• S C RIP T O R E S RERVM LUS1TANARVM (série A) RELAÇÃO ANUAL DAS COISAS QUE FIZERAM OS Padres da Companhia de Jesus NAS SUAS MISSÕES Do Japão, China, Cataio, Tidore, Ternate, Ambóino, Malaca, Pegu, Bengala, Bisnaga, Madure, Costa da Pescaria, Manar, Ceilão, Travancor, Malabar, Sodomala, Goa, Salcete, Lahor, Diu, Etiópia a alta ou Preste João, Monomotapa, Angola, Guiné, Serra Leoa, Cabo Verde e Brasil NOS ANOS DE 1600 A 1609 E DO PROCESSO DA CONVERSÃO E CRISTANDADE DAQUELAS PARTES: TIRADA DAS CARTAS QUE OS MISSIONÁRIOS DE LÁ ESCREVERAM. Pelo Padre FERNÃO GUERREIRO DA COMPANHIA DE JESUS, NATURAL DE ALMODÔVAR DE PORTUGAL . NOVA EDIÇÃO DIRIGIDA E PREFACIADA POR ARTUR VIEGAS TOMO PRIMEIRO IÓOO A 1603 COIMBRA Imprensa da Universidade 1930
  • RELAÇÃO ANUAL DAS COISAS QUE FIZERAM os PADRES DA COMPANHIA DE JESUS NAS SUAS MISSÕES
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  • SCRIPTORES RELAÇÃO ANUAL /105888 DAS PF ,j'J ."O OS W> f M, COISAS QUE FIZERAM Padres da Companhia de Jesus NAS SUAS MISSÕES Do Japão, China, Cataio, Tidore, Tetnate, Ambóino, Malaca, Pegu, Bengala, Bisnaga, Madure, Costa da Pescaria, Manar, Ceilão, Travancor, Malabar, Sodomala, Goa, Salcete, Lahor, Diu, Etiópia a alta ou Preste João, Monomotapa, Angola, Guiné, Serra Leoa, Cabo Verde e Brasil NOS ANOS DE 1600 A 1609 E DO PROCESSO DA CONVERSÃO E CRISTANDADE DAQUELAS PARTES: TIRADA DAS CARTAS QUE OS MISSIONÁRIOS DE LÁ ESCREVERAM. Pelo Padre FERNÃO GUERREIRO DA COMPANHIA DE JESUS, NATURAL DE ALMODÔVAR DE PORTUGAL NOVA EDIÇÃO DIRIGIDA E PREFACIADA POR ARTUR VIEGAS WtV-;' >->V\ V' TOMO PRIMEIRO lóOO A IÓ03 COIMBRA Imprensa da Universidade 1930
  • Desta edição fez-se uma tiragem especial de too exemplares de papel de linho, numerados e rubricados
  • PREFÁCIO OUQUISSIMAS nações haverá que possam ostentar páginas tão brilhantes na história das suas missões de além-mar, como Portugal; e nenhuma de-certo, cujos reis mais as promovessem e zelassem do que os mo- narcas portugueses, do século de quinhentos em diante. De-feito, o século xvi, se foi por excelência o século dos descobri- mentos, explorações e conquistas, não merece menos chamar-se o século das grandes missões ultramarinas. Destas foi pai desvelado e assíduo promotor o grande monarca D. João III, a quem uma falseada orientação histórica de crítica serôdia — que hoje só inspira desdém — teima ainda agora em alcunhar de Rei inquisidor e fanático, devendo com mais razão apelidá-lo antes — o Rei coloni{ador e missionário. Parece até que neste piedoso Soberano, mais que em nenhum outro, teve realização concreta e cabal aquele duplo conceito — reli- gioso e patriótico — do cantor dos Lusíadas: E também as memórias gloriosas Daqueles reis que foram dilatando A Fé e o Império. A D. João III deveu Portugal não só a pujantíssima expansão mis- sionária, que uma plêiada brilhante de novos apóstolos (de que Xavier foi o arauto) levou às remotas conquistas do ultramar — aonde-quer-que chegaram naus portuguesas —, mas também o ter sabido, como nenhum outro rei, conhecer e utilizar a maravilhosa influência civilizadora do missionário como elemento insubstituível na obra da colonização. Além de amigo e protector valiosíssimo, que sempre foi, das missões e dos missionários, segundo o atestam cartas que lhe escreveram Xavier e Baltazar Gago, do Oriente, e Manuel da Nóbrega, do Brasil, soube igualmente, numa larga visão providencial, imprimir aos reinados subsequentes um vigoroso impulso colonizador, criando e patrocinando na metrópole, para formação de futuros apóstolos, esses fecundíssimos
  • VI Prefácio da Relação seminários, conjuntamente alfobres de horóis e escolas de sacrifício que não cessaram, em séculos sucessivos, de prover de missionários tanto as nossas vastas colónias como outras quaisquer regiões quer fôssem de hordas bravias, quer de gentios cultos e civilizados. Os antigos colégios de Coimbra, Lisboa e Évora, da Companhia de Jesus, foram, por bem dois séculos, outros tantos viveiros vicejantes de opulenta seiva espiritual, donde partiram anualmente para as missões do Oriente, da África e do Brasil as heróicas falanges, daqueles abne- gados obreiros evangélicos de quem tratam largamente as preciosas Relações, que hoje, após três séculos, vão ser de-novo editadas. I * Seja qual fôr a opinião que da Companhia de Jesus e da sua influência na sociedade possam ter os leitores dêste prefácio, é inegável que a obra missionária dos jesuítas portugueses nos séculos xvi e xvii foi assombrosamente bela e gigantesca. Epopeia admirável da civili- zação cristã, realizada por dedicados filhos da nossa pátria, ela pro- vocou desde logo a justa admiração da Europa e ainda hoje, entrevista à distância de séculos, nos enche de nobre entusiasmo. Deram-na largamente a conhecer, dentro e fora de Portugal, entre outras muitas obras, as notáveis Cartas do Japão e a tão valiosa Relação do Padre Fernão Guerreiro de que adiante daremos notícia oportuna. E tão vivaz e penetrante foi o esplendor dessas páginas de glória sôbre o nome da Companhia de Jesus, que as formidáveis campanhas jesui- tófobas, maquiavelicamente urdidas contra ela nos dois últimos séculos, foram até hoje impotentes a ofuscá-lo de todo. Mesmo escritores notoriamente desafectos aos jesuítas lhes reconheceram e apregoaram êsses títulos de heróica benemerência que os tornam perpètuamente crèdores da gratidão de Portugal. Ouçamos um dêstes. « Os grandes obreiros dessa imensa tarefa, que honram incontestavelmente o nome português, são indubitàvel- mente os jesuítas. Nenhuma outra ordem estava como êles preparada para essa conquista espiritual. Homens instruídos não só em letras mas também em todas as sciências que lhes podiam ser úteis, os jesuítas, e os seus discípulos não deviam pequena parte da sua influência aos conhecimentos práticos que punham ao serviço dos monarcas orientais. Assim vemos os jesuítas na Abissínia construir pontes monumentais, que ainda hoje duram e que maravilham os viajantes modernos, lem-
  • Prefácio da Relação VII brando-lhes as edificações soberbas dos Romanos. No reino de Sião propunham ao monarca encarregar-se de trabalhos hidráulicos desti- nados a tornarem completamente navegável o rio Mecom; e finalmente na China o jesuíta Ricci deveu a importância que adquiriu, aos seus talentos de músico e de cosmógrafo. Pasma realmente o leitor mo- derno da extraordinária audácia, da ardente actividade dêsses missio- nários jesuítas que por tôda a parte devassam o Oriente, estudam, investigam e pregam, fundam igre- jas, colégios, seminários, aprendem as línguas e os dialectos dêsses re- motos países, e são os primeiros que os ensinam à Europa. ,jQue im" porta que não seja o seu fim exclu- sivamente scientífico, se a sciência lucra com os seus resultados? » (i). A este, como a vários outros admiradores dos jesuítas, o que tão somente os faz extasiar ante o seu labor estupendo de pregoeiros do Evangelho, são as luminosas con- quistas que realizaram para a sciên- cia. Não foi contudo a ambição da sciência, pôsto-que muito a prezassem, mas sim o amor entranha o a Nosso Senhor Jesus Cristo que impeliu êsses homens na força ca vida e na pujança do talento, a darem de mão a todos os prazeres e cómodos da existência e arrostarem com mil perigos e sacriticios que hoje se nos afiguram quási sôbre-humanos. Que só êste e nao outro podia ser o verdadeiro e nobilíssimo ideal capaz de inspirar emprêsas de tão heróico apostolado, nitidamente o compreenderam e expressaram outros escritores, que do genuíno espírito missionário tiveram mais exacta e clara compreensão. «Não se pode duvidar, — pondera um erudito oficial do nosso exército, recentemente falecido, — que os religiosos da Companhia de Jesus, que nos séculos xvi e xvn foram mandados para as missões estabelecidas no Oriente, eram animados de fé tão viva e de tao intenso sentimento de abnegação de si mesmos, que afrontavam com tôdas as dificuldades e arrostavam os maiores perigos, tendo só em vista a (i) Pinheiuo Chagas, História de Portugal, iv, pág. 122. Lisboa, 1900.
  • Mil Prefácio da Relação glória de Deus e a exaltação da fé católica. Nem a distância dos lugares nem a intempérie dos climas, nem as privações do que é mais necessário para sustentar a vida, da alimentação, do vestuário e da habitação, os intimidava; abandonavam a família e a pátria e iam prègar a fé cristã a povos de linguagem, usos e costumes diferentes, e muitas vezes hostis, que habitavam longínquos países, nos quais se estabeleciam e que adoptavam como nova pátria. As virtudes que fizeram ilustres os religiosos das missões de Etiópia, da índia, da China e do Japão, alguns dos quais a Igreja Católica venera como santos, não brilharam menos nos religiosos que primeiro visitaram o Tibet, e ali fundaram e deram comêço à sua cristandade... O Padre António de Andrade (i) foi o primeiro europeu que ousou subir as encostas do Himalaia, transpor as suas montanhosas solidões perpètuamente cober- tas de neve, atravessar o deserto e entrar no Tibet, donde enviou notí- cias certas e circunstanciadas do que ele mesmo viu naquelas inóspitas regiões e do que observou das feições e costumes dos seus habitantes, mostrando-se não menos intrépido e perspicaz observador do que zeloso apóstolo (2)». Referindo-se às prodigiosas viagens de exploração que os nossos missionários jesuítas efectuaram no interior da Ásia, o sr. Almirante Ernesto de Vasconcelos acentua a mesma nota da «fé cristã que tanto os caracterizava ». «Efectivamente, causa admiração como desde o princípio do século xvii esses peoneiros religiosos realizavam as suas viagens em regiões onde tantos exploradores modernos teem fracassado, não obstante rodearem-se das possíveis comodidades de viagem que a indústria tem imaginado. Se nós admiramos as explorações dos anti- gos missionários portugueses na Abissínia e em outros pontos da África oriental e do interior de Angola e Congo, o que diremos dêsses explo- radores da Ásia, o primeiro dos quais, Bento de Góis, efectuou a mais emocionante viagem de Agra a Sucheu, na fronteira da China, na ideia de abrir caminho por terra até ao Catai! (3)». Dêste Irmão Bento de Góis que foi o primeiro europeu que atra- vessou o Pamir de Oeste para Leste, se ocupa longamente a interes- sante Relação do Padre Fernão Guerreiro, hoje reeditada. Com superior competência frisa a mesma ideia do espírito de sacri- (1) Jesuíta português, natural de Oleiros, na Beira Baixa. (a) Cf. Francisco Maria Eíteves Pereira, O Descobrimento do Tibet, pág. 7. (3) Lusitânia, fase. vu, pág. 92.
  • * Prefácio da Relação IX fício e abnegação dos missionários um distinto historiador actual da Companhia de Jesus: « Quando o missionário, ao som da peça de leva que troava na baía formosa do Tejo saudava Lisboa com o adeus último da despe- dida, não lhe consolavam a saudade esperanças terrenas que lhe sor- rissem de além do mar. Só uma ideia de sublime sacrifício o abalan- çava à emprêsa laboriosa a que se metia. A propagação do reino de Deus naquelas regiões afastadas e a conversão de tantos milhares de irmãos infelizes que êle podia tornar ditosos, era o seu único anelo e recompensa da sua dedicação. Pelos esforços empre- gados para realizar este ideal que devia absorver a sua actividade é que have- mos de avaliar a obra grandiosa do missionário católico. Tudo o mais é secundário para o seu desejo » (i). Norteando sempre a expansiva acti- vidade do seu zêlo, nas suas variadas manifestações, pelo exemplo do grande Apóstolo das Gentes; que tomara por lema fa\er-se tudo a todos, para a todos salvar, os nossos intrépidos missionários nenhuma industria hu- mana desprezavam, por árdua que fôsse, tôda a vez que ela se lhes afigurasse meio eficaz de atrair à luz da fé e ao grémio da Igreja os povos da gentilidade a cuja conversão se votavam. De feito, só um robusto espírito sobrenatural, que possui a tôrça divina de retemperar caracteres e impulsionar homens crucificados ao mundo e despidos de humanas ambições, pode explicar a vasta multiplicidade de aptidões de que deu provas o seu zêlo incendido. Nem outro também, que não fôra um altíssimo ideal de fé e sacrifício, pudera atear jamais êsse bemdito contágio de vocações missionárias, cujo número prodigioso ainda hoje nos enche de assombro. A Lisboa antiga dos séculos xvi e xvu assistiu periodicamente a um formosíssimo espectáculo de zêlo apostólico divi- namente consolador. Eram grupos e grupos de briosos mancebos, na luminosa aurora da juventude estuante de vigor e de fé, que acudiam pressurosamente à ribeira do Tejo, para transporem cheios de santo alvorôço o portaló dos velhos galeões que os haviam de levar a inós- (i) Francisco Rodrigues, A Formação intelectual do Jesuíta, pág. 317. B
  • X Prefácio da Relação pistas plagas longínquas, como se partissem ovantes em demanda de um novo Graal de venturas nunca sonhadas. E quási incontável o número desses sacrificados peoneiros que, em prol da civilização cristã, generosamente trocaram as doçuras da Pátria por mil acerbas privações em remotíssimas paragens do globo. Só para as missões que os jesuítas da Província de Portugal culti- vavam no extremo Oriente, na índia, na África e no Brasil, velejaram do pôrto de Lisboa, em pouco mais de século e meio, passante de dois mil missionários. ; Quanto não lucrariam hoje as nossas colónias com igual subsídio de elementos civilizadores! Nunca a verdade destes eloquentes algarismos com a dos transcri- tos elogios me apareceu tão flagrante e nítida, como após a recente e encantadora leitura dos cinco volumes desta Relação que hoje decor- ridos três séculos, volta a sair do prélo. Respiram essas páginas da obra de Fernão Guerreiro, além de um vivíssimo zelo da dilatação da fé que, da primeira à última, as bafeja e alenta, um ardente e consolador espírito patriótico que não pode passar despercebido ao leitor mais superficial. Aqueles religiosos missionários de quem ali se fala, com estarem a milhares de léguas de Portugal, parece tinham sempre na mente e no coração o nome e a honra da sua amada Pátria; tais eram os extremos que por ela faziam. Assim o frisa expressamente o compilador quando escreve que não ajudavam e serviam menos «os da Companhia naquelas partes (do Ultramar) para conservação e aumento da conquista e estado temporal, do que ajudam e servem no espiritual; porque, ainda que não façam isto com as armas de ferro e fogo nas "mãos, pois a profissão da vida o não sofre, fazem-no por outro modo de grande efeito. Porque quan- tos gentios convertem a Cristo, tantos amigos e vassalos adquirem ao serviço de Sua xMajestade, porque estes depois nas guerras pelejam pelo estado, e cristãos, contra os infiéis, e junto com os portugueses se fazem bons soldados. Os Padres aonde-quer-que estão, conteem aos súbditos na obediência que devem a seu Rei e governadores; aos sol- dados na sujeição a seus capitães; e conservam e teem ruão na paz entre os portugueses e os próprios gentios. Antes da Companhia entrar na China e Japão, a cada passo os portugueses quebravam e rompiam guerra com estas nações, porque na verdade também os portugueses lhes faziam muitos agravos e usa- vam de muitas insolências, até uma vez chegarem em Cantão a açoutar um Mandarim. Mas de cincoenta anos a esta parte que há que a
  • Prefácio da Relação XI Companhia entrou naqueles reinos, de tal maneira, com suas exorta- ções e prudência levou os portugueses e se houve com os gentios, que nunca mais quebraram nem romperam em guerra, antes sempre con- servaram tôda a paz, de modo que os mesmos chinas não querem que os portugueses vão às feiras de Cantão, que se fazem duas vezes no ano, sem levarem consigo os padres, como de feito levam e vão sem- pre, porque hão e a experiência lho tem mostrado, que estando eles presentes nem há brigas nem se lhes fazem injustiças; porque, em quaisquer dúvidas que se levantem, os padres acodem e as compõem. Os reis da índia quando querem fazer suas pazes com o estado, não querem que seja por outro meio senão dos padres. Assim o fez, há dois ou três anos, o Grão Mogor, que mandando um embaixador seu a Goa, mandou juntamente com êle um padre. Assim o Rei de Bisnagá, que mandando o ano passado o seu, mandou com ele dois padres, como acima dissemos. Assim o fêz o Samorim, Rei de Cale- cute, quando agora há quatro ou cinco anos fêz as pazes com o estado, depois de mais de trinta anos que andou com êle em guerra, que de nenhuns outros se quis fiar nem quis que fôssem os medianeiros nelas, senão os padres, os quais tem sempre consigo. E êles, além da con- versão das almas, êste é um dos respeitos porque se teem ali em sua côrte por tão bem empregados, para com sua presença conservarem estas pazes. E se êles não foram e não tiveram tanta autoridade e crédito como teem com êste rei, nunca se pudera tomar o Cunhale no tempo em que se conquistou; e a guerra com o mesmo Calecute se tornara a renovar com grande perturbação e perda do Estado, porque tão maus ofícios faziam os mouros em secreto com o Samorim, e em tantas desconfianças o punham dos portugueses, que de todo tornara atrás e rompera com os nossos, se os padres não foram, que em lhe falando e dando sua palavra, se segurava logo. Trinta anos há que as fortalezas de Ambóino e Tidor, nas partes de Maluco, ardem em contínuas guerras; mas o não se acabarem de perder, como se perdeu a de Ternate, aos padres se deve depois -de Deus, os quais com muitos e grandes trabalhos que ali teem padecido, até morrerem alguns deles, perseveraram sempre em acompanhar aqueles soldados,'animando-os a pelejarem e sustentarem os apertados cercos em que se viam com tão pouco remédio de socorro. O mesmo se vê nas armadas e jornadas que naquelas partes se fazem, nas quais costumam ir os padres para no espiritual e temporal ajudarem aqueles soldados, pacificarem nas brigas, animarem nas batalhas, do que tudo
  • XII Prefácio da Relação resulta muito grande bem temporal ao estado da índia, e o que sobre- tudo pretende a Companhia, que é muito bem das almas, e glória e honra de Nosso Senhor» (i). Não escasseiam, pois, nestes anais da história missionária dos jesuítas portugueses exemplos admiráveis de nobre patriotismo, heróico por vezes até ao sacrifício do sangue e das vidas. Abrangem essas Relações precisamente os anos rudes e sangrentos da brava luta que tivemos de sustentar na. índia e no Extremo Oriente contra a cupidez dos corsários ingleses e bátavos cujas naus não cessavam então de infestar os mares de nossas colónias. E nos frequentes recontros com o inimigo lá encontramos quási sempre no meio da belicosa soldadesca os nossos intrépidos missionários, quer nas batalhas navais onde vários dêles perderam a vida, quer nos cercos e combates campais, rompendo no mais aceso da refrega pela metralha inimiga, já a consolar os mori- bundos, já a pensar os feridos e transportá-los aos hospitais de sangue. Sobejos documentos nos fornece disto a curiosa narrativa adiante publicada. Um dêles, altamente valioso pelo nome tão ilustre que o firma, encontra-se numa carta do mais famoso general daquele tempo na India e um dos últimos heróis portugueses que nela batalharam, André Furtado de Mendonça, a quem suas estupendas façanhas gran- gearam o cognome de Grau Capitão. Diz pois, escrevendo ao Dr. Ni- colau Pimenta, Visitador das Províncias da índia: «Não deixarei de manifestar a V. Paternidade o grande procedimento dos Padres Brísio Fernandes e Sebastião da Veiga, porque já não trato de seu exemplo que é coisa rara, mas só digo do modo em que me ajudam em meus trabalhos; porque afirmo a Vossa Paternidade que, se êles não foram, impossível fôra não ter eu largado a armada; porque quando vejo chegarem-me meus pecados a estado que tenho à minha conta uma máquina como esta, com tanta falta de todo o socorro e provimento, que nem de sagum posso sustentar êstes soldados, veja V. Paternidade que tal posso estar. Mas êstes Padres são os que só me consolam; êles me animam e em tôdas as coisas que se oferecem, me aliviam os trabalhos e me dão esfôrço para poder com êles. Mas faço-lhe quei- xume do Padre Brísio Fernandes, que não há já quem possa com êle, depois que na batalha lhe deram aquela espingardada que, afirmo a V. Paternidade, foi das mais venturosas de quantas tenho visto, depois que ando na guerra. Porém, já que êle nesta paragem derramou seu (i) Relação, tomo i, pág. 2, cap. xxxm.
  • Prefácio da Relação XUI sangue, nela confio em Nosso Senhor havemos de arvorar uma cruz na volta de Ternate, e pode ser que sejam mais, se aos padres parecer » (i). * ' Sem embargo dos brilhantes encómios atrás mencionados, nunca as florescentes Missões dos jesuítas por êsse Oriente fora — nem mesmo a do Japão, em cuja nascente cristandade parece ter revivido nos séculos xvi e xvii todo o místico perfume de virtudes da primitiva Igreja lograram fazer vibrar de entusiasmo a festejada pena dum insigne escritor português contemporâneo. A requintada sensibilidade artística do seu espírito insatisfeito, fascinada cada dia mais do intenso exotismo nipónico, levou-o por fim a fixar residência num afastado rincão do formoso arquipélago do Sol-Nascente, para nêle esconder o tédio incurável do seu ocidentalismo pessimista, no decidido propósito de ali acabar seus dias ao brando marulhar das ondas do Pacífico, na bafagem tépida duma ilha encantada e encantadora. Nesse retiro de quietação bucólica, é que o sr. Wenceslau e Morais — que assim se chama o aludido escritor tem composto na sua prosa transparente e leve diversos livros sôbre a história e costu- mes do Japão, que prontamente se divulgaram em Portugal. Num dêsses últimos livros que um acaso me trouxe às mãos, intitulado Relance da história do Japão, aprecia o autor a seu modo a vasta obra missionária dos Padres jesuítas naquele império. Infelizmente, porém, o seu critério abertamente sectário e unilateral obriga-me a discordar em vários pontos de suas opiniões doutrinárias e históricas. Não se cuide no entanto que a antipatia do sr. Wenceslau de Morais ao catolicismo e às missões dos religiosos o impede de se referir por vezes aos Missionários jesuítas em têrmos de primorosa gentileza c cortesia. De maneira nenhuma. Querendo, por exemplo, explicar as causas do rápido desenvolvi- mento do cristianismo em Japão, assinala entre outras «a lhaneza, a doçura dos missionários, todos homens ilustrados, agradáveis no con- vívio...». , . E mais adiante, tentando decifrar de algum modo a extraordinária afeição e protecção que aos Padres jesuítas dispensava Nobunaga, acrescenta: «Espírito agudo, inteligência subtil [Nobunaga] encontrava (i) Relação, cap. xix.
  • XIV Prefácio da Relação prazer, como muitos outros nobres japoneses, no convívio com os padres, todos êles também inteligentes, educados nas sciências euro- peias do seu tempo, conhecedores por experiência de muitas terras e de muitas coisas, ainda por cima corteses, qualidade muito em estima entre a gente japonesa ». Apesar disso, o sr. Wenceslau de Morais detesta as Missões dos religiosos. Nem mesmo a figura sôbre-humana de Xavier —varão estupendo e quási divino, a quem até protestantes rendem admirativos preitos de veneração — mereceu despertar-lhe qualquer esbôço de entusiasmo. A única religião que entre tôdas parece atrair-lhe as pre- dilecções, é o Budismo, a cujos salutares influxos deve o Japão, entre outros benefícios, o não ser desde o século xvi uma colónia de portu- gueses, « uma segunda índia, onde estabeleceriam os seus vice-reis, os seus padres, os seus conventos, a sua inquisição, os seus autos de fé •>. Em páginas de ardente proselitismo enaltece a civilização budista que teve o condão incomparável de preservar o Japão da apolítica fradesca»,- e resume todo o seu entusiasmo neste epifonema conclu- dente: «Abençoado Budismo, e abençoada Reforma!.. Parece-lhe com efeito ao fecundo escritor que uma opulenta cornu- copia despejou de súbito benefícios sem conto sôbre as ilhas nipónicas com a simples entrada ali do Budismo: «A arquitectura, a pintura, a escultura, a gravura, a impressão de livros, a jardinagem, a introdução da planta do chá e o seu uso, tôdas as sciências e tôdas as artes, incluindo a literatura, o drama, as formas superiores da composição poética, tudo isto, e muito mais, traz o Budismo aos japoneses». Lido isto, acode naturalmente preguntar, porque não produziu essa mesma religião resultados igualmente civilizadores em tantíssimas outras regiões, aonde penetrou, sem exceptuar o país de sua origem, no qual todavia os portugueses exerceram tão amplamente o seu domínio, com « os seus vice-reis, os seus padres, os seus conventos, a sua inquisição, os seus autos de fé ». Parece-me, salvo êrro, que a explicação do fenómeno é outra: para muito, para muitíssimo até, deve ter entrado na brilhante civilização japonesa, a própria índole, a idiosincrasia racial dêsse povo, ao qual o mesmo literato reconhece « dotado dum incomparável e subtilíssimo sentimento artístico». Com budismo ou sem êle, nunca o Japão pode- ria ter dado no século xvi o espectáculo « dum povo exangue, como os espanhóis encontraram os tagalos, fácil de submeter e de escravizar». Creio, porém, que tão cordial simpatia pelo Budismo, se explica
  • uma Residência e algumas Igrejas. 12. A'o reino de Bujém. na cidade de Coçura. um Colégio, duas Residências e diversas Igrejas. 13. Aro reino de Chicujém, na cidade de Facata. um Colégio, três Residências e várias Igrejas. 14. No reino de Nangato, na cidade de Ximonoxequi, uma Residência e diversas Igrejas. 15. No reino de Suvo, na cidade de lamangúchi, uma Residência e várias Igrejas. 16. No reino de Aqui, na cidade de Firoxima. uma Residência e Igrejas. 17. No reino de Bitchu, Igrejas. 18. No reino de Bijém, Igrejas. 19. No reino de Farima. uma Residência e Igrejas. 20. No reino de Tçuno- cúni, na cidade de Osaca. uma Residência, e outra na cidade do Sacai. 21. No reino de Cavachi, Igrejas. 22. No reino de láma- xiro, na cidade capital de Meaco, um Colégio e uma Residência; e na ci- dade de Fuximi. outra Residência e Igrejas. 23. No reino de Tamba, § A COMPANHIA DE JESUS £ teve em Japão: / No reino de Fijém, na fe cidade de Nangasáqui. um ' p Colégio, uma casa de Pro- ^ b vação. uma casa da Mise- Ê ricórdia e um Hospital; "X K * na sua comarca seis Re- *ft sidéncias e muitas igrejas: tudo vai indicado com o Vy signal +. "ift 2. Na cidade de Arima. ■ um Colégio e um Semi- ^ ft nário, e no seu têrmo sete ^ft Residências e muitas « Igrejas. & 3. Na cidade de Omura. ft um Colégio, e nos seus do- ft minios cinco Residências M e muitas Igrejas. M 4. Na cidade de Firando, um Colégio, duas Resi- mf dências e muitas Igrejas. ft 5. Nas ilhas de Goto. duas ft Residências. Nas sobre- ditas Igrejas tinha-se / •% promulgado o Concilio de Av Trento. Em Amacusa, duas Re- //\J sidéncias e Igrejas. ' qr 7. No reino de Satçuma. na cidade de Cangoxima. ' Residências e várias Igrejas. 8. No reino de Fiunga, uma Residência e Igrejas. 9. No reino de Fingo. na cidade de Uto. um Colé- J jpio; e na sua comarca dez % Residências e muitas Igrejas. 21. No reino de Vomi. r.a cidade de Anxuqui. uma Residência e um Semi- nário. 25. No reino de Vac asa. Igrejas. 26. No reino de lechijém. Igrejas. 27. No reino de Canga, na cidade Canasava, uma Residência e Igrejas. 28. No reino de Noto. Igrejas. 29. No reino de Mino, na cidade de Guifu. uma Re- sidência e Igrejas. 30. No reino de Voari. na cidade de Quijosu, uma Residência e Igrejas. 31. No reino de Surunga. côrte do Imperador Dai/u. uma Residência e Igrejas. 32. No reino de Musaxi, NORTE em lendo, côrte do Impe- rador Xogun. uma Resi- dência e Igrejas. 33. No reino de Quino- cúni, uma Residência e Igrejas. 34. No reino de Sanuqui, Igrejas. 35. No reino de Ava. Igrejas. 36. No reino de lyo, na cidade de Dongo. uma Re- sidência e Igrejas. Nos outros reinos, principal- mente nos de Voxu. Deva e lezo fóra do Japão, estão espalhados muitos cristãos, sobretudo agora neste tempo da perseguição que começou em 1612. Nova carta do JAPÃO, f cuidadosamente elaborada pelo R. P. António Francisco Cardim da i Companhia de Jesus, para os seus ' „ ELOGIOS JAPONESES S %r%pJ -4», P, ' YrtJnt W"pr Yecbyen/ i V*:?- iVfrTTU P Suua 10. No reino de Bungo. na cidade de Usúqui. um iColégio. Em Funai. uma 'casa de Provação; e no seu têrmo cinco Residên- \cias e muitas Igrejas. 11. No reino de Chicungo. Dago. - ígj O Japão está dividido em 66 Províncias * ° ou Reinos, notados com a letra P. Em i n*« todos êles se dilatou a Fé Católica pelo o trabalho e indústria dos Religiosos da É Companhia de Jesus. 0 número dos cris- tãos ascende a muitas centenas de mi- gv lhares. Em diversos tempos teve a Com- fj panhia de Jesus no Japão seis Colégios. mu/ Rés Residências maiores ou três Colégios g* começados, duas Casas de Provação, ses- senta e quatro Residências e dois Semi- fjg^mnários. É grandíssimo o número dos que s. Ir,.> Xavier. Apóstolo do jaPi,. 'áàZr- ^freram a morte por Jesus Cristo. ca cm Cangoxima aos 15 de agôsto de 1549. SUL Escala de léguas Milhas italianas 7,0 Léguas portuguesas Léguas japonesas i,p a, o 7,0
  • Prefácio da Relação xv antes de tudo por uma especial modalidade psicológica em Wenceslau de Morais — fenómeno curiosíssimo que já inspirou, sob a sugestiva epígrafe de «O homem que trocou a sua alma», um interessante estudo de fina observação a um nosso ilustre crítico contemporâneo (i). Mas trocasse ou não, a sua alma atávica de cristão do Ocidente pela de budista nipónico, é certo — e isso só nos interessa por agora que no citado livro de Wenceslau de Morais se deparam apreciações e juízos, explicáveis talvez pelo critério embaciado de exotismo do seu autor, mas que à luz serena da imparcialidade histórica se me afiguram inaceitáveis. Escreve, por exemplo: «A obra missionáriã dos padres portugueses no Japão foi uma calamidade, por qualquer ponto por que se encare » (pág. 134). Cito êste passo de preferência a qualquer outro porque nêle condensou o autor o que pensa em geral da obra evange- lizadora dos jesuítas nas ilhas do Sol-Nascente. É de todo o ponto inédita semelhante asserção, mas por sem dúvida tenho que a sus- tentá-la ou perfilhá-la não achará o sr. Wenceslau de Morais um só historiador imparcial, embora protestante e hostil aos jesuítas. E que para admitir tão singular modo de opinar, fôra mister ignorar comple- tamente ou esquecer de todo os relevantes serviços daqueles missioná- rios em terras do Japão, quando ainda dêste misterioso país pouco ou nada se conhecia na Europa. De feito, dado mesmo que o nobre ideal e principalíssimo intuito — direi antes único — dos abnegados missio- nários, ao demandarem de tão longe e através de tantos riscos, as remotas praias do Japão, não fôsse a conversão daquele império à religião cristã, torna-se ainda assim inadmissível tão fantástica afirma- ção, manifestamente ditada pela crítica malquerente do ilustre escri- tor, e diametralmente oposta ao conceito histórico emitido há pouco por dois eminentes Professores universitários, num livro oficialmente adoptado nos liceus de Portugal: «Na China e Japão a obra dos missionários foi excelente e de ótimos efeitos para a civilização». (Paulo Merêa e Damião Peres, História de Portugal, pág. 171). Não foi uma calamidade, não, a obra assombrosa que em tão curto prazo de tempo realizaram jesuítas portugueses no formoso arquipélago japonês! Do seu vasto labor que ainda hoje nos maravilha, dá pre- claro testemunho o quadro ou mapa que vou apresentar aos olhos do leitor. É êsse mapa como que um fiel transunto do estado em que se (1) Cf. Fidelino de Figueiredo, Torre de Babel, pág. 9 segs.
  • XVI Prefácio da Relação encontrava a obra missionária e a cristandade do Japão, precisamente ao tempo a que se refere a Relação, que hoje se reedita. Nesse quadro, como em reduzido esquema, poder-se há entrever, pàlidamente embora, quanto a infatigável tenacidade e zêlo daqueles admiráveis obreiros do Evangelho levou a efeito, em pouco mais de meio século, através das 66 províncias — quási reinos — do império nipónico: as centenas de milhares de cristãos que converteram e baptizaram; as inúmeras igrejas que abriram; os colégios, noviciados, residências, casas de Misericórdia e seminários que com espantosa profusão ali fundaram—obra por- tentosa e encantadora que no Japão produziu por ventura a mais bela floração do cristianismo dos tempos modernos. Isto no que propriamente respeita à expansão religiosa e acção estrictamente espiritual dos missionários da Companhia de Jesus. * Para aqueles, porém, de meus leitores — em especial para o citado historiador do Dai-Nipon — a quem estas santas manifestações de zêlo e doutrinamento evangélico deixassem frios ou indiferentes, eu quero rememorar aqui daqueles nossos missionários uma nova manifestação de actividade de bem diverso interêsse e beleza, ante a qual nenhum escritor de boa fé ousará, cuido eu, afirmar que a obra dos padres por- tugueses no Japão foi uma calamidade. Mencionar simplesmente tão valiosos serviços, desinteressadamente prestados por êles à humani- dade e à civilização, é já fazer-lhes honrosíssimo encómio. Palpita, com efeito, de justa ufania patriótica a pena do historiador português, ao escrever, sem receio de possível desmentido, que foram missionários jesuítas portugueses, do século xvi, quem criou no Japão os primeiros hospitais, as primeiras leprosarias, os primeiros orfanatos e lactários para crianças subtraídas à fúria parricida de mães japo- nesas, bem como, a beneficente instituição do primeiro Monte-pio, de que ali houve notícia. Tudo esclarecem as minuciosas cartas dos missionários, com uma insistência bem significativa do interesse e carinho que lhes inspiravam estas recentes instituições de caridade, nas quais êles próprios faziam de médicos e enfermeiros, cirurgiões e farmacêuticos. Eis como um dêles, o Padre Gaspar Vilela, em carta de 1557 descreve a fundação do primeiro hospital no Bungo. «Pareceu que seria serviço de Nosso Senhor fazer um esprital, que é cousa nova entre os japões, porque
  • Prefácio da Relação XVII teem isto (posto-que sabem que é bom) por cousa suja e baixa mis- turar-se com os pobres. Falámos nisso a El-Rei... Logo o pusemos por obra, o qual fizemos em um campo onde antes estava a igreja. Ali fizemos uma casa grande com dous repartimentos, um para feridos e doenças que se podem curar fàcilmente, e outro para os leprosos, de que há grande número nesta terra. Acudiram logo muitos a curar-se, de que tem cuidado um irmão que aqui se recebeu, homem que engeitou muito do mundo por se entregar ao Senhor (i). Vai crescendo este negócio dos pobres do hospital e feridos e tôdas as mais enfermidades com grande aumento e louvor do Senhor e é esta uma cousa que os edifica muito. Cura-se todo o género de gente que vem, e damos-lhe as mezinhas de nossa casa, porque a mais é muito pobre». (In Cartas do Japão, ed. de i5g8, t. i, foi. 55 v. e 56). Para maior impulso e mais seguro andamento do hospital insti- tuiu—se logo uma confraria de irmãos da Misericórdia. Oiçamos o Padre Baltazar Gago: «Tem esta casa logo pegado um aposento para o físico que há de ter cuidado dos doentes: tem derredor uma varanda a que saem todos os enfermos à vista de todos, e aí se curam. Isto quanto aos que são de chagas, e para as outras mezinhas de física há um japão velho, que tem cuidado de as dar a seu tempo. «É esta obra uma prègação continua que soa até o Miaco, onde está a cabeça dos Reis de Japão, e Sacai, que é como Veneza, e Ban- dou, onde está o estado geral, e Fiienoiiama, onde está a cabeça dos bonzos. De todas estas partes corre gente à fama do hospital. Dêste verão para cá são curados de toda a maneira de doença, cirurgia e física, mais de duzentos. Abriu o Padre a porta a todos, e veem todos os desemparados e incuráveis... uns, de sessenta anos e muitos mais de vinte anos para cima, comidos de cancer e afistulados. E para isso tem especial dom de Nosso Senhor o caríssimo Luís de Almeida na cirurgia, o qual tem feito alguns de casa já quási oficiais, em que entra o irmão Duarte da Silva... Há duas maneiras de curas, convém a saber, de cirurgia e de física... Vindo a Bungo Guilherme Pereira com todos os da nau doentes, aqui se curaram com estas mezinhas e todos guareceram; e, como levaram algumas para a China e se acha- ram bem, pedem e rogam muito ao Padre que partam com eles. A cirurgia que se usa, é à nossa maneira, como ordena o irmão Luís de Almeida. Assim que, de tôda a doença vão daqui consolados, assim os cristãos, como os gentios. (i) Refere-se ao Irmão Luís de Almeida, embora o não nomeie expressamente.
  • XVHI Prefácio da Relação «Até agora sustenta-se esta obra com esmolas dos cristãos e de alguns portugueses e com alguma cousa de casa, e também el Rei de Bungo tem dado alguma renda que, apaziguada a terra, valerá cada ano trezentos cruzados; para isto há aí uma caixa e irmãos da Mise- ricórdia que recolham as esmolas...». {Ibid., foi. 64). Muitas são, nas cartas dos padres, as referências a êste novo hospital. Para o primeiro orfanato que em Japão se criou, contribuiu copio- samente o dinheiro do atrás citado Luís de Almeida, rico mercador português, o qual, ao diante, dando de mão a todos os seus haveres, envergou a humilde roupeta da Companhia de Jesus em Japão, onde missionou até à morte com extraordinária edificação e fruto daquela nascente cristandade. « Além de outros males que há entre esta gente — diz o Padre Baltazar Gago numa carta a El-Rei D. João III — é o de matar as crianças tanto que nascem, pelo trabalho de as criar ou pela pobreza. E, porque este ano sucedeu ficar neste Bungo um por- tuguês por nome Luís de Almeida, para estar recolhido e tomar os exercícios espirituais da Companhia, dando-lhe conta do caso, se mo- veu logo e deu para isso mil cruzados e que pedíssemos ao duque quisesse dar um mandado, sob alguma pena, que ninguém matasse crianças; e que secretamente as tragam a um hospital, que para isso haveria, com algumas mulheres pobres cristãs de leite, com um par de vacas e outras cousas, para remédio de não perecerem à mingua. Demos conta disto ao duque, dando-lhe as razões do bem que daí se seguia. «Folgou muito e mostrou muito boa vontade, dizendo que êle sabia que era grande pecado matar os meninos; que, da maneira que quiséssemos, se faria. Cedo com ajuda do Senhor se dará comêço a esta obra, e espero em Nosso Senhor que será para glória sua e edifi- cação destas gentes...». {Ibid., foi. 43). De quanto frutificou em Japão êste bemdito germe de caridade, dá consolador testemunho em vários lugares a Relação do Padre Guer- reiro adiante publicada. Anos depois, excogilou o zêlo industrioso dos missionários nova traça de beneficiar os seus estremecidos japões, e acudiu-se novamente ao dinheiro bemdito da caridade portuguesa. Tratava-se desta feita de instituir em Japão o primeiro Montepio a fim de livrar os cristãos pobres das grandíssimas usuras dos gentios, devendo o novo organismo de beneficência ter sua séde em cada um dos três principais centros da cristandade japonesa. Para a realização e boa estreia de obra tão
  • Prefácio da Relação XIX prestimosa recorreu-se à conhecida munificência dum nobilíssimo pre- lado português, D. Teotónio de Bragança, arcebispo de Évora. Eis como o relata o Padre Valinhano: «Uma cousa nos falta, que eu grandemente desejo de ver em Japão, e esta é fazerem-se nas três partes em que temos dividido o Japão, de Miaco, Ximo e Bungo, três montes de piedade, dos que Vossa Senhoria sabe que há muitos em Itália, a quem os pobres acudam em suas necessidades, achando alguns empréstimos para seu remé- dio por penhores que dão, porque os gentios fazem grandíssimas usu- ras e os pobres cristãos são comidos dêles; e juntamente com êstes mon- tes de piedade queria ver em cada uma destas partes um hospital para homens nobres e pobres, de que há em Japão muitos que vivem dester- rados e fora de suas casas pelas contínuas guerras de Japão, e para os montes de piedade fôra neces- sário um bom cabedal de dinheiro, porque cada uma destas casas não se poderá instituir com menos de cinco mil cruzados, que hão de an- dar sempre em empréstimos dos pobres cristãos, sem nunca se diminuir o cabedal; e quanto aos hospitais, parece que para cada um será ao menos necessário cada ano quinhentos cruzados. E tendo Vossa Senhoria vontade e comodidade de fazer alguma cousa no serviço de Nosso Senhor e bem da cristandade de Japão, se me oferece que a nenhuma outra cousa se pode Vossa Senhoria melhor aplicar que dar princípio a alguma destas cousas; e se fôr para fazer algum dêstes montes de piedade, é necessário mandar uma soma de dinheiro a Japão, com obrigação que fique sempre viva e que se não gaste em outra cousa senão em acudir com empréstimos às necessidades dos cristãos. E se Vossa Senhoria se aplicar mais a fazer algum hospital, procure Vossa Senhoria de comprar aí em Portugal alguma renda que renda cada ano até duzentos mil réis, com esta condição, que se não gastem senão neste hospital, porque facilmente se poderão mandar de Portugal a Goa e de Goa a Japão em reales. E, como digo, com duzentos mil réis cada ano se poderá sustentar um hospital limpa-
  • XX Prefácio da Relação mente». (Ibid., t. n, foi. 168 v. a 169). A tão simpáticas obras de beneficência chamarão uns, quiçá, instituições de filantropia; outros, mais acertadamente, de caridade; duvido porém que alguém ouse chamar-lhes uma calamidade! * Entrados de chofre no estranho meio nipónico, tão diferente da nossa Europa quinhentista, aqueles bons sacerdotes quási não acaba- vam de voltar a si do pasmo que a vista de tão deslumbrantes surpresas lhes causava. Foi como se os houvessem transportado de súbito a um mundo ignorado, a um extraordinário país de sonho e quimera. Por aquelas ruas de intenso bulício, numa policromia palpitante de bazar exótico, viam inúmeras tendas coloridas com letreiros indecifrá- veis de garavunhas enigmáticas; balões e sombrinhas de papel pintado de infinitas côres; homens e meninos em cabelo, armados de adaga e terçado; mulheres de passo miudinho vestidas de côres garridas como borboletas; bonzos de cabeça rapada, com ventarolas e bandejas esmolando; adivinhos e feiticeiros desgrenhados; cavaleiros de arre- ganho marcial, cingindo coiraças de escamas reluzentes com duas espadas à ilharga. Se penetravam nos antiquíssimos templos budistas, como o de Nara onde se venera o Daibut e seus filhos, miravam cheios de assombro aqueles enormíssimos ídolos doirados — ventripotentes colossos assen- tados em cócoras — ostentando feições umas vezes horrendas, diabòli- camente pavorosas, outras trasbordando indizível satisfação e gáudio. Tudo servia de pasto à fina observação de forasteiros curiosos e cultos, quais eram os recém-vindos missionários, porque tudo para êles era cheio de interêsse e novidade: o aspecto da região com as suas paisagens orientais; o clima e o solo com a estranha diversidade de produções e frequentes convulsões geológicas; a civilização e arte japonesa nas mais excêntricas manifestações de exotismo; os costumes etnográficos, as superstições e cerimónias gentílicas; o idioma com a novidade dos caracteres da sua grafia peculiar; a própria fisionomia racial e indígena dos habitantes do vasto arquipélago, — tudo era novo, tudo impressionava vivamente os jesuítas portugueses, em cuja corres- pondência se reflectem, com© num espêlho, as diversas fases da vida e do carácter nipónico. Saciada a sua curiosidade de adventícios, apressam-se a transmitir cuidadosamente as suas impressões ainda frescas e recentes, colhidas
  • Prefácio da Relação XXI no primeiro contacto com o misterioso país. Foram jesuítas portu- gueses quem primeiro deu a conhecer à Europa o verdadeiro Japão» quando enviavam a Portugal, com as informações minuciosas da- quela complexa e pitoresca civilização, as primeiras notícias geográ- ficas, linguísticas e sociais do vasto arquipélago oriental. Pode mesmo dizer-se que aqueles beneméritos missionários foram o laço de união entre a civilização europeia e a japonesa. Assim, a primeira notícia que da escrita e caracteres nipónicos se recebeu na Europa, fo- ram ijesuítas portugueses Alma. Befta. Sol. que em suas cartas a comunicaram. O Padre Baltazar Gago, escreven- do de Firando em 1555, j^l t^I mandou a título de curió- jTx sidade, seis palavras ja- ponesas com uma sucinta notícia da sua leitura e si- CcQS> Homem, gnificação em português, observando ao mesmo È tempo que dos sinais grá- J£1 «JÇ* > ficos de Japão, uns só / ^| possuem uma Única si- Da car,a io Padre Baltazar Gago, 1555 — l.etra» com duaa ou mais gnificação, outros duas ou mais; e acrescenta: «São estas letras (as de vários significados) que se prezam os principais de saber». Dois anos depois enviou o Padre Gaspar Vilela a Portugal os seguintes caracteres japoneses, com a correspondente versão interlinear portuguesa. São cópia duma doação que El-Rei de Bungo fêz aos padres jesuítas portugueses, dum campo na cidade de \amagúchi. Ao lado porém desta simples curiosidade alfabetária, quantas e quam preciosas notícias não vieram à Europa, pela vez primeira, do extremo Oriente, nas cartas dos nossos missionários, àcêrca da índole e usos do povo japonês, das suas lendas e tradições folclóricas, sem mesmo faltarem referências aos princípios e máximas do Bushido, o qual encerra, na opinião autorizada dum ilustre professor da Universi- dade de Tóquio, a mais subtil essencia da alma japonesa (1). (1) Inazo Notobé, Le Bushido, Payot. Paris, 1927.
  • XXII Prefácio da Relação ti- \ O- Há todavia um título sobremaneira glorioso, o qual — se outros não houvera de tão alto quilate, como atrás deixamos dito — bastaria sobejamente a tornar Alma. BcfU. Sol. imorredoira no Japão a memória dos jesuítas portugueses. Refiro-me aos seus preciosos tra- balhos de filologia nipó- nica. De feito a êsses prestimosos missioná- rios se Severn as primei- * ras gramáticas e Os pri- y meiros vocabulários, glossários e dicionários da língua japonesa. Foi Lua. Ccos. Homem. 0 Irmgo coadjutor da Companhia de Jesus, Duarte da Silva (falecido em 1564) quem primeiro inventou e compôs a Arte do Japão, com o que prestou à sciência Letras com uma so sigmficaçáo, i355 *■ r um mui relevante ser- viço, «tornando conhecido na Europa êsse país e êsse idioma do Extremo Oriente» (i). A este humilde religioso se deve também o primeiro Vocabulário da língua japonesa. Aos valiosos trabalhos filológicos de Duarte da Silva, que todos ficaram manuscritos, outros se seguiram em breve. A primeira e mais importante gramática japonesa que viu a luz da imprensa, foi a do Padre jesuíta João Rodrigues, português do bispado de Lamego, que a fêz imprimir em 1604 no colégio da Companhia de Jesus em Nagasáqui, com êste título: Arte da Lingoa de Japam composta pello Padre João Rodriguei Português da Companhia de JESV, dividida em tres livros. Esta mesma gramática, refundida e compendiada pelo próprio autor, foi novamente dada à estampa em 1620 com o título de Arte breve da Lingoa Japoa, tirada da Ai'te Grande da mesma lingoa, para os que começam a aprender os primeiros princípios dela. 1 *C í\ a (i) Pinheiro Chagas, Dicionário popular, t. xi, p. 421.
  • Prefácio da Relação XXIII Desta obra e do seu autor fala nos seguintes têrmos o ilustre filó- logo Gonçalves Viana: « Quem metodizou e reduziu a regras e normas Doanno MD. Iví j. cl xj ^"Alcm da renda,e campos de que falío ascar. tas acima,que deu cl Rey de Bungo aos padres,pa. ra noFacata,c Bungo fazerem Igreljas lhes deu ou tro na cidade de Amanguche emeoenta legoasde Bungo. A doação feposaqui para verem a mancy- radcfuasefcntura5,aluaras,cictra. Ecadafigurade ftasfmificaoquc vayfobrella. O Duque doRcyno doRcyno deÇuo, Nangato, doRcyno Bugen, doReyno Chicugcn caqui, doRcyno Iuami. Do Padre Gaspar Vilela, i557 — DoaçSo do Rei de Bungo a gramática japonesa, pautando-a pelas Artes latinas, foi indubitàvel- mente o Padre João Rodrigues, jesuíta português... Todos os tra-
  • xx'v Prefácio da Relação balhos análogos executados pelos padres da Companhia de Jesus a respeito de inúmeros idiomas, quer asiáticos, quer africanos, quer Cartasdc lapão doReyno doReyno conccdco grade Bingo, Bichyo, Day % * caminho docco J dogie aos padres *■*&) T do Poente- <,ue vierío ley defazér Santos Oas Carias do Japão — Continuação da caria de doação de El-Rei de Bungo principalmente americanos, seguiram o mesmo rumo; mas os factos glotológicos, por êles estudados com tamanha perspicácia e diligência,
  • Hfl «ARTE T)A LI NGOAVE I A- FAM COMPOSTA PELLO 'TaJrt 1 Jtj R 7 iagucZj Bortugues da (fya- nhia dc IE S V diuichcLi cineres LIVRO S. COM LIC L KÇ.A D O O R DI- mar/o, e svrlriores em Nana>r.qiii 110Collegodc Iapaodi ■ m Çomf.oti.td 4(1 E S V Anno. 160^.. \ Facsimile do frontispício dum dos primeiros livros impressos no Japão [xxv]
  • Prefácio da Relação XXV são ainda hoje um legado precioso, que os filólogos modernos, quando imparciais, estimam e aproveitam com discernimento, fazendo-lhes a justiça de que são credores » (i). Ao mesmo tempo que dotaram o Japão com os primeiros trabalhos filológicos, ainda hoje merecidamente apreciados, igualmente ali intro- duziram os jesuítas, nos fins do século xvi, a primeira imprensa de tipos móveis que naquele império se conheceu. Com material tipográfico levado de Macau, montou-se a imprensa primeiramente no colégio de Canzuca, onde, em 1591, se imprimiu uma obra em dois volumes, sobre a vida dos Santos, de que se ocupa largamente o escritor americano Mr. Ernest Mason Satow, reprodu- zindo-lhe em fac-simile os frontispícios. Em 1592 já a mesma tipografia se encontrava em Amacusa e ali permaneceu até 1598. Das oficinas tipográficas do colégio de Amacusa saíram nesses seis anos quantidade de livros tanto em caracteres latinos como em letra de Japão, obras que hoje se consideram preciosíssimas jóias bibliográficas. De 1398 em diante é Nagazaqui o local onde estanciou a imprensa jesuítica. A este terceiro período da tipografia em Japão se referem as seguintes palavras do Padre Fernão Guerreiro, no tomo 1 da sua Revista, quando nos descreve Nagazaqui, « cidade de muito bons ares e sítio » na qual «teem os Padres da Companhia a principal casa rei- toral de Japão. Há também aqui impressão de caracteres latinos e de Japão, coisa de mui grão momento e proveito para esta cristandade, porque nela se imprimem muitos livros, assim em latim para as escolas, como em japão para instrução dos cristãos. Êste ano se imprimiu em língua de Japão o livro Guia dos pecadores de Frei Luís de Gra- nada » (2). Da tipografia do colégio de Nagazaqui, entre várias outras obras, saiu em i6o3 um Vocabulário da Lingoa de Japam com a declaração em Português, feito por alguns Padres e Irmãos da Companhia de JESV, em 1604 Arte da Lingoa de Japam do Padre João Rodriguez, atrás mencionada. Desta sorte estrearam os jesuítas a arte tipográfica no Japão 66 anos antes de a estabelecerem na sua Universidade de Évora e 119 primeiro que em Coimbra inaugurassem a do seu Colégio das Artes, (1) Jordão de Freitas, Subsídios para a Bibliografia portuguesa com Observações filo- lógicas por Gonçalves Viana, pág. 77. Coimbra, 1905. (2) Relação Anual, tomo 1, pág. 122.
  • XXVI Prefácio da Relação em 1710. E não creio eu ao contrário de W. M., que com isso adviesse a Japão qualquer calamidade (1). Tendo falado de tantas e tão apreciáveis novidades que no Japão introduziram os jesuítas portugueses, não se deve omitir uma que muito caiu no agrado dos japoneses, qual foi o uso de vários instru- mentos músicos, até ali ignorados no remoto arquipélago oriental. Assim o refere o Padre Gaspar Coelho na sua Carta ânua de j 582: «Entre as cousas que até agora foram a Japão, de que os japões mais gostassem, foi o tanger de órgãos, cravos e violas, pelo que temos já dois órgãos, uns aqui em Anzuquiama, e outros em Bungo; e cravos em diversos lugares, nos quais aprendem os meninos; e nas missas e outras festas se supre com eles a falta que há de cantores e doutros aparatos que nas nossas festas em Europa se usam, o que cá fôra mui necessário para mover esta gentilidade e dar-lhes de alguma maneira a entender a glória e magnificência do culto divino». [Ibidem, t. 11, fl. 41). Tanto se interessavam os nossos missionários pelos países a cuja evangelização vota-^Rm seu zêlo, que parecia considerarem-nos quási como sua segunda pátria. Transparece isto a cada passo da Relação que adiante se publica, e em geral da correspondência dos missionários, mormente dos que trabalhavam em Japão, cujo idioma e peregrinas qualidades de carácter deveras admiram, e não se cansam de dar a conhecer à Europa. Zelando carinhosamente o bom nome e crédito do povo japonês, não duvidam exortar os portugueses ali residentes a que tratem de preferência com pessoas da mais polida sociedade nipó- nica para formarem do país melhor e mais exacta opinião. « Em sua polícia, tratamento e costumes — escreve o Padre Fróis — fazem os japões em muitas coisas tanta avantagem aos espanhóis, que se não pode dizer; e se os portugueses que cá veem, não teem ainda maior opinião de Japão, é porque não vêem nem conversam mais que com mercadores e gente pouco polida que mora ao longo da costa, que, comparada com a dêste reino de Miaco, é mais ínfima que a Beira em respeito da côrte, e assim se chama cá no Miaco, gente do mato». (Cartas de Japão, ed. i5g8, fl. 184 v.). Ouçamos a opinião de Cosme (1) Sôbre a entrada da imprensa nas ilhas nipónicas e suas produções emquanto ali tra- balhou, merece ler-se, além do já citado Mr. Ernest Mason Satow, The Jesuit press in Japan, 1591-1610, 0 sr. Jordão de Freitas, o qual tratou êste assunto com grande erudição e segura crítica num valioso opúsculo, intitulado, A Imprensa de tipos móveis em Macau e no Japão nos fins do século XVI. Coimbra, 1916.
  • 'O'-f DA L I N G 0 A IA I'OA TIRADA DA A R T E G R. A N D E D A M K S M A lingoa r pcra os que começam a aprender o» primeirospiiocipu » f>E L LO P DQ. R V°DR I ■ '■ f Z it Companbií ír°íES > ét B!JPjS' i: LimegV' DiuMiJt cm t'ti L W í{, 0 Sr COMLICÍNCAOO ORDINÁRIO, & Superiores. Em Amacao no Collcgioda Ma- dre de Deos da Companhia de 1 E S V. Anno. cio. idc. xx. Facsimile do frontispício dum dos livros para o Japão impresso em Macau, no colégio pertencente i Província do Japão S. J. | XXVl]
  • ctoora ««*.» GtôoxãZi?" g*£X*D *<*» cisem**?»~* VOCABVLARIO DA LINGOA DE IA P A M com adeclaraçao cm Português, íeico por ALGVNS PADRES, E l R- MAÓS n 4 COMPANHIA DE I E 5 V. COM LICENCA DO ORDÍNÁK IO, <3c Superiores em Nangafaqui noCollcgio dc la- PAMDA COMPANHIA DE I E S V S ANNO. M. D. C m. i w»í«i»«i<0 o A Faosimile do frontispício dum dos primeiros livros impressos no Japão Vil]
  • Prefácio da Relação XXVII de Tôrres: «Estes japões são de altos corações e confiados nas armas... São discretos quanto se pode cuidar; governam-se pela razão tanto ou mais que os espanhóis. São curiosos de saber mais que quantas gentes eu tenho conhecido. Em todo o descoberto não há homens da sua maneira; teem mui linda conversação, que parece que todos êles se criaram em paços de grandes senhores. Os cumpri- mentos que teem uns com outros, é impossível poder-se escrever. Murmuram pouco de seus próximos e a nenhum teem enveja. Não são jogadores, porque assim matam por jogar, como por furtar. Por passatempo teem ocupar-se em as armas, nas quais são mui destros; ou em fazer compras, e os mais dos fidalgos se ocupam nestes exercí- cios. Se houvera de escrever tôj^as as boas partes que há nêles, antes faltaria tinta e papel, que a matéria». (Cartas de Japão, ed. 1598, A- 17 v-)- , Na vida e civilização japonesa, uma das coisas que mais impres- sionaram e deslumbraram os nossos missionários, foi a limpeza, virtude nacional do Japão. Claramente o denotam as inúmeras referências e a estranha insistência com que não cessam em suas cai tas de a enca- recer e louvar, intencionalmente sem dúvida, pois não ignorai am quão divorciados viviam dela em geral os seus compatrícios. Oiçamos o Padre Lourenço Mexia: «A limpeza dos japões não se pode imaginar, porque é tão grande, especialmente nas casas e esteiras sôbre que sem- pre estão, que se pode comparar à limpeza que guarda um sacristão muito limpo e escrupuloso, no altar. Disto sou boa testemunha, por- que indo com o Padre Visitador a casa do Nobunaga e Dairi, não pudemos entrar senão com calçado novo; e pelas salas íamos como quem vai por degraus do Sepulcro das Endoenças, e contudo ia um homem detrás com uma vassoira alimpando o pó. « Os pátios e varandas estavam tais que não se podia cuspir neles, senão nos lenços; basta que a cozinha, com ter uma boa quantidade de asados mui grandes, estando fervendo, estava tudo tão limpo de água, folhas, cinza etc., como que fôra varrido à vassoira; e da mesma maneira a estrebaria donde estavam os cavalos. Nem me espanta matar Nobunaga uma moça, por lhe não varrer umas cascas de fruta que estavam em uma sala, porque teem tanta diligência e tão extraor- dinário cuidado da limpeza, que qualquer imundícia fica sendo grande crime. «Tôdas as salas, câmaras, igrejas estão esteiradas, nem se pode entrar, sem deixar os sapatos fóra. As suas nivas, que são como quin-
  • XXVIII Prefácio da Relação tais, estão sempre limpas e varridas à vassoira; nem teem erva nem pedra, que não esteja por ordem; nem se prezam de árvores de fruto, senão de verdura, sombrio e longes». (Ibid., t. n, fl. 124). Em confronto de tão primoroso asseio, quási fica a perder de vista o dos próprios holandeses do Broek que Ramalho Ortigão jocosamente nos pinta como « gente possessa do demónio da esfrega, epilépticos da vassoira, convulsionários da escova, limposos até à fúria do esmeril, até ao frenesi do polidor, até ao delírio do vasculho» (1). Uma antiga usança, ètnicamente japonesa, que de nenhuma sorte podia passar despercebida à fina observação dos missionários nem à crónica do seu noticiário epistolar era o chá, cuja preparação e bebida reveste em Japão o ceremonial de um quási culto. «O cha-no-yu, diz o citado autor japonês, é mais do que uma cere- mónia, é uma pura arte, é a poesia em gestos rítmicos, é um modus operandi da disciplina da alma »; e os Padres em suas cartas pintam- nos a religiosa quietação e recolhimento dum jashiki do chá — recâmara recatada de todo o bulício de gente ruidosa, onde, na intimidade e conchego, se prepara e degusta a preciosa bebida, com quem perfaz um rito. Descrevem-nos a escrupulosa maneira como viam fazer o chá que « é deitarem quantidade de meia casca de noz dos pós desta erva moída, em uma porcelana, e desfeitos com água muito quente os beberem; e para isto teem umas panelas de ferro muito antiquíssimas, e assim as porcelanas e a vasilha em que deitam a água com que enxa- guam a porcelana, e uma trempezinha em que põem a cobertoira, por se não pôr no chão sôbre as esteiras». Falam-nos com espanto do preço fabuloso dos velhos petrechos da preparação do chá, que va- liam em Japão punhados de oiro e pedrarias. «A vasilha onde teem os pós do chá, a colher com que os tiram, o coco com que tiram a água quente da panela, e o fogão, tôdas estas peças são a pedraria do Japão, da própria maneira que entre nós se teem anéis, jóias e colares de muito ricos rubis e diamantes. E há lapidários disto, que conhecem as tais peças e são corretores para se comprarem e venderem. Sancho por sua mão nos fêz e deu o chá, que são os pós que disse. Depois, entre muitas peças de preço que ali tinha, me mostrou uma trempezinha de ferro, que seria em roda pouco mais dum palmo, em que põem a cobertoira da panela, quando a descobrem, a qual eu tomei na mão, e era tão comesta por muitas partes, por muita antiguidade, que de velha (1) Cf. A Holanda, ed. v, pág. 108.
  • r I fvTrTM O N ÃRÍV M r AT IN o LVSl TAN I C V M,A C Japonic v m ex a mbro si i c a LE, pini volumincdeproniptumnnquoôoufsis no- minibus proprijs cam locorum, quam homi- 'c™' ™ahvk* f^cat^^micrc^dúcrJi mJi ap^mur: taidiom... °í~ rui fuou/MC noo Europcorí.flu. Upomciomcntm^dW. * ' + # * IN AM A CVS A INCOLLEGIO IAPONICOSOCIET ATIS IE ÍV cu-n facultate Súperiorum. • ANNOM.D.XCV, Facsimile do frontispício dum dos primeiros livros impressos no Japão [xxviii]
  • Prefácio da Relação XXIX era quebrada por dois lugares e estave soldada. Disse-me que era uma das ricas peças que havia em Japão, a qual lhe custara mil e trinta cruzados, mas que a tinha ele em muito mais preço. Tôdas estas peças estão em sacos de damasco e sedas mui ricas, e em bocetas de muito preço. Não se espantem da valia destas coisas, porque aqui neste Miaco está um senhor que tem uma vasilha de barro, tamanha como um pucarinho, que serve de deitarem os pós do chá, que vale trinta mil cruzados...». (.Ibid., t. i, fl. 163). Manifesto fica pois que os missionários jesuítas portugueses foram os primeiros japonistas, a quem devemos as mais antigas e concretas notícias dum povo culto do Extremo Oriente, cuja existência só muito vagamente se conhecia a êsse tempo na Europa quási só pelas notícias semi-lendárias do livro de Marco Polo. Em cartas e outras rela- ções similares transmitiram-nos esses padres as suas impressões pes- soais e palpitantes, através das quais nos aparece ao vivo a idios- sincrasia original do povo japonês, em cujos lares e em cuja vida penetramos em cheio guiados pela mão daqueles bons sacerdotes; surpreendemos o Japão antigo e pitoresco de há quatrocentos anos, com os seus usos característicos, o seu viver íntimo, as suas virtudes, os seus defeitos, o seu Bushido. Presenciamos as suas festas e ceri- mónias, tomamos parte nos seus banquetes, acompanhamos os seus funerais (i, fl. 175), e práticas sintoístas (1, fl. 91 segs.), "assistimos aos seus autos e representações, e escutamos a sua música, às vezes «tão dissonante e tão repugnante às orelhas, que é assáz pena ouvi-la um quarto» (11, fl. 123 v.); admiramos a arte e o luxo das suas tapeçarias e panos de brocado, que eram em Japão «os biôbus(i) doirados, com histórias antigas dêstes reinos e da China», como aqueles que Nobu- naga mandara fazer pelo mais insigne pintor de Japão, nos quais se via pintada a nova cidade de Anzukiyama « com a sua fortaleza tanto ao natural, que nada quis que discrepasse da verdade, pintando o sítio do lago, das casas e de tudo o mais, quam propriamente pudesse ser», riquíssimos biombos de que Nobunaga um dia, num súbito rasgo de munificência, fêz presente aos padres, tendo-os recusado antes ao pró- prio Dairi « que muito os cubiçara » (11, fl. 39). Aplaudimos depois em deslumbrante parada marcial as justas e tor- neios da fidalguia japonesa, realizados com tamanho esplendor e luxo, que « as ferraduras dos cavalos eram de retrós carmesim, e os cascos (1) Biombos.
  • XXX Prefácio da Relação todos doirados» (n, fl. 4). Mas ai! vemos também, com estremeci- mentos de horror, as scenas repugnantes do Seppuku ou suicídio legal, acompanhado por vezes de medonha carnificina, como aquela em que Chitata, cunhado de Nobunaga, depois de degolar a própria espôsa e outras mulheres de sua família, «imediatamente com uma adaga cortou a barriga em cruz e caiu ali morto; o mesmo fizeram os outros fidal- gos e a mais gente que com êle estava na fortaleza, matando primeiro suas queridas mulheres, filhos e filhas...» (11, fl. 97 v.). Como se vê, os leitores das Cartas e Relações do Japão encontram nelas, além da origem e progressos do cristianismo naquelas ilhas, mui- tas outras notícias curiosíssimas, porque tudo aqueles solícitos sacer- dotes sabiam observar e pitorescamente descrever em linguagem por- tuguesa de lei. E tão notável me pareceu sempre esta preciosa colecção de cartas, que eu pasmo de que os historiadores da nossa literatura, ao resenharem a epistolografia do século xvi, lhe não consagrem ao menos uma leve referência, sendo que bem elogiosas as merecem muitas delas, mormente as que teem por signatários os Padres Luís Fróis, Gaspar Coelho, Luís de Almeida, Gaspar Vilela, Lourenço Mexia, Girão etc. De qualquer dêles abundam ali páginas admiráveis que muito hon- rariam ainda hoje a pena de escritores de renome. Leia-se, por exem- plo, essa empolgante e vigorosa descrição duma grande batalha nos plainos de Satçuma (11, fl. 115 segs.), onde a-revêzes lampejam traços épicos não indignos de Homero; ou a do colosso doirado de Daibut (1, fl. 167), com a dos riquíssimos templos e maravilhosos jardins de Nara (1, fl. 165 v.), que fazem lembrar por vezes contos de fadas; ou ainda a construção ciclópica da fortaleza e cidade de Anzuquiyama (n, fl. 35 v. segs.), assombrosa ostentação do fausto e vaidade de Nobu- naga, etc. Bastariam só as mil informações e notícias de tão variado aspecto e interêsse, contidas nessas cartas vindas do remoto arquipé- lago, para que a permanência dos padres portugueses em Japão nunca jámais se possa taxar de calamidade. O que das Cartas do Japão fica dito, aplicar-se deve igualmente aos cinco volumes da Relação do Padre Guerreiro. « * Não se cuide todavia que só os missionários são alvejados pelas arguições apaixonadas de W. M. Numa forte rajada de pessimismo investe em geral contra as relações mantidas pelos portugueses com Japão durante 97 anos. E dando, a páginas 13 5 e seguintes do sen
  • I Prefácio da Relação XXXI livro, um rápido balanço final aos lucros e perdas resultantes destas relações entre os dois países, chega à desoladora conclusão de que, tanto para nós como para Japão, tudo liquidou num formidável desas- tre, para mais agravado por uma atmosfera turva de antipatias que deixámos atrás de nós, porquanto «avincámos repugnâncias raciais, inatas, dos japoneses para connosco e em geral para com a raça branca». A estas palavras repassadas de negro desalento, seja-me licito con- trapôr estas outras bem mais conformes com a verdade histórica e ao mesmo tempo mais próprias a acender e levantar brios patrióticos no peito dos que verdadeiramente prezam as genuínas glórias de Portugal. , A descoberta do Japão pelos portugueses teve para aquela naçao as mais largas consequências. Aberto aquele país à influência ociden- tal, os portugueses não só ali iniciaram as relações comerciais externas e ali levaram a cabo uma obra de evangelização católica que talvez não tenha na história do mundo exemplo mais extraordinário — mas igualmente ali introduziram os primeiros rudimentos das sciências oci- dentais; ali ensinaram e praticaram a medicina e a cirurgia e ali esta- beleceram os primeiros hospitais públicos; reformaram as artes da guerra; modificaram a arquitectura e a construção naval; ínfluência- ram as artes decorativas, introduzindo a pintura a óleo e a gravura em cobre; iniciaram e desenvolveram novas indústrias, em especial a do vidro; e, em resumo, em menos de um século de activo labor, ali afirmaram tão altas qualidades e tão múltiplos talentos que, quási três séculos sôbre a sua expulsão do império japonês —em 1638 — os ves- tígios da poderosa influência portuguesa ali permanecem ainda vividos e patentes a todos os olhares atentos de curiosos e investigadores. aOs actuais historiadores japoneses, que estão febrilmente refazendo a história daquele país sôbre bases scientíficas e modernas, teem explo- rado àvidamente -aquele riquíssimo filão de conhecimentos. Nos múl- tiplos vestígios daquela remota influência portuguesa, muitos filiam hoje os extraordinários e rapidíssimos progressos do Japão moderno. Os milagres progressivos daquela nação oriental, que tôda a Europa observou com espanto e admiração, não deixariam de encontrar expli- cação no muito que de progressivo os nossos compatriotas lá deixaram nos séculos xvi e xvn. As monografias, os trabalhos de investigação e os livros de história sôbre a época de influência portuguesa sucedem-se constantemente nas «vitrines» dos livreiros de Tóquio. Pode dizer-se que é Portugal, que são os seus navegadores e missionários quinhen-
  • XXXII Prefácio da Relação tistas e seiscentistas, que constituem actualmente a moda literária no Japão». (De O Século de 9 de Junho de 1927). Evidente se torna pois do que fica transcrito, que, em vez das pretendidas «repugnâncias raciais, inatas, dos japoneses para con- nosco», o que hoje se nota em Japão é um interêsse cada vez mais vivo e acentuado por tudo quanto historicamente se relaciona com a nossa estada naquele arquipélago e com as múltiplas influências que ali deixámos. Uma das mais interessantes e pitorescas manifestações dessa in- fluência encontra-se abundantemente na iconografia dos portugueses no Japão. Por ela se vê quanto ali estivemos de moda, sobretudo nos fins do século xvi e comêços do xvu. Parece até que o assunto pre- dilecto dos artistas nipónicos de então eram coisas portuguesas, a julgar da sua preocupação em reproduzir os nossos tipos, os nossos barcos, os nossos trajos, etc. Em objectos preciosos e de grande valor artís- tico vêem-se representadas scenas dessa época, em que as personagens são os mercadores e marinheiros portugueses e os nossos missionários. Temos diante dos olhos a reprodução de um antigo quadro japonês, hoje pertencente à família imperial, representando um templo cristão com missionários jesuítas orando. O digno Ministro de Portugal em Tóquio possui uma grande caixa de laca em cujo ornamento artístico se vê figurado um desembarque de mercadores portugueses em Japão no século xvii. De uma estreita aproximação e amizade entre os dois países — o do Extremo Oriente e o da última praia ocidental — é bem prometedor auspício a simpática «Associação Luso-Japonesa» recentemente fun- dada em Tóquio, a qual funcionando sob o alto patronato de um prín- cipe da família imperial, é constituída por homens da mais elevada representação social e de reconhecida competência no meio nipónico. Fruto já muito apreciável e consolador dos trabalhos dela foi, sem dúvida, a inauguração em 27 de Novembro de 1927, na ilha de Tane- gaxima, dum belo monumento comemorativo do primeiro desembarque de portugueses chegados a Japão pela primeira vez em 1542. Grandemente lisonjeira ao nosso amor próprio nacional, aquela cerimónia foi uma verdadeira glorificação tributada a Portugal pela poderosa nação do Sol Nascente, visto o cordial interêsse e carinho tanto dos elementos oficiais e representantes do governo japonês, que ali compareceram, como dos lídimos descendentes da antiga nobreza de Japão e de numerosíssimo povo e mocidade escolar que não cessava
  • Prefácio da Relação XXXIII de vitoriar calorosamente o nome de Portugal, tão intimamente ligado às velhas tradições de Tanegaxima e à própria história do Japão. No alto significado desta esplêndida manifestação de simpatia e aprêço, assim como no da fervorosa homenagem prestada um ano antes ao grande apóstolo do Oriente, S. Francisco Xavier, com a erecção do seu monumento em Iamaguchi —, está de-certo a melhor e mais cabal refutação de quaisquer supostas «repugnâncias raciais» dos japoneses para connosco. E pelo que respeita à Companhia de Jesus, assaz eloqiiênte e elucidativo me parece o telegrama que, ao redigir estas linhas, me foi comunicado. É textualmente do teor seguinte: Roma, 23 — 10 manhã. Um telegrama, procedente de Tóquio e dirigido ao Pontífice, anuncia o reconhecimento oficial, por parte do Governo japonês, da Universidade católica de Tóquio, fundada em 1913 e dirigida por padres jesuítas. Não pode sentir por nós indiferença nem desdem um país que assim exterioriza os seus sentimentos de amizade e interêsse pelo nosso, e de gratidão aos actuais representantes dos .seus primeiros evangelizadores. Entre vários intuitos da nova «Associação Luso-Japonesa» sobres- sai um, digníssimo dos maiores elogios. Propõe-se ela fomentar e activar eficazmente os estudos históricos e trabalhos congéneres de investigação — propósito êste de capital importância para as duas nações interessadas. «No seu programa se acha já inscrita tôda uma série de reimpressões de obras esgotadas e de interêsse primordial para o estudo dêsses antigos sucessos, alguns dos raríssimos livros impressos pelos jesuítas no Japão, em fins do século xvi e princípios do século seguinte, e a tradução e publicação dos mais interessantes trabalhos e dos mais curiosos documentos que hajam sido publicados, tanto em português como em japonês, procurando tornar possível por um conhe- cimento mútuo das duas literaturas e das fontes históricas dos dois países, a história definitiva de tôda essa época». (Ibidem). Nesta ordem de ideas e em perfeita harmonia com os fins da «Associação», parece-nos de tôda a oportunidade neste momento a reimpressão dos cinco volumes da colecção que estamos prefaciando — obra de enorme raridade e de mui particular interêsse para Japão, pelas tão curiosas notícias que encerra da vida daquele país no pri- meiro decénio do século xvii, muitas delas hoje quási como se foram inéditas.
  • XXXIV Prefácio da Relação O que deixamos dito do Japão (no qual, por particulares motivos, nos detivemos mais largamente), pode também aplicar-se, na devida proporção, a tôdas as outras Missões dos jesuítas portugueses. Perpassa na bela obra de Fernão Guerreiro, como num film gigan- tesco, tôda a vastíssima área geográfica das inúmeras regiões, onde os filhos da Companhia de Jesus da Província de Portugal exerceram seu zêlo e actividade apostólica. Tão depressa nos leva o cronista a per- lustrar os segrêdos, por tantos séculos ocultos, da misteriosa China dos tutões e mandarins, como nos conduz à cordilheira assombrosa do Indo-Cuche e às frias solidões do planalto do Pamir (Pamech), país de serranias perpètuamente cobertas de neve, de desfiladeiros e profundos vales, no meio dos quais vamos encontrar, em trajo de moiro mercador com cabaia, turbante e terçado à cinta o intrépido Irmão Bento de Góis, heróico missionário que primeiro que ninguém desvendou à Europa o mistério do Cataio. Igual espírito alentava os nossos missionários, quer acompanhas- sem os arraiais e comitiva do Grão Mogor, quer doutrinassem os míse- ros Carcas e Paravás da Pescaria; ou assistissem nas côrtes de Bisnagá e Narsinga, ou vivessem no meio das trágicas vicissitudes e privações da Etiópia a Alta ou Preste João. O interêsse etnográfico, histórico e geográfico destas narrativas não esmorece jámais, ora nos descreva os sertões de Monomotapa, as plagas insalubres de Angola e Guiné e os costumes bàrbaramente pito- rescos dos indígenas da Serra Leoa; ora nos entremostre, da outra banda do Oceano, os missionários jesuítas a braços com a barbárie das tríbus antropófagas dos bugres e canibais do Brasil, amansadas e cristianizadas emfim pelos irmãos daqueles mesmos a quem haviam trucidado e devorado com requintes de selvática ferocidade. E no meio de tantos rasgos admiráveis de zêlo e sacrifício dêsses missionários, que eram ao mesmo tempo filhos dedicadíssimos de Portugal, ressalta não raro uma nota que sobremaneira os deve tornar simpáticos aos seus conterrâneos, — um acrisolado patriotismo de que deixaram esplêndidas provas, por vezes mesmo heróicas: como quando, no meio da nossa aguerrida soldadesca, se expunham aos maiores perigos pela defesa das nossas opulentas conquistas, incessantemente ameaçadas durante a longa dominação castelhana, tão prejudicial e funesta ao nosso império colonial. Desta arte os vemos malbaratar a vida e derramar o sangue nos violentos ataques dos inimigos às nossas fortalezas de Tidore, de Ternate e Ambóino, bem como, volvidos anos,
  • O célebre missionário do Catáio, Irmáo Bento de Góis da Companhia de Jesus [xxxivj
  • Prefácio da Relação xxxv nas primeiras tentativas da reconquista de Angola e noutros arriscados lances de igual dedicação patriótica. * Uma só edição teve em três séculos, sendo merecedora de muitas, a valiosíssima obra que estamos prefaciando, intitulada — Relação annual das cousas que fizeram os Padres da Companhia de Jesus nas partes da índia Oriental, e em algúas outras da conquista deste reyno etc... Tirada das cartas dos mesmos Pa- dres, que de lá vierão etc. ». Consta a preciosa colecção de cinco volu- mes respectivamente impressos em i6o3, i6o5, 1607, 1609 e 1611. Bem raro é já hoje qualquer dos volumes, e raríssima a colecção completa. Hoje, que num louvável empe- nho patriótico vão saindo quási dià- riamente dos melhores prelos por- tugueses reedições excelentes de grande número de obras primas da nossa literatura, censurável desleixo fôra e quási imperdoável, deixar por mais tempo jazer em lastimoso olvido uma obra de tão variada e amena leitura e de tão vivo interêsse para a história das nossas mis- sões e conquistas, qual é a presente Relação, verdadeiro cimélio biblio- gráfico de valor incalculável, que tanto honra a antiga Assistência Por- tuguesa da Companhia de Jesus, como o nome de Portugal e a sua literatura seiscentista (1). Os volumes da colecção, como no frontispício de cada um se de- clara, foram compendiados das notícias epistolares enviadas de vários reinos, ilhas e províncias da índia Oriental, China, Japão, Etiópia, Monomotapa, Angola, Serra Leoa, Cabo-Verde e Brasil, de tôdas as remotíssimas regiões, em suma, aonde chegou a pasmosa actividade e zêlo dos nossos missionários do século xvi e xvii. (1) Esta nova edição da Relação Anual sairá em três volumes, contendo o i.® deles o i.* e 2.® volumes da i." edição; o 2.° compreenderá o 3.® e o 4.° volumes, e emfim o 3." corres- ponderá ao 5.® do Padre Guerreiro.
  • XXXVI Prefácio da Relação Êste comércio de letras missivas entre os filhos da Companhia de Jesus era usança antiga na Ordem, e já herdada do próprio fundador, o qual assiduamente a cultivou e recomendou a seus filhos como um dos meios mais eficazes para alargar a edificação, fomentar o zêlo e apertar os laços da caridade fraterna. Abençoado costume, ao qual somos hoje devedores de opulentas e peregrinas jóias bibliográficas da literatura missionária, por exemplo, dessa a que atrás me referi e que se intitula— Cartas que os Padres da Companhia de Jesus... escreveram do Japão etc., em três raríssimas edições a primeira e segunda de 1570, num só tomo com oitenta e duas«cartas; e com 206 a terceira de 1598, em dois tomos, e que é, no dizer de bons críticos, a colecção mais extensa que se imprimiu em Portugal, desta espécie de relações da mais alta importância histórica. Igual proveniência epistolar tiveram as interessantes Relações que hoje se reeditam. Não se limitou porém o compilador a ordenar ape- nas cronologicamente a correspondência recebida dos missionários e a dá-la sem mais trabalho à estampa, como haviam feito os editores das Carias do Japão. Juntando ao alheio, novo trabalho seu muito pes- soal, Fernão Guerreiro, depois de ler e cotejar atentamente as inúmeras cartas que dos rincões mais longínquos do globo confluíam incessante- mente à sua mesa de trabalho, deu-se laboriosamente a compendiá-las, a coordená-las metodicamente, a agrupá-las e a reparti-las em livros e capítulos segundo as regiões donde provinham; e por fim refundindo escrupulosamente todo êsse vasto material, sem quitar-lhe um único pormenor pitoresco ou lance de côr local, conseguiu executar um tra- balho encantador, cheio de interêsse histórico e de palpitante exotismo, verdadeiros anais, numa palavra, do estupendo labor apostólico dos seus irmãos nas remotas plagas do Ultramar. A obra de Fernão Guerreiro, abrange, pois, em resumido transunto tôda a extensíssima área das missões dos jesuítas portugueses nos fins do século xvi e princípios do xvii. Mais do que o natural prolonga- mento das Cartas do Japão, publicadas cinco anos antes do primeiro volume da Relação, esta obra manifesta o evidente propósito de ser antes uma grandiosa ampliação ou história integral de tôdas as mis- sões jesuíticas portuguesas do Ultramar. Não é já pois, exclusivamente, a missão do Japão (para a qual no entanto se reserva em todos os cinco volumes um livro especial) que fornece assunto à Relação, mas tôdas as numerosas missões, dispersas pelos remotos confins da terra por ignoradas e obscuras que sejam.
  • Prefácio da Relação XXXVII E não sei eu que consoladores alentos exalam essas páginas de fé e patriotismo, que nos alevantam a alma e tonificam o espírito em repe- tidos e maravilhosos lances de abnegação, heroicidade e patriotismo. Quanta vez, por entre os temerosos lampejos da espada do guer- reiro e conquistador, não entrevemos erguer-se pacificadora a cruz bemdita do missionário, o qual, ao mesmo passo que propaga a religião de Jesus Cristo nos africanos sertões, nas plagas da América e por todo o vasto Oriente, eficazmente con- tribui também a cimentar o domí- nio e influência de Portugal dum extremo ao outro do globo! Uma só coisa na obra de Guer- reiro não logrou conquistar o meu inteiro aplauso: foi o ter calado quási sempre os nomes dos bene- méritos missionários que de tão lon- ges terras solicitamente lhe forne- ciam as notícias de que se compõe o seu trabalho. Reconheço no en- tanto a sua escrupulosa fidelidade e largueza de vistas em salvar do es- quecimento, introduzindo-as na sua Relação, curiosas notícias enviadas do Ultramar, embora prevendo que seriam talvez tachadas de alheias ao assunto. Disso se justifica êle com acertado critério nas seguintes palavras ao leitor: «Nem tam- bém se deve estranhar tratarmos, à volta das cousas do estado espiri- tual e eclesiástico, algumas do estado temporal dos reinos e províncias de que havemos de falar; porque se faz para maior declaração das cousas da Cristandade, e se ter perfeita notícia das qualidades das terras, gentes e pessoas de que se fala». Da sua maneira de utilizar as ditas cartas, resumindo-as e unifor- mizando-lhes o estilo, pode dar idea a interessante carta ânua do Padre Girão, até há pouco inédita no seu original, se a cotejarmos com o resumo que dela fêz e publicou Fernão Guerreiro no volume terceiro da sua Relação, atinente aos anos de 1604 e 1605 (1). Se a prática assídua do púlpito e confessionário e as excursões evangélicas a que zelosamente se aplicou em terras do reino e nas (1) Quem primeiro deu notícia do valioso Ms. de Girão foi o sr. Dr. António Baião, director do Arquivo Nacional da Tôrre do Tombo, onde teve a sorte de o descobrir.
  • X XXVIII Prefácio da Relação Ilhas Adjacentes, lhe deram da sociedade do seu tempo um largo e perfeito conhecimento; não seria por ventura menos completo o que da índole, costumes e caracteres etnográficos dos habitantes dessas regiões apartadas lhe subministrava a vasta correspondência dos mis- sionários, através da qual se sentiria a cada passo transportado men- talmente para junto dêsses abnegados obreiros da civilização cristã. Cercado dos maços de cartas de seus irmãos e embevecido na leitura delas, quantas vezes o bom Padre Guerreiro na elaboração do seu trabalho, nem dava pelas lágrimas de devoção e enternecimento, que dos olhos caíam sôbre essas preciosas missivas, de longes terras escritas, e por desvairados caminhos recém-trazidas a suas mãos! Ao cabo de dez anos de trabalho assíduo, o vernáculo compilador depôs a pena e deu por finda essa admirável e edificativa história das nossas missões no primeiro decénio do século xvn, obra alentadora e bemdita, que tão gratos momentos lhe terá causado de prazer espiri- tual, e cujos volumes, mal saídos do prelo eram sôfregamente procura- dos e lidos com a mesma avidez com que hoje o são as gazetas mais noticiosas e as melhores revistas scientíficas. São disso boa prova as seguintes palavras do antelóquio ao leitor do hi volume: « É tão grande a consolação que recebem os fiéis a cuja notícia veem estas relações que fazemos das coisas que nas partes do Oriente, e das mais conquistas dêste reino, sucedem na conversão da gentilidade, e a glória de Nosso Senhor que disto resulta, que nos obriga a lhes não faltarmos com elas tôdas as vezes que se oferece matéria de as podermos fazer, pois não somente dêste reino donde os operários saem, mas dos de Castela, França, Itália, Alemanha são sumamente desejadas e estimadas, e com muito afecto no-las mandam pedir; e até os próprios hereges desejam de as saber em particular, quando em geral ouvem falar delas. Pelo que em Alemanha o serenís- simo Duque de Bavária, como tão católico e zeloso príncipe que é da verdadeira religião, por si próprio as traduz em tudesco para confir- mação de nossa santa fé e confusão dos hereges». Que motivo terá forçado o benemérito sacerdote a interromper de súbito e definitivamente tão simpática tarefa que parecia ser a mais acariciada da sua vida? Talvez a saúde abalada. É certo que só sobreviveu seis anos à publicação do quinto e último volume da sua obrg. Recomendam-no como escritor uma agradável sobriedade e clareza de estilo, mais a exposição e coordenação da narrativa sempre natural
  • Prefácio da Relação xxxix e atraente, qualidades que para logo tornaram grandemente aceita entre nós e fora do reino a obra do Padre Guerreiro. Do largo acolhimento que teve na Europa, dão sobejo testemunho as versões que prontamente se fizeram dela, quer integrais, quer par- ciais, em espanhol, francês e alemão (i). Bem escassas são infelizmente as notícias que da biografia deste Padre pudemos alcançar. Na Imagem da Virtude do Noviciado de Évora ocupa-se dêle o Padre António Franco nos seguintes termos assaz lacónicos: «Padre Fernão Guerreiro, natural de Almodóuvar no Campo de Ourique, tendo 17 anos de idade entrou neste santo Novi- ciado aos 22 de Janeiro de 1567. Neste colégio fêz os votos acabado o Noviciado; depois de estudar se ocupou nos santos ministérios de confessar e pregar. Fêz muitas missões pelo reino e com grande fruto das almas. Governou os colégios de Bragança e da Madeira, foi visi- tador dos colégios das Ilhas. Ultimamente se retirou à Casa de S. Ro- que da qual foi vice-prepósito, e companheiro do Padre Provincial. Tinha grandes desejos de ver autorizada a nossa Companhia; por esta causa tomou à sua conta fazer os compêndios das cartas que os nossos Padres mandavam das missões em que trabalhavam, como de Angola, Cabo-Verde, índia, China e Japão; e dêstes andam impressos muitos com o seu nome. Era actualmente superior na casa do Monte Olivete, quando lhe sobreveio um prioriz tão rijo, que foi levado para a casa de S. Roque; ali se lhe aplicaram todos os remédios sem efeito. Recebeu os Sacramentos, e depois santamente deu a alma a seu Criador aos 28 de Setembro de 1617 tendo 67 de idade e 5o de Companhia » (2). Teve êste Padre dois irmãos sacerdotes, um dêles jesuíta, chamado Bartolomeu Guerreiro, autor de várias obras bastante apreciáveis, e outro, clérigo secular, chamado Afonso, que nas imediações da capital foi assassinado em 1581. Fernão Guerreiro mostrou sempre especial afeição à terra da sua naturalidade, a ponto de, na portada dos volumes que publicou, acres- centar sempre ao próprio nome a designação de — natural de Almo- dóuvar. E, porque os tipógrafos omitiram esta indicação num dos volumes, apressou-se o Padre a emendar nas erratas a omissão da seguinte forma: Guerreiro, acrescente-se de Almodôvar. Excelente res- posta à maledicência de certos zoilos pechosos, que não cessam de (i) Cf. SOMMERVOGEL, Bíbliot., Ill, 1913, Sg. (a) Autor e obr. cit., pág. 86).
  • Prefácio da Relação apregoar gratuitamente que os jesuítas, só pelo facto de o serem, rene- gam tôda a afeição e amor à sua terra e família. * Só duas palavras sôbre a grafia desta reimpressão, antes de fechar o prefácio. Não faltará de-certo quem me censure por ter adoptado nela a moderna ortografia oficiaj. Creio todavia que bem mais numerosos e sobretudo mais justificados reparos me seriam feitos, se houvesse na presente edição reproduzido fielmente a de i6o3-i6ii. Ninguém mais do que eu, aprecia, enaltece, exalta e recomenda em vários casos o respeito quási religioso e a escrupulosa fidelidade na reprodução de antigos autores em edições, por assim dizer, diplomá- ticas — e até mesmo facsimiladas — sem a mínima alteração do texto, a não ser quando muito, no desdobramento indispensável das abre- viaturas. Isso porém unicamente quando a grafia dêsses autores, em- bora talvez anormal e assistemática, algo possa contribuir para melhor e mais íntimo conhecimento filológico da evolução linguística. Ora é de saber que nada disto se dá nos 5 volumes da obra que hoje se reedita. O autor dela não é um só, são muitos; são tantos quantos os signatários das inúmeras cartas que o compilador utilizou sem alterar nem uniformizar a grafia, a qual de um para outro, e às vezes no mesmo subscritor, varia constantemente. Por isso não é raro, no espaço de poucas páginas, encontrar a mesma palavra escrita de três, e quatro e mais maneiras diferentes. Sirva de exemplo a palavra «pais», que apresenta as seguintes capri- chosas variantes: paes, pays, payes e pais. Por qual delas optar? Ou que vantagem resultará de as conservar e registar tôdas, sendo algumas delas evidentemente erróneas e inadmissíveis? Igual anomalia gráfica se nota quer na pontuação quer na acentuação. Exemplo: Cochím, Cóchím, Còchim, Cóchim, Côchím, Còchtm, Còchím e Couchim. Oito variedades á escolha. Tornava-se pois indispensável, em meio de tanta anarquia, adoptar uma grafia sistemática, fôsse ela qual fôsse; e adoptou-se esta porque, além de ser hoje a oficial, me parece a mais simples de tôdas as que entre nós têm tido voga. Se a grafia da primeira edição da obra que hoje volta a sair a público, pudesse fornecer quaisquer elementos de documentação para estudo ou consulta dos eruditos, ou a êstes princi-
  • RELAC,AM ANNVAL DAS GOVS AS QVE FIZERAM OS PADRES DA COM- panhiade IESVS na India, ^ lapão nos annos dc^oo^ôc
  • Prefácio da Relação XLI palmente se destinasse, claro está que fielmente se houvera reproduzido nesta reimpressão; carecendo ela, porém, de tais elementos e tratan- do-se unicamente, ao reeditá-la agora, de vulgarizar a leitura de uma obra quási de todo ignorada, mas digníssima de ser conhecida, tenho para mim que não podia nem devia proceder de outro modo, ame a que não fôsse mais que por aquele motivo geralmente aceite — de que os livros se publicam principalmente para se lerem. Nas notas emprego a abreviatura: Nt. (no texto). Janeiro de 1929 (1). A. V. (.1 Infelizmente a , de Fevereiro falecia Artur Viegas (Padre António Antunes Vieira S. .^d. pelas «... interessan.es publicações. Meses depots tnorreu t.tnbén no Japão, Wenceslau de Morais a quem A. V. se refere neste Prefácio.
  • RELAÇÃO ANUAL DAS COISAS QUE FIZERAM OS PADRES DA COM- panhia de JESUS na índia, e Japão nos anos de 600 e 601, e do processo da conversão, e cristandade daquelas partes: tirada das cartas gerais que de lá vieram pelo Padre Fernão Guerreiro da Companhia de JESUS. 1f Vai dividida em dois livros, um das coisas da índia e outro do Japão 1Í Impressa com licença do S. Ofício, e Ordinário. Em Évora, por Manuel de Lyra. Ano i6o3.
  • LICENÇAS DO S. OFÍCIO H Vi êste lipi-o, cujo título é, Relação anual das coisas que fizeram os Padres da Companhia de Jesus, etc. postas em ordem pelo Padre Fernão Guerreiro, pregador da mesma Companhia, e não tem coisa con- tra nossa santa fé, e bons costumes, antes muitas de seu aumento, dignas de virem à notícia de todos, e o muito que esta sagrada Religião padece, e grande fruto que fa\, cultivando uma tão remota Cristandade. Dada em Lisboa, no Convento de S. Francisco de Enxobregas, a 21 de Março de 60S. Frei Luís dos Anjos. Vista a informação, pode-se imprimir esta Relação e depois de impressa torne a êste Conselho, para se conferir com o original, e se dar licença para correr, e sem ela não correrá. Em Lisboa, 24 de Março de bo3. Marcos Teixeira. Rui Píz. da Veiga. DO ORDINÁRIO f Pode-se imprimir auctoritate Ordinarii. Em Évora, 12 de Junho de 6o3. O Bispo de Nicomédia.
  • AO LEITOR ã|ÃO de tanta edificação e glória de Deus nosso Senhor, e tao semelhantes às da primitiva Igreja, as coisas que nestes nossos tempos sucedem, e se vêem também na nova e primitiva, que Deus vai fundando nas partes Orientais da India, China e Japao, tomando por instrumento (além de outros muitos religiosos das outras sagradas religiões) os desta mínima Companhia de Jesus, a quem por razão de seu Instituto e vocação, esta emprêsa particularmente pertence; que pareceu seria coisa fora de razão, e de muito pre,uizo da honra de Deus, e diminuição das glorias de seu sagrado Evangelho, = um como roubo da consolação dos fiéis, ficarem em silêncio, e nao se porem em escrito, de modo que pudessem vir à notícia de todos. E por isso pareceu aos Superiores da nossa Companhia, que das letras missivas, e gerais, que os padres Visitadores e Provinciais daquelas partes enviam cada ano a nosso R. P. Geral, em que lhe dão inteira, e verdadeira relação de tudo o que se faz em cada uma das parte das províncias do seu govêrno, se fizesse um extracto, em que se resumissem as coisas de edificação que nelas se contém, especialmente do que sucedeu em Japão no ano de 600, e na Índia no de 601, de que são as derradeiras cartas, que daquelas partes se receberam; e êste se imprimisse para que os devotos fiéis a cujas mãos viessem, se consolassem e glorificassem a1 nossc, Senhor p0r suas obras tão maravilhosas, e de tanto aumento de sua Igreja eglória_de seu Santíssimo Nome. E porque estas coisas que tocam à convers*0 da gentMade, ein que os padres andam, estão tão unidas com as que pert,en«« «o Insn."to, e modo de proceder de nossa Companhia, que se nao pode falar de umas se se tratar das outras, a ninguém parecerá extranho inserirmo-las todas juntas, nois é tratar de filhos e de pais, quais os padres os sao daqueles novos cristãos, a quem em Cristo regeneraram pelo Evangelho, que continuamente lhes prègam e 1 quem criam com o leite da santa doutrina. Nem se imprimem por_ago mais que as coisas dêstes dois anos, porque as dos outros atrás andam impressas em dois volumes, e compostas em uma mu. suave história pelo P-,dre Luís de Gusmão de nossa Companhia, e Provincial que agora e da Pro- «a de Totdo, com singular estilo e prudência. Nem tarn£ deve estra- nhar tratarmos a volta das coisas do estado esptntual, = eclesifeaco, algumas do estado temporal dos Reinos, e Províncias de que havemos de (alar. porque se faz para maior declaração das coisas da Cristandade, e se das qualidades das terras, gentes e pessoas de que se fala: po «, tudo.redunda em lito maior glória de nosso Senhor, e em tudo se verão eltemplos de que o bom afecto e bom juízo poderá tirar muito fruto espiritual.
  • LIVRO PRIMEIRO DAS COISAS DA ÍNDIA
  • CAPÍTULO PRIMEIRO Da dilatação da Companhia de JESUS nas partes do Oriente, número de casas, e pessoas que nelas tem, e exercícios em que se ocupam. PRIMEIRO religioso da Companhia de JESUS, que destas partes da Europa e Portugal passou às do Oriente e entrou na índia, foi aquele santíssimo varão, poderoso em obras e em palavras, esclarecido em milagres, o Padre Francisco Xavier; o qual, como um grão de trigo semeado naquele grande campo, e mortificado com tantas peregrinações que nele fez, e tra- balhos que passou, até sair desta vida, foi princípio assim da multiplicação, naquelas partes, da Companhia, da qual êle foi um dos primeiros pais e fun- dadores, como do inumerável fruto de tantas almas que por eles o Senhor quis colher naquela grande messe, como (i) largamente se conta tudo na mui singular e excelente história, que da vida dêste santo varão deixou escrita o Padre João de Lucena, religioso de nossa Companhia. Entrou este varão de Deus na índia no ano de quarenta e dois; e daí por diante quási não ficou ano, em que de Portugal e Europa não fossem mandados alguns da Companhia, ora dez, ora quinze, ora vinte, ora mais, ora menos, conforme ao que se podia acudir; e no ano de 1574 passaram à índia 42 dos nossos com o Padre Visitador Alexandre Valinhano, e no ano passado de 602 foram passante de sessenta religiosos juntos pela muita conversão de gentilidade, que se ia fazendo, e pelas grandes portas que se iam abrindo em os mais poderosos reinos do Oriente. E com êste socorro de companheiros, que todos os anos ia de Portugal, e com os que na índia se recebiam, se foi dilatando tt Companhia por tôdas aquelas partes e reinos orientais, de modo que com admirável sucesso e felicidade está hoje em dia pela graça de Deus estendida e metida por todos êles: de Goa, cabeça do estado, para a parte do Norte nos reinos de Decão (2), Cambaia, Pérsia, aonde êste ano passado particularmente foram mandados pelo Padre Santo, e por muitos anos estiveram também no Preste João, até acabarem todos os padres que lá residiam, e ainda que agora se procura muito que vão outros, sao impedimento a poderem entrar naqueles reinos os turcos, que se teem apoderado de todos os portos da costa de Arábia, e Mar Vermelho. Para a parte do Sul estão por todos os principais reinos de Malabar, scilicet no do Samorim rei de Calecute e em sua própria corte, no de Cochim, no de Porcá, no de Travancor e em toda sua costa até o cabo de (1) Nt. E como. (a) Nt. Quam.
  • 2 Do que fizeram os Padres da Companhia Comorim, na ilha de Ceilão, na costa a que chamam da Pescaria e na de Coromandel, no reino de Bisnagá ou Narsinga, em Chandegri, corte do pró- prio rei; nos reinos de Bengala e Pegu, e nos do grão Mogor, e nos de Cataio, que pouco há se descobriram; e passando mais no mar do Sul, em Malaca e nas ilhas de Ambóino e Tidore, que estão no arquipélago de Maluco; no reino da China, em diversas partes, e principalmente nas duas cidades reais, Nanquim e grão Pequim, côrte do mesmo rei; finalmente em quási todos os reinos do Japão, que são os últimos fins do Oriente. Serão as casas que a Companhia tem por todas estas partes acima ditas, passante de cento, entre colégios e casas que chamamos reitorais, e resi- dências; as quais residências teem esta diferença, que são subordinadas aos colégios ou casas reitorais, e os que nelas vivem são em tudo sujeitos aos reitores dos colégios, a que estão anexas, e em tudo o que fazem, se governam pela ordem e direcção dos mesmos reitores. E em certos tempos do ano veem • fi.4r. estar alguns dias nos colégios, para darem* conta a seus superiores, assim do sucesso de suas ocupações com os próximos, como também de suas cons- ciências, e para com os exercícios de devoção e espirituais se renovarem em espírito e cobrarem novas forças, para tornarem a continuar suas ocupações do grande serviço de Deus, em que gastam a vida. E porque era coisa mui dificultosa poderem-se governar por uma só cabeça tanto número de casas e colégios espalhados por tão distantes e diversos reinos, se dividiu tôda a Companhia destas partes em três Províncias: a primeira do Norte, a segunda do Sul, a terceira de Japão e China, ainda que a estas duas chamamos mais propriamente Vice-Províncias, para que ficando cada uma com sua cabeça, sejam melhor governadas e visitadas. O número dos religiosos da Companhia que há nestas três Províncias, ajuntando os sessenta que foram o ano passado, será quási de seiscentos; os quais ainda que pareçam muitos, são muito poucos, em comparação dos que são necessários para as portas que naquela imensa gen- tilidade estão abertas e se vão abrindo cada dia para o Evangelho, que ainda que todos os colégios e casas da Companhia de Europa se despejaram de cá, e passaram para aquelas partes, tudo fora pouco para tão grande messe e multidão inumerável de gentes que nelas há, que por isso com muita razão se chama formigueiro do mundo; pelo que, os que lá estão, por mais compa- nheiros que de cá lhes(i) mandem, sempre pedem mais. As ocupações em que se empregam e gastam sua vida todos êstes padres, conforme a seu instituto e vocação, são (depois da perfeição e salvação própria) procurarem com tôdas suas forças a salvação dos próximos, o que fazem com três sortes de ocupações: a primeira, pregando, confessando, ensi- nando a doutrina, ajudando a bem morrer, acudindo aos hospitais e cárceres, compondo discórdias, tirando de mau estado aos que nele estão, e finalmente procurando ajudar a todos com tôdas as obras pias a êles possíveis. E esta sorte • pi.5. de ocupação exercitam em* geral com todos os cristãos já feitos, assim portu- gueses, como naturais das terras aonde residem. A segunda e própria dos colégios onde há estudos, é, juntamente com a virtude e bons costumes, ensi- (i) Nt. Quási sempre lhe por lhes.
  • Nas partes da índia, no ano de 6o i 3 narem aos moços e estudantes, letras humanas e divinas, scilicet, Latim, Artes, Filosofia, e Teologia moral e especulativa, e em muitas partes também os meninos a ler e escrever. A terceira, e principalíssima, é na conversão da gentilidade à nossa santa fé. E porque naquelas partes não há tantos sacer- dotes que possam ter cuidado dos cristãos que se vão convertendo depois de baptizados, e ser seus pastores e vigários, fica também à Companhia o cuidado da cultivação dos mesmos cristãos que êles fazem, servindo-lhes de seus pas- tores e vigários; e assim, além dos muitos milhares de cristãos, que naquelas partes estão à conta dos reverendos padres e religiosos de S. Domingos, S. Agostinho e S. Francisco nos lugares e postos onde êles residem, os que desta maneira cabem à conta da Companhia por todas as partes acima ditas onde estão, serão, conforme as informações que se teem, passante de nove- centas mil almas, ou um milhão. E como a Companhia, conforme a seu instituto, não pode levar esmola ou estipêndio algum por missas, nem por pregações, nem por enterramentos, nem por ensinar ou confessar, nem por qualquer outro ministério que exercite com o próximo, não se pode declarar com palavras o conceito que isto cria das coisas de nossa santa lei nos ânimos daqueles novos cristãos, e o amor, respeito e sujeição que lhes concilia, para os padres, vendo que lhes não querem, nem buscam o seu, senão somente suas almas para Deus; e que antes, de sua pobreza e esmolas, que os reis lhes dão para sua susten- tação, os ajudam muitas vezes, e procuram remediar em suas necessidades aos que são pobres; e os mesmos padres com isto ficam mais desembaraçados para se poderem haver com êles com a conveniente liberdade, e para os poderem repreender e castigar quando é necessário, posto que isto fazem sempre com ânimo e espírito paternal, qual convém para tratar com pró*ximos e principal- 'Fi.sv. mente com aquelas novas e tenras plantas. CAPÍTULO II Da Pr ovíncia do Norte e do fruto que nela se fè\ ESTA Província contém em si as casas e colégios seguintes da Compa- nhia: a casa professa de JESUS em Goa, o colégio de S. Paulo e casa da provação na mesma cidade; colégio do Espírito Santo com onze resi- dências nas terras de Salsete; o colégio de JESUS na cidade de Baçaim com duas residências; em Taná o colégio da Aladre de Deus com cinco residências, na cidade de Damão o colégio das onze mil Virgens com a residência de Dio; a casa dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo, em Chaúl. Pertencem também a esta Província as missões do Preste João, do Mogor, do Cataio e da Pérsia. O número dos que vivem em cada colégio, é o seguinte: na casa professa 3ç>, colégio de S. Paulo setenta e quatro, casa da provação quarenta e quatro, colégio de Salsete catorze, casa de Chaúl oito, colégio de Baçaim vinte e três, o de Taná dezasseis, o de Damão oito, residência de Dio três, missão do Mogor quatro; faleceram nove, receberam em seu lugar vinte, foram mandados para o Japão dez, na armada da Sunda três. À casa professa está anexo o
  • 4 Do que fi\eram os Padres da Companhia hospital, aonde residem dois; ao colégio de S. Paulo está anexo o colégio de Santa Fé, onde se criam os meninos naturais da terra, e o seminário do Arcebispado. O fruto que Nosso Senhor foi servido que se fizesse nesta Província (àlém do ordinário que se colhe com os cristãos já feitos e portugueses, por meio das confissões e pregações e mais ministérios pios da Companhia) é o seguinte. Na casa professa se baptizaram por diversas vezes passante de seiscentos; e no colégio de S. Paulo no dia de seu orago, que é a conversão do mesmo Apóstolo, se fez outro baptismo de perto de mil almas, o qual foi mui festejado do Vizo-Rei, Arcebispo, e dos mais da côrte que nêle se acharam. Quis o Fi.b. Vizo-Rei Aires de Saldanha ser padrinho* de muitos, entre os quais foram três meninos nobres, a quem àlém de vestir mui bem, despachou com cargos para servirem como fossem de idade. O senhor Arcebispo baptizou assim a estes, como os mais que o Vizo-Rei tomou por afilhados, mostrando bem, um e outro, o grande zêlo que neles ferve do serviço de Deus e bem das almas. No colégio de Salsete e suas residências se baptizaram setecentos e quarenta e oito, ficando ainda catecúmenos duzentos e cincoenta e quatro. No de Taná e em suas residências trezentos e setenta, entre moiros e gentios; em Chaúl, Baçaim, Damão e Dio sabemos se baptizaram êste ano muitos; mas por não virem os apontamentos, se não soube o número dêles. E em muitos dêstes que de novo se baptizaram se viu manifesta demonstração da predestinação divina, porque acabando de receber o baptismo, ou logo ou em mui breve espaço os levava Deus para o Céu. Nas terras de Salsete de Goa estão a cargo da Companhia i3 igrejas em que há passante de 33 mil cristãos, os quais vão crescendo tanto no lume e conceito da fé, que os mais dêles parece nunca tiveram outra crença, nem a souberam. Grande parte disto lhes nasceu de um catecismo que há três anos fizeram os padres por modo de diálogo, no qual andam os meninos tão vivos, e destros, e assim o trazem decorado, que uma das coisas que com sumo gosto se pode ver é quando aos domingos e dias santos na igreja ante missa, diante de todos os adultos e mais grandes, o repetem. E há alguns tão pequeninos que nenhuma outra coisa sabem falar, senão a doutrina e suas perguntas que ouvem aos outros maiores. A noite por seus bairros se ajuntam todos os meni- nos, e a dizem, aonde vão também aprender alguns adultos, que a não sabem. E entra já com alguns dos mais provectos, quais são quási todos os de Margão, onde está o colégio, e os de Rachol, onde está a fortaleza. Usam bem dos sacramentos, porque os mais se confessam e comungam muitas vezes no ano, e ouvem missa cada dia, e muitos aos sábados em devoção da Virgem, vão à igreja da Madre de Deus em Mazorda caminho de uma légua a ouvir missa. *fi.6v. Acham-sc à Salve dos sábados à tarde com muita* devoção, a qual lhe cantam seus próprios filhos em canto de órgão. E como naturalmente estes meninos são muito hábeis, tudo se lhes imprime com facilidade. E assim tangem e cantam ao órgão e a outros instrumentos nas igrejas, os domingos e festas com tanto ar, que pouca vantagem lhes levam os europeus, o que dá ocasião de muito louvor de Deus, ver que aqueles que tão pouco há se ocupavam nas festas, louvores e romarias de seus pagodes, agora com tanta vantagem trocam a ocupação no culto e veneração de seu Criador.
  • Nas partes da índia, no ano de 6o r 5 Fazendo-se êste ano os ofícios da semana santa em Margão e Rachol, quando veio a quinta-feira de Endoenças, foi tão grande o número dos discipli- nantes, e tantos se iam pondo em feição de se disciplinar, que foi necessário acudirem os padres e atalharem seu fervor, impedindo aos velhos e indispostos para que o não fizessem, porque todos o queriam fazer. As procissões da Páscoa e Corpus Christi se fazem com muita devoção, acompanhando-as os cristãos com grande número de tochas e velas de cêra, que êles mesmos para êste efeito compram. Representou-se-lhes na de Corpus Christi um breve diálogo na mesma língua da terra, em que se lhes declarava a dignidade e excelência dêste divino mistério, exortando-os à devoção e frequência dêle. Estava na terra firme um pagode, que dantes fôra de uma destas aldeias de Salsete; veio-se a entender que alguns dêstes cristãos fracos na fé, por mêdo de lhes fazer mal, o iam lá adorar e fazer-lhe suas cerimónias; mas levados outros do zêlo da fé, se determinaram ir à terra firme a o abrasar, o que fizeram em uma noite muito a seu salvo. Da missão do Mogor e da jornada que os ?tossos com ele fizeram aos reinos de Decão, e embaixadas que éle mandou a Goa * AS terras e império do grão Mogor, que é um dos maiores, ou o maior de todo o Oriente, e todo de moiros e gentios, estão quatro da Companhia; os dois andam sempre com o próprio rei que os quer trazer consigo, os outros estão em Lahor, cidade principal e cabeça do império, na casa e igreja que ali temos. O que nesta missão se fez iremos tirando das cartas e informações dos nossos, que de lá vieram. É o grão Mogor, que por outro nome se chama Equebar, homem já muito velho e debilitado, na seita gentio e grande devoto do Sol, a quem adora, com dizer que o mesmo Sol é criatura de Deus, e tem-lhe tanta devoção, que entre dia e noite lhe reza dez mil orações por um rosário que tem de pedras preciosas, das mais lindas e finas do mundo, como rubis, diamantes, perlas, topázios e outras, que por tôdas fazem mil e quinhentas. As contas dos extremos se diz valerão um conto de oiro pela fineza das pedras; e afirma o irmão Bento de Góis, que muitas vezes viu e teve na mão êste rosário, que se não pode encarecer a grande valia dêle. E diz o Equebar que reza por aquelas pedras ao Sol, porque êle as criou, e pelo honrar com as mesmas coisas que êle produz. É tão soberbo e arrogante, que consente ser adorado como Deus. E como isto sôe mal ainda aos gentios, dá por razão que os súbditos hão de reverenciar a seu rei. Por muitas vezes lhe pediu o Padre Jerónimo Xavier que com êle anda, quisesse ouvir a lei de Deus; sempre disse que assim o faria tanto que o padre soubesse bem a língua pérsea; porém depois que a soube, dá por escusa que anda ocupado com guerras, e assim se lhe vai pas- sando a vida temporal, sem procurar a eterna. É inimigo de Mafamede e total destruidor das mesquitas; não defende fazerem-se os seus cristãos, antes CAPÍTULO III
  • 6 Do que fizeram os Padres da Companhia dá licença para isso. Este grande tirano, com ser senhor de tantos e tão pode- rosos reinos, e possuir tesoiros imensos de prata, oiro, pedraria e outras *fi. 7 v. riquezas, contudo não se dando ainda por satisfeita sua grande co*biça e ambição (pôsto que diz que dá graças a Deus pelo não fazer cobiçoso) se partiu de Lahor com um mui grande exército para os reinos do Decão a conquistar novas terras e províncias. Mandou diante um capitão seu com cincoenta mil homens, e êle traria cem mil de pé e de cavalo, e mais de mil elefantes, e em sua companhia e corte quis que viessem também os padres. Sua intenção e prática nesta jornada era, depois de conquistar os reinos de Decanim, ir tomar Goa e o Malabar e todo o reino de Bisnagá. E como os anos pas- sados uma rainha do Decanim, com braço e ajuda dos portugueses, lhe resistisse muito valorosamente matando-lhe muita gente às portas do reino de Barará que é um passo das serras por onde se nele entra, morta ela, os decanis se dividiram entre si com tantas discórdias e dissensões que não pôde deixar de se seguir a assolação de todo aquele reino; porque uns peitados, outros enganados, e todos mal aconselhados, e cuidando cada um dos grandes ficar melhorado como ordinàriamente acontece nos reinos divisos, emfim lhe deram entrada, e com ela ficou apoderado do reino do Melique, no qual logo pôs um seu filho com muita gente. E passando àvante chegou ao reino e cidade de Breampur, a qual logo o rei, por nome o Mirim, lha largou vazia e se recolheu à grande fortaleza de Sir, que era a principal de todo o reino, e em sitio e todo o mais parecia inexpugnável, porque está situada numa alta serra de cinco léguas de roda, muros fortíssimos, cercada com três cercas muito grandes e feitas por tal arte, que de uma se ajudavam tôdas, muita água nadível dentro, muita lenha, legumes e mantimentos para muitos anos e para mais de setenta mil homens de peleja que nela estavam. Tinha passante de três mil peças de artelharia, e muitas tão grossas que quando desparavam, pareciam grandes trovões. E àlém do próprio rei Mirim que estava dentro, havia na mesma fortaleza sete prin- •F.a. cipes com título de reis, que * ali por costume do reino, vivem sempre com suas casas sem nunca delas saírem, os quais sucedem por vias na corôa do reino quando vaga. Estava também o regedor do reino, que era um abexim muito esforçado capitão, e outros sete capitães, homens brancos, os quais ainda que moiros de seita, eram descendentes e netos de portugueses, e todos êstes, principalmente o abexim e os sete brancos, governavam aquela guerra, e defendiam a fortaleza com singular esfôrço e indústria. Por onde o grão Mogor, ainda que a tinha cercada com perto de duzentos mil homens, nenhum dano lhe fazia, nem podia fazer, porque nem o sítio do lugar, nem a grossa artelharia, nem o esfôrço dos capitães de dentro, o deixava achegar de modo que por fôrça darmas lho fizesse, se não fôra a do dinheiro e peitas que sempre são os mais fortes peloiros com que as fortalezas e reinos se conquistam. Pelo que, vendo-se o Mogor muito enfadado, e entendendo a impossibilidade da entrada de tão inexpugnável fôrça, se determinou a usar de suas acostumadas falsidades. Manda um recado ao rei Mirim se quisesse ver com êle para tra- tarem certos pontos; e que lhe jurava pela cabeça do príncipe (que é juramento entre aqueles reis gentios inviolável, ou quando os príncipes juram pelas cabeças dos pais) que logo sem nenhum dano se tornaria a recolher em sua fortaleza»
  • Nas partes da índia, no ano de 6o i 7 Pôs o pobre rei em conselho se sairia; o regedor abexim com os sete capitães brancos resistiram muito; porém outros, que se crê estavam já peitados, foram de parecer que saísse. Êstes seguiu o rei, e logo saiu com uma touca ao pescoço, que é a modo de estola, que lhe chegava até os joelhos (i) em sinal de sujeição. Chegando ao lugar donde começou a ver ao Equebar, lhe fez três zumbaias, e o Mogor imóvel; chegando já perto, e indo-se baqueando para lhe tornar a fazer outra, se chegou a êle um dos capitães que ali estavam, e travando-lhe da touca tirou por ela, e o fez dar com os focinhos em terra; o que * se entendeu não fizera sem consentimento do Mogor, ainda que êle fingindo •Fi.sy. que lhe não agradava a descortesia, lhe foi levemente à mão; e agasalhando-o com boas palavras, lhe fez escrever logo uma carta aos da primeira cêrca, em que lhes mandou que vendo aquela, dessem logo entrada ao senhor que vinha para bem. Mas querendo-se depois disto tornar, o não deixou, e mandou reter. O que sabido pelo regedor abexim, mandou logo um filho seu ao Mogor com um recado, em que lhe dizia que aquele homem era seu rei, e que pois sobre sua palavra e juramento saíra a ver-se com êle, que não era razão que S. A. o retivesse; que por tanto lhe pedia o deixasse tornar, e depois fizesse a gueria como lhe parecesse. O Mogor, entendendo ser êste abexim a chave de tôda aquela fortaleza, perguntou ao filho se viria seu pai ver-se com êle. O mancebo, como era esforçado, respondeu com muita liberdade que, pois seu pai o mandara a S. A. com êste recado, dêle poderia entender que não era homem que houvesse de entregar aquela fortaleza por traição; e que por tanto não tinha para que esperar que se viesse ver com êle, mas que soubesse de certo, que emquanto fôsse vivo, S. A. não entraria na fortaleza, e que, se não quisesse deixar tornar o rei que tinha detido (a), não faltavam lá outros reis que lhe poderiam suceder. Sentiu o Mogor tanto esta resposta, que logo o mandou matar; o que sabido pelo pai, mandou dizer ao Mogor que nunca Deus quisesse que êle visse rosto de rei tão falso e tão grande traidor. E pondo uma touca ao pescoço, fez uma fala aos da fortaleza, lembrando-lhes como o inverno estava perto, e o Mogor necessariamente havia de levantar o cêrco e voltar, por se não pôr a perigo de se perder com tôda sua gente; que a fortaleza só Deus a poderia tomar, ou a quem Deus ou êles a quisessem dar; e que a melhor e mais honrada sorte fôra sempre dos que pelejavam com razão; pelo que se deviam defender muito valentemente; e quanto a êle, não queria mais viver, por não ver o rosto a tão pérfido homem. Dizendo isto, correu o nó da touca e se afogou*. Morto -fi.,. êste abexim, os da fortaleza se foram ainda defendendo por algum tempo, com o que puseram em tanto cuidado ao Mogor, que depois de muitos meios que tomou para a render, vendo que não lhe sucedia, entrou em pensamento de a bater com artelharia; mas como nenhuma tinha, manda chamar os padres que trazia consigo. Diz-lhes que escrevam logo aos portugueses de Chaúl, que estava daí a cem léguas, o que êle também faria, como para bater aquela fortaleza havia mister artelharia e munições, que já que eram amigos, lhe mandassem (1) Nt. Giolhos. (2) Nt. Detendo.
  • 8 Do que fi\eram 05 Padres da Companhia logo uma coisa e outra. O padre lhe respondeu que S. A. queria uma coisa, que por nenhuma via podia ser, nem êle a podia pedir ou aconselhar aos portugueses que a fizessem, por ser expressamente contra a lei dos cristãos. Sentiu o bárbaro tanto esta resposta, que arrebatado com grande cólera, lhe disse que logo se fôsse para Goa, e não estivesse mais em sua corte. Saíram-se os padres de sua presença com resolução de se partirem. Mas um fidalgo seu amigo lhes aconselhou que o não fizessem, porque, se se partiam, podiam ter por certo que a poucas léguas os havia de mandar matar; que dissimulassem com êle até que a cólera lhe amainasse. Assim o fizeram; e não passou muito tempo, quando o rei os tornou a reconciliar consigo. Mas continuando no cêrco da fortaleza, emfim a veio a bater com a mais certa artelharia e peloiros, que foram os que acima dissemos de muito dinheiro e^ peitas, com que enfraqueceu os de dentro, de modo que vendo isto os sete príncipes, nenhum quis suceder no reino, porque entenderam (1) quão pouco lhes havia de durar. E assim foi que por derradeiro, dali a poucos dias, a fortaleza se lhe rendeu, e após ela o reino todo, e ficou senhor dêle e de todos seus tesoiros e riquezas, que eram muito grandes. Perdoou a toda a gente, mas os reis, assim o que já tinha em seu poder, como os outros sete sucessores, que estavam dentro na fortaleza, mandou levar desterrados e presos para suas terras, dando ao rei Mirim quatro mil cruzados, e a cada um dos outros dois mil, para passarem sua vida. Os sete capitães brancos lhe foram apresentados; perguntou-lhes quem eram; disseram que moiros; e mandando-os tratar mal, o Padre Xavier lhos pediu de mercê; respondeu que pelas leis dos portugueses •fi.9*. mereciam mortos, pois descen*dendo de cristãos, se fizeram moiros; mas já que lhos pedia, lhos dava. Entendeu logo o padre no remédio de suas almas, e foi o Senhor servido que todos se converteram. Mas não foi êste só o fruto que desta jornada tiraram os padres, porque também houveram a seu poder muitos filhos e filhas de portugueses que o irmão Bento de Góis levou a Goa. Àlém disto baptizou o padre por todo êste tempo muitos outros que passaram de setenta, dos quais alguns logo se foram ao Céu. E foi muito notável a salvação de uma criança, que um moço nosso achou lançada em um monturo como um pedaço de carne, o qual vindo avisar o padre, lha mandou trazer; baptizou-a, e daí a um dia se foi gozar de seu Criador, cumprindo-se bem nela: de ster- core ertgens patiperem, ut collocet et/m cum principibus. Neste meio tempo o padre Manuel Pinheiro que ficara em Lahor se veio ver com o Padre Jerónimo Xavier, assim por se consolarem ambos, por haver quási três anos que se tinham apartado, como por visitar a el-rei, o qual, como o padre se abalou de Lahor, o soube logo, e êle foi o primeiro que deu a nova de sua vinda ao Padre Xavier. Chegando o padre, o foram logo ambos visitar, levando-lhe de presente (porque nunca se aparece (2) diante dêle com as mãos vazias) uma imagem de Nossa S." em papel, bem guarnecida com suas fasquias. Estava el-rei assentado a uma janela assistindo ao despacho do povo, como costuma. Em vendo o Padre Pinheiro, o chamou logo e recebeu bem, e man- (1) Nt. Entendeo. (2) Nt. Parece.
  • Nas partes da índia, no ano de 6o / 9 dou-o cobrir, e descobrir o presente que lhe levavam; e como viu a imagem, abaixou logo a cabeça, e pôs as mãos pelo rosto, que é sinal de grande reve- rência, conforme a seu costume. Daí a pouco disse que a levassem e guar- dassem em casa, porque era descortesia estar êle em alto e a Senhora em baixo. Arrecearam os padres que aquela capa de reverência fôsse por lhe não contentar a imagem por ser de tinta sem cores. Porem o dia seguinte estando êle em casa à noite, e em lugar mais baixo aonde se podia falar com êle mais de perto, e onde não entram senão sòmente privados, entraram os padres, e lhe ofereceram outra imagem de Nossa Senhora do Loreto de Calaim doirada, com outras coisinhas curiosas; e di*zendo-lhe o Padre Xavier, como o Padre >fi. ■<>. Manuel Pinheiro vinha de Lahor a tomar os pés a sua A., que se lhe dava licença, chegaria mais perto, respondeu que se chegasse; e tomando-lhe o padre os pés, êle lhe fez muito agasalhado dando-lhe com a mão pelas costas, coisa que só a muito raros capitães e grandes privados faz. Vindo logo a imagem de Nossa S.a, abaixando a cabeça a tomou e pôs sôbre ela, e depois a tornou a reverenciar, com ajuntar as mãos muito devagar e diante de todos os capitães e senhores que aí estavam, com tanto respeito e veneração, que um cristão no exterior não pudera fazer mais, só lhe faltou por-se de joelhos, que é coisa que êles não sabem fazer e entre si desusado. Dizendo-lhe o padre, que aquela Senhora havia de ser a guarda de seus reinos, respondeu êle que bem sabia que a Senhora Alaria e suas coisas mereciam muita honra e respeito, e que dizer-lhe o dia atrás que recolhessem a imagem que lhe mostrava, fôra porque era descortesia estar êle em lugar alto e a Senhora Maria em baixo; e cobrindo êle mesmo a imagem, a entregou aos seus que lha guardassem. Perguntou do Papa e como era tratado dêle o Imperador, quando o ia visitar; e dizendo-lhe os padres, como o Imperador lhe beijava o pé, sim, respondeu êle, porque os cristãos teem ao Papa em lugar do Senhor JESLS. E acrescentando-lhe o padre, que para o Papa mostrar que não admitia esta honra, senão em lugar de JESUS CRISTO, tem sôbre o peito do pé uma cruz, para que o beijem, maravilhou-se grandemente ele e os seus. E con- tinuando-se a prática da cruz, e da estima em que a temos, e como nos sinalamos com ela, acertou de estar aí um mancebo fidalgo, que foi discípulo do Padre Manuel Pinheiro, o qual persignando-se (i), perguntou el-rei se o fizera bem; respondendo-lhe que sim, tornou a perguntar, porque o faziam na testa, na boca e nos peitos; ao que tudo se lhe respondeu largamente e êle íolgava , . . * Fl. io v. de ouvir *. É grande o desejo que sempre se viu neste tirano de ser senhor de Goa e das partes da índia que possuem os portugueses ou vizinham com êles; e ainda em suas razões e práticas de recreação trata disto muitas vezes; e neste ano, estando êle uma vez em paço com os seus tratando desta matéria, lhes dizia . com muita segurança, que acabando de tomar o Decanim, não haveria que fazer no de Idalcão, e que logo tomaria Goa e os portugueses. Acertou de andar em sua côrte um soldado português que para êle tinha fugido da índia. Este (i) Nt. Persinando-se. 2
  • IO Do que fizeram os Padres da Companhia ouvindo-lhe dizer isto, lhe pediu licença para falar; deu-lha êle, e o português lhe disse na língua pérsea: Senhor, V. A. fala muito seguro, e isso que diz, chamam na minha terra fazer conta sem a hóspeda. Se vossa A. tem os portugueses em tanta reputação, como diz que os tomará tanto a seu salvo? Porque ainda que eles fôssem galinhas, haviam-lhe de picar. Respondeu o Mogor: Eu não quero vir com êles às mãos, mas quero-os tomar à fome; ao que tornou o soldado: Senhor, V. A. está concertado com os portugueses, porque êles também dizem que o hão de tomar à sêde. Gostou êle da resposta e fez muito caso dela; porém seus desenhos são como poderá alcançar o que tanto deseja, e a êste fim manda muitas vezes algum seu, com nome de embaixador, a Goa, mas na realidade se entende mandá-lo por espia do que fazem e podem os portugueses, e sempre a tempo que possam alcançar a vinda das naus do reino, e notar o que nelas vem de fazenda e gente. E é grande providência de Deus querer êle trazer os padres consigo, porque além do bem espiritual de muitas almas que daí resulta, e de por êles se dar a conhecer o nome santíssimo de Cristo e sua lei àquela tão cega gentilidade, servem também grandemente a coroa dêste reino, em avisarem de lá de todos os intentos que descobrem dêste tirano, que podem ser prejudiciais ao Estado da índia. E seguindo esta traça, mandou também êste ano um embaixador seu, •fi.ii. que no fim de Maio chegou a Goa, moi*ro guzarate de nação e muito poderoso em renda e estado no reino de Cambaia. O título com que o mandou foi, que queria ;pazes fixas por mar e por terra, e que lhe mandassem dizer as coisas que podiam servir em Portugal e a el-rei para lhas mandar pelo em- baixador que determinava enviar-lhe. Foi recebido com grande aparato e acompa- nhamento de fidalgos e todo o mais que a embaixadores de semelhantes reis se costuma fazer em Goa. E a principal festa foi a salva da artelharia, que quási todo dia em roda viva desparou assim da cidade, como de tôda a ilha, pela haver muita e muito boa, cuja música o moiro entendeu bem. Trouxe de presente ao Vizo-Rei alcatifas ricas e uma onça de caça, e outro bicho mais pequeno, com um quartão de estima. Para o Padre Visitador duas alcatifas grandes; ao Senhor Arcebispo uma formosa mula. Mas muito diferentes foram as peças que trouxe e apresentou à fé o irmão Bento de Góis (que também mandado pelo mesmo Mogor veio em companhia do embaixador) que foram os meninos e moças mestiças, filhos de portugueses, nascidos naquelas brenhas da moirama e gentilidade, e que o Mogor, como acima disse, tomou na entrega da fortaleza e reino de Breampur(i), os quais em Goa se baptizaram com muita festa, fazendo-lhes o Vizo-Rei muitas mercês e sendo seu padrinho. Entre êles veio um português de noventa anos, de nação judeu, que havia 40 anos que professava publicamente o judaísmo. A carta que o embaixador trazia, na qual se contém a substância de sua embaixada, porei aqui para se ver o estilo tão estranho que tem do nosso. (1) Nt. Breangur.
  • Nas partes da índia, no ano de 6o i Carta do Mogor para o Vi$o-Rei da índia Mandado do grande da lei de Mafamede, alto rei, matador de reis inimigos, respeitado dos grandes, e mui alto em honra e dignidade, alevantado pelos reis, singular no govêrno entre os do mundo. Aires de Saldanha Vizo-Rei. Achando mimo e amizade sem medida do rei dos reis e engrandecido e privi*- • fi. n v. legiado por êle, saiba que como pela infinita mercê de Deus todos os portos do Indostão, desde o Cinde até o Chatigão e Pegu, estão debaixo de nossa mui alta prosperidade e sempre no coração real esteve diante dos olhos, que os tratantes e mercadores grossos pudessem ir e vir com toda a seguridade e descanso, e roguem sempre a Deus pelo acrescentamento contínuo de nossa prosperidade, especialmente os moradores dos reinos dos portugueses, que fora daquele reino não podem (i) ir e vir, e seu ordinário navegar é pelo mar do Indostão; por isso a honra real se aplicou e procurou que um dos criados da corte seja mandado por modo de embaixada, para que faça firmes os alicerces da amizade, de modo que não haja nenhum escrúpulo de dúvida nela. Por esta causa o Padre Bento de Góis foi mandado em companhia do bom servidor Cogequi sultão Samá para essas partes, para que de certo saiba que género de peças raras são estimadas em Portugal, e o modo do caminho e o estilo e maneira daqueles grandes; e informado com tôda a diligência e certeza de tôdas as coisas como passam, nos avise com certeza, para que conforme ao estado de cada um proveja nossa ventura de ir ou mandar. E alguns oficiais e artífices engenhosos, que tiverem vontade de vir a esta côrte real, que é como céu empíreo, dando-lhe de comer e vestir, os traga a esta côrte, amparo das criaturas, com esta condição, que havendo estado em nosso serviço, qualquer dia que se quiserem tornar a sua pátria, se lhes dará licença, como desejarem. Convém também que a todos êles lhes dê (2) esperanças, para que com seu gosto queiram vir beijar a ombreira de nossa côrte. E o fato, peças e pedraria e outras coisas semelhantes dignas de tesoiro, que quiserem comprar em tôda a maneira dando-lhes favor e ajuda a isso, assim o faça que depressa se torne, pois êle é dos servidores reais. As mais coisas dirá de palavra dando-lhe cré- dito ao que disser. Aos nove dias de Favardi de Deus, da era de quarenta e seis anos. A era chamam o tempo de seu reinado; o mês Favardi, chamam o primeiro mês do ano, o qual começa no dia do equinócio, que êste ano foi aos 20 do nosso Março *. «fi. 12. (1) Nt. pode (2) Nl. dem.
  • 12 Do que fizeram os Padres da Companhia CAPÍTULO IV Da residência do Lahor e do que nela sucedeu e grande respeito que os infiéis teem ao padre que nela está COISA de grandíssima maravilha e em que singularmente se manifesta a virtude divina e invencível potência da verdade da fé e Evangelho de Cristo: que no meio da mais espessa brenha de tôda a bárbara e fera moirama e gentilidade, que há no Oriente, qual é a dos muitos e grandes reinos do grão Mogor e no meio de seus próprios inimigos, esteja Deus, por um só servo seu que ali tem em uma pobre casinha e igreja da Companhia, assom- brando a todo o alcorão de Mafamede, sublimado ali em tão alto trono, e a tôda a idolatria da gentilidade, fazendo-lhe guerra e triunfando dela de tal maneira, que os próprios inimigos seus, moiros e gentios, e esses os principais e de mor potência, o estejam (i) confessando e honrando publicamente, e tratando a um pobre estrangeiro e só, com mor respeito, veneração e acatamento, que se foram muito finos cristãos, cumprindo-se ali à letra assim agora como sempre aquela profecia de David: Dominare in medio inimicorum tuorum — sêde senhor absoluto em meio de vossos inimigos, como tudo se verá do que dissermos nos capítulos seguintes, àcêrca desta residência; donde escrevendo o Padre Manuel Pinheiro, que é o que ali está, diz assim em uma sua: Vai em dois anos que estou aqui só e sem companheiro nesta sua residência de Lahor, por andar o Padre Jerónimo Xavier, com o irmão Bento de Góis com el-rei em o Decão; e como aqui corressem novas que o príncipe se vinha che- gando para esta cidade, e que se havia de alevantar com ela contra seu pai, e me perguntavam os amigos, que havia eu de fazer em tal caso, pois era feitura •Fi.nv. del-rei, a cujas coisas o príncipe* não mostra boa vontade, e particularmente a nós, por êle ser fino moiro e eu prègar abertamente contra Mafamede; e como eu respondesse que estava aparelhado para o destêrro, ou derramar o sangue pela fé e lei que prego, se maravilhavam e folgavam de ouvir a firmeza que teem os cristãos tão diferente da que êles teem em suas seitas. Quanto a nossos exercícios, acodem de ordinário a esta casa moiros e gentios a tratar das coisas de nossa santa fé, e como as perguntas sempte sejam as mesmas, as mesmas são as respostas. Uns tornam com menos crédito de suas seitas, outros ficam suspensos e duvidosos vendo a contrariedade que a nossa lei tem com as suas. Teem quatro livros cujos nomes são Forcão, Taurete, Zabur, Angil. Outros zombam, quando ouvem dizer haver outra lei melhor que a de Mafamede, e quando se vêem apertados com razões, dizem que seus entendimentos não alcançaram tanto, que basta crêr o que diz Mafamede, que todas as leis, posto boas, expirarão. Não podem sofrer que Deus tenha filho, porque como são tão carnais, não entendem a pureza como isto possa ser, nem alcançam mais que o modo ordinário, que os homens e os animais teem em os haver. Para os convencer lhes pergunto se Deus vê e ouve. Respondem (i) Nt. Estem.
  • Nas partes da India, no ano de 6o i i3 que sim. Pois, digo, se Deus não tem olhos nem ouvidos, como vê ? Como ouve? Respondem que por outro modo que nós não alcançamos. Volto então sobre êles e digo: Pois assim tem Deus filho por modo inefável que vós não entendeis. Também os gentios veem a confessar não haver mais que um só Deus; e já dizem não ter divindade Ramá, Chandre, Crisná, Nerrene, que são os seus deuses, e outros que adoram. E se nos teem aversão, é porque seus ministros e sacerdotes lhes ensinam, que os cristãos são bárbaros e ignorantes, da natureza de peixes, e que vivem na água, nem teem cidades nem terra firme, que comem ratos, gatos e outros animais imundos, que temos três Deuses, scilicet, Deus, JESUS e Maria. E contudo louvado Deus, tão seguro ando nesta terra, e com tanta liberdade* falo da lei de Deus e contra a de Mafamede e gentios, como •fi. 13. se a cidade fôra de cristãos. O Vizo-Rei e governadores desta cidade, mal saberei dizer quantas são as honras que nos fazem, o respeito, acatamento e sujeição que nos teem ao que lhes dizemos, ou pedimos. O Vizo-Rei diz tantos louvores de nós, que a modéstia nos desobriga a escrevê-los. Por muitas vezes me tem oferecido dinheiro para os gastos; sempre me escusei, dizendo que quando a necessidade me apertasse, a Sua Senhoria havia de acudir como a pai. Aceito-lhe todavia os presentes de coisas de comer, como de uvas, melões e outras frutas, por não ser havido por descortês. Visita muitas vezes nossa casa, acha-se com muito gosto e acompanhamento em nossas festas, pôsto que com grande pesar e raiva dos moiros, os quais por derradeiro, depois de as verem, ficam trocados em outros. Há nestas partes certos homens peregrinos, a que chamam darvexis (i), que é o mesmo que dizer pobres de espírito; mostram se desprezadores do mundo, porém na verdade sofrem a pobreza por necessidade; e em extremo são ambiciosos, e por tôdas as vias aspiram à opinião da honra humana, ainda que seja a troco da vida própria, como aconteceu nesta cidade os dias passados a um dêstes havido por santo de todos, e êle se tinha na mesma altura; o qual haven- do-se já por enfadado do mundo e parecendo-lhe que estava obrigado a deixar uma perene memória de si. se fez enterrar vivo por seus discípulos, dizendo-lhes que depois de muitos anos os tornaria a consolar. Outro dêstes pediu esmola a um soldado; negando-lha, respondeu que se mataria; acudiu o soldado pres- tes: Vês aí a faca. Ele a arrebatou, e metendo-a pela barriga, se fez imortal nos infernos. Ensinam êstes mil disparates (2). Uns dêles se fazem deuses dizendo que tôdas as criaturas o são; outros que não há mais que viver e morrer; outros que sempre foram e nunca deixarão de ser. Tem-lhes o povo grande respeito e os adora como a pagodes. Disse o Vizo-Rei uma vez, querendo louvar as nossas coisas, que todos os* seus sábios em respeito nosso eram «Pág.^ nada, e os darvexis (3), que são êstes de que falei, ficavam muito inferiores na virtude. Não é menor o crédito e amor que os governadores nos teem; assim nos concedem coisas que com muita dificuldade as alcançáramos em terras de cris- tãos, como foi perdão de duas mortes e outras coisas da mesma importância. (1) Nt. Darnexis. (2) Nt. Desbarates. (3) Nt. Darubexis.
  • í , 14 Do que fizeram os Padres da Companhia Havendo desavenças entre a justiça maior e tesoireiro del-rei, e postos já de parte com muita gente armada para romperem, os concertei; e contando-se depois o caso ao Vizo-Rei, dizendo uma das partes que o padre sabia o que passara, respondeu: Se o padre o sabe, isso me basta, porque mais crédito darei a êle, que a mil testemunhas. Morreu êste Vizo-Rei de que falo, e não lhe pude agradecer o grande amor que sempre nos mostrou, com o fazer cristão. Achou-se-lhe em dinheiro de contado, um conto de oiro e trezentos mil cruzados, fora muitas peças de oiro e prata e pedraria de muito valor, e outra muita fazenda, muitos cavalos e elefantes, porque no aparato excedia a todos os senhores de Espanha; mas o triste ficando-lhe cá tudo, foi ao inferno, herdando- -lhe o rei todas suas riquezas, conforme ao costume deste Indostão. Sucedeu a êste Vizo-Rei na dignidade um seu irmão, cujos filhos foram meus discípulos, e visitando-o pela nova honra, me disse que êle continuaria os favores e mercês que seu irmão nos fazia, de maneira que o não achássemos menos. E bem se viu logo; porque cuidando nossos adversários, que com a morte do Vizo-Rei, nos podiam começar a fazer o dano que desejavam, tomando um dêles ocasião do concurso grande e frequência da gente que concorria à nossa igreja, foi fazer requerimento ao Catual, que a mandasse derribar, e lançar os padres fora; respondeu-lhe que não podia ser, pois el rei queria que o padre ali estivesse com a igreja; porém se lhe nascia aquele desejo, de se ver ali assom- brado com êle, que fosse disputar com êle. Disse-lhe o ministro do demónio: •Pág.i5. Não ousará êle a disputar comigo. Respondeu-lhe a Catual: Tu és o* que não hás de abrir boca diante dêle, porque notório é a el-rei e a todos seu muito saber e o muito pouco teu. E sabendo o Vizo-Rei a muita importunação dêste, o mandou meter no tronco; o que sabendo eu, lho pedi e fiz soltar. CAPÍTULO V De como um gentio deu peçonha ao padre e lhe roubou a casa da pobreza que tinha NO meio de tantas bonanças e favores não faltam também borrascas e ocasiões de merecimento. Porque os gentios da vizinhança, por lhes fazermos certos parentes seus cristãos, nos alevantaram que comíamos carne humana. Porém assim êstes mesmos, como geralmente os moiros e gentios, nos respeitam, e de quando em quando se nos mostram benévolos, vendo como não sòmente pelos cristãos, mas também por êles intercedemos com o Vizo-Rei e governadores em seus negócios, acolhemo-los e amparamo-los na igreja, quando se a ela acolhem por alguns delitos, e tanto que a justiça sabe que estão nela, logo dissimulam com êles. Damos de comer todos os dias à nossa portaria a mais de cem pobres, afora os extraordinários. Entre êstes veio um mancebo de vinte anos, de nação fuxi- mir, na fisionomia (1) português, na aparência bom homem; pediu-me com muitas (1) Nl. Filosomia.
  • Nas partes da India no ano de 6o i i5 lágrimas o recolhesse, dizendo ser de nobre sangue e que o temor de seus inimigos, a que tinha agravado, o obrigava a andar desterrado; recolhi-o, determinando ganhá-lo à fé; dali a dois ou três dias trouxe outro, que dizia ser seu irmão, mas o bom do hóspede pretendia tirar-nos a vida e despejar-nos a casa; e por uma das nossas vigias lhe fazer o campo franco e não estarmos de todo fecha- dos, com facilidade pôde sair com seu intento. Foi-se um dêles à cozinha e aí na água de que bebíamos lançou doturo, o qual é uma semente, que ainda que não é peçonha mortal, é contudo tão eficaz, que em breve tira o sentido. Veio o tempo da ceia, comi do*is ou três bocados, e sentindo no comer alguma dife- * P1s- rença, arreceando o que poderia ser, me recolhi logo ao aposento de cima para repoisar. Comeram os moços de casa o que sobejou, e logo ficaram alienados e fora de si; procurei de vomitar, e tornando a beber da água, em que tinham deitado o mesmo veneno, deu logo comigo no chão. Finalmente tudo o demónio lhes preparou como queriam; porque eu não dava acordo, os moços estavam fora de si; a um dos que vigiavam mais fiel deram o doturo em um melão; o outro que me costumava a vigiar não veio aquela noite. Da banda de fora estavam vinte homens armados em guarda dos dois que estavam dentro; êstes subiram acima, e vendo-me estirado, me meteram em um cubículo. Foram-se a outro que estava fechado, onde suspeitavam estar nossa pobreza, pelo eu ter fechado e ter a chave dêle. Arrombaram-no; acordei às pancadas, gritei quanto pude, mas ninguém me acudiu, porque todos os de casa estavam em o mesmo traba- lho. Acudi à janela, lancei as portas na rua para que os vizinhos me acudissem, porque o meu gritar, por mais que fazia por bradar, era debalde, porque a peçonha me apertava e tinha tomado a garganta de maneira, como se tivera pesadêlo. Em fim os ladrões levaram o que acharam, que não foi muito em preço, mas foi-o na estima em que o eu tinha: um escritório pequeno onde estavam algumas relíquias e imagens excelentes e o sepulcro que o Padre Jeró- nimo Rodrigues trouxe de Jerusalém. Rompeu-se logo a coisa pela vizinhança, e soou na cidade que estava morto, e os vizinhos me vieram prantear à porta. Neste ponto acabei de tornar em mim, e chegando à janela, perguntando quem me pranteava, ficaram admirados e cheios de alegria vendo vivo a quem tinham por morto. Saí do cubículo onde me tinham fechado e até então estivera; fui ao próprio em que morava e os ladrões arrombaram; então acabei de entender o que era passado. Mas quis Deus guardar o remédio dos pobres, porque debaixo da cama ficou em uma canastrinha a principal pobreza que* havia. -pig. Tanto que o Catual, que é o governador, soube do caso, ficou suspenso; e man- dando logo diante o filho, veio após êle a ver o que passava. O Vizo-Rei neste tempo estava doente; mandou-me visitar, significando o grande sentimento que tinha do desacato, que os ladrões me fizeram; e que se o furto não aparecesse, êle o queria pagar todo de sua fazenda. Fui depois disto pela cidade; era grande o contentamento e alegria que todos mostravam em me ver; uns diziam: Este é o padre santo; mas êle não tem ceitil, porque os ladrões lhe levaram tudo. Outros diziam: Êste é o padre, a quem furtaram setenta mil cruzados; mas êle mais estima um livro que todo o dinheiro do mundo.
  • i6 Do que fizeram os Padres da Companhia CAPÍTULO VI De um presépio que fe\ o padre na fesla do Nascimento e da grande devoção que causou aos próprios moiros e gentios NA festa do santo nascimento do Menino JESUS fizemos um presépio, devoto e cheio de muitas coisas e mistérios da divina Escritura. Entre êles foram alguns profetas principais conhecidos desta gente, com suas profecias a propósito do nascimento, escritas em letra pérsea: a vinda dos Reis; a adoração que fizeram a Deus feito menino. Pasmaram os moiros ver que das Sagradas Escrituras constava abertamente ser Cristo nosso Senhor filho de Deus. Veio-o a ver o Vizo-Rei a primeira oitava acompanhado de tôda a nobreza; viu-o, notou-o e ouviu todos aqueles mistérios muito devagar. Representou- -se-lhe depois uma obra mui alegre ao mesmo propósito. No primeiro acto saiu Adão chorando seu pecado e as misérias que por êle vieram ao mundo; saíu-lhe ao encontro o santo velho Simeão consolando-o com certas esperanças do remédio, • Pág. 18. que pelo Messias já nascido se havia de dar a seus males. En*trou um filósofo gentio queixando-se dos sentidos pelo fazerem adorar as criaturas, ensinando a filosofia outra coisa. Nisto apareceram dois varões anciãos, aos quais perguntou pelo Deus que os criara e tôdas as outras coisas, que os olhos viam tão imper- feitas como é o homem; acudiu Adão dando-lhe notícia do pecado original em que todos nascemos e da perfeição em que Deus o criara. Depois teve uma larga disputa àcêrca da encarnação, morte e paixão do Senhor. Ultimamente como tinha Deus filho, sendo substância simplicíssima. Rendeu-se o filósofo e confessou a Trindade das pessoas e a unidade da essência. No segundo acto, entrou a divina justiça e a misericórdia contendendo entre si sobre o pecado de Adão. No terceiro acto apareceu o anjo dando as boas novas do nascimento temporal do Filho de Deus ao mundo, o que ouvindo uns brâmenes ficaram pas- mados; mas um pastor que de Belém vinha, lhes declarou como o menino nascido era o Filho de Deus, que vinha a salvar o mundo e não a matar homens, como seus falsos deuses. Com esta representação formaram todos diversos conceitos, do que antes tinham de nossas coisas. O concurso da gente foi muito grande; durou o presépio por espaço de quarenta dias, de maneira que sempre a igreja estava cheia, assim dos naturais da terra, como de estrangeiros, que de muito longe acudiram. Entre êles vieram alguns rajás(i), que são príncipes e senhores grandes, que também folgaram de ouvir nossas coisas. E é grande a devoção, que todos geralmente mostram ao santo Menino de Belém. Quem os vira prostrados diante dêle, dissera que não havia mais devoção, nem melhores cristãos no mundo; porém tôdas suas petições se rematavam em pedirem filhos e riquezas. Alguns dêles ofereciam também ao Menino seus presentes. Veio também a visitar o presépio o Catual com grande matinada de gente, que o acompanhava. Dava-lhe razão de tudo o que perguntava, um menino (1) AV. Rayas.
  • Nas partes da India, no ano de 6o / *7 brâmene; perguntou-lhe cujo filho era. Respondeu: Sou filho de brâmene e crio-me para cristão. Por*que queres ser cristão? disse o Catual. Respondeu «Pág. 19. o menino: Porque na lei dos cristãos só há salvação, e na dos moiros e gentios ninguém se pode salvar; o que para o Catual foi uma grandíssima bombardada, por ser finíssimo moiro. Estando uma mulher diante do santo presépio, lhe arrebentou o leite com tanta fúria, que o não pôde reter á vista de todos, por andarem dos peitos mal cobertas. Houve grande rebuliço na gente; acudi a ver o que era; respondeu a mulher, que lhe causara tanta devoção o Menino JESUS posto nos braços da Virgem, que lhe arrebentara o leite com desejo de lhe dar de mamar. É a imagem de nossa Senhora tão devota, que o Vizo-Rei disse muitas vezes que lhe roubara a alma e o coração. Não foi menor o concurso aos ofícios da semana santa e festa da Páscoa, na qual se achou também presente o Vizo-Rei, apesar dos moiros, que lhe pediam muito não autorizasse tanto as festas dos cristãos. CAPÍTULO VII Da conversão de alguns gentios e outros casos de edificação QUANTO ao principal fim e intento desta missão que é a conversão das almas, vai tão devagar, que não há poder entender este negócio, nem o que Deus determina fazer; porque por uma parte a grande esterilidade, que vemos nesta grande e agreste mata, nos faz totalmente desconfiar desta gente, havendo o tempo por não tão bem gastado, quão bem se pudera gastar com outra, que mais se aproveitara. Por outra as flores que, donde homem menos cuida, arrebentam de quando em quando, nos tornam a dar esperanças de colhermos em algum tempo, de terra, agora tão estéril e infrutífera, muito fruto. Os que todavia * este ano baptizei, foram por uma vez trinta e nove, • I'ig. *>. por outra vinte, por outra quarenta e sete; e por este derradeiro baptismo se fazer na oitava da Assunção de Nossa Senhora, foi esta festa bem solenizada com muitos instrumentos de fogo, charamelas e atabales ao modo da terra. Ajuntar-se-iam na igreja passante de cem cristãos, afora muitos gentios que concorreram a ver. Do número destes baptizados foram dois filhos de infiéis meninos, os quais seus próprios pais trouxeram à igreja para que os fizéssemos cristãos; parece que eram estas ditosas almas escolhidas e escritas no livro da vida, porque pouco depois de os baptizar, ficando os pais em suas idolatrias, eles se foram a gozar de Deus. Outra mulher de casta nobre, a qual tratando por muitos anos com cristãos sempre esteve pertinacíssima em sua maldita seita, chegada às portas da morte, me mandou chamar, dizendo que queria morrer na lei do Senhor JESUS para se salvar; instruí-a o melhor que pude conforme ao tempo, que era pouco, por estar já quási no cabo, baptizei-a, foi gozar de Deus. Uma mulher vendo o santo presépio tocou-a Deus de maneira, que se não atreveu a tornar para sua aldeia sem primeiro se fazer crista; e porque nao sabia 3
  • 18 Do que fi\eram os Padres da Companhia o modo como o havia de ser, perguntou-o a uma gentia nossa vizinha, por cujo meio ficou catecúmena com um criado que trazia. Uma mulher vindo muitas vezes à igreja, vendo a modéstia dos meninos que nela se criam, se moveu a ser cristã com o marido, filhos e nora. Os parentes que eram muitos sentiram o caso, e feitos em um corpo deram em sua casa e a espancaram por se fazer cristã; no meio das pancadas dizia: Tirai-me embora a vida, pois já Deus me fez mercê de me tomar por sua. Um mancebo de casta xaque (que são aqueles que entre esta gente teem reputação de santos) se baptizou, cuja conversão espantou muito a todos os que o conheciam, por ser dantes inimigo capital dos cristãos e ter perseguido grandemente a um seu irmão por o ser. Este tinha • Pág.21. ido* a Meca descalço por sua devoção, para aprender melhor a lei de Mafa- mede; gastou neste estudo doze anos; tornando como graduado a sua terra encontrou-se comigo; disputámos; convence-o Deus. Dadas as mãos, disse que nunca em Meca se lhe aquietara o coração; porém que agora sentia tôda a con- solação, alegria e satisfação de sua alma e lhe descobrira Deus muitas coisas, que muitos anos havia desejava saber. Bem catequizado e baptizado, o mandei ao Padre Xavier, porque o podia servir e ajudar muito na conversão. Uma mulher chacata, casta própria real, ainda que com muita repugnância de seus parentes, seguindo porém o exemplo de sua mãe já baptizada, se fez cristã. Um gentio, ouvindo por vezes coisas de nossa santa lei, se resolveu a tomá-la com mulher e cinco filhos. Um brâmene à vista do santo presépio se determinou deixar os pagodes e me trouxe logo o principal que tinha, que era de pedra preta mui bem lavrada. Aos domingos há pregação em língua pérsea; acodem sempre muitos gentios a ouvir; mostram ficarem satisfeitos. Com os catecúmenos vou de- vagar para provar bem seus desejos, porque assim importa nestas terras aonde hão de ter tantas contrariedades. Um catecúmeno disputou com certos gentios, e convencendo-os, acolheram-se às blasfémias, como costumam; mas o que mais nelas se largou foi logo divinamente castigado, vindo pelo ar um tijolo em pre- sença de todos, que lhe quebrou a bôca. Outro gentio diante de mim jurou falso, ajuntando que prêso fosse êle e desonrado, se o que jurava não era verdade. Não tardou a divina justiça muito com a pena de seu perjúrio, porque logo ao dia seguinte foi prêso por ladrão, e vendo-se afrontado não esperou outro algoz; êle mesmo por si se matou às facadas. Ficaram os gentios com êste caso em extremo atemorizados. Um moço achando-se presente em uma festa, em que os gentios adoram o fogo, fugiu para nossa casa, pelo a mãe querer constranger a fazer aquela adoração; tem por isso padecido muito; mas êle se vinga bem •pag.22. dos que o perseguem, dizendo-lhes mil males* de seus pagodes. Outro me veio perguntar se era pecado adorar os ídolos. Respondendo-lhe que sim, prome- to-vos, disse, padre, de nunca mais os venerar, ainda que meu pai por isso me tire a vida. E por isso também não quero ir ao saimento, que êle agora manda fazer por seus defuntos. Dizendo eu a êste porque não me trazia o pagode do pai, respondeu que fácil seria trazê-lo; mas que resultaria daí outro mal peor, porque diria o pai, que o seu pagode se fôra para o céu, como dissera outro gentio desaparecendo-lhe o seu. Vindo o pai aquela noite para casa, tocando o pagode e achando-o quente, disse que o pagode estava anojado;
  • Nas partes da índia, no ano de 6o i 19 riu-se o menino e disse-lhe: Se todo dia esteve ao sol, não há de estar quente? Também o eu estarei, se me puserem ao sol. Ficou o pai envergonhado e ensi- nado por quem houvera de ensinar. Outro moço brâmene foi muito perseguido do pai porque se fizera cristão; teve êle pouco de ver com isso; antes pedindo- -lhe a mãe, que desse de comer ao pagode, por ela ser mulher e o não poder fazer e seu pai ser fora, respondeu o menino: Mãe, o comer comei-o vós, que pedras não comem. Indo o pai dêste para uma aldeia, sobreveio-lhe no caminho de repente um pé de vento, o qual levantou tão grande poeira, que perdeu o caminho, e metendo-se pelo mato sem saber por onde ia, apareceu-lhe uma pessoa de aspecto grave, que lhe perguntou quem era. Respondeu: Sou brâ- mene. Acudiu o que perguntava: Por ora te perdoo, porque deixas ir teu filho à igreja. Contou o caso aos vizinhos, e ficaram mais bem afectos e determi- nados a não impedirem a seus filhos o trato com a igreja. Por meio de um destes moços tomei amizade com um principal de certa povoação; fui visitá-lo em conjunção que havia grande falta de água; acertou de chover copiosamente estando com êle; e como esta gente é tôda dada a seus agoiros, assim êle como os moradores daquele lugar me ficaram tão afeiçoados e à lei que lhes preguei, que logo confessaram ser ela a verdadeira; e mostrando-me a mesquita, me disseram que tomasse posse dela e a fizesse igreja . *Pág.a3. Alguns arménios se reduziram à obediência da Igreja Romana; outros dei- xaram as moiras e gentias com quem estavam embaraçados; outros se casaram na face da Igreja. Andam universalmente os arménios, que em estas terras vivem, mais a ponto que dantes, por entenderem que o Vizo-Rei nos favorece em quanto queremos, e ter mandado à justiça lance fora da cidade todos aqueles que lhe apontarmos (1). Ajudou também muito morrer no caminho arcebispo, que êles esperavam, o qual sendo impedido em Ormuz para não passar à índia, deu volta pela Pérsia para Lahor; e nesta jornada faleceu de- samparado do socorro divino e humano, foi roubado dos livros e de quanto tinha. Cuidam cá os arménios que vinha por arcebispo da Serra dos cristãos de Santo Tomé do Malabar. Os livros me vieram ter à mão, a-pesar dos arménios, que dêles queriam fazer serviço a El-Rei. Aos dez de Julho de seiscentos houve um eclipse de Sol pela parte meri- dional; e neste dia foi bem aos brâmenes pelas muitas esmolas, que tiraram do povo ignorante, metendo-lhe em cabeça que o Sol e a Lua pelejavam, nem haveria paz e concórdia entre êles, até lhes não darem muitas esmolas; junta- mente se foram lavar ao rio, parecendo-lhes que com êste lavatório ficariam limpos de seus pecados, que diziam ser a causa daquelas duas lumieiras pele- jarem, e tirados do rio tornariam a sua claridade e antiga concórdia. (1) Nl. Apontaremos.
  • 20 Do que fi\eram os Padres da Companhia CAPÍTULO VIII Da grande constância, que mostrou um mancebo catecúmeno, nas contradições e batarias que teve de seu pai e parentes, por se fa\er cristão SOFREM tão mal estes gentios e principalmente brâmenes, por quão cegos estão em suas idolatrias, que seus filhos se façam * cristãos, que êste é o mor impedimento, que a lei de Deus tem nestas terras para fazer o Iruto que se desejava; e assim padecem os pobres moços catecúmenos muitas vexações e trabalhos dos pais e parentes por deixarem as seitas em que se criaram. A um destes espancou um seu tio por vir à igreja, sofrendo-o êle com muita paciência, como dizia, por amor do Senhor JESUS. A outro moço brâ- mene catecúmeno apartaram os pais por força da igreja e o mandaram longe da cidade a viver entre os parentes, para que se esquecesse. Porém êste, havendo-o já os pais por seguro, veio aqui pelo Natal a visitar o presépio tra- zendo seu presente de certos doces ao Menino, e não se atrevendo a lhos ofe- recer por sua mão, disse a outro moço da igreja que os pusesse no altar, que êle os oferecia ao Menino; disse-lhe o outro que os pusesse, pois os trazia. Respondeu êle: Eu não sou digno de chegar ao altar, pois até agora não sou cristão. Depois tomou água benta, e feito sinal da cruz, com a touca fora, posto de joelhos disse. Senhor JESUS, Senhora Alaria, lembrai-vos de mim e de minha alma, que não se perca. Vendo-o alguns gentios de joelhos, a touca fora, mãos alevantadas, perguntaram lhe que queria dizer aquillo. Êle, como se os não ouvira, sem lhes dar resposta, continuou sua oração, a qual acabada, se foi mui contente. A outro, porque tanto ao descoberto se dava por cristão, determi naram seus pais matá-lo muitas vezes com peçonha, de que sempre Deus o livrou. E porque o processo da perseguição deste, e a constância com que nela se houve, foi uma das mais ilustres coisas e de maior glória de Deus e triunfo da fé que nestas partes aconteceram, a contarei mais por extenso. Criou-se êste moço na igreja por muitos tempos, chamava-se Polada (nome de um deus dos gentios), era de 20 anos de idade e já casado, de nação brâmene, de ofício pandito, e filho de um dos principais da cidade; era catecúmeno, mas declarava-se tanto ao descoberto por cristão, que zombava das seitas dos gentios. Houveram os pais isto por afronta sua; determinaram •Pág.25. assim por si, como por indús*tria dos-parentes e conhecidos, apartá-lo da igreja e de seu bom propósito. Resistiu sempre o mancebo varonilmente; e vendo como a mãe de dia e de noite não cessava de o desinquietar, apertando com êle não tomasse a lei dos cristãos, se determinou dar repúdio a pais, parentes, mulher e irmãos e a tudo que tinha, e vir-se, como veio, meter na igreja para nela servir ao Senhor que o chamava. Sendo já neste tempo tido e havido de todos os gentios por escomungado e perdido, neste tempo começou também a mulher a descobrir o desejo que tinha de se fazer cristã com seu marido; o que vendo os pais do marido, deram com ela fora da cidade dentro de uns matos, e ali metendo-a dentro de um sino-samão, a obrigaram jurasse de mais
  • Nas partes da índia, no ano de 601 21 não ver marido, nem se fazer cristã e de se queimar, porque fazendo-o assim seria santa e de todo o mundo por tal reputada e venerada. Teem estes entre si que a mulher que por seu marido se queima, vai logo, assim ela como todos os seus parentes até à quarta geração, ao céu. Mas a moça não quis ser santa por tal caminho, antes disse com muito ânimo sempre: Sou cristã, não quero ir ao inferno. O mesmo repetiu por vezes em uma aldeia onde a guardaram, diante dos parentes todos, os quais, com as toucas fora, a choravam e pranteavam como morta. Pretenderam os gentios nesta retirada da môça, que o marido a fôsse buscar e lá tomá-lo às mãos; porém a mulher contra vontade de todos se veio meter com êle na igreja, dizendo que queria morrer na lei de seu marido. A mãe, vendo como o filho a tinha já deixada, tornou às boas e, vindo por vezes à igreja, dizia que era contente que o filho fôsse cristão, mas que não fôsse publicamente, nem na noite do Natal, em que o moço desejava receber o baptismo. Acrescentava mais que ela, seu marido e filhos queriam também ser cristãos. Fiou-se o padre das boas palavras, deu licença que levassem o moço para casa; porém a má mãe o que não pôde acabar por si, procurou acabar por meio de certos feitiços, que lhe lançou no comer e beber para que o * moço • Pág. perdesse a afeição da igreja e desejo de ser cristão. Não aproveitaram os feiti- ços tanto, quanto ela quisera; porque, ainda que o moço por um pouco de tempo ficou tão doido pela mãe, que não podia estar um momento sem a ver, e esquecendo-se de todo o mais, só bradava: «Minha mae, minha mae», contudo o Senhor que o chamava, o livrou da pressa deste trabalho, tornando-lhe seu inteiro juízo. Pelo que o moço dêste tempo por diante se guardou, não comendo, nem bebendo coisa alguma da mao da mãe. Não desistia ela porem de seu intento, e chegou a tão diabólica fúria, que cinco vezes pretendeu matá-lo com peçonha; mas de tôdas o livrou Deus, tendo-a já quási na bo^a. Pelo que o padre, vendo o risco que o moço corria, o tornou a recolher em casa. Mostta- ram com dissimulação o pai e mãe sofrê-lo bem por algum tempo; mas vendo-se de todo desenganados da fortaleza do filho, convocando os parentes, se vão juntos à nossa porta, dão grandes gritos, fazem grande alarida, dizem que o padre lhes tomava seu filho por fôrça e o queria, em que lhe pese, fazer ciistão. Ouvindo-os o padre, manda sair o moço fora, que desse razão de si. Em o vendo o pai e parentes fora da porta, arremetem como tigres, prendem-no, procuram tirá-lo fora da cidade. Porem o bom mancebo animosamente se defende de todos, principalmente da mãe que lhe ferrava pelos pés, e com eles livrando-se dela e, com as mãos e braços, do pai e parentes, mais fez do que aconselha São Jerónimo: Per calcatum perge patrem, per calcalam per ge ma- tem. E tão fero se mostrava contra os parentes, que nenhum ousava chegar a êle e, havendo à mão um pedaço de espada, a alçou sôbre a cabeça do pai que mais o perseguia. Chegou o padre neste tempo a êle e lha tomou da mão e bem contra vontade do moço, o qual sem dúvida que se o padre não lôra, tratara mal o pai; porque, como ainda estava novo e pouco destro nas coisas da lei de Deus, cuidava que não bastava livrar-se sòmente das mãos dos que o perseguiam e queriam fazer tornar atrás, mas que os podia também sem escrú- pulo matar, e por*isso dizia: Deixai-me, deixai-me matar êstes idólatras, adora- «Pág. dores de paus e pedras, que me querem impedir minha salvação, e fazer ir como
  • 22 Do que fi\eram os Padres da Companhia êles ao inferno. Vendo-se os gentios frustrados de seu intento, que era pren- derem-no, ou pelo menos sair desta festa algum dêles ferido, para se poderem queixar, toma a mãe uma criancinha, filha sua de ano e meio, e arremessa-a nos degraus dentro da portaria com tanta fereza, como se fôra um pedaço de pau, a fim de a matar ou mal ferir; e cuidando que a menina da pancada ficaria esmagada, alevantam uma grande grita, que o padre lhe matara sua filha; mas levantada a criança por êle do chão e tomando-a nos braços, a achou dormindo sem lesão alguma, nem sinal disso. Por aqui se acabou este encontro; mas passados alguns dias repetem com igual fúria a bataria; trazem em ajuda os mais honrados gentios da terra; desengana-os o moço, dizendo que nem pela vida havia de deixar a lei de JESUS; em testemunho disto quebrou a linha, que ainda tinha ao pescoço, que é sinal, com que mais professam ser gentios, e fazendo-a em quatro pedaços a lançou sôbre a cabeça da mãe, e tomando uma tesoira cortou com suas próprias mãos o sendi da cabeça, que é certa guedelha comprida que trazem, sinal também de gentilidade; coisa que para todos estes gentios foi de estranho espanto, por ser caso extraordinário e nunca entre êles acontecido. Dos circunstantes, uns se retiram logo e se vão envergonhados; outros gentios graves que vieram de socorro, pedem perdão ao padre, dizendo que por amor dos pais daquele moço os quiseram acompanhar ali, cuidando que se lhe fazia fôrça, mas agora que lhes constava da vontade do moço, não tinham já que fazer. CAPÍTULO IX Prossegue a grande fortaleza com que se houve éste mancebo em outra maior bataria, que lhe foi dada por seus pais e parentes MUITOS encontros outros teve êste bom soldado de Cristo dignos de se escreverem e porem em memória; mas por evitar* prolixidade, só referiremos o último, onde o demónio mais largou contra êle tôda sua retaguarda. O qual foi o seguinte. Persuadiram os pais e parentes a uns gentios honrados que assistem diante do Nababo que é justiça mor, e servem como desembargadores na relação ante o Viao-Rei, que apresentassem na mesa um libelo infamatório contra o padre, no qual o infamavam e acusavam de crimes mui feios, e os menores eram comer carne humana, furtar moços e man- dá-los vender a Goa, ser o mor feiticeiro do mundo, e para seus feitiços matara um moço e lhe cortara a cabeça, e tomando os dentes de certa ave nunca vista, fizera certas confeições, com que enfeitiçava a gente e fazia o que queria. Estes, mais pelo zêlo que tinham de sua seita, cujo agravo haviam que era deixá-la aquele mancebo e fazer-se cristão, que por entenderem ser verdade o que se continha no libelo, o aceitaram, e chamando também de companhia a todos os panditos, o apresentaram ao Nababo e lho recitaram todo com grandes espantos. O padre, como muitas vezes costuma a visitar o Nababo, acertou de chegar também naquele ponto a o visitar, sem saber o que passava, nem o que êles naquele tempo estavam urdindo contra êle. Dissimulou o Nababo; e como se não tivera ouvido coisa alguma, nem uma só palavra falou ao padre em o
  • Nas partes da India, no ano de 6oi 23 negócio, antes praticaram em outras coisas bem diferentes. Tornando-se o padre, encontrou o Catual que é como Regedor, o qual lhe contou tudo o que os gentios passaram com o Nababo; e acrescentou mais que o Nababo queiia ver o moço, que lho mandasse. Fê-lo assim o padre; foram diante do Nababo o moço e sua mulher, que neste tempo estavam já baptizados; acham presentes o pai e a mãe, não consentindo o Nababo que outros mais aí estivessem, tirando o Catual e alguns poucos privados; faz logo pergunta ao mancebo, se eram aqueles seus pais. Responde: Dantes, quando eu era idólatra, os havia por tais; porém agora que sou cristão e êles os mesmos, digo que os não conheço por pais. Aqui levantam os pais a voz, e gritando diziam, que o padre era um tal* e qual, que lhe tinha enfeitiçado seu filho. Acudiu o Nababo, e não .Pág.j* sòmente os afrontou de palavra chamando-lhes de infamadores e mentirosos, mas também os mandou servir de mui boas pancadas e bofetadas, acrescentando que êle conhecia os padres, e sabia serem homens santos e não os que êles diziam. Vai por diante nas perguntas ao mancebo; pergunta-lhe se é cristão; respondeu que sim. Repete: Quereis deixar essa lei? A vida sim, respondeu o moço, mas a lei do Senhor JESUS, que eu uma vez por sua misericórdia recebi, essa não. As mesmas perguntas fez à mulher; a qual com mais ânimo e esforço do que se esperava da fraqueza de sua natureza, respondeu com igual resolução e firmeza que seu marido. Disse-lhe então o Nababo: Rhamathegodá, quer dizer —a bênção de Deus cubra a tal moça. E virando-se para os pais, dússe: Vós que quereis já a êste moço? Êle não é menino; já é homem, tomou êle e sua mulher a lei de cristãos, a lei é boa, por tal a teem, a vossa não a querem; i-vos para casa e deixai-os, que boa lei souberam escolher. E de secreto mandou ao Catual guardasse o moço; e êle o levou para sua casa, onde o teve doze ou treze dias, tratando-o como sua própria pessoa, não consentindo que outio tratasse ou falasse com êle que os cristãos. Neste tempo foi o padre falar com o Nababo, e em o vendo os gentios, que com êle estavam e que dissemos eram como desembargadores, se levantaram contra êle com grande indignação queixando-se e dizendo muitas palavras des- compostas. Porém não foi necessário defender-se o padre, nem tornar por si; porque o Nababo o fez singularmente, louvando juntamente a lei de Cristo e com tanto zêlo, como se fôra professor dela mui verdadeiro, acrescentando que os gentios não tinham lei nem livros nem profetas e que eram bidim, que quer dizer sem lei; mas os cristãos, dizia, teem lei boa e santa, que e a do Senhor JESUS, teem livros e profetas; e por isso o moço fez muito bem de deixar os pagodes de pau e pedra e tomar a lei santa. Repetindo os gentios ser o moço de menor idade, respondeu: Por*que dizeis isso? Eu o vi e a sua .Pig.so. mulher; sobeja-lhes idade, e tão firmes estão na lei que tomaram, que me dis- seram que por mais que lhes tirassem as vidas, não haviam de deixar a lei do Senhor JESUS. É êste Nababo tão favorecedor da lei de Cristo, que não sòmente a detende contra os gentios, mas contra os próprios moiros cuja seita segue. E estando eu uma vez com êle, (diz o padre em uma sua) e juntamente muitos capitaes de El-Rei e um mulá, que já diante do mesmo Rei, bem nos enfadou, movida prática da lei, viemos à disputa, na qual o Nababo assim solenizava, aprovava
  • 24 Do que fizeram os Padres da Companhia e fazia aplauso às razões que eu dava, afirmando ser aquilo clara verdade, nem haver ali que responder, e com tanta alegria e gosto o repetia, como se fora fino cristão e não moiro; de maneira que o mulá enfadado disse: Se Vossa Senhoria se põe da parte do padre e defende a lei dos cristãos, quem ousará a con- trariar e defender a lei do Senhor, id est, Mafamede, a quem por antonomásia chamam o Senhor. Ao Nababo deu pouco disto, porque êle, como já me tem dito, nenhum crédito tem em Mafamede, nem o vi nunca tomar na bôca, não faz numaza, nem jejua o Ramadão; mas se escapou da Sila, caiu em Caribde, porque tem cem mulheres contadas, que será difícil deixar. Tornando à história do nosso bom soldado; o Nababo por não ser tido por parcial, e tratar aquele negócio mais pela amizade do padre, que pelo direito, vendo os clampres que os gentios cada dia faziam, remeteu o caso aos cateris, que é um género de gentios graves, diante dos quais os brâmenes e panditos arrazoaram por si dizendo que desde o princípio do mundo até então se não vira no Industão caso semelhante; que sem dúvida, se El-Rei o soubesse, se enfadaria e o tomaria muito a mal, porque querendo uma vez o filho de Fuão brâmene ser moiro, El-Rei não sòmente o não consentiu, antes o repreendeu de maneira, que o fez mudar a vontade. Ouvindo isto o Nababo, o doestou de besta, e indo-se disse o Catual, que fossem também chamados os panditos, e • Pág.3i. diante dêles fôsse outra vez perguntado o moço pelos juí*zes se queria tornar à lei gentílica, e que querendo, o entregassem a seus pais e parentes; porém se estivesse firme na lei que tomara, o entregassem logo ao padre. Antes de se dar fim a este mandado, o Catual o mandou, sem o padre o saber, a casa do coxi dos gentios, que é como seu provisor; levaram o mancebo quatro ou cinco mil gentios com os pais e parentes, e afora isto, estavam as ruas por onde passava, janelas e eirados cheios de tão inumerável gente, como está dia de Corpus Christi, a rua nova de Lisboa, até se fecharem todas as boticas para irem ver êste espectáculo. Metida pois a ovelha no meio de tantos lobos, lhe fizeram muitas injúrias, deram-lhe muitas pancadas e bofetadas, não lhe podendo valer a gente do Catual, que pelo aperto ser grande e gente muita, não podiam atinar com os que assim o tratavam. Nem se ouvia outra coisa em toda aquela gente, senão grandes gritos, que diziam: Maldito sejas, pois deitaste tinta no rosto de tôda a gentilidade, atrevendo-te ao que nunca algum outro de tua geração se atreveu. O mancebo mui seguro e risonho lhes dizia. Vós outros não sabeis o que dizeis, por isso falais assim. E no coração, como depois contava ao padre, ia sempre dizendo: Senhor JESUS, muito folgo de padecer estas afrontas por vós; ainda que venham muitas mais, nunca deixarei de ser vosso. Afirmava que nunca tão alegre, nem consolado se achara em sua vida, como naquele transe, em espe- cial nos tempos, em que diante dos juízes confessava ser cristão. Pasmavam os moiros e gentios de tão grande constância em um mancebo e cristão de seis meses. Chegados a casa do coxi com o mor estrondo que dizer se pode, foi dele bem recebido. E os pais parecendo-lhes tê-lo já na mão, pegavam dele de maneira, que não bastando o muito que o moço trabalhava pelos afastar de si aos coices, foi necessário ao próprio juiz mandá-los afastar. Começou o juiz sua bataria, dizendo-lhe a injúria que aos gentios fazia, a má lei que recebia, a
  • Nas partes da India no ano de 601 25 desconsolação que dava a seus pais e parentes, acrescentando que lhe ajuntaria dos gentios 2.000 rupias, que são certas moedas, para remediar sua vida, e mais lhe daria 200 para se* ir lavar à Ganga (é a Ganga o rio Ganges) e .i'ig.3i. cuidam êstes gentios que todo o que nêle se lava fica limpo e absolto de culpa e pena. Eu vi, diz o padre, o ano passado um brâmene mais remendado que um capucho, com 3o ou 40 rosários de contas ao pescoço, apregoando seu jubileu, e não dizia mais que ganga, ganga, ganga (1). Aqui queria o juiz gentio se fôsse lavar o novo cristão do pecado grande que fizera em aceitar a lei de Cristo. A êstes partidos acrescentou ainda outros, mas em resposta de todos disse o moço: Tanto estimo dez mil rupias vossos com o inferno e perdição de minha alma, como este cuspo; e mais quero, quando me faltasse o necessário, um damaris de esmola dos padres, que cem mil rupias vossos. E quando os padres me não quiserem recolher em sua casa, como até aqui fizeram, eu me darei por assaz satisfeito de estar na escada de sua portaria comendo os sobejos dos moços que os servem. A isto o gentio com o rosto carregado e semblante feroz lhe disse que o mandaria matar, se logo não desse de mão àquela parvoíce dos cristãos e tomasse melhor conselho. Já tardais, disse o moço, executai vosso desejo, prestes estou para morrer, porque êste foi sempre e é meu desejo-, e maravilhado estou, que querendo um gentio ser jogue ou moiro, não há quem fale nem o contradiga, e querendo ser cristão, parece que até o próprio inferno o quere estorvar; e daqui colho eu a diferença de vossas seitas e da minha lei. As vossas por serem dos demónios, ninguém as contradiz; a minha por ser de Deus verda- deiro, é por vós e por todo o inferno contrariada. Virou-se o juiz para os pais dizendo: Êste já é perdido, não há mais que trabalhar com êle. Com esta sentença deu fim ao juízo e os despediu. Porém se à ida padeceu o bom soldado de Cristo desonras, afrontas e pancadas, muito mais (desenganados já os ministros do diabo) foram as que, ao sair do tribunal e indo pelo caminho, foi padecendo; o que sabendo o Catual, se enfadou por extremo, e mandou muita mais gente para o acompanhar e defender, mas tudo isto era pouco para a multidão de gentios que concorria *. *Píg. 33. Não foi êste ainda o último transe, porque da casa do Catual o levaram a casa do caciz de El-Rei, que é como bispo entre os moiros. E depois de tôdas as perguntas, a que respondeu com ânimo invencível, como outro S. Francisco, à petição dos pais e parentes, fêz uma pública renunciação de todos os bens e herança, que dêles lhe podiam vir. b eita a renunciação, mandou o caciz ao juiz, a entregasse na mão dos pais, e ao moço levasse à igreja, e o entregasse ao padre. Era para ver a alegria e a festa que fizeram os poucos cristãos que ali estão, vendo sair o valoroso soldado de Cristo com tão grande vitória, a gentilidade ficar envergonhada, os moiros confusos, o inferno frustrado, a fé de Cristo triunfadora. O seguinte dia o levou o padre a casa do Nababo, e êle o recebeu com muito amor, louvando-lhe muito o que fizera, e a fortaleza que mostrara na lei do Senhor JESUS. (1) Nt. Ganha, ganha, ganha. 4
  • 26 Do que fizeram os Padres da Companhia Pergunta-lhe: Pois se sois cristão, que é da cruz? Mostrou-lhe o mancebo um relicário que na cabeça trazia; não se satisfez, dizendo: Isso não é cruz, é outra coisa. Vendo o moço sua porfia, tira do pescoço as contas onde tinha a cruz e mostra-lha; tomou-a o Nababo na mão, e virando-se para os gentios, lhes disse: Êste fêz bem de deixar vossas parvoíces e tomar a lei do Senhor JESUS. Ganhou-lhe tanta afeição o Nababo que o manda chamar muitas vezes, e lhe faz algumas mercês de rupias, e quando lhe dá dez, logo corre entre os gentios, que lhe deu cento, e se cento, que lhe deu mil; o que tudo faz para quebrar os olhos a estes gentios. E êste foi o glorioso fim de tão travada batalha da santa fé. CAPÍTULO X Da Província do Sul e do colégio dc Cochin: com suas residências ESTA Província, ou como mais pròpriamente lhe chamamos, Vice-Província, contém em si os colégios e casas seguintes: O da Madre de Deus, na cidade de Cochim, * com duas residências; o colégio de Santa Cruz cm Vaipicota, na Serra dos cristãos antigos de Santo Tomé, terra de El-Rei de Cochim, com as residências de Paliporto e a que está no reino de El-Rei de Porcá; o colégio de Coulão com todas as residências da costa de Travancor até ao cabo de Comorim; o colégio de Tutucorim, na outra contra-costa a que chamam da Pescaria, terras do Naique do Maduré com 22 residências, scilicet 16 por tôda a praia dela até entestar com o cabo de Comorim, e as demais na ilha de Manar, Nagapatão e Maduré, corte do mesmo Naique; o Colégio de Santo Tomé, nas terras de El-Rei de Bisnagá, com a residência de Chandegri, corte do mesmo Rei, e as demais daquela costa de Coromandel; o Colégio de Malaca e as residências de Tidore, Ambóino, no arquipélago de Maluco. Pertencem também a esta Vice-Província as missões do reino de Bengala e Pegu. No colégio de Cochim, que é o seminário desta Vice-Província, residem vinte e sete dos nossos e há estudos de Latim e de casos de consciência e uma escola de meninos. Além do fruto que se colheu com os portugueses, por meio das pregações e confissões, que foi muito grande, porque se fizeram muitas pazes, impediram brigas e mortes, houve restituições de muito momento, tiraram-se muitos de mau estado, uns deixando as mancebas, outros casando-se com elas, dos gentios que se baptizaram, passou o número de cento e vinte, entre os quais foi notável a conversão de vinte e três moiros, que sucedeu pelo modo seguinte. Andavam nesta costa do Sul entre o cabo de Comorim e esta cidade, duas galeotas de moiros bem petrechadas de gente e munição às presas e tinham já feitas algumas, ainda que de pouca importância. Mandou o capitão desta fortaleza sobre elas outras duas com até trinta portugueses cada uma, número bem desigual do que as contrárias traziam, porque em uma só, traziam setenta e tantos lascarins. Quis Deus que encontrando-se enxoraram as nossas uma sua, porque a outra, vendo o jôgo que não corria a seu gosto, fugiu; Fag.35. mataram logo então na briga os mais sem dano dos nossos * e trouxeram-nos enforcados nas vêrgas, 23 tomaram vivos; a êstes mandou o capitão também
  • Nas partes da índia, no ano de 6o i 2 7 enforcar. Indo para o lugar onde haviam de padecer, acaso os encontrou um padre nosso, o qual, exortando-os a que morressem cristãos e deixassem sua perversa seita, emfim os persuadiu, e obrou logo Deus tanto neles que disseram que de muito boa vontade se queriam baptizar ainda que lhes não perdoassem a morte, antes queriram morrer em pena dos males que tinham feito em ser- viços de seu malvado Mafamede; e assim morreram com muita consolação sua e esperança de salvação. O mesmo aconteceu a outro moiro que estando preso por um delito, foi sentenciado à fôrea. Fê-lo o capitão a saber ao padre, pai dos cristãos; foi ter com êle, persuadiu-lhe que se fizesse cristão, porque logo havia de morrer, o que o moiro ouvindo, disse que ainda que logo morresse, se queria fazer cristão; baptizou-o e acompanhou-o até ao lugar da morte, até o qual disse sempre o santíssimo nome de JESUS. Outro gentio estava também preso por caso grave; êste por meio de um padre foi livre e feito cristão. Na residência de Santo André, que é uma das anexas a êste colégio, e dista desta cidade cinco léguas, nas terras de El-Rei de Mutorte, está um padte que tem cuidado daquela cristandade, e ali se fizeram êste ano cento e vinte cristãos. Andando um gentio cultivando as palmeiras de que vivia, estando em cima de uma, entrou nêle o demónio e deu com êle abaixo, de que quebrou uma perna, tomando-o adiante muitas vezes, de modo que as não podia negociar, nem menos a vida, porque da grangearia dèlas se sustentava. Persuadiram-lhe alguns vizinhos se fizesse cristão e que não teria mais o demónio que fazer com êle; fê-lo assim com mais de quinze pessoas da sua família. Continua agora seu ofício, zombando do demónio que nunca mais tornou a íazer-lhe travessura. O ano passado esteve El-Rei da terra pelejado connosco por causa da cristan- dade; foi necessário sair-se o padre e deixar a cristandade, até tomar o negócio os termos que importavam à mes*ma cristandade. Neste meio tempo, estando -Pig.37. El-Rei uma noite dormindo, lhe apareceu um homem em pessoa de gesto venerável com um bordão na mão, que cremos ser o apóstolo Santo André cuja é a igreja, que lhe disse: E bem, como estás tu na cama^descansado e a minha igreja desamparada ? E começou-lhe de dar com o bordão. Logo o Rei mandou recado ao padre que queria dar satisfação do agravo feito, que se viesse muito de-pressa para a sua igreja. Soava o negócio, mas como não tínhamos certeza, não fazíamos tanto caso, imaginando outros respeitos que poderiam obrigar ao gentio a procurar com tanto calor a amizade; até que uma vez o seu próprio regedor contou aos padres o caso como passaia, e o mesmo Rei lho descobrira. Na residência de Calecute, cabeça do reino de Samorim, que é o mor e mais poderoso de tôda esta costa, estão dois padres. Até agora não metem a mão quanto desejam, nos negócios da cristandade, por respeito de conservarem as pazes com êste Rei, que estão ainda novas e temas, mas o campo é bom, e por tempo, como as amizades tomarem algumas raízes, esperamos colher-se dêle copioso fruto.
