe que nomeasse muitas vezes o nome de Jesus, e porque um por- tuguês do nosso navio lhe ensinou que dissesse: «Jesus, nome de Jesus, arrenego do diabo», repetia muitas vezes estas palavras e gastava grande parte das noites com os portugueses e moços do navio em * aprender a doutrina cristã, mos- .fi.iSov. trando grandes desejos de ser cristão. Mas eu lhe disse que como me visse com Fatema, tornaria ao seu reino e o ensinaria de vagar e o baptizaria, o que fêz por entender que convinha começar pela cabeça. Detivemo-nos aqui até dezassete de Setembro, no qual tempo veio ao pôrto em que estávamos o grego, de que atrás fiz menção, com sua lancha, e depois dêle, sem saber que estávamos ali, vieram alguns portugueses em uma varina, embarcação ligeira de vela e remos, e porque haviam de passar procurei que primeiro se confessassem e comungassem. O primeiro fizeram, mas para o segundo não tiveram tempo, pelo levarem limitado. Mas assentámos que depois de minha chegada a êste reino da Serra Leoa e de sua tornada o fariam. Quero dizer neste lugar o que muitas vezes se ofereceu, que ainda que não viera a estas partes senão para confessar os cristãos que nela andam, tivera minha vinda e os trabalhos da viagem por mui bem empregados, porque as confissões eram de dez e vinte anos, e não poucas de mais de trinta, e de tôda a vida itt médio nationis pravce, aonde se não enxerga diferença entre os costu- mes dos cristãos e dos gentios. Acabado o leme e assentado em lugar do outro, nos partimos aos dezas- sete de Setembro, não sem receio de achar ladrões na barra da Serra Leoa, 2 f>
  • 202 Das coisas de Guiné e da Serra Leoa por terem mandado aviso certos negros que detrás de uma ponta, que há na baía, que ela faz, tinham ancorado poucos dias antes algumas naus e assim assentaram ambos os pilotos de entrar não ao longo da Serra, e aonde está o porto em que ancoram e fazem aguada ladrões, senão por estoutra banda, que é cheia de coroas de areia, e não podem passar por elas senão os que sabem os canais e tempos em que se passam e em navios pequenos. E a conta que fizeram foi que, se alguma lancha de piratas os acometesse, ou passariam as coroas emquanto êles rodeassem os baixos para os ir buscar, ou encalhariam em terra por ser de amigos. Mas foi o Senhor servido livrar-nos dêste trabalho, porque chegando à baia da Serra, véspera do Apóstolo S. Mateus já de noite, o dia seguinte nos fomos chegando aos baixos tão de vagar que, se houvera • fi. i5i. algum ladrão na barra, pudera fàcilmente sair-nos ao encon*tro. Passámo-los finalmente com o favor de Deus aos vinte e três de Setembro e chegámos ao porto em que soía morar um português por nome Bartolomeu André, o principal destas partes, de quem eu pretendia informar-me das coisas da terra e modo como me havia de haver com os reis dela. Disseram-nos que se tinha mudado dali para outro reino de Fatema, que está de outra banda do rio. Resolvi-me em ir lá; mas por deixar benévolo o rei da Serra Leoa, o qual nos disseram que estava em uma aldeia, em cujo pôrto tinha sua casa o grego, que vinha em nossa companhia, lhe mandámos recado por terra, que íamos lá para o visitar. Fêz-nos grande agasalhado, e a mim tratou sempre com muita reverência. Declarei-lhe o fim da minha vinda a estas partes; estimou muito ser êle o primeiro, em cujas terras pusesse eu os pés. Depois de ouvir algumas coisas de Deus mostrou se, em minha ausência, aos portugueses desejoso de que ficasse no seu reino, para instruir nas coisas de nossa santa fé e o fazer cristão. Eu lhe disse, sabendo isto, que, como me visse com o português que disse, tornaria ao seu reino; e se perseverasse nos desejos, que então mostrava, confiava em Deus que lhos cum- priria. E para o animar mais lhe disse que entretanto fizesse igreja em um sítio, que logo lhe sinalei. Deu logo ordem para se cortar madeira para ela, mandou recado a seus irmãos e parentes que moravam mais perto, para que me viessem visitar e achar-se presentes a esta obra e para lhes declarar o con- tentamento, que tinha de me ver na sua terra, e intenção de se fazer cristão. Acudiram logo todos a êste recado, mas sem embargo disso eu insisti em ir primeiro à outra banda e com êste intento me despedi do rei e me fui em- barcar. Mostrou-se em minha ausência sentidíssimo aos portugueses de o deixar. Foi-me dizer o pilôto ao navio o que passava, mas nem por isso mudei o pro- pósito, até que levando já a âncora para nos partirmos, comecei a ter escrúpulo da ocasião que Deus me oferecia da conversão dêste rei e de seu reino, e assim o declarei ao pilôto, que não cabia de prazer vendo-me já inclinado a ficar ali. Saímos logo em terra, e êle foi diante dar as novas de minha ficada. Recebe- • fi. i5i ». ram-me todos, especialmente o rei, com gran*de aplauso e mostras de extraor- dinária alegria. Logo o rei mandou lançar pregão, que tôda a gente da aldeia fôsse o dia seguinte cortar madeira para a igreja. E êle, emquanto se fêz, assis- tiu sempre à obra, sem ser parte para o fazer recolher as grandes chuvas que neste tempo houve. Disse nela a primeira missa dia do arcanjo S. Miguel, achando-se presente de banda de fora El-Rei e seus irmãos com outra muita
  • Das coisas de Guiné e da Serra Leoa 203 gente. Fiz antes dela um baptismo de nove pessoas, filhos e escravos dos por- tugueses, que já sabiam a doutrina ou eram de pouca idade; seguia-se logo uma prègação que fiz aos portugueses que ali moravam, e a outros que concorreram de outras partes, a qual ordem guardei ordinàriamente os domingos e dias san- tos, pela muita necessidade que teem os cristãos destas partes da palavra de Deus e luz das coisas que são obrigados a crer e fazer para se salvar; ao qual ajunto às tardes alguma lição espiritual, assim do sacramento da penitência, como dos novíssimos e outras matérias semelhantes. Entre a gente da terra, que se acha a estas pregações e lição, há alguns que entendem arrazoada- mente nossa língua, e nestes entra o rei por haver muito tempo que trata com os portugueses, e assim vão depois referir a outros o que ouvem. Feito o asperges e dita a missa, não se pode fàcilmente declarar o aplauso e alegria com que o rei e todos os seus com os portugueses festejaram a mercê, que Deus lhes fêz, de me trazer a esta terra, para verem e ouvirem coisas tão santas e conhecerem o engano e cegueira em que até agora viveram. Ao rei cresceram tanto os desejos de ser cristão, que com extraordinário fervor me importunava que o baptizasse logo. Eu lhe declarei as preparações que para isto se reque- riam, e assim o fui catequizando dali por diante com outros, que o acompa- nhavam, e íiltimamente pof ser a coisa mais dificultosa, que nestas partes há para receberem nossa santa fé, lhe declarei que era necessário escolher uma mulher, para casar com ela, e largar as outras. Não pôs dúvida a o fazer. Mas queixou-se porque lho não disseram no principio, porque já a tivera ali; decla- rando que não havia de casar com nenhuma mulher das que antes tinha, senão com uma filha de outro rei, seu vizinho, que logo mandou buscar. Ao que lhe não fui à mão, por não serem legítimos conforme a lei * da natureza os casa- • Fila- mentos destes gentios. Neste estado estavam as coisas deste rei e da conver- sação antes do baptismo do rei desta terra, o qual se foi dilatando muitos dias, pelo vagar com que esta gente procede em suas coisas, e detença que fizeram os que foram buscar a mulher, com que havia de casar. Porque eu primeiro queria que viesse ela, para a catequizar, e depois os baptizar juntos e casar logo, e entretanto o ia preparando, e êle crescendo no conhecimento de Deus e das coisas da nossa santa fé. Trouxeram finalmente a filha do rei, que tinha mandado buscar, a qual acompanharam um tio seu e uma irmã mais velha com outra gente. Concor- reram logo os irmãos do rei e muitos portugueses em um dia solene, cuidando que os havia de baptizar e casar logo. Mas eu declarei-lhes que primeiro havia de catequizar e preparar a moça para o baptismo; e o que se seguiu foi que, fazendo-a vir onde eu estava, quando chegámos a lhe declarar a profissão dos cristãos e leis do matrimónio, assim ela como os parentes que a acompa- nhavam se acharam novos e como enganados, dizendo que lhe não tinham declarado aquilo quando estavam na sua terra, nem sua mãe cuidava que a mandava casar com aquelas obrigações, senão da maneira que entre êles se usa, e que até dar conta disto a sua mãe e saber sua vontade, não se havia de baptizar nem casar. Pôs isto em grande confusão a todos, e tiveram por invenção do diabo, para impedir o que Deus ia obrando neste reino. Ajuntou-se o rei com seus
  • 204 Das coisas de Guiné e da Serra Leoa irmãos e alguns portugueses dos mais práticos na sua língua, e depois de uma larga consulta me mandou pedir mui encarecidamente que o baptizasse sem esperar pelo casamento, dando para isso muitas razões e prometendo de viver em continência até casar na lei da graça. No princípio não me deixei dobrar, mas concorrendo os portugueses representaram-me tantos inconvenientes que se podiam seguir, se não cumprisse os desejos que o rei tinha de que logo o bapti- zasse, que julguei ser assim vontade de Deus. A isto se ajuntou vir o rei com seus irmãos e outra muita gente aonde eu estava com os portugueses, e fazer-me um irmão seu publicamente uma fala sobre o baptismo e casamento do rei • fi. i52 *. com * tanta eloqtiência e força de razões, que logo ali declarei que era contente de fazer o que me pediam, ajuntando as coisas que o rei havia de guardar e modo como havia de proceder depois do baptismo, e dando-me seus irmãos palavra que todos haviam de ser cristãos. Causou isto em todos uma extraor- dinária alegria, especialmente no rei, o qual levaram logo a sua casa para o vestir á portuguesa e preparados outros que se haviam de baptizar com êle, em que entrava uma sua filha de nove ou dez anos e uma irmã que se criou com os portugueses e sabia a doutrina cristã. Estando a igreja bem concertada, veio a ela acompanhado de todos os portugueses e de seus irmãos e outra muita gente da terra. Baptizei-o com toda a solenidade e festa possível, pus-lhe nome Kilipe, e assim lhe chamam agora os portugueses D. Filipe de Leão, por ser senhor da Serra Leoa. Importa fazê-lo vossa reverência encomendar muito a nosso Senhor, porque da conversão e constância e bom exemplo dêste rei de- pende a conversão de muitos reinos, especialmente dos que estão mais chegados a esta Serra Leoa. Aguardámos tanto tempo pela resposta do recado que se levou à mãe da mulher que houvera de ser dêste rei, e ela mostrava tão pouca vontade de casar com as obrigações que lhe declararam, que o rei se resolveu em mandar buscar outra que em nobreza era igual a ela. Trouxeram-na, pre- parei-a, baptizei-a e casei-os com grande aplauso de toda a terra, alegria dos portugueses, consolação minha, por ver êste negócio tão bem principiado e vencidas as dificuldades, que o demónio pôs a esta obra, que foram maiores do que com palavras posso declarar. Tenho baptizado, além da outra gente, quatro filhos dêste rei, um de cinco ou seis anos, uma fêmea de nove ou dez, e dois de catorze e quinze. Estes dois andam sempre comigo e me acompanham onde- -quer-que vou. Um dêles principalmente, que é o morgado, sabe tão bem a doutrina cristã que me ajudo muito dêle para a ensinar a outros. Também se baptizaram dois irmãos do mesmo rei e andam para fazer o mesmo outros dois e uma tia sua, a quem pertencia o reino se fôra varão, e com tudo isso é tão res- peitada e obedecida que nenhuma coisa se faz de importância no reino sem ela; •fi. 153. em * tanto que nunca o rei se atreveu a casar, sem ela aprovar o casamento, e se achar presente. Depois que ouviu as coisas de Deus e se achou presente às missas, que eu disse, e a um baptismo, de tal maneira se afeiçoou à nossa santa fé, que logo declarou que queria ser cristã com seu marido, que também me fêz grande instância por isso, e eu porque sabia que ela assistia ao pranto, que se fazia pela morte de seu irmão, pai de D. Filipe, como pessoa principal, e que havia de continuar isto até se acabar um ano, lhes disse que se êles se viessem para a povoação, em cujo porto nós tínhamos a casa, e ouvis-
  • Das coisas de Guiné e da Serra Leoa 205 sem devagar as coisas de Deus, eu os baptizaria, como estivessem bem ins- truídos. Respondeu-me que não podia deixar de se achar presente ao pranto de seu irmão, para receber a gente que de diversas partes o vinha chorar. Mas que passado isto faria o que eu dizia. Esta mulher, quando os dêste reino vão à guerra, vai sempre na retaguarda, com seu arco e coldre, e um bastão na mão, e se algum torna atrás, a poder de pancadas o faz ir por diante. Pois fiz menção da morte do rei que era desta terra, irmão desta mulher, não quero passar sem dizer como querendo os outros seus filhos e gente do reino matar algumas de suas mulheres, a que chamam chinas, e alguns criados, para os enterrar com êle, como se costuma em todos os reinos desta Guiné, D. Filipe lhes disse que êle era já cristão e que, segundo eu lhe tinha dito, aquilo era contra a lei de Deus, e assim que o não havia de consentir. O qual bastou para deixarem de fazer este sacrifício ao demónio. Seria êste rei, pai de D. Filipe, de cento e trinta anos; não o baptizei, porque com peçonha que lhe deram, segundo se cuida, por ser muito rigoroso veio a perder o juízo de todo, e desta maneira perseverou até à morte. Destas finezas e outras seme- lhantes tem D. Filipe feito muitas de grande exemplo, com muita glória de Deus. Porque não pareça que êste rei se resolveu mui de-pressa em ser cristão, e que não teve fundamento além do divino o fervor com que pediu o santo baptismo, direi neste * lugar como tomou Deus por instrumento para isso a *fi. isj*. principal mulher que tinha, a qual era cristã e se tinha criado com portugueses. Esta, tanto que me viu neste reino e entendeu o mau estado em que estava, determinou logo de se apartar dêle e, porque o rei lhe dava muito crédito, come- cou a fazer com êle ofício de prègador, dizendo-lhe tantas coisas de nossa santa fé e da mercê que Deus lhe fazia, se eu ficasse no seu reino para o ensinar e baptizar que o moveu, ou Deus por ela, a me fazer a força que tenho declarado no princípio desta. Quando disse a primeira missa neste pôrto, acertou de vir ali o filho mor- gado e sucessor de um rei por nome Tora, que tem o seu reino da outra banda de um braço de mar, que se mete entre êste reino e aquele, e o título com que veio foi visitar o capitão do nosso navio, por ser seu amigo; mas porque estava quebrado com êste rei, por certas guerras que houve entre êles, atreveu-se a vir, estando eu ali, por entender que por meu respeito lhe não faria mal algum. Quando o rei o viu, ainda que ficou perturbado, todavia dizendo-lhe eu que, pois queria ser cristão, era necessário esquecer-se de todos os agravos passados e querer bem a todos, logo se aquietou e lhe fêz gasalhado e o tra- tou como quem era. Êste se achou presente à missa, baptismo e pregação que fiz; o qual, por entender arrazoadamente nossa língua, a foi depois referir a alguns portugueses, que a não tinham ouvido. E tornando-se para o reino de seu pai, assim lhe engrandeceu o que tinha visto e ouvido, que o velho, segundo depois me disse, não se podia persuadir que fôsse tanto como dizia. Mas indo depois lá alguns portugueses dos que moram na sua terra e se tinham achado presentes à missa e ao mais e referindo-lhe o mesmo, não se fartava de alevan- tar as mãos ao céu e louvar a Deus. E porque lhe disseram que eu não tomava nada, preguntou uma e muitas vezes se era assim; e tornando-lho a afirmar, dizia: êste padre sim, e não outros que cá vieram, os quais assim tratavam em
  • 20Õ Das coisas de Guine e da Serra Leoa escravos e nas mais coisas como os outros portugueses. E não errava nisto, • F1.154. porque os sacerdotes, que vieram * a estas partes, nunca fizeram nelas ofício de sacerdotes, nem disseram missa, nem se ocupavam em outra coisa senão em comprar e vender. Este rei é dos cumbos, ou manes, que conquistaram estes reinos, e será de cem anos, mas tão bem disposto, como se fora de quarenta ou cincoenta. E havido de todos pelo mais prudente e de melhor conselho destas partes, e assim não se faz coisa de momento em que os reis seus vizinhos o não con- sultem. É grande amigo dos portugueses, e de muitos anos a esta parte sem- pre os teve na sua terra. Todos os que vinham de lá me davam grandes esperanças que havia de receber nossa santa fé. Mandou-me visitar e dar os parabéns de minha vinda, pedindo-me que o mais cedo que fôsse possível o quisesse consolar com minha visita, e eu lhe mandei boas esperanças disso. E esta visita foi já depois de ser baptizado El-Rei D. Filipe, ao qual pelos mesmos embaixadores mandou dizer que lhe parecia muito bem ter-se feito cristão, mas que lhe pedia que se não casasse com uma só mulher. A isto respondeu D. Filipe que, se não estava já casado, era porque não acabava de chegar a mulher que tinha mandado buscar, mas que fizesse conta que já era casado, porque como viesse a mulher logo se havia de receber com ela da maneira que fazem os cristãos. Vindo eu depois a um porto em que tem sua casa Bartolomeu André, do qual se vai fàcilmente ao reino de Tora, (porque tôda esta terra está cortada de braços de mar, esteiros e rios e, por esta causa, é fácil o comércio e trato entre os reinos que nela há) para celebrar nela a festa do Natal, por estar mais acomodado para isso que as outras partes, aonde tínhamos igrejas, man- dei dizer a Tora, e o mesmo lhe disseram os portugueses, que com êle estavam, que esta festa era mui grande entre os cristãos, pedindo-lhe quisesse vir a ela, para ver as coisas de Deus, como desejavam, pois no seu reino não havia igreja, em que as pudesse ver. Alegrou-se muito com êste recado e mandou-me dizer que assim o faria, como fêz na mesma noite do Natal, acompanhado de • Fi. 1J4r. seus filhos * e outra muita gente, com grandes tangeres ao seu modo. Tínha- mos a igreja mui bem ornada para estas partes, o altar com os melhores orna- mentos, que trouxe desse reino, e um dossel de damasco verde, que Bartolomeu André me mandou fazer, o altar com o retábulo de nossa Senhora do Pópulo, com seus pendentes e rosas de tafetá, e de uma parte um Menino Jesus grande, sobre um pedestal doirado, e de outra um crucifixo de vulto, quatro castiçais e dois brandões, as paredes e terreiro enramados. Acendeu-se tôda a cerca, quando êle houve de entrar, pusemo-nos todos de joelhos, fêz êle o mesmo, e assim esteve um grande pedaço tão pasmado que, sem falar palavra, só com as mãos e outros meneios, declarava o espanto que aquilo lhe causava. Depois que se assentou em uma cadeira, que lhe deram, esteve sempre com os olhos nas imagens e altar, tão cheio de alegria, que a todos nos consolava. Chegada a meia-noite disse a primeira missa e depois as outras a seus tempos, as quais êle ouviu de fora da igreja, mas acompanhado de Bartolomeu André, que pri- meiro lhe declarou a causa, porque se não agravasse. Disse e repetiu muitas vezes que tudo o que tinha ouvido e concebido das coisas de Deus e de nossa
  • Das coisas de Guiné e da Serra Leoa 207 santa fé era sombra em comparação do que via. Fiz depois disto um baptismo, a que também se achou presente e por meio destas coisas o moveu Deus a desejar o santo baptismo, a qual vontade declarou logo escolhendo a Bartolomeu André por seu padrinho. Instruí-o conforme a brevidade do tempo, e assentá- mos que iríamos a uma certa ilha do seu reino, em que moram alguns portu- gueses, e em que ele se recolhe em tempo de guerra, por ser muito forte, e que ali escolheríamos sítio e lugar para êle mandar fazer igreja. Fizemo-lo assim daí a alguns dias e, sinalado o sitio, fêz Tora a igreja com grande fervor, ajun- tando-lhe duas casas em que eu me pudesse agasalhar. O modo como esta gente faz estas igrejas e casas, é que vão metendo paus no chão, tão juntos que tocam uns nos outros, e depois de bem atados em um pau, que atravessa por cima, os barram de uma parte e outra, de maneira que se não enxergam, e fica feita parede muito direita; dão-lhe depois com um barro tão alvo que parecem caiadas. O telhado é de palha ou de folha * de certas palmeiras. »fi. iss. Quando me quis embarcar para nos tornarmos e eu me vir para êste reino da Serra Leoa, deu-me Tora um filho seu de doze ou treze anos, para o ensi- nar e fazer cristão e trazer em minha companhia. E para louvar a Deus ver como estes meninos se afeiçoam a nossas coisas e o fervor com que aprendem a doutrina cristã e a sujeição que me teem. Tornando eu depois ao reino do mesmo Tora, me deu outro filho mais velho que o primeiro um ano ou dois, e assim trago agora comigo dois filhos seus e outros dois de D. Filipe, rei da Serra Leoa, e estou esperando cada dia por outro de idade destes outros, filho de um grande senhor, cujo é o reino de Fatema, de que no princípio fiz menção; mas por ser ainda mancebo, quis que governasse um seu tio mais velho, com título de rei; porque estes, como entram moços no reino, temem que os matem com peçonha. Além da doutrina que aprendem estes meninos, os vou também ensinando a ler, ao qual se aplicam com grande cuidado e também a todo o serviço, andando às invejas de quem o há de fazer melhor, porque estimam isto muito e o entender e falar a nossa língua. Confio em o Senhor que se há de servir muito ao diante destes, que agora se criam desta maneira; e já agora o faz, porque com seu exemplo e coisas que dizem a outros de nossa santa fé, se movem a pedir o santo baptismo. Como Tora se resolveu em ser cristão, logo lhe declarei que havia de escolher uma mulher, para casar com ela na lei da graça, porque juntamente os havia de baptizar e casar ambos. Fê-lo assim, sem embargo de ter aconselhado a D. Filipe o contrário, como já disse. Escolheu uma irmã do mesmo D. Filipe, mulher de muita prudência e govêrno e mui afeiçoada às coisas de Deus, a qual tem há muitos anos por sua principal mulher, e viveram sempre em muita paz e concórdia. Não se detém agora o baptismo e casamento mais que por ser tempo de quaresma, era que se não pôde fazer a festa e conceito que Tora deseja, e assim o dilatámos para depois da Páscoa. Desejo que vossa reverência o mande encomendar a Deus, por ser de muita importância a conversão dêste rei. O rei de Bena, que dista daqui oito ou nove dias de caminho por mar e por terra, e é senhor de sete reinos e muito poderoso * nestas partes, me tem »Fi. i55*.
  • 2o8 Das coisas de Guiné e da Serra Leoa % escrito e mandado pedir mui encarecidamente que o vá baptizar, porque nenhuma coisa deseja tanto nesta vida. Do qual foi princípio a criação que teve com portugueses, antes de ser rei, e a companhia de alguns, depois de o ser, que lhe ensinaram a doutrina cristã e deram alguma notícia da nossa santa fé. Estava para ir lá a passada Páscoa, e Bartolomeu André fazia prestes uma fragata para me levar e acompanhar nesta empresa; mas por não desamparar estes dois reis e cortar o fio ao que nosso Senhor vai obrando nestas partes, não o^ poderei fazer, até que vossa reverência me proveja de quem possa ficar com eles em meu lugar. A messe é muita; a disposição para receber nossa santa fé, a que vossa reverência vê; resta pedir a nosso Senhor e a vossa reve- rência ut mittat operários. E a terra, saiba vossa reverência que é a mais sadia e de melhores ares, que até agora vi, assim em Europa, como nas outras partes por onde andei, computado todo o tempo do ano. As qualidades dela escreve a sua Majestade Bartolomeu André, pela muita experiência que dela tem, como vossa reverência verá na sua, da qual com esta mando uma cópia. E se cá houvermos de perseverar, no qual cuido que a Companhia fará mui grande serviço a Deus, em nenhuma parte podemos fazer nosso assento principal melhor que nesta Serra Leoa. E se sua Majestade quiser pôr os olhos nestes reinos, não há dúvida que em muito pouco tempo virá a ser uma coisa tão grande, que concorram a êles muitos portugueses, como ao Brasil e índia. A 23 de Fevereiro de 606. Baltasar Barreira. Cai ta de D. F ilipe rei da Serra Leoa para sua Majestade Eu D. Filipe de Leão, rei da Serra Leoa, dou muitas graças a Deus todo poderoso, criador do céu e da terra e de tôdas as coisas, pelo benefício tão grande que me fêz em livrar minha alma das trevas em que estava e me alumiar, para que o conhecesse e recebesse sua santa fé. E também as dou a vossa Majestade por me mandar quem me declarasse a falsidade dos ídolos, em que cria, e a verdade da lei cristã, e me baptizasse e casasse, e de filho do diabo, me fizesse filho de Deus, e o mesmo a meus irmãos, filhos e vassalos. Eu estimo tanto o padre que, quando vai a outros reinos a ensinar e con- F1..56. verter outros reis, assim fica triste * o meu coração sem êle, como o caminhante, quando o sol se lhe esconde e o deixa às escuras no meio do mato. O padre é só c não pode acudir a tantas partes. Peço a vossa Majestade me faça mercê mandar outros de sua ordem, que o ajudem a levar o fogo do céu, que neste meu acendeu, por outros reinos, para que o verdadeiro Deus seja conhecido e adorado de todos. Este meu reino é mui grande, a terra mui sadia e fértil. Desejo que venham a ela muitos vassalos de vossa Majestade c que a cultivem e se sirvam dela e das coisas que nela há, e que para viverem seguros façam fortaleza na barra da Serra, aonde os ladrões, inimigos de Deus e de vossa Majestade, veem surgir e fazer aguada e donde saem a roubar os vassalos de .vossa Majestade e os navios de seu trato. A todos os vassalos de vossa Ma- jestade, que vierem a meu reino, farei o agasalhado que devo às coisas de vossa
  • I Das coisas de Guiné e da Serra Leoa 209 Majestade, a quem peço leve por diante esta obra que começou. Deus nosso Senhor dê tantos anos de vida a vossa Majestade quantas são as areias do mar e as estrelas do céu, para que todos vivamos debaixo de sua sombra e amparo dêste meu reino. Da Serra Leoa, ib de Fevereiro de 606. D. Filipe de Leão. CAPÍTULO IX Cópia duma carta que Bartolomeu André escreveu a sua Majestade sôbre as coisas da Serra Leoa e dos reinos vizinhos a ela, aos vinte de Fevereiro de seiscentos e seis anos NÃO avisei até agora vossa Majestade do que nesta faço, porque todos os que vínhamos a estas partes, não pretendíamos fazer assento nelas; mas agora que Deus foi servido trazer a elas padres da Companhia de Jesus e converter por seu meio alguns reis, um dos quais é o desta Serra Leoa, com alguns irmãos, filhos e vassalos seus, e vendo quão bem principiado está isto, e as esperanças, que há, de se estender nossa santa fé por outros muitos reinos, e as comodidades que * há nesta terra para ser povoada de vassalos de .fi.i56y. vossa Majestade, já a olhamos com outros olhos. O qual me moveu a declarar a vossa Majestade o que dela entendo, e é que, se vossa Majestade fizer caso desta conquista, será fácil vir a montar tanto para * real fazenda de vossa Ma- jestade, que nem a do Brasil, nem outras conquistas de muito nome, lhe façam nisto vantajem. Ao menos esta levará a todas as mais, que se pode vir a ela dêsse reino em vinte dias e menos; seguir-se há também que não com muito apercebimento se poderá segurar não sòmente esta costa, mas também a da Malagueta, que confina com ela, e a da Mina, e impedir as grandes carrega- ções que os estrangeiros e outros piratas fazem desta costa de oiro, âmbar, mar- fim, cera, malagueta, coirama e outras coisas, e as contínuas perdas, que dão aos vassalos de vossa Majestade, tomando-lhes a cada passo os navios carrega- dos de escravos e de outras mercadorias, e impedindo o seu trato, com que se diminuem os rendimentos para a real fazenda de vossa Majestade. Para isto apontarei algumas coisas. E direi primeiramente, pelo que tenho experimentado, que nesta terra há muito oiro e mui fino, porque em todas as partes onde negoceiam os vassalos de vossa Majestade, o compram aos negros da terra em manilhas e arriéis, e muito mais se comprara se os reis e senhores não o ajuntaram para se enterrarem com êle, o qual teem por grandeza; e disto se perde muito, por ser a morte de alguns tão arrebatada que não declaram aonde o teem escondido, como aconteceu haverá obra de dois anos ao rei dos BoulÕes, vizinho a esta Serra, do qual se sabia que tinha enterrado uma grande quantidade de oiro para êste efeito; e, por ser arrebatada sua morte e não dizer donde o tinha, se perdeu. Mas todo êste oiro é pouco para o que levam todos os anos os estrangeiros, da costa que corre daqui para a Mina; porque não falando das mais nações, a mim me confessou um flamengo fidedigno, que só nas naus do contrato de Holanda levam um ano por outro dois mil arráteis de oiro, afora o que particulares levam escondido. A isto dizia o mesmo, que 27
  • 2 IO Das coisas de Guiné e da Serra Leoa mandavam os contratadores daquela província quatro naus grandes e mui bem • fi. 157. artilhadas, cada uma com duas e mais lanchas. E dizendo-lhe eu que * nos tempos passados não se tirava tanto oiro daquelas partes, respondeu que agora, como os negros da costa sabem que estas naus hão de vir resgatar oiro, teem mais cuidado de o fundir e buscar para o vender aos holandeses, quando vierem; e assim, quando sabem que há naus na costa, logo veem a elas em almadias e lhes vendem o oiro que levam. Para mais comodidade deste trato quiseram os holandeses fazer os anos passados fortaleza e feitoria na barra e entrada desta Serra Leoa; mas, porque eu disse ao rei dela, que ora como cristão se chama D. Filipe, que, se o con- sentia, me havia de ir do seu reino, com algumas razões que lhe ajuntei, logo os lançou dali, e se tornaram para outra fortaleza, que tinham mais adiante no cabo do monte com gente de guarnição; e estavam já tão senhores da terra, que faziam canaviais de açúcar. Mas porque eu entendi o dano que desta fortaleza e feitoria podia redondar à real fazenda de vossa Majestade, tornando aqui os mesmos flamengos fazer seu resgate e trazendo dois filhos do rei daquele cabo com recado seu para D. Filipe que não consentisse fazer-se-lhes algum agravo por serem seus hóspedes, (que assim chamam os estrangeiros que estão na sua terra), o qual recado êles procuraram, porque como os lançaram de cá temiam lhes fizéssemos algum dano, vista esta ocasião e que D. Filipe não queria que eu agravasse esta gente por não quebrar com o rei seu vizinho, fiz muitos regalos aos dois filhos daquele rei, e por êles mandei dizer a seu pai, mandando-lhe algumas dádivas, que olhasse o que fazia, porque aquela gente pretendia tomar- -lhe a sua terra, e que o conheceria nisto, que quando entrava na sua fortaleza o obrigavam a deixar as armas fora e sòmente deixavam entrar com ele três ou quatro pessoas. Quadrou a EI-Rei o recado que lhe mandei; e fingindo certa guerra com um seu sobrinho, lhes pediu gente com um patacho para ir por mar; e lá mataram os que iam a esta guerra, e na fortaleza os que ficaram nela também por manha, sem escapar mais que dois ou três em uma barca. O que eu quis referir aqui para que vossa Majestade entenda o caso que os holandeses fazem do trato destas partes, o qual não fizeram, se não fôra muito grande o proveito que dêle tiram, porque além do oiro que disse, levam muita quantidade de marfim e de malagueta, que deitam nas suas tintas, e das mais coisas que há • fi. 157 v. na terra. * O que entendo dêste oiro, que êstes e outros piratas levam da costa, que corre desta Serra Leoa até à Mina, é que por todo o sertão dessa costa se tira assim como na Mina. Mas tornando ao que resgatam os vassalos de vossa Majestade nas terras e reinos vizinhos a esta Serra Leoa, o que sabe- mos é que todo vem do Coucho, reino que dista daqui oito ou dez dias; e se é verdade o que todos dizem, especialmente os que mais perto daquele reino che- garam, deve ser aquela terra abundantíssima daquele metal, porque ninguém pode fundir mais terra do que aqui varre no terreiro de sua casa. Todo este oiro passa pelo reino de Bené mais vizinho a nós, de cujo rei tem recado o padre Baltasar Barreira, que quere ser cristão, e o padre o tem avisado que, passada a quaresma, o irá catequizar e baptizar. Eu estou acabando com tôda a pressa uma fragata, para o levar lá e o acompanhar nesta emprêsa, que espero será de grande serviço de Deus e de vossa Majestade. Do oiro que se resgata
  • Das coisas de Guiné e da Serra Leoa 211 na costa, que corre da província desta Serra até o rio Canaga, e que vem às mãos dos piratas, pode vossa Majestade mandar-se informar dos portugueses que andam naquelas partes. O que eu sei é que em todas se resgata, e a certo porto do rio Gâmbia, no tempo em que os portugueses podiam navegar por aquelas partes mais seguramente que agora, vinha cada ano uma cáfila de negros que não traziam outra coisa senão oiro em muita quantidade para resgatar com eles. Prata não posso afirmar que a haja nestas partes, porque a não vi; mas a fama que entre todos corre é que no rio de Nuno, não longe daqui, aonde os portugueses vão carregar de tintas, esteve um Araújo, ourives, e ao longo dêle achou veias de prata, e fazia fundições no mato por não ser visto dos negros, e da prata que tirava fazia manilhas que lhes vendia; mas, porque temeu que o viessem a saber e o matassem, se foi ao rio grande aonde morreu, sem querer descobrir o lugar destas minas. Há também âmbar em tanta quantidade, que se lhe não pode igualar todo o que se acha no Brasil; o marfim é tanto que, se o que levam os estrangeiros viesse às mãos dos portugueses, e se levasse a esse reino, importaria muito à real fazenda de vossa Majestade. A quantidade da cera se pode ver nos livros dos di*reitos destas partes no tempo em que não vinham a elas outras nações. *fi. í.s Eu só em um ano tirei da Gâmbia duzentos quintais dela. Quanto à coirama só isto direi, que é ordinário tirarem os estrangeiros um ano por outro, na costa que começa no rio Canaga, quarenta mil coiros, e para este trato e mais coisas daquela costa, dizem que teem feito fortaleza e feitoria na angra da Beseguiche. Mas vindo ao particular desta Serra Leoa e dos reinos vizinhos a ela, são os ares destas partes, especialmente os desta Serra, tão benignos, e a terra tão sadia que não sei outra que lhe leve vantagem, considerado todo o tempo do ano. O que digo da Serra e das fraldas dela, que daí para cima não sabemos que seja povoada, somente dizem que há uns vales grandes, e outros em que há algumas povoações de negros capes, que fugiram para lá, quando os cubas ou manes conquistaram êstes reinos. Há na terra canas de açúcar e muitas ribeiras de água em que se podem fazer engenhos; dá-se bem nela o algodao e há tão boas madeiras e em tanta quantidade que se podem fazer nela cada ano os navios que quiserem; e também há certas árvores de que se tira uma estopa para nos navios calafetar os baixos que andam sempre na água, que leva muita vantagem à nossa, porque sempre persevera verde, sem nunca apodrecer, e da mesma se fazem morrões melhores que os da Europa. Há também diversas gomas como anime, caranha, e outras que os negros chamam caca, de que nos servimos para brear os navios, quando nos falta breu. Há também alem do azeite da palma, que é o ordinário de Guiné, diversas árvores de cuja fruta se faz azeite, um que amarga e serve para o breu ou caca, e outro que se come e tem muita semelhança com o da Europa. Ferro, se vier quem o saiba forjar, há muita pedra de que se pode tirar. Além das madeiras que disse, há também, assim na costa que se segue como na terra, muito pau vermelho de tinta. Das árvores de espinho de toda a sorte não falo, porque estão os matos cheios delas; entende-se que a terra é disposta para dar vinhas e tudo o mais que nela se plantar. Na Serra há pedras de cevar que se teem provado e se acha serem legítimas. Em uma ribeira, que sai dela, é muita a quantidade de
  • 212 Das coisas de Guiné e da Serra Leoa • fi. i58v. ostras, maiores que as ordinárias, e nelas se acham pérolas tão grandes * que, se os negros as tirassem, antes de assar as ostras, seriam de muito preço. E houve algumas, das quais uma só se tirou de ostra que não foi assada, e ficou clara, a qual era do tamanho de um bom botão; outra tenho de ostra que foi assada, tão grande como um ôvo de pintassilgo, mas sem lustre porque lho tirou o fogo. Na serra dizem os negros, que vêem de noite um animal que lança de si grande resplandor; os nossos cuidam que será carbúnculo, e, se o é, não há de ser só. De salitre, se o que a vossa Majestade se mandou mostrar é verdadeiro, há muita quantidade em muitas partes desta costa. No reino de Beva, para onde estamos de caminho, há uma serra que dizem ser de cristal; mas o mais certo é que nela há veias, donde se tiram ou saem alguns pedaços grandes mui trans- parentes, de que usam os reis vizinhos para fazer sobre êles seus sacrifícios. Tôdas estas terras são fertilíssimas, e se neste reino não há grande abun- dância de gado e de tôdas as mais coisas necessárias à vida humana, não é porque se não possam dar nela tão bem e melhor que em outras partes desta Guiné, onde as há e se criam em abundância, senão pela pouca aplicação dos negros que não querem criar gado, nem semear arroz, mais que em tão pouca quantidade que ordinàriamente lhes não basta para todo o ano. E só nesta Serra e terras vizinhas a ela e não em outra parte alguma desta Guiné se dão as árvores donde se colhe toda a cola que os portugueses levam para a banda do norte. Ao qual veem cada ano sete e mais navios pelo muito proveito que tiram deste trato por ser esta fruta mui estimada dos mandingas, e outras nações. Fim do terceiro volume da i." edição.
  • w RELAÇÃO ANUAL DAS COISAS QUE FIZERAM OS PADRES DA COM- panhia de JESUS nas partes da índia Oriental, e em algumas outras da conquista deste reino, nos anos de 606 e 607, e do processo da conversão, e cristandade daquelas partes. Tirada das cartas dos mesmos padres, que de lá vieram: Pelo padre Fernão Guerreiro da Companhia de Jesus, natural de Almo- dôvar de Portugal. Vai dividida em quatro livros: O primeiro da província de Japão e China. O II da provinda do Sul. O III da província do Norte. O IV de Guiné e Brasil. (Corresponde ao 4.® volume da i.* ediçSo) Em Lisboa: Impresso com licença por Pedro Crasbeeck. Ano de iôog.
  • LICENÇAS Vi esta Relação Anual, etc., composta pelo padre Fernão Guerreiro, na qual não há coisa contra nossa santa fé e bons costumes, antes muitas que ma- nifestando-se servem de muita edificação dos fiéis, e bem comum da Religião Cristã. Em S. Francisco de Enxobregas, em Lisboa, a 2 de Novembro de 608. Fr. Luís dos Anjos. Vista a informação, pode-se imprimir esta Relação Anual, e depois de impressa torne a êste Conselho para se conferir e dar licença para correr e sem isso não correrá. Em Lisboa, 4 de Novembro de 608. Marcos Teixeira. Bertholaraeu de Afonsequa. Rui Pires da Veiga.
  • AO LEITOR Á que Deus nosso Senhor por sua divina misericórdia não falta com obrar pelos prègadores e ministros do seu Evan- gelho desta mínima Companhia de Jesus tantas coisas pró- prias suas na conversão da gentilidade do Oriente e mais partes das conquistas desta coroa de Portugal, não é razão que nós faltemos em as referir e publicar, para que sejam sabidas dos que com tanto desejo esperam por elas e nos pedem de tantas partes deste reino e fora dele lhas queiramos comunicar; o que de mui boa vontade fazemos, pois assim como é bom guardar os segredos dos Reis, assim é coisa honorífica e gloriosa para Deus publicar e rendar suas obras a todos, para que seu nome seja glorificado, sua potência conhecida. Nesta presente relação tratamos principalmente do que sucedeu pelo anos de 606 e 607. Mas porque algumas vezes por razão da muita distância dos lugares, e por outros sucessos e impedimentos, nos não chegam as cartas de algumas partes senão mui tarde, e não é bem que fiquem em silêncio as coisas de edificação que nelas se contam, as ajuntamos também em seus lugares apontando logo os tempos em que sucederam, pôsto-que serão mais atrasadas. Começamos pela parte mais remota e oriental, que é a província do Japão, e daí viremos às outras províncias do Sul e do Norte, pela ordem das relações passadas, discorrendo por todas as terras e reinos em que nossa Companhia anda espalhada e trabalhando na messe do Evangelho. E em todas estas par- tes o pio leitor achará coisas de muita edificação e gosto seu, e por que fique obrigado a glorificar muito a nosso Senhor, que é o prémio que só de nosso trabalho pretendemos.
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  • 'LIVRO PRIMEIRO DA PROVÍNCIA DE JAPÃO CAPÍTULO PRIMEIRO Do estado secular e temporal de Japão do ano de 6o5 TÃO rara coisa haver paz em Japão, que cada ano que a há se tem por maravilha; pelo que, fica muito maior haver já alguns que goza dela, que é depois que o Xogum, ou Cubo Daifuçama é absoluto senhor de todos aqueles reinos. O qual, pela muita prudência que tem, e naturalmente ser amigo de quietação, pôsto-que lhe não falta valor e esforço de grande capitão, de tal maneira se há no governo desta monarquia de Japão, que não sòmente a mantém e conserva em paz, enfreando todos, de modo que ninguém ousa alevantar cabeça contra êle, mas também faz que, entre os senhores e príncipes particulares não haja as dissenções e discórdias que noutro tempo havia. E pôsto-que para com o príncipe Findejoriçama, filho de Taico, seu antecessor, (de quem êle, por morte do pai, ficou por principal tutor, para lhe entregar a monarquia depois que fôsse de idade) até agora teve todos suspensos, por não saberem a resolução que tomaria, ainda que * bem suspei- • fi.it. tavam o que poderia ser, êste ano, porém, se acabou de declarar, resolvendo se em não sòmente êle usurpar para si a monarquia, mas perpetuá-la em sua família. Para isto mandou vir dos reinos de Cantó, que são os próprios de seu património, a seu filho, que, ainda que é o segundo, o tem feito morgado e sucessor seu, para lhe dar a dignidade de Xogum ou Cubo, e por sua morte ficar sucedendo na monarquia. Veio êste príncipe acompanhado de todos os senhores, não sòmente de seus reinos mas dos vizinhos, com setenta mil homens de guerra; e com êste acompanhamento chegou perto do Meaco à corte e for- taleza de Fuximi, onde seu pai o estava esperando, e donde o saíram a receber outros muitos senhores de vários reinos da banda do Sul. Assim, com todo êste aparato entrou em Meaco, dando uma mostra tão lustrosa de tanta e tão luzida gente soldadesca, toda com vários trajos e librés, e com tanta quietação, que até em Europa fôra coisa muito para ver. Passados alguns dias, foi rece- ber a dignidade de Xogum da mão do Dairi, ainda com maior aparato e lustre que quando entrou, não sòmente de vestidos mas doutras insígnias, costumadas em tais actos, por assim o pedir a dignidade que ia receber (que é como cá, na nossa Europa, ir-se coroar o imperador da mão do Papa), guardando-se em 28
  • 2l8 Das coisas de Japão tudo tão grande concerto e ordem que pôs em grande espanto a todos os que isto viram. Mas muito mais foi de espantar a grande paz e quietação com que tudo se fêz; que, juntando-se mais de cem mil soldados, assim dos que vieram com o filho como dos que estavam com o pai, e inumerável outra gente, que • fi.i. de * tôdas as partes concorreu a ver o espectáculo desta solenidade, assim o tempo que êle durou como em todo o mais que o novo Xogum esteve na côrte, nunca se viu revolta nem perturbação alguma, nem briga, nem arrancar espada, nem fazer agravo a ninguém, que em qualquer parte da cristandade se pudera ter por coisa de grande maravilha, quanto mais no Japão; o que tudo veio do bom governo e ordem que o Xogum velho deu, proibindo o contrário com grandes penas. Ainda que a causa, que o Xogum velho deu, de mandar vir seu filho para tomar a nova dignidade com tanto poder e aparato, foi com dizer que o fazia para imitar a Juritomo, que foi um senhor antigo de Japão, que da própria maneira veio também dos mesmos reinos de Cantó a Meaco para receber a mesma dignidade, a verdadeira porém era, como todos se persuadiram, para desapossar ao príncipe, filho de Taico, da fortaleza e cidade de Vozaca, onde estava, e com isto lhe cortar as esperanças, que ainda tinha, de alguma hora haver de suceder na monarquia que fora de seu pai. E mostrou bem ser êste seu intento, porque, logo que o filho recebeu a dignidade, começou a tratar que o príncipe viesse a visitar e mostrar sujeição ao novo Xogum, que é também seu sogro, e que depois iria êle em pessoa a visitar sua filha. Recusou isto o príncipe e sua mae mui fortemente; sobre que houve grandes dares e tomares. E o povo de Vozaca se começou a perturbar de modo que já cada um punha o seu fato em cobro, temendo os assaltos da guerra. O Xogum velho mostrava desejar que os que favoreciam ao príncipe se declarassem com algum alvoroço de armas, para ter alguma razão mais •fi.av. co*rada de dar sôbre êles e os destruir a todos; mas êles, como avisados se souberam muito bem guardar de lhe dar tal ocasião. Fizeram-se diversos pas- quins. O príncipe se fortificou, metendo gente de guerra na fortaleza, para sua guarda. Mas a mãe, suspeitando que o fim, que tinha o Xogum velho em que- rer que o príncipe fôsse visitar ao novo Xogum, não era outro senão para por êste meio se efeituar o que desejava, de o desapossar de todo de \ ozaca, se serrou fortemente à banda, dizendo que nem ela nem seu filho haviam de sair da fortaleza, e que antes ambos se cortariam a barriga. Soltou sôbre isto o Xogum velho palavras bem pesadas contra o príncipe, com que bem declarava seu intento. Mas, emfim, tudo se concluiu em paz, com o príncipe e o Xogum novo se mandarem visitar de parte a parte por terceiras pessoas com muito ricos presentes e grande quantidade de oiro, ficou contudo o príncipe desta feita não sòmente desenganado de não haver de suceder na monarquia, mas mui diminuído no estado que dantes tinha; tanto que alguns senhores, que eram seus aliados e apaixonados, se tornaram para suas terras sem se despedirem dêle, e como homens que já não tinham que esperar nem que depender de sua pessoa. O que não carece de justo juízo de Deus, porque o mesmo fêz seu pai ao herdeiro sucessor do grande Nobunanga, seu antecessor, cujo criado era, que, ficando também por tutor de seu filho, o privou da monarquia e a usurpou
  • Das coisas de Japão 219 para si. E também não permitiu Deus que, pois seu pai foi tão mau e tão grande perseguidor e inimigo do nome de Cristo, êle * lhe sucedesse na monar- fi-3- quia, para que o não imitasse na maldade. O novo Xogum se mostrou liberalíssimo, repartindo muito grande soma de oiro e outras peças de muito preço com os senhores de Japão e com seus vas- salos e criados, com que os cativou e obrigou muito, para lhe ficarem bem afectos e os ter sempre da sua parte. E, feito isto, se tornou em paz para Cantó com tôda a gente, que de lá trouxera, e a terra ficou quieta e desassom- brada. Pôsto-que faltou este ano em Japão a guerra da terra, não lhe faltou porém a de céu; porque houve em algumas partes e reinos, por duas vezes em oito dias, as mais bravas e horrendas tempestades ou tufões, como lá lhe chamam, que havia muito tempo se tinham visto. A primeira descarregou à meia-noite, estando todos bem descuidados, e se durara mais tempo do que durou, que foram três horas somente, parece que assolara tudo, porque o estrago que neste breve tempo fêz foi tal que, de setenta anos a esta parte, se não lembram os homens, em Japão, haver outro semelhante. Foi coisa espantosa a fúria com que o vento assoprava, como se pode ver pelo que aconteceu a um dos nossos padres que, tirando-se de uma casa, onde estava, para se passar a outra parte, que lhe parecia mais segura, o levou o vento com tão grande ímpeto que, por dez ou doze passos, foi como pelos ares, sem quási pôr os pés no chão, e lhe foi necessário aferrar-se de uma árvore, porque, sem dúvida, o vento o levava mais adiante sem lhe poder resistir. O estrago, que fêz no campo, foi mui grande, destruindo as sementeiras, arrancando árvores, e estas tão grossas que tinham três e quatro braças * em roda; outras danificava e fazia em pedaços; e espantou muito a vista de uma árvore mui grande e de pau fortíssimo, a qual a fôrça do vento não só arrancou mas levou um bom espaço e pôs noutro lugar, coisa que, pela grandeza e fortaleza da árvore, nem dez mil homens jun- tos o puderam fazer. Levou grande número de casas e danificou e desfez outras; e, se durara mais, poucas ficaram em pé. Só de igrejas derribou cin- quenta com as casas que estavam junto delas, o que foi muito grande peida para a cristandade, pelo muito que há de custar torná-las a reedificar. No mar fêz horrendo estrago, porque pelos portos que havia desde Nangasáqui até Ximonochéqui, que são sessenta léguas caminho de Meaco, espedaçou e fundiu oitocentas embarcações, muitas delas carregadas de fazendas e mantimentos, em que entrou uma fragata de castelhanos, que viera das Filipinas com mais de cin- quenta mil cruzados. A nau da China, que com todo o recheio da fazenda que trouxera estava no pôrto de Nangasáqui, esteve a Deus misericórdia; e foi muito grande para os Padres e para tôda aquela cristandade guardá-la nosso Senhor. Morreu muita gente assim na terra como no mar que, saindo dos têrmos postos pela natureza, entrou pela terra dentro, assolando e levando muitas povoa- ções sem delas quási ficar rasto; entre as quais, houve uma de mil vizinhos, os quais as ondas levaram tão de repente que muito poucos moradores delas se salvaram. Entre os mortos, que morreram nestas tempestades, foi também um padre nosso que indo em uma embarcação com outros dois e um irmão, e alguns dos
  • 220 Das coisas de Japão catequistas, para todos se repartirem por diversas partes, onde dêles havia •fi,4. necessidade, * estando recolhidos em um pôrto, descarregou tão de repente a tempestade que, entendendo o perigo em que estavam, não tiveram mais tempo que para se confessarem, e logo imediatamente a embarcação se fêz em peda- ços, onde o padre Guilhelmo Cotta, italiano de nação, ficou afogado. Os outros todos quis Deus que escapassem; uns a nado, pôsto-que com muito trabalho e bem feridos, outros em um dos pedaços da embarcação, em que os mais dêles acertaram de estar, o qual com as ondas foi ter a terra, e os lançou nela, por grande mercê de Deus, que por tudo seja glorificado. CAPÍTULO II Do estado da cristandade em geral, e das coisas que passaram em Nangasáqui SÃO os da Companhia, que residem em os reinos de Japão, por todos cento e vinte e um, espalhados por dois colégios, duas casas reitorais, um seminário e vinte e três residências. O mor estorvo e impedimento, que pode ter a cristandade de Japão para ir por diante, é o que lhe pode vir da cabeça, universal senhor de todo êle. E isto, ou por via de guerras, que tenha com os senhores e príncipes seus inferiores, ou por via de perseguição geral, que levante contra a mesma cristandade, como levantou o Taico, antecessor dêste que agora reina. Nada disto houve, êste ano, pela bondade de Deus, nem desde que governa êste Cubo, ou monarca, que agora o é, como atrás dissemos. Pelo que, a cris- tandade, quanto é por parte do senhor universal de Japão, vive em muita quie- • fi.4*. tação e paz; porque, pôsto-que êle a não favorece, * pelo menos não a encontra. E, assim, vai cada vez crescendo mais; e pôsto-que em alguns reinos de senhores particulares não faltam graves perseguições, noutros, porém, é muito estimada e favorecida, como tudo em seus lugares se dirá. Haverá em todo o Japão, como consta das certidões dos padres, que por todo êle andam espalhados e teem cuidado da cristandade e das igrejas, perto de setecentos e cincoenta mil cristãos. Baptizaram-se, êste ano, por todo Japão, passante de cinco mil e quatrocentas pessoas; e destas, em Nangasáqui e seu distrito, foram mil e duzentas. É esta cidade mui grande e mui formosa, e cada vez vai crescendo mais, por razão do trato da nau da China e de outros navios que a ela veem. Mas a mor formosura e nobreza, que tem, é ser tôda de cris- tãos, tirando os forasteiros, que doutras partes de todo o Japão aqui concorrem ao trato, por cuja ocasião Deus traz muitos ao seu conhecimento; porque, vindo a buscar mercadorias temporais, acham também as espirituais do conhecimento de Deus, que os padres lhes descobrem e que êles compram sem ouro nem prata, tornando-se para suas terras ricos no corpo e na alma. E manifesta-se bem nisto a grande providência de Deus em dispor que venha ter a êste pôrto a nau da China, que os japões tanto estimam, para que concorrendo aqui tanto número de mercadores de todo Japão, como concorrem,
  • Das coisas de Japão 221 a fazer seus negócios e proveito temporal cora os portugueses, achem também o espiritual da salvação, que os padres fazem com eles, prègando-lhes e dando- -lhes notícia de Deus e de sua lei; a qual, por este meio, se espalha e faz muito célebre por todos aqueles reinos de Japão. Como nesta mesma cidade de Nangasáqui reside * o Bispo e está o prin- .fi.5. cipal colégio e casa da Companhia de todos aqueles reinos, florece aqui a cris- tandade, o culto divino, a celebração dos ofícios eclesiásticos cora tanta solenidade e aparato, como na mais pia e religiosa cidade da cristandade de Europa; e, neste ano de 6o5, foi a primeira vez que, em Japão, se celebrou a festa do San- tíssimo Sacramento, em dia de Corpo de Deus, em procissão pública em que o Senhor fosse levado pública e descobertamente pelas ruas. Coisa que não somente aos padres mas a todos os cristãos daquelas partes, que ali se acharam, causou excessiva consolação e alegria, por se verem com forças e liberdade para dentro em um império e numa cidade de um rei gentio e infiel, poderem com tanta segurança e celebridade de festa, confessar e levar publicamente pelas ruas, com pompa e acompanhamento de inumerável gente cristã, este santíssimo mistério. Enramaram e armaram os cristãos as ruas, por onde havia de passar a procissão, com o melhor que tinham. Levantaram altares em diversos postos, afora outros que alguns cristãos tinham às suas portas, e com o melhor ornato que cada um podia. Levava o Bispo a custódia do Santíssimo Sacramento, debaixo de um rico pálio; os padres todos revestidos com capas, os irmãos e catequistas com sobrepelizes; o que, para aquela nova cristandade, assim como era coisa nunca vista, assim lhe criava nos corações particular conceito e reve- rência da muita que deviam ter àquele diviníssimo Sacramento. Iam na procis- são duas charolas, ornadas muito bem, muitos instrumentos músicos e outras várias invenções. Mas o que, entre tudo, alegrou mais a gente foram duas danças de meninos * japões, uma ao modo e trajo de Japão, outra ao modo de Europa, "Fi.sv. vestidos à portuguesa, e uns e outros mui ricamente; os quais, em uns teatros, que para isso estavam feitos em certos postos, onde o senhor se detinha, baila- vam diante do Santíssimo Sacramento, com muita graça e ar. Houve muita e grande salva de espingardaria, e finalmente muitos outros sinais da fé, cheia de consolação e alegria, com que todos confessavam e festejavam aquele diviníssimo Senhor, dando muitas graças a Deus por os chegar a tempo que pudessem celebrar sua festa publicamente, o que até agora, por causa das perseguições e trabalhos passados, lhes não fôra permitido. Na frequência dêste diviníssimo Sacramento se esmeram muito os cristãos desta cidade; e, ainda que isto é geral em tôda a cristandade dêstes reinos, e esti- mam os fiéis, como por segundo baptismo, serem admitidos à sagrada comunhão, a qual graça os padres lhes fazem mui cara e não concedem senão depois de muito tempo de requerimento dela, para com isto lhes fazerem formar mor conceito dêste divino mistério, com tudo haverá nesta só cidade de Nangasáqui mais de quatro mil pessoas que todas comungam de ordinário pelos jubileus, que entre ano há na nossa Igreja, afora muitos que o fazem muitas vezes, pelo ano, em algumas festas a que teem devoção. E vê-se bem a ôlho o fruto que nêles causa, e as fôrças que dá a suas almas, para resistirem aos pecados, e para se conservarem e crescerem na graça; do que traremos alguns exemplos, entre muitos, que se puderam referir.
  • 222 Das coisas de Japão Uma moça de pouca idade, sendo levada enganosamente a uma parter onde um mau homem lhe tinha armado a cilada, em que a queria tomar, com • fi.6. nenhumas outras armas se defendeu, * senão com as dêste divino Sacramento, dizendo e repetindo muitas vezes: comungo, sou de comunhão, não hei de fazer tal coisa. E desta maneira a livrou nosso Senhor do perigo. A outra donzela honrada de 14 ou i5 anos, e mui devota do Santíssimo Sacramento, tinha ele comunicado tanto amor da castidade e pureza virginal, efeito tão próprio seu, que, entendendo que seu pai a queria casar, instou muito com êle e com seu confessor a não obrigassem a isso, mas lhe dessem licença para deixar o mundo e servir a Deus em castidade e pureza, conforme ao desejo que disso sentia em sua alma. Porém, vendo que o não podia alcançar, por mais instâncias que fazia, e temendo que, por ser filha única de seu pai, nunca êle viria nisso, uma noite, por si mesma, sem dar conta a ninguém, com suas próprias mãos cortou os cabelos; coisa que tanto mais foi estimada, quanto era mais rara até agora, em Japão, principalmente em pessoa de tão pouca idade; e, assim, todos os cristãos, que isto souberam, ficaram muito admirados e edificados. O pai o sentiu muito, por não ter outra filha, mas, por ser bom cristão e temente a Deus, o levou generosamente, louvando-o e dando-lhe por isso muitas graças, e exortando-a a ela a perseverar até ao fim. Outro exemplo houve nesta matéria, muito mais raro e admirável, e que foi de muita edificação para todo Japão, e o deve ser para toda a cristandade do mundo, como na narração dêle se pode ver. Entre os descendentes que ficaram do bom rei Francisco de Bungo, vivia nesta cidade de Nangasáqui uma neta sua, filha de filha, cujo pai foi um Cunge nobilíssimo e dos principais que ser- vem imediatamente ao Dairi, suprema cabeça de Japão. ~i.6». Esta, no tempo que Taico tomou o reino a seu tio Ioximino * D. Constan- tino (de que logo também falaremos), sendo menina de sete ou oito anos, se veio desterrada para Nangasáqui em companhia de sua avó que, ainda que o não era por natureza, era-o no amor que lhe tinha como a filha, e de outros seus paren- tes. Aqui se criou sempre em devoção e temor de Deus; e de idade de doze anos começou a sentir em si grandes desejos de servir a Deus em castidade e pureza, e dedicar-se tôda a êle com voto de virgindade. E, assim como ia cres- cendo na idade, ia crescendo nestes desejos, até que levada dêles, e parecendo- -lhe que já era tempo de os pôr em efeito, instou sobre isso muito com sua avó e também com o padre seu confessor; os quais, por justas causas e por a coisa ser de tanto peso, lhe foram dilatando a licença por algum tempo, até que, vendo sua muita virtude e exemplo, e como, por ser quem era e estar em tão boa e segura companhia e com tanto resguardo e recolhimento, não haveria perigo na guarda do seu voto, e muito mais por lhes parecer ser particular vocação de Deus, que tanto se lhe comunicava e mostrava escolhê-la por esposa sua, se houve de condescender com seus rogos; mas com condição que não havia de mudar de trajo, nem cortar os cabelos, nem diferenciar-se das mais donzelas na côr do vestido. Aceitou Maxência, que assim se chamava, as con- dições; e, consoladíssima com a licença, fêz secretamente seu voto, com suma devoção e alegria espiritual. Depois do qual, muito mais de propósito se come- çou a dar a Deus e à virtude, principalmente da oração, penitência, mortificação»
  • Das coisas de Japão 223 frequência dos sacramentos, como meios que são tão eficazes para melhor cumprir o que prometera. Tinha seus tempos # determinados para a oração, *fi.7. que eram três vezes no dia, tinha seus livros espirituais e devotos, pelos quais lia frequentemente; no que sentia tanto gosto e devoção que, ainda quando ouvia ler a outrem, as lágrimas lhe estavam caindo pelos olhos abaixo. E, como era tão grande o gosto, que tinha de Deus e das coisas espirituais, nenhuma alegria nem contentamento podia ter com festas algumas do mundo; pelo que, quando as havia, ou se desviava de as ver, ou, quando mais não podia, em seu semblante mostrava logo o pouco gosto que lhe davam. Mas todo seu gosto e alegria era falar ou ouvir falar de Deus e dos Santos, e particularmente da Vir- gem nossa Senhora, a quem tinha tão grande amor e devoção que, sòmente de ouvir falar ou gabar alguma imagem sua de formosa e devota, se enternecia de modo que não podia ter as lágrimas. Três dias antes e três dias depois de todas as festas principais da Virgem nossa Senhora, lhe costumava sempre jejuar a arroz sòmente e água, e algumas vezes passava o dia sem comer mais que uma vez alguma frutazinha ou coisa semelhante; e, nas mesmas festas, tinha por devoção, à honra da mesma Virgem, ler sempre aos de casa alguma coisa de sua vida san- tíssima e milagres. O mesmo jejum, e assim tão vigoroso, guardava também por espaço de trinta dias, antes da festa da Assunção de nossa Senhora, aparelhan- do-se mais de propósito para esta festa, por ser a principal da Virgem, a quem tinha tomado por advogada e padroeira do seu voto. O rigor e aspereza da peni- tência, com que tratava e afligia seu corpo, foi mui grande e que a todos espan- tava, considerando * a natural fraqueza duma mulher, e esta donzela tão nobre e delicada e de tão pouca idade, como ela era, porque, não se contentando com usar de seus rigorosos e estreitos jejuns, nos tempos que temos dito, dos mes- mos usava também nos adventos e quaresmas, jejuando todos os dias a arroz e água. E nos mesmos tempos e noutros muitos do ano, se disciplinava também muitas vezes. Cilício trazia de ordinário, sem quási jámais o tirar do corpo. E, por o tempo da quaresma ser de mor penitência, três vezes tomava nela dis- ciplina de sangue. Para a festa do Natal e imitação do Menino Jesus pôsto em palhas, se aparelhava com não dormir noutra cama por todo o tempo do advento, senão em uma esteira de palha grossa e áspera, e por todos os modos que podia nunca cessava de mortificar seu corpo, em tanto que era necessário que seu con- fessor lhe fôsse à mão com rigor, pelo muito que se ia debilitando e prejudi- cando a sua saúde. Confessava-se e comungava muitas vezes, aparelhando-se com muita devoção para a comunhão, e recebendo-a com muitas lágrimas, e ficando depois, por uma hora ou mais, recolhida com tão profunda meditação daquele divino Sacramento, que parecia estar arrebatada sem sentido; e da mesma maneira estava, quando ouvia missa, correndo-lhe muitas vezes as lágri- mas fio a fio. Nem é muito que nosso Senhor usasse com ela dêstes mimos e favores de suas divinas consolações, pois nenhuma afeição ou amor mostrava ter, mais que ao mesmo Senhor e a sua Santíssima Mãe, em quem tinha pôsto todos os seus gostos e contentamentos. * Sentia muito de não mostrar ainda no exterior o pouco caso que no inte- »fi.8. rior fazia de todas as pompas e vaidades do mundo, e desejava de se conformar,
  • 224 Das coisas de Japão no trajo, com o voto que tinha feito, vestindo-se pobremente e como costumam as pessoas, que em Japão deixam o mundo e sòmente buscam a salvação, e não andar vestida de sedas, como andava, por cumprir com o que lhe tinham man- dado. Pelo que, um dia, rogou a sua avó, com muita instância, que, pelo menos aquele dia, a deixasse trazer semelhantes vestidos, para sequer por um dia gozar do em que por tôda a vida desejava ver-se. E condescendendo a avó com ela, pela consolar, tomou o vestido nas mãos e, tôda cheia de alegria, se foi com ele diante de uma imagem de nossa Senhora, onde, posta de joelhos, o pôs sôbre sua cabeça em sinal de agradecimento e, banhada em lágrimas de consolação, deu graças à Virgem nossa Senhora, por se ver chegar a cumprir seus desejos, ainda que não fôsse mais que por um só dia. Logo se vestiu naquele pobre vestido com grande júbilo de sua alma, e todo aquele dia andou tão alegre com êle, como costumam andar as donzelas vãs e mundanas, quando se vestem de ricas jóias. Finalmente, por abreviar muitas outras coisas de sua vida e virtudes, de pura penitência e mau tratamento de seu corpo, veio Maxência a desfalecer e descair de modo que nunca mais pôde convalescer. Esteve em cama oitenta dias, sofrendo com muita pacfência as dores e trabalhos da doença. Confes- sou-se neste tempo muitas vezes, aparelhando-se para o que Deus ordenasse •fi. 8 v. dela. Desconfiando * totalmente os médicos de sua saúde, se começou a apa- relhar mais de propósito para morrer. Sucedeu que, oito dias antes de sua morte, lhe cortaram os cabelos, por lhe fazerem mal à cabeça. Não se pode dizer a alegria que com isso recebeu, pelos haver cortado em sua vida, coisa que tanto sempre desejara, dando por isso muitas graças a nosso Senhor; e, em particular, por lhe conceder acabar a vida cumprindo fielmente seu voto, que era o fim por que tanto trabalhava. Ia-se chegando ao cabo; e, sentindo-se já nêle, pediu muito a nosso Senhor lhe fizesse mercê, que na hora da sua morte tivesse maiores tormentos do que nenhum outro mortal padecia em tal hora, porque tais os desejava sofrer à honra de sua sagrada morte e paixão. Era grande o desejo que tinha de acabar, por se ver com Cristo, seu esposo, e com a Virgem Sacratíssima, sua Mãe; pelo que, com êstes vivos desejos, fazia muitos e mui devotos colóquios a um crucifixo, que diante de si tinha, e que aos cir- cunstantes causavam não menos espanto que devoção. A conclusão dêles era pedir sempre ao Senhor perdão dos seus pecados, por estas palavras: Pros- trada, Senhor, e lançada por terra diante de Vossa santa cruz, humildemente vos peço que salveis a minha alma, que com Vosso precioso sangue tingistes e aformoseastes. E por remate de seus colóquios dizia: In manus tuas, Domine, commendo spiritum meum. Um pouco antes que perdesse a fala de todo, se chegou a ela uma pessoa e lhe disse, para a consolar e lhe dar ânimo, que se alegrasse e tivesse grande esperança, que logo havia de ver a Santíssima Trin- • fi. 9. dade, e gozar de Cristo nosso Senhor * e de sua Santíssima Mãe, e receber o prémio de sua pureza virginal, sendo colocada entre as virgens e mais santos da côrte do céu, e que então se lembrasse dela. Alegrou-se tão grandemente com estas palavras que (como se com elas resuscitara e recebera novas forças), com rosto mui alegre, respondeu que nenhuma pena sentia em seu coração, antes o sentia cheio de suma consolação, descanso e alegria, com as esperanças que
  • Das coisas de Japão 225 tinha de ir logo ver a Deus e gozar dêle para sempre. Finalmente entrou em artigo de morte, tendo diante de si um crucifixo; em o qual pregando os olhos, não cessava de falar com êle, mas de modo que se não entendia mais que as sobreditas palavras: In manus tuas; e o santíssimo nome de Jesus, com o qual e com os olhos pregados no crucifixo, lhe deu sua bem-dita alma, e foi receber dêle o prémio e coroa de suas virtudes, com muita consolação e edificação de todos os circunstantes, principalmente de seus parentes que, ainda que ficaram muito consolados de a verem acabar com tal vida e morte, aos dezoito anos de sua idade, não deixaram porém de sentir muito seu apartamento, por carecerem de sua tão santa e suave conversação, afirmando que nunca lhe viram fazer ou dizer coisa em que a pudessem notar de uma mínima falta. Assim como Maxência foi naquelas partes com sua vida e morte um tão vivo e raro exemplo de donzelas e virgens, a quem outras vão imitando, assim se pode dizer que o foi também de donas recolhidas, livres do jugo do matri- mónio e tráfego do mundo, outra mui nobre senhora que, neste mesmo ano, Deus quis levar para si, na mesma cidade de Nangasáqui. Esta foi Maria, filha de D. Agostinho, aquele grande capi*tão geral de Taicoçama, antecessor, na .ei.g*. monarquia de Japão, deste que agora governa, e que na batalha dos governa- dores se perdeu, como em outras relações dissemos. Foi esta senhora mulher do rei da ilha de Tauxima. A qual, no tempo que seu pai D. Agostinho se per- deu e morreu em Meaco, por mandado do Cubo. foi repudiada de seu marido, por arrecear que a êle e a seu estado viesse algum mal, tendo por mulher a filha dum senhor que tão contrário fôra ao que então o era de todo Japão. Porém, não foi isto contra vontade da mesma Maria, antes mui conforme a seu desejo, pelo grande que ela tinha da salvação de sua alma, a qual entendia que corria tanto risco, estando e vivendo naquela ilha entre tantos gentios, e muito mais pelo estorvo que ela havia lhe era para isso o estado de matrimónio e obrigação a marido. Repudiada pois dêle, se foi para Nangasáqui, onde, recolhendo-se e dando de mão às coisas do mundo, cortou os cabelos e fêz voto de castidade, fazendo daí por diante uma vida muito exemplar, frequentando os sacramentos, dando-se muito à oração e lição de livros espirituais e devotos, fazendo suas determinadas penitências e outros exercícios de virtude, com que a todos muito edificava. Adoecendo finalmente de uma doença mui comprida, mostrou bem nela sua paciência e grande conformidade com a vontade de nosso Senhor, e o muito desejo que tinha de se ver com êle; não se fartando de lhe dar graças por a trazer a morrer entre cristãos e padres, com os sacramentos da Igreja e com tão bom aparelho de sua alma, o que não houvera de ter na sua ilha, ainda que senhora dela e de tão grande estado. Morreu com grande paz e quietação de sua alma, * deixando a todos muito •«. 10. edificados e consolados com seu exemplo de vida e morte. 29 1
  • 226 Das coisas de Japão CAPÍTULO III Da penitência e morte de Dom Constantino, Rei de Bungo, e doutras coisas de edificação que mais sucederam em Nangasáqui e seu distrito JÁ que referimos o bom exemplo que de si dão as mulheres de Japão, bem é que digamos também o que dão os homens, como se verá em todo o discurso desta história do que pertence a Japão. E em particular, pois tratámos acima da santa vida e morte de Alaxência, neta do bom Francisco, Rei de Bungo, é razão que não passemos em silêncio a penitência e morte de seu tio, Ioximino Dom Constantino, Rei que também foi de Bungo e filho do bom Rei Francisco. Nas relações anuais dos anos passados se tem escrito como êste princípe, recebendo o santo baptismo em vida de El-Rei seu pai, depois retrocedeu e apostatou da fé; e como, sucedendo no reino por morte de seu pai, por desordens e culpas em que caiu contra o serviço de Taico, senhor que então era de Japão, êle lhe tirou o reino e o desterrou para o Meaco; e como, sucedendo depois a guerra dos governadores contra o Cubo que agora é, que- rendo tornar a seu reino com gente de guerra, à entrada dêle foi vencido e preso por um senhor cristão, por nome Simeão, que seguia ás partes do Cubo; por • fi. 10v. cuja persuasão e dos padres, tornou * sobre si e se arrependeu do passado e reduziu à nossa santa fé, com grandes propósitos de perseverar nela. Também se disse como, perdoando-lhe o Cubo a vida por intercessão do mesmo Simeão, que o cativara, se contentou com o desterrar para o reino de Deva, e a uma terra por nome Aquita, principal daquele reino, que está no fim de todo Japão para a parte do norte, onde o senhor dela lhe determinou, para sua sustentação, uma certa quantidade de mantimentos tão pequena, que escassamente podia com ela passar a vida. Da mesma maneira se escreveu de como ia crescendo cada vez mais na mudança e emenda que fizera tão notável e exemplar da sua vida, dan- do-se mui de propósito às coisas da sua salvação, sem desejar nem tratar mais doutra alguma, mostrando particular arrependimento de seus pecados e de ter deixado a Deus nosso Senhor e a sua santa lei; pela qual coisa conheceu muito bem que o mesmo Senhor justa mas misericordiosamente o castigava, ordenando que lhe sucedessem de tal maneira as coisas, que viesse a perder seus reinos e estados, para que por esta via cobrasse entendimento, entrasse em si e se redu- zisse ao serviço de seu Criador, que doutra maneira tarde ou nunca fizera. Pelo que, tudo o que no destêrro padecia, reconhecia e aceitava por mercê muito par- ticular, que Deus lhe fazia, para que nesta vida fizesse penitência dos seus peca- dos e purgasse por êles; o que êle fazia com tanta paciência que antes tinha por pouco tudo o que padecia, em comparação do muito que conhecia que seus pecados mereciam. E, assim, escrevia muitas vezes aos padres, mostrando tanta conformidade com a vontade de Deus e tanto agradecimento à misericórdia, que com êle usava em o chamar por tal caminho e permitir que por seus peca- •fi. ii. dos padecesse tantos * trabalhos e misérias, que a todos edificava e consolava muito.
  • Das coisas de Japão 227 Desta maneira esteve este penitente Rei, algum tempo, na cidade de Aquita, sofrendo em paciência de seus pecados o destêrro e misérias que padecia, gastando o mais do tempo em considerar a grandeza de suas culpas e em ora- ção e lição de livros espirituais. Disciplinava-se e jejuava muitas vezes: e, em lugar de cilício, trazia frequentemente uma corda áspera ao longo da carne, de que os seus, que o serviam, não menos se edificavam que espantavam; e, mos- trando-lhe desejo que êle não usasse consigo de tanto rigor e aspereza, lhes respondia que ainda aquilo era pouco para quem tão gravemente tinha ofendido a Deus. Aconteceu, neste mesmo tempo, mudar-se para outro reino aquele senhor a quem o pobre Rei estava encostado; pelo que, não tendo outro reme- dio, lhe foi necessário ir-se com êle; onde, por ser menor a sustentação que o dito senhor lhe mandava dar, foram crescendo mais suas necessidades e misé- rias no temporal, do que tomava ocasião para no espiritual cada vez mais se ir melhorando e crescendo na paciência e conhecimento de seus pecados, acres- centando mais jejuns, cilícios e disciplinas. E por mais que se lhe foi à mão que se moderasse em suas penitências, nunca o pôde acabar consigo, dando por razão, que assim como seus pecados foram maiores que os de todos os outros homens, assim era bem que o fôsse a sua penitência e o castigo dêles; pelo que, cada vez, com mais fervor, continuava em seus exercícios santos, reno- vando * muitas vezes a corda que de ordinário trazia ao longo da carne, para 'F|-» *• mais molestar e afligir seu corpo, até chegar a cingi-lo todo com ela da cinta para cima, dando-lhe muitas voltas, o que particularmente fêz pelo tempo da quaresma, e alguns dias antes que adoecesse. De modo que, com êste aparelho o tomou a última doença, de que Deus o levou, da qual como se sentisse apo- derado e juntamente mui fraco e debilitado, assim por razão das necessidades corporais, que padecia, como da áspera penitência com que se tratava, se come- çou a dispor para morrer, confessando-se e recebendo o Santíssimo Sacramento. E daí a poucos dias, quási de repente, e sem os seus imaginarem que tão de- pressa acabaria, deu fim a sua vida mortal e princípio à imortal e eterna a que Deus por sua misericórdia o chamou, assim como também, por ela, à verdadeira penitência que neste mundo fêz. Desta maneira acabou Ioximino Dom Constantino, Rei de Bungo, tão no- meado em Japão, privado de cinco reinos, de que seu pai foi senhor, desterrado de sua pátria, fora e apartado dos seus e ainda de mulher e filhos, sem ter, à hora da morte, mais que três criados, que o serviam e nela o acompanharam, tão falto de todo humano socorro, que nem o necessário tinha para cada dia, se não foram algumas esmolas que os nossos padres lhe mandavam, quando se oferecia quem lhas levasse. Cinco anos passou nesta tão áspera e rigorosa penitência que temos dito. E piamente se pode crer que para êste bom Rei se reduzir e acabar sua vida com tanta penitência e sinais de sua salvação, como acabou, foram muita parte diante * de Deus, os merecimentos e intercessão «fi.h. do santo Rei Francisco, seu pai. Foi mui notável em Japão e de muita estima o exemplo de penitência dêste Rei, para bem de muitos, e por se ver nêle a particular misericórdia de que nosso Senhor usa com os da casa e família de Bungo, tão benemérita da religião cristã, em aqueles reinos. Muitas conversões notáveis houve de muitas pessoas, que nosso Senhor
  • 228 Das coisas de Japão chamou à sua santa fé por meios extraordinários, e em que se viam os mani- festos sinais da divina predestinação. Outros padeceram também muitas e várias contradições pela fé católica, que recebigm, saindo nelas vencedores com muita glória de Deus, as quais deixamos por razão da brevidade e termos muito que dizer, nesta história, doutras coisas mui grandes e insignes. Há, no distrito de Nangasáqui, vários estados e terras de senhores gentios, como Fucafúri, Issafai, Vehine, Longacame, onde há muitas igrejas e quatro residências da Companhia, sujeitas todas ao colégio de Nangasáqui. E pôsto-que os senhores destas terras são ainda todos gentios, são com tudo isso amicíssimos dos padres e os tratam com grande reverência e cortesia, e com tanta familiaridade indo às casas dos padres, e os padres às suas, como se na confiança fossem cristãos. E, assim, não sòmente não estorvam a que seus vassalos e criados se façam cristãos, antes gostam disto muito, e lhes dão liberal licença para todos os que •fi. 12*. se quiserem converter o poderem fazer livremente. E tal * dêles há que êle mesmo é o que exorta a seus vassalos a se fazerem cristãos, declarando-lhes o grande gosto que nisso lhe darão, até os obrigar pelo menos a ouvirem prèga- ção, posto que, no aceitarem ou não nossa santa lei, os déixa em sua liberdade. E, assim, com esta boa vontade, que êstes senhores mostram aos padres e às coisas da lei de Deus, e da parte da Tença não haver estorvo que impida a sementeira do Evangelho, é mui grande o fruto que se faz por estas terras, não sòmente na cultivação e doutrina dos que estão já feitos, senão também na con- versão dos que de novo se baptizam, que foram, este ano, passante de quatro- centos e cincoenta adultos. Em um lugar principal dum dêstes senhores gentios, por nome Issafai, em que os padres teem uma igreja com suas casas junto dela, sucedeu, êste ano, por um desastre, pegar-se o fogo, o que muitas vezes acontece em Japão; e atean- do-se com grande fúria pela povoação, ia abrasando tudo, levado pelo vento para a parte onde estava a igreja; o que vendo os cristãos, deixavam suas casas e a pobreza, que nelas tinham, expostas ao fogo, e se iam meter na igreja e casa dos padres, para a defenderem. O mesmo fizeram também os gentios e, entre êles, dois fidalgos nobres com sua gente, dos quais um é parente do Tono e muito amigo do padre. Este, vendo que o fogo vinha já tão perto das nossas casas, e que o padre não estava na terra (por andar visitando outros lugares • fi.i3. daquela cristandade), tomou à sua conta fazer o que o padre fizera, * se estivera presente. Primeiro que tudo salvou a imagem tirando-a da igreja e pondo-a em lugar seguro. Após isto, pôs logo seus guardas nas portas, e deu ordem como o mais fato de casa se tirasse e pusesse em côbro. Neste ponto, foi nosso Senhor servido que o vento, que vinha trazendo o fogo para a igreja, da qual não estava á mais que nove ou dez passos, de repente se mudasse e desviasse para outra parte, que foi coisa evidentemente miraculosa, porque, a não ser assim, ne- nhuma coisa da igreja e casas escapava. E não foi de menos espanto que, concorrendo ali tanta gente, assim cristãos como gentios, nem uma só coisa faltou das alfaias da casa, ainda das muito miúdas. Ao outro dia, depois do fogo, chegou o padre, o qual vinha mui solícito sobre um homem honrado, mercador, que havia quinze dias se baptizara,-arre-
  • Das coisas de Japão 229 ceando que, por se lhe queimar a casa com quanto tinha, poderia desfalecer, imaginando que, por se ter baptizado, deixando os Camis e Fotoques, lhe poderia suceder aquele castigo, como pregam os bonzos e crêem os gentios. Mas achou tudo muito diferente, porque, em chegando, o veio logo visitar o próprio cristão, e dar-lhe os parabéns de se não queimar a igreja nem as casas dela. E, mos- trando-lhe o padre o grande sentimento que tinha de sua perda dêle, lhe res- pondeu o bom homem, com muita alegria: Padre, ficando a igreja salva e vossa casa em pé, eu não perdi nada; antes vos faço saber que ganhei uma alma de um meu criado, porque, com o trabalho do fogo desta noite está para morrer e se quere fazer cristão. * Peço muito a vossa reverência que o vá baptizar, »fi. i3*. antes que morra. Foi logo o padre; e instruído nas coisas da fé, quanto pela brevidade do tempo foi possível e bastante para receber o santo baptismo, lho deu logo, e na noite seguinte se foi gozar de Deus. Porém, não faltou o Senhor a êste homem com a paga, ainda nesta vida, de sua constância e bom ânimo cristão, porque o senhor da terra lhe mandou logo fazer outra casa melhor que a que perdera, e de outras partes lhe vieram outras ajudas, com o que ficou avantajado do que dantes estava e bem agradecido a Deus pelas mercês que lhe fazia. Aqui mesmo aconteceu a um pobre cristão que, furtando uma pouquidade, foi logo preso e condenado à morte, conforme as leis de Japão, que nesta ma- téria são mui rigorosas. E, como logo se havia de executar a sentença, o gover- nador da terra mandou avisar o padre, para que o viesse primeiro confessar e ajudar no que pertencia à alma; e que, se sua reverência se inclinasse a que também lhe perdoasse a vida, que o faria, por lhe dar êsse gosto. Vendo o padre coisa tão nova num gentio, que nos tempos atrás nem para confessar semelhantes condenados, antes de morrerem, lhe queria dar licença, se consolou e alegrou muito; e, agradecendo-lhe a licença para o confessar, quanto à vida lhe respondeu que êle não sabia as culpas daquele homem, mas, como perdoar e soltar um preso era coisa boa, que não podia êle deixar de se inclinar a isso; e que ainda que na justiça êle se não metia, nem lhe impediria nunca fazê-la, que confessar, porém, os que houvessem de morrer lhe pedia que dali por diante lho permitisse sempre. Satisfez-se o governador muito desta resposta do padre, e não somente lhe prometeu # o que pedia, mas ainda lhe mandou o preso à igreja, »fi. 14. para que o confessasse e, confessado, o mandasse livre para sua casa. Assim o fêz o padre; e o pobre homem, que cuidava que dali havia de ir para a outra vida, quando se viu ir para sua casa, sôlto e livre, não cabia de prazer, nem se fartava de rezar e dar graças a Deus e a quem o soltara, fazendo novos propó- sitos de ser bom cristão. Há, por todo êste reino de Figém e no interior dêle, muitos cristãos, os quais o padre, que nêle reside, vai visitar, todos os anos, com muito fruto assim nos já feitos como nos que de novo se baptizam; com que, por todo êle, se vai espalhando a semente do Evangelho, e ainda na cidade principal, em que está o maior senhor e mais rico e poderoso de todo êle. Onde também vivia uma mulher nobre, viúva, com um filho seu, ambos cristãos, pessoas de nome e fazenda, a qual parece que Deus ali pôs, como amparo dos cristãos, animando-os e consolando-os no espiritual, e também no temporal do padre, quando lá vai,
  • 23o Das coisas de Japão agasalhando-o em sua casa, e aos mais que com êle vão, com muita caridade e liberalidade. E com os cristãos, que estão em suas terras, fazem ela e seu filho tanto, que, além de ser de grande edificação para os mesmos cristãos, é também de grande espanto para os gentios. Porque a estes persuade que recebam o sagrado baptismo, com muito zelo e desejo do serviço de Deus e bem de suas almas. E, quando se convertem, eles são os padrinhos de muitos, e por suas mãos lhes repartem as contas de rezar, encarecendo-lhes a estima em que as hão de ter; e a seus afilhados procuram logo ensinar as orações e as mais coisas da nossa santa fé; e em sua casa costuma sempre esta senhora ler às mulheres, que a servem, que são muitas, alguma coisa da doutrina cristã ou Guia de • fi. 14v. pecadores, * com que muito se aproveitam na virtude e no conhecimento das coisas de Deus. E, se assim o fizeram também as donas e cristãs antigas destas partes de Europa, suas casas andaram mais reformadas e Deus morara mais nelas. Finalmente, com os conselhos desta senhora e de seu filho, crescem aqueles cristãos em número e devoção; e não sòmente os de suas terras, senão outros que ali também concorrem doutras partes, de modo que é para dar graças a Deus que tal zêlo lhes deu de seu divino serviço e bem das almas. CAPÍTULO IV De algumas missões que de Nangasáqui se fizeram a várias partes COMO a cristandade de Japão está espalhada por tantas partes, em mui- tas das quais não residem padres, ou pelos senhores gentios serem inimigos da lei de Deus e não o consentirem, ou por não haver como- didade para isso, é necessário buscarem-se todos os meios para os cristãos, onde-quer-que estão, serem visitados e consolados dos padres; o que se faz por via de missões, de que se colhe singular fruto, e Deus é muito servido e glori- ficado. Nas terras e ilhas de Firando, há muitos anos que aqueles antigos cris- tãos estão sem padres e sem igrejas, pelo senhor delas os não consentir, pelo que recebem grande pena; e não menor por não poderem fàcilmente deixar suas terras e ir-se para onde residem os padres com que se criaram. Conser- vam-se, porém, todos firmemente na fé, e não deixam, quando podem, de vir a •fi. i5. Nangasáqui e a outras partes, onde há padres, para se confessarem e * consola- rem com eles, arriscando-se muitas vezes com isso a o senhor das terras e seus governadores os tratarem mal e perseguirem por essa causa. Este ano, porém, se buscou uma boa ocasião para os que moram na cidade de Firando poderem ser ajudados, e foi que, indo uns padres nossos para Meaco e outros reinos, que estão para aquela parte, se lhes ordenou fizessem o caminho por Firando, e com todo o segredo saíssem em terra, como fizeram; e sem serem sentidos daquele senhor gentio nem de seus governadores, se recolheram a casa dum cristão, onde confessaram alguns trezentos, gastando nisso dois dias e duas noites, sem quási descansarem, por assim o pedir a devoção daqueles cristãos, e o grande desejo, que tinham, de alimpar suas almas e cobrar novas forças por meio deste sacra- mento, para perseverarem na fé; e assim ficaram muito consolados e animados.
