• SCR1PTORES RERVM LVSITANARVM (série a) (CRÓNICA no FELICÍSSIMO REI . MANUEL COMPOSTA POR DAMIÀO DE GÓIS NOVA EDIÇÃO, CONFORME A PRIMEIRA, ANOTADA E PREFACIADA M1 DIRIGIDA POR J. M. TEIXEIRA DE CARVALHO E DAVID LOPES COIMBRA IMPRENSA DA UNIVERSIDADE
  • CRÓNICA DO FELICÍSSIMO REI D. MANUEL
  • ULr. Leu. SCR1PT0RES RERVM LVSITANARVM (série a) CRÓNICA DO FELICÍSSIMO REI D $ fl i COMPOSTA , .5 ; U D A MI AO DE GOIS NOVA EDIÇÃO, CONFORME A PRIMEIRA, ANOTADA E PREFACIADA t DIRIGIDA POR JOAQUIM MARTINS TEIXEIRA DE CARVALHO E DAVID LOPES PARTE I COIMBRA IMPRENSA DA UNIVERSIDADE I926
  • PREFÁCIO • i CORRECÇÕES QUE FEZ DAMIÃO DE GÓIS Á REDACÇÃO PRIMITIVA DAS PARTES I E III DESTA CRÓNICA (i) CRÓNICA DE D. MANUEL teve contestação da crí- tica contemporânea e por isso sofreu alterações do autor. A história delas pode hoje fazer-se, mercê dos estudos feitos nos últimos tempos. D. António Caetano de Sousa foi quem pri- meiro, pelas suas censuras de parcialidade, fêz suspeitar que alguma coisa se passara ao tempo da publicação da crónica. Depois, de feito, tudo se aclarou e a suspeita teve confirmação. Sousa acusou o cronista de não querer bem à casa de Bragança. O duque D. Fernando, culpado de traição, fôra justiçado em Évora e os bens confiscados; e seus filhos e parentes tiveram que se refugiar em Castela, receosos da cólera de D. João II. O sobe- rano, que em vida se mostrou tão severo, não perdoou mesmo no seu testamento aos filhos o crime do pai; e aí recomendou muito ao seu sucessor e aos fidalgos do seu conselho que não consen- tissem no regresso ao reino de todos os que tinham sido «trai- dores e desleais » e andavam fora do país, e bem assim de seus filhos (2). Não obstante esta última vontade do seu antecessor, (1) Não obstante o falecido Dr. Joaquim Martins Teixeira de Carvai.ho ter cuida- dosamente anotado todos os passos desta primeira parte que foram impugnados pelo Conde de 1 entúgal, pareceu-me conveniente dar também êste estudo de conjunto. (a) Góis, Crónica de D. Manuel, 1, cap. 1.
  • TI D. Manuel permitiu aos filhos do duque que voltassem ao reino e restituíu-lhes os bens e as honras de seu pai, em razão do parentesco de sangue deles com o novo soberano e de estarem -« inocentes dos erros e culpas que diziam que tivera seu pai » (i). Góis exalta esta magnanimidade de D. Manuel e dela diz, em sua honra, que não há na história exemplo igual. Todavia, Sousa censura-o por nêle sentir pouco favor pelas vítimas de D. João II e até o propósito de lhes não ser agradável; e assim acusa-o de calar os serviços da casa de Bragança à coroa; de inserir na crónica, sem necessidade, segundo êle, a cláusula do testamento de D. João II que lhes é desfavorável; de afirmar que os filhos do duque de Bragança «andavam desterrados pelas traições», sendo de menor idade; de engrandecer demasiado a mercê de D. Manuel, parecendo fazer crer que o soberano olhava mais ao parentesco que tinha com as vítimas do que a praticar um acto de equidade e justiça, que era apenas. E transcreve a seguir, para prova disso, a carta de mercê que reintegra os filhos do duque na posse da sua casa, sem restrições na verdade, mas sem reabilitar a memória do pai. No seu desejo de mostrar a má vontade de Góis, os seus « descuidos », como êle afirma, vai ao ponto de dizer que êle apouca os merecimentos de D. Manuel, pois lhe chama « feliz» e « bemafortunado » quando melhor e mais justo fôra chamar-lhe «invencível » e « glorioso », que sem- pre foi (2). Esta crítica malquerente é sem razão; ditou-a, talvez, a aversão ao espírito liberal e .tolerante de Góis, não menos que um senti- mento de lisonja aos seus patronos. Qualquer que fôsse o pensa- mento do cronista na sobriedade de que usa nesta matéria, êle não é parcial, ou se o é não é injusto. <;Que fundamento tinham estas censuras? E o que diremos adiante. Barbosa Machado, três anos depois, em 1741, fiado em Sousa, (1) Góis, 1, cap. i3. (2) História genealógica da casa real, v, pág. 434 e pág. 476.
  • vil segundo parece, afirmou vagamente que na edição da crónica de 1617 «se tiraram algumas cousas que tinham causado graves desgostos ao seu autor» (1). Não foi, todavia, bem assim, como logo veremos. Em 1838, o Museu portuense, em dois números sucessivos, pu- blicou dois documentos de grande importância no caso sujeito, encontrados na Biblioteca Municipal do Pôrto. São êles as cópias dos capítulos xxin e xxvii da parte m da crónica de Góis com emendas feitas ao i.° por interlineações e traços e ao 2.0 inteira- mente por refundição. Precede-as a minuta de uma carta da rainha D. Catarina a Damião de Góis, do punho do secretário de Estado, Pedro de Alcáçova Carneiro, em que lhe notifica as correcções feitas aos dois capítulos. Estas modificações, quere em um, quere no outro capítulo, são profundas; e para o mostrar, quanto ao 1.°, o Museu publicou a-par o texto impresso da cró- nica. Não são simples diferenças de redacção, mas de doutrina sempre; isto é, são verdadeiras mutilações. O capítulo xxm narra o procedimento pouco leal de D. Fernando, rei de Castela, avô de D. Catarina, com o nosso D. Manuel nos negócios de Mar- rocos; e o capítulo xxvii é todo êle um panegírico do Cardial Infante e destoa claramente do estilo sóbrio e da ponderação habitual do cronista. O assunto do capítulo xxm, na parte que nos interessa, é êste. D. Pedro o Bastardo, fidalgo castelhano, por desavenças que teve com o seu soberano, D. Fernando, foi-se para Marrocos e teve bom acolhimento do alcaide de Xexuão, Alé Barraxe; e tão bem se insinuou no seu ânimo que fàcilmente se entenderam nos mú- tuos projectos e ambições; e assim o alcaide congraçou o fidalgo com seu amo e estabeleceu com êle um acôrdo de transcendente alcance político, a acreditar em tal plano: D. Fernando ajudaria o alcaide a fazer-se rei de Fez e em paga dêste serviço ficaria seu tributário. Góis lembra que el-rei de Castela faltava aber- (1) Biblioteca lusitana, i, pág. 621. vol. 1 B
  • VIII tamente à fé e amizade prometidas e ao grande parentesco que entre os dois soberanos havia; e esquecia que pelas demar- cações feitas entre ambos os países o reino de Fez era da con- quista de Portugal, ou ficava na sua esfera de influência, como hoje se diz. Decidido a levar por diante esta emprêsa, D. Fer- nando tornou a mandar lá D. Pedro com instruções para efectivar o plano. D. Pedro entrou em Marrocos por Alcácer-Ceguer — mais natural seria que entrasse por Ceuta, por ser por aí mais direito caminho, ou por terra que não fôsse de cristãos — mas o capitão desta praça desconfiou do mensageiro e conseguiu ver as instruções que êle levava. Segundo elas, devia êle dizer ao rei de Fez que se fizesse vassalo de D. Fernando e pagasse um tributo de mil dobras zeinas; que tôdas as mercadorias dos seus súbditos entrassem no reino de Fez livremente e se não aceitassem as dos outros países; que, se assim fizesse, haveria paz entre êles e êle proveria o reino de tôdas as mercadorias necessárias ao seu con- sumo; que lhe devia dar refens e fortalezas na costa do mar para segurança das mercadorias e dos navios que se empregassem nesse tráfico; que lhe entregasse tôdas as fustas e navios de remos do seu reino e nenhuns mais se construíssem daí por diante. Ao alcaide devia dizer que aprontasse a sua gente para com ela ajudar D. Fernando a fazer guerra ao rei de Fez e deitá-lo fora do reino, se êle não quisesse satisfazer ao seu pedido. Era muito pedir, realmente, e por isso el-rei de Fez se absteve mesmo de responder. Parecia uma simples fanfarrice, senão a manifestação clara de um desarranjo mental. Vendo insatisfeito o seu desejo, D. Fernando mandou fazer uma grande armada em Málaga para ir contra os infiéis. Estava ela pronta para partir e cumprir o seu mandado quando o soberano soube pelo Papa da formação de uma liga do rei de França e da senhoria de Veneza contra êle e por isso pedia o seu auxílio, e, ainda que muito contrariado, teve de dar de mão do seu projecto primeiro, porque os negócios euro- peus não sofriam outra primazia. Sabendo D. Manuel, seu genro, que esta armada se estava
  • IX preparando com destino a Marrocos, porque disso tivera infor- mação certa pelos seus agentes, pôsto isso se não dissesse aber- tamente, ordenou logo também uma armada portuguesa fazendo crer que desejava passar nela a África para combater os mouros, tendo até mandado fazer estribarias em Tânger, Alcácer e Arzila para a cavalaria que levava. Alvoroçado com a nova desta ar- mada e vendo o seu plano descoberto, D. Fernando, como para disfarce do seu mau procedimento, escreveu logo em Maio de i5ii ao nosso soberano que estava muito pesaroso das desa- venças que havia entre o Papa e el-rei de França e que, desejoso do bem da fé, êle entrara na liga do primeiro contra o segundo e pedia que o mesmo fizesse êle para o favorecer. Não quis D. Manuel atender o seu pedido, por o julgar lesivo dos seus interêsses e perigoso, bastando-lhe para absorver os seus cui- dados e recursos as suas conquistas em África e outras partes, assim como o tráfico do Oriente. Procurou, pois, conservar-se neutral entre as duas partes e quaisquer que fôssem as suas pre- ferências entre os contendores não se quis manifestar parcial; e na verdade vindo neste tempo ao pôrto de Lisboa seis galés fran- cesas do comando do capitão Pedro João foram elas bem rece- bidas e ao capitão dadas tôdas as facilidades, não obstante o estado de guerra que dissemos. D. Fernando foi disto muito escandalizado, porque assim parecia que D. Manuel favorecia scismáticos contra ortodoxos ou defensores do Papa; e na sua indignação por êste procedimento do rei de Portugal soltou al- gumas ameaças que aos senhores de Castela não soaram bem, por serem contrários a uma guerra mais com Portugal. Dissi- mulou êle o melhor que pôde êsses sentimentos de azedume e vindicta, mas desejou fazer nova tentativa junto do genro para o levar ao seu partido e pediu-lhe licença para o vir ver e a sua filha e netos e conversar com êle algumas coisas de família. Per- cebendo qual era o seu verdadeiro intento, isto é propor-lhe uma aliança contra o rei de França, contrariou como pôde essa visita e ela não se fêz.
  • X Tenaz, D. Fernando mudou então de táctica e procurou outro caminho para captar a boa vontade do soberano português. E foi mandar secretamente o duque de Alba à côrte portuguesa pedindo-lhe a rainha D. Joana, a excelente senhora, para casar com ela, prometendo-lhe que se o consentisse êle lhe daria o reino da Galiza que ficaria pertencendo à coroa de Portugal. Isto pa- receu indicar que de duas uma: ou que, movido de remorsos, queria reparar de certo modo o procedimento injusto que teve com a excelente senhora, tomando-lhe por fôrça os reinos de Cas- tela e Leão, que a ela iam de direito; ou então que pretendia com isso desgostar seu genro, D. Filipe, com quem estava em desa- côrdo e por isso êles se não queriam bem; mas D. Manuel, pru- dentemente, nunca quis entrar nas suas vistas e foi-se dando por desentendido. Outros cuidados lhe prendiam a atenção e desin- teressava-se, pois, como dissemos, das questões que ocupavam as potências europeias, as quais só davam prejuízos e causavam ruínas e muitas mortes. Esta história parece pouco crível. No verão de i5o8, D. Fer- nando mandara o conde Pedro Navarro tomar o Pinhão de Beles para impedir « os grandes males e danos que se seguiam de Beles da Gomeira à costa de Granada e de Andaluzia... e de muitos cativeiros de gente cristã de seus súbditos e vassalos e naturais que os mouros faziam... (t)» D. Manuel levou muito a mal que seu sogro fizesse fortaleza em lugar do reino de Fez, que era da sua conquista pela convenção de 1494 e fêz-lho sentir; e por isso se celebrou em Setembro de 1 509 uma nova convenção sôbre os limites do reino de Fez, pela qual a esfera própria de Castela começava seis léguas aquém de Beles e confirmava àquele país a posse do Pinhão (2). Nestas condições, não é de crer que, menos de dois anos depois, D. Fernando quisesse por êste modo con- trariar o rei de Portugal e pôr-se em conflito com êle, sem razão (|) Alguns documentos do Arquivo Nacional da Tôrre do Tombo, pág. 2i3: convenção entre Portugal e Castela de i5og; Zurita, Anales de la corona de Aragon, vi, fl. 168. (2) Góis, 11, cap. xxx; Zurita, Anates, vi, fls. 169-170; Alguns documentos, p. citada
  • XI aparente. Que mandasse fazer preparativos em Tânger e Arzila para a sua passagem em África não se prova; nem nos Anais de Arzila, de Bernardo Rodrigues, nem na História de Tânger, de D. Fernando de Meneses, encontrámos vestígios do seu propósito. Zurita também nada diz desta história. Era então alcaide de Xexuão Alé Barraxe, que fazia guerra sem tréguas aos cristãos de Ceuta, Alcácer-Ceguer, Tânger e Arzila, e quem assim procedia dificilmente se mancomunaria com cristãos contra os seus corre- ligionários. O que admira é que a censura não cortasse matéria tão desacertada e demais desfavorável à memória do avô da Rainha. O capítulo xxvii é inteiramente uma refundição do texto primi- tivo de Góis. Escreveram-se nêle as virtudes e mais partes que concorriam no Infante D. Henrique, depois Cardial e Rei, e ao tempo regente do reino na menoridade de D. Sebastião. Góis fôra sóbrio nessa ennumeração e no louvor; a nova redacção está cheia de pormenores e de encomiásticas afirmações; e assim o capítulo impresso ficou dobrado do original, sem que, todàvia, as palavras do cronista sofressem contestação. As diferenças principais são estas. No texto primitivo faz-se referência ao auxílio que, em i5Õ4, D. Henrique, sendo regente, prestou a D. Filipe de Castela na reconquista do Pinhão de Beles, em Marrocos, à qual mandou uma armada de galeões, galés e outros navios de alto bordo, com muita gente nobre, debaixo do comando de Francisco Barreto, que fôra governador da índia. Outrossim se diz, no fim do capítulo, que, em 1566, data da re- dacção dêle, D. Henrique era arcebispo de Lisboa, em cuja digni- dade sucedera por falecimento de D. Fernando de Meneses de Vas- concelos, e por isso resignara o arcebispado de Évora em D. João de Melo, bispo do Algarve. <; Porque seriam eliminados estes dois passos? Não sabemos, a não ser que por serem factos tão recentes que todos os conheciam. Num ponto, mínimo, a nova redacção emendou a primeira. Góis dissera que o Infante tomara o hábito de clérigo aos 12 anos;
  • XII mas a edição impressa diz que aos 14 anos, e o Infante devia sabê-lo bem. Um outro passo do texto primitivo continha uma censura ve- lada ao seu modo de exercer a caridade, porque depois de afirmar o muito bem que êle fizera ao reino em várias ocasiões de grande necessidade e de dizer que nas coisas da religião era sempre muito largo, acrescenta: « É tão liberal no dar destas esmolas, que por êste respeito não pode acudir a seus criados e contínuos de sua casa, com as mercês que dêle por seus serviços podem esperar, em muitos dos quais poderiam ter nome de esmolas ». No texto impresso a censura desapareceu: « . . .tem mui bons homens em seu serviço, e letrados eminentes em todo género de faculdades, olha muito por êles, fazendo-lhes muitas mercês...» Alguns factos interessantes foram acrescentados ao texto pri- meiro, todos em louvor do Infante. São êstes. O Infante nasceu em Lisboa no dia 31 de Janeiro de 1512 e nesse dia nevou muito, « cousa que da memória de homens se não achou que dantes acontecesse, nem aconteceu depois até agora que há 54 anos », disse Góis e foi assim substituído « e por isto acontecer em Lisboa muito poucas vezes, pareceu pronóstico de Nosso Senhor lhe dar lume, e claridade para as coisas de seu serviço. Também engrandece os seus merecimentos com estes dois passos. « É mui manhoso em todolos exercícios que um Príncipe deve ter, da caça e monte e jôgo da pela e cavalgar bem, e prin- cipalmente a gineta... Sabe bem latim, ouviu grego, hebraico e matemáticas, filosofia e teologia, e de tudo entende bem os prin- cípios ». Louva-se, sobretudo, o seu favor à Inquisição de Lisboa e de Évora, pelas quais muito fêz: « Foi depois provido de Inqui- sidor-geral, o qual cargo aceptou por puro zêlo da Fé e desejo de servir Nosso Senhor. .. Assentou-se a Inquisição nos Estaos (em Lisboa) e fez-se cárcere para os culpados: foi êste um grande ser- viço de Nosso Senhor, porque segundo a causa procedia se êsse freio não fôra, não se poderam excusar mui graves heresias, e mais em estes regnos. .. Assentou em Évora à sua custa outra
  • XIII Inquisição, e para isso comprou casas e edificou outras de novo, e cárcere, e todo mais que foi necessário. . . e tudo o que se gastou nesta Inquisição foi à sua custa, onde se fizeram também muitos autos, e fêz muito serviço a Nosso Senhor, ajudou também muitas vezes com sua fazenda a Inquisição de Lisboa». Devia Góis, ao rever as provas dêste capítulo, que fôra forçado a per- filhar, sentir-se criminoso perante a sua consciência e a posteri- dade. jObrigado a louvar a Inquisição e os seus autos de fé! Daí a poucos anos, perseguido por ela, êle ia no seu cárcere ver cobrir-se-lhe o corpo de vermes e sarna; o seu espírito observa- dor e experiente veria então, com amargor e repulsa, as misérias da vida humana, quanto é perigoso para as almas nobres e idealistas julgar os poderosos e descer às paixões do mundo. Para essas tais só há um caminho direito na vida: o do egoísmo, que neste caso é o direito à vida; e quem o esquece tarde se arrepende. jNão há homens fortes perante a força material! Em 1866, o Visconde de Azevedo (depois conde do mesmo título) revelou a existência de um exemplar da parte i da Crónica, que diferia bastante da que corre impressa; e as suas variantes foram publicadas por êle naquela data (i). Assim, pois, a censura não se contentara com mutilar dois capítulos da parte m, exer- cera, ao parecer, o seu rigor sôbre tôda a i. Estas variantes são numerosas, mas não muito importantes. Em regra, o cronista muda a redacção primeira, quere melho- rando-a, ou por acrescentamento ou por supressão, quere comple- tando-a com algum facto novo que esclarece o seu pensamento ou afirmação anterior. Mas há também variantes de doutrina, (i) Elencho das variantes e differenças notáveis que se encontram na primeira parte da Chronica d'elrei D. Manuel. Edição de 20 ou 3o exemplares apenas; por isso o bibliófilo Eugénio do Canto fêz em 1912 2.* edição na Imprensa da Universidade de Coimbra Já em 1881 o Sr. Joaquim de Vasconcelos republicara essas variantes, com as da Crónica do Príncipe D. João, na sua Archeologia artística, n.® io, pág. 2-49. O exemplar em questão foi pelo Dr. Cunha Lôbo, advogado portuense, vendido ao Dr. Tomás Norton, juiz da Relação do Pôrto, e pelo falecimento dêste a el-rei D. Pe- dro V, como se diz no Elencho, pág. v. O Dr. Maximiano Lemos viu outro exemplar no Pôrto, pertencente ao Sr. Dr. Francisco de Azeredo: na Revista de História, 1922, pág. 41.
  • XIV isto é verdadeiras mutilações, aparentemente, porque, como ve- remos, o não são: são modificações feitas por Góis. Podemos agrupar estas variantes assim: i. Relativas à morte de D. João II. « Sua morte nam foi sem nella haver suspeita de lhe terem dado peçonha » (cap. i). Êste passo foi eliminado na edição definitiva. Góis não fêz mais do que reproduzir uma das versões da morte do soberano, dada já por Garcia de Rèsende (i). Esta suspeita é infundada, porque, segundo os Drs. D. António de Lencastre (2) e Ricardo Jorge (3), que fizeram o estudo etioló- gico da sua doença, êle teria falecido de uremia, motivada por uma nefrite crónica. 2. Relativas à revogação da cláusula do testamento de D. João 11 que dizia: « Que lhe (a D. Manuel) encomendava, e mandava per justos respeitos, que todos aquelles que contra elle forão tredores, e desleaes que andavão fora destes Regnos, nem a elles, nem a seus filhos recolhesse nelles, e que encomendava a todolos do seu con- selho, e do dicto Duque seu primo, que sempre lhe lembrassem, que devia isto muito fazer» (cap. 1). Esta disposição do testamento não foi cumprida, como se sabe; e falando do perdão que D. Ma- nuel deu aos culpados, principalmente aos filhos do duque de Bra- gança, quatro vezes chama traidores a êles: « Recado que elRei mandou aos Reis de Castella, e aos que lá andam desterrados per caso das treições».. . (cap. 8, na epígrafe), mas na edição definitiva desapareceu o membro de frase «per caso das treições »;— « e pello mesmo Gõçalo dazevedo mãdou dizer a dõ Alvaro irmão do duq dõ Fernãdo de Bragãça, e a dõ Iaimes, e dõ Dinis filhos do mesmo duque, q lá ãdavã desterrados, pello negócio das trei- ções». . . foi modificado em: «e pelo mesmo Gõçalo dazevedo mandou dizer a dom Iaimes, e a dom Dinis filhos do duque dom Fernando que lá andavam desterrados, per caso das desa- venturas que aconteceram em vida delRei dom loam. .. (cap. 8); (1) Crónica de D. João 11, cap. 162. (2) Conde de Sabugosa, A Rainha D. Leonor, pág. 235. (3) O óbito de D. João II, pág. 77.
  • XV — no cap. 13, tendo novamente de se referir aos filhos do du- que e outras pessoas agora perdoados, repete a expressão « que andava fora destes Regnos pello caso das treiçoes » e logo acres- centa: «Fora todos estes senhores bé reçebidos delRei, e de toda a corte, hús por lhe quereré bem, e hos amare, e outros por nisso cõprazerem a elRei, posto q no coraçam tivessem ho cõtrairo, polo amor q tinham a elRei dõ loam, e ha todas suas cousas, e logo dahi a poucos dias hos restituio elRei em suas honrras, e lhes fez merçe de todolos bés que lhes elRei dõ loam mãdara cõfiscar» que modificou em: « Forão todos estes senhores bem reçebidos delRei. Ho qual dahi ha poucos dias avédo respecto ha quão conjutos lhe eram em sangue e parentesco hos filhos do Duque, e quão inoçentes dos erros, e culpas que diziam que tivera seu pai hos restituio é suas honrras, e ha dom Iaimes fez merçe de todolos bés que elRei dom loam mandara confiscar da casa de Bragança»; — e ainda no cap. 24 dizia assim: «. . .des- terrados em Castella dos que forã culpados nas treições come- tidas contra elRei dom loam » que foi modificado dêste modo: « . . .desterrados em Castella ». 3. Relativas às doações excessivas com que D. Manuel favoreceu a casa de Bragança em detrimento do erário real e com violência do testamento do soberano falecido. « Tinha naquele tempo ho duque dom Iaimes de Bragãça mais de xvij contos de renda, ha grandeza da qual merçe fez fazer ha muitos vários juizos, dizendo hús, que mais de poder ausuluto ha fezera elRei que nam de con- selho, nem razam que tivesse pera dar tantas villas e fortalezas e tam importantes á coroa do regno, outros escusavam isto pondo ha culpa á Infante donna Beatriz sua mãi, e ha rainha donna Lea- nor, irman delRei, por lho fazeré fazer, parte por roguos, parte per muita impurtunaçam, outros que mais tiravam aho vivo, diziam que taes bens se nam podiam dar, visto que elrei dom loam mandara em seu testamento, que nam sómente, hos nam resti- tuísse a hos culpados nas treições, mas ainda por nenhum modo hos recolhesse em seus Regnos, nem em sua graça. Nas quaes yol. 1 c
  • XVI praticas com outras altercações se trataram entam por muitos dias na corte. . .» foi resumido assim: « . . .ha grandeza da qual merçe fez fazer a muitos vários juizos, dizendo cada hú aquilo aq seu pareçer e affeiçã ho mais inclinava, has quaes praticas se trataram entam por muitos dias na corte. . . » (cap. i3). 4. Relativas ao seu pendor faustoso e perdulário que obrigou ao agravamento de tôdas as contribuições que pesavam sôbre a nação, culpando o cronista disso os seus conselheiros, por favo- recerem cm vez de se oporem a essa tendência do soberano, mas levando-lhe em conta que uma grande parle dessas rendas novas as empregou em obras santas e pias: «. . .e acreçentar nellas (nas ordenações antigas do reino) alguas cousas que lhe pare- cerão neçessarias. Mas por estas que enadeu serem muitas delias em seu proveito, acreçentando ahos direitos que se pellas anti- guas ordenações, e artigos das sizas pagavã ahos Reis outros maiores, lhe nam foi bem julgado, comtudo porque ho que orde- nou foi per conselho e pareçer de letrados, podesselhe relevar parte da culpa, e dobrala ahos que lhe houverã e deverã dacon- selhar ho cõtrairo; e tinhã obrigaçã per juramento de seus car- gos, e offiçios, de ho fazer, porque destes taes homes, e da ver- dade que deve de trattar depéde ha honrra e fama dos Reis, e bõ governo de seus Regnos, e estado: mas posto que na parte do adquirir, se lhe possa dar algúa reprehensã, foi tam vigilante nas cousas q tocavam aho Ecclesiastico, e serviço divino, que se lhe pode levar é conta toda ha culpa que lhe deré do desejo que tinha dajútar muitos mais bés á coroa destes Regnos, do que fez em quanto viveo porque de suas rendas despendia cada anno grande parte em esmollas, e obras pias, e edificar, e repairar igrejas, e mosteiros, villas, castellos, e fortalezas, e fazer guerra aos mouros: alie do que fez per serviço de Deos húa obra digna de muito louvor, que foi mandar que se fezessem hos tombos de todallas capellas, spritaes, albergarias, instituições, e galarias destes re- gnos, obra que se commeçou neste anno de m.d.v. pera ho que mandou fazer grandes diligençias, e tirar inquirições pera se saber
  • XVII disso ha verdade. . foi resumido assim: «. . .e acreçentar nel- las algúas cousas que lhe pareçeram neçessarias, e assi fez por serviço de Deos húa obra digna de muito louvor, a qual se co- meçou neste mesmo anno q foi mandar q se fezessem hos tombos de todallas capellas, spritaes, albergarias, instituições, e gafarias destes regnos, pera ho que se fezeram grandes diligençias em tirar inquirições, pera se saber disso a verdade . . » (cap. 94). 5 Relativas ao assassinato pelo duque de Bragança, D. Jaime, de sua esposa, D. Leonor de Mendonça: «. . .ha qual Duquesa dõna Leonor elle matou ás punhaladas com hum seu page de sobrenome Alcoforado, com quem tinha suspeita que lhe fazia adultério. . . » (cap. 61). Este passo foi eliminado na edição de- finitiva. 6. Relativas ao clero e moral pública. Assim, de Justa Rodrigues, ama de D. Manuel, dizia que teve dois filhos «hos quaes filhos houve de dom Ioão Bispo da Guarda, cuja amiga fora. . . » mas modificou êste passo em « hos quaes filhos houve de dom loão Bispo da Guarda homem que por sua boa doutrina, e geraçam valeo muito nestes Regnos. . .» (cap. 5); — dos pretos da costa do sul de África dizia « quando falam pareçe que saluçam, andão vestidos de pelles, e trazem suas naturas metidas em húas bainhas de pao muito bem obradas. . . » que substituiu por « quãdo falam pareçe que saluçam e andão vestidos de pelles. . .» (cap. 35); — dos naturais do Brasil dizia: « He costume entrelles (hos que sam casados) levarem a virgindade ás sobrinhas de suas molheres, ho que dizem lhe pertençer por parte das mesmas suas molheres, por ser tudo hu sangue » (cap. 56). Êste passo foi eliminado. 6. Relativas aos grandes feitos de Afonso de Albuquerque e Duarte Pacheco na índia. Assim: « Destas seis naos, quomo atras fica dito fez duas capitanias, das quaes deu ha húa ha Afonso dalbuquerq de cujos memoráveis feitos, e façanhas se trattará aho diante: hos outros dois capitães q ihã debaixo da sua bandeira forã Duarte pachequo pereira, de que atras fallei, e fallarei aho diante, quomo de pessoa a quê todo bom cavalleiro pode haver
  • XVIII enveja » (cap. 77): — Pacheco « chegou aho passo de Cambalam, onde fez feitos, e proezas tanto despantar, quanto do discurso delias se aho diante poderá ver. . .» (cap. 85: as «variantes» dizem 83). Nos dois passos « os memoráveis feitos e façanhas » de Albuquerque e « os feitos e proezas tanto de espantar » de Pacheco foram eliminados pelo autor na edição definitiva, pro- vavelmente por os achar deslocados. Como veremos, a crítica contemporânea não o censurou nesta parte e por isso não houve pressão sôbre êle. Em 1914, o Sr. Edgar Prestage, benemérito das letras portu- guesas, descobriu no Museu Britânico, de Londres, o códice da crítica contemporânea do Conde de Tentúgal à Crónica de D. Ma- nuel e a resposta do cronista. O caso das modificações feitas à crónica aclarava-se assim; e os factos precedentemente apresen- tados puderam ser mais amplamente apreciados e julgados (1). O conde escreve com paixão. A leitura da Crónica irritou-o. A sua prosápia de grande fidalgo, que privava com reis, sentiu-se ofendida, por si e pelos seus amigos, com a sobriedade serena do cronista. A sua concepção da história não é a mesma. O conde quere que ela olhe para os grandes da terra e deixe na sombra os pequenos; o cronista, porém, quere para uns e outros a mesma medida: os homens são apenas função dos seus actos e o seu jul- gamento há-de fazer-se só por êles. Não podiam, pois, enten- der-se; por isso nem tôdas as censuras do conde foram atendidas, a-pesar da altura do estrado donde falava o censor; e assim o plano e a estrutura da obra ficaram intactos: a sua fisionomia é a mesma antes e depois da tempestade, salvo, talvez, quási im- (1) Arquivo histórico português, ix, (1914), pág. 34"-378: «Crítica contemporânea da Crónica de D. Manuel •. O Sr. Prestage prova a pág. 347 que o censor foi na ver- dade D. Francisco de Melo, 2° Conde de Tentúgal. Os seus « apontamentos», como êle chama às suas notas críticas, eram para D. Duarte, filho do Infante do mesmo nome — e neto por isso de el-rei D. Manuel — para que as fizesse chegar às mãos do cronista. Di-lo o próprio conde na sua réplica (pág. 367. Cf. pág. 374-5). Na sua res- posta aos « apontamentos », Góis chama a estes « lembranças de suas senhorias », isto é do conde e do príncipe intermediário (pág. 367).
  • XIX perceptível mancha na face — na parte ih, como se viu. Góis era bom capitão de caravela, que levou ao pôrto por entre escolhos. O conde quere, todavia, dar-lhe lições de história. De facto, Góis teve de emendar mais de uma afirmação da edição primi- tiva, em vista da crítica do censor. Aqui todos ganham: um e outro e a verdade histórica. Havemos de ver isso em breve. Mas o conde não se contentou com esta vitória: quis ensinar Góis a fazer história. Assim, acusa-o de falar na crónica de matéria que nela não tem cabimento: das cláusulas do testamento de D. João II; das suspeitas dêle ter morrido de peçonha; do dia e lugar em que faleceu; das missas que mandou dizer e da moeda cm que deviam ser pagas: — isto, diz, só podia ter lugar na crónica dêste rei e não na de D. Manuel; e ali mesmo seriam particularidades des- necessárias. Mas o censor explica a seu modo a inserção aqui das cláusulas do testamento: é para ser desagradável à casa de Bragança. Da suspeita de envenenamento do soberano falecido diz «ser opinião falsa e ignorante que só poderia ter gente baixa». As outras particularidades acha-as impróprias ali, por não ser « estilo nem cousa conveniente, nem se achará em nenhuma cró- nica. . . Que matéria pode ser mais impertinente para crónica de tão excelente rei (D. Manuel) que estar escrevendo opinião de quatro escudeiros, porque a gente nobre nunca tiveram (sic) senão a que deviam de ter, e mais em crónicas não se permite escrever presunções. . . E eu assim o entendo que se não deve deixar escrever cousas desta qualidade senão a pessoas de muita. . . » (cap. 13). Góis a deve-se de ter por tão culpado neste erro como nos mais de sua crónica, na qual se não divera (sic) de pôr cousa senão muito averiguada e certa» (cap. 17). Acusa Góis de má fé. « Como se êle gaba que o escolheram para esta obra por ser homem que sem nenhum respeito havia de escrever a verdade, é necessário dizer eu que o teve mui grande em a calar quando não faz ao seu propósito (do duque D. Jaime), como fêz neste caso, porque não quis saber os recados que el-rei deu a Gonçalo de Azevedo sôbre êle, nem as cartas que sôbre
  • XX isso escreveu ao senhor D. Álvaro, ou não o quis dizer, porque eu as tenho em meu poder e êle nunca mas pediu, nem quis saber nada dêle, preguntando-me e mandando-me preguntar com muita curiosidade pelas cousas do vice-rei D. Francisco de Almeida. Ora vejam se é isto ter respeito. . . » (cap. 8). « Encarece gran- dissimamente a grande mercê que el-rei fêz ao duque (de Bra- gança), e Deus sabe sua intenção nesta parte, se é gabar el-rei ou dizer mal dêle. . . na qual (carta do senhor D. Álvaro a el-rei D. João II) se contém a verdade de tudo, como por ela se verá, e êle (Góis) não fêz nenhuma menção de nada que nela esteja, sendo mais verdadeira que tudo o que êle pode dizer, e isto me- lhor lhe cabe o nome de traição que pô-lo êle onde nunca a pôde haver » (cap. 13). Acusa-o também de pouco ortodoxo em religião; e isto era grave para êle, porque, tendo convivido muito tempo com pro- testantes, podia tornar-se suspeito de heresia. «Acêrca de el-rei D. João se mostra quão suspeito é em suas coisas, usando de artifício retórico, e trata dêle ser ditoso em príncipe e mofino em rei: os teólogos vejam se lhe dão licença para tratar de dita e mofina em terra de cristãos. . .» (cap. 9: cf. cap. 1). «Falando da morte de el-rei Charles de França, atribui-a aos desastres da fortuna, que é forma de falar gentílica, procedendo tudo da divina providência e de seus ocultos juízos » (cap. 27). Aprecia com severidade a sua atitude histórica e chama-lhe estes nomes: « apaixonado » (cap. 1 e 13), « grande atrevimento » (cap. 13), «não ter respeito» (cap. 8), «grandíssimo despropó- sito», «paixão», «cego», «blasfémia», «impertinente», «trai- ção » (cap. 13). Não admira, pois, que o ache merecedor de castigo: di-lo cla- ramente em dois passos. « E falar nêles (nos juízos sôbre as grandes mercês de D. Manuel à casa de Bragança) tão soltamente e por tão feios termos que me pareceria a mim muita razão fazer-se disto queixume ao senhor Cardial, governador dêstes reinos, para que o mandasse castigar, como tamanho êrro me-
  • XXI rece. . . E mais cm crónicas não se permite escrever presunções, e tão duvidosas e prejudiciais como esta é (dizer que o duque D. Jaime de Bragança era culpado), e em prejuízo do rei cuja ela é, e de sua honra, pelo que também toca à de el-rei nosso senhor se devia mandar queimar, porque emendar parece impossível» (cap. i3). Censura-o por falar de coisas desonestas e sujas em livro que hão-de ler princesas e rainhas. Assim, referindo-se à ama de D. Manuel, Justa Rodrigues, dizia « que fôra amiga » do Bispo, da Guarda (cap. 5). Noutra parte, a propósito dos negros do sul de África dizia: « Trazem suas naturas metidas em umas bainhas de pau muito bem obradas. . .» (cap. 35). Ambos estes passos foram emendados na edição definitiva, aceitando o cronista a doutrina do crítico. Não lhe devia custar muito tal transigência. Contrapõe-lhe e louva o procedimento diferente do historiador da Igreja Paui.o Jóvio: « Milhor conselho teve o bispo Paulo Jóvio que calou as cousas que passaram em seu tempo desde a morte do papa Leão X até o saco de Roma, por não notar pessoas insinhes e infamar a idade em que viveu, sendo cousas verda- deiras » (cap. i3). Blasona muitas vezes de possuir melhores informações e pre- tende desdenhosamente rectificar as suas afirmações. Góis quere « ousadamente afirmar cousas que nunca foram e desnecessárias para a obra; e de calar muitas mui verdadeiras e importantes a ela, com outros muitos individos, que mostrarei com ajuda de Nosso Senhor. . . e ainda que confesso que é grande atrevimento meu, maior é o de quem mo fêz ter, porque o meu propósito é respon- der a seus erros. . .» (cap. i). « E não deixou de as escrever (as cousas da casa de Bragança) por falta de informação, porque a tomou do duque D. Teodósio, ao qual dixe polo segurar ou en- ganar, que nesta crónica que fazia de el-rei D. Manuel devia de tirar a limpo a inocência do duque D. Fernando, seu avô, e para isto poder milhor me pediu o duque que lhe quisesse dar o tres- lado de uma carta que o senhor D. Álvaro escreveu a el-rei D. João,
  • XXII na qual se contém a verdade de tudo, como por ela se verá, e êle não fêz nenhuma menção de nada que nela esteja, sendo mais verdadeira que tudo o que êle pode dizer. . . » (cap. 13). Falando o cronista de D. João de Sousa diz que êle esteve na guerra de Granada. O conde censura-o por não ter feito menção de outros fidalgos portugueses que nela tomaram parte — e sem razão, porque é incidentemente que se faz referência àquele facto. « Parece que também a pudera fazer de outras pessoas que se acharam nela, principalmente do senhor D. Álvaro, que além de ser aceito a êles reis (de Castela) e haver tido tanto mando no seu reino, esteve sempre presente na mesma guerra e lhe custou assaz de sangue, ao qual fizeram os reis grandíssimo gasalhado e honra, como eu soube por muitas pessoas que eram presentes, assim que sem nenhuma comparação fôra mais razão por tôdas as vias fazer menção dêle. Também a não fêz aqui de D. Francisco de Al- meida que se achou na mesma guerra. . . » (cap. 28). As citações que tenho feito mostram o calor com que o conde ataca; mas a sua indignação chega ao paroxismo quando defende a casa de Bragança e a memória de D. Manuel, ou, pelo contrá- rio, combate o favor com que o cronista fala de D. João II. É esta a matéria principal dos capítulos 1, i3 e 45 da parte 1. Os actos violentos de D. João II contra a nobreza abalaram profun- damente o reino e dividiram-no em dois partidos. D. João vin- gara assim o crime de Alfarrobeira: do túmulo, D. Pedro aben- çoaria o filho de sua filha. . . Compreende-se, pois, que o conde abomine a memória de D. João. Tomou o partido dos seus adversários, como Góis, de facto, é francamente por êle; daí a cólera não reprimida do fidalgo: é na verdade um homem apai- xonado. « Suspeito em suas cousas » (de D. João II), diz o conde (cap. 9): mostra-se «mais apaixonado (de D. João) do que o próprio cronista dêle» (Rui de Pina: cap. i3). « No capítulo q5 trata da trasladação do corpo de el-rei D. João, e isto com pala- vras tão suspeitas que não convém a cronista. . . » (cap. 45). Neste capítulo, Góis conta, na verdade, cousas incríveis, que a
  • XXI11 parcialidade por D. João não explica suficientemente. Assim, diz que quatro anos depois do falecimento de D. João mandou D. Ma- nuel trasladar a ossada do seu antecessor de Alvor para o con- vento da Batalha, mas, aberto o ataúde, achou-se o corpo do morto inteiro, o qual exalava bom cheiro; e então soube-se que Deus fizera por êle alguns milagres. Sessenta anos depois dêle morto, em 1555, o Cardial D. Henrique fizera abrir a sua sepul- tura da Batalha e achara o corpo ainda inteiro, como no momento da sua exumação, « com barba e cabelos no peito, pernas, braços e o estômago tão teso c a pele tão corada como se fôsse vivo »; e mais testemunhou o Cardial ao cronista que dêle saía « um sua- víssimo odor». A lenda de santidade formou-se logo depois da morte de el-rei. Isso mostra quanto certos actos da sua vida im- pressionaram a imaginação popular: os homens fortes fàcilmente se mudam em símbolos e vêm a inspirar o temor e o poder das cousas divinas. G. de Resende, na crónica dêste rei, que saiu a público em 15q5, foi certamente a fonte de Góis. Quando fála da trasladação do soberano em 1499 e da abertura do seu ataúde em Alvor e depois na Batalha na presença de D. Manuel, usa quási dos mesmos termos :<'... (acharam) o corpo do glorioso rei são e inteiro, com um cheiro singular, com suas barbas e cabelos na cabeça e nos peitos e pernas e braços e o estômago testo como se fôra vivo. . . » E no capítulo 214: « . . . (na Batalha) onde ora jaz seu corpo, onde têm muitos que tem feitos muitos milagres e em seu corpo por uma buraca que tem na sepultura se tocam muitas cousas e se levam por relíquias de santo. Estas afirmações extraordinárias de Góis e os epítetos de «in- vencível e glorioso », dados a D. João no mesmo capítulo, foram àsperamente censurados pelo conde, não sem razão e sarcasmo por vezes. « Primeiramente põe êle neste mesmo capítulo dous capítulos que não sei se os achou nunca cronista para os pôr a rei morto do qual não é a crónica, um é invencível e outro glo- rioso, por onde o cronista se tinha tal propósito de o querer canonizar, não houvera de pôr o seu testamento no princípio VOL. I D
  • XXIV desta crónica. . . Certamente devera ver o cronista quão mal isto armava a seu propósito, porque pretendendo êle fazer santo a D. João, não viu quanto êsle meio era estranho e não concluía a seu propósito, pois Cristo em seu santo Evangelho aconselha e manda caridade e perdão dos erros e ódios. . . Além de tudo isto bem se sabe as pessoas que mandou matar e não trato das que morreram com sombras de ser por justiça, senão das que mandou matar fora dêste reino e por dinheiro, e também por pessoas muito amigas, as quais induziu a não guardar o direito natural e de amizade, como a Fernão da Silveira, que mandou matar em França, em Avinhão, pelo Conde de Palhasens, Aragonês, que andava lá fugido, e sendo grande amigo de Fernão da Silveira o matou à traição por 5:ooo cruzados que lhe el-rei mandou dar, e além dêste outros muitos desta maneira. . . E quanto ao teste- munho que dá do senhor Cardial, todos os seus não podem deixar de ser mui verdadeiros, mas a cova de el-rei D. Manuel seu pai tinha muita mais razão sair dela o suavíssimo olor. . . Não sei como se não dá algum testemunho de ela cheirar também. . . » (cap. 45). Pelo contrário, de D. Manuel fala o conde com muito louvor e admiração e repreende o cronista várias vezes por o não fazer calorosamente como êle. Acha que foi grande atrevimento seu « de querer pôr têrmo às virtudes e bondades de el-rei D. Manuel, tão infinitas como todo o mundo sabe. . . Olhem o título que lhe póe de « felix » e « bemfortunado » e as mercês que lhe N. S. fêz, que êle trabalhou com seu favor possível por lhas merecer, atribui à dita, e não às suas obras, virtudes e devoção e à sua boa dili- gência, esfôrço e bom conselho, e a el-rei D. João, cuja crónica não é, chama-se «invencível». . . e eu não sei nenhum rei que com mais razão pudesse ter êste nome que el-rei D. Manuel. . . e com os infiéis não sei eu desde el-rei D. Afonso Henriques a esta parte quem lha (a guerra) fizesse mais crua que êle. . . A Deus e a estas cousas se há-de atribuir as que êle fêz, e não a ser felicís- simo, nem chamar-lhe êste nome por amor delas. . . Nomeia
  • XXV el-rei D. Manuel por D. Manuel, sem um senhor, que lhe a êle sempre coube, sendo estilo ordinário de todos os cronistas. . . » (cap. i). « Diz que el-rei D. Manuel foi cobiçoso, ainda que logo diga de honra, ao diante vai dizendo que também o foi da fazenda, e diz mais que parte desta culpa se pode relevar por algumas boas obras que se fêz, que logo nomeia. Eu não sei em que o autor se pode fundar, porque suas obras foram de liberalíssimo e de rei mui perfeito no repartir das mercês. . .» (cap. 94). Mas se Góis diz, no entender do censor, pouco bem de D. Ma- nuel, diz, certamente, muito mal da casa de Bragança, ou esconde os seus serviços propositadamente, segundo o mesmo (cap. 1). O conde saiu a terreiro em sua defesa. Compreende-se a razão: êle era neto de D. Alvaro, irmão do Duque de Bragança, D. Fernando, justiçado em Évora, que regressou de Castela, onde se exilara, com seus sobrinhos, D. Jaime e D. Dinis, filhos do condenado. Defende estes parentes com muito calor. Nem sempre com razão, na verdade, mas às vezes com alguma. Góis emendou alguns passos da crónica por virtude desta contestação ou dos elementos novos que êle deu. Foi o que vimos já no estudo das variantes de doutrina. «No capítulo i3 trata o autor da vinda do duque D. Jaime a Setúbal, e nenhuma cousa da honra que se lhe fêz e gasalhado, na qual há muitas particularidades muito para se no- tarem e escreverem e tôdas lhe esqueceram e não lhe esqueceu os soluços de el-rei quando veio o Mestre à côrte. Ocupou tanto o sentido em escrever desonras do duque que lhe não lembraram as honras e por isso não tratou delas. . . Diz mais o autor que veiu o duque de Castela onde estava por caso das traições, j Olhem que grandíssimo despropósito que ninguém pudera escre- ver senão quem estivesse tão tomado da paixão! O duque D. Jaime, quando o levaram para Castela, era de 4 anos, pouco mais ou menos, e seu irmão mais moço que êle, e ainda que seu pai tivera culpa, o que nunca teve, mal a puderam ter filhos de tão pouca idade. . . Diz mais o autor que restituiu el-rei D. Ma- nuel ao duque em suas honras. Êste era bom têrmo e verdadeiro
  • XXVI se o não danara ao diante; e então encarece grandissimamente a grande mercê que el-rei fêz ao duque, e Deus sabe sua intenção nesta parte, se é gabar el-rei ou dizer mal dele, e para maior encarecimento quis dizer, sem o saber, que a casa de Bragança rendia então 17 contos, não sendo mais que 7, como se poderá ver por os papéis e arrendamentos de então, e o duque D. Teo- dósio assim mo dixe algumas vezes. . . Diz mais o autor, e creio que não o disse outrem ninguém, que alguns diziam que el-rei D. Manuel não podia fazer tal mercê por razão do testamento de el-rei D. João, porque nêle mandara que não recolhesse os cul- pados, nem os restituísse em seus bens. Já atrás fica dito e ao diante direi que não houve nenhum culpado, nem o pôde haver de tais pessoas, e que o houvera também tenho dito que não o podia ser um menino de 4 anos. . . Ora sabendo eu e outras muitas pessoas estas cousas tão certas e vendo as que diz o autor tão incertas de tôda a casa de Bragança, e em lugar que não con- vinha falar nelas, me faz pasmar de tamanho atrevimento, a qual casa é tão insinhe e principal entre cristãos que há pouco tempo que descendiam dela todos os reis ou rainhas dêles. Está claro que deve de ser por lhe ter grandíssimo ódio. . . E não deixou de as escrever por falta de informação, porque a tomou do duque D. Teodósio, ao qual dixe polo segurar ou enganar que nesta crónica que fazia de el-rei D. Manuel devia de tirar a limpo a inocência do duque D. Fernando, seu avô, e para isto poder ser melhor me pediu o duque que lhe quisesse dar o traslado de uma carta que o senhor D. Álvaro escreveu a el-rei D. João, na qual se contém a verdade de tudo, como por ela se verá, e êle não fêz nenhuma menção de nada que nela esteja, sendo mais verdadeira que tudo o que êle pode dizer, e isto melhor lhe cabe o nome de traição que pô-lo êle onde nunca a pôde haver. . . » (cap. 13). « No capítulo 22 trata de como se começou de tratar o casa- mento de el-rei com a princesa D. Isabel e que mandou a isso o senhor D. Álvaro. Olhem o que digo atrás e verão a causa porque trata êste negócio tão breve e feiamente, porque era ser-
  • XXVII viço de pessoa da casa de Bragança, o qual além de ser mui grande, pois fêz nisso tanto a vontade e gôsto de seu rei, que era a cousa do mundo que êle mais desejava, e tão impossível como se pode ver pelo grandíssimo trabalho que o senhor D. Alvaro nisso levou, por a princesa não querer por nenhum caso do mundo casar com el-rei. . . E se o senhor D. Álvaro não valera tanto com os reis de Castela, não creio que fôra possível haver efeito tal casamento. . . » Êstes « apontamentos » do conde foram remetidos a Damião de Góis, que deles tomou conhecimento e deu seu parecer. Sem paixão e por isso sobriamente, o cronista foi pondo o seu visto em cada um dos pontos controvertidos e ràpidamente pôs as devidas notas à margem. Em contrário do conde, não entra em expla- nações, nem trava discussão. A sua resposta é, pois, serena. Aceitou algumas sugestões do seu contraditor, ou porque quis evitar más vontades dos poderosos, ou porque eram verdadeiras; mas procedendo assim não esqueceu altivamente — quanto huma- namente o podia fazer — os seus direitos de autor, com uma no- bre isenção. São, como disse, as das variantes de doutrina. Mas manteve outros pontos contestados e defendeu-os. Assim, chamou « invencível » a D. João II porque o foi em todos os feitos de guerra em que tomou parte, na tomada de Arzila, como na batalha de Touro, onde êle ficou no campo e os reis D. Fernando e D. Afonso fugiram, um para Samora e o outro para Castro Nuno; e «glorioso porque se tem por certo que depois do seu falecimento fêz Deus por êle milagres ». Chamou « felicíssimo » a D. Manuel «porque o foi em tudo» sem nunca entrar em ba- talha ». Quanto ao testamento de D. João, não fêz alteração, pois se limitara a dar « as cláusulas substanciais », porque são o alicerce da crónica e da sucessão de D. Manuel. De Justa Rodrigues, ama de D. Manuel, tirou o que dissera « amiga do bispo da Guarda », e declara que tem por todos os seus descendentes muita consideração e são «tão honrados que
  • XXVIII não devem de haver inveja aos Emanoéis de Castela, porque se estes vêm de reis, estoutros vêm de santos, e eu queria segundo a minha arte ser antes santo que rei; nem sei rainha cristã que não quisesse trocar seu estado pelo da Madalena, pôsto que no comêço de sua vida fôsse pecadora. . . » Tenha-se presente que os dois filhos que dela teve o Bispo da Guarda se chamavam D. João e D. Nuno Manuel. Góis manejava a ironia com desen- voltura, sem receio do perigo que isso podia representar para a sua integridade corporal! Sôbre a vinda de Castela do senhor D. Álvaro, dissera o conde, censurando-o, que êle não quisera saber da carta que a esse res- peito D. Manuel lhe escrevera, mandando-o vir, e êle tinha em seu poder. O cronista confessou que a não vira, nem lhe fôra mos- trada. Mas a culpa desta e doutras cousas não terem chegado ao seu conhecimento é do senhor duque D. Teodósio, porque lhe deu duas ou três folhas de papel cheias de apontamentos necessários à sua crónica e êle nunca respondeu a êles, « e a mesma culpa tem o senhor conde de Tentúgal, que há mais de seis anos que sabe que faço eu esta crónica em que forçadamente havia de falar do senhor D. Álvaro, e tendo êle muitos papéis e cartas e lem- branças me não comunicou nenhumas. E agora suas senhorias me repreendem de eu não escrever algumas cousas nesta crónica que êles tinham tão bem guardadas em seus cartórios que por- ventura êles mesmos se não lembravam delas, nem se lembraram se lhes a mesma crónica não dera para isso ocasião ». Góis confessa que, realmente, prometeu ao senhor D. Teodósio mostrar a inocência de D. Fernando, o duque justiçado, rece- bendo dêle para êsse propósito « muitas lembranças. . . que guar- dava, mas isso era para a crónica de D. João II que era sua tenção fazer para emendar alguns erros que andavam nas cró- nicas publicadas ». Má desculpa e claramente falsa. Promessa talvez feita impensadamente, quando ainda não teria opinião bem formada sôbre a matéria; mas neste caso o cronista podia na crónica de D. Manuel ter fugido a afirmações que o vieram a
  • XXIX comprometer gravemente e obrigar a esta confissão pouco airosa e inacreditável. O cronista afirmara de D. Manuel que fôra «cobiçoso de honra e da fazenda» e por êste motivo sobrecarregara os vassalos de impostos, pôsto que os gastara em obras santas. Repreendeu-o o conde, como vimos, de tão soltamente assim se referir ao sobe- rano; e Góis defendeu-se respondendo que êle não era só cronista para dizer o bem, mas também o mal, havendo-o. Todavia, êle atenuou nas emendas a crueza da sua apreciação, omitindo parte da primeira redacção e mudando «cobiçoso de honra» em «amador de honra». Também o conde censurara Góis de, na ida do infante D. Luís a Tunes, não ter falado da parte que teve o duque D. Teodósio para o dissuadir do seu intento; mas nem êle nem depois da sua morte pessoa lho disse, não sendo, pois, culpa sua se o não escreveu, porque — acrescenta êle — «eu não sou nigromante para advinhar, nem tenho espírito familiar que mas (essas cousas) pudesse dizer nesse tempo no qual eu estava em Itália...» Para terminar a sua resposta, deu mostra de impaciência e mau humor, como se vê. O conde replicou, e, como nos apontamentos, cumpridamenle. Não vale a pena segui-lo pari passu; basta que cite alguns passos mais interessantes. O nome de «invencível» dado a D. João II pareceu-lhe mal e impertinente por não ser na crónica dêle; todavia, êle não o mereceu pelo seu procedimento na batalha de Touro, pois, segundo o testemunho de seu avô, D. Álvaro, foi êste que lhe incutiu ânimo e o impediu de se desonrar. Acusação grave e nova, e creio que falsa, como se depreende dos próprios dizeres do censor. De feito, numa carta ao senhor D. Álvaro, D. João dissera-lhe que nesse dia o servira como nunca; mas esta frase não implica necessàriamente uma confissão de tão grande dívida, como as ilações do conde pretendem. O censor exagera, certamente, o papel do seu parente na história de Portugal, e mais ainda possivelmente nos sucessos de Touro. A bravura de
  • XXX que D. João deu grandes provas em Arzila, sendo ainda de idade de 16 anos, permite asseverar que em Touro não terá sido covarde ou tímido. Menos lhe concede o título de « glorioso » e acha que « é cousa graciosa sair (isso) de tal pessoa como Damião de Góis, sendo tão prudente e atentado ». Glorioso, não! Êle foi culpado de homi- cídios sôbre pessoas inocentes, teve manceba sendo casado, tomou o seu a seu dono, como fêz à avó do censor, a senhora D. Filipa, herdeira da casa do Conde de Olivença, seu pai, e D. João lhe tirou e nunca restituiu a sua herança. « E ainda entendo que quem isto souber e disser que el-rei D. João está nêle (no paraíso), que é caso de inquisição, e mostre-se isto a todos os teólogos do mundo e creio que dirão o que eu digo, porque eu pratiquei com muitos, e assim com cronistas e legistas e todos me dixeram o que eu aqui digo, e se isto tem alguma resposta, folgaria em extremo de a ver». Assim Góis ia criando mais fama e suspeição de sol- tura de opinião; os seus poderosos inimigos estavam, ainda mesmo que sem êsse propósito, a preparar o processo que o havia de levar perante a Inquisição, com o ambiente em que o iam envolvendo. A resposta de Góis sôbre a inserção do testamento de D. João II não o satisfez e pareceu-lhe « verdadeiramente contumácia per- sistir na sua opinião em tal matéria ». Achou pouco respeitadoras as palavras do cronista sôbre Justa Rodrigues e inteiramente desnecessárias naquele lugar. Não quere ser seu defensor, porque isso compete aos descendentes dela; todavia, ela ainda não era santa quando foi para ama de D. Manuel; e, acrescenta êle, « eu antes queria ser santo que des- cender dela, por isso não faz ao caso nada do que diz de Mada- nela ». Góis respondera que ignorava a existência de carta que D. Ma- nuel tivesse escrito a D. Álvaro, quando o autorizou a voltar ao reino, e pôs culpas disso no duque D. Teodósio e no Conde de Tentúgal, que o não tinham querido informar sôbre o assunto. O
  • XXXI conde replicou que êle nunca lhe pedira informações dêle, quando tantas lhe perguntava sôbre o vice-rei D. Francisco de Almeida, também seu avô. Disto concluiu que o cronista sabia de D. Álvaro tudo quanto precisava e não curou, pois, de lho dizer. Por isso lhe parece agora que, pelo visto, o cronista escondeu intencional- mente o facto, o que mostra a muita má vontade que sempre tem à casa de Bragança. Também não referiu a carta que D. Álvaro escreveu a D. João II sôbre o mesmo assunto; ela bastava para convencer quão injustamente se culpava a sua família de traições; e todavia o duque D. Teodósio dissera isso ao cronista. Bem se deixa ver que êle oculta a verdade e isto depois de ter prometido ao duque que poria a limpo a inocência de seu avô; e tudo fêz ao contrário e sem necessidade, por ser na crónica de D. Manuel e não de D. João. A desculpa que deu Góis de querer cumprir a sua promessa na crónica de D. João que desejava escrever é pouco verdadeira e antes sem valorpois como havia de mostrar a inocência do Duque de Bragança na crónica onde era o seu lugar se na onde o não era o culpava? Quanto à liberalidade e cobiça de D. Manuel, que o cronista achara excessivas e um pouco repreendia nêle, não aceita a sua defesa e mantém a opinião que deu nos apontamentos. Não merece censura o soberano, porque essa liberalidade foi para galardoar serviços; e a cobiça explica-se fàcilmente pelos gastos das suas armadas e as grandes despesas dos lugares de África; e assim não pode chamar-se cobiçoso o homem que dêste modo emprega os dinheiros da fazenda nacional; e se cobiça há, ela é santa, porque até os estados do Turco quis conquistar para mais mercês fazer a seus vassalos. Sôbre a ida do infante D. Luís a Tunes e parte que nela teve o senhor duque D. Teodósio, sorri da objecção de Góis quando disse que não era nigromante, nem tinha espírito familiar para saber o que se passara então, por estar ausente do reino e não o informarem das circunstâncias dessa jornada. Em verdade, res- ponde êle, eram tão recentes os factos e na côrte viviam ainda YOL I E
  • XXXII muitos fidalgos que nela tomaram parte, que bem pudera saber dêles os sucessos, se os quisera saber; nem o duque D. Teodósio é culpado de êle não ter falado em feito tão pequeno; « nem as pessoas nobres e notáveis no reino não têm obrigação de lhe ir dizer o que seu pai e avós fizeram, mas êle tem a de lhe preguntar ou mandar preguntar, e das informações que lhe vão dar a casa arrenegaria eu delas se fôsse êle». Termina a sua réplica pedindo muito a Damião de Góis que lhe perdoi se alguma cousa o escandalizou nesta sua contestação ou apontamentos que mandou ao senhor D. Duarte, porque tudo fêz por bem e defesa de sua honra e dos seus antepassados. Bem sabe êle que antes desta polémica era muito seu amigo; sempre lhe mostrou grande consideração, como a todos os ho- mens doutos; mais de uma vez teve desejo de o ir ver à Tôrre do Tombo e conversar com êle sôbre o assunto da crónica e só as suas ocupações o impediram, mau grado seu. E assim, pas- sada a trovoada e emendada a crónica dos senões que a afeiam, êles voltarão, diz o conde, a ser amigos, como dantes, e mais amigos ainda. Entretanto reimprimia-se esta primeira parte com as emendas que indicámos. A impressão das outras partes seguira o seu curso; as partes 11 e iii estavam prontas a sair do prelo antes da refundição da i. Di-lo o próprio cronista na sua resposta ao censor (p. 366); mas parece que só se lhes deu publicidade depois que apareceu a nova impressão; pelo menos assim se depreende da tréplica do conde, na qual critica ao mesmo tempo as emendas feitas pelo cronista e algumas afirmações da parte n em apêndice. Creio escusado trasladar para aqui as novas considerações do conde, porque nada acrescentam de bom. Achou bem algumas das emendas; outras pareceram-lhe insuficientes; mas por vezes repisa simplesmente argumentos ou factos já apontados. No fim diz que para redigir estas notas e observações à crónica de Góis se serviu de papéis e cartas de D. Manuel e de seu avô, D. Álvaro; e alguns documentos referentes a êste tinham sido queimados
  • XXXIII por êle e pela Marquesa de Ferreira, sua madrasta, não cuidando êle que fôssem necessários. Em apêndice faz alguns reparos aos capítulos xxvn e xxix da parte 11, mas no sentido de os completar e não emendar, referentes a seu pai, o i.° Conde de Tentúgal. Essas informações são de pormenor e sem importância histórica, como se vai ver. No capítulo xxvii historia-se a tentativa da armada de D. João de Meneses sobre Azamor em i5o8; e no xxix o socorro que no mesmo anno o dito D. João levou a Arzila, cercada pelo rei de Fez. Assim, estranha que no primeiro sejam nomeados pelos seus títulos de nobreza alguns dos fidalgos que foram na armada de D. João e se não dê igual tratamento a seu pai, D. Rodrigo de Melo : sem razão, porque o texto acrescenta: Conde de Tentúgal. Há, pois, contradição: como explicá-la? ^Teria havido emenda sôbre as provas da parte 11? Não o creio, porque Damião de Góis, na sua resposta aos apontamentos do conde, diz claramente (p. 366) que esta parte já estava impressa e nela não podia, por isso, pôr emendas; e certamente não valia a pena fazê-la tão somenos. Foi, talvez, inadvertência do conde. Quisera também que o cronista dissesse que as cem lanças, cujo comando D. João dera a seu pai, no desembarque de Azamor, eram tôdas da sua casa e da casa de Bragança. No ataque à cidade seu pai foi ferido e esteve quási a ser derrubado do cavalo pelos mouros postos em cilada. Tudo cousas que não importam à história geral e tão somente à sua família. O mesmo direi do que êle refere do capítulo xxix. Góis diz de seu pai que fôra gravemente ferido por um tiro de bombarda dos mouros quando a armada de D. João chegava de socorro ao recife de Arzila e por isso fôra levado a Tânger para se tratar. Isto dito assim tão simplesmente pareceu pouco honroso para seu pai e portanto conta o caso com mais particularidade e como lho ouviu. D. João de Meneses tinha-lhe prometido a dianteira no desembarque de socorro. Informado de que o desembarque se ia fazer, o conde com alguns amigos saltou da caravela em
  • XXXIV que ia para uni batel e mandou remar para terra a tôda a fôrça, para ser o primeiro que pusesse pé na praia; foi então, quando já estava próximo da terra, que um tiro de bombarda o feriu no ombro e no rosto com tal violência que lhe fêz perder os sentidos. João Patalim, esforçado cavaleiro e seu governador, logo o meteu outra vez na caravela e fêz conduzir a Tânger para se tratar. Quando voltou a si e soube do feito foi grande o seu desconten- tamento e despediu Patalim do seu serviço, ainda que sempre lhe pagou a sua tença ou pensão, como se estivesse ao seu serviço. Esta cousa e outras pudera ter sabido o cronista se lhas tivesse perguntado, de que não curou, quando de outros fidalgos fala com tanto louvor, o que mostrava, dizia, a sua parcialidade. Cita ainda outra particularidade de seu pai neste feito; e foi que restabelecido êle mandou vender a Castela tôda a sua prata e com o dinheiro dela comprou mantimentos que enviou aos moradores de Arzila, em grande necessidade depois que el-rei de Fez lhes tomou a vila e os encurralou no castelo, assim como camisas e lençóis para os feridos, com prejuízo da sua pessoa; e logo que se achou bem partiu para Portugal, por já estar acabada a guerra, com a reconquista da vila de Arzila. Conhecida a crítica do conde, fàcilmente se explicam as cen- suras de D. António Caetano de Sousa, que já referi atrás. A obscuridade delas desaparece à luz dêste documento. Não é duvidoso agora que Sousa o viu e por êle fêz a sua crítica e não pela edição definitiva de 1566 da crónica. De facto, as acusações de Sousa são uma súmula apenas das do conde: a inconveniência dos epítetos de «invencível» e « glorioso» a D. João e antes devido a D. Manuel e não «feliz e bem-afortunado», porque assim apouca os merecimentos dêste soberano; o nenhum favor que mostra pela casa de Bragança e o tratamento que dá aos filhos do duque justiçado de « desterrados pelas traições »; a omissão dos serviços desta família à coroa; a inserção da cláusula do tes- tamento de D. João que mandava ao seu sucessor que não con- sentisse no regresso ao reino dos incriminados nas traições; o
  • XXXV engrandecimento excessivo da mercê de D. Manuel a êles — tudo isso de um está no outro autor, e às vezes nos mesmos termos. Góis começara a crónica em 1558 e acabou-a em 1567. Era desde 1548 guarda-mor da Tôrre do Tombo e gozava do favor régio. Foi o Cardial-Infante que, depois da morte de D. João III, o escolheu para a tarefa de historiar o reinado de seu pai. Acei- tando-a, assumia um espinhoso e difícil encargo. Outros o tinham tido antes dêle sem o poderem cumprir. Sabemo-lo pelo próprio Góis. Rui de Pina, também guarda-mor e autor da crónica de D. João II, fôra o primeiro incumbido dêsse trabalho que na verdade escreveu até 1514. Sucedeu-lhe no cargo e na obrigação de continuar a crónica seu filho, Fernão de Pina, que nada fêz até que foi denunciado à Inquisição e teve de deixar a Tôrre do Tombo, em 1545. Então D. João III deu êsse encargo ao Dr. An- tónio Pinheiro, depois Bispo de Miranda e Leiria, que o não aceitou, e por isso o deu a João de Bartos, historiador dos feitos dos Portugueses na Asia e feitor da Casa da índia; e na verdade êle era a pessoa naturalmente indicada para tal emprêsa, por ser o autor das Décadas, onde tratara uma parte do mesmo assunto. Também êle não cumpriu como prometera, a-pesar de ter tido em sua casa, onde o viu Gaspar de Barreiros, 5 ou 6 anos o esbôço de Pina, descontente da pouca mercê que lhe fizera o soberano para isso. Morto D. João III em 1557, logo no ano seguinte o Cardial-Infante confiou a Góis o prosseguimento da emprêsa (1). O trabalho de Pina deixava a desejar, como plano e como estilo, e por isso Góis teve de o começar de novo, mas utilizou os materiais retinidos por êle. No seu estilo diz o cronista que «pelos muitos adjectivos e epítetos que se usavam naquele tempo é muito afectado» (Cap. xxxvm). Do plano afirma que não fazia menção de muitas cousas que passaram na índia e em (1) Crónica de D. Manuel, iv, cap. xxxvu e xxxvm; Joaquim de Vasconcelos, Arqueo- logia Artística, XI, p. 120, para Barreiros.
  • XXXVI outras partes, entre as quais foi a tomada de Goa » (Cap. xxxvn), era obra « desordenada », emfim (Cap. xxxviu). Barreiros, que a lera em casa de seu tio, João de Barros, confirmou inteiramente esta apreciação quando diz : « nesta (na crónica de Góis) se aparece bem a desigualdade de uma e de outra »(i). Góis era homem para esta empresa. A-pesar da idade — tinha então 56 anos — sentia-se com fôrças para a levar a bom têrmo, com independência e são julgamento. Tinha a experiência dos homens e um espírito cultíssimo; vivera muitos anos na Flandres e na Itália e viajara pela Alemanha e pela Polónia; casara com mulher flamenga, da melhor nobreza do seu país, e até neste exercera papel político de destaque; convivera com Erasmo cinco meses em Friburgo de Brisgóia; conhecera Lutero eMelanchton, os reformadores da religião — era, finalmente, uma superior mentalidade portuguesa integrada no pensamento europeu. E a emprêsa era, na verdade, tentadora e à medida do seu belo espírito: época grande para os homens que nela viveram e maior ainda para os que a contemplam à distância de séculos. Estudou-a amorosamente, como quem se refugia no passado grande e belo de Portugal para fugir à « vil e apagada » tristeza da hora pre- sente. Revivia assim a epopeia de tantos heróis da gente portu- guesa e o seu pensamento voava em sonhos reais e agora desfeitos. Poeta para sentir, sim, mas também juiz para julgar os homens. O reinado de D. Manuel tem matéria para um e outro: tem muita luz e também sombras, e Góis não as encobriu. O Conde de Tentúgal no-lo diz assim no seu comentário: « Como se êle gaba que o escolheram para esta obra por ser homem que sem nenhum respeito havia de escrever a verdade. . .» (pág. 351). Mas dizer a verdade em qualquer tempo, quando ela atinge os poderosos, tem muitos inconvenientes; no seu tempo, a meio século dos sucessos, quando ainda os homens ouviam um eco dêles e os filhos se sentiam orgulhosos dos feitos paternos do grande drama, (i) Arqueologia Artística, XI, p. 120.
  • XXXVII não era só inconveniente, era perigoso. Não quero dizer que êle devia ocultar a verdade, mas sòmente que ser juiz nestas condições deve ser torturante para uma alma nobre e justa; porque um dilema se porá na sua consciência entre mentir aos homens ou a Deus. Góis preferiu o caminho de Deus que o levou à imortalidade e o trouxe honrado aos vindouros; mas os filhos e os netos dos protagonistas do drama, perdida a energia do seu sangue e o esfôrço do seu braço, só viram nêle o iconoclasta e talvez foram que o arrastaram a um cárcere da Inquisição. Parece, pois, que o cronista se exprimia livremente sôbre a época que andava estudando e não escondia as conclusões a que ia chegando do compulsar dos documentos ou do cogitar do seu pensamento. Era, certamente, imprudência e temeridade, qual- quer que fôsse o favor real, se o tinha; êle devia saber que êsse favor é cousa leviana e variável, e à mercê de enredos palacianos, e agora mais do que nunca por motivo de não haver rei. Demais, êle não respeitava mesmo a estirpe régia na sua livre crítica. Corria de bôca em bôca quão irreverentemente êle se exprimira sôbre a morte do Infante D. Duarte, e Caminha, depois, no pro- cesso da Inquisição, repetiu as palavras que lhe ouvira: « Não há homem que na morte não diga quatro parvoíces ». Havia, pois, a intuição de que a crónica de D. Manuel traria surpresas, a julgar por estes actos e palavras de Góis; a fidalguia esperava-a com curiosidade, para se certificar até que ponto teria realização a vaga ameaça do cronista. Não seria só a curiosidade que a excitava; seria talvez também o receio do escândalo para os filhos daqueles que haviam prevaricado ou o receio simples- mente de não figurarem com o devido relêvo na galeria do reinado do rei venturoso. Não os culpemos absolutamente: a fidalguia não compreendia que se dissesse dela senão bem; e quando se não pudesse dizer devia calar-se. Os passos que citei atrás da crítica do Conde de Tentúgal não deixam a mínima dúvida a êsse respeito, j Ora que muito era que ela assim pensasse, quando
  • XXXVIII Afonso de Albuquerque, « o forte e terríbil», que dizia a D. Ma- nuel: « A índia falará por mim », procurava, todavia, captar com presentes a benevolência do cronista Rui de Pina para que dis- sesse bem dêle? O descontentamento foi grande quando apareceu a crónica de D. Manuel. Para alguns foi a certeza do seu receio, principal- mente para a casa de Bragança; para outros foi uma decepção: não acharam lá as acções de brilho que os seus avós tinham praticado e a que tinham direito, como se a história para Góis fôsse um espelho de vaidades ou um livro de linhagens; ou então apareciam esbatidas num quadro de proporções. D. António Caetano de Sousa diz expressamente que viu no arquivo da casa de Bragança « cartas originais daquele tempo » em que se censu- rava a atitude de Góis perante ela; e assim ela como o Cardial- -Infante e o senhor D. Duarte, seu sobrinho, estreitamente apa- rentado à casa de Bragança, de que descendia por sua mãe, mulher do Infante D. Duarte, ficaram muito pouco obrigados ao cronista (i); e a própria rainha viúva, D. Catarina, lhe fêz refundir o capítulo xxiii da parte iii, como vimos. O Conde de Tentúgal foi o porta-voz dos senhores de Bragança, e não o seria espontânea- mente talvez, mas compelido ou instado deles; todavia, o calor com que os defendeu implica uma causa própria, que as relações de parentesco podem explicar; e também merecimentos de maior cultura que êles e por isso terem delegado nêle a defesa. Mas deve ter havido outros descontentes que se não terão manifestado tão ruidosamente; é de crer, porque nos feitos do grande reinado teve parte tôda a fidalguia de Portugal. Seja êste exemplo. Pela carta de Gaspar de Barreiros, o linhagista (2), se vê que « os netos e parentes » do Bispo da Guarda, D. João Manuel, não ficaram satisfeitos com o cronista por não ter dito a sua origem: êle era filho de el-rei D. Duarte e de uma dama (1) História genealógica, v, pág. 476. (2) Arqueologia Artística, xi, pág. 120.
  • XXXIX castelhana da família dos Manuéis, também de sangue real, como nessa carta se diz cumpridamente. Menos de quatro anos depois, em 4 de Abril de 1571, Góis era preso e metido no cárcere da Inquisição, donde só saiu 20 meses passados e « tão cheio de usagre e sarna por todo o corpo que me falta pouco para me julgarem leproso». O processo que os seus carcereiros organizaram não o deminuíu perante as cons- ciências livres, antes o engrandeceu: êle aparece maior aí(i). « Êle não mentiu uma vez; disse e repetiu tôda a verdade aos inquisidores; não renegou nenhum amigo; não ocultou um facto. Como num espelho se mostrou e em tão vivo resplendor que des- cobrindo-se a si, projectou ainda luz intensa sôbre a infame intriga que encobria um processo político sob o manto da reli- gião » (2). O jesuíta Simão Rodrigues denunciara-o, como herético, uma primeira vez em 1545, perante a Inquisição de Évora, e uma segunda perante a de Lisboa em i55o; mas só 21 anos depois é que o processo prossegue e a vítima é presa. Durante muitos anos destes teve o favor do Cardial-Infante, inquisidor geral; foi êle que o escolheu, depois das duas denúncias, para escrever a crónica de seu pai; que mandou refundir o capítulo xxvii da parte 111 em que se enumeram tôdas as suas virtudes e obras que tais quais Góis inseriu na crónica; foi a casa real que adiantou o dinheiro para a impressão da obra (3); foi ela ainda que nos anos da publicação da crónica lhe fêz estas mercês: em 28 de Janeiro de 1566 deu-lhe o hábito de Cristo e uma tença de 20.000 reais; — em 7 e 8 de Julho o fôro das terras de Magalhães, têrmo de Beja, reversível para sua espôsa e sua filha Isabel; — em 18 de Novembro o cargo de guarda-mor da Torre do Tombo a seu filho Ambrósio, por sua morte; — e em 11 de Abril de 1567 (1) O processo foi publicado por G. Henriques nos Inéditos Goisianos, 11. (2) Arqueologia Artística, xi, pág. 3o. (3) Arqueologia Artística, xi, pág. 124. voi.. 1
  • XL licença para usar o brasão de armas que lhe concedera Carlos V pela defesa de Lovaina; durante o processo, Góis instava por que remetessem ao Cardial uma carta sua, e isso prova que confiava nêle — <:como explicar então que uma fôrça que tantos anos protegera o cronista viesse, finalmente, a quebrar-se? A vida de Góis entre a publicação da crónica e a sua prisão é obscura. <; Praticaria o cronista durante êste tempo alguma im- prudência que o comprometesse perante o Cardial ou a Inquisição? Não sabemos; faltam os documentos. Seria antes o efeito de cabala urdida contra êle pelos seus inimigos de 1566, principal- mente a casa de Bragança? Afirma-o perentôriamente o sr. Joaquim de Vasconcelos (i). As aparências dão-lhe razão; mas é uma possibilidade apenas, não uma verdade demonstrada. Faltam os documentos, aqui também. Seja como fôr, o conselho geral do Santo-Ofício no último dia de Março de 1571 resolveu proceder contra êle e ordenou a sua prisão que durou de 4 de Abril dêste ano até 16 de Outubro de 1572. Condenado por heresia a cárcere penitencial perpétuo e a confiscação de bens, foi mandado cumprir a sua pena no mosteiro da Batalha. Aí parece ter falecido, em 3o de Janeiro de 1573, porque o assento do seu enterramento faz crer que não morreu em sua casa, em Alenquer. O estudo etiológico das suas enfer- midades levou os Drs. Maximiano Lemos e Tiago de Almeida a considerá-lo um artério-escleroso; e a sua morte súbita faz supor que terá sucumbido a uma hemorragia cerebral (2). (1) Arqueologia Artística, xi. pág. 29. (2) Maximiano Lemos, Damião de Góis, na Revista de História, 1922, p. 66-6S. Este estudo de Lemos põe a vida de Góis em dia: é trabalho muito valioso.
  • XLI II DESCRIÇÃO DA PRIMEIRA EDIÇÃO DESTA CRÓNICA. COMO SE FEZ ESTA NOVA EDIÇÃO. A Crónica de D. Manuel, que novamente se publica, teve as seguintes edições: a) Lisboa, 1566-1567, 4 partes em fólio, sendo: a parte 1 de 17 de Julho de 1566 —Tem 2 fôlhas não numeradas e 107 numeradas. Erros de numeração dela: fl. 3 por 2, 56 por 57, 76 por 75 — ; a parte 11 de 10 de Setembro de 1566—Tem 2 fôlhas não nu- meradas e 75 numeradas. Erros de numeração: fl. 92 por 29, 66 por 74 —; a parte 111 de 24 de Janeiro de 1567 — Tem 3 fôlhas não nume- radas e 138 numeradas. Erros de numeração: fl. 5 por 4, i3 por 12, 46 por 45, 83 repetida e 85 falta —; a parte tv de 25 de Julho de 1567 — Tem 3 fôlhas não nume- radas e 114 numeradas. Erros de numeração: fl. 46 por 40, 84 por 85, 99 por g3 —. b) Lisboa, 1617, 1 volume em fólio. c) Lisboa, 1749, 1 volume em fólio. d) Coimbra, 1790, 2 volumes em 4.0 e) Lisboa, 1909-1911, 12 pequenos volumes em 8.°, na Biblio- teca de clássicos portugueses, de Melo de Azevedo e Luciano Cordeiro. Esta nova edição é a reprodução fiel da de 1 566-1567, segundo o plano estabelecido pelo falecido Dr. Joaquim Martins Teixeira de Carvalho. A parte 1 foi impressa debaixo da direcção dêle; e as outras partes debaixo da minha. O frontispício da 1/ edição tem na parte superior o título, assim para a parte 1: Chroni | ca do felicíssimo rei Dom Ema | nvel composta per Damiani de Goes, dividida em qvatro partes, | das
  • XLII quaes esta he ha primeira. Para a parte n: Segvnda | parte da chronica do fe | liçissimo rei Dom Emanvel, | composta per Damiam de | Goes. Do mesmo modo que a parte 11 para a m e a iv. Tem na parte média, dentro de um grande rectângulo de linha dupla, as armas de Portugal, sustentadas por dois anjos, um de cada lado: o da esquerda com a cruz de Cristo na cabeça, o da direita com a esfera armilar. Tem na parte inferior a aprovação do examinador, o lugar da impressão, o nome do impressor, a data, o preço e o privilégio, assim para a parte i: Foi vifta, & approuada per ho R. P. F. Emanuel da veiga examinador dos liuros. | % Em Lisboa em cafa de Françifco Correa impressor do fereniffi | mo Cardeal Infante, alios xvij Dias do mes de Iulho de i566. f Efta taxada e/ta primeira parte no regno em papel a d isentos, & cinquoenta reaes, & fora delle | segundo ha diftancia dos lugares onde fe vender, & has outras partes pelo mesmo | modo naquillo em que forem taxa- das. | % Com priuilegio Real. Tem no fundo da página a assinatura manuscrita: Damiam de Goes. Assim também nas outras partes. A página verso do frontíspicio tem o alvará para a impressão da crónica, de 29 de Março de 1566, e a licença para imprimir de Fr. Manuel da Veiga, de 4 de Julho do mesmo ano. Assim igualmente nas partes 11, 111 e iv, salvo as datas da liçença. A parte iv foi examinada e aprovada por outro examinador, Fr. Francisco Foreiro. Na última página das partes 11, 111 e iv foi reproduzida a assinatura do examinador Fr. Manuel da Veiga; e na mesma da parte 11 também se repetiu a data da impressão que vem no frontispício. Grafia. O texto tem algumas particularidades gráficas, relati- vamente ao uso de hoie, não obstante a sua grande regularidade para o tempo. A letra inicial de cada capítulo é sempre capital e enquadrada numa vinheta. Vogais. A vogal e da copulativa é quási sempre &. A vogal u é v no princípio de palavra: vsaram; quando maiúscula é
  • XLIII sempre p. As vogais nasais indicam-se ora com m e n, ora com til (muitas vezes); escreve indiferentemente -am, -ão e -ã: morreram, paffarão e vierã. Consoantes. A consoante c é muitas vezes substituída por qu: riquo, quomo, çerquada; ç é usado antes de e e i, em regra; —g é escrita por vezes gu, mesmo antes de a e o: aguoa;—/ maiúsculo é sempre I: Ioão\ — h é usado: nos artigos definidos (e pronomes pessoais) e indefinidos: ho, hum; — no verbo ser: he (é): ou para separar dígrafos vocálicos: aho, iham; — rr usam-se no meio de pa- lavra depois de vogal nasal, em que hoje se emprega r singelo: honrra, Henrrique; — s é só usado no fim de palavra, e quando inicial ou médio é f(s alto), mas maiúsculo é 5 em todos os casos; — ss no meio de palavra são, por vezes, fs: afsi; — v só se emprega no princípio de palavra, nos outros casos escreve-se u, salvo sendo maiúsculo que é sempre v: e foi, pois, indevidamente que nos títulos dos capítulos desta edição, passada a maiúscula a mi- núscula, se conservou v; e assim também sucedeu com Ses. Os nomes próprios de baptismo são escritos quási sempre com maiúscula e os apelidos com minúscula: Tristam da cunha. Tam- bém com maiúscula os nomes de lugar e de países, os étnicos e os nomes de meses, em regra: Lisboa, índia, Portugueses e Feue- reiro. Os pronomes enclíticos vão quási sempre juntos aos verbos: dijjelhe, lançarffe. A preposição de perde, de acôrdo com a pro- núncia, o e se está seguido de vocábulo que comece por vogal, e faz por isso corpo com êle. Se êste é nome que deva escrever-se com maiúscula esta passa para a partícula proclítica: baram Dal- uito, mes Dabril, mas também: Afonfo dalbuquerque. Usa os seguintes sinais tipográficos, então correntes: tf-de; £=ae (dígiafo latino); p = per;= pro; 9 = que; £ = qua. O primeiro foi desdobrado pelo editor da parte 1 em de (com e itálico). Por necessidade tipográfica alarguei êste critério aos outros sinais, com excepção de q, e escrevi sempre nas três partes restantes assim: per, pro, qwtf (isto é, respectivamente -er, -ro e -ua itálicos).
  • xuv Na parte t manteve-se^com o valor próprio e de pro, e deu-se a q o valor de q, ambos inexactamente. Ocorrem estas abrevia- turas nos seguintes passos: p) 23-i6 (i) (e não por); 25-7; 28-1 e 7; 36-28, 3o e 35; 42-11; 43-8 e 15; 46-7, 27 e 3o; 58-25 ; 61-22; 76-3; 8o-3i; 92-18; g3-16; 116-14; 117-14; 124-32; i3o-i3; 135-15 e 19; 144-30; 145-26 e 33; 147-30; 149-15, 24 c 32; i5o-3o; i52-6e9; 153-7, 37 e 40; 154-11; 160-4, 19 e 23 ; 161-34; 166-7, 12, 16 e 28; 171-18; 175-19; 182-22; i83-3o; 197-23; 198-9; 199-33; 201-21; 2o3-22; 21 5-i8; 216-8, i3 e 18; 217-3 ; 220-12 ; 222-36; 224-5 ; 226-8; 232-3. p) 70-23; «04-7; 118-35; 159-11; 168-45231-24. q) 2-6; 22-24; 24-15, 28 e 29; 25-24; 27-21 ; 36-3o; 44-33; 61-5 e 21 ; 64-2; 67-10; 70-22; 73-4e 32; 75-19; 79-26; 109-18; 112-20; 126-18; 129-3; 140-5; 141-14; 143-6 e 18; 144-28; 149-16; 166-11, 16, 3o e 33; 167-8; 168-25; 169-13; 172-13; 173-12 e 29; 192-25 e 29; 196-23; 199-15; 2o3-33; 2o5-ig; 206-10; 210-7» 212-6; 213-12; 217-13; 221-32; 230-27; 231 -31. O ç aparece uma só vez no nome do cabo da Galiza Finisterra, que inadvertidamente se imprimiu Finisterre (parte 11, 129-25). Quanto ao til de q conservei-o, não só por ter sido mantido na parte 1, mas ainda por ser familiar às pessoas lidas. Pelo mesmo motivo se manteve a forma abreviada Roí{ e Roi\. Conservou-se também o til quando indica nasalamento de vogal: cãpo, tépo, pite, cópanhia, híia. Serve igualmente às vezes para palatalizar o n: seiíor. Alarguei ainda mais o critério acima estabelecido e desdobrei outras abreviaturas como: mí\ em martíz, sctã em sácta, bpo em bispo, mia em misericórdia, gl\ em gonçaluez. Muitas vezes o texto tem duas 011 três palavras juntas, como se foram uma só; conservámo-las assim nesta edição, talvez inde- vidamente, e por isto, reconsiderando, do meio da parte in em (1) O primeiro algarismo indica a página e o segundo a linha.