  • 28 Do que fizeram os Padres da Companhia CAPÍTULO XI Do que se fê\ no colégio de Vaipicota na Serra dos cristãos NESTE colégio e suas residências estão oito dos nossos; são quatro padres e quatro irmãos. Deles um ensina a língua suriana, outro a latina; há juntamente escola de ler e escrever em Malabar. Pelas letras que este ano vieram de Sua Santidade, se consagrou em bispo de tôda a cristandade desta Serra o P. Francisco Ros, religioso da Companhia, que era o melhor obreiro dela, douto assim na sagrada Teologia, como nas línguas malabar e suriana que havia muitos anos que ensinava. E quási que todos os cassanares • Pâg.37. e chamazes dêste bispado que agora há (que * são os sacerdotes e os que com ordens menores ministram nas igrejas em via de o serem) foram seus discípulos ensinados por êle. Foi e é bem recebido dêles, e estão já tôdas as revoltas que os scismáticos surianos tinham alevantadas, serenadas; e veio uma universal bonança a tôda esta cristandade com o novo e primeiro pastor católico; e é para louvar ao Senhor como obedecem e se sujeitam a tudo o que o prelado (que êles hão que lhes foi dado por Deus) lhes manda. O estilo e modo de vida em os cultivar é o mesmo que dantes quando era religioso, tinha. Tem assaz que fazer em contemporizur e temperar os reis da terra gentios para lhe não estorvarem o fruto e governo da sua igreja. O bispado com mais razão se pode chamar onus que que hottos, porque na realidade as honras não são nenhumas e o trabalho contínuo que é quási insuportável; e nas residências de Porcá e Paliporto, onde residem dois dos nossos, se faz o mesmo e acostumado fruto que neste colégio, que é cultivarem esta cristandade e desarreigar-lhes os erros de Nestório que até agora beberam, apurá-los e acomodá-los à pureza de nossa fé e obediência do Pontífice Romano. Tiveram um trabalho em que estiveram assaz arriscados, e foi que uma quarta- -feira. 21 de Fevereiro, aconteceu nesta povoação que um cristão, irmão do nosso vigário, matou um panical naire e mestre mui principal de El-Rei de Angamalé, porque fôra um dos que concorreram na morte de seu pai; e depois de o matar acolheu-se o matador a casa dos padres. Logo foram avisados de como se havia de procurar vingança desta morte, por o panical morto dar sol- dados a muitos naires com obrigação de morrerem por êle. Mandou-se logo aviso ao P. Toscano que residia em Angamalé, terra do próprio rei do morto, que se pusesse em cobro o melhor que pudesse, porque, como estava entre os que haviam de procurar a vingança, e êles não se curam muito do que pede a razão e justiça, corria assaz de risco sua vida. E assim foi que o dia seguinte pela manhã, foram ter com êle 3 ou 4 amoucos, que eram apostados a morrer • Pág.38. pelo panical; e êstes lhe disseram que os * matasse, para tomarem ocasião de fazerem o mesmo ao padre. Ele lhes respondeu que padres não matavam a ninguém. Nisto veio o Caimal que é um dos herdeiros do reino, amigo nosso, e levou cqnsigo o padre e o acompanhou até o pôr em lugar seguro, donde sem perigo se pudesse vir para Vaipicota, como veio; e mandando aviso aos padres de como o Rei, que êles chamam velho, e dizem ser descabeçado, fizera uma
  • Nas partes da India, no ano de 6o r 29 soma de amoucos com suas cerimónias para virem morrer aonde o panical fora morto; e seu principal intento era fazerem aos padres o mal que pudessem, dizendo que foram em consentimento e mandaram matar o panical, prova disso que o matador se acolhera à casa dos padres. Eis que à sexta-feira seguinte, pela manhã dão rebate aos padres que os amoucos eram chegados. Assaz de enfadamento lhes causou esta nova tão repentina por quão mal aparelhados estavam. Proveram os moços de casa então muito bem de pedra a varanda, para dali se defenderem o melhor que pudessem, porque a causa não era tal que, deixando-se os padres matar por ela, ficassem mártires. Contudo por então não vieram êles, e assim tiveram lugar para se fechar com tranqueiras. E estiveram uns poucos de dias e noites prestes em vigia para não deixarem fazer os danos em sí e nos cristãos, que êstes amoucos soem fazer, que é matar quantas coisas acham vivas diante de si e queimar quantas casas podem, como a própria noite aconteceu etn Paru aonde uns vinte destes queimaram o bazar dos cristãos; porém aí ficaram todos estirados, sem matarem mais que um estrangeiro que acharam dormindo. Acudiram de Cranganor alguns portu- gueses que com os cristãos e naires da terra vigiavam com suas armas prestes. Porém foi-se dilatando a vinda dos amoucos por alguns dias, em que os reis tiveram lugar de considerar melhor o que faziam que era fazerem amigo seu a El-Rei de Cochim e aos portugueses. E também disto e dos danos que de seu intento lhe viriam foram avisados por diversas vias. Mas já não era possível, segundo seus bárbaros costumes, deixarem de morrer alguns dos que estavam dedicados à morte; porém mandaram recado quando e onde haviam de vir para que sem êles fazerem dano, os matassem, porque assim * nem quebravam com .Pág.39. Cochim nem deixavam de guardar seus ritos. Quinta-feira, o primeiro de Março, depois do meio dia, vieram, e chegados já perto dos que com as espin- gardas no rosto os estavam esperando, viraram-se para os que lhes ficavam nas costas, entre os quais estava um dos reis de Mangate, e com lástima de quem os via, disseram que pelo arroz que comeram, vinham morrer, aludindo ao sôldo que o panical morto lhes dava. Logo os moços dos portugueses dispararam neles as espingardas e em pouco tempo acabaram todos. O capitão de Cran- ganor que êste dia foi a visitar os padres, mandou aos portugueses que ali estavam, que também aviassem a outros poucos de naires, que vinham buscar os corpos mortos, por assim ser costume. Atalhou o P. Reitor a êste mandado não muito pio, e impediu a execução dêle por assim parecer razão e justiça. Ficam por ora os padres desassombrados, porém ainda ficam muitos Amoucos apostados a morrer; mas tomaram seu conselho de como haja de ser por não ficarem inimigos dos portugueses e do rei de Cochim. Em Paliporto, lugar de moiros, se deitou a primeira pedra da igreja. Achou-se presente o P. Reitor de Cochim e cristãos de S. Tomé, bem a pesar dos moiros que ali tinham sua ladroeira. Esperamos em N. Senhor que, com a residência que aí se fez, se lhe faça muito serviço, assim no freio que com ela se porá, para que aqueles moiros e outros não façam as ladroíces que dali até até agora se faziam aos cristãos e moços de portugueses, que furtavam e leva- vam a terras de outros moiros que residem em reinos inimigos da lei de Cristo, como na muita cristandade que nos macuás e cegos gentios esperamos de fazer por ser o lugar e a estância a isso bem acomodada.
  • 3o Do que fizeram os Padres da Companhia CAPÍTULO XII Do colégio de Coulão e cosia do reino de Travancor RESIDEM neste colégio, e suas residências, 7 padres e um irmão, operá- rios assaz poucos para tamanha messe e trabalhos quantos há na cultura desta cristandade; e ainda que aos portugueses, que habitam esta forta- • Píg-4o. leza, se não falta com as prèga*ções, confissões e ensinos de seus filhos, como em todâs as outras cidades dêste estado, contudo o nosso principal é a culti- vação dos cristãos de tôda esta costa até ao cabo de Comorim, e atender em fazer outros de novo. Em um e em outro houve este ano notável quebra, pela guerra que o Vizo-Rei determinava fazer a El-Rei de Travancor, por ter ale- vantado e fortalecido bem duas fortalezas junto da nossa com mau intento. Por onde resolvendo-se em lhe fazer guerra, escreveu ao Padre Reitor mandasse logo recolher os padres, que estavam por tôda a costa cultivando os cristãos, para que o Rei não lançasse mão deles, e por êste respeito lhe impedisse o que importava ao estado. Chamaram-se os padres, e posto que êste intento do Vizo-Rei se atalhou por outra necessidade maior que interveio (a que importava acudir mais de pressa) que eram os holandeses que continuavam a Sunda e impediam o trato das drogas que das ilhas de todo o arquipélago veem, contra os quais mandou armada grossa, que não deu lugar a se fazer a que havia de vir contra êste rei; contudo não se atalhou tão depressa o trabalho e desamparo, em que os cristãos desta costa estavam sem seus pastores, além disso não ficou o rei satisfeito da desarmação do intento do Vizo-Rei de que estava já bem certificado que não ficasse sempre com êsse sobrôço e arreceio de lhe virem dar sobre as suas fortalezas, por onde não ficaram os Padres tornando com a segurança que queríamos. Foram contudo; e além de tornarem a cultivar suas ovelhas que assaz acharam descarnadas, converteram de novo passante de duzentos, e teem muitos pela terra dentro dispostos para receberem o santo baptismo, pelos da terra (tirando alguns moiros sempre obstinados) serem já todos cristãos, os quais se vão estendendo em número passante de quatorze mil por tôda esta costa em trinta e cinco igrejas até o cabo de Comorim, onde se termina a jurdição dêste colégio; as vinte e três que estão do cabo até ao Berinjão, em doze léguas, teem à sua conta dois padres que se ajuntam na residência de Couleche; das oito que correm até Mampoli, em cinco léguas, tem • Pig.4'. cuidado outro; às outras como mais propínquas se acode do co*légio. Donde se pode ver o trabalho que terá cada um dêstes padres que tão contentes andam no meio de seus suores e desconsolações que padecem pelos moiros e gentios senhores da terra, como se no mesmo trabalho estiveram postos seus gostos e alegrias. Mande-lhes Deus ajudadores que os acompanhem e participem do muito que colhem que é o que sempre pretendem. Pelo sertão estão espalhados também muitos cristãos da casta dêstes que vivem nas praias. Havia muito tempo que os padres não tinham visitado êstes; foram agora lá por vezes, e foram recebidos em todos os lugares, que são onze ou doze, com muito amos assim dos cristãos como dos gentios seus parentes.
  • Nas partes da índia, no ano de 6o r 3i Nestas visitas se fez muito serviço a nosso Senhor, porque além de se converterem muitos, outros que já o eram, se puseram em melhor estado do em que viviam, apartando-se das mancebas, casando-se mais de trinta, confes- sando-se, e muitos que nunca o tinham feito e que sempre chegarão a mais de dusentos. Compuseram os padres suas demandas, fizeram amizades, e dos gentios deixaram muitos dispostos para se faserem cristãos. Chegou-se neste tempo a festa da Cruz, que se faz em Couleche, a mais célebre e solene de tôda esta costa. Houve grande concurso de cristãos e gentios; todos ficaram satisfeitos e edificados; após ela se seguiu a do apóstolo Santiago, em outro lugar perto, que se tinha dilatado pelos rumores da guerra passada; em ambas se achou o Padre Mauuel da Veiga, superior, que então era universal daquelas partes do Sul, ajudando-as a solenizar com grande consolação, donde lhe foi forçado ir ver El-Rei à sua fortaleza que está um pedaço pela terra dentro, que a tôda a pressa o mandava chamar; e não foi a ida sem fruto, porque êle e o companheiro, não perdendo ocasião, no caminho baptizaram trinta pessoas e fizeram oito casamentos. O principal que El-Rei queria ao padre era que mandasse fazer uma igreja em sua fortaleza, na qual já dantes da guerra tinha falado ao Padre Reitor; e ainda que seus intentos nisto são assegurar-se dos portugueses, tendo padre consigo de que podem lançar mão, e defender-se do naique de Madure que * por vezes lhe faz guerra naquela parte, havendo -Píg.^- que estando o padre lhe acudirão os cristãos e rebaterão o poder do naique; porém os intentos dos padres são bem diferentes e pertencentes somente à glória de Deus e conversão das almas. CAPÍLULO XIII Do colégio de Ttltucorim, costa da Pescaria, e ilha de Manar ESTÃO neste colégio, que é a cabeça de todas as freguesias desta costa da Pescaria que se estende da volta que faz o cabo de Comorim contra a ressaca de Bengala, 20 da Companhia, 17 padres, 3 irmãos; os padres estão repartidos por vinte e duas frèguesias; dezasseis delas estão nesta praia; seis pela terra dentro, incluindo nelas as residências que estão em Maduré, côrte do naique, senhor destas terras; àlém destas tem mais outras três na ilha de Manar, as quais são dos carcas. Haverá nesta costa tôda passante de novçnta mil cristãos, e por tôdas as frèguesias e igrejas dela discorrem os padres de umas em outras conforme as necessidades que se oferecem, ainda que as prin- cipais residências são em sete lugares delas os maiores. Começando a tratar desta cristandade da costa que é dos paravás, darei princípio pelo colégio de Tutucorim como cabeça de tôda ela. Nele residem três padres e três irmãos, e ainda que nêle não teem obrigação de freguesia, por haver naquela terra vigário com dois beneficiados, todavia o serviço de Deus que se faz, é mui grande, assim nas confissões como nas práticas e prègações que se lhes fazem todos os domingos e santos. Celebraram-se nesta igreja as festas com muita solenidade em especial a do orago que e de Nossa Senhora das Neves; con- 1
  • 32 Do que fizeram os Padres da Companhia fessa se e comunga nelas muita gente, porque concorrem a este ministério então todos os demais padres das outras frèguesias; e assim este ano neste dia comun- gariam mais de setecentas pessoas, e muitas mais o fizeram se os confessores ■•Pág.43. foram mais, porque a gente é * mui pia e inclinada aos sacramentos e os me- lhores cristãos de tôda a índia. Fazem-se também nestas festas algumas repre- sentações de coisas devotos na língua da terra, que eles folgam muito de ouvir e as representam arrazoadamente. Concorre a vê-las muita gente e servem grandemente para os alentar e pôr em fervor nas coisas de Deus e a se esque- cerem dos gentios a que estão tão vizinhos e quaze misturados; e o que digo neste particular deste colégio, se pode dizer em geral de todas as outras frègue- sias onde se celebram também as festas e fazem suas representações com muita solenidade. Está enterrado nesta igreja de Tutucorim o bom padre Henrique Henriques que faleceu o ano passado, o qual foi um dos padres que vieram a esta costa, e como apóstolo de tôda esta cristandade. É tanta a devoção que estes cristãos lhe teem, que não se pode declarar, porque muitas vezes com sua boa fé e santa simplicidade acodem com esmolas para que se digam missas à honra do padre, pedindo-lhe remédio em suas necessidades, como a S. António e a outros santos; e quando os que habitam em outros lugares veem a esta terra, ordinàriamente veem providos de candeias que acesas põem sôbre seu sepulcro. Um dia indo um padre à igreja, achou nela cinco mulheres com cinco candeias acesas, postas de joelhos ao redor de sua cova, encomendando-se devotamente ao padre, o que é coisa muito ordinária, corno disse, em todos os que veem de fora; tanta é a devoção que lhe teem e a opinião que conceberam de sua santidade. Não é de espantar fazerem isto os cristãos que por êle tantos anos foram criados e cultivados na fé, quando os moiros e gentios, que tão alheios estão dela, lhe teem e tiveram tanta devoção, que é certo muito para louvar ao Senhor; e assim quando querem afirmar infalivelmente alguma coisa, o maior juramento que fazem e mais inviolável é quando juram pelo padre Hen- riques; e assim quando morreu, todos os moiros de Patanão, que é um lugar junto de Punicale onde êle deu a alma a Deus, jejuaram aquele dia, e os gen- • Pag. 44. tios dos luga»res aí comarcãos, jejuaram 2 dias, fechando todos as boticas e bazares em sentimento da morte do santo velho; tão grande era o conceito e conceito e opinião da santidade, que todos dêle tinham. Todos os cristãos desta costa são ordinàriamente muito pios e liberais para com as igrejas e pobres, e assim dão muitas esmolas com que se remedeiam muitos dêles; só para as viúvas e pobres da ilha de Manar dao cada ano na Pescaria duzentos pardaus (além de muitas outras que fazem a particulares pessoas e igrejas) os quais o Padre Reitor daquela casa, quando torna da Pes- caria, por meio de alguns irmãos da Misericórdia, reparte pelas pessoas neces- sitadas daquela fortaleza com muita edificação de todos, porque vêem a caridade com que êle abrange a tedos não sòmente no espiritual mas ainda no temporal; e estas mesmas esmolas despende a Companhia por todos os outros lugares desta costa, remediando muitos pobres e casando muitas órfãs; e só em um lugar que não é dos maiores, se deu êste ano de vestir a oitenta pobres e casaram doze órfãs desamparadas, o que nos outros lugares maiores é muito mais. Tôda a gente desta costa e ilha de Manar é cristã de muitos anos, por onde
  • Nas partes da índia, no ano de 601 33 não se ocupam os padres tanto em fazer cristãos de novo, quanto em doutrinar e cultivar os já feitos, indo-os cada dia mais alumiando nas coisas de nossa santa fé e religião, e encaminhando-os na justiça de seus tratos, negócios e cáreas, castigando também de quando em quando a alguns, que entre tanta multidão necessàriamente há de haver desencaminhados, ainda que isto se faz com tanta moderação, que mais parecem os padres pais que prelados e supe- riores. Por onde cada dia avulta mais o fruto que neles se faz, e quão bem empregados são os trabalhos que os padres por esta cristandade padecerão, e agora se alegram em extremo vendo quanto mais cada dia vão abrindo os olhos nas coisas de suas almas, e se afeiçoam ao uso dos sacramentos, em especial ao da santa penitência, do qual gostam e se aproveitam notàvelmente. E é gran*de -Pig. 45. a consolação dos padres que granjeiam esta vinha do Senhor, ver o concurso das gentes nas igrejas, a devoção que todos a elas teem, o respeito e sujeição aos padres que os governam, a presteza para tudo o que se lhes manda, a liberalidade para as igrejas e para tudo o que os padres lhes apontam, sem réplica alguma; emfim verdadeiramente são confusão de muitos cristãos antigos e de mais capacidade. E pôsto que disse que os padres desta costa mais se ocupavam na promoção do fruto que se colhe dos cristãos já antigos, não deixam contudo de intender às vezes na conversão de alguns de novo, porque sempre o Senhor traz alguns da terra dentro a êstes lugares, que êles fazem cristãos; e assim neste colégio se baptizaram este ano 74, na ilha de Manar 3oo e em Vaipar 100, em Priapatão 15, em Bembar ioo, em Maduré 4, nos lugares pela terra dentro 45, que por todos são 5oo e 47, afora outros que os padres das outras freguesias não puseram em lembrança, que sempre devem passar de 5o; e está a gente da terra adentro, por onde vai um padre ordinàriamente discorrendo e visitando diversas igrejas que aí tem feitas, com a continuação do padre já tão disposta para receber nossa santa fé, que se espera cada dia se façam muitos milhares de cristãos; e sem dúvida já se começara a colher messe tão madura, se houvera obreiros que pusessem a foice. Com a vinda do Padre Manuel da Veiga, visitador desta costa, receberam todos os padres e irmãos muita consolação, renovando-se os desejos de todos com muito fervor, ajun- tando-se para isso os que estavam espalhados por diversas freguesias, aos quais o padre animou e confortou muito nesta empresa e missão que teem entre mãos, da vinha do Senhor. Os cristãos folgaram também muito com sua vinda, porque, com a brandura e boa conversação que tem, junta com o zelo da cris- tandade, a todos procura ajudar e consolar. Com igual alegria e festa foi recebido destes cristãos o novo reitor, Padre Alexandre Léni, porque era já dantes conhecido naquela costa e amado de todos, * assim de casa como de «Pig. 46. fora, no tempo que nesta terra esteve, por onde, quando agora veio, lhe fizeram por todos os lugares por onde passava, muitas festas, acompanhando-o muitos centos de homens, ainda gentios e moiros com suas armas de uns lugares para outros até chegar a este colégio, do qual como tomou posse, dai a i5 dias pouco mais ou menos, começou a pôr em execução uma coisa de muito serviço de N. Senhor e muito desejada de todos os padres, assim antigos como modernos desta costa, que, por falta de obreiros, até agora de todo se não executava, e foi, pôr em ordem confessar-se tôda esta cristandade, a qual, por ser tanta e os 5
  • 34 Do que filer am os Padres da Companhia padres que sabiam a língua tão poucos, nunca de todo foi confessada; e, posto que os padres sempre confessam em suas freguesias, ficam porém ordinària- mente muitos que carecem de tamanho bem, por não poderem os padres mais; por onde há muitos que nunca se confessam senão quando estão doentes, por- que então por nenhum caso se sabe de algum que o não faça. Deu o padre princípio a esta obra por um lugar dos principais que se chama Punicale, mandando para isso seis padres que sabiam a língua, os quais, em espaço de i5 dias que ali se detiveram, confessaram mais de mil pessoas, quási as mais geralmente, porque não ouviam senão as que, havia muito, se não tinham confessado; o mesmo pretende fazer em cada um dos outros lugares, de maneira que em breve tempo esperamos em o Senhor esteja toda esta cris- tandade confessada, nem haja nela pessoa alguma que não participe do fruto de tão importante sacramento. Afora estas mil confissões gerais, que nesta forma se fizeram, houve também assim mesmo outras gerais pelo discurso do tempo atrás, em todos os lugares; e só aqui em Tutucorim, pela festa do orago, se fizeram mais de duzentas, em Manapar mais de trezentas, na ilha de Manar duzentas, em Bembar cincoenta, em Vaipar vinte; e vê-se bem ao olho o fruto grande que com estas confissões se faz, porque, além de esta gente se ir acos- Píg-47- tumando e gostando das coisas de Deus, é tão grande a mudança que fazem * em suas vidas e costumes os que assim se confessam, que parecem outros, e em cada festa se aproveitariam dêste sacramento, se a falta de confessores lhes não atalhara o desejo. CAPÍTULO XIV Da grande devoção que tôda esta cristandade tem à sagrada Cru\ e de algumas coisas maravilhosas, que por virtude dela sucederam TEM esta cristandade tôda estranha devoção à santíssima Cruz na qual há muitos anos que continua e vai cada vez em tanto aumento, que com muita razão pode ser confusão para os cristãos de Europa, e assim os favorece o Senhor por meio dêste sagrado sinal de nossa redenção, acudindo-lhes em suas necessidades e fazendo coisas tão maravilhosas por ela, que a todos é causa de grande consolação e confirmação na fé. Uma mulher cristã de Bembar, tendo por um desastre que lhe aconteceu, tão impedida e esfarrapada a língua que a não podia menear nem falar palavra alguma, acode logo à igreja, pede confissão por acenos ao padre; confessa-a e deixa-a na igreja para que se encomendasse a Deus; pega ela com a cruz que ali estava, com grande fé e devoção, e depois de feita oração, toma o óleo que estava ao pé da cruz (o qual ordinariamente costumam os cristãos oferecer às cruzes), unta a língua com êle, recolhe-se para casa mui confiada na virtude da cruz, ao outro dia pela manhã se acha com a língua tão sã e fala tão recuperada, como se nunca tivera mal algum; o que vendo os parentes vieram logo todos juntos com ela à igreja com grande alegria Pág. 48- a dar * graças ao Senhor pela mercê recebida por virtude da Santa Cruz. Na mesma frèguesia de Bembar, entrando o demónio em uma mulher, a ator- mentava terrivelmente; acudiram os parentes ao padre para que lhe desse algum
  • Nas partes da India, no ano de 6o i 35 remédio. Foi lá o padre levando a cruz e a água benta. Em o demónio des- cobrindo a cruz, começou a fazer grandes esgares, acenando que lha não deixasse chegar; mas chegando o padre, tocando-a com a cruz e fazendo-lhe os exorcis- mos da Igreja, logo com admiração e alegria de todos a deixou. Em Manapar pediu o mordomo da igreja a um gentio mocadão (que é mestre dos carpinteiros) quisesse com seus oficiais fazer uma pouca de obra em uma cruz e acabá-la de concertar. Não sòmente não quis ir o gentio, mas largou algumas palavras mal soantes; respondeu-lhe o cristão: Antes da noite mo direis, porque Deus mostrará em vós o mal que fazeis em não querer ir concertar a sua cruz. Coisa maravilhosa; daí a menos de duas horas, traba- lhando com um escopro em certa obra, dá em um ôlho e rasga-o todo; mas entendendo, pelo que o cristão lhe tinha dito, donde lhe viera o castigo, manda de-pressa a seus obreiros (porque êle pelo caso não estava para trabalhar) que fossem acabar de concertar a cruz, prometendo de nunca mais se negar para coisas semelhantes. Na mesma frèguesia de Manapar um gentio estava casado com uma mulher estéril; fazia muitas romarias e oferecia grandes ofertas a seus pagodes, para que lhe dessem filhos. Vendo que as ofertas lhas comiam os brâmenes, e os filhos nunca vinham, determinou buscar outro remédio, que lhe a êle pareceu mais eficaz, e foi vir-se à cruz a cujo serviço disse que se oferecia com todos os filhos que Deus 1'ne desse. Quis Nosso Senhor mostrar ainda neste a virtude da sagrada Cruz, porque logo dali a um ano lhe deu um filho, e o seguinte outro, e logo outro no terceiro, porque tantas eram as cruzes que no lugar há, a que êle se ia oferecer. E assim, conforme à cruz principal e maior, pôs ao filho mais velho Cruz # Maior; conforme à menor, ao do meio «Mg. 49. chamou Cruz Menor, e conforme à mais pequena (porque todas três não são iguais, senão uma menor que outra), pôs ao terceiro por nome Cruz Pequena. Tôdas as sextas-feiras do ano vem êste gentio a oferecer-se às sagradas cruzes; quererá Nosso Senhor que por meio dêste benefício que lhe fez, venha ainda a se acabar de alumiar e abraçar a verdade da sagrada Cruz com seus filhos, fazendo-se todos cristãos. A uns gentios que dêste lugar tinham partido, deu no mar uma rija tem- pestade que os tinha arriscados a se perderem com todo o navio; viram do mar uma igreja de Santa Cruz. Prometem logo, se se viam livres daquele perigo, de lhe oferecer certa quantia (i) de dinheiro; acudiu-lhes Deus a ponto; amaina súbito a tormenta; saem em terra a salvamento pessoas, fazendas e navio, e da praia foram logo com a oferta prometida a dar as graças à Santa Cruz, por cujo meio Deus lhes fizera tão grande mercê. Tinha outro gentio de Bembar mulher, filhos e tôda a família de casa doentes. Ofereceu à Cruz um pouco de azeite pela saúde de todos; logo a seguinte noite lhe apareceu dentro de casa um resplendor em figura de cruz, e todos de improviso ficaram tão sãos como se nunca tiveram doença. Isto mesmo com sumo espanto contou êle na igreja, vindo com seu azeite que prometera à Cruz. Na residência que temos em Maduré, côrte do naique, aconteceu que estando uma mulher atribulada com uma doença muito antiga, contínua e (i) Nt. Contia.
  • 36 Do que fizeram os Padres da Companhia incurável, chegando à cruz da igreja e pedindo-lhe remédio, ficou sã. Outra que havia anos que era casada sem ter filhos, veio à igreja deitar-se ao pé da cruz que lhe desse um filho, que ela desde logo prometia de lho oferecer; deu-lho logo por meio da cruz Nosso Senhor, nem ela foi esquecida da pro- messa que fizera, porque logo depois de o parir a poucos dias, o veio oferecer à cruz com sua oferta. Com semelhantes benefícios favorece Deus, por virtude de sua Cruz, até os gentios, para por seus próprios inimigos ser glorificado. •«8-5°. * CAPÍTULO XV Da perseguição com que um tirano gentio perseguia êstes cristãos e do Jim que por êles teve EM grandes trabalhos se viram por todo o ano passado de 600 e boa parte dêste de 601 alguns lugares desta costa por respeito de um gentio muito poderoso, em extremo inimigo dos cristãos, por nome Aria Perumal. Morava êste em uma forte fortaleza vizinha a êstes lugares, da qual saía por estas terras a fazer muitos assaltos e violências. Era tão soberbo e atrevido, que, quando queria, contra seu próprio rei se levantava; e por isso era mui temido de todos, assim cristãos como gentios. Aconteceu que uns parentes seus tiveram certa diferença com uns cristãos doutro lugar, na qual os gentios ficaram com a peor. Por êste respeito determinou Perumal tomar vingança nos cristãos que moravam nos lugares junto à sua fortaleza. Deu uma vez de repente sôbre êles à falsa fé, e achando-os desapercebidos, entra o lugar sem resistência, mata uns, outros leva cativos e amarrados à sua fortaleza, onde depois os matou; saqueou o lugar, queimou as cruzes, igrejas e imagens dos santos, e fez muitas outras afrontas. Sentiram os cristãos isto muito em extremo e principalmente verem suas cruzes e igrejas profanadas por êste tirano, e êles tão afrontados. Determinam vingar-se e tomar satisfação de tanto mal, dissi- mulam por alguns dias até que em uma noite, a 22 de Novembro do ano de 600, sem darem conta aos padres que estavam em Manapar, por lhes não im- pedirem seu desenho, armam seis tones, metem em cada um 5o homens, e em tudo o mais bem petrechados se vão em demanda do tirano Perumal, fazendo primeiro muitos actos de bons cristãos, oferecendo muitas esmolas e missas a Santiago e a Nossa Senhora, oragos de duas igrejas que estão em Manapar. E passando ao longo doutras igrejas e cruzes que o tirano tinha queimado, protestavam que nenhuma outra coisa os levava a tomar vingança, que aquelas cruzes e igrejas dos bemaventurados S. João e S. André que foram as queima- • Pág. 5i. das; pediram aos mesmos Santos lhes houvesse de * Deus todo o favor naquela jornada. Ouviu Deus petição tão justa, porque só a gente dos dois primeiros tones, em chegando, deram com tanto ímpeto na fortaleza, onde o tirano estava assaz alheio de o poderem ir buscar, que a entraram por força, matando muita gente, e cortaram a cabeça ao mesmo tirano, a seu pai, primos e a todos os mais parentes, não deixando coisa viva na fortaleza que não pusessem à espada, até meninos e mulheres.
  • Nas partes da India, no ano de 6o i 3? Foi êste caso nunca acontecido nem imaginado dêstes cristãos paravás, porque naturalmente são pouco belicosos. Parece que Deus lhes deu aqui ânimo e esforço para executarem êste tão justo castigo em tão soberbo tirano e sua gente. Ficaram os gentios tão assombrados com êste feito, e cobraram um mêdo tão grande aos paravás, que até ao dia de hoje não há quem se atreva a povoar aquela fortaleza. E os cristãos ficaram muito honrados entre todos êstes gen- tios, dos quais dantes eram abatidos e desprezados, ao menos depois que o tirano Perumal os afrontou com a morte dos seus e queimou suas igrejas, de sorte que não ousavam a falar diante dêles, porque logo os gentios lhes davam em rosto com a desonra que o tirano lhes fizera. Alguns gentios que viram a briga travada com tanta coragem na fortaleza e escaparam fugindo, vieram depois perguntar que cavalos dos portugueses traziam os paravás nos tones, porque viram alguns homens bem armados arremeter com grande ímpeto contra a fortaleza. Donde podemos coligir que os gloriosos apóstolos S. João, Santiago e S. André saíram a pelejar em favor dos seus cristãos e que os descobriu Deus aos gentios, para mostrar quanto sua era aquela causa e como êle era o que mandava executar o castigo dela pelos sagrados apóstolos padroeiros daque- las igrejas. CAPÍTULO XVI De algumas coisas de edificação que sucederam na igreja de Priapatão e missão de Tripalicorim A derradeira igreja desta costa está em Priapatão, que é uma povoação boa junto aos baixos de Ramanancor, a mor parte da qual é habitada de uns gentios, que se chamam maravás, * gente dos matos, bárbara e .Wg.5l> feroz, que não vive ordinàriamente mais que dos roubos. Porém com a contínua conversação e boa companhia do padre, que naquela igreja reside, se vai esta gente alguma coisa domesticando de sua fereza e condição brava. E assim, a rôgo do padre, largam algumas vezes aqueles que sem razão alguma queriam casti- gar, dizendo-lhes o padre que a não teem. Por seu respeito e mandado teem também restituído alguns furtos de pessoas, as quais tinham salteado. E o que mais é, que os lugares que dantes eram perigosos, que se não podia dar neles passo, sem boa companhia de gente armada, hoje pela bondade de Deus estão já tão seguros e desassombrados dos assaltos desta gente, que sem outra companhia se podem caminhar muitas léguas. Estava nesta freguesia um cristão de cincoenta anos de idade; tinha êste usado toda a vida arte mágica e feitiçarias, sem nunca jàmais bastarem castigos de penas para o pôr a caminho; senão quando um dia, bem fora de tal se esperar dêle, vem ter com o padre, lança-se a seus pés pedindo-lhe com muitas lágrimas perdão, insta que o confesse. Maravilhado o padre desta mudança, lhe pergunta a causa. Respondeu que a noite passada lhe aparecera uma pessoa muito venerável de grande majestade, a qual severamente o ameaçou com açoites, se não deixava logo aquele modo de vida diabólica e se chegava à confissão. Traz logo diante do padre todas suas olas e livros de feitiçarias,
  • 38 Do que fi\eram os Padres da Companhia faz publicamente queima de tudo, dá-lhe o padre oito dias mais de espaço para que se instrua bem nas coisas da fé e aparelhe para a confissão. Chegado o termo se confessou com muita consolação sua, e não sem grande esperança de se seguir muito fruto desta tão notável conversão, deixando também outros, à imitação dêste, seu mau trato. Um cristão de casta moiro, enganado do demónio por meio de outros moiros, havia vinte anos vivia entre êles como tal. Tocou-o Deus. Faz enten- dimento da grande desaventura em que estava, vem-se ter com o padre, «Pág. 53. descobre-lhe sua vida, pede-lhe perdão, e dê * a penitência que vir ser-lhe necessária à salvação de sua alma, oferece uma copiosa esmola para os pobres; recebe-o o padre com toda a caridade, dá-lhe a penitência conveniente, e no meio da igreja posto de joelhos com significação de grande dor e arrependi- mento, pede perdão ao povo todo do grande escândalo que por tantos anos com sua má vida lhe dera, insta que roguem a Deus por êle, põem-se todos de joelhos, pedem a altas vozes a Deus misericórdia para aquele penitente, admi- tem-no ali em sua graça, abraçam-no todos, entregam-no aos principais, rogan- do-lhes o tomem debaixo de sua protecção por ser estrangeiro e sair de sua povoação entre moiros para vir entre cristãos. Perseverando com edificação, dá muita conta de si, trouxe a mulher e três filhos para se fazerem cristãos, e procura com todo o cuidado o sejam de verdade, assim êstes como outros casados que tem. A esta residência de Priapatão está anexa a missão da igreja de Tripa- licorim, que está da outra parte dos baixos de Lamanancor contra Negapatão, cuja cristandade cada dia vai em aumento, e não faltam já mais entre êles para se converterem, que três ou quatro famílias, as quais estão já abaladas, mas não se conclui com elas, por causa das guerras que êste ano houve. E con- vertidas estas fica aberta a porta para tôdas as outras povoações vizinhas rece- berem o santo evangelho. Por estar êste Tripalicorim afastado da residência de Priapatão, e da outra parte dos baixos, como disse, onde chamam enseada, tinham os padres muito trabalho em o cultivar, pelo caminho para lá ser por terra, todo mato cerrado e muito trabalhoso. Agora com o favor divino se vai cada dia mais facilitando com novas igrejas que no mesmo mato se vão fazendo, onde já estão duas, por respeito das quais êste caminho se vai acomodando e assegurando para melhor poderem os padres cultivar os de Tripalicorim e converter os lugares vizinhos. Um maravá honrado se afeiçoou de maneira ao padre, que lhe fez em sua terra, no caminho por onde passava, um acomodado aposento Pág. 54. em * que se recolhe, quando vai e vem de Tripalicorim. Este significou que queria juntar neste lugar todos os cristãos, que por diversas povoações estavam espalhados, o que foi coisa de muito grande serviço de Nosso Senhor, porque como estavam por diversos lugares de gentios e moiros e entre matos onde nunca pessoa branca penetrou, não sabia o padre dêles nada. Tiveram disto alguma suspeita e notícia alguns tones, que são senhores e como reis entre estes maravás. Mandam dizer ao padre que não só ali haviam de ajuntar cris- tãos, mas que em tôdas as suas terras mandassem levantar igrejas, porque êles dariam todo o necessário, assim para a fábrica delas como para sustentação
  • Nas partes da India no ano de 6o i 39 dos padres que as habitassem. Agradece-lhes o padre muito o oferecimento» mas que lhes lembrava que, como êles eram tão belicosos que sempre entre si teriam muitas diferenças, arreceava por isto que os cristãos que se fizessem, não poderiam com quietação viver entre êles, nem as igrejas estar seguras e sem risco de serem queimadas no tempo de suas brigas, o que os padres sen- tiriam muito. Respondem, que êles dariam um bom talho, como de feito logo deram, que foi passariam olas de seguro, em que convinham todos, que ainda que êles entre si brigassem, não passariam com a guerra aos lugares dos cris- tãos, e que as igrejas ficassem como couto para todos, e que todo aquele que a elas se acolhesse por qualquer caso que fosse, ficasse logo privilegiado para que ninguém pudesse bulir com êle, em quanto nela estivesse; e que ainda nos casos particulares, quando não há guerra, todo o que bulisse em qualquer igreja, pagasse de pena cem pardaus para a mesma igreja. Com êstes concertos e amizades dêstes reis e senhores abre Deus uma porta mui grande a seu evangelho, para que tôda aquela gente receba sua santíssima fé. Nesta freguesia de Priapatão houve uma conversão, que por ser nestas partes das raras que nelas houve, foi de muita edificação e glória do Senhor. Uma mulher moira, rica, honrada e aparentada, tocada do Espírito Santo se resolveu a fazer cristã; entenderam isto os moiros, dão-se por muito afrontados, fazem extremos pela desviar dêste propósito, e vendo que nada aproveitava, fazem com os maravás por via de peitas a prendam, deitam-lhe um forte grilhão, e al*gêmas nas mãos, ameaçavam-na sobretudo com grandes castigos e penas; .rág.55. fazem além disso que as outras moiras com palavras injuriosas a venham afrontar cuspindo-lhe no rosto. Sofre ela com muita paciência e fortaleza, respondendo por vezes que fizessem o que quisessem, mas que nisto se desenganassem, que por coisa nenhuma do mundo nesta vida deixaria de se fazer cristã. Cansados já e desenganados de sua constância, mandam-na soltar, obrigam-na que pague de pena 200 pardaus, o que ela logo fez com muita alegria. Livre se veio logo o dia seguinte em busca do padre, conta-lhe tudo o que tinha passado. O padre a esforça e anima grandemente para o que mais pudesse suceder, catequiza-a por oito dias, e depois com muita solenidade e festa dos cristãos, e a pesar dos moiros, a baptizou. Tinha esta uma filha e dois filhos, dos quais o menor era de sete anos, e o maior passava de catorze. Tinham os parentes sôbre êstes boa guarda e vigia para que se nao fizessem cristãos. Dissimulou o padre por dias o negócio e deu-se tão boa indústria por via de peitas com os maravás, que lhe entregaram a menina e os meninos, os quais baptizou com muito con- tentamento da mãe e cristãos. Uma menina de casta chavalacar de dez até onze anos se veio fazer cristã com uma sua tia. Depois de se fazer crista, se foi um dia ao padre dizendo que não era razão que, pois ela era cristã, ficassem seu pai, mãe e parentes na gentilidade entre os diabos; que lhe desse licença, que se queria ir ter com êles e ensinar-lhes o que não sabiam. Viu-lhe o padre tal viveza e eficácia nas palavras, que lhe pareceu que aquele negócio se meneava de cima. Deu-lhe licença, parte-se a menina para as terras dos gentios, ajunta os parentes, prega aos pais e a êles a lei que tomara; obrou a divina graça de maneira que os converteu a todos e os trouxe ao padre para os baptizar, com admiração e
  • 40 Do que ji\eram os Padres da Companhia alegria de todos. Pelo que, a menina ficou em extremo celebrada, e por onde quer que passa, a festejam muito, nem lhe sabem outro nome que o de prèga- dora. Foi também de muito louvor de Deus a conversão de um chatim, o qual depois de feito cristão, vindo seu irmão mais velho para o perverter, lhe soube • Pag. 56. dar tão boa mão que o deixou também convertido. Teve disto * notícia um primo destes, parte-se de sua terra com intenção de os persuadir e levá-los outra vez a ambos para a gentilidade. Mas a graça de Deus prevaleceu nos dois de maneira que converteram ao terceiro, o qual baptizado ficou com êles. Trezentos gentios se vieram de um lugar a fazer cristãos, e logo procuraram levantar uma igreja em sua mesma povoação. CAPÍTULO XVII Da missão do reino de Bisnaga, e residência de Chandegri NESTE reino e residência estão dois padres e um irmão. Teem ali casa e igreja na mesma cidade real de Chandegri, onde reside a côrte; o próprio Rei os trata com muita benevolência e favores, e cada dia lhes vai mostrando mais. Tinha-lhes dado renda para sua sustentação em certas aldeias e terras, mas atravessando-se o regedor-mor e alguns dos grandes daquela côrte, que nelas pretendiam seus interêsses, não teve efeito. Pelo que, El-Rei com muito amor e vontade quebrou mil pagodes de renda, cada ano, nas páreas que um dos naiques, seu sugeito, lhe paga, até que se ofereça alguma boa ocasião de terras escusas, em que a comedia dos nossos, sem encontro, possa permanecer. Para se cobrar esta renda, deu suas olas ou provisões, com as quais indo um nosso a Cangevarão ter com o pole, por cuja mão esta paga corre, foi dêle recebido com tantas honras e demonstrações de amor, como se fora um dos senhores de Europa muito amigos da Companhia. Sabendo que vinha o padre, lhe mandava cada dia ao caminho uma ola de cumprimentos, que serviam, como êle dizia, de bombardadas uma após outra para o festejar; prometeu que em tudo as cumpriria à risca, e que no Janeiro seguinte faria a primeira candaia, que é o primeiro quartel de paga, como de feito fez, que montou 5oo pardaus. Houve nesta cidade uma tempestade tão grande e furiosa, que em seis horas que durou, deu por terra com parte dos muros da fortaleza de El-Rei, derribou • Pág. 57. muitas casas, quebrou e arrancou árvores mui * grossas, rompeu presas de água de grandes alagoas e tanques, que esta terra tem, com grandes perdas e destroços e com tanto rugido, ímpeto, e assobiar de ventos, que parecia vir-se o mundo abaixo. Quis Nosso Senhor que a nossa igreja entre tantas ruínas de casarias vizinhas ficasse em pé, e sem nenhum dano, não sem admiração grande dos gentios. Teem-lhe todos muita devoção e concorrem a ela em suas necessidades, e é certo coisa que consola muito e maravilha aos padres, ver gente infiel que até agora não soube mais que chamar por pagodes e diabos, e sem serem alumiados com o lume da fé, concorrerem em tanto número e tão frequentemente à nossa igreja, e chamarem em seus trabalhos por JESUS e-
  • Nas partes da India, no ano de 601 4» por MARIA, havendo que daqui lhes há de manar todo seu remédio. E o que mais maravilha, é ver a bondade e clemência tão grande com que Nosso Senhor os ouve e lhes acode em suas necessidades, quando à igreja o vão buscar, e invocar seu santíssimo nome e de sua Mãe, ainda que gentios, como de alguns casos que apontaremos, se pode ver. Um gentio veio à igreja e prostrando-se de joelhos pedia com muito afecto a Deus, desse saúde a um irmão seu, que estava de febres malignas já quási no cabo. Fez-lhe Deus a mercê e tornando para casa achando o irmão já bom, não se esqueceu de vir dar os agradecimentos a Deus à igreja trazendo, para lhe oferecer, grande cópia de flores. Outro trouxe a oferecer um ramo de figos, dizendo que tinha pedido a Deus naquela igreja o livrasse de muitos acrèdores que tinha, e que lhe fora tão bem com aquela petição, que já Deus lhe dera com que pudesse pagar ametade das dívidas, e da outra ametade já havia remédio com que cedo satisfaria. Tinha um mancebo uma trabalhosa doença; veio à igreja a pedir saúde oferecendo suas flores, debruçado por terra; ao outro dia se achou são. A outro homem se tinha tomado uma horta; veio com lágrimas à igreja a pedir remédio; aquela noite lhe apareceu um homem, o qual lhe disse, que pois soubera pedir remédio na igreja do verdadeiro Deus, êle lhe faria tornar logo sua horta. Dai a 5 dias lha tornaram a dar. Outro tam*bém gentio oprimido da pobreza e sem ter que comer, veio pedir à Virgem *Pág. nesta igreja lhe desse com que se sustentasse; aquela noite lhe apareceu uma Senhora e, segundo êle afirma, muito formosa, a qual lhe disse: Cedo te darei remédio. Logo no dia seguinte o teve, pelo que tornou à igreja com sua ofer- tazinha de figos, a dar graças a Nossa Senhora com muita devoção pela mercê. Outro trouxe uma criança quási morta à igreja, pediu à Virgem lhe desse saúde; daí a alguns dias a tornou a trazer sã, dando as graças à Senhora. Outra gentia deixando um menino seu em casa ardendo em febres, veio a rogar (como êles dizem) ao Deus dos portugueses lhe desse saúde a seu menino; logo o deixou a febre, e o trouxe à igreja dando graças. A um homem desapossaram de um ofício público, com que se remediava. Pretendeu havê-lo; não lhe ocorreu melhor remédio que vir todas as manhãs e tardes à nossa igreja, na qual se debruçava pedindo a Deus lhe acudisse. Ouviu-o Deus, ainda que gentio, e fora de tôda a esperança humana de lho tornarem a dar, lhe foi logo dado; e conhecendo êle que tudo lhe viera de Deus, lhe veio logo com muita alegria e afecto dar as graças à igreja, prostrando-se por terra. Tinha outro gentio empenhada uma jóia havia um ano, e não alcançando posse para a desempenhar, veio à igreja pedir a Deus lhe desse remédio. No mesmo dia lhe mandaram a jóia para casa, de graça, sem satisfação alguma e com quita da dívida. Abrasou-se acaso um menino gentio com pólvora; veio outro seu irmão à igreja a encomendá-lo a Deus. Coisa maravilhosa, que no mesmo ponto se achou são; e ambos vieram dar as graças, e o queimado por festa disparou duas espingardas à porta da igreja. No meio dêstes benefícios que Deus faz a êstes gentios, que sem o conhecerem o buscam, também castiga aos que encontram as coisas de sua Igreja. E foi caso notável o que aconteceu ao regedor-mor de El-Rei, que grandemente contrariou a esmola, que El-Rei mandava dar na renda de umas aldeias para os ministros da Igreja; porque com 6
  • 42 Do que fi\eram os Padres da Companhia suma desonra foi este privado de seu ofício e dignidade, e acusado diante de • Pág.59. El-Rei por ladrão de suas rendas e tesoiro; * e perguntando-lhe El-Rei por um anel seu que valia cincoenta mil pagodes, o negou, jurando por seus pés que o não tomara; porém foi convencido por muitas testemunhas do furto do anel e de trezentos mil pagodes mais: por onde fica agora preso e a bom recado. O novo governador que lhe sucedeu, se mostra muito amigo dos padres. O príncipe herdeiro insta façam em suas terras igreja e cristandade. Havendo obreiros que possam acudir a tantas necessidades, se satisfará assim a êle, como às muitas portas que se abrem para o evangelho naquele reino, cuja gente parece que Deus vai dispondo e afeiçoando assim com os milagres acima ditos e outros semelhantes benefícios, para que havendo prègadores do evan- gelho, que são os que faltam, se colha o fruto desejado de tantas almas para êle. CAPÍLULO XVIII Da missão e residência dos reinos de Bengala, e em particular do reino de Chandecão ESTÃO nesta missão dos reinos de Bengala sete da Companhia, divididos em três residências de diversos reinos dos quais o primeiro onde fizeram assento, foi o reino de Chandecão, cujo rei também foi o primeiro que os chamou e que em suas terras lhes deu renda para se sustentarem, e onde também se fez a primeira casa e igreja, a qual teem provida de ornamentos e peças muito boas de que a gente da terra se não edifica pouco, ver em tão breve tempo tão acrescentado o culto divino do verdadeiro Deus, a quem êles até agora não conheciam. E armando-se mui ricamente na festa de JESUS, que é o próprio dia e orago seu, o príncipe e outro irmão seu mais moço a vieram visitar, mandados por El-Rei seu pai, o qual também veio ao outro dia acompanhado de todos os grandes de sua corte e folgou por extremo de a veç, e tornou a ratificar uma promessa que tinha feita de fazer aos padres uma •Pag.Go. igreja muito formosa de pedra e cal, ainda que* lhe não deitaram mão da palavra por alguns respeitos. E por extremo afeiçoado aos padres e tem deles grande opinião; folga de lhes conceder tudo o que lhe pedem, ainda que lhe pedem pouco, salvo se é rogarem-lhe por outros, como fizeram por um portu- guês a quem, por dívidas, tinha tomado uma galeota; e posto que a muitos privados seus o tinha negado, tanto que um padre lha pediu, logo a largou. O mesmo fez também, rogando-lhe os padres por um gentio que lhe devia uma grossa dívida, a qual logo lhe perdoou. Empregam-se aqui os padres em todos os ministérios de sua vocação e em aprender a língua, na qual já confessam alguns e falam desembaraçadamente diante de todos os gentio^, e é muito o que Nosso Senhor se serve dêles. Apontarei algumas coisas de edificação que entre outras sucederam. A uma mulher gentia tocou Nosso Senhor por meio de uma doença, da qual vendo-se apertada, pediu com muita instância a fizessem cristã; baptizada sarou subitamente no corpo e na alma. Tinha uma mulher cristã uma filha ainda gentia; não cessava de lhe 1
  • Nas partes da índia, no ano de 6o i 43 rogar, que se fizesse cristã, e tanto deu a água na pedra até que a quebrou. Recebeu o baptismo e entrou em tanto fervor e conhecimento de Deus, que depois foi mestra de sua própria mãe e de outros muitos que também desejavam a salvação. Estando outra mulher gentia doente, pediu mui eficazmente a fizessem cristã, e porque estava algumas léguas afastada dos padres, lhe disse um cristão que, sem saber a doutrina, não podia ser baptizada; e como se ela via oprimida da doença e da muita idade, lhe pareceu que não era possível aprendê-la. Porém pediu que a levassem logo ao padre, porque ela lhe daria tais razões, que o obrigassem a baptizá-la. Levaram-na, cumpriu-lhe o Senhor seus desejos, e com o sagrado baptismo recebeu logo também saúde, para que mais devagar se fosse instruindo na fé que recebera. Em uma povoação, onde há já alguns cristãos, havia uma menina gentia que sabia tôda a doutrina, e desejando esta muito fazer-se cristã e ter muitas compa*[nheiras, convidava «Pag. quantas] via, e lhes ensinava a doutrina com muito fervor; esta se fez cristã, e pois de tão pequenina começou a tomar o ofício de prègadora, quererá Nosso Senhor que seja instrumento de muito serviço seu. Estavam uns gentios pra- ticando de nossa lei; um dêles o mais honrado zombou dela; daí a poucos dias lhe apareceu uma visão que, segundo parece, foi S. Gonçalo, que é o padroeiro desta terra, vestido de branco, com o seu escapulário preto e um cajado na mão, como aqui está pintado em uma ermida, o qual lhe disse, que fosse buscar os padres e se fizesse cristão. Não fêz o gentio caso dêste toque de Deus. Porém o santo lhe tornou a aparecer a segunda e terceira vez; e tanto o revolveu e abalou interiormente, que não se podendo aquietar deu parte disto a um cristão que vivia naquela terra, o qual mandou logo recado aos padres; e indo lá um gentio lhes deu conta do que lhe acontecera e de seus desejos. Ofereceu logo dois filhos seus meninos, para que os baptizassem, e vindo-se com outro já grande para junto dos padres, depois de bem catequizados os baptizaram com muita solenidade, armando ^>ara isto a igreja e convidando a todos os portu- gueses e cristãos, para que, vendo os gentios a festa que lhes faziam em sua conversão, se animassem a receber a fé. Uma mulher gentia tinha um menino à morte, e não sabendo que lhe fizesse, se veio com êle nos braços à porta dos padres, pedindo que lhe valessem; perguntou-lhe um padre se queria que lho baptizassem, que era o melhor remédio que sabiam; disse que sim, e em o baptizando, levou-o Deus para si, e logo o enterraram em sagrado como filho da Igreja, e a própria mãe o esteve acompanhando e deitando terra sobre o corpo com muitas lágrimas. Passando os padres duas vezes por uma povoação de cristãos, onde havia três anos não fora vigário, fizeram muitas coisas de serviço de Deus, e entre elas foi uma que gastou um padre três horas em baptizar inocentes, deixando esperanças aos adultos e grandes de tornarem devagar a os catequizar, para receberem o santo baptismo. São os gentios * • Pág. desta terra observantes da sua lei, e assim guardássemos nós a nossa, como êles são pontuais na guarda da sua, pelo que esperamos que, convertidos, serão uns bons cristãos. Edificam-se muito do culto divino. Quando pela festa de JESUS se armou a igreja, além do Rei e seus filhos e grandes da côrte, como acima dissemos, não ficou pessoa em tôda aquela comarca, que a não viesse visitar; na qual entrando pasmavam e diziam homens e mulheres
  • 44 Do que fizeram os Padres da Companhia entre outras palavras de muita consolação: «Senhor de todo o mundo e Deus dos cristãos, mostrai-nos o caminho da verdade, que isto que aqui vemos nesta vossa casa, não é feito por homens como nós, senão por santos»; e diziam isto pela armação, porque nunca viram coisa semelhante. CAPÍTULO XIX Da residência de Cliatigão e do que nela se fêq / t ... Chatigão uma cidade e pôrto mui principal em Bengala, no reino que |~^ chamam dos môgos, o qual é do senhorio do Rei Arracão, que é o mais poderoso dos reis de Bengala; tem aqui fortaleza e rei posto de sua mão, e o pôrto tem dado quási todo aos portugueses que aqui vivem, dos quais é muito amigo, e pelo servirem e ajudarem em suas guerras tem dado a alguns deles como trinta mil cruzados de renda, e afirma que ainda há de fazer de sua mão um rei português em Bengala, o que lhe pudera ser bem fácil por ser ele senhor de muitos reinos e ter duzentas léguas de costa; mas são palavras de homem e gentio, que pela necessidade que deles tem agora, lhes faz tantos • Píg.63. favores e procura contentá-los; mas como os bengalas são refalsados e * tredos naturalmente, mais é de temer que, depois que os não houver mister, lhes dê na cabeça. E agora êste Rei senhor do Elefante branco, tão nomeado e famoso no Oriente, ao qual os gentios fazem a mesma reverência e zumbaia que ao próprio Rei. E êste Elefante uma poderosíssima bêsta, e quando há de sair fora, não se abala sem grandes festas e tangeres; e conforme ao sucesso dos reis em cujo poder já esteve, não se pode crêr senão haver nesta bêsta algum encantamento do demónio; porque cinco ou seis reis muito poderosos que já foram senhores desta bêsta, todos por derradeiro vieram a ser destruídos e se perderam com grandíssimo destroço de seus reinos; e o último que o possuiu, foi o Rei de Pegu, que sendo antes senhor de doze ou quinze reinos poderosís- simos, e pondo, cada vez que queria, passante de um milhão de homens em campo, e sendo florentíssimo em gente sem conto em seu próprio reino de Pegu, em riquezas e tesoiros incríveis, o triste Rei em muito poucos anos se veio a destruir de modo, que não sòmente perdeu os reinos que tinha conquis- tados, mas o próprio seu de Pegu se consumiu de gente, de tal maneira que não há hoje em dia nele mais que alguns poucos que, como selvagens, andam metidos pelos matos. Sucedeu que na sua última destruição, estando cercado o mesmo Rei de Pegu em sua cidade real, que já lhe não ficava outra coisa do Rei de Tangu, que antes fôra seu vassalo e dêste de Arracão, de que imos falando, o de Pegu, vendo-se sem remédio, se concertou com ambos. E ao de Tangu, por ser seu cunhado, casado com uma sua irmã, se entregou e fiou dêle sua própria pessoa, mulher e filhos com todos seus tesoiros e riquezas que eram inumeráveis. Ao de Arracão deu cinco estátuas de seus ídolos, muito grandes e tôdas de oiro, ornadas de riquíssima pedraria, dtys sessenta e sete que seu pai tinha feito, e cinco alqueires de pedraria, e uma filha sua por mulher, • Pág.64. e dois filhos seus * em reféns, e sobretudo o Elefante branco, que era a mor
  • Nas partes da India, no ano de 6o i 45 honra que êle tinha; e com esta vitória e despojos se tornou o Rei de Arracão de Pegu para seus reinos de Bengala no cabo do ano de noventa e nove, e entrou triunfando em sua cidade, levando diante o Elefante branco mui ornado, e um irmão e os dois filhos do Rei de Pegu; mas esperando a filha, a quem o Pegu tinha dado por mulher ao Arracão, que êle a levaria à mão direita, quando entrasse com êste triunfo na cidade, vendo que lhe davam a esquerda e que a rainha velha de Arracão ia à direita e ornada assim ela como suas damas, com parte das riquezas e pedraria de Pegu, a nova rainha com as suas se não quis pôr de festa, antes entrou chorando e dizendo: Vá embora a velha ornada, que tudo o que leva é meu. Porém muito peor sucedeu a El-Rei de Pegu seu pai, porque depois que se partiu o Rei de Arracão para Bengala, o Rei de Tangu, que o tinha em poder, o matou e lhe apanhou todos seus tesoiros e os levou para seu reino, e foram eles tais que os acarretaram de Pegu para Tangu dezassete cáfilas, cada uma de oito mil bêstas, scilicet, cavalos, bois, búfaros e elefantes, carregadas somente de oiro e pedraria, porque a prata e outros metais deixaram como coisa baixa, e estes sobejos montaram depois a El-Rei de Arracão que os recolheu, passante de três milhões de oiro. Estando pois êste Rei de Arracão, depois de vir vitorioso de Pegu, em sua cidade chamada do mesmo nome (a qual é mui grande e tem em si mais gente que Lisboa, ainda quando estava em sua prosperidade), o foram a visitar de Chatigão os Padres Belchior da Fonseca e Francisco Fernandes em compa- nhia de Jerónimo Monteiro, um português mui honrado e mais aceito a El-Rei de todos os portuguêse>s que lá há; sabendo El-Rei de sua chegada, os mandou chamar. Entrando foram dêle mui bem recebidos, e os mandou assentar junto com os príncipes de Pegu que consigo tinha. Mas porque naquele mesmo ponto lhe veio nova como El-Rei de I angu matara, contra os concertos que * tinham feito, a El-Rei de Pegu e a sua mulher e filhos (como acima já tocámos), «Pig- ficou muito anojado por ser seu sogro, e despediu logo aos padres dizendo que em outro dia lhes falaria devagar, porque então não estava para isso. Assim o fez no dia seguinte, no qual logo pela manhã os tornou a mandar chamar, os quais indo encontraram no caminho ao Corangarim, tio do mesmo Rei, e o mais poderoso senhor de seus reinos. \ isitaram-no os padres; houve muitos cumprimentos de parte a parte; meteu-os consigo na sua embarcação; loram praticando com êle por todo o caminho até chegarem a El-Rei, o qual estava no rio em umas embarcações mui grandes e feitas a modo de casas de ma- deira, por dentro mui espaçosas, tôdas pintadas e doiradas e com todo o sei viço necessário, como cm uma casa. Recebeu El-Rei os padres neste dia com losto mais alegre, e logo no princípio da prática lhes perguntou que era o que cá desejavam nesta vida. Responderam-lhe que desejavam muitas coisas, mas em particular o que mais pediam a Nosso Senhor era perdão de seus pecados, graça para o servirem, a exaltação de sua glória, a conversão do mundo todo à sua santíssima fé, e mui em particular a dos seus reinos. Perguntou mais, se podiam os cristãos matar todos os animais sem pecado. Responderam-lhe que sim, pois Deus Nosso Senhor os criara para o serviço do homem, e o homem para o servir a êle; porém que não podiam matar os animais alheios, por nao fazerem mal e darem perda a seus donos. A isto se houve como Pilatos quando
  • 46 Do que fi\eram os Padres da Companhia perguntou: Quid est Veritas? e não curou mais de resposta. Logo porém despachou os padres dizendo-lhes que êle queria que estivessem em Chatigão e em Arracão, que é a mesma cidade onde êle estava, e lhes assinou logo comedia e renda para ambas as partes, acrescentando que para o ano lhes havia de dar dobrado, e com isto os despediu. Com tão bom despacho de um rei gentio se tornaram os padres logo, o Padre Belchior da Fonseca para sua residência de Chandecão, o Padre Francisco • Píg.66. Fernandes para Chatigão, * onde logo começaram seu companheiro e êle a edificar sua casa em um muito bom sítio que lhes deram, a qual, com ser tão capaz, se fez com tanta diligência pela indústria dos portugueses e gente da terra que nisso andavam, que começando-a no princípio de Fevereiro, pouco depois da Páscoa se passaram a ela. E logo também puseram mão à igreja, e com a mesma diligência lhe deram tal pressa, que, com ficar mui capaz e bem assombrada, a dedicaram dizendo a primeira missa nela dia do glorioso São João Baptista ao qual tomaram por orago dela, e é a primeira igreja que há em Bengala de santo, porque todas as mais que ali havia, eram de Nossa Senhora, fora da qual os bengalenses não conheciam outro santo nem santa; e com lhe rezarem o rosário, sem mais outra vida boa, cuidavam de se salvar. Fêz-se mui grande festa na dedicação desta igreja, e se vai aperfeiçoando cada vez mais. No mesmo tempo, que ela se fazia, fez também aos padres outra muito linda em um bandel ou lugar seu, Diogo Nunes de Vila Lobos, um por- tuguês mui honrado e rico que ali vive, o qual se esmerou tanto nela, que assim no lustre como na riqueza, a quis avantajar muito à que os padres tinham feito. Dedicou-se esta a Nossa Senhora da Conceição, pela muita devoção que Diogo Nunes lhe tem; disse-se nela a primeira missa com a mor solenidade e festa que na terra foi possível. Indo o Padre Francisco Fernandes logo pela manhã à igreja, achou à porta um enigma com uma peça de veludo em cima para quem o adivinhasse. Deteve-se um pouco em o ver, e porque nos versos dizia que fizera mais cristãos que todos os padres de S. Paulo, adivinhou logo que era jalia, que é um género de embarcação em que os corsários (i) dali fazem seus furtos contínuos, e êles mesmos se gabam que fazem mais cristãos que os padres, porque, furtando a gente da terra, a vendem para a índia, onde se baptizam; pelo que levou a peça que serviu para um bom ornamento roxo do altar. A esta igreja vão os padres dizer missa e prègar, por haver ali muitos portugueses; e na de Chati- •Pág.67. gão, * que é casa própria sua, o fazem continuamente com estranho fruto e bem daquelas almas, assim dos portugueses como dos cristãos já feitos e que se vão fazendo. Daqui acodem também a prègar e a dizer missa aos bandeis ou lugares de Charangia e Anga, principalmente no tempo em que ali estão as naus e gente da índia, em que pela bondade de Deus se faz mui grande fruto. E foi de muita edificação e serviço do Senhor umas amizades e pazes que se fizeram entre dois bandos de gente portuguesa principal e a mais poderosa que vive nesta Bengala, os quais, havia um ano, andavam em grandes brigas e escândalos. Meteram-se os padres no meio, e ajuntando-os a todos em Dianga, (1) Ni.: Cosairos.
  • Nas partes da India no ano de 6o i 47 no dia de S. Pedro e S. Paulo, os compuseram de modo que todos se abra- çaram e jantaram juntos, precedendo missa e prègação ao propósito e com muita consolação de todas as partes, por verem na verdade que além de se porem em bom estado e tirarem o escândalo que davam aos gentios, com esta união e amizade se evitaram muitas mortes e desaventuras, que não puderam deixar de acontecer. Quanto à conversão da gentilidade, por ora não houve ainda lugar para mais que para os padres irem assentando as coisas das residên- cias e irem aprendendo a língua da terra, sem a qual pouco se pode fazer. Ajudou-os Nosso Senhor, porque alguns deles a vão já sabendo arrezoadamente, e teem já composto nela a doutrina cristã, a qual todos os domingos antes da missa e outra vez à tarde, ensinam na igreja em língua bengala e em portu- guês; e na mesma língua bengala lhes declaram já também o catecismo. Ordenaram uma casa de catecúmenos de que deram cuidado a um homem casado; nela baptizaram já como trinta pessoas, além dos doentes que baptiza- ram in extremis. ABIDA por El-Rei de Arracão a morte de El-Rei de Pegu, e como o Rei de Tangu, depois de o matar, lhe roubara e levara todos seus imensos tesoiros, como acima fica dito, se foi logo para Machão (que é a fortaleza em que estava o Rei de Pegu) e dali mandou chamar todos os portugueses que teem comedia em suas terras de Bengala, para se ajudar dêles, sendo neces- sário, contra o de Tangu. E porque os portugueses por uma parte desejavam muito de levar consigo um padre, e o pediam com muita instância, por outra também o próprio Rei de Arracão mandava chamar os mesmos padres, por estas razões e sobretudo para ver a disposição que havia no reino de Pegu, para se poder fazer nele cristandade, se resolveram os dois padres, que um dêles, que foi o Padre Francisco Fernandes superior, ficasse na casa de Chatigão, e o Padre João André fôsse com os portugueses a Pegu. Chegados à barra de Pirião, que é principal daquele reino, mandaram logo recado a El-Rei que estava em Mavio, cinco ou seis léguas da barra, recolhendo a prata e mais metais, relíquias dos tesoiros que ficaram dentro da fortaleza, e em especial a muita artelharia que passavam de três mil e duzentas peças gran- des e pequenas. Sabendo El-Rei de sua chegada, mandou ir lá o padre com os portugueses, e foi mui bem recebido e despachado dêle. Fêz o padre, emquanto ali esteve, muitos serviços a Nosso Senhor, confessando e sacramen- tando tôda aquela gente cristã, e incitando todos à devoção por ser tempo da quaresma. Na semana santa fêz um sepulcro muito devoto, ao qual veio o próprio Rei e o príncipe seu filho. #E quanto à disposição da terra para se fazer cristandade, nenhuma achou, «Pag. porque todo aquele reino estava despovoado de gente, e as terras feitas matos de tigres e bêstas feras; sòmente havia algumas povoações de sapuns, que são * CAPÍTULO XX • Pig. Da missão que o Padre João André fe\ a Pegu e da extrema assolação em que achou aquele reino
  • 48 Do que fi\eram os Padres da Companhia gente do mato como alevantados. Mas, porque o caso deste reino foi um dos mais lastimosos e estranhos que aconteceram no mundo, e em que particular- mente se viu um raro exemplo da justiça divina, com que quis castigar os pecados abomináveis e idolatrias daquela gentilidade, e juntamente as tiranias e maldades do próprio Rei que o possuía, brevemente o tocaremos, ainda que dêle se pudera fazer uma larga narração. Foi pois a origem de tôdas as desaventuras e ruína deste reino, antes tão florente em multidão inumerável de gente, tão opulento em riquezas de oiro e pedraria, tão fértil e abundante em tôdas as coisas para a vida humana, tão estendido em império e potência de grandes e poderosos reinos, que tinha conquistado o próprio Rei que íiltimamente o possuiu, porque êste, parte por sua cobiça, má condição e tirânica crueldade, parte por seu mau govêrno, de tal maneira se houve com seus vassalos, assim os dos reinos estranhos que tinha debaixo de seu império, que eram doze mui poderosos e riquíssimos, como os próprios naturais do reino de Pegu, que, não podendo sofrer suas grandes tiranias e maldades, uns após outros se foram levantando contra êle, fazendo- -Ihe os estranhos crua guerra, na qual, por seu mau govêrno dêle, lhe mataram tantos milhões de homens, destruíram tantos exércitos poderosíssimos, até que, consumido e gastado de todo seu poder, se veio por concêrto a entregar nas mãos e poder de um vassalo seu, que foi o Rei de Tangu, o qual pouco depois o matou a êle e a sua mulher e filhos, e se apoderou de todos seus tesoiros, como acima fica dito. Aos naturais seus do próprio reino de Pegu, êle mesmo fêz a guerra, e •Pág. 70. esta a mais cruel e bárbara do que lhe pudera fazer o * mor inimigo e mais raivoso tirano que houvera no mundo; porque, vendo êle a má vontade que todos os seus lhe tinham por sua má condição e tiranias, e como uns, por verem os maus sucessos de seus exércitos, não queriam já ir à guerra, outros fugiam para os inimigos, outros se aievantavam contra êle, arrebatado com ira e crueldade brutal, mandou ferrar a todos os pegus na mão direita com ferro e tinta preta, a muitos mandou vender aos reinos dos bramás, e trocar por cavalos; e aos que se levantaram ou tinham trato com os inimigos, não se contentava com castigar e matar os culpados e cabeças, senão também todos os que eram de sua obrigação, como fêz de uma vez a quarenta senhores de título, os mais principais de todo seu reino, e com quem seu pai tinha conquis- tadas tantas terras, que, por uma culpa que lhes achou nesta matéria, os mandou prender, e com tôdas suas famílias, mulheres, filhos e parentes, e com a mais gente de sua obrigação, que foi inumerável, os mandou meter em uma cêrca grande de mato e lenha, e mandando-lhes pôr o fogo os queimou vivos; e pôs gente de armas ao redor da cêrca, para que matassem a todos os que do fogo escapassem, sem perdoar a pessoa alguma. O mesmo mandou fazer depois, por muitas vezes, a muitos milhares de gentes, homens, mulheres, meninos e velhos, por serem da obrigação e família de alguns outros senhores que dêle fugiram para os inimigos. A outros man- dava deitar e afogar nos rios, onde eram tantos os corpos mortos, que as em- barcações, ainda que pequenas, não podiam romper por êles. Finalmente, além de outras cruezas inauditas, chegou a tão horrendo furor e raiva, que, por se
  • Nas partes da índia, no ano de 6o r 49 vingar de todos os pegus, pelo pouco amor e vontade que entendia lhe tinham, proibiu que se não semeassem os campos, para que todos morressem a pura fome, coisa que se não sabe nem lê, que tirano algum do mundo, por fero que fôsse, chegasse a fazer. E assim com isto se consumiram e acabaram os infelizes pegus, com a mais estranha e horrenda miséria, penoso género * de «Pág. 71. morte, que nunca se lê em histórias humanas, que acontecesse a nação alguma; porque chegaram êstes miseráveis gentios a tamanho extremo de fome, que vieram a se comer uns aos outros, e a ter muitos açougues de carne humana. Os pais e mães comiam os filhos, e os filhos os pais. Dentro nas cidades andavam os mais forçosos a fazer assaltos nos mais fracos, para os comerem; havendo-os às mãos, os despedaçavam, e nas ruas públicas os assavam e comiam, e com os ossos dos mortos, como com lenha, faziam o fogo. Das caveiras faziam panelas e tigelas para cozinharem, e também sobre caveiras, que lhes serviam de trempens, punham as tais vasilhas ao fogo. Aos fracos e magros que não tinham carne, abriam as entranhas e tiravam os fígados, porque no mais do corpo não havia senão ossos; e primeiro que exe- cutassem esta tão grande desumanidade, para que se aproveitassem de tudo o que podiam, lhes quebravam a cabeça e sorviam os miolos (1), e até as mulheres, com facas e cutelos, andavam a fazer estas carniçarias (2) nos que achavam menos poderosos que elas. Desta maneira se vieram a consumir os inumeráveis milhares de gentes que havia, não sòmente no reino de Pegu, mas no de Ava, Prum, Marbatão, Murmulão e outros vizinhos, sem haver agora neles gente alguma, mais que, como dissemos, as terras despovoadas e feitas matos bravos de bêstas feras, e as ruas das cidades arruinadas, e campos semeados de ossos e caveiras de mortos; o que tudo vendo o Padre João André, e como não havia que esperar por agora de se fazer cristandade alguma em Pegu, até se não tornar a povoar, o que não poderá deixar de ser tarde, se tornou a Chatigão. CAPÍTULO XXI Do colégio de Malaca e residências de Maluco e Ambóino DESTE colégio se não pode saber mais, por faltarem as cartas, que em • p*g.7*. geral estarem ali oito da Companhia e empregarem-se com muita edifi- cação em todos os ministérios, que ela costuma exercitar com o próximo, o que podem fazer mais còmodamente pela paz de que agora goza aquela for- taleza e cidade, procurando cada qual dos inimigos antigos (que são o Achém, Rei de Samatra, e o Raiale, Rei de Soter) ter os portugueses de sua parte. Não vivem tão quietos os dez padres que estão em Maluco, repartidos pelas duas fortalezas de Tidore e de Ambóino, antes em perpétuos trabalhos e angús- tias, que com muita paciência e caridade sofrem na conservação daquela cris- tandade, tão cruelmente perseguida dos moiros. Acrescentou-se-lhes o ano (1) Ni.: Miolhos. (2) Nt.: Carnecerias. 7
  • 5o Do que fizeram os Padres da Companhia passado verem-se quási na derradeira, com a guerra que os jaus, de mistura com os ingrêses, fizeram à fortaleza de Ambóino, que para o poder grande, com que a combateram, de gente, náus ingresas e outras muitas embarcações de Java (i), todas bem petrechadas de artelharia e munições, e a pouquíssima soldadesca portuguesa que havia na fortaleza, e essa com todo o desapercebi- mento, foi quási milagre escapar; porém quis Nosso Senhor que com um galeão de viagem, que chegou da índia, e duas ou três embarcações pequenas da terra, se deu tão boa mão aos ingrêses e jaus, que, depois de três ou quatro assaltos que deram, de que não colheram mais que mortes de muitos, perda de algu- mas embarcações suas e desaparelhamento das naus ingrêsas, se acolheram, tomando por partido, os jaus voltarem para suas terras, e os ingrêses torna- rem-se a aparelhar para fazerem sua carga. Mas no meio disto, os padres que estavam na fortaleza animando e ajudando os soldados, padeceram imensos trabalhos, os quais todos dão por bem empregados, pelo que dêles resulta de honra e glória de Nosso Senhor, bem de tantas almas, conservação daquelas fortalezas tão importantes ao bem e honra do Estado e Coroa de Portugal, e • Pág. 73. juntamen*te pelas esperanças que de novo teem, que, com a boa armada e excelente capitão André Furtado de Mendoça, que o Vizo-Rei Aires de Sal- danha neste ano mandou da índia, para deitar de todo fora daquele arquipélago os inimigos holandeses e ingrêses, e fazer de novo as fortalezas que mais im- portam nele, comecem a respirar, e os padres mais comodamente a exercitar seu ofício da pregação do evangelho. CAPÍTULO XXII Do colégio de Macau e residências do reino da China DÊSTE colégio e residências não eram chegadas as cartas ânuas ao tempo que se fez a geral, e por isso se não teve mais notícia das coisas daque- las partes, que a que, em breves palavras, diz em uma carta particular o Padre Reitor de Macau, que é a seguinte: Tive carta de Xaucheu, que o Padre Mateus Rício com seus companheiros, o Padre Diogo Pantoja e o Irmão Bastião Fernandes, partira para o grão Pequim aos trinta de maio com chapa de um mandarim grande, que daquela cidade os mandava em uma embarcação de El-Rei, a levar-lhe as peças que tinham para lhe dar de presente, e que estão com correio prestes, esperando por novas suas, para logo mas mandarem, que, como tardam, confio em Deus arrecadam. Queira êle dar a êste negócio feliz sucesso, pois depende dêle tanto o bem de tôda aquela missão e reino. Também das outras três casas há dias que não tive carta, porque parece que todas esperam para as mandarem com as de Pequim. Em Nanquim estão os Padres Catânio e João da Rocha. Fizeram ali cris- tãos dois mandarins de soldados, pai e filho com quatro netos. Em Nanchão (1) Nt.: Jaoa.
  • Nas partes da India, no ano de 601 5i está o Padre João Soeiro, só. Em * Xaucheu o Padre Nicolau Longobardo e • wg. o Irmão Francisco Martins com mais de cem cristãos que ali teem feito, que por-ora não se dão tanta pressa a fazer cristãos, até segurarem a estada no reino por via do próprio Rei. Queira Nosso Senhor, por sua misericórdia, pôr os olhos nêste mundo tão grande de gentilidade que por cá vai, e que estão pedindo o pão do santo evangelho e não há quem lho dê; e mover o coração do Padre Santo e de Sua Majestade para aumentarem muito os colégios de Portugal, em que se possam criar muitos sujeitos que venham a estas partes acudir a tão grandes necessidades de tantas almas. Fim do primeiro livro.
  • / *L I V R O SEGU DOS REINOS DE JAPÃO AO LEITOR INDA que em qualquer parte do mundo se vêem cada dia tantos exemplos da inconstância dêle, e pouca seguridade que há nos reinos, estados e mais honras desta vida, em Japão, mais que em nenhuma outra parte, se vê isto de ordinário mais claro, e principalmente no que nêste ano de 600 nêlé sucedeu; por- que foram tão estranhos os casos e mudanças de reinos, mor. tes de príncipes e grandes senhores, que nele aconteceram, que bem representam uma lamentável tragédia deste mundo, com a qual também as coisas da cris- tandade não padeceram pequeno detrimento, pois se viu toda nas maiores angústias e perigos que até agora padeceu em Japão. Mas Nosso Senhor que com tão particular providência e amor governa sempre esta sua nova Igreja e mínima Companhia, de tal maneira em todo êste tempo amparou uma e outra, que, ainda que por algum espaço permitiu se vissem em tamanha tormenta, contudo no meio dela, êle a foi governando de modo que não sòmente ficaram salvas, cessando os ventos * e amainando as ondas, mas ainda sôbre tudo isto se -Píg. 76. acharam no fim dela em muito melhor estado do em que antes estavam, com grande glória de Nosso Senhor, merecimento desta sua Companhia e bem de infinitas almas, como se verá pelo que nesta história ao diante se contará. Mas porque, para se entenderem melhor as coisas necessárias dela, é necessário que se tenha primeiro notícia de alguns príncipes e senhores de que muitas vezes se há de fazer menção, esta daremos brevemente. N DO 4 %
  • * CAPÍTULO PRIMEIRO Quem foi Taicoçama, monarca de Japão OR morte do grande Rei Nobunanga (que foi um dos poderosos reis que houve em Japão, e o senhor da mor parte dos ses- senta e seis reinos que nele há), sucedeu no império um capitão seu mui esforçado que então se chamava Faxiba, que é este rei de que imos tratando, no qual Deus quis mostrar o pouco caso que faz dos impérios e monarquias do mundo, porque foi êste de geração mui vil e filho de pais tão pobres e baixos, que, por êles o não poderem sustentar, servia por soldada a um lavrador rico, morador no reino de Voari donde era natural. Chamava-se neste tempo Toquixiro, era mui vivo e diligente no serviço de seu amo que, pela pouca estima em que o tinha, o ocupava de contínuo em lhe mandar trazer lenha do mato às costas. E neste ofício se serviu dele muito tempo; mas êle o fazia com tão grande diligência e viveza, que não sòmente contentava ao amo, mas a toda a pessoa que o conhe- cia. Estando uma noite os criados de casa ao fogo, por ser aquela região muito fria em tempo de inverno, viu Toquixiro que lhe gastavam muita lenha, e doendo-se disto, pelo muito trabalho que lhe custava, o estranhou aos compa- nheiros, e indo-se ao fogo de tal maneira concertou aqueles tições e os ordenou uns com os outros, que com muito pouca lenha fez tão grande fogo, que se afastavam os que estavam a êle. Ouviu e viu seu amo tudo isto, donde estava, e folgava muito de conhecer sua habilidade, pela qual e por outras boas partos que nele enxergava, lhe tomou muito mais afeição, e se começou a servir dele em coisas de mais importância; e vendo a boa conta que dava de tudo, e os grandes brios e espíritos que tinha, mais para soldado que para lavrador, por lhe fazer bem, lhe deu dez mil caixas, que é o mes*mo que dez mil réis, e lhe 'P*g- aconselhou que se fôsse fazer soldado, porque por êste meio viria a valei muito. Foi-se logo Toquixiro à cidade de Meaco onde, por não ser conhecido, se assen- tou a servir um mercador rico, do qual ainda que era muito estimado e bem tratado por sua boa indústria e fidelidade, estimulado todavia de mores espíritos, e fazendo consigo consideração do pouco que podia vir [a] valer por servir a um mercador, o deixou c se foi pôr com um fidalgo conhecido e privado do rei Nobunanga que então reinava, em cuja casa lhe foi dado por ofício ser varredor da rua de seu senhor e tê-la sempre mui limpa, conforme ao costume do Japão. O que fazia com tanta perfeição, que até o Rei, quando por ali passava, gabava aquela limpeza; e sucedeu um dia que, passando por ali o Rei à caça e soltan- do-se um falcão, se pôs sôbre uma árvore mui alta, e por não acudir ao chamar que lhe faziam, se entendeu estar embaraçado com as peias, e chamando seu
  • 56 Das coisas do Japão amo a Toquixiro, lhe mandou que subisse mui depressa a o desembaraçar, o que ele fêz com tanta ligeireza, como se fôra um bugio; e por isto e por êle também muito o representar em sua fisionomia (i) lhe ficaram dali por diante chamando Car, que em língua de Japão quere dizer bugio. Indo para lançar mão do falcão, se desembaraçou e foi pôr em outra árvore ali junto, e bradando seu amo a Toquixiro, lhe disse que, donde estava, se lançasse em um pego mui fundo que estava ao pé da árvore, para mais depressa ir subir a outra e trazer o falcão a El-Rei. Êle se lançou, como se fôra uma ave, e se saiu do pego com tanta presteza, que quando El-Rei cuidava que estava ainda debaixo da água, já êle estava emcima da outra árvore; e tomando o pássaro o veio apresentai a El-Rei com suas cerimónias, o qual mostrando-se muito contente da presteza com que isto fizera, pela muita estima em que tinha o falcão, travou prática com êle alegremente, e gostou de lhe dizer que era natural de uma pobre aldeia do mesmo reino de Voari; logo lhe disse que o tomava em seu * fi. 79». serviço, e que o fôsse acompanhando, o que êle não * fêz por então, por estar mal vestido. Mas indo-se para casa, se vestiu de outros vestidos lustrosos, e tornando o Rei da caça, o foi esperar em um passo, onde se lhe apresentou, já mais autorizado, assim nos trajos como com suas duas catanas, que são espadas, na cinta, que é geral trazerem todos os japóes. E porque êste lugar aonde se apresentou a El-Rei, foi debaixo de uma árvore, dêle lhe pôs o nome Quinoxita que quere dizer debaixo da árvore, e assim lhe chamaram dali por diante, até ter outro nome. Começando a servir a El-Rei, o fêz tão bem e com tanta satisfação em tudo o [que era gôsto de seu senhor, que se adiantou nele a muitos outros criados e mui antigos da casa real, por onde começou a ser envejado e abor- recido dêles, de maneira que desejavam achar alguma ocasião por onde o pudessem pôr em desgraça com o Rei. Aconteceu neste tempo, estando êle ausente, que acertou de faltar da guarda-roupa de El-Rei uma catana ou espada de muito preço e guarnecida de oiro; puseram a bôca nele, e que por essa causa se ausentara; e como êle era muito atrevido, presumiu o Rei que podia ser assim; porém não faltou um amigo seu que o avisasse do que passava, e que não viesse ao paço, porque corria risco sua vida. Ficou muito confuso, mas como estava inocente, buscou remédio ajudando-se para isso de seu vivo engenho, e começou a fazer discurso que o que tinha furtado a catana, havia de ter desfeito a guarnição dela, por não ser conhecida, e havia de ir vender a casa dalgum ourives, como de feito assim passou. Porque, indo ter com um e per- guntando-lhe se tinha ali alguma guarnição de tal sorte para vender, êle lhe mostrou parte da que buscava, a qual logo conheceu, e perguntando ao ourives donde a houvera, disse que lha vendera um criado do Rei, que nomeou; ao que respondeu Quinoxita que aquela peça era de El-Rei, que a guardasse bem, porque lhe haviam de pedir conta dela. E logo depressa se foi ao paço e apareceu ante o Rei, o qual lhe perguntou que era feito dêle havia tantos dias. Respondeu com muita liberdade: «Senhor, ouvi dizer da culpa que meus com- panheiros me punham do furto da catana, de que eu estou tão inocente, e que (i) Nt.: Philosomia.
  • Das coisas do Japão 57 Vossa Alteza lhe tinha dado ;crédito, do que * muito me espantei pela ruim »Pág. 80. conta em que me teem, e por me temer não ousei de aparecer, até averiguar a verdade, e pela trazer comigo e já saber quem fez o furto, venho agora mostrar minha inocência, e como fuão foi o que a furtou e não eu»; e lhe contou o modo como o soubera. O Rei o mandou lhe desse logo na casa e lhe cortasse a cabeça, o que fez com muita brevidade; onde também achou em poder do morto as mais [peças da guarnição, que lhe faltavam, e com elas e com a cabeça do ladrão se tornou a El-Rei. O qual ficou tão satisfeito dêle, que dali por diante o começou a estimar muito mais, e lhe foi dando rendas e tenças, com que começou a ter cavalos e criados com suas armas, crescendo em tanto brio, que em tudo procurava avantajar-se no serviço do Rei; e na primeira guerra em que o ocupou, se houve com tanto esforço e aviso nos ardis que dava, como se toda a vida usara a milícia, e saindo em tudo mui bem afortunado. Pelo que, o Rei lhe foi acrescentando as rendas e a praça de capitão, até lhe cometer o cêrco de uma fortaleza chamada Nangafama, a qual em mui breve espaço, com seus grandes ardis e singular esforço rendeu, sendo sempre o primeiro em todo o perigo. O que sabido por El-Rei, lhe fêz mercê da própria fortaleza, com outras muitas terras ao redor; e emfim, cres- cendo cada vez mais nos feitos da guerra, El-Rei o fêz um dos principais capitães de todo seu exército, e com mui grosso poder de gente, o mandou sobre o Moridono de Iamangúchi, Rei de nove reinos, para lhos conquistar. Vendo-se Quinoxita tão alevantado, e feito general de um tão grande exército e emprêsa, pediu a El-Rei, lhe desse outro nome mais alto e honroso, para espanto do inimigo tão poderoso, com quem ia pelejar em seu serviço. Pôs-lhe logo por nome Faxiba Chicujém, que quere dizer asas sòbre arvoredo, e deu-lhe êste nome, porque Mori, que era do Rei inimigo, quere dizer arvoredo. * CAPÍTULO II .p
  • 58 Das coisas do Japão morte de seu pai e irmão. Porém a ambos ganhou a dianteira Justo Ucon- dono, valoroso capitão cristão, o qual também, pouco antes de sua morte, Nobunanga mandara com um bom corpo de gente para ajudar a Faxiba contra Moridono. Êste capitão sabendo no caminho o que passava, fêz logo volta para Meaco, e a grandes jornadas caminhou com sua gente, para também acudir a sua fortaleza de Tacaçúqui, pelo perigo em que estava, por estar perto de Meaco; mas o tirano Achequi, como desejava grandemente de o ter por sua parte, tinha dado ordem a seus capitães e soldados, que nenhum dano fizessem em coisa que tocasse a Justo, nem agravassem a sua mulher e filhos, que Pág.82. estavam na * fortaleza. Vinha porém Justo mui sentido contra êste tirano pela grande traição que cometera contra seu senhor, e desde logo se declarou por seu inimigo, e pôs a ponto sua gente, e se confederou com o filho terceiro de Nobunanga e com Faxibadono, para vingarem aquela morte; o que lhes sucedeu tão pròsperamente, que em mui breve tempo a traição (1) foi castigada pela justiça divina, porque foi desta maneira. Sabendo Achequi que vinham contra êle três exércitos, se partiu de Anzu- quiama caminho de Meaco, por não lhes dar lugar de se ajuntarem. Estava Justo no caminho por onde êle havia de passar, e sabendo de sua vinda, deu aviso a Faxibadono e ao filho de Nobunanga, que estavam três léguas dali, para que marchassem depressa a o ajudar, porque êle se ia a ver com o inimigo, que trazia como oito mil homens, pôsto que êle se não achava então mais que com mil ou pouco mais em sua companhia. Chegando Justo à vista do tirano, com a confiança que tinha em Deus e na justiça que levava de sua parte, arre- meteu com sua gente com tanto valor e ânimo, que do primeiro encontro der- rubaram mortos mais de duzentos, os principais que acompanhavam ao Achequi e vinham na dianteira, sem que Justo perdesse mais da sua gente que uma só pessoa. Com êste primeiro encontro e bom sucesso que Justo teve, desmaiaram tanto os inimigos, vendo o valoroso ânimo e esforçado coração com que peleja- vam Justo e seus companheiros, que todos eram soldados mui escolhidos, que, descobrindo no mesmo tempo outros poucos companheiros de Justo, que ficaram um pouco atrás e vinham marchando de-pressa, e cuidando que era o exército de Faxiba e do filho de Nobunanga, não se atreveram a esperar mais, e come- çaram a desamparar o campo, fugindo cada um por sua parte; e na verdade não se enganavam, porque ambos os exércitos vinham já mui perto, mas quis Pág.83. Nosso Senhor * dar esta vitória a Justo, que foi em véspera da Visitação de Nossa Senhora. Saiu o traidor de Achequi ferido desta batalha, e foi-se recolher em uma fortaleza que aí estava perto; mas não se tendo nela por seguro, por ir mais desconhecido se saiu só e sem criados; e foi tal sua desgraça, que o encontraram no caminho uns lavradores, os quais conhecendo-o por quem era, o mataram por ganharem alvíçaras com Faxibadono, e assim não gozou mais êste traidor do fruto de sua traição, que doze dias. Seu corpo e cabeça puseram em um pau fora da cidade de Meaco. Acabado êste tirano, como Faxiba tinha em seu poder os capitães princi- (1) Nt.: TreyçSo.
  • Das coisas do Japão 5 9 pais de Nobunanga e os soldados mais destros, que o tinham servido em suas guerras, de tal maneira com sua prudência c discrição, que a tinha grande, e com a larga liberalidade que sempre com todos usava, lhes soube ganhar as vontades, que todos folgaram de o servir, como sempre o tinham feito em tempo de seu amo. E isto lhe deu ânimo para tratar de se fazer monarca de todo o Japão e de se ficar com todos os reinos de seu senhor, parecendo-lhe que, morto já o inimigo principal, não ficava quem lhe fizesse rosto senão o filho terceiro de seu amo, porque o primeiro morreu com o pai, e o segundo endoidecera de nojo. E para sair com seu intento com melhor côr, e os ânimos dos inimigos e vassalos de Nobunanga se não alterarem, deu ao filho terceiro um estado em que vivesse honradamente, e lançou voz como êle ficava por governador daqueles reinos, emquanto não tinha idade para os govei nar e entrar na posse dêles, como herdeiro legítimo, um neto de Nobunanga, filho de seu filho morgado que com êle foi morto, o qual neto neste tempo não era mais que de três ou quatro * anos; e para maior dissimulação, o pôs em uma for- «Pâg. 84. taleza com grande aparato e majestade de serviço, ficando-se êle com titulo de governador, até que pouco e pouco indo-se apoderando cada vez mais do império, dentro em poucos anos deu também a êste o estado e reino do Mino em que vivesse, e êle se fez absoluto senhor de todos os sessenta e seis reinos do Japão, coisa que havia mais de trezentos anos que nunca outra tal se vira naquele império. E o que havia poucos anos andava acarretando lenha às costas, e não tinha um real de seu, hoje se vê Imperador de uma tão grande monarquia, dando e tirando reinos a quem queria, e tão acatado e temido de todos os reis e senhores do Japão, que vendo todos e sentindo esta tão grande afronta de vir um homem tão vil a senhoreá-los desta maneira, nenhum contudo isto ousava de bulir consigo, com serem de coração e natureza tão grandiosos, pelo grande temor que dêle tinham. O qual, não contente com se ver senhor de todo o Japão, como era de tão altivo coração, cometeu uma empreza nunca até então intentada de nenhum dos reis seus antecessores, que foi conquistar o reino da China, e para isto determinou de começar pelo reino de Corai que confina com ela e dista do Japão obra de oitenta léguas, ao qual iez passai logo mais de duzentos mil homens, com que começou a guerra naquele reino, que durou até à sua morte; e ainda que os japoes alcançaram grandes vitórias, e tiveram conquistado quási todo aquele reino, por derradeiro, no cabo de sete ou oito anos que a guerra durou, cada um ficou com o seu. E neste meio tempo mudou êste tirano duas vezes o nome: de primeiro se chamou Camba- cudono, título que quere dizer supremo senhor de Japão, depois tomou outro maior, que foi Taicoçama, que quere dizer grande e supremo senhor, e por êste o iremos nomeando daqui por diante. I
  • 6o Das coisas do Japão w«-85. * CAPÍTULO III Da boa vontade que Taicoçama começou a mostrar à cristandade e aos padres da Companhia, e da grande perseguição com que depois os perseguiu até sua morte COM muitos arreceios estava tôda a cristandade de Japão, de como Taicoçama se haveria com os padres da Companhia e com ela; mas êle a tirou logo desta dúvida, porque lembrado de quão favorecidos foram os padres de El-Rei Nobunanga, seu antecessor (como quem muitas vezes da parte do mesmo Nobunanga, seu amo, levou muitos recados ao Padre Luís Fróis, que naquele tempo estava em Meaco, e como quem também tinha tanta experiência, desde êste mesmo tempo, da grande fidelidade e lealdade que os cristãos tinham a seus senhores), como sagaz e prudente que era, e via quanto lhe importava achar e ter consigo muita de tal gente como esta, os começou a estimar, honrar e favorecer e fazer grandes gasalhados e honra aos padres, todas as vezes que lhe iam falar. O mesmo fazia a Rainha, sua mulher, a muitas senhoras cristãs que tinha consigo; e como isto se entendia, e que êle folgava que os seus se fizessem cristãos, foi parte para muitos senhores e fidalgos de sua côrte ouvirem as prègações e se baptizarem com muitas outras almas. E passou patente larguíssima, para que em todos os reinos de Japão se pudesse livremente prègar a lei Deus, com vários privilégios que concedeu às igrejas e aos padres; mas para que se veja quão pouco há que fiar de seme- wg. 86. lhan*tes favores, quando o coração de quem os faz não está fundado no ver- dadeiro amor e temor de Deus, tudo isto durou muito pouco, porque, quando mais sólido parecia que estava, arrebatado êste tirano de um espírito diabólico, repentinamente se mudou de tal maneira, que trocando tôda aquela benevolência e amor que antes mostrava à lei de Deus e padres que a pregavam, em cruel ódio, levantou contra êles uma tão grande perseguição, que dali por diante em- quanto viveu, nunca jamais levou mão de a perseguir, publicando cruéis éditos contra os padres, em que os desterrava de todo Japão, fazendo destruir e derribar mais de duzentas igrejas com as casas e colégios onde os padres mo- ravam. E o motivo que teve para arrebentar em uma mudança como esta de improviso, em uma ou duas horas, depois de com muita familiaridade e mostras de amor estar por uma tarde tôda falando com o Padre Provincial e capitão da nau da China, que o foram visitar, se não sabe que fôsse outro senão que, sendo êste tirano mui incontinente e desenfreado em seus vícios, não se con- tentava com ter em seu paço muitas mulheres para seus torpes apetites, senão que chegava seu desavergonhamento a tanto, que mandava por diversos reinos a buscar as donzelas de melhor parecer que neles se achassem, de qualquer qualidade que fôssem. E isto fazia tão desaforadamente, que não havia poder- -se-lhe ir à mão a seus torpes apetites, porque, onde achava resistência, usava do seu poder de tal maneira, que ou por mêdo ou por vontade ou promessas, os punha em efeito.
  • Das coisas do Japão 61 E tinha para êste ofício um ministro diabólico que era um bonzo por nome Jacuim, e êste, emquanto o tirano esteve nas partes do Ximo, que são os nove reinos debaixo, tendo noticia que as mulheres do reino de Arima e Omu*ra «Pág. eram de bom parecer, se foi lá, e pondo os olhos em algumas donzelas que mais lhe contentaram, procurou de lhes falar e persuadi-las a que se fossem com êle; mas elas, entendendo que o fim deste mau homem não era o que convinha à salvação de suas almas e honra de suas pessoas, não quiseram con- sentir no que lhes pedia, e como eram cristãs e honestíssimas, lhe deram a resposta que êle merecia, e se esconderam tôdas, sem uma só poder haver às mãos. Ficou com isto tão corrido e afrontado êste bonzo e ministro do diabo, que se foi logo ao tirano Taicoçama com grandes queixumes contra os padres, dizendo que por sua doutrina aquelas donzelas cristãs o desprezaram, e fizeram tão pouco caso do seu mandato; e como êste tirano era sumamente colérico e arrebatado, com isto que êste bonzo lhe disse, se indignou tanto e se encheu de cólera, acendendo-lhe o diabo mais o coração com a ocasião que tinha, que com haver duas horas que, com tantas mostras de benevolência, acabara de falar com os padres, no mesmo ponto pronunciou decretos contra êles, que logo se saíssem de Japão desterrados, nem se pregasse mais nêle a lei de Deus, dando por razão que era mui prejudicial e contrária ao culto e veneração dos Camis e Fotoques, que são seus ídolos e deuses, que tantos anos havia se conservava em aqueles reinos do Japão, e aos bons costumes daquele reino. E em todo o tempo que daqui por diante viveu, deu sempre grandes sobres- saltos e perturbações a tôda esta cristandade, da qual se não pode encarecer o zêlo da fé e resolução a morrer por ela, que geralmente mostrou, as grandes finezas que muitos senhores e senhoras fizeram, até alguns perderem suas fazendas e seus estados e serem desterrados por ela, e outros derramarem seu sangue e glorificarem a Deus Nosso Senhor com glorioso martírio, como tu*do *Pág nas cartas daqueles tempos se tem escrito. E aos padres foi forçado andarem por todos êstes anos com grandíssimo recato, disfarçados e escondidos por várias partes, por não desampararem aquela cristandade, padecendo imensos trabalhos e perigos de vida; e se não foram muitos senhores cristãos que com evidente risco de perderem seus estados e vida, os agasalhavam e escondiam em suas terras, impossível fora humanamente poderem ficar em Japão, ou, ficando, não serem mortos, pelo grande ódio e ira que êste tirano tinha contra êles. Mas foi o Senhor servido de os amparar desta maneira, assim para conso- lação e remédio dos cristãos já feitos, como para a salvação de muitas mil almas que por todo êste tempo da perseguição se converteram a Deus e baptizaram por meio dêles; porque, sem embargo dos cruéis éditos do tirano e do grande ódio que tinha à lei de Deus e desejo de a arrancar de todo Japão, era coisa maravilhosa de ver quanto neste mesmo tempo o fogo de Deus se ateava por muitas partes, e quantas almas se convertiam a êle; e ainda muitos e grandes fidalgos e senhores de sua própria côrte se baptizaram secretamente e sem êle o saber, como foram Chinagandono, neto e legítimo herdeiro de Nobunanga, aquele a quem, sendo menino, êste tirano, quando se levantou, fingiu que queria pôr no lugar de seu avô Nobunanga e fazer imperador de Japão (ao qual acima dissemos dera o reino de Mino); El-Rei de Ingua, senhor grande; um capitão,
  • 62 Das coisas do Japão o maior e mais principal de Fidandono, rei de Buchi e genro de Nobunanga, que já também era cristão, o qual por nestes dias falecer, mandou Taicoçama a êste grande capitão que de novo se baptizara, por governador daquele reino; um principal senhor, tio de Aloridono, senhor de 9 reinos; um irmão de Jucon- dono, rei de Tango; dois filhos e um sobrinho do Vizo-Rei de Meaco; um • Pág. 89. cunhado de Bigeno Chunogandono, rei * de 3 reinos, o qual tinha mais de sessenta mil fardos de arroz de renda, e se chamava Acaximandono João, extre- madíssimo capitão; El-Rei da ilha de Xeuxima; dois sobrinhos de Fucuximan- dono, senhor poderoso do reino de Voari; os quatro senhores das ilhas de Amacusa, com outros muitos fidalgos e gente muito ilustre, que em diversas partes se baptizaram, como largamente se relata nas cartas gerais daqueles anos. R assim, quanto mais o tirano procurava destruir a sementeira de Deus, tanto com mais fôrça arrebentava e frutificava o grão de trigo de seu sagrado evangelho. CAPÍLULO IV Em que se dá noticia de alguns senhores, dos quais ao diante se há de fa\er muita menção PARA que se entendam mais claramente as coisas que ao diante se hão-de tratar, será bem dar notícia dalgumas pessoas, das quais nesta relação mais frequentemente se fala. Entre os muitos e grandes capitães e senhores de Japão, que residiam na corte de Taicoçama, foram mui assinalados e principais três ou quatro capitães cristãos, dos quais foi o primeiro Ucondono Justo, senhor grande, mas muito maior capitão e excelentíssimo cristão. Êste era locotenente de todo o exército de Taicoçama, e a quem êle estimava sobre todos quantos capitães tinha, não sòmente por seu grande esforço e experiência na guerra, mas porque também lhe foi princípio e ocasião de toda sua felici- dade, porque, como acima dissemos, êste foi o que pelejando em campo com o traidor Achequi depois de ter morto a El-Rei Nobunanga, seu senhor, e levantan- • Pág. 90. do-se com o império, o desbaratou e * pôs em fugida, aonde foi morto. Porém, na mudança que êste tirano Taicoçama fêz de si contra a lei de Deus, perdeu de seu serviço êste grande capitão, porque, sendo o primeiro que lhe resistiu no negócio da fé com admirável valor e cristandade, êle o privou de toda sua dignidade e estado que era mui grande, e o desterrou da corte, o que o valo- roso Justo teve pela maior glória e felicidade que nesta vida lhe pudera acon- tecer, pois tudo isto padecia pela causa de Deus e de sua santíssima fé. E ainda que alguns anos depois lhe levantou o destêrro, nunca porém o tornou a admitir ao primeiro estado, nem o bom Justo fêz por isso, prezando-se mais viver pobre por Cristo, que ser senhor de tôda a monarquia do Japão. Não faltou todavia Figendono, rei de Sanga, grande amigo seu, que o agasalhou e lhe deu passante de trinta mil fardos de arroz com que se sustenta, fazendo sempre suas acostumadas finezas pelo acrescentamento da fé e honra de Deus. Outro capitão cristão do serviço de Taicoçama foi Condera Cambiogedono Simeão, o qual foi seu general da cavalaria e muito grande e esforçado capitão,
  • Das coisas do Japão 63 a quem êle, por seus serviços, no tempo que levantou a perseguição, tinha feito rei de Bujém e determinando de lhe dar outros estados, o não fez (como êle mesmo disse), por ser cristão; mas ou fôsse por não perder tão grande capitão, como tinha perdido a Justo, ou por se não arriscar a Simeão lhe resistir, como lhe tinha resistido Justo, não quis mais bulir com êle, antes sempre se serviu, assim dêle como de Cainocami, seu filho, também cristão e tãcr grande capitão como seu pai. O quarto capitão e o mais famoso de todos os que houve neste tempo em Japão, foi Tcúno Camidono Agostinho. Êste se converteu à nossa santa fé nos primeiros anos do império dêste tirano, ao qual sendo seu moço fidalgo servia, e êle o amava como filho, e o fez logo seu capitão geral do mar com superin- tendência sobre todos os reinos das partes do Ximo, que são nove. Deu-lhe um grande estado que foi quási todo o rei*no de Fingo, fê-lo general de todos 'Pág-gi- os duzentos mil homens que mandou à conquista do reino de Corai, aonde este grande capitão fez feitos insignes em armas e donde cobrou grande fama e nome em todo Japão. Mas muito melhor o mereceu por seu grande valor e zêlo nas coisas da fé, porque no tempo da perseguição sempre se mostrou excelen- tíssimo cristão, arriscando-se muitas vezes a perder o estado e a vida, se Taicoçama, como prudente e por não perder tão importante capitao, não soubera dissimular em não o apertar e obrigar a deixar a fe, antes no mesmo tempo lhe fez muitas mercês e acrescentamentos no estado, não somente a êle, mas a seu pai, que também era grande cristão, a quem fez governador do Sacai, e depois, por morte do pai, a um filho, irmão de Agostinho, também cristão; e o mesmo respeito teve a Madalena, mae do mesmo Agostinho, a qual, sendo secretária da Imperatriz sua mulher e desenganando-a, quando seu marido levantou a perseguição, que se a não deixavam viver como cristã e conforme à sua lei, não havia de morar nem viver no paço e ainda que por isso a mandassem matar, êle, pelo grande respeito que lhe tinha c necessidade de ter tal pessoa em sua casa, dissimulou com ela e a deixou viver com tôda a liberdade, conforme à lei de Cristo. CAPÍTULO V Do que fê\ Taicoçama àcêrca da sucessão do império DEZASSEIS anos havia que êste tirano tinha usurpado o império do Japão, e sendo de idade de sessenta e quatro anos e já mui gastado de suas forças, assim pelos trabalhos das guerras que sempre teve, como por sua * grande incontinência, nos últimos de Junho de noventa e oito lhe deu uma 'Pág.^. enfermidade de câmaras, a qual pouco e pouco o foi consumindo de maneira, que em breves dias perdeu a esperança de poder escapar; mas, como homem que sempre foi de mui grande coração e prudência nas coisas dêste mundo, vendo-se com a morte diante, com o mesmo semblante e inteireza começou a dispor da sucessão do seu império, como se estivesse com tôda a sua perfeita saúde e forças.
  • 64 Das coisas do Japão \ Tinha este tirano urn só filho, menino de cinco anos, ao qual desejava muito deixar por sucessor; parecendo-lhe que, sendo tão menino, não se poderia conser- var no império, se o não deixava encomendado a gente que o pudesse sustentar mandou chamar El-Rei de Bandou, que se chama Iiaiasu, o qual por ter oito rei- nos e ser mui nobre, bemquisto e grande soldado, temia se poderia levantar com a monarquia, e por isso como homem sagaz quis fazer, como dizem, do ladrão fiel, e encomendar-lhe seu filho, e para isto, diante de muitos senhores e fidalgos, lhe fez esta fala: Eu morro, mas não sinto a morte, pois é coisa ordinária a todos os homens; só sinto deixar meu filho de tão pouca idade, que lhe não posso entregar o govêrno do império. Já que assim é, cuidando eu a quem pudera deixar entregue êste filho, que fôssc pessoa fiel, poderosa e de valor, e de quem eu me possa fiar que quando êle chegar a ter idade, o meta de pos'se destes estados, não acho em todo o Japão pessôa que para isto tenha as partes sobreditas, senão vós. Portanto eu vos entrego meu filho e o império, para que, quando fôr de idade que possa governar, vós lho entregueis. E para que isto se faça com maior firmeza, aplauso e contentamento dos senhores de Japão, já que vós tendes uma neta, filha de vosso filho herdeiro, esta casareis com meu filho, e já que vós sois avô da menina, sereis também pai de meu filho. A esta prática respondeu El-Rei de Bandou com as lágrimas nos olhos •Pág.93. (e segundo se cria não tanto pela morte de Taicoça*ma, como de alegria, por- que lhe entregava o filho, e govêrno do império como êle o desejava), porque estivera êste Rei casado, sendo Rei de Micava, com uma irmã de Nobunanga, e favorecera a seus sobrinhos contra êste tirano logo no princípio que se levan- tou, para que [não] entrasse na monarquia de Japão. E assim mostrando mais tristeza no rosto do que tinha no coração, lhe respondeu: Eu, senhor, quando morreu Nobunanga, meu cunhado, não tinha mais que o reino de Micava, e como Vossa Alteza começou a governar, à sua sombra conquistei outros três. E depois Vossa Alteza por mais me honrar, em troco dos quatro que tinha, me deu oito reinos no Bandou. Além disto me fêz sempre tantas honras e mercês, que eu e tôda a minha geração estamos obrigados a servir sempre a seu filho e descendentes, não perdoando a estado nem vidas, quando para seu serviço assim cumprir. Eu nesta determinação estava de pôr tôdas as minhas forças para que o filho de Vossa Alteza ficasse com o império, mas agora que sobre tantas mercês me quis fazer esta de juntamente com o govêrno do império me entregar seu filho e fazê-lo também genro do meu, e mostrar quanta con- fiança tem de mim, fico tão cativo e preso de Vossa Alteza com tais cadeias de amor, que mais e mais determino fazer para cumprir seu desejo em tudo o que me manda. Acabado êste razoamento, mandou logo Taicoçama trazer a neta de Iiaiasu, que era de dois anos, e em sua presença se fizeram os desposórios com a festa e alegria, que naquele tempo se sofria. Tomou logo Taicoçama juramento a El-Rei, que todo o prometido cumpriria, e todos os outros senhores que estavam presentes, que seriam leais a seu filho e procurariam pô-lo e conservá-lo na posse do seu império, e a outros senhores e fidalgos que eram de menor idade, mandou que fizessem também o mesmo juramento em casa de El-Rei. E para mais ganhar as vontades aos principais senhores de Japão, repartiu entre êles
  • Das coisas do Japão 65 e seus criados grande cópia de oiro e prata e outras peças * de muito valor, e • i'ág. para também com isto os obrigar a serem leais a seu filho. Afora isto nomeou nove governadores, os quatro, os mais poderosos reis do Japão depois de Iiaiasu, como foi Moridono, senhor de nove reinos, Bijeno Chunogandono, senhor de três, Fijendono, senhor de outros três, Cangecaçu, senhor mui poderoso que tem seu reino e estados no Bandou; e dos senhores menores, os quatro gover- nadores de todos seus estados, convém a saber: Genifoim, governador de Meaco, Jemonodono, Gibonóio, Asonodario; e a todos êstes mandou obedeces- sem a Iiaiasu como a sua pessoa, e para que todos êstes governadores ficassem entre si mais unidos e conformes, mandou que se casassem os filhos de uns com as filhas de outros. E para que depois de sua morte não houvesse guerras e revoltas, como costuma haver em Japão com a morte do Imperador, deter- minou de acrescentar a fortaleza de Ozaca, que é das maiores de todo Japão com uma nova cêrca e tamanha, que tinha quási uma légua de roda, para que dentro nela vivessem os senhores principais de Japão com suas mulheres e filhos, parecendo-lhe que estando como metidos e cercados nesta gaiola não poderiam ir tão fàcilmente para suas terras nem rebelar-se contra seu filho. E com pressa que Taicoçama deu para que logo se começassem êstes edifícios, e desejo que tinham os governadores de lhe dar gôsto, com suma brevidade ajuntaram logo para êles mais de cem mil homens; e como o principal de suas casas é madeira, fàcilmente as mudam e armam de uma parte para outra. Pelo que, em mui pouco tempo encheram o campo e sítio daquela cêrca de belos e mui formosos edifícios. Da morte de Taicoçama, e como antes dela mandou que o contassem no número dos seus deuses ARA êste tirano deitar o sêlo a tôdas suas maldades, ultimamente mandou antes de morrer que o fizessem Cami, que * é terem-no por um de seus • deuses e como tal o venerassem depois de morto. E porque entre êstes Camis, que adoram os japões, houve um o qual foi homem de guerra e se chamava em língua de Japão Fachimão, quis que lhe chamassem a êle Xinfa- chimão que quere dizer o novo Fachimão; e por isto mandou mais que não lhe queimassem seu corpo como é costume de Japão, senão que lho pusessem dentro em uma caixa mui rica e bem guarnecida, e lho depositassem em sua fortaleza de Foximi, que está na cidade de Meaco, em certo lugar de recreação, que para isto assinalou. Êstes foram os disparates em que deu êste tirano, bem semelhantes aos do Rei Nobunanga, seu predecessor, que também se fêz adorar por deus. Ordenadas estas coisas, achando-se cada vez peor e já muito no cabo, disse que se queria recolher à terceira cêrca de sua fortaleza, que era o mais interior dela, para excusar visitas e morrer quieto, como dizia. Com isto se despediu de seu filho e o entregou a Iiaiasu, dizendo ao menino que dali por diante lhe não chamasse pai, senão a quem lhe dava por pai. Despe- diu-se também de todos os senhores e fidalgos principais, e continuando a CAPÍTULO VI 9
  • 66 Das coisas do Japão enfermidade, aos 4 de Setembro chegou a Fuximi o Padre João Rodrigues, seu intérprete, com alguns portugueses que o vinham visitar da parte do capitão-mor com um bom presente, como cada ano faziam em chegando a nau da China. Deram-lhe recado, e depois de ver o presente, mandou entrar sòmente o Padre João Rodrigues, o qual o achou lançado sobre uma colcha de sêda, e entre uns coxins de veludo, tão consumido e desfeito, que escassamente tinha figura de homem. Fêz chegar o padre junto de si, agradeceu-lhe a visita, e querendo o padre aproveitar-se desta ocasião para lhe tratar do que mais impor- tava, que era a salvação de sua alma, êle, como estava tão duro e obstinado em seus pecados, lhe não deu lugar para isso; pelo que o padre se despediu com assaz sentimento de ver um homem de tão grande capacidade e tão cego e desamparado de Deus por suas culpas, e assim finalmente como tal morreu aos 16 de Setembro do mesmo ano de 98. * CAPITULO VII Da grande alegria que tiveram os cristãos com a morte de Taicoçama, e do bom estado que as coisas da cristandade logo começaram a ter, e vinda do Bispo a Japão 1 CONFORME à medida dos trabalhos que a cristandade de Japão padeceu com tão comprida perseguição, como foi a dêste tirano, se poderá enten- der facilmente qual seria a consolação e alegria que tôda ela recebeu com sua morte, vendo-se já livre de um tão poderoso inimigo, que com tanta obstinação por espaço de doze ou treze anos contínuos a tinha afligido. Pare- cia-lhes aos cristãos terem saído de um grave cativeiro, e que depois de uma escura e tormentosa noite, lhes amanhecia um claro e sereno dia. Olhavam-se uns para os outros e davam-se os parabéns de verem acabados seus trabalhos, e não se fartavam de dar infinitas graças a Deus por tão singular benefício, porque com a morte dêste tirano esperavam não haveria já quem molestasse os padres e perseguisse os cristãos. Mas, por não estarem as coisas de Japão tão assentadas com o novo govêrno, e se temer que com tantas cabeças e diferentes juízos não pudesse durar muito a paz e união entre êles, pareceu assim aos senhores e príncipes cristãos, como aos padres da Companhia, que não se* fizesse por então mudança alguma nas coisas, de modo que pudesse ofender aos governadores, até se entender sua vontade; e para isso julgaram que o Padre Alexandre, Visitador, por ser tão conhecido de todos naquela terra, escrevesse a dois dos governa- dores que tinham vindo às partes do Ximo e estavam na cidade de Facata, porque o principal dêles, que se chamava Asonodario, era seu amigo e conhe- cido antigo. Também escreveu o padre a Ximondono que era governador • Pág. 97. das partes do Ximo*e de Nangasáqui, dando-lhe razão de sua vinda, que era visitar os padres e cumprir com a obrigação de seu ofício, como outra vezes tinha feito nos anos passados: mandou com estas cartas ao Padre João Rodri- gues, para que também de sua parte os visitasse.
  • Das coisas do Japão 67 Responderam todos três mui cortêsmente, dizendo que folgavam muito com sua vinda e aprovando as causas dela, e que lhes parecia muito bem ficassem em Japão, e que eles tomavam à sua conta a protecção de suas coisas, acres- centando também, que lhes parecia muito bem nossa santa lei, e dela trataram com o Padre João Rodrigues, a quem disseram que, quando tivessem tempo, a ouviriam mui devagar, e que a causa porque Taicoçama mandara que os padres se saíssem de Japão, fôra porque o tinham mal informado, e por algumas suspeitas em que entrara dos frades da Manila (1) que os anos atrás vieram a Japão. Ultimamente lhe encomendava que por então se deixassem estar quietos e sem muito estrondo, que com isto êles, quando fôsse tempo, encaminhariam as coisas. Esta resposta dos governadores se teve por particular mercê de Nosso Senhor, e foi mui estimada dos cristãos, e com ela se pôde dar princípio à restauração das casas e igrejas que os anos atrás foram destruídas, tornando-as a reedificar pouco e pouco. Entretanto se iam os padres acomodando o melhor que podiam, e se foram logo para os reinos de Arima e Omura à residência que antes tinham, e o Padre Organtino com dois padres e dois irmãos se tornou a Meaco, onde já estavam outros cinco, e deram princípio às casas de Meaco e Ozaca, para dali saírem a visitar os cristãos dos outros reinos daquelas partes. Também se tornaram a recolher os meninos do seminário, que estavam repartidos em diversos lugares, e ficavam já no ano de noventa e nove setenta dêles em Nangasáqui, donde no mesmo tempo se acomodaram os padres e irmãos do colégio que estavam na aldeia de Todos os Santos, renovando-se os es*tudos e exercícios de letras ao que eram antes. De modo que, assim como *fág. 98. o campo, que no tempo do inverno com o rigor do frio está encolhido e quási niorto, em (vindo o verão começa a brotar e produzir suas flores, assim esta nova cristandade que com a perseguição de tantos anos, levantada por êste tirano, esteve tão afligida e encolhida, com sua morte, que para ela foi um alegre verão, começou a manifestar os desejos que nos peitos de muitos senhores e fidalgos estavam encerrados, os quais por temor dêste tirano se não mani- festavam. Porque no reino de Bujém, que está junto de Meaco, donde vivia Acaxi- camom Dom João, cunhado do mesmo Rei, que o é de três reinos, se começou uma grande cristandade, porque êste fidalgo, ainda que não havia mais que três anos que se baptizara, era tão fervoroso e zelador da fé, que por seu exemplo e persuasões a iam recebendo muitos fidalgos principais daquele reino, de maneira que no ano de noventa e nove passavam já de quatrocentos; os quais procediam com tanto fervor, que querendo El-Rei, sabida a morte de Taico- çama, obrigá-los, como aos demais vassalos seus, que jurassem pelos Camis e Fotoques (que são seus ídolos), que lhe seriam leais, ainda que fêz quanto pôde pelos inclinar a isto, nunca o pôde acabar com êles, respondendo Dom João em nome de todos mui livremente, que antes morreriam que fazer tal juramento, senão fôsse pelo verdadeiro Deus do céu e da terra, a quem adoravam. E por (1) Ni.: Manilha.
  • 68 Das coisas do Japão esta constância que mostraram, os favoreceu Nosso Senhor de maneira, que não sòmente desistiu El-Rei de sua pretenção, senão que também lhes fez muitas mercês, e a Dom João, seu cunhado, acrescentou vinte mil fardos de arroz de renda (que montam dez mil cruzados) sôbre os quarenta mil fardos que já tinha, e o fêz locotenente e governador em todos os seus estados, em sua ausência. Êste fidalgo, logo que morreu Taicoçama, mandou pedir padres, para que residissem e pregassem naquele reino, e o mesmo fêz o filho herdeiro de •Pag.99. Moridono, rei de Iamangúchi e de outros oito rei*nos; o mesmo também o rei de Bujém; e no reino de Chicungo um senhor cristão, tio de Moridono, e casado com Maxência, filha de El-Rei Francisco de Bungo, escreveu também ao Padre Alexandre que, como tornasse de Meaco, levaria logo os padres à sua terra; e mandando-o visitar o padre por um irmão da Companhia, em vinte dias que ali se deteve, baptisou duzentas e cincoenta pessoas. Era tão grande o concurso às práticas que fazia do catecismo, que passavam de ordinário de oitocentas almas. Ao reino de Bungo foi outro padre com um irmão, e ainda que os senhores daquela terra, que eram três gentios, foram todos mui privados de 1 aicoçama, todos porém, pela misericórdia do Senhor, os receberam mui bem, e lhes deram licença, para poderem estar em suas terras e um dêles disse que queria ouvir as coisas de Deus e recebê-las, se lhe parecessem bem. Baptizaram-se de novo muitos gentios neste reino, e foi a conversão crescendo de maneiía, que o padre que lá estava, mandou pedir socorro de companheiros. Também dei am muitas esperanças de sua conversão Isafai, que é um senhor que tem suas terras entre o reino de Arima e Omura, e Nabixamadono, senhor e governador então do reino de Fijém, o qual ainda que não tem título de rei, é dos maiores senhores do Ximo, e tem em suas terras muitos cristãos. Não foi menor o desejo que mostraram, de se prègar em suas terras o santo evangelho, Itodono, primo de Dom Maneio e senhor da terceira parte do reino de Fiunga, e Zeuximadono, genro de Dom Agostinho, e rei da ilha de Zeuxima. Mas muito mais se assinala nisto o mesmo Dom Agostinho, o qual em vindo do Corai escreveu logo aos padres, dizendo que, como tornasse de Meaco, os iria logo visitar, para levar alguns consigo a suas terras, e entretanto mandou de esmola mil e seiscentos fardos de arroz para se repartirem pelos padres, os quais padeciam muitas necessidades, o que sabendo êle e os mais • Pag. 100. senhores * cristãos que vinham da guerra de Corai, ainda que estavam muito despesos pelos muitos gastos que nela tinham feito, acudiram todos com suas esmolas, cada um porém como podia. Êste era o estado das coisas de Japão no temporal e espiritual, e as esperanças que havia da dilatação da lei de Deus naqueles reinos depois da morte de Taicoçama; ao qual acrescentou Nosso Senhor uma nova consolação para toda a cristandade, que foi mandar-lhe neste tempo, e chegar a Japão pouco antes da morte do tirano, seu pastor e prelado, o Bispo Dom Luís Cerqueira, o qual, por assim parecer aos senhores cristãos e padres, por então se não manifestou nem exercitou seu ofício publicamente, até as coisas se porem em melhor estado; mas nem por isso deixava de o fazer em secreto, dando ordem a diversas coisas de muito serviço de Deus Nosso Senhor, com as quais e com seu bom modo e trato ia ganhando as vontades de todos.
  • Das coisas do Japão 69 CAPÍTULO VIII Da boa vontade que liaiasu, principal Governador, mostrou aos padres e à cristandade; e como os padres se repartiram por diversos reinos do Japão PROCEDENDO o governo da Tença na ordem em que a deixou posta Taicoçama, iam também as coisas da cristandade cada dia pela bondade de Deus muito adiante, porque liaiasu (a quem daqui por diante por outro nome, que é o da dignidade que agora tem, chamaremos Daifuçama), como era o principal Governador e o mais obedecido de todos, e se * ia fazendo .Pag..o., como senhor absoluto, por diversas vezes falava bem das coisas da cristandade, e dizia que no negócio da salvação cad« um podia fazer o que quisesse, segundo a lei que melhor lhe parecesse. E pôsto que por mostrar um certo respeito a Taicoçama, por então não dava a patente da restituição dos padres, deu todavia licença aos cristãos de Nangasáqui, que como tais vivessem livremente e a seu modo, e a Ximondono, governador daquele pôrto, mandou que assim aos cristãos como aos padres deixasse viver em paz; com o qual os Padres se davam por restituídos, e como tais se tratavam e eram havidos de todos. E por esta razão tanto que tornaram da corte para suas terras os senhores cristãos e gentios, que no capítulo atrás dissemos desejavam e pediam padres para elas, logo, por êles também o tornarem a requerer, se repartiram e espa- lharam todos quantos havia de tal maneira por diversos reinos a que puderam abranger, que não somente não ficou um só, de que se pudesse^ dispor, mas ficaram alguns senhores e partes mui principais, a que não se pode satisfazer por não os haver. . Os reinos e estados a que se pôde acudir são os seguintes: No reino de Fingo e terras de Dom Agostinho se puseram seis padres com sete irmãos e diversos dógicos catequistas, repartidos em quatro residências, os quais» vão continuando a conversão daquelas partes, e cultivando os cristãos já feitos, que passarão de quarenta mil. Ao reino de Chicungo foram outros dois, um padre e um irmão, para em Corume, estado de um senhor cristão por nome Simão Findenas, tio do Rei Moridono, fundarem outra residência de novo. E êste senhor casado com Dona Maxência, filha de El-Rei Francisco de Bungo, o qual tendo-se leito cristão poucos meses antes de se levantar a perseguição passada, e nao tendo depois em todo êste tempo quási comércio ne*nhum com os nossos por estar sempre #Pag.I0J. na guerra do Corai, sabia mui pouco das coisas da fé. Mas tornando o ano passado de Corai e sendo visitado pelos padres, e instruído de novo nas coisas da sua salvação, entrou em tanta devoção, que, depois de se confessar geral- mente, se deierminou a fazer todo o possível, para que todos os seus vassalos se fizessem cristãos. E para isto mandou pedir um padre com um irmão e alguns catequistas para estarem em sua terra de assento, tomando a cargo de os prover de todo o necessário, como fez abundantemente. E causou em todos tão grande movimento com a mudança e bom exemplo da sua vida, que em
  • 7° Das coisas do Japão pouco mais de um mês se converteram à nossa fé mais de duas mil almas, e se ia fazendo uma grande conversão naquelas terras. Ao reino de Bujém que é de Carnocami, filho de El-Rei Simeão Cambio- gedono, foram também um padre com dois irmãos e alguns catequistas, para nêle residirem e provarem a conversão de aquele reino, onde há já mais de dois mií cristãos e estes dos principais da corte. Nas partes do Meaco se pediam também padres para residirem em diversos reinos, mas, como os não havia, não foi possível dar-lhos. Porém, dos que estavam nas casas de Meaco e Ozaca, foram mandados alguns a correr aqueles reinos, onde fizeram mui grande fruto e conversão de almas. CAPÍTULO X De quão bem recebidos foram os padres nos reinos de Moridono *i'ág.io3. # Tl If ORIDONO é um rei gentio muito poderoso, senhor de nove reinos, e o /VI segundo Governador dos maiores e logo depois de Daifuçama; e até agora nunca os padres puderam ter entrada em seus reinos; por onde houveram agora por grande mercê de Nosso Senhor, que êle mesmo fôsse o que os pedisse e se mostrasse tão afeiçoado às coisas da cristandade; pelo que, lançando mão desta ocasião de tanto momento, quiseram logo satisfazer à sua petição, o qual lhes assinou três partes muito principais de seus reinos, em que quis que os padres residissem, e deu licença para fazerem casas e igrejas e baptizarem aos que se quisessem converter. A primeira casa que Moridono quis que os padres fundassem em seus reinos, foi em a suá cidade de Firoxima, cabeça de todos os nove reinos, e onde êle com sua côrte ordinàriamente mora e reside (pôsto que ao presente está como companheiro de Daifuçama gover- nando na côrte). E esta cidade mui grande e nobre, e a ela se mandou um padre e um irmão com alguns dógicos, que são colegiais ou seminaristas. Foram tão bem recebidos e com tanta humanidade, cortesia e amor de seu principal governador que governa todos aqueles reinos em seu lugar, que se não pudera esperar mais de um senhor muito cristão, nem jamais em Japão foram recebidos padres em terra de algum senhor gentio com tanta demonstra- ção de amor e cortesia. Porque, em chegando os padres a esta cidade de Firoxima, o governador os mandou logo visitar com um presente, no qual representou bem quanto folgava de comprazer a seu senhor Moridono. E depois lhes deu um banquete em sua casa, dizendo-lhes que pois El-Rei Moridono, seu senhor, tomara a cargo de os ter nas suas terras, êle os havia de favorecer grandemente, e que por isto vivessem descansados e fizessem suas casas e • i'ag. 104. igrejas mui livremente, e para isto lhes deu logo um sítio muito gran*de, em que se poderá fazer um bom colégio, dizendo que poderiam ir para estar naquela cidade seguramente quantos padres quisessem. E porque naquela côrte havia alguns fidalgos principais já cristãos, houve grande movimento e abalo com a ida do padre, e se moveram logo muitos a ouvir as pregações do catecismo. O segundo lugar, onde Moridono quis que os padres fizessem a outra
  • Das coisas do Japão 7i residência, foi na cidade de Iamangúchi, na qual reside com sua corte um sobrinho seu, que êle perfilhou, a quem deu todo aquele reino e parte de outro. Aqui foi também, para estar de assento, outro padre com um irmão e alguns catequistas, e em poucos dias baptizou mais de cincoenta fidalgos da corte, e era tão grande o concurso dos fidalgos a ouvir as pregações do catecismo, que se não podiam valer. O terceiro lugar que deu, foi Ximonexequi, que é um pôrto de mar, onde vão dar todos os que dos nove reinos do Ximo e de alguns de seus reinos vão para Meaco, porém aqui se não puseram padres, porque os não havia. CAPÍTULO X Do grande fruto que se seguiu da repartição dos padres por diversos reinos, e da grande alegria e devoção com que os cristãos celebraram a festa do Nascimento, do ano de noventa e nove COMO a matéria dos corações daqueles gentios estava tão disposta, e os*Píg'<>5- padres iam com tanto fervor e desejo de lhe pegarem o fogo de Deus» conforme a isso correspondeu o fruto, que foi o maior que até então em tão bfeve tempo se fez em Japão, dês que a Companhia nele entrou, porque dentro de seis meses, que foram os derradeiros do ano de noventa e nove, se fizeram cristãos por todos estes reinos, pelos quais os padres se repartiram, passante de quarenta mil almas; e os mais dêstes foram do reino de Fingo e terras de dom Agostinho, o qual, sobre todos os senhores do Japão, se esmerava no zelo da fé e de fazer toda sua gente e vassalos, cristãos. Com isto ia a cristandade cada vez mais crescendo em consolação e devoção, assim por verem o grande número de fiéis, que cada dia se ajuntava ao rebanho de Cristo, como pela liberdade em que já se viam para poderem proceder publicamente e cele- brar suas festas como cristãos. Donde, chegando-se neste tempo a do Nas- cimento do Salvador, à qual os cristãos do Japão teem particularíssima devoção e afecto, não se pode encarecer a singular alegria e solenidade com que geral- mente em tôdas as partes onde há cristãos, foi festejada, e particularmente a cidade de Nangasáqui, como é toda de cristãos, se pôde nisto mais esmerar; e assim celebrou estes dias com diversas festas e autos que, com muita solenidade e grande concurso de povo, fizeram em um terreiro mui formoso, que está diante do colégio. E os colegiais do seminário fizeram também na igreja, uma mui devota representação do Nascimento do Senhor que durou mais de quatro horas, à qual se achou presente D. Sancho, rei de Omura, que a isso só veio com todos os seus fidalgos. E fizeram tudo com tanta gravidade e boa ordem e com tanto aparato, assim do lugar como das pessoas que representavam, que sem dúvida fora bem recebida e louvada em qualquer parte de Europa. Também em Fingo celebrou esta festa Dom Agostinho com grande soleni- dade, e deu de comer a mais de mil pessoas, todos * cristãos que se con ver-«Pig. 106. teram havia poucos meses, com que acendeu grandemente o fogo para a conversão dos gentios, comendo êle em outro logar apartado com os padres e com vinte dos seus principais fidalgos. Acabando de comer disse aos que
  • 72 Das coisas do Japão estavam presentes, que os padres eram vindos de novo a morar naquela forta- leza, e que, como todos viam, não tinham ainda igreja nem casa nem alfaias nem coisa alguma para sua sustentação; que por isso era razão que de tudo isto fôssem providos, e que quanto a si, êle tomava à sua conta fazer a igreja e casas, e provê-los cada ano de duzentos fardos de arroz e de outras coisas para o serviço da casa; e que êles também quisessem participar no merecimento de os ajudarem a prover no que tocava ás alfaias. No mesmo ponto começaram todos a oferecer diversas coisas com tanta vontade e amor, que em um momento ficou a casa tão bem provida, que em dois ou três anos o não pudera ser melhor. Fêz também Dom Agostinho outras diversas esmolas aos padres em diversas partes, de maneira que montaria o que deu êste ano, mais de dois mil cruzados, além de perto de quinhentos que deu ao Bispo Dom Luis em arroz, que para o tempo em que êle veio tão despeso da guerra de Corai, foi uma muito boa dádiva, e para os padres em tempo que padeciam tantas necessidades, dobrado maior e mais aceita. Aqui neste reino de Fingo e terras de Dom Agostinho sucedeu neste tempo uma coisa maravilhosa, e foi que indo uns meninos fazer oração a uma cruz que está no cemitério um dia de S. Marcos, viu um dêles por nome Marcos outra cruz junta a esta, muito resplandecente, e avisando aos da povoação, concorre- ram os cristãos e viram o mesmo. Divulgou-se logo por muitas partes e acudindo muitos cristãos, uns viam uma cruz muito resplandecente, outros duas, •Pág. 107. outros mais, e além disto outras muitas aparições, que * lhes causavam devoção e dor de pecados, e era coisa misteriosa, que não viam as ditas cruzes e mais aparições logo em chegando, senão depois de fazerem por algum espaço devo- tamente oração; e os que depois de estarem muito espaço não viam, tanto que faziam acto de contrição e arrependimento de seus pecados e rezavam com devoção, as viam logo. Duraram êstes aparecimentos perto de três meses, sobre os quais o senhor Bispo não quis declarar coisa alguma, mas julgou que era melhor deixar correr o povo com sua boa fé e devoção, e bem mostrou o efeito ser obra de Deus, porque se moveram tanto com êste milagre os mora- dores da cidade de Iatçuxiro, com serem gentios, que dela e de seu distrito se converteram e baptizaram como vinte e cinco mil almas. CAPÍTULO XI Da perseguição que neste ano de noventa e nove El-Rei de Firando levantou contra os cristãos de suas terras COMO todos os gostos e alegrias desta vida, ainda que santas, teem sem- pre sua mistura de alguma tristeza que as agua, assim no meio da paz e alegria, de que nêste tempo gozava a cristandade, com a liberdade em que se via depois da morte do tirano, e com a multiplicação dos cristãos que se faziam, não lhe faltou também seu sobressalto, nascido da nova tribula- ção e apêrto em que os cristãos do reino de Firando foram postos, e foi êste o caso. Um dos mores inimigos que em todo o Japão sempre teve a lei de Deus
  • Das coisas do Japão 73 desde o princípio que nêle entrou, foi Fuim, Rei de Firando, por * ser um.Pág gentio mui perverso e em extremo dado à ímpia veneração de seus ídolos; pelo que, sempre os cristãos daquele reino padeceram por êle muitos trabalhos e vexações, e os padres que ali estavam, se viam em grandes perigos de que não puderam escapar alguns quatro ou cinco, que com peçonha por diversas vezes gloriosamente foram mortos. Este pois, emquanto viveu o rei velho seu pai, por nome Doca, que era homem prudente e sentia bem da lei de Deus ainda que morreu gentio, nunca se atreveu a perseguir abertamente a cristan- dade. Porém falecendo (que foi agora no tempo que êle estava em Meaco, onde foi com os outros senhores de Japão a dar a obediência ao filho de Taicoçama), no mesmo ponto enviou logo de lá um homem ao príncipe seu filho e os mais governadores do reino, com êste recado: ao príncipe, que logo fizesse com a princesa sua mulher que era cristã, deixasse de o ser e, se não viesse nisso, a repudiasse logo; e os governadores denunciassem de sua parte aos fidalgos cristãos e cabeças principais de toda a Igreja, como era sua von- tade não houvessem mais cristãos em seu reino; e para poderem como gentios fazer as exéquias pela alma de seu pai defunto, conforme ao costume gentílico de Japão, de todo o coração deixassem a lei dos cristãos, no que se mostrariam leais parentes e vassalos seus; e assim aos governadores como ao príncipe encarregou muito dessem logo à execução êste mandado. Eram os fidalgos a quem se denunciou êste edito, os principais de todo Firando, muito parentes do mesmo Rei, senhores de muitos vassalos, e os melhores capitães e de mais importância que tinha, e que sempre em suas guerras o serviram com muito valor e esforço. Chamava-se o principal Dom Jerónimo, e três irmãos seus e um primo por nome Dom Baltasar e Dom Tomé, seu filho morgado, mancebo de vinte e dois ou vinte e três anos, de grandes partes naturais, mui virtuoso e excelente cristão, casado com uma sobrinha do mesmo Rei, também cristã e bem semelhante na fé e de*voção a seu marido. E quis o perverso Rei começar ,Pá8 por êstes e pela princesa sua nora, porque, como eram as cabeças de todos os cristãos de Firando, que serão como quatro mil, pareceu-lhe que derribando êstes tinha pouco que fazer com os outros. Foi êste edito de mui grande sobressalto para os padres que residiam em Firando, por verem o perigo a que punha uma cristandade tão boa, tam antiga e nomeada em Japão; mas de muito maior foi para os mesmos cristãos, por se verem obrigados a deixarem ou as vidas ou pelo menos a pátria, casas, fazendas, antes que a fé que com tanta devoção tinham recebido, e em que muitos dêles havia cincoenta anos que viviam, e posto que na resolução estavam determinados a ter mão na fé, não deixavam de sentir naturalmente muito o serem forçados, pela conservarem, a se desterrarem de sua pátria e casas; pelo que, tudo entre êles eram lágrimas e sentimento, mas os padres os esforçavam grandemente, assim com palavras e exortações aos presentes, como com cartas aos ausentes; o que também faziam o Bispo e os padres Visitador e Provincial, os quais logo os mandaram visitar, assim a êles como à princesa, por um irmão nosso, oferecendo-lhes também tôda ajuda, em caso que fôsse necessário dester- rarem-se. E era coisa de grande consolação o ânimo e constância que todos mostravam, na qual se esmerou singularmente Dom Tomé que por ser tão IO
  • 74 Das coisas do Japão mancebo, foi de grande exemplo o zêlo da fé e fervor que nesta perseguição mostrou. Os que governavam a terra, não faziam senão buscar invenções e modos para persuadirem a êstes senhores cristãos a que descessem de sua constância e se acomodassem por ora com El-Rei, que depois eles tomavam à sua conta que tudo se bem faria. O mesmo faziam outros parentes seus, que com ímpia piedade mostravam compadecer-se de sua perdição. Mas vendo que tudo era em vão, e como êles estavam resolutíssimos a não se dobrarem um só ponto • Pág. uo. no negócio de sua fé, se começaram a te*mer dêles que, como eram singulares capitães e tão poderosos, não poderiam deixar de vir em algum rompimento. O mesmo temia o povo que com isto andava todo mui perturbado. Pelo que os governadores puseram sobre êles grandes vigias, para saberem seus intentos; e alcançando que a resolução que tomavam, era saírem-se do reino e desterra- rem-se para outras terras, e que para efeito disto andavam já muitos cristãos, principalmente seus criados e vassalos, vendendo seu fato e negociando embar- cações, fizeram logo uma armada para lhes impedirem os passos. Por onde foi necessário aos senhores cristãos dissimularem por então, e os governa- dores também se resolveram em não irem mais por diante no negócio nem apertarem mais com êles, reservando tudo para a vinda de El-Rei, por quem esperavam. Porém neste meio tempo, em que as coisas pareciam estarem já quietas, considerando êstes senhores que vindo El-Rei Fuim, como era um homem terrível, meio lunático e como doido, e sobretudo grão ministro do diabo, havia de querer levar a sua ao cabo, e que não podiam deixar de se ver então em algum grande transe e com menos comodidade para se poderem sair do reino, se resolveram de logo negociarem sua saída, aparelhando embarca- ções e o mais necessário, o que fizeram com tanto segrêdo, que nem a seus criados o disseram, senão na mesma noite e hora em que se embarcaram, e ainda a um irmão de Dom Jerónimo, que estava em outro lugar, o não fizeram a saber senão duas horas antes. E assim, fazendo-se sinais de noite, por esta- rem em lugares apartados e diversos, se embarcaram êstes senhores com seus criados e famílias, que por todos fariam número mais de seiscentas pessoas, dos quais muitos, por os tomar a partida tão de repente e pouco cuidada, se embarcaram sem levarem mais consigo que o que tinham vestido. E dando-lhes Nosso Senhor bom tempo, em breve chegaram à cidade de Nangasáqui muito contentes e alegres, por serem havidos por dignos de perderem e deixarem sua •pág.in. pátria, casas, rendas, fazendas * e quanto tinham, pelo nome santíssimo de Jesus e por conservarem imaculada sua santíssima fé, sem fazerem caso dos trabalhos e misérias que ao destêrro estão anexas. E assim foi êste um dos feitos de mor glória de Deus e confusão dos gentios, que até então se fizeram em Japão, porque com êle os cristãos protestaram com singular constância a verdade de nossa santa fé, e os gentios se confundiam, vendo quão longe estão de se achar nêles tal ânimo para as coisas de suas seitas. Chegados a Nangasáqui êstes fiéis confessores de Cristo, foram recebidos do Bispo e padres e dos mais cristãos com sumo contentamento e amor, e logo procuraram provê-los de todo o necessário, até das alfaias de casa, de que vinham desprovidos, agasalhando-os em suas casas o melhor que pôde ser, e
  • Das coisas do Japão 75 isto nas terras de Dom Sancho, Rei de Omura, que mandou a seus vassalos lhes fizessem todo o possível gasalhado e bom tratamento. E assim, aqui esti- veram perto de dois anos, sustentados pela maior parte dos padres, que com sua pobreza os ajudavam e com toda a caridade e diligência lhes buscavam todo o remédio, como era razão e mereciam tais confessores de Cristo, até que depois Nosso Senhor lhes deu o feliz sucesso que adiante se dirá. Partidos êstes cristãos de Firando, daí a poucos dias chegou El-Rei Fuim de Meaco, e ainda que, quando soube o que passava, mostrou folgar com isso, disparando em sinal de alegria algumas espingardas, por ter deitado a lei de Deus de suas terras, como ele dizia; pouco depois deu bem a entender o sentimento que tinha de lhe faltarem tais e tão excelentes capitães e tanta gente; e estranhou aos governadores não se haverem com eles mais branda- mente; e pôs de novo vigias para que se não fossem os demais cristãos, os quais todos, quando os outros se foram, ficaram com muito sentimento e lágri- mas, por não poderem fazer o mesmo, o que lhes não foi possível, assim por serem muitos como * por falta de embarcações e comodidade que, com as*Pág. "2. vigias e guardas que estavam postas, não puderam haver. Posto que alguns, sem embargo de todas elas, se arriscaram e, ainda que com muito perigo, foi o Senhor servido livrá-los, de modo que se puderam sair e passar também a Nangasáqui, onde estavam os outros, com os quais se ajuntaram e ficaram por todos passante de oito centos. O que vendo El-Rei Fuim o sentiu muito, e de pois de mandar fazer aos cristãos que eram mais de três mil, algumas imper- tinências para que se não fossem, entendeu por derradeiro que lhe convinha não bulir mais com êles nem apertá-los no negócio da fé. Mas não deixavam todos de desejar e procurar sua ida, se da parte dos padres não tiveram recado e cartas, que não se abalassem mais, emquanto El-Rei não bulia com êles e lhes não mandava fazer coisas que se encontrassem com a lei de Deus. Com isto se aquietaram, ainda que com muita desconsolação, por não poderem correr com as coisas de cristãos com a liberdade que dantes. Este foi o sucesso dos cristãos de Firando nesta perseguição. Porém, se foi grande glória de Deus e confusão dos gentios um feito tão heróico como êste dêstes senhores e mais cristãos, não o foi de menor o da Camiçama Princesa Dona Mecia, antes de maior edificação e espanto, por ser mulher e moça de tanta qualidade. É esta senhora filha de Dom Bartolomeu (1) que Deus tem, Rei que foi de Omura, e irmã de Dom Sancho que agora reina. Desde menina foi cristã e o é devotíssima, e senhora de mui grã prudência, a qual ainda que casada com marido gentio, tem em seus paços um oratório mui devoto, onde se recolhe com suas mulheres cristãs que tem consigo, a fazer sua oração e devoções, gastando nisso muitas horas; tem mui grande amor e devo- ção aos padres, a quem é obedientíssima e reconhece por seus verdadeiros pais espirituais, que com o leite da doutrina de Cristo a regeneraram e criaram; faz muitas esmolas e obras pias, e em tudo dá raro e * singular exemplo de<.Pág.n3. virtude. A esta pois juntamente, quando aos outros senhores cristãos, mandou também seu sogro ao príncipe seu marido, lhe dissesse deixasse logo de ser (1) Nt.: Bertholameu, passim.
  • Das coisas do Japão cristã, e se determinasse viver conforme à lei dos gentios, senão, que seria repudiada e lançada do estado. E como este perverso pai muitas vezes tinha dito ao filho, fizesse tornar sua mulher atrás na lei de Deus, senão que a repudiasse, vendo-se agora o mancebo com êste mandado, como é tão sujeito ao pai, não pôde deixar de o cumprir e declarar a sua mulher. Ao que ela respondeu mui livre e generosamente, que escusado fora mandar-lhe El-Rei seu sogro aquele recado, nem êle dar-lho, pois já por experiência doutros seme- lhantes combates conheciam dela sua determinação, e que não era ela filha de pais que assim houvessem de tornar atrás e deixar a lei do verdadeiro Deus, em que desde menina se criara; que soubesse de certo que estava nisto tão assentada, que antes padeceria mil mortes; que, quanto a ser repudiada, não podia negar que o apartar-se dele, seu marido, seria para ela a coisa que mais neste mundo poderia sentir, pois sabia o muito que lhe queria a êle e a três filhos que dêle tinha, mas que pois de duas coisas havia de perder uma, ou a êle ou a Deus, antes queria perder a êle e aos filhos e estado, e viver tôda sua vida pobre, que a Deus, não somente com perdição de sua alma mas com tão grande desonra sua e de seus irmão e muito mais de seu pai, Dom Bartolomeu, tão conhecido em Japão; e logo em efeito ela mesma se apartou do marido e retirou a outro aposento, mandando recado a El-Rei Dom Sancho, seu irmão, que a mandasse logo buscar. Esta resposta com tanta resolução de palavra e obra penetrou de tal maneira o marido, que (como lhe queria muito por suas raras partes e pelos filhos que dela tinha, e o que fizera não fôra mais que por cumprir com o mandado de seu pai, e não por desejo que tivesse de ela tornar atrás, porque não é contrário à lei de Deus) o fêz logo dar volta e tornar com Pág. 114. palavras mais brandas, dizendo-lhe que já que ela sentia tan#to deixar a lei dos cristãos, vivesse embora como cristã. Porém ela insistia em se querer ir para seu irmão, dando por razão que lhe não convinha viver em tanto risco de sua salvação. O que vendo o marido e conhecendo mui bem dela quão reso- luta era nesta matéria da fé, e que assim como dizia o havia de fazer, se viu em grande angústia e procurou buscar todos os meios possíveis para a poder aquietar que se não fôsse. Ela que não, senão que logo e desta vez havia de determinar seu négócio e não estar de maneira que tantas vezes houvesse de padecer êstes sobressaltos e batarias em matéria que tanto lhe tocava na alma; ao que tornou o marido, que a assegurava no futuro, e fazendo-lhe grandes promessas que nunca jamais lhe tornaria a falar nesta matéria; com o que ela, por então, se aquietou, ficando vitoriosa e com mui grande nome entre os cristãos e não menos entre os gentios que muito se maravilhavam de verem uma princesa de tão pouca idade, e metida, só, em um paço e em poder de príncipes gentios, com tão pouca comunicação presencial dos padres, ter tama- nha constância na fé e na lei de Deus, que escolhesse antes deixar de ser Camiçama, que quere dizer rainha e senhora veneranda e honrada de todos, e perder o estado, filhos e marido que tanto amava, que perder a fé que tinha recebido. Mas não parou aqui o exemplo de sua grande virtude, senão que, suce- dendo depois desta sua vitória a bataria e saída do reino dos senhores cristãos e dos mais que com êles foram, e o destêrro voluntário que escolheram antes 76
  • Das coisas do Japão 77 que arriscarem-se a algum perigo nas coisas da fé, como acima fica dito, a católica senhora, e digna de tôda a memória, começou a entrar em outros mais altos pensamentos, e foram que vendo como seus vassalos e criados se desterravam pela fé, e parecendo-lhe a ela que não fazendo também o mesmo, se poderia cuidar que lhe nascia de alguma fraqueza sua e de condes * cen- *Pig- dência com a vontade de El-Rei seu sogro, outra vez se tornou a pôr em campo, e mandou dizer a El-Rei Dom Sancho, seu irmão, que não era honra sua nem dos cristãos, desterrando-se seus criados e vassalos pela fé e lei de Deus, ficar ela em Firando descansada e feita senhora em sua casa, que pode- riam cuidar os cristãos, não se indo ela também, que tornara atrás e passara por ela alguma fraqueza, pelo que lhe pedia que em todo o caso a mandasse buscar, para que ela também, com a sua saída e desterro voluntário, desse à Igreja e ao mundo testemunho de sua fé. Tanto que o marido isto entendeu, viu-se o pobre mancebo outra vez em outros apertos e cuidados maiores para a dissuadir e quietar. Não sabia que lhe fizesse, porque ela com nenhuma razão sua se dava por quieta. E como era mui grande o amor que êle lhe tinha a ela e aos filhos, e não lhe consentia sofrer tal apartamento, renovava-se nele cada vez mais sua pena, e então lhe parecia muito mais exorbitante e desordenado o mandado do pai que fora causa de tanta perturbação e dera ocasião não sòmente a seus vassalos e criados, que havia tantos anos eram cristãos sem nunca por isso lhe faltarem um ponto em seu serviço, desampa- rarem a terra com tanto detrimento dela, e a perder tão principais senhores e capitães tanto seus parentes e chegados que com suas armas e valor susten- taram tanto sempre a casa de Firando, mas também a perder agora sua própria mulher, a quem tanto amava e estimava por suas virtudes e partes; e tanto sentia isto, que chegou a dizer ao pai que, se mais outra vez lhe falava em tornar atrás sua mulher, se desterraria juntamente com ela e desampararia Firando. Mas a estes apertos em que o pobre mancebo se via, lhe acudiu El-Rei Dom Sancho, respondendo a Dona Mecia, sua irmã, que, pressuposto que tinha já licença para viver como cristã e da maneira que dantes vivia, não convinha fazer mudança alguma * de si; mas, em caso que pelo tempo em,Pas diante houvesse alguma coisa em contrário, o avisasse, porque logo mandaria por ela. Com isto, e muito mais porque os padres lhe escreveram também o mesmo, ela se aquietou e ficou mui consolada, e tôda a cristandade de Japão mui edificada com seu exemplo e com grandes esperanças que por meio desta senhora há Deus de converter o príncipe seu marido, e por êle, depois que entrar na posse do reino, a todos os seus vassalos.
  • 78 Das coisas do Japão CAPÍTULO XII Do estado em que no ano de seiscentos estiveram as coisas de Japão, assim no temporal da Monarquia como no espiritual da cristandade e Companhia SEMPRE se julgou que, como o governo da Tença e Monarquia dependia de tantas cabeças e diferentes opiniões, não era possível poder-se con- servar muito tempo a união entre os governadores, e principalmente sendo uns mais poderosos que outros. E assim foi que, posto que por algum tempo procederam quietamente, como todavia Daifuçama era tão poderoso e tinha o primeiro lugar no govêrno, êle se foi fazendo tão absoluto, que só era o que mandava e governava tudo. Pelo que, os outros começaram a entrar em grandes paixões contra êle e fazerem-se em um corpo, e ordenaram um modo de conjuração para o encontrarem, e principalmente trataram este negócio Fijendono, senhor de três reinos, e Cangecasu, senhor também muito poderoso, os quáis ambos eram dos governadores maiores; e dos menores Gibonoxo, Pág. 117. autor principa*líssimo desta conjuração, a quem grandemente favorecia D. Agos- tinho, por ser íntimo amigo seu. Nasceram daqui grandes revoltas e perturbações entre êles, e todos temiam viessem a rompimento. Pelo que, assim os governadores como todos os mais senhores que estavam na côrte de Ozaca, mandaram vir suas gentes e as tinham consigo, pondo-se cada dia em ponto de guerra para qualquer sucesso que arrebentasse. E era coisa maravilhosa de ver, que estando esta cidade tôda cheia de gente de armas e cada senhor com os seus a ponto, contudo não se arrancava espada, porque havia grandíssimas penas de morte. Finalmente, depois de muitos dares e tomares que houve entre uns e outros, as revoltas se concluíram com que Daifuçama desterrou da côrte a Gibonoxo e o fez recolher em uma fortaleza sua, no reino de Vomi; e Fijendono e Can- gecasu e outros senhores se foram também cada uma para seus estados. O mesmo fêz D. Agostinho o qual veio para o seu reino de Fingo. E assim ficou Daifuçama correndo com o govêrno da Tença à sua vontade e quási como absoluto senhor pela mor parte do ano de noventa e nove e dêste de seiscentos, de que daqui por diante trataremos, até que tudo outra vez se tornou a revolver e vir em rompimento de guerra, como adiante se dirá. Por êste mesmo tempo e discurso do ano de seiscentos em que entramos, a cristandade que vivia em muita paz e quietação, ia crescendo cada vez mais em número e reformação, porque a conversão que o ano passado de noventa e nove foi tão próspera e de quarenta mil almas, como dissemos, neste de seiscentos se continuou com mais passante de trinta mil que em diversas partes se fizeram cristãos. E a Companhia se dilatou por diversas províncias e reinos mais do que nunca até então se dilatara, a qual tem naqueles reinos ao presente Pág. 118. trinta casas e residências, das * quais seis são as principais e cabeças das outras. Levam os padres imenso trabalho, assim em procurar a conversão dos gentios como em doutrinar, confessar e cultivar tão grande número de
  • Das coisas do Japão 79 cristãos como estão a seu cargo; e neste ano trabalham tão grandemente por reformar tôda esta cristandade, que, parte com a guerra de Corai, que durou mais de oito anos, e parte com a perseguição que durou mais de doze, estava muito necessitada de ajuda. E por isso este ano procuraram que não ficasse cristão algum por confessar, que foi coisa de grandíssimo momento, serviço de Nosso Senhor e bem destas almas. Procuraram tornar a reedificar suas casas que a perseguição passada lhes tinha destruído. E o em que mais força e diligência puseram, foi em tornarem a alevantar e reedificar as igrejas que foram destruídas. E ainda que não puderam todas, pêlo menos passaram de cincoenta as que neste ano tornaram a refazer, o que parecia coisa impossível poder ser em tão breve tempo, porque se reedificaram quási tôdas as mais principais, e muitas delas mui avantajadas às que primeiro havia. Os senhores cristãos com seus vassalos, ainda que por todo êste tempo estiveram ocupados em concertar e refazer suas fortalezas, não deixaram contudo de acudir com tôda a possível ajuda a esta obra de refazer as igrejas, a algumas ajudando, a outras edificando-as de novo à sua custa. Também os cristãos concorriam com suas esmolas e gente de serviço. Assim, com esta renovação de igrejas, frequências de sacramentos e de doutrina e instrução de meninos, se foi toda esta cristandade ajudando e renovando grandemente. O número dos padres que neste ano houve em Japão, foi de cento e nove entre padres c irmãos, aos quais, com a vinda da nau, se ajuntaram mais outros quatorze, posto que êles tomaram que foram cento, pela grande necessidade que há de obreiros. Para o paraíso levou Nosso Senhor dois de muita importância: o * pri-»Pág.ii9. meiro foi o Padre Gil da Mata, o qual tornando de Roma, onde fora por procurador, poucos meses depois foi logo eleito a segunda vez em congregação para tornar a fazer a mesma jornada, e partindo do Japão em um navio cujo capitão era Nuno de Mendonça, o qual tornava para a China com mais de setenta portugueses além de muitos outros naturais e gente de serviço e com mais de quatrocentos mil cruzados em prata, se perdeu no mar, sem mais haver novas dêle nem do modo do seu naufrágio. Era êste padre de cincoenta e um anos de idade, trinta e três de Companhia, professo de quatro votos, pessoa de grã virtude e de boas partes, incansável nos trabalhos, que por se conhecer seu grande fervor e desejo de trabalhar, três meses depois de chegado de Roma a Japão, foi logo outra vez eleito pela congregação para tornar, o qual trabalho aceitou com tanto fervor e prontidão, que a todos deixou admi- rados. Mas parece ordenou Nosso Senhor fôsse naquele navio para remédio de muitas almas que naquele transe da morte se confessariam e ajudariam dêle. Foi porém para Japão e seus negócios perda grandíssima e de muito sentimento. O segundo padre que Nosso Senhor levou para si, foi o Padre Pero Gomes, Vice-Provincial que era desta Província de Japão, de idade de sessenta e cinco anos, e quarenta e seis de Companhia; era enfêrmo e asmático, porém morreu de um acidente, que de improviso lhe deu, de apoplexia, o qual lhe tolheu logo a fala e o tirou de seu acôrdo, mas tornando depois um pouco mais sôbre si, ainda que não podia falar, ouvia e conhecia a todos, e com o
  • 8o Das coisas do Japão rosto mostrava grande sinal de alegria, quando lhe falavam nas coisas do Céu e que ia para o paraíso ver a Deus e descansar. Tornando-lhe a apertar o acidente a segunda vez, o dia seguinte o levou. Houve a seu enterramento • Pág. 120. gran*de concurso de gente e não menor sentimento da perda de tal varão. Achou-se presente D. Agostinho que o dia antes viera a visitá-lo e despedir-se dele, para se ir para a corte. Prègou a suas exéquias o Irmão Fara Martinho, japão, que foi a Roma, e depois de tratar primeiro em geral da morte, tratou da vida e virtudes do padre com tanta eloquência e eficácia e sentimento, que fez chorar grandemente a todo o povo, porque dos de fora e dos de casa era mui amado e tido em reputação de santo. E posto que a morte veio de impro- viso, não o achou porém desapercebido, porque, além de quarenta e seis anos que teve de aparelho para ela na religião, nestes derradeiros dias particular- mente se foi aparelhando, como se tivera recado de sua vinda, e dizia muitas vezes que lhe não poderia tardar muito. E assim, poucos dias antes, se con- fessou geralmente e deu particular conta de sua consciência ao Padre Visitador, e no mesmo dia que lhe sobreveio o acidente, disse missa com muita devoção, como sempre a costumava dizer. Foi varão verdadeiramente perfeito e emquanto viveu, deu sempre singular exemplo de tôdas as virtudes: manso, humilde, paciente, assinalado na prontidão da obediência e de grande luz nas coisas espirituais, em extremo devotíssimo de Nossa Senhora, mui dado à oração e mortificação e de insigne zêlo das almas, e no púlpito vere apostólico; assim, em tôdas as partes onde residiu e prègou, foi mui singular o fruto que fêz nas almas com suas pregações, as quais eram tôdas cheias de espírito e de mui sólida doutrina, e com as partes naturais que tinha de pregador, principalmente a eloquência e voz, não serem tão eminentes como de alguns outros, contudo manifestamente se via concorrer Deus sobrenaturalmente com êle, pela grande moção e devoção que sempre causava nos ouvintes. •Pág.i»i. Emquanto esteve em Portugal, sempre desejou com grande eficácia, * e assim o pedia a Deus e aos superiores, o mandassem às partes da índia; e, despachada sua petição, foi estranho o alvoroço e alegria com que se embarcou, e depois da índia para o Japão, que era o centro que seu coração desejava. Ele mesmo escreveu do Japão que vinte e cinco anos pediu a Deus a missão do Japão, e que, se soubera as grandes mercês e consolações que Deus lhe tinha feito no Japão, que tivera por bem empregado quarenta anos pedir esta missão a Deus para a alcançar. No Japão viveu dezasseis anos, os dez fazendo ofício de Vice-Provincial, nos quáis todos padeceu mui grandes trabalhos e angústias por razão da perseguição que em todo seu tempo durou, mas neles se houve sempre com mui grande fortaleza e ânimo, mostrando sempre o mesmo semblante e igualdade, até que Nosso Senhor foi servido de o colhêr para si e lhe dar os prémios de seus merecimentos. Não faltaram ocasiões de exercitar a paciência em algumas partes desta Província, com algumas contradições que o demónio alevantou por meio dos bonzos, para impedir o curso da conversão, como ao diante se dirá. Também se procurou travar amizade com muitos e diversos senhores para bem da cristandade, de modo que, para qualquer parte que penda a ventura das guerras
  • Das coisas do Japão 81 que se temem, fiquem sempre senhores benévolos e amigos que favoreçam os padres e as coisas da lei de Deus; e Daifuçama se vai mostrando sempre pro- pício às coisas da cristandade, admitindo e chamando diante de si, por diversas vezes, ao Padre Organtino e ao Padre Morejon e a outros dois irmãos japões, e procedem com êle em suas visitas ao modo que antigamente o faziam com Nobunanga; e finalmente em tudo procuram adquirir amizade e benevolência com todos. Este é o estado em geral em que as coisas da Companhia e cristandade ficavam em Japão no cabo do ano de seiscentos. Agora iremos tratando das coisas que neste mesmo ano sucederam em cada casa e residência em particular. * CAPÍTULO XjlII «wg.» Do fruto que por êste tempo se fafa em Nangasáqui e em suas residências e comarcas NANGASÁQUI é o porto onde vão surgir as naus dos portugueses que navegam da China para Japão; é uma cidade boa, de muito bons ares e sítio; haverá nela quatro ou cinco mil vizinhos; aqui teem os padres da Companhia a principal casa reitoral de Japão, residem nela de ordinário até 3o religiosos, entrando neles os que estão pelas residências. E assento dos superiores universais, Provincial e Visitador. Tem anexa a si a casa do semi- nário em que haverá noventa meninos e muitos dêles nobres, que se criam em bons costumes e alguns dêles entraram, alcançando licença de seus pais com muitas importunações, dizendo que queriam servir mais desembaraçadamente a Nosso Senhor; procedem muito bem, e os estudantes se aproveitam muito nas letras humanas e retórica que aqui aprendem, e muitos, depois delas acabadas, se mandam a diversas partes para ajudarem os padres na cultivação dos cristãos, e também para se tomar prova e experiência dêles, se eram aptos para serem admitidos na Companhia, o que êles não alcançam senão depois de mui bem provados. Há também aqui impressão de caracteres latinos e de Japão, coisa de mui grão momento e proveito para esta cristandade, porque nela se imprimem muitos livros, assim em latim para as escolas, como em Japão para instrução dos cristãos. Êste ano se imprimiu na língua de Japão o livro Guia dos peca- dores de Frei Luís de Granada e outras obras. Os padres que aqui residem se ocu*pam todos com os próximos, no que teem mui grande trabalho, e escas-«Píg. u3 sãmente podem acudir às confissões desta cidade e suas aldeias, porque, só neste povo, se acham por lista dez mil almas de confissão, os quais todos se confessam cada ano, e nas festas principais chega ordinàriamente o número dos que comungam, a oitocentas e a mil, mil e duzentas pessoas; e como a gente é muita, e a igreja de que até agora usamos, não é grande, havia muito trabalho e apêrto nos domingos e dias santos, porque não sòmente se enchia a igreja, senão também o terreiro e as ruas, e os que primeiro vinham, por ouvirem prègação, não queriam sair para poderem entrar os que ficavam de fora, a ouvir missa, e ainda que se lhes buscava remédio para a ouvirem em algumas ii
  • 82 Das coisas do Japão ermidas onde lha iam dizer, era contudo grande desconsolação para todo este povo, assim por não poderem ouvir todos as prègações, como também por nas sextas feiras da quaresma à tarde, em que se lhes prega um passo da paixão, não poderem tomar a disciplina, como se costuma em todas as outras partes da cristandade de Japão, ainda que, já que não podiam na igreja, em suas casas as tomavam, e outros pelas ruas, indo visitar algumas ermidas que estão fora da cidade. Por isto desejavam os padres, há muito tempo, e todo êste povo, de fazerem uma igreja grande e a mais capaz que fosse possível, e foi Nosso Senhor ser- vido que êste ano se começasse, para princípio da qual se ajuntaram dois mil cruzados; os mil deram alguns japões principais do povo, com todos os traba- lhadores necessários para ajudar aos carpinteiros; duzentos cruzados deu um português honrado que aqui mora; os oitocentos aplicaram os padres, que de várias esmolas tinham junto havia tempo; e, com estar junta grande parte da madeira, se começou a fabricar a mais formosa igreja que até agora tivemos em Japão; é de três naves, com umas varandas ao redor, da maneira que usam os japões, por assim lhes parecerem mui aprazíveis; tem de comprimento passante de duzentos palmos, e cento de largo. • Pág. 134. * MISSÕES Duas missões de muito momento se fizeram desta casa, uma foi a uma terra aqui vizinha, chamada Fucafuri, a qual havia muito tempo que os padres desejavam conquistar para Deus, mas estava tão contumaz, que não somente se não deixava entrar, mas antes, por todos êstes anos passados, tinha dado muito trabalho e inquietação a esta cidade, mostrando-se sempre capital inimiga sua e da mesma cristandade, fazendo-lhe todo o mal que podia. Mas êste ano com ajuda de Nosso Senhor se começou a entrar por esta espêssa mata, porque já dela são convertidas e baptizadas passante de seiscentas almas, e entre êles muitos dos principais, domesticando-se de maneira, que esperamos em Nosso Senhor que em breve se fará aqui uma grande conversão de oito ou nove mil almas, que nos dizem haverá nesta terra. Outra missão foi ás terras do Izafaio, que é um senhor que tem seu estado daqui a três léguas, entre o de Omura e de Arima. Nesta terra se fêz êste ano muito fruto: baptizaram-se muitos, edificou-se uma casa no principal povo, para morar um padre, com beneplácito do Tono e dos principais da terra, os quais se mostram amigos e afeiçoados a nossas coisas e à cristandade. Izafaidono, senhor dêste estado, favorece muito ao padre que tem a cargo aqueles cristãos, mandando-o visitar muitas vezes, e junto de sua fortaleza deu sítio para se fazer uma igreja, e convidado do padre uma vez para vir jantar àquela casa que naquele sítio fizera, êle veio com tantas demonstrações de amor, como se fôra um devoto cristão. Ao dia seguinte convidou êle o padre para ir cear com êle em sua fortaleza, que é muito boa, e depois de o ter festejado com músicas ao seu modo, tratou com êle com muita familiaridade, e lhe disse que êle tinha • Pág. 125. prometido de se fazer cristão e que assim o havia de cumprir, ainda que * por-ora o dilatava, por o tempo não ser tão oportuno, e que por isso estivesse descan-
  • Das coisas do Japão 83 sado em suas terras, e fizesse cristãos todos os que o quisessem ser. Um seu regedor principal, vindo uma vez falar com o padre, lhe disse que os dias pas- sados quisera seu senhor Izafaidono (se muitas pessoas se não puseram de permeio) mandar matar a um aio de seu próprio filho, porque lhe aconselhou que se fizesse de uma seita que se chama Icoxus, dizendo que êle tinha man- dado se não publicasse em suas terras outra lei senão a dos cristãos. Daqui escreveu também o padre uma carta na qual diz como se tinham baptizado duas cabeças dos Icoxus e uns setenta gentios, dos que se conjuraram, que antes se haviam de matar por si mesmos que fazerem-se cristãos, e as mesmas duas cabeças que andavam pondo em listra os que se haviam de matar por si, e os persuadiam a isso, agora persuadem a êstes e a outros que se façam cris- tãos, dizendo-lhes que, depois que ouviram as prègações do catecismo, clara- mente entendiam não havia salvação senão na lei de Cristo, e assim se andam persuadindo e chamando para Deus uns aos outros. RESIDÊNCIAS As residências que estão sujeitas a esta casa de Nangasáqui, são Veímé, Focama, Congá; em cada uma delas está um padre com seu irmão e dógicos (que são os moços estudantes, que atrás disse, criados no seminário) ocupando-se na cultivação daquelas almas e ajudando-as, assim nas necessidades espirituais como corporais. À residência de Congá pertence a cristandade de Izafai, onde já estão feitas cinco igrejas. Em Forunda, que pertence à residência de Focama, se vai fazendo uma igreja de Santo António com as esmolas que os portugueses para ela dão. Em Veímé se fizeram duas igrejas, e há também uma casa de leprosos, que se sustenta com as esmolas que o padre lhe busca. * CASOS PARTICULARES DE EDIFICAÇÃO ' Pág. Afora o que está dito, acontecem sempre vários casos particulares, dos quais, por serem de muita edificação e glória de Nosso Senhor, contaremos alguns. É de muita edificação a grande caridade com que os padres lhes acodem continuamente às necessidades corporais suas e de grande número de pobres que aqui, por êste respeito, acodem à fama da caridade dos padres e cristãos, e principalmente em uma grande fome em que tôda esta comarca se viu; na qual também se assinalaram grandemente os portugueses, que aqui se acharam, tirando entre si uma grossa esmola, que deram à casa da Misericórdia que já aqui há, com que muitos foram remediados. O mesmo fizeram também alguns cristãos da terra mais ricos, mas a todos deu exemplo o Bispo Dom Luís Cerqueira, que com tôda liberalidade acudiu a quanto pôde. Foi também de muita edificação entre os cristãos o que fêz um mancebo, mui bom cristão, por seu pai; porque, sendo o pai condenado à morte por certo delito, o filho se ofereceu em seu lugar, e foi justiçado pelo pai, coisa que entre os japões foi mui estranha e nova, atribuindo-o todos a ser tão bom cristão. Mas de mor espanto foi o que aconteceu a outro homem, o qual sendo cristão, por estar muito tempo entre gentios, se veio a esfriar nas coisas da fé, porém
  • 84 Das coisas do Japão estando em casa de um senhor gentio, o qual por certo delito estava em evidente perigo de ser morto por justiça e perder seu estado, êle lhe foi tão leal criado, que tomou sobre si a culpa do amo, e por ela foi condenado à morte e mandado do Meaco a esta cidade para nela ser justiçado. Encomendou-lhe seu amo muito quando partiu, que não morresse como cristão, sob pena(i) que deixaria Pág. 127. sua mulher e filhos desamparados, pois * êle então largaria mão dêles. Chegou aqui com este tão mau propósito, mas com as boas amoestaçoes de alguns cristãos, e principalmente de um .padre que logo lhe foi acudir, êle se reduziu, e com muito arrependimento se confessou muitas vezes emquanto esteve preso, e concertou as coisas de sua alma, e morreu de modo que consolou muito aos cristãos e espantou aos gentios que o conheciam, vendo por uma parte sua fidelidade com seu senhor, e por outra o pouco caso que fazia de seu mandato e do perigo em que ficavam sua melher e filhos, por salvar sua alma. Havia aqui perto em uma aldeia um homem mui dado, entre todos, à veneração e adoração de seus falsos deuses, e chegou a tanto, que lhes fêz uma ermida junto de sua casa, a maior de tôda aquela comarca, a qual visitava muitas vezes fazendo muitos modos de penitência; mas foi o Senhor servido que, por meio de um padre, lhe mudou o coração, e se fêz um tão bom cristão, que êle mesmo diz agora se espantava de ver em si uma tamanha mudança. E porque naquele lugar não havia igreja, tinha uma imagem mui devota, posta na maior das suas casas, aonde os cristãos se juntavam a fazer oração, e onde também o padre dizia missa e confessava os cristãos, quando ia àquele lugar. Entre as igrejas que se fizeram, se pôs a uma por invocação Nossa Senhora da Protecção, que é uma que o Bispo Dom Luís instituiu de novo, como adiante se dirá. A esta tomaram os cristãos tanta devoção, que muitos, encomendan- do-se a ela e oferecendo-lhe seus votos, ficam logo sãos de diversas enfermidades. Uma mulher havia muitos anos que desejava ser cristã, mas não podia acabar consigo deixar seus antigos deuses; adoeceu gravemente, e vendo-se em artigo de morte, se resolveu e fêz cristã, e recebido o batismo, crendo que tinha já poucas horas de vida, não se fartava de dar graças a Deus por êste benefício; porém dizia que não levava outra pena senão não ver sua casa tôda cristã. Foi Deus servido que logo se achasse melhor da doença, que todos tinham por Pág. 128. mortal, e com sua saúde a receberam também na * alma todos os seus que logo se baptizaram. E dizia esta boa mulher que depois de receber o baptismo, sentira que lhe tirara uma nuvem e sombra de morte, que trazia sôbre o coração. Em um lugar de gentios disse um homem que, se ali fôsse o padre, se havia de fazer cristão; foi o padre a visitar alguns que já o eram, e sabendo-o uma filha si>a de doze anos, disse ao pai: Eu vos ouvi dizer que, chegando aqui o padre, vos havíeis de fazer cristão; êle é chegado, não tendes já que vos escusar, e se vós o não quiserdes ser, dai-me licença a mim para que o seja, porque se ma não derdes, eu me sairei de casa e o irei buscar, que me faça cristã. Espantaram-se o pai e a mãe de verem tal resolução em uma menina de tão pouca idade; deram-lhe logo licença e com muito prazer seu e consolação de todos os cristãos que ali se acharam, se baptizou. Indo um padre a um (1) Nl.: Sopena.