  • Das coisas de Japão Outra missão se fêz às ilhas do Goto, onde os padres visitaram aqueles cristãos e gastaram com êles alguns dias, com grande consolação dos mesmos e não menor dos padres, por verem a fortaleza e virtude com que aqueles bons cristãos, não sòmente se conservam, há tantos anos, entre gentios, senão que cada vez mais vão crescendo no número com os que de novo se convertem, que foram êste ano mais de sessenta; e entre êles alguns, por cujo meio se espera a conversão de muitos. O senhor daquelas ilhas se há bem com êles, deixando-os viver pacificamente na santa lei de Cristo, que teem tomado; e da mesma maneira se há com os padres, quando lá vão, fazendo-lhes muitos cum- primentos e convidando-os a comer em sua casa, sem em nada lhes impedir a cultivação daquelas almas; e da mesma maneira se hão seus governadores. * Grandes e pequenos todos sabem a doutrina muito bem, e se ajuntam os «n. 15 r. meninos, a seus tempos, em certas casas para isso deputadas, onde a dizem; e ainda na própria povoação, em que reside o Tono, que é quási tôda de gentios, a andam dizendo em voz alta, a-pesar do demónio e seus ministros, que o sen- tem grandemente. Outra missão se fêz de Nangasáqui à cidade de lendo, nos reinos de Cantó, que são os últimos de Japão para a parte do norte. Indo um padre visitar o Cubo e a seu filho morgado, que nela tem sua corte, e também a tratar alguns negócios de importância para o bem da cristandade, passou por Meaco, donde até lendo, haverá dez ou doze jornadas; e foi o primeiro sacerdote da nossa Companhia, que fêz aquele caminho, o qual desde Meaco até lendo é todo feito à mão, de largura de sessenta ou mais palmos, muito plano, e de uma parte e doutra todo de pinheiros plantados de novo, em igual distância uns dos outros, que faz o caminho muito fresco e de grande recreação aos caminhantes que vão por entre êles. Há muitas povoações, por todo êle, e muitas estalagens bem providas e limpas, e a cada jornada, e ainda menos, há algumas povoações principais de bons aposentos, com suas fortalezas e soldados de guarda, com que o caminho fica mais seguro. Tem seus marcos a cada légua, e há, também, pelo discurso dêle, algumas antigualhas de lugares, nomeados em Japão, que aos passageiros são de muito alívio, entretendo-se nêles, e vendo o que tanto cele- bram e engrandecem as histórias de Japão. Entre estas tem o principal lugar as ruínas da antiga Camaçura, corte de Ioritono que, antigamente, senhoreou todo Japão. Por todo o caminho daqueles reinos, sòmente no reino * de Micava achou . fl iô. o padre um cristão médico antigo, pôsto-que em outras partes haveria outros, o qual, com morar entre gentios e ser só, sem haver outro cristão naquela povoação, e ainda com ter a mulher e filhos gentios, se conserva há tantos anos na pureza da fé e firmes propósitos da guarda dos mandamentos, com tanto cuidado, que a todos é um grande exemplo de vida. Admirou-se o padre de ver sua firmeza na fé e modo de viver. Tinha seus livros espirituais e, entre êles, um catecismo escrito de mão, de que se ajuda para convencer os gentios e dar razão da lei que professa. Seis vezes tinha passado o livro de Guia de pecadores, que anda impresso em língua e caracteres de Japão, e notadas as dúvidas, que lhe ocorriam sobre êle, para as vir resolver a Meaco com os padres. Deu conta ao padre de todas suas devoções, e modo que tinha de se encomen-
  • 232 Das coisas de Japão dar a Deus, mostrando sumo desejo de ouvir coisas espirituais e ser nelas ins- truído. Quando chegou o padre, o saiu a receber fora de sua casa, com dois rosários de contas ao pescoço, dizendo que ninguém por isso o repreendia» antes, procedendo daquela maneira publicamente e manifestando-se por cristão» tinha muita entrada com o senhor da terra; e que, para que nenhum gentio ousasse de o acometer, era necessário mostrar-se assim forte, armando-se ainda por de fora com tais armas e insígnias de cristão. Agasalhou ao padre com muito amor, mas a melhor iguaria, que lhe deu, foi o resolver-se em levar logo sua mulher e filhos a Meaco, para se baptizarem, que o desejavam, havia muito tempo. Chegou o padre com seu companheiro à cidade de lendo, que agora é a • fi. 16v. principal e cabeça de todos os * reinos de Cantó. Fêz sua visita assim ao Cubo como ao filho. Ambos lhe fizeram muitos favores, e deram bom despa- cho a seus negócios, no que particularmente se esmerou mais o filho, man- dando-lhe um presente de algumas barras de prata. Os mesmos favores lhe fizeram muitos senhores da corte, mandando-o também visitar com seus pre- sentes, e convidando-o em suas casas, com muitos sinais de amor e cortesia. E lendo cidade grande e formosa, ao modo de Japão. Está fundada junto do mar, em altura de trinta e cinco graus, pouco mais ou menos, não tão fria como Meaco, e de clima mais temperado, pela visinhança do mar. Tem várias cavas e esteiros em que entra a maré, feitos todos a poder de braço, fundos e tão capazes que entram por êles embarcações de boa grandeza, carregando e descarregando em várias partes da cidade, com grande comodidade dos mora- dores dela e estrangeiros. A fortaleza, que nela tem feito o Cubo, é mui grande, e terá de roda mais de uma légua nossa. Os muros são mui largos e altos, ainda que de pedra sossa, mas mui igual e unida uma com outra. Tem suas cavas ao redor mui fundas e largas, que a fazem mais forte e quási inexpugná- vel. Nela tem o Cubo todos seus paços, e da mesma maneira seu filho e muitos outros senhores da sua corte, com o que parece muito mais populosa e aprazível à vista. Não está de todo acabada; mas como nela trabalha todo Japão, con- correndo gente de todo êle, cedo terá fim, ficando uma das melhores e mais nobres coisas que nele haverá. No tempo que o padre chegou a lendo, estavam em grande aperto os poucos cristãos que ali havia. A causa foi porque, não faltando quem dissesse ao • fi. 17. Cubo e * a seu filho, havia ali grande número de cristãos, parecendo-lhes ser assim, mandaram a seus governadores que, com diligência, vissem e examinassem quantos eram, e os fizessem a todos retroceder; e que, dali por diante, nenhum se fizesse, mais, cristão, assim na dita cidade de lendo como em todos os mais reinos de Cantó. Os que se acharam ser cristãos foram mui poucos; porém, esses, ao tempo que o padre chegou, estavam bem afligidos; porque, ainda que não chegaram com êles a fazê-los retroceder, tinham contudo os governadores proibido que ninguém mais se fizesse cristão, nem emprestasse casa a cristão, nem recebesse em sua casa os padres, se ali viessem; e disso tinham tomado assinados aos moradores de todas as ruas. Pelo que, chegando o padre e en- trando na cidade, sabendo-o os principais gentios de uma rua, onde o padre se foi agasalhar, começaram a querer entender com o dono da casa, por receber o padre nela, contra a proibição, que estava posta, sem primeiro pedir licença para
  • Das coisas de Japão 233 isso. Porém tanto que souberam que o padre não ia mais que visitar o Cubo e seu filho, e os favores que de ambos recebia, se quietaram logo, e o dono da casa ficou muito alegre por ter nela o hóspede. Foi grande a consolação que aqueles poucos cristãos receberam com a ida do padre em tal conjunção. A mesma sentiram muitos outros que ali se acharam e vinham de diversas partes a seus negócios. Confessou-os o padre; satisfez-lhes a suas dúvidas. Instruí-os como se haviam de haver em semelhantes tempos; repartiu-lhes contas e nómi- nas e outras insígnias de cristãos, com o que todos ficaram mui animados para terem mão nas coisas da fé. Além disto muito agradecidos por a liberalidade com que o padre * repartiu com os mais pobres alguns fardos de arroz que * fi. 17 v. diversos senhores da corte lhe tinham mandado de presente. Foi de muito grande exemplo para êstes poucos e novos cristãos, a firmeza que um cristão antigo aqui mostrou de sua fé. Fora este criado com os padres em nossa casa; o qual ouvindo que o Cubo e seu filho mandaram tornar atrás os cristãos, confiado em Deus que o ajudaria, e com grande esforço e ânimo se foi diante dos governadores, e lhes disse como êle era cristão de muitos anos e não feito de agora; que soubessem de certo que antes havia de morrer que deixar a fé; provando com tais e tão eficazes razões a verdade e bondade de nossa santa fé, que os governadores, convencidos com a força delas, e não menos espantados de sua constância, lhe responderam brandamente que, como era antigo cristão, se fôsse em boa hora, que com êle não entenderiam, já que estava tão resoluto em não deixar de o ser, pelas razões que dava que a eles lhes pareciam muito boas. Moram naquela cidade e perto dela alguns ingleses e holandeses, que serão como sete ou oito, que os anos atrás foram ter a Japão em uma nau que o Cubo lhes tomou e mandou levar ao Cantó, e estão já ali como moradores da terra, com suas casas e famílias. Viu-se o padre com o principal dêles e lhe ofereceu da parte do Bispo salvo-conduto para seguramente se poderem vir a Nangasáqui, e daqui para onde quizessem. E pareceu fazer-lhes este ofereci- mento, porque sendo herejes poderiam com sua estada em Japão semear algum êrro no ânimo daqueles cristãos tenros na fé, sem se lhes poder ir à mão por estarem em terra de gentios. Não teve isto nenhum efeito, pôsto-que o inglês agradeceu muito o oferecimento, dando por razão que o Cubo lhe não daria licença, * por algumas causas que para isso havia. Não deixou o padre de • fi. 18. fazer seu ofício para ver se o podia reduzir à fé católica; mas como estava tão obstinado em sua cegueira, nada aproveitou. CAPÍTULO V Das coisas que passaram em Arima e seu distrito COMO todo êste estado de Arima é cristão, não há nêle nova conversão de gentios, salvo dalguns forasteiros que para êle veem; mas toda a ocupação e trabalho dos padres (que são, entre os que estão no colégio e residências, treze sacerdotes e outros tantos irmãos), é em cultivar e doutrinar 3o
  • Das coisas de Japão os cristãos já feitos, com os quais fazem mui grandes serviços a nosso Senhor, andando continuamente discorrendo pelas povoações e lugares daquele estado, curando e ajudando aquelas almas; com o que está muito florescente em todo ele o culto divino e a devoção e piedade cristã; no que dão singular exemplo a seus vassalos Dom João Arimandono e Justa sua mulher, senhores dêste estado. Aos quais este ano nasceu um filho macho, tão desejado deles e de todos, com o que ficaram muito mais agradecidos a nosso Senhor que lho con- cedeu depois de tantos anos; e em sinal disso ofereceram a nossa Senhora um rico ornamento com que no dia do baptismo se ornou o altar. Puseram nome ao filho Francisco, em memória do B. Padre Francisco Xavier. Provou nosso Senhor êste ano a êste príncipe com um arrevesado aperto em que se viu jun- tamente com Omurandono seu primo também cristão, por razão de uma calúnia e acusação que alguns émulos seus fizeram dêles diante do Cubo, com tanta exageração e eficácia que causaram ao Cubo grande ira e agastamento contra eles. Foram porém logo avisados do que passava, pelo que se foram com muita pressa a Meaco a desfazer a calúnia e dar razão de si, mas não sem • fi. 18 v. grande sobressalto * do padre e de toda a cristandade de suas terras por arre- cearem poder isto ser causa dalguma alteração ou mudança de estados, que para a igreja de Arima e Omura não podia deixar de ser de mui grande pre- juízo. Pelo que logo em êles se partindo, se procurou com Deus, com muitas orações, devoções e penitências o socorro que só de sua misericórdia se espe- rava, como tudo bem mostrou o sucesso com que tudo se acabou. Porque chegando ambos à corte e correndo sua causa diante do Cubo, ainda que nela houve muitas dificuldades, foi nosso Senhor servido ajudá-los de tal maneira, principalmente a Arimandono de quem tinham dado mais culpas, que não somente ficou limpo, mas tido do Cubo em tal reputação que agora mais que nunca o favorece. Pelo que logo de Meaco escreveu uma carta a Arima em que se mostrava mui agradecido a Deus, referindo todo o bom sucesso de seu negócio por meio das orações que por isso se fizeram; acrescentando mais que mandando dizer uma missa por esta intenção, à qual assistiu, acabada ela lhe viera recado do paço como seu negócio estava conçluido de maneira que mais se não podia desejar, e por isso com muita pressa fôsse logo dar as graças ao Cubo; pelo que muito mais se confirmava vir-lhe êste bem puramente do Céu. O fruto que se faz pelas residências sujeitas ao Colégio de Arima é muito grande, onde sempre acontecem vários casos com que nosso Senhor vai con- firmando a fé daqueles novos cristãos. Entrou o demónio em um gentio que vivia onde havia alguns cristãos. Ajuntaram-se os bonzos, e fazendo-lhe suas deprecações para que se saisse por espaço de três dias, ao cabo dêles respon- deu: eu sou substância e vigor da arvore da cânfora; e porque agora nêstc • fi. 19. tempo os homens cortam estas árvores, * agastado disso entrei nêste e o trato mal. Acudiu um dos cristãos dizendo-lhe: Se assim isso é, porque te não metes na gente de Sacujemundono, que era um senhor? Respondeu o demó- nio: porque êsses são cristãos e não me posso meter nêles, nem tenho poder para isso. O que muito confirmou e alegrou os cristãos e confundiu os gentios. Um velho de oitenta e cinco anos, estando doente, mandou chamar o padre a quem chegando disse: Mandei chamar a vossa reverência para saber
  • Das coisas de Japão 235 se vou bem no modo que tive de proceder até agora, e também o que me convém fazer neste passo para salvação de minha alma; porque há cinco anos que nenhuma matéria sinto de pecado pela grande vigia que tenho em mim; mas porque tenho algumas dúvidas, quis que vossa reverência me tirasse delas. Propô-las; e a principal foi se Deus remunera sòmente o bem que se faz se não também o desejo de fazer mais. O padre lhe respondeu a tudo, e juntamente lhe disse que tivesse grande confiança na Paixão de Cristo Senhor nosso; ao que tornou o velho: Padre, êsse passo nunca o tiro da minha memória, pôsto-que não posso alcançar as dores que ele por mim padeceu. Disse mais, haverá quatro anos que estando eu doente na cama, veio ter comigo um mancebo e me disse: fuão, não andeis com tanta vigia e escrúpulo em coisas que não im- portam, nem cuideis que tudo o que ouvistes ao padre nas pregações é assim, que muitas coisas são encarecimentos; pelo que não vos mateis tanto pela sal- vação. Ao que respondi: já quem hei de dar mais crédito? a um padre que todos dizem é bom e virtuoso e que fala verdade, ou a vós que sois um man- cebinho, e não sei quem sois nem donde vindes, nem menos quanta verdade me faláis? O que me parece é que não vindes a estas horas aqui com * boa intenção. Pelo que logo saí da cama e arremeti a este bordão que tinha junto de mim, mas indo para lhe dar com ele, desapareceu. Pelo que tive para mim que era demónio. Resposta, certo, mui digna de ser imitada de muitas pes- soas e em muitas ocasiões onde ela muito bem vinha, e lhes podia ser único remédio para evitarem muitos males em quem (se expõe) a cair pela facilidade em crer, e fraqueza em resistir a tal inimigo, quando, revestido em semelhante figura, procura fazer a sua. Dito isto perguntou o bom velho ao padre se neste acto de assim responder e querer espancar este inimigo sem saber quem era, cometera algum pecado. Satisfêz-lhe o padre; e o bom velho acabou com muitos sinais de sua salvação; o qual era tão grande esmoler que tinha por cos- tume dar a pobres tudo o que lhe sobejava de seu comer e vestir. Uma menina de seis ou sete anos acertando de cair uma queda de alto, deu com a cabeça em uma lagem, e com uma pancada tão grande que ficou sem fala e como morta e sem dar acordo nenhum de si. Acudiram-lhe, e, tomando-a nos braços, esteve daquela maneira um dia e uma noite, sem poder tomar mezinha, nem levar nada de comer para baixo. A mãe, como era muito boa cristã, não fazia senão com muita devoção encomendar a filha a nossa Senhora, pondo-lhe muitas vezes no rôsto uma imagem que tinha da mesma Virgem; e fêz um voto de correr, pela saúde de sua filha, um bom número de igrejas; senão quando a menina subitamente, abrindo os olhos, começou a falar à mãe, dizendo fava are, are, que quere dizer: mãe, eis ai, não vêdes? * A mãe que tinha a filha nos braços, ouvindo-a falar daquela maneira (que foram as primeiras palavras que disse depois da queda), como não via nada, cuidou que lhe morria, e perturbada lhe perguntou que era o que via, porque não estava ali mais que seu pai; e logo em continente a menina se achou melhor, e começou a falar; e disse ao pai e à mãe que o que vira fora entrar pela porta de casa a Virgem nossa Senhora com o Menino Jesus nos braços, formossís- sima por extremo, muito ricamente vestida com um vestido que resplandecia como oiro; e com ela outra menina do seu tamanho da doente, e também muito
  • 236 Das coisas de Japão bem vestida; a qual chegando-se junto da doente, lhe deixou a par dela uma bandeja doirada com um como envoltório em papel muito fino; e logo junta- mente a Senhora e ela passaram para o interior da casa. Isto mesmo contou depois a menina na igreja aos cristãos: e assim pela simplicidade e candura com que dizia, como pelo que precedeu da devoção tão afectuosa com que sua mãe a encomendou à Senhora, e efeito que logo se seguiu da saúde, se pode bem e piamente crer que a piedosa Senhora lhe quereria fazer aquele favor, e consen- tiria que visivelmente fosse vista, para mais confirmar aqueles pios cristãos na devoção que lhe tinham e incitar a outros a lha terem. Ao colégio de Arima estão também subordinadas as residências da cristan- dade das ilhas de Xiqui, Couzura e Amacusa, em que andam ocupados três padres e dois irmãos nossos, de cujos trabalhos, que são mui grandes, se serve muito nosso Senhor para aquela cristandade ter mão e perseverar firme na fé que os demónios, o ano passado, por meio de seus ministros procuraram de • fi.2ov. lhes tirar naquela forte perseguição que contra êles * levantou Tarazava, senhor daquelas ilhas, em que lhes derrubou e destruiu quantas igrejas tinham; por onde a cultivação e cura daquela cristandade ficou sendo para os padres por extremo dificultosa e trabalhosa; porque como não teem igrejas onde se possam ajuntar os cristãos livremente a ouvir missa e receber os sacramentos, é neces- sário andarem-no fazendo por casas particulares, que para isso se acomodam o melhor que pode ser. Mas o poderem-no ainda fazer de qualquer maneira que seja, é para aqueles cristãos de grande consolação, e êles o reconhecem por grande benefício de Deus. Em uma povoação sucedeu que tendo um gentio china levantado uma mui formosa casa junto ao sítio de uma das igrejas que foram derrubadas, a pri- meira noite que dormiu na dita casa, contou que tivera um sonho tão medonho, que nem ainda depois de acordado podia tornar em si de mêdo. O sonho era que, se naquela casa morava, havia de morrer; pelo que, todo cheio de mêdo e espanto, sem esperar mais um pouco, em amanhecendo se saiu dela com tôda a sua família, sem mais nela querer pôr pé; e indo-se para fóra da terra, a.veio oferecer ao padre de graça; que, por ser em tal sítio, e tão formosa e bem acabada para nosso Senhor ser nela honrado, a aceitou como dada da mão de Deus. Tirando esta falta que a cristandade destas ilhas tem das igrejas que a perseguição passada lhe destruiu, no demais, Tarazava Ximonocami que a ale- vantou, não foi mais por diante nela; antes se mudou e abrandou muito; pelo que os cristãos podem correr livremente na profissão da nossa santa fé, e os •fi-21 padres nos ministérios de sua cultivação. E foi muita parte desta mudança * a boa prudência com que os padres se houveram com êle, ainda no mesmo tempo em que mais perseguia a cristandade, não lhe faltando nunca com os ofícios e cumprimentos devidos conforme ao costume de Japão; com o que êle rendido e confundido, não sòmente não foi por diante na perseguição, antes também se houve com os padres, com os mesmos cumprimentos; e quando se oferecia ocasião, não faltou com alguns favores de importância, como foi na corte, diante do Cubo, sendo por êle perguntado sobre um negócio tocante aos padres, no qual deu muito boa e favorável informação.
  • Das coisas de Japão 2^7 CAPÍTULO VI De um notável caso que aconteceu em Arima de uma alma de um defunto que tornou a êste mundo AINDA que não seja coisa ordinária que as almas dos defuntos que estão no outro mundo tornem a êste, e muito menos as dos danados que estão no inferno, algumas vezes porém costuma Deus a permiti-lo, con- forme a doutrina dos santos, por seus secretos juízos, e para proveito e dou- trina dos que estão neste mundo. E nesta matéria sucedeu em Arima um estranho caso que é o seguinte. Havia nesta cidade um homem que, pelo nome de Japão se chamava Nangato, e pelo de cristão João. Havia trinta anos que fora baptizado, singular escrivão e notário de cartas, e por tal de todos conhe- cido e ainda do Tono. Êste, como desde menino fôra criado nas leis de Japao que negam haver alma imortal, e tinha ainda alguns parentes bonzos, pôsto-que se baptizou nunca porém de todo se pôde * persuadir haver alma, nem paraíso .FL«rr para bons e inferno para maus. Pelo que, quando falava destas coisas, as tinha todas por sonho, e assim o dizia a seus filhos e mais gente de casa; e por isso poucas vezes vinha à igreja e quási nunca à missa, salvo alguma por cumprimento; e pelo mesmo parece que também algumas vezes se confessava. Chegou êste homem a adoecer e morrer, de um achaque que teve por muito tempo, sendo de idade de setenta e três anos. E como os filhos e parentes eram bons cristãos e gente honrada, persuadiram-lhe que se confessasse; o que fêz antes de morrer; pelo que foi enterrado como os demais cristãos. Quinze dias depois de sua morte, vindo uma nora sua, por nome Marta, mulher do filho morgado, de fazer uma visita a umas parentas suas, sucedeu que, antes de che°ar a sua casa, ao passar de uma ponte, se achou de repente perturbada e como fóra de si, escurecendo-se-lhe a vista. Mas esforçando-se por chegar a casa, quando nela entrou já não dava acordo de si; mas achando diante de si uma sua filha, neta do velho Nangato seu sogro, a começou a tratar muito mal de coices, o mesmo fêz ao marido que estava deitado, dizendo-lhe: levanta-te, levanta-te. Pasmado êle de tamanha novidade, e alterado contra a mulher, ela lhe respondeu: (Como não me conheces que sou Nangato teu pai? E logo se deitou na própria postura e composição do corpo com que o velho costu- mava estar deitado no tempo da doença: e isto era na mesma casa onde o velho morara e morrera. Deitada desta maneira, chamou pelo marido, senhor da casa e lhe disse: Tirozái (que êste era o seu nome de Japão), * vem cá. Eu sou Nangato teu ti.sí. pai que vim cá a êste mundo, metendo-me nesta minha nora para te avisar do estado em que estou. Manda chamar a Marina e Inês (que eram suas filhas) e a Madalena (que era sua mulher), porque lhes quero falar. Inês e Marina que estavam perto, acudiram logo como esmorecidas e atónitas da novida e. E chegando Madalena perto de Marta, a mesma Marta, ou Nangato que nela estava, lhe ferrou dos peitos e começou a chorar correndo-lhe as lágrimas pe os olhos, e a queixar-se dela por se não achar à hora da sua morte, como também
  • 238 Das coisas de Japão se não achara a filha Inês (o que foi verdade porque não cuidaram que mor- resse tão depressa), da qual também pegando, como fizera da mãe, lhe deu algumas punhadas tão rijas, que dois ou três dias lhe doeram; e tendo a mão fortemente pelos cabelos como quem se queixava dela e de Madalena sua mu- lher, lhes disse: Eu sou aqui, vindo a vos dar conta do meu triste estado. Quando estava nêste mundo cuidava que não havia alma, nem outra vida, como tereis de mim ouvido tantas vezes, e que tudo era como um sonho. Mas agora acho que é bem diferente tudo do que eu cuidava; e que há paraíso para os bons e inferno e tormentos para os maus; e assim, logo depois que morri fui entregue nas mãos dos demónios, e ardo em vivas chamas, e sou manjar do Iemão (que conforme ao que dizem os japoes é um dos reis do inferno) e sou dêle cruelmente despedaçado; e os tormentos que agora padeço no inferno são tão grandes que se não podem contar nem imaginar. Pêsa-me muito de perder o paraíso que os bons cristãos alcançam, e lhes tenho grande inveja: e ditosos •fi.2jv. * êles que crêem, e desditoso de mim que não tenho remédio. Pelo que vos digo, Tirozái, que sejais bom cristão e não vos descuideis nas coisas da salva- ção nem desmandeis no vinho. Tudo isto dizia com grande sentimento, como quem tinha pesar e dor do passado, batendo rijamente nos peitos, com um sem- blante e modo de pessoa mui afligida e atormentada. Morava dentro do mesmo pátio da casa um cristão, criado do Nangato, o qual ouvindo o estrondo e matinada que havia na casa do senhor, acudiu logo correndo com muita pressa; e ouvindo que Nangato viera a êste mundo, e se tinha metido em Marta sua nora, chegando-se à mesma Marta, a abraçou como quem abraçava seu senhor; e Marta, tomando-lhe as faces do rosto com ambas as mãos, lhe disse que fosse bemvindo. Perguntou-lhe logo o criado: senhor, que é isto? Respondeu: Estou ardendo em vivas chamas, e são tantos os tormentos que padeço, que os não posso explicar. Pois que vos faremos? disse logo o criado. Respondeu: não tendes que rezar por mim por que já não tenho remédio; já nada.me aproveita. O que disse com um grande sentimento e eficácia. Perguntou-lhe mais o criado por que viera a êste mundo. Res- pondeu: por que fui mau cristão e não tive conta com a igreja. E dizendo isto e outras coisas semelhantes, a cada passo gritava: ai! que me asso, ai! em vivos fogos. E pelo trabalho e tormentos que sentia, interrompia muitas vezes as palavras, como quem tomava folgo e respirava para melhor poder falar. Tor- nou-lhe a dizer o criado. Assim será que vos abrazais; mas êsses tormentos não se vêem por fora. Respondeu: não são tormentos êstes que se vejam por •Fi.a3. fora: basta que os sinto eu. E repetindo muitas vezes * isto de seu termo, batia fortemente nos peitos e dava pancadas mui grandes não sòmente em si mas em alguns dos circunstantes. E tanta era a força que tinha, e fúria com que estava, que estando algumas pessoas abraçadas com a nora para a terem mão, não podiam com ela. Finalmente por fim de tudo lhe disse o criado: Vai não podeis ser Nangato, pois êle se chamava João, e quem tal nome tinha não se havia de condenar. João sou eu, disse êle, e estou ardendo. E per- guntando-lhe também a filha Inês se se salvará, respondeu: qual salvar! se eu fui sempre mau cristão, como me podia salvar? Tornou a filha: ,;Pois, pai, as missas que nós mandámos dizer, e as muitas orações que por vossa alma
  • Das coisas de Japão rezámos, porventura aproveitaram-vos alguma coisa? Respondeu que nada disso sabia, e que não rezassem nem fizessem por êle exéquias, porque nada lhe havia de aproveitar. Tinha o defunto outro antigo criado, o qual também se achou aqui pre- sente (porque ainda que acudia muita gente, não deixavam entrar senão os mais familiares e parentes, porque haviam a mulher e os filhos que era grande desonra sua e da mesma alma do defunto, saber-se publicamente que se não salvara, e que êle mesmo o confessava com tão evidentes sinais de ser aquela a própria alma de Nangato); vendo pois êste criado, que era mui bom cristão, a grande mudança que de repente Marta fizera em si mesma, assim no falar como nos meneios e descompostura do corpo, dando tão furiosamente pancadas ora em uns ora em outros, e particularmente em Madalena, mulher do mesmo defunto, dizendo que sentia alívio e desabafava em dar nela, a subjugou por detrás * abraçando-se com ela, para ter mão que não tratasse tão mal as pes- »fi. a3v. soas que estavam perto, ela lhe virou o rosto, e com o mesmo geito e modo que Nangato vivendo tinha em falar, lhe disse: ^ Porque te chegas a mim e me abraças dessa maneira? ^Não sou eu Nangato teu senhor? mostrando-lhe juntamente nestas palavras tal severidade e império, que perturbado o criado e como pasmado, conhecendo a voz de seu senhor como lhe falava vivo, largou logo a Marta e se pôs diante dela com tanta reverência e acatamento, e com os joelhos em terra como lhe fazia quando êle estava neste mundo, e se deixou estar todo atemorizado. Deste criado disse êle aos circunstantes: Fuão (no- meando-o por seu nome) é bom homem, simples e recto, e suas orações são ouvidas por ser homem de comunhão; e não conheci que tal era em vida, senão agora depois de morto. Amava êste criado muito a seu senhor e também era amado dêle; pelo que, vendo êste caso tão novo e lastimoso, não podia ter as lágrimas, considerando os tormentos eternos e sem remédio que seu amo pade- cia, e ser condenado para sempre. Achou se também presente a êste espectáculo o pai de Marta em que Nan- gato estava, a quem, chamando por êle, disse: Chegai aqui e sabei que muito tempo andei com queixumes desta vossa filha, por me parecer que vos fazia a vós, seu pai, mais favores que a mim, mas não era tanto como eu cuidava. E, falando com sua filha Inês e Madalena sua mulher, lhes dizia também: Bem sabeis quantas vezes tenho murmurado comvosco desta Marta, minha nora, mas contra razão, pois ela não tinha culpa, antes é boa cristã; e por isso sou também agora atormentado e feito * manjar de Iemão, e me foi isto também • fi. 14- grande impedimento para minha salvação; e quando isto dizia batia nos peitos mui rijamente. Tinha Marta uma velha ama sua, que a criára, que também ali estava pre- sente. Esta, vendo as grandes pancadas que Marta dava com a mão no chão, e a fúria tão veemente com que se feria nos peitos, e dava nos circunstantes que estavam junto dela, temendo que ficasse maltratada, ferrou dela por detrás subjugando-lhe os braços, ao que disse Nangato: Velha, deixae-me, que não hei de fazer mal a Marta, nem ela sentirá nada, e como me fôr ficará como dantes, nem eu tornarei mais aqui. A filha mais velha, chamada Marina, e pela língua de Japão Matçú, por morar em outra povoação um pouco longe, não se
  • 240 Das coisas de Japão achou desde o princípio presente a êste caso; mas levando-lhe lá recado da parte de seu pai que a chamava, ficou como pasmada, e muito mais depois que chegou e soube o que passava; a quem o pai disse em chegando: ^Pois, Marina, como vindes tão tarde? bem sei que vos achastes à minha morte. Ao que ela respondeu:
  • Das coisas de Japão 241 a alma do miserável Nangato que na nora se metera, e assim o afirmavam, per- suadindo-se a isso pelos muitos sinais que viam tão claros e tão próprios do defunto como quando lhos viram em vida. De maneira que a todos parecia que presencialmente estavam tratando e falando com êle, pois em tudo viam na nora os mesmos meneios do corpo e mais membros que nele conheciam, até mostrar na mão direita como a tinha aleijada, com os dedos juntos e as pontas de três dedos como cortadas, e da mesma maneira e postura que tinha quando vivo, e as palavras rètóricas e as frases as mesmas que costumava. O que falava era com tanta pressa e fúria que não podia caber em mulher tal modo. Os me- neios, movimentos, descompostura do corpo conheceram claramente serem do defunto Nangato, que era um velho livre e descomposto. Vendo pois tal espectáculo, estavam todos atónitos e maravilhados * dos justos e tremendos tFi. i5v. juízos de Deus, e por outra parte tristes de verem o infeliz estado daquela alma. E todos julgaram tão espantoso caso por coisa sobrenatural, e que Deus per- mitiu para manifestação do castigo eterno daquele miserável que sendo baptizado não cria as coisas da fé, e ainda falava mal delas publicamente; e também para com tal exemplo, além do que ensina a fé, certificar aos cristãos da imortalidade da alma, e como há glória para os bons e inferno para os maus, nem há outro caminho de salvação senão a lei de Cristo bem guardada, como a própria alma deste miserável confessava. E assim o dizia depois o filho morgado dêste defunto que, ainda que não houvera fé, não queria outro testemunho nem recado do céu mais certo de haver outra vida, que êste com que seu pai, já defunto, tão claramente lho certificou falando com êle. O fruto que disto se seguiu assim nos que se acharam presentes como nos mais que ouviram êste caso, foi muito grande, por quanto se confirmaram na fé, e entraram em si, andando por algum tempo como pasmados. E particularmente se viu êste fruto na nora que, ainda que era boa cristã, dali por diante foi muito melhor; e também em seu pai que, correndo até então friamente nas coisas da salvação, depois disto se viu nêle notável mudança. Do colégio que temos na mesma cidade de Arima foi um padre por ordem dos superiores a visitar a El-Rei de Satçuma, e, com esta ocasião, aos cristãos que estão naquele reino. Do Rei foi agasalhado e tratado com muita cortesia; dos cristãos como se fôra um anjo do céu; porque, como estão no meio daquela gentilidade e longe dos padres, quando lá vêem um, não se pode declarar a alegria e consolação que com êle recebem. E esta foi muito maior nos que estão metidos pela terra dentro, os quáis * havia anos que não viam padre, por *fi. j6. estarem em partes onde até agora se não pôde ir, por razão dos gentios daquele reino serem mui dados ao culto dos Camis e Fotoques. Baptizaranvse trinta e sete adultos, que em terra onde o demónio tem tanto poder, não foi pequeno serviço de Deus tiraram-lhos das mãos. E muito mais foi de estimar a noticia de nossa santa fé que o padre deu a alguns principais daquele reino, os quais ficaram com tanta satisfação e bom entendimento dela que desejaram alguns que El-Rei também a ouvisse. Andando o padre visitando os cristãos pelos diversos lugares em que estão espalhados, foi dar em um lugar, por nome Cabanave, treze léguas da cidade de Cangoxima, que é a corte à qual foi ter o Beato Padre Francisco Xavier quando foi a Japão, e nêle esteve alguns dias 3i
  • 242 Das coisas de Japão pregando; e entre os que converteu foi um deles o dono da casa em que se agasalhou, ao qual no baptismo pôs por nome Miguel; e em pago do bom gasalhado que dêle recebeu, lhe deixou uma relíquia do Lignum Cru eis, dois rosários de contas, e um jarro de porcelana cheio de água benta, que tinha no fundo pela parte de fora um selo de lacre com uma cruz no meio: o qual jarro tem agora os cristãos metido numa caixa de pau, muito bem guardado. Êste Miguel, ensinado pelo padre, baptizou depois um filho seu, sendo de idade de dez anos, ao qual também pôs o nome de Miguel que será agora de sessenta. Este segundo Miguel se encontrou e viu desta vez com o padre, e lhe contou tudo isto, e lhe mostrou as peças com grande consolação e alegria espiritual sua e do padre. Disse-lhe mais como seu pai Miguel à hora de sua morte lhe dis- sera como era e morria cristão, e lhe entregara o jarro de água benta e as contas e as mais peças que o Beato Padre lhe deixara, encomendando-lhe que • fi.26v. estimasse muito estas coisas, porque tinham muita virtude; e dito * isto mor- rera, haverá cinco ou seis anos, ficando êle com estas riquezas, pelas quais nosso Senhor obrara muitos milagres; e com as contas sararam algumas quinze pessoas de febres e outras enfermidades, e da mesma maneira com a água benta. Contou mais que no mesmo lugar deixara também o padre uma imagem de nossa Senhora da Anunciação, e um frontal com seu dossel, tudo de sêda. E que sabendo o senhor do lugar que em sua casa dêle Miguel havia estas peças, lhas mandou pedir para as ver como coisa antiga; mas como se vira com elas, nunca mais lhas tornara, do que êle, Miguel, e sua mulher Maria ficaram muito magoados: porque se tal souberam, antes perderam a vida que darem-lhas. Vendo-se pois o senhor da terra com tais peças, a imagem vendeu para os LuçÕes, do ornamento fêz vestidos para seus filhos. Mas não lhe faltou logo o castigo do Céu; porque quatro que vestiram êstes vestidos lhe morreram todos; e um que ficou está como doido ou endemoninhado e prêso no tronco. E como êste senhor era gentio, não parece que entendeu que isto podia ser castigo de Deus; mas abrindo depois mais os olhos, parece que o conheceu. Pelo que, agora desta vez foi ter com o padre, ouviu pregação e fêz que a ouvissem os de sua casa, e ficou com ânimo de se converter. Tem também êste Miguel uma irmã mais velha, que será de sessenta e seis anos, baptizada pelo padre Mestre Francisco, a qual vive no reino de Fiunga, e se conserva cristã há tantos anos, no meio de tanta gentilidade, com suas relíquias e Lignum Cruéis, que o Beato Padre lhe deixou. Houve num ano mui grande fome naquele reino, pelo que se viu Miguel em uma grande necessidade, mas sempre confiando em Deus que o havia de socorrer; e assim foi: porque indo um dia, apertado da fome, aos matos a buscar algumas bolotas para comer, esgaravatando acaso ao pé de • n.37. uma árvore, * descobriu dois pedaços de oiro, como cabo de canivete, com que ficou muito maravilhado, e se persuadiu que Deus lhe deparara ali aquela esmola para sustentação sua e de sua família, com a qual passou bem aquele ano com ser daquela idade. Esta foi a primeira vez que em sua vida êle e sua mulher viram ao padre, e a primeira também que se confessaram e ouviram missa; e com ser isto assim estavam tão fortes na fé como temos dito. Há neste reino de Satçúma um monte alto a que os gentios, e particularmente os que se cha-
  • Das coisas de Japão mam zamabuxes teem grande veneração. No mais alto dele arde fogo de con- tínuo que sai mui furiosamente como de outro Etna, e lança também espantosas pedras pela bôca daquela fornalha, que quando caem e dão em alguém o fazem migalhas. Passando pois êste Miguel por ali perto, viu sair e vir pelos ares uma grande pedra que sem remédio vinha cair sôbre êle. Fez o sinal da cruz, cha- mando pelos santíssimos nomes de Jesus e Maria que o livrassem; o que feito, caiu a pedra junto dêle, como se alguém a desviara, sem lhe fazer mal algum, ficando muito espantado do caso, mas muito mais agradecido a nosso Senhor. CAPÍTULO VII Do que se passou no reino de Fingo, e perseguição que nêle se tornou a renovar contra a Igreja NA relação passada do ano de 604, quando se tratou do martírio do santo mártir Simão, que na perseguição que então padeceu a igreja de Fingo, com outros cinco foi martirizado, se disse largamente do muito que um governador de Iatçuxiro, de nome Cacuzaimon, fêz pelo livrar, e o muito * que sentiu perdê-lo, pela estreita amizade que com êle tinha. Daqui ficou êste gentio com tão grande ódio contra os cristãos e tão desejoso de os destruir e extinguir de todo, principalmente aos tres Iifiacos, ou irmãos da caridade, Mi- guel, Joaquim e João (de que também então largamente falámos) por lhe parecer que êstes três sustentavam todos os outros cristãos, e foram a principal parte da firmeza que teve na fé seu amigo Simão, por onde o veio a perder, que não perdia ponto nem ocasião alguma de que pudesse lançar mão para perseguir os cristãos, que o não fizesse; como mostrou em vários casos que, ainda que na relação passada se tocaram, agora os trataremos mais largamente. E foi um dêles êste. Havia na cidade de Iatçuxiro um templo em que estava um ídolo de vulto doirado, o qual apareceu uma manhã muito maltratado, com os pés para riba, e alguns dos dedos e nariz cortados. Soube logo disto o gover- nador Cacuzaimon, pelo que se indignou gravemente, parecendo-lhe que nin- guém podia fazer ao ídolo tal injúria senão algum cristão. Manda logo aos cristãos da cidade que, pois êles tinham cometido aquele delito, tornassem a concertar o ídolo, pondo-o em pe como dantes estava, e refazendo-lhe os dedos e nariz. Os cristãos, como estavam inocentes, responderam que não havia razão para lhes mandar aquilo, pois êles não tinham feito o que lhes impunha. Além disso, que o que lhes mandava fazer era contra a lei santa que professavam, pelo que de nenhuma maneira viriam nisso. Indignou-se muito mais o gover- nador com esta tão resoluta resposta, e determinava pôr muitos cristãos a tor- mento para por esta via descobrir o malfeitor. Soube-se logo isto pela cidade. Mas como os japões são tão aprimorados, * e teem por grande desonra padecer »fi. 38. ou morrer algum inocente pela culpa que êles cometeram, sairam logo três gen- tios honrados, criados de Canzujedono (que foram os que tinham feito ao ídolo esta descortesia indo-se a recrear a seu templo) e se foram diante do governa-
  • 244 Das coisas de Japão dor, confessando-Ihe como êles, tomados do vinho, fizeram ao ídolo aqnela afronta; e porque tinham entendido que este delito se impunha aos cristãos, e haviam por isso de ser postos a tormento, para que isto se não fizesse nem os cristãos padecessem inocentemente pela culpa que êles três cometeram, se vinham todos oferecer para logo cortarem as barrigas, conforme ao costume de Japão, em pena de seu delito. Ficou com isto o governador desenganado da culpa que impunha aos cristãos, e aos três gentios perdoou fàcilmente. Não cessou todavia com isto do ódio e rancor que tinha contra a Igreja, mas tor- nando da corte Canzujedono para o seu reino de Fingo, e indo logo à cidade de Iatçuxiro, êle, que não esperava outra coisa, lhe foi dar conta como na dita cidade havia muitos cristãos contra seu mandado e proibição. Ao que respon- deu Canzujedono que, como era gente plebeia, pouco ia nisso; mostrando se algum tanto mudado do ódio que dantes se tinha visto contra a Igreja; o que se entendeu lhe nascera, de lhe ter estranhado em Meaco Fucoximandono, senhor dos reinos de Fingo a quem êle muito respeita, perseguir os cristãos em suas terras, dizendo-lhe que não fizera bem nem tivera razão, pois a lei que profes- savam era boa, e nenhum outro senhor em Japão os perseguia nem vexava por isso. Porém, nem com tudo isto se abrandou Cacuzaimon, nem amainou ponto • fi.28t. no desejo * que tinha de perseguir os cristãos; antes, vendo que não podia sair com seu mau intento, parece que cada vez crescia mais no ódio que lhes tinha; porque, sabendo como se tinha feito cristão um mancebo honrado e nobre que êle tinha em sua casa, não como criado seu mas como amigo, para o inculcar a Canzujedono, o sentiu grandemente e procurou logo por todos os meios possí- veis fazê-lo tornar atrás. Mas nada pôde acabar com êle, porque quando se baptizou, logo o fêz com determinação mui firme de perder antes quanto tinha, e ainda a própria vida, que deixar a fé que recebia. Êste foi aquele soldado que, por ordem deste mesmo Cacuzaimon, executou no santo mártir Simão e nas tiês mulheres e menino Luís a sentença de morte, como em seu martírio dissemos; o qual pelo exemplo que viu naqueles santos mártires, depois se con- verteu e recebeu o baptismo com grande fervor e fé. Vendo pois Cacuzaimon que o não podia dobrar a deixar de ser cristão, determinou de o trazer a isto por via de Canzujedono; e assim lhe foi logo dar conta do que passava. O qual lhe mandou dizer pelo mesmo Cacuzaimon que se o queria servir e receber dêle renda, deixasse primeiro de ser cristão. Ao] que respondeu o constante mancebo que não havia de trocar a fé que recebera, nem a salvação que por meio dela esperava, por tôda a renda temporal e caduca que Canzujedono lhe podia dar. L assim, vendo-se em Fingo sem remédio temporal por não perder o eterno, se foi para Nangasáqui; onde, com alguma pouca esmola que os padres lhe negociaram, se embarcou para o reino de Sião, a buscar sua vida bem pobre- mente, mas contente e alegre por se ver cristão, livre das mãos de tão grandes inimigos como eram Canzujedono e Cacuzaimon. Com êste sucesso tão diferente do que êste tirano Cacuzaimon desejava, e .Fi.29. magoado de não sòmente o ano passado * ter perdido a seu amigo Simão, e que também agora pela mesma causa da fé perdera Iifiógi, o mancebo acima dito, a quem êle queria muito e tinha em sua casa e desejava meter no serviço de Canzugedono, tão indignado ficou contra os cristãos, e principalmente contra
  • Das coisas de Japão os três Iifiacos João, Miguel e Joaquim, aos quais atribuía ter-se feito cristão Iifiogi, e depois de feito não querer retroceder, que determinou fazer todo pos- sível para que nenhum cristão ficasse em pé naquela cidade. E porque tinha para si que em quanto estes três estivessem cm pé, era impossível derrubar os demais, se resolveu começar por êles. E porque não se atreveu a começar esta obra sem consentimento e ordem de Canzujedono, lhe mandou logo pedir e alcançou dêle licença principalmente para perder os três. E porque entre estes o principal era João, o mandou logo chamar, e por têrmo que logo João en- tendeu o para quê. Pelo que, nada se perturbou com tal recado, antes se alvoroçou e alegrou, porque desde o martírio dos seis santos do ano passado, sempre andou aparelhado para outra semelhante batalha, e com mui grandes desejos de dar a vida por Deus e pela confissão da sua fé. Despediu-se de sua mulher, e com muita alegria se foi logo à fortaleza onde o governador estava: o qual vendo-o, o começou a repreender asperamente porque não somente êle era cristão, mas ainda persuadia aos demais que não deixassem de o ser, sabendo quão rigorosamente isto estava proibido por Canzujedono. Ao que João mui intrépido e sereno e com alegre rosto, lhe respondeu que êle não negava a culpa pois era tão manifesta em tôda a cidade, mas que nisto não entendia que des-servia a Canzujedono, porque o negócio da salvação era * livre, «Fi.jgv. e na mão de cada um estava aceitar o que melhor lhe parecesse: nem a lei dos cristãos prejudicava em nada a lei da lealdade que os criados e vassalos devem a seus senhores, antes a assegurava. E fazer êle êste ofício com os cristãos não era por outro respeito mais que por entender que nisso servia ao Deus verdadeiro a quem adorava. E que se por esta causa o quizessem matar e fazer em postas, não sòmente lhe não pesaria, antes folgaria muito por ser a coisa que mais desejava. Ouvindo isto o governador, e vendo que por ameaças nada aproveitaria com João, quis tentá-lo com afagos e favores; leva-o a outro aposento, convida-o com o chá, que é uma certa bebida ao costume da terra, trata-o com muitas mostras de amor, e procura dissuadí-lo com razões que deixe de ser cristão, usando para isso de mil artifícios. Mas Deus que prome- teu a seus Apostolos e confessores vobis dabituv in tila hora quid loquanwn, que quando se vissem diante dos tiranos em semelhantes passos êle lhes daria que falar e responder, tal graça e sabedoria comunicou aqui a João, e tal elo- quência para responder, que convencido Cacuzaimon, sem saber que responder palavra a suas razões, e desenganado também de o poder levar ao que queria, o mandou logo levar ao cárcere. Mas porque o que aqui passou entre João e êste tirano é coisa mui digna de ficar em memória para edificação e exemplo dos fiéis, e o mesmo João o refere em uma carta que do cárcere escreveu à igreja cristã de Iatçnxiro, por assim lhe ordenarem os padres que fizesse, pore- mos aqui a mesma carta trasladada fielmente de Japão em português, a qual diz assim: Por quanto me mandam os padres que vos escreva miudamente o que passei diante do governador Cacuzaimon, * fá-lo hei na presente, e é o que se segue. .h.Jo*. Fui chamado por êle à fortaleza juntamente com Iaiciomondono e Tiroquichi- dono. Indo pelo caminho disse a Iaiciomondono: parece-me que a causa porque estou chamado é por ser cristão. Se assim é, rogo-vos que não encobrais,
  • 246 Das coisas de Japão porque bem tereis sabido o bom aparelho que Zaquendo Simão fêz, quando por esta mesma causa o mataram: pelo que sendo costume dos cristãos pro- curarem aparelhar-se bem para morrer, peço-vos muito que se eu para isso sou chamado, mo não encobrais para que dês agora me vá aparelhando para aquela hora. Respondeu Iaiciomondono que tinha para si que nada disto havia. Che- gados à fortaleza entrou Iaiciomondono dentro do paço do governador, e Tiro- quichidono e eu ficámos fora, onde me disse Tiroquichidono: ^se vós quereis viver como cristão, porque já muito dantes vos não saistes de Iatçuxiro e mais terras de Canzujedono onde há proibição que ninguém o seja, para outra parte onde livremente o possais ser? Respondi que de propósito o não fizera, por- que, ainda que mau e pecador, desejo muito dar minha vida por amor de Deus e pela confissão da sua fé. O que ouvindo Tiroquichidono, me disse: coisa é essa certamente rara e maravilhosa. Estando nisto tornou a sair Iaiciomondono, e me disse: A causa pela qual sois chamado é a que vós imaginastes, por serdes cristão. Emfim me levaram dentro a casa do governador. Ele me saiu a receber encostado a um arco que lhe servia como de bordão, e me disse:
  • Das coisas de Japão 247 da Companhia quando ali viesse. Com isto me ensoberbeci muito mais, pare- cendo-me que nem os irmãos nem os padres poderiam contra mim. Se não quando, nesta conjunção, tornando da guerra da Coreia Mimazaca Diogo, e per- suadindo a todos os da terra que se fizessem cristãos, eles lhe obedeceram baptizando-se todos, e eu com êles. Mas primeiro examinei e ponderei muito bem todas as razões que os cristãos trazem, com que provam haver salvação. Ouvi prègaçoes, li diversos livros e entendi haver um só Criador do céu e da terra, e de todas as coisas, e que não havia razão para se dizer que as criaturas se produzem por si mesmo e acaso. Ouvindo isto Cacuzaimon, e vendo que eu com razoes lhe queria provar haver um só Criador destas coisas, haver salvação, e que a lei de Cristo que isto ensina era a verdadeira, rindo-se me disse: Graciosa coisa fôra que quem inquire e pretende castigar os cristãos, ficasse convencido dêles. Eu nunca tive a Amida nem a Xaca por salvadores, nem me parece que, só por dizer Namuamidabut, se pode um homem salvar, como dizem os bonzos. E o mesmo digo também dos cristãos, que não me parece que por dizer Jesus, Maria, se poderá um salvar. E assim como Xaca tem ensinado muitas parvoíces e enga- nos, assim também não sei se os padres são enganadores ou se teem algum mau intento, nem menos sei o que é, nem o que pretendem. E como veem de reinos remotos, e pregam * coisas da sua terra, não sei também se o que dizem *fi.3it. é verdade ou não. E por os padres arrazoarem bem e dizerem coisas que agra- dam aos homens dar-lhes fàcilmente crédito, é coisa que não alcança o meu entendimento. Nem eu tampouco me fundo (lhe respondi a isto), nem total- mente faço fincapé em o que dizem os padres, só por êles o dizerem; mas sòmente dou crédito e faço caso das razoes que trazem as quais são as que convencem: ;porque quem não faz caso da razão como poderá discernir entre a verdade e a mentira? E para achar a verdade, ponha vossa mercê os olhos no céu e na terra e em todas as criaturas, e atente bem por elas. E começando pelo homem, e inquirindo donde nasceu e se produziu, por derradeiro há de vir a dar em dois primeiros, homem e mulher, que foram os primeiros pais de quem descenderam todos os mais. Pois pergunto: ,:êstes dois primeiros homens donde saíram? jDo céu ou da terra ou do ár? Não se pôde dizer que do ár, porque bem vemos, que do ár não chovem homens. Nem menos do céu porque o céu (os) não lança; nem brotam ou rebentam da terra, porque isso só é das árvores e das plantas. Pelo que não pode deixar de haver um Criador que as criasse. O mesmo digo de todas as mais criaturas, as quais todas foram criadas por um Criador. Aqui me tornou Cacuzaimon: mui difícil de entender é isso que vós dizeis. Mas o que parece é que, ajuntando-se e unindo-se os quatro elementos, se pro- duzem as criaturas, e a seu tempo espalhando-se outra vêz e desunindo-se os mesmos elementos, se desfazem e perecem: Pelo que emeima dêste ar não há Criador. A isto lhe respondi: Senhor, isso não é assim; verdade é que dos quatro elementos se produzem as * criaturas inferiores, como vossa mercê diz; «Fi.3*. mas êsses elementos são como matéria da qual o Criador as cria; e isto se entenderá bem pela seguinte comparação. O pintor das quatro cores principais branco, preto, amarelo e vermelho, faz diversas misturas com as quais pinta
  • 248 Das coisas de Japão infinidade de coisas, imitando tanto ao vivo as que Deus criou, que algumas vezes se não sabe discernir se é coisa pintada se verdadeira. Com tudo, ainda que haja as quatro côres principais, se não houver pintor que as misture e faça delas diversas têmperas, nenhuma coisa se pudera pintar. Assim, ainda que haja os quatro elementos, se não houver alguma potência divina e infinita que os misture entre si, nem uma formiga ou bichinho mui pequeno se puderá pro- duzir, quanto mais as demais criaturas. E havendo um Criador como há, da maneira que está dito, pouco aproveita o conhecê-lo se, como diz Xaca em sua doutrina, os homens, animais e mais creaturas fossem da mesma natureza e substância. Mas não é assim como êle diz. Porque ainda que o corpo do homem seja composto dos quatro elementos, e neles por derradeiro se venha a resolver como as mais criaturas corporais, contudo ao homem, além do corpo, tem o Criador dado outra substância, que se chama alma racional, a qual é uma substância intelectual, e que depois de criada nunca acaba, mas é imortal e que dura para sempre, a qual também na outra vida é julgada do bem e do mal que nesta fêz, e conforme a isto recebe ou tormentos eternos ou a glória eterna. A isto disse Cacuzaimon: eu também sei que no homem há essa substância intelectual, a qual está nêle em quanto vive, e depois de morto se torna para a razão * que está sobre o céu; e daí torna a entrar em algum outro corpo hu- • fi.3sv. mano que de novo nasce; e morto este, se torna para a mesma razão, donde outra vez torna a nascer e juntar-se com outro; e também sei que, depois de um homem morrer, ninguém sabe o que é feito dêle. Nisto respondi: essa doutrina que vossa mercê traz é doutrina dos que são cabeças das seitas de Japão, os quais nunca conheceram nem entenderam haver um Criador do uni- verso, e dizem que os três tempos, passado, presente e futuro, se não podem entender: porém isto não é assim. Porque o mesmo Criador que da matéria dos quatro elementos criou o corpo do homem, lhe infunde também a alma racional com que fica perfeito homem; e assim se sabe muito bem o que há antes de um homem nascer, que é ser nada; e o que há depois dêle ser morto, que é o corpo resolver-se nos elementos de que foi criado, e a alma ser julgada para receber o prémio ou castigo conforme as suas obras; e da mesma maneira se fica sabendo o tempo presente, que é como um sonho que nenhuma perma- nência tem. Donde fica que o verdadeiro assento e morada perfeita do homem é a outra vida. Donde fica claro haver Criador do universo, cujo poder é infinito: e que é necessário conhecê-lo para o não ofender; e que quem o servir e agradar, alcançará dêle grandes bens. Nem se podem explicar os benefícios que os homens recebem dêste senhor; e por isso, eu procuro quanto posso pelo não ofender, ainda que, como tenho dito, por quanto êste nosso corpo é seme- lhante ao dos brutos animais, e tem as mesmas paixões de sentir fome, tris- teza, querer-se deitar, alevantar e outras semelhantes, levam-me também após si estas mesmas paixões; e ainda que de dia, de noite, tenha pezar disto, # não • Fi.33. deixo de ofender com elas êste senhor. Mas pôsto-que sou pecador, pelo menos desejo dar minha vida por amor dêle. E assim haver eu agora de morrer por seu santo nome, é para mim coisa de tanta alegria, que não sinto poder haver outra maior. Prouvera à Majestade divina que também vossa mercê, inspirado pelo mesmo Deus, se fizesse cristão e começasse a servir a êste Senhor. Aqui
  • Das coisas de Japão 249 me acudiu Cacuzaimon: Muitos homens esforçados houve que na hora da morte não estimaram morrer; mas nenhum deles mostrou tão grande alegria, nem tal semblante como este vosso em tal conjunção; o que eu tenho por coisa maravilhosa, e vos julgo por homem que desde os tutanos sois valente e esfor- çado. Aqui respondi eu: Senhor, não é assim; porque eu até agora não me lembro de que brigasse com homens, nem em armas fizesse valentias; pelo que, não temer eu agora a morte não é por outra coisa senão porque tenho por tão certo que há outra vida e Criador como se o palpasse com as mãos. Não é por isso, tornou Cacuzaimon, senão porque, como sois homem simples e sem doblez, de todo vosso coração credes firmemente o que dizem os padres. Por certo que é perda grande matar um homem de tão bom coração como vós; pelo que desejo muito livrar-vos da morte. Respondi-lhe a isto: Senhor, não sou tão simples e de tão bom coração como vossa mercê cuida; porque quando era gentio, e não cuidava mais que nas coisas deste mundo, às vezes enganava os homens quando se oferecia boa ocasião. Nem eu creio o que dizem os padres só por êles o dizerem, senão porque o que dizem vai fundado em razão; à qual se ajunta também a fé dos cristãos, cuja doutrina vai fundada em muitas reve- lações que o Criador tem feito; pelo que, da vida que os homens estimam mais que tudo, * eu não faço mais caso que de um pouco de orvalho; e morrer pelo «fi 33». santo nome de Cristo estimo por mui assinalada mercê que o mesmo Criador nisto me faz, e me alegro muito com isto. E prouvera a Deus que crera vossa mercê esta doutrina dos cristãos; porque ainda que tem grande estado e poder, como êste mundo é tão mudável, e a vida tão incerta que não pode vossa mercê prometer-se o dia de àmanhã, só com esta fé e doutrina ficará vossa mercê bemaventurado. Outras coisas me perguntou o governador sem ordem alguma, e agora tenho pesar e sentimento de lhe não poder dizer tudo o que desejava. E como sou pecador, nunca me passou pela imaginação poder eu chegar a ser preso pelo nome de Cristo; pelo que vos rogo que, já que eu não tenho mere- cimentos nem posse para com a minha língua lhe dar as devidas graças, que vós lhas deis por mim, para que mais use comigo da sua piedade e misericórdia. Até aqui a carta de João. CAPÍTULO VIII De como foram presos Miguel, Maria e Joaquim E Miguel um homem muito virtuoso, e como mestre de João nas coisas do espírito, por ser cristão mais antigo, e muito visto nas vidas dos santos, prègações e livros espirituais; e há muitos anos que tem grandes desejos do martírio. Ouvindo pois êste o que passava sobre João, e como fôra chamado do governador para ser prêso por causa da fé, e lhe confiscarem logo toda a fazenda, e punham guardas na casa, alegrou-se muito, parecendo-lhe que tam- bém êle passaria pelo mesmo caminho; pelo que logo se * começou a aparelhar. .fi.34. Porém vendo que lhe tardava o recado, se começou a entristecer muito, dizendo aos cristãos (que sabendo o que passava o vinham visitar) que por ser grande pecador não merecia a Deus tamanho bem de o chamarem também a êle. Senão 52
  • . 2 5o Das coisas de Japão quando, chega o recado de Cacuzaimon que o mandava também chamar, e que fôsse levado ao cárcere. Foi com grande alegria, e chegando à porta do cár- cere, encontrou com João, a quem então traziam para ele de casa do governa- dor. Foi grande o prazer que ambos os santos confessores de Cristo sentiram quando se encontraram, e muito maior quando se viram ambos dentro do cár- cere e presos nele pela confissão da fé, em tanto, que os próprios guardas e mais circunstantes ficaram muito maravilhados. Mandou também o governador que fôsse prêso Joaquim: mas, porque neste tempo estava ausente e era ido a Nangasáqui, mandou que em seu lugar fôsse presa Maria, sua mulher; o que para ela não foi coisa nova, porque, como boa cristã que é, muito de antemão ándava já para isto aparelhada. Levaram-na os ministros da justiça, não triste nem chorosa, mas cheia de muita alegria, por se ver levar presa e meter no cárcere só por causa da fé e nome de Cristo. De tudo isto que passava em Iatçuxiro, foi logo recado à cidade de Arima, onde naquele tempo estava o padre provincial da Companhia, que com os mais padres tratou também logo do modo que se teria para ajudar aqueles cristãos em tal aperto. E porque eram tantas as vigias que, por ordem de Canzujedono, o governador Cacuzaimon trazia postas para que não pudesse entrar no reino • fi.34v. de Fingo, e principalmente em Iatçuxiro, padre, nem irmão, nem * catequista, nem homem algum da Igreja, que nem ainda as embarcações e cristãos de Arima e outras partes onde os há, deixavam livremente chegar aos portos do reino de Fingo, sem primeiro inquirir se ia neles alguma pessoa da Igreja que pudesse ajudar aqueles cristãos, pareceu que se havia de escolher algum cristão zeloso do serviço de Deus que ficasse em lugar dos três, e fizesse o ofício com os outros cristãos que êles antes faziam. Porque nem para avisar disto aos de Iatçuxiro havia modo, em razão das muitas vigias que acima digo, se ofereceu um mancebo cristão, natural do mesmo Iatçuxiro, que então se achava em Arima, fervoroso e apostado a dar a vida por Cristo, para ir e vir de contínuo, e acudir a tudo o que fôsse necessário-; juntamente se deu ordem para que aos presos e suas mulheres e filhos não faltasse coisa alguma do que houvessem mister, pois por tão santa causa tinham perdido tudo; e que para isto, um padre que estava numa ilha vizinha àquela cidade, se fôsse para outro lugar mais perto, donde pudesse prover os presos e ajudar aos cristãos que da cidade se viessem confessar e sacramentar; e aos que não pudessem vir, animar com suas cartas a ter mão na fé. No tempo destas prisões de João, Miguel e Maria mulher de Joaquim, estava o mesmo Joaquim, como dissemos, em Nangasáqui, onde fôra acompa- nhando a Iifiogi, aquele mancebo cristão de que acima dissemos, que por não deixar a fé, quisera antes perder a renda que Canzujedono lhe dava, e dester- rar-se de sua côrte; e vindo-se de Nangasáqui a Arima, chegou quási ao mesmo ponto em que acabava de chegar a nova da prisão de sua mulher e compa- nheiros. E como também o mandavam prender a êle, ficou com isto muito • F1.35. alvoroçado, * e logo determinou de se partir e ir oferecer à prisão, dizendo que isto era o que êle desejava e que cada hora estava esperando havia tantos anos. Que não era razão que sua mulher, Maria, que levasse a coroa, e tirasse tão grande merecimento como Deus lhe aparelhava por tal caminho; porque não,
  • Das coisas de Japão dizia êle, uma vida, mas se tivera tantas quantas areias tem a praia, tôdas as dera de boa vontade pela honra do nome de Cristo. E era tão grande a alegria que mostrava, que assim os nossos de casa como os cristãos de fora, edificados grandemente e invejosos da sua sorte, se não podiam apartar dele, tendo-o sempre rodeado, e olhando o como a homem tão ditoso e escolhido de Deus para tão gloriosa coroa como provàvelmente alcançaria. E assim lhe pediam como a santo intercedesse por êles diante de Deus. Resoluto pois na partida, se lhe deu ordem que, antes de se entregar à prisão, visitasse os cristãos e os animasse para tudo o que a tempestade da per- seguição estava ameaçando. Baptizasse aos meninos e instruísse bem no que havia de fazer ao cristão que se tinha determinado ficasse em lugar dos três. E depois disto feito, então se podia ir apresentar ao governador Cacuzaimon para o que dêle quisesse. E porque havia de entrar em tão árdua batalha, se armou primeiro com as armas divinas e espirituais, confessando-se e recebendo o Santíssimo Sacramento. E logo mui consolado e alegre se foi embarcar, acompanhando-o até à embarcação muitos de casa e de fora, e todos com mui- tas lágrimas de devoção, por verem a alegria com que o bom Joaquim se ia oferecer à prisão e morte pelo nome de Cristo. .Entre todos se esmerou Focujdm João, tio de Arimandono, que com ser uma pessoa tão grande e a segunda em todo êste estado, o foi também acompanhando, não sem lágrimas e grandes * desejos de o fazer também até Iatçuxiro, para juntamente com êle ser par- -fi.jít. ticipante de tão grande sorte. Chegado pois Joaquim a Iatçuxiro fêz primeiro muito bem tudo quanto se lhe tinha encomendado; e, acabado isso (porque Cacuzaimon não estava na terra), se foi logo oferecer ao governador do povo, pedindo-lhe o mandasse en- carcerar como a seus companheiros, pois a causa para isso era a mesma; pela qual êle estava aparelhado para ir ao cárcere, e ainda à morte. E que sua mulher, que em seu lugar foi presa, poderia mandar soltar, ficando êle no cár- cere. Respondeu-lhe o governador que, como Cacuzaimon era o que até então correra com êste negócio, não podia êle entremeter-se nem fazer coisa alguma no mesmo; que esperasse até sua tornada de Sumamoto; e quando tardasse, êle lhe mandaria recado e daria conta de como êle Joaquim era chegado, e se entregava à prisão em lugar de sua mulher. Ficou isto por então assim, posto- -que o bom Joaquim, não podendo sofrer tantos vagares de ver cumpridos seus desejos de ser prêso por Cristo, duas ou três vezes instou ao governador quisesse efeituar sua prisão, mas nada aproveitou; até que tornando o segundo e terceiro dia a instar no mesmo, o governador se resolveu e o mandou ao cárcere. CAPÍTULO IX Do que mais passou depois de presos êstes trés confessores NÃO se pode fàcilmente declarar a grande alegria e júbilo que receberam João e Miguel com a vinda do seu bom amigo e companheiro Joaquim, vendo-o já * participante dos mesmos trabalhos, e com esperança que «fi.36. também o seria da mesma coroa e prémio que todos esperavam. Acrescentou-
  • 252 Das coisas de Japão -lhes a alegria porem-nos todos três em uma parte do cárcere que tinha um repar- timento e divisão dos mais presos, onde tinham melhor comodidade para se comunicarem e animarem entre si, pôsto-que o lugar era bem estreito, porém tão alegres estavam e contentes que punham a todos admiração. E não se falava entre os gentios doutra coisa que desta alegria dos três presos, maravi- lhando-se todos de tal novidade. Não pôde isto deixar de ir às orelhas do governador Cacuzaimon, o qual, com ser tão grande inimigo do nome cristão, ouvindo porém quão alegres esta- vam por se verem presos por tão santa causa, se viu mui perplexo, dizendo que se não podia dar a conselho neste negócio, nem que láia de gente eram os cristãos, pois não havia para acabar com êles que deixassem de o ser: porque se com mêdo de perder a vida e fazenda, com a bôca ou por escrito diziam que o não eram, sempre contudo o ficavam no coração, e logo se tornavam a mani- festar e correr como tais: se os ameaçavam com a morte, tinham-se por bem- aventurados e folgavam muito de morrer; se os desterravam, sofriam o destêrro com grande alegria,, e se iam logo a terra de cristãos onde os padres os ampa- ravam, e ficavam zombando de quem os desterrara. Pelo que não ficava mais que usar com êles de um de dois remédios: ou tirar-lhes a fazenda, até os ves- tidos, assim a êles como a suas mulheres e filhos, e desta maneira, despidos e nus, os lançarem do reino; ou, ficando nêle, entregá-los a alguns dos que são fi. 36 v. cabeças dos lavradores, para que se sirvam * dêles como de seus cativos dan- do-lhes má vida, ou prendê-los e deixá-los estar no cárcere até morrerem. Porque crucificá-los ou degolá-los era coisa que êles não sentiam, porque logo se acabava; mas êstes outros castigos, como eram vagarosos, fariam que, com o sentimento e moléstia dêles, e pelos verem padecer a suas mulheres e filhos, se abrandariam e de verdade deixariam de ser cristãos. E os outros, com mêdo de lhes poder acontecer o mesmo, antes de chegarem a isso, desistiriam do seu propósito. Desta maneira traçava êste tirano o mal que desejava fazer aos cristãos, e assim o começou logo a exercitar desta maneira. Estava dividida esta cidade de Iatçuxiro em três povoações que apartam uns rios que por ela passam. Uma destas se chama Turcunofúxi, onde há muitos cristãos. A estes mandou logo Cacuzaimon um recado por seus minis- tros de justiça, que todos deixassem de ser cristãos, e prometessem de nunca mais se reduzirem; e disto fizessem um assinado em papel escrito com seu pró- prio sangue; ameaçando-os, se assim o não fizessem, com o castigo acima dito, conforme a sua traça. Os bons cristãos se uniram todos num corpo, e respon- deram ao tirano com tanta determinação que, desesperado de poder entrar com êles, assim por serem muitos, como por estarem tão unidos, se não atreveu a ir por diante. Cometeu os das outras duas povoações, e mandou ajuntar vinte e seis homens dos principais do povo, aos quais obrigou que deixassem logo a fé, e com as mesmas ameaças. Houve sobre isto de parte a parte muitos dares e tomares; mas por derradeiro, enfraquecendo treze dêles, e vencidos com o amor das mulheres e filhos, que era o que mais guerra lhes fazia, obedeceram ao mandado ímpio do tirano, e deram seus assinados. Porém os outros treze • fi.37. generosamente * tiveram mão, arriscando-se a tudo o que podia vir; mas por então lhes não deram outro castigo, senão que fossem vigiar aos três presos que
  • Das coisas 'de Japão 253 estavam no cárcere. Não faltaram alguns amigos que, movidos de ímpia com- paixão, contrafizeram os sinais de três dêstes, e sem eles o saberem os levaram aos ministros da justiça, mui contentes por julgarem que com êste artifício tinham livrado a seus amigos do mal que lhes podia vir. Soube logo isto um dos três, por nome Paulo; sentindo-o por extremo se foi em busca do amigo que lhe falsificara seu nome, queixa-se muito dele por lhe ter feito semelhante traição cuidando que lhe fazia amizade: afirma que em todo caso quere ser posto no número dos cristãos, e que assim o havia de ir protestar diante dos ministros e diante do próprio Canzujedono sendo necessário. E para mostrar mais seu sentimento, corta logo o cabelo, que os japões, segundo o seu costume, trazem atado atrás da cabeça, que é sinal de se dar um homem por desonrado, e muito agravado da pessoa diante de quem o corta; o que feito, se vai logo em busca dos ministros da justiça; diz-lhes que êle não estava pelo sinal contrafeito por seu amigo; nem menos em tal consentia: que em todo o caso o pusessem na lista dos cristãos, porque êle o era e por tal se confessava. Espantaram-se os ministros dêste seu ânimo, mas por compaixão que dêle tinham, não lhe deferiram ao que pedia. Ao que êle tornou que, se lhe não faziam o que dizia, se iria logo diante de Canzujedono a se confessar por cristão. Emfim vieram a condescender com êle pondo-o na lista e número dos cristãos, de que ficou muito contente e descansado. Vendo estes ministros da maldade quão mal lhes sucedera * o encontro de .Fi.37*. Paulo, determinaram havê-lo com um carpinteiro por nome Miguel, que por ser desta sorte, cuidavam que facilmente o poderiam derrubar, porque não se atre- veria a resistir. Mas sucedeu-lhes ao revés; porque antes de o êles cometerem, êle próprio foi o que primeiro enrestou a lança, confessando-se e declarando-se por cristão, com grão fervor e desejo de glorificar a Deus. Espantaram-se os contrários de seu atrevimento: procuram persuadir-lhes com razões e ameaças que desistisse da fé, mas tudo lhes saiu debalde. Assombraram-no que lhe confiscariam a fazenda; respondeu que de muito boa vontade lha entregaria logo tôda antes que deixar a fé; que somente lhes pedia houvessem por bem que certos depósitos alheios que tinha, os entregasse primeiro a seus donos. Concederam-lho os ministros, com o que ficou muito contente; e êle mesmo com suas mãos, depois de tirados os depósitos, lhes fêz entrega de tôda quanta pobreza tinha, que ainda que era pouco valor, não podia deixar de ser de muito diante de Deus, pelo afecto e boa vontade com que o bom cristão a dava por seu amor. Não se contentaram com isto os ministros da maldade, mas por cumprirem pontualmente a traça de seu amo, lhe disseram que os vestidos com que estava vestido, e os de sua mulher e filhos lho haviam de tomar. Despe-se no mesmo ponto Miguel com muita alegria, como outro S. Francisco diante do Bispo de Assis, entrega-lhes seus vestidos ficando nú como nasceu; o mesmo fêz a mulher e filhos pequenos, dizendo aos executores de tanta crueldade, que pouco fazia em dar os vestidos quem estava aparelhado para dar a vida por Cristo. Contentíssimo ficou o bom Miguel quando se viu assim despojado de tudo, e nú por amor daquele Senhor que por êle esteve nú na cruz. Acudi- ram-lhe logo os outros cristãos com o fatinho que poderam para os cobrirem; e * um dêles lhe negociou uma pequena embarcação que os passou à outra banda «fi.38.
  • Das coisas de Japão onde estava um padre que, com o mor agasalhado que pôde, recebeu o cava- leiro de Cristo com sua mulher e filhos, e lhes deu logo os vestidos necessários para todos. E da mesma maneira os agasalharam os cristãos daquele lugar, com todos os mimos que puderam conforme a sua pobreza, consolando-os e confirmando-se muito na fé, vendo um exemplo e feito tão heróico. Pouco depois os mandou o padre a Arima, onde se lhes deu melhor remédio a seu desamparo, e vivem mui contentes por se verem entre cristãos. Neste tempo os três presos que no princípio da sua prisão, tiveram no cár- cere mais algum alívio por estarem todos juntos num repartimento em que còmodamente se podiam comunicar e ter seus tempos ordenados para quieta- mente terem oração; pouco depois, permitindo Deus assim para mor mereci- mento seu, se foram as coisas dispondo de modo que cada vez mais lhes creciam as ocasiões de padecer. Porque além daquele cárcere ser uma só casa, e essa pequena, onde todos os presos estão, o canto dela que lhes coube è tão estreito, que nem lugar teem para dormirem deitados, o mau cheiro é intolerável, por- que os que deste cárcere teem cuidado não consentem que nêle haja limpeza alguma, para que os presos (que são ordináriamente pessoas que devem prata ou fazenda a Canzujedono), vendose apertados com o tormento do mau cheiro e outras incomodidades do tronco, se resolvam a pagar mais depressa. No princípio podiam ter postas suas imagens, e podiam repartir o tempo de modo que parte gastavam em oração, parte em ler livros espirituais, parte em tratar com os presos prègando-Ihes e ensinando-lhes as coisas de nossa santa fé, parte também em comunicar com os cristãos que os vigiavam, e outros que os iam v. visitar. * Mas não podéndo o demónio sofrer estas obras, nem estarem estes servos de Deus tão consolados fazendo uma vida tão santa e regulada, preten- deu estorvá-lo, como inimigo que é de todo bem. O modo foi que prendendo um homem por certas dívidas que devia a Canzujedono, pessoa honrada e apa- rentada, o puseram com eles naquele seu canto que lhes cabia do cárcere, onde como êste homem se viu num lugar tão estreito e fedorento, cheio de imundicias e outras incomodidades, tal melancolia lhe deu que veio a endoidecer de todo e fazer-se furioso; e com esta doidice e fúria, quando via os servos de Deus rezar ou ler por alguns livros, se indignava contra êles, dizendo-lhes que faziam deprecaçoes e feitiçarias para o matarem; com o que muito lhes impedia seus santos exercícios e o fruto que com suas práticas e conversação ali faziam. Mas não deixaram com tudo isto de converter à nossa santa fé alguns dos presos gentios, e reduzir alguns dos ireze que tinham caído. Não se contentou o governador Cacuzaimon com prender os três servos de Deus, como está dito, mas além disso lhes mandou confiscar toda sua fazenda, sem lhes deixar coisa alguma para sustentação sua, nem das mulheres e filhos', ficando todos em sumo desamparo, mas mui consolados de se verem em tal estado por amor de Deus. E para vexar mais aqueles treze cristãos que não quiseram retroceder, os obrigou que êles sustentassem os presos e a suas famílias, e que dêles e delas se entregassem para todas as vezes que lhes fôsse pedida darem conta de uns e doutros; mas como todos aqueles cristãos são tão pobres, e escàssamente teem para sustentar as suas casas, e principalmente em tempo em que os põem
  • Das coisas de Japão 255 em tantos apertos, foi necessário encarregarem-se os padres e o Bispo de sua sustentação, por assim o merecer sua fé e * o grande exemplo que dela teem'Fi.39. dado. Nada porém se lhes deu aos fortes soldados de Cristo de lhes tomarem sua fazenda, e porem na lista suas mulheres e filhos, que é sinal certo de have- rem de morrer se êles morrerem; e assim fazendo esta conta diziam que tinham oferecidas a nosso Senhor em sacrifício suas famílias, como Abraão a seu filho Isaac. E para que se veja o ânimo tão generoso e resoluto com Deus, com que estes seus servos estão neste cárcere, e o que também sentem acerca de suas mulheres e filhos, poremos aqui uma carta sua que sôbre tudo isto escreveram ao padre provincial da Companhia, a qual diz assim: Vimos a carta de vossa reverência que muito agradecemos. Quanto a nós, pôsto-que muitas vezes desejamos padecer por amor de Deus, todavia, como éramos pecadores, duvidávamos do que seria nesta parte. Ordenou porém nosso Senhor que por seu amor fôssemos presos, o qual é uma grande mercê e tão fora de nossos merecimentos, que não temos palavras com que lho possamos agradecer: pelo que pedimos a vossa reverência que muito mais nos encomende a nosso Senhor. Também lhe agradecemos muito o ânimo e ajuda que dá a nossas mulheres e filhos, pôsto-que, ainda que pecadores, não nos lembra mais que pedirmos afincadamente a nosso Senhor nos dê forças e ânimo para pade- cermos por seu amor e glória injúrias e tormentos tais quais nunca algum homem padeceu; e isto é o que profundamente desejamos; que das nossas mulheres e filhos não temos pena pelos termos já oferecidos a nosso Senhor. Pelo que nesta parte esteja vossa reverência descansado, que de qualquer maneira que seja, estamos esperando o que Deus de nós ordenar. O que desejamos e pedi- mos a vossa reverência é que frequêntemente anime e esforce aos mais cristãos desta cidade, que tenham mão na * fé. Seja venerada a divina providência que .Fi.39»- assim ordenou tudo, e lhe damos muitas graças. Ouvimos dizer que desta vez enfraqueceram alguns com a perseguição, o que muito sentimos. Os demais até agora estão constantes e fortes. Pedimos a vossa reverência que a homens e mulheres, velhos e meninos, a todos dê ânimo e esforço. Também ouvimos dizer que está um padre para ir a Sumamoto, côrte de Canzujedono. Se é porventura para tratar de nossas pessoas e vidas, antes nos será de grande pena e aflição; pelo que pedimos muito encarecidamente a vossa reverência que se escuse esta ida; mas o que só queremos é que vossa reverência peça a nosso Senhor que desta vez ordene que morramos por seu amor. Juntamente pedimos perdão do muito atrevimento e pouco respeito com que esta vai escrita. Até aqui a carta dos presos.
  • 256 Das coisas de Japão CAPÍTULO X Do que se fè\ depois desta prisão para ajudar e consolar estes presos e os mais cristãos de Iatçuxiro EM muito cuidado pôs a prisão destes três confessores e a perseguição dos mais cristãos ao senhor Bispo e ao padre provincial da Companhia, e mais padres de Japão, vendo o perigo em que a Igreja de todo aquele reino de Fingo estava, e a tribulação em que se viam aqueles cristãos. Pelo que logo o padre provincial, que estava em Arima, foi a Nangasáqui onde está o Bispo para tratarem dos meios que se poderiam tomar para socorrer aquela cristandade. E depois de muitas devoções e penitências e oração de quarenta • Fi.40. horas que por * esta intenção se teve, se assentou que fosse lá um padre, para o que muitos se ofereceram, ainda que lhes custasse a vida. Encontrava porém isto gravíssimas dificuldades, assim por parte das muitas vigias que o tirano tinha postas por todas as partes do reino para que não entrasse, nêle o padre nem pessoa da Igreja (como acima dissemos), como também porque os mesmos cristãos eram de parecer que por então não fôsse padre, por não tomar o tirano com sua ida ocasião de mais os perseguir. E deste mesmo parecer eram tam- bém os três presos. Contudo, ponderadas outras razões, pareceu que se devia de mandar e arriscar um padre, pois o tempo e a ocasião mostrava ser assim mais conveniente, para bem e edificação daquelas almas, honra e glória de Deus e da religião cristã. E assim foi escolhido para esta ida o padre Luís, japão, que por ser natural lhe seria mais fácil fazer o que se pretendia, sem ser des- coberto com prejuízo dos cristãos. E também, como todos os anos e pelo ano novo de Japão em que se fazem as visitas dos príncipes, conforme ao costume da terra os padres mandaram sempre visitar com os devidos cumprimentos a Canzujedono, pôsto-que tirano e inimigo da Igreja, foi também o padre com este título de fazer esta visita, e por esta ocasião poder entrar em Iatçuxiro, e visitar e consolar os mais cristãos daquele reino. Partiu-se logo com seu com- panheiro e dois cristãos honrados naturais do mesmo reino de Fingo, que para isso se ofereceram. Chegados a Iatçuxiro e surgindo longe do pôrto, mandaram um homem a terra a tomar língua do que passava e avisar aos presos e mais cristãos da sua vinda. Tornou com recado de quão fechado e impossibilitado • F1.40V. estava tudo para poder entrar, em razão das muitas vigias e guardas * que estavam postas, e pelo risco a que entrando punha assim aos cristãos como a sua própria pessoa. E tanta instância lhe fizeram nisto que o padre não pôde deixar de se conformar com êles em não sair em terra; mas ali na embarcação confessou um bom número assim de homens como mulheres, que com grande fervor e devoção acudiram a êste sacramento. Dali se partiu para Somamoto, côrte de Canzujedono, a lhe fazer sua visi- tação, e dar o ano bom; e com estar naquela cidade alguns dias, nunca pôde ter entrada ao mesmo Canzujedono; parece, porque actualmente perseguia os cristãos, teve vergonha de receber a visita. Não esteve porém o padre ali debalde, porque naqueles dias fêz muito, ajudando e animando os cristãos daquela
  • Das coisas de Japão cidade, que para eles foi um grande alívio. Acabando aqui se foi por terra a Iatçuxiro, e disfarçando-se para não ser conhecido chegou de noite, e em tal conjunção que se pôde meter em casa dum cristão, onde secretamente esteve três dias, e confessou os cristãos que o não puderam fazer da primeira vez na embarcação; mas não pôde confessar os três presos por mais diligencias que nisso pôs. Os quais, sabendo da sua vinda, sentiram muito não haver possibi- lidade de se poderem confessar com o padre, e do cárcere lhe escreveram uma carta que por tôdas suas coisas serem de tanta edificação me pareceu pôr aqui; a qual é a seguinte: Recebemos a de Vossa Reverência, e agradecemos-lhe muito vir de tão longe por nosso respeito, e não menos o desejo que tem de nos visitar c consolar neste cárcere; e pôs to-que com sua visita nos alegráramos muito, todavia está o negócio em tais termos que nenhum modo há para isso, assim pelas mui estreitas guardas que estão * postas na porta, como pelos muitos gentios que »fi. 41. estão presos connosco, entre os quais há um que por não sofrer o trabalho do cárcere, está feito um doido dizendo mil desatinos, sem cessar dia e noite de gritar, pelo que não será possível visitar-nos Vossa Reverência; nem que o fôra, mal poderemos nós falar em segrêdo, estando cercados de tanta gente e tão apertados. E quanto a nós, não sentimos, pela bondade de Deus, coisa no mundo que nos dê pena, nem trabalho algum. E pôsto-que desejamos muito de nos ver com Vossa Reverência para nos confessarmos, e por meio dêste sacra- mento recebermos mais abundante graça de nosso Senhor, todavia jd que isto não pôde ser, estamos muito confiados que, pôsto-que pecadores, nosso Senhor haverá misericórdia de nós, e nos perdoará nossos pecados ainda que morramos sem confissão, pois não esteve em nossa mão podê-lo fazer. Além disto não nos parece que convém por ora descobrir-se Vossa Reverência pelo prejuízo que daí se pôde seguir para os cristãos e igreja; porque se de coisas mui leves tomam os gentios ocasião para dizerem mil males, quanto mais o farão vendo a Vossa Reverência publicamente. Nem será possível poder-se encobrir, porque não chegando Vossa Reverência os dias passados mais que a êste pôsto, logo todo o mundo o soube. Contudo, como nosso parecer é baixo e de pouco ser, nem sabemos o que será melhor, Vossa Reverência o julgue, porque o que lhe parecer será o que mais convém. O que pedimos muito é que Vossa Reverência nos encomende a nosso Senhor em suas orações e se lembre de nós pecadores. Até aqui os presos. Pelo que vendo o padre que não havia aqui mais que fazer, se tornou a Arima; mas não se deixou de procurar por tôdas as vias e meios possíveis, que aqueles cristãos e presos fossem frequentemente visitados e consolados, assim com * o espiritual, como corporal, concorrendo também a isso a caridade de «FM'», alguns cristãos que com suas esmolas os mandaram visitar; como fizeram os da ilha de Conzura vizinha ao Iatçuxiro, e a Casa da Misericórdia de Nangasáqui; e em particular o fêz também um bom cristão, morador na mesma cidade de Nangasáqui, o qual se determinou a ir visitar os presos e suas mulheres e filhos, e juntamente animar e aconselhar aos mais cristãos a ter mão na fé. Sabia muito bem êste bom cristão o perigo a que (se) punha de ser preso e morto; contudo esforçando-se com a consideração de quão ditoso seria se tal sorte lhe 33
  • 2 58 Das coisas de Japão acontecesse por tal causa, comunicou o seu intento com sua mulher, a qual, como boa cristã, não sòmente lho não impediu, mas antes se consolou muito com isso. Fêz pois o bom cristão testamento; confessou-se, comungou, e com tal aparêlho se partiu para Iatçuxiro, onde visitou os presos, e se consolou com eles grandemente vendo a alegria com que estavam naquele cárcere; deu-lhes a esmola que lhes levava e a suas mulheres e filhos e a outros pobres; e visi- tando muitos dos outros cristãos os animou a perseverar na fé, e se tornou mui contente e edificado. Depois disto os foi também visitar por ordem dos Superiores um irmão de nossa Companhia, o qual para ter entrada e falar com os presos, se vestiu em trajos de trabalhador e homem de serviço, e se foi como criado seu em compa- nhia de um cristão que os vigiava, e tinha cuidado de lhes levar o necessário; e assim, entrando no tronco, falou com os presos mui de vagar, com muito grande consolação sua e deles, e deu muitas graças a nosso Senhor por ver a ordem que teem em seus exercícios espirituais de lição e oração sem nela fal- •fi. 42- tarem um ponto, e o muito que Deus se comunica * a êstes seus servos. Aos demais cristãos achou mui constantes e apostados a padecerem antes mil mortes que deixar a fé; outros que se vêem livres das tiranias de Canzuje- dono e correm livremente como cristãos, desejam de deixar a própria terra e ir-se a viver a outras de cristãos e onde haja padres; porém dizem que por-ora o não farão, senão depois de acabada a perseguição, para que não pareça que fogem do martírio; e também para com sua ida em tal tempo não fazerem desanimar aos que ficavam. Entre êstes há um (que) quando era gentio foi bonzo, o qual sumamente desejou ser preso e morto pela fé; e no tempo em que a perseguição andava mais acesa, não fazia senão buscar modos para se publicar e manifestar por cristão, ainda que lho não preguntassem; e quanto mais seus amigos lhe acon- selhavam que se encobrisse e dissimulasse seu fervor para não ser preso, tanto mais êle insistia em se manifestar, dizendo que isso era o que desejava por amor de Deus; de que não pouco se edificavam os mais cristãos e maravilhavam os gentios. E Vendo que Deus não era ainda servido que êle fosse preso e padecesse alguma coisa pela fé, pelo menos tomou por devoção para dar bom exemplo aos mais cristãos, andar, naquele mesmo tempo da perseguição, carre- tando de noite água às costas com muita humildade e caridade, e prover as casas dos cristãos pobres. Por todo o tempo que o irmão esteve em Iatçuxiro em nenhuma coisa se ocupava mais que em fazer práticas espirituais aos cristãos, gastando nisso os dias e as noites, pelo grande desejo que tinham de as ouvir; de modo que em todo aquele tempo quási não dormiu. Baptizou vinte pessoas entre adultos e crianças. O fervor, devoção e desejos de serem mártires não sòmente o havia • F1.4JV. ♦ nos grandes, senão também nos pequenos e de tenra idade, pois até os meninos de seis ou sete anos não falavam senão nisso. E os pais para os ensaiarem e irem criando nestes pensamentos, lhes põem muitas vezes diante que os hão de pôr numa cruz, alancear, degolar, pôr a cabeça pregada com pregos sôbre uma tábua e fazer outras justiças de grande dor e tormento; a que os meninos ani- mosamente respondem que como por tal caminho hão de ir ao paraíso, não lhes
  • Das coisas de Japão 25g dá disso nada, nem que depois de mortos lhes tratem a cabeça daquela maneira, nem lhes façam todos os males que quiserem no corpo, pois nas almas nenhum lhes poderão fazer, que já então estarão no céu gozando de Deus. Desta vez achou o irmão que um dos treze que antes dissemos enfraqueceram e se deixa- ram pôr no rol dos caídos, tornando sobre si, teve tamanha dor e arrependi- mento do que fizera, que se foi logo ao ministro da justiça que corria com este negócio, dizendo que ele o que fizera fora por puro medo e fraqueza; mas con- siderando agora a grande ofensa que cometera contra Deus negando-o diante dos homens, se arrependia muito disso; pelo que lhe pedia que logo o quisesse riscar do rol dos que retrocederam e o pusesse no rol dos bons e fortes cristãos, porque êle estava prestes para os acompanhar em tudo o por que êles passas- sem; pois era mais razão que êle fizesse caso da vida e salvação eterna, que só havia na lei dos cristãos, que desta temporal e presente em que tão pouco vai. Fêz-lhe logo o oficial da justiça o que êle pedia, de que o bom penitente ficou muito quieto e consolado. Andando a igreja e cristãos dêste reino de Fingo nesta tribulação e apêrto, uns presos, outros postos a rol, * e todos assombrados com as ameaças daqueles «fi.43. tiranos Canzujedono e Cacuzaimon seu governador, nada disto bastou para impedir a conversão de um dos mais privados e íntimos familiares do mesmo Canzujedono, senhor daquele reino. Foi êste um mancebo nobre, rico e bem aparentado, o qual tendo noticia da nossa santa fé, havia anos que desejava de se fazer cristão, mas sentia muito não ver modo para poder efeituar seus dese- jos; por quanto Canzujedono, de quem era tão íntimo privado e mimoso, tão abertamente perseguia aos cristãos. Pelo que, não podendo sofrer mais vagar cm acudir a Deus que o chamava, nem achando outro melhor modo para rece- ber o santo baptismo, que furtar-se da corte e serviço de seu amo, se resolveu, no meio desta perseguição de o fazer assim; tomou para isso ocasião de uma doença, que desde menino teve, pede licença a Canzujedono para se ir curar por alguns dias, a qual lhe deu com muita dificuldade pelo muito que sentia largá-lo de si. Põe logo em ordem suas coisas, sái-se de sua pátria, parentes e amigos, deixa quanto nela tinha e esperava ter, e de Sumamoto, côrte de Can- zuje, se passou às terras de Arimandono, príncipe cristão, com muita gente que o acompanhou. Chegando ao porto, antes de desembarcar, diante de todos os que consigo levava, se rapou, em sinal de que deixava o mundo e todas suas coisas, e com isto se despediu dos criados que com muitas lágrimas se aparta- ram dêle e tornaram para suas casas, ficando só com alguns poucos para seu serviço. Feito isto, mandou logo à igreja visitar ao padre, declarando-lhe jun- tamente seu desejo e o fim a que viera. Ouviu as prègações, e fêz tal enten- dimento de todos os mistérios de nossa santa fé, que se lhe * prègaram, que *fi. 43v logo se baptizou com quatro criados seus, com muita alegria e consolação sua e de todos os que o souberam. E escrevendo logo ao pai que é gentio, dei- xando o nome de Japão que até então tivera, se assinou com o nome de cristão que no baptismo recebeu, que é João.