  • XLV diante separei-as. Na verdade, essa junção é por vezes estranha, assim por exemplo: i, 61-3 (cortes Dalcaladehenares); 65-27 (nas mãos delreiseu pai); 11, 28-6 (abexide naçã); 100-19 (da bãdado mar); 111, 32-5 (capitão dailha). Não menos estranha é a separação, muitas vezes feita, de elementos da mesma palavra, assim: 1, 196-22 (lança das duas vigas). As notas da parte 1 são numerosas e nelas deu o seu editor os pontos principais das variantes e da crítica do Conde de Ten- túgal. As minhas são sóbrias por me faltar matéria: só dei as indispensáveis. As mutilações feitas aos capítulos xxiii e xxvii da parte m dilícilmente podiam ser mostradas no texto, por abran- gerem quási inteiramente aqueles dois capítulos; por isso os dou na íntegra em apêndice, no fim da referida parte, para confronto e apreciação, segundo o texto do Sr. Joaquim de Vasconcei.os. Acentuação. Não é sistemática, como então não era. Os sinais empregados são: — — e — que, indiferentemente, marcam vogal aberta ou fechada, tónica, em regra: á, à e â; perá e perà (pera a); ficára e ficàra; almádia e almàdia; fé, pé e fê, pê; parecéram, Deos dé; môr e mor; dó e dó, Afonfo ho quinto auó delrei; mas a par: almadia, merçe, mor, etc. Pontuação. Também não é sistemática. Só conhece os três sinais: vírgula, dois pontos e ponto. Depois dos dois pontos usa ora maiúscula, ora minúscula. Separa sempre por vírgula, como então era de uso, os membros de oração ligados pela copulativa, salvo no fim da linha. Não obstante o muito cuidado que o Dr. Teixeira de Carvalho e eu pusemos na revisão, há bastantes pequenas emendas a fazer, que registo a seguir, por se tratar de uma edição que se quis fiel. Parte 1: /. (1) de 7-3; pelo elle afsi 8-9; & aísi 15-13; tornar 18-7; todolo que 20-i3 ; hos alcaides q 25-4; hos reftituio 26-10; (1) Esta letra indica emenda que devia ter sido feita em nota e é, pois, correcção ao texto.
  • XLVI querendolhos 26-14; affeiçã 27-25; &fama 3o-2; muita prudécia 33-12; vizinhos 36-i5; laçarem 36-i8; degofto por vetutura 36-i 8; alianças 37-2; pode (?)padeçer 38-24; tinham feitas 45-15 ; George 47-25; no qual 47-28; Annadés móres 5o-13 e 17; l. Bispo 54-7; todollos 54-21; fobrilTo 5y-22; quomo algus 61-16; fcreueram 65-23; boa 69-2; /. lhe 69-27; quomo touros 71—1; Ganaqua 81 -13; tinha 86-11; muito 86-12; de veludo 86-14; te templos 88-17; Nairas 89-39; portos 92-9; Seguindo 97-1 ; boca 107-34; a cabo 108-34; de dentro 109-9; ençarrados (?) III_I7i vigairo 116-21 ; Sãcta 119-13; muita gente 134-15; home pru- dente i37"3o; /. duas naos 153-1 o; filhos 157-32; he ha força 162-40; Índia i65-2; martfz 165-9; de dinheiro 166-15; Cochim i68-3o; nauegaçam 173-19; /. porqueftas 174-31 ; dirá 175-27; Nefte 175-34; láltear 176-4; /. Arehana 177-24; no môrfegredo 177-30; píz 180-16; pfz 185-21; de Palurt 188-21; /. Mamale- marcar 195-27, /. ouuirã 198-6; nenhúa 200-32; /. na terra 202-8; Pedralurez 210-33; Pirez 218-22; ahos 218-22; lhas dou 222-22; Chiricandà 222-25; ornado de virtudes 224-2; lha 225-24; /. tornar 226-29; acharem 23o-34. Parte 11: /. começou 7-1; /. cidade 13-8; /. has naos 16-29; pera Cananor 17-25 ; /. Trimupaté 24-8 ; roupa. 28-29 ; l. feruiço 29-24; /. há hi 31-36; fazerem 51-1 o; em que mattáram 59-2; bãqueteãdoho 65-13; /. partes 81--32 ; /. galbam (?) 88-8 ; /. muita neçeffidade 88-14; nam fer 99-1; vfou 108-19; frecheiros 108-19; /. poços 109-6; dos 123-33; /. luda 125-28; Enterrados 138-23. Parte 111: /. a (=há) hi 11-27; /. lugar onde fe 22-36; AfÕfo 23-7; /. Afonfo 24-1; Dazamor 45-8; /. a (?) elRei 77-11; algua 100-16; /. Çeiça 105-27; Com efta ii3-2o; abudante 121-21; caminho. Algfls 122-17; tributários 122-32; Luis 122-36; reco- lheo 124-24; Alarues 126-26; defpojo 127-34; finos eípígardas 142-27; George 144-30; rodriguez 182-4; dataide 172-1; liiii 184-1; fortaleza 211-32; gcmçalue{ 244-20. Parte 1 v: cada dia 7-34; afsi 19-21; /. caena domini 20-6; /. embaixadores 20-9; legoas 33-25; todalas terras 5o-32; /. me-
  • XLVH moria 58-24; /. correr ha cofta 64-27; regimento 81-18; E no cap. 90-26; com ha caualgada 100-37; ftrouaffe 106-20; /. Dalaca 113-16; aftectuofaméte 118-29; afsi 130-29; suprima-se a nota, porque rebes do texto está bem 135; /. Portuguefes 135-36; /. fuas 136-19; perante i56-i8; andauam i57~3o;darã 170-17; lxxxv 2o3-i2; I. Dominus guinae 211-37. Fora dos casos referidos, as irregularidades aparentes de orto- grafia, acentuação e pontuação são do texto que serviu de ori- ginal. Também a foliação marginal não está certa uma ou outra vez, mas é de fácil emenda, salvo, todavia, nos dois casos seguin- tes:—na parte 1: 4-2, fl. 2. cl. 1 5-8, fl. 2. cl. 2."; 6-12, fl. 2 v. cl. i.*; 6-29, fl. 2 v. cl. 2."; — na parte 111: tôda a fôlha de impres- são 8, que se deve corrigir dêste modo: 57-11, fl. 3o v. cl. 1.* e assim por diante até 64-29, fl. 34 v. cl. 1 .* Registarei ainda que as duas notas da pág. 7 da parte 1 estão invertidas na sua ordem; assim como que muitas vezes, em tôdas as partes desta obra, aparecem /por/ e/por / que nos esca- param na revisão. Finalmente, dou a seguir estas observações a alguns pontos do texto que não puderam ter lugar nas notas: 1. A (maiúsculo) tem muitas vezes a pronúncia de á (aberto) e o valor de aa (dobrado): chegaram Ar fila 1, 107; correr Ar- zilla 1, 108 ;/oi aforrado Abrantes 1, 223 : isto é, chegaram a Ar fila, correr a Ar fila, foi aforrado a Abrantes. A-par: começou áppre- ceber 1, 5o; fe começou árrecear 1, 19 5 ; perá India passim ; todá noite n, 79: isto é, começou a appreceber, fe começou a arrecear, pera a índia, toda a noite. 2. Góis escreve Serife, por exemplo 11, 56, tu, 56, e fera fins por xerafins iv, 24, mas xarife ív, i5 e 106; Septa, por exemplo Chronica da tomada de Septa, de Zurara, o qual, todavia, escreve Cepta, ív, 89, ou cafa de Septa 111, 34; Side, por exemplo Side Meimão, ív, 68, mas noutras partes çide Meimão, ív, 23g e 240 VOI.. I °
  • XLVIII etc. Estas grafias, discordantes das então correntes e da própria pronúncia, foram tiradas de Lião Africano que em 1554 publicou em Roma a edição italiana da sua Descrição de Africa. Em i 556 fez-se a sua edição latina em Antuérpia, e dela, sem dúvida, se serviu Góis. De facto, nela estão assim escritos êstes nomes: Septa maxima civitas, 158 v.; Serifus v. Como se vê, Góis já tinha o prurido de emendar as formas dos nomes geográficos, como hoje tanto se faz. Também escreve A{afi, Duccala e Hea, como em Lião respectivamente 69 v., 2 v. etc. 3. Góis escreve de diferentes modos o nome que correntemente os autores e documentos da época chamam Daquela, nome étnico em árabe, que os nossos escritores converteram em designação geográfica, como para Enxovia, Hea, Xiátima, etc. Góis usou as seguintes formas: Duecala 11, 52, 111, 55, 121, 122, 164, 174c 175, mas Ducalla 11, 56, 111, 185; e ainda Duquala iv, 67, 68 e 96. Esta é que é a boa forma ou a sua variante Duquela. Duecala deve ser uma forma errada por Duccala, que é a mais usada em Góis e foi tirada de Lião Africano 2 v., 69 r., 72 v. e v. etc. 4. Xercão é emenda minha 11, 86 nota. Não pode duvidar-se dela, porque êste nome aparece a cada passo dos Anais de Arzila de Bernardo Rodrigues, por exemplo 1, págs 10, 68, 75, 168 etc. 5. Calcate iv, 238, está por Caleate, porque assim vem em Lião Africano (escrito Culeihat) 1, pág. 154 da ed. francesa de Schefer, que dá também a forma árabe em nota. 6. Mamalemarear 1, 195, Cherina tnarçar e Patemarear iv, 13o, são, evidentemente, erros tipográficos por Mamalemarear, Cherina marcar e Patemarear. A família dos Marcar representa nas lutas dos príncipes do Malabar contra nós papel importante. Barros, G. Correia e Castanheda falam muito dela. Cf. Zinadim, História dos Portugueses no Malabar, págs. 52 e 57 da minha edição. 7. Góis nas cousas de Marrocos faz bastantes vezes referên- cia a escritores árabes, fegundo ho di\em hos Scriptores Arábios, nestes termos por exemplo em 11, 52, 54 e 56. A final, Góis usa o
  • XI.IX plural pelo singular, porque se trata apenas de Lião Africano, de quem já falei como sua fonte. Cita-o explicitamente neste passo: « Ioão leão fcriptor Arábigo, homé mui docto, & de muita authoridade, q fe fez Chriftão em Roma, no tépo do Papa Leão deçimo, & compos muitos liuros em Arábigo, entre hos quaes hú que intitulou da defcripção Dafrica, & couías notaueis dela» 111, 56. 8. Iemecena ih, i 65, é, certamente, Temecena, nome da região que depois se chamou Enxovia, como se pode ver por exemplo em Albacrí, Description de l'Afrique septentrionale, p. 175 ; Edricí, Description de l'Afrique et de 1'Espagne, p. 81. 9. Góis 111, 233, coloca a Jerra do Farrouo a leste de Safim, segundo parece, mas deve ser êrro por ferra do ferro de que muitas vezes se fala a-propósito de feitos da gente de Safim. A serra do Farrobo fica a 4 léguas de Arzila e a ella faz referência Góis quando narra sucessos de Arzila. 10. No exemplar da 1/ edição desta crónica, existente na Biblioteca Nacional, de Lisboa, a parte 1 insere, a seguir à tabuada, uma tabela de « erros da impressão » que os exemplares da Universidade de Coimbra e da Academia das Sciências não têm. Vê-se que foi colada e deve ter pertencido à sua edição primitiva, porque na definitiva as emendas estão feitas como aí se manda, com esta excepção em 69-27:
  • - . '
  • CHRONI «jFqí tfilla.Sí approuada per ho R. P. F.Eroanuelda veiga examV.ador dos tiuros. ^ ^Em Lisboa emcafa de Fran^ifco correa.imprcflbr do ferenifst- mo Cardeal Infante.ahosxvijdiísdo mesdelulhode 1566. «Eílaraxadaefh primeira parte no regnoem papel a duzentos,Sc cjipquocnta reatí.fc (ora dcilo iodando h? dilVançii dos lugaresonde fe vender,fie has outras três partes pelo meloso ° modo naquillo em que (orem Com priuilegio CA DO FELICÍSSIMO REI'DOM EMA- NVEL, COMPOSTA PER DAMIAM D GOES , DIVIDIDA EM Q^VATRO PARTES, das quaes eíta he ha primeira.
  • AL VARA. V ELREi faço faber ahos que efte aluara virem, que eu ei por bê, & me praz por juftos refpeitos que me a iffo moué, que Damião de goes fidalgo de minha cafa, poffa fazer imprimir ha Chronica delrei do Emanuel meu bifauó, qne fanfta gloria haja, que elle compos de nouo per meu mãdado, de que diz que faz quatro liuros. E impreffor algú, nem outra pelfoa de qualquer calidade que feja, não poderá em meus Regnos, & fenhorios imprimir, nem mãdar imprimir, nem vender ha dita Chronica, fem confentiméto do dito Damião de goes. E ifto por tempo de dez ãnos, que começaram da feitura defte, fob pena de qual quer impreffor, ou peífoa q imprimir, ou fizer imprimir ha dita Chronica, ou ha trouxer de fora impreíTa, ou ha vender fem confentimento do dito Damião de goes, perder pera elle ha impreffam, & hos moldes, & aparelhos com q ha imprimir, & mais pagar fefienta mil reaes .f. vinte mil pera has obras pias q eu ordenar, & vinte mil pera minha camara, & hos outros vinte mil reaes pera quem ho accufar. E hos liuros que ho dito Damião de goes afsi fezer imprimir, poderá mandar vender, & ferão per elle al- sinados, & achandoíle em poder de algúa peffoa fem feu final, encorrerà nas penas açima declaradas. E tanto q cada hum dos ditos quatro liuros foré imprimidos, fe trara á mefa do defpacho dos defembargadores do paço, pera lhe poeré ho preço per que ha de fer vendido, & doutra ma- neira fe nam poderá véder. E mando a todas has Iuftiças, & offiçiaes a q efte aluara for moftrado, & ho conheçimento delle pertençer que dem has ditas penas à execução, & ho cumprão quomo fe nelle conthem. Ho qual fe imprimirá no prinçipio, ou na fim de cada hum dos ditos liuros. E ei por bem que efte alvara valha (pofto q ho effecto delle haja de durar mais de hú anno) fem embargo da ordenação do fegundo liuro titulo xx, que ho contrairo difpoem. Diogo fernandez ho fez em Lisboa a xxix de Março de M. D. Lxvj. Balthafar da cofta ho fez fcreuer. Por ha prefente teftefico que li ha primeira parte da Chronica delRei dom Emanuel, & nam achei coufa contraíra á doótrina criftã, nem fufpeita, & por tanto poderfeha imprimir. Oje quatro de Iulho de M. D. LXVI, Frei Emanuel da veiga.
  • PROLOGO NA CHRONICA DEL REI DOM EMANVEL, DIRIGIDA PER DA MIAM DE GOES A H O SERENÍSSIMO PRIN- çipe dom Henrriqve, Infante de Portugal, Cardeal do titulo dos fandos quatro Coroados, filho defte feli- çifsimo Rei. VITOS, & graues authores nos prinçipios de fuas Chronicas trabalaram1 em louuar ha hifloria, da qual tudo ho que dixeram foi fempre muito menosdo que fe deuia dizer, porque afsi quomo ella he infinita, afsi feus louuores nam tem fim, nem termo a que fe podam reduzir, & pois tudo ho trattado nefta parte, he quafi nada em comparaçam do que deue fer, Voltarei daqui ha vela, pera poer ha proa nefta: na qual por çerto não oufara, nem deuera de tocar, fe me nam fora mandado per. V. A. por fer de qualidade, que depois dalgúas peífoas ha terem começada, elRei dom loam voífo irmão, que fan&a gloria haja, lhes mandou tomar ho que já tinham fcripto, pera fe acabar per outros, de cujas habilidades tinha mòr opinião, em mãos dos quaes ficou atte feu faleçimento. E confyderando. V. A. que pois eftas pefloas, de que fe tanto fperaua, nam tinham feito em tempo de trinta, & fette annos, que há que elRei dom Emanuel voffo pai faleçeo, coufa que refpondeffe aho mereçimento de tal negocio, fem fe lembrar de quão fraco eu deuo fer pera hum tamanho pefo, me mandou nefte anno do Senhor de M. d. lviii, que daquillo em que muitos, quomo em coufa defefperada, fe nam arreueram2 poer ha mão, tomaffe eu ho cuidado, ho que fiz com mór oufadia do que a meu fraco juizo conuinha, mouido com tudo por fós dous refpeitos, ho hum por eu fer fedura do dito fenhor Rei voffo pai, criado em fua cafa, & em feu feruiço, defde idade de 1 Et.l.: trabalharam. 2 Et. I: atreueram. VOL. i i
  • 2 — noue annos, ho outro por me pareçer que fe nam mouera. V. A. a me mandar coufa em que confiítiam, todolos feitos, & louuores defte feliçif- simo Rei, & daquelles que ho feruiram na guerra, & na paz, fenam por confiar de ml ho mais fubstançial que no fcreuer das Chronicas fe requere, que hé com verdade dar a cada hú ho louuor, ou reprehenfam quemereçe. •fi. i. Pelas quaes razões matreui* a tomar efte trabalho, ho ql tal qual he me pareçeo que não deuia, nê / era bê que dedicafle fenam a. V. A. quomo a prinçipal author de ha / fama, & gloria dei Rei feu pai fairem luz, & nam pereçer / ha lembrança das coufas notaueis que acon- / teçe- • fi. i. r.® ram ahos Portuguefes per / todo ho difcurfo de feu Regnado. /*
  • CHRONICA DO FELICÍSSIMO J Rei dom Emanuel da gloriofa memoria, ha qual por mã- DADO DO SERENÍSSIMO PRÍNCIPE HO INFANTE DOM HENRRIQVE, SEV FILHO, CARDEAL de Portugal, do titulo dos íandos quatro Coroados, damiam de goes collegio, & compos de nouo. CAPITVLO PRIMEIRO. Em que fe tratta do falecimento delRei dom Ioão, E declaram algfias claufulas de feu tef amento. L Rei do Ioão fegundo do nome, & dos Reis de Por- tugal ho trezeno, faleçeo na villa Daluor, no Regno do Algarue, hum Domingo átarde xxv dias do mes Do&ubro, do ãno do Senhor de m.cccc.xcv, em idade de quarenta annos, & de feu regnado quatorze *. E porq antes de feu faleçimento hauia vários pare- çeres, & opiniões de a quem deixaria ha fuçeffam do Regno, fe a dom Emanuel Duque de Beja, feu primo com irmão, fe a dom George feu filho baltardo, me pareçeo neçelfario declarar 1 Na edição primitiva Iia-se: de seu regnado qtorze. Sua morte nam foi sem nella haver suspeita de lhe terem dado peçonha. E porque antes... As palavras sublinhadas foram omitidas na edição definitiva em virtude da censura do Conde de Tentúgal que qualificara a ideia da morte de D. João II por envenenamento de opinyão tão fallça e inhoramte que puderya ter algua gemte baxa da morte deli Rey Dom Ioão, por que a alta numea tal cujdou, nem a cousa autentica que tal digua, t que a overa, não comvem pôr se em chronyca doutro Rey, pois não cerve se não de o desomrar, e aliem do erro de o pôr em luguar tão impróprio, liee rnuyto mayor fallar em materya tão prejudicial por tão fraca presumção, e maes que não faç nenhiia cousa ao preposito da obra, amtes desfaç muito nella. Damião de Goes não fez a emenda apesar da observação do Cavalhero da Caça ' do Cadaval, e entendeu que se não deveria referir a este ponto nas Desculpas do Chronysta, motivo por que aquele voltou à carga na Reposta das emendas da Chronyca: Cujdey que bastase quão largo sobre isto esprevy em meus apomtamentos, em que creo
  • loguo aqui no começo deita Chronica algúas claufulas do que ordenou em feu teílamento, xxvj dias » antes que faleçefle, pêra que fe faiba quão bem difpos 1 de todalas coufas que a fua alma, & confçiençia conui- nham. que deçia que me não mostrarya lio autor espritura autentica em que tal disese, nem pessoa de auturydade, e pois alegua tãotas veçes eom Ruy de Pina, veja o que dij sobre isso, que foy muj pouco, e logo declara que foy Jalça tal sospeyta, e isto creo que foy em Castelo Bramco, mujtos annos amies do falesimento dei Rey. E jaa creo que dise nos meus apomtamentos que não convém a nenhuu chronysta esprever sospeitas e maes tão ymçerlas e prejudyciaes, e esta he tamto que não sey eu nenhúa nesta chronyca que o seja maes, por que do que prejumyr ha gemte de pessoas tão prymcipaes o que numca lhe pode pasar pelo penssamento, e por iso peço pelo amor de Deus que se emmende por que se asim não fiçer, fycaraa toda a obra fea. Damião de Góis fez a emenda e a referência ao envenenamanto de D. João II desapareceu da chronica. 0 sr. Anselmo Braamcamp Freire esclareceu magistralmente este debatido ponto histórico: D. João II morreu envenenado. Cfr. Edgar Prestage — Critica contemporânea da Chronica de D. Manuel in Arch. Histórico, vol. ix, pagg. 35o, A. Braamcamp Freire, Critica e Historia, vol. i, pagg. 221 a ^38. 1 Damião de Goes escrevera primitivamente: seu f.i.ho bastardo, pera se saber ho q antes que falceesse xxvj dias, em seu testamento ordenou, assi açerqua disto, quomo doutras cousas, q por descargo de sua alma mãdoufajer, mepareçeo necessário declarar loguo no começo desia"chronica has clausulas mais substaciaes do testamento pera que se saiba quam bem despos. O conde de Tentúgal, a quem a publicação das clausulas do testamento de D. João II não agradava, criticara o cronista: «Põem maes no prymeyro capitolo, certas clausullas do testamento deli Rey Dom João que nenhúa cousa fajem ao preposyto da Chronyca, senão ao seu, que hee diçcr poucos bens deli Rey Dom Manoel e mujtos malles de todos os da Casa de Braguamça e imcubrir lhe seus gramdisimos çervjços e merecimentos, mas mujtas vertudes e bomdades, como em seus luguares apomtarey. E pera saberem camanha vertude hee esta, oulhem toda a Chronyca e verão se achão nela cousa pera que lio testamento dei Rey Dom João seja necesaryo pera ela, domde se imjire que hee soo pera o efeito do que asima digo. E vejão mais de que servja esprever as missas que deixou por sua alma, e em que moeda se paguavão e o que ela valia, que aymda pera sua Chronica parecia desneçessarya particularidade, quamto maes pera alhea, e asym os maes capitólios delle no mesmo prymeyro capitolo». Damião de Goes respondeu, defendendo-se: «Quamto ao testamento dei Rey Dom João; pus dele na chronyca as clausulas sustamciaes, e se fijcra o que fajem os caronystas Castelhanos, puçera todo, dos quaes alguus no esprever de suas chronicas tem milhor modo e ordem que os Portugueses, e aliem disto, eu não pudia fumdar ho aliçerse desta chronyca sem declarar per que modo El Rey Dom Manoel sosedeo no reynno». O Conde de Tentúgal replicou: «E quamto ao que Djmião de Guoes dij do testamento de El Rey Dom João, verdadeyramente que parece maes conlumaasya que
  • Primeiramente encomédando fua alma a deos, ordenou que ho fepul- tartem, no Morteiro de fanóta maria da viétoria da ordem de fam Do- mingos, no luguar que milhor pareçelle a dõ Emanuel duque de Beja feu primo, que elle declarou per feu teftamenteiro, & pera ho ajudaré, & aconlelharem no que niffo lhe neçelTario foffe, nomeou dom Diogo or- tiz Bifpo de Tanger, & ho doótor Fernão rodriguez Daião da Sé de Coimbra & frei Ioão da pouoa feu confeflor, & dom Diogo fernandez dalmeida Prior do Crato, & dom Aluaro de Caftro* feu* veador da fazenda, & Antão de faria feu camareiro, & do feu conlelho, & Pero Dalcaçoua feu fcriuam da fazêda, pera efcreuer tudo ho q neceflario forte, aho q no teftaméto deixaua ordenado. ^ Item. Mandou aho dicto dom Emanuel leu teftaméteiro que has cou- fas que tocauam aho defcarguo de fua alma cõpriífe inteiramente, & que quanto ás outras fezeífe nellas aquillo que lhe pareçeffe bem, & por bem tlueífe3. desculpa, como direy maes largo na reposta das emmendas que quer ja\er a chronyca, porque he forsado pollo laa; o não digo aquy per não ser duas veqes». E mais tarde, na reposta das emendas, tratando, como permetera, mais largo o assunto, escreveu o Conde : «O testamento aymda me afyrmo que he tam fraco aliçerse pera a obra que hajuda a dar com ela no chão, e soo bastaraa diçer que nele deixou El Rey Dom João a El Rey Dom Manoel por seu erdeyro. Folguarya de saher de que serve nomear pera obra os testamenleyros, nem as missas que El Rey Dom João mandou dijer por sua alma, nem a esmola que se dava por elas, e mujto menos em que moeda. De que çerve pera chronyca dei Rey Dom Manoel diçer as orfaas que mandou casar el Rey Dom João, e que feç ao preposyio mandar que se acabasse o Esprital de Lisboa, e mujto menos que se lornase a prata que El Rey D. Afomso tomara as igrejas, nem menos que se paguassem as temsas separadas e trespasadas, e mujto menos o que deixou El Rey Dom João ao Mestre de Samtiago. E de que serve tãobem pera chronica del Rey Dom Manoel, que se ele morrese sem filhos, que erdase o reynno o Mestre de Samtiago, e mujto menos que o casase com húa filha sua. Querya tãobem saber de que syrvja pera a obra dei Rey Dom Manoel diçer-lhe no testamento que não recolhese em seu reynno os tredores e desleaes, e de que serve tal aliçerse pera os louvores dei Rey Dom Manoel. Allguns emtemdem, e eu sou hum deles, que tudo ho conteúdo no que espreveo no testamento, visto como não faç nenhiia cousa ao preposyto pera a obra que façia, que não pos senão pera louvor a El Rey Dom João, e parece que bastava o seu caronysta pera yso. Por amor de Deos se escuse tãta leitura, pois estaa claro que não serve de nada». Damião de Góis manteve o texto primitivo, aparte a ligeira transformação que acabamos de indicar. Cfr. Edgar Prestage — Op. ext., pag. 55o, 364-365, 369, 374. 1 Ep.: «e ho doutor Ferná rodriguez Daião de Coimbra...» * Ep.: «e dom Alvaro de Crasto... » 3 Et. I.: tiuefle.
  • Item. Que por fua alma, loguo quomo faleçeife, mandafsc dizer tres mil Miffas, pera q deixou tres mil reaes de prata de lei de onze dinheiros, de que cento, & dezafette fazem hum marco, hos qes reaes fam hos vintes de prata, q aguora correm neítes Regnos, que vai cada hú, vinte reaes, de feis çeptis de cobre, fem liga, cada real, a que chamam reaes brancos. Item. Que a quarenta, & húa orphãs deffe a cada húa pera ajuda de fe cafare vinte juítos douro, & pera tirarem quarenta, & hum captiuos Portuguefes pobres, outros vinte juítos pera cada hum, de trinta, & oito peças no marco, de lei de vinte, & dous quilates, que valia naqlle tempo feisçentos reaes, que faziam doze mil reaes braços, * que hera ha taxa, & preço ordinário que fe entam daua por cada captiuo pobre Português. Item. Mandou que fe acabaífe ho Sprital de Lisboa da inuocaçam de todolos Sanftos, na maneira q era começado, encomendandolhe q ho gouerno, ordem, & regimento delle foUe ho que fe tinha entam no Sprital de Florença, & que todolos fpritaes de Lisboa fe couer- teífem a efte com todas fuas rendas, propriedades, & coufas, do modo q lho ho fantto Padre tinha outorguado per Bulla Apoftolica que diífo tinha, & que tanto que ho ditto Sprital foífe acabado, mandaua que fe tiraíTem cadanno dous captiuos pobres Portuguefes, que feruiffem no ditto Sprital ahos offiçios diuinos, por tempo de hum anno, & no luguar deites entraifem hos q fe tiraílem trás elles, & afsi pera fempre fucçefsiuamenie 4. Item. Mandou que fe paguaífe ametade da prata que el Rei dom Afonfo feu pai tomara das Egrejas peras guerras de Caítella, porque ha outra metade dera ho Papa aho ditto Rei dõ Afonfo, & afsi ho que faltaua por paguar do dinheiro que fe tomou dos orphãos perà mefma guerra, & também do dinheiro empreitado, E q*'perá pagua deitas diuidas delRei feu pai, & pera has fuas fe apartaifem quatro milhões de reaes de renda cadanno, atte tudo fer paguo. Item. Mandou que has tenças feparadas, & trefpalfadas paguaífe ho mais çedo q podeife, porque nam has paguando fe poderia feguir diífo algú dano ás confçiençias daquelles que has reçebem. f Ité. Que em tudo ho q achaífe elle nam ter fatisfeito, afsi em paguar diuidas, & feruiços, quomo em quaes quer outras coufas lhencomédaua que ho fatisfizeife. Item. Que inítituia, & declaraua por herdeiro de todos feus Regnos, 1 Et. I.; fucçefsiuamente.
  • & fenhorios aho difto dom Emanuel Duque de Beja feu prezado, & amado primo, nam lhe dando Deos filho, ou filha legitima, ou faleçendo dentro do tempo de hú ãno da feitura d feu teílamêto. Item. Que a dom George J feu filho deixaua de juro, & herdade pêra todo fempre, pera elle, & pera todos feus defçédétes per linha direita, ou tranfuerfal, da maneira que ho elRei dõ Ioão feu bif auo dera aho Infante do Pedro feu auo, ha fua çidade d Coimbra, • fi. 3.*»i. i.« em ducado, & ha vilela de Monte mòr ho velho cÕ todo feu fenhorio, & Penela cõ todo feu termo, & outros bés da coroa, contheudos no meímo teítamento, q aqui nã ponho, por todos eflaré por extéfo nas doações q lhe elRei dõ Emanuel delles fez, & de todolos bés q deixou a dõ George, referuou ho dicto Rei dõ Ioão has fifas perá coroa, declarado que era direito q fomente pertençia aho Rei, & nam a outra pefToa, do q fe manifeftamente ve fer muito cõtrairo â verdade, ho q algús dizem que elRei dõ Ioão fez hú codeçilho em q pedio a elRei dõ Emanuel, que foltaffe has fifas por fer direito mal leuado, mas efte codeçilho eu ho nã pude nunca achar, nem pelfoa que me delle foubeífe dar rrecado, nem Pero dalcaçoua carneiro, fecretairo que agora he delRei dõ Sebastiam noffo fenhor, & do feu cõfelho, & ho foi também delRei dom Ioão terçeiro2, em cujo poder liam todalas lembranças, & teílamentos dos Reis defies Regnos, delRei dõ Duarte pera qua, me foube dar rezã de tal codeçilho mas antes me dixe que nunqua fe fezera, & que afsi ho ouuira dizer a leu pai Antonio carneiro Secretareo que fora delRei dom Emanuel. E quomo ifto que aqui digo feja ha verdade, se • fi. 3. ci. 3.» confirmara aho diante* nos capítulos das cortes q elRei dom Emanuel fez em Lisboa no anno de m.ccccc.viic. Ité. Que nam hauendo ho di&o dom Emanuel Duque de Beja filhos ligitimos, q em tal cafo feu filho dõ George fucçedeífe per feu faleçiméto no Regno. ^ Ité. Que hauendo ho diélo Duq algúa filha, ou filhas lhe rogaua muito que cafaffe húa delias com ho diéto dom George feu filho, & lhe deffe aquelle dote que era cuílume darfe ás femelhantes peífoas. Item. Lhe encomédaua ho trattámento da exçelente fenhora fua prima, dona Ioanna, Rainha q fora dos Regnos de Caítella, Aragam & Portugal, & fofle mãtida é feu eílado, do modo q ho fempre fora é quãto elle viueo. 1 Ep.: «e ho foi também delRei dõ João terçeiro, filho de Antonio Carneiro secretario q foi delRev dom Emanuel em cujo poder ficarão todalas lembrãças...». Et. L: George.
  • 8 Item. Que lhe encomendaua, & mandaua per juftos refpeitos que todos aquelles que cotra elle forão tredores, & defleaes, q andauã fora defies Regnos, nem a elles, nê a feus filhos recolhefle nelles, & q encomendaua a todolos do feu confelho, & do dióto Duq feu primo, q fempre lhe lembraflem que diuia ifto muito fazer. •F1.3.V.C. i.« ^ jq0 qual teftaméto foi feito nas alcaçouas por frei Ioão da pouoa* leu confeflor, & fobfcripto, & aflinado per ho mefmo Rei, ahos xxix dias do mes de Septébro do anno do nafciméto do Senhor, de m.cccc.xcv, de q aqui pus fóméte ho que conuem á nofia Hiftorea. Na hora q elRei faleçeo hos fenhores, & pefioas prinçipaes que ahi erã prefentes, cujos nomes em fua Chronica fam declarados, abriram ho teftamento, & ho fezerã ler per Rui de pinna Chronifta, & ho mandaram logo per tres do confelho a dom Emanuel Duque de Beja, ho qual já sabia da fuçeflam do Regno, por lho elRei ter mandado dizer 1 antes q morrefie, per Aires da fylua feu camareiro mór, & per dõ Aluaro de Caftro2. Hos fenhores, & fidalguos q fe achara em Aluor acõpanharam ho corpo delRei atte a cidade de Sylues, onde ho enterraram na Sé, jpelo elle íi ter mãdado, & ali jouue atte3 que ho trefladaram pera ho Morteiro da batalha, quomo fe aho diante dira. Cap. ii. De quomo dom Emanvel foi alevantado, & jurado por Rei, & do q logo fcreueo ahos ejlados do regno, E outras coufas q ordenou. HO tempo qve elRei dom Ioão faleçeo eftaua ha rainha dona Leanor fua molher em Alcaçer do fal, & dom Emanuel du*que de Beja leu irmão com ella, ha qual Senhora foi caufa vnica delle ficar nomeado na fuçeflam defies Regnos, porque ha vontade, & delejo delrei dom Ioão foi fempre de deixar ho Regno a dõ George feu filho bafiardo, & viuêdo houue entrelle, & ha Rainha fobre efte negoçio muitos defgoftos, com tudo quomo elRei era homem fugeito a toda boa razam, tomou neíta parte fecretamente ho pareçer de peffoas pru- 1 Ep.: i «Duq de Beja, aquém deixava ha sucessam do Regno, ho que elle já sabia, por lho elRey ter mãdado dizer 2 Ep.: «e per dõ Alvaro de Crasto...». ' Ep.: «onde jouue atte...».
  • — 9 — dentes, & de boa vida, per confelho dos quaes declarou é feu teíla- mento por herdeiro dom Emanuel. Com eltas nouas da fucçeífam chegaram hos que leuauam ho teílaméto a Alcaçer do fal fegunda feira, & logo á terça ho aleuantaram, & juraram por Rei, ha Rainha, & hos prelados, fenhores, & fidalguos que fe alli acharam, fendo em idade de vintafeis annos, & ho mefmo fe fez per todo ho regno. Feitos eftes autos & çerimonias em Alcaçer do fal, loguo el Rei fcreueo a todallas çidades, & villas que vfaflem feus bÕs foros, & cuftumes, quomo ho atte li acuílumaram fazer, em quãto elle nam ordenaífe fobriíTo outra coufa, & ha mefma ordem mandou que fe tiueífe nos negoçios de fua fazenda, & pellas mefmas cartas que fcreueo às çidades, & villas lhes mandou que enuiafsé feus procuradores a çerto tempo limitado, a Monte mòr ho nouo, pera alli fazer cortes, &* ho mefmo fcreueo ahos prelados, fenhores, & alcaides mòres, ho que todos afsi fezerã, & quomo bõs, & leaes vaífallos lhe vieram dar fuas menagés, fegundo ho bom vfo, & antiguo cuftume defies Regnos. Capitu, iii. Em que fummariamente se declara quomo ha fucçeffam dejles Regnos nam pertencia, direitamente, per falecimento delrei dom Ioão, fenam a elrei dõ Emanuel. PAREÇE neçeffario dizerfe neíle luguar quam direitamente ha herança defres 1 Regnos perteçia a elRei dom Emanvel, faleçendo elrei dõ Ioão fem filhos nafçidos de legitimo matrimonio, & pera declaraçam deíle negoçio, he de faber, que elRei dom Ioão primeiro deite nome foi cafado com dona Philippa, filha do Duque Iam delancaílre, irmão delRei dom Duarte de Inglaterra, fexto do nome, & delia houue elRei dõ Ioão ho Prinçípe1 dom Afonfo q morreo moço, & hos Infantes '. 4- dom Duarte, dom Pedro, dom Henr*rique, dom Ioão, dom Fernando, & ha Infanta dõna Ifabel que cafou com ho Duque Philippe de Bor- gonha, dalcunha ho bõ. Per morte delRei dom Ioão veo ha herança do Regno aho Prinçipe dõ Duarte feu filho mais velho. Eíle Rei dom Duarte foi cafado com dõna Leanor filha delrei dõ Fernando Daragam, primeiro do nome, & delia houue ho Prinçipe dom Afonfo & ho Infante dom Fernando, que foi jurado por Prinçipe defies Regnos, quãdo ho Prinçipe dom Afonfo feu irmão mais velho foi jurado por Rei, 1 Et. deftes. * Et. I.: Prinçipe. í
  • — IO — ho qual Rei dom Âfonfo caiou com dona Ifabel filha do Infante dom Pedro feu tio, & delia houue ha Infanta dona Ioãna que morreo freira no Mofteiro de Iesv Daueiro, & elRei dom Ioão fegundo deite nome, pai do Prinçipe dom Afonfo, que faleceram ambos pai, & filho lem deixarem filhos, nem filhas de ligitimo matrimonio. Ho Infante dom Fernando de que arriba dixe, irmão delRei dom Afonfo, cafou com dona Beatriz fua prima com irmã, filha do Infante dom Ioão feu tio, & delia houue dõna Leanor molher que foi delRei dom Ioam ho fegundo deite nome, feu primo com irmão, & dõna Ilabel que cafou com ho Duque de Braguança, dom Fernando, fegundo do nome, & donna Catherina que •Fi. (. v.»ci. i." taleçeo moca, & dom loam que depois de fucçeder no* eltado do Infante dom Fernando feu pai faleçeo fem caiar & dom Dioguo que fucçedeo aho dido dom Ioão, & houue mais do Duarte, & dó Dinis, & dom Simão q todos faleçerão moços, & houue do Emanuel q naiçeo derradeiro de todos, Rei feliçifsimo q foi defies regnos, cuja vida, & acõteçimétos (fe a Deos apraz) trattarei nefta fua Chronica. De maneira q el Rei dom Emanuel, filho do Infante dõ Fernando, era neto delRei dÕ Duarte, & bifneto delRei dom Ioão primeiro, & fobrinho delrei dom Afonfo quinto, & primo cõ irmão delrei dom Ioão íegundo, a quem iucçedeo, per rezã da qual progenia elle era direito, & ligitimo herdeiro delRei dom Ioão, faleçédo fem filhos de ligitimo matrimonio, quomo faleçeo, & pois tenho dióto de fua real progenia, & direita fucçeflam neftes Regnos aquillo q abafta pera fe faber quão licitamente era efta herãça fua, me pareçe q he rezão q no capitulo feguinte tratte algúas parti- cularidades do difcurío de fua vida, defno tempo q nafçeo, atte que per graça de Deos foi jurado, & obedeçido por Rei deites Regnos. Capitulo, iiii. Do tempo em que eivei dom Emanuel nafçeo, • Fi. v. cl. j.' & do milagre que Deos entam por elle fe\.* EL Rei dom emanvel da gloriofa memoria naçeo na \ illa Dalcouchete em Riba tejo, húa quinta feira derradeiro dia de Maio, do anno do Senhor de mil, & quatro çentos, & feffenta, & noue annos,^dia em que entam caiho ha folemne feita do corpo de Deos. E pareçe q houue em feu nafçimento myfterio1, porque hauia já algús dias que ha Infante dõna Beatriz fua ma! andaua cõ dores, fem poder parir, & quis nolfo Senhor alumeala em ho fando Sacramento, cheguando á porta das fuas 1 Ep: «Seu nasçimento nam careçeo de mysterio...».
  • cafas, per onde paffaua ha proçiffam, & por ho dia em que nafçeo fer da inuocação do venerabile Sacraméto, lhe poíeram nome Emanvel, ho qual nome he hum dos grandes do fenhor Deos, cujo 1 fefta fe çelebraua naqlle dia, é q lhe aprouue dar efte Prinçipe á vida deite mundo pera feu fando nome fer tam exalçado, & glorificado quomo aho prefente he per todo ho vniuerfo, onde per meo, induítria & defpefa defte magnânimo Rei ha nação Portuguefa per armas, ou per amor pode penetrar. Nem por çerto foi fem caufa premitir Deos que vieffe ha herança deites Regnos a eíte feliçifsimo Rei per* faleçimento de oito peífoas, que ligitimamente ho herdauao fe viuerão, cujos nomes atras dixe, fe não pera per fua mão, quomo per inítrumento a elle acepto obrar has coufas que em todo ho tempo de feu regnado aconteçeram, do q no difcurfo delta lua Chronica, trabalharei de dar ho mais verdadeiro teítimunho que poder. Capit. v. Da criação que elRei Dom Emanvel íeue atte ha idade em que lhe elRei dom loam deu ha fortunada deuifa da Sphera, & affent amento pera fujlêtar fua cafa HA ama que criou elrei dom Emanuel fe chamaua Iulta rodriguez, & teue dous filhos homés de grã eítima neítes regnos, hú era dõ Ioão Emanuel, camareiro mór que foi do mefmo Rei dom Emanuel, & ho outro dom Nuno Emanuel feu guarda mór. & almotaçe mór da fua corte, hos quaes filhos houue de dom Ioão Bifpo da Guarda, homem que por fua boa doòtrina, & geraçam valeo muito neítes Regnos4, mas des no tempo 1 Et. /.: cuja. 2 Na Ep.: Damião de Goes escrevera:... bispo da guarda, cuja amiga fora, mas des NO TEMPO... O conde de Tentúgal estranhou estes propósitos que poderiam turvar a pureza do leite que D. Manoel bebera e na Critica ponderou : No capitólio quimto poderá o autor muj bem escusar particularydades da ama dEl Rey Dom Manoel, e maes cemdo materya que se não poem em chronyca, e cala outras ao diamte muj impor- tamtes e necesaryas ás omras dos orne ens, como em seu lugar dyrey. Nas Desculpas do Chronysta, Damião de Goes, pouco disposto a fazer a emenda, replicou: Quanto ao de Justa Rodrigueq, eu fuy sempre mujto çervjdor dos que dela deçemdem, e ho que puq dela hos faj a eles tão omrados que não devem daver imveja aos Emanoes de Castela, porque se estes vem de Reis, estoutros vem de Santos, e eu querya segumdo a minha arte ser amtes Samto que Rey ; nem sey Raynha Christam que não quigese trocar seu estado pelo da Madanela, posto que no começo de sua vida fose pecadora, quamto maes que o que eu digo desta Justa Rodrigueq por tam onestas palauras diq o que fej o livro novo da linhagem maes desembusado do que eu falo. O cavalhero da Casa do Cadaval não se deu por satisfeito e insistiu na Resposta
  • 12 — •Fi. 5.ci. ».* que começou a criar a elRei dom* Emanuel, ella fe retirou a tarn honefto modo de viuer, que a todo genero de molheres daua exemplo de virtude, & acabou feus dias fandamente no habito de fam Francjsco da obfer- uançia, no Morteiro de freiras de Iesv de Setuual, que ella fez à fua propria curta, & fundou de nouo, onde jaz fepultada. Efte breue corol- lario pus aqui de fua vida, pera que has molheres que andam metidas nas vaidades, & deliçias defte mundo, trabalhem pola imitarem, & aca- barem no feruiço de Deos quomo ella fez, ha qual foi a Caftella com dom Emanuel, por fer ainda de idade que requeria criaçã de ama, quãdo ho la mãdaram em luguar de feu irmão dom Diogo duque de Vifeu, & com elle tornou a Portugal, quando ho dido Duque dom Diogo, depois de conualeçer da doença que lhe eftoruou fua ida, foi fazer refi- dençia em Caftella per cafo das terçarias do Prinçipe dom Afonfo, & da Prinçefa dona Ifabel, das quaes terçarias, & da caufa porque fe ordenaram, & desfezeram fe tratta copiofamente na Chronica delRei dom Afonfo. Pello que tenho por excufado fallar aqui nellas, por fer fora de feu lugar. Nefta primeira ida de Caftella foi Diogo da fylua de menefes, por feu aio, & depois de dom Emanuel tornar de Caftella, foi là enuiado •fi. 5. t ci. i.« outra vez no anno do Se*nhor de mil, & quatro çentos, & oitenta, & tres, pera andar na Corte dos Reis, atte ho tempo em que fe hauiam de fazer hos cafamentos do Prinçipe dom Afonfo, & da Prinçefa dona Ifabel, fegundo forma dos contrattos, mas chegado a Freixinal, primeiro luguar de Caftella, fe tornou, por fe has terçarias desfazerem. Pera efta viagem lhe acreçentou elRei dom Ioão feu aífentamento, & deu cafa bem orde- nada, afsi de baixellas, tapeçarias, quomo de ornamentos de fua capella, cantores, e miniftreis, & pera feu feruiço ordenou que foliem com elle muitos fidalgos dos prinçipaes de fua cafa, & muitos moradores delia, & por feu aio ho mefmo Diogo da fylua. Nefte tepo do Emanuel nam era cafado, nem tinha tomado diuifa fegúdo coftume dos Prinçipes, pelo que • el rei dom Ioão lhe deu por diuifa ha figura da Sphera, perque hos ha que Damyão de Guoes deu aos meus apontamentos:... quamto ao que diq de Justa Rodriguef, decemdemles tem mujto homrados que acudyrão por ela do que dij dela, a qual não era aymda samta quando a tomarão pera ama de El Rey Dom Manoel; e aymda emtemdo, e asym ho emtemderey sempre, que de nenhiia cousa syrvia pera sua chronyca dijer ho que dyse dela, e eu query a ser amtes samto que desemder delles, e por iso não comcrue nenhua cousa o que dij da Madanela. Damião de Goes fez a emenda, retirando a referência à mancebia da ama dei Rei com o bispo da Guarda, acrescentando compensadoramente em louvor do Bispo que fora homem que por sua boa doctrina, & geraçam valeo muito nestes Regnos. Cf. E. Prestage, op. cif., pag. 351, 365 369.
  • Mathematicós reprefentã ha forma de toda ha machina do çeo, & terra, com todolos outros elementos, coufa defpantar, & que pareçe q não careçeo de myfterio prophetico, porque afsi quomo eftaua ordenado per Deos que elle houueffe de fer herdeiro delRei dom Ioão, afsi quis q ho mefmo Rei a quê hauia de fucçeder, lhe deffe húa tal diuifa, per cuja figura fe demonftrafíe ha étregua, & çeífam q lhe já fazia, pera quomo •fi. 5. v.® d.a.* feu herdeiro profeguir depo*is de fua morte, na verdadeira aução q tinha na conquifta, & domínio de Afia, & Africa, quomo fez cÕ muito louuor feu, & honrra defies Regnos. Cap. vi. Da cafa, & ejlado qve dom Emanvel teue depois da morte do Duq de Vifeu dom Dioguo feu irmão, atte que per vontade de Deos foi Rei dejles regnos, EPOIS de dom Emanuel fer no Regno, elRei dom Ioã lhe acabou de dar fua cafa ordenada, quomo a tal pefloa couinha, atte que focçedeo no eftado do Duq de Vifeu, dom Dioguo feu irmão, que elRei dom loão mattou em Setuual, por erros que contra elle tinha cometido, quomo fe em fua Chronica contem, ho qual no mefmo dia que efte trifte cafo aconteçeo elle mandou chamar, & lhe fez merce, & doaçam de todolos bes do Duque feu irmão, referuando Serpa, & Moura, & algúas outras coufas, das quaes lhe dixe que lhe faria fatisfação quomo fez. Ifto foi a hú fabbado, xx dias do mes Daguofto de mil, & quatro çentos, & oitenta, & quatro annos, & por elRei efqueçer ha lembrança, & fcandalo que * fi. 6. ci. i.* naquelle tépo podia, & deuia ter aho titulo de duque de Vifeu, põ#do a parte ho odio, & defguofto, que do Dlique feu irmão tinha, & lhe a elle dom Emanuel per effe refpeito1 podia também ter, lhe mudou ho mefmo titulo em duque de Beja, & lhe fez merçe com efte titulo de fenhor de Vifeu, Couilham, Villauiçofa, & gouernador do Meftrado da ordem de noffo fenhor Iefu Chrifto, & de Condeftabre defies Regnos, & fronteiro mór dantre Tejo, & Odiana: alem do q lhe deu tantos bés da Coroa, quomo fe moftra pelas doações que andam regiftadas na Torre do tombo, de que tinha naquelle tempo, vinta fette contos, quinhentos, & nouenta, & hum mil reaes de renda cadãno, & mais lhe fez merçe, que faleçendo fem filhos, de lhe confirmar todallas merçes que tiueffe feitas, & de lhe tomar todos feus criados no foro em que andaffem em feus liuros, com cafamento, das quaes rendas quomo eu achei por lembrança em hum 1 Ep.: «dom Emanuel por este respecto...»
  • liuro de registos da fazenda do difto Duque dom Emanuel, elle defpendia cadanno vinta tres contos, & quinhentos mil reaes, de que hos treze contos eram em affentamentos, & tenças que daua, afsi à Infanta dona Beatriz íua maim, & outras pefloas que com elle nam viuiam, quomo ahos moradores de lua cafa, & dez contos, quinhentos mil reaes que defpendia, em orde- nados, merçes, moradias, ordinárias guarda* roupa, veftiarias, compras, elmolas, cafamétos, & obras, & do que fobejaua deitas rendas paguaua cadanno parte das diuidas, feruiços, & obriguações que ficaram do Infante dom Henrrique, cujo neto adoptiuo era, & alsi has do Infante do Fernando leu pai, & do Duque dõ Diogo feu irmão. Has quaes elle quomo bom, & chriítianifsimo Principe por defcarguo de fuas almas pagou todas, & com eltas tenças, & ordenados que daua, & merces que fazia, afsi ahos de fua cafa, quomo ahos moradores da delRei, era mui quiíto, & amado, & fobre todos delRei dom Ioão, que pellas partes, & habilidades que nelle via, ho criar a par de fim, na fua corte, & cafa juntamente comho Prin- çipe dom Afonfo leu filhp, atte ho anno de mil, & quatro çêtos, & no- uenta, em que ho Prinçipe cafou, porque entam tomou ho Duque fua cafa apartada da delRei, & do Prinçipe, ha qual atte que foi Rei fempre teue mui honrrada, & acompanhada da mór parte da nobreza deites Regnos.' 1 Damião de Goes escrevera primitivamente (Ep.) mais longamente: «e habilidades que nelle via, e conheçia, aliem de ho criar apar de sim na sua corte, e casa juntaméte com ho Prinçipe dom Afonso seu filho, ho meteo no conselho antes de ter idade pera isso, e neste estado, c modo de vida ho criou atte ho ano de mil e quatrocentos e noventa, em que o prinçipe dom Afonso casou, por que entam tomou o Duque sua casa apartada da dei Rei, e do Prinçipe, ha qual atte que foi Rei sempre teve mui chea, e acompanhada da mór parte da nobreça destes Regnos, pello f e polias calidades de sua pessoa, e por ter tamanha, e tam honrada casa elRei dom João ho escolheo antre todolos senhores do Regno, para em nome do Prinçipe dõ Afonso ir reçeber a Princeça dona Isabel á Raia de Caslella, quomo feç, e lhe foi entregue pello Cardeal de Castella dõ Pedro gonçalvej de mendonça, entre Badajoç e Elvas, na ribeira de Caia, onde se departem hos Regnos, e dali a trouxe a Elvas, e Delvas a Extremoç, onde o Prinçipe ha reçebeo, quomo na chonica dei Rei dõ João se tudo mais por extenso relata. A alteração do testo provêm da observação do Conde de Tentúgal: Dyj no cexto capitolo por guabo dei Rey Dom Manoel que o meteo El Rey Dom João no conselho, costumandose amtão emtrarem nelle todos os que tinhão samgue dei Rey, aymda que fosem muj moços e de pouca remda e estado, quamto maes El Rey Dom Manoel que ho tinha tão gramde, e era tam cheguado a coroa Real per samgue que a erdou por elle. Diç também no mesmo capitólio que o escolheo emtre todos os senhores do Reyno pera hir pela Prymçesa Donna Isabel ha raia e aymda que em elle amtão avya alguns muj nobres Foy a comparação graciosa e desneçisarya pela grande deferewicia que avja de El Rey Dom Manoel a eles. Foi em virtude desta censura que Damião de Goes cortou sem uma observação,
  • — i5 — Capitu, vii. De quomo se elrei foi Dalcaçer cio fal a Monte mòr ho nouo, onde dom George ho veo ver ha primeira ve\, & do que dom Diogo fernãde\ dalmeida, Prior do Crato * Ft. 6 *.• cl. a.* feu aio dixe a elRei.* DEPOIS delrei fer jurado pella Rainha, & pellos Prelados, fenhores, & fidalguos que fe naquelle tempo acharam em Alcaçer do fal, & ter ordenado algúas coufas que compriam aho regimento do Regno, & de fua cafa, loguo fe dali foi pera Mõte mòr ho nouo, onde per luas car- tas tinha notificado ahos eílados do Regno que fe ajuntalfem pera fazer cortes, & tomar a menagem à quelles que tinham obrigaçam de lha fazer, aho qual lugar loguo dahi a poucos dias veo dom George em idade de xiiij annos, acopanhado dos mais dos fidalguos que em Aluor forão prefentes aho faleçimento delRei feu pai, e afsi elle, quomo todolos de fua companhia vinhão vsllidos de burel, trajo de trilleza que se naquelle tempo acuftumaua neftes Regnos, ho vfo do qual fe defendeo per expreífa lei que fobre iífo fez elRei dom Emanuel. Ho dia q dom George cheguou a Monte mòr, pollo que foífe com tanta trilleza, quanta fe bem pode crer que elle teria, & vieífe mais defejofo de nam fer villo, que de ho verem, cõ tudo hos mais dos prelados, fenhores, & fidalguos que ali eítauam ho foram receber, & ho acompanharam atte camara onde ho elRei ellaua fperando, de quem foi reçebido com tanto amor, & huma- *fi. 6 T.*d. a.* nidade que todo#los que ali eítauão prefentes conheçeram bem ho fenti- méto que tinha da morte delRei dom Ioão & da dor, & trilleza que por eífe refpeito via em dom George, ho qual,/depois de ter feita fua deuida reuerençia, loguo dom Dioguo fernãdez dalmeida, Prior do Crato, feu aio, tomou pela mão, & alfentados ambos em geolhos, diante delRei, lhe dixe. Senhor elRei dom Ioão voífo primo, que Deos tenha em gloria, fegundo me dixe morrendo, de húa coufa iha muito contente da vida deíle mundo, & doutra muito fufpenfo, & cheo de trilleza, ella por ir inçerto do que feria depois de fua morte deíle feu filho, que ante vos ella, quomo voffo humilde vaffallo. Ha outra por faber quã bom Rei, & quam bom fenhor, & quam deuido herdeiro deixaua a eftes Regnos em na edição definitiva, as referências à pouca idade de D. Manoel quando entrou para o conselho de D. João II, e que motivos o haviam feito escolher para ir receber a Caia a princesa D. Isabel. O Conde de Tentúgal na Reposta das emendas, declarou-se satisfeito e escreveu: Ha emenda do capitolo sexto estaa boa Cf. Ed. Prestage. op. cit. pag. 35i, 374.
  • i6 — vós, & por iífo me mandou, muito confiado de voffa virtude, bondade, &. bom zello, que de fua parte vos dixeífe, que fe por todolos bés, honrras, & merçes que vos em fua vida fez, cuidaueis lhe fer em algúa obriguaçam, que efta vos rogaua, & pedia q podeífe refultar no acreçen- tamento dos mefmos bés, honrras, & merçes que houueífeis de fazer a eíte orpham, & ainda me dixe mais que de fua parte lhe mandaífe a elle, per ãte vós, que em tudo vos foffe muito obediente, & fobre todalas * fi. 7. ci.C0Ufas vos guardaffe fé, &* lealdade, quomo a feu Rei, & fenhor que fois. Polo q eu fam aqui vindo a volo entreguar, & tomar ha defcargua do que prometi a elRei voífo primo, & volo dou, & ponho em volfa guarda, pêra q de hoje por diante ho hõrreis, & crieis quomo filho de quê he, & lhe façaes taes merçes com que todos hos de voffos Regnos, & afsi hos eftrangeiros hajão caufa de vos louuar, & nomear por grato, & agradeçido ahos muitos benefiçios que delRei feu pai, afsi na vida, quomo na morte reçebeftes. Eftas palauras fezerã tãto mouimento de trifteza é elRei que cõ hos faluços q fe lhe acrecétaram às muitas lagrimas que lançaua, nam pode relponder aho que lhe dom Dioguo dixera, fenão com muito trabalho, & em pouquas palauras, dizendolhe, que elle reçebia, a dom George ê luguar de filho, & que por tal ho tinha, & teria fempre, & que has merçes que fperaua lhe fazer darião manifefto final de ler afsi, ho que lhe entam dezia, da qual repolta hos prelados, fenhores, & fidalguos q ali eftauã ficarão mui satiffeitos, & beijaram todos ha mão a elRei por iffo, & dalli por diante emquanto el rei nam cafou trouxe lempre dom George em lua cala, & dormia cõ elle na cama, trattãdo ho « fi.7. cl. 2.* em cudo1, quomo a filho* Cap. viii, Do que fe fe\ em Monte mòr depois dos ejlados do Regno ferem juntos, & do recado que elRei mãdou ahos Reis d3 Cajiella, & a hos q la andauão dejlerrados & obediência que mandou a ho Papa3. DEPOIS de ferem juntos é Monte mór ho nouo hos eftados & elRei ter reçebidas has menagés, ordenou q fe começaífe loguo a trattar no que cõuinha a bem, & gouerno do Regno, mas porq nefte tempo hauia 1 Et l.: tudo. 3 Et /.; de. 3 A epígrafe primitiva dizia : desterrados p caso das treições, 1 obediêcia y mandou AHO PAPA. Não podia escapar o testo à censura do de Cadaval sempre pronto a defender os
  • quaíi per todo elle grande, & mortal peftilença, eftas cortes nam proçe- derão cõ ha íolénidade q a taes aétos cõuinha: cõ tudo le trattou de muitas coufas que ho tépo então requeria, afsi quomo em taxas, & outras coufas, Braganças e escreveu asedo pelas treições do cronista: No outavo capitolo trata de como mandou vyr o Duque Dom Gamej e seu irmão e tyo. Não fallo nas palavras erradas com que o diç, porque em outro luguar maes comvjniente tratarey delas e outras, mas como se elle guaba que ho escolherão pera esta obra por ser ornem que sem nenhum respeito avya de esprever a verdade, hee neçessaryo diçer eu que o teve muj gramde em a calar quando não fa\ a seu proposito, como fe% neste caso, porque não quy\ saber os requados que Eli Rey deu a Guomçalo d Açevedo sobre ele, nem as cartas que sobre iso escreveo ao senhor dom Allvoro, ou não o quis diçer, porque eu as tenho em meu poder e elle numca mas pidio, nem quis saber nada nelle, preguntando me e mandando me pregumtar com mujta coryosydade pelas cousas do vjso Rey dom Francisco d' Almeyda. Ora vejão se hee isto ter respeyto, e ao diante direy que vyo ele hua carta que o senhor Dom Allvoro espreveo a Eli Rey Dom João e quão pouco aproveitou nela. Damião de Goes replicou: Do que toca a yda de Gonçalo de Açevedo a Castela, não achey maes lembranças dela que o que escrepvy senão que dyç Ruj de Pina, que lhe respomderão mal estes senhores com as alvjsaras de tão boa nova e que lliesfoy mal julguado, do que eu não quis por nada. E continua irónico : Eu não vj carta nenhua nem me foy mostrada que El Rey Dom Manoel esprevese ao senhor Dom Alvaro; que se as eu vjra, eu me aproveytara delas neste meu trabalho. Mas a culpa de mujtas destas cousas não me vjrem a notysya se pode daar ao Senhor Duque Dom Theodosyo, que Deos tenha em sua glorya, ao qual eu dey duas ou tres folhas de papel cheas de apomtamentos de cousas que compryão a esta chronyca, os quaes apomtamentos sua senhoria teve alguns annos em sua mão amies que falesese sem numqua me responder a eles, e a mesma culpa tem o senhor Comde de Temtuguel, que haa maes de seis annos que sabe que faço eu esta chronyca em que forçadamente avja de falar do senhor Dom Alvaro, e temdo ele muj tos pape es e cartas e lembranças, me não comonycou nenhuas — E agora suas senhorias me re- premdem de eu não esprever algúas cousas nesta chronyca que eles Unhão tão bem guardadas em seus cartoryos que per ventura eles mesmos se não lembravão delas, nem se alembrarão, se lhes a mesma chronyca não dera pera iso ocasyão. Tentou o de Tentúgal desculpar-se: E o que diç de Gomçalo de Açevedo, e as lembramças de Ruy de Pina não façem preposyto, se não do quepos em chronyca, vjsta e recebida hua carta, creo que a mandey ao Senhor Dom Duarte, de El Rey Dom Manoel pera meu avo em que lhe deçia o modo que devja de ter em sua vjmda e do Senhor Duque e aymda as jornadas. Se laa não he, eu a busquarey com liuas lem- bransas de huns apomtamentos que El Rey Dom Manoel lhe mandou, e o que me agora lembra delas hee que lhe mandava que nenhum cryado do Duque falase mal dei Rey Dom João, porque era imformado que o façião, e asym os comprymentos que avjão de ter com os Reis de Castela, e doutras mujtas cousas a modo de imstrusão, as quaes cousas levou Guomçalo d' Açevedo. E Demião de Guoes não faj na chronyca nenhffa mensão delas, e por iso ho esprevy nos meus apomtamentos, como se veraa ho que tão bem fy\ por ver as particularydades que em outras cousas esprevia de menos sus- 3
  • — i8 — de que algúas fe executarão. Dali mandou elRei Gonçalo dazeuedo do leu confelho, & feu defembarguador do paço a elRei dom Fernando, & à Rainha dona Ifabel Reis de Caftella, de Leam, Daragão, & Siçilia 1 a lhes fazer laber de fua fucçeífam neftes regnos, & pelo mefmo Gõçalo dazeuedo mandou dizer a dom Iaimes, & a do Dinis filhos do duque dom Fernondo* que lá andauam defterrados, por cafa das defauenturas que aconteçeram em vida delRei dom loam, q iuremente 3 fe podiam torna, •fi. 7. v.° ci. a.* pe*ra ho Regno, & ho mefmo mãdou dizer a dom Aluaro Dataide & a outros q andauão fora do Regno por efte refpeito, ho qual recado mãdou també a dõ Aluaro irmão do mefmo duque dõ Fernãd4, o q pofto q nefte tépo ãdaíTb e caftella não era por efta caufa quomo fe na terçeira parte defta Chronica dira. Antes q elRei partifle de Mote mòr5, quomo bõ, & catholico Chriftão mandou a Roma Françifquo tamçia que estas. Poriso e por outras cousas emtemdy que as não quyj ele saber ou esprever. E continua sem grande.razão: Item dyj maes Damjão de Guoes que não vjo carta nenhúa dei Rey Dom Manoel pera meu avo. Ele não mas pedio, nem nenhúa cousa nem em/ormação que tocase a ele, pydimdo-me e mandando-me pidyr as que tocavão ao Vjso Rey, tãobem meu avo. Cuidey emtão que dele sabia poucas cousas e do Senhor Dom Alvoro mujtas, e que poriso mas não pidia, e agora, yjsta a chronyca, cujdey que as não quis ele saber nem esprever. E se esta minha pre^umsão foy sem causa,'direy minha culpa, se alguém diser que a tenho, mas não creo que avera nymguem que o diga, sabendo ysto que aquy digo; e o que pasou e se lhas amostrara, creo que aproveytara tão pouco como aproveytou ver a que meu avo espreveo a El Rey Dom João, por que nenhúa cousa dij dele na chronjca, mas amtes tudo ao comtraryo. E julgue quem estiver sem paixão ho que disto poderaa cujdar, e maes di^emdo-lhe o Senhor Duque Dom Theodosyo que a carta de meu avo bastava para se não poder esprever nenhúa cousa comtra a Casa de Braguamsa. Quanto maes quem avja de cuidar que na chronyca dei Rey Dom Manoel se a de tratar em cousa que pasou em vjda dei Rey Dom João, e mais não syrvimdo nenhúa cousa a obra quefajiaf E quem tão bem avja de cujdar que avja de esprever por maes feos termos do que o mesmo caronysta dei Rey Dom João o/ef; e maes seguramdo Demyão de Guoes ao Senhor Duque que avja de tirar a limpo a ynocemçia de seu avo, como quem lhe comstava jaa dela e o sabia per outros papes e imformaçõis, não temdo aymda a nosa; asym que estas pallavras e a carta de meu avo bastava pera ele escrever com houtras o que espreveo. Damião de Goes não devia estar muito convencido de falta de culpa dos traidores ; porque nunca os defendeu abertamente em nenhuma das partes da crónica, apesar das palavras que lhe atribui o conde de Tentúgal como ditas ao Duque D. Teodósio. Cfr. E. Prestage, op. cit. pag. 351-352, 369-370. 1 Ep.: «e á Rainha dóna Isabel Reis de Castella e Daragã...» 2 Et. /.: Fernando. Et. /.: liuremente. 1 Et. Fernando. s Damião de Goes esereveu na edição, não censurada: «e pelo mesmo Gõçalo
  • ■ 19 fernadez que fora feu meftre, home que per fuas letras, & prudéçia foi depois Bifpo de Féz, ho qual leuou procuraçam abaftante delRei pêra ho Cardeal de Portugal dõ George da cofta, Arçebifpo de Lisboa, home de grade authoridade dar em feu nome obediençia aho Papa Alexandre sexto, que então soccedera na Sé Apoftolica, ho que afsi fez, & ho Papa lho mandou muito agradeçer, gratificadolhe per fuas cartas ha boa, & deuida lucçeífam deites Regnos, na qual speraua q fezeíTe muitos feruiços a Deos, & á lua fanéta Egreja catholica, em lébrãça, & conheçiméto do grande & alsinado benefiçio que delle, por fua diuina bõdade reçebera. Capitu, ix. De quomo el Rei confirmov has merçes que elRei dom Ioão fe\ á hora de fua morte, & doutras particularidades ■Kl.7.v."ci.2.» açerqua da jujliça, & offiçiaes delia* EL Rei dom loam antes que regnaflé foi fempre bem fortunado, & todalas coufas lhe fucçederam fauoraués, mas depois que regnou teue muitos trabalhos, porque ho mais do tempo que depois viueo lhe cur- faram hos negoçios mal, aho que era forçado acodir, nam por de lua condiçam fer cruel, fe nam por fe liurar dos periguos, & males que fe lhe poderam feguir, fe quomo caualleiro nam reíiítira a taes inconuenientes, caufadores de todos eítes trabalhos, dos quaes nem na hora da morte pode dazevedo mãdou dizer a dõ Alvaro irmSo do duq dõ Fenãdo de Bragãça, e a dõ Jaimes, e dõ Diniz filhos do mesmo duque, q lá ãdavã desterrados, pello negoçio das treições, que livremete se podia tornar a ho Regno, ho que fazendo qavia por bem de os restituir nos bés que lhes elRei dom João mandara confiscar perá coroa, e ho mesmo requado mãdou a dom Alvaro Dataide, e a outros que andavão fora do Regno por este respecto, ANTES QUE ELREI PARTISSE DE MOTE MÓR. . .» Em resultado das censuras feitas pelo Conde de Tentúgal, a que nos referimos na nota anterior, Damião de Goes substituiu as treições por as desaventuras que aconleçeram em vida delRei dom Joam, cortou as palavras que faziam da volta a Portugal condição para a restituição dos bens aos traidores e introduziu a referência à carta de D. Manoel para D. Alvaro, de cuja omisão se queixava o conde de Cantanhede. O conde de Cantanhede mostrou-se medianamente satisfeito, achava que o capitulo se deveria escrever de novo e não deixou de comentar as desaventuras, escrevendo no tom habitual: No oitavo capitolo per a emmenda estaa arreqoado, masfaqemdose de novo, se puderaa faqer mujto milhar, por que como vj pela carta dei Rey Dom Manoel, a meu avoo mandou ho recado e tãobem aos Jilhos do Duque Dom Fernãodo menynos. A .7o amdavão em Castela porque pudesem ser parte nas desaventuras pasadas, mas forão se ou levará nos, pelo que digo nos prymeyros apontamentos, e tudo se pode declarar mujto bem.
  • 20 careçer, nam çeflando ho Spirito tentador, imiguo de noflo bem, de inftiguar algús dos que fe apar delle naquelle horribel aèto de morrer acharam, pera cÕ requerimentos mundanos ho inquietarem, com tanta efficaçia, q alli na cama, fem nenhúa cõfyderaçam do que entam compria a fua alma, que era cuidar nas cõufas de Deos, lhe pediram algúas merçes1, has cartas das quaes afsinou tendo na mão ezquerda ha candea, & na outra ha penna com que afsinaua, dando lhes por força, aquillo que elles fabiam que já por rezam não era leu, com tudo elRei dom Emanuel confirmou todas eftas merçes, & comprio tudo do mefmo modo que ho elle orde- nara, coufa de que foi muito louuado, & fe lhe teue de todos muito a •fi. 8.ci. I.* bem. E quomo* elRei dom emanvel fempre foi em todos feus negoçios vigilante, & tinha por offiçio perder pouquo do tempo, loguo alli em Monte mór notificou has confirmações, & mandou a todolo1: que tiueífem preuiligios, liberdades, & cartas de merçes, & outras has vieífem, ou mandaífem cõfirmar, pera ho que ellegeo hos prinçipaes letrados do Regno, por cujo pareçer confirmaua, derrogaua, ou limitaua, fegundo ha qualidade das coufas requeria. Nem menos fefqueçeo de prouer loguo na ordem da juftiça, & fe informar, & inquirir dos offiçiaes delia, & hos que achou culpados mandou caftiguar, fegundo ha qualidade dos erros em q eram comprehendidos. E porque na cafa do çiuel houueífe milhor expediente no defpacho da juftiça. ordenou nella mais fobre juizes, dos que dantes hauia, & afsi ahos defembarguadores, defta cafa, quomo ahos da cafa da Supplicaçam acreçentou nos ordenados, porque hos que dantes tinham nam eram fuffiçientes pera fe delles poderem manter, & fobre tudo ifto cheo, & inflamado de zello de juftiça, no mefmo tempo mandou per todo ho Regno corregedores com alçada atte morte, & pera que hos defembarguadores defpachaffem has partes cÕ mòr breuidade lhes cõçedeo fi.8. ci. 2.* de nouo, afsi a elles, quomo ahos corregedores das cõmar*quas afsina- turas, has quaes elRei dom Iohão feu filho depois tirou per juftos ref- peitos. Alem deltas coufas ordenou também outras, tão neçeffarias pera a ordem do regimento do regno, quomo de fua cafa, & fazenda, has 1 Também esta passagem foi modificada. Damião de Goes descrevera muito colori- damente a cubiça dos magnates, sem respeito pelo estado de D. João II: «q alli na cama faltando-lhe já quasi todolos spiritos, e sentidos da vida, nenhua cõsyderaçam, nem qello, i do que entam compria ha sua alma, que era cuidar nas cousas de Deos, sê ter conta com has do mundo, lhe pediram muitos, muitas merces...» A correcção do têsto não foi devida ao conde de Tentúgal pois não fez nos Apontamentos referência a ela. 1 Et. I.: todolos.
  • — 21 — quaes tenho por excufadas relatar aqui, quomo por mais importantes a ho tempo, & ordem que fe então requeria nellas, que aho difcurfo deita lua Chronica *. Capitu, x. De quomo elRei libertov hos ivdeus que ficaram captiuos do tempo dei Rei dom loam. EL Rei dom Fernando, & ha Rainha dona Ifabel fua molher per refpeitos que acharam ferem juítos1, no anno do Senhor de, M.cccc.Lxxxij. lançaram de feus regnos todolos Iudeus que nelles hauia, dos quaes algús alumeados do Spirito fando, & outros por nam defbaratarem hos bés q tinha de raiz, fazédo delles maos partidos, & vendas, fe conuerteram á noífa fé, & ho mefmo fezeram outros, ainda que pobres, por nam deixaré lua natural criaçam, hos outros a que ho fpirito, nam tocou, nem hos bés, nem ho amor da patria çonítrangeo3, deixara todos fuas moradas, & quomo •Ki. 8.V el. I.* gente fem paítor, nem abriguo felpalhou per diuerlas par*tes do mundo. Dos quaes algús antes que faiffem de Caítella mãdaram pedir liçença a elRei dom loam pera fe virem a Portugal, & lhes mandar dar embarcaçam pêra fuas peífoas, & bés, ho que lhes e 11 e conçedeo, com lhe pagarem por cabeça (exçepto has crianças de mama) oito cruzados, paguos em quatro pagas, & hos que erao ferreiros, latoeiros, malheiros, & armeiros pagauam ametade menos, querendo ficar no Regno, & alsi a eltes, te de- clarauam que fe queriam ir, quomo ahos outros afsinou elRei dom Ioão tempo limitado em q podefTem eítar no Regno, & não fe laindo no tal termo, ficafTem por feus captiuos. Deites Iudeus houue elRei húa grande foma de dinheiro, porque fegúdo fe affirma entrarão neítes Regnos mais de vinte mil cafaes, em que hauia algús de dez, & doze peífoas, & outros de mais, com ho qual dinheiro tinha determinado fazer húa armada pera paifar em Africa, ho que lhe ho tempo, & mao sucçesso delle nam deixou fazer, & porque elRei era obrigado a lhes dar pello cõtratto que cõ elles fez embarcação nos portos de feus Regnos que pera iífo fe nomearam, mandou ahos offiçiaes dos taes lugares que hos auiaífem, & encomédaifem muito de fua parte áquelles em cujas naos iham que lhes fezeílem boa companhia, & mantiueífem 1 Ep: «Historia...» * Ep: «El Rei dom Fernãdo. e ha Rainha donna Isabel sua molher Reis de Castella, de Liam, e Daragão per respeitos q acharão sere justos...» t Et. I.: conftrangeo.
  • — 22 — • Fi. 8. V. cl. I.» feus contrattos, & cartas de fretamen*tos, do modo que fe com elles auinham, mas iito fe nam guardou como deuia, & ho elRei mãdaua, porq hos capitães, & meftres deitas naos por delles tiraré mais dinheiro, & móres fretes, do que por fuas auenças erão obrigados, alem do mao tratto que lhes dauam, lhes faziam has derrotas de fua viagem mais longas, poios aíli auexarem, & lhes venderem has viandas, aguoa, & vinho aho preço que lhes bem pareçia, cõ lhes fazerem outras afrontas em fuas peífoas, & deshonrras a fuas molheres, & filhas, mais à lei de perjuros, & maos homes, que de chriftãos, cujo offiçio deue fer muim diferente de femelhantes trattos, & enganos. Delta gete muita parte, ou per pobreza, ou per mao auiamento fe nam pode embarcar, nem fair do regno no tempo que lhes per feu contratto cabia eítar na terra. Pela qual razão ficaram çitamente obrigados a captiueiro, & quomo defcrauos fez elRei dom loam merce delles a quem lhos pedia, refpeitando com tudo á calidade de fuas peífoas, & daquelles a quê hos daua. Eíte negoçio todo aconteçeo pouquo antes que elRei faleceífe, nem he de crer que fe viuera algum tempo mais,"" q nam dera liberdade, & liçença a eíta gente, pera fe ir fora do regno, afsi quomo fez ahos outros de fua cõpanhia. Mas elrei do Emanuel, q em humanidade, liberalidade, cleméçia, & vir- * fi. 9. ci. 1.* tude* a ninhum Rei chriltão foi inferior, tanto que regnou libertou logo eltes Iudeus captiuos, & lhes deu poder pera de fuas peíToas difporê às fuas võtades, fem delles né das comunas dos Iudeus naturae s do regno, querer açeptar hú grãde feruiço, q lhe por eíta tam afsinada merée 1 quiferão fazer, ho fruóto do q benefiçio logo dahi a poucos dias reçebeo, porq hos mais delles fe conuerteram à Fé1 de noífo Senhor Iefu Chriíto, quãdo elle fez tornar hos Iudeus deites regnos chriítãos, quomo fe em feu lugar dira. Capit. xi. De quomo elrei entendeo em prouer hos lugares de Africa, & deu hos dízimos dos tributos & pareas dos me/mos lugares às Egrejas, 6 da embaixada q lhe veo de Cajlella, & a que. HVÃ das coulas que elRei dõ Emanuel mais teue nos olhos & de q fe mais honrrou, & prezou em todo ho tépo de feu regnado, foi ha cõquilta Dafrica, doq équãto viueo íepre deu manifeítos finaes quomo • Et. I.: merçe. 2 Ep : «porque ha mor parte destes se converteram á Fé...»
  • fe no difcurfo defta fua Chronica vera, do que zelofo logo nefte anno de M.ccccxcv. em que começou a regnar, proueo e muita abaftãça todolos luga- res dalém, afsi de mantimentos, quomo de gente de pé, & de cauallo, arte- lharia, & outras munições,* acreçentando hos ordenados, foldos, & manti- métos, ahos capitães, adais, & outros offiçiaes, & afsi ahos moradores, & outra géte de guerra, & nã fe tédo por fatiffeito difto quomo catholico chriftao, & amiguo do culto diuino, peraq fe naqllas partes podeffe cõ mór authorioade ' çelebrar, àlem das rédas que já tinham hos façerdotes, de q fe podiam manter honeftamente, ordenou q de todolos tributos, & pareas que pagaífem hos mouros, fe deffe ho dizimo á Egreja, ho q se dates nam acuftumaua fazer. Eftando ainda elRei em monte mór ho mandarão vifitar hos Reis dõ Fernando2, & dóna Ifabel fua molher, per dó Afofo da fylua, pefToa prlçipal de fua corte, & per elle àlem das gratificações3 ordinárias, & acuftumadas entre hos Reis nos prinçipios de feus regnados, lhe mandaram cometter cafamêto com ha Infante dona Maria fua filha, do q fe elrei excufou por boas palauras, não por ha tal aliança lhe não vir muito a propoíito, mas porque fua tenção era cafar com ha Princefa donna Ifabel, molher que fora do Prinçipe dõ Afonfo. Hos quaes cafa- mentos ambos houuerã depois effeélo, porq elRei cafou cõ ha Prinçefa dona Ifabel, & depois de viuuar delia cafou com ha mefma Infante donna Maria fua irmã, quomo fe aho diante dirá. Pello mefmo embaixador i* dom Afonfo da Sylua mãdarão pedir aelRei que* lhe aprouueffe refti- tuir com breuidade, ahos filhos do Duque dõ Fernãdo de Bragãça, hos bés q feu pai tiuera neftes Regnos, & afsi a dõ Aluaro feu irmão, ho q elrei façilméte outorgou, por ho ter jà ordenado, quomo atras fica dito. OM loam de menefes fenhor de Cãtanhede, teue tres filhos, dos quaes hum foi dõ Pedro de menefes, conde de Cãtanhede, & ho fegúdo dõ Rodrigo de menefes, & ho terçeiro dõ Ioão de menefes. Efte dom loam de menefes filho mais moço, foi hú dos eftimados fidalguos neftes regnos, & nos de Caftella de quãtos em feu tempo viueram, porq em 1 Et. I: authoridade. 1 Ep: «em mote mór ho mandará visitar hos Reis de Castella e Aragã dõ Fernando...» 5 Ep: «de sua corte. E per elle até das gratificações...» Capí. xii. De húa viãoria qve dom loam de menefes fendo capitão Dar\illa houue dos mouros.