  • Das coisas do Japão 85 lugar aonde não havia igreja, disse missa em casa de um bom cristão, cuja mulher era mui devota e exemplar; acabada a missa, ela se chegou ao padre, e com muitas lágrimas lhe disse que, pois tinha recebido de Deus Nosso Senhor um tão singular benefício, como era o ir o padre a sua casa e dizer nela missa, que logo cortaria os cabelos, como de-feito cortou em presença do padre; o que entre os cristãos japões é um sinal de renunciar o mundo, emquanto pode, para com mais fervor se dar ao serviço de Deus, e assim o faz ela com muito exemplo. Um homem cristão tinha cuidado da fazenda de um seu amo, e desejando muito comungar, se foi ao padre e lhe disse, que êle tinha aquele desejo, mas, como por seu ofício muitas vezes era forçado a se agastar e tomar cólera, não se atrevia por isso a chegar à sagrada comunhão; pelo que, em todo caso, havia de deixar o ofício para se fazer digno de tão alto sacramento. Encon- trando-se um gentio com um irmão nosso japão, que ia por um caminho, lhe disse que um filho seu cristão morrera na guerra de Corai, e que êle desejava muito fazer-lhe oração por sua alma, mas como era gentio, e Deus por isso não o havia de ouvir, deseja*va de se fazer cristão e juntamente toda sua família; 129. o irmão o encaminhou logo no que havia de fazer, e foi baptizado com tôda sua casa; e depois do baptismo ouviu logo com muita devoção e lágrimas a missa, que o padre lhe disse pela alma de seu filho, o que o bom homem muito agradeceu (1), e ofereceu uma boa esmola para se repartir por pobies. De uma casa desapareceu um menino de três anos, e não sabendo seu pai e mãe onde o poderiam achar, se foram dar conta ao padre, o qual lhes disse que tivessem muito arrependimento de seus pecados e o encomendassem a Nossa Senhora e ao Anjo da Guarda, e a Santo António por ser êste santo particular advogado das coisas perdidas; e o padre também lhes disse logo uma missa a Nosso Senhora por ser em dia de sábado, e os irmãos de casa com os dógicos (que são os moços que se criam e servem na igreja) e os mais que estavam presentes, se puseram em oração por êle. Logo ao meio dia foi achado o menino dentro de um silvado tão éspêsso, que homens mui valentes não podiam entrar por êle sem se ferirem, mas o menino foi achado são e salvo, sem lesão alguma e sem se poder entender, como ali entrou, senão fôsse por malícia do diabo que ali o quis lançar; mas as orações o salvaram, pelo que todos deram muitas graças a Deus. CAPÍLULO XIV Do estado de Omura NESTE estado, assim na casa principal que está na cidade de Omura, como em suas residências, que são Cori, Sonogui e esta, residem onze da Companhia, que andam cultivando aquela cristandade com muita consolação sua, por verem o fruto que dela colhem, e com não serem mais que quatro padres de missa, confessaram êste ano passante de vinte e * duas mil.Pig.i3o. (1) Nl.: Agardeceu.
  • 86 Das coisas do Japão almas, e por via da confissão se fazem sempre coisas de mui grande serviço de Deus, que por brevidade se deixam; e como todos os desta terra são cristãos de muitos anos, não se baptizam nela senão os que veem de fora, dos quais este ano se converteram passante de 600 adultos. Refizeram-se três igrejas e El-Rei D. Sancho, de Omura, tomou à sua conta fazer a igreja principal da cidade, imitando a El-Rei D. Bartolomeu, seu pai, que fizera outra que no tempo da perseguição foi destruída. Um fidalgo, parente mui chegado de El-Rei, havendo mui tempo que por vergonha se deixava de confessar, caiu em uma doença em que muitas vezes perdia o juízo, e entrava o diabo nele e dizia tais coisas que movia à compaixão; porém, vendo-se um dia a ponto de morte, mandou chamar o padre com muita pressa e se confessou e logo ficou mais quieto e começou a comer, havendo sete dias que o não fazia. E porque esta confissão foi apressada, achando-se melhor, o fêz devagar por duas vezes, com que de todo ficou são, e dizia depois que em si experimentara mui bem o que muitas vezes ouvira, que a confissão não sòmente sarava a alma tirando os pecados, mas também ao corpo aliviava das doenças, e dava por isto muitas graças a Deus. E em conheci- mento dêste benefício mandou logo dar muitas esmolas a pobres e também deu sítio em uma vila sua para se fazer uma igreja, à qual deu logo princípio cercando-a e acomodando-a muito bem e continuamente persuade aos seus que sejam bons cristãos. No tempo que D. Sancho esteve em Meaco, acertou de pousar em casa de um gentio rico e de muita família, e por ser tempo de qua- resma, jejuavam êle e os seus e tomavam algumas disciplinas de noite; movido o hóspede com êste exemplo, desejou de se fazer cristão e pedindo-lhe fizesse chamar um irmão da Companhia para o catequizar, alegrou-se grandemente D. Sancho. Vindo o irmão lhe pregou a êle e a tôda sua família e receberam o baptismo. Uma mulher gentia casou uma filha em terra de cristãos, e vindo-a • Pág.i3i. a visitar adoeceu ali gravemente; tocou-a * Deus, e pediu que a fizessem cristã; baptizada, morreu logo e foi a gozar de Deus. Um moço, filho de um gentio, veio a terra de cristãos a ver a uns parentes; estando com êles se fez cristão; tornou depois a casa de seu pai, o qual, por ser gentio, lhe persuadiu que deixasse a fé que recebera, e por fôrça lhe deitou ao pescoço uma nómina de gentios. O mancebo o sentiu muito e, tirando-a com muita pressa diante dos olhos do pai, a lançou logo no fogo e se tornou à terra de cristãos, querendo antes apartar-se do pai que de Deus. Neste ano morreu aqui em Omura a Rainha D. Catarina, mulher de El-Rei D. Sancho, de cujas virtudes muitas vezes se tem escrito. Foi sua enfermidade de terçãs (1) e de um parto trabalhoso que teve, e o menino que pariu, depois de baptisado se foi também a acompanhar sua mãe no Céu. Era esta senhora irmã de El-Rei de Arima, de condição piedosa e mãe não sòmente dos pobres da terra, mas de todos os padres e irmãos da Companhia, que em seu reino andam. O dia que morreu, mandou aos padres uma cédula escrita de sua própria mão, em que dava uma boa esmola para se fazer uma igreja, tendo feito outras muitas em sua vida. Afirmava o Padre Afonso de Lucena, reitor (1) Nt.: Traçans.
  • Das coisas do Japão 87 daquela casa, que não havia pessoa em tôda aquela cidade que, por qualquer via, não tivesse recebido dela alguma boa obra; e assim, não houve homem nem mulher em todas suas terras, que não mostrasse grande sentimento por sua morte, e mais de quinhentos homens dos mais honrados e nobres vassalos seus, cortaram o cabelo da cabeça, que em Japão, conforme a seu costume, é sinal de grande sentimento e nojo. Os padres da Companhia, pela muita obrigação que lhe tinham, se juntaram quantos andavam em suas terras, e de Nangasáqui veio também o reitor daquela casa com muitos padres e irmãos e dógicos cantores do seminário, e lhe fizeram um nobre e solene enterramento e exéquias. El-Rei D. Sancho, seu marido, sentiu em extremo sua morte, por serem mui bem casados e viverem sempre em * suma paz e concórdia e ter nela não «Pag. sòmente mulher, mas mãe e conselheira singular, assim nas coisas de sua alma, como no governo de suas terras, porque, além de sua virtude, era também mulher de grã prudência. Edificou D. Sancho para sua sepultura uma capela que fica a uma ilharga da igreja grande; e também deu por sua alma muitas e grandes esmolas, e quási não houve pessoa que também pela mesma não desse ou fizesse alguma coisa, pelo grande amor que todos lhe tinham como a senhora e mãe; e porque é costume entre os japões, na morte de semelhantes pessoas, especialmente quando são bem quistas, cortarem os seus a ponta do dedo pequeno em sinal de sentimento, sabendo D. Sancho já dantes que isto não era lícito entre cristãos, mandou com tempo a todos os seus que ninguém o fizesse, mas que, em lugar disso, fizessem muitas orações e dessem esmolas por sua alma. Nesta casa da Companhia, de Omura, morreu neste ano o irmão Nicolau, japão de setenta e sete anos de idade, e obreiro mui antigo nesta cristandade, varão perfeito e grande servo de Deus e zelador da salvação das almas, não lhes faltando nunca da sua parte com todos os remédios espirituais e temporais que lhe eram possíveis; e ainda que de tanta idade, era mui amigo de trabalhar c, estando enfermo, sempre o achavam em algum serviço de Deus ou do pró- ximo. O tempo que lhe ficava das obrigações religiosas e ocupação com os próximos, gastava em fazer mèzinhas para os enfermos pobres. Padeceu gran- des trabalhos em sete meses que lhe durou a enfermidade de que morreu, mas sempre neles se mostrou mui conforme com a vontade divina. Confessava-se e comungava muitas vezes e fazia muitos colóquios com Deus. Acabando o padre que o ungia, a derradeira oração, êle também acabou esta vida com o nome de JESUS na boca e com muita quietação. CAPÍTULO XV Do reino de Arima * "TV TESTE reino e na mesma cidade de Arima há uma casa da Companhia,*Pág. \ reitoral; a ela estão anexas cinco residências, convém a saber: Arie, ^ Ximagá Canzuca, Chinguia, Saigo; e afora os que residem na casa, estão repartidos por estas residências catorze da Companhia, a qual tem a seu cargo, neste reino, como setenta mil almas, e ainda que os desta terra todos
  • 88 Das coisas do Japão são cristãos, dos que vieram de fora se baptizaram quási 600. Igrejas se fizeram dezassete, afora outras das que foram destruídas na perseguição passada, que reedificaram e concertaram; e tudo com o favor e ajuda do bom Rei Dom Pro- tásio, senhor deste reino, que em tudo o que é de honra de Deus e bem das almas de seus vassalos, o faz como grande e excelente cristão que êle é; e entre outras muitas coisas que continuamente procura fazer em serviço de Deus, apontarei três mui notáveis que êste ano fêz. A primeira foi, que indo a Arima o Padre Alexandre, Visitador da Com- panhia, a quem êle tem muito grande respeito, e tratando com êle muitas coisas importantes para o bem espiritual e temporal de seus vassalos, entre elas lhe propôs que, visto como muitos dêles (por haver muitos anos que andavam ausentes de suas terras, ocupados na guerra do Corai, e nós outros também por causa da perseguição, pôsto que lhes acudíamos com a possível diligência, encolhidos porém e sem a antiga liberdade o não podíamos fazer como dantes) se mostravam algum tanto arreceosos e com pouco atrevimento para tratar das coisas de sua salvação, principalmente estando as igrejas destruídas, lhe parecia ser mui conveniente e necessário para os animar, ir Sua Alteza em pessoa juntamente com os padres por tôdas suas terras, e principalmente por aquelas que estavam mais vizinhas às dos gentios, cujos moradores, por se terem baptizado pouco antes da perseguição e não poderem ser cultivados como con- vinha, viviam mais tibiamente, e tinham maior necessidade de serem animados e doutrinados. Pareceu isto muito bem a El-Rei, e logo de mui boa vontade se ofereceu e pôs em ordem, para correr todas suas terras, levando consigo o mes*mo Padre Visitador e outros padres e irmãos. E ainda que para êle era muito grande trabalho, por o tempo ser chuvoso (1), e necessàriamente haver de levar muita gente, todavia o zêlo da honra de Deus lhe fêz tudo fácil, e com muita alegria se pôs a êste caminho com a companhia dos padres, sem um só momento se apartar dêles, nem consentir que êles se apartassem. E por todos os lugares aonde chegava, fazia logo que se ajuntasse o povo, e da sua parte se lhe dissesse, que sua vontade e desejo era, que todos procedessem como muito bons cristãos, obedecendo à Igreja e aos padres, à letra, nas coisas que eram de Deus e de sua salvação, e ajudassem todos a fazer as igrejas, coisa que para tôda aquela cristandade foi de mui grão momento, e com que em extremo ficou animada, vendo o grande zêlo com que seu próprio Rei e senhor pessoalmente os andava visitando, como se também fôra seu apóstolo e prelado, e exortando-os ao serviço de Deus e perfeita guarda da sua lei. A segunda coisa que fez êste bom Rei, foi a que se segue. Tinha-se casado a segunda vez em Meaco com uma senhora mui principal, como já se disse, e querendo-lhe mostrar a ela e a seus parentes o muito que a estimava, lhe edificou de novo uns paços mui grandes e nobres, no melhor e mais formoso sítio da cidade, junto ao mar e no cabo de uma grande praça, ao pé de sua fortaleza, para neles a receber quando viesse a Arima, ainda que na fortaleza tinha também outros paços mui excelentes, mas quis-lhe mostrar êste amor e (1) Nt. Chuivoso.
  • Das coisas do Japão 89 magnificência: e saíram êstes mui sumptuosos e bem acabados, com muitos e mui grandes aposentos para recolhimento de muita gente. Porém, depois de haver quási um ano que neles morava com sua mulher, considerando quão mal acomodados estavam os padres nas casas onde moravam, e o ruim sítio delas e a estreiteza do lugar para poderem também ali acomodar o seminário dos meninos e fazer igreja, e vendo que tudo isto tinha naqueles seus paços mui cumpridamente, pelo singular amor que tem à Companhia, e estima da vida e saúde de cada um dêles que muito deseja conservar para o serviço de Deus e bem de seus vassalos, se * resolveu de lhos dar com todos seus jardins»fig- e hortas que neles há, e com outras diversas casas de seus criados, que a eles estão juntas. E assim mandou logo um recado ao Padre Visitador, dizendo que bem sabia como êle edificara aqueles paços para si e para sua mulher, e não somente para a receber neles quando a trouxe de Meaco, senão também para morar neles depois de entregar a seu filho o governo do estado, como e costume de Japão; mas que vendo agora a incomodidade do sítio e casas em que os padres moravam, e desejando de fazer algum serviço à Companhia, pelo grande amor que lhe tinha, êle lho fazia daqueles paços com todo seu sítio, o qual [a]largaria ainda muito mais, para fazer também o seminário como deter- minava. E que portanto, se lhe contentavam, os mandava logo despejar, para os padres se mudarem para êles. Foi mui grande a consolação que o Padre Visitador e os mais receberam com esta tão singular merce de Deus e dêste príncipe, pelos muitos e grandes bens que daqui se seguiam para aumento do serviço do Senhor e autoridade da Companhia. E êste foi o primeiro príncipe que, no Japão, deu à Companhia casa for- mada com sua igreja e mais adereços necessários, ainda que muitos outros príncipes, conforme à vontade e amor que nos mostram, não duvidamos dese- jarem de o fazer; todavia, uns por haver pouco tempo que se fizeram cristãos e andarem ocupados em contínuas guerras, outros por não se atrevei em por causa da perseguição de Taicoçama, que durou quási treze anos, não tiveram lugar para poderem mostrar seus desejos por obras. Por onde, sendo agora êste bom Rei o primeiro que tão de propósito começou a fazer uma coisa como esta, não duvidamos que todos os mais senhores cristãos o irão imitando, nem poderão sofrer ficar-lhe inferiores, nem mostrar que teem menos amor e estima da Companhia que êle. . . Recebido êste recado de El-Rei, o Padre Visitador o mandou logo visitar e dar as graças devidas a tamanha mercê, e dali a mui pouco veio também El-Rei em pessoa a ver-se tom o pa*dre com tanta alegria e contentamento,'Ng que não cabia de prazer. E mandou logo começar a despejar seus paços, mu- dando-se para os da sua fortaleza; e indo-os a ver o Padre Visitador, de tal maneira os traçou e acomodou a nosso modo, que, tirando algumas portas que abriu de umas casas para as outras, nenhuma outra coisa do que estava feito se desfez, antes ficaram tão acomodados ao nosso modo, como se de propósito foram feitos para um colégio da Companhia, com o qual El-Rei ficou muito mais contente, havendo por honra sua que nada se desfizesse, e que tudo ficasse tão acomodado, que a Companhia se pudesse servir dêles assim como estavam. Depois de passados os padres para o novo colégio, os veio logo visitar El-Rei 12
  • 90 Das coisas do Japão e a Rainha com muita alegria e, depois deles, tôda a nobreza da cidade com diversos presentes a dar-lhes os parabéns desta mudança, que para todos foi matéria de grande e universal alegria. Entregues os paços, e já feitos colégio da Companhia, não parou aqui o fervor e boa vontade dêste bom príncipe, mas, visto como os padres não tinham ali igreja, se resolveu a fazê-la logo, e essa a mais nobre e sumptuosa que houve em todo o Japão, e conforme à traça que à sua petição lhe deu o Padre Visitador, que foi conforme a de Nangasáqui, de três naves com suas varandas ao redor, em um lugar mui acomodado defronte de sua fortaleza e paços, com um terreiro mui grande para a parte do mar; e ainda que muitos de seus criados e conselheiros não eram de parecer estar o tempo já para se fazer tão grande igreja, por os padres ainda não estarem restituídos por Daifuçama, o qual por- ventura poderia desgostar, se o soubesse, e também porque no mesmo tempo estava El-Rei fortificando sua fortaleza, na qual ocupava grande número de carpinteirós, por onde não parecia possível acudir a ambas as obras; contudo, rompendo El-Rei por todas as dificuldades que os do seu conselho lhe propu- nham, se determinou edificar a igreja, e de duas fortalezas, fazer primeiro a de Deus, então a sua, dando por razão primeiramente, que êle estando na guerra • Pig.137.de Corai, tinha feito voto a Nosso Senhor * que, trazendo-o a seu reino, edificaria aquela igreja, e que por isso o queria logo cumprir, deixando tudo o demais, Além disso, que, pois já tinha dado aos padres da Companhia seus paços para colégio, lhes queria fazer logo a igreja que lhes faltava, e de que tanta necessidade tinham para o serviço de Deus. E que, quanto a Daifuçama, não tinha que se temer, pois já se lhe tinha manifestado.por cristão, e sabia também dele, que não tinha má vontade à cristandade; e que sobretudo folgava muito de ser ele o primeiro que, depois da perseguição, começava a fazer uma tão pública demonstração da sua fé, e que portanto, já que juntamente se não podiam fazer ambas as fábricas, sobrestivesse a do baluarte de sua fortaleza, e se fizesse a da igreja. E assim, logo como nisto se resolveu com os de seu conselho e criados, mandou recado ao Padre Visitador, fazendo-lho a saber; e, por ser êste príncipe muito diligente e apressado na execução daquilo em que uma vez se determina, mandou logo cessar suas obras, e deputou mais de setenta ou oitenta carpinteiros para a fábrica da igreja, com mais outros duzentos trabalhadores que carretavam madeira e pedra e ajudavam nas demais coisas necessárias. Pôs também dois fidalgos mui diligentes, que sempre assistissem na obra e tivessem superintendência nela; e assim cresceu com tanta diligência, que em menos de três meses a engalgou, e conforme à pressa que lhe dá, esperamos que em breve a porá no cabo, para logo também começar o semi- nário, como tem prometido. Não é inferior a El-Rei, seu marido, no fervor e zêlo da fé a Rainha Dona Justa, sua mulher, da qual em grande extremo nos consola ver o alto enten- dimento e conceito que tem feito das coisas da nossa santa lei, havendo tão pouco tempo que se fêz cristã, e a grande devoção e amor que tem a nos- sas coisas. Confessa-se muitas vezes, tem cada dia seu tempo de oração determinado, faz muitas esmolas e obras pias, manda muitas vezes visitar os padres, e não se farta de falar na mercê que Deus lhe fêz, em a trazer a seu
  • I Das coisas do Japão 91 conhecimento, e com seu exemplo faz entrar em devoção as mulheres de sua casa. ♦Entre muitas coisas particulares de edificação, que por brevidade deixo, • Pag. i38. as quais continuamente acontecem nesta cristandade, só duas tocarei. Uma é, que aconteceu em uma destas residências ser justiçado um homem por seus delitos, sem primeiro os ministros da justiça o fazerem confessar nem irem avisar o padre para isso. Sabendo isto o governador do reino, que é tio de El-Rei, se foi logo lá em uma sexta-feira da quaresma, e estando toda a gente na igreja para ouvir a prègação da paixão, que naquele dia à tarde se lhe fêz, antes de se começar, se levantou o governador em pé, e repreendendo àspera- mente aqueles ministros que executaram a sentença de morte em aquele homem, sem primeiro o fazerem confessar, e chamando-os por seus nomes, ainda que eram pessoas honradas os fêz tomar diante de todos, na mesma igreja, uma disciplina. E porque êle mesmo governador conhecia que dera a isto alguma ocasião, em mandar que executassem a sentença naquele homem com diligência, pôsto que não entendia que fôsse sem confissão, tomou juntamente com os outros também sua disciplina. Da residência de Ximabará se acode às vezes a alguns cristãos do reino de Fingo, que estão entre gentios, com os quais se faz muito fruto, e muitos dos gentios se converteram. Aconteceu, que adoecendo ali uma mulher gravemente, começou repartir seus bens, parte com o marido e parte com os filhos, e parte também deixou para fazer bem por sua alma; era esta mulher moça e o marido também mancebo, o qual vendo-a fazer isto, lhe foi à mão, dizendo-lhe que deixasse aquelas imaginações. Ao que ela respondeu: — Senhor, não tendes razão, porque se bem vos lembra, porque meu pai e mãe eram gentios, deter- minava eu também no tempo passado de sempre o ser, para depois de sua morte lhes fazer as exéquias conforme ao costume de sua seita; mas no dia que vós pelejastes comigo porque não me fazia cristã, e vós fostes arrufado para a fortaleza, eu fiquei muito triste e adormeci, e neste sono tive uma visão que me repreendeu grandemen*te, porque me não fazia cristã, e me disse • Píg. >39. se me queria salvar, o fôsse logo, porque não havia outra lei melhor nem de salvação, senão a dos cristãos; e que, quando muito, estaria convosco até os 3o anos. Acordei muito alegre, e logo assentei comigo de me fazer cristã, nem mais me esqueceu a alegria que recebia naquela visão. E verdade que cuidava eu que êstes trinta anos seriam os de minha idade, mas porque eu sou ainda muito moça e me vejo tão perto da morte, entendo que o sentido da visão é até trinta anos de vossa idade, e por isso me aparelho para morrer, e se vós quereis fazer o que convém, para vos salvardes, fazei tal e tal, — dan- do-lhe mui bons documentos. O marido lhe disse que tudo aquilo era imagi- nação, porque êle ainda não tinha trinta anos, senão vinte e nove. — Pouco vai nisso, respondeu ela, porque trinta e vinte e nove se computam pelo mesmo; quanto mais que vós já passais de vinte e nove, portanto crede-me, que vos digo verdade. — E assim foi, que dali a poucos dias morreu, e dizendo-lhe o marido antes da morte, que levaria seu corpo a Ximabará, lugar de cristãos, e o enterraria no cemitério da Misericórdia, cuja confrade era, respondeu ela: Bem sei que desejais ir, pelo menos uma vez no ano, a Ximabará, mas os negó-
  • 92 Das coisas do Japão cios não vos dão lugar, por isso quero que me enterreis aqui perto, onde possais ir muitas vezes encomendar minha alma a Deus, e onde também possam ir os meus filhinhos, para que saibam e se lembrem que são filhos de uma mãe que morreu cristã. E assim se foi dispondo com tanto aparelho, que a todos can- sava muita consolação; e em alguns acidentes mortais que lhe sobrevinham, significava ter junto de si o seu Anjo da Guarda, e outros favores do Céu. Acabou finalmente com muita paz, pondo sempre os olhos em três imagens que tinha diante. E não sòmente com esta boa morte os cristãos ficaram consola- dos, mas ainda alguns gentios, movidos por ela, prometeram de se fazer logo cristãos. CAPÍTULO XVI Da cristandade das ilhas de Xiqni e At?iacnsa .Pig. 140. * ÃO estas ilhas do estado de Dom Agostinho; tem nelas a Companhia uma casa reitoral e três residências: a casa em Xiqui, as residências em Amacusa, Tondo e Conzura; estão nelas de ordinário 16 da Companhia: seis sacerdotes e dez irmãos, que empregam bem sua vida na cultivação daquela gente, a qual por ser toda cristã, não se baptizaram mais que até quinhentos dos que vieram de fora. Aqui em Xiqui residiram êste ano os dógicos(i) pintores, que por todo êle se ocuparam em pintar retábulos para várias igrejas; também se fizeram alguns órgãos com canos de bambuns, que são um género de canas muito mais grossas e fortes que as de Europa, as quais teem vozes tão suaves ou mais que as da fôlha de Frandes e com êstes se provêem as igrejas principais. Nesta mesma casa de Xiqui residiu êste ano o senhor Bispo Dom Luís Cerqueira, por ser lugar quieto e mais conveniente ao tempo, não deixando de fazer sempre seu ofício pastoral, e ordenando algumas coisas para bem de suas ovelhas; aqui crismou muitas vezes, e para receber êste sacramento concorreu muita gente nobre das terras de Dom Agostinho, andando para isso caminho de vinte léguas, e o mesmo Dom Agostinho veio também e o recebeu com particular consolação, aparelhando-se primeiro com a confissão, como tam- bém faziam os demais, tomou por seu padrinho ao Padre Visitador; achou-se presente El-Rei de Arima, que de suas terras viera aqui visitar o mesmo Dom Agostinho, o qual também, além desta vez, veio visitar outras duas vezes ao senhor Bispo, e sempre com muita chaneza e demonstrações de amor e do respeito grande que lhe tinha, que só por isso e guarda da pessoa do senhor Bispo mandou aqui pôr mais gente de guerra, parecendo-lhe que não bastava a que aqui havia, para resistir a qualquer assalto dos inimigos, se Japão se revol- vesse; também nos mandou cercar todo nosso sítio ao redor, para que nossa casa ficasse mais segura e recolhida. • Pág. i4'- Aqui em nossa igreja benzeu Sua Senhoria os óleos na sema*na santa com a maior solenidade e decência que foi possível, concorrendo de várias partes muitos padres, e como era a primeira vez que se fazia em Japão êste solene (1) Aft.: Dojucus.
  • Das coisas do Japão 93 ofício, causou muito grande devoção e conceito (1) das coisas eclesiásticas, em todos os cristãos que se achavam presentes, os quais houveram de ser em muito maior número, se se publicara que havia de haver esta benção dos óleos, o que se não fêz por evitar extraordinário concurso, que ainda neste tempo não era conveniente. Quando chegou ao lavatório dos pes, que Sua Senhoria fêz como em Europa se costuma, houve grande moção de lágrimas e suspitos em todos, edificando-se em extremo de ver aquele tão devoto acto. Aqui também ordenou o senhor Bispo uma festa, nova em Japão, para cuja declaração se hade pressupor que é antigo costume nestes reinos festejarem seu ano novo (que é o primeiro dia da primeira lua de seu ano, que sói cair dentro no mês de fevereiro) com banquetes e tangeres, enramando as portas e ruas, e visitando-se uns aos outros e dando-se os bons anos. Ao que ajuntam também algumas cerimónias gentílicas, pelo qual muitos japões, depois de cris- tãos, não ousavam a festejar êste seu ano, nem ainda tiradas as cerimónias gentílicas. De modo que, no tempo em que os gentios se alegravam e visitavam seus amigos, os cristãos nenhumas mostras davam de alegria, antes se retiravam como de coisa ilícita. De que os gentios desgostavam muito e julgavam que nossa lei era mui rigorosa, pois proibia as festas e uso das devidas cortesias em dia tão célebre, o que podia impedir a conversão de muitos gentios que moram em terras de senhores infiéis. Sabendo e vendo isto o Padre \ isitador, e considerando quão dura coisa é tirar os costumes antigos de tôda uma nação, desejava que se desse algum meio com que os cristãos japões, sem mistura de cerimónias gentílicas, festejassem também aquele dia-, e assim pediu ao senhor Bispo que neste dia instituísse alguma solene festa, com a qual os cristãos japões, pelo tempo em diante, se fossem esquecendo das festas profanas e gén- tilicas que antigamente * se faziam, e que era necessário declarar aos cristãos • Pag-14*. que a lei de Deus não proibia festejarem o princípio de seu ano novo de Japão, com tanto que não fizessem coisas próprias de gentios. Consultando isto o senhor Bispo com os nossos padres (que por agora não tem outro cabido nem clerezia), com parecer de todos instituiu que naquele dia do ano novo de Japão se celebrasse uma célebre festa, a que pôs nome Nossa Senhora da Protecção, tomando a gloriosa Virgem por particular protectora de todo Japão, e sua festa por bom princípio de seu ano lunar, pois por ela nos veio todo o bem. E nao impede a esta festa a nossa de dia da Circuncisão, o qual também os japões cristãos festejam com muita alegria e devoção. E assim, por êste meio, espe- ramos que os japões se esqueçam de suas acostumadas cerimónias, convertendo tôda a alegria que nelas tinham, em honra da gloriosa Virgem Nossa Senhora a quem tomam por sua protectora, como também, por semelhante 1 azão, foi introduzida pelos papas a festa de Nossa Senhora das Candeias, e de S. Pedro ad vincula no primeiro dia de Agosto, com que se pôs em esquecimento a que fazia Augusto César; e com a primeira, de Nossa Senhora, se desterraram as cerimónias gentílicas que naquele dia em muitas partes se faziam. Foi logo esta festa publicada por tôdas as partes de Japão onde há cristãos, com a pos- sível solenidade, declarando lhes a todos o que podiam fazer e o que haviam de (1) Nt.: Concerto.
  • 94 Das coisas do Japão deixar, e mal se pode encarecer quão bem recebida foi deles, assim por lhes ficar esta Senhora por sua particular Advogada e como a tal a festejarem por boa entrada de seu ano, como também por ficarem mais livres para se alegra- rem e fazerem entre si suas acostumadas alegrias e visitas; e é de mui grande consolação ver a muita devoção que êstes japões cada vez vão tendo mais à Virgem gloriosa Nossa Senhora, e as mercês que muitos por ela vão recebendo. RESIDÊNCIAS • rig. i43. * Nas residências anexas à casa de Xiqui se fizeram de novo sete igrejas em diversos lugares, e nas terras de Conzura se baptizaram mais de trezentos gentios, que de novo vieram para elas. E porque os moradores destas terras se converteram quási no princípio da perseguição, e por isso ficaram alguns lugai es incultos, aos quais se não pode bem acudir, e como são lavradores que comummente seguem a seita dos icoxus, em que teem muita liberdade, dificul- tosamente se descarregam dela. Daqui veio que achando-se entre êstes uma velha, a qual era devotíssima de um Fotoque que, no tempo em que aquelas terras se converteram, deixou escondido com ocasião da perseguição, o tornou a pôr em casa publicamente, e chamava muitos homens e mulheres que o fossem adorar; e desta maneira foi pervertendo todo um povo. Indo ali um dógico nosso catequista (que e moço da igreja que ensina a doutrina) a visitar êste lugar, sendo avisado do que passava, entrou na casa da velha e lhe tomou o Fotoque, o que ela vendo se pôs a dar gritos para que lho tornasse; não lho quis o dógico tornar, mas recolheu-se com êle em casa de um cristão, onde logo vieram mais de cento e vinte homens com suas armas, fazendo grandes estrondos e dizendo que haviam de matar a todos, se lhe não restituíam o seu Fotoque ou ídolo. O bom mancebo dógico se determinou de morrer antes que tornar-lho, e com mui grande ânimo saiu a êles e os repreendeu, dizendo que se espantava como, sendo êles baptizados, faziam uma coisa tão mal feita, e que se lembrassem que eram vassalos de Dom Agostinho o qual, se soubesse' o que passava, estava certo lhes havia de dar o pago que seu atrevimento merecia; que quanto a si não estimava a vida, pois, morrendo, seria mártir de Jesus Cristo^ mas êles vissem o que faziam, e o que lhes podia acontecer, se tal injúria como aquela faziam à Igreja; que o Fotoque estava já feito pedaços, e mal o pode- •Píg. M4- riam cobiai. Com isto amainaram da * ira, e atemorizados se tornaram para suas casas; porém sabendo isto um fidalgo cristão, vassalo de Dom Agostinho, que morava ali perto, o fêz logo a saber aos governadores de seu senhor, que estavam em Uto, no reino de Fingo, dali a vinte ou trinta léguas, os quais logo determinaram de dar um bom castigo aos delinquentes, o que êles sabendo, apertados com o mêdo, se foram pedir misericórdia ao padre de Conzura, e a má velha desapareceu uma noite, entendendo que sem falta a haviam de matar. Alcançou-lhes o padre perdão dos governadores, sujeitando-se êles primeiro à penitência, a qual fizeram públicamente dentro em uma igreja que êles mesmos também primeiro edificaram. Para que os governadores dessem também alguma demonstração de justiça, mandaram queimar a casa da velha, publi- cando que perdoavam aos outros por amor do padre que tão afincadamente
  • Das coisas do Japão 95 rogara por êles. Com isto ficaram todos, não sòmente atemorizados, mas reconciliados e mui obedientes à Igreja; e o padre os fez logo catequizar de novo, mostrando-lhes o desatino e maldade da sua lei, e a verdade e santidade da nossa. Um homem, havia oito anos que padecia uma grave enfermidade, e dese- jando muito de receber o Santíssimo Sacramento que ainda nunca recebera, por haver pouco que se fizera cristão, rogou ao padre com muita eficácia lho concedesse. Condescendeu o padre com êle, e depois que a primeira vez o recebeu, nunca mais lhe tornou a dita doença e anda ao presente são e valente, nunca cessando de contar a mercê que Deus lhe fêz. Em outro lugar havia um bonzo mui velho, com o qual nunca se pôde acabar que se fizesse cristão, ainda que muitas vezes se procurou por parte dos padres, mas respondia sempre que havia de morrer como morreram os bonzos, seus mestres. Adoeceu este gravemente, e pela muita caridade que o padre com êle usou em sua doença, se moveu tanto, que logo pediu o baptismo e se fêz cristão. Uma mulher honrada e muito devota de Nossa Senhora, desejando muito fazer-lhe uma igreja, vendeu para isso uns * vestidos ricos que tinha, e com ajuda que tam- bém para isso deram outros cristãos, a edificou; na qual comummente se ajun- tam cada sábado e lhe acendem cada noite uma alâmpada, e como todos teem grande devoção a esta igreja, por ser da Virgem, muitos por sua inter- cessão visitando-a alcançam saúde. Nas terras de Amacusa confessaram os padres como cinco mil cristãos que, tirando os meninos, são quási todos os que há naquelas terras, os quais estão repartidos em tantos lugarinhos por entre aqueles montes e serras que ali há, que dois padres que nelas estão, teem a seu cargo quarenta e cinco igrejas, pelo que padecem excessivo trabalho, andando em contínua peregrina- ção visitando e confessando aqueles cristãos e dizendo-lhes missa em suas igrejas de tempo em tempo, acudindo aos enfermos e outras necessidades, e tudo por lugares tão ásperos e trabalhosos como aqueles são. CAPÍTULO XVII Do fruto que se fê\ no reino de Fingo pelos padres que estão na casa de Uto e suas residências, Iatçuxiro, Non\ui, Jabé ATRÁS se tem dito como naquela parte do reino de Fingo, de que é senhor Dom Agostinho, se fizeram o ano passado quatro residências. Em uma delas que era a de Uto, cidade e fortaleza principal de todo este estado, se fêz êste ano casa reitoral, na qual e em suas residências estive- ram de ordinário cinco padres com sete irmãos, os quáis todos se empregaram em muitos e grandes serviços que nelas fizeram a Deus, confessando continua- mente, e às vezes o dia inteiro, sem poderem satisfazer aos desejos dos muitos que se queriam confessar; e nêste ano teem já baptizado 17 mil almas, pouco mais ou menos, e muitos mais baptismos se * tiveram feitos, se os gentios «Pig-Hô- daquele reino não foram de uma seita mais prejudicial de todo o Japão, que são
  • 96 Das coisas do Japão os que se chamam icoxus, e tão inimigos da propagação de nossa santa fé, que para a impedir, diziam que as mães de certos padres de Japão vieram cá a comer meninos; e dum padre em particular diziam uns aos outros que se guar- dassem dêle, porque tirava os olhos a muitas pessoas para com eles fazer feitiços, e que desenterrando os mortos os abria para com os fígados deles fazer certa peçonha para matar uns e fazer prósperos a outros. O que tudo se lhes metia a muitos em cabeça de tal maneira, que fugiam do padre, e por não o ouvirem, quando fazia as práticas do catecismo, se ausentavam no tal tempo. Com tudo isto, porque alguns gentios e bonzos e muitos outros entendiam que tudo isto era falso e fingido, divulgavam outra coisa, que quando o padre baptizava, dava peçonha no sal que lhes metia na bôca e na água do baptismo, pelo que muitos se divertiam dêle. Determinaram também de matar com peçonha os irmãos e dógicos que catequizavam, e ao padre; mas por uma carta que se achou à porta da igreja, que veio às mãos do governador daquele lugar, se descobriu sua má intenção; e fêz com que dali por diante se procedesse com recato. Aqui nesta casa de Uto se fizeram este ano, a primeira vez, os ofícios da semana santa com um lustroso sepulcro; concorreu muita gente, e como nunca tinham visto semelhante coisa, se consolaram e aproveitaram grandemente; os gentios vinham de muitas partes a ver o sepulcro, e pondo-se da parte de fora da igreja a ouvir os ofícios, estavam como pasmados e atónitos; os nobres da fortaleza se confessam e comungam muitas vezes no ano. E ainda que ficaram pobres e individados por causa da guerra do Corai e por outros gastos que tiveram, contudo não deixaram de acudir a seu tempo com suas esmolas, e fazer muitas obras pias; e a igreja de Uto, que o ano passado Dom Agostinho começou a levantar de emprestado, para se celebrar a festa do Nascimento, acabaram êles êste ano, fazendo-a muito maior, para se celebrarem os ofícios • Pág. 147. da sema*na santa com mais solenidade e concurso de gente. Os dias passados se ajuntaram alguns dos mais principais fidalgos, e tirando muita gente das obras que estavam fazendo, nos cercaram todo o sítio de nossa casa; entre estes se assinalou particularmente Chuiemondono, sobrinho de D. Agostinho, mancebo de dezassete anos, o qual, quando os padres vão a suas terras, lhes faz muita honra e agasalhado, e por ser fervoroso persuadiu aos moradores de Cumanoxo, que é um povo grande seu, que se fizessem cristãos, e se baptizaram mais de três mil, sendo antes mui inimigos de nossa santa fé, e para mais os obrigar e festejar, êle mesmo quis ser padrinho de todos, e buscou, para lhes dar, imagens, medalhas, rosários e nóminas; e depois de baptizados, deputou sete pessoas que tivessem cuidado de fazer ajuntar os cristãos na igreja, quando o padre lá ia, e de os fazer confessar, quando estivessem doentes e outras coisas que muito ajudam à sua boa cultivação; e mandando-lhes tomar quantos ídolos tinham, os fêz meter no fogo, dos quais muitos eram bem doirados, pelo que os gentios de outras terras vizinhas lhe alevantavam que o fazia para lhes tomar o oiro. Aos bonzos mandou recado que ou se fizessem cristãos ou se fossem daquelas terras: seis se baptizaram, os demais se foram. Finalmente, com a boa dili- gência e fervor dêste bom fidalgo entraram os dêste povo em tanta devoção, que nesta mesma quaresma passada, não havendo mais de dois mêses que
  • Das coisas do Japão 97 eram cristãos, tomaram tantas disciplinas de sangue, que foi necessário ir-lhes à mão. Nas residências de Iatçuxiro e Nonzui se fizeram de novo catorze igrejas por ordem de Jácome Mimasacodono, governador dêstes lugares, que é o prin- cipal fidalgo e vassalo que tem Dom Agostinho e de quem êle faz mais caso, e sobre tudo isto, mui fervoroso e antigo cristão, o qual nunca cessa de ajudar continuamente à cristandade. Esta quaresma passada convidou o Padre Visi- tador quisesse ir a Iatçuxiro (que depois de Uto e a principal fortaleza do estado de [D.] Agostinho, a qual * êle tem a seu cargo), para fazer aí os ofícios -Pig. m8. da semana santa, e para que, com sua presença, se acendesse mais o fervor e devoção daquela nova cristandade; e concedendo-lhe o padre sua petição, em poucos dias, com muita gente que tem, fêz em nossa casa uns mui bons e novos aposentos, em que o agasalhasse. Levou o padre consigo muitos dógicos can- tores, e com êles fêz os ofícios da semana santa com gi ande solenidade, aos quais concorreu tanto número de cristãos, que, ainda que a igreja era de tiês naves e mui capaz, não cabia dentro ametade da gente, ficando toda a mais fora [no terreiro], no qual também ainda não cabia; e isto não somente no tempo dos ofícios de pela manhã, aos quais vinham duas horas antes de amanhecer, mas da mesma maneira às tardes, em que havia salvè e ladainhas. Muitos se ficavam de noite na igreja, sem se quererem tornar para suas casas, por não perderem o lugar para assistirem aos ofícios ao dia seguinte. Emquanto o padre ali esteve, nunca jamais Jácome Mimasacodono se apar- tava dêle, convidando-o muitas vezes, assim em nossa casa como na fortaleza, e quando o padre ia visitar e dizer missa por aqueles lugares, sempre o acom- panhava com muita benevolência e cortesia. Era coisa para ver, como todos aqueles cristãos saíam de seus lugares a receber o padre com tanto amor e devoção, como se o foram mui antigos. E em todas as igrejas onde entrava, os meninos o festejavam com cantigas santas e dizendo de cor todas as orações da doutrina, e uma suma de dez pontos do que se há-de crer e sabei distinta- mente, com que o padre em extremo se alegrava, pelos ver tão aproveitados, não havendo ainda um ano que eram cristãos. E em espaço de vinte dias que ali se deteve, foi sempre grande o número dos que o vinham visitar a casa, entre os quais os principais e que eram como cabeças e padrinhos dos outros, lhe apresentava cada um os seus afilhados, para que o padre os conhecesse e provesse de imagens, rosários e nóminas; e as mulheres faziam o mesnio, tra*zendo também suas afilhadas e pedindo as mesmas coisas, das quais o*Pig. 149- padre lhes repartiu uma boa cópia. Fêz também ali o padre um baptismo de quási trezentas pessoas, pedindo-lhe Jácome os quisesse baptizar por sua mão, sendo êle padrinho dos homens, e das mulheres Dona Isabel, sua mulher, a qual é muito devota e de mui louváveis costumes e prudência, com que virtuosa- mente governa sua família de criadas que seguem mui bem o exemplo de sua senhora. Entre os que aqui se converteram novamente, se assmalou um bonzo velho que Nosso Senhor trouxe a si com particular vocação. Êste tinha muitos discí- pulos e era mui rico, e tinha cuidado de um templo de boa fábrica, em que estavam muitos ídolos. Mas a êle com seus discípulos converteu Deus de tal i3
  • 98 Das coisas do Japão maneira, que é um dos melhores cristãos que aqui há, o qual em se baptizando despejou logo o templo de todos os ídolos, e limpo e purgado, como é costume dos fiéis, fèz dele uma igreja mui capaz, aonde concorrem todos os daquele lugar a ouvir missa. E como todos o tinham em grande respeito e estima, vendo-o agora tão bom cristão, se confirmam e aproveitam muitos com seu exemplo. E para que melhor se conservasse e aumentasse o fervor dêstes novos cristãos, se lhes instituiu uma confraria de Nossa Senhora, a que teem muita devoção, e com a qual muito se ajudam e animam; e como os japões são incli- nados a enterrar seus mortos com solenidade, em extremo se consolam com a [com] que nós enterramos os defuntos cristãos; e tivemos por mui bom sinal de sua conversão ser verdadeira, que na sétima lua passada, quando os gentios costumam fazer exéquias às almas de seus defuntos, não se viu em todo este povo sinal algum de memória disto, tendo-as celebrado o ano atrás com tantas cerimónias e fogos, que parecia arder toda esta cidade. Além das cruzes que no ano passado apareceram, aqui se achou também • i'ág. i5o. uma pedra quadrada, na qual em cada uma das * três partes estava lavrada uma cruz como de meio relêvo. O pé das quais tôdas três não está inteiro, nem também a parte de cima que responde ao título, mas bem se deixa ver que estiveram em forma perfeita, e que por antiguidade se desfizeram os peda- ços que lhe faltam, por ser pedra antiga e obra, ao parecer, de mais de duzentos anos; em uma das partes se vê melhor o título da cruz, mas sem letras. Estão êstes cristãos espantados de ver estas cruzes, e não se persuadem que por costume de Japão, ou por alguma necessidade ou causa humana, se fizesse nêle tal figura. Mas o que piamente se pode crer, é que veio a estas partes algum cristão que fêz lavrar estas cruzes nesta pedra, e a deixou como padrão, alevantada nêste lugar onde foi achada, que é aqui perto no têrmo desta cidade. O senhor Bispo sabendo isto, encomendou a um padre tirasse informação dos moradores daquele lugar, os quais perguntados disseram que muito tempo havia, se tinha notícia desta pedra, mas que lhes parecia ser coisa mais antiga que êstes cem anos, porque os que agora são velhos, já de moços ouviram falar a seus pais e avós. E um bonzo de setenta anos, que o ano passado se fêz cristão, homem de muita autoridade e mui conhecido nesta comarca, diz que naquele lugar havia um bonzo, o qual tinha esta pedra em grande reverência, e que havia outros dois ou três velhos honrados, que a estimavam em muito e que, emquanto êles viveram, ninguém se atrevia a tratá-la mal. Esta foi a informação que dela se pôde tirar. Queira o Senhor que a Cruz de Cristo em Japão e em todo o lugar seja honrada e venerada, como merece aquele Senhor que nela morreu. A residência de Jabé se fêz êste ano passado à petição de Jorge Jafindono, um dos principais criados de Dom Agostinho e mui antigo e devoto cristão, o qual tem a cargo aquela fortaleza. Êste fidalgo pediu ao Padre Visitador que • Pig. i5i. lhe desse um padre para estar de assento naquela terra, por haver mui*tos gentios que se queriam fazer cristãos, e também para lhe reformar sua casa e consolar os seus com sua presença. Para alcançar isto, fêz um voto, com todos os de sua família, de terem cada dia uma hora de oração, jejuarem muitos dias e tomarem um bom número de disciplinas, para que Deus inspirasse ao Padre
  • Das coisas do Japão 99 Visitador lhes cumprisse seu desejo, o qual lho concedeu logo, mandando-lhe um padre com um irmão para estar de assento naquele lugar; e chegando de repente, os achou postos em oração pedindo a Deus lhes concedesse sua vinda; e assim foi recebido com excessiva consolação e alegria de todos, e principal- mente de Jorge e de sua casa e de tôda a outra gente honrada, e logo lhe começaram a fazer sua casa e igreja, e se ofereceram a o sustentar à sua custa. Pelo que, com muito fervor se começou a entender, assim na cultivação dos antigos cristãos que ali estavam, como na conversão dos gentios, dos quais se teem já baptizados passante de quatro mil almas e entre eles alguns bonzos de muita autoridade e importância. Havia aqui um bonzo que, por ter um templo de ídolos a seu cargo e muita gente sujeita a seu serviço, perseguia muito a cristandade, levantando muitas falsidades aos cristãos e ao padre. Este, por rogos de uma pessoa prin- cipal, veio de novo a ouvir as práticas do catecismo, e tanto se convenceu, que não quis tornar para sua casa sem as acabar de ouvir de todo, e depois disto se baptizou, entregando logo todos os ídolos e as mais coisas tocantes à digni- dade do bonzo; baptizou-se em quarta-feira de cinza e começou logo a jejuar tôda a quaresma, de maneira que nem ao domingo perdoava, dizendo que quem em todos os dias ofendera a seu Criador, não era muito que jejuasse todos os dias da quaresma com os domingos. Alguns catecúmenos ouvindo o catecismo choravam: e perguntados porquê, e que, se era por se haverem de fazer cris- tãos, ninguém os forçava; responderam que choravam por verem as trevas de tantos êrros e enganos do demónio, em que por tantos anos viveram. A uma * menina cristã queriam seus pais perverter, mas ela lhes respondeu 'Pig- que por nenhum caso deixaria de o ser; e ameaçando-a que lhe tomariam o rosário: «Se mo tomardes, disse, terei paciência, porque, com dizer JESUS, Maria, me contento por ora»; o qual ouvindo-lhe, dissimularam com ela. Depois disto vindo-se confessar a boa menina, escondida dos pais, disse ao confessor que ela vivia entre diabos com muita paciência, porque todos os de sua casa escarneciam dela por ser cristã, e como não tinha já rosário, que não podia rezar (o que dizia por cuidar que sem rosário não valia a oração do Pater noster, nem Avè Maria). E dizia mais que quando se via apertada de seus pais, se metia em algum lugar secreto, e depois de dizer ali muitas vezes, JESUS, Maria, se achava com isso muito consolada, e também com os bons conselhos que lhe dava uma sua parenta cristã que ali perto morava, a qual a esforçava a ter paciência e que não deixasse de ser cristã ainda que a matassem; e êstes conse- lhos, dizia ela que a tinham mui fortalecida, de maneira que por mais que padecesse, não havia de tornar atrás. Um homem, depois de baptizado alguns meses, caiu enfêrmo, e cuidando consigo, se por ventura lhe viria aquela enfer- midade por algum descuido de sua alma, examinando-se não achou outra coisa senão que fôra negligente em aprender as orações: pelo que logo fêz chamar quem lhas ensinasse, e ainda que a enfermidade era grave, assim como as ia aprendendo, assim ia sarando, e acabando de as aprender, se achou são de todo. A outra pessoa que havia pouco se fizera cristã, deu o padre um Agnus Dei, e não o estimando ela com a devida reverência, quis abrir a caixa em que estava metido, para ver curiosamente o que estava dentro, e estando-o
  • 100 Das coisas do Japão abrindo, ficou tolhida das mãos, as quais lhe ficaram como quando estava abrindo a nómina. Sabendo isto os cristãos e gentios ficaram mui atemorizados, e ela arrependendo se de sua culpa, se foi logo achando melhor e está hoje sã de todo. i>ág. 153. * Por remate desta residência de Jabé, poremos aqui o que o padre dela escreve àcerca de Jorge Jafingindono e de sua casa por ser tudo de muita edificação. Nesta fortaleza de Jabé está Jorge, de quem muitas vezes se tem escrito; tem das portas adentro de sua casa trinta pessoas, as quais pela manhã, acabando de ouvir missa, se recolhem com campainha tangida a ter uma hora de oração, os mais deles rezando por seus rosários, outros meditando. Naquele tempo se não dá recado algum a Jorge senão de coisa de muita importância. Acabada a oração, cada um se ocupa em seu ofício. A tarde êle, sua mulher e filhos e a mais gente principal de sua casa se tornam a recolher outro espaço de tempo antes de cear. À noite, antes de se recolherem a dormir, teem suas ladainhas, dizendo-as êle, respondendo os mais, e logo após isto fazem seu exame da consciência. Tôda sua família se confessa muitas vezes, e algumas das mulheres de sua casa teem feito voto de castidade, procedendo sempre com bom exemplo. Tomam cada semana algumas vezes disciplina, entoando Jorge um Miserere, e os demais prosseguem juntamente com êle. Os mais de sua casa jejuam as sextas e sábados. E é comum prática de Jorge que nunca se acha tão descansado, como quando cumpre com todas suas devoções. A festa do Nascimento se celebrou êste ano com muita devoção, comungando todos os que eram capazes disso, e fazendo aquela noite muita festa à honra do santo Nascimento. Jorge deu de comer a tôda a gente que concorreu dos lugares ao redor, que foram mais de mil e quinhentas pessoas. A quaresma e Páscoa se celebrou com particular fervor e devoção. Pediu Jorge ao padre que deixasse tomar disciplina aos cristãos na igreja todos os dias da quaresma, ouvindo primeiro um capítulo de um livro espiritual, mas o padre lho não quis conceder senão sextas-feiras e sábados somente, nos quais dias se ajuntava grande número de cristãos e tomavam sua disciplina com muita devoção. Mas Jorge não se satisfazendo com isso, a tomava em sua casa todos os dias; o qual Pág. *64. também mandou que à * quinta, sexta e sábado da semana santa a gente da fortaleza tivesse oração contínua na igreja, repartindo-os êle mesmo de modo que a cada um lhe cabia sua hora, duas vezes no dia. Mandou fixar na porta da igreja um papel no qual estava escrita a intenção por que esta oração se havia de ter, que era por três coisas: a primeira pelo aumento da cristandade em Japão, a segunda por Dom Agostinho e seu estado, a terceira pela cristan- dade e estado do mesmo Jorge. A quinta-feira à noite de Endoenças se fêz dentro na fortaleza uma procissão, em que iam mais de quinhentos discipli- nantes, e foi tudo de tanta devoção, que moveu a muitos gentios a se fazerem cristãos.
  • Das coisas do Japão IOI CAPÍTULO XVIII Do sucesso das residências de Firoxima e Amangúchi nos reinos de Moridono EM ambas estas residências que o ano passado se fizeram, como já fica dito, houve vários sucessos e contrariedades, com que não se pôde até agora fazer tanta conversão, como desejamos e esperávamos. Em Firo- xima que é a cidade e fortaleza principal de Moridono, senhor de nove reinos, com a ida de um padre bom prègador na língua e com o favor que lhe dava Saxondono, governador de Moridono naqueles reinos, começou a acudir grande número de fidalgos e cidadãos para ouvir as prègações do catecismo, dos quais alguns se fizeram logo cristãos. E como isto era coisa nova em Firoxima (onde nunca até então se prègara a lei de Deus, nem foram vistos padres), com esta fama e concurso, e com os favores que o governador fazia ao padre, se come- çaram a inquietar grandemente os bonzos, os quais ali são muitos e de diversas seitas e mui poderosos na terra, por ser Moridono mui dado ao culto de um Cami ou ídolo de grande fama em Japão, que está em suas ter*ras, e a quem.Píg êle tem por protector e defensor de sua família. Êstes bonzos trataram entre si da grande ruína que padeceriam todas suas seitas, se o padre e a lei de Deus ali deitassem suas raízes; determinaram fazer todo o possível pelo impedir. Para isso escreveram logo a um bonzo chamado Ancocuge (a quem Moridono tem sempre consigo e reverenceia grandemente como a pai), fazendo-lhe a saber, como a cidade de Firoxima estava já tôda revolta com a vinda daquele padre, e que se lhe consentissem ir adiante com a prègaçao de sua lei, seria isto total destruição de todas suas seitas, porque muitos se iam já fazendo cristãos; e que prègando aquele padre e irmão tao descobertamente conti a os Camis e Fotoques, facilmente a gente lhes iria perdendo a devoção, como se vira por experiência em outras partes onde aqueles padres entraram, e que também se poderia seguir algum desastre naqueles reinos. Alterou-se com isto muito o sobredito bonzo, ainda que primeiro nos favorecia; e como acaba tudo o que quere com Moridono, lhe fêz logo mandar um recado a Saxondono, seu gover- nador, em que lhe dizia que êle tinha ouvido o que passava em Firoxima com a vinda dos padres, e que lhe descontentava muito, porque nunca fora sua intenção que êles ali estivessem para prègar sua lei, senão sòmente para terem lugar, por onde os nossos pudessem passar para outras partes e paia, pot meio dêles, ter algum comércio com os portugueses da nau que vem a Nangasáqui, e que portanto de todo os lançasse logo fora, ou lhes ptoibisse que de nenhuma maneira prègassem esta lei, pois estava já proibida por I aicoçama. Recebendo Saxondono êste recado, mandou logo dizer ao padre que se deixasse estar ali, mas que não prègasse, até que êle escrevesse sôbre isso a Moridono. Achou-se o padre mui frustrado de suas esperanças, e os que o favoreciam, se começaram a encolher, outros se [re]tiraram do catecismo que iam ouvindo: o governador lhe tornou a tirar o sítio que lhe tinha dado para fazer a casa e igreja e deu-lhe outra casa em que estivesse, mas em lugar menos acomodado, encomendam
  • io2 * Das coisas do Japão • P4g.i56. do-lhe que não fizesse estrondo nem solicitasse gente para prègar. *E com tudo isso determinou de o ajudar quanto pôde, e pediu a Moridono que o deixasse ali estar, pois não era honra sua, tendo-o êle chamado, torná-lo a lançar tão de-pressa à petição dos bonzos. Finalmente com diversas cartas e recados se foi negociando com êle e com outros privados seus de tal maneira, que estas revoltas se começaram a quietar. Ao que ajudou também o Padre Organtino falando pessoalmente a iMoridono que então estava em Osaca, e ao bonzo Ancocuge por meio de alguns cristãos, vassalos do mesmo Moridono. E ainda que se acabou que o padre não fôsse deitado fora da cidade, não se pôde con- tudo acabar que lhe fôsse concedida liberdade para poder prègar, nem os bonzos acabam de alcançar seu intento em sete meses que há, que esta con- tenda dura. Este foi o sucesso desta residência; esperamos em Nosso Senhor que depois da tempestede virá a tranquilidade e que o grão de trigo do Evan- gelho que já aqui está semeado, virá a produzir muito fruto, como sempre costumou. Em Iamangúchi que é uma cidade de outro reino do mesmo Moridono, cujo senhor é um seu sobrinho chamado também Saxondono, se fêz outra residência, na qual se pôs um padre bom pregador e prático na língua; nesta se começou também ao princípio a fazer grande fruto, porque acudiram muitos à prègação do catecismo e se baptizaram mais de cinqtlenta fidalgos daquela cidade, os quais nunca cessavam de disputar com outros amigos e conhecidos, convencendo-os de seus erros. Perguntando uns bonzos a um dêstes fidaígos por nome Diogo, em que se fundava nossa lei e disputando sôbre ela, houve-se tão bem, que um dêles, que dizia não haver algum primeiro princípio, senão que tudo fôra feito acaso, ficou mui embaraçado, e acudindo outro por êle disse: Este meu companheiro está esquecido; eu digo que há primeiro princípio de tôdas as coisas, convém a saber, os Camis e Fotoques. Respondeu-lhe Diogo • pig. i57. e provou-lhe que o primeiro princípio era sumo e poderoso e primei*ra causa de tôdas as coisas, mostrando-lhe isto com as razões que tinha ouvido no cate- cismo, o que não se podia dizer dos Camis e Fotoques, pois foram homens. Com isto ficaram os bonzos tão convencidos e corridos, que até os mesmos gentios zombavam dêles, e Diogo se foi logo mui alegre dar as graças ao padre por lhe ter ensinado as razões com que alcançou esta vitória. Um bonzo estando para morrer dentro de um pequeno templo de seus ídolos e quási desamparado de todos, sabendo-o o padre lhe mandou lá um irmão japão, com cujos conselhos e práticas se converteu e baptizou, e mudando-o para casa de um cristão, para nela ser curado e provido de todo o necessário, daí a poucos dias se foi para o Céu. Muitos gentios vendo disputar aos nossos com tanto fervor e zêlo e que seus bonzos diante dêles ficavam convencidos, em extremo se maravilharam, e dizem que nossa lei necessàriamente deve ser uma grande e celestial coisa. Desta maneira ia crescendo em credito a prègação do padre e ganhando os corações de muita gente nobre, e tinha já feita uma casa acomodada no sítio que o senhor da terra lhe tinha dado; mas levantando-se em Firoxima a con- tradição de que agora falámos, e entendendo Saxondono o que seu tio e pai adoptivo Moridono lá fizeram, deu também mostras por palavras e obras que
  • Das coisas do Japão io3 não era contente de que seus criados se fizessem cristãos. E indo visitar seu tio com o governador, mandou que cessassem de todo os sermões e baptismos, pelo que ficaram as coisas daquela residência em calmaria, ainda que sempre há alguns que se fazem cristãos, porque não puseram ao padre outro algum estorvo, o qual, além das coisas sobreditas, fêz aí também uma igreja de em- prestado, aonde se ajuntam os cristãos, assim os que agora fêz, que passarão de cento, como outros muitos mais que já ali havia. Porque, desde o tempo do Padre Mestre Francisco, começou a cristandade naquela cidade e, visitando-os algumas vezes os padres, se foram sempre con*servando em sua fé, baptizando «Pag. seus filhos e gente de casa por um bom cristão e bem instruído que para isso estava deputado, à falta de ministros eclesiásticos. CAPÍTULO XIX Da residência do reino de Bujém DESTE reino que confina com o de Bungo, é rei D. Simeão Condera Cambiogedono, o qual depois que o trespassou em seu filho Cainoca- midono conforme ao costume de Japão, o ficou também governando em sua ausência, por ser ido à corte e estar lá com os governadores. Foi êste príncipe, pai, mu^fervoroso cristão por muitos tempos e por sua persuasão se baptizou o príncipe seu filho sendo mui mancebo, mas porque logo se levantou a perseguição do tirano Taicoçama e êle viveu sempre entre gentios e, depois de seu pai lhe entregar o reino, esteve sempre na guerra do Corai, ficou com mui pouca inteligência das coisas da nossa santa fé. E por o discurso do tempo fêz também o demónio quanto pôde, para que o pai se fôsse também esfriando daquela sua primeira devoção, ainda que sempre procedeu como cristão, ouvindo missa e prègação publicamente com os mais cristãos e mostrando sempre amor aos padres e favor às coisas da igreja. Mas, porque todos sabiam que andava êle algum tanto tíbio em sua pessoa nas coisas da salvação, e que seu filho não favorecia a cristandade como era razão, não se fazia até agora tanto fruto, como se esperava naquela terra por seu meio, e tendo padre consigo que êle mesmo procurou. Baptizaram-se todavia mais de seiscentos que são boa parte dos vassalos de Sojemandono, irmão de El-Rei Simeão, que é um fino católico e coluna de tôda aquela cristandade de Bujém: ambos os irmãos edificaram ali ao padre casa e igreja. Confessou o padre todos os cristãos que estão em diversas partes daquele reino, que são mais de dois mil, indo-os a visitar e consolar. Começando-se os * sermões do catecismo, vieram muitos a ouvir, e entre «Pág. êles quatro lavradores, cabeças de umdugar, os quais vieram de noite por não serem vistos dos outros: e não querendo êstes dantes que algum morador de seu lugar se fizesse cristão, êles foram os primeiros que se fizeram; porque, depois de ouvirem a prègação, propuseram tais e tão boas dúvidas, que os pre- sentes se maravilharam de tão bom juízo de lavradores; e inquirindo-se que homens eram, se soube que eram honrados, e por causa das guerras e mudanças
  • io4 Das coisas do Japão que continuamente há em Japão, se fizeram lavradores. Emfim depois de serem mui bem instruídos, se baptizaram com muita satisfação sua; o que sabendo El-Rei Simeão os mandou chamar e os louvou muito pelo que tinham feito, e lhes fêz mercê. E pelo crédito que estes tinham com os do lugar, e por verem o favor que El-Rei lhes fizera, muitos daquele povo se moveram a ser cristãos. Um homem que por um delito havia de ser justiçado, escapou fugindo. Foi logo presa sua mulher, conforme o costume de Japão, para ver se o marido acudia por ela; esteve presa um ano, e como seu pai era cristão, pediu a um irmão nosso que ali estava, lhe fosse prègar, e persuadisse a morrer cristã. Estava o irmão tão de-pressa para ir a outra parte, que mal lhe pudera então acudir, se Deus não provera de uma grande chuva, com que forçosa- mente se deteve, e com isto teve tempo para lhe prègar, e a baptizou com muita devoção. Dali a alguns dias, por não aparecer o marido, a sentenciaram à morte de cruz; levando-a a padecer, por ser mulher honrada e fraca, lhe ordenaram que fôsse em uma liteira pequena que dois homens levavam aos ombros. Respondeu que antes queria ir a pé, para padecer mais alguma coisa e imitar a Jesus Cristo Nosso Senhor, que foi a pé a padecer morte de cruz por amor dela. Chegada ao lugar onde estava a cruz, a quiseram matar antes •Pâg. 160. de a pôr nela (como se costuma fazer aos que teem * menores culpas, espe- cialmente mulheres); não o quis consentir, dizendo que na cruz queria morrer à imitação daquele Senhor que nela morreu por todos: não causou pequeno espanto esta sua tão grande devoção e fé a todos os presentes. Depois de sua morte todos os seus parentes que eram mais de trinta (estando antes bem fora disso), se fizeram cristãos e o são agora os mais devotos e fervorosos que ali há; o que se teve por fruto das orações desta serva de Deus. Ainda que o padre desta residência não deixava de fazer muito fruto, vendo contudo o Padre Visitador que El-Rei Simeão Cambiojedono não dava o exem- plo que convinha e se esperava de um tão grande e fervoroso cristão como dantes foi, lhe escreveu uma carta admoestando-o brandamente de sua frieza e dizendo-lhe que, pois seu filho Cainocami não mostrava tanto gosto de estar ali o padre, e êle não se aproveitava nem cumpria com os bons propósitos que dantes tinha, por isso ordenava que o padre se saísse logo daquele reino, pois o havia mister para outras empresas de maior fruto e que lho tornaria a man- dar, quando êle e seu filho se quisessem aproveitar melhor, confessando-se e vivendo como convinha a tais pessoas que eram cabeças daquele reino e de cujo exemplo dependia a conversão e emenda de seus vassalos. Ficou El-Rei Simeão com esta carta mui espantado e confuso, e por nenhuma via quis consentir que o padre se fosse, dizendo-lhe que esperasse por outra resposta do Padre Visi- tador, a quem logo queria escrever sobre isso. Então o padre que já tinha ordem de se deter, se êle lhe fizesse instância, lançando mão da ocasião, com muita liberdade e inteireza o repreendeu de seu descuido e frieza no que per- tencia a sua salvação. Tomou mui bem a repreensão e confessou seu êrro mostrando grande arrependimento do passado, prometeu de fazer tudo o que o padre lhe mandava, para bem de sua alma. Manda logo um criado, mui bom cristão, ao Padre Visitador com cartas de muita humildade e mostras de senti- •Pág.161. mento, roga-lhe # deixe ficar o padre, protesta de cumprir o que tinha prome-
  • Das coisas do Japão io5 tido, que era confessar-se e concertar sua vida. E porque o Padre Visitador escrevera [a] sobredita carta para o espertar e fazer tornar em si, lhe respondeu agora a esta sua, que amava tanto o bem de sua alma, que querendo-se êle reformar, como convinha, de boa vontade lhe deixaria ali o padre, mas se não o fizesse, que lhe pedia o deixasse ir e que em tal caso êle também escreveria ao mesmo padre se tornasse logo de Bujém. Nesta conjunção, se levantaram em Meaco entre Daifuçama e os Governa- dores as revoltas e guerras, que ao diante se dirão, nas quais Cainocami, filho de Simeão, se lançou da banda de Daifuçama. Ficou com isto El-Rei Simeão mui sobressaltado e perplexo no que faria: porque, se se declarava pelos Governadores, ia contra seu filho cujo estado governava, se contra êles, estava em perigo de ser destruído, porque, como o seu reino de Bujém estava junto do de Bungo, onde quási todos eram por parte dos Governadores e haviam de pelejar com êle, ficava em grande risco sua pessoa e Estado. Finalmente se determinou de se declarar por Daifuçama e começou a juntar gente e fortificar alguns lugares do reino. Mas a melhor fortificação e que mais o assegurou e ajudou, foi a reformação que fêz em sua pessoa, porque logo fêz uma confissão geral desde o tempo que se baptizara, com grande contrição, ouvindo primeiro de novo mui bem as prègações do catecismo e da confissão; e tirando em efeito algumas ocasiões que até agora o embaraçavam, escreveu êle mesmo ao Padre Visitador uma carta de grandes agradecimentos e prometendo-lhe que daqui por diante faria grandes coisas em serviço de Deus. Com ela juntamente lhe mandou uma cédula de dez capítulos, em que se comtém tôda a suma de nossa lei, assinando-se, ao pé, de sua própria mão, protestando que cria firmemente tudo o que naqueles capítulos se continha, e que propunha viver daí por diante conforme a esta doutrina; o que tudo consolou muito aos padres, assim pelo bem e res*peito de sua pessoa, como pelo muito que com seu exemplo pode • ràg. 162. fazer, por ser êste um príncipe de mui grande autoridade em Japão. CAPÍTULO XX Da missão e residência do reino de Chicungo NESTE reino estão as terras de Corume, que são de Simão Findenadono, tio de Moridono, rei de nove reinos, irmão de seu pai, o qual está casado com D. Maxência, filha do bom e cristianíssimo Rei Francisco de Bungo, que Deus tem. A visitar estas terras e cristandade foi mandado um padre, com cuja chegada foi grande a consolação e fervor de todos e princi- palmente de D. Maxência e de sua aia Catarina, as quais sôbre tôdas se assina- laram, não sòmente nas cousas de sua alma mas também no gasalhado que fizeram ao padre por todos vinte cinco ou seis dias que então ali esteve. Confessaram-se muitos, baptizaram-se de novo seis centos e setenta e tantos; fêz Maxência umas solenes exéquias a El-Rei seu pai, dando muitas esmolas a pobres e fazendo outras muitas obras pias; as confissões, prègações e práticas espirituais eram tão contínuas, que emquanto o padre ali esteve, outra coisa se >4
  • io6 Das coisas do Japão -não fazia de dia nem de noite, perguntando sempre aos principais e de melhor entendimento coisas da fé, propondo suas dúvidas e nunca se fartando de ouvir o que pertencia à sua salvação. Veio ouvir as práticas dos cristãos um bonzo que tinha cargo de uma varela grande, do qual se dizia ser mui observante em sua seita, e satisfeito grandemente da doutrina e lei de Cristo, pediu o baptismo com grande instância, foi baptizado; e tornando à sua varela mandou logo ao padre um Fotoque ou ídolo dourado de quatro palmos de alto, envolto em uma como sobrepeliz e juntamente com a estola com que o bonzo costumava fazer suas cerimónias, e atado tudo com uma corda de palha de arroz, dizendo ao «Pàg. i«j. padre que lhe entre*gava aquele Fotoque para que o tratasse como êle merecia. Acertou neste tempo de estar com o padre um menino, filho de Simão Finde- nadono(i) e de Maxência, por nome D. Francisco, de idade de dez ou doze anos, o qual vendo o ídolo, pedindo primeiro licença ao padre arrancou da catana ou espada que trazia cingida e com muita alegria e festa, como se tivera diante de si um grande inimigo, começou a cortar nele como quem fazia justiça, e depois de lhe dar muitas cutiladas o deitou no fogo, não cabendo de prazer de ver como ardia, batia as palmas com grande festa, dizia mil males do Foto- que, repetindo muitas vezes que agora se vingava dele, pois quisera ser adorado tanto tempo. É êste menino amicíssimo de queimar e tratar mal os ídolos que pode haver às mãos, mui afeiçoado às coisas de Nosso Senhor e da Igreja, e nesta afeição o vão criando seus pais. Desta vez ficou particularmente mui aproveitado nas coisas da doutrina e costumes cristãos e vai mostrando que será homem de grande esforço e de ânimo verdadeiramente cristão. Quando êste padre fêz esta missão, estava Simão, marido de Maxência, na corte do Meaco, mas depois de tornar, achando o grande fruto que o padre tinha feito e os grandes desejos que tôda aquela cristandade e sua mulher Maxência tinham de os padres residirem ali de contínuo, e sendo também êste seu desejo dêle, pediram ao Padre Visitador lho quisesse conceder, o que êle fêz mandando-lhe um padre mui antigo em Japão, o qual com sua estada fêz muito fruto naquela terra, porque além das confissões contínuas dos que já eram cristãos, se baptizariam 1.900 almas. Simão e Maxência deram diversas esmolas àquela casa, fora do que primeiro tinham dado, e fizeram de novo as casas para morar o padre, e a igreja que lhe custou muito. Simão se mostra mui bom cristão, não se farta quási cada dia, quando ali está, de tratar com o irmão as coisas de sua salvação, e diz que deseja saber mui bem as coisas de nossa •Pig. 164. santa fé, não somente pelo que a êle lhe vai, senão também por * que, sendo êle tio de Moridono, está muito tempo no Meaco e trata com diversos senhores gentios, com os quais acontece vir muitas vezes à prática nossa santa lei e ser necessário dar-lhes razão dela e da causa porque a recebeu, e por isso deseja saber bem nossas coisas para os convencer. Dá mui bom exemplo a seus vas- salos, confessa-se muitas vezes, comunga com muita devoção, folga tanto de ver converter sua gente, que se acha muitas' vezes nos baptismos e é padrinho de muitos, aos quais anima com palavras e exemplo; o mesmo faz D. Francisco, seu filho, que ainda que menimo de doze anos, parece varão perfeito nas coisas (1) Nt.: Findanao.
  • Das coisas do Japão 107 de cristão. E muito nosso amigo; quási não falta dia em que não venha a esta casa, e para animar aos que de novo se baptizam, êle os provê de imagens que manda fundir em sua casa, e às vezes êle mesmo as funde. Indo Simão Fin- denadono êstes meses passados a Meaco, foi tentado de sua mãe que é gentia e mui dada aos ídolos, e de Moridono, seu sobrinho, e de outros seus parentes, para que deixasse a nova lei dos cristãos, que recebera, pois Moridono e todos êles eram gentios e seguiam suas antigas leis. Ele lhes respondeu de tal ma- neira, que tiveram por bem calar-se, escusando-se de lhe falarem daquele modo, porque não sabiam que lei era a de Cristo. Desenganou-os que estava deter- minado de antes perder seu estado e vida, se fôsse necessário, que deixar a lei dos cristãos, que recebera, pois sabia que só nela havia salvação. Ordenou que todos os que em sua terra houvessem de ser justiçados, se fossem gentios, lhes persuadissem,primeiro se fizessem cristãos, e se fôssem cristãos, lhes des- sem tempo necessário para se confessarem e disporem de sua alma; e assim um dia estando dois delinquentes para serem justiçados, e estando o padre ausente, esperaram três ou quatro dias que viesse para os confessar. Sendo costume entre os Japões provarem os fios de suas (1) espadas nos corpos dos justiçados, deixando-os no campo feitos pedaços para serem comidos das aves e bêstas feras, ordenou D. Simão que isto se não fizesse com os cristãos. Além das igrejas que fêz junto da fortaleza, fizeram os cris*tãos do povo outra aonde «P;lg, 1É5> se lhes diz missa e prega muitas vezes, com que muito se aproveitam. Mas porque um padre não pode acudir a tantos cristãos, como cada dia de novo se vão fazendo, e porque também tem a seu cargo outros muitos cristãos que estão nas terras de outros senhores, no mesmo reino de Chicungo e no de Chicujém, se trata de pôr ali mais outro padre para acudir a tantas almas. CAPÍTULO XXI Da missão e residência do reino de Bungo NESTE reino que o tirano Taicoçama, sendo vivo, repartiu entre muitos senhores gentios, como outras vezes se escreveu, anda de ordinário um padre com um irmão, e alguns dógicos que são discípulos da igreja, para visitar, confessar e consolar os cristãos que nele há, que são quási quinze mil, derramados por muitos lugares, que é causa desta missão ser de muito trabalho, por também êste reino ser grande e de muitas serras e montes, por onde os padres que por êle andam, padecem muito, mas sempre tornam mui alegres pelo muito fruto que colhem. A um pôrto dêste reino veio dar êste ano uma nau de holandeses, a qual dizia haver dois anos que partira de Holândia em companhia de outras quatro, as quais, passando pelo estreito de Magalhães, levando sua derrota para a Sunda, aonde eram chegadas outras ingrêsas (como de Malaca nos escreveram), estas cinco espalhando-se com tormenta, veio ter a êste Bungo esta que digo, (1) Ni.: Duas.
  • io8 Das coisas do Japão bem destroçada. Trazia vivos somente vinte e cinco homens e estes enfermos e mal tratados dos frios e fomes que em tão larga navegação padeceram, dos quais em chegando morreram dois. Trazia alguns panos de lã e escarlatas, raxas, espelhos, vidros, corais e outras curiosidades de Frandes; traziam muita e grossa artelharia e espingardaria; falando o padre com eles, entendeu serem • Pig. 166. herejes. Che*gando ao pôrto, saindo em terra, diziam que vinham fazer mer- cancia a Japão, mas o Tono entendeu logo que iam para outra parte e que não vieram a Japão senão por tormenta, pois não traziam fazenda em quan- tidade e qualidade que traziam as outras naus que vinham a Japão, nem vinham bem tratados e lustrosos com aparato de serviços e criados, como costumam vir os outros mercadores, mas sòmente como soldados e marinheiros, e sobre isso com muita artelharia e armas, pelo que tudo entenderam não ser gente de bom titulo e assim, avisado Daifuçama mandou logo um capitão seu a Bungo, para fazer levar a nau a Meaco ou ao Sacai, onde a tomou por perdida, conforme às leis do Japão, e a mandou a um pôrto dos seus reinos de Cantó, com os holandeses que nela vinham e com dezoito ou vinte peças de artelharia, e tudo o mais recolheu que trazia, que a maior parte era de armas e muita quantidade de pólvora. Tornando à nossa missão e ao fruto que dela se seguiu no reino de Bungo, não o poderemos referir melhor que pela mesma carta que o padre escreveu, a qual diz assirr.: Fiz na cidade de Usuqui (1) alguns criados honrados do Tono cristãos, pessoas nobres e de bons entendimentos, como mostraram nas disputas que tiveram com o irmão, propondo tao boas duvidas, que foi necessário que respondesse eu; prègou-lhes o irmão com muita eloquência e expediência e depois de muitas disputas, enfim se converteram. E um que por certo impe- dimento por então se não baptizou, espero em Deus que o fará cedo. Este é de tão bom entendimento e saber, que praticando diante de mim e mostrando o grande conceito que tinha da nossa santa fé, uma das razões que apontou foi ver que temos casas em Osaca (2) e Meaco, cidades reais, e assento da côrte de Japão, e que nelas prègamos livremente e fazemos muitos cristãos, repro- vando publicamente os Camis e Fotoques e tôda a doutrina dos bonzos, e com tudo isso, que não havia nenhum deles nem de tantos prègadores de várias •píg. 107. seitas, que ali há, que ousasse sair a campo e se atrevesse a dis*putar com nossos prègadores; por onde, dizia êle, algum forte baluarte devem ter os cris- tãos, que os inimigos não podem derribar nem ainda se atrevem a cometer. Aqui se reduziu um homem honrado, entre outros, o qual foi cristão desde pequeno e criado de Justo Ucondono, o qual ainda tinha guardada uma imagem, havia vinte anos; este por persuasão de sua mãe se perverteu, mas agora fica reduzido e confessado; fêz também sua mulher cristã e outra gente de sua casa; procedem todos mui bem e querem fazer uma igreja à sua custa, onde se ajun- tem aos domingos a conferir entre si e praticar as coisas de Deus e salvação. Eu lhes deixei um livro de Guia de pecadores, dos que se imprimiram em Nangasáqui, em língua e letra de Japão, o qual entreguei a um cristão antigo, (1) Ní.: Vosoqui. (2) Nt.: Vasaca.
  • Das coisas do Japão e baptizei perto de noventa pessoas, e o principal foi Naiamondono, irmão do senhor de Fanai, em cujo lugar governa, o qual formou mui bom conceito, assim das coisas da fé como do estado em que se havia de pôr para se salvar, que era ficar com uma só mulher deixando as outras, determinando-a antes do baptismo, que foi a mãe de seu filho morgado. Pouco depois baptizei um seu sobrinho, homem de muito saber, e outros dois principais, e diz que logo há de fazer cristão a seu filho, mas a mulher não vem nisso fàcilmente. Veio-me um dia dêstes visitar à cidade de Funai, onde comeu comigo: e depois de comer, praticou algumas horas da falsidade das seitas de Japão, em que êle está ver- sado; teremos nêle um grande pregador: e como é governador de tôda esta comarca, esperamos que com sua autoridade e persuasão, mediante a divina graça, se converterão muitos. Veio também aqui a ouvir missa a primeira vez, e antes de a ouvir quis saber e aprendeu o modo de assistir a ela e adorar o Santíssimo Sacramento. Anda mui alegre e contente, e deseja que eu esteja sempre em Funai, e diz que como vier Ximan*dono, seu irmão, logo dará • Pig. >68. sítio e ajuda para se fazer uma igreja. Pede a Vossa Reverência um rosário de cavalo marinho e outro para seu filho que logo se há de fazer cristão, e destas e outras coisas de devoção, como nóminas, imagens, contas bentas, são tantos os que pedem e com tanta instância, que me não posso valer, e eu não tenho para dar nem de cem partes a uma, pelo que peço a V. R. nos mande prover destas coisas. Eu estou continuamente confessando; de muitas partes me veem pedir que ou eu vá lá ou o irmão, porque muitos se querem fazer cris- tãos, e outros já feitos querem renovar a sua vida e costumes com a confissão e outros meios espirituais. Com êstes que agora se fizeram cristãos espero que entrarão muitos na rêde de Cristo, porque são gente que pode disputar com todos os letrados de Japão, e um deles, ainda antes de se baptizar, foi a um templo de gentios, que está aqui perto, e fêz escárnio do que prègava o bonzo, pondo-lhe algumas dúvidas com que se viu atalhado. Abrem-se grandes portas neste reino para se fazer grande parte dele cristã, e são tantos os que nele querem ouvir as prègações do catecismo, que me parece, o sangue daquele bemdito Jorão, que morreu por causa da fé, e do bom Rei Fran- cisco de Bungo, está (i) chamando a Deus pelo bem espiritual e salvação dêste reino. Pelo que Vossa Reverência nos proveja, como promete em suas cartas, de algum pregador além dos que cá tenho, para acudirmos a tantas almas da gente dêste reino, onde nos tempos passados se derramou tanta semente da palavra divina e se disseram tantas missas. Em outra carta escreve o mesmo padre desta maneira: De Lsúqui (2) me parti para Xinga, depois de visitar e ajudar arrazoadamente aquela cristandade, em que se confessaram como duas mil pessoas, baptizaram tiezentas, reduziram cento. E agora actualmente está o irmão prègando em Funai a muitos fidalgos e está para se baptizar o filho segundo de Ximandono; e Naiamandono com grande fer*vor lhes persuade que oiçam os sermões, para entenderem as falsi-• Pág.169. -dades das leis e seitas de Japão, e creio que será uma grande coluna da cris- (1) Nt.: Estam. (a) Nt.: Vsoqui.
  • 11 o Das coisas do Japão tandade nestas partes, e meio para se converterem e reduzirem muitos à nossa santa lei. Leão de Noteu tem concertado uma igreja que é a melhor que agora há em Bungo, levantou uma cruz dentro do mesmo sítio, junto à sepultura de Maria sua mulher. Vê-se neste bom velho grande devoção e fervor, e cada noite me busca para ouvir coisas de Deus, e se algum entra de novo, quando estamos falando nestas coisas, me pede que lhe torne a repetir aquele ponto ou história que lhe tinha começada. Tudo é falar no paraíso e mostrar os desejos que dêle tem, diz que tem grande dor e sentimento por não ter quem deixe em seu lugar que faça o ofício que êle até agora faz, de animar a uns que perse- verem em nossa santa lei, e aconselhar a outros que vivam como bons cristãos e fazer outras obras pias, porque há que seus filhos e netos degeneraram um pouco e não teem aquele fervor que êle deseja, para ajudarem àqueles cristãos em ausência do padre. E assim se pôs uma vez a praticar sobre isto comigo com tanto zêlo e lágrimas, que me fêz a mim chorar e aos circunstantes, dizendo que já estava vendo a frieza daquela gente em êle cerrando os olhos, porque sabia que comummente os homens se descuidam e imitam mais fàcilmcnte o mal que o bem, e êle conhecia que nenhum de seus filhos era para ajudar e sustentar aqueles cristãos. Mas ainda que isto diga, e haja alguns cristãos frios, que nos desconsolem, contudo não faltam outras coisas que também nos animam muito, como é a virtude e zêlo de muitos cristãos antigos e arreigados na fé, que em meio dos gentios e maus perseveram inteiros nela, por mais combatidos que sejam. Também nos consola e anima ver a muitos que de seis, sete, oito léguas se veem a confessar. Pouco há que de um lugar sete léguas daqui vieram cinco, dos quais um era de mais de 6o anos e outro coxo e quási tolhido, que • Píg. 170. veio com o seu bordão quási um dia de cami*nho só a se confessar. Outros, quando passo, me saem ao encontro com tanta alegria e fervor, que mo acres- centam a mim para os ajudar. Uma vez subindo uma serra encontrei com duas mulheres, cobertas com seus mantos, acompanhadas de moças e moços que me estavam esperando no alto da serra, e depois de me saudarem e me darem a boa vinda, me constrangeram a que me apeasse da cavalgadura para comer um bocado do refrêsco que me traziam; para isto estenderam seus mantos, à falta de esteiras, em um lugar plano para que me assentasse em cima, e como eu repugnasse, me fizeram grande força que me assentasse e pusesse os pés sobre seus mantos, a trôco de lhes dizer alguma coisa de Deus. Outros, com desejo de alguma nómína ou conta benta ou algum livro de doutrina ou tratada da contrição, veem de duas, três e cinco léguas. Em Nonzo, estando eu para me partir, me saiu um cristão com êste arrazoamento: Os cristãos do meu bairro são tíbios, e uma das causas de o ser[em] creio que é porque eu, que sou sua cabeça, sou frio e descuidade e não os exorto à devoção; agora determino de me emendar, e desejo fazer-me devoto, para isto peço a Vossa Reverência um livrinho da confissão e em todo o caso mo há-de dar. Respondi-lhe que a não tinha aí, mas que em Facata poderia ser tivesse algum. Com grande alegria se determinou de ir comigo a Facata, que são cinco léguas grandes, a pé, e por mais que eu H10 estorvava, dizendo que de lá lho mandaria, nunca se aquietou: foi comigo e tornou com o livro mui contente. Alguns para esper- tarem e moverem devoção a outros, lhes dão suas imagens, Agnus Dei ou
  • Das coisas do Japão 111 rosários, e tal houve que (como São Martinho a capa) partiu seu rosário pelo meio, para ficar com alguma coisa por onde rezasse; outros, ainda que pobres, reedificam à sua custa seus oratórios e igrejas, e levantam altar, para que o padre seja obrigado a lhes ir lá dizer missa. Com estas e outras coisas seme- lhantes, e com ver o grande serviço que se faz a Deus em ajudar êstes pobres e desamparados que vivem entre gentios, e quanto cada dia vai crescendo o rebanho de * Cristo e a redução de muitos que por causa das guerras e traba- #Pág.i7i. lhos passados, perseguição e destruição das igrejas, estavam tíbios e como esquecidos de nossa santa lei, estou mui animado para, ordenando-o assim a santa obediência, me ficar por êste reino toda a minha vida cultivando esta vinha do Senhor. E ainda que se me põem diante os trabalhos e dificuldades que nisto há, tudo espero vencer com a graça e favor de Nosso Senhor. CAPÍTULO XXII Das missões que se fizeram aos reinos de Chicujém e Fijém, e ds ilhas de Teuxima e Goto POR estarem muitos cristãos derramados por tôdas estas terras e reinos, foi necessário mandar lá um padre com um irmão, para os visitar e con- solar. O primeiro lugar que visitou, foi Facata no reino de Chicujém, cidade mui principal em todos êstes reinos de baixo, habitada de mercadores ricos, bem situada e de bons edifícios, na qual há muitos cristãos antigos e modernos, que desejam muito ter aí um padre de assento. Mas por ser aquele reino de um senhor gentio, até agora não pôde ser isto. Deteve-se ali alguns dias o padre, confessando os cristãos que com muita devoção e fervor acudiam, dos quais muitos nunca se confessaram, outros o não tinham feito havia muitos anos, muitos também que estavam frios, espertaram, e se fizeram muitas outras coisas de grande serviço de Deus, assim com os cristãos antigos como com os que de novo se converteram, que foram cento e setenta e tantos. Entre os que se baptizaram, houve um bonzo mui nomeado, e outro, médico não menos afa- mado, que por curiosidade vieram ouvir as prègaçoes, e perguntar suas dúvidas; e ficando satisfeitos e convencidos com a resposta, se * baptizaram com muUPág.173. bom entendimento das coisas da fé. Esta conversão, como era de pessoas tão conhecidas e de tantas letras, toou muito nesta terra, e por seu respeito vieram muitos a ouvir, e particularmente se reduziu um mancebo que tendo-se bapti- zado desde menino, por falta de quem o doutrinasse se pervertera, boi também o padre visitar os cristãos de Chinsuqui, que é no mesmo reino de Chicujém, aonde confessou muitos cristãos que ali havia, e baptizou outros de novo. Em outro lugar, por nome Xataca, visitou o padre os cristãos que nele moravam, confessando-os a todos, com que grandemente se consolaram. Neste lugar está uma viúva a qual parece ter ali Deus para exemplo de tôda aquela terra, porque, por sua muita devoção e boas obras, é tida por coluna daqueles cristãos. Não é menor o exemplo de outra, por nome Regina, a qual só com alguns poucos criados seus, vivia no meio de muitos gentios como uma resplan-
  • I 12 Das coisas do Japão decente tocha de toda a virtude e cristandade. Esta é natural do reino de Bungo, mui parenta do senhor desta terra, cristã desde sua meninice, a qual no meio de muitas perseguições que teve em Bungo, sempre perseverou com grande fortaleza. E a seu próprio marido, que por ser gentio lhe era contrário, moveu de tal maneira com suas práticas e exemplo, que o converteu e fez cristão. Agora que está viúva, vive mui recolhidamente, e ainda que lhe saíram mui bons casamentos, nenhum quis aceitar, antes, por viver entre cristãos, se resolveu a vir viver em Nangasáqui, onde agora está. Tem em casa um oratório, em que, como outra Judit, se encerra quási todo o dia com muitas imagens de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, livros devotos, disciplinas, água benta e outras coisas de devoção. Com seu exemplo e persuasão se baptizaram mais de vinte e quatro criados seus. No reino de Fijém foi o padre a Riosogi, que é a principal terra e cidade deste reino e a melhor de todo o Ximo; visitou aqueles cristãos; receberam-no p4g.173.com grande alegria, confessaram*-se com muita devoção, baptizaram-se como cinqtlenta, quási todos gente nobre. Foi mui grande a disposição que aqui achou para a conversão; mas por ser terra de senhor gentio, e andarem todos ocupados com as obras da fortaleza, não se pôde deter ali, passou a Fugenteu, consolou aqueles cristãos, os quais ainda que estão entre gentios, como todos são antigos cristãos, se conservam na devoção e exemplo, ao que grandemente os ajuda um velho cristão, por nome António, grande zelador da honra de Deus, o qual os governa como se fôra um religioso ou cura de almas. Este bom velho, emquanto o padre ali esteve, todo o seu cuidado era tratar do bem dêstes cris- tãos, avisando os que estavam longe, da vinda do padre, e ao padre, das coisas que havia entre êles. Todos se confessaram com muito fervor, e se baptizaram os que António tinha convertidos. Um dêstes cristãos com sua mulher e filhos mostraram mui grande fortaleza e constância no tempo da perseguição, quando algumas vezes pelos Governadores e oficiais gentios daquelas partes foram ameaçados com a morte, se não tornavam atrás, e chegou a tanto que por vezes se determinou a deixar as casas e fazenda, e êle, mulher e filhos serem crucificados. A mesma constância mostrou uma filha sua que está casada em outro reino, a qual sendo persuadida pelo Governador daquela terra que deixasse a lei de Cristo, respondeu com ânimo varonil que a vida deixaria de mui boa vontade, mas a lei de Cristo não. Notou o padre em tôda esta missão a singular providência de Nosso Senhor, que em todas aquelas partes que correu, tinha posto alguns cristãos como cabeças e colunas dos outros, e êstes, homens firmes e constantes na fé e de grande edificação, e tidos por tais até dos gentios, e pela maior parte ricos e que podiam sustentar os padres, ainda que se detivessem muitos dias em suas casas, com bastantes aposentos e aparelho para nelas se dizer missa e os cristãos a poderem ouvir. À ilha de Teuxima foi mandado outro padre com um irmão: está esta ilha Pág. 174. entre o Japão e Corai. Dista de Nangasáqui mais de se*tenta léguas; o senhor dela tem título de rei, e sendo ainda gentio, casou com uma filha de D. Agos- tinho, chamada Maria, senhora de muito valor e preço, mas com condição de a deixar viver como cristã e que êle também se faria cristão a seu tempo, como de-feito fêz. Esta senhora no amor e devoção que tem aos padres, imita mui
  • Das coisas do Japão bem a D. Agostinho, seu pai, e lembrada como foi criada entre cristãos com o leite da doutrina da Companhia, a maior consolação e alegria que tem na vida, é quando algumas vezes os padres a visitam; e assim êste ano, estando seu marido no Meaco, e ela para parir, mandou com grande instância pedir ao Padre Visitador, que visto o perigo em que estava, lhe mandasse lá um padre para se confessar, e que juntamente se confessaria e consolaria a gente de sua casa e os mais cristãos que naquela ilha vivem, e com êste recado mandou dois homens principais de sua casa em um navio muito bem concertado. Pareceu ao Padre Visitador não se podia negar tal petição a tal senhora e filha de tal pai, e principalmente estando em perigo de parto, do qual em Japão morrem muitas mulheres; e assim, ainda que estava mui falto de padres, lhe mandou um com um irmão, tirando-o de uma residência, o qual foi recebido com grande contentamento dos cristãos. Emquanto ali esteve, não se pode encarecer a festa e gasalhado com que Maria o tratou e proveu de todo o necessário, não se fartando nunca de o mandar visitar com presentes, e perguntar se tinha neces- sidade de alguma coisa. Mandava chamar muitas vezes o irmão, para que lhe falasse das coisas de Deus e prègasse à gente de sua casa e aos mais cristãos, os quais, em espaço de dois meses, se confessaram todos e comungaram muitos com muito fervor e devoção. Baptizaram-se mais de trezentos. Maria se con- fessou e comungou muitas vezes com muita consolação sua, não cessando de dar graças a Deus por aquela mercê que lhe fizera, em lhe mandar o padre naquela conjunção do parto, do qual se achou mui mal em todo aquele tempo, e não tinha outra consolação, como ela dizia, senão ter ali o padre; * mas foi#Pie- Nosso Senhor servido que de todo convalescesse. Neste tempo chegou de Meaco Teuximandono, seu marido, o qual folgou muito de achar ali o padre e lhe fêz grandes favores; e entre outras coisas, sabendo pelo irmão que o padre tinha a seu cargo muita cristandade, lhe deu à partida uma boa esmola para gastar nas igrejas que ia fazendo, e com os pobres cristãos que tinha a seu cargo; Maria lhe deu um ornamento de tela de oiro da China, com seu frontal e docel. E assim despediram o padre, para se ir à sua residência, e o fizeram vir no mesmo navio de que El-Rei se serve, e em sua companhia mandaram um principal homem, criado de sua casa, a dar as graças ao Padre Visitador e com cartas de grande amor, nas quais Teuximandono lhe pedia também a traça para uma igreja que determinava fazer naquela ilha. Outra missão se fêz às ilhas do Goto, onde há mais de dois mil cristãos, os quais visitou um padre com um irmão; foi também esta missão de muito serviço de Deus, porque se confessaram mais de mil e duzentas pessoas. Afora estas, houve outras; mas, porque os padres de Japão andam quâsi todos em contínuas missões pelos muitos e* distantes lugares que teem a seu cargo, não se trata tanto em particular delas, nem se especificam as coisas de edificação, por serem já como ordinárias.
  • 114 Das coisas do Japão CAPÍTULO XXIII Do sucesso da cristandade das partes do Goquinai ou Meaco; e primeiramente da casa de Osaca POR êste nome Goquinai ou Meaco se costumam significar os reinos altos, e por outro nome chamados do Cami, onde principalmente consiste a • r«g. 1,0. monarquia de Japão; * e nestas partes estão as duas cidades principais que são o assento da corte, uma chamada Meaco, outra Osaca; em ambas estas tem a Companhia casas onde neste ano residiram de religiosos dela, quatro padres e oito irmãos. Em Meaco está a grande fortaleza Fuximi, que os anos atrás edificou o tirano Taicoçama, e em Osaca outra nobilíssima fortaleza, a maior e mais forte de todo o Japão, a qual também edificou o mesmo tirano, e nestas duas fortalezas ordenou antes de sua morte, como já se escreveu, que residissem todos os senhores de Japão: em Fuximi os senhores que o são dos reinos que correm deste Meaco para a parte do Poente, e na de Osaca os da parte de Levante, e nesta mandou também que residisse seu filho. E assim, por estarem nestas duas principais cidades, de ordinário, todos os senhores e nobreza de Japão, procurou sempre a Companhia ter nelas mui boa gente e os melhores pregadores, mas porque até o ano passado, por causa da perseguição de Taicoçama, lhes foi forçado andarem encolhidos e por casas mais alheias que próprias, e as que tinham em Osaca e Meaco, eram mui pequenas e mal acomo- dadas, em as quais moravam como de emprestado e por remédio; êste ano de seiscentos saindo à luz com o favor divino, fizeram em ambas estas cidades casas formadas, porque primeiramente em Osaca, com o favor e ajuda dos cristãos que de diversas partes ali concorrem, e particularmente com o de Dom Agostinho, compraram um sítio mais acomodado onde o Padre Organtino que é superior daquelas partes, começou a edificar umas casas mui boas, assim para habitação dos padres e irmãos que ali residem, como para receber a muita gente nobre e senhores japões, assim cristãos como gentios, que a elas acodem, uns para visitarem os padres e tratarem com eles das coisas da salvação, outros por curiosidade, e muitos para ouvir as prègações do catecismo, com as quais, ainda que não se convertem todos os que ouvem, ficam todavia com grande # Pág. 177. conceito de nossas coisas, entendendo que nossa alma é i*mortal e que há outra vida, do qual conhecimento comummente carecem os senhores e gente nobre de Japão, antes de se converterem, por serem quási todos da seita dos jenxus, os quais teem para si que com esta vida se acaba tudo. Entre outras pessoas nobres e de qualidade que êste ano se converteram, foi um senhor de geração cungué que na dignidade é dos principais senhores de Japão, que trata imediatamente com o Dairi o qual, quanto ao título, é o pró- prio rei supremo de Japão. São êstes cungués mui soberanos, e de todos os outros fazem pouco caso, e são comummente mui duros e dificultosos de se converter; e assim por isto como por êle ter muita entrada com Daifuçama, foi sua conversão entre os nossos e entre todos os cristãos mui estimada. Prè- gou-lhe seu mesmo filho muitas vezes, que o sabe mui bem fazer, e é irmão da
  • Das coisas do Japão 115 nossa Companhia; antes de receber o baptismo foi mui bem catequizado. Espe- ramos com sua conversão muito fruto, e logo o começámos de colher, porque o Padre Organtino que até então não visitara Daifuçama nem outros governa- dores, por meio deste fidalgo teve entrada com todos, com o que ficaram como píiblicamente restituídos naquela côrte. Converteu-se também um bonzo de muita estima entre os japõcs, o qual ouvindo as pregações e deixando seu templo e fregueses que eram muitos, se baptizou e com seu exemplo se vão convertendo muitos, c vai com muito cuidado aprendendo de raiz as coisas de nossa santa fe para depois as pregar e fazer muita conversão. Os que este ano se baptizaram nas partes de Meaco, passaram de três mil e quatro centos, e entre eles alguns criados principais da casa de Daifuçama, os quais trazendo cada dia outros a ouvir, começaram os da côrte de Daifuçama frequentar muito aquela casa, mostrando desejos de levar os padres aos reinos de Cantó, dizendo que fariam muita cristandade; pelo que o Padre Organtino mandou um irmão ao Cantó a visitar a Jendochunugandono, filho herdeiro do * mesmo Daifuçama, que governa aqueles oito reinos em lugar de seu * i'ig. 178. pai, o qual o recebeu com mostras de amor, agradecendo muito a visita; mas porque logo se alterou o estado da monarquia, como adiante se dirá, correu o irmão muito perigo à tornada. Fizeram-se na cidade de Osaca muitas obras pias, principalmente duas que, à petição do Padre Organtino, fêz Dom Agostinho. A primeira foi um hospital de leprosos, dos quais havia muitos (como há universalmente em Japão) e esta- vam pelos caminhos sem remédio algum. Para sustentação dêste hospital dá Dom Agostinho cada ano a provisão necessária, a exemplo de seu pai Joaquim, que antes de morrer fêz outro na cidade do Sacai, onde era governador, o qual vai sustentando Bento, seu filho e irmão de Dom Agostinho, que também ficou governando a mesma cidade em lugar do pai. A segunda foi dar cada ano [renda de cem gocus de arroz que valem cem cruzados, para socorrer aos meni- nos enjeitados, aos quais o Padre Organtino faz pôr em casa de alguns cristãos para se criarem, procurando de os haver das próprias mães, antes que os matem, como costumam as gentias a fazer em Japão, quando os não podem criar. Com isto se salvam muitas criaturas, e as fazem os padres cristãs, maravi- lhando-se as próprias mães e os outros gentios de ver coisa tão nova e de tanta caridade, e foi esta obra tão aceita entre os cristãos que muitos dêles fazem o mesmo, tomando alguns dêstes meninos para os criar. Fêz também Dom Agostinho outra obra mui boa na cidade do Sacai, e foi que tendo-nos Taicoçama destruído no tempo da perseguição uma mui nobre casa e igreja que ali tínhamos, pelo qual careciam os cristãos de lugar acomo- dado e próprio onde se enterrassem, quis agora prover nisto Dom Agostinho, e procurou comprar o sítio em que primeiro vivíamos, que sempre esteve des- ocupado pelo bom modo com que os cristãos procurai am que ninguém edificasse nele casas. E fêz isto com a ocasião * da morte de Madalena, sua mãe, a qual. rig. 179. o ano passado morreu com tantos sinais da salvação, como se esperava de seus bons costumes e inteireza de vida, para a qual seu filho fêz uma formosa sepul- tura em forma de capela, onde se pudesse dizer missa, ficando juntamente boa parte do sítio para cemitério dos cristãos; deu também trezentos cruzados ao
  • Das coisas do Japão Padre Organtino para ajuda das obras das casas que fazia em Osaca. Desta cidade vão os padres a visitar diversos lugares onde há cristãos e principal- mente os que estão nas montanhas de Tacacuqui, os quais ficaram antiga- mente de Justo Ucondono, e ainda que estão debaixo de senhores gentios e vivem entre êles, sempre se conservaram na fé, até no tempo da maior tribu- lação, não querendo nunca admitir entre si gentio algum, se primeiro se não fazia cristão. São todos comummente homens singelos e lavradores, os quais foram persuadidos a tomar nossa lei, por seus próprios bonzos que primeiro foram como seus prelados, mas depois que se converteram, em tempo de Justo Ucondono, fizeram tão bom conceito das coisas da fé, que não somente os persuadiram também a ela, mas êles foram os que depois de Deus, com seu exemplo e autoridade os conservaram sempre nela, aos quais continuamente visitam os padres com grande fruto e consolação de todos êles. Outra cris- tandade das melhores e mais importantes daquelas partes se foi principiando poucos anos há, nas terras do reino de Bijém que é de um senhor gentio de três reinos., chamado Bijeno Chunugandono, o qual por residir comummente em Osaca aonde acodem seus principais fidalgos, foram alguns dêles a nossa casa a ouvir as pregações, e se converteram muitos, entre os quais o principal foi Acaxicamandono, seu cunhado, do qual já em outra se escreveu, e tomou por nome de cristão Dom João. E êste tem dado tão grandes mostras de sua fé e •Pág. 180. devoção no tempo da perseguição, que é tido geralmente por outro Justo e * em tão grande fervor e conhecimento das coisas de Deus entrou êste bom fidalgo, que trazendo outros a ouvir as prègações se tem convertido de alguns anos a esta parte a principal fidalguia da corte de Bijeno, e serão baptizados mais de dois mil cristãos naquele reino, o qual governa o mesmo Dom João em ausência de El-Rei, seu cunhado. Tem também êste fidalgo outro cunhado, casado com sua irmã, um dos principais capitães de Bijeno, cuja mulher movida com o exemplo de Dom João, seu irmão, se fêz cristã, e porque temeu que seu marido o tomaria mal, se baptizou secretamente, esperando conjunção para lho dizer; e com ser boa cristã, com tanta dissimulação vivia com seu marido que nunca pôde entender dela que o era, nem ela cessava de rogar a Nosso Senhor por êle, o qual com a boa conversação de Dom João, seu cunhado, se foi pouco a pouco afeiçoando às coisas de Deus, até que finalmente, ouvindo os sermões do catecismo, secretamente se baptizou, e tornando mui contente para sua casa começou a dar conta disto a sua mulher com desejo de a mover a fazer o mesmo. Ao que ela rindo-se respondeu: Senhor, já vindes tarde, porque eu há já muitos meses que sou cristã. Renovou-se com isto grandemente a alegria e contentamento do marido e fizeram-se grande festa um a outro, passando quási tôda aquela noite em práticas de nossa santa lei e da mercê que tinham recebido de Deus. Fizeram a saber o que passava a alguns dos seus principais criados; acharam que a maior parte dêles eram cristãos, o que para todos foi de grande alegria. E Dom João tido de todos por mui prudente e esforçado cavaleiro e de grande primor em todas suas coisas, e por ser cunhado de El-Rei e governador principal de seus reinos, e ter de renda cada ano trinta e cinco mil gocus de arroz, que são trinta e cinco mil cruzados, tem grande casa e muita gente
  • Das coisas do Japão 117 debaixo de seu poder. Para se encomendarem a Deus ele e sua mulher, tem em sua casa uma capela mui bem concertada onde * também entram os cristãos «Pág. 181. mais nobres que com êle tratam. Faz muitas esmolas e obras pias, e poucos dias há mandou uma boa esmola para ajuda da igreja de Nangasáqui. Aos que hão de ser justiçados, manda primeiro pregar, procurando de os fazer cristãos, como fêz a muitos que se baptizaram, sòmente por salvarem suas almas, sabendo que por isso não lhes haviam de perdoar a morte. Poucos dias há que ficando sua mulher de um parto em tanto perigo que nenhuma esperança havia de sua vida, pediu com grande instância que fôsse lá um padre de Osaca, o qual indo a achou desconfiada dos médicos. Sabendo ela que era chegado, se alegrou em extremo; confessou-se com muita devoção, recebeu o Santíssimo Sacramento com grande reverência e levando para baixo a partícula, de improviso sentiu um grande alívio de coração, começa a dar brados dizendo que se sentia sã, e assim mui consolada com aquele divino Sacramento visivelmente se foi achando melhor, de modo que, quando o padre se tornou, não sòmente era passado o perigo de morrer ao quarto dia, como diziam os médicos, mas quási de todo ficava sã, dando muitas graças a Nosso Senhor por esta mercê, e foi esta mu- dança tão notável que sua mãe (que também o é de El-Rei Bijeno) sendo gentia e mui terrível, confessou que já não podia negar que sua filha sarara milagro- samente com aquele sacramento, e foi isto uma coisa de grande consolação e edificação para todos os cristãos de Bijém. CAPÍTULO XXIV Da casa de Meaco e do sucesso da cristandade desta cidade r Ea cidade de Meaco mui grande, porque terá passante de oitenta mil vizinhos. Está repartida em dois bairros que se chamam Meaco de baixo e Meaco de riba. O de baixo confina com Fuximi, que é fortaleza cujos edifí*cios chegam tão perto, que fica tudo como uma cidade continuada • Pãg-182. de mais de uma légua. Neste Meaco de baixo tivemos sempre casa, e porque em ambas as partes tínhamos cristãos e os padres não podiam acudir, como era necessário, do de baixo ao de riba, se desejou sempre termos lá uma casa, mas não se pôde efeituar em todos êstes tempos atrás, pela muita aversão que os daquele bairro tinham à nossa santa lei e afeição a seus bonzos, mas foi Nosso Senhor servido que no tempo da perseguição em que parece haviam de estar com mais temor e mais aversos a nossas coisas, se movessem muitos dêles a ouvir as prègações e se convertessem, os quais com desejo de terem aí sempre um padre, compraram um sítio e fizeram umas casas para isso e uma igreja pequena, mas acomodada para o tempo. De tal maneira foi Nosso Senhor abrasando os corações dêstes novos cristãos, que êles mesmos vão incitando a outros amigos e parentes seus a que venham ouvir a prègação do Evangelho, para que saibam a diferença que há de nossa santa lei às seitas dos gentios, e assim se foi fazendo nestes dois anos uma mui boa cristandade naquele bairro de cima, que por ser dos mesmos cidadãos e moradores, é de muita estima; e
  • ii8 Das coisas do Japão assim nos ficam agora já duas casas nesta grande cidade: a do Meaco de baixo de todo formada, a do de riba quanto baste para nela estarem sempre pelo menos um padre com um irmão. Nestas mesmas casas do Meaco de riba mora sempre o Dairi com seus cungués que são uns senhores de grande dignidade e de seu conselho. Há também uns paços à maneira de fortaleza, em que mora Mondocorasama, que foi a Imperatriz e mulher principal do tirano defunto Taicoçama, com a qual estava Madalena, mãe de Dom Agostinho, que lhe servia de secretária, e sua filha Catarina, ambas mui privadas suas desde o princípio, as quais foram sem- pre um grande exemplo de virtude a todas as mulheres daquele paço, e muitas fidalgas, a persuasão sua, se fizeram cristãs, e a mesma Imperatriz movida pelas .Pág. i83. virtudes que * nelas via, está bem afeiçoada às coisas de nossa santa lei e as defende contra os que querem falar mal delas. Exercitavam-se ambas estas senhoras em contínuas obras pias, fazendo muitas esmolas, recolhendo também alguns meninos desamparados, que mandavam criar à sua custa ao modo que se faz em Osaca, como acima contámos. Frequentam a miúde as confissões e comunhões; saem para isso muitas vezes um dia antes do paço, vão se pousar junto de nossas casas para com mais quietação se aparelharem para receberem estes sacramentos. Este ano morreu Madalena, e para Catarina fazer os ofícios e outras orações e obras pias por sua mãe, alcançou licença da Imperatriz para estar quarenta dias fora do paço, junto da igreja e dos padres, e por ela ser pessoa de muita confiança, lhe concedeu o que não costuma fazer a outras mulheres de sua casa. No dia do ano novo no Japão, que dêstes reinos é tão celebrado, tendo o Bispo introduzido a festa de Nossa Senhora de que arriba falámos, determinou Catarina não perder a missa daquele dia, e ainda que parecia quási impossível pelo grande concurso das senhoras que nele vinham visitar a Imperatriz, com tudo isso alcançou licença para ir ouvir missa e prè- gação com admiração e edificação de todos os cristãos, mas logo se tornou por a mandar chamar a Imperatriz. No Meaco de baixo se levantou êste ano de novo a casa da Misericórdia, na qual se fazem muitas esmolas e obras pias com grande edificação daquela cidade. Em ambos os bairros se ajudaram muito os cristãos com as conferên- cias que, ajuntando-se à tarde, fazem entre si, assistindo a elas algum padre ou irmão que responde a suas dúvidas, e praticam-se muitas coisas do que devem fazer para bem de suas almas. Este ano se lhes pregou a Paixão tôdas as sextas-feiras da quaresma, da maneira que se costuma nas mais partes do Japão. Ajudaram-se com elas muito derramando muitas lágrimas e tomando disciplina, •Pág. 184. acabada a prègação, com tanto fervor, que por mais que lhes faziam si*nal de acabar, não deixavam de ir por diante. Na quaresma, uns não comiam sal, que se tem por grande penitência entre êles; outros não bebiam vinho nem chá nem água quente, que são as coisas ordinárias que bebem, e deixá-las por tantos dias é para êles grande penitência. Entre os novos convertidos um mancebo por não querer deixar a lei de Deus, como lhe mandava seu pai adoptivo, quis antes perder a herança e ficar em muita pobreza, mas logo Deus o amparou com muita honra sua, remedeando-o com um bom partido que se lhe ofereceu em outra parte. Uma mulher gentia, estando enfêrma de uma comprida doença
  • Das coisas do Japão 119 e chegando a ponto de morte, desejou ser cristã: ouviu o catecismo o melhor que pôde, foi baptizada e deixandora o padre aparelhada para morrer, daí a alguns dias, indo o padre saber dela, ela lhe veio oferecer dois filhos para que lhos baptizasse; perguntada como escapara, disse que quando se baptizara, lhe entraram umas gotas de água na bôca, as quais lhe foram mui doces e suaves, e que logo em a noite seguinte vomitara uma cópia de sangue com que ime- diatamente se achou bem, dando graças a Deus e ao padre que com a água do santo baptismo lhe dera a saúde da alma e do corpo. CAPÍTULO XXV Dos sucessos da cristandade dos reinos de Voar: e Aí:no DESTA casa de Meaco foi três vezes nestes dois anos um padre com um irmão aos reinos de Voari e Mino, a visitar e consolar os cristãos que neles há. No reino de Voari ajudou muito Nosso Senhor o padre, e por seu meio àqueles cristãos já feitos. De novo se baptizaram muitos e entre êles dez fidalgos da casa de Fucuximandono, senhor principal ♦ daquele reino, o.[>âg.,85. qual ainda que gentio, no amor que mostrou ao padre e honras que lhe fêz, se igualou a muitos senhores cristãos, mostrando-se mui afeiçoado a nossas coisas. Disse que em todo o caso havia de levantar em suas terras uma igreja, e man- dar chamar um padre e um irmão, mas agora foi forçado desistir desta obra com as revoltas da Tença ou monarquia, que sucederam como adiante se dirá, e a força da guerra haver de ser neste reino, por ser êste príncipe da parte de Daifuçama; e para que se entenda (1) quão disposto estava aquele reino para todo ele receber nossa santa fé, pôr-se-há aqui parte duma carta que o padre de lá escre- veu, que diz assim: Quanto às coisas de Voari, todos os fidalgos cristãos se con- fessaram, antes de se partirem para a guerra com seu senhor; o primeiro que nisto deu exemplo foi seu sobrinho Bijendono, cuja mudança de vida depois que se baptizou, até aos gentios espanta. Não se deu princípio à igreja, ainda que com provisão de El-Rei tínhamos já tomado o sítio que nos dera, porque se levantaram estas revoltas, e pareceu a todos bem, esperar outro melhor tempo. E realmente foi providência de Deus não enjeitarmos a êste bom amigo o que êle tanto dese- java que lhe aceitássemos, porque, de outra maneira, quebraram connosco, com grande perda da cristandade. Foi para os cristãos de grande honra deixar por principal governador a seu sobrinho Bijendono, que havia pouco se fizera cristão, mancebo de todos amado e com cujo exemplo esperamos que Nosso Senhor converterá a maior parte dêste reino. Até aqui o padre de Voari. Foi também o mesmo padre a Guifu, cidade principal do reino de Mino, onde tem sua côrte Chunugandono, neto de Nobunanga, e legítimo herdeiro que era da monarquia que o tirano Taicoçama lhe usurpou, sendo êle menino, como atrás fica dito. Este príncipe é senhor da maior parte dêste reino de Mino; fêz-se cristão sendo de 17 anos, ainda que por respeito do tirano Taico- (1) Nt.: E por aqui se entendera.
  • I 20 Das coisas do Japão •Pâg.i85. çama, de quem era mui estimado, esteve até agora * encoberto. Não se pode fàcilmente dizer os favores e gasalhados que fez ao padre, emquanto ali esteve, porque além de o mandar prover de todas as coisas necessárias, muitas vezes o mandava visitar com presentes. Vendo pois, assim êle como os mais fidalgos cristãos, que já não havia de que se pudessem temer para deixarem de se manifestar por tais, se determinaram de levantar uma igreja na mesma cidade, em um formoso sítio que Chunugandono para isso deu, e começando-a logo com muito fervor, em breve tempo a aperfeiçoaram mui formosa e capaz e com os aposentos necessários para habitação do padre. Juntamente ofereceram renda para dez padres, se ali quiséssemos estar de assento: mas como há tanta falta de obreiros, não se pode por agora satisfazer seus desejos. Começaram alguns a ouvir o catecismo, e bem informados, se baptizaram 86 pessoas em que entrou alguma gente nobre, e sabendo Chunu- gandono que entre estes se baptizara um fidalgo principal com sua mulher e filhos, mostrou muito gosto e declarou aos seus quanto desejava e folgava que todos se fizessem cristãos, porque só em os cristãos havia lealdade e verdade. Quis êle também ouvir mais de propósito as pregações do catecismo, para isso man- dou chamar o irmão, e estando uma vez presentes muitos gentios, se lhes pôs a prègar, dizendo entre outras coisas que a causa porque todos se não faziam cristãos, era pelos gostos mundanos que não queriam largar. Declarou a dife- rença que havia entre os religiosos dos cristãos, e bonzos dos gentios. Con- cluiu com dizer que aquele irmão que estava presente e vivo, era morto a todas as coisas do mundo; e mandou aos gentios que ali estavam, que fôssem à igreja ouvir a prègaçao. Mandou fazer na cidade, à petição dos fidalgos cristãos, uma grande casa ou hospital para recolhimento dos pobres, e leva grande gosto com os que ali se vão baptizar, morrerem cristãos. Não foi menor, antes foi em crescimento, o fruto que o padre fez neste reino, a derradeira vez que a êle foi, o qual para que melhor se entenda, pore- • Pág. 187.mos aqui alguns capítulos da carta do mes*mo padre, que diz assim: Quanto à festa de Nossa Senhora da Protecção, celebrou-se aqui na nova igreja que da outra vez fizemos, com muita alegria de todos, por ser a primeira festa dêste orago, e por o tempo assim o pedir; as comunhões foram quási sessenta, que para cristandade tão nova não é pouco, as confissões como quatrocentas, e algumas de dez, quinze e vinte anos. Um fidalgo perdoou a quem com justa causa pudera matar, por salvar as almas de muitos que disseram se fariam cristãos, se lhes perdoasse, e assim se baptizaram. Outro perdoou a vida e roubo que um homem lhe tinha feito, para que Nosso Senhor lhe perdoasse seus pecados, que para Japão é coisa nova, onde por qualquer furto se mata sem remissão. Na festa de Nossa Senhora não faltaram grandes convites que os fidalgos se deram uns a outros: de nossa casa se deu um aos pobres do hospital, com cujo exemplo agora os nobres, ora uns ora outros, fazem muitas vezes o mesmo, pedindo-lhes que roguem por êles a Deus. Todos os pobres que ali estão, sabem as orações e teem seus rosários e lugar donde ouvem missa. Naqueles dias junto da festa de Nossa Senhora deu nesta cidade como um ramo de peste, com que morreram muitos gentios e nenhum cristão, o que não duvidamos que foi obra da gloriosa Virgem para animar os cristãos nestes
  • Das coisas do Japão 121 princípios de sua conversão. Um fidalgo principal, havendo de comungar o dia da Assunção de Nossa Senhora, estando à véspera em casa de Chunugandono, e importunando-o um irmão do mesmo Tono, que ainda é gentio, que bebesse, nunca o pôde acabar com êle pela reverência que tinha à sagrada comunhão que ao outro dia havia de receber. Outro pela mesma razão, sendo chamado por muitos recados de Chunugandono, não quis lá ir por entender que o cha- mavam para comer, e não se querer arriscar a quebrar o jejum. Quanto ao mesmo Chunugandono é para dar graças a Nosso Senhor ver como cada vez mais o vai dispondo. Hoje dia do Nascimento de Nossa Senhora nos mandou visitar com uma boa * esmola de duas barras de oiro, que são »Pág. 188. quási cem cruzados, e com o que mais estimamos, que são grandes demons- trações de amor, e dizendo que desejava de se confessar estes dias, que pedia lhe mandasse lá o irmão à noite, para lhe praticar da confissão, e que seus desejos eram ter-nos ali sempre de assento, para fazer todo seu estado cristão. Querendo-se partir para a guerra, declarou a Hacondono para ficar em seu lugar, o qual repugnando, lhe disse Chunugandono: Eu sou cristão, e não hei de deixar em meu lugar, senão a vós que também o sois; e sabei que ainda que me dêem montes de oiro, não deixarei de o ser. Poucos dias há que man- dava matar um bonzo principal que residia nesta cidade, por estar amancebado sendo de mais de setenta anos, mas por rogos de sua mãe lhe perdoou a vida, ainda que o desterrou e lhe mandou queimar uma de suas mesquitas. Os dias passados, que ali estivemos, em se declarando por parte do príncipe Findejuri- çama, lhe vieram logo dois ou três mil gocus que são cada um dois fardos de arroz, e indo-o a visitar e dar as graças de lhe ter dado todo o reino de Mino, lhe concedeu Findajuriçama toda a renda que seu pai tinha em Mino e Voari, que serão quarenta mil cruzados, e lhe deu também duzentas barras de oiro, que montam quási dez mil: e muitas delas repartiu logo liberalmente, e aqui a casa nos mandou duas. Porém o que mais estima é a perfeita saúde do corpo, que Nosso Senhor lhe deu de maneira que nenhum sinal tem já de sua antiga enfermidade, e reconhece ter-lhe Deus feito esta mercê pelas orações de muitos que por êle rogam. Mas sobretudo estima a saúde de sua alma, e nos pede muitas vezes o encomendemos a Deus. Prègando-lhe o irmão acêrca da confis- são lhe disse uma vez: Irmão, eu não me queria confessar como quem sòmente se confessava ao padre, mas como quem juntamente se confessa a Deus, e por isso me quero aparelhar mui de propósito, porque vejo mui bem que é coisa de zombaria procurar um homem em tempo de perigo estar bem com Deus, e fora dêle tornar logo aos pecados. * E assim se confessou mui devotamente e «Pig-189. com determinação de fazer grandes obras e serviços a Deus Nosso Senhor, e tão apostado está nas coisas da salvação, que dizia, se o senhor da monarquia lhas quisesse impedir, logo se raparia (que é sinal de deixar o estado) e se iria viver connosco em nossa casa. Ele e seus fidalgos escrevem a V. R. que em todo o caso ponha aqui de assento um padre com um irmão. Pediu-me uma conta de Boémia e uma relíquia, ou ao menos uma imagem de Santiago para que o ajude nesta guerra, porque já sabe que êste Santo é advogado dos cava- leiros. Estimou em extremo a conta que lhe dei, com três ou quatro capítulos breves de indulgências, que pudesse fàcilmente ganhar. Também lhe dei a 16
  • I 22 Das coisas do Japão imagem e um relicário, que êle muito desejava, que logo pôs ao pescoço, e um rosário que êle mesmo me pediu para rezar, porque sabe mui bem tôdas as orações. Ao seu físico mor estranhou porque se não confessava, e lhe persuadiu que o fizesse por andar algum tanto distraído: perdoou algumas dívidas, dizendo que o fazia porque Nosso Senhor lhe perdoasse a êle. Mandou desterrar e cortar um dedo a um bonzo que lhe servia de concertar a bebida do chá que usam os japões, por não guardar a lei que tinha posta contra o pecado nefando, e a nenhum dos que nisto acha compreendidos, perdoa. Nosso Senhor o con- serve e guarde, que não há dúvida senão que, se viver e Deus o conservar no estado que agora tem, será mui fácil converterem-se todos os seus. Baptizei desta vez nesta cidade setenta e sete pessoas, e muitos dêles fidalgos velhos da casa de Chunugandono e de Curunodono: confessei a muitos fidalgos e pessoas nobres, que era a primeira vez que se confessavam, com muito fruto de suas almas. Não posso deixar de dizer a alegria que recebia, quando via a muitos cristãos que, indo para esta guerra de Cantó, levavam por divisas de seus capacetes cruzes doiradas e relicários e rosários com suas imagens ao pescoço; e particularmente quando, vindo por caminho e encontrando com o exército de • Pág. 190. Gibo*noxo, vi apear do cavalo à vista dêle um homem nobre, o qual vindo-se a mim me chamou à parte no campo e dando-se-me a conhecer por cristão, e tirando da bôlsa um papel em que trazia escrita sua confissão, a fêz mui bem, e logo tornou a continuar seu caminho com muita quietação de sua alma; o mesmo fizeram catorze ou quinze mancebos nobres de Saixondono, que encon- trei noutra parte, onde estavam como doze mil homens concertando uma for- taleza e aparelhando-se para ir combater outra. Por outras muitas vezes encontrava outros, que levavam seus rosários e nóminas ao pescoço, e em nos vendo, com muita alegria se chegavam a nós dizendo que eram cristãos, e que se consolavam muito de nos encontrar, e outras palavras de muito amor e cortesia. Da última vez que estive em Mino se confessaram aqueles fidalgos e comungaram duas vezes aparelhando-se mui bem para morrer, pelo perigo em que todos iam; e porque não houve tempo para confessar aos criados que eram muitos, lhes pregou o irmão da contrição, e repartiu por todos contas bentas, com que todos se consolaram e animaram muito. Aqui baptizei desta vez um bonzo de grande autoridade e dignidade e mui estimado nos reinos de Mino e Voari. Os da seita de Jenxu tinham encerrada uma velha de 80 anos, e como bons padres, lhe persuadiam que se fôsse lançar no rio por não andar pedindo': mas ela, não lhe contentando o conselho, teve modo como pudesse fugir, e se veio ao nosso hospital onde se fêz cristã. Um fidalgo cristão e principal, estando já desconfiado dos médicos, pouco depois de se confessar e comungar ficou são, coisa com que os cristãos muito se alegram, atribuindo isto à virtude dos sacramentos. Um bonzo trazendo consigo dez ou doze, procurou vencer ao irmão em uma disputa, mas ficando êle o vencido, se tornou mui corrido com muita afronta sua e dos seus e alegria dos cristãos que estavam presentes. Concluo com dizer a V. R. uma coisa que tenho experimentado de muita con- solação, e é, que ouvindo confissões de muitos anos a pessoas nobres, por mara- • p«g. 191.vilha ou quasi nunca achei, que algum depois de recebida a fé a deixasse* e tornasse a adorar os ídolos, tão grande é o conceito que formam da nossa lei. !
  • Das coisas do Japão 123 CAPÍTULO XXVI De como se tornou a alterar e revolver outra ve\ todo o Estado da Tença ou Monarquia, e da liga que fizeram todos os senhores de Japão contra Daifuçama e do muito que éle pretendeu de aliar-se com D. Agostinho PASSADAS as revoltas e perturbações que houve no Meaco e em Osaca da maneira que atrás fica dito, ficou Daifuçama com tão grande poder, que mais parecia ir governando como senhor absoluto de Japão que como governador que tinha companheiros, porque fazia tudo quanto queria, e era já tão reverenciado e temido como dantes o fôra Taicoçama, e desta maneira foi governando todo êste ano de 600; e ainda que houve grandes alterações por recados entre êle e Fijendono, de modo que parecia haver de vir em rompi- mento, Daifuçama contudo pondo-se primeiro em paz com os demais senhores, de quem se dizia que tinham entrado na conjuração passada, e travando paren- tesco com muitos deles, ultimamente se concertou também com Fijendono, pôsto que ao parecer a paz de ambas as partes foi mais paliada que verda- deira. Neste tempo sendo já tornados todos os senhores à côrte, tirando Fijendono que ficou em seus reinos, outro senhor chamado Cangecasu, que era também um dos governadores maiores e senhor dos mais poderosos de Japão, cujos reinos confinam com os de Daifuçama pela parte oriental, determinou de não vir à côrte escusando-se com dizer que tinha licença de Taicoçama para se ficar três anos em seus reinos. E como êste senhor era grandíssimo amigo de Gibunoxo e pouco de Daifuçama, sentiu grandemente o mesmo Daifuçama *«Pág. esta sua resolução, e lhe mandou recado que se logo não vinha, iria contra êle em pessoa e o castigaria como a rebelde. E porque êste Cangecasu é mui valoroso capitão e em secreto se entendia e concertava com Gibunoxo e com Fijendono e outros senhores que não estavam bem com Daifuçama, urdiram entre si uma teia (que em Japão se chama burcaio) a mais ardilosa que pudera ser. A qual foi, que Cangecasu começou a provocar com cartas a Daifuçama, nas quais mostrava fazer pouco caso dêle; pelo que Daifuçama se houve por obrigado a ir pessoalmente contra êle. E parecendo-lhe que tudo tinha seguro em sua mão, determinou levar consigo tôda sua gente, deixando sòmente na fortaleza de Fuximi, em Meaco, um filho seu pequeno com dois mil homens, e a fortaleza de Osaca, com o menino príncipe e com todo o tesoiro, deixou encomendada aos três governadores inferiores, querendo-lhes mostrar que se fiava dêles e que não pretendia fazer-se senhor absoluto de Japão; fêz gente para esta guerra, foram postos em lista cento e dez mil soldados. Ofercceram-se-lhe muitos senhores para o acompanharem, fazendo-lhe grande aplauso a esta sua jornada, e, como se diz, também a ponte de prata; deram-lhe para ajuda da custa mais de duzentos mil cruzados em prata e oiro e peças de valia. E como êle estava de pressa, cuidando que logo todos o seguiriam, confiadamente se pôs ao caminho com tôda sua gente para o reino de Cantó. Foram em seu seguimento diversos senhores, mas com passo
  • 124 Das coisas do Japão vagaroso, um dos quais, passando pela fortaleza de Gibunoxo, comunicou com êle e ali determinaram de manifestar o ardil que tinha traçado; e assim, falando com os outros que vinham atrás, se concertaram todos de se tornarem para Osaca, como logo fizeram. De sorte que em um momento arrebentou e se lhe achou feita uma liga entre quási todos os senhores de Japão, unindo-se com êles os demais governadores principais e os três que estavam em Osaca, e todos Pág. io3. assim conformes se declararam contra Daifuçama, deitando-o fora do govêr*no, e lhe mandaram recado que se ficasse em seus reinos, dando-lhe certos capí- tulos das culpas que cometera contra o príncipe Findajurisama e contra a ordem de seu pai Taicoçama. Entre os que intervieram nesta liga, D. Agostinho e Gibunoxo, seu íntimo amigo, foram os principais cabeças, os quais sendo ambos pessoas de grande ânimo e saber, e reconhecendo a muita obrigação em que estavam a Taicoçama pelo muito amor que sempre lhes teve, emquanto viveu, e pelos ter feitos grandes senhores, em nenhuma maneira podiam sofrer que o príncipe seu filho padecesse detrimento na honra e estado, sendo privado por Daifuçama da herança do senhorio de Japão. E por isto, como vassalos leais a seu príncipe, andavam sempre traçando como o poderiam conservar em seu estado; e tratando disto secretamente com diversos senhores, finalmente concertaram esta liga, que a ter o sucesso conforme à traça, foi das bem traçadas coisas que neste governo aconteceram em Japão, com que estes senhores particularmente ficaram em grande reputação e honra. Bem procurou Daifuçama, depois do destêrro de Gibunoxo, trazer à sua parcialidade D. Agostinho, primeiro louvando-o muito pelos grandes feitos de Corai, depois pela muita fidelidade que tinha mostrado a seu amigo Gibunoxo, além disso, tomando-lhe juramento como tomou aos mais senhores de Japão, que o ajudariam e seriam de sua parte no tempo do seu governo; porém nunca D. Agostinho o quis fazer senão com condição que em tudo o serviria como não fôsse contra a honra e estado do príncipe Findajuriçama, no qual mostrou seu grande esforço e lealdade, porque se pôs a perigo de Daifuçama, com alguma ocasião, o desterrar e tratar mal, pois todos os outros senhores com tanta facilidade fizeram seus juramentos sem condição alguma. Finalmente o procurou trazer a si por via de casamento, porque tratou de casar uma sua bisneta, filha de uma filha de seu filho morgado e de uma filha de Nobunanga, com o filho morgado de D. Agostinho, mas com ser esta menina tão nobre e Píg. içm- êste casamento de tanta honra sua, era tão * generoso D. Agostinho, que se fez de rogar com êle, porque estando em seu estado de Fingo, e tratando Daifu êste casamento com D. Justa sua mulher e mãe do menino, que será agora de i5 anos, e escrevendo-lhe ela a Fingo que fôsse de-pressa a Osaca para o concluir, ou lhe mandasse recado de consentimento, com tudo isso se deteve muitos dias por cá, dizendo que quando lá fôsse, então o trataria, e que não era necessário apressar-se o negócio, pois ambos eram meninos. Porém indo depois a Osaca e tornando-lhe a falar com instância, deu seu consentimento com grande contentamento de Daifuçama, mas parece que foi por cumprimento, pois nem isto bastou para aliar com êle como desejava.
  • Das coisas do Japão 125 CAPÍTULO XXVII Da lastimosa morte de Dona Gracia, senhora cristã, que sucedeu em Osaca por ocasião destas alterações COMO nesta cidade de Osaca que é de mais de setenta mil vizinhos, está a fortaleza principal de todo Japão e nela residia o príncipe Fin- dajuriçama, e também Daifuçama com os outros governadores a ela concorrem e nela moram de ordinário quási todos os senhores do Japão, e nela teem seus paços mui nobres, e por esta razão se acharam em Osaca ao princípio destas voltas muitos senhores, os quais tinham mandado com Daifu- çama seus filhos à guerra do Cantó; pelo que arrebentando a liga contra êle, todos estes se fizeram fortes em suas casas. O mesmo fizeram os que ficaram em guarda das casas e famílias dos senhores e príncipes que também foram com êle, e a causa foi por os governadores mandarem a todos estes que des- sem reféns e se declarassem con*tra Daifu, por parte do príncipe; sôbre o*Pig>95- qual houve grandes alterações e contendas e chegaram os governadores a pôr cêrco às casas dos que repugnavam, para como inimigos os acabarem, até que finalmente deram os reféns que lhes pediam. Neste conflito aconteceu um caso assaz lastimoso a uma senhora cristã, por nome Dona Grácia, mulher de Nangavoca Jocundono, senhor gentio do reino de Tango, da qual por outras vezes se tem escrito. Foi êste senhor um dos príncipes que acompanharam a Daifuçama, à guerra do Cantó, e deixou encomendada sua mulher e casa a Ongazavadono, fidalgo seu mui principal, e a outros criados, e como Jocundono é em extremo amigo de honra, costu- mava sempre, quando se partia de sua casa, dar ordem a êste seu criado e aos mais que deixava por guarda dela que, se em sua ausência sucedesse algum caso em que pudesse correr perigo a honra de sua mulher, a matassem pri- meiro, como é costume do Japão, e depois se cortassem todos as barrigas a si mesmos e morressem juntamente com ela. A mesma ordem deixou agora também a êste seu criado. Por onde, mandando os governadores recado a casa de Jocundono, no mesmo dia em que a liga se descobriu, dizendo aos que ficaram por guarda dela, que logo entregassem a Grácia, mulher de seu senhor, para a tomarem por reféns de terem por seguro a seu marido; êles lhes respon- deram que não lha haviam de dar; porque logo entenderam que os governadores lhe haviam de pôr cêrco à casa e lançar mão de sua senhora, determinaram por sua honra, executar o mandato de seu senhor, e assim, com muita pressa foram dar conta de tudo a Dona Grácia a qual nenhuma réplica lhes pôs à execução; mas logo entrou em seu oratório que sempre tinha mui bem aparelhado e con- certado; manda logo acender as candeias, põe-se em oração, aparelhando-se para morrer, e depois de estar um pouco nela, com mui grande ânimo saiu do oratório, chama tôdas suas criadas e mulheres que com ela esta*vam, manda-• p*«-'95- -lhes que se saíssem para fora, dizendo que ela só queria morrer, pois assim o mandava seu marido. Repugnam as criadas a sair, dizendo tôdas que com ela haviam de morrer, porque além de ser costume e pundonor dos japoes em tal
  • 126 Das coisas do Japão caso correrem os criados com seus senhores, era Dona Grácia tão amada de suas criadas, que todas a queriam acompanhar na morte; contudo forçadas de seu mandado, se saíram para fora. Entretanto Ongazavaradono, guarda-mór, com outros criados tinham se- meado todas as casas de pólvora e, saídas todas as criadas, póe-se logo Dona Grá- cia de joelhos, e nomeando muitas vezes os santíssimos nomes de JESUS e MARIA, ela mesma com suas mãos descobriu o pescôço e lhe foi cortada a cabêça de um golpe. Cobriram-na logo com uns vestidos de sêda, e deitando sobre eles polvora, se saíram à casa dianteira, havendo ser ponto de descortesia morrerem na mesma câmara onde morrera sua senhora, e cortando todos as barrigas, juntamente puseram fogo à polvora, com que êles e os paços que eram mui ricos e formosos, ficaram feitos em cinza, não escapando mais que aquelas mulheres que Dona Grácia fêz sair para fora, as quais tôdas chorando se foram ao Padre Organtino, a contar-lhe o caso como passara, com que o padre e todos os nossos em extremo se desconsolaram, por perder a cristandade daquelas partes tal senhora, tal espelho, tal e tão raro exemplo de virtude, como sempre deu depois de sua conversão. Foi esta senhora admirável, assim em sua conversão como em sua vida, depois que foi cristã, como por muitas cartas se tem escrito. Tinha tanta conta com sua alma e tanto temia fazer coisa que fôsse ofensa de Deus, que a todos os padres punha grande espanto. Antes de sua morte, como adivinhando-a, se confessou duas vezes, e por escrito propôs e perguntou aqueles dias antes muitas dúvidas, para estar certa de como se havia de haver, se acontecesse o que aconteceu, e da resposta delas •Pág. 197. ficou mui satisfeita e quieta em sua alma, e assim mor*reu depois com ânimo varonil e invencível e mui conforme com a vontade de Nosso Senhor, aceitando aquela morte como de sua divina mão e em desconto de seus pecados. E para que se entenda alguma coisa do muito que de suas virtudes se podia dizer, referiremos aqui o que um padre de Meaco pouco antes de sua morte escreveu dela em uma carta sua que diz assim: Grácia cada dia se vai assinalando mais em virtudes e exercícios de boa cristã. E tão amiga de penitência, que esta quaresma passada com muitas de suas criadas se disciplinou com rosetas com tanta devoção, que as lágrimas e o sangue corriam a par. E tão dada a obras pias e de caridade, que ela mesma com suas próprias mãos lava e veste alguns meninos dos enjeitados que em sua casa cria. E tão zelosa da conversão de seus vassalos, que se oferece a dar sustentação para cinco ou seis pessoas da Companhia que vão prègar o Evangelho a seu reino. É tão obediente aos padres com quem comunica as coisas de sua alma, que dizendo-lhe os nossos não podia ter em sua casa, com boa consciência, três mulheres das principais que a serviam, as despediu logo. E assim nisto como em tôdas as demais dúvidas que pergunta, cumpre à letra tudo quanto se lhe ordena para bem de sua alma. E estima tanto poder comu- nicar suas coisas com os nossos pelo grande respeito e devoção que lhes tem, que só por isto, aprendeu a ler e escrever nossa letra, e só com o A B C e matérias que lhe mandava o Irmão Vicente, sem ver nunca padre nem irmão, já lia e escrevia cartas tão bem ou melhor que seu mestre. Mandou ao
  • Das coisas do Japão 127 Padre Reitor sua confissão por escrito, pedindo-lhe absolvição de seus pecados, pois em presença os não podia ir confessar, cuidando com boa fé, que assim se salvaria. Êste é o capítulo da carta que, quinze ou vinte dias antes de sua morte, o padre escreveu àcêrca dela. Era esta senhora por suas grandes virtudes e partes mui nomeada em Japão, e por elas seu marido lhe queria muito, e ainda que no princípio que se fêz cristã, lhe deu muito má vida e lhe foi * ocasião de muito grandes trabalhos e-Pig-198- tribulações, e tudo por ter recebido a lei de Cristo, ela se houve com tanta paciência e prudência em todos êles, que o veio a render de modo que não somente o aplacou, mas já agora folgava tanto de ela ser cristã, que passando-se da cidade de Fuximi para Osaca, êle mesmo por si lhe foi concertar o oratório e altar, para ela se recolher a sua oração, como costumava. Apagado o fogo, mandou o Padre Organtino uma mulher cristã mui devota acompanhada de outras, que fôsse buscar no lugar onde morreu, alguma coisa que ficasse de seu corpo morto; acharam alguns ossos que de todo não estavam queimados, leva- ram-nos ao padre, o qual juntamente com os outros padres e irmãos lhe fize- ram as exéquias e enterramento com muito sentimento e lágrimas, e em todo Japão foi tido por mui lastimoso o caso da morte desta senhora. Ficaram-lhe um filho e duas filhas, todos três cristãos, e seu marido ainda que gentio, é particular amigo dos padres e da cristandade e em tudo o que se oferece, mostra grande favor e amor a tôdas nossas coisas, como mais larga- mente ao diante se verá. CAPÍTULO XXVIII Como se começou a romper a guerra por parte dos governadores contra Daifuçama; e a destruição da fortaleza de Fuximi em Meaco NO ponto que a liga contra Daifuçama se descobriu, como nela entraram quási todos os senhores de Japão, concorreram logo tantos com gente de guerra à corte de Osaca, que em breve se ajuntaram mais de cem mil homens de peleja, e porque nos reinos principais, em que consiste a Tença ou Monarquia, não ficou mais por parte de Daifuçama que somente a fortaleza de Fuximi em Meaco, os governadores lhe puseram logo cêrco, e depois de lhe darem alguns assal*tos em que os de dentro se defenderam valorosamente, «Pág. >99- matando muita gente dos inimigos, determinaram os governadores de a queimar e assolar de todo, e para isto fizeram encher e cerrar as grandes cavas que tinha ao redor, com muita quantidade de madeira, para o qual também des- fizeram tôda aquela nobilíssima casaria e formosura de paços, que estavam ao redor dela, e apoderados da primeira cêrca mandaram ajuntar tôda aquela madeira ao redor da fortaleza interior, onde estavam os paços de Taicoçama, que era a obra mais sumptuosa e rica que nunca se viu em Japão, por ser a última coisa que Taicoçama fêz antes de morrer, e na qual mais que em nenhuma outra se esmerou e meteu todo o resto, por ser êste também o lugar 1
  • 128 Das coisas do Japão de todos seus passatempos e deleites. Mas para que se entenda de quão pouca dura e estima são todas as grandezas dêste mundo, tudo isto em brevís- simas horas se tornou em cinza, porque os de fora pondo o fogo a toda aquela madeira e tirando também muitas frechas de fogo aos telhados das casas, a fortaleza tôda começou a arder em tamanhas labaredas, que os de dentro não tendo outro remédio, se determinaram a sair da fortaleza, e dar no exército inimigo, matando a quantos pudessem, e vendendo bem suas vidas, já que se não podiam salvar: e assim o fizeram com grande estrago dos inimigos, ficando eles também todos no campo. Destruída esta fortaleza e tomada outra mais pequena que estava três léguas dali, chamada Oteu, ficaram os governadores de todo senhores da Tença e com mui grande poder; e logo começaram a pôr cerco a outras fortalezas de senhores particulares que estavam unidos com Daifuçama, das quais tomaram três mui importantes no reino de Ixe, com muita mortandade de gente de parte a parte. Depois disto tomaram os paços principais, por onde Daifu podia tornar à corte, fortificando-os a todos com muita gente de armas. Em todo o tempo que o exército dos governadores esteve era Meaco com- batendo a fortaleza de Fuximi, esteve aquela cidade em grande angústia e •Pág.200. muitos temores de se poder queimar, como outras * vezes lhe tinha aconte- cido, pela muita vizinhança da fortaleza com ela, e os nossos particularmente tiveram matéria de padecer pelas muitas ocasiões, que para isso traz consigo a guerra; mas Nosso Senhor os consolava vendo o fruto que faziam em muitos dêstes soldados, que uns por serem cristãos, se confessavam e ouviam as prè- gações, outros se convertiam de novo. CAPÍTULO XXIX Como os do exército de Daifuçama tomaram a fortaleza de Guifu no reino de Mino e nela prenderam a Chunugandono príncipe cristão ANDAVA o exército dos governadores pelos reinos de Ixe e de Mino, que confinam com o reino de Voari, com desenho de o tomar por estar por Daifuçama, e o senhor principal dêle, chamado Fucuximandono, ter uma fortaleza das boas que há em Japão; e porque os principais senhores que foram com Daifuçama ao reino de Cantó se lhe ofereceram de ser os primeiros que dessem batalha contra os inimigos, contanto que mandasse com êles alguns de seus capitães e parte de sua gente, para que todos juntos naquela fortaleza de Voari pudessem dali fazer o caminho franco para os seus poderem passar ao Meaco e reprimir os inimigos que não passassem mais adeante; parecendo bem o conselho a Daifuçama, os mandou com alguns capitães seus, de modo que se ajuntaram na dita fortaleza de Voari quási trinta mil homens de peleja, • Pig.2oi. entre os quais, além dos capitães de Daifuçama, vinham como principais * cabe- ças Fucuximandono, senhor dêste reino, Nangavoca Jocundono senhor do reino de Tango, marido que foi de D. Grácia, senhora cristã de que atrás falámos, e
  • Das coisas do Japão 129 Cainocami, senhor do reino de Bujém e filho de El-Rei Simeão Cambiogedono. Junta aqui tôda esta gente, como os da parte de Daifuçama por serem gover- nados por uma só cabeça, foram sempre em todo o discurso desta guerra mais apressados que os do bando contrário por serem regidos de muitas, logo deter- minaram de dar de improviso na fortaleza de Guifu, que ali está perto no reino de Mino, o qual era de Chunugandono neto de Nobunanga, senhor cris- tão e mancebo de vinte e dois anos, de quem falámos atrás. Estava êste prín- cipe naquela conjunção bem fora de cuidar que os de Voari podiam dar sobre êle, assim porque não sabia que ali houvesse tanta gente de Daifuçama, como também porque grande parte do exército dos governadores estava no reino de Ixe, que confina com o mesmo de Voari e tinha rendido as três fortalezas que já dissemos. Além disto estava no mesmo reino de Mino com seis ou sete mil homens o governador Gibunoxo esperando por horas por mais gente para logo dar em Voari. Mas emquanto os da parte dos governadores andavam nestes vagares, os de Daifuçama, que estavam em Voari, entraram de súbito no reino de Mino com intento de tomar a fortaleza de Guifu. Chegando pois à vista dela, lhes saiu ao encontro Chunugandono com sua gente cuidando que da parte do inimigo não havia mais que aquela que se descobria, e dando neles com grande ímpeto se foram retirando pouco e pouco até o meter 11a emboscada que ihe tinham feita, da qual saindo de repente os que nela estavam, deram nos de Guifu, e como êles não pudessem resistir a tanta gente, se foram retirando para a fortaleza, na qual os inimigos que lhes vinham no alcance entraram juntamente com êles ferindo e matando a muitos, de maneira que * escassamente se pôde Chunugandono recolher a uma tôrre «Pág.soi. onde logo foi cercado de muita gente e forçado a render-se pois não tinha outro remédio. Mandaram-no logo a Voari, e deixando gente de guarnição na for- taleza, se foram logo marchando contra a outra onde estava Gibunoxo no mesmo reino, e encontrando no caminho dois mil soldados dos seus, os mata- ram; e em outro passo mataram outros mil. Neste tempo eram já chegados à fortaleza de Gibunoxo El-Rei de Saxuma e D. Agostinho com alguma gente, os quais sabendo o que passava, se foram duas léguas adiante com muita pressa para impedirem aos inimigos a passagem de um rio. Vistos pelos inimigos e reconhecendo as bandeiras, parecendo-lhes que como êstes dois eram tão insignes capitães lhes poderiam resistir valorosamente, pararam da outra banda do rio e não se atreveram a acometer a passagem. O que se fizera[m], não sòmente desbarataram fàcilmente aos de Saxuma e Agostinho, que eram mui poucos, mas puderam quási sem resistência entrar na fortaleza; mas parte pelo conceito que tinham do valor dêstes dois capitães, parte também por arrecearem que, pois lhes faziam rosto com tão pouca gente, não poderiam deixar de lhes ter feita alguma emboscada, assim tiveram por melhor conselho não passar o rio. «7
  • i3o Das coisas do Japão CAPÍTULO XXX Do que neste tempo passava nas partes do Ximo ESTANDO as coisas da guerra neste estado, mandou daqui logo Cainocami uma embarcação mui ligeira com estas novas a El-Rei Simeão Cambio- gedono seu pai, o qual estava no seu reino de Bujém, e já declarado por parte de Daifuçama com mais de oito mil homens em campo para logo dar no • pág.jo3. reino de Bungo, que estava pela par*te contrária, e aonde no mesmo tempo os governadores tinham mandado ao antigo Rei de Bungo, Dom Constantino, filho do bom Rei Dom Francisco, o qual até então estivera em Meaco desterrado por o tirano Taicoçama, para que como senhor natural daquele reino, o pudesse melhor defender contra Cambiogedono, seu vizinho. Entrando pois êste rei em Bungo com perto de quatro mil homens, e quási no mesmo tempo em que entrava Simeão Cambiogedono, travaram batalha entre si, na qual El-Rei de Bungo ficou vencido com a morte de muita gente, e tomado vivo o mandou Cambiogedono para Bujém, e seguindo depois sua vitória e rendendo várias fortalezas, em poucos dias se fêz senhor de quási todo o reino de Bungo. Neste mesmo tempo Canzugedono, senhor de ametade do reino de Fingo, o qual também estava unido com Cambiogedono, e seguia as partes de Daifu- çama, assim por esta causa, como por ser inimigo de Dom Agostinho que era senhor da outra ametade do Fingo, entrou também com mão armada por suas terras: e queimando e destruindo quanto achava, se foi direito à fortaleza de Uto que era a principal de Dom Agostinho e como cabeça de tôdas suas terras, e se pôs sobre ela de cêrco. Com êste movimento da guerra que êstes dois capitães, Simeão e Canzugedono, fizeram nestas partes, ficaram os senhores dêstes nove reinos do Ximo divididos em bandos, declarando-se uns por uma parte, outras por outra, outros ficando suspensos e como neutrais. Entre êstes foi Nosso Senhor servido de guiar os ânimos dos reis de Arima e Omura, senhores cristãos, que sendo chamados pelos governadores para irem com sua gente ao Meaco, não somente não foram, mas em fim se declararam pela parte de Daifuçama, o que foi grande providência de Nosso Senhor, assim para êles se salvarem, como para bem de tôda a cristandade de suas terras e conserva- ção da Companhia em Japão. Com o cêrco que Canzugedono pôs à fortaleza de Uto, houve também • Pag. 20|. grandes re#voltas nas ilhas de Xequi e Amacusa, que eram do mesmo Dom Agos- tinho, porque os inimigos entraram por elas queimando e assolando alguns lugares, e por não haver nelas defensão alguma, foi necessário que os padres que ali estavam, se recolhessem para Arima e Nangasáqui, e foram mui grandes as angústias e perigos em que os padres se viram por todo êste tempo, junta- mente com todos os mais cristãos que tinham a seu cargo. E os que estavam com os cristãos de Fingo, nas três principais fortalezas de Dom Agostinho, se fica- ram com os mesmos cristãos encerrados nelas, aparelhados para todo o sucesso que Deus fôssc servido. Também a nau dos portugueses se viu no pôrto de Nangasáqui em muito apêrto, sem poder fazer negócio algum, porque os mer-
  • Das coisas do Japão 131 cadores com estas guerras se foram todos para suas casas e os caminhos fica- ram cerrados. Pelo que estiveram em grande perigo de invernar aqui com mais de dois mil e quinhentos picos de seda, a qual perda com a que tiveram no ano passado do junco que ia para a China, era total ruína para os portugueses de Meaco. MQUANTO estas coisas passavam nas partes de Ximo, os governadores • que tinham sua gente espalhada por diversas partes, procuraram todo o possível ajuntá-la no reino de Mino, como em efeito ajuntaram mais de oitenta mil homens que bastavam para em poucas horas desbaratar todo o poder que Daifuçama aí tinha. Mas como Nosso Senhor por sua divina providência tinha ordenado outra coisa, souberam-se haver * e unir tão mal, que se detive-»Pag. ram perto de trinta dias sem fazer coisa alguma nem acometer os inimigos que até então nem ainda chegavam a 3ooo. Pelo que dando Daifuçama a melhor ordem que pôde nas coisas da guerra que fazia a Cangecazu, e deixando um filho seu com muita gente para resistir, se veio em pessoa com todo o restante do exército para o reino de Voari onde os seus estavam, estando bem fora os da parte dos governadores de cuidarem que, em tal tempo que tinha contra si com as armas nas mãos um tão poderoso inimigo como Cangecazu, o pudesse deixar e dar volta para Meaco com gente bastante para seu negócio. Emfim, no mesmo dia que chegou a Voari, se foi logo sem nenhuma tardança ajuntar com os seus, e fazendo um exército de quási cincoenta mil homens, no seguinte dia mandou dar a batalha; a qual escassamente era começada, quando alguns que se fingiam por parte dos governadores, de improviso se declararam por Daifuçama, como foram Chicujeno Chinagandono, sobrinho da mulher principal de Taicoçama, e a quem êle tinha dado o reino de Chicujém, e outros três ou quatro senhores de medíocre poder, os quais todos em vez de pelejarem contra Daifuçama, converteram as armas contra os da parte dos governadores. Pelo qual, levantando-se no exército voz de traição, se começou logo a perturbar todo, e no mesmo ponto a gente de Moridono se recolheu também sem querer pelejar; por onde em breve tempo ficou roto todo o exército dos governadores, e o campo e a vitória por Daifuçama. Morreram muitos senho- res, outros cortaram as barrigas, outros foram presos como Gibunoxo que, como êle mesmo confessou, não se atreveu a cortar a barriga, e Dom Agostinho, o qual ainda que tão grande soldado e de tanto esforço, todavia por ser cristão, como êle depois disse, e a lei de Cristo lhe proibir matar-se a si mesmo, não cortou a barriga conforme ao costume dos senhores de Japão. * Com esta grande rota a gente de Moridono se retirou logo à fortaleza #Pág. de Osaca onde estava seu senhor; e Daifuçama seguindo a vitória não sòmente tomou a fortaleza de Mino, mas também a de Savojama que era própria de Gibunoxo, em o reino de Vomi, na qual um irmão seu que nela estava por CAPÍTULO XXXI Da batalha campal que houve entre os dois exércitos de Daifuçama e dos Governadores e do sucesso dela
  • I 32 Das coisas do Japão capitão, repartindo primeiro o tesoiro por seus soldados, e matando a mulher e filho de Gibunoxo e os seus próprios, pôs fogo à fortaleza e cortou a barriga. Passou dali adiante Daifuçama com seu campo, caminho de Osaca onde estava como por presidente dos demais governadores, tendo o mesmo lugar que antes tinha Daifuçama, e morando em seus mesmos paços dentro da fortaleza, Mori- dono, senhor de nove reinos, o qual tanto que soube da rota, foi tanto o seu medo e covardia, que sendo tão poderoso e estando em Osaca que é a principal fortaleza das de Japão, e tendo consigo o príncipe, filho de Taicoçama, com todo o tesoiro e riquezas de todos os senhores de Japão e ainda daqueles mes- mos que estavam com Daifuçama, e sobre tudo quarenta mil homens consigo, gente sua própria e de seus reinos, e provisão de bastimentos e outros petrechos bastantes para sustentar a guerra por muitos anos, o melhor de tudo lhe faltou, que foi o esforço e ânimo para se defender, e com mêdo mais que servil nem pelejou nem se retirou para seus reinos, que o pudera fazer muito a seu salvo, nem soube tratar de concertos de paz, mas como homem sem acordo nem sentido se saiu com tôda sua gente da fortaleza e se pôs em uns paços que tinha fora dela, ficando à mercê de Daifuçama a quem com tanta facilidade deixava tudo; o qual, tanto que entrou e tomou posse dela, logo todo Japão em muito poucos dias se lhe sujeitou; e ainda que de presente ficasse Cangecasu com as armas nas mãos lá nos últimos confins de Cantó, não parece poderá sair com a sua. Diferente do de Moridono foi o esforço e ânimo do Rei de Saxuma, o qual • Pág.207. depois de ver desbaratado o exérci*to dos governadores cujas partes ele seguia, com sós setenta soldados rompeu por meio dos inimigos com estranho esforço, e juntando-se-lhe depois mais alguns dos seus que seriam até quinhentos, com boa ordem se retirou a Osaca a-pesar dos inimigos, antes que Daifuçama ali chegasse (coisa que a êle e a todos os que ouviram esta mostra de tão espan- toso esforço e valentia pôs em grande admiração), e depois de chegar com esta pouca de gente sempre posta em ordem de peleja, tomou ali as embarcações necessárias, sem haver algum que ousasse de lhe ir à mão, e embarcando-se com tôda sua gente, pondo no meio as embarcações de mulheres e da mais gente de serviço, e na vanguarda e rectaguarda as dos soldados, nesta ordem se partiu e caminhou perto de duzentas léguas até chegar a Saxuma, cidade principal de seus reinos, onde se fortificou para se defender, se Daifuçama pre- tendesse cortar-lhe a cabeça por ter entrado na liga contra êle, mas logo se tratou de concertos de paz; e assim ficou Daifuçama o maior senhor que nunca houve em Japão, porque logo tomou a Moridono sete reinos e neles as mina,s de prata, deixando lhe sós dois e êstes ainda com muita probabilidade de também lhos tomar, e com os seus oito reinos de Cantó e todo o mais que era de Taicoçama, fica muito mais poderoso e temido do que êle foi, e pode fazer tudo quanto quiser sem haver em Japão senhor algum de quem se possa temer, nem a quem haja de ter respeito como Taicoçama o tinha a êle mesmo e a Moridono, por serem, como eram, senhores de tantos reinos.
  • Das coisas do Japão * CAPÍTULO XXXII *ri«- \ Das grandes angústias e apertos em que os padres se viram neste tempo EMQUANTO estas coisas assim passavam, não se podem facilmente dizer as grandes tribulações e angústias que por mais de dois meses contínuos padeceram os padres, assim em todas as partes onde estavam, como em Nangasáqui particularmente, onde então o Bispo e os Padres Visitador e \ ice- -Provincial residiam, porque, como antigamente ao Santo Job em seus trabalhos, assim não faziam senão de todas as partes entrarem-lhes cada hora novas de grandíssima desconsolação e tristeza; pelo que em casa se faziam continuas orações, jejuns e disciplinas, e diziam muitas missas, rogando a Nosso Senhor aplacasse tamanha tempestade e se compadecesse desta sua nova igreja de Japão e dos padres que nela com tanto fruto trabalhavam. Porque umas vezes lhes vinham novas do que padecia D. Agostinho em sua prisão, e da morte que lhe haviam de dar; outras de como andavam por todo Japão em busca de sua mulher e filhos, e de todos seus irmãos e parentes para se fazer justiça dêles; outras que D. Justa sua mulher e Bento, irmão de Agostinho, que fôra Gover- nador do Sacai, ficavam já presos; outras, que também seu filho morgado e único herdeiro, menino de doze ou treze anos, era levado ao Meaco pata ser justiçado. Acrescentou-lhes esta aflição, que sabendo reuximandono, gemo de D. Agostinho, e senhor da ilha de I euxima, que seu sogro era preso e moito, foi tão grande o mêdo que nêle entrou, do mal que lhe podia vir de ter por mulher a Dona Maria, sua filha, que metendo-a em um navio com algumas suas criadas, a mandou a Nangasáqui aos padres, escrevendo-lhes que ali lha entre- gava para que a salvassem. E como isto foi em tempo que os padres tinham por novas certas que Daifuçama mandava fazer grandes * diligências sobre a.Pág fazenda e filhos de D. Agostinho, se viram em muito apêrto com sua vinda; porque por uma parte, por ser filha de tal pai, e a quem tanto se devia, e ela tão boa e devota cristã, não podiam deixar de a amparar; por outra viam o perigo a que se punham, se isto fôsse ter a ouvidos de Daifuçama; contudo não deixaram de a pôr em salvo, coisa com que ela por extremo se consolou, e pela qual depois se mostrou grandemente agradecida. De outras partes vinham mil novas cada dia da perdição da cristandade de vários reinos, como adiante se verá, e da destruição de tantos fidalgos cristãos, dos quais uns ficaram presos com perigo de vida, outros desterrados de seus reinos; já me diziam que as casas e residências da Companhia eram em diversas partes destruídas e asso- ladas, já repentinamente apareciam os padres que nelas estavam e que, com assaz de trabalho e perigo, se recolhiam a Nangasáqui. Mas sobre tudo isto o que mais os afligia, era o temor que tinham de Daifuçama haver de ficar indignado contra a cristandade, porque, ainda que êle sempre se mostrava amigo dos padres, e nem da parte da Companhia nem da cristandade se lhe fizera em todo êste tempo agravo algum, todavia, porque D. Agostinho era o principal senhor que tínhamos entre os cristãos, e pessoa de tanta fama e nome em todo Japão, o qual, pela amizade que tinha com
  • Das coisas do Japão Gibunoxo, e pela lealdade que quis guardar ao príncipe filho de Taicoçama, entrara na liga contra Daifuça, temiam muito que o mesmo Daifuçama se alte- rasse contra a cristandade, e confirmava-lhes êste temor o saberem que êle soltava algumas palavras graves contra êle, por onde arreceavam que com esta ocasião e ira, tornasse a renovar a perseguição passada; e o que mais sentiam era o escândalo que muitos cristãos podiam receber, e que os gentios rindo dêles, lhes poderiam dizer: Ubi est Deus eorum? especialmente, havendo tão poucos dias, que começavam a respirar de uma tão comprida perseguição, e •Pág.210. tendo já reedificado bom número de ca*sas e igrejas que estavam destruídas, e a cristandade em várias partes toda renovada e multiplicada de novo, com tanto número e cópia de cristãos, que era tudo para dar graças a Deus. Por onde, vendo agora tudo isto trocado e aos padres postos em tanto perigo com quási toda a cristandade, não se pode encarecer a pena e angústia que pade- ciam, porque na verdade as perdas que nêste tempo tiveram, assim temporais como espirituais, foram as maiores que até então se tiveram em Japão, como se poderá ver nos capítulos seguintes. CAPÍTULO XXXIII Dos trabalhos e perdas da cristandade dos reinos de Mino, de Bijém, de Chicungo, Firoxima e lamangúchi ATRAS fica dito copiosamente do grande fruto que se ia fazendo no reino de Mino com o favor e devoção de Chunugandono, neto de Nobunanga, que cia cristão e senhor de quási todo aquele reino, onde já estavam baptizados os principais criados e fidalgos de sua casa: e neste mesmo ano tinham feito dentro na fortaleza uma formosa igreja com grandes esperanças de se haver de converter todo aquele reino. Mas por estar esta fortaleza em fronteira dos reinos contrários, e ser a primeira que se tomou da maneira que acima dissemos, o privou Daifuçama de seu estado, e o mandou desterrado para Coia, que é uma certa varela ou mosteiro de bonzos, onde se recolhem muitos senhores desterrados. E porque, por lei de Japão, sendo desterrado o senhor, o são também os criados, e perdem todas suas rendas e comedias; com êle ficaram também perdidos todos seus fidalgos e criados que ali havia cristãos. A segunda cristandade que padeceu grande detrimento, foi a do reino dè Bijém, onde tínhamos Acaricamom Dom João, cunhado de El-Rei de Bijém, casado com sua irmã, senhor cristão dos melhores que havia em todo Japão, o •Pág.ín. qual era co*mo Governador daqueles reinos. E na principal fortaleza dêles, onde êle residia, havia já quási três mil cristãos, e entre êles os principais fidal- gos de El-Rei Bijeno, do qual também tínhamos esperanças que muito cedo se havia de fazer cristão com tôda a mais gente de seus reinos, por êle ser mui afeiçoado a nossas coisas; porém agora, morrendo êle naquela batalha, tudo ficou acabado, porque uns morreram na guerra, outros perderam (i) a renda (i) Nt.: Perdendo.