  • 2ÕO Das coisas de Japão CAPÍTULO XI De perseguição da cristandade de Iamangúchi e do martírio de um nobre fidalgo por nome Belchior NAS relações passadas se tem escrito da perseguição que de quatro anos a esta parte levantou contra a cristandade da cidade de Iamangúchi um senhor por nome Moridono, que agora o é daquele reino. Foi este os anos passados um senhor mui poderoso de oito ou nove reinos, mas perdendo-se na guerra dos governadores (de que já por vezes fizemos menção) o Cubo, que agora é senhor de Japão, lhe tirou os mais deixando-lhe somente dois em que entra o de Iamangúchi, para onde êle de Firoxima, que antes era cabeça de seus estados, mudou toda sua casa e corte. E este príncipe por uma parte de muito pouco saber e entendimento, por outra em extremo dado ao culto dos ídolos e sujeito aos bonzos; os quais nesta tão grande queda de seu estado, lhe persuadiram que a causa de todo o seu • fi. 44- mal não fôra outra senão castigo que lhe deram os Camis e Fotoques, * porque antes de se perder, e estando ainda em sua prosperidade, consentira que os padres da Companhia entrassem e fizessem assento na cidade de Firoxima que então era a cabeça de seus estado e assento de sua côrte. E que se agora os consentia em Iamangúchi, onde também já estavam e residiam, soubesse de certo que os Camis e Fotoques se haviam de indignar tanto contra êle, que em castigo desta culpa e de consentir que houvesse cristãos em sua terra, lhe haviam de acabar de tirar êsse pouco que lhe ficava dos dois reinos que o Cubo lhe deixara. Menos que isto que os bonzos lhe disseram bastara para quem por uma parte tinha tão pouco saber, e por outra era tão grande idólatra, para se persuadir a tudo o que os bonzos lhe diziam. E assim ficou o triste Rei tão crente nestas mentiras, e entrado com as ameaças que os bonzos lhe faziam do castigo de seus deuses, que logo se resolveu a lançar os padres fora de Iaman- gúchi, e não consentir que houvesse cristãos em sua terra. E para mais se confirmar nesta ímpia resolução, sucedeu que nesta mesma conjunção o Cubo, senhor universal de Japão, por certas ocasiões que lhe deram uns espanhóis que vieram das Filipinas, soltou palavras mui severas contra a lei de Cristo, e deu a entender que não queria que houvesse cristãos em Japão, e pelo menos não fôssem os senhores principais (a qual paixão depois lhe foi passando): pelo que Moridono com esta ocasião em efeito lançou os padres fora de Iamangúchi, e começou a levantar perseguição contra os cristãos e pôr em execução fazê-los tornar atrás. • fi. 44 v. Entre os cristãos que havia em Iamangúchi era a cabeça * e o principal de todos êles da casa do mesmo Moridono, e dos mais principais e ricos de sua côrte, chamado por nome de Japão Bugendono, ou Bugenocami, e de cristão Belchior. Era natural do reino de Aqui, de um lugar chamado Miri de que era senhor, descendente de um dos mais esforçados e famosos cavaleiros que houve em Japão, e que com haver muitos anos que passou, ainda vive por fama. E êste Belchior o era também tanto, que levava clara vantagem no esforço e perícia
  • Das coisas de Japão 261 da guerra, e mais partes de capitão, a todos quantos havia na corte de Mori- dono; e assim era conhecido e nomeado por tal entre todos os nobres e senhores de Japão. Era mui avisado e cortesão, entendido grandemente nas sciências^e letras de Japão e versado nas seitas dêle. E por concorrerem tantas e tão boas partes neste fidalgo, era muito estimado de Moridono, e de todos da corte e doutros muitos senhores; pôsto-que também estas mesmas partes, como e costume das cortes, eram causa de ser invejado dalguns, ao que ajudava ser êle isento e livre em seu modo de tratar, como quem via quão inferiores lhe ficavam todos, e usar ainda desta isenção algumas vezes com o mesmo Mori- dono seu senhor. Converteu-se este fidalgo a nossa santa fé haverá dezoito anos. Procedeu sempre bem nela; mas em particular entrou em devoção e moi gôsto das coisas de Deus, depois que a corte de Moridono se passou para Iamangúchi, aonde por causa da grande comunicação que teve com o padre que ali residia, se deu mais de propósito e com mais fervor às coisas de sua salvação. Era muito devoto da Paixão de Cristo nosso Senhor; e, por esta lazão, o era tam- bém de tomar disciplina, o que fazia muitas vezes; e um dia chegou * a tomar *fi.45. um grande e extraordinário número de açoites; e poucos dias antes de sua morte, entendendo êle que Moridono o havia de mandar matar por ser cristão, disse a uns cristãos que por isso se andava aparelhando para esta hora tomando cada dia disciplina. Tinha grande zêlo da dilatação de nossa santa fé, e em par- ticular de fazer cristãos aos de sua obrigação, criados, vassalos e amigos, pro- curando isto por todas as vias; e depois que os padres foram lançados de Iamangúchi por Moridono, êle se ficou como pai e protector daqueles cristãos, ajudando-os e animando-os sempre com seus conselhos e exemplo. No lugar em que tinha sua renda fêz uma igreja aonde muitas vezes chamava o padre para se confessar e comungar, e ajudar a seus criados nas coisas da salvação. Era observantíssimo nas obrigações de cristão e coisas pertencentes à fe, guar- dando-se muito de fazer coisa alguma que fosse contra ela. E uma vez lhe aconteceu que morrendo-lhe em casa uma filha sua cristã mas casada com um senhor gentio (que êle nunca pôde converter por mais que o procurou), os bon- zos de que o genro era freguês requereram logo o corpo da defunta para o enterrarem e fazerem suas exéquias e depois pedirem por isso sua esmola. Belchior como cristão instava que por nenhum caso o havia de dar, porque sua filha era crista, e como tal havia de ser enterrada. Houve nisto grande porfia de parte a parte. Mas como os bonzos eram dos principais da terra e ameaçavam que haviam de ir com esta demanda diante de Moridono, toma Belchior o corpo de sua filha, chama alguns cristãos e enterra-o secretamente em sua casa. E depois, por se livrar das importunações dos bonzos, concerta uma caixa forrada por fora, mete-lhe dentro # algumas pedras de feição que •Fi.tfY. não bulissem e de peso proporcionado, entrega-a aos bonzos; os quais cuidando que levavam o corpo da defunta se foram mui contentes, ficando-o muito mais Belchior, parecendo-lhe com tôda sua boa fé e simplicidade que, como os bonzos não tivessem em seu poder o corpo da defunta cristã, pouco relevava fazerem lá seus ofícios gentílicos; e assim muito contente escreveu logo ao padre o que tinha feito. Sendo pois Bugendono Belchior tão assinalado cristão, cabeça e amparo de
  • 2Ó2 Das coisas de Japão todos os mais, e resoluto Moridono em fazer que todos tornassem atrás dei- xando a fé de Cristo, determinou de começar pelo mesmo Belchior; e pare- cendo-lhe que derrubando a cabeça e o esteio de todos êles, fàcilmente derru- baria todos os mais, lhe começou a mandar diversos recados que deixasse de ser cristão; ao que Belchior sempre respondeu que não era aquilo coisa que pudesse ser, nem êle o havia de fazer ainda que lhe custasse a vida, pòis enten- dia muito bem que havia salvação e vida eterna, e que esta se não podia alcan- çar senão na lei dos cristãos. Vendo Moridono que não bastavam recados brandos nem aproveitavam razões, lhos começou a mandar ásperos e cheios de ameaças, que o havia de matar se não obedecesse ao que lhe mandava. Bel- chior que não desejava outra coisa, mui resolutamente lhe mandou dizer que em o obrigar a deixar de ser cristão não havia mais que tratar; e que se por esta • fi <6. causa o quisesse mandar matar, ali o tinha prestes e mui aparelhado para * re- ceber a morte; mas que pedia lhe fizesse uma mercê; esta fôsse que primeiro que o matasse o mandasse amarrar com as mãos detrás e assim levar pelas ruas de Iamangúchi, não uma mas três vezes, com pregão que dissesse que o mandava levar e matar daquela maneira por ser cristão. Isto lhe pediu Bugen- dono porque, como tinha muito grande devoção à Paixão de Cristo nosso Senhor, dizia muitas vezes que desejava de ser atado e amarrado com uma corda, e assim levado publicamente pelas ruas com muita afronta e desonra, para com isto imitar a Cristo nosso Senhor, e lhe agradecer o muito que por nós tinha padecido. Como Moridono viu esta tão resoluta resposta de Belchior, ficou muito indignado contra êle, e principalmente por também lhe contarem como estivera para brigar com um seu principal governador só por esta causa, e não querer deixar de ser cristão como o dito governador lhe persuadia. Contudo não ousou por então a matá-lo, parte pelos muitos serviços que lhe tinha feito, parte por não perder um tão esforçado capitão como êle era, e em tudo tão avantajado a todos os de sua côrte, parte também por ser um homem tão prin- cipal e conhecido por suas boas partes e nobreza entre os grandes de Japão; mas por quatro anos inteiros andou dissimulando, dando-lhe por todos êstes tempos, assim por si como por terceiras pessoas várias e fortes baterias para • FI.46V. ver se o podia convencer ou derrubar. * Mas tanto montava como bater numa rocha imóvel, porque sempre o achou com a mesma fortaleza e determinação nas coisas da fé que desde o princípio mostrou. Do que tudo entendia muito bem Belchior, e o tinha por coisa sem dúvida, que Moridono o mandaria matar; e por isso andava sempre com continuo aparelho para a morte, e muito mais nos últimos dias antes de lha darem, nos quais, como acima dissemos, além do aparelho interior e devoções que fazia, se disciplinava também cada dia por esta intenção; e tinha escrito ao padre de Firoxima, que tem a cargo visitar os cris- tãos de Iamangúchi, que dali a poucos dias lhe mandaria pedir que viesse, como algumas vezes fazia, a sua casa para o confessar a êle e a sua gente. Ainda que Moridono trazia o coração tão cheio de peçonha contra Belchior, e desejava muito de o matar por lhe não querer obedecer em deixar de ser cristão, contudo o mesmo Belchior como avisado, e que por via dos amigos que tinha no paço sabia tudo o que lá passava e se praticava sobre êle, entendia muito bem que Moridono o havia de matar em realidade pela causa da fé; mas
  • Das coisas de Japão 263 por se lhe não notar e estranhar entre os senhores de Japão matar um homem tão insigne e de tanto nome por querer seguir uma lei pela qual em nada o desservia, que havia de buscar alguma outra capa ou côr que desse à sua morte. Para esta lhe ofereceu o demónio uma grande ocasião, a qual foi a seguinte. Houve umas brigas graves entre um genro de Belchior, homem nobre * e principal e outro senhor da corte, mais nobre e rico que ele. E »Fi.47. como eram ambos aparentados e liados com outros muitos, os parentes e ami- gos de cada parte pretendiam favorecer a sua; com que o negócio se ia travando de maneira que, arreceando Moridono de haver algum grande rompimento na corte, procurou com todos os meios de os apaziguar, mas não o pôde efeituar de todo, porque se não dava competente satisfação ao genro de Belchior, por quem a justiça estava; mas como Moridono se meteu no meio, ficou a coisa algum tanto mais sossegada. Nesta perigosa contenda se houve Belchior com muita prudência, porque tendo nela tanta parte, pois seu genro era o principal, considerando porém, como avisado, a ocasião que daqui poderia tomar contra êle Moridono se em alguma coisa se mostrasse mais eficaz pela parte de seu genro, de tal maneira se houve em tudo, que com a razão e justiça estar por seu genro, contudo mais procurou a paz e não chegar a coisa a rompimento que o contrário; aconselhando por vezes a seu genro e aos mais daquela parcia- lidade que não fossem por diante na contenda; pelo que de todos foi tão louvado, como sua prudência e virtude merecia. Contudo em lugar de Moridono lhe agradecer êste tamanho serviço que êle fazia, isto mesmo tomou por capa para encobrir a causa verdadeira por que o mandou matar. E porque Belchior era pessoa tão principal e tão esforçado, mui aparentado na terra, e que tinha criados e genro que além de lhe terem grande amor, eram homens de sua pes- soa, e êle por estas razões temido de todos, para Moridono poder fazer o que pretendia mais a seu salvo, o mandou executar com grande aparato * e multi- «fi^v. dão de gente da maneira seguinte. Fazendo o Mori uma fortaleza em um lugar por nome Frângi, seis léguas de Iamangúchi, mandou que tôda sua gente principal fizesse nela casas e fôssem lá morar, pelo que Belchior houve também de fazer suas casas e passar-se para lá como todos os demais. Estando pois em Frângi e em sua casa, à meia noite cercam a casa de Belchior passante de mil homens todos armados. E logo dois dos principais, um dêles chamado Ionaguizava Sangazamon, e outro um bonzo, superior de uma varela e que tinha uma dignidade superior entre os bonzos, bateram à porta, dizendo que era recado de Mori. Saiu Belchior a receber o recado, o qual foi, como Moridono mandava que logo lhe entregasse reféns, sem lhe tocar em coisa alguma de morte. O que fêz o tirano, para que prêso Belchior por via de reféns se deixasse matar sem resistência: por ser êste o costume de Japão, que quando o que há de ser morto não foge nem se de- fende, ficam vivos os reféns que tem dado. Bem entendeu logo Belchior que o tal recado e modo com que o tratavam tirava a outro fim; porque, como se não sentia culpado em coisa alguma, fàcilmente conheceu ser aquilo traça para o fazerem retroceder na fé, e quando não retrocedesse, para o matarem. Con- tudo entregou logo em reféns um filho seu mais pequeno, por nome Francisco, e a um seu neto, por nome Manuel, o qual, por parte do pai tinha parentesco
  • 264 Das coisas de Japão com o mesmo rei Moridono; parecendo por então a Belchior que estando o tirano seguro com os reféns não procederia logo tão de-pressa na execução da •Fi.48. sua morte; e que * assim poderia ter lugar para êle também poder aparecer diante de Moridono, e dar razão da fé que professava, e fazer uma honrosa confissão dela, como êle havia muito tempo que trazia traçado. Tomando pois os dois que vieram com o recado os meninos em reféns, os levaram a uma varela ou mosteiro de bonzos, deixando porém a casa cercada como estava. O que vendo Belchior e entendendo o que podia ser, se esteve todo o restante da noite aparelhando com muita oração para tudo o que suce- desse. Senão quando, ao romper da manhã, eis que tornam outra vez os dois com alguns principais da côrte com suas armas, e entram de tropel pela porta da rua. Bugendono Belchior, ouvindo o estrondo, lança mão de uma nanguinata (que é uma arma como alabarda) e sai com ela a uma varanda. E se se deixara levar conforme o seu natural esforço e valentia, caro havia de custar o negócio aos que entravam; porém tornando logo sobre si, e considerando que naquela causa não havia para que tomar armas nem defender-se com elas, mostrando-se esforçado contra seus inimigos, senão que o verdadeiro esforço estava em se mostrar soldado de Cristo, recebendo por êle a morte com muita paciência, como êle podendo aniilar seus inimigos a recebeu por nós, largando logo a nanguinata da mão, a deu a um seu criado cristão e se recolheu. Entraram dentro os dois com os demais; acharam a Belchior com as contas em uma mão •Fi.48*. e uma corda delgada noutra. Com as contas quis professar * como era cristão; com a corda dar a entender o genero de morte que desejava padecer, como pouco depois declarou. Apresentam-lhe os inimigos certos capítulos das culpas que Moridono lhe impunha. O primeiro era a contenda da briga passada entre seu genro e os fidalgos que acima dissemos. O segundo por ser cristão e não querer retroceder. Os demais de coisas levíssimas e que se via bem os não punha mais que por entulho; e logo após lhe disseram a Belchior que cortasse a barriga, que assim o mandou Moridono. E para que se entenda melhor êste genero de morte cortando a barriga, se há de pressupor que dois generos de castigo há em Japão com que se casti- gam e matam os malfeitores; um que se não dá senão a gente vil e baixa, que é levarem-nos amarrados com cordas e com baraço e pregão pelas ruas da cidade, com muita ignomínia e desonra, até ao lugar onde os hão de crucificar e justiçar; outro que sòmente se dá a gente nobre e que professa milícia, que é cercando-lhe a casa de modo que não possa fugir, dizerem-lhe que corte a bar- riga diante de duas outras pessoas principais, que lhe levam o recado da parte do senhor que o manda matar e a quem encomenda a execução desta justiça, a qual ordináriamente se não faz desta maneira senão por caso de traição. Recebido o recado, lava o delinquente o corpo, perfuma-se com áquila, desatam e soltam o cabelo que por detrás trazem atado. Despem-se da cinta para riba; e estando em pé sobre uma esteira ou colchão dos que usam os japões, cortam a barriga em cruz com a ponta da adaga, e isto com muito esforço, e sereni- dade do rosto, como coisa de que nada se lhes dá, antes que nela ganham honra e nome. O que feito, logo em continente uma pessoa das * mais principais da família do padecente, e dêle mais amada, e que êle mesmo para isso nomeia,
  • Das coisas de Japão 205 lhe corta a cabeça para que não pene. E se algum por fraqueza de ânimo não ousa cortar a barriga por si mesmo, e é necessário que lha cortem os executores da justiça, e coisa de grande desonra e infâmia; pelo que os cristãos no prin- cípio, vendo que lhes era proibido pela lei de Deus matarem-se a si mesmos, o sentiam grandemente quando se viam em semelhantes casos, por cuidarem que ficavam desonrados em não se cortarem as barrigas. Porém depois que entre os gentios se divulgou esta proibição da lei de Cristo, eles se satisfazem quando vêem que os cristãos, chegando a semelhantes passos, com ânimo intrépido e postos de joelhos, recebem o golpe que lhes leva a cabeça. Pressuposto isto, e tornando a Bujendono Belchior, ouvidos os capítulos que lhe davam por causa da sua morte, respondeu que êle nenhuma culpa tinha cometido por onde a merecesse, mas que, pois Moridono assim mandava, êle estava prestes para morrer; porém quanto a cortar êle a barriga, isso não podia êle fazer porque era cristão, e a lei de Cristo que professava lho proibia; mas que lhes pedia que com aquela corda que tinha nas mãos (a qual lhes ofereceu cruzando as mãos detrás) o quisessem amarrar, e assim amarrado o levassem diante de Moridono, para lá fazerem dele o que lhes mandasse; o que dizia com a intenção e desejo que acima dissemos trazia, para imitar a Cristo nosso Senhor em sua Paixão. E há-se de conceder que para um homem japão tão ilustre e esforçado como êste era, e em tanto estremo pontual em conservar a honra do mundo sem dela perder um ponto, determinar-se não sòmente a não cortar a barriga, mas * escolher um género de morte tão vil e de tanta infâmia como pedia lhe dessem por amor de Cristo, que foi um acto de religião e de fé admirável e heróico quanto se não pode encarecer. Vendo os executores desta justiça a resposta de Belchior no que tocava a não querer cortar a barriga, tornaram a instar que o fizesse; e principalmente o bonzo que se entendeu não vinha mais que para o fazer retroceder, lho persuadia com muitas razões, e que quisesse antes morrer conforme ao costume dos soldados honrados e de primor como êle era; e prometendo que lhe faria enterramento e exéquias mui solenes. Ao que respondeu Belchior que não tinha necessidade de suas exéquias, nem lhe falassem em deixar de ser cristão, porque êle sabia que para a salvação não havia outro caminho senão a lei de Cristo, e que portanto nela havia de morrer. Pediu logo com muita paz o deixassem aparelhar um pouco para tal hora. Entrando em uma câmara trocou os vestidos tomando outros melhores, e pondo o seu relicário ao pescoço se ajoelhou diante de uma imagem, onde, estando em oração, lhe cortaram a cabeça; e envolta num vestido seu foi levada a Mori- dono, que não contente com a morte de Belchior, mandou também matar a mulher, filhos e netos, tirando o que temos dito que tinha parentesco com êle, e a todos os mandou queimar juntos em uma varela. Da mesma maneira man- dou também matar ao genro de Belchior que foi uma das partes da contenda, e também muitos criados de um e outro que, segurtdo se diz, passariam de cem pessoas. Esta foi a morte gloriosa de Bujendono Belchior, que além das provas que ficam ditas de lhe ser dada principalmente por causa da fé (ainda que o tirano lhe lançou diante aquela capa) muitas coisas há que confirmam isto mesmo; como são que quando em Japão um senhor mata * algum vasalo seu por causa • fi. 5o. de briga, é costume matarem ambas as partes, quer ambas sejam culpadas, quer 34
  • 266 Das coisas de Japão uma só; o que fazem para com êste terror impedir não haja brigas, coisa a que esta nação tem muita inclinação por ser naturalmente dada às armas; e Aloridono aqui não matou mais que a Belchior e seu genro, sem entender com a outra parte. Além disso os próprios gentios e bonzos claramente dizem que, se. Belchior não fôra cristão, não o mandara matar Moridono; e um deles disse a um cristão que deixasse a lei de Cristo, não lhe viesse por ela o dano que veio a Belchior, que por isso morreu. Faz sobre tudo o entranhável e figadal ódio que o tirano Moridono tem aos cristãos, e extremos que fêz para que Belchior retrocedesse, e o muito que dêle (se) desgostou por lhe não obedecer. E finalmente porque imediatamente depois da morte de Belchior, mandou ma- tar também pela mesma causa da fé um cego por nome Damião, como logo veremos. CAPÍTULO XII Como El-Rei Moridono mandou martirizar um cego por nome Damião, na cidade de Iamangiichi FOI êste glorioso mártir natural da cidade de Sacái; recebeu o sagrado baptismo na cidade de Iamangúchi haverá como vinte anos. Era homem pobre que vivia de tanger e cantar à viola e contar histórias antigas, como é costume dos demais cegos pobres de Japão, de que há grande número naque- . n. 5ov. les reinos. Era de muita habilidade e vivo * engenho, ânimo grande e para muito. Depois de baptizado fêz muito bom entendimento das coisas de Deus, e entrou em tanto gosto delas que aprendeu as prègaçoes do catecismo e outras muitas coisas de nossa santa lei e costumes cristãos. Tinha zelo e fervor de animar as almas, pregava a cristãos e gentios com muito fruto, ajudando nisto muito ao padre que estava em Iamangúchi. E depois que Moridono o lançou fora, ficou ali o bom Damião como em seu lugar para ajudar os cristãos; o que fazia prègando-lhes, baptizando as crianças, enterrando os defuntos e visitando os que moravam por fora da cidade: finalmente exercitava com êles o oficio de um solicito pastor. E assim como Bujendono Belchior era como cabeça de todos na honra, autoridade e protecção que dêle tinham, assim Damião o era na doutrina e naquilo (tom) que os podia ajudar e cultivar em falta dos padres. E para que se ocupasse sómente nisto, lhe dava ali a Companhia cada ano certa esmola para ajuda de sua sustentação, e lhe fêz umas casas onde morava com sua mulher, e onde havia como um oratório, onde os cristãos se ajuntavam e encomendavam a Deus, e ouviam a doutrina e prègaçoes que êle lhes fazia. E concorria Deus com êle de modo que além do muito que ajudava aos cristãos, convertia também alguns gentios e tinha particular dom de lançar demónios dos corpos humanos, o que fêz por vezes com grande admiração dos gentios e edificação dos cristãos. Seria agora de idade de quarenta e cinco anos; e como era êste, e de tanto proveito para os cristãos e como cabeça dêles, logo tanto que Moridono mandou matar a Belchior, entenderam os cristãos que não pararia ali o negócio, mas como o tirano tinha tão grande ódio à lei de Cristo, e desejava tanto de a extinguir em suas terras, não poderia deixar de ir àvante
  • Das coisas de Japão 267 em * sua maldade e matar algum outro dos principais cristãos; e em particular • fi.5i. se arreceavam de Damião, por ser tão notório o muito que com seu zêlo e exercícios ajudava aquela cristandade, e procurava que tivesse mão na fé. Não se enganaram os cristãos nestes seus pensamentos; porque quatro dias depois da morte de Belchior, vieram de Frângi, corte de Moridono, a Iamangúchi dois oficiais de justiça, pessoas das honradas daquela corte, os quais foram logo tomar posse das casas de Belchior como coisa devoluta ao fisco; e estando ambos nelas, no mesmo dia mandaram chamar o cego Damião; e porque não estava em casa, o mensageiro se tornou sem o levar consigo como lhe era ordenado; deixou recado à mulher para que lho desse quando viesse. Veio Damião, e ouvindo como era chamado dos ditos oficiais, disse logo à mulher que provavelmente seria para o matarem por ser cristão, e como cabeça e pas- tor daqueles cristãos. Pelo que logo se começou a aparelhar, não para fugir e se pôr em cobro, o que pudera bem fazer, senão para se ir oferecer e entre- gar aos ministros da justiça; nem também como quem ia a morrer, senão como quem ia a alguma alegre festa ou solene banquete; porque logo se lavou (con- forme ao costume de Japão, que é lavarem o corpo em sinal de alegria quando vão a alguma festa ou convite), vestiu os melhores vestidos que tinha, e acom- panhado de dois bons cristãos (que quiseram ir com êle para verem em que parava aquele negócio) se foi às casas do santo mártir Belchior, onde os dois ministros da justiça estavam esperando por êle. Tanto que ali chegou, logo os criados dos oficiais o fizeram entrar para dentro; e aos dois cristãos mandaram que ficassem na casa dianteira; e pôsto- -que * do que lá dentro passou os dois não souberam dar fé nem relação, por- «FJ-Siv. que como ficaram de fora nada viram, pelo que porém se soube dos mesmos criados dos oficiais que se acharam presentes e depois o contaram, o processo foi que aparecendo Damião diante dos dois ministros, êles lhe disseram que, por quanto a lei dos cristãos era tão aborrecida de Moridono seu senhor, êle Damião a deixasse logo, e não fosse mais cristão, porque se assim o não fizesse o ma- tariam; e se obedecesse, Moridono lhe faria bem e lhe daria com que se pudesse sustentar melhor do que agora se sustentava. Ao que respondeu Damião que êle não havia de deixar de ser cristão, ainda que por isso lhe cortassem a cabeça e o assassem e frigissem, e com vários tormentos o atormentassem, pois estava certíssimo e tinha muito bem entendido não haver outro caminho de salvação senão a lei de Jesus Cristo. E preguntado qual era a causa porque temia tão pouco a morte e não queria obedecer a Moridono, a resposta foi que, com esta ocasião, fêz uma prègação mui comprida aos dois oficiais e mais cir- cunstantes, provando-lhes com muitas razões haver um Criador das coisas, que era o verdadeiro Deus a quem os cristãos adoravam, e que esse era o que salvava os homens, e que de todos devia ser adorado, venerado e servido, e não os Camis e Fotoques, que não eram mais que puras criaturas; respondendo juntamente às dúvidas que lhe punham e preguntas que lhe faziam, com grande ânimo e prudência. Passada esta longa prática entre Damião e os ditos ofi- ciais, como não puderam rendê-lo, determinaram executar logo a justiça que Moridono lhes mandava fazer nêle. E assim, tanto que anoiteceu, mandaram aos dois cristãos que estavam esperando na sala * de fora que se tornassem, »n.5a.
  • 268 Das coisas de Japão porque Damião tinha ainda ali muito que fazer. Não o quiseram matar publi- camente para não alterarem com isso os cristãos e o povo; mas pouco antes da meia noite, quando já ninguém andava pelas ruas, o fizeram subir em um cavalo, e acendendo algumas tochas das que se usam em Japão, lhe disseram que fôsse com eles a Iunda, certo lugar de lamangúchi, que tinham um negócio que tratar lá com êle. Indo pois no meio do caminho, tomando por um atalho, encaminharam para um lugar chamado Ipon Mateu, onde costumam justiçar os malfeitores, que está um pouco fora do povoado ao longo dum rio. Damião pôsto-que cego, como porém sabia bem aqueles caminhos por ter andado por êles muitas vezes, sentindo que o desviavam do caminho que ia para Iunda e o encami- nhavam para Ipon Mateu, entendeu bem aonde o levavam e o disse logo aos que com êle iam; os quais negando-lho, tornou Damião: não tendes que me enganar, que eu entendo muito bem que me levais a matar; mas peço-vos que me digais a causa por quê. Ao que lhe respondeu o mesmo que havia de ser o algoz, que a verdade era que o mandavam matar porque tendo proibido Moridono que não houvesse padre em lamangúchi, êle fazia ali o ofício de padre, e era o que sustentava os cristãos, e lhes prègava e os doutrinava, e fazia muitas outras coisas que eram próprias do padre. Ouvindo isto Damião saltou logo do cavalo abaixo e disse aos que o levavam: já que assim é, estou mui prestes para morrer, nem sinto a morte por tão boa causa, antes folgo muito de a padecer pela lei de Cristo que professo; peço-vos todavia que pri- meiro me deixeis aparelhar para tal passo com alguma oração, porque os cris- • fi.52v. tãos não costumam morrer sem * este aparelho. E chegando ao lugar onde havia de ser justiçado, se pôs logo de joelhos, e em voz alta rezou algumas orações, e depois por um breve espaço orou mentalmente, até que estendendo o pescoço constantemente e sem mostrar perturbação nem tristeza alguma, antes grande paz e alegria como quem ia a gozar para sempre da eterna, recebeu o golpe com que lhe foi cortada a cabeça. Alguns dizem, e é corrente entre os cristãos de lamangúchi, que antes que lhe cortassem a cabeça, lhe pôs o algoz três vezes a espada no pescoço, dizendo-lhe de tôdas que deixasse de ser cristão, que lhe dariam a vida: mas que Damião com grande constância respondeu sem- pre que era por demais, que não deixaria de ser cristão. Morto Damião, lhe fizeram os matadores o corpo também em pedaços e os lançaram no rio, tirando um braço e a cabeça: porque, como Moridono pretendeu que assim como a morte de Belchior fôsse pela causa da fé, mas paliada com a causa da briga, assim também a morte de Damião que lhe deu pela mesma causa, já que não tinha outra com que a paliar, quis pelo menos que fôsse executada de noite, e o corpo em pedaços lançado no rio, para que não apa- recesse nem se soubesse o que era feito dêle; e tudo isto para que os cristãos se não perturbassem de modo que, com o temor de lhes acontecer outro tanto, deixassem e despovoassem a terra e se fossem para outra parte. Porque ainda que queria que deixassem de ser cristãos, não os queria todavia perder de vas- salos, mas só determinou tirar-lhes as cabeças e esteios em que se sustentavam; imaginando que faltando-lhes êstes, pouco a pouco iriam caindo e faltando na • fi. 53. fé. E assim depois da morte dêstes dois não foi mais por * diante na perse-
  • Das coisas de Japão 269 guição, e os cristãos ficaram quietos. Mas tornando ao santo mártir Damião, a ocasião que houve para logo ao outro dia se saber de sua morte, foi porque quando à meia noite o levavam a justiçar, acertou de sair à rua um cristão, e vendo ir um homem a cavalo e muitos diante dêle com lume, e alguns detrás um pouco afastados, logo lhe pareceu que sem dúvida devia de ser o que de efeito era. Pelo que em amanhecendo, indo falar com alguns cristãos lhes contou o que vira; os quais sabendo que Damião não tornara a casa, se foram logo ao lugar onde matam os delinquentes e acharam seu vestido e outros evi- dentes sinais de ser morto. Entre êles, indo um cristão por nome Bento ao longo do rio buscando com mais diligencia se achava alguma coisa, e entrando por um pequeno mato, foi dar com a cabeça e um braço que estava sobre um pedaço de tábua, que logo reconheceram ser do santo mártir e arrecadaram em lugar decente: o que parece foi grande providência divina que os matadores se esquecessem de sumir também estas sagradas relíquias, para que se viesse a manifestar logo a morte do santo mártir, que os executores dela tanto desejavam encobrir como lhes fôra mandado. Logo que isto passou, os cristãos de Iamangúchi mandaram recado ao padre que estava em Firoxima a cuja conta estão. O qual sabendo o que tinha suce- dido, e mui solícito pela tribulação em que via podiam estar aqueles cristãos, se começou a aparelhar para logo se partir, ainda que fosse com o evidente perigo a que punha a sua vida. E por temor dela resistiram fortemente à sua ida os cristãos de Firoxima com muitas e eficazes razões que para isto davam. Mas como não bastaram estas para o deter, se não fôra o recado * que lhe »fi.53v. mandaram os cristãos de Iamangúchi, pedindo-lhe eficacissimamente que não fosse lá nesta conjunção, porque seria deitar azeite no fogo e acender muito mais a ira de Moridono se lá o visse, para mais descobertamente perseguir os cristãos, e os tratar mal, e ao mesmo padre tirar a vida. Com isto sobresteve na ida, mas em seu lugar mandou vários cristãos por diversas vezes, homens de muita confiança e fervorosos na fé, a visitar e consolar aqueles cristãos, e animá-los à perseverança até darem a vida por Cristo; e juntamente para com todos as possíveis diligências inquirirem das mortes dos santos mártires, e de tôdas as miudezas e circunstâncias delas, e juntamente lhe trazerem as relíquias do santo mártir Damião. Fizeram-no assim e mui pontualmente como lhes foi mandado, e de tudo o que acharam, que é o que temos referido, deram alguns seu testemunho juridicamente em Nangasáqui, onde para isto foram, diante do Bispo de Japão; outros diante do mesmo padre de Firoxima pela comissão que para isso tinha do mesmo Bispo. E entre estes que testemunharam, que foram sete ou oito, foi um dêles Acaximandono João, um senhor nobilíssimo e excelente cristão, de que nas relações passadas se tem falado, e que agora está desterado naquelas partes do Ximo em razão das guerras passadas; o qual nesta conjun- ção foi a Iamangúchi a certos negócios, e com muita diligência inquiriu tudo miudamente, e aqui deu seu testemunho juridicamente em Nangasáqui diante do Bispo. As relíquias do santo mártir Damião se levaram a Nangasáqui, onde com tôda a decência se colocaram em uma capela, com muita consolação dos padres. * Há em Iamangúchi um cristão por nome Canefanjemon, o qual depois de «flí*
  • 270 Das coisas de Japão Belchior era a principal pessoa em autoridade e honra que ajudava muito aquela cristandade; e por ser bom cavalgador e entender bem de cavalos, coisa que os japões muito estimam, muito conhecido e estimado na corte de Mori, e tem muita entrada com os principais dela, e principalmente com Saxodono, governador principal daqueles reinos. Este logo no dia seguinte depois da morte de Bujendono Belchior, foi chamado do mesmo governador a Frângi onde a corte reside. E como o portador que lhe trouxe o recado lhe dissesse tam- bém da morte de Belchior, ficou Fanjemon algum tanto sobressaltado, pare- cendo lhe que podia ser chamado pela mesma causa da fé, e para o mesmo fim de o matarem por ela. Pelo que logo se começou a aparelhar como quem ia a morrer. E aconselhando-lhe alguns gentios seus amigos, que souberam do recado, que devia deixar de ser cristão para salvar a si e a sua mulher e família, êle lhes respondeu que bem podia Moridono mandar enterrar vivos a sua mulher e filhos, e justiçá-lo a êle sôbre a mesma cova; mas que nem por isso havia de deixar a lei de Cristo. Fêz saber à mulher como era chamado, e porque entendia ser sôbre a lei de Deus, êle estava determinado de morrer por ela; pelo que lhe pedia muito que ela também fizesse o mesmo estando sempre muito constante na fé. Foi a Frângi, e falando com o governador que o cha- mava, nenhuma coisa lhe tocou o mesmo governador em matéria de fé, mas fi. 54 v. só lhe disse que lhe queria depositar * cavalos de Bujendono Belchior e dos outros seus parentes que com êle morreram; mas o mais certo foi que o chamou porque, como Moridono mandara matar a Damião, não quis que se achasse Fanjemon em Iamangúchi no mesmo tempo, para que com o temor de o pode- rem matar também a êle, se não ausentasse da terra, e com seu exemplo se ausentassem também outros cristãos, por ser êle uma das principais cabeças de todos. Mas, como êle tardou alguns dias em tornar para Iamangúchi, nem se sabia o que era feito dêle, todos se persuadiam ser êle morto; e foi tão grande a fama que de sua morte correu que chegou também à mulher como coisa mui certa. A qual, como era, tão boa cristã, não lhe esquecendo o que seu marido lhe encomendara quando dela se despediu, se recolheu logo no mais interior de sua casa, e se começou a aparelhar para também morrer pela con- fissão da fé, e como lhe diziam que seu marido tinha feito. Tinham estes bons casados uma filha por nome Maria, de idade de doze anos; e como corresse fama e se tivesse por tão certa a morte de Fanjemon, um dos oficiais que Mori- dono tem posto no govêmo da cidade de Iamangúchi, que ainda que gentio era muito amigo de Fanjemon, vendo que morto êle haviam também de matar a mulher e filhos, determinou pelo menos de lhe salvar a filha, e para isso foi a casa de Fanjemon, e tomando a menina, a levou para sua casa. Porém ela, chegando a casa do gentio amigo do pai, e ouvindo lá dizer que o pai fôra morto pela fé, disse ao gentio que ela era cristã, e que queria também ir morrer • Fi.55. com sua mãe pela mesma fé como morrera seu pai; e por * mais que o gentio procurou de a divertir, não houve remédio para se aquietar. Sai-se por força da casa do gentio, vai ter com sua mãe, e posta de joelhos diante de uma ima- gem, se começou também a aparelhar para morrer. Porém andando neste aparelho a mãe e ela, eis que dali a poucos dias entrou Fanjemon pela porta viro e são, que todos receberam como ressuscitado.
  • Das coisas de Japão 271 Não deixa Deus de ir mostrando seu juízo sôbre o tirano Moridono pelo muito sangue que tão injusta e tiranicamentc derramou; porque depois da morte de Bujendono Belchior, todos os que eram de sua capitania se retiraram sem o quererem servir, queixando-se muito dêle por matar um homem de tanta impor- tância e outros muitos sem haver neles culpa para isso. E o mesmo Saxodono, que é o principal governador dos seus reinos, também se retirou fingindo-se doente, sem sair de casa nem ao chamado do mesmo Moridono, e determinou de se ir viver à cidade de Sacai por não ver tantas tiranias e semrazoes. Pelo que o tirano cobrou tão grande medo vendo isto, que êle mesmo mandou a todos os soldados nobres se saissem da corte e se fossem viver a suas terras e rendas, não ficando nela mais que os bonzos e mulheres, e êle ocupado todo em deprecaçóes a seus ídolos, por meio dos bonzos, para que suas coisas lhe sucedam prosperamente. ♦CAPÍTULO XIII • fj.55▼. Do que passou na cidade de Firoxima AINDA que os dois tiranos Canzujedono no reino de Fingo e Moridono no de Iamangúchi, de que até agora falámos, são tão grandes inimigos do nome de Cristo e de sua lei, e perseguem continuamente os cristãos de suas terras, da maneira que temos dito, não faltam porém outros príncipes e senhores mui grandes que pelo contrário mostram à lei de Deus, aos cristãos e padres tanto respeito e amor e lhes fazem tantos favores, como se pudera espe- rar deles se já foram baptizados. Entre estes podemos dar o primeiro lugar a Fucoximandono, senhor de dois reinos e príncipe de mui grandes prendas, o qual assim por sua natural condição muito aprimorada e generosa, como pelo grande conceito que dalguns anos a esta parte formou da lei de Deus e dos padres que a pregam, lhes faz singulares favores e mercês. E êste ano lhes fêz uma das maiores que se podiam desejar; porque, vivendo os padres na sua cidade de Firoxima em um sítio mui fora de mão, pouco sadio e incómodo para a prègação do Evangelho e para os cristãos poderem exercitar as coisas tocan- tes à lei de Deus, advertindo nisso êste bom príncipe, mandou logo um recado ao padre, mui cortês, que êle tinha entendido a incomodidade de casas e apo- sento em que estava; e porque isto não era razão fosse assim estando êle padre em seu reino e corte e debaixo de sua protecção, que por isso lhe fazia mercê de certo chão e sítio com tôdas as casas que nêle havia, para que mudando-se para elas, assim para sua pessoa e dos mais companheiros como para o bem dos cristãos e das coisas de Deus estivesse melhor acomodado. * É êste sítio, • n. 56. depois do da fortaleza do príncipe, o melhor de tôda aquela grão cidade de Firoxima, cercado todo não sòmente de parede, mas de uma larga cava cheia de água que o cinge em roda. As casas muitas e mui capazes, e as principais delas feitas por oficiais muito estremados, e de certa madeira muito estimada em Japão, as quais com grandes despesas edificou anos atrás Saxodono, gover- nador universal de todos os oito reinos que então possuia Moridono (aquele tirano de Iamangúchi de que acima falámos), quando era senhor desta cidade e
  • 272 Das coisas de Japão nela tinha sua corte. Edificou-as o governador com intenção de depois as ofe- recer ao príncipe filho morgado do mesmo Moridono. E além de ser esta mercê que este príncipe fez aos padres e cristandade uma coisa, pela grandeza, nem esperada nem imaginada, e mais de um senhor gentio, mostrou nosso Senhor também nela singular providência, que não foi pequena consolação e proveito espiritual para os cristãos. Porque no tempo que Moridono, privado desta cidade de Firoxima e mais reinos que tinha nestas partes, ficando só com o de Nangato e seu, mudou sua corte desta cidade para a de Iamangúchi que escolheu para assento dela, e dali lançou, os padres que naquela cidade havia anos residiam, o seu governador Saxodono (que como disse foi o que edificou estas casas) tomou para sua morada em Iamangúchi as casas e igreja dos padres; pelo que, vendo os cristãos agora que em recompensa deles dera nosso Senhor aos padres em Firoxima as próprias do mesmo governador, tanto melho- res e mais sumptuosas, e que êle com tantas despesas edificara, não podiam deixar de glorificar a Deus por sua divina providência, e alegrar-se muito com • fi. 56*. tal sucesso e tanto mais quanto havia dois anos * o principal e mais poderoso bonzo de tôda Firoxima fêz grandes instâncias, por meio de um dos governa- dores do reino de Fucoximondono que lhe desse êste sítio, sem nunca ser ouvido, porque o guardava Deus para melhor gente. Além disso foi também grande testemunho da divina providência, que antes dêste senhor dar estas casas ao padre, querendo êle fazer umas obras na cidade de lendo, mandava desfazer uma destas casas que é a principal e mais formosa de todas, e que tem cem palmos de comprido e noventa de largo, para se aproveitar da madeira dela que para as outras determinava levar; mas achando que lhe não servia conforme a sua traça, mandou sobrestar no desmanchar da sala; dispondo-o Deus assim para agora ficar servindo de uma formosa igreja quanto se pudera desejar; de modo que não sòmente acharam ali casas para igreja e mui larga habitação dos nossos, mas além disso outras tantas para hóspedes e para todas as mais coisas necessárias a uma casa de religiosos, sobejando ainda algumas que por não serem necessárias se desfizeram. E como o tempo em que se tomou posse destas casas e os padres se mudaram para elas era um pouco antes do Natal, não se pode fàcilmente dizer a alegria e devoção com que os cristãos celebra- ram aquela santa festa na nova igreja que Deus lhes dera, e novo sitio, que é tão capaz que se pode também nêle fazer adro. E ainda que êstes cristãos sempre foram muito devotos, e correram com fervor nas coisas da lei de Deus, agora particularmente com esta boa comodidade se vê que crescem cada vez mais na devoção e freqíiencia dos Sacramentos; porque quási não há nenhum que quando vai fora, ainda que não seja para muito longe, se não confesse pri- •fi.57. meiro, além * das outras vezes que o fazem no ano. Se algum está doente, ainda que seja pobre, todos os outros, por nobres e honrados que sejam, o vão visitar e consolar, ajudando-o também com suas esmolas. Aos que morrem acompanham pessoalmente; e quando não podem, mandam algum de seus cria- dos, e às vezes seus filhos. Nas sextas-feiras da quaresma se acham às prá- ticas da Paixão com muita devoção, e no cabo tomam disciplina, tão costumada naquelas partes; o que fazem até velhos e meninos de pouca idade; e os que não tem disciplina, principalmente os soldados nobres, tomam por via de recreação
  • Das coisas de Japão 273 virem entre a semana a nossa casa aprender a fazê-las, para em tal dia lhes não faltarem. Ao domingo, depois da missa e prègação a que todos veem, fazem suas juntas, às quais lhe assiste um irmão que lhes resolve as dúvidas que propõem acêrca das coisas de nossa santa lei, para saberem dar a razão delas e declará-las aos gentios, tratando também dos meios para a guardar e alcançar a salvação; e não se pode fíicilmente dizer o muito fruto que daqui se colhe. A gente que mais se converte nesta cidade é a da casa e côrte de Fucoxi- mandono, e que dêle tem renda e moradia; que os naturais da terra que vivem de seus ofícios e mercancias assim estão contumazes em suas idolatrias e pa- ganismo, que parece aquela cidade uma sinagoga do inferno, imitando nisto a Moridono seu antigo senhor que nêste leite os criou; e com tanta diligência frequentam seus templos, e particularmente um mui afamado que está em uma ilha perto daquela cidade, que põe espanto; e muito mais o mêdo que teem a um ídolo que nêle veneram. E como vêem que os padres teem por alvo a que continuamente tiram contrariar estas suas seitas e tirar o rebuço a tantas fal- sidades e enganos, é mortal o ódio * que lhes teem, pôsto-que por temor do fi. 57». príncipe não ousam de lhes fazer mal descobertamente, porque vêem os favores e respeito com que dêle e dos de sua côrte são tratados. Não deixam porém de espalhar contra a doutrina da fé muitas mentiras, e aos padres lhes vão Ian çar de noite corpos mortos à porta, persuadindo à gente rude que comem carne humana, para lhos fazerem odiosos e aborrecíveis. E êste fogo acêndem-no principalmente os bonzos de que aqui há grande número. E assim, não sò- mente metem todo o cabedal de suas forças para desviar ao povo que não venha à nossa casa a ouvir prègação, mas ainda aos novos cristãos dão gran- des baterias para tornarem atrás; e quanto mais vêem o amor que o príncipe e os seus mostram aos padres, tanto mor é o ódio e inveja em que ardem. Nem deixam de procurar, tentando todos os meios por ver se podem desviar a Fucoximandono de nossa amizade, como fez um bonzo velho de muita idade, e superior de um mosteiro, o qual foi eleito de comum acordo de todos os outros, para que por meio de um gentio nobre dos mais privados de sua côrte o avisasse como lhe não havia de sair bem favorecendo tanto aos padres e a lei de Deus, dando com isto a entender que viria sôbre êle algum castigo do céu. O gentio porém, como conhecia o ânimo de seu senhor para com os padres, não somente se escusou de lhe levar tal embaixada, mas também o aconselhou que não tratasse daquela matéria. Não se aquietou o bonzo, mas êle próprio determinou de fazer êste ofício. E assim, em uma boa conjunção que teve foi falar a Fucoximandono; e com um fingimento e dissimulação farisáica, mos- trando uma pura e desinteressada intenção, disse que o amor que lhe tinha, o zêlo com que desejava todo seu bem, o obrigava a ser por ventura mais atre- vido do que convinha, com lhe lembrar que era coisa perigosa e donde lhe poderiam nascer graves * inconvenientes, favorecer êle tanto aos padres e a lei .11.58. que pregavam. Mas o príncipe, como é mui avisado, e entendeu logo o intento e pretenção do bonzo, lhe respondeu que não tomasse pena ainda que a lei dos cristãos se estendesse por seus reinos, que êle faria com que não morresse de fome, mandando-lhe dar o arroz necessário como até agora fizera; com que o bonzo ficou atalhado sem mais replicar palavra. 55
  • 2y4 Das coisas de Japão Tinha este príncipe dito que desejava ouvir pregação, mas por várias ocupacões nunca se lhe ofereceu para isso tempo acomodado senão este ano, no qual o padre o convidou uma vez a jantar em nossa casa, aonde veio, man- dando diante um presente, conforme ao estilo de Japão, onde entravam vinte barras de prata que passam de cem cruzados, e duzentas velas de cêra. Trouxe consigo um grande amigo seu, fidalgo do Cubo; e depois de comer, chamando muitos privados seus que também trouxera consigo, ouviu pregação com grande atenção por espaço de uma hora; e ficou tão satisfeito de nossa doutrina que não se fartava de louvar a muita razão em que se fundava. Também seu filho morgado, que agora é de dezassete anos, mostra muito amor e incl.naçao a nossas coisas; e sabendo que alguns dos seus pagens eram já cristãos, se alegrou muito, dizendo que havia de procurar que o fôssem todos os mais, e que se seu pai lho não tolhesse, determinava êle também fazer o mesmo, e quando vai a nossa casa, que vê no altar a imagem de nossa Senhora e o cru- cifixo, lhes faz muita reverência. Um mancebo primo com-irmão seu, sendo menino de tenra idade lhe mor- reu a mãe, a qual como fosse cristã, estando já na derradeira lhe pedia com muito afectuosas palavras, como a único filho seu, que se fizesse cristão, e acabasse na lei de Deus, em que ela acabava. Nunca êste mancebo se esqueceu deste tão saudável conselho, ainda que por falta de ocasiao o nao punha por • fi.58 v. obra. Mas tanto que o ano * passado soube da chegada do padre a esta cidade para nela residir de assento, o mandou visitar por vezes e dar parte de seus desejos, escusando-se de não ir pessoalmente por estar doente. Mas tanto que convalesceu, com ser em conjunção que Fucoximandono tornara da corte do Meaco, antes de o visitar a êle, a primeira visita que fêz foi à igreja a se ver com o mesmo padre e ouvir prègação. Na qual fêz tal entendimento, que logo pediu com muita instância o sagrado baptismo, dizendo que so por cumprir o conselho de sua mãe estava apostado a se fazer cristão, ainda que soubesse perder seu estado; quanto mais agora, que pelo que ouvia e entendia que nao havia outro caminho de salvação senão a lei de Cristo. Porem como lhe dis- sessem que era necessário ouvir certo número de prègações, cont.nuava todos os dias com muita diligência, até que depois de bem instruído, disse que queria receber o santo baptismo no domingo que se seguia. Mas acertando de o chamar naquele dia seu primo, o filho morgado de Fucoximandono, estando com êle e chegando-se a hora em que tinha determinado de vir à igreja a rece- ber o sagrado baptismo, pediu licença ao primo para vir, dedarando-lhe a causa. Respondeu-lhe o primo que mandasse dizer ao padre como estava com ele, e a causa por que se detinha; porque, se sôbre isso o padre dissesse que fosse, fácil coisa era dar-lhe licença. Êle não se dando ainda por satisfeito, lhe tor- nou: olhai, senhor, que se o padre me diz que vá, eu hei de ir, ainda que por isso depois me corteis a cabeça. E assim mandou preguntar à igreja o que faria; e respondendo-lhe o padre que bem podia dilatar o baptismo para o dia seguinte, se aquietou; e logo à segunda feira o foi receber com grande alegria sua É êste mancebo muito avisado e discreto; e como está apostado a nao .fi s9. somente permanecer na fé ainda * que lhe custe a vida, mas também a guardar mui inteiramente a lei de Deus, entre várias dúvidas que para cumprir bem
  • Das coisas de Japão 275 isto preguntou ao padre, foi uma delas se porventura se proibia na lei dos cris- tãos a caça de altanaria, porque era mui afeiçoado a ela, e que desde logo que começara a ouvir prègação a não exercitara mais, por não saber se era lícita; e que se fôsse coisa contrária à nossa santa fé, deitaria de si os açores e ga- viões que com tanta curiosidade criava. Um homem nobre que o ano passado se baptizou com tôda sua família, o fêz com tal entendimento, que de quão duro e obstinado jenxu era, tanto agora é mais brando e devoto cristão. Tem este homem as terras da sua renda em certo lugar onde havia um moço de dezoito anos, de quem o diabo há dez que se apoderou, atormentando-o de então para cá mui a miúdo, com muito grande lástima e mágoa dos que o vêem, sem lhe poderem valer as muitas deprecações de vários bonzos, com que o pai tem gastado um bom pedaço. Indo pois este cristão àquele lugar com outros três ou quatro soldados e amigos seus, que ali junto tinham também suas herdades, e ouvindo como o demónio estava então apossado do moço, movidos de curiosidade o foram todos ver; e para provar as forças trabalharam de o subjugar pôsto-que de balde, porque o endemoni- nhado as tinha maiores que todos os outros. Arrancaram dos terçados para o espantarem; porém o moço, com ímpeto e fúria dum leão, se enviava a éles, ao que de enfadados o deixaram e se foram. Ao dia seguinte mandou o cristão todos os seus criados a derrubar um templo de ídolos que em suas terras estava desde o tempo que Moridono possuía aqueles reinos, ficando só com um pagem gentio. Andando assim passeando por um campo, viu vir ao longe o endemo- ninhado, * que correndo com grão pressa o vinha demandar, fazendo mui feios «fi 59 v. esgares; e lembrando-se do que tinha precedido o dia dantes, que nem forças nem armas lhe poderiam valer, achou-se um pouco enleado. Neste sobressalto e repentino temor se lembrou que levava no seio as contas. Tira-as logo, e mostrando a cruz ao endemoninhado lhe disse: ,jNão conheces este sinal, onde o Senhor do céu e da terra quis morrer para salvar aos homens? O endemo- ninhado cm vendo a cruz se baqueou logo, e descalçou as alparcas (que segundo o uso de Japão se faz por cortesia), e com a cabeça baixa, mãos alevantadas, pedia a Pedro (que assim se chamava êste cristão) que o deixasse tornar cm paz. Cobrando Pedro com isto mais ânimo, e lembrando-se que tinha ouvido que parte dos anjos maus ficaram cá nesta região superior, levado da curiosidade lhe preguntou onde era sua habitação. A isto o endemoninhado, apontando com o dedo para o chão, fêz um comprido arrazoatnento em uma estranha e peregrina língua de que Pedro não pôde entender palavra. Emfim instando depois uma vez e outra o endemoninhado, com as mãos alevantadas, o deixasse ir, Pedro, que não desejava outra coisa, lhe disse que se fôsse. No mesmo ponto, deixando as alparcas, com uma pressa e fúria diabólica, lançou a correr pelo meio daqueles campos, sem ter conta com o caminho nem vereda, mais que por onde sua casa lhe ficava mais perto; e atravessando um rio que no meio se metia, se recolheu; ficando Pedro atribuindo o terror e espanto que o demónio lhe queria pôr, a lhe ter mandado derrubar e destruir aquela sua tão antiga morada do templo que ali tinha. E não sòmente ficou mais confirmado na fé vendo a virtude da santa cruz, e animado para fazer semelhante serviço a Deus, mas também o seu pagem gentio que a tudo esteve presente, tendo o
  • 276 Das coisas de Japão •Fi.60. caso por coisa maravilhosa, logo como tornou para Firoxima, * foi ouvir as pregações, e sendo catequizado recebeu o santo baptismo. Um mancebo soldado, de pouco tempo cristão, estava, em certo dia que lhe coube, vigiando a fortaleza com outros mancebos gentios. Começaram êles a motejar das coisas dos cristãos; e por derradeiro acudiu um dizendo que tinha certo argumento contra a lei dos cristãos, tão eficaz que fàcilmente convenceria a todo bom juízo. Saí com êle, disse o cristão, que pode ser não falte res- posta. Tornou o gentio: nenhum dos que morrem nas seitas de Japão torna a êste mundo, e o mesmo acontece também aos que morrem cristãos; logo, está claro que tudo com a morte se acaba, sem haver mais salvação nem outra vida. Respondeu o cristão que não dizia bem, porque na lei de Cristo havia trato familiar com os do outro mundo que estavam no Céu ou no purgatório, e que também alguns deles tornavam a êste mundo. Matou-se o gentio de riso, havendo a resposta por um grande disparate; e tornou mui ufano, que pois êle era cristão lhe rogava muito quisesse levar uma carta à outra vida. Será coisa fácil, disse o cristão; ^mas a quem a hei de entregar lá? A meu pai, tornou o gentio, que há tantos anos é falecido. Ao que respondeu o cristão: se a carta que vós quereis mandar fora para algum do que estão no paraíso, com quem os cristãos teem comunicação, eu a levava de boa vontade; mas como vosso pai morreu gentio e está sepultado no inferno, não me atrevo a ser portador de carta para tal lugar, com o qual nenhum trato nem comércio temos os cristãos. Festejaram todos o dito e louvaram-no muito e com êle ficou concluída a refrega; mas o fruto que daqui se tirou foi que logo de comum acordo assentaram os • fi. 60 v. soldados entre si, de fazerem cada domingo em nossa casa * as juntas de que acima falámos, para nelas se poderem melhor instruir e armar para responde- rem às dúvidas que es outros seus companheiros lhes punham. CAPÍTULO XIV Do que passou nas cidades de Facata e Aquisúqui no reino de Chicugém, e lanagava e Corinne 110 reino de Chicungo, e nos reinos de Bujém e de Bttngo EA cidade de Facata a maior de todo êste Ximo, ou reinos de baixo, povoada tôda de mercadores, gente honrada e limpa. Dela e de todo aquele reino de Chicugém é senhor Cainocâmi, que agora se chama Chi- cugencâmi. Os mais moradores desta cidade são gentios; e ainda que até agora foram muito duros de converter, depois contudo que os padres para ali foram a residir de assento, estão mui diferentes; e faz também muito para isto a bene- volência e favores que Cainocâmi, depois da morte de Simeao, seu pai, mostra à igreja e padres, não impedindo aos que de sua vontade se querem converter, assim na cidade como em todo o reino; pelo que há muitas esperanças de se haver de fazer ali uma grande cristandade. Levantou-se uma formosa igreja com licença do príncipe, por seu pai lho deixar encarregado como lugar de sua sepultura, e saiu o mais formoso templo que há na Facata-, para a fábrica do
  • Das coisas de Japão 277 qual, além da esmola que deixou Simeão, concorreram também os mais cristãos conforme a sua possibilidade, não só com prata mas com gente de serviço; e até os gentios não faltaram * com suas ajudas, por ser esta uma obra de que levava muito gosto o senhor da terra, e ficar encomendada por Simeão, a quem todos tinham obrigação. Até nas mulheres honradas entrou o desejo de ajudar nela, principalmente ao tempo que se havia de cobrir, vindo com suas criadas, de noite pelo luar, acarretar e juntar a telha, coisa de que os gentios se espan- tavam grandemente. Há naquela cidade e seu contorno cinco mil cristãos. Tem nela Cainocâmi sua corte, pelo que além dos mercadores e gente popular, se converte também muita soldadesca. Baptizaram-se aqui êste ano seiscentas pessoas. Cainocâmi tem-se feito muito familiar com os padres, vindo a nossa casa, comendo nela algumas vezes, com o que os seus se animam a ouvir as prògações, e favorecem muito o negócio da cristandade. Tem êste reino muito boa disposição para receber nossa santa fé, o que bem mostrou uma coisa que sucedeu no tempo da tempestade; e foi que indo um irmão nosso para aquele pôrto, onde fizeram naufrágio os nossos que iam numa embarcação com a fôrça da tempestade que acima dissemos, a arrecadar o fato que ali se achasse, achou entre ele uma imagem do Salvador que se mandava para o Bungo; e fazendo uma choupana na práia para se agasalhar emquanto ali estivesse, a armou nela, ornando-a o melhor que pôde. Os gen- tios do lugar que isto viram, começam logo a vir quási todos a ver e adorar a sagrada imagem com grande reverência e espanto de ver coisa tão formosa e tão diferente dos seus fotoques. E vendo também o irmão ocasião, como sabia bem a língua dêles, lhes começou a pregar cuja era aquela imagem. Ouviam os gentios com tanto gosto, atenção e concurso que o irmão quási * esquecido • ri. 6i v. do fato que havia de arrecadar, gastava todo o tempo em lhes pregar. Correu a fama pelos lugares ao redor, assim da imagem como das prègaçoes; começam a correr os gentios de duas e três léguas, homens e mulheres, assim a ouvir o irmão como a adorar a imagem, o que faziam com tanta reverência e devoção que a causavam no pregador e lhe acrescentavam o zêlo de lhes dar a conhecer quem era aquele cuja sagrada imagem adoravam. A gente que a isto nestes dias concorreu seriam como três mil pessoas, e ficaram tão bem afectos muitos dêles, que traziam presentes ao irmão, mostrando o bom ânimo e afeição com que ficavam à nossa santa lei, e dando esperanças de mui cedo a haverem de receber. Aquizúqui são umas terras neste mesmo reino de Chicugém, de que é senhor um tio de Cainocâmi, excelente cristão, e que com todas suas fôrças procura que se façam cristãos todos seus vassalos. Este senhor alcançou um padre para residir em suas terras, onde faz muito grande fruto assim na culti- vação dos cristãos já feitos, como na conversão dos gentios, dos quais êste ano se baptizaram mais de trezentos adultos. Celebram-se ali as festas com muita devoção e solenidade; e na Semana Santa se ajuntaram, vindos de muitas léguas, grande número dos que estão espalhados pelos reinos vizinhos, como Chicungo, Figém e Bungo. A conta do padre que reside em Aquizúqui estão os cristãos do reino de Chicungo, que ainda que são muitos e espalhados por diversas partes, a mor
  • 278 Das coisas de Japão parte dêles está em Carúmi e em Ianagava, que é a cidade principal de todo o reino, onde reside o senhor dêle com a sua corte} o qual com todos seus prin- •fi.Sj. cipais favorecem muito a igreja e aos padres, quando lá vão, fazendo-lhes * mui- tos gasalhados e cumprimentos. Este ano lhes deu um bom sitio em que se edificou uma igreja com todos os agasalhados necessários para poder estar um padre naquela côrte de assento; e nestas obras não somente ajudaram os cris- tãos com suas esmolas e mais achegas que cada um podia, mas também os pró- prios gentios, mandando gente de serviço. Quási todos os principais desta côrte ouviram êste ano as pregações das coisas da fé. E ainda que os que se converteram eram gente de toda a sorte, contudo ficaram todos entendendo muito bem a falsidade e engano de seus Potoques, e a verdade de nossa santa fé, e como não há salvação senão nela. Mas como andam tão arraigados nos vícios e na liberdade da vida dos gentios, não acabam tão fàcilmente de se resolver a escolher a verdade da santa fé. No reino de Bujém e na cidade de Conzura, onde reside e tem sua côrte Jecundono, senhor dêle, reside também um padre e dois irmãos da nossa Com- panhia, e fazem muito grande fruto, assim na cultivaçao dos cristãos já feitos, que passam de três mil, como nos que de novo se convertem, que foram êste ano perto de seiscentos. E continuamente se vão convertendo, não faltando nunca ouvintes do catecismo, que dão sempre que fazer a três ptègadores que ali há. É muito para louvar a nosso Senhor pelo conceito que os gentios dêste reino teem de nossa santa lei, e dos pregadores dela; e assim os tratam todos os principais com tanta familiaridade e reverência como se foram cristãos. E na festa da Páscoa, por se fazer aqui com muita solenidade e estranho concurso de cristãos, não sòmente daquele reino mas também dos vizinhos, os próprios gentios e mais principais da côrte a veem ajudar a festejar, visitando ao padre • Fi.62 todos, * e gastando o dia em músicas e representações a seu modo. Jecundono, senhor dêste reino, ainda que conhece muito bem a falsidade das seitas de Japão e a verdade de nossa santa lei, pelo que nunca cessa de a louvar, contudo não acaba de se resolver a receber o sagrado baptismo; porque diz que, emquanto não sentir em si disposição para guardar o sexto manda- mento, se não há de fazer cristão; pois é coisa vergonhosa ser cristão e não viver com tal: o que diz porque não entende ainda quão poderosa é a graça de Deus a quem dela se quere aproveitar e dispor para isso. Continua com o padre com muito amor mandando-lhe sempre seus presentes. O mesmo faz seu filho morgado, que é agora de dezanove até vinte anos, mancebo de boa natureza e inclinado às coisas dos cristãos. Também seus avós vão pelo mesmo caminho: veem algumas vezes à igreja, e sempre ouvem alguma coisa da nossa santa lei, com que Deus os vai dispondo para alguma hora usar com eles de sua misericórdia. Vivia nesta cidade um mancebo de dezóito anos, neto de El-Rei Francisco de Bungo, o qual servia a Jecundono, de quem e de todos os mais, por suas boas prendas naturais, era muito amado. Adoeceu gravemente em conjunção que o padre desta residência estava ausente; e como era muito bom cristão, não fazia senão suspirar pela sua tornada. Quis Deus que tornou e o foi logo visitar no mesmo dia em que chegou. Alegrou-se o mancebo sumamente. Tratando da
  • Das coisas de Japão confissão disse ao padre que estava aparelhado para a fazer por escrito, e que não esperava mais que sua chegada. Confessou-se com muita devoção, como sempre fazia; e acabada a confissão espirou dentro em uma hora; dando todos muitas graças a Deus por tão claro * sinal de sua predestinação. E por naquela • fi. 63. conjunção estarem ali três padres, se lhe fizeram umas mui nobres exéquias, como se deviam a uma pessoa de tanta qualidade, e neto de tal Rei; com que seus parentes ficaram muito consolados e agradecidos. No reino de Bungo residem dois padres que continuamente andam ocupados em doutrinar e ajudar aquela antiga cristandade, e acrescentá-la com a conver- são de muitos gentios que de novo se vão baptizando, os quais este ano passa- ram de oitocentos. Em duas partes se levantaram duas grandes igrejas, e em uma delas se ofereceram os cristãos a sustentar ali um padre, pedindo-o com muita instância. Mas indo por caminho, foi nosso senhor servido levá-lo naquele desastre do naufrágio de que acima falámos. No dia da dedicação destas igrejas se ajuntaram de diversas partes mais de três mil cristãos, dos quais se confes- saram e comungaram muitos, festejando o dia com diversos modos de alegria. Os senhores e tonos particulares deste reino quási todos são gentios, mas não impedem o curso da pregação do Evangelho, antes alguns a favorecem, princi- palmente Usuquendono, senhor mui principal, cuja mulher que é filha de Jecun- dono, é cristã; por cujo respeito o marido protege aos cristãos e aos padres; e esta senhora os manda também visitar com seus presentes, mostrando com isto o amor e ânimo que tem de cristã pôsto-que casada com gentio. CAPÍTULO XV Das coisas que sucederam nas partes de Meaco RESIDEM nestas partes de Meaco dezassete padres e irmãos de nossa Companhia, afora os dógicos e catequistas, repartidos por cinco residên- cias que são: duas no Meaco, outra * em Fuximi, quatro em Vozaca, a •fi.s3v. quinta nos reinos de Focóco da banda do norte. E começando pelas do Meaco, assim como esta grão cidade é cabeça de toda a monarquia de Japão, assim o é também de todas as seitas dêle; pelo que, em nenhuma parte de todos estes reinos o paganismo está tão arreigado e a idolátria tão venerada e autorizada como nesta, assim pela grande potência e multidão dos bonzos, como pela do senhor universal de Japão e mais senhores e príncipes gentios que nestas partes residem. Por onde, assim como as dificuldades e contradições que a lei de Deus aqui tem são maiores, por haver de romper por uma tão cerrada e forte mata de idolátria, cheia de tantas bêstas feras como são os bonzos, que sempre andam bramindo contra ela, e contrastar com inimigos, tão poderosos; assim qualquer bom sucesso e vitória que dêles tenha é de muita estima, e qualquer fruto e bom progresso de conversão de muita glória a Deus, pelo grande cré- dito que daí resulta, em todas as mais partes de Japão, de nossa santa fé católica. E não menos é ser ela favorecida e ouvida dos senhores grandes e principais destas partes; e tanto mais quanto mais chegados, ou por valia ou por
  • 28o Das coisas de Japão parentesco, são do Cubo. E de tudo isso não faltou este ano matéria de muita glória de Deus, como se verá no progresso do que logo iremos dizendo. O Cubo, pôsto-que não favorece, contudo não desfavorece nem encontra nossa santa lei; porque ainda que alguns bonzos ou outros inimigos dela, insti- gados pelo demónio, não deixem às vezes de lhe dar algumas acusações, e falar mal da igreja em sua presença, contudo não lhes dá tais ouvidos, que por isso * fi. 64. se descomponha contra ela, ou proiba fazerem-se cristãos, salvo * senhores grandes, como já se tem dito; antes dissimula e se não dá por achado do que lhe dizem; correndo com os padres, quando o visitam, com mostras de benevo- lência e fazendo-lhes muitos gasalhados: louvando também alguma vez publica- mente seu bom procedimento e muito saber das coisas naturais, antepondo-o a todo o saber dos bonzos, que para êles é uma grande ferida, e para os padres coisa de muito crédito saber-se que o senhor de Japão tem este conceito e fala dêles desta maneira. Imitam-no também nisto alguns senhores grandes da corte, e de outros reinos quando veem ao Meaco, que e ordinàriamente cada ano; os quais muitas vezes vão a casa dos padres; uns por desejo de ouvir as coisas de Deus, outros levados por curiosidade de ouvir coisas novas, e princi- palmente de matemática, astrologia e mais segredos naturais que os padres lhes declaram, de que ficam por extremo maravilhados, e conhecendo a ignorância dos seus bonzos, rindo se das patranhas e disparates que sôbre estas mesmas coisas lhes diziam. E como são de agudo engenho e caem bem pelas demons- trações e clareza com que os padres lhas explicam, inferem bem daqui que, pois os padres nestas coisas naturais lhes falam tanta verdade, descobrindo-lhes o que até agora não sabiam nem entendiam, não poderão deixar de também lha falar no que lhes pregam de Deus e da salvação; e assim por este meio ficam muitos na rede de Cristo. Entre os senhores que este ano vieram a casa dos padres ouvir pregação, foram dois de muito momento para o bem da cristandade; um o governador .F1.64V. do mesmo Meaco, por nome Itacurandono; outro por nome * Cozujedono, pes- soa de raros dotes e natural, e por isso grandemente privado do Cubo, e que quási manda todo Japão; os quais ficaram tão satisfeitos e fizeram tão bom entendimento das coisas de nossa santa fé, que notàvelmente se enxergou nêles, confessando Cozujedono que não duvidava já haver Deus e alma e, pelo conse- guinte, salvação. Ficaram ambos mui amigos e afeiçoados aos padres, como daí por diante mostraram em várias ocasiões, e com maior significação de amor e respeito e gasalhado que nunca. Os cristãos também ficaram mui ale- gres por terem tais pessoas já quási da sua parte, pelo menos no amor e afeição à nossa santa lei, pôsto-que ainda a não tinham recebido. E com isto se ani- maram e acabaram de resolver de fazer uma igreja que havia muito desejavam, por a que tinham ser mui pequena para tanto número e concurso de cristãos, e para o que pedia a autoridade de nossa santa fé; a qual até agora se não atreveram a fazer por não darem tanto nos olhos à potencia dos bonzos e mais inimigos da fé, temendo levantassem por isso alguma perturbação; mas à sombra de tais dois esteios como são êstes dois senhores, mais afoitamente se determinaram a pôr as mãos a esta obra tão santa e necessária. E assim ajuntaram logo suas esmolas e o mais necessário para ela. A capela mor fêz
  • Das coisas de Japão 281 Arimandono que neste tempo acertou de estar em Meaco, dando logo para ela quatrocentos cruzados. E foi coisa maravilhosa que não sòmente os cristãos ajudaram com suas esmolas, e muitos também com as mãos, vindo eles mes- mos em pessoa a trabalhar nelas, mas ate alguns gentios deram também suas esmolas; e uma senhora principal gentia mandou mais de cem cruzados para uma capela das ilhargas. Saiu esta igreja * tão formosa, airosa e bem acabada, .fi.65. que é uma das coisas que agora há para ver em Meaco. É toda de excelente madeira e a melhor que há em Japão. Disse-se nela a primeira missa dia de Natal com muita solenidade; o concurso dos fiéis foi mui grande, e ainda dos gentios, que ficavam pasmados de ver coisas tão novas e feitas tão bem e com tanto aparato; e não acabavam de gabar a formosura da igreja. Da qual se não pode declarar o muito que montou, não sòmente para reputação e autori- dade das coisas de nossa santa fé com aqueles gentios que tanto se levam do aparato exterior, senão também para os cristãos crescerem em fervor e devoção, tendo mor comodidade para concorrerem a ela e aos ofícios divinos que com toda a solenidade e aparato se celebram e às disciplinas no tempo da quaresma, uso e freqUencia dos sacramentos; o que antes, pela igreja que tinham ser mui pequena, não podiam tão fàcilmente fazer. Não foi de menor importância e fruto outra que também êste ano se fêz na cidade e fortaleza de Fuximi, que está pegada com a de Meaco, e onde reside o Cubo com a corte; porque ainda que antes os padres tinham ali casa e igreja, era porém em parte mui incómoda para a prègação do Evangelho. Pelo que êste ano se buscou modo como se passassem a outro lugar e sítio conveniente, onde logo se começou a ver o fruto com o grande concurso de gente da corte que veio a ouvir prègação e tratar com os padres, especialmente no tempo que o filho do Cubo esteve naquela cidade; dos quais alguns se baptizaram, que foram por todos, assim nas duas igrejas do Meaco como nesta, perto de seiscentas pessoas; que para terra onde o paganismo está tão arrai- gado, não é pequeno número. Entre * os que se baptizaram o fizeram alguns soldados nobres e de boa »fi.65v. renda, com muitos criados seus, vassalos todos de um senhor do reino de Canto, os quais se tornaram para sua terra mui alegres e consolados, com determina çao de fazerem um oratório na cidade onde todos moram, para nêle se juntarem nos domingos a fazer oração e ler algum livro espiritual emquanto não tinham outras ajudas com que se pudessem conservar na fé. Uma mulher nobre, natural dos mesmos reinos e que vivia nestas partes do Meaco, por persuasão de um seu irmão cristão, desejou muito de se baptizar; e porque vivia fora do Meaco como três léguas, se partiu com êste desejo de sua casa sem dizer nada a seu marido; vem à nossa igreja, pede instantemente que a baptizem, o quv se lhe concedeu depois de ouvir as prègaçoes e fazer muito bom entendimento nas coisas da fé. Isto feito, se tornou logo para sua casa mui contente e con- solada por ter achado o caminho da salvação. Soube logo o marido o que pas- sava, pelo que indignado grandemente lhe mandou logo que ou deixasse de ser cristã e adorasse os ídolos como dantes, ou logo no mesmo dia se fôs-e fora de sua casa, porque não queria mulher de tão má seita. Foi ela porém tão valorosa e boa cristã, ainda que de tão poucas horas, que não se cuidou de gas- 36
  • 282 Das coisas de Japão tar muito tempo em respostas com seu marido. Chama seus criados, manda entrouxar seu fato, aparelhando-se para se sair e ir viver em parte onde livre- mente pudesse ser cristã. Não cuidou o marido que o negócio chegasse àquele ponto; porém vendo-a com tão honrada resolução, arrependido lhe tornou a dizer que não o havia por tanto e que ela fosse cristã muito livremente. Ao que ela • fi.66. respondeu, * que êle lhe tinha já dado licença, que por isso não tornasse com a palavra atrás, porque ela não queria marido gentio, e que, pois estava livre, se ficasse mui embora. Com isto se viu o marido em tanto apêrto que foi necessário tomar terceiros para que ela se não fôsse, prometendo que êle tam- bém em todo caso ouviria as coisas dos cristãos, porque não podiam deixar de ser muito santas e verdadeiras, pois ela, em tão pouco tempo que havia que deixara de ser gentia, estava tão afeiçoada à lei que recebera e tão constante nela. Movida a mulher com isto se aquietou e ficou em casa do marido, vito- riosa do demónio; e procede com tanto fervor que ainda aos criados gentios faz guardar o domingo. Um homem bom cristão tinha sua sogra gentia e mui dada ao culto dos ídolos. Sabendo que estava doente, a foram buscar êle e sua mulher, que tam- bém era cristã à cidade de Osaca onde a velha morava, e a trouxeram para Meaco, com ânimo de lhe procurarem a saúde da alma principalmente, mais que a do corpo. E pôsto-que fizeram sobre isto com ela todos os possíveis ofícios, assim o genro como a filha, que a mãe ainda não sabia que era cristã, nada podiam acabar, porque a pobre velha consentiu em vir com êles por cuidar que a filha era gentia, e por isso trouxe consigo todos os seus ídolos, escon- dendo-os quanto pôde dos olhos do genro. Porém depois que entendeu que a filha era cristã, se agastou muito contra êles, dizendo que a tinham enganado. Mas como a doença ia crescendo e ela chegando à morte, não cessavam os bons cristãos de por todas as vias a persuadirem a que se fizesse cristã para se sal- • fi 66 v. var; * e emfim, por mais que ela resistiu, escassamente alcançaram dela que pelo menos ouvisse algumas das coisas dos cristãos; no que ela consentiu com condição que não lhe chamassem padre nem prègador da igreja. Enganou-a porém o genro e trouxe-lhe um dos prègadores sem ela saber que o era; e na prática que houve entre êles lhe abriu Deus de tal maneira os olhos, que já instava lhe chamassem o prègador que dantes tanto aborrecia, porque ela morria e se queria salvar. Prègou-se-lhe finalmente de raiz; e ouvindo a ditosa velha tudo com muita atenção e consideração das coisas que lhe diziam, e no cabo de todo o catecismo, se baptizou com muita consolação sua e de tôda aquela casa; e o dia seguinte se foi gozar de Deus, pedindo primeiro com muita instância que dissessem a seus filhos e parentes que não lhe fizessem exéquias de gentia, porque ela morrera cristã. Baptizara-se o ano passado um mancebo fidalgo nobilíssimo, sobrinho da rainha Mandocorosama, mulher que foi do Taico, e com mui grandes propósitos de perseverar na fé, por mais encontros que por ela se lhe oferecem. Estes pôs êste ano mui bem por obra em uma grande ocasião e borrasca em que se viu por ela. Porque caindo em desgraça do pai e da tia por certo caso que lhe aconteceu, de que êles receberam grande desgosto, foi necessário desterrar-se de sua casa. E como era tão bom cristão, desejando de se dar às coisas de
  • Das coisas de Japão 283 sua salvação mais de propósito, só para êste fim e também para se livrar das ocasiões que se acham entre gentios para cujas terras pudera ir com mor como- didade sua, se veio meter com sua mulher e alguns criados seus em uma casi- nha pegada com * a nossa igreja do Meaco. E o que pode ser dera a outra *fi.67. ocasião de fraqueza, vendo que logo depois de se fazer cristão lhe acontecera aquele trabalho, a êle confirmou mais e fortificou na fé, servindo-lhe de ocasião de se fazer mais devoto, dar mais a Deus, fazer mais penitências, continuar mais na igreja achando-se às ladainhas, exames de casa, e conversando nela como um dos catequistas. E não só -se aproveitou a si, mas ainda aos seus já baptizados e por baptizar, fazendo que os que o não eram se fizessem cristãos, em cujo número entrou também sua própria mulher, que com bom entendimento das coisas de Deus recebeu o sagrado baptismo. Mas não parou aqui sòmente a prova da sua fé, senão que, tratando-se de sua restituição, e dizendo-lhe os seus que se deixasse de ser cristão ficaria melhor e mais fácil a conclusão de seu negó- cio, êle não consentiu que por nenhum modo se lhe tratasse de tal ponto, porque antes escolheria estar toda sua vida desterrado. Mas foi nosso Senhor servido, que pelos bons ofícios que nisso fêz um senhor principal que se meteu no meio, o pai o tornou a receber em sua graça, ficando como dantes no temporal, mas no espiri- tual muito mais avantajado e confirmado na fé, e agradecido a Deus e à igreja. Um menino de idade de seis anos, estando com seu pai que era cristão, em casa de um fidalgo que também o era, foi baptizado sem o saber sua mãe, que era gentia; mas indo-a depois visitar e descobrindo-se-lhe por cristão, a mãe procurou quanto pôde de o fazer tornar atrás, usando para o persuadir de muitos argumentos e razões. Não no podendo dobrar, ultimamente lhe deu como razão que os cristãos eram mui poucos no Japão, e que * por isso era me- »fi. 67 v. lhor em coisa de salvação ir por onde vão os mais. Este argumento lhe soltou o menino com muita graça e facilidade, dizendo: É verdade que em Japão assim é isso; mas todo o Japão é coisa mui pequena em comparação de todos os reinos da cristandade, como vo-lo poderei mostrar, se quiserdes, na casa dos padres, no mapa que êles teem. Com esta resposta tão a propósito e tanto para estimar em tal lugar, ficou a mãe sem saber ir por diante, e não menos espantada e vencida, e o menino mui alegre com sua vitória. Procurou um bonzo perverter um cristão, tentando isto por muitas vezes importunamente. O cristão lhe respondeu sempre que não tinha que fazer com êle neste negócio, porque estava mui bem na verdade da fe católica e falsidade das seitas de Japão. Ao que o bonzo lhe disse mui confiado: se vós quiserdes, vamos am- bos à igreja dos Daos, que assim chamam êles aos padres, e eu vos mostrarei claramente como tudo o que dizem é falso. Aceitou o cristão o partido, levou o bonzo à igreja; travou-se disputa; e em breves palavras o soberbo bonzo ficou de tal maneira convencido e envergonhado que não soube que dizer. E tornan- do-se mui humilhado, pediu no caminho com muita instância ao cristão que não descobrisse aos outros o ruim sucesso da sua disputa, para não ficar desonrado. Mas o bom cristão o publicou de modo que o vieram a saber muitos gentios, que grandemente zombaram dos bonzos. Pelo que, assim por este como por outros semelhantes sucessos de disputas, raramente se acha bonzo que se atreva a vir a elas com os padres.
  • 284 Das coisas de Japão Estando doente uma donzela cristã, entendendo que morria daquela, pediu • fi.68. três dias antes que a levas*sem à igreja para se confessar. Os pais sabendo o perigo em que estava, lhe disseram que antes lhe chamariam um padre que a viesse confessar a casa. Não se aquietou, mas cada vez mais instava que a levassem à igreja para se confessar e morrer diante do altar. Finalmente a levaram; e pondo-a aos pés do confessor, lhe disse a enferma: eu venho-me confessar e morrer aqui na igreja. Confessou-se, ainda que com muito trabalho por estar muito fraca. Acabada a confissão lhe veio um rijo acidente. Tor- nando sôbre si a meteram nas andas para a levar; porém ela, estando já na agonia da morte, fêz tais coisas para a não levarem dali, que foi necessário tirá-la das andas para descansar. Vendo-se fora e descansando um pouco, pediu que a pusessem diante do altar; e ali, obra de um quarto de hora depois de se confessar, expirou da maneira que desejava, e com espanto de todos e grande confiança que dali iria gozar para sempre de seu Criador. CAPÍTULO XVI » De outras coisas de edificação que mais aconteceram em Fuximi e Osaca ENTRE os cristãos antigos de Fuximi há um de tanto fervor e zêlo da fé, que por seu meio e persuasões aos gentios com que os trás a ouvir a prègação do Evangelho, se tem baptizado bom número deles. Êste, indo êste ano por certo negócio ao reino de Sando, que é uma ilha para a parte do norte, um dia de caminho por mar, onde há grandes minas de prata e oiro, de * fi. 68 y. que cada ano veem ao Cubo grandes riquezas, * achou lá alguns cristãos que ali estavam por causa das minas, os quais por viverem tão alongados da con- versação dos padres e dos mais cristãos, andavam algum tanto frios e distraídos. Mas como êste bom cristão é tão zeloso, vendo aquela necessidade, se pôs a fazer com êles com muito fervor o ofício, como se fôra qualquer padre. Ajun- tava-os cada domingo, praticava-lhes e instruía-os nas coisas de nossa santa fé; e assim com isto como com o exemplo de sua vida, os espertou e ajudou de tal maneira que (os) fêz entrar em grande fervor e devoção; de modo que êles mesmos escreveram de lá que aquele homem lhes mandara nosso Senhor àquela terra como um anjo do céu, para bem de suas almas. Pelo que foi necessário fazê-lo lá ficar para ajudar êstes cristãos um ano e meio. Havia em Fuximi um mancebo gentio em extremo estragado e infame na vida. Veio êste entre outros a ouvir prègação, e de tal maneira o tocou Deus nela que pediu o sagrado baptismo. Mas como era de tão ruim fama e de todos conhecido por tal, não pareceu aos cristãos que devia ser admitido, por que duvidavam de sua perseverança. Porém êle instava fortemente que o baptizassem, dizendo que ainda que fôra tão estragado, confiava porém que com ajuda de Deus, cuja lei determinava seguir e guardar, que lhe daria graça para se emendar e perseverar no bem. Finalmente, ainda que muitos cristãos repu- gnavam, foi baptizado com tanta alegria sua, que não se fartava de dar graças
  • Das coisas de Japão 285 a Deus por tão grande beneficio, e também aos que por êle intercederam para o alcançar. Mas para nosso Senhor manifestar aos cristãos a eficácia de sua graça e a força que tem para mudar os corações, e como a ninguém que venha # buscar a Deus * se há de fechar a porta por mau que seja, permitiu Deus que «fi.69. o pai e parentes dêste mancebo, que eram todos gentios, tanto que souberam que era cristão, o começaram a perseguir terrivelmente e a fazer-lhe força que tornasse atrás; e o que mais insistia nisto era um bonzo, seu tio, dando como razão que os cristãos eram tão ímpios e cruéis que não faziam exéquias a seus pais quando morriam. E para confirmar isto que dizia, persuadiu ao pai do mancebo que lhe preguntasse se lhas havia de fazer em sua morte. Fê-lo assim o pai; a quem respondeu o filho: Eu sou cristão; e por isso se vós, pai, mor- rerdes gentio, eu não vos hei de fazer exéquias; porque como sei e creio que só na lei dos cristãos há salvação, e os que morrem gentios se vão ao inferno, se vos eu fizer tais exéquias, farei contra o que creio, o que será mui grande pecado, que não farei ainda que me custe a vida. Com esta resposta ficou o pai tão indignado, que logo mandou aos criados que lho amarrassem; e assim o teve quinze dias, mal vestido, dando-lhe de comer por onças, por ver se com êste mau tratamento o podia perverter. Porém no cabo deles o mancebo teve modo para fugir, e assim como estava se veio para nossa casa, onde com grande alegria servia nos ofícios baixos, como se fora um moço dela. O que vendo seu pai, pediu a Cozujedono, privado do Cubo, lhe mandasse um recado que obedecesse a seu pai. Mandou-lho; mas nem com isso se rendeu. Usou depois o pai de muitos meios, por via de terceiras pessoas, ora com ameaças, ora com afagos e promessas; mas sempre o bom cristão ficou vitorioso sem nunca dar de si nem mostrar fraqueza alguma; até que por derradeiro vieram a * concêrto »fi.69t. de paz o pai e o filho, mas condescendendo só o filho naquilo que os padres lhe disseram poderia fazer, sem escrúpulo nem prejuízo de sua consciência. Entre as mulheres que servem no paço ao Cubo há algumas cristãs, das quais uma, de nação coreia, procede com tanta devoção e fervor, que há mister às vezes freio; tanto que pode competir com muitas mui recolhidas e apartadas das coisas do mundo. Gasta boa parte da noite em ler livros espirituais e rezar suas devoções, que não pode fazer de dia pela ocupação do serviço do paço, e por estar entre gentios tão adversos da nossa santa lei como é o Cubo e suas mulheres; para o que tem um oratório tão escondido que ninguém poderá dar com êle. E muitas vezes, saindo do paço com título de visitar umas pessoas conhecidas, como faz, se vem a confessar e comungar com tanta devoção que consola a quem vê. Ela é a que anima e consola as outras companheiras cristãs que perseverem na fé, pelo qual já padeceu trabalhos com muito ânimo. Ela a que persuade as gentias a que se façam cristãs, e pelo menos procura que não falem mal da nossa santa lei. Ela a que grandemente ajuda aos padres com os proveitosos avisos que lhes dá para bem de nossas coisas e da cristandade; porque, como está no paço, ouve e sabe tudo o que se lá passa, e de tudo avisa miudamente. E o que sobre tudo é mais para espantar e estimar de sua virtude, que sendo moça e de boas {frendas naturais, e no meio de tantas ocasiões entre gentios, ela se conserva em tanta pureza como se estivera em uma religião, andando sempre apostada a antes perder a vida que consentir em qualquer mácula nem da alma nem do corpo.