  • r 24 armas, & prudéçia façilmente iguaua ', ou paffaua qualqr outra peffoa em que eftas duas nobres artes fe podeffem achar, & por fer tão calificado, El- Rei dõ loam fegúdo do nome fe feruio delle em negoçios de muita cali- dade, & pela valia, & authoridade de fua peffoa, elrei dõ Emanuel, ho fez gouernador da cafa do Príncipe dó Ioão leu filho, q depois foi Rei deites regnos, terçeiro do nome, & lhe deu ho offiçio de feu camareiro ♦ fi. 9. v. ci. 2.4 mór. A efte valerofo capitão deu Deos húa* afsinada viótoria cõtra hos mouros, & foi afsi. Tedo elRei dÕ Ioã feitas tregoas com elRei de Féz, Molei Barraxa1, grão fenhor entre hos mouros, & Almãdarim alcaide de Tetuão, q nã obedeçião a elRei de Féz, né eram delta liga, vierão correr aho cãpo Darzila,Tendo então, no Regno dõ Vafco coutinho cõde de Borba, gouernador, & capitão delta villa, emprazado por capítulos q delle derã a elRei dÕ Ioão, & deixara em feu luguar dÕ Rodrigo coutinho feu fobrinho, filho de dõ Aluaro coutinho q morreo no cÕbate de Baltanas é Caltella, quomo tenho dito na Chronica do Prlçipe dõ Ioão, ho ql dõ Rodrigo faiho a pelejar com elta cõpanhia de mouros, que era groffa, & de boa gente de guerra, onde foi desbaratado, & morto cõ dezafette fidalgos. Sabidas eítas nouas, ordenou elrei dõ Ioão de mandar dõ loam de meneies por capitão, & gouernador Darzilla, aho qual depois do faleçimento del- Rei dom Ioão hos Mouros de pazes de húa aldea q fe chama Benarmarez não querião pagar çertas pareas q per obrigação de feus cõtrattos deuião cadanno, do que dõ loam de meneies anojado determinou de fazer nelles reprefaria, & lhes dar ho caítigo q mereçiam, fobelo q fcreueo aho Almi- rante Lopo vaz dazeuedo craueiro da ordé de Auis, q então era capitão •fi. 10.ci. i.« de Tanger, pera q a hú çerto dia, & luguar lhe mãdaffe pera eila* execução algúa gente de cauallo: Iíto afsi affentado dõ Ioão fe veo ajutar cõ Pero leitam adail de Tãger q Lopo vaz mãdara cõ çíquoenta de cauallo no lugar limitado, hos qes depois de jútos, caminhãdo a fio forã amanheçer fobela aldea, no ql tépo Molei Barraxa, & Almandarí, & com elles Çide muça, & Çide acob, fobrinhos de Barraxa, erã entrados pela terra cõ duas mil lanças, & oito çétos homês de pé, pera daré nas aldeas q tinham pazes cõnofquo, ho q fabédo dõ loam, mandou algús mouros de pazes q leuaua cõfigo q foffé tomar lígoa, ho q fezerã, & lhe trouxerã três dos imigos, dos quaes foube ha verdade do que queria. E poíto que foffe cõtra pareçer dalgús affentou de ir bufcar eíta com- panhia com çéto, & çinquoêta lanças fuas, & com has çinquoéta de Tanger, com q logo abalou contrelles, & tanto q hos defcobrio fez tres 1 Et. I.: igualaua. 1 Na Ep.: «...com elRei de Féz, Barraxa...» É
  • 25 azes, ha húa foi ha de Pero leitã adail de Tãger com fuas çinquoéta laças, & outra de tríta de cauallo, q deu a feu fobrinho dõ Ioã de meneies, filho de dõ Pedro de meneies conde de cãtanhede, & elle ficou cÕ ha outra gente, na qual ordê foi cometer hos alcaides; q cofiados da muita géte q tinhã é comparaça da noífa, & lébrados da viótoria q houuerã pouco antes de dõ Rodrigo Coutinho, fé medo, & cõ pouca ordé fe vieram chegado •Ki. io. ci. a." em tres batalhas pa hos noíios, & feitos depois em húa fó*, hos primeiros que encontraram foram hos de Tanger, que cõ ho pefo da muita gente de cauallo q fobrelles deu, começará à floxar, em cuja ajuda logo veo dõ Ioão de meneies ho moço, dando pelo cortado dos mouros. Hos de Tãger que lhe stauã de rofto apertaram então cõ elles, & andando já bem tra- uados lhes acudio dom loam de menefes cortando com ha bandeira Real per meo dos mouros, que nam podédo fofter ho impeto dos noífos fe poferam em defbarato, no qual morreram na batalha, & no alcançe que durou per efpaço de duas legoas, ccccxviij, de cauallo, affora hos de pé, fem dos noífos morrer nenhú. Cáptiuarã xxviij, & houuerã hú riquo defpojo, em que entraram lxxxv cauallos de preço, & todalas bandeiras dos alcaides. Irto feito dom Ioão de menefes fez volta fobela aldea, & reçebeo dos moradores has pareas que deuião & dahi fe veo Arzila, & ho adail Pero leitão fe foi pera Tanger cõ toda fua gente, & parte do defpojo q lhe coube. Efta viétoria deu Deos ahos noífos no mefmo dia em que elRei dom Emanuel ordenou em Monte mór ho nouo, que de todalas pareas, & tributos q hos mouros Dafrica pagaífem, fe deífe ho dizimo à egreja, ha ql noua lhe foi dada no mes de Dezembro de M.ccccxcv, •fi. io.v.ci.i* eftando ainda na mefma villa de Monte mór, & cõ ella lhe mandou dom* Ioão de menefes has bandeiras q tomara dos alcaides, has quaes elRei deu á Sè da çidade de Lisboa, pera ahi eftarem por lembrança defta tam honrrada viétoria. Capi. xiii, Da vinda dos filhos do dvqve de Bragança aho Regno, & da grande liberalidade que elRei com elles vfou. DESPEDIDO dom Afonfo da fylua cõ ha reporta de fua embaixada, & acabados outros negoçios a q elRei quis dar fim, antes de partir de Mõte mór, na entrada da quarefma do anno de M.ccccxcvj, fe foi a Setuual onde ho eftaua sperando ha Rainha donna Leanor, & ha Duquefa de Bragãça donna Ifabel luas irmãs, & ha Infante donna Beatriz fua mai pera trattarem negoçios que com elle tinham, & alli tiuerã todos Pafcoa da refurreiçam. Nefte tempo tinha já elrei mandado chamar dõ 4
  • 26 — Iaimes, & do Dinis filhos do Duque de Bragança, & outras peffoas que andauam fora defies regnos, quomo atras fica dito, hos quaes chegaram a Setuual depois de Pafcoa, & com elles dom Aluaro feu tio, & dom Sancho4 filho mais velho de dom Afonfo, Conde de Farão, ho qual Côde •Fi.io.t.ci.2.*era irmão do mefmo Duque, & de dõ Aluaro. A efte do Sancho mudou* elRei ho titulo de Conde de Farão, em Conde do Demira, quomo ho fora ho Conde dom Sancho feu auo. Forão todos eftes fenhores bem reçebidos dei Rei. Ho qual dahi a poucos dias auedo refpeito ha quão conjútos lhe eram em fangue & parétefco hos filhos do Duque, & quão inoçentes dos erros & culpas que dizião que tiuera feu pai, os rftituio em fuas honrras, & a dom Iaimes fez merçe de todolos bés que elRei dom loam mandara confifcar da cafa de Bragança, aliem do que lhe prometeo de ho reftituir nos que lhe elRei dom Ioã tomara, & dera a djuerfas peffoas, a quem fatisfaria ho valor querendo lhes elles foltar, & nam ho fazédo lhe daria a elle mefmo rendas, & tenças que valeffem outro tanto 2, 1 Na Ep. escrevera Damião de Goes: «Neste tempo quomo atras fica dicto tinha ja elRei mãdado chamar dõ Jaimes, e dó Dinis filhos do Duque de Bragança dom Fer- nãdo e outras pessoas que andava fora destes Regnos pello caso das treições, hos quaes chegaram a Setuval depois de Pascoa, e cõ elles dõ Alvaro seu tio irmão do Duque seu pai e dõ Sancho...» Esta parte merecera ao conde de Tentúgal uma larga defeza dos de Bragança: No capitólio treje, escreveu êle na Critica, trata ho autor da vjmda do Duque Dom Games a Setuvel, e nenhua cousa da omra que se lhe fef e guasalhado, na qual haa mujtas party cularydades mujto pera se notarem e espreverem e todas lhe esqueserão, e não lhe esqueseo os sollusos deli Rey quamdo veo ho Mestre ha corte. Hocupou tamto ho semtido em escrever desonras do Duque, que lhe não lembrarão as homras, e por iso não tratou delias. Diç maes o autor que veo o Duque de Castela omde estava por caso das traisois. Oulhem que gramdissimo despreposyto, que ninguém pudera escrever, senão quem estivesse tão tomado da paixão! Ho Duque Dom Games, quando o levarão pera Castela, era de quatro annos, pouco maes ou menos e seu irmão maes moço que ele, e aymda que seu pay tivera culpa, ho que numca teve, mal a puderão ter filhos de tão pouca ydade, asym que eles não estavão em Castela pela causa que o autor quis dar a emtemder, senão porque conhecião a comdissão e temção dei Rey, os levarão pera laa, e se ela não fora, não tinha neçesidade de os levar, porque ficamdo em Portugual, não lhe pudera El Reyfaqer mayor mal que tomarlhe a fazenda, como Ihefej, se quigera guardar justiça; mas porque nisto tiverão duvida, os levarão, e estaa claro quamto nyso acertarão pelas gramdes dilligencias que El Rey feç pelos aver has mãos, e mujto mais claro estaa a causa porque El Rey as mandou fajer. Cfr. E. Prestage, op. cit., pág. 352. 2 Na Ep. Damião de Goes escrevera: «Forã todos estes senhores bé reçebidos delRei, e de toda ha corte, hús por lhe quereré bem, e hos amarê, e outros por nisso cõprazerem a el Rei, posto q no coraçam tivessem ho cõtrairo, polo amor q tinham a el Rei dõ Joam, e ha todas suas cousas, e logo dahi a poucos dias hos restituio el Rei em suas honrras, e lhes fez merçe de todolos bés que lhes el Rei dõ Joam mãdara cõfiscar
  • — 27 — fendo hos taes bés dados per elRei dom loam de juro, mas que fendo dados em vida, lhos tornaria ha dar per faleçimento daquelles que hos pofluião, fem mais outra nenhúa fatisfaçam. E porque ha merçe que el Rei fez a dom Iaimes, filho mais velho do Duque dõ hernando de Bragança, na foi de calidade pera fe paífar por ella com deicuido, he bê q fe digua q foi húa das mores q Emperador, né rei, nem outro lenho r nunqua fez de terras patrimoniaes, poífuidas paçificaméte, porq nas acqridas de nouo, ou q fefperam dacqrir té obrigações de partiré librai- « pi. II#ci. mete cõ aquelles q lhas ajuda*rão ha ganhar, mas em eftado tam paçiíico quomo ho em q elrei dõ Emanuel começou de regnar, & regnaua, taes, & tamanhas merçes nam fe acha q fe fezelfem, né a ml me jilébra q ho viffe, em nenhum dos authores hiftoricos q tenho lido, porq ha cala de Bragãça quãdo hos filhos do duque dõ Fernãdo chegaram a Setuual, não tinha neítes regnos coufa q lhe na fofTe tomada perà Coroa, ou poífuida per peffoas a q elrei dom loam delias fezera merçe, & logo dahi a poucos dias, per merçes feitas aho duque dom Iaimes pera elle, & feus defçendentes da maneira q forão dadas aho Cõde,^ dú 1 Nuno aluarez, & aho duque dõ Afonfo, filho natural delrei dom Ioão primeiro deite nome, ella ficou fenhora de mais de çinquoenta villas2, caftellos, fortalezas, & lugares rafos, atfora outras heranças, quintas & calaes, étre hos qes lugares, & fortalezas entram, ha çidade de Bragança, Gui- marães, Barçelos, Chaues, Villauiçosa, Ourem, Borba, & outras villas çerquadas, & caftellos que tenho por excufado nomear, por eftarem declaradas em fuas doações, ha grandeza da qual merçe fez fazer a muitos vários juizos, dizédo cada hú aquilo a q leu pareçer & a"ica ° mais inclinaua, has quaes praticas fe trattaram entam per muitos dias na corte3, & per todo ho regno, mas ho tépo que tudo apagua, & faz alie do que lhes prometeo de hos restituir nos bens que lhes elRei dom Joam tomara por este respecto, e dera a diversas pessoas aqué satisfaria ho valor queredo lhos elles soltar, e nã ho fazãdo lhes daria a elles mesmos rédas e tãças q valessem outro tanto...» A emenda foi feita por indicação do Conde de Tentúgal que protestou sempre contra as referencias às traições dos de Bragança, considerando as acusações que se lhes faziam como ditos de escudeiro, sem valor. 1 Et. dó. 2 Na Ep.\ «ella ficou senhora de passante de cinquoáta villas.» E uma correcção de forma de Damião de Goes. „ 3 Damião de Goes escrevera na Ep.: «...por estará declaradas em suas doaçoes das quaes todas, e dos mais bens deque lhe elRei fez nova doaçao. Tmhajjaqwle tempo ho duque dom Jaimes de Bragãça mais de xvt, contos de renda, ha grandeza da qual merçe iez fazer ha muitos vários juizos, dizendo hus, que mais de poder ausulut
  • I • t'L ii. ei. i.* vir p feus discurfos é cuftume' aprouado has coufas que dantes nam eram em vfo, fez depois pareçer bem tudo ho que elRei neftta pte fezera„ ha fezera elRei que nam de conselho, nem razam que tivesse pera dar tantas villas e fortalezas e tarn importantes á coroa do regno, outros escusavam isto pondo ha culpa á Infante Donna Beatriz sua mai, e ha rainha donna Leanor, irman delRei, por lho fazere fazer, parte por roguos, parte per muita impurtunaçam, outros que mais tiravam aho vivo, diziam que taes bens se nam podiam dar, visto que elrei dom Joam mandara em seu testamento, que nam somente hos nam restituísse a hos culpados nas treições, mas ainda por nenhum modo hos recolhesse em seus Regnos, nem em sua graça. Nas quaes praticas em outras altercações se trataram entam por muitos dias na corte...» O Conde de Tentúgal replicou com uma cólera e despropósito que se compreen- dem. Di; maes o autor que resteluyo El Rey Dom Manoel ao Duque em suas omras. Este era bom termo e verdadeiro se ho não danara ao diante; e amtão emcarese gram- dissimamente a gramde merçe que El Rey fe; ao Duque, e Deus sabe sua emtemção nesta parte, se hee guabar El Rey ou di;er mal delle, e pera mayor encarecimento quis dijcr, sem o saber, que a Casa de Braguança remdia amtão deqasete contos, não remdemdo maes que sete, como se poderaa ver por os papes e arremdamentos damtão, e o Duque Dom Theodosyo asym mo dixe aligúas veçes, e o Arcebispo de Lisboa Dom Fernando, tam verdadeiro e tã particular em todas as cousas, me dixe muitas vejes que a Casa de Braguamsa não remdia amtão maes de symco contos e que ele trabalhara mujto pelo tirar a limpo, e depois, estamdo eu presente, e o vy praticar com ho mesmo Duque nesta materya e concordarem se em hum pequeno de cnleo que me agora não lembra particularmente, mas afirmo me que se resolverão que a remda não pagava de simco pera sete contos. Isto digo aquy por dijer verdade—e não por desfaqer na merçe deli Rey Dom Manoel, a quem eu e todos os que quigerem guardar justiça e reção devemos de ser maes afeiçoados que a iodas outras pesoas. E maes entemdo que elle restetuyo o seu a seu donno e que quis descarregar a alma deli Rey Dom João, e tãobem emiemdo que era ele tam exelemte Rey e tão umano e amigo de o ser tal e de seu samgue, que aymda que o Duque Dom Games e seu pay e avos não tiverão nenhãa remda, que elle lhe dera ho que lhe deu, ou outra tamta, pois era seu sobrinho, filho de sua irmã, e o maes chegado paremle que amtão tynha, pela qual reção era seu erdeyro ^ 0 Joy a tec que teve filho; asim que cspamtarse o autor tamto não creyo que foy a outro fym senão pera enfraqueser as gramdes vertudes e bomdades deli Rey Dom Manoel, e pera crer que a gemle emtemda que foy a fajenda do Duque com Dom Fernamdo confiscada com reção, e querer se mostrar neste caso maes apaixonado que o propio caronista deli Rey Dom João, de quem recebera mujtas merçes e fora a elle mujto açeyto. E mostra se isto clarysymamenle no que logo dij a diamte dos juijos que se lançarão, e fala neles tão soltamente e per tão feos termos que me parecerya a mym mujta reção fajer se disto queixume ao senhor Cardeal, guovernador destes reynnos pera que o mandase castiguar, como tamanho erro merece. As gramdissimas bomdades e vertudes da Rainha Donna Liannor e da Ifante Donna Brytes são notoryas a todos, as quaes hiia era maj deli Rey Dom Manoel e houtra sua Irmam. Veja quem isto quiger oulhar sem paixão como se ade crer de taes pesoas que acomselhasem seu filho e irmão, seu Rey e Senhor, a quem tamto query am, que fijese o que não diyja, com tamanha perda de sua coroa; e acresenta a isto que o fiçerão
  • & lhe foi attrebuido a liberalidade, & cleméçia, ho reftituir dos bés ahos deíterrados, & perdoar hos erros áquelles q nelles encorreram. Pelo que em todo ho tempo de feu regnado foi bem quiílo, & viueo paçifico, & has mais das coufas, que intêtou, afsi nelles Regnos, quomo nos eftranhos, em terra de Chriítãos, & de infiéis lhe sucçederam atte ho tempo de feu faleçiméto, com muita profperidade, louuor, & honrra fua, bem, & acre- çentamento de feu eílado, & proueito de todos feus vaífallos, & fugeitos. E pera q fe faiba ho grande amor q elRei tinha ahos filhos do Dubue 1 faqer a Eli Rey com suas importunaçõis, que eu tenho por muj gramde blasfémia tratar de tão exselemles prymcesas per taes termos, e maes que rejão avja pera quererem maes pera o Duque que pera el Rey; mas por ser seu cirvjço ho acomselharão, se ho fizera, e não hee de crer outra cousa. E maes torna a chamar culpados ao Duque Dom Games de quatro annos e a seu jrmão de menos. E alem disto, que malerya pode ser maes empertinente pera chrcnjca de tão exçelemte Rey que estar esprevemdo oupenyão de quatro escudeyros, porque a gemle nobre numqua tiverão senão a que devjão de ter, e maes em chronycas não se permyte esprever presumçois, e tarn duvjdosas e prejudiçiaes como esta hee, e em prejuijo do Rey cuja ela hee, e de sua homra,pelo que tão bem toca ha deli Rey noso Senhor se di.ja mandar queimar, porque emmendar pareçe empusivel. Milhor conselho teve o Bispo Paullo Jovyo que calou as cousas que pasarão em seu tempo desda morte do Papa Leo Desymo até o saquo de Roma, por não notar pessoas imsinhes e imfamar aydade em que viveo, semdo cousas verdadeyras e as do autor tão imcertas; e estava ele tão apaixonado e sego desta materya que se contradyj nela. Neste capitolo afirma que a poder de roguos e de importunaçõis acabara a Rainha Donna Liannor e a Ifante Donna Brites os negoçios do Duque de Bragamça, e no prymcipio do titolo no capitolo oitavo dij que em reinando El Rey se foy a Montemor e que dahy mandou logo recado pera que viese o Duque, e dij logo maes adiamte no capitolo omje que El Rey Dom Fernamdo e a Rainha Donna Isabel o mandarão vysitar por Dom Afomso da Silva e tão bem pidir que mandase vjr o Duque e restetuyr em seu estado, e que El Rey Dom Manoel ho fiçera levemente porque ho tinha jaa feito. Asym que aquy dij que ho feç EllRei por sua vertude e liberalidade, e ao diamte afirma que a poder de importunaçõis da Rainha Donna Liannor e da Ifanta Donna Brites. Não sey como poderá comcordar estas duas contradisõis. Diç mais ho autor, e creo que não o dixe outrem nimguem, que alguns diçião que El Rey Dom Manoel não podia façer tal merce por rejão do testamento dei Rey Dom João, por que nelle mandara que não recolhese os culpados nem os restetuise em seus bens. Jaa atras fica dito e ao diamte direy como não ouve nenhum culpado, nem o pode aver de taes pesoas, e que ho ouvera, também tenho dito que não o podia ser hum menyno de quatro annos. E quem não souber que o Duque Dom James o levarão desta idade pera Castela, e a verdade da cousa, ficarão emtemdemdo ho que ele autor pertemde que emtemdão, asym que aymda que ho testamento deli Rey Dom João fora bom e justo, e El Rey Dom Manoel o quyqera guardar, não o quebrava em daar ao Duque Dom Gameç o de seu pay, pois como asyma digo, não pode ter nome de culpado. Cfr. E. P rest age, ob. cit., pág. 352-355. 1 Et. I.: Duque.
  • — 3o — dom Fernando, & a dom Aluaro, & defejo de hos ver no Regno, & quanto a carguo tinha ha honrra, fama delRei dom Ioão feu primo & me pareçeo coufa conueniéte ajuntar a efte Capitulo húa carta que man- dou aho mefmo dom Aluaro fcripta de l'ua propria mão, em que diz aísi. Honrrado primo, vi ha carta que me fcreueftes, per q me fazeis íaber da vinda do duque meu fobrinho, & volfa, folguei por fer tã çedo, & pareçeme bem fer loguo fem mais detença nenhúa, & voíTa vida feja a Eluas, & a Eftremoz, & dali aho Vimieiro, & a Monte mór, & aqui fem •n. n.T.ci. i.* fefperar mais recado. Dizéme q algús criados do Duque vosso ir*mao faliam em elRei meu fenhor que Deos haja quomo nam deuem, enco- mendouos que fejam todos bem auifados, per vos, & meu fobrinho, por- que me pefara muito diífo, & çerto fe algús ho fezerem reçeberiam de mim grão caftiguo, porque afsi he razam. Haja meu fobrinho efta carta tãbem por fua por fer mais em breue efle defpachado de minha mão em Setuual a xxvj dias Dabril, ElRei *. i Toda esta parte desde E pera q se saiba até a xxvj dias dabril, ElRei, não existia na Ep. e foi intercalada por indicação do Conde de Tentúgal, que na Critica escrevera: E quamto ao que mais diq do Senhor Dom Alvoro, bem parece que não quis o autor saber nada delle, ou quyç escuryser quamto ele pode sua limpesa e bomdade, da qual tratarey aquy rnaes brevemente que for posivel e mesturarey com ysto o que promety, respomdemdo ao outavo capitolo das palavras erradas e nome tão feo que eu não ouso nomear de traysõis, que ele refere tamtas vejes sem nenhúa causa e neçesidade, no qual nome ele não faç nenhúa exsemção. E aymda que está claro que nimguem as feq senão quem ao diamte direy, e mujto maes sem duvjda que ho Marque\ de Montemor e o Com de de Farão, irmãos do Duque D9m Fernamdo, numca fiqerão obras senão de quem elles erão, com mujtos syrvjços ao Rey e ao reinno, asym nas gueras de Castela como nas de Africa, domde syrvirão como senhores e cavaleyros de húa lamça no pasar laa mujtas vejes e nos feitos que fiqerão per suas propias pessoas, os quaes não forão has escomdidas. Mas o irem-se deste reynno, o que fyerão com mujla comsideração, porque conhecido El Rey, deu causa pera ser necesaryo mostrarem-se sem culpa; mas o Senhor Dom Alvoro, que ficou nele mujto tempo e que esteve sempre na corte e no luguar aomde matarão seu irmão; e o dia que o premderão, mandou diçer a Eli Rey que estava aly, que vise se querya algúa cousa delle, a que El Rey respomdeo com mujtos comprymentos e, mamdamdo o chamar lhe dixe quão lembrado era de seus çiryjços, os quaes lhe nomeou todos, como quem se lembrava delles, e dahy a alguns dias, depois da morte do Duque seu irmão, mandou dyçer a El Rey que se querya ir de seu reynno, e ele lhe mandou roguar mujto que se dejxase estar nele e que lhe farya mujtas tnerçes, a que elle repricou que o não farya em nenhúa maneyra, salvo se dixese que o Duque morrera sem causa, e que emtão estarya e o syrverya como sempre fizera; e por El Rey o não querer fa^er, lhe deu licença e pasou diso hum aluara e tãobempera levar sua mother e casa, como ho mostrarey, sem embargo de não ser neçesaryo, porque ho mesmo autor dij que ho Senhor Dom Alvoro deixou sua filha, a Duquesa de Coimbra
  • Capitu, xiiii. De quomo elRei fe\ conde de Portalegre Dioguo da Silua de menefes feu aio, & do que fe nijfo paffou. ELREI dom Emanuel foi fempre mui agardeçido dos feruiços que lhe faziam, pelo que hauendo refpeito á grade obrigação em que era a Diogo da fylua de menefes feu aio q ho criara, & doctrinara, com muito cuidado, & amor, lhe deu em fendo Duque per liçença, & confentimento delRei dom Ioão ha villa de Celorico da beira, com rendas, qUe depois Joy, em Portugual, e em casa da Rainha Donna Lianor, molher dei Rey, domde se mostra claramente que se foy com seu cansentymento e licemça. E tãobem se mostra mujto maes claro na merçe que El Rei lhe feç em sua ida, porque lhe pasou houtro alvar a em que lhafajia de todo ho que tinha neste reynno, comtanto que ho não comese no de Castela nem em Roma, que não ha que neguar senão que era hiia grande liberdade se o quigera compryr. E com estes dous alvaras se foy com toda sua casa, e El Rey mandou com elle hum seu comtador, e esta he a verdadeyra verdade. Foil guary a de saber agora domde achou o autor que se fora o Senhor Dom Alvoro doutra maneyra deste reino, e se tem algum papel autentico ou testemunha que tal digua, eu mostrarey mujtos e muj verdadeyros do que diguo. E porque pode faqer isto algúa duvyda a quem não sabe ho que pasou, he neçesaryo que lha tyre. Amtes que o Senhor dom Alvoro saise de Portugual, mandou El Rey chamar o conde d'Olivensa, seu sogro, e lhe dixe que lhe querya tomar sua fajenda e soomente lha deixar ter em quamto Jose sua merçe, e semdojaa em Barselona, lhe mandou El Rey dizer que detryminava de lhe tomar sua façenda e soomente lhe daar dela tres mil cruqados cadanno pera seu mantimento, e quamdo o Senhor Dom Alvoro isto vio, e como El Rey não querya guardar os alvaras que lhe tinha dado, se tornou a çyrvir El Rey Dom Fernamdo e a Rainha Donna Isabel e sempre protestou pera comçervação de sua justiça do que El Rey fapa, sem lha querer guardar, e soo de poder absoluto. E pro- vase tão bem muj claramente sua jnhocencia em El Rey dar lodos hos luguares ou os maes delles de seus irmãos e não daar nenhum delle, e maes testifica a sua inoçencia comfeçar El Rey aos embaixadores de Castela que do Senhor Dom Alvoro não tinha nenhiia culpa, e creo que hum era o Bispo de Leão e o outro se chamava Guaspar Fabra, e se a tivera, não o deixara ir de Portugual, faqendolhe merçe em syma. Ora sabemdo eu e outras mujtas pesoas estas cousas tão certas, e vendo as que dtj o autor tão imcertas de toda a Casa de Braguamça, e em luguar que não comvynha falar nelas, me fa\ pasmar de tamauho atrevjmento, a qual Casa he tão imsynhe e prymcipal emtre Cristãos que haa pouco tempo que desendião dela todos os Reis ou Rainhas deles—Estaa claro que deve de ser por lhe ter grandíssimo odeo. A causa pareçe que seraa, por eles serem quem forão e ele quem he, domde se pode jmfyryr, e eu asym o entemdo, que se não deve deixar esprever cousas desta calidade senão a pesoas de muyta, e veja se a chronyca toda e verão quão particular foy o autor que a escreveo em mujtas cousas que não pesavãp hiia palha, e quão breve no que tocava aos senhores da Casa de Braguamça e aos decendemtes dela. E não deixou de as escrever por falta de imformação, por que a tomou do Duque
  • — 32 — fenhorio, jurdiçam, & depois de fer Rei, pofto q mudafle ha dignidade, nem por iffo mudou ha vôtade q tinha de lhe fazer merce, mas ates ha •Fi. ii. v.d. a.» acreçentou, moftrãdo por obra ho q* sempre deiejara, & pêra poer em effecto ha boa võtade que tinha de fatisfazer ahos mereçimentos de quem ho também leruira, eftãdo ainda em Setuual, ho fez Cõde de Portalegre, com rendas jurdiçam, & caftello, mas efta doaçam não houue effeéto em tudo, porq aho tomar da pofTe fe oppolerão hos prinçipaes da villa, do que le tirarão eftrométos em q com razões muim fuffiçiétes moftrauão, que húa tal, Villa como aquella não era bê que fe apartafle da Coroa, nê le defle a peífoa q filho de Rei não foffe, do q elRei foi mui indignado, & proçedeo cotra elles, caftigando hos mui rigurosamente cÕ penas, de- gredos, & emprazamentos. Com tudo vedo q não queriam defiftir de fua leal opiniam, & q ho q faziam era por feu feruiço, & vtilidade do patri- mónio da Coroa, mudou ha fuftãçia da merçe, referuando pêra fim ha jurdição, & fenhorio da villa, & a do Diogo da fylua deu ho caftello delia dejuro, cÕ fó titulo de Code, fem outro nenhú poder, pera elle, & todos feus defcédentes, & pelo em q efta doação nã houue effecto fatisfez elRei ho conde com outras merçes'. Dom Theodosyo, ao qual dixe pollo segurar, ou enguanar, que nesta chronyca que fajia dei Rey Dom Manoel devja de tirar a limpo a inosençia do Duque Dom Fernamdo, seu avoo, e pera isto poder ser milhor, me pidio o Duque que lhe quygese daar o treslado de hua carta que ho senhor Dom Alvaro espreveo a Eli Rey Dom João, na qual se comtem a verdade de tudo, como per ela se veraa, e elle não fej nenhúa mensão de nada que nela esteja, sendo maes verdadeyra que tudo ho que ele pode dijer, e isto milhor lhe cabe o nome de traição que polo ele, homde numca a pode aver. E bem se yjo a inosençia do Duque nos avjsos que lhe forão dados pera não ir ha corte, como consta na chronyca dei Rey Dom João no capitolo omqe, e no capitolo treçe dij o chronysta do mesmo Rey Dom João que mujtas veqes o avjsarão e que nada creo, comfiado em sua jnosençia— comfirma isto que se o Duque trajia algum maao pemça- mento, como tinha tam descujdados seus alcaides mores quamdo lhe El Rey mandou tomar as fortalesas f E no capitolo quatorje diç que desejava El Rey Dom João achar algum meo pera escusar o Duque e no mesmo capitolo não quyq aseitar o Remedio do direyto que lhe apomtou pera seu livramento, e por que djjer tudo ho que hee pera diqer nesta materya sarya numca acabar, a deixo, mas pelo dito se veraa o que fica por dizer. Cfr. E. Prestage, ob. cit., pág. 355-357- 1 Na Ep.: «e pelo q se desta doaçã desfalcou aho Cõde lhe fez el Rei outras merçes de que se teve por satisfeito.»
  • Càpit. xv. De quomo el Rei mãdou a Roma Pero Correa fobre negoçios q tinha cõ ho Papa, & pera acõpanhar ho Cardeal de Portugal dÔ George da cojla, atte ejles Regnos.* NA chronica do Prinçipe dom loam, filho delRei dom Afonfo quinto no capitulo xvij falando na Infante donna Catherina, filha delRei dom Duarte, irmã delRei dõ Afonfo, fiz mençam de dom George da cofia Cardeal de Portugal, homé que pofto que nalcefíe de gente mui baixa, popular, & pobre, depois de fer capellão, & meftre deita fenhora veo por feu faber, & induftria a fer Cardeal, & teue tanta authoridade é Roma, & neftes regnos, afsi 110 cõfiftorio dos Papas, quomo no confelho delRei dõ Afonfo, que quando fe nelles achaua, era húa das peffoas de cujo voto fe fazia mais conta, porq ha mita prudéçia, & experieçia q nelle hauia dos negoçios daquelle tépo, & difcurfo das coufas paffadas, lhe faziã pela mór parte dar ho milhor pareçer, do que fe com elle fobrellas confultaua. Mas pofto que nelle houuefle eftas partes, & outras muitas dignas de louuor, elRei dom loam fendo prinçipe, & depois de fer Rei, lhe teue fempre odio, por algús refpeitos particulares, & nunca delle, nem de feu feruiço, & amizade fez cabedal. Cõ tudo elrei dõ Emanuel conheçédo ha prudençia q nelle hauia, quomo regnou loguo per luas cartas, & mefageiros fez tanto com elle que lhe prometeo de fe vir pera ho Regno: Pelo que* ordenou de mandar a Roma Pero correa, fidalgo de fua cala, pera ho acompanhar nefte caminho, & negoçiar per via do mefmo Cardeal algúas coufas com ho Papa. Mas depois de Pero correa fer em Roma achou ho Cardeal mudado de propofito, dando per excula fua idade, & má defpofiçam, & fobretudo não lhe querer ho Papa dar pera iflb liçença, & ho qrer ter apar de sim, pela neçesidade q tinha de seu cõselho, & ajuda nas coufas que lhe compriam, pelo q encomendando lhe Pero correa hos negoçios que leuaua, fe tornou pera ho Regno, hos quaes todos ho Cardeal defpachou com ho Papa, & has bulias, & expe- diçam defies mãdou depois a elRei quomo fe aho diante dirá. Capitu, xvi. De quomo el Rei acreçentov has rações dos lugares Dafrica, & de Ma embaixada q lhe veo de Veneza, & fobre que. HAVENDO elRei refpeito a quãto feruiço fe faz a Deos na guerra Dafrica, com fe fuftentarem hos lugares que nella tinham ganhados hos Reis feus anteçeffores, eftando ainda em Setuual ordenou pera mór
  • - 34 - fegurança, que houueffe nelles mais gête de guarniçam, & afsi a eftes, 'Fi. ia. v.ci. i.« quomo ahos moradores, & capitães, acreçêtou* hos foldos rações, & mãtimêtos, & logo dali a poucos dias cõ rebates de peftilêça fe foi a Palmela, & de Palmela a Villa Fraca de Xira, onde efteue atte fim do verão, & no mes de Septembro fe foi a Torres vedras, onde veo ter hum embaixador de veneza, que ho vinha vifitar da parte da Senhoria. A efte embaixador armou elRei caualleiro de fua mão, & lhe fez muitas merçes, cõ q fe tornou mui contéte pera Veneza, onde no Senado dixe muitos louuores de fua pelfoa, & relatou ho grande amor & afeiçam q nelle achara pera todalas coufas que a fua republica compriffem, ho que cõfirmou, & renouou nos corações de todolos daquella çidade, ha antigua amizade que entre elles & ha naçam portuguefa antiguaméte lepre houue. Capitu, xvii. De quomo elRei alcançou do Papa que hos commêdadores da Ordem de Chrijlus, & de Auis pode ff em cafar, & do faiméto que mandou fa\er em Torres vedras por elrei dom Ioão, & de quomo fe\ ho primeiro Cõde Dalcoutim. ANTIGVAMENTE neftes Regnos hos commêdadores das Ordés de Chriftus, & de Auis nam podiam cafar, & com efte voto entra* uam neftas religiões, ho que então pareçia fer neçeffario, pera q hos trabalhos do cafamento, & obrigações deile, hos nam eftoruaífe a fazerem guerra ahos Mouros, que naquelle tempo em que fe eftas ordês de Cauallaria fundaram, tinham occupada ha mór parte de Hispanha, ha qual liure defte açoute, & caftigo q lhe Deos deu, por muito fpaço de tempo, pareçeo ahos Reis de Portugal, que pois ja feus Regnos erão liures defte trabalho, & per armas tinham lãçado fora delles efta gête, que nam era neçeffario, mas antes prejudiçial eftarem tãtos homês nobres, quantos occupauam eftas duas Ordês de caualleria, fê cafar, & que ho deuiam fer, pera que delles proçedefTe geraçam lidima, de lidimo matri- monio, que a façe defcuberta, fem labeo de baftardia ficafle em igual grao cõ ha outra ligitima nobreza do Regno, pera juntamente fazerem todos guerra ahos Mouros em fuas próprias terras, & cafas, quomo agora fazem, pelo q supplicaram fobre efte negoçio muitas vezes hos Reis paffados ahos Põtifiçes Romãos, fem delles poderem hauer ha expediçam, ho que elrei dom Emanuel tanto q regnou determinou acabar, & cõ ha obediençia que mandou aho Papa Alexandre fexto, de que atras fica dito, screueo aho Cardeal dõ George da costa, & ho mefmo fez per Pero • fi. i3. ci. s* correa, encomendando-*lhe muito que trabalhaffe por lhe ho Papa cõçeder /
  • 35 — tam honefta petiçam, & ho mefmo pedio aho Papa per fuas cartas, sobelo que ho Cardeal, que e tudo defejaua feruir elRei, fez tanto, que lhe al- cançou ho que pedia, ha qual graça não conçedeo ahos que ja eram commendadores, fenam ahos cj dali por diante ho foífem. E por fer ja comprido ho anno do faleçimento delrei dom Ioão, lhe mãdou elrei dom Emanuel, eftando ainda em Torres vedras fazer hú folemne faimento, a q foram prefentes hos mais dos Prelados, & fenhores do Regno, & dali fe foi Alanquer, & Dalanquer a Muja, onde nouamente fez Conde Dal- coutim dom Fernando de menefes, filho de dom Pedro de menefes pri- meiro Marques de villa Real, & lhe conçedeo, & fez graça, & merçe, que dali por diante hos filhos mais velhos ligitimos dos Marquefee de villa Real fe chamaíTem Condes Dalcoutim. ' Capit. xviii. De quomo elRei mandou lançar hos Mouros, & Iudeus fora de fens Regnos, & fenhorios. DEPOIS qve hos Reis de Caftella lançaram hos Iudeus fora de feus Regnos, & fenhorios, quomo atras fica dito, elrei dom Emanuel - n. i3. ci. a.* requerido per cartas dos mefmos Reis determi*nou de fazer ho mefmo, mas quomo ho negoçio folie de qualidade pêra fe delle nam tomar refu- » luçam, fem bom confelho, houue sobriífo vários pareçeres, porque hús diziam que pois ho Papa cofentia efta gente em todalas terras da Egreja, permitldolhes viuerem em fua lei, & que ho mefmo faziam todolos Prin- çipes, & refpublicas de Italia, & Hungria, Bohemia, & Polonia, ho q fe podia cuidar q nam fazião fem caufa, a cuja imitação em toda Alemanha, & outros Regnos, & prouiçias de Chriftãos hos deixauão també viuer, q caufa haueria pêra hos lãçaré do regno, ^ nam repugnaífe com ha razão ( queftoutras nações tinhão pêra ho cofentiré, & que ale ditto polos lãçaré da terra, nem por iíTo lhes dauão azo de nas alheas fe tornaré chriftãos, mas antes fe fe foíTem pera hados mouros, fe perdia de todo ha efperança de nenhum fe couerter *, ho que muitos delles viuédo entre nos, mouidos de noffa religiã & do bom vfo delia fe podia fperar que fezeffem, & que hauia ainda nifto outros inconuenientes, porque alem dos feruiços, & tributos que elRei perdia, ficaua obrigado a fatisfazer ás peíToas a q elle, & hos Reis paífados delles fezeram merçe, & q nam tão fomente leuauam comfigo da terra muitos haueres, & riquezas, mas ainda ho que era mais 1 Et. couerter. /
  • — 36 — ... de eftimar, leuauam fotis, & dilicados fpiri-*tos com que faberiam dar ahos mouros hos auifos que lhes neçeflarios foffem contra nós, & fobre tudo lhes infinariam feus offiçios mecânicos, em que erã muito deftros, prinçipalmente no fazer das armas, do que fe poderia ieguir muito dano, trabalhos, & perdas, afsi de gente, quomo de bés toda ha Chriftandade. Efte foi ho pareçer, & opiniam dalgús do confelho, a que outros repu- gnaram dizédo que bem era verdade ho que diziam, mas que hos reis de França, Inglaterra, Efcoçia, Dinamarca, Noroega, & Sueçia, cõ muitas outras prouinçias vizinhas a eítas, & todo ho eítado de F1 andes & Bor- gonha nam lançaram os Iudeus dentre íim muitos annos hauia fem pera ho fazerem terem boas caufas, & de reçeber, & q ho mefmo fe deuia cuidar dos Reis de Caftella, ho que abaftaria pera haueré de lançar efta naçam fora do regno, quanto mais q nã parecia bõ cõlelho eftãdo eftes regnos çercados dos de Caftella, & hos de Caftella dos de Frãça, per- mittiré fe nelles Iudeus, íedo laçados das terras de taes vizinhos, & tam poderofos hos quaes poderiam tomar a mal parecemos q tínhamos milhor confelho em deixar viuer efta géte entre nos, do que elles tiueram em hos lacarem de íim, ho qual deguofto por vétura terião iecreto, pera 2.' quando videm tempo opportuno abrirê has afas á tyrania * & debaixo de cor de catholicos, & chriftianifsimos nos fazeré ho mal, & damno que podeflem, & que lobretudo, ho bom confelho era perder ha faudade, a todolos proueitos, & tributos que fe deita gente tirauam, & por ho intéto em fó Deos, & na fua fanéta fé, porque elle dobraria cõ fuas merçes ho q nifto perdeífe ', & que pois efte negoçio per fua võtade viera a fe poer a determinaçam3 de confelho, que ha refoluta conclufam delle foffe lançaré loguo do regno aqlles q nam quifeffem reçeber a aguoa do baptifmo, & crer ho q cre ha Egreja catholica chriftã. Na qual opiniã, & pareçer foi elRei, fem ter cota cõ ho que fe niífo pdia, né cõ has fatisíações q ficaua obrigado fazer, quomo depois por inteiro fez. E loguo fe afsinou tépo çerto pa ha notificaçam deite negoçio, ho ql toi declarado, & publicado, eftando elRei ainda em Muja, no mes de Dezébro de M.cccc.xcvj, em húa pregaçam q fe fobre iflo fez, e nam tam sóméte fe affentou no cõfelho q hos Iudeus fe foífem do regno, cõ fuas molheres, & filhos, & bés, mas també hos mouros pelo mefmo modo, pera ho q lhes elRei limitou logo a todos tempo çerto, & nomeou portos feus de feus Regnos pa fuas embarcações. 1 Et. l.: Flandres. * Na Ep.: «o que se aqui perdesse...» 3 Na Ep.: «viera a se por a determinaçam...»
  • _ — - 37 - Cap »F1.14. cL I.* xix. Da embaixada q hos Rets de Cajlella mandaram a elRei fobre aliauças.1* ESTANDO elRei em Eltremoz chegou ahi dom Afonfo da fylua, de quê atras fiz meçam, ho qual hos reis dom Fernãdo, & ha rainha dona Ifabel, lhe mandauã com embaixadaJ. E entre outras coufas que de fua parte requereo, & appontou, ha prinçipal foi fobre alianças, cõfede- raçam de amigos damigos, & imigos de imigos, aho que hos então moueo ha diferença que tinham com elRei Charles de França oitauo do nome, fobelo regno de Nápoles, per cujo refpeito hauia étrelles crua, & braua guerra, a qual refultou é elles ganharem ho ditto Regno, per induítria, e prudençia do grã capitam Gonçalo fernãdez daguilar, & lançarê delle hos Françefes que ho já tinham quafi todo occupado, quomo le mui lar- gamente contem nas Chronicas dos mefmos Reis de França, & Caltella, prinçipalméte na que fez Philippe de comines, fenhor dargentom em lingoa Francefa, das quaes alianças fe elrei excufou, prometendo com tudo q fe elrei de França lhes vielfe fazer guerra détro dos regnos de Caftella, que em tal cafo ho ajudaria, fem embargo da paz, & amizade que entam com ho ditto rei de Franç 3 tinha, no q el rei fatisfez4 cõ razam aho muito diuido, & parétefquo q étrelleshauia, porq elrei do Fernando era filho •fi. 14. ci. 2.' delrei dom loam Dara-*gam, irmão da rainha dona Leanor molher delRei dõ Duarte de Portugal, auo delrei dom Emanuel, & ha rainha dona Ifabel era prima com irmam delRei. dom Emanuel, filhos ambos de duas irmãs, cõuem a faber, elle da Infante donna Beatriz5, molher do Infante dom Fernando, & ella filha da Infante donna Ifabel molher delRei dom loam de Caltella, fegundo do nome, has quaes fenhoras Infantes, donna Ifabel, & donna Beatriz eram ambas filhas do Infante dom loam, filho delRei dom loam de Portugal da boa memoria, primeiro do nome. Dos quaes parentefcos, quis aqui poer eíta lembrança, porque has coufas delta cali- dade, nam fendo bem efpeçificadas pellos scriptores, fazem depois muitos enleos, de que recreçem mores erros, nas progenias dos Reis, & Prin- 1 Et. alianças. 1 Na Ep.: «dóna Isabel, reis de Castella, e Daragã lhe mãdavã cõ embaixada...» ' Et. /.: França. * Na Ep.: «q em tal caso elle ho ajudaria, sem embargo da paz, e amizade q entam tinha, no q elrei satisfez'...» s Na Ep.: «filhos ambos de duas irmãs. s. elle da Infanta dona Beatriz.»
  • — 38 — çipes, no declarar das quaes hos Chroniílas deuem fer muim vigilates, & has deuem pintar de tam boas cores, & tam viuas, q per nenhum modo ho tempo has pofla çegar, nem trazer em duuida. Capit. xx. De quomo elrey mandou tomar hos flhos ahos Iudeus que fe ihão fora do Regno, & porque caufa •m. 14.T.ci.i.« nam fe\ ho me/mo ahos mouros.* MVITOS dos ivdeus naturaes do Regno, & dos que entraram de Caftella tomaram ha aguoa do baptifmo, & hos que fe nam quiferam conuerter começaram logo a negoçiar has coufas que lhe cõui- nham pera fua embarcaçam, no qual tempo 1 elRei per caufas que ho a iífo moueram ordenou que em hum dia çerto lhes tomaflem a eftes hos filhos, & filhas de idade de xmj annos pera baixo & fe deftribuiflem pelas villasr & lugares do regno, onde à fua propria cufta madaua que hos criaflem, & do&rinaffem na fé de noffò faluador Iefu Chrifto, & ifto concluio elRei com feu cõfelho eftãdo em Ellremoz, & dalli fe veo a Euora no começo da quarefma do anno de M.ccccxcvij, onde declarou que ho dia afsinado foífe dia de Pafcoela, & porque nos do confelho, nam houue tanto fegredo, que fe nam foubeífe ho que açerqua difto eftaua ordenado, & ho dia em que hauia de fer, foi neçeffario mandar elRei que efta execuçam fe fezefle loguo per todo ho Regno, antes que per modos, & meos que eftes Iudeus poderiam ter, mandaífem efcondidamente hos filhos fora delle, a qual obra nam tam fomente foi de gram terror, mefturado com muitas lagri- mas, dor, & trifteza ahos Iudeus, mas ainda de muito efpanto, & admi- •fi. 14. t.ci. 2.* raçam ahos chri-*ftaos, porque ninhúa creatura do de padeçer, nem fofrer apartar de fim forçadamete feus filhos, & nos alheos por natural cõmunicaçam fente quafi ho mefmo, prinçipalméte has raçionaes, porque com eftas comunicou natureza hos effeétos de fua lei, mais liberalmente do que ho fez com has brutas irraçionaes, ha qual lei forçou muitos dos chríftãos 2 velhos mouerenfe tanto a piedade, & mifericordia dos bramidos, choros, & plantos que faziam hos paes, & mãis a quem forçadamente tomauam hos filhos, (pie elles mefmo hos efçondiam em fuas cafas por lhos namvirem arrebatar dentrafmãos, & lhos faluauão, cõ faberem que niífo faziam contra ha lei, & prematica de feu Rei, & fenhor, & ahos mefmos Iudeus fez vfar tanta crueza efta mefma lei natural, que muitos. 1 Na Ep.: «convinham pera sua partida, e ébarcaçã, no qual tépo...» 2 Et. chriftãos.
  • — 3g — delles mattaram hos filhos, afogando hos, & lançando hos em poços, & rios, & per outros modos, querendo antes vellos acabar deita maneira, q nam apartallos de fim, fem fperança de hos nunqua mais veré, & pella mefma razão muitos delles femattauam afim mefmos. Emquanto fe eítas execuções fazião, nam deixaua elrei de cuidar no q conuinha à faude das almas deita gente, pelo que mouido de piedade difsimulaua cõ elles', fem lhes mandar dar embarcaçam, & de tres portos de feu Regno que lhe • Fi.i5.ei.i.« pêra iíto tinha afsinados, lhes ve-*dou hos dous, & mandou que todos fe vieflem embarcar a Lisboa, dandolhes hos eítaos pera fe nelles agafalha- rem, onde fe ajuntaram mais de vinte mil almas ', & com eítas deloguas fe lhes paífou ho tempo que lhe elRei limitou pera fua faida, pelo que ficauam todos captiuos, hos quaes vendofie em eítado tam mifero, come- teram muitos delles por partido a elrei que lhes tornaífem feus filhos, & lhes prometeífem que em vintannos fe nam tiraffe fobrelles deuáífa, & que fe fariam Chrifítaos, ho que lhes elRei conçedeo, cõ outros muitos priuilegios que lhes deu, & ahos que nã quiferam fer Chriítãos mandou loguo dar embarcaçam, quitandolhes ho captiueiro em que encoreram, & fe paifaram todos a terra de mouros. Hora he que fe poderá reputar a defcuido nam dizermos que caufa houue pera elrei mãdar tomar hos filhos dos Iudeus, & nam hos dos mouros3, pois afsi hús, quomo hos outros fe faiham do regno por não quererem reçeber ha aguoa do Baptifmo, & crer ho que cre ha Egreja catholica Chriltam. Ha caufa foi porque de tomarem hos filhos ahos Iudeus fe nã podia recreçer ninhum damno ahos Chriítãos que andam efpalhados pelo mudo, no qual hos Iudeus por feus peccados nam tem regnos, nem fenhorios, çidades, né villas, mas antes •fi. i5. cl. a." étoda parte õde viué fam * peregrinos, & tributários, fem terem poder, nem authoridade pera executar fuas võtades contra has injurias, & males que lhes fazem. Mas ahos mouros per noíTos peccados, & caítigo per- mitte Deos terem occupada ha mór parte de Afia, & Africa, & boa de Europa, onde tem Impérios, Regnos, & grandes fenhorios, nos quaes viué muitos chriítãos debaixo, de feus tributos, aliem dos muitos que té captiuos, & a todos eítes fora mui perjudiçial tomaremfe hos filhos dos mouros, porque ahos que fe eíte agrauo fezera, he claro que fe nam houueram defquecer de pedir vingança dos Chriítãos q habitauam nas terras dos outros mouros, depois que fe lá acharão & fobretudo dos 1 Na Ep.: «nam deixava elRei de cuidar no que convinha á saúde de suas almas e movido de piedade dissimulava com elles...» 1 Na Ep.: «onde se ajuntaram passante de vinte mil almas...» J Na Ep.: «mandar tomar hos filhos dos ludeos, e nam dos mouros...»
  • — 40 — Portuguefes de quê particularmente nefta parte fe podiam aqueixar. E efta foi ha caufa porque hos deixaram fair do Regno com feus filhos, & ahos Iudeus nam, ahos quaes todos Deos per fua mifericordia permitta conheçeré ho caminho da verdade, pera fe nella faluaré. •Fl. i5 t. cl. Capitu, xxi. Do fruâo que se fe\ em tornarem hos Iudeus Chri/tãos. CERTO qve efta obra de fazer q hos Iudeus fe tornaflem Chriftãos, foi digna de muito louuor, pofto que fe delia* podeffem feguir hos inconuenientes que no confelho delRei fora appõtados, & muitos outros que fe depois viram em que fe entam poderá mal cair, porque ninhfia perda podia vir aho Regno pela conuerfam defta gente, que fe podefle eftimar perda, em comparaçam do que fe ganhou em conheçerem ha verdade do que hauião de crer, mas nem por fe fazer tamanho ganho fe pode affirmar q nam he dano aquillo de que refulta perda, com toruaçam & detrimento do bem publico, & particular. Ho que tudo fe feguio a eftes Regnos per feu azo delles, & sotilezas de feus negoçios, depois que tiueram nome de Chriftãos, & poderam trattar em muitas coufas, que pelo direito canonico expreffamente lhes eram defefas, das quaes hfia era nam arrédare hos dízimos das Egrejas, né ninhúas nouidades, do que fe feguia nam hauer naquelle tempo tantas vezes careftia de manti- mêtos, quomo houue depois que elles começaram a trattar niffo, fazendo aleuantar ho preço às nouidades da terra, quomo fe ho q ella cria foffe trazido de fora do Regno, por falta que delias houuefle, aho que fe também acuftumaram hos Chriftãos 1 velhos, que nefta parte ho fazem com menos temor de Deos, & medo das juftiças que hos nouos, com *fi. i5. *. cl. *.« oufadia de nome de Chriftãos lindos, & de mais validos, & aparentados,* na terra que eftoutros, da qual defordem fe feguio, dentam pera quà, nam tam fomente aleuantar ho preço dos mantimentos fora de toda razam, mas com elle ho de todo ho genero de mercadorias, áqual careftia (paflando fem pintar de fuas verdadeiras cores, mais ha defordenada auariçia dos vendedores, que ha peftifera cobiça dos arrendadores) fe nam poderá acodir fe nam com ifto fer aho contrairo, recolhendo ho Ecclefiaftico hos dízimos das Egrejas, & hos feculares has nouidades que lhe Deos dá em fuas cafas, & çileiros, & dali per fim, ou per feus criados,. 1 Et. Chriftãos.
  • 4i — & feitores has mandarem vender, quomo fe antiguamente fazia neftes Regnos. Outro remedio hahi nam menos proueitolo quefte, ho qual feria não paguarê hos lauradores ahos fenhorios fuas rendas fe nam a dinheiro de contado, quomo fe faz em Flandres, Brabante, Holanda, Zelanda, & outras partes, porque eftes não Iam poderofos pêra ençarra- rem ho pão, mas antes conftrangidos pela renda que ham de paguar em dinheiro, trazerem fuas nouidades ahos lugares donde fam vizinhos, nos dias da fomana, que nelles fe fazem feiras, & ho vedem milhor mercado do que fariam hos fenhorios, fe recolhelTem fuas rendas em pam, por ferem mais poderofos, & poderem foftentar ha venda milhor que hos *fi 16. ci. I.* lauradores. E pois tratto* da careítia do pão, quero també dizer quomo hos Reis de Inglaterra acodiram à das carnes, pelo preço delias ir em grande creçimento per todos feus regnos, & foi com mãdarem por lei expreífa que ninhum homem per grão fenhor, & poderofo que foffe, podeíTe criar mais que húa çerta & taxada cantidade de guado, aísi grofTo, quomo meudo, limitãdo ella taxa pelas cõmarquas fegundo ha fertilidade de cada húa delias, do que fe feguio por hauer muitos cria- dores, hauer também muitos vendedores, & abaixou ho preço das carnes naquelle regno mais da metade, has quaes duas leis, & collumes açerqua das nouidades, & criações fe fe neftes Regnos guardaíTem, he de crer q todalas coufas tornariam a preço honefto, & ainda que nam foffe ahos antiguos, feria pelo menos a taes, que quem ifto ordenaffe fe poderia ter por verdadeiro pai da patria, & renouador, da boa ordem, & coftumes, que nella, nos tempos paffados houue. Capi. xxii. De quomo fe começou a trttar1 ho cafamento delRei com ha Prinçefa donna Ifabel. E LREI dom Fernãdo, & ha Rainha donna Ifabel houueram de feu •fi. 16. d. i.« I j matrimonio * ho Prinçipe* dom Ioham que cafou com Madama Margaida3, irmam de dom Philippe Archeduque Dauftria, que depois foi Rei de Caftella, filhos do Emperador Maximiliano, & de madama Maria duquefa de Borgonha, filha do Duque Charles que morreo na batalha de Nancy. Efte Prinçipe dom Ioham morreo fem hauer filhos, & madama 1 Et. trattar. 8 Na Ep.: «EIRei Dom Fernando, e ha Rainha dona Isabel reis de Castella e Aragam, houvera de seu matrimonio...» ' Et. Margarida. I 6
  • — 42 — . Alargaria1 cafou depois com Philibert Duque de Sabóia, dalcunha ho fermofo, oitauo do nome, de que tãbem nam houue filhos, ha qual fenhora foi húa das fermofas molheres de toda Europa, & fobretudo muito prudéte, catholica, difcreta, & fagaz, pelos quaes dotes de virtudes ho Emperador Carlos quinto feu fobrinho, ledo aufente, & prefente nas terras do eftado de Flandres, & de Borgonha lhas deixou gouernar, & reger emquanto ella viueo, ho que fempre fez cõ muito louuor, & boa ordem de juftiça, do q eu poffo dar teftimunho, quomo quê cõ ella muitas vezes falou, & trattou negoçios delrei dom loão terçeiro q fan&a gloria haja, em cujo 1'eruiço andei naqllas partes, & em outras desno tépo de minha moçidade atte idade de quaréta, & três annos, em que p feu mandado tornei a eftes regnos. Houueram mais hos Reis de Caftella quatro filhas, f. ha Infante dona Ifabel que calou com ho Prinçipe dom Afonfo, filho delRei •fi. i6v. ci. i.« dó loam fegundo de Por#tugal, ho qual Prinçipe pouco tépo depois de ler cafado, faleçeo em San&arem de húa queda que deu indo correndo a cauallo, de que logo morreo, fem deixar filhos, & ha Prinçefa donna Ifabel fe tornou viuua pera Caftella. Has outras foram ha Infante dona Ioanna q cafou com dom Philippe Archeduque Dauftria, que arriba nomeei, que per faleçiméto da rainha donna Ifabel fucçederam nos regnos de Caftella, & Leãs, & a terçeira ha Infante donna Maria que depois foi Rainha de Portugal quomo fe aho diante dira, & ha quarta ha Infante donna Catherina que calou com dom Henrrique Rei de Ingla- terra, oitauo do nome. Delias quatro filhas ha com que elrei dom Emanuel mais defejaua cafar, foi ha Infante donna Ifabel viuua do Prinçipe dom Afonfo, & por ter efta vontade fe excufou do da Infante donna Maria, per dom Afonfo da fylua, quãdo ho veo vifitar de parte dos Reis, quomo atras fica dito no Capitulo xj, & por vir aho fim que defejaua, eftãdo em Torres vedras communicou efte negoçio com dom Aluaro feu primo, ho qual fe lhe offereçeo pera ho nelle feruir, & dali fe foi a Caftella muim bem acompanhado no Anno paliados, & com ha repofta do a que fora tornou a Euora nefte de Mil ccccxcvij, com ha boa •fi. 16 y. cl. 2.» fperança da qual repofta ordenou elRei de mandar por* embaixador, 1 Et. I.: Margarida. * Na Ep.: «de Castella,...» 3 Na Ep.: «estando em Torres vedras communicou este negoçio com dom Alvaro, irmão do duque de Bragãça dom Fernando segundo do nome, de que atraz fiz mençam ho quall pellas muitas merçes que delle tinha recebido, se lhe offereçeo pera ho nelle servir, e dalli ho mandou ha Castella no anno passado.. ■» O corte foi feito para não irritar o conde de Tentúgal.
  • - 43 - ahos ditos Reis, do Ioã Emanuel*, feu camareiro mór, peffoa de quem com razão muito confiaua 2, afsi por fer mui prudente, quomo pela criaçã0 q nelle fezera, & dali ho defpachou acompanhado, quomo a tal embaixada conuinha, ho qual achou em taes termos ho que la fobrelte cafo negoçeara dom Aluaro, q partindo Deuora no verão deite anno hos cafamentos fe çelebraram no mes de Oítubro, do melmo anno3, da qual cidade elRei per cafo das calmas4 depois de ho ter defpachado fe foi a Syntra ter ho veram, por fer hú dos lugares da Europa mais frefco, & alegre, pa qual quer Rei, Príncipe, & fenhor poder nelle paffar ho tal tempo, por que aliem dos bos ares q de fim lança aquella ferra chamada pelos antigos Promontorio dalua, há nella muita caça de veados, & outras alimarias, & fobre tudo muitas, & muito boas fructas de todo ho genero das que fe em toda Hifpanha podem achar, & has milhores fontes daguoa & mais fria de toda ha eltremadura, às quaes coufas todas acreçenta ho fabor, hos magníficos paços5 que no melmo luguar hos Reis tem, pa feu •Fi. 17d. i.« apoufento, & dos q cÕ elles ali vam.* Capitu, xxiiii. De quomo ElRei tna.nd.ov Vasquo da Gama por capitam de tres naos, pera profeguir no que jà era defcuberto, atte uer fe podia chegar á índia. NA chronica do Prinçipe dom Ioão declarei afaz per extenfo quam vigilãte, & Itudiofo ho Infante dom Henrrique filho delRei dom loam da boa memoria primeiro do nome foi no defcobrimento da coita de Africa, & quantas defpefas fobriíTo fez, cõtinuãdo neíte negoçio com muita gloria, & exalçamento do nome de Deos, & louuor feu, atte ho anno de noífa faluação de mil, & quatro çentos, & fefenta, em q faleçeo no mes de Nouembro, na villa de Sagres, em idade de fefenta, & fette annos, cõ já ter reçebido frudo de muita hõrra, & proueito de todos eítes feus trabalhos, & profeguindo eu neíta materia per modo de com- pendio, efcreui no começo da mefma Chronica, ho que achei fer mais importante a eítas nauegações, atte ho nafçimento do dido Prinçipe do loam, que foi no anno do Senhor de M.cccclv, & dahi por diante tratto 1 Na Ep.: «por embaixador ahos Reis, dom Ioã Emanuel.. » 2 Na Ep.: «pessoa de que com rasão muito confiava...» 3 Na Ep.: «quomo a tal embaixada convinha, ho que elle negoçiou também, que partindo Devora no verão deste anno...» 4 Na Ep.: «donde elRei per caso das calmas...» 5 Na Ep.: «hos riquos e magníficos paços...»
  • — 44 tudo ho que toca a eites defcobrimentos, per ordem dos annos em que • fi. 17ei. a* cada húa das taes coufas aconteçeo, atte que Deos* fe houue por feruido chamar pera fim elrei dõ Afonfo quinto feu pai, que faleçeo no anno de Mil quatro çentos, & oitenta, & hum a quem ho Principe focçedeo no ^ Regno, ho qual depois de regnar proçedeo neites defcobrimentos de ca- lidade, que a elle fem, tirar gloria, né louuor a peífoa nenhúa fe pode dilfo dar boa parte da palma, & triúpho, nos quaes ho mór trabalho, & dificuldade efteue no achar do cabo da boa fperãça, & paflalo, ho q fe fez em feu tépo, corrédo hos noífos muito mais aliem delle pela coita de Guine atte chegarem quafi ahos limites, & termos de Çofala, & Moçã- bique, terras habitadas de gente, com quem tinhão tratto pelo mar, & negoçio hos da coita de Melinde, & Mõbaça, & da Ilha de S. Louréço. Has quaes viagés todas fe fezerão per mandado deite inuéciuel Rei dõ loam, cõ muito trabalho feu, & deipefa de fua fazéda, nauegação já 4 efqueçida de todo ho genero humano, per tanto fpaço de tempo, quanto 1'e pode ver em hú diicurfo 4 diífo fiz na melma Chronica do Prinçipe dõ Ioão, q compus de nouo em lingoagem Portuguela, & affi e hú liuro q fiz em lingoa latina do fitio, & antiguidade da çidade de Lisboa, nos quaes dous dilcurfos declarei quãtas, & quaes peffoas, muito antes fezeram eíta viagem da índia, pelo meimo caminho q ha nòs agora fazemos, ho •Ft. 17V.CI. i.» que fiz* por acodir aho erro em q cairá algús fcriptores Portuguefes q trataram deites negoçios. dizédo q só a nação Portuguefa fora ha q ^ nauegãdo pelo mar Oçeano, primeiro q nenhúa outra viera ter a ho mar da India, do qual erro fe lhes pode em parte releuar ha culpa, por por vétura cuidarem, que attrebuindo eíta gloria á fua propria naçam, lhe acreçentauao louuor, ahos muitos que fe lhes deue pelas milagrofas vi&orias, que naquellas partes em diuerlos têpos & lugares houueram. Afsi que faleçido elrei dom Ioão, foccedeo no Regno elrei dom Emanuel, ho qual quomo herdeiro vniuerfal de toda ha machina, & pefo deitas * nauegações, não contente do que jà era defcuberto, mas antes muito defejofo de paífar adiãte, logo no começo de feu regnado, no mes de Dezembro de M.ccccxcv, teue em Monte mór ho nouo fobrilío confelho, no ql algús forão de opinião que fe não profeguiífe mais neíta viagem, aliem do que jà era difcuberto, por q hauia de fer muito enuejada de todolos Reis, & refpublicas da Europa, & afsi do foldam de Babilónia, & dos mefmos Reis, & ienhores da India, do que fe hauiam de feguir grandes trabalhos, & delpefas a eítes Regnos, que abaítaua ho paçifico trato de Guiné, & da honrrofa couquiita 1 dos lugares Dafrica, pera ganho 1 Et. conquiíta. /
  • — 45 — •Fi. V7»• el. j.* dos mercadores, & proueito das ren-*das do Regno, & exerçiçio da nobreza delle, mas elRei foi do voto daquelles a quem ifto pareçeo aho contrairo, mandando loguo aparelhar naos, no que fe paffou mais de hum anno. No tempo em que fe fazia preftes eftas naos teue elRei confelho fobre quem mandaria por capitam delias, & aífentou que fofle Vafquo da gama, fidalgo de fua cafa, natural da villa de Sines, homem folteiro, & de idade pera poder fofrer hos trabalhos de húa tal viajem, pelo q ho mãdou chamar, eftãdo é Eftremoz no mes de Ianeiro de Mil, & quatro çentos, & nouéta, & iette, & lhe deu ha capitania delias, com palauras de muita cõfiança, pondo diante ho pefo de tamanho negoçio confiftir nam na defpefa, que fe nelle podia fazer, nem no que fe niífo auenturaua, fenam no feruiço de Deos, & bem de feus Regnos, ho que tudo fe podia confeguir, fe paflando elle a diante do que jà era difcuberto, podefle chegar à índia, & daquellas partes lhe trazer ho primeiro fruóto de todallas defpei'as que feus anteçeífores niffo tenham feitas, & dos perigos que ha naçam Portuguefa tãto tempo hauia, que neftas nauega- ções tinha paífados, do que fe lhe podia feguir tanta honrra, louuor, quanta elle bem podia cuidar, aho que fe ajuntarião muitas merçes que •Fi. i8d. i.« lhe fperaua fazer'em galardam de todolos traba-*lhos que nefta viajem paífaífe, aho que Vafquo da gama refpondendo com palauras de bom caualleiro, prudente, & leal vaffalo lhe beijou ha mão polia merçe que lhe fazia, & confiança que delle tinha, ajuntando a ifto que húa das partes que ho cõuidauão a eíte trabalho, depois do feruiço q nilfo fperaua fazer a Deos, & a fua Alteza, era pareçerlhe q tinha algúa auçam nefta viajem, polia elRei dom loam pouquo antes que faleçeíTe, ter dada a feu pai Efteuão da gama, que jà também era defun&o, em cujo lugar, & por fua lembrança lhe pedia que houuefle por bem nefta viajem fe querer também feruir de Paulo da gama feu irmão, por que com tal, & tam fiel companheiro fperaua vir aho fim delia, fem diferenças, nem cautellas que poderiam caber, & aconteçer entre outras peífoas, que nam foífem tam conjuntos em fangue quomo elles eram, ho que lhe elRei muito agardeçeo, & houue logo por bem fer Paulo da gama hum dos que houuefle de mandar em fua companhia. Depois dei Rei ter ifto aflentado fe foi Deftremoz a Euora, & dali defpedio Vafquo da gama, & feu irmão Paulo da gama, dando lhes por companheiro Nicolao coelho, caualleiro de lua cafa, hos quaes partiram do porro 1 de Bethelem ahos dous dias -fi. iSci. 2.» do mes de Iulho do mefmo anno de mil, &* quatroçentos, & nouenta, & 1 Et. /.: porto.
  • fette, do que agora nam direi mais, por fer neçeirario fallar nos negoçios do Regno, em quanto elles fazem lua viajem. Capit. xxiiii. Em que fe/ tratta do casamen/to delRei com ha Prinçefa dõna I/abel, & de quomo ha re/çebeo em Valença Dalcantara, / & da morte do Principe dom/Iodo de Ca/iella, & outras particularidades. ESTANDO elRei em Syntra, foube p cartas de dom loam Emanuel ha çerteza de leu cafaméto, no qual ha prinçefa donna Ilabel cõlentio com muita dificuldade, dizendo que fua tençam era mais de ler religiofa que calada, &. que afsi ho profopofera depois da morte do prinçipe dom Afonfo leu marido, nem ha poderam hos Reis deluiar deite propofito, fe niífo ha nam aconfelharam peffoas religiolas, dando lhe a conheçer quanto compria a feruiço de Deos, & aho bem, paz, & tranquilidade dambolos Regnes fazerle eíte calamento. Quomo elRei teue eíte requado le tornou loguo de Syntra pera Euora, onde hos mais a meude podia reçeber, pera afsi ordenar cÕ mór breuidade ho que foíTe i.' neçeílario a-*çerca dos contrattos deite cafamento, hos quaes depois de concluídos, & confirmados dambalas portes ', & dom loam Emanuel, quomo procurador delRei ter reçebida ha Prinçefa em feu nome, fe aífentou que fua entrada foife per Caitello de Vide2, fobello que elRei efcreueo a algús prelados, fenhores, & fidalgos do Regno, pera q fe foliem parelle aho mefmo lugar onde fperaua fer na fim do mes de Septébro, no qual meo tempo induzida ha Rainha Prinçefa, quomo fe teue per fufpeita, pellos Reis feus pais, ficreueo húa carta a elRei pedindolhe que dilataife fua vida3 atte ter de todo laçado de feus Regnos hos judeus, fobelo que elRei fcreueo algúas cartas a dom Aluaro q já era tornado pa Caitella fcriptas de fua propria mão, em q moítraua ter muito defcontentaméto pela tardança da Rainha fua molher, & q afsi ho dixefle de fua parte ahos Reis feus primos, ho q do Aluaro negoçeou també q hos caíamétos fe fezerã no mefmo tépo q pa illo fora ordenado, & elle em peífoa acõpanhou ha rainha dona Ifabel & haRainha prlcefa fua filha mui acópanhado de géte de fua cafa & valia, atte chegare a Valença Dalcãtara onde fe ho cafaméto fez & cõfumou, aho qual elRei 1 Et. partes. 2 Et. Vide. 3 Et. L: vida.
  • — Al- do Fernando não foi prefente, porq por ho prinçipe dõ Ioão feu filho •fi. i8y. ci. ».• andar mal difpofto, fe deixou ficar com elle em Salamanca1. Elrei dõ* Emanuel depois de ter ordenado tudo ho q compria pera feu reçebimento, partio Deuora pera Caítello de vide, onde chegou na fim do mes de Septêbro, quomo ho fcreuera ahos prelados, fenhores, & fidalgos, que ho já ali eítauam fperando, cada hum delles no melhor modo que pode1. Depois delRei ali eftar algús dias, vendo que ha doença do prinçipe dom Ioão eftoruaua ha vinda delRei dom Fernando, pera fer prefente aho cafamento da Prinçefa fua filha, fez faber à rainha donna Iiabel que feu defejo era irfe ver com ella, & com fua liçença reçeber ha Prinçefa, do que loguo ha Rainha auifou elrei dom Fernando, ho qual por ha doença do Prinçipe ir em tanto creçimento, que defefperauam já hos medicos delle, & ho não querer deixar fó, nem menos lhe pareçer bê que fe perlongaffem has vodas, lhe refpondeo que deuia loguo mandar dizer a elRei, que vieffe reçeber ha Prinçefa, & iíto quomo de fim mefma, & q foífe com ha menos companhia que podeífe. Tanto que elRei reçebeo eíte recado pos loguo em obra fua ida, & pera ho acõpanharem elegeo dom Diogo da fylua, conde de Portalegre, dom Fernãdo de menefes cõde Dalcoutim, & dom Diogo leu irmão, do Ioão demenefes mordomo mór, que foi depois Prior do Crato, & conde de Tarouqua, dom Marti-
  • - 48 - que nella iha, pedio loguo liçença á Rainha pera le tornar a Caftello de Vide, & leuar ha Rainha fua molher configuo, ho que afsi fez, acompa- nhado de todolos fenhores de Caftella que ali entam eftauam, atte á Raia, encobrindo todos ha dor. & trifteza que tinhão pela morte do prin- çipe dom loam feu fenhor, ho milhor que poderam, no que fe teue tanto refguardo, que nunqua ha rainha dona Ifabel, irmã do príçipe ho 1.19 d. a.* foube fenam dali a mui*tos dias. Hos prelados, & lenhores, & nobres do Regno, que ficaram em Caftello de Vide, quomo fouberam 1 que era elRei partido de Valença Dalcantara ho vierão reçeber ho dia que entrou ê Portugal, em cuja companhia per interçeffam dos Reis vieram algús fidalgos, & caualleiros que ainda andauam defterrados em Caftella. Em Caftello de vide eftauam ordenadas2 muitas feitas perà entrada da Rainha, das quaes por caio da morte do Prinçipe fe fezeram muím pouquas, donde le logo elRei partio pera Euora. Cõtudo ho caminho foi de todos muim festejado, atte lá chegarem, onde elRei mefmo defcobrio à rainha ha morte do Prinçipe feu irmão, per cujo refpedo tomou toda ha corte dô, & elrei lhe mãdou fazer fuas exequias, & laimento com muita folénidade. Efta morte do Prinçipe dom loam foi mui fentida, & lamentada nos regnos de Caftella, por lhes nam ficar outra fperança de poderem hauer herdeiro barão, fe não no parto da Prinçefa Madama Margarida, que ficara prenhe do prinçipe dom loam, da qual fperança loguo dali a pouquos dias Deos per feus occultos myfterios hos diftituio, porque Ma- dama Margarida fendo já prenhe de fette mefes pario ha criança morta. Pello que elRei dom Emanuel, & ha Rainha donna Ifabel fua molher fe ■gv.ci.i.» intitularam dalli por* diante Prinçipes de Caftella, Leã, & Aragam. Capit. xxv. De quomo/ elRei assentou de dar/foraes nonos a todolos luga/res do regno, & ho modo que / nijfo teue. DEPOIS delRei fer em Euora, hauédo refpeito ás muitas duuidas que cada dia recreçiam no regno, & demandas que fe ordenauam per cafo das vareas interpretações que letrados dauam ahos foraes velhos, determinou de hos mandar fazer de nouo, & lhes dar a cada um fua verdadeira declaraçam, pera cada lugar do regno ter ho feu, & afsi também mandou lançar ho trelado autentico de todos na torre do Tombo, 1 Na Ep.: «em Castello de Vide, tanto q souberam...» 1 Na Ep.: «desterrados em Castella dos que forã culpados nas treições cometidas- contra elRei dom Ioam: Em Castello de vide estavam ordenadas...»
  • — 49 — onde aho prefente eftam. Pera efta tamanha obra, & duuidas que po- defTem recreçer nella ordenou letrados q has aueriguaffem quado neçel- iario foffe, & em fpeçial deu cargo a Fernão de Pinna caualleiro de fua cafa, homem bem entendido, que foffe per todo ho Regno com poderes feus, & prouifoes pera todalas çidades, villas & conçelhos lhe entregarem hos foraes velhos per que fe regia, no que andou affaz de tempo, pofto que nam foffe tanto quanto requeria ha grãdeza da obra, por fer mui *fi. 19v.ci.a.* trabalhola, & ter neçefsi-*dade de muitos teftemunhos, & informações de póffes, & vfos antigos, pelo q Fernão de pinna ha não pode acabar fem delia 1 recreçere muitas duuidas, q atte ho prefente fenão poderão determinar, né na Relação, nem na fazêda do Regno, áquellas peffoas q com feus fenhorios fobre hos taes foros trazem demanda, nem menos ahos fenhorios que com feus vaffalos andam fobello mefmo cafo empen- denças, mas a eítes enleos lhe deu por ventura azo ho conçerto que elRei com elle fez, prometendolhe que fe lhe deffe todos eftes foraes feitos, & acabados dentro de hum çerto tempo, que lhe fazia por ilío merçe de quatro mil cruzados, quomo fez, alem do falario, & mantimento que lhe ordenou pera elle, & pera has peffoas que com elle feruiram todo ho tempo que niffo andou. Ha cobiça da qual merçe foi caufa do q dixe, & de ho dióto Fernam de Pinna fazer çinquo liuros, que na torre do Tombo andam deftes foraes, cada hum de fua comarqua. f. Eftremadura, Alentejo, Alem douro, Abeira, Tralos montes, per tal ordem, & tarn abreuiados q feria neçeílario fazeréfe deftes, outros de nouo, em que fe pofeffe por extéfo ho que elle (por ganhar tempo) ordenou, demaneira q fe nam pode • fi. 20 ci. i.« delles dar defpacho ás partes, fe nam com muito trabalho.* Capi. xxvi, De quomo/elReife\ cortes em/Lisboa, nas quaes entre ou/tras coufas fe affentou fer ne/çejfaria fua ida a Cafiella, com / ha Rainha fua mother, pera/onde loguo partio, deixando/á Rainha dona Leanor fua ir/ntã o regimento do Regno, / & per todallas comarquas al/çada. ELREI efteue é/Euora todo ho mes de Nouembro, & parte de De- zêbro, na fim do qual fedo já ha Reinha2 prenhe partiram pera Lisboa, & de caminho vifitaram ha rainha donna Leanor, irmã delRei 1 Na Ep.: «pello que Fernam de pinna ha nam pode acabar em tam poufco tDpo sem delia...» 2 Et. I.: Rainha. 7 /
  • — 5o — que entam eltaua no Lauradio, em Riba tejo. Dalli fe paliaram a Sanótos ho velho, dode fezerão fua entrada na Cidade com pouquas feitas, nem reçebimentos, por ha Rainha hos não querer, por cafo do dó que trazia pelo prinçipe dom loam feu irmão, & foram poufar nos paços Dalcaçoua, onde dalli a poucos dias lhes veo recado delrei dom Fernando, & da Rainha donna Ifabel, de quomo ha Prinçefa Madama Margarida fezera mouito, rogando lhes mui efficadaméte que fe vieíTem loguo parelles, porque fua teçam era fazellos jurar, afsi em Caítella quomo é Aragão, •Ki. 20 ci. 2.' por Prinçipes herdeiros daquelles Regnos, Pera ha refoluçã* deite negoçio ordenou elRei cortes em Lisboa, nas quaes fe affentou fer mui neçeflaria lua ida a Caítella, pera ho que fe loguo começou áppreçeber. Neltas cortes fez elRei algúas ordenações neçeífarias pera bem do Regno, & a requerimento dos pouos tirou hos offiçios de Armades mores, & Coudés móres, & adi hos menores de cada hum deites, com todallas jurdições que tinham com hos taes cargos, por excufar muitas opprefsões que ho Regno por cafo dos taes offiçios reçebia, sem delles hauer neçefsidade, dos quaes deixou fómente hos Armadés móres dos béiteiros do monte, a que chamam da fraldilha, & dos efpinguardeiros, por fere neçeffarios, afsi pera feruiço do Regno, quomo dos lugares Dafrica, & focorro delles, &. ahos offiçiaes mòres, & menores dos offiçios que tirou fatiffez com outras merçes. DeuaíTou géralméte todallas coutadas de rios, & montes do Regno, exçepto algúas pouquas que referuou pera feu vfo, ho que foi caufa vniqua de hos preços de todo ho genero de caça aleuantarem, porque quando hos fidalguos tinham coutadas particulares, criauaífe nellas muita caça, & pefcados, & em tanta cantidade que podiam ter luas cafas abaltadas, & mandar vender outra, de que faziam renda1 pera •Fi.20T.ci.i.» ajuda de feu fuílentamento, & daualfe tudo bom mercado, pela gran-*de abundançia que deltas coulas entam hauias. Aleuantou hos monteiros em çertas montarias do Regno, por lhe pareçer que nam hauia delles neçef- íidade, & fez outras ordenações, & prematicas, de que por ho procedo fer mui comprido me pareçeo excufado poer aqui mais q hos capítulos feguintes de verbo a verbo, por ferem de calidade q poderam feruir neíte nolfo tempo 3, & no q eítá por vir. Pediram hos estados do Regno, que has tenças obrigatórias que fe punham poios cafamentos ahos fidalgos, & donzellas, fe nam deitem 1 Na Ep.: «e mandar vender outra muita, de que faziam renda. s Na Ep.: «pella muita cantidade que destas cousas entam havia...» 1 Na Ep.: «por serem de calidade poderam servir neste nosso tempo.
  • — 51 — mais, & que ho quifeffe elRei correger, & emmendar, por prol comú de feus Regnos. Repofta. Nos temos ordenado em noífa fazenda que hos caiamentos q le agora defembargam, fe pague a dinheiro, fem poer de nouo tenças por elles, & algús que ficaram do tempo paffado temos propofito de hos mãdar pagar ho mais çedo que fe poífa fazer, & afsi do tempo delRei meu fenhor, & primo que Deos haja tal ordenãça ficou em nofTa fazenda. ^ Item. Que nam trouxeffe tantos offiçiaes, & moradores, & hos qui- -ei.*>v. ci.i.« feffe reduzir a menos conto.* Repofta. Hos mais dos noffos moradores foram criados delRei meu fenhor, & primo, hos quaes nam podemos deixar de agafalhar por que feria crueza fazermos ho contrairo, hos outros iam de noffa cafa, cõ outros q nos recreçeram, de que nos nam podemos excufar: mas pofto q noífo defejo feja fazer a todos merçe, por diffo leuarmos grade golfo, cõtudo daqui por diante folgaremos de cõtinuar na milhor maneira que podermos. Item. Que lhe prouueífe deixar de leuar has fifas, & has foltaífe liuremente. Repofta. Pelo grade amor q temos a noffos pouos, nos poderá confentir mal ha vontade, & muito menos ha cõfçiéçia de leuar has fifas fenã achássemos q has leuamos bê & fem nenhú carrego, & fe al nos pareçeffe, em cafo q ha cantidade da renda, & proueito foffe maior, folgaríamos muito mais de has deixar q de has leuar, quãto mais q effas mefmas fifas cõ outras muitas rédas, & direitos noffos, lá dode vem, là fe tornam a conuerter, foprindo fempre com ellas noffos ãteçef- fores, & afli nôs muitos carregos, & inconuenientes, q polas ahi não •Fi.aid.1.* hauer neçeffariaméte po-*deriam recreçer aho Regno, & afli muitos proueitos, dado moradias, cafamentos, tenças, & afli outras ajudas de vida, & encaminhamento a filhos, & filhas de fidalgos, caualleiros, elcu- deiros, & a todo outro genero de noffos naturaes, por onde alem da muita razam, & defcarreguo com q has ditas íilas leuamos, fó por tanta bemfeitoria, que da renda delias cõ outros noffos direitos a noffos naturaes redunda, deuia çerto pefar muito a nollos pouos le has nam tiueffemos.
  • — 52 — Ité q ho pouo reçebe muito dano por nos regnos hauer muitas cou- tadas, & offiçiaes delias, polo q referuãdo algOas pera defporto dei Rei, lhe pedem que defcoute has outras, ficado guardadas has coutadas antiguas das peffoas particulares. Repofta. Has hauemos por defcoutadas, tirado ha coutada da noífa cidade Deuora, de lebres, & perdizes, & Almeirim, & Syntra, & de Riba tejo defda Chamufca atte ho barquo das inguias, & do rio de Couna atte Azeitam, & Çezimbra, com todalas coutadas antiguas que dentro deite limite há atte Coruche, & a herra *, & has coutadas ãtiguas q há na ribeira de Canha, & cabrella, & has montarias Defoaio, & Cabril, & • Ki ?i ci. =.« todo termo Dalcaçer, com ha charneca da Lã*deira, & afsi melmo has matas, & montarias Dobidos com todalas outras da ferra, & afsi ficara ho paul dota, & todalas outras fiquem defcoutadas. Ité. Que hos phyficos não recepte has mezinhas fenão em lingoagé. Repofta. Asfi quomo nollo pedis volo outorgamos cÕ pena aho boticário q não vfe mais ho offiçio fe der has mezinhas per reçepta em latim, & mais pague dois mil reaes pera quê ho accufar, & em outra tanta pena qremos q encorra ho phyfico, q per latim reçeptar, & nã per lígoagê quomo dito he. Has quaes cortes forão começadas em Lisboa a xj, dias do mes de Feuereiro do anno do Senhor de M.ccccxcviij, & foram findas, & acabadas, & publicadas ahos procuradores das çidades, villas, & lugares, na melma çidade ahos xiiij, dias do mes de Março do mefmo anno, fcriptas per Antonio carneiro. Depois de elRei ter acabadas has cortes, & feitas outras coufas neçeífarias fe começou daperçeber pera ho caminho, com fós trezentos de cauallo. Ho q lhe hos Reis mandaram pedir que fezeífe por fe euitarem brigas, & degoftos dentre hos criados dos caftelhanos, & Por- •Fi.n v.ct.i.* tugueies, & porq no* Regno nam hauia peífoa a que cÕ mais razam fe podeífe deixar ho gouerno delle que á rainha dona Leanor, pela muita 1 Na Ep.: «atte Coruche, e ha erra, e. .»
  • — 53 — ♦FI.21 V. Cl. 2.* virtude, & prudençia q em fua real peffoa hauia, per comum conlenti- mento dos eítados ficou por regente: mandon1 também letrados com alçada, pêra que refidiffem nas comarquas do Regno. Alfentadas afsi todallas coufas que lhe pareçeo ferem neçeffarias em 1'ua aufençia, parti- ram elRei, & ha Rainha de Lisboa ahos xxix, dias do mes de Março do meímo anno de Mil, & quatroçentos, & nouenta, & oito, dõde foram a Euora, & Deuora a Eftremoz, Eluas, & a Badajoz, per onde entrarão em Caftella, com fua corte ordenada. Has peffoas prinçipaes que iham com elRei eram, dom George filho baftardo delrei dõ Ioão, dom Dinis lobrinho delRei, irmão de dom Iaimes Duque de Bragança, dom Aluaro feu tio, dom Dioguo da fylua Conde de Portalegre, ho Bilpo da Guarda, dom Pero vaz feu capellam mór, & ho de Tanger, dom Dioguo ortiz Bilpo de Vifeu Caítelhano, dom Ioão de menefes* môrdomo mòr, dom Fran- çilquo filho de dom Afonfo Bifpo Deuora, que depois foi Conde do Vimiofo, dõ Martinho de Caftel branco veador da fazeda, que depois foi Cõde de Villanoua de Portimão, dõ Fernã martíz mafquarenhas, capitã dos genetes, Rui de foufa, q nef*ta viaje morreo em Tolledo, dom loam de foufa fenhor de Nifa, & de Sagres, dom Françilquo dalmeida, que foi ho primeiro Viçerei da índia, dom loam Emanuel camareiro mór, dom Nuno Emanuel feu irmão almotaçe mòr, Ioã da fylua que foi depois Regedor da cafa da Supplicaçam, dõ Afonfo dataide fenhor Datouguia, dõ Pedro da fylua comendador mór de Auis, Nuno fernandez dataide, dom Fernando coutinho Marichal, Triftam da cunha, Febos moniz, loam fogaça, Valqueanes corte real veador, dom Antonio dalmeida, dom Ema- nuel de meneies, George barreto, pajés delRei, Pero correa que feruia deftribeiro mór, Lourenço de brito copeiro mor, loam rodriguez pereira, & outros fidalgos, caualleiros, & offiçiaes da cafa, que todos ihão vertidos de dó, por cafo do falleçimento do prinçipe dom Ioã de Caftella. •Kl. 22 Cl. I.* Capitu, xxvii. Do que I se passou desno dia I q elRei, & ha Rainha partirá/ Deluas, atte chegarem a Tolle-/do, onde hos elRei dom Fer-/nando, & ha rainha donna Ifa-/bel, ejiauam fperando. A HO dia qve elRei, & ha Rainha partiram da çidade Deluas, ho primeiro fenhor de Caftel-#la que hos veo reçeber a mea legoa 1 Et. L: mandou. * Na Ep.: «dõ Dioguo ortiz Bispo de Viseu castelhano, de que jà falíamos, dõ Ioão de meneses.