  • Das coisas do Japão 135 que tinham, e foram desterrados daqueles reinos. A terceira cristandade, a quem alcançou também êste mal, foi a de Curume no reino de Chicungo, estado que era de Simão Fideno, senhor cristão, e casado com Dona Maxência, filha de El-Rei Francisco de Bungo; o qual Simão, por ser tio de El-Rei Mori- dono e de sua parcialidade, perdeu também o estado onde havia mais de sete mil cristãos, com esperanças que todos os outros daquelas terras se iriam con- vertendo. E porque êste ano passado se fêz ali uma nova residência, se acharam nela, no tempo dêstes trabalhos, um padre e dois irmãos, os quais, quando os da parte de Daifuçama foram tomar posse daquela fortaleza (além da perda que teve aquela casa), se viram com a mesma Dona Maxência e tôda sua gente em mui grande perigo, cercados de um exército de gentios; que se Nosso Senhor não lhes acudira com mandar ali de-pressa a Cujemandono, capitão cristão de muito valor, irmão de El Rei Simeão Cambiogedono, que com sua autoridade e gente os pôs em salvo, sem dúvida correram muito grande risco, e assim todos os cristãos principais do estado de Curume ficaram desterrados, e aquela cris- tandade quási desfeita. Os nossos que estavam em Firoxima e Iamangúchi, reinos de Moridono, padeceram também nesta tempestade grandes trabalhos, porque em Firoxima, logo que se soube do caso de Moridono e de como tinha perdido seus reinos, começaram os bonzos e os demais gentios a dizer que, por os padres terem entrado e estarem naquelas terras, se perdera seu senhor; por onde os cristãos * que ali havia fizeram instância ao padre que estava em Firo-.Pág.ai». xima, se fôsse para Nangasáqui, até se ver cm que parava êste negócio. O mesmo lhe mandou dizer Saxidono que governava aquelas terras. E dando o padre conta disto aos Padres Visitador e Vice-Provincial, lhe escreveram se recolhesse, para dar lugar à fúria dos bonzos. E porque o mar andava cheio de ladrões e inimigos, teve muito trabalho para se recolher, até que de Bujém lhe mandou dizer o padre que ali estava, o modo com que seguramente podia navegar em companhia de umas embarcações do mesmo Bujém, que por ali haviam de passar. Também em Iamangúchi passou mui grandes trabalhos e sobressaltos o padre que ali estava, como se poderá ver de uma carta que da mesma residência escreveu ao Padre Provincial, a qual diz assim. — Foram tais os perigos que aqui passámos, que nunca me vi em oútros semelhantes; e para que V.a R.a se compadeça de seus filhos, e de nossa parte dê a Nosso Senhor as devidas graças, lhe contarei um ou dois casos. O primeiro foi, que correu por esta terra uma fama pública que nos haviam de matar: e fomos avisados disto secretamente como de coisa certa, até nos dizerem o modo e traça como havia de ser. E ainda que por alguns dias não fizemos caso disto, confiando em Nosso Senhor que a tudo daria remédio, todavia um dia dêstes, havendo uma grande revolta e perturbação nesta cidade por uma falsa nova, que nela correu que Moridono cortara a barriga, saiu um dos regedores da terra e se veio direito à nossa casa. E como êle nunca viera a ela, e víamos alguns sinais e indícios dos que nos tinham dado, me persuadi totalmente que nos vinham a matar; mas confiando em Nosso Senhor, aquietando a gente de casa e dizendo- -lhe brevemente se aparelhassem para morrer, o saí a receber a uma casa dianteira, e depois de praticar um pedaço com êle e com alguma da sua gente, se tornou mui quieto. Mas eu tenho por certo que Nosso Senhor foi o que lhe
  • 136 Das coisas do Japão mudou o coração, porque em semelhante tempo não se podia esperar que viesse •Pág. 2i3. à nossa casa com boa intenção um * homem gentio que até então nunca entrara nela, e mais precedendo o aviso que nos tinham dado, e os sinais tão certos que nele vimos. Passado este transe, na mesma noite nos vimos em outro maior, porque fomos avisados que, sem dúvida nenhuma, naquela noite ou pela manhã haviam de dar sôbre nós para nos matarem; c foi tal êste aviso e com tanto encarecimento, que fui forçado a fazer uma prática a todos os de casa, exortando-os a que estivessem aparelhados. E como as novas que disto tínha- mos, se iam continuando cada vez mais, fiz que todos se confessassem, pas- sando tôda aquela noite sem dormir, e de madrugada, antes de amanhecer, disse missa e lhes dei a comunhão, e tendo já escrita uma carta em que me despedia de V. R., estivemos esperando pelo que nos viesse da mão de Deus, mas não fomos dignos de tão grande mercê. Estando neste aperto, ao outro dia à tarde chegou aqui de Osaca nosso emulo e perseguidor Niximangobioje, com cuja chegada nos cresceu muito mais o temor; mas Deus Nosso Senhor com sua paternal providência ordenou as coisas bem diferentemente do que todos cuidávamos, porque mandando-o eu visitar pelo irmão António, êle lhe fêz grandes gasalhados e oferecimentos mais que nunca. Até aqui o padre em sua carta. E ainda que dêstes e semelhantes casos se podiam apontar aqui muitos, referirei sòmente os sobreditos para que deles se vejam os grandes trabalhos e perigos que os nossos, em semelhantes tempos e ocasiões, padecem nas partes de Japão, os quais podem mui bem dizer a Nosso Senhor: Propter te mortificamnr tola die: cestimati sumits sicut oves occisionis, pois cada dia andam esperando pelo cutelo, como também se verá mais claramente do que logo contaremos. CAPÍTULO XXXIV Dos grandes trabalhos que os cristãos da fortaleza de Uto e os padres que nela estavam, padeceram emquanto estiveram cercados • Pág. ii4. * A quarta cristandade e a mais florente de todas as de Japão, a quem a [\ comum inconstância daquelas partes não perdoou, foi a que havia nas terras do grande e excelente cristão Dom Agostinho, onde, entrando as ilhas de Amacusa e Xequi, havia já mais de cem mil cristãos e cada dia se iam fazendo outros de novo, pelo qual mui cedo se esperava haver-se ali de ver uma formosa cristandade. Pelo que, não se pode dizer com palavras o entra- nhável sentimento e desconsolação que esta tão estranha perda causou nos corações dos padres; porque, por uma parte viam preso um tão grão senhor cristão e de tanto ser e nome em todo Japão, como Dom Agostinho, e com certeza de haver de morrer e de tôda sua família e casa se haver de acabar em um momento; por outra, que todos os seus criados e gente nobre com a cris- tandade de suas terras haviam de vir a poder de um senhor gentio, seu capital inimigo; e pondo os olhos em sete casas e residências que já ali tinham com tanto número de padres e irmãos e dógicos que nelas residiam, e com tantas e tão formosas igrejas que ainda êste ano se acabavam, não podiam ter as lágrimas,
  • Das coisas do Japão 187 e principalmente os que naquela nova empresa se ocupavam, e regeneravam para Cristo aqueles filhozinhos, sofrendo tantos trabalhos pelos conservar, e cultivar tanta e tão nobre gente, a qual agora mais que nunca se esmerava tanto em obras de devoção, como atrás fica dito. Tendo, pois Canzugedono cercada a fortaleza de Uto, como acima come- çámos a dizer, ficaram dentro nela com os cristãos dois padres e três irmãos e alguns dógicos, os quais todos se exercitavam em os ministérios acostumados de prègar, confessar, doutrinar e ajudar a todos; e como os capitães e soldados de Dom Agostinho se defendessem com grande união e esfôrço, e matando tanta gente ao inimigo, que os mortos passaram de 5oo e os feridos de 700, vendo Canzugedono a resistência que lhe faziam, perdeu as esperanças de poder tomar a fortaleza por força de ar*mas. Por uma parte não ousava de se retirar, .Pig.ais. porque o não podia fazer sem perigo e desonra sua, por outra não achava modo para poder fazer a saber aos de dentro como Daifuçama saíra vencedor, e Dom Agostinho fôra preso e morto; porque os da fortaleza desde o principio do cêrco fizeram uma lei, que ninguém fôsse ousado a admitir carta nem recado algum dos inimigos, sob pena de ser tido por traidor e como tal morto: a qual lei sempre se guardou com tanta concórdia e fidelidade, que, ainda que do exército dos inimigos lançavam algumas cartas atadas nas frechas, logo que as tomavam as queimavam, sem abrir nenhuma. De maneira que, estando encer- rados sem admitir nova nem recado algum, não souberam da rota do exército nem da prisão de Dom Agostinho, senão depois de passados muitos dias. Pelo qual, e por os de dentro se defenderem tão valorosamente e fazerem grande estrago nos inimigos, e juntamente por estarem bem providos de munições e mantimentos, procurou Canzugedono por diversas vias de acabar com os Padres Visitador e Vice-Provincial, que estavam em Nangasáqui, que mandassem algum padre ou irmão a Uto, para tratar de concêrto e fazer a saber aos da fortaleza o que passava. E para acabar com os nossos o que pretendia, por uma parte fazia grandes promessas e por outra grandes ameaças. Porém os padres, ainda que já sabiam da morte de Dom Agostinho e desejavam muito que houvesse concêrto entre ambas as partes, contudo por muitas e justas razões determina- ram que não convinha meterem-se neste negócio, e assim se escusaram com Canzuge, mandando-lhe dizer que êles eram homens religiosos e estrangeiros, que não pretendiam mais em Japão que ensinar o caminho da salvação. Pelo que não lhes convinha meterem-se em coisas de guerra nem em concertos, para que se rendesse a fortaleza: porque dariam ocasião aos cristãos de Japão de suspeitarem mal dêles. Dada esta resposta a Canzugedono, como êle estava tão apaixonado, não se houve com ela por satisfeito nem aceitou razão alguma. E não sòmente ameaçava que havia de matar os padres que estavam na for- taleza, mas que todos os outros havia de acusar diante de Daifuçama, senhor da Tença, * e dizer dêles que lhe eram contrários e que, por seu conselho e»i'ág.ai6. ordem, se não rendia já a fortaleza, e que por isto os havia de fazer desterrar de Japão. No qual tudo estava mui enganado êste gentio, como êle próprio depois veio a conhecer; porque os padres que estavam na fortaleza, guardando a ordem que para isso tinham de seus superiores, nunca jámais em todo o tempo que o cêrco durou, entraram em conselhos nem se meteram em coisa 18
  • 138 Das coisas do Japão alguma de guerra, mas sòmente entendiam em seus ministérios espirituais de pregar e confessar e ajudar àqueles cristãos com todas as obras pias que podiam; enterravam os mortos com muito perigo de suas vidas, por ser em lugar onde muitas vezes chegavam os peloiros das espingardas dos inimigos, tinham oração contínua, tomavam muitas disciplinas, pedindo misericórdia a Nosso Senhor por aquela gente. Os da fortaleza neste tempo se confessavam muitas vezes e comungavam com muita devoção, e às vezes armados de ponto em branco, e para isto furtavam o tempo das estâncias que guardavam, deixando-as porém bastantemente providas, revezando-se ora uns, ora outros. E era coisa maravi- lhosa vê-los sair daquela celestial mesa esforçados, como leões, com aquele divino pão, qui est cibus fortium, é manjar de valentes; de modo que, com todas estas armas, assim espirituais como corporais, com estranho valor, esforço e vigilância defendiam aquela fortaleza de dia e de noite, unidos sempre entre si ' maravilhosamente e aparelhados a morrer pela honra e estado de Dom Agosti- nho, seu senhor, a quem tanto amavam, até que depois de alguns dias chegou a Uto um criado nobre de Dom Agostinho, e dando conta do que passava e da prisão e morte de Dom Agostinho, seu senhor, que para todos foi nova de mortal sentimento e dor, se resolveram logo tratar de concertos de paz com Canzugedono, pois já não tinham senhor por quem pelejassem. Por onde, de- pois de vários recados que houve de parte a parte, concluíram suas capitulações e concertos de paz, os quais depois de confirmados por Canzugedono, lhe foi ■ Pág. 21/. entregue a fortaleza que ele por fôrça de armas * estava bem fora de tomar, conforme à união e esforço que os de dentro tinham, se não interviera a morte de Dom Agostinho. Mas como Canzugedono era gentio e infiel, em entrando na fortaleza mandou logo matar a um irmão de Dom Agostinho, assim por ser seu irmão como por ser cabeça principal de toda aquela fortaleza e gente que nela estava. CAPÍTULO XXXV De como Canzugedono mandou prender os padres que estavam na fortaleza de Uto, e dos trabalhos que padeceram na prisão, e morte do Padre Reitor daquela casa ENTRANDO Canzugedono na posse de Uto, logo mostrou o mau ânimo e ódio que levava; e assim mandou logo prender aos nossos da Companhia que eram cinco, dois padres e três irmãos, e aos dógicos da igreja com tôda a mais gente de serviço de casa, e os mandou meter em umas bem estreitas e mal acomodadas casas, entregues a um seu capitão gentio, o qual os encerrou logo nelas, em um modo de cárcere que para isso fêz, e lhe pôs duas guardas que os vigiassem de dia e de noite. Os trabalhos que aqui passaram se poderão melhor entender do que um dos padres escreveu da prisão, que diz assim. O capitão gentio que nos tem a cargo, tratou de nos mandar meter no interior da fortaleza, mas pondo-se de permeio todos êstes fidalgos cristãos e rogando-lhe que nos não mudasse, quando
  • Das coisas do Japão muito alcançaram, foi que ficasse o Padre Reitor, por estar mui enfermo, mas que eu com a demais gente nos passássemos logo para o castelo. Em extrêmo senti apartar-me do padre, ficando êle só e tão enfermo, mas como não havia outro remédio, já me aparelhava para tudo o que Deus ordenasse, senão quando che*gou uma carta dos principais fidalgos de Canzugedono, na.rig.n8- qual pediam ao capitão que nos tinha a cargo, que não fizesse coisa alguma de nós, até que Canzugedono tornasse de Ianagava, aonde ao presente ia cercar aquela fortaleza; e que isto lhe pediam a requerimento de alguns fidalgos cris- tãos de Dom Agostinho. Mas o efeito que teve esta carta, foi revogar a sen- tença que antes dera, que ficasse o Padre Reitor que estava doente. No que me pareceu este bom capitão semelhante na condição àqueles leopardos de Santo Inácio, que quanto mais lhes rogavam, peor o faziam. Emfim fomos forçados a nos mudar todos sem mais réplica e com bem de lágrimas daqueles cristãos. Meteram-nos em um cárcere da maneira seguinte. Entrando no castelo da fortaleza, estão à mão direita três casas pequenas; uma serve de estrebaria, as outras duas se dividem com uma bem fraca e mal barrada parede e por muitas partes esburacada, e nestas nos meteram a todos; tinham cercadas estas casas com uma estacada de paus roliços, não lhes deixando mais que um postigo pequeno por onde entrámos. Aqui, pois, nos acomodámos todos o melhor que pudemos, com bem de incomodidade por as paredes serem rotas e as casas sem portas e sem janelas, e em tempo de tanto frio. As guardas que temos e que estão no mesmo lugar dos nossos moços, são estas: uma dentro na mesma casa, duas logo à porta e outras fora da porta, as quais todas continuamente de dia e de noite nos vigiam. Por onde os cris- tãos nos não podem já visitar livremente, e dois fidalgos de Dom Agostinho que aqui se vieram a despedir de nós com muitas lágrimas, deixaram aqui dois criados seus para nos ajudarem no que pudessem; mas puderam bem pouco, porque até com os moços que vão buscar água, vão os guardas pegados e daqui poderá V. Rev.cia entender as incomodidades que padeceremos e principalmente o Padre Reitor, Afonso Gonçalves, estando tão enfêrmo. O comer necessário não há aqui donde possamos esperar, e com arroz nos contentáramos, se ainda medio*cremente pudera ser pilado. Mas para tudo Nosso Senhor nos dá ânimo, «Pig-*19- porque não sei que é, que depois que aqui me vi metido nêste cárcere, é tão extraordinária a alegria que sinto, que nunca posso deixar de me andar sempre rindo ou comigo mesmo ou com o Padre Reitor; e isto, parte porque Deus nos dá esta consolação, parte por ver os côcos com que este gentio Canzugedono parece que nos quere assombrar, soltando palavras pesadas e mostiando-se mui indignado contra nós e contra todos os mais padres do Japão. Porém nós com a divina graça estamos aparelhados para passar e sofrer tudo o que nos vier da mão de Deus. Até aqui são palavras da carta do padre. Neste cárcere estiveram os padres com os irmãos e dógicos muitos dias, esperando cada hora pela morte com que de continuo os ameaçavam, mas foi Nosso Senhor servido que por derradeiro fossem soltos pelo modo que ao diante se dirá; ainda que ao Padre Afonso Gonçalves, reitor daquela casa e das mais residências a ela sujeitas, quis levar para si para lhe dar o prémio de seus tra- balhos, o qual por adoecer na prisão e não ter comodidade nela para se curar,
  • 4 140 Das coisas do Japão se apoderou nele o mal de tal maneira, que ainda que depois de solto foi para a casa de Nangasáqui, e se pôs em sua cura toda possível diligência, nada aproveitou para dali a alguns dias deixar de passar desta vida a outra melhor. Tinha este padre cincoenta e quatro anos de idade, trinta e sete da Companhia e destes os vinte em Japão; foi sempre mui grande inimigo de si e amigo dos pobres; mui austero e penitente para consigo, grande obreiro, incansável nos trabalhos, zeloso da cristandade; e agora ultimamente no reino de Fingo, onde tinha feito grande número de cristãos, sendo reitor daquela casa de Uto e suas residências, êle era o primeiro que acudia às confissões de 6 e 8 léguas. Era mui amigo da pobreza, e com ser já velho, cansado e enfêrmo, rlenhuin cuidado tinha de si, pelo qual temos confiança que Nosso Senhor o tem já em • Pig.ao. sua glória onde está gozando o prémio de seus trabalhos sofridos por amor * de Deus; e que diante de sua divina majestade intercederia por aquela Igreja de Japão que êle ajudou a fundar e em que trabalhou até à morte, a qual Nosso Senhor lhe deu com grande paz e consolação de sua alma, recebidos todos os sacramentos. CAPÍTULO XXXVI Do que passaram Jácome Mimasaca e os padres que com êle estavam na fortaleza de Iaíçuxiro TANTO que a fortaleza de Uto se entregou a Canzugedono, como ela era a principal e cabeça das outras, se entregaram também todas as demais de que D. Agostinho era senhor. Entre elas foi uma a de Iatçuxiro, a qual tinha a seu cargo o grande e excelente cristão D. Jácome Mimasaca, criado e fidalgo mais principal que D. Agostinho tinha, o qual antes de a entregar estava resoluto de com os seus a defender até morrer. Mas vendo que, se assim o fizesse, por sua causa se destruía tôda aquela cristandade, disse que ainda que, conforme ao costume e leis de Japão, êle houvera de cortar a bar- riga e não sair daquela fortaleza com menoscabo de sua honra ao juízo e parecer dos senhores gentios, que todavia, como êle era cristão, e a lei de Cristo lhe proibia matar-se e fazer outras coisas que em semelhantes tempos costumam fazer os senhores de Japão, nem também era justo que êle por pontos de honra dêste mundo fôsse ocasião a se perderem todos aqueles cristãos na defensão da fortaleza, por isso se resolvia em a deixar e se sair fora com outra gente nobre, para que todos os demais ficassem livres e salvos. Sabendo os da terra esta sua resolução, se vieram logo a despedir dele com muito sentimento, porque o amavam como a pai. Outros vieram com determinação de se irem com êle e •Pág. jji-o acompanharem em qualquer caso que lhe acon*tecesse. Nesta despedida derramou muitas lágrimas o bom Jácome, não tanto por deixar a fortaleza e se sair daquele modo pouco honroso para o mundo, quanto por deixar aquela cristandade que êle com tanto trabalho seu ajudara a fazer, parte com seu grão zêlo, parte com a muita autoridade que tinha com aquela gente para cuja melhor cultivação tinha já também alevantadas tantas igrejas. Era tão zeloso êste excelente cristão de que os meninos aprendessem as orações da doutrina
  • Das coisas do Japão 141 cristã, e gostava tanto de lha ouvir dizer e repetir de cor, que chorava de pura alegria e consolação de sua alma, e se punha muitas vezes a cantá-la com êles; e de quando em quando, para mais os incitar a que aprendessem, lhes dava prémios e em certos dias merendas e ceias. E convidando uma vez a êstes meninos em uma recamara sua mais interior aonde não entrava senão gente honrada, perguntando-lhe alguns porque fazia aquelas honras àqueles meninos, respondeu que porque eram anjos, pois louvando a Deus faziam o ofício de anjos. Algumas vezes indo fora de casa lhe levava um pagem um saco de imagens, outro cheio de contas c nóminas para êle por sua própria mão repartir com os cristãos. E dizia que particularmente gostava e se consolava, quando os cristãos o importunavam e lhe tiravam pelo vestido para haver alguma destas coisas. Era tão devoto, que indo uma vez a cavalo e acertando uma pessoa de invocar os nomes santíssimos de JESUS, MARIA, por se ver em perigo de o cavalo lhe dar algum encontro, no mesmo ponto se apeou e pôs de joelhos; e perguntado porque o fazia, respondeu: Porque há bem pouco tempo que se não ouviam nestas terras senão os nomes dos demónios, e agora ouvindo invocar os santíssimos nomes de JESUS, MARIA, não posso deixar de dar por isso muitas graças à divina majestade. Destas coisas e outras muitas que atrás se disseram, se entenderá o muito que êste fidalgo amava aquela cristandade e quão zeloso era de a ajudar e favorecer, e também se verá quanto sentiriam os padres que nesta conjunção se acharam naquela * fortaleza, a ida e ausência de*P18-J" tal senhor, honra e lustre de tôda ela. Emfim resoluto de se sair, mandou um recado aos padres, dizendo-lhes que convinha que êles também logo se saíssem com êle, porque os inimigos vinham mui de pressa a tomar posse daquela fortaleza. Os padres pesando bem o negócio, depois de larga consulta se resolveram em que um dêles acompanhasse a Jácome e fosse com êle até o reino de Saxuma, que era o lugar onde êle se queria recolher, por se não fiar de Canzugedono, e que outro se ficasse com aquela cristandade para a consolar e animar num tempo tão trabalhoso como aquele. Ouvindo Jácome esta reso- lução, mandou outro recado dizendo que êle se edificava muito do ânimo e caridade dos padres para com aqueles cristãos, mas que por nenhum caso con- vinha ficar naquele tempo ali padre algum, assim por ser conjunção do primeiro ímpeto de soldados que estava certo haverem de entrar fazendo mil desaforos para se apoderarem daquela fortaleza, como principalmente por estar Canzuge- dono mui mal com os padres, c que por isto julgava nem ao serviço de Deus nem à honra e autoridade do padre convinha que ficasse ali naquele tempo arriscado a lhe fazerem algum desacato, e certo de por então não poder fazer o serviço a Deus que pretendia. Tornou a replicar o padre que em todo o caso havia de ficar com aqueles cristãos, e que se o matassem, morreria em seu ofício, o que para êle seria coisa de muita glória. Tornou Jácome que este negócio por então não era da fé, que se o fora, êle houvera de ser o primeiro que em tal caso deixasse a vida no campo, mas que era negócio de estado secular em que se tratava de tomar reinos e conquistar terras, no qual tempo os gentios não pretendiam senão zombar dos padres e retê-los, afim de lhes darem por isso alguma prata e que por isso lhe parecia coisa escusada ficar ali padre algum. Mas como o padre com tudo isto se não pudesse persuadir a
  • 142 Das coisas do Japão desamparar aquela gente cristã e sair-se, Jácome lhe mandou outro recado •Pág.a23. mais resoluto dizendo que em todo o caso sua Rev.cia se embarcasse logo, * por- que êle por nenhuma via consentiria outra coisa; o mesmo lhe foram rogar todos os fidalgos cristãos, o que vendo o padre, ainda que com mui grande sentimento, se embarcou com o mesmo Jácome, com quem também se embar- caram mais de 5oo pessoas entre homens e mulheres, os quais por serem criados seus e gente de sua obrigação por nenhum caso quiseram ficar na terra, senão acompanhá-lo. Embarcado pois êste bom fidalgo com sua mulher e filho e toda a mais gente em mais de setenta embarcações, como neste tempo o mar estava mal seguro por causa das guerras, não faltaram trabalhos e sobressaltos na viagem que fizeram até Saxuma, especialmente com o destêrro de tanta gente. Indo assim navegando e chegando perto de Saxuma, acertou de se adiantar a embarcação em que iam os padres, pelo que se viu em grande perigo com um golpe de embarcações que andavam correndo aquela costa de Saxuma, e cercaram a dos padres com determinação de a tomarem. Encomendaram-se os padres mui de coração a Nosso Senhor e foi êle servido que ao ponto chegou Jácome a acudir-lhe com tôda sua armada, da qual tanto que os inimigos tive- ram vista e entenderam que a embarcação era da mesma frota, a deixaram logo e se recolheram. Chegando Jácome a um porto de Saxuma e sabendo os bonzos da terra que levava consigo padres, logo todos se começaram a amotinar, dizendo que, se desembarcavam, os haviam de tratar mal e por nenhum caso haviam de consentir que se detivessem ali; o que foi para Jácome causa de grandíssima desconsolação e pena. Mas sabendo os padres o que passava, o consolaram dizendo, que ainda que êles vinham cansados e maltratados do caminho (porque alguns dias passavam quási sem comer bocado), êles se deixa- riam estar na embarcação sem pôr pé em terra, até se resolverem no que haviam de fazer acêrca de sua ida para Nangasáqui. Neste tempo, sabendo um senhor «P4g.íJ4. gentio no mesmo reino de Saxuma que os padres estavam na em^barcação sem poderem sair em terra, lhes mandou um recado por um cristão antigo de Bungo, que ali estava, dizendo que êle era amigo dos padres de Nangasáqui, que não tivessem pena nem receio de coisa alguma, senão que desembarcassem em sua terra seguramente. Estimaram os padres muito êste favor, dando muitas graças a Deus que nos maiores perigos mostra mais sua protecção e amparo sôbre os que o servem. E assim, desembarcando a seu salvo, disseram duas vezes missa, confessando-se e comungando Jácome e alguns outros cristãos com muito sentimento e lágrimas. E tendo os padres entre si assentado que ficasse um dêles ali com Jácome e o outro se fosse a Nangasáqui, foram avisados que não convinha ficassem ali padres, emquanto Jácome não tomava algum assento sôbre seus negócios com El-Rei de Saxuma, porque, como aquela terra era de gentios, não haviam de tomar bem os bonzos aquela ficada. Neste mesmo tempo mandou também o Padre Visitador dizer a Jácome que não convinha por então que ficassem ali padres, pelo mal que de sua estada se poderia seguir, por estar ainda aquele reino rebelado contra a Tença, e por isto lhe pedia os deixasse ir logo para Nangasáqui. Pelo que, Jácome foi forçado a deixá-los ir, ainda que com mui grande sentimento seu, dando-lhes uma embarcação ligeira e toda a provisão necessária para o caminho. Isto é o que sucedeu ao
  • Das coisas do Japão 143 bom Jácome, o qual foi de mui grande desconsolação para os padres, por verem um tão nobre e excelente cristão, e tão privado de D. Agostinho, quási de todo destruido, sem renda, sem poder, desterrado de suas terras e de maneira que lhe foi forçado valer-se de um senhor gentio como El-Rei de Saxuma, por não ter outro remédio. Porque, ainda que e verdade que Canzugedono o fêz depois bem com os criados de D. Agostinho, como adiante se dirá, todavia, como mandou matar ao irmão do mesmo D. Agostinho, por ser seu irmão e cabeça principal da fortaleza de Uto, o mesmo se temeu Jácome fizesse a ele, por ser também * cabeça de Iatçuxiro e lhe ter morto alguma gente cm um encontro 1 que com êle tivera. CAPÍTULO XXXVII Da vinda de Ximandono a Nangasáqui e do sobressalto que causou aos padres, pelo perigo em que com êle estiveram os cristãos de Firando, que ali estavam NÊSTE mesmo tempo em que os padres estavam em tantas angústias, pelas novas que cada dia lhes vinham, de tantas e tão grandes perdas dos senhores cristãos e da cristandade, lhes acrescentou novo sobressalto a vinda de Ximandono, governador do Ximo, a quem Daifuçama tinha dado sobre tôdas aquelas partes do Ximo a superioridade que antes tinha Dom Agos- tinho; pelo que, aqueles senhores cristãos de Arima e Omura, que só com a cristandade de suas terras ficaram em pé, lhe ficavam subordinados; e como este gentio sempre foi contrário a nossas coisas e à cristandade, e os padres de Meaco e Osaca tinham escrito aos de Nangasáqui, como vinha para da parte de Daifuçama fazer pesquisa sobre o reino e fazenda de Dom Agostinho, e que se temiam lhes desse ali muitos enfadamentos, estavam os de Nangasáqui em grande arreceio, porque não sabiam o que este gentio ordenaria acêrca dos padres e da cristandade. Acrescentava-lhes este temor saberem de certo que êle pretendia por tôdas as vias possíveis que Daifuçama lhe desse o estado de Omura e que a El-Rei Dom Sancho, em troco de seu estado, mudasse para outra parte, e que já disto Daifuçama passara provisão. O qual não se pode encarecer de quanta pena e aflição foi para os padres; porque, se este gentio se apoderara de * Omura, ficara também El-Rei de Arima em grande risco de,Pis- perder seu estado com tal vizinhança, pois desunido de Omurandono, parente seu tão chegado, ficava com menos poder e também arriscado a lhe trocarem suas terras por outras, que não se sabia quais poderiam ser. E desta maneira se perdera toda aquela tão boa e antiga cristandade que naqueles reinos de Arima e Omura estava feita, com tantas casas e residências que são das mais principais que há em Japão, com grande número de padres e irmãos que ali residem, e muitas e mui formosas igrejas. Ajuntou-se a êste temor em que Ximandono tinha postos os padres, outro grande sobressalto que lhes deu acêrca dos cristãos de Firando, que o ano passado (como acima tocámos), por não deixarem a fé, como seu senhor o Rei de Firando os obrigava, tiveram por melhor deixarem suas terras e rendas e
  • 144 Das coisas do Japão virem-se a viver desterrados a umas terras de El-Rei de Omura, que estão pegadas com a cidade de Nangasáqui; c passou o caso desta maneira. Tomou muito mal Ximandono saírem-se estes cristãos do serviço de El Rei de Pi- rando, e desejava muito fazê-los tornar a seu antigo senhor, mas como eles moravam nas terras de El-Rei de Omura, nas quais por então Ximandono não tinha jurisdição por ser ainda vivo Dom Agostinho, debaixo de cuja protecção êle estava, não tinha poder para os obrigar a fazer o que queria. Mas como agora com estas revoltas e mudanças Dom Agostinho acabou, e El-Rei de Omura lhe ficou subordinado, vindo êle a Nangasáqui trouxe consigo ao mesmo Tono de Firando, que é mui grande seu amigo e com cuja irmã tem casado um sobrinho seu; e porque assim Ximandono como Firandono iam direitos à guerra de Saxuma, e cada um deles levava quási tôda sua gente, com esta ocasião determinou Ximandono de sair com a sua. Pelo que, mandou logo um recado aos padres dizendo que era coisa insofrível que aqueles cristãos estivessem des- terrados e fora do serviço de seu senhor, somente por não quererem fazer as cerimónias gentílicas, como seu senhor lhes mandava; e que, se isto se soubesse na corte, e que os padres aconselhavam aos homens se saíssem de suas terras, •Pig.22 .* e os favoreciam e sustentavam em desobediência a seus senhores, seria coisa mui perigosa para os padres e de que lhes poderia vir algum grande mal. Que por isso desejava meter-se nêste negócio e fazer que tornassem ao serviço de seu senhor como dantes, mas que havia de ser, fazendo as sobreditas ceri- mónias e obedecendo em todo o mais que àcêrca desta matéria seu senhor lhes mandasse, e que fazendo isto no exterior, se em seu coração quisessem ser cristãos, o fôssem mui embora. Finalmente pedia aos padres aconselhassem a êstes homens quisessem aceitar aquele partido. Dado êste recado, a resposta que os padres lhe deram foi: que nem os cristãos podiam fazer o que êle pedia, nem os padres lho podiam aconselhar, por ser contra a verdadeira lei de Deus. E porque quási o mesmo recado mandou também Ximandono, por dois criados seus principais, aos mesmos cristãos de Firando, êles lhe responderam que de sua parte êles não tinham ódio nem aversão alguma a seu senhor, antes desejavam servi-lo, mas com tal que os deixasse viver como cristãos. E se por ventura lhe parecesse que, pedirem êles esta condição, era demasiada liberdade e indecente a criados para com seu senhor, que em castigo disso não lhes tornasse a renda que antes tinham, senão se servisse dêles para lhe terem cuidado de seus cavalos e de suas carretas, acarretarem fardos ou fazerem outro qualquer ofício baixo; por- que tudo isto fariam de mui boa vontade, como não lhes tocasse em irem contra a lei de Cristo que professavam. Eram as cabeças dêstes cristãos Dom Jeró- nimo e Dom Tomé, seu filho, fidalgos mui ilustres e parentes do mesmo Rei de Firando, filho e neto de Dom António que foi o primeiro fidalgo que se baptizou naquele reino, o qual, emquanto viveu, sempre deu exemplo de mui grande e excelente cristão, como agora também o dão êstes dois seus descen- dentes, filho, e neto Dom Tome, o qual, como já dissemos, é um mancebo de muitas partes e valor, e está casado com uma sobrinha do mesmo Rei de Pirando, que por persuasão sua se fêz também cristã e o imita bem na virtude e devoção. Com esta resposta se indignou grandemente El-Rei de Firando, e,
  • Das coisas do Japão 145 como capital inimigo que é de nossa santa fé, por nenhum caso * quis dar • pí* 223. ouvidos a tão justa petição. E respondeu que, se não deixavam de ser cristãos, já nunca mais lhes havia de perdoar nem restituir-lhes suas rendas. E logo depois disto foram avisados por coisa mui certa e averiguada, como El-Rei de Firando e Ximandono estavam apostados a dar sôbre êles e matar todas as cabeças principais dos cristãos, principalmente Dom Jerónimo e Dom Tomé, seu filho. O que sabido por êles, mandaram logo chamar alguns padres para se confessarem, como fizeram com muita fé e dovoção. E se ajuntaram logo todos em casa de Dom Jerónimo e se ordenaram de maneira que se pudessem defender contra quem viesse sôbre êles. Seriam os criados dêstes fidalgos trezentos homens, os quais acudindo com suas armas se apostaram a morrer com seus senhores, dizendo que morriam com muita alegria, pois a causa de sua morte era não quererem deixar a fé, ainda que todavia, como soldados valentes e esforçados que eram, determinavam vender bem suas vidas; e assim em breve tempo se aparelharam e fizeram fortes de maneira, que para êles haverem de morrer, havia de morrer primeiro muita gente dos inimigos. Deu êste negócio grande pena e aflição aos padres, porque por uma parte sentiam haverem de morrer tantos cristãos com suas mulheres e filhos tão inocentemente, por outra viam claramente que muitos de Firandono e Ximandono haviam tam- bém ali de perder as vidas, e que isto havia de causar grande alteração e discórdia e chegar aos ouvidos de Daifuçama, o que, em tempo tão perigoso, podia ser causa de êle entrar em grande indignação contra os padres, havendo-os por autores disto e perturbadores da terra; pelo que podia levantar de novo outra perseguição muito maior que a passada. Por onde, para atalhar a todos êstes males, trataram os padres com Dom Jerónimo e Dom Tomé, seu filho morgado, cabeças principais de todos aqueles cristãos, e contra os quais El-Rei de Firando estava mais indignado, que ainda que no exterior mostrassem que- rerem-se defender (para que vendo Firandono e Ximandono que isto havia de cus*tar a vida de muitos criados seus, desistisse de seu intento), todavia, quando «pág. 229. totalmente vissem que os inimigos estavam determinados de sair com a sua, fizessem então algum concêrto; o qual fôsse que êles, como cabeças, se ofere- cessem a sair sem armas e receber a morte, contanto que perdoassem a suas mulheres e filhos e a todos os mais cristãos, para que desta maneira êles ficassem verdadeiros mártires de Cristo (o que não podiam ser, se se defendessem) e com sua morte se evitassem os inconvenientes e males de todos haverem de morrer com suas mulheres, filhos e criados e porem em perigo tôda a cristan- dade de Japão do mal que lhe podia vir, sabendo Daifuçama um caso como êste, pelo qual se podia tanto indignar. O que se assim acontecesse, êles não sòmente perdiam a corôa do martírio, mas ainda punham a perigo sua salvação, pois na peleja podiam cometer muitos pecados de ódio e de desejo de vingança, com que suas almas se condenassem. Por outra parte, se deixassem de se defender e se oferecessem à morte da maneira sobredita, tinham certa a corôa do martírio e juntamente salvavam as vidas de tantos e livravam a cristandade do mal que lhe poderia resultar de êles quererem tomar armas contra tal senhor, e ganhariam ainda grande nome e fama não sòmente em Japão, mas em tôda a Cristandade e Europa e onde quer que fôsse contado feito tão cristão. 19
  • 146 Das coisas do Japão Ouvindo Dom Jerónimo e Dom Tome, seu filho, todas estas razoes, ainda que conforme aos foros do mundo sentiam não morrer pelejando como solda- dos, todavia, como eram tam grandes e excelentes cristãos, convencidos delas e movidos principalmente com o desejo do martírio e por não por a perigo tôda a cristandade de Japão, se resolveram a mui pacificamente se oferecerem à morte. Foi Nosso Senhor servido que Ximandono e Firandono, ou porque viram a determinação dos cristãos, e quão mal podiam sair com a sua sem muitas mortes dos seus, ou por qualquer outro respeito, lhes mandaram dizer que vivessem descansados, porque êles nunca tal coisa determinaram. Foi este • Pág.j3o. caso de grandíssima edificação para todos os cristãos que aqui se a*charam, assim portugueses como japões e ainda para os gentios, e muito mais depois que souberam a determinação em que estavam as duas cabeças principais, Dom Jerónimo e Dom Tomé, seu filho, de não se defenderem, a qual determi- nação, emquanto o negócio esteve pendente, se guardou sempre em muito segredo, pelo perigo que havia de chegar a ouvidos de El-Rei de Firando e Ximandono, os quais porventura puderam dela tomar ocasião para intentar a morte dêstes dois fidalgos, ainda que a não houvessem de procurar, se enten- deram que êles se haviam de defender. CAPÍTULO XXXVIII Da prisão de D. Agostinho, o muito que nela padeceu, a grande cristandade que mostrou ENTRE todas as perdas sobreditas que a nova igreja de Japão padeceu nestas revoltas e mudanças, a maior de tôdas e a que mais lastimou o coração dos padres, foi a do grande e excelente cristão D. Agostinho, por este ser o maior senhor cristão que havia em Japão e que maior número de cristãos tinha em suas terras, pois passavam já de cem mil (como atrás se disse), em que entrava muita nobreza, e por ser a maior e mais forte coluna de tôda a igreja de Japão, o amigo mais leal, o bemfeitor e protector mais insigne de tôda a Companhia que reside naquelas partes. Era êste um mui insigne e grande varão, o capitão mais excelente e de mor fama de todos aqueles reinos, superintendente de todos os nove reinos do Ximo, capitao-mor e como almirante do mar de Japão, e na jornada e guerra do Corai fôra general supremo de perto de duzentos mil homens, tão amado e respeitado de quási todos os reis e senhores de Japão, que por extremo procuravam e estimavam sua amizade; e o Pág.23i. próprio Daifuçama, que ora é senhor da Ten*ca e monarca de todos aqueles reinos, como acima dissemos, fez muito por se aliar com êle, com parentesco e concerto de casamento de uma bisneta sua com o filho morgado de D. Agos- tinho. Porém, para que nele se visse, por uma parte o sinal de predestinado e escolhido de Deus para a vida eterna, que é não ser sempre próspero e feliz nesta vida, antes provar nela o cális dos trabalhos e amarguras de Cristo, e por outra a pouca constância e duração da glória e prosperidade deste mundo, tôda esta sua felicidade e grandeza em um momento deu volta e se trocou, em
  • Das coisas do Japão 147 tôda sua casa e família se ver acabada e êle em uma prisão tão estreita e rigorosa, que nem um pagem lhe deixaram, de quem se pudesse servir, como logo se dirá. Quando este grande capitão e senhor se partiu de Meaco para a guerra, entendendo o perigo em que se metia, se confessou com muita devoção, e entrou naquela emprêsa, parecendo-lhe que nisso fazia o que devia, diante de Deus e dos homens, e conforme ao juramento feito a TaicoÇama, seu senhor, e à leal- dade que, como bom vassalo, era obrigado a guardar ao príncipe seu filho, esperando também que com a vitória, se Deus lha desse, ficaria êle mais livre e com maior poder para favorecer os padres e dilatar nossa santa fé em suas terras. E assim, pouco antes de dar a batalha, parecendo-lhe (o que também muitos cuidavam) que tinha nas mãos a vitória, mandou cartas a seus regedores e aos padres que estavam no reino de Fingo, que procurassem de fazer os mais cristãos que pudessem. No dia da batalha entrou nela, levando sempre consigo uma imagem pequena mui devota, que fora da Rainha Dona Catarina de Portugal, na qual estavam juntas muitas imagens de Cristo Nosso Senhor e da Virgem gloriosa Nossa Senhora, a qual êle também sempre costumava trazer consigo debaixo das armas, juntamente com umas contas por onde rezava. Travada a batalha e vendo em um momento desba*ratado todo o exército, por causa da traição »Pág. que estava armada, e êle que de todo ficava perdido, se lhe ofereceu que, conforme ao costume dos senhores de Japão, devia cortar a barriga, e que, pois êle era um capitão de tanta fama e nome, lhe seria coisa mui afrontosa deixar-se tomar vivo. Contudo, lembrando se por outra parte que era cristão e que matar-se por si mesmo era pecado gravíssimo, se determinou a padecer qual- quer afronta e desonra, antes que ofender a Nosso Senhor matando-se com honra; no qual se há-de pressupor que, para senhor japão, fêz um acto mui heróico e de grande cristandade, assim em desprezar a honra que os japões tanto estimam, como em se deixar prender, para morrer com maior aparelho. Tanto que foi preso, foi logo levado diante de Cainocamidono, senhor cristão e filho de D. Simeão, rei de Bujém, o qual compadecendo-se muito dêle, lhe disse D. Agostinho: Bem sabeis, senhor, quem fui e qual agora me vêdes, por isso uma mercê me haveis de fazer em todo caso. E cuidando Cainocami que a petição seria lhe alcançasse a vida de Daifuçama, lhe tornou D. Agostinho: Não é isso, senhor, o que vos peço, porque já não estimo a vida, e se a lei dos cristãos mo não proibira, bem vêdes quão fácil coisa me fôra cortar a barriga; mas agora estou aparelhado para padecer a morte, de qualquer maneira que Deus fôr servido, em desconto de meus pecados; e o que vos peço é que procureis em todo caso, como me possa ver com um padre para me confessar, porque nenhuma outra coisa desejo nesta vida senão esta. E dizendo que êle faria todo o possível por alcançar para isso licença de Daifu- çama, se consolou em extremo; mas falando depois Cainocami a Daifuçama sobre isto, por nenhuma via quis dar a tal licença, e indignando-se e dizendo que não era necessário, o mandou pôr a bom recado, entregando-o a um capitão seu, sem lhe deixar nem um só pagem que o servisse e ajudasse em tão grande necessidade e trabalho.
  • 148 Das coisas do Japão Dali a pouco, rodeado de gente de guarda, foi levado preso a Osaca, onde esteve uns dias em grande tormento e afronta, nos quais por diversas vias procurou com diligência haver algum padre para se confessar, escrevendo • Pàg.>33. cartas (das quais al#gumas vieram a mãos de Daifuçama), em que não tratava outra coisa senão pedir com grande instância aos padres de Meaco e Osaca fizessem todo o possível por ir algum dêles a confessá-lo. E por não entender Daifuçama que coisa era confissão, nem o que D. Agostinho pretendia dos padres em lhes pedir que o fossem confessar, antes cuidando se porventura aquilo era algum embuste, se indignou muito e proibiu rigorosamente que a nenhum padre se desse entrada para lhe falar, e ainda que os padres o pro- curaram por todas as vias possíveis, nunca o puderam alcançar. Mas como D. Agostinho era tão bom e antigo cristão e estava de muito antes instruído, como,em semelhantes casos se havia de valer da contrição, por via dela procurou com tôdas as forças de sua alma seu remedio, não havendo dia em todos os de sua prisão, no qual não tivesse e fizesse muitos actos de mui grande dor e arrependimento de seus pecados, aceitando aquela pena e trabalhos de morte em desconto do que merecia por suas culpas, e considerando frequentemente que, com a divina misericórdia, o muito que ali padecia nesta vida, lhe serviria de purgatório para a outra, e isto mesmo dizia a todos os que o iam visitar. Quási todo o tempo gastava em se encomendar a Deus e rezar por suas contas, procurando sofrer tôdas aquelas afrontas com grande fortaleza e paciên- cia, aceitando-as como coisa que lhe vinha da mão de Deus para bem de sua alma, mostrando-se sempre tão constante e animoso, que os mesmos senhores gentios que o visitavam, ficavam maravilhados, e em tudo quanto falava, não se via outra coisa nele senão um novo e fervoroso desejo de sua salvação e de ver algum padre para se confessar. Raro por certo e singular exemplo de um homem cristão de novo e con- vertido da adoração dos ídolos ao conhecimento de Cristo, e muito para enver- gonhar os antigos cristãos de nossa Europa e principalmente grandes e pode- rosos do mundo, aos quais a salvação de suas almas e o negócio da outra vida erdinàriamente tão pouco lembra. .Pig.l34. * CAPÍTULO XXXIX Da morte de Dom Agostinho e de seu filho morgado PASSADOS alguns dias depois que Dom Agostinho foi pôsto em prisão, deu finalmente Daifuçama a última sentença que êle e Gibunoxo, que fôra um dos governadores, e Ancosugi (que era um bonzo a quem Mori- dono, senhor de nove reinos, reverenciava como pai, e por cujo conselho se governava em tudo, e que também na liga contra Daifuçama foi principal autor) fossem mortos. Pelo que, logo foram levados presos pelas ruas de Osaca, cada um em seu cavalo de albarda, e depois, pelas de Meaco, cada um em sua carreta, coisa que em Japão é tida por de grande ignomínia e afronta, principal-
  • Das coisas do Japão 149 mente quando os justiçados são senhores e pessoas de qualidade. Iam todos três distantes um de outro: Gibunoxo diante como mais culpado e autor da liga, no meio o bonzo Ancosugi, no derradeiro lugar Dom Agostinho. O pregão público de suas culpas era: que aquela justiça se fazia naqueles homens por serem revoltosos e alevantados contra a Tença. E ainda que os outros dois, parte por terem menos ânimo, parte por irem enfermos e maltratados, se haviam como homens que mostravam bem o que padeciam, indo gemendo, com os rostos amarelos e de côr de mortos, todavia Dom Agostinho foi por aquelas ruas sem nunca jamais mudar côr, antes com o mesmo rosto e semblante que sempre, de modo que todos notaram a diferença que havia entre ele e os outros, e seu grande ânimo e esforço que mostrava. Chegando junto do lugar onde se havia de executar a justiça na cidade de Meaco, um cristão que os padres para isto mandaram, se foi meter entre a turba dos soldados que iam de guarda, e chegando-se a Dom Agostinho lhe disse da parte dos padres que eles fizeram todo o possível para o poderem ir visitar e confessar, mas que nunca os guardas lho quiseram consentir pela proibição que para isso tinham de Daifuçama; portanto lhe lembravam procurasse com tôdas suas forças de ter muita contrição de seus pecados * naquela hora. Ao que respondeu.Pig.*35. Dom Agostinho que êle lhes agradecia muito aquele aviso que lhe mandavam e a memória que dele tinham, a qual êle sempre tivera por mui certa, mas que, já que não fôra possível verem-no para se confessar e consolar com êles, êle se aparelhara por todo aquele tempo, procurando sempre de ter a devida contrição de seus pecados, como êles lhe tinham ensinado, e que Nosso Senhor lhe fizera tamanha mercê, que por todos aqueles dias lhe dera sempre muito grande dôr e arrependimento de suas culpas e com uma grande confiança que o havia de salvar, e que êle recebia aquelas afrontas em lugar de purgatório. Indo assim caminhando êstes três padecentes, lhes saíram ao encontro alguns bonzos para lhes fazerem suas cerimónias acostumadas; e depois de estarem feitas aos dois que iam diante, indo para as fazerem também a Dom Agostinho, êle lhes virou o rosto dizendo em alta voz que se fôssem daí, que êle era cristão e como tal não cria nem estimava alguma daquelas superstições gentílicas ou, para melhor dizer, desatinos e parvoíces. E começou logo em voz alta a dizer a oração do Pater Noster pelas contas que tinha nas mãos, ficando os bonzos corridos e afrontados. Finalmente chegando ao lugar onde haviam de ser justiçados, veio ali um bonzo mui principal que nao costuma sair fora senão raras vezes e para se achar à morte de algum grande senhor; êste, depois de com outros bonzos acabar de fazer algumas cerimónias a Gibunoxo e Ancosugi, dando-lhes a beijar um livro que êles teem por coisa santa, como entre nós o da Sagrada Escritura, querendo-o pôr também sôbre a cabeça de Dom Agostinho e fazer-lhe as mes- mas cerimónias que aos outros, êle se indignou grandemente contra o bonzo, mostrando que lhe cuspia e dizendo: vai-te daqui, homem, e deixa-me, que não tens que fazer comigo que sou cristão. E tendo nas mãos suas contas e imagem, que acima dissemos sempre trazia consigo, a alevantou com ambas as mãos e a pôs três vezes na cabeça. Fêz sua oração encomendando-se a Nosso Senhor e com muita serenidade de rosto, prega*dos os olhos, ora no céu, ora na imagem, .Pág.tfõ. sem mudar côr nem mostrar sinal algum de perturbação, deu o pescoço ao algoz,
  • Das coisas do Japão o qual de três golpes lhe cortou a cabeça, estando êlc sempre de joelhos mui inteiro, invocando os nomes santíssimos de JESUS, MARIA. Executada esta justiça, foi logo levado seu corpo à casa da Companhia de Jesus de Meaco, para nela lhe darem sepultura, onde os padres o receberam e sepultaram com infinitas lágrimas de sentimento, pela perda de tal príncipe e tão grande coluna da igreja de Japão. Fizeram-lhe os ofícios de seu enterra- mento e disseram-lhe muitas missas, assim em Meaco como em tôdas as mais casas e residências da Companhia daquelas partes. Também nestas de Europa lhas mandou dizer o Nosso Reverendo Padre Geral por tôdas as províncias da Companhia, como por insigne bemfeitor da mesma Companhia. Quando leva- ram seu corpo à casa dos padres, foi envolto em um roupão de sêda que trazia vestido, no qual pela parte de dentro se achou uma carta, cosida entre o forro, em que se despedia de sua mulher e filhos. Dela poremos aqui um capítulo que trasladado à letra'de japão em nossa língua diz assim: «Não se pode declarar por carta o muito que tenho padecido e padeço por causa dêste tão inopinado caso, pois tenho bebido os mais amargosos tragos e padeço os maiores tormentos que neste mundo me puderam acontecer; e assim me parece que nesta vida vou pagando a pena que no purgatório havia de pagar. A imagem que sabeis, trago sempre comigo e a reverenceio e adoro, e sempre por ela me encomendarei a Deus até à hora de minha morte. E porque entendo mui bem que meus pecados foram a causa de eu vir a êste estado, tenho por singular benefício e mimo da mão de Deus a penitência que êstes dias padeço c os tra- balhos em que me vejo; e assim lhe dou infinitas graças por esta misericórdia que usou comigo. Emfim o que releva é que daqui por diante sirvais a Deus de todo vosso coração, porque as coisas dêste mundo nada valem». Até aqui Dom Agostinho. E para que esta carta pudesse vir às mãos de •Pdg.a37. sua mulher e filhos, disse antes de morrer * a uma certa pessoa que, quando enterrassem seu corpo, buscassem aquela carta no roupão em que ia envolto. Este foi o fim e morte do grande e excelente cristão Dom Agostinho, o qual, além das outras partes e grandezas suas que já dissemos, era naturalmente mui compassivo e amigo dos pobres, aos quais fazia grandes esmolas. Era mui liberal e largo de condição, como entre outros o experimentaram os padres da Companhia de Japão e principalmente os que residiam em suas terras. Com ser costume entre os senhores daquele reino de Japão matarem a seus criados por leves culpas, era ele tão humano, que, ainda quando os seus lho mereciam por graves, o não fazia, que naquelas partes se tem por coisa mui rara; e a seus vassalos encomendava e punha lei que não mandassem matar pessoa alguma, sem primeiro suas culpas serem mui bem examinadas por três rege- dores seus que para isso deputou. E a outros senhores seus que tinha debaixo de sua jurisdição e protecção encomendava muito não mandassem matar os homens cm suas terras por leves culpas, antes se mostrassem nesta parte mui moderados, como convinha a senhores cristãos. Com andar sempre ocupado, e pela mor parte em guerras, era mui solícito nas coisas de nossa santa fé e no que tocava a sua salvação em particular, e uma e outra coisa mostrou mui bem em todo o discurso de sua vida, no cabo da qual, como agora dissemos, acabou de pôr o sêlo a tudo, aparelhando-se para morrer como verdadeiro
  • Das coisas do Japão 151 cristão; o que vendo dois fidalgos nobres de Daifuçama, os quais havia pouco se baptizaram, disseram que êles tomaram também ser justiçados como Dom Agostinho, se soubessem que haviam de ter tão bom aparelho para mor- rer, como êle teve. Pelo qual tudo, temos certas esperanças na divina mise- ricórdia que pondo Nosso Senhor os olhos no muito que êste bom príncipe fêz por se confessar, e no grande arrependimento que teve de seus pecados, e boas obras que dêste mundo levou, lhe deu logo em sua glória outro estado bem diferente do que perdeu e deixou em Japão, sujeito a tantas variedades e mudanças; e que com o bom Rei Francisco de Bungo e ou*tros santos daquelas*re- partes ficaria logo gozando do prémio de suas boas obras e dos trabalhos e penas que no cabo de sua vida padeceu. Morto Dom Agostinho, daí a poucos dias o foi também seu único filho morgado que, fora dalgumas filhas, não tinha outro, menino de doze anos de idade e de grandes partes e esperanças. Este, vendo preso seu pai, se recolheu com alguns criados seus a um reino dos de Moridono e com salvo-conduto e palavra sua de o não entregar. Porém, como êle via e entendia mui bem o perigo em que estava, mandou logo chamar o padre que estava em Firoxima e se confessou com muita devoção e se aparelhou mui bem para tudo o que Deus ordenasse dêle, e não tardou muito que o Rei Moridono, parecendo-lhe que por esta via ganharia a graça de Daifuçama, se resolveu a lhe entregar a cabeça do menino; e para isto o mandou levar do lugar onde estava, enganando-o com dizer que o mudava para outro mais seguro. E sucedeu que no tempo que chegou o recado de Moridono, estava com êle um irmão da Companhia, que de Firoxima, por mandado do padre, o fôra visitar. E entendendo o menino, como era de vivo engenho e juízo, que aquela dissimulação de mudança era para o matarem e não para o segurarem, pediu logo ao irmão lhe desse alguma conta benta ou nómina ou outra coisa de devoção que tivesse consigo, e que- rendo-o consolar o irmão, êle se mostrou tão animoso e resignado na vontade de Deus, que sem nenhuma perturbação nem mudança de rosto, antes com um semblante mui alegre, êle mesmo consolava ao irmão, dizendo que, pois êle estava confessado e esperava de se salvar, nenhum mêdo tinha da morte, e que dissesse aos padres que estivessem mui descansados sobre êle, porque estava aparelhado para tomar da mão de Nosso Senhor qualquer trabalho que lhe sobreviesse. E que pois Dom Agostinho, seu pai, já era morto e estava na glória, como confiava em Deus, êle também o queria ir acompanhar, sofrendo a morte com muita paciência. Com isto o irmão se despediu dêle, e os de El-Rei Moridono tirando-lhe logo todos os criados, sem lhe deixarem mais que um pajem com outro moço, o levaram a Osaca, onde o pérfido Rei estava, o qual secretamente lhe mandou cortar a cabeça * para de presente a mandar, «p*s> como de feito mandou, a Daifuçama, parecendo-lhe que nisto lhe faria grão serviço, e que por esta via se remediaria. Mas Daifuçama sabendo o que lhe queriam apresentar, ou fôsse por natural compaixão ou, como é generoso, por primor, lembrando-se que tinha desposado sua bisneta com aquele menino, não sòmente a não quis ver, mas antes se indignou muito, dizendo que fôra mal feito matar daquela maneira um menino inocente e tanto sem culpa, e que quem o matou merecia ser castigado; o que sabendo os que levavam a cabeça,
  • 152 Das coisas do Japão mudando a forma do recado, disseram da parte de Moridono que sabendo ele, como aquele moço se acolhera a um lugar de suas terras, o mandara trazer ali para o entregar vivo a Sua Alteza, mas que o mesmo, chegando a Osaca, se cortara a barriga, e que por isso lhe apresentava sua cabeça. Aquietou-se Daifu- çama ouvindo isto e crendo passar assim. Porém depois que a maldade se descobriu, e se soube a certeza do caso, todos o tiveram por coisa mui vil e indigna de rei, chegar a fazer uma tamanha baixeza pelo mêdo que teve de Daifuçama, e matar um menino inocente, que com salvo conduto seu e debaixo da sua palavra se acolhera a seus reinos. CAPÍTULO XL Dos grandes bens que Nosso Senhor tirou de todos êstes males, e da boa vontade que Daifuçama começou a mostrar aos padres, e patentes que lhes passou para estarem em Japão PRÓPRIO é de Deus, como dêle dizem seus Profetas, depois de mortificar tornar a dar vida, e depois da ferida dar a saúde, serenar os mares depois das tempestades, e no meio de sua ira nunca se esquecer de suas mise- ricórdias, nem permitir males senão para tirar deles grandes bens, e tudo isto vemos nesta nova igreja e cristandade de Japão; a qual, depois de com estas revoltas e alterações padecer as maiores perdas e trabalhos que nunca tivera, em breve tempo trocou Deus as mãos, e com a de sua misericórdia a tornou a • Pág. 240. abraçar e fazer-lhe mil mercês, orde*nando as coisas de maneira que parece nunca esteve tão disposta esta nova vinha do Senhor para produzir grandes frutos e estender seus braços por todos aqueles reinos. Como agora relatámos os males e angústias em que os padres e a cristandade se viram, é justo que daqui por diante contemos as consolações que depois das tristezas receberam com os bens que o Senhor foi tirando de tantos males. Principalmente com estas guerras e mudança do estado da Tença quis Nosso Senhor arrasar muitas dificuldades e impedimentos que os padres tinham em Japão para levarem por diante a obra da conversão dos gentios e cultivação dos já cristãos; porque, desfazendo-se com esta vitória que houve Daifuçama, a forma de govêrno, que Taicoçama por sua morte deixou aos dez governadores, e fazendo-se também agora o mesmo Daifuçama senhor absoluto de Japão, ficaram os padres de todo livres do ímpio decreto que Taicoçama defunto promulgara contra eles e contra a cristandade; o que fàcilmente não pudera ser, se os governadores prevalece- ram, assim por não serem todos da mesma opinião, como por terem jurado de guardar e fazerem guardar para sempre as leis de Taicoçama, as quais agora ficam em perpétuo silêncio, como também o ficaram as demais coisas suas, permitindo a divina Providência que, pois por uma parte perseguiu aos cristãos e por outra deixou ordenado aos seus governadores que depois de sua morte lhe fizessem um edifício sumptuoso, à maneira de templo, em que fôsse vene- rado como deus da guerra, viesse outro que desfizesse suas traças e deitasse fora seus governadores, pelos quais êle ainda depois de morto pretendia governar
  • Das coisas do Japão 153 a seu modo a Tença e entronizar nela seu filho. Mas Deus Nosso Senhor que resiste aos soberbos, ordenou que tudo lhe saísse em vão e que os mesmos governadores, feitura sua, sem saberem o que faziam, lhe destruíssem a melhor e mais nobre coisa que êle fizera em Japão, e em que mais mostrou sua gran- deza e riqueza, que foi a fortaleza de Fuximi, em Meaco. * E assim, pouco»Mg. e pouco se vai apagando sua memória com o império de Daifuçama, o qual começou a governar a Tença com brandura e clemência, porque vendo-se em um momento e com uma só batalha campal, senhor de todo Japão, não quis usar da licença que semelhantes vitórias, principalmente naqueles reinos, trazem consigo, mas perdoou as vidas a muitos senhores que foram contra êle, e não mandou matar publicamente mais que as três cabeças principais que acima se viram. E o que mais é, que perdoou a vida à mulher e filhas de Dom Agos- tinho, que por lei de Japão houveram também de morrer, e juntamente a outro fidalgo de Dom Agostinho com seus filhos e outros muitos fidalgos cristãos que parecia impossível poderem escapar. Já com os padres foi coisa maravilhosa de como também se mostrou humano e afável, porque vindo ao Meaco depois da vitória, e indo a visitá-lo um irmão da Companhia da parte dos padres que estavam naquela cidade, o recebeu com mui bom rosto e comeu de uma pouca de conserva e bebeu de um pouco de vinho que lhe levou de presente; o qual foi sinal de muito favor. Ainda que perguntou ao irmão se vira Dom Agostinho que vinha prêso, e res- pondendo que não, lhe disse que fizera bem e que nenhum padre nem irmão lhe falasse, que se guardassem disso. Depois de entrar na fortaleza de Osaca, tornando-o a mandar visitar o Padre Organtino por outro irmão, também o recebeu com mui boa graça. Neste próprio tempo, além dos meios divinos, muitas missas, orações e disciplinas, se quiseram também os padres de Meaco ajudar dos meios humanos, procurando ter entrada com alguns privados seus, para, por meio dêles, a terem maior com o mesmo Daifuçama, os quais, sendo visitados por parte do Padre Organtino, prometeram de os favorecer em tudo diante dêle, e alguns senhores que com êle vinham tomaram também a cargo defender nossas casas, assim de Meaco como de Osaca, dos soldados e gente de guerra que trazia, mandando pôr suas bandeiras e divisas a nossas portas co*mo coisas que êles tomavam a seu cargo. E assim, debaixo de sua protecção »Pág. ficaram os padres e suas casas livres dos danos e males que semelhantes aloja- mentos trazem consigo, estando as demais casas cheias de soldados. Foi finalmente a visitá-lo da parte dos padres de Nangasáqui o Padre João Rodrigues que também costumava sempre ir a visitar a Taicoçama. Recebeu-o mui bem, e na conjunção em que lhe estava falando, estava também ali pre- sente um criado do mesmo Daifuçama, que êle mandara a Nangasáqui a nego- ciar certas coisas. Este lhe disse diante do padre: Senhor, êste padre que aqui está e os demais padres de Nangasáqui me fizeram quando lá fui, por ser criado de V. A., muitos favores e mais no tempo da guerra, quando aquelas partes de baixo estavam, pela maior parte, contra vosso serviço; e os padres contudo em Nangasáqui sempre acudiram pelas coisas de Vossa Aiteza e as defenderam. Foi a voz dêste homem como de um anjo, porque, em Daifuçama ouvindo isto, se alegrou grandemente e disse que agradecia muito aos padres 20
  • Das coisas do Japão aquele serviço que lhe tinham feito, que bem cria não poderiam fazer menos, pois eram homens de tanto primor. E logo por obra mostrou o que dizia de palavra e quão satisfeito estava dos padres, porque mandou despachar duas patentes em que os confirmava nas casas que teem em Meaco, Osaca e Nan- gasáqui, por serem estas três as principais e de maior estima diante dos senhores de Japão. Pelo que, sendo os padres agora restituídos a elas com provisões autênticas e públicas do senhor da Tença, tanto monta como se ficaram resti- tuídos em todo Japão, e em efeito como tais são tidos c havidos; coisa que em todos causou suma consolação e alegria, porque, depois que no ano de oitenta e sete foram desterrados pelo tirano Taicoçama, nunca ate agora puderam alcançar semelhante provisão para estarem em parte alguma de Japão, mas somente houveram licença de palavra para residirem em Nangasáqui certo número de padres; e ainda que com a morte de Taicoçama se tinham dilatado .Píg.24j. por diversos rei*nos no tempo dos governadores, agora todavia o podem fazer com mais liberdade e sem perigo seu nem da cristandade. Também consolou Nosso Senhor aos padres, livrando-os de todos os temo- res que dantes tinham, com a vinda de Ximandono a Nangasáqui; porque, temendo-se êles que pudesse êste gentio intentar ali alguma novidade, e tomasse mal a vinda do Bispo Dom Luís, a qual por justas causas até então tiveram encoberta, ordenou Nosso Senhor as coisas de maneira que tudo sucedesse muito bem, porque chegando êle à sua fortaleza de Carrazu, o foi logo visitar o Padre João Rodrigues da parte do Bispo Dom Luís e dos Padres \ isitador e Vice-Provincial, escrevendo-lhe o Padre Visitador, entre outras, uma carta em que lhe dizia que por morte do Bispo Dom Pedro, que êle mandara tornasse para Macau, lhe sucedera no mesmo oficio, por ordem que para isso viera de Europa, um padre que estava em Japão, o qual, por ser de nossa Companhia e pessoa de muita virtude e letras, lhe pedia o quisesse favorecer. E nesta mesma conformidade lhe escreveu também o Bispo, e foi Deus servido que recebesse bem a visita e cartas e ficasse satisfeito da informação. E ainda que por alguns dias os teve suspensos, sem dar resposta, finalmente a deu com satisfação, escrevendo assim ao Bispo como ao Padre Visitador; e indo depois a Nangasáqui, tratou ao Bispo e aos padres com muita cortesia. E sendo duas vezes convidado em nossa casa e uma do Bispo, assim de seu bom modo como do recebimento e trato dos nossos ficou mui satisfeito. Pelo que não sòmente lhes não foi molesto, antes prometeu que dali por diante os favoreceria em tudo o que se oferecesse, pois agora o podia fazer mais à sua vontade, sendo senhor da Tença Daifuçama, que sem dúvida era mais fácil de grangear nesta matéria que Taicoçama e que os governadores, por serem muitos e de diversas opiniões.
  • Das coisas do Japão 15 5 * CAPÍTULO XLI •pá«-3«- Dos bens que resultaram à cristandade da repartição dos reinos que Daifuçama deu a alguns senhores, e primeiramente do que deu a Cainocamt ENTRE os senhores japões, aos quais Deus moveu a que nos favorecessem diante de Daifuçama, foram principalmente Cainocami, senhor cristão e filho de El-Rei Simeão Condera Cambiogedono, de Bujém; Nangavoca Jocundono, marido que foi de Dona Grácia, aquela senhora cristã de cuja morte atrás falámos; Tucuximandono, Rei de Voari que, ainda que gentio, tem dois sobrinhos cristãos, com outros muitos criados seus, e nos mostra muito amor; um filho de Asonodario, um dos governadores, o qual ainda que não é cristão, sente bem da lei de Deus. A cada um dêstes senhores tem já despachado Daifuçama e repartidos com êles alguns reinos, que para bem e aumento da cristandade foi coisa de grandíssimo momento e com que os padres receberam suma consolação, por neles também a divina Providência dispor as coisas de maneira, que muitos, cristãos que estavam perdidos e desterrados, ficassem amparados, e outros se espalhassem por diversas terras de gentios para nelas, como rosas entre espinhas, darem de si o bom odor de Cristo e de nossa santa fé. O primeiro, pois, a quem despachou Daifuçama, foi a Cainocami, ao qual em lugar do reino de Bujém que antes tinha, lhe deu agora todo o de Chicujém que é muito maior. E por estar aqui vizinho, e nele a cidade de Facata, onde haverá perto de mil cristãos e outros tantos em diversas partes do mesmo reino, esperamos se irá ali fazendo uma grande cristandade, assim porque, passando-se este senhor agora para este reino com toda a gente nobre e soldados que esta- vam em * Bujém, dos quais muitos e os mais nobres da sua côrte são cristãos, • p
  • 156 Das coisas do Japão foi tanto àvante rompendo pelos esquadrões dos inimigos, que encontrou com Cainocami, seu grandíssimo amigo, que era um dos principais capitães da parte contrária e vinha também na vanguarda de Daifuçama. Este conhecendo a Dom João pela divisa que trazia, lhe bradou dizendo: Detende-vos, senhor Acaxicamão, detende-vos e chegai-vos a mim, que eu vos porei em salvo. Parou Dom João, e chegando, lhe deu as graças pela mercê que lhe oferecia. Mas espantando-se Cainocami como pudera escapar pelo meio de tantos peloiros de arcabuzaria e romper por um esquadrão tão forte, até chegar ali sem morrer . Píg.246. ou se matar * a si mesmo, conforme ao costume de Japão, lhe disse Dom João: Senhor, não vos espanteis, que bem sabeis quão fàcilmente pudera cortar a barriga, como fazem os bons soldados em semelhantes passos; mas só por ser cristão e não ofender a Deus, o deixei de fazer e me meti de propósito por meio dos inimigos para morrer pelejando. E pois fui tão ditoso que me encon- trasse convosco, pessoa tão ilustre e tão grande meu senhor e amigo, peço-vos por muito grande mercê me corteis a cabeça, para morrer a mãos de tal senhor como vós; o que dizia com singeleza e boa fé e levado do brio de soldado esforçado, não cuidando que nisto podia haver pecado. Respondeu-lhe Caino- cami que por nenhum caso faria tal coisa, antes o poria em salvo e tomaria sobre si o alcançar-lhe perdão de Daifuçama. Recusou grandemente Dom João, dizendo que não era honra sua escapar vivo daquela batalha, senão ficar morto. Tornou a instar Cainocami em o pôr em salvo, até que Dom João não pôde al fazer que render-se ao amor que Cainocami lhe mostrava e promessas que lhe fazia, as quais depois cumpriu mui bem. E como Cainocami é mui grande cortesão, saltou logo do cavalo em terra e o ofereceu a Dom João, fazendo-lhe muita fôrça que cavalgasse nele; resistiu Dom João com muita mais, até que, tomando Cainocami para si outro cavalo de um seu criado, cavalgaram ambos. E porque não se atreveu a dar vida a um senhor tão principal sem o fazer saber a Daifuçama, lhe foi logo dar conta de tudo, o qual, pela notícia que tinha de Dom João e de suas raras partes e valor, disse que folgava muito não ser morto tão bom cavaleiro, e que Caino- cami por-ora se servisse dêle, mas que pelo tempo em diante poderia ser o tomasse êle mesmo em seu serviço. E com isto ficou Dom João livre e em serviço de Cainocami; e indo-se depois a Osaca, se aposentou alguns dias em casa dos padres onde não se fartava de dar graças a Nosso Senhor pelo ter livrado de tão evidente perigo e juntamente, já que tinha perdido seu estado, . Pág.247. lhe dar também logo remédio * com que pudesse viver. E como êle é tão excelente cristão e capitão, ajuntando-se agora com Sogedono, tio de Cainocami, que também fica muito acrescentado em renda, esperamos que ambos juntos ajudem muito para que Cainocami acuda bem às coisas da nossa santa fé, a cujo serviço também se passou Dom Francisco, filho de Dom Simão Findena e de Maxência, filha d'El-Rei de Bungo, com o qual foram juntamente boa parte dos cristãos fidalgos de Corume; de modo que se vão ali ajuntando muitos cristãos, por cujo meio e conversação confiamos que os gentios daquele reino venham em conhecimento da lei de Deus.
  • Das coisas do Japão 157 CAPÍTULO XLII Como Daifuçama deu o reino de Bujém e parte do de Bungo a Nangavoca Jocundono, e do bem que disto se seguiu para muitos cristãos E Nangavoca Jocundono um senhor gentio, mas mui afeiçoado a nossas coisas, por ter muita opinião da lei de Deus, e juntamente ter já um irmão seu, um filho e duas filhas, e alguns outros fidalgos principais de sua casa, cristãos. Êste, vivendo Dona Grácia sua mulher, era senhor do reino de Tango, o qual por ser pequeno lhe trocou agora Daifuçama com o reino de Bujém e com a terceira parte do reino de Bungo que confina com o mesmo Bujém; o que foi grande bem para a cristandade e de grande esperança para a conversão dos gentios daquelas partes. Logo que Daifuçama lhe fêz me^cê deste estado, mandou dizer ao Padre Organtino que escrevesse ao padre que estava em Bujém, e êle mesmo também lhe escreveu por um criado seu mui privado, que não se saísse daquele reino, porque estava determinado favorecer muito os padres e * cristãos em suas terras, «dg.*48. E assim o fêz em efeito, tanto que a elas chegou; porque logo deu licença franca para que todos os seus se fizessem cristãos e pudessem levantar as igrejas necessárias; e fêz uma prática a seus fidalgos dizendo que, como as coisas da salvação se haviam de tomar por vontade e não por força, que por isso êle a ninguém a fazia: mas que entendessem que seu gosto era todos ouvissem as prègações da lei de Deus e se fizessem cristãos, porque êle de cristãos se havia mais de servir e fazer caso. E assim começaram logo os seus a ouvir e se baptizaram como trinta fidalgos. Fêz também êste senhor outra coisa de muita edificação para a cristandade e consolação para os padres, a qual foi que, sabendo como junto a Nangasáqui estavam Dom Jerónimo e Dom Tomé, seu filho, com os mais cristãos (de que acima falámos se tinham desterrado de Firando e deixadas suas rendas e remédio de vida por não deixarem a fé, que seriam por tôdas setecentas almas), se determinou a recebê-los em seu serviço e lhes dar mais renda da que tinham em Firando. E porque entre êstes há muitos lavradores e pescadores, lhes deputou também algumas aldeias para sua vivenda. E para tratar isto e outras coisas de importância com o Padre Visitador, quis que o Padre Gregório de Céspedes que estava em Bujém, viesse a Nangasáqui onde tudo se concluiu, e logo mandou que se fossem para lá, coisa que para os padres foi de grande alívio e alegria, por verem que já êstes cristãos tinham remédio de vida, e êles ficavam desobrigados de os sustentarem com sua pobreza, como havia dois anos que faziam.
  • 158 Das coisas do Japão CAPÍTULO XLI1I De outros bons sucessos que resultaram à cristandade •Pdg.249. das mesmas mudanças e repartições de reinos * TAMBÉM se teve por coisa de mui grande providência divina para bem da cristandade, o despacho que Daifuçama deu a Fucuximandono que antes fôra senhor do reino de Voari, ao qual deu dois dos sete reinos que tirou a Moridono, em um dos quais está aquela sua principal fortaleza e cidade de Firoxima, onde o ano passado estiveram um padre e um irmão padecendo grandes contradições dos bonzos e com pouca esperança de se fazer fruto naquela terra, pela grande superstição do rei Moridono que em tudo se rege por eles. Pelo que, foi necessário tornarcm-se para Nangasáqui, como já dissemos. Porém, depois que o padre se veio para baixo com toda a gente de casa, deixando somente um homem bom cristão por guarda dela, deu Daifuçama a Fucuximandono êstes dois reinos. E por êle ser amigo dos padres e da cristandade e ter dois sobrinhos e outros muitos fidalgos, cristãos, tomou também de novo em seu serviço a Jácome e a Dom Paulo de Bungo, cristãos antigos e mui principais, os quais indo a Firoxima com seu senhor para entrar na posse daqueles reinos, e achando que o padre que ali estava, era já partido para Nangasáqui, lhe mandaram, com grande pressa, nas costas um recado para que em todo caso tornasse, pro- metendo-lhe grandes favores e que lhe fariam dar o melhor lugar dos bonzos, que havia em Firoxima. Mas, porque este recado não pôde alcançar o padre e o tomou já em Nan- gasáqui, pareceu -aos superiores que era melhor esperar que Fucuximandono ordenasse e assentasse as coisas (1) de Firoxima, e entre tanto lhe mandou lá um irmão japão que antes ali estivera, e o padre que estava em Iamangúchi, para visitarem a Fucuximandono e aos mais cristãos. E por este senhor ter ruim conceito dos bonzos e bom de nossas coisas, e ter muitos cristãos princi- pais consigo e em suas terras, se espera nelas, com o favor divino, grande fruto. O qual recebeu o padre com muito gasalhado e lhe disse como em todo o caso • Pág.25o. queria que os padres ali residissem e fizessem muitos cristãos, * e a este fim lhe mandou logo dar um bom sítio onde pudesse morar. E assim ordenou a divina Providência que El-Rei Moridono fôsse vencido e privado de sete reinos, para que os bonzos destas terras, que à sombra de tão grande idólatra tanto floresciam, ficassem desacreditados e menos poderosos, e para que também a mesma idolatria que em seus reinos, mais que em nenhuma outra parte de Japão, reinava, ficasse sem suas antigas forças e sem o poder que sôbre tantas almas tinha. E o próprio Moridono que agora ficou tão humilhado e com só dois reinos pequenos, e êsses ainda à ventura de não durar muito nêles, vendo quão pouco lhe aproveitaram suas devoções e as esperanças que tinha nos Camis e Fotoques, (1) Nt.: Causas.
  • Das coisas do Japão 159 e quão bera lhe mentiu o seu principal idolo na resposta que lhe deu por sortes que desta feita ficaria vencedor, esperamos que ou perderá a devoção dos ídolos ou será grande exemplo em Japão, para que muitos a percam, e que daqui por diante fará mais favores ao padre que está em Iamangúchi, cidade dum dos reinos que lhe ficaram, do que até agora fêz em suas terras. E prin- cípio disto se vê já em alguns de seus criados que nestes mesmos dias em Osaca se fizeram cristãos, dizendo que, por experiência, viam já o que podiam e valiam os Camis e Fotoques. E também o padre que está em Iamangúchi, onde agora se recolhe tôda a gente principal de Moridono, com ser dantes ali tão perseguido, depois da caída dêste rei é coisa maravilhosa ver as carícias e gasalhados que os seus lhe fazem. Saxadono, tio seu, que por êle governa aquêles reinos, lhe fêz também grandíssimos favores dizendo-lhe, quando agora veio de novo, que folgava muito de o achar ali, e que sempre lhe acudiria em todo o necessário. Também no reino de Bijém que está junto do Meaco, onde com a perdição e morte de El-Rei Bijeno, seu senhor, padeceu muito aquela cristandade, se vai agora abrindo uma boa porta para se conservar a já feita, e se fazer outra de novo; porque Daifuçama deu aquele reino a Quingodono que tem mui*tos cris-*Pig-2 tãos principais em sua côrte, com os quais se conservarão os que ali ficaram, e farão outros. E agora tomou em seu serviço a Dom João Amacusadono que, dias há, estava desterrado, e lhe deu renda com que se pudesse sustentar a si e a oitenta criados seus. A outros cristãos nobres do mesmo reino de Bijém, e que nesta guerra seguiram as partes de Daifuçama, deu o mesmo Daifuçama estado no reino de Mimazaca, que continua com Bijém, fazendo que militassem debaixo da bandeira de Quingodono. Além disto foi de grande momento e consolação para os cristãos e padres^ verem as mercês que Nosso Senhor fez a Dom Simeao Cambiogedono, rei que foi de Bijém; porque determinando-se êle desde o princípio desta guerra (como atrás se disse) seguir a Daifuçama, e aparelhando-se para ela com uma confissão geral de tôda sua vida, ajuntou tôda a sua gente que foi muita, e juntamente com seu irmão Sogedono, fino cristão, levantou suas bandeiras com a cruz de Cristo e entrou pelo reino de Bungo a fazer guerra aos que ali estavam por parte dos governadores; onde, pela virtude do sacrossanto sinal que levava, alcançou as vitórias que atrás se disseram; e acudiu a mui bom tempo a diversas coisas que redundaram em grande bem da cristandade e de nossos padres. Porque, primeiramente comunicando seu intento com os reis de Arima e Omura, os trouxe a que também seguissem as partes de Daifuçama, que foi um grande bem seu e de tôda a mais cristandade de Japão; porque, seguindo êstes senhores cristãos a Daifuçama, alem de conservarem seus estados, encobri- ram também a desgraça que houve na resolução de Dom Agostinho contra êle, para que a não imputassem aos padres nem à cristandade. Afora isto, acudiu também Dom Simeão e seu irmão com grande fortaleza a Corume, no reino de Chicungo, a salvar os padres e a Dona Maxência com seus filhos, da maneira que já * se disse, e depois tomou à sua conta a soltura dos padres que estavam • Pá«- presos em Uto, não descansando até que os livrou, como abaixo se dirá. E por êste senhor ser pessoa de tanta autoridade em tôdas estas partes do
  • i6o Das coisas do Japão Ximo e na côrte de Daifuçama, foi grande honra para a cristandade declarar-se êle por cristão tão abertamente, que pôs em suas bandeiras a insígnia da cruz, e com ela alcançou tantas vitórias. Escreveu ao Padre Visitador, depois da morte de Dom Agostinho, que nao se desconsolasse pelo perder, porque êle se oferecia, em seu lugar, para em tudo tomar à sua conta a cristandade e aos padres; e ao Bispo Dom Luís escreveu também outra carta de muito amor e cortesia. » CAPÍTULO XLIV Da redução à fé de Dom Constantino, Rei de Bungo JÁ que tratámos dos bons sucessos de El-Rei Simeão Cambiogedono, não é bem que passemos por um de muita consolação, que entre os outros se pode contar, que foi a redução à fé, de Dom Constantino, Rei de Bungo, a quem êle na batalha prendeu, porque era contra Daifuçama; e por êste ser um caso de muita edificação, o referiremos mais largamente. Foi êste Dom Cons- tantino, filho do bom Rei Francisco de Bungo, que Deus tem em sua glória, o qual, vivendo ainda seu pai, se fêz cristão por persuasão e meio do mesmo Simeão Cambiogedono, que então era capitão de Taicoçama, e o foi socorrer em uma gueira; e como isto foi poucos meses antes da perseguição que Tai- coçama alevantou, nem houve tempo, depois de baptizado, para livremente ouvir os sermões e se ajudar de outros meios espirituais, pelo mêdo que teve do tirano, íoi enfraquecendo tanto na fé, que pouco depois retrocedeu e tornou 2*3. a adorar os Camis e Fotoques, dos quais sempre foi devoto, e mui*to mais nesta úllima jornada, pondo nêles tôda sua confiança para alcançar vitória e tornar a cobrar o reino de Bungo de que Taicoçama o privara oito anos antes, mandando-o desterrado para o Meaco. E por êste respeito, não deixou Cami nem Fotoque afamado em Japão, a quem não fizesse voto e de cujo templo não tomasse nómina, imagem ou coisas semelhantes, das quais encheu um saco de dois palmos em comprido e arrazoada largura, o qual trazia sobre as armas como tiracolo, parecendo-lhe que com êste saco havia de alcançar vitória. Porém nada disto lhe aproveitou para deixar de ser vencido e preso por Simeão Cambiogedono, o qual o mandou logo a Nasacava, cidade do reino de Bujém onde de ordinário residia, e ali lhe deu por cárcere uns aposentos em que o pôs com boa guarda de soldados, para depois o apresentar vivo a Daifuçama. Estando aqui, e sabendo-o o padre que naquêle reino residia, o foi logo a visitar, por sei seu conhecido antigo; e dando-lhe o pêsame de seus ruins sucessos, lhe lembrou por esta ocasião o tempo passado, e quão mal havia respondido ao benefício tão singular que Deus lhe fizera, em o trazer à sua fé, e quão desen- ganado devia de estar do pouco que podiam seus Camis e Fotoques, em quem tanto confiava; que por isso, o que agora lhe relevava, era fazer e haver-se como filho de tão bom pai, procurando de verdade a salvação de sua alma tornando ao grémio da Igreja, fora da qual se não podia salvar. ^Agradeceu êle muito êste conselho, dizendo ao padre que tinha muita razão, e que êle caía na conta e estava já bem desenganado de seus ídolos; e
  • Das coisas do Japão 161 portanto desejava logo tornar ao verdadeiro caminho da salvação. Mas, porque êle ouvira pouco das coisas de Deus, e disso que ouvira, estava já de todo esquecido, folgaria de tornar a ouvir de novo as prègações do catecismo. Pareceu isto bem ao padre, e logo ordenou que um irmão lhe fosse cada dia a * prègar; ouviu por espaço de uma semana com muita atenção, gastando «P*g. 254. nisto cada dia algumas horas, pôs suas dúvidas com cuja resposta sempre ficou satisfeito. No cabo da semana ficou totalmente confirmado na fé, e reconci- liando-se com a Igreja, determinou logo de se confessar geralmente de toda sua vida e como homem que mui de-pressa cuidava o haviam de matar. Prè- gou-lhe o irmão muito devagar da confissão; depois disso se confessou com grande dor de seus pecados, com muita luz e conhecimento de Nosso Senhor, e desejo de sua salvação; entregou logo uma grande bôlsa de brocado, cheia de suas falsas devoções, que logo foi entregue ao fogo. Finalmente ficou o padre consolado e maravilhado e dando muitas graças a Nosso Senhor de ver tal mudança em um homem que tão viradas trazia as costas a Deus. Acabando-se de confessar, veio recado de Daifuçama que, com tôda a presa e a bom recado, lho mandassem logo. Cuidaram todos que seria para o man- dar justiçar, e por isso lhe foram dar a nova com muitos rodeios e preâmbulos, para que a tomasse bem e sem torvação de sua alma; mas êle estava com tão bom aparelho, que não foi necessário consolá-lo nem animá-lo, porque respondeu que, já que tornara a achar a Deus e se confessara com tanta consolação e satisfação de sua alma, não sòmente não sentia a morte, mas antes a desejava; porque, como tinha ruim inclinação e maus hábitos de diversos vícios, e de sua natureza era muito mudável, temia tornar a cair nêles, se vivesse mais. E pode ser (dizia) que me tome a morte em tal tempo e lugar, que não tenha padre para me confessar outra vez; pelo que, já que agora me vejo limpo dos pecados por via da confissão, e fora de ocasiões, desejo morrer logo, para me não embaraçar outra vez em meus vícios. E acrescentou dizendo que não tivessem compaixão dêle nem tomassem pena alguma, porque êle * nenhuma sentia, antes .Pág.255. muita consolação. E assim, com êste aparelho e ânimo se foi para o Meaco; e foi Nosso Senhor servido que Daifuçama lhe perdoou a vida, desterrando-o para um lugar perto do Meaco, onde ora fica perseverando em seus bons propósitos, os quais Deus lhe deu por meio da tribulação. E pode-se crer piamente que El-Rei Francisco, seu pai, com sua intercessão lá no céu onde está, alcançou de Nosso Senhor para êste filho seu esta tão copiosa graça com que se reduzisse e aborrecesse as superstições gentílicas que antes tanto amava, coisa que muito consolou a todos os cristãos, e principalmente aos padres que conheciam sua perversa vida, vendo-o agora trocado em tão bons desejos de sua salvação. 31
  • 162 Das coisas do Japão CAPÍTULO XLV Do bom sucesso em que Nosso Senhor converteu os trabalhos da cristandade do reino de Fingo O Pai das misericórdias, e Deus de tôda a consolação, que nunca se esquece de consolar os seus em tôdas suas tribulações, quis também consolar aos cristãos do reino de Fingo, vassalos e criados que foram de Dom Agostinho, e aos padres e irmãos que em Uto estavam presos. Porque parecendo humanamente que não poderiam deixar aqueles cristãos de ficarem todos perdidos e postos por portas, foi todavia servido Deus Nosso Senhor de • Pig.256.com sua paternal providên*cia os consolar e aliviar. Porque vendo Canzuge- dono(i) no tempo que os tinha cercados, quão fiel e valorosamente pelejavam por seu senhor ausente, e ainda depois de morto; e tendo certas esperanças que Daifuçama lhe havia de dar aquele estado, viu que não podia ter gente valorosa nem mais leal que aqueles mesmos, em quem tanta lealdade e valor experimentara. Pelo que, esquecido dos danos que no tempo do cerco recebera com morte de tanta gente sua, os tomou a todos em seu serviço; e louvando sua lealdade e valentia, lhes deixou a mesma renda que tinham, acrescentando-a ainda aos que mais constantes e esforçados se mostraram contra êle mesmo. E entendendo que a principal coisa com que os podia ter contentes e quietos, era deixá-los viver como cristãos, assim o fêz; de modo que, todos os que esta- vam primeiro em suas terras como escondidos, vivendo com algum temor e receio, agora de todo se descobriram e manifestaram por cristãos. E o mesmo Canzugedono tratando com os principais criados cristãos, que foram de Dom Agos- tinho, por diversas vezes, das coisas de nossa santa fé e do modo de viver dos padres e de como procediam no tempo do cêrco, veio pouco a pouco a cair na conta, e a depôr a paixão que contra êles tinha, concebendo outra opinião mui diferente, e entendendo também que a união e fidelidade que neste caso guar- daram os criados de Dom Agostinho, foi por serem cristãos; pelo que, píiblica- mente disse aos seus que bem longe estavam êles e todos os mais gentios de guardar tanta lealdade e união entre si, não estando seu senhor presente, como tiveram os criados e fidalgos de Dom Agostinho no tempo do cêrco. Ajudou para isto também muito que, mandando alguns governadores pelas ilhas de Amacusa e Xequi, e vendo êstes que todos os moradores delas eram cristãos, informando-se do que faziam os padres e de seu modo de proceder, e tratando com alguns irmãos e dógicos que nelas ficaram, vieram a entender •Pág.257. quão proveitosos eram os nossos naquelas terras, e que * os cristãos se não poderiam conservar nelas nem viver contentes e sujeitos a seu senhor, se os não tivessem consigo e os deixassem viver conforme à sua lei. E depois que tor- nados deram disto conta a Canzugedono e aos de seu conselho, êles se trocaram todos de maneira que, onde antes lhes tinham tanto ódio, já se começava a ver neles muita afeição aos padres, e lhes mandaram logo dizer que tornassem a (1) Nt.: Cambiogedono, pluries.
  • Das coisas do Japão 163 visitar aos cristãos, e que fizessem mui embora e livremente sua festa do Nas- cimento, que estava já mui perto. E quanto à liberdade e soltura dos nossos, que estavam presos, posto que Canzugedono no princípio esteve tão áspero e indignado contra eles, depois todavia, parte pela informação tão boa que dêles tinha, parte pela afeição e amor que cobrou à cristandade de El-Rei Simeão Cambiogedono que com suas cartas por diversas vezes tratou com êle sôbre tudo isto, se foi abrandando cada vez mais, até que de todo se concluiu esta amizade pelo irmão Martinho, um dos quatro que foram a Roma, a quem o Padre Visitador mandou ao mesmo Canzugedono para de sua parte o visitar e também lhe apresentar certos pontos e capítulos, nos quais primeiramente lhe dava informação de nosso modo e do fim para que viemos a Japão; segundàriamente, que desejávamos ter amizade com todos os senhores japões, como homens que somos estrangeiros, e como depois da vinda do Padre Visitador a esta terra se procurou sempre mui par- ticularmente ter com êle esta amizade, mandando para isto por vezes alguns irmãos a suas terras; mas porque, pela quebra e discórdia que havia entre êle e Dom Agostinho, nunca puderam ter com êle entrada. Finalmente lhe dava conta das muitas e justas razões, pelas quais não pareceu tratarem os padres com os da fortaleza de Uto para que lha entregassem; justificando muito bem todas estas causas e pedindo-lhe, que, pois os padres nunca contra êle comete- ram culpa alguma, os quisesse soltar e favorecer daqui por diante em suas terras, pois nelas havia tanta cristandade. * Deu o irmão estas e outras informações a um grande privado seu, o qual*P
  • 164 Das coisas do Japão está, e não houve tempo para tratar com êle da estada dos padres em suas terias (porque, conforme ao estilo de Japão, não se costuma tratar de seme- •Pâg. 259. lhantes negócios da primeira vez), espera*mos que com sua vinda se conclua isto, principalmente se Daifuçama lhe der as terras que foram de Dom Agos- tinho, como êle dizia. E porque êle foi em companhia dos reis Dom Simeão e Dom Protdsio, de Arima e Dom Sancho, de Omura, os quais também todos foram tratar de seus despachos, esperamos que ficando com as terras de Fingo e fazendo-se cristão, nos dará Nosso Senhor nele outro Dom Agostinho. Este é o estado em o qual ficava Japão até os vinte e cinco de Fevereiro do ano de 601. Fim da Relação anual das coisas da índia e Japão dos anos de 600 e 601. Feita pelo Padre Fernão Guerreiro, natural de Almodôvar, da Companhia de JESUS.
  • RELAÇÃO ANUAL DAS COISAS QUE FIZERAM OS PADRES DA COM- panhia de JESUS nas partes da índia Oriental, e no Brasil, Angola, Cabo-Verde, Guiné, nos anos de seiscentos e dois e seiscentos e três, e do pro- cesso da conversão e cristandade daquelas par- tes, tirada das cartas dos mesmos padres, que de lá vieram. Pelo Padre Fernão Guerreiro da mesma Companhia, natural de Almodôvar de Portugal. 1 Vai dividido em quatro livros. O primeiro de Japão. O II da China e Maluco. O III da índia. O IV do Brasil, Angola e Guiné. TEm Lisboa: Por Jorge Rodrigues im- pressor de livros. Ano MDCV.
  • APROVAÇÃO íi Esta Relação anual das coisas, que fi\er am os padres da Companhia de JESUS nas partes da índia Oriental, Brasil, Angola, Cabo-Verde, Guiné, posta em ordem pelo Padre Fernão Guerreiro, pregador da mesma Companhia, não tem coisa contra nossa santa fé e bons costumes, antes muitas em seu aumento, mui dignas de se publicarem para edificação dos fiéis, e vir a notícia de todos quão glorioso seja Deus em seus servos e nesta sagrada religião, pelo que a julgo por mui digna de se imprimir. Em Lisboa, em São Francisco de Enxobregas, a / / de Dezembro de 604. Frei Luís dos Anjos. LICENÇAS Vista a informação, pode-se imprimir esta Relação anual, e depois de impressa torne a êste Conselho para se conferir com o original, e dar licença para correr, e sem ela não correrá. Em Lisboa, a 14 de Dezembro de Õ04. Marcos Teixeira. Rui Pires da Veiga. Vista a Licença, pode-se imprimir. A 29 de Julho de 6o5. Saraiva.
  • AO LEITOR OR não faltarmos à consolação e pios desejos de tantos fiéis assim deste nosso reino de Portugal como de Castela e de outros mais remotos, que com tanto afecto desejam e pedem a relação das coisas que nas partes do Oriente e das mais conquistas deste reino sucedem na conversão da gentilidade, com a mor diligência que pudemos, ajuntámos das cartas que nossos padres de tôdas aquelas partes escreveram, as coisas que mor gôsto e edificação podiam dar aos amigos e devotos do bem comum das almas e aumento da Igreja. E porque, por razão da vária distância dos lugares e reinos do Oriente, as cartas que deles veem, não podem ser sempre do mesmo ano, e as que são das mais remotas partes, como do Japão e Cliina, Maluco, tarda- rem mais em chegar que as da índia, Brasil, Angola e Guiné, é necessário irmos na relação destas coisas pela ordem das mais antigas. E por isso nesta presente, como temos coisas dos anos de 6o i e 602 que são as de Japão e China e Maluco e de 6o3, coroo são as da índia, Etiópia e Brasil, começaremos a história pelo Japão, parte mais remota e oriental da índia, e daí viremos á China e depois a Maluco, Pegu, Bengala, Mogor, índia, Brasil e Guiné, e con- fiamos que a variedade das coisas que nesta relação se acharem, será de tanto gôsto e edificação para os que as lerem, que os provoquem a louvarem e glo- rificarem muito a Nosso Senhor, que é o fim que desta história sòmente preten- demos, e o prémio que pelo trabalho dela só queiemos.
  • 'LIVRO PRIMEIRO • Fl. i. DAS COISAS DE JAPÃO DO ANO DE óoi E 602 / CAPÍTULO PRIMEIRO Do estado em geral das coisas do Japão, assim no temporal como no espiritual ESTADO temporal daqueles reinos, nestes dois anos de 6oi e 602, depois daquela grande vitória que Daifuçama teve do exército dos governadores, sempre foi de paz; porque, como êle ficou absoluto senhor de todo o Japão e não teve quem se lhe opusesse, mais que da parte oriental os dois senhores Cangecasu e Sataque, e da parte ocidental El-Rei de Satçuma, com este fêz paz, ainda que pouco firme; com os dois se houve com tanto artifício, que os fêz vir à corte com boas palavras, onde lhes tomou seus esta- dos, dando-lhes pouco mais de nada em comparação do que tinham. Quanto ao estado espiritual da Igreja e cristandade, estão nestes reinos ao presente * cento • fi. i t. e vinte nove religiosos da Companhia, afora os colegiais dos seminários, que em Japão se chamam dógicos, os quais aprendendo letras ajudam juntamente os padres na conversão dos gentios e serviço das igrejas, e se vão criando para ministros delas, que serão por todos perto de trezentos, e estão à conta da Companhia, como se foram dela. O fruto que estes dois anos se colheu em Japão na cultivação e conservação dos cristãos já feitos, foi muito grande. Na conversão dos gentios não foi tanto como nos anos passados, porque não passa- ram de nove mil pessoas as que se baptizaram, mas algumas foram de muita qualidade, como adiante se dirá. E a razão foi, porque, ainda que no estado temporal do império houve paz, não deixaram porém os padres e a cristandade de se verem em mui grandes perigos e trabalhos ordenados por seus ini- migos, nem deixou de haver em alguns reinos particulares mui grande per- seguição contra os cristãos. E o que mais estorvou a conversão, foi o grande número de religiosos de diversas religiões, que êste ano veio das Filipinas a estes reinos, por cujo respeito Daifuçama tornou a renovar a proibição que o ano atrás fizera, que não se fizessem cristãos em Japão, do qual já estava quási esquecido. Mas como êle e os mais senhores gentios de Japão teem grande suspeita e desconfiança daquelas partes das Filipinas pelo que os anos passados, reinando Taicó, disse um piloto do galeão São Filipe, que nesta costa se perdeu, vindo 22
  • Das coisas do Japão das mesmas Filipinas, que o modo que os espanhóis tinham para conquistar os reinos estranhos, era mandarem diante frades e outros religiosos a prègar nossa lei e fazer cristãos, e então, depois de feitos, virem com gente de guerra e, ajuntando-se com os mesmos cristãos naturais, fazerem-se senhores das terras. Tanto lhes imprimiu isto, que esta foi a causa principal, porque logo então o tirano Taicó mandou matar os religiosos de São Francisco, que estavam em Japão, e alguns de nossa Companhia, e levantou tão cruel perseguição contra a cristandade, derrubando-lhe as igrejas e desterrando os padres. E agora Dai- • fi. 2. fuçama * vendo os que de novo vieram neste ano de 602, se alterou grande- mente e tornou a mandar que se não pregasse a lei de Cristo nem se fizessem mais cristãos; por onde foi necessário aos padres encolherem-se e dissimularem por-ora o fervor da conversão, por lhe não darem ocasião para outra persegui- ção, como a que alevantou seu antecessor. E para que comecemos pelos vários trabalhos e perigos em que a cristan- dade se viu no ano 601, a ocasião deles foi um gentio poderoso e privado de Daifuçama, governador da cidade de Nangasáqui desde o tempo de Taicó, chamado Ximandono, e que sempre se mostrou particular adversário dos cris- tãos. Este, pois, mandando-o Daifuçama que fôsse fazer guerra ao rei de Satçuma, com o qual ainda não estava de acordo, ordenou que debaixo de sua bandeira e sujeitos a êle fossem os dois senhores cristãos dêstes reinos debaixo, Arimandono c Omurandono, o que êles sentiram tanto, que entraram em consideração de o não sofrerem. Porém, vendo por outra parte os inconve- nientes que daqui se seguiriam para a cristandade, e o risco a que punham a si e a seus estados, sujeitando-se ao conselho dos padres se acomodaram ao tempo. Mas não deixou o gentio Ximandono de se aproveitar desta ocasião para intentar uma coisa que houvera de ser assolação de toda aquela cristandade; esta foi que mandando Daifuçama cessar a guerra, pelos concertos de paz que fazia com Satçuma, indo-se êle e todos os mais senhores à corte a requerer seu despacho, êle, pela entrada e valia que tinha com Daifuçama, lhe pediu que em satisfação de seus serviços, lhe desse o estado de Omura, vizinho a Nangasáqui, assim por lhe vir mui a propósito a seu govêrno, como por estar também vizinho a seu próprio estado de que êle é senhor, e que em recompensa disto se dessem a Dom Sancho as ilhas de Amacusa. E com tal diligência e eficácia tratou este negócio, que o alcançou de Daifuçama como desejava; de modo que não lhe faltava mais que fazerem-se as patentes, das quais tinha promessa que em muito poucos dias lhas meteriam na mão. Foi Nosso Senhor servido que nesta conjunção se achou na côrte o Padre • fi. 2 v. João Roiz de nossa Companhia, singular língua de * Japão e bem versado nos negócios, o qual tendo notícia do que passava, avisou logo a Dom Protásio e a Dom Sancho que, como primos que são e tão unidos e amigos, ficaram muito sobressalteados vendo 0 perigo que nisto se lhes armava, pois perdendo um o estado, o outro não ficava seguro, pelo que se resolveram de fazer todo o pos- sível para que a tal concessão não tivesse efeito, ainda que, estando ela em tais termos, parecia impossível desfazê-la. A dor, tristeza e tribulação que tal nova como esta causou em Omura, assim nos cristãos como nos padres, não se pode facilmente declarar, porque, como esta cristandade é tão antiga e estava tão
  • Das coisas do Japão cultivada, era (i) certo com esta mudança se haver tôda de destruir, pois, con- forme ao costume de Japão, todos os principais fidalgos e gente nobre se haviam de mudar com seu senhor; e o mais povo, como havia de ficar sujeito a senhores gentios e inimigos da lei de Deus, não podiam deixar de padecer gi andes perse- guições e se verem em grandes perigos da fe; já os padres e mais ciistãos em Nangasáqui, entregando se esta cidade a um senhor gentio e a seus cortesãos da mesma seita, ficava certo haverem de ser tão oprimidos e atribulados deles, que escassamente poderiam respirar. Mas os bons príncipes Dom Protásio e Dom Sancho se houveram neste negócio com tal destreza, especialmente Dom Protásio que é mui prudente e tem muitos amigos na corte, e Deus os favoreceu de modo que no cabo de três meses que sôbre isto andaram, foram êles e os padres e tôda a cristandade livres desta aflição; porque, vendo Daifuçama as razões e inconvenientes que estes senhores lhe propuseram, não somente confirmou a Dom Sancho em Omura, mas tirando ambos estes senhores e isentando-os de militarem debaixo da ban- deira de Ximandono, com muita honra sua os fêz imediatos a si, e os acres- centou em maior dignidade e título do que antes tinham, e tomou para seu serviço o filho morgado de Dom Protásio e um irmão de Dom Sancho, e a Ximandono deu as ilhas de Amacusa; o qual por isto ficou tão afrontado, que claramente * se descobriu por inimigo de Arima e Omura, e ficou sentidíssimo *Fl- 3" de não efeituar o que cuidava que já tinha na mao, e de ver ficar pelo contrátio tão avantajados em honra a seus competidores. Por onde determinou maquinar outra nova calúnia, pela qual a êles e à cristandade e aos padres destruísse de todo. E passou a coisa desta maneira. CAPÍTULO II Prossegue noutras calúnias de Ximandono, e como emjim se i econciliou com os padres PELA ocasião da guerra passada que Daifuçama teve com os governa- dores, ficou tão indignado contra Dom Agostinho que Deus haja, porque fora a principal cabeça da guerra contra êle, que depois de o ter man- dado degolar, ainda muitas vezes se queixava dêle, porque tanto a peito tomara o fazer-se seu contrário, procurando êle sempre por outra parte sua arruzade, e tendo-lhe prometido uma sua neta para mulher de seu filho; e como não falta- vam alguns que com falsas acusações o atiçavam nesta paixão, soltou por algu- mas vezes palavras de cólera contra a cristandade e lei de Deus, e ainda que depois da vitória quando tornou a Osaca, indo-o visitar o Padre Organtino e alguns nossos, os recebeu e tratou com humanidade e familiaridade, e lhes passou patentes para que pudessem residir e ter casa em Meaco, Osaca e Nangasáqui, contudo levado da paixão e desgosto passado se alterou tanto, que entre outras coisas que com cólera algumas vezes disse, foi uma que Dom Agos- (i) Nt.: Estava.
  • 172 Das coisas do Japão tinho por não fazer caso, como cristão que era, dos Camis e Fotoques, se levantara contra êle, quebrantando o juramento que lhe tinha feito, e que por- tanto a lei dos cristãos era prejudicial para o Japão, e como tal com muita razão • fi. 3v. fora * proibida de Taicoçama seu antecessor, posto que na execução desta proibição fôra remisso e descuidado, de modo que alguns senhores por isto vieram a fazer muitos cristãos em seu estado, o que era coisa digna de grande castigo, pelo que êle estava já resoluto a renovar a dita proibição, e que por isso tinha mandado que (tirando em Meaco e Nangasáqui onde, por amor dos portugueses, dera licença que os padres pudessem residir), em nenhuma outra parte houvesse cristãos nem padres da Companhia; e que, se os padres se não tornassem logo para suas terras, os mandaria crucificar, e teria por rebeldes e como tais castigaria a todos os senhores japões que nisto lhe não quisessem obedecer. Estas palavras assim tão resolutas em um momento se espalharam logo por várias partes e causaram grande assombramento aos senhores cristãos, os quais escreveram logo tudo aos seus e ao Padre Visitador da nossa Compa- nhia e ao Bispo. Muitos senhores gentios que nos favoreciam, assombrados com isto se retiraram. E em suma a tôda a cristandade de Japão causou isto grão terror parecendo-lhe que já se viam noutra nova e mais cruel perseguição que a passada. Pelo que assim os padres como todos os mais cristãos come- çaram a recorrer a Deus, procurando aplacar sua divina Majestade com muitas missas, disciplinas, orações e outras santas obras de penitência, até que fôsse servido de os livrar de tão grave e iminente perigo. Por outra parte não dormia Ximandono, nosso cruel inimigo, o qual vendo a conjunção do tempo que êle tanto pudera desejar, não na quis deixar passar. Acusou a Dom Protásio e a Dom Sancho diante de Daifuçama, por serem cris- tãos e que, não se contentando de levantarem muitas igrejas em seus estados, tinham também nelas muitos padres contra a proibição de Taicoçama, ajuntando mais outras coisas que quis. E vindo uma ocasião que estando um dia nesta conjunção Daifuçama praticando com alguns senhores, entre os quais estava êste Ximandono, tornou a dizer o mesmo Daifuçama que era informado que »fi. 4. alguns não faziam caso do edito de Taicoçama * seu antecessor, tendo contra êle padres e igrejas em suas terras (e especialmente Arimandono e Omurandono) e que por isso mandava que todas fôssem postas por terra, e só dava licença aos padres para estarem em Nangasáqui; e virando-se para Ximandono lhe encomendou que com tôda a diligência executasse êste mandato. Por onde êle logo escreveu ao Padre Visitador uma soberba carta, deitando-lhe em rosto quantas vezes brandamente lhe tinha encomendado que os padres, segundo o edito de Taicoçama, não estivessem em outra parte que em Nangasáqui; mas, pois não bastara uma tal lembrança de amigo, agora lhe mandava que logo sem nenhuma dilação fizesse ajuntar naquele pôrto todos os padres, porque assim o queria Daifuçama, conforme a ordem de seu antecessor. Acharam-se neste mesmo tempo na côrte, ordenando-o assim a divina Pro- vidência, Dom Protásio e Dom Sancho, os quais entendendo o que passava, ao princípio se turbaram grandemente, como quem bem via que cometendo-se a dita execução a um tão grande inimigo seu e 'da cristandade, a havia de efei- tuar com grande irreverência e desacato das igrejas de Deus, e que êles, além
  • Das coisas do Japão i?3 de perderem sua honra, se haviam de ver em perigo de serem privados não somente dos reinos mas da mesma vida, parecendo-lhes que esta perseguição não havia de parar sòmente na ruína e destruição das igrejas, mas ir mais àvante até chegar às pessoas e derramar o sangue dos fiéis. Porém logo cobrando mais ânimo e esforço, como verdadeiros católicos se resolveram de procurarem com tôda a eficácia, ou a revogação deste mandato ou nesta con- tenda perderem as vidas. E principalmente Dom Protásio por ser de natureza magnânimo, e neste tempo de tanto perigo confiado em Deus, por meio de alguns amigos seus e privados de Daifuçama lhe mandou clara e resolutamente dizer que êle e Dom Sancho desde meninos eram cristãos, como também o foram seus pais, e que da mesma maneira o eram seus vassalos de ambos, ainda antes da proibição de Taicoçama, nem podiam por coisa alguma da vida deixar de o ser, e * que por isso, não sòmente recebiam ambos grande »fi.4V. pena e aflição por Sua Alteza dar a Ximandono, seu inimigo declarado, o cargo de arruinar as igrejas de Arima e Omura, mas que isto era em efeito tirar-lhes o crédito e desonrá-los, de modo que melhor lhe era tirar-lhes a ambos a vida. Mas porque era necessário esperar boa conjunção, para que isto se pro- pusesse a Daifuçama e êle o ouvisse bem, e se tinha por coisa quási impossível que a ordem dada diante de tantos senhores a Ximandono se revogasse, e que entre tanto o mesmo Ximandono não deixaria de a dar à execução, com tôda a pressa escreveram Dom Protásio e Dom Sancho logo ao Bispo e ao Padre Visi- tador da Companhia tudo o que passava na corte, e juntamente que lhes parecia melhor a ambos, já que Daifuçama tinha determinado que se derrubassem as igrejas, que isto se fizesse antes por ordem sua dos mesmos, Bispo e Padre Visi- tador, que por execução de Ximandono, pois êste o não deixaria de fazer sem se seguir daí grande desprêzo das igrejas, dano e injúria dos cristãos, como se vira na vez passada; e fazendo-se pelas mãos dos seus vassalos cristãos, cessa- riam todos êstes inconvenientes e poderiam ficar ainda algumas igrejas de tal maneira acomodadas no exterior, que não seriam julgadas por tais; e finalmente que não teria ocasião Ximandono de referir a Daifuçama o número das igrejas nem de o provocar de novo a indignação contra os cristãos, quando lhe desse relação da execução que tinha feito. Estas cartas mandaram êstes senhores com grande pressa, a chegada das quais causou em todos grande sentimento e perturbação pelas tristes novas que levavam, que não se via outra coisa em todas aquelas terras senão pura tristeza e chôro, imaginando todos havercm-se de ver logo em uma perseguição mui mais fera que a passada. E crescendo, como costuma, a fama do mal com as várias novas que vinham e se espalhavam por todo o estado de Arima e Omura, crescia também em todos a tristeza e aflição. Assinalaram finalmente o dia para darem prin- cípio ao desfazer das igrejas, e avisados os * padres que estavam pelas resi- dências, e dado pelos governadores da terra o cargo desta execução a vários cristãos, eis que ordena a divina Providência (a qual sabe mui bem acudir às coisas que ao juízo humano parecem sem remédio, e permite semelhantes tribu- lações para maior fruto e prova de seus escolhidos) que passados três ou quatro dias depois do decreto de Daifuçama, aqueles amigos e senhores que tinham
  • »74 Das coisas do Japão tomado à sua conta a protecção de Arima e Omura, acharam tempo oportuno para falarem a Daifuçama. E verdadeiramente foi julgada por coisa maravilhosa atreverem-se estes senhores a tentar uma coisa tanto contra o costume de Japão, e que Daifuçama desse orelhas de modo a esta intercessão, que os que interce- diam lhe fizessem mudar de parecer e revogar outra vez quanto tinha orde- nado; porque, no mesmo ponto que ouviu o desgosto e pena que Dom Pro- tásio e Dom Sancho recebiam pela resolução que êle tinha tomado, movido a compaixão deles, perguntou se realmente êles sentiam tanto como lhe diziam, o desfazerem-se as igrejas: e respondendo-lhe que o sentiam como a própria morte, tornou a perguntar se se alegrariam êles e estimariam dar-lhes êle licença para viverem cristãos e terem em seus estados igrejas; responderam-lhe que tanto ou mais que se Sua Alteza lhes concedera qualquer estado de Japão, de modo que com esta mercê se haveriam por mui bem pagos de quantos serviços lhe tinham feito. Dizei-lhes logo (ajuntou Daifuçama) de minha parte que eu lhes dou licença para que com todos seus súbditos vivam livremente conforme a sua lei c que tenham em seus estados as igrejas que quiserem. Com esta resposta, saindo fora aqueles senhores mais que de passo, se foram logo a Dom Protásio, o qual com tão boa nova se alegrou incrivelmente e com todos os de sua casa deu grandes graças a Nosso Senhor que em tão grande extremo de necessidade e perigo lhes não faltara. E no mesmo ponto despediu um correio ao Padre Visitador, o qual caminhando de dia e de noite (porque foi ameaçado de Dom Protásio que o havia de desterrar, se não chegava • fi.5. r. a Arima * antes de uma só igreja ser desfeita), de Osaca chegou a Arima em sete ou oito dias, sendo o caminho de mais de quinze. E para que em tudo isto se visse claramente a divina Providência, e a alegria de todos fôsse maior, ordenou Deus que o dito correio chegasse no mesmo dia que estava determinado para se desfazerem as igrejas e quando já a gente estava junta e começava a destelhar o tecto da igreja de Arima. Por onde foi tão grande o júbilo com que o mensageiro entrou publicando a alta voz a feliz nova que levava, que em brevíssimo espaço se espalhou por todo o estado de Arima; e assim com isto todas as igrejas ficaram em pé, ainda que no de Omura, por chegar a nova lá um pouco mais tarde, estavam já quatro desfeitas. De todas as partes, pela grande alegria e contentamento que recebiam os cristãos, concorriam à igreja a dar graças a Nosso Senhor e uns aos outros os parabéns, e tanta era a festa que faziam, que pareciam andar fora de si; nem eram menos as lágrimas que agora derramavam pela alegria que tinham, que as que pouco antes pela tristeza passada. E aqui aconteceu uma coisa notável, e foi esta. Dona Justa, mulher de Dom Protásio e senhora mui virtuosa, ainda que não há mais de dois anos que se converteu, e mui devota cristã, sentiu tão grandemente haverem-se de der- rubar as igrejas, que vendo não haver outro remédio humano se socorreu ao divino. E assim, ordenando por si mesma que em sua casa suas mulheres fizessem a oração de quarenta horas, ela quis ser a primeira que a começou, para animar e dar exemplo às outras, pedindo a Nosso Senhor com mui grande eficácia fôsse servido dar remédio a tão grande mal; e representando a Deus que, pois havia tão pouco que se tinha feito cristã e ouvira dizer por vezes que
  • Das coisas do Japão i75 costumava sua divina Majestade acudir aos seus no tempo das maiores tribu- lações, fosse servido acudir-lhe nesta que para ela era a maior que podia haver, para que seus parentes gentios lá na corte de Meaco, onde estavam, não disses- sem que era isto castigo dos Fotoques, por ela se ter baptizado. Estando desta maneira orando, adormeceu de cansaço e de tristeza. Em este ponto chegaram da côrte os dois criados de Arimandono * com as boas novas, e com o rebuliço *FI-6- e alvoroço da gente espertou perguntando o que era, e contando-lhe os criados o que passava, tanto mais de coração deu graças a Deus por lhe ter ouvido suas orações, quanto maior fõra o afecto com que lhe tinha pedido tão grande mercê. A Dom Protásio e Dom Sancho, quando foram dar as graças a Daifuçama e pedir-lhe licença para se tornarem para seus estados, tornou o mesmo Daifuçama a confirmar pessoalmente o que lhes tinha mandado dizer, e lhes concedeu também mui graciosamente a licença que lhe pediam. Escassamente eram acabados êstes trabalhos, quando o mesmo Ximandono tornou a levantar na mesma côrte outra tempestade contra os padres. Esta foi que mandando êle um criado seu a Nangasáqui para comprar aos portu- gueses, no tempo que aí estava a nau, certas coisas que Daifuçama desejava, com ordem que nisto se ajudasse do Padre João Roiz de nossa Companhia, intérprete que é do senhor da Tença nas coisas que trata com os portugueses, o bom criado, depois de comprar algumas coisas de pouco momento, todo o mais negociou por si mesmo, sem fazer caso algum do padie. E tornando depois a Daifuçama, dando-lhe conta da receita e despesa, e apresentando-lhe as coisas que comprara, ficou Daifuçama mui pouco satisfeito da sorte da roupa e do preço por que foi comprada, e achando muita falta no peso e na quali- dade, e que no preço fôra mais cara do que a que compraram todos os outros mercadores, se alterou muito. Mas o bom criado querendo-se escusar e atribuir tôda a culpa a outrem (como o costumam a fazer semelhantes pessoas), se espraiou grandemente contra os padres e contra os portugueses, levantando-Ihes que não faziam caso do senhor da Tença, nem tratavam de mais que de seu próprio interêsse, e que uns com os outros se entendiam. Com estas calúnias de tal maneira se alterou e indignou Daifuçama, e principalmente atiçado de novo por Ximandono, que tornou a dizer que por nenhum caso havia de con- sentir estarem os nossos em Japão, já que faziam tão pouco caso do que lhes êle encomendava, e que em todo o caso queria se tirassse a limpo como isto passara, e que achando-se culpa nos padres, a êles e aos portugueses castigaria como mereciam. * Não foi mui dificultoso saber-se a verdade, porque, afirmando-lhe alguns .fi.ôt. gentios amigos nossos que tôda a culpa fôra de Ximandono e de seu criado, e certificando-se depois mais nisto mesmo por outras informações que teve de várias pessoas, viu claramente a inocência dos padres e dos portugueses. Pelo que logo mandou chamar o Padre João Roiz e lhe disse que êle ficava muito satisfeito e acabava de conhecer a condição e verdade dos padres, e que dali por diante se fiaria sempre dêles como de pessoas de tanta inteireza e limpeza em tôdas suas coisas, e queria que nunca jamais Ximandono se entremetesse, nem intendesse no negócio da nau e dos padres, e assim passou uma patente, que os portugueses e padres fossem os imediatos agentes em suas coisas, que
  • 176 Das coisas do Japão não dependessem mais que dêle próprio. Com o que tôda a côrte ficou conhecendo a verdade do caso, e os seus governadores e oficiais se ofereceram a favorecer nossas coisas em tôda a ocasião que para isso houvesse, movidos particularmente pela modéstia com que o Padre João Roiz se houve, quando por ordem de Daifuçama e diante dêle mesmo foi perguntado da verdade do caso, porque de tal maneira desculpou os nossos e os portugueses, que nunca nele se enxergou sinal de querer culpar a homem nascido, desejando, como religioso, que de suas palavras se não pudesse ocasionar um mínimo detrimento a outrem, o qual todos os que estavam presentes mui bem enxergaram, por onde grandemente se edificaram e lhe ficaram afeiçoados. Por esta e por outras coisas passadas, não foi pouco o que perdeu Ximan- dono de crédito e reputação diante de Daifuçama; pelo que se partiu logo mui humilhado e confuso a tomar a posse das ilhas de Amacusa, escrevendo primeiro ao Padre Visitador que do sobredito caso e de outras coisas semelhantes dese- java de lhe dar inteira satisfação, mostrando que queria nossa amizade, e dali por diante ficar mui unido connosco. Mas entendendo-se claramente que êle -F1.7. mostrava êste desejo pelo temor que tinha de perder o governo de Nanga#sáqui (pela qual razão lhe importava muito ter os portugueses e padres da sua banda), o Padre Visitador, agradecendo-lhe sua boa vontade, não deixou perder a boa ocasião de lhe escrever alguns pontos principais, nos quais, tendo êle por vezes mostrado seu mau ânimo contra os padres e contra o santo Evangelho, dera bastante ocasião à Companhia para não se fiar de sua amizade nem esperar dêle bem algum, pois outras vezes, além desta, tinha dado a sua palavra de os querer favorecer, e com as obras o tinha feito tanto pelo con- trário, e pois sempre andava maquinando como os poderia desacreditar e fazer- -lhe todo o mal possível, acusando-os com tanta injustiça diante de Daifuçama e pondo-os a risco de sua total destruição. Tomou bem Ximandono a re- preensão, e respondeu a cada capítulo o melhor que pôde, concluindo que, vindo êle a Nangasáqui, trataria com sua Reverência de modo que os padres sem dúvida ficariam seus amigos. E assim, depois que foi tomar a posse das terras de Amacusa (entre as quais entraram também as de Xiqui, Canjura, Oiano, Sumoto) e viu que aquelas ilhas, por serem tôdas povoadas de cristãos, não se podiam manter em paz e sujeição sem padres, passados alguns dias se veio a Nangasáqui, onde tentou por tôdas as vias que pôde, que os nossos fôssem os que lhe pedissem, como por graça mui sinalada, que lhes desse licença para poderem residir nas ditas ilhas, para que desta maneira ficasse a cavalo, e os padres lhe ficassem debaixo da mão. Mas entendendo-lhe muito bem o Padre Visitador seu estratagema, e tratando com alguns de seus amigos intrínsecos, os quais mandados por êle fingiam que de si mesmos se moviam a propor ao padre o modo de que se havia de usar para alcançarem esta licença, agradecendo-lhes esta vontade que tinham de o ajudar e modo que davam para se tratar êste negócio, lhes respondia que por-ora não era necessário, porque êle estava resoluto a não mandar àquelas partes pessoa alguma da Companhia; porque, como os padres da Companhia não vinham a Japão por outro fim •F1.7Y. algum que para ajudar a salvação das almas (como até àquele ponto ti*nham feito nas ditas ilhas, não respeitando a trabalhos nem despesas, como êles
  • Das coisas do Japão 177 mesmos sabiam), estava certo que todo o trabalho nesta mudança de govêrno havia de ficar em vão para tal fim, e tanto mais, quanto havia muitos dias que tinham perdido a esperança de com Ximandono poder haver coisa boa: por- tanto, que ainda que êle folgaria de ter sempre por amigo a Ximandono, nunca porém jamais mandaria a suas ilhas padre algum, se primeiro não estivesse mais que certo que a Companhia poderia fazer nelas seu ofício para ajudar espiritual- mente àqueles cristãos. Com esta resposta ficavam os amigos de Ximandono mui confusos, vendo de todo cerrada a porta para seu desenho, e não sabendo que lhe responder em contrário, começaram a rogar ao padre que não quisesse fazer tal coisa, porque sabiam que Ximandono com muita cortesia, se lho êle pedisse, lhe concederia tudo quanto quisesse. Finalmente o padre lhes tapou a bôca com dizer que mais importava a Ximandono ter os nossos em suas terras^ que à Companhia; portanto que êle fizesse o que quisesse, porque de nossa parte êle padre estava resoluto de não lhe falar neste negócio uma só palavra. No seguinte dia Ximandono com palavras cheias do mor respeito que se pudera desejar, mandou dizer ao padre que êle confessava que até àquela hora se houvera muito mal connosco, e se mostrara mui pouco afeiçoado aos cristãos e à lei de Deus, por respeito da proibição de Taicoçama, porque, como êle era seu criado e lhe tinha muita obrigação, a razão lhe ditava que se havia de haver desta maneira, principalmente em tempo que os governadores faziam guardar as ordens que êle lhes tinha dado. Mas agora, arrependido do passado, desejava virar a folha e ser amicíssimo dos padres, e pelo tempo em diante fazer patente ao mundo que êle cumpriria com as obras o que agora prometia com palavras. E para confirmação disto, estava determinado de entregar na mão dos padres as suas ilhas, para que nelas com a mesma liberdade que no tempo de Dom Agos- tinho, atendessem à cultivação daqueles cristãos sem moléstia nem perturba*ção «fi.8. alguma; pelo que lhe pedia quisesse mandar alguns dos nossos àquelas ilhas. Com esta ocasião se quis também justificar do que lhe tinha acontecido com Arimandono e Omurandono, pedindo ao padre se quisesse pôr de permeio para o reconciliar com êles, porque desejava muito ser seu amigo. Respon- deu-lhe o Padre Visitador, agradecendo-lhe muito esta boa vontade significada com tais demonstrações que o faziam entrar em esperança de lhe cumprir tudo quanto prometia; e que os padres de muito boa vontade iriam a suas ilhas, se êle desse nelas tal ordem, que sem nenhum impedimento pudessem exercitar seus ministérios e com as condições seguintes: a primeira, que tôdas as casas e igrejas que havia nas ditas ilhas se restituíssem aos nossos, juntamente com licença para não somente se restaurarem as igrejas destruídas, mas também para se edificarem de novo tôdas as que se julgassem ser necessárias para bem da cristandade; a segunda, que tôdas as ditas igrejas seriam isentas de qualquer obrigação, serviço ou tributo, como o eram antes da guerra; a terceira, que os governadores e mais oficiais das ditas ilhas deixariam livremente fazer aos cristãos e padres tudo o que era obrigação de nossa santa lei, como também os nossos não se entremeteriam nas coisas do govêrno temporal, que a êles pertencia. Tôdas estas condições foram recebidas de Ximandono sem nenhuma contradição; e os padres foram logo àquelas ilhas, onde estão quietamente, e as condições se guardam com tôda pontualidade. a3
  • 178 Das coisas do Japão CAPÍTULO III Das coisas que passaram em Nangasáqui e suas residências NESTA cidade tem a Companhia a principal casa de todo o Japão. Assim nela como nas residências a ela anexas residem ao presente cincoenta e qua*tro religiosos, parte sacerdotes que intendem com a cristandade e com o próximo, parte irmãos que acudam à casa, e outros que continuam os estudos, e outros que são noviços e vivem numa casa separada e lugar acomodado para sua criação. Residem aqui também de ordinário o Bispo, e os superiores da Companhia, Visitador e Vice-Provincial; baptizaram-se, assim na cidade como no contorno dela e terras vizinhas, passante de duas mil almas. Foi de grande proveito, para esta gente crescer em devoção e piedade, a presença do Bispo, o qual, assim com o exemplo de sua vida como com os ministérios pontificais que a seu tempo exercita com a devida solenidade, dá grande autoridade às coisas de nossa santa fé entre estas novas plantas da cristandade, administrando êle por vezes o sacramento da Confirmação, que foi êste ano a mais de oito mil pessoas, e declarando-se em diversos sermões primeiro a importância dêle e a preparação que se requere para dignamente se receber. Era tanta a humildade e devoção com que os cristãos o recebiam, que o mesmo Bispo se edificava e maravilhava grandemente, afirmando muitas vezes que tendo administrado êste sacramento em diversas partes de Portugal e da índia, nunca jamais achara gente que com tanta devoção e reverência o recebesse. Singularmente se consolaram êstes cristãos com a missa pontifical que quinta feira de Endoenças a primeira vez disse nesta terra o mesmo Bispo, em que deu a comunhão de sua mão a mais de mil pessoas. E tal foi o concurso do povo, que por não caber na igreja, estava fora em tanta quantidade, que até as ruas que vinham dar no terreiro da igreja, estavam tão cheias, que se não podia passar por elas. Já, quando veio aquela sagrada cerimónia que conforme ao costume da Igreja naquele dia se usa, de lavar o Bispo os pés a doze pobres, as lágrimas e prantos foram tantos, que se não pode fàcilmente encarecer. Teem os japões tanta devoção de ver dizer missa solene ao Bispo, que, • fi. 9. por lhes satisfazer a ela e os consolar, é necessário * dizê-la muitas vezes publi- camente. Começou êste ano a introduzir aqui forma de clero, escolhendo para isso oito mancebos do seminário, dois portugueses e os mais japões, aos quais agora faz ler casos de consciência, para que mais frutuosamente possam exer- citar seu oficio. E êste Setembro com ocasiao de ordenar dois sacerdotes japões de nossa Companhia, que foram os primeiros que desta nação receberam esta sagrada dignidade, deu também ordens menores a alguns, declarando-se primeiro ao povo em um sermão êstes graus, pelos quais se sobe ao sacerdócio, e o ofício e excelência de cada um, e em particular a grande eminência da dignidade sacerdotal; e pelo conseguinte, quanto os japões deviam de agradecer a Nosso Senhor um tão assinalado benefício como era para êles, ver já seus
  • Das coisas do Japão x79 próprios filhos e naturais promovidos a uma tão grande alteza de honra, o que para êles foi grande motivo de muita devoção e lágrimas, e acabada a missa não se fartavam de dar graças ao Bispo e aos superiores da Companhia. E não introduzir até agora o Bispo clero formado em Japão, e ser forçado a andar nisto com tanto vagar, o respeito foi por a gente ser ainda nova e sujeita a senhores gentios, e haver em Japão contínuas mudanças, de modo que nenhuma coisa parece permanente; por onde, como nele não pôde ter ainda agora poder nem força coactiva para, quando fosse necessário, usar dela, foi constrangido a ir pouco e pouco, conforme ao que o concílio Tridentino neste caso manda. Também fêz um cemitério ou adro para sepultura dos defuntos, junto de uma ermida da Madre de Deus, de grande devoção, onde também edificou outra capela, e saiu de modo que é uma das coisas que mais ornamento dão a esta cidade e que mais devoção e piedade excita a êste povo, por serem os japões mui amigos de visitarem as sepulturas de seus defuntos muitas vezes. Para êle foram levados os ossos dos defuntos, do lugar menos cómodo e decente onde antes estavam, com uma solene procissão acompanhada com missa e prègação, em que se declarou o artigo da ressurreição dos corpos, purgatório e sufrágios. * Nesta cidade estão os colegiais que atendem à pintura, e em forma de -Fi-gr. seminário vivem em uma casa apartada, da qual teem cuidado dois dos nossos. Um dêstes veio de Roma há alguns anos, e é agora sacerdote, e tais discípulos fêz nesta arte, que as igrejas de Japão estão ornadas com retábulos tão ricos e excelentes, que realmente se podem comparar com os de Europa. Com estas e outras imagens, estampadas em grande quantidade e repartidas pelos cristãos, se acrescenta grandemente nestes reinos a devoção e piedade cristã. Por indústria do mesmo padre se fizeram diversos órgãos e instrumentos músicos para as principais igrejas, e muitos relógios de rodas, alguns deles mui curiosos, que mostram o curso do Sol e da Lua, com que não somente se servem em nossas casas e se dá gôsto e admiração aos japões que a elas concorrem, mas também se dão de presente a alguns senhores japões e ao mesmo Daifuçama, que estranhamente gostam dêles. E alguns oficiais japões os fazem agora já tão bons, que ganham de comer com êste ofício, e nos descarregam de muitas importunações. A igreja que nesta cidade se tinha começado, se acabou com muita per- feição, ficando tamanha e tão sumptuosa, que afirmam os japões ser uma das coisas que há para ver nestes reinos, e sendo necessário estender-se o edifício para a parte do mar, para onde havia um grande precipício, o foi também fazer-se uma grande fábrica de madeira grossa com que se alevantasse o edifício até ficar igual ao outro. É esta fábrica de três sobrados, sobre os quais se edificou a capela mor e a sacristia de uma parte, e da outra uma sala igual a ela com duas tribunas em cima para o corpo da igreja, com o que ficou êste edifício para a parte do mar mui alto e formoso. Concorreram para ajudar nesta obra todos os dêste povo com tanta devoção, que até as mulheres queriam sair para ajudar a trazer a madeira que vinha de mui longe, se se lhes dera licença, mas foi tão grande o concurso dos homens, que em breves dias a trou- xeram toda com muito prazer e festa. E em tôda a obra dêste templo deram * sempre à sua custa os oficiais e obreiros, e além de dois mil cruzados que os • fi. io.
  • i8o Das coisas do Japão portugueses da nau tinham dados, deram também alguns cristãos desta cidade mais de outros seiscentos. Acadada a obra, se dedicou e disse a primeira missa das onze mil Virgens; celebrou-a o Bispo de pontifical. Houve vésperas no dia precedente soleníssi- mas, nas quais saíram revestidos com capas vinte e dois padres que de diversas partes aqui se juntaram. O concurso dos cristãos foi tão grande, que com ser a igreja tão capaz e ter em seu circuito grandes varandas, tudo se enchia, e enchera muito mais, se houvera lugar. Prègou um dos padres em japão com grande satisfação de todos. A tarde se fizeram diversas representações em língua de Japão que os mesmos cristãos compuseram. Entraram nelas os filhos dos principais cidadãos desta cidade ricamente vestidos; e muitos houve que, sòmente para aquele dia, representações e festa, fizeram a seus filhos vestidos de grande preço, e o que mais é para se estimar, que fazendo êles tão grandes festas com tão grandes aparatos e gastos, tudo fizeram por si mesmos sem os nossos nisto entrarem. É tão frequentada esta igreja, assim pela semana como nos domingos e festas, que com haver nesta cidade outras três, nas quais todos os dias santos há missa e prègação, a esta concorre tanta gente, que nos domingos se enche três e quatro vezes. Oito dias depois de celebrada esta dedicação com tão grande festa e alegria, como tôdas as dêste mundo duram pouco, sucedeu uma coisa que a todos os padres e a tôda esta cidade causou grande tristeza e sentimento, que foi um incêndio tão grande, que abrasou a principal parte dela; e passou a coisa desta maneira. Pegou-se por desastre o fogo na casa de um homem pobre que vivia bem afastado da nossa e quási no meio da cidade, e como os edifícios de Japão são pela maior parte todos de madeira, foi crescendo e pegando-se também nas casas dos vizinhos; de modo que, sendo à boca da noite, e o vento esperto e que trazia o fogo para o nosso sítio, sem nenhum remédio abrasou e destruiu • fi. iov. em poucas horas nove * ou dez ruas das principais desta cidade. Fazem os japões por causa dêste perigo do fogo que é tão comum, umas como despensas ou adegas fortes mui bem barradas por dentro e por fora, de maneira que o fogo não possa entrar nelas, a que chamam curas. E assim, ouvindo-se na'cidade esta voz —fogo, fogo, metem logo quanto teem, nestas casas, como agora também fizeram, mas a fúria dêste foi tão grande, que nem a estas perdoava. Por onde, posto que algumas escaparam, foram mais de duzentas as que abrasou e consumiu com tudo o que dentro estava. Vindo perto das nossas casas e entrando por umas do Bispo, que estavam quási pegadas com as nossas, crescendo cada vez mais sua fúria, e não havendo já mais entre nós e o fogo que uma rua e essa bem estreita, bem se pode entender em quanto apêrto estaríamos, sendo de noite, e cercados por uma parte de fogo e por tôdas as outras de mar, e não faltando também ladrões que de fora acudiram a furtar, sem terem parte alguma segura em que pudessem salvar o remédio que nesta casa estava de todos os da Companhia que andam em Japão; além da grandíssima tristeza e dor que era para êles, verem que uma tão grande e formosa igreja, qual nunca houvera em Japão, e que oito dias antes se tinha acabado com tanto gosto e alegria assim de todos os padres como de tôda esta cristandade, estava em tanto perigo de em breve tempo se converter em cinza,
  • Das coisas do Japão 18 r com alegria e escárnio dos gentios, que sem dúvida haviam de triunfar e lançar em rosto aos cristãos que tudo era castigo dos Camis e Fotoques. Mas no ponto do mor trabalho e perigo acudiu Nosso Senhor por honra de sua Santis, sima Mãe, cuja era a igreja, e vendo as lágrimas e ouvindo as orações de tantos, e havendo misericórdia de muitos pobres que a nossa igreja se tinham acolhido com a pobreza que consigo puderam trazer, de tal maneira de improviso mudou o vento em favor de nossa igreja e casa, e para aquela parte da cidade que já ficava abrasada, que todos o julgaram por particular providência, favor e milagre de Deus, estando os padres quási desconfiados de poder escapar coisa * alguma de tão impetuoso fogo que até às portas lhes chegava já. Viu-se *fi. u. neste trabalho o amor dos cristãos para com os nossos, pois até das aldeias que estavam ao redor, em vendo arder a cidade, concorreram a nossa casa para a defender como pudessem, mas pouco aproveitara sua indústria se Deus a não guardara. Foi grande a pobreza e miséria em que muitos ficaram, queimando se-lhes tudo quanto tinham, e era coisa de grande lástima ver os que pela manhã eram ricos, verem-se à noite cercados de filhos e sem nenhum remédio para êlçs: o que tudo ficava sobre o Prelado e sôbre a Companhia, pois os cristãos nesta terra não teem outros pais que ponham os olhos neles, para lhes remediarem suas necessidades. E assim foi necessário que o Bispo com ter perdido muito neste fogo, e os da Companhia com terem perdido mais de três mil cruzados, acudissem a tanta miséria, como acudiram com mais de setecentos cruzados que logo repartiram pelos mais necessitados, com que de alguma maneira puderam tornar a reedificar suas casas. E foi êste trabalho tanto mais pesado e de mor apêrto, quanto sucedeu em tempo e ano de mor esterilidade e miséria que há muitos anos se viu em Japão: porque, com as grandes chuvas que houve por todo êle, as sementeiras de arroz, trigo, cevada e outros mantimentos, estando já em espiga, apodreceram de tal maneira, que muito pouco escapou. Por onde geralmente foi tão grande a fome e pobreza em que se viram, que muitos de pura fome morriam; e muitas vezes aconteceu que indo alguns ao campo a buscar raízes de ervas com que sòmente neste tempo se sustentavam, estando-as arrancando, se lhes arrancava também a alma caindo mortos, ou, vindo já com elas, não chegavam a suas casas, desfalecendo e acabando no caminho. E no reino de Farima aconteceu que chegando um filho a seu pai com grandíssima fome, e pedindo-lhe alguma coisa para comer, não tendo êle que lhe dar, por o não ver morrer diante de seus olhos ou pelo não ver penar com a cruel fome que padecia, em seus próprios braços o matou com um punhal. E por esta causa tiveram os padres muita * ocasião de exercitar êste ano a caridade e*Fi. nv. misericórdia em repartir do pouco que tinham para sua sustentação, assim com os pobres do incêndio, como com os cristãos desterrados e perseguidos pela fé, de que adiante diremos, como com os mais que pela fome e esterilidade geral padeciam tanto, levando sempre consigo, quando iam correr as aldeias e lugares, com que pudessem remediar as necessidades dos cristãos.
  • Das coisas do Japão CAPÍTULO IV De algumas coisas de edificação, que mais houve nesta cidade e suas residências, e missões que se fizeram a diversas partes AS coisas de edificação que há ordináriamente nestes novos cristãos, são tantas e tão várias, que não é possível dizerem-se tôdas, mas só duas das que pertencem a Nangasáqui, não deixaremos de referir, por serem de pessoas tão principais. No tempo que os anos passados foi destruído o reino de Bungo, e esbulhado dêle por Taicoçama o filho de El-Rei Francisco de boa memória, como então se escreveu, perdendo seus estados juntamente com ele todos os senhores daquele reino, se espalharam e foram por diversas partes, como é costume de Japão: e para este Nangasáqui se veio Júlia, mulher de El-Rei Francisco, com uma filha sua e outras duas netas do mesmo rei: e tam- bém veio sua filha mais velha, por nome Tecla, a qual era casada corn^ um grande senhor cristão daquele reino, e de grande estado, chamado Justo. Este, andando o tempo, se fêz leproso, e cresceu tanto nele esta enfermidade, que, vê-lo sòmente, causava muito asco; e como antes que se viesse pára Nangasáqui, • fi. ia. andou por várias partes, padeceu neste desterro grandes pobre*zas e incomo- didades, e com tudo isto sempre esta senhora acompanhou seu marido, e o servia e curava por suas próprias mãos, mostrando-lhe tanto amor, que foi coisa de grande espanto em todo Japão, aonde esta enfermidade é tão aborre- cida, que as mulheres deixam seus maridos e as mães seus filhos desamparados. Nem faltavam alguns, como El-Rei seu irmão e outros parentes, que movidos com falsa compaixão, a aconselhavam que o deixasse em poder de seus criados, ou consentisse que o acabassem de matar, para que ficasse livre duma moléstia tão grande. E se ela fora infiel ou pouco temente a Deus, muito fàcilmente o pudera fazer sem ninguém lho estranhar, por isto serj coisa tão costumada em Japão. Porém, como era cristã e tão virtuosa, quis antes sofrer todo êste tão penoso trabalho, que apartar-se de seu marido e deixar de o acompanhar por onde quer que ia, curando-o da maneira sobredita. Nem foi isto por pouco tempo, mas por espaço de dezoito anos, sofrendo sempre todos os trabalhos com tanta paciência e humildade cristã, que a todos punha em grande admiração; e acontecendo muitas vezes que o marido com a graveza da enfermidade e das dores que padecia, se mostrava impaciente e a tratava com palavras ásperas e de pouco agradecimento, ela contudo em nada se alterava, e se havia com muita mansidão e igualdade, e quando alguém para a consolar lhe louvava o amor que lhe mostrava, respondia que não tinha nesta vida outro bem mais que seu marido, e que era mui pouco o que por êle fazia, para o que era obrigada à lei de boa cristã e bem casada. Finalmente com sua brandura e exemplo o moveu a êle de maneira, que compungido sofreu depois sua enfermidade com muita paciência, e reconhecendo bem o que nela tinha, lhe dava muitos agrade- cimentos a ela e muitas graças ao Senhor, aceitando por benefício singular da sua mão a enfermidade que lhe dava. Confessava-se e comungava muitas vezes, indo um padre nosso a sua casa a dizer-lhe missa e administrar-lhe êstes sacra-
  • Das coisas do Japão mentos, até que, mui bem aparelhado e ajudado para isto das orações e san*tas «Fi.nr. palavras de Tecla, passou desta vida; e pouco antes que espirasse, afirmou êle mesmo que via a Virgem Nossa Senhora que com uma grande companhia de santos e santas o vinha consolar naquele passo de seu trânsito. Com sua morte ficou Tecla por uma parte tão desconsolada, como se perdera um marido muito são, e por outra mui alegre pelo ver acabar tão bem e com tantos sinais de sua salvação. ^ Não foi menor a edificação que nesta cidade deu Dom João Acaxicaman- dono, senhor mui ilustre e generoso das partes do Meaco, o qual nas guerras passadas perdendo seu estado, se veio a viver nestas do Ximo no serviço de Cainocami, grande seu amigo e senhor do reino de Chicujém, com trezentas pessoas de sua obrigação, todos cristãos; e dando-lhe o mesmo Cainocami renda bastante para sustentar toda esta gente, êle lhe rogou a quisesse encabeçar em seu filho mais velho, que é agora de dez ou onze anos. E este senhor um dos melhores cristãos que há em Japão, e veio aqui no princípio de Junho de seis- centos e um a visitar o Bispo e padres, e juntamente para tomar os Exercícios da Companhia, com determinação de deixar o mundo e se ficar nela, ainda que os superiores o não quisessem receber mais que por dógico ou irmão leigo, pelo qual fêz muita instância e de modo que ficaram os padres espantados de ver sua devoção e desprêzo do mundo; respondeu-se-lhe porém persuadindo-o com muitas razões, que não convinha condescender com seu desejo, assim pela necessidade que seus filhos dele tinham (que são ainda pequenos) e desamparo em que ficaria tôda sua gente, como também porque podia fazer mais serviço a Nosso Senhor em ajudar a cristandade estando em estado secular que estando na Religião. E como é homem mui prudente e sujeito à razão, se aquietou logo com o parecer dos padres: mas com resolução de, quanto pudesse, se dar à oração e trato com Deus, como homem que ainda que mancebo, estava mui desenganado do mundo. Deteve-se aqui perto de um mês, fêz os Exercícios com muito grande consolação e proveito de sua alma, e foi singular a edificação que deu a * todo êste povo; porque as manhãs gastava todas em nossa igreja, «fi. i3. ouvindo quantas missas diziam nela: vinha à doutrina cada dia e oração dos meninos, de que recebia muito gosto; ia cada dia visitar as igrejas da Miseri- córdia e fazer oração sôbre a sepultura de sua mulher que ali estava enterrada; à tarde se ia a uma ermida de Nossa Senhora, que está fora da cidade, onde gastava algumas horas em oração. E como Nosso Senhor quere provar e manifestar sua virtude a êstes novos cristãos, além das perdas e trabalhos passados, em que se mostrou tao inteiro e conforme com a vontade divina, agora de novo, estando para se partir desta cidade, lhe vieram cartas que, por se dizer que seu cunhado, Bijeno Chunugan- dono (que antes da guerra foi senhor de três reinos e contrário a Daifuçama), não era morto como dantes se cria, Cainocami temendo que Daifuçama tomaria mal sustentá-lo a êle com tanta gente em sua terra, lhe mandava tirar a renda, e que êle despedindo sua gente se recolhesse, com dez criados sòmente, em um lugar solitário entre umas serras, e estivesse ali escondido com muito segredo. Ouviu estas novas com tanta paz e quietação de coração, como se não fora de carne, dizendo que pois Deus Nosso Senhor assim era servido, se fizesse
  • I 184 Das coisas do Japão sua divina vontade, que êle com isto teria mais aparelho para intender com sua alma e salvação dela; que só lhe pesava por sua gente, por serem homens a quem tinha muito amor e obrigação; e foi tão sofrido e generoso, que com nenhum dos nossos quis comunicar estas novas pelos não desconsolar (com muitas vezes estar com êles em boa conversação), senão só em segredo a um irmão japão, e com esta resignação se tornou para Chicujém; mas Nosso Senhor que queria que êle desse esta mostra de sua virtude, lhe acudiu logo depois dela, porque Cambiogedono, pai de Cainocami (que então governava o reino pela ausência do filho), compadecendo-se dêle e parecendo-lhe áspero o mandato do filho, não quis que se executasse, tomando a seu cargo dar-lhe disto satis- fação, e deixando-lhe a renda como estava encabeçada no menino, a êle o • fi.i3v. * mandou que se fôsse para as terras de Sojemandono, seu irmão, excelente cristão, e que é mui grande amigo do mesmo Dom João. Dêste colégio de Nangasáqui se fazem continuamente várias saídas e missões. Uma se fêz aos reinos de Sanga, Chicujém e Chicungo a visitar e consolar os cristãos que estão espalhados por aqueles reinos, e chegando os nossos, que era um padre e um irmão e alguns dógicos, à principal cidade de Sanga, por nome Riosoge, indo-se o padre agasalhar em casa de um cristão, uma senhora cristã mui ilustre e sobrinha do senhor daquela terra, lhe mandou logo recado que em todo o caso se haviam de ir agasalhar a sua casa, ainda que seu marido, que também era cristão e mui bom, estivesse ausente como estava na corte de Meaco, e que não havia de sofrer que êle se agasalhasse em outra parte. Não puderam os nossos menos fazer que consolá-la. Confessou-se ela com tôda sua gente e outros cristãos que aí vieram, dizendo-lhes o padre missa e dando o Sacramento a todos; e tanta sinceridade e pureza de vida acharam os nossos nes- tes cristãos, que parecia não viviam entre gentios. Em um lugar aí vizinho acha- ram também mais de duzentos cristãos, todos vassalos desta senhora, e que por indústria sua se tinham baptizados, sendo primeiro instruídos na fé por um bom cristão que tem em sua casa por mestre de seu filho, e mui destro neste exercício. Daqui passaram ao reino de Chicujém, e (porque do que ali fizeram desta vez, diremos adiante) de Chicujém se foram ao reino de Chicungo que confina com êle (o qual Daifuçama tem dado a outro senhor gentio), para visitar as relíquias dos cristãos de Corume que ali ficaram, porque os fidalgos e soldados se foram desterrados com seu senhor Simeão Findenas e com seu filho, como já se escreveu. O filho se passou com boa parte de sua gente ao serviço de Cainocami que lhe deu renda em Chicujém, e quando êste padre ali esteve, se • Fi. 14. confessou e consolou com êle e com todos os seus. O pai, Findenas, * se recolheu com sua mulher Maxência, filha de El-Rei Francisco de Bungo, e com outros filhos seus para um lugar que está nas terras de Moridono, seu sobrinho, aonde lhe deu renda com que se sustentasse, e porque havia tempos que estava enfermo e a enfermidade se ia agravando muito, foi um padre de Iamangúchi a confessá-lo e dar-lhe o Santíssimo Sacramento, depois do qual em poucos dias morreu com mui boa disposição e aparelho de sua alma, pagando-lhe Nosso Senhor o grande zêlo que sempre teve de fazer tôdas suas terras cristãs quando era senhor de Corume, e o mesmo padre de Iamangúchi o veio enterrar^ e consolar Maxência, sua mulher.
  • Das coisas do Japão i85 Mas tornando ao que foi a Corume, êle se deteve naquela terra alguns dias, animando e consolando aqueles cristãos, e para travar amizade com o senhor daquele reino, o visitou, o qual lhe mostrou muito amor, e lhe ofereceu sítio para edificarem casa e igreja em Janagava, onde tem sua fortaleza, e residirem nela, dizendo que ainda que era gentio, era muito amigo dos cristãos e tinha recebido muitos em seu serviço, e desejava ter amizade com os padres. Deu-lhe o padre os agradecimentos devidos, e avisando disso ao Padre Visitador, êle o mandou visitar, agradecendo-lhe também tão boa vontade e diferindo a ida dos padres para seu tempo. Ouviu o padre nesta missão (que foi por espaço de três meses) mais de mil confissões, e baptizou de novo passante de quatrocentas almas, remediou muitas necessidades, e aconteceram-lhe muitos casos particulares que por brevidade se deixam. Outra missão se fêz por duas vezes às ilhas do Goto, que são muitas e todas de um senhor gentio, debaixo do qual, em vários lugares, haverá como dois mil cristãos, os quais de ordinário são pescadores e lavradores e gente pobre. Não há residência de padres nestas ilhas, por o senhor da terra o não permitir. Mas nestas missões que a elas se fizeram, se colheu singular fruto, confessando-se mais de mil e quinhentas pessoas, e de novo se baptizaram pas- sante de oitenta. * Nas residências dêste colégio se faz muito fruto, assim na conservação e »fi. 14 v. cultivação dos cristãos já feitos, como na conversão dos gentios, que êstes dois anos particularmente foi mais copiosa nas terras de Fucafuri, onde está um Tono gentio, mas tão amigo dos padres e da lei de Deus, quanto seu pai foi inimigo capital assim dos cristãos como particularmente desta cidade de Nan- gasáqui; êste não somente deu sítio aos nossos para a igreja e casa, mas, para que os seus tenham mais comodidade e facilidade para se fazerem cristãos, êle mesmo os anda persuadindo que se baptizem; e assim, em um convite que uma vez deu aos seus por ocasião de uma festa que costumava fazer, êle mesmo publicamente lhes disse no fim dêle, que não lhe poderiam seus vassalos dar mor gosto que abraçarem todos a lei de Cristo; mas que com isto êle a ninguém pretendia fazer força, porque os padres não admitiam ao baptismo senão os que de sua própria vontade se queriam converter; nem cessa em tôda a ocasião que se oferece, de ajudar a conversão dos seus. E a primeira vez que o foi visitar o padre que ali residia, achando que o caminho por onde iam à igreja era estreito, êle o fêz logo alargar e endireitar, mandando cordear a terra por onde queria que se fizesse, cortando pelas searas que eram de sua própria renda; e de uma parte e de outra fêz plantar muitas árvoies que o fizessem fiesco e deleitoso. 24
  • Das coisas do Japão CAPÍTULO V Da missão que por duas ve^es se fê\ ao reino de Satçuma A este reino foi no ano de seiscentos e um, do colégio de Nangasáqui, um irmão nosso a visitar e consolar aqueles cristãos que foram vassalos de Dom Agostinho, e que no tempo das guerras se passaram àquelas partes, «Ft. i5. onde estão mui bem recebidos e tratados * dos reis daquele reino, pai e filho, assim pela amizade grande que tiveram com Dom Agostinho, como também por haver entre os cristãos três capitães muito valorosos e de grande nome. Mandou o Padre Visitador a êste irmão dissimuladamente, por naquele tempo não ser ainda livre o comércio entre estes reinos do Ximo e o de Satçuma, por causa da guerra que tinham com Daifuçama, e até então não ser concluída a paz que se tratava. Levava também o irmão ordem de visitar os mesmos reis da parte dos padres. Foi esta visitação de tão grande estima para os cristãos, e rece- beram com ela tão grande consolação e alegria, que não se pode fàcilmente crer-, e assim festejaram ao irmão, como se fôra um dos mesmos superiores que o mandaram, e os próprios reis lhe fizeram tanta honra e cortesia, que nem eles nem outros senhores japões até agora fizeram coisa semelhante, mos- trando-se mui agradecidos ao Padre Visitador por em tal tempo os mandar visitar por um irmão da Companhia; e o que mais admiração causou, foi o respeito e amor que os senhores daquele reino e gente comum lhe mostraram, bem diferente do que noutros tempos o costumavam fazer, por ser a gente daquele reino mui dada à idolatria e ter agora pouco conhecimento e conceito de nossas coisas. Porém a causa de tal mudança, segundo contava o irmão, foi pela boa opinião em que teem aqueles senhores cristãos, os quais profes- sando todos descobertamente nossa santa lei dão de si tal exemplo, que põem em admiração aos gentios. E entre outras coisas, contava que Jácome Mima- sacadono vivia com tal ordem em sua casa, que mais parecia colégio de reli- giosos que casa de capitão, porque todos, homens e mulheres, logo pela manhã teem seu tempo deputado para a oração, e à noite, depois de tangerem as avemarias, para o exame de consciência. Tomam muitas vezes disciplina, e jejuam os dias de obrigação sem faltar ponto, de modo que nenhuma coisa descaíram daquele fervor e devoção com que viviam na cidade de Iatçuxiro. • fi. i5y. Levando, o irmão a Mimasaca algumas coisas de comer, que o Pa*dre Visitador lhe mandava de presente, êle chamou a todos os seus principais criados, e depois os pagens, e como se foram relíquias, assim as repartiu entre êles para que todos participassem daqueles mimos. Gastou o irmão um mês nesta visita, e quando se houve de tornar, não havia poderem-se apartar dêle os cristãos. Não passou muito tempo, depois do irmão tornado, quando deu um acidente a Mimasaca, do qual foi servido nosso Senhor levá-lo para si; mas antes de morrer, com muita devoção e fervor se encomendou a Nosso Senhor pedindo- lhe perdão de seus pecados, e com tanto maior eficácia e afecto quanto era maior a necessidade em que se via, pois não tinha ali padre com quem se pudesse confessar. Chamou a seu filho que será de dez anos pouco mais ou menos;
  • Das coisas do Japão 187 disse-lhe que bem via que ficava em um reino todo quási de gentios, que por- tanto procurasse de ser mui bom cristão e que, se em algum tempo lhe fizessem força para que deixasse de o ser, antes deixasse a renda e a vida. O mesmo disse e persuadiu a seus criados, encomendando aos principais servissem com amor e fidelidade a seu filho, e procurassem sempre ser bons cristãos onde quer que se achassem. A sua mulher disse também que, pois ela ficava só e com uma filha, não duvidava que alguns senhores gentios daquele reino haviam de desejar de se aparentar com êle, e que por esta causa havia de padecer grandes tra- balhos e moléstias: portanto se fosse com ela para Nangasáqui, onde em terra de cristãos e à sombra dos padres não fizesse outra coisa mais que procurar sua salvação. Ordenou além disto outras coisas para bem de sua alma, e mandando que lhe trouxessem seu corpo a Nangasáqui, para ser enterrado entre cristãos e cristãmente, se foi a gozar de Deus. Sentiram todos muito sua morte, por ser êle naquele reino pai de todos e uma como coluna mui forte que os sustentava para que não caíssem no meio de tanta gentilidade. Muitos também se raparam a cabeça, que é sinal de grande tristeza e sentimento. Seu corpo trouxeram, como êle mandou, a Nangasá*qui, onde lhe fizeram os»fi. 16. ofícios funerais como era razão. Sentiu também muito sua morte El-Rei de Satçuma, por perder nêle um bom capitão, e em sinal disso deu a seu filho, com ser de tão pouca idade, toda a renda que tinha dado ao pai, que eram seis mil fardos de arroz. Tornando-se os criados que trouxeram o corpo, para Satçuma, pareceu bem ao Padre Visitador mandar com êles alguém a consolar e visitar sua mulher e filhos e os mais cristãos. Foi um padre, japão de nação, dos dois que o ano passado se ordenaram, ao qual receberam como um anjo do céu, por haver quási dois anos que se não confessavam. Visitou o padre e consolou a todos, confessando-os e dando-lhes o Santíssimo Sacramento. Deteve-se com êles por mais de dois meses, consolando-se muito de ver e achar neles que, com estarem entre gentios, estavam tão fortes e constantes na fé, como se estiveram entre cristãos. Entre outras coisas que aconteceram dignas de serem sabidas, assim emquanto o padre ali esteve, como antes e depois, foi um caso raro e estranho que é o seguinte. Em um lugar de gentios, apartado daquele em que moravam os cristãos que foram de Fingo, viviam alguns cinco ou seis cristãos: um dêles adoecendo gravemente e chegando a ponto que desconfiaram todos que não podia já naturalmente viver, uns seus parentes gentios e sua mulher lhe pediram seu consentimento, para que por sua saúde fizessem certas cerimónias gentílicas aos Fotoques. Repugnou (1) êle dizendo que era cristão, e que sabia mui bem que os Fotoques e ídolos não tinham poder algum. Continuaram êles na petição, e tanto o importunaram, que veio a consentir. Fizeram-se as cerimó- nias e êle peorou. Soube isto um cristão amigo seu, e vindo-o visitar, o repre- endeu por dar tal consentimento. Conheceu o pobre homem o seu pecado, mas por não ter confessor a quem se poder confessar, dizia que duvidava se Deus lhe perdoaria. Respondeu-lhe o cristão que, pois não tinha cópia de confessor, se arrependesse muito de seu pecado, que tivesse verdadeira con- (1) Nt.: Repunhou.
  • 188 Das coisas do Japão • F1. i6v. triçao, que Deus como tão misericordioso que era, lhe perdoaria. * Fê-lo êle assim; arrependeu-se, mostrou muita dor do mal que tinha feito, e com lágrimas pedia perdão a Deus, dizendo que tinha tão grande arrependimento, que não podia ser maior, e que protestava que morria cristão, e com isto acabou. O cristão que o ajudara e acompanhara para enterrar seu corpo conforme ao costume dos cristãos, foi chamar alguns dos poucos que ali moravam, para que o viessem ajudar. Repugnaram (i) eles, dizendo como tinham ouvido que aquele homem consentira com certas cerimónias gentílicas, e que morrera como gentio. Replicou o outro contando-lhes tudo o que passara diante dêle, e do arrependimento e contrição que na hora da morte tivera, e que sem dúvida, se tivera confessor, se confessara. Com isto os outros se moveram e vieram a casa do defunto que havia oito ou nove horas que estava tido por morto; amortalharam-no e meteram-no em um caixão, como nestas partes se costuma, pondo-lhe diante da tumba uma imagem para significar que fôra e morrera cristão. Feito isto e estando todos os cristãos postos de joelhos rezando três vezes o Patér noster e Avè Maria por sua alma, para o levarem a enterrar, e em presença de alguns gentios que ali vieram para o acompanhar, querendo declarar Deus Nosso Senhor (como piamente se pode julgar) que a contrição do defunto fôra verdadeira, e que êle sem dúvida acabara como cristão, sucedeu uma coisa maravilhosa, e foi que o morto se levantou de repente na tumba, pregou os olhos na imagem que tinha diante de si, e levantando as mãos, como quem orava, e meneando os beiços (posto que nenhuma palavra se percebia), esteve assim por um pouco de tempo. Logo inclinou os olhos e a cabeça, encos- tando-a nas mãos que tinha levantadas, esteve desta maneira outro breve espaço sem falar coisa algúma, e finalmente se deitou na tumba como dantes estava, ficando outra vez morto como de primeiro, não sem grande espanto dos que estavam presentes, os quais chegando a êle e tocando atentamente seu corpo, acharam que verdadeiramente estava morto; e assim, crendo que Nosso • fi. 17. Senhor lhe recebera sua * penitência e arrependimento, lhe deram sepultura com grande confiança de sua salvação, e persuadindo-se que com êste exemplo quisera Nosso Senhor animar e esforçar aqueles poucos cristãos que vivem no meio de tanta gentilidade, onde tão raramente podem ter socorro de padres que os confessem e ajudem. CAPÍTULO VI Das coisas de Omnra e Aritna, e suas residências RESIDEM na de Omura onze da Companhia, todos ocupados em ajudar os cristãos dêste estado, que serão de confissão vinte e duas mil pessoas, os quais todos os anos se confessam. Baptizaram-se passante de qua- trocentos, edificaram-se de novo algumas igrejas, e um irmão do Tono à sua custa fêz três, e a cidade com ajuda do Tono vai edificando uma, mui sumptuosa. No tempo que nesta terra se ouviram as novas da mudança que Daifuçama (1) AV.: Repunharão.
  • Das coisas do Japão ■queria fazer do senhor dela, tanto chegou ao coração de todos esta tristeza, que se não pode declarar o sentimento e lágrimas que nela houve; por onde, recorrendo todos ao único remédio, que é a divina misericórdia, era coisa muito para ver os vários meios de que usavam para a poderem alcançar, porque além da oração contínua que tinham, uns com romarias, outros com disciplinas, jejuns não faziam senão chamar a Deus que os não quisesse desamparar nem permitir que fôsse entregue em poder de seus inimigos aquela Igreja que com o sangue de seu unigénito Filho fora remida; nem saíram em vão suas orações, resolvendo-se em fumo quási miraculosamente todos os intentos de Ximandono, como acima dissemos. Da mesma maneira sucedeu, quando depois veio a ordem que se desfizes- sem as igrejas, não mostrando nisto menos piedade e devoção, como se pode ver de uma carta que um dos padres que ali estavam, escreveu ao Padre Vice-Provincial, a qual diz assim: * Quem houvera de imaginar que depois • fi. .7». de uma tão devota e quieta quaresma, como tivemos, e depois de ser posta na nova igreja com tanta solenidade e festa de todos a imagem da Rainha dos Anjos, se houvesse logo de tornar a deitar por terra com todas as mais que escassa- mente se acabavam de edificar! Certo que não há dor que com esta se possa comparar. Mas como Deus Nosso Senhor dos males tira bens, a ôlho vimos quantos actos de virtude Nosso Senhor quis que se tirassem desta tribulação, porque é tão grande e tão frequente o concurso dêstes cristãos que agora veem à igreja a se encomendar ao Senhor nesta presente necessidade, que parece uma semana santa, oferecendo-se a todo o serviço que fôr para bem de sua Igreja, e apárelhando-se para todos os trabalhos que se esperam com a vinda dos ministros inférnais. As lágrimas que choram, mostram bem a tristeza de suas almas, e ainda que procuro consolá-los e me esforço para isso quanto posso, os olhos porém algumas vezes vencidos da dor são constrangidos a mos- trar com lágrimas a que está encoberta no coração. Ate aqui o padre. Mas aprouve ao Pai das misericórdias recompensar esta aflição com a extraordinária alegria que receberam os cristãos, quando logo pouco depois chegaram as boas novas da revogação do edito. E o dano das quatro igrejas que°se desfizeram, se restaurou em breve. Deixo as muitas confissões gerais feitas nesta casa e suas residências, e outras muitas coisas de muito serviço de Deus, que por meio de seus ministros o Senhor obra; só tocaremos duas ou três dignas de memória. Morava entre os gentios, como gentia que também era, uma mulher já de idade, a qual ouvindo dizer um dia que a fé dos cristãos era a em que só havia salvação, se resolveu, como aqueloutro avisado mercador do Evangelho, a vender e deixar quanto tinha, por comprar esta preciosa pérola e baptizar-se, e ainda que os bonzos lhe persuadiam e prometiam que só com dizer Namu-Amida-But (que é chamar a Amida em seu favor), ela se salvaria, não se pôde com isto aquietar, até que vindo a Omura, onde nem um só parente tinha que a recebes*se, ouvindo o catecismo se baptizou, e três ou quatro dias »fi. 18. depois adoecendo se foi para o céu. Vindo dois homens nobres de fora a confessar-se e a comungar, trouxeram consigo alguns criados, os quais querendo-se também confessar, o padre lhes perguntou primeiro algumas coisas, das quais cuidou soubessem pouco, por
  • Das coisas do Japão viverem em terras de gentios com seus senhores; mas eles lhe deram tão boa conta de tudo, que o padre ficou mui satisfeito e os confessou com muita con- solação sua; indo-se depois todos juntos para a pousada onde se agasalhavam, com muita devoção tomaram uma devota disciplina, como muitas vezes o costumavam a fazer, porque para isso traziam sempre consigo as disciplinas, o que sabido pelos outros cristãos, ficaram mui edificados por verem o claro sinal que neles havia do fervor e devoção com que se conservavam entre os infiéis. Um cristão que vivia entre gentios, tinha um filho doente de modo que não podia falar nem comer; aconselhavam-lhe os gentios que chamasse os bonzos, porque, sem outro remédio, logo com suas orações ficaria são; zombou dêles o cristão e de todas suas feitiçarias; ainda que por isso foi muito repreendido e afrontado dêles, dizendo-lhe que não tinha amor a seu filho e que era pior que uma fera, não se curou dêles, mas levando-o diante de uma imagem da Virgem Nossa Senhora e rogando-lhe ali por êle, em breve o tornou a levar são para sua casa. Adoecendo gravemente o padre reitor desta casa de Omura, foi tão grande o sentimento dos cristãos, que não sòmente era muitas vezes visitado dêles e do mesmo Tono com grandes demonstrações de amor, mas por espaço de um mês o vigiaram de dia e de noite, oferecendo a Deus por êle contínuas orações, disciplinas, jejuns, romarias; e era tanta a gente que de ordinário concorria e estava em nossa casa, que os irmãos não quiseram perder tão boa ocasião de os ajudar espiritualmente com práticas espirituais que lhes faziam ajuntando-os, com que muito se consolavam. Na casa de Arima e em cinco residências pertencentes a ela vivem trinta •Ft. i8v. e seis da Companhia, os quais se ocupam em * cultivar aquela cristandade que êstes dois anos foi mui particularmente ajudada e reformada dalgum menos fervor e procedimento que, por causa das guerras passadas e de os padres os não poderem comunicar tão frequentemente, se enxergava nela; ajudou para isto mui notàvelmente a assistência do Bispo e dos superiores da Companhia, que nêste ano de seiscentos e dois aqui residiram e com seu zêlo deram grande alento aos obreiros para a cultivação desta vinha. Baptizaram-se perto de setecentas pessoas nestes dois anos, da gente que veio de fora, que os naturais da terra todos são cristãos. Reedificaram-se vinte e três igrejas, e todas melhores que as que no tempo de Taicoçama queimou Ximandono. Acabou-se de todo e dedicou-se a sumptuosa igreja que Dom Protásio, senhor de Arima, edificou; e em sua dedicação fêz o mesmo Arimandono uma mui solene festa, porque para a primeira missa convidou o Bispo e os Padres Visitador e Vice-Provincial, o reitor de Nangasáqui e de Omura e muitos outros que doutras partes vieram, que por todos passaram de vinte e cinco. Convidou também, além de todos os fidalgos e capitães de seu estado e seus vassalos, a Omurandono e seus irmãos. Disse o Bispo a missa de pontifical, precedendo mui solenes vésperas. O concurso da gente que de tôdas as partes acudiu para ver celebrar a primeira missa e em uma igreja tal, qual nunca houve em Japão, foi mui grande; prègou um padre em língua japónica. Quis Arimandono que neste dia comesse com êle em sua fortaleza o Bispo e todos os padres e irmãos que nesta festa se acharam, juntamente com Omurandono e seus parentes. No dia seguinte houve
  • Das coisas do Japão 191 graciosas e várias representações com vestidos ricos e grande aparato, nas quais entraram o próprio filho e irmão do mesmo Tono; de modo que, conforme ao parecer de todos, excedeu o lustre e ornato desta festa à de Nangasáqui, com que Arimandono ficou mui contente. Celebrou também o Bispo os divinos ofícios na noite de Natal com grande solenidade e alegria de todos os cristãos. E neste dia comungaram de * sua .Fi.19. mão o Tono e sua mulher com muita edificação de todos, e por haver pouco que ela se fizera cristã, foi esta a primeira vez que comungou. Passadas estas festas, deu o Bispo o sacramento da Confirmação com grande consolação e alegria dos cristãos a mais de dez mil pessoas, confessando-se primeiro todos os que o receberam, com muito proveito de suas almas. Na quaresma foi singular a devoção que aqui houve, porque se faziam prá- ticas espirituais e conferências aos cristãos em diversas partes, onde era lícito a cada um pôr todas as dúvidas que tivesse. E em nossa casa, além das pre- gações dos domingos, houve tôdas as sextas-feiras à tarde completas e pregação, a qual sempre se acabava com um passo da Paixão e mostrando-se um devoto crucifixo, com o qual se fazia procissão pela claustra da igreja, acabando-se com uma disciplina por espaço de um Miserere, ao qual tudo se achava sempre presente o Tono com todos os seus principais. Mudou-se para esta terra o seminário que estava em Nangasáqui, com muito gosto de Arimandono que para isso lhe deu umas casas suas. Estão neste seminário e criam-se nêle passante de cem estudantes que não atendem mais que ao estudo da virtude e das letras, e numa coisa e noutra dão singular demonstração de seu aproveitamento, cada um em sua profissão. Os retóricos fazem orações públicas e ornam as festas dos santos com várias poesias em língua latina, e os que ouvem teologia, dão muitas mostras do talento que Deus lhes deu para ajudarem a pregar e catequizar com fruto. Ensina-se-lhes tam- bém o modo de fàcilmente confutarem a falsidade das seitas de Japão, as mentiras das quais, para que nao sejam fàcilmente conhecidas, encobrem os bonzos com palavras tão escuras, que escassamente se podem entender; e por esta escuridade, ornada com algumas flores de palavras, adquiriram estas seitas com esta gente muito crédito, pelo que houve ate agora muita dificuldade em fazer que ainda os nossos japões as entendessem e soubessem refutar. Mas daqui por diante, com ajuda do Senhor, lhes será coisa mui fácil mostrar a falsi- dade * delas, porque dando-se estes anos cuidado de as estudar de propósito «fi. 19*. a dois dos nossos teólogos em companhia de outros dois irmãos japões, se deram tal diligência, que de todo vieram a penetrar as falsidades delas e com o fio da verdade descobrir o caminho para se poderem desembaraçar as almas de seu miserável labirinto, que se espera será obra de mui grande momento para a conversão. É êste seminário de grande utilidade para esta cristandade, porque além do estudo das letras que nêle se exercita, daqui também saem os músicos que servem nos ofícios divinos, daqui os catequistas que catequizam os gentios e ajudam a conversão, daqui os que Deus chama para a perfeição e excelência da vida religiosa, daqui finalmente os que com o exemplo de vida, doutrina de palavra e com os santos sacramentos hão de apascentar estas ovelhas de que depois hão de ser curas e pastores.
  • 192 Das coisas do Japão Aconteceu a um destes meninos que aqui se criam, que vindo-o buscar seu pai que morava no reino de Chicungo em terra de gentios, dizendo que êle o criaria em sua casa por ser ainda pequeno e depois o ofereceria à Igreja, no mesmo dia em que lho deram, o começou a persuadir instantemente que deixasse a fé e se fizesse gentio. Mas o bom menino, parte por estar já bem fundado na fé, parte por os bons conselhos que seu confessor lhe dera ao tempo da partida, resistiu constantemente, dizendo ao pai que antes se deixaria cortar a cabeça que deixar de ser cristão, e que se assim o queria, que logo lha oferecia para lha cortar. Dissimulou o pai por então, parecendo-lhe que, como se visse só com êle em sua terra, alcançaria fàcilmente o que desejava; e assim, quando iam pelo caminho, como depois de chegados a Chicungo, o tornou a tentar muitas vezes, mas sempre achou no menino a mesma constância e fortaleza; até que, indo um nosso irmão àquele reino e tendo notícia da contínua guerra que havia entre aquele mau pai e tão bom filho, teve modo para haver o menino em seu poder, e o tornou a trazer ao seminário cheio de gloriosas • fi.io. vitórias, onde foi recebido de * seus companheiros com muita festa, e agora vive entre eles muito alegre. As necessidades gerais da fome, que se padeciam em razão da esterilidade, se socorreu desta casa de Arima com tão copiosas esmolas, que, com morrer muita gente a pura fome nas terras dos gentios, nas dos cristãos se achou que foram muito poucos os que morreram, porque em todas as casas e residências da Companhia, que há neste estado, se repartiu grande cópia de arroz, trigo e cevada, dando também para isto Arimandono aos padres duzentos fardos de arroz. E com acudir cada dia grande número de pobres a nossas casas, nenhum se tornava sem remédio. O mesmo se fêz nas ilhas de Amacusa, que estão vizinhas a êste estado de Arima e não distam dêle mais que por um pequeno braço de mar que as divide, onde a pobreza foi maior, e com o que os nossos ali fizeram em acudir a estas necessidades, de tal maneira se edificaram e moveram até os mesmos senhores gentios, que além da benevolência grande e conceito com que ficaram dos padres, emprestaram boa cópia de arroz para que se repartisse pelas aldeias e não morressem tantos como morriam. Nestas ilhas que são sujeitas a Ximan- dono, pôsto que seus governadores geralmente procedem bem com os padres, guardando as condições com que o Padre Visitador aceitou e consentiu que fossem a elas como acima fica dito, êste ano em particular fazendo-se de novo uma fortaleza em Xiqui e mandando-se mudar para ela uma povoação que estava em outro lugar apartado, havendo de mudar também o padre suas casas, êles lhe deram mui bom sitio e o ajudaram a levantar uma igreja, com andarem ocupados na obra de sua fortaleza. Depois de acabadas as obras veio o governador de todas as ilhas, que é um sobrinho de Ximandono, a nossa casa com muitos de seus principais a visitar o padre e ver a casa. Ficaram todos mui satisfeitos, e procedendo dali em diante com tanta familiaridade e respeito, • fi.iov. como se foram cristãos; * e conforme ao muito que mostram agradarem-lhes as coisas do catecismo e de nossa santa lei, porventura que já o foram alguns, se não fôra o temor que teem de desagradarem com isso Ximandono, seu set.hor. Contudo, como nestas ilhas há muitos gentios, não deixaram muitos cristãos de
  • Das coisas do Japão ig3 ser tentados para deixarem a fé ou comerem carne no tempo da quaresma, a que resistiram com muito valor até uns meninos que estavam em reféns na fortaleza de Carateu, onde reside Ximandono, os quais não sòmente carne, mas nem ainda arroz quiseram comer, por ser cozido em uma panela onde primeiro se cozera carne. Outro menino cristão estando cantando o Pater Noster, foi ouvido dum bonzo que estava em sua casa, o qual não se pôde ter que não saisse fora a o repreender, mandando-lhe que não cantasse tal coisa, mas o menino não fazendo caso dêle, prosseguiu com sua divina cantiga. Agastou-se o bonzo grandemente e começou a o ameaçar; o menino contudo não cessava, antes, quanto mais o bonzo se agastava e gritava com cólera, tanto mais alto o menino cantava, o que vendo o bonzo tomou por seu partido recolher-se. Faltando em certo mês do ano a chuva necessária numa destas ilhas, fize- ram os gentios muitas deprecações e cerimónias, pedindo a seus Fotoques lhes dessem água; e vendo que em tudo isso não chovia, imaginaram que a causa era porque os cristãos não faziam as mesmas cerimónias aos ídolos. Mandou- -lhes por três vezes e com ameaças o gentio que governava a terra, que as fizessem; não se deram os cristãos por achados do seu mandado. Porém vendo êle que os principais lhe não obedeciam, mandou aos pescadores que fossem a certo monte fazer bailos e danças aos Fotoques. Responderam êles que danças e bailos sim, mas não no monte à honra dos Fotoques, senão na igreja, à honra de Deus vivo que podia mandar aos céus que chovessem. Vieram à igreja pedir água, e acabada sua festa, tornando para casa, foi tanta a chuva, que se recolheram todos bem molhados. * CAPÍTULO VII Da cristandade dos reinos de Fingo e Bungo e da perseguição que contra êles alevantou Can\ugedono NESTES dois reinos, no de Bungo os anos passados em vida de El Rei Francisco, e no de Fingo até à morte de Dom Agostinho, que foi no ano de seiscentos, floresceu muito a cristandade. Porém, depois da morte dêstes dois senhores que eram como colunas dela, derramando-se por diversas partes do Japão seus principais fidalgos que com seu favor e assistência faziam muito, se diminuiu grandemente o número dos cristãos, nem vivem ao presente com aquela liberdade que antes viviam, carecendo também da comuni- cação e presença dos padres e tendo em seu lugar agora muitos bonzos que procuram de os perverter, e senhores gentios que não consentem padres em suas terras mas pelo contrário os perseguem, como se verá no que passou êste ano nestes dois reinos, onde a cristandade que nêles está, foi cruelmente ten- tada e perseguida. Depois da guerra passada que houve, haverá dois anos, entre os governa- dores que deixou Taicó, e Daifuçama que agora reina, na qual foi preso e morto Dom Agostinho, ficou com a parte do reino de Fingo que êle tinha, um a5
  • 194 Das coisas do Japão seu capital inimigo, por nome Canzugedono, o qual, pôsto-que ao princípio, para se assegurar no reino, recebeu com mostras de benevolência aos principais capitães e fidalgos que ficaram de Dom Agostinho, contudo dali a um ano des- cobrindo o ódio que a eles e a nossa santa fé tinha em seu peito, os atribulou e perseguiu cruelmente; e como fino gentio que e, se fez, pouco há, cabeça de uma seita dos gentios chamados Foqueixos. • fi. ai v. Primeiramente mandou êste tirano a todos os principais * fidalgos e capitães que imediatamente o serviam (porque do povo nao se curou), se assinassem em um papel como deixavam de ser cristãos e que nunca mais o tornariam a ser, quando não, que deixassem sua renda. Antes que em forma saísse êste man- dato, estavam já os cristãos sôbre aviso, porque alguns dias dantes tinha êle dito em diversas práticas muitas coisas contra nossa santa lei, e que havia de fazer tornar atrás a todos os cristãos ou os havia de matar. E assim se iam já apa- relhando para o combate, concertando-se entre si e prometendo de antes mor- rerem como bons e verdadeiros cristãos que tornarem atrás, o que por carta significaram ao Padre Visitador que desde Arima, onde estava naquele tempo, os mandara visitar por um dógico, sem saber o que passava. Ouvindo pois os cristãos o que Canzuge mandava, ainda que por uma parte viam (i) ser êle naturalmente homem tão cruel, que por sua mão e por leves culpas matava a muitos, além das palavras que sabiam dissera contra êles e má vontade que lhes mostrava, e por outra que não sòmente perigavam suas fazendas e vidas, mas também suas mulheres e filhos, por ser costume universal de Japão matarem juntamente os filhos e mulheres daqueles que justiçam por alguma culpa, con- tudo, como valerosos soldados de Cristo, não temendo perdas de rendas nem de vidas nem de mulheres e filhos, responderam que por nenhum caso haviam de assinar tal escritura nem deixar de ser cristãos, ainda que lhes custasse a vida. Deram estas novas a Canzuge; alterou-se muito, e se houve por injuriado de lhe não quererem os cristãos obedecer; prometeu que êle se vingaria daquela injúria, e não com espada e cruz, como o êles desejavam, mas com outra pena maior, que era matá-los a pura fome. Vendo os governadores gentios de Canzuge, que eram os que denunciavam aos cristãos, êste seu mandato, a reso- lução que êle tomava e quão posto estava em fazer tornar atrás os cristãos, movidos com falsa piedade, por serem muitos dêles seus amigos e homens de valor e prudência e conhecidos por tais, lhes persuadiam que ao menos no . fi. sã. exte*rior mostrassem que lhe obedeciam, e pusessem seus nomes naquele papel, ainda que no interior não deixassem de ser cristãos, porque entendiam que êle com isto se contentaria, rogando-lhes que não quisessem perder suas rendas e vidas e fazer juntamente tanto mal a suas mulheres, filhos e parentes, que com semelhante resolução ficavam em evidente perigo. Foi êste combate tanto mais poderoso que as ameaças de Canzuge, quanto mais encoberto vinha com capa de piedade, e assim derrubou a alguns que porventura tiveram para si que bastava conservarem a fé no coração, pôsto-que a negassem com a bôca e assinassem aquela ímpia escritura, como Canzuge lhes mandava. Êstes não foram muitos, porque além de não se fazer esta (i) Nt.: Que por ser elle.
  • Das coisas do Japão 195 força mais que àqueles que serviam imediatamente ao tirano, e não a suas mulheres nem filhos nem criados que todos também eram cristãos, muitos emfim, ainda que não tiveram a devida constância, contudo formalmente não consentiram nem puseram seus nomes, antes com escusas dilataram por algum tempo o assinar a escritura e obedecer ao mandado de Canzuge. Outros não assinaram por sua própria mão, mas deixaram aos governadores que fizessem o que lhes bem parecesse; e assim fizeram muitos sinais falsos que apresenta- ram a seu senhor. Outros finalmente, vencidos do amor natural de suas mulheres e filhos, cuja morte sentiam mais que a sua própria, puseram seus nomes no papel, presumindo da misericórdia de Deus que, pois faziam aquilo por força e a troco de não perderem suas rendas, vidas, mulheres e filhos, Deus fàcilmente lhes perdoaria. Porém outros, como esforçados cavaleiros de Cristo, sem quererem ouvir os conselhos dos governadores, responderam sempre resolutamente que antes perderiam as fazendas e vidas que a fé que profes- savam, e com grande fervor e desejo (conhecendo a soberba e má condição daquele tirano) esperavam cada dia pelo martírio, aparelhando-se todos para êle com lição de livros santos e práticas espirituais que entre si tinham. Sentiu tanto Canzuge esta resolução e constância, que * mandou logo, para se vingar •Fl-33*■ dêles e ver se os podia dobrar, pregoar publicamente que nenhum dos cristãos se saísse de seu reino; e para os ter mais seguros, lhes mandou tomar a todos reféns, a uns os filhos, a outros os parentes e a alguns as próprias mulheres. Depois disto lhes tomou as rendas que lhes tinha dado e até as próprias casas em que moravam e que êles, com muito custo seu, tinham feito. Mandou mais que ninguém lhes emprestasse ou alugasse casa nem os recolhesse na sua, nem lhes vendesse coisa alguma de comer nem lhes comprasse o que êles quisessem vender; juntamente os obrigou a lhe pagarem os frutos que aquele ano tinham recolhido, e algum arroz que lhes tinha emprestado com extraordinárias usuras. Mas nem com tudo isto os verdadeiros soldados de Cristo perderam o ânimo, antes, rindo-se de tudo, em lugar das formosas casas em que dantes moravam, fizeram umas de palha, onde se recolheram com suas mulheres e filhos; logo também deixaram as armas e despediram seus criados, dizendo que neste caso, se Canzuge os mandasse matar, não tinham para que se defender, porque queriam morrer mártires. Neste tempo não cessavam o Bispo que estava em Arima, e o Padre Visi- tador e Vice-Provincial de os mandar visitar e animar, umas vezes por cartas, outras por algum dógico do seminário ou pessoa alguma de casa, e ultimamente por um padre, o qual, em nome de irmão, foi mandado com recado dos supe- riores a uns dos principais governadores de Canzuge, pôsto-que o intento secreto foi para consolar, confessar e sacramentar estes bons cristãos, os quais com sua chegada a Fingo se consolaram e animaram tanto, que em diversas cartas que escreveram ao Bispo e aos superiores, não acabavam de lhes dar as graças por tal socorro e favor em tempo de tanta tribulação; e para que se veja parte disto, poremos aqui uma delas sòmente de um mui devoto e antigo cristão, chamado Jafinjidono Jorge, que escrevendo ao Padre Provincial diz assim: Com a vinda do Padre Luís, japão, me consolei muito, pois * veio a bom*Hj3- tempo a nos animar e esforçar para o martírio. Além disso, com sua vinda
  • 196 Das coisas do Japão todos os cristãos ficaram mui consolados e cobraram forças espirituais para alcançarem a salvação de suas almas, e pôsto-que outras vezes, quando cá vinha algum padre, tinha medo e duvidava se poderia deter-se connosco por espaço sequer de um dia por causa dos gentios, agora, estando cá há já dias, e sabendo-o os desta terra, não se ouve pelas ruas o estrondo e rebuliço que outras vezes se costumava ouvir. Portanto desejava eu agora que o padre se detivesse entre nós-outros muito tempo, por me parecer que não tardará muito o desejado martírio. Até aqui Jorge. E isto mesmo escreveram outros cristãos, porque na realidade foi de grande proveito a ida dêste padre a Fingo, pois, ainda que os cristãos que não se mos- traram covardes, estavam animados para o martírio e com desejo e propósito firme de sofrer todo género de tormentos antes que tornar atrás, e os que foram fracos, estavam já confundidos e envergonhados do que tinham feito, contudo, com a ida do padre, estes ficaram mais corridos e com maior sentimento de seu pecado, pedindo por cartas e por Vezes perdão deles e a penitência que o Bispo lhes quisesse dar; e os que não obedeceram a Canzuge, cobraram maior fortaleza e ânimo. Pôde-se êste padre encobrir de modo que não fôsse conhecido dos gentios que traziam grande vigia e mui rigorosa sobre os cristãos, por ser êle japão de nação e ir vestido de seu trajo, o qual ainda que o pudera também fazer algum europeu, não pudera deixar de ser conhecido. A determinação e ânimo que estes valorosos soldados de Cristo tinham para receberem martírio e sofrerem todos os tormentos que lhes dessem pela fé, declararam êles mesmos em muitas cartas que naquele tempo escreveram em resposta das do Bispo e superiores, das quais poremos aqui algumas, e a pri- meira será a de um cristão mui principal, chamado Naitofindano Cami João, que os anos passados, antes de Nobunanga, foi senhor de um reino e depois • Fi.a3v. embaixador de Dom Agostinho a El-Rei da China, onde * esteve alguns anos no tempo da guerra do Corai e agora residia no reino de Fingo, mui estimado de Agostinho quando era vivo. Diz pois assim, escrevendo ao Padre Vice-Pro- vincial : A perseguição vai cada dia em crescimento, e os que estão aparelhados para morrer por amor de Nosso Senhor, não são poucos, antes grande número; tenho para mim que esta perseguição se não acabará tão de-pressa, porque parece que assim a ordena Deus para que soframos por êle alguns trabalhos e perigos; o qual se assim fôr, imitaremos em alguma coisa a vida dos santos mártires antigos que morreram pela fé. Ao presente peço a V. Paternidade me encomende a Deus em suas orações e santos sacrifícios para perseverar neste desejo até à morte. ;Quem houvera de imaginar que neste reino de Japão havia de haver mártires, e que o martírio se havia de começar por nós-outros tão miseráveis pecadores! Quando algumas vezes cuido nisto, não é sem lágri- mas de alegria. Outra escreveu um seu filho dêste senhor, chamado Umimedono, de uma fortaleza onde estava por capitão, nos confins do reino do Fingo, a alguns critãos que se mostravam fortes na cidade de Sumamoto, onde residia Canzuge, e diz desta maneira: Tenho sabido que por causa do rigoroso mandato de Can- zugedono e pela perseguição contra os cristãos, alguns dêles tornaram atrás, coisa que foi para mim de grande pena, mas por outra parte me consolo muito
  • Das coisas do Japão 197 com as boas novas que ouvi de muitos cristãos honrados que estão firmes e inteiros na fé, aos quais tenho grande inveja, e se houverem de ser martirizados, desejo de me meter com eles e beijar o bemdito sangue que derramarem e de ser eu também mártir juntamente com êles. Pelo que rogo a Vossas Mercês me alcancem isto de Nosso Senhor em suas orações. Alegrei-me muito de ouvir que VV. MM. tinham já deixado suas casas e fazendas, entregando tudo aos ministros do Tono. Dizem VV. MM. que por serem tíbios não merecem de Deus a coroa de martírio; eu também, sendo um grande pecador, entendo de * mim o mesmo, pôsto-que por outra parte me parece que nos escolheu •FK **■ Deus para isto, e assim confio em sua divina graça que seremos mártires. Estou espantado de ver a fraqueza de alguns que tanto caso fazem da fazenda e tanto amor teem a suas mulheres e filhos, que por amor dêles deixam a fé. Não são tais homens para ser «mártires. Sendo as riquezas e bens temporais, mu- lheres e filhos impedimento para a salvação, e que tarde ou cedo não podemos deixar de nos apartar dêles, tomando agora tudo Canzuge, se bem se considera, é fazer-nos boa obra, pois nos toma o que nos impedia a entrada no paraíso; e parece-me que os cristãos que deixam as coisas dêste mundo, que logo se acabam, por alcançarem as que sempre duram, são uns prudentes ladrões, pois sabem furtar o céu. Eu, antes de agora, muitas vezes procurei de o arrebatar por via de confissões e orações, mas nunca pude. Ao presente, que se oferece esta ocasião de martírio que é caminho breve, dou muitas graças a Nosso Senhor, e determino aproveitar-me dela e furtar o céu, se puder. E pôsto- -que VV. MM. não tenham necessidade de meus conselhos, contudo lhes rogo procurem desta vez arrebatar o paraíso e estejam nisto resolutos, lembrando-se do que acêrca dêste ponto temos já muitas vezes praticado, e que êste é o tempo em que Deus nos quere provar e purificar. O bom ferreiro costuma provar e alimpar o ferro dentro no fogo, onde o que é ruim se desfaz e con- verte em bôrra; mas o bom, ainda que fique pouco, fica mais fino, e dêle se fazem peças mui finas. Assim Deus Nosso Senhor com o fogo desta perseguição quere provar os cristãos, e os que depois dela ficarem em pé, é sinal que são finos e verdadeiros, e que determina de fazer dêles uma obra acabada e per- feita, que é fazê-los mártires, coisa para nós de muita consolação. Eu até agora, pela graça de Nosso Senhor, estou mui inteiro, sem sentir em mim fraqueza alguma acêrca da fé, pôsto-que não faltam aqui demónios que com todas suas forças procuram derrubar-me. Põem-me alguns diante os bens dêste mundo e o amor que devo ter a meus filhos, mas * como Deus me fêz mercê de me abrir os olhos e dar lume para ver o que convém a minha salvação, não teem êstes homens entrada comigo, o que tudo atribuo à divina misericórdia. Bem creio que a guerra que cá tenho com êstes visíveis demónios, é mais forte que a que VV. MM. lá teem, porque eu nesta fortaleza estou só sem ter quem me ajude e aconselhe, pois todos os que estão comigo, são como traidores que desejam e pretendem fazer-me cair c deixar a fé, porque (1), ficando eu com a renda que tenho, ficarão êles também defendidos e amparados. Donde VV. MM. poderão conjecturar qual estou. Mas, como já disse, com a graça de Deus (1) Nt.: Para que.