  • 286 Das coisas de Japão • fi.7o. * Na cidade de Osaca, onde reside um padre e dois irmãos, se baptizaram duzentas e setenta pessoas, entre as quais foi um bonzo que fora superior de um mosteiro, no qual, como êle dizia, tinha prègado passante de quatro mil prègações; e foi sua conversão mui celebrada e festejada dos cristãos, por verem os sábios e letrados de Japão rendidos a nossa santa fé. Entre outras coisas de edificação que nesta cidade aconteceram, que por brevidade se deixam, foi mui notável o que sucedeu a um menino de doze ou treze anos, mui honrado. Veio um dia este com outro de sua idade, e "ambos pediram ao padre que os baptizasse, porque já tinham ouvido prègação e feito entendimento da verdade de nossa santa fé. O padre, parecendo-lhe coisa de meninos, depois de os aga- salhar e festejar os seus bons desejos, os despediu animando-os a que continuas- sem nêles e em vir a nossa casa, e que depois mais de vagar os baptizaria. Não se aquiètaram eles com esta resposta, mas com muita eficácia instaram que em todo caso os baptizasse. O padre para os provar os desviou por outro caminho, dizendo-lhes pedissem primeiro licença a seus pais. Responderam que a tinham. Crêu-os o padre, e fazendo-lhes seu exame da fé os baptizou. E depois do baptismo foram continuando em acudir à igreja todos os dias. Nisto pediu o mais pequeno ao padre uma imagem para pôr em sua casa, e se en- comendar a ela. Respondeu-lhe o padre que como seus pais e os de sua casa eram gentios, vendo-lha pôr, lhe fariam algum desacato; que lhe bastavam por ora as contas ejínómina. O menino porém, como Deus o tinha escolhido para dar um grande testemunho de sua fé, e aos cristãos um novo exemplo de for- • F1.70V. taleza, não satisfeito com isto, * foi aos dógicos pequenos da casa, e com muitas importunações houve deles um registo de uma imagem pequena; e fazendo-lhe uma caixinha a pôs na camara aonde dormia, e de noite lhe fazia sua oração. O pai que nada sabia de o filho ser cristão e entrando acaso na camara do menino, viu a imagem pendurada na parede com as contas junto dela. Ficou pasmado; chama logo ao filho, pregunta-lhe que coisas eram aquelas, e se era cristão. Respondeu-lhe com muita liberdade que sim, e que se baptizara pelo muito bom entendimento que fizera das coisas dos cristãos. Com esta resposta o pai se tornou bravo como um toiro, e com grande ira lhe disse que logo deixasse de ser cristão, senão que o havia de matar. O menino mui intrépido e seguro lhe respondeu: Pai, aqui está esta minha adaga e vêdes aqui o meu pescoço; cortai-mo embora, que eu não hei de deixar de ser cristão. Com esta resposta se embraveceu mais o pai, e com fúria diabólica toma o menino, e com uma corda o pendura. Ficando assim pendurado no ar, o começou a açoitar com muita crueldade, dando e dizendo que deixasse de ser cristão; e o menino a sofrer sem lhe dar outra resposta que a de primeiro, protestando que não havia de deixar de ser cristão; e quanto mais disto dizia tanto mais o pai se embravecia; até que depois de o ter cruelmente açoitado, o deixou despidinho e só com a camisa sendo no tempo dos mores frios de Japão, cuidando que por este meio o renderia. Porém o menino nenhum sinal lhe deu de fraqueza, antes com tanta paciência sofreu por alguns dias todo o mau tratamento que padecia, que o pai entrou em grande confusão; pelo que, largando o filho como quem já desesperava de o perverter, começou de intender com um seu vizinho • pi.71. * cristão, queixando-se muito que êle o enganara, e que o havia de fazer des-
  • Das coisas de Japão 287 f terrar da rua e castigar pelos governadores; o que em efeito procurou por meio de muitos gentios honrados, amigos seus, que tomou por terceiros com os governadores. Porém sabendo o padre o que passava, se foi aos governadores, e fêz com êles que não bulissem com aquele cristão; o que êles não sòmente fizeram, mas um deles se meteu no meio, e fêz que tudo se acabasse com paz, como acabou, ficando todos grandemente edificados do menino, e os gentios dizendo da lei dos cristãos que era coisa de grande espanto ver sua fôrça, pois tais efeitos causava em meninos de tão pouca idade. Uma mulher honrada se fêz crista com uma criada sua; e porque havia poucos dias que fizera uma formosa câmara, e nela um oratório muito lindo para nêle pôr a imagem de Amida, de que era muito devota; vendo-se cristã não cabia de prazer nem se fartava de dar graças a Deus, por não ter, como ela dizia, contaminado a sua casa e oratório com a imagem do ídolo; e assim pôs logo no oratório suas contas com outra imagem santa, dizendo que já Deus tinha tomado posse dêle. Esta mulher antés de se baptizar, pela Ave Maria que sabia, se pôs o nome a si mesma, e à sua criada quando foi baptizada; tomando para si o nome de Maria, e pondo à criada o de Grácia, dando como razão que na Ave Maria estava gratia plena; e procede como boa cristã com muita consolação sua. * CAPÍTULO XVII • fi.7, Do que se passou nos reinos de Tambajequiém e nos de Focóca JEQUIÉM é um reino nas partes do Meaco, de que é senhor Michavano- câmi, filho do Cubo. Há nêle já alguns cristãos, e êste ano se acrescentou um fidalgo dos mais nobres da casa dêste senhor, o qual, como recebeu o baptismo com tanto entendimento das coisas de Deus, entrou em tanto fervor que logo persuadiu aos criados que também se baptizassem, como fizeram; e à sombra dêle ficaram os mais cristãos mui consolados, e desejosos de levantarem ali uma igreja onde se ajuntem, e sejam ajudados dos padres^quando vão aos reinos do norte; e já alguns gentios desejavam de ouvir as prègações. Bapti- zou-se mais um bonzo, que era quási como cabeça de uma nova seita; e como tinha muitos frègueses que o seguiam na mentira, foi de grande momento sua conversão para agora o seguirem na verdade. No reino de Tamba, ainda que o senhor dêle é cristão, vai a cristandade um pouco devagar, porque como está tão vizinho ao Meaco e nos olhos do Cubo, é necessário ir êste príncipe com muito resguardo pelo não ofender, nem de todo se manifestar por cristão, pressuposto o que êle tem mandado que se não façam cristãos os senhores grandes. Não deixam porém de se baptizar alguns, que êste ano foram como noventa pessoas; de que foi principal parte o zêlo e fervor de um fidalgo cristão, vassalo * dêste príncipe, o qual parece que #fi.73. nem de dia nem de noite cuida nem sonha noutra coisa senão em buscar todos os meios de dilatar a lei de Deus, assim neste reino de Tamba como nas mais partes onde se acha; persuadindo a uns e outros que oiçam prègação. E assim, êle é como pai de todos os cristãos dêste reino. E como o demónio não pode
  • 288 Das coisas de Japão sofrer o seu fervor e zelo pelas almas que por seu meio se escapam de suas mãos, lhe urdiu êste ano uma grande perturbação em que esteve mui arriscado, tomando por instrumento dois gentios nobres, criados do mesmo príncipe e grandes inimigos de nossa santa fé. Êstes nao podendo sofrer que a lei de Deus fosse crescendo, e que alguns cristãos honrados e nobres que também ser- vem ao príncipe, fossem dêle mais privados e estimados e lhe governassem o estado, se foram ter com três senhores mui principais e grandes amigos do príncipe Sujedono, que assim se chamava o senhor dêste reino, e com côr de zelarem a conservação do estado de seu senhor, lhes pediram muito o aconse- lhassem não permitisse cristãos em suas terras; por que se o Cubo viesse a saber que não sòmente os consentia, mas que os favorecia e lhes tinha dado liberdade para levantarem cruzes e igrejas, e se ajuntarem a celebrar suas fes- tas, o havia de tomar muito mal; e além disso correria muito risco de por isso lhe tirarem suas terras. Fizeram logo aqueles três senhores tudo isto que aque- les invejosos criados lhes pediam, pintando-lhe o perigo do negócio com tão aparentes razões que poderam bastar por si só para abalar o coração de Suje- dono, principalmente não sabendo a ocasião do aviso, e cuidando que lho davam • F1.73T. aqueles senhores de pura amizade e arreceio que tinham de seu perigo; * quanto mais havendo algum pôsto-que aparente fundamento, que foi a de uma cruz formosíssima que aquele fervoroso fidalgo cristão, de que acima falámos, tinha levantado em um morro alto, à vista de todos os que passavam por uma estrada pública mui frequentada de gentios. Na qual cruz principalmente os senhores gentios fizeram grande força para persuadirem a Sujedono o que os invejosos criados pretendiam. Estava neste tempo Sujedono na corte, e ouvindo isto, arreceando-se que de verdade o acusassem ao Cubo, depois de considerar bem o negócio, se resolveu em condescender com aqueles senhores em alguma coisa do que pediam, dentro porém dos limites da obrigação de cristão. E assim escreveu logo a um primo seu cristão, e àquele fidalgo que tinha levantado a cruz, que ainda que pessoas graves lhe tinham persuadido que não permitisse a lei dos cristãos em suas terras, êle contudo não fazia caso disso e estava resoluto em não alterar nada nesta matéria, pois era cristão e não havia de deixar de o ser, e sabia que êles também o eram e outros muitos dos seus; porém que lhes pedia pelo amor que lhes tinha, que por um pouco de tempo, até que acabasse aquele perigo, não mostrassem tanto fervor no exterior, e fizessem suas devo- ções com menos estrondo que pudessem; e porque os gentios embicavam muito na cruz do morro, lhe parecia ser bem que por-ora a tirassem dali e pusessem dentro na igreja; porque para os cristãos ficava o mesmo, e não daria tanto nos olhos e em que falar aos gentios. Tendo êste recado o bom cristão, cheio de zêlo da honra de Deus, e pare- cendo-lhe coisa perigosa, e de que alguns fracos tomariam ocasião para se esfriar • fi.73. se a cruz se tirasse, e êle também que a levantara perderia * sua honra, de nenhum modo se fazia capaz de a recolher; antes dizia que primeiro perderia a renda e a vida, se fôsse necessário, que fazer tal baixeza e covardia. Aqui porém acudiram os padres a temperar seu zêlo e fervor, e o abrandaram, per- suadindo-lhe que por então aquilo era o que convinha, e que em a tirar não ofendia a nosso Senhor, pois constava da intenção com que Sujedono o mandava
  • Das coisas de Japão 289 assim fazer. Aquiètou-se o bom cristão e obedeceu logo ao conselho dos padres, e tirando a cruz a meteu na igreja. Porém os dois gentios que urdiram esta perturbação o pagaram mui bem; porque vindo depois à notícia de Sujedono como eles foram os autores deste desgosto seu e dos mais cristãos, se indignou muito contra êles, tirando-lhes os ofícios que tinham em seu estado, com que ficaram mui abatidos. Entre os reinos de Focócu, que é o mesmo que dizer do norte, por estarem do Meaco para aquela banda, há três deles que se chamam Canga, Noto e Ietxu, de que é senhor Fijendono, um príncipe nobilíssimo e amicíssimo dos padres e da igreja. De todos estes três reinos o principal é Canga, onde Figendono tem sua côrte na cidade de Canazava; e nesta tem também a Companhia uma casa e igreja em que reside um padre e um irmão, com grande contentamento dos cristãos daquele reino, mòrmente de Justocondono que foi o fundador dela, e a dotou da renda necessária para a sustentação dos nossos. Indo o padre do Meaco para de todo ficar residindo nesta casa, mandou logo visitar a Figendono pelo irmão, o qual o recebeu com muitas cortesias, e fora * do ordinário; e 'F1.73V. pouco depois quis pagar a visita ao padre, mandando-o também visitar por um de seus fidalgos com um bom presente e uma carta a Justo acêrca da vinda do mesmo padre, muito cortês; o que fêz também no seu ano novo. E na visita que o padre lhe fêz pessoalmente, lhe fêz muito grande gasalhado e cortesia em . público que ouvissem todos; o que serviu de grande consolação e ânimo para os cristãos, e muito crédito para as coisas da nossa santa fé. Mostra êste príncipe cada vez mais a afeição que tem às coisas da lei de Deus e muito desejo de as ouvir; porém isto nunca acaba de pôr em efeito. Recolheu-se êste ano para o reino de Ietxu, deixando a fortaleza do reino de Canga, que é a principal de seus estados, a um irmão seu, casado com uma neta do Cubo, a qual tem per- filhado por êle não ter filhos. E pôsto-que se retirou para o dito reino para se livrar de correr com os cumprimentos e obrigações do mundo, não se desapegou todavia tanto dêle, que não fossem necessários somente para acarretar o fato que levou consigo perto de dez mil homens. De novo se baptizaram nesta residência sessenta pessoas, e dela vai o padre visitar a miúdo os cristãos do reino de Noto, que como todos são criados de Justo e estão mais afastados do tráfego da côrte, é muito para louvar a Deus o fervor e devoção com que vivem; porque todos os dias vão à igreja duas e três vezes, pela manhã, ao meio dia e à tarde, onde dizem as orações e rezam as ladainhas. E algumas vezes no mês tecm também seus ajuntamentos os homens em uma parte e as mulheres em * outra, e nêles lêem seus livros espirituais, •re- tomam suas disciplinas na quaresma às sextas feiras; sendo em tudo os primei- ros os mais honrados. Há também alguns cristãos em os mais daqueles reinos comarcãos, que sabendo que o padre estava em Canga o vieram visitar e con- fessar-se; e assim pouco a pouco se vai estendendo o nome de Cristo por todos aqueles reinos tão afastados com muito grande glória sua. 37
  • Das coisas da China DAS COISAS DA CHINA CAPÍTULO XVIII Das coisas da China TEM a Companhia pela terra dentro da China quatro residências em que vivem dezóito padres e irmãos. Ainda que as cartas gerais que tratam das coisas da China que sucederam nestes dois anos de seiscentos e cinco e seiscentos e seis, e do progresso daquela cristandade, não chegaram a nossas mãos por se perderem no caminho, contudo, de algumas particulares que escaparam e vieram por outras vias, iremos tirando algumas coisas donde se poderá coligir o bom estado em que a pregação do Santo Evangelho está naquela grande monarquia. O qual ainda que por-ora pareça pequeno con- forme aos desejos (que) todos temos de ver já naquele reino muito estendida nossa santa fé, contudo quem considera as grandes dificuldades que neste reino houve até agora em se consentir entrar nêle gente estrangeira, pelos grandes e supersticiosos arreceios que dela teem, cuidando que lhes hao de tomar seu reino, como adiante em um notável caso se dirá, não sòmente não terá por fi. 74 v. pouco o que está feito, mas por uma coisa muito grande, à qual nossos * padres, pelo que tinham experimentado, nunca cuidaram que em cem anos se pudesse chegar. A suma de tudo isto escreve em uma breve carta de seiscentos e cinco o padre Afonso Vagnoni desta maneira a outro padre particular: Antes de entrar dentro da China, e de Macau dei conta a vossa reverencia largamente de meu caminho até àquela cidade, e como entrava neste grande reino. Agora lhe direi como nosso Senhor nos trouxe cá dentro, desde Macau até Nanquim, em dois meses e oito dias; e tão seguros e francos por tão com- pridos caminhos, como se viéramos caminhando por Portugal; e passámos mui- tas pontes, alfândegas e vigias sem que ninguém nos molestasse; sendo assim que víamos os mesmos naturais terem grandes trabalhos e embaraços. Achei em Xaucheu ao padre Longobardo e ao padre Bartolomeu Tudesco, e lhes deixei outro companheiro que foi o padre Jerónimo Rodrigues. Fazem ali os padres grande fruto nas almas, e teem já perto de oitocentos cristãos, assim na cidade como nas aldeias. Sabem bem a língua mandarínica. Daí passei a Nanchão, onde estão os dois padres Manuel Dias, reitor das residências, e o padre João Soeiro. E como nesta cidade moram os parentes de El-Rei, ou a mor parte dêles, a que chamam Vonfus, os padres se deram tão bem com êles, que se tem baptizado muitos, e outros se vão catequizando. Daí passámos a esta cidade de Nanquim, segunda côrte da China e onde antigamente residiam os reis, tão vasta e grande, que outra nenhuma de nossas cidades de Europa • fi.75. se pode comparar com ela; porque em um dia inteiro a não pode * rodear um homem a cavalo. E para nela se poder negociar, estão nos princípios das ruas muitos cavalos e outras cavalgaduras e cadeiras, que servem de aluguel até chegarem ao princípio da outra rua; onde também estão outros cavalos e cadei-
  • Das coisas da China 291 ras que de novo se alugam, por não poderem sair os primeiros, como os mais, da rua que está limitada. Aqui achámos uma boa casa dos nossos, a qual primeiro foi de mandarins. Está quási no meio da cidade, habitada até agora dos dois padres João da Rocha e Pedro Ribeiro, e um irmão natural da terra; e é tanto o concurso a esta casa de mandarins e pessoas graves que ando espantado, e me faz ter grandes esperanças que nosso Senhor há de fazer aqui cedo uma numerosa cristandade, havendo obreiros feitos e a propósito para tratar com a gente da terra. Há quatro dias que chegámos o padre Feliciano da Silva e eu: já nos vieram visitar alguns mandarins, que mostravam alegrar-se muito com a nossa vinda; e certo que acho esta gente capaz de razão e bem disposta para receber o santo Evangelho. Queira o Senhor dar-nos graças para aprendermos de-pressa sua língua e letras, e podermos acudir a tanta necessi- dade. De Pequim também temos boas notícias como se baptizaram alguns mandarins. É incrível o crédito que tem com os Chinas o bom padre Mateus Rício, e quão visitado é dos grandes, e estimado por todo o reino da China; pelo qual se espalharam alguns livros que ele compos na mesma língua china, muito curiosos. De modo que todos ou a maior parte dos mandarins que veem de fora a Pequim, ou se partem para * diversas províncias, o vão primeiro .fi.75v. visitar e querem levar consigo alguma obra sua. Cuidam e dizem que não pode haver em Europa outro homem como êle. E quando os nossos lhes dizem que outros há ainda mais doutos, não o podem crer. É verdade, como me dizem êstes irmãos que estiveram com ele, que e tal a doçura e suavidade de sua prática e conversação, e a virtude sólida com que vive, que a todos cativa. O estar êle naquela côrte faz que todos os mandarins que veem governar a estas províncias mostrem grande respeito aos nossos padres que por elas acham, e lhes tragam cartas do mesmo padre Rício, e por seu respeito os venham visitar. Até aqui a carta do padre Afonso Vagnoni, em que geralmente dá conta de todas as residências. Diremos agora mais em particular o que nos veio à notícia de cada uma delas. CAPÍTULO XIX Do que se passou em Pequim AINDA que pelas outras cidades da China se cuidou sempre que mais fàcilmente podiam estar os nossos, todavia no grão Pequim, por ser a côrte onde El-Rei reside, e está todo o governo desta monarquia, e os tribunais c majestade dos mandarins, nunca se imaginou que os nossos padres pudessem ter estável e seguro assento, pelas grandes dificuldades ou impossi- bilidades que para isto havia. Porém como estas não as pode haver para Deus, êle com sua divina providência dispôs as coisas de maneira que os nossos * estão naquela côrte tanto de assento como se foram tidos e havidos por naturais, com aplauso e consentimento, nao só dos principais tribunais e mandarins da côrte, senão também do próprio Rei. E como naturais e cidadãos daquela cidade compraram umas casas mui acomodadas, assim para o recolhimento religioso
  • 292 Das coisas da China dos nossos, como para o concurso dos grandes e de tôda a outra gente que vem ouvir a palavra de Deus. Moravam dantes nestas casas mandarins ou pes- soas graves, pelo que estava posto em costume que todas as noites estivessem dois homens de guarda em uma casinha fora da porta, vigiando-a sempre por amor dos ladrões. E porque depois que foram dos padres, vendo estes guardas que os padres não erâm mandarins, deixaram alguns dias de vir fazer sua vigia, avisado disso um mandarim, grande amigo dos padres, os fêz vir como dantes, para ficarem mais seguros dos ladrões. No fazer cristãos vão os padres neste princípio mais devagar, baptizando ainda poucos, por irem segurando e arrai- gando mais as coisas de nossa santa fé 11a opinião dos grandes da corte; porque de ali estar bem acreditada e fundada, depende a segura promulgação e perma- nência dela por tôda a China. E bem mostra nosso Senhor ir concorrendo com estes bons e prudentes intentos dos padres, pelo grande crédito que lhes tem dado, e principalmente ao padre Mateus Rício, assim com o Rei e grandes desta corte, como em todo o reino. O qual é tal que os mandarins grandes letrados, como são dados a fazer livros nos quais desejam de sair com coisas novas, hão por grande novidade o fazerem particular menção neles dos padres • fi. 76 v. e de suas coisas, excedendo às vezes assaz na grandeza dos louvores que * dêles dizem, e procuram quanto podem engrandecer nossas coisas, pelo menos para trazerem alguma nunca cuidada nem escrita. Entre êstes houve um que fêz um livro desta maneira que tinha por título—Das coisas maravilhosas que tenho ouvido — e entre elas tratava mui honrosamente da vida, pátria, costumes e letras dos padres, principalmente Mateus Rício e Lazaro Catâneo, que foram os primeiros que começaram a entrar e tratar com os mandarins. Impresso êste livro se espalhou pela China e foi ter à província de Honão, que está quinze dias de caminho desta corte, onde caiu nas mãos de um mandarim letrado, judeu de nação; o qual lendo-o, coligiu dele que os padres não eram moiros nem gentios, pelo que se persuadiu que não podiam ser senão de sua nação e lei; e isto o moveu a vir a Pequim, onde logo foi visitar os padres e folgou muito de ver a Bíblia Régia com letras hebreias, e outras coisas que lhe disseram e mostraram. E como entre elas fôsse uma imagem de nossa Senhora com o menino Jesus de uma parte, e S. João Baptista pequenino de outro, cuidou o judeu que não podiam ser aqueles meninos senão Jacob e Isaú; pelo que logo disse: eu não adoro imagens, mas quero fazer reverência a estes meus primeiros progenitores. Donde e do que mais disse no discurso da prática e ouviu dos padres, entendeu que não eram êles de sua seita, e êles que êle era judeu. E continuando mais na prática, disse que em sua província havia mui- tos da lei dos padres, e que em Pequim estava um dêles e que era mandarim; e que êstes cristãos vieram à China de um reino que se chama Pérsia, que está para a parte de Oeste. Que por êste respeito chamam os Chinas persas a • Fi.77. outros cristãos que estão fora dos * muros da China, que estão para a parte do norte; e que êstes cristãos persas vieram àquelas partes quando Tártaro, a que êles chamam Tamorlão, tomou o reino da Pérsia e conquistou a China que depois possuio em seus sucessores; no qual tempo vieram também muitos judeus e moiros à China. Mas, ou êste se enganava no nome de Tamorlão, ou não deve ser de quem falam nossas histórias, salvo se o nome Tamorlão era comum
  • Das coisas da China 2g3 aos reis tártaros que reinavam por aquelas terras. Disse mais este judeu que não há muitos anos que os cristãos tinham igreja na mesma cidade de Honão, metrópole desta província, e donde ela tem o nome. Mas que indo perdendo a doutrina da sua lei por não haver quem a ensinasse, largaram a igreja para um templo de gentios que se chama Cunugão. O mesmo também disseram uns moiros que tinham feito uns cristãos que havia na província de Xersi, a mais ocidental da China. Disse mais que estes de quem êle falava não se cha- mavam cristãos mas da lei de Xensú, que quer dizer letra de Deus, que na China se escreve e significa por uma cruz muito formada. Mas não soube dar nenhuma razão disto, senão que êles comiam tudo, e em tudo quanto comiam faziam uma cruz. Por onde parece que não tem fundamento o que disse Jeró- nimo Roscoli, italiano, nos comentários que fêz sobre a cosmografia de Ptolo- meu, que os chinas tinham grande veneração à cruz, e não sabia por que causa. Disse mais que destes cristãos saíram muitos letrados e mandarins grandes, e entre outros nomeou uma família de alcunha Chão, da qual agora um actual- mente está em Nanquim, e um dos principais que há naquela corte, por nome Memnao, mui conhecido do padre Mateus P.ício, quando estava e depois con- tinuou na * mesma cidade com o padre João da Rocha e com os mais padres; • fi.77 »• e vindo o ano passado a Pequim, visitou os padres com sinais de muito amor. Mas, dizia o judeu, não se davam por achados, nem se prezavam de serem tidos por da lei Xensú, que é o mesmo que de Deus. E não é muito de espantar, porque está já tão extinta nêles a memória de cristão, que não há mais que aquela pequena lembrança de fazerem a cruz sôbre tudo o que comem, como claramente se viu daquele que o judeu dizia que estava em Pequim; o qual lo°o ao outro dia o mesmo judeu levou aos padres, que o trataram com muito ga^alhado e festa; e dando-lhe os padres de jantar, usava do sinal da cruz em tudo o que comia, e folgou muito quando os padres lha mostraram. Porém fora disto nem o que esta cruz significava, nem se havia Deus sabia. Contudo chorava de alegria quando os padres lhe disseram que a lei de seus antepassados era no mundo de tanto nome e seguida de tantos reinos, e lhe declararam o mistério da cruz. Trataram logo também com ele de como se aviventaria esta faísca de cristandade que havia em sua terra e de êle também se fazer cristão, ao que mostrou muita vontade. E porque êle estava despachado por mandarim dos confins do norte, onde lhe ficavam sujeitos os cristãos que acima disse esta- vam fora dos muros, tratou com os padres que o meio para isto seria ir um padre a sua terra; e porque êle o não podia levar por ir para a outra província que digo, que escreveria aos de sua terra que o viessem buscar a Pequim. E nisto se confirmou muito mais depois que levou para sua casa e leu o catecismo que os anos passados os padres imprimiram com a cartilha, e outras obras. Mas como andava tão ocupado * com sua partida para a província que ia gover- -fi.». nar não deu o tempo lugar de tratar com êle de vagar sôbre se dispor a se fazer cristão; porém ou de uma maneira ou de outra procuraram os padres travar com ambos êstes dois mui estreita amizade; porque o judeu com o seu mandarinato não pôde bem guardar a sua lei, pelo que está excluido da sinagoga de Honão que é muito grande, e não parece que está muito fora de se fazer cristão, porque não é nada adverso à nossa santa lei. E assim, nêle e em seus
  • 294 Das coisas da China parentes terão os padres grande ajuda para quando algum dêles puder ir à sua terra. O outro, como vai governar aquela província que está fóra dos muros, onde estão os cristãos que ainda conservam o nome, tendo-o por amigo, ajudará muito para lá poder ir um padre; porque ambas estas províncias trazem os padres muito no coração, para irem buscar e descobrir estas relíquias do nome de Cristo que nelas ainda estão, pôsto-que tão apagadas. E nesta mesma con- junção escreveram os padres de Nanquim que achavam haver naquela cidade, daqueles que chamavam dos da lei de Deus e que veneravam a cruz, mais de dez mil pessoas, com os quais já entendiam e no mês de Janeiro de seiscentos e seis tinham já baptizado dezassete, e andavam catequizando outros tantos; e também dizem que não podiam alcançar até então a origem dêles. Tornando a Pequim, sucedeu que no mês de Janeiro de seiscentos e seis nasceu um neto a El-Rei da China, filho do principal herdeiro, coisa que dizem ser muito raro no reino da China; pelo que, conforme as leis do reino, se fize- ram mui grandes festas, e muitas mercês aos mandarins e a seus pais; um dos • F1.78V quais * foi o pai de um mandarim cristão, por nome Paulo, que é o principal e mor homem que temos na China; e um dos doze escolhidos entre todos os mandarins do reino, e postos no colégio do Rei, donde saem os de seu supremo conselho real. Era êste velho, pai de Paulo, de setenta e três anos, e nêste tempo que nasceu o neto a El-Rei era catecúmeno, e pouco depois se baptizou; e foi também feito mandarim, igual a seu filho, que, ainda que seja sem renda, é coisa mui estimada entre os chins. E o que causou a todos maior alegria foi a grande mudança que com isto e nesta conjunção fêz o Rei, com vários come- tas, coriscos e outros sinais do céu, que neste tempo apareceram em Pequim. Porque por si mesmo passou logo uma chapa com um decreto, no qual man- dava chamar para a corte todos os eunucos que andavam espalhados pelo reino, abrindo e cavando as minas e recolhendo os direitos com grande opressão do povo, porque o que não podiam tirar das minas tiravam dos ricos e pobres, por mandarem, como mandavam cada ano grande quantidade de prata a El-Rei, Além disso, ainda que não tirou nas alfândegas os direitos que os anos passa- dos tinha posto de novo, contudo tirou a arrecadação dêles das mãos dos eunu- cos e seus algozes; o que foi tão estimado como se os tirara de todo. Porque eram muitos mais sem comparação os furtos e vexações que por estes se faziam nos caminhos aos passageiros, de modo que havia pouca diferença dêles aos salteadores; pelo que muitos mercadores deixavam de andar pela China pelo temor das tiranias que dêstes padeciam. Cometeu a arrecadação aos manda- rins, ficando o estado dêste reino como dantes. Finalmente, além de muitos •Fi.79. presos que mandou soltar, proveu * em poucos dias uma grande multidão de ofícios que estavam vagos, o que era ocasião de assim os vassalos como os que haviam de ser providos padecerem muito. Entre êstes renovou um ofício de mandarim muito grande, que é ler ao Rei os livros da China que tratam do bom govêrno. Pelo que agora dizem que todo o dia está lendo e estudando êstes livros, sendo dantes um Sardanapalo que não tratava mais que de seus deleites. Esta mudança de El-Rei atribuem uns aos cometas e sinais do céu que acima disse- mos apareceram em Pequim; outros e comumente a visões que diziam ter visto lá dentro no paço. O em que todos concordam é que ajudou muito para esta
  • Das coisas da China 295 mudança um eunuco muito virtuoso que novamente, em lugar doutro velho que morreu, entrou no ofício do sêlo do paço, de dentro do qual todos dizem muito bem, e que muitas vezes tem avisado a El-Rei de algumas coisas mal feitas mui anticipadamente; mas agora que ficou ministro mais chegado a êle, e por- que manda todo o governo, obrou tais efeitos nêle que todo o reino ficou refor- mado e consolado. Tanto montou um ministro bom e virtuoso, ainda que gentio, junto de El-Rei, que de quási tirano e Sardanapalo que dantes era no governo e nos costumes, o fêz dar uma volta tão grande e o fêz tão diferente. Estão os padres continuamente nesta casa ocupados com grande concurso de gente que sempre a êles acode, e não se poderá crer o trabalho e ocupação que sempre teem com receber e pagar as visitas dos grandes, senão de quem o vir, e com também remunerarem os presentes que lhes mandam com outros iguais ou avantajados, que é um tributo mui pesado para quem tem tão pouco, e padece muitas vezes tantas necessidades * que é necessário tirá-lo da boca e .F1.79V. deixar de comer, para acudir a estas obrigações; e principalmente com man- darins que daqui são mandados a governar províncias e cidades por onde os padres andam, aos quais é necessário fazer mui benévolos e amigos, para lá em suas províncias e govêrno favorecerem os padres e as coisas de nossa santa fé. Com o que muito se tem ganhado de crédito e benevolência com esta gente; pois não sòmente já não encontram nossas coisas, nem entrada na China; mas passam chapas e provisões para os nossos por tôda a parte poderem passar livremente, e para isso em todas as cidades lhes seja dada tôda ajuda e favor; que não pode ser mor testemunho de reputação e crédito em que estão com os mandarins. No que se deve muito ao bom mandarim Paulo, que como é tão bom cristão, não só por si com a muita autoridade e grande lugar que tem, mas também por seus amigos busca para os padres todos estes favores. Há nesta cidade um mandarim dos que chamam Quocum, que são no reino os segundos depois de El-Rei; e êste se chama Chinquocum, o mais rico de todos; e assim tem uns paços que em tôda a parte serão tidos por obra de magnifi- cência real. Com êste tiveram os padres êste ano entrada. A ocasião para isso deu um cristão que há dois anos está em seu paço por mestre de seus filhos, dos quais o morgado, porque é um mancebo de desejoso ânimo e mui bom juízo, pela conversação do bom cristão, deitou de si os pagodes, recebendo a imagem de Deus a qual adora cada dia; e tendo já aprendida tôda a doutrina, deseja muito fazer-se cristão. Mas arreceando os padres de o fazer sem terem comodidade e ocasião de irem a casa de seu pai tratar * com êle, o foram de- «fi.8o. tendo, procurando primeiro buscar meios de travar amizade com o pai, para que tratando familiarmente com êle, não estranhe ir seu filho a casa dos padres nem os padres à sua. E assim, saindo seu filho uma vez de casa para ir visitar um mandarim e tomar certo grau, à volta disso foi também a casa dos padres, onde fêz muita reverência à imagem do Salvador, rezando-lhe as orações que já sabia; e os padres lhe fizeram tal gasalhado que, sabendo-o o pai, mostrou desejo de se ver com êles; os quais o foram logo visitar, e êle pouco depois os veio também visitar a nossa casa com grande estado e acompanhamento, como costuma levar quando sai fora. Os padres o agasalharam como era razão, mos- trando-lhe tôda coisa curiosa que havia em casa. E assim correm agora com
  • 296 Das coisas da China grande amizade, da qual esperam não só o baptismo do filho com paz e quièta- çao, mas de muitos outros. Nesta cidade de Pequim se baptizou um homem honrado, natural de outra chamada Pantinfú, três dias de caminho desta corte; o qual, depois de achar para si a pedra preciosa da fé e a luz do Evangelho, não quis gozar só dela, mas desejou que a participassem também os de sua terra. E para isso procurou levar lá um padre, como de-feito levou. O qual escreve em uma sua carta, que a estrada por onde foram de Pequim a Pantinfú, que são trinta léguas, era tôda feita à mão, muito larga, e de uma e outra parte duas fileiras de cada banda de arvores mui formosas, plantadas por ordem, que no verão faziam mui fresca e aprazível sombra aos caminhantes; e que continua esta estrada desta maneira como cem léguas, sem nunca faltarem estas árvores. Mas o que era • fi.sov. de mor espanto, que por tôda esta * estrada era tão grande a frequência da gente, cavalos, mulas, cadeiras, liteiras, carros e coches que excedia as mais frequentadas ruas de nossas cortes de Europa; e não como quer, mas em gran- díssimo excesso, e mais para ver e admirar que para escrever. Chegados à cidade, passaram a uma aldeia que é a daquele novo cristão, o qual os agasa- lhou em sua casa, onde logo começou a concorrer grande número de gente, parte com curiosidade de ver os padres, parte com desejo de ouvir o que pre- gavam; e em seis dias que ali estiveram, lhes deram a notícia que foi possível da lei de Deus, declarando-lha com palavras e razões acomodadas à capacidade da gente; com que muitos ficaram convencidos e movidos a deixar a falsidade de seus ídolos e seguir a verdade de nossa santa fé. Baptizaram-se alguns, que foram os que com a brevidade do tempo se puderam instruir, ficando estes mui alegres e consolados, e os outros com esperanças da tornada dos padres; ainda que dois ou três não quiseram esperar tanta tardança, mas aprendida a doutrina dentro de um mês depois de os padres tornados, se vieram a Pequim receber o santo baptismo, dando por novas aos padres dos muitos que estavam abalados para fazer outro tanto. E neste mesmo povo veio ter com o padre, emquanto ali esteve, um gentio, cabeça de sua seita, o qual com os de sua frèguesia pediram ao padre que lhes quisesse pregar a todos juntos, porque desejavam saber se havia outro Deus melhor e mais digno de ser reconhecido e adorado do que êles tinham. Prègou-lhes o padre, e foi nosso Senhor servido que logo acabada a prègação, o que era cabeça da seita (em cuja casa estavam) se alevantou e tomou seus pagodes com tudo o que a êles pertencia, e diante • Fi.81. * de todos (pôsto-que consentindo uns e contradizendo outros) deu com êles no fogo, e logo o padre pôs cm um altar bem concertado uma imagem que levava do Salvador do mundo, a que todos fizeram reverência, com grande consolação de a ver. Ficaram para aprender a doutrina, para quando o padre tornasse se baptizarem, por então não ser possível deter-se mais. Doutro lugar vizinho a êste mandaram os moradores aqui à côrte duas pessoas, com carta mui bem notada e discreta, pela qual pediram ao padre quisesse lá tornar, porque muitos estavam já dispostos para se baptizar, e com a doutrina aprendida e pagodes queimados; ajuntando-se todos os catecúmenos em casa de um cristão que ali está, a fazer reverência à imagem do Salvador; mas não ia o padre por falta do necessário para sua sustentação.
  • Das coisas da China 297 Na mesma cidade de Pantiníu, indo o padre visitar um mandarim amigo, e conhecido por cartas, foi estranho o agasalhado com que o recebeu; e entre outras coisas lhe fez um banquete para o qual convidou a outros nove ou dez mandarins aposentados que ali havia, e alguns que foram grandes e eram já muito velhos. Neste banquete, pôsto-que com muita resistência do padre, lhe puseram uma mesa por si, que era a primeira e a mais principal; e assim no banquete como depois lhe fizeram inumeráveis preguntas, com que houve bem ocasião para lhes dizer e declarar muitas coisas dêste mundo inferior e do Cria- dor dele, que por extremo folgaram de ouvir, como coisas novas e admiráveis de que nunca jámais tiveram notícia. Ficaram amicíssimos do padre esperando a segunda tornada sua, e com tão bom afecto e disposição para ouvirem as coisas de Deus, que com muita razão se pode esperar que tornando lá o padre * fará «fi.sit. grande fruto. Esta boa disposição da terra para sementeira do sagrado Evan- gelho se pode dizer que há em quási todo este reino da China. Só falta o remédio para sustentar os obreiros, que pela falta dêste nem nas casas que já estão feitas pode haver mais gente, nem fazerem-se outras missões e casas de novo, nem poderem ir os padres a descobrir aqueles cristãos de que teem notí- cia estarem por alguns reinos comarcãos da China, como acima dissemos, e ainda em algumas províncias dela. Há na cidade de Nanchão um homem honrado natural da província de Xinchen, duma família que chamam Matos, do qual na relação passada fizemos menção, que sendo catecúmeno e tendo feito mui grande entendimento das coisas de Deus e de nossa santa fé, não lhe davam os padres o santo baptismo, pelo embaraço que tinha de duas mulheres com que estava casado segundo o cos- tume da China, das quais a primeira não podia deixar por ela não querer largar seu direito; a segunda, por ser parenta de El-Rei, e por isso ter tença dêle; e estar certo de o haverem de matar se a larga. Pelo que o pobre homem vive nesta perplexidade e com grande pena sua, não deixando de se buscar, assim da parte dêle como dos padres, todo o possível remédio para se tirar êste im- pedimento de seu baptismo; o qual ainda que não tenha recebido, vive porém e procede como se fora já cristão; e por tal se tem êle. Foi êste ano à sua pátria, onde divulgou grandemente a lei de Deus, falando com muitos dela e dos padres que a pregam, praticando-lhes o que sabia, fazendo aprender a doutrina a seus criados, e do melhor que lá tem; e tendo em casa a imagem do Salvador a que todos faziam * reverência. Quando tornou, gastou muitos dias com os «fi. &. padres, preguntando-lhes ao que na sua pátria não soube responder, e muitas outras dúvidas que lhe ocorreram neste meio tempo, e informou-se de todas as histórias e principais festas do ano, com tanta diligência e curiosidade que punha espanto. No fim de Abril se partiu para Xensi, uma das províncias da China, e que de Nanchão está dois mêses de caminho, a ver um irmão seu, que lá é mandarim. Levou algumas doutrinas impressas e imagens do Salvador, para dilatar por lá seu santíssimo nome; e foi muito desejoso de saber daqueles cris- tãos antigos que os padres teem notícia haver naquelas partes, e ainda de os ver, se não estivessem longe da jurisdição de seu irmão. Em estas coisas todas fala e trata como se fora cristão antigo. Antes de se partir, por algumas vezes levou aos padres seus três filhos que tem cristãos, Miguel, Gabriel e Rafael, 38
  • 298 Das coisas da China pedindo lhos quisessem ter em casa para aprenderem nossas coisas e letras; porque dizia a mãe que não desejava mais que criarem-se êles com os padres, e aprenderem nossas letras, porque mais lhes queria a criação que com a dou- trina dos padres podiam ter, que quanto podiam saber das letras da China. E os meninos o não desejam menos, os quais tem tôdas as boas partes de honra, que são parentes de El-Rei, habilidade índole e educação, a afeição às nossas coisas que se pode desejar; e sôbre tudo o desejo que o pai tem de os dar aos padres e que fiquem sempre com êles. E parece que por este respeito (com os Chinas costumarem desposar os filhos geralmente até aos sete anos) a êstes, e mais sendo tão nobres, o não fêz ainda seu pai; que porventura os tem Deus guardado para si, pois inspira à mãe, ainda que gentia, vontade de lhos dar; que em mulher china é bem de espantar, e mais em parenta de El-Rei como • fi. 8sv. esta * é e com renda sua; cujas semelhantes cuidam que tôda a bemaventurança desta vida consiste em ter muitos netos; e com terem o pai e a mãe e os me- ninos êste desejo, e os padres muito mais, contudo lhos não tomam porque não teem casa em que os agasalhar, nem também com que os sustentar. E por experiência vêem os padres, não sem grande mágoa sua, que se tiveram possi- bilidade de fazer um seminário em que criaram estes e semelhantes meninos, e com que também puderam sustentar dentro na China mais religiosos da Com- panhia para irem fazendo missões e residências, que floreceram com grande glória de Deus as coisas da fé, e que houvera nela grande conversão e cristan- dade. Mas a falta de tudo faz ir êste negócio mais devagar. CAPÍTULO XX De um grande trabalho em que os padres se viram, e cruel morte que os mandarins de Cantão deram a um irmão da Companhia ESTANDO as coisas da conversão da China e residência dos padres nela, o crédito e autoridade de nossa santa fé, e a benevolência dos manda- rins da côrte e de quási todo o reino para com os padres, no estado que fica dito, que é o melhor que conforme ao tempo e natureza das coisas daquele reino se pudera desejar, invejoso o diabo de tamanho bem, sentindo já seu mal e o dano que ao diante lhe pode vir, procurou ver se podia derrubar e destruir •fi.83. todos * estes tão felizes princípios das coisas de nossa santa fé e religião cristã, cometendo a bateria pelo mais perigoso passo e por onde mais fàcilmente podia entrar a natureza dos chins, que foi com um pregão público dos padres os quererem destruir e conquistar-lhes seu reino; coisa que só a imaginação dela que se lhes represente basta para revolver tôda a China. E o que mais é de espantar, para isto não quis tomar por instrumento idólatras, nem gentios, mas (o que sem muita dor e compaixão se não pode deixar de dizer) pessoas cristãs, que por muitas e gravíssimas vias tinham obrigação de dar a vida, não sòmente por Cristo, mas por cada um dos cristãos que estavam feitos na China. Pas- sou a coisa desta maneira: Estando certos gentios na China, na cidade de
  • Das coisas da China 299 Macau, em uma certa casa dela, uma pessoa, movida de terrível paixão bem irracional que tinha contra os padres da Companhia e capitão da cidade, ou fosse por malícia ou por ignorância, persuadiu àqueles gentios que os padres da Companhia e outros seus devotos queriam matar a todos os chins que estavam em Macau, e levantar-se contra o Rei da China. Que para isto faziam a cêrca do seu colégio e tinham tantos japões, perseguiam os mandarins da mesma cidade de Macau, e tinham no colégio o padre Lázaro Catâneo, vestido ao modo da China, o qual faziam capitão dêste levantamento, porque esteve muitos anos pela China dentro. E para que se saiba o fundamento de todos estes pontos,- a cêrca do colégio fêz a mesma cidade, para porem ali em salvo suas mulheres e filhos, vindo, como se temia, naus holandesas, por naquela cidade não haver fortaleza; os japões são os que ali veem àquele porto, que por serem cristãos baptizados * pelos padres de Japão, se veem todos amparar ao nosso colégio, .fi.83v. pôsto-que os chinas os não querem consentir em suas terras. Diz que perse- guiam os padres os mandarins de Macau, por razão de uma briga que ali houve com eles, na qual entraram alguns moços do colégio. Falam no padre Lázaro Catâneo porque havia três anos que, vindo de dentro da China, residia ali por pai dos cristãos chinas, com barba comprida e vestido de china, porque havia logo de tornar pela terra dentro. Dito isto por aquela pessoa aos chinas gen- tios, e juntamente exortando-os a que se fossem logo e se pusessem em salvo, estes o disseram a outros, e êles a outros, até que se publicou por tôda a cidade; de modo que quási todos os chinas que nela moravam, persuadidos que era assim como se dizia, deixando suas casas, fugiram pela terra dentro e deram aviso disto a Cantão. E como os chinas são nesta matéria em tanto extremo suspeitosos, em um instante tôda a cidade de Cantão se pôs em armas, fechando as portas, mandando que não viessem mantimentos a Macau, pondo espias no caminho e fazendo outras diligências, que por serem muitas e incríveis deixamos de dizer. Os nossos padres nesse tempo, estando em boa fé, não faziam caso dêstes rumores; mas contudo, passando o negócio tanto adiante que já tôdas as vilas vizinhas estavam cheias de soldados, e a cidade de Macau com falta de mantimentos e de outras coisas necessárias, propuseram à cidade mandasse um cidadão, com título de embaixador a Cantão para que informasse da verdade aos mandarins. Foi; e com isso se aquietaram algum pouco. Mas foram tais os ofícios com que os contrários continuavam nas mentiras fingidas, que os mandarins * continuaram também cada vez mais na imaginação das suspeitas »fi.84. que contra os nossos tinham; e se alvoroçou tôda aquela cidade de Cantão de maneira que os mandarins fixaram éditos nas partes da cidade contra os nossos padres, e em particular contra o padre Lázaro Catâneo, o qual chamavam capi- tão dos holandeses e japões, que pretendia conquistar o reino da China, prome- tendo grandes prémios a quem o prendesse. Era chegado nesta conjunção, que viera das residências da terra dentro, um irmão nosso chamado Francisco Miz, de grandes prendas e virtudes, que vinha negociar o necessário para o padre Visitador Alexandre Valignano poder entrar na China, como determinava, a visitar os padres que lá por dentro estão; para o que êste irmão trazia chapas dos mandarins de Nanquim, em que man- davam que por onde quer que passasse o padre, não só lhe não pusessem im-
  • 3oo Das coisas da China pedimento ou estorvo algum, mas lhe dessem todo o favor e ajuda para seu caminho. Porém foi nosso Senhor servido levá-lo antes disto em Macau a melhor vida, para lhe dar o prémio de suas muitas virtudes e santidade, e dos insignes serviços que lhe tinha feito, e trabalhos que tinha padecido por espaço de trinta anos naquelas partes da índia, Japão e China, em promover a con- versão dos gentios e o aumento de sua santa fé. O que sabendo o irmão em chegando a Cantão, e que já para esta entrada do padre não tinha que negociar, se ficou na mesma cidade negociando as coisas necessárias para as residências, como costumava cada ano fazer, por ter nisto muita experiência, e saber muito bem a língua. Porém estando aqui e nesta conjunção, em que toda a cidade • Fi.84». andava * revolta e posta em armas pelas mentiras que se tinham levantado por palavra e cartas contra os padres e o capitão de Macau D. Diogo de Vascon- celos, e sendo conhecido por discípulo do padre Lázaro Catâneo, foi logo acusado e prêso por mandado dos mandarins, no fim de Março de 606, junta- mente com outros quatro cristãos e com o dono da casa em que poisava. Foram logo todos apresentados diante de um mandarim grande, o qual por mais razão que o irmão lhe deu de si, não quis crer, mas com muito grande fereza e cruel- dade o mandou pôr a tormento nos pés e mãos, mandando-lhe meter canas agudas por entre as unhas; e depois disso açoitar com os bambus, que são umas canas grossas, com que o costumam fazer, e que é um cruelíssimo tormento. E logo, acabado isto, o remeteu a outro mandarim inferior, o qual o examinou com muito rigor, opondo lhe que era espia, e que vinha comprar armas e outras coisas para entregar o reino aos extrangeiros. A tôdas estas calúnias respondeu o irmão com muita constância, dizendo como tudo aquilo eram falsidades e calúnias que os inimigos dos padres levantaram; e que êle não andava neste trato, senão que era cristão e irmão da Companhia de Jesus. Sem embargo de tudo isto, o tornou a mandar açoitar com os bambus; e como o tormento era o que dissemos, cruelíssimo, que poucos açoites dêstes bastam para matar um homem, tal ficou o bom irmão dele, junto com o outro dos pés e das mãos, e com andar doente e quartanário, que em cinco dias acabou esta vida dentro no cárcere onde o tinham, entrando no céu com morte gloriosa, e tendo padecido tão inocentemente. • fi.85. Neste tempo era grande a aflição e angústia em que * estavam os padres que residem pela China dentro, aonde as novas destas coisas tinham chegado, principalmente os da residência de Xaucheu, na qual, por estar mais perto de Cantão e de Macau, causou êste negócio mor perturbação e dano naquela cris- tandade; e por a matéria de que se tratava ser de tal qualidade, os amigos e conhecidos se afastavam quási todos, e os nossos se viram em grande trabalho. Donde o padre Nicolau Longobardo escreveu dez ou onze pontos principais, que os mandarins coligiram dos recados que tiveram de Macau, e os publicaram pela província em detestação dos nossos, os quais são os seguintes. O primeiro qut fazendo os padres os chinas cristãos, os tiram da obediência e jurisdição de El-Rei; o que se funda numa coisa que os da parte contrária tinham feito, sem os padres nisto intervirem. O segundo que faziam fortaleza em Macau; que foi pela cêrca sobredita que a cidade fêz ao nosso colégio. O terceiro que recebiam em sua casa japões tanto seus contrários. O quarto que entravam
  • Das coisas da China 3o i pela China dentro a espiar a terra, para depois se tornarem a dar relação das coisas dela e a irem conquistar. O quinto, que os padres eram de boa habili- dade e sabiam a nigromância, pelo que podiam armar traição ao reino. Sexto, que os padres tinham irmãos em Japão, que escrevem uns aos outros, e que ali também faziam gente para irem contra o reino; o que diziam pelos cristãos que os padres ali fazem. Sétimo que eram pessoas principais e cabeças dos holan- deses e portugueses, dos quais se temem grandemente. Oitavo, que sabiam fazer prata e por isto podiam ter o povo de sua banda. Nono, que entravam com nome de prègar nova lei, como antigamente fizeram outros que tomaram a China primeiro. Décimo, que destruíam os pagodes contra as leis da China, é introduziam outra nova crença e lei, sem primeiro terem licença do Rei. * Onze, que perseguiam os mandarins; que foi pelo caso que acima dissemos sucedeu em Macau. De todos êstes capítulos acusavam os mandarins de Cantão a nos- sos padres, pretendendo, quanto podiam, deitá-los todos fóra da China. Mas indo as coisas desta maneira e sabendo os nossos da prisão do irmão, apelaram logo para o Tutão, que é o supremo mandarim de tôda a província. Donde logo os outros mandarins contrários começaram a entender a inocência dos padres; pelo que não ousaram ir mais por diante como pretendiam. Mas o remédio principal deu-o Deus nosso Senhor, tão extraordinário e de repente como êle costuma fazer em semelhantes negócios de sua causa. Porque neste mesmo tempo veio inesperadamente um mandarim de Pequim, para suceder àquele que matou o nosso irmão, o qual vinha muito amigo do padre Mateus Rício e mui bem afecto a nossas coisas; porque o padre Mateus Rício tem par- ticular cuidado de saber naquela corte, dos mandarins que se mandam ao go- verno das províncias e cidades onde os nossos residem, e os visita logo que são nomeados e estão para partir; o que êles estimam muito pelo grande crédito e autoridade que tem entre êles o dito padre. Sabendo dêste mandarim que vinha para o governo de Cantão, lhe fêz também o mesmo. Além disto era este também conhecido há já anos do padre Nicolau Longobardo, superior da residência de Xaucheu. Pelo que, passando por aquela cidade, o foi logo visitar o padre, e juntamente o informou dêste negócio, pedindo-lhe também lhe con- cedesse licença para ir com êle a Cantão, onde pudesse dar razão de cantas calúnias e mentiras que contra os padres diziam. Prometeu o mandarim fazer justiça, mas por nenhum modo quis que o padre fosse com êle a Cantão, afir- mando que êle por si mesmo * faria tudo o que nesta matéria fôsse necessário; «fi.86. como de feito fêz depois e mostrou na verdade. Porque com muita inteireza se opôs contra quási todos os mandarins desta província, e informado da ver- dade, soltou todos os que no princípio foram presos juntamente com o irmão; prendeu ao acusador e o mandou ao Tutão para ser castigado; quietou tôda a gente desta província que cada dia estavam esperando pelo padre Lázaro Catâneo com um grande e numeroso exército, como os inimigos dos padres lhes tinham persuadido; e tão roto e público andava o negócio que escreviam de dentro da China que até os meninos da rua sabiam o nome do padre Catâneo e falavam nêle. Mandou também êste mandarim a Macau outro mandarim de armas e capitão geral de soldados, fingindo que mandava visitar o padre Catâneo, mas a verdade era para que, indo êle ao colégio e falando com os padres, visse se
  • 3o2 Das coisas da China tinham armas, cavalos, soldados e outros petrechos de guerra, conforme ao que se dizia em Cantão; o que ele muito bem sabia que não havia de achar, mas usou o bom mandarim dêste artifício, para com a informação da verdade que lhe levasse, a poder referir aos outros, como depois fêz em Cantão assim o capitão como o mandarim que o mandara, para desta maneira poder mais livre- mente favorecer o negócio dos padres e aquietar os outros mandarins da cidade e da província. A êste mandarim de armas agasalharam os nossos com tôda a festa possível, e lhe mostraram tudo quanto havia no colégio, com o que êle ficou bem desenganado. Depois de sua ida, os nossos de Xaucheu e o padre Lázaro Catâneo fizeram uma petição, na qual davam razão de muitas coisas; juntamente pediam lhes desse licença para o padre Catâneo ir a Cantão, a dar • fi. 86 v. razão de si, e de * todo o negócio, mas em particular, oferecendo-se a isto não sem perigo. Foi apresentada esta petição em nome do mesmo padre ao man- darim nosso amigo. E a resposta dela (que entre os chinas é como sentença final) foi desta maneira: que êle estava informado do sobredito capitão geral e que já estava certo da intenção e inocência do padre Lázaro Catâneo, e que não havia coisa de que duvidar dêle; de maneira que podiam descansar nesta maté- ria. E que não era necessário que o dito padre fôsse para isso a Cantão; que sòmente tinha sabido que em Macau havia muitos moços japões, comprados dos portugueses; e que, por quanto no contrato que os portuguêses no princípio fizeram com os chinas, se obrigaram a não trazer japões na sua nau de Japão para estarem nesta cidade, que por isto, como o Catâneo era pessoa de autori- dade entre os portugueses, era bom que aconselhasse a todos tornassem a man- dar êstes japões para sua terra, e daqui por diante não trouxessem mais outros. Com esta resolução e despacho da petição os chinas ficaram quietos e acabaram de crêr que tudo era falsidade e mentira. E os que melhor entendem e consi- deram as coisas, viram claramente que tudo isto era ardil e invenção, com a qual o demónio, por meio dos instrumentos que para isso tomou, pretendeu pôr por terra todo o edifício da fé que na China estava começado, e fechar as por- tas de todo ao sagrado Evangelho, como quem já sente a força dêle, e por isso, como forte armado procura guardar e defender sua casa. Os nossos ficaram mui consolados e quietos assim em Macau como nas residências da terra dentro, e principalmente de Xaucheu, que por estarem mui perto passaram maior trabalho; onde os amigos e conhecidos que se tinham afastado tornaram todos como dantes.
  • "LIVRO SEGUNDO • Fi.87. DA PROVÍNCIA DO SUL CAPÍTULO PRIMEIRO Das coisas de Maluco ONTÉM a província que chamamos do Sul sete colégios; convém a saber: o de Cochim que é cabeça de tôda a pro- víncia, o de Coulão, o de Vaipicota, o da ilha dos Reis na Costa da Pescaria, o de Santo Tomé em Malapoz, o de Columbo em Ceilão, o de Malaca na aurea Quersoneso. Casas e residências muitas e espalhadas por diversos reinos, como são os de Malabar, Ceilão, Bisnagá, Pegu, e nas ilhas de Maluco. O número dos da Companhia por esta província, será de cento e cincoenta. E começando pela mais remota parte dela, que é o arquipélago de Maluco, é necessário, para melhor inteligência de tudo, que tomemos a relação um pouco de mais longe, declarando quais são as ilhas de Maluco, que coisa o reino de Ternate; quando foram descobertas estas ilhas pelos portugueses, quando conquistadas, o direito que adquiriram e teem neste reino de Ternate, o tempo em que se perdeu, e como por derradeiro se tornou a recuperar. * Todo o Oriente que vai além de Sumatra e Malaca é mar e terra reta- «fi.87*. lhada em muitas mil ilhas, no meio das quais estão as chamadas do Maluco, e dos naturais Moloch, que quere dizer cabeça de coisa grande, como se o foram noutro tempo de algum império. Estas mesmas ilhas, cujo sítio é debaixo da linha equinocial, trezentas léguas pouco mais ou menos ao levante de Malaca, são cinco em número, lançadas uma depois da outra pelo rumo norte sul, ao longo da costa ocidental doutra ilha que êles chamam Moro, ou Bathochina do Moro, que pode ter até setenta léguas de comprido pelo mesmo rumo, sendo as cinco Malucas tanto mais pequenas, que a maior não passa de seis léguas em roda; e todas, por espaço de vinte e cinco léguas, estão umas à vista das outras. O nome da primeira vindo do norte para o sul é Ternate, distante meio grau da linha equinocial; a segunda se chama Tidor, e as seguintes, pela mesma ordem, Moutel, Maquiém e Bachão. Foram descobertas estas ilhas pelos portugueses no ano de mil quinhentos e onze, em que se tomou a cidade de Malaca pelo valoroso capitão e governa- dor da índia Afonso de Albuquerque, o qual depois de a conquistar, as mandou descobrir; e o primeiro português que entrou em Maluco foi Francisco Serrão,
  • 3 04 Das coisas de Maluco capitão de um navio; e de sua entrada, por espaço de nove ou dez anos anda- ram em competências o rei de Ternate com o de Tidor, procurando cada um deles grangear a amizade dos portugueses, e que fizessem fortaleza em suas terras. No cabo deles prevaleceu o Rei de Ternate, e assim no ano de mil • fi. 88. quinhentos e vinte e dois, por mandado de El-Rei * de Portugal, em dia de S. João Baptista, o capitão António de Brito começou a dita fortaleza na mesma cidade de Ternate; com que os portugueses tomaram posse, em nome de seu Rei e da coroa deste reino, daquela ilha e reino e de tôdas as mais terras e ilhas a êle sujeitas; não só pelo direito de todo êle lhe ficar nos limites de sua conquista, conforme a linha do meridiano, que por mandado do Santo Padre Alexandre VI se tinha lançado para a divisão das conquistas da coroa de Por- tugal e de Castela; senão também pela voluntária obediência com que aquele Rei de Ternate se sujeitava, e professava vassalagem a El-Rei de Portugal. Ajuntou-se a isto o outro novo e maior direito, pelo que sucedeu no tempo do governador da índia Nuno da Cunha e no ano de mil quinhentos e trinta e quatro; e foi que vindo a reinar em Maluco, Chacil Tabarija, filho do Rei que primeiro recebeu os portugueses, e sendo capitão da fortaleza de Ternate Tristão de Ataíde, de certa suspeita que dêle teve, o prendeu o dito Capitão, havendo mui pouco tempo que êle mesmo o levantara Rei; e com os autos da sua prisão o mandou à índia, ao governador Nuno da Cunha. E porque não se achou serem as culpas de qualidade para mais castigo que o trabalho de tão comprido caminho, o governador o deu por livre e que fosse restituído à posse do reino; o qual, logo que se viu livre e antes de se sair de Goa, quando já se não podia cuidar que o obrigava a isso o apêrto da prisão, pediu e recebeu o sagrado baptismo com o nome de D. Manuel, por memória de El-Rei D. Manuel, primeiro conquistador da índia, Sul e ilhas de Maluco. E não contente com «fi.£8v. isto, fêz outra coisa, * por onde se viu bem a prova da sua fé; e foi que tor- nando-se para Maluco, e chegando à cidade de Malaca, nesta caiu em uma enfermidade de que veio a morrer, recebidos os sacramentos e feitos os actos de bom cristão, estando a tudo presente a rainha sua mãe, que sempre o acom- panhou, e depois também se converteu e morreu cristã; e (ante) um Cate Sarangue, que entre êles é autoridade como de duque, e outros moiros nobres seus vassalos, juntamente fêz também seu testamento; e nêle, por não ter pes- soa que forçada e legitimamente lhe sucedesse, deixou e nomeou por universal herdeiro do reino de Ternate, com todos os senhorios das outras ilhas a êle sujeitas, a coroa de Portugal, que então possuia El-Rei D. João III. O qual testamento foi levado à cidade de Ternate, cabeça do mesmo reino, e nela reconhecido e aceitado por toda a nobreza e povo dêle, que com grande soleni- dade juraram e levantaram por seu legítimo rei ao mesmo senhor, saindo para isso com a bandeira das quinas de Portugal, dando «real, real» pelas ruas e praças da cidade, e com as mais solenidades que dispõe o direito na posse de semelhantes heranças. O qual tudo consta pelos instrumentos que Jordão de Freitas, capitão daquela fortaleza tirou no ano de mil quinhentos e quarenta e sete, em que esta posse se tomou. Continuaram os portugueses nesta posse, indo dando a investidura do reino de sua mão, em nome da coroa de Portugal, aos Reis que depois sucederam ao defunto Rei D. Manuel. E pela sustentarem
  • Das coisas de Maluco 3o5 se pode dizer com razão o que diz um dos nossos cronistas, que mais vezes vestiram as armas do que Maluco tem cravos, pelas muitas e contínuas guerras que sempre * houve com os inimigos daquela fortaleza e dos portugueses, e *fi. sç». principalmente quando os moiros naturais do reino de Ternate se levantaram contra eles, por ocasião da morte que um português, por nome Martim Afonso de Mesquita, deu ao mesmo Rei de Ternate que então era, matando-o às punha- ladas dentro da fortaleza (o que ainda que da parte do matador foi feito incon- sideradamente, da parte do Rei morto não foi sem justo juizo de Deus, pelas grandes perseguições e estragos que êste tirano tinha feito na cristandade). Continuou-se depois a guerra por muitos anos; até que no ano mil quinhentos e setenta e dois, faltando o socorro da Índia, e os mantimentos e munições aos portugueses que dentro da fortaleza estavam cercados, depois de terem comido cães, gatos e ratos e todas as imundícies desta sorte, até os coiros das caixas, emfim se deram a partido largando a fortaleza, e indo-se para a ilha de Am- bóino, donde depois vieram para a ilha de Tidor; na qual o Rei dela lhes pediu quisessem fazer a fortaleza, em que por mais de trinta e seis anos continuaram a posse e propriedade do seu Maluco, a poder de muito sangue e vidas de por- tugueses que por todo êste tempo lhes custou conservá-la, com a guerra continua que tiveram com os do reino de Ternate, que sempre procuraram tornar a re- cuperar; indo para isso muitas e várias armadas da índia, feitas com muito custo e despesas da coroa dêste reino. Mas nunca Deus, por seus altos juizos, permitiu que alguma delas alcançasse o efeito que ia buscar, guardando esta boa ventura para D. Pedro da Cunha, governador das Filipinas, como abaixo diremos. A fortaleza * de Tidor se perdeu também da maneira seguinte, conforme 'fi.&iv. a relação do padre Luís Fernandes, superior dos mais padres da Companhia que andam naquelas partes, que a tudo se achou presente. No princípio de Abril do ano de 6o5, apareceu uma nau inglesa no mar de Maquiém, a qual vinha preguntando pela fortaleza dos portugueses que estava em Tidor, aonde pouco depois chegou; e tendo fala com os nossos, lhes deu nova como os holandeses tinham tomado a fortaleza de Ambóino, e se faziam prestes para virem sobre esta. Juntamente ofereceu que lhes venderia a troco de cravo tudo o que de sua nau lhes fosse necessário, como vinho, azeite, queijos, bis- coito e vários legumes, roupas e tudo o mais que quisessem; o que para os da fortaleza foi bom alvitre, pela necessidade que de tudo tinham em tempo de guerra; dizendo porém que não poderiam ajudar os portugueses contra os holandeses, porque seu Rei tinha pazes com êles; mas que sòmente estariam à mira, como estiveram no tempo da peleja. Começou-se com muita diligência a fortificar a fortaleza, ajudando os tidores continuamente com suas embarca- ções, e ajudando todos os que havia na fortaleza, até sacerdotes, mulheres e meninos. No cabo de um mês que havia que a nau inglesa dera esta nova, chegou recado do padre Jorge de Afonseca que então estava na cristandade de Labua, lugar da ilha de Bachão, como no mar daquela ilha apareciam oito naus holandesas, as quais chegaram no princípio de Maio acrescentada mais uma; convém a saber, cinco maus grandes e quatro patachos. Vinham as naus mui alterosas, e tão ligeiras que contra vento navegavam * para onde queriam. • n. 90. 39
  • 3o6 Das coisas de Maluco Cada uma delas trazia de vinte e cinco parâ trinta peças de artilharia toda mui grossa e poderosa, que algumas botavam peloiro de trinta arráteis de ferro coado, e todos os peloiros eram de ferro. Entre todas traziam mais de cento e vinte peças afora a que traziam abatida. Vinham mui embandeiradas, e com muitas trombetas bastardas de que cada nau trazia seu terno. A gente que nelas vinha era pouca, porque, como se soube por um escrito dum português que consigo traziam e que secretamente o mandou ao capitão da fortaleza, em tôda esta armada vinham sòmente pouco mais de duzentos homens; porém todos êstes eram juntamente soldados, artilheiros e marinheiros. Chegados que foram à ilha, salvaram todos a cidade de El-Rei de Tidor que está da fortaleza como um quarto de légua, disparando cada uma sua peça sem peloiro. Neste tempo estavam dois galeões nossos, da carreira, surtos e juntos ao lugar de El-Rei de Tidor por ser mais acomodado para se defenderem, e as naus foram surgir em uma ponta da ilha que chamam Saconora; donde, por uns tidores que traziam consigo de Ambóino, mandaram muitos recados a El-Rei de Tidor, os quais todos se rematavam que lhes entregasse os portugueses ou os botasse fora da sua ilha. E como vissem que El-Rei a nada lhes deferia, se determi- naram vir cometer os dois galeões, os quais não tinham mais cada um que quatro ou cinco peças de artilharia pela proa, mas a gente mui pouca, porque não a havia na fortaleza. Durou a briga entre as naus e eles por duas horas, em que os nossos se defenderam mui bem; porque abalroados e entrados pelos • fi.<>ov. inimigos duas vezes, os lançaram fora, * e com a nossa artilharia lhes fizeram tanto dano, que lhe tiveram metida no fundo sua capitânia, se os holandeses não foram tão destros em a pôr à banda e lhe deitarem a água fora. Mas como êles eram tantos mais, e sua artilharia tanta e tão grossa, apertaram rija- mente os galeões até ferirem a Fernão Pereira, capitão dêles, em uma perna de uma bombarda, de que logo caiu. E pôsto-que não deixou de animar a gente a continuarem a batalha, como todavia foi necessário levarem-no em bra- ços para fora do galeão, a gente que nêles estava se saiu após êle, e os holan- deses os entraram; e tirando-Ihes a artilharia e o mais que nêles estava, os queimaram ao outro dia. Dos nossos que nos galeões pelejavam morreram sòmente dois homens; feridos sairam alguns. Da parte dos inimigos foram muitos feridos; dos mortos se não sabe, porque o encobrem êles mui bem. Tornaram os holandeses depois disto a mandar vários recados a El-Rei de Tidor, mas sem efeito do que pretendiam. Ao outro dia que foi dezasseis de Maio, se veio ajuntar com êles El-Rei de Ternate com sua armada; e logo os ternates desembarcando em terra fizeram uma tranqueira para dela por terra, e os holandeses por mar, baterem a fortaleza; o que começaram a fazer aos dezassete de Maio, jogando os holandeses cento e vinte peças de artilharia, da qual não havia na fortaleza mais que onze, e destas as seis ou sete lhes não podiam alcançar ao posto em que êles estavam. Durou a batalha dêste dia desde pela manhã até à noite; mas prouve a nosso Senhor que sem dano ne- «Fi.91. nhum nosso, que por todos não eram mais que * setenta homens, e dêstes uns trinta que pudessem bem pelejar. E era coisa maravilhosa ver a alegria e ânimo com que êstes poucos pelejavam. Ao dia seguinte tornaram a continuar a bateria por terra e por mar, sem em todo o dia levarem mão dela. Mas
  • Das coisas de Maluco 307 também Deus ajudou os nossos e os guardou, que com serem sôbre eles os peloiros tantos que pareciam chuva, não houve morto algum, e ferido foi um sòmente levemente de uma lasca de uma pedra. Ao terceiro dia vendo os ini- migos a fortaleza dos nossos, e quão fora estavam de se lhes entregarem como eles cuidavam, determinaram de apertar mais a bateria, e assim da meia noite por diante levando-se as naus do posto em que estavam, se vieram todas juntas em fileira pôr bem defronte da fortaleza, e botaram gente em terra na sua tranqueira, para juntamente com os ternates que eram muitos, emquanto as naus batiam do mar, os da tranqueira cometerem por terra; o que começaram a fazer cm amanhecendo com mui grande força de canhões reforçados, que parece aquela noite a nau capitânia tirou de baixo. Ao tempo que esta bateria se começou, estavam descansando um pouco os nossos soldados, porque tôda a noite tinham vigiado, e não deixou de haver algum descuido em acudirem neste ponto; o que foi causa de os holandeses começarem a entrar por uma coiraça que estava debaixo do baluarte do capitão; e foi bastante ocasião disto que, estando o nosso condestável nesta coiraça apontando uma peça para tirar aos inimigos, êles o pescaram primeiro com outra de suas naus e o mataram; pelo que logo outros que ali estavam, gente de pouca substância, desampara- ram o lugar e a coiraça; o que vendo os das * naus, fizeram sinal com as trom- «Fi.9i v. betas aos seus que estavam em terra que entrassem por aquele passo, que não havia quem lho estorvasse. Começam logo a entrar e trepar. Nesta conjunção, estando ali perto o padre Luís Fernandes da Companhia de Jesus, que por tôdas as partes também andava vigiando, indo ver o que passava na coiraça, encontra com os inimigos que já vinham com os mosquetes no rosto direitos ao padre; o qual desviando-se deles foi correndo avisar o capitão, que logo com muito ânimo e diligência acudiu, e achou já um grande golpe de gente que vinha entrando, assim dos holandeses como dos ternates; e com os poucos que consigo tinha deu tão forte Santiago nos inimigos que os fizeram voltar com tanta pressa e tão desatinadamente que uns após outros se botavam da coiraça abaixo, com muito perigo de quebrarem braços e pernas, como aconteceu a um dos seus capitães; e foi tão grande o mêdo que neles entrou, que deixaram os mos- quetes, espingardas e lanças, por fugirem mais desembaraçadamente, indo-lhes os nossos no alcance até os fazerem meter em sua tranqueira. Passado isto e recolhendo-se os nossos, e andando todos ajuntando os despojos das armas que dos inimigos lhes ficaram, muito contentes e alegres por tal vitória, eis que de improviso pega o fogo a setenta barris e duas pipas de pólvora que estavam na fortaleza, com tão grande estrondo que parecia se fundia o mundo, resinando pelos ares paus e pedras; e colhendo debaixo a nossa gente matou perto de trinta homens dos principais que havia naquela fortaleza, que foi coisa de grande lástima e de muito maior juízo de Deus. Livrou Deus nosso Senhor com grande providência sua ao bom velho, padre * Luís Fernandes, para os muitos serviços que depois lhe havia de fazer; o qual neste ponto em que arrebentou a pólvora, andava pela povoação bus- cando e chamando a gente que viessem acudir à fortaleza. Vendo-se o capitão e os mais que escaparam com vida nêste estado, sem fortaleza, sem pólvora, sem munições nem mantimentos, tomaram por conselho recolherem-se com
  • 3o8 4 Das coisas de Maluco suas armas ao lugar de Tidor onde El-Rei estava. Ficaram logo os holandeses senhores de tudo; mas como homens que não queriam de Tidor mais que fazer ali feitoria e lançar os portugueses fora, lhes mandaram oferecer embar- cações para aonde se quisessem ir. Das quais êles aceitaram quatro; e com outra de El-Rei de Tidor, se embarcaram nelas quatrocentas pessoas e se foram à ilha de Sião, aonde estava o padre António Pereira e o irmão João Paulo, com os quais se detiveram como quinze dias, em que fizeram mantimentos para sua viagem que fizeram dali a Zebu, onde também encontraram os padres da Companhia que ali residem, que com sua costumada caridade os agasalharam e consolaram; e dali se foram à ilha e cidade de Manila, cabeça de todas aque- las ilhas Filipinas, donde depois tornaram com D. Pedro da Cunha quando veio sôbre Ternate, e com ajuda de nosso Senhor o recuperou assim e da maneira que em todo o ponto da verdade refere em suas cartas o mesmo padre Luís Fernandes, e como também soubemos por outras relações verdadeiras que com êle contestam: e foi desta maneira. * CAPÍTULO II Da recuperação e tomada do reino de Ternate por D. Pedro da Cunha, governador das Filipinas SABENDO El-Rei Felipe segundo nosso Senhor, dos trabalhos e apertos que os portugueses padeciam em Maluco com a contínua guerra que tinham com os moiros e com os holandeses herejes, que com suas naus, confederando-se com os moiros, infestavam todos aqueles mares, desejando como príncipe tão excelente e zeloso do bem de seus vassalos, de dar remédio aos trabalhos que padeciam, ordenou ao Vizo-Rei da índia, Aires de Saldanha, mandasse uma grossa armada àquelas partes do Sul, como mandou, e por capitão dela André Furtado de Mendonça; e por outra parte mandou também a D. Pedro da Cunha, governador das Filipinas, que êle em pessoa fosse, com o mor poder que tivesse naquelas ilhas, para ajudar e socorrer as armadas da índia que lá andassem; e juntos todos, de uma vez procurassem de acabar com aqueles inimigos, assim naturais como estrangeiros. Chegou primeiro àquelas partes o capitão mor André Furtado com sua armada, o qual como gastara muito tempo no mar pela grande distância que há de Goa a Maluco, e se de- «Fi 93. teve muito por Ambóino e outras ilhas em que andou castigando e fazendo muita guerra àqueles moiros, quando foi sôbre a fortaleza de Ternate, ia já tão falto de mantimentos, munições e outras coisas necessárias para acabar a jor- nada, que não pôde efectuar o intento dela, que era tomar a fortaleza e 0 reino de Ternate; pelo que, chegada a monção, fêz volta para Malaca. Depois dêle partido, e perdida a fortaleza de Tidor pelo modo que acima fica dito, o governador das Filipinas, D. Pedro da Cunha, fêz também sua armada, a maior que naquelas ilhas se pôde ajuntar, em que vinham trinta e sete embarcações, convém a saber: cinco naus grossas, quatro galés, três galeotas de portugueses, assim dos que foram de Ambóino e Tidor, como dos que de Malaca, indo
  • Das coisas de Maluco 3og socorrer Maluco em duas galeotas, foram arribar àquelas ilhas. As demais eram fragatas e juncos. Vinham nesta armada passante de mil soldados espa- nhóis e portugueses, além de trezentos e cincoenta naturais da terra todos mos- queteiros, e quatrocentos e cincoenta e tantos oficiais homens de mar. Os portugueses eram por todos cento. Chegou esta armada a Tidor em quinze de Fevereiro de seiscentos e seis, com pouco dano, porque não faltou mais que uma nau que se perdeu, e uma fragata. Estava ancorada uma nau holandesa em Talagame, surgidoiro de Ternate, sobre a qual, como fossem quási de súbito as galés disparando algumas peças, matou cinco ou seis homens, em que entrou o engenheiro mor e o capitão da guarda, pessoa de que muito confiava o governador. Tratou-se logo se dariam * nela. Mas pareceu ao governador «1-1.93*. que primeiro se acudisse ao que vinham, que era o negócio de Ternate, e que depois se entenderia com o holandês; e principalmente poçque nossas naus estavam mui carregadas e fracas. Mas entretanto ficasse bastante número de gente nas naus e gales, para travarem com o holandês, em caso que quisesse estorvar a bateria que se havia de dar à fortaleza. Chegou logo toda a armada e surgiu defronte da fortaleza com grande alvoroço de todos, e não menor ânimo da gente de guerra, o qual lhe acrescentou muito a indulgência que o Sumo Pontífice concede em semelhantes guerras contra infiéis; a qual três padres da nossa Companhia que nesta armada vieram, e eram os que foram de Maluco para as Filipinas, por tôda aquela tarde lhes andaram publicando; na qual e em tôda a noite seguinte, e ao outro dia até à entrada da fortaleza, não fizeram outra coisa senão confessar os soldados, sem haver outros sacerdotes que nisto se ocupassem senão só êles (porque os mais que vinham na armada ficaram no mar, ocupados com a gente que ficava nos navios), no que fizeram muito grande serviço a nosso Senhor, remediando muitas almas que disso vinham bem necessitadas. Com êste aparelho saltou esta gente em terra sábado, pri- meiro de Abril de 606. Adiantaram-se logo os índios mosqueteiros, os quais ao redor da fortaleza iam desbastando o mato, por nisto se atalhar aos inconvenientes de ciladas que em semelhantes lugares muitas vezes se escondem. Chegados a tiro de espin- garda dispararam os inimigos, dos muros, sua artilharia e espingardaria, ao que os nossos por então não responderam, ocupando-se com os cestões em fazer reparos para se fortalecerem e ampararem contra * ela, que todavia dos nossos «n. 94. matou três homens. Neste tempo, como a calma era grande e o sol do meio dia, se mandou retirar a gente à sombra do arvoredo, porque o não tinham ainda feito aquele dia. Estando nisto, começam a bradar as vigias que por cima de algumas árvores estavam postas, dizendo a grandes vozes que saía gente da fortaleza. Saiu logo uma manga de soldados, que foram os sessenta portugueses, com seu capitão João Rodrigues Camelo, os quais, como versados na guerra com aqueles moiros, e magoados pela nossa fortaleza que havia trinta e quatro anos lhes tinham tomado, com muito esforço e coragem lhes tiveram o primeiro encontro, aos quais se ajuntaram logo os índios mosqueteiros, e todos foram dando no inimigo que ao princípio fortemente resistia; mas a pouco espaço, não podendo sofrer o ímpeto dos nossos, se começaram a ir recolhendo para dentro da fortaleza, e os nossos com tanto ímpeto em seu seguimento,
  • 3io Das coisas de Maluco que, de mistura com êles, uns entraram pelas portas dentro, outros subiram pelos muros da fortaleza, onde logo arvoraram muitas bandeiras; e dos muros a dentro os foram seguindo e ferindo com tão próspero sucesso, que em menos de meia hora se fizeram senhores pacíficos de toda a cidade e forças dela. No tempo que os nossos portugueses iam seguindo o inimigo, chegou ao capitão João Rodrigues Camelo, João Soares Galinato, capitão castelhano, com um recado do governador em que lhe mandava dizer que fizesse alto, e que espe- rasse por ele, que vinlia marchando com o corpo do exército. Respondeu que já não era tempo senão de seguir a vitória, que Deus lhes ia metendo nas mãos, • fi. 94 v. porque se assim o não fizessem, os moiros cobrariam ânimo, e voltariam * sobre os nossos de modo que pusessem em risco a empresa. Respondeu-lhe Galinato que assim o entendia, mas que dava o recado que lhe mandavam. E com isto o nosso capitão foi por diante dando Santiago aos moiros com grande ímpeto; e Galinato voltando ao governador lhe disse que dera seu recado, mas que cl diablo iba con los portugueses porque iban siguiendo su victória. O gover- nador como prudente fêz logo caminhar o exército a grande passo; mas quando chegou à porta da fortaleza, o veio receber o nosso capitão João Rodrigues Camelo, dizendo-lhe: Aqui tem vossa senhoria a fortaleza sem já haver inimigo nenhum nela, a qual nosso Senhor lhe quis dar com tão pouco trabalho e tanta glória. O governador o abraçou e lhe deitou ao peito uma cadeia de oiro que ao seu trazia, com o hábito de comendador de Malta. João Rodrigues, fazendo sua cortesia lhe disse: a cadeia, senhor, como mercê de vossa senhoria, já aceito eu; o hábito me não convém, porque sou casado; êsse fique a vossa senhoria; e tirando-o da cadeia lho entregou. Dos nossos morreram até quinze, e outros tantos ficaram feridos. Dos moiros não passaram os mortos de qua- renta, e poucos mais de outros tantos cativos, porque tôda a gente era fugida,, sem ficar na cidade e fortaleza mais que a de guerra; a qual saindo da cidade posta em fugida, não foi seguida dos nossos por se ir metendo por passos peri- gosos; contentando-se somente com alcançarem em meia hora o que em trinta e tantos anos não puderam, provando esta ventura tantos capitães tão esforça- dos; o que tudo mostra ser isto efeito mui particular da poderosa mão de Deus, que houve por bem se acabasse de encher a medida das tiranias deste inimigo, . fi. 95. * que tantos males tinha feito, e tanto sangue de cristãos tinha derramado. A êle se dê todo o louvor e glória, pois êle é o que tira e dá as vitórias a quem é servido. El-Rei de Ternate, metendo-se com os mais dos seus e com o príncipe seu filho em paráos que para isso tinha prestes, se foi fugindo a Geilolo, lugar da ilha do Moro. Foi em seu seguimento El-Rei de Tidor, mas, ou pelo não poder alcançar, ou por se vir chegando a noite, se tornou voltando para a for- taleza. Ao outro dia pela manhã, tendo o governador aviso de estarem juntos em Lacómo, lugar da mesma ilha de Ternate, muitos dos inimigos, mandou logo uma galé com algumas embarcações de Tidor, à qual logo veio Cachil Ameat, primo co-irmão de El-Rei de Ternate, e pessoa mui principal, pedindo seguro; com o qual se veio apresentar ao governador, assim da parte sua como do sangaje de Mofaquiém, e doutros sangajes, que são como entre nós os duques,
  • Das coisas de Maluco € doutros grandes que ficavam em Lacómo. Foi o Cachil bem recebido, e com tôda a segurança se deu ordem para que viessem os demais, como logo vieram, dar obediência. E com êste bom sucesso entraram todos os nossos em espe- ranças de haver El-Rei às mãos. Tratou-se logo êste negócio pelo dito Cachil e Paulo de Lima, fidalgo português; os quais ambos foram a Geilolo, onde El-Rei estava, que depois de vários pareceres dos seus, se resolveu finalmente de vir em pessoa diante do governador; e assim o fêz domingo, 9 de Abril, tra- zendo consigo o filho herdeiro, mancebo de boas esperanças, e o seu principal sangaje, que é o de Gamocanore, e outros. Foram todos recebidos e tratados humanamente, passando para a fortaleza, onde o governador * pousava, por • fi. 95». meio do exército que por aquelas práias e ruas estava em boa ordem, dando com suas lustrosas armas uma boa e alegre vista aos nossos, mas mui espantosa e triste a êstes inimigos, que a breve espaço iam dando de rosto com muitas peças grossas, que foram trazidas para efeito da bateria, que lhes não davam pequeno espanto. Pô-los logo em muito boa guarda, que sempre sobre êles houve em quanto ali estiveram. Mas para de todo estas terras dêste arquipé- lago ficarem desapresadas e seguras, se resolveu o governador de levar consigo, como levou, para Manila o mesmo Rei e príncipe com todos os grandes. Aos holandeses que se tomaram, que não foram mais que quatro em Tidor e dois em Ternate, deu o governador liberdade; outros quatro fugiram com os terna- • tes, como também o fêz a nau holandesa de que acima falámos. Na fortaleza se acharam como quarenta peças de colher e mais de trinta falcões com grande número de berços. O governador restituiu logo aos padres da Companhia seu colégio e igreja, que ainda acharam quási da maneira que a deixaram, com tudo o mais que ainda se achou dos padres; e logo ficaram de posse de tudo, e começaram a exercitar seus ministérios como dantes faziam, e acudir à cris- tandade espalhada por aquelas ilhas, principalmente à ilha de Ambóino, onde logo foi um dêles animar aquela cristandade com tão boas novas para não des- falecer na fé e acudir a suas necessidades. Outro padre estava no reino de Sião sustentando aquela cristandade ini- micíssima dos moiros, e que sempre foi mui leal a Deus e aos portugueses. Outro acudiu à nossa antiga cristandade de Moro que * foi a melhor que havia • fi. 96. naquelas partes, e a Labua, terra tôda de cristãos, que está no reino de Bachão. E procuravam mais os padres de acudir a muitas ilhas dos Celebes, como Cau- ripá, Sangúí e outras, e também a Boo, cujo Rei se viera confederar o ano passado com o de Sião que é cristão, e ainda com Deus pedindo o santo baptismo, que por então se lhe não deu; e outro seu irmão que também é Rei de umas terras vizinhas que se chamam Titole, o qual com instância pede o santo baptismo e todos os seus; e ainda antes da destruição de Ternate traziam êste requerimento. São tôdas estas terras na ilha de Bato China do Celebe, que tem em si muitos e poderosos reinos; onde está também o Macaçar, que confina com a ilha que chamam do Butto, que é doze léguas de Ambóino. Tôdas estas terras estão na maior disposição que se podia desejar para recebe- rem nossa santa fé, e nos prometem maior cristandade em número que a de Japão, e a melhor que nunca houve em Maluco. E como o maior impedimento que havia nestas partes para a conversão de tôdas estas nações era El-Rei de
  • 312 Das coisas de Malaca Ternate, inimigo comum de todos com seus moiros, tirando este, não há mais que estender por todos êstes campos as bandeiras de Cristo, para o qual afir- mam aqueles bons padres que por aquelas partes andam, e ao presente não são mais que cinco, que não bastariam hoje cento; e que pelo tempo em diante não bastarão trezentos; tão grande e copiosa é a messe dalmas que Deus por ali tem. fi.96v. * CAPÍTULO III Das coisas que passaram em Malaca SETE ou oito da Companhia residem no colégio que ela tem nesta cidade, os quais nestes dois anos padeceram assaz de trabalhos, com os que a mesma cidade e tôdas aquelas partes padeceram com a perseguição dos herejes piratas holandeses, que tantos anos há andam com suas armadas infes- tando todos aqueles mares do Sul, roubando quanto acham e podem. Os quais, não contentes com as presas e roubos que faziam, imaginaram também e conce- beram em seus ânimos tragar o melhor e mais importante bocado que há naque- las partes, que é a fortaleza e cidade de Malaca. Para isso se confederaram com os Reis vizinhos infiéis, inimigos do nome de Cristo, para que todos unidos lhe pusessem cerco, e assim ou por armas ou à fome lhes não pudesse escapar. Veio de Holanda com esta intenção uma armada de onze naus, a qual invernou nas ilhas do Comoro junto a Moçambique, para que dali mais de repente pu- desse tomar aos portugueses, como fêz, chegando a Malaca em vinte e nove de Abril do ano de seiscentos e seis, tempo em que menos se podia esperar que viessem naus de Europa. Tinham já os Reis vizinhos aparelhadas suas arma- das que faziam número de trezentas e vinte sete velas entre galés e galeotas, e outras embarcações menores, com as quais logo se juntaram ao holandês, • Fi.97. * deitando em terra catorze mil homens, com os quais cercaram a cidade por parte da terra, e os holandeses com as suas onze naus e sete patachos por parte do mar, deitando mil e quatrocentos homens em terra. Era capitão de Malaca André Furtado de Mendonça, o qual não sabendo do cerco que se lhe ordenava, havia pouco que mandara quatro galeões que consigo tinha, com quási tôda a gente soldadesca na volta da China, para guarda das naus do comércio que daquele reino vinham, não ficando na fortaleza rmis que até cento e oitenta portugueses entre casados e soldados. Começaram os inimigos logo a bater a cidade com vinte e cinco peças de artilharia mui grossa, com que em brere tempo arrasaram quási tôdas as trincheiras e reparos que os nossos tinham feito para sua defensão; e assim abarbaram com os muros de feição, que mais efeito faziam as pedradas que a artilharia, ficando por muro os peitos desses poucos soldados e casados que na cidade havia. Os quais assim ao desembarcarem os inimigos, como em vários assaltos que lhes deram por todo o tempo do cêrco, saindo fora dos reparos e muros com muito esforço, esmerando-se nisto e em tudo o mais alguns japões que neste tempo acertaram estar na cidade, lhes fize- ram muito dano, e mataram muita gente dos maláios e dos holandeses, mais de duzentos e cincoenta, tomando-lhes muitas armas e uma bandeira com seu tam-
  • Das coisas de Malaca 313 bor. Não se temiam os nossos, ainda que eram tão poucos, de os inimigos lhes tomarem a fortaleza por força de armas, nem de sua artilharia, pôsto-que lhes deitaram dentro na cidade passante de cincoenta mil peloiros; mas o de que só se temiam era da fome, pela muita falta em que se acharam de todo o género de mantimentos; pelo que lhes era forçado sairem a fazer frequentes assaltos nos inimigos, para que emquanto uns pelejavam, outros fossem pelo campo * colher algumas ervas com que se pudessem remediar. Desta maneira *fi. 97*. estiveram perto de quatro meses, até que nosso Senhor foi servido que chegasse com sua armada da índia o Vizo-Rei D. Martim Afonso de Castro, cuja vinda parece que foi ordenada por particular providência de Deus, para que Malaca se não perdesse, e com ela o curso da conversão da gentilidade de todas aque- las partes; e juntamente para Deus mostrar que ainda que por nossos pecados nos queria castigar pela mão destes herejes, inimigos de sua santíssima fé, não nos queria porém destruir nem acabar de todo. A vinda do Vizo-Rei soube- ram logos os inimigos pelas espias que tinham no mar; pelo que logo em con- tinente levantaram o cêrco, os negros malaios retirando-se para suas terras, os holandeses metendo-se em suas naus e recolhendo nelas sua artilharia; nas quais logo se fizeram ao mar e foram apresentar batalha ao Vizo-Rei, ao qual encontraram seis ou sete léguas de Malaca, no cabo que chamam Rachado, onde tiveram três encontros em que os nossos lhes queimaram duas naus, e acaso se queimaram também dois galeões da nossa armada. E se nossos navios puderam pelejar todos, porque o não fizeram mais que cinco ou seis dêles por a incomodidade do mar e maré lhes não dar lugar, os holandeses acabaram ali sua jornada; mas ainda com esta falta que de nossa parte houve, sentindo os inimigos a força da nossa armada, e a melhoria e vantagem que experimen- taram nesses poucos que pelejaram, houveram por seu partido retirar-se e pôr-se em fugida, com assaz perda de sua gente e destroço de suas naus. Não segui- ram os nossos a vitória que tinham nas mãos, permitindo-o assim Deus, porque não estávamos ainda castigados como nossos pecados mereciam; mas deixando de seguir o inimigo se foram a Malaca a curar os doentes e feridos; onde enga- nados pelas espias e cuidando que o inimigo ia tão desbaratado * que se não 'fi.98. poderia tornar a refazer, nem se precatando dêle, dividiu o Vizo-Rei sua armada, e mandando sete galeões a esperar as naus que haviam de vir da índia e de Bengala, que por derradeiro não vieram, se ficou em Malaca com o restante; o que sabendo os inimigos pelas espias que também traziam, vendo quanto nisto o tempo e a ocasião os favoreciam, refazendo no porto de Ior com a mor pressa que puderam sua armada, que eram as nove naus que lhes ficaram, com elas e com alguns navios pequenos voltaram sobre Malaca e se puseram à vista da cidade e não muito longe dos nossos galeões que eram cinco, e ali se deixaram estar três ou quatro dias sem investirem com êles, que desejando muito de sair, o não faziam pelo vento lhes ser contrário. Sobre todos perdia a paciência D. Fernando Mascarenhas com o desejo que tinha de pelejar e satis- fazer a mágoa que lhe ficou de se não achar nas brigas passadas por ficar atrás fazendo àguada. Até que uma noite lhe caçou a amarra e discorreu tanto o seu galeão que amanheceu junto das naus dos inimigos, com os quais logo começou a apertar, dando ânimo aos que pelejavam. Estava em êste tempo 40
  • 314 Das coisas de Malaca em terra D. Pedro, seu irmão, capitão mui valoroso, o qual vendo a D. Fran- cisco neste passo, se meteu em uma embarcação pequena, e por meio de infi- nitos peloiros se foi ajuntar com êle no galeão. E o que estes dois irmãos ali fizeram em armas foram coisas maravilhosas; porque vindo sobre êles a capi- tânia dos inimigos e ferrando do seu galeão, ambos os irmãos com seus soldados, despejando seu próprio galeão, saltaram na nau inimiga, onde fizeram grande estrago nos holandeses, matando-lhes mais de sessenta homens; e sem dúvida ficaram senhores da nau se neste tempo foram socorridos de algum navio nosso; •Fi.gSv. mas não só o não * foram, antes vieram sobre êles outras quatro naus inimigas; pelo que foram forçados tornarem-se a seu galeão, no qual pelejaram tão forte- mente desde as cinco ou seis horas da manhã até às cinco da tarde, que quan- tas vezes foram entrados pelos inimigos, êles os punham fora à espada, de tal maneira que todos ou ficavam mortos ou se tornavam a recolher a seus navios, até que os inimigos mataram a D. Fernando com algumas arcabuzadas. Mas D. Pedro que ficou vivo supria por ambos, e dando e matando nos inimigos, sal- tou após êles em uma de suas naus, onde pelejou até ter todo o corpo em feridas, das quais pelo muito sangue que lhe corria, desfalecendo, se encostou ao bordo da nau onde caiu morto no mar. Era êste fidalgo, ainda que mancebo e na flor da sua idade, um raro e admirável exemplo não só de esforço militar, mas de tôda virtude e honestidade cristã, que na índia é coisa que raramente se acha, de boníssima condição, grande liberalidade e vontade de bem fazer para com os homens e para com Deus, de tanta devoção e piedade que, desprezando o grande aplauso que o mundo lhe fazia, e as grandes esperanças que por seu muito valor e partes podia ter nêle, com muita instância pediu ao padre provin- cial da Companhia da província de Cochim o quisesse receber nela; o que o padre com muita vontade lhe concedeu, vendo quanto a Companhia ganhava em ter por filho uma pessoa tão ilustre e de tão raras partes. Mas como êle era um tão grande soldado e esforçado capitão, e nesta conjunção o Vizo-Rei da índia passava com sua armada às partes do Sul, de parecer também de alguns outros padres, assentou com êle que fôsse primeiro fazer êste derradeiro serviço ao mundo, acompanhando o Vizo-Rei nesta jornada, e que tornando dela se cumpririam seus desejos. Fê-lo êle assim com muita prontidão, e .Fi.99. depois das grandes valentias que fêz em armas, assim * no assalto que se deu a Dachém, onde foi o primeiro que peio meio de muitas peças de artilharia e balas, entrou por uma bombardeira o forte do inimigo, como também nos en- contros e batalha naval que no mar tiveram contra os holandeses. Chegando a Malaca, a ocupação que tomou emquanto a das armas cessava, foi servir nos hospitais e cura dos doentes e feridos, com tanta humildade e caridade como se já fora religioso; até que sucedendo a ocasião da forte briga que D. Fernando, seu irmão, travou com os holandeses, estando ainda em terra quando ela começou, se foi logo, como dissemos, meter no galeão com seu irmão, onde fazendo façanhas admiráveis, acabou com tanta glória pelejando contra os ini- migos da fé, indo entrar na Companhia de Jesus do Céu, por cujo filho já se tinha na terra. Morto D. Pedro, e quási todos os que estavam com êle, nem assim os inimigos puderam tomar e render o galeão, porque nesta conjunção chegou no seu Sebastião Soares de Albergaria que os fêz desaferrar, e vindo
  • Das coisas de Malaca 315 uma galé o levou para cima, ficando Sebastião Soares em seu lugar pelejando quasi dois dias, êle só com cinco naus, até que lhe morreu quanta gente tinha, e êle foi muito mal ferido, pelo que o galeão ficou rendido, e da mesma maneira o ficou outro do capitão André Pessoa, a que a gente fugiu de noite no batel, e ficando com oito ou dez homens sòmente, pelejou até que mortos eles, o galeão foi tomado, e êle também depois morreu das feridas. Outro galeão de D. Fran- cisco de Noronha, estando pelejando com uma nau, e além disso rodeado de sete lanchas dos inimigos que procuravam rendê-lo ou queimá-lo, deu o fogo, ou lho pôs alguém, na pólvora dentro do galeão, com que arrebentou de tal sorte que levou ao fundo quantas lanchas o cercavam, e em tudo o dos inimigos que ao redor estava fêz grande estrago. E com isto se acabou esta batalha que durou * quasi oito dias; e os inimigos se foram tão destroçados que umas naus levavam «Fi.ggT. outras à toa e com tão pouca gente que nem dos dois galeões que tomaram nem da artilharia que havia nêles se puderam aproveitar; mas tirando alguns mantimentos e vinhos, lhes puseram fogo. Não perderam porém os inimigos o ânimo, mas tornando-se a refazer por alguns meses em Ior, e tendo novas por suas espias da paragem onde andavam os nossos sete galeões que o Vizo-Rei tinha despedido de si, os foram buscar lá com suas nove naus e três ou quatro patachos, com intenção de pelejarem com êles, como fizeram. Tiveram os nossos novas dêles, e estando na enseada de Pulobotum, como setenta léguas de Malaca para a banda da índia, havendo vista dêles, determinou o capitão mor D. Alvaro de Menezes de os esperar ali. Porém como as naus dos inimigos eram muito maiores e mais ligeiras que as nossas, não quis provar a ventura com elas no mar alto, mas ali à sombra da terra, e sôbre a amarra determinou de o haver. Estiveram os inimigos à vista dos nossos sete dias; e neste tempo os nossos se aperceberam com muita dili- gência, e passando tôda a artilharia para a banda do mar onde tinham os ini- migos em quem desejavam de a empregar bem, fazendo suas arrombadas e mais reparos nas naus, se deixaram estar até ver o que os inimigos faziam de si. Os quais querendo, como esforçados, provar ventura no cabo-de todo êste tempo, se chegaram aos nossos até tiro de mosquete; e lançando também ferro, e botando diante um patacho e uma galeota de fogo sôbre os nossos navios que os nossos desviaram, se começou uma tão brava peleja de artilharia que parecia coisa do inferno ou do dia do juizo; * a qual durou passante de sete «fi. ioo. horas, sem o fumo deixar ver a nenhuma das partes o dano que se fazia. Mas aprouve a nosso Senhor, que o da nossa foi tão pouco, que só três soldados por- tugueses e dez negros morreram, ainda que houve alguns feridos; e da parte dos inimigos foi tal que êles, vendo seu destroço, como anoiteceu, levaram âncora, e se retiraram; de modo que, quando amanheceu, os nossos não viram mais que o mar cheio de sangue e paus e rachas, e por êle e na práia muitos corpos dos inimigos; os quais levantando-se dali, se foram ao pôrto e reino de Pera onde enterraram os mortos que levavam, e deram fundo a duas ou três naus suas por se melhor refazerem nas outras; e com as seis que lhes ficaram e um patacho se foram à vista de Malaca, aonde depois chegaram nossos galeões. Este foi o sucesso das brigas e batalhas que houve entre os nossos e êstes inimigos de nossa santa fé, desde Abril de seiscentos e seis até Maio de seiscentos e sete.