  • — 54 — # do lugar, foi ho Duque de Medina Çidonia, com trezentos de cauallo, vertidos de dô1: aliem deftes trazia por eftado trinta, & oito caçadores cada hum cÕ fua aue na mão, vertidos da fua libre. Ho qual em chegando a tiro de pedra2 donde elRei, & ha Rainha vinham, fe deçeo do cauallo, & a pé lhes foi beijar ha mão, & ho mefmo fezerão todollos fenhores, & caualleiros de fua companhia. Seguindo elRei feu caminho pera Ba- dajoz, chegou a elle ho Duque Dalua, & ho Conde de Feria, & ho Bpo de Plazéçia juntos, & bem acompanhados, hos quaes todos fezeram ho mefmo q ho Duq de Medina çidonia, & dalli atte elRei chegar a Badajoz, vieram muitos fenhores, & caualleiros beijarlhes ha mão, na qual çidade forão reçebidos com muitas çerimonias, & leuados pelos gouernadores à Sé debaixo de hum paleo de brocado, onde hos eftaua fperando ho Bilpo com toda ha clerefia. Feita oração tornaram a caualgar, & forão comer, & dormir a Taueriola que he dali tres legoas. Aho dia feguinte fe foi elRei caminho de Guadelupe, pera ahi ter ha Pafcoa, no qual caminho ho veo reçeber ho- meftre da caualleria da ordem Dalcantara, & outros fenhores que fe logo tornaram pera fuas cafas, porque los hos •Ki 22 d. 2." duques de Medina çidonia, & Dalua era ordenado* que acompanhaflem elRei, & ha Rainha atte Tolledo, hos quaes nefte caminho fezeram grandes defpefas em darem fala a todolos, que com elles queriam comer, & platos todo los dias ás damas3, & ahos fenhores, & fidalgos Portu- guefes que com elles nam comiã, & ho mefmo a elRei, & à Rainha, porque de todo genero de pefcados, que fe na tal fazam podiã cobrar, eram tam leruidos, quomo feftiueram junto do mar, & dos rios onde le pefcauam. Defte lugar de Taueriola foi elRei ter ho Domingo de Ramos a Merida, onde fe lhe fez reçibimento, & dalli per fuas jornadas chegarão Aguadelupe quarta feira de Treuas. Paífadas has oitauas partio elRei pera Tolledo à quinta feira, tomando feu caminho pella ponte do Arçe- bifpo, & Talaueira da Rainha, atte chegarem a hú lugar, quatro legoas de Tolledo, onde eftiuerão tres dias atte fe ordenar fua entrada. Ali lhes veo noua da morte delRei Charles de França oétauo do nome, ha qual direi quomo foi, pera os fenhores prinçipes, & Reis laberem que hos defastres da fortuna tem com elles, & com hos populares húa mefma conta4. Eftando efte poderofo Rei no caftello de Amboife, que iam hús 1 Na Ep.: «foi ho Duq de Medina çidonia, com passante de tre2entos de Cavallo, vestidos de dó...» 2 Na Ep.: «vestidos de sua libré. Tanto que ho Duque chegou ha tiro de pedra...» 3 Na Ep.: «pratos todollos dias às damas...» 4 O Conde de Tentúgal estranhára: No capitolo 27, falamdo da morte dei Rey /
  • » — 55 — dos magníficos paços de toda a França, vefpora de Pafcoa, fete dias Dabril do anno do Senhor de Mil quatroçentos, & nouenta, & oito, indo * kl a* y. d. i.* depois* de comer com ha Rainha Anna de Bretanha, fua molher pera de húa varanda (a que chamam Haquelebac) verem algús gentis homes de fua cafa, que andauam jugando à pella, nos foflados do caítello, em entrando pela porta da varanda, que era hum pouquo baixa, deu húa tamanha cabeçada com ha tefta no lumear de çima da porta, q loguo cahio fem falia, & na mefma varanda ho lançaram fobre hum enxergão de palha em que jouue per fpaço de noue horas, sem mais tornar em fim, fomente que tres vezes dixe Iefus me valha, & ha gloriofa virgé Maria, & afsi lpirou hum dos bõs, catholicos, & religiolos Reis que de muito tempo houuera em Frãça, pelo que elRei, & ha Rainha fençerraram atte partirem deite lugar, em que eítauão fperando recado dos Reis, ho qual lhes chegou quarta feira da fomana da Pafcoella, & loguo á quinta pela manhã, depois de ouuirem Miífa, & comerem partirã pera Tolledo, ode chegará no mefmo dia, & forã reçebidos pleo 1 modo q fe no ieguinte capitulo dira. Cah. xxviii, De quomo / elRei, & ha Rainha en-/traram em Tolledo, • fi. a»». cl. a.' & do que /fe nijfo paffou.* PARTIDO elRei daqvelle lugar, mea legoa antes que chegaífe a Tolledo mandou a dom George Meftre de Sãdiago, & com elle dom Aluaro, & dom Dinis, & ho Conde de Portalegre, & ho Dalcoutim, & dom Ioã de menefes mordomo mór, dom loão de foufa, dom Ioão Emanuel camareiro mòr, dom Fernão Martlz Malcarenhas capitam dos genetes, & outros fidalgos, que paífafie a diante com eíta companhia -, & Charles de Framça, atrebuya aos desastres da fortuna, que he forma de falar gentílica, procedendo tudo da divina provydemcia e de seus obcultos juijos. Cfr. Prestage, op. cit., pág. 359. Damião de Goes não fez caso da censura. 1 Et. I.: pelo. 2 O Conde de Tentúgal comentou: Ao capitolo 28 torna a difer que meu avoo hia na companhia e se adiantou com ho Mestre de Santiago e com outros, e aymda que Djmião de Gois não soubese particularmente a omra que se lhefej, bem pudera aquy caber mylhor húa prejumsão que da morte dei Rey Dom João, visto como meu avoo esteve nos reynnos de Castela tamtos annos, e como hos guovernou com tamta valia dos Reis, domde se pudera muj bem colegir quamta omra e guasalhado lhe fi^erão. Estaa isto tão averyguado que não haa necesydade de esprituras pera cousa tão clara. Dif tãobem no mesmo capitolo que Dom João de Sousa deu a conheçer ha Rainha
  • — 56 — fofíe reçeber elRei dom Fernando, aho qual chegarão quafi em faindo da çidade, & em ho vendo fe deçerão, & por ha preífa da gente fer muita, ho mordomo mór, & ho capitam dos genetes tomarão dom George nos braços, por fer moço, & baixo de corpo, pêra poder milhor beijar ha mão a elRei, ha qual lhe elle deu, com tudo vendo ho modo que tiueram de lho aprefentar, perguntou quem era, mas quomo foube que era filho delRei dom Ioão tirou ho sombreiro da cabeça, & com elle na mão lhe fez húa grande cortefia, pedindolhe que lhe perdoafle, & logo ho fez fubir a cauallo, & ho pos à fua mão direita, ficando todollos que com elle iham a pé, atte que per fua ordem lhe acabaram de beijar a mão, * fi. i3, cl. i.» fazendo a todos grande gafalhado, prinçipalmente a dom Ioão* de foufa que era delle mui conheçido do tempo que andara nas gnerras1 de Granada4, ho que feito abalou elRei pera onde elRei feu genrro, & ha Donna Isabel a todos os Senhores que hião com El Rey Dom Manoel. Pareçe que, alem de meu avoo, averya pouca neçessidadc de lhe daar a conhecer o Senhor Dom Diniç, que ela criou em sua casa de tão pequeno. São cousas estas que parecem leves, mas a quem o souber, pode muj bem notar hum chronysta de descujdado. Cfr. Prestage,. pág. 37 *>. Damião de Goes não fez easo destas observações, feitas aliás com bom humor e com ironia, sem grande azedume brigantino. 1 Et. guerras. 2 O Conde de Tentúgal estranhou que se não fizesse referência a D. Álvaro que andou nas mesmas guerras nem de D. Francisco a Almeida: «... e faq o autor mensão da omra que El Rey e a Rainha de Castela Jijerão a Dom João de Sousa, por ser deles muito conhecido, por se achar na guerra de Grada. Parece que tão bem a pudera façer doutras pessoas que se acharão nella, prymçipalmente do Senhor Dom Alvaro que alem de ser aseito a eles Reis e aver tido tamto mando no seu reynno, esteve sempre preçemte na mesma guerra e lhe custou asaf de sangue, ao qual ftçerão os Reis gram- djssimo guasalhado e omra, como eu soube per mujtas pesoas que erão presentes, asym que sem nenhua comparação fora maes rejão per todas as yjas façer mensão dele. Tão bem a não fef aquy de Dom Framcisco d'Almeida que se achou na mesma guerra, ao qual tãobem lhe custou mujto samgue, a quem ElRei Dom Fernamdo conheçia tãobem que lhe deu a prymeyra estamçia que vaguou de hiia pessoa mujto prymçipal, estamdo tantas prejemtes de Castela e Purtugual. Damião de Goes replicou: Do Senhor Dom Alvaro ser presemte na emtrada de Toledo não achey nada que me lembre, porque se ele fora presemte, per reção ele ouvera de ser ho que traçia a Rainha D. Isabel de sôbraso. De Dom Framcisco d'Almeida e de como andou nas guerras de Grada trato na segumda parte desta chronyca no derradeiro capitolo. Não se contentou com a resposta o de Tentúgal e comentou com azedume: Dyç maes Damião de Goes que de meu avo ser premente na entrada de Toledo não achou nada, porque se ele fora presemte que por reção ele ouvera de ser o que tra\ia a Rainha Donna Isabel de sobraço. Veja sua mesma chronyca que ele espreveo no capitolo vjmtc e K
  • — 5 7 — Rainha fua filha vinhão, ahos quaes, pofto que jà eftiueffem perto não pode chegar fe não por bom fpaço de tempo tanto por fe nam poder romper pola gente, quorno pela detença que elRei, & ha Rainha com muitos dos fenhores, & caualleiros Caftelhanos que fe adiantarão a lhes beijar ha mão fezerão, com tudo hos porteiros de maça dos Reis, & outros offiçiaes abrirão caminho per força atte ferem á vifta, & em chegado hos Reis hum aho outro fe fora abraçar cõ muito amor & corteíia, ha Rainha quifera beijar ha mão a elrei feu pai, mas elle lho nã confentio4, põdofe logo à fua mão ezquerda, ficãdo elrei dõ Emanuel à direita, & afsi começarã de caminhar atte chegaré á çidade, á entrada da qual foram reçebidos pelos regedores, & leuados todos tres debaixo de hum paleo de brocado á Sé, já com tochas por ler noite, onde hos eftaua fperando ho Arçebifpo com toda ha clerefia. Acabada ha oraçam tornaram a fubir a cauallo, & na mefma ordem fe foram a feus apoufentos. Nefte seis e nele acharaa que foy meu avo com El Rey Dom Manoel de Portugual, como he ver- dade, e não comcrue dijer que se ele estyvera presemte que ouvera de trazer a Rainha Donna Isabel de braço, por que tal pesoa como meu avo não avja deixar seu Rey e Rainha e ir diamle a dyçer dichos, se não acompanhar seu Rey e posto em luguar; e se o traçer de braço ha Senhora Rainha Donna Isabel ouvera de ser por reção de ser pesoa prym- çipal, outras mujtas forão com El Rey mujto mães prymçipaes que Dom João de Sousa, sem embargo de ele ser muy omrado fidalgo e muyto pera estimar. Asym que meu avo era presente, e o foy em todos os negoçios que se laa tratarão, e creo ou sey por papes que vj e emformação de meu pay, que o soube de meu avo, que nenhila cousa se feç sem ele, e que a que El Rey Dom Manoel query a dos Reis de Castela [tratava] por seus meos, e tratavão eles o mesmo com El Rey por reção da valia que tynha com ambos, e por ele ser o que fef o casamento da Raynha Prymsesa; e tão bem soube muytas particulary- dades destas do regedor João da Silva e de Dom Afomso de Tayde. E aymda que se não soubera nada disto, bastava saberse a gramdissima valia que meu avo tinha com hos Reis de Castela, e o grande mando que teve em seu reynno, pera se saber a omra e aguasalhado com que eles o receberão e tratarão. E tão bem soube de meu pay e de quem asima digo, [que] o asento que tiverão nas cortes nos degraaos forão por não quererem os Reis de Castela que lhe presedese nimguem meu avo, por que em outras cortes, estamdc ele laa no reynno, teve ele asemto maes alto que os gramdes, sem em- bargo que alguns o não tomarão mujto bem, e jumtavase com isto que nas cortes que fçerão em Coymbra em vjda dEl Rey Dom Afomso, semdo ele mancebo, o presederão alguns, e amtão tomou se o meo de não aver preçedemçias. Quys por aquy esta parti- cularydade boa pera se saber, mas não necesarya pera se esprever E, depois de ter desabafado, termina mais tranquilamente: «... ho que dixe do Visu Rey nos meus apomtamentos não foy senão por respomder ha chronyca, mas de crer hee que lhe faryão hos Reis de Castela mujtos guasalhados por que receberão dele mujtos çyrvjços, e Dom Afomso de Taide me dixe soo ho bom tratamento que os Reis de Castela fiçerão ao Vjso Rei. Cfr. E. Prestage, op. cit., pág. 359-36o, 366, 370-371. 1 Na Ep.: «mas elle ho nã cõsentio...»
  • 58 — lugar vl'ou elRei dom Fernando tantos comprimentos com elRei dom *fi. »3 ci. a.* Emanuel aho entrar da primeira porta, que ho fez paliar diãte, ha qual* cortefia lhe fez atte que foram jurados, elle, & ha Rainha fua molher por Prinçipes herdeiros dos regnos de Caftella, porque dalli por diante elRei dom Fernando preçedeo fempre el Rei dom Emanuel, fem niffo vlar mais çerimonias que de pai a filho Ha rainha donna llabel veo fperar elRei feu genrro, & ha Rainha lua filha a húa varanda terrea das calas onde elles hauiam de poular, ha qual ho comendador mòr de Leão dom Rodrigo de cardenes trazia de braço de húa parte, & da outra dom Ioao de fouia, por lhe fer muito açepto. Antes que elRei, & ha Rainha chegafiem onde eftaua ha Rainha l'ua maim', lhe foram beijar ha mão todollos lenhores, & fidalgos Portugueles, dos quaes dom Ioham de foula lhe daua a conheçer hos de que ella não tinha notiçia, com tudo a dom George ha nam quis dar *, & lhe fez muita cortefia, & ho abraçou, & fez logo cobrir. Em chegando hos Reis, elRei dom Emanuel quomo vio ha rainha donna llabel aballou com palfo aprelfado parella, & ella fez ho mefmo, & tiueram tanto primor na cortefia, que ambos poleram hos geolhos no cham, ho que feito, elRei foi abraçar has Infantes, & fallar ás damas. Ha Rainha donna llabel de Portugual quifera beijar ha mão ♦ FL13 Y. cl. I.« à rainha donna Ifabel de Caltella* fua maim, mas ella lha nam quis dar. Dalli fobiram pera riba todos juntos atte chegarem à fala do apou- íento delRei dõ Emanuel, & da Rainha donna Ifabel fua molher, na qual tiueram feram per efpaço de húa hora, praticando no fucçeífo de leu caminho, ho que afsi feito elRei dom Fernando, & ha rainha dona Ifabel fua mo-molher fe recolherá pa ho feu. Capitu, xxix. De quomo eivei dom Emanuel, & ha rainha donna Ifabel fua molher foram jurados em Tolledo por Príncipes herdeiros dos Regnos de Caflella, & Leam. ELREI dom Fernando, & ha rainha donna llabel, quomo tiuerão çerteza do tempo em que elrei dom Emanuel, & ha rainha donna llabel hauiam de partir de Portugal, ordenaram cortes é Tolledo, pera •fi.i3y. d. i.» ho tempo em que lhes pareçeo que poderiam ahi fer, pe-*ra hos loguo 1 Na Ep.: «mai...» 2 Na Ep.: «hos quaes dom Joham de sousa lhe dava ha conheçer, com tudo ha dom George ha nam quis dar...» I
  • 5g — fazeré jurar por prinçipes herdeiros, & fe irem ha Aragam fazer ho mefmo, pello que fe ordenou q aho Domingo feguinte depois de fua entrada fe fezeífe eíte auéto na Sé da mefma çidade, onde hos Reis foram ouuir miífa, na ordé feguinte. Dos paços atte ha egreja leuaram de redea a pé a elrel1 dom Emanuel, ho Duque de Medina çidonia à mão direita, & ho Conde de Feria á ezquerda, & a rainha dona Ifabel fua molher, ho Condeítabre á mão direita, & ho duque Dalua à ezquerda. Aquelle dia dixe Milfa em pontifical ho Arçebilpo de Tolledo frei Fran- çifco Ximenes da ordem de fam Françifco da obferuançia, á qual hos Reis eítiuerão ambos em húa cortina da banda do Euãgelho, & dentro com elles dom George, & has Rainhas ambas da outra parte em lua cortina. Acabada ha MiíTa, elrei dom Fernando tomou elrei dom Emanuel feu gérro pela mão, & ha rainba - donna Ilabel á rainha donna Ifabel fua filha, & hos leuaram ambos pera hum eítrado que eftaua na mefma capella, onde fe affentaram cada hum em fua cadeira, ficando elrei dom Emanuel, & ha Rainha fua molher em meio dos Reis de Caítella, & loguo da outra banda fe afTentaram hos procuradores do Regno em banquos que pera iffo fe poferam, cada hum em fua preçedençia, & •FI.24C]. i.« hos grandes, & peffoas prinçipaes fe* affentarem nos degraos do altar mòr, fobre coxins, & alcatifas, ifto fem nenhúa preçedençia, né çere- monia, por lho hos Reis afíi terem rogado a todos, temendo que podeíle obrifio focçeder algum defconçerto que eftoruaífe eíte negoçio, que elles defejauam muito ver acabado. Depois de todos aflentados mandou elRei dom Fernando ahos offiçiaes que fe fezeífe filençio, & logo hum Doutor fe aleuantou em pé, & fez húa oraçam declarando nella hos bés, & pro- ueitos que íe feguiam do cafameéto delrei dõ Emanuel cõ ha rainha dona Ifabel, & que pera mór cõfirmaçã, & remate das alianças dambollos Regnos eram ali juntos, pera hos jurarem por Prinçipes herdeiros dos Regnos de Caítella, & Leã, encomendando também a elrei dõ Emanuel, & à Rainha fua molher ho bem, & prol dos meímos Regnos, quando Deos houueífe por bem fucçederem nelles. Feita eita oraçam le aleuan- tou dom Diogo furtado de mendonça Arçebifpo de Seuilha, Patriarcha da Lexandria com hum liuro Miífal aberto na mão3 & fobrelle húa cruz douro em que deu juramento a elrei dom Emanuel, & á rainha donna Ifabel fua molher, de em tudo guardaré todolos foros, & vfos de 1 Et. /.: elrei. 2 Et. rainha. 3 Na Ep.: «Feita esta oraçam se alevantou o Patriarca com hum livro Missal aberto na mão.
  • ■. — 6o — Caftella, & manterem nelles hos vaflallos, & lugeitos, ho que juraram •ft 34 «i. 1.4 pondo abos has mãos fobella cruz, ho q feito* tomou ho condeftabre ho Miífal da mão do Patriarcha, em que elle fez juramêto, & ho deu ahos fenhores, & procuradores q preíétes eftauão, jurãdo hos todos por Prinçipes herdeiros dos Regnos de Caftella, & Leam, apos ho que ho mefmo Condeftabre lhes tomou has menagés em nome dos Prinçipes, has quaes dadas lhe foram hos grandes, & peffoas prinçipaes beijar ha mão, & apos elles hos procuradores das çidades, & villas do Regno, exçepto hos de Tolledo. Acabadas todas eftas çerimonias que duraram muito, hos Reis fe foram a pé janter 1 ás cafas do Arçebifpo, que fam junto da Sé, onde hos Reis comeram juntos em húa mefa, & has Rainhas em outra. Indo afli pera caía do Arçebilpo lhe vieram beijar ha mão hos regedores, & procuradores da çidade de Tolledo, ho que nam fezeram na Egreja, por refpeito da antigua querella que tem com hos da çidade de Burgos, fobella preçedençia, da qual cotenda direi aqui ho necelfario pera fe faber ho modo q hos Reis de Caftella, & Leam tem cõ eftas duas çidades quando fazé -cortes. Elrei dom Afonfo de Caftella ho da batalha do Salado, onzeno do nome, que no anno do fenhor de M. cc. xxxxj, fez ha ordem da Banda em Caftella, cujo final era húa faxa de feda cramefim, co húa bãda douro pello meo, na qual Regra nam •fi. 24v.d. 1.* podia entrar home que* nam foffe vaífallo delRei, ou de feu filho primo- génito herdeiro, é húas cortes que fez em Alcala de henares determinou de poer mòdo em húa antigua diferença que hauia étre has çidades de Burgos, & Tolledo, fobre qual delias hauia de fallar primeiro nas cortes, dizendo hos de Burgos que a elles pertençia por ferem cabeça de Caftella, & hos de Tolledo aho contrairo, allegando efta preçedéçia fer fua por fieré cabeça de Hifpanha, aho que elRei acodio com palauras de que por então hos de Tolledo ficaram 1'atisfeitos, & cõ ellas apagou has diferenças que naquellas cortes tiuerão, nas quaes pareçia que per nenhú modo fe podefle tomar conclufam, porque ahos de Burgos fauoreçia dõ Ioã nunez de Lara, fenhor de Bifcaia, & ahos de Tolledo dom Ioã emanuel, filho do Infante dom Emanuel, afsi que no meo deftes debates, elrei dom Afonfo fe aleuantou em pé, & mandou q hos procuradores de Burgos, & Tolledo fe calaffem, & entam dixe a alta voz: hos de Tolledo faram tudo ho que lhes eu mandar, & afsi ho digo por elles, & porem falle Burgos, & afsi le fez por entam. E ha mefma ordem teue elrei dõ Pedro ho cru, filho defte Rei dõ Afonfo nas cortes que fez 1 Et. jentar.
  • — 61 — em Valhedolid, hauendo nellas has acoítumadas diferenças, entre Burgos, "Fi.14T.ei. j.« & Tolledo, & polos apaçificar dixe has mefmas palauras que* elRei dom Afonfo feu pai dixera nas cortes Dalcaladehenares, & fallarão hos de Burgos primeiro, mas hos de Tolledo nuca quiferam defiítir deita pre- çedençia, ha ql querella lhes ficou fempre em aberto cõ hos de Burgos, fem núqua fe poder antrelles aueriguar, & por eíta caufa fperaram hos de Tolledo fora da egreja pêra daré has menajes ahos Prinçipes, por lhes ficar fua auçam em folido. Capitu, xxx. De quomo hos reis de Castella, & Portugal partirã de Toledo pera ho regno de Aragam, & chegaram a Çaragoça. f\ CABADAS has cortes elrei do Fernando defpedio hos procura- il dores das çidades, & villas do Regno, & afsi hos mais dos fenhores, & peífoas prinçipaes, & deu despacho ahos requerentes q andauam na corte, no q fe paffaram xviij, dias, acabo dos quaes partiram hos Reis pera Çaragoça quafi aforrados, afsi elles quomo al algús fenhores, q configo leuarão, & por fuas jornadas chegaram á villa de Chincõ que era do Marques de Moy, thefoureiro mòr delRei de quem afsi hos Reis, & Rainhas, quomo hos q com elles iham forão tarn feítejados, q a todos •fi. j5 ci. i.» fez efpãto ha abundãçia das* viandas, & riqueza dos ornamentos, & parametos de fua cafa: alli eíteuerã quatro dias, defpois dos qes fe partirão 1 pa Alcaladehenares, villa do Arçebifpado de Tolledo. De Alcala forão Aguadelajara lugar em q ho Duque do infantado tem hús paços, nos quaes então eftaua doente em cama, de que hos Reis, & toda ha corte foram mui feítejados, alli eítiuerão tres dias, & poufaram nas cafas q forã do Cardeal dó Pedro gõçaluez de médoça, irmão do mefmo duq, que jà era falecido: Hos Reis, & Rainhas forão vifitar ho Duq a fua cafa, & jazédo na cama jurou hos Prinçipes, & lhes deu fua mejem' Deguadalajara forão a Calataud primeira çidade do Regno Daragão, onde fe lhes fez hú fumptuofo reçebiméto, & hos vierão reçeber muitos dos fenhores, & nobres do Regno: dalli per fuas jornadas chegará a Çaragoça aho primeiro dia de Iunho do melmo anno de M.ccccxcviij, onde elRei dõ Fernando cõ ha rainha donna Ifabel fua molher entraram antes de comer, fem nenhfia feita por trazerem ainda 1 Na Ep.: «alli estiveram quatro dias acabo dos quaes se partirão...» * Et. /.: menajem.
  • 62 dó pelo prinçipe dó Ioão feu filho. Elrei dõ Emanuel & ha rainha dona Ifabel fua molher deçeram em hús paços q hos Reis Daragam te fora da çidade, a q chamão Aljoufaria, & alli jétaram, & no mefmo dia a horas de vefpera entrarão na çidade, onde lhes foi feito hú folemne reçebiméto, "Ki.a5 ci. j.* com muitas çerimonias* aho modo do regno Daragão q neftes ados has tem demafiadas. Feita ha entrada quifera elrei dõ Fernando que loguo aho outro dia, q era Domingo, jurarão hos Prinçipes, mas hos Aragoefes lho nam cofentiram por então, 1'obelo que houue muitas altercações, excufandofle a elRei, que nam podiam fazer tal juramento fem ferem prefentes hos deputados de Valença, & Barçelona, fobelo que elrei dom Fernando tornou apertar com elles, per fim lhe refponderam, que jurariam hos Prinçipes fe lhes elle de nouo confirmaíTe algús preuilegios que lhe tinha quebrados, do que hos elRei defenganou, fem lhes querer conçeder ho q pedião, né elles menos jurar hos Prinçipes, no q fe paífaram muitos defgoftos, & paixões per fpaço de tres mefes. Deftas diferenças húa das prinçipaes foi, dizerem q no Regno nam podia fucçeder femea, fe não barão, & q efte hauia de fer per eleiçam dos eílados do Regno, quando Deos ordenaíTe não deixar elRei filho barão herdeiro, & q pera jurarem ha Prinçefa elles ho não podiam fazer fem hos de Valéça, & Barçelona, que por fó efte refpe&o dilatauam fua vinda, ho que era final manifefto de nam quererem confentir no tal juramento: mas eftas diferenças todas fe aueriguaram com ha nafcença do Prinçipe dõ Miguel, •FLa5v.d.i.* & morte da Rainha fua maí, quomo loguo fe dira.* Capit. xxxi. De quomo elRei libertou ha clerejia de nam pagar Jifas, dirimas, & outros direitos reaes, ha qual liberdade depois tãbê cõçedeo á ordem de Chri/lusl. ESTANDO elRei em Çarágoça, por fua deuação, de moto proprio deu liberdade à clerefia deites Regnos de não pagaré fifa, né dizima nem outros direitos reaes que attelli hos clérigos eram acoftumados pagar, afsi quomo hos leigos, & diflò mandou fazer hú preuilegio de ifençam dos taes direitos, ho qual mandou aho Regno per Fernam de pinna, que ho entregou a dom Martinho da coita, Arçebifpo de Lisboa, irmam do Cardeal dom George da coita2, & elle ho reçebeo, & leuou 1 Na Ep: «á ordem de Christus, e doutras particularidades. Açerqua dos privile- giados destes Regnos...» 2 Na Ep.: «Arçebispo de Lisboa, irmão do Cardeal de Portugal dõ George da costa...»
  • — 63 — nas mãos com proçilTão folêne aho moíteiro de fam Domingos, onde le leo publicamente, em húa pregaçam q íe fobriíío fez. Efta mefma liber- dade deu elRei depois no anno de m.d.iiii, ahos comendadores, & caual- leiros da ordem de Chriltus, parelles & feus criados. A Rainha donna ífabel, molher delRei dom Emanuel Prinçefa de Caftella era mal difpofta, & lua prinçipal doença proçedia de eteguidade, pelo que fentindo em fim, & em fua emprenhidam 1 finaes de que fe lhe podia recear ha morte, fez leu teftamento, em que deixou elRei leu marido por teílamenteiro. Ha qual andando neftes temores, ahos xxiiij dias Dagosto do anno do Senhor M.ccccxcviij, dia de Iam Bartholomeu pario com muito trabalho hú filho, a q chamáram dõ miguei, Prinçipe herdeiro dos Regnos de Portugal, Caftella, Leão, & Siçilia, Ara- gão2. Aho tempo que ha Prinçefa pario foram prelentes elRei dom Fernando, & ha Rainha donna Ilabel, & elrei dõ Emanuel, & ha teue nos braços dom Frãçifquo dalmeida, de quem atras )á fiz duas vezes mençam. Foi tanto ho prazer, & aluoroço delles que elrei dõ bernãdo faiha da camara, & dixe alta voz com muita alegria a todolos fenhores, & caualeiros que eftauão em outra cala defóra, dai graças a Deos que temos filho baram: ha qual noua fabida pela çidade começàram a repicar finos, & fazer cada hú ha fefta que tal noua requeria, mas tudo fe cÕ- uerteo logo em muita trifteza, por que em elRei dom Fernando tornando ♦fi 26 ci. i.* á camara onde eltaua ha# rainha lua filha, ha achou morrendo de força de fangue que fe lhe foltara, fem lho poderem eftanquar, & já deftituida dos fpiritos vitaes, ha tomou nos braços, lembrandolhe ho'que cõuinha a fua alma, atte que fpirou. Iouue ha Rainha veftida nos melmos veftidos que tinha quando pario atte mea noite, á qual hora ha leuaraõ a enterrar a hum mofteiro da ordem de S. Hieronymo, queftà fora da çidade. Morta ha Rainha Prinçefa, elRei dom Emanuel comecou loguo dentender no que cõpria a hos legados q deixara 5 leu teftaméto, ho q tudo acabou na mefma çidade de Çaragoça, dõde defpedindofte cõ muito amor dos reis dõ Fernãdo, & dona Ilabel, fe partio ahos viij, dias do mes de Septébro» acõpanhado dalgús fenhores Caftelhanos, & em fpeçial do Patriarca 1 Na Ep.: «pello q sentindo Ssi, e 5 sua emprenhidã...» * Na Ep.: «Prinçipe herdeiro dos regnos de Portugal, Castella, Leam, e Aragã...» - FI. a5 v. cl. a.* Capit. xxxii. De gnomo ha Rainha pario hum filho & morreo do parto delle.* \
  • % — 64 — Dalexãdria, & é Arada1 do Douro achou ho Cõdeftabre. & ho Duq Dalua q ficarão por regétes do regno de Caftella, ho ql Duq, & Patriarca cõ outras pefloas prínçipaes ho acõpanharã atte Almeida, primeira villa de Portugal. Dalli le veo elrei a Colbra, & de Coimbra a Lisboa, ode chegou ahos ix, dias do mes Doutubro, & foi reçebido cõ grade cõten- tamento da Infante dona Beatriz fua mal, & da rainha donna Leanor fua *n.jôci. a.- irmã, & de todollos q ahi eram prefentes,* & ho meimo contentamento deu per todo ho Regno ha noua de fua tornada Capitulo, xxxiii. Da embaixada qve elrei mandou aho Papa Alexandre, ejlando ainda em Cajlella, & [obre que. NO tempo do pontificado do Papa Alexãdre lexto, houue na corte de Roma muita foltura de viuer, & fe daua difsimuladamente liçença a todo genero de viço, de maneira, que grandes peccados fe reputauam por veniaes, aho que hos reis dom Fernãdo, & dom Emanuel, tendo diífo Çertas informações, quomo bõs, & catholicos Chriítãos quiferão acodir, & húa das primeiras coufas em que ambos praticaram em Tolledo foi iobreíte negoçio, onde tiueram cõfelho, & ho melmo em Çaragoça, & nelle foi determinado que cada hú delles, per feus embaixadores, mandaífe amoellar ho Papa, & pedirlhe quomo obedientes filhos da Egreja catho- lica, que quifelfe poer ordem, & modo na defuluçam de vida, coítumes, & expedição de breues buluas, & outras coufas que fe em corte de Roma trattauam de que toda ha Chriítãdade reçebia fcãdalo. Eíla embaixada tinhão hos Reis ordenado mandar de çaragoça, mas por calo da morte da Rainha Prinçefa, elrei dom Emanuel ha nam pode expedir dalli, nem «fi.i6v.ci. i.'menos quis dilsimular, nem* alongar tempo em coufa tàm importante, mas antes defno dia que partio de Çaragoça atte chegar Aranda do douro, foi lempre entendendo nefte negoçio, & dalli Daranda delpachou por embaixadores aho Papa, dom Rodrigo de craíto alcaide mór da couilhã, íenhor de Valhelhas, & dõ Henrrique Coutinho filho do Marichal, dom Fernando Coutinho, leu defembargador do paço, hos quaes defpois de ferem em Roma juntamente com Garçilafo, embaivador2 delrei dom Fernando, requereram per muitas vezes ho Papa Alexandre fobreftas coufas, pedindo-lhe de parte dos Reis, que por feruiço de Deos quifelfe poer boa ordem, & regimento na gouernança do Ecclefiaftico, & nos 1 Na Ep.: «e em speçial do Patriarca e em Arada. 2 Et. /.; embaixador. %
  • — 65 — maos coltumes, & viços em que ha corte de Roma eítaua habituada, por falta de caftigo, emmenda, & puniçam que hos taes viços, tanto pelas jeis humanas, quomo diuinas mereçiam, lobelias quaes amoeífações proteftaram, & de feus proteftos tiraram eílromentos públicos, feitos per notairos Apoítolicos, que configo trouxeram, & apreientaram ahos Reis, do que fe leguio muito fru&o, porque dalli por diante ho Papa Alexãdre pos milhor ordem nas coufas Ecclefialticas, & coítumes da corte de •Ki. j6v.ci.2/ Roma, do que ho dantes fohia fazer* '. Cap. xxxiiii. De quomo ho príncipe dom miguei foi jurado, & dos preuilegios que em feu nome elRei outorgou aho regno, & do prefente que lhe mandou ho Papa Alexandre, & da morte de dom Pedro primeiro Marques de villa Real. ELREI qvomo atras fica dito chegou a Lisboa ahos ix dias do mes Doutubro, de Milccccxcviij, onde entam poulou nas cafas de Pero dalcaçoua, á porta Daltofa, por ha Infante dona Beatriz fua mal poufar naqlle tempo nos paços Dalcaçoua. Depois q elteue em Lisboa algOs dias fe foi a Syntra, & dalli mandou ahos perlados, fenhores, & procura- dores do Regno que fe ajuntaífem em Lisboa no mes de Feuereiro do anno feguinte de Milccccxcviiij, pera jurarem ho prinçipe dó Miguel feu filho por herdeiro dos Regnos de Portugal, porque ho mefmo era jà feito em Caltella, & Aragam, & afsi ho tinha fabido per cartas dos Reis de caítella que lhe fobriíTo fcreuerem pedindolhe que pera alfoíTego dos regnos quifeffe loguo fazer ho mefmo. Elrei elteue em Syntra atte fim do mes de Ianeiro, & dalli fe veo à çidade, onde fe jà começauam •Fi.a;ei.!.• dajuntar hos eftados do Regno, & ahos vij, dias de Março do* mefmo anno fezeram todos juraméto aho Prinçipe nas mãos delreifeu pai, no ' Não pareceu, e com uma certa razão, completo o capítulo ao Conde de Tentúgal, que escreveu na Critica: No capitolo 3s teve descudo o autor e foy dyminuto em não dizer particularmente ho que se fej do Prymçipe Dom Miguel, porque mujtos am de ler o livro que não saibáo omde elle ficou; e aliem de dijer o que pasou, que hee ficar em Castela, ouvera tãobcm declarar se ficou allguem com ele deste reynno e as damas e maes molheres que companharão ha Rainha Prymseja, que se fe-, delias, ou o modo como tornarão a ele. „ Damião de Goes replicou nas Desculpas: Do Prymcepe Dom Miguel nao achey maes que o que tenho esprito, nem me pareçe que haa de maes neçesidade. Cfr. Edgar Frestage, op. cit., pág. 36o e 366. 9
  • — 66 — alpêdre do molteiro de S. Domingos, mas antes de ho fazerê foi reque- rido a elRei pelos eltados que fe Deos houueffe por feu feruiço que hos Regnos de Caftella, & Portugal per efle juramento ficaffem juntos, q elle lhes prometelfe em nome do Príçipe feu filho, que nunqua ho regimento da jufliça, & lazéda dos regnos, & fenhorios de Portugal, em qualqr têpo, & por qualquer calo q aho diante podeífe fucçeder, foffe dado, né conçedido fena a Portugueies, & ho mefmo das capitanias dos lugares Daíriqua, & alcaides móres de villas, & caítellos, ho q lhes elRei conçedeo em nome do Prinçipe feu filho, & diífo lhes mandou paffar priuilegio afsinado de lua mão, cõ fello pendente, em q hà outras muitas claufulas, cÕ declaraçam q tiuelfem pera fempre força de lei, quomo fe no dito preuilegio cotem. Pouquo têpo depois das cortes acabadas, & ftando inda elRei é Lisboa, chegou a elle hum familiar do Papa Alexandre, pelo qual (pareçe que por lhe gratificar has boas amoeftações que lhe lezera per léus embaixadores) lhe mandaua húa efpada, & húa carapuça forrada, peças que em dias ordenados aho tal audo, hos Papas benzem, & mandam por honrra ahos .Emperadores, Reis, & prinçipes Chriftãos, * Ft. 37 ci. 3." quãdo ha Egreja* delles reçebe algú afsinado feruiço, has quaes forão aprefentadas pelo mefmo meffageiro a elRei ê húa proçiífam folêne q pera illo madou que lefezeífe. Neíle anno de M. ccccxcix, faleçeo em Lisboa dom pedro de menefes primeiro marques de villa Real, dó q elrei & toda ha corte tiueram grande fentimento, & elRei fe ençarrou cÕ moftras de trifteza pela morte de hum tal home, de quem elle & feus regnos, afsi na paz quomo na guerra fempre reçeberam muitos, & afsinados feruiços.1 « O Conde de Tentúgal censurou: No capitolo 34 faf mu/ta mensão e por çerto muj necesarya e bem feita do falecimento de Dom Pedro de Meneces, Marquef de Vila v Real> porque o merecia ele mujto bem por sua pesoa e samgue e estado, mas asym o pudera faqer doutras pesoas que tinhão tudo isto tamto como ele, pryncipalmente do Senhor Dom Alvaro, que tinha mujto mais remda e maes paremte do Rey cujos vasalos erão, e de cervjços não menos que ele, porque pera verdadeyro historyco divera se mostrar igual, e não tão lembrado de huns e esquesido de outros. Damião de Goes tentou justificar-se dêste esquecimento da morte de D. Alvaro nas Desculpas do Chronysta, escrevendo: Domde faleçeo o Senhor Dom Alvoro, nem quamdo, não achey nada, nem Ruj de Pinna, que comtinuou com suas lembramsas atee o anno de i5i4, faq disso mensão. Sabemdo-o, esprevirey nesta prymeyra parte da chronyca, que a segumda hee jaa empremida e quagy a terceyra, c seu falesimento devja ser mujto amtes. Ao que replicou azedo o Conde de Tentúgal: Item de Demião de Gois não saber do faleçimenlo de meu avoo, também me escamdalisou, como de o não esprever. Pareçe que se o quisera perguntar, que o soubera, por que aymda que ele faleçeo em Castela
  • — 67 — •F1.J7V.C1. Capitu, xxxv. Do que vajqvo da gama pasfou etnfua viajem, atte chegar á aguoada de Jam Bras. VASQVO da gama partio de Lifboa, quomo atras fica dito, hum fabbado, viij dias de Iulho do anno do Senhor de Mil ccccxcvij, & com elle leu irmão Paulo da gama, & Nicolao coelho com outra nao q leuaua mantimentos de q era capitão Gõçalo nunez. Ho piloto deita armada fe chamaua Pero dálanquer, home mui experto nas coul'as do màr, & per cuja indultria Lopo infante, & Bartholomeu diaz chegará atte ho rio do Infante, quãdo per mãdado delrei dõ loam foram a dei- i.* cobrir, ho ql Pero dalanqr iha na nao capitania. Elias qtro naos* del- pachou é Lisboa Fernão Louréço feitor da cala da Mina, q foi hú dos em A/cala de Anarcs, devja de soar asaj o seu falesimento neste reynno, por que nele tynha o senhor Duque de Braguança Dom Games, que era filho de seu irmão, e o Mestre de São Tiago, que era casado com sua filha, e o Marquef de Vjlla Real, que era casado com hiia sua irmã, e o Comde de Farão Oudemjra, que era filho de seu irmão, e a Comdesa de Portalegre sua filha. Parece que nestas Casas e nos que vem delas averya doo e nojo, e o prymcipal de tudo era El Rey, que alem de ser seu Senhor e que lhe qucrya mujto, era tão bem filho da I/ante Dona Brites, sua pryma comjrmão, e creo, seguindo me dyxcrão, que mostrou mujto sentymento de sua morte. Cousas erão estas todas per a saber hum caronysta. De seu fallecymento a era em que foy, não me lembra agora, mas poder-se-a saber se compryr. E tão bem ao que foy, não saberey, agora daar boa rejão, mas creo que o mandou El Rey a negocios mujto importantes porque levou minha avoo comsigo, a qual estava em Benalcacere com sua filha que estava parida do duque de Beejar, pay deste, e tão bem creo que negoçearya com hos Reis de Castela alguns negoçios de seu gemro. De cry ados seus que ystiverão presemtes ao seu faleçimento soube que vjera a Rainha Dona Isabel a sua casa velo, que era jaa morto, porque foy de hum asidemte, e tão bem soube jsto da Comdesa do Vjmyoso, minha tia, que era aymda emlão solteira, e não foy com sua maj por ficar doemte. E, como Damião de Goes se encostava às lembranças de Rui de Pina, o Conde de Tentúgal terminava: Se Ruj de Pinna não espreve que meu avoo e pay forão á raia com ho Duque a receber a Rainha Donna Maria, tão bem me aqueixarey dele, por que taes pesoas não se aballão sem saber, e porem atras fica dito que se não deve de daar credito as lembramsas de Ruj de Pinna, se não o que ele pusese em livro e acejtalo. A vjmda da Rainha Donna Marya não ha tamtos annos que foy, [que] não alcamse eu que não sou mujto velho, [e] maes de cem homens que [a] acompanharão e haa menos de dous annos que erão vjvos tres ou quatro homens que acompanharão meu avoo na jornada. Deles e de meu pay, que Deus tem, que foy nela, soube eu tudo muito parti- cularmente, como dise nos meus apomtamentos, e aymda sombou meu pay muitas vejes comigo de quão mal hia vystydo, que era hum pelote de veludo preto e hum capotim de veludo verde, aberto pelas jlhargas, e isto esprevo per a synal, e não per a que saiba quão betado hia meu pay. Cfr. E. Prestage, op. cit., pág. 36o, 366, 371 e 37a.
  • — 68 — magníficos homes daqlle tépo, & q do feu fundou de nouo hos paços de Sanctos ho velho, q depois elRei dó Emanuel houue delle, per efcãibo de bés da Coroa que lheu 1 deu. Afsi q feguindo Vafquo da gama fua viajé, paífou avifta das Ilhas de Canarea, & dahi foi ter aho porto de fanbta Maria na ilha de Sanbtiago, ahos xxviij, dias do mes de Iulho, dõde feguindo seu regiméto começou de cortar alerte em bufca do cabo de boa Sperãça, no q andou hos mefes de Agofto, Septébro, & Oétubro, cõ muitas tormétas, & tépos contrairos, atte q Deos fe houue por feruido lhe moftrar terra, q foi ahos quatro dias do mes de Nouébro, ha qual foram demandar cõ muita alegria, & achará fer húa terra baixa, em q há húa grande baia, a q poferã nome ha Angra de landa Helena. Eftãdo Vafquo da gama alli furto, por quanto na Angra fe nam metia rio, né regato, nem menos achauã fontes, né poços de q podefsé tomar aguoa, mandou a Nicolao coelho que no feu batel foífe por diãte aho logo da praia bulcar algú rio, ho qual indo lepre apegado cõ terra, a quatro legoas da Angra foi dar em hy rio frelquo, & de boas aguoas, a que pos nome de Sãétiago, Õde todos fezerã aguoada, lenha, & carnage de lobos Fi.27T.ei. 2.* marinhos, de q naqlla parage há muitos, & delles tamanhos* quomo grandes cauallos. Nefta Angra foi Vafquo da gama com outros três homés ferido, & ho negoçio fe armou delta maneiraAho dia 1'egulte que ha frota alli chegou, por nam verem gente na praia, faiho elle em terra com hos outros capitães pera mais á fua vontade tomaré ha altura do foi, & veré fe hauia algúas pouoações, ou fe era defer ta. Andando afsi efpalhados é magotes de húa parte pera ha outra, fora dar cõ dous homes pretos, de cabello reuolto quomo hos deguiné, hú pouquo mais baços, q eftauam apanhado mel aho pé de húa mouteira, com cada hú feu tiçã na mão, pera hos quaes fe foram chegando a parto largo, & porto q ambos cõ elpanto, & medo de verem gente tam defacoftumada fe pofertem em fugida, tomáram hos nolTos hum delles, & ho trouxerã a Vafquo da gama, cõ q fe recolheo alegre ás naos, cuidando que fe entenderia cõ algúa das lingoas que leuaua, mas em toda ha frota nam houue peffoa que ho podelfe entender fenã per açenos, & fem medo, né reçeo comeo, & bebeo de todallas iguarias que lhe derã, cõ dous gru- metes, a qué Vafquo da gama mandou que lhe fezeflem boa cõpanhia. E porque era jà tarde quãdo fe recolheram, ho negro ficou aquella noite na nao, & aho outro dia pela manhã ho mãdou veftir de panos de « Et. I : lhe. * Na Ep.: «Nesta Angra foi Vasquo da gama cõ outros três homfs feridos de senhas azagaiadas, e ho negoçio se armou desta maneira...»
  • cores, & poer em terra, defpedindoífe elle dos nof-*/fos mui ledo, & cõtete da boo cõpanhia q lhe fezeram, & febre tudo dalgús cafcaueis, cõtinhas de criftallino, & outros brincos que leuaua. Fites arreos cÔ q efte homem faiho é terra fezerã enueja ahos q o virão porque aho outro dia vieram à praia quinze, ou vinte delles. Pelo que mãdou loguo Valquo da gama poiar gente nos bateis, com q fe veo a terra, trazédo configo moítra defpeçiarias, ouro, & aljôfar, leda, ho que hos negros eítimarão pouquo por nã faberem ho que era: entã lhes mãdou dar cas- caueis, çeptis, & anéis deítanho, & outras coufas defta calidade, ho que tomaram muim alegres, fpeçialmente hos cafcaueis pelo fom q faziã, & dalli por diante começaram de vir á praia feguraméte, & dar dos manti- métos q hauia na terra, a troquo de outras coufas. Cõ efta familiaridade hú home honrado per nome Fernam velofo defejou de em cõpanhia dalgús deites negros, a que fe jà fezera familiar, ir ver fuas habitações, & modo que tinhã em fuas caías, & pera iffo houue liçença de Vafquo da gama, hos quaes moítrãdo niífo cõtentaméto ho leuaram coligo, & de caminho tomàram hú Lobo marinho cõ que ho feltejàram, & quomo né ho guifado do lobo, ne ho modo da terra fatisfezeífem muito a Fernam velofò, acabado ho banquete começou de caminhar pera onde has naos eítauão. Hos ne*gros q por ventura faziam conta de ho trazerem contigo mais tépo pera ho feftejaré aho leu modo vendo ho tornar tam de fubito, le vieram com elle atte praia, mandondo 1 ahos moços da aldea que hos leguiffem có"fuas armas, que fam dardos, & azagaias, guarneçidos nos cabos de oflos, & põtas de cornos de alimarias, com que fere, quomo fe foliem de verdadeiro aço temperado. Ifto pareçe que deuia ler pera fe defenderem, fe Fernão velofo fe aqueixafle da companhia que lhe fezeram, & hos noífos lhes quileífem por ilfo fazer mal. Chegando Fernão velofo à praia começou a bradar que lhe acodiíTem, mas por elle ser mui rebolam, affomado, & fallar fempre valentias nam fe deram hos nolfes muita prelfa, nem hos negros lhe faziam mal, nem entendiam que pedia focorro contra elles, com tudo quomo Vafquo da gama, que á mefma hora eftaua çeando, foube ho que paífaua, mandou fazer final ahos capitães, pera ho feguirem, hos negros vendo hos bateis vir com muita gente recolheramlfe pera onde hos moços eftauam efcondidos com has armas, deixando Fernam velofo na praia, fem lhe fazerem nenhum mal, Vafquo da gama cuidando que eram todos jà idos, fahio com ha géte em terra defcuidado do q hauia de fer, porque hos negros 1 Et. I.: mandando.
  • •FI.iSy. d. i.* •Fl. 28 ▼. cl. 2.1 — 70 — pareçendolhe que hos nolTos vinham com má* teçam, fe defcobriram dos matos em que eítauão embrenhados, & deram tarn de fubito nos noflos que ás azagaiadas hos fezerão todos recolher ahos bateis mais de preifa do q fe defembarcarã. Neila briga foi ferido Vafquo da gama em hum pé, & outros tres da companhia, afsi que per azo deite Fernam velolo ficaram hos da terra aleuantados, & Vafquo da gama fe fez á vela a húa quinta feira xvj, dias de Nouembro, & ahos xx dobrou ho cabo de boa Sperança, a quem hos marinheiros por ler muito efpantofo chamam das tormentas: nauegando aho longo da coíla com muito prazer, folias, & tocar trombetas, & polo tempo fer bonança, iham tam junto da terra que vião allé da frefcura delia, muitas criações de gado groífo, & meudo. Ha gente deita prouincia he baça, de cabello reuolto, quomo hos da Angra de Sanéta Helena, pequenos de corpo feos, quãdo faliam pareçe que faluçam, & andão vestidos de pelles. Suas caias fam de adobes,1 terra, & madeira, cubertas de colmo, tem mufica, ainda que nam quomo ha noíla, com tudo tanjem frautas paítoris acordadas, ho fom das quaes nam pareçeo mal ahos noflos. Aho Domingo feguinte que dobraram ho cabo, dia de fanc*ta Catherina xxv de Nouêbro chegáram á auguoada de lam Bras, que he feífenta legoas do cabo* na qual parajé há muitos, & grandes Elephantes, & muitos bois manfos, & gordos, hos quaes hos negros trazem com húas albardilhas de feiçam das caítelhanas, feitas de tabua, & fe feruem delles quomo nos dos cauallos, dos qes fe ha armada pueo, a troquo doutras coufas que dauam ahos negros por elles, & por carneiros de que ahi há muitos grandes, & gordos. Iunto deita Angra eítà hum iiheo em que hos nolTos viram juntos mais de tres mil Lobos 1 Na Ep.: «... quando falam pareçe que saluçam, andão vestidos de pelles, e trajem suas naturas metidas em huas bainhas de pao muito bem obradas, que quasi se parece com as bainhas de páo em que hos mareãtes holandejes, e os trelins trajénas facas com que cortam ha vianda. Suas casas são de adobes As palavras em itálico foram suprimidas na edição definitiva, porque o pudor agravado do Conde de Tentúgal lhe fizera escrever em crítica a Damião de Goes por amor de rainhas e princesas a quem tais particularidades podiam ofender: No capitolo 35 soo ho que djj nele bastava pera se não comsentyr imprymir se ese livro que am de ler Rainhas e Prymçesas, e não se divera de sofrer por se nele particularidades tam sujas e desonestas, as quaes por nenhum caso do mundo são necesaryas ha obra, e não servem senão de ofenderem com seu maao termo has orelhas. Manda QujmtUiano que palavras torpes se avjtem na oração, quamto rnaes na istoria de tal Rey. Damião de Goes cortou e replicou aborrecido: Do capitolo 36 jaa estava riscado o das bainhas de paao por me a mym mesmo pareçer mal, e o erro não hee tamanho, nem os omens podem de supito cayr nas cousas, que hee a causa de todos errarmos Cfr. E. Prestage, op. cit., pág. 36o e 366.
  • ?i — marinhos, tara brauos que remetião à gente quomo toutos *, hahi húas aues a que chamam Sotilicairos tamanhas quomo patos brauos, que nam voam, por nam terem penas nas afas, fomête has tem cubertas de couro, da cor, & pello de morçegos. Neila auguada de fam Bras fez Vafquo da gama queimar ha nao dos mãtimentos, de que era capitam Gonçalo nunez, por delia nam hauer neçefsidade, donde feita auguada, & carnagem fe fez á vela, hauendo já treze dias que alli chegára, & elliuera mais fe nam lucçederam defconçertos, & brigas entre hos noíTos, & hos negros, polo que antes da armada partir daquella parajem a viíta da frota, hos negros derribaram hum padram, com húa cruz que Vafquo da gama mandara poer fobre hum comaro, junto da praia, dos quaes leuaua muitos, "FU 39 cl. 1.* em que iham has armas do Re-*gno talhadas, pera hos poer nos portos, & lugares que lhe pareçeífe neçeíTario, quomo leuaua per regimento. Capitu, xxxvi. Do que vasqvo da gania pasfou atte chegar à Ilha de Moçambique. DESTA avgvada de fam Bras partio ha frota dia da Conçepçam de noífa Senhora, oito dias de Dezébro, & nauegando aho longo da coita lhe deu hum temporal que ha fez engolfar, ho qual acabado, tornou a bufcar ha terra, & ahos xvj dias chegou a villa de hús ilheos chãos, que eltão feífenta Iegoas da auguada de fam Bras, & çinauo allé do ilheo da Cruz, onde Bartholomeu diaz pofera ho derradeiro padrão dos quaes ilheos aho rio do Infante, que Lopo infante defcobrio há quinze legoas, toda terra muito graçiofa, de grandes aruoredos, prados, & muitas criações de gado, ho que tudo fe via da frota, por irem muito perlo da praia, & lhes dar a iífo lugar ho bom fundo que achauam, & tempo galerno, cõ que em dia de Natal acharam que tinham nauegado fettenta legoas a leite, que era ho rumo a que hauião de ir bufcar ha índia, •Fi.agci. 1.' quomo ho leuaua Vafquo da gama por regimento, & indo todos* mui ledos, por teré paífado adiãte do que defcubriram Bartholomeu diaz, & Lopo infante: viram ahos dez dias de Ianeiro de Milccccxcviij, andar aho longo da praia muitos homes, & molheres grandes de corpo, da mefma cor dos que deixaram atras, & porque lhes ja faltaua aguoa, mandou Vafquo da gama furgir, defejolo de faber que gente aquella era, aho que mandou no batel hum Martim Afonfo, home que labia muitas lingoas barbaras, & com elle hú companheiro, hos quaes foram bem reçebidos 1 El. I.: tontos.
  • — 72 — daquella géte, & do fenhor delles que hos veo fperar á praia, ho que fabendo Vafquo da gama, lhe mandou pela mefma lingoa que fe entendeo com algús delles (que deuiã ler eítrãgeiros das partes de Guiné) húa jaqueta, calças, & carapuça, de leda vermelha, & outras peças, ho que lhe elle mandou agradecer, mandandolhe muitas galinhas em prefente, & outras coufas da terra, com muitos offereçimentos, pedindolhe que deixaife ir configo Martim afonfo pera ho feítejar em fua cafa, ho que afsi fez com galinhas, & outras aues, & por pão papas de milho. Hos ha- bitadores deita terra fão já mais polidos que hos do cabo de boa Sperança, porque trazem nos braços manilhas de cobre, & pedaços delle atados nos cabellos da cabeça, & barba, vfam punhaes guarneçidos deítanho com ■Ki.aj*.ci. i.* bai*nhas de marfim. Húa das coufas que mais eítimarão, das que lhe hos noífos moítrauam, foi panno de linho *, tanto que dauam por pouqua cãtidade delle, muita de còbre, que he final que ho deue de hauer naquella terra, ou nas vezinhas. Por eita géte fer muito domeítica, & fazer muito feruiço a todollos darmada, Vafquo da gama lhe pos nome ha terra da boa gente, & hum rio onde fez augoada ho Rio do cobre, alli deixou dous dos degradados que leuaua pera tomarem enformaçam da terra, & faberem delia has particularidades, dandolhes tempo afsinado em que fe achaffem naquelle lugar, pera da torna viaje hos recolher, deites leuaua dez ou doze que foram prefos per cafos de morte, ahos quaes elRei perdoou has culpas pera fe delles feruir neíta viajem, auen- turandohos quomopelToas com quem, em lhes alogar ha vida per qualquer modo que ioífe, vfaua de graça, & mifericordiaDeita terra da boa gente partio ha armada ahos quinze dias de Ianeiro, & ahos vinte, & çinquo, dia da conuerlam de iam Paulo chegou á boca de hum rio grande muito frefquo, & de muitas fructas, & aruoredos, onde ancorou jà bem tarde, & loguo pela manhã viram vir pelo rio abaixo algúas almàdias a remo com gente da mefma calidade, dos do rio do cobre, & entrelles algús •Fi.igv.d.a.* mais baços. Kites homes em che-*gando às naos iem nenhum medo, nem receo fobiram pela exarçia, tam feguros quomo fe tiuerão conheçi- mento, & amizade cõ hos noífos, q vendo ha fimpreza delles hos deixaram entrar nas naos, onde foram bem feítejados, tudo per açenos, & íinaes, por quanto Martim afonfo nem hos outros lingoas hos podéram entéder. Hauendo já tres dias que alli chegára ha frota vieram quatro fenhores dos prinçipaes daquella comarqua vifitar Vafquo da gama, & ver has 1 Na Ep.: «Húa das cousas que mais estemarã, das que hos nossos levaram foi pano de linho...» 1 Na Ep.: « .. usava graça, e fazia misericórdia...»
  • — 73 — naos, ahos quaes fez muita honrra, & elles ha souberam tomar qnomo 4 peffoas de calidade, cujos atauios erão quomo hos da outra géte, com tudo hos pános com que cobriam has partes vergonhofas erão maiores, & mais largos q hos dos populares, hit dos qes trazia na cabeça húa touqua cõ viuos, & cadilhos de leda, & ho outro húa carapuça de çetim verde, ho q deu íinal ahos noflos de fe irem jà chegado parà India, do q todos fora mui ledos. Vafquo da gama madou veftir eltes homés de panos de feda de cores, & lhe fez ha milhor cõpanhia que pode, com hos quaes vinha hum mançebo de quem per açenos, com algúas palauras que fallaua do Arábigo, podérão hos noffos entender que á terra donde elle era vinham naos tamanhas quomo has noffas, & que não era muito longe dalli. Ha ■ Ki. 3oci. i.* qual noua foi de grande cõtentamento a to*dos, & por ilfo pos V alquo da gama nome a elle rio, dos bõs finaes, onde mandou mettei hum padrão em terra a que pos nome lam Raphael, & alli deixou outros dous t degradados. Nelle rio dos bõs finaes mandou dar pédor ás naos, por diflo terem muita neçefsidade, no que fe deteue xxxij dias, com lhe adoe- çerem muitos dos noffos de diuerfas doenças, pela teria ler alagadiça, baixa, &. lançar de lim vapores grottos, & maos. Depois que has naos forão preftes, partiram daquelle lugar, ahos xxiiij dias de Feuereiro, & aho primeiro de Março houuerã villa de quatro ilhas, de húa das quaes da nao de Nicolao coelho viram lair fette 2, ou oito barquos à vela, a que hos da terra chamão zambuquos, ho que vendo derão húa grande grita, & cõ ella foram faluar ha capitaina. Pelo q loguo Vafquo da gama mandou a Nicolao coelho, por ha fua nao fer pequena, que foffe diante fondãdo atte aquella Ilha donde hos barcos fairam. Hos dos barcos tanto que viram has naos, le chegaram a ellas, & has foram feguindo atte que ancoraram, tangendo anafis, & outros inllrumentos que fe já pareçiam mais com hos noffos, que hos das outras terras em que tocaram. Ha gente deites barcos era baça, de bõs corpos, vinham veílidos de panos dalgodam lillrados, & nas cabeças traziam húas Touquas, foteadas •fi. 3o cl. a.* com vi*uos de feda, laurados de fio douro, & terçados mourilquos çingi- dos, com adargas nos braços, hos qes em chegando a bordo das naos, entraram leguramente nellas, faudando hos noffos em lingoa Aiabia que todos fallauam. Vafquo da gama, & hos outros capitães conheçendo que eram mouros, eltiueram fempre fobre guifo, cõ tudo hos conuidáram cõ fru&os que traziam, & entre ho banquetear lhes perguntauam da 1 El. L: quomo. 2 Na Ep.: «de hfla das quaes, hos da náo de Nicolau coelho viram sair sete...»
  • — 74 — terra, & ha calidade delia, dos quaes louberam quomo aquella Ilha fe chamaua Moçambique, & q ho Xeque era vaffallo delRei de Quiloa, & que dalli perà índia, & pera ho már Darabia hauia tratto de muitas mercadorias, & afsi ho hauia douro em húa terra que lhes ficaua atras que fe chamaua Çofala, ho que todos ouuindo dauam étre fim graças a Deos pela grade merçe que lhes tinha feita. Efta ilha de Moçambique tem muito bom porto, jaz em terra baixa alagadiça, & doentia, hos prinçipaes delia eram mouros baços de diuerfas nações, que trattauao dalli pera muitas partes, hos naturaes fam negros, afsi hos da Ilha, quomo da terra firme, viuem em cafas de taipa cubertas de palha. Has naos, ou zambuquos, em que nauegauam eftes mouros, nem tinham cuberta, nem pregadura, eram liadas com cauilhas de pao, & cordas de i.« fio de palma, a que chama .cairo, has velas fam da fo-*lha da mefma palma, tecidas quomo efteiras muito tapadas, nauegam com agulhas leuantifquas, quadrantes, & cartas de marear. Acabada ha merenda, cuidando eftes homes que eram hos noffos mouros, & que por ferem de muito longe hos nam entendiam fe defpediram muito contentes da copa- nhia, & afsi das peças q lhes Vafquo da gama deu, & mandou aho Xeque, ou capitam do lugar, que fe chamaua Çacoeia h Cap. xxxvii. De quomo ho xeqve Çacoeia, cuidando q eram lios noffos turcos, ou mouros, veo ás naos verfe com Vafquo da gama, & do que lhe depois aconteçeo em Mombaça. 0 ESTE xeqve com ho recado que lhe deram hos mouros que foram á frota, parecêdolhe que foffem hos noffos da mefma feita madou hú prefente de refrefquo a Vafquo da gama, & ahos moradores que leuaffem mantimentos ás naos, & hos vendelfem por preços honeftos, em retorno do que lhe mãdou Vafquo da gama algús veftidos, & outras coufas. Efta amizade começada, Çacoeia foi ver Vafquo da gama à nao acõpanhado de muitas almàdias, & gente bem ordenada, com arcos, frechas, & outras •fi.3o*. ci. i.' armas que vfam, veftidos* todos de panos dalgodam liftrados, & algús de feda de cores, tangendo muitos anafis, trombetas, buzinas de marfim, 1 Na Ep.: Acabada ha merenda que lhes Vafquo da gama e hos outros capitães deram nas suas naos, ha que també forã, cuidando que os nossos fossem mouros e que por serem de muito longe hos nam entendiam se nam hos linguoas que levavam, elles se despediram muito contetes da companhia, e peças q lhes Vafquo da gama deu, e mandou aho Xeque, ou capitam do lugar, que se chamava Çacoçia...»
  • — 7 5 — & outros inftrumentos que faziam tamanho ertrondo que fe nam ouuiam hús com hos outros, na qual ordem chegaram a bordo da nao de Vafquo da gama. Çacoeia era home magro, alto de corpo, & bem difpofto, de mea idade, trazia vertido húa cabaia aho modo turquefquo, de pano . branco fino dalgodam, & iobrefta outra defabotoada de veludo de Meca, na cabeça húa touqua de cores foteada, entrefachada de fios douro, na çinta hú terçado douro', & pedraria, com húa adaga do mesmo jaez, & nos pés húas alparcas de veludo. Vafquo da gama ho veo reçeber abordo pondo de húa banda, & da outra per onde hauia de paífar duas renques de homés armados, dos mais fãos, & milhor difpoftos dármada, porque hos doentes, & mal vertidos nam quis q apareçeflem, & afsi a elle, quomo ahos que cõ elle vinham mandou dar vinho, & fru&a do que comeram, & beberam atte fe alegraré. Nefta merenda, entre outras praticas que tiueram perguntou Çacoeia a Vafquo da gama fe eram turquos, le mouros, & donde vinham fe traziam liuros de fua lei que lhos moftraffe, & alsi has armas que fe mais vfauam em 1'ua terra, aho • Kl. jid.i.« que lhe refpondeo que hos liuros de fua lei lhe moftraria,* depois, que quanto ás armas erão aquellas com que hos 1'eus eftauã armados, couraças, laças, elpingardas, & béftas, com algúas das qes mandou tirar, & tras ellas cõ has bombardas, do que Çacoeia, & hos 1'eus fe alegraram muito, no qual tempo Vafquo da gama não çeffaua, per meo dos lingoas de fe inquirir dos negoçios da índia, & caminho q hauia de tomar dalli atte Calecut, do que bem informado, pedio a Çacoeia pilotos pera efta viajem, hos quaes lhe prometeo, com cõdiçam que hos pagaffem bem: nifto paliaram hum pedaço, atte que depois de bem feltejados fe tornaram pera terra. Dahi a dous dias tornou Çacoeia a vifitar Vafquo da gama com refrefquo, & dous pilotos, com hos quaes, pello leuaram a Calecut, fe cõçertou por trinta meticaes douro, pefo da terra, que vai cada hú quatroçétos, & vinte reaes de noffa moeda. Aliem dilto lhes deu marlotas, & outros vertidos, de q foram muim fatil'feitos, & loguo per mandado de çacoeia ficaram nas naos. Feito efte conçerto, hauedo dambalas partes muita amizade, & comunicaçam, viera hos mouros a faber que era hos noffos Chriftaos, ho q caulou tornaífe tudo ifto em odio, & defejo de hos mattarem, & lhes tomarem has naos, ho que hú dos pilotos defcobrio a Vafquo da gama, pelo que fe loguo fez á vella, •fi. Si cl. a.* & foi furgir júto de húa ilha a que pos* nome de fam George, que eftà húa legoa ala màr de Moçambique, hauédo já fette dias que alli chegara, ' Na Ep.: «na çinta hú traçado douro...»
  • — 76 — & porque "ho outro piloto lhe ficaua em terra, do q andaua muito agaf- tado, ho outro que eftaua na nao lhe dixe q nam tomaífe por iffo paixam, q elle ho leuaria a húa ilha p nome Quiloa, q era dalli çem legoas, pouoada de Chriftaos, & mouros q fempre tinham guerra, q alli acharia muitos pilotos ^ nam viuiã fenam de nauegar perà índia. Valquo da gama lhe prometeo boas aluifaras ho dia que chegaffem a Quiloa, fazêdo fe logo á véla, que foi húa terça feira xiij dias de Março, & cõ calma- rias fe achou a ré da Ilha de Moçambique quatro legoas, pelo que tornou a furgir na mefma Ilha de fam George, onde depois de furto veo à nao hum mouro que trazia coníígo hum moço de doze, ou treze annos, feu filho, & pedio a Vafquo da gama q ho mãdalfe recolher nas naos, dizendo lhe que era homem do mar, & fe queria tornar pera Mequa, dõde viera por piloto de húa nao, de Moçambique, Valquo da gama ho recolheo de boa vontade na fua mefma nao, pera delle tomar informaçam das coufas do már de Arabia. Com elle piloto, & cõ ho que lhe deu Çacoeia, & com outro que Paulo da gama tomou e húa briga que hos nolTos houue- ■Fi.3iv.ci. i.* ram com hos da terra, fe partio dalli aho primeiro Dabril em buf*qua da Ilha de Quiloa, ha qual efcorreo, & paliando adiante chegon4 hum fabbado vefpera de Ramos, fette dias do melrno mes à Ilha de Mombaça que he muito frefca, & há nella muitas fru&as, & hortaliças quomo has de Portugal, de muito bos ares, agoas, trigo, & criações: has cafas fam de pedra, & cal, & cantaria, pintadas, & forradas quomo has noffas. E porque hos pilotos mouros lhe deram a entender q uaquella4 Ilha habita- uam tãbem Chriftaos, em pouoações feparadas dos mouros (ho q era falfo)3 ancorou muim cõtente, cuidado de hos achar, & per feu meo hauer has coufas q lhe foliem neçelfarias pera fua viajem, & curar hos doétes q leuaua, porque jà quando alli chegou lhe morrerá quafi ametade da gente, & da q efcapára, ha mais era doéte. Surtas has naos vieram çem homes em húa grade almadia a bordo da capitaina, vertidos à turquelqua, cõ terçados, & efcudos, entre hos quaes vinham quatro q pareçiam hos prinçipaes, q em chegando quiferam fubir à nao, afsi armados quomo eftauam, cõ algús da companhia, ho q lhes Vafquo da gama nam con- fentio, fenam q elles fós, & fem armas étralfem na nao, ahos qes quomo foram dentro mãdou banquetear, delculpandoíTe de lhe nam confentir has armas, ho q elles tomaram bem, dizendo lhe que afsi ho deuia fazer • Fi.3i».ci.».• fempre, pois eftaua e* terra eftranha, onde não fabia de quem fe hauia 1 Et. /.: chegou. * Et. I.: naquellu. » Et. L: falfo.
  • — 77 — de guardar. Eftes lhe dixeram que elRei de Mombaça hauia jà dias que fabia de fua vinda, & por ter muito defejo de ho ver, pela informaçam q delle tinham, eftaua determinado de aho outro dia ho vir vifitar em peffoa, ho que tudo eram enganos, por que fua tençam era tomar has te naos, & mattar todos. Acabada ha meréda hos mouros fe defpediram de Vafquo da gama com moftras de grande amizade, & loguo aho outro dia, que era Domingo de Ramos, mãdou elRei de Mombaça vifitar Vafquo da gama com hú prefente de frufta, & carneiros, pedindolhe que entraffe pera détro do porto, que ali ho iria vifitar, que naquella çidade acharia todalas fpeçiarias, & mercadorias que hauia na índia, em tanta abundançia que poderia carregar has naos delias, fem ter neçefsidade de paffar adiante, nem fe auenturar ahos trabalhos, & defaftres daquella nauegaçam, que era húa das mais perigofas de todas aquellas partes. Ahos que trouxeram efte recado mandou que difsimulaffem ferem Chrif- ► tãos, & dixeirem que na terra hauia muitos defies, ho q elles fouberam mui bem contrafazer, pelo q lhes Vafquo da gama fez muito gafalhado, & deu algúas pçças, & mandou outras a elRei, defpedindo hos de fim •fi. 3» d. i.* cõ recado, que aho outro dia entraria pera dentro, &* pera mór confir- maçam, mandou com elles dous degradados, dos que configo trazia, hos quaes elRei reçebeo bem, & lhes mãdou amoftrar ha çidade, ha qual he grande, fituada fobre pedra viua, em hum alto, onde bate ho már, & na L boca do porto tem húa torre com artelharia, & guarda de géte, chamafe Mombaça, do nome da mefma ilha. Depois defies degradados, terem andado per toda ha çidade, hos tornaram a leuar a elRei, que por anegaça lhes deu pimenta, crauo, canella, gingiure, nozes nofcadas, maças, ambar, marfim, que leuafiem per moftra a Vafquo da gama, & afsi hos delpedio, & com elles lhe mandou recado que de tudo aquillo lhe daria carga perás naos, do que elle ficou muim ledo, & logo aho outro dia mãdou leuar ancora, com tençam de entrar no porto, & por que ha fua nao cÕ ha corréte iha já quaíi fobre hum baixo, mãdou furgir, & ho . mefmo fezeram has outras naos, pelo q algús mouros dos da çidade que trouxeram mãtimétos ás nofias naos & algúas mercadorias, fe recolherão, ahos barcos encaminhãdo perá çidade, & paíTando hú defies per popa da capitania, hos pilotos que trouxera de Moçambique fe lãçaram aho mar, hos quaes hos do barquo recolherão fem hos quereré tornar à nao, pofto que Vafquo da gama lhes fez effe bradar, do q logo tomou fufpeita • n. 3» ci. 2.' que elRei* tinha armada treiçam, & por diffo faber ha verdade mandou meter a tormento dous mouros que Paulo da gama captiuara na briga de Moçambique, de quê foube q hos pilotos fe lançáram aho mar, cuidando quando mandou furgir que fora por algú auifo q tiuefle da
  • — 78 — treiçam que lhes eftaua ordenada, quera tomaré lhas naos & meterem nos todos á efpada. Vafquo da gama, & todolos da frota derao muitas graças a Deos de hos liurar do perigo que lhes eftaua aparelhado, & reçeofos q hos mouros vieífem de noite às naos cortarlhes has amarras, fe vigiauam com mais teto do que ho dates faziam, nem foi de balde ho que cuidauam, porque em duas noites que alli depois eftiueram, em ambas vieram muitos da terra a nado com terçados, & machadinhas pera picaré has amarras, ho que tudo faziam com tanto filençio, que fe nam fora ha muita vigilançia que fe fobriffo tinha, hos noftos fe viram em perigo. Vedo Vafquo da gama ho que palfaua, fefta feira de Indulgéçias fe fez à vela, fem leuar outro piloto que ho que em Moçam- bique fe metera na fua nao, ho qualho esforçou, prometendolhe de ho leuar à çidade de Melinde, onde acharia quantos pilotos quifeffe perà índia. Nefte caminho tomou hú zambuquo com quatorze mouros, entre 3a v. ci. i.* hos quaes hum delles pareçia ho fenhor de todos,'.home* prudête, natural da mefma çidade de, quem fe informou dos negoçios da índia, & daquella cofta, & em lpeçial do Regno, & çidade de Melinde, diãte da qual foi furgir dia de Pafcoa de Refurreição pela manham, com muita alegria, afsi pelo dia que era, quomo por fperar que acharia alli melhor recado, do que fez em Mombaça, pelas boas nouas que tinha do Rei, & lenhor que nella entam regnaua çM Capit. xxxviii. Do Jitio da çidade de melinde, & do que Vafquo da gama paJJou com ho Rei delia, & do caminho quefe\ atte chegar a Calecut. H A çidade de melinde jaz de longo da praia em hum campo rafo, çerquada de palmares, & arequaes, tem muitos pumares, &. hortas, cõ noras, de boa hortaliça, & fruita defpinho, & outras prumajes, tem ho furgidouro lõge da pouoaçã, por eftar encofta braua, Ha terra he fértil de mãtimentos, & criações de gado, galinhas, & caça, tudo muito barato, he be arruada, has cafas fam de pedra, & cal, & cataria, cõ eirados, muito fermofas da bãda de fora, & de muito riquos lauores, & pinturas por detro. Hos naturaes da terra fam gétios baços, de cabello 3»». ci. j.* reuolto, bê* dilpoftos, hos eftrangeiros fam Mouros Arábios, andam nus da çinta pera riba, & pera baixo çingidos com panos de feda, & dalgodam. Hos nobres hos vfam fobraçados, nas cabeças trazé fotas cõ cadilhos de feda, & ouro, fuas armas fam terçados, lanças, adargas, arcos, & frechas,
  • — 79 — trattã fe muito bem, tem gráde * opinião de caualleiros: com tudo naqllas partes quando fe quer dar louuor aho milhor de cada çidade, dizem caualleiros de Mombaça, & damas de Melinde, por ferem fermofas, cortefãs, & bem atauiadas. Hos mais dos mercadores que viuem neíta çidade fam Guzarates do Regno de Cambaia: na terra hà ouro, ambar, marfim, breu, & çera: ho Rei he mouro, ferueffe com muitas çerimonias, & tem affaz bom eftado. Aquelle dia em que has naos furgiram que era de Palcoa, nenhú dos da çidade veo a ellas, porque já tinham auifo do q hos nofTos paffaram em Mombaça, & arreçeauam ho mefmo, ho q fuf- peitando Valquo da gama à fegúda feira foi lançar ancora a mea legoa delia, nem fe quis mais chegar, por ho porto ter hum areçife perigofo, ho mouro que tomara no zambuquo entedendo ho negoçio, lhe pedio que ho deixaífe ir a terra fò, que elle lhe negoçiaria pilotos perá índia, & tudo ho que lhe compriífe, & q naquelle porto eftauam quatro naos de •fi. 33 ci. i.» Chriftãos índios preítes pera fe* tornarem, que podia fer que lhe fezeífem cõpanhia, por ferem todos de húa lei, Vafquo da gama, pofto que lhe deífe pouqua fé vedo q ganhaua muito fe lhe trattaífe verdade, ho mandou poer em húa ilheta, que eftà muito perto da çidade, da qual em fe ho batel afaftando, loguo da terra vieram por elle em húa almádia, & ho leuaram a elRei, do qual fe informou do modo dos noffos, & fabédo que ho capitam queria cõ elle paz, & amizade, lhe mandou por elle hum prefente de carneiros, & fruda da terra, Vafquo da gama lhe mandou pelo mefmo outro de coufas do Regno, & com elle hum degradado com que elRei folgou muito. Neítes recados andaram ha fegunda, & terça feira, & ja feguro de lhe pareçer q nada do q fentreles trattaua era fingido, á qrta derradeira odaua pela manha fe chegou mais a terra, & foi furgir junto das quatro naos dos Chriftãos, que eram de Crãgalor, homés baços, de cabello cõprido, veftidos aho modo Perfio, dos quaes foram hos noffos feftejados, reçebendo delles preftimo, amizade, & auifos das coufas da terra, dizendolhe que fe fiaffe delRei quomo de mouro, & que de todolos da çidade fezeffe ha mefma conta. ElRei de Melinde era muito velho, & doente, & pofto que defejaffe de ir ver has naos, ha mà •fi. 33cl. 2.* difpofiçam lho eftoruaua, cõ tudo feu filho mais velho,* herdeiro do Regno, que jà regia por elle, has veo ver no mefmo dia depois de jentar, em húa almádia grande, acompanhado de géte nobre, muito bem atauiada. Vinha affentado em húa cadeira defpaldas darame, & no affento delia húa almofada de velludo, & ahos pés outra: trazia veftido húa cabaia de 1 Et. /.: grãde.
  • — 8o — damafquo cramiíim, forrada de çetim verde, & húa touqua foteada. To- maualhe hú homem ho foi, com hú lombreiro de çetim cramefim, a modo de fobreçeo defparauel, pofto em húa afie de pao dourada. Iunto delle iha affentado outro homem velho q lhe leuaua hum terçado guarne- çido douro, & prata anilada: na mefma almádia vinham homes q tangiam anafis, & bozinas de marfim tam conçertado que pareçia mais mufica doutros inftrumentos que daquelles barbaros. Vafquo da gama quomo foube da vida do Príncipe mãdou toldar, & embandeirar ho batel, & cõ doze homés dos melhor viltofosho veo reçeber antes que chegaffe ás naos. Ho prinçipe quomo vinha defejofo de ver hos noífos de perto, em chegado aho batel fe laçou dentro, & foi logo abraçar Vafquo da gama, íem pejo, nem çerimonias, perguntandolhe depois que fe aífentáram muitas coufas quomo homem prudente, no q delpenderam hum bom pedaço, de tempo, andado aho redor das naos, has quaes elle olhaua, & •fi. 33 t. cl. i.* af-*fi ho trajo, & modo dos nofTos cõ muito efpanto. Vafquo da gama mandou que lhe trouxeífem da nao hos mouros que tomàra no zambuquo dos quaes lhe fez prefente, ho que elle eftimou muito, fazendolhe por iíTo muitos offereçimentos, rogandolhe que fe foífe com elle a terra folgar, & repoufar nos feus paços, que em refes diffo deixaria nas naos hú feu filho que ali trazia, & dos feus caualleiros quantos elle quifeffe, do que fe Vafquo da gama excufou, mas ho Prinçipe defejofo q hos noíTos foffem á çidade, entregaua ho filho a Vafquo da gama, com algús homés fidalgos, pedindo-lhe que dos 1'eus lhe deífe fomente dous, pera hos leuar conligo, porque fe foífe fem elles, feu pai ho tomaria mal, pelo defejo que tinha de ver gente Portuguefa, por já faber quam bem ho fezerã em Moçam- bique, & Mombaça. Com eítes dous homés fem Vafquo da gama qrer tomar hos arrefens fe recolheo ho Prinçipe á fua almàdia, ficando affen- tado q aho outro dia foffem no batel de longo da praia pera ver ha çidade: ho que Vafquo da gama afsi fez, leuando configo Nicolau coelho, cada hum em feu batel bem artilhados, & em chegando junto da praia ho prinçipe deçeo dos paços p húa fcada de pedra, q vinha dar no mar, onde ho tomarão em hum andor em que ho leuarã aho batel de Vafquo •fi.33v.ci. a « da gama.* Depois de feitas fuas çerimonias lhe tornou de nouo a pedir q quifeffe ir ver feu pai, q por fer muito velho, & entreuado nam podia fazer ho mefmo, & que pera legurança diffo elle fe iria cõ feu filho perás naos, do que fe Vafquo da gama excufou, dizendo q não trazia liçença delRei feu fenhor pera ho fazer. Entretanto q feitas praticas paffauam, afsi da çidade, quomo das noffas naos, & das dos Chriítãos índios, & 1 Na Ep.: «e cõ doze homés dos mais vistosos...»