  • X i g8 Das coisas do Japão lhes dou tais respostas, que já não teem entrada comigo, e fico como vencedor na batalha. Não resta mais que pedir a VV. MM. peçam a Nosso Senhor me dê constância e firmeza até chegar ao paraíso. E não cuidem que o que tenho dito é soberba e presuntuosa confiança que tenha em minhas forças, pois não é assim; antes entendo que tudo é graça de Nosso Senhor e mercê mui par- ticular que me faz, porque em tal guerra como esta não pudera eu por mim ter a determinação que tenho, nem perseverar nela, se êle não fôra. Outra carta escreveu êste mesmo fidalgo ao Padre Vice-Provincial, a qual diz assim: Recebi algumas de Vossa Paternidade em Sumamoto, cheias de muitos conselhos espirituais de que não somente eu me aproveitei, mas também todos os que as ouviram ler, ficando consolados e confirmados mais na fé. Eu pela graça de Nosso Senhor estou mui firme nela e tenho oferecidas a Deus todas as minhas riquezas, ainda que são poucas, mulher e filhos. E êste bom desejo e determinação, entendo claramente ser dádiva de Nosso Senhor, e que não é coisa minha. jQuem poderá, padre meu, explicar com palavras nem imaginar com o pensamento a infinita bondade e misericórdia de Deus! Ver- dadeiramente, considerando nas riquezas dêstes imensos tesoiros, não posso reter as lágrimas, vendo que Deus por sua misericórdia nos quis escolher a • fi. a5. nós-outros miseráveis pecadores para seu serviço. Eu indigno peca*dor nunca cuidei que podia ir direito ao paraíso doutra maneira senão por via de martírio; por isso agora dou mil graças a Nosso Senhor, porque confio que hei-de ser do número dos mártires, que é a maior mercê que eu dêle podia receber. No baptismo me deu grande graça e me livrou do cativeiro do demónio, toman- do-me para servo seu, e só êste era para mim um inestimável benefício. Depois me foi acrescentando esta graça por meio de confissões e comunhões do San- tíssimo Sacramento, pelo qual minha contínua meditação é como lhe hei-de agradecer tão grandes benefícios. Agora peço a Vossa Paternidade me ensine como me poderei aparelhar para êste tempo do martírio. E já que homem uma vez se há-de apartar de mulher e filhos e deixar quanto tem neste mundo, suceder isto por via de martírio acho que é uma mercê tão grande, que eu a não sei encarecer nem conhecer. Parece-me a mim nesta parte que sou seme- lhante ao bom ladrão que, com dar e fazer tão pouco, ganhou os bens eternos. Os gentios e alguns cristãos de pouco ânimo me lastimam cada dia, e por uma parte me dão maus conselhos para que deixe a santa fé, por outra são tantas as palavras que se ouvem nesta cidade em desprêzo dos cristãos, que me parece serem êstes homens piores que demónios, pois dizem em público mil blasfémias. Donde poderá conjecturar Vossa Paternidade o perigo em que estou metido, e quão grandes serão as desconsolações de meu coração. Portanto lhe peço humildemente me encomende a Deus em seus santos sacrifícios e orações quoti- dianas, para poder perseverar até à morte. Isto se contém nesta carta e na décima dêste valoroso capitão, que tanto mais é para estimar, pois é de um sol- dado mancebo, nobre e rico e com mulher e filhos. O grande zêlo que os ministros de Canzuge tinham em persuadir aos cris- tãos que se assinassem no papel e obedecessem a seu senhor, e a constância com que êles resistiram, escreveu ao Padre Visitador e a Jafinjidono Jorge, em outra carta, a qual diz assim: Aos cristãos que cá ficam firmes na fé,
  • Das coisas do Japão *99 veem * cada dia quinze ou vinte gentios, por diversas vezes, a persuadir-lhes • fi. *5». que tornem atrás, ora por temores e ameaças, ora por branduras e promessas, e isto com todo o artifício de palavras que sabem e podem inventar. Mas como todos êstes cristãos teem já suas vidas oferecidas a Deus, com determi- nação resoluta de passarem por quaisquer géneros de tormentos que lhes derem, e de verem, se fôr necessário, a suas mulheres e filhos passar o mesmo, nenhuma coisa podem os gentios alcançar deles. Quisera aqui escrever o que cada um dêstes valorosos soldados responde, quando e perguntado ou impor- tunado de tais homens, e a constância e valor que em semelhantes combates mostram. Mas porque isto seria coisa infinita, o deixo de escrever nesta, e também porque entendo que Vossa Paternidade virá depois a saber tudo em particular. CAPÍTULO VIII Da fortaleza em particular que mostraram alguns cristãos no Jim desta perseguição, e arrependimento e redução dos que enfraqueceram AINDA que Jafinjidono Jorge não escreveu em particular as respostas que os cristãos davam aos gentios, em testemunho da constância e ânimo que sempre mostraram nas coisas de fé, por ser coisa infinita como êle dizia, apontaremos contudo algumas das muitas que depois se souberam. Pri- meiramente falando em geral daqueles que, como verdadeiros cristãos, se^mos- traram fiéis a Cristo, foram muito poucos ou quási nenhuns que não fossem fortemente tentados, ou por seus amigos gentios, ou pelos ministros de Canzu- gedono; além das violências e tiranias que o mesmo Canzuge lhes fazia, que bastavam para derribar ainda * os muito fortes e constantes. E verdade que .fua nem Canzuge lhes mandava tomar nova seita nem fazer acto algum de idolatria nem seus ministros os persuadiam a isso, mas tôda a guerra era em geral que deixassem de ser cristãos, e que disso dessem um papel assinado de sua mao; e por não consentirem neste ponto, padeceram o que temos dito, e fizeram coisas mui heróicas. . A um cristão honrado deixavam os de Canzuge sem o obrigarem a por seu sinal e permitindo-lhe que ficasse cristão; mas êle, por que não cuidasse Canzuge que dalguma maneira consentia em seu mandato e que era do numero dos covardes, de sua própria vontade enjeitou a renda que lhe ofereciam, escolhendo antes ficar pobre e em perigo de vida, que rico com infâmia de covardia, e cristão pouco fiel. Mas Deus lhe pagou mui bem êste testemunho de sua fidelidade, porque dali a pouco lhe sobreveio uma enfermidade, da qual morreu em breve com grande alegria e consolação de sua alma e sinais de ser um dos escolhidos. Trouxeram-lhe logo o seu corpo a Ari ma, como êle o pediu, para ser enterrado entre cristãos, onde lhe foi feito um solene enterramento, acompanhando-o grande parte da nobreza de Arima. Um cristão por nome Joaquim, vendo que os ministros de Canzuge tinham feito em seu nome um sinal falso, pediu pena e tinta para o riscar, e não lha
  • 200 Das coisas do Japão querendo dar, molhou dissimuladamente a ponta do dêdo na tinta, e pedindo o papel, como para ver se estava bem escrito, o apagou. E ameaçando-o por isto os ministros, por três vezes se ofereceu a si e a sua mulher e filhos para o martírio. Passada já a fúria da perseguição, na qual esperava êle que Nosso Senhor lhe fizesse mercê de o pôr no número dos mártires, vendo que não se determinava Canzuge de matar os cristãos, fugiu secretamente com sua mulher e filhos, deixando toda sua fazenda. Este mesmo no princípio da perseguição, juntamente com outro seu companheiro, considerando as importunações de seus amigos e dos governadores de Canzuge e quão grande força lhes faziam, para • Ki.26v.se livrarem dêles * se meteram numa câmara mui bem cerrada e escondida, sem quererem dar a nenhum dêles entrada. Outro por nome Tirojemom, com grande fortaleza e ânimo, em presença e diante dos olhos dos governadores rasgou um sinal falso que em seu nome tinham feito. Não menos valoroso se mostrou outro homem principal, o qual metendo-lhe na mão uma cédula firmada por Canzuge, em que o fazia senhor de mui boa renda, e dizendo-lhe os governadores que se ficasse com ela (porque o mandato de Canzuge não falava senão com que os que possuíam renda pró- pria), êle porém, por lhe parecer que o resplendor de sua fé ficava com isto algum tanto escurecido e duvidoso, e que se podia cuidar dêle que consentia com Canzuge, nem a cédula nem a renda quis aceitar; antes logo se ofereceu por esta causa a ir ao cárcere. Entre todos se esmerou muito um moço de pouca idade, chamado Jazaimon, o qual tendo quatro mil fardos de arroz de renda, e sabendo que se os deixava, em nenhuma parte acharia outro tanto, assim porque em Japão de ordinário não se dá renda senão aos que podem pelejar na guerra, o que sua idade ainda não sofria, como também porque êle os tinha em razão de seu pai que fora um bom fidalgo e soldado, contudo, por não pôr seu sinal, os deixou todos com grande facilidade e alegria. E pedindo-lhe que desse em seu lugar alguém de reféns, como davam os outros, êle mesmo se foi oferecer, dizendo que não tinha outro a quem dar, senão a si; e dizendo-lhe os governadores que vivesse embora descansado com a sua renda e obedecesse a seu senhor, porque não convinha a um menino tratar com tanto rigor da salvação, respondeu êle que ainda que menino, tão grande era a sua alma como a dos grandes, e que êle a não queria perder nem ir-se ao inferno por quanta renda lhe dessem. Não sòmente se viu êste esforço e determinação nos homens, mas também nas mulheres, pôsto-que a lei de Canzuge as não compreendia. Uma delas vendo que tomavam por fôrça a mão de seu filho para o fazerem escrever seu • FI. 27. sinal, acudiu # como uma leoa a impedir aquela violência. Outra, tendo-lhe tomado um filho em reféns, lembrando-lhe a incomodidade com que estava em casa alheia, e os trabalhos e moléstias que padecia (porque de propósito trata- vam os gentios mal e àsperamente aos que estavam em reféns, para com isto dobrar e render os que os tinham dado), lhe vinha escrúpulo de ter compaixão do que sofria seu filho, pois o padecia por Cristo. Outras muitas tinham já aparelhados vestidos novos para si e para seus filhos, para se vestirem de festa no dia do martírio. Outras, elas mesmas animavam a seus maridos para o martírio.
  • Das coisas do Japão 201 Durou esta perseguição em sua fúria perto de seis meses, nos quais Can- zuje atribulou os cristãos quanto quis e pôde aquém de os matar, o que se crê que não fêz por arreceio que se não tomaria bem semelhante crueldade na corte de Meaco, para onde estava de caminho, e onde muitos dêstes cristãos principais eram conhecidos; pelo que, antes de se partir lhes deu licença que se pudessem sair embora de seu reino, o que eles muito estimaram, porque com ela ficavam livres para, em outras partes, poderem viver como cristãos, sen- tindo sòmente o não se lhes efeituar o martírio que tanto desejavam. Partiram-se logo uns após outros para diversas partes, e bom número deles se foi a Nan- gasáqui, onde foram providos de casas e acomodados para poderem viver e recebidos do Bispo e de todos os da Companhia e dos mais cristãos daquela cidade com mostra de muito amor, e com todo o gasalhado que mereciam tão valorosos soldados e confessores de Cristo, que tão bem tinham pelejado e que tantas injúrias, fomes e trabalhos tinham padecido -por seu amor, ganhando tanto merecimento e honra para si e para tôda a cristandade de Japão, a qual, onde quer que estiver, não temerá com tão ilustre exemplo de professar nossa santa lei, ainda que seus senhores gentios os contradigam, e por isso os per- sigam e os ameacem com a morte, como depois se viu em lamangúchi, de que abaixo falaremos. * Entre os que pelejaram com grande ânimo, se esmeraram os dois fidalgos *fi. 17*.' e capitães de que acima já tratámos, Jafinjidono Jorge e Naitofindano Cami João, que foram como cabeças e capitães dos demais, e que tomaram à sua conta consolar e animar todos os outros, como faziam, visitando-os e favore- cendo-os em tudo quanto podiam, e como a tais os buscavam também todos os outros cristãos, dos quais sempre suas pobres casas eram bem frequentadas. Estes ambos, depois que se saíram do reino de Fingo, logo Deus lhes deparou mui bons partidos para poderem viver, e pôsto-que o de João não estava ainda concluído, Jorge ficava já de posse do seu; porque sabendo muito bem D. Pro- tásio Arimandono quão excelente capitão ele era, além de sua grande virtude e cristandade, folgou muito de o receber em seu serviço e lhe deu de renda três mil fardos de arroz, sem lhe pôr tantas obrigações quantas ordinàriamente teem os que recebem rendas dos Tonos, e o fez capitão da mais importante fortaleza de seu estado, e por onde os anos passados lhe entraram os inimigos, por ser fronteira de outros reinos. No dia que lha entregou, o convidou a êle e a sua mulher, filha e neta, com um solene banquete, no qual lhe fez grandes honras, diante de todos seus fidalgos, e depois lhe deu uma catana ou espada de preço, que no Meaco lhe dera um grão senhor, e dois cossondes mui ricos, e o mesmo fez a mulher de Arimandono à de Jorge, e a sua filha e neta. Mandou-Ihe dar também duzentos sacos de arroz, e dois ginetes dos seus para o caminho, e para a mulher e filhas três cadeiras de caminho e as embarcações necessárias para seu fato, e muita gente que o acompanhasse até sua fortaleza, que serão dez léguas de Arima, e mandou também, que todos os lugares por onde passasse, o saíssem a receber com seus presentes, conforme ao costume da terra. Emfim lhe fez tantas honras, que pasmou todo Arima, porque nem a seus próprios irmãos fez nunca coisa semelhante, inspirando-o Deus assim, pois tudo merecia quem por sua honra tanto tinha padecido e perdido. 26
  • 202 Das coisas do Japão •fi.js. * Antes que de Fingo se partissem estes cristãos, sabendo Sojemandono, tio de Cainocami, senhor do Reino de Cliicujém, que tinham já licença para se saírem das terras de Canzuje, vendo a necessidade e pobreza em que estavam muitos, lhes mandou rogar que a primeira saída que fizessem, fôsse para suas terras que não estavam mui longe, porque ali descansariam e estariam até acharem renda em outra parte, e que para suas pessoas e fato lhes mandaria gente e cavalgaduras necessárias, e lhes mandou logo uma boa ajuda de prata com oferecimento do mais que houvessem mister. Arimandono também dantes tinha feito o mesmo ofício, mandando-os visitar no tempo em que eles estavam mui atribulados, e ajudando-os em algumas coisas de que tinham necessidade; o mesmo fizeram também os principais de Nangasáqui. Mas contudo as prin- cipais ajudas que tiveram, quando se viram oprimidos por não terem com que pagar o que Canzuje lhes pedia, foram as que lhes deram o Bispo de Japão e superiores da Companhia, aos quais eles, como a seus pais e prelados, com tôda a confiança recorriam, e estas passariam de setecentos cruzados, com que eles e os demais cristãos ficaram bem edificados e agradecidos. Vendo os que na peleja se mostraram covardes, que os que não quiseram assinar como Canzuje mandava, saíam de Fingo com tanta glória, e que em breve tempo haviam de achar em outros reinos de Japão mui bom remédio como logo muitos acharam, ficaram mui envergonhados e corridos da fraqueza que por eles pas- sara; e assim escreveram logo cartas ao Bispo e aos padres, nas quais choravam seu pecado e pediam a penitência que lhes quisessem dar, com protesto que dali por diante em semelhantes combates não cairiam noutra tal fraqueza. Em Iatçuxiro, fortaleza das mais principais que tinha Agostinho, fizeram também os governadores por mandado de Canzuje o mesmo que em Sumamoto, para que os cristãos assinassem no papel o que seu senhor lhes mandava; e porque os tomaram de improviso e sobressalto, consentiram muitos crendo que era leve •Fi.aSv. culpa assinar no exterior aquele * papel, contanto que no coração não houvesse mudança; porém depois de o terem feito, se arrependeram grandemente e pediram também por cartas perdão de seu pecado ao Bispo e padres, prome- tendo romper por tôdas as dificuldades e, se fôsse necessário, saírem-se de suas terras, deixarem quanto tinham; e logo vieram alguns dos que tinham renda, a Arima onde os superiores estavam, com grande desejo de se confessarem e reconciliarem com a Igreja, tomando por intercessor a Arimandono. Porém assim êstes como os demais que de Iatçuxiro escreveram pedindo perdão e penitência, pôsto-que por uma parte foram bem repreendidos dos padres, e por outra animados a fazer penitência, como todavia êles ficaram com suas rendas e com nome de creados de Canzuje, não pareceu ao Bispo e padres, que deviam tão depressa ser admitidos à confissão, respondendo-lhes que era necessário desfizessem primeiro o que tinham mal feito, e mostrarem-se píibli- camente cristãos diante de Canzuje; o que êles aceitaram. E por Canzuje estar ainda na corte de Meaco, o fizeram todos diante dos governadores, pro- testando que por mostrarem respeito a seu senhor, assinaram no papel, mas que disso estavam mui arrependidos, pois eram cristãos e como tais se haviam de haver publicamente, ainda que perdessem suas rendas, se seu senhor por isso lhas quisesse tomar; e pôsto-que êles esta protestação fizessem diante dos
  • Das coisas do Japão 2o3 governadores e na verdade se hajam como cristãos, contudo, por justos respeitos, se lhes dilata a reconciliação até tornar Canzujedono da côrte e se ver como se hão diante dêie. Os mercadores da cidade, que vivem de comprar e vender, sem terem renda de Canzuje, foram admitidos à reconciliação fazendo porém primeiro sua pública penitência. E alguns de Iatçuxiro, depois de se arrependerem de seu pecado, puseram uma imagem em uma sala grande, à qual acudiam cada dia a fazer sua oração publicamente, e à vista dos ministros de Canzuje, para nisto se manifestarem por cristãos; e acontecendo adoecer gravemente um filho dos que caíram, estes fazendo * oração por ele e tomando uma disciplina, sarou o «fi. 29. menino, e dali a pouco tempo, entrando o demónio em uma filha dêste mesmo, um cristão por nome Joaquim de que arriba falámos, lhe pôs uma nómina ao pescoço e lhe deu uma disciplina, e logo o diabo saiu fora dela. Por ocasião destas obras, ficou êste homem grandemente confirmado na fé e com grande pesar de ter assinado, e se veio a Nangasáqui reconciliar com a Igreja e pedir perdão de seu pecado. Finalmente todos êstes cristãos mostraram estar mui arrependidos do pecado que fizeram, e pôsto-que no exterior mostraram aquela fraqueza, no interior nunca deixaram a fé, e desejam grandemente tornarem-se a reconciliar com a Igreja. Em Bungo alcançou Canzujedono, no tempo da repartição dos reinos, algumas terras, nas quais havia um bom número de cristãos todos lavradores que seriam como quatro mil. A êstes quiseram também seus ministros fazer tornar atrás, mas, pôsto-que era gente ignorante e de pouco ser, por algum tempo resistiram todos com constância, ajudando-os para isso um padre que ali estava perto nas terras doutro senhor; contudo como tomaram as mulheres a uns, e a outros os filhos, enfraqueceram e se renderam como cento dêles pouco mais ou menos; os demais perseveraram com tanto esforço, que os governadores tiveram por bem deixá-los, e os que caíram, arrependidos e envergonhados de sua fraqueza, foram logo buscar um padre que estava em outro lugar de cristãos, e depois de mui bem repreendidos e penitenciados com disciplina pública, foram reconciliados. A esta terra de Bungo foram por vezes os padres visitar e consolar os cristãos que por êle estão espalhados, con- fessando-os e ajudando-os e baptizando alguns que de novo se converteram. CAPÍTULO IX Do que passou no reino de Chicujém '"IV TESTE reino está a cidade do Facata, cabeça dêie, e uma das mais «n. 29*. \ principais e antigas de Japão, e a maior e mais nobre que há nestes reinos de baixo, que chamam Ximo. Nela teve a Companhia antiga- mente casa, e esteve um padre de assento até que El-Rei Francisco de Bungo perdeu êste reino de Chicujém no ano de setenta e cinco, em que esta cidade foi queimada e destruída, sem se tornar a reedificar senão de quinze anos a esta parte, no tempo que Taicoçama conquistou aqueles reinos. Havia nela e 1
  • 204 Das coisas do Japão nos lugares comarcãos, quási dois mil cristãos, os quais, posto-que no tempo da guerra se derramaram por diversas partes, sempre se conservaram inteiros na fé. Entre êstes, muitos eram cidadãos honrados e principais, tanto que não havia família nobre, na qual não houvesse algum cristão. E universalmente, toda a cidade estava mui disposta para receber o Evangelho, e porisso dese- javam os padres muito terem nela uma casa, mas não o podiam alcançar, assim pela perseguição que tantos anos durou, como tamoem por estar ela sujeita a senhores gentios. E assim a maior ajuda que os padres podiam dar aos cristãos, era por via de missões, confessando aos que a brevidade do tempo sofiia e baptizando alguns. Estando isto assim, sucedeu agora, depois das guerras que houve entre os governadores de Daifuçama, e na repartição dos reinos que êle fêz, caber este a Cainocami, filho de Cambiogedono, senhoi cristão, e pôsto- -que Cainocami e por causa da perseguição passada, e por ser ainda mancebo dado ao mundo, se esfriou (com ser baptizado) nas coisas que pertencem a sua salvação, sempre porém procedeu bem com os padres, ainda que não como favo- recedor, pelo temor que tinha de desagradar então a 1 aicó, e agora a Daifuçama. Caindo-lhe, pois, a este o reino, logo à petição de seu pai e de Sojemandono, seu tio, fino cristão, foi mandado um padre àquela terra, o qual foi direito às terras de Aquizuque, que são de Sojemandono, nas quais ele tem vinte mil fardos de arroz de renda, que o sobrinho lhe deu na repartição que fêz do íeino; a qual •fi. 3o. renda, diz êle, que escolheu ali principalmente * para amparar os ciistãos que há naquelas terras, que são muitos. Chegou o padre à principal fortaleza onde êle tem sua casa, chamada Najima, e ainda que êle estava ausente por ser ido à côrte, confessou-se contudo Maria, sua mulher, com tôda a gente de sua casa e muitos outros cristãos. Dali se foi a Facata, onde os ciistãos o receberam com grande alegria, e confessou mais de trezentos dêles e baptizou cento e setenta gentios que com grande desejo estavam esperando por algum dos nossos para ouvirem as práticas do catecismo e se baptizarem. Aqui começou o concurso dos que vinham ouvir prègação a ser tão grande que os mesmos cristãos, receando-se que Cainocami não tomaria bem fazer-se isto sem sua licença, foram de parecer que o padre abreviasse sua partida, e assim o fêz, que logo se foi, visitando de caminho outros lugares que estão naquele contorno onde há muitos cristãos. E o não se pedir logo a licença a Cainocami para o padre residir nesta cidade e em suas terras, foi porque, como êle estava na côrte e é muito privado de Daifu, e o mesmo Daifu tinha nesta conjunção soltado por vezes muitas palavras pesadas contra nossa santa lei e contra os cristãos, por estar ainda sentido da contradição e guerra que lhe fizera Dom Agostinho, nao pareceu a Cambiojedono nem a Sojemandono, seu irmão, que agora se falasse nisto, pelo perigo que havia de Cainocami negar a tal licença, por não desagradar a Daifuçama, mas que se guardasse esta petição para outra melhor conjunção, qual foi a de sua tornada da côrte. E então falando-lhe nisso seu pai e tio, a concedeu, dando aos padres um sítio mui capaz e acomodado para se fazer casa e igreja em que residissem na mesma cidade de Facata. É verdade que, por quanto Daifuçama tinha proibido que os padres não morassem fora dos lugares que êle lhes tinha deputado, que eram Meaco, Osaca, Nangasáqui, e que de novo se não fizesse
  • Das coisas do Japão 2o5 mais cristandade, pôs Cainocami uma condição e foi que não edificassem os padies igrejas nem casas que tivessem aparên*cia de convento religioso, rnas»Fi.3ov. que fossem como de qualquer cidadão honrado daquela cidade; nem também houvesse estrondo na conversão e ofícios divinos, mas em tudo procedessem com tal moderação e cautela, que os gentios, nossos émulos, não fossem com queixas e acusações a Daifuçama. Com esta cautela e prudência procedia o padie ainda antes que tomasse posse do sítio; mas os bonzos, nossos mortais inimigos, e que por nenhum modo podem tragar nem sofrer os padres, vendo que com sua entrada naquela cidade, os cristãos se alegravam muito, e dos gentios não poucos concorriam a ouvir as coisas de Deus e sermões do cate- cismo, um deles, homem de crédito e autoridade, se foi a Cainocami, e lhe disse que o padre e irmão que ali estavam, faziam grande estrondo com seus ministérios, e que o concurso dos cristãos e dos gentios era tal, que se êle a isso não punha remédio, não podia o negócio deixar de chegar aos ouvidos de Daituçama, e suceder-lhe algum desastre. Alterou-se com isto Cainocami e de modo que foi necessário saírem-se do Facata o padre e o irmão, e mudarem-se paia as teiras de Sojemandono, para com isto darem lugar a sua paixão. Sentiram grandemente os cristãos esta ausência do padre, parccendo-lhes que todas suas esperanças ficavam já frustradas e de todo acabada a alegria que tinham de o ter em sua cidade, principalmente porque viam que já os bonzos triunfavam como se tiveram alcançado alguma grande vitória. Mas foi Nosso Senhor servido que durasse pouco sua tristeza, porque Sojemandono mandou logo falar a Cainocami, e informá-lo na verdade, o qual com isto e com ver que seu pai estava também sentido pela saída do padre, outra vez lhe tornou a dar o mesmo sítio de boa vontade, e o restituiu logo à cidade com tanta alegria dos cristãos, como fôra a tristeza que tiveram com sua saída. Tomando o padre posse do sítio, mostraram bem os cristãos o contenta- mento que tinham com sua presença, porque um dêles comprou logo umas casas para o padre, as quais à sua custa alevantou no mesmo sítio; outros deram e levanta*ram outras duas. Sojemandono deu uma mui grande e capaz, »fi. 3»- e outros acodiram com prata, de modo que, sem a Companhia gastar coisa alguma, se deu tão bom princípio a esta casa, que já de todo estivera acabada, se não fôra a cautela com que os padres procedem, acomodando-se ao tempo. Reside nesta cidade Dom João Acaxicamandono de que acima falámos, com os companheiros que trouxe das partes do Meaco e reino de Bijém, que agora estão em serviço de Cainocami. Estes, pôsto-que pobres em comparação do que antes tiveram e com algumas dívidas, se ajuntaram num corpo e ofere- ceram ao padre uma boa esmola para as obras, dizendo que se fôsse mais necessário empenhariam as armas; mas o padre vendo sua pouca possibilidade, agradecendo-lhes muito a boa vontade, lhes não aceitou a esmola. São êstes todos tão bons cristãos e procedem no meio desta gentilidade com tanto exemplo, como Sojemandono, cristão mui afamado nestas partes, a quem Cainocami, seu sobrinho, põe por exemplo muitas vezes, dizendo aos gentios que os que se houverem de fazer cristãos, hão de guardar tão exactamente a lei, como Soje- mandono, seu tio, porque doutra maneira melhor é não se fazerem. Êstes mesmos fidalgos de Bijém, no tempo que cuidavam poder haver algum estorvo
  • 206 Das coisas do Japão sobre a nova casa e residência de Facata, escreveram ao Padre Vice-Provincial uma carta assinada por todos, na qual com muitas palavras de amor se ofere- ciam a falar a Cainocami em nossa defensão, ainda que soubessem que por esta causa os havia de, desterrar ou mgtar, afirmando juntamente que tinham grande desejo de dar suas vidas em serviço de Deus e dos padres. Um deles que na côrte de Chunugandono era o segundo na nobreza e estado, vendo a variedade e mudança que nestes dois anos houve nestas partes com desterros e mortes de tantos senhores de Japão, se resolveu a deixar o mundo de todo; e assim se foi a Nangasáqui pedir o recebessem na Companhia, para tôda sua vida servir a Deus na igreja; e alcançando o que desejava, ficava já no novi- »fi. 3i v. ciado. Cambiogedono, pai de Cainocami, pôsto-que não é * o que governa, por ter já feito inchio, que quere dizer, conforme ao costume de Japão, renunciação do estado em seu filho e recolher-se a viver como homem particular, e também porque Daifuçama particularmente deu êste reino a seu filho, contudo favorece muito aos padres em tudo o que se oferece, e para que nunca mais o sítio que se deu para a igreja e padres, se lhes possa tornar a tirar e dar a outrem, edificou nele uma casa que vulgarmente chamam cura, com título de sua; pelo que com estes favores os cristãos ficaram animados grandemente, e os émulos e inimigos da fé com menos brio e confundidos. Em todo êste tempo nunca se levou mão de prègar aos gentios, pôsto-que com a moderação e cautela que o tempo requere. Baptizaram-se perto de quatrocentos, e mais foram, se o padre sempre residira na cidade, mas como reside também em Aquizuque que são as terras de Sojemandono, não pôde haver tanto concurso na conversão, como houvera, se de assento estivera na cidade. Deu-se ordem para que os meninos, filhos dos cristãos, que até agora iam aprender a ler e a escrever às casas e templos dos bonzos, com detrimento de suas almas e bons costumes, por não terem outros mestres que os ensinassem, daqui por diante viessem a nossa casa, onde se lhes pôs por mestre um cristão mui bom homem que, com o ler e escrever, lhes ensina também as orações e bons costumes. CAPÍTULO X Do que passou em lamangúchi e da perseguição que ali se levantou contra os cristãos NA residência e casa de lamangúchi, onde estavam dois da Companhia com alguns dógicos, houve diversos trabalhos e moléstias de que Nosso Senhor tirou muito fruto. Moridono, rei que antes era de * nove reinos, perdendo na guerra passada os sete que Daifuçama lhe tirou, ficou sòmente com dois que ainda por piedade lhe deixou, cabeça dos quais é esta cidade de lamangúchi, onde com os fidalgos e senhores da sua côrte se recolheu; e pôsto- -que todos ficaram mui diminuídos na renda e reputação que dantes tinham, ficou todavia com êles mui ennobrecida e acrescentada esta cidade; e como êste rei e os seus com a perda grande dos bens temporais que tiveram, perde- ram também grande parte do crédito que antes tinham a seus Camis e Fotoques,
  • Das coisas do Japão 207 começaram também dalguma maneira a dar* mais orelhas à palavra de Deus, pelo que os nossos naquela cidade, no ano 601, fizeram muito fruto, como se pode entender de uma carta que o padre que ali residiu, escreveu, a qual diz assim: A cristandade desta terra vai mui bem, graças ao Senhor. Os senhores desta corte veem muitas vezes a nossa casa a ouvir prègação e me ocupam tanto, que quási não tenho lugar nem tempo para outra coisa. As prègações do catecismo são mui frequentadas e não passa dia em que não haja baptismo, e depois que tornei de Firoxima, além de trinta pessoas que o irmão António em minha ausência baptizou, baptizei eu mais de outros trinta, entre os quais houve alguns nobres; um deles foi um irmão de Jenomotedono, fidalgo principal de Moridono; e entre outros que agora estão ouvindo as prègações do catecismo, um é genro de Saxundono, governador dêstes reinos, homem de muitas prendas, conhecido e estimado de todos, o qual mostra fazer mui bom conceito do que se lhe prega, e espero que será sua conversão de grande serviço de Nosso Senhor. A mãe de Fosaimondono, que já é cristã, senhora mui principal, veio aqui este domingo passado ouvir as práticas do catecismo com muito acompa- nhamento, e esteve mui devagar; mostrou que fazia "bom conceito delas. Quererá Nosso Senhor que ela se acabe de determinar, porque, por ser senhora mui conhecida e de mui boas qualidades e mui vista nas seitas de Japão, outras muitas senhoras movidas com seu exemplo acudirão a ouvir o catecismo. A mulher própria * principal de Saxundono, cujo pai é cristão, está com grande desejo de o ela também ser. Mas, por Saxundono ser gentio e ela não poder fazer o que deseja manifestamente, mandou aqui pedir as práticas por escrito, as quais lhe manda o irmão uma [e uma] com muito segredo, e nos dizem que faz mui bom entendimento; espero que também se fará cristã, porque o deseja muito, e além de seu pai tem também um irmão cristão, por nome Jenaidono, que eu baptizei êste ano passado, e procede muito bem. Comagaje Bujendono também anda com muito fervor e persuade a todos que se façam cristãos; outro fidalgo chamado Sojemandono veio aqui, depois que eu tornei de Nan- gasáqui, com seus filhos e netos e os fez baptizar a todos, e entre eles uma filha já grande que desejava muito fazer-se cristã. Sua mulher também tem ouvido o catecismo, mas não acaba de se resolver. Estes dias baptizei aqui também por duas vezes quinze ou dezasseis pessoas que se converteram por ocasião de uns endemoninhados, que ficaram livres do demónio, um por via de um cego chamado Damião, e outra mulher por via doutro cristão, que lhe deitou um relicário ao pescoço, a qual depois de sã, ouvindo o catecismo se baptizou com seus filhos e outros qué foram por todos oito. 1 Quem havia de imaginar que Iamangúchi havia de chegar a isto? Se o demónio não puser algum estorvo, espero será mui grande a conversão, porque além de mostrarem êstes fidalgos cristãos grande fervor e desejo de o serem também os seus, confio que a gente popular se moverá também muito com seu exemplo, os quais senhores não são tão poucos que não passem de trinta. Isto é o que o padre escrevia; donde se pode coligir o grande fruto que naquela residência se ia fazendo; mas parece que o espírito lhe adivinhava o que o demónio andava urdindo para impedir tão bom curso da conversão, que foi o que logo diremos. Um bonzo grave e mui estimado de Moridono, pelo ódio que êle e todos
  • 208 Das coisas do Japão os mais bonzos teem a nossa santa lei e aos padres, lhe foi dizer que perder êle tantas terras, fora por consentir os padres nas suas, convém a saber» • Fi.33. em * Firoxima e lamangúchi e haver nelas tanta conversão; portanto, que se logo não deitava os padres fora e fazia retroceder os cristãos, ainda estes dois reinos que lhe ficavam, havia de perder. Moridono, como é homem de pouco saber, supersticioso e grande idólatra, no ponto que isto ouviu, mandou logo da côrte onde estava em Meaco, a seu governador que tinha em lamangúchi, que lançasse o padre fora e fizesse retroceder os cristãos; porém ordenou Nosso Senhor que este governador fôsse mui prudente e avisado e grande amigo dos padres, e como tal começou a tentar brandamente e depois com ameaças a dois criados seus, os quais achou tão fortes na fé, que não se atreveu a passar mais por diante, tendo por certo que todos os demais haviam de res- ponder e resistir da mesma maneira. Correu logo isto pelos fidalgos cristãos, como Moridono mandava executar uma coisa tão ímpia, pelo que se começaram a armar e liar entre si mui fortemente, e se determinaram antes perderem a fazenda e vida que a fé. Soube o governador esta tão católica resolução dos fidalgos, e logo avisou dela a Moridono, aconselhando-lhe que desistisse de tal intento, pois lhe não vinha bem querer chegar ao cabo com tantos fidalgos tão principais, e em tempo que tanta necessidade tinha deles, e mais estando certo que não havia de alcançar deles o que desejava. Cessou por então Moridono, mas acontecendo pouco depois que acusando um bonzo aos padres em Meaco diante de Daifuçama, que não obedeciam a seu mandado, pois estavam em muitos outros lugares fora dos que êle lhes tinha concedido, recolhendo-os neles alguns senhores sem sua licença, e que juntamente faziam muita cristandade, Daifu lhe mandou que se informasse bem de tudo o que passava; pelo que o bonzo se foi a Moridono e lhe persuadiu que logo deitasse os padres fora de sua terra, primeiro que Daifuçama soubesse estarem eles lá, porque doutra maneira estava em muito perigo seu estado; e que fizesse também tornar atrás os cristãos. Bastou pouco para persuadir isto a Moridono, assim por sua * fi. 33 v. in*clinação, como pelo temor que tinha de perder por esta causa os dois reinos que lhe ficavam. Mandou logo um recado mui à pressa a lamangúchi que o padre se saísse da cidade, e todos os cristãos deixassem de o ser. Obedeceu o padre por não poder ser menos, pôsto-que com grande sentimento de todos os cristãos; mas estes não obedeceram, respondendo resolutamente que primeiro perderiam gs vidas e as fazendas que apartar-se da sagrada religião que profes- savam. Entre todos se esmerou nisto um fidalgo principal e dos maiores capitães que Moridono tem, chamado Bujendono, da geração de outro capitão afamado que houve em Japão antigamente por nome Cumagaje. Tentado depois diversas vezes pelos governadores de Moridono, sempre com muito esforço lhes resistiu; e convidando um dia a comer em sua casa a muitos fidalgos, veio entre eles o governador, a quem estava cometida esta execução, e de prática em prática vieram a tratar dos padres e dos cristãos, condenando-os alguns e falando mal dêles, mas êle os defendia soltando, suas razões e argumentos com muita eficácia até dizer que quem não era cristão; não podia ser leal e perseverar no serviço de seu senhor. Sentiu isto tanto o governador, que tomando sua espada se levantou com grande fúria da mesa onde estava comendo, e se ia já
  • Das coisas do Japão 209 para sua casa, se outros fidalgos, amigos seus, com rogos e boas palavras o não detiveram. Depois de se assentar, um fidalgo dos que estavam presentes, cristão mas fraco, quis também representar seu tio, e começou a fazer uma prática a Bujendono, persuadindo-lhe diante de todos que obedecesse a seu senhor e tornasse atrás, alegando para isto algumas razões de pouco momento. Mas a resposta que ouviu foi esta: Lembrai-vos que muitos anos há que ambos juntamente, vós e eu, nos fizemos cristãos; e já que vós, como homem incons- tante e leviano, tornastes atrás não guardando a fé e lealdade que devíeis a Deus, eu estou resoluto e determinado de perseverar nela até à morte, e ainda que no princípio, por não entender bem as coisas dos cristãos, me mostrei pou*co devoto, agora que as entendo bem, estai descansado e entendei vós e • Fi.34. todo o mundo que antes hei de morrer que deixar a fé. A isto replicou o governador que com tudo isso em todo o caso a havia de deixar, pois El-Rei o queria assim; ao que êle com grande esforço e ânimo respondeu tirando-se os vestidos até à cinta e estendendo o pescoço diante do governador com estas palavras: Se vos desagrada, senhor, e parece mal ser eu cristão, aqui estão quatro espadas minhas; com qualquer delas me podeis cortar a cabeça, porque desta maneira serei mártir e irei direito ao paraíso. Vendo o governador um acto tão heróico, ficou grandemente edificado e mui diferente do que primeiro estava, e estendendo também seu pescoço disse: Se vos a vós cortarem vossa cabeça, eu quero que me cortem também a minha. E abraçando-se logo com mostras de muito amor, se deram um ao outro o sacazúqui (1), que é um copo de vinho com certas cerimónias, que se dá em sinal de amizade e benevolência. E assim, dali por diante ficaram grandes amigos, jurando o governador que nunca mais se lembraria do desgosto que entre ambos houvera. Êste mesmo fidalgo sabendo, pouco depois, como de Meaco viera um ministro de Moridono com poder e ordem sua, para fazer retroceder aos cris- tãos, antes que nisso lhe falassem, o mandou avisar que por nenhum caso havia de- tornar atrás, ainda que lhe custasse ou perpétuo destêrro ou a mesma morte; portanto que não gastasse tempo em o querer persuadir. Esta mesma resolução tomaram com êle seus soldados e outra muita gente nobre, pelo que o governador se não atreveu a lhe falar nesta matéria, pôsto-que não vinha a outra coisa que a perseguir, desterrar ou matar os cristãos. Achando-se numa consulta dos principais de Moridono, consentiu com êles numa certa resolução, parecendo-lhe por então que não era contra a lei de Deus, mas ouvindo dizer depois a um cristão que aquela determinação realmente era pecado, em peni- tência disso tomou aquela mesma tarde uma disciplina de mil açoites, além da devoção que tem em tomar todos os anos em * véspera da Ascensão uma de »fi.34». trezentos, em penitência de todos os pecados daquele ano. Sua mulher, ainda que os anos passados esteve mui dura e pertinaz em se converter, agora por persuasão de seu marido se baptizou com tôda sua família. Ouvindo mais êste fidalgo de uns poucos de lavradores cristãos de certa aldeia que fazendo-lhes força um governador de Moridono que deixassem a fé, êles lhe não quiseram obedecer e se determinaram de antes morrer que tornar atrás, os mandou (1) Nt.: Sacanzuque. 27
  • 210 Das coisas do Japão chamar a sua casa onde os recebeu com muito amor, e os louvou grandemente de o haverem feito como fiéis e esforçados cristãos, e deu a cada um deles mil caixas que montam um cruzado. Uma senhora cristã foi neste tempo mui perseguida dos governadores, que já que ela não queria deixar a lei de Cristo, persuadisse a um filho seu que a deixasse: mas ela lhes respondeu de maneira que nunca mais lhe mandaram semelhante recado; e escrevendo ao padre, lhe mandou dizer que estivesse descansado, que não somente mandando-lhe o governador gentio, mas nem ainda se êle mesmo que era seu confessor lho mandasse, deixaria a fé que como cristã professava. Estava neste tempo em Iamangúchi um mancebo em mau estado, havia alguns anos, sem nunca o padre, por mais que trabalhou, o poder tirar dele; mas nesta perseguição êle se apartou de sua própria vontade, afirmando que o fazia, porque se queria aparelhar para ser mártir. Mandaram os governadores derrubar uma casa de certo cristão por cuidarem que era igreja, porque o padre dissera missa nela algumas vezes, e não contentes com isto apertavam aquele bom homem que lhes entregasse os ornamentos da missa, que tinha guardados, mas, consentindo êle que lhe derrubassem a casa, os ornamentos por nenhum modo quis entregar. Uma mulher cristã que morava em um lugar onde a per- seguição não chegava, sabendo que qúeriam fazer fôrça a seus pais que estavam em outra parte, se foi a êles a persuadir-lhes que de nenhuma maneira deixas- • Fi.35. sem a fé, antes resistissem com muita fortaleza até mor*rer por ela, e logo consertou um vestido para sua mãe, se por ventura houvesse de sair ao martírio. CAPÍTULO XI Das coisas que passaram na residência e casa do reino de Bujém NESTE reino de Bujém, que agora é de um senhor gentio chamado Jocundono, marido que foi de Grácia, senhora cristã que (como já se escreveu na relação passada) no tempo das guerras morreu em Osaca com tanta edificação, tem a Companhia uma residência, onde, no ano de 6oi, estiveram um padre e dois irmãos com alguns dógicos; e no de 602 se acres- centou mais outro padre. Ocupam-se todos em ajudar aos cristãos já feitos e converter os gentios, dos quais se baptizaram um bom número dêles no ano de 601, e no de 602 passante de duzentos e setenta, os mais dêles fidalgos e criados de Jocundono, número pequeno em respeito da boa disposição que neste reino há para a conversão dos gentios; mas o andarem todo êste tempo ocupa- dos em repartir e medir as terras que o senhor deu a seus criados, e na fábrica da nova fortaleza e mudança da cidade principal de uma parte para outra, fêz não terem tanto vagar e quietação para ouvirem as coisas de nossa santa fé, como êles mesmos desejam. Entre os que se converteram e baptizaram, foi um fidalgo mui nomeado, e tido em grande estima de Jocundono e de todos os seus, o qual era douto nas seitas de Japão e mui eloquente e avisado no falar. Veio êste a adoecer, e vendo-se enfêrmo se veio um dia cm seu norimono, que
  • Das coisas do Japão 211 é como uma cadeira levadiça coberta de todas as partes, e entrou por casa dos padres dizendo que queria ouvir o catecismo. Prègou-lhe um irmão que o sabia mui bem fazer, com muita satisfação sua, e contou * êle que estando em «fi.35v Osaca ouvira por vezes as práticas do catecismo e disputara com o irmão Vicente e com outros, mas que nunca se movera a ser cristão, porque sempre fôra ouvir, não para se aproveitar senão para disputar, à persuasão de seus amigos; mas que ao presente êle estava mui bem inteirado na falsidade das seitas de Japão, e que em nenhuma delas há salvação: e que como fosse ou não, êle não no sabia, mas que nesta enfermidade sentira em seu coração grandes movimentos para se fazer cristão, parecendo-lhe que não podia deixar de achar salvação em uma lei tão conforme à razão; e que de propósito viera só, sem buscar quem no introduzisse com os padres (ainda que para isso pudera tomar por terceiro a Sojemandono, senhor cristão), para que ninguém pudesse suspeitar que êle se fazia cristão por algum respeito humano, senão movido sòmente com desejo de sua salvação, por ter para si que havia de morrer desta doença. E assim, depois da primeira prática que ouviu, lhe foi sempre o mesmo irmão fazer as demais a sua casa, tornando espantado do bom entendi- mento que tinha; e os cristãos se alegraram grandemente com sua conversão, pela grande opinião que todos tinham dêle. Finalmente, acabado de set1 ins- truído, com grande consolação sua recebeu o santo baptismo, não se fartando de dar graças ao Senhor por uma tão singular misericórdia que com êle tinha usado, de o deixar chegar a ser cristão e achar o caminho de sua salvação; e logo daí a quinze dias morreu com grandes sinais e mostra dela. Estando Jocundo na corte, celebraram os cristãos a quaresma mui quieta e devotamente, coníessando-se todos e tomando suas disciplinas nas sextas-feiras; e à quinta da semana santa houve muitos disciplinantes na procissão que se fêz dentro na nossa cêrca, onde se não admitiram mais que os homens, por ser de noite; as mulheres a tomaram de sangue em casa de Sojemandono com Maria, sua mãe, e outras que vieram da fortaleza. As filhas de Jocundono por vezes mandaram visitar o padre, dizendo que elas eram cristãs que desejavam * imitar até à morte a Grácia, sua mãe, e na semana santa tomaram também suas disciplinas. É grande e singular o amor e respeito que êste príncipe Jocundono tem aos padres, o qual lhes mostra em tôdas as ocasiões que se oferecem, e outras busca êle mesmo para isso, como se verá dalgumas que contaremos. Vindo da corte, no ano de 601, o veio visitar do reino de Ghicujem e dar-lhe os paia- béns de sua tornada Simeão Cambiogedono, pai de Cainocami, senhor daquele reino (como já disse). Foi recebido dêle com grandes honras, e porque sabia que era cristão, em um solene banquete que lhe deu, quis que se achasse tam- bém o padre que estava em Bujém; mandou-lhe rogar com muita instância quisesse vir. Não pôde o padre al fazer. Recebeu-o e festejou-o com muita honra e alegria, e na mesa lhe deu o primeiro lugar, pondo-o na cabeceira de todos, com que Cambiogedono muito se alegrou, e todos ficaram maravilhados e com muita razão, pois ninguém haverá que se não espante de ver um pobre religioso e estrangeiro posto a uma mesa de tanto aparato e majestade, e sen- tado no primeiro lugar dela, em meio de dois príncipes, um cristão outro gentio,
  • 212 Das coisas do Japão os quais lhe faziam tôda esta honra, só por ser servo de Cristo e prègador de seu Evangelho. A segunda coisa em que Jocundono quis mostrar o amor e respeito que tinha aos padres, foi que querendo fazer com seus capitães e soldados um acto solene em que os havia de louvar e apremiar pelos feitos em armas que nas guerras passadas em seu serviço fizeram, quis que o mesmo padre se achasse presente. E porque o modo que nisto teve, se entenderá melhor pelo capítulo de uma carta que o mesmo padre escreveu ao Padre Vice-Provincial, a referi- remos aqui, a qual diz assim: Aos 5 de Agosto de 6oi fêz Jocundono em sua fortaleza um acto público e nobilíssimo, o qual foi que ajuntou nela todos seus principais capitães e criados honrados que se acharam neste reino, para em presença de todos louvar e apremiar os que na guerra passada tinham feito »fi. 36 v. alguma coisa sinalada, * assim no reino de Bungo, como nas partes do Meaco; e quis que eu me achasse presente neste acto, para que todos vissem (como êle mesmo disse) a estima em que tinha os padres, e também porque era bem que eu visse uma coisa tão solene como esta. O modo que teve, foi que estando todos juntos em umas grandes salas da fortaleza, me mandou chamar a mim e ao Irmão João de Tôrres, tendo-nos já dantes convidado; e à vista de todos os seus' e doutra infinita gente que se ajuntou para ver êste acto, saíram Xingen- dono e Sojemandono, seus grandes privados, a receber-nos ao pátio da fortaleza, e por meio de todos nos levaram até nos porem na cabeceira da sala principal, onde estava seu irmão Guembadono com seus capitães mais principais. Mandou de dentro Jocundono um recado aos três principais de seu conselho, dizendo-lhes o que estava determinado de fazer, ao que eles responderam que lhes parecia muito bem. Após isto se abriram as portas doutra sala onde êle estava, na qual nos fizeram entrar a mim e ao irmão, e saindo-nos êle mesmo a receber até à porta com extraordinária cortesia e cumprimentos, me fêz assentar defronte de si, na cabeceira da sala, e ao irmão junto de mim. Estando isto desta maneira, mandou entrar os três primeiros de seu conselho, que eram Guem- badono, seu irmão, Mateujedono e Xarojemadono, e em voz alta com grande alegria dando a todos os parabéns da paz de que agora gozavam, tão diferente da inquietação em que todos no ano passado por êste mesmo tempo se viram, deu primeiro grandes louvores a seu irmão das coisas assinaladas que na guerra fizera, tomando sempre a dianteira e governando o exército com muita ordem e fazendo por sua pessoa grandes façanhas, e à sua imitação os que debaixo da sua bandeira se mostraram mui esforçados. Depois, louvando os outros dois, lhes deu as graças do muito que tinham trabalhado em Bungo na fortaleza de Quisúqui, mostrando tanto valor, que não sòmente a defenderam mas ainda saíram à batalha contra o Jacata ou Rei de Bungo, e fizeram nela coisas assi- • fi. 3?. naladas. E acabando de lhes dar êstes lou*vores, deu a cada um dêstes três (afora o que já lhes tinha dado na repartição das terras) dez mil fardos de arroz de renda, com privilégio que os gozassem sem nenhuma das obrigações que tinham pelas outras terras, chorando êles de alegria e dando-lhe as graças com muita reverência. Depois chamou outros três, um dos quais era Sojemandono, cristão, e outro, seu genro, casado com uma sua filha; e depois de os louvar, deu a cada um dêles com o mesmo privilégio quatro mil fardos de renda, lou-
  • Das coisas do Japão 213 vando mais que a todos a Sojemandono, dizendo que bem conheciam todos sua valentia e os feitos que fizera em muitos encontros que tivera na guerra, e que pois seu esforço era a todos tão notório, não havia para que o louvar; mas que na guerra passada, não sòmente se assinalara quási sobre todos, senão que a êle também se atribuía o haver-se tomado tão fàcilmente a fortaleza de Guifu. E todos êstes louvores dizia virando-se para mim, como quem mo queria dar a conhecer, ainda que em voz alta, para que todos o entendessem. Depois destes chamou a todos os outros um e um conforme a qualidade de suas pessoas, e dizendo-lhes seus louvores, lhes repartiu com o mesmo privilegio suas rendas, dando a uns tres mil, a outros dois mil, a outros mil, a outros quinhentos fardos de arroz, afora as terras que já lhes tinha sinalado. De modo que, o que deu nesta repartição, foram sessenta mil fardos de arroz de renda, que montam em Japão trinta mil cruzados também de renda. Além destes que foram os prin- cipais, chamou também muitos soldados particulares que averiguou terem pele- jado bem na guerra, e a dezoito deles deu uma barra de oiro a cada um, que monta quarenta cruzados, e duas catabiras mui finas, que são uns vestidos dos que os JapÕes usão no verão. A outros muitos deu cinco barras de prata a cada um, que montam vinte e dois cruzados, e uma catabira, com a qual os premiados não cabiam de prazer, e os que o não eram, ficavam corridos e envergonhados. Tudo isto se fêz com tanta cerimónia e majestade, que foi coisa para ver e digna de ser imitada dos principais e senhores cristãos * da »fi. 37*. nossa terra, para que seus vassalos folguem de o servir e nunca lhe faltem bons capitães e soldados. No cabo desta repartição deu a todos um solene banquete em que houve muitas cerimónias ao uso de Japão; e a mim me fêz assentar na cabeceira da mesa defronte de si, mandando que me dessem sempre o primeiro serviço, e desta maneira se acabou a festa. A despedida, êle mesmo saiu e me veio acompanhando até à outra sala, onde estavam os seus principais fidalgos, e ali me despediu com muitos cumprimentos e cortesias. Mas para passar pelo meio da gente que era infinita, mandou a seu próprio irmão Guem- badono e aos outros dois fidalgos mais principais que fossem diante de mim abrindo o caminho até à varanda do pátio da fortaleza, ficando todos espantados de ver esta tão grande honra e cortesia com que nos tratava. E na verdade, por êste ser um acto tão solene e nobre, foi coisa de admiração mandar-nos chamar e tratar-nos diante de todos daquela maneira, donde logo se começou a dizer entre os seus que já Jocundono era cristão; queira Nosso Senhor que venha a ser assim. Até aqui o padre em sua carta. A terceira coisa em que mostrou o amor que lhes tinha foi esta: Por respeitos que para isso teve, passou êste ano de Õ02 sua principal fortaleza de um lugar para outro e mandou que tôda a cidade que junto dela estava, que tinha mais de dez mil vizinhos, se passasse também com a fortaleza; pelo qual era necessário que os padres também mudassem suas casas, o que não podiam fazer sem muito grande gasto, por serem grandes, e a distância de catorze ou quinze léguas. Vendo êle isto, mandou dizer ao padre que bem entendia que não tinha Sua Reverência possi- bilidade para fazer passar a madeira de tantas casas, mas que não tivesse pena, porque êle daria ordem com que tôda se levasse à sua custa; e assim o fêz, porque depois de lhe dar no lugar para onde se mudava, um excelente sítio e
  • 214 Das coisas do Japão mui acomodado junto do mar, fêz passar toda a madeira das casas, e deu também ajuda, para que em breve tempo se levantassem. De modo que foram • fi. 38. mais de quinhentos cruzados os * que nisto gastou, que para um senhor gentio, o tiveram por coisa de grande estima. Mas de muito maior foi o que logo direi. Estando êle neste ano em Meaco e encontrando-se numa ocasião com Canzugedono, aquele senhor gentio do Reino de Fingo, de quem acima disse- mos que moveu aquela perseguição tão grande contra os cristãos, de prática em prática, o quis Canzuge repreender por ter padres em suas terras fazendo-lhes tantos favores como faz, e dizendo-lhe, para mais o persuadir a os deitar fora, mil males dos cristãos, e que como a tais os perseguira e desterrara êle do seu reino. Sentiu muito Jocundono esta ousadia e tomando a mão começou a defender os padres e os cristãos, dizendo mil bens de uns e outros, e desfa- zendo todas as razões que o outro alegava. Finalmente se foram travando e acendendo de maneira que Jocundono, como é esforçado e de grandes pontos de honra, apunhou da espada, e estiveram quási para se matarem um ao outro, e provàvelmente se mataram, como acontece algumas vezes em Japão entre senhores principais, se não se metera de permeio um fidalgo nobre da casa de Daifuçama, que ali acaso se achou, apaziguando os com prudência e cortan- do-lhes o fio de sua contenda. Mas dali a poucos dias mortificou Nosso Senhor mui bem a Canzugedono, permitindo que entre uns ladrões que se prenderam na cidade de Fuximi, que é a fortaleza onde reside a côrte de Daifuçama, con- tínua com a cidade de Meaco, fossem quási trinta dêles criados de Canzuge, e alguns honrados, aos quais parte mataram e parte soltaram, cortando-lhes as mãos e mancando-os nos pés, afora uma boa quantidade de oiro que Daifuçama mandou pagar a Canzuge por ter tal gente em sua casa. E como nem entre êstes nem entre outros muitos que pela mesma causa se prenderam, houvesse cristão algum, além disto redundar em honra de nossa santa fé, festejou-o Jocundono com muita alegria, vendo quão honrado e vitorioso ficava, por defender a causa dos cristãos, e quão afrontado e confundido Canzuge. •fi.38v. * CAPÍTULO XII Das solenes exéquias que por duas ve\es quis Jocundono que se fizessem por Grácia, sua mulher defunta ESTANDO Jocundono no ano de 6oi na côrte de Osaca, andava mui dese- joso que se fizessem umas solenes exéquias a Grácia, sua mulher que no ano atrás morrera como já se disse, assim pelo grande amor que lhe tinha, como por lhe parecer que era honra sua fazer-se isto, como costumam a fazer em Japão até os senhores gentios. Mas porque êle por uma parte era gentio, e por outra entendia que como sua mulher fôra cristã, não lhe podiam agradar cerimónias gentílicas, determinou de rogar, como rogou, aos Padres que lhe fizessem em Osaca umas exéquias mui sumptuosas por sua alma, dizendo que êle mesmo se queria achar presente. E porque os padres teem
  • Das coisas do Japão 2l5 licença de Sua Santidade para naquelas partes e outras semelhantes fazerem os ofícios divinos e dizerem missa em presença dos gentios, quando a necessi- dade constrange, e o Padre Organtino entendeu quão grande proveito se seguiria de se fazerem estas exéquias em sua presença e quão grande escândalo, se lho negassem, pois não somente.êle com os gentios mas até os cristãos se escandalizariam, parecendo-lhes fora de razão negar-se a um senhor tão grande uma coisa que êles julgavam havia de redundar em tanta honra e proveito da cristandade, se determinou a fazê-las com a maior solenidade e aparato que pudesse. E assim, para este efeito convocou a todos os padres, irmãos e dógicos que estão por aquelas partes, ornou a igreja mui bem, armou uma sumptuosa eça com o nome de Grácia escrito em cima da tumba, rodeando-a tôda com muita quantidade de velas e tochas. Precederam vésperas; ao outro dia se cantaram * os nocturnos e se disse missa de tres com toda a possível *fi. 39. solenidade. Achou-se presente o mesmo Jocundono com a maior parte de sua gente nobre que passariam de mil pessoas, quási todos gentios; e porque foi tão grande o concurso da gente que acudia à nossa igreja, que se temia poder acontecer algum desastre, êle mesmo pôs guardas pelas bôcas das ruas por onde se vinha a ela, o que se não fizera, não pudera deixar de acontecer alguma desgraça. Pregou um irmão nosso, japão, mui douto nas seitas dos gentios e mui elegante na língua. Tomou por tema: Beati mortui qui in Domino mo- riunlur. Tratou mui gravemente da imortalidade da alma, como havia certa salvação ou condenação na outra vida, a diferença que havia entre o que dizia a nossa santa fé acerca disto, e o que diziam as seitas dos gentios. No fim da pregação tratou das virtudes e morte de Grácia com tanto sentimento de Jocundono e dos seus, que não faziam senão chorar, sem poderem ter as lágrimas. Ficaram todos tão extraordinàriamente maravilhados assim da gravi- dade de nossos ofícios eclesiásticos como do que ouviram naquela prègação, que não se fartavam de louvar nossas coisas, dizendo Jocundono, por vezes publicamente, que as exéquias que faziam os bonzos em Japão, eram coisa de zombaria em comparação destas; e que em tôda sua vida nunca imaginara ver coisa tão santa e devota; o mesmo diziam todos os outros. E acrescentou sua admiração uma coisa que fêz o Padre Organtino, que foi: tendo-lhe man- dado Jocundono por esmola, para ajuda do gasto daquelas exéquias, cinco barras de oiro, que são duzentos cruzados, o padre repartiu todo este dinheiro por pobres que para isto mandou ajuntar em grande número, coisa que para Jocundono e para todos os seus foi de grande edificação; e diziam que bem fora estavam seus bonzos de fazer outro tanto, e que era grande a caridade dos padres, pois além do trabalho que tiveram em fazer tais exéquias, gastaram muito mais do seu próprio, do que êle lhes mandara, como na verdade gastaram. E tão afeiçoado ficou a nossas coisas, que logo na mesma cidade de * Osaca «fi^v. disse a todos os seus que êle lhes dava licença para que se fizessem cristãos todos os que quisessem, e naquele dia ficou a comer em casa com os nossos, mostrando a todos tanta familiaridade e respeito, como se fôra já cristão. Por seu respeito, também os governadores da cidade de Sacai não tomaram por perdido, como coisa pertencente a D. Agostinho e de volta ao fisco, o cemi- tério que D. Agostinho tinha feito na mesma cidade, que é mui formoso e
  • 2l6 Das coisas do Japão grande, onde estava enterrado o corpo de Madalena (i) sua mãe e de outros cristãos, e onde também estavam os ossos de Grácia, que foi coisa para os cristãos daquela cidade e para os nossos de muita consolação. Foi-se Jocundono de Osaca para o seu reino de Bujém no mês de julho do mesmo ano e tão agradecido aos padres pelas exéquias que tinham feito a Grácia, e tão satisfeito do que nelas viu e ouviu, qne assim êle como os seus não sabiam falar de outra coisa, contando a todos as particularidades do que passara; pelo que suas filhas que lhe ficaram de Grácia, que também são cristãs feitas por sua mesma mãe, movidas com o que ouviram, entraram em tamanhos desejos de se fazerem outras em certo dia de Agosto, que era o mesmo em que se cerrava o ano da morte de sua mãe, que com grande instância pediram a seu pai quisesse rogar ao padre que as fizesse. Jocundono, assim por dar êste gosto às filhas como por lhe parecer razão que no dia aniversário da morte de sua mulher se lhe fizessem estas honras, e também pelo desejo que tinha dc as tornar a ver e as fazer ver aos seus que não viram as primeiras, mandou logo um recado ao padre, dizendo-lhe que bem entendia que por estar só e não ter os aparelhos que houve em Osaca, não poderia fazer coisa tão sumptuosa como as primeiras, mas que com tudo isso se consolaria muito que estas exéquias se fizessem também em Bujém. Não lho pôde negar o padre pelas mesmas razoes que acima se apontaram, e muito menos aqui em Bujém que era seu próprio reino, onde depende dêle não sòmente a cristandade já feita, mas também a conversão que se espera fazer; e assim lhe respondeu que faria o que lhe • fi. 40. pedia * ainda que, como êle mesmo dizia, não tinha para isto o aparelho devido, mas que a alma de Grácia com os sufrágios e com sua boa vontade se con- tentaria. Começaram-se logo a aparelhar as coisas necessárias para as exéquias, e chegando o dia em que se haviam de fazer, mandou Jocundono em nome de suas filhas ao padre uma barra de oiro e sessenta fardos de trigo, mas dizendo-lhe que aquilo mandava para ajuda do gasto e não para que o repartisse com os pobres, pois já em Osaca se lhes tinha dado esmola; e alguns dos seus princi- pais mandaram também para o mesmo efeito como trinta e cinco cruzados. Os nossos, ajudando-se de alguns cristãos de engenho e habilidade em coisas de mãos, ornaram a igreja e eça quanto melhor puderam; e quis Nosso Senhor, para acrescentar o número dos padres, que acaso viessem ter a Bujém para se confessar, o padre que reside em Iamangúchi com um irmão e alguns dógicos, que foi grande acêrto para maior solenidade e perfeição das exéquias, Mas o que nelas passou e a satisfação com que ficaram Jocundono e todos os seus, se entenderá melhor por uma carta que o mesmo padre em dezoito de Agosto de 601 escreveu ao Padre Visitador, a qual diz assim: Porque estará V.» Rv.ci* desejoso de saber o sucesso que tiveram as exéquias que aqui fizemos a Grácia, o referirei nesta miudamente. O concêrto da igreja e da tumba tomou a seu cargo o Irmão João de Torres, ajudado de muitos e bons oficiais cristãos que ornaram todo o teto e as paredes da capela de uns increspados de papel de diferentes côres com lavores de diversas flores e pássaros mui graciosamente (1) Nl.: Ma dan ela.
  • Das coisas do Japão 217 lavrados, e para a imagem de Nosso Senhor se fêz ao redor uma guarnição do mesmo mui grave e lustrosa, de modo que saiu um ornato tão gracioso e fresco, que tem muito admirado esta gente, por ser coisa nova e nunca vista para eles. A eça se fêz no corpo da igreja junto à capela, a qual tinha quatro degraus bem proporcionados e no mais alto uma varandinha bem concertada, e a tumba no meio coberta com um rico pano bordado de lavor da China mui bem lavrado. Os degraus estavam cobertos de peças da China * doiradas e de damasquilhos. Na cabeceira da tumba estava uma cruz e na dianteira um escudo com as armas e nome de Grácia e emcima dele uma coroa rica, feita de Agnus Dei de vidro e de contas e pedras de cristal, que lhe davam grande resplandor e formosura para representar a dignidade de Grácia e como fôra senhora do reino de Tango que herdou de seu pai quando casou com Jocundono, o qual agora lhe trocou Daifu, dando-lhe este de Bujém. Pelos degraus estavam perto de sessenta castiçais prateados e doirados que para isso se fizeram, com suas velas também prateadas e pintadas que todo o tempo das exéquias estiveram ardendo. O teto da igreja e paredes dela estavam cobertas de cortinas de seda de várias côres, que parte eram desta casa e parte da residência de Iamangúchi; e porque a gente havia de ser muita, se acrescentou na dianteira da igreja um grande palanque coberto por cima, para que a gente principal estivesse no corpo da igreja e a demais neste palanque. Para Jocundono aparelhámos um logar a uma ilharga da capela mor, como costumamos a fazer nas igrejas de Japão para o senhor da terra. Para as mulheres da fortaleza e outras principais serviu outra sala que está junto da igreja. No dia das exéquias pela manhã veio Jocundono com tanta majestade e acompanhamento de multidão de gente, como se fôra o senhor da Tença. Saímos a recebê-lo ao pátio os padres e irmãos, e levando-o a seu lugar, nos revestimos logo para começar o ofício que fizemos, estando assentados ao redor da eça, os padres com capas e os irmãos e dógicos com sobrepelizes. No cabo dêle se disse missa e prègou o Irmão João de Tôrres mui a propósito para os ouvintes que pela maior parte eram gentios. Ouviram com extranha atenção e admiração, como também estiveram em todo o ofício com muita reverência e sempre de joelhos e descobertos, de maneira que assim aqui como em Osaca, com haver tanto concurso de gentios, se não viu indecência nem desordem alguma, mas todos estavam com tanta modéstia como se foram cristãos. Aca- bada a missa, dissemos os responsórios costumados * sobre a eça e tumba com • fi. 41. as cerimónias de água benta e incenso ao redor, com que se concluiu o oficio. Repartimos com mais de quinhentos pobres que concorreram assim da cidade como dos lugares ao redor (porque foram avisados que havia de haver esmola) todo o dinheiro que sobejou do que Jocundono e os seus mandaram, de que êles grandemente se edificaram, e Jocundono disse grandes bens de nós em nossa ausência, falando com certos fidalgos seus. Acabado o ofício, se deteve por um pedaço em ver o ornato da igreja e da eça, dizendo com muita admi- ração que nunca imaginara poder-se ver em Bujém coisa semelhante nem se fartava de nos dar as graças por isso. Ficando-se todos os mais na igreja vendo devagar o ornato dela, êle com alguns dos mais principais se recolheu para dentro de nossa casa e comeu aquele dia comnosco. Foi mui bem servido, a8
  • 2i8 Das coisas do Japão porque Sojemandono com um irmão nosso e com ajuda de muitos cristãos tomaram à sua conta o concerto do banquete. Deteve-se em casa até às duas horas da tarde, dando-me muitas vezes as graças e tratando muitas coisas boas de nossa santa lei; e principalmente ponderava muito a intenção com que os padres vinham a Japão de tão longe, deixando suas pátrias e parentes com determinação de nunca mais tornar a elas; e dizia que isto não podia ser senão porque tinham conhecimento mui certo da verdadeira salvação; e falando com os seus lhes disse: Não há coisa mais santa que as exéquias que os cristãos fazem a seus defuntos; quem pretende salvação, não busque outra coisa, porque as seitas de Japão tudo é zombaria, nem teem comparação com esta; acrescen- tando mais: Eu ainda não sou cristão, mas estou meio convertido. Pelas quais palavras se confirmam os homens no que já dantes suspeitavam dele, que é já cristão; e não nos importa pouco terem os seus esta opinião. O concurso da gente que vem a ver esta igreja é tão grande, que nestes três dias se diz que os que vieram passaram de trinta mil almas; e porque nunca cessam, deixámos a igreja e a eça assim como está, por tôda esta semana, que para os gentios é • F1.41V. uma prègação com que juntos se movem a querer ser cristãos. * Jocundono vai mostrando tão boa disposição, que parece que anda com contínuo remordimento da consciência e que nunca descansa senão em praticar de nós e de nossa lei, propondo muitas dúvidas com desejo de saber o que lhe convém e freqíienta nossa casa mui a miúde falando com os padres e irmãos com muita familiari- dade das coisas de Deus, mostrando sempre ficar muito satisfeito. Neste ano de 602, como foi o terceiro da morte de Grácia, no qual costu- mam os japões celebrar as exéquias de seus defuntos com maior pompa e ornato, desejou também Jocundono que assim se celebrassem outra vez as de sua mulher. Avisou disto o padre que estava em Bujém ao Padre Visitador, e logo, como era razão, lhe mandaram de Nangasáqui para êste fim dois padres, um irmão e sete ou oito dógicos cantores com alguns instrumentos músicos e ornamentos ricos, para que as exéquias dêste ano fôssem, como realmente foram, avantaja- das no aparato e sumptuosidade às do passado. Com o qual sumamente ficou agradecido Jocundono e os seus mui contentes e edificados, e tão satisfeitos, que bom número dêles tivera já recebido o santo baptismo, se tiveram tempo para ouvir todas as práticas e sermões do catecismo, mas como até agora andaram e andam ainda tão ocupados na mudança da cidade e na nova fortaleza, como já disse, na qual continuamente trabalham mais de sete mil homens, não teem tempo, se não é de noite, na qual ainda acodem muitos a ouvir as práticas que se fazem e dêstes se baptizaram alguns do número arriba dito.
  • Das coisas do Japão 219 CAPÍTULO XIII Das coisas que nestes dois anos passaram em Osaca NA casa que a Companhia tem na cidade de Osaca, residem ao presente um padre com três irmãos, ocupados sempre na conversão daquela gentilidade; e pela misericórdia de Deus não foi pequeno o fruto do seu trabalho respeitando a dureza e pertinácia em que esta cidade por to*dos êstes *fi. 42. tempos passados esteve sempre para admitir o Evangelho, por estar tão unida com seus bonzos, dos quais está cheia, que não havia poder converter um cidadão ou mercador dela, achando os padres mais entrada com os fidalgos e soldados que andam naquela côrte que com êles. Porém de dois anos para cá moveu e trocou Deus os corações de muitos de maneira que dando orelhas às coisas da fé e a ouvir a prègação do Evangelho, andam já com tão boa opinião e crédito de nossa santa lei e tão rendidos aos padres, que os mesmos gentios afirmam que, se a coisa assim continua, em breve tempo se converterá tôda aquela cidade. Os que se baptizaram foram passante de novecentas pessoas, parte do povo, parte da gente nobre; e para a conversão desta ajudou muito uma senhora que já o foi do reino de Omi e que no tempo de Nobunanga se baptizou juntamente com seu marido que pouco depois faleceu; chama-se Quiogocu Maria. Esta tem dois filhos que por servirem mui bem nesta guerra passada a Daifuçama, deu a um dêles no repartimento das terras o reino de Vacasa e a outro o reino de Tango. Desejou sempre esta senhora, por ser mui boa cristã, ver também seus filhos cristãos; e assim, por sua persuasão, um dêles havia já alguns anos que se baptizara; mas, porque então era mancebo e com a perseguição de Taicoçama não ousava tanto de se manifestar, e junta- mente vivia sempre entre gentios e com desejos de subir e valer na côrte, de tal maneira se foi esfriando, que mais vivia como gentio que como cristão. Mas depois que Daifuçama lhe deu êste reino, assim por conselho da mãe como dos nossos que faziam muito pelo ajudar, deu êste ano tão grande volta, que o Padre Organtino ficou dele com muita satisfação; juntamente se baptizou uma sua irmã, casada com um senhor gentio. Desejando pois esta que de novo se converteu e sua boa mãe Maria de verem também convertido a outro irmão (que está casado com uma irmã da mãe do príncipe da Tença, filho de Taicó) procuraram primeiro de converter esta senhora, sua mulher, e ajudadas doutra cristã, antigamente nobre, que tinha muita entrada com ela, pouco a pouco a foram persuadindo que ouvisse as práticas do catecismo de um irmão nosso,* *fi. 41». com as quais ficou tão satisfeita e movida, que se fêz cristã aqui em Osaca, e depois de baptizada, ela com sua sogra e cunhada persuadiram ao marido que fizesse o mesmo, como fêz no Meaco onde se baptizou com alguns criados seus, como adiante diremos. E porque ficava ainda à boa mãe outra filha gentia, a qual foi uma das quatro principais mulheres de Taicó, todos seus cuidados agora são na conversão desta. E porque estando ela mui doente em Meaco fêz fazer grandes sacrifícios e orações pelos bonzos a diversos Camis e Fotoques por sua saúde, sem lhe aproveitar em coisa alguma, daqui tomou
  • 220 Das coisas do Japão ocasião a boa mãe para lhe começar a tratar das coisas de Deus, dizendo-lhe dele como é criador do universo e autor da vida e saúde dos homens e que só a êste havia de acudir a pedir saúde, com que ela se moveu de maneira que logo pediu à mãe mandassem rogar aos padres que fizessem oração por ela, e mandou logo uma boa esmola para a Misericórdia, queixando-se ainda da mãe, porque até agora lhe não tinha tratado destas coisas de Deus, o que a mãe deixou de fazer por esperar conjunção. Foi Nosso Senhor servido que depois da esmola que mandou, se achasse melhor e tem prometido que, alcançando perfeita saúde, ouvirá de propósito as práticas do catecismo. Três senhoras principais, mulheres de certos fidalgos gentios, se fizeram cristãs sem eles o saberem, pelo qual de seus maridos e sogros foram mui molestadas para que tornassem atrás, até lhes dizerem que se assim o não faziam, as haviam de repudiar e lançar fora de suas casas. E porque eram parentas e se faziam costas umas a outras, lhes proibiram a comunicação entre si, mas elas se houveram com tanta prudência e valor, que seus maridos ficando rendidos finalmente dissimularam com elas e depois lhes deram licença para viverem como cristãs. Um mancebo da seita dos Fotqueixos e bem entendido nela, recebeu o santo baptismo; souberam-no seus pais e parentes, e logo todos à uma com extraordinárias diligências trabalharam por o fazer tornar atrás, e não podendo •Fi.43. êle amansá-*los, com ser filho morgado se saiu da casa dos pais, mas nem com isto cessaram, antes por espaço de cinco ou seis mêses lhe mandavam frequen- temente, umas vezes bonzos disfarçados, outras seculares bem entendidos na seita que deixara, para disputarem com êle. Mas, por muito que trabalharam, nem com razões nem com disputas o puderam render. E porque nem com isto cessavam os pais de buscar cada dia novas invenções para o perverter, êle enfadado e cansado de tantas tentações, por se ver livre delas se foi para o Ximo, rogando sempre a Deus abrisse os olhos a seus pais, o que Nosso Senhor lhe concedeu, porque, passados seis meses, o pai e a mãe se converteram, e são agora mui bons cristãos. , Um mancebo de dezanove anos e sua mulher, também de pouca idade, se fizeram cristãos sem dar conta disso a seus pais que são dois mercadores, os mais ricos desta cidade de Osaca. O pai do mancebo bem sabia que seu filho era cristão, mas dissimulava, pôsto-que, a quem lhe falava nisso, respondia que se tal fôsse, o deserdaria sem nunca mais o admitir à sua graça. O filho, ainda que sabia e ouvia a determinação do pai, nada por isso se encobria, antes dizia muitas vezes que o que mais desejava era que lhe tirassem quanto tinha, e depois a vida por Cristo. A mulher foi mais perseguida, porque umas irmãs suas zombavam dela e escarneciam (1) das coisas dos cristãos, mas ela sempre esteve forte desejando, como muitas vezes dizia, que a queimassem viva, antes que deixar a fé. Entre os parentes que mais a perseguiam, era uma sua irmã, a qual não podia acabar de crer de todo ser ela cristã, ainda que trabalhava quanto podia pela divertir disso. Mas a cristã pelo contrário buscava modos para a desenganar que o era e que o havia de ser até à morte, e um dos que (1) Nl.: Escarnecendo.
  • Das coisas do Japão 221 usou foi este. Pediu a uma sua parenta que morava junto da casa dos padres, a convidasse um dia a jantar juntamente com sua irmã; fê-lo ela assim. Depois de jantar, tornando-se as irmãs para casa, a cristã fêz força à outra que entrassem na nossa igreja e feita oração mandou chamar o padre e em pre- sença de sua irmã * se confessou com êle, dando-lhe com isto a entender que não duvidasse mais ser ela cristã, de que resultou que a irmã nunca mais a perseguiu e agora vive em paz. Um médico gentio dos reinos que foram de Moridono, ouvindo falar das coisas de nossa santa fé e havendo às mãos um livro da doutrina cristã, lhe pareceu tão bem, que como coisa verdadeira e mui posta em razão se deter- minou a seguir aquela doutrina e crer em um só Deus verdadeiro. E desta maneira viveu perto de quatro anos sem se baptizar, por não se encontrar com algum dos nossos, mas fazia sempre oração a Deus pela manhã e à tarde, até que veio a Osaca; e ouvindo as práticas do catecismo se baptizou, dizendo que até então vivera em fé e esperança, confiado no que dizia a doutrina que crendo nas coisas da fé e desejando o baptismo, não o podendo receber, com ela e com a contrição se salvaria. Uma senhora principal da seita dos Fotqueixos tinha um filho a que queria muito, que é pagem do filho morgado de Daifuçama, ouvindo dizer dêle que vinha à casa dos padres e ouvia as prègações com ânimo de ser cristão, fêz quanto pôde pelo estorvar, mas não pôde, porque, sem ela o saber, se baptizou. Porém dali a pouco tempo, dizendo-lhe que o filho estava em casa de um fidalgo cristão seu parente, e que ali se havia de baptizar, saiu de sua casa como uma leoa furiosa e entrando onde o filho estava em conversação com aquele e outros cristãos seus parentes, com a mesma fúria que levava, sem falar palavra, toma o filho pelo braço e o leva consigo, dizendo que por nenhum caso havia de sofrer que mudasse a lei de seus antepassados. Ficou o man- cebo mui afrontado com isto, e a mãe tornando em si, bem arrependida de se ter deixado levar da paixão e fazer uma coisa tão indecente a sua pessoa, e por uma parte envergonhada, por outra desejosa de aquietar o filho que estava dela mui sentido e lhe dizia claramente que já era cristão, emfim se aquietou e lhe prometeu que também iria ouvir as prègações. * Um senhor grande gentio matou os anos passados sem razão suficiente a •fi-44- um iamambuxi (que é o mesmo que feiticeiro). O demónio para ganhar crédito com os gentios, todos os anos no mesmo tempo entrava em sua mulher e apoderado dela a atormentava por alguns dias, afirmando que êle era aquele homem a quem o senhor daquela casa mandara matar injustamente. Fêz êle muitas deprecações e cerimónias para o deitar fora de sua mulher, mas tudo em balde. Soube nisto que vivia em suas terras um homem desterrado por ser cristão; mandou-o chamar, rogou-lhe muito que fizesse alguma coisa com que sua mulher ficasse livre daquele demónio. O cristão vendo que por ela ser mulher de um senhor tão principal, não podia ser ver-se com ela de rosto a rosto, pôs em uma câmara uma imagem e fazendo oração e com grande fé diante dela, logo o demónio saiu da mulher, sem nunca mais entrar nela. Quisera ela fazer-se logo cristã, mas porque todos seus parentes e marido eram gentios, não se atreveu por então. Acertou de morrer o marido, e como se viu
  • 222 Das coisas do Japão desembaraçada, se veio logo com sua mãe a nossa casa de Osaca, e ouvindo as práticas do catecismo, ambas juntamente se baptizaram com grande alegria e consolação de suas almas. Entre os mais que se converteram, foram alguns bonzos bem entendidos na doutrina de suas seitas, o que ajudou muito para seus fregueses e discípulos também se converterem. E como-quer-que os mores inimigos e perseguidores que temos em Japão, são os bonzos, nem há remédio para os fazer ouvir nossas práticas e sermões, contudo estes dois anos vieram alguns e ficaram presos. Um foi dos mais insignes médicos de Osaca, o qual os anos atrás fora bonzo e prègador afamado e seu pai ainda mais que êle e ambos sabem mui bem as seitas de Japão e eram de todos conhecidos por grandes letrados. A êste pois trouxeram a nossa casa dois ou três fidalgos, para que disputando êlcs com um 1.44V. irmão nosso, o bonzo os ajudasse e favorecesse na disputa, o * qual cuidava que facilmente poderia responder às razões que de nossa parte se dessem, e soltar os argumentos dificultosos. Mas começando eles a disputar e perguntar várias coisas, finalmente pouco a pouco o foi tocando Nosso Senhor e lhe abriu os olhos de maneira que se converteu e baptizou. Vive agora cristãmente com admiração de todos. Aconteceu a êste uma coisa que pôsto-que foi sonho, foi notável. Logo depois de baptizado, por cinco dias contínuos o ameaçou o demónio em sonhos que se não tornava atrás, o havia de matar. Resistia êle também sonhando, mas o demónio instava representando-lhe mui vivamente como que o amarravam e o punham numa cruz; e êle acordando com isto e entendendo que eram medos do demónio, benzia-se e fazia oração a Deus. Passados êstes cinco dias, por outros tantos sonhou o contrário, que lhe louva- vam grandemente as coisas dos cristãos e que não havia lei no mundo seme- lhante a ela e que via diante de si as imagens de seus ídolos que antigamente adorava, no inferno maltratados e rotos, porque alguns eram de papel e êle mesmo lhes atiçava o fogo com muita diligência, o qual tudo, ainda que toi sonho, lhe aproveitou muito para ficar mais fortificado na fé, e assim vive como cristão antigo e por seu meio se converteram alguns gentios. Outro bonzo da seita dos Icoxus, que tinha setecentos ou oitocentos fre- gueses, veio uma vez dissimuladamente a casa dos padres com seis ou sete homens honrados com intento de convencer ao prègador que lhes pregasse. Ao tempo que vieram, acertou de não estar em casa quem lhes pudesse prègar, e assim se tornaram. Mas o bonzo considerando no caminho que não podia com verdade dizer a seus fregueses que convencera o prègador dos cristãos, e vendo que com isto sua seita ficava desacreditada, tornou a nossa casa com os mesmos companheiros e achando já quem lhes prègasse, ouviu com êles a prègação, na qual de tal maneira ficou convencido e como atado de pés e mãos, que disse no cabo que tudo o que tinha ouvido era verdade e que nem êle Fi.45. nem outrem a podia con*tradizer. Contudo, ainda que convencido não ficou convertido de todo, por não perder os presentes e ofertas de seus fregueses, de que necessariamente havia de carecer, se se fizesse cristão; mas despediu-se dos padres com promessas que depois o seria. Seus companheiros dali a poucos dias, bem instruídos na fé se baptizaram. Ainda que a conversão que se fêz em Osaca êstes dois anos, foi de muita importância, assim na qualidade como
  • Das coisas do Japão 223 na quantidade das pessoas, não foi menor o fruto que se fêz com o crédito que se foi ganhando com os fidalgos da côrte de Daifuçama, que por ser gente dos reinos de Cantó, aonde até agora não foram padres, não sabiam quási nada das coisas de nossa santa lei, antes tinham baixo conceito delas e grande das seitas que seus bonzos lhes pregam; mas vindo agora a Osaca tôda a frol daqueles reinos, foi grande o concurso que naquela casa houve, acudindo mui grande número dêles a ouvir as práticas do catecismo, uns por curiosidade de saber que lei era aquela, outros para a contradizer e outros trazidos por seus amigos; e assim, escrevendo o Padre Pero Morejam, Superior daquela casa, ao Padre Vice-Provincial em uma de vinte e nove de Agosto de 6o t, depois de repetir o sobredito, diz assim: A maior parte da gente de Daifuçama pouco a pouco veio a esta casa, e não sabendo antes coisa alguma de nossa santa fé, antes tendo baixo conceito dela, em várias disputas ficaram tão convencidos, que já iam dizendo muitos bens dela. Entre eles foi um senhor, chamado Sojemono, dos mais avisados e entendidos na seita dos Jenxus de todo Cantó e que para isto tem assalariados dois bonzos, os mores letrados desta seita. Vieram com êle outros dez ou onze fidalgos grandes, que o que menos tem de renda entre êles, dizem serão vinte ou trinta mil gocus de arroz, que são outros tantos mil cruzados. Vendo êste fidalgo em nossa igreja a imagem do Salvador com o mundo nas mãos, começou a disputar do mundo, querendo provar que era quadrado e não redondo, e dando-lhe um irmão japão razão em contrário e provando-lhe como não podia ser, ficou neste ponto conven*cido. * fi.45t. Foram logo tratando do princípio dêste mundo e do Criador dêle, e mostrando no princípio fazer pouco caso do que lhe diziam, indo porém a disputa por diante, procurava pelos menos provar que nossa lei era uma mesma coisa com sua seita. Até que finalmente, mostrando o irmão a grande diferença que havia de uma coisa à outra, se foi satisfeito louvando muito nossas coisas e prome- tendo que, como tivesse lugar, havia de ouvir de propósito as práticas do cate- cismo e se havia de fazer cristão, se ficasse vencido, sem os que com êle vieram, falarem palavra, que parece o traziam por seu Aquiles. Outro senhor, chamado Jonovoribe, mui privado de Daifuçama veio também trazendo consigo alguns outros fidalgos e um bonzo mui entendido nas coisas de Japão, e depois de larga disputa que houve, louvou muito as coisas de nossa santa fé, dizendo que lhe parecia certo que dentro de cincoenta anos a maior parte de Japão estaria feita cristã. E na verdade assim parece, por se ir desacreditando muito a doutrina das seitas de Japão, assim por não haver nelas fundamento, como pela má vida de seus bonzos e sobretudo pela força da razao, verdade e pureza de nossa santa lei. E ainda que muitos a não recebem por se não atreverem a guardá-la, pelo menos por todas as partes vão dizendo bem dela, disputando com seus bonzos gentios como se fossem cristãos. Entre outros que se bapti- zaram foi um mancebo principal, o qual depois de ter disputado e posto muitas dúvidas, convencido se fêz cristão, dizendo que ainda que Daifuçama o deitasse fora de seu serviço e o mandasse matar, não poderia deixar de se baptizar, e com êste ânimo persevera e anda persuadindo a outros da côrte que oiçam o catecismo. Até aqui a carta do padre. Autoriza também grandemente as coisas de nossa santa fé a boa vida dos
  • 224 Das coisas do Japão cristãos e o odor de virtudes que dão pelos reinos onde estão espalhados, e a constância com que confessam e perseveram nela, quando por seus senhores são tentados e perseguidos que a deixem. No reino de * Bijém, onde D. João Acaxicamon de que acima falámos, tinha seu estado, é agora senhor um gentio chamado Quingodono, a quem Daifuçama o deu, porque no tempo da batalha que teve com os governadores, êste pelo favorecer a êle se levantou e pelejou contra os mesmos governadores que dêle se fiavam. Estando pois êste muito mal, que parecia estar ou doido ou endemoninhado, e chamando uns bonzos e uma feiticeira, para que lhe fizessem certos feitiços, puseram para êste efeito ao fogo uma panela de ferro cheia de água e aconteceu que não sòmente não pôde ferver, mas subitamente se fêz em pedaços; e tomando isto em mau agoiro, perguntou Quingodono aos bonzos a causa dêste sucesso. Êles lhe responderam que padecia tão grande mal por ter em suas terras cristãos. Por isto e porque neste tempo Daifuçama falara mal de nossas coisas, dizendo que não queria que houvesse tal lei em Japão, mandaram seus governadores dizer em nome de seu senhor a alguns cristãos principais dos que tem em seu serviço, que logo deixassem de o ser. Responderam êles com muita constância e principalmente Dom João Amacusadono (que sendo desterrado de seu estado de Amacusa, de que os anos passados foi senhor, serve agora a êste príncipe) que êle era cristão antigo desde os tempos de seus pais e que não cuidava que os governadores lhe mandariam a êle tal recado; porém, que se seu senhor assim o queria, entendesse que antes deixaria a renda e a vida que a lei que tinha, e que assim o dissessem abertamente de sua parte ao mesmo Quingo- dono, e que se êles lho não quisessem dizer, êle mesmo lho diria. Esta resposta e resolução bastou para os governadores não entenderem mais com êle nem com os outros nesta matéria. Outro senhor gentio nêste mesmo tempo persuadido de um homem que governava sua casa, mandou dizer a outro fidalgo, seu parente e criado, o qual era cristão, deixasse de o ser, pois Daifuçama dizia que não queria esta lei em Japão. Respondeu-lhe que não só por respeito de sua salvação mas também • fi.46v. pela honra do mundo não havia de tornar atrás, nem * deixar o caminho da salvação que pouco antes com tanta alegria começara, porque seria isto para êle de tanta afronta, que não poderia mais aparecer entre gente; pelo que lhe pedia se contentasse com se servir dêle nas coisas temporais, sem querer enten- der com as de sua alma. Pareceu mui bem a seu senhor esta resposta e lhe concedeu logo que pudesse livremente viver como cristão. Mas aconteceu daí a poucos dias que êste mesmo homem que persuadiu ao senhor mandasse êste recado, lhe caísse em tão grande desgraça, que o mandou matar, sem ter tempo para ouvir o catecismo e se baptizar, como deu a entender que desejava. Por ocasião das solenes exéquias que nesta casa à petição de Jocundono se fizeram por Grácia, sua mulher, como já fica dito, pareceu ao Padre Organtino satisfazer também com a obrigação e amor grande que os nossos deviam a Dom Agostinho, e assim determinou de lhe celebrar com a mesma solenidade suas exéquias, porque ainda que no ano passado se tinham já feito ali e em Nangasáqui e em outras partes, e dito muitas missas em tôda a Companhia por sua alma e de seu filho e irmão, todavia, porque foi morto por mandado de
  • Das coisas do Japão 225 Daifuçama, não se lhe puderam fazer suas honras com o aparato e soleni- dade que merecia. Mas porque agora, por mui solenes que fossem, ficavam encobertas com as honras de Grácia, fez o padre a saber sua determinação a sua mulher Justa e a seu irmão José, e a outros seus parentes e mais cristãos, os quais acudiram todos aos ofícios que se celebraram o dia seguinte depois dos de Grácia, havendo nêle tantas lágrimas e mais, que o dia dantes, e houve por todos aqueles dias tanto concurso de gente que acudiu a ver o concêrto da igreja e da eça, que se não podiam os nossos valer; o que montou muito para que todos os gentios daquela cidade cobrassem diverso conceito, do que primeiro tinham de nossas coisas, e desejassem ouvi-las, especialmente algumas senhoras principais, à imitação da mesma Grácia. * CAPÍTULO XIV .Fi.47. Das coisas que passaram na cidade do Meaco TEM a Companhia nesta grande cidade e cabeça principal de todo império de Japão três casas: uma no bairro que se chama Meaco de baixo, que há mais de quarenta anos que é feita, outra no que se chama Meaco de cima, que haverá três ou quatro anos que se fêz, outra no Fuximi que é uma parte da mesma cidade, onde está a fortaleza e reside Daifu com tôda a corte. Esta se começou o ano passado, e foi a ocasião a mudança que fêz Daifu de sua côrtc, da cidade de Osaca para esta fortaleza de Fuximi, a qual no tempo de Taicoçama foi a mais nobre e formosa coisa que havia em Japão. Mas porque no tempo da guerra foi tôda abrasada pelo exército dos governadores, tornou-a agora a reedificar de novo Daifuçama, fazendo-a mais forte, mas não de tanto aparato e majestade, como dantes era. Para aqui fêz Daifu que mudassem seus paços todos os senhores de Japão. E pelo muito que importava à autoridade de nossa santa fé terem os padres aqui casa, procurou o Padre Organtino haver licença para também aí se lhe dar sítio para a fazer; e para isso foi de Osaca a Fuximi, e visitou duas vezes Daifu com seus presentes, como é costume de Japão. Foi dêle recebido com gasalhado e demonstrações de benevolência; e em uma destas visitas aconteceu que esperando o padre em uma sala que Daifu saísse, na qual estavam muitos senhores e fidalgos, e alguns dêles muito privados de Daifu, vieram a tratar das coisas da nossa santa lei sôbre que houve grandes disputas, no fim das quais mostraram ficar mui satisfeitos e convencidos com as razões que o padre e um irmão japão lhes deram; e alguns dêles prometeram que dali por diante favore*ceriam nossas *fi. +7». coisas, e as iriam ouvir de propósito. Depois disto pediu o Padre Organtino um sitio, para na mesma cidade de Fuximi poder fazer igreja e casa. Os gover- nadores de Daifu lho deram logo, e um dêles (que é o mor privado que êle tem, e que pode com êle tudo quanto quere), chamado Fondazano, disse diante do mesmo Daifu que as seitas que ensinavam haver outra vida, se haviam de favorecer, e mui especialmente esta dos cristãos que era tão santa e tão conforme à razão; e um filho dêste, que também priva muito com o mesmo Daifu, tomou 29
  • 226 Das coisas do Japão a seu cargo favorecer os cristãos em tudo o que pudesse, e assim o fêz com o Padre João Roiz, quando àquela corte foi chamado do mesmo Daifuçama. Residem nesta casa um padre e um irmão e alguns dógicos, e com sua assistência se fêz muito serviço a Nosso Senhor. Baptizaram-se mais de setenta pessoas, e entre estas alguns homens honrados da casa do mesmo Daifu. Além disto ouviram muitos outros as práticas do catecismo, os quais quási todos se houveram de baptizar, se neste tempo não sobreviera o impedimento que arriba tocámos com a vinda de tantos religiosos das Filipinas, com que Daifu se alterou tanto pela razão que já dissemos, que mandou que se não prègasse em Japão a lei dos cristãos; pela qual razão os padres daquelas partes foram forçados a esperar que se aquietassem aquelas ondas, detendo por algum tempo os que estavam já para se baptizar secretamente e sem estrondo, não reparando já nisso o mesmo Daifu, se os ditos religiosos não vieram, coisa que aos padres e cristãos causou muita desconsolação, por se temerem poderem daqui nascer outras semelhantes perturbações da cristandade, como por êsse mesmo respeito as houve no tempo de Taicoçama. Também naquela casa se ouviram muitas confissões de importância, por concorrer nesta cidade infinita gente de todo Japão e de reinos onde não há aí padres, pelos quais os cristãos estão espalhados; pelo que se não podem deixar de ouvir confissões de muitos anos e ajudar a muitos que ali veem ter algum tanto já tíbios e fracos nas • fi.48. coisas da fé. * Além disso é coisa de grande consolação e alívio esta casa para os senhores cristãos que concorrem a esta cidade, por nela terem um refúgio para ouvirem missa, prègaçÕes e práticas espirituais e para comunicarem e tratarem seus negócios com os padres, como fizeram êste ano alguns e em particular Arimandono com seu filho, e Omurandono com seus irmãos, estando naquela côrte. Nas outras duas casas de Meaco se baptizaram êstes dois anos perto de mil e trezentas pessoas, muitos dêles pessoas mui nobres, pôsto-que por causa das guerras passadas agora estão desterrados. Outros se baptizam mas em secreto, por Daifuçama ter proibido que se não façam cristãos os senhores prin- cipais, porque êstes depois não faziam conta dos Camis e Fotoques, e assim os não podia obrigar ao juramento a que o senhor da Tença obriga os mais senhores. Dêstes foi o principal Saxodono, senhor do reino de Vacasa e filho de Quiogocu Maria, aquela senhora de que acima falámos nas coisas de Osaca, com cuja conversão se espera que tendo aquela cristandade de Japão a paz de que tantos anos há carece, se acrescentará muito a lei de Deus, assim naquele reino como no de Tango, do qual é senhor o outro irmão seu, por nome Xorindono, também cristão. Baptizaram-se mais uns dois principais criados dêste mesmo Xorindono, dos quais um dêles indo-se para Tango, mandou logo dizer ao padre que todas as vezes que os da Companhia quisessem ir àquele reino, sustentaria a cincoenta, se tantos fôssem, e que logo mandaria buscar prègador para fazer toda sua família cristã. Levou consigo uma imagem mui formosa, para em sua casa concertar um altar e ali se ajuntarem a fazer oração os cristãos que naquele reino e casa de Xorindono se vão fazendo. Entre as pessoas nobres que também ouviram as prègaçÕes do catecismo, foram dois filhos do senhor do reino de Jechingo, cuja mãe, ainda que também gentia, é
  • Das coisas do Japão 227 porém * amiga dos padres e dos cristãos, e pôsto-que estes dois fidalgos se não • 48 *• baptizaram pelas razões que acima disse, ficaram contudo mui convencidos e conhecendo que não havia outra lei verdadeira senão a dos cristãos. Ouviu também as pregações a mãe de Janagavadono, senhor da maior parte do reino de Chicungo, mas não se baptizou por não se poder acabar de persuadir que nossa alma é imortal. Entre os que se baptizaram, se fêz cristã uma mulher nobre que, vivendo Taicó, estava em seu palácio, e morrendo êle, casou no Meaco e por conselho de algumas mulheres cristãs que em sua casa tinha, estando enferma, pedindo aos padres que êles e os cristãos fizessem oração por ela, pediu juntamente lhe quisessem mandar umas relíquias que ouvira dizer ajudavam as mulheres no tempo do parto, e que ainda que seu marido era gentio, ela prometia fazer-se cristã e baptizar a creança que parisse. Mandaram-lhas, teve bom parto. Baptizou-se logo; daí a pouco tempo morreu da enfermidade. Antes de expirar fêz baptizar o menino. Manifestou-se por cristã a seu marido e a uma mulher que a veio visitar, e pôsto-que êles com muita eficácia lhe persuadiram que morresse gentia e invocasse a Amida, nunca o puderam acabar com ela, antes com grande fortaleza perseverou até à morte invocando sempre o nome san- tíssimo de JESUS. Pediu que lhe levassem seu corpo à nossa igreja, o que não teve efeito por causa dos parentes que o não consentiram e a fizeram enterrar pelos bonzos com grande solenidade; mas o ter-se baptizado e decla- rar-se por cristã, foi uma coisa grandemente soada no Meaco, por ser ela grande, nobre e conhecida de todos. Baptizou a esta senhora uma mui insigne cristã por nome Júlia, irmã de Naitofindandono João, aquele fidalgo de quem dissemos que na perseguição de Fingo se mostrou mui esforçado e foi capitão dos mais; a qual por ser pessoa mui nobre e que antigamente foi cabeça de muitas freiras gentias, e era afamada por mui devota de Amida em cujo serviço viveu dezasseis anos, prègando e ensinando sua seita com gran*de zêlo, depois *Fl-4£>- que se converteu à nossa santa fé (haverá sete ou oito anos), tinha grande entrada em tôdas as casas de gente nobre e era uma grande ajudadora no Evangelho, de modo que por ela se converteram muitas senhoras. Sabendo-se, pois, que Júlia fôra a que baptizara aquela senhora, além de outras muitas mui nobres (e ainda no mesmo paço de Taicó, no tempo em que êle mais perseguia aos cristãos), foi acusada diante de Daifuçama por um bonzo, cabeça dos da seita de Amida, o que fêz por meio da mãe do mesmo Daifuçama, dizendo dela que era perseguidora e destruidora de Amida, pois além de lhe ter queimado uma sua imagem mui estimada entre os gentios, quando logo se converteu, andava agora por todo o Meaco convertendo e baptizando a muitas mulheres nobres, sem o saberem seus maridos; portanto que a mandasse matar ou desterrar. Mandou logo Daifuçama, que também é da mesma seita de Amida, que a buscassem; o que sabendo o Padre Organtino e vendo que sem dúvida corria grande perigo, por o bonzo lhe desejar muito a morte e ter grande entrada com Daifu de quem fácilmente o alcançaria, lhe persuadiu que se escondesse e fôsse para as partes do Ximo, o que ela por nenhum caso queria fazer, escrevendo sôbre isto uma carta ao mesmo padre, em que lhe dizia que de nenhuma maneira se havia de esconder, porque, como ela desejava muitos
  • 228 Das coisas do Japão anos há o martírio, agora que se lhe oferecia ocasião para êle, não lhe estava bem deixá-la passar; além disto, que em todo o caso havia de ir diante de Daifuçama, para lhe descobrir as mentiras e hipocrisias dos bonzos, e como o traziam enganado, como também a trouxeram a ela por muitos anos. Enfim tanto trabalhou o padre com ela, representando-lhe o perigo em que com o seu punha aos mais cristãos, que ela se sujeitou e se foi para Nangasáqui e daí para Arima, onde Arimandono com sua mulher Justa lhe fizeram grande e honrado recebimento, dando-lhe casas e todas as alfaias necessárias para viver conforme a sua qualidade, e onde também ajuda muito com seu grande fervor • F1.49V. e conhecimento que tem * das coisas de Deus, as mulheres que estão em casa de Arimandono, aonde muitas vezes vai. Foi mui estimada nesta cidade de Meaco a conversão de um parente de Nobunanga, mui afamado nele ainda que desterrado, e a de um criado que foi de Taicoçama, que por na guerra passada ser da parte dos governadores, lhe custou mais de três mil e quinhentos cruzados reconciliar-se com Daifuçama; e a de um bonzo principal do mesmo Meaco, assim por êle ser conhecido e estimado naquela cidade, como pela constância que teve em não querer deixar de se baptizar, por mais estorvos e impedimentos que um irmão seu lhe pôs, o qual ainda agora não deixa de o perseguir e persuadir que torne atrás, prometendo-lhe por isso muitas dádivas; e a de um homem, morador na mesma cidade, que é o principal ourives de Japão, rico, prudente e mui visto em todas as seitas dos gentios, o qual há três ou quatro anos que ouvindo muitas vezes as coisas da nossa santa fé, as andava cotejando com as dos Camis e Fotoques, e achando finalmente que tudo era vento e mentira, e só a lei de Cristo verdadeira, se resolveu este ano de receber o sagrado baptismo, deixando espantados e movidos a muitos gentios, dos quais era tido por um oráculo nas coisas de suas seitas. Um cristão, oficial insigne de conhecer o preço e fineza das espadas e por isso mui conhecido dos senhores japões, estava casado com uma mulher gentia, filha de um cidadão honrado, o qual era tão grande inimigo de nossa lei, que nunca quis consentir que sua filha se fizesse cristã, por mais que o marido nisso fêz, desejando ela também sê-lo; pelo que o marido que é bom cristão, se resolveu a dar-lhe repúdio e mandá-la para casa de seu pai. Sentiu isto o sogro grandemente e fêz grandes estrondos, queixando-se do genro e dos padres, até lhe pôr demanda e o acusar que era cristão, para que tornasse a tomar sua mulher e a deixasse viver como gentia. E porque o genro não quis consentir nisto, durou a demanda perto de dois anos e não sem grande moléstia dos •F1.50. mais cristãos e padres, até que êste ano o pai deu licença à fi*lha que se fizesse cristã e então o marido a tornou a tornar. Tendo um cristão sua mulher gentia e desejando grandemente fazê-Ia cristã, o que ela também queria, a foi instruindo mui bem nas coisas da fé, mas não na podia levar à igreja para se baptizar, porque os pais dela, que eram gentios, o não queriam consentir. Adoeceu ela gravemente; viu-se o marido em apêrto, arreceando de lhe morrer sem baptismo, nem havia modo para lho poder dar, porque seus pais estavam sempre com ela para o estorvarem; por onde, não achando outro remédio, se resolveu de a baptizar êle mesmo, e assim o fêz
  • Das coisas do Japão 229 uma noite secretamente e logo o declarou a seus pais, os quais sem embargo disso, querendo mandar vir bonzos para que a ajudassem a morrer e lhe enterrassem seu corpo depois de morta, o marido o não quis consentir, do que os sogros se sentiram tanto, que por força queriam meter os bonzos em casa, mas o mancebo ajudado de certos cristãos se determinou com êles de modo que se ia armando uma grande briga, se se não meteram alguns de permeio, como foram os nossos e o logo-tenente do governador, que é cristão, com que os sogros se aquietaram e a mulher sabendo o que passava, se alegrou tanto que logo se começou a achar melhor. Estando mui doente uma senhora cristã, filha de um cunge (dignidade dos que imediatamente servem ao Dáiri, verdadeiro rei de Japão), a foi visitar sua mãe que era gentia, e movida de amor natural a exortava a procurar sua salvação pelo modo que ela sabia, pedindo-lhe algumas vezes que dissesse Namu-Amida-But, que são as palavras com que os gentios invocam a Amida, crendo que basta pronunciá-las para sem pena alguma passar ao paraíso, pelos merecimentos de Amida ; e para mais a mover a isso, tirou do seio certos Fotoques ou idolozinhos, a seu parecer mui devotos, com cuja vista cuidava que a filha se moveria a devoção. Mas sucedeu-lhe pelo contrário, porque a filha lhe respondeu que ela era cristã, e como tal havia de morrer; portanto que não lhe falasse mais em invocar a Amida nem lhe entrasse de suas portas para dentro com semelhantes * deuses ou, para melhor dizer, demónios, e isto *fi. 5or. com um rosto tão severo, que a velha se foi mui confundida e espantada da resolução e fortaleza de sua filha. Jeximino, Rei que foi de Bungo, filho de El-Rei Francisco de boa memória, de cuja redução à fé se escreveu na relação passada, e que estava desterrado neste reino de Omi, aqui perto de Meaco, este ano por mandado de Daifuçama foi desterrado para o reino de Deva (1) que é nos últimos fins de Japão, para a parte do Oriente, levando consigo bem poucos criados e deixando sua mulher no Meaco, por não ter comodidade para a levar. E ainda que é coisa lastimosa, ver um senhor que foi de cinco reinos, pôsto em tão baixo estado, todavia parece que pela intercessão do bom Rei Francisco, seu pai, o quere Nosso Senhor salvar por essa via, porque a volta tão grande que deu em Bujém de sua infidelidade, parece que foi de coração, pois desde então até agora persevera sempre nos mesmos desejos e edificação, escrevendo muitas vezes aos padres que toma este castigo por singular mercê de Nosso Senhor, pelo ter livrado da má vida e cegueira em que andava, e agora, havendo de se mudar para seu destêrro, mandou chamar um padre para se confessar, o qual tratando dele em uma carta dizia assim: Fui ao reino de Omi, à petição de Jeximino, Rei que foi de Bungo, o qual havendo-se de partir para seu destêrro, mandou pedir que fôsse lá um padre para se confessar primeiro. Alegrou se e animou-se muito com a minha ida. Confessou-se êle e outros criados seus que eram cristãos, baptizaram-se outros cinco que ainda eram gentios e haviam de ir com êle, porque não quis levar consigo senão cristãos. Eu me consolei muito vendo sua cháneza e humildade, e muito mais vendo a conformidade que tem com a vontade de Deus, aceitando todos seus (1) Nt.: Uva.
  • 23o Das coisas do Japão trabalhos em castigo de seus pecados, tendo-os por particular mercê de Deus e conhecendo que tudo é ainda pouco, para o que êle merece. A mulher fica no Meaco, a qual ouvindo também as pregações do catecismo, fêz bom entendi- • fi. 5i. mento das coisas de Deus, e * logo se houvera de baptizar, se não fôra por respeito de sua mãe que serve ao Dáiri e foi sua ama de leite, e também por respeito do mesmo Dáiri que o tomaria mal; mas diz que ela se negociará de maneira que, sem haver estorvo nem estrondo, se possa baptizar dentro de pouco tempo. Tive muita compaixão do pobre rei por ir desterrado para partes tão remotas, e tão desprovido de todo o necessário, que foi necessário ao Padre Organtino ajudá-lo com alguma coisa, de que ficou mui agradecido. Entre algumas exéquias que se fizeram por pessoas nobres, com edificação dos japoes cristãos e gentios e com crédito de nossa santa lei, se celebraram também umas por Sacondono, filho morgado do Genefoim que no tempo de Taicoçama foi Vizo-Rei do Meaco, e um dos governadores a quem êle deixou encomendado seu filho. Êste Sacondono sendo cristão, pelo ser foi deserdado e desterrado por seu próprio pai, e antes de morrer se confessou e comungou, e estando no cabo mandou chamar um padre que o ajudasse naquela hora. Não no puderam os padres enterrar na igreja porque, por ordem de seu pai que ainda então era vivo, tomaram os gentios seu corpo e o enterraram a seu modo. Mas as exéquias que lhe fizeram, mandou celebrar um irmão seu, por nome Xug[en]dono Paulo também cristão, e para ajuda delas mandou cinco barras de oiro, que montam duzentos cruzados, os quais todos se repartiram entre pobres, de que mais se edificaram os japões que das mesmas exéquias, porque os bonzos tudo o que lhes mandam por semelhantes ofícios, recolhem para si, por serem sumamente cubiçosos e avarentos, donde veio que morrendo neste tempo um bonzo chamado Nangatocubo dos seis principais de Atango (que é um mosteiro mui célebre que está numa serra junto de Meaco), além de outra muita fazenda lhe acharam sòmente em oiro três mil barras que montaram cento e vinte mil cruzados, às quais êle tinha tanto amor, que estando já para expirar mandou que o levassem à casa onde as tinha guardadas, e do meio • fi.5iy. delas se * foi ao inferno, coisa que foi mui notada e praticada naquela corte de Meaco. Por onde, quando vêem o estilo contrário que os padres levam em semelhantes ofícios e nos mais ministérios de sua profissão e a caridade com que acodem aos pobres com tudo o que podem, não reservando nada para si, grandemente louvam a pureza de nossa santa lei e da vida dos que a pregam, e conhecem melhor a cobiça e má vida de seus bonzos. Êste Xugendono de que iamos falando, foi grandemente tentado e combatido por todo êste tempo de seus parentes e de muitos senhores gentios, amigos seus, que se fizesse jenxu (que é uma seita que não estima os Fotoques) ou pelo menos no exterior desse algumas mostras de não ser cristão; porém êle, como o é tão fino, sempre lhes respondeu que antes daria a vida e perderia todo seu estado que fazer tal coisa. E assim o mostrou por obra na morte e enterramento de seu pai gentio, porque indo a enterrar em um grande campo, onde se ajuntaram mais de quarenta mil almas e quási tôda a nobreza de Japão, por ser em tempo em que todos os senhores estavam na corte, e levando os gentios certa divisa, pela qual mostravam que o eram e que adoravam os Camis e Fotoques, êle não sòmente
  • Das coisas do Japão a não quis levar, mas ordenou e fêz que seus parentes a não levassem, confes- sando e prègando nisto com grande fortaleza e ânimo cristão diante de toda aquela gente e de três ou quatro mil bonzos, capitais inimigos de nossa santa lei, que êle era cristão e por tal queria que todos o conhecessem e que aqueles que conhecem e adoram o verdadeiro Deus, nem temem nem se envergonham de o confessar diante de todo o mundo, nem de morrer por êle, quando é necessário. CAPÍTULO XV Das missões, que se fi\eram à cidade de Firoxima e aos [reinos] de Foquoco # T^llROXlMA, cidade mui grande, foi cabeça de todos os nove reinos de«F).5«. |"H Moridono, e agora o é de dois dêles que Daifuçama deu a um senhor gentio que o serviu muito na guerra contra os governadores, por nome Fucoximandono, o qual corre mui bem com os padres de Meaco, a quem esta residência pertence. E porque tem em seu serviço alguns fidalgos cristãos que trouxe consigo, e em Firoxima havia já também outros que os padres fizeram, quando ali residiam no tempo de Moridono, pediram, assim êle como os fidalgos cristãos, aos Superiores da Companhia, tornassem ali outra vez a mandar os padres e a fazer residência, como dantes tinham, e que para isso lhes daria sítio conveniente e ainda melhor e mais acomodado do que primeiro tiveram. Não se pôde isto efeituar até agora, por se ir com tento e cautela em não dar ocasião a Daifu se ofender de os padres se espalharem tanto pelos reinos de Japão contra seu mandato, principalmente agora que, com a vinda dos religiosos que acima disse, das Filipinas, tanto se alterou; porém, ainda que os padres não estão ali de assento, não deixam os Superiores da Companhia de mandar entre ano alguns a visitar de quando em quando aqueles cristãos e a os consolar e confessar, como fizeram por duas ou três vezes. Baptizaram-se de novo como cento e cincoenta, e entre êles um fidalgo principal da corte deste senhor. Vieram no tempo que ali estiveram, muitos gentios ouvir as práticas do cate- cismo, por estarem persuadidos que os Camis de Japão não podem nada nem teem divindade alguma; e a razão que os persuadiu a isso, foi um caso que ali acontecera pouco antes de os nossos irem. E foi que estando de parto e em perigo de morte a mulher de Fucoximandono, assim êle como os de sua casa e mais casados fizeram grandes votos, promessas e romarias aos principais Camis e Fotoques de Japão por sua saúde, dando logo por essa intenção uns, ricas peças, outros, preciosos vestidos, outros, prata e oiro, principalmente a um Cami afamado, cujo templo está cinco léguas de Firoxima # chamado Daimiogin que, «fi.sjv. como dizem, foi mulher coreia de nação, e como a veneram tanto, lhe teem feitos sumptuosos edifícios em uma ilha com tal artifício, que enchendo a maré entra por baixo de todos êles de modo que parecem ficar fundados sôbre as mesmas águas; e ardem diante dêste idolo continuamente muitas alâmpadas e é mui celebrado pela antiguidade do edifício, ornato de riquezas, pelos muitos dons que lhe oferecem, e frescura grande do lugar. Porém, nem com todas as
  • 232 Das coisas do Japão ofertas e devoções que se fizeram, puderam alcançar saúde dêle, nem dos mais, para a pobre mulher que com tudo isso morreu; donde ficaram todos com tão pouca opinião dos Camis e Fotoques, que por esta causa diziam que vinham ouvir as prègações para saberem pelo menos que coisas eram as que ensinava a lei dos cristãos. Outra missão se fêz aos reinos de Foquoco, três dos quais são de um senhor gentio chamado Fijendono que é dos mais poderosos de Japão e tão acreditado em todo êle, que presumem muitos que morrendo Daifuçama lhe pode fàcilmente suceder na Tença. Tem êste rei em seu serviço ao nosso grande cristão Justo Ocundono, a quem tem dado de renda quarenta mil fardos de arroz, que montam vinte mil cruzados, a cuja instância foi mandado um padre àquelas partes para o confessar a êle e a tôda a gente de sua casa e juntamente ver a disposição daquela terra para a conversão; e desde que lá o teve e viu o fruto que se ia fazendo com sua estada, tornou de novo a escrever aos Superiores para que lhe prorrogassem o tempo da missão, o que se lhe concedeu, e esteve lâ o padre passante de um ano. Tinha-lhe Justo feito umas casas e igreja para o agasalhar, e o sustentou sempre à sua custa com muito amor e devoção; e é tão grande o bom odor e exemplo que êste ilustre varão dá de si a todos naqueles reinos, que por isso é mui estimado de Fijendono e de tôda sua corte, e vivem de tal maneira êle e todos os de sua casa, que parecem outros tantos religiosos, jejuando todos os dias de obrigação, tendo «fi. 53. cada dia seu tempo * de oração, penitências e mortificações e outras coisas de muita edificação; nem consente que seus criados façam coisa que por algum modo dê aos gentios sombra de não ser bem feita. Concorreu grande número de gente a ouvir as prègações do catecismo, e com haver prègação quatro ou cinco vezes no dia, não havia poder satisfazer aos que vinham baptizar-sc. Iam duzentas e sessenta pessoas, pouco mais ou menos, quási todos nobres e mais de sessenta dêles da casa de Fijendono; entre êstes se con- verteu um bonzo de Coja que foi uma universidade principal de Japão, o qual logo entregou ao padre todos seus livros e ídolos, e foi sua conversão de grande gosto para Ocundono que logo tomou a seu cargo favorecê-lo. Confessaram-se todos os cristãos daquelas partes, que com grande fervor e devoção vinham buscar o padre que ficava mui consolado de ver com quanta virtude se conservavam no meio daquela gentilidade, e as penitências que faziam, porque muitos jejuando tôda a quaresma, acrescentavam ao jejum outras penitências, como não beber vinho nem o chá, que é coisa que os japões muito sentem, guardarem conti- nência com suas mulheres de comum consentimento naquele santo tempo, e passarem dois e três dias sem comer. Ajuntam-se de quando em quando para tratarem das coisas de Deus, e terem lição espiritual e fazerem oração juntos, com que muito se animam. Como com prègações do padre se começou a divulgar por aqueles reinos que os Camis e Fotoques eram paus e pedras, ou fôram homens que estão agora no inferno, muitos dos gentios lhes perderam a devoção e respeito de modo, que deixaram de frequentar seus templos e de ter comunicação com os bonzos. Foram êstes reinos antigamente do Bonzo de Osaca, que é cabeça da seita que chamam Icoxus, os quais lhe tomou Nobu- nanga na guerra que com êle teve mais de sete anos, pelo qual estavam aqueles
  • Das coisas do Japão 233 reinos cheios de gente desta seita e de muitos bonzos, mas depois dela se foram extinguindo de modo, que há já muito poucos e esses sem renda e com todas suas varelas e templos derribados, sem terem possibilidade para os reedifi*car. E passando o padre pelo reino de Omi, viu em um campo deitados »fi.53t. por terra quarenta Fotoques grandes de pedra, sem haver quem fizesse caso deles; e no reino de Jaigém todos os Fotoques que havia em um lugar por onde passou, estavam feitos pedaços e postos por alicerces das casas dos mesmos gentios que dantes os adoravam. E não é somente esta destruição dos ídolos e bonzos nestes reinos do Foquoco, mas geralmente em quási todos os reinos de Japão. Por onde se entende que, havendo paz e vindo um senhor da Tença que favoreça os cristãos e seja amigo de nossa santa lei, ou pelo menos a não contradiga, que ela se estenderá com grande prosperidade por todo Japão em breve tempo. Por meio de Justo Ocundono visitou o padre a Fijendono, e foi dêle mui bem recebido, dizendo que se alegrava muito de o ver em sua terra, e encomen- dou-o por vezes ao mesmo Ocundono, dizendo-lhe que procurasse que nada lhe faltasse, e continuou sempre com êle com muitos cumprimentos e sinais de amor; nem foi pequena ajuda para a conversão que se fêz, o dizer êle por vezes publicamente que folgava que seus criados tomassem tão boa e santa lei. E assim, com palavras e obras favorece muito aos cristãos, visitando-os de quando em quando e indo comer com eles em suas casas com muita familiari- dade e benevolência, fazendo-lhes mercês e acrescentando-os em rendas. A um que seu pai tinha desterrado, tornou a restituir, sem querer fazer outro tanto com nenhum de muitos gentios, por seu pai deixar ordenado em seu testamento que a nenhum dos que êle deixava desterrados, tornasse a restituir. Tem perdido êste senhor todo o respeito e devoção aos Camis e Fotoques; e assim contou êle um dia, por graça, a Justo Ocundono que sua mulher o repreendia muitas vezes, porque matava à espingarda as raposas que andam dentro da cerca de sua fortaleza, por serem dedicadas a um Cami, chamado Inari, de que ela é mui devota; mas que nem por isso deixa de matar quantas pode, porque nenhum caso fazia de semelhantes superstições, o que não é pou*co por quão • Fin- dados são a elas os senhores gentios de Japão. E assim o mostrou bem no que fêz neste ano estando em Meaco, porque persuadiu mui de propósito a sua mãe e irmã, que ouvissem as práticas do catecismo, porque lhes afirmava que, ainda que por ser mancebo se não baptizava, entendia contudo que não havia certo caminho de salvação, [mais] que aquele que ensinava a lei dos cristãos, e que por isso desejava que ela, por ser já velha, e sua irmã ouvissem tão santa lei e se baptizassem. Moveu-se a mãe tanto com seus conselhos, que se foi de Meaco a Osaca, que são treze léguas, para mais à sua vontade as ouvir. E a irmã mandou por vezes aos nossos algumas boas esmolas, pedindo que enco- mendassem a Deus seu marido e filhos, e sempre também com promessas de se fazer cristã. Tornou-se o padre daquela missão com tanto sentimento dos cristãos, que Justo Ocundono, cada vez que falava em o padre se haver de vir, não podia ter as lágrimas. Em remate das coisas de Japão, fecharemos a relação delas com uma mui notável que nesta cidade de Meaco sucedeu e que grandemente consolou e 3o
  • > 234 Das coisas do Japão animou os cristãos e confundiu os gentios, a qual foi esta. Assim como esta cidade é a cabeça e metrópole de todo o Império de Japão, assim o é também de tôda a gentilidade e idolatria dêle. Havia aqui um Fotoque ou ídolo de Xaca, famosíssimo em todos estes reinos, chamado Daibut, que quere dizer Fotoque grande, porque era de admirável e estranha grandeza e da mesma era também o templo em que estava colocado, o qual se sustentava com muito número de grossíssimas e altíssimas colunas de madeira, que em si tinha. Junto a êste grande templo, ainda que algum tanto afastados, havia outros muitos que, pôsto-que menores, eram todavia grandes e mui formosos, e tudo junto a mais insigne coisa e o mor ornato desta gentilidade e de que os gentios mais se prezavam. Sucedeu que aos quinze de Janeiro de 602 o fogo se pegou no ídolo Daibut e dêle no seu templo, e como o ídolo e o edifício era coisa tão grande, com a ruína que tôda esta máquina fêz ao cair, se pegou também o • F1.54V. fogo (ajudado do vento * que sucedeu ser então rijo) aos outros templos vizi- nhos e juntamente a uma rua que aí estava perto, onde pousavam os bonzos que são os seus falsos sacerdotes, e tudo se tornou em cinza. E por isto suceder em tempo que Daifuçama, senhor universal do Japão, mui pouco afeiçoado à nossa santa lei e muito à sua perversa seita e aos bonzos, mandava que se renovassem os templos e ídolos que com as guerras estavam destruídos ou danificados, e lhes ia assinando novas rendas, foi ocasião de muita glória de Cristo e de muito abatimento e descrédito para os gentios e que não pode deixar de os humilhar, como nem de consolar aos cristãos, vendo a cabeça de sua idolatria e crença e o que mais estimavam, tornado em pó e cinza. Alguns quiseram dizer que fôra isto fogo do céu, mas não era necessário tanto para destruir a Daibut. Mas a verdade foi que andando muitos oficiais e com grande número de gente renovando êste Daibut e cobrindo-o por fora de metal, como lho iam [deitando] por cima derretido e abrasado, de tal maneira, sem êles advertirem nisso, lhe penetrou as entranhas, que achando-lhas, como eram, de madeira e esta mui grossa, sêca e bem disposta, o fogo se apoderou dela de sorte que o triste Fotoque se não pôde ser bom a si mesmo, nem houve quem lhe pudesse valer, senão que com seu templo e com os outros vizinhos e junta- mente com a rua e casas dos bonzos se tornou tudo em cinza e em carvão, começando o incêndio ao meio dia e durando três dias inteiros. Tiveram os cristãos isto por bom prognóstico, e por mercê mui grande de Deus suceder êste caso de maneira que não pudessem os gentios lançar a culpa aos cristãos, como o costumam fazer com semelhantes sucessos, achando qualquer ocasião para isso.
  • "LIVRO SEGUNDO DAS COISAS DO REINO DA CHINA E DE MALUCO dos anos de seiscentos e um e seiscentos e dois CAPÍTULO PRIMEIRO Do colégio de Macau na China O reino da China, e numa ponta da terra firme, que é como uma península da província de Cantão, há uma cidade de portugueses, episcopal, que é a de Macau, onde a Compa- nhia tem um colégio em que ordinàriamente residem trinta, pôsto-que neste ano houve perto de sessenta, por invernarem aí os que iam para Japão no ano de 600 e 601. E como este colégio é seminário das duas tão grandes emprêsas e missões, como são as do Japão e China, nele temos estudos de humanidade, artes e teologia, onde se perfeiçoam em letras e espírito os que hão-de traba- lhar naquelas grandes vinhas. Conversão de gentios não a há neste colégio de ordinário, porque não há casa de catecúmenos onde se possam instruir, mas não deixam pelo discurso do ano de se baptizar alguns. Visitou Nosso Senhor este ano este colégio com alguns trabalhos, e foi de um grande incêndio de fogo, que por desastre se ateou na * nossa igreja, # fi.it. porém, em se dando sinal, como tôda esta cidade tem tanta devoção e amor aos padres, não sòmente os homens, mas até as mulheres e donas mui honradas saíam de suas casas e vinham pelas ruas juntamente com suas moças e escravas, carregadas de vasilhas de água, que davam a seus maridos e moços para lançarem no incêndio, o qual foi tão bravo, que escassamente deu lugar para se poder tirar o sacrário do Santíssimo Sacramento. E se não fora a mui grande diligência que todos puseram, não ficara coisa em todo colégio que não ardera, porque da igreja saltou o fogo e se começou a atear em três partes dêle. E como a igreja ardeu de modo que não ficaram mais que as paredes, e essas estaladas e abertas com a quentura por ser de taipa, nem houve comodidade para se tornarem a concertar, foi necessário acomodar-se uma sala das escolas para servir por entretanto que outra se vai fazendo; e para isto, além das esmolas que muitas pessoas fizeram (com ser o tempo em que mais apertada e necessitada esteve esta terra, por terem os homens perdido quási todo seu cabedal na nau que vindo de Japão se perdera), todos os moradores desta cidade, movidos de caridade e compaixão, fizeram uma junta em que, diante
  • 236 Das coisas da China do capitão mor, por consentimento universal, deram àquela casa meio por cento de tudo quanto tinham em Japão, trazendo Nosso Senhor a salvamento a nau que então lá estava, pela qual esperavam. E seguraram-na mui bem, porque Deus lha trouxe mui próspera; e não montou tão pouco esta esmola, que não passasse de três mil e cento e trinta pardaus de reales. Houve este ano nestas partes grandíssimas tormentas, assim no mar como na terra. As da terra foram tão bravas, que derrubavam as casas e quando menos destelhavam as telhas. No nosso colégio, por estar em sítio alto, fize- ram grande dano, derrubando parte dele, que por suceder depois de reparado do incêndio, não causou pequena perda. No mar, entre outros danos, deu à costa daqui a catorze léguas com uma das naus que vinham da índia, na qual, além das drogas, se perderam só em reales quatrocentos mil pardaus, que era quási todo o cabedal da gente da índia de negócio. Morreu também muita «fi. 3. gente afogada e outra * alanceada e ferida com a pregadura e lanças que anda- vam sôbre as ondas do mar. E antes que se perdesse a nau, algumas pessoas também foram mortas com um raio que sôbre ela caiu. Outras duas naus, em uma das quais vinham dez padres nossos, chegaram aqui destroçadíssimas, principalmente a dos padres, a qual temos que Deus livrou milagrosamente, conforme ao extremo de perigo a que chegou, pelos muitos serviços que os padres nela lhe tinham feito. Um dia depois da chegada destas naus, apareceram ao mar outras três que vinham tão seguras e com as velas tão estendidas, como se não lhes tocara a tormenta passada. Eram duas delas grandes e um patacho pequeno. Enten- deu-se logo serem de inimigos, porque nenhumas se esperavam de parte alguma, por serem chegadas as da índia e não haver monção para virem doutra parte; e porque esta cidade não tem muros nem fortaleza nem presídio algum de artilharia e soldadesca, não se dando os da terra por seguros em suas casas, recolheram tôda sua prata e mais fato neste colégio, pedindo juntamente ao Padre Reitor que em caso que os inimigos tentassem desembarcar, lhes desse licença para suas mulheres e famílias se recolherem da nossa cerca para dentro, porque, ganhando os inimigos a praia, determinavam retirar-se ao Colégio por estar mais alto e defensável, e se caso fôsse que Deus os quisesse castigar permi- tindo que os inimigos prevalecessem, se consolavam [de] acabar entre os padres. Estava aqui por capitão mór Dom Paulo de Portugal, que logo pôs com muita presteza em ordem a gente que havia na terra, no melhor modo que a brevi- dade do tempo sofreu, e se foi pôr no pôsto para onde os inimigos encaminhavam, os quais surgindo bem perto de terra com grandes bandeiras brancas por pôpa lançaram um esquife da nau capitânia, que com onze homens se veio chegando a terra para a reconhecer e saber onde estavam. Êste foi logo tomado por uns barcos nossos, e trazidos dois dêles diante do capitão, onde disseram ser holandeses que vinham buscar veniagas e assentar comércio naquelas terras. E porque alguns dos outros companheiros dêstes disseram que as naus traziam setecentos homens, estiveram os nossos tôda a noite em vigia. • fi.a*. * Ao outro dia pela manhã, vendo os inimigos que os seus do esquife não tornavam, lançaram o patacho, o qual vinha entrando pelo canal defronte da cidade, e sondando a entrada. Saíram-lhe três ou quatro embarcações nossas
  • Das coisas da China que logo o tomaram com nove homens, em que entravam o piloto e feitor da nau capitânia, quatro peças de artilharia e outros petrechos de guerra. As naus vendo tomado seu patacho, se levantaram logo e foram surgir dali a dezoito ou vinte léguas, o que sabendo o capitão mor armou seis navios de remo, e estando já prestes e embarcado para os ir buscar, lhe veio recado que eram idos. Dos que ficaram presos morreram os mais dêles por justiça, mas foi Nosso Senhor servido que, por meio dos nossos, todos se reduziram e acabaram confessando a fé católica e obediência ao Sumo Pontífice; confessa- ram-se sacramentalmente muitas vezes, e mostraram que morriam mui consola- dos, pedindo perdão a Deus e aos circunstantes. CAPÍTULO II Da jornada que os nossos fi\eram à córte do grão Pequim da China UMA das nações do mundo, em que mor fruto se pode fazer com a prè- gação do Evangelho, é a da China; mas como nenhum fruto nela pode ficar seguro, emquanto não houver chapa e licença do próprio Rei para os nossos nela ficarem de assento, a coisa que mais procuram, depois de ven- cida a primeira dificuldade que tantos anos durou, que foi a entrada neste reino, é ver se podem alcançar esta licença do mesmo Rei; para o qual, no ano de noventa e nove, o Padre Mateus Ricio, por meio e favor de um mandarim com quem tomou muita amizade e em sua companhia, foi à côrte do grão Pequim que * é a cidade real onde El-Rei reside, por ver se a podia negociar. Mas, - fi. 3. porque em mais de um mês que nela esteve, nao pode achar quem se atrevesse a falar nêle a El-Rei por ser estrangeiro, se tornou à cidade de Nanquim, segunda côrte, onde já estava o mandarim que o levara a Pequim, e que lá também o não pudera favorecer, e fôra mandado para aquela cidade a servir um grande ofício. Este lhe persuadiu fizesse ali casa e lha fez logo comprar com chapa pública; e começando a tratar com os da cidade, e principalmente mandarins que ali são muitos, ganhou com êles tanto crédito e reputação de letrados e santos, que de todos foram ali grandemente recebidos e respeitados os nossos, e alguns também fazendo entendimento de nossa santa fé e rece- bendo-a se baptizaram. Mas como o intento do Padre Mateus Ricio era o negócio de Pequim, o tratou com todos aqueles principais mandarins, por modo de lhes pedir conselho e parecer que todos lhe deram, devia tornar à côrte e levar a El-Rei um presente de coisas curiosas, novas e nunca vistas na China, como eram as que o padre lhes dizia podia levar, e para isto lhe deram todos suas cartas de favor para os mandarins que na côrte o podiam favorecer, e um mandarim grande, a quem pertence o despacho de semelhantes negócios lhe deu uma chapa e uma petição em que se dava conta a El-Rei do presente que o padre lhe levava; e com êste aviamento, e principalmente confiado na divina bondade e intenção e fim de sua- ida que não era outro que a causa e honra de Deus, se partiu aos dezanove de Maio de seiscentos, levando em sua companhia o Padre Cristóvão Pantoja e o irmão Sebastião Fernandes, e deixando na casa
  • 238 Das coisas da China e residência de Nanquim os Padres Lázaro Catânio e João da Rocha. O dia antes de sua partida se vieram despedir dos padres os mandarins cristãos com muito amor, e por despedida lhes deram em nossa própria casa um solene banquete e lhes ofereceram alguns presentes. Partiu-se o padre em companhia de um eunuco de respeito, que lhe tinha feito grandes oferecimentos e levado já muitas peças para El-Rei. Começaram a fazer uma viagem por o rio acima de Nanquim em uma embarcação que o • fi. 3t. mandarim grande * lhes mandou dar, a qual com outras oito o eunuco, em cuja companhia ia, levava a seu cargo. É êste rio dos maiores que há no mundo, porque é tão largo, que indo embarcações navegando, de uma parte se não vê a terra e da outra se enxerga muita ao longe, e com estar cem léguas do mar, tem grande abundância de pescado e das mesmas espécies do do mar; até muito perto da foz é água doce. Saindo dêste rio, entram noutro feito à mão, que vai correndo até entrar noutro natural; e cento e cinco léguas navega por êle grande cópia de embarcações, porém como é estreito, passam devagar, principalmente nas portas das cidades, onde se ajuntam e se pagam os direitos reais, porque nestas não passam mais que uma e uma, e entre todas são mui privilegiadas as que levam mantimentos para o Pequim. Mas como são tantas e em tanto número, quem não tem muito favor e aderência dos mandarins está três e quatro dias, primeiro que passe cada passo dêstes. O eunuco, pôsto-que levava embarcações de El-Rei e nelas algumas pessoas graves que agora são mandarins em Pequim, contudo tinha muito trabalho nestes passos, pelo que se aproveitava da boa ocasião, porque para ganhar a vontade dos mandarins da terra, a quem pertencia êste despacho, logo se ia ter com êles e lhes dava aviso, como por alvitre, que trazia em suas embarcações um estrangeiro que levava algumas peças preciosas e nunca vistas na China para dar de presente a El-Rei; e saíu-lhe tão bem a traça, que alcançava tudo o que queria, porque os mandarins, desejosos de ver coisas novas e tratar com o padre de que muitos já tinham fama, quási por todas as cidades que passava, o vinham visitar com muita honra e cortesia, trazendo-lhe alguns presentes conforme a seu costume; e pareciam-lhe tão bem as coisas que viam, que nenhum tinha dúvida do negócio haver de suceder muito bem, por as peças serem curiosas e não usadas naquelas partes. Em Nancheu, cidade que está nos confins da província de Nanquim e principio da de Xantum, veio visitar os padres um mandarim dos graves e grandes daquela cidade, e vendo algumas peças do presente, entre as quais entrava uma imagem do Salvador e outra de Nossa Senhora, lhe declarou o • F1.4. padre com esta ocasião alguns * mistérios de nossa santa fé, com o que ficou tão brando e benévolo, como se houvera muito tempo que o tratara e conhecera. Pediu-lhe mui encarecidamente que, vendo-se com El-Rei, lhe tratasse alguma coisa de Nosso Senhor e lhe persuadisse que não fôsse tão ruim nem fizesse tanto dano a seu reino; e despedindo-se do padre, lhe mandou logo aquela noite um presente. O dia seguinte o tornou a visitar em pessoa, e perguntando pelo companheiro que o não saira a receber, dizendo-lhe o padre como estava mal disposto do estômago, entrou logo a o visitar e mandou com grande pressa trazer de sua casa um emplastro que êle tinha feito por suas mãos, e o pôs I
  • Das coisas da China êle mesmo ao padre com tantas mostras de amor, como se fôra um irmão da Companhia, o que deixou mui edificados e consolados aos padres, por verem tanta humanidade num homem gentio e mandarim tão grave. Não contente com isto, depois dos padres partidos, mandou em seu alcance um homem de sua casa, duas léguas de caminho, com um presente a visitá-los e saber como iam. Noutra cidade da mesma província, muito principal, a que chamam Lini, havia um mandarim de grande fama e autoridade em toda a China, porque sendo mandarim grande deixou o ofício e se rapou, recolhendo-se como quem deixava o mundo, dando-se a escrever e compor muitos livros, por ser homem douto e visto em suas letras; e porque êste era grande amigo do Padre Mateus Rício, chegando aqui se desembarcou e o foi logo visitar, o qual deu aviso ao Tutão da província, que é um dos grandes da China, cujo cargo entre nós responde ao de Vizo-Rei, e como êste também já tinha fama do padre, com estar em sua cidade onde é tido por um rei pequeno, o veio logo visitar com grande acompanhamento e tangeres pela rua, e esteve por um grande pedaço assentado com os padres praticando e perguntando muitas coisas. E tomando na mão um breviário, achando nele uma imagem do Salvador iluminada, a pediu com muito respeito. Ao outro dia convidou o padre, e assim êle como outro mandarim rapado que ambos estavam juntos, lhe deram cartas de favor para seus amigos que residiam na corte do Pequim, e deram alguns avisos ao padre do que devia de fazer para suceder bem êste negócio com tantas mostras de amor e fidelidade, como o pudera fazer um mui devoto e zeloso cristão. * CAPÍTULO III Do que sucedeu aos padres na cidade de Siutim COM êstes e outros sucessos semelhantes faziam os padres sua jornada com muita quietação até que chegaram a uma cidade muito principal da província de Xantum, por nome Siutim, na qual estava por Gover- nador e Vedor da Fazenda real um eunuco muito grave que ali arrecadava os direitos de tôdas as coisas que passavam ou, para melhor dizer, esfolava aos mercadores e roubava aos passageiros, porque para êste efeito tem El-Rei por todas as províncias, cidades e passos principais da China mais de mil eunucos dêstes, que colhem todos os direitos do reino, os quais^ sendo dantes muito moderados, agora pela grão cobiça e tirania dêste rei, são tão excessivos que todo reino está cheio de vexações e injustiças que na arrecadação dêles fazem aos povos êstes eunucos, os quais (como são homens de sua natureza baixos, e nascidos de pais tão pobres que por não terem com que os sustentar os fazem eunucos para receberem ração de El-Rei, que a todos os sustenta, por quanto se não serve de outra gente das portas do paço para dentro, senão dêstes) tanto que de repente se vêem subidos a magistrados tão altos e com autoridade real para fazer e desfazer o que nenhum mandarim pode por grande que seja, êles se mostram com todos tão cruéis e tiranos, que não os podem os povos
  • 240 Das coisas da China sofrer, e tudo a fim de mandarem muita prata a El-Rei, porque quanto mais lhe mandam, tanto mais os favorece e engrandece. Chegados pois os nossos a Siutim, temendo o eunuco, em cuja companhia iam, os direitos que ali havia de pagar e vendo o pouco gasalhado que o outro fi. 5. da cidade chamado Maçom lhe * fazia, pois lhe não acudia com despacho algum, para ter valia com êle lhe deu por alvitre de muita importância como em suas embarcações vinha um estrangeiro que trazia para El-Rei um presente de coisas curiosas e de muito preço, as quais sendo apresentadas por êle, ficaria sendo principal neste negócio e com muitos merecimentos diante de El-Rei, para o acrescentar a maior dignidade. Com isto, segundo se entendeu, para mais fazerem suas pretenções, acrescentou algumas falsidades, como foram que os padres levavam pedras preciosas e artifícios com que sabiam fazer prata, o qual tudo, como é tão desejado na China, agradou tanto ao eunuco Maçom, que fàcilmente se persuadiu ser tudo assim. Pelo que, logo tomado da curiosidade de ver o presente, mandou um recado ao padre, pedindo-lhe com tôda a cortesia que se podia desejar, lhe quisesse mostrar as peças que levava para Sua Alteza. Respondeu o padre que se faria tudo como sua Senhoria mandava. Com isto veio logo em uma embarcação mui formosa e de muita obra de fora e pinturas de várias figuras de animais; por dentro era tôda lavrada de lavores de marcenaria doirada e pintada de várias côres e obra tão prima que estivera melhor empregada em um sepulcro, porque sem nenhum encarecimento pudera competir com os que se teem por mui ricos em nossas cidades de Europa. Chegando pois e abordando com a embarcação dos padres (porque estavam sempre no rio), nela mesma quisera ver as peças; mas por ser estreita, pareceu melhor levarem-nas à sua, onde as imagens grandes se podiam ver melhor que dentro da nossa. Ficou o eunuco com esta vista tão satisfeito, que fêz logo muitos ofereci- mentos aos padres, dizendo que êle tomava a seu cargo negociar com El-Rei quanto desejava, e que descansassem e estivessem seguros, porque êle dava logo petição para Sua Alteza, de que cedo teriam resposta; e que vissem se queriam ser mandarins, ou aceitar renda de El-Rei e casa em Pequim, que em nenhuma coisa haveria dificuldade. E virando-se para a imagem de Nossa • fi.5v. Senhora, chorando lhe disse mas como gentio: Ó Senhora, aqui * tendes em mim quem porá os olhos em Vós, e Vos abrirá a porta para entrardes a El-Rei. E porque a embarcação dos padres era um pouco estreita, lhe mandou logo dar uma grande e capaz em que mudassem o fato e os proveu de arroz, vinho e lenha, dizendo diante de todos ao eunuco que até ali trouxera os padres, que, por amor dêles, lhe perdoava todos os direitos das fazendas que trazia em suas embarcações. Os de fora, quando viram ao eunuco Maçom tão liberal e fazer tantos gasalhados aos padres, cuidavam que tudo havia de suceder como êle dizia, pôsto-que os nossos não deixavam de ter algum receio, mas como não tinham outro remédio para escapar das suas mãos, não podiam al fazer que fazer do ladrão fiel. E principalmente porque assim também ao Lincitao daqueles lugares, que era um mandarim grave e de autoridade, amigo do Padre Mateus Rício já de Nanquim, o qual sabendo por um homem seu que tinha de vigia na ribeira do rio, como eram chegados os padres, mandou um letrado de
  • Das coisas da China 241 sua casa que já tinha servido um ofício grave em Nanquim, a os visitar um dia de caminho. Visitando pois o padre a êste mandarim e tratando com êle muitas coisas de Deus, com seu parecer e conselho determinou também visitar a Maçom, como o fêz, dando-lhe os agradecimentos da boa vontade que mostrava em os querer ajudar em negócio de tanto pêso; e o mesmo Maçom para maior sinal de benevolência, deu em sua casa um banquete aos padres, com grandes autos e festas, e depois disto lhes mandou que de aqui se fossem mais adiante a uma fortaleza chamada Lincia, que está dois dias de caminho de Pequim e em trinta e nove graus e meio, e um dia de mar. Mandou em companhia dos padres quatro ulpos, que respondem a beleguins, e serviam de lhes fazer dar caminho por êste rio, por ser o canal mui estreito e as embarcações muitas. Acompanhava também os padres um mandarinzinho criado do eunuco, que havia de passar a Pequim com a petição para El-Rei e informação do padre. * CAPÍTULO IV .fi.6. Como o eunuco Maçom começou a descobrir seu mau ânimo contra os padres, e o mau tratamento que lhes deu e prisão em que os pós NESTA fortaleza estavam os padres esperando a resposta de El-Rei, quando oito dias depois chegou a ela o eunuco Maçom para estar mais perto e dar melhor expediência aos negócios de Pequim, e juntamente mandar a El-Rei os direitos daqueles três meses, que montavam oitenta mil taéis que veem a fazer em nossa moeda cento e nove mil e cento e quarenta cruzados. E daqui se pode ver a grandeza imensa dos direitos da China em todas suas quinze províncias cheias de tantas e tão grandes cidades e povoações, pois nesta só, os direitos dela em três meses e só das embarcações que passa- vam, montavam tanto. Mas tornando aos padres, tardou a resposta da petição quási por um mês, no qual nunca tiveram recado algum nem cumprimento de Maçom, no que iam bem enxergando o perigo em que estavam. Porém, res- pondendo El-Rei e cometendo-lhe todo êste negócio (como na primeira petição não dizia mais senão que traziam os padres um presente), determinou fazer outra em que nomeasse em particular as peças dêle. Mas para a publicação da resposta que veio, ajuntou com muita solenidade os mandarins daquela fortaleza, todos vestidos de carmesim, e quis que o Padre Mateus Rício se achasse também presente, para ouvir a resposta de sua A., e de sua mão escrever as coisas que trazia para se darem a El-Rei, que eram as seguintes: * Três imagens, duas grandes e uma pequena, dois relógios, um grande, outro pequeno, dois vidros triangulares, as quais peças todos os chinas estimam muito, por serem novas e nunca vistas naquele reino e mostrarem em seu feitio grande engenho e invenção dos artífices que as fizeram, e não pelo que em si podem valer, por ser a China reino riquíssimo e abundante de todas as coisas que entre nós teem preço. Feito êste rol, o padre o deu a Maçom para o ler, o qual em o vendo começou a mostrar sua baixeza, apertando com o padre acrescentasse mais peças e ajuntasse algumas pedras preciosas, de modo que 3i
  • 242 Das coisas da China foi necessário mostrar-sc o padre algum tanto agravado, dizendo como êle, sem obrigação alguma nem ser mandado por outrem, levava aquele presente a El-Rei; mas para o satisfazer, lhe mostrou algumas coisas mais, das quais escolheram os mandarins um cravo de tanger, um breviário doirado, guarnecido curiosamente, um theatrum orbis com sete ou oito livros de matemática, o qual tudo levaram ao paço de Maçom que para satisfazer ou remendar a descortesia e pouca criação que com o padre usara, lhe fêz depois muitas carícias e gasa- Ihados e lhe deu um banquete em companhia de outro mandarim grave. Mas, porque El-Rei por todo o tempo do verão não respondeu à segunda petição que por ordem de Maçom se lhe mandou, o ficaram passando os padres naquela fortaleza com muitas calmas e incomodidades que nela padeciam; e o Maçom além dos quatro ulpos que por guarda e seu serviço lhes pusera antes, acrescentou mais dois soldados com pretexto que não acontecesse algum mal aos padres, mas a intenção era para que se não acolhessem. Chegado o tempo em que Maçom se havia de tornar para a sua cidade, estava mui enfadado por não ter a resposta que esperava de El-Rei, e pelos muitos gastos que tinha feito para se darem e despacharem aquelas petições, por quanto em tempo dêste Rei todas as coisas naquela corte se negociavam por dinheiro. E porque os •F1.7. oficiais do mesmo Maçom, que são as fezes de toda a China, o * incitavam a perseguir os padres e a lhes fazer todo o mal que pudesse, aos i3 de Outubro lhes mandou dizer, como até então não era vindo o despacho de El-Rei, que êle se tornava para Siutim, que portanto êles padres se passassem para uma varela dentro dos muros da fortaleza; e fêz logo entrega dêles aos mandarins dela, que para êste efeito eram vindos à embarcação, onde os nossos estavam, e daqui por diante começaram a estar presos mais formalmente, pois não tinham liberdade para sair de umas casinhas mui tristes, onde de dia e de noite eram vigiados aos quartos por gente de guarnição. Passados alguns dias mandou Maçom as imagens e relógio grande para se guardar em nossa casa, entregando outras peças a diversos mandarinetes, para darem conta delas a seu tempo. Mas o dia seguinte êle próprio, com tôda a sua caterva de soldados e chusma de beleguins que mais pareciam salteadores de caminhos que ministros da justiça nem de guerra, veio à casinha dos padres a dar-lhe busca no fato, queixando-se píiblicamente do Padre Mateus Rício, porque, tendo muitas peças de preço, das quais El-Rei já era feito sabedor, êle, padre, as não queria mostrar nem ajuntar ao presente que lhe levava; e porque trazia outro companheiro consigo e tinha em casa gente, que ainda o não fora visitar: ao que respondeu o padre, que quanto ao companheiro, nêle tinha já falado a sua Senhoria, e que não o visitara por não saber ainda a língua e cortesias chínicas, e quanto às ; peças, bem podia ver todo o fato, que não acharia nêle coisa que servisse para apresentar a S. A. mais do que tinha visto. Entram logo os beleguins de repente pela casinha dos nossos, tiram a um terreiro quanto achavam, revolvendo tudo de feição, que não ficava bisalho que não vissem e abrissem, cuidando achar alguma pedraria ou materiais e artifícios com que se pudesse fazer prata. Neste conflito o Irmão Sebastião Fernandes por acudir a uma parte e outra, que êstes beleguins não furtassem tudo, foi necessário depor as insígnias de
  • Das coisas da China estudante e letrado e * tomar barrete de moço como cada um dos outros de«Fi.7*- casa, mas nem com tudo isto pôde impedir que não furtassem muitas coisas, entre as quais sentiram os padres muito uma cruz de relíquias mui grandes e formosas e uma imagem de Nossa Senhora de São Lucas; mas quis Deus que lhes escapasse outra que deixaram por descuido. O eunuco Maçom lançou mão de um calis de prata doirado, mas prouve a Deus que por os muitos rogos do Padre Mateus Rício e intercessão do Tau, aquele mandarim grave de que acima falámos, o qu^l aqui também se achou, o tornou a dar. Mas com êstes sacrí- legos' gentios levarem muitas coisas, a cruz acima dita das relíquias foi a que mais magoou os padres, pola verem ficar em mãos de gentios, pôsto-que por outra parte se consolavam algum tanto, parecendo-lhes que as teriam em vene- ração, por lhes dizerem que aqueles ossos eram de homens santos, a que os chinas costumam ter muito respeito e por serem tais, dizia Maçom que as queria para as apresentar a El-Rei. Consolavam-se também persuadindo-se ser isto disposição divina, para por meio da intercessão dos Santos, cujas eram estas santas relíquias, e da Virgem gloriosa Nossa Senhora descobrir a luz da verdade a esta tão cega gentilidade. Revolvidos todos os caixões, foram encontrar êstes infiéis com um crucifixo pintado de novo, metido em sua caixa, cujas portas abrindo Maçom e vendo um homem ensanguentado e posto em uma cruz, ficou pasmado. E tirando-o fora da caixa em que estava, perguntou que coisa era aquela. Respondeu-lhe o padre, declarando o segrêdo e alteza daquele mistério. Mas êle como gentio, não se satisfazendo com a resposta que não entendia, concluiu dizendo que os padres sem dúvida eram maus homens e feiticeiros, do que era claro indício aquele crucificado que traziam consigo, porque se foram bons homens não lhes sofrera o coração trazerem tal espectáculo em sua companhia. Ajudou-o também o outro mandarim, amigo dos padres, que intercedia por eles, o qual estando também maravilhado de ver o sagrado crucifixo, disse que * pôsto-que a inten- •fi. &. cão dos padres fosse boa, aquilo todavia era uma coisa que parecia muito mal e dava nos olhos a tôda a China. Mas achando o eunuco Maçom mais outros dois crucifixos, algum tanto deu mostras de ficar mais mitigado, e viu-se bem nêle o que disse S. Paulo falando de Cristo crucificado: genttbus atitem stultitiam, e assim ficou aqui parecendo a êstes; e pôsto-que os padres aqui foram assás afrontados por êstes gentios, como isto era padecer po,r Cristo crucificado, afirmavam que fôra para êles aquele dia de mui grande consolação, quia digni habiti sunt pro imagine Jesu contumeliam pati. E o Maçom, depois de êle e os seus tomarem o que lhes bem pareceu, se foi dizendo que logo se partia dali e acrescentaria tôdas aquelas coisas à petição cujo despacho de El-Rei faria que viesse muito cedo. Partido êle o dia seguinte para sua cidade, os padres se ficaram consolando entre si o melhor que puderam, parecendo-lhes cumpriria sua palavra no des- pacho da petição, que prometia haver, mas no cabo de um mês souberam que nada tinha feito, pelo que ficaram mui afligidos, vendo-se por uma parte no cabo de quatro meses de inverno, passados com tão pouco abrigo, padecendo grandes frios e não menores necessidades e impertinências dos soldados que os guarda- vam, e por outra sem esperança alguma de por todo aquele inverno poderem sair
  • 244 Das coisas da China daquela fortaleza, por estar já o rio congelado e o caminho por terra ser muito dificultoso. Por onde, estando assim neste apêrto e prisão tão estreita, sem terem nela outro bem nem alívio que poderem celebrar cada dia, se determi- naram escrever a Maçom, como fizeram, uma carta de muita compaixão. Nela lhe pediam os quisesse despachar depressa, para o que lhe apontaram algumas razões que o podiam mover a isso. Outra escreveram ao Lincitao, aquele mandarim grande e amigo dos padres, para que os quisesse favorecer e falar por êles ao Maçom, o qual estando em audiência quando o moço dos padres entrou com a carta, lhe fêz mui ruim gasalhado e os de sua família lhe deram • fi.8v. muitas pancadas e o lançaram fora aos repelões. * O dia seguinte tornando pela resposta o mesmo moço que era cristão, Maçom lha não deu nem quis responder uma só palavra, e os de sua casa o tornaram a tratar mal, fazendo grandes escárnios e zombarias dos padres; porém o Lincitao, como homem letrado e mais honrado que era, o fêz melhor, porque, lida a carta, se compa- deceu muito dos padres e lhes respondeu avisando-os como Maçom determinava de lhes fazer todo o mal que pudesse, porque perguntando-lhe êle pelo negócio dêles padres antes que o moço chegasse, lhe dissera dêles muitos males e falsidades, descobrindo quanta peçonha tinha no peito, dizendo ter-lhes achado dois sacos de prata e com ela muitos instrumentos para se poder fazer, que entre o fato lhe achara um homem crucificado e cheio de sangue, coisa que não podia ser outra, por mais que os padres dissessem, senão algum feitiço para matarem o grão Rei da China e lhe tomarem seu reino. Com as quais falsi- dades e outras semelhantes ficou o coitado do mandarim tão assombrado, que não ousou mais de interceder pelos padres. Porém, com tudo isto, lida a carta que lhe mandaram, e considerando mais o negócio, respondeu que tendo ocasião faria quanto pudesse por êles; e escreveu juntamente cartas de favor a um mandarim grande, residente na côrte de Pequim, pedindo-lhe quisesse ajudar e favorecer aos nossos. Mas em uma que escreveu ao Padre Mateus Rício, não deixava de lhe encomendar e pedir com muita eficácia lançasse de si aqueles crucifixos, porque emquanto Maçom estava no que dizia acêrca dêles, não era possível poder falar por nossas coisas. Pôsto-que não era muito dar êste man- darim tal conselho, pois como gentio e infiel que era, não conhecia os tesoiros eternos, a virtude infinita, a formosura divina e todos os demais bens, que debaixo daquela figura, para êles tão estranha e feia, estavam escondidos. Pelo que os padres, não fazendo caso do conselho do gentio, se determinaram dali por diante a prègar muito mais de propósito e publicar descobertamente sempre • F1.9. a Cristo crucificado e falar dêste * mistério de nossa redenção com muita mais liberdade, tendo por certo haver de vir tempo em que, com a graça dêste mesmo Senhor, êle assim crucificado e afeado lhe há-de parecer tão formoso e amável, como é em sua cruz, e em que êstes que agora se escandalizam dêle, porque o não conhecem, o venham a conhecer e amar e adorar por quem êle é. E consolou muito aos padres o que aqui sucedeu a êste moço, a quem man- daram com estas cartas, porque dizendo-lhe o Lincitao que convinha muito aos padres lançarem de si aquele crucifixo e seguir a lei que seguem os chinas, êle lhe respondeu com muito ânimo e liberdade: Senhor, aquele homem cruci- ficado que os padres trazem consigo, é figura do verdadeiro Deus que por sua
  • Das coisas da China 245 vontade morreu na cruz pela salvação dos homens; e saiba Vossa Senhoria que não só meus amos mas ainda nós que seguimos o que eles nos ensinam, mor- reremos antes que fazer uma coisa tão mal feita, como é negarmos sua imagem e não a termos connosco; com cuja resposta o mandarim ficou atónito, pergun- tando que coisa era aquela, pois sendo o reino da China tão grande e tendo em si tantos povos e províncias, raro se acharia quem por sua lei pusesse a vida, antes por se conservar com ela pisaria a lei e os ídolos. A mesma fortaleza se viu também até em dois meninos que os padres tinham consigo, um de edade de dez anos, que lhes tinha dado de presente um homem honrado, cujo cativo era e por pobreza fôra vendido de seus pais, coisa a cada passo mui usada na China, outro que os padres tinham comprado a sua própria mãe, que constrangida da pobreza o andava vendendo pelas portas, por haver em aquelas terras grande esterilidade e fome todos êstes anos; de maneira que meninos como êstes valiam três mazes, que serão três reales de prata, poudo mais ou menos. Êstes pois, não estando prevenidos dos padres, lhes perguntaram acaso que se algum mandarim os mandasse adorar os pagodes que fariam; ambos uno ore responderam que, ainda que a açoites os matassem, o não haviam de fazer. E assim com êstes bocadinhos * de alivio iam os padres passando seus trabalhos naquela prisão tão estreita e desamparo em que se viam, sem nenhuma espe- rança humana de poderem sair dali. Mas Deus Nosso Senhor em quem tinham postas tôdas suas esperanças e por cujo amor tinham dado princípio íiquela jornada, no tempo em que menos cuidavam, os tirou daquelas angústias e trabalhos e os levou com muita honra, e pesar de seus inimigos, à côrte do grão Pequim pelo modo que no capítulo seguinte se dirá. CAPÍTULO V Como os padres foram livres da prisão, levados a Pequim, agasalhados na corte e ofereceram seu presente a El-Rei, e quanto o mesmo Rei o estimou ESTANDO as coisas e negócio dos padres no estado acima dito, se resolveu o Padre Mateus Rício mandar ao Pequim o Irmão Bastião Fernandes com cartas do que passava, para alguns mandarins grandes daquela côrte. É êste irmão, leigo e sem letras, mas de muita virtude e religião, e por muitos tempos pediu a Nosso Senhor o quisesse mandar a esta missão, para nela o servir. Apartando-se agora dos padres, para ir onde a obediência o mandava, vendo a prisão e apêrto em que ficavam, e o risco que corriam de os matarem enquanto êle estava ausente, e a ventura em que êle ia de se não achar em tal ocasião, para juntamente com seus companheiros e padres dar a vida por Cristo, se sentia muito embaraçado. E assim se foi a um dêles dizendo que, se caso fôsse, quando êle tornasse de Pequim, que os achasse mortos, êle estava de- terminado de se ir ao eunuco Maçom e com a#mor, zêlo e constância que «fi.». pudesse, lhe declarar e dizer que êle também era da mesma Companhia e seguia a mesma lei que os padres, portanto fizesse também dêle o que lhe
  • 246 Das coisas da China parecesse, pois êle da mesma maneira abominava e desprezava todos os pago- des; e porque êle era idiota, perguntava ao padre se podia fazer isto em boa consciência, porque ficaria grandemente desconsolado de perder a coroa que tanto tempo havia, que desejava e pedia a Nosso Senhor; e dando-lhe o padre a resposta que êle desejava, com ela se partiu mui alegre caminho de Pequim. Mas não tardou muito depois da sua partida, que Deus não acudisse com o remédio que êle ia buscar, o qual sucedeu desta maneira. No tempo que se deu a segunda petição que o eunuco Maçom mandou, como acima dissemos, andava EI-Rei mui ocupado com as festas de seu nasci- mento, pelo que não houve lugar de a despachar, ainda que já tinha visto o memorial das peças que lhe haviam de oferecer, e porque nelas entrava um relógio que, por se tanger por si em razão de seus engenhos, lhe chamam os chinas, sinos que se tangem por si. Sucedeu que estando El-Rei com alguns de seu paço em recreação, lembrando se do relógio, perguntou pelo sino que se tangia por si (porque como na China não há semelhantes instrumentos para se saberem as horas, é este nela, por ser coisa nova e nunca vista, de muito espanto); pelo que mandou logo que o estrangeiro com o presente fôsse levado a Pequim, para o que se fêz chapa ou provisão que com muita brevidade foi mandada à fortaleza, onde os padres estavam retidos, com cuja chegada se pode julgar a consolação que receberiam e as graças que dariam ao Senhor, vendo'a providência que sobre eles tinha. Logo lhes foram entregues tôdas as peças que pelos mandarins estavam divididas, e dando-lhes todo o necessário para o caminho, pelos mesmos ministros de Ei-Rei com muita cortesia e honra foram levados à côrte do Pequim e nela pelos eunucos foram aposentados dentro nos mesmos paços reais onde El-Rei morava, e nêles por alguns dias estiveram agasalhados e mui favorecidos dos eunucos, aos quais ensinaram a tanger o cravo e concertar o relógio. •fi. 10 v. Mandaram logo oferecer e apresentar as peças que levavam * a El-Rei e não lhas ofereceram êles pessoalmente, por ser costume do Rei não se deixar ver tão depressa e fàcilmente dos estrangeiros, mas foi mui grande o contenta- mento que recebeu com elas. As imagens mandou que se pusessem em lugares mui principais de seus paços, onde são mui reverenciadas não só dos que andam e residem no paço mas de todos os mandarins de autoridade e pessoas graves, que só por aderência e privilégios alcançam vê-las e o procuram muito. A do Salvador teve El-Rei no princípio consigo na câmara onde ordinária- mente residia, mas depois lhe cobrou tamanho mêdo, parecendo-lhe coisa viva, que se não atreveu a tê-la diante de si, não entendendo ainda bem êste bárbaro rei a razão que tem de temer a figura daquele Senhor que há-de ter por justo condenador de seus pecados. A imagem de Nossa Senhora está em uma câmara onde a rainha todos os dias a vai visitar, fazendo-lhe muita reverência e queimando-lhe perfumes e incenso. Queira a Mãe de misericórdia alcançar a esta cega rainha vista para sua alma, trazendo-a ao conhecimento da verdade. O relógio pequeno e as demais peças tem El-Rei sempre consigo. O cravo, quando se tange a El-Rei, está posto em um lugar com tanta veneração, que todos os músicos lhe vão cada dia fazer zumbaia como a pagode, e quis El-Rei que os seus eunucos aprendessem mais espécies daquelas que aprenderam no
  • Das coisas da China 247 tempo em que os padres estiveram agasalhados nos paços, o que depois se fêz, tornando os padres a êles para poderem mais fàcilmcnte tomar as lições. Quando o eunuco Maçom de que atrás falámos, tomou ao padre os livros da matemática com pretexto de os dar a El-Rei e apontá-los com as demais coisas no memorial, êle os meteu em um caixão na casa do tesouro, fechado e selado de seu sêlo, com um letreiro em que dizia como os padres traziam aqueles livros e que êle achando-os lhos tomara por ser contra as leis da China aprender matemática sem ordem de El-Rei e para depois lhe dar disto aviso, coisa que, conforme ao estilo da China, em qualquer tempo pudera dar trabalho e enfada*mento aos padres; mas foi Nosso Senhor servido que à voita das *fi.n. mais coisas, sem o eunuco o saber, houve o padre às mãos o caixão com êles, dando graças a Deus, quando viram o sobrescrito que lhe pusera Maçom, o qual achando-o menos, mandou logo pela posta um homem seu a Pequim para os tornar a haver, mas vendo êle com quanta honra os padres estavam no paço, não sòmente não ousou de falar, antes se acolheu cuidando que os nossos lhe fizessem algum mal, do que estava bem fora, pôsto-que lho podiam fazer; e como êstes livros não vinham no memorial das peças que se deram a El-Rei, se ficou com êles o Padre Rício por lhe serem mui necessários. CAPÍTULO VI Da grande cidade do Pequim e do que aconteceu aos padres, depois de estarem nela EEsta cidade a maior que se sabe haver no mundo, e não se pode atra- vessar de porta a porta, sem caminhar um homem a cavalo todo dia; e só os paços de El-Rei fazem circuito de uma grande cidade. Estão todos cercados com três muros mui formosos e fortes de cantaria. Dentro neste sítio tem outros quinze paços, apartados uns dos outros, que representam as quinze províncias da China; em cada um dêles tem riquíssimos jardins e tanques com muitos peixes e aves, e bosques com muita caça de porcos e veados de sorte que, sem sair El-Rei de sua casa, vai por sua recreação uma vez a um daqueles paços e outra vez a outro e em * cada um dêles acha todos os desenfadamentos •H-11 *• que pode desejar. Há nestes grandes paços setenta e nove salas de maravilhosa arquitectura, primor e riqueza, mas quatro delas excedem com grande vantagem a tôdas as demais; a primeira está coberta tôda de metal, com estranho artificio e curiosi- dade, pintadas pelas paredes muitas e mui excelentes figuras; a segunda tem o tecto e as paredes de mui fina prata lavrada com o mesmo primor; a terceira tem o mesmo de oiro esmaltado; a quarta excede a todas, e assim lhe chamam a sala do tesoiro, por ;ue tem nela muitas pedras e jóias de preço inestimável e entre as demais um trono de marfim, no qual estão engastadas pedras pre- ciosas e carbúnculos tão finos, que 11a maior escuridade da noite fazem a sala tão clara, como se houvesse dentro muitas tochas acesas. Estão as paredes desta sala tôdas esmaltadas de diversas pedras de muito valor; e servem-lhe
  • 248 Das coisas da China estas quatro peças, para dar audiência nelas aos embaixadores que veem de diversas partes, e para El-Rei mostrar sua majestade e grandeza, e conforme a qualidade do reino, província donde veem, os recebe na sala de metal ou de prata ou de oiro. E tantas outras coisas se escrevem desta cidade e reino, que se não foram dignas de tanta fé as pessoas que as afirmam, não se puderam crer. Estando pois os padres nesta grande cidade e corte e cuidando que seus negócios estavam já em véspera de terem o fim desejado, pelos muitos favores e gasalhados que no paço recebiam dos eunucos de El-Rei, o diabo que, assom- brado do que contra êle por esta via podia suceder, não dormia em procurar todos os estorvos do bem das almas daquele reino, que via tão próximo, e do serviço de Deus que se ia fazendo, levantou contra êles um mandarim de grande dignidade, por nome Lipo, a quem pertencia a apresentação do presente e o despacho dos padres, por serem estrangeiros; o qual, conforme as leis da China, pode tanto, que os tirou de dentro dos paços reais onde moravam, e os meteu • fi. is. em uma * cerca em que costumam estar os estrangeiros que com negócios vão àquela côrte, até serem despachados e dela não podem sair sem particular licença do mesmo Lipo. E pôsto-que os padres aqui ficaram e como em prisão, contudo não tardou muito que Deus fosse servido que abrandasse o coração deste gentio por 'meio de outro mandarim de autoridade, o qual dêle houve licença para os padres poderem andar livremente pela cidade e fazer seus negó- cios com maior segurança e liberdade. E este mandarim que intercedeu pelos padres, um homem de grande respeito, o qual lhes tomou tal afeição, que cada quatro dias ou mais amiúde os vinha visitar àquela cerca e prisão em que estavam. Mas como é prudente, tratando com os nossos veio a entender quão diferente gente eram daquela que costuma vir a Pequim, trazer presentes ou pagar párias a El-Rei, a qual de ordinário é gente bárbara e de nenhuma polícia e que comummente não veem senão por seu interêsse, sem serem mandados de algum príncipe ou rei. Mas estima tanto El-Rei da China ser reconhecido dos estrangeiros, que a todos os que veem à sua côrte, faz honras e manda que lhas façam e sejam bem tratados. Além disto, quanto mais êste mandarim pela comunicação que tinha com os nossos, tomava experiência das partes que nêles havia, tanto mais se descobria com êles e lhes acrescentava cada dia as cortesias que lhes fazia. E como êle era mui curioso e tinha algum princípio de matemática, pediu ao padre o quisesse ensinar; e dando-lhe algumas lições ficou pasmado, do que o padre nela lhe descobria e principalmente mostrou mais seu espanto em uma demonstração que o padre fêz em letra sínica com muitas figuras em que mostra ser o Sol maior que a terra e a Lua menor. E cuidando que o padre tinha gastado nisto muito tempo na invenção e modo desta demonstração, mui espantado e admirado lhe perguntou como pudera «Fi.ij». mostrar * uma coisa tão grande em tempo tão breve com tanta subtileza. Levou a demonstração para sua casa e todas as demais coisas que o padre tinha traduzido em letra da China, para as mandar trasladar, e o importuna muito cada dia lhe deixe esta sua sciência escrita em letras sínicas, para que dêle fique nestas partes perpétua memória. À volta da sciência humana lhe vai o padre praticando muitas coisas da divina, o que ouve de mui boa vontade. E dando lhe também um tratado de coisas morais, não se farta de o ler.