  • 316 Das coisas de Malaca Era quási todos estes trabalhos e perigos se acharam sempre os nossos padres. Em Malaca no tempo do cerco ajudaram como costumam; e do trabalho que nêle houve levou nosso Senhor para si ao padre Vasco da Cunha, que era um grande servo de Deus. Na armada do Vizo-Rei iam seis nos navios de remo, dois com D. Nuno Álvares Pereira, e os outros em dois galeões. O padre João de Abreu que era superior de todos, religioso de muita virtude e grande talento do púlpito, ia no galeão almirante de Álvaro de Carvalho, o qual com muito esforço e ânimo aferrou a maior nau que viu dos inimigos, com a qual pelejou valorosamente. Aqui feriram, ainda que levemente ao padre; e • fi. 100 v. dizendo-lhe um homem que o viu ferido — como, padre, também * os peloiros chegaram à igreja e tocam nos sacerdotes? — êle respondeu mui alegremente: — sim, senhor, e êste é o passo em que eu há muitos anos desejava de me ver, derramando sangue por Cristo e em seu serviço, porque esta é toda minha con- solação e glória —. E assim andava animando e exortando e confessando a todos, até que não se querendo render a nau inimiga lhe puseram os nossos o fogo; o qual de tal maneira lavrou nela que se ateou também no nosso galeão. O que vendo o capitão Álvaro de Carvalho, por já não haver remédio de se poder apagar, se meteu em um batel, o qual foi com as correntes des- cair sôbre a nau capitânia dos inimigos, onde êles às mosquetadas o mataram a êle que já também vinha ferido, e ao mesmo padre João de Abreu, ficando primeiro morto no galeão o irmão Brás Pereira, seu companheiro. Chegou o Vizo-Rei a Malaca, e porque trazia muitos doentes e feridos, ordenou logo um hospital o qual entregou aos nossos padres, conforme ao que sua Majestade tinha mandado. Nêle se empregaram os padres e ocuparam com tanto zêlo e fervor na cura dos doentes e cuidado de lhes buscar o neces- sário para seu remédio, que de puro trabalho adoeceu o padre Paulo Soeiro, e em breves dias foi nosso Senhor servido de o levar para si, para lhe remu- nerar sua muita religião e virtudes, e os trabalhos que por seu serviço tinha padecido. Havia nesta cidade um sacerdote por nome Francisco Luís, homem de muita virtude e autoridade, e que actualmente governava êste bispado com muita prudência, o qual havia muito tempo que pedia ser recebido na Com- panhia, e já o padre provincial lhe tinha mandado a licença, pôsto-que a rogos • fi. ioi. do Bispo de Malaca que estava na índia e havia de ir * na armada do Vizo-Rei, lhe dilataram os padres a entrada até que o Bispo chegasse. Mas logo como chegou e que êle lhe entregou o bispado, o Senhor o visitou com uma doença tão grave, que dela foi servido levá-lo para si. Mas o bom sacerdote, antes de morrer, instou grandemente que já que no desejo e no coração era da Compa- nhia, o fosse também na obra morrendo dentro dela, para passar desta vida filho de uma religião que tanto desejava e amava. Foi-lhe despachada sua tão justa petição, e três dias antes de morrer foi recebido na Companhia da terra, e morrendo, como cremos, na do céu e dos anjos.
  • Das coisas de Pegu 317 CAPÍTULO IV Das coisas do reino de Pegu / EO reino de Pegu, como noutras relações temos dito, uma das 'mores empresas de todo o Oriente, assim para acrescentamento do estado tem- poral da coroa destes reinos, como para dilatação de nossa santa fé pela prègaçao do Evangelho. Porque para esta, ainda que o reino que propria- mente se chama de Pegu por ora está despovoado e com pouca gente, é pelos circunvizinhos e por toda a enseada de Bengala, de que êle também é parte, inumerável a gentilidade; que, com haver algumas fortalezas de portugueses a cuja sombra estejam seguros de tiranos, se poderão converter à nossa santa fé, e estender grandemente por aquelas partes a Igreja de Deus. * Para o temporal do estado não há em todo o Oriente coisa mais rica nem »fi. ioit. fértil e abundante de tudo o que os homens desejam para a vida humana. Porque além de muitas minas de oiro, prata, pedraria, de que todas aquelas terras estão cheias, são tão férteis as terras de Pegu, que três vezes no ano as que se regam com água doce se podem semear de arroz e o dão em muita cópia. Também se dá nelas trigo e outros muitos legumes e quanto nela se semear. Tem perto o reino de Tango para aonde o Rei dele levou o grande tesoiro de oiro e pedraria, que por tantos centos de anos os Reis passados de Pegu tinham junto, e em que há a mais estimada pedraria do mundo; e afirmam os padres e os mais portugueses que lá estão, que só com o cabedal de mil homens se pode tomar este reino. Está o reino de Pru que tem muita madeira e muitos elefantes, muito lacre, pimenta longa e breve, de que sua Majestade fàcilmente pode ser senhor. E dêste reino, pela Ganga, ou rio acima está o reino de Vuá que tem as minas de pedraria, rubis e safira espinhela, e bações, muito chumbo, cobre e lacre, alguma sêda e alambre; e todos êstes três reinos estão ao longo do rio, aonde nossas armadas, saindo de Sirião, que é a nossa fortaleza, podem chegar. Sòmente a cidade de Tango está pela terra dentro tiro de falcão da borda dágua. Estão pela costa do mar e fundo da enseada
  • 318 Das coisas de Pegu pimenta de Quedá e do Dachém, como se faz em Cochim; e aqui se fará mui fàcilmente; e virão também para a carga delas as fazendas que há na terra e na costa e as de Bengala, que a esta fortaleza poderão vir com mais facilidade todos os anos, do que da mesma Bengala vão a Cochim; porque não são de Bengala a Sirião mais que oitenta léguas de costa, que se navegam de inverno e verão; e o pôrto é formosíssimo que é o da barra de Negrais que está na altura da cidade de Goa. Antigamente no tempo do Rei de Pegu e seus antepassados, vinham a este pôrto de Sirião todas as fazendas que acima digo que há em Martavão, Tavai, Tanaçari, Junsalão, e nos demais portos e reinos daquela costa; e a ocasião • fi. ioiv. * de virem aqui todas, era roupa de Coromandel que só a esta parte vinha, onde tantas naus de Meca carregavam das fazendas que por ocasião desta roupa aqui se traziam, afora as muitas que os portugueses levavam. E por êste res- peito era o trato deste reino de Pegu muito rico e grosso; porém hoje não veem a êste pôrto como dantes; e a razão é porque a roupa de Coromandel, que então aqui vinha, levam agora a Tanaçari, Tavai e Martabão, donde se provêem os reinos de Sião, Langião, Comboja e os mais comarcãos até o de Tango; e desta mesma roupa se provê o reino de Vuá por via de Arracão, por onde corre também o cano da pedraria que a êste reino de Pegu costumava vir; pelo que tudo, fica mui falto e delgado o trato dêste nosso pôrto e fortaleza, e sua Ma- jestade perdendo os direitos e proveito que nêle podia ter. O que tudo se podia remediar com se lhe guardar o estilo com que antigamente o Estado da índia corria com o Rei bárbaro de Pegu; o qual era ter ordenado que tôda a roupa de Coromandel fôsse ao pôrto de Sirião, e nenhuma se levasse para outra parte; e com também se não permitir na relação de Goa que estas roupas vão para outros portos, nem com elas se façam novas viagens; porque desta maneira, concorrendo aqui os nossos navios com estas roupas, irá crescendo o trato e proveito dêle para sua Majestade; e a fortaleza fazendo-se cada vez mais pode- rosa com o concurso de muitos portugueses, e cobrando forças para fazer armadas com que fique senhora de todos aqueles mares, e assombrando os Reis vizinhos para que não ousem levantar mão contra ela. E ainda que esta for- taleza até agora esteve tão fraca e tão pouco favorecida do Estado, contudo o •fi. io3. capitão mor Felipe de Brito, primeiro fundador dela, a * foi sempre desde o seu princípio sustentando com vários sucessos, ora adversos ora prósperos, aju- dando-o sempre Deus em mui grandes apertos em que se viu, com tão manifesto favor de sua mão que bem mostra querer-se servir dela para muito aumento da sua fé. E tratando em particular do sucesso dêste tempo de que agora escrevemos esta relação, se há de saber que depois daquela grande e milagrosa vitória que na relação passada se referiu, que os nossos com seis navios houveram da armada do Mogo, Rei de Arracão, a qual era de quinhentas e cincoenta velas, em que cativaram o príncipe seu filho e tôda a mais gente, sem escapar pessoa que levasse nova ao Rei do triste sucesso de sua armada, pediu o capitão geral, Felipe de Brito, que o padre Natal Salerno, da nossa Companhia, fôsse a Arracão tratar concertos de paz com El-Rei, e para, depois dêles assentados, ficarem reféns até Felipe de Brito lhe entregar o príncipe seu filho, como entre-
  • Das coisas de Pegu 319 gou. E fiando-se das promessas do pérfido Rei, juradas por seus pagodes, mandou lá seu filho, Marcos de Brito, com alguns portugueses para tomarem posse da ilha Sundiva e de outras terras que pelo concerto se lhe deviam. Porém o mau Rei lho matou a êle e aos mais portugueses á traição, e cativou a perto de cinco mil pessoas cristãs que estavam em seus reinos, tratando-as com grandíssi- mas crueldades e maldades, porque com as mulheres executou mil baixezas e torpezas indignas de Rei; prendeu a três clérigos que lá estavam, profanou os vasos sagrados, e com bárbara impiedade e fereza brutal, mandou arrastar um crucifixo. A mesma traição determinava de usar com as naus dos outros por- tugueses que estavam em seus portos e costumavam ir a eles da índia; mas tendo eles primeiro * notícia de seu levantamento, se puseram em cobro; o que «Fi. io3r. tão fàcilmente não pôde fazer uma galeota em que iam perto de trinta portu- gueses e estava metida pelo rio dentro. A esta cercaram cento e cincoenta embarcações do inimigo; porém os portugueses se houveram com tanto esforço e fizeram tais façanhas pelejando que matando-lhes muita gente e metendo-lhes no fundo algumas embarcações, sem dano seu se retirou e pôs em salvo a galeota. Não contente o Rei com todos estes males e insultos, determinou de pôr todo o cabedal da sua potência para de todo destruir a fortaleza de Sirião e portugueses que nela estavam, e assim ajuntou todo o seu poder para este efeito. E andando-se aparelhando sucedeu, com umas trovoadas que se levantaram, cairem alguns ráios sôbre suas próprias casas, e sôbre onde tem o elefante branco, e sôbre o principal templo de seus ídolos, de que ficaram tão assom- brados os seus talapóios, que são os sacerdotes, que o avisaram olhasse por si, porque aquilo era sinal de que se havia de perder pelo que tinha feito ao Deus dos cristãos e aos mesmos cristãos, aos portugueses quebrando o juramento que fizera e os contratos de paz. Ao que o máu Rei, cego com sua contumácia e cheio de indignação lhes respondeu que já que êle se havia de perder, queria que êles se perdessem primeiro, para que depois se não gloriassem da sua perda. Assim mandou matar a trinta talapóios ou sacerdotes principais dos seus. Neste tempo Felipe de Brito, pôsto-que sentiu muito a morte de seu filho e mais portugueses, convertendo porém a dor em zélo de vingança, e sabendo o grande poder com que o tirano se aparelhava para vir contra êle, se começou também a aparelhar o melhor que pôde; e porque se temia que vindo o Arracão por mar, * dois ou três Reis vizinhos e confederados com êle lhe viessem pôr »fi. 104. cêrco à fortaleza, mandou com muita pressa a Malaca o padre Natal Salerno a pedir socorro ao Vizo-Rei que lá estava; e ainda que o padre achou as coisas em diferente estado do que se cuidava, contudo o Vizo-Rei lhe prometeu duas galés e seis navios, poder bastante para junto com os de Pegu se poder fazer rosto a tôda Bengala.5 Até aqui tivemos por cartas certas dos nossos que vieram nas naus da monção; mas por terra se tiveram depois novas, havidas geralmente por verda- deiras, que o Rei Mogo passou com sua poderosa armada, que julgam seria de mais de mil velas, e foi sôbre nossa fortaleza; e que saindo-lhe os nossos, hou- vera entre êles três encontros nos quais sempre o tirano foi vencido, e ultima- mente desbaratado de modo, que o príncipe seu filho ficou outra vez cativo em
  • 320 Das coisas de Pegu poder dos nossos, com outros muitos capitães; e que ele escapara fugindo em uma embarcação e mal ferido; e que o nosso capitão geral mandara em seu alcance com esperança de o haver às mãos, e animado com esta vitória tratava de passar a Arracão. Mas as particularidades dêste sucesso, como vierem mais claras, se referirão com o favor divino noutra relação mais distintas. Os padres que aqui residem por-ora não são mais que dois, os quais em seu ofício trabalham por muitos. Um deles reside comumente na casa, e acode à igreja e obrigações do próximo, confessando, prègando e fazendo a doutrina, e acudindo às mais coisas que a Companhia costuma; outro anda quási sempre embarcado, porque nenhuma armada quere sair a pelejar sem o levar consigo, havendo que com êle vão certos da vitória, pela muita opinião que teem de sua bondade e virtude. Na conversão dos infiéis se não empregam ainda tão de propósito; não porque não haja muitos que desejem o sagrado baptismo, mas • fi.icmt porque não estão * ainda de todo seguros, em razão das contínuas guerras com que muito se inquietam. Querem os padres esperar tempo mais oportuno para coisa de tanto momento, qual o será depois que de todo fôr destruído o inimigo principal que é el-rei de Arracão de que acima falámos, que é o que mais inquieta esta fortaleza, e deseja extinguir os portugueses ou deitá-los de todas estas terras. Contudo não deixou de haver alguns baptismos, principalmente de meninos estando doentes, dos quais muitos nosso Senhor logo levou para si. Uma conversão porém houve mui notável e de muita estima; esta foi de um judeu lapidário, grande letrado e versado nas Sagradas Escrituras e em sua língua hebraica. Êste, depois de ter corrido quási todo o mundo, estando ulti- mamente no reino de Sião, e tendo notícia de como os padres estavam em Pegu, veio àquela fortaleza ter com eles; e dando-lhes conta de como, conven- cido pelas Escrituras, lhe iam parecendo bem as coisas de nossa santa fé, tratou com um dos padres as dúvidas que tinha; e ficou tão satisfeito e alumiado com a resposta que o padre lhe deu, que logo lhe pediu o sagrado baptismo, com tanta eficácia e resolução, que bem se deixava ver nascer tal afecto de uma grande luz do Espírito Santo e vocação divina. Foi baptizado com tôda a pos- sível solenidade, concorrendo nela todos os portugueses que ali se acharam; dos quais alguns que dantes o conheciam se maravilhavam por verem nêle tal mu- dança, e em tão breve tempo de Saulo tornado Paulo e prègador de Jesus Cristo e de sua santíssima lei. Et ne malitia mutaret cor ejus, daí a mui poucos dias o levou Deus nosso Senhor, como é de crer, para sua glória, de uma enfer- midade que já trazia.
  • Das coisas de Bisnagá 321 REINO DE BISNAGÁ CAPÍTULO V Das coisas que passaram no colégio de S. Tomé e residências de Chandegri e Velur ESTÁ a cidade de S. Tomé nas terras de El-Rei de Bisnagá; e pôsto-que os portugueses teem seu capitão e ouvidor que os governam e adminis- tram justiça, está contudo em outra povoação apartada e vizinha um capitão de El-Rei, que arrecada os direitos e governa os gentios. Sucedeu que indo um dia à noite um português à povoação dos gentios sobre um negócio, armando-se lá uma briga, foi morto. Revolveram-se os parentes e persuadiram ao capitão dos portugueses que não dissimulasse com tal afronta. E como os con- selhos no tempo da cólera são precipitados, determinou êle de o fazer assim. Ajuntou muita gente de armas e foi dar na fortaleza de El-Rei, cujo capitão não ousando esperar o ímpeto * dos nossos, se pôs logo em fugida, mas pondo pri- »fi. io5v. meiro fogo à povoação, com que destruiu muita parte dela e matou alguma gente mesquinha. Chegou a fama dêste levantamento a El-Rei, que se deu por mui agravado e sentido de tal afronta, alegando que, se seu capitão tinha culpa, lho houveram de fazer saber, porque êle o castigaria. Mas caindo o nosso capitão e os mais moradores da cidade no êrro que tinham feito (de que os padres nunca os puderam dissuadir por mais que nisto trabalharam com êles antes de sairem a dar o assalto), e arreceando que El Rei mandasse sobre êles exército para os destruir, pediram ao padre reitor, Nicolau Levanto, que fosse ter com El-Rei, para com razões e presentes o aplacar. Foi o padre; e sabendo El-Rei de sua vinda, lhe mandou dizer que, se queria tratar coisas dos padres, levaria muito gosto em lhe falar; porém se dos negócios dos portugueses pelo que tinham feito à sua fortaleza, não era razão que o ouvisse, nem recebesse presentes de gente que tão gravemente o afrontara. Correu assim algum tempo; mas como é de sua natureza manso e benigno, e tem tão grande amor aos padres, pouco e pouco se foi abrandando, até que mandou chamar o mesmo padre, e com mostras de muita benevolência o recebeu e lhe concedeu tudo o que pedia; e mandou logo tirar aquele capitão seu de sua fortaleza, pondo outro a gosto dos portugueses. A êste colégio está anexa a freguesia da Madre de Deus, onde haverá passante de cinco mil cristãos que os padres teem feito e vão cul- tivando; e é grande a cristandade que se espera haver-se aqui de fazer. Residências dêste colégio são as de Chandegri e Velur. É Chandegri cidade real e cabeça dêste grande * império de Bisnagá (como já outras vezes «fi. 106. temos dito), ainda que ao presente o Rei não resida nela, mas em uma fortaleza chamada Velur, como abaixo veremos. Estão em ambas estas residências dois padres com dois irmãos. O fruto da conversão é ainda pouco, mas muita a esperança do que a paciência promete. E o impedimento principal a supersti- ção que teem êstes gentios de cuidarem que recebendo a fé se fazem da casta 4»
  • 322 Das coisas de Bisnaga baixa dos frangues ou portugueses; que quanto é por parte da lei, êles a confes- sam por verdadeira e santa, e que tudo o que lhes ensinam os seus letrados e brâmenes é mentira e disparate. Na fortaleza de Velur reside sempre o padre Belchior Coutinho na côrte com El-Rei, ao qual é mui aceito, e El-Rei lhe faz muitas honras; e em particular foi de muita estima dar-lhe El-Rei aposento na primeira cerca da fortaleza, onde o não deu mais que a seus parentes e conselheiros ou brâmenes principais. Pediam este sítio muitos a El-Rei, mas a todos o negou e o deu aos padres em que pêse aos brâmenes que muito repugnavam. Aqui fêz o padre casas e igreja, arvorando sobre a porta uma cruz mui formosa, que está ameaçando a tôda esta gentilidade. Ali se cultivam os poucos cristãos que se teem feito, e alguns que vão de São Tomé tratar negócios. Falou o padre algumas vezes com El-Rei das coisas de sua salvação, e principalmente tomando ocasião de algumas pinturas que lhe levava a mostrar, e em particular de uma do mártir S. Jorge, posto a cavalo e alanceando um dragão, com letreiro que estava no painel em língua • fi. 106 r. badagá, que contava a suma da história, e fazia menção de como * o Rei se convertera com tôda sua côrte. Ficou o rei muito satisfeito e teve grandes práticas sobre a pintura, nem lhe falta saber de-cor tôda a doutrina cristã; mas não merece ainda a Deus tamanho bem como é ser alumiado de todo com os raios da fé. Foi mandado para esta residência um irmão italiano, singular pintor, cuja vinda El-Rei estimou muito, por saber que de tão longe lho man- dara nosso reverendo Padre Geral só por lhe dar gôsto; e como é tão curioso de pinturas, recebeu o irmão com grande benevolência; e logo lhe preguntou se tinha feito alguma boa que lha mostrasse. Não tinha o irmão outra senão os retratos de nosso reverendo padre Inácio e do reverendo padre Francisco Xavier. Mostrou-lhos e ficou El Rei pasmado, nem se podia persuadir que o irmão as fizera, pelo que pediu que em um painel grande lhe retratasse os corpos inteiros. Fê-lo assim o irmão; e em hora e meia lhe fêz o retrato do rôsto do reverendo padre Inácio; o que vendo El-Rei ficou espantado; e entrando para dentro lhe mandou, ao modo de suas honras, um pachavelão, que é pano doirado, que valeria vinte cruzados. Pouco a pouco os foi depois pintando à sua vista, donde o padre tomava ocasião para lhe ir contando as maravilhas e obras heróicas dêstes santos varões. Também a petição do mesmo Rei lhe pintou um painel da Virgem nossa Senhora, com o menino Jesus e com o santo menino Baptista. Ficou o painel mui perfeito, e El-Rei o mandou pôr em um lugar eminente na sala em que faz seus conselhos, e defronte do seu assento real, com bem mágoa de alguns brâmenes que procuraram quanto puderam que o • fi. 107. tornasse a tirar dali. Mostrou-lhe o irmão alguns livros de imagens, * prin- cipalmente as do padre Nadal, as quais correu tôdas uma por uma, pregun- tando o que nelas se continha, ficando mui satisfeito da resposta, e dos mistérios da vida de Cristo nosso Senhor que por esta ocasião se lhe foram declarando. Edifica-se grandemente de o irmão lhe não receber o dinheiro que lhe êle ofe- rece ; tem mandado que, quando lhe fôr falar, nunca lhe neguem a entrada nem o façam esperar. É mui grande a opinião que tem dos padres, e muitas vezes os louva cm público diante de todos. E uma vez o fêz em particular em presença de seu sumo sacerdote, diante do qual o mesmo rei se debruça todo
  • Das coisas de Bisnagá 323 por terra, e que tem de renda cada ano passante de duzentos mil cruzados; e porque o Rei louvou os padres de religiosos e castos, respondeu o sacerdote que, se assim era, porque comiam carne? Ao que El-Rei acudiu: — ainda que a comam, com tudo não teem mulheres—, remoçando nisto ao mesmo seu papa, pela má fama que tem, professando castidade. Indo-o visitar o padre António Dubino que reside em Chandegri à sua fortaleza de Velur, lhe levou de pre- sente um formoso mapa com letras badagâs, e ao pé dele uma descrição dos reinos principais, e dos quatro elementos e onze céus, o que tudo El-Rei folgou muito de ver e de ler. Conforme a estima em que os padres são tidos de El-Rei, o são também dos principais de sua côrte, os quais vão algumas vezes a nossa casa e igreja, principalmente em dias de festas em que lhe põem algum ornato de armação. Faz-se muito serviço a Deus com cristãos, assim livres como cativos que andam desgarrados por estas terras de gentios. Em particular, «Fl- "»7T- um homem havia trinta anos que * andava por êstes reinos sem comunicação nenhuma nem trato das coisas de Deus, nem de sua alma. Quis nosso Senhor que viesse ter com os padres, com cuja conversação fêz tal mudança que logo se confessou de todos êstes anos, e se determinou a viver como cristão. Teem os padres comunicação por cartas e presentes com o príncipe, que não cessa de pedir e instar que lhe mandem um padre para sua côrte, mas, porque o Rei não mostra levar disso gosto, se não tem deferido a seus desejos, pôsto-que com boas palavras e esperanças o vão entretendo. CAPÍTULO VI Do que passou na Costa da Pescaria HAVERÁ nesta costa como cento e trinta e cinco mil cristãos, todos feitos e cultivados de sessenta anos a esta parte pelos padres da Companhia, cujo primeiro apóstolo foi o beato padre Mestre Francisco Xavier. É esta uma das melhores cristandades que há na índia, e pôsto-que por morarem nas terras do naique de Maduré, príncipe gentio do reino de Narsinga, o reconhe- cem por senhor natural, como também ao rei de Tutucorim, vassalo dêste naique, e a um e outro pagam seus tributos, contudo pelas grandes vexações e tiranias que os moiros antigamente e êstes senhores gentios lhes faziam e fazem cada dia, logo desde o princípio que receberam nossa santa fe, ficando sujeitos a seus senhores naturais no que toca * a lhes pagarem seus tributos, se entrega- «fi. 108. ram à devoção e protecção de El-Rei de Portugal, com obrigação da sua parte de lhe pagarem, como pagam cada ano, vinte mil cruzados de páreas; e da parte de El-Rei, de os defender das vexações dos moiros e gentios. E pôsto-que depois de se confederarem desta maneira com El-Rei de Portugal, receberam muitas vezes não menores vexações dos capitães da ilha de Manar, e do presidio de portugueses que El-Rei ali mandou por para os defender, do que recebiam dos gentios e infiéis, de modo que por vezes os fizeram desamparar a ilha de Manar e se tornavam a ir entregar aos gentios seus senhores naturais, contudo, como sempre tinham consigo os padres da Companhia que os animavam e consola-
  • Das coisas da Costa da Pescaria vam, nunca tornaram atrás da amizade e confederação que tinham feito com El-Rei; mas iam para a terra firme e vinham para a ilha, conforme ao capitão bom ou mau que havia na ilha de Manar. Indo correndo o tempo, sucedeu que o Rei de Tutucorim, por leves ocasiões que teve, começou a vexar com grandes extorsões aos cristãos do mesmo lugar de Tutucorim, que era o prin- cipal da costa, e doutros vizinhos a êle; e porque os cristãos lhe negavam os excessivos e injustos tributos que lhes queria fazer pagar sem lhos deverem, veio sobre eles o mesmo Rei com muita gente armada, e entrando o lugar o saqueou, e roubou o colégio dos padres da Companhia que ali estavam, pro- fanou a igreja, quebrou os altares e crucifixos, e prenderam o padre que era superior da casa, e o teve cativo algum tempo tratando-o com muita cruel- dade, até que os cristãos o resgataram por quatro mil cruzados. iFi.io8r. Teem estes cristãos entre si particular modo de governo; * porque, como não são vassalos de sua Majestade senão somente amigos e devotos, nem se governam pelas leis dos gentios e senhores naturais seus, mas só lhes pagam seus tributos, como dissemos, fizeram entre si um modo de república, cujo govêrno está nas mãos dos patangatins, que são como cabeças ou capitães dos lugares; e a êstes pertence fazer julgar e executar a justiça assim em causas cíveis como crimes, e em tudo o mais que convém ao bem e conservação da sua república e policia. Em o govêrno eclesiástico se sujeitam em tudo aos padres que dêles teem cuidado como vigários e administradores das coisas eclesiásticas. Pelo que, vendo êstes patangatins as tiranias que com êles usara o Rei de Tutucorim e as injú- rias que fizeram às igrejas e coisas sagradas, fizeram um assento entre si que despovoassem de todo o lugar de Tutucorim até o Rei dar plena satisfação dos males e injúrias que a êles e à igreja tinha feito. E porque êle nunca quis vir nisto, se revolveram de todo; e em efeito desamparando e despovoando o lugar, se passaram para uma ilheta chamada dos Reis, que dista uma légua dêste lugar pelo mar adentro. Nesta fizeram sua povoação, e os padres da Companhia edificaram sua casa; e havendo licença do Vizo-Rei Aires de Sal- danha, fortificaram a mesma ilha o melhor que puderam, para mais segurança dela. E ainda que no princípio não intentaram isto mais que para evitarem as tiranias e vexações do Rei de Tutucorim, o tempo todavia lhes foi depois des- cobrindo ser aquela mudança ordenada por particular providência de Deus, para bem e proveito mui grande não somente daquela cristandade da costa, mas também do próprio Estado da índia; porque para os cristãos é o único refúgio • Fi.109. * de todos êles em qualquer apêrto ou guerras que os gentios e moiros levan- tam contra êles; porque, como é tão perto da costa, logo todos com seu fatinho e pobrezas se põem em salvo nela. Além disso, aqui ajuntam e fazem os cristãos os seus armazéns e celeiros de mantimentos, onde os teem muito seguros para em tempo de necessidade se prover tôda a costa; para o Estado, porque com esta ilha fortificada se lhe acrescentou mais uma excelente fortaleza, e de muito grande importância pela paragem em que está, sem nenhum custo da fazenda de sua Majestade; porque além de impedir que não venham por aquela costa fazer roubos os moiros piratas, todos os nossos navios de remo e navetas que podem passar os baixos de Manar, e que veem de S. Tomé, Bengala, Malaca, Pegú e mais partes do Sul, ali veem ter e acham seu reparo, e os portugueses
  • Das coisas da Costa da Pescaria 325 um singular gasalhado de aposentos para si e para suas fazendas, que os padres € cristãos lhes teem feito^ e recolhidos ali estes navios, nenhum mal lhes podem fazer os paraus dos moiros nem naus dos piratas. E tem mais outro bem, que nenhum poder dos moiros, nem dos piratas holandeses pode fazer nojo a esta fortaleza, porque não tem mais que um só canal por onde escassamente pode entrar um navio; e o mais contorno dela, por um bom espaço ao mar, tudo é arrecife de penedia, coberto de água, com tão pouco fundo que nem as lanchas e batéis dos inimigos podem chegar a ela senão pelo canal; em defensa do qual há dois baluartes com mui boa artilharia. De modo que não puderam estes cristãos ter melhor amparo e defensão contra seus inimigos que esta ilha assim como está fortalecida, nem também nossos navios que das partes acima ditas veem de mar cm fora. * Aqui sucedeu um dêstes anos, que indo uma nau do capitão de Malaca »n. 109*. em companhia da armada do Vizo-Rei, veio com um forte temporal dar em umas restingas de pedras que estão junto desta ilha, e em breve tempo se fêz em pedaços. E o que os nossos padres fizeram indo socorrer, e quanto trabalho nisso levaram se entenderá melhor pelo testemunho que todos os que vinham na nau lhes deram, em forma de certidão, em a qual depois de contarem sua perdição, dizem assim: «O padre João da Costa, da Companhia de Jesus, reitor da Costa da Pes- caria, nos acudiu logo com todos os padres do dito colégio, assim velhos como moços, com muita caridade e amor, mandando muitas embarcações, e fazendo com os patangatins e justiças que nos acudissem; o que eles cumpiiram com muito cuidado. E chegando nós a terra, achámos o dito padre reitor e os mais padres, velhos e moços, descalços e metidos pelo mar que lhes dava água por cima dos joelhos, acudindo-nos e mandando embarcações que nos acudissem, e vigiando de dia e de noite com muitas vigias que nos não roubassem o fato. E°pelo trabalho que os ditos padres tiveram, não dormindo de dia nem de noite, e andando metidos pela água, alguns dêles cairam doentes em cama. E na guarda do fato pôs o padre reitor boa ordem com a justiça da terra, e mui- tos homens de armas que o guardassem até se fazer entrega dêle a seus donos, e êle mesmo se achou vigiando de dia e de noite sete dias contínuos, não dor- mindo muitas noites, nem se deitando na cama, nem vindo comei a seu refei- tório. E se êle não fora, houvera muitos roubos, pela gente ser muita; e todos davam muitas graças a Deus por lhes haver deparado os ditos padres, e a êles muitos agradecimentos pela mercê que * lhes fizeram. E o dito padre usou de • fi. no. muita caridade e piedade com as pessoas que escaparam, agasalhando no seu colégio assim a êles como a suas fazendas; e se êle não fora depois de Deus, tôda a gente e fazenda perecera». Isto e outras muitas coisas vai dizendo esta certidão, encarecendo muito o benefício que por via dos padres receberam; a qual referimos aqui em teste- munho e justificação do que os padres neste particular caso fizeram, tão con- forme à sua religião, virtude e caridade; e para se ver com quão pouca razão e fundamento alguns émulos dos padres e pessoas de consciências largas e de pouco temor de Deus quiseram escurecer com falsas calúnias, publicando que os padres tinham usurpado muitos dos bens daquele naufrágio, como se não
  • 326 Das coisas da Costa da Pescaria houvera Bula da Ceia que lho proibisse, e houveram de chegar homens reli- giosos a tanta cegueira, que deixando o seu por amor de Deus, se quisessem ir ao inferno por furtar o alheio. Soube deste naufrágio o senhor da terra, que é o naique de Maduré; e por que é costume dos Reis gentios dêste Oriente usurparem para si os bens de quais- quer naufrágios que em suas terras acontecem, sendo o naique sabedor dêste, mandou logo dizer aos cristãos que lhe entregassem quinhentos mil cruzados que tinha por informação montar a fazenda desta nau; e juntamente mandou muita gente de guerra de pé e de cavalo com elefantes, para que logo fizes- sem executar isto. Sucedeu porém que estando perto da praia, se lhe levan- taram uns povos que chamam maravás, com quem andaram de guerra perto de dois meses. E tornando a voltear a demanda do dinheiro, lhe sobreveio outro impedimento do casamento do mesmo naique, para que foram chamados *fi.iiov. os capitães e mais * gente; pelo que não estão ainda fora desta tormenta, que, se fôr por diante, não poderá deixar de ser mui grande para aqueles pobres cristãos, e principalmente para os paravás da ilha, que foram os que salvaram a fazenda, dinheiro e artilharia, e a tiraram do fundo do mar, por serem exce- lentes mergulhadores, concertando-se com os portugueses na quarta parte de tudo o que tirassem. Quanto ao particular dos lugares e residências desta costa, é cabeça de todas elas, que são onze, o colégio da ilha, e a elas estão anexas mais vinte igrejas, parte pela terra dentro, parte ao longo da praia. São os padres, que por esta cristandade andam, vinte e um, por todos. Deram este ano uma grande bateria à perfídia maometana, trazendo à nossa santa fé um bom número de moiros, dos quais e dos gentios se baptizaram em três baptismos que se fizeram mais solenes, mil pessoas, afora muitos que se andavam catequizando. E como por tôda esta cristandade há muita gente pobre, tem-se mais particular cuidado de acudir não só com o temporal mas também com o espiritual; e assim em cada lugar dos cristãos se repartia quantidade de arroz pelos pobres conforme a multidão dêles; nuns a trezentas pessoas, noutros a quatrocentas; e da mesma maneira se lhe repartiam panos para se vestirem, conforme a quantidade do lugar; e tal houve onde se vestiram seiscentas pessoas. Casaram-se também muitas órfãs, e a outras muitas pessoas se buscou remédio de vida; e porque em razão da fome que houve em alguns lugares, muitos cristãos se espalharam por várias partes donde depois deixaram de tornar por não terem embarcações, os padres lhas buscaram para perto de mil pessoas; e tornando para suas ter- • fi. m. ras, não * sabiam encarecer a estima em que tinham tamanha caridade. E por estas e outras obras que dos padres recebem estes cristãos, e principal- mente por dêles terem recebido seus pais e avós e os que agora vivem o leite da doutrina evangélica, sentiram tanto quererem-lhes tirar os padres daquela costa, que o houveram por mor tormenta e perseguição, que quantas de seus senhores e Reis gentios tinham padecido. E assim estavam determinados de se pôr em armas e por elas defenderem a tirada dos padres; e quando isto não bastasse, de se mudarem antes para viver entre gentios que admitirem outros pastores que os padres: porém, ainda que a borrasca foi mui grande para êles, o Senhor lhes acudiu e os consolou no meio dela, vindo ordem do Arcebispo
  • Das coisas da Costa da Pescaria Governador e Relação de Goa para que tal coisa não fôsse por diante, e se por- ventura os padres se tinham ido, os tornassem logo a meter de posse daquela cristandade, de que há mais de sessenta anos que são pastores, e da qual se não podiam sair nem deixá-la sem ordem e licença del-Rei que lha entregou. De novo vieram este ano para esta cristandade seis padres, que foi um bom socorro e alívio bem necessário para os padres velhos e cansados, que há mui- tos anos que nela trabalham; e os que vieram se deram com tanto fervor a aprender a língua, que em menos de cinco meses a sabiam e confessavam nela. Em dois casos mui notáveis e quási milagrosos mostrou Deus a particular protecção que tinha desta sua cristandade; porque fazendo êles este ano sua costumada pescaria do aljôfar, e não podendo ajuntar a ostra na praia da terra firme, pela guerra em que estão com o Rei de Tutucorim, foram forçados a lançá-la tôda numas ilhetas desertas que defronte estão, em que não há água doce; e assim os pescadores vinham fazer aguada a terra firme; a qual o rei lhes proibia com gente * de armas. E pôsto-que se tinham apercebido de alguma »fi. m*. maneira com água de cisternas na ilha de Tutucorim, contudo, como eram mais de quarenta mil pessoas, nada bastou, e já estavam em grande risco de levan- tarem o arraial e deixar a pescaria com grande dano seu e discrédito. Senão quando nisto acode o pai das misericórdias, mandando tanta chuva e por tantos dias que [alagou as ilhas e fêz que tivessem por muitos meses água doce. E como esta chuva foi extraordinária e fora de tempo, todos, assim cristãos como gentios, a tiveram por milagrosa; e até o mesmo Rei bárbaro e gentio o conheceu e confessou, dizendo que não tinha forças contra os paravás, porque o seu Deus era mais poderoso; e que havia êle de fazer, se o céu lhes acudia! Mas para que os gentios não dissessem «qaoniam torrentes inundaverunt, munquid et panem poterit dare? também o Senhor os proveu de pão e mantimentos que ali vieram ter de partes remotíssimas, sem seus donos o pretenderem, mas não sem admiração grande de todos; com os quais não sòmente se remediaram as necessidades da pescaria, mas fizeram também que houvesse abundância em tempo da fome que ainda durava nas outras partes. CAPÍTULO VII Do que passou na residência de Maduré HÁ no reino de Narsinga ou Bisnagá três senhores mui poderosos, ainda que sujeitos ao próprio Rei, cujos capitães antes eram; mas levantan- do*-se com os estados que governam, depois de grandes guerras que «Fi.m. tiveram com seu senhor, finalmente se sujeitaram a êle, ficando-lhe tributários e com o título de naiques, que é o mesmo que capitães. São êstes os naiques de Maduré, Tanjaor e Ginji. São todos senhores absolutos em suas terras; e afora muita gente de pé e de cavalo, tem cada qual trezentos elefantes de guerra; e ainda que não tenham título de Reis senão de capitães, teem contudo Reis tributários debaixo de sua jurisdição. Do de Maduré, que é senhor de todas «stas terras que veem dar no mar da Costa da Pescaria, é cabeça uma cidade
  • 328 Das coisas da Costa da Pescaria assim chamada. Para tratar com este naique os negócios dos padres que andam por suas terras, há catorze ou quinze anos que se instituiu esta residência, para com êste pretexto também se darem os primeiros resplendores de nossa santa fé aos badagás, os quais em grande extremo se admiravam da santidade do padre que aii residia, e em particular da sua castidade. Mas desprezavam a lei que prègava, havendo-a como lei de gente baixa, pois a tinham os paravás e os por- tugueses, aos quais põem no ínfimo lugar das castas e gerações. E verdade que se espantam grandemente do seu ânimo e fortaleza, das façanhas feitas em armas; as quais, se assim como ouvem por fama, experimentaram em suas coisas, porventura que formaram outro conceito. Também se espantam de suas riquezas, liberalidade, aparato e elegância no vestir; mas, porque bebem vinho, comem vaca e sofrem que sejam levados em andores aos ombros de pariás, gente entre eles abjectíssima, formam êste conceito, e tem nisto um cos- tume ou superstição tão inviolável, que por nenhum caso uma casta se há de • FI.U2V. deixar tocar com outra mais baixa; e antes se deixará morrer um brâmene * à pura fome, que comer coisa guisada por outro que não seja também brâmene. Estando pois nesta cidade de Maduré desde o tempo que disse, para cá, o padre Gonçalo Fernandes, ainda que tão santo como era, pôsto-que tratava os ne- gócios dos padres, na conversão porém dos gentios fêz mui pouco, pelo estorvo que agora acabei de dizer. Mas como êle era também já velho e cansado, e pelas muitas doenças que tinha, pedia sucessor, foi-lhe dado por companheiro o padre Roberto Nóbili, italiano de nação, e sobrinho do ilustríssimo Cardial Sfórzia. Êste bom padre, começando a aprender a língua e os costumes da terra, e con- siderando que o maior impedimento que havia para a conversão, era o baixo conceito que os badagás tinham dos portugueses, e de nossa lei, pelas razões acima ditas, determinou de os levar por seu humor; e como vinha de novo, se publicou por homem de casta honrada, como brâmene ou raio; e para persuadir isto melhor àqueles gentios, se pôs em não comer carne, nem peixe, nem ovos, nem beber vinho, e sustentar-se só com arroz, leite e ervas. Além disto para não se deixar tocar de casta baixa, tomou um brâmene para lhe fazer de comer; e pelo asco que estes badagás teem aos frangues, que são os portugueses, mudou os vestidos e tomou os de seus letrados e saneasses idestratos (i). E ainda que isto parecia coisa mui dificultosa, contudo o zêlo da fé e da salvação das almas a fêz fácil; e também a experiência do bom sucesso que por êste modo tiveram os padres da China, tomando hábitos de letrados. Mudou também a habitação antiga para um sítio mui acomodado a seu intento que lhe deu o governador de Maduré. E tanto se acreditou com a fama destas coisas, e da doutrina que • fi.n3. * ensinava, que até o próprio naique desejou de ouvir, e isso por vezes; ao que respondeu um dos seus grandes que o padre era tão casto que só por não ver mulheres não saía de casa; a qual virtude êles tanto mais veneram quanto menos a guardam, pela dificuldade que nisso experimentam. E verdade que o padre, com haver mais de um ano que residia naquela cidade, nunca jámais sai de casa, nem fala a todos nem a todo o tempo, respondendo às vezes que está em contemplação; porque, como aquela gente se rege tanto pelo exemplo do que (i) Idestratos, isto é, santos — Dalgado-Dicc. Luso-Asiático, pág. i85.
  • Das coisas de Maduré 329 ensina, conforma ao conceito que deste fazem, assim estimam a doutrina. E foi nosso Senhor servido que não saisse em balde todo êste santo estratagema ou artifício de que o padre usou, porque daqui teve princípio a conversão dos infiéis, que nesta terra se vai começando com tanta glória de nosso Senhor; que foi desta maneira: Costumam os padres, assim nesta residência como na corte de Chandegri, ter escola de ler e escrever badagá, pondo nela de sua mão um mestre ainda que gentio, para que os meninos, com o trato e conhecimento, se vão afei- çoando a êles e às coisas de Deus que lhes vão praticando. O que aqui em Maduré tomaram foi um na casta honrada e bem entendido. Era êste jagorú, que quere dizer mestre nas coisas da lei, altivo e muito presuntuoso de si, e como tal, mostrava fazer pouco caso dos padres. Quis Deus que lhe deram os padres para trasladar na mesma língua badagá um livro, o qual tinha feito o padre Gonçalo Fernandes, das coisas do Credo. Com a lição dêste livro se lhe foi abrindo o entendimento para desejar de ver mais em particular as coisas que nêle se tratavam. Sucedeu nesta conjunção um eclipse do sol * a vinte e .fi.u3t. cinco de Fevereiro de mil e seiscentos e seis, por cuja ocasião o padre Roberto Nóbili começou a tratar com êle algumas coisas de sua lei, mostrando-lhe quão falsas eram. E porque êle também desejava saber as da nossa, assentaram de ir examinando umas e outras cotejando-as entre si, como fizeram por espaço de vinte dias, quatro ou cinco horas cada dia. E para que se saiba que não são êstes gentios tão bárbaros e pouco entendidos como alguns cuidam, apontare- mos as disputas que com êle teve o padre, e as dificuldades que propôs e res- postas que se lhe deram. Trataram primeiro da multidão dos deuses; e declarando-lhe o padre a razão que comumente se dá das perfeições de Deus, fàcilmente veio a confessar não haver mais que um só; pois está claro que, se Deus tiver companheiros inferiores, não serão Deuses; se forem iguais, nenhum dêles será Deus, pois carece das perfeições que estão nos outros. No segundo lugar, se criara Deus o mundo do nada; e sobre êste ponto teem êstes gentios como artigo de fé o mesmo êrro que nossos antigos filósofos, que de nada não se pode fazer nem criar coisa alguma, por onde fingem três coisas que são como princípios gerais de tudo, Padi, Paju e Passão. Padi cha- mam êles Deus; Paju a matéria de que êles dizem que Deus faz as almas; Passão a matéria de que dizem que faz os corpos, assim símplices como mistos. Contra isto lhe argumentou o padre desta maneira: — Tudo o que é e em si tem ser, ou tem êste ser essencialmente de si ou de outrem. O vosso Paju tem ser; logo, êsse ser lhe foi dado por Deus ou o tem de si. Respondeu o gentio que não o tinha dado por Deus. Logo, o tem de si, lhe tornou o padre. É verdade, respondeu o gentio. *Logo, êsse vosso Paju é Deus e tem ser infinito, »fi. 114. pois knão teve quem lho limitasse. Ao que o gentio ficou mudo sem ter que responder. E para o ficar de todo, lhe mostrou o padre o mesmo com outra razão mais palpável da omnipotência de Deus; porque, se Deus não podia criar alguma coisa de nada, não era mais poderoso que a terra, a qual da semente cria as árvores; nem que a água, a qual com a quentura do sol e outros aciden- tes cria os peixes e outros animais imperfeitos; mas seria como um carpinteiro, 42
  • 33o Das coisas de Madure que de um pau faz uma imagem, e sem pau não a pode fazer. Juntamente lhe disse que para Deus ser infinitamente poderoso era necessário não ter o seu poder falta, e não poder criar sem o Paju era falta; e portanto que ou não era infinito o seu poder, ou não tinha necessidade de Paju. Com estas razões ficou satisfeito sobre esta dúvida. Noutro dia tiveram outra disputa solene da transmigração das almas, antigo sonho de Pitágoras; e a razão que o gentio dava para isso era a diversidade dos homens, uns reis outros escravos, uns brâmenes outros pariás; e no dis- curso da prática se mostrou também fino platónico em cuidar que as almas nao eram formas dos corpos, mas que estavam dentro neles como o pássaro na gaiola ou o pinto na casca do ovo. Não foi difícil provar-lhe a falsidade desta opinião, porque bem vêdes vós, disse o padre, que quando o pássaio está den- tro da gaiola, a gaiola nunca cresce; e todavia o corpo, tendo a alma dentro em si, cresce até sua perfeita estatura. Alem disso não podeis negar que o pássaro fora da gaiola pode gerar outro, e todavia não me haveis de conceder que a alma • Fi. 114 v. sem corpo pode ter filhos. Não está logo no corpo * da mesma maneira que o pássaro na gaiola. E preguntando o gentio como estava, logo lhe foi o padre explicando que estava como forma e vida do corpo, fazendo ambos uma coisa a que chamamos homem; o que lhe provou com as operações do homem, como comer, andar, caminhar, as quais obras não pode fazer o corpo só sem alma nem a alma sem o corpo, senão que ambos juntos hão de concorrer para elas; e que por isso o homem não diz alma só nem corpo só, mas um e outro unidos em uma coisa. E que também por isso, dos males ou bens que o homem faz, não era justo pagar ou ser premiado um sem o outro, senão ambos juntos, assim como ambos concorrem a fazer mal ou bem. Após isto lhe foi mostrando que morrendo um homem em pecado, que é infinitamente mau, pelo que merece castigo infinito, não ficava castigado conforme ao que merece em uma alma estar cem anos em o corpo dum cao e com eles acabar sua pena, senão que era necessário haver lugar onde, saindo desta vida, para sempre estivesse penando sem nunca mais sair dele, nem tornar já a meter-se noutro corpo. E quanto à diversidade dos homens pela qual êle coligia a transmigração das almas, respondeu-lhe o padre que assim como um oleiro do mesmo barro faz púcaros para a mesa do Rei e vasilhas que servem para lavar os pés, assim da mesma maneira Deus, conforme a sua vontade, criou a um para rei e a outro para escravo, sem ter nenhum deles razão de se queixar porque me fizestes assim. Foi esta disputa mui comprida, porque desde as duas horas depois do meio dia durou até ás oito da noite. E assim desta como das precedentes e • fi. ix5. outras mais que depois se seguiram, e das coisas de nossa santa fé que lhe * o padre declarou, ficou este gentio em tudo tão satisfeito e alumiado, que logo pediu o santo baptismo, o qual o padre lhe deu depois de o ter mui bem ins- truído por espaço de vinte dias, pondo-lhe por nome Alberto. Foi o baptismo deste ditoso mestre princípio para bem de muitos outros que começaram a vir ao suave cheiro do suavíssimo nome de Jesus e de sua santís- sima lei, porque pouco depois baptizou logo outro mancebo mui honrado a que pôs nome D. Aleixo Naique, e outros dois badagás honrados e um irmão do mestre Alberto, e outros quatro ou cinco mui principais; e entre êles um capitão
  • Das coisas de Maduré mui honrado e de bom entendimento e tido em grande estima; o que tudo ainda agora fazem em segredo e de modo que não venha à notícia do Naique, até o padre buscar ocasião para o ir visitar. Mas como o diabo vê que lhe vão entrando seus arraiais, começa êle tam- bém a dar bramido como leão, e ver se pode contrastar este bom curso de tão bons princípios com dificuldades e estorvos que para isso anda levantando. Fora Alberto antes de ser cristão discípulo doutro mestre mui autorizado a que chamam pandara. Vindo êste de fora, suspeitando que o discípulo tinha mu- dado de lei, se começou a queixar dizendo que era desonra de sua casta e que fizera uma coisa muito baixa. E como êste homem era poderoso e grande, estava o padre com arreceio que falando ao Naique, logo o botaria fora de Maduré, ou lhe seria causa de algum grande mal. E andando tratando do remédio com que a poderia prevenir, eis que o mesmo pandara se foi a casa do padre, movido de curiosidade por lhe dizerem que ensinava uma doutrina dife- rente da sua. O padre o recebeu com tôda a cortesia e gasalhado, e assenta- dos * começaram a disputar das coisas de nossa santa fé, de que o pandara fluSt. ficou tão satisfeito que no cabo da prática veio a confessar que o seu Choca- nada, que é o Deus que adoram em Maduré, e a cinza que põem na testa, era tudo mentira, e que só o que nossa santa fé ensina lhe parecia verdade. Foi isto em presença de muitos discípulos seus com que veio acompanhado; os quais depois de sairem de casa começaram a fazer escárnio do nosso Alberto porque não untava a testa com cinza nem adorava os antigos deuses, ajuntando que se tinha desonrado a si e a sua família, e feito da casta baixa dos frangues. E o pandara ouvindo isto os fêz logo calar, dizendo que não tinham razão, porque êle estava já de tudo mui bem informado, e que Alberto tinha tomado mui boa lei. E depois em particular lhe disse que êle tinha feito muito bem em tomar a lei dos frangues que o padre lhe ensinara, porque as coisas que êle pandara lhe ensinara dos pagodes e ceremónias gentílicas era tudo mentira; que portanto não temesse; que êle o defenderia, e favoreceria aos padres para acrescentarem esta lei; e que também havia de falar mais com êles outras vezes, para se de- terminar no que havia de fazer. E êle foi um dos que com grande instancia aconselharam ao padre Roberto que mudasse o traje de português, que os bada- gás aborreciam, e tomasse o vestido de que naquela terra costumam usar os garús e letrados que professam ensinar a lei de Deus. E dizendo-lhe o padre que aquele traje era mui grave e (não) dizia com a profissão da sua pobreza, respondeu o pandara: «Padre, se quereis sòmente salvar-vos a vós, podeis andar vestido como quiserdes; mas se quereis ajudar a salvar outros e ser mes- tre desta gente, e ensinar * a lei espiritual, e fazer muitos discípulos, haveis-vos ' fi- u6- de acomodar ao uso da terra e ao engenho e costume dos homens em quanto for possível. Também procurou o diabo inquietar o segundo cristão que se baptizou, que foi D. Aleixo Naique; porque dizendo um gentio, que já algum tempo foi mes- tre de nossa escola, a um mancebo amigo de Aleixo, que Aleixo se tinha já feito frangue baixo, e que por isso perdera a casta e a honra, que portanto se guar- dasse dêle, não o tocasse, e com outras blasfémias contra nossa santa lei, ficou o mancebo com tão grande aversão de D. Aleixo, que com dantes ser seu amigo,
  • 332 Das coisas de Maduré nunca mais depois disto se quis chegar a êle. Soube do caso o nosso topaz ou intérprete; foi ter com este mancebo, e tratando com êle várias coisas, fiel- mente lhe persuadiu que viesse falar com o padre. E como o mancebo é ingénuo e de boa condição, veio logo com dez ou doze pessoas. Foi recebido com muita afabilidade e gasalhado. Começou-lhe logo o padre a falar das coisas de Deus, e como a lei de Deus não tirava mas dava honra, e outras coisas desta sorte, de que êle ficou tão satisfeito, que por muitas outras vezes continuou a casa do padre, até que se resolveu de ouvir o catecismo e ir deixando as cere- mónias dos pagodes que são umas contas que trazem ao pescoço e cinza na testa. Vendo isto o mesmo gentio que lhe tinha acusado D. Aleixo, e imagi- nando que êle se queria fazer cristão, o foi também acusar a sua mãe, dizen- do-lhe que seu filho havia de ser destruído, porque se queria fazer frangue baixo, e que os padres eram uns enganadores que faziam perder a honra e casta à gente honrada. Houve por isto em casa do mancebo grande perturbação e • fi. 116v. revolta entre sua mãe e parentes, pelo que foi * necessário dissimular-se por então, e dilatar-lhe o baptismo para mais longe, assim a êle como a outro mancebo seu amigo que êle mesmo trouxe, e não sem esperança que a mãe e parentes venham por seu meio à rêde de Deus. Foi também o Senhor servido de confirmar êstes novos cristãos com algu- mas obras maravilhosas que os animam muito a se consolarem com a fé que teem recebido e perseverarem nela. Baptizou o padre um mancebo em cuja mulher o demónio cada semana entrava dando-lhe muito trabalho; nem se que- ria ir sem primeiro lhe fazerem alguma oferta, porem cinza na testa e usarem de outras ceremónias. Depois de baptizado o marido, esteve mais de um mês sem lhe vir, de que os parentes e a mesma mulher estavam espantados; e o marido muito consolado o foi contar ao padre, que o animou e confirmou mais, dizendo-lhe a pouca força que o diabo tinha contra os cristãos, e ensinando-lhe juntamente o que havia de fazer se tornasse. E para o inimigo mostrar que não estava de todo vencido, tornou o mesmo dia. Estando o marido assentado com a mulher em uma esteira, entrou nela; e porque costumavam quando vinha desta maneira alevantarem-se todos em sinal de reverência e nenhum ficar assentado junto com o demónio, o cristão se deixou ficar sem se querer alevan- tar por muito que os outros o importunavam a isso; e porque também costu- mava o demónio pedir oferecimentos ao mesmo marido, dizendo-lhe à volta disto muitos disparates, agora não ousou de lhe pedir nada a êle, mas falando com os outros lhes pediu cinza, que é uma ceremónia gentílica que se faz em honra do Chocanada seu Deus. Porém o mancebo, como bom cristão, não •fi. 117. consentiu que * lha dessem; mas em lugar de cinza lhe fêz o sinal da cruz na testa, cuja virtude não podendo sofrer o diabo, em continente se foi, deixando a mulher livre e a todos espantados, e o cristão alegríssimo e mui confirmado na fé, e resoluto a trazer sua mulher para ser catequizada e baptizada. Um gentio andava ouvindo as coisas de Deus, senão quando de noite subi- tamente lhe dá uma dôr veementíssima como de cólica; acordou logo ao topaz do padre, que estava com êle, dizendo-lhe que morria: disse-lhe o topaz que prometesse de se fazer cristão, o que êle logo prometeu. Então o topaz disse" estas palavras à Virgem nossa Senhora: * Senhora, havei misericórdia deste gen-
  • Das coisas de Maduré 333 tio; e se a lei que o padre prèga é verdadeira, fazei que sare para que creia em vosso bento filho». No mesmo ponto se lhe foi a dor e ficou são. A mãe de D. Aleixo Naique, vendo a súbita mudança da vida do filho, assim em deixar os pecados em que vivia, como na obediência e respeito que lhe mostrava como a mãe, desejou que também outro filho seu mais velho se fizesse cristão, e por vezes lho rogou. Não o pôde sofrer o demónio, mas aparecendo à velha a ameaçou rijamente, repreendendo-a porque deixara fazer o filho cristão, e agora aconselhava ao outro que se fizesse. Ficou a pobre velha mui medrosa, deu conta ao filho D. Aleixo, o qual a animou e lhe tirou o mêdo com lhe mostrar o pouco que êle tinha do diabo. Será êste mancebo de dezóito anos, e tão firme na fe que não duvidou dizer a uns fciticeiíos que experimentassem nêle suas feitiçarias, que êle não queria outras armas contra eles e contra o diabo que o sinal da Santa Cruz.
  • * COISAS DO MALABAR CAPÍTULO VIII Do colégio de Cochim e suas residências O colégio de Cochim cabeça e seminário de todos os colégios e casas da província de Malabar e partes do Sul, que por todos são sete; mas as casas e residências muitas. Há nêle estudo de letras de humanidade, artes e teologia, onde se criam os sujeitos que depois de acabados seus estudos, por ordem de seus superiores, são mandados a trabalhar na con- versão dos infiéis por todos aqueles reinos dos gentios em que a infidelidade tanto reina; e computando o número pouco mais ou menos dos cristãos que haverá por esta província e reinos do Malabar, são, conforme a lista dos padres, melhoria de duzentas mil almas. Este ano se baptizaram nesta cidade, de novo, duzentas pessoas, e na residência de Santiago, que é uma freguesia perto desta cidade, duzentos e cincoenta, e na de Santo André em Palur onde o padre tem cuidado de três igrejas bem distantes umas das outras, se baptizaram noventa. E a êste baptismo e mais festa que se fêz no mesmo dia do Apóstolo Santo André, se achou presente o mesmo Rei, ainda que gentio; e na procissão que se fêz, para mais solenidade mandou sua guarda que sempre traz consigo, que são quinhentos arcabuzeiros, para que fossem • Fi.118. diante em ordem * militar, dando salvas com seus arcabuzes. Na residência de Calecut estão dois padres, um de assento, e outro para andar na corte do Samorim de ordinário, no que faz mui grandes serviços a Deus e ao Estado, sendo causa de se conservarem as pazes que entre êles estão assentadas, que para estes tempos é de mui grande alívio para a Índia. Já o ano pasado por seu respeito o Samorim mandou matar um sobrinho do Cunhale que começava a urdir outra teia e sossôbro para o Estado, qual foi a passada de seu tio. E não contente com isto fêz El-Rei aos seus uma prática em que os avisou que estava determinado a não sòmente matar a qualquer pes- soa que fosse causa ou motivo de se quebrarem as pazes, mas a entregar suas mulheres e filhos aos portugueses. E êste ano de seiscentos e sete os padres foram os que sempre tiveram mão não só no Samorim, mas com todos aqueles Reis de Malabar, para que nenhum concerto nem amizade fizessem com os piratas holandeses, que em sete ou oito naus passaram pela costa da índia ten- tando todos aqueles príncipes para que os admitissem em seus portos, mas de nenhum o puderam alcançar; dizendo o Samorim claramente em público conse- lho, diante dos seus, que na matéria de paz ou amizade com os holandeses, nenhuma coisa havia de fazer senão o que os padres, seus amigos, lhe aconse-
  • Das coisas do Malabar 335 lhassem. Quis todavia em razão de lhe não fazerem mal a suas naus que andavam no mar, tratá-los com boas palavras; e a rogos do padre pedir-lhes um capitão português de uma nau do reino, que traziam cativo; e para isso, estando êles defronte de Calecut se foi chegando à praia, acompanhado de dois ou três mil naires para falar com o capitão mor dos holandeses, que em suas lanchas o ia visitar; * senão quando, nesta conjunção aparecem, que vinham de »fi.u8*. Goa, dez periches, que são embarcações de remo pequenas, as quais vendo as lanchas junto à terra, com todo o ímpeto arremeteram a elas, chegando também ao mesmo tempo por terra o Bispo de Angamale com muitos cristãos em sua companhia. O que tudo vendo o holandês e cuidando que era traição do Sa- monm, sem mais ir por diante, nem lhes falar, voltou com toda a pressa para suas naus, com grande pesar dos periches que pelo meio dos tiros que suas naus disparavam, lhe foram sempre no alcance; mas quis Deus que, com os tiros serem tantos, nenhum acertou nos nossos. Muitos moiros foram a suas naus, e vendo a gente delas diziam que Deus os trouxera por todos os portos da índia, ofeiecendo-os aos portugueses, e que êles os não quiseram ir tomar; o que por outra via e de certa diligência que um padre fêz, se soube ser ver- dade, e que a gente que levava cada uma era mui pouca, muita parte doente, e a artilharia não muita, e a mor parte de ferro; do que tudo se mandou aviso ao governador cm Goa e ao Vizo-Rei cm Malaca. Outra missão fêz a umas igrejas dos cristãos de S. Tomé que estão nos mesmos reinos do Samorim, vizinhas a Palur, aonde êle ao presente reside. E para se entender quanta graça o bom padre tem achado diante dêste Rei, pore- mos aqui um capítulo de uma carta sua acerca desta missão, que diz assim: «Não posso bastantemente contar os muitos trabalhos que no caminho padece- mos por causa da muita água, assim da chuva que era contínua, como por estar tudo alagado de maneira, que em alguns lugares me dava a água pelo peito; e algumas * pontes estavam dois e três palmos cobertas, que por serem estreitas *fi. nj. e de um só páu, eram perigosas de passar. Pelas ruas dos lugares onde entrá- vamos, nos dava a água até ao joelho; e com todo êste trabalho chegámos a Palur, onde o Samorim me recebeu com rosto alegre e risonho. Convidou-me para comer 110 paço; respondi-lhe que já tinha comido. Replicou-me que força- damente havia de comer; respondi-lhe que vinha mal disposto e cheio de catarro por causa da chuva. Tornou terceira vez que havia de comer, ainda que fôssi pouco; então lhe disse que faria o que sua Alteza mandasse. Entrámos dentro e fazendo-me sentar se ficou em pé, convidando-me a comer ora com uma coisa ora com outra. A mesa acabada, falámos nos negócios; e de novo me concedeu licença paia qiratro igrejas; uma de cristãos de S. Tomé que o Bispo bem dese- java, três ao longo da praia; com que a costa de Malabar fica toda povoada de igrejas, pôsto-que por falta do necessário para elas e de haver quem o dê, não falei mais nisso, ainda que com muita mágoa minha; porque ocasião que se perde, tarde ou nunca se recupera. Assaz para sentir é têrmos licença de um Rei gentio para levantar igrejas, e mais na costa do mar, e não têrmos aparelho nem posse para isso. O tempo que me ficou vago procurei gastar em cultivar os cristãos de S. Tomé, destas quatro igrejas e povoação, fazendo-lhes práticas, ora numa ora noutra. E porque o mais do tempo me agasalho nesta igreja de S. Quirício
  • 336 Das coisas do Malabar de Palur, que é a primeira que houve no Malabar, e de muitos milagres, por isso também mais particularmente me empreguei no serviço dela. Estava já • Fi. iiçy. acabada a igreja de pedra que há dois anos fiz começar, e ficava-lhe dentro a velha de madeira, mas ninguém ousava de a desmanchar com medo que tinham que logo haviam de morrer. Fiz-lhes então uma prática com que lhes tirei o temor e logo após isso a madeira da igreja velha; ficando a nova de pedra tão capaz e formosa, que nos não podemos valer com gentios, moiros e judeus que acodem para a ver, com mais curiosidade que devoção. Dois régulos dos gentios tinham feito votos a esta igreja para terem herdeiros, os quais alcançaram depois de em vão terem corrido todos os seus pagodes. Agora os vieram cumprir aca- bada a igreja; e um dêles deu de comer a mil e quinhentos cristãos; o outro a perto de quatro mil. Porém vendo o primeiro que ficava vencido do segundo, quis dar outro banquete aos cristãos muito mais solene. E como se havia de ajuntar tanto número de gente, armámos a igreja e festejámos o dia com uma procissão muito solene, qual nunca nestas partes se viu; com que todos os gen- tios ficaram com grande espanto e conceito de nossa santa lei; porque com estas festas e solenidades exteriores abrem os olhos para irem alcançando mais alguma coisa da interior formosura dela». Outra missão fêz o mesmo padre a petição do Bispo de Angamale, entrando pela terra adentro até Coulão, correndo todas as igrejas e lugares, aonde tanto maior foi o fruto quanto maior era a necessidade, e a gente estava mais sequiosa da doutrina que o padre lhe dava. Em todas as partes o queriam deter mais dias; e quão festejada era sua chegada, tão sentida e chorada era depois sua partida. Quási nenhuma coisa intentou, por dificultosa que fôsse, que não • fi. 120. efeituasse; nenhumas brigas tão travadas achou que não compusesse; * nenhuns ódios tão entranháveis a que não alcançasse perdão. Aos que havia oito, dez, quinze anos que andavam lançados fora da Igreja por culpas cometidas, recon- ciliou a ela com satisfação de todos. Fêz muitas confissões de trinta e quarenta anos. De três ou quatro pessoas lançou os demónios fora, só com rezar sobre eles o Evangelho. E com a consolação dêste fruto tão grande sofria o bom padre com alegria os muitos e grandes trabalhos que neste caminho padeceu, e os contínuos perigos em que se viu, assim por parte dos gentios poi cujas terras caminhava, que lhe faziam muitas vexações, como também dos mesmos cami- nhos, que, por ser a terra muito retalhada de rios, era forçado passar muitas vezes a pé com os vestidos na cabeça; e quando se não podiam vadiar, era levado de dois homens, que de uma parte e de outra, nadando, o iam susten- tando, por êle não saber nadar. Voltou o padre desta missão para o Samorim, porque, como andavam os holandeses pela costa, era mui necessária a sua assis- tência com El-Rei, o qual o recebeu com grandes mostras de amor. E sabendo que em Panane, onde o mesmo Rei então estava, o padre não tinha bom gasa- lhado, mandou que lhe dessem chão para casa e igreja, que foi outra nova graça de muita estima, ajuntar-se mais naquele pôrto tão importante esta nova fortaleza de Deus, para a conquista daquela gentilidade. E porque o sítio que mais acomodado se achou para o padre era o de um moiro, lho mandou tomar e recompensar com outro. Nesta casa estava uma moça doente; pediram ao padre quisesse rezar sôbre ela. Fê-lo assim, e foi nosso Senhor servido
  • Das coisas de Malabar 337 que a doente se achou logo bem; e todos os daquela casa prometeram que, tanto que ali houvesse casa e igreja, se fariam logo cristãos. * Em Tanor se concedeu ao príncipe daquela terra neste ano a igreja e «fi. 120*. padres que tantos há que desejava e pedia. E êle por obra respondeu muito bem às promessas que de palavra tinha feito. Foi mandado de Cochim um padre, para com o padre Jácome Fenício dar princípio à igreja e escolher o sítio acomodado para ela. Foi este padre em uns navios que de Cochim par- tiram, que o puseram na práia de Tanor sem êle saber ainda a língua, nem ser conhecido, nem menos conhecer alguém. Entrou em uma casa de um homem principal gentio, o qual pôsto-que então estava ausente, sua gente porém o agasalhou com tanto amor e caridade, que afirma êle mesmo que ainda que entrara em casa de sua mãe em Portugal, lhe não fizera mais. Porque logo lhe aparelharam de comer, aquentaram água, fizeram a cama, esteiraram o chão da casa, aplicaram um menino que o servisse; e tudo tanto a ponto e tão poli- ticamente que não se podia mais desejar. E bem se via ser aquilo também favor de nosso Senhor, que lhes inspirava fazerem semelhantes gasalhados a um servo seu, que êle ali lhes mandava para tanto bem de suas almas, e que chegava às oito horas da noite, cansado e sem ter comido naquele dia, e entrava em uma terra onde nunca estivera nem alguém o conhecia. Sabido pelo povo que êle ali estava, quási todos, assim homens como mulheres e meninos, com serem gentios, davam graças a Deus de o verem; e diziam ao padre que por êle estavam esperando para todos se fazerem cristãos, como a igreja fôsse feita. O príncipe de Tanor, que governa o reino por ser o Rei já muito velho, festejou muito a ida dos padres, e deu a escolher chão para igreja, e ordenou a seu regedor mor que corresse com as obras todas à sua custa, * e que tudo fizesse • Fi.jm. conforme a traça e medida que os padres lhe dessem; o que tudo o regedor cumpriu, amanhecendo nas obras, e trazendo para o serviço elefantes, oficiais e muitos trabalhadores, de modo que em breve se acabou a igreja e aposento dos padres. Dia do nascimento de nossa Senhora se lhe pôs um retábulo da mesma Senhora, de S. Lucas, e se levantou uma formosa cruz; ao que tudo se quis achar presente o mesmo Rei; o qual, depois dela levantada, fêz uma fala aos seus, declarando-lhes como êle folgava que todos os que se quisessem fazer cristãos o fizessem livremente, que êle lhes prometia por isso não seriam des- favorecidos, antes lhes faria avantajados favores e liberdades, pois assim o tinha prometido ao padre. E mostrou muito bem que não eram só palavras o que lhes dizia, pois em casos particulares que aconteceram o certificou com as obras. Grande cristandade se fará nesta terra, se meios e fins responderem a tão alegres princípios. E pôsto-que a conversão desta gentilidade seja o princi- pal fim que se pretende com a residência dos padres nesta terra, também se seguiu mui grão proveito temporal ao Estado da índia; porque desta costa se costumavam a prover de marinheiros os paraus dos moiros inimigos. Mas já êste ano, com a assistência do padre, não puderam daqui levar nenhuns; antes vindo para isso uma embarcação de moiros, os naturais da terra lhes sairam a pelejar com êles, e mataram alguns. 43
  • 338 Das coisas de Malabar CAPÍTULO IX O que sucedeu 11 o colégio da Serra e suas resideiicias ■»«*■ *T\ TA Serra
  • Das coisas de Malabar 33g Cranganor, capitão e veadores da fazenda de Cochim, levaram os padres e os tornaram a meter de posse de suas casas e colégio. E o mesmo Rei, estando na igreja, declarou o sentimento que tinha do passado, fazendo grandes promessas de amizade para adiante, e dando para satisfação um elefante e um naire por escravo perpétuo dos padres; que, por maiores * que sejam os agravos, é a maior recompensa que deles nestas partes costumam a dar estes príncipes e Reis gentios. E assim corre agora este com os padres com muito mais amizade do que dantes, o que ajuda muito para bem e quietação desta cristandade. Deste colégio fêz o padre Estêvão de Brito, reitor, com outro padre que levou por companheiro, algumas missões, indo a correr parte desta cristandade, principalmente para a banda do norte, aonde pelas continuas guerras que o Samorim traz com El Rei de Cochim, estavam aqueles cristãos mui necessita- dos, e havia muitos que passava de três anos que não iam à igreja. Alcançou o padre uma licença geral do Samorim, para que todos os cristãos que eram vassalos dos Reis, assim de Cochim como dos mais inimigos, e que actualmente andavam em guerra com êle, pudessem no mesmo tempo da guerra ir às igrejas sem perigo; o que fizeram com tanto concurso e fervor, que foi forçado o padre, para acudir a muitas confissões, a chamar muitos sacerdotes que o fos- sem ajudar; e fêz baptizar muitos meninos que tinham já três e quatro anos de idade. E não somente lhe concedeu o Samorim êste salvo-conduto que acima digo, mas tudo quanto mais lhe pediu para bem desta cristandade; que é coisa que põe em muita admiração, ver o respeito e benevolência que êste Rei gentio tem aos padres; que além de outras muitas mercês e boas obras que lhes faz, jamais lhes sabe negar coisa alguma que lhe peçam para bem da cristandade e aumento da fé, como se êle fôra um mui devoto filho da Igreja Católica. Outra missão fêz o mesmo padre para a banda do Oriente às serras que chamam de Trugure, aonde havia mais de trinta anos que não foram padres da Companhia, * senão só então o padre Belchior Carneiro, Bispo que foi da-Fi.irf. China. Ali acharam os padres alguns cristãos de muita idade e já velhos, que nunca se tinham confessado e sabiam mui pouco dos mistérios de nossa santa lei. Contudo agasalhavam os padres com muita devoção, e os iam acompa- nhando no caminho com suas armas, fazendo-lhes muitas festas com muitas mostras de amor e desejos de os terem muito tempo consigo. E quando che- gavam a uma igreja, ainda que fosse dia de trabalho, o faziam de guarda, para se consolarem com os padres, e o gastavam todo dentro na igreja em pi áticas santas e devotas; e tanto conceito e confiança tinham dos padres, que tudo quanto havia de negócios, por dificultosos que fossem, lhes punham nas mãos. O Rei da terra, que é o que chamam da Pimenta, os agasalhou também e recebeu com grande benevolência; e quando o foram visitar, lhes concedeu o que pe- diam para bem da cristandade. Com estes e outros semelhantes ofícios que a Companhia exercita com êstes cristãos, cresce cada vez mais sua fé e devoção. Aconteceu em um lugar dêstes dar uma enfermidade de bexigas, que nesta terra é como peste em Europa. Ajuntaram-se os cristãos com seu cura, e fizeram uma procissão; e logo que se recolheram à igreja, que seria às dez horas antes do meio dia, de improviso e à vista de todos, fiéis e infiéis, veio do céu
  • 340 Das coisas de Malabar um grande resplandor que acabou diante da igreja; por virtude do qual a enfer- midade cessou, sem nunca mais ir por diante, que foi matéria de grande louvor de Deus, que cristãos e gentios lhe davam. Em Paru entrou de noite um gentio na igreja, e furtou um calis de prata, e indo fugindo com ele, tendo andado cinco léguas, por juízo divino tornou a • fi. 133 v. desandar * o caminho e se veio meter no mesmo Parú, onde se veio a descobrir ser êle o malfeitor daquele delito. Perguntaram-lhe porque se viera meter nas mãos da justiça. Respondeu que fôra forçado sem saber de quem, e que o matassem pois o merecia. Assim o fizeram cortando-lhe a cabeça e lançando- -lhe o corpo no rio. Porém este se foi pôr defronte da igreja, e andando o mais coberto dágua, só a mão direita com que fizera o sacrilégio lhe ficava de fora, e esta levantada para cima, como pregoando seu pecado. E o que causou muito espanto foi que assim andou por ali por espaço de oito dias, sem nem a corrente do rio o levar, nem os muitos lagartos que nele há o tocarem, com grande admiração de todos os que corriam a ver êste espectáculo, que cobra- vam grande medo de tocar em coisas sagradas. Aconteceu êste ano que uns moiros mataram um sacerdote destes cristãos, coisa que ate então nunca se viu nesta Serra. Os cristãos o sentiram muito; e porque nestas partes se se dissimula com os moiros em semelhantes insultos, êles se ensoberbecem e fazem mais atrevidos para cometerem outros maiores, os cristãos se resolveram em não os deixar sem castigo, e assim se ajuntaram como vinte mil; e confessando-se e comungando primeiro, todos se foram em busca dos moiros a outro reino diferente; deram nêles e depois de lhes mata- rem e ferirem como trezentos, e os deixarem muito bem castigados, se tornaram mui alegres para suas casas. Aqui a esta Serra e com o Bispo de Cranganor vieram ter uns cristãos que se chamam de S. João, e moram junto ao rio Eufrates, e examinando-os o Bispo, achou que se baptizavam em nome de Deus Primeiro, de Deus Segundo, fi. 124. de Deus Terceiro. A Ifngua de seus livros * nem era a caldeia nem a siríaca; e realmente, segundo o que diziam, parecia serem dos cristãos que por aquelas terras fêz o Apóstolo e Evangelista S. João que nelas prègou. Deu disto aviso o Bispo de Cranganor ao Arcebispo de Goa, a quem um Bispo destes mesmos cristãos mandava pedir gente que os instruísse nas coisas da fé. Mas como as ocupações do Estado são muitas, parece que os encomendou aos religiosos que estão na Pérsia, donde dificultosamente lhes poderão acudir. O Rei daquela terra, ainda que é moiro, manda pedir alguns navios de portugueses, para poder passar da outra banda do rio Eufrates, e que êle lhes entregaria Bassorá, por- que traz guerra com o senhor daquelas partes. Ao colégio da Serra estão anexas as residências de Porcá e de Paliporto. Na de Porcá não estão agora os nossos, porque, como aquele Rei quebrou a amizade e pazes que tinha com os portugueses, convinha que os padres por-ora se saíssem das suas terras, para que os portugueses por armas lhe possam pedir contas de sua deslealdade; o que pôsto-que se vai dilatando por outros negócios de mais importância, pode ser que a graveza do castigo recompense a tardança. Em Paliporto continuam os padres no aumento e conservação daquela nova cristandade. Por causa de algumas diferenças entrè os Bispos de Cochim e
  • Das coisas de Malabar 341 Cranganor, sôbre a quem pertencia a jurisdição deste porto e terra, houve grande impedimento para as coisas da cristandade e conversão irem por diante. Não faltou porém o padre que ali reside de acudir a sua obrigação na doutrina e cultivação dos já convertidos, e no zelo de trazer outros ao rebanho de.Cristo, que seriam até cincoenta. Está defronte deste pôrto a ilha de Paru, na qual os naires * gentios fize- «0.114*. ram uma grave afronta a um caçanar sacerdote dos cristãos de S. Tomé, e vigário ali do Bispo de Cranganor. Procurou o Bispo que o Rei de Paru, con- forme ao costume dos Reis da terra, desse a devida satisfação, o que êle nunca quis fazer. E porque pareceu ao Bispo que, ficando esta afronta sem castigo, e que como era feita por gentios, poderia ser ocasião de fazerem outras maiores, tratou com o capitão de Cranganor fizesse guerra ao Rei de Paru. O que êle logo fêz infestando-lhe o rio com manchúas armadas, com o que lhe proibiu o comércio. Porém perseverando o Rei ainda em sua pertinácia, encomendou o Vizo-Rei da índia ao capitão mor da armada do Malabar, chegasse com ela por aquela parte, e castigasse este Rei. Entrou nossa armada na barra de Pali- porto, e antes que os soldados desembarcassem em terra, acudiram os padres de Cranganor para os confessarem, como teem de costume. Deram depois disto alguns assaltos em terra em que lhe mataram muita gente e destruíram os palmares, e se a ilha não fora tão retalhada de rios e esteiros, tôda dêste primeiro ímpeto ficara assolada. Finalmente o Rei, tomando melhor conselho, tratou de paz e satisfação, para o que ajudou muito a vinda do padre Jácome Fenício, a quem o Samorim mandou a êste Rei com recado seu, em que lhe aconselhava que se sujeitasse aos portugueses, e pedindo também ao capitão mor aceitasse os concertos de paz. O que tudo foi feito com aprazimento das partes, ficando a dos cristãos como era razão, mostrando-se o Rei muito sujeito e humilde ao Bispo da Serra, a quem êste castigo fêz mais respeitado dos cris- tãos e temido dos gentios por cujas terras esta cristandade está espalhada. Não deixarei de contar por variedade o que aconteceu * nesta jornada a um navio desta *n. us nossa armada, cujo capitão se chamava de alcunha Pita; e foi que encontrando-se com uma galeota de malabares inimigos, em que vinham passante de duzentos moiros, tiveram uma crua peleja, na qual os nossos, como eram muito poucos, que não chegariam a quinze ou dezóito, foram quási todos mui mal feridos, e abrasados com as panelas de pólvora que os moiros lançavam. Porém vendo que o navio ardia e que ali haviam de acabar todos, determinaram de vender bem as vidas, ou salvar-se na mesma galeota dos moiros. Arremetem logo com grande fúria; e indo sós cinco soldados na proa do navio, porque os demais não estavam já para pelejar, de tal maneira fizeram embaraçar os moiros, que os nossos cinco poderam saltar na galeota, e começando a pelejar foram levando diante de si aquela multidão de moiros; o que vendo os feridos que ficaram no navio, acudiram também como puderam, e assim entrando todos na galeota, com tal esforço se houveram ajudando aos outros, que os duzentos moiros com quem pelejaram foram desbaratados e mortos pelos cinco valorosos soldados até ficarem os nossos senhores da galeota, a qual o Vizo-Rei lhes deu com tudo o que tinha, pois tão bem a mereceram e ganharam.