  • — 8i — doutras, & dos bateis tirauã muitas bombardadas, & lãçauão foguetes, ho que durou atte fe ho Prinçipe recolher pera hos paços, ho qual todo ho tempo que alli eíteue ha armada mandou vifitar Vafquo da gama, & hos outros capitães com refrelco da terra, alie do que lhe deu hum bom Piloto mouro guzarate, per nome Malemocanaqua, & com ho muito de- lejo que tinha de noíTa amizade, tomou a fé a Vafquo da gama que tornafle per alli, porque em fua companhia queria mãdar hú embaixador a elRei de Portugal, pera com elle affentar paz, & amizade, com ha qual, & muito amor dos da terra partirão hos noffos daquella çidade de Me- linde húa terça feira xxiiij, dias Dabril, deixando poíto hú padrão na praia a que poferam nome lanéto Spirito. Seguindo afsi fua viajé pelo golfam que fe faz da calta 1 de Melinde, atte ha do Malabar, a húa feita •FL3«cLi.* feira xvij dias de Maio virão* húa terra alta, ha qual ho piloto Canagua não pode bem conheçer, por ho tempo andar encuberto com chuueiros: mas aho Domingo feguinte pela manhã vio húas ferras que eílão junto da çidade de Calecut, do què loguo pedio aluifaras a Vafquo da gama que lhas deu boas, & de boa võtade, louuando todos a Deos poios ter guiados a lugar que tato tempo hauia que andauão bulcando, fazendo por iífo grandes feitas, & alegrias com has quaes, & cÕ has naos emban- deiradas a fom de trobetas, no mefmo dia depois de jentar forão furgir duas legoas da çidade de Calecut, tam contentes quomo fe já tiueram feito fim de feus trabalhos, & estiueram furtos diante da çidade de Lis- boa, donde hauia onze mefes que partiram. Capitu, xxxix, Do que Vasqvo da gama fe\ depois que furgio, & do recado que mãdou a elRei de Calecut. EM has naos lançando ancora chegaram a ellas algús barcos, de que hos noífos compraram refrefcos da terra. Deites foube Vafquo da gama que não era aquelle ho furgidouro de Calecut, olfereçendofelhe que •Fi. 34 cL j.« ho leuarião* là, quomo fezeram, donde depois de furto mandou hum dos degradados à çidade, aho redor do qual, em defembarcando, fe ajuntou muito pouo, perguntando lhe que homem era, & donde vinham naos tam deífemelhantes às fuas. Deites algús erão mouros que lhe começaram a fallar arabio, mas vendo que hos não entendia, ho tropel da gente ho leuou pera húa parte da çidade, onde poufauam mercadores mouros ef- trangeiros, andando de cafa em cafa pera ver fe achauam quem no en- 1 Et. L: cofia. II
  • 82 tendeffe, atte que foram dar com dous mercadores de Tunez, dos quaes hum per nome Mõçaide fallaua caftelhano, que em ho degradado entrando pela porta da cafa, conheçendo no trajo que era Hifpanhol, lhe perguntou de que naçam da Hispanha era, & fabendo q Português lhe mandou dar de comer, dizendolhe que fe algúa coufa compria ahos que vinham na- quella armada, que ho faria de mui boa vontade, & que pera confirmaçam diflo queria ir em fua companhia vifitar ho capitão, ho qual em entrando na nao, dixe em caftelhano alta voz, boa ventura vos feja a todos, dai graças a Deos, que vos trouxe à mais riqua terra do mundo, em que achareis todo genero de mercadorias que puderdes cuidar, & imaginar. •Fi.34v.ci. 1» Vafquo da gama ho leuou nos braços perguntandolhe muito ledo* donde era, Monçaide lhe dixe que de Tunez, & que do tempo que elRei dom Ioão ho fegundo acoftumaua mandar naos a Ouram bufcar coufas de que tinha neçefsidade pera feus almazés, conheçera hos Portuguefes, & lhes fora fempre muito afeiçoado, pelo que em tudo ho que naquella terra podefle feruir elRei dom Emanuel ho faria, fe ho niffo quifeffem occupar, ho q Vafquo da gama lhe agradeçeo com promefla de lhe pagar bem feu trabalho, entam lhe perguntou pella pefloa delRei de Calecut, & modo de feu viver, & eftado, aho qne 1 tudo lhe respõdeo quomo homem pru- dente, dizendolhe que elRei era bom homem, com tudo vangloriofo, que hauia de folgar muito com lua vinda, por vir de tam lonje, & em nome de hum tal Rei, quomo era elRei de Portugual, prinçipalmente fe vinha aflentar tratto na terra, porque dos direitos das mercadorias que entra- uam naquella çidade, & faiham, foftinha feu eftado, mais que das rendas do Regno2. Loguo alli alfentou Vafquo da gama cõ efte mouro que aho outro dia fofle por lingoa de dous homes, per quem queria mandar viíitar * elRei. Com efte recado foram Fernão martíz, & outro Português a hum lugar, çinquo legoas dalli, onde elRei eftaua que fe chama Panane. •fi.34v.ci.i.' Fernam martíz em chegando a el*Rei lhe dixe per outro lingoa, com quem Mõçaide fallaua, que ho capitam daquellas naos lhe mandaua pedir liçença pera ho ir viíitar, & lhe dar cartas que lhe trazia delRei de Por- tugal feu fenhor, elRei tomou bem ho recado, & antes que refpondeífe lhes mandou dar a cada hum feu pano dalgodam, & feda muito finos, & pollo lingoa lhe fez algúas perguntas breues, dizendo-lhe que dixeífe aho capitam, que fua vinda foífe boa, que por quãto ho lugar em que eftaua furto era perigofo, por fer tempo de inuerno, fe foífe a Pandarane quera bom porto, ho que loguo fez, guiado per hum piloto que lhe elRei 1 Et. I.: que. 2 Na Ep.: «mantinha seu estado, mais q das rendas do Regno...» O
  • — 83 — mandou, com tudo, porque na terra hauia mouros, nam quis entrar tanto quanto ho piloto quifera, arreçeandoífe que lhe podelfe acÕteçer ho mefmo que em Moçãbique, & Mombaça. Hauendo já oito dias que Vafquo da guama chegara, a húa fegunda feira pella manhã, ho Catual delRei, que he quomo corregedor da corte, lhe mandou dizer que era alli vindo pera ho acompanhar atte ha çidade de Calecut, onde ja elRei eltaua, que cada vez que quifelfe podia defembarcar, & foífe com breuidade, porque nam tinha outro negoçio em Pandarane, que 1'perar por elle, mas por já •Ki.35d. i.« fer tarde elle fe excufou, deixado ho negoçio pera ho outro dia, que erão* vintanoue dias de Maio, no qual fahio em terra pela manhã, onde ho Catual ho eftaua fperando na praia, com muitos fidalguos da cafa delRei, a que chamam Naires. Vafquo da gama deixou has naos encomendadas a feu irmão Paulo da gama, & a Nicolao Coelho, dizendolhes que fe algum defaftre lhe acõteçeífe em Calecut, & fentiífem que podiam correr rilco em 1'perar por elle, que fe fezeffem á vella, & tomalfem outro porto do Malabar, pera ahi comprarem algúas fpeçearias, com que, & com has nouas do que tinham defcuberto, fe tornaífem aho Regno, que elle nam podia al fazer fe nam em peífoa ir ver elRei de Calecut, & dar lhe has cartas que trazia delRei feu 1'enhor, que era ho remate do caminho que tinham feito. E por has naos nam ficarem delprouidas de gente nam quis leuar coligo mais que doze homés, de que forão hos prrnçipaes', » Diogo diaz fcriuam da fua nao, Iam de fá que foi thefoureiro das fpeçia- rias da cafa da índia, Aluaro de braga qneâ foi fcriuão dalfandega da çidade do Porto, Fernão martíz lingoa, & Aluaro velho, hos outros erão ieus criados. Na mefrna hora que vafco da gama defembarcou ho fez ho Catual tomar em hum andor3, que fam a modo de andas defcubertas, que leuauam quatro homes ahos hõbros por eftado, eftes lam tam deftros •Fi. 35 cl.a.* nelte* offiçio, que ho que vai no andor, pofto que elles vam ás vezes ► correndo, quafi que nam fente que ho mouem, a par dos quaes, vai outro homem com hú fombreiro defparauel, pofto em húa afte coprida pera lhe tomar ho foi, & ha chuua. Defte modo começaram a caminhar Vafquo da gama no feu andor, & ho Catual em outro, indo hos Naires. & hos noífos a pé aho redor dos andores, * hos quaes ho Catual nam deixaua correr, mas antes mandaua que foliem de vagar, vendo que hos 1 Et. prinçipaes. 2 Et. que. 3 Na Ep.: «Tanto que desembarcaram loguo o Catual fez tomar vasquo da gama em hum andor...» i 4 Na Ep.: «Deste modo começaram ha caminhar indo hos Naires e hos nossos ha pé aho redor dos andores...» b
  • 84 noffos por virem rrmim fracos do mar, hos nam podiam feguir, quomo ho faziam hos Naires, & outra muita gente que iha tras elles, efpantados de verem homés de tan lonje, & de trajo tam defacoftumado, em todas aquelias prouinçias. Capitulo .xl. Do que Vasqvo da gama pasfou atte chegar a Calecut, onde ho elRei ejlaua fperando. E pandarane, que he çinquo legoas de Calecut forão jentar a húa pouoaçam que fe chama Capotati, ho Catual em húa cafa, & Vafquo da gama em outra, acabado ho jentar lembarcaram todos em Ki.35v.ci.i." almádias, & foram obra de húa legoa per hum rio ar-*riba, em que eílauam muitas naos groífas varadas em terra, cubertas com folhas de palma, onde defembarcaram, & tornaram a fobir em outros dous ando- res, que hos alli eftauam fperando. Ho Catual dixe a Vafqno 1 da gama que ho queria leuar por hum pagode de muita deuaçam, & de grande romajem, que fam has fuas egrejas, pêra nelle fazerem oraçam, & darem graças a Deos de hos trazer áquella terra a faluamento, & por lhe terem di£to que naqlla prouinçia hauia Chriftãos, cuidou que feria aquelle pa- gode delles, ho que lhe confirmou muito mais ver em chegando aho pagode çinquo finos fobella porta prinçipal, poftos em campanairo, apar dos quaes eftauam húa colúna darame daltura de hum grade maftro de nao, & no capitel delia hum gallo tãbem darame. Ho pagode, & offiçinas delle erao do tamanho de hú grande conuento dos noffos, tudo de cantaria muito bem laurada, hos telhados cubertos de ladrilho. Chegados à porta do pagode, ho Catual tomou Vafquo da gama pella mão, & em entrando fe vieram parelles quatro homés nús da çinta pera riba, & pera baixo cubertos com pannos dalgodam atte ho -geolho, com has cabeças defcubertas, & tres linhas fobraçadas, do modo que •fi.35 v. cl. s.* hos Diáconos trazem ha Stolla, hos quaes em chegando lhe lan-*çaram com hum ifope aguoa de húa pia, & a todolos que com elles vinham, apos ho que lhe deram fandalo moido pera poré nas teftas, hos quaes finaes fazião mais pareçer ahos noffos que foffe egreja de Chriftãos. Paffando mais adiante pello pagode, em que hauia muitas, & diuerfas images pintadas pellas paredes, chegaram a húa capella redonda, que eftaua no meo do corpo delle, laurada de cantaria com húa porta ellreita darame, a que fe fobia per degraos de pedra, dentro da qual eftaua 1 Et. L: Vasquo.
  • — 85 — encaixada na parede húa imagem, que por ho luguar fer efcuro nam poderam bem ver que imaginam era, nem eftes homes hos quiferam deixar entrar dentro, appontando com ho dedo parella, dizendo Maria, Maria, ho qual nome em ouuindo ho Catual, & Naires fe lançaram todos de bruços com has mãos por diante, & loguo fe aleuantaram fazendo oraçam em pé, ho que hos nolfos, pareçendolhe que deuia de ler aquella ha imagem da virgem Maria, tãbem fezerão em geolhos. Acabada ha oração tornaram a caminhar, & já perto de Calecut, ho Catual leuou Vafquo da gama a outro tal pagode a fazer oraçam donde atte hos paços delRei foram com muito trabalho, porque era tanta ha gente pelas *fi. 36ci. i.4 eftradas, & ruas que per nenhú modo poderam paífar fe hos Naires não* foram abrindo caminho com has efpadas que trazem fempre nuas a modo de terçados reuoltos, & rodellas, & armas, de que ordinariamente fe feruem. Antes q chegaífem ahos paços, por ha gente creçer em muita cantidade, ho Catual fe metteo em húa caía, onde eftiueram atte que da - parte dei Rei veo vifitar Vafquo da gama hum irmão do melmo Catual, em hum andor, acompanhado de muitos Naires, com anafis, & trombetas, hos quaes loguo abalaram pera onde elRei eftaua. Seriam hos Naires que preçediam em ordem mais de tres mil', dos quaes de quando em quando faiham algús fora da ordem a efgrimir, hús com hos outros, no qual exerçiçio he ha mais defira naçam que fe no mundo fabe. Nefta ordem chegaram ahos paços onde elRei eftaua, que fam todos de cafas terreas2, muito íermolas, afsi de edeffiçios, quomo de jardís, pumares, & muitos tanques daguoa, ahos quaes em chegando 3 fairam algús fenhores de titulo, a que chamão Caimães a reçebellos, em cuja companhia depois de paífarem quatro pateos (á porta de cada hum dos quaes hauia dez porteiros) chegaram a húa cafa junto á em que elRei efiaua, donde faiho hum homem velho, veftido de pannos branquos dal- godam que ho cobriam todo. Efte era ho Bramana mór delRei, dignidade •Fi. 36cl. 2.' quomo cape-*lam mór entre nos, ho qual em chegando a Valquo da gama ho abraçou, & fez entrar hos noflos diante, apos hos quaes feguio loguo, leuando ho pela mão, atte onde elRei eftaua, de quem foi reçebido da maneira que fe no feguinte capitulo dira. 1 Na Ep.: «... passante de tres mil.» 2 Na Ep.: «... hos quaes sam todos de casas terreas...» ' Na Ep.: «... tanques daguoa. Em chegando...»
  • — 86 — Capitu, xli. Do modo que elRei de Calecvt teue em receber Vafquo da gama, & dalgúas praticas que cÕ elle paffou. "I T |H LREI eltava em hCa falia grande, çerquada alio redor daflentos de J—J pao mui bem laurados, aleuantados hús dos outros, a modo de coro, ou theatro, hos quaes fe encheram loguo de Caimães, & Naires. Ho chão deita falia era todo cuberto de veludo verde, & has paredes armadas de pannos de 1'eda, & ouro, de cores. ElRei eítaua lançado em hum catei (que fam leitos quomo de campo) cuberto de hum panno de feda branqua, & ouro, bem laurado, & per çima hum fobreçeo do jaez: era homem de mea idade, baço, alto de corpo, & de bom pareçer, tinho vertido hum Baju (que he quomo roupeta curta) de panno dalgodam muite fino, com muitos botões douro, & perlas, na cabeça húa carapuça da •Fi. 36 v. ci. i.* veludo guarne*çida de pedraria, & chaparia douro, ho qual trajo he ho ordinário de todollos Reis do Malabar, porque nenhúa pefloa traz ho baju, & carapuça lenam elles. Tinha penduradas nas orelhas arrecadas, & nos dedos dos pés, & das mãos muitos anéis, & nos braços, & pernas manilhas, tudo obrado, & laurado de perlas & pedraria de muito vallor, junto do Catei eftaua hum homem velho que lhe daua ho betelle, que maltiguaua, hos valos em que ho cofpia depois de maftigado eram douro maçiço. Ho qual betelle he húa folha tamanha quomo de tanchagem, & quaíi da mefma feiçam, creçe quomo ha era apeguada em aruores, ou em latadas, dafle a maftigar vntado com cal de marifco, delida em aguoa rolada. Com efta folha vfam hum pomo tamanho quomo nozes, cortado em pedaços, a que chamam arrequa, que dão húas aruores quomo pal- meiras delgadinhas, altas, & muito limpas, do que tudo leuam pera baixo ho çumo fomente, & ho demais col'pem com vifcofidade, & ventofidade que lhes tira do eftomago, & da cabeça, coufa q conferua muito ha laude, & faz bom bafo, & também matta ha fede. Em Vafquo da gama entrando fez ha reueréçia requerida em tal lugar, & ho meimo fezeram •fi.36t.cI. ».• hos outros Portuguefes, ElRei lhe açenou que fe achegaffe pera* ho Catei, & ho mandou aífentar em hum dos degraos do eftrado, em que tinha ho Catei,*& ahos outros mandou que fezeífem ho mefmo nos affentos que eftauam aho redor da cafa, & a todos mãdou dar aguoa às mãos, pera refrefcarem: lauadas has mãos lhes mandou trazer aguoa, & figos com outras fruâas da terra, de que todos comeram, & beberão. Acabada ha merenda começou el Rei de fallar com Vafquo da gama, pelo feu
  • 8y - lingoa, tara alto que ho ouuiam todolos que eftauam na cafa, & nas perguntas q lhe fez, vendo Vafquo da gama que começaua dentrar em negoçios, alem do que lhe jà perguntara de feu caminho, & trabalhos da longa viajem, dixe per Fernão martíz feu lingoa aho lingoa dei Rei, que lhe dixeffe que entre hos Reis Chriftãos fe nam acoftumaua tomarem hús dos outros embaixadas, fenam em particular, & que aquelle coftume lhe pedia q quifeífe ter naquella que lhe trazia delRei de Portugal feu fenhor, tam defejofo de fua amizade, afsi elle quomo feus anteçeífores, q hauia mais de feífenta annos que trabalhauam no defcobrimento defta nauegaçam, atte que Deos lhe fezera à elle merçe de vir aho cabo delia, do que fe tinha pello mais bem auenturado homem de todo mundo. •Ki. 37 ci. 1.» EIRei tomou bem ho que lhe Vafquo da gama fez dizer, & loguo man-* dou que elle, & Fernam Martíz fe fofTem pera outra camara que eltaua junto daquella, feguindo loguo tras elles. Na camara hauia hum Catei muito mais riquo que ho de fora, em que fe elRei lançou, & fem hauer nella mais géte que ho Bramana mór, & ho que daua ho betelle a elRei, & hum feu veador da fazenda, fez dizer pelo feu lingoa a Vafquo da gama, que eftaua em luguar que liuremente podia dar fua embaixada, que em tudo fe lhe manteria bom fegredo, polio que eftauam prefentes, ferem do feu confelho fecreto, & peffoas de que elle confiaua todos feus negoçios, & fazenda'. Vafquo da gama pello feu lingoa Fernam martíz propos ho a que vinha, & de quam longe, & per mandado de quem, & ( que ha fim de fua embaixada era querer elrei dom Emanvel de Portu- gual, feu fenhor, amizade com hum tam. poderofo, & tam nomeado Rei, quomo ho elle era per todallas partes do mundo, & que pera final diffo lhe trazia cartas fuas de crença, que lhe aprefentaria quando ho houuefle por bem. ElRei folgou muito com ho que lhe dixe Vafquo da gama, offereçendofle a tudo ho q lhe de feu Regno comprifle, por feruiço delRei de Portugual, a quem elle dalli por diante queria ter por irmão, porque •Fi.37ci.2A nam poderia ler amizade fingida, ha* que tanto tempo hauia que bufcaua, & com tantos trabalhos, & perigos de feus vaífallos, & fugeitos, quomo elle dizia. Has quaes praticas, & outras que tiuerão, acabadas1, porque era jà noite elRei mandou que fe recolheffe com ho Catual pera húa poulada que tinha mandado que lhe deílem, que aho outro dia fe veriam mais de vagar, & lhe daria has cartas que lhe trazia delRei feu irmão, mandando aho Catual que loguo fe foífe com elle, & ho trattafle bê, & 1 Na Ep.: «... e pessoas deque elle muito confiava todos seus negoçios e fazenda...» 1 Na Ep.: «... quomo lhe elle tinha dito. Has quaes praticas, e outras muitas que tiveram acabadas...»
  • — 88 fezefle dar todo ho neçeífario pera feu gafalhado, em cuja companhia fe foi perà poufada, que era dalli hum bom pedaço, & ho tempo chuuolo, onde chegaram já denoite, & Monçaide com elle, que ho fempre acom- panhou, cÕ tanta lealdade, & amor, atte fe vir em fua companhia a Portugal, deixando ha feita de Mafamede, em que nafçera pola lei de noífo Senhor Iel'u Chrifto, em q viueo, & acabou quomo bom, & catho- lico Chriftão. Caf. xlii. Da crêça, Seita, Cerimonias, e cojtvmes dos gentios Canaris, Bramanas, Naires, & do fitio da terra do Malabar, & cidade de Calecut. * EM qvanto vasquo da gama repoula duas noites, & hum dia em terra, dos trabalhos don*ze meles do mar, antes de fe ver ha fegunda vez cõ elRei de Calecut, não fera impróprio a efta nolfa Hiftoria dizer algúa coula da prouinçia, crença, & coftumes da géte. & Reis do Malabar, da qual eíte de Calecut he ho mais poderolo, chamado Çamorl, dignidade quomo étre nós déperador. São eftes gétios canarís do Malabar mui çerimoniaticos, té tempos a que chamão pagodes mui grandes, & bem ornados, cõ muitas images, delias afiguradas quomo anjos, & diabos, & delias quomo homes & molheres, & outras de diuerfos modos. Algús deites pagodes tem rendas, & outrros fe antreté defmollas: fundão capellas, & cafas de oração, a que deixão rendas pera hos bramanas fe manterem,' & fazeré facrifiçios, nos quaes vfam grandes çerimonias. Hai muitas feitas delles, & tantas ordés de votos diferentes, que feria fazer hum gram volume, íe has quifeffe dizer per extenfo, mas quomo meu offiçio feja fcreuer Chronica, & nam coftumes de gentes, nem hiíloria géral, remeto ho leftor aho liuro qne 1 fez Duarte barbola em lingoa Portuguefa, dos coftumes de toda ha gente que hà do cabo de boa Sperança atte a China, & Lequeos, no qual tratta dos coftumes, çerimonias, & feita deites Canaris, & Bramanas, & de toda ha gente do Malabar, affaz copiofa- -*FU37».ci.3.» mente, entre hos quaes hos Bra-*manas fam façerdotes per geração, & delles hà ordem feparada de mais nobres, & outros populares que feruem eftes, & qualqr outra pefioa que lhes paga, & fobre tudo em leuar cartas de húas prouinçias a outras, porque ainda que feja tempo de guerra hos deixão paffar liuremente. Trazé hos bramanas tres fios lançados aho collo fobraçados de hú braço aho outro, em linal da Trindade, que 1 Et. I.: que.
  • 8g — crem, quomo nós: tem per fé que Deos veo aho mundo, & tomou carne humana, por faluaçam do genero humano. Sam pela mòr parte homés doétos em Philolbphia, & Mathematicas, fam muim antigos na índia, porque quando Alexandre foi ter a ella, já hos hauia, & eram de tanto tempo atras, que de leu prinçipio, & em que tempo começaram, 1'e nam achaua memoria. Megaíthenes, & Strabo, fcriptores Gregos lhes chamam philofophos da índia, calam húa fó vez, & has molheres delles tazem ho mefmo, nem depois que morre hum delles, nem ellas, pode ho outro mais cafar. Té hos Malabares entre outras feitas húa, q folénizam no mes de Septembro, ha qual começa a vinte, & dous dias Dagolto: nelte dia hos meninos, com arcos de pao, & frechas de folhas de palma, começam a fe tirar hús ahos outros, & daquelle dia por diante hos outros moços •Fi. 38 d. i.* maiores, & vai illo* creçendo de dia em dia, atte chegar alios homés, & vem a tanto que le ferem, & matam hús ahos outros, & hos que morrem neíta feita fe tem por faluos. Cõmeção ho anno no mefmo mes de Sep- tébro, mas nam em dia çerto, nem hora, fenão na q lhe feus feitiçeiros (a q fam muito dados) dizé q he boa, & fortunada, & fe per feus feitiços, & aítrologia acham boa conjunçam, & hora fortunada no primeiro dia de Septembro, naquelle ho começam, fe nam fperam atte ho fegundo, terçeiro, quarto dia, atte fe achar ha hora, ha qual labida todollos homés, & molheres de idade de quinze annos pera riba poem húas bandas de panno fobellos olhos, tam apertadas que nam vem coufa nenhúa, & afsi guiados per moços deita idade pera baixo, fe vam de fuas cafas ahos pagodes, onde depois que lhe dizem que eítão defronte do idolo, defatam ho pano que tem diante dos olhos, & fe ha primeira coufa que vem he ho idolo, tem que todo ho anno feram bem afortunados. Tem outros muitos agouros, em tanto que nas horas que acham ferem infortunados nam querem reçeber dinheiro, ho que abaíte quanto às çerimonias. Há neíta terra do Malabar çinquo Reis, que nam obedeçem a nenhum outro, " Fi. 38 ci. a.* ho de Calecut, Cananor, Cranganor, Cochim, Coulam, aliem* deites hai ho de Trauãcor, que he fugeito a elRei de Naríinga, hum dos mais poderofos Reis de toda ha índia, de cujo eítado trattarei adiante. Hos coítumes deita géte do Malabar fam vários, & tantos que feria longo proçeífo dizer de todos, ho que farei sóméte dos Naires, que fam homés nobres. Kites per lei do Regno nam podem cafar, com tudo hos Caimães que iam fenhores ho podem fazer, tem todos mançebas Naires de geraçam, porque fe dormem com molher que nam feja de caita de Naires, per lei hos outros Naires hos mattam ás cutiladas. Té eltes Naires de Moradia dos Reis do Malabar çerta contia cada mes q pode valer da noífa moeda 12
  • — go — duzentos reaes, com que fe mantem honeftamenteco hum paje que hos ferue, pola terra fer barata, & elles de pouqua vianda. Hos filhos deltas mançebas Nairas não fam de nenhum delles, fe nam da mançeba, nem tem com elles conta, né fam feus herdeiros, fenam hos filhos de fuas irmãs, & nam dos irmãos: andam nús da çinta pera riba, & pera baixo andam cachados com pãnos de feda, & algodam, trazem fempre efpadas, & rodelas, arquos, frechas, & lanças, & também efpingardas que já has vfauam neíte tempo, ainda que poucas, mas aguora tem muitas, & muito •Fi.tBv. ci. i.* boas, feitas na mefma terra. Sam homés muito* ligeiros, & deílros nas armas, ho qual exerçiçio aprendem defde meninos, com tudo nam podem trazer eítas armas fe nam depois que hos elRei, ou lenhores com que viuem fazem caualleiros, ahos meftres que hos enfinam, a que chamam Panicaés, fam tam obedientes em moços, & depois de homes, que em qualquer parte que hos acham fe lançam de bruços diante delles, & hos adoram quomo fe foíTem idolos: aho Rei arma caualleiro ho Panicá que ho eníinou. Eítes naires, & outras caftas de gente q hà no Malabar té tal modo, & ordé e fuas gerações, que ho teçelam nunqua pode fer çapateiro, nem ho çapateiro alfaiate, nem alfaiate carpinteiro, nem ho carpinteiro ferreiro, & afsi todolos outros, de modo que ham de conti- nuar nos offiçios de feus pais, & auós, & fe hú deites vem a ter amizade com molher que não feja da geraçam de feu offiçio4, hos mefmos parentes, & amigos delle ho mattão. E pois já dixe das feitas, idolatrias, & cof- tumes do Malabar em géral, razão he que em particular diga da çidade de Calecut, pois tanto trabalho nos deu defcobrilla, & tantos ha cõmu- nicaçam delia, quomo fe aho diante vera. Ella çidade eítá Gtuada aho longo de hum arreçife quomo coita braua, he muito grande em diítançia •ri. 3s y. d. 2.* mais que em fabrica, porque has cafas fam mui afaítadas húas das* outras, com muitos jardins, das quaes fós has delRei, & hos pagodes fam de pedra, & cal, telhadas de tijollo, todallas outras fam palhaças, cubertas de folha de palma, & iíto per lei. He muito graçiofa de jardins, puma- res, & hortas, com muitas noras, & tanques daguoa, cuberta, & çerquada de palmares, & arequães que ha fazem muito mais graçiofa: he muito abundante, afsi de mantimentos da terra, quomo dos que lhe vem de 1 Na Ep.: «Tem estes naires de moradia dos Reis do Malabar, duzentos reaes cada mes, com que se mantem honestamente...» 2 Na Ep.: «... nem ho carpinteiro, ferreiro e assi de todolos outros offiçios, de modo que ham de morrer no offiçio em que nasceram: hos quaes offiçios vem por soccessam de pai ha filho e se hú destes vem ter amizade com molher que nam seja da geração de seu offiçio...» 4
  • — gi — carreto. Hos naturaes fam gêtios, quomo todolos outros da terra do Malabar, habitam nella muitos mouros mercadores, delles muim riquos, tanto que hauia entam algús q tinhão çinquoéta, & fefséta naos de leo. Ahos mercadores eltrangeiros, & de qualidade que vam a Calecut, per ordenança delRei fe da hú Naire pera ho guardar, & íeruir, & hum fcriuam chetim, que fam homes que 1'abem de mercadoria, & muito entendidos em contas, & hum corretor pera lhe véder fuas mercadorias, & comprar outras, hos quaes ho mercador paga á fua culta, pera ajuda do que hos mercadores a que compram lhe dam hum tanto por çento, fegundo ha qualidade da mercadoria. Na çidade fe acha todo genero de mercadorias', em tanto, que hà muita abundançia que de todas eltas •fi. 39 tii.* coufas hos noffos nella viram, lhes fez efpanto: ha qual* çidade he cabeça de toda ha terra do Malabar. & ho Rei era ho mais riquo, & poderofo de todollos Reis daquella prouinçia antes q hos Portuguefes vieífem à Índia, mas agora por não querer noífa amizade, per conlelho dos mouros, diminuio muito em leu eltado, & ho de Cochim ho acreçentou pela boa, & verdadeira q comnosco fempre teue *. Capit. xliii. Do que Vafqvo do 3 gama passov cõ elRei de Calecut ha fegunda ve\ que fe com elle vio, & do que lhe conteçeo atte partir de Panderane. VASQVO da gama defejofo de tornar perás naos, quifera aho outro dia ir dar has cartas a elRei, ho que fe dilatou atte ho terçeiro dia, no qual em companhia do mefmo Catual, & de hú feitor delRei lhas leuou, & hum prefente das milhores coufas que trazia de Portugal, de que elRei fez pouquo cafo, ho que Vafquo da gama entédendo lhe dixe, que le não efpantaífe da pouquidade do prefente, porque fe elRei leu fenhor foubera de çerto, que lhe hauia Deos de deparar eita viaje, que hos prefentes forão taes, quaes requeria fua real peffoa, mas que le ho •fi. 39ei. a.» dito fenhor ho deixaffe tornar a Portugal, que ho prelen*te com que mais goíto leuaria, ferião muitas naos q cadanno hauião de vir áquelle porto de Calecut, de que reçeberia tanto proueito, quanto nunqua reçe- bera de nenhúa outra gente que a elle vieffe, do que elRei ficou latilfeito, 1 Na Ep.: «... segundo ha calidade da mercadoria, do qual trebuto que he quomo corretagem, pagam ho mantimento ha estes tres offiçiaes que lhes elRei dá. Na cidade se acha todo genero de mercadorias...» 1 Na Ep.: «e verdadeira amizade q com nosco sempre teue...» J Et. I.: da.
  • — 92 — &. cõ roíto alegre tomou has cartas da mão de Vafquo da gama, fcriptas em Português, & Arábigo, pedindolhe que has não mandaífe ler nem interpretar per homês mouros de nação, porque todos lhe erão fufpeitos, ho q nam dezia lem caula, porque ja tinha fabido per MÕçaide quomo hos mouros ho tinham mexericado com elRei per via do mefmo Catual que ho acompanhaua, dizendolhe que era ladrão, coífairo, q fe guardafle delle, (S: ho mandaíTe prender, & caftigar, & lhe tomaífe has naos, porque com cilas hauia de fezer 1 muito mal antes q fe partifle, quomo ho tinha feito per todolos portes ode chegára. ElRei mandou ler ha carta é Por- tuguês por Monçaide, por não hauer na cidade outrem que entendelfe ha ' lingoa Hifpanhola, ha qual lhe interpretou de verbo a verbo, & ha em Arábigo mandou ler pelo mefmo Monçaide, & per guzarates gentios que fallauão arauia. Ho que feito elRei defpedio Vafquo da gama, dizendolhe que podia eltar na çidade fe quifeffe, ou irie pera has naos, & que fe •pi.39t. cl. 1.» guardaíle de conuerfar hos mouros, porque labia que nam fol*garam com lua vinda, do que lhe Vafquo da gama deu nuitas4 graças, & fe defpedio delle acõpanhado do Catual, & feitor delRei atte fua poufada, & logo no dia feguíte q foi ho derradeiro de Maio partio pa Pãdarane cõ hos feus, atte onde ho acompanharam muitos Naires, & antes de chegar a Panda- rane, ho Catual que ficara é Calecut paífou por elle, & fegundo depois claramente le vio, era pera ho não deixar embarcar, & ho deter terra, ho que tudo vrdtam hos mouros, ha experiêçia do que foi pedir ho Catual a Vafquo da gama, que mandaífe chegar has naos a terra, & lhe entregalie has velas, & gouernalhos, do que fe Vafquo da gama excufou, no que ho Catual infiftio todo aquelle dia, & aho outro, que eram dous de lunho, alfentàram ambos que fe leuaffem a terra deífas coufas que trazia de Portugal has que lhe pareçeífe que eram pera com ellas poder comprar lpeçiarias, & ho que lhe foffe neçeífario, & que ho deixaria ir perás naos, ho que V afquo da gama logo pos em obra, & tudo ho que lhe trouxerão entregou aho mefmo Catual, & afsi Diogo diaz que ficaua por feitor, & Aluaro de braga por fcriuam. Ifto feito Vafquo da gama fe recolheo á frota fem mais querer tornar a terra, & por elRei de Calecut nam tomar •fi. 39 v.d. mà fufpeita do que fazia, lhe mãdou dizer pelo feitor hos agra-*uos que reçebera do Catual, & que por lhe não fazer outros móres determinaua nam ir mais a terra, aho que elRei refpondeo, que fe informaria do ne- goçio, òc le ho Catual folfe culpado, ho mandaria caftiguar, & que por hos noífos eftarem mais feguros houuefle por bê que fe folfem pera Calecut, 1 Et. fazer. 2 Et. /.: muitas.
  • - 93 - porque la hauia muito mais mercadores que em Pandarane, ahos quaes poderiao cõ mòr breuidade vender ho que leuauão, & delles comprar ho que quifeffem, ho que Vafquo da gama ordenou que fe fezeife loguo, & aho outro dia partiram pera Calecut, Diogo diaz, & Aluaro de braga com outros Portuguefes, acompanhados de naires delRei, & de hum feu feitor, que lhes fez ho culto todo ho caminho, & pagou ho carreto das coufas q leuauão. Defpois dos noílos eltaré em Calecut mandaua Vafquo da gama cada dia dous, & tres Portuguefes a ver ha çidade, & aquelles tornados mandaua outros, pera afsi pouquo a pouquo ha verem todos, ahos quaes hos gentios no caminho, & na çidade fazião muito gafalhado, dãdolhes de comer, & camas pera dormirem, & andauão tão feguros pela terra quomo fe eítiuerão em Portugal, & dos da terra, afsi mouros quomo gentios, vinhão muitos ás naos, a quem Vafquo da gama mandaua •pi. 40 cl. i.* fazer bom gafalhado, na qual amizade eítiuerão hos noffos atte* ho começo do mes Dagoíto, & porque fe chegaua ho tempo em que hauião de partir, mandou Vafqvo da gama dizer a elRei per Diogo diaz, q pa cõfirmação da paz, & amizade q elRei leu fenhor qria ter cõ elle determinaua de deixar em Calecut hum feitor, mas que ho não queria fazer fem lua liçença, ho qual recado elRei de Calecut tomou mal, ou polo não entender bê, ou por cuidar q fe queria Vafquo da gama partir fem lhe pagar hos direitos acoítumados, afsi da ancoragê das naos, quomo da fazenda que tinha jà vendida, pelo que refpondeo a Diogo diaz que fe folfe muito êbora, mas que primeiro lhe mandaífe pagar feis çentos xerafins, q vai cada hum trezentos reaes, que deuia ahos offiçiaes de fua fazenda, a elte recado não refpõdeo Vafquo da gama a propofito, pelo q mandou elRei loguo poer guardas em Diogo diaz, & Aluaro de Braga, & na fazenda que tinhão em terra, ho que fabendo Vafquo da gama lhe mandou pedir hos prefos, & fazenda, & vendo q lhe não queria mãdar nada fperou atte que vieíTem às naos algúas peífoas de qualidade, em q podelfe fazer reprelaria, eítes forão feis homês honrrados Malabares, com dezanoue criados, com hos quaes, quomo hos teue na nao, fe fez à vela, & com vento contrairo foi furgir quatro legoas alamar de Calecut, fperãdo que •Fi. 40d. j.* lhe vieífe* algum recado da terra, mas vedo que lhe nam vinha fe fez na volta do mar, onde lançou ancora, tam afaítado delia, que quafi ha nam viam. Eltando afsi lhe mãdou elRei dizer, que fe efpantaua muito do q tinha feito, que fe não forte, porq loguo defpacharia hos Portuguefes que mandara a Calecut, & que por elles lhe mandaria ha reporta das cartas que lhe trouxera delRei de Portugal feu irmão. Com efte recado fe fez á vela, & à boca da noite veo lurgir diãte da çidade, donde aho dia feguinte elRei mandou Diogo diaz, & Aluaro de braga com hos que 4
  • — 94 — ficaram em terra, mandando per Diogo diaz húa carta pera elRei dom Emanuel, & dizer a Vafquo da gama, que fe quifefle deixar feitor, & offiçiaes com fazéda em Calecut que elle hos mandaria guardar per feus Naires de maneira que fe lhes nam fezeífe agrauo nenhum, & q ha fazenda que ficaua em terra lhe não mandaua, fperando q ho Feitor, & offiçiaes tornaffem, pera ficarem em Calecut, & fazerem delia feu proueito, & fe hos nam quifeífe deixar que lha mandaria. Vafquo da gama nã fe fiando deite recado, mandou pedir ha fazenda a elRei, ho que fe fezeífe lhe man- daria hos Malabares, que quanto a deixar Feitor, que ho tinha por exculado. Aho outro dia pela manhã veo ter á nao Monçaide, pedindo a Vafquo da •kl40t.ci. 1.» gama que ho leualfe configo* pera Portugal, por quanto vinha fugindo de Calecut, onde fe tornaífe era çerto que hos mouros ho mattariam, que doque lhe ficaua em terra fazia pouquo cabedal, por faluar a vida: Vafquo da gama ho recolheo, & fez bom gaíalhado atte ler neítes Regnos, onde fe fez Chriítão, quomo atras fica diéto. Nefte melmo dia ás dez horas vieram à capitaina fette almàdias, em que elRei mandaua toda ha fazéda que ficara em terra, das quaes has três fe chegaram mais, & dixeram que elles mandariam ha fazéda, Vafquo da gama mais cobiçoío de trazer eftes homés a Portugal, que da fazenda, relpõdeo que tudo erão men- tiras, que nam vinha alli toda ha fazenda, que hos Malabares hauia de leuar cõfigo a Portugal, pera elles mefmos dizerem a elRei feu fenhor hos agrauos que reçebera delRei de Calecut, & dos mouros da terra, q dixefTem ahos parentes, & amigos dos diétos Malabares, q lhes prometia de lhes fazer muito boa cõpanhia & que fperaua com ajuda de Deos de hos tornar a trazer áqlle porto fãos, & faluos. Ho que difto mandou tirar às bombardadas às almàdias, que com medo fe acolherão, ho q elRei de Calecut feu tio 4 muito, & fe tiuera fua armada no mar, man- dara cometer has noffas naos, mas tinha ha varada em terra, por fer •Fi.40v.ci. j.« inuerno, & naquellas partes não nauegarem* fenám no veram, que lá he no tépo do noífo inuerno. Com tudo andando has noffas naos em cal- maria, húa legoa abaixo de Calecut, has mandou cometter cÕ feflenta barcos, a q chamam torres, em que iha muita géte de guerra: dos quaes hos apartou húa trouoada, & chuueiro cõ que lhes Deos acodio. Dalli tomou Vafquo da gama fua derrota caminho de Melinde, mas antes de fair da coita do Malabar fcreueo húa carta a elRei de Calecut, em que lhe cõtaua todallas treiçôes q lhe hos Mouros da terra tinham ordenadas, & mao trato q reçebera do Catual, & doutros offiçiaes, pelo q fe partira 1 Et. sentio.
  • — g5 — íê fe delpedir delle, com tudo que iha muito defejofo de ho feruir, & lhe çertificaua que elrei do Emanuel feu fenhor hauia dalli por diãte de fazer muito cabedal de fua amizade, & que elle mefmo em pelfoa fperaua de tornar a trazer hos Malabares. Ha qual carta lhe mandou per hum criado dos mefmos Malabares q fez poer em terra, EIRei hà reçebeo be, & delia moltrou contétamento, & ha fez ler ás molheres, parentes, & amigos dos Malabares, que Vafquo da gama configo leuaua. Nauegando afsi com calmarias, foi ter a hús ilheos onde ho vierao cometter oito nauios de remo pequenos, que vinham todos metidos debaixo de húa ramada, quomo balfa, dos quaes fez fugir «Ki. 41 cl. i.« hos fette, & tomou hum* em que achou coquos, & jagra, q he açuquar de palmeiras em pó, & muitos arcos, frechas, elpadas, & outras armas. Ho capitão deftes nauios era hú coffairo, per nome Timoja, natural de Onor, homem que fez depois muitos feruiços a eltes Regnos, quomo fe aho diante dira: defte lugar fe foi Vafquo da gama a húa ilheta a que chamão Anchediua. Capitulo .xliiii. Do que Vasqvo da gama pasfou em Anchediua, 6 dalli atte chegai- aho Regno. ESTA ilha de Anchediua he pequena, de muitos aruoredos, abúdante de pefcados do mar, & marifquo, há nella muito boa aguoa, he de muito bõs ares: eftà fituada junto de terra firme •, onde Vafquo da gama mandou efpalmar has naos. Nefte tépo entre outros homes da terra que vinham ver hos noffos, hum delles era criado de hum grande fenhor per nome Çabaio, que aliem de muitas terras que tinha pelo fertam, poífuia ha ilha, & çidade de Goa, bom caualleiro, & que mantinha á fua cufta muita gente de guerra, & fobretudo eílimaua muito homés eftrãgeiros, & lhes daua grandes foldos, & ordenados. Efte defejofo de • pi. 41 d. j.' hauer has noflas naos, & gente per manha,* pela fama que tinha de ferem homés de guerra, fob cor de amizade mandou vifitar Vafquo da gama, offereçendolhe mantimétos, & dinheiro, com ho demais q lhe foífe neçeífario, mas ho melfageiro fe deuertio tanto no recado, q Vasquo da gama fufpeitãdo que era efpia, ho mandou prender, & metter a tormento, no qual cõfeííou que ho Çabaio ho mandara pera ver que géte hauia nas naos, & ha ordem delias, pera com eíte auiíò has mandar cometter, & a elles, fe hos podeffe tomar, ter por feus foldados, tendo antes difto dito 1 Na Ep.: «está situada húa legoa de terra firme.
  • — 96 — a Vafquo da gama que era Chriítao trazido aquellas partes menino, & q polto que has moltras foífem de mouro, que no coração tinha ha fé de leiu Chriíto, tudo em lingoajem Italiana q fallaua aífaz bem: mas ho tormento lhe fez confeífar ha verdade, que era judeu natural do Regno de Polonia da çidade de Pofna, na qual eu eítiue duas vezes é negoçios a que elRei dom loam terçeiro q fanéta gloria haja, me mãdou àquellas partes, cabeça, & metropoli da Polonia maior, çidade grande, bem çer- quada, & muito abaítada de mantimentos. Quomo Vafquo da gama foube q ho Çabaio armaua fobrelle, com ha mór diligençia que pode acabou daparelhar has naos, & a húa feita feira çinquo dias Doutubro fe fez á vela *fl ,1 v.ci. i.» caminho de Melinde, leuando coníigo elte judeu, a que* fempre fez muita honrra, & bom gafalhado, pelo achar homem c| tinha experiençia de muitas coufas da índia, & doutras prouíçias, & ho trouxe a Lisboâ, onde fe fez Chriftao, & lhe chamarão Gafpar da gama, do qual fe elRei dom Emanuel depois feruio em muitos negoçios na índia, & ho fez caualleiro de lua cafa, dandolhe tenças, ordenados, & offiçios de que fe manteue toda fua vida abaítadamente. Nelte caminho de Anchediua atte Melinde andou Vafquo da gama com calmarias, & tempos cõtrairos, mais de quatro meles, em que lhe morreram trinta homés, & ha primeira terra, & pouoacam que virá foi ha çidade de Mágadaxó íituada no fim daquelle golfam na coita da Ethiopia, çento, & treze legoas de Melinde, de que direi em feu lugar: diante da qual ancoraram ahos dous dias de Feue- reiro, & por fer de Mouros ha mandou efbõbardear de tam perto que fez muito damno ahos moradores, & naos que eftauam furtas no porto. E correndo ha coita dez legoas cõtra Melrnde 1 lhe lairam de húa villa de Mouros chamada Pãte oito terradas, que fam nauios pequenos de guerra, com muita gente, dos quaes fe desfez às bõbardadas, & por lhe eícaçear ho vento has nam feguio. Dalli foi furgir húa fegunda feira lette •fi.4i v.ci. 2.» dias de Feuereiro, diante da çidade de Melinde, onde antes de ter lançado* ancora ho mandou elRei vifitar com refrefco da terra, feguindo loguo ho Prinçipe q ho veo ver a bordo, & por final de amizade mandaram com elle hum embaixador a elRei dõ Emanuel. Nelte porto de Melinde elteue Vafquo da gama çinquo dias, né quis mais fperar, porque fe lhe palfaua ho tempo em que hauia de dobrar ho cabo de boa Sperança, acabo dos quaes fe fez á vela húa feita feira doze dias de Feuereiro, & N por leuar já muito pouqua géte, fendo atraues de húa villa que fe chama Tagata mandou delpejar, & queimar ha nao de que era capitam Paulo da gama, por fer muito velha, & a elle recolheo na fua, & da gente 1 Et. L: Melinde. I
  • ■ — 97 — \ partio com Nicolao coelho, feguindo aísi fua viajem ahos xxvii) de Feue- reiro fe achou diãte da Ilha de, Zanzibar que eftà çinquo, ou feis legoas da terra firme daquella coita de Ethiopia, pouoada de Mouros que tem tratto per todolos lugares daquella coita, prinçipalméte na çidade de Mõbaça, pera onde nauegam em nauios pequenos, fem cuberta, de hum fó malto, que leuam carregados de mantimoros '. He efta ilha muita* viçofa de rios, fontes, criações, & fruétas, tanto q nos matos nafçem » larangeiras, & outras aruores defpinho que dão muito boa fruíta. Ho fenhor da qual mandou vifitar Vafquo da gama com refrefco da terra, * fi. 41 ci. 1* pedindolhe que ho quifefle ter-por* feu amigo. Dalli parrio3 ho primeiro de Março, & ha primeirra terra q tomou foram has ilhas de fam George, onde lurgio, & fem fallar com ho Xeque de Moçambique, fe fez á vela fem tomar porto atte ha agoada de fam Bras, onde fez agoada, lenha, & carnajem, & feguindo dalli fua viajem (fem em todo ho caminho atras poder tomar nenhum dos portos em que deixara hos degradados) dobrou ho cabo de boa Sperança ahos xx dias de Março, donde cortou direito á ilha de Sanétiago, atte hos vinte çinquo dias Dabril, que acharão fonda de vinteçinquo braças, na qual parajem com temporal le apartou Nicolao coelho de Vafquo da gama, & fem ho mais poder ver nauegou rota aba- tida pera ho Regno, onde chegou a Cafquaes ahos dez dias de Iulho do anno de mil, & quatro çentos, & nouenta, & noue de quê elRei foube has primeiras nouas do q paliaram nefta viajem. Vafquo da gama foi " ter á ilha de Sanétiago, & por feu irmão Paulo da gama vir muito doente de etheguidade, & ha fua nao fazer muita aguoa, cõ ho delejo de ho trazer viuo a Portugal, fretou húa carauella, & deu ha capitania da fua nao a loam de fá, mandandolhe que ha conçertalfe, porque fem iífo nam vinha pera poder nauegar. Ho que feito fe partio, & pela doença • Filiei.».• de Paulo da gama ir em creçimeto lhe foi forçado tomar* ha ilha terçeira onde falleçeo, per cujo refpeito Vafquo da gama fez algúa detença, & depois de ho ter enterrado no mofteiro de fam Frãçifquo, & mãdado fazer luas exequias quomo cõuinha a hum tão honrrado homem, & tam bom caualleiro quomo elle foi, le fez á vela, & chegou a Lisboa ahos xxix dias do mes Dagosto, do mefmo anno, hauendo já dous, & quafi • dous meles que partira do mefmo porto, com çento, & quarenta, & oito homés, dos quaes tornaram aho Regno, çinquoenta, & çinquo, de cuja vinda elRei leuou muito cõtétamêto, & lhe fez muita honrra, dãdolhe 1 Et. /.: mantimentos. 1 Et. muito. J Et. I.: partio. i3
  • — 9§ — titulo de dom pera elle, & feus irmãos, & defçendentes, delles todos, & ho fez depois almirante da India, & Code da Vidigueira de juro. A Ni- colao coelho fez fidalgo de fua cafa, & afsi a elles quomo a todolos outros que tornaram fez merçe a cada hú fegundo ha calidade de feu feruiço, & peffoa. Deixou Vafquo da gama portos nefta viajé çíquo padrões, fam Raphael no rio dos bõs finaes, fam George em Moçãbique, fanéto Spiritu em Melinde, landa Maria nos Ilheos, que fe per efte refpeito chamam de fanéta Maria, fituados entre Bacanor, & Báticala, & ho outro em Calecut chamado fam Gabriel. Com hos quaes, per virtude das bulias •fi. 35 v. ci. i.* dos Papas Nicolao quito, & Sixto quarto conçedidas aho Infante dom Hérrique filho del-*Rei dõ loam primeiro, & a elRei dom Afonfo quinto, íobrinho do dito Infante, filho delRei do Duarte, tomou liçitamente porte pera coroa deites Regnos de tudo ho que defcobrira atte ho Regno de Calecut, quomo ho dantes fezeram hos outros capitães, atte à parajem do rio de Lopo Infante, das quaes bulias me pareçeo delneçeffario poer aqui ho treílado, ha húa por conterem muita ledura, & ha outra porque quem per coriofidade has quifer ler, has achara na torre do Tombo deites Regnos, onde aho prefente eftão em meu poder. Capit. xlv. De quomo ho corpo delrei dom loam foi leuado da Sé de Sylues aho conuento da Batalha, & do cafaméto de dom George feu filho, & de dom Afonfo Condefiabre, & da morte do Príncipe dom Miguel. EM qvanto has nouas delta elpantofa viajem trazem hos ânimos dos homes occupados cõ vários pareçeres, hús tendo efte defcobrimento por proueitofo, polas muitas riquezas que da índia podiam vir, outros •fi.35v. ci. 2.* por damnofo pois tudo ho que fe delia fperaua hauia de fer a troquo de dinheiro, & fangue dos Portu-*guefes: trattarei algúas coufas q no Regno paliaram atte fer tempo doutra vez fallar no mefino negoçio, das quaes ha primeira foi ha traíladaçam do corpo delRei dom loam fegundo deite nome que foi pelo modo feguinte. No começo delta Chronica fica dito quomo efte inuenciuel Rei morreo na villa Daluor no Regno do Algarue no anno de mil, & quatro çentos, & nouenta, & çinquo, no mes de Oítubro, & foi enterrado na Sé de Sylues, çidade do mefmo Regno, & hauendo jà quatro annos que faleçera, Elrei dom Emanuel ordenou que feus offos fe tralladaffem aho conuento da Batalha, da auocação de noffa Senhora da Viétoria, da ordem de lam Domingos dos pregadores. E pera fe iíto fazer com ha lolenidade requerida, elle em peffoa foi á çidade \
  • — 99 — de Sylues, leuando coníigo dom George filho baftardo do melmo rei dom loam, & perãte fim fez abrir ho ataúde em que fe metera ho corpo, ho qual acharam inteiro, & has taboas do ataúde quafi de todo comeílas, & gaitadas, da calvirgem que lhe lançaram, & do corpo faiha hú tam bom cheiro, que a todos fez efpãto, & depois fe foube por verdade ter ho fenhor Deos por elle feito algús milagres depois de fua morte. Ho qual corpo aho prefente eíta ainda inteiro, com barba, & cabellos no peito, •fu 43 cL i.* pernas, & braços, & ho eítomago tão* tefo, & ha pelle tam corada, quomo fe fofie viuo. E ho Infante dõ Henrrique Cardeal de Portugal me dixe, que no anno de mil, & quinhentos, & çinquoéta, & çinquo, q he fefsêta annos depois do faleçimento delrei dõ loam, q eítando elle no conuento da Batalha, mandara abrir ha fepultura deite gloriofo Rei, & vira hb corpo inteiro do modo arriba dito, & lentira lair delle hum fuauifsimo odor. Partido elrei dom Emanuel de Sylues, loguo na pri- meira jornada le adiantou, deixando dom George com ho corpo delRei_ leu pai, & toda ha outra companhia, & fe veo afforrado à Batalha, onde ho eltauam fperando hos Prelados, & fenhores do Regno que nam foram a Sylues, cõ hos quaes, & com todolos religiofos do conuento veo reçeber ha tumba hum bom pedaço fora do lugar a pé. Depois de ho corpo ler na egreja, & lhe fazeré todolos offiçios dos defundos em põtifical, foi fepultado na mefma capella onde jazia enterrada ha Rainha donna Iiabel fua maim, filha do Infante dom Pedro. Neíte anno de mil, & quinhentos, ahos xxv dias do mes de Maio deu elRei titulo a dom George de Duq de Coimbra, & fenhor de Montemor ho velho, aliem dos que já tinha de meítre das ordes de Sandiago, & de Auis, & aho derradeiro dia do •fi. 43 ci. 3.* mefmo mes ho caiou, fendo em idade de vinte an-*nos, com donna Beatriz deVilhena, filha de dom Aluaro«, irmão de dom Fernando legundo 1 Duque de Bragança do nome, & de dona Phelippa filha vniqua, & her- deira de dom Rodrigo de mello, Conde que fora de Oliuença, quomo na terçeira parte delta Chronica fe mais per extenfo relata, & has vodas fe fezeram em Lisboa1, fendo prefentes elRei, & ha rainha donna Leanor lua irmã, que criara ha dita donna Beatriz em fua caia, detno tepo delrei dõ loam feu marido, & lhe queria tanto quomo fe fora lua filha, ho que moítrou nas hõrradas vodas q lhe fez em feus proprios paços, & riquas jóias, enxoual, & outras coutas que lhe deu de fua propria fazeda. No mefmo dia fez elRei Condeítabre de Portugal a dom Afonlo, filho baftardo do Duque dom Diogo feu irmão, ho que elrei dõ loam ' Na Ep.: «com donna Beatriz de mello, filha de dom Alvaro...» í Na Ep.: «Conde que fôra de Olivença, e has vodas se fezeram em Lisboa...»
  • — IOO — mattou em Setuual, quomo em feu lugar fica dito, & ho cafou dahi a poucos dias com donna Ioanna de Noronha, filha do Marques de Villa real dom Pedro de Menefes. Efte dom Afonfo houue ho Duque dom Diogo da Marquela de villa Fermol'a, andando em Caftella, per cafo das terçarias do prinçipe dom Afonlo de Portugal, & da prinçefa dõna Ifabel de Caftella, quomo fe na Chronica delRei dõ Afonfo quito contem, & loguo depois que elrei dom loam mattou ho duque dõ Diogo, mandou •fi.43 v ci. I.* poer em grã* fegredo efte dom Afonfo em Portel, em guarda de Antam de faria leu camareiro, & guarda roupa, & alcaide mór da mefma Villa, mandandolhe que ho criafle quomo filho dalgum laurador, fem fe laber quem era, mas tato que elRei dom loam faleçeo, ha Infante dõna Beatriz, mal do duque dõ Diogo, fua auó, mãdou por elle a Portel, & ho criou em lua cafa quomo conuinha a feu neto. No melmo anno eftando elRei em Syntra lhe veo recado dos Reis de Caftella, quomo ahos dezanoue dias domes de Iulho faleçera na çidade de Grada ho Prinçipe dõ Miguel leu filho, & d*a Rainha Prinçela dõna Ifabel fua molher, ho qual aho tempo que morreo era de idade de xxij mefes, do que elRei moftrou pouquo lentiméto, & ho mefmo le fez é Caftella, porque nem là, nem qua fe pos por elle dó, nem íe fezeram por feu faleçimento has acoftu- madas çeremonias que le vfam fazer pelos taes prinçipes quando morrem *. 1 Todo este capítulo desagradou profundamente, e não admira, ao Conde de Tentúgal, que na Critica escreveu: No capitolo 4S trata da tresladação do corpo dei Rey dom João, e isto com palavras tão sospeitas que nam convém a caronysta, que me hee forçado dyçer ho que disto tenho entemdido por papes e algúas testemunhas de vysta. Prymeyramente poem ele neste mesmo capitolo dous titolos que não sey se hos achou numca caronysta pera os poor a Rey morto do qual não hee a chronyca, hum hee imvemcivel outro gloryoso, por omde ho caronysta se tinha tal proposyto de o querer canonyjar, não ouvera de poor ho seu testamento no primeipio desta chronyca, porque dyj nele hum item que emeomendava e mandava a EIRey Dom Manoel que todos aqueles que comtra ele forão tredores e desleaes, que amdavão fora destes reynos, nem a eles nem a seus filhos recolhese neles. Certamente divera ver ho chronista quão mal isto armava a seu proposilo, porque pertemdemdo ele façer santo El Rey Dom João, não vyo quamto este meo era estranho e não concluía [a] seu proposito, pois Cristo em seu samto Evangelho acomselha e manda caridade e perdão dos erros e odios. E caso que hos senhores do estado de Braguamça fosem culpados, ho que não fora, nem por sonhos, como mostrey, tempo era ha ora da morte lembrar se El Rey dom João daquelas palavras, «Amay vossos jmiguos: fa\ey bem a quem vos persegue», e mais semdo comtra jnocemtes, e não ter naquele tempo da morte tão vjva paixão. Outro item poem o autor que EIRey Dom João em seu testamento emeomendava a EIRey Dom Manoel, que não havendo filhos lygitimos, em tal caso seu filho Dom Jorge sosedese por seu faleçimento no reyno, o que EIRey Dom João não divera roguar nem emeomendar, semdo cousa comtra as lees do reynno e comuns, que não comsemtem bas-
  • IOI — Capit. xlvi. De quomo elrei casov com ha Infante donna Maria, filha del Rei dom Fernando, & da Rainha donna Ifabel, reis de Cajlella, & Daragam, & do titulo que acreçentou, pelo defcobrimeto da India, ahos outros títulos »fi.43v.ci.j.» que jà tinha.* MORTO ho prinçipe dom Miguel, paliado já hú anno & dez meles q elrei era veuuo: hos Reis de Caftella defejofos de lua alliança, ho mandaram cometter fecretamete por pefloas religiofas, com ha Infante tardo na sosesão eredytarya, as quaes se enstetuyrão com justíssimas causas, e as taes lees umanas justas são tidas por divjnas, como se colige de São Paulo quamdo dyjia que quem despresava seus preceptos não despregava a ele, senão ao Senhor. E alem disto, que comsta pelo seu testamento, estaa claro que feç quamto pode por tirar o reynno a EIRey Dom Manoel a quem ele vinha de direyto, como o autor comfesa no triceyro capitolo, e trabalhou com todas suas forças pelo façer renumçiar, e os modos e meos que pera iso leve e os odios e deferemçias que por esta causa ouve entire elle e a Rainha Donna Liannor, sua molher, e isto em boa linguagem e verdadeyra hee querer tomar ho seu a seu donno e tãobem ha omra, e deixallo por irdeiro do reynno estaa claro que foy por maes não poder. Aliem de tudo isto bem se sabe as pesoas que mandou matar, e não trato das que morrerão com sombras de ser por justiça, senão das que mandou matar fora deste reynno e por dinheyro, e tãobem por pesoas mujto amiguas, as quaes imdusio a não guardar o direyto natural e d'amisade, como a Fernão da Sylveyra, que mandou matar em Framça em Ávinhão pelo Comde de Palhasens, Aregoes, que amdava laa fogido, e semdo gramde amigo de Fernão da Silveyra o matou á traisão por syneo myl crujados que lhe EIRey mandou dar, e aliem deste outros mujtos desta maneyra. E vejam aquele ley quem causam damny dat, damnum ipsum dary videtur, e basta porque El Rey Davjd matou alguns omens por mandado de Deos e que não cryam nele, não quis Deos que lhe ele edificase ho Templo, senão Salamão, seu filho; quamto maes quem matou e mandou matar mujtos Cristãos, e sobretudo isto teve filho bastardo, semdo casado. E veja-se ho capitolo 43 da chronica delRey Dom João que diç estas palavras falamdo da may do Mestre; «era jaa EIRey mujto maes esquesido dela». Pareçe que não de todo, e que mujto tempo lhe durara sua lembrança, pois diç isto vjmdo ho Mestre de se ory ar em Aveyro em casa da Ifante e jrmã delRey, semdo jaa ho Mestre de onesta jdade. E tudo isto que dyguo consta por estas duas Chronycas deli Rey Dom João e deli Rey Dom Manoel, e pela carta do Senhor Dom Alvoro tãobem verão como lhe compryo sua palavra e asinnados, e como lhe estrovava ho cassamento que lhe iynha dado liçemça que fiçese, e vjstas estas cousas tão avereguadas pareçe que abastaraa façelo o autor bom Rey, e não Samto e cheo de milagres. E quamto ao testemunho que daa do Senhor Cardeal, todos os seus não podem deixar de ser muj verdadeyros, mas a cova delRey Dom Manoel seu pay tinha mujta mays refão sayr dela o soavjsimo olor ,.. A"»"\ 1
  • donna Maria fua filha, porq ha infante dona Ioãna mais velha era jà cafada cõ dom Phelippe Archeduq Dauítria, fenhor dos eftados de Flãdres, & de duas filhas que ainda tinham, dona Maria, & donna Catherina, q depois cafou cõ elRei Henrrique de Inglaterr 1 e oitauo do nome, defe- jauam de cafar com elle donna Maria, por fer ha mais velha, do q fe excuiou per aigúas vezes,- mas depois da morte do Prinçipe, vedo quam neçeífario era fazerfle, & q em nenhúa parte podia fer milhor, né mais vtil a elle, & a feus Regnos que em Caftella, deu orelhas a eftes recados, & lobrelles mandou dom loam Emanuel leu camareiro mór por embai- xador ahos Reis, ho qual fem ter acabado, ho que tocaua á fua embai- xada, faleçeo lá de doêça, do que elRei foi mui enojado, & fentio muito fua morte, pela boa vontade que lhe tinha, & criaçam que nelle fezera, per cuja morte elRei encarregou deite negoçio Rui de fande, homem fidalgo, & bom caualleiro, peffoa muito açeita ahos reis de Caftella, pelos bos feruiços q lhes fezera nas guerras de Gra-*da, no que houue pouqua dificuldade, porque quomo elles ftauam defejofos de fazer efte cafamento, tiueram fobia concluíam delle pouquos confelhos, ho que alTentado, & impetrada ha difpenfaçam em Roma per cafo do parentefco que entrelles hauia, ha Infante donna Maria fez feu procurador abaftante dom Aluaro, irmão do Duque dom Fernando de Bragança, que a efte tempo eftaua em Portugal, pera emfeu nome reçeber elRei per feu ma- rido, per palauras de prefente, quomo fez em Lisboa, húa fegunda feira dia de fam Bartholomeu, vintaquatro dias Dagofto, deftãno de mil, & quinhentos, no qual dia fe compriam dous annos que ha Rainha Prinçefa faleçera em Çaragoça. Hos Reis deram em cafamento à Infante fua filha dozentas mil dobras douro da banda, de trezentos, & feflenta, & çinquo marauedis cada dobra, pagas em tres annos feguintes, depois do matri- monio confumado, & pera fuftentamento de feu eftado, lhe deram cadanno que o autor diq da dei Rey Dom João porque em vertudes, obras, cristamdade e devação não lhe fe\ nenhum Rey deste reynno vemtagem. Não sei como se não daa algum tes- temunho de ela cheirar tãobem, e me afirmarão que El Rey Dom João mandara pidir absulvição ao Papa de algiias cousas que /iíf comtra hos duques e algiias outras pesoas, a qual cousa se soube pelo Cardeal Dom Jorge de Portugual de que ele cuidou que ysto fosse occulto. Maes me diserão que o mesmo Rey Dom João quigera restetuyr aos filhos do Duque o estado de seu pay, e que o bispo Calçadilha lhe dixe que se o isto fiqese farya mor escamdalo, e depois de ter esprito me afirmarão que estes dous papes os tinha o Senhor Dom Duarte. Damião de Goes não emendou o texto e o Conde de Tentúgal contra seu costume não replicou. 1 Et. L: Inglaterra. ,
  • — io3 — quatro contos, & meo de marauedis, affentados nas rendas de Seuilha, & quomo tiueram auifo de ha elRei ter reçebida por feu procurador, lhe ordenaram fua cafa: ho que feito partio da çidade de Grada no fim do mes Doctubro4 deite anno de mil, & quinhentos, & fez fua entrada neíte • fi. 44 ci. a.* Regno pela villa de Moura. Ha peífoa* prinçipal que ha acõpanhou atte ha arraia de Portugal foi dó Diogo furtado de mendoça Arçebifpo de Seuilha, Patriarca de Alexãdria. Hos que elRei mandou pera ha irem reçeber foram dó laimes Duque de Bragãça ha quem a ho Patriarca entregou, por pera iiTo leuar procuração, hos outros foram dom Aluaro, & dom Afonfo bifpo Deuora feus tios, & dom Rodrigo de mello q depois foi Conde de Tentúgal, & Marques de Ferreira, filho mais velho do dito dom Aluaro, fendo ainda moço de pouqua idade, & dom brançifquo coutinho Conde des Marialua, & de Loulé, cõ outros muitos fidalgos, & 1 Na Ep.: «ho que feito partio de Castella no fim do mez Doílubro...» 2 Na Ep.: «Has pessoas que elRei mandou pera ha receberê, foram ho Duque de Bragãça, dom Jaimes seu sobrinho, que levava procuraçam pera lha entregarem e dom Afonso Bispo Devora, e dom Francisquo coutinho Conde de.. Esta emenda de Damião de Goes foi provocada pela crítica do Conde de Tentúgal: No capitolo 46 fala do cassamento da Rainha Donna Maria e da sua vymda a estes reynos, e que foy por ela ha raia ho Duque Dom Gamej, e nomea outras mujtas pesoas e amtre elas não achou o Senhor Dom Alvoro, nem o Marqueç de Ferreira, seu filho, que jaa amtão ahy foy, ymda que de pouca ydade e sem nenhum titolo, aymda que todayja já tinha que bastou pera ficar com a gemte que acompanhava seu pay, que era mujta, e soo d'Olivensa forão com ele nesta a raia duçemtos de cavalo, afora outros mujtos doutras partes, e o Senhor Dom Alvoro se foy pera o Duque e o acompanhou sempre. Bem se pudera preçumyr que não foy isto esquesymento do autor, senão pelas causas que atras ficão apomtadas. Devera lhe dalembrar que hua arraia se alegua neste reynno por gramde çyrvyço, e que os merecimentos lhe tira dele e aos seus desemdemtes, e na verdade forão os outros que ele fe\ tamanhos aos heis e reynno que fica este semdo muj pequeno em comparação deles. Nas Desculpas, Damião de Goes alega: Da yda do Duque liaa raia receber a Rainha Donna Marya, não achey nem mo dixe ninguém, nem o escreve Ruy de Pinna que se achasem ahy os Senhores Dom Alvoro pay e filho—Por-se-a. O Conde replicou: Se Ruj de Pinna não espreve que meu avoo e pay forão á raia com ho Duque a receber a Rainha Donna Maria, tão bem me aqueixarey dele, por que taes pesoas não se aballão sent saber, e porem atras fica dito que se não deve de daar credito as lembramsas de Ruj de Pinna, se não o que ele pusese em livro e acejtalo. A vjmda da Rainha Donna Marya não ha tamtos annos que foy, [que] não alcamse eu que não sou muj to velho, [e] maes de cem homens que [a] acompanhar ão e haa menos de dous annos que erão vjvos tres ou quatro homens que acompanharão meu avoo na jornada. Deles e de meu pay, que Deus tem, que foy nela, soube eu tudo muito parti- cularmente, como dise nos meus apomtamentos, e aymda sombou meu pay muitas veçes comigo de quão mal hia vystydo, que era hum pelote de veludo preto e hum capotim de
  • — io4 caualleiros. De Moura veo ha Rainha a Alcaçer do fal, onde ha elRei eftaua fperando, no qual dia que foram xxx de Odubro hos reçebeo ho mefmo bifpo Deuora. Acabadas has feitas que fe em Alcaçer fezeram a tam real, & tambenauenturado cafamento, Elrei, & ha Rainha partiram pêra Lisboa, onde fe has feitas renouaram, & foram leuados da ribeira cÕ muitos triumphos à Sé, & dahi ahos paços Dalcaçoua, que atte quelle tépo foram ho verdadeiro, & pprio apoufento dos Reis deites regnos. Defpois delRei fer cafado fez merçe a Rui de fande pelos feruiços que lhe fezera neíte cafamento, de titulo de Dom, parelle, & pera todos feus •fi.-mv.ci. i* deçendentes,1 & ho fez veador da cafa da Rainha, aliem* de muitas outras merçes, tenças, dinheiro, & ordenados, no q hos Reis de Caítella ho quiferam tãbem imitar, dando aho dito Rui de fande ho habito de Sanétiago, com húa boa coméda. Neíte mefmo anno depois delRei fer cafado acrçétou aho titulo que tinha de Rei de Portugal, & dos Algarues, daquem, & dalém, Mar em Africa, lenhor de Guine, ho titulo da conquiíta, nauegaçam, & comerçio, de Ethiopia, Arabia, Perfia, & da índia, titulo tam hõrrofo quãto ho he ha mefma cõquiíta. Capit. xlvii. De quomo elrei deter minor de pajfar em Africa fa^er guerra ahos mouros, & dos apreçebimentos que pera ijfofeq. E LREI posto que foffe cafado de pouquo, & nam tiueífe ainda filhos i da Rainha fua molher, contra võtade, & pareçer de muitos do feu confelho determinou pafTar em Africa, no anno de mil, & quinhentos, & hum, do que ha Rainha particularmente moitraua mui grande defconten- tamento, aqueixandoife diffo per fuas cartas a elrei dom Fernando feu pai1, & à rainha dona Ifabel fua mal, mas tudo iíto aproueitaua pouquo pera elrei áeixar de poer em obra ha võtade, & defejo que tinha de •Kl. 44v.ci. j.* imitar hos reis feus ante*çeffores, & ferlhes companheiro na gloria que veludo verde, aberto pelas jlhargas, e isto esprevo pera synal, e não pera que saiba quão betado hia meu pay. Tendo visto a emenda de Damião de Goes, o Conde deu-se por satisfeito e escreveu, mais sossegado: Ho capitolo Ixbj, poys estaa emendado, não tenho ahy que dijer. Cfr. Edgar Prestage, op. cit., págs. 362-363, 366, 372. 1 Na Ep.: «destes regnos. Ha primeira merçe q elRei fez notável depois que casou com ha Rainha donna Maria, foi ha Rui de sande, por lhe gratificar ho serviço que lhe fezera neste casaméto, aho qual deu titulo de dom para elle e todos seus desçendentes...» 2 Et. /.: pai.
  • — io5 — alcançaram nas conquiftas das çidades, villas, caítellos, & lugares que na terra deites infiéis, elles per fuas peiToas, paffando em Africa ganha- ram, pera ho que mandou fcreuer toda ha gente que no Regno hauia de que fe podia feruir em feito de guerra, dos quaes todos ellegeo vintafeis mil homes, que lhe abaítauam pera fua emprefaDeites erão hos feis mil de cauallo, & oito çentos acubertados, & hos de mais beíteiros, efpingardeiros, de pé, ^ de cauallo, & piaes lançeiros, afora feruidores, & gente de mar, do qual negoçio elrei depois de ter feitas grandes def- pefas, & asfi ha gente nobre que com elle hauia de ir, defiítio pela razam feguinte. Neíte mefmo tempo veo recado çerto á fenhoria de Veneza, quomo ho Turquo com quem entam tinha guerra, mandaua fazer húa groífa armada pera lhes tomar, & deítroir has terras, ilhas, & çidades que tem na Greçia a cujo poder fe nam atreuendo a refiítir fem ajuda dos Reis Chriítãos, fe focorreram loguo aho Papa pera fer inteçeifor4 entrelles, & elRei, pera que hos quifeífe ajudar cÕ eíta armada que já tinha preítes: aho Papa pareçeo bê ha petiçam dos Venezeanos, pelo que cõ embaixadores que a iffo expreffamente mandaram a elRei, lhe fcreueo, • ri. 45 cl. i.* & encomendou muito aho Núçio que entam eítaua neítes regnos,* que hos ajudaífe. Eítes embaixadores chegaram a elrei eítãdo nos feus paços de Sanótos ho velho, ha prepofiçam da qual embaixada foi, que ha Senhoria, & republica de Veneza, confiada de fua grade bondade, & poíta no extremo perigo de perder tudo ho que em Greçia ganhara, & poffuia, lhe mãdaua pedir íocorro, & ajuda com aquella armada que tinha preítes ou parte delia, porque ha do Turco era já no mar, & que ho focorro dos outros reis, & Prinçipes de Italia lhes nam poderia vir tam afinha quomo ho feu, por muito que fe apreíTaíTem, ho que íazendo faria mór feruiço a Deos, do que por ventura lhe cuidaua fazer em feguir fua vontade, fem faber ho fruéto que delia podia tirar, & que ho do focorro que lhe pediam era çerto, porque elles tinham por mui auiriguado, que fabendo ho Turquo que eíta fua armada iha bufcar ha fua, que em lugar de feguir adiante, ha mandaria tornar atras, do que fe refultaria grande bem a toda ha Chriítandade, porque fe Deos (per feus peccados delles) permitiffe virem hos Turquos aho fim do que defejauam, eítaua çerto, ha perda que fe diffo hauia de feguir, da qual ahos reis Chriítãos caberia boa parte. Elrei mouido de piedade lhes refpõdeo, que fobrifio tomaria ho pareçer 1 Na Ep.: «toda ha géte que no Regno havia de guerra, pera desta tomar ha que Í06se neçessaria, ho qual lhe trouxeram nomeadamente de todollos fidalgos, cavaleiros, scudeiros, vassallos, piães, de que se podia servir em feito de guerra, de que elle mesmo ellegeo somente vintaseis mil homes, que lhe abastavam para sua empresa...» * Et. interceflor. M
  • — io6 — dos do feu cõfelho, & que de fua petiçam lhes daria repofta, com breui- •fi.45 cl. 2.' dade, no* qual ho voto, & pareçer dos mais foi, que elle ficaffe no regno, & da armada que tinha preftes mandafle trinta naos, & carauellas em ajuda dos Venezeanos, & q efta defpachaffe loguo, pois ho fubftãçial de todo efte negoçio era fazerífe com breuidade. Capit. xlviii. De quomo dom loam de meneses Capiam Dar\illa, & dom Rodrigo de MÔfanâto Capitam de Tanger, foram fobre Mas aldeas que e/iam junto Dalcaçerquibir, & do que nijfo federam. ATRAS fica dito da viétoria que dom loam de menefes houue contra Barraxa, & Almandariifi no anno de mil, & quatro çentos. & nouenta, & çinquo, depois da qual ho mandou elRei dom Emanuel vir aho Regno, & ho tornou ha madar á mefma villa por capitam, & gouer- nador no anno de mil, & quinhentos, & hú, no qual tépo era capitam de Tanger dom Rodrigo de Mofando. Chegado dom loam a Arzilla cÕ çento, & çinquoenta lanças, que elRei acreçentara ás mais que là hauia, determinou ir fobre híias aldeas que eftam a traues Dalcaçerquibir, & porq fe requeria pera ho negoçio mais 'gente da que elle podia leuar, •Fi.45». ci. i.* auifou a dó Ro-*drigo do q queria fazer, fobre ho que fe ajuntaram em hum dia certo, & deram nas aldeas, em q por acharé hos mouros def- cuidados captiuaram çento, & oitenta, & mattaram muitos dos que fe quiferam defender, dos quaes vendo çinquo caualleiros Chriftãos que fe iham recolhendo pera fora de húa das aldeas fette de pé, cõ çinquo mouras derao nelles: mas hos mouros le defenderam tam esforçadamete que lhes mattarão tres caualios, & hos feriram a todos. Com tudo elles depois da briga durar hú bõ fpaço mattaram hos fette mouros, fem fe delles querer dar nenhum á prifam, entre hos quaes hauia hum que era fpofado, & leuaua cõfigo ha fpofa, ha qual vendo ho negoçio trauado de maneira que podia perder ha fperança de ho nuca mais ver, lhe dixe: O fperança de minha vida que vos farei, q vos vejo mattar fem vos poder valer fe nam cõ lagrimas, ho q dito remeteo a hum dos Chriftãos dos q já eftauam a pé, com que ho fpofo andaua trauado, & ho afferrou de forte que fe lhe não acodiram hos outros alli ho mattaram. Saqueadas has aldeas hos capitães fe começaram de recolher com ha caualgada, de que dom Rodrigo leuaua ha diãteira, em q aliem dos captiuos hauia noueçentas cabeças de gado vacum, & outro muito meudo, caualios, *Fi.45 v. ci.j.• azemallas, & afnos. E fendo já afaftados húa legoa das al-*deas lhes
  • — io7 — faiho ho Alcaide de Alcaçerquibir arepique, com mil, & duzentas lanças, com que deu na reguarda em que vinha dom Ioã, & ho feguio atte tres legoas Darzilla fern lhe querer fazer roito. Pelo que pareçendo ahos mouros, que iham hos Chriítãos atemorizados apertaram tam rijo cõ elles que foi neçeífario a dõ Ioão fazer volta, em que lhes mattou perto de çlquoêta de dos cauallos, do que affanhados, deixada ha efcaramuça fe começaram dajútar, dando moítra de quererem dar batalha, ho que vendo dom Ioão mandou dizer a dom Rodrigo, q nam caminhaíTe porque determinaua pelejar, dom Rodrigo lhe refpõdeo, q fe cõtentaffe cõ ha merçe que lhe Deos tinha feita, ho q lhe pareçeo bem, & mãdou que caminhaíTe ha caualguada. Hos Mouros no tempo que foram, & vieram eftes recados, vendo eílar hos noífos quedos pareçeolhes que queriam pelejar, do q reçeofos fe recolherão, fem hos quererem mais feguir, hos quaes chegaram Arzilla fem faltar nenhum, poíto que algús vielfem feridos, donde fe dom Rodrigo de Monfando tornou pêra Tanger, com ha parte que lhe coube da caualgada. Hos que fe acharam na reguarda, & volta que fez dõ Ioã, foram dom loam coutinho, que depois foi Conde do Redondo, filho mais velho de dom Vafquo coutinho Conde de Borba, *FL 46 cL 1.* Pero* nunez da Sylua, Gonçallo médez Çacoto, Rui cotrim da caíta- nheda, Antonio Aluarez vaquinha, Antonio dabreu, Rodrigo de vafco gonçelos, & outros de que nam foube hos nomes. Capit. xlix. De quomo elrei de Fe\veo correr a Tanger, & do que je nijjo pajfou: A' LGÚS dias depois deites dous capitães tere feita elta entrada, foube dõ Ioão per hú mouro, que andaua elRei de Féz, & feus irmãos no campo com doze mil de cauallo, & muita pionajé, & que ha cõmum opinião era q vinha dar viíta a Tanger, & dahi a çerquar Arzilla, & que era já tão junto de Tanger que nam poderia auifar dõ Rodrigo fenam por mar, que por terra era impoffiuel, por todo ho campo andar cuberto de gente, Dom loam agaítado deita noua mandou tirar algús tiros groffos, pera fazer final a Tãger, & fabendo que ficara na villa húa cadella de hum morador de Tanger, que hauia pouquo que fe dalli fora, fcreueo húa carta a dom Rodrigo, que mandou metter em çera, & atar aho pefcoço da cadella, ha qual mandou que pòfeffem á bocca da noite na praia, & que depois de bem açoutada ha deixaffem ir. Ha cadella fez *fi. 46 «i. j.* fez feu ca-*minho tam depreffa, que fendo dom loam auifado aho Domingo da vinda delRei de Féz, ella amanheçeo á fegúda feira ás portas de
  • io8 — Tanger, no qual dia elRei de Féz apareçeo com toda fua gête, & no melmo mandou que correfle á çidade ha mór parte da de cauallo, aho que dom Rodrigo faiho a repique, mas quomo ha gente fofle muita, ho fezeram recolher per força das tranqueiras pêra dentro, ho q nam foi fem grande refiftençia, porque antes de fe recolher folteue ho pefo dos imigos per fpaço de duas horas, & mea contadas pelo relogio, no qual fpaço lhe mattarao hum feu filho, & oito caualleiros, etre hos quaes foi hum Balthafar Lourenço muito vallente homem, & feriram muitos, & a elle de húa lançada com que lhe pregaram ho rofto com ho pefcoço. Recolhidos afsi hos noffos pera dentro das tranqueiras, hos Mouros hos leuaram de roldã atte has portas da çidade, mui mal trattados, pelo que conueo a dom Rodrigo fazer volta por hos mouros não entrarem cõ elles, que tam baralhados iham, & ho mefmo fez do Garçia de menefes que já eftaua junto da porta, & com elle dom Lourenço filho de dom Françifquo dalmeida, que depois foi Viçerei da índia, & Gonçalo mendez Çacoto, Pero leitam Adail, & Pena roia, Antonio nunez, & Rui martlz mazmor- •fl46v.cl. i.* reiro de Tanger,* & Lopo martíz feu primo hos quaes juntos deram nos mouros com tanto impeto, que teueram hos outros tépo pera fe recolher na çidade, & foi iíto tam trauado que nam houue mais tempo, por nam poderê fechar ha porta, que correrem ha traqua atte ho meo, ho que fez Rui martlz, que foi ho derradeiro que entrou, & ifto cõ tanto efforço, que dizendo lhe Pero leitam, & Diogo banha que correífe a trãqua toda, dixe que tal coufa nam faria, por honrra de Portugal, que vieífem hos Mouros, que elle lhes defenderia às laçadas, ho que eftaua por correr da tranqua, hos quaes com tudo chegaram tam perto, fem elle fazer pé atras, que ho capitam dos corredores, per nome Çoleimalaue, deu com ho terçado húa cutillada na porta, em que deixou hú bom final, & quifera cometter ha entrada:' mas vendo ha determinaçam dos Chriftãos fe recolheo pera ho arraial, & elRei de Féz tomou feu caminho pera Arzilla. Capitulo .1. De quomo elRei de Fe\ foi correr Arzilla, com ho qual dom loam de menefes pelejou, em que de húa, & da outra parte *fi.46t.cI. 2.* morreram algús Caualleiros.* PARTIDO ElRei de Féz do campo de Tanger chegou Arzilla cabo de quatro dias: mas quomo dom loam eftaua de fobrauifo, em hos atalaias dando final de fua vida, faiho atte ho rio doçe cõ quinze, ou vinte de cauallo, pera defcobrir ho campo, porque hos demais, & de pé,
  • 109 — mandou que ficaífé na villa velha, q fe diz a pota 1 de Fez, pera dalli fairem quando foííe neçeffario. Chegado aho rio doçe, & vendo ha mul- tidam da géte que elRei trazia, & has muitas bandeiras q andauam efpalhadas pelo campo, fe veo recolhendo feu palio a palio, pera õde deixara ha gente, defendendofle ho milhor que podia dos corredores dos mouros que lhe vinham nas coitas, hos quaes ho apertaram tanto, que fendo já junto donde deixara ha gente fez volta a elles, em que fe achou com fós quatro de cauallo porque hos outros que com elle foram, eram já recolhidos. Mas vendo hos dentro q dom loam voltaua, fairam obra de çinquoéta de cauallo, dos que eítauam mais perto, & deram todos nos Mouros, com tanto efforço, que hos leuaram atte junto de húa tran- queira, q eftaua abaixo datalaia dos paos, mattãdo, & ferido muitos delles. Hos outros Chriítãos, que ficaram na villa velha, vendo que •n.47«Li.* dom loam fe alongaua no alcançe, quiferam fair pe*ra ho ajudarem, ho que nam poderam fazer, porque muitos dos Mouros lhe vinha cortando hos vallados, & tinham jà tomado ho caminho por onde elle dera nos outros, pela qual razam hos que depois fairam de détro, nam poderam chegar a dom loam, ho ql, cuidando que tinha toda ha géte junta configo, quifera paífar adiante, mas vendo hos pouquos q eram, & que hos do campo acodiam ahos que elle feguia, fez volta perà villa, na qual foi mui mal trattado dos Mouros, porque lhe mattaram algús caualleiros, & feriram muitos, & a elle com húa lança darremeffo, que lhe paífou hum coxete, cõ tudo chegou onde eítauam hos que deixara na villa velha, com hos quaes, & cõ hos que andauam cõ elle fez húa comprida volta fobre hos Mouros, & hos lançou fora da tranqueira, dos quaes mattaram, & feriram muitos, & captiuaram algús & afsi fe recolheo perà villa. Entre hos Mouros que morreram foi hum capitam dos prinçipaes delRei de Féz, de cuja morte moltrou grande fentiméto. Dos chriítãos morreram neíta volta Pero leitam filho baítardo do Adail Pero leitam, & hum froes que andaua em hú cauallo acubertado, & Marquos Húngaro. Acõteçeo aqui hum cafo mui graçiofo, mas pouquo vtil aquém ho paífou, •F).47«i.j.« q foi hum efcudeiro de Molei naçer, irmão delRei de Fez que an-*daua com elle no campo: ho qual efcudeiro quomo fabia que elRei vinha com tençam de tomar Arzilla, depois que feita efcaramuça acabou, cuidãdo que era ha villa entrada, fe veo do campo (onde andaua defuiado dos outros mouros) metter na Villa, aho qual fe fez ha honrra que fe faz ahos captiuos. Has peífoas que fe acharam neíte feito forão dom Bernardim dalmeida, filho do Conde Dabrãtes, dom Pedro dalmeida feu irmão, Pero 1 Et. porta.
  • — I IO moniz da Sylua, Rui de foufa, Gonçallo mendez Çacoto, Ioã de Vafco gonçelos, Sancho de vasco gonçellos, loam de figueredo, Georgevaz de nouaes, & outros de que nam pude alcançar hos nomes. Capitulo .li. Darmada qve elRei mandov em ajuda dos Vene^eanos contra hos Turquos, & do fucçejfo da viajem que fe\. ASSENTADO qve fe defle ahos Venezeanos ho focorro q pediam, mandou elRei que fe tomaffem da armada que tinha preftes pera fua paífajem trinta naos, nauios, & carauellas dos melhor efquipados, & artilhados, de q deu ha capitania a dom loam de meneies: filho de dom Duarte de menefes Conde de Viana, capitam q fora Dalcaçer, & alferez •Kl. 47*.eLi.* mór del-*Rei dom Afonfo quito. Ho qual dõ loam de menefes per feus mereçimétos foi mordomo mór delRei dom loam fegundo, & delrei dom Emanuel, & code de Tarouqua, comendador de Çezimbra, capitam, & gouernador da çidade de Tãger, & depois Prior do Crato, per faleçimento de dom Diogo fernandez dalmeida. Por fota capitão deita armada iha Rui tellez de menefes cunhado do mefmo dom loam de menefes, irmão de fua molher. Ha capitania deita armada defejou muito de hauer ho dito dom Diogo fernãdez dalmeida, Prior que então era do Crato, por fer contra Turquos, & niffo infiítio muito, & por lha elRei nã qrer dar, fe foi agrauado pera Rodes, onde refidio quatro annos, & fez muitos, & afsinados feruiços á ordem, entre hos quaes foi ha famofa viótoria que houue de húa armada de galés do Turquo, ho qual na fim deites quatro annos tornou aho Regno chamado per elRei, & faleçeo é Almeirim. Antes que dom loam de menefes partiífe de Lisboa, ElRei por lhe gratificar hos muitos feri iços que delle tinha reçebido, lhe deu titulo de Conde da Villa da Tarouqua, na comarqua da Beira. Neítas trintas velas mãdou elRei tres mil, & quinhentos homés de guerra, em que entrauam muitos feus criados, afora marinheiros, & outra géte de feruiço. •fi.47t.ci.i-* Aliem deites nauios, & gente de* focorro, mandou outra armada debaixo da bandeira do mefmo Conde, em que iha muita gente nobre, pera ficar por frõteira na çidade de Ouram *, fe podefte ganhar ho caítello de Mazal- quibir, fituado na boca da barra da mefma çidade, ho que encomédou muito, & em grande fegredo aho Cõde. Preftes ha armada, fe fezeram á vela do porto de Bethelé a quinze dias do mes de Iunho deite anno de mil, & quinhentos, & hum, & com vento profpero chegaram aho cabo 1 Na Ep.: «pera ficar por Ironteira á cidade de Ouram...»