  • Das coisas da China 249 Escreveu a um mandarim grave, seu amigo, que em todo o caso o visse, por ser coisa maravilhosa. Outro mandarim muito maior que este em ofício e dignidade, vindo-lhe à mão um tratado De amicitia composto pelo Padre Mateus Rício, o qual neste reino nos tem feito muitos amigos, ficou com tamanho conceito, que movido por êle e por outras informações que também tomou, em os padres chegando a Pequim os foi logo visitar dizendo-lhes que queria ser discípulo seu, por quão bem lhe parecia a doutrina que ensinava. E com êste ser um homem tão inteiro, que de ninguém tem mêdo e todos o teem dêle, foi de muito mor espanto render-se aos padres desta maneira, o qual lhes prometeu todo o seu favor, e em sinal de benevolência lhes deu em sua casa um banquete. E como êste e outro mandarim matemático são muito amigos, quis Nosso Senhor que por seu meio vieram os padres a ter mais entrada com o Lipo e êle se abrandasse mais, até lhes dar licença que, saindo daquela cêrca onde estavam, viessem para qual- quer bairro da cidade que lhes agradasse; e assim poisam já no meio dela em mui bom sítio, e casa acomodada em que mais decentemente podem receber os hóspedes, e com maior liberdade pagar as visitas e fazer seus negócios, ainda que sempre sujeitos ao Lipo, até El-Rei os despachar. No tempo que os padres estavam na cêrca, foram visitados por um sobrinho dêste Rei que agora reina, filho de um seu irmão. Fêz êste mancebo grande cortesia aos padres, pra*ticando grande espaço com êles, tratando de várias *3l- coisas, o que ajudou muito para os demais lhes terem respeito, porque ainda que os infantes e seus filhos não tenham jurisdição sôbre os mandarins no que toca a seus ofícios, nem andem tão acompanhados como êles, são todavia de todos mui respeitados, e em certo tempo do ano os vão todos reconhecer e fazer certas cerimónias e cortesias. Vinha êste príncipe em uma cadeira de estado; o número dos que o acompanhavam não passava de dez pessoas, mas todos mui bem tratados. Vinha também com êle um bonzo, seu mestre, o qual ao assentar se pôs no primeiro lugar, e o sobrinho do grão monarca da China abaixo dêle, por ser grande o respeito que os discípulos na China teem a seus mestres. Depois de os padres saírem daquela cêrca, tornando lá algumas vezes e falando com alguns moiros dos que ali vão de diversas partes com título de darem presente a El-Rei (os quais todos estão ali fechados, até tornarem para suas terras), lhes disseram, cada um per si, que na província de Xensi, a mais setentrional das quinze da China, em um lugar de Xauquer chamado Xuque, por onde êles passam quando veem a Pequim, há certos homens brancos de muita barba, que teem igrejas com campainhas e adoram a Mariam e Issa (que assim chamam êles a Nossa Senhora e a Cristo) e adoram também a cruz; e mostrando-lhes o Irmão Bastião Fernandes das verónicas das contas, disse aquele moiro que também aqueles homens adoravam aquela imagem e que teem padres casados que curam todas as doenças sem mèzinhas, que os mesmos gentios da terra os chamam para seus enfermos e que teem uma só mulher. O Padre Mateus Rício determina escrever uma carta a êstes cristãos por via dos correios de El-Rei, na língua china que êles dizem que falam, cuja resposta, se vier, poderá dar mais clara notícia dêsse negócio, e se por ventura é êste o Cataio tão nomeado. 3a
  • 25o Das coisas da China • fi. .3v. * CAPÍTULO VII Como os padres estão bem recebidos no Pequim e começaram [a] baptizar alguns gentios \ COMO El-Rei da China tem por majestade e grandeza ser mui vagaroso em responder a embaixadores estrangeiros, esta é a causa porque, com haver mais de um ano que os padres ali estão, os não tem despachados, nem respondido a sua petição. São porém os padres mui bem recebidos e tratados, assim dos mandarins como de tôda a gente geralmente, e vivem em muita paz e crédito, em que cada dia vão crescendo, e à custa da fazenda de El-Rei lhes dão o necessário para sua sustentação. Teem grande amizade com um mandarim que é o segundo na privança e ofício dentro no paço. Este corre agora com fazer uma tôrre de madeira por ordem de El-Rei, para se pôr nela o relógio do sino, que lhe deram, e a isto vão eles lá algumas vezes, onde o eunuco os trata com muita cortesia e lhes diz que acabada a obra é mui pro- vável os despachará El-Rei; e muitos outros mandarins lhes dizem cada dia que não pode ser menos nem deixarão de ter bom despacho, pelo muito gosto que El-Rei mostra das peças que lhe deram, e com isto estão os padres com muita confiança de ficarem em Pequim de assento. Quanto ao fruto com as almas, pôsto-que por ora pareça pouco, não se deve ter por tal em uma cidade e gente que tão cerrada esteve até agora e onde tão pouca esperança se tinha de poder entrar o sagrado Evangelho. O Padre • fi. 14. Mateus Rício fêz um catecismo, * obra mui grave e perfeita, o qual deu a trasladar a um grande letrado que aqui há, mandarim mui bem entendido e amigo nosso, que com tanta exacção o trasladou e emendou na língua china, que nem uma mínima palavra ousava de mudar sem o consultar primeiro com o padre. E esperamos em Nosso Senhor que será esta obra meio para que nossa santa lei por todo aquele grande reino seja divulgada e conhecida. Teem os padres aqui alguns catecúmenos de muito momento, um dos quais é mandarim do crime, não dos maiores mas o maior que até agora na China se baptizou; três são bacharéis nas letras da China, um cunhado de El-Rei e casado com uma irmã da Rainha (parentesco que, se na China montara tanto como em Europa, fora grande lustre para esta nova cristandade, mas com o que monta, esperamos que por êle trará Nosso Senhor outros ao sagrado baptismo); outro é filho do físico de El-Rei, muito conhecido dos letrados desta côrte pela boa habilidade que dizem ter. Porém, o que sôbre tudo isto estimamos, é ver quão bem cai nos ânimos e entendimentos dos mandarins principais e até do próprio Rei esta voz que os padres dão, e doutrina que pregam, de não haver mais que um só Deus, Criador do Universo, e que todos os ídolos e pagodes são deuses falsos e mentirosos; donde já por este respeito o Lipo de Pequim (cujo ofício é dar aviso a El-Rei das coisas novas que ocorrem no reino) deu uma petição a El-Rei contra um mandarim, por se ter rapado e ensinar aos homens e mulheres as coisas dos pagodes e outras mentiras, pelo que El-Rei o mandou prender e queimar-lhe todos quantos livros tinha. E o Lipo Xanxu que é muito amigo
  • Das coisas da China dos padres e tem particular gosto de ver que todos nossos livros ensinam adorar um só Deus verdadeiro, dando outro memorial a El-Rei contra os mandarins que seguem a lei dos pagodes, respondeu El-Rei que o próprio dos pagodes era estar nos matos e montes e que se êles os queriam seguir, se fossem para os bosques e não estivessem nos ofícios enganando o mundo, coi*sa com que«Fi.i4». os devotos dos pagodes ficaram tão murchos, que disse um dêles ir o mundo dando uma volta. E tanto mais é de estimar ter chegado a veneração dos pagodes a esta baixa diante de El-Rei da China e de seus principais mandarins, quanto mais se há-de entender que um dos principais impedimentos que há na China para a conversão, é a dificuldade que há em arrancar dos corações desta gentilidade a adoração dos pagodes. E assim dizem êstes gentios que, se os padres os deixassem ficar juntamente com êles, fàcilmente se fariam todos cristãos. E com formarem altíssimo conceito da lei de Deus e a louvarem muito quanto às mais coisas que ensinam, sòmente neste artigo de haverem de deixar os pago- des, ficam errados; donde se há-de entender que não é menos difícil de tirar dêles esta adoração dos ídolos do que o foi em todas as nações do mundo; e isto por algumas razões que nêles particularmente teem mais fôrça. A pri- meira, porque não se contentam com os pagodes que teem nos templos públicos, que são quási inumeráveis, mas passando nisto as medidas dos outros gentios, os teem também cada um nas suas casas e aposentos, de modo que não há embarcação nem choupana que careça dêles, ou de vulto ou pintados; e assim é necessário quebrarem os padres esta lança com todos, desde o maior até o menor. A segunda, porque teem êstes pagodes como herança deixada de seus pais, a qual não podem alienar sem grande nota (como êles cuidam) de desobe- diência, porque são mui supersticiosos em conservarem por tôda a posteridade as memórias de seus antepassados; que pot isto também se não atrevem, salvo constrangidos de grande necessidade, a vender as propriedades que dêles lhes ficam. Terceira, porque todos êstes pagodes foram homens que moralmente viveram bem e ainda (como os chinas imaginam) que fizeram muitas maravilhas; pelo que, quererem agora os padres dizer dos pagodes que viveram errados, ou que não merecem as honras que os gentios lhes fazem, é para êles um grande paradoxo t a qual dificuldade nao tivera lugar, se dêstes * pagodes se »fi. i5. contaram as rapinas, adultérios e insultos que se referem dos deuses que antiga- mente adoravam os gregos e romanos, porque se isto assim fôra, bastara sòmente ler aos chinas as vidas de seus pagodes, para ficarem envergonhados de sua cegueira. A quarta e que sobre todas tem mais fôrça entre os chinas, é porque êstes pagodes foram introduzidos na China por mandado do Rei, haverá mil e seiscentos anos, quando a primeira vez vieram da índia ou de Sião, e assim não podem ser tirados universalmente, senão por ordem de El-Rei; doutra maneira se incorre nas penas severíssimas que estão contra os inovadores, espe- cialmente em matéria de religião; por onde, chegar o entendimento de El-Rei da China e de seus principais mandarins a conhecer que não há mais que um só Deus do Universo, e que a lei dos pagodes é falsa e ridícula, é um princípio dos maiores que se podiam desejar, para se tirar êste impedimento dos ídolos e se introduzir a verdade de nossa santa Fé. Pelo que, não sem grande funda-
  • 352 Das coisas da China mento, pretenderam sempre nossos padres, desde o Padre Mestre Francisco de bemaventurada memória, até hoje, dar princípio à conversão da China por via de licença de seu Rei e cabeça, e emquanto se não alcançasse alguma boa entrada com êle, como é esta que agora se pretende e está em tão bons termos, se julgou sempre por expediente ir brandamente com a paciência e longanimi- dade que merecem as esperanças de tão espaçoso e fértil campo. CAPÍTULO VIII Da residência de Nanquim, grandeza e nobreza desta cidade ESTÁ esta cidade 32 graus e meio para a banda do Norte, situada ao longo do rio Xantio; e depois de Pequim, é a maior e mais formosa de tôda a Chi*na. Em tempos passados foi corte e assento dos reis, pelas muitas comodidades que nela há, e principalmente uma que é poder-se vir a ela, por água de vários rios e com muita facilidade, de tôdas as partes; mas como as cidades que caem da banda do Norte eram tão infestadas dos tártaros, mudaram os reis seus assentos a Pequim, por estar mais perto para resistir aos inimigos. Porém, ainda que os reis deixaram Nanquim, sempre a conservaram com nome e título de côrte e cidade real e com as mesmas proeminências e privilégios que tinha quando nela residiam. E para conservar esta memória, vive ainda nos paços reais, em lugar de El-Rei, uma dignidade, a maior que há na China e a se°unda pessoa depois do Rei, que se chama Conaon, o qual vem por sucessão de um grão senhor que, estando a China quási tôda perdida e senhoreada dos tártaros, foi grande parte com seu valor e esforço, para se tornar a restaurar. Com a presença desta dignidade se conservam os paços reais com tanta gran- deza e majestade e concurso de gente, como se El-Rei vivera nêles, para o qual também ajuda, haver em Nanquim conselho real, casa de Relação e os mesmos magistrados e dignidades e com a mesma renda e jurisdição que teem os de Pequim, pelo qual respeito chamam os chins a Pequim côrte setentrional, e a Nanquim, austral. É esta cidade quatro ou cinco vezes maior que Lisboa, segundo escrevem os padres, e como tôda é retalhada de rios, terá como três mil pontes. Tem três muros de cantaria tão largos, que pelo alto dêles podem andar dois e três carros juntos. O muro interior tem de circuito duas léguas e é tao forte, que com razão se pode chamar a fortaleza da cidade, à qual se entra por doze partes e em cada parte destas há quatro portas fronteiras umas das outras, ainda que apartadas distância de um tiro de pedra. Estão cobertas todas estas portas com pranchas de ferro mui grossas, e em cima do muro que divide uma das outras, teem para sua defensão mui grossos tiros de artelhana, com muita • fi. 16. gente de guarnição. Dentro * dêste muro estão os paços reais e ao redor deles muita variedade de jardins, tanques, lagos, casas de prazer e bosques cheios de caça. Tôda a cidade está mui bem repartida, as ruas mui direitas e largas; e ainda que os edifícios, por serem comummente baixos, não representam tanta majestade e grandeza como os nossos de Europa, são porém mui formosos e l
  • Das coisas da China 253 bera lavrados, e especialmente os paços de El-Rei. Vivem dentro dêste muro os mandarins e letrados e outra gente principal. O segundo muro tem de circuito sete léguas e é também todo de cantaria, e tão largo e forte como o primeiro. Entre um e outro vivem os soldados e gente de guarnição que há na cidade, os quais certificaram ao padre que seriam cincoenta mil homens. O terceiro muro dizem ter de circuito quarenta milhas, que são treze ou catorze léguas, ainda que está cortado por muitas partes, por causa dos rios que passam por êle. Entre este muro e o segundo vive a gente comum e ordinária, e por esta causa se chama o arrabalde da cidade. Na distância que fica entre estas duas cêrcas, há muitas hortas e campos que se semeiam, mas com tudo isso é tão grande o número e concurso da gente, que o mesmo padre que o viu, se maravilhava. CAPÍTULO IX De como nesta cidade começaram os padres [a] dar notícia do Evangelho, e do fruto que se começou a fa\er DEPOIS de os padres aqui estarem por algum meses, nos quais todo o seu cuidado e exercício foi estudarem de propósito a língua como coisa tão necessária para a pregação do Evangelho, e procurarem ter bené- volos aos mandarins grandes e cobrar crédito com êles, pelo muito que isto .Fi.*>r. importava para com mais autoridade fazerem seu ofício, o começaram a exer- citar em nome do Senhor, não deixando passar ocasião alguma em que nêle pudessem aproveitar ao bem das almas. E assim, terão baptizado cincoenta pessoas, e cada dia se iam chegando outras e abrindo cada vez mais esta porta, tão fechada até agora ao sagrado Evangelho. Entre êles se baptizou um man- darim dos soldados, homem nobre e de muito nome, por ser muito esforçado e ter muitos mandarins e soldados debaixo de seu govêrno. Fazia-lhe muita dificuldade, em sua conversão, parecer-lhe que não podia guardar a lei de Deus sendo mandarim, porque havia de fazer castigos e correr com rigor, quando fosse necessário. Mas declarando-lhe por vezes como a lei de Deus não proibia castigar os culpados, se aquietou e se baptizou dia de Páscoa, tendo-se já baptizado sua mulher, filho e neto, e depois se baptizou sua família, homens e mulheres, que seriam dezoito ou vinte pessoas. Baptizaram-se também outros homens graves e letrados com suas mulheres e filhos, e procedem todos muito bem no cristianismo, e vencem uma das maiores dificuldades que sentiam, que é a confissão e haverem de descobrir seus pecados ao confessor; mas êles vão tão bem nesta parte, que ficam mui consolados. Gonfessou-se de novo um cristão letrado que causou a todos muita edificação, porque, como os letrados na China comummente são os mais soberbos e temidos da outra gente, dificul- tosamente sc cjucrem sujeitar ao ensino dos outros, e menos ao dos padres, por serem homens estrangeiros; pelo que, quando vêem um letrado humilde e posto de joelhos diante do confessor, se edificam grandemente. Saíram os padres também pelas aldeias ao redor de Nanquim, e acharam
  • Das coisas da China muito aparelho na gente delas para se fazerem cristãos. O primeiro que se converteu, foi um lavrador, homem de bem e rico e muito bem entendido, o • Fi. 17. qual havia perto de trinta anos que jejuava ao modo sínico que * é nunca comer carne nem peixe, e das outras coisas de legumes e frutas comer quando e quanto puder; e há muitos por aquelas aldeias que jejuavam desta maneira e faziam suas romarias e confrarias a certos pagodes e montes dedicados a êles, uns tendo para si que desta maneira alcançariam perdão de seus pecados, outros tendo esperanças de tornar a nascer em casas ricas, mas todos teem por grande pecado matar animais, e com isto teem misturados muitos erros de filósofos gentios, como foi o de Pitágoras, da transmigração das almas; e assim teem opinião que as almas dos ruins se metem, depois da morte, em corpos de tigres e lobos, e as dos bons em bois e cavalos e outros animais mansos. Tinha este lavrador de que falo, grande autoridade com todos os daquelas aldeias; era mui conhecido de todos e tido por mestre, mas êle, como se não aquietava com a doutrina dos pagodes, ouvindo falar da lei de Deus, veio à casa dos padres, falou com êles e descobriu seu intento, e como era tempo de fazer sua semen- teira, disse que, acabada ela, tornaria. Passava-se já o tempo e êle não tornava. Souberam os padres que estava a mulher muito doente; foi lá um deles e achando a mulher e uma nora sua muito mal, feitas as preparações devidas, as baptizou, ficando elas muito contentes, e entregando todas as coisas que tinham dos pagodes, foi Nosso Senhor servido com a saúde da alma dar-lhes a do corpo; e assim sararam ambas em breve tempo, de modo que todos os daquela aldeia, que sabiam estarem elas gravemente doentes, principalmente a nora que era quási hidrópica, ficaram espantados e o tiveram por coisa extraordinária. Continuou êste homem com o catecismo e fêz bom entendimento das coisas de Deus, mas como era tão observante do jejum sínico e tão conhecido, sentia grande dificuldade em o quebrar, porque os amigos e conhecidos gentios lhe davam muitas remoçadas e zombavam dêle, vendo que andava para se fazer cristão e havia de quebrar por força êste jejum, porque acham os padres ser •fi. »7t. muito necessário, para lhes tirarem os erros em que vivem e com que * o fazem, e para também se saber se são cristãos verdadeiros, fazerem-lho quebrar com comerem carne ou peixe. Andou êste homem dilatando o baptismo por esta causa algumas semanas, mas um dia, indo o padre a sua casa ver as duas mulheres que se tinham baptizado e fazê-las aprender a doutrina que, por causa da doença, não puderam aprender primeiro antes de se baptizarem, êle (que ainda que lavrador não perde ponto nas cortesias sínicas) vendo que o caminho era um pouco comprido até às casas dos padres, convidou-o a jantar lá na sua casa; e vendo o padre a boa ocásião de lhe fazer quebrar o jejum, aceitou o jantar. Vieram à mesa iguarias de carne e peixe para o padre, e outras de legumes para o hóspede, e começando de comer convidava êle ao padre com as iguarias de carne e peixe e comia de suas hervas e feijões; mas o padre o convidou com as iguarias de carne e peixe, dizendo-lhe que não havia de comer bocado, se êle não comesse primeiro do mesmo. Achou-se o hóspede mui enleado, buscando mil invenções e remédios para não comer carne nem peixe, que havia trinta anos não comia, mas finalmente, vendo-se apertado do padre, com a mão tremendo e cores mudadas, se deu por vencido e comeu da.
  • Das coisas da China 255 came e peixe; e desfeito êste encantamento, se baptizou com um filho seu e tem sua casa toda catequizada para se baptizarem logo. Um cristão de Xauquim (que foi a primeira casa que os padres tiveram na China, donde por mandado do Tutão, foram morar a Xauqueu) tinha um cargo em Nanquim, e sabendo que os padres estavam ali, veio em busca dêles, os quais conhecendo-o por cristão daqueles primeiros de Xauquim, lhe fizeram grande agasalhado. Havia dez ou doze anos que não tinha visto padres, nem tinha quem o ensinasse, contudo trazia suas contas e verónica e mostrava ser cristão de coração, pôsto-que, por haver tantos anos, estava já esquecido de muitas coisas que depois aprendeu. Contou êste homem aos padres que, quei- mando-se as casas de sua vizinhança e não vendo remédio para acudir às suas, se saíra fora com * um filho nos braços e chamara por Nosso Senhor, e que as «fl 18. casas dos vizinhos arderam e as suas ficaram salvas. Continua agora em Nan- quim, vindo de duas léguas para ouvir missa, e está para se baptizar tôda a sua casa. Visitando o padre um amigo seu que viera àquela corte, achou com êle outras pessoas graves, com as quais praticando começou o visitado a declarar quem era o padre, louvando nossa santa lei com muitas palavras; e respondendo o padre que nossa lei não era da terra, mas que fora dada por Deus, Criador de todo o Universo, a cuja guarda estavam todos obrigados; perguntou um dêles que era médico, filho de um mandarim aposentado, se era possível um homem mau e que tôda a sua vida gastou em pecados, converter-se a Deus e tornar a ser bom e virtuoso; respondendo-lhe o padre que emquanto o homem está nesta vida, por mais mau e perverso que seja, se de coração se converte a Deus, êle lhe perdoa todos os seus pecados e o convertido pode vir a ser um grande santo, ficou tão satisfeito com esta resposta, que com muita cortesia e reverência pediu ao padre lhe desse licença para o visitar e se fazer seu discí- pulo, como de feito o fêz com muitos sinais de sua verdadeira conversão. E logo a segunda vez que veio ao padre, lhe meteu na mão uma cédula em que, por escrito, mostrava o grande sentimento que tinha de não ter conhecido mais cedo a Deus e ter-se por tanto tempo entregue ao serviço dos pagodes, cujo treslado porei aqui, para se ver seu bom juizo e o estilo de falar. «Eu, por nome Tão, homem de pouco saber, debalde vivi 34 anos sendo ruim e mal inclinado desde minha mocidade; e depois que comecei a trazer barrete, sendo de 20 anos, escurecido e andando em trevas, perdi o verdadeiro cabedal e me entreguei à doutrina de dois homens que são os autores dos bonzos e pagodes. Sem saber a sólida razão, andava como levado das ondas do mar, mas ontem lendo o livro que trata do verdadeiro Deus, comecei a saber que o que é altís- simo, é Deus. Eu antes de nascer recebi de Deus os espíritos * vitais, e depois de nascido os benefícios de Deus. Os homens com dez mil coisas todos teem naturalmente ser e conveniência de razão, e esta é a verdadeira e sólida lei. Eu me tenho por ditoso em deixar o ruim e pequeno caminho e seguir a grande estrada; agora que encontrei o esclarecido mestre que]me dá o saber e doutrina, terei atrevimento para receber com reverência a excelente lei. Humildemente desejo que o muito honrado mestre abra sua grande piedade e misericórdia, recebendo-me por seu discípulo, para que, de dia e de noite estando a seu lado,
  • 256 Das coisas da China oiça os profundos discursos e então ficarei alcançando o que desejo.» Até aqui o bom médico, por meio do qual se pode esperar que Deus sare muitos outros, ainda que na conversão os nossos procedam por agora com tanta cautela, como acima se disse. CAPÍTULO X Da residência de Nanchão r EEsta cidade nobilíssima e das maiores e mais principais da China, metró- pole da província que se chama de Chiansi. É povoada principalmente de duas sortes de gente, convém a saber: os descendentes da casa real, porque costumam os reis ordinàriamente mandar a esta cidade seus filhos, tirando o herdeiro do reino, e nela os aposentam em paços mui ricos e se lhes dá renda e estado competente à sua qualidade. E ainda que se lhes não per- mite entenderem no governo, são contudo mui venerados dos mandarins e teem grandes privilégios. E como estas casas crescem e se multiplicam muito, são aqui tantos os do sangue real, que ocupam a quarta ou quinta parte da cidade. «Fi. 19. Entre * todas estas casas há três principais, cujas cabeças se chamam reis e se tratam e servem com muita grandeza e aparato de casa e criados. Outra sorte de gente que vive nesta cidade, é de grande número de letrados que teem já seus estudos acabados e alcançado o supremo grau que se lhes dá nas univer- sidades da China. E daqui são chamados e mandados por mandarins para diversas partes do reino, pelo que é esta cidade uma das mais insignes e de mor nobreza e polícia que há na China. Nela residiu por todo este tempo um só padre, por nome João Soeiro, por não haver outro para se lhe poder dar por companheiro. Porém deste se serviu muito Nosso Senhor, porque com sua prudência e virtude tem ganhado a benevolência dos parentes de El-Rei e dos mandarins grandes que ali vivem, e cada dia vai ganhando muitos amigos de novo pelo muito que isto importa ao serviço de Deus e bem da conversão daquela gente, na qual se procede por ora com o tento já dito, até se haver a licença de El-Rei para os padres ficarem seguros na terra, porque não haja coisa que possa ser ocasião a algum dêstes de ter aversão à lei de Deus, pois, como são poderosos, podem fazer muito dano e estorvá-la muito. Trabalha porém o padre sempre, assim com êstes grandes como com os mais, tôdas as vezes que para isso tem ocasião por lhes dar notícia das coisas de nossa santa fé, os quais folgam de ouvir e formam mui alto conceito da lei do grande Ocidente, como lhe êles chamam; mas a maior dificuldade que em todos se acha para a receberem, é haverem de deixar os pagodes. E assim, por ora não há mais que até vinte cristãos que em casa tão aferrolhada do demónio e fechada de tôdas as partes, não é pequeno fruto, mas confiamos que com as boas preparações que o padre tem feito nesta seara e ajuda dos novos companheiros que agora lhe foram, que são o Padre Manuel Dias e Irmão Bastião Fernandes, se colherá o fruto desejado.
  • Das coisas da China * CAPÍTULO XI • fi. 19T. Da residência de Xaucheu PERTENCE esta cidade à província de Cantão. Reside nela um padre e um irmão, os quais vão cultivando e conservando os cristãos já feitos e fazendo outros de novo. Os mandarins, que são os que governam, não sòmente aqui não estorvam, antes ajudam e favorecem, e geralmente lhes parece bem nossa santa lei. O supremo que governa esta cidade, é muito amigo do padre e lhe tem dado uma chapa ou provisão, na qual diz que os toma debaixo da sua protecção e nela defende a todo o género de pessoas os não inquietem, sob pena de proceder contra êles severamente. E nela comete também poder ao padre que, havendo pessoa que em alguma coisa o moleste, o possa mandar preso diante dêle por um ministro da justiça; mas o padre se contenta com esta boa vontade. Teem já aqui no rebanho de Cristo os padres como duzentas pessoas, e o que muito estimaram foi abrir-se a porta para vencerem uma grande dificuldade e que lhes dava muito cuidado, que era a conversão das mulheres. Porque, como elas na China vivem tão recolhidas como se foram freiras, de sorte que por nenhum caso tratam com os homens nem ainda parentes, senão muito chegados, e se se oferece tratar algum negócio com outro que o não seja, o fazem por detrás da porta ou de alguma cortina, de modo que lhe não podem ver o rosto; e quando saem fora, que é muito raramente, não vão senão em cadeiras fechadas, vendo elas por vidraças mas sem serem vistas de pessoa alguma, e por esta causa não se sabia achar remédio para sua conversão; por onde tinham determinado os padres que por ora se não tratasse da conversão das mulheres nem falassem em seu baptismo, mas sòmente atendessem ao dos * homens. Porém foi Nosso Senhor servido, que aqui com muita facilidade «fi.20. se fôsse êste ano descobrindo também o meio para elas, porque vendo os padres desta residência a muita instância que os já baptizados lhes faziam para o baptismo de suas mulheres, dando aviso ao Superior da Missão e aos mais padres das outras residências e juntamente propondo-lhes a traça que neste negócio se lhes tinha oferecido, de parecer de todos se assentou que tôda sua instrução e catecismo se lhes faça por meio de seus próprios maridos ou filhos ou irmãos; e assim, depois que êstes estão bem instruídos dos padres, as ins- truem a elas e lhes ensinam a doutrina, de modo que, quando se há-de fazer o baptismo, se ajuntam os parentes e conhecidos numa das casas dos que se hão de baptizar e ali levantam um altar mui bem ornado e põem nêle a imagem do Salvador. Aparelhado isto, vai o padre e, em presença dos maridos e mais parentes, faz que cada uma, do lugar onde está, recite a doutrina cristã desde o princípio até o cabo e repita o que tem ouvido acêrca dos mistérios mais principais de nossa santa fé, ao que tudo elas respondem com muita prontidão e de modo que não sabem os padres de que mais se maravilhem, se da dili- gência que põem em aprender e decorar a doutrina e em se ensaiarem para êste exame, se do ânimo e confiança que mostram, não estranhando serem vistas e examinadas de homens estrangeiros, coisa, para mulheres da China, mais nova 33
  • 258 Das coisas da China e estranha do que se pode encarecer, e no que não há dúvida concorre muito particularmente a mão de Deus, imprimindo em seus corações e de todos os chinas um conceito admirável da santidade dos padres, como se foram alguns anjos ou homens vindos do Céu. Assim, confiam dêles os maridos suas mulheres e os pais suas filhas e os admitem a catequizá-las e baptizá-las com todas as cerimónias da Igreja e vão ouvir missa e falar com os padres as que nunca jamais falam com homens estranhos. E muitas das casas onde se tem começado a fazer cristãos, as mulheres foram as primeiras que se baptizaram. E acontece •fi. 20 v. algumas vezes que * trazendo os maridos os nomes das mulheres que se hão de baptizar, acha o padre entre elas alguns outros de mulheres de gentios e pre- guntando a causa, respondem que essas também desejam ser cristãs; por isso dão seus nomes e aprendem juntamente com as outras o catecismo. Porém estas não admite o padre sem haverem primeiro consentimento de seus maridos, mandando-as avisar que elas os façam vir falar com êle para dêles o saber, o que logo fazem, vindo com muita diligência e mostrando muito contentamento de suas mulheres seguirem a lei santa. E elas ordinàriamente com o seu bom exemplo os veem depois a converter. CAPÍTULO XII Do bom procedimento destes cristãos e dalgumas coisas que neles se vêem de muita edificação QUANTO mais êstes novos cristãos vão entrando nas coisas do cristinia- nismo, tanto maiores demonstrações vão dando da virtude que nêles se deseja. Aos padres teem muito respeito, visitam-nos muitas vezes com suas esmolas e presentes. E porque os padres por justos respeitos lhos não querem receber ou, se alguma coisa lhes tomam, lha pagam logo, sentem-se muito dizendo que deveriam os padres tomar-lhes tudo e não lhes pagar o que recebem, pois são estrangeiros e hóspedes, e êles não podem nem devem deixar de mostrar sua gratidão para com os mestres da verdadeira lei, pois o mesmo faziam dantes com os mestres das superstições gentílicas. Em quaisquer dúvi- • fi. 21. das ou dc*mandas que entre êles se levantam e que, indo diante dos mandarins, lhes houveram de custar muitos enfadamentos e gastos de ambas as partes, com os padres as vão logo deslindar e concluir. E se sao com os gentios que seja necessário ir aos mandarins, primeiro veem dar conta ao padre e mostrar-lhe suas petições, para ver se há nelas coisa que agrave a consciência, porque os procuradores gentios, quando fazem estas petições, costumam pôr nelas muitas mentiras, para darem melhor cor à sua causa. Acodem às missas e celebram com grande frequência as festas da Igreja e teem grande respeito às cerimónias santas, como das candeias, cinza, ramos. Um letrado tornou o segundo dia da quaresma, a dar ao padre as graças da cinza que recebera o dia dantes. E com serem tão novos na fe, espanta o desejo que teem e mostram de se confessarem. Houve um cristão que trouxe escritos todos quantos pecados fêz, antes do baptismo, para os confessar na
  • Das coisas da China 25 9 igreja diante de todos, e o fizera com muito ânimo, se o padre lho consentira. Outros ajuntando-se, ora dois, ora três, mandavam chamar o padre à portaria e saindo, se debruçavam diante dêle com o rosto em terra, e depois de baterem três ou quatro vezes com o rosto no chão, ficando sempre de joelhos, começa- vam de confessar em voz alta seus pecados, ao que o padre logo lhes ia à mão e levantando-os os confessava conforme ao costume da Igreja, com que santa- mente se consolavam. Foi mui notável e de muita glória do Senhor a conversão de um mandarim mui grave que aqui se baptizou, assim pela qualidade de sua pessoa como pela conjunção em que sucedeu. Porque no tempo que nesta cidade corriam as ruins novas da prisão dos nossos que iam para Pequim, pelas quais muitos e até os amigos se iam afastando de nós e com muito prejuízo dos novos cristãos, quis Nosso Senhor que êste mandarim (o qual é filho de uma matrona nobre que já neste tempo era cristã) chegou de Pequim, e tantas coisas e louvores disse do Padre Mateus Rício e da reputação em * que o tinham e aos mais padres • f 1.21». das outras residências, que tapou a boca a todos os que falavam o contrário, e fêz mudar em todos a opinião ruim que de nossas coisas começavam de ter, cuidando estarem já perdidos; mas o que mais os convenceu, foi o verem a grande amizade, cortesia e liberalidade com que corria com os padres até receber nossa santa fé, baptizando-se com um filho único que tinha, coisa que grandemente fêz maravilhar tôda esta cidade e abalar a muitos, para receberem o santo baptismo; o qual procede em tudo como verdadeiro cristão, e por animar mais a todos a receberem nossa santa fé, mandou imprimir a doutrina cristã em forma grande e aprazível, e um domingo trouxe à igreja grande cópia de volumes e repartiu-os por todos os cristãos. Desejava também imprimir o catecismo que os padres fizeram êstes anos atrás, mas dilatou-lhe o padre esta tão excelente obra, até o Padre Rício o acabar de aperfeiçoar e mandar de Pequim. Inspirado por Deus determinou de fazer uma igreja diante dos seus paços, para que todos entendessem quanto se honra e preza de ser cristão. E no dia da Exaltação da Cruz de 601 se lançou a primeira pedra e se começou a obra que sem dúvida será de grande glória de Deus e abalo para tôda aquela cidade e sua comarca. E sucedeu a êste bom mandarim que morrendo-lhe um irmão, com suspeita provável de um lavrador seu lhe ter dado peçonha por certa diferença que entre êles houve, e sendo o lavrador por isso preso e estando certo de haver de morrer pelo caso, o bom Jorge, que assim se chama êste mandarim, lhe man- dou logo um criado seu que lhe dissesse de sua parte como êle lhe perdoava por amor de Deus, e lhe dava palavra de o livrar, como de feito livrou, coisa que por ser mui nova e estranha nesta terra, de todos foi mui celebrada e estimada e de tão grande exemplo que pasmavam os gentios. Um mancebo cristão, logo que foi de Deus alumiado, desejou de comunicar a mesma luz a sua mãe já velha e viúva, exortando-a a ser cristã e deitar os pagodes que tinha em * seu oratório, fora de casa. E pôsto-que ela desejava *fi. h. ser cristã, não podia acabar consigo largar os ídolos, até que um dia, contan- do-lhe o filho o exemplo de um cristão que fizera os ídolos em pedaços, lhe disse a mãe que se êle pudesse degolar os pagodes por suas mãos, sem receber
  • 26o Das coisas da China por isso dano algum, ela se persuadiria serem eles coisa falsa. As palavras não eram ditas, quando o filho toma um cutelo e começa a descabeçar nêles e fazê-los em pedaços. Feito este ofício, vira-se para a mãe e diz.-lhe: Senhora, eis-me aqui são e salvo como dantes, e os nossos pagodes já degolados. Com este feito a boa velha desimaginada se pôs logo nas mãos do filho e se começou a aparelhar para o sagrado baptismo, e o filho tomando três ou quatro cabeças, como em sinal de seu triunfo, se foi dar conta ao padre, estando todos os cristãos na igreja, que do feito ficaram mui edificados. Dois meninos, filhos de uma viúva honrada, ouvindo dizer que os padres ensinavam às gentes o caminho por onde se subia ao Céu, foram-no contar à sua mãe, a qual lhes mandou que fossem a casa dos padres e vissem o que faziam aos outros meninos e aprendessem também aquela doutrina santa. Vieram ambos, mostrando muita constância e devoção, mas como eram filhos de viúva, não os deixou o padre entrar em casa sós para ouvirem o catecismo, e como no seu bairro não houvesse outros meninos com que se pudessem ajun- tar, rogaram com muita instância a um velho cristão, seu vizinho, os trouxesse consigo todo o tempo que houvessem de aprender o catecismo, o qual aprendido e tomando-o por padrinho, foram baptizados com grande contentamento da mãe, a qual fazendo-se discípula de seus filhos meninos, êles lhe iam ensinar o que aprendiam, e largando os ídolos também se fêz cristã. Outra viúva honrada e mui prudente na criação de seus filhos, vendo que passavam cada dia por sua porta alguns conhecidos seus que iam e tornavam da casa dos padres, preguntou-lhes por que causa continuavam tanto a casa daqueles estrangeiros, e respondendo-lhe que o faziam, porque em sua casa • fi. J2v. ensinavam uma nova lei do grande Ocidente, * pela qual os homens alcançavam a bemaventurança da outra vida, mandou logo com êles quatro filhos que tinha, os quais se houveram tão bem em aprender o catecismo, decorar a doutrina e repetir depois tudo a sua mãe e a duas irmãs, que assim êles como a mãe e irmãs se baptizaram e perseveram com grande edificação, e a boa mãe ficou tão consolada de ver todos os filhos cristãos, que falando-lhe depois certa pessoa para casar com um homem honrado que a pedia, respondeu com muita resolu- ção: Já não há para que tratar comigo nestas matérias, porque eu não quero mais que ficar neste estado, servindo a Deus e criando meus filhos para Ele. Há aqui um velho cristão honrado, por nome Nicolau, do qual podemos dizer que foi um retrato do santo Job e Tobias; porque alguns ladrões lhe furtaram muito fato e depois lhe mandaram dizer que o fosse resgatar; outros lhe tomaram injustamente boa parte das casas em que morava; outros deram diversas petições sôbre suas várzeas, que desembaraçá-las foi quási comprá-las de novo; outros chegaram a lhe dar muitas pancadas de que esteve na cama alguns dias e tudo isto por ódio que tinham a sua cristandade. Dos filhos que também eram dez, como os de Job, já lhe morreu o primogénito que era coluna e esteio da sua casa, e os mais escaparam da morte para que com sua vida possam testemunhar ser chegado àquela terra o santo Evangelho, não lhes faltando porém doenças, de maneira que se tem notado naquela casa haver sempre algum doente. Tem outro-sim semelhança com o santo Tobias, porque é singularmente devoto em acudir aos enterramentos dos cristãos, e êste ano
  • Das coisas da China 261 foi tão apertado da doença dos olhos, que está quási cego; e é para louvar a Deus Nosso Senhor ver quão contente e alegre se mostra, tomando sempre por escudo aquelas palavras do Pater Noster: Fiat voluntas tua. Não digo das moléstias e injúrias que recebe dos amigos e parentes gentios, os quais lhe dizem: Ubi est Deus tuus? Fazei o sinal da cruz e logo se levantarão sãos vossos doentes; dizei: Libera nos a maio, pa*ra que ninguém vos trate mal. • fi.23. A êstes e semelhantes escárnios responde êle mais com obras que com palavras, estando determinado e apostado a perder tôda a sua fazenda e arriscar a mesma vida pela lei de Deus. A mulher dêste velho não é semelhante às de Job e Tobias, porque não somente não lhe dá ocasião de escândalo, mas antes foi o principal meio para se êle baptizar com tôda a sua casa, e desde então até agora viveram sempre com grande conformidade, incedentes in omnibus mandatis et justijicationibus Domini sine querela. O cuidado de criar os filhos em temor de Deus e preservá-los de todo mal é comum a ambos, e assim, os homens não sabem ir senão à igreja ou à escola, e as mulheres, quando não podem nas festas ajuntar-se nas casas do pai, vão o mesmo pai e os irmãos pelas casas delas, repetindo-lhes as coisas que teem ouvido nas práticas que se fazem aos cristãos; nem se contentam de entender sòmente no bem de suas almas, mas também procuram acudir às dos próximos por via dos ajuntamentos que os cristãos vizinhos fazem em sua casa para tratarem das coisas de Deus, onde Nicolau preside aos homens e Sinforosa (que assim se chama a mulher) às mulheres, e fazem tudo de modo que parece não há mais que desejar em quem vive no cativeiro de tão cega Babilónia. Pegou-se fogo, não sei por que desastre, à casa de um cristão, e foi tão veemente, que em pouco espaço se queimou a casa e quanto nela havia, salvan- do-se sòmente a gente. Os que estavam perto eram gentios, e vendo as laba- redas do fogo diziam: Deixemos queimar êsses cães que deixaram os pagodes. Quando chegou a nova aos cristãos, era já tarde; e assim, pôsto-que acudiram depressa, não lhe puderam dar remédio algum, mas não deixaram de mostrar neste caso as entranhas de caridade que nossa santa lei tanto encomenda, por- que com duas palavras que o padre lhes disse na prática, escolheram logo a dois cristãos principais e por meio dêles foram ajuntando o que era necessário para fazerem outras casas, dando cada um o que podia de sua parte, quem tejolo, tábuas, paus, e outros da*vam vestidos, outros as mais alfaias, por onde »fi.i3t. em poucos dias se alevantou outra casa melhor que a primeira c se proveu do necessário aquele cristão. Como êstes cristãos são ainda novos na fé, acontece a alguns caírem como fracos em alguns erros, porém ou êles logo tornam sobre si com o, remorso da consciência e se veem ao padre dar conta de seus erros, aparelhados para darem, como dão, tôda a satisfação, ou os outros que acertam de saber suas faltas, as veem logo dizer aos padres para que as remedeiem. Um cristão era muito dado a tirar sortes e adivinhar; foi disso muitas vezes repreendido, mas não acabando de se emendar, proibiu-lhe o padre a entrada na igreja, e aos cristãos que não falassem nem tratassem com êle; porém não bastando ainda isto, dá-lhe Deus uma gravíssima doença, da qual cuidou que morria. Com esta começou a abrir os olhos e entender que Deus
  • 262 Das coisas da China o castigava; manda pedir ao padre com muita instância o viesse confessar, mas o padre entendendo que não estava ainda em tanto perigo, dissimulou com a ida por alguns dias, o que vendo o enfermo lhe mandou logo todos os livros de que usava para suas adivinhações, pedindo-lhe os fizesse queimar, e com isto o padre estando para o ir confessar a sua casa, não foi necessário, porque tanto que deitou a ocasião do pecado que eram os livros, fora, recuperou logo a saúde e se veio lançar a seus pés pedindo perdão dos erros passados, resol- vendo-se com grandes propósitos de mudar a vida e cumprir com a obrigação de verdadeiro cristão. Ao domingo seguinte, acabada a missa, estando todos os cristãos juntos, êle se pôs de joelhos diante da capela e com palavras de muito arrependimento e contrição confessou sua culpa nesta forma: Irmãos, bem sei que todos sois sabedores do ruim exemplo e escândalo que vos dei há tantos tempos; portanto venho aqui hoje pedir perdão a todos, fazendo-vos sabe- dores do firme propósito que tenho, com a divina graça, de emendar minha má vida. Também vos confesso que nunca dei credito às minhas adivinhações, • fi. 24. porque na verdade entendo se*rem tôdas falsas, e por puro louvor popular e interesse as exercitava; portanto, por amor e reverência de Deus vos peço que nenhum de vós se atreva a seguir meu mau exemplo, se não quere achar-se enga- nado, como eu ao presente me acho. E assim estou determinado de morrer antes que tornar, nem por só um momento, à vida passada. Os livros de minha perdição já estão entregues ao nosso padre e deputados para o fogo. Até aqui sua satisfação, e bem conformou depois sua vida com ela. Estando alguns catecúmenos juntos numa casa de um deles tratando das coisas da fé, sobreveio um cristão de muito fervor e zêlo, e renovando com eles a prática chegaram ao ponto dos ídolos e pagodes. Preguntou este ao dono da casa que fizera dos seus ídolos; respondeu que os tinha lançado debaixo do leito. —Como? —disse Plácido, que assim se chamava êste cristão. — E não ouvistes vós dizer ao padre que era necessário deitá-los de todo fora de casa, queimando-os ou lançando-os no rio? — É verdade — respondeu o outro; — jmas quem se há-de atrever a fazer isso? — Ah! triste de vós — torna Plácido, ainda vós cuidais que os paus e pedras vos podem fazer mal: Dai-mos aqui em minhas mãos, que eu vos quero mostrar mais claro que a luz do meio dia que não teem entranhas de carne nem virtude, como vós falsamente imaginais. Veem os pagodes, e tomando êle um machado nas mãos os começa a fazer em pedaços e desentranhar, dizendo: Agora vereis com vossos olhos a mentira que dizem dos pagodes que teem entranhas de carne. j Vedes aqui os fios de arame, assim como lhos pôs o estatuário? Chegai-vos mais perto, tocai-os com vossas mãos. ^São êstes fios por ventura convertidos em carne: Assentai pois todos em vossas almas que os pagodes não são mais que paus e pedras que por nenhum caso podem fazer aos homens mal algum, e assim, sem nenhum mêdo, os queimai e tratai, como manda a lei de Deus. Com isto ficaram todos mui contentes e animados, especialmente os que tinham ainda alguma ignorância nesta matéria.
  • Das coisas da China 263 * CAPÍTULO XII [tô] Da perseguição com que os bonzos e gentios aqui perseguem os cristãos, e boa vontade com que os mandarins os defendem COMO é próprio da lei evangélica, em todas as partes aonde entra, ser perseguida, ou universalmente dos tiranos infiéis, ou de alguns parti- culares gentios, a experiência vai começando a mostrar que nem isto há-de faltar também na China; porque, como êste gentio é tão dado ao culto e veneração dos pagodes, e o diabo vê que com a prègação do Evangelho se lhe vai arruinando esta fortaleza, parece que agora põe nos corações destes gentios mais amor Ée veneração a êstes pagodes, do que nunca lhes tiveram, para os fazer resistir à verdade que contra eles lhes pregam. Quando os padres entraram nesta cidade e começaram a pregar, houve muita facilidade nestes gentios em tirar os pagodes, movidos a isto, parte por ficarem logo rendidos com o nome e imagem do Xanti, que quere dizei Rei supremo, como eles chamam a Deus, a qual imagem se lhes mostrava; parte porque cuidavam que bastava pôr a imagem de Cristo no oratório principal e os pagodes como vassalos em outro qualquer cantinho, sem os lançar foi a de casa. Porém, depois que ouviram e viram o que os verdadeiros convertidos fazem aos seus pagodes, e como nem entre as imundícias de casa lhes querem dar lugar, não somente se começaram pouco e pouco a recolher e fechar as orelhas a esta nova doutrina, * mas antes se persuadiram que fariam boa obra e de grande merecimento em perseguir aos que a pregam e vão contra os pago- des. E assim o fazem agora por tôda aquela comarca de Xaucheu, por haver já em muitas partes dela cristãos que vivem conforme a esta profissão e nome. E os que mais nesta parte se dão por contrários da lei de Deus e dos cristãos, são os bonzos e os taóssas, que quere dizer os adivinhadores, e outros desta sorte, não tanto pelo comum zêlo que teem dos pagodes, quanto pelo inteiêsse particular que nisso lhes vai, vendo-se privados de seus percalços pela parte que toca aos cristãos, pois já os não chamam para fazer os ofícios que dantes lhes faziam nas doenças, nos enterramentos, no dia do nascimento, quando casam, quando começam alguma fábrica e noutras coisas semelhantes. Sobre- tudo sentem, assim os bonzos como os gentios, não quererem os cristãos concorrer nas festas e solenidades dos pagodes; donde nascem cada dia as contendas que é necessário haver entre os discípulos de Cristo e seguidores do diabo. E não chegarem até agora a mais com os padres e com os cristãos, não foi por falta de vontade, mas por não terem comodidade nem se atreverem, vendo quão bem os mandarins estão com os padres, e a amizade com que correm com êles, vindo-os frequentemente visitar a sua casa e mandando-lhes presentes e fazendo-lhes grandes gasalhados, quando os padres os visitam; por onde cuidam que os padres podem muito com os mandarins e a experiência lho mostra às vezes, pois com um só escrito que um padre manda a um mandarim, alcança dêle tudo o que quere em favor de qualquer cristão, e em particular foi mui celebrado um caso que aconteceu a um cristão, o qual foi êste. Um
  • 264 Das coisas da China gentio, grande zelador dos pagodes, sabendo que sua mulher fora exortada de outra cristã, sua vizinha, para os deixar c seguir a lei de Deus, tomou disto tanta paixão, que determinou de perseguir até à morte a dita mulher e seu marido cristão. E não contente com muitos agravos que lhe fêz, o acusou de muitas •fi. 25 r. falsidades diante de um * mandarim, em cuja casa tinham ofício muitos seus parentes gentios. Vendo-se o cristão citar dos ulpos, que são os meirinhos dos mandarins, e sabendo o que lhe estava armado, não teve outro refúgio senão o do padre, pedindo-lhe que o ajudasse com um escrito para o mandarim. Fê-lo o padre logo e não foi debalde, porque o mandarim, depois de ler o escrito, se pôs com particular cuidado a examinar a verdade. E achando-a da parte do cristão, assim o defendeu, como se fôra seu procurador, e não tendo respeito a grande número de ministros seus que estavam pela parte contrária, antes repreendendo-os àsperamente por favorecerem causa injusta, condenou finalmente ao acusador por falsário e como a tal lhe deu a pena ordenada pelas leis. Desta sentença pasmaram todos, não menos os gentios que cristãos, porque considerando o favor e força que o acusador tinha, davam por coisa certa que o cristo sairia condenado. Com estas e outras demonstrações de benevolência e respeito que os mandarins teem aos padres, se vai sempre detendo o ímpeto dos contrários, para não se atreverem a pôr em efeito a má vontade que lhes teem. CAPÍTULO XIII Do fruto que se fè\ em alguns lugares vizinhos desta cidade DE Xaucheu fêz o padre algumas saídas por alguns lugares vizinhos a esta cidade, indo e vindo dêles e estando nêles com tanta segurança, como se fora em terra de cristãos. O primeiro foi Sinien, onde a primeira vez foi por ocasião de baptizar as mulheres de alguns cristãos, mas foi o Senhor servido que os da terra se * começaram a espertar de modo que tornou lá por vezes e fêz alguns baptismos. E o modo que tinha de lhes pregar era, que entrando em cada um dêstes lugares fazia logo uma prática em algum lugar acomodado à gente que se ajuntava a vê-lo e ouvi-lo; depois lhes mos- trava uma imagem do Salvador, para por ela começar a ser conhecido e adorado de todos, o que êles fazem com muita solenidade e devoção. Neste lugar de Sinien achou o padre um grande número de jejuantes, uns de tôda a vida, outros de tiês meses do anô, os quais, como faziam profissão de penitentes e de se apa- relharem para a outra vida, foram os primeiros que vieram ouvir prègação da nova lei, ficando mui satisfeitos e consolados com a doutrina dela e alguns se baptizaram logo, trazendo e entregando seus pagodes, que é o sinal maior que podem dar de se fazerem cristãos de coração, pela grande devoção que, sendo gentios, lhes teem. Era grande louvor de Deus ver neste lugar os meninos que ontem eram gentios, decorarem a doutrina com tanta diligência e estarem-na de noite cantando diante de suas portas e rezando as orações e mandamentos com muita alegria e devoção. Entre êstes se esmerava uma menina por nome Inês, a qual sabia a doutrina de cor desde o princípio até o cabo e também o pai a
  • Das coisas da China 265 trazia à pousada do padre para lha fazer recitar, o que ela fazia com suma graça, e é chamada muitas vezes das mulheres de sua vizinhança para dela aprenderem a doutrina. Aconteceu por vezes ser convidada dalguns parentes gentios, mas quando é sexta feira ou sábado não come carne nem outra coisa defesa nos tais dias, dando-lhe logo razão, porque este é o costume dos cristãos, de que êles ficam maravilhados. Depois de partido o padre desta cidade, se fez nela uma festa, na qual os gentios por tôdas as ruas levavam um ídolo que se chama Chinchinai, que quere dizer Príncipe das trevas, havendo que por êle lançam fora os ruins ares e espíritos maus de suas casas. Vendo alguns cris- tãos que o pagode começava a correr já por algumas casas, se ajuntaram em casa do * pai da menina e assentaram que, por quanto aquilo era cerimónia »fi. 26». gentílica, de nenhuma maneira haviam de concorrer nela, por ser contra a lei de Deus, e assim fizeram logo avisar disso por tôdas as casas dos cristãos, e que o não deixassem entrar, como fizeram todos mui inteiramente; mas chegando o ídolo à porta da menina Inês, ela foi a que lhe saiu, e pondo-se à porta lhe impediu a entrada dizendo que os cristãos não tinham necessidade de lhe entrar em casa o Príncipe das trevas, porque aonde Deus está, não há ruins ares nem espíritos malinos. A outro lugar, chamado Vanchum, chegando o padre, o vieram logo visitar dois letrados que ali liam então as artes sínicas, e pôsto-que a visita foi não tanto por tratar de Deus como pelo conhecimento que já dele tinham, contudo autorizou isto muito ao padre para com os da terra, os quais sabiam mui pouco de nossas coisas. Divulgou-se logo a chegada do padre por todo o povo, e começando a concorrer, antes da noite se lhes mostrou a imagem do Salvador e se lhes fêz uma prática de Deus. O dia seguinte pagou o padre as visitas àqueles dois letrados e com esta ocasião se viu também com alguns outros, por onde pouco depois se ajuntaram quási todos os letrados e vieram visitar o padre à sua pousada; e como vinham com propósito de se informarem e saberem daquela nova doutrina, durou a prática boa parte do dia, concorrendo entre- tanto os do povo para verem a disputa e quem saía com a vitória. Maravi- lhavam-se muito que um homem estrangeiro pudesse entender e ser entendido dos letrados chinas e dar-lhes não poucas razões de seus livros. Quis o Senhor que deste lanço ficassem na rede de seu Evangelho dois dos principais em idade, letras e nobreza, dizendo e confessando publicamente que estavam deter- minados de tomar esta santa doutrina com muita reverência e devoção. Quando se soube o que êstes tinham feito, não houve mister mais teste- munho, para que todos aprovassem nossa santa lei. * E assim, em poucos * Fl- dias que ali esteve o padre, era tanta a gente que de contínuo concorria à prègação, que era necessário fazer-se ora a uns, ora a outros, e não bastando os dias, se gastavam também nisso as noites, por onde se ia ordenando já um grande baptismo para se fazer quinta feira de Endoenças. Porém o demónio que não dorme e não podia sofrer o bem de tantas almas que o iam lançando da pousada, acudiu com suas acostumadas invenções, com que em muita parte lho estorvou, metendo na imaginação dos chinas ouvintes que o padre, conforme ao costume da China (que segundo a qualidade da arte que os mestres ensinam, assim levam o prémio), não podia deixar de levar alguma grande quantidade 34
  • 266 Das coisas da China de prata, proporcionada à grandeza da lei que ensinava; e também, que sendo cristãos, ficavam obrigados todos a fazer a mesma vida que os padres, não tendo mulheres e vivendo recolhidos rezando e meditando de contínuo, e sobretudo que os que fossem cristãos haviam de deixar sua terra e ser levados pelos padres para as partes do grande Ocidente. Por onde muitas mulheres pro- curavam com tôda a eficácia divertir seus maridos da prègação e doutrina santa que o padre lhes ensinava e que o não tratassem nem tivessem com êle amizade alguma; e persuadiram-se mais a isto, quando viram alguns aparelhar as can- deias e o mais para o baptismo, porque cuidaram que era para fugirem. E assim, como doidas se saíram de suas casas (com serem recolhidíssimas) gritando pelas ruas a grandes vozes: Acudi todos, que nos querem tirar nossos maridos e levá-los para terras estranhas. E pôsto-que todas estas tão vãs e néscias imaginações que o diabo foi imprimir nos corações desta gente e principalmente das mulheres, deram muito que fazer ao padre e estorvaram grandemente o curso do fervor com que muitos iam ouvindo as prègações do catecismo, e os divertiram do propósito que tinham de se baptizar, alguns contudo que foram os mais constantes, chegaram ao cabo e recebendo o santo baptismo ficaram • fi. 27 v. mui consolados e alegres. Entre estes foram três mancebos * estudantes mui honrados, filhos e irmãos de letrados, e de casa nobre em sangue e riquezas, e seus próprios pais pediram ao padre que o baptismo se fizesse em sua própria casa e na do estudo dos mesmos filhos, porque então não havia ainda outra igreja. E tão obrigados ficaram por êste benefício que seus filhos por meio do padre receberam, que deram muitas esperanças deles também cedo fazerem o mesmo. Vendo os outros catecúmenos a solenidade e aparato com que se fizera êste baptismo, sem sucederem nele as coisas pelas quais se divertiram, ficaram mui corridos de sua fraqueza. E porque o padre se não pôde mais deter, por ser necessário ir ter o dia de Páscoa na cidade, ficaram resolutos que no seguinte baptismo seriam os primeiros. Noutro lugar que se chama Xaancon se fizeram também alguns baptismos com a mesma consolação e alvoroço dos que novamente se convertiam. Em todos êstes lugares disse o padre algumas missas de que os novos cristãos ficaram mui maravilhados e recebiam tanta consolação interior com a presença daquele verdadeiro Cordeiro imaculado que nelas se sacrificava, que diziam muitas vezes que só esta maneira de sacrifício lhes bastava para crerem que a nova lei que lhes prègavam, era verdadeira e de salvação do mundo. E assim lhe chamam a lei santa, a lei grande, a lei ver- dadeira e saída do Rei supremo.
  • COISAS DAS PARTES DE MALUCO * CAPÍTULO XIV Das coisas de Maluco e das grandes perseguições e trabalhos que tem padecido a cristandade daquelas partes, e padres que nela andam k MA das maiores e mais ilustres cristandades que havia nas partes do Oriente, era a que nossos padres iam fazendo e cultivando nas ilhas e arquipélago de Maluco, a qual estava espalhada por vários reinos e províncias daquelas partes, como eram as ilhas do Moro e Batochina, onde havia mais de trinta e seis lugares de cristãos e muitos deles de oitocentos vizi- nhos; as ilhas dos Celebes, que é terra mui larga e de muitos reinos, onde havia dois reis cristãos, o de Sião e o de Sanguir com quási todos os seus e também muitos no reino de Cauripana, as ilhas de Baacham, cujo rei com quási todos os seus eram cristãos, as ilhas de Ambóino, onde havia como quarenta lugares com grandíssimo número de cristãos, as ilhas sujeitas ao reino de Ternate, numa das quais, que é a que pròpriamente se chama Ternate, os portugueses tinham a principal fortaleza donde sujeitavam todo êste arquipélago, e nossos padres o colégio que era cabeça de tôdas as outras residências; e assim nestas como nas do reino de Tidore havia também grande cristandade. Porém, de mais de vinte anos a esta parte, quási tudo isto se veio a perder, porque pelas insolências e desordens grandes de nossos capitães de Maluco e de alguns portugueses de má consciência * que, esquecidos de Deus *fi. 28*. e da obrigação de cristãos, faziam muitas injustiças e sem razões aos naturais da terra, os moiros delas, que são muitos e capitais inimigos do nome de Cristo, se vieram a rebelar contra nossa fortaleza e portugueses; e assim a êles como a tôda a cristandade daquelas partes fizeram tão crua guerra, que até hoje em dia dura, no discurso da qual haverá 20 anos que tomaram nossa fortaleza e lançaram os portugueses de Ternate, sem nunca até hoje os nossos a tornarem a recuperar, porque nem dêste reino nem da índia se aplicaram as cabeças a restaurar uma tão grande desonra e infâmia daquele estado; pelo que os moiros cada vez mais se foram ensoberbecendo e crescendo em poder, e na cristandade foi tão grande e lastimoso o estrago que por todo êste tempo fizeram, que não há palavras que o possam encarecer. Porque, como os mes- mos padres em suas cartas referem, só naqueles primeiros anos do alevanta- mento destruíram e mataram nas ilhas sujeitas a Ternate e nas mais aonde puderam entrar, passante de sessenta mil cristãos que, feitos todos mártires gloriosíssimos de Cristo, se foram gozar de Deus, aos quais davam tormentos e
  • 268 Das coisas de Maluco martírios horrendos, porque a uns cortavam todos os membros do corpo um e um e lhos deitavam no fogo, para que eles estando vivos os vissem queimar com seus olhos, e desta maneira acabavam suas vidas com o nome de JESUS Maria na boca. A muitas mulheres matavam espetando-as em paus, a outras abriam as entranhas, estando vivas e lhes tiravam as crianças, dando-lhes com isto glorioso martírio, assim às mães como às crianças antes de nascerem nesta vida. Aos meninos já nascidos despedaçavam diante de suas mães. Outros com o medo se deitavam no mar e nadando passavam a outras ilhas, onde se escondiam pelas rochas e penedias. Um bom número dêstes indo nadando, encontraram um navio de portugueses que vinha socorrer a Ambóino, e em o vendo começaram a bradar com gemidos lastimosos, dizendo: — Acudi-nos, • Fi. 29. acudi-nos, que somos cristãos —; os quais logo os portugueses com muita * pres- teza, lançando os batéis fora, recolheram todos, que não passavam de dez ou dôze anos. Algumas mulheres honradas e principais, por fugirem desta perse- guição, tomando seus meninos nos braços e desamparando suas casas e fazendas, se iam esconder pelos montes e matos ; mas lá as iam buscar os moiros e a quantas achavam, matavam com suma desumanidade e crueza. No meio de todos êstes trabalhos e perseguição tão cruel da cristandade bem se pode julgar o que os padres também padeceriam, não somente no corpo, mas muito mais no espírito, vendo tantos males e perecer tantas ovelhas a poder de tão cruéis lôbos sem lhes puderem dar remédio. Um bom número dêles, em todo êste discurso de tempo, por lhes acudir deram suas vidas, uns a ferro como foram os padres Cromes de Amaral e Jorge Fernandes, a quem, indo para Maluco, os moiros da Java mataram às lançadas, outros com peçonha que os moiros lhes davam, outros a poder de fomes, sedes, pobrezas, cansaços, necessidades extremas e sumo desamparo de tôdas as coisas humanas, sem terem donde lhes pudesse vir remédio, não deixando sempre a Companhia de os ir cevando e, mortos uns, mandar logo outros, para amparo e remédio da- queles pobres cristãos, assim naturais como portugueses. E foi Nosso Senhor servido, depois de sua divina protecção, não somente se conservar por meio dêles êsse pouco ou relíquias que ainda ficaram da cristandade, mas ate esse pedaço de estado temporal que ainda está em pé nas duas fortalezas de Ambóino e Tidore, porque os padres (depois de Deus, como digo) foram os que com sua indústria e com o esforço e ânimo que davam e dão a êsses poucos soldados que nelas estão, sendo-lhes sempre companheiros cm seus trabalhos do corpo e consolando-os no espírito, com suas pregações e administração dos sacramentos os sustentam, para poderem sofrer os extremos apertos em que continuamente se vêem com os frequentes cercos que os moiros lhes põem, e para alcançarem • fi. 2gv. dêles vitórias quási milagrosas e em transes que * parecia não havia já remédio algum humano de poderem escapar de se perder. E não falando dos anos atrasados mas só dos presentes de 601 e 602 de que nesta relação imos tra- tando, para se poder entender alguma parte disto, porei aqui dois capítulos de duas cartas, um da geral de Maluco do ano de óoi, outra do padre Jorge da Fonseca que com outros três companheiros indo para Maluco no galeão da carreira, fizeram naufrágio; o da carta geral diz assim: Havendo de fazer êste ano carta ânua de Maluco, como se costuma, pare-
  • Das coisas de Maluco 269 ceu que, visto o tempo tão miserável em que estamos, era escusado fazer-se mais que em geral representar o miserável estado a que chegou aquele tão desejado e nomeado Maluco, assim por nunca lhe acabar de vir aquele socorro de gente, tantos anos há pedido, como também e muito mais principalmente por causa dos novos navegantes que desde Holanda e Gelanda e outras partes ocidentais veem descobrir estas ilhas das drogas, e tao afamadas em razao delas e impedir juntamente o trato e comércio tão antigo que os portugueses nelas teem; e isto com tanta determinação, que (não contentes de virem de quando em quando como já noutro tempo fizeram os ingreses) veem todos os anos a eito e com grande número de naus, deixando de cada vez novas feitorias e feitores nas terras onde chegam, como já teem feito em Banda, Ternate e agora novamente em Ambóino, com muita fazenda e da que estes malucos mais desejam, que são espingardas, mosquetes, pólvora, chumbo em muita quanti- dade, artilharia muito boa e armas de toda sorte, e também panos de Portugal de todas as côres e alguns veludos. E como nao pretendam fazer forças nem agravos á gente da terra onde chegam, antes muitas honras e favores, nem também tratem de fazer cristãos ou fazer-lhes mudar sua seita, os naturais se hão por satisfeitos dêles, e se hão por tão contentes do seu modo de tratar, como estão enfadados dos portugueses; pelo que os recolhem e agasalham de muito boa vontade, e especialmente vendo que * não vem da índia coisa que *fi.3o. impida esta nova navegação; e se confirmam cada vez mais na opinião que teem, que já os portugueses não são poderosos para defenderem a seus vassalos e amigos, nem também para se defenderem a si, e poderem impedir que não venham outras nações a Maluco a buscar as drogas, de que êles sós os tempos atrás gozavam. Pelo que tratar das coisas de Maluco, nem do remédio da cristandade dele, é escusado. E assim não direi mais nesta matéria, senão que aqui estamos seis da Companhia, cinco sacerdotes e um irmão, esperando todos, não quando chegará o desejado e pedido socorro há mais de vinte anos, pois dêle estamos bem desenganados, mas quando virá nossa hora, para acabarmos esta tão larga peregrinação e desterro, em que por amor de Deus e da santa obediência vivemos mui alegres e contentes, dando muitas graças ao Senhor por êste tão singular benefício de nos dar ocasião de padecer por seu amor e de sua santa Igreja. Ocupamo-nos em os acostumados ministérios da Companhia, que é prègar e confessar aos portugueses desta fortaleza, e cm cultivar na ilha de Labua uns poucos de cristãos naturais dela, que como relíquias nos ficaram, para que não faltem de todo na fé. Temos também grande mágoa e pesar de ver o muito que se tem perdido e perde, e a cristandade tão grande que pudera haver, se isto se concertasse e viesse a tempo o socorro que tanto dese)amos. Deus Nosso Senhor, cuja é esta vinha que nestas últimas partes do mundo cul- tivamos, acuda com sua misericórdia, para que se não acabe tudo e para que também tie dicant gentes: itbi est Deus eorum? Porém sua é a vinha, a êle pertence, êle ordene o que for mais seu santo serviço. Até aqui o capítulo da carta geral de Maluco. A do Padre Jorge da Fonseca diz assim: Partimos de Malaca no galeão de El-Rei, que vinha para estas partes de Maluco, aos 3 de Fevereiro de 601, mas passaram poucos dias que nos não viéssemos a perder nos baixos que se
  • 270 Das coisas de Maluco • Fi.3ov. chamam da Persada, mas permitiu Deus que a mor parte da gente se * salvou porque o capitão fêz meter no batel aos portugueses e mais cristãos, e ordenou que os moiros marinheiros fizessem uma jangada em que pudessem chegar a terra que não distava mais de três ou quatro léguas. Indo pois no batel como cento e cincoenta pessoas vimos ao outro dia, depois da perdição, uma galeota de duas que Guterres de Monrói mandara com uma nau, as quais havia dias que tinham desaparecido, e esta vinha com os mastros rendidos de um grande temporal que passara. Mas no mesmo dia à tarde nos deu também outro tão forte, que perdemos a galeota e com tais chuvas e ondas que nos vimos alagados no batel; nem houve quem não cuidasse ser aquela sua derradeira hora. E pôsto-que na nau todos se tinham confessado, aqui sé confessaram outra vez, padecendo o trago da morte que viam diante dos olhos. Durou esta tormenta um dia e duas noites, e a cabo de oito dias tomámos um porto da Java, que chamam Corea, onde nos refizemos de mantimentos e água, porque todos êstes oito dias não passávamos com mais que com a quantidade de uma consoada que um religioso mui abstinente pode fazer; e isto de vinte e quatro em vinte e quatro horas uma vez, com uma pouca de água. Indo desta maneira seguindo a derrota de Salor, tornámos a achar a galeota, e no golfão de Ambóino nos apareceu também a outra. E aqui nos repartimos pelas três embarcações, e o Padre André Pereira e o Irmão Mateus de Brito ficaram no batel. O Padre Bartolomeu Daniel e eu nos metemos cada um em sua galeota, onde trabalhámos por pôr os soldados e capitão em paz, que entre si e com os mesmos capitães vinham desavindos, e os fizemos confessar a todos. E porque nos tempos das tempestades passadas o tínhamos prometido, chegando a Ambóino saímos em terra todos descalços em procissão, na qual eu levei uma imagem de Nossa Senhora; e como chegámos à igreja, disse missa in graliarum actionem e fiz uma breve prática para contar as mercês que do Senhor recebêramos, comun- « fi. 3i. gando todos no cabo da missa. Chegados a casa da Com*panhia que ali temos em Ambóino, fomos recebidos com entranhável caridade daqueles padres, os quais ali achámos tão curtidos dos trabalhos, que fazia muita devoção o que nêles víamos, que era suma pobreza de temporal, mas mui rica de espírito, com que ficámos sumamente edificados. E acabei de entender levarem êstes santos obreiros a mais pesada cruz que se padece em tôda a Companhia, a qual pade- cem com tanta paciência, que se não tem por lá notícia da décima parte de seus trabalhos, porque as faltas do temporal são grandíssimas, e é tão pouco o com que passam a vida, e êsse ainda tão inferior ao que lá na índia ou em Europa se tem por grande penitência, que parece evidentemente concorre Deus com êles para não acabarem a vida mais de-pressa. Até aqui da carta do Padre Jorge da Fonseca. O batel em que ia o Padre André Pereira e o Irmão Mateus de Brito, foi aportar a Salor, aonde os religiosos de S. Domingos teem uma boa e grande cristandade; dêles foram agasalhados com muito amor, e aí exercitou o padre os ministérios de prègar e confessar, com muita edificação e proveito das almas.
  • Das coisas de Maluco 271 CAPÍTULO XV Do que passou em Maluco parte dos anos de 601 e 602 ESTANDO os portugueses e padres que residem na fortaleza de Tidore, com os olhos longos e com grandíssimo desejo esperando pelo socorro da índia, como quem esperava por todo o remédio daquela cristandade, e com muito temor de tantas naus holandesas, quantas cada ano veem a Ter- nate, vendo que tardava [o socorro] e não tinham nova * de coisa que os con- »fi.3it. solasse, mandaram um homem português em uma caracora a Ambóino a saber se era lá chegado, ou algumas novas dêle, pelo menos que não fôra mais que do galeão da carreira. Porém em chegando,, que achou as tristes novas da perda do galeão e de como eram tornadas para Malaca as duas fustas e outro galeão que Guterres de Monrói mandara a Ambóino, ficou tão triste que se nao atreveu a tornar a Maluco. Estava neste tempo em Ambóino o Padre Luís Fernandes que é superior de todos os nossos da Companhia, que residem por aquelas partes, varão mui religioso e para muito, e que a mor parte do ano não faz senão andar de Maluco para Ambóino e de Ambóino para Maluco, arris- cando-se a grandes perigos do mar e dos moiros e para visitar e consolar aquela pequena manada de suas ovelhas, assim padres como cristãos, o qual enten- dendo a desconsolação e apêrto em que os de Maluco haviam de estai, para os consolar, assim aos portugueses como a El-Rei de Tidore e ao de Sião, que tinha recado ser ali chegado a pedir socorro, se embarcou logo na caracora em que viera o português e se partiu para lá; e prouve a Deus que chegou a tão bom tempo, que sua ida foi de muito efeito, porque na mesma noite chegaram novas que ao outro dia vinham duas naus holandesas de Ternate e o mesmo rei de Ternate com muitas caracoras a pelejar com aquela fortaleza; pelo que, com sua presença e vista e de sós quatro portugueses que consigo levou, se animou muito a gente. E no dia seguinte que era do Espírito Santo, se con- fessaram todos e ganharam o jubileu de nossa casa, para com estas ai mas se aparelharem para a briga que logo no outro dia tiveram com as ditas naus e armada, na qual se repartiram os nossos padres em duas partes, para ajudarem e animarem os que pelejavam. Durou a bataria da artilharia das naus holan desas por quatro horas, mas foi Nosso Senhor servido livrar a todos os nossos de seus peloiros, de modo que nem uma só pessoa nos mataram, matando-lhes os nossos muita gente principal sua, e quebrando-lhes suas naus de tal maneira, que foram forçados, * por se não perderem, a cortar as amarras e deixarem as .fi.3». duas âncoras com que surgiram defronte da fortaleza; com o que foram, assim os holandeses como os ternates, mui envergonhados, agradecendo muito, assim o capitão da fortaleza como a mais gente, a ajuda que dos nossos tiveram. Neste tempo estava aqui em Tidore, como acima tocámos, El-Rei de Sião, que de sua terra viera pedir socorro ao capitão contra os ternates, seus inimigos, que, por causa de ser cristão e perseverar na amizade dos portugueses, o per- seguem grandemente; mas não lhe podendo o capitão acudir, pelo apêrto em que tem pôsto esta fortaleza a contínua guerra que os holandeses e ternates lhe
  • 272 Das coisas de Maluco fazem, ficou o pobre rei tão sentido e desconsolado, que houvera de ser isto causa de muito trabalho e desgosto para todos, se os nossos não foram que com seu conselho e indústria consolaram e aquietaram a El-Rei, e acabaram com êle que se tornasse para sua terra contente e na mesma amizade que dan- tes com os portugueses. Porém, antes que se partisse, lhe baptizaram os padres um menino, filho seu, com outros oito ou nove siãos que consigo trouxera; o qual baptismo, por entrar nele o filho de El-Rei, se fêz com a mor solenidade que foi possível. Esteve mui arriscada esta fortaleza a se perder por causa de dois bandos que se levantaram entre dois homens principais que, ajuntando muita gente de parte a parte, estiveram a ponto de se matarem uns aos outros, sem o capitão lhes poder dar remédio. Porém foi Nosso Senhor servido que, acudindo os padres e metendo-se no meio, os compusessem de modo que tudo ficou em paz. O Sangaje da ilha e cristandade de Labua, que é senhor de vassalos, e responde entre nós a conde ou duque, havia muitos anos que vivia em mau estado publicamente com uma moira, por lhe ser morta sua própria mulher. Foi Nosso Senhor servido que os nossos o reduziram e casaram com a moira que também se fêz cristã, e agora vivem com exemplo acudindo às obrigações «fi.32v. de cristãos, a quem também imitam * muitos de seus vassalos. Ensina-se nesta cristandade a doutrina cristã aos meninos em língua malaia, cantada na igreja, e aos sábados os mesmos meninos e meninas cantam também a Salve à Virgem Nossa Senhora em português, todos com suas candeias acesas nas mãos, que causa muita devoção; como também a causou quinta feira de Endoenças a procissão que se fêz pelo terreiro do lugar, indo nela obra de quarenta disciplinantes e levando o mesmo Sangaje o crucifixo, indo o padre cantando as ladainhas, coisa que admirava a grande multidão de gente que de todas as partes concorria a ver esta procissão e forma dela.
  • COISAS DE AMBÓINO CAPÍTULO XVI Do fruto que se fè\ em Ambóino na conservação daqueles cristãos e conversão dalguns infiéis O meio de tantos trabalhos e perigos de guerra que os padres continuamente padecem, não deixam porém de acudir com todo o cuidado e em todo o tempo e ocasião à cultivação e conservação dalguns vinte lugares que ainda nos ficaram de cristãos e redução de outros. E assim, de dois padres que aqui residem, indo um deles em uma embarcação às ilhas de Orna, Oliacer e Rossalau, lhe * deu no caminho «fi.33. um tão grande temporal que a embarcação ficou com o casco todo debaixo da água, sustentando-se sòmente com umas poucas de obras mortas do bailéu para não se acabar de fundir. Os remeiros, vendo o perigo, desampaiando a cara- cora se lançaram logo ao mar, buscando a nado terra para salvarem as vidas; o mesmo fizeram muitos portugueses que iam em companhia do padie, tirando quatro que com êle ficaram, os quais animados do padre passaram toda a noite entregues ao mar e às ondas, e com muito perigo de darem consigo nas praias dos inimigos, pois iam para onde os ventos e mares os levavam. Mas tantas foram as lágrimas e orações com que toda a noite se encomendaram a Deus, que por sua misericórdia, quando amanheceu, se acharam na praia de nossos amigos, ainda que despidos, onde foram logo socorridos e daí trazidos a nossa fortaleza com grandíssima consolação de todos os que os choravam por afogados. Tornou daí a poucos dias o mesmo padre a cometer a mesma viagem, e foi o Senhor servido que a levou ao cabo, chegando a salvamento à ilha de Orna, dali à de Oliacer e depois à de Rossalau, nas quais visitou como vinte lugares de cristãos, onde de todos foi recebido e agasalhado com muito amor, acompa- nhando-o uns cristãos de um lugar para outro, assim por mar como por terra; e como o tempo era de inverno, os caminhos mui ásperos e os lugares postos nos mais altos montes que acham, por estarem assim mais seguros dos inimigos, muitas vezes os não podia andar senão descalço e de gatinhas, como outro Jónatas, com o que lhe não faltou muita ocasião de merecer muito com Deus, porque se achava muitas vezes com os pés escalavrados e cheios de espinhos e com o lodo até os joelhos, e indo sempre molhado pela contínua chuva que havia. Em muitos destes lugares prantou cruzes; e deixando de a pôr num por certo respeito, os honrados e principais dêle se foram à fortaleza pedir ao padre Luís Fernandes, superior, mandasse ao padre lhes levantasse também a cruz em seu lugar, o que o padre concedeu por ver sua devoção. 35
  • * 274 Das coisas de Ambóino • F1.33V. Noutro * lugar, como também o padre o deixasse sem cruz, mas com esperança que, tornando por ali, lha levantaria, sucedendo depois não poder tofnar, por esgarrar a embarcação em que vinha, os moradores do lugar o foram buscar dali quatro léguas e em tempo de muita chuva; pelo que o padre foi forçado a tornar-se com êles e levantar-lhes a cruz para os não deixar des- consolados. Baptizou em todos êstes lugares passante de mil almas entre gran- des e pequenos. Reconciliou muitos cristãos antigos que das terras dos moiros se tornaram para as dos cristãos. Catequizou todos quantos pôde, grandes e pequenos, do melhor modo que a brevidade do tempo pôde sofrer, de modo que todos com sua visita e doutrina ficaram mui consolados e animados, e desejosos de o terem sempre consigo. Outro padre foi visitar os lugares desta ilha que pròpriamente se chama Ambóino, os quais, como se visitam ao menos uma vez cada ano e não são mais que oito, não padeceu tantos trabalhos, ainda que, como os lugares são todos de caminhos ásperos e montuosos, não lhe faltou também seu quinhão deles, para não tornar desconsolado, porque todos êstes caminhos andou des- calço por a mor parte ser tal que não consente sapatos. Baptizaria como cem almas, refrescou-lhes a memória da doutrina de que estavam algum tanto esque- cidos. Correm êstes cristãos arrazoadamente com suas obrigações; muitos se confessam em todos os jubileus que aqui temos, alguns ainda que poucos comungam; os meninos acodem à doutrina cada dia. No tempo de algumas necessidades graves, como de guerra, acodem todos à igreja, fazem seus votos, prometem-lhe suas esmolas e muitas vezes repartem com ela das presas que ganham aos inimigos. Baptizaram-se nesta fortaleza como cincoenta pessoas das que cativaram aos moiros. Alguns sessenta que eram baptizados e tinham arrenegado, depois de instruídos foram reconciliados com a Igreja. Uma moça cristã, a qual havia dois anos um seu parente levara fugida .Fi.34. para os moiros, sendo lá cometida de um * moiro honrado para casar com ela, o não quis consentir, salvo se êle a quisesse tornar a trazer para a fortaleza e juntamente se fizesse cristão. Veio em tudo o mancebo e assim a trouxe, trazendo juntamente uma sua irmã com duas filhas e aqui se baptizaram e casaram. Outra moça casada foi levada de seu marido para os moiros forçosamente, e morrendo êle, foi também cometida para casar com um moiro e se fazer moira, mas nunca a boa moça o quis consentir, antes buscou ocasião para fugir, como depois fêz, trazendo consigo outras quatro pessoas, mulheres e meninos.
  • Das coisas de Ambóino 275 CAPÍTULO XVII Dos sucessos da guerra que nestas ilhas tiveram os nossos contra os moiros CUIDAVAM este ano os nossos de se verem em grandíssimos apertos dos moiros inimigos, com o favor que tinham contra nós dos holandeses que ficavam com duas náus no porto de Ito, quando se partiu a nau com as duas galeotas de socorro que aqui vieram, mas como Deus é o verdadeiro socorro de desamparados que nêle confiam, êle o foi aos nossos e deu tanto ânimo ao capitão, portugueses e naturais da terra, que não sòmente esta fortaleza não recebeu dano algum dos holandeses e moiros, antes eles o receberam da nossa gente, porque além de lhes matarem e cativarem mais de cem pessoas, e entre êles muita gente honrada em diversas guerras e ciladas que lhes fizeram, também lhes destruíram e abrasaram muitos lugares, nos quais lhes mataram muita gente e lhes tomaram muito fato e presas. Um destes se chamava Mamala, lugar fortíssimo dos inimigos, o qual nunca até agora foi entiado dos portugueses, por muito que os capitães passados determinaram de o tomar. Foi porém agora entrado à força de armas por quarenta portugueses e alguns quatrocentos ambóinos, e todo saqueado e queimado com morte de * muitos inimigos, sem dos nossos um só, pela misericórdia de Deus, ficar • n. 34 v. ferido. Com a tomada dêste lugar os inimigos ficaram mui quebrantados e os nossos cristãos mui animados para empresas maiores, como foram as que depois duas vezes fizeram. Uma foi que, indo o capitão desta fortaleza para a ilha de Oliacer com três caracoras e dois paraus mais pequenos, tomando o caminho da ilha de Ito, chegou a êle pouco antes do jantar, aos nove de Outubro. Mandou logo de- sembarcar os ambóinos e com êles alguns poucos portugueses, os quais todos com muito ânimo e esforço saltaram em terra, e fazendo ímpeto nos inimigos que lhes impediam a desembarcação, os fizeram voltar com morte de alguns, por onde ficando mais livres lhes saquearam e queimaram tôda a costa da praia, quebrando-lhes as embarcações que nela acharam. ' A segunda emprêsa foi aos três de Novembro, no qual dia o dito capitão foi com maior poder sobre a mesma cidade de Ito. Levou consigo um padre nosso, o qual no dia dantes quási todo gastou em uma praia confessando os portugueses e ambóinos, para que, com as almas limpas, tomassem mot ânimo e esforço para dar nos inimigos, como fizeram logo pela manhã em saindo o sol, arremetendo como leões, parte dêles a dar em uma fôrça e povoação grande que os Itos tinham em um monte, meia légua da praia, parte dando nos lugares vizinhos da cidade, que estavam pela praia, saqueando e abrasando tudo. E porque ficava em um têso, perto da praia e à ilharga do forte que fizeram os holandeses, um lugar pequeno mas mui forte, mandou o capitão, depois de jan- tar, desembarcar outra vez a gente par dar nêle e ver se dêle, depois de o tomar aos inimigos, podia entrar o forte dos holandeses. Foi o padre, com sós três portugueses e alguns ambóinos, diante de todos, e dando Santiago entraram
  • 276 Das coisas de Ambóino logo o lugar, onde, como estava muito fato junto, dos inimigos, os homens se começaram a ocupar em o saquear; pelo que, tornando os inimigos sôbre eles, como os nossos eram poucos, foram forçados a se retirar para a praia; por • fi. 35. donde, ainda que se tomou * a mor parte do fato, não houve tempo para se queimar o lugar. Estas foram as emprêsas que pelos nossos cristãos e portu- gueses se começaram em Ito, no ano de 601, as quais parece que foram vés- peras da festa solene que dia de Páscoa de 602 se celebrou pelos mesmos depois da insigne vitória que Quarta Feira de Trevas Nosso Senhor deu a André Furtado de Mendonça, que da índia fôra socorrer as partes do Sul contra os holandeses que as infestavam. E porque esta armada foi um mero benefício que Deus mandou àquelas ilhas, para não se acabarem de perder, e para dar remédio a tantos trabalhos que aquela cristandade padecia, havia tantos anos; e as bata- lhas que teve, foi com os moiros e holandeses, inimigos todos de sua santa fé; e também pela muita parte que os nossos padres tiveram nesta jornada, na qual foram acompanhando o capitão André Furtado que os pediu, e ajudando os soldados com seus ministérios, assistindo-lhes sempre, não somente com os auxílios espirituais para suas almas, mas também com os corporais, curando os doentes, acudindo-lhes em suas necessidades e acompanhando-os no tempo das batalhas, como ao adiante se verá; por isso não ficará fora do propósito desta nossa história e relação eclesiástica referir o processo desta armada dês que partiu de Goa, até que partiu de Ambóino para Ternate, conforme a fiel relação que de tudo deram em suas cartas os Padres Brísio Fernandes e Sebastião da Veiga de nossa Companhia, que nela foram. CAPÍTULO XVIII Do sucesso da nossa armada dês que partiu de Goa até chegar a Ambóino ATRÁS dissemos quantos anos havia que Maluco suspirava por algum socorro da índia para remédio de seus males, os quais acrescentados agora com os novos navegantes holandeses que, com a multidão de • fi. 35 v. suas * naus que cada ano traziam, tanto infestavam aquelas partes do Sul e usurpavam para si o comércio das drogas e das mais riquezas de que os portu- gueses estavam de posse, foi forçado (mandando-o também de cá Sua Majes- tade) o Vizo-Rei, Aires de Saldanha, entrando no govêrno da índia, a fazer uma armada das mais poderosas que para aquelas partes nunca foram, a qual entre- gou ao insigne capitão André Furtado de Mendonça, fidalgo mui nobre e não menos cristão que valoroso e zeloso de todo o bem, e lhe deu ordem que, encontrando os holandeses ou quaisquer inimigos, não somente pelejasse com eles, mas que também fôsse à Sunda castigar aquele rei e quaisquer outros daquelas partes que achasse favoreciam e recolhiam nossos inimigos, socorresse Maluco, fizesse fortalezas, assim na Sunda como no Achém, para que os inimigos não tivessem tantas acolheitas. E se esta armada, depois de feita e partida da índia em Maio de 601, fôra tão ajudada dos tempos e tão favorecida dos
  • Das coisas de Ambóino 277 homens como ia provida de bom capitão e bons soldados, não deixara de fazer os bons efeitos que dela se esperavam e desejavam. Mas por nossos pecados tudo isto faltou, porque, dês que partiu da índia ate chegar a Malaca, e de Malaca ate Sunda, tudo foram tempestades e infortúnios que padeceu, mui grandes; porque partindo André Furtado de Goa com seis galeões e dezoito galeotas e uma galé, indo no gôlfo de Ceilão lhe arribou a galé com dezassete galeotas, em que lhe ficou o principal poder que levava, porque não passou mais que com os galeões; e sobre tudo isto, depois que partiu da índia, por todos três anos, nunca mais lhe foi, nem chegou socorro algum, com que se pudesse reforçar das perdas que padecia; por onde, ainda que em Ambóino fez o que logo se dirá, por daí [em] diante, por lhe faltarem pólvora, munições, mantimentos, gente, não pôde levar ao cabo as outras emprêsas que lhe ficavam e que eram de tanto momento e vida para o estado da índia. Chegando pois a Malaca e refazendo-se dalguns navios de remo em lugar dos que lhe faltavam, se partiu no Dezembio de 601 * para a Sunda, confiado que para a empresa dela, acharia no rei de .fi.36. Palimbão (que é um dos da Java e se professava por muito nosso amigo^ e confederado) o favor e ajuda que tantas vezes aos capitães de Malaca e a êle mesmo tinha prometido; porém chegando a seu pôrto, como infiel que era, não só lhe faltou em tudo, antes era um dos que estavam confederados com o Rei da Sunda para se levantar contra êle; pelo que, desenganado deste falso rei, e reservando para outro tempo o castigo que merecia se lhe desse, sem embargo de saber que o estava esperando o Rei da Sunda com trinta mil homens, se resolveu ir sôbre êle. Porém, chegando junto da barra e tendo vista de sete naus holandesas, parecendo-lhe necessário dar sôbre elas, as foi seguindo com sua armada, pôsto-que debalde, pela grande ligeireza das holandesas; e ainda que um só dos nossos galeões pelejou com cinco e lhes matou muita gente dos seus sem perder nenhuma da nossa, mais que ficar desaparelhado das velas e enxárcias, contudo não pôde chegar a abalroar com elas, que era o que nosso general e soldados sumamente desejavam. Nesta briga discorreu nossa armada tanto a barra da Sunda, que quando depois quis voltar sôbre ela, de nenhum modo a pode tomar, o que parece não foi sem mui grande providência de Deus que tudo guia para maior serviço e glória sua, e acudir ao que mais relevava, porque neste tempo estava tão arris- cada a fortaleza e cristandade de Ambóino com o poder dos moiros e holandeses que lhe faziam guerra, que sem dúvida, se não fôra socorrida, de todo se per- dera aquele estado, e tarde ou nunca se pudera recuperar. E assim, vendo nosso general que nem os inimigos o haviam de esperar para vir a batalha com êles, nem os podia alcançar à vela, nem tão pouco entrar na Sunda, por ter discorridas ambas as barras e lhe ficar o vento contrário, se resolveu passar a Maluco e Ambóino, aonde arreceava qne os nossos estivessem em apêito, como na verdade estavam e tinha sabido em Malaca pelas cartas que iam de Tidore para o Vizo-Rei, e porque também assim lho requeria rijamente o procurador de Ambóino que ia para a índia buscar e trazer armada, ou não tornar mais àquelas partes * onde deixava sua mulher, filhos e parentes e que, com muitas -fi.36v. lágrimas, por vezes lhe pedia fôsse socorrer aquela terra, pelo qual respeito o capitão-mor o trazia consigo.
  • 278 Das coisas de Ambóino Resoluto pois de fazer esta tão arriscada jornada, pôs a proa em Ambóino; e deixando algumas coisas que no caminho fêz, chegou a salvamento àquelas ilhas e demandou a nossa barra a dez de Fevereiro. Os da fortaleza e da terra que cuidavam serem inimigos, ficaram mui assombrados, mas, tanto que se lhes fêz sinal da capitânia e entenderam ser a nossa armada, ficaram tão alegres, como se ressuscitaram da morte. Foram logo os nossos padres à nau do capi- tão-mor buscar os outros seus irmãos que nela vinham, com muito amor, e toda a terra e gente foi cheia de grandíssima consolação. CAPÍTULO XIX Do que fê\ o capitão-mor depois de chegar a Ambóino, e a vitória que teve contra os inimigos CHEGADA nossa armada, a primeira coisa com que entendeu o capitão- -mor, foi na fortificação da fortaleza e juntamente na reparação dos navios. Depois disto negoceou quatro naus e duas galeotas e dez ou doze caracoras e se foi fazer guerra aos Itos e mais lugares desta ilha, que estavam alevantados contra a fortaleza; e por terra mandou José Pinto com duzentos portugueses. Acompanhavam os padres esta gente; o Padre Lourenço Masónio a José Pinto por terra, o Padre Brísio Fernandes ao general por mar, o Padre Sebastião da Veiga ficou no hospital da armada, que aqui ordenou o • fi. 37. capitão-mor e que foi o único * remédio de muitos soldados enfermos, que sem isto pereceram, no que fêz muito serviço a Nosso Senhor. Deu a armada volta à ilha e meteu-se em uma enseada que se chama Bacácio, onde estaria obra de um mês. Estêvão Teixeira, capitão que foi da fortaleza, ia diante com algumas caracoras tomar fala de alguns lugares dos alevantados que também o estavam no sítio, por habitarem oiteiros mui altos, a que êles chamam Gunos, aonde comummente correm muitas fontes de água doce, e por êstes montes abaixo e fralda dêles descem ribeiras de água tão excelente, que quere competir com a que desce da Serra da Estrêla. Todos êstes lugares vieram logo dar obediência, e de cada um vinham seis ou sete pessoas das mais nobres e cada lugar trazia uma bandeira e três sinos de metal, que são como bacias grandes; valerá cada um cincoenta cruzados; traziam mais uma pouca de terra e uns ramos de cravo em sinal que lhe entregavam a terra e o principal fruto dela. Alguns traziam também cabras e galinhas. Sabia o general que entre os levantados da terra e holandeses havia confe- deração que para tomar esta fortaleza e a de Maluco, na entrada de Março se ajuntassem aqui dez naus, e tão penhorados estavam êles neste particular, que com verem na Sunda que o nosso capitão-mor se fazia à vela para estas partes, fizeram êles o mesmo nas suas costas, e assim não faltando com a promessa que tinham feito, a dez de Março arrebentaram as dez naus à vista dos ilhéus de Rosatelo. Três delas tomaram fala da terra, e sabendo que a nossa armada
  • Das coisas de Ambóino 279 estava já nela, se foram na volta da ilha do Buru(i) e as sete na de Banda para daí irem a Maluco. Tudo isto soube o general, estando aqui nesta enseada, por várias vias e principalmente por o padre Luís Fernandes, reitor daquelas partes, que nesta conjunção chegou de Tidore com cartas de El-Rei e dos moradores de Maluco, em que davam os parabéns da boa vinda ao capitão-mor, pedindo-lhe mui depressa os fôsse socorrer, e dando por novas que já em Ter- nate ficavam três naus das cinco que os nossos encontraram na Sunda. Aqui também soube como estas três naus tinham descoberto uma viagem nova * em .F1.37V. que se encurta um ano, para nossos navios virem socorrer estas duas fortalezas, a qual é por entre Bornéu e Macassar. E também se soube, como Ternate se fortalecera e não queria largar os holandeses que tinha consigo, obrigando-os a que o ajudassem. Tornando pois à guerra que o general ia fazendo, um dos lugares dos ale- vantados que se chama Rosatelo, que é um pico mui alto e bem fortalecido, vendo nossas caracoras e batéis, queimaram logo muito fato e casas e se re- colheram a outro pico mais alto onde já tinham as mulheres e meninos, e ao qual se não podiam subir senão pegando numas rotas que teem atadas de árvore a árvore, pelo que o monte ficava inacessível, nem parecia possível poder-se subir a êle. Porém dois dias depois, os nossos por uma calada o entraram sem briga, porque êles mesmos os vieram receber com bandeiras brancas, pôsto-que o rei e cabeça dêlçs se tinha acolhido. Estavam êstes moiros de lto tão soberbos e arrogantes com os holandeses, por quem esperavam, que haviam que em nossa gente pondo o pé em terra, logo a desbaratariam, porém vendo-se já por uma parte desconfiados do socorro que nêles podiam ter, pois as dez naus por que esperavam, tinham passado de longo, e Rosatelo estava já entrado dos nossos, como temos dito, não perdendo contudo o ânimo, determinaram pôr sua salvação no sítio de seus lugares e cumes dos montes; e assim, despejando logo a principal cidade que pròpria- mente se chama lto, e a fortaleza dos holandeses, se recolheram com tôda a gente em um guno ou pico, o mais alto e inexpugnável que há em tôda esta terra, o qual se chama Nau e Bemnau, que são dois oiteiros um sôbre outro, como gávea sôbre gávea, e estão perto da praia, mas em razão da volta que será meia légua, o Nau é por tôdas as partes talhado com ribeiras mui frescas que o cercam, e tem três entradas ou subidas tão íngremes que gatos, trepando lá, sentiriam dificuldade. Nestas entradas tinham três tranqueiras dobradas, com terrapleno no meio, com muitos berços e meios falcões que os * defendiam, «fi.38. e em cada uma muita gente de guarda, com bandeiras arvoradas e todo o género de armas ofensivas e defensivas de que os holandeses teem bem provido todo o Sul. Sôbre tudo tinham infinidade de penedos que, a deixá-los cair, fazem ir a tombos um exército. Aqui, pois, se tinha junto o poder dos inimigos e estava uma povoação neste primeiro oiteiro situada em uma chã mui larga que êle faz, a qual era tamanha como uma grande vila de Portugal, de casaria a seu modo muito boa, e tudo estava cheio de craveiros a modo de oliveiras, mas mais copados que elas, e estavam entressachados de muitas palmeiras (1) Nt.: Burro.
  • 28o Das coisas de Ambóino mansas, e, por baixo, de todo género de árvore de espinho, laranjas, limões, cidras, zamboas, com cinco ou seis bicas de água, que cada uma lançava uma boa manilha, de modo que parecia o oiteiro uma quinta de prazer, que tão fresco era. Sôbre êste oiteiro estava o que se chama Bemnau que quere dizer filho de Nau e bem avantajado ao outro assim na povoação como na frescura e em tudo o mais. O general chegando aqui Domingo de Ramos, mandou logo fazer na praia uma grande tranqueira e assentar o arraial com choupanas para o sol e chuva, que de quando em quando havia. Mandou também por um moiro dos inimigos que os nossos lhes tinham tomado, saber sua determinação. Iam com êle alguns dos nossos ambóinos para saberem o caminho; mas os inimigos que estavam tão altos, mais altos tinham os pensamentos, porque nenhuma coisa fizeram do recado, dizendo que êles eram vassalos de El-Rei de Ternate e que a êle reconheciam, e que haviam de contratar com os holandeses e com as nações que quisessem e que também venderiam seu cravo aos portugueses e que El-Rei de Portugal tinha grande garganta; e com isto começaram a disparar sua espingardaria. A segunda feira mandou o general um capitão que fôsse reconhecer o sítio, e porque os nossos se desmandaram em chegar à sua tran- queira, foram rebatidos com muitas espingardadas e pedradas, de que alguns • fi. 38 v. sairam mal feridos e aos tombos se recolheram pelo * monte abaixo. Na noite seguinte mandou o general duzentos homens que fossem no quarto de ante alva tomar um oiteiro que estava defronte da tranqueira dos moiros, o qual tomado, em esclarecendo, deram suas surriadas de espingardaria com que fizeram muito dano aos inimigos que estavam desapercebidos, e muito mais com dois berços que os nossos também levaram, com ordem de fazer uma tranqueira, os quais na noite seguinte a mudaram mais adiante donde lhe pudessem fazer mais dano, como fizeram. Guardava êste passo Gonçalo Vaz de Castel-Branco com trinta homens, os quais de noite estiveram à fala com os inimigos, prometendo- -lhes que no dia seguinte lhes haviam de tomar o forte, como tomaram, porque nêle, que foi em Quarta Feira de Trevas pela manhã, mandou o general tocar arma para êle em pessoa subir ao oiteiro, onde os nossos estavam com tôda a gente, deixando em baixo a Trajano Ruiz de Castel-Branco com cincoenta homens em guarda do arraial; e pôsto-que não levava ânimo de naquele dia cometer o forte, senão só repartir a gente e dispor as estâncias, estando porém tomando conselho com os capitães, eis que chega Gonçalo Vaz com uma espingardada perigosa na barriga da perna, com cinco buracos, o que vendo os soldados de sua estância fizeram demonstração de querer dar Santiago nos inimigos, mas cá onde o general estava soou que os inimigos eram os que vinham dando sôbre as estâncias e berços dos nossos, pelo que o general deu logo Santiago e os soldados arremeteram com tanta fúria, que se puseram a trepar uns após outros por aqueles penhascos acima com pés e mãos, de modo que era coisa de espanto ver o esforço e atrevimento que Deus lhes dava para cometerem uma coisa tão dificultosa e quási impossível. Os tambores e charamelas retiniam nas orelhas, as espingardadas, roqueiradas e pedradas nas cabeças dos nossos, dos quais muitos tombavam pela ladeira abaixo, e pedra houve que levou dois e três em tombos, até irem parar em alguma árvore. E a um capitão deram uma à
  • Das coisas de Ambóino 281 mão-tente que, se a não tomara em uma rodela de aço, perdera a vida, porém perdeu por um pouco o acôrdo, mas não o esforço, * porque, tornando logo em *fi. 39. si, cavalgou na tranqueira dos inimigos. O Santiago e gritos da gente pareciam abrir aqueles montes, mas esforçavam os corações de modo que muitos, derru- bados em terra, com a mão tiravam os estrepes de que tudo estava semeado e subiam àvante que pareciam aves. Os que ficaram em baixo em guarda do arraial, estavam vendo a briga, e um religioso de São Domingos que ali ficou com o seu capitão, se pôs de joelhos em ela começando a rezar as ladainhas a que todos respondiam, e foi Nosso Senhor servido que as não tinha acabado, quando as nossas bandeiras já estavam arvoradas na tranqueira e forte dos inimigos e as contrárias lançadas por terra. A um mancebo esforçado que levava nossa primeira bandeira, atravessaram com uma espingardada de que depois morreu, e lançando-lhe um moiro de dentro mão da bandeira, acudiu seu capitão e o ajudou e livrou, mas contudo ainda o moiro levou um pedaço da hástea que depois da briga acabada se achou e recuperou. Os moiros vendo as bandeiras tomadas e as tranqueiras entradas deste primeiro forte por muitas partes, se recolheram à tranqueira e pico de cima sem deixarem neste de baixo mais que sós três homens que nela ficaram pelejando esforçadamente até acabarem, como que foram os mores cavaleiros do mundo. Porém no pico de cima já não houve resistência, porque se acolheram os moiros, lançando-se pelas rochas abaixo, e chegando os nossos acharam a povoação tôda despejada de gente, mas não de todo o fato, porque ainda se tomaram prêsas de importância, pôsto-que o melhor tinham êles queimado. O general mandou logo os feridos para baixo, para se curarem, que seriam perto de duzentos, não contando os encravados dos estrepes, que foram muitos. Havida esta vitória, que foi dos mais esforçados cavaleiros dêstes moiros, não houve depois mais quem pelejasse nem ousasse levantar olhos para portu- gueses, que tão altos gunos e oiteiros subiam, que não lhes faltava mais que subir aos céus, como êles diziam. E assim em o dia seguinte se vieram sujeitar nove lugares juntos. O general desceu abaixo com tôda gente e numa ramada se armou um * altar • fi.Sí». em que, dia de Páscoa, se disse uma missa e muitos in gratiarum actionem; comungou muita gente com muita devoção, dando também a Deus vassalagem e sujeição por tão assinalados benefícios. O forte que os holandeses tinham feito foi arrasado por terra, o qual tinha à entrada as armas do Príncipe Mau- rício. O Talete Dom Belchior, Rei de Ito e cristão arrenegado que de Rosatelo se tinha acolhido, se veio aqui também entregar com um grande caciz que tinha consigo. Vendo o general que nesta costa de Ambóino não tinha mais que fazer, determinou ir a Varanula, que é outra ilha vizinha, como fêz, com tôda a armada, e chegou à cidade que era mui próspera e uma das mores minas do cravo que há naquelas partes, e estava situada ao longo da praia numa rocha bem alta e talhada que parecia muro, com casaria de sobrados e bailéus, e uma mesquita de três naves muito bem lavrada com seu Alcorão. Dentro nela e em sítio bem defensável estava o forte dos holandeses, todo feito de pedra, redondo e 36
  • 282 Das coisas de Atnbóino coberto, e mais adiante uma fortaleza de pedra com muitos reveses, revelins e guaritas, que era a dos ternates que senhoreavam esta ilha. Surgindo pois nossa armada, vieram logo os principais da cidade, dizendo, que se queriam entregar, mas que duvidavam dos ternates, que lhes deixassem fazer conselho, e que ao outro dia viriam com resposta. Foram com êles dois Ambóinos honrados e a resposta foi porem-se em fugida por se não atreverem a esperar o ímpeto dos nossos. Deram em lugar disso uma bombardada, pelo que certificado o nosso general de sua fugida, mandou desembarcar a gente, pôr a cidade a saco, e pôsto-que a tinham despejado, e recolhido o grosso, todavia se tomaram mais de trinta mil cruzados de preias e muitos berços e sinos, louça da China, vidros de Flandres, cravo e reales. Depois de saqueada a cidade lhe puseram o fogo e as duas fortalezas dos ternates e holandeses foram arrasadas e por alguns cativos que se tomaram, soube o general como nestas naus de que se teve vista e êles esperavam para os ajudarem contra nós, • Fi.40. vinham * cem homens de presídio para êste forte de Varanula e outros cento para o de Ito. No seguimento dos ternates foi alguma gente até Lacidecabelo, lugar onde se embarcaram em quatro ou cinco caracoras e outras embarcações e se foram na volta de Ternate. Uma povoação que se chama Mamala veio logo dar obediência. Acabadas estas emprêsas e estando o general para se recolher com a armada para Ambóino, chegou ali Francisco de Sousa Teive que, com dez portugueses, fôra tomado dos holandeses, o qual vinha de Banda onde se ajuntaram as cinco naus com que a nossa armada se encontrou na Sunda, e por êle teve o general vários avisos e novas de outras naus que por ali perto andavam. O capitão-mor dos holandeses fêz muito gasalhado a Francisco de Sousa, largando-o com armas e matalotagem para o caminho, ainda que por preço de quinhentos cruzados que por êle e pelos mais portugueses lhe deu um gentio, os quais logo o general lhe mandou pagar, e escreveu também o capitão dos holandeses uma carta ao general, em que lhe pedia tratasse bem os seus como êle faria aos portugueses quando os encontrasse. O general lhe respondeu e mandou um moço holandês que fora tomado em Ternate. Êste foi o feliz sucesso destas duas emprêsas, nas quais nossos padres tiveram muita parte de merecimento com Deus e com os homens, e não lhes faltou também seu perigo de vida muito grande, porque na briga de Ito, o Padre Brísio Fernandes foi ferido na cabeça com duas boas feridas de uma espingardada, as quais ainda que foram perigosas, Nosso Senhor lhe fêz mercê da vida para mais o servir com ela. E porque não é bem que se cale o louvor que merecem seus trabalhos e os serviços que nesta armada fizeram a Deus e aos homens, porei aqui um capítulo de uma carta gue sôbre esta matéria escreveu ao Padre Nicolau Pimenta, Visitador que foi da índia, o próprio General André Furtado de Mendonça, o qual diz assim: «Não deixarei de mostrar a V. P. o grande procedimento dos Padres Brísio Fernandes e Sebastião da Veiga, porque já não trato do seu exemplo, que é • F1.48V. coisa rara, mas só digo do modo * em que me ajudam em meus trabalhos, por- que afirmo a Vossa Paternidade, que se êles não foram, impossível fôra não ter eu largado a armada, porque, quando vejo chegarem-me meus pecados a
  • Das coisas de Ambôino 283 estado que tenho à minha conta uma máquina como esta, com tanta falta de todo o socorro e provimento, que nem de sagum posso sustentar estes soldados, veja Vossa Paternidade que tal posso estar, mas êstes padres são os que só me consolam. Êles me animam e em todas as coisas que se oferecem, me aliviam os trabalhos e me dão esforço para poder com êles; mas faço-lhe queixume do Padre Brísio Fernandes, que não há já quem possa com êle, depois que na batalha lhe deram aquela espingardada que afirmo a Vossa Paternidade, foi das mais venturosas de quantas tenho visto depois que ando na guerra. Porém, já que êle nesta paragem derramou seu sangue, nela, confio em Nosso Senhor, havemos de arvorar uma cruz na volta de Ternate e pode ser que sejam mais, se aos padres parecer». Até aqui da carta do general. Tanto que êstes lugares alevantados se sujeitaram, lhes foi logo assinado o dia em que viessem jurar solenemente obediência e vassalagem a S. Majes- tade em nossa fortaleza, e também dos cabeças principais dos lugares escolheu o general os que melhor lhe pareceu e de quem mais dependia a sujeição dêles, para nela ficarem em reféns; e assim com esta ocasião do próspero sucesso que esta armada teve nestas ilhas ficou muita gente disposta para se catequizar e receber nossa santa fé, e na própria fortaleza, da gente que de novo se ajuntou, serão quási três mil almas, e só os cristãos antigos que até agora por causa das guerras se não puderam cultivar, poderão muito bem ocupar dez padres; além de muitos cristãos arrenegados e de muitos moiros e gentios que esperamos se reduzam uns e convertam outros, porque como esta gente se vê sujeita aos portugueses no temporal, não é muito trabalho sujeitá-los no espiritual, porque é gente mais meneável que a de outras partes e os moiros não são tao emper- rados como os de Malabar e da índia.
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  • 'LIVRO TERCEIRO • Fl. 41. DAS COISAS DO REINO DE BENGALA CAPÍTULO PRIMEIRO Como os portugueses tomaram a ilha Sundiva, guerra que por isso lhe fé\ El-Ret dos Mogos e sucesso dela EM a Companhia nos reinos de Bengala duas residências em que estão quatro padres: uma no reino Chamdecam, outra na ilha de Sundiva. E pôsto-que haja cinco anos que os nossos trabalham com aquelas gentes, para os trazerem ao conhecimento da fé, não responde porém o fruto aos traba- lhos, por ser esta gente de pouca constância e segurança, e o que mais os impede é a gran<% multidão de moiros que há naqueles reinos (impedimento para a conversão, o maior de todos quantos há no Oriente); fazem contudo alguns cristãos, que os padres vão cultivando. Esta ilha Sundiva está junto da terra firme de Bengala, fronteira e vizinha ao pôrto de Siripur, e não dista mais da terra que seis léguas, em paragem e sítio mui acomodado, porque nem os inimigos de terra lhe podem chegar, nem no mar há poder con*tra o dos portugueses, os quais fortificando-se nela e «0.41*. fazendo ali o assento principal, teem singular aparelho para dela conquistarem todos aqueles reinos de infiéis, porque podem nossas armadas ir por todos aqueles rios e esteiros, que são muitos naqueles reinos, e pôr as proas nas for- talezas e cidades dos inimigos, que estão ao longo d'água, sem ninguém por ela lhes poder resistir. É de trinta léguas de roda, fértil de sal de que se provê toda Bengala e por isso de muito rendimento e o principal daqueles reinos. E se para ela se mudar a alfândega que estava em Chatigão ou no Siripur, portos da terra firme, far-se há esta ilha mui célebre e dará grandes rendimentos ao estado, assim com o trato do sal, em cujo meneio andam mais de duzentas embarcações, como com as mais fazendas em que tratam os que vão fazer veniaga àqueles reinos, que são roupas finíssimas de todas as laias, manteigas, açúcares, ferro, cera, e infinito arroz. Além disso servirá grandemente para que, havendo guer- ras e preseguições nestes reinos contra os portugueses e cristãos da terra, tenham aqui todos um refúgio, onde se possam retirar da fúria dos inimigos, e na mesma ilha há também muitos infiéis que com muita facilidade se convertem, os quais darão bem que fazer a muitos obreiros. Pertencia esta ilha de direito senhorio a um dos reis daqueles reinos chamado
  • 286 Das coisas de Bengala Canderrai, mas havia muitos anos que a não possuía, por lha terem usurpada tirânicamente os mogores; porém, tanto que soube que os portugueses a tinham tomada, êle de seu próprio motu lha deu logo, renunciando neles o direito que nela tinha. Tomou-a no ano de seiscentos e dois um português, homem esforçado e de valor, chamado Domingos Carvalho, natural de Montargil, o qual andava no serviço do próprio Canderrai, que acima dissemos ser senhor dela. Apoderou-se primeiro da fortaleza que nela havia com os soldados portugueses que o ajuda- •Fi.42. vam, mas logo os naturais da terra lhe puseram cêrco, do * qual mui apertado avisou aos portugueses que estavam em Chatigam o quisessem socorrer, o que êles logo fizeram com muita diligência, tomando por capitão e cabeça de todos a um Manuel de Matos, homem honrado e rico, o qual indo com quatrocentos homens, saltou em terra e pelejando em campo com os naturais os desbaratou com morte de muitos, donde com esta vitória e outras os nossos ficaram senhores de tôda a ilha que entre si dividiram o mesmo Domingos Carvalho e Manuel de Matos. Porém dêste bom sucesso se houvera de seguir aos nossos um grande desastre, se Deus os não ajudara com particular favor; e o caso foi êste. Assim como El-Rei de Arracão, que também se chama dos mogos, é o mais poderoso rei de todos os que há em Bengala, assim era o mor amigo dos portugueses que nela havia, o qual se servia muito dêles e pelo muito que o ajudavam em suas guerras, tinha dado a diversos, em terras e comedias, mais de trinta mil cruzados de renda. E verdade que, como êstes reis são infiéis e mui refalsados, sempre se arreceou que não sustentaria mais amizade com os portugueses que, enquanto entendesse que os havia mister, mas fora daqui procuraria logo de lhes dar na cabeça. E assim o procurou agora nesta con- junção, que mal aconselhado e induzido pelos moiros que traz em sua corte, por quem se rege, (os quais nenhuma coisa mais desejam que ver extinguido o nome português e cristão em todo Oriente,) esquecido dos benefícios que dos portugueses tinha recebido, intentou acabá-los de todo de uma pancada; e o motivo que para isso tomou, foi dar-se por agravado de os portugueses, sem sua licença e ordem, tomarem a ilha Sundiva que estava debaixo de sua pro- tecção e arreceou-se que estando êles por uma parte em Sundiva, por outra em Sirião, pôrto principal de Pegu, onde já tinham fortaleza feita, e ficando-lhes êle no meio, o podiam os nossos tratar mal. E assim para sair com seu intento fêz logo uma armada de cento e cincoenta jaleias em que entravam alguns •F1.43V. catures e outras embarcações * grandes, com muitos falcões e cameletes, e da banda de Siripur estavam também cem cossas (que são certas embarcações) do Canderrai (que com êle para êste efeito se tinha confederado) de maneira que com esta tão grande armada podiam fazer tudo quanto desejavam muito a seu salvo, se Deus por sua misericórdia não desfizera seus intentos. Com a nova dêstes aparelhos começaram os portugueses e cristãos de Dianguá e Caranjá a embarcar-se nas naus com suas pessoas e fato, mas os que estavam em Chatigão, pôsto-que tudo podiam crer da maldade de El-Rei de Arracão, pois já tinham passado formão e dito que não se fizesse mogo algum cristão e os pegus que o eram fizera retroceder, contudo se não podiam persuadir que, correndo com tantas mostras de amizade com os portugueses, quisesse fazer contra êles tama-
  • Das coisas de Bengala 287 nha traição, e principalmente porque o não tinham por tão pouco interesseiro, que por queimar as naus e matar os portugueses, quisesse perder os direitos delas, que até então não estavam arrecadados. Além disso, quando quisesse cometer tão grande maldade, não lhe faltava melhor ocasião depois da partida das naus em que mais a seu salvo o pudera.fazer. Pelo que tudo os nossos se descuidavam de embarcar seu fato, pôsto-que não deixaram de meter nas naus alguma coisa de mais importância. Acrescentava-lhes também esta con- fiança o refalsado Rei de Chatigão que é tio do de Arracão, o qual com pregão público mandou assegurar a gente que, ainda que bulissem nos outros bandéis ou lugares, no seu de Chatigão se não tocaria, e para isto também mandou pôr um moiro honrado por guarda na casa dos padres e os mandou visitar pelo seu Caciz mor; Porém tudo isto foi para dissimulação e artifício de que usaram, para que os nossos estivessem descuidados, porque aos oito de Novembro bota- ram fora sua armada pelo rio abaixo ao Dianguá, onde estava Manuel de Matos em uma fusta e com algumas jaleias que são certas embarcações, mas todas pejadas de gente que ainda se ia aviando para se ir meter nas naus que por não estarem seguras de serem queimadas, se levantaram do poiso * onde estavam »fi.43. ancoradas no mesmo dia e se foram para fora da barra. Requeria Manuel de Matos aos sundares (que são capitães da armada) e aos mais mogos, que assim se chamam os naturais do reino de Arracão, que não quisessem pelejar contra os portugueses, pois não eram alevantados contra El-Rei de Arracão; com tudo isto se não quiseram aquietar, senão investir com nossas embarcações, as quais como estavam pejadas e desapercebidas, se foram recolhendo quanto puderam, ficando sòmente a fusta no meio da armada moga, a qual se defendeu tão valo- rosamente, que matou muitos dos inimigos, e da nossa parte não morreu mais que um só e feridos sete, em que entrou Manuel de Matos, todos porém leve- mente. A briga por então se concluiu com nossa fusta se poder recolher da multidão dos inimigos e eles ficarem com quatro embarcações nossas que toma- ram, e com tôda a gente e fato que nelas ia. E com esta vitória ficaram os mogos tão soberbos e insolentes que não faziam conta de portugueses, e todo aquele dia e o outro não se ocuparam em outra coisa que em roubar o fato grosso das naus, que ficara em terra e comer e embebedar-se tôda a noite. Porém, dois dias depois desta vitória que foi aos 10 de Novembro, eles a pagaram mui bem, porque ajuntando Domingos Carvalho tôda sua armada que tinha em Sundiva, com a que tinha em Dianguá Manuel de Matos, que uma e outra faria corpo de cincoenta embarcações, em que entravam duas fustas, quatro catures e três batéis, as demais jaleias, que são embarcações de trinta remos, a quinze por banda, mui ligeiras, às oito horas do dia deram nos mogos com tanto esforço e ânimo (o qual lhes acrescentava a afronta do dia passado) que de todo desbarataram os inimigos e lhes tomaram tôda sua armada que foram cento e quarenta e nove navios, sem escapar mais que uma só embarcação pequena. Nela lhes tomaram os nossos grande número de espingardaria e roqueiras, doze peças grossas, cameletes e falcões, mataram um mogo grande, cunhado de El-Rei de Arracão, por nome Sinabadi com outros * muitos; os outros »fi.43v. se lançaram a nado e assim escaparam. E desta maneira os nossos se vingaram mui bem dos mogos e tornaram a cobrar tôda a gente e fato que na briga
  • 388 Das coisas de Bengala passada tinham perdido. Com esta vitória que foi sem nenhum dano dos por- tugueses, os nossos ficaram mui poderosos e os inimigos tão assombrados, que chegando a nova a Chatigam, já cada um tomava seu fatinho às costas e a mesma rainha em um elefante se pôs em fugida, porque cuidavam que os por- tugueses haviam de prosseguir a vitória e dar logo na cidade. E na verdade perderam os nossos grande lanço, porque se o fizeram, sem arriscar uma só gota de sangue puderam tomar a fortaleza, a qual estava desamparada e sem gente, porque tôda fôra na armada. O Rei de Árracão depois disto, vendo quão mal lhe sucederam seus desenhos, acomodando-se ao tempo, usou de melhor conselho e renovou amizades e pazes com o capitão-mor e com Manuel de Matos e Domingos Carvalho. CAPÍTULO II Dos trabalhos que no tempo destas revoltas padeceram os padres e alguns cristãos, e morte do Padre Francisco Fernandes RESIDIAM neste tempo em Chatigam e na casa e igreja que ali tinha a Companhia, os padres Francisco Fernandes e André Boves, que eram a única consolação e alívio daqueles cristãos e portugueses que ali viviam. E como estavam em terras e debaixo da lança e poder dos inimigos, a eles coube a maior parte dos efeitos de sua fúria, porque no tempo que começaram • Fi.44. a descobrir sua danada * tenção contra os portugueses, sôbre palavras que tiveram com dois deles que andavam tratando de pagar os direitos, começaram também a lançar mão dos meninos que ali estavam em companhia do Padre Francisco Fernandes, que também andava no meio para os concertar com os portugueses no negócio dos direitos. E por o padre acudir a que não lançassem mão dos meninos, sem nenhum respeito arremeteram a êle às pancadas e punha- das com muita crueldade; e ainda que os dois portugueses se lançaram por cima do padre para o defenderem, não deixou de levar uma tão cruel pancada em um ôlho, que ainda que vivera, de todo ficara cego. Despiram logo estes bárbaros assim aos portugueses como ao padre e lhe botaram a cada um seu grilhão nos pés e uma argola de ferro na garganta; e depois disto os levaram presos para a casa do Dabem que é como meirinho-mor, onde o padre por ser fraco e velho, e não poderia aquela natureza com o mau tratamento que ali lhe deram, daí a poucos dias, que foi aos 14 de Novembro, deixando a prisão desta vida miserável, se foi para a terra da liberdade, ficando todos com muitas saudades dele e edificados de seu grande exemplo e virtude. O Padre André Boves, seu companheiro, também foi preso e posto em ferros em casa de um mogo grande que se chamava o Anjá, e ao tempo que o Padre Francisco Fernandes estava para expirar, mandpu pedir licença a El-Rei para o ir ver, pois estava na derradeira; deu-lha El-Rei e achando-o já sem fala, o acompanhou com muitas lágrimas, até que passou desta vida, ao qual amortalhou e para o poder ir enterrar, pediu lhe quisessem tirar os grilhões
  • Das coisas de Bengala 289 que tinha nos pés, o que lhe concederam, deixando-lhe neles as argolas; e assim, acompanhado sòmente de quatro homens da terra, o foi enterrar na nossa igreja, que já neste tempo estava derrubada e toda nossa casa saqueada e destruída, sem nela ficar coisa em pé, mais que os esteios e armação da madeira. E o que o padre mais que tudo sentiu e com muitas lágrimas não cessava de chorar, era o desacato com que aqueles bárbaros profanaram as coisas da igreja, porque do * cális usava o filho de El-Rei para comer e cuspir »fi. «t. o seu bétel. Antes da batalha começaram logo os inimigos a saquear as casas dos cristãos, que estavam por aqueles bandéis ou povoações ao longo do rio, mas depois que souberam da destruição da sua armada, e viram que os portugueses não iam por diante na execução da vitória, nem, como êles temiam, vinham dar na cidade e fortaleza de Chatigão, mandaram logo trazer para dentro da for- taleza toda a gente cristã, mulheres, homens e meninos, com mui grande inumanidade; as mulheres meteram todas na mesma casa onde estava prêso o padre André Boves, as quais em o vendo carregado de ferros, se lhe botaram aos pés chorando mil lágrimas, e faziam uma grita e alarido lastimoso. Magoava-se grandemente o padre de ver aquelas pobres mulheres, todas roubadas e quási despidas e com suas crianças no colo, sem êle lhes poder valer; consolava-as o melhor que podia, e tôda aquela primeira noite esteve cercado delas, sem ter lugar, nem para estender os pés. Ao outro dia espalharam tôda esta gente pelas terras de Bengala, ficando sòmente os homens presos na fortaleza, foram-se à povoação roubando tudo; e cavando até as árvores para ver se havia alguma coisa enterrada, puseram tudo por terra. Além disto, a todos os moços, assim dos portugueses como dos padres, deram cruéis tormentos para confessarem onde estava o dinheiro e fato enterrado, e particularmente ao Padre André Boves e a um português honrado, por nome Jerónimo Monteiro, tiveram os inimigos em grande aperto, ameaçando-os com a morte todas as horas, até que Nosso Senhor foi servido que, fazendo o Rei de Arracão as amizades que acima dissemos, com nossos capitães, lhes deu liberdade, mas ficando destruídas tôdas as igrejas que havia nesta terra, e a gente cristã espalhada. E porque pareceu que não havia já mais que fiar de tão falso rei, os padres se saíram de suas terras e se passaram para a ilha Sundiva, onde, à sombra dos portugueses, ficaram agasalhados em uma pobre choupana, e em muita pobreza e neces- sidade, entendendo na conversão daqueles gentios, naturais da mesma ilha. 3 7
  • Fl. 45. * COISAS DO REINO DE PEGU CAPÍTULO III estado em que ao presente estão as coisas do reino de Pegu UITOS anos há que os padres trazem grandes desejos de terem entrada segura neste reino, pela boa índole que há nestes gen- tios para nêles se poder imprimir nossa santa fé. Porém, nunca os puderam efectuar por causa da grande assolação com que os anos passados todo êle foi destruído, como noutras relações está dito. Agora foi Nosso Senhor servido dar mais ocasiao para se poder fazer muito fruto com o poder que nele deu aos portu- gueses, a cuja sombra os naturais ficam mais seguros e dispostos para rece- berem nossa santa fé. E passa a coisa desta maneira. Foi destruído o reino de Pegu no ano de noventa e nove, e de todo con- quistado pelos reis de Tango e Arracão, porque tendo ambos êstes dois rejs cercado o de Pegu, êle se lhes rendeu a partido, o qual foi, entregar ao Arracao o elefante branco de que era senhor, e que era o timbre de toda sua honra, com muita soma de pedraria e uma sua filha por mulher e dois filhos em refens. Ao de Tango que era seu cunhado, entregou sua pessoa, mulher e filhos, e tesoiros, o qual vendo-se depois disto cercado de El-Rei de Avá, achacou ao Rei de Pegu que, por sua causa, o de Avá lhe fazia guerra. E matou-o com •fi.45v. treze filhos e se apoderou * logo de todos seus tesoiros que eram imensos, de oiro e pedraria, que o rei seu pai ajuntara de vinte e sete reinos que conquis- tara, em trinta e sete anos que reinou em Pegu, os quais em dezassete cáfilas, cada uma de oito mil bêstas, a saber, cavalos, bois, búfalos, elefantes, levou de Pegu para sua cidade e reino, ficando-se êle com os tesoiros e o rei de Arracão com o título e senhorio que tomou do reino de Pegu, que então não era mais que das terras e cidades desertas, porque os naturais todos eram ou mortos nas guerras passadas ou desterrados por outros reinos oO fugidos pelos matos. . , Andava neste tempo no serviço de El-Rei de Arracão um português cha- mado Filipe de Brito Nicote, homem honrado e muito rico, capitão de muitos portugueses que trazia consigo, o qual fizera a êste Rei de Ai ração muito grandes serviços, porque duas vezes o restituiu a seu reino, que seus naturais lhe tinham tirado levantando-se contra êle, e em todas as guerras que tivera, êste era o principal capitão e que mais nelas o ajudava; ao qual, em pago de todos êstes serviços, o rei deu o govêrno e senhorio deste reino de Pegu, assim como estava, e lhe deu licença que em Sirião (que é um porto que está no meio
  • Das coisas de Pegu 291 da costa do mesmo reino ao qual vão sair todos os rios-da enseada que chamam de Macaréu, e principalmente o que vai ao reino de Tango) fizesse uma tran- queira e fortaleza em que se pudesse defender de quaisquer inimigos, e ajuntasse ali as relíquias dos pegus que andavam pelos matos, e de quaisquer partes que para ali se quisessem recolher e viver debaixo de sua sombra e governo. Fê-lo assim Filipe de Brito, e começando no ano de noventa e nove com uma tran- queira de madeira, no de 602 a fêz já de pedra; e com muita artelharia e munições a pôs em estado para se poder defender de todos os inimigos que a acometessem. E juntamente fêz uma cidade dos naturais do reino de Pegu, que de diversas partes se vinham viver com quietação e segurança debaixo do amparo dos * portugueses, na qual, em Outubro de 602, haveria já passante .fl* de catorze ou quinze mil almas que iam lavrando as terras e fazendo suas sementeiras e crescendo de modo que se espera haja ali muito cedo uma populosa cidade, donde se venha a povoar todo o reino. Neste tempo, sabendo o Rei de Arracão como a fortaleza e cidade de Filipe de Brito ia crescendo, começou a entrar em receios de tamanho poder, per- suadido a isso por um rume muito seu privado e pelos embaixadores do Rei de Mussulapatão c de muitos moiros que traz em sua côrte, os quais todos lhe diziam que se não devia de confiar tanto dos portugueses, que eram homens que aonde lançavam raízes, não havia depois arrancá-las, e que êles se obri- gavam a dentro em dois anos porem ali vinte mil moiros e pagar-lhe cada ano dois bares de oiro; e que do reino de Pegu não se perdera nada senão a gente; que as veias das minas de pedraria e oiro e mais metais e os rios que o enri- queceriam estavam ainda correntes, portanto visse S. A. a quem entregava aquele reino, e que êles moiros sempre seriam garibos, que quere dizer mes- quinhos, que nunca viveriam senão debaixo de sua protecção, e que se tirasse aquele reino e pôrto aos portugueses e lho entregasse a êles, teria sempre em El-Rei de Mussulapatão um grande amigo; o qual mandou tratar o mesmo com os grandes do reino peitando-os grossamente para que assim o persuadissem ao Arracão. Nesta conjunção foi à côrte Filipe de Brito e entendendo o que os moiros tratavam contra êle, falou a F,l-Rei sôbre isso, e o desenganou que tanto que largasse nossa amizade, que soubesse de certo que era perdido; e que quanto a cortar as raízes aos portugueses, já não era possível, pois eram senhores do mar, e se morressem cincoenta, podiam vir mil, e assim teria guerra perpétua até se perder, e que nunca tanta necessidade tivera de portugueses como agora, pois tinha em Bengala, tanto à sua porta, os mogores que vinham conquis- tando tudo; e o seu general (1) Manasíngua tinha prometido ao Aquebar, Grão-Mogor, de o fazer * senhor do elefante branco de que êle Arracão agora o era. E com isto ficou êste rei mais desimaginado e admitiu o embaixador do estado da Índia, Gaspar da Silva, que o Vizo-Rei lhe tinha mandado, rece- bendo-o com muito gasalhado e vindo em tudo quanto lhe pediram, e assentan o que Filipe de Brito fôsse à índia buscar armada e socorro contra o Grão-Mogor. Porém, depois que Filipe de Brito e o embaixador se tornaram, ficando um em Bengala para ir para a índia, o outro tornando a Pegu a continuar com a (1) Nt.: Geral.
  • 292 Das coisas de Pegu fortaleza e posse daquele reino, o rei se tornou a mudar por conselho dos seus e persuasão dos moiros, c mandou um recado a Filipe de Brito dizendo, que a êle lhe afirmavam como tinha feito em Pegu uma fortaleza de pedra forte; que era sua vontade não fôsse mais por diante com ela, antes a mandasse logo derrubar e quando não, o mandaria êle fazer por suas armadas, e juntamente se fôsse ver com êle. Ao que respondeu Filipe de Brito com palavras pruden- tes e corteses, peitando grossamente aos que vieram com o recado, para que dissessem a EI-Rei, que se êle aquilo largava, logo todo o reino se perdia, mandando também mui bons presentes aos do seu conselho para que os tivesse benévolos, e ao mesmo rei adoçou com algumas peças, que importavam passante de dezassete mil cruzados, e foi uma delas um rêlho doiro que valia os quinze mil. No mesmo tempo se proveu também de Bengala de muitos mantimentos e munições que lá mandara buscar. Estava neste mesmo tempo em Pegu um banhá, que quere dizer duque, natural do mesmo reino, o qual o Arracão ali tinha por si com gente e poder, com intenção de com êle fazer fumo e acanhar aos portugueses, por ser natural e grande ladrão; e porque os portugueses lhe tivessem mor respeito, não fazia senão encomendá-lo por cartas a Filipe de Brito. Tiveram os nossos com êle alguns grandes recontros e andavam afrontados com êle, por ter muita gente, o que vendo Filipe de Brito, sem ter respeito às cartas do Arracão, e por tirar •Fi.47. aos negros a pretenção que podiam ter com êle * como natural, determinou de romper de todo e fazer-lhe guerra. E assim, aos vinte e sete de Fevereiro, ajuntando uma armada de muitos portugueses e gente da terra, lhe deu na sua tranqueira que era muito forte, a qual entrou à fôrça de armas e lhe matou tre- zentos homens e cativou novecentos, o que foi ocasião para com esta vitória todos os mais se virem para os portugueses; e lhe tomaram os nossos junta- mente mais de duzentas embarcações, vinte cavalos, e muitos mantimentos, ficando também senhores de tudo o que tinham semeado, e o inimigo depois de lhe matarem sua mulher, escapou com sós quinze pessoas. Ficou com isto a nossa fortaleza e cidade mui próspera, e os naturais fazendo suas lavoiras com muita paz, e em tanta quantidade que não haverá mister mais arroz de fora, e espera-se que dentro em dois anos haja tanto arroz em Pegu, que venha dêle mais para a índia do que vinha de Bengala. E por êste bom tratamento que aqui teem e paz em que vivem, se tem por coisa certa que todos os pegus que estão hoje no Sangu, no Pru e no Jangomá e no Avá e no Sião e em Arracão, que são muitos, se venham para nós pelo muito amor que teem à sua pátria, e por se verem livres das tiranias dos reis passados e daqueles em cujas terras agora estão. E todos êstes estão dispostos para se baptizarem e se fazer aqui, com o favor divino, uma grande cristandade. Assentadas as coisas desta fortaleza e cidade por Filipe de Brito, mandou logo seus embaixadores aos reis vizinhos a tratar a paz e amizade com todos, e também para os desviar do Arracão, como de inimigo comum de todos, como foram ao Rei de Tango, e Jangomá, e ao de Sião, e de Pru, e a outros senhores menores; e o principal intento destas embaixadas foi fazê-los amigos e obrigá-los a acudir com mantimentos e gente a esta fortaleza, se fôsse necessário, e junta- mente persuadir-lhes mandassem seus embaixadores com êle ao estado da índia.
  • Das coisas de Pegu 29^ Todos eles o fizeram assim, tirando só El-Rei de Sião, ao qual, no tempo que foram os embaixadores, persuadiu um Martina de Torres * que então lá estava, .fi.47»- que não fizesse caso de Filipe de Brito que o enganava; que não podia mandar embaixadores por sua via, pois era escravo do Rei de Arracão, e que o estado da índia o não conhecia; contudo o Rei de Sião, ainda que lhe não mandou embaixadores como os outros reis, lhe mandou certas honras a seu modo como de príncipe, e juntamente quarenta portugueses que estavam cativos em seu poder; e com os embaixadores dêstes príncipes e reis vizinhos se veio à índia a dar a obediência e entregar a fortaleza e o reino de Pegu ao Estado e dar de tudo menagem a S. Majestade, deixando a fortaleza em sua ausência muito bem provida de todas as coisas necessárias, assim de gente, mantimentos, munições, como de armada. O qual no Dezembro de Õ02 se tornou de Doa mui bem despachado pelo Vizo-Rei, levando consigo uma armada, dezasseis velas de remo, em que iam trezentos portugueses, com a qual armada e com a que lá estava e com a que há em Bengala, que serão cem velas, sessenta em Sundiva, trinta em Arracão, dez em Chatigão, e outras por outras partes, dizia êle segurará que com o favor divino poderiam ser senhores os portugueses de todos os portos daqueles reinos, assim de Bengala como Pegu, nem haver quem lhe pudesse resistir. CAPÍTULO IV Dos proveitos ainda temporais que podem resultar ao estado da índia com a conquista dos reinos de Pegu e Bengala O primeiro, que passante de dois mil e quinhentos homens entre portu- gueses puros e mestiços que há naquelas partes e que lá andam como levantados e perdidos, servindo a vários reis gentios e moi#ros, se*'-'-^. reduzirão todos ao serviço de Deus e de Sua Majestade, vivendo unidos em cidades e fortalezas, e que com êles se poderão amparar muitas orfas que lá podem ir casar, repartindo-lhes El-Rei terras com que se sustentem. O segundo, que fazendo-se nestes portos e fortalezas as alfândegas que parecer, crescerão muito as rendas do estado e terá Sua Majestade com que prover seus almazéns e armadas, assim dela como da índia. O terceiro, que assim de Bengala como de Pegu poderá vir toda a madeira necessária para as armadas da índia, pela muita que há naquelas partes das quais antigamente o Turco se provia para as galés que mandava fazer em Suez e lhe saia mais barata acarretá-la dali, que levada de Alexandria; e lá mesmo se podem fazer quantas galés e galeões se houverem mister com muita facili- dade e pouca despesa, para todas as partes do Estado da índia, assim do Norte como do Sul. O quarto, que daquelas partes de Pegu e Bengala se pode com muita facilidade e em todo o tempo do ano mandar provimento e socorro de mentos e munições a Malaca e a tôdas as partes do Sul, o qual da índia lhe não pode ir senão com muita dificuldade e de ano em ano, por causa das monções, que é coisa de muito grande momento.
  • 2Q4 Das coisas de Pegu O quinto, que com nossas armadas podemos dali com muita facilidade conquistar os portos de Martabão e Reitavai e Tanaçari, Junsalão, Quedá, os quais agora estão por El-Rei de Sião que injustamente hoje os possue, por estarem desbaratados de gente; porque, duas vezes que El-Rei de Sião passou contra El-Rei de Pegu, obrigou a todos estes a o virem acompanhar por mar, com mantimentos que por terra não podia trazer, com as quais vindas morreram os mais dêles por cá, pelo que aqueles portos ficaram tão desbaratados de gente, que só o nosso porto e cidade de Sirião tem mais da terra que todos êles. O sexto, que com a conquista de Pegu se atalha a pretenção que o Rei •fi.«8v. de Sião tem a este mesmo reino e ao de Tango * que tanto deseja em razão dos tesoiros imensos de Pegu, que o mesmo Rei de Tango ali recolheu, quando matou a seu cunhado, o de Pegu, que a êle se tinha entregue. E é tanto o desejo que o de Sião tem desta conquista, que, depois que na era de 599 foi desbaratado no cerco que pôs a Tango, em que perdeu setenta mil homens à fome com muitos elefantes e cavalos e com tôda a artelharia que trouxe, até hoje não tem entrado na sua cidade de Sião, o que diz não fará até não tomar os reinos de Tango e Pegu, e para isto anda fazendo grandes petrechos de guerra, e mandou a Patane, às naus dos holandeses que lá estavam, a buscar dez ou doze holandeses para artelheiros, e já lá tinha dois ao tempo que Filipe de Brito, neste ano de 6o3, partiu de Pegu para a índia. O sétimo, que sendo os portugueses senhores de Pegu, se faz outro grande serviço a Sua Majestade, que é tolherem os nossos com nossas armadas a navegação das naus que veem de Surrate todos os anos carregar de pimenta e outras fazendas para Meca aos portos de Martabão, Reitavai, Junsalão, Tana- çari e Quedá, que são muitas; e as farão que venham reconhecer e pagar direitos de tôdas as fazendas, assim das que levam da índia como das que trazem daquelas partes à nossa fortaleza e alfândega que se há de fazer em Sirião, que será coisa de mui grande importância e acrescentamento das rendas de Sua Majestade, porque, como estes não teem outro remédio mais que o mar, se os nossos forem senhores dêle, com muita facilidade os poderão obri- gar, pois nossa armada fica correndo aquela costa, como na índia corremos a do Malabar; e não há nela quem se defenda de nós nem nos possa fazer dano algum. O oitavo, que da nossa fortaleza de Sirião se pode fazer um dos mores efeitos que se podem desejar no temporal, que é haver às mãos os tesoiros do Pegu, que, como dissemos, tem em seu poder o Rei de Tango; e a facilidade que para isto há é esta. Está o reino de Tango da nossa fortaleza seis dias de • fi..(9. caminho por terra, nove por mar, e indo Filipe de Brito * por mandado de El-Rei de Arracão àquele reino viu quanto nêle havia e notou mui bem por seus olhos a paragem dêle e todo o sítio e disposição da cidade real, a qual tôda mediu, e notou quanto nela havia; e diz que tem de comprimento mil e quatrocentas e cincoenta braças e de largura mil e quatrocentas, vinte portas, de porta a porta cinco guaritas, de guarita a guarita quarenta ameias, uma cava de água muito larga que será de vinte e cinco braças; os muros não são muito altos e serão de largura de vinte e quatro palmos. Não tem bateria, por ser tudo de entulho; não tem mais que um fôrro da
  • Das coisas de Pegu 295 tijolo de grossura de seis palmos, o qual muitas vezes no inverno arruina; casas de palha e mal povoadas. Teria então vinte mil pegus, mas hoje não terá três mil, porque quási todos se vieram para a nossa fortaleza, como contrataram com Filipe de Brito, por a terra lá ser muito estéril e os pobres não poderem ter prata e na nossa fortaleza tudo podem ter em abundância. Esta era a melhor gente que êste rei tinha, que, pôsto-que fossem primeiro conquistados deles, os trabalhos os fizeram valentes. Terá bramás como quinze mil homens de armas, mas gente pusilânime e fraca; terá oitocentos cavalos da terra e trinta elefantes, artelharia muita, que levou do reino de Pegu até cameletes, mas pólvora nenhuma senão uma pouca que lhe deu o Rei de Arracão. Condes- table não tem mais que um só lascar ou marinheiro que foi nosso, e dizia Filipe de Brito na informação que deu de tudo disto ao Vizo-Rei, que esperava que dentro em dois anos, com a gente que há em Bengala e com a que de cá levasse e com a da terra, da qual tinha mais em dôbro e melhor que a de Tango, se poderia preparar para saltear êste reino, havendo-o assim por bem Sua Majestade, pois o rei é tirano, e que sem muito risco se poderia tomar nêle imensidade de tesoiros, e com a conquista dêste reino se podiam tomar todos os outros que ficam por aquela costa e enseada do Macaréu que corre como oitenta léguas, e que fora da cidade real dêste reino de Tango não há em todo * êle fôrça alguma, de modo que os próprios pegus que estavam em .Fi.49r. a nossa fortaleza, por conta de El-Rei de Arracão, lhe iam saltear e apanhai o gado, sem êles lho poderem defender. O nono, que com esta conquista se cortam também as raízes aos holandeses para não poderem meter pé em Pegu, como nos mais portos daquelas partes, do que não estão muito longe, porque o governador de El-Rei de Sião que está no Martabão, mandou duas náus suas ao Achém, com seus presentes e em- baixadores aos holandeses, oferecendo-lhes aqueles portos e declarando as fazendas que nêles tinham. E respondendo-lhe êles que, ainda que por então não estavam em tempo de aceitar o oferecimento que lhes faziam, ao diante teriam ocasião de o receber; êste ano de 6o3 tornou a segundar com outra embarcação em Março. Mas vindo-se bilipe de Brito deixou ordem para da volta que viessem em Setembro, se tomar a embarcação com o recado que trouxessem, porque da nossa fortaleza ao Martabão se vai por mar em vinte e quatro horas e por terra em cinco dias por causa da enseada. Décimo: sobre todos êstes proveitos dos tesoiros e riquezas tempoiais que se podem ganhar e serviços a sua Majestade, que se podem fazer, outros muitos maiores e mais para estimar são os que se podem fazer a Deus nos riquíssimos tesoiros de inumeráveis almas que ali se podem ganhar para o Céu, por ser gente branda e fácil para a conversão. O que tudo será com ajuda do Senhor, se os que governam cá e lá, tiverem zelo da honra de Deus e trouxerem mais diante dos olhos a glória sua e bem espiritual das almas que os bens e proveitos temporais, porque para Deus dar êstes, quere que as primeiras intenções sejam de seu serviço e do bem espiritual das almas daquelas partes.
  • COISAS DO MOGOR •Fi. 5o. * CAPÍTULO V De algumas coisas que nesta missão passaram nos anos de 602 e 6o3 A relação passada do ano de 601, tratando das coisas do grão Mogor, se disse dele como vindo aos reinos do Decão com intento de passar às terras de Goa, tomara o reino de Breampur e a grande fortaleza de Sir a El-Rei Mirim, cativando o mesmo rei e outros que estavam na fortaleza; e o deixámos no mesmo Decão, com intentos de ir por diante na guerra e conquistas de todos os reinos do Melique e do Idalcão; porém, correndo o tempo e não lhe sucedendo as coisas como desejava, deixando alguns capitães seus por aquelas partes que tinha conquis- tado fazendo guerra aos estados vizinhos e comarcãos, êle se tornou para seus reinos, pôsto-que com pouca reputação e honra, e fêz assento de sua corte na cidade de Agra. Com êle tornaram os padres que consigo sempre traz, que por então eram os Padres Jerónimo Xavier e Manuel Pinheiro que viera da cidade de Laor, onde ficava o Padre Francisco Corsi. Neste tempo iam por caminho para lá o Padre António Machado e o Irmão Bento de Góis que havia de ir, como depois foi e adiante diremos, ao descobrimento dos cristãos do Cataio. Puseram, de Goa até Agra, sete meses; e chegando alguns dias antes a El-Rei a nova de sua ida e como iam já perto, êle mesmo a deu aos padres; logo o Padre Manuel Pinheiro os foi receber daí a algumas léguas, cuja vista foi para êles o mor refrêsco que por então puderam ter no meio daquelas tão excessivas calmas em que naquele tempo ardia toda aquela região que é muito quente. Chegados a Agra e ajuntando-se todos aqueles servos de Deus no meio «fi.sot. daquela tão cerrada brenha da * moirama e idolatria, não se pode crer fàcil- mente a consolação e alegria que entre si tiveram, havendo por bem emprega- dos, uns o trabalho de tão comprido caminho, outro o destêrro de tantos anos em que viviam e saudades que padeciam de seus irmãos e companheiros em Cristo, e de saberem novas do que passava na cristandade, assim da Europa como da índia e especialmente de sua mãe a Companhia de JESUS que tanto amavam. Ali estiveram todos juntos por espaço de um mês, renovando-se como num pequeno colégio em tôdas as coisas do espírito e exercícios da alma e disciplina religiosa e juntamente tratando com El-Rei e despachando alguns negócios de importância, dos quais foi o principal o que mais relevava para a promulgação do santo Evangelho naqueles grandes reinos. E a ocasião disto foi que estando neste
  • Das coisas do Mogor tempo na cidade de Lahor (que é cabeça do império de Mogor) o Padre Francisco Corsi só, na casa e igreja que ali temos, estava mui desconsolado por não ter companheiro, e acrescentava-lhe a desconsolação que, depois dos dois Vizo-Reis de que na relação passada falámos serem grandes favorecedores dos padres e da Igreja, sucedeu outro mui diferente em tudo, assim por ser moiro inimicíssimo da lei de Cristo, como por ser grande inimigo dos portugueses, porque pelejando com êle os anos atras, sendo capitão do Guzarate experimentara seu ferro saindo ferido da briga, e porque também lhe tomaram uma nau carregada, por navegar para Meca sem cartas. Este pois lhe começou a dar grandes moléstias e a perseguir os cristãos, até lhes tomar as mulheres e por força as querer fazer arrenegar, o que nunca pôde acabar com alguma delas que em tudo se houveram com grande constância. Pelo que, sendo os padres avisados de tudo isto, se foram a El-Rei; e porque é costume, quando vão tratar com êle negócio, leva- rem-lhe sempre algum presente, o que lhe levaram desta vez foram dois retratos ao natural, um do grande Afonso de Albuquerque, outro do presente Vizo-Rei Ai*res de Saldanha, com os quais êle muito folgou. Ao tempo que entraram, • fi. 5i. estava êle contando muita soma de moedas de oiro das muitas que mandou bater de várias valias, e teria ao redor de si como cento e cincoenta pratos cheios delas e bom número de sacos de outras já vistas ou para ver, as quais todas vê por si mesmo e por outros, e êste é o principal entretenimento de cada dia em que se desenfada, quando está recolhido, que é o tempo que lhe resta daquelas três vezes que sai ao povo, e depois de contadas e ensacadas estas moedas, as manda meter em seus tesoiros que são mui grandes. Entrando pois os padres, os recebeu com o amor e agasalhado que costuma, e fazendo-os chegar a si, lhe falaram e deram conta, assim da desconsolação do Padre Francisco Corsi por estar só em Lahor, como das moléstias que lá padecia, pelo que pediam a Sua Alteza desse licença para o Padre Manuel Pinheiro se tornar a Lahor, o que logo concedeu de boa vontade, que lhe parecia muito bem; o que tiveram por grande dita, pelo muito que arreceavam negar-lhes esta licença, por quanto gostava do padre e de o ter consigo na corte. Ao segundo ponto, preguntou logo se era o Vizo-Rei o que dava aquelas moléstias ao padre e aos cristãos; e dizendo-lhe os padres a verdade, lhe pediram juntamente que o que relevava era mandar Sua Alteza um formão ou provisão real, assinada por sua mão, em favor dos padres e dos cristãos e da igreja, para que todos os de seus reinos soubessem quanto êle os estimava e favorecia, e os tivessem por coisa sua. Concedeu tudo com muita facilidade. e vontade e encarregou que passasse a portaria disto um seu eunuco, pessoa de grande respeito e autoridade, que é o que quási governa tudo. Pediu êste aos padres a minuta do que queriam, para passar e se fazer o formão ou provisão. Deram-lha, exprimindo nela o principal que mais desejavam, que era se pudes- sem fazer em seus reinos cristãos todos os que quisessem, sem ninguém lho impedir. E como até agora, desde todo tempo que há que os padres com êste rei andam, nunca puderam * haver formão assinado por êle nesta forma para os «fi.sit. seus se fazerem cristãos, senão sòmente se faziam com licença sua de palavra, em o moiro eunuco dando com êste ponto, logo embicou como numa pedra, e não quis passar a portaria, sem tornar a falar a El-Rei, o que fêz depois de 38
  • 2gB Das coisas do Mogor alguns dias. Mas a resposta que dêle teve, foi passasse a portaria, para que se fizesse a provisão como os padres quisessem; que êle lhes tinha dado esta licença e mão havia de tornar atrás com ela, antes queria que assim se fizesse. Com esta resoluta resposta passou logo o moiro a portaria e ele mesmo foi falar ao vedor da Fazenda, que é um grande capitão por cuja mão passam os formões reais. Este se ofereceu que o faria, mas quando chegou ao ponto, também parou e começou a dissimular, o que vendo os padres lhe foram falar; respondeu que o que só o detinha era aquele ponto de dar El-Rci licença para se poderem fazer cristãos todos os que quisesem, sem ninguém lho impedir, o qual era mui dificultoso por ser em muito descrédito da lei de Mafamede e havia de ser de muito desgosto para o Vizo-Rei de Lahor (o qual era sogro dêste); que portanto, primeiro que a provisão se passasse, era necessário tornar a fai ar a El-Rei e que para isso êles padres se achassem presentes quando El-Rei saísse fora, que ele lhe falaria então. Foram os padres no tempo limitado, mas saindo El-Rei, o moiro dissimulou, dizendo que não era negócio aquele daquele lugar, senão do tempo em que El-Rei estivesse só, e que êle lhe falaria; porém tudo isto foi dissimulação, porque nunca o moiro lhe quis falar, e andava enganando e entretendo os padres de dia em dia. E como o negócio andava já na boca dos grandes, e êles, como moiros, o haviam por tão prejudicial e contrário ao alcorão de Mafamede, uns diziam que tirassem aquele ponto, outros, que se fizessem cristãos como até então, os que quisessem, e não pedis- sem tal formão; e tanto se iam com isto fechando as portas por parte destes ministros, que desconfiavam já os padres de o poder haver, até que se foram a • fi. 5a. um grande privado de El-Rei, que sendo moço fôra discípulo do * Padre Manuel Pinheiro no primeiro ano que os padres foram de Goa, e ainda que por pouco tempo, sempre lhe ficou mostrando e tendo muito amor e respeito. Este tornou a falar a El-Rei sobre o ponto da contenda e lhe contou o que passava, o qual logo tornou a ratificar o que tinha dito e concedido; e sobre esta ratificação de El-Rei este mancebo levou o negócio por diante; e ainda que ao chapar (que e o mesmo que assinar) houve da parte dos moiros e principalmente do capitão Agiscoa (que é como chanceler-mor e que os chapa e leva a assinar) grandes dúvidas e réplicas, tornando a falar a El-Rei contra isso uma vez e outra, enfim El-Rei sempre teve mão, e o sobredito mancebo se deu tão boa indús- tria, que mui bem chapado e assinado meteu o formão na mão aos padres, e por esta tão grande amizade lhes pediu uma imagem de Cristo Nosso Senhor, que os padres tinham mui devota, a qual não puderam deixar de lhe dar, ainda que com muita mágoa. Porém como a causa era do mesmo Cristo Senhor Nosso e tanto de sua honra, não puderam al fazer, mas com tenção de a res- gatarem, como tivessem outra peça com que o contentassem. Os moiros tanto que souberam que era passado tal formão, o sentiram grandemente e não falavam noutra coisa, porque não se sabe que outro tal se passasse jamais em terra de moiros. E com isto se acabavam de persuadir que El-Rei não era já moiro e que queria muito aos padres, como realmente quere, que se assim não fôra não tivera mão contra tantos cm lhes dar tal formão; o qual alcançado, deram os padres muitas graças a Deus, e tiveram por bem empregado todo o trabalho que por êle passaram. E o Padre Manuel Pinheiro
  • Das coisas do Mogor 299 se foi logo despedir de El-Rei, para se partir para Lahor, ao qual El-Rei des- pediu coin muita benevolência e lhe mandou dar um cavalo para o caminho que é de mais de cem léguas, que também estimaram muito, porque todas estas coisas servem para êstes moiros terem respeito à lei de Cristo e ministros dela. * CAPÍTULO VI «Fi- Da grande moção e abalo que causou nos infiéis, aqui em Agra, a vista de uma imagem da Virgem Nossa Senhora EMQUANTO o Padre Manuel Pinheiro aqui esteve na cidade de Agra com o Padre Jerónimo Xavier, apresentou o mesmo Padre Xavier a El-Rei um tratado em língua pârsea dos milagres, vida e doutrina de Cristo Nosso Senhor, que o mesmo rei lhe tinha pedido e dizia que o desejava muito. Mostrou estimá-lo grandemente e lê por êle muitas vezes e o deu a lêr ao seu grande capitão Agiscoa, o qual gostou tanto dêle, que lhe pediu outro tras- lado e começa já a andar tanto na prática dos grandes, que dá muita esperança de por êste meio Cristo Nosso Senhor ser conhecido dêstes seus inimigos. Pede agora El-Rei ao padre que lhe faça outro da vida dos Apóstolos. Mas o que maior moção e abalo causou nestes infiéis, foi uma imagem da Virgem Nossa Senhora, retratada pela de Roma que se chama de Pópulo, a qual havia dois anos que os padres tinham, mas não ousavam de a descobrir, por temerem que El-Rei lha tomasse. Porém, na festa do Natal e Circuncisão dêste ano de 602 se determinaram de a pôr na igreja, a qual para isso armaram o melhor que puderam, sem mais intento que para sua consolação e dos cristãos; sòmente acertaram umas mulherinhas pobres e vizinhas dos padres de lhes pedir licença um dia das oitavas à tarde para verem a igreja. Deram-lha e tão pasmadas foram da vista da sagrada imagem, que, em saindo, como outra Samaritana andavam prègando e dando dela tais novas a todos os com que falavam e encontravam, que duns nos outros se encheu e abalou toda a cidade e começou a gente a concorrer à igreja e todos tornavam * ainda mais admirados do que • fi. 53. viam, do que vinham alvoroçados para ver. Deixavam seus ofícios e tudo o que faziam, por acudir à igreja; e de tal maneira se ateou o fogo, que só naquela tarde viriam mais de duas mil pessoas das ruas de perto. Ao outro dia pela manhã foi necessário aos padres dizerem missa de-pressa, porque, muito cedo, estava já a gente esperando à porta para entrarem. E vendo o grande concurso que ia crescendo, e arreceando algum tumulto, lhes foi necessário concertarem as coisas de casa e proverem as portas mais impor- tantes, para não suceder alguma desordem, estando cada um na porta mais acomodada para falar e acudir à gente. A sagrada imagem estava na capela e no altar com suas velas acesas, coberta com dois véus, um delicado e trans- parente, outro uma cortina de tafetá, que sempre estava cerrada até que a igreja se enchia de gente, e então se descobria; e além de dois meninos que sempre ali estavam junto do altar, acudia também, cada vez que a santa imagem se descobria ao povo, alguém que na língua da terra lhe pudesse dar notícia
  • 3oo Das coisas do Mogor daquela Senhora e de seu bemditíssimo Filho cuja vinda fôra para declarar e ensinar ao mundo a verdadeira lei da salvação. A entrada da gente procuraram os padres que fosse com muita ordem, as mulheres por si e os homens por si, coisa que muito os edificava, e não deixando entrar mais que a que cabia na igreja; e saídos uns, entravam outros. Ao descobrir a imagem ficavam todos pasmados e era coisa maravilhosa e evidentemente sobrenatural os efeitos que aquela vista neles causava, que eram grande admiração, compunção e consolação, que bem se mostrava a Virgem, ainda para aqueles infiéis, verdadeira mãe de consolação por quão consolados, compungidos e trocados do que vinham, saíam todos de sua presença; e assim o viam os padres bem nêles, quando, depois de verem a Senhora, lhes falavam. O que faziam muitos honrados e nobres, porque tomando os padres daqui ocasião para lhes pregarem e tratarem de Cristo Nosso Senhor e dessa soberana Senhora, sua mãe, e lhes descobrirem •jfi. 53 v. juntamente as falsidades * e maldades de Mafamede, êles o ouviam com muita compunção e confusão sem repugnarem ao mal que se dizia de Mafamede, que em moiros é muito mais para espantar, por quão mal sofrem dizerem-lhes mal dêste seu falso profeta, e por quanto abominam todo género de imagens; mas com tudo isto todos se tornavam afeiçoados à sagrada Virgem. Nos primeiros dias a gente que ordinàriamente concorria, era popular. Do terceiro e quarto por diante começaram a vir os Mulás, que são os letrados, e os fidalgos e senhores que antes tinham por desonra chegar à igreja. E com a vinda destes ia crescendo cada vez mais o fogo e abalo da cidade, de modo que pelas enchentes e vasantes da igreja que e pequena, se reputavam por mais de dez mil pessoas as que cada dia viriam, e não sòmente da cidade senão também dos lugares de fora dela, onde chegava a fama da sagrada imagem; de modo que os padres em todo dia nao tinham um só quarto de tempo nem para comerem um bocado senão à noite, por acudirem a tanto concurso e maravilha com que a Mae de Deus se queria dar a conhecer a si c a seu bem- ditíssimo Filho àqueles infiéis, para que no dia do juízo não tenham escusa. Dos nobres e senhores foi um grande capitão, acompanhado com mais de sessenta homens de cavalo e muita gente de pé, pessoa de grande respeito, e em vendo a Senhora ficou como pasmado. Após este começam a vir outros e outros, e tão abalados iam, que tornando para suas casas faziam vir todos os seus e, o que é mais, suas mulheres, senhoras nobilíssimas, a quem os padres agasalhavam com grande cortesia e tento, não admitindo outra gente quando estas vinham. Um moiro principalíssimo e oficial de El-Rei, por suas muitas ocupações não pôde vir senão um dia pela manhã muito cedo. Levaram-no os padres à capela, descobrem-lhe a santa imagem, põe êle os olhos nela por um bom pedaço e fica como atónito sem falar palavra; começam a lhe correr as lágrimas por bem de espaço; fê-lo o padre assentar, para naquela boa conjunção • fi. 54. lhe falar de Deus, mas ê*le sem tirar os olhos da imagem não fazia senão chorar. Pregunta-lhe o padre: Senhor, que mal achou Mafamede ou acham os vossos moiros no uso e veneração de tal imagem, pois dela resultam tais efeitos de consolação e abalo nos corações? Respondeu que os moiros não entendem isto, e tais coisas disse contra Mafamede por parte de Cristo e de Nossa Senhora, que não pudera dizer mais um devoto cristão. Ali esteve, até que pelo concurso
  • V Das coisas do Mogor 3o i da gente foi necessário sair-se e se foi mui consolado, dizendo a todos mil coisas em bem e louvor de nossa santa fé. Um irmão e sobrinho, primos e parentes do Rei Xhander, e um filho de El-Rei de Candaar vieram também duas ou três ve«es com muito acompanhamento e muitos fidalgos e senhores da côrte, os quais também disseram aos padres fariam agravo a El-Rei em não lhe darem conta de coisa tanto para ver; pelo que logo determinaram de o fazer. E indo ao paço lhe fizeram a saber tudo o que passava, ao que êle respondeu que já o sabia e que também desejava de ver a imagem da Senhora Maria; que fol- garia que a trouxessem, para que êle a visse. Responderam os padres que era mágoa não a ver Sua Alteza em seu lugar e altar. Eu irei lá, tornou êle; ao que os seus acudiram que não poderia, por ser muito longe a casa dos padres, como na verdade era meia légua dos paços, com estar dentro da cidade, que antes os padres lha trouxessem; o que fizeram ao outro dia também de noite. E dand.o-lhe recado que a tinha ali, folgou muito, e mandou que a trouxessem à sua câmara. Saiu o Padre Manuel Pinheiro a buscá-la, e entretanto mandou vir ali um bedém preto que de alguns dias tinha guardado para os padres, e preguntou ao Padre Xavier se lhe parecia bom. Senhor, sim, respondeu o padre; servir-nos há, Senhor, para as chuvas e para vir aqui em vosso serviço; mas êstes retroses e borlas de seda não dizem connosco. Pois cortai-lhos, que pouco vai nisso, respondeu êle; e descendo do trono, aonde estava assentado, quatro ou cinco degraus, por sua própria mão o vestiu ao padre, e nisto chegou o Padre Manuel * Pinheiro com a imagem que é do tamanho de um homem e »fi. 54v. vinha mui bem guarnecida com suas fasquias e coberta. Estava o rei já assen- tado como dantes, e descobrindo os padres a imagem, se desceu logo e chegando junto dela tirou meia touca; e fazendo-lhe muita reverência, por extremo folgou de a ver. Os grandes que estavam ao redor, por respeito dêle não ousavam chegar, mas êle os foi chamando um a um para que a vissem e todos à porfia mostravam o espanto e abalo que lhes causava, de modo que era coisa de grande glória de Deus e júbilo dos padres ouvirem o que todos diziam e confessavam. El-Rei a cubicou muito dizendo: Meu pai estimava muito uma coisa como esta, que a quem lha dera, fizera mercê de tudo o que lhe pedira; e pôsto-que os padres entenderam o bom modo que tivera em lha pedir, dissimularam com palavras de cumprimentos. Tornou El-Rei: Ora deixai me esta imagem na câmara onde eu durmo por esta noite; e êle mesmo entrou com os padres nela e lhes disse a pusessem onde quisessem e lhes parecesse melhor, e depois de pendurada lhe fêz uma grande reverência tirando a touca quási de todo, que é coisa que nunca faz. Entenderam os padres logo que o querer que lhe ficasse, era para mostrar a suas mulheres e filhas, como fêz ao outro dia, sendo êle o que lhes declarava as coisas da jRaínha dos Anjos, e foi grande o respeito e acatamento com que tôdas aquelas moiras a veneravam; e uma delas que dantes era grande inimiga dos padres e das coisas da lei de Cristo, dali ficou mui mudada e com mui diferente conceito de nossas coisas do que dantes tinha. Tornaram os padres ao outro dia, temerosos que o rei a quisesse reter, mas quis Deus que lha largou, e êles a tornaram a trazer com muita consolação, como quem reducebat arcam Domini in locum suum. A gente que sabia que a imagem estava em casa do rei, ficava desconsolada
  • 3o2 Das coisas do Mogor cuidando não na haverem já de ver; mas sabendo que era já restituída a seu lugar, tornaram como dantes a buscá-la. Porém não tardou muito que a devoção • fi. 55. se tornou * a interromper, porque sabendo a mae de El-Rei, que era mui velha, o que passava e não na tendo visto quando ficou no paço, desejou de a ver, e pediu ao filho a tornasse a mandar pedir aos padres, como fêz, e esta desculpa deu aos padres quando chegaram com ela, que ainda que sua mãe era velha, queria todavia que lhe fizesse ainda mimos demais. Ele próprio, sem consentir que outrem o ajudasse, a tomou nos braços e a levou para dentro e pôs em lugar alto e acomodado, onde, não sòmente sua mãe, mas as mulheres e filhas que já a tinham visto, a tornaram a ver com grande gôsto e abalo; ête estando junto da imagem não consentia que mulher alguma tocasse nela. Acabando de a mostrar, a mandou por um eunuco aos padres que estavam fora, e porque no pátio dos padres estava muita gente que desejava de a ver, rogaram aqueles capitães e fidalgos aos padres lha mostrassem, o que lhes não puderam negar por cumprir com tantos de uma vez. Era grande o reboliço da gente que ali estava, mas em se descobrindo a imagem, ficou tudo em grande silencio e admiração de todos. Voltando com ela para casa, por tôdas as ruas por onde passava, a gente com muita alegria lhes dava os parabéns por a tornarem a trazer, porque cuidavam quando a tornaram a levar ao paço, que El-Rei lha tomasse. Toçnou a continuar o concurso à nossa igreja, mas em breve se tornou a quebrar o fio, porque persuadiram muitos a El-Rei que a mandasse retiatar por seus pintores, ainda que êle porfiava que não era possível tirai em-na na perfeição em que estava; para provar o negócio, manda ajuntar os melhores pintores da cidade e um recado aos padres que lhe tornassem a levar a imagem. Puseram-na em parte decente e à vista de todos; e o próprio rei eia o que mais procurava seu resguardo, mandando aos meninos fidalgos que andam junto dele, que nenhum chegasse a ela. E como aqui concorreram também muitos fidalgos moiros e gentios e os netos de El-Rei, tiveram os padres mui boa ocasião para lhes prègarem por todo aquele dia e declararem com muita liberdade os mis- térios daquela Senhora e de seu sacratíssimo Filho, que os moiros tudo ouviam • fi. 55 v. e tomavam muito bem * e mostravam formarem grande conceito das coisas de nossa santa fé, que era coisa mui nova e de muito espanto neles, por sua grande soberba e pelo muito desprêzo em que nos teem. Os pintores neste tempo não faziam senão lançar suas linhas e debuxar; mas ainda que desta vez a imagem ficou muitos dias 110 paço e trabalharam quanto puderam, por derradeiro não fizeram coisa de momento e vieram a confessar que não podiam chegar a tanta perfeição de pintura, nem nesta arte se podiam igualar com os portugueses, pelo que muitos persuadiam aos padres dessem a El-Rei a sagrada imagem; mas escusando-se com boas palavras, lha tornaram a pedir com ocasião da festa da santa Ressureição do Senhor, e levando-a para casa a recolheram de todo. E pôsto-que muitos senhores lha pediram por vezes, para a verem suas mulheres, a todos a negavam para mais autoridade e gravidade da sagrada Virgem, ainda que de dois se não puderam defender: um foi o Agiscoa que e o mor capitão e senhor da corte, colaço de El-Rei, grande privado seu e seu consôgro, porque tem casado um filho e uma filha^ com outro filho e filha de El-Rei, e dependem os padres muito de seu favor. Êste fêz ajuntar em sua casa tôdas suas mulheres
  • Das coisas do Mogor 3o3 c filhos, noras e parentas que são muitas, e indo os padres com a santa imagem, além das honras e agasalhados com que foram recebidos, êle mesmo com um eunuco de sua casa a tomaram e levaram dentro e depois da mesma maneira a tornaram a trazer e lha entregou; e com ser finíssimo moiro, ficou dali por diante com mui diferente respeito c amor aos padres do que dantes mostrava; e ao dia seguinte mandou um homem mui grave de sua casa a visitar os padres e dar-lhes os agradecimentos de lhe levarem a imagem, com muitos ofereci- mentos de tudo o que quisessem dêle e que folgaria muito de ouvir os mistérios daquela Senhora e que se aquela imagem se pudesse dar, daria por ela quanto quisessem, e se não podia ser, lhe houvessem outra semelhante, que faria e aconteceria. O outro, a quem se lhe não pôde negar levarem-lha a sua casa, foi El-Rei de Can*daçar que havia anos andava aqui na corte de El-Rei Aquebar Mogor, «n.56. a quem entregara seu reino pelo não poder defender de Abduxão, Rei de Husbec. Levou-lha o padre acompanhado de gente, ao qual recebeu com muita cortesia; e suas mulheres e êle a tiveram lá dentro um bom pedaço. Entietanto estava cá fora o filho do dito rei, o qual preguntando ao padre o que sentiam os nossos de seu Mafamede, pasmou de saber que uma gente como nós, o não tínhamos por profeta, porque, como aquele seu reino e tão metido pelo set tão do Oiiente, cuidava êle que todo o mundo era de moiros e seguia a lei de Mafamede. Nisto mandou El-Rei a imagem com muitos agradecimentos e juntamente alguns cruzados para os moços que foram com o padre e uma boa soma para o padre; mas como nem uns nem outros os aceitassem, ficaram os moiros pasmados, porque teem por coisa muito nova engeitar dinheiro, quando o ofet ecem. Daqui por diante recolheram os padres a imagem de todo e nem a quiseram mais mostrar, por mais instâncias que por isso lhes fizeram. Ao tempo que se mos- trava, veio um moiro oferecer a Senhora uma filha sua, menina, pata que fosse baptizada e os padres a fizeram cristã. CAPÍTULO VII De algumas outras coisas de serviço de Deus, que nesta missão se fizeram PÔSTO-QUE nesta terra os padres até agora não façam tanto fruto na conversão das almas, como se faz noutras partes, pela mata desta mou- rama ser tão espessa, e a terra em que se lavra, de diamantes tão duros, como são moiros, não deixa Deus todavia de por seu meio ir ajuntando e me- tendo em seu curral as ovelhas escolhidas que por entre estas grandes brenhas andam espalhadas. Destas foram este ano como quarenta, os mais deles filhos e * netos de portugueses, com suas mulheres e parentes, dos que o Mogor »fi.56▼. cativou o ano passado na fortaleza de Sir; porque, pôsto-que alguns dêles trouxe logo consigo presos para esta cidade de Agra e cá os soltou com fiança que se não iriam, os mais deixou na fortaleza de Rantambur, os quais estavam já como em esquecimento, mas não dos padres que, vindo a Quaresma, a tomaram por
  • 3O4 Das coisas do Mogor ocasião para lhes dar remédio. Porque na entrada dela se foram logo a El-Rei e lhe pediram que, pois aquele tempo era de os cristãos cumprirem com as obrigações da lei de Cristo, Sua Alteza lhes desse licença que um deles fôsse aonde estavam aqueles presos portugueses, para os ajudarem e ensinarem a cumprir com elas, e que nisso se não deteriam mais que até vinte dias. Res- pondeu o que os padres desejavam, que antes os presos viessem, que irem êles lá. Ao que logo se deu ordem, e à volta deles vieram uns cinco rumes que também estavam presos, de que ficaram não pouco agradecidos, porque se não tiveram remédio, por este meio, de soltura, nenhum outro tinham. Chegaram todos com seus ferros, de que logo os padres não sòmente os fizeram soltar, mas também fizeram com que El-Rei os tomasse em seu serviço, dando-lhes de vestir e suas comedias e dizendo publicamente que, ainda que êles todos mereciam a morte, por muitos dos seus que na guerra lhe mataram, que todavia por amor dos padre^ lhes dava a vida e os soltava. E procurando um seu vedor da Fazenda pô-los em serviço de um arménio que era senhor de umas aldeias, falando os padres a El-Rei e pedindo-lhe os deixasse viver junto dêles, para os instruírem e ensinarem nas coisas da lei de Deus (porque, se carecessem de sua presença, em breve se fariam mais mato do que estavam), El-Rei lho concedeu. E assim os aposentaram os padres a todos junto de si, e instruídos nas coisas da fé de que êles pouco ou nada sabiam, baptizaram logo os que ainda o não estavam, que eram os mais. E porque ao tempo que êstes e outros que vieram primeiro, foram presos • Fi.57. em Briampur e trazidos para estas par*tes, suas mulheres, filhas e parentas de sua obrigação ficavam lá em sumo desamparo e perigo, sem os padres terem remédio para por então as poderem trazer, lhes deixaram crédito com que se sustentassem, até mandarem por elas. Mas porque o não puderam fazer tão de-pressa, pelas muitas dívidas que tinham e que com seus maridos fizeram, as quais iam pagando, tanto que delas se puderam desembaraçar, mandaram logo dois moços dali a cento e vinte léguas com o necessário de gasto e ordem para as trazerem, e quis Deus que um mancebo honrado, arménio, a quem os padres à sua partida deixaram o cargo de lhes acudir com o necessário, vindo-se para Agra as trouxe consigo a tôdas, fiando dos padres que lhe pagariam o que gastasse, como logo pagaram e lhe agradeceram tão boa obra. Chegadas, foram logo baptizadas as que o não eram e tornaram a casar os novamente baptizados, conforme ao costume da Igreja, e ficaram todos agasalhados ao redor dos padres e no mesmo chão de nossas casas, com muita consolação, assim dos padres, por ali os terem e os poderem doutrinar e cultivar melhor, como dos mesmos portugueses, por no meio de seu cativeiro e trabalhos acharem para o temporal verdadeiros pais, e para suas almas verdadeira liberdade do conhecimento de Deus e fé de seus avós que dantes não tinham. O que foi de grande provi- dência do Senhor ordenar êstes meios tão estranhos para ir trazer estas almas dêstes pobres homens e mulheres descendentes de sangue cristão à sua santa lei, os quais vivendo no meio daquela moirama, não tinham mais que o nome de franguis (que assim chamam aos cristãos e portugueses) mas sem serem baptizados nem terem mais conhecimento algum de Deus, e agora vivem mui consolados, correndo muito bem com as coisas de cristãos e fazendo bom
  • Das coisas do Mogor 3o5 conceito da lei de Deus, que tomaram, e da falsidade da de Mafamede que deixaram. Entre outras várias coisas que nesta missão sucederam, uma foi mui notável em que se viu um estranho efeito da divina Providência na predestinação de uma alma. E foi que * fugindo daqui uma escrava cativa de um cristão a sua »fi. 57*. senhora, no cabo de muito tempo tornou; vem-se ter com os padres, pede-lhes remédio, mas andando-lho negociando, torna o demónio a tentá-la e a faz desa- parecer. Além disso, com ela também ser casada com marido cristão, o deixou e se foi embaraçar com um moiro. No cabo de um mês torna, põem-na os padres em casa de um cristão, por ela não vir em tornar para sua senhora. Adoece ali à morte e pare juntamente uma menina. Acode logo o padre, e sem ver perigo evidente na criança, mais que uma demonstração de fraqueza, a baptiza e logo na noite seguinte, fora de tôda a imaginação que podia morrer, se foi para o paraíso. Porém a mãe com chegar a ponto de morrer, não mereceu tamanho bem, porque estava já confessada duas vezes, mas sarando e levantando-se torna a fugir sem mais aparecer, donde se vê que todas aquelas idas e vindas e grilhões da doença que Deus lhe lançou, foi para salvar aquela criança predestinada e, a filha salva, se foi a mãe perder. Também uma moira" passando por uma parte viu lançada num monturo uma criança; movida de compaixão a levantou e a levou ao Catual, que é um oficial da justiça, e pedin- do-lhe licença a trouxe à igreja e a entregou ao padre, o qual a baptizou e pouco depois se foi gozar de Deus. Mas procurou o padre de lhe fazer um solene enterramento e assim a fêz vestir, e vestida a pôs na igreja, aonde con- correu tanta gente a vê-la, como se fora ver uma grande solenidade. A tarde deu com ela uma volta pelo meio da cidade com grande acompanhamento, a tumba alcatifada de festa e a criança coberta de flores, que causou grande espanto aos moiros e gentios, e todos louvavam muito aos cristãos. Em Lahor baptizou o Padre Manuel Pinheiro a dois filhos de Manuquer, embaixador do Rei de Pérsia, que havia quatro anos andava naquele reino e agora se tornava, o qual é cristão georgita e traz no braço uma cruz, mas coberta, e tratava aos padres com muito amor, e vai com muitos de*sejos e*Fi-58. determinação de fazer com o Rei da Pérsia que peça padres e faça igreja. Também ali mesmo vieram ter uns turcos mandados de um Baxá a fazer mer- cadoria, os quais traziam um moço húngaro de boas partes, que foi tomado em Buda; a êste houve o padre às mãos e o mandou caminho da índia a Goa. Uma mulher cristã, a qual o é também de um cristão, grego de nação, que anda naquelas partes, indo com o mesmo seu marido para Lahor, passou por uma cidade donde ela era natural, sem o saber o marido que a houve em cus- tódia de um moiro, o qual a tinha furtada a seus pais, e a entregou ao dito grego sendo muito menina, dizendo ser doutra parte e casta gentia. O grego a fêz criar bem em poder de alguns casados até que por conselho dos padres se casou com ela. E passando por ali lhe descobriu a mulher como era natural daquela cidade e tinha nela sua mãe e seus irmãos. Ele com tôda boa fé e confiança, buscou a sogra e lhe mostrou a filha, mas ela ao dia seguinte foi fazer queixume ao juiz, dizendo que achara sua filha e quem lha furtara. Foram logo ter com êle doze de cavalo e trinta de pé, levam-no diante do juiz, fazem-lhe 39
  • 3o6 Das coisas do Mogor preguntas, c tendo-o como preso, mandam outros oficiais que vao fazer preguntas à mulher como viera em poder daquele homem. Responde que um mogor a tomara sendo menina e a dera àquele homem que agora a tinha; mas que ela era cristã e casada com ele, que bem conhecia aquela mulher por sua mãe e que a teria por tal, se ela também se quisesse fazer cristã; doutra maneira que a não conheceria. E persuadindo-a os moiros que deixasse de ser crista, res- pondeu: Eu não tomei a lei de Cristo para a deixar; antes deixarei a vida. Finalmente os moiros a quiseram entregar por força a sua mãe, mas porque a moça, fingindo que se tal lhe faziam, se havia de matar, e porque também êles viram que o marido era conhecido de El-Rei por um formão que lhes mostrou, emfim a largaram, ficando tôda a cidade maravilhada de sua constância e os • fi. 58 v. parentes, que eram muitos, se a * quietaram, e a mãe se foi após ela, e alcan- çando-a três jornadas adiante se lançou aos pés do marido, pedindo-lhe perdão é se foi com a filha a Lahor, onde pediu ao padre a fizesse cristã. Neste mesmo ano de 602, andando nossa armada da índia nas partes do Norte e enseada de Cambaia, deram à costa nas terras daquele reino, sujeitas ao Mogor, dois navios nossos, nos quais iam cincoenta portugueses com alguns quinze criados, e salvando-se todos em terra, foram retidos pelo capitão que governa aquelas partes, o qual mandou logo recado ao rei como os tinha em seu poder. El-Rei os mandou vir diante de si presos, e pelos trabalhos do caminho chegaram ali tão maltratados, que era piedade vê-los. El-Rei os mandava prender, mas a isto acudiu o Padre Jerónimo Xavier oferecendo-se a El-Rei que não fugiriam, pelo que El-Rei lhos mandou entregar e os padres os tiveram a todos em nossa casa por muitos dias, e daí os passaram a outras que El-Rei lhes mandou dar, sustentando-se sempre à custa dos padres, os quais se não foram, de todo pereceram, que parece ordenou a Divina Providência que os padres estivessem naquele destêrro para, além de tantas outras coisas que fazem de seu serviço, socorrerem também a semelhantes desamparos de nossos portu- gueses e outros cristãos que os casos humanos levam por aquelas partes. Eram capitães desta gente Luís Dantas Lobo e Jorge de Castilho; procuravam os padres muito sua soltura, mas não a puderam alcançar por não terem que peitar, porque, onde não reina mais que a cobiça e infidelidade, nenhuma coisa se pode alcançar nem haver sem dinheiro. Alcançou porém do rei quatrocentos xerafins para se vestirem e também licença para que os dois capitães lhe pudessem falar e aparecer diante dêle. Do príncipe lhes alcançou também uma boa esmola, porque avisando-o desta necessidade dos portugueses lhes mandou pas- sante de mil cruzados.