  • Das coisas de Coulão CAPÍTULO X O que passou no colégio de Coulão e residências da costa de Travancor FORAM mui grandes os trabalhos que os padres deste colégio e suas resi- dências padeceram, pelos que também padeceu a cristandade desta costa por espaço de dois ou três anos. Noutra relação se tem dito como o Rei de Travancor, por causa do eclipse do sol que sucedeu no ano de seiscen- tos e quatro, aconselhado por seus brâmenes e feiticeiros, para que os males que prognosticava não viessem sobre sua pessoa, determinou perseguir os cris- tãos da praia, e assim mandou queimar onze lugares e outras tantas igrejas. Os cristãos que eram mais de vinte mil, se espalharam por várias partes, sofrendo com bom ânimo seu destêrro e pobreza. Os padres seguindo a mesma fortuna também andavam desterrados, e uns se foram para o cabo de Comorim, fora das terras de Travancor, e em um penedo que está no meio do mar fize- ram uma igreja e povoação onde guardaram os ornamentos sagrados e o mais que do fogo escapou. Logo ali se ajuntaram muitos cristãos, como ovelhas que se acolhiam a seu pastor, as quais êle amparava e vigiava. Os mais padres se recolheram ao colégio de Coulao, donde acudiam e ajudavam aos necessitados, quanto o tempo dava lugar, fazendo algumas saídas, ainda que com muito risco das pessoas e vidas, por acudirem às ovelhas espalhadas, principalmente o padre reitor Nicolau Spinola; o qual vendo a necessidade que a cristandade padecia, pôstoque entendia nao estar aplacado o animo do Rei, duas vezes foi ter com êle; e ainda que pela amizade antiga nao foi maltratado, nada porem pôde acabar dos concertos; ou porque ainda não era acabado o tempo de sua superstição e mofina, como os brâmenes lhe diziam, ou por algum outro íes- peito. Mas não tornou sem fruto das almas, que era o que êle mais pretendia; porque com esta ocasião, correndo alguns lugares baptizou a perto de setecentos meninos, casou muitos, concertou demandas, ouviu muitas confissões, com as . * quais coisas muito se animaram e consolaram os pobres cristãos, aos quais quanto mais o barbaro Rei, por instigação do demónio estava indignado para destruir, tanto por outra parte inclinado para refazer os pagodes, restaurar seus templos, solenizar suas festas; no qual se tem que gastaria como duzentos mil cruzados. Porém com tudo isto, ou pelas perdas que padecia em não navega- rem seus navios livremente, ou pelos danos de não ter comercio com os portu- gueses, ou por temor de nossas armadas, no princípio deste ano de seiscentos e sete fêz concêrto de paz com o padre reitor Nicolau Spínola, e em satisfaçao dos males passados, deu lôda a madeira para se reedificarem as igrejas, e dois mil pardaus para ajuda das obras, e vários favores e privilégios aos cristãos. Com o qual se tornaram outra vez a reedificar todas as igrejas em melhores sítios, e mais formosas do que dantes estavam; as quais são por tôdas, as que estão ao longo da praia, trinta, em distância de vinte e cinco léguas; com mais outras nove que estão três e quatro léguas pela terra dentro; as quais tôdas os padres já tornam a correr e visitar seguramente, com grande alegria e consola-
  • Das coisas de Coulão 343 cão dos cristãos e fruto das almas, e não com menos proveito do Estado da índia. Porque estando povoada esta costa tôda de cristãos como está, e resi- dindo e andando os padres por ela, impedem de todo que nas ditas terras e portos se não recolham navios e embarcações de moiros inimigos; e fazem tam- bém com que o Rei não trave amizade com os holandeses piratas, não lhes dê carga de pimenta; e conservam a terra pacífica para a franca passagem dos navios portugueses e mais passageiros amigos; aos quais todos os cristãos re- colhem e defendem em seus portos, para que os moiros lhes não façam nojo. * Muitas coisas de edificação havia que contar das que cada dia acontecem »fi. hôy. por esta cristandade; mas, tendo conta com a brevidade, só apontarei algumas poucas para glória do Senhor. Uma das vezes que o padre Nicolau Spinola, reitor dêste colégio, foi correr os lugares dos cristãos antes da paz, foi tér a um onde estava uma velha de oitenta anos, a qual havia muitos dias que pedia a nosso Senhor lhe mandasse ali algum padre para se poder confessar; senão quando, estando bem descuidada, lhe traz nosso Senhor o dito padre reitor. Ficou a boa velha cheia de tanto gozo e alegria espiritual que não cabia em si; e sendo esta a primeira vez que se confessava, o fêz com tanta contrição de seus peca- dos, e com tanta ordem, e tão miudamente, que deu mui claros indícios de sua predestinação. Outra vez passando um padre nosso de caminho para um lugar de cristãos, o vieram chamar para confessar uma mulher que estava para morrer e suspirava grandemente por um padre. O padre a confessou com muita con- solação sua, reconhecendo a divina providência que àquelas horas o trouxera por aquele caminho tão pouco cursado, que oito anos havia que por ali não pas- sara sacerdote, e só por ajudar a salvação daquela alma e baptizar um menino. No lugar de Vorageri, passando por ali o Rei de Travancor, um moiro que vinha em sua companhia quis agasalhar um cavalo dentro na igreja. Um cris- tão lho estranhou e o quis impedir; mas não pôde, porque o moiro, como mais poderoso e soberbo, fêz o que quis. Porém não quis o Senhor que ficasse sem castigo; porque o cavalo naquela mesma noite caiu morto com espanto dos cristãos e gentios, porque todos o tiveram por castigo do desacato que aquele moiro fêz à igreja. * Há em Cotate, lugar pela terra dentro, uma igreja que poucos anos há «fi. i>7- se fêz, da invocação da Santíssima Trindade, cujo é o retábulo, nos lados do qual estão também pintados o RR. PP. Inácio e Francisco Xavier. E como é tão grande a devoção que tôda esta gente tem ao Beato padre Francisco, seu primeiro apóstolo, é também contínua a romaria que a ela fazem assim cristãos como gentios, porque todos experimentam sua intercessão e favores em casos milagrosos, como já noutras relações se tem dito. Neste ano de 607, aos 3i de Março, indo um cristão por nome João fazer sua romaria e oferta à igreja, acendeu de noite trinta candeias de azeite, que estiveram ardendo duas ou três horas, e tornando alta noite as achou apagadas, e algumas com as torcidas quei- madas. Falou com outro cristão juiz da povoação que se achou presente, e disse-lhe com simplicidade que queria ver se Deus fazia algum milagre. Toma logo torcidas, molha-as na água benta, põe-lhes o fogo, o qual se acendeu nelas como se fôsse em azeite. Enchem duas candeias de água benta, ardem clara- mente. Começam a bradar, milagre milagre; acode a gente. Ao princípio não
  • 344 Das coisas de Coulão o crêem, até que cada um que vinha fazia experiência; e provendo todas as candeias de água benta, estiveram ardendo por espaço de uma hora. Vieram os gentios e diziam que ardiam aquelas torcidas na água, porque estiveram antes em azeite. Fizeram os cristãos outras torcidas novas; molham-nas na água benta, ardem à vista de todos. Ao outro dia pela manhã tomam os cristãos as trinta candeias; provêem as quinze com azeite e as quinze com água benta. Põem- -lhes fogo; ardem todas igualmente. A ocasião dêste milagre foi que antes de • fi.137». João fazer aqui esta prova com água benta nas suas candeias, * sucedeu que tendo um gentio notícia dos milagres que naquela igreja se faziam, veio um dia a ela; e ou por experimentar ou por zombar, deitou água benta em uma can- deia que estava quási apagada, dizendo que queria ver se Deus fazia milagre: porém vendo que a candeia, em vez de se apagar, se ia acendendo nela mais o fogo, sobrevieram muitos cristãos e fizeram a mesma experiência; e estiveram grande parte da noite admirados e louvando a Deus, não se fartando de ver como o fogo ardia na água. CAPÍTULO XII Das coisas que passaram no colégio de Ceilão e suas residências PÒSTO-QUE a ilha de Ceilão, que é aquela a que os antigos chamaram Taprobana, não está ainda de todo conquistada, está porém em têrmos que com qualquer socorro de gente que se mande ao capitão geraU D. Jerónimo d'Azevedo, se acabará de sujeitar o que fica, que é o reino de Cândia. Nela tem a Companhia o colégio de Columbo, ao qual estão sujeitas três residências, que são Cailor, Chilau e Cardiva, nas quais e no colégio há dez da Companhia. O colégio está na cidade de Columbo, onde com os moradores e gente da terra se faz muito fruto. As residências teem a si anexas oito igre- jas, que os padres visitam e curam; e como os três padres que nelas residem sabem já a língua da terra, tem-se feito muito na conversão dos gentios, e cada vez se vai fazendo mais; e com isto se vão aquietando os naturais desta ilha • fi. itó. para se não rebelarem nem levantarem. O padre que está em Chilau, * como é obreiro antigo, versado na conversão dos gentios, e de muita mansidão e cari- dade, de tal maneira cativou os ânimos de todo aquele povo gentílico, que muito número deles pediram a água do santo baptismo. Mas por alguns respeitos, pareceu dilatar-se-lhes para outro tempo; e também porque se julgou por mais acertado começar primeiro pelas cabeças. E assim baptizou cinco Patan- gatins principais e governadores do povo; e para que o baptismo fosse mais solene, se ordenou que se fizesse em Maluana, que é a estância e povoação onde reside o general com seu exército, e em dia de nossa Senhora da Vitória, que o capitão general celebra com muita festa, e no qual são obrigados todos os que obedecem em tôda a ilha a virem presentar-se com seus presentes em reconhecimento de vassalagem; o que se fêz com grande gosto do capitão e mais cristãos que foram seus padrinhos, e honra dos baptizados, a quem o general fêz mercês e concedeu favores e privilégios, para que isto provocasse a
  • Das coisas de Ceilão 345 inveja aos mais gentios e fosse motivo para seguirem seu exemplo. Está de- fronte de Chilao, e uma milha pela terra dentro, um pagode antigamente mui célebre e mui rico, porque lhe pertenciam cento e seis aldeias, e era mui vene- rado dos gentios, por se persuadirem que ali nascera aquele deus da terra, a quem eles adoravam, o qual era uma pedra como mármore, de altura de um homem, sobre outra mais larga e quadrada, a que êles chamam Cinguão. Este pagode deu o capitão geral aos padres, os quais nele acomodaram uma igreja do Apóstolo S. Paulo, arrancando primeiro a pedra que os seus brâmenes diziam que era impossível, pois ali nascera, e que haviam de vir grandes males a quem nela bulisse. Porém não tardou mais arrancá-la que emquanto foram buscar à fortaleza duas * alavancas, com que logo deram com o ídolo em terra, «fi. 118*. conhecendo todos a falsidade de suas histórias, e os enganos em que os seus brâmenes os traziam enredados. Cardiva é uma ilha entre Chilao e Putalão, agora por causa das guerras quási deserta. Pediu o capitão geral que se mandasse ali um padre para ajun- tar os fugitivos e assegurar aos que ainda ali estavam. Bastou só a fama da vinda do padre para todos se alegrarem, e logo começarem a tornar a povoar; e quando êle veio, o receberam com grande festa; é verdade que mais se pode cuidar que mais por se verem seguros que por afeição que lhe tivessem. Fêz o padre em diversas partes três igrejas, ajuntou alguns cristãos que ali havia, começou a catequizar outros, para em seu tempo colher o fruto que esta semen- teira lhe promete. Outro padre anda sempre no exército com o capitão geral, que estima muito ter sempre os nossos consigo, assim para lhe doutrinar sua família, como para ajudar os soldados, no que tem feito muito serviço a nosso Senhor, porque todos se confessaram, dando-lhes exemplo seu capitão geral. Muitos se baptizaram, e entre êles quatro mancebos principais e filhos de régu- los; um filho de El-Rei das sete corlas(i), os quais todos andam na escola do padre para serem melhor instruídos nas coisas da fé. Êste ano mandou o (capitão) geral um esquadrão de soldados nossos, com quatro ou cinco mil Chingalás, que deram uma volta à ilha, castigando os rebeldes; e chegando além do rio de Trincanamale, que é mui grande, levavam ordem que dessem um castigo na gente de um capitão que ali estava. Porém fugindo todos, não puderam tomar mais que duzentas pessoas, homens, mulheres e meninos, * aos «fi. u9v. quais todos juntos em um campo mandou matar Simão Correia, capitão Chin- galá. Advertiu nisto um capitão português, e porque havia ali muitos meninos inocentes nos braços das mães, e êle para a vida corporal lhes não podia ser bom, lhes quis dar a espiritual baptizando-os primeiro a todos; e depois disso os degolaram. (1) Gorlas equivalem a concelhos, em que se dividem os distritos ou dissavas. (Nota da a.* edição). 44
  • LIVRO TERCEIRO DA PROVÍNCIA DO NORTE CAPÍTULO PRIMEIRO Das coisas de Goa GOA cabeça da província que chamamos do Norte, em dis- tinção da de Cochim que chamamos do Sul. Há nela oito casas e colégios da Companhia que são: a casa professa de Goa, (o) colégio de S. Paulo, a casa do noviciado na mesma cidade, a casa de Chaúl, a casa de Diu, os colégios de Sal- sete, Taná, Baçaim, Damão. Estão anexas a esta província a missão do Preste João da Etiópia, e a dos reinos do grao Moeor. Há em todas estas casas passante de duzentos e cincoenta da Com- panhia Porém antes que entremos na relação do fruto que nesta província se faz é bem que digamos do sucesso que tiveram * em suas viagens alguns nos- .n.,29v sos' que dêste reino foram, de que até agora se não escreveu nada, por faltarem as cartas ânuas ordinárias de três ou quatro anos. . No de 604, foram na nau e companhia do Vizo-Rei D. Martim Afonso de Castro, doze padres e irmãos; e porque invernaram em Moçambique, pai tiram no tempo da monção em uma naveta, a qual indo junto de Querimba deu em uns baixos que se chamam de Pinda, vinte e duas léguas de Moçambique, pela mesma costa adiante para a índia, e que tem duas léguas de comprido para o mar alto. No mesmo ponto se partiu pelo meio a naveta, desfazendo-se toda em pedaços. Os nossos se confessaram logo todos para morrer, como também os mais com a brevidade possível; porque humanamente falando nenhuma espe- rança havia de salvação, senão à força de braço, e ainda esta com dificuldade por'não aparecer a terra e ser de noite. Fizeram de tábuas algumas jangadas, amarrando-se o melhor que puderam para delas ajudados se salvarem. Ato- garam-se como quinze portugueses e muitos outros naturais da terra. Mas quis nosso Senhor que os padres todos escapassem com vida, parte nadando, parte andando onde a água o sofria; e o dia seguinte, uns à tarde e outros já depois do sol pôsto, com muito trabalho e perigo de suas vidas, saíram todos em terra da mesma costa, quási despidos e mui maltratados assim do coral, que era muito naquela paragem, como de um certo género de folhas que andavam no mar, que cortavam por eles como se fôssem navalhas; e também das mesmas tábuas e paus da naveta, que com o ímpeto das ondas, enchentes e vasantes
  • i ^48 Das coisas de Goa de marés davam nêles; porém mui consolados e animados por se verem com S. Paulo padecer naufrágios e andar uma noite e um dia no profundo do mar por • fi. .3o. amor de * Cristo e por seu Evangelho. Postos já em terra começaram a cami- nhar para uma povoação de moiros, caminho de dez léguas, nas quais gastaram três dias, padecendo muita fome e trabalho, e sobretudo a força do sol que os crestou de maneira que lhes fazia sair a pele. Aqui acharam um português que os agasalhou e reparou, e em uma embarcação sua os levou a Moçambique, onde lhes fizeram muitas caridades e esmolas de vestido e outras coisas de que tinham bem necessidade, e daí se embarcaram para a índia onde chegaram a salvamento. No ano de 607 foram outros oito na nau e companhia de D. Jerónimo Coutinho capitão mor, na qual fizeram muito grande serviço de Deus, como sempre costumam em semelhantes viagens; e chegando a Moçambique, além dos trabalhos que tinham passado na viagem até ali, que não foram pequenos, lhes não faltaram também outros com a muita gente que ali adoeceu, a quem eles acudiam; abrangendo-lhes também a morte de um dos companheiros que muito sentiram, por ser mancebo de muitas prendas e esperanças. Acrescentou o trabalho acharem toda aquela terra abrasada e assolada pelos herejes e piratas holandeses, que nela estiveram por muitos dias, tendo de cêrco aquela fortaleza; por onde a terra estava em suma miséria e pobreza de tôdas as coisas. Pre- tenderam estes herejes tomar esta fortaleza, e para isso foi de Holanda uma armada de três naus. Destas chegaram a Moçambique oito, entraram a barra e o rio, sairam em terra, derrubaram as igrejas e mosteiro de S. Domingos, e fizeram gravíssimos desacatos e desonras às imagens e crucifixos, como inimigos da fé e religião católica. Estiveram quási dois meses sobre a nossa fortaleza; a qual, ainda que estava tão desprovida de tudo e sem gente de peleja, pois não tinha mais que trinta homens que o pudessem fazer, munições poucas, a • fl i3o r. * artilharia quási tôda desencarretada, e sem haver mais que um só bombar- deiro, e ainda esse pouco destro, contudo ajudados de Deus, êsses poucos se houveram com tanto esforço e valor, que ainda que os inimigos chegaram a picar o muro por baixo, de um modo de mina e mantas de madeira, os nossos, com artifícios de fogo que de cima lhes lançaram, lhes desmancharam e abra- saram tôda a sua máquina; e assim lhes mataram mais de duzentos homens, com alguns assaltos que também de noite lhes fizeram, saindo da fortaleza! Pelo que os inimigos, desesperados de alcançarem seu intento, houveram por melhor partido seu desistirem do cêrco; e depois de queimarem a povoação e destruírem tôda a ilha, se tornaram a embarcar em suas naus para irem inver- nar e refazer-se às ilhas do Cômoro. Mas não saíram da barra tanto a seu salvo, que com a artilharia da fortaleza lhes não metessem no fundo uma de suas naus, deixando também em terra a melhor e maior peça de artilharia que traziam e com que batiam a fortaleza. Saídos êles do porto, entrou pouco depois nêle o capitão mor D. Jerónimo Coutinho com as três naus de sua esquadra, cuja vinda e estada por três meses naquele pôrto, foi a vida e único remédio, para diante, daquela fortaleza, pelo muito que fêz na fortificação e segurança dela; mandando encarretar tôda a artilharia, dispondo-a em lugares acomodados, melhor do que dantes estava, para poder varejar as naus dos inimi-
  • Das coisas de Goa 349 gos que no porto quiserem entrar, provendo-a de muitas munições e de bom- bardeiros e de soldadesca necessária para a competente defensão de tão impor- tante praça. Ali se ocuparam os padres que iam com êle em curar os doentes das naus, que foram muitos, e nos mais exercícios e * ofícios de sua profissão. »fi. i3i. Ao tempo que estavam já para se partir para a índia, eis que tornam outra vez das ilhas de Cômoro, onde se foram invernar, as naus holandesas, com intento de tornarem a provar ventura na tomada da fortaleza que tanto desejavam; mas vendo as nossas três naus no porto, não ousaram a entrar, ficando-se de fora da barra, e tendo-as como em cerco ou esperando que saissem. E posto- -que o nosso capitão mor quisera sair com as mais naus a pelejar com eles, havendo todavia sôbre isso muitos conselhos, pareceu o mais acertado não arriscar tanto, e assim se deixou estar até que eles, vendo que se passava a monção de fazer sua viagem, deram à vela. O mesmo quiseram fazer os nos- sos dois ou três dias depois; mas ao sair tocou a nau S. brancisco e ficou-se aí à costa; pelo que foi necessário gastarem-se mais alguns dias para se poder descarregar tudo o que levava, e acomodar assim a fazenda como a gente nas outras duas naus; as quais se partiram sem monção por ser já o tempo dela passado. Mas Deus com muita bonança os levou a salvamento a Goa, à vista da qual poucos dias depois chegaram também as naus holandesas, e estiveram muitos dias à bôca da barra, tomando perto dela um galeão do reino da segunda esquadra, mas por ir dar em uns baixos onde ficou. Esteve sempre o nosso capitão mor D. Jerónimo Coutinho na sua nau à vista deles, com determinação de pelejar se êles o acometessem, pôsto-que nao faltaram conselhos diferentes; e para assim êle como a mais gente se confessarem e aparelharem para seme- lhante perigo que era mui grande e evidente, mandou pedir um padre ao colégio de S. Paulo, que sempre teve consigo. Mas os inimigos, ainda que deram por vezes significação de querer pelejar, houveram contudo por melhor conselho #pi. i3it. passar avante, e ir buscar antes presas que peloiros. Como esta província de Goa é a principal das que a Companhia tem no Oriente, e como o seminário de tôdas as outras partes em que ela anda ocupada na prègação do Evangelho, todos os anos saem dela para as outras muitos reli- giosos, e o céu leva também os seus de ordinário, que foram nestes quatro anos perto de quarenta; e entre êles pessoas mui eminentes e dos mais principais que a Companhia tinha na índia, assim em virtude e santidade, como em auto- ridade de letras e govêrno. E ainda que as mortes de todos com muita razão se podem chamar preciosas diante de Deus, pela muita edificação e exemplo que deram nelas assim como o tinham dado na vida, particularmente o foi a de um irmão nosso, por nome Vicente Álvares, que com glorioso martírio glori- ficou a Deus nosso Senhor, e alcançou a feliz sorte que os da Companhia vão buscar à índia. Era êste irmão natural da vila de Ferreira do Arcebispado de Évora, de vinte e sete anos de idade e onze de religião, na qual entrou em Coimbra, onde alcançou ser mandado à índia, procedendo sempre com muita edificacão e exemplo. Sucedeu que vindo de Baçaím com outro padre, para Goa, o tomaram perto de Dabul, com outros portugueses que com êles vinham, os moiros malabares. E porque os portugueses se quiseram resgatar, os moiros se foram com êles a Dabul, cidade do Hidalcao, onde reside sempre um feitor
  • 35o Das coisas de Goa de sua Majestade. Neste caminho iam os moiros sempre dizendo que dos cacizes, que eram os padres, não queriam resgate, senão cortar-lhes as cabeças e lançá-los ao mar, pois eram tão grandes inimigos de Mafamede. E com este ódio lhes davam muitas vezes palmadas nas coroas, e no demais os tratavam com notável crueldade, o que não faziam aos outros cativos. Perto de Dabul se meteram em um rio, e dali mandou o capitão moiro o padre com alguns dos «fi. i32. portugueses * que fôssem à cidade negociar o resgate. Apontou o moiro pri- meiro para a ida no irmão; mas ele lhe pediu que deixasse ir antes o padre, dando-lhe como razão que, pois era sacerdote, acabaria de negociar o resgate mais de-pressa. Mas aos portugueses disse que pelo padre ser mais fraco, era necessário livrá-lo mais de-pressa do cruel e malíssimo tratamento que os moiros lhe davam; efeito bem manifesto da grande caridade de quem Deus tinha pre- destinado para tanta glória. Partidos os que foram ao resgate, emquanto lá andavam sobre o negociar, chegou uma sexta feira, na qual os moiros celebra- vam uma solene festa do seu Alcorão; e para mais a solenizarem, principal- mente com o sacrifício de algum cristão, vieram os moradores da terra, que eram da mesma seita, a visitar o capitão malabar com um presente, festejando- -lhe sua presa, e pedindo-lhe, pois tinha tantos em seu poder, sacrificasse um em dia tão solene. Pouco foi necessário para o persuadir. Mandou logo atar as mãos ao bom irmão Vicente Alvares; o que vendo os portugueses se com- padeciam muito, e ofereciam aos moiros muito maior resgate por êle, fazendo-lhe grande instância que o não matassem. Porém quanto mais instavam, tanto mais o bom irmão lhes rogava não tratassem de o livrar, nem de lhe impedir tamanho bem; nem também o moiro dava pelo oferecimento que lhe faziam, mas antes assim êle como os seus soldados se alvoroçaram cada vez mais por ver o sacrifício posto por obra. Mas porque era ainda muito de dia e êles o queriam sacrificar à boca da noite, o desamarraram até ela chegar. Então o tornaram a atar e Ievaram-no para a proa do navio para nela o degolarem. Foi tão grande a alegria que se viu naquele bom irmão, por se ver assim levar atado daquela maneira a padecer e derramar seu sangue por Cristo, que os »Ki. 132 v. portugueses estavam pasmados, * julgando aquilo por coisa do céu. Andou o servo de Deus aqueles últimos passos com muita paz e quietação e inteireza de ânimo, indo rezando com muita devoção o salmo Miserere mei, Deus, até que chegando à proa do navio se pôs de joelhos, e pedindo aos mais cativos que o encomendassem a Deus, inclinou a cabeça dizendo: «Jesus, havei misericórdia com minha alma»; e logo um moiro lhe cortou a cabeça, saltando o sangue até ao gamote do navio. Levantaram logo os moiros uma grita mui grande, com grande alegria e festa, chamando pelo seu maldito Mafamede; e prostrados todos de bruços lhe ofereceram aquele sacrifício; do qual os moiros da terra com outro presente lhe tornaram a vir dar as graças. Assim acabou o santo mártir, cujo corpo foi lançado no mar, e por nenhuma via depois pôde ser achado. Pôsto-que a casa professa de Goa se empregue tôda nos ordinários ofícios e exercícios que a Companhia costuma fazer em bem espiritual e temporal do próximo, de que por ser coisa ordinária não tratamos, não é menos o que o colégio nisto também faz, além do exercício das letras, que é o principal em que
  • Das coisas de Goa 351 se ocupa, e principalmente na educação dos estudantes que tem a seu cargo, assim da Confraria da Anunciada e colégio que chamam de Santà Fé, como também na conversão dos gentios. E não é bem passarmos em silencio o raro exemplo da vida e morte de dois meninos, um mártir e outro confessor, que • neste colégio e estudo se criaram. Chamava-se o mártir João Manuel; seria de idade de dezassete para dezóito anos, era irmão da Confraria, e por ser natural de Diu lhe foi necessário ir lá. Para o que se meteu em um navio ligeiro, para, logo que negociasse o a que ia, se tornar, para ser recebido no seminário dêste colégio, * onde desejava estar retirado, fora de ocasiões e com«Fi. i3J. mais comodidades para seus estudos. Indo já perto de Diu, foi o navio tomado de moiros malabares, cruéis corsários e grandes inimigos do nome de Cristo, e por isso também dos portugueses. O bom menino, desejoso do martírio e vendo-se com tão boa ocasião dêle, começou na língua da terra, que muito bem sabia, a prègar aos moiros e dizer-lhes muitos males de Mafamede, e as gran- des penas que haviam de ter no inferno se se não convertiam à lei de Cristo; com o que eles indignados o mataram logo, perdoando a vida a todos os mais, que depois foram resgatados; e assim o santo menino em lugar do seminário da terra em que queria entrar, coroado com glorioso martírio entrou no colégio celestial dos bemaventurados. O confessor foi outro menino, por nome Lourenço Soares, e português de nação. Êste, mortos seus pais que eram nobres, vendo-se órfão e conhecendo os perigos do mundo, pela doutrina que em nossas escolas tinha recebido, pediu com muita eficácia aos padres o quisessem recolher no seminário, valendo-se para isso do Vizo-Rei e Arcebispo, dos quais seu pai era bem conhecido. Suce- deu que estando êstes dois senhores na igreja de S. Paulo, o menino lhes tornou a pedir o mesmo com muitas lágrimas; os quais, tomando-o pela mão, o entre- garam logo ao padre Visitador. Feito colegial, começou de viver com muita perfeição; confessava-se e comungava cada semana, tinha cada dia sua oração e exame, e muitas vezes depois dos outros recolhidos se deixava ficar diante de nossa Senhora no oratório por algum espaço de tempo. Jejuava todas as sextas feiras e sabados, e sentia muito quando os confessores por alguma causa lho impediam; a comunhão era de ordinário acompanhada de muitas lágrimas, * e »Fi.i33t. depois tinha grande espaço de recolhimento. Era mui circunspecto e atentado no falar; e achando-se em prática donde não podia tirar proveito espiritual, se recolhia e afastava. A nenhum respondia com cólera, mas tudo o que lhe faziam sofria com paciência. Preguntando-lhe uma vez o Arcebispo se havia mister alguma coisa, respondeu que a mercê que queria de sua Senhoria Ilus- tríssima, era que, quando se visse com os padres, lhes desse os agradecimentos de o criarem e terem em sua casa, que esta era a mor mercê que lhe podia fazer; e isto pedia porque ouvira dizer quanto desagradava a Deus a ingratidão. Cada semana tomava sua disciplina e cilício e fazia outras penitências. Rezava cada dia as Horas de nossa Senhora, e fazia-lhe outras particulares devoções; tinha grande compaixão dos pobres, e quando se encontrava com êles, lhes dava quanto tinha; e quando não tinha que lhes dar, punha-se de joelhos e rezava três vezes o Pater noster e Ave Maria e persuadia aos companheiros que fizes- sem o mesmo, e ao pobre pedia perdão por não ter que lhe dar. Encontran-
  • 352 Das coisas de Goa do-se uma vez com um muito chagado, tendo dele grande compaixão, depois de rezar algumas orações, lhe deu o lenço que trazia, pedindo-lhe perdão por não ter outra coisa. Vivendo êste menino desta maneira com grande pureza de vida e exemplo que dava aos outros, sucedeu adoecer; e na doença se en- xergou mais sua inocência, e o muito que Deus lhe tinha comunicado. Em adoecendo, vendo que ia piorando, não esperou que o avisassem para morrer, mas êle mesmo o entendeu e disse antes que os médicos o desenganassem. Começou de se aparelhar com frequentes confissões e comunhões, com muitos colóquios que fazia a nossa Senhora e a um crucifixo que tinha diante. Por muito fraco e fora de si que estivesse, nunca sofreu que o descobrissem nem • fi. 134. tirassem fora da cama * estando alguém presente. Quando o físico o visitava, ordinàriamente saía chorando de pura devoção, vendo as palavras tão conformes com a vontade de Deus que aquele menino dizia e o modo com que tratava o negócio de sua alma. Pedia muito eficazmente que sempre lhe lembrassem os nomes santíssimos de Jesus (e) Maria, ainda que êle não desse acordo. Estando em passamento, em um têrmo que teve se turbou rijamente, e fazendo-se força deu duas figas para a parede, tornando depois com um semblante tão alegre que parecia gozar já dos prazeres eternos. Preguntando-lhe que vira, respondeu que o diabo, mas que depois vira aos Anjos e Cristo nosso Senhor e a Virgem nossa Senhora no meio dêles. E com estas práticas e divinos colóquios foi con- tinuando, até que fazendo outro têrmo, aquela alma pura e limpa se foi gozar de seu Criador, qui abscondit haec a sapientibus et prudentibus et revelat ea parvulis (1). Com a morte dêste santo menino houve grande mudança nos colegiais e em seus costumes; e determinando-se todos os da Congregação de imitar suas virtudes, se ajuntaram com o padre que dela tem cuidado, e por espaço de uma hora tiveram umas conferências das que nele mais resplande- ciam; e entre outras muitas se notaram as que aqui apontámos. Como na igreja dêste colégio está sepultado o corpo do Beato Padre Mes- tre Francisco, é mui grande o concurso da gente a êle, pela muita devoção que lhe teern, e milagres que continuamente faz. Pelo que no Concílio Oriental que em um dêstes anos se fêz na cidade de Goa, em que se juntaram com o metropolitano os sufragâneos de Cochim, Cranganor, Malaca, China, e o padre «fi. 134*. Francisco Cabral, da Companhia, procurador do Japão, se * decretou que por uma epístola sinodal que todos aqueles prelados escreveram a Sua Santidade, lhe pedissem com muito afecto a canonização dêste B. Padre, assim por seus milagres contínuos que faz, como por outras obrigações que todos os daquele Oriente lhe teem, como a patrono e apóstolo seu, e primeiro prègador universal do Evangelho em aquelas partes. A casa dos noviços que nesta cidade também tem a Companhia se começou a edificar no ano de 604; e com as esmolas de muitas pessoas devotas, e prin- cipalmente com os favores do Vizo-Rei e Arcebispo, se pôs nestes três ou quatro anos em têrmos que podem já viver nela os nossos, como vivem passante de quarenta, que se vão criando para obreiros daquela grande vinha do Oriente. (1) Que oculta estas coisas aos sábios e prudentes (do mundo) e as revela aos pequeni- nos. (N. da a.* edição).
  • Das coisas de Goa 353 Entre os que nesta casa entraram de novo na Companhia no ano de 607, foi um dêles um menino de catorze anos, ao qual Deus chamou à religião por um meio e caso bem notável. Viera este menino do reino com seu pai, e tornando-se para ele, sucedeu que por desastre caiu da nau ao mar; e como a nau ia com bom vento, em brevíssimo tempo ficou tanto por pôpa, que nunca se pôde ajudar nem lançar mão dos cabos e barris e outras coisas que para isso lhe lançaram da nau. As ondas eram grandes, o mar grosso, o vento esperto, a nau com as velas dadas; perderam o menino de vista; e com êle saber muito mal nadar e ir calçado e vestido com vestidos dobrados e de pano de lã, que o levavam ao fundo, nunca contudo perdeu o ânimo; mas levantando as mãos ao céu, cha- mava fortemente por nossa Senhora e outros santos, repetindo muitas vezes os nomes santíssimos de Jesus, Maria. Três horas andou nêste conflito, e no cabo delas, tendo bebido muita água andava já quási sem fôlego nem alento e meio afogado. Lançaram nêste tempo ao mar uma embarcação * pequena, e nela »fi. 135. três homens remando que o foram buscar; iam bradando por êle sem o verem, porque andava já todo debaixo das ondas. Mas tornando acima, quis Deus que foi dar com a cabeça no batel, e lançando o braço fora pegou nele, bradando por nossa Senhora e dizendo: Virgem, quem me acode! Pegaram logo dêle os do batel, e metendo-o dentro o levaram para a nau; onde depois de lançar pela bôca muita água que bebera, tornou em si, e arribando a nau a Goa, pediu com muita instância ser recebido na Companhia, aonde seu próprio pai o trouxe e entregou ao mestre dos noviços, oferecendo-o de mui boa vontade a Deus que a segunda vez lho deu, livrando-o de um perigo tão evidente. O fruto que por estes três ou quatro anos saiu de todas estas três casas que a Companhia tem em Goa, assim nos cristãos já antigos, como nos que de novo se converteram, foi pela bondade de Deus tão copioso, que, se por extenso se houvera de referir tudo, fizera uma relação mui comprida. Pelo que não faremos mais que ir tocando brevemente algumas coisas mais notáveis, deixando as mais comuns e ordinárias. Baptizaram-se por todos estes quatro anos nesta cidade passante de seis mil pessoas. Entre êstes houve muitos em quem Deus mostrou admiràvelmente os efeitos da sua divina predestinação e secretos juízos, como se viu em muitos meninos e crianças que desamparadas dos pais e das mães, por vários meios vinham ter à notícia e mãos dos padres, que, baptizados, os mandavam para o céu; e como se viu também em alguns gentios havendo de morrer por justiça, que ao pé da forca se convertiam, e dela se iam para o paraíso. Entre êstes foi mui notável a conversão de um príncipe * moiro, a quem direitamente pertencia «fi. i35t. o reino de Ormuz; e por lho ter usurpado um seu irmão bastardo e êle ser vassalo de El-Rei de Portugal, viera à corte de Goa requerer sua justiça, pela qual esperava adquirir seu reino; mas por graves culpas em que foi compre- endido foi condenado à morte. Da qual sendo-lhe notificada a sentença, foi ter com êle um padre da casa professa para lhe tratar da salvação de sua alma, pois para a vida do corpo já não havia remédio. Ficou com as razões que o padre lhe deu e impulso do Espírito Santo não pouco abalado. E como tinha bom entendimento, quis considerar melhor o que sentia que lhe ia lavrando na alma; e porque já era tarde, pediu ao padre que tornasse ao outro dia pela 45
  • 354 Das coisas de Goa manhã. Tornado, com firme resolução lhe pediu o santo baptismo, porque em seu coração lhe inspirava Deus que assim o fizesse, se se queria salvar. Alegre o padre com esta resposta, procurou encarecer-lhe com palavras e razões a felicíssima sorte que escolhera, e quão incomparàvelmente avantajada à do reino temporal que pretendia e esperava alcançar. Negociou logo o padre com o governador e justiças de El-Rei três dias de espaço para ser catequizado, em os quais, de dia e de noite os nossos padres sempre alternados estiveram com êle, catequizando-o e instruíndo-o nas coisas da fé, das quais êle se mostrava mui satisfeito, repetindo muitas vezes que por nenhum humano respeito nem esperança desta vida se fazia cristão, pois sabia muito bem quão certa estava a sua morte, senão só por amor de Deus e de sua salvação, e que disto cada vez mais lhe cresciam os desejos que em sua alma sentia. Chegou o dia da execução da sentença. Saindo do cárcere deu com os olhos em um crucifixo com que a Misericórdia o foi acompanhar, diante do qual se prostrou de joelhos, e com muita contrição pediu perdão de todos seus pecados. Ianvno acompa- •fi. i36. nhando o padre prepósito com outros * quatro padres e alguns outros reli- giosos, consolando-o e animando-o a sofrer uma afronta tão notável como aquela era para sua real pessoa. Chegados ao lugar em que havia de padecer, o baptizou o padre prepósito com muita solenidade, pondo-lhe por nome D. Se- bastião, e fazendo-lhe primeiro todas as requisitas preguntas a que êle respondeu com afecto e devoção. Recebido o baptismo com muita consolação sua, des- pediu-se de todos abraçando muitos religiosos. Fêz uma lembrança em que pediu a sua mulher e filhos se quisessem fazer cristãos. E mostrando em tudo seu real ânimo e varonil esforço, êle mesmo sem nenhum pavor concertou o pescoço para o degolarem, e recebeu a morte, não como quem a temia, mas como quem a desejava para ir gozar de seu Criador; e assim com muitos sinais de sua predestinação, pôsto-que não alcançou o reino da terra que pretendia havia cinco ou seis anos, num momento alcançou o dos céus para eternamente o possuir. Entre os muitos serviços que os nossos fizeram a Deus em uma armada do Malabar em que foram um dêstes anos, como sempre costumam, foi um que, estando nossa armada cm Calecut, andava naquela cidade um bom cristão, o qual havja dez anos que se tornara moiro, e vivia ali casado, com mulher e filhos. Este, chegando ali os nossos, foi Deus servido que lhe chegou também a luz do céu que o alumiou de maneira, que logo se resolveu a deixar o êrro e a terra em que vivia, ainda que os filhos lhe faziam muita guerra, não podendo acabar consigo deixá-los, e vendo que trazê-los era impossível, porque eram quatro, e seria sentido e impedido, e ainda castigado. Estando neste enleio foi ter com os padres, aos quais disse o que passava. Os padres o agasalharam e encaminharam a que se embarcasse de noite por não ser sentido, e que levasse • fi. i36 t. consigo * algum dos filhos, já que todos não podia sem que a mãe moira o soubesse e amotinasse tôda a terra. Fê-lo assim; e à bôca da noite toma uma filhinha no colo e vai demandar os padres que residem em Calecut, com os quais estavam também os dois que vinham na armada, que parece Deus levou ali para tirar aquelas duas almas de Ur Chaldaeorun. Tomam-nos os dois padres à sua conta; e à meia noite com grande silêncio se foram embarcar e
  • Das coisas de Goa 355 meter na galé. Ao dia seguinte sabendo a moira o que passava, se vai à galé como uma leoa, e enchendo tudo de alaridos e gritos, pede seu marido. Ven- do-a tal o capitão mor, sem que os padres o soubessem, manda-lho vir junta- mente com a filha. Chegando arremete a eles tôda descabelada, levantando gri- tos e dizendo mil lástimas, ferram-se a filha e a mãe, sem haver quem as apar- tasse. Vai um soldado avisar o padre do que passava. Acode logo estranhando ao capitão a licença que lhe dera, assim para entrar na galé como para ver o marido; o qual pôsto-que se ia já algum tanto enternecendo, chegando o padre, se livrou da mulher e a deixou chorando mil lágrimas, e da mesma maneira a menina. A moira, por mais que o padre lhe disse que acompanhasse o marido e se fizesse cristã, nunca respondeu a propósito, antes assanhada como uma ursa contra quem lhe tirara o marido e a filha dos braços, se foi deitando mil pragas; e ao marido, depois de reconciliado, se buscou remédio de vida. * CAPÍTULO II 37- Do que se fê\ nas terras de Salseíe NESTAS terras de Salsete faz a Companhia muito grande serviço a Deus, e ainda a sua Majestade e ao Estado, com ter à sua conta o assunto da cultivação e cura daquela cristandade, que é muito grande. Para isso há nela um colégio que até agora esteve em Margão, mas de pouco para cá se mudou para a fortaleza de Rachol, e se fundou dentro da cêrca e muro, para no tempo das guerras se recolherem ali os padres que estão espalhados por tôda a ilha, com as coisas das igrejas. Pertencem a este colégio todas as resi- dências desta cristandade dos de nossa Companhia que teem cuidado dela; e teem por obrigação os padres delas virem cada mês ao colégio a renovar-se em espírito com práticas e conferências espirituais e lição de suas regras, e também para tratarem as dúvidas e casos que a cada um se lhe oferecem em suas frè- guesias, e outras coisas que pertencem ao bem da cristandade. São os reli- giosos que a êste colégio pertencem ordinàriamente (em) número de trinta; dezassete sacerdotes e os mais irmãos. O número dos cristãos que teem a seu cargo são como quarenta e cinco mil almas, que ainda que moram divididos em mais de setenta aldeias ou povoações, as frèguesias e igrejas a que se reduzem são por todas catorze, de cada uma das quais tem cuidado um padre. E admi- rável o fruto que por tôdas estas frèguesias se colhe, e o serviço que se faz a nosso Senhor com êstes cristãos; porque, como os vigários que dêles teem cui- dado são todos religiosos da Companhia, escolhidos e virtuosos, e que não teem outro nenhum fim nem procuram outro interêsse de seus trabalhos, mais que ser- vir a Deus e salvar aquelas almas, nisso se desvelam de dia e de noite; e além disso todos sabem a língua da terra, pela qual lhes pregam e os confessam e ensi- nam a doutrina. E como também não sòmente lhes procuram o espiritual de suas almas, mas também o remédio * temporal de suas necessidades, que às vezes .fi.i37t. são muitas e muito grandes, e lhes acodem nas semrazões e maus tratamentos que lhes fazem os rendeiros que arrecadam os foros e alguns oficiais de El-Rei,
  • 356 Das coisas de Goa não se pode encarecer o muito que com isto se ajudam e aproveitam nos bons costumes cristãos e confirmam na fé e devoção e culto divino de acudir às igrejas, de celebrar as festas e frequentar os sacramentos e achar-se às missas e pregações. E para que se veja alguma coisa donde tudo isto se possa enten- der, referirei brevemente alguns exemplos. E será um dêles uma carta que um destes padres que teem cuidado destas frèguesias escreveu sôbre a sua a seu superior, a qual em substância diz assim: «Quinta feira de Endoenças comungaram na missa cento e oitenta e tantas pessoas, com tanta devoção que foi para mim de grande consolação. Acabada a missa, levei o Senhor ao sepulcro, o qual em se abrindo, e vendo um Senhor atado à columa, devotíssimo, com dois algozes que o estavam como açoitando, como a vista foi de súbito e que ninguém o esperava em Alurmugão, foi tão grande o abalo e pranto que se levantou, e com tanto movimento desta gente, que me não lembra ter visto coisa semelhante. No meio dêste pranto se ouviam palavras mui altas, ditas tanto de coração, e com tanta contrição e arrependimento, que confesso a vossa reverência me fazia quebrar o meu. E agora escrevendo esta, com me lembrar somente do que então vi, não posso ter as lágrimas. Durou este pranto um quarto de hora, e acabado o ofício, foram os cristãos com muita devoção correr tôdas as ciuzes que há por todos estes montes e bairros e capelas da doutrina, e era coisa para se ver a multidão dêles e o grande número de disciplinantes que entre êles iam, que faziam muito movimento na gente. À tarde se fêz a • fi. i38. procissão com muita * devoção, e a festa de madrugada, concorrendo a gente à igreja, assim desta como das frèguesias vizinhas. Saí eu com um crucifixo que pus no meio da capela mor. Fizeram todos o mesmo com muitas lágrimas; o que acabado, lhes fiz uma prática do descendimento da cruz, e depois dela saiu a procissão dos martírios; a qual vendo os cristãos, foi tão grande seu abalo de pranto e lágrimas que era coisa de grande admiração e glória de nosso Senhor. Vinha a cruz com o lençol ensanguentado, e as mais insígnias da Paixão, e depois o crucifixo com quatro tochas, detrás os que cantavam os hetis! e com êles as Marias e outros que cantavam o vos omnes qui transitisper viam. Chegando ao meio da igreja os meninos que levavam a cruz e as insí- gnias, cada um em voz alta declarava em língua canarim que martírio ou insí- gnia era aquela. O da cruz disse: «esta é a cruz em que o Filho de Deus foi crucificado por nossos pecados». O da lança disse: «esta é a lança com que se penetrou o peito do Filho de Deus estando na cruz por nossos pecados». E assim foram dizendo os mais, e a cada pregão dêstes se levantava um pranto com suspiros e lágrimas que quebrariam não digo eu corações de carne, mas de bronze e aço. Recolhida a procissão, se recolheu a gente sumamente consolada. Hoje sábado mandei armar a capela com quatro guadamecins que vieram de Goa, e com ramos, o melhor que pôde ser; em o arco da capela mor se pôs uma cortina que não deixava ver o de dentro; e feito isto, tendo na sacristia arequeiras, ramos, junco, mangericão e outras flores, estando a igreja cheia de gente, começámos as ladainhas; as quais acabadas, comecei a missa. Acabados os kyries, dizendo-se a Glória, foi coisa para ver que em um instante se armou a igreja de arequeiras, e a capela de ramos, junco, com as mais coisas que se • fi, i38 v. lançaram, e se cantou a Glória, tangeram-se os órgãos * com tôdas as mais
  • Das coisas de Goa 357 campainhas, e o sino que repicou da torre nova donde já está; isto com tanta alegria que parecia pulavam todos os que estavam na igreja com alegria. De tudo seja Deus louvado. Para àmanhã temos muitas invenções de fogo, e para ir na procissão temos um Cristo ressuscitado muito bem feito, de mais de quatro palmos, que há de ir em uma charola, e uma cruz muito bem concertada». Até aqui o padre; e daqui se pode conjecturar o que passaria em Rachol e Margão, onde os padres de Salsete se ajuntam naqueles dias, e teem para tudo melhor aparelho, e gente não menos devota. Na igreja da Madre de Deus se costuma dizer uma missa todos os sábados do ano, a que há admirável concurso e devoção de toda esta gente. E porque nos sábados da quaresma se junta a esta missa prègação da Paixão, com lhes mostrarem (em) cada uma um dos passos dela em vulto, que para isso estão feitos mui devotos, não se pode facilmente dizer, assim da multidão e número da gente que acode de duas (e) três léguas, como da devoção, movimento e lágrimas que ali se vêem nela; e por não poder a gente caber tôda de uma vez na igreja, se faz uma ramada grande na porta principal, onde o púl- pito se põe, para ouvirem os de fora e os de dentro; e é necessário dizei-se outra missa além da primeira, e no cabo dela tornar-se a repetir o que se tem dito na prègação, para ouvirem os que na primeira (o) não puderam fazer, e assim todos irem devotos e consolados. Na igreja de nossa Senhora do Rosário, que está em Navelim, há a mesma devoção, antes avantajada pela muita que todos os fiéis de tôdas estas terras de Salsete teem à invocação desta Senhora, à qual com muita eficácia se en- comendam em seus trabalhos, doenças e necessidades; * por onde nunca faltam • n. i3g- nela novenas e romarias; nem também da parte desta Senhora contínuas mercês que faz a estes fiéis, sarando-os milagròsamente em suas enfermidades, e acudindo-lhes em suas necessidades, de que se puderam contar grande número de milagres, se não fôra pela brevidade que nesta relação pretendemos. 1 elo que também passamos em silêncio por muitos e notáveis casos particulares que sucederam na conversão de muitos gentios destas mesmas terras de Salsete, em que Deus bem mostrou os efeitos de sua divina predestinação. Êste é o fruto que se colhe da ocupação e trabalho dos nossos nesta cris- tandade; e pelo amor e caridade paternal que tôda ela neles conhece lho cobram êles também tanto, e com tanta devoção e respeito que lhes teem, que de nenhum modo se atrevem a viver sem êles. E assim, tendo notícia de uma ordem que se intimou em Goa que as igrejas curadas por religiosos se entre, gassem a clérigos seculares, e da resposta que os padres deram, que nao obstante o serviço que a Deus e a Sua Majestade nelas faziam, estavam prestes para as largar, juntaram êles logo seu conselho geral entre si, e todos com mostras de muito sentimento, escreveram a Sua Santidade e a Sua Majestade e a nosso padre Geral, pedindo-lhes com muita eficácia não permitissem que os padres os desamparassem. E vendo os do lugar de Margão que o colégio se mudava para Rachol, se vieram todos ao padre provincial pedindo-lhe, e não poucos com as lágrimas nos olhos, pelo menos lhes deixasse naquela povoaçao alguma residência perpétua da Companhia, em que sempre estivessem pa res que os consolassem. O mesmo fizeram por outra vez na igreja tôdas suas mu-
  • 358 Das coisas de Goa lheres; e porque isto ficasse mais fácil, prometeram sustentar à sua conta o • fi. i?9r. hospital que nesta terra * nosso colégio sustenta, ficando o que nêle agora gas- tamos, para sustentação dos padres que naquela residência lhes ficassem. E para se ver o conceito e o conhecimento que esta gente tem do bem que lhe resulta de serem doutrinados e cultivados pelos padres, não quero passar por umas palavras que um, estando para morrer, e acabando de se confessar, disse a um padre sôbre esta matéria, as quais convertidas formalmente da sua lin- guagem na nossa, são as seguintes: «Padre meu, eu acabo esta vida; vossa reverência não canse de trabalhar e continuar como tem começado, que Deus verdadeiro é quem mandou a vossas reverências para remédio do corpo e da alma de nossa nação. E já que Deus a entregou a vossa reverência e aos mais padres, trazendo-os de tão longe para isso, nossas ingratidões não vos façam desistii, nem espereis de nós a paga senão de Deus. Lembrando-vos também que êle é o que nisso tem a maior parte, e sem êle não se fizera o que está feito. jQuem cuidou de ver o que hoje vemos em nossa nação! Emfim êste é o Deus e a lei verdadeira, que os pagodes e tudo o mais são necedades e ignorâncias de homens». CAPÍTULO III Missão do Mogor NAS terras e império do grão Mogor residem os padres, como noutras relações se tem dito, com casas e igrejas nas duas cidades principais do império, que são Lahor e Agra. O fruto da conversão é vagaroso, e vai pouco e pouco por o mato da moirama e paganismo ser muito bravo e mui dificultoso de romper. Porém nos poucos cristãos que se vão fazendo, é Deus muito glorificado; e assim em uma cidade como noutra os vão os padres cultivando nos exercícios e costumes cristãos, como em qualquer das outras • fi. .40. partes da cristandade com * não pequeno espanto dos mesmos infiéis, que se maravilham muito de ver o culto divino e o ornato das igrejas; e folgam de entrar nelas, e trazer suas ofertas à Virgem nossa Senhora, a quem tomam por advogada em suas necessidades e no que desejam alcançar de Deus; como fêz, entre outras, uma moira nobilíssima, mulher do Vizo-Rei de Lahor,'a qual veio à igreja visitar a Virgem nossa Senhora com uma boa oferta; e com muita devoção lhe fêz voto de a tornar a visitar com outra maior, se lhe alcançava emenda de um filho que tinha muito desinquieto e estragado. Outra, de muita autoridade, ouvindo as grandezas que Deus obrava pela imagem da Virgem, lhe tomou tamanha devoção, que fêz voto de a visitar com sua oferta, se lhe alcançava de Deus um filho que muito desejava. Foi ouvida da Mãe de Deus, e com o filho já nascido veio cumprir seu voto, e não se fartava de dar graças' à Virgem gloriosa pela mercê recebida. Um moiro honrado e principal, criado do príncipe, chegando-se uma vez ao padre estando no paço, lhe disse: «Eu estou em muita obrigação ao Senhor Jesus, porque me concedeu uma mercê que lhe pedi, que foi um filho que muito dese- java. Encomendei-me a êle, e uma noite em sonhos o vi com o rosto muito
  • Das coisas de Mogor 35g claro; c partindo uma maçã que trazia na mão, me deu a metade, que a comesse; a qual eu recebi com muita alegria, e logo desapareceu. Tive isto por muito bom prognóstico de minha petição; e assim o foi, porque dali a vinte ou trinta dias minha mulher se achou pejada. Tenho por certíssimo que o Senhor Jesus nos deu este filho, e como seu que é, lho hei de entregar quando nascer. E assim o fêz, porque em lhe nascendo, veio dar a nova ao padre, preguntando-lhe o que havia de fazer do menino. O padre lhe respondeu que o trouxesse à igreja, e entregasse a cujo era; ao que êle se mostrou pronto, pôsto-que os padres o não ficaram muito para o baptizar * logo, por não ficar • Fi. 140». tão seguro em poder de pais infiéis. Entre os que se baptizaram se baptizou um moiro grave, letrado, capitão, e juntamente físico do príncipe. Êste teve várias disputas com os padres, e emfim veio a querer ouvir sem replicar; e fêz tão bom conceito dos mistérios dificultosos de nossa santa fé, que se resolveu a receber o santo baptismo, o qual pediu com muita instância, e juntamente que fosse em segredo; porque, como havia de ir logo a sua terra, onde os seus parentes eram os que governa- vam, para êle os trazer ao santo baptismo como desejava, era necessário ir dissimulando com êles até seu tempo, sem se descobrir. Condescenderam os padres com êle, instruindo-o porém no modo com que havia de dissimular; que era não consentindo em coisa alguma nem fazendo acto exterior de infidelidade. Puseram-lhe nome Paulo; ficou contentíssimo, e logo ao dia seguinte trouxe consigo um grande seu amigo, a quem descobriu o que tinha feito e persuadiu que fizesse o mesmo. Era êste capitão de cem cavalos; praticou com os padres, e de tudo fêz tão bom entendimento, que pediu também o santo baptismo; mas não se lhe deu por então, até se desembaraçar de quatro mulheres que tinha. Ainda que os padres nestas partes são tão favorecidos do Rei e príncipe, não lhes faltaram porém algumas ocasiões de grande merecimento, e em que alguns dêles, que foram os que estão em Lahor, estiveram mui perto da coroa do martírio. Uma foi que vindo à igreja um moiro muito principal e natural do reino de Usber, sobrinho de Abdulá Xhá, governador dos reinos que foram do grão Tamerlão, ouvindo na prática que o padre lhe fêz acêrca das coisas de nossa santa fé, como Cristo Jesus era Filho verdadeiro de Deus eterno, * (o que .Fi.141- os moiros gravíssimamente sentem) um dos circunstantes que o acompanhava se levantou e levou do terçado, e por duas vezes o pos sobre a cabeça do padre, dando sinal de lha querer cortar, se não fôra pelos outros lho impedirem. Outro foi que estando praticando com o Vizo-Rei de Lahor, que se mos- trava muito amigo e favorecedor dos padres e das coisas de nossa santa lei, lhes veio a preguntar o que sentiam de Cristo Senhor nosso; ao que êles res- ponderam que o que sentiam e criam era ser verdadeiro Filho de Deus; quis êle desviar a prática e atalhar os padres que não fossem por diante. Mas insistindo êles na mesma confissão, e continuando em confirmar o que tinham dito, lhes disse o moiro que, se mais insistiam naquilo, lhes cortaria as cabeças. Ao que os padres lhe tornaram que, se disso fôsse servido, ali logo lhas ofere- ciam com muito gosto, porque não só diante dêles, mas de todo o universo, confessariam sempre e afirmariam aquela verdade, e por ela dariam mil vidas, se tantas tivessem. Era êste moiro sobre maneira zeloso da lei de Mafamede,
  • 36o Das coisas de Mogor e se tem por mais sábio nela que todos os presentes e passados; e os seus letrados e cacizes, por lhe ganharem a vontade, assim lho confessavam. Pelo que, quando viram a liberdade com que os padres lhe resistiam e contradiziam as coisas de Mafamede que êle afirmava, e lhes prègavam a divindade de Cristo, pasmavam todos e êle se comia com raiva, arrebentando em mil injúrias contra os padres, chamando-lhes de vagabundos e que andavam enganando as gentes. E por derradeiro lhes disse que estivessem em sua casa; e que se algum per- dido lá os fôsse buscar para ouvir as coisas da lei que prègavam, lhe dessem -•Fi.141*. a resposta que quisessem, mas que diante de * sua pessoa não falassem com aquela liberdade. Ao que responderam os padres, que não só em sua casa e às portas fechadas, mas no meio da cidade, pelas ruas e praças, e em todo o mundo haviam de prègar e dar a conhecer a verdade da lei que professavam e ensinavam, que para isso foram ali mandados. Ao que o moiro Vizo-Rei se calou, porque sabia que os padres tinham provisão de El Rei para pregarem a lei de Cristo e fazerem cristãos; e amainando da fúria tornou a tratar os padres com palavras brandas, e mostrar-lhes sinais de muita amizade; porém como era tão fino moiro, não tardou muito tempo que tornou a mostrar no exterior a má vontade que no interior lhes tinha; e passou a coisa desta maneira: Desejando alguns gentios, pelo aborrecimento grande que tinham à lei de Deus e aos padres que a prègavam, buscarem todos os meios que pudessem para os deitar e desterrar da terra, e sabendo o ódio secreto e má vontade que o Vizo-Rei moiro lhes tinha, determinaram, feito seu conselho, que por meio dele poderiam sair com seu intento. Deram-lhe um mui grande banquete em casa doutro gentio muito seu favorecido, e ali lhe ofereceram um rico presente, e juntamente um libelo infamatório contra os padres, no qual o menos que diziam era que comiam carne humana, furtavam os moços e os mandavam ven- der a terras de portugueses, que matavam a gente, e que por feitiços faziam deixar os homens sua lei e tornarem-se cristãos, como tinham feito a um gentio a quem nomeavam, e a grande número de moiros, nos quais moiros falaram em particular, por saberem a lançada que com isso davam ao Vizo-Rei, por quão zeloso era da sua nefanda seita, e com isto mais o açularem contra os -fi. 142. padres. Juntamente lhe pediram umas casas grandes * que El-Rei tinha dado aos mesmos padres, em as quais êles agasalhavam muita parte dos cristãos; e para lhas não negar, lhe ofereceram uma arrezoada soma de dinheiro, com outras muitas e boas peças. Começou logo o Vizo-Rei a pôr por obra o que desejava. Manda aos padres que despejassem as casas. Apresentam-lhe os papeis que tinham da doação que El-Rei lhes fizera delas; não se dá por satisfeito, senão que logo dentro em cinco dias as despejem. Fzeram-no logo os padres e antes do têrmo limitado, dizendo-lhe que com êle não haviam de ter contenda nem porfia alguma sobre coisa da terra, senão só pelo céu, e pela lei de Deus. Houveram os gentios que com êste sucesso tinham já a vitória na mão, e procurando ir adiante tratavam do destêrro dos padres, e de fazerem retroceder os cristãos; dava-lhes disso esperanças o moiro Vizo-Rei, ainda que de dia em dia lhas dilatava; mas para o obrigar a vir à execução do negócio, lhe oferece- ram outro solene banquete junto da igreja e casa dos padres, com um presente
  • Das coisas do Mogor 361 de grande soma de dinheiro, cavalos e outras peças ricas; âceitou ele tudo de boa vontade, e a traça que tinha era de dar bateria aos cristãos para que retro- cedessem, e tomar-lhes os meninos e moços de pouca idade; foram de tudo avisados os padres pelo Catual, que era o justiça mor, que sempre os defendeu, e teve por eles; o qual lhes aconselhou que escondessem os meninos e cristãos mais fracos em umas casas suas que para isso mui secretamente lhes ofereceu; assim o fizeram os padres, quando souberam o dia certo em que havia de vir sôbre eles. Neste tempo os cristãos mais adultos se mostraram mui animosos e desejosos de se verem em campo com o tirano, para mostrarem a firmeza de sua fé, e quão aparelhados estavam a dar a vida por ela, e nem um só se quis ausentar. O mesmo fizeram * os catecúmenos, dos quais encontrando os gen- *fi. 141 v. tios um que era ainda moço, arremeteram a ele dizendo que o haviam de levar diante do Vizo-Rei, porque queria ser cristão. Respondeu-lhes o moço com muita paz e serenidade: como todos vósoutros sois ignorantes, vamos embora diante dele, porque eu nenhum medo lhe tenho, nem êle me pode fazer força para eu deixar de tomar a lei que quiser, pois El-Rei assim o manda, e quere que se faça em seus reinos. Deixaram-no logo vendo-o tão confiado e porque esperavam que cedo todos os cristãos e padres seriam destruídos; assim o tinham escrito a várias partes a seus amigos e parentes, dizendo sôbre isso mil mentiras. Mas Deus que nunca falta na protecção e amparo que tem sôbre seus fiéis, lhes desfez tôdas suas traças e converteu seu gôsto em tristeza, porque no mesmo dia que tinham assinalado para dar sôbre os cristãos, que foi aos quinze de Setembro de 6o5, eis que estando eles mui alvoroçados para fazerem a sua com o poder e mão do Vizo-Rei, lhes entra pela porta um filho fugindo só e pela posta da guerra a que o pai o tinha mandado, deixando seu exército des- baratado, com morte de grande número de gente de pé e quatrocentos de cavalo. Ficaram os gentios pasmados, e com todo o cabedal que nisto tinham metido perdido; e o moiro Vizo-Rei, bem cheio de diferentes cuidados, se parte logo com tôda a pressa a acudir ao restante de seu exército, que ficava como rebanho sem pastor nas bôcas dos lôbos, e com tal sucesso ficou o rebanho de Cristo mui alegre triunfando do moiro e dos mais inimigos da fé, e com a mesma paz de que dantes gozava, não lhe faltando nela mais que tornarem a recuperar as casas que lhes tinham tomado. Para o qual os padres de Lahor escreveram * logo aos de Agra, onde estava a côrte, os quais por meio do prín- *fi. 143. cipe houveram de El-Rei um novo formão, ou provisão, conforme a minuta que os mesmos padres derain, o qual apresentado pelos padres de Lahor ao Vizo- Rei, juntamente com a portaria do príncipe, que é coisa que mui raramente se faz, o moiro o leu duas ou três vezes, e assim como o ia lendo, ia tirando os olhos do papel, e pondo-os nos padres com grande semblante de admiração, como quem se espantava do muito saber e valia que os padres tinham; e no mesmo ponto lhes mandou entregar as casas, e tudo o que se tivesse tomado aos cristãos. Não parou aqui a divina providência, senão que também quis mostrar seu juízo, e não tardar muito com êle sôbre o mesmo Vizo-Rei e alguns outros que foram principais autores da perseguição; porque a êste Vizo-Rei sucedeu que, 46
  • 362 Das coisas do Mogor além do desbarate do filho na guerra, lhe tomaram os inimigos uma cidade do Rei, e a saquearam e destruíram; e após isto lhe vieram logo novas que o prín- cipe vinha para o matar; pelo que se pôs em modo de resistir aparelhando a cidade para o combate; e chegou a ponto que nem dos próprios seus se fiava temendo que o entregassem. E sendo logo chamado de El-Rei por muitos recados, se viu em tanto apêrto que não sabia que conselho tomasse, até que por não ter outro remédio e com a morte diante dos olhos se foi apresentar a El-Rei, onde ainda que não morreu, contudo sem lhe valerem os grandes e ricos presentes que ofereceu a El-Rei, padeceu mui grandes abatimentos e afrontas. Dos gentios principais que foram cabeças do motim, e autores desta perse- guição, um dêles foi logo mandado prender pelo novo Vizo-Rei que sucedeu • fi. 143 v. ao * passado, e querendo êle resistir às justiças, o feriram mal, e o levaram a rastos pelos cabelos parte do caminho; e depois de estar preso foi por vezes açoitado, e lhe mandaram derrubar umas casas mui formosas, que êle tinha feito num chão, que por força, e com o favor do Vizo-Rei passado tomara a uns pobres homens, aos quais logo se mandou restituir. A outro morreu um só filho que tinha, e foi comido de cães. Outro foi compreendido, e condenado por ladrão. Finalmente o capitão, e movedor prin- cipal desta maldade, o qual por haver uma renda de El-Rei muito grossa deu de peita ao Vizo-Rei passado passante de cincoenta mil rupias, que é uma grande soma de dinheiro, indo-se o mesmo Vizo-Rei, e dando El-Rei a renda a outro, o triste gentio se foi ao filho do Vizo-Rei, a pedir-lhe parte do dinheiro que tinha dado, mas não recebeu senão muita pancada, e ausentando-se, lhe prenderam logo um filho e um irmão, em tão estreita prisão que para os deixa- rem comer hão-de de dar às guardas mui boas peitas; além de muitos tratos e tormentos que lhes dão até pagarem a El-Rei as rendas que ficou devendo; e êste foi o fructo que os tristes colheram dos tratos e ardis com que procuraram destruir a cristandade. Entre o Rei e o príncipe seu filho houve neste tempo uma grave discórdia; porque o príncipe nas terras onde andava se chamava Rei, ainda que chamava sempre a seu pai o Rei Grande; o que sabendo o pai o mandou por vezes cha- mar, e que se viesse a êle; e porque o filho lhe não quis obedecer, ajuntando um bom exército se pôs em caminho contra êle, a que o filho saiu com outro não menor. Sentiu muito isto a mãe de El-Rei, porque queria bem ao neto, e intercedia •fi. i«. por êle, pelo que trabalhava quanto podia por impedir a jornada do filho * con- tra o neto, e como o não pudesse alcançar, foi tamanha sua paixão, que adoeceu gravemente. O que sabendo El-Rei que já ia caminhando, por se mostrar obediente filho a sua mãe, tornou a voltar; mas quando chegou aonde ela estava, a achou já tanto no cabo, que em breves dias se foi para o outro mundo, a pagar no inferno noventa anos de moira, deixando um filho de quarenta e nove anos de Rei e bisnetos já casados, e com filhos. Em um dia e uma noite foi levada dali a quarenta léguas para ser sepul- tada na mesma sepultura de seu marido. El-Rei rapou a cabeça, barba e sobrancelhas e se vestiu de azul, que é o seu dó; o mesmo fêz tôda a côrte, mas não lhe durou mais isto que por três
  • Das coisas do Mogor 363 dias; passados êles ficou tudo como dantes, e como se ela nunca fôra nem morrera. Deixou a moira na casa em que dormia um riquíssimo tesoiro, o qual man- dou se repartisse por seus filhos e netos, porém o Rei o quis antes para si, tomando-o todo; depois disto por terceiras pessoas e cartas acabou com o filho que viesse ter com êle, deixando o exército, ao qual recebeu em uma varanda com mostras de amor, e recolhendo-se com êle o fechou em uma casa com muita mansidão: porém, passados três dias o desfechou, e lhe deu casa, e correu com êle como dantes, e o príncipe se aquietou, contentando-se com o reino de Guzarate, que o pai lhe deu, até que daí a poucos meses se viu Rei de toda a monarquia de seu pai, que a morte do Rei velho, que êle tanto desejava, lhe meteu na mão, como logo diremos. O qual sendo ainda príncipe antes da morte de seu pai, indo-o os padres visitar uma vez, lhes mostrou uma esmeralda, em que tinha esculpido um cru- cifixo, dizendo que aquela peça mandara fazer para a * trazer ao pescoço; a qual cercou com um círculo de oiro, e a pendurou de uma cadeia muito rica: deu também de esmola aos padres uma soma de dinheiro para a igreja, rogan- do-lhes que o encomendassem ao bom Jesus, e lhe dissessem tudo o de que tinham necessidade para lho mandar dar de muito boa vontade. Tinha um cristão arménio um filho que desejava meter no serviço do príncipe, o qual por intercessão do padre lho tomou com soldo de três cavalos. Depois de o servir alguns dias, lhe preguntou o príncipe que lei seguia; respondeu o mancebo que era moiro, cuidando que com isto o agradava mais; mas o príncipe que sabia que êle era cristão, se escandalizou tanto desta resposta, que logo o lançou fora de seu serviço, sem mais o querer recolher, dizendo depois, que estivera para lhe mandar cortar a língua, pois por respeito humano, e de cuidar que o con- tentava, negava a fé que professava. A uns portugueses que ali foram ter neste tempo, preguntou se comiam porco, e respondendo êles que sim, o mandou caçar ao mato, e lhes fêz presente dêle por um criado dos mesmos portugueses, cristão da terra, o qual depois de se apartar da vista do príncipe envergonhan- do-se de levar o porco o largou, o que sabendo o príncipe se indignou muito, pela mesma razão acima dita. Além do serviço que se fêz a nosso Senhor na conversão de mais de qua- renta ou cincoenta pessoas, que neste tempo se baptizaram, se fêz também mui grande ao mesmo Deus e ao estado da índia, com o remédio que se deu de vida e liberdade aos quarenta portugueses, que em poder do Mogor estavam retidos ou cativos; porque assim o houveram de ficar para sempre, ou acabarem em suma miséria, se Deus ali não tivera os padres, que para tudo lhes foram todo o seu remédio, co*mo testemunharam todos êles, assim com várias cartas, F1- '45. que de lá escreviam à índia, como com o que de palavra contavam todos depois que a ela chegaram, e principalmente os dois capitães Jorge de Castilho, e Luis de Antas, que resumindo tudo, é, causarem grande espanto naqueles reinos, e a todos os grandes da corte do Mogor com suas vidas e obras, os padres que nela residem, pelo que de todos eram sumamente venerados, e estimados com sinais de grande amor e respeito, contando particulares casos do respeito que todos lhes teem, do amor e familiaridade com que o Rei e príncipe os tratavam,
  • 364 Das coisas do Mogor e do muito que por êles faziam, mostrando o formão, ou provisão que lhes El-Rei passou, em que dizia lhes dava licença para se virem para a índia, por dar nisso gosto aos padres; e assim confessavam, que se êles não foram, ou morreram naquelas partes em perpétuo cativeiro, para o qual lhes tinham já destinado o lugar, ou em um grande desamparo, e que os padres deixavam de comer, e acomodar a si próprios, pelos sustentar e acomodar a êles. E que não só os padres faziam ali os serviços a Deus, que em todas as partes costu- mam na conversão das almas, e aumento da fé, mas ainda muito grande a sua Majestade, e ao estado da índia; e em particular referiam como um certo estran- geiro europeu setentrional fora ter àquela côrte, e gastara nela perto de qua- renta mil cruzados por alcançar do Rei Aquebar licença para as naus de sua nação irem a seus portos tratar e juntamente fazerem fortalezas e guerra aos portugueses, e pôde tanto com suas dádivas, e peitas, que enfim alcançou a licença, ate se passarem dela formões; mas acudindo nisto os padres, por seu • Fi.i45v. meio se tornou a revogar tudo isto rompendo-se os formões, ficando * o estran- geiro assás despeso (sic); ao qual um soldado português desafiou diante de El-Rei e depois de lhe conceder o campo, o estrangeiro descoroçoou de modo que pediu seguro a El-Rei para que o não matasse; o qual o segurou de palavra diante dos portugueses pedindo juntamente ao português que por amor dêle quisesse desistir do desafio. CAPÍTULO IV Da morte do Rei Aquebar, Grão Mogor MORREU este grande Rei aos 27 de Outubro de 6o3 tal como viveu, que nem na vida se soube em que lei vivia nem na morte em qual morria, nem êle mereceu a Deus ter naquela hora quem o desenganasse e com efeito concluísse que acabasse na lei de Cristo que tantas vezes lhe tinha pare- cido bem. Souberam os padres de sua enfermidade; foram um sábado ter com êle levando a última prática que para aquela hora lhe guardavam bem estudada, e bem encomendada a Deus sua emprêsa; mas acharam-no entre os seus tão alegre, com tal semblante e em tais ocupações que lhes pareceu despropósito falar-lhe em fim desta vida e vésperas de outra; e assim se tornaram persuadi- dos que estava são, e por ser doença de Rei, a fama a fazia crescer nas línguas das gentes. A seguinte segunda feira se publicou que El-Rei morria e come- çava a lavrar a peçonha que lhe tinham dado. Acudiram os padres, mas já não acharam quem lhe desse recado, e por mais que fingiram que sabiam remédio para a doença, ninguém ousou a lhe falar em padres, porque já andava a coisa • Fi.146. mais à disposição * de alguns seus grandes que do Rei; pelo que nenhum de outros meios que intentaram teve o efeito que pretendiam. Neste tempo o prín- cipe não vinha ver seu pai. Uns diziam que o pai suspeitando que êle lhe dera a peçonha não queria que o visse; outros que êle mesmo não queria vir pelos muitos arreceios que tinha que alguns grandes lançassem mão dêle a fim de o privarem do reino e o darem ao filho a que o Rei se tinha inclinado; e tanto o apertaram êstes arreceios que esteve uma noite quási fugido. Mais emfim com
  • Das coisas do Mogor 365 alguma gente do vulgo que se lhe foi ajuntando se fortificou, e os grandes, pensatis omnibus, acharam que lhes convinha dar o reino a cujo era. Pelo que um dos principais por êles mandado se foi ver com êle e prometer-lhe o reino, jurando êle de guardar a lei dos mouros e de não fazer mal ao filho e aos mais que o queriam Rei. O que tudo jurou e logo com boa guarda foi ver El-Rei a quem já achou sem fala mas ainda com tal acordo que lhe mandou pôr na cabeça a sua touca real e fazendo sinal para a sua espada que tinha à cabeceira lha fez cingir; fazendo-lhe o filho jorda e adoração, que é pôr a cabeça no chão, se alevantou, e El-Rei lhe fêz sinal com a mão que se fôsse. Torna-se logo para sua casa já seguro com o reino, entre grandes aclamações, e ficando El-Rei morrendo entre mui poucos que como mais zelosos se deixaram ficar e lhe lembravam Mafamede: mas nunca lhes deu mostras que com êles consentia; sòmente quando podia fazia por pronunciar algumas vezes o nome de Deus. Assim acabou êste grande Aquebar Rei, que verdadeiramente era Rei e se fazia obedecer e sabia governar. Era homem muito amado de todo o mundo, temido dos grandes, amado dos pequenos, egual a todos altos e baixos, naturais e extrangeiros, moiros, cristãos e * gentios; todos cuidavam que o tinham de sua »fi. m6*. parte; para com Deus se mostrava tão devoto que infalivelmente fazia quatro vezes oração cada dia, isto é, ao sair e pôr do sol, ao meio dia e à meia noite; nem nunca por gravíssimos negócios deixava de o fazer por bom espaço a êstes tempos; para com os homens era brandíssimo, inimigo de mortes, mui inclinado à misericórdia. E por isso tinha ordenado que quando mandasse matar alguém não se executasse a sua sentença senão depois de a ter dado três vezes e folgava que lhe alegassem causas para perdoar. Para com os grandes era grande, nem havia quem pudesse levantar a cabeça mais do que êle queria. Para com os pequenos humaníssimo, dava-lhes liberal audiência e resposta; agasalhava os seus presentes com tanto gôsto e gasalhado que os tomava nas mãos e os metia no seio, o que não fazia aos riquíssimos que dos grandes lhe traziam, antes com sagaz dissimulação fazia que os não via. Estava agora despachando pessoas e negócios gravíssimos e dali a nada o verieis tosquiando um camelo, picar uma pedra, carpintejar um pau, martelar um ferro tão de propósito como se êste fôra seu ofício; e fazendo estas coisas despachava não poucos negócios; comia muito pouco e só três ou quatro meses no ano, carne; o mais tempo leite, doces e arroz; ao sono escassamente dava três horas na noite e pelo menos duas vezes saía no dia a despachar negócios aparecendo a uma janela aonde lhe falavam quantos queriam. Era homem de tanta memória que a quantos elefan- tes tinha, com serem muitos mil, sabia o nome e não só a êstes irias a pombos, a veados e a cavalos e outras muitas feras tinha pôsto nomes e todos sabia; cada dia lhe traziam a ver um número certo destas feras pondo-se êle a uma janela e lhe liam o * nome de cada uma e de quem lhe mandava dar de comer fi. 147. e êle advertia se engordavam ou emmagreciam, e conforme a isso lhes acres- centava ou dimunia a mercê. Não sabia ler nem escrever, mas sabia quanto passava em seus reinos, porque de tôdas as partes lhe escreviam seus capitães e vassalos cada mês as novas do que viam e ouviam; estas lhe liam quando cessavam negócios ou queria dormir. Acabando de acender as candeias se assentava em uma sala grande e ao redor dêle muitos aos quais fazia ler vários
  • 366 Das coisas do Mogor livros e contar diversas histórias. Aqui ajuntava os extrangeiros que de novo vinham à sua côrte e lhes preguntava de seu Rei, terra, costumes, tratos; e de tudo se lembrava. Um dos livros que mandava às vezes ler era o da vida de Cristo nosso Senhor que os padres que lá estão compuseram em pérsio, esti- mava-o muito e tratava dêle com muito respeito, nem com menor venerava suas imagens; mas algumas vezes deu a entender que aqueles milagres que Cristo fazia dando vista aos cegos, ressuscitando mortos, etc., fazia pela grande exce- lência que tinha de físico como alguns moiros praticam e lhe meteram em cabeça. Foi venturosíssimo homem, tudo lhe saía bem, acrescentou muito seus reinos, tomou de novo o reino de Caxemir, do Sinde, de Guzarate, de Xischande, grande parte do Decão, toda Bengala, por maravilha pôs a proa a negócio que não acabasse bem e assim era provérbio a ventura de El-Rei Aquebar. Só lhe faltou a ventura das venturas que foi scire et noscere Deum verum et quem misit Jesum Christum e assim mortuus est et sepultas est in inferno. Achou-se àquele tempo o príncipe presente. Logo o amortalharam. Uns lhe queriam rezar como a moiro, outros não ousavam; emfim nem moiros nem gentios nem • fi. 147 v. cristãos o houveram por seu e assim * foi levado um pouco às costas do prín- cipe e do neto dentro da fortaleza, na qual rompendo uma porta nova, por assim ser costume, o tiraram fora e levaram a enterrar a uma horta uma légua dali, acompanhado de alguns do vulgo e pouquíssimos dêles com dó, porque o príncipe não o vestiu e por conseguinte nem os seus; o neto e alguns outros o vestiram, mas não durou mais que aquela tarde. Sic transit gloria mundi; um ordinário fidalgo nosso fôra levado com mais ordem e aparato funeral. Acabou pois assim o Rei Aquebar, id est, o Rei grande. Começou o novo Rei a negociar suas coisas e ao cabo de oito dias foi ao paço tomar posse do reino. Manda armar ricamente o terreiro, sai de dentro e assenta-se no trono: gritam-lhe todos, Pad jausalamat, id est, Salve rex; trazem-lhe seus presentes, fica-se na fortaleza como Rei. Muito esperavam todos deste novo Rei e muito mais os nossos padres, porque, pelo que tinha sucedido entrando êle no reino, esperavam uma grande conversão nêle, porque até então quási se dava por cris- tão e os seus abertamente por tal o publicavam; porém frustradas ficaram as espe- ranças, porque pelo juramento que êle fêz aos moiros de zelar a lei de Mafamede, quis logo no princípio de seu govêrno ganhar-lhes as vontades e conservá-las para o diante, e assim mandou alimpar e despejar as mesquitas, começar as Ramesas e orações dos moiros, tomou novo nome que foi Nurdim Mohamad Iahanuir, id est, resplendor da lei de Mafamede, tomador do mundo. Dos padres não fêz mais caso do que se nunca os tivera visto. « m8. * CAPÍTULO V De como o príncipe se levantou contra seu pai e do sucesso que teve POUCO depois da morte do Rei velho e levantamento do novo, o príncipe filho dêste novo se houve com El-Rei seu pai como o pai sendo prín- cipe se houvera com o seu; porque tendo algumas tristezas e descon- fianças, no sábado aos i5 de Abril se saiu de noite com alguns seus escolhidos
  • Das coisas do Mogor 367 e amigos, da fortaleza, sem declarar o fim. Começaram logo os seus a dizer que ia à cova de seu avô e com esta fama passou seguro por entre o meirinho mor e a mais guarda do Rei e logo claramente os seus o começaram a chamar Sultão lá, id est, o Rei Sultão, e iam tomando quantos cavalos achavam e o mais que para sua defensão lhes servia. Veio a nova ao Rei; ouviu vários conselhos e emfim êle mesmo se resolveu ir após ele; e assim em amanhe- cendo se pôs ao caminho. Sucedeu encontrar o filho com um capitão grave que vinha de Lahor a ver El-Rei; de tal maneira se houve com êle o príncipe que o fêz da sua banda e assim com tôda sua gente voltou com êle. Encontrou também outro capitão que levava para El-Rei algumas cem mil rupias que im- portarão quarenta mil cruzados pouco mais ou menos, os quais tomou e fêz ao capitão se lançasse de sua banda. Isto e o mais que pôde haver repartiu libe- ralmente aos soldados, pelo que com esta fama se lhe ajuntaram alguns doze mil homens * no caminho e quando chegou a Lahor, que de Agra donde fugira dista »fi. u8v. cem léguas, tinha já um grande exército. Mas como os da cidade de Lahor souberam de sua fugida, fecharam-lhe as portas nem lha quiseram entregar; êle lhe pôs cêrco e por oito dias a teve em muito apêrto, mas não na pôde tomar. Aqui ouviu que seu pai vinha já perto sôbre êle; levantou logo o cêrco e voltou contra seu pai cuidando de lhe poder impedir a passagem de um rio; mas tardou, porque já eram passadas algumas bandeiras do exército do pai e para mais mofina do triste príncipe lhe choveu tanto aquela noite que nem os arcos tinham fôrça com a humidade, nem os cavalos se podiam governar à vontade. Aventurando-se porém ao que sucedesse, comete a gente de El-Rei e mata-lhe muitos dos que tinham passado, e todos pusera em fugida, se um capitão, vendo sua pouca resistência, não usara dêste estratagema; começou a mandar vários piões como correios que entrando pelo exército do príncipe da- vam novas que El-Rei já tinha passado o rio e vinha com muita gente; e como uns e outros iam entrando com estas novas, iam-no todos crendo. Após o que, o capitão subitamente manda tocar os atabales e trombetas como os toca El-Rei quando marcha. Bem quisera o príncipe continuar a batalha, o que se fizera, de todo desbaratara aquela parte do exército e fizera perder o ânimo ao outro que ficava com El-Rei e por ventura alcançara seu intento; porém os seus, vencidos do respeito do Rei que falsamente creram ser chegado, e atemorizados com a sua presença, perderam o ânimo e persuadiram ao príncipe que voltasse; e não o querendo êle fazer, seu capitão general tomou o cavalo pelas rédeas e o fêz voltar, dizendo que se perdia; nisto esteve sua perdição, * que como êle • fi. 149- voltou, os seus fugiram sem ordem, os de El-Rei lhe foram matando alguns e El-Rei passou o rio. E fugindo o príncipe para o reino de Cabul que também era do Rei, mandou o Rei recado a tôdas as partes por onde se podia passar o rio que no meio havia, que lhe impedissem o passo. Chegado pois o man- cebo a um passo dêstes, já lá estava o recado, e um capitão que governava aquelas terras a ponto para lho impedir. Este fêz ausentar todos os navios deixando um só cujos marinheiros instruiu que, como o príncipe se embarcasse, levassem com dissimulação o navio a um sêco que havia no meio do rio e dali, com achaque de ir buscar gente, se saissem fora e lhe dessem recado; o que tudo êles fizeram. Embarca-se êle então em outro barco, vai ter com o prín-
  • 368 Das coisas do Mogor cipe que consigo tinha aquele seu general e outros poucos, fêz-lhes seus cum- primentos, levou-os para a sua fortaleza muito confiado. Como os teve dentro sai-se para fora como a dar ordem para o comer e fecba-os por fora muito bem. A gente do príncipe não lhe pôde valer, porque não puderam passar o rio nem acharam em quê; e como ouviram dizer que êle estava preso, se puseram em cobro. Neste tempo vinha El Rei para Lahor bem pensativo em o caso; chegando perto de Lahor lhe vieram ao caminho os dois padres que então estavam na igreja de Lahor bem ameaçados dos gentios que se tinham confederado para os matar quando o príncipe entrasse na cidade; saíram pois duas léguas ao caminho ao Rei o qual vinha entre duas mangas de soldados bem ordenados; junto dele alguns grandes, detrás o mais exército e diante muitos que faziam afastar os que diante achavam, mas como viram os padres, os deixaram passar. Che- gados a El-Rei, parou êle em seu cavalo e com êle todo o exército; chegaram • F1.149T. * os padres a lhe tomarem os pés; recebeu-os com rosto muito alegre, pregun- tou-lhes como estavam e tomou com sua mão o presentinho que lhe levavam; e fazendo sinal de se despedir prosseguiu seu caminho aquêle dia. Já noite teve nova da prisão do filho e logo despachou um seu capitão com gente que lho fôsse trazer; chegou êstc ao príncipe e sem lhe fazer cortesia lhe ofereceu uns ferros que levava forrados de veludo, e dizendo ser ordem de El-Rei me- teu-lhos nos pés e o trouxe com muito boa guarda, com os mais capitães que achou presos com êle. Chegado a Lahor, ao passar do rio, mandou-o El-Rei pôr em um elefante mal concertado e trazê-Io a uma quinta aonde estava, porque até então não quisera entrar na cidade. Como soube ser chegado, se recolheu para dentro, parece que como José para dar lugar ao amor natural; dali a pouco torna fora, manda-o ir; estava tôda a côrte presente esperando aquele juízo. Aparece de longe o coitado diante do pai e feita a sua cortesia esteve um pouco em pé; manda-o chegar por entre aqueles capitães e fidalgos que ali estavam; vinha o triste mancebo com a sua braga nos pés e com algemas nas mãos, espectáculo que movia a todos à compaixão. O pai se fingiu muito agastado e lhe deu com ásperas palavras uma grave repreensão, e fêz também chegar os dois mais graves capitães, um dos quais fôra capitão mui principal e servira êste Rei e a seu pai em coisas muito importantes; outro fôra veador da fazenda e governador dêste reino de Lahor; chegaram mui carregados de ferros. Com ambos El-Rei teve práticas zombando do Rei que tomaram e dos capitães que • fi. i5o. tal Rei escolheram. O fim do auto foi que mandou entregar o príncipe * a um capitão que tivesse cuidado de o ter a recado com seus ferros. Dos capitães mandou que o principal, despido, o vestissem com uma pele fresca de um boi que para isso logo se matou; e o veador da fazenda em uma de um jumento que logo também se matou. Nestas os mandou coser muito justos para que como as peles se fossem secando os fossem apertando e atormentando. Assim estiveram aquela noite; pela manhã os mandou levar à cidade e passear assim vestidos por tôda ela, cavaleiros cada qual sôbre seu jumento com o rosto para as ancas; espectáculo que a todos punha espanto, porque todos os tinham conhecido em bem diferentes trajos e estado, e então levavam as tais peles ves- tidas de maneira que os cornos do boi e as orelhas do jumento ficavam na fronte dos que as vestiam. Quando chegaram à horta em que El-Rei estava, já o
  • Das coisas do Mogor 369 capitão de abafado e turbado da afronta em que se via nas mesmas ruas que êle com tantos elefantes, de tantos cavalos e cavaleiros acompanhado, tantas vezes passeara, se não podia ter, e assim caiu como morto e El-Rei lhe mandou cortar a cabeça e levá-la a pendurar na porta da cidade de Agra, e quar- tejar o corpo e pendurar os quartos em vários passos dos caminhos. Ao veador da fazenda mandou ficar no tal vestido permitindo-lhe um favor, que foi con- sentir que um creado lhe fôsse molhando a pele em algumas partes para que não o apertasse tanto; mas ainda que isto lhe foi algum alívio, não lhe faltou seu desconto, porque com a humidade se lhe foram gerando bichos que o mo- lestavam, e se tinha por ditoso quando caçava alguns com os dedos e os tirava de si; e com a força do sol se foi corrompendo a pele e crescendo tanto o mau * cheiro que já não havia chegar a êle. Mas emfim foi perdoado, porque um »fi. i5ov. grande privado do Rei tratava casar com uma sua filha, e foi-lhe tão bom ter- ceiro que lhe alcançou perdão, dando por isso a El-Rei cento e tantos mil cru- zados. Na mesma tarde que os deu, foi solto e levado à cidade, e dali a poucos dias passeava por ela e tornou ao serviço do Rei no mesmo ofício como se nada tivera passado. Dos soldados do príncipe tomaram muitos como ovelhas sem pastor, e querendo El-Rei entrar na cidade com eles, mandou armar o caminho da horta onde estava; porque mandou espetar e enforcar alguns duzentos por ambas as partes do caminho, no qual número entraram alguns parentes de grandes seus privados, mas ninguém valeu a outrem nem se atreveu a rogar por êle, por não ser tido da facção do príncipe, la pois o Rei sobre um grande elefante ricamente ornado como triunfando, pelo meio, olhando um e outro e ouvindo as informações que lhe iam dando de cada um dos justiçados; levava detrás de si em outro elefante pequeno em osso o príncipe; e vinha o triste mancebo com os ferros nos pés olhando o fim de sua lastimosa tragédia. En- trando na cidade, o mandou El-Rei recolher em seu mesmo paço, ainda com ferros mas leves; e deu as insígnias do príncipe com título de seu herdeiro ao filho segundo, irmão do mesmo príncipe. Do capitão que mandou matar houve El-Rei cento e tantos mil cruzados e de outros culpados outra mui grande quan- tidade que para si reservou. Os cavalos e mais coisas que do príncipe cobrou repartiu por alguns que o príncipe tem por seus maiores inimigos para mais o quebrantar. Quando o príncipe vinha fugindo de Agra, passou por onde estava um gentio chamado Gorú que entre os gentios * é como entre nós o Papa. «fi. i5i. Êste estava tido por santo e por tal de todos venerado; por esta reputação em que estava e por sua tão alta dignidade o foi ver o príncipe, desejoso, parece, de alguma boa profecia. Ele lhe deu os parabéns do novo reinado, e lhe pôs otria na testa; que ainda que êste pontífice era gentio e o príncipe moiro, ao pontífice pa- receu bem dar-lhe aquela insígnia própria de gentio, em sinal de bom sucesso de sua emprêsa, por o príncipe ser filho de gentia, e ao príncipe tomá-la pela opinião que tinha de sua santidade. Soube isto o Rei, e depois de preso o príncipe, man- dou trazer o dito Gorú. Tendo-o preso, intercederam alguns gentios por seu santo: emfim acabaram que fôsse sentenciado em cem mil cruzados a petição de um gentio rico que por seu fiador ficou. Cuidou êste privado que ou El-Rei remi- tisse depois esta pena, ou o seu santo tivesse ou pelo menos negociasse o tal dinheiro; mas em tudo se achou frustrado; pelo que tomou ao triste do seu papa 47