  • — Ill — de fanéta Maria, onde eftauam fperando ho Conde algús nauios do Regno do Algarue, que hauiam de ir com elle. Ahos capitães dos quaes, & ahos que com elle iham de Lisboa declarou entam quomo per mandado delRei, & regimento que pera iflo leuaua feu, ho primeiro negoçio que hauiam de fazer, era poer çerquo a Mazalquibir. Seguindo dalli fua viajem chegou aho porto defte Caftello de Mazalquibir, & por fer já tarde fe fez na volta do mar com tençam de aho outro dia pela manham cometter ho lugar, ho q lhe ftoruou fer ho vento tam contrairo que ho não deixaua chegar, no q andou tres dias, nos quaes hos da terra fe proueram do que lhes era neçeífario. Tomado ho porto, que foi hum fabbado vefpera de Sã&iago, vinte tres dias de Iulho, ho Cõde cõ toda •Fi. 48 cl. i.' ha géte que lhe pareçeo neçeffaria íaiho das naos, leuãdo cõ-*figuo ha bandeira Real, ficando elle no feu batel, por hos fidalgos da frota lhe pe- direm q nam defembarquaífe. Afsique toda ha outra gente guiada per feus Capitães, em boa ordenãça foi cometter ha Villa, ate chegar? ahos muros, & lhe porem fcadas, fem hos de dentro lhe fazer? nenhúa refiítençia, mas depois que hos teueram encarnados, & çegos no que cuidauam fazer, & hos verem andar já quomovençedores, efpalhados aho redor dos muros, fairam de dentro quatroçentos de cauallo, homes que em feu trajo pare- çiam nobres, acompanhados de pionajem hos quaes deram 1 com tanto efforço nos noífos, que fem nenhúa refiítençia, & com muita defordem, hos fezeram todos recolher pera hos bateis, no qual alcançe mattaram hos mouros vinte, em que houue algús homes fidalgos. Ho Cõde defef- perado de poder ganhar ha villa, lhe pareçeo excufado cometella òutra vez, & com pareçer de todolos capitães determinou fe partir dalli. Ho q affentado defpedio pera ho Regno ha frota que com elle viera aho feito de Mezalquibir, & elle feguio fua viajem. Capitu, lii. Do que ho conde passov nesta viajem depois que partio do porto de Mezalquibir • Fi. 48 cl. j.* at te tornar aho Regno.* PARTIDO ho Conde de Mezalquibir2, ho primeiro porto q tomou foi ho de Aliquante, & dalli paífou por Iuiça defcorrendo pelas outras Ilhas, atte chegar ha de Sardinia, onde furgio diante da çidade de « Na Ep.: «homés que em seu trajo pareçiã todos nobres, acõpanhados de pio- nagem. Hos quaes deram ..» * Na Ep.: «Partido dom Joam, de Mezalquibir...»
  • 112 Calhere, & foi mui bem reçebido do Regedor, & moradores da çidade, dõde depois de ter tomados hos mãtimétos q lhe eram neçeífarios fe partio, & lendo atraues da parajê da çidade de Tunez houue vifta de húa carraca, & dous galeões, q feguio atte fe lhe renderé. Eftas velas eram de Genoa, & iham carregadas de mercadorias de Genoefes, & outros mercadores Chriftãos, Turquos, Mouros Iudeus perá çidade de Ouram, cÕ ha qual prefa tornou arribar aho porto de Calhere, onde fez defcar- regar todallas mercadorias dos Turcos, Mouros, & Iudeus, & has fez repartir pela frota, per inuentairo que diffo mandou fazer. Aliem deftas mercadorias tomou neftas naos felíenta Mouros, & Turcos de refgate, & algús Iudeus, & Chriftãos captiuos a que deu liberdade, & ha carraca com todalas mercadorias que eram de Chriftãos, & de qualidade pêra fe poderem leuar a terra de infiéis, foltou liuremente ahos Genoefes: mas hos galeões nam,v porque teue -neçefidade delles pera efta viajem. Ifto •n.48». d.i.» feito partio Outra vez do porto* de Calhere, leuando configo ho Viçerei de Siçilia, que com medo dármada dos Turcos, que fe dezia andar no mar, nam oufou de partir dalli fenam em cõpanhia do conde, ho qual pos no Cabo paflaro, no mefmo Regno de Siçilia, & dalli nauegou á çidade de Cotrom, que he na Apulha, no regno de Nápoles, dõde atra- ueffou a Vellona, que he na Greçia, fenhorio dos Turcos, no ql lugar vieram ter com elle três galés fotis dos Venezeanos, q ho guiárão atte a ilha do Curfo, õde ala mar tres, ou quatro legoas, ho faiho a reçeber ho géral darmada da fenhoria de Veneza, com vintaçinquo galés groífas, & çinquo galéões feftejandoffe ambalas armadas, cõ muitos tiros darte- lharia, & fom de muitos inftrumétos de guerra, & por ho tempo fer calma has galés metterão á toa has naos no porto de Curfo, onde depois de todas ancoradas, ho geral, & gouernadores da ilha mandàram muitos prefentes de fruétas, & refrefcos aho Conde, & a todolos capitães da armada. Ho Conde pofto que fofle requerido, & rogado pera fair em terra, & repoufar dos trabalhos da viajé ho não quis fazer: com tudo a todolos capitães q quiferão poufar em terra, deu pera iífo liçéça, ahos quaes todos fe fez muita honrra, & gafalhado em quãto alli ftiuerão. •fi.48t.cI.a.» Cõtudo quomo ha gente de guerra, & do mar he naturalmente fober*ba, & brigofa, alli em Curfo fe armou húa briga entre hos darmada, & hos fold ados Venezeanos, & géte da terra em q mattarã dos noífos mais de fetenta homes, & dos Venezeanos, & da terra muitos, & foi negoçio em q pera ho apaçificarem tiueram ho Conde, & ho géral dos Venezeanos, & hos gouernadores da terra muito trabalho. Ho Turquo fabendo defta armada, & doutras q hos Reis, & fenhores Chriftãos fazião pera focorrer ahos Venezeanos, & que Nigroponte, fobre quem particularmente deter- s
  • 113 — minaua ir, era já prouido pela Senhoria de Veneza, vendo que ha defpefa que fezera com ha armada que trazia no mar era por demais, ha mandou recolher ahos portos, pelo que ho géral dos Venezeanos dixe aho Conde que dalli por diante feria excufada fua demora, nem fazerffe mais def- pefa da fazenda delRei feu fenhor, da que jà tinha feita, em fauor, & ajuda da fenhoria de Veneza, ha qual merçe hos deixaua em tamanha obrigaçam, quanta elles nunqua poderiam feruir ahos Reis de Portugual, & que pois ha armada do Turco era recolhida, & delia fe não temiao jà, que elle da parte da Senhoria lhe fazia faber que quando lhe aprou- ueífe, fe podia tornar pêra ho regno, no qual hos embaixadores de Veneza feriam mui çedo a dar has graças a elRei da grande merçe que •FI.49CI. i.» lhes fezera:* ha reporta do Conde foi de muitos offereçimentos, dizendo que faria tudo ho que ha Senhoria ordenafle, pelo afsi trazer por regi- mento delRei feu fenhor. Depois delta pratica efteue ha armada algús dias em Curfo, refazendolfe do caminho, & aparelhandoffe pera ho que hauia de fazer. Tomados mantimentos, fe partio ho Conde, & quart pela mefma derrota que fezera á ida, tornou aho Regno com toda fua frota junta, porto que no caminho com tormenta fe derramaífem algúas vezes, com ha qual fe perderam hos dous galeões Genoefes. Ho primeiro lugar que tomaram do Regno foi Sacres, no cabo de fam Viçente, em dia de Natal, & dalli vieram a Lisboa, onde fe repartio ho defpojo da carraca per todos, & da quinta parte que tocaua a elRei fez merçe aho Conde. A chronica do prinçipe dom loam dixe ho mais copédiofamente que pude, hos trabalhos q ho Infante dõ Henrrique tomou, & defpefas que fez com has naos, que mandaua a defcobrir pella corta •FLf49«i. 3.' Dafrica, ho qual quomo catholico Chriftão, em todollos* portos donde ordinariamente eftas naos partiram, edificou cafas doraçam, em que tinha capellães pera adminiftrarem hos Sacramétos da Egreja áquelles que andauam neftas viajes. Entre eftas cafas húa era da aduocaçam de Bethelem, no furgidouro de Raftello, húa legoa da çidade de Lisboa na qual, por fer lugar donde mais naos partiram a fazer eftas viajes, & tornauam, tinha çertos Freires façerdotes, da ordé da caualleria de Chriftus, de que elle era gouernador, & adminiftrador. Delta cafa tinha feita doaçam à mefma ordé, cõ algúas herãças de pumares, fontes, & terras que cõprara pera fe manterem hos Freires, com encargo de Capit. liii. Da fundaçam do mosteiro de Bethelem, & da Torre.
  • — ii4 — todollos fabbados dizerem húa Miffa por fua alma, ho q fempre fe fez, & faz depois q efta capella fe conuerteo no fumptuofo mofteiro, que no mefmo lugar fundou elrei dõ Emannuel depois que Vafquo da gama tornou da India, ho que çerto he muito de louuar em elRei, que com não ter mais conquiftado da India que faber que fe podia ir a ella per mar, foi tanta fua fé em Deos, q quomo fe ja tiuera ajuntados muitos thefouros da conquiíta delia, loguo de fua propria fazenda mandou abrir hos aliçerçes aho redor deita capella, fobre hos quaes fe fez hum dos grandes, & magníficos edefiçios de toda Europa, de que antes que faleçeiíe deixou •Fi. 49 t. cl. i." acabada húa gram parte, & no que* ficou por fazer, pofto q elrei dom loam feu filho continuafie cõ grade defpefa, lhe falta ainda muito pera fe acabar na perfeiçam que requere húa tal obra. Has caufas que mo- ueram elrei dom Emanuel a fazer tamanha defpefa, foi húa ha grande deuaçam que tinha em nofla Senhora, a cujo nome dedicou toda esta machina, pondolhe ho mefmo fobrenome q tinha de Bethelé, ha outra por ho lugar é q edificaua eíte molteiro fer hú dos frequétados de todo ho múdo, de naos que cada dia nelle entrão de diuerfas partes, pera hos que vieíTem acharem nos religiofos confolaçam pera fuas almas, & cõfçiençias, reçebendo nelle hos facramétos da Egreja, & ouuindo hos offiçios diuinos que fe nelle fazé com muita folénidade. Ha terçeira caufa foi pera no mefmo mofteiro fazer ho jazigo, & fepultura de fua real peííoa, & da rainha dona Maria fua molher, & filhos, pofto que naquelle tempo ainda nã teueífe nenhum. Ha egreja deite mofteiro té duas portas das quaes ha da traueiTa, que eftá contra ha praia, he ha mór, & mais fumptuofa, na qual mãdou poer em pê, na colúna do meo da porta, ha imagem do Infante dom Henrriq primeiro autor deitas nauegações, talhada devulto em pedra, armado, com cota darmas, & ha efpada nua na mão, aleuãtada pera riba, do qual modo, fe afegurã to- •Fi.49T.ci. a.» dollos Reis, & Prinçipes q em* peíToa fe acharã em feitos de guerra, & nelles forão vençedores. Ha outra porta he ha prinçipal, pofto que não feja tamanha quomo ha portada traueiTa, polo caufar húa fermofa, & com- prida varanda de pedra talhada, que de fobrella fae de lógo do caminho publico, atte ho cabo de todolos jardís, & edefiçio deite mofteiro: fobella qual eità ho dormitório dos Frades. Nefta mandou elRei poer ha fua imagé, de húa parte, affentada em geolhos, em hú fetual, cuberto de veítidos roçagantes, & da outra banda, também em geolhos, em outro fetual ha rainha donna Maria fua molher. Eftas duas images fam talhadas de vulto em pedra lioz, & hos roftos ambos tirados affaz bem aho natural. Defrõte deite edefiçio mãdou elRei fazer ha torre de fam Viçente, que fe chama de Bethelé, fundada détro na aguoa, pera guarda deite Mofteiro, I
  • 115 — & do porto de Lisboa, edifiçio que ainda que em íi não feja grande em cantidade, com tudo ha inílruálura delle he magnifica. Ha qual Torre fe véla denoite, & de dia, de modo q nenhúa vela pode paliar fem fer villa, & obedeçer ás faluas que lhe delia fazem, com ha artelharia, né foi menos liberal elrei dom Emanuel na grãdeza defies edefiçios, que no feruiço do cultu diuino, porque ahos Freires que tinham a cargo eíla #Fl. 5o«1. i.* capella de Bethlem, que dali mudou per liçéça do Pa-*pa, à egreja de noffa Senhora da Conçepçam em Lisboa, que fora Synagoga dos Iudeus, deu rêdas de que viuem abaíladamente, & na mefma cafa fundou húa cõméda, & eíla de Bethlem, pela muita deuaçao q tinha aho gloriofo fão HierOnymo, deu ahos Frades da fua ordem, dos quaes aho prefente he pouoada com muita obferuançia, & exemplo de bom viuer, pera fuíléta- mento dos quaes deu ho direito da vintena que fe paga na cafa da índia, das mercadorias de partes q a ella vem, & por acreçentar à inílituiçam da Miífa, que ho Infante dõ Henrrique fundara naquelle lugar, ordenou q elles Frades dixeífem outra, na qual aho lauar das mãos ho façerdote dixeífe aho pouo q rogaífe a Deos pela alma do Infante dom Henrrique, primeiro fundador daqlla cafa, & afsi pola delRei, & de todos feus íucçelfores. Agora porei filençip ahos negoçios do Regno, pera outra vez fallar nos da India, & nam fefpante ho leélor deu palfar com ho tépo a diante, & tornar agora cõ elle atras, porque ho faço pera juntamente, & fem intreuallo contar ho q paffou na fegúda armada que elRei mandou à India, q partio de Lisboa no anno de mil, & quinhentos, & tornou no de quinhentos, & hum, quomo fe loguo vera, ha qual ordem terei em todallas outras armadas que depois forã delle Regno á índia, atte ho *Fi.5oci.a.« tepo em* que Afonfo Dalbuquerque foi gouemador. HEGADO Nicolao coelho da índia quomo atras fica diéto, pela informaçã que deu a elRei da terra, & qualidade da géte, deter- minou de mandar lá húa armada de treze velas, de que deu ha capitania a Pedralurez cabral, & por fota capitão Sãcho de thoar, hos outros capitães erão Simão de miranda, Aires gomez da Sylua, ho mefmo Nicolao coelho, Nuno leitam, Vafquo dataide, Bartholomeu diaz que defcobrio ho cabo de boa Sperãça, Pero diaz feu irmão, Gafpar de lemos, Luis pirez, Simão de pinnaPero dataide dalcunha inferno, & 1 Et. pinna. Capit. liiii. Da fegunda armada qve elrei mandou à índia de que foi por capitão Pedralure\ cabral.
  • — 116 — por feitor da armada Aires correa, que hauia àe ficar em Calecut por feitor, & por fcriuães de feu cargo Gonçalo gil barbofa, & Pero vaz caminha. Eftas naos mandou elRei aparelhar de todalas coufas neçefla- rias a feito de guerra, porque jà fabia que hauiam de ter diflo neçeífidade, pelos negoçios que aconteçerão a Vafquo da gama, afsi na índia, quomo na corta da Ethiopia, na qual iham mil, & quinhentos foldados. No .50*.ci i.» regimento que elRei* deu a Pedralurez cabral, hú dos pontos mais fubftãçiaes era, q trabalhaífe muito pela amizade delRei de Calecut, porque fua vontade era fazer húa fortaleza naqlla çidade, onde feus naturaes, & offiçiaes eftiuefsê feguros dos da terra, & mouros, & podeflem fazer has coufas que compriíTem a feu feruiço, & que quando não achaffe em elRei de Calecut vontade de ho querer por amigo, em tal cafo de fua parte lhe declaraífe guerra, & lha fezeífe, alem do q lhe mandou que trabalhaffe muito por tomar Melinde, pa de fua parte agradeçer a elRei ho gafalhado que fezera a Vafquo da gama, & lhe dar hum prefente q lhe mandaua, & entregar ho feu embaixador, & offereçer fua amizade pera ho que lhe delle cõpriíTe. E porque elRei foi fempre mui inclinado ás coufas que tocauão à nofía fanóta fé catholica, mandou nefta armada oito frades da ordem de fam Frãçifco, homés letrados, de q era vigairo frei Hérrique, que depois foi confeífor delRei, & Bifpo de Çepta, hos quaes com oito capellães, & hum viga.ro1 ordenou que ficaífem em Calecut, pera adminiítrarem hos facramentos a hos Portuguefes, & a hos da terra que fe quifeífem cõuerter à fê. Preftes eíta armada, eílando já em Raftello elRei fe foi aho morteiro de Bethelé, ode mãdou dizer Miíla .5ov.ci. a.* em pontifical, tédo configo dentro na cortina Pe-*dralurez cabral, na qual houue pregação que fez ho Bifpo de Çepta dom Diogo Hortiz, que depois foi de Vifeu, caftelhano de nação animando todos ahos trabalhos que iham tomar, por feruiço de Deos, & de feu Rei, appõtãdo ahos capitães, & ahos outros fidalgos que iham na armada, muitos louuores de feus ante- paffados, cõ que não tam fòmente fez enueja ahos que ficauam no Regno, mas antes hos inçitou a quèreré muitos delles fazer efta viajem fe ho tempo lhes então dera pera iffo lugar. Acabada ha Mirta ho Bifpo benzeo húa bandeira em que eftauam pintadas has armas Reaes do Regno, ha qual depois de benta elRei entregou de fua propria mão a Pedralurez cabral. Entregue ha Bandeira elRei leuou Pedralurez à fua ilharga atte hos bateis das naos que ho eftauam fperando na praia, onde com hos outros capitães, & gente nobre lhe beijon* ha mão, & fe defpediram delle. 1 Et. vigairo. * Et. beijou.
  • — n7 — Capitu, lv. De quomo ha frota partio do porto de Bethelem, ' & do defcobrimento de terra de fanãa Cru\ a que chamão do Brafil. A HO ovtro dia pela manhã que foram noue de Março de mil, & quinhentos, partio ha* frota do porto de Bethelem com bom veto de foz em fora, & ahos quatorze houue vifta das ilhas da Canarea, & ahos vinta dous com vento profpero paífou pela ilha de Sanétiago, auante da qual fe apartou da frota com tormenta ha nao de que era capitam Luis piz, que arribou a Lisboa desbaratada, per cujo refpeito andou Pedralurez cabral aho pairo comtoda ha armada dous dias, mas vendo que não apareçia feguio fua viaje, & nauegando aloefte, ahos ixiiij dias do mes Dabril viram terra, do que forão muim alegres, porq polo rumo em que jazia, na fer nenhúa das que atte em então eram defcubertas, Pedralurez cabral fez fazer rofto pa aqlla bãda & quomo foram bem a vifta, mãdou aho feu meftre que no efquife foífe a terra, ho qual tornou loguo, com nouas de fer muito frefca, & viçofa, dizendo que vira andar gente baça, & nua pela praia de cabello comprido, & corridio, com arcos, & frechas nas mãos, pelo que mãdou a algús dos capitães que foliem com hos bateis armados ver fe era ifto afsi, hos quaes fem fairem em terra, tornaram à capitaina afirmãdo fer verdade ho qué ho meftre dixera: Eftãdo jà fobrancora fe aleuantou denoite hum temporal com que correram de longo da cofta atte tomarem hú porto muito bõ, onde Pedralurez furgio co hasoutras naos, & por fer tal •fi.5icL2.» lhe pos nome Porto* feguro. Surta ha frota mãdou Pedralurez algús dos capitães nos efquifes ver ha terra, q logo tornáram cõ dous homés q eftauã pefcãdo em húa almádia, dos quaes fe quifera informar da calidade delia, mas achou hos tam barbaros, que alie de nam hauer lingoa que hos entendefle, ne per açenos fabiã dar final1 de coufa q lhes perguntafle, pelo q lhes mandou dar de veftir, cafcaueis, manilhas de latã. efpelhos, & outros brincos, & afsi ajaezados hos fez poer em terra, hos quaes contétes de bom trattamento, tornarão logo á frota com outros de companhia, carregados de milho, farinha, fauas, & outros legumes, & fruótas da terra, que dauam a troquo de papel, cafcaueis, fpelhos, pãno de linho, & outras coufas delta calidade. Achando Pedralurez tanta fa- miliaridade, & fimpreza nefta géte, ordenou que aho ontro dia dixefie frei 1 Na Ep.: «mas achou hos tam barbaros, por alie de nam hauer linguoa que hos entédesse, né per açenos saberé dar sinal...»
  • - 118 - Henrrique Mifla é terra onde em amanheçendo mandou armar hum altar debaixo de húa muito grande aruore. Ha Mifla foi de Diácono, & Sub- diacono, offiçiada com todolos frades, capellães das naos, & façerdotes q iham narmada, & outras peífoas que entendiam de canto, em q houue pre- gaçam, fendo prefentes muitos dos da terra a todo ho offiçio diuino, com grande efpãto, & acatamento. Acabada ha Mifla Pedralurez fe recolheo *fi. 5i y.ci. I.* ahos bateis, com toda ha gente acom-*panhandoho hos da terra com grandes feitas, cantares, faltos, & tregeitos que faziam em final dalegria, tangendo cornos, & buzinas, lançando frechas pera ho ar, com outras moítras de contentamento, aleuantando has mãos aho çeo, quomo que dauam graças a Deos pela merçe que lhes fezera, em lhes deixar ver gente daquella calidade, no que iham tam enleuados, que muitosdelles feguirã hos bateis atte lhes ha aguoa dar pelos peitos, & outros nadando, & algús é almádias atte chegarem às naos. Nefte porto feguro fezerão has naos auguoada, carnagem, & tomáram outros mãtimentos, & refrefcos, que hos da terra dauam por coufas de pouca valia. Eilando alli ha armada, lançou ho mar hum peixe na praia mais groflo que hum tonel, & tão cõprido quomo dous, ha cabeça, & hos olhos quomo de porco, lê dentes, has orelhas da feiçam das de Elephãte, ho rabo de hum couado de comprido, & outro de largo, ha pelle quomo de porco, de groflura de hum dedo. Antes que Pedralurez partiífe deite lugar, mandou poer em terra húa Cruz de pedra quomo por padrão, com q tomaua poffe de toda ha quella prouinçia, perá Coroa dos Regnos de Portugal, àqual pos nome de fan&a Cruz, poíto que fe agora (erradamente) chame do •Fi.5iT.cUa.* Brafil, por cafo do pao vermelho que delia vem, a que chamão Bra-*iil, & afsi defpachou pera ho Regno Gafpar de lemos no feu nauio, com nouas deite defcobrimento, no qual mandou um homem dos da terra a elRei, ho que ferto, deixando alli dous degradados, de vinte que leuaua, fe partio ahos dous dias do mes de Maio, tomando fua derrota pera ho cabo de boa Sperança. Capitu, lvi. Dalgftãs particvlaridades da terra de fanãa Cru\, & cojlumes 1 da gente delia. ESTA terra de fanfta Cruz q jaz na demarcaçam, & cõquiíta deites Regnos, com ha q defcobriram, & conquiítaram hos Reis de Caítella, a q chamão Antilhas, & Perú, fam tamanhas, cõ outras puinçias 1 Na Ep.: «terra de Sanita Cruz a que cõmumente Chamão do Brasil, e costu- mes ...»
  • — 119 jutas a ellas, corrédo de Norte a Sul, q por fua grãdeza lhe poferam hos Cofmographos deite tempo nome, mundo nouo, has difcripções do fitio, & clima das quaes dexarei ahos mefmos cofmographos, cujo ho tal offiçio he, & eu feguindo ho que toca aho meu direi algúas particulari- dades deita prouinçia de .S. Cruz, & dos coítumes da géte de que he habitada. Ha terra he muito viçofa, muito temperada, & de muito bos ares, muito fadia, tãto que ha mòr parte da géte q morre he de velhiçe, •Fi. ia cl. 1.* mais que de do-*enças: té muitas, & grandes ribeiras, & muito bos portos, & muitas fontes de muito boas aguoas: ha mais da terra he de montes, & valles, chea de bofques, em que hà aruores de defuairadas fortes, entre has quaes he ha aruore do balfamo, & ho pao braíil: hai muitas heruas odoríferas, & medeçinaes, delias diferentes das noífas, entre has quaes he ha q chamamos do fumo, & eu chamaria herua Sétã, ha q dizé q elles chamã Betum, de cuja virtude poderia aqui poer coufas r milagrofas, de q eu vi ha experiençia, prinçipalméte em cafos defefpe- rados, de apoíthemas vlçeradas, fiítolas, carãguejas, polipos. frenefis, & outros muitos càfos. Eita herua trouxe primeiramente a Portugal Luis de goes, q depois fendo viuuo fe fez na índia dos da companhia do nome de Iefu. Ha gente deita prouinçia he baça, de cabello preto, comprido, & corredio, fem barba de meã eftatura: fam tam bárbaros que nenhúa coufa cré, nem adoram, né fabem ler, nem fcreuer, né tem egrejas, nem vfam imajés, de nenhú genero, ante has quaes polfam idolatrar, nem té lei, nem pefo, né medida, né moeda, né Rei, nem fenhor, obedeçem fomente áqueHes q nas guerras, q tem hús com hos outros, fam mais valentes, & deites fazé cabeça, em quanto nam cometem couardia: andão •fi. 5a ci. 2.' nus, & fe algús fe cobrem fam hos nobres, com veítidos que fazé de* pénas de papagaios, & outras aues de diuerías cores, teçidos com fio dalgodam: hos veítidos 1 fam húas faldras que lhe chegam da çintura atte hos geolhos, & barretes, & húas tiras, ou capellas que poem aho redor dos braços quomo manilhas, tudo das mefinas pennas. Has molheres criã cabelos, & hos homés hos troíquiam defiia fronte atte mea cabeça, hos que prefumem de galantes trazem has orelhas, & hos beiços, narizes, & façes furados, & nos buracos oifos dalimarias, & pedras de diuerfas cores por pendetes, muito bé polidas, & outros que fazem de húa goma daruores, que fundem, & fiquam da dureza, & cor dalambar muito fino, ho que tudo fazé pêra afsi pareçeré mais feroçes, & pera acreçentar eíta feroçidade pintão hos corpos de muitas cores, afsi hos homés, quomo has molheres, has quaes não trazem pendentes de pedra nos beiços, & façes, 1 Et. /.: vertidos.
  • — 120 — fenã contas que fazem de hús búzios grandes, que há no mar muito finos, q ellas eftimã muito, & delles fazé também pendentes, & luas q ellas trazem nas orelhas, & aho pefcoço por galantaria. Sam grandes fre- cheiros, em tanto que em qualquer parte do corpo de hum homem, ou animal por pequeno que feja, a que apontão tocão fem quaíi nuca erra- rem: & ho que eu açerca difto vi direi aqui. No anno de mil, & qui- •fi.5a▼.cl. I.* nhentos, & treze eftando elrei dom Emanuel é Sã-*étos ho velho, tédo defpacho em húa cafa de madeira, que alli entã eítaua, na ponta do caes, pofta fobella aguoa, George lopez bixorda que naquelle tempo tinha ho tratto do pao brafil que trazé deita terra de fanéta Cruz, veo a fallar a elRei, & cõ elle tres homés deita prouinçia, affaz bê difpoítos que então vierão em húa nao que de lá chegara, hos quaes vinha veítidos de pennas, > com has façes, beiços, narizes, orelhas cheos de groffos pendentes, tudo do modo que arriba dixe, 'cada hú delles trazia feu arco, & frechas, vinha com elles hú homem Português, que fabia ha lingoa, per quê lhes elRei fez perguntar algúas coufas, & quando falláram na deítreza que tem no tirar, dixerão que fe fua Alteza ho queria ver que loguo lho amoitrariam, no qual com menos ha mare vazaua, & vinham pelo rio abaixo algús pedaços de cortiça tamanhos quomo ha palma de húa mão, ou pouquo mais, cõtra has quaes loguo armaram hos arcos, & a quantas delias tiraram, indo pela aguoa abaixo, pregarão em cada húa fua frecha, fem errarem nenhú tiro, ho q eu vi, porqítaua na mefma cafa qnãdo4 iíto paliou. Hos arcos fam de pao brafil, & has frechas de canas empenadas cÕ penas de papagaios, has põtas fam de pao, & oífo de •fi. 3i*.ci.a.» pcfcado, tam fortes q paifam cõ ellas húa taboa. MantêíTe de caça, prinçipalmente de pa-*pagaios, & bogios que ha muitos na te.ra *, & outras muitas aues, & alimarias: comem também lagartos, cobras, ratos, & outros bichos peçonhentos. Pefcam em almádias feitas de côdea daruores, em que nauegam, de que algúas delias fam tamanhas que cabem nellas trinta, & quarenta homes: ho feu pefcar não he com redes, fenam com cabaços que metem por debaixo daguoa, indo hús remando has almádias, & outros cõ paos batédo naguoa, do qual mouimento ho peixe amedron- tado, vê bufcar ha façe daguoa, & hos q tem hos cabaços metidos nella, acodem por baixo aho peixe, & afsi tomam quanto hã mifter. Come pão feito de húas raizes brancas, tamanhas quomo çinouras, a que chamão mãdioca has quaes fam tam peçonhentas, que fe has alguém comer cruas morre fubitamente. Eftas raizes pifam em húas pias de pedra, & depois 1 Et. /.; quãdo. s El. I.: terra.
  • J- 121 . de bem pifadas lhefpremé ho çumo, que he per fim muito mais peço- nhento que ha raiz, & depois de ho terem bem efpremido poem ha mafia a fecar é çeítos que pera iflo tem, & feca, ha moé em farinha, a que chamao caiftus, de que fazem hú pão tão faborofo, q hos noflos Portuguefes ho come de milhor vontade que pão de. muito bõ trigo: vfam também pão de milho. Ha na terra muitas fauas, feijões, & • kj.53cl.i.» outros legumes de muitas cores, que come:* não tem vinhas, mas fazem vinho de milho, & da mefma farinha caiftus, que he quomo çerueja, ou çidra, de que bebe, & fembebedão a meude, & depois de bêbados fam muT tredores, & maleçiofos. Há também na terra muito algodão, que has molheres fião, de que fazé cordas, & redes, que vfam por camas, péduradas no ar, em paos, ou aruores mas delle não fazem pãnos porq nã fabe teçer. São muito dados a agouros, & feitiços, & deite offiçio há entrelles homés, & molheres a que chamão pagés, ahos quaes crem tudo ho que dizé, & hos tem em muita eftima, & acatamento. Eftes trazem húa cabáçinha feita quomo cabeça de home cÕ boca, narizes, olhos, & cabellos, pofta fobre húa frecha, détro da qual fazem fumo com folhas fecas da erua Betum, & do fumo que fae deita cabeça tomão elles pellos narizes tanto, atte que com elle fembebedam, & depois de bem toruados, fazem geitos, & çeremonias quomo demoninhados, dizédo ho que lhes vem á vontade, oú ho que lhes ho diabo enfina, tudo ho que então dizem » lhe cré, & tem por coufa çerta. Eítãdo afli neíte defatino ameaçã muitos á morte, & em qualqr tempo que depois morrem, dizé hos outros q viuera muito mais fe ho pagés ho não ameaçara, a qualquer lugar a que vem lhes fazem muita feita, & hos reçebem cÕ danças, & cantares, & •Fi. 53d. 2.* lhes dão* tudo ho que hão miíter: aliem diíto lhes abrem, & conçertam hos caminhos per onde paflam, & por feita lhes comuniquam has mais fermofas molheres da terra cafadas, & folteiras. No cafamento nam tem ► mais grao de parentefco que do pai, & filha, & irmão, & irmã, daqui pera baixo cafam todos fem diferença, hos cafados cada vez que querem deixam has molheres, & tomam outras, & fe em quanto has tem em cafa cometem adultério mattãnas, ou has vendem: quando paré no mefmo dia fe vam lauar ahos rios, ou fontes, & fazem loguo todollos feruiços ordinários de cafa, & hos maridos fe lançam nas redes, que fam has fuas camas, em que eítam çertos dias, onde lhes hos parétes, & amigos vam dar ho prófaça do filho, ou filha q lhes nafçeo. Hos paes 1 1 Na Ep.: «que lhe nasçeo. He costume entrelles (hos que sam casados) levarem ha virgindade ás sobrinhas de suas molheres, ho que dizem lhe pertençer por parte das mesmas suas molheres, por ser tudo hfi sangue. Hos paes...» Esta emenda não foi provocada por censura do Conde de Tentúgal feita a esta \
  • - — 122 — nam tem poder nas filhas, fenão hos irmãos, eítes has cafam com quem queré, & vendem quando tem neçefsidade. Ho que vendem nam he por dinheiro, que nam te moeda, nem fazem delia conta, faluo a troquo de outras coufas que ham mifter: eftimão muito pouco has molheres, & has tem quomo captiuas, pera fe delias feruirem, has quaes fam commuas a todos, exçepto has cafadas, em quãto ho fam. Ho cafamento delles nam he mais queítarem homem, & molher em húa fó cafa, nam vfam •vu55v. el. i." vodas, nem çerimonias* matrimoniaes quando fe afsi ajútam em hum cafal: fam commuaméte folgazões, & muito alegres, porque quomo nam tem guerra feu offiçio he bailhar, comer, & beber. Tem hum çerto genero de bailhar, em que andam todos aho redor, quafi quomo has rondas de Flandres, fern le mudarem do lugar em que começam, cantando todos por hum tom cantigas, em que contam fuas valentias, & feitos de guerra, dando muitos afouios, & fazendo mui grande eftrondo com hos pés. Aho redor delta ronda andam outros q dam de beber ahos dan- çantes, fem çeífarê de noite nem de dia, nas quaes danças fe embebedam todos, ou hos mais delles. Has calas em que viuem fam muito compridas, feitas de madeira, cubertas de colmo, muradas aho redor, duas, & tres vezes com paos, & eítaquas muito fortes, ho que fazem por cafo de terem fempre guerra, hús vezinhos com hos outros, nas quaes cafas viuem muitos juntos: hos cafados tem feus repartimentos, & hos outros viuem em comum, todollos que viuem dentro em húa cafa deltas fe tem por irmãos, & afsi fe chamam, & morrem hús polios outros, quomo fe foliem verdadeiros irmãos de pai, & mai. Eltes homes nam fazem guerra por cobiça de riquezas, nem menos de affenhorearem prouinçias, porque tudo •fi. 47». ci. a.» iíto eítimam muim pou-*quo, fazemna por ferem acatados de feus vizinhos. Quando ham de começar algúa guerra ajuntãlíe em húa cafa quatro, ou çinquo dos mais velhos, daquelles que fendo mançebos deram moítras de valentes, & foram bõs capitães, depois de alfentados, quomo em coroa, poendo feu vinho, ou beberajem no meo, de que bebe cada hum ho que quer: em quanto afsi eítam ninguém oufa de lhes fallar, nem chegar a elles, ho que alii concrue he ho que hos outros hã de fazer fem lho poderem contrariar. Sam tam obedientes aho que eítes velhos aflentam, & ordenam no cõfelho, que ainda que faibam que ha execuçam diífo lhes hà de cuítar has vidas, nam deixam de poer em obra ho que hos velhos ordenarã. Começa entrelles ha guerra pella mór parte nos parte do texto. É da iniciativa de Damião de Goes, talvez impressionado com a reflexão que a outro propósito fizera o Conde, lembrando que devia ser limpa de desonestidades a crónica que haveria de andar nas mãos de rainhas e princesas.
  • — 123 mefes de Feuereiro, & Março, & porque ha terra he de muitas ribeiras, ho mais delia he em almádias, ha q elles chamão canoas: leuão cõfigo molheres pera lhes guilarem ho comer, & farinha fomente, porque todollos dias faem em terra a caçar, & dormir, & da caça que mattam, & peixe que tomam fe mantém* & fem mais outra prouifam correm do longo da cofia quareta, & çinquoenta legoas, fazendo fuas etradas, & aífaltos nas pouoações dos imigos. Elegem por capitã ho mais valente, & elforçado •fi. 54 cL i." dantrelles, efte hos gouerna em* quanto nã comette couardia, porq fe ha faz fica delacreditado entrelles pera fempre, ho qual capitam antes que partam perá guerra anda todolos ferões, & manhãs pregando, & bràdando aho redor das calas, animãdo hos perá guerra, & eníinando hos quomo fe hã dapreçeber, & ho que ham de fazer, & leuar configuo, declarando lhes que homes fam hos com que ham dir pellejar, & que manhas tem, & modo de fazer guerra, cõtandolhes também fuas próprias façanhas, & valentias, & quantos homes mattou na guerra, & ho modo q niífo teue. Ho mais do guerrear deita géte he de aílalto & çiladas, pera tomarem hos outros defprouidos. Sam tã deítros no tirar, que nas guerras q tem cõ hos Portuguefes, lhes mettem has frechas pelas junturas das armas pelo que fe acoítumaram a hús laudeis de pãno de linho, que hos cobre da cabeça atte hos pés, imbutidos dalgodão, tão groífos que has frechas embaçam nelles, mas eftes frecheiros 1 lhes não tiram jágora por efte X refpeito, fenam ahos olhos, & fam niífo tão çertos que mattam muitos. Aliem dos arcos, & frechas vfam húas efpadas de pao muito duro, & pefadas, com has quaes onde açertam do primeiro golpe efmeuçam qualquer membro em que tocam, hos que mattam na guerra, & algús •fi. 54cl. a." dos que captiuão prinçipalmente hos velhos, com-*mem loguo, & hos outros vende, ou leuam preíos em cordas com que todos entram trium- phando pellos lugares onde moram, mas ha carne humana que comem não he entrelles coufa geral, porque nam comem fenam ha dos que captiuam, & tem por imigos. Hos que lhe morrem na guerra enterram no mefmo lugar, & fe he perto de fuas pouoações hos leuam cõfigo, pera hos la enterrarem, no que há grandes choros, lamentações, & por dó, afsi hos homes, quomo molheres fe trofquiam, lobelias couas, fazem fogo, comem & bebé çertos dias, nos quaes cõuites contam has façanhas, & proezas do defuncto. Ahos Chriftãos que captiuam, fe tem barba, ou cabellos trofquiam lhe hos da cabeça, & arrincam lhe ha barba, co todollos outros cabellos do corpo. Ahos que captiuam na guerra dam 1 Na Ep.: «... tam grossos que as frechas embaçam nelles, sem poderem passar: mas estes frecheiros..
  • — 124 — molheres pera hos feruirem & dormirem com ellas, & fe delas hão filhos hos fenhores hos vendem, ou comem: trattão muito bê eftes captiuos de comer, & beber & has molheres q hos ferué, trabalham por lhes dar bõ péfo. Quãdo querem fazer algúa feita mattam hú deites captiuos, & ha molher com que teue conuerfaçam, ainda que delle tenha íilhos, he ha primeira que lhe laça húa corda aho pefcoço, ho que feito ho atam hos homes com outras pelo meo do corpo, braços, & pernas, & •Fi.S4T.ci. afsi ho amarram no meo da ca-*fa a hum piar, & ho pintam, & empenam de penas de aues. Pera eítas feitas fazé muita beberajem, & ajuntam muita caça, pera banquetearé todolos que a ellas vem & aho mefmo captiuo delatam do piar algúas vezes, & atado com ha corda que tem pela çintura, ho fazem bailhar, & alegrar com ha beberajem que lhe dam a meude. Iito dura três dias, nos quaes nam fazem outra coufa que comer, beber, & bailhar, ho que feito leuam ho captiuo 1 a hum curial, lolto dos pés, braços, & mãos, & has molheres, & mininos ho tem per cordas que lhe ficam atadas na çintura, tirando por elle de húa parte pera outra, arremeíTandolhe laranjas, & outras fruétas, das quaes elle apanha do chão has que pode, & lhes torna a tirar cõ ellas, & cÕ pedras fe has pode hauer, per todo ho caminho vão dãdo de beber aho captiuo, q diíTo vai muito alegre, & afsi hos q ho leuã, q també vão bebendo, cãtando, & faltãdo, defque íae de cafa atte chegaré aho lugar em q le ha de fazer ha execuçã, vão dizendo aho paçiente muitas injurias, & q ho ham de comer por vingãça delle, & de todos feus parentes, & amigos, jiho q refponde muito alegre q lhe nã da diíTo nada, pois q morre cõ muito elforço quomo ho deue fazer hú valente home, & q fe ho hão de mattar, q jà elle mattou, & comeo muitos dos feus delles, q •fi.54t.ci.}.« allê difio vai cõ-*folado, por faber q té irmãos, & parétes q hã de vingar lua morte. Depois de chegados aho curral, vé ho q ho teue prefo bai- lhãdo cõtrelle todo pintado com húa gorgueira de pennas de cores, que lhe cobre todo ho pefcoço, & parte dos hõbros, com húa efpada grande de pao na mão, chea também de penas, gritando, & afouiando cõtra ho prefo, pa ho ferir, mas elle trabalha quãto pode pera lhe tomar ha efpada das mãos, ho q lhe has molheres, & mininos que tirã pellas cordas eftoruão tirãdo por elle de húa parte perà outra, atte q ho da efpada ho fere á lua vontade, õt lhe faz faltar hos meolos fora da cabeça, porque elle he ho derradeiro golpe que lhe dão, né lhe pode dar mais, fegúdo leu coftume, ho que feito lha corta, & has mãos, & todo ho mais do corpo lançã has molheres em húa fogueira que pera iífo tem feita, onde ho 1 Na Ep.: «e baillar, aho cabo dos quaes levam ho captiuo...»
  • 125 chamufquão quomo a hú porquo, & depois de bê chamufquado ho abre com húa cana tão aguda quomo faca, & lhe tirã has tripas, has quaes chamufquadas aho mefmo fogo comem has molheres, & mininos, & ha carne do corpo talhão hos homes em polias, & mandão delias em prefente hús ahos outros: com efta vianda em final de vingança fazem mores fellas, & bebé muito mais daquelle feu vinho, ou beberajé do q ho dantes •Fi.55;ci.v fezerão. Hái neíla prouinçia de landa Crnz 1 húa gé-*te a q chamão Papanazes, q viué nos defertos com molheres, & filhos, não té cafas, nem lugares, né camas, nem redes pêra dormirem, viuem de roubos, & rapina: fam homés pela mór parte de meam eílatura, andam nús: forão antiguamente lenhores de toda aqHa terra, & per guerras, hos que habitão de longo da cofia do mar hos lançarão delia, pelo que fam feus capitaes imigos, fazem continua, & crua guerra a todolos q viuem em calas, tem lingoajé fobre fim, com tudo entendéfe bé hús ahos outros, viam ho mefmo modo de comerem hos captiuos. Eftes todos per nenhú delido fazem juftiça, fe não per homiçidio, q he deite modo. Hos pa- rentes do homiçida ho hão dentregar ahos parétes do morto, hos quaes ho afogã, & enterrão prefentes hús, & hos outros cõ muitos plantos, & choros, comendo, & bebédo per muitos dias, & afsi fiquam amigos, & le per cafo ho homiçida foge, & fe não pode delle fazer entrega ahos parétes do morto, então lhes dão has filhas, & irmãs do homiçida, ou fe has não té, has parentas mais chegadas por captiuas dos parentes mais chegados do morto, & afíi fiquão amigos, Delta gente tão barbara, & tão inculta hai já muitos que fe conuerterão á fé de noífo fenhor Iefu Chrifto, & que fam aliados per calaméto quomo nos outros, & viuem do •fi. 55 cl. j.* mefmo modo que hos nôs fazemos.* Capitu, lvii. Do que Pedralvre\ cabral pasfou depois que parlio da terra de fanãa Cru\, atte chegar a Calecut, & do fitio da ilha, & cidade de Quiloa. PARTIDO Pedralurez Cabral delta terra de fanda Cruz a hú Domingo vintaquatro dias de Maio fe armou hum bulcão, & trás elle húa trouoada com tanta força de vento, & tam de fubito2, que a villa hús dos outros çoçobrarão quatro naos, fem delias efcapar coufa viua, 1 Et. /.: Cruz. 2 Na Ep«... se armou hum bulcão e tras elle húa trovoada com tamanha tor- menta, e tam de súbito...»
  • 126 das quaes erão capitães Bartholomeu diaz, Aires gomez da fylua, Vafquo dataide, & Simão de pinna, has fette que ficarão fe apartarão húas das outras, no qual trabalho andarão atte hos xvj dias de Iulho em que fe ajuntarão has feis, porque ha de Pero diaz foi ter aho eltreito Darabia, & à çidade de Magadaxó, donde tornou a eíte Regno com fós feis homés, depois de ter paliados muitos perigos, & trabalhos. Elias feis naos depois de terem dobrado ho cabo de boa Sperança, forão lançar ancora defronte de húa terra frelca, de muitas ribeiras, aruoredos, & criações, da qual nenhum dos naturaes oufou vir às naos, nem na praia quiferão comunicar com hos noífos, nem venderlhes mantimentos de que tinhão muita neçef- *fi 55 t.ci. i.« sidade, pelo que fe fez à vela, &* nauegando de logo da coita com vento bonança efcorreo Çofalla, atte ler júto de duas ilhas queítão perto de terra firme, a q agora chamã has primeiras, júto de húa das quaes eítauão furtas duas naos, q Pedralurez por fe aleuantarem feguio, & has tomou fem fe deíenderé. Ho fenhor delias duas naos fe chamaua Xeque Foteima, tio delRei de Melinde, que vinha de Çofala, com muito ouro que fora refgatar com hos da terra, & cõ medo das noífas naos, cuidãdo q erão de coífairos fe acolhia, do ql fabendo qítaua auate de Çofalla, & ho modo da terra, & tratto delia ho deixou no mefmo lugar em q ho tomara cõ fuas naos, ouro, & outras mercadorias q trazia, & fe parrio 1 caminho de Moçãbique onde chegou ahos xx dias de Iulho, & fez angoada paçificaméte, tomãdo mãtimétos, & piloto atte ha ilha de Quiloa. Neíte caminho indo fempre de lõgo da coita vio muitas ilhas mui bem aprouei- tadas, todas do fenhorio delRei de Quiloa, cujo regno cõthé des no cabo das corrétes, atte perto da çidade de Mõbaça, q fam quafi quatro çétas legoas de coíla, afora muitas ilhas q jazem de lõgo delia, q rende muito aho Rei. Elie Rei, & hos naturaes, & moradores da ilha fam da feita de iMafamede, pella môr parte pretos, & algús delles baços: Faliam todos arauia, andam fhuito bem atauiados aho trajo Mourifco, & Tur- •Fi.55t.ci.2.* quefco,* tem tratto per toda aquella coita atte ho eltreito do mar da Arabia. Ha çidade, & ilha de Quiloa eitão çem legoas allê de Moçam- bique quafi apegadas com terra firme, a ilha he muito viçofa de fructas, hortaliça, & boas aguoas, hai pello fertão muitas criações de gado groifo, & meudo, & muita caça, & montaria, & no mar muitos, & bõs pelcados, he muito fértil de fementeiras. Ha çidade he grande & muito populofa, has cafas 1'am de pedra, & cal, de muitos fobrados, & terrados, mui bemguarneçidas, & caiadas da banda de dentro, & de fora, & mui bem alfaiadas, pola gente de terra fer riqua: has naos em que nauegam fam 1 Et. /.; partio.
  • — 127 — de cauilha, cofida com cairo, breadas cÕ inçenfo brauo, por na terra nã hauer breu. Depois que Pedralurez chegou a Quiloa q foi a vinta feis de Iulho fez faber aho Rei que le chamaua Abrahemo, de fua vinda, & de quomo lhe trazia cartas delRei feu lenhor, & q fe queria ver com elle pêra lhas dar, que ordenafle onde ifto hauia de fer, porque elle não podia lair em terra, por lho afsi defender feu regimento. Com efte recado mandou Afonfo furtado, que iha por fcriuam da feitoria que fe hauia de fazer em Çofala, & cõ elle fette dos melhor atauiados da frota, pera ho acompanharem, elRei folgou de hos ver, & lhes fez bom gafalhado, rei- •Fi. 56d. i.* pondendo a Pedralurez que fua vinda foffe mui boa, que* daua graças a Deos por ver gente de terras tam alongadas das fuas naquelle feu porto, & de hum tamanho Rei, & fenhor, quomo tinha fabido que era elRei de Portugal, & que pois fe não podia ver em terra que folfe no mar, cõ ho qual recado lhe mãdou muito refrefco per hum dos prinçipaes de fua cafa, & dizer que fe viífem aho outro dia, pera ho que fe poferam de feita todollos capitães, cada hum em feu batel encaminhãdo perà çidade, dõde elRei jà partira, acõpanhado de muitas almádias, com géte atauiada de pãnos de telladouro, brocados, efcarlatas & outros de feda, & algo- dam, todos cõ terçados çingidos, punhaes, & agomias aho lado, delles de ouro, & pedraria de muito preço, tangendo muitas bozinas, anafis,^ trombetas, & outros inítruméeos4, aho que lhe dos bateis refpõdiam com has noífas, & das naos queítauam de feita, com artelharia. Neíte tempo elRei de Quiloa na fua almàdia, & Pedralurez cabral no feu batel fe ajuntarão bordo, a bordo, onde depois de feitas has çerimonias, & cor- tefias reqridas, lhe deu has cartas que leuaua delRei, fcriptas em Ará- bigo, & em Português, de q loguo fez ler has fcriptas em Arábigo, & moítrou gram contentaméto do contheudo nellas, fazendo grandes oífere- çimentos a Pedralurez, dizedolhe que dalli por diante elle fe tinha por •Fi. 56 ci. 2.' irmão, & alliado delRei* de Portugal, & que em ter hú tão grande, & poderofo Rei por irmão, & amigo fe tinha por muim ditofo, nilto, & em outras praticas eítiueram hú bom pedaço, onde antes que fe defpediífem ordenarão que aho outro dia foffe Afonfo furtado a terra, pera cõ elle affentar paz, & amizade: mas tudo fe fez aho contrairo, porque elRei de Quiloa induzido pelos mouros, quando lhe Afonfo furtado foi faliar, ho achou mudado dando excufas mais cheas dodio q de amizade. Com tudo pareçédo a Pedralurez que elta vontade fe lhe poderia mudar, eíteue ainda alli tres dias, mandandolhe lêpre recados damigo, mas fabendo per Molei homar, irmão delRei de Melinde que alli então eítaua, quomo 1 Et. I.: inftrumétos. \
  • 128 elRei de Quiloa mãdaua fortaleçer ha ilha, & çidade fe partio pera Melinde, onde chegou ahos dous dias do mes Dagoíto. Ho que fabido por elRei, na mefma hora ho mandou viíitar com muitos, & bos refrefcos, com eftes que trouxerão ho refreíco, mãdou Pedralurez viíitar elRei de Melinde, & dizerlhe que trazia cartas delRei, com hum prefente, & afsi ho feu embaixador q elle mandara a Portugal, do que moftrou leuar tanto contentamento, quomo fe ganhara humgrande thefouro, & cõ ho que leuou ho recado mandou hum homem fidalgo de fua cafa fazer •fi.56t.ci. i.* grandes offereçimétos a Pedralurez, pelo* que loguo aho outro dia mãdou Pedralurez has cartas que leuaua a elRei per Aires correa, & ho prefente, acompanhado dos milhor atauiados da frota, com trõbetas, & ataballes. Sabido per elRei ho apparato com que Aires Correa iha, ho mandou reçeber á praia pelos prinçipaes de fua corte. Defembarcados foram todos, aisi hos noífos, quomo hos que hosr vierão reçeber atte hos paços per entre duas renques de molheres q tinhão perfumadores nas mãos, com muito bõs cheiros, na qual ordem chegaram á cafa em q hos elRei eftaua fperando, aflentado em húa cadeira laurada douro, & prata. Aires correa em chegando fez fua cortefia apos ho que deu a elRei has cartas que lhe elRei dom Emanuel fcreuia em Arábigo, & Português, & lhe entregou pela mão ho feu embaixador, & deu ho prefente, fobello que paffadas muitas praticas elRei rogou a Aires correa, que hos dias que alli eftiuefle ha armada foífe feu hofpede, ho que fez com liçença de Pedralurez. Aho outro dia defejofo elRei de fe ver com Pedralurez, & fabendo pelo que já paífara com Vafquo da gama, & pello que Aires correa dixera, que era excufado infiftir cõ elle que vieífe a terra, lhe mandou recado que no mar ho queria ver, ho que fe afsi ordenou. ElRei por moftrar a todo ho pouo, ho rico prefente que reçebera, •fi.56t.ci. mandou* poer hum jaez douro da gineta, quecõ has outras peças do preféte vinha em hú ceuallo 1 muito fermofo, no qual caualgou, & nelle veo atte le metter na almádia, em que foi fallar a Pedralurez, que ho jà eftaua fperando com todolos capitães da frota, cada hú em feu batel, todos de fefta. Na vifitaçam houue muitos offereçimentos, & compri- mentos damizade, onde fe defpediram hú do outro, depois de terem fallado per hum bom fpaço: & porque ha tençam de Pedralurez era partirlfe loguo por nam perder ho tépo que lhe feruia, pedio dous pilotos a elrei que lhe loguo mandou dar. Deixou Pedralurez alli dous degra- dados, pera fe informarem do fertão, & verem fe podião ir per terra à corte do Emperador da Ethiopiarei, do Abexi, aque erradaméte chamão 1 Et. cauallo.
  • 129 — Prefte loam, coufa que lhe elRei muito encomédou quãdo partio do Regno, dos quaes hum fe chamaua loam machado, & ho outro Luis de moura, do ql loam machado, & dos bõs feruiços que fez naquellas partes a eftes Regnos fe fara adiante mençam. Ifto feito Pedralurez partio do porto de Melinde ahos fette dias do mes Dagofto, & ahos vinte, & dous chegou à ilha de Anchediua, onde efteue algús dias refazédoffe do tra- balho do mar, & dalli foi ter a Calecut, ahos treze dias do mes de •Fi. 57 cl i.« Septembro de Mil, & quinhentos.* Capitu. Iviii. Do que Ped.ralvre\ cabral pajfoti em Calecut HO mesmo dia que Pedralurez Cabral chegou aho porto de Calecut ho vieram vifitar à nao da parte delRei dous Naires de fua cafa, com hum mercador Guzarate homem rico, com hos quaes Pedralurez mandou loam de fá, q era hú dos q foram na viaje de Vafquo da gama, & por lingoa Gaspar da gama que vinha com elle, pelos quaes mãdou pedir liçença a elRei pera ho ir ver, & dar has cartas, & prefente que lhe trazia delRei leu fenhor, & pelo mefmo lhe mandou quatro Malabares dos q leuára Vafquo da gama, vertidos à portuguefa, do que elRei de Calecut leuou muito contentamento. Com ho recado que trouxeráo tornou Pedralurez a mandar hos mefmos, & com elles Afonfo furtado, & Aires correa, cõ hos quaes affentou elRei q fe viífem em húa cafa junto da praia a que elles chamão Çerame, à qual cafa (dados a refés de húa, & da outra parte) elRei veo acompanhado de todolos fenhores, & Naires que então andauam em fua corte, com muitos inftrumentos, entre hos quaes eram vinte trombetas, dezalete de prata, & tres douro, lauradas 'Fi.57ci.aA de obra muito fotil, entrefa-*chada de pedraria. Depois delRei fer no Cerame, Pedralurez fe veo a terra com algús dos capitães, cada hum em feu batel, deixando por capitam das naos Sancho de thoar, ho qual em chegãdo á praia tomaram do batel em hum andor, em q acompanhado de muitos Caimães, Panicães, & Naires, que iham a pé, foi leuado atte ho Çerame, onde achou elRei vertido de pãnos dalgodam, feda, & ouro, & arraiado de tanta & tam riqua pedraria, que nam fomente lhe fez efpanto quando a elle chegou, mas inda has chamas que delia fahiam, lhe impediam ha vifta. Ha cafa eftaua emparamentada, & alcatifada, & nella muitas, & grandes tochas de prata, fobre queftauã hús cãdieiros do theor, alumeados com azeite, com cuja claridade fe efcuriçia ho dia. Antes de entrar no Çerame ho vieram reçeber algús fenhores dos que ficáram com elRei, onde, feis partos antes de chegar aho eftrado fobre "7
  • % — 13o — que jazia lançado, em hum catel, eitauam dous feus irmãos, & um pouquo mais adiante húa cadeira de prata em que ho elRei mandou affentar, & dalli per interprete lhe pergútou quomo vinha, & quomo lhe fora em fua viegem 4, & quomo ficaua elRei de Portugal feu irmão, aho que depois de ter refpondido lhe deu has cartas que lhe leuaua delRei, & ho pre- 'Fi.97v.ci.i.» fente. Alli aífentou loguo Pedralurez com elle boa* parte dos negoçios aque iha, & entre outras coufas lhe conçedeo que toda ha géte darmada podeífe andar mui feguraméte em terra, & fazer feus negoçios quomo hos naturaes, que pera hafazenda, & offiçiaes delRei feu irmão, lhe mãdaria dar húa cafa em que todos eíliuelfem feguros, & podelfem fazer ho que lhes compriífe. Ho que afsi aífentado, Pedralurez fe tornou ás naos, acompanhandoho atte hos bateis muitos dos fenhores per mãdado delRei. A cabo de tres dias lhe mandou Pedralurez cabral recado, p hum caualleiro per nome Françifco correa, pedindolhe que lhe mandalTe dar ha cafa que lhe promettera, pera fegurança dos offiçiaes, & fazenda delrei feu fenhor, ha qual lhe elrei de Calecut mandou dar muito boa, pelo que, ordenou Pedralurez que Aires correa íe folie a terra,2 & depois de lá ler, & ver ha calidade da cafa mandaífe leuar das naos ha fazenda que lhe pareçelle neçeífaria, ho que afsi fez, & porque eftas cafas eram de hum Mouro Guzarate, que loguo começou trattar pouqua verdade ahos noffos, Aires correa pedio outras a elRei, que lhe loguo mandou dar, muito melhores, & mais juntas da praia, de hum Mouro per nome Cojebequij, que era hum dos mais riquos homes daquella çidade, a quem •Fi.97v.ci.j.4 por fe afeiçoar à noffa naçam, & fer muito amigo,* & feruidor dos Por- tuguefes, deftroiho depois elRei de Calecut, & lhe tomou fazenda que valia mais de oitoçentos mil cruzados, ho qual Cojebequij fendo eu moço vi defpois nelle Regno, onde veo requerer fatisfaçam de de luas perdas, a elRei dom Emanuel, & pedirlhe merçe, has quaes lhe fez, & deu offiçios honrrados na India com que fe tornou contente pera fua terra. Delias cafas fez elRei de Calecut doaçam pera todo fempre ahos Reis de Portugal, & diffo mãdou fazer ho padram em húa lamina douro, com letras talhadas aho boril, com ho feu final fculpido, & fello douro pen- dente. Aliem diílo mandou que fobela mefma cafa 1'e pofeffe húa ban- deira com has Armas Reaes de Portugal, pera fe laber que ha tinha dada ahos Portuguefes. Neíte tempo teue elRei auifo, q partira da çidade de Cochim húa nao que vinha da ilha de Zeilão, em que mercadores * El. /.: viagem. 1 Na Ep.: «mandou dar muito boa, e dados sobrisso outra vez arreies, ordenou que Aires correa se fosse a terra.» \
  • — 131 — leuauam Elephantes, pera ho Regno de Cabaia, entre hos quaes hauia hum bem enfinado à guerra, que lhe nam quiferam vender, pelo que mandou pedir a Pedralurez cabral que ha mandaffe tomar, por que era de feus imigos, aho que loguo mandou Pero dataide, & com elle Duarte pachequo pereira, Vafquo da fylueira, & Iam de fá, com hos quaes elRei mandou algús mouros, pera verem ho que hos noffos faziam. Quando •Fi. 58ci. i.* elRei* mãdou efte recado a Pedralurez eila nao era já à vifta da çidade de Calecut, pelo que Pero da taide le fez loguo à vela, & ha foi cometter dandolhe caça, & fem ha querer abalrroar, por ha fua nao fer muito fomenos que ha dos Mouros, que era de mais de feis çentos toneis, lhes mandou que amainaífem, do que fe elles rindo, & zombando começaram a dar gritas, & tirar frechadas, & defcarregar algúas bombardas de ferro que traziam, aho que hos noffos lhe relponderam com bõbardadas tam ameude que ha fezeram acolher já fobela noite à barra de Cananor, onde fe metteo entre quatro naos de Mouros, que alli eílaua furtas, mas tudo ifto lhe nam valeo, porque dalli ha tiraram aho outro dia, a pefar das quatro naos, & de todolos de Cananor, que lhe acudiram, & ha leuaram a Calecut, do que elRei efpantado veo à praia ver ha nao, da qual, & de tudo ho que nella vinha que era de gram valor lhe fez Pedralurez cabral leruiço em nome delRei feu fenhor. Aho dia leguinte informado elRei de Calecut, pelos Mouros que foram com Pero dataide, de quam animo- famente hos noffos ho fezeram, mandou pedir a Pedralurez que lhe mandaífe hos que foram naquelle feito, pera fe poder gabar que vira •Fi. 58el. a.* homes que mereçiam fer viftos de todolos Reis, & fenhores do* mundo, ahos quaes fez a todos merçes, & em elpeçial a Duarte pachequo pereira, por lhe hos Mouros dizerem que nunqua viram homem tam animofo, nem tam efforçado, & que elle fora ha caufa vniqua de fe aquella nao tomar, do qual, & das façanhas que fez na índia, & em outras partes, fe dira aho diante.1 Capitu, lix. Do quomo per treiçani dos morros de Calecut foi morto Aires correa, & outros Portuguefes, & do que fobrijfo Pedralurez cabral fez- HOS movros de Calecut reçeofos q hos Portuguefes foífem dalli por diãte mais fauoreçidos delRei, & dos da terra que elles, come- çaram de bufcar todolos meos, & modos que podéram pera deffazer em 1 Na Ep.: «e das façanhas que fez se dira aho diante.» t
  • — 132 noflo partido, coprando fecretamente has lpeçiarias que hauia na çidade, & vinham de fora, & has que ho feitor Aires correa punha em preço, por meo dos gentios, atraueífauam, lançado fobrelle, de maneira que has que alcançaua, era a preços defarrazoados, do que Pedralurez agaftado por hauer já tres mefes que alii eítaua, mandou dizer a elRei que le *fi.58t.c1.i.« lembraíTe quomo lhe promettera cargua pera has* fuas naos do dia que alii chegára a vinte dias, & que fe carregariam primeiro q nenhúa das queftauão no porto, ho que tudo fe fazia aho contrairo, porque nem has naos eram carregadas, nem ho feitor per ninhum preço podia cobrar lpeçiarias, & lobre tudo que no porto fe carregauam naos de mercadores, ho que fe nam podia fazer fern ho elle, ou feus offiçiaes 1 faberem, no que em tudo contrariaua ho que lhe promettera, que mandaíTe prouer niíto com breuidade, porque era já tempo de fe partir. Deite recado moítrou elRei delgoíto, dizendo que de tal coufa nam era fabedor, & que pois hos Mouros vfauam com elle manhas, & com lho elle mefmo ter defefo carregauão fecretamente fuas naos defpeçearias, que lhe daua liçéça pera das mefmas naos, pagado lhes ho culto, tomar has que lhe foífem neçef- farias. Pedralurez com eíte recado nam ficou muito fatisfeito, porque fabia já, per experiençia que era elRei de Calecut vario, & mudauel, & via que ho recado era cheo dalgú confelho armado e feu perjuizo, pelo que pos em duuida tentar ho negoçio, em lugar onde hos agrauados ferião mais poderofos, & mais fauoreçidos q hos noffos, mas mouido por reqrimentos que lhe cada dia mãdaua de terra Aires correa, dizen-/ •fi. 58v.d.a.» dolhe, que fem tomar fpeçiarias das naos dos Mouros, ha armada tor*naria de vazio pera ho Regno, porque elle fe nam atreuia achar mais da que jà tinha comprada, & iíto com proteítos de damnos & intereífes, mandou recado aho capitam, & meítre de húa nao, de que era fenhorio hum Mouro riquo de Calecut, per nome Cogeçem miçide, que eítaua já fora do porto carregada da2 mercadorias, ancora a pique, que fe nam fezeífe à vela, por ho elRei de Calecut afsi mandar, do que nam fazendo cafo, mandou ahos meítres da frota que cada hum em feu batel armados lhe foífem metter aquella nao á toa détro no porto, ho que fezeram fem cõtradiçã. Ho q fabédo ho fenhorio da nao fe foi logo aqueixar a elRei, & apos elle outros feus acheguados3, & amigos, Finalméte q com ha repoíta que achàram em elRei, & odio q tinhã ahos noífos por leré Chriltãos, fe ajuntaram hos mais dos Mouros da çidade, & cõ mão 1 Na Ep.: «sem ho elle, e seus offiçiaes...» * Et. das. 1 Na Ep.: «e atras elle outros seus acheguados...»
  • — 133 — armada foram dar na cafa da feitoria, em q poderia hauer atte íetenta homes Portuguefes, bem defcuidados do que lhes aconteçeo. Aires correa mandou loguo aruorar húa bandeira em lugar que fe podia mui bem ver da frota, pelo que Pedraluarez, por eftar em cama doente de febres, mandou a Sancho de thoar que cõ todolos bateis da frota fe foífe a terra, & viífe fe podia focorrer ahos nolíos, dos quaes hos mouros nefte •FUjçci. i.» comenos feriam, & mattauam com frechas* muitos dos queftauam fobellas paredes da cafa defendendo que nam quebraífem has portas. Ifto durou tanto que hauia já aho redor da cala mais de quatro mil Mouros, & Naires, que também hos ajudauam, hos quaes vendo que nam podiam ganhar ha cafa, com petrechos derrubáram hum lanço da parede, per onde começaram dentrar, ho que hos nollos vendo le fairam em orde- nança per húa porta da cafa que relpondia á praia, leguindohos hos mouros, mattando, & ferindo nelles, atte chegarem onde já Sancho de thoar eftaua com hos bateis, que pera recolher hos que vinham fogindo mandou faltar algús em terra, a que fe hos que vinham fugindo acolhe- ram, & juntos fembarcàram hos que poderam efcapar, com ha aguoa atte hos peitos. Morreram, & ficáram captiuos nefta peleja çinquoenta dos noífos, em que entre hos mortos foi hum Aires correa. Hos que fe faluáram foram hos mais delles feridos, de que depois morreram algús, & ha cafa foi faqueada, & roubada de tudo ho que nella hauia. Entre eftes que fe acolhéram à frota foi hum frei Hérrique, com algúas feridas nas coftas, & quatro frades dos feus, & Nuno leitam q lempre trouxe a par de fim hum filho de Aires correa, per nome Antonio correa, moço de dez annos, atte chegar á praia, onde hum marinheiro, hauendo dó •FX 59cl. i.« de* tam fraca idade, ho tomou, & leuou às coftas a hum dos bateis, ho qual Antonio correa, que ainda viue, fez depois muitos, & afsinados feruiços a eftes Regnos, quomo le em leu lugar dira. Efta defauentura aconteçeo, ahos xvj dias de Dezembro do mefmo anno de Mil, & qui- nhentos, do que mouido Pedralurez cabral, vedo que em todo aquelle dia, que efteue fem fazer mudança, nem dar final de querer fazer guerra à çidade, elRei de Calecut lhe nam mandaua nenhum recado, nem dif- culpa de hum tam graue cafo, aho outro, cõ cõlelho dos capitães, & pelfoas prinçipaes darmada cometteo dez naos de Mouros queftauam no porto, no que houue aífaz de refiftéçia, mas em fim depois de ter mortos mais de feis çentos, has naos foram entradas, nas quaes fe achou algúa pouqua defpeçearia, & outras mercadorias, & mantimentos, & três Ele- phantes que Pedralurez mandou mattar, & lalgar pera prouilam darmada, & algús mouros que achou elcondidos pelas naos mandou repartir pela frota, pera feruiré no que foffe neçeífario, por nella hauer falta de gente,
  • — 134 — pela muita que já era morta. Iílo feito mãdou poer fogo a eftas dez naos, que todas arderam á viíta da çidade, fem por calo da noffa arte- lharia, ouiar peíloa nenhúa lhes acodir, nem no tempo da peleja, nem •Fi.59T.ci.i.» depois de lhe terem poflo* fogo. Entreftas naos foi húa há do Mouro Cogeçem miçidi de Calecut fobre que fe armou eíta briga, na qual fe nã achou nenhúa fpeçiaria, donde manifeítamente fe vio, que ou hos Mouros enganàram elRei de Calecut, dãdolhe a entender que eítaua carregada, ou que elRei mouido per conlelho dos feus (que pela mór parte fauore- çiam hos Mouros) confentio na mefma treiçam. Queimadas has naos em q le paffou boa parte da noite, loguo aho outro dia pela manhã mandou Pedralurez esbombardearha çidade, ho que fe fez tam braua- méte, q muitos fe fairão delia, & afsi ho mefmo Rei, ahos pés do qual hum pelouro de bombarda mattou hú Naire muito feu priuado. Tendo jà hos nolíos bem á fua vontade elbombardeada ha çidade, & derribadas muitas cafas, & morta muita gente. Pedralurez fe fez á vela pera Cochim, por laber que ho Rei delejaua noffa amizade, onde chegou ahos xxiiij dias de Dezembro do mefmo anno de Mil, & quinhentos. Capitu, lx. Do que Pedralvre\ cabral pasfou em Cochim, & Cananor, & dahi atte chegar a Lisboa. ESTA çidade de Cochim eftá (ituada apar de hum rio que fe mette no mar junto delia,1 & ha fazem ilha.* Ho porto he limpo, & fe- guro, hos edifiçios fam quomo hos de Calecut, & das outras pouoações do Malabar. Ha nella muitos mercadores Mouros, & gentios. Ha terra he pobre, com tudo graçiofa, ho prinçipal tratto que tem he da pimenta: ho eílado do Rei he muito fómenos em gente, & riqueza que ho de Calecut, aho qual naquelle tempo obedeçia, & era obrigado feruir nas guerras que tinha com outros Reis, & lhe era tam fugeito, que quando lucçedia Rei nouo em Calecut, vinha fazer fua entrada em Cochim, & quomo entraua na çidade, delpunha loguo ho Rei, ficando em fua mão tornarlhe ho Regno ou dallo a quê lhe aprouueffe, mas cõ ho fauor dos noffos fe exétou deites trabalhos & fe fez muito riquo, & poderoib. Hos coítumes deites de Cochim fam quomo de todolos outros habitadores do Malabar, do que atras fica dito ho neçeffario. Quomo ha armada furgio Pedralurez mandou vilitar elRei per hú Ioge, que em Calecut fe veo metter na frota, & fezera chriítão, aquém pos nome Miguel, & por 1 Na Ep.: «apar de hú rio que ha faz em ilha, e se mete no mar junto delia...»
  • I — 135 — l'obrenome Ioge, quomo ho era fendo gentio, hos quaes fam homes reli- giofos a que chama Iogés, que andam por todas aquellas prouíçias pré- gãdo fuas feitas, muito abílinentes de vida. Cõ ha vifitaçam lhe mãdou «Fi.fcei. i.« dizer que a troquo de dinheiro, & outras coufas lhe mã-*dalfe dar pi- menta, & das drogas q entam houueffe na çidade, pera quatro naos, a que ainda faltaua carga. EIRei lhe refpõdeo que fua vinda fofTe mui boa, que fe tinha por ditofo em elle vir àquella fua çidade, que quanto á carga, podia liuremente mãdar cõprar ho que lhe foífe neçeífario, que tudo lhe venderiam pelos preços acoltumados, por fegurança do que lhe mandaua dous Naires, dos prinçipaes de fua cala, por arrefês dos que foflem a terra. De tam bõ recado ficou Pedralurez mui latiffeito, & na mefma hora ordenou que fofsé a terra por feitor Gõçalo gil barbofa, & por fcrinães1 Lourêço moreno, & Sebaíliam alurez2 & por lingoa Gõçalo madeira de Tanger, que fallaua bem arauia, & cõ elles çinquo degra- dados pa hos feruirem, hos quaes elRei madou reçeber á praia p pelfoas príçipaes de lua corte, & lhes fez muito gafalhado. Gonçalo gil barbofa, & Lourenço moreno depois dt' darem a elRei de Cochim ho recado de Pedralurez cabral, lhe aprelentaram algúas peças de prata, & outras coufas que lhe p elles mandou, do que elRei ficou mui cõtéte, & depois de fallar cõ elles fobre ho negoçio da carga hos defpedio, & mãdou apouletarem húa cafa fegura, dandolhes Naires pera guarda de luas pelfoas, & loguo aho outro dia le entendeo na cõpra da pimenta, & *fi. 6o cl. 3.' drogas que hauia na çidade, no q em* tudo fe fazia per mãdado delRei tanta diligençia, & verdade quomo fe ho negoçio fora todo leu. Fazen- doífe ha carga vieram recados a Pedralurez dos Reis de Cananor, & Coulam, Reis riquos, & poderofos na terra do Malabar, que fe quilefle vir tomar carga a feus portos, que tudo lhe dariam per preços arra- zoados, & has naos fe carregariam com mór breuidade que em nenhúa outra parte do Malabar, com outros offereçimentos damizade, do que fe Pedralurez exculou, dizendo que quando em Cochim nam achaííe ha carga que hauia milter, que entam ha iria tomar à fua terra delles, que ha boa vontade que lhe moítrauam lhes ferueria quando comprilfe. Aqui fe vieram pera Pedralurez dous índios irmãos Chriítãos, naturaes da çidade de Cranganor, hum delles per nome Iofeph, & ho outro Matthias, pedindo lhe que hos quifeífe leuar configo a Portugal pera dahi irem a Roma, & a Hierufalem, cõ que Pedralurez muito folgou, & hos mãdou agafalhar na fua nao. Tendo Pedralurez Cabral feita ha carga da 1 Et. L: fcriuães. 2 Na Ep.: «Lourenço moreno, e Bastiam alvrez...»
  • 136 — pimenta que lhe era neçeffaria em Cochim, & Cranganor, que he dalli çinquo legoas, tudo em fpaço de vinte dias, lhe mandou dizer elRei de Cochim que de Calecut era faida húa armada de vinte naos, & outros •Ft6ov.d. i.* nauios que ho vinham bufcar per mandado delRei, pera pe*lejarem com elle, na qual vinhão quinze mil homês de guerra, & loguo aho outro dia, que eram noue dias do mes de Ianeiro apareçeo ha armada, pelo que Pedralurez, que jà eitaua preites pera fe partir, fe fez á vela com teçam de hos ir cometter, mas pelo vento fer contrairo lhes nam pode chegar, nem elles oufaram abalrroar has noffas naos, com medo da artelharia, ho que vendo feguio fua veajem pera ho Regno, deixando em Cochim Gonçalo gil barbofa, & Lourenço moreno com outros Portuguefes, ho qual fendo atraues de Cananor, veo a elle, em hum zambuquo, hum Naire per quê lhe elRei mandara dizer, que ha carga que lhe faltaua quifeífe ir tomar aquella fua çidade, na qual lhe faria mui bom gafa- lhado, & lhe dariam tudo ho que folie neçeíTario, onde fe logo foi pera tomar canella, & algúas outras drogas, que lhe faltauão. No porto delta çidade entrou Pedralurez cabral ahos xv dias do mes de Ianeiro, de Mil, & quinhentos & hum. Ha qual he grande,4 & bê pouoada, has cafas fam aho modo das outras do Malabar, tem húa baia mui grade, & de bõ porto, he muito abaltada de carnes, pefcados, fruétas, & outros muitos mantimentos. Ho Rei he gentio, & hum dos tres prinçipaes Reis do Malabar, que fam ho de Calecut, & Coulão, & elle ho terçeiro, •Fi. fio v. ci. a.» mas não tam poderofo quo*mo hos outros dous, aqui tomou Pedralurez algum Gengiure, & quatroçentos quintaes de Canella, & outras drogas, ho que fabendo elRei de Cananor, cuidando que ho fazia por lhe faltar dinheiro, lhe mandou dizer que carregaífe quanto quifeffe, que elle man- daria pagar tudo á fua culta, que bem fabia que em Calecut fora rou- bado, & faqueado, ho que lhe Pedralurez muito agradeçeo, & ahos meífageiros mofltrou* hum grande cofre cheo de cruzados, refpondendo a elRei que nam compraua mais drogas por já ter toda ha carga q has naos podiam leuar. Iíto feito, & has drogas recolhidas tudo em hum fò dia, Pedralurez partio dalli ahos xvj dias do mes de Ianeiro, leuando configo hum embaixador que elRei de Cananor mandaua a elRei dom Emanuel, & fendo já perto da coita de Melinde, tomou húa nao grande de Cabaia, carregada de muitas mercadorias, que era de hum Mouro per nome Milicupij, fenhor de Barroche, ha qual foltou, com dizer aho 1 Na Ep.: «e quinhentos e hum, levando consigo hos dous Naires de cochim. Ha f idade de Cananor he grande...» 1 Et. moílrou.
  • — 137 — capitam que com elRei de Cambaia, nem com feus vaffalos, & amigos, nã queria fenam toda ha paz, & amizade, & que afsi ho podia dizer a Milicupi), porque naquellas partes não tinha elRei de Portugal feu fenhor guerra fe nam com hos Mouros de Meca, & cõ elRei de Calecut, polas treições, & enganos que fezera a teus capi*tães, & afsi fe defpedio delle, com lhe nam tomar mais que hum piloto, que lhe pedio pera ho guiar, no caminho que lhe ficaua por fazer daquelle golfam, ho qual tendo jà atraueífado, deu cõ tormenta ha nao de Sancho de thoar em hús baixos na cofta de Melinde, à qual mandou Pedralurez poer fogo, pera que hos da terra fe nam podeffem aproueitar do que nella iha, com tudo elRei de Mombaça mandou pefcar ha artelharia que lhe depois feruio cotra nos, quomo fe em feu lugar dirá, de modo qne 1 nenhúa outra coufa fe faluou q ha gente. Dalli fem poder tomar Melinde, nauegou atte Mo- çambique, onde deu pendor ás naos, & mandou defcobrir per Sacho de thoar ho porto de Çofala, mandando lhe que cõ has nouas do que achaffe, fe foífe rota abatida pera ho Regno. Feita aguoada, & conçer- tadas has naos Pedralurez cabral fe fez à vela, & dobrou ho cabo, ahos vinte, & dous dias do mes de Maio, dia do Spiritu fan&o, & dalliveo ter aho Caboverde, õde achou Pero diaz que lhe defapareçera quando iha perà índia quomo fica dito. Do Cabo verde lem tomar outro porto, chegou a Lisboa, aho derradeiro dia de Iulho, de Mil, & quinhétos, & hum, eftãdo elRei em Syntra, que de lua vinda foi mui alegre, pofto que com algúa trifteza por cafo da géte que morrera nas naos que çoço- braram.* Capitulo. Ixi. Do cafamento do dvqve de Bragança do Iaimes, & da mudança que quifera faqer de fua vida, ejlado: & partida de dom Vafquo da gama perà índia ha fegunda veq. DOM Iaimes dvque de Bragança filho do Duque dom Fernando, foi home me prudente,4 & muito dado à religiam, mais defejofo de nella feruir a Deos, que nam em outro eftado. Pelo que cõtra fua von- tade, & com defgofto, por comprazer a elRei, & a Rainha donna Leanor 1 Et. que. 2 Na Ep.: «Dom Jaimes Duque de Bragãça, filho do Duque dom Fernado, a quem elRei dom Emanuel, quomo atras fica appontado restituio todolos bes da coroa q seu pai perdera, foi home prudéte,...» 18 • Fl. 6i cl. i.* •F1.6i cl. a*
  • — 138 íeus tios, & á Duquefa dona Ifabel fua mal, poíto que naquelle tempo andaíTe muito doente de humor maleconico cafou em idade de 1 vinte, & hum annos, no anno de Mil, & quinhétos, & hum, com donna Leanor de mendoça, filha legitima de dom loam de Guzmam,* terçeiro Duque de Medina fidonia, Conde de Niebla, com ha qual fenhora lhe deram grade dote de dinheiro, baixellas, & ornamêtos de fua caia, & ha trouxeram a Portugal no anno de Mil, & quinhentos, & dous, moça, fem ainda ter idade pera fe entrelles poder confumar ho matrimonio, do que ho Duque defgoftofo, com ha vontade que trazia de feruir a Deos em religiam, ■F1.61 v.ci. i.« mais que no eftado matrimonial, induzido, & acon-*felhado per frades da ordem de fam Françisco da obferuançia a que chamam da Piedade, de quê era, & fempre foi muito deuoto, determinou de fe ir fora do Regno, pera em Hierufalem tomar habito de religiam, & nelle paífar todo ho difcurfo de fua vida, & antes de ho poer em obra fcreueo húa carta a elRei, que depois delle fer ido lhe deu hum defies religiofos, na qual lhe pedia que não tomafle a mal fua determinaçam, que elle ho fazia por fe não achar apto, nem pera ho matrimonio, né pera reger hos bés, & cafa de q lhe fua Alteza fezera merçe, pelo que lhe pedia por amor de nofío Senhor Iefu Chrifio que de tudo fezeífe merçe a feu irmão dõ Dinis, com ho mefmo titulo de Duque, no que faria feruiço a Deos, & a elle afsinada merçe. Dada efta carta aho meffageiro q ha trouxe, ho Duque le partio de Villa viçofa com hum fó companheiro a cauallo, fem outro nenhum criado, tomando ho caminho de Caftella, atte chegar á çidade de Calataud, no Regno Daragam, onde foi achado per algúas das peífoas que elRei dom Emanuel mãdou tras elle, per mar, & per terra, em a qual çidade quomo foi conheçido lhe fezeram hos gouerna- dores, & todalas outras peffoas nobres que nella viuiam, muita cortefia, & dahi fe tornou aho regno, & fez vida cõ lua molher, de que houue dõ •fi.6iy.ci. s.' Theodofio q ho fucçe-*deo, & donna Ifabel que cafou cõ ho Infante dom Duarte filho delRei dom Emanuel. Depois da morte da qual fenhora oito annos, elle fe cafou3 no de Mil, & quinhentos, & vinte, per vontade delRei dom Emanuel, com húa dama fermofa4, prudente, & difcreta, per 1 Na Ep.: «e a Duquesa dona Isabel sua mai, casou em idade de...» 3 Na Ep.: «com donna Leonor de Guzmão, filha legitima de dom Joam de Guzmã...» 3 Na Ep.: «e dona Isabel q casou oõ o Infante dõ Duarte filho delRei dõ Emanuel, ha qual Duquesa dõna Leonor elle matou ás punhaladas com hum seu page de sobre- nome Alcoforado, com quem tinha suspeita que lhe fazia adultério, e acabo doito annos s» casou.. » 4 Na Ep.: «com húa dama muito fermosa.»
  • — i3g — nome dona Ioanna de Médoça, de que houue filhos, & filhas, f. dom Iaimes que faleçeo folteiro, dom Coftantino1 que foi camareiro mór delRei dom Ioão terçeiro, & viçerei da índia, dom Fulgençio que he cleriguo, dom Theotonio também cleriguo, & viue com elRei dom Phe- lippe de Caftella, donna Ioanna que cafou ê caftella cõ ho marques Delche, filho herdeiro do duque de Maqueda, donna Eugenia que cafou com dõ Françifquo de Mello code de Tentúgal, filho herdeiro de dom Rodrigo de mello, marques de Ferreira, donna Maria, & dona Vinçençia ambas freiras profefas: ha qual fenhora ainda viue2, com honrrada caia, & eílado que lhe ho Duque feu marido deixou. Neíte anno de Nil3, & quinhentos, & dous, mãdou elRei no mes de Feuereiro hua armada á índia, de que foi por capitão dom Vafquo da gama, do fucçeífo da qual & do que na índia fez, & paífou em toda ha viagem direi no anno de Mil, & quinhentos, & tres em que tornou a eftes Regnos.4 Capitu, lxii. Do nafçimento do príncipe dom loam, & da armada •fi. 62 d. 1.» que elRei mandou aho EJireito.* QVOMO atras fica fcripto, elRei do Emanuel cafou na Villa Dal- caçer do fal com ha Rainha donna xMaria, húa feita feira trinta dias do mes Doftubro de Mil, & quinhentos, nas cafas de Rui gago, & dalli fe vieram a Lisboa, onde ha Rainha pario ho Prinçipe dom loam, nos paços Dalcaçoua, húa fegunda feira, feis dias do mes de lunho de mil, 1 Et. Conftantino. 2 Na Ep.: «de que houve filhos e filhas, ha qual senhora ainda vive.» 3 Et. 1.: Mil. * Este capítulo não podia ser do agrado do Conde de Tentúgal, que na Critica replicou: No capitolo 61 trata do casamento do Duque Dom Gamej, e da sua ida destes reynnos pera leru\alem, e da morte de sua molher. Se elle tratara neste livro tamtas vefes, como fora rejão, suas muitas vertudes, gramdes merecimentos e cervjços, não me parecera tão mal o que nestas cousas trata tão particularmente, mas jaa que pasou tão depresa pelas outras, tãobem pudera fajer nesta, porque em húa teve a culpa sua maa desposição que amtão tynha de malemconya, e na outra não he re\ão detriminar se tão prestes quem a teve, e por yso não divera tratar tão particularmente este negoçio, Damião de Goes respondeu: Ho Capitolo Ibj do casamento do Duque estaa do mesmo modo que suas senhorias querem, ejaa estava concertado amtes que me desem os apomtamentos. Ao que replicou o Conde: Ho capitolo lxbj,poys estaa emendado, não tenho ahy que difer. Cfr. Edgar Prestage, op. cit., págs. 363, 366, Z72.