  • Das coisas do Mogor * CAPÍTULO VIII *F1-^ Das dissençôes que houve entre El-Rei e o príncipe seu filho e amor que êste príncipe tem aos padres QUÁSI todo êste ano se passou em grades desgostos entre El-Rei e o príncipe seu filho, herdeiro do reino. A ocasião foi, que andando o pai na guerra do Decão, enfadado o mancebo de ser príncipe e de o pai velho viver tanto tempo, que lhe tirava o em que êle desejava de se ver, que era lograr-se do título e majestade de rei, o usurpou para si e se começou a chamar rei, e como tal se começou a ter e tratar (que por ventura foi também causa de o pai voltar tão de-pressa e deixar de por sua pessoa ir continuando na conquista), o qual, como chegou a Agra, mandou logo chamar o filho, e porque não quis ir, continuaram os recados de parte a parte, até que o mancebo se resolveu a ir, mas com um poderoso exército com que foi tomando e sujeitando muitas terras. Quando o pai o viu ir naquela forma, receando-se dêle, por uma parte se começou a aparelhar e ajuntar gente e capitães de guerra, por outra mandar-lhe tantos recados, ora de afagos, ora de ameaças, que o filho assim por isto, como também por ver os aparelhos com que o pai o queria receber, se tornou a Alahabec, donde saíra e donde também procurava fazer a sua e fez no que pôde. Porque, mandando o pai chamar um grande capitão e de gran cabeça que perto dêle estava, e do qual muito se fiava por sua pru- dência e valor, entendendo o mancebo quanto montaria com seu pai o conselho de tal homem, o mandou saltear no caminho por gente que para isso ordenou, onde o mataram e lhe trouxeram a cabeça, coisa que o pai sentiu gran*demente •F1.S9.V. e a toda a corte assombrou; porém depois de muitos dares e tomares que entre êles passaram, se vieram a reconciliar, mas não que se vissem por então um com o outro, porque cada um estava em sua parte com sua corte. Porém ainda que êste príncipe se houvesse desta maneira para com seu pai, é bem diferente o modo de proceder e amor com que se há para com os padres, aos quais ama e respeita muito e em grande segrêdo se tem declarado com o Padre Xavier e dado tais demonstrações de si e de seu bom ânimo e coração para Cristo e para sua Santíssima Mãe, que não vive em pequenas esperanças de Deus haver de fazer nêle alguma grande maravilha. Mandou a Goa um criado de sua casa a certos negócios, entre êles pedir ao Provincial lhe mandasse padres da Companhia que andassem e residissem com êle na sua corte, assim como residiam na de seu pai; mandou-lhe de presente três alcatifas de preço e outras peças de menos porte. Não pareceu todavia coisa conve- niente mandar-lhos por então, por quanto andava como levantado contra seu pai, ao qual se devia muito, mas satisfez-lhe com dizer que os padres que naquelas partes estavam, serviriam a Sua Alteza com a mesma prontidão e vontade que a seu pai, e outros cumprimentos semelhantes. Aceitou a resposta e satisfação. Na mesma conformidade corre com os padres que andam com seu pai, escre- vendo-lhes por sua própria mão cartas mui brandas e amorosas e por tal estilo que quem as vir cuidará que são de algum rei cristão para seu confessor. No
  • 3o8 Das coisas do Mogor alto delas põe o sinal da cruz a nosso modo; entre elas foi uma ao Padre Xavier queixando-se porque lhe não escrevia e, mandando-lhe com ela um farragoulo preto, lhe dizia que ainda que a pesssoas semelhantes como as dos padres, as mercês que se haviam de fazer eram o amor de coração, contudo em sinal dele lhe mandava aquele farragoulo, o qual êle por vezes vestira. Mas como naquele tempo, pelas quebras em que andava com seu pai, eram tidos por suspeitos os • fi. 6o. que da corte comunicavam com êle, o padre como é tão prudente to*mou logo a carta e o farragoulo e foi mostrar tudo a El-Rei e dar-lhe conta como o prín- cipe lho mandara. Viu El-Rei o farragoulo e lho tornou logo a dar e os da corte que viram a carta e conheceram a letra ficaram espantados e o tiveram por grande favor. O padre lhe respondeu em português para que os moiros o não entendessem, porque tinha com o príncipe quem lho declarasse, que é um italiano honrado que com os mesmos padres foi de Goa, chamado Jácome Filipe, ao qual o príncipe tras consigo e o tem em muita estima, e por meio dêste correm os recados entre êle e os padres. No tempo que êle se abalou com exército para vir ter com seu pai a Agra, onde estava, pedindo-lhe licença êste italiano para se vir diante, mandou por êle visitar os padres com algumas peças e com muitas palavras de benevolência, e que dissesse da sua parte ao Padre Xavier que não cuidasse que se esquecia dêle e soubesse que era para êle o que sempre foi (palavras com que ambos se entendiam) e que tinha muito amor a Cristo Nosso Senhor, que o encomendasse a Deus, que folgaria muito ter consigo um dos padres, mas que se êles se não atreviam a ir a êle sem licença de seu pai, que êle lha pediria; a que os padres responderam que só dessa maneira o poderiam fazer. Estando uma noite falando com Jácome Filipe, acertou de ver um moço seu em traje de cristão, mandou-o vir onde estava, preguntou-lhe quem era, se cativo ou livre, se moiro ou cristão. Respondeu-lhe ser natural da terra, livre e cristão e criado de Jácome Filipe; tornou-lhe a preguntar: — íQue viste ou que te moveu a fazer cristão? ,;Fize- ram-te por ventura alguma fôrça ou deram-te por isso alguma coisa? — Senhor, respondeu o moço, nem me fizeram fôrça nem por isso me deram coisa alguma, mas eu por minha própria vontade me fiz cristão, por me contentar muito esta santa lei e ver que não há outra em que os homens se possam salvar; e também me moveu a isso a vida que vi nos padres, em cujo serviço estive muitos anos, •fi.6ov. até que foram para o Decão com El-Rei. * Preguntou-lhe mais: — ,:Sabes-te benzer e as orações? — Senhor, tudo isso sei mui bem. E logo, por lho êle mandar, se persignou e disse o Pater Noster, e a Ave-Maria e Credo, o qual acabado, disse ao moço: — Fizeste bem em tomar tão boa lei, — e dirigindo a prática a Jácome Filipe, ajuntou mais: — Eu tenho grande amor ao Senhor JESUS. E para mostrar que não eram só palavras tirou cá de baixo da cabaia uma cruz de oiro que trazia ao pescoço e lha mostrou. Depois disto recebeu o Padre Jerónimo Xavier outra carta sua e escrita por sua mão, cheia de mil honras e mostras de amor, e o que mais era para estimar, que lhe dizia que ainda tinha a mesma determinação e propósitos que em Lahor tratara com êle de ser cristão, e em confirmação disto lhe mandava para a igreja um Menino JESUS de prata que pesava vinte e sete marcos, todo maciço e bem feito, e para o padre mandou uma peça, como relicário, cora a
  • Das coisas do Mogor 3og figura de Cristo esmaltada, de uma banda, e Nossa Senhora da outra, pen- durado em uma boa cadeia de oiro, dizendo-lhe que aquela, peça trouxera êle no seu peito ou para melhor dizer no coraçao. Certifica o padre que nem a seu próprio irmão muito querido escrevera com mais amor, e mandando-lhe um presente de algumas coisinhas que eram da índia, êle o recebeu com muita alegria dizendo muitos louvores dos padres. Avisando-o também o padre da necessidade em que estavam aqueles portugueses de que acima falámos, que vieram presos de Cambaia onde deram à costa, dentro em oito ou nove dias depois que lhe escreveu, lhe mandou logo a esmola que acima dissemos, ajun- tando que a mandava por amor do Senhor JESUS e que todas as esmolas que fazia por êle as tazia e que lhe pedia o avisasse do que entendesse que gostaria o Senhor JESUS, e que tudo faria, porque o que não fazia, era pelo não saber. E diz que não quere dos padres mais que alguma imagem de Cristo Nosso Senhor ou da Virgem Santa Maria. Estando com seus capitães, lhes preguntou uma vez: — jSe se vissem num grande trabalho, por quem chamariam que lhes acudisse? E respondendo uns assim e outros assim * disse êle: —Pois eu não chamarei senão por JESUS • Cristo e êste só é o que pode acudir e livrar. No cabo de muito tempo que correram as discórdias com seu pai, muitos dares e tomares entre êlcs, lhe foi por derradeiro dar obediência e está agora com ele em Agra, onde presencial- mente corre com os padres na mesma amizade e com as mesmas demonstrações da afeição e devoção que tem a Cristo Nosso Senhor e à Virgem sua Mãe, cujas imagens e dos santos estima tanto que manda fazer muitas e traz ocupados nisto os mores pintores que tem, o que é de mor estima, por terem os moiros, conforme a sua seita, grande aversão às imagens. Mandou esculpir um cruci- fixo em uma esmeralda do tamanho de um polegar. Ofereceu-lhe o padre um livro da vida de Cristo que fez em língua páisea, ao qual o mesmo rei intitulou «Espêlho de limpeza». Leu-o todo e lhe cresceu muito a afeição e amor que tinha a Cristo Nosso Senhor, e mandou pintar todos os mistérios de sua vida. Estava no princípio dêste livro uma cruz ilumi- nada de oiro, com esta letra em pérseo, Sicut Moj-ses exalt avit serpent em in deserto. Êle mandou ajuntar à cruz o vulto de Cristo crucificado, por um pintor mui bom. Estava noutra folha o nome de JESUS com seus círculos e raios; fêz pintar em lugar do nome uma imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus ao colo. Levou-lhe o padre uma imagem de Nossa Senhora de bronze doirada; estimou-a grandemente e dizendo-lhe o Padre Xavier que lha mandava o outro padre que estava em Lahor, dando-lhe os parabéns de sua vinda e que não tinha outra coisa que lhe mandar, respondeu: — {E que melhor que a imagem da Senhora Maria? Tomou por devoção fazer ali em Agra uma igreja, como seu pai tinha feita a de Lahor e para isso houve dêle licença e sítio e deu logo mil cruzados para se começar. Finalmente não acabam os padres de escrever os bens que recebem dêste príncipe, o amor e devoção que lhes tem, as mostras e esperanças que dá de se haver de fazer cristão; o qual se tiver efeito, mal se pode declarar o muito que disto resultará de glória de Deus, exaltação da nossa santa fé e conversão de infinitas almas por todos aqueles reinos.
  • COISAS DO CATAIO t Fl. 6.y. * CAPÍTULO IX Da missão do Cataio CATAIO, como noutras relações se tem tocado, é um grande império, o qual se tem, por informação certa, ser quási todo de cristãos, pôsto-que entre êles vivam muitos moiros « infiéis, e ainda que não está averiguado que reinos e províncias estas sejam, há porém sobre isto diversas opiniões, porque conforme a relação de pessoas e autores dignos de fé se tem por pro- vável ser êste o império do verdadeiro Preste João do Oriente, o qual antigamente El-Rei Dom João II deste reino mandou descobrir por terra às partes da índia, antes que os portugueses lá fossem por mar, e não o Rei do Abexim, como até agora se cuidava. Porque êste do Cataio se sabe ser o rei que quando cavalga, leva diante três cruzes, a primeira de oiro, a segunda de prata, a terceira de metal. Seu nome é Jonas. Tem superioridade sôbre todos, assim no espiritual como temporal. Descende aquela cristandade do Bemaventurado Apóstolo S. Tomé (não que êle em pessoa fôsse àquelas partes nem chegasse a Cambalu, hoje dita Cambaleb, cidade real e metrópole, onde os imperadores residem, mas porque alguns de seus discípulos foram lá prègar o Santo Evan- gelho e converteram aquelas gentes, as quais por muitos anos perseveraram na pureza da fé, até que alguns imperadores seus saíram a conquistar alguns reinos comarcãos com desejo de dilatar seu império; e chegando um deles até às partes da Síria e Terra Santa de Jerusalém, à tornada levou consigo alguns cristãos inficionados com a heresia de Nestório, dos quais se entende que tomaram alguns erros. E por aqui se vê ser êste e não o Rei do Abexim o verdadeiro Preste João do Oriente, mas deram ocasião ao êrro comum de se • fi.63. cuidar ser o Abexim, os * descobridores que El-Rei Dom João II mandou como acima dissemos; o qual encomendando-lhes que buscassem um rei cristão oriental que levava a cruz diante quando saía fora, chegando a Egito e ao Mar Ver- melho e não achando novas doutro rei cristão, senão de um que havia no Abexim, se passou um dêles à sua corte, onde achando cristãos e cruzes, assim êle como os outros portugueses que depois por várias vezes entraram naquele reino e acharam o mesmo, se persuadiram não haver outro que pudesse ser o Preste João senão aquele, e por tal o publicaram e ficou correndo por tôda Europa, sendo, ao que parece, na verdade imperador do Cataio. Além disto escrevem os padres do Mogor pela informação que continuamente andam tomando dêste império, teem entendido ser na Tartária e estar pegado com os muros da China, e ser mais fácil a entrada nêle por via da China que por via do Mogor,.
  • Das coisas do Cataio € confirma isto o que tocámos quando acima tratávamos da China, da relação que os padres de Pequim também tiveram destes cristãos. Para esta perigosíssima missão e novo descobrimento foi escolhido um irmão de nossa Companhia, por nome Bento de Gois, natural da ilha de S. Miguel, homem de muito espírito, grandes partes, e que tendo-as para poder ser sacer- dote, o não puderam acabar com êle que o fôsse, por sua muita humildade; pelo qual tudo e por saber a língua pársea, foi escolhido para tão grande empresa que êle tomou com tanto espírito e zelo da honra de Deus, como logo de suas cartas se verá. E, porque se julgou que o mais certo caminho por onde podia ir, era por via do Mogor e encostado a seus embaixadores que também iam para aquelas partes, foi mandado de Goa, aonde também viera com o embaixador de Mogor, para que começasse sua jornada de Lahor, onde se aviou, assim da esmola do viático que em Goa lhe foi dada, como principal- mente com a que lhe deu El-Rei Aquebar, que foram perto de quatrocentos cruzados de nossa moeda, que por ser dádiva de um rei moiro * e tão avarento, • fu6j t. foi coisa de muito espanto e muito mais para agradecer; pôsto-que uma e outra foi muito pequena para os muitos gastos que não poderá deixar de fazer em uma jornada, a qual não será menos que de quatro anos de ida e vinda, pela muita distância do caminho e vagares das cáfilas de camelos em que há de caminhar, indo sempre pelos campos e desertos, sem nunca entrar nas cida- des senão raramente. E foi mercê de Deus acertar de partir daqui neste tempo o embaixador do Reino de Caigar, que é na ponta do Cataio, em cuja compa- nhia vai, ainda que não em trajos de português nem de padre, mas em trajo de moiro com cabaia e touca, terçado na cinta, arcos e frechas e com título de mercador, para não ser conhecido e poder com menos perigo passar por meio daquela vasta moirama. Leva por companheiro seu um homem grego de nação, por nome Leão Grimão, o qual os padres lhe negociaram por saber bem a língua pársea e turquesca e por ser homem bom cristão e de muito negócio e que puramente por amor dos padres e da Companhia aceitou fazer esta tão perigosa e com- prida jornada, deixando o ordenado que tinha de El-Rei, que era um cruzado cada dia e (o que mais é) sua própria mulher com quem havia pouco se casara. E para que se entenda o espírito e ânimo com que êste bom irmão nosso aceitou e cometeu esta emprêsa, porei aqui alguns capítulos de cartas suas que escreveu a alguns dos padres e superiores, quando estava para partir de Lahor e depois de ir já por caminho. E em uma que escreveu ao Padre \ ice-Piovincial a trinta de Dezembro de 602 diz assim: Foi Nosso Senhor servido tiazer-me a salvamento a esta Lahor, donde fico já de partida para as partes do Cataio; não o quis fazer sem primeiro cumprir com a obrigação devida e escrever a V. R. para me despedir dêle e de meus amantíssimos irmãos que nessas partes do Sul andam. Parti de Agra, aonde está o Padre Jerónimo Xavier, a vinte nove de Outubro; ao tempo que dêle me despedi e do Padre António Machado, des*pi também a roupeta que trazia, para vestir os trajos da terra; êles são os .fi.63. que trago agora. Não sei encarecer a V. R. o que dizia à sua alma o novo peregrino de Jesus Cristo, quando se viu nestes trajos tão estranhos e quando me despedi dos padres que tôda aquela noite estiveram comigo, a qual tôda se
  • 3l2 Das coisas do Cat aio gastou em doutrina e informações do que havia de fazer. Despedi-me deles com grande sentimento e comecei logo a caminhar para Lahor. Pelo caminho, uns me tinham por saide, que quere dizer parente de Mafamede, outros por grande no reino de Meca, mas não sabiam estes miseráveis as escolas em que tinha aprendido êste peregrino. Seja o Senhor com tudo louvado. Cheguei a Lahor aos oito de Dezembro, dia da Conceição de Nossa Senhora; não me fui para nossa casa, aonde está o Padre Manuel Pinheiro e o Padre Corsi, porque trazia por regimento que não fôsse lá; fiz a saber aos padres da minha chegada; foi-me ver o Padre Manuel Pinheiro com muita mágua de seu coração, por me não poder fazer os agasalhados que nossa Companhia costuma. Fico agora em casa de um veneziano, por nome João Galiseu, e daqui me vou nego- ciando com titulo de mercador; para mais dissimulação, ando com uma barba que me dá pelos peitos, e o cabelo comprido conforme ao costume da terra. Tudo, padre meu, se faz por amor daquele Senhor que tanto nos amou e padeceu por nós. Peço a V. R. que quando esta ler, me diga uma missa a Nossa Senhora da Vitória, para que ma dê contra todos meus inimigos e trabalhos que por diante tenho, e o mesmo peço a todos os padres e irmãos dessas partes, porque bem sabem que sou mandado em meio de tantos lobos, capitais inimigos de nossa santa fé; mas vou muito confiado em as santas orações de meus padres e irmãos caríssimos. O nome que agora tenho é Banda Abdula, que quere dizer, servo de Deus: êste nome me pôs o Padre Jerónimo Xavier, quando dêle me parti. A minha chapa que nesta carta vai, é de um anel que trago no dedo, conforme ao costume da terra. •fi.63v. El-Rei me fêz muitas caridades, com me dar grande parte * de minha sus- tentação para êste caminho, pagando-me também todo tempo que estive na índia, que foram algumas mil e tantas rupias com que os padres pagaram algu- mas dívidas e eu os gastos que fiz da índia até Agra; Deus o faça cristão, que é o melhor bem que lhe posso desejar nesta vida. Resta sòmente dar um grande abraço a V. R. e aos meus caríssimos padres e irmãos dessas partes. A paz de Jesus Cristo fique com êles e vá comigo, amém. De Lahor a 3o de Dezem- bro de 602. Noutra que, estando para partir, escreveu ao Padre Jerónimo Xavier, de 24 de Fevereiro de 6o3, diz assim: Respondo à carta de V. R. acerca da des- pedida que teve com êste seu irmão, certo, padre meu, que quando a comecei a ler foi tanta a ternura de meu coração com que a ia considerando, que só Nosso Senhor o sabe. Faz Vossa R. bem de esforçar êste pobrezinho com semelhantes cartas, doutrina e conselhos. Não posso deixar de dizer aquelas palavras que o Apóstolo S. Paulo dizia: Vivo eu, mas já não eu, mas vive em mim Cristo; porque, considerando êle a doutrina e palavras do mesmo Cristo, veio a dizer tantas maravilhas em suas epístolas. Pois V. R. sabe tanto das sagradas Escrituras, não deixe de regar esta terra sêca e tão necessitada das influências do céu, para que possa dar e trazer fruto das partes de Cataio, onde sou por obediência enviado; e ainda que a nossa Companhia de Jesus quis fundar um edifício tão grande em alicerce que demandava mais altura, contudo encostar-me-hei à sagrada Escritura que diz: Pólens est Deus de lapidibus istis, etc., Padre meu Jerónimo Xavier. Padre meu, fique-se Vossa R. embora;
  • Das coisas do Cat aio 313 de cá donde estou e donde quer que fôr, sempre me lanço a esses pés sem nunca deles me levantar, beijando-os muitas vezes e pedindo perdão de minhas faltas; a minha alma deixo posta na mão de V. R. e em seus santos sacrifícios feita um sacrifício vivo diante da Santíssima Trindade. Permitirá Jesus Cristo que ainda estes meus olhos verão nesta vida a V. R., e então poderei dizer o cântico de Simeão: Já ago*ra, Senhor, deixai ir vosso servo em paz. E, se .ta o4. mais nos não virmos, o que primeiro fôr gozar da bemaventurança, seja me- dianeiro diante de Deus para o outro, para que assim esta minha nauzinha possa escapar das tormentas e tempestades desta vida. Tanto que chegou o senhor Leão Grimão, meu companheiro, com que vou muito contente e alegre, logo determinámos de nos pôr ao caminho; já temos tomados os camelos, e partir-nos hemos até domingo, porque hoje, que é a pri- meira sexta-feira da quaresma, passámos o fato à outra banda do rio, onde está a cáfila que vai para Cabul. Levo as lembranças e regimentos que V. R. me mandou com a minha patente e a carta para os do Cataio e outra para os nossos padres que residem na China no Pequim; levo também a lembrança do Senhor Arcebispo de Goa que trata acerca dos(i) scismas que haverá entre aqueles cristãos; levo mais um papel em que vão escritas tôdas as festas mudáveis até o ano de seiscentos e vinte. Vou muito bem negociado, não falta mais que sacrifícios e orações dos padres e irmãos da índia e Europa, aos quais V. R. por amor de Deus escreva e peça me encomendem a Deus; levo mais a forma e nome de Nosso Reverendo Padre Geral sobre minha cabeça, acompanhada com os meus votos que tenho feito a Deus e a tôda a côrte celestial; levo tam- bém a firma de V. R. e do Padre Bobadilha e as dos Padres Visitador Nicolau Pimenta e Provincial Nuno Rodrigues e tudo isto levo a modo de relicário de moiros, metido entre a touca; em meu peito levo uma cruz com dois evangelhos, a saber, de S. João, In principio erat Verbum, e outro de S. Marcos, Euntes in mundum universum; estas são as armas de que vou armado. Peço muito a V. R. escreva a meus irmãos noviços, para que façam oração por mim continua- mente, aos quais amo muito pela grande comunicação que teem com Deus Nosso Senhor, por ser jardim que é continuamente regado com as graças do Céu; sendo êles tão mimosos e tanto de sua câmara, forçadamente hão-de ser ouvidas suas orações e penitências. Padre meu, * é necessário começar a cami- *fi.64t. nhar, pelo que dou fim a esta carta, não no dando nunca minha alma às lem- branças de V. R., a qual com todos seus sentidos jàmais se poderá apartar de tanto amor e caridade, quanta V. R. sempre mostrou a este seu irmão Bento de Góis, especialmente nesta sua partida, dando-me tantas advertências, como experimentado e visto em trabalhos, porque, quem os não tem passados nem tem apalpado fomes, frios, sêdes, desamparos, não poderá nunca atinar com semelhantes coisas. Despeço-me de V. R. no exterior, pedindo-Ihe me lance sua santa bênção, não me despedindo nunca no interior. De Lahor a de Feve- reiro de 6o3. Noutra em que o irmão responde a uma do Padre Manuel Pinheiro (tendo já andado cento e dois coces, que são outras tantas milhas) diz assim: A de (1) Nu: as. 40
  • 314 Das coisas do Cataio V. R., feita em 4 de Março, com as novas do reino recebi em sete dêste mês; não posso declarar a alegria que minha alma sentiu com ela, e dêste sentimento, e das saudades que levo, não pude deixar de chorar muitas lágrimas, causadas todas de amor que tenho a meus irmãos, dos quais me lembro todos os dias nesta soledade e tomo por grande recreação minha lembrar-me de suas coisas, para minha alma ficar fomentada no espírito em que algum tempo se recreava, e como o caminho é trabalhoso e enfadonho e eu não posso correr tanto com as obrigações exteriores de me encomendar a Deus, uso no interior de algumas jaculatórias, falando com Deus, o qual sinto me dá esforço para levar esta cruz, a qual porventura nos olhos das gentes parecerá mui carregada, mas a mim me vai parecendo muito leve e suave, pois é tomada puramente pelo Criador de todas as coisas, ao qual ofereço tudo para sua glória e honra. Nós até agora jejuamos e o nosso comer não é senão à noite, pôsto-que, com grande custo nosso, o comer não é senão um pouco de arroz com manteiga e apas de carre- gação e algumas cebolas; e quando comemos um pequeno de peixe salgado do que lá sequei, é grande mimo. Os frios são muito grandes, porque imos cor- •fi.65. rendo as serras que estão cobertas * de neve; mas de todos êstes trabalhos, os quais levo com muita suavidade, faço participante a V. R. e a todos os mais companheiros que nesta missão andamos. Nos santos sacrifícios de V. R. etc. Desta província do Gaçar, cento e dois coces de Lahor. Outra carta escreveu tendo já andado seis meses de caminho a diante, em que diz ir por entre gente mui bárbara e cruel, mas sem nenhum temor, porque leva a Deus consigo, e assim o respondeu a um rei bárbaro que o ameaçou o mandaria botar debaixo dos pés dos elefantes, que êle nada temia, nem buscava outra coisa senão morrer pela lei santa do verdadeiro Deus e Criador do universo.
  • COISAS DO REINO DE BISNAGÁ CAPÍTULO X Da missão e residência de Chandegri, córte de El-Rei de Bisnaga, e mais casas da Companhia que naquele reino estão M dos reis gentios mais afeiçoados à nossa Companhia, de todos quantos há no Oriente, é El-Rei de Bisnagá. E assim, há anos que tem os nossos em sua corte e os estima, respeita e favo- rece de modo que não se pudera esperar mais de um rei cris- tão, e a seu exemplo fazem também o mesmo seus capitães, regedores, naiques e senhores da terra, e geralmente todos aqueles gentios, que é coisa de grande admiração e glória de Nosso Senhor e de sua santa fé. E pôsto-que ate agora a conversão não e tão grande como se deseja, porque são êstes gentios dificultosos de arrancar dos seus ídolos, é porém coisa de mui grande estima ver o respeito e alto conceito que todos formam da lei de Deus, conhecendo muitos ser ela a verdadeira e que •fi. 65▼. não há outra em que os homens se possam salvar, e que tôda a lei dos pagodes é mentirosa e falsa; e chegar juntamente um tão poderoso rei, como é o de Bisnagá, a dar licença aos padres para terem igrejas em sua corte e prègarem o Evangelho, e todos livremente se poderem fazer cristãos e, o que mais é, dar êle mesmo para sustentação dos padres renda bastantíssima, como são mil pago- des cada ano, que fazem perto de mil e quinhentos cruzados. Alem disto entre os outros bens e proveitos que desta missão se seguiram, não foi pequeno afeiçoar tanto aos portugueses um rei tão poderoso, que para renovar a amizade que seus antepassados com êles fizeram e agora já de todo estava esquecido, mandou ao Vizo-Rei seus embaixadores com uma honrosa embaixada, em com- panhia dos quais quis que fossem também os dois padres nossos que estavam em sua corte, mas com condição que haviam de tornar logo, como tornaram juntamente com os embaixadores; os quais diante de El-Rei e dos mais senhores da corte não acabavam de apregoar as grandezas de nossas coisas e as honras e favores que do Vizo-Rei e padres em Goa receberam; o que tudo El-Rei estimou tanto, que dali por diante se mostrou ainda muito mais afeiçoado aos padres; mandando-lhe o Vizo-Rei em retorno de sua embaixada outra mui hon- rada, êle recebeu o embaixador com muitas festas e aparato. Porque chegando à cidade de Chandegri, os saiu a receber um dos principais do conselho real com elefantes, camelos, cavalos, atabales e mais instrumentos de alegria e festa, e o aposentou nos melhores paços da cidade. E porque neste tempo El-Rei estava em Trepeti que é uma cidade duas léguas de Chandegri mui formosa e grande e como outra Roma para esta gentilidade, por causa dum pagode mui
  • 316 Das coisas de Bisnagá venerado que nela há, aonde concorre de todo este Oriente gente inumerável que vem com grandes devoções e ofertas visitar êste demónio que se chama Permal, aqui quis El-Rei receber o nosso embaixador, ao qual mandou buscar com muito aparato e majestade por um seu íntimo privado. Esperou-o El-Rei • fi.66. no interior de um * pátio gravíssimo, onde estava não com vestidos ricos, porque os não costuma, mas do pé até cabeça coberto de pedraria, manilhas e ramais de pérolas em que entravam duas jóias de extremada formosura, que eram uma esmeralda cercada de grandes pérolas e finos diamantes, outra um rubi de muito preço e notável grandeza. Chegou o embaixador, pôs os joelhos no chão; o rei o fez logo levantar e assentar; recebeu a carta e presente do Vizo-Rei com demonstrações de muita alegria. Tratou da amizade e comunicação que com os portugueses desejava ter, e outras coisas pertencentes ao bem do Estado. E depois de tudo isto des- pediu ao embaixador cheio de mercês e honras, e aos padres mostrou muito maior gasalhado e afeição; e assim, indo no ano seguinte o Padre Alberto Laércio, Vice-Provincial da Província do Sul, visitar aquela residência, El-Rei lhe fêz muito grandes honras e gasalhados, mandando-o buscar a nossa casa pelo seu secretário, praticando com êle muito devagar e significando-lhe com muitos sinais exteriores e palavras o muito que estimava os padres e que ainda os havia de acomodar melhor e acrescentar-lhes a renda dos dois mil pardaus, que cada ano lhes davam; e agradeceu muito o presente que o Padre Vice-Pro- vincial lhe levou; e quando se houve de vir, lhe mandou dar para ajuda de custa duzentos pardaus. Nem é menor o amor e afeição que a rainha também tem aos padres, a qual lhes tem dado o porto de Paleacate que era seu e está seis léguas da cidade de S. Tomé, onde primeiro moraram os arménios e portugueses, quando a esta terra vieram, e pede com eficácia façam ali os padres uma igreja e casa nossa, para o que oferece a renda necessária, coisa de grande estima e que nós com todas as forças houvéramos de procurar, por ser um porto mui acomodado e a propósito para tudo, e ter barra grande todo o ano aberta, aonde vão varar os navios que nesta costa invernam; que por isso os holandeses davam para êle dez mil cruzado^ para fazerem ali assento com fortaleza e cabeça de estado; mas a dificuldade de nossa parte -é a falta de gente para acudir a tanto. • fi. 66 v. * O fruto que se deseja da conversão dêstes gentios mais está nas espe- ranças de futuro que no que de presente se colhe, assim por os padres andarem ocupados em aprender a língua e costumes seus, como por a boa índole e incli- nação que nêles vão descobrindo para receberem nossa santa fé; porque, com no princípio fugirem dos padres, agora teem já perdido o mêdo de maneira que os veem buscar e comunicar com êles com tanta confiança, como se foram seus naturais. E veem de ordinário à nossa igreja, pedem lhes falem de nossa santa lei, e depois que se lhes declaram estas coisas conforme a sua capacidade, ficam maravilhados e confessam que a nossa lei é a santa e verdadeira; e não faltou quem disse: Malditos sejam nossos pais, pois nos não ensinaram coisas tão santas como estas. E o mesmo secretário do rei, que é homem de bom juízo e entendimento, falando com outro de respeito lhe disse: A verdade é a que os padres ensinam e tudo o mais é mentira e engano.
  • Das coisas de Bisnagâ 317 No mês de Julho de 6o'i fizeram os gentios uma festa fora desta cidade a •um seu pagode, onde concorreu quási tôda ela, que é duas vezes tamanha como Évora, e à tornada passou muita gente dela pela nossa igreja, onde entravam, e em tanta quantidade, que para se poderem revolver e sair, acudiram os padres c deram ordem com que uns fossem saindo por uma porta que ficava na capela, e entrando por outra, para que se pudesse satisfazer ao desejo de todos, os quais quando se despediam, se prostravam de joelhos ao pé do altar onde estava uma imagem do Salvador, à qual diziam em voz alta: Jesus, alumiai-me, Jesus ajudai-me, Jesus valei-me. E durou este espectáculo por muito espaço, que causou grande consolação aos padres que estavam presentes, porque era muito semelhante ao que se representa nas igrejas da cristandade sexta-feira de En- doenças. Em um dos três altares que temos na igreja está um retábulo de Nossa Senhora de S. Lucas com o Menino nos braços, a quem êstes gentios teem notável devoção, porque com muita confiança lhe oferecem de contínuo suas petições, e depois tornam muitos dêles com suas ofertas de azeite, flôres * e *Fi.67. cheiros para a igreja, gratificando com êstes sinais exteriores as mercês que êles afirmam ter-lhes feito aquela Senhora e o seu Menino, remediando-os em suas necessidades, e disto contam coisas maravilhosas; pelo que com êstes pre- ságios vai Nosso Senhor dando mui grandes esperanças aos padres de haverem de colher grande fruto de tão boa seara, as quais acrescenta o amor grande que El-Rei lhes mostra e o grande conceito que tem de seu saber e virtude, e assim êle como todos os da sua corte, grandes e pequenos; ao qual já por algumas vezes os padres pregaram de nossa santa fé e fêz tão grande entendimento de não haver mais que um só verdadeiro Deus, criador do universo, que êle é agora o que já isto prega e persuade aos seus. Pedem-lhe os padres por muitas vezes os admita à disputa com os brâmanes, que são os seus letrados, mas êles {que já uma vez dela saíram envergonhados) por todas as vias recusam o encon- tro, dizendo que suas coisas não se podem fazer tão notórias nem comunicar-se daquela maneira. E tanto é isto que, se os padres querem saber de seus ritos gentílicos e tomar alguma notícia dêles para lhos refutar, não podem achar quem lha dê senão com muito trabalho e peitas e às escondidas. Dezassete léguas de Chandegri para a banda do mar está ao longo dêle a povoação e cidade de S. Tomé na costa dêste mesmo reino, a qual é uma colónia de portugueses veteranos que ali se vão aposentar e cada dia vai em maior crescimento. Nela tem a Companhia um colégio onde de ordinário resi- dem seis religiosos, obreiros muito poucos para os que são necessários, assim em razão dos portugueses que de novo a veem habitar, como dos gentios naturais que Nosso Senhor traz ao seu conhecimento, deixando os pagodes e idolatrias de que neste reino há mais que em todos os da índia. E assim, além dos grandes serviços que a Companhia aqui faz a Nosso Senhor com os portugueses c seus filhos, são mui grandes os que também faz na pregação do Evangelho e conversão dos infiéis que cada dia se vão baptizando, e * cultivação dos já feitos .Ki.67*. cristãos, dos quais está já aqui feita uma boa frèguesia à conta dos nossos, que dão mostras de muito bons cristãos, acudindo mui bem às confissões e sacra- mentos, e os meninos pequenos à doutrina que se lhes faz pela manhã e à tarde; c é de grão proveito uma escola de ler e escrever em malabar, que os padres
  • 318 Das coisas de Bisnagá aqui teem com um mestre secular, a quem pagam à sua custa. Houve muitos casos mui notáveis na conversão dalguns gentios, que por brevidade se deixam, mas não deixaremos de contar alguns para edificação dos que isto lerem. Uma mulher principal e das principais castas que há entre os gentios se converteu tão de-veras, que, vindo o pai e mãe e marido e parentes para a perverterem, o não puderam acabar com ela; e sendo por vezes importunada deles que deixasse de ser cristã, respondeu que lhe trouxessem uma menina, sua filha, de um ano, que lhe ficara em casa de sua mãe e que então tomaria seu conselho e responderia. Não lhe deferindo a isto os seus vieram ultima- mente com recado do senhor da terra que a deixassem falar pelo menos com seu pai e parentes de-vagar; respondeu que viessem, que com todos falaria, con- tanto-que lhe trouxessem sua filha. Temiam os padres que as lágrimas da mãe e lástimas dos parentes a moveriam, porém ela se mostrou sempre tão cons- tante em não responder, até que lhe entregassem a filha, que os parentes vieram em lha entregar, e depois que a teve em seu poder, lhes respondeu resoluta- mente que se fossem muito embora, que ela havia de ser cristã; e com isto se recolheu com a filha para dentro da casa onde estava, e por mais que a mãe como doida dava com a cabeça na parede, e os parentes importunavam e bra- davam, de nada disto fêz caso, e assim se baptizou com outras 15 ou 20 pes- soas, ficando todos maravilhados de sua constância. Um menino badagá de onze até doze anos, por conselho de uma senhora em cuja casa continuava, se moveu grandemente a ser cristão, e levado à igreja, depois de instruído com seu padrinho e madrinha para receber o santo baptismo, •fi. 68. eis que estando já junto da pia, vem de improviso a mãe, irmãos e * parentes gritando a grandes vozes e nomeando-o por seu nome. O padre lhe preguntou diante de todos eles na língua malabar:— Menino, quereis vós ser cristão? Respondeu na mesma língua e em voz alta: — Sim, senhor padre. —Alguém trouxe-vos enganado ou vos fêz fôrça? — Nao, senhor padre. Pode isto tanto, que a mãe e parentes que vinham chorando e gritando, ficaram mui quietos, e com muito silêncio estiveram vendo e notando as cerimónias que lhe faziam do sagrado baptismo, e depois entrou a mãe com êle junto da pia e ajoelhando-se aos pés do padre, padrinho e madrinha, com as mãos erguidas lhes pediu que olhassem por êle que era pequenino. Com isto se foi, rogando-lhe o menino a ela e aos parentes se fizessem cristãos, ficando todos edificados de ver tal cons- tância num menino, e agora com suas contas ao pescoço vem à igreja frequen- temente, acha-se às missas, ouve as pregações sem lhe escapar alguma, vem a casa dos padres com tanto siso e madureza, que parece de 3o anos e nêle se está bem enxergando a divina graça e o efeito do sagrado baptismo. Outra moça de 14 anos pouco mais ou menos, sendo casada e indo-se seu marido à guerra, arreceando que morrendo êle lá, não pudesse cumprir os desejos que trazia de ser cristã, por ser costume entre êstes badagás e gente nobre, quando morrem os maridos, botarem-se as mulheres, vivas, no fogo, quando não teem meninos que criar, e haverem isto por grande honra e para ficarem tidas e reputadas por santas; pelo que os próprios parentes as cons- trangem a isso quando elas recusam, por não perderem sua honra e nobreza, donde, quando morrem êstes naiques e senhores grandes, se botam logo grande
  • Das coisas de Bisnagá 319 número de mulheres, vivas, no fogo e conforme às que cada um tem juntamente com eles, que são às vezes quatrocentas, no que trazem posto grande ponto de fausto e nome (ainda que êste Rei de Bisnagá que ora reina, estranhamente aborrece êste brutal costume, nem consente que se faça, mas tem-no o diabo tão arraigado e autorizado, que não é * possível tirar-se); veio pois esta moça »fi.68t. que acima digo, baptizar-se, dizendo que mais queria ser cristã e salvar sua alma que, guardando seus costumes e honras, perder a vida e alma juntamente. Uma mãe e filha de treze a catorze anos vieram de catorze léguas para se fazerem cristãs. Sabendo isto os gentios, a instancia do marido da moça a estorvavam quanto podiam, mas sendo avisado o padre, Pai dos cristãos, e mandando lá aonde elas estavam, o meirinho com um recado seu, largaram a moça que muita multidão de infiéis tinha cercado, mas em o meirinho virando as costas a tornaram a tomar e lhe botaram uma braga de ferro no pe com que a tiveram presa tôda a noite. Ao outro dia acudindo o padre, achou com os outros gentios um brâmane principal, o qual lhe começou a fazer grandes queixas, que não era razão quisesse tirar a mulher a seu marido para a fazer crista. Respondeu-lhe o padre, que antes o filho e filha ao pai e mae, e o marido à mulher se haviam de tirar quando quisessem seguir a Deus verdadeiro, mas contudo, se o marido quisesse vir tomar sua mulher, ela não casaria com outro e esperaria por êle dois meses; o que ouvindo assim o marido como os brâmanes que estavam presentes, responderam logo: Grande lei e grande Deus. Emfim veio a moça cercada de soldados que a vinham inquietando que se não fizesse cristã e o marido juntamente, e sendo preguntada, como a pobre se viu no meio de tanta gente, enfiada e transida olhava para uma parte e para outra, e indo para dizer que sim, lhe foram todos à mão e principalmente o brâmane, o qual lhe prometia dinheiro para que se não fizesse cristã e que a faria serva do pagode para bailar sempre diante dêle, que é o mesmo que para juntamente ser mulher pública e solteira (porque é tão grande a cegueira desta gentilidade, que tem isto quando se faz em serviço do pagode por grande santidade e honia). O padre vendo a malícia do brâmane, se fingiu agastado e botando todos pela porta fora, o repreendeu grandemente e deu ordem que a mae e * filha fossem »fi. 69. postas em casa de uma viúva honrada que os mesmos gentios escolheram, onde estiveram três ou quatro dias. E finalmente, sendo preguntadas se queriam ser cristãs pelos mesmos gentios e diante do brâmane, responderam que sim, que para isso vieram da sua terra, e dizendo-lhe o brâmane: — Como?
  • 320 Das coisas de Bisnagá isso, ainda que com grande repugnância o foi fazer em companhia de um padre, dizendo que ainda que isto lhe custasse muito, contudo estava prestes para vencer tôdas as dificuldades para guardar a lei do verdadeiro Deus, que recebera, e assim com esta vitória que de si teve, ganhou para Cristo a mulher, porque ela ainda que estava escandalizada, esquecida porém de tudo, contra vontade de sua mãe e parentes se veio com seu marido e recebeu o santo baptismo, e ajudados com a graça dos sacramentos vivem ambos muito bem e com muita conformidade. É o orago desta gente novamente convertida da Virgem Nossa Senhora da Assunção, o qual celebram êstes novos cristãos com muita solenidade e varie- dade de invenções de fogo, na véspera à noite, e no dia com procissão de muito aparato de cruzes e charolas, onde vão vários santos e passos devotos a pro- •F1.69V. pósito da festa, e danças de meninos ricamen*te vestidos e por remate uma custódia com o Santo Lenho e um cabelo de Nossa Senhora debaixo de um pálio, com muito acompanhamento de tochas, do que tudo resulta grande glória de Nosso Senhor, espanto e confusão de gentios e moiros que pelo campo estavam em pinha maravilhados do concerto, aparato e limpeza das nossas festas. Daqui discorrem também os padres até Massulapatão, que é um pôrto e cidade de moiros, que está nesta mesma costa, onde se faz também muito fruto, assim com os portugueses como com os cristãos da terra. Nesta mesma costa pertencente ao reino de Bisnagá está também a povoação e pôrto do Negapatão, que é todo de portugueses, aonde a Companhia tem uma casa, na qual ao presente não residem mais que dois padres exercitando os ministérios com grande proveito espiritual e edificação daquele povo, o qual é o que sustenta aquela casa, porque não tem esmola nem ordenado algum de El-Rei. A qual pôsto-que se temia se não pudesse continuar neste ano, ou ao menos padecessem os padres grandes necessidades por faltarem àquele pôrto as naus da índia, Malaca e Bengala, umas por causa dos temporais que as fizeram dar à costa ou passar de longo sem poder tomar o pôrto, outras em razão de os holandeses corsários que as tomaram, contudo, quando menos esperanças tinham, então acudiu Deus com mais copiosas mercês, porque não sòmente nunca faltaram as esmolas para sustentação dos padres, mas de novo começaram a fabricar uma igreja que com muito fervor vão fazendo, sendo principal parte nesta obra um gentio rico e honrado, a quem Deus moveu para tanto a seu cargo correr com esta obra, que além das esmolas que êle dá para isso de sua fazenda, êle tem o assunto das coisas necessárias para ela, e favorece-as Deus tanto, que depois da capela fechada, dali a poucas horas (que foram algumas de grandes chuvas e ventos) caiu o simples todo abaixo, ficando a capela, com estar tão fresca, sem padecer prejuízo algum, coisa que pôs em grande admira- «Fi.70. ção * a tôda a terra que acudiu a ver um caso tão maravilhoso, tendo-o quási por milagre, de modo que até'os mesmos gentios pasmados diziam que nenhuma outra virtude senão a de Deus tivera mão naquela abóbada, que não caísse, e assim ficou a obra mui perfeita e acabada. Não menos se maravilharam doutro caso, e foi que caindo um trabalhador de uma parede de mais de cinco braças de altura, quando todos lhe esperavam a morte ou pelo menos grave lesão, o bom homem em continente se tornou a levantar e subiu pela escada a continuar
  • Das coisas de Bisnagá 321 com seu trabalho sem nenhum modo de dor; e tanto mais os gentios atribuíram êste acontecimento à virtude de Deus, quando dali a quatro ou cinco dias viram que caindo outro de uma parede mais baixa de um pagode, ao segundo dia o enterraram. Teem-se feito grandes serviços a Deus nesta casa em compor as grandes discórdias que havia há muitos anos neste povo, de que teem resultado muitas mortes e pecados, e particularmente se notou que depois que nesta terra entrou uma cabeça das onze mil Virgens, que foi a primeira relíquia que nela houve, a qual foi recebida deste povo com mui grande aplauso e solene procissão, se corroborou mais a paz e conformidade entre todos. A esta casa está anexa uma igreja que dista cinco léguas dela, em uma povoação dos gentios, que se chama Tranquebar (i), onde moram alguns cristãos paravás, aos quais um padre vai confessar algumas vezes no ano, e se lá pudera residir, fizera-se muito fruto na conversão dos gentios, mas a falta de obreiros impede tudo. Há muitos anos que nesta terra faleceu o Padre Francisco Peres, varão que foi de muita virtude e santidade e por tal tido em toda a índia aonde era mui conhecido; o qual, porque a Companhia não tinha casa nesta terra, pediu ao tempo de seu falecimento que o enterrassem entre os pobres do hospital, mas os irmãos da santa Misericórdia lhe deram sepultura no meio da sua capela-mor e o tinham ali como rico tesoiro, por cujas orações diziam que Nosso Senhor os li*vrara dos assaltos que o naique costumava antes a fazer por qual- -fi-tov. quer leve ocasião. Mas depois que tinham aquelas santas relíquias, nem por coisas mui graves que os portugueses lhe fizessem, os avexara nem salteara com gente de armas. Êste ano tendo os padres já igreja, procuraram trasladá-lo para ela, o que não puderam alcançar dos moradores da terra, principalmente dos irmãos da Misericórdia sem muita dificuldade e importunação. Havida pois a licença e aberta a cova, indo um padre nosso para tirar os ossos os achou todos encadeados com uma raiz de grossura de um fio de barbante, a qual nascia de debaixo do casco da cabeça, unida a êle mesmo e feito ali como seu pé com muitas raízes juntas e lhe ia liando todo corpo até chegar aos pes enlaçada pelas canelas e metida pelos joelhos; o que vendo todo o povo o teve por coisa mis- teriosa por não haver ali árvore nem coisa alguma donde pudesse proceder tal raiz, quanto mais que ela mostrava que nascia da cabeça e acabava nos pés. Houve então muito mor dificuldade no povo para consentir que o corpo se tirasse, mas emfim, com os nossos prometerem por palavra e escrito que o não levariam fora da terra, mas que na nossa igreja lhe dariam lugar público à vista de todos, se aquietaram. E foi trazido com uma solene procissão e grande concurso de tôda a gente à nossa igreja, onde foi depositado e metido em uma caixa de teca, pau incorrutível, que se fechou em uma abóbada que para isso se fêz; e foi coisa maravilhosa ver o fervor e devoção com que todos veneravam aqueles santos ossos, tendo-se por ditoso o que podia haver alguma coisa deles, ou pelo menos que neles tocasse. Queira Nosso Senhor, pelos merecimentos dêste tão grande servo seu, lembrar-se desta terra e converter tôda esta gentilidade de que está rodeada. (i) Nt.: Trangabar. 4'
  • 322 Das coisas de Bisnaga CAPÍTULO XI Das coisas da Costa da Pescaria *fu 71. * ERTENCE esta costa ainda ao reino de Bisnagá. Nela está uma das maiores e melhores cristandades de tôda índia; cultivam-na dezasseis sacerdotes da Companhia, os quais continuamente andara por aqueles seus areais discorrendo duns lugares noutros por espaço de cincoenta léguas, ajudando aquelas almas que estão divididas em mais de trinta igrejas edificadas no marítimo da costa, que quási todo é já convertido à nossa santa fé. Além disto teem os padres doze ou catorze léguas pelo sertão adentro, onde se teem feito mais de três ou quatro mil cristãos e nove igrejas em diversos lugares que um padre visita, deixando em cada uma delas pessoas exemplares que ensinem as orações e acudam a baptizar algumas crianças em extrema necessidade, quando o padre está ausente. Outro padre reside na cidade de Maduré, côrte do naique que é senhor de tôdas estas terras, onde também temos uma igreja. E é coisa mui notável que em todos estes lugares, onde estão as igrejas edificadas pela terra dentro, se vê cessar cada vez a veneração do demónio e seu poder, não vexando os gentios nem lhes dando resposta como antigamente faziam e agora ainda também fazem nos lugares afastados da igreja. Sustentam os cris- tãos desta costa tôdas suas igrejas de ornamentos e mais coisas necessárias mui cumpridamente, e também três hospitais onde se cura tôda sorte de gente, a cujo exemplo também o mesmo naique gentio ordenou outro; além disso com suas esmolas se vestiram mais de setecentas pessoas e se ampararam e casaram mais de duzentas, que é coisa muito para estimar. Baptizar-se-iam no marítimo da costa quatrocentas pessoas, afora os que se baptizaram no sertão, que foram muitos, e muitos mais houveram de ser, se não foram as revoltas das guerras que estes dois anos houve entre cristãos e gentios, as quais impediram muito o fruto da conversão que se ia fazendo, cujo princípio e sucesso foi o que se segue. Na relação passada se referiu da vingança que alguns * cristãos da costa tomaram de um gentio poderoso e senhor de muitos vassalos, por ter queimado duas igrejas e feitos outros muitos desacatos aos cristãos, e como indo uma madrugada pouco mais de quinhentos entraram a fortaleza onde êle vivia e mataram muita gente e ao próprio senhor a quem iam buscar, e se recolheram a seu salvo. Daqui tomou ocasião o naique, senhor de tôdas aquelas terras, como gentio que era, para vexar os cristãos multando-os em muita quantia de dinheiro por fazerem isto sem seu consentimento. E como tirano e cobiçoso que era, quis que êste ano lhe pagassem outro tanto, e para isso mandou um capitão com três mil homens de pé e alguns de cavalo e elefantes, para que por fôrça lhes fizesse dar aquele tributo, o qual, se naquele ano lhe pagassem, todos os anos daí por diante lho havia de pedir. Chegado à praia, mandou logo chamar um padre para que persuadisse aos cristãos lhe dessem aquela quantia de dinheiro que o naique, seu senhor, pedia, que não era menos que duzentos mil cruzados; mas desenganado dos padres que nem deviam nem podiam pagar tal dinheiro, mandou logo parte da sua
  • Das coisas de Bisnagá 323 gente dar um assalto em um lugar onde estava o patangatim-mor, cabeça prin- cipal dos paravás, os quais, ainda que tomados de sobressalto, fazendo recolher em navios as mulheres e meninos, se defenderam dos inimigos o melhor que puderam. Neste tempo o Padre Reitor e mais padres com alguns cristãos estavam em uma ilha despovoada, onde havia perto de dois meses se tinham recolhido por causa das guerras, e chegando ali acaso da ilha de Manar um capitão de El-Rei com duas fustas de soldados portugueses, lhe pediu quisesse ir favorecer e ajudar aquele lugar dos cristãos; o que êle logo fez com muita vontade e zêlo. E chegando a um pagode dos inimigos, que ao longo do mar está, o começou a bater com a artelharia; o que vendo os brâmanes e tôda a mais gente que serviam ao pagode, se puseram logo em fugida e se foram ao capitão gentio, dizendo-lhe que se êle insistia em fazer mal à povoação dos cris- tãos, * que os portugueses lhes haviam de destruir aquele pagode tão venerado • i;i-7»- de tôda aquela gentilidade; pelo que o capitão se veio a concertar com o padre, com bem dos cristãos e muito melhor do que se esperava. Porém, como são gentios infiéis, não perseveraram muito nos concertos que tinham feito, e assim, tornando os gentios a fazer exército, vieram sobre o Vaipar e Bembar e Tutu- curim. E pôsto-que os cristãos defendendo-se, mataram alguns dos inimigos, todavia se embarcaram e despovoaram os lugares com muita perda sua, porque lhes saquearam as casas e tomaram o gado que foi muito, e queimaram todo lugar e as casas dos padres, e querendo também queimar a igreja, não teve efeito por ser de pedra e cal. Mas entrando dentro fizeram nela muitos desa- catos, e procurando também queimar e cortar uma formosa cruz que no terreiro está, ainda que lhe aplicaram o fogo e com machados a começaram a cortar, nem uma coisa nem outra teve efeito. Em Tutucurim foi ainda maior a perda, porque vindo o rei do mesmo Tutucurim, que é um gentio, falar à falsa fé aos padres, mandou por outra parte um golpe de soldados e às espingardadas fizeram embarcar a gente que estava no lugar, que era pouca, por ser a mais dela ida para outros lugares; e nesta revolta mataram algumas mulheres e meninos, e vindo ao nosso colégio entrando dentro tomaram um padre e o levaram preso, roubando juntamente tudo quanto puderam, assim na igreja como no seminário e nos baixos do colégio. No cabo de dezóito dias largaram ao padre por quatro mil pardaus que os cris- tãos lhes deram por êle temendo que o mau rei o matasse. Despovoou-se êste lugar de todo, e os padres se foram para uma ilha onde agora estão fazendo uma casa que possa servir de colégio e fortaleza, em que tenham seguras as coisas necessárias para os que nesta costa andam, pois na terra não é possível, estando entre gentios e sujeitos a tão contínuos sobressaltos. A igreja matriz do lugar também foi roubada e profanada co*mo a nossa, e nestes contínuos • KI.72V. trabalhos vivem os padres por aquelas terras por não poder ser menos, pois andam entre infiéis e inimigos do nome de Cristo. No lugar de Tripalicuri aconteceu um caso notável, e foi queimar-se os anos atrás a nossa igreja, sem nunca se saber quem lhe pusera o fogo. Este ano por duas vezes lho puseram, mas acudindo-lhe com diligência, não se queimou; espantavam-se os gentios que naquele lugar viviam e diziam que era milagre não se queimar uma igreja coberta de palha; mas um dêles mal inclinado deter-
  • Das coisas de Bisnagá minou secretamente pôr-lhe o fogo para experimentar se milagrosamente se apagava, e estando ardendo dizia como zombando aos cristãos: Todavia a igreja queima-se. Êste daí a três dias se enforcou e em todo corpo lhe apare- ceram umas queimaduras como de fogo. Não se sabia ser êle o que pôs o fogo à igreja, mas a mãe em suas lamentações e choros o descobriu dizendo: ,:Quem vos aconselhou, filho, que pusésseis o fogo à igreja dos cristãos? Donde se entendeu ser evidente castigo de Deus. Outro gentio, grande feiticeiro, foi constrangido por uns homens maus a fazer uns feitiços a uma mulher cristã, com os quais dizia que a havia de fazer morrer ardendo em vivas chamas, mas permitiu Deus que o mal voltasse sobre seu próprio autor, porque tanto que os fêz, começou êle mesmo a se queimar e arder em fogos, dizendo em grandes vozes que os diabos o queimavam; e com êste tormento morreu o miserável em espaço de dois dias.
  • # COISAS DE CEILÃO • H. 73. CAPÍTULO XII Como os nossos entraram na ilha de Ceilão e fundaram nela casa por mandado de Sua Majestade PRIMEIRO padre de nossa Companhia que entrou na ilha de Ceilão foi o Padre Mestre Francisco, há mais de cincoenta anos, e nela prègou o sagrado Evangelho principalmente no Reino de Candia, onde converteu o mesmo rei e muitos dos seus. Dali para cá, como os religiosos de S. Francisco toma- ram à sua conta a conversão daquela ilha e não mostravam gosto que os nossos da Companhia ali fundassem casa e fizes- sem assento, por isso nunca intentaram tornar a ela, antes, se alguma vez ali iam ter, se retiravam logo, por lhes não serem pesados ou molestos. E tão grande tento traziam nisto os mesmos padres, que indo no ano de noventa e cinco o Padre Manuel da Veiga a Roma, por Procurador da Província da índia, expressamente lhe mandou o Padre Francisco Cabral, que então era Provincial, que nem por sua via nem da Companhia da Europa desse a Sua Majestade as cartas da fortaleza de Columbo, por ter notícia que nelas lhe pediam padres nossos para Ceilão. E sucedendo então sair o Padre Antonino Esquipano do cativeiro em que por algum tempo esteve em poder de Dom João o alevantado, e, vindo ter a Columbo, querer a mesma cidade retê-lo sem o deixar passar à sua primeira residência, o mesmo Padre Provincial entendendo que os padres de S. Francisco não tomavam bem sua ficada, o fêz logo sair da cidade por evitar contendas. O mesmo aconteceu no tempo do Conde Almirante, \ izo-Rei, e sendo capitão de Columbo Dom Pedro Manuel, que desembarcando ali dois padres da Companhia que vinham de Malaca para Goa, os moradores de Columbo os receberam com muito amor e caridade e lhes fizeram tanta fôrça que ficassem ali, que chegaram a os encerrar na igreja até o navio dar à vela; mas os padres se valeram do capitão para que os desimpedissem, sendo-lhes neste requerimento intercessores os mesmos padres de S. Francisco que pro- curavam sua partida daquela terra. Porém sem embargo de tudo isto e por mais repugnância que os nossos padres sempre tiveram de ir morar em Ceilão só * pelo respeito acima dito, »fi.73v. sucedeu no ano de 602 que indo o Bispo de Cochim, Dom Frei André (que e religioso da mesma ordem de S. Francisco) visitar aquela ilha de Ceilão por ser de seu distrito, pelo que nela viu e palpou e disposição que achou na terra para bem de muitas almas, se deu por obrigado em consciência, como pastor que é daquelas ovelhas, a fazer tudo quanto fôsse possível para que os padres
  • 326 Das coisas de Ceilão de nossa Companhia fossem fazer assento naquela ilha e entender também na conversão dos naturais dela. E logo por cartas o mandou pedir a Sua Majes- tade e em presença o tratou com o Vizo-Rei e Arcebispo de Goa; e porque havia já dois ou três anos que Sua Majestade tinha escrito ao Conde Almirante, Dom Francisco da Gama, que então era Vizo-Rei, que por quanto tinha enten- dido serem necessários mais operários para a conversão da gentilidade de Ceilão, por não bastarem os padres de S. Francisco, lhe mandava que comunicasse este negócio com o Arcebispo e inquisidores e mandassem àquela ilha os religiosos que julgassem ser necessários, por virtude desta carta, pareceu ao Vizo-Rei, Arcebispo e Bispo que deviam mandar lá mais obreiros e que fossem da Com- panhia, os quais logo todos três o pediram ao Padre Visitador e Provincial, que logo por lhes obedecerem mandaram quatro padres e depois outros dois com largas patentes do Vizo-Rei em nome de Sua Majestade e do mesmo Bispo diocesano de Cochim, para que pudessem prègar o Evangelho, sem ninguém lho estorvar. Foram os nossos, e chegando a Columbo os recebeu tôda aquela cidade e povo com extraordinárias mostras de alegria e consolação, e sôbre todos se esmerou nesta parte o capitão general, Dom Jerónimo de Azevedo, o qual tomou à sua conta não sòrrfente a defensão dos padres, mas também sua sustentação corporal, dando-lhes mui liberalmente todo o necessário e fazendo-lhes à sua custa a casa aonde haviam de morar, e a câmara lhes ofereceu qualquer sítio que quisessem na cidade e que mais lhes contentasse para o colégio, ainda que • Fi.74. fosse nas casas de cada um dêles em particular, que de * mui boa vontade as largariam; porém o capitão mor foi o que com o parecer dos padres escolheu o sítio mui acomodado e à sua custa o comprou e mandou cerrar. Os padres, para corresponderem à obrigação em que o amor dêste povo os tinha posto, começaram logo a se empregar em seu serviço, prègando e confessando e ensi- nando os meninos assim a ler e escrever como latim; e o Reitor do Colégio tomou à sua conta as doutrinas que foram tão agradáveis a todos, que o mesmo capitão e grande parte dos soldados e casados a iam acompanhando pelas ruas, e todos os nossos se ocupavam também em aprender a língua chingalá, para aproveitarem aos naturais da terra na conversão dos infiéis. Andando os nossos neste fervor, sucederam grandes contradições e tem- pestades para que não fossem por diante, mas foi Nosso Senhor servido que todas por derradeiro amainaram, com chegarem de novo cartas de Sua Majes- tade ao Vizo-Rei e Arcebispo, em que expressamente lhes mandava dessem ordem como os nossos fossem à ilha de Ceilão a entender na conversão daqueles infiéis e ajudar os padres de S. Francisco, que já lá andavam; e assim, em execução dêste mandato de Sua Majestade, para que uns religiosos se não encon- trassem ou embaraçassem com os outros, o próprio Bispo de Cochim, a quem pertencem estas almas, dividiu a ilha pelo meio de Leste a Oeste começando do rio de Caimel, ficando à Companhia a banda do Norte e aos frades a do Sul. Começaram logo os nossos a entender na fábrica das igrejas em lugares principais, e já tinham feitas três, uma em Caimel, outra em Madapé, outra em Chilau, ajudando-os sempre os moradores da terra com muito amor; e indo com este fervor e com grandes esperanças de muito fruto (porque só em Chilau onde
  • Das coisas de Ceilão 327 antes não havia mais que sete cristãos, tinham já dispostas passante de cinco mil almas para se baptizarem), de improviso, por indústria de Dom João ale- vantado, se levantou quási tôda a ilha contra os portugueses, quando êles * menos #fi.74»- o cuidavam, que por isso lhes foi este levantamento tanto mais prejudicial quanto menos o imaginavam. E como foi tão repentino, tiveram os nossos padres que andavam na cristandade, muito trabalho para se porem em salvo, passando muitos perigos em várias passagens de rios mui furiosos, levando sempre nas costas os inimigos. Mas quis Nosso Senhor que depois de muitos transes e apertos em que se viram, chegaram a Columbo. Neste mesmo tempo dois padres que andavam no arraial também tiveram matéria de muito merecimento, porque dia de Nossa Senhora das Candeias, tendo o general com sua gente tomado aos inimigos com muita indústria e esforço a tranqueira de Balane, que estava às portas de Candia, e com ela muita artelharia, depois de estar ali quatro ou cinco dias arrebenta o alevantamento da ilha por todas as partes com tanta fúria, que foi necessário retirar-se o próprio general com o exército à Malvana, o que não pôde fazer sem muito trabalho, porque vieram por espaço de quinze dias pelejando por lugares muito ásperos, matos, rios e terras alaga- diças, padecendo grandes trabalhos e fomes, até que chegaram a Columbo, onde como todos os padres se ajuntaram na quaresma, tiveram mais lugar para ir refazendo casas e igrejas, não havendo já as contradições que no princípio; e com as prègações e confissões e mais exercícios santos é coisa maravilhosa o fruto que se faz naquela gente e quanto vão ganhando as vontades, assim dos portugueses como dos naturais. Estava prêso um chingalá, a quem o capitão quere já mandar lançar no mar, mas um padre lhe pediu a vida e a alcançou, entregando-lho o capitão, ao qual logo encaminhou o padre para sua terra, aonde chegando o gentio e contando aos seus os bens que os padres lhe fizeram, espa- lhando-se isto pela comarca, foi tal o conceito que fizeram dos padres, que quando os encontram, se debruçam por terra fazendo uma grande reverência para aquela parte onde os vêem. Depois veio o mesmo gentio que fôra livre da morte, com vacas, galinhas e outros refrescos, não se fartando de se botar aos pés * dos padres, dizendo que êle com tôda sua gente se haviam logo de .fi. 75. fazer cristãos e servir aos padres tôda sua vida. E o mesmo Dom Fernando, que é natural da terra, capitão de muita gente nesta conquista, e peleja pelos portugueses com muita lealdade, havendo de tomar o hábito de Cristo não quis outros padrinhos senão os padres, com os quais trata com muito amor e con- fiança.
  • COISAS DO REINO DE TRAVANCOR CAPÍTULO XIII Do que se fê\ no colégio de Coulão e reino de Travancor CRISTANDADE que pertence a êste colégio e suas residên- cias, se estende ao longo da costa desde Coulão até ao cabo de Comorim, onde há assaz matéria de merecimentos, assim por serem as igrejas muitas, a messe grande, os obreiros poucos, como também, porque nunca faltam perseguições de gentios, com os quais os padres perpètuamente andam em campo defendendo aos cristãos das contínuas vexações e tira- nias que lhes fazem. No colégio residem de ordinário três padres; um dêles é Reitor, outro se ocupa em ler a escola dos meninos e classe dos estudantes, o terceiro acode a quatro lugares de cristãos, instruíndo-os na fé e catequizando os que de novo se convertem. Outros cinco são os que andam por aquela costa e sertão com muitos e grandes trabalhos, de igreja em igreja, visitando aqueles cristãos que já são feitos, confessando-os e sacramentando-os e convertendo outros de novo, que seriam nestes dois anos passante de quinhentos e cincoenta adultos, em que entraram alguns moiros e outros de casta honrada e principal dêste gentio. Às trinta e cinco igrejas que havia pelo marítimo desta costa desde Coulão •fi.75v. até o cabo, se acrescentaram êste ano mais * sete pela terra dentro, que foi coisa de grande momento e glória de Nosso Senhor; e para que melhor isto se entenda, se há-de pressupor que até agora sempre a peregrinação dos padres nesta costa de Travancor não foi mais que ao longo da praia, sem entrarem pela terra dentro, assim por não haver obreiros, como também pelos gentios do sertão resistirem muito a isso. E porque muitos dos que se vinham fazer cris- tãos aos lugares da praia, onde sòmente andavam os padres, se tornavam para a terra dentro, onde tinham seu remédio de vida, sucedia por não poderem tantas vezes recorrer aos padres e à sua doutrina, irem-se esfriando de modo que cada vez os achavam mais rústicos na fé. Pelo que, há muitos anos que para se acudir a êste inconveniente, desejavam os padres grandemente ter tam- bém algumas igrejas pela terra dentro, para também por meio delas se conver- terem muitos de novo. Este ano foi Deus servido abrir o caminho tão franco para êstes intentos, como se podia desejar, tomando por instrumento ao Padre André Bucério, o qual há muitos anos que anda nesta costa e sempre nela se empregou no bem da cristandade com zêlo, edificação e fruto das almas; e pelo grande desejo que sempre teve de entrar pela terra dentro e romper com a
  • Das coisas de Travancor 329 bandeira de Cristo por aquele cerrado esquadrão da idolatria e via que isto não podia ser fàcilmente sem autoridade e favor do Rei de Travancor, buscou modo com que se insinuou de tal maneira com o mesmo rei e seus privados, dando-lhe Deus notável graça com êles, que com muita facilidade houve do rei licença para fazer pela terra dentro as igrejas que desejava, e chegou a tanta amizade com o mesmo rei, que alcançou dele também fazer uma igreja dentro de sua mesma fortaleza de Caicoulão, na qual, dia da conversão de São Paulo, que é o seu orago, se pôs o retábulo e disse a primeira missa; e foi de muito momento esta igreja, porque com ela tapa agora El-Rei a bôca aos gentios moradores das outras cidades que impediam com grande contradição alevantarem-se nelas igre- jas, porque, quando se queixam ao rei, lhes * dá esta resposta: j Se eu tenho • fi.76. igreja em minha fortaleza e disso não procedeu algum inconveniente, quanta mais razão é que vós outros as deixeis fazer nas vossas terras! Ao que êles não teem que responder. E porque a esta igreja que se fêz dentro na fortaleza de El-Rei, não podem os cristãos concorrer quando querem, houve o padre licença dele para fazer outra fora da fortaleza, para a qual uma velha devota deu uma horta, onde havia já três ou quatro anos que tinha feita uma capelinha, e por se começar nas oitavas da Assunção de Nossa Senhora, lhe ficou a mesma festa por orago, e no derradeiro domingo de Agosto se disse a primeira missa com grande solenidade e concurso doutras povoações vizinhas, havendo no mesmo dia alguns baptismos. Mas não passou um mês inteiro depois disto quando Deus quis mostrar a constância desta velha e mais cristãos. Porque estando El-Rei ausente, uma de suas mulheres e um seu irmão cujos vassalos eram aqueles cristãos, por se lhes não conceder uma coisa que injustamente pediam, chegaram a tanta indignação, que mandaram aos cristãos que deixassem de o ser e pusessem sôbre si certo sinal com tinta, que o é de serem gentios, pondo-lhes muitos medos se o não fizessem e principalmente à velha que tinha dado a horta para a igreja. Porém ela zombando de tudo dava graças a Nosso Senhor por ter ocasião de padecer pela Virgem Nossa Senhora e seu Filho, e isto dizia diante dos mesmos gentios com que os provocava a maior raiva e furor. Os mais cristãos e o principal entre êles que era ainda- catecúmeno responderam que ainda que mandassem matar dêles os que quisessem, não haviam de tomar aquele sinal, porém no mais que não fôsse contra a lei de seu Deus, lhes obedeceriam, pois eram seus vassalos; mas neste comenos veio El-Rei e apa- ziguou tudo. As outras igrejas se fizeram na comarca de Nainaro, que é terra que corre ao longo das serras de Comorim pela banda de Travancor, na qual comarca há vinte povoações grandes; e para que se saiba mais miudamente o modo como estas igrejas se fizeram e a glória de Deus e de seu santo Nome, confusão do demónio e dos gentios, que * desta obra resultou, poremos aqui um sumário »fi. 76V. de várias cartas que o Padre André Bucério escreveu aos Padres Provincial e Reitor de Coulão, donde tudo se poderá intender. Diz assim numa. Chegámos segunda-feira depois da Epifania a esta terra; quis-me logo aproveitar da licença que tinha de El-Rei para fazer a igreja em Cotate (a qual é uma cidade de muito trato, três léguas do cabo de Comorim); para isto mandei que em todos os lugares onde tínhamos madeira cortada, a lavrassem e fizessem prestes, 42
  • 33o Das coisas de Travancor chamei carpinteiros e fiz armar a igreja e casa, e véspera de S. Antão me veio recado de Ciliapula, maniagar (i) de Cotate, que chegasse lá ao dia seguinte, que êle também viria ao pôr o esteio para se fazer a igreja e entregar-me as hortas que El-Rei mandava. Disse missa muito de madrugada; os cristãos de Rachimatão e Pariabar levaram a casa de madeira, os de Manacuri levaram a cruz que era de um pau de teca, a maior e mais formosa de quantas vi, os de Paião com alguns chavas levaram a armação da igreja. Com todo este fato e com boa parte dos cristãos me pus nas hortas, que El-Rei me mandava dar, esperando pelo Ciliapula que nunca acabou de vir, até que sôbre a tarde me mandou um recado, que saído de Caicoulão encontrara um adivinhador que lhe dissera que até passar seis ou sete dias não era bom ir-se pôr em uma casa nova que tinha feita, nem sair-se de Caicoulão, e que por isso me mandava um seu irmão qne suprisse suas vezes e que me entregasse as hortas e pusesse o esteio. Senti e arreceei isto muito por me constar que êste irmão do Pula a petição dos cavaluquares gentios tinha por vezes procurado impedir esta igreja e no mesmo dia escrevera a seu irmão que os povos queriam despovoar aquela terra, se ela se fizesse. Porém com tudo isto, êle fez o que El-Rei mandava. Arvorámos a cruz, pusemos o esteio da igreja, comecei a armar a casa e no domingo seguinte disse a primeira missa e baptizei quatro irmãos, filhos de um gentio que ficou catecúmeno. E em cinco dias que ali estive, íoi tanto o con- • fi. 7;. curso da gente que vinha ver a novidade da igreja e ao padre que * nunca os mais deles tinham visto, que não davam lugar de poder rezar nem comer, por estar cercado dêles. Pasmavam de ver o breviário e de verem um homem branco falar a sua língua malabar, de ouvirem dizer que não trazia nem tinha mulher e doutras coisas que preguntavam. Comecei a falar com os gentios das coisas de nossa santa lei; ficavam tão satisfeitos, que no cabo da prática diziam não haver outra lei senão a nossa. Vinham entre eles uns que eram mestres de suas cerimónias; êstes fizeram muitas preguntas curiosas, uma, se havia de tornar a nascer o homem; se os que iam ao inferno, haviam de acabar aquelas penas; se se podiam saber as coisas futuras, como quando haviam de cair as estrelas; se havia na nossa lei alguma oração para ressuscitar mortos de peço- nha; por que razão havia doenças; se era melhor estarmos sempre sãos; se era bem, fazer esmolas e outras semelhantes. E com a resposta que lhes dei a tôdas estas preguntas, ficaram tão satisfeitos, que julgavam de mim ser um grande letrado, e diziam que, por eu ter tanto saber, cometera uma coisa tão nova, como era ir fazer igreja naquela cidade onde nunca a houve. De maneira que os curiosos com estas práticas e os mercadores com lhes parecer que, tendo ali igreja iriam lá muitos portugueses tratar, e êles teriam mais favor pelo mar em suas mercancias, os mecânicos com esperarem que fariam muito proveito em seus ofícios com os que lá fossem, ficaram mui contentes. O dia que começámos esta igreja, me trouxeram uma criança doente que baptizei, a qual dali a poucos dias se foi gozar de Deus, o que tive por mui singular prémio dos trabalhos que passei em a fazer. Tinha êste menino uma velha, sua bisavó, já decrépita e cega e ainda gentia, a qual tinha prometido (1) Nl.: Mandiaguar.
  • Das coisas de Travancor 331 que, como houvesse igreja, se faria cristã, pelo qual me apressei a dizer missa nela, como fiz no primeiro domingo da Quaresma, ao que acudiram grande número de cristãos. Acabada a missa que disse às portas fechadas por causa dos muitos gentios que queriam entrar, as mandei abrir, e entraram todos, tirando seus panos da cabeça em sinal de reverência, e lhes fiz * uma prática «F1.77T. de como não há mais que um só Deus, ao qual esta igreja estava dedicada, o que êles muito folgaram de ouvir; e todo este dia se gastou em várias práticas que se faziam aos gentios que concorriam, e em catequizar a velha acima dita com outros seis que se baptizaram. A velha assim como era de maior idade que todos, assim se avantajou na devoção à lei e à Virgem Nossa Senhora cujo nome lhe pus, a qual ela depois muitas vezes chamava, encomendando-se e entregando-se tôda a ela. Com a velha se baptizou um seu neto de três anos, que todo andava carregado de coisas e nóminas dos pagodes, o qual tudo trocou de mui boa vontade por uma cruz que lhe pus ao pescoço. Emquanto eu andava nestas ocupações, muitos cristãos se ocupavam em aparelhar um teatro para uma representação do Rico avarento, que se havia de fazer (meio mui usado nestas cristandades para se lhes intimarem as verdades, e êles as ouvirem com maior curiosidade e atenção), a qual se fêz naquela tarde, estando presentes mais de quatro mil pessoas, os mais dêles gentios de diversas castas, e todos ficaram mhi satisfeitos, e por muitos dias não falaram noutra coisa. E particularmente se espantaram de haver tão grande concurso de gente sem brigas, em coisa feita por um estrangeiro e em cidade onde nunca há ajuntamento para ouvir uma cantiga, que se não vejam brigas. Não tardou porém muito o demónio, que não manifestasse sua inveja ao bom sucesso que as coisas levavam; porque uns brâmanes, que são ministros do pagode de Simentirão, que é outra povoação bem grande, vendo o concurso da gente que acudia à nossa festa c dedicação da igreja de Cotate, temendo que com grande ignomínia do seu pagode aconteceria o mesmo na sua cidade, des- fizeram uma ermida que os cristãos ali tinham começado. Avisado eu disto me queixei logo ao rei, o qual estranhando o caso prometeu de lhe dar o remé- dio daí a poucos dias, que havia de ir a Simentirão fazer certas devoções ao mesmo pagode; pelo que, entretando fiz prestes o apa*relho para a igreja e .Fi.78. cruz, e aos 8 de Março, estando já lá El-Rei, me mandou chamar com deter- minação de logo em sua presença fazer começar a igreja e levantar a cruz que eu tinha aparelhado. Porém, estando El-Rei dentro do pagode com os brâ- manes em suas devoções, muitos daqueles povos se amotinaram dizendo que, se êle tal mandava, se haviam de ferir e matar e matar também uma velha que já para isso traziam. Os brâmanes por outra parte da mesma maneira repugnavam (t) e diziam que, se a igreja se fizesse, a devoção do pagode iria cada vez mais em diminuição, pelo que êles o encampavam a Sua Alteza e se queriam ir para outra parte. El-Rei, como naquele dia estava mui devoto e afeiçoado ao negro pagode e juntamente de caminho para Cochim, não quis na despedida deixar os seus brâmanes desconsolados, e havendo que era melhor por então dar lugar ao furor dos gentios e esperar melhor ocasião, me mandou (1) Nt.: Repunavam.
  • 332 I { Das coisas de Travancor chamar e deu sua palavra que daí a dez dias, sem falta, a igreja se faria e que portanto me não desconsolasse, mas antes, já que tinha aparelhada a madeira, que em tôdas as outras povoações de suas terras que me parecem bem, fizesse igreja e arvorasse a cruz, e mandou a Coriapula, seu privado, que pusesse isto em execução. Porém os Pulas, que são os privados de El-Rei a grandes nossos amigos, ficaram mui sentidos e corridos de se não efeituar logo a fábrica da igreja, e Ciliapula me mandou dizer que de afrontado me não vinha falar; o Coriapula puxou pelos bigodes dizendo que, se se não fizesse aquela igreja em Simentirão, jurava que os havia de mandar rapar, e que se por via de El-Rei se não fizesse, que êle tomava à sua conta de peitar aos dois brâmanes princi- pais, para que o não estorvassem, e me pediu que pusesse impedimento para não vir peixe da praia a Simentirão, que não é pequena vexação para eles. Emquanto estive em Simentirão me agasalhei no alpendre do Coriapula e pas- sámos o dia em ler algumas vidas dos santos pelo Flos sanctorum que anda impresso em língua malabar, e dois cantores gentios eram os lentes. Leram a vida de S. Bartolomeu e um pedaço da vida de S. Pedro e tôda a vida de Santa Cristina e concluíram os lentes, dizendo um dêles que, se os brâmanes • Fi. 78 *. ouvissem aquelas coisas, se haviam de * fazer cristãos e que nós éramos os que acertávamos em adorar um só Deus, e que eles andavam errados em misturar tantas coisas. Eu os ia ajudando, principalmente em lhes intimar e declarar mais as coisas de nossa santa fé. Pasmavam de ver o breviário, e tomando-o nas mãos me preguntavam como se fazia, como rezavam, que imagens eram os registos e de tudo se maravilhavam. Temperou-me Nosso Senhor esta mágoa que tive, de não fazer a igreja, com outra consolação que logo me deu, porque nesta conjunção me veio falar o maniagar das terras do naique, que estão perto do cabo, dizendo que soubera da contradição que os de Simentirão puseram para se fazer a igreja, e que êle mesmo se me vinha oferecer para me levar pelas terras de sua jurisdição e me fazer tôdas as igrejas e levantar as cruzes que eu quisesse, e que êle próprio me ajudaria a persuadir aos gentios que se fizessem cristãos. Agradeci-lhe muito os oferecimentos e espero em Nosso Senhor que pelo tempo em diante tenham efeito. Entretanto, para que o demónio não ficasse vitorioso, entendi em fazer outras igrejas, para as quais El-Rei me tinha dado licença e gente que me ajudasse; uma foi em Matadavalur, que é uma cidade grande cercada de seis ou sete povoações em que há cristãos, para que de tôdas as partes pudessem acudir mais fàcilmente a esta. Houve grande contradição dos gentios, mas veio logo uma ola ou carta de El-Rei, em que mandava que ninguém contradissesse, antes todos ajudassem a fazer a igreja, porque o padre não era malfeitor, antes era seu padre e seu amigo, e que por isso lhe dera igreja na sua fortaleza e em Cotate. Não se aquietavam de todo com isto, antes se foram queixar diante de El-Rei; porém tornaram bem repreendidos e arrependidos. Deu-se tal pressa à obra, que começando a nove de Março, como a gente que nela andava era muita, assim cristãos como gentios, e trabalhavam de noite e de dia, quando veio ao dia da Anunciação de Nossa Senhora, a capela estava coberta e eu disse nela a primeira missa e fiz prática a bom número de cristãos • fi.79. que concorreram das povoações vizinhas e bapti*zei algumas crianças. Deti-
  • Das coisas de Travancor 333 ve me aqui até sexta-feira de Endoenças e naquele dia temperámos as saudades dos sepulcros e devoção das cidades da Cristandade com levantarmos uma for- mosa cruz de treze côvados, a qual pusemos diante da igreja em um lugar onde antes estava outra mais pequena. Com a vista desta cruz desfizeram os jogues um pagode que estava defronte, e se toram dali. A principal ajuda que tivemos na fábrica desta igreja, foi a que nos deu um belala honrado, gentio, o qual quanto pôde trabalhou por nos dar todo o aviamento, assim para cobrir e acabar a igreja e casa, como para a cruz, ate querer desfazer uma casa sua para tirar um pau de teca que nos faltava para os braços da cruz; mas, porque lha não deixámos desfazer, não se aquietou até o achar por outra via. E assim com a palavra, como com a fazenda, nos foi este bom gentio de grande momento, oferecendo quanto tinha, em serviço da igreja; e porque os povos vizinhos gentios se deram por agravados disto e tra- taram de o castigar, lhes respondeu mui afoitamente que havia muitos anos devia aquilo aos padres e que não havia de deixar de o fazer. E assim, depois da igreja feita, continuou com muita devoção, vindo cada dia três vezes a ela a tomar água benta e fazer reverência às imagens e retábulo. E os povos que dantes o perseguiam, lhe vieram depois pedir perdão, louvando-lhe muito o que tinha feito, e por êle me mandaram também pedir perdão a mim de me quere- rem impedir tão boa obra, que por isso entendiam que não chovia em suas terras e que me rogasse quisesse pedir a Deus que chovesse. Respondi-lhes que assim o faria, e foi Nosso Senhor servido, para acreditar nossà santa Fé e Igreja, que logo chovesse por muitos dias. Estando as coisas nestes termos, foi por aquelas partes Coriapula, privado de El-Rei, e preguntou a um cristão honrado se pusera já o padre as cruzes em Varagém e Atalicuri, lugares principais, como El-Rei tinha concedido em Simen- tirao; e sabendo dêle que o não fizera por não ter mais encontros com os povos natares (i), ficou um pouco suspenso, o que vindo à notícia do padre pelo pró- prio cristão, se ani#mou a o fazer e, chamando logo os carpinteiros, com can- »fi.79t. deias e fachas acesas mandou acabar de noite as duas cruzes de boa grandeza, que na mesma fêz levar a Varagém que está um quarto de légua de Gotate, aonde foi ter ó Coriapula, que logo mandou arvorar uma delas em um alto que se descobre de bem longe. E foi isto a nove de Abril, dia em que se fazia a festa da Anunciação de Nossa Senhora. No dia seguinte que foi à quinta-feira depois da Páscoa, dia em que na índia se festeja a solenidade do Santíssimo Sacramento, mandou o mesmo Coria- pula com Manuel Perião, um cristão honrado nosso, dois oficiais seus à povoação de Talicuti, com a outra cruz e lá a arvoraram com beneplácito dos belalas principais da terra, que também mandaram sua gente que ajudassem nesta obra, e trouxeram água para amolecer a terra e fazerem a cova em que se arvorou êste glorioso estandarte; juntamente, em uma horta, mandou pôr da parte de El-Rei um esteio para se alevantar aí a igreja, com que muito se alegraram os cristãos que ali viviam, e os gentios da mesma casta também aju- daram e deram esperanças de se fazerem cristãos. Algumas mulheres brâmanes (i) Nt.: Talvez, nafares.
  • 334 Das coisas de Travancor quando viram alevantar a cruz, com grande maravilha preguntavam que era aquilo, que se parecia com o seu caloete (instrumento de padecentes), ao que respondeu o cristão que era verdade, que também aquilo era instrumento de padecente, pois nêle morrera o Filho de Deus por salvar o mundo, e por isso era verdadeiro sinal dos cristãos. Levantadas estas cruzes nos lugares acima ditos, foi o padre àqueles povos no princípio de Maio de 6o3; levou consigo muitos cristãos da praia e outros, para o ajudarem na conversão daqueles gentios por serem seus parentes, e foi Nosso Senhor servido que lhe saísse mui próspera esta jornada, porque nela fizeram cem cristãos e ajudaram muito aos outros já feitos, que viviam por aquelas povoações, que como estavam tão afastados da praia não procediam com tanta edificação como eram obrigados. Perto de Matandabalur, em uma . fi.so. povoação chamada Andrevarão, vivia um velho honrado, gen*tio, o qual tinha dois pagodes pequenos de que era mui devoto, fazendo-lhes suas festas e rece- bendo as ofertas; veio a Cotate a um negócio, e falando com um padre lhe tratou o mesmo padre algumas coisas de Deus e depois por meio dos cristãos veio ouvir a prática à igreja, a qual acabada, disse que lhe fizera grande movi- mento em seu coração e que se queria fazer cristão, como fêz daí a alguns dias com sua mulher e filhos; depois levou o padre à sua povoação onde lhe entregou os dois pagodes que logo foram destruídos e postos por terra, e ao dia seguinte foi um criado de El-Rei com outro cristão e arvoraram em lugar dos pagodes uma formosa cruz e puseram esteio, para se fazer uma igreja de Santo André. Dois meses depois disto o mesmo velho chamado Pedro Fernandes adoeceu gravemente. Os gentios lho lançavam em rosto dizendo que adoecera por entregar os pagodes. O bom velho dizia que só sentia aquela doença por ser em tempo que os maus tomavam ocasião para falarem semelhantes coisas, mas que êle estava mui fixo e seguro no bem que tomara, e deixando-lhe o padre um crucifixo, que o tivesse ao pescoço no tempo da sua doença, o velho, vendo-se que acabava, chamou um filho seu e entregando-Ihe o crucifixo lhe encomendou que o guardasse como seus olhos até o tornar, a entregar ao padre; c estas foram as derradeiras palavras com que acabou e se foi receber os prémios de suas boas obras. Quando se levantou a igreja de Cotate, a dedicou o padre à Santíssima Trindade e pôs nela um retrato do Padre Francisco Xavier; e como este santo padre foi como apóstolo da índia e é tão famoso em toda ela pelos milagres que fêz em vida c faz depois da morte, é grande a devoção que todos lhe teem, assim cristãos como gentios, especialmente aqui nesta província da costa de Travancor e Pescaria onde êle em sua vida prègou e fêz tantas maravilhas, e por isso não deixaremos de contar algumas particularidades de coisas maravi- • fi.sov. lhosas que aqui obra e mercês que êstes novos cristãos * por sua intercessão alcançam de Deus. Um gentio honrado em Cotate, sendo doente de uma perna, por vezes fêz ofertas a seus pagodes para sarar; e não achando melhoria e ouvindo dos mila- gres que o Beato Padre fazia, se encomendou a êle e prometeu de ir à sua igreja. Deu-lhe Deus logo a saúde que desejava, e não só cumpriu a promessa, mas, em reconhecimento do benefício, êle e sua mulher se fizeram cristãos.
  • Das coisas de Travancor 335 Um cristão de Manaar, por nome Pedro, estando de caminho para a pescaria do aljôfar, prometeu uma missa ao Beato Padre, se achasse algum aljôfar grande; favoreceu Deus seu desejo, porque logo e em tempo de bem ruim pescaria achou uma formosa pérola que vendeu por muito preço. Outro cristão do lugar do Topo, onde veio ter a imagem do Beato Padre, sendo mui doente, lhe disse o Padre André Bucério que se encomendasse a êle; fê-lo com devoção e pro- meteu de ir em romaria à sua igreja de Cotate. Cumpriu a promessa, recebeu saúde. Os cristãos da praia havia muito tempo que não tomavam peixe; encomendaram-se ao santo e logo ao outro dia tomaram notável cópia dêle. Muitas pessoas que em seus partos estavam em perigo, encomendando-se ao Santo Padre, saíam bem deles, e algumas, por êsse respeito, se fizeram cristãos. Um velho de sessenta anos, mui dado à gentilidade, poeta e cantor entre os gentios, sendo já sua mulher e quatro filhos cristãos, não acabava de se render ao sagrado baptismo. Adoeceu gravemente inchando de pés e mãos, e sabendo dos milagres que o santo fazia, assim doente se foi à igreja onde está sua imagem, prometeu-lhe que se naquela noite lhe alcançava saúde, logo se faria cristão; na mesma noite se achou são, e logo pela manhã se veio à igreja com uma cantiga que êle mesmo compôs em louvor do santo, na qual relatava as mercês que dêle recebera. Pede logo também o sagrado baptismo. Dila- tou-lho o padre para mais provar sua constância e para que primeiro fôsse bem instruído nas coisas da fé e depois o baptizou no mesmo dia do Beatro Padre, pondo-lhe por nome Francisco da Cruz. Todos os que conheciam * êste homem .fi.8u e a pertinácia que dantes tinha, ficaram maravilhados de sua conversão. E assim, com estas e outras coisas semelhantes cresce cada vez mais a fama do Santo Padre, não só entre os cristãos, mas também entre os gentios que com muita confiança acodem a êle a lhe pedir remedio em suas necessidades.
  • COISAS DA PROVÍNCIA DE MALABAR CAPÍTULO XIV Das casas e residências que a Companhia tem nesta província EM a Companhia em vários reinos desta província do Malabar dois colégios, que são o de Cochim e o que está em Vaipicota, povoação principal da serra dos cristãos de S. Tomé, e qua- tro residências, que são a de Santo André no reino de Mur- tete e a de Calecut anexas ao colégio de Cochim, a de Paliporto e Porcua anexas ao de Vaipicota. Em tôdas estas partes, além do que se faz com os portugueses e seus filhos nos lugares onde residem, como é principalmente em Cochim, tôda a mais ocupação dos padres é em conservar os cristãos feitos e fazer outros de novo, dos quais se baptizaram estes dois anos uma boa cópia deles não sem muitos trabalhos e moléstias que continuamente os padres padecem assim em andar peregrinando de lugar em lugar por calmas e chuvas e outras incomodidades, mas muito mais pelas perseguições com que os reis e senhores gentios muitas vezes perseguem aos cristãos e procuram impedir os que de novo se querem converter. Dos quais é o principal EI-Rei de Cochim, que abertamente se mostra inimicíssimo da lei de Cristo, até chegar a esbulhar de sua fazenda um •Fi.8iv. ariel honrado e rico que este * ano se convertera, por onde os outros gentios não ousam a declarar-se com liberdade para se fazerem cristãos, e com o exemplo dêste mau rei fazem também o mesmo outros senhores menores em suas terras. Um regedor seu, na igreja que os padres teem em Tumboli, tem proibido que ninguém se faça cristão sob pena de morte; e suspeitando que alguns gentios se queriam fazer cristãos, lhes mandou fizessem escritura pública na qual prometessem de nunca se fazerem cristãos, e que fazendo-se, perderiam tôda sua fazenda para a coroa. E na igreja de Catur fazendo o padre cristãos a dois gentios, vassalos do mesmo Rei de Cochim, outro regedor seu, num dia que o padre não estava na igreja, se foi a ela e forçosamente levou presos outros dois cristãos antigos, que o mesmo padre ali tinha. E em Santo André uma gentia poderosa, por se lhe não fazerem os seus moços cristãos, como faziam, mandou matar um à espingarda, e a outra mulher que já era cristã, levou por força a morar entre os gentios para que não vivesse conforme a lei de Cristo. Outros senhores esbulham os cristãos de quanto teem e lhes fazem muitas outras vexações para que desta maneira os façam retroceder ou façam odiosa nossa santa fé, e tudo isto a exemplo do mau Rei de Cochim. Porém não bastaram tôdas estas perseguições para muitos deixarem de se converter
  • Das coisas de Malabar 337 principalmente na residência de S. André. Os quais para que este ano mostras- sem aos gentios que não estavam abatidos com estas perseguições, se ajuntaram o dia de S. André que é seu orago, e com sua pobreza fizeram uma festa de tanta solenidade e aparato que os gentios (a quem movem muito as coisas exteriores) ficaram confundidos e os cristãos mui consolados. E para maior confusão do demónio e do mesmo tirano Rei de Cochim e de todos os mais gentios inimigos de Cristo, inspirou Deus aos padres do colégio de Cochim fizessem a mais solene festa e acto de religião e de mor glória de nossa santa fé que até agora porventura se fêz na índia. Esta foi uma procis- são com que receberam e festejaram as sa*gradas relíquias de uma parte da *fi. «2. camisa da Virgem Nossa Senhora e uma cabeça das onze mil Virgens e outras de outros santos que o Padre Vice-Provincial Alberto Laércio trouxera de Roma para aquele colégio. Celebrou-se esta festa no dia do orago, que é a Expectação do Parto; a procissão se fêz à véspera, e porque foi tão artificiosa e de tão singular devoção e aparato e louvor da Virgem, como se verá, não deixaremos de a pôr aqui tôda. Ia logo no princípio e diante de tudo sobre um grande andor, que levavam às costas doze homens, um monte mui natural que representava o monte Oreb, e sobre êle a sarça de Moisés ardendo sem se desfazer; seguia-se a bom e acomodado espaço a tôrre de David sobre outro andor, que pôsto-que não era de fino jaspe, todavia a matéria de que o fizeram o representava mui bem: desciam pendurados das ameias muitos escudos mui bem pintados de oiro e vários lavores com muitos elmos e capacetes com muita diversidade de armas, omitis armatura fortium, que ainda que um formoso letreiro os não nomeara a todos, ela por si bem se deixava conhecer; ia tôda embandeirada com muitas bandeiras e pendões, coisa muito para ver; depois de algum espaço, sôbre outro grande andor que levavam 18 homens, ia o trono de Salomão, de obra mui custosa e lustrosa, feito com seus 12 degraus, em que iam os 12 leões mui naturais e Salomão assentado em uma cadeira de brocado, figura do tamanho de um homem, que em peças levava trinta mil cruzados, coberta por cima com uma meia laranja que ficava sustentada em quatro colunas, feitas ao modo de pirâmides, obra mui linda e custosa, e as pirâmides subindo com as pontas mais acima tinham na ponta cada uma sou globo doirado e em cada um seu Anjo assentado, um com uma letra que dizia Aurora consurgens, outro com outra Pulchra ut luua, o terceiro Electa ut sol, o quarto Terribilis ut castrorum acies ordinata. Tinham tôdas estas charolas pouco mais ou menos 18 palmos de alto, e conforme a isto o mais. Seguia-se no quarto lugar outra charola que exce#dia as dianteiras, assim em grandeza como na obra que era sôbre »Fi.8ar. tudo formosa; seria de vinte e dois palmos de alto; levantavam-na 24 homens; no meio desta charola e em alto ia assentada Santa Ana com Nossa Senhora em os braços, sendo menina. Tinha a charola sete colunas, e nos vãos delas iam sete virgens capitaneadas por Santa Ursula que levava a dianteira e na mão um guião de damasco carmesim franjado de oiro; iam tôdas estas virgens rica- mente vestidas e guarnecidas de muito oiro e pedraria que importaria vinte mil pardaus. O respeito de ir esta charola foi por ser um dos altares da igreja da invocação de Santa Ana e das onze mil Virgens; e em respeito de outro altar 43
  • 338 Das coisas de Malabar ia a quinta charola de JESUS, feita ao modo de pirâmide dividida como em três estâncias, e no alto, cercado de um formoso resplandor, ia um formoso Menino JESUS posto sôbre um globo doirado que três Anjos sustentavam aos ombros; o menino era de bom tamanho. A primeira estância logo aos pés dos Anjos era feita de nuvens semeadas de muitas estrêlas e muitos Anjos ao redor ajoelhados todos diante do Menino; na segunda iam todos os estados do mundo também ajoelhados, e na terceira pintado o inferno com muitos demónios ao redor, e tudo figuras de vulto; também de joelhos e num canto da charola ficava São Paulo com uma letra pendurada da mão que declarava atenção dizendo: In nomine Jesu omite gemi Jlecíaiur, ccelestium, teirestrium et infernorum; noutro canto lhe respondia Salomão com outra letra que dizia: Oleum effusum nomen tuum. A estas duas figuras respondiam nos outros cantos da charola outras duas, scilicet os dois profetas Abacuc e Zacarias, êste com aquelas palavias do seu capítulo 3.°: Vidi Jesum, Sacerdotem magnum, o outro com as do seu cântico: exult abo in Deo Jesu meo; tôdas estas quatro figuras iam mui bem vestidas e conformes ao representado; levavam esta charola 12 homens. Depois destas charolas vinha a Virgem Nossa Senhora sôbre um mui grande e formoso carro •F1.S3. triunfante que tinha mais de trinta palmos de comprido e a imagem da Se*nhora em altura que quási se igualava às janelas. A traça e invenção do carro foi de tanto artifício que (quási não fazendo a gente caso das outras coisas, sendo tôdas mui dignas de aparecer e serem vistas) arrebatava assim os olhos de todos; ia feito sôbre quatro rodas, cada uma das quais era feita de quatio grandes conchas que se vinham a unir umas com as outras e tôdas cobertas de oiro e prata e de diferentes côres; as mais partes do carro iam com mil lavores e louçaínhas que para ficarem mais realçadas, a certos espaços levavam suas carrancas e na proa dêle uma mais notável, da boca da qual saía uma grande argola em que se prenderam algumas peças de seda, pelas quais puxando sete planetas pareciam que iam levando o carro, posto-que debaixo ceita gente o meneava; por ser a máquina grande, no alto deste carro se fêz um trono a modo de nuvens semeadas de muitos Anjos e em cima do trono a lua e a Senhora com os pés sôbre ela; e ?inda que a imagem não era de grande esta- tura, ia com tão grande majestade que bem parecia ser Rainha dos Anjos; na parte que lhe ficava por diante ao pé do trono ia um Anjo do apocalipse c pegado com êle S. João Evangelista, figuras vivas, mas mui ricamente vestidas, que a certos passos falavam; na parte posterior ia como vencido o dragão de sete cabeças, mui artificiosamente feito e mil outras coisas várias, que nem tudo se pode escrever. Atrás do carro ia uma charola mais meneável, mas não tanto que não fossem necessários para a levarem oito padres e ainda com dificuldade; ia muito bem guarnecida por irem nela as relíquias que novamente trouxe de Roma o Padre Vice-Provincial. No meio da charola se levantava uma pirâmide »oberta de tela de oiro guarnecida pelos cantos com muitas rosas do mesmo oiro; pelas faces das pirâmides iam encostados oito ossos de santos mártires e nos quatro cantos da charola iam em quatro salvas ricas quatro cabeças mui custosamente concertadas, uma delas de S. Zózimo, Papa e Confessor e outra de S. Lucrécio Mártir, outra de uma das onze mil Virgens, outra de um mártir •fi.83r. teba*no; no último lugar se seguia o relicário que acima cfisse em que ia a
  • Das coisas de Malabar 33g relíquia da Virgem Nossa Senhora debaixo de um rico pálio nos mãos do nosso Padre, Bispo de Angamale, Dom Francisco Ros. Acompanharam esta procissão o cabido da Sé e alguns dos cónegos com suas capas e maças, e muitos reli- giosos, assim de S. Agostinho como de São Domingos, o capitão e tôda a mais gente da cidade, que não cabiam pelas ruas nem janelas; o Bispo de Cochim pôsto-que não foi na procissão por andar enfermo, veio a nossa casa e de uma janela do coro a esteve vendo. Iam mais na procissão uma dança de meninos vestidos como Sumos Sacerdotes, todos com seus turíbulos nas mãos pendu- rados de cadeias de oiro, que dançando muito bem iam incensando a imagem da Senhora, verdadeira arca do testamento. Outra dança ia de meninos que dançando a certas mudanças iam armando Árvore de Jessé a seu compasso até virem arrematar encima com uma imagem da Senhora. Ia mais uma folia de muito boas vozes dos cantores da capela muito bem vestidos, de maneira que em tôda a procissão, que era bem comprida, não havia onde pôr os olhos que os não levasse após si; nem os reinóis quiseram faltar com a devoção que devem à Senhora, porque sendo isto a tempo que as naus do Reino estão nesta barra a carga, se ajuntaram alguns e fizeram uma dança da moirisca, que por ser coisa que cá nunca se usou, pareceu bem e contentou a todos. Saindo assim a procissão com todo este aparato, chegando a certo lugar, estava o primeiro passo, que era a escada de Jacob: Deus Padre encima no topo, Jacob ao pé e muitos Anjos vivos pela escada, e com os ditos que repre- sentavam, bem entendeu o povo todo o que significava; continuando mais àvante, estava outro passo em que se representou o trono de Salomão. O terceiro foi o da Sarça de Moisés. O quarto Civitas refugii, no qual um Anjo ofereceu à Senhora cinco nações principais em nome de todas as mais do mundo, que se metiam debaixo de sua protecção e amparo, e assim mais cinco me*ninos • que se acolhiam à Virgem, de um dragão de três cabeças que representava o mundo, diabo e carne. No quinto paradisus voluptatis, em o qual o Anjo que estava em guarda do paraíso com uma espada na mão se lançou aos pés da Virgem dizendo que ela era a porta do paraíso e a fonte com os quatro rios que dêle procedem. Em todos estes passos houve figuras que representavam muito bem. Saiu a procissão às três horas da tarde e recolheu-se já de noite, e com ser assim que se ajuntou grande número de tôda a sorte de gente, não houve alvorôto algum nem coisa que pudesse dar desgosto. Recolhida a pro- cissão, se puseram as relíquias em um altar no meio da capela-mor, às quais se foi a gente oferecer com mostras de devoção e piedade, e para isto estava a igreja tôda muito bem armada de uma armação mui vária e aprazível de sedas e painéis. Ao dia da Senhora se continuou a festa dizendo missa de pontifical o Bispo de Cochim, ministrando-lhe as dignidades e cónegos da sé. Prègou o Bispo de Angamale com muita aceitação e satisfação de todos.
  • 340 Das coisas de Calecut CAPÍTULO XV Das coisas que passaram em Calecut AO colégio de Cochim está também anexa a residência de Calecut, cidade real de Samorim, onde estão dois padres, a qual teve princípio das pazes que o Estado da índia assentou com êste rei por meio dos mesmos padres de nossa Companhia; e ainda que em todo êste tempo que há que ali residem, a conversão não foi muita, há porém esperança de haver de ser pelo tempo em diante, desde que Nosso Senhor fôr servido assegurar bem as coisas e funda- mentos destas pazes; e ainda que não houvera outro fruto mais que o da con- servação delas, se podia ter por mui bem empregada a residência dos padres • F1.84V. nesta terra, porque se tem por mui * provável que as pazes foram já quebradas e a guerra rota se êles ali não estiveram, pela muita desconfiança em que con- tinuamente os moiros desta terra procuram meter El-Rei acêrca dos portugueses, à qual os padres logo acodem e procuram de lha tirar desenganando-o das men- tiras e falsidades dos moiros. E é coisa maravilhosa e muita estima ver o grande crédito que êste rei dá aos padres e quanto se aquieta com tudo o que lhe dizem, porque por mais alterado que esteja e por mais desconfianças em que os moiros o tenham metido, acabado dos padres lhe dizerem o contrário, assim fica quieto como se nada tivera passado. Vai-se fazendo a igreja de pedra, com a qual se espera virão muitos ao baptismo, porque entenderão que com ela estão ali os padres seguros e firmes, e assim dizem muitos que como os portugueses forem morar àquela terra, então se hão-dé converter, porque terão abrigo nêles contra a perseguição dos gentios, e como se acabar esta igreja, diz El-Rei que logo dará licença para se fazerem outras duas, uma em Chalé onde já esteve uma fortaleza nossa, outra em Tanor, por o príncipe daquele reino a pedir instantemente; e pôsto-que os padres desejam muito fazer estas igrejas pelo fruto que se espera, é porém necessário acabar-se primeiro a de Calecut e não sair nesta parte do gosto de El-Rei. Por entretanto procuram os padres com tôdas suas forças dar notícia de Deus e de sua santa lei àquela gente assim a moiros como a gentios e des- cobrir-lhes a falsidade de suas seitas; para isto trabalhou muito o Padre Jácome Finício por aprender toda a substância da lei dos malabares, tomando por mestre um gentio mui versado nela que cada dia para isso lhe ia a casa, e descobrir a origem de seus deuses e pagodes, e tem alcançado tanto disto que já com muita facilidade, na metade das praças e lugares públicos de Calecut onde muitas vezes lhes prega, os confunde e faz ficar envergonhados dos desbarates e turpíssimos ritos que lhes descobre de sua seita e de seus pagodes; e para que se vejam •fi. 85. as ignorâncias grandes desta gentilidade, achou o padre em seus livros que * o que teem acêrca da criação do mundo é que Deus o fizera de um ôvo, o qual abrindo-se, ametade ficou terra e mar com rios, montes e animais, e a outra metade ficara céu, e que Deus pusera êste mundo sôbre a ponta de um boi, e porque o boi buliu e o mundo se inclinou para cair, lhe pôs um grande penedo para se sustentar; porém estas parvoíces lhes confuta o padre com muita facili-
  • Das coisas de Calecut 341 dade preguntando-lhes:
  • Das coisas de Calecut e de grande lume natural, o qual compôs novecentas oitavas contra os pagodes • FI.S6. e contra as cerimónias dos gentios e em que grandemente zomba de todos * seus desbarates e nelas trata juntamente da Providência de Deus, do Paraíso, do Inferno: e da Providência diz que Deus dá a todos o necessário conforme a qualidade de cada um e que está tão presente a cada um, como está aquele que tem a corda ao que pesca o aljôfar. Do Paraíso diz que consiste na vista de Deus; do Inferno que há de estar uma pessoa quatrocentos contos de anos pôsto no fogo e absorto nêle ficando sempre vivo; dos pagodes zomba e a cada passo chama aos brâmanes tolos e doidos. Enfim são tais que basta dizê-las ou lê-las para taparem a bôca aos gentios e destas, pôsto-que se não acham já tôdas, tem o padre escritas mais de trezentas, as quais nos lugares públicos e particulares muitas vezes lê aos gentios, com que os envergonha e confunde. E assim como por uma parte os convence com lhes descobrir suas ignorâncias e os desatinos de suas seitas e fealdade de seus pagodes, por outra lhes vai declarando e descobrindo também as verdades e formosura das coisas de nossa santa Fé, com que ficam tão maravilhados que não podem deixar de confessar ser tudo santo e bom. Outro meio de que o padre também usa para entrar principalmente com letrados e gente nobre e com aqueles príncipes malabares é o tratar-lhes da matemática, particular da esfera, por ser coisa de que muito gostam ouvir e dêles até agora mui pouco conhecida. E por aqui lhes vai metendo a prática das coisas divinas e é muito bem ouvido dêles, e muitos conhecem a verdade e zombam já de seus pagodes e abertamente dizem que tudo quanto até agora lhes ensinavam e diziam seus brâmanes é mentira e que a verdade é só a que o padre diz e prega, e andam alguns mui penetrados dela, mas não acabam de se render. A rainha e um filho seu estavam já tão ren- didos que não esperavam senão ocasião, principalmente a rainha, para uma noite vir à nossa igreja a receber o sagrado baptismo; mas andando nisto, mor- reu quási de súbito de uma doença que aqui deu como ramo de peste de que • fi. 86 v. morreram muitos e alguns * em vinte e quatro horas, e assim morreu esta rainha tão depressa que nem o padre soube de sua doença senão depois dela morta. CAPÍTULO XVI Dos cristãos da serra de Santo Tomé e descobrimento da serra de Sodomala NESTA serra que se chama dos cristãos de S. Tomé está o colégio de Vaipicota, a que estão anexas as residências de Porcua e Paliporto. Procura-se conservar esta gente na obediência da Igreja Romana a que poucos anos há foram reduzidos; nisto trabalha também de dia e de noite o seu bom pastor e Bispo, o Padre Dom Francisco Ros. Mas não cessa o demónio de inquietar êstes cristãos por meio dalguns que entre êles há, em cujos corações ainda tem pôsto o amor e afeição da sujeição babilónica, porque êstes instigados pelo demónio se levantaram êste ano contra seu prelado negando-lhe a obediência devida nem se querendo sujeitar a suas censuras, esperando que lhes viesse
  • Das coisas de Calecut 343 Prelado e Bispo de Babilónia a quem antes, diziam, queriam obedecer. Favo- recia esta desordem o Rei de Mangate defendendo aos rebeldes e não tratando com o respeito devido ao Padre Bispo. Acudiram porem pela fe e religião cristã os portugueses e o capitão que então era de Cochim, Cosme de Lafeita, o qual armou algumas máchuas e embarcações que andassem pelos rios e impe- dissem os mantimentos e lhes fizessem assaltos na terra, como muitas vezes fizeram, tomando-lhes algumas embarcações e queimando-lhes um pagode prin- cipal que êles muito sentiram. Foi esta guerra ocasião de não pouco trabalho e desinquietaçao aos padres que estavam no colégio de Yaipicota por estar defronte do reino de Mangate e só com um * rio no meio que os divide, e tam- *fi.s7. bém pelo pouco favor que tinham dos naires e regedores de Vaipicota, os quais pôsto-que às claras não ousavam de se manifestar contra os portugueses, contudo sentiam muito a perda do Rei de Mangate, o que bem se viu em um caso que sucedeu. Porque suspeitando o regedor de Vaipicota que a fortaleza de Cran- ganor fizera mal a umas embarcações que êle tinha mandado pelo rio acima, mandou alguns naires que trouxessem presos os cristãos e padres que achassem. E levando êles dois sacerdotes e um diácono de nosso seminário, o regedor os tratou afrontosamente de palavras e os não soltou até saber que nenhum dano fôra feito a suas embarcações por parte da fortaleza; sentiram os padres muito esta afronta e o Bispo que se tinha retirado para Cranganor mandou logo levar para lá parte dos meninos do seminário. Deu-se conta ao capitão de Cochim para que fizesse dar a devida satisfação, o qual acudiu logo e com tanto zelo tratou o negócio com o rei, que quási estava a pónto de mandar coitar a cabeça ao regedor; mas emfim se assentou que o rei e capitão levassem os colegiais de Cranganor ao seu seminário de Vaipicota e que o rei os tomasse debaixo da sua protecção e o regedor pagasse um elefante (satisfação que êles muito sen- tem e para nós é mui honrosa) e com isto ficaram nossas coisas mui acreditadas e honradas entre os infiéis, e os inimigos enfreados para se não atreverem a fazer semelhantes desacatos. Depois disto, aquietadas as coisas, visitou o Bispo muitos lugares de sua cristandade aonde havia mais de trinta anos que nunca fôra prelado e a gente estava tão necessitada que muitos não tinham já senão o nome de cristãos. Por onde, ainda que esta visita foi de grande trabalho, foi porém de muito maior fruto espiritual; também ajuntou concilio diocesano em Agamele, no qual pri- meiro que tudo se reduziram os rebeldes e excomungados, pôsto-que com mui grande resistência do demónio. Ordenaram-se coisas de muito serviço de Deus e bem particular desta cristandade gratificando * todos com sumo gôsto a pro- * fi.s7v. fissão da fé católica e a obediência ao Papa e a abnegação de suas heresias nestorianas e mais erros de que primeiro todos os seus livros estavam semeados, concluindo-se tudo com grande satisfação e quietação de todos e entregando os rebeldes o dinheiro da igreja que tinham em seu poder, aos oficiais e mordomos que todo o povo escolhera. Não foi menor o fruto que se fêz na residência de Porcua e de Paliporto; em Porcua há um lugar que foi povoação grande de moiros os quais o rei da terra mandou lançar fora e o deu a um português que querendo fazer nêle casa para sua habitação, derribou um mui afamado pagode que havia naquela terra
  • t 344 Das coisas de Calecut com bem de sentimento dos gentios. Ajudou-o nesta obra um cristão principal, o qual daí a poucos dias caiu doente tão gravemente que esteve desconfiado. Os gentios diziam que era castigo do pagode gloriando-se muito da vingança que seu pagode tomara; aconselhavam a mulher que fizesse voto ao mesmo pagode por seu marido e que logo sararia, mas ela por conselho do padre zombando dos gentios o fêz à Virgem Nossa Senhora a quem também o padre disse uma missa, e foi ela servida de alcançar ao doente perfeita saúde com grande alegria dos cristãos e confusão dos gentios. Entre os adultos que aqui se baptizaram de novo foi um deles um homem principal que estando mui enfêrmo e fazendo alguns votos ao pagode sem remédio, por conselho dalguns cristãos os fêz à igreja, e mandando chamar o padre, instruído na fé, recebeu o sagrado baptismo e ficou são. Outro que de novo se convertera tinha junto de sua casa uma casinha que antes lhe servira de pagode; depois de baptizado não deixava o demónio, raivoso de lhe ter saído das mãos, de o inquietar a êle e a toda sua casa, com pedradas, medos e fantasmas e outras visões temerosas. Deu conta ao padre, o qual mandou logo de todo derrubar a casinha, deitar água benta naquele lugar, levantar uma cruz e com isto desapareceu o demónio «fi.88. sem mais os tornar a inquietar. Uns gentios pesca*dores não podendo tomar peixe, depois de terem feitos muitos votos aos pagodes sem remédio, o vieram pedir ao padre; êle lho deu, que fizessem voto à igreja e deitassem água benta nas redes, o que logo fizeram diante de muitos cristãos, e foi Nosso Senhor ser- vido que tomassem muito peixe e alguns por isto se converteram. Vindo uma vez o regedor da terra e falando com o padre sôbre as cerimónias dos feiticeiros e do grande poder que tinham, o padre lhe disse que qualquer moço de nossa casa bastava para desfazer tudo aquilo e impedir ao demónio que não entrasse nos corpos como costumava; defendia o regedor sua falsidade e dizia que dese- java de provar se era verdade o que o padre lhe afirmava. Daí a cinco dias querendo fazer em sua casa estas superstições, mandou pedir ao padre que mandasse lá um moço, que queria ver se era verdade o que lhe tinha dito. Foi o moço, pôs-se a rezar o Pater Noster e o Credo, com o qual, por mais que os feiticeiros trabalharam e fizeram suas superstições, nunca já o demónio veio nem entrou em o corpo que pretendiam nem o fêz tremer como costumava. Pelo que os naires do regedor enfadados com isto zombando dos feiticeiros lhes deram muita pancada e os lançaram fora de casa. Em Paliporto se começou a residência dos nossos haverá dois ou três anos; e como foi feita a-pesar-dos gentios e moiros, foi até agora mui contrastada de uns e outros por se verem lançados fora das terras de que tinham posse tão antiga, principalmente por estar esta igreja em mui bom sítio e na barra de um rio a que os moiros que andavam pelo mar roubando, se acolhiam com seus navios. E neste ano particularmente um regedor gentio daquela terra o qual não queria que gentio algum se fizesse cristão, por um homem honrado se con- verter, o perseguiu muito mandando-lhe derrubar as casas, prender os parentes e fazer outras grandes injúrias, ajudando-se nisto dos moiros que foram grande parte dêstes insultos, o que não foi de pequena mortificação e pena para o • Fi.ssv. padre que aí morava, o qual avisando ao capitão * de Cochim, o capitão acudiu logo com muito zêlo, fêz tirar o ofício ao dito regedor, dar satisfação aos cristãos
  • Das coisas de Calecut 345 e que os próprios regedores de El-Rei dissessem publicamente a todos que os que se quisessem fazer cristãos não seriam por isso avexados. Porém depois disto, parte com a fortificação da igreja e casa dos padres, a qual ficou afor- moseando muito aquela povoação e assegurando-a como fortaleza dos reboliços dos naires e paraus dos moiros que muitas vezes chegam a esta barra, parte também com a presença de alguns portugueses que aqui veem fazer sua habi- tação e morada em casas de pedra que edificam, pelo que a povoação cada vez se vai fazendo mais formosa, fica já este lugar mui pacífico e seguro e espera- mos que seja uma boa cidade e de muito tráfego e mercancias e que se fará nela muita cristandade, porque os moiros o vão despovoando, que não é pequeno serviço de Deus ser daqui lançada tão má gente, para que a sementeira de Deus vá crescendo, e assim se baptizaram quarenta moradores da terra e se redu- ziram alguns que de fora vieram e andavam feitos gentios e os novos cristãos procedem bem e teem muita devoção às coisas de Deus e principalmente a uma formosa cruz que ali mandou pôr o Vizo-Rei Aires de Saldanha, à qual de contínuo, como é noite, acendem até os gentios muitas candeias, e a mesma cruz em si está bem ornada de pilares e ameias de pedra, e como está defronte do rio onde estão e moram muitos gentios, é de muita glória de Nosso Senhor, porque de contínuo veem os mesmos a oferecer-lhe suas esmolas e azeite para arder de noite, pelo interêsse que dela teem em seus trabalhos e doenças. Sendo informado o Bispo Dom Francisco Ros que pelo sertão adentro deste Malabar em umas serras estava uma casta de gente que vinha dos antigos cristãos de São Tomé, mandou do nosso seminário de Vaipicota a um diácono com um chatim por guia a descobrir esta gente. Os quais tendo caminhado cincoenta léguas chegaram ao alto de uma serra que se chama de Sodomala onde acharam um lugar povoado * de gente aos quais disseram que êles os iam «Fi.íg. visitar como a seus irmãos e parentes, o que causou neles tanta benevolência e amor que assim homens como mulheres e meninos, todos com lágrimas os abraçaram e agasalharam. Nenhuns rastos porém acharam nêles de cristãos, e porque a guia que os levou apertava muito com êles que se tornassem, não foram por diante. Era esta gente algum tanto branca, de alta estatura, barbas compridas, cabelo copado pela testa e por detrás lhe caia sobre os ombros; teem o necessário em abundância como arroz, legumes, carnes, muito gado e leite. Havida esta notícia, determinou o Padre Vice-Provincial, a instância do Bispo da serra, mandar lá um padre que soubesse bem a língua malabar e que fosse por via de Calecut por ser o caminho mais fácil e perto, e para isso escolheu o Padre Jácome Finicio que naquela residência de Calecut estava. O qual partiu dali acompanhado do Príncipe Erari, sobrinho do Samorim, que quis fazer também esta jornada por serviço de Deus e por acompanhar o padre, levando consigo alguns naires criados seus e as guias necessárias para o cami- nho, e depois de terem passadas as terras do Samorim e entrarem na serra, o primeiro lugar que tomaram foi o próprio onde o ano passado chegaram o sacerdote e diácono que o Bispo mandara. Ali tomaram língua e tiveram notícia mais clara dos todares, que são a gente que o padre principalmente ia buscar, a qual está mais adiante pelas 44
  • 346 Das coisas de Calecut \ serras dentro por onde caminhou o padre com os companheiros por alguns dias com mui grande trabalho e perigo pela fragosidade e aspereza do caminho que era tanto a pique ao descer que lhes era necessário irem assentados deixando-se escorregar para baixo. A primeira pessoa que viram e toparam desta gente foi o próprio sacerdote que êles chamam Palem, homem grande e bem proporcionado, barba comprida e os cabelos como nazareno que lhe chegavam até os ombros, os dianteiros dobrava para trás por riba da cabeça para lhe ficar a testa des- coberta, o vestido não era mais que da cinta para baixo; na mão tinha uma «fi.89v. foice; estava assentado num campo com sete ou oito pessoas junto * de si. Chegando o padre e assentando-se perto, êle lhe preguntou a que vinha; o padre lhe respondeu que para ver os todares, porque tinha por novas serem de sua mesma casta e lei e que folgaria de saber dêle se sabia donde descendiam; respondeu que não; fez-lhe outras preguntas a que os que estavam presentes deram algumas respostas que depois achou serem verdadeiras, como eram terem por pagode e Deus uma bufara viva à qual põem um chocalho ao pescoço e Palem o sacerdote cada dia lhe oferece leite. Depois a largam no campo a comer com as outras e de mês em mês lhe pega o Palem nos cornos e treme dizendo que a bufara diz que mudem pasto, com outras ignorâncias. E quando esta bufara morre, escolhem outra a que põem o chocalho e fica pagode. Além da bufara teem outros trezentos pagodes que juntamente ado- ram; preguntou-lhe:
  • Das coisas de Calecut 347 nada disto criam; de bufara não comem a carne senão o leite, e da carne comem sòmente porco de mato e veado; nenhuma coisa semeiam nem se ocupam mais que em criar bufaras. Quando comem, na mão esquerda põem o arroz e na direita tomam um pelouro de manteiga que com ele misturam. Acabando de comer alimpam as mãos uma com outra e depois ambas nos cabelos da cabeça, pelo que são muito sujos e andam sempre fedendo à manteiga. Outros costu- mes teem muito bárbaros e selváticos que deixo por brevidade. Serão por todos estes gentios que moram por estas serras até mil pessoas, por onde não pareceu conveniente gastar aqui mais tempo com êles por se não deixarem outras em- presas de maior serviço de Deus. CAPÍTULO XVII Do que se fè\ na cidade e ilha de Goa, terras de Salsete, Costa de Cambaia HÁ nesta cidade que é a cabeça do Estado e metrópole de tôda a índia • Fi.gov. três casas da Companhia, convém a saber, Casa Professa, Colégio de São Paulo e o Noviciado, e em Salsete o Colégio de Margão a que estão anexas várias residências. Em todas se fizeram muitas coisas do serviço de Deus como abaixo se verão. Mas é bem que primeiro digamos, como uma das mais felizes viagens que dêste reino se fizeram para a índia, foi a do ano de 602, porque nêle partiram a vinte e cinco de Março, seis naus da barra de Lisboa, as quais todas entraram pela de Goa a salvamento no mês de Setembro. Nelas foram divididos em quatro, sessenta e dois religiosos da Companhia, que levaram desta Província de Portugal, e das de Itália o Padre Alberto Laércio, italiano de nação, que no ano atrás viera daquela Província da índia, por procurador de Roma e o Padre Francisco Vieira que também veio no segundo lugar: ambos pessoas de singular virtude e religião, dos quais o Padre Alberto passou a Roma e o Padre Francisco Vieira ficou neste reino, para um lá e outro cá, tratarem os negócios a que vinham, como fizeram, com muita prudência, e levaram aviado tudo o que era para bem daquelas partes. E como a principal coisa que vinham buscar era companheiros, os mais que pudessem ir, por isso se ajuntaram, assim de Itália como desta Província, os sessenta e dois sujeitos, que acima disse, e quási todos escolhidos, de grandes partes e esperanças. Levaram tam- bém mais, para serem recebidos, alguns mancebos estudantes, que antes de chegarem à índia foram admitidos na Companhia, de modo que entraram desta viagem por todos em Goa, setenta e dois religiosos dela, coisa que para todos foi de suma consolação e principalmente para os nossos que estavam faltos de soldadesca de Cristo para acudirem a tantas e tão gloriosas emprêsas que esta- vam abertas e se iam cada vez mais abrindo para a conversão da gentilidade. Do seguinte ano de que também tratamos lhe entraram mais quinze, em cinco naus de viagem, que também foi mui*to bom socorro. «Fi.gi. Além do fruto que se faz com os portugueses e cristãos antigos da terra que é ordinário, não é bem que se passe, pelo muito serviço de Deus e ainda
  • 348 Das coisas de Calecut de Sua Majestade, o que se faz no hospital de El-Rei, da cidade de Goa, porque como este hospital está à conta da Companhia e nêle reside sempre um padre e um irmão, afora alguns noviços que de ordinário vão servir, e os que nêle se curam sejam soldados que sempre teem mais que fazer em suas consciências que a outra gente, é mui grande o fruto que nêle se faz. E particularmente se exercita esta caridade ao recolher das armadas, acabado o verão, recrescendo neste tempo ordinàriamente os doentes e muito mais quando chegam as naus do reino a esta barra, porque então os nossos em uma galé e outros navios vão a elas com refrêsco e charamelas buscar os enfermos, desembarcando-os em seus próprios braços e trazendo-os ao hospital onde os lavam, alimpam, curam e recreiam com todo amor e caridade possível. E de cinco naus que êste ano tomaram esta barra, mais de seiscentos se recolheram neste hospital, os quais todos foram servidos e curados com muito cuidado e não menos providos de vestidos e do mais necessário quando se foram dêle; para o qual se fêz com o Vizo-Rei os fôsse visitar, para que vendo sua necessidade, se movesse a lhes fazer alguma esmola. E assim lha fêz de mil e quinhentos pardaus (além da ordinária que o hospital tem para a cura dos enfermos) com que se vestiram quatrocentos. Os mais se remediaram por outras vias e alguns movidos com exemplo dos padres e irmãos que ali os serviam e andavam, se meteram reli- giosos em várias ordens, dos quais não coube pequena parte à Companhia. O fruto que êstes dois anos se fêz na conversão dos gentios foi de muita estima e louvor do Senhor, porque somando todos os que de novo se bapti- zaram, assim em Goa como nas terras de Salsete por meio dos nossos, fazem número de passante de cinco mil e quatrocentas almas, na conversão das quais •Fi.giv. houve em muitos, muitos casos de edificação e notá*veis, que por brevidade se deixam e sòmente apontaremos dois outros. Um menino de doze até treze anos estava na casa dos catecúmenos de Margão, na qual afora os outros adultos que ali estão por alguns dias antes de se baptizarem, se recolhem também meninos de pouca idade que correm risco e que se teme que seus pais ou parentes os pervertam. Nesta casa os criam na doutrina e bons costumes e aprendem a ler, e pôsto-que se tenha bom cuidado dêles, às vezes todavia os furtam seus parentes e os passam da outra banda para que deixem a fé, donde alguns tornam depois, e a outros reduzem os padres com os meios que para isso teem. Estando pois o dito menino nesta casa ainda catecúmeno, havendo já mais de seis meses que o era, fugiu neste comenos seu pai com a mais família, pervertido por seus parentes. O menino contudo nunca mostrou sinal de tristeza, senão quando um dia desaparece. Fêz-se logo tôda a diligência pelo buscarem acudindo aos passos por onde se vai à terra firme dos infiéis, mas nunca se achou nova dêle. Ao dia seguinte trouxeram o menino a Rachol e por mais diligências que se fizeram nunca se pôde saber quem o levou. Porém o que êle conta é que nunca lhe passou pelo pensamento fugir da casa dos catecúmenos, senão que uma pessoa lhe deu recado que seu pai estava fora e o chamava e que saindo de casa achara um homem muito negro o qual apontando com a mão e levando-o com dizer aqui está, ali está, o ia guiando caminho de Rachol., E havendo de subir um outeiro encima do qual está uma cruz junto do caminho, o guia tomou a mão esquerda pelos matos
  • Das coisas de Calecut 349 dizendo ao menino que se desviava por não passar pela cruz. E aqui, diz o menino, que já começava a temer e tremer e que desejava de se tornar, senão que arreceava que o guia lhe fizesse mal; afirma que se lhe fazia ora pequeno, ora grande, e que às vezes desaparecia e tornava a aparecer, acenando-lhe sempre que o seguisse até que o pôs em Rachol junto do paço, onde lhe disse: Embarcai-vos nesta almadia que vosso pai vos está esperando na outra banda, e nisto desapareceu sem mais * ser visto do menino. O qual querendo passar, *'• '• 9*- foi visto do rendeiro do paço que o conheceu pelo vestido ser da criação do seminário. E pôsto-que era gentio, contudo o não deixou passar, mas logo o foi entregar ao padre que reside na igreja de Rachol e tornou o menino a Margão com muita alegria de todos e daí a poucos dias recebeu o sagrado baptismo. Uma moça moira e casada desejava muito de se fazer cristã, o que enten- dido pelos seus, a fecharam de maneira que ninguém podia falar com ela. Vendo-se neste estado, bradava por Deus, pedindo-lhe remédio para sua salva- ção. Não lhe faltou êste Senhor a seus desejos dando-lhe modo com que por cima de umas paredes descobrisse sua vontade a uma mulher cristã à qual pediu muito falasse ao padre, pai dos cristãos, e lhe dissesse como ela desejava de se fazer cristã e o estado em que estava, que por amor de Deus lhe desse remédio. Foram logo em busca dela e trazida, com grande alegria sua e dos mais cristãos recebeu o baptismo. Um menino já cristão de menos de 5 anos, filho dum Gancar muito hon- rado, havia dias que estava muito doente e chegando-se o tempo em que Nosso Senhor o queria levar para si, por espaço de 3 ou 4 horas, pouco mais ou menos, começou a fazer tantos colóquios a Cristo Nosso Senhor e a S. Cruz que consigo tinha, que punha espanto e admiração a todos, não somente cristãos antigos e velhos que ali se acharam, mas também a seu próprio pai e mãe que nunca dêle se apartavam, repetindo muitas vezes com entranhável afecto estas palavras em sua própria língua: Jesus saiba maca sodai, quer dizer, Senhor Jesus soltai-me, deixai-me ir; paia padatam, quer dizer, prostrado a vossos pés; e dizendo estas e outras piedosas palavras, beijava a cruz tantas vezes e com tanta devoção e lágrimas que as fazia derramar a todos os que estavam presen- tes. E vendo a dor e desconsolação de seus pais e parentes, os consolava dizendo que não chorassem e que fossem comer, e continuando êle com seus devotos e afectuosos colóquios, sentindo que já se lhe despedia a alma do corpo, pediu que lhe dessem a candeia e apertando-a * com uma mãozinha e com outra .fi.9*v. a cruz, deu seu espírito a Deus, deixando a todos um raro exemplo dos efeitos de nossa santa fé e da divina graça. Não é bem que passemos por um feito dos meninos cristãos. Fêz um padre vigário de uma das freguesias de Salsete uma escola para nela os meninos aprenderem a ler e escrever e a santa doutrina. Acabada, se foram todos juntos ao padre dizendo que já que o pedreiro lha fizera a seu gôsto e êles não tinham com que lha pagar, lhes desse licença que o queriam fazer cristão. Respon- deu-lhes o padre, gostando de sua inocência, que o fizessem muito embora, se o êle quisesse ser de boa vontade, mas que o não importunassem nem lhe fizes- sem força alguma. Começaram-lhe êles a prègar preguntando-lhe que lei tinha,
  • 35o Das coisas de Calecut que costumes, que ministro das coisas de Deus e outras preguntas semelhantes com as quais o pedreiro se viu tão embaraçado que deu mostras de se ir abran- dando e afeiçoando às coisas de nossa santa fé. Estavam neste tempo os pais dos meninos fazendo sua gancaria ou conselho não longe do adro da igreja, aos quais os meninos logo chamaram, como viram o pedreiro em tão bom estado, para que os ajudassem a convertê-lo. Fizeram-no eles tão bem tomando isto já como em honra de seus filhos que emfim o pedreiro se rendeu de todo. Cha- maram logo ao padre, ao qual indo lhe disse o pedreiro: Eu não sei que diga a isto, porque tendo eu feitas tantas igrejas em Goa e neste Salsete, nem Vizo-Rei nem capitão nem os mesmos padres que por muitas vezes me falaram, puderam acabar comigo o que agora êstes meninos acabaram, acrescentando que, já que Deus assim o quisera, êle seria muito bom cristão dali por diante assim como até então fôra bom gentio. E foi baptizado com outros poucos no mesmo dia em que os meninos fizeram a festa na sua escola. Da banda do norte de Goa até Diu pela costa do reino de Cambaia há cinco casas da Companhia com várias residências a elas anexas, que são as de Chaúl, Baçaim, Tana, Damão e Diu. Em todas estas, além do fruto que se fêz • fi. 9?. com os * portugueses, se fêz também muito na cultivação e conservação de muitos milhares de cristãos que os nossos teem à sua conta principalmente nas terras de Salsete, de Baçaim e Tana. E de novo se baptizaram nestes dois anos em todas estas partes passante de mil e duzentas almas. Em Chaúl indo uma vez os estudantes por sua recreação a uma povoação que chamam Chaúl de Cima, que é de moiros e está perto da nossa cidade, como muitas vezes costumam a fazer, entraram em uma mesquita onde estavam muitos pagodes, e em que pês aos moiros que a guardavam, tomaram alguns e os trouxeram. Entre êstes acertou de vir um que êles muito estimavam por o terem em maior veneração que os outros. Aconteceu que o estudante que o trouxe, tirando-lhe a prata de que estava ornado, o vendeu a um moiro, o qual com muita alegria o tornou a levar à mesquita donde dantes estava; foi de todos os moiros festejado o pagode e tido por miraculoso. Sabido isto do mestre, repre- endeu o estudante, como merecia, o qual afrontado do que fizera e tomando os condiscípulos isto em caso de honra, se armaram alguns 20, pouco mais ou menos, para ir dar na mesquita e lhe tornarem a tomar o pagode e desinjuria- rem o estudante. Porém vindo isto à notícia do mestre e considerando o perigo grande a que se punham, lhes mandou dizer com muita pressa por outros estu- dantes, que logo se recolhessem e desistissem da emprêsa sob pena de serem rigorosamente castigados. Dado o recado, disseram entre si: ^A nós que nos pode fazer o padre? Dar-nos quatro dúzias de açoites; pois nós levaremos oito; e com esta resolução foram por diante. Chegando à porta da mesquita, acha- ram-na fechada; procuraram de abrir com alguns coices, não puderam. Puse- ram-se então de joelhos todos, rezam uma Avè-Maria, tornam a dar na porta e logo se abriu. Entram dentro, tomam o pagode que o estudante vendera, com outros muitos e vindo-se recolhendo, sabido que foi dos moiros, veem-lhe no alcance. Mas sucedeu-lhes mal, porque vendo-se os estudantes apertados, com a primeira espingardada que dispararam, mataram um dêles e feriram outro e com isto os moiros se retiraram e os estudantes se recolheram sem perigo.
  • Das coisas de Calecut 351 Tiveram os moiros por mártir o seu morto e a mulher com muitos cheiros se queimou com * êle e ambos se foram ao inferno. »fi. 93*. Em Baçaim há um colégio de meninos catecúmenos de que os nossos teem cuidado, onde são doutrinados e instruídos na fé de modo que saem depois mui bons cristãos e fazem grandes finezas na fé. Um menino moirinho andando pedindo esmola, a foi pedir ao vigário da vara, o qual o mandou logo ao irmão que tem cuidado dos catecúmenos, que com pouco trabalho o afeiçoou a ser cristão e começou a instruir nas coisas da fé, esperando porém pelo que logo veio que foi a mãe, daí a dois dias pedindo que lhe deixassem ver o filho. Ele lhe mandou dizer que de boa vontade, que fôsse a tal casa que era das cate- cúmenas de que tem cuidado uma mulher virtuosa que se chama a mãe das cristãs, a qual logo por derradeiro a converteu, pôsto-que estava mui dura, e mandou logo que lhe trouxessem dois filhos meninos que também com o outro ficaram no seminário. Outro menino destes, moiro também de nação, que aqui se criou muitos anos, fazendo depois de casar uma viagem, foi cair nas mãos de moiros, nossos inimigos, e como êle confessasse que era cristão, o mataram cruelmente, nunca largando o nome de JESUS da boca e protestando que de mui boa vontade morria por ser cristão. O mesmo fizeram aos mais que iam em sua companhia, dos quais so,uberam serem cristãos. No mesmo tempo, noutra parte nos mataram outros dois ou três, pescadores nossos, que confes- saram serem cristãos, prometendo-lhes primeiro a vida se se quisessem fazer moiros: e dêstes encontros há muitos por aquelas partes. Em Damão foi mui celebrada a conversão de uma mulher honrada, moira de seita e pársea de nação, natural de Giras, cidade principal da Persia, a qual também trouxe consigo para receberem a fé três moças e dois moços, seus cativos, e uma menina sua filha, de muito bom parecer. Estava esta naquela cidade com seu marido, também persa de nação, e mercador que viera de Belagate para se embarcar para Ormus. Correu esta mulher sôbre sua con- versão com o padre, pai dos cristãos; e porque o padre a examinou e achou mui constante, foi logo dar conta ao vigário e ouvidor e os levou a lhe fazer preguntas. Preguntaram ao marido se era aquela sua mulher conforme seus ritos. Respondeu * que sim. Preguntaram à mulher se queria ser cristã. Res- «Fi.g*. pondeu muitas vezes que sim; por onde pareceu bem que depois de instruídas fossem logo todas baptizadas, como foram. Requereu logo o padre por elas as partilhas da fazenda que já estava embargada, conforme a provisão que para isto há e mandou passar El-Rei Dom Sebastião em favor da cristandade; fize- ram-se as partilhas e cada um ficou com o seu. O marido se foi tristíssimo, mais por amor da filha que da mulher, mas elas ficaram mui alegres e contentes. Dia de Nossa Senhora das Candeias foi a menina à igreja dos padres mui bem vestida receber os Santos Óleos. Acudiu a vê-la tôda a cidade, fizeram-lhe grande festa, com música, carreiras, manilha, disparar de artelharia e isto não sòmente pelo que ela merecia e por honra da fé, senão também por causa de muitos moiros mercadores, companheiros do pai, que aqui estavam para se em- barcar e andavam pelas ruas vendo as festas com bem de dor de seus corações. r
  • 352 Das coisas de Calecut CAPÍTULO XVIII De como se fundou a casa de Diu, e da missão que se fè\ ao Preste João da Etiópia TRÊS ou quatro anos há que se deu princípio a esta casa de Diu, e além do fim que nisso se pretendeu do fruto que se podia fazer com os por- tugueses e na conversão dos infiéis como em todas as mais partes, outro principalissimo foi, para daqui se renovar e tornar a continuar a missão antiga ao reino do Preste João da Etiópia. Concorreram na fundação desta casa os portugueses moradores desta cidade, de que tiveram principal parte os capitães da fortaleza, Gonçalo Tavares e seu sucessor Guterre de Monroi que ao pre- sente o é. Os quais ambos com singulares benefícios e favores não sòmente principiaram, mas por tôdas as vias procuraram de a promover para que em breve se fizesse em sua perfeição; e para isso persuadiram aos mercadores bancanes que a esmola de quinhentos pardaus que costumam dar cada ano para a fábrica de alguma igreja a dessem para a fábrica e fundação desta casa, os • FI.Q4 t. quais a dão * tão liberalmente e tão acrescentada que com ela e com a dos portugueses e capitão, está feita grande parte da obra, e os padres a uns e outros lho gratificam bem com o muito que fazem e trabalham em seu serviço e pelo bem de suas almas com muita glória de Deus e edificação de todos. E quanto à missão da Etiópia, que como dissemos foi um dos principais motivos para se fundar esta casa, mostrou bem Deus Nosso Senhor como êle foi o que inspirou e ordenou esta obra com o efeito tão desejado, que foi ser- vido de lhe dar êste ano, como logo se dirá, o qual para melhor se entender e enfiarmos a história do que se háde tratar, é necessário, por haver muitos anos que desta matéria se não trata nas cartas da índia, tomarmo-la um pouco de mais alto e fazermos uma breve suma do que acerca desta missão da Etiópia tem passado desde seus primeiros princípios, que foi da maneira seguinte: Depois que nossos portugueses descobriram e conquistaram a índia, uma das coisas que muito procuraram os Reis de Portugal foi reduzirem à obediência da Igreja Romana o gram Rei da Etiópia que por outro nome se chama o Preste João, por êle, ainda que cristão, ser scismático e seguir todo aquele reino a heresia e errores dos Patriarcas de Alexandria. Para êste efeito El-Rei Dom Manuel lhe mandou de propósito um embaixador que foi Dom Rodrigo de Lima, o qual partindo de Portugal no ano de i520, quando tornou a resposta desta embaixada, era êle já morto e reinava Dom João III, seu filho. O efeito dela foi que o rei que então reinava naqueles reinos, por nome David, mandou também seu embaixador ao de Portugal para que, depois de assentar paz e amizade com êle, fôsse dar, como foi, a obediência em seu nome ao Sumo Pon- tífice Romano. Foi tudo isto de sumo contentamento e alegria assim para El-Rei Dom João como para o Sumo Pontífice Clemente VII que então governava a Igreja. Morreu daí a poucos anos êste Rei David; sucedeu-lhe um filho seu por nome Cláudio, o qual por algum tempo conservou a mesma paz e amizade com El-Rei Dom João e obediência ao Papa, mas faltando depois nesta, per-
  • Das coisas de Calecut 353 raitiu Deus que se levantasse contra êle El-Rei de Zeila seu vizinho, moiro de seita e gran*díssimo inimigo do nome cristão, que com favor dos turcos lhe • fi.95. tomou grande parte do reino e esteve 14 anos de posse dêle, pelo que o Preste vendo-se em tanto apêrto mandou pedir socorro ao Governador da índia que então era Dom Estêvão da Gama, o qual naquela conjunção entrara no estreito do Mar Roxo com uma poderosa armada fazendo guerra aos turcos e moiros, e vendo a necessidade em que estava êste rei cristão e o muito grande serviço que fazia a Deus e a El-Rei de Portugal seu senhor em o ajudar, lhe mandou de socorro a Dom Cristóvão da Gama seu irmão, mui valeroso e esforçado capitão, com quatrocentos portugueses, que entrando pelas terras do Preste que os moiros tinham conquistado, lhas tornou a tomar, que seriam mais de cem léguas, havendo deles muitas vitórias, das quais foram mui insignes e quási miraculosas duas em duas batalhas campais que lhe deu nos campos que cha- mam do Zarte, pelejando com o próprio Rei de Zeila; a primeira em 4 de Abril de 1542, tendo o moiro em campo i5 mil homens e mil e quinhentos de cavalo e duzentos turcos, e Dom Cristóvão sós trezentos e cincoenta portugueses, por- que os outros cincoenta estavam ausentes, e duzentos abexins. Começou-se a batalha em amanhecendo, durou até depois de meio-dia em que a vitória se declarou pelos cristãos, porque neste tempo, andando a batalha mui travada, foi ferido El-Rei de Zeila com uma espingardada, pelo que êle e os seus viraram logo as costas e se puseram em fugida e os nossos lhe foram um pedaço no alcance, e por não terem cavalos não foram mais; ficaram muitos moiros mortos e mais de trinta turcos; dos nossos faltaram onze e quarenta foram feridos. O moiro se tornou logo a refazer com muita gente que de refrêsco lhe veio, entre êles um grande Pcapitão chamado Gradamar com três mil homens e quinhentos cavalos, e treze dias depois da primeira rota tornou a cometer Dom Cristóvão que com muito esforço lhe saiu ao campo e recebeu a batalha onde pelejaram grande parte do dia e lhe mataram logo os cristãos o seu capitão Gradamar que vinha na dianteira com muitos outros moiros de valor, e por derradeiro o venceram a êle e puseram em fugida com grande estrago dos seus e lhe ganha- ram o arraial e tendas e foram matando nêles por espaço de meia légua, mas por não * terem cavalos não concluíram naquele dia a conquista; dos nossos »fi.95t. morreram catorze, ficaram feridos muitos. O moiro se recolheu como pôde e Dom Cristóvão dois dias depois se foi em seu seguimento por dez dias inteiros, até que o encurralou numa serra onde todo o verão o teve como cercado, de modo que o moiro em nada se podia ajudar das terras que ficavam da parte do sertão, onde os nossos estavam, mas as da parte do mar lhe ficavam livres, pelo que teve modo para mandar recado ao baxá do turco, que estava em Zebibe com três mil turcos por guarda do estreito, ao qual pediu socorro, que êle lhe mandou de novecentos turcos, em que entravam alguns de cavalo e dez peças de artelharia de campo com muitas espingardas; de Arábia também lhe veio socorro e com êste ajuntando suas gentes no cabo do inverno, em 28 de Agosto do mesmo ano, veio cometer o arraial dos nossos e se travou uma crua batalha que durou desde pela manhã até quási sol posto, na qual depois de muitas mortes de ambas as partes permitiu Nosso Senhor que os nossos fossem desbaratados, mas com grande estrago dos moiros, que indo no alcance dos 45
  • 354 Das coisas de Calecut vencidos deram com Dom Cristóvão que no mato se estava curando com alguns portugueses das feridas que recebera na batalha, ao qual prenderam e levaram a El-Rei de Zeila que com grandes afrontas, vitupérias e tormentos o tratou, sofrendo tudo o valeroso e cristianíssimo capitão com grande paciência e^ com os olhos pregados no céu encomendando-se a Deus e pedindo-lhe perdão de seus pecados, até que o próprio rei com suas mãos lhe cortou a cabeça e foi averiguado que no lugar onde seu corpo caiu e seu sangue se derramou, arre- bentou uma fonte que depois sarava os doentes da terra. Morreram nesta batalha perto de duzentos portugueses. Dos que escapa- ram, como cento e vinte se ajuntaram com a Rainha de Etiópia que no nosso arraial andava e que vendo a coisa perdida se pôde recolher em uma serra^ que ali estava perto, onde depois desta rota veio ter o Preste João que até então se não pudera ajuntar com os nossos, o qual não se pode encarecer os sentimentos que fez assim ele como a Rainha sua mãe pela morte de Dom Cristóvão. Porém os portugueses que ficaram vivos lhe pediram por mercê ajuntasse de • Fi.96. sua gente a mais que pudesse e os quisesse acompanhar, que êles con*fiavam em Deus vingariam mui bem a morte de seu capitão e dos mais portugueses seus irmãos. Fê-lo El-Rei de boa vontade, e ajuntando como oito mil homens e com os cento e vinte portugueses se foi em busca do Rei de Zeila que estava alojado ao longo da lagoa do rio Nilo com um bom exército de mais de treze mil homens de pé e de cavalo e duzentos turcos; iam já os mais dos nossos a cavalo, e ordenadas as coisas vieram a batalha com o moiro seis meses depois de nossa rota, levando os portugueses em lugar de capitão a bandeira da Santa Misericórdia, porque depois que morreu Dom Cristóvão não quiseram outro capitão, e com tanto esforço e ímpeto deram nos moiros que em muito breve espaço 'a vitória se declarou por êles com a morte do próprio Rei de Zeila, cuja cabeça foi trazida ao Preste, e com a prisão do príncipe seu filho e recuperação de tôdas as armas, artelharia e mais despojos que na rota passada nos tinham tomado e com grande estrago dos moiros, tomada de seu arraial, liberdade de grande número de cativos cristãos, homens e mulheres e meninos que nele tinham, e sem morte de um só português, que foi coisa de grande admiração; e com esta vitória tornou o Preste João, Rei da Etiópia a recuperar todo seu reino e ficar senhor dêle. E em reconhecimento dêste benefício tratou sempre aos por- tugueses que com êle ficaram, com muitas cortesias e honras e deu terras a todos em que vivessem, por onde muitos o ficaram servindo e morando em seu reino. O que tudo sabido por El-Rei Dom João de Portugal e parecendo-lhe que pois El-Rei Cláudio lhe estava tão obrigado pelo socorro que lhe dera para recuperar seus reinos, não poria contradição alguma ao negócio de sua redução à obediência da Igreja Romana e também para acudir ao remédio espiritual dos portugueses que naqueles reinos se ficaram e estavam já lá moradores, se determinou man- dar-lhe prelados e sacerdotes que pudessem doutrinar a todos conforme a fé e doutrina da Santa Igreja Romana; e dando conta dêste seu desejo ao Papa Júlio III e depois ao Papa Paulo IV, a ambos pareceu muito bem, e a resolução que se tomou foi que se escolhessem treze religiosos de nossa Companhia de Jesus, de letras e virtude, que fossem a esta missão e que dêstes um fosse com •fi.:96v. título de Patriarca de Etiópia, outros * dois de Bispos. Por Patriarca foi eleito
  • Das coisas de Calecut 355 o Padre João Nunes Barreto, português, e por bispos o Padre Belchior Car- neiro, também português e o Padre André de Oviedo, castelhano, e com ordem que faltando o Padre João Nunes, sucedesse o Padre Oviedo e por morte dêste o Padre Carneiro. Assentado isto, emquanto os padres se aparelhavam neste reino para faze- rem sua jornada, pareceu a El-Rei Dom João que se devia fazer outra diligência e foi avisar ao Vizo-Rei da índia, que de Goa mandasse um embaixador a El-Rei Cláudio para que soubesse seu ânimo e disposição e o prevenisse para a ida do patriarca e de seus companheiros; fê-lo assim o Vizo-Rei e mandou um homem honrado por nome Diogo Dias e com êle o Padre Gonçalo Rodrigues da nossa Companhia, homem de muita virtude e letras e por seu companheiro o Irmão Fulgêncio Freire. Foi mui acertada esta diligência porque, quando chegaram êstes embaixadores, acharam já El-Rei Cláudio trocado e diferente do que em Lisboa se cuidava do ponto da religião e de dar obediência à Igreja Romana, e assim depois de muitas práticas e disputas que o padre com êle teve sobre esta matéria e de lhe oferecer um livro que neste mesmo tempo compusera contra os erros daquela nação, o qual o mesmo rei leu, com que se achou mui convencido por não saber responder às vivas e eficazes razões que nêle via contra si, contudo induzido por um bispo scismático que na corte tinha, o qual o repreendera àsperamente por ter lido o livro, deu última resposta que o Patriarca e mais companheiros podiam ir a sua corte e que então se determinaria no que tocava à religião e obediência da Igreja Romana. E com esta resolução despe- didos os embaixadores se tornaram a Goa, aonde já acharam o Patriarca e seus companheiros, os quais sabendo o que passava em Etiópia julgaram todos que não convinha ir por então o patriarca, havendo tão pouca disposição em o Rei Cláudio para o que se desejava e que seria melhor fôsse o Padre André de Oviedo, Bispo de Ierápolis, com outros dois ou três companheiros e procurasse reduzir o rei à obediência da Igreja Romana, para que então fôsse o Patriarca e pudesse fazer seu ofício com mais autoridade e decência. * CAPÍTULO XIX Como o Padre Bispo André de Oviedo chegou à Etiópia com seus companheiros e do mais que nela passou até que morreu COM esta resolução partiu para Etiópia o Padre André de Oviedo no ano de i557 com outros quatro padres que se chamavam Manuel Fernandes, Francisco Lopes, Francisco Cardoso, António Fernandes. E porque depois de sua partida morreu em Goa o Padre Patriarca João Nunes, ficou êle sucedendo no título e dignidade patriarcal de Etiópia, aonde depois de chegar, procurou ver-se logo com El-Rei Cláudio que andava ocupado em certa guerra, o qual o recebeu com mostras de boa vontade. Começaram logo êle e os mais companheiros a exercitar seu ofício com os portugueses e cristãos da terra, dos quais reduziram alguns à obediência da Sé Apostólica, de que El-Rei se começou a mostrar sentido e desgostoso. O que vendo o Padre Patriarca, lhe pediu
  • 356 Das coisas de Calecut quisesse ajuntar alguns letrados para que em sua presença se tratasse da fé e religião cristã, e tanto insistiu nisto até que El-Rei o houve por bem. Teve com êles muitas e várias disputas nas quais sempre ficaram convencidos sem saberem responder, e para maior confirmação do que dizia em sua doutrina, escreveu alguns tratados contra os erros dos Abexins. E como El-Rei com tudo isto se visse mui apertado, acabou de descobrir o que tinha no peito, porque no mês de Dezembro de 558, disse claramente ao Patriarca que não queria dar obediência à igreja romana. Porém não tardou muito o castigo do Céu desta * fi. 97 v. sua tão grande obstinação porque no mês de Fevereiro logo seguinte * entrando numa batalha, foi nela vencido e morto. Sucedeu-lhe no império um irmão seu por nome Adamas, homem cruel e grande inimigo dos cristãos. Foi-o logo visitar o Patriarca, e ainda que no princípio o recebeu bem, durou pouco sua amizade porque por ocasião de dois homens principais que se reduziram à fé, a veio a quebrar com êle, de modo que o mandou prender a êle e a seus companheiros, e para que não fugissem, os trazia no exército fazendo-lhes todo o mau tratamento que podia. Porém neste tempo por justo juízo de Deus se levantaram contra êle alguns principais do reino com favor de um capitão dos turcos, e pretendendo pôr no império a um filho de Cláudio e sobrinho do mesmo Adamas, vieram os exércitos à batalha, na qual êle foi vencido e desba- ratado e com grande trabalho e perigo escapou, fugindo. Começaram os turcos a saquear o arraial de Adamas, e discorrendo por uma e outra parte, foram dar com o Padre Patriarca e seus companheiros que estavam presos em uma tenda, e como os viram pobres e presos, acabando de os roubar da pobreza que lhes ficara, puseram fogo à tenda e por grande mercê de Deus escaparam os padres que não ardessem, ficando porém em extrema necessidade e pobreza. Castigou Nosso Senhor a esta terra, depois disto, com grandes trabalhos em pena de sua desobediência à Igreja Romana. O primeiro foi de guerras em que tôda se resolveu entre Adamas e seu sobrinho, filho de Cláudio, sobre quem ficaria com o império. Procurava cada um ajudar-se dos turcos, os quais com esta ocasião se apoderaram tanto da terra que a destruíram. Levanta- ram-se por outra parte em forma de comunidades os galas, que são a gente comum da terra, e como não houve quem lhes resistisse, por os príncipes anda- rem ocupados em suas pretenções e guerras, acabaram de arruinar o que ficara. Após isto se seguiram tantas enfermidades e pestes, que se veio a despovoar grande parte de Etiópia. Com ocasião dêstes trabalhos, os portugueses que viviam naquela terra, • Fi.98. perderam suas casas e fazendas e tiveram ne*cessidade, para se poderem sus- tentar, de servirem em guerras e a diversos senhores e se dividiram em muitas partes. Donde se seguiu que como êles dantes eram os que sustentavam os padres com suas esmolas, e agora os não podiam socorrer, chegaram a tão extrema necessidade que não ficou ao pobre Patriarca um só vestido com que pudesse representar sua dignidade nem ainda cobrir-se; e querendo escrever uma carta a El-Rei Dom Sebastião de Portugal, por não ter uma folha de papel, lha escreveu num quarto e chegou a ponto que para se poder sustentar a si e a seus companheiros, êle mesmo com o arado na mão lavrava a terra com dois bois para colher uma pouca de cevada com que passasse a vida. Sabido isto
  • Das coisas de Calecut 357 por El-Rei Dom Sebastião, pediu ao Papa Pio V que, pois havia tão pouca esperança da redução de Etiópia, mandasse sair ao Padre Patriarca daquela terra e passar a Japão, onde podia fazer muito maiores serviços a Nosso Senhor. Passou sobre isto um breve o Papa em que mandava sair ao Patriarca, mas ele ainda que o recebeu, o não pôde cumprir por nunca ter ocasião de o poder fazer sem evidente perigo de cair nas mãos dos turcos e moiros que tinham tomado os passos. E assim pelos muitos trabalhos e pobrezas que passou, padecidas tôdas com muita paciência, veio a morrer em Etiópia, ficando seus companheiros ajudando aqueles pobres portugueses e cristãos que por lá havia, ainda que com grande trabalho, por estarem mui espalhados por ocasião das guerras. Pelo que lhes era forçado andarem sempre peregrinando de uma parte para outra com muito perigo de suas vidas, como aconteceu ao Padre Francisco Cardoso, que num caminho destes, indo a confessar e prègar aos cristãos, foi salteado e morto de ladrões; e com os mesmos perigos e trabalhos vieram a morrer também os outros, deixando aquela cristandade em grandíssimo desam- paro. O que vendo os padres da índia, procuraram por tôdas as vias de man- dar outros que lhes sucedessem e fôssem socorrer a tão extrema necessidade daqueles cristãos. Para isso foram nomeados o Padre António de * Monserrate *fi. 98». e o Padre Pedro Pais, os quais partiram de Goa em Fevereiro de 589; foram pela via de Diu e Ormuz com determinação de tomarem o caminho por Alepo e Babilónia, fazendo todo êste grande rodeio para entrarem em Etiópia, por escaparem dos grandes perigos que corriam indo pelo caminho direito, de serem mortos e cativos dos moiros. Mas nem por isso escaparam deles, porque emfim foram presos pelos moiros e levados a Dofar, cidade de Arábia, que está junto da casa de Meca, e daí caminharam mais de vinte cinco dias com tanto trabalho que os faziam ir a pé e descalços, seguindo os camelos e muitas vezes por cardos e espinhos. E por lhes não darem de comer vieram a tanto desfalecimento que não fôra possível ir por diante se os não deitaram em cima dos camelos entre as cargas que levavam, caminhando desta maneira por desertos, nos quais em dez dias inteiros não viram povoação alguma; e no cabo deles chegaram a uma cidade que se chama Tari e daí a outra que se chama Einão, onde residia um rei moiro, por nome Soldão Amar, cujos vassalos eram êstes que levavam os padres cativos. Ao entrar destas cidades, os saía a ver muita gente, rindo e zombando deles, fazendo-lhes muitos esgares e cuspindo-lhes no rosto; pelo que os padres davam muitas graças a Nosso Senhor, porque os fazia dignos de padecerem alguma coisa por seu serviço e nome. E depois de com sucessos vários e mui graves trabalhos passarem seis anos de cativeiro, resgatados por ordem dos padres da índia, tornaram a Goa, onde o Padre António de Monser- rate morreu santamente.
  • 358 Das coisas de Calecut CAPÍTULO XX Como foi mandado a Etiópia o Padre Abraão de Georgis e no caminho foi preso e martirizado pelos turcos • Fi.99. AVA muito cuidado não sòmente aos padres da Companhia da índia, 1 senão também ao Vizo-Rei Matias de Albuquerque o aperto e necessi- " dade grande em que estava a cristandade de Etiópia por uma parte tão cercada de infiéis e scismáticos e por outra tão desamparada de quem a culti- vasse com doutrina católica. Pelo que no tempo que os Padres Monserrate e Pero Pais estavam cativos, trataram de mandar outros em seu lugar. Para o qual nomeou o Padre Provincial da índia ao Padre Abraão de Georgis, maro- nita de nação, que de Roma foi mandado à índia, e ao Padre Diogo Gonçalves, português, homem mui religioso e de muita virtude. Ocupava-se neste tempo o Padre Abraão em prègar com muito fruto aos cristãos de S. Tomé que vivem na serra, porque sabia mui bem a língua suriana e arábiga, pelo que e por sua grande virtude e santidade pareceu mui a propósito para esta missão. Estive- ram estes dois padres encobertos um ano para que não pudessem ter notícia de sua partida os moiros que vivem em Goa e avisar dela aos da costa de Etiópia com quem teem trato e comunicação. Chegado o tempo, concertou o Vizo-Rei com um capitão moiro que lhe levasse dois cristãos arménios a Maçuá que é uma cidade na costa do Abexim dentro no estreito do Mar Roxo; porém, con- sideradas mais as coisas, pareceu por então ao Vizo-Rei e padres que seria mais conveniente ir o Padre Abraão sòmente com um moço que se criara em casa e era natural do Abexim e não irem dois padres juntos, porque desta maneira podiam ir mais encobertos sabendo ambos a língua; e assim se assentou que por então ficasse o Padre Diogo Gonçalves e partisse o Padre Abraão com o moço por seu companheiro. Estando já tudo a ponto, quis o Vizo-Rei ver o padre antes de se partir; e para que fôsse mais secreto, o mandou chamar de noite a sua casa. Foi o padre com seu companheiro sem alguém saber quem era senão só o secretário do Vizo-Rei que o estava esperando. Ia vestido nos mesmos trajos como quem • F1.99V. havia * de passar por terras de moiros e entrar em Etiópia, com barba e touca na cabeça; quando o Vizo-Rei o viu entrar desta maneira foi tamanho seu mo- vimento interior que não pôde ter as lágrimas e abraçando-o lhe disse: Estas são as invenções de que usa a Companhia para trazer as almas a Deus arris- cando por elas seus filhos a tantos e tão manifestos perigos. Depois de estar algum espaço com o Vizo-Rei, despedindo-se dêle se veio ao colégio de São Paulo de Goa, vestido no mesmo trajo, onde o estava esperando o Padre Provincial com os mais padres e irmãos, dos quais se despediu abraçando a todos um por um e com tantas lágrimas e soluços de todos que bem parecia adivinhavam que se despediam para sempre nesta vida e que não se veriam jàmais senão no céu. Chegada a hora de partir, saiu de casa à prima noite em Janeiro de noventa e cinco e se embarcou com o capitão moiro que o levou, e fazendo sua viagem com grandes tempestades e perigos que sempre há naquela navegação chegou à
  • Das coisas de Calecut 359 ilha de Suaquém, que está na costa de Etiópia, e sem ninguém o conhecer alcançou licença com título de mercador, do capitão turco que ali residia, para entrar em Etiópia a vender suas mercadorias. Estando desta maneira aviado para dentro em duas horas passar à terra firme, Deus todo poderoso cujos juízos são incompreensíveis, dispôs as coisas bem doutra maneira do que êle imaginava, dando-lhe gloriosa coroa de martírio antes de sair daquela ilha, e a ocasião foi esta. Emquanto o padre andava negociando a licença que dissemos com o capi- tão turco, o moço abexim que levava consigo e ficou guardando o fato, vendo que o padre tardava, quis comer um bocado na poisada onde estava. Acertou de ser aquele dia em que os moiros jejuavam o seu Ramadam com grande rigor e não comiam até ver a estrêla. Como viram comer o moço preguntaram-lhe quem era, donde vinha e emfim lhe disseram tantas coisas que veio a confessar como era cristão e seu amo também. Avisaram disto os moiros ao capitao turco com quem o padre estava negocian*do, o qual logo o mandou prender, .fi.ioo. E no dia seguinte estando presentes muitos turcos o mandou trazer diante de si e lhe preguntou, quem era? O padre lhe respondeu que era arménio e natural de Alepo (como na verdade era); preguntou-lhe mais se era cristão ou moiro.-' porque, se era moiro, o soltaria logo para que se fôsse para onde quisesse. Respondeu que êle não era moiro senão cristão. Pois haveis-vos de fazer logo moiro, tornou o capitão, e em sinal disso dizei lá, Ilá Há, Mahamet, Treenlaca, que quere dizer: Não há ídolos, senão Deus e Mafamede seu mensageiro. Res- pondeu-lhe o padre que êle era cristão e que como tal havia de morrer antes que fazer nem dizer tal coisa. Indignou-se grandemente o capitão com esta resposta e levando do alfanje lhe deu um golpe para lhe cortar a cabeça, mas êle lhe quebrou sem lhe fazer dano algum. Trouxeram outro e dando-lhe outros dois golpes também quebrou sem lhe fazer mais que um sinal muito pequeno; vindo outro, finalmente o mataram. E com esta tão ditosa morte acabou glo- riosa e felicissimamente sua missão e santa vida. Estiveram depois por quarenta dias no lugar onde o enterraram três pássaros brancos muito grandes que nunca antes ali se tinham visto. E em todo êste tempo, como era tarde, apareciam ali também muitos lumes como de candeias, aos quais saía a ver tôda a gente de Maçuá. E alguns dos moiros diziam: ^Não lhe basta, aquele cafre estar ardendo no inferno senão que aqui também se está queimando ? Outros diziam que não era aquilo sinal senão de bom homem e que pelo ser morrera tão depressa o capitão que o mandou matar, porque morreu dali a poucos dias. Passados os quarenta dias, não se viram mais os pássaros nem os lumes. Afir- maram tudo isto alguns cristãos abexins ao sacerdote do seminário Belchior da Silva, vigário que ora é na Etiópia, como logo diremos, o qual de tudo tirou um sumário de testemunhas autêntico. Era êste bemdito padre e santo mártir mui grande servo de Deus e mui devoto; todo o tempo que lhe sobejava entre * dia das ocupações com os pró- ximos gastava em oração contínua. E antes de se partir para esta missão se aparelhou muitos dias para ela com oraçao e muita penitencia, que punha admi- ração a todos, e assim mereceu acabar com tão ditoso fim como o foi sua santa vida. Dizia um moiro que era o piloto da nau que o levou, que poisando sem- pre juntos na mesma casa até o dia que o prenderam sem nunca o conhecer
  • 36o Das coisas de Calecut por quem era, contudo se admirava de sua grande virtude, e que estando o padre uma noite dormindo pouco antes que o prendessem, começou a dar brados e levantando-se o piloto o acordou e preguntando-lhe o que havia, respondeu o padre que sonhava que o estavam matando, que pareceu prevenia Nosso Senhor para o que tão prestes lhe havia de suceder. CAPÍTULO XXI Como foi mandado à Etiópia um sacerdote do seminário de Goa e depois o Padre Pero Pais da Companhia NÃO descansavam os padres com o zelo e desejo grande que tinham de dar remédio àquela desamparada cristandade de Etiópia, que já tinham por novas serem mais de mil pessoas, todos descendentes dos portu- gueses, afora outras da terra que se tinham reduzido à obediência da Igreja Romana; mas não achavam modo nem caminho para isso (ainda que por todas as vias o buscavam) pela muita vigilância e espias que trazem os turcos que estão de guarnição por aqueles portos e lugares da costa, para que nenhum cristão nem português possa passar àquelas partes. Estando pois neste cuidado, receberam de novo cartas dos mesmos cristãos e portugueses de Etiópia, nas quais lhes representavam a grande necessidade e como extrema que tinham de «Fi. mi. algum sacerdote católico. E porque lhes parecia ser * coisa impossível poderem passar padres da Companhia sem evidente perigo de morte ou cativeiro, por andarem os turcos mui de sobreaviso depois da morte do santo Padre e mártir, Abraão Maronita, lhes pediam que, se houvesse algum sacerdote natural da índia que soubesse bem a língua, o quisessem mandar, porque êste, indo dis- farçado e em trajos de marinheiro de algum navio, lhes parecia que se poderia melhor encobrir e entrar em Etiópia sem ser conhecido. Levou o Padre Pro- vincial estas cartas ao Vizo-Rei e Arcebispo propondo-lhes juntamente os grandes desejos que havia nos padres do colégio de aceitarem aquela emprêsa por mais arriscada que fosse, mas que ambos todavia vissem o que seria mais serviço de Nosso Senhor. Tiveram-se sobre êste negócio muitas consultas, e emfim se resolveram em escolher o meio que os portugueses escreviam de Etiópia, e que se buscasse um sacerdote secular que soubesse a língua e pudesse ir dissimu- lado a ver a disposição da terra e o modo como poderiam entrar os da Compa- nhia. Ofereceu-se para esta emprêsa um sacerdote virtuoso e douto que sempre se criou no colégio e seminário que os padres da Companhia teem em Goa, cujo nome é Belchior da Silva, ao qual o Vizo-Rei, que então era Dom Francisco da Gama, Conde da Vidigueira, Almirante do Mar Índico, mandou aviar do que tinha necessidade para o caminho e para ir mais desembaraçado lhe fêz mercê de lhe mandar dar com que pagasse suas dívidas. Embarcou-se em Diu em uma nau de moiros e em trajo de marinheiro, e com esta dissimulação chegou à ilha de Macua e daí passou à cidade de Delee, sessenta léguas ou setenta pela terra dentro, encobrindo-se fàcilmente porque ia em companhia de outros marinheiros e grumetes que quiseram ver a terra e a mesma cidade de Delee.