  • Das coisas do Mogor quanto lhe achou, não perdoando as alfaias nem o fato de mulher e filhos; e vendo que tudo não bastava, como gentios não teem lei com Papa nem pai sôbre dinheiro, cada dia dava novos tormentos e fazia novas afrontas ao coitado do santo. Mandou lhe dar muitas vezes com o sapato nos focinhos e proíbir-lhe comer, afim de que desse mais dinheiro, não querendo crer que o não tinha; mas nem êle o tinha nem achou quem lho desse; e assim entre tantas afrontas, dores e tormentos dados pelos mesmos que o adoravam, acabou o miserável do Gorú. O fiador se quisera acolher, mas foi preso e morto depois de lhe tomarem quanto lhe acharam. • fi. «5i *. * CAPÍTULO VI Como El-Rei começou a governar e da força que fê\ a dois meninos cristãos para os fa\er moiros QUIETA esta tormenta, começou El-Rei a governar seus reinos e mos- trar-se tão amigo da justiça que lembrado do que um dos Reis antigos da Pérsia fizera, mandou pôr, junto ao lugar onde êle morava, uma campainha de prata com uma cadeia de alguns vinte côvados para que todos os agravados que não achassem remédio nas justiças e oficiais de El-Rei puxas- sem pela cadeia, a que logo acudia El-Rei e verbalmente fazia justiça. Tam- bém mandou que se não pagassem os direitos que seus capitães faziam pagar aos mercadores nos passos por onde passavam, e restituir aos herdeiros as coisas que por mandado de El-Rei seu pai se tinham tomado para El-Rei por morte dos que as possuíam. Daqui nasceu aos padres uma boa moléstia, por- que, como em vida do Rei velho lhes tinha mandado dar umas casas que foram de um gentio, em que agora está a igreja e edifício em que os padres moram, pretenderam os herdeiros restituição; o mesmo pretendiam de outras casas em que se agasalham os cristãos. Foi o negócio a El-Rei, e para o melhor con- cluírem como desejavam, lhe disseram grandes males dos padres, mas nada lhes creu, antes respondeu que, se assim fôra, já lhe tiveram chegado queixumes deles, e emfim de novo fez mercê aos padres das tais casas e mandou que se não falasse mais em coisa que El-Rei seu pai lhes tivesse dado. Tiveram os padres por bem empregadas algumas moléstias que lhes custou a quiètação em • fi. i52. que com esta resolução ficaram, por amor da igreja * que ali teem, que é muito boa e tão formosa que cada dia veem novos moiros e gentios pedir que lha deixem ver e os satisfaz muito tão perfeita fábrica. O edifício está em forma de colégio com seu corredor, câmaras muito boas no alto para o inverno e no baixo para o verão. Tem tôdas suas oficinas separadas e concertadas, nem lhes falta portaria e campainha para os que houverem de entrar e sair, e assim entre tanta moirama está a Companhia na mesma forma que está em terras de cris- tãos exercitando seus ministérios e em tal reputação que, quando os padres saem fora, os meninos a vozes lhes bradam Padrigi salamal que quere dizer: «senhor padre, Deus vos guarde»; coisa de que os padres recebem notável consolação, esperando em o Senhor que após tal afeição a seus ministros lhes dê graça para em algum tempo O conhecerem. Acabada a moléstia das casas, começou
  • Das coisas do Mogor 371 outra que não menos afrgiu, e passou desta maneira: Como êste novo Rei tomou o scetro, lembrado do juramento que aos moiros fizera, andava em sua casa um mancebo gentio, filho de um grande capitão muito privado do Rei velho, o qual mancebo havia anos que com certa ocasião se circuncidara, uma noite estando êste presente e El-Rei com muitos dos seus, veio isto à prática e logo El-Rei lhe disse que, pois se circuncidara, já não era gentio, que tomasse outra lei; êle recusou, mas El-Rei apertou dizendo por fim de razões: se quereis ser moiro, aqui estão os moulas que vos ensinarão sua lei e vos farão moiro, e se quereis ser cristão, eu mandarei chamar os padres que vos farão cristão. Obri- gado êle a escolher lei e instigado pelos presentes escolheu ser moiro, e feito, o levaram pela cidade em um elefante com grande acompanhamento e festa; fica- ram os gentios muito tristes e mui contentes os moiros; o que vendo El-Rei quis entender com um cristão, * e êste foi um arménio honrado do qual El-Rei velho fêz sempre muito caso e com seus netos lhe creava dois filhos no paço, aos quais êle tinha notável amor e êles o mereciam, porque não havia outros semelhantes em seu paço. Êste arménio os anos passados, por indução de uma das mulheres de El-Rei e ordem do mesmo, se casou com uma irmã de sua primeira mulher defunta, de quem houvera aqueles meninos. Desde então os moiros houveram que êste arménio se fizesse moiro, pois como moiro casara com duas irmãs; mas na verdade êle nunca se deu por tal nem o foi. Viera pois êste das terras que governava a ver o novo Rei e delas andava dando conta ao veador da fazenda. Eis que El-Rei começa a tratar de todo o fazer moiro. Meteu nisso o veador com que tratava, o qual por si e seus amigos o tentou, parte com favores e promessas, parte com ameaças; mas o arménio esteve sempre mui constante e foi aos padres e cristãos ocasião de muita con- solação, referindo-lhes muitas vezes os combates que lhe davam e dizendo: «que mais quero eu que morrer mártir por minha lei em desconto dos pecados que tenho feito e escândalo que tenho dado?» Nisto andava El-Rei quando lhe sobreveio a tempestade dos cuidados em que o pos a fugida do filho e partida após êle, com o que o arménio se tornou para as suas terras e levou consigo seus filhos. Quieto depois El-Rei em Lahor preguntou por êstes meninos e vieram emfim para seu paço; recebeu-os mui bem, preguntou pelo pai e mandou que continuassem como dantes. No serão do mesmo dia se tratou deles e diziam a El-Rei dêles muitos louvores. Disse então o moiro: é lástima que meninos de tantas partes não sejam moiros; ateou-se a prática: preguntou-lhes El-Rei de que lei eram: responderam que * cristãos como seu pai. Acudiu El Rei: ^o pai «fi.i53. dêstes não é moiro? Responderam os circunstantes: Senhor, sim; como tal se casou com uma irmã de sua primeira mulher. Instaram os meninos que não eram senão cristãos e que sempre o foram. Pois, disse o rei, se vós sois cris- tãos, comei porco. Aqui se encolheram êles, porque se criavam entregues a uma' das rainhas a qual os ia criando com espírito de moiros e com tanto asco ao porco como os mesmos moiros; nem o pai já podia acabar com o maior que o comesse. Disseram ao Rei: senhor, não é obrigação de nossa lei comei porco, pôsto-que se não defenda. Ficou aqui a prática aquela noite e logo o dia seguinte foram os meninos ter com os padres e contaram o que passava; os quais os esforçaram e instruíram como quem sabia a condição de El-Rei que
  • 372 Das coisas do Mogor havia de levar àvante o negócio; e o seguinte serão tornou El-Rei a apertar com êles e êles a se defender; acudiram alguns dos presentes, que eram moiros e como moiros se criavam e moiros era razão que fossem; a que todos acudi- ram com Euge, Euge. Manda logo El-Rei que não sáiam mais do paço, dá-lhes particular lugar em que estejam como presos, para que não sendo ajudados, mais fàcilmente sejam vencidos. Alguns dos parentes foram dar conta aos padres, e um deles resoluto a dar a vida por Cristo tirou a adaga da cinta e umas poucas de rupias que aos padres entregou; foi-se ao paço e juntou-se com êles. Tornados a seu tempo a El-Rei, torna-se a renovar prática da lei e do comer porco. O pequeno respondeu: se os padres nos disserem que é obriga- ção comê-lo, nós o comeremos. Tinham-lhes os padres dito que em alguma coisa alegassem com êles para ver se por isso os chamava El-Rei; mas descon- • fi. ,53». tentou tanto a resposta a um dos * privados, que lhe deu duas bofetadas como dizendo: Stc respondes, etc. iQue tens tu, lhe diz, que alegar com os padres quando El-Rei manda? Cessa logo o Rei da prática do porco e vai-se à raiz; ora, diz, vós haveis de ser moiros; dizei o Calima, que é a profissão da lei de Mafamede. Recusaram êles; manda El-Rei trazer uns látegos com que açoita- vam os delinquentes, manda lhes dar; turbados êles com o presente tormento, por entre os dentes foram bem mal pronunciando o que os moiros lhes iam ensinando; e com isso os deixaram recolher bem desgostosos a seu aposento. Pela manhã lhes mandou El-Rei um barbeiro que os circuncidasse: êles o não consentiram e tanto choraram que os deixaram até avisar a El-Rei. Levam-lhos depois a seu tempo, pregunta-lhes porque não consentem; respondem-lhe que são cristãos e não hão-de deixar de o ser nem consentir circuncisão. Para êste último combate os tinham os padres bem armados com conselhos e histórias indo cada dia a sua instancia tratar com êles; e por mais que procuraram nêstes dias entrar a El-Rei para nêles lhe falar, tinham os moiros tão tomados os cami- nhos que nada lhes aproveitou. Vendo El-Rei sua resposta promete-lhes mil favores, ameaça-os com mil castigos. Combatidos os meninos com tão duro combate e vendo que suas respostas e resistência tão pouco lhes aproveitava, diz um ao Rei: senhor, não nos mandeis circuncidar por amor de Alazarat Icam, id est, do Senhor Jesus, cujo grande devoto êste Rei dantes se pregoava e como tal trazia a seu pescoço um crucifixo em rico esmalte. Por amor deste, respondeu o Rei, o faço. Não é êle disso contente, acóde o menino. Não sofre mais debates o cruel Rei; manda-os tomar e ter pelas mãos e pelos pés e • n.i54. diante de si os fêz circuncidar, não bastando a mover * as muitas lágrimas que êles choravam. Ora, diz o rei, já sois moiros, dizei agora o Calima. Torna a briga tanto mais azeda quanto mais à vista do inocente sangue cresceu ao Rei o desejo de concluir seu intento e dar perfeito gosto aos que o instigavam. Não no querendo dizer os meninos, porfia que o digam o Rei; trazem uns láte- gos, começam a dar nêles sem piedade. Lástima e compaixão causavam aos presentes sobre as dores e sangue da circuncisão os golpes dos cruéis açoites, que a presença e fúria do Rei fazia exceder o ordinário modo com que se dão aos delinquentes. O maior que era de 14 anos, antes dos 14 se rendeu, disse o que êles queriam, pôsto-que não do modo que desejavam; o menor que não passava de 11 anos não se deixa vencer, pôsto-que vê vencido o irmão; crescem
  • Das coisas do Mogor 373 sobre êle em número e intenção os açoites, a cada um dos quais êle dizia: Ah, Mazarath Icam, Senhor Jesus. Este S. S. nome tinha em a bôca, e na mão um relicário que trazia ao pescoço. Estavam pasmados os presentes e já El-Rei movido à compaixão se calava, mas um grande privado lhe tomou o ofício de instigar aos que lhe davam, dizendo: dá-lhe, dá-lhe. Deram-lhe alguns 3o açoi- tes tão cruéis que bastariam a derribar um homem bem esforçado. Còm a nova fúria dêste novo exortador, desfalecendo já as forças, desfaleceu também o ânimo do tenro menino e por se ver livre do tormento, disse o que pretendiam; ainda depois de o dizer lhe deram mais três ou quatro, porque se não rendera mais cedo, por ventura lhe deram pouco mais se perseverara; e na verdade não deixa de ser para estimar em tão tenro menino tão longa resistência, aonde ninguém tinha por si entre tantos e tão cruéis lobos, e tão assanhado o Rei cuja cólera naquêle passo se contra os seus se virara, com menos açoites fizera a muitos * deixar a lei dos moiros e tomar a de Cristo que tanto aborrece; tanto veneram e temem o Rei. Com esta tão fingida vitória se contentou El-Rei e os mandou levar à sua estância e com cuidado curar. Aquela mesma noite foram os padres ter com êles e não sabendo ainda o que passava, acharam-nos estirados no chão em sumo silêncio e tristeza. Sabendo sua vinda grita o pequeno: Padrigi, Senhor padre, eu sou cristão, sou cristão: que cortaram o que quis eram; que vai nisso? tudo foi contra nossa vontade; se nos não açoitaram, cuidáreis vós que consentíamos? mas êstes açoites são já do nosso coração; mostram os vergões dos açoites que era lástima vê-los. Os padres os consolavam não lhes querendo estranhar a queda mas levá-los pela constância, porque não se dessem já por vencidos e por moiros. E assim se ficaram tendo e publicando por cristãos como dantes, dizendo que o feito foi pela fôrça que se lhes fizera e tormento que lhes deram. Para os curar mandou El-Rei um moula que lhes fosse ensinar suas orações; diante do mesmo mestre diziam êles da lei dos moiros o que que- riam. Depois de sãos foram apresentados ao Rei; deu-lhes a cada um seu ves- tido e licença para irem para sua casa, mas que não fossem dos padres nem corressem com êles e êles lhes deu pouco de seu mandado, tão claramente se ■dão por cristãos como dantes; e assim dizem mal de Mafamede e de suas coisas que mais necessidade teem de freio que de estímulo. O maior que se mostrou mais fraco, sem ninguém lhe dizer nada, fêz com uma faca no seu braço esquerdo junto do pulso uma cruz quási de um palmo que bem lhe havia de doer e durará o sinal bem de tempo; o braço da cruz está junto do pulso e pelo braço acima, para que quando * levantar o braço fique a cruz arvorada. Assim cor- • fi. iss. rem mui animados. El-Rei lá dentro os trata como dantes nem se lhes fala nada em lei. Os mesmos moiros estão pasmados da constância dêstes meninos e hão que se lhes fêz demasiada fôrça sem proveito; porque lhes não venceram o coração. Quando ao pai chegou esta nova, dizem que esteve três dias sem comer chorando por esta desgraça, e mandou um seu criado a se informar de tudo miudamente. Os padres lhe escreveram que visse se podia escapar do cncontro que com êle também se teme queria ter o Rei, pois já em Agra o começou. Respondeu êle muito animado e apostado a se mostrar tal que fôsse, como êle dizia, honrada a cristandade entre os moiros. Depois de tudo isto houve-se El-Rei com os padres e com os parentes daqueles meninos e mais
  • 374 Das coisas do Mogor cristãos como se tal não passara e despachou algumas coisas que os padres lhe pediram com muito favor, mas não houve ocasião para no caso lhe falarem. CAPÍTULO VII Do fruto que se fêz com algumas conversões NO que toca ao fruto desta missão, fazem-se poucos cristãos de novo, por- que êles não importunam muito, e os padres fiam-se dêles pouco; porque na verdade aquela moirama parece madeira carunchosa e inútil para cristandade. Em Agra se baptizaram nêste tempo algumas vinte pessoas; nestas entrou uma família de um arménio honrado, o qual viveu muitos anos entre os moiros, ausente da conversação de todo o cristão, e tal que, acertando um padre de passar por onde êle estava, pôsto-que o veio ver com seu presente, • fi. i55v. rogou * que o não fôsse visitar; e disse a outros que, se o padre lá ia, havia de fingir que o não conhecia por amor dos vizinhos e amigos; que parece nem queria ser dêles tido por amigo dos cristãos. Quis Deus que dali a alguns anos acabaram com êle que se viesse com tôda sua casa para Agra onde havia cris- tãos. Veio com sua mulher, filhos e filhas, que com os mais de sua casa foram baptizados, e êle se confessou, e casou com sua mulher ao cabo de dezoito anos que vivia como moiro, com o que se pode tanto dizer que se fêz êle cris- tão como sua mulher e filhos, dos quais no estado de inocência baptismal lhe levou nosso Senhor uma filha a gozar de sua glória. Outro andou muitos anos como cristão, com êles se confessava e comungava, e procedia como cristão de muitos anos; mas achou-se que nunca fora baptizado; baptizaram-no em segrêdo os padres e ficou grandemente consolado. Em Lahor se fêz cristão um moiro velho natural de Bassorá, que em sua terra foi homem grave, mas como o turco tornou a Bassorá, andou por várias partes em busca de remédio para a vida; foi a Veneza e a outras terras de cristãos, finalmente veio a Lahor, onde tra- tando com os padres, pediu que o fizessem cristão. Dilatavam-lhe os padres o baptismo; êle não se aquietava por se ver velho e longe dos padres; foi-se com esperanças para umas terras que o Rei velho lhe tinha dadas; mas delas se tor- nou pouco depois fazendo grande instância, que não tinha idade para esperar mais. Então o baptizaram, pôsto-que sabem poucos que é cristão, porque êle não se quere publicar, e tem contudo esconjurado um velho seu companheiro que como morrer não consinta que moiro toque nêle, sòmente os padres e cris- • fi. i56. tãos o amortalhem e levem a enterrar como cristão. * Melhor fôra se logo se publicara por tal, mas são tão maus os moiros que nem com os de sua casa pudera viver se souberem que êle é cristão, e isso é o que impede muitos toma- rem nossa santa lei. Junto aos padres mora um brâmene gentio de cujo filho se escreveu já quanto padeceu por se fazer cristão. Estava uma filhinha do mesmo brâmene para morrer; uma sua irmã a começou a prantear. Ouviu o padre; não sabendo o que era, mandou lá o irmão já cristão. Vendo êle o que passava, pediu à mãe a menina para a fazer cristã; alcançou que lha desse. Trazida à nossa igreja, o padre a baptizou. Tornada a levar, logo morreu e se
  • Das coisas do Mogor foi a gozar do gozo eterno que lhe sua irmã ocasionou e seu irmão negociou. A alguns se acudiu às necessidades corporais e espirituais, como foram cinco ou seis que de terra de cristãos tinham vindo, e moiros os tinham por força como seus cativos. Foram socorridos pelos padres, e libertados se tornaram para a terra de cristãos. Um moço de pouca idade tornando-se para Ormuz com seu amo que era um italiano honrado, no Sinde lhe fugiu e se fez moiro. Vindo para as terras de Agra lhe faltou o remédio que cuidava achar; andava sem ele vádio. Soube o padre, recolheu-o em casa; está reduzido e quieto, e na primeira ocasião será encaminhado. Outro moço de um português que se ia para Goa lhe fugiu no caminho; também ao cabo de alguns dias o soube o padre e o recolheu, do que êle está contente. Dois moços cafres que se tinham ausentado da terra dos cristãos tinha consigo um grande capitão moiro e os tratava muito bem; mas eles não se quietavam por mais mimos que lhes fazia por se verem entre moiros. Para os assegurar tratou o moiro de os casar; mas êles um dia antes do casamento fugiram * e vieram ter com os padres que i»t. logo de Agra os mandaram para Lahor para dali os passarem ao Sinde e emfim a Goa. Foram no caminho conhecidos por gente de seu amo, e querendo pegar dêles se defenderam de modo que fizeram fugir quantos para os prender eram mandados. Estavam em Lahor com os' padres continuando como bons cristãos, mas por serem conhecidos de um criado do moiro, os esconderam os padres em casa de um português até chegar o tempo de se poderem ir. Estava na mesma casa um que lá anda ausente de Goa em que nasceu. Este, cuidando por ali valer com El-Rei, se foi ter com um seu capitão e lhe contou o que pas- sava, gabando-lhe muito os moços e que um sabia tanger órgãos e cantar música portuguesa; e era verdade; ofereceu-se a lhos entregar, e assim o fêz tirando-os da casa um dia à meia noite, dizendo que os padres os chamavam, e assim os levou enganados até parte onde os estava esperando gente de pé e de cavalo que com bom recado os levou ao capitão, o qual falou logo com El-Rei. Ele os tomou para seu serviço e lhes fêz bom partido: nada lhes falaram em ser moiros e assim continuam com a igreja e com os padres; mas daqui nasceu um trabalho aos padres, porque tomados os portugueses em cuja casa êstes moços estavam depositados, se determinaram vingar do que os entregou; o que fizeram achando-o em outra grave culpa pela qual, ainda que outra não tivera, bem merecia as boas pancadas que lhe deram; e tendo-o muito bem amarrado para mais assegurarem a emenda que êle prometia, se lançou um moço do culpado por uma janela gritando que queriam matar seu amo; do que tendo noticia o meirinho mor mandou lá sua gente que achando o prêso o soltou. Solto êle, começou a persuadir * com brados que o queriam matar e enterrar secreta- »fi. 157. mente, e não contente com fazer levar presos os dois que lhe deram, começou a apregoar que os padres lhe fizeram dar tôdas aquelas pancadas. Estavam os padres com El-Rei tratando de outro negócio quando êles e o que os acusava foram levados a El-Rei. Chegando, lança o malfeitor o fato fora, da cinta para cima, mostra os sinais das pancadas, grita, chora, diz mil coisas e tôdas concluiu com dizer que os padres lhe fizeram aquilo, que à meia noite foram a sua casa, vestidos com touca e cabáia e o trataram daquela maneira pelos dois cafres que lhes tirara e entregara a sua alteza. Deu El-Rei sinal aos padres
  • 376 Das coisas do Mogor que falassem. Senhor, dizem êles, pregunte-lhes Vossa Alteza se alguma hora fomos à sua casa até hoje. Não quis êle mais prosseguir seus autos contra os padres, vendo o pouco vento que lhe El-Rei dava contra êles. Vira pois contra os coitados dos dois portugueses e para impetrar a sentença que desejava, diz a El-Rei: senhor, eu serei moiro, fazei-me justiça. Ao que lhe respondeu o Rei: eu vo-los entrego, fazei dêles o que quiserdes e eu vos farei capitão. Longo seria contar as injúrias e afrontas que a ambos pelas ruas êste desati- nado homem foi fazendo. Recolheu-se El-Rei e tiveram os padres lugar de entrar a êle, aos quais sorrindo êle preguntou, que briga foi aquela dos Fran- gues. Contaram-lhe o caso, pasmou, e disse: não no entendi; averiguai isso bem, e trazei-mo, vereis o que lhe faço; todavia fizeram êles mal em lhe dar, houveram-no de trazer a vós para os castigardes ou a mim; por isso lhos man- dei entregar para que êle também lhes desse; que esta é a justiça dêste Rei e de suas terras. Senhor, disse o padre, bem castigados estão, mande-os Vossa Alteza soltar. Averiguou a verdade e mandou-os soltar. Então lhe pediu o • fi. 157 v. padre que, se aquele homem lhe * contasse alguma coisa contra os padres, lha fizesse fazer certa: que fazendo-a êle certa, êles estariam pelo que sua Alteza mandasse. Respondeu o Rei: Ah! vós sois outra sorte de gente; não há que falar nisto. Êste é conceito que tem êste Rei dos padres; e na verdade o diabo parece que anda naquele homem, e por sua língua determina de os desa- creditar e infamar, levantando-lhes cada dia mil falsidades; mas servem de maior resplendor de sua virtude, achando-se por fim de tudo que ninguém tem que dizer dêles mais que puras falsidades, e o autor delas tem já tão pouco crédito, que até moiros dizem que não querem tal homem para moiro, nem o Rei lhe falou mais no que lhe prometeu. Ao seguinte dia tornou El-Rei a chamar os padres a uma casa muito inte- rior onde muito poucos entram: preguntou pelos cristãos quantos eram: e que havia na terra fome, seria bom dar-lhes para acudir aos que eram pobres. Preguntou também pela igreja, louvaram-lha ali muito os seus; disse que a havia de ir ver, que o avisassem como houvesse alguma festa. Respondeu o padre que havia mistér caiada, e algumas peças para ornamentos. Para tudo prometeu o necessário. Também lhe mostraram o Evangelho escrito em arábio, e impresso; folgou muito de o ver, mas disse que folgaria mais de o ver em pársio: disseram-lhe que também o tinham em pársio, que lho levariam; folgou muito com isso, e para lho levar o ficavam os padres revendo. Isto é o que se contém na de Se- tembro de 1606. CAPÍTULO VIII Do que mais sucedeu no ano de mil seiscentos e sete •fi.i58. *T~*^ÊZ o Rei uma viagem ao reino do Cabul; levou consigo ainda preso o filho, mas já com menos áspera prisão. Despedindo-se dos padres lhes pediu que o encomendassem a Deus; êles lhe apresentaram o Evangelho escrito em pársio que êle tomou com muita cortesia, nem o quis dar na mão
  • Das coisas do Mogor 377 de ninguém que lho fôsse guardar; na sua o teve até se recolher. Ficaram os padres com sua licença, e em tanta quietação atendendo a seu proveito espiri- tual como num quieto colégio, recolhendo-se todos a fazer os exercícios uma semana, e festejando com seus cristãos a seus tempos as festas da igreja, e memória da Paixão de Cristo nosso Senhor como tem por costume, acrescen- tando de novo este ano Quinta Feira de Endoenças uma procissão de discipli- nantes pela rua; e cristão houve que faltando para êle vestimenta, dos próprios vestidos a fez e se meteu no número dêles. Outro que nunca fôra a terra dos cristãos, saiu, sem se saber quem o ensinara, com uma trave, amarrados os braços em figura de cruz. Saiu pois posta em ordem a procissão com um crucifixo, e juntos os meninos cantando as ladainhas, e estava a rua cheia de gentios que pasmavam de ver aquele tão novo espectáculo. Tremiam vendo correr o sangue voluntàriamente tirado, e desejosos de ver em que aquilo parava se iam também após a procissão, que com muita devoção e consolação dos cristãos e dos padres deu sua volta e se recolheu, ficando os cristãos muito alvoroçados para nos seguintes anos muito mais se esmerarem, em que pese ao diabo, que com bem de mágoa vê tal espectáculo nas terras que possue tão forte e tão armado. A noite da Páscua no alto da igreja que é um eirado grande, se puseram * vários fogos e diversas »fi. i58t. candeias, e se deu fogo a muitas invenções de pólvora que naquela terra se fazem com grande artifício e não menor lustre, e rompendo a aurora saíram em outra devota e formosa procissão precedendo-lhe uma cruz muito enramada de rosas e flores, e junto a ela umas charamelas que pouco havia tinham ido de Gôa aonde vieram aprender a tanger; e com a novidade em tais terras nunca imaginada faziam pasmar os que as ouviam; seguiam-se todos os cristãos com suas candeias na mão e vestidos de festa; os padres com sobrepelizes cantando como podiam, e um levava um menino Jesus que de Portugal viera muito per- feito. Não se pode dizer a inumerável gente que a ver tal novidade se ajuntou, entre a qual tão seguramente continuavam aqueles poucos cristãos sua devo- ção, e memória do triunfo de Cristo, como se viveram em terras de Reis mui católicos e não entre tantos moiros e gentios que tanto desejavam de os ver consumidos. A estas se seguiu a de Corpus Christi em cujo dia em uma cus- tódia com suas vidraças levava um padre debaixo de um pálio o SS. Sacra- mento acompanhado de muitas tochas e velas acesas que cada um dos cristãos levava na mão, parte tangendo as charamelas, parte cantando alguns dos cris- tãos. A procissão se fêz por dentro da igreja. Em algumas partes parava o sacerdote; vinha um menino bem concertado e posto de joelhos adorava o SS. Sacramento, protestando em alta voz que cria fiel e verdadeiramente a presença de Cristo Jesus, verdadeiro Senhor e Redentor do mundo; e logo em pé contava à gente uma história do SS. Sa- cramento que servia de prègação, e que todos muito folgavam de ouvir. Aos dois meninos que * El-Rei fêz circuncidar vendo um dia esgrimir e brincar • fi. i5ç>. com outros, chamou-os e preguntou-lhes se queriam ser moiros, ou ficar na lei de seu pai. Responderam êles que na de seu pai. Virado El-Rei a uns seus privados disse: má coisa é o que não fica na lei de seu pai. Êstes por mêdo diziam que eram moiros, mas na verdade eram cristãos: ora 48
  • 378 Das coisas do Mogor ora ficai-vos em vossa lei. Fazendo-lhe sua cortesia costumada, com tôda alegria se tornaram aos padres, e se dão por cristãos sem arreceio. Dos que principalmente induziram o rei a lhes fazer o que fez, não ficaram sem castigo. Um deles a cabo de pouco tempo caiu da graça do Rei, e lhe foi tirada tôda a renda que tinha, e depois de meses foi admitido, mas ainda com mêdo corre com El-Rei. Outro que era o mais grave que El-Rei tinha em todos os seus reinos, e por isso chamado irmão de El-Rei, adoeceu de doença lenta, e veio a ficar tolhido de ambas as pernas; e subindo-lhe o mal à cabeça, deu em um tal esquecimento que acabava de dizer uma coisa e logo a tornava a repetir como se nunca a tivera dito; pelo que foi arrefecendo o amor que El-Rei lhe tinha, e emfim lhe tirou o selo real, e estado, rendas, dignidade que tinha, dando tudo a outro, e a êle só umas poucas terras para seu comer, com o que se está curando com bem diferentes fumos dos que teve. No tempo que El-Rei esteve em Lahor lhe disse um seu privado que El-Rei seu pai mandara tirar a metade da esmola que para seu gasto mandara dar aos dois padres que ali residiam. Logo mandou que lha dessem tôda, que são cada mês quási cincoenta rupias. Havendo outra ocasião, lhe falaram os padres na esmola que para os cristãos prometera, e mandou dar cada mês outros cin- 'fi. i59v. coenta, e além dêles trinta para a igreja, com que os padres cò*modamente podem acudir aos pobres cristãos. Vai-se mostrando muito menos moiro que no princípio, antes claramente tem dito que segue o caminho de seu pai, e nas obras o vai bem confirmando. Queira o Senhor que seja melhor o seu fim. Por êste respeito deixou correndo como dantes com os padres e igreja os dois cafrinhos que como fica dito lhes foram entregues; e pôsto-que os quatro môços charamelas que iam de Goa, morrendo no caminho um veneziano que os levava, também lhe foram apresentados, e êle os desejou muito, contentou-se com os fazer tanger em sua presença; e ainda que alguns dos seus lhe diziam que êles eram negros de seu pai e êle os dera aos padres para os ensinarem, nenhuma fôrça quis fazer para lhe ficarem; sòmente lhes preguntou se queriam estar com êle, que lhes faria mercês; e vendo que êles mais queriam ir para os padres e se mostravam muito constantes nas coisas da fé, respondendo bem a algumas preguntas que se lhes fizeram, os mandou entregar aos padres, que fazem conta, como êle tornar da jornada, lhos apresentar para seu serviço, pelo que êle lhes dará de comer, e a igreja ficará servida. Conserva em extremo o nome que no princípio tomou de Rei justo, e por isso já não há em seus reinos quem agrave partes, e coitado daquele seu governador ou oficial de que êle sabe que toma direitos ou alguma coisa aos mercadores que passam pelas terras que êle governa. Tinha em Lahor da outra banda do rio pôsto um seu privado para que, vindo mercadores de Caxemir, ou de Cabul, lhos trouxesse com tudo o que êles traziam, para êle comprar o que lhe contentasse, e lhes preguntar se por suas • fi. 160. terras lhes tomaram alguma * coisa. Soube que êste tinha tomado uma pouquidade: mandou-lhe rapar a cabeça com grande desonra, e assim rapado levar a rasto pela cidade, e nunca o pobre mais apareceu. Um seu capitão que tem de renda quinhentas mil rupias que fazem duzentos mil cruzados, tinha êle pôsto por governador em Abmadabad,
  • Das coisas do Mogor 379 cidade real de Cambaia, onde fêz muitas tiranias, e dois filhos seus com êle. Soube-o El-Rei, mandou-o vir com ambos os filhos, os quais chegaram primeiro a dar razão da tardança do pai, dizendo que vinha doente. Até à chegada do pai dissimulou com os filhos; tanto que veio, prendeu a todos, e por vezes man- dou açoitar os filhos já em sua presença, já em ausência com cruéis látegos; ao pai teve preso até lhe tirar duzentas mil rupias que devia à coroa, e fazer pagar a todos o que constou que lhes tinha tomado. Depois de assim peni- tenciado tornou a fazer êste capitão governador de Lahor, a donde está bem diferente do que dantes era. Os filhos traz consigo ainda como presos, e para mostrar que nas coisas da lei vai após seu pai, defendeu uma vez que por certos dias não comessem carne, que assim costumava fazer seu pai; durante êstes dias ia êle mesmo uma noite dissimulado como pobre pela cidade com dois filhos seus. Achou que se estava vendendo carne em uma certa paragem e soube ser com consentimento do meirinho mor. Logo o dia seguinte lhe man- dou em sua presença dar muitos açoites, e passear pela cidade em um jumento com bem de desonra. Ao outro dia o chamou, e lhe fêz mercê de um cavalo e um vestido que são sinais de amor e favor, e que tornasse a servir seu ofício. Outra fêz ao grande Agiscoa, id esí, colaço de El-Rei Aquebar, e casta muito nobre e fama muito grande em renda, êle e seus filhos, que bem chegarão a um conto de rupias, a quem * El-Rei chama seu tio, e com uma sua filha *fi. 160 v. tinha casado seu filho mais velho. Sucedeu que um seu capitão trouxe das terras do Decão uma carta que êste escrevera no tempo do pai, na qual mote- java do Rei seu pai, porque deixara a lei dos moiros, que êles chamam lei da salvação, e se fizera herege. Meteu êste capitão a tal carta na mão de El-Rei, o qual uma noite preguntou ao tio se era aquela carta sua. Vista confessou que era. Agasta-se El-Rei, lança-lhe mil pragas, e chama-lhe mil nomes; e a exem- plo de El-Rei todos lhe falam pelo mesmo estilo. Bota-o El-Rei com muita ignomínia; vai-se atordoado o que antes era terror de todos; manda-lhe El-Rei pôr gente de guarda como a preso, e com ela o faz todos os dias vir duas vezes a seu paço, a ouvir o que dêle diziam os mais graves, sabendo o gôsto que davam ao Rei; o que êle tanto mais sentia, quanto menos na vida tal se ima- ginara; pelo que, ou ensinado, ou mais cativo das honras do mundo, começou a fazer grossas esmolas a tôda a sorte de pobres de sua lei, e por certo se crê que foram mais de cem mil cruzados os que nêstes dias foi dando; à vista dos quais e por êste bem e boa obra moral que cá fazia, lhe acudiu Deus movendo ao Rei que o olhasse com melhores olhos, e com algumas demonstrações de gasalhado tornasse a vivificar o que assim mortificara. Correm como d'antes, mas êle atento e exemplo a todos quam mau é de passar o rio do mundo a pé enxuto por mais altas pontes que aos seus fabrique. Mas deixando o Rei, diremos êsse pouco fruto que em tão má terra colheram os padres de sua semente. Um cristão húngaro de mais de cem anos que em moço foi tomado dos moiros, trazido por várias partes com filhos e netos, se veio no cabo da vida para * os padres, baptizando-se todos os seus, tirando um filho que ainda se *FLi6i. não quere fazer cristão; e êste bom velho acabou sua vida recebidos todos os
  • 38o Das coisas do Mogor Sacramentos, com os padres à cabeceira. E na igreja se lhe fêz um ofício em seu enterramento com grande edificação e consolação de todos os cristãos, que com suas velas na mão se acharam presentes, ficando os moiros e gentios que isto viram, mui edificados, e confessando a muita vantagem que às suas coisas fazem as da lei dos cristãos. Uma mulher cristã fidalga, e bem aparentada com os moiros de cuja casta é, estando seu marido ausente, adoeceu, e cuidando que morria, mandou chamar os padres, aos quais amostrou a mortalha que tinha feita ainda tendo saúde, para ser enterrado seu corpo, e o pano que tinha para lhe porem sôbre a tumba, e depois o darem a pobres, com o mais que para isso deixava. Mos- trou-lhes também o principal de seu fato, e as peças que tinha junto para uma filha, a qual com outros filhinhos que ela tem mui bem instruídos na lei de Cristo, também mandou vir e disse aos padres: Padres meus, fazei conta que êstes não são meus, mas vossos; assim vo-los entrego que façais dêles o que vos parecer; não os encomendo a parentes nem irmãos ou irmão, porque são moiros; sòmente conheço aos padres, aos quais encarrego minha alma, meus filhos e quanto tenho; e despedidos os filhos, se confessou, ficando de ir o dia seguinte comungar à igreja, como foi, levada em um palanquim: a qual quando na igreja foram descobrir, acharam sem fala e sem sentido, com a bôca fechada e tal que os padres trataram de a ungir. Quis Deus que tornou em si, e • Fi.ifiiv. começando-se a missa, para comungar por nenhum caso quis estar no * palan- quim. Instava que a tirassem fora, e como com isso se dissimulava, ela como pôde se começou a lançar, pelo que a puseram no chão, e junto um travesseiro em que pudesse encostar a cabeça, o qual, ao tempo de levantar o Senhor, ela botou de si. E assim esteve até que lhe trouxeram o Senhor para comungar, o qual tomou com tanta fé, reverência e devoção, que a fazia aos que presentes esta- vam; logo cobrou algumas forças, e falando já bem deu graças a Deus pela mercê que lhe fizera, e aos padres pelo trabalho; e tornada para sua casa, sarou. Um menino filho de um cristão adoeceu gravemente; não lhe aproveitando remédios, seu pai que o amava muito o trouxe à igreja. Um dos padres que tinha uma relíquia da Bemaventurada viúva Margarida de Chaves, a meteu em uma pouca de água, que logo deu de beber ao menino encomendando-o à santa; em a bebendo o menino mudou o semblante e ficou sem febre, e dando todos graças a Deus, seu pai o levou para casa são, com muito prazer. Entre os que êste ano se baptizaram foi um menino, filho de um moiro honrado. Estando em artigo de morte foi ter com o pai um cristão, grande seu amigo, com capa de querer aplicar ao menino alguma medicina, como de facto aplicou, mas a da vida eterna, porque levando consigo uma pouca de água benta, sem o pai entender nada, o baptizou, e dali a dois ou três dias se foi ver a Deus e fazer companhia a outros dois irmãozinhos seus que os anos passados por outro semelhante ardil da caridade dêste cristão tiveram a mesma ventura. Alguns outros meninos se baptizaram, os quais seus pais venderam por tão pouco preço, que um dêles custou um quarto de larim que corresponde a um • fi. 16a. tostão. Vão os padres muitas sextas feiras às mesquitas dos moiros a * tratar
  • Das coisas do Mogor 381 com os letrados das coisas de Cristo nosso Senhor, que eles ouvem com paciên- cia; porém tanto que chegam a lhes refutar Mafamede, toda a perdem e por tôdas as vias divertem a prática. CAPÍTULO IX Da missão do Calaio DO sucesso desta missão tão desejada não há por este tempo outra coisa mais que uma carta, que o irmão Bento de Góis, que vai descobrir esta cristandade, escreveu ao padre Jerónimo Xavier, superior da missão de Mogor, de Hircande, corte de El-Rei de Cascar e dos reinos a êle sujeitos, em dois de Fevereiro de seiscentos e quatro; na qual lhe diz que logo se divulgou nela ser chegado ali um arménio rume, que não era seguidor do maldito Mafa- mede, que para tôda aquela corte foi coisa de grande espanto haver homem de entendimento no mundo que seguisse outra lei. Chegou a fama ao Rei, pelo que o irmão o foi logo visitar com seu pre- sente, como é costume por aquelas partes, e foi dele mui bem recebido. O presente que lhe deu foi um espelho grande e três pequenos, um pano de sêda para seu estrado, outro branco rachado, três pães de açúcar e uns poucos de confeitos. Recebeu o Rei o presente e por então não houve mais. Ao outro dia o mandou chamar, e que levasse o Santo Evangelho e a Santa Cruz; do qual foi sabedor porque um seu vasil ou capitão foi de repente à casa onde o irmão se agasalhava a dar busca no fato a ver se achava nêle alguns brincos para o Rei; achou um diur*nal e uma cruz muito formosa e bem ornada; preguntou que »fi. 162». era aquilo. Respondeu-lhe o irmão, que o livro continha algumas coisas do Santo Evangelho de Jesus Cristo, e a cruz era o sinal e divisa dos cristãos e daquela em que o Filho de Deus morrera por salvar o mundo. Deu mostras de querer levar tudo a El-Rei, mas pedindo-lhe o irmão que o não fizesse, nem desse conta disso a El-Rei, condescendeu com êle por então: mas tanto que foi ao paço, deu logo conta de tudo o que vira, pelo que logo o irmão foi chamado e que levasse tudo. Fê-lo assim, foi ao paço, entrou a El-Rei e achou-o acom- panhado de muitos fidalgos e senhores da corte, de grande autoridade, barbas compridas que se faziam respeitar de quem os via: e depois de feitas suas devi- das cortesias pelo irmão, lhe pediu El-Rei que lhe mostrasse o Santo Evangelho, que era o diurnal acima dito. O irmão o levava mui bem concertado e envolto, e tirando-o com grande veneração e reverência, beijando-o primeiro o pôs na cabeça, o que todos estavam vendo com muita atenção. Veio logo um grande privado do Rei, para o tomar e lho ir dar; ao tempo que o irmão lho deu, o tornou a beijar e pôr na cabeça, o que também fêz o moiro quando o tomou na mão, e o mesmo Rei quando o moiro lho deu. Abriu-o El-Rei e pasmou de ver letra tão miúda e tão bem feita: preguntou ao irmão se sabia ler por aquela letra, e dizendo-lhe que sim, lho tornou a dar, e que lesse alguma coisa; e abrindo-o o irmão acertou de dar logo com os olhos naquela antífona do dia da Ascensão do Senhor: Viri Galilei, quid slatis aspi-
  • I 382 Das coisas do Cataio cientes 111 ccelum, ctc. Entoou o irmão estas palavras com voz alta e tão devota- mente, que êle mesmo se moveu a lágrimas; o que vendo os moiros começa*ram também a suspirar e dar gemidos, e pedindo lhes declarasse que queriam dizer aquelas palavras, o irmão se consolou muito pela ocasião que se lhe oferecia de diante daqueles infiéis poder denunciar e prègar o nome de Cristo, como logo o fêz, tratando da Ascensão do Senhor e da vinda do Espírito Santo sobre os Apóstolos, e particularmente do dia de juízo; e depois abrindo o diurnal noutra parte lhes leu o salmo de Mtserere mei Deus e pregou um pedaço sôbre êle. Ficaram todos aqueles infie'is enleados e olhando uns para os outros. El-Rei espantado disse: Que maravilha é esta? Pediram que lhes mostrasse a Santa Cruz; tirou-a o irmão beijando-a com grande acatamento e reverência, e disse falando com El-Rei: Senhor, êste é o sinal dos cristãos, e quando fazemos ora- ção pomos êste sinal diante de nós. Preguntaram êles para onde oravam os cristãos; respondeu que para todas as partes, pois em todas Deus estava. Pre- guntaram se usavam os cristãos de lavatório; respondeu-lhes, que como êles não, que não tratavam mais que do lavatório corporal; mas que o nosso era espiritual, que consistia na limpeza das consciências; nem tínhamos por provei- toso para as almas o lavatório que lavava por fora, ficando as consciências cheias de pecados e imundícias. Emfim ficaram todos mui satisfeitos do que ouviram, e o irmão muito mais, tendo por bem empregados os trabalhos que até ali padecera, pois deles resultou poder prègar o nome de Cristo e vinda sua no dia de juízo, em côrte e presença de tal Rei. Chamou depois El-Rei por várias vezes ao irmão; uma delas lhe mostrou certas escrituras, nas quais achou algu- mas das folhas escritas de letra redonda muito bem iluminadas, com suas letras • fi. 163. vermelhas; pre*guntou El-Rei que era aquilo; leu o irmão e viu que aquela escritura tratava do mistério da Santíssima Trindade, e em particular lhe de- clarou o^ que nela também se dizia, que Deus é um só, e de sua grandeza e omnipotência, e como tôdas as coisas que vemos dependem dêle, e êle de nenhuma; como deu princípio a tôdas as coisas, pôsto-que todas estavam nêle- e outras coisas a êste propósito, que Deus lhe deu a falar, com que todos' aqueles infiéis ficaram pasmados, e diziam uns para os outros: ;Êstes são os que nós chamamos sáfaros e homens sem lei? Êles conhecem a Deus como nós; e El-Rei disse parecia moula que é o mesmo que prègador. Em uma destas idas, entendendo os moiros que o irmão o não era, fizeram êstes prin- cipais entre si uma junta dizendo que bem se lhe podia fazer força para o trazer à lei da salvação, pois era mágoa ver um homem tão venerando e de tanto respeito morrer e ir-se ao inferno; a isto respondiam outros: para que é falar nisso? bem lhe podeis vós dar com um malho na cabeça, não hajais mêdo que este deixe a sua lei. Houve porém um que tomando a emprêsa à sua conta fez todos os extremos que pôde, para ver se o podia levar ao cabo ; mas andando nisto, o irmão se foi um dia ter com êle à sua casa, e lhe disse: Senhor que andais tecendo em vão; desenganai-vos que a minha lei é a menina dos meus olhos. Se o haveis pelo fato, aí o tendes, e aqui o corpo ao qual podeis fazer em pedaços, que essa será a minha bemaventurança. Com isto o moiro desistiu de seu intento, e nunca mais tratou da pretenção que trazia. Foi também chamado de Merisaquias, principal ministro dêste Rei e senhor
  • Das coisas do Cataio 383 mui grande. Preguntou-lhe pelas coisas dos cristãos, ao que tudo respon*deu, »fi. 163*. tratando-lhe muitas coisas dos costumes dos fiéis, e entre êles o exame que faziam de suas consciências, de que muito se maravilharam; e um dos presentes comovido de compaixão do irmão lhe rogou muito fizesse com êle o Salema a Mafamede para que se salvasse, pois lhe não faltava outra coisa; e com grandes e fundos suspiros o começou êle a entoar; mas quando viu que o irmão o não seguia, ficou muito triste, Dos outros começaram alguns a rugir com os dentes, e preguntar pela espada levantando entre si rumor. Acudiu o irmão com muita paz falando com o que o mandou chamar: Vós me mandastes aqui vir e eu sobre vossa palavra vim; que agravo vos fiz respondendo tão cortêsmente ao que me preguntastes? e com isto se aplacou tudo ficando êles dizendo muitos bens do irmão. Antes que o irmão chegasse a esta cidade e côrte, com um sucesso que teve, (que por se perderem as cartas em que o escrevia se não relata) fêz um grande serviço à rainha dêste reino, que vindo de certa parte lhe foi roubada sua recâmara e as mais coisas do serviço de sua pessoa; pelo que ela se viu em muita falta do necessário, o que sabendo o irmão, que se achou no lugar onde ela viera ter lhe acudiu com o gasto para sua pessoa de tudo o que pôde, coisa que causou mui grande espanto em todos aqueles infiéis que o souberam, prin- cipalmente na côrte do Rei, onde todos lhe deram muitos louvores e agradeci- mentos por achar esta rainha tamanha caridade em um estrangeiro, não a achando entre os mesmos moiros naturais. Chegou esta rainha à côrte depois do irmão estar nela; saiu muita gente a recebê-la fora da cidade com seus presentes; foi logo recado ao príncipe seu filho, que estava dali alguns oito dias de caminho, o qual veio pela posta a ver sua mãe. Foi-o visitar o irmão * dois dias depois com seu presente, e dando-se re-.Fl.i&». cado ao príncipe como êle ali estava, saiu logo fora e indo o irmão para lhe tomar os pés, como é costume naquelas partes, o não consentiu, mas por baixo dos braços o levantou com muita alegria. Preguntou-lhe como estava, donde era, quantos anos havia que viera de sua terra; e que logo lhe mandaria pagar à risca, como pagou, todo o gasto que fizera com sua mãe. É êste príncipe de idade de 26 anos, muito bem disposto e mui bemquisto de todos, e desejado para Rei por morte do que agora reina, e tão amigo ficou do irmão e ojjirmão tanto seu privado que além de o fazer assentar sempre junto con- sigo, não era necessário quando o irmão ia a sua casa mandar primeiro recado, senão entrar logo onde êle estava, e sentar-se sem mais cumprimento. Soube do diurnal que o irmão tinha; pediu que lh'o levasse; teve-o muitos dias em seu poder, até que o irmão lh'o pediu e correndo-se lhe disse; ,-se vo-lo eu não der, que fareis? respondeu o irmão: Senhor, os reis, não costumam fazer força a seus vassalos. A êle e a todos os circunstantes quadrou muito a resposta, e lhe pedi- ram lhes mandasse vir o santo livro, porque desejavam de o ver; ao que êle não saiu, mas levantando-se daí a pouco, puxou pelo irmão e o levou consigo à sua câmara, onde logo mandou que ninguém mais entrasse. Chamou um criado, e mandou trazer o diurnal; e indo o irmão para o tomar da mão do criado, o não
  • 384 Das coisas do Cataio consentiu o príncipe, mas levantando-se o tomou êle com suas mãos e o beijou e o entregou nas do irmão; e depois lançando-lhe o braço sobre o ombro lhe pediu, que lesse alguma coisa, e declarasse. Fê-lo o irmão de tal sorte, que o fêz .F1.164V. chorar, e entre outras coisas lhe falou da grandeza * do Papa, do que represen- tava na terra, de sua eleição, da confissão que fazíamos os cristãos de nossos pecados, dos hospitais e casas da santa misericórdia que há entre nós, dos nos- sos Reis, de suas grandezas, dos Bispos, dos Cardiais, do govêrno de nossa república cristã, e de tal maneira lhe ficaram todas estas coisas na cabeça, que não sabe falar de outras com os seus; depois de alguns dias se foi para as terras onde antes estava, fazendo muita força ao irmão, que quisesse ir com êle e assegurando-o que nada temesse, que sua espada estava prestes. Nesta cidade de Hircande, corte do Rei daquelas partes, haverá algumas cem mesquitas; à sexta feira vem um moiro à praça, e brada com voz alta que se lembrem todos que é sexta-feira para irem fazer à mesquita principal as cerimónias e oração de seu alcorao; a qual acabada, saem alguns doze homens com uns loros de coiro, e vão dando na gente que acham diante e que não foi à oração, e fica absoluta a pessoa em quem dão. Cada mesquita está em seu bairro, e todos os daquele bairro são obrigados a ir a ela cada dia cinco vezes a fazer oração, pagando certa pena se não vão; e porque o irmão não ia a estas namazas, que assim lhe chamam êles, os cacizes entenderam com êle, e lhe quiseram levar a pena; pelo que o irmão se foi a El-Rei, e lhe contou como os moulas, que são os cacizes, o não deixavam viver e lhe pediam dinheiro; do que El-Rei se riu muito e todos os circunstantes, e mandou repreender mui bem aos cacizes, e ao irmão que vivesse a seu modo, e ninguém entendesse com êle. Deu Deus tanta graça a êste irmão, que não há pessoa que o trate a pri- meira vez, que não fique logo muito seu amigo, nem se fazia banquete na cidade, * fi. if5. a que êle * não fosse chamado, onde pelas preguntas que lhe faziam das coisas de nossa santa fé, tinha ocasião de lhes pregar muitas vezes dela. Eles tam- bém fazem todos os dias suas prègações junto de uma escola, onde se aprende; trazem muitas esteiras para se assentarem, e uma cadeira alta para o prègador, e um bordão que fincam no chão, porque de quando em quando pega dêle com muita gravidade, e se levanta da cadeira com grandes bramidos e meneios, e tudo o que trata nestas prègações são histórias do seu falso profeta contra os sáfaros e cristãos. Quanto à jornada e prosseguimento da missão, estava concertado com um embaixador que de Hircande partia para o Trufão, que é o lugar onde se ajunta a cáfila para entrar no Cataio, em cuja companhia tratava de prosseguir seu caminho. É êste embaixador um homem muito honrado, o qual lhe prometeu que o levaria sobre a cabeça e o tornaria a trazer, ajuntando que havia anos que a nossa gente fôra àquelas partes. Costumam êstes embaixadores a comprar estas viagens, e êste a comprou por duzentas mãos de almíscar, e antes de se partir paga tudo a El-Rei. Com êle hão de entrar sòmente setenta e duas pes- soas, pelo que os mercadores o grangeiam com boas peitas, para que êle os meta nêste número; e quem menos dá e pôde, fica excluído, pôsto-que a todos dá sua palavra, porque todos lhe dêem presentes; mas depois falta com ela a
  • Das coisas do Cataio 385 muitos, porque nem todos podem entrar. Partem-se desta cidade, mas vão mui devagar, por se lhes ir ajuntando gente, e fazerem mais proveito. São daqui a Trufão quarenta dias de caminho; daí a Camur * sete, de •fi.usw. Gamur às portas de Cataio onze; porém daí para dentro, por mais gente que vá, nunca passa mais de setenta e duas pessoas, e a cada um dos passageiros se dá um cavalo cada jornada e dois servidores, e o gasto para comer enquanto naquelas partes andar, e para isso dizem que estão em cada jornada quinhentas mulas até chegar à corte. Aqui em Hircande achou o irmão Abanos papel, pau de tinta, porcelanas, ruibarbo, as quais coisas todas vem do Cataio, e pelo mar da outra banda se diz que lhe entra aljôfar, pimenta, canela e cravo, além da terra ter em si muito gengivre e açúcar em pó, o que tudo faz parecer ser o Cataio não o mesmo que a China, mas terra muito vizinha e similhante, pois o que se conta do Rei de Cataio, é tão diferente do que já sabemos de certo do Rei da China. Alegrou se e consolou-se grandemente o irmão de ver uns papéis pintados que vieram do Cataio em que achou um homem com um bar- rete na cabeça e uma cruz sobre o mesmo barrete, e outro em pé diante dêle com as mãos cruzadas, que parece ser retrato de algum Bispo. Também viu em umas porcelanas pintado um frade de S. Francisco com o seu cordão de- pendurado, e na cabeça um modo de cercilho, ainda que a barba comprida como de china. Tinha passado o irmão até esta cidade o mais trabalhoso caminho que há nesta viagem que são os desertos de Pamech, onde lhe morreram cinco cavalos por serem nestes desertos mui grandes os frios e não haver lenha * nem . fi. >66. povoado, e um ar tão terrível, que toma o fôlego à gente de modo que não podem resfolegar; e o mesmo faz aos cavalos que subitamente caem em terra e morrem. E para tudo isto não há outro remédio que alhos e cebolas e alguns albicorces secos dos quais come a gente e untam as bocas aos animais; e apro- veita a quem aproveita. Passa-se este deserto em quarenta dias quando há neves e em menos quando as não há. É infestado de ladrões ferozes e cruéis que neles veem esperar as cáfilas, fazem mil crueldades. Depois da última carta por onde soubemos o que acima temos dito, que foi de 2 de Fevereiro de 1604, nos veio às mãos outra feita em Agosto do mesmo ano, em que diz como estava já para partir bem acomodado com o capitão da cáfila, que o fazia um dos cinco que com título de embaixadores entram, mas como não tinha posse para sustentar tanta pessoa, ficou um dos setenta e dois passageiros. Refere também que enquanto esteve nesta corte de Hircande, o Rei e todos os mais lhe mostraram grande amor, mas sobre todos com grande excesso o príncipe, de que acima falamos, indo estai uns dias com êle nas terras e cidade onde residia; o qual amor e gasalhado nunca por tais partes o acham os mercadores cristãos, antes vontade pronta de lhes beberem o sangue e roubar quanto levam. E bem mostrou isto um moiro, grão minis- tro do diabo, mas tido de todos por santo; e êle disso se gabava, provando o com ter dado a morte a muitos por virtude de suas orações. Este, estando o irmão uma vez com outros muitos, se chegou a êle e lhe pôs uma faca nos peitos apertando-o que dissesse o Salema ao seu Mafamede, senão * que o havia de matar. Os naturais da terra que estavam presentes, diziam uns aos 49
  • 386 Das coisas do Cataio outros que pode ser teria visto em visão que era serviço de Deus matar aquêle homem; porém os mercadores estrangeiros lhe tomaram a faca da mão. Neste tempo o irmão a suas vozes e apertos que lhe fazia, não respondeu mais que com se sorrir, de que ficou o moiro tão indignado que então se embraveceu muito mais, fazendo grandes juramentos que o havia de matar. Porém Deus livrou o seu peregrino dando-lhe tanta graça com todos por onde quer que vai, que ainda que saia de través um como êste que o queira matar, logo acha muitos que o defendam; e para êstes e outros semelhantes encontros se vai o bom irmão sempre armando, recorrendo sempre à fonte de todo o bem. E assim estando nesta côrte, de tal maneira viveu e edificou a todos com seu exemplo, que, com serem tão maus, diziam uns aos outros que nunca viram homem de tal consciência, nem arménio como aquele. E desta opinião que dêle tinham nasceu que estando ali um mercador que já estivera em Moscóvia e fazia algu- mas vezes o sinal da cruz, lhe veio pedir remédio para um menino seu filho que havia um ano estava muito doente sem nenhum lhe poder achar; e porque êste se lhe mostrava muito grande amigo, foi o irmão a sua casa ver o menino, levou consigo o seu diurnal, pôs-lho na cabeça, rezou-lhe o Evangelho, e lan- çou-lhe ao pescoço uma cruz que consigo trazia; e foi Deus servido que dali a três dias ficou o menino são. Estando ali antes de partir, veio uma cáfila de Cataio, mas os moiros que nela vinham lhe não souberam dizer mais senão que os moradores dêle eram • fi. 167. sáfares, que quere dizer gente sem lei; outros lhe diziam * que eram Frangues, nomes que êles dão aos portugueses e mais cristãos. Achou ali também cativo um Rei de Tabete, o qual com enganos foi tomado e trazido cativo àquela terra havia três anos. Era seu nome Gombuna Miguel; foi-o visitar algumas vezes, mas não lhe pôde entender a língua; só o que por alguns indícios alcançou dêle foi que na sua terra liam o Angil, que quere dizer Evangelho; porém entre os que com êle vieram achou um seu físico por nome Lunrique o qual sabia falar pérsio e êste lhe disse que na sua terra não se circuncidavam, mas aos oito dias levavam as crianças ao seu Botelhana que é sua igreja e aí as lava o seu Itolama que é o seu padre e lhe punha o nome dos santos que estão pintados nas suas igrejas. E que o seu padre grande, a quem êles chamam Cungao, tem mitra na cabeça e que seu vestido é a modo de casula e o jejum grande de quarenta dias, no qual tempo todo não comem senão à tarde e não bebem vinho nem comem coisa de carne; acabados os quarenta dias fazem grande festa e tornam a comer carne. Dizia mais que tinham o Angil, que é o Evangelho, que seus padres não eram casados e que tinham por fé haver dia de juizo, oito infernos e treze paraísos, dos quais todos apontava os nomes, e dizia que os infernos eram para que em cada um dêles se paguem diversas culpas e os paraísos para que se gozem diversos prémios. Dizia também que alguns seus grandes estavam no Cataio, ao qual do seu Tabete havia caminho de um mês e que os do Cataio haviam de folgar muito de o verem iá.
  • Das coisas de Diu 387 CAPÍTULO X * Da casa de Diu #Fh167 T NÃO se pode fàcilmente dizer o muito que nesta cidade e fortaleza vai crescendo o culto e serviço divino e o conceito e estima de nossa santa religião católica assim no povo cristão como no gentílico que nesta ilha e cidade é quási inumerável. Os fiéis mostram sua devoção e aproveitamento no frequente uso dos Sacramentos em nossa igreja, confessando-se e comun- gando nela muitos cada oito dias, e quási todo o povo nos jubileus e mais festas que pelo decurso do ano se celebram. Fizeram-se muitas confissões gerais, muitas amizades, estorvaram-se muitas ofensas de nosso Senhor e acudiu-se a muitas necessidades dos próximos até dos próprios infiéis, os quais em seus tra- balhos, como se foram domésticos da fé, se veem valer a esta casa, e a teem todos por amparo de suas necessidades, e até para os fazerem amigos uns com outros; de modo que por estes benefícios até os baxás do Turco e capitães do estreito de Meca teem tamanha opinião dos religiosos desta casa, que como a muito conhecidos e confidentes seus lhes escrevem cartas e lhes mandam diri- gidos seus agentes turcos para com seus favores e autoridade serem despachados em seus negócios; e por este meio também se tem neles boa correspondência pelo bom aviamento e ordem que dão à passagem de nossos padres para Etiópia com muitas honras e favores, como abaixo se dirá de um e outro povo. Sus- tentam-se aqui os padres de esmolas as quais lhes fazem assim os cristãos como os gentios; mas as principais são dos capitães, quais as fêz sempre mui largas o capitão Guterre de Monroy que também edificou à sua custa uma ermida de nossa Senhora da Guia e junto dela umas casas mui formosas, o qual tudo * deu 168. à Companhia. Está esta ermida fora dos muros edificada em um monte alto donde descobre tôda a cidade, barra e rio, com tôdas as naus e navios que nele estão, e pela outra parte todo o mar largo e terra firme, sem haver coisa que a quatuor ventis impida a vista. Neste monte esteve antigamente a mesquita e sepultura do Soldam Badur, Rei de Cambaia, tão nomeado em nossas histórias da índia, a qual era a mais sumptuosa de tôdas estas partes, fabricada de muitas colunas altas e formosas, as quais depois se levaram para Goa e outras partes, ficando ainda algumas peças que bem mostravam a nobreza do que foram. Ao pé dêste monte está uma horta, a qual também antigamente foi do mesmo Sol- dam Badur, Rei de Cambaia, onde êle pretendeu banquetear o governador destes estados Nuno da Cunha e matá-lo à traição. Esta nos deu também um cidadão honrado, nosso devoto, a qual junta à ermida e casa fazem um bom alívio para os convalescentes, de que teem bem necessidade os que aqui residem, principalmente nos dois meses de Julho e Agosto que são mais doentios. Com esta ermida da Virgem nossa Senhora que aqui se fêz se tiraram as ocasiões de muitos e graves escândalos e ofensas de Deus que nêste monte e seus arredores se cometiam; porque no monte se extinguiu a mesquita em que Mafamede era venerado e ao redor dela outras dez ou doze mesquitas e pagodes que por ali estavam de grande veneração dos gentios e juntamente se arvorou no sumo do monte uma formosíssima cruz que foi a primeira que fora dos muros da cidade
  • 388 Das coisas de Diu se plantou depois de tantos anos que havia que os cristãos a possuíam; nos quais todos este real estandarte parece esteve preso dos muros a dentro, mas, • Fi. 168 t. depois que * na frontaria daquela ermida se levantou publicamente, não só está assombrando com sua vista a infinita gentilidade e moirama que nesta ilha habita e ainda a que mora muitas léguas a dentro pela terra firme, mas também extende os seus braços e após ela se levantaram outras três em diversos lugares mui acomodados. E como os homens não tinham outra saída nesta cidade para suas recreações senão para aquela parte, não tinham também em que pôr os olhos senão em mesquitas e pagodes junto dos quais se assentavam e recreavam; mas agora não teem em que os pôr senão nesta árvore da vida da Santa Cruz e na casa da Virgem nossa Senhora a cuja sombra recebem diferentes recreações e alívios do que dantes recebiam a dos pagodes e mesquitas. Não falta também para esta casa o povo gentílico com a liberalidade de suas esmolas e boas obras; porque não sòmente a ajuda provendo-a de muitas coisas domésticas e neces- sárias, mas déle sai o principal gasto da fábrica do edifício com que se tem mui bem acabado dois formosos corredores em sua perfeição; e importará a esmola ordinária que todos os anos dão estes gentios para esta fábrica melhoria de mil e quinhentos cruzados e com ela se vai também continuando a igreja, cuja capela-mor fêz à sua custa Duarte de Meio, capitão por agora da fortaleza. É verdade que com os gentios nos mostrarem tanto amor e fazerem tão boas obras e fiarem tôdas suas coisas dos padres, em uma só vivem sempre descon- fiados dêles, que é nas coisas de sua religião e idolatria, porque neste ponto teem concebido tal opinião que qualquer coisa que aconteça de levantar cruzes, • fi. 169. fabricar igrejas e estender a fé, vituperar suas seitas, * ritos e costumes, tudo imaginam que se fêz por via dos padres, ainda que êles nisso não intervenham. E sucedeu num destes anos, que recebendo-se nesta cidade e fortaleza as relí- quias que foram de Goa com as mais graves e solenes festas de procissão, invenções, diálogos e outros vários modos de alegria e gôsto, que nunca nela se viram, foi tão grande o receio e mêdo que o povo gentílico cobrou oito dias antes da festa que se ia preparando, que correu entre êles politicamente que a faziam os padres para os tomarem nêles e fazerem cristãos por fôrça; pelo que muitos se foram para a outra banda até se acabar a festa: outros no dia dela se fecharam em magotes em casas grandes temendo serem ali entrados e toma- dos. Vendo isto os padres chamaram alguns principais, e assegurando-os do engano que tinham, lhes fizeram o campo tão seguro, que mais de dois mil dos nobres e graves se acharam presentes; mas a gente popular e baixa não houve coisa que a segurasse. CAPÍTULO XI Do que passou sóbre os pagodes que se derrubaram e cru\ que se levantou em seu lugar HOUVE no ano de 604 uma grande contenda nesta cidade entre a idola- tria e a cruz de Cristo, em que por derradeiro a virtude da cruz de Cristo ficou com a vitória, como sempre costuma. E para que se en- tenda melhor êste sucesso, e por outros bons respeitos, é necessário tomar a
  • Das coisas de Diu 38g narração dele um pouco de mais longe. Toda a substância de tra*to e mer- • fi. 169». cancia do reino de Cambaia pende de três ervas, que são a do algodão, do anil e do anfião: a do algodão para as roupas que dêle se fazem: as outras duas para as tintas das mesmas roupas; e com estas três ervas recolhe êste reino o oiro e prata que vem de ambos os estreitos, e grande parte da prata que vai de Portugal, e oiro da China; e há muitas centenas de anos que êstes dois rios de oiro e prata correm desta maneira por tôda a enseada de Bengala e reino de Guzarate sem êle dar de si mais que as três ervas acima ditas. A saca principal que tem esta mercancia é para Goa, e daí para várias partes e para ambos os estreitos de Ormuz e Meca, vindo porém primeiro as fazendas registar a esta alfândega de Diu onde os mercadores de Cambaia teem seus respondentes para o meneio delas, e os moradores da cidade suas naus que dêste porto saem para diversas partes; e pende tanto êste reino de Guzarate ou Cambaia do comércio com os portugueses nesta escala de Diu, que é prática universal dos que bem entendem que, ainda que haja guerra connosco, nunca cessará o comércio de Cambaia com êste empório de Diu. E a razão é porque, como aquele reino recolhe em si o dinheiro do mundo a troco das suas três ervas, cessando o comércio, fica êle tão cheio de oficiais de todo o género de roupa desbaratados e perdidos no que toca ao meneio de tôda aquela fábrica, que ou hão de acudir ao clamor de todos os oficiais, ou se hão de ir para outros reinos; e da mesma maneira ficam os lavradores, por não terem saca para suas novidades destas ervas crescerem e terem valia. Antigamente vinham buscar esta fazenda a êste pôrto os moradores e mercadores de Meca e Arábia e * dêle iam a Cambaia e a Madavá a fazer sua fi. bo- ieira e comutações da fazenda que traziam, que era coral, alambre, marfim, sêdas e todo o mais oiro e prata; e saíam dêste pôrto ordinàriamente para os do estreito de Meca trinta e cinco para quarenta naus, e para o de Ormuz como oito ou dez cada ano; porém de poucos anos a esta parte se meteram neste comércio os baneanes moradores de Diu, os quais ou são mercadores ou respondentes de Cambaia, e o usurparam de tal maneira, que vendo isto os moradores do estreito de Meca e como êstes baneanes lhes levam lá tudo quanto êles desejam, o houveram por grande proveito seu, assim por se livrarem dos riscos e despesas que neles eram maiores que nos baneanes por serem merca- dores de diferente sorte e qualidade, como pelos maiores proveitos que disso lhes resultam. Mas não foi isto sem muito grande quebra do proveito desta cidade e alfândega de El-Rei, porque donde de antes saíam dêste pôrto para os do estreito de Meca perto de quarenta naus, agora não saem mais que de vinte até vinte e cinco. Além disso por esta ocasião se sangrou também o curso da mercancia de Cambaia e de Diu para duas partes que muito tiram por êles; uma é o Sinde, aonde o grão Mogor depois que o conquistou fêz vir embarcações carregadas das mesmas fazendas pelo rio Indo abaixo, que corre caudaloso, e navegável desde a sua cidade de Lahor até o Sinde, e onde se carregam muitas naus para Ormuz com grande perda dos direitos desta alfândega, porque tôdas estas fazendas vinham primeiro a ela, o que agora não fazem. Outra é pelo pôrto de Surrate donde todos os anos sai uma nau para Gidá e estreito de Meca a I
  • 390 Das coisas de Diu • fi.itov. que se dá carga que seja de certo porte, e ela é tamanha que * parece uma cidadè; e para que os mercadores concorram a Surrate com suas fazendas, a uns obriga por força o senhorio, a outros franqueiam com favores nos direitos, tudo para os desviarem de virem a Diu; e assim é fama que monta esta nau de direitos perto de setenta mil xerafins, que foram muito bons para a fazenda de sua Majestade, e ajuda do estado da índia. Além disto, como há perto de trinta anos que não vai armada em Agosto a esperar as naus que partem de Surrate, sem cargas perdem os mercadores o modo de se embarcarem nelas, indo e vindo muitas naus sem cargas, com que o porto de Surrate se vai engrossando, e o de Diu diminuindo. E ainda que é verdade que a alfândega de Diu rende agora mais a sua Majestade do que noutro tempo, pelas maiores diligências que agora se fazem na arrecadação dos direitos, dobrado pudera render, se não foram êstes sangra- doiros por onde as fazendas de Cambaia correm sem vir a Diu, como antiga- mente vinham todas; de que os baneanes introduzidos no trato são a principal ocasião, os quais, se estão em Diu, não é por proveito dos portugueses, nem da fazenda de sua Majestade, senão por seu próprio interêsse, que disso teem e mui grande; sendo assim que o que êles fazem folgariam muito os cristãos de fazer, por terem o mesmo proveito que neles estivera melhor empregado que nos infiéis. Mas são os baneanes tão manhosos, e andam tanto sobre aviso para lhes não sair das mãos o trato que teem usurpado, que se alguém se quere meter ou em ter naus para o estreito ou em mandar fazendas a êle, ou em ter algum dos ofícios que êles aqui teem, logo por tôdas as vias de valias, dádivas, peitas • fi. 171. e invenções, que para isso teem, o procuram desviar, e por meios que para * isso buscam, procuram fazer crer com as informações que para isso buscam, e dão, que o rendimento da alfândega de Diu depende todo dêles; donde nasce traze- rem-nos tão mimosos e cheios de tantos privilégios e favores, que, pôsto-que se lhes fazem com boa intenção, são contudo de muito prejuízo para o negócio da fé e honra de Deus; por onde nem os prelados podem fazer bem seu ofício nem as coisas de fé crescer, pelo muito que os ministros da Igreja são encon- trados e tidos quási por alvorotadores, se em qualquer coisa justa bolem com êles; de modo que conhecendo êstes infiéis quão medrosos e intimidados andam para com êles os ministros da Igreja, fazem quanto querem, e chegam a tanto que teem atrevimento para estranharem haver em Diu tantas igrejas, e levanta- rem-se de novo outras, e fazerem grandes queixas de se arvorarem as cruzes do Salvador, sendo a fortaleza, cidade e ilha tôda da coroa dêste reino, por benefício e virtude da mesma cruz. E daí nasceu a contenda que êste ano digo que houve entre a idolatria e a cruz do Salvador do mundo, a qual foi pela maneira seguinte. Tem esta ilha de Diu uma légua de comprimento e três para quatro tiros de espingarda de largo. Com ser tão pequena, está tôda retalhada de pagodes mui antigos, e por êles cheia de cerimónias, sacrifícios, festas gentílicas, e muitas feitiçarias ainda que ocultamente. Entre os pagodes que há dos muros afora, estão dois mui venerados e de grande romagem, onde cada ano se gasta muito dinheiro; um dêles se chama
  • Das coisas de Diu Maesse o qual é uma das três pessoas a quem este povo gentílico atribue a divin- dade de Deus, e dizem dêste que é o que dá o poder e fortaleza aos capitães, e faz os homens poderosos; o outro se chama Crangane. Sobre o qual contam esta fábula, que um homem * por nome Sumbanâssumba se pôs no deserto com grande penitência e profunda oração por muitas centenas de anos ao deus Maesse, o qual lhe apareceu no cabo deles dizendo-Ihe que pedisse o que quisesse. A petição foi que o fizesse mais poderoso que todos os homens; con- cedeu-lhe o Maesse o tal poder, e que fosse invencível. Vendo-se Sumbanas- sumba tão poderoso se levantou em tanta soberba, que começou a tiranizar os viventes, elementos e anjos, matando e destruindo os homens, mandando ao mar que lhe obedecesse, ao vento que lhe refrescasse, ao fogo (a quem estes gentios com os mais elementos dão figura humana e corpos animados) que lhe viesse administrar e aquentar os fogões, ao sol que lhe assistisse com seus raios e resplandor, como escudeiro em sua casa; pelo que vendo-se esta república celeste e terrestre tão avexada do soberbo Sumbanassumba, fêz petição a Deus a livrasse de sua tirania. Não tinha esta petição lugar. Seu deus Maesse como o fêz invencível sôbre os homens, e mais criaturas, o fizera também invencível contra as mulheres; mas como na mercê lhe reservou esta clausula, dizem estes miseráveis cegos que mandou Deus uma filha sua ao mundo em socorro das criaturas, por nome Crangane, e que esta sendo de idade de quinze anos e fazendo um exército de mulheres, com poder divino se encontrou em batalha com um exército de Sum- banassumba e o destruiu e acabou de todo, e recolhendo em si todas as mulheres de seu exercito, que todas eram ela, e ela todas, se foi para o céu depois desta vitória e benefício que fêz ao mundo, pelos quais os gentios fizeram e fazem muitos pagodes, e para a parte de Chaúl tem um a que atribuem um contínuo milagre, quando concede alguma coisa a seus romeiros, * e é que sacrificando- • -lhe o romeiro a ponta da língua lha torna outra vez a sarar. Outro está em Cambaia; e por esta Crangane vir dar socorro às criaturas, lhe fazem os gentios romagem quando escapam de algum trabalho, fazendo-lhe vários votos; donde veio que prendendo a justiça desta cidade alguns baneanes e degradando outros, todos êstes, quando se viram livres, foram em romaria ao pagode de Crangane, que está em Cambaia, e vindo depois por terra a esta cidade, antes que entras- sem em suas casas, foram também em romaria a outro pagode de Crangane que está no meio da cidade. São pois êstes dois pagodes aqui mui celebrados, Maesse porque faz poderosos, Crangane porque livra dos trabalhos; e com o Maesse foi a contenda de que falámos. Era seu templo todo de abóbada e dos mais antigos que havia nesta ilha, diante do qual antigamente os sacrifícios que se faziam eram de homens; porque, quando um homem vivia miseravelmente e queria mudar a vida em outra de algum senhor grande, êle mesmo se ia degolar, sacrificando sua vida ao deus Maesse para lha melhorar, o que agora se não usa aqui nesta ilha, pelo mêdo que os gentios teem dos cristãos, mas muitas vezes se faz nos que estão na terra firme. Amanheceu pois um dia a casa deste ídolo com a porta fechada, e sôbre sua abóbada arvorada uma formosa cruz, a qual sendo vista dos gentios brâ-
  • 392 Das coisas de Diu menes do serviço do mesmo pagode, se vieram logo com a nova aos da cidade, dos quais sete principais em nome de todos se foram logo à casa dos padres, dizendo que a gente miúda afirmava tôda que os padres da Companhia fizeram aquilo, mas que êles sabiam o contrário. "Os padres os asseguraram que nunca •FJ.172V. tal fize*ram, nem mandaram fazer, alegando-lhes em prova haver cinco anos que ali estavam, sem em todos êles lhes fazer agravo algum, antes tôdas as amizades que êles tinham experimentado, nem até ao presente tinham entrado em algum pagode seu. Mostrando-se com isto satisfeitos se despediram, e se foram ao capitão e apresentaram-lhe as provisões de El-Rei, em que manda sob graves penas que ninguém lhes quebre seus pagodes; alcançam do capitão mandar-lhes abrir a porta do pagode e tirar a cruz do alto dêle. Enquanto esta diligência se fazia, estavam todos os principais juntos, duvi- dosos da execução e deliberando o que haviam de fazer. Saiu uma mulher do mais principal de todos e posta no meio dêles arra- zoou desta maneira: Todos quantos aqui estais não prestais para nada, não defendeis o antigo nem conservais o presente. Antigamente não havia aqui tantas cruzes nem tantas igrejas, e agora que elas crescem se acabam vossos pagodes; para que são vossos ganhos, ^para que quereis quanto dinheiro ajun- tais cada ano? ,jpara o meter debaixo da terra? <;aí de que vos aproveita? o bom fôra servir êle agora. Dai-o, espalhai-o, que logo sereis ouvidos e ficareis honrados e nomeados. Estando nestas práticas, chegou a nova do pagode estar aberto e a cruz tirada, o que para os gentios foi de grande prazer, havendo-se por vitoriosos e fazendo grandes festas entre si, mas para os cristãos de grande sentimento vendo tirar a cruz do lugar onde já estava arvorada e com o diabo debaixo de seus pés. Porém daí a dois ou três dias amanhece o pagode posto por terra até os fundamentos, e o capitão tornou a mandar arvorar uma alta e formosíssima cruz junto do pagode, e no mais alto do monte que tem a ilha, • fi. 173. donde fica fazendo som*bra a grande parte da terra firme, com a qual os moiros assombrados mandaram dizer aos da ilha que logo tirassem dali aquela cruz, senão que êles próprios passariam à ilha a derrubá-la, e matá-los a êles, se o não fizessem. Responderam os da ilha que, se êles bolissem na cruz, que os portugueses os haviam de matar, que, morte por morte, antes queriam morrer nas suas mãos que nas dos portugueses; mas tudo ficou em palavras e ameaças como costu- mam, e a santa cruz ficou, e está ali alegrando os olhos de todos os católicos e quebrando os dos infiéis. Neste mesmo monte, onde agora está a santa cruz, esteve antigamente o pagode de Crangane, de que acima falámos, mas depois de os portugueses tomarem esta fortaleza, o puseram os gentios entre duas hortas, debaixo da terra, em uma casa como cisterna, por estar mais seguro e fechado. Mas nem ali o esteve, porque depois que um soldado lhe arrancou os olhos e deu uma cutilada no rosto poucos dias antes de se quebrar o outro pagode do Maesse, tiraram Crangane dali, lançando fama que aparecia ao brâmene e lhe dizia que a levassem para terra firme, pois nesta a desacatavam tanto. O brâmene do pagode Maesse veio nesta conjunção prègar ao povo, di-
  • Das coisas de Diu 3g3 zendo: Haveis de saber, que antes de se quebrar o pagode me apareceu Maesse dizendo-me que me ficasse embora, que êle se ia. Preguntei-lhe para onde. Respondeu que para a terra firme. Preguntando porquê, disse: Porque todos vós haveis de ser uns e todos vos haveis de fazer cristãos, por isso me vou, e por isso deixei quebrar o meu pagode. Os baneanes, ainda que se mostraram no principio sentidos e fizeram sua matinada, logo porém se aquietaram e depois zombavam do seu pagode, dizendo que, já que êle era deus, * se defendesse, e que não deixasse tudo sobre êles, fi. 173». que não podiam tanto, que, se êle não quis, sua fôsse a culpa. E ordinàriamente êste é o fim de tôdas as queixas dêstes gentios em seme- lhantes matérias, fazerem nos princípios grandes matinadas para ver se com elas podem estorvar o curso de nossa santa fé, buscarem para isso valias e aderências ainda dos próprios que as haviam de defender e promover, que são os que mais dano fazem nesta parte, mas, se se lhes tem rosto e se se lhes não faz caso de suas caramunhas, êles por si se aquietam logo, porque não é tão grande o amor que êles têm às coisas de suas seitas e paganismo, que por elas se queiram desterrar de suas pátrias e casas, e perder suas fazendas e interêsses. Assim o fizeram também quando os padres da Companhia aqui vieram fundar, até fazerem persuadir a pessoas de muita qualidade e ainda cristandade, que, se os padres ali ficavam, êles haviam de desamparar a terra, e com sua ida dela a fazenda de El-Rei e os direitos de sua alfândega haviam de perecer, e a terra se havia de despovoar. Mas os padres ficaram por Deus assim o ordenar, e os direitos da fazenda de sua Majestade cresceram tanto na alfândega que rendem hoje mais do que nunca renderam, desde que esta cidade é da coroa de Portugal, pois com tôdas as quebras e sangradoiros das fazendas de que acima falámos chega a passante de cento e sessenta mil xerafins. E os baneanes, que eram os que faziam todo êste ruído e ameaçavam que se haviam de ir todos sem faltar um só, ficaram na terra; e êstes mesmos, que se mostravam mais inimigos dos padres e que mais repugnavam à sua estada na terra, não faltando quem a isso os açulasse, são agora os mais amigos, e os que com * suas esmolas e fazenda, não sòmente ajudam a sustentar os padres, *fi. i74. mas lhes vão fabricando aquela casa com tanta perfeição e sumptuosidade. CAPÍTULO XII Da missão que desta casa de Diu se fê\ ao reino de Cambaia UMA das partes do Oriente em que os padres sempre muito desejaram introduzir e prègar o santo Evangelho, foi no reino de Cambaia, pelo muito fruto que entendiam que naquela gentilidade se faria; e ainda que por vezes estiveram resolutos a entrar naquele reino, e começar a fundar nêle êste edifício da fé, sempre tiveram para isso grandes estorvos e impedimentos que o demónio, temeroso do mal que se lhe podia seguir, alevantava, e às vezes tomando por instrumentos os mesmos que tinham obrigação de o ser para isto se efeituar; por onde não podiam conseguir seu desejo. Sucedeu agora cessa- 5o
  • Das coisas de Diu rem algum tanto mais as causas destes estorvos, pelo que logo desejando saber primeiro da disposição que havia na terra, foi escolhido para a ir descobrir o padre Gaspar Soares, superior da mesma casa de Diu, para com a informação do que nela achasse, se resolverem os padres do que deviam de fazer. Partiu o padre de Diu em uma embarcação com doze soldados que os devotos e amigos meteram no navio, pagos à sua custa, para o defenderem dos ladrões se os encontrasse, dos quais corria muito perigo por nossa armada da costa ser já • fi. 174 v recolhida. Junto da embarcação fizeram também ir uma manchua ligeira * para que em caso que houvesse briga, os soldados fizessem meter ao padre nela, porque esta ordem levavam, e à força de remo se salvasse. Mas foi o Senhor servido que sem perigo nenhum entrou no porto para onde ia, e desembarcado se foi para a cidade de Cambaia que é daí a uma légua por terra, em uma car- roça de um brâmene principal a quem seu feitor tinha de Diu escrito lhe fizesse muitos gasalhados; o qual logo ali veio ter com êle, e o levou com grandes cumprimentos e mostras de amor. Chegados à cidade, o brâmene e outros baneanes que logo se ajuntaram lhe mostraram nove ou dez casas para lhe darem a que melhor lhe parecesse; tomou êle a mais acomodada para seu intento, e logo nela preparou um oratório e altar em que disse a primeira missa dia da Ceia do Senhor e com oitenta e tantos portugueses que ali então se acharam, confessando e dando a comunhão a muitos dêles. Achou também alguns armé- nios cristãos e que muito festejaram sua ida, porque desejavam ter ali consigo algum sacerdote, ainda que fôsse à sua custa. Todos os dias iam êstes ouvir missa e tratar com o padre coisas de sua salvação, e assim ouviu confissões de muitos anos, reduziu ao grémio da Igreja dois arrenegados, casou alguns na forma da Igreja, que sem ela o tinham feito. No que toca às coisas dos gentios as quais principalmente ia descobrir, achou o que se segue: Há nêstes reinos quatro castas de gentios; brâmenes em que está posto o sacerdócio como em todo o mais Oriente, baneanes que se ocupam em merca- dejar, catéris em que estão as armas, e êstes podem comer carne; vices que se ocupam em ofícios mecânicos. Teem também certo modo de religiosos que •fi. 175. * chamam vertiás os quais andam cobertos com um pano branco, e não o podem lavar nem tirar do corpo sem primeiro se fazer em pedaços; não se assentam senão no chão ou sôbre os panos com que se cobrem, vivem de esmola e não podem guardar coisa alguma de um dia para o outro. O em que mais se esme- ram para se salvarem, é não matar coisa viva e por isso não consentem faze- rem-se tanques, porque criam peixes e depois morrem, pelo que hão que fica pecando quem os faz. Não accendem de noite candeia por não morrer nela algum bicho. Todos trazem nas mãos umas vassoiras compridas para quando for necessário irem varrendo o chão por onde passam por não acertarem de pôr os pés sôbre algum bicho e o matarem. Estava neste tempo na cidade o superior e cabeça dêstes vertiás; mandou-lhe o padre pedir licença para o ver e tratar com êle algumas coisas de Deus; deu-lha com mostras de boa vontade e alegria; e para haver quem desse fé do que se tratasse e juntamente ir bem acompanhado, pediu o padre algum baneane muito principal que fôsse com êle, não sabendo porém quão contrários são os baneanes que seguem as seitas dos brâmenes, dêstes vertiás; pelo que lhe respondeu o baneane: padre, ainda que
  • Das coisas de Diu 3g5 me cortaram a cabeça, não entrara em casa dos vertiás, mas nem por isso dei- xarei de ir convosco, porque não rejo coisa com que mais vos mostre o amor e desejo que tenho de vos servir, que com fazer por vós o que não fizera pelo risco da própria vida. Quando chegaram a casa do vertiás, acharam com êle perto de mil baneanes dos que seguem sua seita e êle estava assentado em um cambolim que é como cadeira de lente ou prègador, e com um pano de brocado no encosto e um docel * em cima, rodeado dos vertiás mais antigos e sábios, e *fi. 175*. estavam com as bocas cobertas com um pano branco por lhes não entrar nelas alguma mosca, e assim ficarem pecando na morte de suas almas. Fêz-lhe o padre algumas preguntas sobre as coisas de Deus, a que respondeu com estra- nhos desbarates, e sobre suas respostas lhe voltou o padre convencendo-o de tal maneira da cegueira que tem, que o triste não soube mais dar razão de si; gastou-se nesta disputa uma tarde inteira e logo se espalhou por tôda a terra o que nela passara, louvando todos muito as razões que ouviram por parte do verdadeiro Deus. Depois veio este mesmo vertiá a visitar o padre e tiveram outra larga disputa sobre as coisas de Deus, com o mesmo sucesso. À despe- dida lhe pediu o padre que trabalhasse muito porque Deus fôsse conhecido e adorado por todos e que não consentisse nem prègasse que se tirasse a honra ao criador e se desse às criaturas; e êle pediu ao padre que fizesse com os por- tugueses que não matassem coisa alguma. Com muitos outros teve o padre várias práticas das coisas de Deus e os achou dóceis e fáceis para conhecerem a verdade, mas não a seguiram, assim por não terem quem lhes prègasse como por não perderem o favor de seus naturais e remédio de vida que entre eles teem. É esta gente muito inclinada à piedade e a bemfazer que até para curar as aves do campo teem públicos hospitais. Tomada esta notícia, se partiu o padre da cidade de Cambaia e veio ter à de Surrate, onde por vir mal disposto se deteve alguns dias, nos quais sabendo Xanacane, senhor de quatro reinos e conquistador do Decão por El-Rei Aque- bar, o grão mogor, que êle ali estava, lhe mandou um recado em que lhe pedia com muita instância * se quisesse ver com êle. Desejou o padre muito poder *fi. 170. fazer esta jornada e satisfazer aos desejos dêste príncipe pela muita gentilidade que há em seus reinos, na qual com seu favor se pudera fazer muito fruto, mas pela ordem que tinha de se vir a Goa, lhe escreveu excusando-se e dando-lhe razão porque logo não ia a seu chamado. Mas depois de chegado a Goa, che- gou também um embaixador do mesmo príncipe com cartas para o padre pro- vincial e para o mesmo padre Gaspar Soares, em que a um pede muito lhe conceda licença e ao outro lhe cumpra seus desejos, porque são mui grandes os que tem de tratar com êie. Os treslados destas cartas poremos aqui traduzi- das em português palavra por palavra, nas quais se ha de advertir que onde nomeia «alma de Deus» entende a Cristo nosso Senhor. A que escreve ao padre provincial, diz assim: Remédio das vidas dos que seguem a lei da alma de Deus (i. est, de Cristo) reconciliador dos corações e novas amizades, respeitado dos grandes, escolhido entre os príncipes, padre provincial da Companhia de Jesus. Ao padre Gaspar Soares passando por Surrate desejei muito de ver, mas respondeu me que o não podia fazer sem licença do remédio das vidas dos que seguem a lei da alma de
  • 3g6 Das coisas de Diu Deus, reconciliador dos corações e novas amizades, etc. E por eu desejar muito e muito que entre mim e os padres e tôda sua nação haja muita amizade, pare- cia razão conceder licença ao dito padre para que com tôda a brevidade venha para mim. E haja o remédio das vidas que seguem a lei da alma de Deus, padre provincial da Companhia de Jesus, que tudo o que for para bem lhe farei, • fi. 176 v. e para os padres estou prestes com muita vontade e peço muito * que além de me conceder o que peço, me avise do que de mim lhe cumpre. Feita em três de tal mês e do reinado em que El-Rei Aquebar governa cincoenta anos. A que escreveu ao padre Gaspar Soares diz assim: Escolhido entre a flor dos bons, padre Gaspar Soares. Depois de lhe enviar muitas saudades e desejos que tenho de lhe satisfazer aos do escolhido entre a flor dos bons, lhe faço a sab&r que recebi a sua carta pela qual soube estar em Surrate, e desejando de o ver comigo me escreveu que o não podia fazer sem licença do padre provin- cial e também porque ia doente. Estimei muito sua carta e folguei com ela por extremo; e quanto a dizer que ficava doente e se queria refazer da doença alguns dias, espero que esta o tome com saúde, pelo que lhe peço que tanto que esta lhe for dada, se venha logo para mim seguramente e sem receio nenhum, porque tenho grande desejo de o ver cá, e gôsto de ver tal pessoa, e para isso escrevo também ao padre provincial para que lhe dê licença e creio que nem a êle faltará vontade para a conceder nem ao escolhido entre a flor dos bons para vir cá.