  • — 140 — & quinhentos, & dous *, no qual dia foi na çidade tamanha tepeílade de chuuas, corifcos, & trouões, que nenhum dos antiguos le lembraua doutra tal, per cujo nafçimento fe fezeram na çidade, & no Regno muitas feitas. E paliados hos oito dias do parto, ho Prinçipe foi baptizado na capella de fam Miguel dos mefmos paços, no ql dia fe açendeo fogo nelles. Baptizouho dom Martinho da coita Arçebifpo de Lisboa. Leuouho á pia dom Iaimes Duque de Bragança: has madrinhas foram ha Infante donna Beatriz maí delrei dom Emanuel, & ha rainha dona Leanor fua irmam. Ho padrinho foi2 Pero palqualigio embaixador de Veneza, que em nome *|Fi.6jd í.* da Senhoria viera dar has graças a elRei pelo focorro que lhes man-* dára contra ho Turco, quomo atras fica dito. A elte Embaixador armou elRei caualleiro de fua mão, & lhe deu liçença que podeífe trazer no efcudo de fuas armas ha infignia da Sphera dourada, aliem do que lhe fez muitas merçes, com que fe tornou pera Veneza muim fatisfeito, onde no Senado publicamente dixe muitos, & afsinados louuores delRei, ho que de nouo confirmou ha boa amizade que hos Venezeanos tinham, de. muito tempo atras, com hos Reis deites Regnos. Nelte anno mandou elRei húa armada de naos, carauellas, & galés aho eltreito de Gibaltar, de que foram por capitães, em duas capitanias feparadas George de mello, & George daguiar, pera ire fobella villa de Targa donde tornaram desbatados2 com perda dalgúa gente que deixaram morta, & outra q trouxeram ferida*. Capitu, lxiii. De quomo elRei mandov loam da noua á índia por capitam de quatro naos, & do que pajfou atte tornar aho Regno. COM ha informaçam que dó Vafquo da gama deu a elRei das coufas da India, & da Ethiopia, modo, & tratto da gente deltas •Fi.62T.ci.I* prouinçias, afientou de ordinariamente mãdar cadanno húa* armada àquellas partes, & porque ha de que fora por capitã Pedralurez cabral lhe pareçeo fufiçiete pera fe has coufas de Calecut appaçificarem, & 1 Na Ep.: «Julho de mil e quinhentos e dous. 3 Na Ep.: «e a rainha dõna Leonor. Ho padrinho foi...* 3 Et. desbaratados. 4 Na Ep.: «e George daguiar, mas do que nesta viagem passaram nam achei cousa que nenhúa por lembrãça de que me podesse ajudar, pera screver ho que lhes nella aconteçeo...» É uma correcção devida a informações posteriores à publicação da crónica.
  • — hi — reformarem has amizades com ho Rei da terra, nam quis mãdar no anno de Mil, & quinhentos, & hum, mais que tres naos, & húa cara- uella grade, de que deu ha capitania a loam da noua galego de naçam, bom caualleiro, que em Africa tinha feitos muitos feruiços aho Regno, & feruia entam de alcaide de Lisboa, offiçio que naquelle tempo fe nam confiaua fenam de homes fidalgos de boa confçiençia, por fer hum dos prinçipaes da çidade, que emtam feruia hum fó homem, & nam tantos quomo ho agora fazem. Hos outros capitães eram Diogo Barbofa criado de dom Aluaro, irmão de dó Fernando Duque de Bragança, cuja ha nao era, & Françifco de nouaes criado delRei, & da carauella Fernam vinet de naçam Florentim, criado de Bartholomeu marchione Florentim fe- nhorio da carauella, mercador muito rico, reíidente na çidade de Lisboa. Partio eíta armada do porto de Bethelem ahos çinquo dias do mes de Março do anno do Senhor de Mil, & quinhentos, & hum. Na ql viagem, lendo jà da bãda do Sul, achàram húa ilha a que poferam nome da Conçepçam, & fem lhes mais aconteçer cafo que de cotar feja, chegaram •Ki C2T.ci.2.« a Moçambique na* entrada Dagofto, & dalli foram ter a Quiloa onde acharam hum Antonio fernandez degradado, carpinteiro de naos que deu húa carta a loam da noua de Pedralurez cabral, em que contaua ho mefmo que Pero da taide deixara fcripto em húa carta que acharam metida em hum çambarquo, pendurado em húa aruore na aguoada de fam Bras, em que relataua hos negoçios de Calecut. De Quiloa nauegou a Melinde, onde lhe elRei deu larga informaçã de todo ho negoçio de Pedralurez cabral, pelo que fe partio loguo perá India, & com bom tépo chegou no mes de Nouembro á Ilha de Anchediua, donde depois de fazer,, aguoada fe foi a Cananor, pera fe ver com ho Rei, que lhe fez muito gafalhado, & olfereçeo carga perás noaos 1 fe alli ha quileíTe tomar, & dinheiro fe lhe compriífe, moftrando fer muito amigo delrei dom Emanuel, do que tudo lhe deu has graças, dizédolhe que não podia fazer nada fem primeiro ir a Cochim, no qual caminho tomou per força húa nao de Calecut, que depois de defpejada mãdou queimar. Antes que loam da noua partiffe de Cananor lhe mãdou elRei de Calecut recado per hum português per nome Gonçalo peixoto, que no dia em que mattaram Aires correa fe faluara em cafa de Cojebequij, difcul- • fi.63cl. i.â pandolíe do que acõteçera a Pedralurez cabral, dan-*doífe por fem culpa do que entam paliara, pedindolhe que quifefie quomo amigo illo ver, & tomar carga naquelle íeu porto, onde acharia tudo ho que lhe folie ne- çefiario, pelo qual Gõçalo peixoto Cojebequij mandou dizer a loam da 1 Et. naos.
  • — 142 — noua que fe nam fiaífe delrei de Calecut, que tudo eram falfidades, pera ho acolher à mão, & ho mattar, & tomar ás naos: aho qual recado nam quis relponder, nem Gonçalo peixoto quis tornar a Calecut. Ha chegada de loam da noua a Cochim foi pera hos noffos refuçitar, & tornar de nouo aho mundo, porque ainda que hos ho rei fauoreçeífe muito & mandafie de noite, & de dia guardar pelos feus Naires, andanã ' tã atimorizados dos Mouros da terra, que lhes pareçia que nam podiam efcapar de hos mattaré, fem mais verem peffoa nenhúa do regno. Elrei de Cochim fez muita honrra, & gafalhado a loam da noua, mandandolhe loguo dar todo ho auiamento neçeífario perà carga das naos, offereçen- dolhe aliem diflo2 dinheiro, & todallas coufas que delle, & de feu Regno, & vaífallos lhe comprifle. Carregadas has naos das fpeçearias que ho feitor Gonçalo gil barbofa tinha preftes, & doutras que fe compraram depois, loam da noua ie defpedio delRei de Cochim, & dos Portuguefes que ficauam na çidade, pera íe ir a Cananor tomar ho que lhe faltaua •Ki.63 d. 5.* pera compri-*mento de toda ha carga. Eftando já preftes pera partir, ahos xvj dias do mes de Dezembro appareçeram ala mar mais de oitenta paráos, hos quaes elRei de Cananor lhe mandou dizer que eram delRei de Calecut, que ho vinham cometter, que de feu confelho fe deuia chegar bem a terra, pera ho elle (fe neçeífario fofle) mãdar focorrer, porque com quatro velas que tinha feria imdofsiuel3 defenderfle a tantas, & á muita gente que nellas vinha: loam da noua lho teue em merçe, & mandou dizer q fperaua em ho Senhor Deos hauer delles victoria fem outra ajuda. Aho dia feguinte pela manham amanheçeo ha terra de Cananor çercada deites paraos, & doutras naos 4 que per todas paíTauam de cé velas, loam da noua vendo que ho porto, & paífo per ode hauia de fair lhe era tomado, veofle poer no meo da baia em tal ordé, que afsi elle quomo hos outros capitães fe podiam ajudar da artelharia, man- dandolhes que jugaífem com ella fem çelfar, de modo que hos imigos hos nam abalrroaflem, porque nifto eftaua toda fua faluaçam, ho que fe fez com tanta ordem, que pofto que has naos, & paráos de Calecut niífo trabalhaífem muito, ho nam oufáram fazer, no que fe paífou todo ho dia atte quafi foi pofto, à qual hora fendo já dos índios mortos quatro *ki.63t. ci. i.* çentos, & dezafette, quomo fe depois foube,* & muitos feridos, & algúas 1 Et. L: andauã. 1 Et. diflo. 3 Et. impofsiuel. 4 Na Ep.: «amanheçeo ha barra de Cananor cercada destes paráos, e doutras naos...» É correcção de um erro tipográfico.
  • — 143 — das naos, & paràos mettidos no fundo, aleuantaram hos imigos húa bandeira de paz, ho que pareçédo manha mais q vontade, né defejo de paz, mandou loam da noua aleuãtar ho feu guiam, fem ha artelharia çeífar, cõ tudo hos imigos nam quiferam abater ha bandeira, mas antes capeando dauam a entender q queriam fallar aho capitam, pelo q mandou també aruorar outra bandeira, dandolhes final de paz, cõ ho ql feguro veo loguo à capitaina hum Mouro pedir tregoas ha loam danoua atte ho outro dia, que lhe conçedeo a cõdiçam que fe laiffem loguo da baia, & deixaffem ho paíTo liure pera elle fair quando quifefle, ho que afsi fe- zeram, & indo elles diãte, & ha nofla frota na lua reçaga fe fairam todos da baia, fendo já de noite, furgindo nam mui lõge hús dos outros. Mas polto que ha tregoa ainda duralfe, né por iíTo deixaram hos imigos de mandar anado algús dos feus, pera cortarem has amarras ás noífas naos, & trás eftes almádias cõ géte ^pera tanto q has amarras foíTem cortadas, lhes lãçàrem fogo dentro, ho q fezeram fe nam forão fentidos, & lhe loguo nam refponderão cõ tiros defpingardas, & de bombardas, cõ que hos fezeram afaílar. Nifto le paliou toda aquella noite, atte ha alua do dia, na ql virão hos noífos que toda ha frota dos imigos fe iha •fi.63». ci. 3.* recolhedo pera Ca-*lecut, do que deram muitas graças a Deos, poios liurar de hú tamanho perigo. Dalli partio loam da noua lem tornar a Cananor, por fe jà ter defpedido delRei, & dos Portuguefes que ficauam na çidade. Seguindo afsi lua viajem tanto auante quomo ho monte Delli, tomou húa nao de Calecut que depois defaqueada mandou quei- mar, dalli veo ter a Melinde & de Melinde a Moçambique, donde, pal- iado' ho cabo de boa Sperança, veo ter a húa ilha, a que pos nome de fanda Helena, em que fez aguoada, ilha de muito bõs ares, pofto que pequena, muito proueitofa a todallas noífas naos que a ella vam ter, pela boa aguoa, frudas, & carnes que nella acham, da qual leguindo viajem chegou a Lisboa com fua frota juta ahos xj dias do mes de Septembro, de Mil, & quinhentos, & dous, onde foi reçebido delRei, & de todolos da çidade cõ muito prazer pola boa viajem que fezera, & ilhas que delcobrira. Capi. lxiiii. De quomo elRei foi aforrado a Gallina viftar a cafa do Apojlolo Sanâiago. PER caso das boas andanças, & fucçeífo deltas viajes, fazia elRei, allé de fuas acoftuma*das elmolías, outras de dinheiro, & fpeçia- rias a muitas cafas de religião, afsi neftes Regnos, quomo fora delles, &
  • I — 144 — ho meimo a peffoas particulares, pera q per interçeffam, & oraçam deites prouueffe a Deos lhe profperar feus negoçios de bem em milhor, aliem do que, afsi elle quomo ha Rainha pelfoalmente vifitauam muitas cafas de deuaçam, entre has quaes prefopos de ir a Galliza á do Apof- tolo Sandiago, íituada na çidade de Compoltella. Neila romajem leuou configo ho Bifpo da Guarda, dom Pedro, que era também Prior de fanéta Cruz de Coimbra, & dom Diogo lobo barão Daluito, dom Mar- tinho de Caftel branco, dom Nuno emanuel feu guarda mór, dom An- tonio de noronha feu fcriuão da puridade, & dom Fernando fegundo Marques de villa Real, aquém elRei mãdou depois de fer em Galliza, por nam querer que fe foubeífe qual dos da companhia era, que todos acatartem quomo a lua pefloa. Partio elRei de Lisboa afforrado no mes Doctubro deite anno de mil, & quinhentos, & dous, fazendo feu caminho per Coimbra, onde vifitou ho morteiro de S. Cruz, & vedo que ha fepultura delrei dõ Afonlo henrriquez fundador daquella rica, & fumptuofa cafa, requeria outra mais digna ahos mereçimentos de hum tão magnânimo •H6«ci. j.* Rei, logo prefopos de ha mãdar fazer de nouo, quo-*mo depois fez, do modo que agora eftá. Dalli foi ter a Montemór ho velho, & Aueiro, & aho Porto onde ordenou que ha fepultura de Iam Pãtalião fe acabafle pelo modo que ho elRei dõ loam mãdára em feu teftamento. Do porto foi a Valença de Minho, & em algúas villas deitas mandou fazer jultiça rigu- rofa de peífoas em q atte aquelle tempo fe nam podéra fazer execuçam, pela muita valia, & parentefco que tinham naquelles lugares. De Va- lença entrou 5 Galiza pela çidade de Tui, tomando dalli ho caminho direito atte ha cafa do bemauéturado Apoftolo, com muita deuaçam, onde fe deixou conheçer, & foi feftejado, al'si do cabido da Sé, quomo dos gouernadores da çidade, & fidalgos que nella morauam. Efteue elRei três dias cõtinuos na çidade de Compoftella, acabo dos qes, depois de ter feitas, por fua deuação, muitas efmoilas à mefma cafa, Sprital, & peífoas neçefsitadas, fe tornou pa ho Regno, fazêdo merçes a todolos hofpedes das cafas em q poulaua, atte chegar a Lisboa, Õde achou ha Rainha nos paços de Sanétos ho velho, de quem, & de toda ha corte foi reçebido cõ muita alegria. E loguo depois de fua vinda mãdou que le fezeffe húa alampada de prata de feiçam de hú caftello, que mandou poer na Sé de Sanétiago, diante do altar mór, q era ha mais riqua de •Fi.64v.ci. i.* quantas fe atte* quelle tempo naquella cafa offereçeram, & afsi ordenou que fe cõpraflem rendas em Galliza, pera feita alampada alumiar conti- nuamente de noite, & de dia, quomo fe fempre depois fez.
  • — 145 Capitu, lxv. De quomo elRei qvifera passar em Africa, & ha caufa porq dejijlio de ho fa\er, & darmada q mãdou à índia, capitães Afonfo dalbuquerque, & Françifco dalbuquerq, & da ida de Gonçalo coelho a terra de S. Cru\. EM qvanto elRei viueo fempre feu defejo, & vontade foi paffar em Africa, pera peífoalmente fazer guerra ahos Mouros, mas ho tépo, & fucçeífo delle núqua lhe quis a iífo dar azo, ho que no anno de Mil, & quinhêtos, & tres quifera poer em obra, cõ ha mefma com- panhia com que ho dantes tinha ordenado, quando per rogo do Papa mandou focorro ahos Venezeanos contra ho Turco, quomo atras fiqua dito. Sabida eíta fua determinaçã pelo Regno, todolos queítauão appõ- tados pera ha outra viajem fe começáram daperçeber no começo deltanno de Mil, & quinhentos, & tres, mas ha primavera deu de fim tã mao final cõ chuuas, & tépeítades que has fementeiras que já erã feitas fe •Fi.õt T.ci. a.» perdérão pola mór* parte, & ás queftauam pera fe fazer nam deu lugar, pelo q loguo no começo do anno ho pão começou a ter valia, & pouco a pouco tanta, que não tão fomente hos pobres, mas hos riquos ientiam ha careftia, & veo a tanto, que né por dinheiro fe achaua trigo, né nenhú outro pão, nem legumes, do que ha gente conftrãgida pela grande, & incomportauel fome que padeçia, comião muitas viádas 1 defacoftumadas, raizes deruas & outras coufas de que fe depois feguiram muitas doenças mortaes, pela qual caufa elRei defiftio deita emprefa, & quomo virtuofo Rei mandou de fua fazéda comprar muito pão em Oítelãda, Holanda, Flandres, Inglaterra, & França, aho que foram criados feus de confiança pera com mór diligençia ho hauerem, ho qual pão depois de ler no Regno p fua ordenança fe deu pelo culto. Neite anno mãdou elRei à índia por capitam de tres naos Afonfo dalbuquerq, & Frãçifco dalbu- querque, feu primo por capitã doutras tres, dos quaes, & do que paffarã em toda ha viajem fe dirá no ãno de Mil, & quinhentos, & quatro, em qne * Afonfo dalbuquerq tornou aho Regno. No melmo anno mandou Gõçalo coelho com feis naos á terra de fanéta Cruz, cõ que partio do porto de Lisboa ahos dez dias do mes de Iunho, das quaes por ainda •Fi.65d. i.« terem pouca notiçia da terra, pdeo quatro, & has* outras duas trouxe aho Regno, com mercadorias da terra, que entam nam eram outras, q pao vermelho, a que chamão Brafil, bogios & papagaios. 1 Et. viádas. ' Et. I.: que. »9
  • — 146 — Capitu, lxvi. De quomo elrei ma.nd.ov dvas naos em bnfca dos corte Reaes, q fe perderam indo a defcobrir perà banda do Norte. GVASPAR corte Real, filho de loam vaz corte Real, foi homem auentureiro, esforçado, & defejofo de ganhar honrra, pelo q propos de ir defcobrir terras perá banda do Norte, porque perà do Sul tinhão ja outros deícubertas muitas, & afsi de fua fazenda, quomo de merçes q lhe elRei fez, cujo criado já fora em fendo Duque de Beja, armou húa nao com ha qual bem elquipada de gente, & de todo ho mais neceíTario, partio do porto de Lisboa no começo do verão do anno de mil, & quinhetos. Neila viajem defcobrio, perá quella banda do Norte, húa terra que por ler muito frefca, & de grades aruoredos, quomo ho Iam todas has que jaze peràquella bãda. lhe pos nome terra verde. Ha gente da qual he muito barbara, & agrefte, quafi do modo dos da terra de fanda Cruz, fe não q iam aluos, & tã cortidos do frio, q ha *fi. 65 ei. a." aluura fe lhes perde cõ ha idade,* & ficã quomo baços. Sam de corpo meãos, muito ligeiros, & grandes frecheiros, feruem fe de paos toílados em lugar de azagaias, cõ que ferem de arremeífo quomo le foífem for- rados de aço fino: veíté fe de pelles de alimarias, de q na terra há muitas. Viuem em cauernas de rochas, & choupanas, nam tem lei, crem muito em agouros, guardã matrimonio, & fam muito çiofos de iuas molheres, nas quaes coufas fe pareçem com hos Lapos, que também viue debaixo do Norte, de lxx atte Ixxxv grãos fugeitos ahos Reis de Noroega, & Sueçia, ahos quaes pagam tributo, ficando fempre em fua gentilidade, por íalta de doólrina, da qual tyrania no liuro que cõpus da fé, coítumes, & religiam dos Ethiopios, Abexis em lingoa latina, dedi- cado aho Papa Paulo terceiro, na fim delle fiz húa deploraçam, em q tratto per extenfo dõde eíte tamanho mal proçede. E tornãdo a Gafpar corte Real, depois que defcobrio eíta terra, & coíteou húa boa parte delia fe tornou aho Regno, & loguo no ãno de M.n.i, defejofo de defco- brir mais deita prouinçia, & conheçer milhor ho modo, & tratto delia, partio de Lisboa ahos xv dias do mes de Maio, mas ho q neíta viajem pafiou fe nam fabe, porq nuca mais appareçeo, nem fe foube delle noua, ha tardãça do qual, & mà fufpeita q fe começaua a ter de fua viajem, •Fi.65v.ci.!» caufarã ho mefmo in-*fortunio a Miguel corte real, porteiro mór delRei, que peito grande amor q tinha a feu irmão determinou de ho ir bufcar' & partio de Lisboa ahos dez dias de Maio de M.d.ii, cõ duas naos fem nunqua delle fe mais hauer noua. Ha perda deíles dous irmãos fentio
  • i47 elRei muito, pela criaçam q nelles fezera, pelo que mouido de feu real, & piadofo moto, no anno feguinte de M.d.iii, mandou duas naos armadas à fua culta bufcalos, mas nem de hum, nê do outro fe pode nunqua faber onde, nem quomo fe perderam, pelo q íe pos, áquella prouinçia da terra verde, onde fe cré que feítes dous irmãos perderam, ha terra dos corte Reaés. Tinham eítes dous irmãos Gafpar, & Miguel corte Real outro irmão mais velho qlles, a que chamauão Vafqueanes corte Real, q era veador da cafa delRei, do feu confelho, capitam, & gouernador das ilhas de fam George, & terçeira, & alcaide môr da çidade de Tauilla, muito bom caualleiro, bom Chriftão, home de fingular exéplo de vida, & de muitas efmollas publicas, & fecretas, cujo filho herdeiro he Emanuel corte Real, também do confelho delRei, & capitã das mefmas ilhas q aho prefente viue. Efte Vafqueanes corte Real, nã fe podêdo perfuadir q feus irmãos erã mortos, neíte anno de M.d.iji, determinou de cõ naos •F1.65V.Cl.2.» á fua propria culta hos ir bufcar, mas tendo elRei* por excufada fua ida, lho não quis confentir, nem fe proçedeo mais neíte negoçio, por fe ter por defneçeífaria toda ha defpefa que fe niífo mais fezeffe Capitu. Ixvii. De quomo Elrei fe\ cortes em Lisboa onde ho Príncipe foi jurado, & do feruiço q lhe hos pouosfe\eram per a ajuda das reparações dos lugares Dafrica & outras dejpefas neçejfarias. EPOIS da partida de Afonfo, & Frãçifco dalbuquerque perà índia, determinou elRei no verão deite ãno de M.d.iii, fazer jurar ho prinçipe dó Ioã feu filho, por feu ligitimo herdeiro, pera ho q mãdou vir os procuradores das çidades, & villas a Lisboa, a que també vierão todolos prelados, & fenhores, hos quaes juntos nos paços Dalcaçoua, fezeram ho juramento em mãos delRei, que per fua propria peífoa ho reçebeo de todos, em nome do prinçipe dom loam feu filho. Acabado elte ado, & çerimonias, hos eítados propoferã nos dias feguintes hos artigos q lhe pareçeram fere neçeífarios pa bê do Regno, ahos quaes elRei refpondeo fegundo ho q cada hú delles requeria. Neítas cortes conçederão hos procuradores das çidades, & villas a elRei, pera ajuda dos •Fi. 66 cl. I.» galtos, & defpefas* que fazia nos lugares Dafrica çinquoenta mil cruzados, excufandoífe não podere mais, por refpeito das fomes paífadas, & careltia de todallas coufas, de q todo ho Regno eítaua tam pobre, & neçeííitado que fe nam atreuião fazerlhe ho feruiço que defejauam, pera ha arrecadação do qual dinheiro lhes deu elRei termos largos, & fuffiçientes, pera fe fazer fern auexarem aquelles a que ha obrigaçam deite feruiço tocaua. V
  • — 148 — Capit. Ixviii. Do que ho almirante dom Vasquo da gama pajfou ha fegunda ve\ que foi á India at te chegar a Cochim. INFORMADO elRei per Pedralurez cabral do q paffara cõ elRei de Calecut, & das treições q lhe hos mouros da terra armaram, deter- minou de ho mãdar outra vez á índia, mas por elRei querer feparar da lua bãdeira çinquo velas q també mandaua á India, de q tinha dada ha capitania a Viçente fodre, pêra ficar lá, & andar darmada cõtra hos mouros, le excufou de ho fazer, pelo que deu ha capitania da mefma armada a dõ V alquo da gama, em q entrauao dez velas, de q eram capitães dom Luis Coutinho, Pedrafonfo daguiar, Françifco da cunha, •Fi. 66 cl. a." ioão ]opez pereftrelo, Rui da caítanhe*da, Gil matofo, Luis fernãdez, Antonio do campo, Diogo pirez, & das çinquo velas q iham feparadas é capitania per fim era capitã Viçéte lodre, tio de dõ Vafquo da gama *, hos outros capitães eram Bras fodre feu irmão, Pero dataide, Pero raphael & Ioã roiz badarças. Aliem deitas xv velas mãdou elRei madeira laurada pera húa carauella q le hauia darmar é Moçambique, pera guarda daquella coita atte Çofala. Elias duas armadas partiram do porto de Bethelem ahos dez dias de Feuereiro de M.d.ii, tendo elRei dado a dom Vafquo da gama, pouquo antes que partifle titulo dalmirante do mar da índia, por lhe gratificar hos leruiços que lhe tinha feitos, & iperaua que lhe fezeífe nelta viagem. Aliem deltas2 xv velas, mandou elRei aparelhar mais outras çinquo de que deu ha capitania a Eíteuam da gama primo cõ irmão de dom Vafquo da gama, que partio de Lisboa ho primeiro Dabril do mefmo ãno. Hos outros capitães eram Lopo mendez de valquo goçelos, Thomas de carmona, Lopo diaz criado de dom Aluaro, Nt loam de bonagraçia Italiano. Dom Vafquo da gama paliou ho cabo de boa Sperança com toda fua armada, atte chegar aho cabo das cor- rentes, lem lhe aconteçer coula que de contar feja, donde mandou Viçente •fi.66t.ci.!.* fodre feu tio com onze velas das da companhia que ho fof-*fem fperar a Moçambique, porq com has quatro queria ir a Çofalla ver ho fitio do porto, & modo da gente da terra, do Xeque, do qual lugar foi bem reçebido, & ficando amigos fe partio pera Moçambique, com aho fair 1 Na Ep.: «Viçente sodré tio de Vasquo da gama...». Damião de Goes deu a Vasco da Gama o dom, que por engano omitira. 1 Na Ep.: «... tendo elRei já dado ha dom Vasquo da gama titulo Dalmirante do mar da índia pouquo antes que partisse. Alie destas...»
  • — 149 — do rio de Çofalla perder húa das naos, mas ha gente, & fazenda fe faluou toda. Em Moçambique fe vio com ho Xeque, que era outro, & nam ho que alli achou da primeira vez que foi à India, que lhe fez muita cortefia, & galalhado, mandando dar todo ho auiamêto neçeífario perà frota: ho que feito partio caminho de Quiloa, leuãdo cõfigo ha carauella q fe armou em Moçãbique, de q deu ha capitania a Ioã ferram, porq fua tenção era fazer guerra aho rei q fe chamaua Habrahemo, & lhe deítruir ha çidade le nã fezeífe emenda dos erros paffados. Chegado a Quiloa loguo tras elle chegou Eíteuão da gama com has çinquo naos de q era capitão, que todas faziam numero de xix velas, porq ha nao de Antonio de campo efgarrára da companhia. Elrei de Quiloa houue tamanho medo com ha chegada deitas naos, q de fua propria võtade mãdou dizer a dom Vafquo da gama que fe queria ver cõ elle, ho q fe afsi fez, & nas viítas, q forã no mar, dõ Vafquo ho prendeo, cÕ ho defen- ganar q fe fe nã fazia vaífallo, & tributário delRei feu fenhor, q prelo ♦ Kl.66 v. ci. 2.' ho hauia de leuar á India, & dahi a Portugal, cõ medo das qes* ameaças prometeo de dar cadáno dous mil meticaes douro de pareas, & has daquclle anno mãdaria quomo foífe em terra, pa firmeza do que ficaria com elle Mafamede Enconíj, que era ha fegúda peifoa de feu Regno, a quem elRei queria grade, & fecreto mal CÕ medo q tinha de lhe tomar ho Regno, que elle tinha vfurpado a outro que fora Rei. DÕ Vafquo crendo que era verdade ho q lhe dezia ho foltou: mas elle depois q le vio em liberdade, defejofo que tiuefle dõ V alquo da gama algúa aução pa mattar Mafamede Enconij, não quis mãdar has pareas, ho que vendo ho prefo, entêdendo ha maldade dixe a dõ Valquo ho que lhe pareçia, & quam mao home elRei era, & q pois ho afsi enganara, q elle á lua culta queria pagar hos dous mil metiquaes de ouro, ho q afsi fez, & dom Vafquo ho deixou ir liuremente perá çidade, ficando ambos grandes amigos. De Quiloa foi dõ Vafquo por . cafo das corrêtes ter a húa enfeada, oito legoas abaixo de Melinde, & poíto q muito defejaífe de ver elRei, pa lhe gratificar ha boa companhia que lhe fezera da outra vez, ho nã pode fazer: cõtudo elRei ho mandou vifitar per hum degradado per nome Luis de moura, que alli deixara Pedralurez cabral. Feita augoada, & carnagem fe partio perà índia, & em chegãdo aho monte Fi. 67 cl. 1.* Delli, topou húa nao do Soldão de Babilónia cha-*mada Merij, de q era capitão Ioarfaquim, nao grãde, & bem armada, q partira de Calecut carregada delpeçearias, & outras mercadorias pera Meca, em q hauia muitos romeiros, q per fua deuaçam iham vifitar ho fepulchro do feu propheta Mafamede, ha qual tomou com muito trabalho, por fe hos mouros defenderem mui bê todo aqlle dia, & ha noite feguinte, mas aho
  • — 15o — outro dia foram entrados, & mortos mais de trezentos& algús mininos que nella hauia mandou dom Vafquo da gama leuar á fua nao, com tenção de hos fazer frades no morteiro de noffa Senhora de Bethelé. Tomada efta nao dom Vafquo da gama fe foi a Cananor onde entregou a elRei ho feu embaixador, q mandara a Portugal, & lhe deu hú prefente que lhe elrei dom Emanuel mãdaua, do qual foi reçebido cõ grade apparato, & muita cortefia: ho que feito fe foi lançar fobello porto de Calecut, onde em chegado tomou algús paraos em que poderia hauer atte çinquoéta malabares da çidade. Eftãdo alli furto fem fazer moftra de guerra chegou á fua nao hum mouro vertido em trajos de frade de fam Frãçifco, q hos noífos cuidará q forte algum dos queftauam com Aires correa, quando ho mattarão, mas em chegado, & dizendo deo graçias, dixe loguo q era mouro, & q vinha afsi por poder chegar às naos, fem lhe fazeré •Fi.67ci. a." mal, pera dar re-*cado aho capitão, quomo elRei queria cõ elle paz, & amizade, porque do q fe atte li paliara lhe pefaua muito, a ifto refpondeo q elle queria ho mefmo, & que a iífo era vindo, mas que em final do q dizia lhe mãdafle entregar ha fazenda que tomaram a Aires correa, ou ho proçedido delia, no q fe paliaram tantos recados, q fentindo do Vafquo que eram tudo enganos, mandou dizer a elRei pelo mefmo Mouro que andaua neftes negoçios, que fe nam fezelfe ho que lhe mandara dizer, que por vingãça da morte Daires correa mãdaria enforcar todos aqlles Malabares leus fugeitos que tinha prefos, aho que elRei nam refpondeo, pelo que dõ Vafquo mandou enforcar hos Malabares, & depois de mortos lhes mandou cortar hos pés, & mãos, & hos corpos mandou lançar aho mar, pera cõ ha maré irem ter á praia, & hos pés, & mãos mandou metter é hú Paráo, & à toa leuar a terra per dous bateis, & nelle húa carta pera elRei de Calecut, defafiandoho a guerra de fogo, & fangue, da parte delRei dõ Emanuel feu fenhor, alsi a elle, quomo a todos feus amigos, & fugeitos, & vaífallos, a qual carta, & efpantofo prefente foi pa elRei, & todolos da çidade de muita trifteza. Aquella noite fez dom Vafquo chegar todalas naos ho mais perto de terra q cada húa pode, & •Fi.67v.ci.3.* em amanheçendo mandou esbombardear ha çidade, no q en*tre outros dãnos que fez foi derribar ho Çerame delRei, que eftaua júto da praia, ho que feito fe partio pera Cochim, deixando Viçête fodré com feis velas, pera guarda da corta do Malabar. 1 Na Ep.: «e mortos passante de trezentos...»
  • 151 — Capitu. Ixix. Do que ho Almirante dom Vasquo da gama fe\ em Cochim, & Calecut, & do mais q pajfou em fua viajem atte tornar aho Regno. NA mesma hora que dom Vafquo da gama laçou ancora no porto de Cochim ho veo ver à nao ho feitor Gonçalo gil barbofa, cõ hos outros Portuguefes que cÕ elle eílauão, de quem foube ha hõrra, gafalhado, & boa amizade que tinha todos reçebido delRei de Cochim, do que foi mui ledo, & no mefmo dia ho mandou elRei vifitar per hú Naire, dos prinçipaes de fua caía, & logo aífentou cõ do Vafquo que fe viíle aho outro dia com elRei, ho q alsi fez, & lhe deu hum prefente de muitas peças douro, prata, brocado, & feda, entre has quaes hauia húa coroa douro, dizendolhe que elrei dom Emanuel leu lenhor lhe mãdaua aquelle prefente quomo a bõ, & verdadeiro irmão, & amigo do que fe elRei de Cochim teue por muito honrrado, & em final damor mandou *fi. 67 v. cl. 2." per dom Valquo* a elRei outro prefente em que entrauão dous barçeletes douro cõ muita, & mui rica pedraria, & húa pedra do tamanho de húa auellã, q fe acha na cabeça de húa alimaria, de q hà muito poucas, a que hos Índios chamã Bulgoldalf, ha qual pedra te gram virtude cõtra todo genero de deçonha4. Nellas villas entregou elRei de Cochim a dom Vafquo da gama ho feitor Gonçalo gil barbofa com todollos outros Portuguefes q lhe ficaram a cargo, muito alegre polios attelii guardar dos perigos *, & treições, q lhes hos moutos 2 de toda aqlla prouinçia cada dia armauam, & pelo mefmo modo entregou dõ Vafquo a elRei de CochI Diogo íernãdez correa, q hauia de ficar por feitor, & Lourenço moreno, & Aluaro vaz fcriuães do feu cargo, cõ todolos outros Portuguefes q com elles ficaram. Poucos dias depois delias villas vieram a dõ Vafquo em- baixadores de çerta gente Chriítã, que habita nas terras de Cranganor, pedirlhe que hos quifeífe tomar é fua guarda, & em nome delRei de Portugal hos defender dalli por diante em cuja vaffalagé fe punhão do q elle deu graças a Deos, & lhes prometeo em nome delRei de ho fazer alsi elle quomo todolos outros capitães q à índia viefsé: dos coítumes, & religião, dos quaes direi adiante é feu lugar. Andando dõ Vafquo • fi. es ci. 1.« occupado nas coufas q cõpriam a fua torna viaje, man-*dou elRei de Calecut difsimuladaméte hú Bramana, fob fpeçia de dizer q queria 1 Et. peçonha. 1 Et. /.: perigos. 1 Et. /.: mouros.
  • \ ir a Portugal cõ hu feu filho, & hú feu fobrinho q trazia cõfigo, pera aprêderê letras, & verê ho modo q hos Chriítãos tinhão de viuer na Europa, mas algús dias depois, de pratica em pratica, cõ muita pru- déçia veo defcobrir a dõ Vafquo, q elle era alli vido da parte delRei de Calecut a pedirlhe q quifeffe fer feu amigo, & ir com toda fua armada a Calecut, onde lhe daria carga pa quãtas naos quifeffe, & alie diíto lhe mãdaria pagar tudo ho q fe ahos Portuguefes là tomara. Dõ Vafquo determinou de ho fazer, poíto q foffe contra vontade de to- dolos outros capitães, contudo pa fua fegurãça, mãdou deter ho Bramana na nao Deíteuão da gama, a quê deixou cargo de toda ha frota, & elle cõ ha fua nao & húa carauella-fe foi a Calecut, leuãdo configo ho filho, & fobrinho do Bramana, onde depois de furto lhe mãdou elRei muitos recados de paz, & amizade, no q andauã hos mefmos filho, & fo- brinho do Bramana, mas quomo elrei era mudauel, induzido pelos mouros, vedo quomo dõ Vafquo eftaua alli cõ tã pouca companhia, ho mandou cometter com xxxiiij paraos, dos quaes fe nã pode deffazer fem deixar ha ancora, & cabre q mandou cortar em dãdo à vela, nê com iíto •Fi.egci.2.» poderá efcapar fe lhe o veto terrenho nã feruira, com q fe apartou* da terra, leguindo ho cõtudo hos paraos atte q per dita appareçeo Viçête fodre, a quê elle mãdara recado pela carauella q trouxera de Cochim, q vieffe ter cõ elle a Calecut, cõ cuja vinda, hos paraos foram deítroçados, & morta muita da fua gente: ho q feito, dom Vafquo fe foi a Cochim, onde em chegando mandou enforcar ho Bramana, per quê elRei de Calecut mandara ho recado, & ho mefmo fezera aho filho, & fobrinho fe lhe nã efcaparã da nao, ãtes de fe defcobrir ha treiçam. Elrei de Calecut foi mui triíte pela morte deite Bramana, & vendo que nê per manha, nê per força fe podia vingar à fua vontade dos noífos, determinou com cartas, & recados lêcretos cometter elRei de Cochí, fazendolhe grandes offereçimentos, fe lhe quifeffe êtregar hos Portuguefes que eltauam em fua terra, & nam dar carga às naos, fobeilo que lhe fcreueo tres vezes, mas elle lhe refpondeo muito aho contrairo, dizendo que nam era coltume de bõs Reis ferê trédores, nem fé perjuros ahos que fe delles fiauã, & punhão fuas pefioas, bês, & vidas debaixo de fua guarda, & verdade, da qual faltãdo fe não podiã chamar Reis. Deites recados deu elRei de Cochim conta a dom Vafquo quando fe delle defpedio pera tonrar aho Regno, nem lho quis dizer antes, por ho nam defenquietar, •Fi.68v.ei. i.» & dar trabalho com fufpeita de poder* cuidar q acçeptaria hos partidos que lhe elRei de Calecut tinha offereçido. Dom Vafquo da gama lhe agradeçeo muito eíta boa vontade, & lealdade, da parte delRei feu fenhor, dizendolhe perante muitos dos feus Panicães, Caimães, & Naires que deixa-
  • * — 153 — ria na India tantas naos da fua armada com que fe tiueífe por leguro do poder delRei de Calecut, do que elRei de Cochim moítrou grade contenta- mento, prinçipalmente por lho dizer diante daqlles, dos quaes fabia hauer algús que por refpeito dos Mouros nam tinhão boa vontade ahos noffos. Partio dom Vafquo da gama de Cochim pera Cananor com dez naos car- regadas a bufcar tres q là eítauam à carga, & fendo tres legoas de Pãda- rane fairã a elle vintanoue naos q elRei de Calecut tinha preítes pa ho mandar cometter, com has quaes per cõfelho, & pareçer dos outros capitães determinou de pelejar, & ordenou q fofsé diãte Viçente fodre, Pero Raphael, Diogo piz por irem boiantes, hos quaes aferrarão das naos dos Mouros q vinhã afaítadas hú pouco das outras, Viçéte fodré cÕ húa, & Pero Raphael, & Diogo piz cõ ha outra, & has renderã antes q dõ Vafquo, né nenhúa das outras naos darmada chegaffé a elles, ha géte das quaes fe lãçou toda aho mar, de q hos noffos mattaram dos bateis mais de trezentos. Has •Fi.eev.d.a.* outras naos dos mouros, vedo ho desba*rate das duas, fe acolherão a terra, fem dõ Vafquo has poder alcãçar. Acharãífe neítas duas naos algúas coufas de preço, entre has quaes hauia hum idolo douro que pefaua trinta arrateis, de figura muito mõítruofa q tinha por olhos duas ricas efmeraldas, cuberto de hum manteo douro de martello, borlado de pedraria, com hú robi nos peitos do tamanho da roda de hú cruzado. Defpejadas has naos, dom Vafquo lhes mandou poer ho fogo, que fe • ateou de modo que todas arderam a viíta da frota. Dalli fe foi a Ca- nanor bufcar has tres naos queftauam á carga, onde affentou pazes, & amizade com elRei, do que fe fezeram contrattos, afsinados, & affelados por ambos: nas quaes entraua elRei de Cochim, promettedo elRei de Ca- nanor, de nunqua lhe fazer guerra, nem ajudar a elRei de Calecut fe lha fazer quifeffe, ne outra peífoa nenhúa. Feitos, & confirmados eítes con- trattos, dõ Vafquo da gama entregou a elRei de Cananor Gõçalo gil barbofa que alli ficaua por feitor, & Sebaítiã alurez, & Diogo godinho por fcriuães, & outros Portuguefes q cõ elles ficaram, q feriam atte xx, hos quaes elRei tomou em fua fé, & guarda, ho q feito fe partio pera ho Regno ahos xxviij dias do mes de Dezêbro, de M.d.ii. com treze naos carregadas defpeçearias, & doutras riquezas, deixando ordenado q Viçente fodré •Fi.feci. i.« com fua ar-*mada ficaífe na coita do Malabar, onde andaria atte ho mes de Feuereiro, & fe atteqlle tempo elrei de Calecut nam fezeffe guerra a elrei de Cochim, q entam fe foífe aho eltreito do mar Darabia fazer guerra ahos Mouros, quomo trazia p regiméto. Hos capitães q ficaram com Viçente fodre foram Bras fodre feu irmão, Pero dataide, Pero Raphael, Fernam rodriguez badarças, & Diogo piz, ho que afsi ordenado partio ho Almirante pa ho Regno, fem tomar terra fenam em Moçam- 20
  • 154 — •Kl.69el. J.' bique, onde fez augoada, & çarnagem, & feguindo fua viajem lhe deu no cabo das corrétes hum temporal, com que fe perdeo da frota ha nao Deíteuam da gama, & dom Vafquo chegou cõ has outras a Lisboa aho primeiro dia do mes de Septembro do anno de M.d.iii, onde elRei entam eítauaua', que ho reçebeo com tanto prazer, quanto fua boa andança requeria, ho qual logo foram vifitar á nao hos mais dos fenhores, & fidalgos q fe então acharam na corte, & ho acompanharam atte ho paço, indo diante delle hú feu paje, q leuaua em hú baçio dagoa ás mãos hos dous mil miticaes douro das pareas delrei de Quiloa, & afsi hos contrattos q fezeram cõ elle, & com ho de Cananor, & Cochim. Defies dous mil miticaes douro mandou elRêi fazer húa cuítodia pa ho Sacramento do altar, guarneçida de pedras preçiofas q mãdou offereçer no moíteiro de* Bethelê: depois da vinda de dom Vafquo da gama a feis dias chegou a Lisboa Eíleuão da gama. Cap lxx. De quotno dó Io am de meneses, E dô Ioarn de menefes Code de Tarouqua foram correr lio capo Dalcaçerquibir, & do que lhe aconteçeo. ASAR elcabir a que nos chamamos Alcaçerquibir eílà íituada júto do rio Luco, ho qual creçe tanto denxurro que entra muitas vezes pelas portas da çidade, ha qual dizê hos mouros q edificou Manlor rei, & Pontifiçe de Marrocos. Viué nella muitos homés nobres. & merca- dores, & afsi letrados per cafo de hú collegio q hahi há, é q íe lé Filofo- phia & outras artes: nam tem aguoa fenão ha do rio, & de çiflernas, porque careçe de poços, & fontes. Hà também na cidade hú Sprital em q fe recolhe, & curão muitos pobres, & fora delia há muitos jardis de hortaliça, & boas fruitas, ha terra he tão fértil q ordinariaméte colhem de hú alqueire de pão que femeam trinta. Tinham hos Reis de Fez nella depois que elrei dom Afonfo quinto ganhou Arzila, atte que lha em noífo tempo foltaram, hum capitão com trezétos de cauallo, & outra géte de pê com q, & cõ hos outros mouros* da comarqua, & fronteiros corria muitas vezes Arzilla, do que elrei dom Emanuel tinha degoíto, & por effe refpeito fcreueo a dõ Ioã de menefes que lhe teria em feruiço fazer continua guerra áqlla çidade, lobre ho que fcreueo logo dom Ioão a dõ Ioão de menefes cõde de Tarouqua, q jà era tornado da viajem q fezera em fauor dos Venezeanos, & eílaua entam na çidade de Tãger, 1 Et. /.: eftaua.
  • — 155 — de que era capitão, & gouernador, que fe ajuntaffem pera ambos irem correr a Alcaçer quibir, ho que afsi fez, & veo ter Arzila com duzentas lanças, & dom Ioão faiho com duzétas, & trinta em dia de Pafcoella, do anno de M.d.iii, no mes Dabril, & chegarão á mea noite a húa ponte, fette legoas Darzila, que fe chama ha pote grande Dalcaçer, onde forão fentidos dos guardas que vigiauão ho paífo, aho que ho Alcaide logo faiho, mandando tocar ho feu atambor, aho que em amanheçendo acodio ho Xeque dos colotos com muita gente, & fe vieram todos poer em hú outeiro apar Dalcaçer que fe chama ho outeiro dos prazeres, onde orde- narão fuas azes quomo homes q determinauão pelejar ho que vendo ho Code mandou dizer a dõ Ioão q era ho q lhe pareçia, aho q reípõdeo q mui bê, pois achauão ho q ihão bufcar, & no mefmo inltãte poferã toda «Fi.ôgv. cl. fua géte em ordenãça, ho que feito começaram de caminhar pera hos* mouros, hos quaes hos vierão cometer com efcaramuça, mas vendo que hos Chriítãos nam faihão da ordenança, em q com fuas hazes feitas vinham demandar ho corpo da fua gente, caminharão algum tanto mais a diante, fazendo moítra de quererem pelejar, mas vendo que hos noffos hos iham determinadamente cometter, voltaram, a quem hos noffos ie- guiram ho alcançe atte has portas da villa, & lhes mattaram cento, & oitenta de pé, apertando hos tanto que muitos delles não poderam haner 1 ha porta, pelo que por fe de todo nam perderem, voltaram quomo homés defefperados, & deram com tanto efforço nos noffos que derribaram, & feriram muitos, entre hos quaes ho foi no rofto dom Duarte de meneies, filho mais velho do Cõde de Tarou.qua, & Pero leitam Adail, mas hos que cairão foram focorridos, & afsi fe começarão de vir recolhendo atte húa ponte pequena, que fe chama Deçelão, que eftá mea legoa Dalcaçer, vindo já apegado com elles ho Alcaide com noueçentos de cauallo. Mas depois que hos noffos paffaram ha ponte, dom loam hos pos em orde- nança com determinaçam de pelejar com hos Mouros fe ha paffaffem, ho que elles não fezeram, fenão depois que viram hos Chriítãos bem alon- * fi. 70 oi. 1.* gados, & com ho focorro que lhes vinha ho começarão de* feguir de bem perto, atte chegarem a outra ponte que eltà feis legoas Darzila, tendoha já paffada obra de çinquoéta de cauallo dos Chriítãos, mas tanto que ha outra gente paffou, dom loam fez corpo fperãdo que paffaffem hos Mouros, pera pelejar com elles, que já neíta fazão feriam mais de mil, & trezentos de cauallo, ho que elles nam fezerão, mas antes fe tornaram dalli pera fuas cafas, & hos Chriítãos le foram Arzilla, donde fe ho Conde tornou pera Tanger. Has peffoas conheçidas que fe acharão neíta entrada foram, 1 Et. I.: hauer.
  • \ — 156 — dom Duarte de menefes, filho do Conde de Tarouqua, dom loam ladrão filho do Conde de Cantanhede, dom Bernaldim dalmeida, filho do conde Dabrantes, dom Pedro feu irmão, Rui de-foufa, dom George de crafto, Rui de Vafquo gonçelos, Sancho de Vafquo goncelos, dom Afonfo dataide, Françifquo pereira peftana, Gonçalo mendez çacoto, Efteuão coelho al- caide môr de Arzila, Diogo pereira, Françifquo do foueral, Antonio dafoníequa contador de Tanger, & Rui gomez. Capitulo. Ixxi. Doutra Entrada qve ho conde de Tarouqua, & dom loam de menefes fe\erã at te luta legoa • FL70CI a.* Dalcaçer quibir,* I 1VOMO dõ loam de menefes fabia ho grande gofto q elRei leuaua delle guerrear hos Mouros Dalcaçer quibir, nefte mefmo mes Dabril de m. d. iii. mãdou efpiar a terra, & foube dos efcuitas quomo hos Mouros de duas aldeas, & dous aduares que viuião de longo do rio, a húa legoa delta çidade, andauã muim defcuidados de hos Chrif- tãos poderem la chegar, ho que fabido mandou recado aho Conde de Tarouqua, ho qual fe veo logo Arzilla cÕ duzétas, & vinte lanças, onde achou dom loam preftes com duzentas, & trinta, mas ho dia que dahi partiram foram defcubertos per hum bom bombardeiro flamengo que fugio da villa fem fer fentido, & foi dar auifo ahos mouros, do q nam fabendo parte hos capitães feguiram leu caminho do modo que ho tinhão ordenado atte chegarem às aldeas, onde jà não acharam hos Aduares, porque na mefma hora que fouberam da vinda dos Chriftãos fe foram, ho q hos das aldeas nam poderão fazer tão afinha, q hos noífos não captiuaífem nella obra de çinquoenta almas, & mataífem outras tantas, & tomafsé muito gado. Roubadas has aldeas, hos noífos fe começaram de recolher, vindolhes já nas coitas muitos mouros de cauallo dos Dal- •fi. 70 t.ci. i.« caçer, com que houuerão muitas elcaramuças, & fezeram* voltas, em que mattaram algús, & elles mattaram quatro Chriltãos, & foi ho negoçio tam trauado, que dom Pedro de foufa, que era nefta companhia teue muito trabalho em recolher ha gente da efcaramuça, ha qual recolhida caminhou ha caualgada com q entraram em Arzilla, fem acharem quê lhe mais faifle aho caminho. Nefte negoçio foram dom Duarte de menefes, filho do Conde de Tarouqua, Rui de foula q mattou hum mouro de cauallo dos que lairam Dalcaçer, Aluaro barreto, Gonçalo mendez çacoto, Frãçifco da coita, Efteuão barrofo, Antam martlz, Ber- naldim velho. Chegados à villa, & partido ho defpojo, ho Conde fe 4
  • — i57 — tornou pera Tanger: achouífe também nefte feito Triftam vogado natural Dalanquer, que nefte tempo era fronteiro em Arzilla, ho qual depois acabou feus dias defaftradamente, porque ho mattou húa lioa, a que elle com outros caualleiros faiho a bufcar ha morte q lhe alli eftaua apare- lhada, do que elRei leuou defcontentamento, porque era Triftam vogado bom homem, & muito bõ caualleiro, de quem ficou hú filho per nome Ioão vogado que ainda viue. Capit. Ixxii. Doutra entrada qve dom loam de metiefes fe\ •Ki.70v.ci 2.* no me/mo anno.* NA serra de benagulfate eftã húas aldeas fette legoas Darzilla, em húa deftas aldeas tinha fabido dom loam de Menefes que efta- uam has mais fermofas Mouras que hauia em toda ha comarqua Dar- zilla, & Tanger, & qne1 has guardauam muitos caualleiros Mouros, hauidos pelos mais valentes homes de toda ha terra, feus parétes, & namorados, & por efta aldea eftar entre outras que fe também guarda- uam, tinha ho cafo por duuidofo, com tudo mouido das nouas q tinha da fermofura daquellas Mouras, com defejo de fazer delias feruiço á rainha dona Maria, que lhe tinha mandado pedir algúas das q captiuaífe, pera fe delias feruir, determinou de dar nefta aldea, pofpofto ho perigo que niíTo hauia, & reçeo de ho fentirem das outras, por fere muito vizinhas, pera ho que mãdou fazer húa foma de tochas, com determinação de ha cometter no fomno da modorra, ho que feito partio Darzilla com duzentas lanças,2 & paliou per todalas outras aldeas fem fer fentido, porque ha noite era efcura, & de tormenta, & em chegando fobela aldea que feria hú pouquo antes de mea noite mandou açender has tochas, & com ellas açefas deu nella a fom de trombetas tam de fubito, que hos Mouros que •Fi. 71 ci. 1.* ha guardauam,* pofto que esforçados foffem, não tiuerão animo pera mais q pera quomo homês defacordados, & defatinados do fomno, fe defenderem ho milhor que poderam, & foi tamanha ha grita delles, & das molheres que fe houuio pelas outras aldeas, donde uão3 tam fóméte lhes nã acodio ningué, mas antes has defempararão hos mouros que nellas viuião, acolhédofle pera dentro da ferra cõ fuas molheres, & fihosl, pelo que dõ Ioão teue tempo pera a fua vontade faquear efta, em que 1 Et. I.: que. 2 Na Ep.: «ho que feito partio Darzila com obra de duzentas lançss.» 3 Et. /.: não.
  • — 158 — hos Chriflãos mattaram mais de oitenta mouros, & captiuarão feflenta homes & molheres, em q entrarão algúas das fermofas: ho que feito fe começou de recolher, fendo ainda noite, mas em amanheçendo ho vierão cometter muitos Mouros de cauallo de todas aquellas aldeas, de que fe desfez com muito trabalho, & periguo, porque lhe feriram muitos homes, & cauallos, contudo elle chegou Arzilla íem lhe mattarem nenhum. Neila entrada fe acharão dom Bernaldim, dom Pedro, dom Ioão ladrão, Frã- çifquo pereira peílana, Pero muniz da fylua, Rodrigo de vafquo gonçellos, Sancho de vafquo gõçellos, Gonçalo mendez çacoto, & Ioão de figueiredo. Cap. Ixxiii. De quomo elrei de Calecvt começou de fa\er guerra •Filiei. 2.» a Trimíipará rei de Cochim, & porq caufa.* DEPOIS da partida de dom Vafquo da gama, determinou Elrei de Calecut poer em obra ha mà vontade que tinha a elRei de Cochim, milturada ja cõ enueja de ho ver profperar, & fua çidade ir em creçi- mento cõ ho proueito q reçebia dos Portuguefes, pera ho q começou de fazer aperçibimentos de guerra. Sabido iíto em Cochim, houue muitos dos mouros, & gétios dos prinçipaes da terra q acõfelhauã elrei q por euitar tamanho perigo deuia fatisfazer elRei de Calecut, cõ ha entrega dos Portuguefes qílauam em feu Regno, ho qual confelho elle nam quis ieguir, mas antes dixe ahos q lho dauam, que fe lhe mais fallaífem nifio hos mandaria caíligar, q nã era elle ho Rei que hauia de quebrar fua fé, & verdade, pela qual não eítimaria perder todo feu regno, & eítado. Afsi q tédo por çerta a vinda delRei de Calecut, começou de fe apreçeber ho milhor q pode. Neíte tépo Viçete fodre, q ficara por capitão do mar, veo ter cõ fua armada a Cochim, mas poílo q eíta guerra foífe já diuul- gada, & lhe Diogo fernandez correa feitor requereíTe q fe nam foífe, & defembarcaífe cõ ha gente que has naos podeffem excufar, pera ajuda, & fauor delrei de Cochim, & feu delles, elle ho nam quis fazer, dando a iífo fuas razões, as quaes pareçe que em tal tempo, & de tãta neçefsi- -E1 71T.cl.!.• dade* nam tinham lugar: finalmente fem ter conta com ho q lhe Diogo fernandez correa requeria, & compria a feruiço delRei, elle fe fez à vela caminho do cabo de Guardafum, fperar has naos de Mouros pera fazer prefas, do que fperaua mais proueito q da guerra delRei de Calecut, cõ ho de Cochim. Fazendoífe eíles apreçebimentos de guerra, houue da parte dos Reis ambos muitos recados, mas ho de Cochim per nenhú modo quis cõçeder aho de Calecut ha entrega dos Portuguefes, pelo q cada hú delles fe determinou é fazer guerra aho outro: ho de Cochim
  • — 15g — ajútou toda.fua valia na mefma çidade, & ho de Calecut é Panane, pêra ho qual, aliem de feus fugeitos, & vaffallos, fe vierão muitos lenhores daqlla prouinçia, defejando laçar hos noflos fora da índia, por amor dos mouros q hos a iífo induziam cõ muitas dadiuas, prefentes, & antiga amizade. Chegou a tanto cuidaré todollos Malabares q não podia elRei de Cochim deixar de perder feu eítado daqlla vez, q dos feus vaífallos mefmos fe lançaram hos mais com ho de Calecut, être hos quaes foram ho Caimal de Chirabipil, ho de Cambalam, & ho da ilha grande qítà defronte de Cochim, peffoas prinçipaes de feu regno: mas eíta guerra nuca pareçeo bé a Nabeadarim fobrinho delRei de Calecut, feu vnico «fi. ?«v.ci. 2." herdeiro, q per muitas vezes lhe acõfelhou* que ha nã fezeífe, pphetizã- dolhe que delia hauião ainda de recreçer muitos males, & damnos, do q elRei fazédo pouquo cafo, em hum dia çerto que lhe feus íeitiçeiros afsinarão, pera ha começar, partio de Panane mui poderofo, tomando ho caminho pelas terras de Repelim, que fam quatro legoas de Cochim, cõ que foi tamanho ho medo em todollos da çidade, que Diogo fernandez correa pareçendolhe fazer milhor ho partido delrei de Cochim, & q cõ iffo fe fariam has pazes entrelle, & ho de Calecut, lhe pedio embarcação pera fe ir com todollos Portuguefes pera Cananor, onde eítariam atte vir ha armada de Portugal, ho que lhe elRei eítranhou muito, dizendolhe que ainda elle não era morto, nem elrei de Calecut, fenhor do regno de Cochim, ho qual todo, & fua peífoa elle auenturaria por feruiço delrei de Portugal feu irmão, do q Diogo fernandez, & todollos Portuguefes, que em Cochim eítauão, ficarã nã tão fòmente fatisfeitos, mas efpãtados, confirmando lia opiniam, que delle tinhão, quomo de peífoa em quê nunca acharam engano, nem falta no que prometeífe. Delta guerra fez elrei de Cochim capitão hum feu fobrinho, & herdeiro, per nome Nara- muhim, aho qual mandou com çinquo mil, & quinhentos Naires, que foífe a hú paífo q chamão do vao, por fe paliar de maré vazia pelo •Ft7acl. 1 * geolho, per* onde elrei de Calecut queria étrar na ilha de Cochim. Sabendo elrei de Calecut que Naramuhim eítaua no paífo do vao, cõ reçeo delle, porque era hum dos milhores caualleiros de toda ha terra do Malabar, & muito bem efcãçado nas coulas da guerra, fcreueo húa carta a elrei de Cochim, na qual lhe pedia outra vez ha entrega dos Portuguefes, aho que elrei de Cochim relpondeo ho mefmo q fizera das outras vezes, pelo q elrei de Calecut moueo loguo feu exerçito, jurando de não tornar a luas terras fem deixar deílroidas has delrei de Cochim, cõ tudo has por onde entrou, poíto q ho foífem, não empeçeo, porq eram de Vaífallos delleaes delrei de Cochim, q andauão com elle: ho qual partio das terras de Repelim, aho derradeiro dia de Março deite ãno de
  • — 16o — Mil, & quinhétos, & tres, & ahos dous dias Dabril chegou aho paflo do vao, ode algús dos feus Naires quiferão loguo cometter Naramuhim, fobrinho delrei de Cochim, que já alii eftaua, q lho defendeo quomo bom caualleiro, mattãdo muitos delles, fern pder nenhum dos feus. Aho outro dia têdo jà elrei de Calecut aíTentado feu arraial, mandou aho fenhor de Repelim, que cõ da fua gente, & doutras capitanias fofle cometter ho vao, & perá juda deftes mandou muitos paraos armados, cõ ha milhor gente *fl 7»ti. t.m de fua corte, dos quaes Naramuhim fe defendeo* milhor do q ho fezera ho dia dantes, nas quaes vi&orias elle vfaua ho confelho, & pareçer de Louréço moreno, que ho acompanhou nefte negoçio, com algús dos por- tuguefes q ficaram em Cochfm. Afsi que deitas duas vezes, quomo doutras que hos de Calecut cometteram ho paífo do vao, & fefpalharam pela terra pera deítroir algús lugares de Cochim, fépre foram desbara- tados, fucçedendolhe tudo aho contrairo do que fperauão. Vendo elRei de Calecut ho eítrago q ho prinçipe Naramuhim fazia nos feus, teue inteligençia com hú Naire que pagaua ho foldo da gente delRei de Cochim, ho qual fobornado de dadiuas, & promeflas, deixou de vir fazer has pagas aho campo, quomo ho dantes fazia, & cõtrafazendoífe mal difpoíto, fe foi pa Cochim, dizendo que quem quifelfe foldo ho fofle lá reçeber, ho que fezerão per algús dias. Creçédo aísi eíte defcuido, pe- dirá muitos dos Naires húa noite aho prlçipe Naramuhim q hos deixafle ir a Cochim reçeber ho q lhes era deuido, na qual noite têdo elRei de Calecut auilo do que paflaua, fez cometter ho vao por mar, & p terra, com toda fua gente, paraos, & artelharia, aho q Naramuhim, nam po- dendo refiltir, pella gente que lhe faltaua, & pouqua que tinha em com- paração da delRei de Calecut, ho palfo foi entrado, & elle morto de •Ki.7jv.ci >.« frechadas, com dous* fobrinhos feus, entre hús palmares, atte onde hos imigos ho feguirão defendédofle fempre quomo efforçados caualleiros. Rita batalha durou parte daquella noite em q foram cometidos, & todo ho dia feguinte atte fer tam tarde que fe nam viam hús ahos outros, pelo q elRei de Calecut não quis mais feguir ha viétoria, ha qual nã foi fem perder muita da fua géte. Com ha noua deite tamanho defaítre foi elRei de Cochim muim trifle, contudo porto que pera ho fazer eftiueífe mui debilitado, determinou defperar elRei de Calecut, & lhe dar batalha, na qual foi desbaratado, do q conftrangido fe paflou a húa ilha que fe chama Vaipim, fituada defronte de cochim, leuando configo todollos Portuguefes, com ha fazenda que tinha na çidade, fem nunqua hos de fim querer apartar, ne entregar a elRei de Calecut, pofto que depois deitas perdas lhos mandafle muitas vezes pedir, prometendolhe por iífo paz, & amizade, ho q nam querendo fazer lhe mandou queimar ha çidade
  • — 161 — de Cochim, & cometer per muitas vezes ha ilha de Vaipim, na qual nam pode fazer danno, por fer ho fitio delia muito forte, & elRei de Cochim ter configo gente q lhe abaftaua pera fe defender naquelle lugar. Screuão hos Gregos, fcreuam hos Romãos tudo ho que fe pode dizer dos Empe- •Fi.72T.cK 2.» radores, Reis, Prinçipes, Refpublicas, çidades, & pef*foas particulares aque derão muitos louuores, por guardarem luas promelfas, aque ha fé publica hos obrigaua: mas eu não creo que ha verdade, & fé com q elRei de Cochim guardou, & defendeo hos noífos, feja inferior a nenhúa daquellas, de q elles em feus liuros, fobrefte calo fazé muitas, & efpã- tofas admirações. Vendo elRei de Calecut que aproueitaua pouco em querer étrar ha ilha de Vaipim, & por fer jà começo de inuerno fe foi a Cranganor, com propofito de no começo do verão tornar outra vez a eíta guerra, & pera q lhe ficaífe Cochim paçifico, mandou fazer tranqueiras no mais feguro da çidade, em q deixou pera guarda muita, & boa géte da fua. Ho dia em q mattaram Naramuhim foi tamanho ho medo é Cochim, que muitos fe lançáram no arraial delRei de Calecut, entre hos quaes foram dous Lombardos Milanefes, lapidairos, hum per nome loam Maria, & ho outro Pedro Antonio, que eftauam com Diogo fernandez correa, & foram á India com liçença delrei dom Emanuel na fegunda armada de dom Vafquo da gama, hos quaes depois foram muim perju- diçiaes, dãdo muitos ardis de guerra aelRei deCalecut cõtra hos nolfos, •FI.7JCI. i.« quomo fe aho diante dira.* Capi. lxxiiii. De quomo se perderamnas ilhas de Curia, Muria Vicente fodre, & Bras fodre feu irmão, & do q hos outros capitães depois pajfaram. VENCIDO Viçento 1 fodré da fperança q tinha poítá nas prefas das naos dos Mouros q iha bufcar, mais que da razam q ho obri- gaua a ficar em Cochim, em ajuda delRei, & fauor dos nolfos, fe partio quomo no capitulo atras fica dito. Seguindo afsi fua viaje, tomou na coita de Cãbaia, çíquo naos de Mouros, tam ricas, que fó ho dinheiro de cotado que nellas achou, paffaua de duzentos mil pardaos, moeda que vai da noífa trezétos, & feífenta reaes cadahú com ha qual boa andança depois de mandar queimar estas naos, fe foi a húas ilhas, queítam aliem do cabo de Guardafum, p nome Curia, Muria, pera repairar algúas das fuas naos que faziam aguoa, onde chegou ahos xx dias do mes 1 Et. Viçente. 21
  • — 162 — Dabril deftanno de M. d. nr. Hos moradores deitas ilhas, pofto que foflem Mouros, por fere todos lauradores, & pefcadores, homês paçificos, mais intentos a feu proueito que ahos perigos da guerra fezeram boa cõpanhia a todolos darmada, feruindohos, dandolhes mantimentos por •fi. 73 ei. a.» feu dinheiro, pela qual fegurança acha-*da entre gente tão contraíra a noíTos coltumes, & fè, mandou Viçéte fodré tirar a mote ha carauella de Pero da taide, & vendo hos Mouros que ha armada eltaua de vagar, lhe deixaram que ordinariamente naquellas ilhas, no começo do Mes de Maio, fobre vinha húa tormenta de vento norte daquella banda, onde elles eftauã ancorados, que nenhúa nao que alli no tal tempo eítiueífe fe faluaua, pelo que lhaconfólhauão q fe foffe lançar da outra banda das ilhas atte que ho temporal paffaífe, porque alli estaria feguro. Viçéte fodré pareçédolhe que era ifto engano, nam fazendo conta do que lhe diziam, lhes refpondeo, q has naos q fe perdiam cõ aquelle temporal eram feitas de canas, & tinham has ancoras de pao, q por mui forte que fofle as fuas poderiam bem fperar, no lugar em queftauam, nem com quãtas replicas lhe hos mouros fobre ifto fezeram, fe quis mudar: mas quomo hos mifterios de Deos, fam grandes, & occultos, logo alli quis executar ho caftigo que mereçia, pela deshumanidade, & crueza que vfou em Cochim, deixando hum Rei, tanto noífo amigo, & feus próprios naturaes Portuguefes, em perigo tam euidéte. Finalmente Pero raphael, Fernão rodriguez badarças, & Diogo plz, pofto que lhe mandaífe que fe • Fi 73*. ci. i.* nam apartaífem delle, lhe nam quiferam obedeçer, & íe paffarão* pera ha outra banda da ilha, já aho derradeiro dia do mes Dabril ficando alli Viçente fodré, & feu irmão Bras fodré, & ha géte da carauella que eftaua a monte de q era capitam Pero dataide. Ancoradas estas tres velas detrás das ilhas, fobreueo ho téporal q hos Mouros diziam, com tanta fúria q has duas naos deram à cofta, & le fezerão em pedaços, em q morreo a mór parte da gente, & ho mefmo Viçéte fodré, & feu irmão Bras fodré, fem fe faluar coufa nenhúa, fe nam ho que ho mar lançou na praia, que forã enxarçeas, maftos, pipas, & coufas deita calidade, cõ muitos corpos mortos, porque nem do dinheiro, né das mercadorias que eram muitas, & de muito preço fe pode cobrar nada, pofto que fe niífo trabalhafte muito. Paífada efta tormenta, has tres naos queftauam detrás das ilhas fe vieram aho mefmo lugar, onde fe hos Sodrés perderam, dõde, quomo ha carauella de Pero dataide foi conçertada, fe partirã ele- gendo ho a elle por feu capitão affentãdo todos de fe ire rota abatida caminho de Cochim, focorrer a elRei, & hos Portuguefes que là deixaram por lhes pareçer juizo de Deos, ho q acõteçéra aquelles dous irmãos. Ifto era já meado maio em q lhe ha força do íuerno naquellas partes,
  • — 163 — pello q cõ téporaes q lhes dauam de roito, nam podéram chegar a •fi.73v.ci.2.' Cochim, quomo defejauam, & foram conítran*gidos tomar Anchediua, onde inuernaram, aho qual porto, quatro dias depois de fua vinda, chegou Antonio do campo, hum dos capitães darmada de dõ Vafquo da gama, que por lhe morrer ho Piloto nauegou fempre aho longo da coita, com muito trabalho, & perda de gente q lhe morrera. Capitu, lxxv. Do nafçimento da infante donna Ifabel, & do capitido que elRei fe\ no conuento de Tomar da ordem de nojfo Iefu christo. NESTE anno de M. d. iii, ahos vintequatro dias Do&ubro, húa quarta feira, antre has tres, & quatro horas depois da mea noite, nafçeo em Lisboa nos paços Dalcaçoua ha infante donna Ifabel, do parto da qual ha Rainha dona Maria fua mal ficou algús dias mal difpoíla: no nafçimento deita Princefa houue hos mefmos finaes, & tormentas que no do Prinçidej1 dom loam feu irmão. Foi molher muito fermofa, & muito ifenta de fua condiçam, & de tão altos peníamentos, que profopos de nam casar fenam cõ o mór fenhor da Chriítandade, que era ho Emperador dom Carlos, quinto do nome, feu primo com irmão, *fi. 74 ei. i.* fenhor dos regnos de* Caítella, Aragão, Nápoles, Siçilia, Archeduq Dauítria. & de Oítroique, Duque de Milam, Conde de Tirol, fenhor dos eítados de Flandres, & das índias Ocçidentais, com ho qual Empe- rador depois da morte delRei feu pai, ha cafou elRei dom loam terçeiro, seu irmão, no anno de M. d. xxvi, com dote de noue çétos mil cruzados em dinheiro de contado, & çem mil em jóias, & enxoual, dote que nunqua molher, que nam foíTe herdeira, trouxe em cafamento a feu marido. No fim deítanno de M. d. iii, ordenou elRei capitulo no con- uento de Tomar, pera entender em algúas defordés que hauia nos comendadores, & freires da ordem de noífo fenhor Iefu Chriíto. No qual capitulo fendo juntos todolos comendadores, que fe ahi poderam achar, fe fezerão muitas, & boas conítituições, perque fe aho prefente rege, & gouerna aquella ordem. Neítanno morreo em Roma ho Papa Alexandre, & logo apos elle ho Papa Pio, per cujo faleçimento foi ellecto, ho Papa Iulio, natural da villa de Saona q agora he dos Genoefes. 1 Et. I.: Prinçipe.
  • — 164 — Capit. lxxvi. De quomo elrei mandov meflres a Congo, pera enjinarem hos daquellas prouinçias has con fas da noffa fé, & Lopo foare\ à India por capitam *Fi- 74 ci. 1.* de húa groffâ armada.* ELREI dom Emanuel era de fua natural cõdiçam religiolo, & em todos feus negoçios, ha primeira coufa de que fempre trattaua, era do feruiço de Deos, & Doétrina de fua fanéta fé, do qual zello mouido determinou no começo do anno de M. d. iiii, mandar homés letrados na facra Theologia, aho Regno" de Congo, com hos quaes mandou meítres de ler, & fcreuer, & outros pera là enfinaré ho canto chão da egreja, & mufica do canto dorgão, & ahos prinçipaes a que encarregou deites negoçios, mandou entregar muitos liuros de doótrina Chriítã, veílimentas de brocado, & feda, cruzes de prata, cálix turibullos, & outras couías neçeífarias pera ho feruiço diuino, & a todos elles deu ordenados, & embarcaçám pera fuas peffoas, & gafalhado, tudo à cuíta de fua fazenda. Hos quaes depois de ferem naquellas partes fezeram muito fruéto, conuertendo muitos dos habitadores delia à fé de noífo Senhor Iefu Chriíto, aliem do que fez elRei tanto per fuas cartas, & rogos, que hos Reis, & fenhores daquella barbara prouinçia lhe mandaram teus filhos, & parétes moços, pera em Portugal lhes enfinarem has coufas da fé, ftudos de philosophia, boas artes, & coítumes, ho que tudo mandou fazer • Fi.74v.ci.i." á fua cuíta, repartindo eítes* moços per moíteiros, & caías de peffoas doétas, & religiofas que hos infinaffem, dos quaes muitos fairam letrados, & delles taes que depois fezeram muito fruéto em fuas terras, pregando, nellas ha fé catholica, obra çerto digna de muito louuor, pela qual, & per outras taes que em fua vida elRei fez, Deos foi fempre guiador de fuas coufas, profperando lhas, atte ha hora de fua morte, de bem em milhor. Neíte anno de M. d. iiii, mandou elRei á índia por capitão de húa groffa armada Lopo foarez daluarenga, filho de Rui gomes daluarenga chançarel mór que fora delRei dom Afonfo ho quinto, da qual armada fe trattara no anno feguinte de M. d. v. em que tornou aho regno. Capitu, lxxvií. Do que Afonso dalbvqverqve & Frãçifco dalbuquerque pajfaram em fua viajem, atte chegarem a Cochim. HA armada qve elRei mandou no anno de m. d. ii, de q foi por capitã ho Almirante dõ Vafquo da gama, iha também conçertada, afsi de munições de guerra, quomo de gente, que pareçeo a elRei ex-
  • cufado mandar no de Mil, & quinhentos, & tres, mais que feis Naos, confiado que antes que dom Vafquo partiffe da Iudia deixaria hos* negoçios em termo, q hos noffos podeflem tratar cõ hos da terra, quomo c6 amigos, & q fe guerra houueffe feria no mar, contra hos Mouros q nauegauão dos mares Darabia, & Roxo pera ho Malabar. Deitas leis naos, quomo atras fica dito fez duas capitanias, das quaes deu húa Afonfo dalbuquerque, hos outros dous capitães q iham debaixo da lua bãdeira erão Duarte pachequo pereira, de quê atras fallei, & fallarei aho diante, ho terçeiro era Fernão* martls dalmada, que morreo nella viajem, ha outra capitania deu elRei a Francilco dalbuquerque piimo Dafonfo dalbuquerque, hos outros dous capitães eram Nicolao coelho, que foi com dom Vafquo da gama a primeira vez à índia, & Pero vaz da veiga, em cuja companhia mandou hum Valeçeano per nome Antão lopez q viera da India com loam da noua, ho qual Antam lopez elRei mãdaua com embaixada aho Emperador da Ethiopia, & Rei dos Abexls. * Partio Afonfo dalbuquerque do porto de Bethlem, a feis Dabril deítanno de M. d. hi, & Françifco dalbuquerque ahos xiiij do mefmo, dos quaes Françifco dalbuquerque fez ho caminho primeiro q Afonfo dalbuquerque, porq chegou no mes Dagolto a Anchediua com Nicolao coelho, lem I ero vaz da veiga, que fe perdeo fem fe faber quomo. Alli achou Françifco dalbuquerq Pero da-*taide, & hos outros capitães que efcaparam da tor- menta de Curia muria, onde fe perderam hos Sodrés, & cõ elle Antonio do cãpo, de quê atras fallei, dos quaes foube ho que paíiaua em Cochim, pelo que, poíto que ainda ho inuerno duraíle, fe foi caminho de Cananor, onde chegou cÕ eítas feis velas, & foube dos noffos q alli eítauam particularméte tudo ho q acõteçera a elRei de Cochim na guerra paliada, & o mefmo lhe contou elRei de Cananor, peio que fe fez loguo á vela pera Cochim, onde chegou hum fabbado dous dias de Septemoio, do que elRei que ainda eítaua em Vaipim,3 .& todolos que fe alli reco- lheram foram mui alegres, & fobre todos, & hos noffos, q a olhos lõgos * 1 Na Ep.: «Destas seis naos, quomo atras fica dito fez duas capitanias, das quaes deu ha húa ha Afonso dalbuquerq de cujos memoráveis feitos, e façanhas se trattará aho diante: hos outros dous capitães q ihã debaixo da sua bandejra forã Duarte pa- chequo pereira, de que atras fallei, e fallarei aho diante, quomo de pessoa a quê todo bom cavalleiro pode haver enveja: ho terçeiro era Fernão...» 2 Na Ep.: «embaixada aho Emperador, e rei dos Abexis...» 3 Na Ep.: «e o mesmo lhe cotou elRei de Cananor, pello q vendo q de sua che- gada ha Cochí havia neçessidade, se fez loguo ã vela, onde chegou hú sabbado dous dias de Septembro, do q elRei de Cochim, que ainda estava 5 Vaipim...» * Na Ep.: «e sobre todos, hos nossos, q a olhos logos.. .•
  • — 166 — eftauam fperando naos, & nouas de Portugal. Ha géte de guerra q elRei de Calecut deixara nas tranqueiras que madara fazer em Cochim, no dia que ha noíla armada chegou, fe acolheo pêra Cangranor, por lho afsi ter mandado dizer elRei de Calecut1 quomo foube q ha noffa frota era chegada a Cananor. Frãçifco dalbuquerq depois q has naos furgirão fe foi nos bateis á ilha de Vaipim, onde ho elRei de Cochim veo reçeber á praia, & fem nenhúa fupftiçã das q vfam ê fuas viítas hos Reis do Malabar, ho leuou nos braços ê faído do batel, dizêdo a alta voz Portugal, portugal, & afsi todolos Naires q cõ elle eftauão •Fi. 75 cl. 2.* aho que* hos noffos cõ ha mefma alegria refpõderão cochim, cochim, cõ ha ql feita a fom de anafis, & outros inftrumêtos da terra, & das noflas trõbetas fe forão pa détro da ilha onde depois de Frãçifco dalbuqrque ter fabido has neçefsidades delRei de cochim, proçedidas da amizade que tinha com hos Portuguefes, allé do prefente q lhe leuaua da parte delRei dom Emanuel, lhe deu dez mil cruzados da dinheiro q trazia pa defpefa dàrmada, & carga das naos. Ha ql libera- lidade não tã fómête fez elpãto ahos delRei de cochim, mas muito enueja ahos q ho deixárão pelo íeruiço delRei de calecut, do que aho mefmo Rei coube boa parte, porque eíta gente do Malabar he húa da mais dada a intereífe, & a feu particular proueito, & de menos defpefa de todallas q íe no mudo fabe. Entregue pelo feitor darmada efte dinheiro ahos offiçiaes delrei de cochim, logo no mefmo dia ho leuou Frãçifco dalbuquerque nos bateis á çidade, & lhe deu ha poííe delia, em nome delrei dõ Emanuel. E por não eílar oçiofo, no mefmo dia deu em húa ilha q eítá defrõte de Cochim, de que ho Çaimal ie lãçára cõ elrei de Calecut, onde mattou muitos dos da terra que eftauão bê defeui- dados deite fobrefalto, & queimadas alguas das pouoações da ilha fe tornou victoriofo pa Cochim, dõde logo aho outro dia deu ê outra ilha •Fi.75».ci. 1.* delRei de Cochim per nome* Chiriuaipim, de q tambê ho caimal lhe fora tredor, lãçandofie cõ elrei de Calecut, ho ql caimal mattou CÕ muitos dos feus naires, pofto q cõfigo tiueífe tres mil, & muitos paráos, cõ gente delrei de calecut, allé do q lhe queimou has caías em q moraua no ql negoçio Duarte pachequo pereira, Nicolao coelho, Antonio do cãpo, & Pero dataide fezerã ho que a bõs & esforçados caualleiros cõuinha porque Duarte pachequo desbaratou ha géte, & paráos delRei de Calecut, & Nicolao coelho, \ntonio do cãpo, & Pero dataide ganharam has 1 Na Ep.: «no dia q ha nossa armada chegou has desempararam, fogindo pera Cranganor, per lho assi ter mãdado elRei de Calecut...»
  • 167 tranqueiras dos paços do Caimal, & o mattaram, & mandaram poer 1 às cafas. Hauida efta viftoria, por fer de calida-4 pera iíTo, armou Françifco dalbuquerq algús caualleiros no mefmo lugar em q ha houuera. Ho q feito fe tornou pera cochim, donde aho outra dia fez entrada na ilha de Repelim, q he delrei de calecut, na qual achou reíiftéçia de máis de dous mil Naires que defbaratou, & fez fugir atte o prinçipal lugar da ilha, onde houue cõ elles crua peleja, mas em fim depois de fere muitos mortos, hos outros defempararã ho lugar, do ql Françifco dalbu- quelq deu ho defpojo ahos Naires delrei de Cochim, do que lhe dera has graças & roubará tudo ho q acharão: ho q leito lhe mãdou poer ho fogo. Hauidas eftas vidorias, com leisçétos Portuguefes q Frãçifco •fi.75Y.ci.3.' dal-*buquerque leuou configo, & algús naires delRei de Cochim, elle fe tornou perà çidade, onde ho elRei reçebeo com tãta fefta, e alegria, quomo ho foc fazer hos véçidos, & delbaratados, aquelles per cuja ajuda, & fauor fam reftituidos nos regnos, fenhorios, & bés de que per tyrania de guerra, & outros defaftres fam defpoífados, fem fperança de reftituiçam. Capi. lxxviii. De quomo elrei de cochim dev liçeça a Françifco dalbuquerq pera fa\er hiía fortaleza onde lhe bem pareçejfe, & da chegada Dafonfo dalbuquerque. ENDO françifco dalbuquerq ho tempo difpofto, & quanta neçefsi- dade hauia de fe fazer húa fortaleza em Cochim, pera fegurança dos noffos, & do melmo Rei, lhe pedio pera iíTo liçença, ha qual lhe deu, moftrãdo leuar diífo muito contentamento, dizendolhe que ha queria fazer á fua cufta, por feruiço delRei de Porgal3 feu irmão. Hauida ha liçença Françifco dalbuquerque, cõ pareçer dos outros capitães, & feitor affentou que fe fezeffe açima de Cochim, na borda do rio, em hum lugar forte, & defenfauel, de q fe podia fazer muito dãno ahos delRei •Fi.76.1.1.» de Calecut por acoílumadamente entrarem por aquella* banda quãdo faziam guerra aho de Cochim, & por nam terem entam pedra, nem cal preftes ha fezeram de madeira de palmeiras, & doutras aruores, que elRei deu liçença que fe cortaffem nos feus bolques, & palmares. Efta obra fe começou ahos xxvij dias de Septembro do Anno de M. d. iii. ha 1 Et. /.: poer fogo. 2 Et. I.: calidade. 3 Et. I.: Portugal.
  • — 168 qual elRei iha ver muitas vezes, não querédo q trabalhaffem hos noffos nella, fenã hos da terra & afsi o pedio a Françifco dalbuquerq: com tudo pelo defejo que tinham de ha acabar, afsi índios quomo Portuguefes trabalhauão de meftura. Andando Françifco dalbuquerq occupado nefta obra quatro dias depois de fer começada, chegou Afonfo dalbuquerque a Cochim, com has fuas tres naos, & ha gête afaz bem difpolta, pofto q na viajê paffafsé muitas tormétas, & tépos contrairos, q lhe caufaram chegar tarn tarde, cõ cuja vinda fe acabou ha fortaleza cõ môr breuidade, ho q feito ordenáram hos capitães húa proçiífam em q ho vigairo leuaua hú Cruçifixo debaixo de hú paleo, indo diãte trõbetas, & foliães, & afsi forão per toda ha çidade com muito efpãto dos índios, de veré ho noífo modo de religião, & prazer por cafo da folia, coufa q atteqlle tépo nã virã, na qual ordé entrarã na fortaleza, q ho vigairo logo bézeo, & lhe pos nome Emanuel, por lébrãça àe noífo Senhor, cujo ho pprio »fi.76ci. a.» nome he, & por me*moria delrei do Emanuel, em cujo tépo fe fezera, & ha cruz pos na egreja que já eftaua começada & lhe deu nome da inuocaçam de S. Bartholomeu. Acabada ha fortaleza, Afonfo dalbu- querque, & Françifco dalbuquerque começáram de nouo cõtinuar na guerra contra elRei de Calecut, fazendo loguo fua entrada com fetteçétos Portuguefes, & algús Naires delRei de Cochim pêra irem fobre húas pouoações 4 do fenhor de Repelim, çinquo legoas de Cochim, de longo do rio, nas quaes deram de fubito, & mattárã muitos dos imigos, & hos outros fezeram fugir, mas depois da terra fer apelidada, fe ajuntaram mais de feis mil Naires, que hos trattdram mal, fe não fora ha boa ordé em que fe recolhérão ahos bateis, no ql negoçio por Duarte pachequo não achar ho feu no lugar em que ho dexara, teue trabalho em fe de- fender daqlles q ho feguião, por ho apertaré tanto, q fe não fora ho grande efforço cõ que pelejou, & acodirlhe Afonfo dalbuquerque, & Françifco dalbuquerque nos bateis, difiçilméte poderá efcapar das mãos dos imigos. Embarcado Duarte pachequo fe forão todos pera Coehim cõ oito homés feridos de frechadas, & nenhú morto, leuando cõfigo fette paraos q tomáram, afora quíze q queimaram, queítauão varados em »fi.76*.cl. i.» terra. Chegados a Cochim fem entrarem na fortaleza logo aqlla* mefma noite forão dar é outros lugares do mefmo ienhor de Repelim, na qual entrada por Afonfo dalbuquerque fe adiantar dos outros bateis, correo grãde rifco porque hos naires que guardauã ha pouoaçam q elle foi cõmetter, lhe mattaram dous homés, & ferirão vinte, no que efteue atte 1 Na Ep.: «começarão de novo cõtinuar na guerra contra elRei de Calecut: indo cÕ sette çétos Portugueses, e algús Naires delRei de Cochim sobre húas povoações...»