  • Das coisas de Etiópia 361 Chegando aqui, encontrou com um abexim, natural de Etiópia, que por muito tempo acompanhou ao Padre Patriarca e agora vinha ver se achava cartas da índia, como costumava fazer outros anos. Êste homem avisou logo os portu- gueses do bom recado que achara. Êles com extraordinário contentamento e 'fi.io.v. alegria deram logo ordem como recolheram o sacerdote com todo o recato e secreto; o qual chegando à província de Tigare e ao lugar e igreja onde viveu e morreu o Padre Patriarca e os mais padres seus companheiros, o receberam os portugueses e mais cristãos com singular consolação, dando graças a Nosso Senhor por lhes ter dado sacerdote católico com quem pudessem seguramente comunicar os negócios de suas consciências. É êste sacerdote mui virtuoso e bom teólogo, e começando a exercitar seus ministérios, achou que com a ordi- nária e contínua comunicação que aqueles católicos tinham com os scismáticos e pouca esperança de ver naquela terra sacerdotes católicos, se lhes tinham pegado muitos erros e costumes peregrinos e estavam quási resolutos de continuar as igrejas dos scismáticos e receber de sua mão os sacramentos e, o que mais é, que já começavam a circuncidar e a baptizar juntamente seus filhos e a guardar • o sábado por dia solene como o domingo. Também comiam carne nos dias proibidos e deixavam de jejuar os que eram de preceito, como vigílias e quatro têmporas, ainda que por devoção jejuavam às quartas e sextas do ano. Todos êstes erros lhes procurou logo tirar o sacerdote, ensinando-lhes mui em particular o que deviam fazer e guardar conforme a doutrina católica e romana; ultima- mente os confessou e reduziu aos costumes em que os padres da Companhia e companheiros do Patriarca os tinham criado. E como a cristandade daquelas partes está repartida em três lugares, que são Tigare e Dambea, que é a cabeça do império, e noutra cidade que se chama Dai, era necessário correr todas as partes para ajudar aqueles católicos. E porque um dos avisos que levava era tratar com os portugueses o modo com que os padres da Companhia poderiam entrar, deu sobre isto todas as advertências e avisos necessários e um dêles foi mandar um assento, que fizeram os principais portugueses e cabeças daquela cristandade, o qual é o seguinte: Aos vinte e dois do mês de Julho de seiscen- tos e dois nos ajuntámos todos os portugueses e alguns dos * nossos filhos nas- "Fi. im. eidos em Etiópia, convém a saber, Francisco Dias Machado, natural de Setúbal, André Gonçalves, natural do Porto, Jorge Vaz, natural da Covilhã, Luís Ma- chado, Maurício Soares, João Gabriel, juntamente com o nosso Padre vigário, Belchior da Silva, Teodoro da Costa, Pedro Vieira, Manuel Jorge e outros, e fizemos conselho sobre a vinda dos padres e por onde seria boa sua entrada, por causa dos turcos não encontrarem com êles e os cativarem. Achámos que não havia outro porto melhor que o de Bailur, que está logo à entrada do estreito, à mão esquerda defronte de Moca, a doze léguas pela entrada do canal do Abexim. E pôsto-que o dito pôrto seja sujeito a um rei moiro, por nome Dancali, todavia o padre vigário com o dito Francisco Dias Machado e connosco juntamente teem acabado com Casleal, governador dêste Tigare, que torne êste ano de 602 a escrever ao dito Rei Dancali que receba bem os mestres que o imperador pede. E já nestes anos passados o imperador lhe escreveu que lhe fizesse o mesmo que ao nosso padre vigário em pessoa. E porque esta é nossa determinação e parecer, nos assinamos aqui no dito ano e era. 46
  • — 362 Das coisas de Etiópia Com êstes avisos e novas que os padres tiveram de Etiópia se alvoroçaram muito todos os nossos que vivem em Goa e se acenderam mais nos desejos que tinham de tornar a esta emprêsa. E tratando a coisa com o V izo-Rei e Arce- bispo, se assentou que se aparelhassem duas galeotas para irem ao estreito e levarem os padres àquele porto, o que por então nao teve efeito, porque as duas galeotas, ainda que partiram de Goa e com eles os padres que abaixo diremos, como foram tarde e mal negociadas e os capitães por isso pouco contentes, um dêles arribou logo do golfo de Diu e o outro, posto-que chegou àquela fortaleza, como se viu só e que era já muito tarde, tomando seu conselho, se tornou para a índia. E parece que foi providência de Deus acontecer isto nesta forma, para que assim os padres, como todos os que iam nas galeotas, não fossem mortos ou cativos dos turcos, como provàvelmente houveram de ser se as galeotas passaram ao estreito. Porque os moiros da índia tinham já dado rebate aos • fi. io3 v. * daquela costa e os turcos com êste aviso aparelhado duas galés na bôca do estreito onde os estavam esperando. Efeituou-se porém contudo esta gloriosa missão em Março de 6o3, e para mais se mostrar a Divina Providência, por meio dos mesmos turcos que até agora a impediram; e foi desta maneira: Veio ao porto de Diu uma nau de Meca e nela um turco, por nome Rezoão Agá, criado do Baxá de Suaquém e de toda a costa do Mar Roxo com mercadorias e fazenda do mesmo baxá e com cartas e licença do capitão de Diu. Era êste turco alto e loiro, que parecia flamengo, de natureza branda e de fisionomia de homem bem inclinado e aprimorado, como depois sempre mostrou. Pareceu aos padres que por via dêste poderiam passar os que haviam de ir a Etiópia. Deram conta ao capitão Guterre de Moiro, o qual parecendo-lhe bem, para mais obrigar o turco, lhe fêz muitos agasalhados e favores e ordenou lhos fizessem os mais oficiais da alfândega. E os padres de Diu também lhe fizeram muito boas obras, pelo qual tudo, êle se deu por tão obrigado ao capitão e padres, que pedindo-lhe depois quisesse levar consigo um cristão arménio, prometeu que o faria de muito boa vontade e o trataria de modo que êles ficassem muito satisfeitos e que disso dava sua fé e palavra. Negociado isto com o turco, se pôs em ordem a partida do padre, e pôsto- -que no princípio se tratasse de irem dois, depois todavia se julgou que não se aventurasse mais que um. O qual foi o Padre Pero Pais, que com o Padre Mon- serrate dissemos acima tentara já outra vez esta emprêsa na qual foi cativo e o esteve seis anos. É êste padre um religioso de grande exemplo e virtude, mui zeloso das almas e do bem do proximo, humilde, manso, mortificado e grande amigo de padecer por amor de Deus, o qual depois que a primeira vez foi escolhido para esta gloriosa missão, ela se lhe imprimiu de tal maneira no coração, que nunca mais dêle se lhe tirou. E assim depois que veio do cativeiro, •fi. io3. sempre perseverou na pretenção dela, e o que mais é, com esperança * certís- sima de a fazer, porque com lume e voz do céu lha tinha Deus prometido. E o modo foi que quando a primeira vez passava para Etiópia, chegando a Mas- cate, fortaleza nossa na costa de Arábia, no reino de Ormuz, adoeceu, pelo que foi necessário que o Padre Monserrate por então se embarcasse só por não perder a monção que se lhe oferecia. E ficando o Padre Pero Pais mui des- consolado por ver que seu companheiro passava sem êle, Nosso Senhor o con- I
  • Das coisas de Etiópia 363 solou com um lume interior na alma e com uma como voz que lhe disse: Tu és o que has de passar a Etiópia e não o Padre Monserrate. E desde aquele ponto melhorou na saúde de modo que antes que o Padre Monserrate se partisse, sarou e se embarcou com êle, ordenando-o assim Deus para o acompanhar no cativeiro e para se ensaiar nos trabalhos que nêle padeceu para outros maiores que ainda lhe ficavam. E assim, esquecido do muito que esta empresa já lhe tinha custado, e levado sòmente dos gostos da paciência por Cristo, quando agora se ofereceu a ocasião de poder passar outra vez a Etiópia, não se pode encarecer o fervor de espírito e a consolação e alegria de sua alma com que se pôs a esta jornada. Veio de Goa, onde estava, para Diu, para que ali se aparelhasse e esperasse ocasião de poder partir. E emquanto ali esteve, edificou grandemente aquela cidade com sua muita virtude e raro exemplo, de que deixou nela grande fama. Foi com título de cristão arménio e com trajos de arménio para que afoitamente se publicasse por cristão pobre que dali pretendia ir para sua terra, e principalmente porque os turcos no estreito todo, tirando Meca e Judá, não entendem com os estrangeiros, ainda que sejam cristãos, senão quando vão disfarçados, porque então suspeitam que são espias. Partiu sábado, 21 de Março de 6o3, e toda a noite antes, esteve com os mais padres de casa em oração contínua na capela-mor da igreja, diante do Santíssimo Sacramento que tinham desencerrado. Chegada a hora da partida, ditas as ladainhas do Nome de Jesus, Espírito Santo e de Nossa Senhora, se debruçou * o padre com muitas .fl .«3t. lágrimas diante do Santíssimo Sacramento e com tôda a reverência beijou a Custódia e se despediu do Senhor com muita devoção e logo dos padres e irmãos, aos quais todos deixou cheios de inveja e de saudades. Dali se foi embarcar o pobre peregrino numa nau tôda de turcos e moiros, sem haver nela outro cristão senão êle, pôsto-que dêstes infiéis sempre foi mui bem tratado, não por respeito que lhe tivessem emquanto cristão nem emquanto padre porque o não conheciam por tal, nem por lhe verem aparato, pois ia como um pobre passageiro, senão por cumprirem a palavra que tinham dado ao capitão e padres e para com isto lhes ganharem as vontades para, quando outra vez tornassem a Diu, serem bem tratados dêles e favorecidos em seus negócios. E porque da viagem que êste bom padre fêz e de sua entrada em Etiópia e de como nela foi recebido e do que achou não podemos dar melhor relação que a que êle mesmo deu em uma carta sua que, depois de sua chegada lá, escreveu aos padres, a poremos aqui à letra para notícia de todos e por ela ser de muita edificação. 1
  • 364 Das coisas de Etiópia CAPÍTULO XXII E carta que o Padre Pero Pais escreveu de Etiópia aos padres de Goa, em que conta de sua viagem e chegada àquela terra e do que nela achou, de 24 de Julho de 6o3 A vinte e dois de Março antes de amanhecer me embarquei, sem trazer comigo companhia alguma que me ajudasse, pelos inconvenientes que podia haver de trazer comigo quem me conhecesse, fazendo conta que para me cozer um pouco de arroz daria alguma coisa ao sarangue, a quem o dono da nau, que era um baneane, tinha dito que desse na proa um lugar a um arménio pobre, que havia de ir nela; e assim em entrando me deu um debaixo •.Fi.104. do seu, entre uma jarras de água onde havia tantos mosquitos que nem * de dia nem de noite me davam quietação. Depois do meio-dia se embarcaram os turcos e demos logo à vela; ao outro dia pela manhã preguntaram por mim. e sabendo onde estava, mandaram a um mancebo turco que os servia para que me levasse à varanda onde êles se agasalhavam Escusei-me por estar com tão grande dor de cabeça que me não podia bulir; ao outro dia me tornaram a mandar recado, pelo que, como foi noite, os fui ver; fizeram-me grande festa com muitos doces, e depois de estar com êles uma boa parte da noite, que- rendo-me despedir, me não deixaram ir, senão que havia de ficar com êles, porque o lugar que eu tinha era muito ruim. Escusei-me dizendo que se acer- tasse estar em Macua outro baxá, tomariam disto motivo os baneanes para lhe dizerem algumas mentiras. Respondeu Rezoao Agá que me não desse de nada, porque de toda a maneira ele daria ordem como eu pudesse ir para onde qui- sesse, mas, se não queria estar entre tanta gente, que ao menos havia de aceitar o comer que êle me mandasse, do que também me quisera escusar, mas não foi possível. E assim dali por diante me mandou sempre duas vezes cada dia do mesmo que êle comia, o que vendo a gente da nau se espantava. Aos dez de Abril tivemos uma grande tormenta e aos treze chegámos a ver o cabo de Guardafui e fomos correndo três dias à vista da terra e logo atravessámos o golfo para tomar a costa de Arábia com muito grande vento. E aos dezassete antes do meio-dia vimos os montes de Adam. Aqui disse o piloto a Rezoão Agá que queria tomar as velas e ir devagar para entrar ao outro dia à noite as portas do estreito, porque aquela noite não podia por estarem cincoenta e quatro léguas e de dia não se atrevia por temer que viessem turcos e levassem a nau a Moca, ao que respondeu Rezoão que não tivesse de ver com os turcos, senão que entrasse a qualquer hora que chegasse. Tornou o Mocadam e o Sarangue que por nenhum caso haviam de entrar de dia, porque já duas vezes os turcos lhes tomaram a nau e a levaram para Moca, do que tiveram grande perda, a que disse Rezoão Agá que êles deixassem ir a nau e se assentasse cada um em seu FJ-I04V. lugar, * senão que lhes cortaria as cabeças e os botaria no mar, porque os turcos de Moca não entravam em nau donde ia um homem como êle, senão onde não iam mais que baneanes, e mandou logo aparelhar suas espingardas. Com isto se calaram e deixaram ir a nau com tôdas as velas; à meia-noite viram com
  • Das coisas de Etiópia 365 o luar os morros das portas, e cuidando que iam tomar a porta por onde havía- mos de entrar, se foram metendo por uma enseada na qual iam dar sobre uma rocha, se a lua, que por detrás dela se ia pondo, a nao descobrira; começaram a gritar os que iam na proa e foi tão grande a perturbação, que tomou a nau por davante e não puderam marear a vela por um grande espaço com a força do vento, mas pouco depois se foram saindo da enseada e entrámos pelas portas depois da meia-noite, sem vermos embarcação alguma de turcos. Fomos cor- rendo à vista da terra e soubemos de uma embarcação que encontrámos, que ainda era o mesmo baxá e que havia pouco se fora para Suaquém. Folgou muito com isto Rezoão Agá e mandou-me dizer que o capitão que estava em Mancua era muito seu amigo, porque se criaram ambos em casa do baxá. Dali a dois dias chegámos a Mancua que é ilha mui pequena, desembarcámos todos e eu em uma embarcação que mandou Rezoão em que vinham um man- cebo turco e o capitão dos baneanes com outros dois, o qual capitão me levou a sua casa e me agasalhou muito bem. À noite fui ver Rezoão, fez-me muita festa, preguntei-lhe se havia eu de ir falar ao capitão; disse que sim, mas por- que estava doente e com muita gente ordinàriamente, que êle me mandaria recado quando fôsse tempo. Fê-lo ao outro dia à noite e que lá me estava esperando; recebeu-me o capitão com mostras de amor dizendo que folgava muito de eu chegar com saúde, que fizesse conta que estava na minha terra, porque da mesma maneira podia andar naquela, e que quando quisesse ir para a Etiópia ou para o Cairo ou para qualquer outra parte podia ir muito embora. Agradeci-lho muito e disse-lhe que primeiro que me fôsse para minha terra fol- garia de * chegar aonde morrera um padre meu parente, para ver se deixara • fi. io5. alguma coisa. Respondeu que tudo o que eu quisesse podia fazer; depois de estar com êle um pedaço, me despedi; mandei-lhe um presente de algumas coisas que me deram em Diu para minha viagem, mandou-me dizer que pois era pobre para que lhe mandava? e quis dar ao baneane que lho levou cem venezianos para meu gasto, mas êle lhe respondeu que não era necessário, porque eu gas- tava muito pouco e que êle me dava de comer por amor de Deus e me daria também alguma coisa para o caminho. Depois fui visitar a Rezoão Agá e lhe dei os agradecimentos dos favores que por seu respeito me fazia o capitão; respondeu que se não estivera tão doente, doutra maneira me houvera de aga- salhar e que tudo o que eu quisesse faria. Com todos êstes favores se me fazia cada dia um ano com o desejo que tinha de me partir e passar logo, porque sei as voltas que costumam ter os turcos, mas não vinha algum da terra dentro de Etiópia, ainda que tinha lá mandado um homem com uma carta logo quando desembarquei, e sem boa companhia não se podia ir, porque há no caminho muitos ladrões que para roubarem um palmo de pano matam as pes- soas; e acrescentou-me o desejo de me partir ouvir de noite a uns turcos que dormiam perto de mim, sem saberem que eu ali estava, que como havia de haver no mundo deixarem passar um cristão para onde quisesse. A quatro de Maio chegaram cinco cristãos que moravam três dias de cami- nho da aldeia onde costuma estar o padre e outro da mesma aldeia, aos quais mandava o capitão dos portugueses buscar as cartas, porque o sacerdote Bel- chior da Silva fôra visitar outros portugueses que moram distante dêstes quinze
  • 366 Das coisas de Etiópia dias de caminho. Com êstes cristãos me determinei partir logo, mas como quatro dêles eram herejes, não se quiseram obrigar a me acompanhar mais que três dias; porém por sair dali, me concertei com eles dando-me o baneane meu hóspede dois moiros de quem se confiava para também irem comigo e escre- • fi. io5 v. vendo a um xeque moiro seu amigo que estava * no lugar onde me haviam de deixar, que dali me desse gente de guarda e uma mula em que fôsse. Estando para me partir, me vieram dizer na mesma noite que não podia ser, porque chegara nova que os ladrões mataram dois homens no caminho. Respondi-lhes que sem embargo disso havíamos de partir logo, porque suspeitei que o diziam por estarem alguns dias no pôrto fazendo suas mercancias com lhes ter feito o meu baneane tomar por bom preço todo mantimento que traziam logo em êles chegando, para que logo também naquela noite se partissem, mas como me viram resoluto, não falaram mais. O capitão sabendo de minha ida me man- dava dar uma mula; mas julgando os baneanes que era muito aparato para homem pobre, lhe disseram que não era necessário, e me aparelharam um jumento, porque este era o que mais convinha em terra de ladrões. Despedi-me do turco Rezoão, que me fêz muitos agasalhados e me disse que procurasse tornar depressa, que se êle houvesse de passar ao Cairo, me levaria consigo e me faria o gasto, e se não, me encomendaria a algum amigo seu, mas que se me detivesse muito, não viesse a Macua sem saber primeiro se estava êle ali ou aquele capitão que ora era, mas não estando ou sendo já outro, lhe mandasse primeiro pedir licença antes de vir. Agradeci-lhe muito êstes avisos de coisas tão particulares e necessárias e lhe prometi que tudo havia de escrever ao capitão de Diu, para que se êle lá tornasse lho gratificasse. Respondeu que folgaria muito, porque lhe ficara muito afeiçoado nem tinha visto homem de tanto ser e nobreza como êle. Mas não teve êste turco ocasião de tornar a Diu, porque poucos dias depois morreu, ao qual parece que Nosso Senhor quis conservar a vida não mais que até me passar a esta terra. Parti de Macua aos cinco de Maio, foram-me acompanhando o capitão dos baneanes e um turco seu amigo um pedaço pela terra dentro, até onde os cris- tãos me estavam esperando; dali se despediram e eu fui meu caminho vestido numa roupeta de um moiro, muito velha, e sem camisa e coberto com um • fi. 106. pedaço de cotonia por respeito dos ladrões; ca*minhámos aquela noite por caminho muito áspero e com tão grande mêdo que não se atreviam os compa- nheiros a falar senão muito manso. Perto da manhã quiseram descansar um pouco, mas em me assentando, que estava muito cansado, porque vim quásí sempre a pé por o jumento não prestar, se levantaram todos gritando; e virando eu a cabeça a ver o que era, vi um leão que já ia virando e estaria de mim como oito passos e com a grita que lhe deram se afastou, mas muito devagar, e dali a pouco tornou a virar-se e nós nos fomos, botando muitas pedras por entre os espinheiros; todo aquele dia caminhámos com muito mêdo de ladrões por serras tão altas e ásperas que ainda que o jumento fôra muito bom, não pudera ir nêle, pelo que cheguei à noite a uma aldeia de moiros e com os pés esfolados dos sapatos que eram ruins. O xeque desta aldeia era amigo do capitão dos baneanes, e assim o moiro que vinha comigo lhe pediu de sua parte alguma cavalgadura; deu-nos um jumento tal como o passado, pelo que foi
  • Das coisas de Etiópia 367 necessário pedir outro mais adiante a outro amigo do baneane, que ainda que era melhor, contudo não deixei de padecer muito trabalho, porque, corno as serras eram tão íngremes, era-me forçado ir muita parte do caminho a pé com os pés esfolados e chagados. Dia da Ascensão à noite chegámos a uma malhada de pastores cristãos onde estariam quinhentas vacas do governador do Tigare, e cuidando êles que eu era turco tiveram muito mêdo de mim e se afastavam, mas depois que sou- beram que era cristão e padre, vieram todos a beijar-me a mão, mostrando muita alegria, e me trouxeram muito leite, que todos comemos, o qual vinha em uns cestinhos de palha, porque não teem outras vasilhas e para o cozerem lhe botam dentro calhaus feitos brasas. Pediram-me perdão por me não darem pão, dizendo que poucas vezes o comiam, por lhes vir de muito longe. Pela manhã cedo me parti e tendo já andado um pedaço, vieram por uma serra acima as * mulheres dos pastores bradando por mim, que lhes esperasse, e .fi. ioôt. chegaram chorando dizendo que se esconderam a noite antes, por cuidarem que era turco. Pediram que lhes desse a bênção, e umas me pegavam das mãos para mas beijarem, outras dos pés sem me poder defender. Detiveram-me um bom espaço, em que as estive consolando e não pouco edificado de ver sua devoção e muito magoado quando depois soube os erros que teem na fé sem terem quem as ensine. Daqui fomos por serras mui ásperas, sem fazer mais que subir e descer e com muita chuva, por respeito da qual me era necessário subir a pé, bem cansado e molhado, e por um caminho tao estreito e perigoso que não tinha mais que três palmos de largo e por uma parte e outra ficava tão alto e a pique, que me não atrevia a olhar para baixo por se me não ir o lume dos olhos. E se, como era subir, fôra descer, não me parece que o pudera fazer. Cheguei acima quási morto e tirando-se-me a vista dos olhos, mas achando o caminho mais chão, chegámos a uma aldeia pequena, na qual logo vieram os cristãos dela a me mostrar suas cruzes e livros, mas não lhes pude dizer coisa alguma sobre seus erros (ainda que êles folgavam de falar), porque um moiro que era língua não queria dizer mais que o que lhe vinha à vontade. Deram-nos uma casinha muito pequena, onde nos agasalhámos, mas não foi pequena a caridade pela muita água que choveu aquela noite, que se no-la não deram, nos houvera de tomar no campo. Desta aldeia fomos ao outro dia, dez de Maio, a uma vila que chamam do Baruá, onde me deixaram os companheiros, tirando o cristão que fôra em busca das cartas e um mancebo moiro, criado do capitão dos baneanes, porque até ali sòmente se obrigaram a me acompanhar. Agasalhei-me em uma casa de palha pequena. À noite veio um moiro que ali está pelo governador daquelas terras do Barnagais para arrecadar as rendas, e mostrando-se muito crime, me disse em arábio:
  • 368 Das coisas de Etiópia prender. Ao outro dia, que era domingo, pela manha me trouxe o outro moiro que comigo viera ejinha ali sua casa, uma galinha cozida, e em entrando com ela, se saiu o cristão católico meu companheiro, e preguntando eu porque se saía, me disse o mancebo moiro que por não comer da galinha, porque os cris- tãos desta terra não comiam coisa morta por mãos de moiros. Mandei-o chamar muito depressa e diante dêle agradeci ao moiro a boa obra, mas que tornasse a levar a galinha, porque eu a não comia. E assim por o não escandalizar, ainda que estava bem fraco, fiquei antes comendo um pouco de biscoito seco do que trazia de Diu, molhado em água sem outra coisa, o qual foi sempre o meu comer, porque o dinheiro que trazia para gastar não me aproveitava, por nao correr neste terreno outra moeda senão pedras de sal, nem também podia comer o pao de meus companheiros que eram uns peloiros de massa mal cozi- dos, porque quando os fazem, metem uma pedra muito quente dentro na massa e logo fecham o peloiro e o botam no fogo e assim fica queimado por fora e massa por dentro e isto levam em uns foles para comerem no caminho. Estando nesta vila e neste mesmo dia de domingo, a onze de Maio, chegou aqui o capitão dos portugueses, que se chama João Gabriel, com outros dois filhos de portugueses e outra gente que me vinha esperar àquele lugar, porque tinha recebido a carta que lhe escrevi de Macua. E foi tão grande a alegria que com eles recebi que me fêz esquècer dos trabalhos passados. Levaram-me «fi.,o7v. logo a outra casa maior e por me * fazerem festa, mataram uma ovelha de que eu nao pude comer, porque não fizeram mais que dar-lhe duas voltas no fogo, e assim crua a comeram conforme ao costume da terra, mas vendo que eu não comia, me trouxeram um pouco de leite. Veio logo um xeque moiro a quem o capitão dos baneanes (que em tôda esta terra é conhecido) escrevera que me desse uma mula e quanto lhe pedisse. Êste me trazia a mula, mas o nosso capitão a não quis tomar nem consentir que eu viesse senão na sua que era muito boa, e tomando para si outra da companhia, nos partimos logo e com sermos vinte pessoas, vinham com grande medo de ladrões. Tivemos grande trabalho no caminho, porque cada dia à tarde nos chovia e dormíamos no campo com grande frio, porque ainda que até chegar àquela serra grande, que acima disse me cansara muito, tivemos grandes calmas, como a passámos, fomos achando frio. Fazendo pois assim nosso caminho, aos quinze de Maio de 6o3 chegámos ao termo dele tao desejado, que foi a Fremona, que assim se chama o lugar onde está a primeira igreja dos portugueses e nela enterrado o santo Padre Patriarca e os mais padres nossos que aqui sempre residiram. Antes de entrar me vesti de loba, mantéu e barrete que até então trouxe escondido. Estava-me esperando à entrada do lugar muita gente, que tanto que me viram, em sinal e alegria levantaram uma grande grita e uns batiam nos peitos, outros beija- vam o chão, derramando muitas lágrimas e dando graças a Deus que fôra ser- vido trazer-me, hvrando-me de tantos perigos como êles sabem que há por onde vim. Entrámos todos na igreja, e depois de fazer oração, lhes disse brèvemente por um língua como os vinha acompanhar e servir e que dava por bem empre- gados todos os trabalhos que tivera no caminho por me ver entre gente que entre tantos herejes conservava a fé católica da Igreja Romana e mostrava tanta • Fi. ,08. devoção. Dali fui ver a casa onde morou o santo Pa*dre Patriarca, que é
  • Das coisas de Etiópia 369 redonda como meia laranja, coberta de palha como são todas quantas tenho visto em Etiópia, que mais se podem chamar cabanas que casas, porque todas são térreas e redondas, muito pequenas e sem nenhum modo de repartimento. E assim dizem que são as demais do reino, tirando as de El-Rei e dos grandes, que teem aposentos mais bem acomodados, mas também terreas e cobertas de palha. Esta do Padre Patriarca tem vinte palmos de vão. Folgara muito de me agasalhar nela, por ser daquele santo, mas não pôde ser por então, por estar ocupada com algumas coisas do sacerdote Belchior da Silva. Não achei aviamento para dizer missa, porque o levara êle consigo, que senti na alma, porque estive muitos dias sem a dizer. O domingo seguinte que era do Espí- rito Santo fiz concertar a igreja o melhor que pôde ser e disse-lhes missa seca e fiz-lhes uma prática sôbre aquelas palavras do Senhor ad eurtt veniemus et mansionem apud euni faciemus; começaram logo a vir muitos a se confessar, assim deste como doutros lugares aqui perto. Nestes mesmos dias se partiu para a côrte o capitão dos portugueses, a qual dista daqui dez ou doze dias de caminho. A ocasião da sua ida foi tomar agora de novo o govêrno o Imperador desta Etiópia, e por êste respeito mandou lá ir todos os capitães e governadores das suas terras. Escrevi-lhe por êle uma carta em que lhe dava conta de minha chegada, e que ainda que vinha mal tratado do caminho, logo lhe fôra beijar a mão se tivera licença sua, mas que, tanto que ma desse, o faria. Respondeu-me que folgava muito com minha vinda e chegada a salvamento, e que, como passasse o inverno, me fôsse logo aonde êle estava. Por onde, no fim de Setembro, em que êle se acaba nestas terras, me partirei logo para êle e lhe levarei algumas coisas das que trouxe, porque dêle depende não só o bem temporal de nossos católicos e portugueses, mas o espiritual de todo império, pois nem os eclesiásticos fazem senão o que êle manda, * e se disser que todos . n. 108*. sejam católicos, nenhuma contradição haverá, nem nos eclesiásticos nem nos seculares; pelo que com ajuda do Senhor, com êle principalmente determino entender se me der entrada. A qual pode ser que dê, porque dizem que folga muito com quem sabe falar arábio, porque o sabe êle muito bem, e alguns dos seus grandes se prezam muito de o saberem, por o seu Patriarca, que agora é, ser arábio; chama-se êste Imperador Malac Sagued, e de quinze anos e, segundo dizem, bem inclinado; queira Deus abrir-lhe o entendimento para que conheça os muitos e grandes erros em que o teem criado: sôbre os quais tenho já falado com muitos, e alguns pela bondade de Deus se determinaram a deixar suas heresias, e assim estarão agora para as abjurar vinte ou vinte e dois, e um dêstes, que é já velho, disse que ainda que não lhe mostrara tão claramente os erros que tinha contra a fé, bastava-lhe saber quanto eu tinha padecido no cativeiro de seis anos e neste caminho que agora fiz por os vir ensinar, para entender que minha doutrina era boa e que não os havia de vir enganar. Com outro disputei sôbre alguns de seus erros e particularmente sôbre a circuncisão, que êles teem, e depois de lhe dizer que sôbre isto não havia que disputar, pois os Apóstolos tinham determinado esta questão naquele primeiro concílio que fizeram em Jerusalém, e S. Paulo dizia que aos que se circuncidassem não lhes aproveitava Cristo, lhe mostrei também como Cristo dera fim à circuncisão. Pelo que circuncidarem-se agora era dizerem com os judeus que Cristo não era 47
  • Das coisas de Etiópia vindo e que ficavam obrigados a guardar toda a lei, com Cristo ser o fim dela. Ficou com isto convencido, mas não persuadido a deixar seus erros, porque foi dizendo que não faltaria quem me soubesse responder; mas como estes sabem pouco, correu logo a fama de mim que era grande letrado, pelo que nenhum chegou mais até agora a disputar comigo. Depois disto me mandou chamar uma mulher que estava mui doente e me pediu com muita instância que a con- «fi. 109. fessasse, que queria morrer católica; instruí-a o melhor que pude, confes*sei-a e foi Deus servido que com a saúde da alma lhe deu a do corpo. E ela a deu também a cinco filhos seus fazendo com que todos se tornassem católicos. Aos dois de Julho chegou aqui o sacerdote Belchior da Silva, com saúde, mas bem cansado do caminho, porque, segundo me diz, é mais áspero e fra- goso que o que eu andei e será para maior merecimento, pois é necessário passá-ío duas vezes cada ano de ida e vinda e não é tão breve que não sejam vinte dias de caminho até Nanina onde estão os mais dos católicos. Fica comigo êste ano para me instruir nas coisas da terra e erros dela. A cabeça do santo Padre Patriarca mando a V. R., mas não a achei inteira, porque a desenterraram muitas vezes: aí vai o casco em três pedaços e o queixo com oito dentes; em retorno disto me faça caridade de me mandar uma imagem de Nossa Senhora da Conceição de cinco ou seis palmos para esta igreja que não tem imagens, e será de grande devoção para esta gente. A cabeça do Padre Francisco Lopes que ainda estava cheia de cabelos fica sôbce minha cabeceira para me lembrar mais de sua vida, que foi tal qual V. R. verá pela informação que dêle tirámos e dos mais padres, em que irão também algumas coisas do Padre Abraão, que lá se não sabem, o qual tudo irá a seu tempo. Até aqui a carta do Padre Pero Pais, e com sua tão ditosa entrada naqueles reinos se abriu o caminho para poderem ir outros padres que já para isso estão nomeados e esperando em Diu a ocasião para se poderem partir. CAPÍTULO XXIII Do serviço que a Companhia em tódas as partes acima ditas do Oriente fa\ não somente a Deus senão também a Sua Majestade e à coroa déste reino • fi. iog v. # X^>OMO remate de tudo o que temos dito nesta história das coisas da índia 1 Oriental me pareceu que não era justo passar por duas coisas dignas de serem ponderadas para glória de Nosso Senhor. A primeira é que em quási todas as cortes dos reinos e reis mais poderosos que há no Oriente, está plantada nossa Companhia. No Japão (além doutros reinos) teem feitas três casas na cidade do Meaco, metrópole e cabeça de toda aquela monarquia, e os padres estão nela favorecidos e respeitados de muitos senhores daqueles reinos. Na China estão no grão-Pequim, cidade real e metrópole de todo aquele império tão poderoso e rico, afora outras três residências que teem noutras partes e cidades dêste reino. Em Bengala na corte e cidade do Rei de Chandecam, em
  • Das coisas de Etiópia Bisnagá estão na cidade real e côrte deste grande e poderoso rei que se chama Chandegri, tão amados e estimados dele como de qualquer príncipe cristão. No grão Mogor andam sempre com ele por onde quer que vai, residindo em sua côrte há muitos anos e também tão queridos e reverenciados dele como acima dissemos, e teem residências em duas cidades reais que são Lahor e Agra. No Malabar estão na côrte e cidade real do Samorim que é Calecut, o qual os estima tanto e tem tão grande confiança nêles, que de nenhuma maneira os quere largar de si; e não trato aqui dos que estão nas cortes e cidades reais de outros reis mais pequenos do Malabar, como no reino de Travancor, de Porcua, Dangamalé e outros. No Preste João, estarão na côrte do Imperador da Etiópia, como agora acabámos de dizer, nos quais lugares todos e cortes, não sòmente estão como embaixadores que são de Deus para tratarem seus negócios e como reféns das pazes e amizades que quere fazer com aqueles reis e reinos, descobrindo-lhes o tesoiro e lume de sua santíssima fé, mas também em seu modo como embaixadores por parte de Sua Majestade emquanto Rei de Portugal, para ali darem a conhecer seu nome e estenderem a fama de sua potência e lhe ganharem e conservarem a paz e * amizade de todos aqueles tão «H. no. grandes príncipes, tão importantes para bem e aumento do Estado da India, e mais sem lhe custar coisa alguma de sua fazenda, pois quási todos êstes reis à sua custa sustentam os mesmos padres e lhes dão o necessário para viverem. Outra coisa para não passar é não ajudarem e servirem menos os da Com- panhia naquelas partes para conservação e aumento da conquista e estado tem- poral, do que ajudam e servem no espiritual, porque ainda que não façam isto com as armas de ferro e fogo nas mãos, pois a profissão da vida o não sofre, fazem-no por outro modo de grande efeito. Porque quantos gentios convertem a Cristo, tantos amigos e vassalos adquirem ao serviço de Sua Majestade, por- que êstes depois nas guerras pelejam pelo Estado e cristãos contra os infiéis, e junto com os portugueses se fazem bons soldados. Os padres aonde quer que estão, conteem aos súbditos na obediência que devem a seu rei e governadores, aos soldados na sujeição a seus capitães, e conservam e teem mão na paz entre os portugueses e os próprios gentios. Antes da Companhia entrar na China e Japão, a cada passo os portugueses quebravam e rompiam guerra com estas nações, porque na verdade também os portugueses lhes faziam muitos agravos e usavam de muitas insolências até uma vez chegarem em Cantão a açoitar um mandarim, mas de cincoenta anos a esta parte que "há que a Companhia entrou naqueles reinos, de tal maneira com suas exortações e prudência levou os portugueses e se houve com os gen- tios, que nunca mais quebraram nem romperam em guerra, antes sempre conservaram tôda a paz, de modo que os mesmos chinas nao querem que os portugueses vão às feiras de Cantao, que se fazem duas vezes no ano, sem leva- rem consigo os padres, como de feito levam e vão sempre, porque hão e a experiência lho tem mostrado, que estando êles presentes nem há brigas, nem se lhes fazem injustiças, porque em quaisquer dúvidas que se levantem, os padres acodem e as compõem. Os reis da índia quando querem * fazer suas .fuho*. pazes com o Estado, não querem que seja por outro meio senão dos padres. Assim o fêz há dois ou três anos o grão Mogor, que mandando um embaixador
  • 372 Das coisas de Etiópia seu a Goa, mandou juntamente com êle um padre. Assim o Rei de Bisnagá, que mandando o ano passado o seu, mandou com êle dois padres, como acima dissemos. Assim o fêz o Samorim, Rei de Calecut, quando agora há quatro ou cinco anos fêz as pazes com o Estado depois de mais de trinta anos que andou com êle em guerra, que de nenhuns outros se quis fiar nem quis que fossem os medianeiros nelas senão os padres, os quais tem sempre consigo. E êles, além da conversão das almas, este é um dos respeitos porque se teem ali em sua côrte por tão bem empregados, para com sua presença conser- varem estas pazes. E se êles não foram e não tiveram tanta autoridade e cré- dito como teem com êste rei, nunca se pudera tomar o Cunhale no tempo em que se conquistou, e a guerra com o mesmo Calecut se tornara a renovar com grande perturbação e perda do Estado, porque tão maus ofícios faziam os moiros em secreto com o Samorim e em tantas desconfianças o punham dos portu- gueses, que de todo tornara atrás e rompera com os nossos, se os padres não foram, que em lhe falando e dando sua palavra, se segurava logo. Trinta anos há que as fortalezas de Ambóino e Tidore nas partes de Maluco ardem em contínuas guerras, mas o não se acabarem de perder, como se per- deu a de Ternate, aos padres se deve depois de Deus. Os quais com muitos e grandes trabalhos que ali teem padecido, até morrerem alguns dêles, perseve- raram sempre em acompanhar aqueles soldados, animando-os a pelejarem e sustentarem os apertados cercos em que se viam, com tão pouco remédio de socorro. O mesmo se vê nas armadas e jornadas que naquelas partes se fazem, nas quais costumam ir os padres para no espiritual e temporal ajudarem aqueles soldados, pacificarem nas brigas, animarem nas batalhas, do que tudo resulta muito grande bem temporal ao Estado da índia e o que sobretudo pretende a Companhia, que é muito bem das almas e a glória e honra de Nosso Senhor.
  • * L I V R O QUARTO DAS COISAS DO BRASIL, ANGOLA, CABO-VERDE E GUINÉ CAPÍTULO PRIMEIRO Da província do Brasil, do número de casas e pessoas da Companhia que nelas há ÊSTE terreno e província do Brasil mui grande; tem perto de novecentas léguas de costa, de norte a sul; começa do rio que se chama do Maranhão, que está aos cinco graus além da linha da banda do Sul e vai correndo até os trinta e cinco, que é na altura do Cabo da Boa Esperança, entestando com o Rio da Prata, que o divide do Peru e fica defronte do mesmo cabo. Pelo sertão adentro corre em parte duzentas, em parte trezentas léguas. Terão povoado desta província os portugueses como quatrocentas léguas da costa com várias cidades e vilas, onde há muitas fazen- das de açúcar e engenhos mui grossos, com que a terra se vai fazendo de grande trato e negócio. Por todas estas está também espalhada nossa Com- panhia em três colégios, que fundou El-Rei Dom Sebastião que Deus tem, e cinco casas entre brancos e treze ou catorze residências em várias povoações e aldeias dos brasis. Os colégios são o da Baía de Todos os Santos que é cabeça da província, onde há de ordinário assim no colégio como em suas residências e al*deias, perto de oitenta pessoas da Companhia, entre padres e irmãos; dês- .fluit, tes são os seis mestres, um de teologia, outro de casos, um de curso, dois de latim e outro que ensina os meninos a ler e escrever. O segundo colégio é o do Rio de Janeiro; neste e em suas anexas há passante de cincoenta pessoas, nêle há também escola de latim e de ler e escrever. O terceiro colégio é o de Pernambuco, em que há passante de trinta da Companhia. Entraram os nossos nesta província no ano de quarenta e nove, por mandado de El-Rei Dom João III de Portugal. E em trinta anos não entraram nela outros religiosos, por onde tôda a conversão que neste tempo se fêz naquela gentilidade, a fizeram os nossos, os quais ainda agora a vão continuando em todas as partes do Brasil, pôsto-que na Paraíba, de alguns anos a esta parte, entraram também a ajudar aqueles gentios os religiosos de São Francisco e depois noutras partes os de São Bento. Foi sempre esta província mui trabalhosa e de cruz mui sêca para os padres, em tanto que não sabemos outra em que os nossos, mores dificuldades pade- cessem na conversão dos gentios e conservação dos já cristãos, que nesta. E
  • 374 Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné isto por várias razoes. A primeira pela grande variedade das línguas que tem êste gentio, que ainda que pela fralda do mar tôda usa de uma língua, pelo sertão mais adentro se teem já descoberto mais de setenta línguas diferentes. A segunda pela grandeza da província e distância que há de umas partes a outras, pelo que custam muito aos padres os caminhos e peregrinações em que perpètuamente andam, por matos e desertos despovoados, com perigos infinitos de mar, rios e bichos e de inimigos, que muitas destas nações são uns dos outros. A terceira por ser necessário irem os nossos buscar os naturais pelo sertão adentro e trazerem-nos para junto do mar, como adiante se dirá. E para que isto se entenda melhor, se há-de saber que naqueles primeiros vinte anos depois que os nossos entraram no Brasil, havia junto do mar tão grande mul- tidão de gente, que dizia Tomé de Sousa, que foi Governador daquelas partes, • fi. 112. a El-Rei Dom João III, que ainda que os # cortassem em açougue, nunca fal- tariam, e assim nos primeiros quarenta anos eram infinitos os que se convertiam e as igrejas eram muitas. Porém como os brancos portugueses iam povoando a terra e fazendo engenhos de açúcar e fazendas e para isto tinham necessidade de muitos trabalhadores, começaram de lançar mão dos naturais da terra, e o que pior é, a cativá-los e fazê-los escravos, ferrando-os e vendendo-os para diversas partes da mesma província. Pelo que os pobres brasis, como de sua natureza são tristes e coitados, entraram em tamanha melancolia, que os mais deles morreram e se consumiram, outros fugiram pela terra dentro e não pararam senão dali a cento e duzentas léguas, e deixaram a fralda do mar despovoada. Por onde para os padres os tornarem a reduzir e trazer à igreja foi necessário e o é ainda hoje em dia, i-los buscar ao sertão, onde se acolheram, como vão continuamente, fazendo para isso jornadas em que gastam seis meses e um ano, e às vezes ano e meio, caminhando a pé, rompendo matos, padecendo grandes fomes, sêdes, calmas, perigos e trabalhos, como abaixo se dirá, escre- vendo uma só jornada destas, para que dela se entendam as outras. E desta maneira os tornam a trazer poucos e poucos, os quais não veem mais que con- fiados na palavra e amor dos padres, que os defenderão dos brancos, para que os não cativem e tratem mal. E com tudo isto, ainda depois que os padres os trazem do sertão, os brancos os andam a saltear e furtar, sem os padres lho poderem defender, e algumas vezes os mesmos brancos se fingem e vestem em trajo de padres até fazerem coroas nas cabeças, para que o pareçam de todo, e se vão ao sertão às aldeias dos brasis, dizendo-lhes que são padres, para os enganarem e se virem com êles como por vezes vieram, cuidando que vinham com padres e depois que os teem junto do mar os amarram e repartem entre si e levam cada um para seus engenhos e fazendas. E porque os padres nes- tas e outras semelhantes sem-razões acodem pelos pobres índios e os defen- dem da cruel cobiça dos brancos, são mal recebidos dêles e os inquietam de •fi.iut. contínuo * com muitos agravos; e com os reis passados de Portugal e depois dêles Sua Majestade terem provido nisto por suas provisões e mandatos reais, nada basta para enfrear a fôrça da cobiça e largueza da consciência e pouco temor de Deus dos que isto fazem e mais aonde muitas vezes os mesmos que hão-de executar os mandatos de El-Rei são interessados no mesmo negócio. Outra coisa que muito dificulta a conversão e cultivação desta gente é a
  • Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné 375 muita boçalidade e pouca capacidade que de sua natureza tem, que não sabemos outra mais boçal no mundo. Pelo que custa muito aos padres domesticá-los e fazê-los capazes das coisas de Deus, mas com a perseverança e paciência em lidar com eles, os teem nesta parte tão cultivados que teem já suas igrejas em várias povoações e aldeias e nelas suas confrarias do Santíssimo Sacramento e fazem suas procissões solenes, e seus filhos oficiam missas de canto, de órgão e com doçainas, chamarelas e outros instrumentos semelhantes e reconhecem aos padres por seus pais, como na verdade o são nas obras. Porque não sòmente os curam nas almas como pastores, prègando-lhes e ensinando-lhes a doutrina duas vezes no dia, confessando-os e administrando-lhes os sacramentos, enter- rando os que morrem, ajudando-os a bem morrer, mas os padres os governam ainda no temporal e lhes dão ordem de como hão de negociar suas roças e lavoiras e remédio de vida e quando estão doentes, os padres são os seus médicos e enfermeiros e emfim se hão com eles como pais com filhos e tutores com pupilos e de modo que se os padres não foram, nem um só índio brasil houvera hoje em tôda aquela costa, porque todos já foram ou consumidos ou fugidos e metidos pelo sertão, nem também o próprio Estado do Brasil se pudera conservar. Mas a paciência dos padres por uma parte em lidarem com a cobiça dos brancos e sofrerem suas perseguições e calúnias por acudirem e defenderem dêles os pobres brasis, por outra o cuidado paternal que dêles teem como de gente tão desamparada e incapaz, * é que os sustenta na fé e • em viverem pacificamente nas aldeias e povoações todos juntos, de que tanto proveito se segue para o Estado do Brasil, que sem êles impossível fôra con- servar-se. Do respeito e sujeição grande que os brasis teem aos padres e do muito que os padres que com êles tratam ajudam ao estado temporal INDA que os brasis de sua natureza são tão boçais e agrestes, todavia, como não há feras tão bravas que com boas obras se não venham a abrandar e domesticar, estas que agora acabamos de dizer que os padres continuamente fazem aos brasis, lhos teem tão sujeitos e domesticados que não sabemos de nação alguma outra, que da gentilidade se tenha convertido, que mais amor lhes mostre e mais sujeita e obediente lhes seja, de modo que não sòmente os que já são cristãos, se não também os que ainda estão gentios e vivem pelos matos do sertão, pela fama que lá teem dos padres, lhes teem o mesmo respeito. Para prova do qual contaremos alguns exemplos assim de coisas passadas os anos atrás, como das modernas dêste presente ano de 6o3 de que falamos. Era nos anos passados a Paraíba uma colheita de ladrões e dos franceses da Rochela depois que foram lançados do Rio de Janeiro, os quais se confede- ravam com os naturais da terra e levavam dali grande quantidade do pau do Brasil e faziam muitos males. Foi lá Martim Leitão, por mandado do Gover- CAPÍTULO II
  • 376 Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné nador, com gente de guerra, levou consigo os padres e estando os brasis for- tificados numa forte cerca sem se quererem render, nem os nossos os poderem entrar, eis que um padre nosso que sabia bem a lingua e era mui animoso, • Fi.n3v. confiado em-Deus, salta por cima da cêrca dos inimigos e mete-se com * eles arriscando-se a o fazerem em pedaços e ser logo comido; e abrindo os braços lhes começa a prègar na língua, paz, paz, sejamos amigos, e outras palavras brandas e amorosas, as quais tiveram tanta força com êles e êles ao padre em o vendo, tanto respeito, que depostos os arcos se cruzaram diante dêle e renderam e entregaram a terra, onde logo se fêz povoação e se começaram a fazer engenhos, e foi crescendo, de modo que há já hoje oito ou nove, de que Sua Majestade tem mui boa renda, e os franceses foram dali lançados e o grosso trato que tinham do pau, ficou todo de Sua Majestade, e aos índios puseram logo os padres em aldeias e os começaram a cultivar e doutrinar. Pôsto-que depois de tudo isto feito e em pago desta boa obra que os padres ali fizeram, veio outro capitão de novo, que sem nenhuma causa nem culpa que nos padres houvesse, mais que o defenderem aos índios e o resistirem às semrazões e injustiças que lhes faziam, os lançou dali fora com muitas afrontas. Ao Rio Grande, que está trinta léguas de Pernambuco, foi Manuel Masca- renhas, capitão-mor, à conquista daquele gentio, que tantos males e guerras tinha feito a esta capitania, mas nada pôde pacificar sem padres, porque ainda que na guerra que lhes fêz os venceu, as pazes porém não pôde efeituar com êles senão por meio dos padres, que entrando sós pelo sertão, aventurados a muitos perigos e a serem mortos e comidos dos gentios, de tal maneira se houveram com êles, que os renderam e trouxeram a pazes com os brancos mais de cento e cincoenta lugares. E aqui, depois das pazes feitas, fazendo-se a fortaleza que um dos padres traçou, os mesmos padres andavam com os índios na fábrica dela e com a pedra e terra às costas, a cujo exemplo os índios trabalhavam grandemente. Cinco fortalezas fêz o Governador Dom Francisco de Sousa no recôncavo da Baía, nos postos mais importantes. Nestas os que trabalharam foram os índios, vindo os padres em pessoa com êles a assistir à obra, das aldeias onde estavam, porque se os padres não vieram, a quem êles sòmente tinham • fi. 114. * respeito, nihguém os pudera trazer. No Rio de Janeiro tôda a fortificação que nêle fêz o Governador Salvador Correia de Sá, que foram duas ou três fortalezas, os padres com os índios das aldeias que estão a seu cargo as fizeram, sem Sua Majestade nisso gastar real. Da mesma maneira passa na defensão da terra, quando alguns inimigos ou corsários veem a ela e pretendem dar ou desembarcar em alguma parte, que os índios à sombra dos padres são os que lhes defendem a desembarcação e os desbaratam com suas frechas, mais que os portugueses com seus peloiros. Sendo Visitador do Brasil o Padre Cristóvão de Gouveia, estando no colégio de Baía, sucedeu ir ali uma armada de inimigos ingleses, no tempo que andavam em guerra com êste reino, para tomarem a terra, e vendo o padre a pouca ou nenhuma defensão que havia na cidade para lhes poderem impedir a desem- barcação, mandou aviso aos padres que estavam nas aldeias, que acudissem com os índios de suas frèguesias. Veem logo todos com suas frechas, obedecendo à risca aos padres, o que não houveram de fazer a nenhum capitão; repartem-nos
  • Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné 377 os mesmos padres por suas estâncias e lugares, onde os inimigos podiam desembarcar, encomendando-lhes que o façam como cristãos e valentes homens. Êles o cumpriram tão bem que em muitos dias que ali estiveram e que os ini- migos estiveram no porto e por tantas vezes trabalharam por desembarcar, nunca jamais lhes deixaram pôr pé em terra, porque ainda que estes índios são de sua natureza coitados, todavia os que se criam com os padres e são culti- vados por êles e com o amor paternal com que os padres os tratam, é coisa maravilhosa os espíritos que cobram e quanto homens se fazem. Na capitania do Espírito Santo deram os ingleses com duas naus de súbito, e saltando em terra, estando a gente descuidada e na igreja, entraram e tomaram a fortaleza que os brancos lhes não puderam defender; neste tempo o padre das aldeias que viu vir as naus e entendeu que saltavam em terra, ajuntou logo os índios e veio socorrer a cidade, e chegando a tempo que os inimigos acabavam de tomar a for*taleza, deram os índios nêles de modo e com tanto esforço que lha tor- • fi. m*. naram a tomar com morte e cativeiro de muitos. E em Pernambuco, quando os ingleses foram com uma armada tomar a fazenda de uma nau da índia que ali foi ter, e que, depois de a meterem em suas naus, quiseram ir dar na vila, os índios que os padres criam e cultivam foram a principal ajuda que os brancos tiveram para aquela vitória que ali alcançaram dos inimigos, matando muitos e cativando outros e fazendo aos que fugiam para suas naus deixar as armas e embarcarem-se a nado e meios afogados. E pôsto-que de semelhantes casos se puderam referir muitos que cada dia acontecem, só relatarei um, por ser mais moderno e suceder neste ano de 6o3 de que falamos, que foi o seguinte: Estando o Governador Diogo Botelho em Pernambuco e desejando socorrer a Baía a petição do capitão-mor Álvaro de Carvalho e da cidade, contra os gaimures, uns gentios inimigos de que abaixo diremos, que infestavam e des- truíam toda aquela comarca, com algumas companhias de gentios petiguares, mandando ao sertão ao capitão-mor de Pernambuco Manuel Mascarenhas a fazer gente para este efeito, pediu ao Padre Provincial para que fôsse junta- mente com ele o Padre Diogo Nunes de nossa Companhia, por ser mui prático na língua e experimentado nos costumes dêste gentio. Indo depois de muitos dares e tomares que tiveram com êles, os quais em nenhum modo queriam ir, emfim com promessa que lhes fêz o capitão-mor que acabada a guerra se tor- nariam para suas mulheres e parentes, se abalaram como oitocentos mancebos esforçados. Vieram a Pernambuco, onde se embarcaram para a Baia e com êles o mesmo Padre Diogo Nunes, por assim o pedir o Governador e também os mesmos petiguares, que por êle ir em sua companhia cuidavam lhes guar- dariam a palavra. Chegaram à Baía desejosos de vir às mãos com os inimigos. Saíram em terra dando a cidade aprazível vista de si. Mas como neste tempo estava já feita paz com os inimigos, pareceu ao capitão-mor Álvaro de Carvalho mandar a * mor parte desta gente para a capitania dos Ilhéus e os demais «FLuS. deixar na Baía não para pelejarem, mas para maior segurança da terra, pondo-os em uma parte onde também êles pudessem trabalhar. Vendo isto os petiguares e que lhes faltavam com a palavra, porque nem iam pelejar nem viam geito de se tornarem para sua terra, dissimularam por alguns dias, porém arreceosos de que os brancos os espalhassem e cativassem, como costumam, para se ser- 48
  • 378 Das coisas do Brasil, Angola, Cabo - Verde e Guiné virem dêles em suas fazendas e não tendo também com que se sustentar, man- daram pedir licença para se tornarem para suas terras, e quando não, que êles a tomariam. Acudiu logo o capitão acompanhado dos soldados e dalguns homens da cidade que pretendiam ter fazendas no mesmo sítio e lugar onde tinham alojados os petiguares, dos quais para elas se queriam aproveitar, fêz-lhes uma comprida prática pelos línguas persuadindo-os a ficarem. Porém êles lhe responderam que se haviam de tornar, pois com essa condição vieram, já que não havia guerra. O que vendo o capitão-mor e havendo-se por afrontado não os poder trazer por bem ao que queria, mandou logo à cidade buscar a tôda a pressa duas companhias de soldados, os quais chegando aonde o capitão os esperava, os petiguares que os sentiram se começaram logo a motinar confir- mando-se mais no que antes imaginavam, que os queriam os portugueses cativar, pelo que logo se puseram em ordem de peleja para defenderem suas vidas e liberdade. Tomou-se conselho no caso, ajuntando-se os do governo da cidade duas vezes naquela noite, e em ambos saiu que fossem havidos por levantados e rebeldes e como tais se desse nêles, e isto por quererem os pobres brasis defender sua liberdade e tendo Sua Majestade passado tantas provisões que não possam ser cativos. O capitão-mor porém, como prudente e bom cristão, usando de melhor conselho e entendendo os grandes males que daqui se podiam seguir, buscou o mais seguro remédio para semelhantes perigos, que pôsto-que de todos é conhecido, a cobiça porém de muitos faz que não seja seguido. Este • fi. n5 >. foi que despachou logo correios * para cada uma das aldeias e povoações onde nossos padres residiam, os quais estavam dali légua e meia, com cartas em que lhes pedia o viessem socorrer naquele apêrto, cujas palavras foram estas: Importa ao serviço de Deus e de Sua Majestade que VV. RR. sem nenhuma dilação se venham logo ter comigo, com os frecheiros que puderem, e o por- tador dirá de palavra o apêrto em que ficamos. Acudiram logo os padres, com tôda a pressa, falaram aos petiguares, mostraram-lhes o amor de pais que lhes teem, e pôde isto tanto com êles, que não houve mister mais força nem palavras para se aquietarem, dizendo todos que sem nenhuma resistência fariam o que os padres lhes dissessem; ficaram o capitão e os mais maravilhados. Mas pre- tendendo depois o mesmo capitão-mor levar uma boa parte dos principais para a cidade para que assim a êles como aos mais tivessem seguros, e procurando trazê-Ios a isso por uma prática dum português língua, êles lhe responderam alegando suas razões, que não convinha desempararem os seus, porque enten- diam o fim que nisto se pretendia. Por onde o capitão não teve outro remédio que tornar-se a valer dos padres, os quais vindo, lhes fêz um dêles uma fala diante do mesmo capitão e portugueses, persuadindo-os a virem no que lhes pediam. Ao que responderam logo que por amor dêle e de seu irmão, apon- tando para o companheiro do padre, não por respeito do capitão nem dos mais, fariam o que lhes dizia, de que ficaram muito mais espantados os circunstantes; e daqui se pode entender o respeito e obediência que êstes índios teem aos padres e quanto dêles se confiam e quanto também a paz e quietação daquele Estado e aumento dêle depende de os índios andarem sempre à sombra e protecção dos pa- dres e de os mesmos padres nisto serem ajudados e favorecidos de Sua Majes- tade e de seus ministros, para que neste particular seja melhor servido dêles.
  • Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné 379 CAPÍTULO III * Do fruto em geral que os nossos fa\em nesta província *fi. 116. e de algumas missões que fi\eram ao sertão COM três sortes de gente exercita a Companhia nesta província seus minis- térios; com os portugueses, com os escravos de Guiné e com os naturais da terra. Com os portugueses pregando e confessando e ensinando e fazendo o que em tôdas as outras partes costuma, conforme a seu instituto, de que se colhe muito fruto e salvação de muitas almas, conversões e moções maravilhosas, com que Deus por meio das prègações as toca, apartando-se de grandes pecados, em que havia muitos anos andavam, tiram-se muitos ódios, reconciliam-se entre si muitos que nêles viviam, impedem-se muitas mortes, fazem-se muitas restituições e muitas outras obras pias de grande serviço de Deus, que por serem ordinárias em tôdas as partes, não especificamos o par- ticular delas. A segunda sorte de gente com que acima dissemos os padres faziam muito fruto, são os negros de Angola e Guiné, por haver grande número dêles nesta terra e muitos tão boçais que quási se lhes não enxergava uso de razão. Estes estão espalhados pelos engenhos e fazendas de seus senhores; e porque não é possível virem às vilas e cidades, há alguns padres que ordinàriamente correm tôdas estas fazendas, confessando-os, casando-os, ensinando-lhes a doutrina e administrando-lhes os mais sacramentos, assim a eles como a seus senhores, e para isto se detecm em cada fazenda alguns dias, de que não se pode encarecer o fruto que se colhe, porque se os padres desta maneira o não fizeram, muito poucas daquelas almas se salvaram. A terceira sorte de gente com que os padres exercitam seus ministérios são os próprios brasis naturais da terra; e porque além do que se faz com os que estão e moram pelas aldeias em que os padres residem, como acima tocámos, 0 principal * é o fruto que se colhe de várias missões que vão fazer aos que #fi. hôv. estão pela terra dentro do sertão, e em os trazerem para junto do mar. Este se poderá ver do que logo diremos. Como todos os brasis, que vivem ao longo do mar em várias aldeias e povoações vizinhas às dos portugueses, sejam cristãos e os padres com êles não tenham mais que fazer que cultivá-los na fé, para converterem outros de novo, é necessário irem-nos buscar ao sertão, pela terra dentro, onde êles se teem acolhido, por escaparem das vexações dos brancos e assaltos que nêles dão para os cativarem. Porém nestas jornadas, que às vezes são de cento e cincoenta, e duzentas léguas, mal se pode crer o que os padres padecem, caminhando sempre a pé e abrindo novos caminhos por espêssas brenhas e altas serras e indo por terras despovoadas e desertas de homens, mas cheias de onças e bêstas feras, padecendo fomes e sedes gravíssimas, passando muitos dias sem comer mais que folhas de ervas e às vezes ratos, cobras e lagartos e matando a sêde ou temperando-a com raízes ou folhas de ervas húmidas, por aquela terra do sertão ser falta de água e não a acharem senão raramente; e para que tudo isto
  • 38o Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné se entenda melhor, poremos aqui parte de uma carta que escreveu um dos padres que no ano de 602 foram a uma destas missões, ao Reitor do Colégio da Baía, donde partira, a qual diz assim: Partimos desse colégio a 22 de Setembro de 602, fomos logo ter às aldeias da Cachoeira, daí começámos a entrar pelo mato, passámos rios, charcos, lagoas e lamarões intoleráveis; e como todo o caminho andámos a pé e as terras são tão fragosas, aconteceu-nos muitas vezes embaraçarem-se-nos os pés nas raízes do mato e em outras ervas e darmos connosco no chão e irmos rodando um bom pedaço pela ladeira abaixo; indo mais pelo sertão adentro e entrando na terra sêca, não podíamos caminhar cada dia mais que até às onze ou doze horas, ou até acharmos água, e quando a achávamos, íamos já tão cansados que nem em pé nos podíamos ter e assim nos estirávamos pelo chão, sem podermos •F14113. (1) aguardar * que os índios nos fizessem choupana para nos agasalharmos, e desta maneira nos estávamos até à tarde, que os moços vinham do mato com alguns ratos ou rãs que nos traziam para comermos; outras vezes tivemos porcos monteses; mas como por êstes matos não há ordinàriamente outra coisa que ratos, cobras, lagartos, ou rãs em alguns charcos, êste era nosso comum man- timento que nos fazia bem de asco, porque quási não teem êstes ratos diferença dos que lá andam pelas casas; mas a fome nos fazia comer tudo; a qual ainda que grande, muito maior era a sêde que nos atormentava, por no verão ser tudo tão seco que em muitas partes não achávamos outra água senão a de alguns charcos que do inverno ficaram e onde vão beber quantos bichos há por êstes desertos, que é causa de muitas doenças e de que nunca mais são sãos os homens que veem ao sertão e alguns logo cá morrem destas e outras seme- lhantes beberagens. Uma vez me aconteceu que, chegando a um passo, não pudémos achar mais água, que quanta se tirava de uma cova que os índios tinham feito com muito trabalho, na qual estava merejando não sei se água se lama. Os índios por me fazerem festa e caridade, deixaram primeiro chegar o moço que nos servia, ao buraco, o qual com trabalho encheu um púcaro, que além de ser mui salobra, tinha tal côr que me foi necessário fechar os olhos para a beber, mas em acabando de beber, eis que chegam correndo uns índios, que a não bebesse, porque no buraco estava uma ebijara (que é um certo género de cobras das mais peçonhentas, que há no Brasil). Veja V. R. que tal ficaria sem ter defensivo algum de que me valesse. Levantei os olhos a Deus, ofe- reci-me e encomendei-me a Êle, lembrei-me do que o Senhor disse, et si mor- tiferum quid biberint non eis nocebit, e assim foi Êle servido que não só então mas nem depois até agora sentisse mal algum nem sinal dêle. Desta maneira caminhámos por êstes desertos e brenhas todo o mês de Setembro e Outubro, dormindo sempre ao sereno, luar e chuva. Indo já perto das aldeias dos gentios, mandei aviso diante; porém estavam tão cegos com a • fi. u3 v. sua negra * santidade, que não receberam bem nossos mensageiros e quiseram matar o principal dêles, que ia com o recado. E há-se de saber que santidade entre êste gentio não é outra coisa senão certas palavras que diz um feiticeiro, (r) Para não alterarmos daqui até ao fim tôda a numeração marginal das folhas, con- servamos a que o original, certamente por engano, repetiu de folhas 113 a 116. N. de A. C.
  • Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné com as quais os ouvintes, sem mais cerimónias hão que ficam santos*, e para prova do mau ânimo que tinham, deram logo com as mulheres fora da aldeia, ficando só a gente de guerra, do que sendo nós avisados, apressámos o passo por entrarmos na mesma aldeia, cuidando que estava despejada, porque não sabíamos da gente que nela ficava e desejávamos apoderar-nos dela; por êste respeito caminhámos duas jornadas em um dia, em que Deus nos livrou de muitos perigos: e ainda que eu ia diante, quis Deus que não entrasse primeiro, porque sem dúvida me houveram de matar, mas adiantaram-se oito ou dez índios dos nossos tapuias, aos quais como viram os que estavam na aldeia, lhes caiu logo o ânimo e não ousaram a bulir consigo; entrando eu após êles, vi a uma parte quarenta mancebos bem apercebidos, comecei lhes a prègar e acabada a prègação me deram logo as boas vindas. Estava entre êles um filho do prin- cipal é outro do regedor, que mandava executar a justiça. A estes dois pedimos nos mandassem dar uma casa para nos agasalharmos, o que êles logo fizeram de boa vontade. Neste mesmo dia à tarde veio o principal com gente bem armada. Chegando às portas da cêrca, correu logo pela aldeia uma voz que dizia: Vem o pai grande, saí todos a recebê-lo, dizendo isto pelo mesmo prin- cipal. Saíram-no todos a receber com diligência, e êle começou a entoar uma aravia, de que nada lhe entendemos, nem cuido que êles mesmos a entendem, e isto 'falando êle e respondendo-lhe os outros à maneira de clérigos que rezam côro. Eu também saí de casa três ou quatro passos. Ele estava como quem ensina a doutrina, misturando mil desbarates, como era dizer Santa Maria, tupama, remireco, que quere dizer Santa Maria, mulher de Deus, e outros des- propósitos semelhantes. Estava posto de joelhos com os olhos no céu e as mãos levantadas e abertas como sacerdote * que diz missa; dei-lhe a boa vinda; .Fi.it*. êle me abraçou dizendo que me não espantasse de se recolher ao mato, porque não queria ser visto de todos. Neste dia à noite fez enforcar um mancebo por se querer lançar connosco; falando-lhe depois nisso me disse que tal não man- dara, mas que seu amo o enforcara por brigas que com êle tivera. Ao dia seguinte me pediu audiência, saímos ao terreiro, mandei falar ura índio nosso principal. Mas respondeu com contar de sua santidade, no que foi tão prolixo, que lhe disse eu que não vinha a ser ensinado dêle nem dos seus, senão para eu lhes ensinar o caminho do céu e que para isso os queria levar para a igreja, e para me determinar no que havia de fazer, me desse a resposta; respondeu que se determinava de vir; porém as obras mostraram o contrário, porque com achaque de ir buscar a mulher e os mais, sem mais tornar se foi com todos os seus. Andam êstes pobres tão cegos com aquela sua a que chamam santi- dade, que totalmente teem para si que não há outra e que êles sós são os que acertam, todos os outros e nós, imos errados; pela noticia que lá teem das coisas da igreja por alguns índios que fugiram de entre os portugueses, se foram pelo sertão adentro, baptizaram os seus, pôsto-que não na forma da igreja e a todos os homens põem o nome de JESUS e às mulheres Maria. Usam da cruz, mas com pouca reverência e teem outras cerimónias ao modo das da igreja. Teem modo de sacerdotes, aos quais obrigam a guardar castidade, na qual se faltam, os depõem logo do ofício. Imagem não lhes vi mais que uma de cera de figura de raposa. Emfim ainda que desconfiados de podermos levar
  • 382 Das coisas do Brasil, Angola, Cabo - Verde e Guiné gente, se nos ajuntaram alguns, com que começámos a caminhar e tornar para o mar. Vindo pelo caminho, rompendo por aqueles matos e atravessando aqueles desertos todos em forma de arraial, deram novas ao padre que vinha diante, como por fraqueza e indisposição ficavam atrás algumas pessoas. Foi-os logo buscar o irmão, companheiro do padre, com alguns índios mais esforçados e a «Fi. 114 y. cabo de uma légua, acham ao pé de uma árvore um ín*dio que escolhera aquele lugar para sua sepultura, tão fraco e debilitado que não podia levantar a cabeça, deu por novas que outros ficavam mais atrás no mesmo estado. Manda o irmão todos os companheiros por eles e ele consola aquele com palavras santas, porque nao tinha outra coisa. Determina de o tomar às costas e por ser mui comprido ata-lhe os braços e lança-os a seu pescoço e os pés atou consigo à cintura; começa a caminhar, encostado a seu bordão, com a ovelha perdida que trazia às costas, como bom pastor, para o curral de Cristo; e por haver pouco tempo que passara trinta dias sem comerem todos eles outra coisa que alguma fruta, como nêsperas e manicoba brava, que são umas folhas peçonhentas, as quais pisam e espremem e depois secam ao sol para se comerem, mas sem gosto algum, e por isso estava tão fraco das forças, elas lhe começaram a faltar e sobrevir desmaios com suores da morte. Mas nem por isso largou a ovelha que levava às costas. Descansa um pouco para continuar o trabalho, tira forças da fraqueza, as quais a caridade lhe dava, continua seu caminho e chegando a uma fragosa e íngreme serra, aonde igualmente se havia de ajudar dos pés e mãos, ainda que a subiu com muito trabalho, com muito maior a desceu porque, como era já de noite, escorregando-lhe os pés, foram ambos tombando pela ladeira abaixo com bem de perigo, mas Deus o livrou dele e como pôde, se tornou a levantar dando graças a Nosso Senhor por tão evidentemente lhe ter socorrido, e continuando seu caminho, às dez ou onze horas da noite chegou aonde estava o padre. E esperando ambos pelos que ficavam atrás se foram acabando sua jornada até chegarem ao mar, trazendo desta missão e outras que desta maneira também se fizeram mil e trezentas e sessenta almas ao curral de Cristo. E muitos dêstes índios em chegando procuram logo ser baptizados, pedindo-o com instancia, alegando que para isso veem de suas terras. CAPÍTULO IV * De algumas outras saídas que fizeram os padres a várias partes do Brasil ESTÃO duas capitanias debaixo do distrito de Pernambuco. Nas quais ambas há grande número de índios, os quais se se converterem e redu- zirem a povoações e aldeias, além do acrescentamento do rebanho de Cristo que com eles será mui grande, crescerá também muito aquela terra no temporal e far-se hão muitos engenhos, porque é mui boa e acomodada para isso. Mas não podem os padres fazer aqui muito, porque, como não teem casa em que residam, nem com que lá se sustentem, não podem assistir naquelas
  • Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné 383 partes devagar senão por breve tempo em missões, e destas se fizeram algumas. Uma delas foi de dois padres às aldeias dos petiguares, que estão no termo da capitania da Paraíba, as quais serão 16, onde haverá como quinze ou dezasseis mil almas, e uma destas, que foi dum gentio poderoso, que se chamava Pau seco, terá mais de três mil. Quási toda ou a mais desta gente está ainda pagã, por falta de quem os baptize e cultive. Porque como está à conta de outros religiosos, nem êles lhe podem acudir nem por seu respeito acodem os nossos, e assim morrem muitos sem baptismo, pedindo-o e requerendo-o muitas vezes, entre os quais foi o Pau sêco, que acima dissemos ser o principal. Coisa de grande lástima e que dá grande pena aos padres, mas não o podem remediar! Quando agora desta vez lá foram os dois, que dissemos, visitar aquela comarca, havia três anos que êstes gentios estavam desamparados, pedindo continua- mente o pão da fé, sem haver quem lho partisse, nem pessoa alguma, que pelo menos lhes fôra baptizar os que estavam in extremis, dos quais os padres desta vez baptizaram sessenta e logo morreram muitos dêles, donde se pode coligir os que morreriam em três anos. Mostraram êstes petiguares geral alegria com a ida dos padres, e assim os * vinham receber muito longe, alimpando os »fi. n5v. caminhos e ruas; vinham diante os moços, e de repente saíam de suas embos- cadas com tambores e festas; depois vinham os homens, e perto das aldeias saíam os principais e as mulheres, e quando os padres entravam, mandavam tanger os sinos em sinal de festa, faziam entrar a gente na igreja, onde depois de os padres fazerem oração, lhes faziam uma prática de como os vinham visitar, dando-lhes os parabéns de terem já igreja e quererem ser cristãos, e que por isso vinham a suas terras prègar-lhes, para por meio da prègação conhecerem a Deus. Com isto se despediam da igreja, onde os padres ficavam, mas tor- navam logo com seus presentezinhos de sua pobreza, tendo-se por mofino o que não tinha que lhes trazer. Mostravam-se muito reconhecidos e agradecidos dos bens que os padres lhes tinham feito, assim em serem os medianeiros nas pazes entre êles e os brancos, como em os virem agora encaminhar para o Céu, pôsto-que por outra parte se queixavam dêles, dizendo que pois de primeiro foram a suas terras sem arreceio de lhes quebrarem a cabeça e em tempo que ainda estavam cheios de ódio, e pois lhes prègavam que fizessem igrejas, porque depois disso os deixavam em tamanho desamparo e não os visitavam havia tanto tempo? Um principal dizia: Vós me deixastes, vindo eu logo e seguindo vossas palavras, não vos lembrastes mais de mim. Deixei logo minhas terras, e com desejo de ter igreja, eu mesmo a fiz sem ninguém mo ensinar, desejando de ter padres que ensinassem meus filhos, e pois vós fostes os que nos destes êste bem, a vós queremos. Isto disse êste, e outros também o ajudavam com pala- vras semelhantes e não só os principais mas muitos também dos comuns. E tais mostras davam de seus desejos, que se não sabe ver-se no Brasil semelhante conversão de gentios, porque sem terem mestre nem quem os metesse em ordem, logo como o Pau sêco, de que falámos, veio pedir licença aos padres e êles lha deram, para fazer igreja, todos os outros fizeram o mesmo em suas aldeias sendo pagãos como ainda o são, e por si mesmos buscaram or*namentos, ima- »fi. u6. gens e sinos para elas, com tanto fervor que se não pode encarecer, e iam traba- lhar aos brancos, para com o dinheiro que ganhassem comprarem o acima dito.
  • 384 D"s coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné Como ao tempo que os padres chegaram a estas aldeias, era já morto o Pau seco, principal gentio de todo este sertão e fronteiro da Paraíba, vieram-nos esperar ao caminho seus filhos e seu irmão, o qual ficou e é agora o principal. Não se quis êste apartar dos padres desde a primeira povoação, onde os esperou, até à terceira, mostrando-lhes muito amor e os desejos que tinham de os terem por mestres de suas aldeias. Coisa que aos padres por uma parte causava muita alegria, de verem a que os índios recebiam com êles, por outra muita tristeza por verem que lhes não podiam ser bons no que êles tanto desejavam e pediam, que era ficarem-se com êles. Outra missão fêz a esta mesma gente o Padre Provincial Pero Rodrigues com alguns padres, o qual foi recebido dêles com extraordinária alegria, vindo-o receber ao caminho com várias festas, algumas duas léguas antes de chegar. Vinha entre êles o principal dos petiguares, cha- mado Metarouba ao qual preguntando os nossos porque vinha cansar tão longe, respondeu: Pois que o padre vem cansar por amor de mim, não é muito cansar eu por amor dêle. Fêz êste muita instância ao Padre Provincial que lhe desse padres que doutrinassem e fizessem cristãos a seus filhos, dizendo: Eu não desejo senão ter quietação na igreja; para isso vim de minha terra; já não quero ver rodelas nem quero frechas senão para matar caça. Eu me vim logo da minha terra seguindo as pisadas dos padres que lá foram, e virando-se para um dêles acrescentou: Bem me lembro que me deixastes na minha terra e logo pus vossas palavras em meus ouvidos, em minhas entranhas e na minha língua para as dizer, e nas mãos e dedos e em todos meus membros e sentidos. Agora queria que o padre me não faltasse com o que lhe peço, nem me deixasse estar tanto tempo esperando quem me ensine doutrina a meus filhos e o mesmo • fj. n6v. desejo mostraram todos os outros principais dos petiguares. * Fizeram-se nesta missão alguns baptismos e chegariam os baptizados a sessenta e quatro, que por ora não quiseram os padres que fossem mais que doentes e inocentes, pois não tinham quem os cultivasse. E como êstes foram os primeiros baptismos solenes que naquela terra se fizeram, ficaram todos tão contentes que não cabiam de prazer, trazendo todos seus filhos a qual primeiro. Há uma nação que chamam miramumins, gente que habita o sertão da capitania de São Vicente, muitos em número mas barbaríssimos e andam em cabildas duma parte para outra como ciganos; não podiam viver com êles os portugueses, porque lhes davam nas roças, entravam nos engenhos e comiam quanto tinham, sem lhes poderem resistir. Foi o Senhor servido que entraram os padres com êles e começaram a converter e já muitos dêles são cristãos e teem igrejas e ajudam grandemente aos brancos em suas fazendas. Os garijós é uma gente que correm em grande número pela costa do mar por espaço de duzentas léguas até o Rio da Prata, onde se termina o Brasil e começam oitenta ou noventa léguas da capitania de São Vicente. Nesta se pode fazer uma formosa cristandade e conversão de muitos centos de milhares, mas por falta de obreiros e do necessário para sua sustentação, ainda não residem entre êles padres, que é coisa que êles mais desejam e procuram, de todas quantas nações há no Brasil. Foram porém os padres algumas vezes em missão a suas terras e trouxeram alguns filhos dos principais em modo de reféns e para aprenderem a doutrina. Teem alguns dêstes em- suas aldeias cruzes a que
  • Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné 385 fazem reverência, o que tomaram de um bispo e frades que há muito tempo passaram por suas terras e estiveram nelas algum tempo e baptizaram muitos, dos quais ainda alguns são muito domésticos e dóceis, e dizem os portugueses que lá vão resgatar, que nunca lhes saem dos navios e que andam tão seguros por suas aldeias como em suas casas. Foram lá os Padres Agostinho de Matos e Custódio Pires levar alguns setenta e tantos que os brancos trouxeram sal*tea- »fi. 117. dos; receberam-nos com muito amor e o principal se assentou entre eles e tendo-os abraçados a ambos, os chorou, que é sinal de benevolência e grande amor, e ficaram muito contentes com os padres lhes darem palavras que iriam por êles para os trazerem para a igreja, e indo lá uns três brancos depois disto, cuidando êles que eram os padres, se alvoroçaram muito, e um principal que estava muito doente, quando soube que êles não eram padres, se queixou muito dizendo que não cumpriam sua palavra e que êle morreria gentio sem remédio. Pediu àqueles portugueses que o baptizassem, e ainda que êles não quiseram, curaram no todavia tão bem que sarou. Porém dali a algum tempo, tornando a adoecer, morreu gentio, pelo que é grande mágoa ver êste tamanho desam- paro em gente tão disposta para tanto bem, sem haver remédio ou possibilidade para se lhe poder repartir o pão da fé e do sagrado baptismo que com tanta força e desejo pedem. Um dêstes veio à casa de São Paulo antigamente e vendo baptizar, faz lá o mesmo na sua terra, deitando água sôbre a cabeça de quem se quere baptizar com êle e querem-no muitos, pelo desejo que teem de serem cristãos, mas como o pobre não sabe a fórmula do baptismo, aproveita- -lhes pouco. Desta mesma casa de São Paulo fêz uma saída a uma aldeia desta gente o Padre Sebastião Gomes; vieram-no receber ao caminho légua e meia com muita festa e gasalhado. Fêz o padre alguns baptizados, entre êles um de uma menina de três anos, a qual acabando de o receber começa a cantar com alegria dizendo que já era filha de Deus, que por isso estava muito contente. Para esta mesma casa se veio um casal dêstes gentios e trouxeram consigo três ou quatro man- cebos e uns dois ou três principais para tornarem; não puderam trazer outros por virem de longe. A mulher dêste índio principal que veio, estava muito triste porque lhe ficaram lá alguns filhos e filhas e sua mãe; quis o padre con- solá-la dizendo que Deus lhe traria seus filhos, ao que ela respondeu: Oiça Deus tuas palavras e ponha os olhos em mim. Um índio dê*stes indo ao sertão *fi. 117*. buscar seus parentes e não os podendo trazer pelos impedir o principal, veio ter com o padre e contar-lhe o que passava, e com tanto sentimento que dizia que não podia dormir com cuidar que lhe ficaram lá seus parentes sem remédio algum de salvação. Outro principal veio do sertão com intenção de se tornar e disse ao padre que um irmão seu que era um grande principal entre os garijós lhe mandava dizer que fossem agora os padres buscar aquela gente que queria vir e que com êles mandaria alguns mancebos para roçarem e fazerem lavoiras, e como tivesse mantimentos, viria êle também com toda a sua. À capitania e casa de São Vicente vieram também em companhia de um branco alguns principais daquela nação, os quais trouxeram recado dos outros, que vão os padres por êles, que logo se virão, o que não fazem por si, pelo temor que teem que os brancos os salteem no caminho e os cativem e repartam 49
  • 386 Das coisas do Brasil, Angola, Cabo - Verde e Guiné entre si, como teem de costume, e lhes façam o mesmo que fizeram às aldeias do Campo de Pirateninga, que todas as destruíram e puseram por terra, porque, se os portugueses (dizem eles) fizeram isto a seus compadres e amigos, que fará a nós? E não teem êste temor sem fundamento, porque até aqui, na capitania de São Vicente andam os brancos tão cobiçosos destes índios que nem com os padres deixam falar a estes principais que acima digo que agora vieram do sertão, e quando lhes fala algum é às escondidas, pelo temor que teem dos brancos, que lhes dizem que não falem com os padres e quanto podem impedem a ida dos padres ao sertão, porque cuidam que indo lá os padres lhes tiram seus tratos e impedem os escravos que de lá trazem, e cada um não busca mais que seu proveito e não o bem da terra, e por isso, por justo juizo de Deus, vai esta capitania de São Vicente de mal em pior e com grande diminuição, e pelo contrário a do Espírito Santo em crescimento de proveito e gente, porque o senhor dela roga aos padres que vão ou mandem ao sertão buscar gente, dando •fi.iiS. muitas liberdades e favores aos índios que veem e perdão de * morte aos fugi- dos que tornam, e assim é coisa de evidente juízo de Deus, que em todas as capitanias deste Brasil onde os índios são favorecidos e bem tratados dos brancos, se vê que vão crescendo em muita prosperidade e proveito temporal, e onde são mal tratados e tiranizados e os brancos andam a cativá-los por sua cobiça, tudo vai para pior e em grande diminuição. CAPÍTULO V De tntia missão que o Padre Domingos Gracia fê\ fa\er ao sertão, por alguns naturais da terra, da aldeia dos Reis Magos da capitania do Espírito Santo DESEJAVAM muito alguns índios principais e cristãos moradores nesta aldeia dos Reis Magos fazerem uma jornada ao sertão a buscar e trazer para a igreja seus parentes e naturais, pelo que vindo visitar esta aldeia o Padre Provincial e vendo seus bons desejos, lhes deu licença para que pudes- sem ir, deixando recado ao Padre Domingos Gracia, Superior desta residência, que os aviasse para isso de todo o necessário. Fê-lo assim o padre, e indo com êles alguma parte do caminho pelo rio acima, ao tempo que se houve de tornar, os confessou a todos e lhes deu o Santíssimo Sacramento aos que O costumavam a receber e lhes fêz uma prática em que os animou a tão santa jornada, a qual acabada, se embarcaram em sete canoas, indo mui contentes e animados. Eram os principais desta jornada quatro índios por nome Miguel de Azevedo, Manuel Mascarenhas, António Dias, Inácio de Azevedo. Indo po'is seu caminho e tendo já feitas duas jornadas, tiveram um encontro com uns • fi. na v. tapuias, on*de na briga morreu um índio, bom cristão, o qual só esta palavra disse: JESUS havei misericórdia de mim; e logo expirou. Dali se partiram e gastaram um mês de caminho até chegarem à primeira aldeia, onde foram rece- bidos dos parentes com tôda a festa e alegria; vieram logo todos visitar os principais e lhes deram conta como dos seis índios que da primeira vez vieram
  • Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné 387 com Manuel Mascarenhas e se tornaram ao sertão, um deles muito principal e nomeado, que se dizia Jaguaraba (que quere dizer, cabelo de cão) chegando a salvamento à sua terra, abalou muita gente, e trazia tôda sua aldeia para os padres, e que começando a caminhar encontrara certa gente que iam do mar e lhe deram novas de como seus parentes ficavam com os padres muito quietos e livres dos brancos, com que todos se alvoroçaram muito mais para vir. Porém que nesta conjunção deram nêles uns gentios seus vizinhos que se chamam os apiapetangas e travando entre si batalha mataram muitos e cativaram outros dos do dito Jaguaraba, pelo que se tornou outra vez a recolher para sua aldeia com alguns que lhe ficaram e êle mal ferido. Ouvindo isto Manuel Mascarenhas e os demais, determinaram ir fazer pazes com aqueles gentios, como fora com sua gente, e encontrando com êles dali a uma légua, como os outros estavam soberbos por terem muita gente e entre êles muitos escravos que do mar tinham fugido, e também pela vitória passada, quiseram mais guerra que paz, pelo que travaram entre si uma grande escaramuça da qual Manuel Mascarenhas ficou com uma frechada por junto do coração de que morreu daí a seis dias. Con- tudo acabada a briga, e correndo recados de parte a parte, vieram a fazer pazes, pôsto-que da parte dos contrários foram fingidas, porque deixando êles entrar os nossos na aldeia, dando-lhes palavra que tornariam daí a dois dias, se foram para outra parte e nunca mais tornaram. Tomaram os nossos ao ferido em uma rêde e se foram com êle para a aldeia de Jaguaraba, mas no caminho acabou sua vida com mostras de bom cristão, prègando a todos que fossem bons e que não desamparassem a igreja nem * os padres, dizendo-lhes estas • fi. 119. palavras: Vim buscar a morte por amor de vós outros, desejando de vos meter a todos na igreja; eu mereço isto, Deus sabe o que faz, portanto não haja alguém que se desconsole, nem os meus filhos que cá ficam; basta estar o padre com êles que os amparará. E depois de pedir perdão a Deus, lhes tornou a dizer: Ficai-vos embora, eu morro, ide adiante em vosso caminho e não tor- neis atrás, e com o nome de Jesus deu sua alma. Foi sentida sua morte por todo sertão, enterraram-no em parte onde os contrários não dessem com o corpo. Chegando os mais à aldeia de Jaguaraba, houve muitos choros, e adoecendo êle dali a alguns dias, morreu também, que foi outra grande perda; mas António Dias a quem o padre tinha instruído o baptizou e morreu bom cristão. Desta aldeia se partiu António Dias com os mais para as outras aldeias que estavam dali um mês de caminho, acharam muita gente, alegraram-se todos muito com a boa nova de haverem de vir para a igreja, começaram-se logo a fazer prestes. E um índio principal por nome Piraguasu se abalou logo com tôda sua família, ficando os mais aviando-se para vir. Partiram do campo e chegaram à aldeia de Jaguaraba como duzentas almas, com muitos trabalhos e fomes, porque vinham muitas crianças, velhos e doentes, mas nenhum morreu no caminho. Ordenados pois e pondo-se em caminho para o mar, vieram diante catorze homens dos mais valentes, com quatro já cristãos dos que foram da aldeia dos Reis Magos, e chegando em breve tempo à mesma aldeia causaram em todos muita alegria, por irem já tardando. O principal dêstes entregou ao padre um filho seu de oito até nove anos, que o criasse para Deus, até êle tornar em busca de sua gente. Depois dêstes índios novos verem tudo o da igreja e as lavouras
  • 388 Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné dos parentes seus que já cá estavam, se partiram outra vez com outros dos nossos a suas terras, para darem novas e trazerem os que lá ficavam; e assim, chegando aonde António Dias estava com os mais, logo todos se abalaram e puseram a caminho para os Reis Magos, afora alguns que foram ao campo fi. 119 t. buscar duas al*deias, pelos quais esperavam cada dia. Neste caminho que do sertão fêz António Dias e outro que chamavam Arco grande, para o mar, com a gente que traziam, se encontraram outra vez com os gentios apiapitangas acima ditos, com quem de primeiro pelejaram e por estes lhes quererem estorvar a passagem, vieram à batalha uns com os outros, onde dos nossos índios cristãos morreram cinco e dos que vinham de novo do sertão quatro, porém os inimigos ficaram de todo destruídos e mortos e muitos dêles cativos, em liberdade os de Jaguaraba, que desde a primeira rota que lhe deram, tinham cativos, e assim desembaraçados dos inimigos, em dois meses e meio fizeram sua jornada e chegaram à aldeia dos Reis Magos, e puseram tanto tempo no caminho por virem alguns feridos e muitos velhos; tanto que o padre teve recado, os mandou visitar ao caminho com refrêsco e chegando à aldeia, Piraguasu, que é índio de importância e que ficou enchendo bem o lugar de Manuel Mascarenhas, acompanhado com quatro filhos homens entrou na aldeia prègando, como é seu costume, e acabada a prègação se foi logo com os filhos à igreja e depois aos padres, abraçando-os com muita alegria e dizendo ao padre: Pai, já cheguei, já vim para a igreja, não quis esperar mais, quis ser o primeiro; lá fica ainda meu irmão Inabaguasu com sua gente, êle virá, quero roçar para êle. Depois de Piraguasu chegou uma índia velha, mulher que foi de Jaguaraba, com todos os filhos e filhas e genros; trazia um bordão na mão e umas contas ao pescoço, entrou bem acompanhada de gente, prègando e dizendo: Ninguém se espante de me ver prègar, sendo mulher, porque, depois de morrer meu marido, fiquei em seu lugar e mais agora que já me vejo na igreja, que tantos tempos há desejava, com meus filhos e família e em a qual meu marido tanto desejou estar; mas fomos destroçados pelos con- trários; agora venho só sem êle, para ter cuidado e cargo da igreja e dos padres, os quais não hão de ter falta do necessário onde eu estiver. Indo-se a recolher, • fi. 120. tôda a aldeia a foi prantear que é o * sinal de gasalhado e amor. Acabados os choros, acudiram as índias com seus presentes, e os padres também lhe mandaram o seu, ao que ela ficou mui agradecida; ao outro dia os veio em pessoa visitar à portaria acompanhada com tôda sua gente, levando-lhes também seus presentes de legumes, galinhas e outras coisas da terra. Era esta índia mui grave e acatada dos seus, e quando os meninos brincavam e dançavam no terreiro, mandava armar uma rede mui limpa à sua porta e dali assentada os estava vendo e dizia aos seus: Vedes vós outros? Isto é ser filhos de Deus e dos padres, e nós estávamos nos matos, como filhos do diabo, sem partici- parmos do que agora vemos Depois de quatro meses passados, adoecendo a boa velha, pediu com muita instância o santo baptismo, e depois de bem cate- quizada e instruída nas coisas da fé, lhe preguntou o padre se queria que a baptizasse em sua casa, pois por sua fraqueza e doença não podia ir à igreja. Respondeu: Não quero senão na igreja, pois que vim para ser nela baptizada diante de Deus. E dizendo-lhe o padre que também ali estava Deus, pois está
  • Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné 389 em toda a parte: E verdade (tornou ela) mas eu quero que em sua casa me baptizem e não em casa de homens. Vendo o padre sua santa intenção, a mandou logo levar à igreja, onde foi baptizada, acompanhando-a tôda a aldeia com muita alegria. Depois de receber o sagrado baptismo deu um suspiro dizendo: Agora fica minha alma contente, agora não temo a morte, já alcancei o que desejava que era ser filha de Deus. Tomaram-na a levar para sua casa, durou ainda dois meses, até que apertando a enfermidade, pediu a santa Unção e dizendo-lhe o padre que havia pouco que fôra baptizada, se não aquietou até que lha deram, reconciliando-se primeiro. Durou depois disto uma hora, e fazendo uma prática aos seus encomendando-lhes que fossem muito amigos da igreja e dos padres e que se não desconsolassem por sua morte pois ia para o céu onde está Nosso Senhor, com o nome de JESUS na boca deu-lhe sua alma. * CAPÍTULO VI Da nação dos gaimtires e danos que esta gente tem Jeito no Brasil, pa\es que com êles se Ji\eram na comarca da Baía e capitania dos Ilhéus CONFORME à tradição antiga da gente da terra, habitavam estes gentios o mais íntimo da costa do Brasil, correndo do Rio de São Francisco para o Sul até o Cabo Frio. Porém entrando com êles outros gentios do sertão, chamados tupinambás e tupinaquins, os fizeram afastar de seus antigos sítios e meter por dentro dos matos e serras, onde moram há muitos centos de anos e dali se teem estendido por mais de cem léguas, mas vivendo sempre perto do mar, ao longo das povoações e fazendas dos portugueses, que estão pela costa. É gente barbaríssima, alheia de tôda a humanidade e onde o uso da razão parece estar mui apagado, mui selvática e a mais fera e cruel que há em todo o Brasil. Manteem-se de caça e dos assaltos que fazem nas fazendas dos brancos e da carne humana dos que podem haver às mãos. Cada um deles vive como quere e onde quere, sem haver superior nem inferior que mande ou obedeça; quando muito aquele que mais inimigos matou e comeu se tem por mais honrado e valente, mas não que mande ou repreenda aos outros em coisa alguma. São muito acautelados em tratar com os inimigos e pelo mesmo caso que um dos seus fala com êles o matam e comem. Nunca andam muitos juntos, senão poucos e poucos e, sem serem vistos, frecham a gente e matam e com tanta ligeireza se tornam a recolher e meter pelo ma#to . como se foram cabras silvestres, correndo muitas vezes de pés e mãos com o arco e frecha sobre as costas e por isso se lhes não pode fazer guerra, nem com ela prevalecem contra êles, porque nunca pelejam em esquadrão feito nem em campo descoberto, senão com ciladas e assaltos repentinos, aqui um, ali outro, por detrás das moitas e árvores, sem os homens os poderem ver senão quando se sentem frechados: e por êste modo tem êste gentio feito tão grandes danos no Brasil, que em partes o tem posto a grande risco, porque por tôda esta corda de terra que habitam, de tal maneira tem infestada tôda a costa do
  • 390 Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné mar que lhe responde, que por sua causa se despejavam e desamparavam fazen- das de trinta, quarenta e cincoenta mil cruzados, por se verem cada dia seus donos em perigo de morte e êles lhes teem comido os escravos e gente de serviço. Por êles se tem desbaratado a vila de Santo Amaro com quatro ou cinco engenhos; a capitania dos Ilhéus, que é de terras excelentes, quási de todo perdida; muitas terras que por serem maravilhosas para se cultivarem e renderem muito, estão bravias por não ousarem os homens de as povoar, com medo dêles, e a que mor dano padeceu, é a capitania do Pôrto Seguro, que foi a primeira terra em que os portugueses puseram pé no Brasil quando em Abril do ano de quinhentos, a primeira vez foi descoberta por Pedrálvres Cabral, governador que foi da índia, a qual capitania foi muito próspera emquanto o gentio amigo, junto em aldeias, a defendia destes gaimures e segurava as fazen- das dos moradores, porque não faziam então êstes inimigos dano de momento. Mas depois que o capitão daquela terra mudou esta ordem e, mal aconselhado, repartiu a gente das aldeias, tirando-os dos lugares onde tinham mantimentos e defendiam os moradores e, pondo-os em parte onde lhes era necessário espa- lharem-se para buscarem de comer, poucos e poucos os foram matando e comendo os gaimures até os acabarem. Pelo que os moradores brancos, ven- do-se sem quem os ajudasse e defendesse, começaram a despovoar a terra e •Fi.i»i*. jf.se para diversas par*tes, até não ficarem na capitania mais que obra de vinte moradores, que mais por força que por vontade, se deteem ainda nela, porém em tal miséria e extremo de necessidade, que se não sustentam os pobres senão com folhas de ervas e raízes de bananeira; e por êste respeito se saíram tam- bém da mesma terra os nossos padres, por não terem remédio de poderem viver nem sustentar-se nela, nem do colégio da Baía poderem ser providos por as dificuldades das monções e os gaimures terem ocupadas todas as terras em que se lavravam os mantimentos. E de tal maneira ia crescendo esta praga dêste gentio e assolando tôda esta comarca ao longo do mar, em que habitavam, que se temia viessem a pôr em tanto apêrto tôdas as capitanias e povoações do Brasil, que por esta costa estão, que fosse necessário despovoá-las e desam- pará-las de todo. Mas foi Nosso Senhor servido de haver misericórdia desta terra e abrir caminho para se amansar esta praga, que foi um singular benefício e remédio da mão de Deus, dado ao Brasil, o qual ninguém poderá entender se não tiver experiência do mal que êste gentio causava e apêrto em que tinha posto aquele estado. E o modo como isto sucedeu foi o seguinte: Algumas dez ou doze léguas da Baía para a parte do Sul, em uma parte onde chamam a Cachoeira, tem sua fazenda e mora um português rico e honrado, por nome Alvaro Roiz, fronteiro dos gaimures, o qual em um assalto lhes tomou duas mulheres que trouxe para sua casa: uma delas morreu algum tempo depois, ficando a outra, que êle sempre tratava muito bem e com muitos afagos e mimos, pelos quais ela, domesticando-se aprendeu nossa língua e se satisfez tanto de nossas coisas e do modo com que a tratavam, que mandando-a o dito Álvaro Roiz para os seus, nunca jamais se quis tornar, parte por haver mêdo que êles a matassem e parte também por gostar antes de viver com os brancos que com êles. Pediu-lhe então o senhor que, pois se não queria tornar, fôsse terceira em fazer pazes entre uns e outros. Para isto se foi pôr muitas vezes em lugar
  • Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné 3gi onde !he parecia seria ouvida, e ali bradava pelos seus na sua língua, até que uma vez acudindo-lhe uns poucos, ela se lhes deu a conhecer c começou de longe a * lhes falar àcêrca das pazes, louvando-lhes muito os portugueses e seu «fi.ii». modo de viver e tratar; e com isto se despediu c apartou do lugar, deixando nêlc ferramentas, vestidos, mantimentos e outras coisas que eles, como ela se retirou, recolheram e levaram muito contentes. Passaram-se nestas visitas e práticas alguns meses até que se vieram a fiar de nós, chegando seguramente a falar com Álvaro Roiz, o qual entretanto escrevia muitas vezes à cidade, ao capitão-mor Álvaro de Carvalho, fizesse encomendar a Deus êste negócio. Teve modo Álvaro Roiz com que um dia embarcou uns parentes da dita gai- múrea em um bergatim bem esquipado e os mandou à cidade, ao capitão-mór, os quais, cuidando que haviam de ser tratados como êles tratavam antes os nossos, iam atemorizados. Vendo porém quão diferentemente se haviam com êles do que cuidavam e os mimos e gasalhados com que foram tratados, se tornaram mui alegres, indo mui bem vestidos e com muitos brincos e jóias para os seus, os quais com sua vista se alegraram tanto, que logo quiseram vir à cidade cincoenta mancebos visitar o capitão-mor. Foi isto coisa tão nova e de tanto bem e alegria para tôda a terra, que em reconhecimento desta mercê que Deus lhe fazia e para lhe darem por ela muitas graças, se fêz logo na cidade uma solene procissão, com muita festa, a qual veio à igreja do Colégio da Companhia, onde se lhe fêz sobre isso uma pregação. Neste tempo corria já tanta gente dos matos a Álvaro Roiz, que êle se via apertado com a multidão, pelo que pediu ao capitão-mor pusesse em conselho o modo que nisto se havia de guardar. Saiu que parte dêles se passassem a uma ilha ali perto, que se chama de Taparica, aonde êles nos não podiam fazer mal se se levantassem, e nossos padres os poderiam ter juntos e quietos para lhes poderem ensinar a doutrina e dar as primeiras tintas nos bons costumes e cristandade, e assim pediram ao Padre Reitor quisesse dar alguns padres para êste efeito, os quais logo mandou. Não sucedeu porém como se desejava à eleição do sítio, por ser mui doentio, pela qual causa adoeceram e morreram muitos nêle, e tanto se ateou o mal que * se iam quasi extinguindo, o que para *fi. mr. os padres foi boa ocasião de merecimento, porque não se perdoando nenhum trabalho, de noite e de dia com muita caridade assistiam a suas doenças e mor- tes, consolando-os do modo que podiam. E pôsto-que não sabiam sua lingua, por intérprete os catequizavam suficientemente para os baptizarem, como bapti- zavam, e aos que morriam enterravam, fazendo-lhes êles mesmos a sepultura e levando-os às costas a ela, e não sendo mais que três, todos andavam tão ocupados em servir e ajudar aqueles desamparados, que foi mercê de Deus poderem com tão grande e tão contínuo trabalho sem adoecerem, e nesta roda viva se ocuparam dois meses e meio, mas vendo que o mal ia tanto avante, avisaram ao capitão-mor, de como era necessário tirarem dali aquela gente; acordou-se o mesmo em conselho e que se repartissem por várias partes, e assim se mandaram uns para a fazenda de Álvaro Roiz e outros para duas aldeias fronteiras aos mesmos gaimures, de que os nossos teem cuidado, em as quais foram recebidos de nossos índios com muita humanidade e bem diferente da que êles usavam pouco antes com os mesmos, que então os agasalhavam
  • Das coisas do Brasil, Angola, Cabo - Verde e Guiné em suas redes e aposentos. Estiveram algum tempo quietos, até que apertando com eles as saudades de seus parentes que no mato deixaram, se quiseram ir para eles, como de feito foram, ficando os padres e os mais da cidade algum tanto receosos de sua inconstância. Porém quis o Senhor que tudo tornou em melhor, porque logo começaram a tornar indo-se uns e vindo outros e encon- trando-se muitas vezes no campo com os nossos sem lhes fazerem mal, e por várias vezes vieram alguns destes à cidade, donde tornavam mui contentes e satisfeitos dos bons gasalhados que recebiam. Alguns dêles estão aprendendo a língua pelas aldeias dos índios, e outros no colégio para os padres se poderem melhor entender com êles, e assim esperam na divina misericórdia e por inter- cessão de Nossa Senhora da Ajuda, a qual se tomou por particular intercessora •fi. 123. nesta emprêsa, que ela dê a este negócio desta gente mui felice * sucesso. O efeito do qual, pouco depois se começou também a sentir na capitania dos Ilhéus desta maneira. Está esta capitania trinta léguas da Baía para a parte do Sul, e como acima tocámos, estava tão infestada e oprimida com a perseguição dêstes gentios que há quarenta anos lhes fazem guerra, que já quási de todo se ia despovoando, e sem dúvida fôra já acabada, se não foram as muitas diligências que pôs pela sustentar o capitão-mor Álvaro de Carvalho, emquanto esteve na Baía, com os vários socorros que dali lhe mandava. Aqui foi Nosso Senhor servido que também se fizessem novas pazes com êstes gaimures. E o meio foi um irmão de nossa Companhia, por nome Domingos Roiz, o qual havendo pouco que fôra do Reino e estando no colégio da Baía no tempo que os gaimures ali vieram, se afeiçoou e inclinou tanto a aprender a língua, que emfim a veio a saber mediocremente, e após ela lhe deu Nosso Senhor um mui grande desejo e movimento interior de se ver com êles e os converter assim a fazerem pazes, como a receberem a fé; e Deus Nosso Senhor, que para isto se queria servir dêle, inspirou aos superiores o mandassem para a capitania dos Ilhéus, onde temos uma casa de nossa Companhia e onde podia ter comodidade de exercitar seus santos desejos. Chegando aqui pediu aos da terra que onde os vissem ou sentissem, o avisassem, porque esperava em Deus que os havia de trazer à vila, de paz. Zombavam todos dêle dizendo que não podia ser que gentio que havia tanto tempo andava encarniçado em carne humana, quisesse fazer pazes com os brancos e principalmente por também os nossos lhe terem morta muita gente. Instava contudo o irmão e deu conta ao padre seu superior, dos desejos que Deus lhe dava de se ver com êstes gentios, e como sentia em si quási certas esperanças de os trazer a pazes. Condescendeu com êle o superior e se deter- minou irem ambos onde os vissem, tanto que tivessem aviso do lugar onde estavam. Não tardou muito que o tiveram e que estavam junto de um rio légua • fi. 123 y. e meia da vila, pelo que logo, encomendando-se primeiro * muito particular- mente a Deus, se meteram em uma canoa o padre superior e êste irmão e o capitão da vila, com outros dois homens; seguiam-nos outras canoas, ainda-que de longe pelo mêdo dos inimigos, e chegando ao lugar onde estavam, começou o irmão de os chamar por sua língua, dizendo-lhes que iam de paz e que nem houvessem mêdo, nem fizessem mal; o que tudo êles ouviam, mas não se que- riam descobrir, e continuando com o mesmo modo de falar, emfim se descobriram
  • Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné 3g3 e mostraram todos seus arcos, e disseram que fossem sòmente os padres que falavam, ter com êles, apontando com o dedo o lugar onde podiam chegar os barcos. Nêste passo todos temeram, dizendo que já por vezes lhes tinham feito semelhantes traições em semelhantes passos; porém o irmão confiado em Deus, com licença do superior e tomando-lhe primeiro sua bênção, se meteu só na canoa para ir a êles. Os brancos todos começaram a dizer ao padre que lhe requeriam da parte de Deus o não deixasse ir, porque corria muito perigo. Foi contudo, e vendo que os gaimures todos largavam os arcos, chegou a terra onde estavam, não se saindo porém da canoa; chegaram-se logo todos junto dêle, o qual lhes declarou o a que vinham, que era a fazerem pazes com êles e como lhes traziam farinha, o que tudo êles ouviram com bom rosto e receberam a farinha; pediu-lhes mais que, para confirmação da amizade, fossem alguns dêles à vila em sua companhia e que êles lhes prometiam que ao outro dia os trariam com muita farinha para os que ficavam e os poriam no mesmo lugar; aceitaram o partido e a promessa, e porque todos se ofereceram para ir, dêles escolheu o irmão sòmente três, porque só êstes cabiam na canoa, e com êles se tornaram mui contentes, dando todos graças a Deus por tão grande mercê. Um dos gaimures que ficavam em terra mostrou tanto sentimento por não ir com os outros que os nossos levavam, que o padre querendo-o consolar lhe acenou que viesse, e mandando-lhe para isso uma canoa, êle sem esperar por ela se lançou ao rio e a nado se veio meter com os nossos; foi logo à vila recado do * que *fi. ix». passava, antes dos nossos chegarem, e assim todos os da terra os esperavam no pôrto, tendo aquilo por grande milagre do Senhor, e com grandes gasalhados, receberam os gaimures, os quais ainda medrosos de gente a quem tanto tinham ofendido, se ferravam com o padre e com o irmão, sem nunca os largarem senão dentro em casa. Ao outro dia tornaram ao mesmo lugar, como lhes prometeram, levando-lhes a farinha. Estava tôda a borda do rio cheia dêles, que por todos seriam duzentas almas, afora os pequenos, e como quer que estavam esperando pelos padres, os vieram logo receber, pegando dêles, de modo que das canoas os levaram nos braços para terra onde todos estavam; outros ficaram com o padre sem o quererem largar, dando grandes mostras de amizade. Um dos que foram à vila começou a quebrar as pontas das frechas a todos os outros em sinal de paz; saiu logo outro dos que estavam em terra prègando, e o que dizia era, em sua língua que 9 irmão lhe entendeu, que já a guerra era acabada, que os padres eram bons, que não tinham arcos nem fre- chas, nem faziam mal a alguém, e que pois êles eram os que vinham buscar, nenhum se lhes negasse. As índias gaimures lhes mostravam suas famílias dizendo cada uma: Êstes são meus; conhecei-os. Uma velha lhes trouxe dois filhos que tinha, ainda meninos, pedindo-lhes que os levassem e lhes dessem alguma ferramenta, mas que os não apartassem de si; levaram-nos os padres com outros dos muitos que queriam ir, que por todos seriam trinta, e não levaram mais por não cabe- rem mais na embarcação, e chegando com êstes à vila, era tal o alvoroço e alegria da gente, que não esperaram que os padres desembarcassem, mas das embarcações os levaram nos braços e como no ar, até nossa casa. Espanta- vam-se todos, de gente tão agreste e selvática mostrar tantos sinais de amor e 5o
  • 394 Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné firmeza de pazes. Continuaram os padres em ir e vir a êles quatro dias con- tínuos levando-lhes farinha e o mais necessário para sua sustentação. Leva- ram-nos às fazendas dos brancos dizendo-lhes que tudo estava de paz e que a • fi. 114*. todas podiam ir * seguramente, o que êles agora fazem, mas logo preguntam pelos padres e não se quietam se os não vêem, aos quais se mostram tão sujeitos, que é coisa de espanto ver a muita alegria e diligência com que fazem tudo o que êles lhes encomendam ou mandam; as mulheres, tanto que os filhos adoecem, os trazem logo aos padres, a quem elas chamam filhos de Deus, dizendo-lhes que lhos sarem. Estando êles nos matos, adoeceu um principal de pontadas, e vindo-se logo ter com os brancos, lhes pediu o levassem aos padres, porque estava muito mal, o que êles fizeram; e tanto que chegou lhe aplicou o padse uma medicina com que logo sarou, de que ficou mui consolado e contente. E mui grande o trabalho que os padres teem com êles, mas, com as esperanças que teem de os trazerem ao rebanho de Cristo, se lhes torna todo em gosto. Tratam de os ajuntar todos em uma aldeia e acomodar-lhes terras em que façam suas roças e lavoiras e de os domesticar e acompadrar com os outros índios mansos e antigos. Para isto a primeira coisa que fizeram foi levantar-lhes uma cruz mui formosa, de cincoenta palmos de alto, de que êles mostraram sumo gosto e os padres sentiram muita consolação quando viram que ao levantar da cruz, acudiram a ajudar todos, homens e mulheres, com grande prazer e alegria, declarando-lhes o padre pelo melhor modo que pôde a santidade e virtude di- vina daquele sacratíssimo lenho e pedindo a Nosso Senhor que daquele dia em diante tomasse aquela gente o suave jugo de sua cruz, pois de tão boa vontade (sem saberem ainda o que faziam) se submetiam debaixo dela, levantando-a em seus ombros. Feitas as pazes com êste garfo de gaimures, com tanto gosto dos seus e dos nossos, escolheram os padres a dois dêles e os mandaram que fossem pelo mato e sertão adentro buscar outros e dar-lhes novas das pazes e do que achavam cá nos brancos e nos padres. Fizeram-no êles assim, e depois de andarem lá uns poucos de dias, eis que num aparecem junto de uma aldeia de nossos índios mansos, dos petiguares, uma cabilda dêles de duzentos e cincoenta, •fi. u5. frecheiros todos e * gente mui bem disposta e agigantada na proporção e feições, diferentes dos primeiros, porque eram alguns dêles assim homens como mulheres tão alvos que pareciam alemães. Os nossos índios petiguares, que andavam roçando, tanto que os viram de longe, foi tamanho o seu mêdo que desempa- raram tudo e se acolheram; porém tanto que os dois que os padres tinham mandado se saíram dos outros e vieram ter com êles quebrando suas frechas e apregoando pazes, tomaram alento e tornaram mais sobre si e logo em canoas fizeram embarcar os dois com mais dez dos que vinham de novo, e entre êles um principal, homem mui bizarro e grande falador, e vieram à vila buscar os padres, trazendo muita soma de arcos tão grandes que punham espanto, os quais todos entregaram em sinal de amizade e paz. Acudiram logo os padres com farinha e mantimentos, facas, machados e outra ferramenta, que repartiram entre êles, e quando chegaram onde os outros estavam, era muito para ver o grande prazer que lhes mostravam e com que os abraçavam por debaixo dos braços, e o mesmo faziam ao capitão e mais brancos que com êles iam, como
  • Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné 3g5 se houvera muito tempo que os conheciam e tratavam. E tanto se vão domes- ticando e metendo na conversação com os padres, que nunca nossa casa está sem êles, porque nunca fazem senão irem uns e virem outros, no que tudo se mostra bem o braço poderoso de Deus, que em tão breve tempo, de tão feros lobos está fazendo tão mansos cordeiros; e assim esperamos na sua misericórdia que o mesmo sucederá a todos os outros, que andam ainda pelos matos, que são inumeráveis, e teem já os padres feito duas aldeias deles, uma de mil e duzentas almas e outra de quatrocentas, e mandado muitos para o céu, dos inocentes e adultos que baptizam no artigo da morte. CAPÍTULO VII Das coisas do reino de Angola * 1\ l\ AIS de trinta anos há que a ComPanllia ervtrou em Angola com Paulo • j\\ Dias de Novais, primeiro Governador daquele reino, donde pela mise- -L T A ricófdia de Deus tem levado muitos milhares de almas ao paraíso, sorte melhor que a dos escravos, que outros dali tiram, para os pesarem a oiro e prata nas índias ocidentais e no Brasil. Teve esta conquista vários sucessos em todo êste discurso de tempo. Emquanto viveu Paulo Dias, sempre foi cres- cendo pelas grandes batalhas que teve com os negros, e vitórias que dêles alcançou, uma das quais foi de mais de um milhão de homens, não sendo os nossos mais que trezentos portugueses e dois ou três cavalos, com algum socorro dos negros sujeitos, que seriam como trinta mil, e assim foi sempre este bom capitão continuando nesta empresa até que morreu nela de sua doença, deixando debaixo da obediência da coroa dêste Reino grande número de sobas que são senhores de terras como condes, marqueses ou duques, e seus distritos como bispados, e êles senhores absolutos de seus vassalos, pôsto-que sujeitos ao Rei de Angola. Sucedeu que depois de sua morte tudo se tornou a perder, ate nem um só soba ficar que se não levantasse e negasse a obediência a Sua Ma- jestade. E foi a origem de tudo, o que se segue: Conforme ao costume daquela gente, toda a segurança da conquista do reino de Angola estava em se conservar o que êles usam, que era em se sujei- tando um soba, a primeira coisa que fazia pedia logo amo a quem tivesse na côrte do Governador, por conservador e como protector, para em tudo lhe obedecer e recorrer a êle, porque assim o fazem também com o Rei de Angola, em cuja côrte todos os sobas do reino teem seus amos que lhes são como con- servadores e protectores. Porém ainda que êstes protectores teem êste como domínio sobre êles, o proveito não é muito. Conforme a êste costume dêstes sobas que ia conquistando, o Governador Paulo Dias, ainda que repartia muitos por seus capitães e pessoas principais, dava também alguns aos padres, e a razão era, porque, co*mo os padres tinham entre os negros grande fama de serem bons homens e amparo e protecção de brancos e pretos, ainda o soba não estava conquistado quando já fazia conta e praticava que quando viesse a isso, havia de pedir aos padres por ambos. E assim muitos em ficando sujeitos,
  • 396 Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné diziam logo que queriam ser dos padres, os quais não aceitavam isto mais que para os consolarem e aquietarem, nem havia sobas mais leais e seguros que os dos padres pelo bom tratamento que lhes faziam e amor que lhes mostravam. Nem pudera haver outro melhor modo para os conquistarem a todos e os terem seguros que fazerem-nos sobas dos padres; pois o serem-no nem um só ponto diminuía na jurisdição e poder de Sua Majestade, ao qual o que relevava era tê-los conquistados e debaixo de sua obediência; fôsse com título de sobas dos padres ou de qualquer outro, pouco ia nisso, pois duma maneira ou da outra ficavam seus vassalos, antes os padres muitas vezes repugnaram a os ter, mas o Governador os obrigava a isso, não em respeito dos padres, nem do proveito que disso tivessem, que era assaz pouco, nem por lhes fazer nisso favor e honra, senão em respeito do bem da conquista e do serviço próprio de Sua Majestade, pois com isso tinham os sobas sujeitos e quietos. Estando as coisas nêste estado, certos homens, não bem intencionados e movidos por seus particulares interesses e paixões, assim cá na corte de Espanha a alguns ministros de sua Majestade, como lá aos que então governavam, pro- curaram persuadir que não convinha que os sobas reconhecessem outro senhor senão Sua Majestade e que assim aos capitães como aos padres se tirassem todos. Foi seguido cá e lá o parecer desta gente, sem se pedir informação nem parecer de quem sem paixão lhe pudera dizer a verdade. Tiram os sobas aos capitães e homens principais, que com tantos trabalhos naquelas terras os tinham con- quistado, tiram-nos aos padres, que era o alvo principal a que apontavam, e vendo-se os sobas desta maneira, começam-se a perturbar e alevantar e pouco • fi. 126 v. e pouco se foram unindo entre si contra os portu*gueses e desbaratando-os em vários encontros e ciladas que lhes faziam, até que de todo ficaram isentos, de modo que, quando há dois anos chegou a Angola o Governador João Roíz Coutinho, que Deus tem, nem um só havia que reconhecesse por senhor a Sua Majestade, de mais de cento e cincoenta que dantes lhe obedeciam. Nem se tratava de mais que de fazer fazenda, negociar em escravos, sem se ir por diante numa conquista tão gloriosa em que se podem ganhar para Deus tantos milhões de almas e para Sua Majestade tanta riqueza das minas de prata que naquele reino há. Porém chegando João Roíz, como era um fidalgo tão bem acondicionado e magnífico e de tanta prudência em saber levar aquela gente, e ia com tanto poder qual nunca se juntou em Angola, logo se começaram a vir para êle muitos sobas, e ainda que lhe morreu muita gente da que levou, depois de lá estar, fêz contudo seu campo de quási seiscentos portugueses e muitos mil negros que se lhe vieram sujeitar e com êste entrou pela terra dentro e se foi logo alojar junto às terras de um poderoso soba, por nome Cafuche, que foi o que no tempo de um dos governadores passados destruiu os nossos portugueses e ficou tão soberbo com esta vitória, que não sòmente cuidava que dali por diante podia comer os brancos, como êle dizia, senão que até ao próprio rei de Angola fazia mêdo, porque era o que conforme as suas leis lhe sucedia no reino e a quem os outros sobas tratavam de fazerem logo rei, por o terem por tão valente, que os podia defender dos portugueses. A êste, como digo, determi- nava logo o Governador João Roíz fazer guerra, mas estando para isso, lhe deu uma doença da terra que em cinco ou seis dias o levou, morrendo tão grande
  • Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guine 397 cristão, como ele sempre foi. Nomeou antes da morte sucessor por poderes que tinha de El-Rei e deixou a nomeação fechada num escritório, cuja chave entregou ao Padre Jorge Pereira de nossa Companhia que com êle estava, e como logo em expirando os nossos capitães do exercito se começassem a alterar e revolver entre si sôbre a sucessão, a ponto * de estarem para se perderem • fi. "7- uns com os outros no meio de seus inimigos, setenta léguas pela terra dentro, o padre com sua muita prudência e autoridade se houve de maneira que nomeando-lhes o sucessor que foi Manuel Serveira Pereira, os aquiètou e paci- ficou logo a todos, os quais obedeceram com muita conformidade. Êste novo governador entrando no cargo e continuando a jornada de seu antecessor, em poucos dias entrou pelas terras do negro Cafuche fazendo-lhe guerra, e lhas assolou quási todas e lhe arrasou a povoação ou cidade sua prin- cipal, que era mui grande e de grande número de casas, pôsto-que palhaças, porque lá não há outras. Deu-lhe três batalhas em que sempre o desbaratou sem perder em todas elas mais que um só homem que veio morrer ao arraial, e na derradeira lhe fêz grande estrago e mortandade em sua gente; escapou porém o negro e se pôs em côbro como pôde. Dali se foi o governador direito à serra de Cambambe onde estão as minas de prata. Os sobas comarcãos, vendo o Cafuche desbaratado, ficaram tão assombrados que logo se vieram sujei- tar ao governador, outros fazer pazes com êle. Só o soba de Cambambe, senhor das minas, quis fazer rosto aos nossos, mas dando-lhe o governador guerra o desbaratou por vezes e o fêz acolher a uma terra onde depois, tornando a ser vencido, fugiu dali e se foi entregar a outro soba grande de quem se con- fiava, de cujas mãos o houve por derradeiro El-Rei de Angola que lhe mandou cortar a cabeça e em seu lugar foi pôsto em Cambambe pelo nosso governador outro negro que andava connosco a quem o Estado pertencia. Com êstes sucessos tão prósperos ficaram os nossos senhores da serra das minas e de tôda aquela província de Cambambe, da qual se diz ser uma das mais sàdias terras que há em Guiné, porque são os ares e clima dela mui dife- rentes dos de cá de baixo junto do mar. Pôs-se logo o governador com tôda a pressa a fa^er uma fortaleza num sítio para isso acomodadíssimo, porque além de ser em lugar alto, fica-lhe ao pé o Rio Coanza, * que é o que vem ter • fi. 1*7*. a Loanda, de modo que desta mesma Loanda, onde está a nossa vila e o pôrto onde vão deferir os nossos navios, até o pé da fortaleza podem hoje navegar os nossos por aquele rio acima setenta léguas, livremente e sem nenhum impedi- mento de inimigos, que no caminho possam ter nossas embarcações, que e a mor coisa que se podia desejar para aquela empresa, e assim em cinco dias até seis vão ou vem duma parte a outra. Nesta fortaleza pôs logo o governador duzentos e cincoenta soldados, e começou a cavar, ainda-que pouco em algumas partes daquela serra, de que tiraram várias mostras de prata que nela há, que dizem os mineiros ser muita e haver também muitos outros metais. Dista desta fortaleza a cidade real de El-Rei de Angola onde êle tem sua côrte e reside, não mais que treze ou catorze léguas, o qual sabendo que os nossos estavam aqui e como tinham destruído o negro Cafuche, lhes mandou logo seus embaixadores com recado que não mandava aqueles para mais que para se certificar da fama que corria, e se era verdade que êle governador,
  • 3 98 Bas coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné estava ali em pessoa e tinha destruído o negro Cafuche seu inimigo, porque, se assim era, lhe mandava dar disso as graças e parabéns e se alegrava muito com este seu tão bom sucesso: que seu ânimo sempre fôra de ser cristão, mas que nunca os que governaram antes em Angola lhe quiseram dar para isso ordem. Os negros, que vieram por embaixadores, quando acharam ser tudo verdade, ficaram mui alegres, mas muito mais espantados quando viram nosso exército, num dia que saiu a pelejar com os inimigos, pediram que logo os despachassem, porque se queriam ir pedir alvíssaras a El-Rei, para que logo mandasse ao governador outra embaixada mais grave. Esta mandou depois por catorze ou quinze negros e alguns deles, seus parentes. A substância dela foi que não queria outra coisa senão paz e amizade com os brancos, e que se contentassem com o que tinham conquistado, que êle queria fôsse tudo seu, e que pois bus- cavam prata, lhes daria quanta quisessem, e no demais fossem amigos, que • Fi.ia8. desejavam * que de sua cidade real de Dongo (que assim se chama) até nossa fortaleza de Cambambe não nascesse erva no caminho, tornando lhe a repetir, ou com verdade ou sem ela, que sempre desejara, e desejava ser cristão. Estes embaixadores vieram à vila de Loanda, onde já estava o governador, que de cima se viera, para depois tornar a Cambambe; os nossos padres lhes fizeram, aqui muitos gasalhados e mimos, de que eles foram sumamente contentes, e confiamos muito em Nosso Senhor que por êste meio das minas de prata de Angola, que os homens vão buscar, descubra êle por sua misericórdia as minas de inumeráveis almas, que para êle mesmo os padres vão buscar àquele reino, que conforme ao que escrevem, é uma das mais dispostas gentes que há em Africa e Guiné, para receberem nossa santa fé, porque são de muito bons entendimentos, pôsto-que para os que não entendam sua língua sejam tidos por boçais, como êles nos teem também a nós por não entenderem a nossa, e assim trabalham os padres muito por aprender sua língua, porque sabendo-a e entendendo-se com êles, nenhuma dificuldade haverá em os fazerem todos cristãos, e não sòmente aos do reino de Angola, mas os de outros reinos vizinhos e comarcãos, cujos reis por vezes mandaram já pedir ao governador que êles queriam ser cristãos com toda sua gente, que lhes mandassem padres para os ensinarem e baptiza- rem, mas que fôssem daqueles que não teem mulheres em casa. Donde se pode ver quão disposta esteja esta gente para receber nossa santa fé, se houver minis- tros de Deus que lha preguem. Na casa que a Companhia aqui tem, ao pre- sente não há mais que três sacerdotes e dois ou três irmãos, por serem falecidos os mais, e que eram os melhores línguas que lá havia e dos principais obreiros, e entre êles faleceu êste Maio passado o Padre Diogo Ferreira, que foi uma das mores perdas que teve aquele reino no ministério das almas, por saber a língua e ter mui grande mão e arte para aqueles pretos, aos quais nunca cessava de ensinar a doutrina, e andar discorrendo por tôda a ilha de Loanda, de lugar em » fi. us*, lugar, * com grande fervor e zêlo, confessando e doutrinando aquela gente, que serão por todos vinte mil cristãos afora os que há na nossa vila de S. Paulo e em Massangano.
  • Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné 399 CAPÍTULO VIII Da missão das ilhas do Cabo Verde e terra firme de Guiné ALGUNS anos há que a Majestade de El-Rei Filipe terceiro, nosso senhor, trazia desejos que alguns padres de nossa Companhia fossem em missão às ilhas do Cabo Verde e daí passassem à terra firme de Guiné, pela informação que tinha dos muitos e grandes serviços que nestas partes poderiam fazer a Nosso Senhor e a sua real coroa, assim na doutrina e cultivação dos portugueses seus vassalos, que vivem e andam por elas, como na conversão dos gentios naturais daqueles reinos, a que muito também o persuadiam os ministros de seu conselho de estado deste reino, e assim os de cá como os que tem con- sigo cm Valhadolid, pelo zelo que todos teem do bem comum e aumento de nossa santa fé; e tanto maior obrigação achavam haver para isto, quanto mais viam que, pois por via da coroa deste reino os padres da nossa Companhia e outros religiosos iam buscar as almas de gente tão remota, como é a da índia, China, Japão e mais nações do Oriente, não era razão faltassem também com o mesmo benefício a esta que estava tanto à porta e a que, tantos mais anos há, êste reino tem a mesma obrigação. Mandou pois El-Rei nestes anos atrás encomendar por vezes ao Padre Provincial desta província deputasse alguns padres para esta missão. E ainda que estiveram nomeados alguns, por estorvos porém que sempre se atravessaram, se não pôde efeituar sua partida, até que o ano passado, de 604, escrevendo Sua Majestade a nosso Padre Geral de Roma, com muita instância lhe * encomendou se pusesse logo por obra. Concedeu-lho .Fi.119. sua Paternidade e logo foram escolhidos para esta empresa três sacerdotes e um irmão. Os sacerdotes, todos teólogos e prègadores, que foram o Padre Bal- tazar Barreira, por superior da missão, religioso de muitas partes, de perto de sessenta anos de idade e cincoenta de religião e muitos de superior e que por mais de catorze o fora no reino de Angola e sobretudo de muita virtude e experiência e zêlo das almas: o segund» foi o Padre Manuel de Barros, religioso de muito exemplo e de especial vocação de Deus para aquela missão que êle com muita devoção e espírito pediu e tomou com muitos desejos de nela fazer, como já faz, muitos serviços a Nosso Senhor; o terceiro foi o Padre Manuel Fernandes, mancebo na idade mas velho na edificação e virtude. Partiram de Lisboa no mês de Junho de 604. Chegando à ilha de Santiago, cabeça de tôdas as outras do Cabo Verde, foram recebidos do governador Fernão de Mesquita de Brito e de tôda a terra com mui grande amor e alegria por verem o que tantos anos havia que desejavam. Acomodaram-nos e proveram-nos logo de todo o necessário com muita caridade e abastança de tudo e os padres come- çaram a exercitar seus ministérios de confessar, prègar, ensinar a doutrina, fazer amizades e entender em tôdas as obras de misericórdia e bem dos próximos que nossa Companhia costuma, com tanto mais fruto e edificação das almas, quanto aquela terra por falta de doutrina e semelhantes obreiros estava mais necessitada de tôdas estas coisas, nem se podem fàcilmente declarar os casos particulares de serviço de Deus que nisso sucederam, assim na cidade como na
  • 400 Bas coisas do Brasil, Angola, Cabo - Verde e Guiné Vila da Praia aonde também por alguns dias foram os padres,'o concurso da gente às pregações e principalmente às doutrinas que se faziam pelas ruas e praça da cidade, o número das almas que por meio destes exercícios e das con- fissões se tornaram a Deus, os pecados que se tiraram, os males que se impe- diram, as necessidades espirituais e corporais que se remediaram, os abusos e • FI.IJ9T. superstições grandes que se arrancaram. * Como foi em especial uma que manando de terra firme de Guiné, tinha lançado muitas raízes nesta, não sòmente na gente preta, de que aqui há grande cópia, mas também em muita branca. Esta era haver aqui grande número de feiticeiros e adivinhadores a que eles chamam iabacouces, cuja doutrina era persuadir-lhes que quando estavam doen- tes e morriam, outros feiticeiros quais eles queriam nomear, ainda que o não fôssem, lhes comiam os corpos e tiravam as almas e as punham onde queriam e depois, se lhes pagavam bem, lhas tornavam a restituir e quando adoeciam, eles eram os médicos com quem se curavam, os quais lhes davam o remédio que o demónio lhes ensinava, falando-lhes por vezes claramente e com voz que se ouvia dos circunstantes e metendo-lhes em cabeça muitos outros desbarates e parvoíces brutais. A isto acudiram os padres com grande eficácia, assim nas prègações em geral como nas conversações em particular, com que a gente ficou tão alumiada e conhecendo os enganos em que até então viveram, que davam muitas graças a Deus pelos ter livres de tamanha cegueira, e raramente se ouve já falar em semelhantes superstições. Entre os muitos abusos que havia nesta terra, um grande se tinha no baptismo dos pretos que vecm de Guiné, que como são muitos, se baptizavam logo trezentos, quatrocentos e setecentos juntos; e como dêstes os mais são os que vão daqui para índias, Brasil, Sevilha e outras partes, acontece muitas vezes que pela pressa da embarcação que seus senhores lhes dão por não per- derem a ocasião do tempo, o não deixam ter aos pobres para serem catequizados e instruídos na fé como convém para dalguma maneira entenderem o que rece- bem ; e assim os baptizavam sem mais catecismo nem também haver quem este ofício lhes fizesse. O que vendo os padres, tomaram muito à sua conta o instruir êstes escravos como convém e advertirem com particular cuidado a que •fi.i3o. não haja falta num tal sacramento de que depende a salvação das almas. * Também fazem muito serviço a Deus no ajudar a descativar muitos escra- vos, que sendo livres, os trazem cativos injustamente da terra firme de Guiné os mercadores portugueses, que nisso tratam, principalmente quando consta, por testemunhas, da injustiça de seu cativeiro, que é, ou furtando os e metendo os por força nos navios ou havendo-os dos outros negros que injustamente os sal- teiam e cativam (porque basta virem às punhadas ou arremeter sòmente um ao outro sem razão alguma, para o que mais pode, cativar o outro e o vender por seu escravo) ou havendo-os também dos tangos maus, ou lançando-os com os negros e que andam neste trato pela terra a dentro, os quais são uma sorte de gente, que ainda que na nação são portugueses e na religião ou baptismo cris- tãos, de tal maneira porém vivem como se nem uma coisa nem outra foram, porque muitos dêles andam nús e para mais se acomodarem e conaturalizarem com os gentios da terra onde tratam, riscam o corpo todo, com um ferro, ferin- do-o até tirarem sangue e fazendo nele muitos lavores, os quais depois do con-
  • Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné 401 sumo de certas ervas, lhes ficam parecendo em várias figuras como de lagartos, serpentes ou outras que mais querem e desta maneira andam por todo aquele Guiné, tratando e comprando escravos por qualquer título que os podem haver, ou seja bom ou seja mau, andando tão esquècidos de Deus e de sua salvação, como se foram os próprios negros e gentios da terra, porque passam nesta vida os vinte e trinta anos sem se confessarem nem se lembrarem doutra vida nem mundo mais que disto de cá, nem também ainda que se queiram confessar, teem confessor com que o possam fazer, nem que alguma hora acertem de o ter quando vem abaixo às povoações onde há igrejas, é de suficiência que os possa encaminhar e declarar-lhes o mau estado em que andam e reduzir a melhor vida: e destes confessaram os padres alguns que aqui vieram. É esta ilha de Santiago de dezanove léguas de comprido, e de dez e doze de largo. Está em catorze graus e dois terços, mui fragosa e de grandes pene- dias; não chove nela * senão nos meses de Agosto, Setembro e Outubro, que «fi. i3ov. é o seu inverno. É porém fertilíssima porque tem vales fresquíssimos e abun- dantíssimos de toda a variedade de frutas e mantimentos da terra. Por todos os meses do ano dá melões excelentes, produz boa quantidade de açúcar; carnes muitas e de tôda a sorte, galinhas em grande número, muita criação de cavalos, e sobretudo põe espanto a numerosa quantidade de gente que nela vive. O clima é pouco sàdio, principalmente na cidade, a qual ainda que tem muita casaria, é mal situada por o sítio ser doentio, havendo logo dali a duas léguas uma vila que se chama a Praia, pobre de casas, mas mui notàvelmente avanta- jada no sítio e ares e pôrto e nas mais comodidades para a gente poder viver, porque estando num alto, é cercada de duas ribeiras que vão dar em duas baías do mar, uma delas mui capaz, formosa e limpa e com um ilhéu na bôca, que defendendo-a dos ventos mareiros, faz que os navios estejam nela como num manso rio e fora de todo o perigo de se perderem, como cada dia se perdem na baía e pôrto da cidade, por ser mui ruim e pouco limpa Está porém sujeita esta vila a ser muitas vezes salteada dos inimigos holandeses e hereges quando veem fazer carnes e escala à ilha do Maio, da qual numa noite podem vir a ela como por vezes vieram e a saquearam e lhe fizeram muitas outras afrontas. O qual perigo se pudera remediar se se povoara mais esta vila e houvera nela gente que a pudera vigiar e defender e se se fortalecera uma só entrada que tem, e no ilhéu, que está na boca da baía, se fizera algum forte, que a defen- dera dos inimigos. Muitas vezes se tratou de mudarem a cidade para êste sítio, o que se tivera efeito, fôra grande bem, porque nem se perderam os navios, que continuamente se perdem no pôrto dela nem adoecera nem morrera tanta gente. Tem esta ilha por vizinhas outras sete ou oito a que chamam as ilhas do Barlavento, que são a do Maio, Boavista, São Nicolau, Santo Antão, S. Vicente, S. Luzia, Ilha do Sal; e como nelas há grande cópia de criação de gado, são todas habi*tadas de caçadores que teem por ofício fazerem carnes e chacinas *fi. 131. que daqui com muita courama se levam para diversas partes. E na de Maio veem os holandeses e outros hereges não sòmente a fazer carnes e carregar de sal para suas terras, mas escala para as índias, Brasil e outras partes, sem haver quem lho impeça. Estão mais ao poente outras duas ilhas, que são a do Fogo, 5i
  • 402 Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné na qual há boas vinhas, e a Ilha Brava onde também se fazem carnes, e em tôdas elas, havendo obreiros, se fará muito fruto nas almas que tão necessitadas vivem de remédio. Poucas semanas depois de os padres chegarem a esta ilha, os começou a provar a terra com suas acostumadas doenças, de que caíram o Padre Baltazar Barreira e o Padre Manuel Fernandes. A este com ser mancebo levou Deus para si com grande sentimento de tôda a terra, que por extremo estava edifi- cada de seu santo exemplo e satisfeita de seu modo de prègar. Ao Padre Bar- reira restituiu a saúde para se servir dêle na jornada e missão de terra firme de Guiné, que está a noventa léguas desta ilha, para onde se partiu no mês de Dezembro de 604. Mas antes que tratemos desta sua jornada, é razão que demos uma breve noticia de tôda esta terra firme, para que se veja a multidão da gente que nela há e o grande campo para a sementeira do Evangelho e con- versão de muitos milhões de almas e a muita razão que Sua Majestade teve para com tanto zelo lhe começar a mandar obreiros que comecem a cultivar tamanha vinha de Cristo. CAPÍTULO IX Etn que se descreve brevemente a terra firme de Guiné e Serra Leoa e alguns ritos e costumes da gente dela • fi. i3iv. #T"^STA província de África, a que pròpriamente os nossos chamam Guiné, H se começa no rio Canaga pela parte do norte e continuando a costa ao sul quási cento e oitenta léguas, se acaba na Serra Leoa, o qual espaço todo é da capitania do Cabo-Verde, de que e cabeça a ilha de Santiago. Povoam esta terra diversas nações de negros, dos quais os primeiros são os Jalofos, que com o rio Canaga se apartam dos moiros alarves pela parte do norte e pela do levante os cingem os negros Jalofos que se chamam Fulos Ga- salhos, cujo reino é muito grande e seu rei mui poderoso e riquíssimo de oiro, de que dizem haver grande quantidade em sua cidade real, chamada Tubacatum e que daí vem à Mina e a tôda a costa de Guiné, e pela parte do sul se ter- minam com os negros chamados Berbecins, e assim habitam estes a parte mais ocidental de África, que é a que sai com uma grande ponta da terra ao mar a que chamam Cabo Verde, que faz rosto ao ponente e à ilha de Santiago e às demais suas vizinhas, pelo que tôdas elas se chamam as ilhas do Cabo Verde. É êste reino mui grande e abastado de mantimentos e várias frutas; a gente bem proporcionada, e ordinàriamente sao os Jalofos valentes na guerra e glan- des homens de cavalo. Tem ao longo do mar alguns portos bons; o principal é a angra e pôrto de Beziguche, o qual é mui formoso e capaz e abrigado dos ventos por um ilhéu que tem, entre o qual e a terra fica a baía. Houve aqui antigamente grande comércio dos nossos com a gente da terra em que faziam muito proveito; mas êste o é agora todo dos estrangeiros do norte os quais nêle como num seguro pôrto ou obra de sua terra espalmam suas naus e concertam suas embarcações e lhes serve de escala para dali discorrerem por tôda a costa de Guiné, da Serra Leoa e da Malagueta e Mina e irem ao Brasil e índias de
  • Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné 403 Castela. E este comércio e trato lhes sustentam principalmente os Tangos maus e lançados com os negros, os quais correm todo Guiné para lhes trazerem a carga do que êles em desconto de suas mercadorias vão buscar, que é muita courama, marfim * cera, goma, algália, oiro, âmbar, de que há muita quanti- *fi. 132. dade por esta costa. E pôsto-que estes Jalofos tenham muitos ritos da seita de Mafamede pela vizinhança que teem com os moiros, contudo o povo ordi- nário abraça com facilidade nossa santa lei, e, se houvera quem lha pregara, não deixara de se fazer mui grande fruto naquelas almas. Depois dos Jalofos pela costa adiante se seguem os dois reinos que se cha- mam Ale e Brocal, os quais habita uma nação de negros, chamados Berbecins, em cujos portos, que são os principais Ale e Doxala, tratavam os portugueses, no tempo passado, o que agora já não fazem, porque os estrangeiros do norte com o favor dos Tangos maus lhes teem usurpado êste comércio. Adoram estes negros a lua quando é nova, e os seus templos são certas árvores as quais caiam com farinha de arroz e com sangue de animais que sacrificam. No reino de Ale, quando o rei quere fazer alguma guerra, ajunta seus capitães e conse- lheiros e com êles se mete em um bosque que está junto a seu paço, no qual fazem uma cova redonda de três palmos de alto e postos todos ao redor dela com as cabeças baixas praticam e votam sobre a emprêsa e, tomada a resolução, a tornam a cobrir, dizendo o rei que a cova não há de descobrir o segrêdo, pois fica nela enterrado; com o qual aviso de tal maneira o guardam temendo o castigo, que nunca seus inimigos o veem a saber; por onde, de todas as guer- ras que fazem, ordinàriamente ficam vencedores. As negras dêste reino, antes que casem, sofrem um grande tormento que é cortarem-lhes a carne e retalha- rem-lhes o rosto todo e o corpo com lavores por o terem por grande gentileza, e pela mesma engrossam os beiços com espinhas principalmente os de baixo e para lhes ficarem mais revirados trazem nêles umas estaquinhas de pau como pontaletes que lhos fazem apartar um do outro. O reino de Brocal é muito maior que o de Ale e vai entestar no rio Gâmbia, o qual é tão caudaloso e grande que trinta léguas ao mar se toma sua água doce. Tem-se por certo que êle e o de Canaga nascem ambos * de uma fonte, mas dividindo-se depois, se ' Fl-,33 T vão meter no oceano, afastados um do outro sessenta léguas, ficando-lhes no meio e em igual distância o Cabo Verde. Tem a sua barra de largo cinco léguas e por êle acima de uma e de outra parte por mais de duzentas léguas povoam suas ribeiras a nação dos negros chamados Mandingas, gente mui bár- bara, atraiçoada, idólatra e de muitas superstições por causa dos muitos Bexerins que há entre êles que são os seus sacerdotes e religiosos, por serem grandes feiticeiros e instrumentos do demónio para enganarem esta cega gentilidade. E êste rio navegável mais de cento e sessenta léguas, e muito mais o fora, se o não estorvara uma alta catadupa ou quebra de água duma rocha abaixo. E desta por diante se pudera também navegar muitas mais léguas, se houvera embarcações. Faz muitas e frescas ilhas de uma e duas léguas, nos bosques das quais há muita variedade de aves como rolas, pombas, gangas, marrecas. Há também gazelas, veados e outros animais. O trato dêle é mui grande e além doutras coisas se resgata muito oiro. Os negros usam de almadias tama- nhas que cometem nossos navios. As povoações ao longo do rio de uma
  • 404 Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné parte e doutra são muitas e grandes e bem situadas; a terra mui fértil e de muita variedade de mantimentos. Da ponta que faz a terra na boca deste rio para a banda do sul a que chamam cabo de Santa Maria até o rio de São Domingos, que são quási trinta léguas, povoam duas nações de negros mui brutos, chamados Arriatos e Falupos. Seu exercício é pescar, criar gado, cultivar a terra. Nem teem comércio algum com os portugueses. Entre estes negros sai o rio que se chama da Casa Manca. Ao longo dele, pela banda do norte, povoam os Iabundos e pela do sul os Bunhuns, aos quais rodeiam por parte do levante os Casangas, cuja terra é muito grande e regada com muitas ribeiras, pelo que é muito fértil e abundante de mantimentos. Com todas estas três nações teem comércio e trato de escravos • fi. 133. os portugueses e principalmente com os Casangas, cujo rei se chama o da Ca*sa Manca, em razão do rio sobredito que vem do seu reino e pelo qual o tratavam e comunicavam os portugueses os anos passados, mas agora o fazem por um estreito do rio de S. Domingos que está daqui mais adiante e de que logo fala- remos, o qual vai dar em suas terras, onde os nossos portugueses fizeram, estes anos atrás, uma povoação a que puseram nome São Filipe. Dá este rei obe- diência a outro seu vizinho a que chamam Ierém e êste a dá a outro mais apar- tado, e assim se vão reconhecendo uns aos outros até pararem num grande imperador de todas aquelas larguíssimas regiões a que chamam Mandimança e a quem todos os negros de Guiné reconhecem por senhor e pagam vassalagem. São êstes negros Casangas idólatras; seu ídolo, a que chamam China, é um feixe de cajados atados e pregados em pé na terra, embarrados com papas de farinha de arroz e de milho, borrifados com sangue de vacas e cabras. Os templos para êste deus são grandes e sombrias árvores, debaixo das quais o põem e lhe fazem sua adoração, oferecendo-lhe vinho de palma e milho. E para que lhes guarde suas sementeiras, põem algum dêstes cajados pregados no chão ao longo delas. Com o trato dos escravos em todo êste Guiné ser ordi- nàriamente tão injusto, e quando menos tão duvidoso, aqui com êstes negros Casangas é sua injustiça mais evidente que em nenhuma outra parte, pelos injustos modos com que o mesmo rei os cativa, condena e vende por escravos, os quais são os seguintes. Comete-se um delito de que se não sabe o autor; finge El-Rei que o quere castigar, chama a juízo os que lhe parece c os em que finge suspeitar que o cometeram, que sempre são alguns negros fidalgos e ricos a quem êle por alguma paixão quere matar ou por cobiça tomar a fazenda. Para isso usa desta prova que é geral nas partes de Guiné. Manda trazer uma bacia de água vermelha, feita de cascas de árvores pisadas e faz beber dela a todos os que hão de ser examinados; se não vomitam, ficam livres; se vomitam, ficam logo julgados por culpados. Mas usa nisto desta maldade, que •fi. i33t. como. a água per si * não tem força para fazer vomitar, faz que o algoz ou ministro que a há de dar traga certa peçonha nas unhas de dois dedos da mão, as quais para isso trazem compridas, e antes que os examinados a bebam, revolve com as mãos aquela água, mas de modo que quando a hão de beber os que o rei não quere que fiquem culpados, resguarda que lhe não toquem os dedos da peçonha, mas quando os outros, subtilmente, a toca com êles, pelo que em os tristes a bebendo, começam logo a sentir agastamentos e a vomitar
  • Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné 40 5 e no mesmo ponto não somente morrem, mas todos seus beris ficam do rei e todas suas mulheres, filhos e família seus escravos, os quais êle vende aos por- tugueses. E para ter mais escravos que lhes vender e a troco deles haver as mercadorias que há mister, além desta usa também doutras tiranias a que êles chamam leis. Uma delas é que, quando morre algum negro, diz o Jabacouce ou adivinhador que Fuão o matou e lhe comeu ou tirou a alma, pelo que logo os ministros de El-Rei o mandam prender por homicida e feiticeiro e o cativam e vendem por escravo a êle e tôda a sua geração e família, de modo que não está mais a liberdade do pobre negro que na vontade e malícia do Jabacouce, que ou por ódio, ou por peita de algum amigo, em morrendo um negro, põe logo a bôca em quem quere, afirmando que aquele o comeu e lhe tirou a alma. Outra lei é que todo o negro que cair de palmeira e morrer, seja havido por feiticeiro e como tal perca a fazenda, e suas mulheres, filhos e parentes fiquem cativos. E como nesta terra haja muitas palmeiras e os negros sejam muito amigos de vinho e andem sempre por cima delas a tirá-lo, acontece caírem muitos e morrerem alguns, em cuja fazenda e tamília se executa logo esta tirâfiica lei. Com estes Casangas vizinham os negros, a que chamam Boramos, que são sujeitos a muitos reis, obedecendo os menos poderosos aos que o são mais. Povoam êstes ao longo do rio de S. Domingos, que por outro nome se chama Jarim, um dos mais nomeados e o de maior trato de escravos que há em Guiné e mui abundante de mantimentos e de bons pescados. * A barra é algum tanto »Fi. 04. perigosa por ter muitos baixos. Os negros Baramos, que moram ao longo dele, se estendem até à bôca do rio grande, que está mais adiante para o sul, e passam ainda da outra banda. Na prova da água vermelha e nas duas leis acima ditas, conformam com os Casangas seus vizinhos e por conseguinte na injustiça de fazer escravos. Limam os dentes homens e mulheres; e elas para se acostumarem a não ser palreiras nem gulosas, tomam logo pela manhãzinha uma bochecha de água na bôca, e fazendo todo o serviço necessário, a trazem até o jantar e por a não deitar fora, em todo este tempo nem falam nem comem. A primeira povoação destes Boramos está oito léguas da barra do rio. Há nela um rei que é o principal desta nação; as casas são de taipa cobertas de ola. Viviam os tempos passados com os negros nesta aldeia os portugueses, mas por serem às vezes deles mal hospedados e roubados, um Manuel Lopes Cardoso, vizinho da ilha de Santiago, houve licença do rei para mais abaixo em um sítio acomodado fazer um forte, dizendo que era para defender os navios dos inglêses, com quem então havia guerra, os quais às vezes entravam naquele pôrto. Acabado o forte, pôs nêle artelharia e fêz junto dele algumas casas que pouco a pouco foram crescendo em uma boa povoação aonde se recolheram os que moravam na aldeia dos negros, os quais havendo-se por enganados, no ano de noventa determinaram deitar os nossos fora e tomar-lhes o forte. Para isto com grande segredo ajuntaram dez mil homens, porém sendo os nossos avisados por algumas negras ladinas da noite em que haviam de vir, os esperaram apa- relhados, e em três dias que durou a peleja lhes mataram muitos, pelo que êles com grande dano seu se retiraram e arrependidos do passado, fizeram pazes com os nossos, as quais agora teem, com que a povoação cada vez vai cres-
  • 4O6 Das coisas do Brasil, Angola, Cabo - Verde e Guiné cendo mais, pôsto-que os que nela vivem, parece não terem mais de cristãos que o nome, porque em todo o outro são como os mais Lançados ou Tangos maus, e particularmente se vê aqui quanto fruto se perde por não haver obreiros de Cristo que o colham, pela disposição e facilidade que há nestes negros para • fi. 134v. receberem nossa santa lei, porque o seu rei quando * vai à fortaleza dos por- tugueses e acerta de haver nela algum sacerdote que diga missa, ouve-a com muita quiètação e repreende quem fala no tempo que se diz. Benze-se e vai à oferta e posto de joelhos adora o Santíssimo Sacramento. Estando naquele lugar um clérigo negro, vendo o rei que o feitor lhe fazia muita cortesia e dava sua cadeira, se espantava que sendo negro o honrasse tanto e averiguava com os seus que tudo se lhe fazia e devia porque falava com Deus. Fora dêste rio de S. Domingos há umas ilhetas povoadas dos mesmos Boramos que teem seu rei particular, e adiante dêstes, também para o sul, outras muitas em número, povoadas de outra nação de negros que chamam Bijagós. São todas mui frescas e regadas de muitas ribeiras de água, cobertas de arvoredo e muito abundantes e férteis. Por entre umas e outras emboca no mar o rio grande, um dos prin- cipais de Guiné em trato e escravos. Por um braço dele chamado Guinala que vem do norte, se vai ao pôrto do mesmo nome que é o principal, onde se faz muito resgate e onde os portugueses teem uma povoação com um forte, que também se chama o pôrto da Cruz e a província é rôda povoada da nação dos negros, a que chamam Beafares, os quais são sujeitos a muitos senhores e mui grandes ladrões, porque se furtam uns aos outros para os irem vender aos por- tugueses em suas embarcações. É aqui a terra sàdia por ser desabafada e des- coberta de mato e de bons mantimentos. E ainda que os negros teem seus ritos gentílicos, facilmente se convertem à nossa santa fé, o que bem mostrou a experiência os anos passados, porque indo ter a êste pôrto uns frades carme- litas descalços, e estando ali cinco ou seis meses, converteram com suas prèga- ções muitos gentios, e assim dos livres que vivem com os portugueses nesta povoação de Guinala são muitos cristãos, mas por falta de quem lhes pregue se deixa de fazer muito fruto nesta gente como também em tôdas as outras partes dêste Guiné. O rei desta Guinala se trata com mais aparato que outros destas terras, e quando sai fora, vai mui acompanhado e guardado de muitos • fi. i35. frecheiros, e quando morre, é costume ma*tar as mulheres e criados mais que- ridos e privados seus e enterram-nos com êle e juntamente ao seu cavalo, pare- cendo-lhes que tudo hão mister no outro mundo para seu serviço; por onde quando está para morrer, muitos dêstes fogem e se escondem quanto podem. Por outro braço- dêste rio grande que também acima do de Guinala corre do norte, se vai ao pôrto de Biguga e ao de Balola que fica mais acima. No de Balola moram ordinàriamente os Lançados e Tangos maus. O de Biguga é uma das principais povoações que os nossos teem em Guiné. São os negros daqui também Beafares e teem seu rei como em Guinala, o qual morto, lhe sucede um de seus parentes, o que mais pode, por onde, em morrendo, tudo é guerra, e quem nela fica com a melhor, fica com o reino. Da ponta austral dêste rio até ao cabo, que chamam da Vêrga, onde se remata a capitania de Cabo Verde, povoam outras três nações de negros e a que chamam Nalus, Bagas e Caçolins.
  • Das coisas do Brasil, Angola, Cabo - Vei'de e Guiné 407 Deste cabo por diante, começa a correr a nomeada província da Serra Leoa, assim chamada porque numa ponta que deita para o mar, a qual se chama o cabo Ledo, tem umas concavidades nas quais as ondas do mar retumbam de tal maneira que fazem um rugido semelhante ao de leão, pelo que lhe puse- ram nome a Serra Leoa. É esta serra a melhor e a mais sadia, fresca e abun- dante de todo Guiné, porque há nela grande quantidade de tôda a árvore de espinho, há uvas que por serem selváticas teem o bagulho grosso, mas se se cultivarem, serão tão boas como as nossas; há bananas e muitas canas de açúcar que por si se dão e grande comodidade e disposição para se fazerem engenhos dêle. Há muito algodão e muito pau do Brasil e melhor que o que vem daquela província, do qual se fazem sete tintas. Há duas ou três sortes de malagueta, há muito arroz de casca e milho branco, há muita cera e marfim, há muita cola, que é uma fruta como castanha, estimadíssima por tôdas as partes de Guiné e que não há senão só nesta e daqui vai a carregação dela e é uma das * merca- *fi.i35v. dorias com que tratam os portugueses pelos rios, resgatando com ela escravos, oiro, roupa, mantimentos e tôdas as mais coisas que há nas terras onde vão. As árvores desta fruta são como castanheiros, nas quais se dá em ouriços mas sem espinhos. Há mais nesta terra tôda a sorte de palmeiras, das quais os negros fazem seus vinhos e azeites e das folhas doutras fazem balaios. Há tôda a sorte de aves e animais que nas outras partes de Guiné, e entre a muita diversidade de bugios há uns chamados baris, refeitos e membrudos, os quais teem tanto de instinto, que criados de pequenos, servem como uma criatura humana, porque andam em pé de ordinário, malham aos negros os mantimentos nos seus pilões, vão por água ao rio em vasilhas que cheias dela trazem à cabeça, e chegando à porta da casa, se lhas não tomam logo, as deixam cair no chão e entornada a água e quebradas as vasilhas se põem a chorar e gritar. Há mais nesta terra muito género de muitas e boas madeiras e entre elas angelim de que se podem fazer quantos navios quiserem e da casca de uma árvore que dá a malaguet.i se faz a estopa com que os calafetam e que também serve para morrões de arcabuzes. Há nos rios muitos e bons pescados e pelas praias muitos mariscos melhores que os nossos. Há minas de ferro. O oiro se res- gata e vem do sertão, da terra dos conchos, onde há muito. Há mais neste espaço e distrito da Serra Leoa treze rios que dela saem ao mar, os mais dêles grandes e caudalosos e que correm do sertão por entre fresquíssimos bosques de laranjeiras e todos povoados em suas ribeiras de bem situadas aldeias e povoações, pelos quais descem os resgates e sobem os navios muitas léguas. O primeiro destes que está passando o cabo da Vêrga se chama o rio das Pedras: é grande e dividido cm muitos braços, retalha a terra firme por onde desce e faz dela muitas ilhas que se chamam os Cagaçais, nas quais se acha muito âmbar. E vindo ter nos tempos passados a um estreito destes um português natural da ilha de S. Tomé, por nome Bento Correia da Silva, e conhecendo a bondade e exce*lência da terra e a diferença que fazia a tôdas as outras, se ficou *fi.i36. nela com um irmão seu, por nome João Correia da Silva e outros parentes e amigos e fêz uma povoação, a qual foi crescendo de modo que haverá nela quinhentos portugueses e entre brancos e pretos três mil pessoas, os quais todos por falta de quem os doutrine e lhes administre os sacramentos, vivem e mor-
  • 408 Das coisas do Brasil, Angola, Cabo - Verde e Guiné rem como gentios. Além dêste rio se seguem os de Capor e Tambasira, os quais veem de umas terras chamadas de Machamalá, onde há uma grande, toda de finíssimo e limpo cristal. Depois dêste se seguem logo outros três ou quatro até o rio de Tagarim que por outro nome se chama Mitombo e pela parte do Norte cerca a serra que pròpriamente se chama Leoa e da qual se pôs nome a tôda a província, e ao Sul corre outro chamado Bangue, e ficam êstes dois rios com as suas voltas tão vizinhos que quási ilham tôda esta terra, sendo entre êles a distância tão breve que os negros passam às costas suas embarcações de um rio ao outro. E assim com grande facilidade se podia fazer desta terra uma formosa ilha cortando o dito espaço. Passado o rio Bangue saem ao mar outros cinco mui formosos e todos cobertos de árvores de espinhos e de palmeiras tão deleitosas à vista e acomodados para a navegação e comércio, como férteis de inumeráveis almas que para Cristo se podiam ganhar. Não faltam mais a esta terra, para seu perfeito ornato e formosura, aprazíveis e ricas ilhas que ao longo desta costa a vão ornando com sua variedade e formosura, porque pouco mais de vinte léguas do'cabo da Vêrga para a parte do Sul, há três chamadas os ídolos, das quais uma que é mui montuosa, coberta de arvoredo e regada de frescas ribeiras é somente povoada e dela vão os negros fazer suas searas às outras duas que só disso lhes servem. No rôsto do cabo Ledo há duas mui abundantes de laranjeiras, cidreiras, limoeiros, canas de açúcar, bananeiras e palmeiras e não menos o são as ilhas chamadas do Toto. Ficam nos baixos de S. Ana, nas quais se acham pérolas nas ostras; e dêstes baixos para a terra • fi. i36 v. firme na entrada dos rios de Butebum e das Alianças está a ilha de Taucen*te de dôze léguas de comprido e dez de largo, na qual, além das outras árvores de espinho e palmares, se dá grande quantidade de cola, milho e arroz. Tem-se por averiguado por todos os que teem experiência desta província, fazer muita vantagem à do Brasil, não sòmente na brevidade do caminho dêste reino para ela, pois não é mais que de vinte dias, mas na fertilidade c abundância de tôdas as coisas, pois tem melhor pau que o do Brasil, grande cópia de algodão e êste muito fino, açúcar quanto quiserem tratar dela, beneficiando-se as canas que naturalmente nascem, gente para os engenhos e para cultivar as fazendas, inu- merável abundância de mantimentos, madeira para navios e para todo o uso necessário, ferro e outras coisas sem comparação mais que no Brasil. Por onde, se esta terra se povoasse de algumas colónias de portugueses e houvesse nela ministros do evangelho que o prègassem àqueles gentios, não há dúvida que se acrescentaria à coroa dêste reino de Sua Majestade um grande estado e mui rico e para a Igreja Católica inumeráveis filhos. Povoam esta província duas gerações de negros, uma antiga e natural, chamada Capes, os quais são de melhor entendimento e juízo que todos os de Guiné e assim aprendem com grande habilidade tudo o que se lhes ensina. Teem seus reis a quem obedecem, os quais junto das casas em que vivem teem uns alpendres redondos, a que chamam funcos, onde dão audiência e administram justiça e em cada um dêles, que estão mui bem armados com umas esteiras finas, está um assento alto em que o rei se assenta e outros mais baixos de uma e de outra parte para os nobres que com êle governam, os quais se chamam solataquis, que é o mesmo que conselheiros. Ali aparecem as partes a requerer sua justiça com seus
  • Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné 409 procuradores a que chamam troes, vestidos com várias invenções de penas e chocalhos e com azagaias nas mãos em que se encostam emquanto relatam as causas e dão as razões de suas partes, no qual tempo teem também os rostos cobertos com feias máscaras para que não tenham pejo de * falar diante de.Fi..37. seu rei e por isso percam as partes seu direito, o qual se funda todo nas boas razões destes advogados, e elas dadas de uma parte e outra com parecer dos solatequis ou conselheiros, dá El-Rei a sentença que logo se executa nos con- denados. O modo por que o rei dá esta proeminência de solatequi a quem a merece é êste. Leva o negro ao funco, manda-o assentar em um assento de pau lavrado que serve para esta cerimónia e tomando uma fressura de cabra, lhe dá êle mesmo com ela nas queixadas, e ficando-lhe o rosto e peitos cheios de sangue, lhe deita sobre êles farinha de arroz e logo lhe põem um barrete vermelho na cabeça com que fica solatequi e do conselho do estado. Sucede no reino o filho ou irmão ou parente mais chegado do rei morto, e para o ale- vantarem e obedecerem como rei, o vão buscar a sua casa e atado o trazem aos paços reais, onde lhe dão uns poucos de açoites e logo tornam a desatar, e vestindo-o dos vestidos reais o levam ao funco onde, juntos os principais do reino, o mais antigo solatequi faz uma arenga a todos, declarando a razão da sucessão do novo rei e que para bem governar seus vassalos e fazer direita justiça foi necessário que soubesse que coisa era pena e prémio. Após esta prática lhe mete na mão a insígnia real, que é uma arma com que cortam as cabeças aos condenados à morte, e feita esta cerimónia, fica rei e quieta e pacificamente obedecido e servido de todos. Há nas povoações uma casa grande como de mosteiro, apartada das outras, na qual estão recolhidas tôdas as moças donzelas da povoação um ano, doutrinadas e ensinadas entanto por um velho nobre,, bem acostumado e a seu modo virtuoso. No cabo dêle saem desta casa juntas e bem vestidas e vão à praça, onde ao som de seus instrumentos bailam. Ali as vão ver seus pais e delas escolhem os mancebos nobres para suas mulheres as que querem, e pagando a seus pais o casamento e ao velho o trabalho do ensino e guarda, as levam para suas casas. Castigam-se entre estes Capes mui rigorosamente os feiticeiros, porque lhes cortam as cabeças, e os cor- pos deitam às feras * e os condenados à morte por outros delitos vendem-nos, • n. 137 v. ainda que são naturalmente pouco belicosos, porque a fertilidade deliciosa da terra os faz de ânimos fracos e efeminados. A continuação porém da guerra com os Cumbas os fêz soldados. Enterram os defuntos em suas próprias casas vestidos com manilhas de oiro nos braços e arcadas nos narizes e orelhas, a que chamam macucos e pesam vinte e trinta cruzados. Fazem os choros nas pra- ças, segundo a qualidade do defunto e ajuntando para isso muitos mantimentos. Aos reis enterram fora das povoações ao longo da estrada em uma cova feita em uma casa de palha, dando como razão que convém se enterre em lugar público a pessoa real que publicamente fêz o ofício de juiz. A outra nação de que é povoada esta província é de uns negros mui bár- baros e inumanos, chamados Cumbas, que quere dizer comedores de gente, os quais haverá cincoenta anos vieram sobre esta terra e destruíram e conquis- taram a maior parte dela, e achando-a tão viçosa e abundante como dissemos atrás, determinaram fazer nela sua habitação, deitando fora os Capes seus antigos 52
  • 4io Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné moradores e os que cativavam comiam os reis e a gente principal e nobre, e dos outros deixando os mancebos para soldados vendiam os demais aos portu- gueses que naquele tempo andavam pelos rios recolhendo em suas embarcações os que fugiam dos Cumbas e comprando os dêles por tão pouco preço que davam um cinto ou um barrete vermelho por um negro e eles mesmos com grande instância pediam aos nossos que os comprassem. Estão porém já agora êstes Cumbas com a brandura e delícias da terra mui diferentes e trocados daquela sua antiga ferocidade e já de condições brandas e dispostos para rece- berem nossa santa fé como os outros naturais da terra, havendo quem lha pregue. • fi. i?8. * CAPÍTULO X Da jornada que o padre Baltasar Barreira fê\ à terra firme de Guiné POR estas novas e informação tão boa que o Padre Baltazar Barreiía teve da terra de Guiné e principalmente da Serra Leoa, com muito alvoroço se partiu da ilha de Santiago para lá no mês de Dezembro de seiscentos e quatro em um navio que ia para o Rio Grande, donde lhe diziam teria embar- cação para passar à Serra Leoa. E porque de sua viagem, chegada e do que achou na terra não se poderá dar melhor relação que a que êle mesmo dá em uma carta que sôbrc isso escreveu ao padre Manuel Barros, seu companheiro, que ficou na ilha de Santiago, a poremos aqui à letra, a qual diz assim: Posto-que pusemos em chegar a esta Biguba perto de quarenta dias, tivemos por grande mercê de Deus dar-nos na viagem saúde e livrar-nos de ladrões e dos baixos que são perigosos e os passámos muito bem não trazendo piloto que os sou- besse. Desta detença foram causa os tempos contrários e calmarias e as escalas que fêz o mestre no Bissau, aonde se deteve quarenta dias e em Juinala nove. Mas parece que Deus o ordenou assim para bem de algumas almas que estavam bem necessitadas do remédio que lhes mandou. Ao Bissau chegámos a segunda oitava do Natal. Confessei os portugueses que ali havia, e por não haver igreja e os ornamentos virem debaixo da coberta, deixei de lhes dizer missa e admi- nistrar o Santíssimo Sacramento, havendo anos que não recebiam um nem outro por falta de sacerdote. Lastimou-me muito ver o desamparo desta gente no que toca a suas almas e o esquècimento de Deus e da sua salvação em que alguns dêles viviam. Dei-lhes os conselhos e avisos que entendi serem-lhes necessários e procurei persuadir-lhes que se fossem viver a outras partes deste Guiné, aonde pelo menos alguma parte do ano teem sacerdote que diga missa •fi.i38*. e confesse. * Prometeram-me que o fariam, mas não sei se o cumprirão, porque os vi muito arraigados na terra e trato dela. Se o Senhor fôr servido que assentemos nestas partes, será fácil visitá-los uma vez cada ano. O rei, que é já mui velho e grande amigo dos portugueses, me veio visitar; não pro- curei induzi-lo a se fazer cristão, porque no mesmo dia em que saí cm teira para confessar os portugueses me tornei a embarcar por dizer o mestre que se havia de partir ao outro dia pela manhã, e como nesta gente são necessárias
  • Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné 411 grandes preparações e muito tempo para os instruir, deixei isto para quando Deus fôr servido que torne lá. O filho morgado me disse que de boa vontade fora cristão, mas que deixava de o fazer porque sendo-o, não havia mais de amarrar, queria dizer, fazer assaltos e cativar negros, entendendo que, ainda que agora fazia isto, era injustamente. Um português que ali está, há obra de vinte anos me fez muitos gasalhados e nos proveu para o restante da viagem de algumas coisas de que vínhamos já bem faltos. Fizemos umas amizades entre pessoas principais, de que Nosso Senhor se serviu muito. Daqui nos partimos, e no caminho nos fêz Deus uma grande mercê, porque tendo por passar dois baixos, os mais perigosos destas partes, dos quais o nosso piloto não sabia, pretendemos ajudar-nos de um piloto da terra que ali estava, até os passarmos, mas ordenou o Senhor que isto não tivesse efeito, para mos- trar que Êle era o que nos guiava; e foi coisa muito notável que saltando-nos o vento quando chegávamos perto dêles e levando-nos a corrente à parte mais perigosa e onde já se perderam muitos navios, subitamente nos sobrevinha o de que°tínhamos necessidade e os passávamos seguramente indo sempre com o prumo na mão. Além disto, sendo esta costa infestada de corsários franceses que roubam os navios que veem ou saem dela, quis o Senhor que nenhum encontrámos. Chegámos a Guinala que está por um braço acima do Rio Grande, dia de Reis pela manhã, o que tive como por prognóstico da conversão desta gentilidade cujas primícias êles foram. * Veio-nos logo visitar António Nunes, •fi.i39. feitor e capitão daquele porto, com outros portugueses. Ao sair disparou o nosso navio dois tiros que trazia, e da terra dispararam dez ou doze do forte. Achei já tudo aparelhado para dizer missa, mas antes dela lhes prèguei da festa, acomodando tudo às necessidades espirituais destas partes. Depois lhes tornei a pregar o domingo infra octavam. Foi o Senhor servido de os mover a se confessarem e nisto principalmente me ocupei todos os nove dias que ali estive- mos, com muita consolação minha e fruto de suas almas. O primeiro dia que saímos se disse diante de mim acaso que um português dos principais que ali residiam estava mal e fazia pouco caso da doença. Pedi ao homem que disse isto que lhe fôsse dizer se se queria confessar e oferecer-lhe a vontade que eu tinha de o fazer. Mas vendo que tardava a resposta, mandei lá o irmão ao mesmo. O recado que me trouxe foi que com graças se escusava e zombava de tudo. Fui-me logo a sua casa e também começou a dar desvios ao que eu lhe dizia. Apertei todavia com êle que pelo menos se começasse logo a con- fessar. Fê-lo assim. E porque eu entendia que não duraria muito, (ainda que êle zombava de quem lhe dizia que podia morrer daquela doença) fui ordenando a confissão de maneira que emfim êle se acabou de confessar com muita conso- lação sua e satisfação minha. E porque isto era depois de jantar, e para lhe dar o Santíssimo Sacramento era necessário dizer eu missa o dia seguinte, deixei-o aparelhado para o receber pela manhã, mas a morte que naquela noite o ante- cipou lhe não deu lugar para isso. Ficaram maravilhados os que tinham conhecido êste homem e tratado com êle e tiveram por milagrosa a mercc que Deus lhe fêz e eu fiquei mui confiado que Deus o tinha predestinado e que para se salvar esperou que nós chegássemos e lhe persuadíssemos que se confessasse.
  • 412 Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné Ao tempo que chegámos a Guinala estava o rei enfêrmo. Esperámos que se achasse melhor para lhe mandar ler a carta que lhe trazia de Sua Majestade. • F1.139V. E entretanto fomos tratando * com o Larego, que é a segunda pessoa'depois de El-Rei e dos principais do reino que lhe assistem e são de seu conselho, indu- zindo-os a que aceitassem nossa santa fé e persuadissem o mesmo a El-Rei. Aceitaram tudo o que lhes disse com mostras de grande alegria e diziam que eles queriam ser os primeiros que se baptizassem e que El-Rei faria o mesmo e ficariam todos com uma só mulher, que é a maior dificuldade que há na con- versão desta gentilidade. Dizia mais que Deus nos trouxera ali não sòmente para bem de suas almas mas também para conservação e aumento do seu reino e bens temporais. E o que diziam àcêrca disto e o contentamento que mos- travam era muito para louvar a Deus. Entre outras coisas que procurei per- suadir-lhes e que êles aceitaram de boa vontade foi que, se El-Rei morresse, não matassem gente, porque teem por costume matar muitas de suas mulheres e de seus criados e até o cavalo em que anda, por lhes meter o diabo em cabeça que aquelas que matam hão de tornar a ser suas mulheres na outra vida e o mesmo dos criados e cavalo. Pedi-lhes persuadissem a El-Rei mandasse antes de morrer que ninguém matassem mas que em logar das mulheres e criados matassem bois e com êles celebrassem o seu enterramento como se costuma nestas partes. Deram-me todos palavra que o fariam assim com mostras de lhes parecer muito bem. Tínhamos antes disso mandado um crioulo, boa língua, com recado a El-Rei para que lhe declarasse minha vinda e a causa dela e lhe dissesse da carta de Sua Majestade que trazia para êle. Fê-lo assim e El-Rei assim doente como estava, mostrou muito contentamento e aceitou bem tudo o que lhe disse, mas quis que primeiro falassem comigo o Larego e os de seu conselho e o informassem do que eu tratasse com êles.- E além dêstes mandou alguns criados seus dos mais familiares para que me vissem e ouvissem da minha bôca a causa da minha vinda e lhe fossem referir tudo, e assim o fizeram por duas ou três vezes; mas, como o diabo sempre procura atalhar os bons • fi. 140 princípios, parece que temeu o bem que dêstes se podia se*guir, porque indo o Larego e mais conselheiros de El-Rei no dia seguinte, depois da prática que tivemos, para lhe dar conta do que tinham tratado comigo e com êles, o acharam sem fala, e desta maneira perseverou até dar a alma a quem até ali a tinha possuído. Pelo que, visto como estava em passamento e que já se não podia fazer coisa alguma nesta matéria até elegerem outro rei e que o mestre do navio se queria partir para o pôrto de Biguba, não me pareceu que convinha deixar de seguir minha viagem. Deixei porém ordem do que se havia de tratar com o novo rei que fizessem, e que respondendo a propósito, me mandassem aviso para ir lá, o que posso fazer em dois dias. Partidos de Guinala, chegámos a êste pôrto de Biguba, véspera de S. Antão à tarde, ancorámos o dia dantes alta noite tão perto da povoação que, se fôra de dia, a víramos e fôramos vistos dela e pudéramos ao outro dia, que era domingo, ir dizer missa a terra, mas houve naquele dia tão grande névoa que estando muito perto a não vimos senão já tarde; mandou logo Sebastião Fer- nandes, que já esperava por nós, um batel esquipado para que soubesse se vínhamos ali, e tanto que tornou, para mostrar o contentamento que tinha com
  • Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné 413 nossa vinda e para que se ajuntassem os portugueses que andavam espalhados e com eles todos nos receber, fêz disparar o maior tiro que tinha no forte; e parece que o carregaram de tão boa vontade que arrebentou mas sem prejuízo algum. Foi-nos buscar ao navio, e ao sair em terra não ficou tiro em todo o baluarte que se não disparasse. O dia seguinte, depois de lhes prègar, disse missa com muita consolação de todos, por haver muito tempo que careciam dela. Daí por diante fui continuando isto mesmo e as prègações todos os domingos e dias santos e cada dia a doutrina cristã, mas mais solenemente nos dias que são de guarda. Dá-me muita matéria de louvar a Deus ver o fruto que se segue dêstes ministérios e a mudança que algumas pessoas fazem na vida e o fervor da gente preta em a doutrina cristã e em a cantar às noites em rodas de ajun- tamento que fazem em diversas partes, para o que ajuda muito e os incitam * os »fi. 140». prémios que lhes dou. Sebastião Fernandes nos trata com muito amor e logo deu ordem para se nos fazerem casas a par da igreja, acomodadas ao nosso modo e recolhimento; e vão já em bom ponto. Agora pela pressa as faz de adobes, depois diz que as há de fazer de pedra e cal, que há de mandar vir dessa ilha, e até não se acabarem estas e morarmos nelas, não quere que fale- mos a El-Rei nem lhe declaremos a causa da nossa vinda. Não cuido que há em Guiné povoação de portugueses que com mais razão se possa chamar sua que esta de Biguba. A terra me tem parecido muito bem e o vigor e cores dos portugueses que nela residem declara bem quão sàdia e. Determino com o favor divino deter-me aqui pelo menos até à Páscoa e ver se posso desarraigar desta gente alguns vícios de má casta que, por serem muito comuns em Guiné, se não estranham, e em seu lugar plantar em suas almas as virtudes cristãs e bons costumes. E se o Senhor fôr servido que se abra porta à conversão dos gentios, desejo fundar a fé em um reino destes para que dele se estenda a outros. É verdade que um dos maiores impedimentos que aqui há para isso, é haver já neste reino negros estrangeiros que teem por ofício semear a maldita seita de Mafamede, mas poderoso é Deus para vencer esta e as mais dificuldades. Até aqui a carta do Padre Barreira escrita em Biguba terra dos Beafares a vinte-oito de Janeiro de 6o5.
  • ÍNDICE Prefácio Pigs. V PRIMEIRA PARTE —1600 E 1601 LIVRO PRIMEIRO Das coisas da índia / Capítulos: . I — Da dilatação da Companhia de Jesus nas partes do Oriente, numero de casas, e pessoas que nelas tem, e exercícios em que se ocupam 1 II Da Província do Norte e do fruto que nela se fez • • 3 IH Da missão do Mogor e da jornada que os nossos com êle fizeram aos reinos de Decão e embaixadas que êle mandou a Goa IV — Da residência de Lahor e do que nela sucedeu e grande respeito que os infiéis teem ao padre que nela está • 12 V De como um gentio deu peçonha ao padre e lhe roubou a casa da pobreza que tinha 14 VI — De um presépio que fêz o padre na festa do Nascimento e da grande devoção que causou aos próprios moiros e gentios 1("' VII — Da conversão de alguns gentios e outros casos de edificação 17 VIII — Da grande constância, que mostrou um mancebo catecúmeno, nas contradi- ções e baterias que teve de seu pai e parentes, por se fazer cristão. ... 20 IX _ Prossegue a grande fortaleza com que se houve êste mancebo em outra maior bateria, que lhe foi dada por seus pais e parentes 22 X — Da Província do Sul e do colégio de Cochim com suas residências 26 XI — Do que se fêz no colégio de Vaipicota na Serra dos cristãos 28 XII — Do colégio de Couláo e costa do reino de Travancor 3o Xiii Do colégio de Tutucorim, costa da Pescaria, e ilha de Manar 3i XIV — Da grande devoção que tôda esta cristandade tem à sagrada Cruz e de algu- mas coisas maravilhosas, que por virtude dela sucederam 34 XV — Da perseguição com que um tirano gentio perseguia êstes cristãos e do fim que por êles teve • 3,1 XVI —De algumas coisas de edificação que sucederam na igreja de Priapatão e mis- são de Tripalicorim 3? XVI I Da missão do reino de Bisnagá, e residência de Chandegri • • • 4o XVIII — Da missão e residência dos reinos de Bengala, e em particular do reino de Chandecão ^2 XIX — Da residência de Chatigão e do que nela se fêz ■ 44 XX Da missão que o Padre João André fêz a Pegu e da extrema assolação em que achou aquele reino 47 XXI Do colégio de Malaca e residência de Maluco e Ambóino 49 XXII — Do colégio de Macau e residências do reino da China *>
  • 4Í6 índice da Relação > LIVRO SEGUNDO Dos reinos de Japão Capítulos : Págs. I — Quem foi Taicoçama, monarca de Japão 55 II — Como veio a ser monarca de todo o Japão 57 III — Da boa vontade que Taicoçama começou a mastrar à cristandade e aos padres da Companhia, e da grande perseguição com que depois os perseguiu até sua morte 60 IV — Em que se dá notícia de alguns senhores, dos quais ao diante se há de fazer muita menção 62 V — Do que fêz Taicoçama acerca da sucessão do império 63 VI — Da morte de Taicoçama, e como antes dela mandou que o contassem no nú- mero dos seus deuses 65 VII — Da grande alegria que tiveram os cristãos com a morte de Taicoçama, e do bom estado que as coisas da cristandade logo começaram a ter, e vinda do Bispo a Japão 66 VIII — Da boa vontade que Iiaiasu, principal Governador, mostrou aos padres e à cristandade; e como os padres se repartiram por diversos reinos do Japão 69 IX — De quão bem recebidos foram os padres nós reinos de Moridono 70 X — Do grande fruto que se seguiu da repartição dos padres por diversos reinos, e da grande alegria e devoção com que os cristãos celebraram a festa do Nascimento, do ano de noventa e nove 71 XI — Da perseguição que neste ano de noventa e nove El-Rei de Firando levantou contra os cristãos de suas terras 72 XII — Do estado em que no ano de seiscentos estiveram as coisas de Japão, assim no temporal da Monarquia como no espiritual da cristandade e Companhia 78 XIII — Do fruto que por êste tempo se fazia em Nangasáqui e em suas residências e comarcas Bi XIV — Do estado de Omura 85 XV — Do reino de Arima 87 XVI — Da cristandade das ilhas de Xiqui e Amacusa 92 XVII — Do fruto que se fêz no reino de Fingo pelos padres que estão na casa de Uto e suas residências, Iatçuxiro, Nonzui, Jabé g5 XVIII — Do sucesso das residências de Firoxima e Amangúchi nos reinos de Moridono 101 XIX — Da residência do reino de Bujém io3 XX — Da missão e residência do reino de Chicungo io5 XXI — Da missão e residência do reino de Bungo 107 XXII — Das missões que se fizeram aos reinos de Chicujém e Figém, e às ilhas de Teuxima e Goto 111 XXIII — Do sucesso da cristandade das partes de Goquinai ou Meaco; e primeiramente da casa de Osaca 114 XXIV — Da casa de Meaco e do sucesso da cristandade desta cidade 117 XXV — Dos sucessos da cristandade dos reinos de Voari e Mino 119 XXVI — De como se tornou a alterar e revolver outra vez todo o Estado da Tença ou Monarquia, e da liga que fizeram todos os senhores de Japão contra Dai- fuçama e do muito que êle pretendeu de aliar-se com D. Agostinho ... 123 XXVII — Da lastimosa morte de Dona Gracia, senhora cristã, que sucedeu em Osaca por ocasião destas alterações 125 XXVIII — Como se começou a romper a guerra por parte dos governadores contra Dai- fuçama; e a destruição da fortaleza de Fuximi em Meaco 127 XXIX — Como os do exercito de Daifuçama tomaram a fortaleza de Guifu no reino de Mino e nela prenderam a Chunugandono príncipe cristão 128 XXX — Do que neste tempo passava nas partes de Ximo i3o
  • índice da Relação 417 Capítulos: . , _ .. . Pá8S" XXXI —Da batalha campal que houve entre os dois exércitos de Daifuçama e dos Governadores e do sucesso dela ' ' XXXII — Das grandes angústias e apertos em que os padres se viram neste tempo . . . i33 XXXIII — Dos trabalhos e perdas da cristandade dos reinos de Mino, de Bijém, de Chi- cungo, Firoxima e Iamangúchi l34 XXXIV — Dos grandes trabalhos que os cristãos da fortaleza de Uto e os padres que nela estavam, padeceram emquanto estiveram cercados >36 XXX V De como Canzugedono mandou prender os padres que estavam na fortaleza de Uto, e dos trabalhos que padeceram na prisão, e morte do Padre Reitor daquela casa . . • * XXXVI — Do que passaram Jácome Mimasaca e os padres que com ele estavam na for- taleza de Iatçuxiro j ' '^° XXXVII — Da vinda de Ximandono a Nangasáqui e do sobressalto que causou aos padres, pelo perigo em que com êle estiveram os cristãos de Firando, que ali es- ia3 tavam * . ^ XXXVIII — Da prisão de D. Agostinho, o muito que nela padeceu, a grande cristandade 1 146 que mostrou ...» XXXIX —Da morte de Dom Agostinho e de seu filho morgado . . >48 XL Dos grandes bens que Nosso Senhor tirou de todos estes males, e da boa von- tade que Daifuçama começou a mostrar aos padres, e patentes que lhes passou para estarem em Japão _ * * " *. ' 1 XLI Dos bens que resultaram à cristandade da repartição dos reinos que Daifu- çama deu a alguns senhores, e primeiramente do que deu a Cainocami . . 155 XLII — Como Daifuçama deu o reino de Bujém e parte do de Bungo a Nangavoca Jocundono, e do bem que disto se seguiu para muitos cristãos 127 XLIII De outros bons sucessos que resultaram à cristandade das mesmas mudanças . - < 156 e repartições de reinos XLIV — Da redução à fé de Dom Constantino, Rei de Bungo • • • • >6o XLV — Do bom sucesso em que Nosso Senhor converteu os trabalhos da cristandade ^ do reino de Fingo PARTE SEGUNDA— 1601 a I6O3 LIVRO PRIMEIRO Das coisas de Japão do ano de 601 e 602 j ])0 estado em geral das coisas do Japão, assim no temporal como no espiritual 169 jj Prossegue noutras calúnias de Ximandono, e como emfim se reconciliou com os padres . V '• '^ò III —Das coisas que passarem em Nangasáqui e suas residências • • 17s jy j)e algumas coisas de edificação, que mais houve nesta cidade e suas residên- cias, e missões que se fizeram a diversas partes 182 V — Da missão que por duas vezes se fêz ao reino de Satçuma >86 VI —Das coisas de Omura e Arima, e suas residências ...... ^ • >88 VII — Da cristandade dos reinos de Fingo e Bungo e da perseguição que contra êles ^ ^ alevantou Canzugedono • • • • • 19 VIII — Da fortaleza em particular que mostraram alguns cristãos no fim desta perse- guição, e arrependimento e redução dos que enfranqueceram 199 IX Do que passou no reino de Chicujém 20 X — Do que passou em Iamangúchi e da perseguição que ali se levantou contra os cristãos 2 53
  • 4i8 índice da Relação Capítulos : Pigs. XI — Das coisas que passaram na residência e casa do reino de Bujém 210 XII — Das solenes exéquias que por duas vezes quis Jocundono que se fizessem por Grácia, sua mulher defunta 214 XIII — Das coisas que nestes dois anos passaram em Osaca 219 XIV — Das coisas que passaram na cidade de Meaco 22S ■XV — Das missões que se fizeram à cidade de Firoxima e aos (reinos) de Foquoco 231 LIVRO SEGUNDO Das coisas do reino da China e de Maluco dos anos de 601 e 602 I — Do colégio de Macau na China 235 II — Da jornada que os nossos fizeram à corte do grão Pequim da China 237 III — Do que sucedeu aos padres na cidade de Siutim 239 IV — Como o eunuco Maçom começou a descobrir seu mau ânimo contra os padres, e o mau tratamento que lhes deu e prisão em que os pôs.- 241 V — Como os padres foram livres da prisão, e levados a Pequim, agasalhados na côrte e ofereceram seu presente a El-Rei, e quanto o mesmo Rei o estimou 245 VI — Da grandé cidade de Pequim e do que aconteceu aos padres, depois de esta- rem nela 247 VII — Como os padres estão bem recebidos no Pequim e começaram (a) baptizar alguns gentios 25o VIII — Da residência de Nanquim, grandeza e nobreza desta cidade 252 IX — De como nesta cidade começaram os padres (a) dar notícia do Evangelho e do fruto que se começou a fazer 253 X — Da residência de Nanchão , 256 XI — Da residência de Xaucheu 257 XII — Do bom procedimento dêstes cristãos e dalgumas coisas que nêle se vêem de muita edificação 258 XII (bis) — Da perseguição com que os bonzos e gentios perseguem os cristãos, e boa vontade com que os mandarins os defendem 263 XIII — Do fruto que se fêz em alguns lugares vizinhos desta cidade 264 Coisas das partes de Maluco XIV — Das coisas de Maluco e das grandes perseguições e trabalhos que tem pade- cido a cristandade daquelas partes, e padres que nela andam 265 XV — Do que passou em Maluco parte dos anos de 601 e 602 271 Coisas de Ambóino XVI — Do fruto que se fêz em Ambóino na conservação daqueles cristãos e conver- são dalguns infiéis 273 XVII — Dos sucessos da guerra que nestas ilhas tiveram os nossos contra os moiros 275 XVIII — Do sucesso da nossa armada dês que partiu de Goa até chegar a Ambóino. . 276 XIX — Do que fêz o capitão-mor depois de chegar a Ambóino, e a vitória que teve contra os inimigos 278
  • índice da Relação 419 LIVRO TERCEIRO Das coisas do reino de Bengala Capítulos : Pigs. I — Como os portugueses tomaram a ilha Sundiva, guerra que por isso lhes fêz El-Rei dos Mogos e sucesso dela >85 II — Dos trabalhos que no tempo destas revoltas padeceram os padres e alguns cristãos, e morte do Padre Francisco Fernandes 288 Coisas do reino do Pegu III — Do estado em que ao presente estão as coisas do reino do Pegu. . 290 IV — Dos proveitos ainda temporais que podem resultar ao estado da India com a conquista dos reinos de Pegu e Bengala 293 Coisas do Mogor V — De algumas coisas que nesta missão passaram nos anos de 602 e 6o3 296 VI — Da grande moção e abalo que causou nos infiéis, aqui em Agra, a vista de uma imagem da Virgem Nossa Senhora 299 VII — De algumas coisas de serviço de Deus, que nesta missão se fizeram 3o3 VIII — Das dissenções que houve entre El-Rei e o príncipe seu filho e amor que êste príncipe tem aos padres 307 Coisas do Cat aio IX — Da missão do Cataio 310 Coisas do reino de Bisnaga X — Da missão e residência de Chandegri, corte de El Rei de Bisnagá, e mais casas da Companhia que naquele reino estão 315 XI — Das coisas da Costa da Pescaria 322 Coisas de Ceilão XII — Como os nossos entraram na ilha de Ceilão, e fundaram nela casa por man- dado de Sua Majestade 325 Coisas do reino de Travancor XII I Do que se fêz no colégio de Coulão e reino de Travancor 328 Coisas da província de Malabar XI V Das casas e residências que"S Companhia tem nesta província 336 XV — Das coisas que passaram em Calecut 340 XV I Dos cristãos da serra de Santo Tomé e descobrimento da serra de Sodomala 342 XVII Do que se fêz na cidade e ilha de Goa, terras de Salsete, Costa de Cambaia. . 347 XVIII De como se fundou a casa de Diu e da Missão que se fêz ao Preste João da Etiópia ^2 XIX Como o Padre Bispo André de Oviedo chegou à Etiópia com seus compa- nheiros e do mais que nela passou até que morreu 355
  • 420 índice da Relação Capítulos: . pigs* XX — Como foi mandado a Etiópia o Padre Abrahão de Georgis e no caminho foi preso e martirizado pelos turcos _• • 358 XXI —Como foi mandado à Etiópia um sacerdote do seminário de Goa e depois o Padre Pero Pais da Companhia _ 3õo XXII — E carta que o Padre Pero Pais escreveu de Etiópia áos padres de Goa, em que conta da sua viagem e chegada àquella terra e do que nela achou, de 24 de Julho de ' ' ' ' XXII I Do serviço que a Companhia em tôdas as partes acima ditas do Oriente faz não sòmente a Deus senão também a Sua Majestade e à coroa deste reino 370 LIVRO QUARTO Das coisas do Brasil, Angola, Cabo-Verde e Guiné I — Da província do Brasil, do número de casas e pessoas da Companhia que nelas há • • • ^3 II — Do respeito e sujeição grande que os brasis teem aos padres e do muito que os padres que com eles tratam ajudam ao estado temporal 375 III — Do fruto em geral que os nossos fazem nesta província e de algumas missões que fizeram no sertão • • ^79 I V De algumas outras saídas que fizeram os padres a várias partes do Brasil. . . 382 V — De uma missão que o Padre Domingos Gracia fez fazer ao sertão, por alguns naturais da terra, da aldeia dos Reis Magos da capitania do Espírito Santo 386 VI — Da nação dos gaimures e danos que esta gente tem feito no Brasil, pazes que com êles se fizeram na comarca da Baía e capitania dos Ilhéus 389 VII — Das coisas do reino de Angola 3g5 VIII — Da missão das ilhas do Cabo-Verde e terra firme de Guiné 399 IX — Em que se descreve brevemente a terra firme de Guiné e Serra Leoa e alguns ritos e costumes da gente dela 4o2 X —Da jornada que o padre Baltazar Barreira fêz à terra firme de Guiné;. .... 410
  • EDIÇÕES DA IMPRENSA DA UNIVERSIDADE (extracto do oatai.ogo) SCRIPTORES RERVM LVS1TANARVM série a) Publicado : FERNÃO LOPES DE CASTANHEDA.--História do descobrimento, e conquista da índia. Ed. revista pelo senhor Pedro de Azevedo, vol. I, it, m e iv. Em algodão, cada vol 40^00 Em linho, cada vol • ioo#>oo DAMIAM DE GOES. —Chronica do Felicíssimo Rei Dom Emanvel. Conforme a ed. princeps. Rev. pelo Dr. David Lopes, 4 volumes 8o#>oo FERNÃO GUERREIRO. —Relação anual das coisas que fizeram os padres da Com- panhia de Jesus nas suas Missões do Oriente, da Africa e Brasil nos anos de tfoo a if09. Nova edição dirigida e prefaciada por Artur Viegas. Vol. 1, em linho -#>- » algodão -■1t>- No prélo: DAMIÃO DE GOES—Chronica do Principe Dom loam. Conforme a ed. princeps. DUARTE GALVÃO. —Crónica de D. Afonso Henriques. Revista e prefaciada por Tomás da Fonseca. JOÃO DE BARROS e DIOGO DO COUTO. — Décadas. Ed. conforme a ed. princeps, revista pelo Dr. António Baião. FERNÃO GUERREIRO.— Relação anual do que fizeram os padres da Companhia de Jesus nas suas missões do Oriente, da África e Brasil nos anos de 1600 a 1610. Ed. completa das 5 Relações, dirigida e prefaciada por Artur Viegas. Vol. u Em preparação; Papéis relativos á guerra da restauração e independência de Portugal. SÉRIE B) Publicados: I. _ HIERONYMO OSÓRIO. — De rebus Emmanvelis gestis. 3 vols 60&00 II. — Itinerários Quinhentistas da Índia a Portugal. — Rev. e prefaciados pelo Dr. António Baião, vol. 1 i8#oo III. —Comentários do grande Afonso d'Albuquerque — Conforme a 2.» ed. Rev. e prefaciada pelo Dr. António Baião, vol. 1 (Partes 1 e 11) e 11 (Partes m e tv). 35#oo Em preparação: ANTÓNIO GALVÃO. — Tratado dos diversos e desvairados caminhos por onde nos tempos passados a pimenta e especiaria veio da índia as nossas partes, e assim de toclos os descobrimentos antigos e modernos que são feitos em a era de i55o. série c) No prélo: D. FRANCISCO MANUEL DE MELO. — Epanaphoras de varia historia portuguesa. Ed. dirigida pelo Dr. Edgar Prestage. Em preparação: História Trágico-marítima.
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