  • DAS COISAS DE ETIÓPIA CAPÍTULO XIII Da missão e jornada que fi\eram a Etiópia o padre Luis de Acevedo e o padre Lourenço Romano OMO o principal fim porque se fundou esta casa de Diu foi pela comodidade que aqui havia para * os nossos passarem »fi. 177». à Etiópia do Preste João, tem Deus bem mostrado com os sucessos que se desejavam da passagem dos padres, como isto foi obra sua somente e de sua divina providência para bem daquele grande império, pela facilidade com que abriu cami- nho a esta missão e por aquela parte onde êle estava mais dificultoso e cerrado, que foi por via dos mesmos turcos que tão fechadas tinham as portas do mar Roxo para estas entradas e passagens. E agora êles são os que se oferecem para os levar, êles que os agasalham no mar e na terra com muitas honras, e lhes dão provimento e guardas de gente durmas que os ponham em seguro onde os mesmos padres querem. Coisa admirável e em que bem se vê o braço de Deus e como à sua divina vontade e providência nenhuma força nem potência de seus inimigos é poderosa para resistir; antes no que é de seu serviço se serve dela, como se vê nêste caso particular, que por meio dos mes- mos turcos passou alguns anos há o padre Pero Pais e por êles depois os padres António Fernandes e Francisco António de Angelis, e agora da mesma maneira os padres Luís de Azevedo e Lourenço Romano; os quais a 26 de Março de i6o5 em trajos de arábios se embarcaram entregues a um moiro, casado nesta cidade de Diu, e conhecido do Baxá do estreito, e a outro que mostrou um for- mão do mesmo Baxá em que lhe dava comissão para poder dar seguro a tôda a pessoa de qualquer sorte que fôsse. Mandou o padre superior desta casa seu presente ao Baxá e a outros grandes e o mesmo fêz o capitão. A noite que se foram embarcar velaram um grande espaço diante do SS. Sacramento que estava desencerrado, com muita consolação sua. Estando alguns devotos e amigos nossos para os acompanharem * ate à embarcação, se lhes deu entrada •Fl- >78. na capela, onde com muitas lágrimas de devoção e saudade prostrados de joelhos os abraçaram e os foram acompanhando até o navio. De sua chegada a Sua- quém e do sucesso que tiveram até Etiópia escreve o padre Luís de Azevedo uma carta em 11 de Julho de i6o5, e é a seguinte. Chegámos à vista de Suaquém a 26 de Maio dois mêses depois que parti- mos de Diu; e enquanto a nau andava à vista da cidade, soubemos ser morto de peçonha o Baxá nosso amigo e que aos outros padres tinha feito tão grandes favores, e que em seu lugar estava outro de quem não tínhamos conhecimento
  • Das coisas de Etiópia algum, coisa que a nós e ao capitão que nos levava pôs em muito cuidado; e assim andávamos imaginando que modo teríamos para nos apresentar ao Baxá. E bem diferente era o que Deus tinha ordenado do que nós traçavamos; porque andando duma parte para outra na barra, veio à nau um baneane, o qual soube como nós ali vínhamos, e indo falar com o capitão, veio-nos também ver a nós; e tornado para terra foi dar conta ao Baxá e segundo cremos por ordem do capitão. Ao outro dia estando nós esperando o que se faria de nós e tendo por mais certo que desembarcaríamos para o tronco, tornou o baneane e falou com o capitão e logo veio ter connosco, dizendo que nos vestíssemos, que esperava por nós o Baxá para nos fazer muitas honras e gasalhados. Saímos vestidos com nossas toucas e cabaias em companhia do capitão da nau e dos mais pas- sageiros principais e nos fomos ao Baxá; e chegando nós a seu estrado para lhe beijar a cabaia, nos abraçou a seu modo, que é pondo-nos ambas as mãos em nosso rosto dizendo: Marabá marabá, palavra de amor e gasalhado, e man- •F1.178V. dando-nos assentar. Disse que nos * assentássemos à nossa vontade, que bem sabia que os portugueses não eram costumados a se assentar no chão como fazem os turcos. Logo nos mandou convidar com uma beberagem refrescativa feita de açúcar e sumo de limão, bebeu êle primeiro, logo quis que nós bebês- semos pela mesma porcelana; preguntou-nos como vínhamos e outras muitas coisas e nos mandou dar a cada um sua cabaia de brocado que logo quis que vestíssemos, e levantando-se em pé com todos os presentes rezou certa oração como em acção de graças de nós chegarmos a salvamento; o que feito, nos des- pediu. E saindo do paço achámos prestes três cavalos para nós e para o capitão da nau, em os quais fomos levados com grande acompanhamento à casa do mesmo capitão; e estando já nela descansando, mandou o Baxá suas charamelas e trombetas e atabales a nos fazer festa por bom espaço. Ao outro dia torná- mos com o capitão a ver o Baxá e dar-lhe conta de nossa vinda, e depois de largas práticas de muita benevolência lhe demos as cartas e presentes que lhe trazíamos, com que muito se alegrou e nos deu franca licença para nos ir e tor- nar, e para todos os mais que o padre provincial quisesse mandar à Etiópia. E mandou a seu secretário que entretanto nos desse casas e todo o necessário para nossa sustentação e negociasse embarcação com todo o aparelho; chegado o dia da despedida, que foi dali a dez dias, nos fêz também o mesmo favor e gasalhado e nos entregou a seu tesoureiro para nos levar a Dalec, por outro nome Maçuá, que é o pôrto mais perto da terra da Etiópia, e disse que mandava a seus feitores e capitães nos tratassem com muito amor, e pediu-nos que che- •fi. 179. gados a terra de cristãos lhe * escrevêssemos largamente novas nossas e como nos trataram em suas terras os de sua jurisdição. Nos dias que aqui estivemos fomos visitados dos mais principais baneanes que havia na terra, os quais nos traziam seus presentes, melões, patecas, pepinos, tâmaras, passas, etc., mostran- do-nos todos muitos sinais de amor; e assim êles como muitos turcos nos pedi- ram cartas para o padre superior da casa de Diu; porque é tão grande o conceito que por estas partes teem de nós e de nossas coisas que lhes parece que com uma carta acharão lá todos os favores que podem desejar. Partidos pois aos 6 de Junho em companhia do tesoureiro do Baxá e de alguns soldados, em sete dias com bom vento chegámos a Maçuá, aonde nos agasalhou em sua
  • Das coisas de Etiópia 399 casa Veidamao, capitão dos baneanes que corre com os negócios dos nossos padres que estão no Preste e nos tratou com tantos ofícios de amor como se fora nosso irmão. No tempo que aqui estivemos procurámos com muita dili- gência de descobrir e haver os ossos e relíquias do nosso santo mártir o padre Abraão de Georgis, mas não foi possível, porque, como êle não foi sepultado mas lançado às aves em uma ilha que está defronte desta um tiro de falcão, e lá havia já muita ossada doutros mortos, não pudemos conhecer quais eram seus ossos, o que não foi de pequeno sentimento para nós; mas consolámo-nos com ver o lugar onde foi degolado por amor de Deus e onde seu corpo foi lançado em ódio de nossa santa fé. O capitão e vèdor da fazenda desta fortaleza nos receberam bem pelas cartas que o Baxá lhes escreveu, e enquanto ali estivemos, nos mandou todo o necessário para nossas pessoas; e porque o caminho para o Preste * estava perigoso, mandou connosco alguma gente de cavalo e de pé»Fi. i79v. com algumas quarenta espingardas até certo passo onde podem chegar os turcos. Dali por diante nos acompanhou outra gente que os padres tinham mandado do Preste tanto que souberam nossa vinda. Com esta companhia fomos passando aqueles campos e desertos tão desejados dos padres e irmãos da nossa Compa- nhia, cujos desejos nosso Senhor cumpra, e pelos mesmos caminhos, livres de todo o perigo os traga como trouxe a nós a ver aqueles frescos prados cobertos de muitas flores e ervas cheirosas como jasmins, salva, lírios brancos, poejos e outras de nosso Portugal, onde não faltam rebanhos de cabras, bandos de vacas e de elefantes, dos quais em um que à nossa vista passou, entre gran- des e pequenos haveria mais de cento; e os que iam adiante me disseram que já eram passados outros tantos. Estava nêste tempo em Baruá com o Vizo-Rei do Tigré, que é reino mui grande, o capitão dos portugueses com alguns dêles que seriam até vinte, o qual se chama João Gabriel, homem nobre e de muito ser, e mui bom cristão. A êste escreveu o padre Pero Pais que nos viesse receber conforme ao aviso que tinha de nossa vinda; fê-lo êle assim com muito primor; e vindo com vinte portugueses, nos encontrou no caminho, dia e meio de Baruá aos 27 de Junho. Foi grande a alegria que recebemos aqui com a visita de portugueses a quem vínhamos buscar. Apearam-se todos, e como são pios e bem criados, nos abraçaram e beijaram a mão e em que nos pese, nos fizeram cavalgar nas suas mulas muito boas, tomando êles para si as nossas já cansadas. Daqui nos fomos a Baruá, onde chegámos dia de S. Pedro e S. Paulo. Não visitámos logo o Vizo-Rei por estarmos ainda em trajos * de turcos, man- . fi. 180. dámo-lo porém visitar pelo capitão e que iríamos ao dia seguinte em hábito de padres, como fomos; aqui estivemos uma semana, e passada ela nos fomos com os mesmos portugueses e depois de dois dias de caminho chegámos a uma ribeira grande, junto à qual achámos os nossos três padres que nos estavam esperando com alguns portugueses, os quais nos receberam com sumo alvoroço; nem há poder-se dizer a consolação que todos tivemos vendo-nos cinco da Com- panhia de Jesus entre estas serranias e bravo mato da Etiópia, onde com outros cinco companheiros dela, fêz tão santa vida o nosso santo padre Patriarca. Queira nosso Senhor que seja para lhe fazermos muitos serviços. Ao seguinte dia chegámos ao logar de Fremoná, onde nos saíram a receber os meninos que andam na escola, filhos dos portugueses, com suas palmas nas mãos, fazendo-nos
  • 400 Das coisas de Etiópia festa e gasalhado; vinham alguns deles cobertos com um pedacinho de teada, que não teem cá outras sêdas pela sua muita pobreza, outros com peles de cabritos que lhes cobriam meios corpinhos e parecia cada um dêles um S. Ba- ptista no deserto. No adro da igreja nos esperavam os pais e mães e outros muitos abexins católicos, os quais todos por nossa vinda faziam grande aplauso com vozes de alegria pedindo-nos as mãos para as beijarem. Na igreja achámos uma imagem de nossa Senhora de S. Lucas, que cá é muito venerada, vimos as sepulturas de nosso bemaventurado padre Patriarca e seus companheiros, com que muito nos consolámos, recolhemo-nos emfim nos corredores e celas que cá nos deixaram edificados aqueles santos e apostólicos varões nossos anteces- *fi. 180v. sores, os quais são duas casinhas térreas * de palha e bem pequenas; uma em que morou o padre Patriarca, tôda redonda, que terá vinte pés de diâmetro, na qual em homem entrando, parece que entra em uma lapa santificada; e nesta estão agasalhados dois dos nossos; a outra é também de palha, quadrada, de pouco mais de trinta pés; nesta estão os três; as mesas e estantes para os livros são umas cantareirinhas feitas nas paredes; a do refeitório uma bandeja posta sobre um pé de cesto, as porcelanas e pratos, duas tijelas de barro preto, os catres de quatro paus toscos, as precintas correias de coiro crú tão duras como o mesmo pau, emfim tudo instrumentos de vida apostólica, que parece nos faz ainda estar ouvindo aquilo do apóstolo que o santo Patriarca e seus companheiros sempre traziam na boca: habentes alimenta et quibus tegamur, his cont entisumus. Até aqui a carta do padre Luís de Azevedo. Quanto às esperanças de redução à Igreja Romana daquele grande império, assaz grandes se iam descobrindo até agora, se não fôra a lamentavel morte do Imperador que tão boa vontade e zêlo mostrava para isso, como quem já estava reduzido e feito filho obediente da Igreja Romana pelo padre Pero Pais, pôsto-que se não descobria por ir levando as coisas com prudência até as pôr no estado que desejava. Era este bom Rei de singular entendimento, o melhor letrado e o mais esforçado cavaleiro que havia em tôda Etiópia, grandemente amigo e afeiçoado dos portugueses e de nossas coisas e tão devoto e sujeito ao padre Pero Pais que quando ambos estavam sós, o que acontecia todos os dias por grande espaço, e o padre na prá- tica se chamava servo e vassalo de sua alteza, êle se agastava amorosamente • fi. 181. dizendo-lhe: padre, se sois meu amigo como eu sou vosso, * não vos chamais senão meu padre e meu mestre. Porém de sua lamentável morte e do estado em que ficam as coisas daqueles reinos, dá làrgamente conta o padre Pero Pais, superior daquela missão, em uma de 29 de Julho de i6o5, para o padre pro- vincial da índia, cuja cópia é a seguinte: Com muito grande alegria e contentamento escrevi a vossa reverência o ano passado o estado em que estavam as coisas de Etiópia e as esperanças grandes que de si davam; porém com muito maior mágoa e sentimento escre- verei agora o lastimoso fim que tiveram, permitindo-o assim Deus por seus altos e incompreensíveis juízos. Na do ano passado dizia como ficava com o Impe- rador, os intentos que êle tinha, quanto folgava em falar e tratar das coisas da verdadeira religião e fé da Igreja Romana e que por êsse respeito me dilatava a licença que lhe pedia para ir confessar uns portugueses que estavam na Na- nhiná, três dias de caminho, entre os quais estavam alguns doentes que com
  • Das coisas de Etiópia 401 instância me chamavam, por haver muito que se não confessavam. Tornan- do-lha de novo a pedir, ma negou muito mais dizendo que era já entrado o inverno e que não poderia passar os rios; tornei-lhe que tinha obrigação de tra- balhar quanto pudesse por ir confessar aqueles homens, e que quando os rios me estorvassem passagem, me tornaria a sua Majestade. Edificou-se muito disto, mas mandou-me que, passando o inverno, tornasse logo. Ordenou a seu gover- nador que me desse uma soma de oiro e cópia de trigo para enquanto lá esti- vesse, que logo limitou não fôsse mais de dois meses, e dizendo-me isto o governador, lhe declarei que não havia de tomar nem oiro nem trigo, mas que, se sua Majestade me queria fazer alguma mercê, * fôsse dar alguma pequena »fi. 181 ▼. de terra na província Dambiá, que é onde estão sempre os governadores, para fazer ali uma igreja e ajuntar alguns portugueses pobres que andavam mui espalhados e apartados uns dos outros, para terem ali com que se sustentar. Maravilhou-se muito o governador de lhe nao querer tomar o oiro, porque os seus frades não procuram outra coisa, e me persuadiu fortemente que o tomasse, que, quanto ao demais, o Imperador me daria quanto eu quisesse; tornei-lhe a responder que de nenhuma maneira o havia de tomar, pois eu não tinha para que o houvesse mister, quando sua Majestade me dava o necessário para minha sustentação. Soube isto o imperador, mandou-me chamar, pregun- tou-me porque não tomava o oiro que me mandava dar, pois também me daria terras e tudo quanto eu quisesse. Respondi-lhe: Senhor, eu não venho buscar oiro a estes vossos reinos, porque sou religioso, e para mim pouco me basta, e nem as terras vos houvera de pedir, se não fòra para nelas ajuntar alguns por- tugueses pobres e eu poder estar mais perto de vossa Majestade para quando me mandar e quiser de mim alguma coisa. Mandou que, já que assim era, me fôsse embora e que quando tornasse me daria terras que bastassem para todos. Beijei-lhe a mão e despediu-me; mas tanto que me saí, mandou ao seu gover- nador que desse o oiro a um português para que depois mo desse. Parti-me daqui aos 12 ou 15 de Junho e cheguei a Nanhiná aonde confessei aos doentes; fiz confessar a todos os demais com muita pressa, para logo, em passando o inverno, me tornar. Porém no princípio de Agosto chegou um recado do Imperador pela posta, em que mandava chamar todos os portugueses e que logo se partissem, porque um capitão grande que se chamava Zazelazé se levantava contra êle e juntava muita gente. Fôra este um soldado * baixo, mas por ser • Ft 182. valente, o fizeram capitão e alevantaram tanto que chegou a casar com uma prima deste Imperador; pelo que, logo como entrou no império, o mandou cha- mar do destêrro para onde o tinha degredado o Imperador passado e o fêz Vizo-Rei de Abibiá e Angigá, que são duas províncias as melhores de Etiópia e onde está a principal soldadesca. E contudo sôbre tantos benefícios se levan- tou contra êle confederando-se com outro capitão casado com uma irmã do Imperador passado por nome Erás Atanateus, que quere dizer Cabeça Atanásio; e chama-se cabeça, porque sempre o morgado desta casa é cabeça de Etiópia depois do Rei. A êste tomara o Imperador muitas terras e vassalos porque sc não fiava dele por algumas coisas em que o tinha achado, pelo que êle secrè- tamente se concertou com o Zazelazé e com outros capitães para esta rebelião; e para mor dissimulação, quando o Zazelazé se descobriu, êle se mostrou muito 5i
  • 402 Das coisas de Etiópia mais amigo do Imperador; pelo que logo o Imperador lhe perdoou as culpas passadas e lhe tornou a dar quanto lhe tinha tomado, o que fêz para mais o obrigar a que não se afastasse dêle, pôsto-que entendia a malícia de seu coração. Jurou-lhe Erás de o servir com muita fidelidade e sobre o juramento lhe pôs o Patriarca excomunhão, como é costume em Etiópia, e estando-se o Imperador apercebendo para ir sôbre Zazelazé, foi avisado de um seu criado que os princi- pais dos que ali estavam se tinham conjurado e determinado de o prender no dia seguinte quando fôsse à missa, que era aos 19 de Agosto em que êles por sua conta fazem a festa da Assunção da Virgem nossa Senhora. Informou-se mais e achou muitos indícios, mas não pôde prender os culpados, porque eram muitos e êle tinha pouca gente por si, por a ter despedido no princípio do inverno, ' fi. 182 v. por estar no * estremo do reino onde a terra não podia sustentar a muitos por ser despovoada e só para a fazer povoar ficara ali o inverno. E assim não se atrevendo a esperar ali mais, se partiu logo para Nanhiná para ali se refazer, levando consigo como oitocentos homens, que todos os mais o desampararam. Ia com êle também Atanateus, e passando o Imperador um rio grande, o traidor se tornou para trás com a metade da gente e dando na recamara do Imperador a tomou tôda, onde entravam 11 ou 12 caixas de cadeias e peças de oiro e vestidos muito ricos, mas o Imperador o deixou e passou adiante não sabendo já de quem se fiasse. Chegando perto donde eu estava, me mandou recado que fôsse a uma aldeia onde havia de dormir aquela noite, porque queria falar comigo. Eu não sabia que êle estava tão perto e assim fui com tôda a pressa atravessando por uns campos e alcancei-o no caminho mais duma légua antes que chegasse à aldeia. Tive muito grande compaixão de o ver, poique se me representou a David quando fugia de Absalão, e vendo-me ao passar num rio grande, mandou gente que pegasse duma banda e doutra da mula em que eu ia, para que não caisse. E como chegámos, não fêz mais que apear-se e logo man- dou que entrasse onde êle estava e fazendo-me assentar perto de si me disse, eis aqui, padre, o que me fazem meus vassalos por eu querer guardar justiça e não consentir que os grandes roubassem os pobres; vêde que conselho me dais. Respondi-lhe: Senhor, quanto por agora, parece-me que seria bom pôr-se vossa Majestade em lugar seguro até que se junte gente; e depois todos vos virão obedecer, pois os que. levantam o motim não são mais que quatto cabeças e tôda a mais gente folga muito com vossa Majestade. Tendes razão, disse êle, que estas são os que amotinam todo o povo; aqui quero esperar, ate me vir a • fi 183. gente que hei mister. Deteve-me um bom * espaço, tratando sobre coisas mui importantes e depois me despediu dizendo-me que o encomendasse sempre a nosso Senhor. O dia seguinte se lhe ajuntaram mil e quinhentos homens e com êles foi logo sôbre Erás Atanateus que estava à borda do rio Nilo: mas avisado êle por suas espias, se passou logo à meia noite da outra banda, e fêz retirar tôdas as embarcações, pelo que chegando o Imperador não pôde fazer nada por ir mui crescido o rio Nilo. Tornando-se dali pos suas tendas um dia de caminho do lugar onde eu estava e ali em poucos dias se lhe ajuntaram mil homens; e logo mandou fazer umas como jangadas para passar o rio. Nêste comenos, chegou a mim um português que morava em um reino que se cha- mava Guojamá e me pediu que fôsse com êle, porque tinha muitos filhos e filhas
  • Das coisas de Etiópia 40 3 e que não podiam vir onde eu estava, e havia muitos anos que se não confes- savam. Excusei-me por então, porque, como os portugueses estavam para ir com o Imperador, não sabia se me quereria levar consigo. Mas, como o bom homem desejava tanto levar-me, tratou com o capitão dos portugueses que soubesse a vontade do Imperador, acerca de eu ir no exército. Respondeu-lhe o Imperador que por certos respeitos não convinha nem queria que eu fosse, mas que por entretanto fôsse estar alguns dias em Guojamá. Veio muito con- tente com êste recado, mas não fui logo com êle, assim por êle se tornar muito depressa, como por eu querer outra vez confessar os portugueses que haviam de ir à guerra, como fiz; e partidos êles, me vi num grande perigo, porque um dia, anoitecendo, fui avisado que naquela noite haviam de vir a roubar aquele lugar e terra em que eu estava certos gentios a que chamam * aguós, e moram . fi. i83». dali três ou quatro léguas em terras tão espêssas e montuosas, que nem o im- perador pode com êles. Estava só com dois moços, e não sabia onde me fôsse, porque não era menor o perigo de andar de noite pelos caminhos em razão dos ladrões, de que tôda a terra estava cheia, pelo que me resolvi em não sair, senão procurar de defender a casa ainda que era de palha, por saber o estilo destes gentios aguós, que como acham alguma resistência, logo passam. Para isto mandei rogar a alguns homens da terra que moravam perto, e eram da obrigação de um português, que viessem estar comigo aquela noite; vieram dez e tão roncadores que nenhum caso mostravam fazer dos ladrões aguós, mas antes da meia noite se acolheram e me deixaram só, pelo que estive até pela manhã vigiando com não pouco temor. Quis Deus que não viessem daquela vez. Dali a poucos dias me tornaram a avisar que sem falta haviam de vir, e pelas conjecturas que disso tive, me parti dali com um homem da terra, amigo dos portugueses, que se ofereceu para me levar a sua casa, como levou uma noite, atravessando por uns montes e vales tão cheios de água e lama que não podiam passar as mulas; na casa deste homem estive três dias escondido e neste tempo vieram os aguós que mataram alguma gente, e roubaram o que puderam, mas quis Deus que não chegaram à casa, onde eu estava de pri- meiro, nem a nenhuma dos portugueses. Contudo vindo-se despedir de mim o capitão dos portugueses com alguns outros, para se irem à guerra com o Imperador, me persuadiu que logo me partisse para Guojamá, porque depois teria muito perigo no caminho e ali muito mais. Parti logo, e caminhei três dias por terras mui ásperas * até chegar a casa daquele português, onde, ainda «fi. 184. que estavam seguros dos aguós, tinham muito mêdo dos Galas que são piores, porque não deixam homem nem mulher, nem menino que não matem.
  • Das coisas de Etiópia CAPÍTULO XIV Da batalha que o Imperador teve com os levantados e como nela foi morto EMQUANTO o Imperador se aparelhava para passar o Nilo, ajuntou também Zazelazé muita gente, e amotinou a todos dizendo que já o Imperador tinha deixado sua fé e rtligião, e tomado a dos portugueses e a de Roma; por isso que todos se aparelhassem para pelejar contra êle, se tinham zelo de sua lei, que êle lhes traria logo seu verdadeiro Imperador, que era o que o ano passado mandaram preso ao reino de Nareá, e vinham cada dia reca- dos falsos, que estava perto, e que trazia consigo muita gente. Com isto se determinaram muitos a pelejar, e juraram de matar quantos portugueses esta- vam com o Imperador, e diziam que a mim particularmente desejava Zazelazé haver às mãos, porque eu era causa de tôda aquela revolta, fazendo que o Impe- rador mudasse a lei, e se passasse para a da Igreja Romana. Isto coligia da muita familiaridade que comigo tinha, e depois se acabou de certificar por um moiro que tomou, que o Imperador mandava à índia com cartas para o Vizo-Rei. Alguns dos mais principais secretamente lhe mandaram dizer que, como chegasse perto, se passariam para êle. Fêz conselho sobre o que faria, em ir logo ou esperar por mais gente: alguns foram de parecer que não esperasse mais; o contrário disse o capitão • fi. 184v. dos portugueses, * dando como razão haver ainda tanta lama pelos caminhos, que não podiam andar os cavalos, nem chegar a gente que vinha de longe. Êste parecer quadrou mais ao imperador, e a êste estava inclinado a seguir, se não fôra Lacamalião, o principal de seus conselheiros, que lhe disse não ser possível esperar, porque não havia ali mantimentos, e que lhe bastava a gente que tinha, e tantas razões lhe deu para isto, e com tanta importunação que quási por força o fêz vir nêste conselho. Estando para se partir e falando com o capitão dos portugueses lhe disse: Ah! Quem me dera agora aqui o padre Pero Pais para me confessar ou por morte, ou por vida; suspiro e desejo que nos dá muitas esperanças de sua alma estar no paraíso, pois foi perseguido e morto por causa da fé. Indo caminhando passou o rio Nilo até chegar seis léguas donde estavam os levantados, e assentando ali seu arraial, emquanto lhe traziam mantimentos de várias partes, chegaram também os inimigos com muita gente, fingindo sem- pre o traidor que o outro Imperador vinha com muita pressa, e que mandava que não dessem batalha até êle chegar, mas que não havia para que esperar, pois tinham gente suficiente para a dar, e o irem receber com a vitória. Pôs o Imperador sua gente em ordem, e deu o lado esquerdo aos portu- gueses que não chegavam a cento, porque como era inverno, não se puderam ajuntar por estarem mui espalhados. Ia com êles outro capitão com muita gente, e arremeteram êstes nossos com tão grande fúria, que em menos de meia hora desbarataram tôda aquela parte do exército que tinham diante; Lacamalião com outros capitães pelejavam diante do Imperador; mas logo nos primeiros encon-
  • Das coisas de Etiópia 40 5 tros o mataram a êle, e a outro capitão grande com alguma gente: pelo que ficou um pouco fraca aquela parte do Imperador. Quisera êle arremeter, mas não o deixaram, e andando assim travada a batalha, um homem dos maiores que havia em Etiópia, que se chamava Anahel, se passou para o Imperador, dizendo, como é costume em Etiópia, entro, entro; o mesmo fêz um seu filho com alguns criados; mas, porque este Anahel tinha fugido do Imperador antes que passasse o Nilo, o Imperador em o vendo di/.em que disse: Ah! velho falso, com engano me deixaste, e com traição tornas? E dizendo isto, lhe deu pela cabeça com a espada tão grande golpe que logo caiu morto. O que vendo seu filho deu uma lançada pelo pescoço ao Imperador, e o derrubou do cavalo abaixo, com que começou a haver grande perturbação entre os seus que com êle estavam; e * logo o filho de Anahel com seus criados começaram a pelejar, «Pi.:85 A revolta que aqui houve, acudiu Zazelazé com alguma gente de cavalo, e rom- pendo até chegar onde estava o Imperador lhe deu uma lançada no rôsto, e um moiro e outros lhe deram outras até que o acabaram de matar. Acharam lhe depois nove feridas na cabeça e no pescoço, outros dizem que a gente do Impera- dor foi a que matou Anahel e baralhando-se com ela o filho e seus criados acudira o traidor Zazelazé com aquela gente de cavalo, e que êle foi o primeiro que feriu o Imperador. Começou logo a fugir a gente que o acompanhava, e a do traidor correu para aquela parte de maneira que tornando os portugueses com os demais que tinham desbaratado aquele esquadrão que lhes coube, para darem sôbre o corpo do exército, se acharam detrás de todos e viram a tenda do Im- pera*dor derrubada, e toda sua gente posta em fugida: mas vendo para uma parte a bandeira do Imperador ainda arvorada, correu para ela seguindo-o.Fi.iS5*. alguns portugueses por lhes parecer que estava êle ali, mas quando chegaram, se acharam com Erás Atanateus que a tinha tomado, pelo que uns fugiram, outros foram logo ali presos, mas nenhum morreu, nem saiu ferido mais que um, o que foi julgado por milagre, porque aos portugueses principalmente dese- javam matar. E assim estando o capitão diante de Erás, arremeteu um soldado para o matar dizendo que aquele era o que aconselhava El-Rei, mas Erás o repreendeu e tirando o capacete da cabeça o mandou pôr ao capitão, para que ninguém se atrevesse a lhe fazer mal. Da demais gente do Imperador morreu muita, assim no desbarate, como ao passar do rio Nilo. O Imperador ficou despido no campo três dias. A Lacamalião depois de morto lhe quebraram os dentes com uma pedra dizendo: Ah! máu, que tu fizeste quebrar o sábado; e um grego meu amigo que os viu antes de os enterrarem me disse, que Laca- malião e Anahel estavam muito feios e fedorentos, mas o Imperador muito formoso: outros diziam que cheirava como almíscar, o que se pode bem crer, pois sua morte foi urdida de seus inimigos em ódio da religião e fé católica, que suspeitavam êle tinha recebido. Vendo um o corpo do Imperador que estava nú, o cobriu com um pano; mas outros, parecendo-lhes que davam gosto a Zazelazé, o tornaram logo a descobrir, dizendo-lhe palavras muito injuriosas, e assim esteve despido no campo o que pouco antes andava com vestidos muito ricos e carregado de oiro, até que no cabo de três dias vieram três homens grandes, e o cobriram com um pobre pano, e o levaram a enterrar com bem pouca pompa e aparato.
  • 406 Das coisas de Etiópia • *1.186. * CAPÍTULO XV Do que mais sucedeu depois da morte do Imperador ACABADA esta tão triste tragédia, começou em todas aquelas províncias um grande e lastimoso pranto, porque as mulheres choravam os mari- dos mortos, os pais aos filhos, e todos ao Imperador, porque era muito amado de tôda a gente popular, e também dos grandes, tirando quatro, e ainda dois destes ficaram depois bem embaraçados, porque não pretendiam mais que prendê-lo. Quanto ao sentimento que eu tive e tenho de sua morte, não o posso declarar com palavras, nem dizer dela mais, senão judicia Dei abyssus multa, pois permitiu que assim morresse um Imperador, que tanto desejava a redução e bem espiritual deste império tão perdido há tantos anos. Parece que as injustiças e pecados que nele há fecham as portas da divina misericórdia. Os portugueses também perderam muito, porque os queria ajuntar todos em um lugar, e dar-lhes terras bastantes para comerem; e segundo também soube, tinha determinado tirar o patriarca scismático, e dar-me a mim as terras do patriarcado que são muito grandes, e da tirada do patriarca tinha êle dito tam- bém ao capitão dos portugueses que o havia de fazer. Logo que morreu o bom Imperador, começou a haver levantamentos e perturbações na terra tôda, e até os que estavam mais unidos contra êle se desuniram entre si, ficando o Zazelazé por cabeça de um bando, e Erás Atanateus de outro, pelo que êste • fi. 186 v. se foi para * o reino de Gojama, onde eu estava, e antes de chegar mandou dois criados diante, que me dissessem o esperasse lá, porque tinha que falar comigo. Como chegou a sua casa, o fui visitar cinco léguas de caminho, man- dou-me agasalhar em um aposento, que primeiro fôra do Imperador. O comer me vinha sempre de sua cozinha: a primeira vez que falou comigo, se me escusou muito que não tivera culpa na morte do Imperador: respondi-lhe que ninguém lhe poderia dizer isso melhor que sua própria consciência, mas que o aconselhava que muito de propósito metesse a mão nela, e se se achasse cul- pado, pedisse logo perdão a Deus, e fizesse muito boa penitência, porque, se assim o não fazia, Deus o havia de castigar muito rigorosamente, porque o sangue do Imperador estava derramado naquele campo pedindo justiça a Deus, como o de Abel, e que Deus lha havia de fazer. Ao que respondeu que êle grande mêdo tinha de Deus, e que realmente trabalhara quanto pudera, porque o Imperador não morresse. Depois lhe falei sôbre os portugueses, dizendo-lhe quão perdidos estavam por lhes êle ter tomado todas suas terras: respondeu-me queixando-se muito dêles, porque lhe mataram muita gente na batalha: e que antes dela lhes mandara dizer que se passassem para êle, o que se fizeram, não houvera peleja, mas que êles o não quiseram fazer: respondi-lhe que, se êles tal fizeram, não mostrariam ser portugueses, nem El-Rei de Portugal fizera mais caso dêles, nem êle mesmo os tivera em boa conta. Pelo menos, tornou êle, não houveram de deitar peloiros nas espingardas. Nem isso, senhor, podiam deixar de fazer, nem podem os que pelejam por seu senhor; mas já que o feito
  • Das coisas de Etiópia é feito, e tudo é acabado, a mercê que agora peço a * vossa senhoria... (1). *fi. 187. Sou contente, respondeu êle, e desde agora por amor de vós lhes torno tudo. Beijei-lhe a mão e pedi-lhe outra mercê, que foi perdoasse a um português, que acaso chegando a apartar uma briga, matara um homem: respondeu que também lhe perdoava, mas que pagasse tudo o que se jul- gasse era bem dar à mulher do morto, e que visse eu que mais queria dêle, que tudo faria com muito gosto; dei-lhe por isso os agradecimentos, e ma- ravilhei-me de o ver tão liberal ficando desejoso de saber o que pretenderia de mim. Outro dia me chamou estando só, e trazendo a prática às disputas, que tive diante do Imperador, a que êle sempre se achou presente, concedeu algu- mas coisas e me disse que o que desejava de mim, era estar sempre com êle para o ensinar, porque seus frades nada sabiam, e se alguma coisa entendiam, não se atreviam a falar, porque, como eram homens baixos, não tinham ânimo para isso, nem o que pretendiam era ensinar, senão honras, e interêsses, porqme todos eram como fariseus que não procuravam outra coisa. Respondi-lhe que folgaria muito de fazer o que me pedia, mas que eram vindos dois padres da índia, e era necessário ir aonde estavam, para os ver, e pôr um em Tigré e outro em Nanhiná para que tivessem cuidado dos portugueses, e que logo tor- naria a êle: instou muito que não fôsse, mas que dali escrevesse e lhes orde- nasse o que haviam de fazer; vi-me perplexo, porque ainda que folgara de ficar com êle, porque como é a principal cabeça do império depois do Imperador, e depende dêle tanto sua redução, por também ser tido de todos por homem letrado, desejava de lhe fazer a vontade: mas por outra parte via que Zazelazé queria que fôsse Imperador o que já o fôra sete anos e o era quando eu entrei em Etió*pia, que os seus depois privaram, e estava preso em Nareá, e tinha »fi. 187 v. por si a mor parte do povo, e Erás Atanateus queria que o fôsse um primo do morto que chamam Sacinos, que não era tão aceito, porque sempre estava com os galas; e por isto desejava estar de fora até ver em que parava negócio tão grande, o que Deus ordenou que fôsse, porque estando êle porfiando que ficasse, recebeu carta da imperatriz sua sogra em que lhe dizia me mandasse logo onde ela estava, porque desejava muito de me ver, e assim me deu licença para ir, mas tomando-me palavra, que de boa vontade lhe dei, que tornaria o mais depressa que pudesse. Com isto me despedi dêle, o qual me mandou uma mula e ajuda de custo para o caminho, dizendo que me dava pouco, porque tinha gastado muito na guerra, mas que quando tornasse, nada me faltaria. Sentiram muito minha partida alguns daquela terra que continuavam em ouvir as prègações e doutrina, e diziam que ficasse ali de assento, que todos se confessariam, porque seus frades os traziam enganados, que lhes não ensi- navam a verdade. Particularmente um primo do Imperador que mataram entendeu muito bem as coisas da religião católica, porque emquanto estive ali, que foram perto de dois meses, vinha os mais dos dias a tratar sôbre elas, e disse-me que se não fôra por seus parentes, logo se houvera de reconciliar e confessar. (1) É pouco claro o texto original.
  • 4oS Das coisas de Etiópia Parti do reino de Guorjamá ao primeiro de Novembro, e caminhei sete dias até chegar a uma cidade chamada Gubai em a província de Dambiá, onde estava a Imperatriz. Indo para o paço, encontrei com Zazelazé, que se deteve comigo falando-me e tratando-me com muita cortesia. Depois entrou e disse à Imperatriz como eu ali estava; ela me mandou logo entrar, e •fi. 188. estando assentada na cama por estar mal disposta, me fêz assentar * junto de sua cabeceira. Zazelazé ficava mais afastado. Preguntou-me com muita afabilidade como vinha, dizendo que havia muito tempo que desejava de me ver. Depois de larga prática me mandou agasalhar, e que o comer me fôsse sempre de sua casa, o que vinha em muita abundância, e algumas vezes de sua própria mesa. Zazelazé também me mandou alguns presentes, e indo visitar a sua casa, me fêz muita honra. Pedi-lhe me fizesse mercê de tornar umas terras muito gran- des que tinha tomadas a um português, que primeiro fôra capitão: mostrou-me dificuldade relatando-me os agravos que dizia ter recebido do português, e como as tinha já dado a um fidalgo; mas emfim me respondeu, que a mim nada me poderia negar; beijei-lhe a mão e agradeci isto muito, porque não esperava tanto dêle, e do que me fêz no tempo que aqui estive, coligi que ou não fôra verdade, ou estava bem mudado do que me tinham dito dêle, que era desejar de me acolher às mãos, pelo que eu tinha feito com o Imperador morto: ia todos os dias, emquanto aqui estive, visitar a Imperatriz, por ela me man- dar que o fizesse assim, e consolava-se tanto que dizia aos seus que se não fartava de me ouvir; que, se eu estava muito tempo com ela, havia de vir a deixar tudo e fazer-se freira. Disseram-lhe um dia que o Imperador me dava quando aqui cheguei umas terras que êle tinha quando governava, e que eu, como soube que eram suas, não as quisera aceitar. Respondeu que não se podia negar estar entre nós todo o primor e polícia que se podia desejar e que estava bem certa que, se a algum dos seus se fizera tal oferta, a não houvera de engeitar. Como ela me mandara chamar, e fazia tantos favores, suspeitava que queria tratar comigo alguma coisa para bem de sua alma; e para ver se saía a isso, lhe disse depois de alguns dias que eu tinha necessidade de ir a Tigré a ver dois • fi. 188 * padres que eram vindos da índia, se * sua alteza me desse licença para isso. Respondeu, que já que eu queria fazer aquela jornada e ir-me tão depressa, que fôsse muito embora, mas que tornasse logo, porque me queria ter junto de si e principalmente queria que viesse quando já houvesse Imperador, e com isto me despedi dela, e de Zazelazé, e me parti com alguns portugueses e criados do Vizo-Rei de Tigré. Chegando ao meio do caminho, entre umas serras muito ásperas deu sôbre nós muita gente que vinha para nos matar, cuidando que era Zazelazé que passava para Tigré, mas como souberam que eram portu- gueses, que tinham ajudado ao Imperador morto, disseram que passássemos embora, mas que se fôra o tal e qual de Zazelazé que o matára, ali o houve- ram de fazer em pedaços a êle e a quantos com êle viessem. Daí a dois dias de caminho nos aconteceu outra semelhante, que estando dormindo de noite, veio muita gente sôbre nós cuidando ser o mesmo Zazelazé; mas quis Deus que tomaram um homem da nossa companhia que ficou detrás, o qual lhes disse que
  • Das coisas de Etiópia +0g éramos portugueses, mas sem embargo disso o tiveram preso toda a noite até que, vindo a manhã, se certificaram, e nos vieram visitar e trazer de beber ao caminho, dizendo que Deus nos livrara aquela noite de suas mãos e que soubés- semos que eles eram muito amigos dos portugueses, porque ajudaram ao Impe- rador. Mas dali a pouco lhes caiu nas mãos a presa que cuidavam, porque passando por ali um capitão de Zazelazé com gente de pé e de cavalo e com quarenta espingardas e muitas lanças, lhes saíram ao caminho, e pele- jando com eles os mataram quási todos. Indo mais adiante nos livrou tam- ém nosso Senhor quási * milagrosamente de uma grande soma de ladrões que estavam juntos para nos roubarem; mas, por lhes parecer que trazíamos muitas armas, nao ousaram de nos acometer; o que se fizeram, não lhes pudé- ramos resistir; finalmente, livre destes e outros perigos, cheguei a primeira oitava do Natal a Frenoná, onde achei os padres com quem me alegrei tanto parado ***** " a'egraSSe COm SCUS Írm5os
  • 4io Das coisas de Etiópia ainda que, quando o levaram preso a Nareá, o Rei daquela terra o soltou logo, andou, porém, depois, com muitos trabalhos, fugindo de uma parte para outra, para que o não tornassem a prender; e quando vinha agora chamado, não tra- zendo consigo mais que trezentos homens, com êstes pelejou dois meses com uma gente que o não queria deixar passar; depois concertando-se com os Galas com muito risco de sua pessoa, passou por suas terras. Esta catta que me escreveu tardou mais que um mês, porque o que a trazia foi preso no caminho; e assim dois dias depois desta me deram outra sua que me escreveu depois de entrar na sua principal cidade. Nela me dizia que fôsse logo lá, que desejava muito de me ver, que já que êle tinha padecido muitos trabalhos, e eu também, ambos nos con- solaríamos um com o outro. Quando me deram estas, cartas era já entrado o • fi. 190. inverno, que aqui * começa em Junho, e assim não pude ir, porque são os rios mui grandes e não teem barcas. Respondi-lhe que passado o inverno iria logo. Aqui não quero calar uma coisa notável, pôsto-que não para nela se fazer fun- damento seguro, senão no que a divina Providência ordenar, pois não sabemos a certeza do espírito com que foi dita: Contou-me o capitão dos portugueses o ano passado, quando êste foi privado do império e levantado o que agora mataram, que estando o Imperador Mala- saguet pai dêste que agora tornou a ser restituído, apertado dos Galas, lhe dis- seram os grandes de sua côrte que mandasse pedir socorro aos portugueses à Índia, ao que êle respondeu: nao há para que, porque ainda que eu peça isso, não hão-de vir agora. Fazei Imperador depois de minha morte a Jacob meu filho, e em seu nome comereis sete anos o império; depois provará o império Savenguil, e depois o provará também Sazinos e no tempo que se seguir depois dêle virão, e ficará tôda a terra quieta. O mais disto está cumprido à letra, porque, quando prenderam e desterraram Jacob, tinham comido o império aqueles mesmos grandes sete anos justos, em que êle foi menino; depois entrou Savenguil e se chamou Atanás Sagued, que foi êste que agora mataram e possuiu o império treze meses e meio; depois fizeram o Sazinos, que durou quatro meses; agora tornou Jacob, que é êste restituído e se chama Malasaguet, como seu pai. Queira Deus que se cumpra o que falta, que é haverem de vir os nossos, ou sejam soldados de armas temporais ou os das espirituais de Cristo, que são os prègadores, e que tôda esta terra com êles se quiete c reduza à santa Igreja Romana, como esperamos; e tudo isto dizem que lhe profetizou um frade do deserto, a que tinham por santo. Fi.igov. * Pôsto-que, depois destas cartas em que os padres escreveram o que fica dito, escreveram outras nos dois anos seguintes, em que davam conta do suce- dido ao deante, por vários sucessos que no caminho tiveram os portadores, nem êles nem as cartas chegaram, mas, por uma relação de pessoas certas que daquelas partes vieram, se soube estarem os padres todos muito bem e não menos 1 ece- bidos e aceitos do Imperador presente do que foram do passado, e que o mesmo Imperador tinha escrito cartas a Sua Santidade e a Sua Majestade, as quais com as dos padres se perderam, e se cria está também já como seu antecessor, quanto à sua pessoa, convertido e reduzido à obediencia da Igreja Romana, e da mesma maneira muitos outros daqueles antigos cristãos daquele grande reino, com os quais os padres faziam grande fruto e viviam em grandes espe-
  • Das coisas de Etiópia 411 ranças, pelo que iam fazendo, e disposição que na terra havia de com a graça divina se haver de reduzir à verdadeira religião e fé da Igreja Católica todo aquele reino, como muito se deseja. E o que é de grande estima, que os portos por onde se a êle entra, ainda que estejam em poder dos turcos, estavam mui facilitados e abertos para pode- rem entrar os padres, convidando-os os mesmos turcos que podiam ir todos quantos quisessem, para o que se ficavam alguns aparelhando para irem refor- çar aquele campo que em terras tão remotas e com tantos trabalhos andam fazendo as batalhas do Senhor.
  • 'LIVRO QUARTO • K-. 191. DAS COISAS DE ANGOLA STIVERAM quási por todos estes dois anos de i6o5 e 1606 na residência do reino de Angola dois sacerdotes sòmente de nossa Companhia e alguns irmãos; não porque não costumem a estar mais naquela casa, mas, como a terra é tão doentia, em poucos tempos morreram três ou quatro sacerdotes, por onde ficou em tanta falta; porém êsses dois trabalhavam de modo que supriam por muitos, acudindo a brancos e a pretos, prègando, confessando, ensinando a doutrina, e ajudando os próximos em todos mais ministérios da Companhia. No cabo dêste tempo lhe foram em socorro do reino outros dois sacerdotes com um irmão, com que logo o padre reitor ordenou de mandar fazer uma missão pelas terras dos sobas, ou senhores cristãos, pela muita e grande neces- sidade que havia de acudirem àquelas almas. Nomeou para isso o padre Gas- par de Azevedo com o irmão António Sequeira, que partiram aos 19 de Agosto de 1606, os quais chegados ao primeiro soba, assim grandes como pequenos fugiam dêles, outros vinham ver, mas de longe, e logo fugiam, até que vieram uns filhos do mesmo soba, e encobrindo o mêdo que também tinham, se che- garam aos padres; o que vendo os outros também se chegaram, perdido mais o mêdo. E logo os padres lhes começaram a ensinar a doutrina na sua língua, do que fo*ram gostando tanto que nem lugar lhes davam de comer; e para »fi. 191 v. aprender as orações iam fazendo umas cordinhas com os seus nós. Era tôda esta povoação de cristãos, onde haveria mais de duas mil aknas, mas nem uma só pessoa acharam que soubesse fazer o sinal da Cruz, nem casados à porta da igreja mais de dois: porém em poucos dias os mais dêles souberam as ora- ções, e as cantavam pelas ruas, e de noite, e em suas casas, que era coisa de muita consolação. Havia aqui uma casa de muitos ídolos; deram os padres nela, e acharam muitos de vulto, assim homens como mulheres, outros, que eram os mais, como cabeças de cabras, cágados, pés de animais, ossos de ele- fantes e outras imundícias, o qual tudo queimaram, mostrando-lhes quão falso era tudo o que lhes diziam seus feiticeiros, que quem punha a mão nêsses ídolos logo morria. Acharam aqui dois velhos marido e mulher, que não tinham mais que a figura de terra. A mulher não era cristã, nem jamais o quis ser, dizendo que lhe bastava ter duas filhas cristãs, mas que, se se tornasse môça, se bapti- zaria, e que se no inferno não havia de estar só, antes queria lá ir. Baptizaram mais de trinta meninos: à partida lhes deu o soba um filho para andar com
  • 4i4 Das coisas de Angola êles. Outro fugiu à mãe por ir com êles, mas foram-no buscar, e o levaram com bem de mágoa. Daqui se foram a outro soba grande, chamado Casanha, que tem quatro sobas pequenos sujeitos a si. Veio este logo com os mais visitar os padres, e com serem todos baptizados, havia alguns anos, por certos sacerdotes, porque nunca foram cultivados na fé, não tinham mais de cristãos que só o nome, e o fidalgo ou soba grande tinha passante de trezentas mulheres (o que não é de espantar, porque tem isto por honra, e mostra de serem poderosos, e tanto um • fi. 192. se tem por mais honrado quanto mais mulheres * sustenta), nem havia uma só pessoa que se soubesse benzer. Pretenderam os padres fazer ali uma igreja. Respondeu o soba que cha- maria os seus Maconos, que são seus conselheiros e que o trataria primeiro com êles; porém ou o tratasse ou não, não deu resposta. Veio um domingo a casa de um português onde o padre estava agasalhado, trazendo comsigo muita gente com arcos e frechas. Estando dentro com o padre, os que estavam fóra, vendo que tardava em sair, se começaram a enfadar, dizendo uns que os padres o mataram, outros que haviam de estar lendo o missal, e que não acabaria tão cedo. Mas já que não havia igreja, determinou o padre de ir dizer missa no terreiro do próprio soba, para que êle e todos a ouvissem; porém quando foram, acharam junto dêle duas casas de ídolos, pôsto-que já sem portas e sem ídolos, porque os tinham levado ao mato, sabendo o que fizeram aos do outro soba. Disse-lhe o padre que logo os mandasse derrubar, se queria que lhe dissesse missa: não o quis fazer sem conselho. Chama os seus Maconos, pregunta-lhes o que faria: respondem todos que como havia êle de ter padres, nem igreja, 4 se seus pais nunca a tiveram? E fazendo também suas feitiçarias, saiu que não derrubassem as casas; porque ou haviam de morrer, ou lhes havia de acontecer algum grande mal: tão apoderado estava o diabo desta miserável gente, e nem uma cruz queriam consentir que se levantasse; mas enfim ela se arvorou no mesmo terreiro e o soba prometeu que faria a igreja, e que, caindo as casas, as não tornaria a levantar. À doutrina acudiram sòmente os meninos, porque os grandes diziam que já a não haviam de aprender. Baptizaram mais de setenta crianças. Acharam os padres por aqui muitos a que chamam chibados e que são grandíssimos feiticeiros, e sendo homens andam vestidos como mu- lheres, rapados de contínuo; assentam-se como mulheres, e falam como mu- • fi. 192r. lheres, * e teem por grande afronta chamarem-lhes homens; teem maridos como as outras mulheres, e no pecado mau são os mesmos diabos. Nesta conjunção chegou a Loanda um recado do Rei de Cacongo com um presente para o Bispo pedindo padres para se baptizar com todo seu reino. Pediram logo o governador e Bispo ao padre reitor quisesse acudir a esta em- presa, pelo que foram nomeados para ela o padre Francisco de Gois e o padre Gaspar de Azevedo. Está êste reino, que é muito grande, para a parte de Congo, com quem confina, e com o grande Mecoco, Rei dos Anziques e com os Reis de Angoi, de Bungo e de Biangá: pode-se ir por mar até Pinda, que são oitenta léguas dali para a parte de S. Tomé, e de Pinda pelo rio Zaire acima se chega ao Brei em quatro dias. Também o Rei de Loango que está cento e vinte léguas de Angola e se
  • Das coisas de Angola 415 vai lá pelo mar em três ou quatro dias, mandou pedir padres da Companhia nomeadamente. Emquanto não partiam os padres nomeados à sua missão, foi o padre Gas- par de Azevedo e o Irmão Gaspar Domingues ao nosso exército, que está acima de Cambambe, para a parte do Ongo onde confessou alguns portugueses e seus negros que ali achou, correndo também todos os presídios de Mochima, Alassangamo e Cambambe. Baptizou um soba com cinco pessoas suas, que, por certas culpas que come- teram, morreram por justiça: e morreram mui consolados por acabarem feitos cristãos; mas daí a alguns dias foi nosso Senhor servido levar para si ambos estes dois companheiros padre e irmão, com grandíssimo sentimento * de todos, *fi. «93. pela grande falta que fazem naquelas partes tais e tão fiéis obreiros do Senhor. Das coisas do Cabo Verde e costa de Guiné Duas missões se tem feito à ilha do Cabo Verde e costa de Guiné de quatro anos a esta parte. Na primeira foram quatro da Companhia, três sacerdotes e um irmão. Destes o padre Baltazar Barreira com o irmão passaram à costa da terra firme, onde o padre converteu e baptizou dois reis, um da Serra Leôa e outro seu vizinho. Os outros dois padres ficaram na Ilha de S. Tiago; andando ambos com grande fervor ajudando aquelas almas e ocupados nos ministérios de sua profissão, em pouco mais de um ano os levou nosso Senhor, como tudo se referiu nas relações passadas. A segunda missão se fêz em Março de 607, na qual foram o padre Manuel de Almeida por superior, e os padres Pedro Neto e Manuel Alvres: destes o padre Manuel Alvres passou à terra firme como logo diremos: os outros dois padres ficando na ilha exercitando seu ofício com muita caridade e com muito proveito daquela terra, em pouco mais de seis meses morreram também ambos, perdendo a Companhia neles e nos outros dois uns grandes sujeitos e obreiros da vinha do Senhor, com grande sentimento; porque ainda que para êles fôsse de tanto ganho o morrer em seu ofício por obediência e por salvação das almas, para a Companhia é de muita perda a de semelhantes sujeitos, por quanto lhe custa o fazê-los, e por quanta falta lhe faz o perdê-los. * Nem se pôde menos esperar do clima e ares daquela *fi. 193 v. ilha, e mais para com religiosos da Companhia que hão de andar sempre no campo acudindo ao serviço e bem dos próximos, sem fazerem caso de sol nem de sereno, que é o que naquela ilha consome as vidas: nem também, como são religiosos, podem viver com o resguardo e regalos com que os seculares vivem para conservação de sua saúde. O padre Manuel Alvares, como disse, passou logo à terra firme com um irmão seu companheiro, e depois de muitos trabalhos e perigos que no mar padeceram, foram tomar o porto de Bissao, onde residem alguns brancos e um Rei que logo lhes pediu o santo baptismo; animaram-nos os padres que torna- riam por ali, e então tratariam mais de propósito de negócio tão importante. De Bissao se partiram para o porto de Santa Cruz do reino de Guinalá, onde foram recebidos com muita festa dos portugueses e dos mais moradores.
  • Das coisas de Cabo Verde e Guiné Aqui estiveram alguns dias prègando e tratando das coisas de Deus com aquela gente, e muito particularmente com o Rei e gentio daquela terra. E não fundiu tão pouco que se não fizessem algumas coisas de muito serviço de Deus, entre as quais foi persuadirem ao Rei deixasse umas cerimónias gentílicas em que consistia tôda a sua religião. E para que isto se entenda melhor e se vejam os bons fundamentos que aqui se lançaram para este Rei e sua gente receberem nossa santa fé, se há-de saber que o vocábulo por onde esta gentili- dade significa o culto e veneração que tem de sua idolatria, é por êste nome China; de modo que assim como nós chamamos a nosso Deus, Deus, assim eles ao que teem e adoram por Deus chamam China; donde, quando vêem nossas .F1..94. imagens de Cristo ou de nossa Senhora lhe chamam * China do branco, ou China do cristão, querem dizer Deus do Cristão, ou coisa a que quere ou que ama muito. Donde o que eles teem por sua China e por seu Deus veneram com muito grande respeito, nem fazem coisa sem seu conselho; e para mais o diabo os enganar, lhes fala nela quando a trazem a público para terminarem alguma coisa em juízo ou fazerem algum juramento, ou quererem saber alguma coisa do que há de haver ou suceder no reino. E o que mais é para espantar e de que se pôde ver a brutalidade desta cega gente, é a forma e figura desta sua negra China ou Deus que veneram a qual é esta: Tomam muitos paus cada um de palmo e meio, todos muito pretos em razão da variedade dos licores que lançam em umas vasilhas, que é sangue de diversos animais com que tingem estes paus; e as vasilhas são umas panelinhas juntas umas das outras, entressachadas com pontas de cabras; dêstes paus fazem um feixe que fica parecendo um cepo de talhar carne, de altura de palmo e meio, do qual estão dependuradas por umas cordinhas delgadas duas ou três caveiras de cachorros. E eis aqui o deus que esta cega e brutal gentilidade adora e mete no coração e isto é o que chamam China. Tem mais outra cerimónia gentílica, a qual é, que morrendo o Rei ou a Rainha, ou qualquer fidalgo ou pessoa nobre, cada um, conforme a seu estado e posse, manda matar comsigo para o servirem na outra vida aqueles que mais ama nesta, assim homens como mulheres, e a cada uma destas pessoas chamam também chinas, porque com esta palavra declaram o muito que lhe querem, que é como a seu próprio deus; e é espanto ver a crueldade com que matam êstes, • fi. 194 v. porque lhes quebram * os óssos, e esmigalham os dedos, e os vão moendo pouco a pouco, e depois de estarem quási expirando (porque estão neste tor- mento por espaço de três horas) os acabam de matar atravessando-lhes o pes- coço com um pau agudo, assistindo a êste espectáculo os outros que também logo hão de passar pelo mesmo tormento, e não com ruim rosto nem melan- colia, mas com muita alegria e festa de músicas. ;Tão grande é o poder que o diabo tem adquirido sobre esta miserável gente! E esta cruel e diabólica ceri- mónia é a que o padre fêz com El-Rei que desterrasse de seu reino, e fizesse um assento que nunca mais a houvesse, nem também a brutalidade da sua China, declarando-lhe o desatino tão brutal com que o diabo os trazia enganados. Quis nosso Senhor que assim o Rei como seus fidalgos mostrassem que faziam entendimento disto, pelo que logo assentou com êles, estando presentes todos os portugueses que ali viviam, que nunca mais houvesse tais cerimónias, e proibiu
  • Das coisas de Cabo Verde e Guiné 4i7 em todo seu reino com graves penas, o que os portugueses lhe festejaram muito, disparando com alegria muitos mosquetes. Feito isto, pediu logo o Rei que o fizessem cristão: o mesmo pediram seu governador e outros muitos fidalgos; mas, como isto era tão depressa, não lhe deferiram os padres a sua petição; mas para mais segurarem uma obra tão grande, os vão dilatando e provando, e juntamente instruindo nas coisas de nossa santa fé, para que o edifício dela seja de dura. Da mesma maneira pedem o santo baptismo o Rei de Bigubá e o Rei de Besegui, os quais juntamente com o sobredito de Ginalá são todos da nação Biafar, e poderosos, porque o de Ginalá é como Imperador de sete reinos, aos Reis dos quais êle põe o barrete, que é o mesmo que coroa. * Além dêstes lhe tem tomado os Bijagós de que logo falaremos, com »fi. 195. quem confina pela parte do sul, seis reinos. O Rei de Bigubá tem três Reis a que coroa, o qual confina com os Nalus da parte de leste, que ainda que são uns negros belicosos, não se teme tanto dêles como dos Bijagós, que, por morarem em ilhas e usarem de assaltos, são mui prejudiciais. O Rei de Besegui tem cinco Reis a que põe barrete, e também confina com os Nalus e Bijagós. Porém com estes três Reis desta nação Biafar serem tão poderosos, todos juntos não são bastantes para se poderem defender de uma nação de negros, que chamam Bijagós, os quais vivem em umas ilhas fronteiras às terras dêstes Reis, gente fera e mui cruel, e que com seus assaltos infestam e destroem quási toda esta nação Biafar; e os Reis dela, que são os sobreditos, e os de Bigubá particularmente tem quási acabado, de modo que o pobre Rei com sua gente andam metidos pelo mato; e não se contentam êstes negros com os males que fazem a seus comarcãos, mas o que muito pretendem é acabarem de todo aos portugueses que nestas partes residem, o que poderão fazer, se Sua Majestade lhes não mandar algum socorro, o qual com muita instância lhe pedem êstes três Reis com os portugueses, que em suas terras estão; e só para tratar e requerer isto a Sua Majestade em nome de todos mandaram o ano passado de 607 um irmão da Companhia, dos que lá andavam, a êste reino, prometendo que indo êste socorro, se farão logo vassalos de Sua Majestade, e lhe darão portos em seus reinos onde possa fazer fortalezas, e que então poderão receber logo o santo baptismo com tôda sua gente: o qual também os padres agora lhe não dão por esta perseguição tão terrível que padecem dos Bijagós * que os inquie- «fi.iqSv. tam e vão destruindo, os quais ainda que vivem em ilhas, como nelas saem três rios que passam pelas terras dêstes Reis e as dividem umas das outras, e dêstes rios saem tantos braços e esteiros que tôda esta terra retalham e fazem nave- gável dumas partes para as outras, ficam os Bijagós livres para com suas em- barcações, que são mui ligeiras, poderem correr e saltear e destruir todas estas terras, como fazem; pelo que não teem nenhum remédio senão indo de cá algum socorro de gente que juntamente com as dos mesmos Reis biafares e portugueses que lâ andam, em navios de remo, pequenos e ligeiros, possam fazer guerra e destruir êstes negros e conquistar-lhes suas ilhas que por todas são dezassete, tão ricas e férteis que, se estiveram em poder dos portugueses, puderam fazer um bom estado e de muita riqueza e proveito para êste reino, 53
  • 418 Das coisas de Cabo Verde e Guiné porque são muito abundantes de tôda a sorte de mantimentos, mui frescas por causa dos arvoredos e ribeiras de água; tem muitas palmeiras de que colhem muito vinho e azeite, muitas árvores de espinho em várias partes, e dão todas as sementes que lhes lançarem, muita variedade de gado, abundantes de peixe; tem muito marfim, cera, ferro; nas praias se acha muita quantidade de âmbar, e por o não conhecerem os negros, o torna a levar o mar; tem muita cola, fruta e mercadoria tão estimada não sòmente naquelas partes mas dos turcos e moiros, que afirmam que se podem cada ano levar dali dois navios desta cola para resgate dos cativos, o qual sairá muito mais barato que se fora por oiro e prata. Finalmente, são tais as terras destas ilhas que quási sem as cultiva- rem, por sua muita fertilidade, sustentam os moradores delas e os fazem tão •fi. 196. poderosos que podem fazer a guerra que acima * dizemos aos Reis biafares da terra firme, e tem aqui Sua Majestade com que pode satisfazer mui largamente aos que mandar com êste socorro conquistar estas ilhas, dando-lhas e repar- tindo-lhas em capitanias conforme ao costume deste reino; que ficando debaixo de sua coroa não sòmente a acrescentam, mas ficam sendo o amparo de tôda a cristandade que assim nelas como pela terra firme se pode fazer, que será mui grande; porque, conforme a disposição que os padres acham por tôda aquela costa, não haverá Rei algum dos muitos que por aquelas partes vivem, que com tôda sua gente não receba o santo Evangellio.
  • Das coisas do Brasil 419 DAS COISAS DO BRASIL NÃO vieram nêstes próximos anos desta província cartas gerais, donde possamos tirar matéria para referirmos as coisas de serviço de Deus e conversão daquele gentio que nosso Senhor obrou pelos padres que nela residem; mas de algumas cartas particulares que nos viemra à mão, entendemos algumas coisas de muita edificação e dignas de se referirem por serem uma mui piincipal parte dos grandes trabalhos que os nossos nela padecem por ajudar aquele gentio, que é das missões e jornadas que fazem por os ir buscar aos matos onde vivem, e ajuntá-los como ovelhas desencaminhadas para os trazerem ao curral e rebanho da Santa Igreja. Destas missões se fizeram duas nêstes pró- ximos anos, uma ao gentio que se chamam Carijós, outra aos que se chamam tapuias; e ainda que a conclusão delas não trouxe consigo o fruto de multidão e conversão dalmas que os padres pretendiam, trouxe-o porém muito grande de merecimentos, pelos muitos e grandes trabalhos que nelas padeceram, como da relação de cada uma se verá. Da missão aos Carijós Vivem estes gentios, da capitania de Santos que está em S. Vicente, para a banda do sul até ao rio da Prata em distância de cem léguas, espalhados por perto da costa do mar e ribeiras de muitos rios, e por campos e matos de sertão para dentro de mais de duzentas léguas; e sendo informado o padre Fer- não Cardim, provincial desta província, por alguns brancos que por aquelas partes iam ao resgate e caça deles, como costumam, de como entendiam haver nelas grande multidão deste gentio, desejando com os mais padres de ver se podia trazer alguma soma deles para o rebanho de Cristo e da Igreja, como costumam a fazer em outras partes do Brasil, se resolveu mandar lá dois padres que para isso escolheu, de muita virtude e confiança e de insigne caridade e zelo da salvação das almas, e que sabiam mui bem a língua da terra; os quais, ainda que sabiam os evidentes perigos a que se punham e os trabalhos que em tal jornada como esta haviam de passar, levados porém de sua muita caridade e do desejo de padecer por Cristo e de verem se podiam ir apanhar por aqueles incultos matos algumas gotas do sangue de Cristo, quais consideravam as almas daqueles bárbaros gentios que por eles vivem embrenhados, com muita instância e fervor de espírito pediram ao padre provincial, superior seu, os quisesse escolher e nomear para esta emprêsa tão arriscada. E satisfazendo o superior a seus desejos, se partiram os bons padres João Lobato e Jerónimo Rodrigues da capitania de Santos fazendo sua jornada por mar e levando em sua companhia, como costumam, dez ou dôze índios dos já convergidos e criados *fi. 197. com os mesmos padres. Fizeram seu caminho até à alagoa que chamam dos patos, e o que nêle passaram escreve o padre Jerónimo Rodrigues muito
  • 42o Das coisas do Brasil miudamente em uma comprida carta que nós iremos resumindo, a qua! diz assim: Começámos nossa viagem e logo no princípio do caminho foi nosso Senhor servido de nos começar a provar permitindo que a canoa em que mandámos buscar o fato a Itanaém, tornando com êle desde a costa se fizesse em pedaços, pôsto-que o fato se salvou, pelo que foi necessário trazê-lo por terra a Cananeia caminho de vinte léguas com muito trabalho e fome. Na Cananeia fizemos logo outra canoa para continuarmos nossa viagem e nela nos partimos levando por verdadeiro piloto a Deus nosso Senhor. Chegámos a Piranacá que são nove léguas de Cananeia, a qual tem um recôncavo ou enseada maior que a da Baía com mui grandes ilhas; e da banda da terra firme tudo são serras, e detrás des- tas correm umas grandes campinas de quarenta léguas de pinhais, onde dizem haver grande força dos Carijós e aonde mataram os nossos bem-aventurados irmãos João de Souza e Pedro Correia. Estando aqui, chegaram trinta e tantos homens de uma nau da frota de Castela, e após esta chegou outra urca de fla- mengos da mesma armada, que ia para Chile, meio alagada, sem haver já quem pudesse dar à bomba; e cuidando que entravam pela barra de S. Vicente, enca- lharam nesta enseada; êstes nos fizeram muitas caridades provendo-nos de sua matalotagem com tudo que havíamos mister. Há nesta enseada muitas ostras e tão grandes que uma só basta para um homem. No primeiro dia de Agosto, estando o tempo muito bom e o mar muito quieto e sem chuva nem sinal dela, • fi. 197 ▼. de improviso deu um trovão tão terrível que nos assombrou, * e logo a enseada que é quietíssima se perturbou de maneira que era coisa de espanto e parecia que os mares nos queriam comer; quieta esta tormenta, nos partimos daqui para o rio S. Francisco, que dista nove ou dez léguas; mas antes dêle há outro rio chamado Guarativa onde se tomam muitos gorazes que dali vão para várias capi- tanias. Entrámos pela barra do rio S. Francisco já de noite, pelo que não pude- mos dar fé de sua bondade, mas dizem-nos poderem entrar por ela muitas naus juntas. Depois de entrados pelo rio dentro, vimos fogo e duas canoas; e saindo alguns índios a saber o que era, acharam serem de Carijós, o que foi para nós de muita alegria por acharmos em tais horas e em tal lugar a ovelha perdida que íamos buscar. Agasalhámo-nos na praia do rio. Logo em amanhecendo, vem a nós um índio honrado daqueles, com uma vara de meirinho na mão, que em Santos lhe tinham dado, e começou a prègar e dizer que se alegravam muito com a nossa vinda, e acabada a prègação, nos veio abraçar; e depois de estarmos ali um pedaço, despedindo-nos dêles, fizemos nossa viagem por dentro do rio ao longo duma grande ilha sem descansarmos todo o dia. É este rio em si um mar grande e fertilíssimo, segundo nos diziam, de peixe, marisco, caça, mel, e tem por dentro muitas ilhas e terras ao parecer mui boas. Saídos deste rio e caminhando obra de duas ou três léguas, demos noutro que chamam Itapocu, pelo qual desceu antigamente Gaspar Hortuna, que é um velho que mora na praia de Itanaém, o qual veio de Piqueri, atravessando todos aqueles Carijós, como dêle me informei; e ajuntando-se êstes que por aqui há vizinhos e havendo mantimentos, por êste rio com o favor divino havemos de fazer entrada até onde • fi. 19&. êles vivem. Da barra dêste rio ao pôrto dos Carijós dizem * alguns haver três jornadas, outros cinco; os quais dizem os brancos que são infinitos e muito boa
  • Das coisas do Brasil 421 gente, mas como êles tiveram guerra os anos passados com os tupinaquins, cuidam que todos os que estão cá por baixo são desta casta, pelo que nos dizem que quando se fizer esta entrada para irmos onde êles estão, que é necessário irem três ou quatro canoas diante, vestidos de peles e de cabelo comprido a seu modo, para dêles serem conhecidos e não cuidarem que são contrários. Vcspera de S. Lourenço chegámos à mui nomeada ilha de Santa Catarina, terra muito boa e grande, farta de peixe e marisco; na entrada da barra da banda do norte vimos na ponta duma praia uma cruz levantada, com cuja vista muito nos ale- grámos; e nós também em todas as partes onde saímos deixámos arvorada esta bandeira como tomando posse daquelas terras que o demónio tantos mil anos há tem em seu poder. Dormimos duas noites nesta ilha por causa do tempo e no dia seguinte nos partimos para o primeiro pôrto dos Carijós a que chamam «Porto de D. Rodrigo». Estando já à vista dêle com muito bom tempo, eis que se levanta junto de nós uma baleia que, quando a vi antes de se bulir totalmente, me persuadi ser um grande penedo, e assim o pudera afirmar, se a não vira abaixar e fundir-se no mar. Indo mais adiante obra de uma légua do pôrto, andavam diversas assim da banda direita como da esquerda da canoa, e uma nos ia seguindo de sorte que nos meteu em bem de apêrto e aos índios deu assaz trabalho no remar, porque lhe andavam furtando as voltas; mas logo tor- nava a dar na esteira da canoa e algumas vezes se chegava tão perto que já não esperávamos senão que do outro mergulho surgiria debaixo da canoa. Botámos-lhe duas ou três vezes um pequeno de Agtws Dei e foi nosso Senhor servido que nos deixou. * Chegámos finalmente ao pôrto de D. Rodrigo, que é .Fi.igSv. o primeiro dos Carijós, com muito grande alegria de nos vermos em salvamento no têrmo de nossa viagem. Levantámos logo uma cruz, e depois de estarmos ali dois dias, vieram quinze ou dezasseis Carijós entre grandes e pequenos e abraçando-nos com muita festa mostravam folgar muito com nossa vinda; mas para que o gôsto não fôsse perfeito, sucedeu que embarcando-nos em duas canoas para irmos adiante, os índios com a festa de nossa vinda se meteram todos em uma delas que era maior e em que ia todo o nosso fato, a qual viran- do-se deu com tudo no fundo; e pôsto-que algumas coisas se tiraram, danou-se tudo de modo, livros, breviários, doutrinas, que [nenhuma coisa aproveitou mais; mas aqui nos aconteceu uma coisa maravilhosa, que vindo em um caixão- zinho, o qual antes do naufrágio por descuido já vinha perdido por lhe ter entrado água da chuva e humidade sem nós advertirmos, algumas coisinhas do nosso bendito padre José, nenhuma delas se perdeu, com acharmos podres todas as outras coisas que nele vinham sem aproveitarem para coisa alguma; e comendo o bicho um cartapácio, em chegando a uma folha onde estava um hino escrito da letra do santo Padre, não foi mais por diante deixando as outras comidas. Dêste lugar nos partimos e fomos ter a outra aldeia, onde o principal nos mandou dar um punhado de farinha e uns feijões cozidos com bem pouca limpeza, mas a necessidade e fome tirou todo o asco. A êste baptizei um me- nino inocente, que ainda que cá não viera para mais, dera todo o trabalho por bem empregado, porque logo se foi gozar de Deus. No mesmo dia, que foi de nossa Senhora da Assunção, chegámos a outra aldeia, que são duas casas peque- nas, aonde depois de fazermos uma igrejinha para podermos dizer missa e ensinar
  • 422 Das coisas do Brasil • fi. 199. a doutrina, dia de S. Bartolomeu, es*tando na véspera o dia mui quieto e alegre, se deixou vir tão grande tempestade de chuva, vento e trovões, que foi coisa de espanto; derrubou-nos a imagem, a chuva molhou o frontal, que parecia visi- velmente que o demónio andava procurando que não pudéssemos dizer missa; e bem o mostrou também no dia do santo pela manhã, porque foram tantas as moscas na igrejinha que nos não podíamos valer e com grandíssimo trabalho dissemos missa; e bem se via serem aquelas moscas os mesmos demónios ou mandadas por êles, porque nunca mais até agora se viram. Aqui estamos há três meses ensinando a doutrina aos moradores desta aldeia, os quais folgam de ouvir as coisas de Deus, e já muitos deles se sabem benzer e pedem que os façam cristãos; mas ainda até agora não baptizámos mais que três inocentes, um dos quais está já no céu. São fáceis de estar de joelhos com mãos levan- tadas, amigos de água benta e de virem à igreja. São cá no inverno os frios quási intoleráveis, por ser a terra muito baixa e de muitas alagoas e continua- damente haver grandíssimo vento. A comarca dêstes Carijós que estão por estes campos ao longo do mar, e que é deste pôrto de D. Rodrigo até Berpetibla, pode ser de quarenta léguas pouco mais ou menos, terra muito baixa, campinas de areia que correm entre o mar e umas serras, que não há ver um palmo de terra nem de barro; no inverno muito fria, no verão muito quente e de muito ruins águas, e daqui vem ser muito doentia. Nestas campinas, ao longo de algum matinho, teem os índios feitas suas casas palhaças mas bem feitas e de sessenta palmos de largura pouco mais ou menos; e a cada casa chamam uma aldeia, de maneira que havendo em tôda esta comarca trinta e cinco casas, se diz • fi. 199*. haver * trinta e cinco aldeias; e entre elas há algumas que não têm mais que três ou quatro casais. Não teem principal ou cabeça que os governe, e por esta causa estão apartados uns dos outros e com pouca comunicação e amizade. Os casais que haverá, entre todos, serão como cento e cincoenta; criação de meninos é pouca que é sinal da malícia da terra. Teem ordinàriamente muitas mulheres, sua felicidade está posta em terem muitos cabaços e andarem carre- gados de muitas contas, pendentes muito compridos nas orelhas; nas pontas delas umas meias luas de prata ou de latão da grandura de uma meia pataca; as mesmas trazem nas testas. Há nêstes campos muitas e grandes alagoas e bem providas de peixe, outeiros mui altos mas de areia e todos cobertos de arvoredo; porém temos para nós que darão tudo quanto lhes semearem; há muitos veados do reino, emas, antas; há muitas onças e outros animais feros. Não teem êstes algodão, mas vem-lhes de outra parte o fio de que fazem suas redes. Não veem coisa que não desejem e peçam, e tão importunamente, ainda que seja um alfinete, que vos não deixam até que lho deis; até a roupeta me pediram dizendo que mandaria buscar outra; nem temos outro remédio para a sua importunação em pedir, que paciência. Quando nos entram em casa, revol- vem tudo quanto nela há. São grandíssimos mercadores e só por contratar com os brancos veem daqui trinta léguas carregados de favas, batatas, redes, peles. Teem entre si muitos agoiros e muitos feiticeiros; até agora se vendiam uns aos outros. Quando tomam algum contrário, dão-no a matar no terreiro aos meninos de dez doze anos para que assim fiquem cavaleiros; e ajuntando-se quatro, cinco, seis meninos, lhe dão tantas na cabeça até que o matam; e aca-
  • Das coisas do Brasil 423 bado de o matar, fazem meios mártires do diabo aos pobres * dos meninos, por- .fi.joo. que lhes dão desde o pescoço até ás curvas das pernas uma soma de navalha- das com que lhes escalam tôdas as costas e os fazem jejuar uma boa temporada e tão estreitamente que trazendo-nos um destes dois pássaros, e convidando-o nós, nunca já quis comer, dizendo que jejuava porque havia pouco que matara. Em seus vinhos são temperados, mas as mulheres não o bebem, que é coisa mui nova entre o gentio do Brasil. Os que morrem, se não teem herdeiros, enter- ram-nos com suas alfaias, e se os teem, ficam-lhes, e em cima da cova lhes iazem uma casinha para que a chuva lhes não faça mal. Teem entre si alguns escravos fugitivos, e a estes lhes fazem muito mal, pois que lhes dizem muitas mentiras com que lhes põem temor de se virem para nós. Porém, sem em- bargo disso, todos êles querem ser filhos de Deus, ainda que alguns virão deva- gar, e é necessário primeiro fazer mantimentos por de presente haver muito grande fome, assim por causa da esterilidade como pelo mêdo que teem dos brancos, pelo qual não fazem roças. No tempo que os brancos cá veem ao tesgate, porque acham então a novidade do vinho e legumes, parece-lhes que teem que comer todo o ano, e por isso vão lá dizer que há cá muita fartura; mas a verdade é que, tirando naqueles meses, em todo o tempo padecem muita fome, e assim a padecemos nós, que, quando temos uma raiz de mandioca da grossura de um rábão, damos graças a Deus, ficando muitas vezes sem jantar e o mais dos dias sem cear, e chegamos a comer as favas que tínhamos para semear, e do farelo que fica da farinha das hóstias fazemos migas ou papas, que nos sabem muito bem cozidas na água; e seja Deus bendito, que de nove meses a esta parte que há que partimos de Santos, nunca nos levantámos da mesa de sorte que não comêramos mais se o tivéramos, e festejamos quando temos alguma espiga de milho que comemos * assada ou cozida. Porém não escrevo estas coisas para espantar nossos padres e irmãos, antes crendo que com elas se acenderão muito mais para desejarem de vir a estas terras a buscar estas almazinhas e tirá-las desta brava e agreste mata para as irem plantar no fresco jardim da igreja do Senhor. E eu me tenho por tão ditoso em me caber tal sorte, quanto dantes me tinha por indigno de a merecer: e assim quanto a mim, eu não quero já mais vida que para fazer penitência de meus pecados em serviço de Deus e salvação destas almas. É esta alagoa, que chamam dos patos, mui formosa: terá oito ou nove léguas de comprido, de largura em partes tem uma légua, em outras mais; tem muito peixe, boa barra e bom pôrto onde os navios estão. Nela ficámos até hoje 26 de Novembro de 6o5. Outra carta escreveu este mesmo padre em 11 de Agosto de 606, em que diz assim: ^Ficamos sós entre estes Carijós sem termos nem quem nos ajude à missa senão um ao outro. O nosso comer/.inho quando o temos, nós o fazemos; nós lavamos nossa pobre roupa quando é necessário, nós lançamos as tombas nos nossos sapatos com muita alegria, e com nunca termos aprendido o ofício, o fazemos muito bem. Os índios aqui são poucos, os brancos muitos que os \eem buscar, que por essa causa não temos feito quanto pretendíamos pelo impedimento que nêles temos. Contudo já temos aqui juntos passante de du- zentas almas a que todos os dias pela manhã e à tarde fazemos a doutrina.
  • 424 Das coisas do Brasil Desde que partimos de Santos são vindos aqui quatro navios ao resgate, e agora estão outros quatro cm S. Vicente; parece que por estarmos cá, se dão tanta pressa, como se lhos nós viéramos tirar de casa, e em um só barco que aqui está, fi. 201. em que não veem mais que dezoito brancos, * vem resgate para mais de trezen- tas peças. É lástima ver o que passa e as pessoas com que alegam, como também participantes neste negócio, para darem por lícito tão ilícito resgate. E o que pior é, que levando certo branco passante de quarenta índios destes, deixou cá um índio ladino, o qual está no lugar onde os brancos vão resgatar, que será daqui vinte léguas, e a todos os que se querem vir para nós impede dizendo que não venham porque nós açoitamos, metemos no tronco, fazemos trabalhar de dia e de noite e que os vimos agora buscar para os levar às vinhas de Pirateninga. Mas não é de espantar dizer isto um índio, pois os brancos o dizem também, e este é o favor e ajuda que neles temos na conversão e remé- dio dessas pobres almas; por onde não há mais que fazer, que ter paciência. Até aqui a carta do padre. Êstes são os trabalhos que aqueles bons padres padeceram nesta jornada, mas não se poderá referir o fim dela sem muito grande sentimento e escândalo de quem o ouvir; porque, andando e estando os padres neste desterro perto de três anos, e vindo no cabo dêles com estas duzentas almas pouco mais ou menos que por aqui ajuntaram, trazendo-as em canoas por mar para as apo- sentarem nas aldeias doutros índios já cristãos que os padres teem à sua conta na capitania do Rio de Janeiro, chegando à de Santos, lhes saiu ao encontro um homem poderoso com gente de armas, e como se fôra um salteador e pirata, lhos tomou por força todos, cativando-os sem nenhuma justiça nem razão e contra as leis de sua Majestade, e os meteu em ferros e vendeu como quis, fazendo sobretudo aos padres muitas injúrias e afrontas; e não cessando aqui seu desa- •fi.íoiv. tino, vendo que um dos padres se embarcava * para ir a outra capitania, suspei- tando que seria para ir pedir socorro a quem lho pudesse dar, o salteou com armas, e com a espada nua diante lhe impediu o caminho, e o fêz tornar; o que tudo dizemos aqui não por querermos desautorizar nossa gente portuguesa, cuja piedade e cristandade Deus tomou por meio para bem e conversão de tantas almas, mas para que se veja a impiedade de alguns e o estôrvo que os padres teem principalmente naquelas partes do Brasil, para procurarem o remédio da- quelas pobres almas sem aproveitarem tantas leis quantas sua Majestade tem feitas em favor da liberdade dêstes pobrezinhos brasis; e porque os tristes não teem outro amparo, nem quem os defenda e acuda por êles senão os padres (pois, se êles não foram, já hoje não houvera um só índio vivo) são por isso tão odiados e perseguidos com tantas calúnias e falsidades, quantas continuamente Ries levantam e escrevem contra êles a sua Majestade e a seus ministros, ainda muitos dos mesmos que em razão de seus ofícios tinham obrigação a defender a justiça das leis de sua Majestade e a liberdade espiritual e temporal dos pobres índios, se não fôra o interesse e cubiça humana que tudo cega.
  • Das coisas do Brasil 425 Da missão que fizeram o Padre Francisco Pinto e o Padre Luís Figueira ao rio de Maranhão Corre de Pernambuco para a parte do norte, e do rio do Maranhão uma grande costa de mar do Brasil pertencente à conquista desta coroa * perto de .fi.mj. duzentas léguas, toda povoada de infinitos índios bárbaros e selvagens, como são todos os do Brasil, entre os quais até agora principalmente os que estão mais afastados de Pernambuco carecem da luz do sagrado Evangelho. Desejaram muito nossos padres de começar a entrar com êle por esta tão espêssa mata, usando do modo mais suave de que costumam com aqueles bár- baros, que é por meio de pazes que lhes oferecem e fazem com êles para que queiram ser filhos de Deus e vir a vida santa e ter amizade com os brancos. E como esta emprêsa era mui dificultosa e arriscada e requeria homens de muita prudência e valor para se saberem haver com os índios, levando-os por bom modo, e sofrer com ânimo constante e varonil os grandes trabalhos e peri- gos a que se punham, e que também tivessem vocação particular de Deus para tal emprêsa, parece que escolheu Deus para ela os dois que mui particularmente tinha dotado de todas estas partes, que foram os acima nomeados Francisco Pinto e Luís Figueira. O primeiro, homem já quási velho, de cincoenta e quatro anos de idade, excelente língua e de grande experiência nas coisas do Brasil, e com não ter muitas forças, pacientíssimo de trabalhos, e que tinha já feito quatro ou cinco jornadas destas pelo sertão e matos do Brasil, indo buscar com grande caridade e fervor de espírito aquelas rudes ovelhas para as trazer ao curral da santa Igreja; de singular virtude e dom de oração, tão zeloso do aumento da fé e salvação das almas, que todo o Brasil lhe parecia pouco para trazer a Deus; e como tal, êle foi o que se ofereceu para esta jornada e a pediu aos superiores com grande instância, com espírito de fazer nela grandes * serviços a Deus e >Fi.2oav. lhe ganhar muitas almas, e chegando ao rio do Maranhão, que é um grande rio que dista de outro muito maior que chamam Orelhana e dista do das Ama- zonas oitenta e cinco léguas, fundar igrejas e arvorar a cruz de Cristo. O segundo foi o Padre Luís Figueira mais mancebo^na idade, mas de muito grandes partes de virtudes e letras, o qual também com grande fervor de espí- rito e com muita instância procurou e alcançou dos superiores esta missão. Partiram pois de Pernambuco por ordem do padre provincial e com licença e ajuda do governador Diogo Botelho em Janeiro de 607. Foram por mar até Zaguaribe, que serão como cento e vinte léguas; dai por diante fizeram o seu caminho por terra, a pé com seus bordões nas mãos, acompanhados de alguns índios cristãos que consigo levavam, tapuias de nação e parentes daqueles a quem iam buscar; caminharam desta maneira mais de cento e vinte léguas ordinàriamente por lamarões e atoleiros por ser no inverno, e algumas vezes descalços pelas muitas águas, e sempre por matos e brenhas despovoados sem terem outro caminho mais que o que os índios iam rompendo à força de braço; e o comer tão pouco que não tinham muitas vezes com que passar senão algumas ervas. Chegaram a uma serra chamada Ibiapaba, donde até ao Maranhão havia 54
  • 4 2 g Das coisas do Brasil ainda cem léguas, mas estas todas daqui por diante povoadas de infinitos bár- baros tapuias-, e como era necessário passar pelo meio deles e isto nao havia de ser com fôrca de armas, começaram a tratar de pazes, as quais bem se temeram que fossem de pouco efeito pela pouca constância destes bárbaros, que as não fazem mais que por aquele acto, mas acabado ele, matam quem P°deContudo, como se faziam em nome * dos padres que ensinam a santa vida e o caminho do céu, o qual acaba muito com todo o outro gentio do Brasil, confiaram os padres que assim porventura acabariam com este; pelo que as principiaram logo com três nações dêstes que eram de mais importância, por estarem no caminho por onde haviam de passar, mandando-lhes vários presentes e ferramenta, que é a coisa que êles mais desejam e estimam. Aos primeiros mandaram a primeira vez recado; não teve efeito; mandaram segundo, veio logo enviada por êles uma escrava sua que pasmou de ver os padres e lhes foi pi e- gar maravilhas deles, mas tudo debalde, porque a nada defenjam. Mandaram aos segundos da mesma maneira e também não acudiram. Finalmente mandaram aos terceiros duas vezes e com bons presentes pre- tendendo que os viessem alguns a ver, para que com os olhos vissem que eram os padres, e certificados disso se confiassem deles. Excusaram-se com dizerem que era o caminho comprido, pelo que os padres começaram a descer por uma serra abaixo e do meio dela lhes tornaram a mandar recados com mais pre- sentes, mas êles os gratificaram com matarem a todos quantos iam com o recado guardando só um moço de dezoito anos para depois trazerem por guia quando viessem dar assalto nos padres, como depois fizeram. Neste tempo estavam os padres esperando pela resposta, e vendo que tar- dava, entenderam logo o que podia ser, principalmente não vendo tornar nenhum dos nossos índios, até que daí a mais de um mês souberam de certo o que pas- sava e logo se arrecearam do que podia suceder; mas por nao desampararem os índios que consigo levavam, e que ali tinham plantado )á seus milhos, e por outros respeitos se deixaram estar. Senão quando aos 11 de Janeiro de 608 subitamente dao sobre eles estes bárbaros, e começam às frechadas com os nossos com grande grita e logo morreu um dos seus e outro foi ferido, c porque os inimigos entraram pela parte onde estava a choupana dos padres à borda do mato, saiu a grita o Padre Francisco Pinto, que neste tempo estava dentro em casa rezando suas horas, e ainda que os nossos índios, que os padres levavam, procuravam quanto podiam de o defender e amparar bradando aos outros que estivessem que os, que aquele era o Padre Abaré que os queria apaziguar e ensinar-lhes a boa vida, respondiam que não tinham que ver com isso, que o haviam de matar; final- mente, como os nossos eram poucos e os inimigos mais, nao ficou com o padre mais que um só mui esforçado e valente homem que o foi amparando e defen- dendo até morrer por êle; e depois dêste cair, chegando-se ao padre lhe deram tantas pancadas com um pau na cabeça que lha fizeram em pedaços, quebran- do-lhe os queixos e arrancando-lhe as cachagens e olhos. Neste tempo quis Nosso Senhor, para que ali não acabassem ambos, que o Padre Luís Figueira andasse um pedaço afastado, ao qual logo correu um
  • Das coisas do Brasil 427 moçozinho, e tomando a dianteira lhe ia bradando: Apressa-te, pai, apressa-te, pai, com o que fez advertir o padre; pelo que logo se meteu por um mato onde esteve enquanto durou a briga, e escapou com a vida, pôsto-que os bárbaros também o buscaram para lha tirarem; mas não dando com êle, e querendo fazer volta, se tornaram à choupana dos padres e levaram tudo quanto nela havia, assim o fato da igreja como todo o mais: e com isto se foram, fazendo grande grita. Saiu depois o Padre Luís Figueira, e ajuntando-se com êle os nossos índios, se foi * com muitas lágrimas onde estava o corpo do bom Padre Francisco Pinto, e lavando-lhe o rosto e a cabeça cheia de sangue e terra e feita em pedaços, o compôs em uma rede para o levar para o pé da serra e logo sendo avisado de um índio catecúmeno que estava morrendo lhe foi acudir, e o baptizou e curou e daí a pouco morreu. Ao padre e a êste e a outro companheiro deu sepultura ao pé daquela serra e no meio daquela genti- lidade. E êste foi o fim que teve aquela jornada e missão, da qual Deus parece que por ora não queria tirar outro fruto, senão o de pagar a êste bom padre, com tão glorioso fim e prémio, o grande zêlo e fervor de espírito e caridade, com que a pediu e a prosseguiu, até dar a vida por seu serviço e salvação das almas que ia buscar. LAUS DE O Soli Deo honor et gloria.
  • ■ ÍNDICE Pág». Licenças ..... 2 Ao Leitor «... 3 LIVRO PRIMEIRO Das coisas de Japão Capítulos : I — Do estado em geral das coisas de Japão, assim no temporal como no espiritual, pelos anos de i6o3 a 1604. . 5 II — Do que passou nas cidades de Nangasáqui, Arima e Omura 9 III — De outros casos de edificação que mais sucederam pelas cristandades das resi- dências de Arima e Nangasáqui i3 IV — Do que sucedeu na cristandade das ilhas de Amacusa e Xíqui, e perseguição grande que padeceu 18 V — Do que sucedeu na cristandade do reino de Fingo, e perseguição que nella se tor- nou a renovar 23 VI — Do glorioso martírio de Gorozaimon João 26 VII — Do glorioso martírio do bem-aventurado Gofioge Simão 3o VIII — Do glorioso martírio das santas mulheres Joana, Inês e Madalena e do menino Luís 37 IX — Como se converteu à nossa santa fé o soldado que degolou e martirizou os santos, e os três cristãos Iifiacos foram presos por ela 45 X — Do que se fez nos reinos de Iamangúchi, e constância na fé daquela cristandade . 57 XI — Da missão que se fêz ao reino de Bungo 57 XII — Do que se fêz nas residências de Facata e Aguizúqui, no reino de Chicugém ... 5g XIII — Do que se fêz na residência de Conzura, no reino de Bujém 63 XIV — Do que se fêz na casa e residência de Firoxima 65 XV — Das coisas que se fizeram na casa e residência de Ozaca 72 XVI — Das coisas que passaram na cidade de Meaco 76 XVII — De algumas missões que se fizeram da casa de Meaco a diversas partes e reinos . 84 LIVRO SEGUNDO Das coisas da China I — Do colégio de Macau e estado em geral das coisas da China acêrca da cristandade 89 II — Da residência e casa de Pequim e do que nela se fêz 93 III — De algumas contradições que se alevantaram contra os padres e do sucesso que tiveram 99 IV — Da devoção e bom procedimento dos cristãos de Pequim 104 V — Do que se fêz na residência e casa da cidade de Namchão no VI — Das residências de Xaucheu e Nanquim «21
  • 43o índice da Relação LIVRO TERCEIRO Das coisas de Maluco Capítulos : P-gi_ I — Do que se fêz na casa de Ambóino em Maluco . . 127 II — Do que sucedeu na casa e residência de Tidor em Maluco 129 III — O que sucedeu na missão dos reinos de Bengala i32 Da prisão e morte de Domingos Carvalho, destruição da casa da Companhia e da cristandade de Chandecão 135 IV — Da missão do reino de Pegu, e do que nêle sucedeu; i3y V — Das coisas do reino de Bisnagá, do que se fêz no colégio de S. Tomé, e missão de Chandegri ,,, VI — Do que sucedeu na Costa da Pescaria 146 VII —Do que se fêz no colégio de Coulão e reino de Travancor e perseguição que ali padeceu aquela cristandade Das cousas do Malabar VIII — Do que se fêz no colégio de Cochim e nas residências a êle anexas i55 IX — Do que se fêz com os cristãos da serra de S. Tomé 160 LIVRO QUARTO Das coisas de Etiópia I — Das coisas do reino de Etiópia, e do que nêle fêz o padre Pero Pais i65 II — Como o novo Rei e Imperador de Etiópia mandou chamar o padre à côrte, e do que lá passou com êle j^o III — Da missão de quatro padres que fizeram aos reinos de Etiópia, dois no ano de 604 e dois no de 606 ,75 IV — Da viagem que os padres fizeram até chegar a Etiópia 178 V — Informação que o Arcebispo Primaz da índia Oriental, Dom Aleixo de Menezes, mandou tirar da vida e morte do Padre Dom André de Oviedo, Patriarca de Etiópia, e dos mais padres da Companhia de Jesus, que com êle foram e lá acabaram ,g, VI — Da vida e morte dos mais padres companheiros do santo Patriarca 188 VII — Da missão e residência do reino de Angola e do que sucedeu a dois padres que para lá foram ,g, VIII —Da missão de Guiné e Serra Leoa e do fruto que nela se fêz 199 'X — Cópia duma carta que Bartolomeu André escreveu a sua Majestade sóbreas coisas da Serra Leoa e dos reinos vizinhos a ela, aos vinte de Fevereiro de seiscentos e seis anos JO^ RELAÇAO ANUAL DAS COISAS QUE FIZERAM OS PADRES DA COMPANHIA DE JESUS, ETC. (4.0 volume da i.* edição) Licenças 2I+ Ao Leitor 2|j
  • índice da Relação 431 LIVRO PRIMEIRO Da província de Japão Capítulos : págs I — Do estado secular e temporal de Japão do ano de 6o5 217 II — Do estado da cristandade em geral, e das coisas que passaram em Nangasáqui . . 220 m penitencia e morte de Dom Constantino, Rei de Bungo, e doutras coisas de edificação que mais sucederam em Nangasáqui e seu distrito 226 IV —De algumas missões que de Nangasáqui se fizeram a várias partes 23o V — Das coisas que passaram em Arima e seu distrito 233 VI —De um notável caso que aconteceu em Arima de uma alma de um defunto que tornou a este mundo VII — Do que passou no reino de Fingo, e perseguição que nele se tornou a renovar contra a Igreja ^ VIII — De como foram presos Miguel, Maria e Joaquim 249 IX — Do que mais passou depois de presos estes três confessores 25, X —Do que se fez depois desta prisão para ajudar e consolar êstes presos e os mais cristãos de Iatçuxiro 2jg XI —Da perseguição da cristandade de Iamangúchi e do martírio de um nobre fidalgo por nome Belchior 1g0 XII — Como El-Rei Moridono mandou martirizar um cego por nome Damião, na cidade de Iamangúchi 2gg XIII — Do que passou na cidade de Firoxima 27, XIV Do que passou nas cidades de Facata e Aquisúqui no reino de Chicugém, e Iana- gava e Corume no reino de Chicungo, e nos reinos de Bujém e de Bungo. . . 276 XV — Das coisas que sucederam nas partes de Meaco 27c, XVI — De outras coisas de edificação que mais aconteceram em Fuximi e Ozaca .... 284 XVII — Do que se passou nos reinos de Tambajequiém e nos de Fococa 287 Das coisas da China XVIII — Das coisas da China 2ç0 XIX — Do que se passou em Pequim 2ç, XX —De um grande trabalho em que os padres se viram, e cruel morte que os man- darins de Cantão deram a um irmão da Companhia 298 LIVRO SEGUNDO Da Província do Sul I— Das coisas de Maluco 303 II —Da recuperação e tomada do reino de Ternate por D. Pedro da Cunha, governa- dor das Filipinas 3o8 III — Das coisas que passaram em Malaca 3,2 IV— Das coisas do reino de Pegu 3,., Reino de Bisnaga V —Das coisas que passaram no colégio de S. Tomé e residências de Chandegri e Veluz 32. VI — Do que passou na Costa da Pescaria 323 VII — Do que passou na residência de Maduré 327
  • 432 índice da Relação Coisas do Malabar Capítulos : l>^5' VIII — Do colégio de Cochim e suas residências IX — O que sucedeu no colégio da Serra e suas residências -J38 X — O que passou no colégio de Coulão e residências da Costa de Travancor 342 X I Das coisas que passaram no colégio de Ceilão e suas residências 3-14 LIVRO TERCEIRO Da Província do Norte I — Das coisas de Goa ^7 II —Do que se fêz nas terras de Salsete 3-'5 O CQ III — Missão do Mogor ~. IV — Da morte do Rei Aquebar, Grão Mogor jt)4 V —De que como o príncipe se levantou contra seu pai e do sucesso que teve^ .... 366 V I Como El-Rei começou a governar e da fôrça que fêz a dois meninos cristãos para os fazer moiros VII —Do fruto que se fêz com algumas conversões ^74 VIII — Do que mais sucedeu no ano de mil seiscentos e sete -76 IX — Da missão do Cataio ^ X — Da casa de Diu ^7 XI — Do que passou sôbre os pagodes que se derrubaram e cruz que se levantou em seu lugar ;?88 XII — Da missão que desta casa de Diu se fêz ao reino de Cambaia JÇP Das coisas de Etiópia XIII — Da missão e jornada que fizeram a Etiópia o padre Luís de Azevedo e o padre Lourenço Romano -97 XIV — Da batalha que o Imperador teve com os levantados, e como nela foi morto . . . 404 XV —Do que mais sucedeu depois da morte do Imperador 4o6 LIVRO QUARTO Das coisas de Angola Das coisas de Angola 4'3 Das coisas do Cabo Verde e costa de Guiné 4'5 Das coisas do Brasil 4'9 Da missão dos Carijós » Da missão que fizeram o padre Francisco Pinto e o padre Luís Figueira ao rio de Maranhão
  • * -w .
  • EDIÇÕES DA IMPRENSA DA UNIVERSIDADE (extracto do catálogo) * SCRIPTORES RERVM LVSITANARVM SÉRIE a) Publicado: FERNÃO LOPES DE CASTANHEDA. — História do descobrimento, e conquista 'a índia. Ed. revista pelo senhor Pedro de Azevedo, vol. i, u e 111. Em algodão, cada vol 40^00 Em linho, cada vol iooíí&oo DAMIAM DE GOES. — Chronica do'Felicissimo Rei Dom Emanvel. Conforme a ed. princeps. Rev. pelo Dr David Lopes, 4 volumes 8o#oo FERNÃO GUERREIRO.—Relação anual das coisas que fizeram os padres da Com- panhia de Jesus nas suas Missões do Oriente, da África e Brasil nós anos de 1600 a 1Õ09. Ed. completa das 5 Relações, dirigida e pref. por Artur Viegas, vol. 1 e 11. Em algodão, onda vol 6o#>oo Em linho, cada vol i20#00' No prélo: . DAMIÃO DE GOES — Chronica do Príncipe Dom Ioarn. Conforme a ed. princeps. DUARTE GALVÃO. — Crónica de D. Afonso Henriques. Revista e prefaciada por Tomáfr da Fonseca. JOÃO DE BARROS e DIOGO DO COUTO.— Décadas. Ed. conforme a ed. princeps, revista pelo Dr. António Baião. Em preparação: Papéis relativos á guerra da restauração e independência de Portugal. série b) Publicados : J. — HIERÒNYMO OSÓRIO. — De rebus Emmanvelis gestis. 3 vols.. . . 6oíJ>oo II. — Itinerários Quinhentistas da Índia a Portugal. — Rev. e prefaciados pelo Dr. António Baião, vol. i8#oo III. — Comentários do grande Afonso d'Albuquerque— Conforme a 2.' ed. Rev. e prefaciada pelo Dr. António Baião, vol. 1 (Partes t e 11) e 11 (Parles 111 e ív) 35*froo Em preparação: ANTÓNIO GALVÃO. — Tratado dos diversos e desvairados .caminhos por onde nos tempos passados a pimenta e especiaria veio da índia às nossas partes, e assim de todos os descobrimentos antigos e modernos que são feitos em A era de i55o. série c) No prélo: D. FRANCISCO MANUEL DE MELO. — Epanaphoras de* varia historia portuguesa. Ed. dirigida pelo Dr. Edgar Prestage. Em preparação; História Trágico-marítima.
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