  • — 169 — ho romper da alua, áqual hora chegou a elle Françifco dalbuquerq & hos outros capitães, que fe logo lançaram dos bateis, & paràos pera lhe acodir, com cuja vinda hos imigos foram desbaratados, fugindo pelos palmares mattando hos noíTos muitos delles no alcançe. Acabado eíle negoçio, & queimada ha pouoaçam, foram dar no mefmo dia na ilha de Cabalam, onde queimaram duas grades pouoações, & mattarão mais de fette çentos dos imigos, com ha qual vistoria fe tornara a Cochim, dando cota a elRei do que fezeram, do que leuou muito contentamento, Com tudo porque de fua condiçam era muito bom home, & piadofo, lhes rogou que nam fezeffem mais mal do que jà tinham feito, que elle íe daua por vingado de feus imigos, ho q nam abaftou pera hos nolfos deixarem de fazer outra entrada pelas terras delRei de Calecut, & imigos delRei de Cochim, da ql Afonfo dalbuquerque, & Françifco dalbuquerque, depois de teré feito afaz de mal, nos lugares fobre que foram dar, fe *fi. 76v.cl.a.* recolheram* com muito trabalho, por virem íobrelles leis mil Naires, entre hos quaes hauia algús efpingardeiros. Neila entrada desbaratou Duarte pachequo, com ha gente da fua capitania, trinta & quatro paráos, delRei de Calecut bem armados, que defendiam hos pafTos ahos mer- cadores que trazião pimenta a Cochim, perà carga das naos. 0 Capitu, lxxix. Do fitio da cidade de covlam, & dos cojlumes dos Chrijlãos que nella viuem, & de quomo Afonfo dalbuquerque foi lá com tres naos, & do que fe\. HA çidade de Coula foi antiguaméte ha mais riqua & profpera de toda ha terra do Malabar, mas poftoque ainda feja húa das prin- çipaes desfez muito nella ha de Calecut, depois que hos mouros alli affentaram tratto, & ho mefmo ha de Cochim, depois que hos Portuguefes nella fezerã refidençia. Hà de húa á outra doze legoas, has cafas, & pagodes fam quomo has das outras çidades do Malabar, tem muito bom porto, abaítada de mantimentos, hà nella muitos mercadores chriftãos, mouros, & gentios. Ho Rei he riquo, & poderofo, por cafo dos muitos -Fi. -7 d. I.* portos de mar q tem, onde ordinariaméte entram mui*tas naos carregadas de mercadorias, de que lhe pagam direitos: traz fempre muita gente a foldo, tem muitas vezes guerra com ho de Narfinga, ho mais do tempo refide nas çidades do fertao, & na de Coulam tem fempre por regedores, & gouernadores peffoas prinçipaes de feu regno, por fer de muito tratto, & muito frequétada deílrangeiros. Neíte regno de Coulam hauia naquelle tempo mais de doze mil cafas de criftãos dacrença dos que naquella 22
  • — 170 — prouincia fe couerteram pela pregaçam do Apoftolo S. Thome. Aliem das Egrejas que tem pelo fertam, hà na çidade húa mui antigua, ha qual dizé hos chriftãos que fundou ho mefmo Apoftolo milagrofamente, & que jàz fepultado na çidade de Mailapur, do fenhorio delRei de Nar- finga, na mefma cofta. Ha egreja onde jaz he quomo has noflas, não tem outras images que cruzes nos altares, & húa de pao grande no meo de abobada, quomo ho tem todalas outras q hà naquellas prouinçias. Eftaua nefte tempo em q là foi Afonfo dalbuquerque toda cuberta de mato, por aquella çidade fer muito pobre, & defpouoada: tinha cuidado delia hum Mouro que fe mantinha defmolas que lhe faziam, afsi chriftãos, quomo mouros, & gentios cjue alli vam em romaria, porque todos tem •Pi. 77 ei. ».• nella deuaçam, poios milagres que ho Apoftolo ahi faz.* Dizem eftes chriftãos que quãdo enterrarão ho corpo deite bem auenturado Apoftolo que núqua lhe podéram metter ho braço direito debaixo da terra, porque cõ efte meteo hos dedos no lado de noffo fenhor Iefu Chriíto, & que afsi efteue muitos ãnos atte q no tempo em que hos Chis conquiftaram ha índia, foram alli ter algús delles em romaria, hos quaes lhe quiferam cortar ho braço pera ho Ieuarem configo a fuas terras por relíquia, & q em lho querédo cortar fencolheo pera debaixo da terra, fem ho ningué mais nunqua ver. Té eftes chriftãos de Coulão lenda da vida, & milagres defte Apoftolo, & liuros de coftumes Ecclefiafticos, per q fe rege, & gouernão açerqua da religião, do q tudo me pareçeo afaz fcreuer aquillo q abafta pera fe faber onde jaz ho feu corpo, & q há naquellas partes eftes, & outros chriftãos, de q trattarei adiante. Mas tornãdo aho que toca ahos negoçios da guerra, que Afonfo dalbuquerque, & Françifquo dalbuquerque fazião a elRei de Calecut foi em tanto creçimento, que hos mercadores que acoftumauam trazer piméta a Cochim pelos rios abaixo, ho nam oufauam fazer, porque hos de Calecut mattauam, & roubauam muitos delles, pelo que foi neçeífario ir Afonfo dalbuquerq carregar tres naos a Coulam, aho que ho moueo terlhes ha Rainha viuua, •fi. 77 v. «1. i.« mal* delRei fcripto q foífem aquelle feu porto, & lhes mandaria dar toda ha piméta que lhes folie neçeflaria, com quem foram Pero da taide, & An- tonio do campo, onde em chegando Afonfo dalbuquerque ho vieram hos re- gedores da çidade vifitar à fua nao, offereçendolhe da parte da Rainha, & delRei tudo ho q lhe folie neçeílario. Afsi que feita ha carga, & aífentadas pazes, & amizade com hos regedores, elles em nome delRei de Coulam, & Afonfo dalbuquerque em nome delrei do Emanuel, fe partio pera Cochim, deixando alli Antonio de fá de Santarém por feitor, & Rui daraujo, & Lopo rabello, por ícriuães, & frei Rodrigo por capellão, & Rui dabreu, & Gonçalo gil cõ outros Portuguefes, que feriam por todos atte vinte.
  • — i7i — Capit. lxxx. De quomo se federam pa^es entre hos nojfos, & el Rei de Calecut que fe logo quebraram, & da partida de Afonfo dalbuquerque, & Françifco dalbuquerque pera ho regno, & do que pajaram na viajem. ELREI de calecvt arrependido da guerra que tinha com elRei de Cochim, & cõ hos noffos, defejofo de paz, por faber que delia fe •Fi.77v.ci.».* lhe hauia de feguir proueito, deu diffo* cota aho Prinçipe Naubeadarim feu fobrinho, que fempre fora cõtrairo a efta guerra, per cujo confelho, & pareçer fe trattou cõ Frãçifco dalbuquerque, com tanto fegredo que hos mouros da terra ho nam fouberam fenam depois de fer aífentada, & hos contrattos afsinados, ha força dos quaes era que elRei de Calecut fofle amigo delRei de Cochim, & mandaffe logo recolher has armadas q trazia pelos rios, & que pela fazeda que fora tomada a Pedralurez ca- bral, quando mattaram Aires correa, daria logo mil, & quinhentos ba- hares de pimêta perà carga darmada, q faz cada bahar tres quintaes tres arrobas, & dezoito arratés da noffo pefo, & de qualquer outra mer- cadoria quatro quítaes, & que nenhú Mouro1 dos de Calecut podelle nauegar pa ho mar Darabia: nas quaes capitulações Françifco dalbu- querque iníiftio muito por hauer hos dous Milaneíes que fe laçáram em Calecut, mas elRei lhos não quis etregar, dando pera iffo razões fufiçietes. Ifto afsi concluído & aífentado, Naubeadarim le foi a Crãganor per mãdado delRei feu tio, onde começou ha fazer ha étrega da pimenta, & tendo jà dados oito çentos bahares a Duarte pachequo pereira, que là a iffo mandara Frãçilco dalbuquerque, trabalhando pera ajuntar toda ha fomrna, aconteçeo •fi. 78 ci. 1.* que Diogo fernandez correa feitor de Cochim, fa*bendo que iha hum tone carregado de pimenta pera Cranganor, que era delRei de Calecut, lem diffo dar conta a Françifco dalbuquerque, ho mandou tomar per força, & trazer a Cochim, & porque hos do tone fe defendião, cõ dizer, que eram amigos delRei de Calecut, com quem jà tínhamos paz, & que aquella pimenta era pera hos Portuguefes, & nada difto aproueitar, vierão ás mãos, no qual debate mattarão hos noffos feis dos Malabares que iham no tone, & feriram outros ho q nam foi fem hos Malabares ferire também muitos dos noffos, do que logo Naubeadarim fe aqueixou a Françifco dalbuquerque, pedindo lhe que defte cafo fe fezeífe emenda, pera latis- façam delRei de Calecut, ho que nam fazédo, foubefe de çerto, que 1 Na Ep.: «q faz cada bahar quatro quintaes do nosso peso, e q nenhú Mouro..
  • — 172 — fegundo elRei era de fua condiçã hauia de quebrar has pazes, & vin- garfie dáfrõta que lhe era feita, aho q Françifco dalbuquerque nam fatisfez, nem com obras, nem cÕ palauras, pelo que logo elRei de Ca- lecut mandou foltar hos paráos darma da poios rios, & ha guerra fe re- nouou, per culpa dos noflos, ha qual começada elRei de Cochim dixe a Françifco dalbuquerque q ha determinaçam delRei de Calecut era em elle partindo da índia, bufcar todolos modos de ho deftruir, pelo que lhe pedia que lhe deixaífe copanhia de Portuguefes pera fua guarda, & de- •FL780Í. 1.' fen*fam de leu regno, ho q lhe prometeo fazer, mas ha copanhia na foi tal, qual pera hú tamanho negocio couinha, porq fe partio cõ nã deixar mais é feu fauor q húa nao & duas carauellas, & hú batel grade de húa nao, cõ obra de çem homés Portuguefes, afora, çinquoéta que ficauão na fortaleza, ha capitania das qes quatro velas deu a Duarte pachequo pe- reira, q por feruiço de Deos, & delrei dõ Emanuel ha açeptou, fem arreçear ho grade perigo em que ficaua: hos capitães das carauellas eram Pero raphael, & Diogo piz. Iíto feito, & chegado Afonfo dalbu- querq de Coulam cõ has tres naos que lá fora carregar, fe partirá de Cochim pera Cananor, onde reçebeo cartas de Rodrigo reinei que ficára em poder de Naubeadarim em Cranganor, onde eítaua reçebendo ha pimenta quando fe ha guerra rompeo, perque ho auilaua do gram poder que elRei de Calecut ajuntaua cõtra elRei de Cochim, & ho mesmo auifo teue per cartas de Cojebequij, ho Mouro nolfo amigo, que moraua em Calecut, mas né ifto aproueitou pera deixarem mais géte a Duarte pacheco. Dalli fe foram a Calecut, onde depois de furtos mandáram pedir a elRei Rodrigo reinei, & outros Portuguefes queítauam em feu poder, do que fe excufou, pelo que por fe paliar ho tempo da nauegaçam •fi.jJt.ci. i.» nam quiferã mais fperar. Tomada dalli fua* derota caminho do Regno, partio primeiro Afonfo dalbuquerque, & Françifço 1 dalbuquerq depois, aho derradeiro de Ianeiro de Mil, & quinhétos, & quatro: Na qual viagem fe perderam elle, & Nicolao coelho fem fe faber onde né quomo- Pero dataide le perdeo nos baixos de fam Lazaro, mas ha gente fe falvon 2 com parte da qual le foi em hum zambuquo a Moçãbique, onde morreo, & há outra fe foi a Melinde. Antonio do capo, q Afonfo dal- buquerq, & Françifco dalbuquerque defpacharam da índia algús dias antes que partiflem (com has nouas da perdiçam dos Sodrés, & guerra dos Reis de Cochim, & Calecut) chegou a Lisboa ahos xvj dias de Iulho de M.d.iiii, & Afonfo dalbuquerque ahos xxiiij Dagofto do mefmo anno, 1 Et. I.: Françifco. 2 Et. /.; faluou.
  • — i73 — ho qual entre outras coufas q apprefentou a elRei foram dous cauallos da Perfia grades, muito fermofos, & ligeiros, q elRei eftimou muito, por fere hos primeiros q daquellas partes vieram a efte Regno. Capit. Ixxxi. Da viajem qve Antonio de Saldanha fe\ à índia, & do que pajjou at te \a1 chegar.2 DEPOIS da partida de Afonfo dalbuquerque, & Françiíco dalbu- querque, mandou elRei tres * naos á India, que antes que elles partiffem fe fazião preftes, de que deu ha capitania a Antonio de faldanha, hos outros capitães que leuaua debaixo da fua bãdeira, erão Rui lourenço rauafquo, & Diogo fernãdez peteira de Setuual. Efta capitania ordenou elRei pera andar darmada defno cabo de Guardafum, atte has portas do eftreito do mar Darabia, das qes tres naos depois q partirão do porto de Bethlé, atraues do cabo verde, cõ téporal fe perdeo da companhia ha de Diogo fernãdez peteira, & íem fe mais veré, foi ter á cofia de Melinde, onde fez algúas prefas, & dalli fe foi inuernar á ilha de Ça- cotorá, à qual atte aquelle tépo nenhúa das noífas naos fora ter, donde depois de paffado ho inuerno nauegou perà índia, eítãdo lá Lopo foarez daluarenga preftes pera fe partir pera ho Regno, quomo fe aho diante dirá. Antonio de faldanha leguindo fua viagem, per má nauegeçam, & negligêçia do Piloto, foi ter á ilha de fam Thome, dõde depois que partio fe apartou delle com temporal Rui lourenço rauafquo, q elle de- pois achou em Melinde fazendo guerra a elRei de Mombaça, em fauor do de Melinde quomo logo veremos. Nauegãdo Antonio de Saldanha é bufca do cabo de boa Sperança, ho Piloto ho leuou áquem ha húa en- leada, dandolhe a entéder que ho tinha paliado, aho qual lugar pola •FI.79CI. i.» au*guoada que nelle fez ficou nome daugoada do Saldanha. Partido dalli dobrou ho cabo feguindo fua viajem, em q ho deixaremos por fallar hú pouco no q aconteçeo a Rui lourenço rauafquo depois q fe delle apartou, ho ql foi ter a Moçambique, & dahi a Quiloa, onde fperou xx dias por Antonio de Saldanha, mas vedo que nam vinha, fe foi á ilha de Zamzi- bar, que he aquém de Mombaça vinte legoas, entre ha qual, & ha terra firme hà tam pouqua diftãzia, cj nã pode pafiar nao nenhúa q fe nam veja dambalas partes, pelo q fe deixou alli andar dous mefes em que tomou mais de xx zambuquos, q iham carregados de mantimétos pera t Et. /.: la. 2 Na Ep.: «e do que passou atte tornar ao Regno.»
  • — 174 — Zamzibar', & hos mais defies zãbuquos refgatou a dinheiro, mas com que auçam iíto podia fazer, defédaho ho mao direito da guerra, & ty- rania delia, porque ho fenhor de Zamzibar eílaua de paz com nofoutros, & nunca delle reçeberamos dãno. Feitos eítes males com hos quaes, afsi eíte capitam, quomo muitos outros Portuguefes, deram mais azo de fermos mal quiítos é toda ha cofia da Ethiopia, Arabia, Perfia, India atte hos Chins, que bem queridos, nem amados Rui louréço coíleou ha Ilha, & foi furgir diante da çidade de Zamzibar, a quem ho fenhor delia mãdou logo perguntar fe era elle ho capitam Português que lhe fazia «FI.79CI. *.« guerra, fendo* elle amigo delRei de Portugal, & lhe tomaua hos nauios q vinham de paz perá quella fua çidade, carregados de mantimentos: cotudo q lhe pedia que do paífado fe não fezeífe cafo, mas que ha artelharia q tomara dos zambuquos lhe mandaífe. A eíle recado refpondeo Rui lou- renço mais afpero do que conuinha, nam tendo conta cõ tam juila, & honefla, petição, do que fe feguio mandar fobrelle algús paràos armados, & efquipados de gente, dos quaes Gomez carrafco, fcriuão da nao, & Louréço feo tomaram com ho batel da nao quatro que trouxerão a bordo, & hos outros desbaratados fe tornáram perá terra, com lhe hos noíTos mattarem algús às bombardadas, entre hos quaes foi hú filho do mefmo fenhor da Ilha pelo q temendo que lhe fezeífem mais dãno, lhe mãdou pedir paz, ho qual recado Rui Louréço tomou na fua nao, cuja fubítãçia foi, que nam refpeitando á perda que tinha recebida, né à morte de leu filho, & dos q com elle morrerão, queria ter paz cõ elRei de Portugal, ha qual lhe Rui Lourenço cõçedeo, com ficar tributário cadãno em çem Mitiquaes douro, pagando logo hos daquelle anno. Feitas eítas pazes, Rui Lourenço fe foi pera Melinde, em bufca Dãtonio de faldanha, onde achou ho Rei noffo amigo de guerra cõ ho de Mombaça, por cafo dami- •fi.79v.ci.i.« zade que tinha cõ hos Portugue*fes, pelo q por afsi pareçer be a elRei de Melinde fe foi lançar diante da çidade de Mombaça, onde tomou duas naos, & tres zambucos, em que vinhão doze mouros prinçipaes da çidade de Braua, íituada abaixo de Álelinde çem legoas, & porqueíles eram has peífoas prinçipaes daquella çidade de Braua, & tras elles feguia húa nao fua delles carregada de mercadorias, com medo que lha tomaffe Rui Lourenço, allé de refgatarem fuas peífoas fe obrigarã a fazer ha mefma çidade tributaria a elRei dõ Emanuel, em quinhentos mitiquaes douro cadãno, pedindo logo a Rui Lourenço húa bandeira das armas do regno, pera dalli por diante poderé nauegar feguros das noífas armadas, ha qual lhe elle deu. Eítando nefles cÕçertos chegou ha mefma nao aho porto, 1 Na Ep.i «pra mesma çidade de Zamzibar...»
  • 175 ha qual lhe Rui Lourenço entregou liuremente, fem delia querer tomar coufa nenhúa, pelo que fe partiram delle mui contentes. Andando afsi occupado Rui Lourenço, chegou Antonio de Saldanha a Mombaça com tres naos que tomara depois que partira de Quiloa, cÕ ha vinda do qual temendo elRei de Mombaça mores damnos pelo mar, dos que já tinha recebidos, fez pazes com elRei de Melinde, has quaes aífentadas, & juradas Antonio de Saldanha, & Rui lourenço fe partiram perá índia, «Fi.79T.ei.*.1 onde chegaram com algúas prefas* que fezerã defna çidade de Méte que he aliem do Cabo de Guardafum, atte has ilhas de Canacania, & de Anchediua, dos quaes fe dira em feu lugar. Capit. lxxxii. Da morte de dom afonso conde/labre de Portugal & da Rainha de Cajlella dotma Ifabel, & do nafçimeto da Infante donna Beatri\ TRAS fica dito quomo ho Condeftabre dom Afonfo cafou com donna Ioãna de noronha, filha de dom Pedro de menefes, primeiro Marques de villa Real, ho qual Condeftabre eftando em Beja, moço, & na frol de fua idade veo ádoeçer de doença de que morreo, no meímo lugar, no mes Do&ubro deftãnno de M.d.iiii, de cuja morte elRei moftrou grade fentimento, por lhe fer muito afeiçoado. Deixou húa fó filha p nome donna Beatriz, que allé de fer muito difcreta, foi húa das fermofas, & bé difpoftas molheres, que em feu tempo houue neftes Regnos, com has quaes partes, & nobreza de fangue, & bom dote que tinha trouxe fempre opinião de cafar com ho Infante dó Fernãdo, filho terçeiro delrei dom Emanuel, pofto que foífe muito mais moço quella, mas por lhe ifto nã • fi.80ci. i.« fucçeder à vontade cafou depois* com dom Pedro de menefes, feu primo com irmão, Code Dalcoutim, filho herdeiro de dom Fernãdo, fegundo Marques de villa Real, quomo fe aho diante dirá. No mefmo anno de M.d.iiii, faleçeo em Medina dei campo ha Rainha donna ifabel, cuja morte fencobrio na corte por cafo da Rainha donna Maria fua filha andar prenhe, & quafi nos derradeiros dias em q fefperaua ho parto, no qual Deos ha alumiou a húa quarta feira derradeiro dia de Dezembro deftãno eftãdo ella, & elRei em Lisboa nos paços Dalcaçoua, onde pario húa filha a que poferam nome dona Beatriz, que depois cafou cõ dom Carlos Duque de Sabóia, do qual cafamento fe trattará em feu lugar, nefte anno houue neftes Regnos grandes, & efpãtoios terremotos, com q cairam muitos edifiçios, de maneira q hos homes tomauam por partido habitar nos campos, fora de fuas cafas, & longe das montanhas, cõ medo que afsi húas quomo has outras caifíem fobrelles.
  • Capit. Ixxxiii. De quomo dom loam de Menejes foi por mar a Larache, & do que ahi fe\. LARACHE he húa villa forte fobre hum rio a çinquo legoas Dar- zilla, em que fe reco*lhem muitas fuftas, das que anda a faltear, onde neíte têpo eftauam quatro carauellas que hos mouros tinhão tomadas de Portugal, do que do loam de menefes eftaua tam magoado q deter- minou de ir fobrefta villa, ho qual defejo íe lhe acreçétou, vendo hú dia paíTar por diante Darzilla húa galé real Dalmandarim alcaide de Tetuão, & çinquo galeotas q iham pera Larache, has quaes na mefma noite mandou efpiar per terra, & foube quomo hos mouros varáram has ga- leotas entre has carauellas, & q ha real tinham mais perto daguoa apar de hú baluarte q eítà na entrada do rio, q guardauam Toldados cõ muita, & boa artelharia, ho q fabido armou tres carauellas q eftauam no arre- çife, & com outras tres de que era capitão Garçia de Mello, anadel mór dos befteiros da faldrilha que andaua nefte tempo no eftreito, partio Darzilla ahos 1 xxiiij de Iulho do anno de M.d.iiii, vefpera do dia da fefta de Sanétiago Apoftolo mandado per terra çinquo de cauallo auer fe has gales eftauão ainda varadas-quomo dantes, & na mefma noite mandou ho batel a terra a tomar falia dos efpias, que lhe affirmáram ho que hos outros efpias tinhão dito, ho que fabido fez metter has velas. & aho outro dia amanheçeram elle, & Garçia de Mello fobela barra de Lara- •fi.8ot.cLi.* che, junto com ho baluarte2, mas hos mouros que ho guarda*uam conhe- çendo q has carauellas eram de Chriftãos eomeçáram de has feruir cõ artelharia, ho que vedo dom loam, fez guarneçer com colchões, & faquas de lã que pera iffo trazia hos coitados de húa carauella, & quomo lhe feruio ha maré, mãdou aho capitã q fe foífe poer defronte do baluarte, pera has outras paliarem mais feguras por detrás delia, has quaes todas foram bê leruidas de bõbardadas & frechadas do baluarte, & da galé real Dalmãdarim, cõ tudo elles paífaram, & foram furgir adiãte, & em lurgindo, por ho rio fer alcãtilado, faltaram muitos em terra, aho q hos mouros acodiram, mas aproueitoulhes pouquo, porque às lãçadas, & efpingardadas fe foram recolhendo contra ha gallé real, pondoíTe diante delia eftes, òt outros q le alli mais ajuntárao, com teçam de ha defender » Na Ep.: «ho q sabido armou quatro caravelas q estavam no arrecife, e com ha gente q lhe era necessária partio Darzilla ahos...» * Na Ep.: «e aho outro dia amanheceo sobela barra de Larache, junto com o ba- luarte...»
  • — 177 — do fogo le lho hos Chriftãos quifeífem poer, no qual lugar fe trauou húa braua peleja, em que fora feridos, & mortos muitos delles, atte que amai de feu grado defempararão ha galé, aque íe logo pos ho fogo de q ardeo toda, & lhe tomaram has çinquo galeotas queftauã varadas em terra, & dous bargantís & húa das quatro carauellas q elles tinha tinha tomadas, & às três por eftaré em parte q fe não podião tirar, poferam també ho fogo. Ho q aífi feito, do loam, porque recreçia muita gente "Fi.8oy. ei.!.* dos mouros, feruindolhe ha maré, mandou recolher* hos feus, & ho mefmo fez Garçia de mello, & afsi fe fairam do rio a feu faluo *, fem lhe mattarem mais que hum fó home, cõ ha qual viétoria, pos dom Ioão muito efpanto ahos mouros2, porque atte entam nunqua lhes tal aconteçera naquelle porto, nem fei fe aconteçeo depois, & afsi fe veo Arzilla, onde entrou no arreçife com onze velas, partindo da villa cõ tres, & Garçia de mello ficou no mar com lias fuas tres carauellas guardando ho eftreito quomo ho dantes fazia. Com efta noua foi elRei dom Emanuel muim alegre 3 tédo has coufas de dó loam em tanto, q hauia mui poucas peffoas no regno de q mór confiança tiuefTe q delle, em todolos negoçios q tocauam ahos feitos da guerra, na qual foi fempre mui fagaz, diligéte, & bem efcançado atte ha hora de fua morte, quomo fe no difcurfo deita Chronica verá. Cap. lxxxiiii. De quomo dom loam de menesesfoi fobre hfias aldeas de Mouros, & do que pajfou nejia entrada. NA serra do Farrobo, a çinquo legoas Darzila, eftão has aldeas de Aljubilia, & Archana, pelo pé da qual ferra paífa hum rio que •fi.8i ci. i.« de inuerno nam té vao, do q confiados hos mouros, eítauão nefta fa*zam fora de cuidar que hos Chriftãos oufaffem de cometter ha ribeira, lan- çando feu gado de logo delia andando elles mefmos no campo folgando, & caçando fem nenhum reçeo. Dom loam quomo era caualleiro, nam podia fofrer has nouas q lhe cada dia hos efcutas difto dauam, pelo q propos de hos ir bufcar, pera ho que mandou logo fazer em fua cafa ou môr fegredo q pode duas barcas quadradas, de grandura que podeffe cada húa delias ir em fua azemala, has quaes acabadas, fperou húa noite 1 Na Ep.: «mandou recolher os seus, e se saio do rio ha seu salvo...» 8 Na Ep.: «cõ ha qual victoria pos muito spáto ahos mouros...» 3 Na Ep.: «e assi se veo Arzilla, onde entrou no arreçife com doze vellas, partindo da villa com quatro. Com esta nova foi elRei dom Emanuel mui alegre...»
  • — 178 — de çarração, & tépeftade, em que mandou tanger has trombetas á caual- gada, do q hos fronteiros, & moradores, ficaram efpãtados por ha noite não fer de calidade pera ningué oufar a fair de caía, mas confiados no faber, & esforço de dom loam, fem nenhú lhe pergútar ho que queria fazer, fe poferam todos a cauallo, dos quaes leuou configo duzentos, & vinte, & fendo já afaftado davilla lhes dixe aho q iha, & ha caufa pera que leuaua has duas barcas, rogandolhes, que fe na companhia houuefle quê arreçeaffe de fer cõ elle no feito, q dalli fe podia tornar, ho que nenhú fez, mas antes lhe refponderam todos, que fe neçeífario foífe paf- farem outra mór ribeira, & feguir mais adiante, que elles ho farião, ho que dito caminharam atte chegarem á ribeira, q acharão muito temerofa, •Fi.8101.2.» por cafo da aguoa q creçera com ha chuua,* mas pofto que muita foífe, & ha chuua não ceífaífe, em chegando mandou a hum feu criado per no me Fernão de freitas, que paílaífe anado com húa corda nos dentes, atte húa coroa que eítaua aliem da vea de aguoa, pera por alli aliar húa das barcas, que iha atada a eíla corda, & ficaua amarrada à outra, cõ has quaes allãdo, & fuxando paífou toda ha gente, com has 1 fellas dos cauallos, & elles á toa. Quomo dom loam fe vio da outra banda começou denca- mmhar per húa varzea, que per fpaço de mea legoa eftaua alagada da chea, & a lugares tão alta que daua ha aguoa pellas çilhas ahos cauallos, & foi tamanho ho medo que ha ribeira pos a todos, que muitos fe tor- naram fe nam houuerão vergonha de ho fazer. Paífada ha aguoa fe forão em ordenança poer em çillada fobelas aldeas, & quomo fe hos Mouros nam temiam, em amanheçendo fairam a caçar, & folgar pelo campo, & a fuas horas acoítumadas lançarão ho gado a paçer, mas em todo efte tempo nam quis dom loam de menefes fair a eítes, fperando que de- çeíTem mais das aldeas, àqual hora açertaram de vir dous caçadores dar Cobella çilada, pello que lhe foi forçado deícobriíTe, & correr ahos que jà andauam pello campo, de que hos noífos mattaram muitos, & captiua- •Fi.81 r.ci. i.« ram feífenta almass, & trouxeram muito gado groífo, que* fezeram paífar ha agoa a nado, & elles nas barquas, fem lhes das aldeas fair quem lho eftoruaffe, & afsi chegarão Arzilla já tarde, onde hos tinhão por per- didos, por cafo da muita aguoa q aquella noite chouera, cuidando que fe perderião no rio, ou que fe ho pafTaífem que não poderião tornar a quem & que às mãos hos tomarião hos Mouros daquellas aldeas, por ferem muito pouoadas, & hauer per toda aquella comarqua mui boa gente de guerra. 1 Na F.p.: «com has quaes alando, suxando passou ha outra barqua, e toda a gente, com has...» * Na F.p.: «e captivaram quasi sessenta almas.. .•
  • — 179 — Capit. lxxxv. De quomo depois da partida de Afonfo Dalbuqiierque, & Frãçifco Dalbuquerque fe renouou ha guerra entre hos Reis de Calecut, & de Cochim, & do que Duarte pachequo pereira nijjb fe\. DVARTE pachequo com ha fua nao & carauella de Pero Raphael, porque ha outra de Diogo píz ficou em Cochim pera ha coçer. tarem, acompanhou Afonfo dalbuquerque, & Françifco dalbuquerque em quanto eftiuerão em Cananor, & no porto de Calecut. Depois da partida dos quaes fe tornou pera Cochim por cafo da guerra que ho Çamorij Rei de Calecut queria outra vez começar, onde em chegando elRei ho •Fi 8.* ci veo reçeber, & lhe dixe ha çerteza que* tinha da guerra, & quomo defef- perado de íe poder defender lhe pedio afincadaméte que ho defenganaífe, fe era verdade que ho hauia dajudar neítes trabalhos, ou fe eram lô- mente moftras ho que andaua fazendo, pera ho entreter em palauras, atte fe ir pera Cananor, ou Coulam, porque com tão pouca géte, nauios quomo lhe deixara Afonfo dalbuquerque, & Françifco dalbuquerq duuidaua que oufaffe de pelejar cõ ho poder delRei de Calecut. Duarte pachequo q fobre fer muito bõ caualleiro era demafiadamente colérico, & agaftado, mouido deftas palauras, fegundo fe nelle vio, efteue quafi pera remeter a elRei: com tudo cheo de colora lhe dixe, que confiaua tanto em Deos q hauia de prender elRei de Calecut, & prelo ho mandar a Portugal, q defcançafle, & fezeffe fua géte preftes, q quanto á Portu- guefa nam tinha que duuidar. Acabada efta pratica elrei fe recolheo pera feus paços, & Duarte pachequo perá fortaleza, & porque lhe di- xeram que hos mouros de Cochim, com medo delRei de Calecut ie queriam ir todos da çidade, mandou chamar algús delles a cafa de hú dos prinçipaes per nome Clinamacar, onde lhe fez húa falia, exortando hos a fe não irem, dando lhes razões porque ho nã deuiã fazer, na fim •Fi.gi ci. i.« das quaes lhes dixe que juraua per fua lei, q hos que fe foífem, & depois achaffe q* hos hauia denforcar a todos, & q ho melmo faria logo alios q loubeffe de çerto que queriao defemparar ha çidade. Com elta falia, hús per medo, & outros per vontade lhe prometeram de fe não ire pera nenhúa outra parte, & q por feruiço delRei de Portugal, & do de Cochim poriam has vidas, & fazédas. Ifto acabado Duarte pachequo, q em outra nenhúa coufa tinha ho fentido, fenã em quomo hauia danojar elRei de Calecut, étrou algúas vezes pelas terras de Repelim, & outras de teus alliados, & vafTallos, nas quaes entradas fez muito damno, & queimou muitas pouoações, tornando fempre viótoriofo a Cochim, pofto que em
  • húa entrada deitas que fez em Repelim lhe feriífem oito dos feus, com has quaes vidorias alegraua toda ha çidade, & fobre todos elRei, que jà começaua ter nelle mais confiança do que lhe pouquo antes dera ha entender. Ho Çamorij rei de Calecut fabendo ho eítrago q Duarte pa- chequo fazia em fuas terras, apreíToufe ho mais q pode, com húa groíTa armada, per mar, & per terra atte chegar a Repelim, com tenção détrar na ilha de Cochim, pelo paffo de Cambalam, do que çertificado Duarte pachequo per cartas de Rodrigo reinei, que depois morreo em Calecut, & de Cojebequij, ordenou ha gente q hauia de ir com elle pera detêder ho paffo, & deixar na lua nao, & for*taleza pelo modo feguinte. Na nao deixou xxv homes com ho méítre, Diogo pereira, que ficou por capitão, CO muita artelharia, & munições de guerra em guarda da çidade. Na fortaleza deixou por capitão Diogo fernãdez correa feitor, com trinta, & noue homes, em q entraua Lourenço moreno, & Aluaro vaz fcriuães da feitoria. Configo leuou ha carauella de que era capitão Pero raphael, com xxvj homes, & dous bateis, & por capitão de hum, Diogo pis com xxiij homes, a quem mãdou que andalfe nelle, atte fer conçertada ha fua carauella, no outro batel iham xxij homes em q entraua ho mefmo Duarte pachequo, dos quaes hú Simão dandrade, que pofto que ainda foífe mã- çebo jà naquelle tépo daua moftras de quam bom caualleiro depois faiho. Ihao nefta pequena armada lxxiij homes Portuguefes com hos capitães, todos confeífados, comungados, & ajuramentados de morrerem hús pelos outros ates que fe deixaré captiuar, nem cometterem coufa que perjudi- caífe a fuas honrras. EIrei de Cochim eftaua na çidade quãdo fe Duarte pachequo defamarrou de diante da fortaleza, & em chegando onde elle eltaua ho veo reçeber á praia com muita alegria, mas quando vio queftaua porta ha fperança de fe perder, ou ficar em feu regno, em húa tam pe- quena companhia, em comparaçam* do exerçito delRei de Calecut, q com lua gente cobria ha terra, & com hos paraos intopia hos rios do Malabar, CÕ has lagrimas nos olhos lhe pedio, que pois ja delle, nem de feu regno fe não podia fazer conta, nem em todos elles hauia poder, nem refiftençia contra feu imigo, lhe rogaua que cõ hos feus bufcaífe modo de fe faluar q pois jà eftaua certa fua perdiçam, & de todo feu eftado, q proueito fe' lhe podia feguir, de pareçerê em fuas terras, fem lhe poder valler, homés a que tanto bem com razam queria, vendohos tam auimados 1 a mor rerem, polo liurarem dos trabalhos, & perigos em que ho fua trifte" ventura tinha pofto. Duarte pachequo pofto que muito esforçado foífe nam ficou fem fazer mudança, nam pelo reçeo dos perigos que lhe 1 Et. /.: animados.
  • — 181 — eftauam aparelhados, fenam pela compaixão que houue delRei, & dos q junto delle eftauam, a que todos via com muito menos esforço do q dauam a entender, às palauras delRei, com tudo lhe difle q nam def- confiaffe porque ha força daquella armada eftaua no poder de Deos ver- dadeiro, que hos Portuguefes criam & adorauã ho qual fperauam que confundiria elRei de Calecut, & faria falfas todalas fperanças que lhe feus feitiçeiros dauam, do fucçeíTo defta guerra que tinha começada, & •Fi. 8av.ci. a.* que ifto era quanto a Deos que podia tudo, mas que quanto ahos homes,* que aquelles feus erao tam esforçados, & ho paífo onde iha fperar elRei de Calecut tam eftreito que nelle fperaua de ho desbaratar, fern nenhúa outra ajuda. Cõ eftas & outras palauras ho cõfolou ho milhor que pode, fallãdo fobelo modo que cada hum delles deuia ter nefta guerra, perá qual elRei nam tinha mais que çinquo mil Naires, por cafo de muitos dos feus fe lançarem cõ ho Çamorij. Deftes deu quinhentos a Duàrte pachequo, que leuou configo na carauella, & bateis, & em nauios da terra, de que erão capitães Cãdagora, & Frãgora feus veadores da fa- zenda, & ho Caimal de Palurt, & ho Panical Darraul, ahos quaes mãdou q em tudo obedeçefsé a Duarte pachequo, que com efta companhia partio de Cochim de noite, húa fefta feira antes do Domingo de Ramos, dezafeis dias do mes de Março de M.d.iiii, & duas horas antes do dia chegou aho paífo de Cambalam.1 Capitu, lxxxvi. Do que dvarte pachequo fe\ depois de chegar aho paJJb de Cambalam, & de quomo ho Çamorij, Rei de Calecut ho cometteo ha primeira ve\, & foi desbaratado. •Fl. 83 cl. i.« E M dvarte pachequo chegado aho paífo de Cambalam, efteue atte* ho romper da alua no meo do rio, & em amanheçendo fe chegou perá terra, onde achou no porto bem oito çentos Naires dos delRei de Calecut, que ás frechadas, & efpinguardadas lhe quiferam tolher que não delembarcaífem, mas em chegando aho porto defpararam ha arte- lharia, com que fe hos imigos fezeram atras, dandolhes lugar pêra defem- barcarem: mas depois que hos viram em terra, voltaram fobrelles, em que ha peleja durou per fpaço de mea hora, atte que fe poferam em fugida, com deixarem algús mortos no campo. Iito feito, & pofto fogo a húa pouoaçam que ahi efteua2 junto fe recolheram hos noífos pera ho 1 Na Ep.: «chegou aho passo de Cambalam, onde fez feitos, e proezas tanto des- pantar, quanto do discurso delias se aho diante poderá ver...» ' Et. L: eftaua.
  • — i82 paffo, leuando coníigo algúas vaquas pera mantimento, ho que lhes hos Naires delRei de Cochim eftranharam muito, por terem hos Malabares por religião nam mattarem vaqua, nem lhe comerem ha carne. Reco- lhido Duarte pachequo aho paffo, no mefmo dia átarde lhe chegaràm quinhétos Naires delRei de Cochim, em companhia dos quaes vinha Lourenço moreno com quatro elpinhardeiros1 Portuguefes. Quando Duarte pachequo chegou a eíle paffo de Cambalão não era ainda vindo elRei de Calecut, ho qual aho outro dia appareçeo defronte donde hos nofTos •fi.83 ci. 2.* eftauam, com ha companhia feguinte. Bertacorol, Rei de Ta*nor com quatro mil Naires, Cacatanambari rei de Bipur, & de Cucurram, junto da ferra de Narfinga, com doze mil Naires, Cocagatacol rei de Cotagom, entre Cananor, & Calecut, junto da ferra, com dezoito mil Naires, Curriuacuil rei de Curiga, entre Panane, & Cranganor, com tres mil Naires. Eftes traziam fua géte, & bandeiras feparadas cada hum per fim, & debaixo da bandeira delRei de Calecut vinha Nambeja feu fo- brinho, Paramhira fenhor de Cranganor, que agora he regno, Papucol fenhor de Cahliam, entre Calecut, & Tanor, Parinhara mutacoil fenhor da terra que eftà entre Cranganor, & Repelim, Benara lenhor de Na- beadarim açima de Panane perá ferra, Nambir fenhor de Benalacheri, Papapucol fenhor de Bipur, antre Cani, & Calecut, Papucol fenhor de Papurangari, ho Catual de Maugatenara, & outros muitos caimães. Ha qual cõpanhia q vinha p terra debaixo da bandeira delRei de Calecut pafTaua de vinte mil homés, entre Naires, & Mouros, de q no exerçito hauia bõ quinhão. Ha do mar era de çéto, &feflenta nauios de remo, em que entrauam fetenta, & feis paraos, com arrombadas de faquas dalgodão, por lhe ha noífa artelharia nã fazer nojo. Efte ardil lhe deram hos dous lombardos Milanefes, que andauam em feu feruiço. ■•fi.83t.cI. i.* Cada* parao defies leuaua duas bombardas, vintaçinquo frecheiros, & çinquo efpingardeiros: vinte defies paraos iham encadeados pera afler- rarem ha carauella, aliem defies fetenta, & feis paraos iham çinquoenta, & quatro càtures, & trinta tones de coxia larga, com cada hum fua bombarda, & defafeis homes de peleja. Nefta armada do mar hauia mais de doze mil homés de guerra, de que era capitam ho Prinçipe Naubea- darim, fobrinho, & herdeiro delRei de calecut, & por fota capitam Elancol Nambeadarim fenhor de Repelim, de modo que ha gente que neftes dous exerçitos do mar & terra andaua em feruiço delRei de ca- lecut, pafTaria de fetenta mil homés de peleja. Aliem defta tamanha multidão de géte, & nauios mãdou elRei de calecut, per confelho, & 1 Et. I.: efpingardeiros.
  • — 183 — ordenança dos dous Lombardos Milanefes, fazer denoite hum baluarte de terra, &. madeira defronte do paffo onde hos noffos eílauão, de q no tépo dos cobates reçebiã muito dano, por hauer de hús ahos outros muito pouco fpaço. Duarte pachequo quomo íoube da cheguada dei Rei de calecut, & da frota q vinha fobrelle, mãdou dar cabos, da carauella a hú dos bateis, & daqlle aho outro guarneçidos, cõ cadeas de ferro groffas, com q tomauam todo ho paffo, na qual ordem, com muitas bom- •Fi. 83v.d. a.' bardadas, reçeberam eíta armada del*Rei de Calecut, de que em che- guando arrombaram algús paraos, & mattaram muita gente, iem dos noflos perigar nehum. Ha multidão dos imigos era tãta que fe embaraçauão hús com hos outros: com tudo ha jangada dos vinte paraos, que \inham encadeados, fe adiãtou de toda ha frota, chegandoffe perá noíTa carauella, & bateis, tirando muitas bombardadas, com que dauam alas de trabalho ahos noffos.1 Mas hauendo já bom pedaço, que de húa, & da outra parte feruia ha artelharia, de maneira que com ho fumo, & fogo da poluora fe nam viam hús ahos outros, mandou Duarte pachequo tirar com hum camello que ainda nam defcarregara, ho que fe fez em tam boa hora, que do fegundo tiro defmanchou de todo ha jangada, arrombando quatro paraos que logo fe foram aho fundo. Eltes desbaratados, le começou achegar outra quadrilha de paràos, dos quaes hos nollos arrombaram treze, & metteram treze no fundo. Neftes dous desbaratos mattarã muitos dos imigos, & hos fezeram afaftar, ho que vendo ho fenhcr de Repelim, eile em peífoa acodio cõ húa groffa frota de paraos, càtures, & tones, & ho meimo fez elRei de Calecut pela banda da terra. Elie foi hum brauo, & perigolo combate, porq damballas partes eram hos noífos • fi.84cl. 1.* comettidos, de modo, que quafi fe tiuerão por* desbaratados: mas afsi quomo ha preffa era grande, afsi lhes daua Deos mór estorço. llto era já depois de vefperá, atte ho qual tempo fe achou terem hos nofTos mortos trezentos, & çinquoenta homês conhecidos2, afora outros vul- gares q palfauam de mil: dos noífos p milagre de Deos não morreo nenhum, & poucos forão feridos, hum dos noffos bateis foi arrombado dos tiros dartelharia dos imigos, mas nam tanto que ho nam conçertaílem antes que anoiteçeííe. Andagora, & Frangora, capitães delRei de Co. chim, q a todos eftes combates fe acharão na carauella (porque hos outros Naires que iham nos paràos, & cátures fugiram cõ medo, ho dia que elRei de Calecut chegou aho palio) vendo ha victoria q Deos dera 1 Na Ep.: «tirando muitas bombardas, com que davam muito trabalho ahos nossos...» * Na Ep.: «terem os nossos mortos passante de trezentos, e cinquoeta homes conhecidos...»
  • — 184 — ahos noffos, & quam esforçadamente ho fezeram, ficaram efpãtados, pedindo perdam a Duarte pachequo da defconfiança q tiueram delle poder desbaratar tanta multidão de gente. Com ha noua de tamanha vittoria foi eIRei de Cochim muim ledo, pelo que mãdou aho Prinçipe de Cochim que fjfle logo vifitar Duarte pachequo, difculpandoíTe de ho não fazer elk em peífoa, por ficar em guarda da çidade. Hos noflbs hauida ha victoria, porto que ficaífem muito quebrantados do trabalho nem por iflo •Fi.&td.i.» deixaram de cantar, & folliar toda aquella noite, & tocar has trõ*betas, & com ifto dar com martellos nartelharia, & fazer roido com cadeas de ferro, que hauia nos nauios pêra afsi efpantarem hos imigos cuidando que fazião clles algúa mãchina pera hos cõbaterem aho outro dia, no qual vendo Duarte pachequo, que né per mar, nem per terra ho vinhão cometter, le foi depois de vefpera em hum dos bateis dar em húa pouoaçam do Caimal de Cambalam, áqual porto que achaffe refiftencia mandou poer fogo. Aho outro dia chegou ha carauella que ficara em Cochim, ha qual Duarte pachequo, que per terra tinha auifo que era partida, foi buscar aho caminho, onde eIRei de Cochim ho veo ver & depois de terem praticado em feus negoçios, fe defpedio delle, & trouxe ha carauella aho paífo de Cambalam, que loguo entregou a Diogo pirez cuja ha capitania era, & ha do batel a Chriftouão jufarte, & porto que e Re' de Calecut per confelho dos feus feitiçeiros, em toda efta fomana nam cometteo ho parto, Duarte pachequo nam deixou entre tanto de fazer feu offiçio, entrando pella tetra 1 de Cambalam, fazendo muitos laltos, em que queimou algús lugares da Ilha, de que hos noflbs houue- -"Fi.84v.ci. 1.» ram bom defpojo, tornãdo fempre vittoriolos.* Capit. lxxxvii. Do fegítdo, e terceiro combate, que ho Çamorij Rei de C,alecut dett alios nojjos, em que também foi desbaratado. |-H LREI de calecut injuriado de tamanha afrõta quomo ha que reçe- M-J bera dos Portuguefes, profopos de logo aho dia feguinte hos tornar a cometter: mas per confelho dos leus feitiçeiros ho nam fez dandolhe dia^ çerto em que lhe prometiam ha vittoria. Efte dia era ho de Pafcoa, tão folemne à noíla religiam, que fe podia fPerar2 nelle ha Vittoria c5 mòr çerteza que em nenhum outro, no qual em amanheçédo 1 Et. /.: terra. 2 Et. I.: fperar.
  • — 185 — appareçeo húa muito mór armada que ha primeira, eíta era de çem pa- raos & çem càtures, & oitenta tones, em que hania4 mais de quinze mil homés de peleja, de que hos çinquo mil eram frecheiros, & duzentos eípingardeiros, & hos outros defpada, rodella, & lança, afora bombar- deiros que feruiam a trezentos, & oitenta tiros dartelharia falcões, & berços, hos mais de metal que fundiram hos dous lombardos Milanefes. E pera que elRei mais façilmente podefle delbaratar hos noffòs, mandou a hum dos feus capitães que com fetenta paràos foífe cometter ha nao que •Fi. 84 t. cl. ».'• ficara em guarda da çidade de Cochim, pera que* Duarte pachequo deixaffe ho paífo, por lhe focorrer, & elle le deixou ficar com toda ha outra armada no rio de Repelim. Eítes pardos foram bufcar ha nao per hum efteiro que fe vai metter no rio de Cochim, per onde elRei de Calecut também poderá paflar com toda ha fua armada, & ho fezera, le lhe nam pareçera fraquefa mudar ho propofito que tinha de paífar por aquelle de cambalam, hos quaes paraos paífaram de noite fem ferem fentidos, pelo que em chegado à nao ha cometteram muim brauamente, do que ha noua per via delRei de Cochim com muita diligençia chegou a Duarte pachequo ás noue horas do dia, q com eíte recado ficou muito fufpenfo, porver que era ardil de guerra que elRei de Calecut cometera pera lhe enfraqueçer ho paífo, & ho entrar. Cõ tudo per confelho, & pareçer de todos foi focorrer ha nao com ha carauella de Diogo pis, & batel de Chriítouã jufarte, ha qual achou em tamanho aperto q fe mais tardara difiçilméte fe poderá defender, mas tanto que hos imigos ho viram alargaram ha nao fugindo perà bãda de Repelim, duarte pachequo hos nam quis feguir, nem menos entrar na nao, porque já ouuia tõ de bõbardas ho q lhe pareçeo q feria no vao de Cabalam, pelo que logo voltou, & feruindolhe ha viraçam chegou a tempo bem neçeíTario, porq •Fi. 85 cl. !.• hos imi*gos tinhão paífada ha carauella aho lume daguoa a força de bom- bardas, & desfeitas has arrombadas, & afsi has do batel, & per mar, & per terra cobatião hos nolfos com tanto impeto, que fe elle nam chegara aho tempo que chegou, ho paffo fora entrado, mas ê chegado deu nas coitas dos imigos, & hos q eítauam no paffo na dianteira, de modo q hos fezeram fugir todos, hús pelo rio ariba, & outros varar em terra. Neíte combate perderão hos imigos dezanoue paraos, entre queimados, & ala- gados, & morreram duzétos, & nouéta, & dos noífos per milagre de Deos nenhú, porq em muitos deram hos pilouros nas cabeças, braços, peitos, pernas, & per todo ho corpo íê lhes fazer? nojo, paífando delles adiante tarn furiofos q defmanchauão, & quebrauã has padefadas em 1 Et. hauia. H
  • — 186 — pedaços, no que fe claramente vio q Deos era ho q pelejaua por elles. Elrei de Calecut vendo quanto aho cptrairo do q fperaua lhe fucçederão hos dous cõbates, quomo de fua condiçam era vario, quifera defiitir delta guerra, & ha mefma võtade achou em muitos dos feus: co tudo acofe- lhado pelos mouros determinou cometer ha terçeira vez ho paffo, trazendo toda fua frota ordenada em efquadroes. Duarte pachequo mãdou ahos das carauellas, & bateis q não tiraíTem, nê fe moítraffem fenam quando •PT.85cl. ho elle dixeífe, ho q vendo hos imi*gos que eítauam em terra cuidarão que ho fazião com medo, pelo que dando húa grãde apupada fe chegarão pera ho paífo, & ho mefmo vinhão fazêdo hos nauios de Calecut, tão confiados todos, que fem nenhúa ordem chegarão ahos noífos a tiro de lãça, então mãdou Duarte pachequo dar húa grande grita, & deíparar ha artelharia cõtra hos da terra, & do mar, de que fubitamente mattarão tantos, & arrombarão tantos nauios dos de Calecut, q todos, afsi hús, quomo outros deixarão ho combate quê mais de preífa fugiria,'"ho q vendo ho Caimal de Repelim, que era capitão deites nauios q cometterão primeiro, hos fez outra vez em corpo, começando de nouo a esbombar- dear hos noífos, mas elRei de Calecut anojado por fe ifto fazer de longe, & que não oufauão de chegar aho paffo, mandou aho Prinçipe Naubea- darim, que era capitam géral da armada do mar, que fe foífe peráquella banda, & que ho íenhor de Repelim pois ho fazia tão mal fe tiraífe dali, do que ficou mui afrontado, & agrauado, mas Naubeadarim fez tanto quomo ho outro, porque ainda que vieífe com toda ha frol da armada, foi também reçebido dos noífos, com pelouros de bõbardas, que nunqna 1 nenhum dos da fua companhia, per muito que hos elle animaífe, & ameaçaífe, ouíou de chegar aho paffo, mas antes vendoífe tam mal trat- • fi 85y. ci. i.* tados, fe* poleram em fugida. Foi tamanho ho medo deite desbarato que ho mefmo Rei de Calecut defefperado, & com medo de lhe tomarem ha artelharia que eítaua no baluarte que mandara fazer defronte do paffo, ha mandou tirar dalli, & ha leuou contigo, retirandoffe do campo quomo homem desbaratado. Perderam hos imigos deita vez vinte, & dous paraos, & outros nauios, & quomo fe foube por çerto morreram delles mais de feis çentos. Duarte pachequo nam contente deite desbarato, foi ainda feguindo hos imigos hum bom pedaço às bombardadas, & fobre iífo faltou em terra, onde queimou dous lugares fem achar nenhúa refif- tençia, ho que feito fe tornou aho paffo, já ás quatro horas depois de meo dia, que tanto durou eíte negoçio, começando pella manham, & loguo aquella noite, no quarto da prima per auifo dos efpias que trazia, 1 Et. /.: nunqua.
  • 187 foi dar em hum lugar muito grande dos imigos, ho qual queimou, & mattou muitos dos que nelle morauam, com tudo aho recolher que era ja no romper da alua achou algúa reíiítençia de Naires, de que mattando & ferindo algús delles fez fugir hos outros. Dalli fe veo aho palio, onde achou muito refrelco que lhe mãdara elRei de Cochim, que veo bem a propofito a todos, & per hos que trouxeram ho refreíco, lhe mandou - Kl. 85*. cl. j.» dizer, que esforçaífe* porque elle fperaua em Deos de nam tam fô- meete 1 véçer elRei de Calecut, mas ainda ho captiuar, & lho entregar prefo. Capitulo, lxxxviii. De qvomo elrei de Calecut pajfou ho rio de Repelim, & ajfentou feu arraial nas terras de Porquà, onde comettendo hos pajjos de Palurt, & ho do vao foi outra ve\ defbaratado. OM estes desbaratos algús dos da companhia delRei de calecut, tendo aquella guerra por infortunada, fe lhe foram do campo, dos quaes foi hum ho Mangate muta Caimal, & hum feu irmão, & hum feu primo que aho outro dia depois do terçeiro combate fe foram fecre- tamente do arraial pera a ilha de Vaipim, com tençam de fazerem dalli feus conçertos com elRei de Cochim, cujos valtallos eram, ho que elRei de calecut lentio muito, por todos tres ferem muito esforçados caualleiros, Pello que loguo começou outra vez de tetubar no profeguir defta guerra, mas acõfelhado pelos dous Lombardos Milanefes, & por algús dos Reis, & fenhores que com elle andauam determinou proçeder no que tinha •fi. 86 «1.1.* começado, ho que lhe ho prinçipe Naubeada*rim contrariou, quomo jà outras vezes fezera, fazendolhe fobre iífo húa falia publica às razões, & argumentos do qual elRei fe inclinara de boa vontade, fe de todo ho nam contradixera ho fenhor de Repelim, que era muito açepto a elRei. Finalmente foi alfentado que fe continuaífe na guerra, & vifto que pello paífo de Cambalám fe nam podia fazer entrada, ainda que foífe com affronta delRei, fe fezeífe per outro chamado Palinhar, que eftaua hum bom pedaço daquelle, muito cheo de vafa, & matos defpinheiros de tam ruim fundo, que hos nolfos nam poderiam lá chegar com has carauellas, & que dalli paliaria a Cochim peio paífo do vao quomo fezera da outra vez, quando desbaratara elRei, & porque Duarte pachequo não foífe auifado defta determinaçam, loguo aho outro dia do terçeiro combate paliaram da outra banda do palio à terra de Porquá, ho que fez cuidar ahos ef- 1 Et. /.: fomente.
  • — 188 — pias dos noíTos, quando viram aleuantar ho campo, que elRei fe tornaua pera Calecut, mas tanto que ho viram ir peràquelle pafio de Palinhar, deram loguo auiso a Duarte pachequo, & tras efte vierao outros que lhe dixerão quomo obra de quinhentos Naires delRei de Calecut andauam •Fi. 86 cl. a.* na ilha Darraul cortando, & queimando muitas aruores, que an*trelles he final de viótoria, contra hos quaes loguo fez roíto cõ algús Portu- guefes, & duzentos Naires delRei de Cochim, que leuaua configo de meftura, cõ hos quaes elle em hú efquadrão, & Pero raphael no outro hos cometteo, & desbaratou mattando ha mòr parte defies, dos quaes trouxe çinqnoêta 1 captiuos, que em fe tornado achou embrenhados em hú bofque da ilha, hos quaes quifera mandar enforcar todos: mas a rogo dos Naires delRei de Cochim, pofto que imigos foíTem ho nam fez, & hos mandou prefos a elRei de Cochim que lhe també por elles mandara rogar. Ifto feito vendo Duarte pachequo que fua eftada nam feruia já naquelle paífo de Cambalam, leuou has carauellas aho palfo do Palurt, que eftá húa boa mea legoa do vao, onde nam podiam chegar, por ter pouco fundo, & elle com hos feus bateis fe foi dalli aho pafio do vao, donde podia façilmente focorrer ás carauellas, mas quando já chegou aho pafio de Palurt2, achou algús Naires na ponta da ilha Darraul, que de húa & da outra bada eítá fituada entre has terras de Repelim, & Porquá, onde elRei de Calecut aflentaua ho arraial, a húa legoa Palurt, hos quaes Naires em vendo hos noflos, acodiram á praia, donde hos fezeram reco- lher pera dentro ás bombardadas. Eftando alli fobrancora foi auifado q •fi. 86 v. ci.i.* aho ou*tro dia q era ho primeiro de Maio hauia elRei de Calecut de mãdar cometter ho vao, pelo q em amanheçendo fe foi lá com hos bateis, dando ahos capitães das carauellas ho final q lhes hauia de fazer, quando tiuefie neçefsidade de focorro, & em chegando aho pafio do vao mãdou dar grandes gritas, pera que hos imigos foubefsê que era chegado, no qual achou ho Prinçipe de Cochim com feis çentos Naires. ElRei de Calecut depois que foi da outra bãda nas terras de Porquá, per cõfelho dos feus mandou aho dia feguinte, ê que lhe feus feitiçeiros dixeram q haueria viótoria, cõbater ãbollos paflos de Palurt & do vao jútamête, & cõtra ho de Palurt, onde eftauam has carauellas mandou ho fenhor de Repelim com toda ha frota, & aho do vao mandou ho Prinçipe Naubeadarim cõ quinze mil homés. Duarte pachequo, que fperaua ho mefmo, mandou logo arrafar ha ponta da ilha Darraul, & cortar todo ho aruoredo que nella hauia, por hos 1 Et. I.: çinquoéta. 2 Na Ep«soccorrer às caravellas. Duarte pachequo quando chegou ao passo de Palurt.. .»
  • — 189 — imigos nam poerem alii fecretamente algúas bombardas, & mandou dar cabos de húa carauella á outra, fazendo toda aquella noite grande feita, por afsi darem a entender ahos imigos que lhes nam hauião medo. Ante manhã chegaram Simão dandrade, & Chriltouão jularte nos bateis, porque ho vao ficaua feguro com ha maré que enchia. Duarte pachequo •Fi. 86y. cl. a.* man*dou ahos feus que comeCTem, por que aquelle dia, fobre todos, era ho em que hauiam de moítrar ho esforço com que fempre vençerã hos imigos, & entreftas palauras, & outras hos animaua aho brauo & peri- gofo negoçio em que fe logo hauiam de ver. Iíto era no romper dalua, á qual hora hos imigos com algúas bõbardas que tinhão aífentadas em terra, na ponta da Ilha, começaram de tirar contra hos noífos, & logo dahi a pouco appareçeo ha frota, que era_de duzentas, & çinquoenta velas, & por vir ainda longe, Duarte pachequo fez dar voga ahos bateis, & em chegando a terra foi cometter ha eítancia donde hos imigos tira- uam, & hos fez fugir, & porque não pode trazer has bombardas, has mãdou encrauar. Desbaratada eíta companhia fe recolheo às carauellas, fendo jà ha armada dos imigoa bem perto da noífa, & por hos feus tiros varejarem a meude, mandou que eíteueffem todos baixos, fem fazer mudança atte ho elle mandar, ho que vendo hos imigos, pareçédo lhe que ho faziam de medo fe começaram chegar peras carauellas quarenta paraos encadeados, entam mandou dar húa grande grita, & tocar has tromberas *, & defparar ha artelharia, com q defencadeou hos mais dos paraos, ahos quaes logo ho fenhor de Repelim mãdou outros em ajuda, •Ft.87t.ci.2.* onde foram tantas has bombardadas de* húa, & da outra parte, que nem ho çeo, nem ha terra, nem ha aguoa fe viam com fumo, & chamas de fogo: com tudo hos imigos fe chegauam cada vez mais pera hos noífos nauios, & tam perto delles que fe feruiam das frechas, & lanças de arremeífo. Niíto efteue ha peleja hum bom pedaço fem fe ha vidoria inclinar a nenhúa das partes, atte que Deós por fua mifericordia ha de- clarou pellos noífos, começandolfe hos paraos dalargar pela muita gente que lhe já tinhão morta: ho que védo ho lenhor de Repelim, por contétar elRei de Calecut, que de terra via ha peleja, quifera paífar ho vao, mas hos noífos lho defenderã per duas vezes, mattando muitos dos que com elle forão. Eftando Duarte pachequo neíte trabalho chegou a elle Can- dagora a dizerlhe que Naubeadarim prinçipe de Calecut vinha pera paífar ho vao cõ húa groífa companhia de géte, & q elRei lhe vinha nas coitas, ho q fabido, Duarte pachequo fe deixou eítar jugando às bõbar- dadas com hos imigos, atte a hora q ha maré podia dar lugar a Naubea- 1 Et. /.; trombetas.
  • i go darim pera paflar ho vao, pera onde fe logo foi, & lho defendeo de maneira que pofto que niífo muito infiflifle, afsi com ha muita géte que v leuaua, quomo cÕ berços encarretados, que pera iflo fez trazer a colos de homes, elle não pode paliar, & tomou por partido, fazerfle atras, no *Fh87 ci. 1.' qual inflate che*-gou recado delRei de Calecut aho mefmo Naubeadarim, que não fabia qual ho fezera pior, fe ho fenhor de Repelim, em não aferrar hos noflos nauios, ou elle em não paflar ho vao, quomo lhe pro- meterão, do que ficou tão enuergonhado que de nouo com doze 1 mil homés tornou a cometter ho paflo, no que houue húa braua peleja, da qual foi conftrangido fugir. Neftes combates, & no de Palurt perdeo elRei de Calecut muita gente, & muitos nauios, do qne 2 ficou tam ano- jado, que fe fora em fua mão mandara cortar ha cabeça a algús dos feus capitães, com tudo não deixou de hos reprehender de muito couardos, & prinçipalmente, aho fenhor de Repelim, & Naubeadarim Prinçipe de Calecut. Cap. Ixxxix. De quomo Elrei de calecvt em pefoa combateo ho paffo do vao, onde foi desbaratado, & dalguas coufas que antes, & depois difjo aconteceram. OVS, ov tres dias depois de Deos dar efta viótoria ahos noflos, começou húa tam braua infirmidade no arraial delRei de Calecut, que ha guerra fobrefteue, por lhe morrer muita géte fem falcançar ha calidade da doença, nem remedio delia, do que elRei* conftrãgido fe foi do arraial, atte que aquella doença çeflòu. Cõtudo Duarte pachequo em todo efte tempo não efteue ocçiofo, mas antes fe apreçebeo de tudo ho q lhe era neçelfario, & porque dantes lançara abrolhos de ferro no vao, hos quaes por ferem curtos fe forniram tanto dentro da vafa, que não empe- çerão ahos imigos, mandou de baixa mar fincar nelle eftaquas darequa toftadas, cÕ põtas muito agudas. ElRei de Calecut foube nefte tépo de feus feitiçeiros q feus deoles eftauã muito irados contrelle, q fe applaca- rião fe logo mandaífe fazer hú Turcol, no lugar q lhe elles dixeflem, que fam cafas doração, é q viué homés religiofos, quomo entre nós frades, ho que prometteo de fazer, pelo que lhe afsinarão dia çerto, affirmando- lhe que nelle haueria viótoria3, pera ho q fe começou dapreçeber. Defte 1 2 3 Na Ep.: «passante de doze...» Et. /.: que. Na Ep.: «dia çerto, em que lhe afirmará que haveria victoria...»
  • — I9I — negoçio teue Duarte pachequo auifo per feus efpias, com quem neíte tempo eftauão trezentos Naires delRei de Cochim, & duzétos do Mangate que fe forão hum dia antes da peleja, ho que, tornando das carauellas q fora vifitar, foube de dous Naires de Cochim q fezerão per mãdado do mefmo Mangate, do q por lhe pareçer treição auifou ho Prinçipe de Cochim, mãdandolhe dizer, per hum Bramana, q fe vieffe logo parelle, por quanto aho outro dia fperaua elRei de Calecut, ho qual Bramana •fi.87v.d. a.* lhe deu* ho recado a tempo que nam aproueitou de nada. Elrei de Calecut no dia em que lhe feus feitiçeiros dixeram que pelejaífe, abalou com todo feu exerçito, repartido na maneira feguinte. Diante preçediam dous mil Naires pera guarda de trinta bombardas, que elRei mandaua alfentar a tiro donde hos noflos eftauam, atras eftes leguia a vãguarda, de que era capitam Naubeadarim, com doze mil homes, em que entra- uam dous mil frecheiros, & trinta efpingardeiros, apos elle ho fenhor de Repelim com outra tanta gente, nas cosftas 1 dos quaes vinha ho Çamori, rei de Calecut, com quinze mil homés, entre frecheiros, efpingardeiros, lançeiros, & defpada, & rodella, & quatro çentos que trazião machados pera cortarem ha eftacada. Contra todo efte poder tinha Duarte pa- chequo nos dous bateis quarenta homés Portuguefes, & em cada hum íeis berços, dous falcões, & hú tiro groffo per proa. Hos q vinhão com ha artelharia delRei de Calecut em chegando, começarão de ha defcar- regar contra hos noífos mas Duarte pachequo depois de hos afegurar hum pouquo, fe chegou parelles com hos bateis, & às bombardadas hos fez recolher pera dentro de hum palmar. Eftãdo afsi pelejado chegou Naubeadarim com ha vanguarda, q com grande impeto cometeo ho vao, "fi.88 ci. j.* mas hos noífos lho* defenderam ás bombardadas, & com rocas de fogo que lhe lançauam ameude, mattando muitos delles, & porque ha maré vazaua, Duarte pachequo por nam ficar fobello lamarão do paífo, fe retirou hum pouco atras, & mãdou a Chriítouão jufarte, por ho feu batel fer mais pequeno, q fperaífe no paflo ho mais que podelfe, porque com ha reponta da maré, que nam podia tardar, fe ajútaria cõ elle. Afsi que ambos, cada hú, do lugar em que ha aguoa deixaua nadar hos bateis, defendia ho palfo de maneira que hos imigos nam oufauam de ho cometter, & era tamanho ho arroido, & ho tirar das bõbardas, efpin- gardas, & frechadas, q por muito alto q do batel de Chriítouão jufarte dixeíTem a Duarte pachequo que hos Naires de Cochim q guardauam ha eftacada ha defempararam, ho nam pode ouuir, & jà nefte tépo ho fenhor de Repelim eftaua no paífo, ajudando ha gente de Naubeadarim, 1 Et. coftas.
  • 192 apollos quaes chegou elRei de Calecut, cõ toda ha força do exerçito, aho qual por ho conheçerê pola bandeira, & fumbreiro que trazia diante, mandou Duarte pachequo tirar com hum falcão, de que ho pilouro deu tão perto delle q ho fez baquear do andor em q vinha, & ho pilouro mattou dous Naires junto delle, pelo que fe retirou hum bom pedaço •F1.88C1.J.» pera trás, mandando dizer a Naubeadarim, & aho fenhot1 de* Repelim, q apertaífem com ha géte pera paífarem ho vao antes que ha maré cre- çeífe. Com efte recado, a força de porradas, & cutiladas que dauão nos feus hos faziã entrar por elle, hos quaes carregãdo hús fobellos outros começarão de fentir has pontas das eftaquas darequa com tanta dor, q hos primeiros brandando, & lamentãdofle ahos que feguiam, fe começarão dembaraçar de maneira q caindo hús fobellos outros, traba- lhauam a quem mais afinha tornaria pera trás, empregando nelles hos dos bateis ha artelharia à fua võtade. Durãdo efta profia, hos dos machados pela aguoa de todo fer baixa chegaram à eftacada, começando a cortar nella fem acharem reíiftençia, pellos Naires de Cochim q ha guardauam ferem idos, ho que Duarte pachequo vendo ficou mui trifte & fufpenfo, porque acodindo àquella parte, hos imigos entrariã pelo paffo, peráquella onde elle eítaua, & nam lhe acodindo, paliariam pola outra, ho q íe fezefsé no mefmo dia chegariã a Cochim & ficarião fenhores de toda ha terra, com tudo determinou dacudir aho mais neçeífario, q era à eftacada, & chegandoífe quanto pode pera ho batel de Chriítouão jufarte, & ho de Chriítouão jufarte parelle faltou détro, & ha Chriítouão jufarte mandou que ficaíie no feu, & naquelle por fer mais pequeno, fe •fi.8St.ci...* chegou á eftacada qn*-to pode, dõde começou de jugar cõ ha artelharia, de maneira q hos imigos2 fe começarão de retirar mal a feu grado, aho que logo acodio Naubeadarim com ha mor parte da fua gente, & algús tiros dartelharia, pelo que fe renouou ha peleja 3 tão brauaméte, que hos imigos chegarão atte poerem has mãos nos remos do batel, dos qes vendoíle Duarte pachequo çerquado de todalas partes, chamou com muita deuação em alta voz Deos, em locorro, & ajuda, porq em todalas outras pelejas núqua cuidou fer véçido fenão nefta, ho qual fenhor lhe acodio logo com ho feu grande poder, porq ha maré começaua ja de fobir, ho q fentindo hos do batel derão húa grãde grita começãdo de fazer voga pera voltarem ho batel, mas era tãta ha fomma dos imigos, que hos tinhão çerquados aho redor, que não poderão, & afsi quomo ha mare iha creçendo, afsi 1 Et. /.: fenhor. 1 Na Ep.: «com ha artilharia, de modo q hos inimigos.. 3 Na Ep.: «tiros dartilharia; pello que se logo renovou ha peleja...»
  • — i g3 — creçia ho animo ahos noflbs, quomo a homes a que viera ho verdadeiro focorro, que lhes era neçeffario, pelo que, muito mais a meude que dantes começarão de defcarregar ha arrelharia ', efpingardas, lanças, paos toftados, & outros tiros darremeffo contra hos imigos, fazedo elles ho mefmo, atte q ha mare fubio tãto que ha força daguoa hos fez deixar ho paífo. Ho q feito Duarte pachequo fe tornou pera onde deixara Chril- •fi.88t. ci.s.* touão jufarte, que da fua parte fez naqlle dia* quomo esforçado caual- leiro, ne creo que ho tal nome fe polia negar a nenhum dos que fe alii acháram. Chegado Duarte pachequo ode eftaua Chriftouão jularte faltou cada hum no no feu batel, & fem quererem perder tépo, feruindolhes ha maré tornárão a correr ho vao, tirando muitas bombardadas contra ha ilha de Porquá, onde elRei de Calecut eftaua lojado, com que mat- taram algús q andauam à borda daguoa, & hos fezeram recolher pera détro dos palmares. ElRei de Calecut ficou muito trifte, & enuergonhado, por diante, & á face delle, hú tamanho exerçito nam desbaratar, & tomar ás mãos dous bateis, com tam pouqua gente, do que reprehen- dendo muito hos feus fe foi quomo delefperado de longo da Ilha perá parte onde eftaua Pero Raphael com has carauellas, que vendo paffar elRei per junto da praia mandou defparar hum tiro groffo, com que junto delle mattou tres Naires, dos quaes hum era ho que lhe daua ho betele, aquém ho tiro deu tam perto delle que ho fangne2 lhe faltou no rofto, pelo que elRei fe deçeo do andor, & caminhando a pé fe alõgou da carauella. Nefta peleja perdeo elRei muita mais gente q em todalas outras, fem dos noffos morrer nenhum, coufa que euidentemente fe pode crer fer mila- •Fi.8gci. i.» grofa. Ha qual peleja durou des pela manham atte horas de* vefpera, no qual ponto ho Prinçipe de Cochim chegou aho paífo fem faber nada do combate, porque ho recado que lhe mandara Duarte pachequo pelo Bramana que hauia de fer naquelle dia comettido delRei de Calecut, lhe nam foi dado, aho qual Duarte pachequo danojado pela tardança, & fu- gida dos feus Naires da eftaquada, nam quifera falar, com tudo ho Prinçipe apertou tanto com elle, que lhe ouuio fuas difculpas, & has re- çebeo, ho que Duarte pachequo vedo lhe dixe que ha fugida dos feus Naires, & nam lhe fer dado ho recado que lhe mandàra, tudo foram artes, & treiçam do Mangate, que viífe dalli por diante ho que fazia, & fe nam fiaífe delle. Dalli fe foi Duarte pachequo peràs carauellas, onde ho elRei de Cochim veo ver com muita fefta, & alegria, quomo ho ja fe- zera outras vezes, lançandolhe hos braços no pefcoço, dizendolhe que a 1 Et. I.: artelharia. * Et. I.: fangue. 25
  • — 194 — elle,- depois de Deos, deuia leu Regno, & eftado. Duarte pachequo lhe refpondeo a i(To quomo difcreto que era, aqueixandodelhe da treiçam que hos feus Naires fezeram em fugir da eftaquada, atribuindoho aho Man- gàte, & a feus parentes, dizendolhe q pois era imigo fecreto, que ho lançade fora de fuas terras, pera que ho fode de todo defcuberto, & fode •fi. 89 ci. 2.* feruir elRei de Calecut, quomo ho dantes fezera. Acabadas* todas eltas praticas elRei fe tornou pera Cochim, mandando ha todolos feus caimaes, panicães, & naires, que em tudo, quomo à fua propria pedoa, obedeçefsé dalli por diante a Duarte pachequo. Capitu, xc. das treições qve per conselho do fenhor de Repelim, elRei de Calecut ordenaua pera malt ar & dejlroir hos nojjos, ho que lhe nam focçedtndo à vontade, quis fa\er pa\, & doutras particularidades. ELREI de calecut com ho grande nojo, & triíleza que tinha, nam fa- zendo ja conta de fim, nem dos que com elle andauam, deshonr- raua, afsi hos feitiçeiros^quomo hos Reis, & capitães, arguindo hos todos de couardos, entre hos quaes aho q mais tiraua era ho fenhor de Repelim, porque conheçia ja nelie fer rebolam, & couardo, ho qual pera fe tornar a reílituir na graça delRei, lhe aconfelhou q mandade lançar peçonha na aguoa de que hos nodos bebiam, & tiuede modo que ho mefmo fe fezede nos mantimentos. Elle ardil foi delcuberto a Duarte pachequo, per Charcãda Naire, q fora criado do Prinçipe de Cochim Narmuhim, pelo •Fi.89v.ci...» que logo madou q nem do rio, nem de fonte, ne poço nenhum,* bebedem hos que corri elle andauam, faluo de poços que cada dia mandaua abrir, que por ha terra fer baixa, & apaulada fe achauão com pouqua dificuldade », & hos mãtimétos mãdou que afsi hos q lhe madadem, quomo hos q compradem aquelles q hos trouxedem tomadem a falua defies. Mas vendo ho fenhor de Repelim que iíto nam fucçedia à fua vontade deu outro ardil a elRei de Calecut, q mandade fecretaméte poer fogo à çidade de Cochim, & q no primeiro cõbate cometttede2 juntaméte ha nao, & carauellas, & bateis, nam tarn fomente cõ géte, & artelharia, mas com Elephantes, cobras de capello, & pós de peçonha, do q tudo elRei de Cochim foi auifado, & fe veo fobrido ver com Duarte pachequo muito tride, & medrofo, aho que lhe refpondeo, que defcançade porque elle 1 Na Ep.: «ha terra ser baixa e apaulada se cavava com pouqua dificuldade...» 2 Et. comet tefle. I
  • — 195 — tinha ordenado húa coufa com que hauia de prender elRei de Calecut, & tomarlhe hos Elephantes, & mattarlhe muita mais gente, do que ja tinha feito, que fe fofle pera Cochim, & lhe mandafle quantas cadeas, & amarras de naos Ia houuelTe, pera ha obra que hauia de fazer. Trazido efte almazem Duarte pachequo começou de fingir que queria fazer hum grande edifiçio, & por hos da terra, q naturalméte fam palrreiros, nam verem ho que era, defendeo que nenhum chegafie aho pafio do vao, no qual •Fi.89v.ci. a.* mandou logo* abrir grandes couas, & fazer foíTados, que de baixa mar ficáuã cheos daguoa em altura que fe nã podiam paffar fenam anado. Elrei de Calecut foi auifado do fegredo defta obra, do que fe começou árreçear, & afsi todollos feus, porque per experiençia conheçiam ja ho animo, esforço, & induftria que hauia em Duarte pachequo, que nefte tempo fez algúas entradas pelos rios, & na terra firme, é que queimou muitos lugares, & tomou quatro paràos delRei de Calecut com treze bombardas, de que fez feruiço a elRei de Cochí. Andando afsi occupado lhe dixeram que hos mouros tinham dito a elRei de Calecut, que elle nam podia eftar muito tempo no paífo do vao, pelo que pera elRei faber quam devagar eftaua, mãdou ê húa ponta fobelo rio fazer húas cafas, & •aho redor delias abrir húa grande caua chea daguoa, com q ficaua quomo ilha. No cabo defta ponta mandou fazer hum baftilham, no qual pos hum pao alto, aque hos Malabares chamam Caluete, em que juftiçam gente baixa, & popular, ho q lhe perguntado algús Naires de Cochim pera que era, lhes dixe que pera nelle mandar, efpetar elRei de Calecut, de que ficáram nam tão fomente efpantados, mas ainda tão afombrados que fe foram fem lhe reíponder. Ho que labedo elRei de Calecut foi • fi. 90 ci. 1.' nelle tamanho ho medo, que per via de dous mou-*ros de Cochim, hú per nome Cheriná, & ho outro Mamalemarear, trattou lecretamente de fazer paz com Duarte pachequo, fem diífo dar conta a pefloa nenhúa, fenam aho Prinçipe Naubeadarim, que fempre cõtrariou efta guerra, mas porque hos mouros deram a entender a Duarte pachequo q faziam ifto de fim mefmos, pelo defejo que tinham de paz, lhe reípõdeo que fe foífem embora, q quãdo elRei de Calecut lhe mãdafle cometter, que elle lhe refpoderia, & com ifto hos defpedio, do que elRei ficou muito mais ti- morizado, pelo que per cõfelho do mefmo Prinçipe Naubeadarim, & do fenhor de Repelim determinou de com muito mor força, & poder do que atte alli fezera, cometter ho pafio, pera ho que fe começou daperçeber. No qual tempo deu a mefma infirmidade, que ja outra vez padeçéram, no feu arraial, mas nam foi tão perigofa quomo dantes, por lhe hos fificos terem achado ho remedio: com tudo foi proueitofa ahos noífos, porque pelos auifos que Duarte pachequo teue do modo
  • — em que'elRei determinaua de ho vir cometter, faperçebeo de ma- neira que a tudo lhe refiftio, & ho vençeo quomo fe no feguinte ca- pitulo verá. Capitu, xci. De quomo dvarte pacheqvo desbaratou outra ve\ *fi. 90 ei. a." el Rei de Calecut.* E' LREI de calecut depois de paflada ha doéça que ha fegunda vez an- í dára no feu arraial, determinou, com ha gente que tinha, & outra muita que depois ajuntou, & munições de guerra q pera iflò mandara fazer vir bufcar Duarte pachequo 4 aho paíTo do vao na ordem leguinte. Por terra acopanhado de trinta mil homés, cõ fua artelharia ordenada quomo fempre acoítumaua fazer, & diante delle ho fenhor de Repelim cõ húa grade fomma de gaítadores, pera fazerem vallos, & foífas na ponta Darraul, onde fe hos feus podeífem abrigar dos tiros da nofia artelharia, & jugar cõ ha fua a faluo. Per mar vinham diante da frota muitas balfas de lenha com alcatram, eítopa, & outros materiaes ardendo em chamas de fogo, apoias quaes vinham çento, & dez paràos, delles encadeados, & detrás çem cátures, & oitéta tones de coxia larga, todos em boa ordem, com muita gente, & artelharia, & por remate deita tamanha frota feguiam oito caítellos de madeira, que elRei de Calecut mandara fazer per confelho de hum mouro de Repelim chamado Cojeale, ho.mé experto na guerra, hos quaes traziam afsêtados cada hú fobre dous pa- ràos, lança das duas vigas que atraueífauam de popa a popa, & de proa •Fi.90v.ci. i.« a proa de cada hú dos paràos, fobelo ql* aliçerçe edificou hos caítellos, & hum fobrado em cada hum delles, em altura de dezoito palmos, cõ traues, & outra madeira, & crauaçao de ferro tão forte, q pareçia im- pofsiuel poderífe derribar cõ nenhú tiro, por groífo que foífe. Duarte pachequo q de tudo iíto per feus efpias tinha auifo muito antes deite dia em que ho elRei de Calecut veo cometter, q era da Affenção de noífo Senhor, pera q lhe nã aferraífem has carauellas, com hos caítellos, mandou fazer húa baítida de maítos, a modo de jangada doito braças, em comprido, & outras tantas de largo, todos chapados com barras de ferro. Eíta baítida mandou lançar obra de hum tiro de pedra diante das proas das carauellas, amarrada a feis groífas ancoras, com cadeas de ferro, tam cõpridas, que chegauão aho fundo dagoa, tres a montãte, 1 Na Ep.: «e munições de guerra q pera isso mandára fazer em grande abastãça, vir buscar Duarte pachequo...»
  • — 197 — & ties a jufante. E porque hos caftellos dos imigos cõ hos bordos dos paraos eram de vinte, & dous palmos daltura cada hum, de que houuera ha medida per induítria de homes q trazia no campo delRei de Calecut, mãdou fazer hús efteos de meos maftos muito bem preguados nas amu- radas das carauellas, nas çimalhas dos quaes fe çerrauam hús chapiteos a modo de lobrado, em que podiam eftar em cada hum feis homes, na qual ordem hos capitães das carauellas fperaram hos imigos, & Duarte •FL90Y.d.a." pa-*chequo nos bateis, com algús paráos, & gente que tinha delRei de Cochim. Ha gente que vinha per terra com elRei de Calecut, prinçipal- mente hos da companhia do fenhor de Repelim, fazia tamanho eílrõdo de gritas, & inftumétos*, de guerra, que derã azo a Duarte pachequo de a feu faluo fair em terra na ponta Darraul, na qual houue grande referta dambalas bandas: mas creçeo tanta*gente dos imigos fobelos noífos, q lhes foi neçeffario recolherem íe ahos bateis. ElRei de Calecut foi tam indignado, fabendo que hos noffos eftauam na ponta pelejado cõ hos feus, que mandou ahos prinçipaes capitães do exerçito, q paflallem a diante, & lhe trouxelfem viuo Duarte pachequo, pera delle mandar fazer juítiça, fobre ho q morrerão muitos dos imigos, fem poderé executar ho que lhes elRei mandaua. Ifto tudo fe fez no romper dalua, & logo dahi a pouquo com ha jufante da maré, ha frota de Calecut começou de deçer pelo rio abaixo, na orde que arriba dixe: ho que vendo Duarte dachequo,2 que aho tal tempo eftaua nas carauellas, fe recolheo em hum cátur ahos ba- teis, encaminhãdo pa ho palio do vao. Chegada ha frota que era coula medonha de ver, has balfas de fogo guiadas pella corrente, & barcos de que has empuxauã com varas, foram cair fobelos maftos q eftauam enca- •Fi.91 ci. i.' deados, & ancorados di-*ante das carauellas, ás quaes pela diftançia nam fez ho fogo nenhú dãno, mas antes em quanto ardeo tiueram hos noílos algú repoufo, porque hos imigos cõ medo delle não oufauam de le chegar, mas quomo çeífou todolos paràos, & outros nauios fe começaram de chegar perà noíla jangada, tirando com ha artelharia às carauellas, aho que hos noffos lhe refpodiam, arrobando3 algús dos feus nauios, em que lhes mattarã muita gente. Nefte tepo hos caftellos chegaram á baila, nos quaes, no maior delles, vinhão quarenta homes, & em dous fomenos trinta, & çinquo, & nos çinquo mais pequenos trinta em cada hum, hos mais delles efpingardeiros, & em todos has bõbardas que podião leuar. Chegando ho maior defies caftellos à balfa começou de jugar com ha » Et. inftrumêtos. * Et. I.: pachequo. 5 Et. arrobando. I
  • — 198 — artelharia, aho qual Duarte pachequo (que ja tornara ás carauellas no cátur)1 madou tirar cõ hum camello, mas ho tiro pofto q lhe açertalíe não fez entrada, tras eíte mãdou tirar outro q fez ho mefmo, do q ficou tã^ trifle q aleuãtou hos olhos cõ has mãos pera ho çeo dizendo: Senhor não me acoimeis hoje meus peccados, deixai por voífa mifericordia, ho caítigo delles pera outro dia, ifto é voz ta alta q lho ouuira muitos. Hos outros caítellos le poferam apar deites, dos quaes todos lançauam tãtas fi. 91 ci. a.* (etas, & tiros defpingardas, & bobardas, que era tudo* húa nuué da 2 fumo, & fogo. Neila maior prefia eítando has carauellas çercadas p todalas partes, afsi dos caítellos, quomo dos pardos, & outros Nauios, feruêdo ha fui ia da peleja, mandou Duarte pachequo tirar outra vez cõ I10 camello aho callello prinçipal, do qual tiro, quomo ja dos outros lhe ficarão abalados hos fechos, acabaram de quebrar de todo, leuando ho tiro hum lanço de caítello aho mar, com algús homes, ahos q hos noíTos, poítos em geolho, deram húa grãde grita, louuando Deos pela merçe que lhes fezera, & carregando logo com ha mais artelharia foi ho caítello deffeito de .todo. Com tudo hos outros caítellos nem por iífo deixauão de fazer leu offiçio, cõbatédo mui afperaméte has caurauellas,3 poíto que reçebelfem muito dãno, ho que durou atte hora de vefpera, em que ja começaua ha reponta da maré \ com ha qual hos caítellos mouidos da força da vea daguoa, fe começaram de apartar da jangada, ho que vedo hos imigos, que tinham çerquadas has carauellas com hos paràos, & outros nauios, fe alargaram tendo por excufado ho demais do combate daquelie dia. Hos bateis q eftauam no paífo do vao, de hum dos quaes era capitam Chriítouão jufarte, & do outro Simão dandrade, com hos paráos, & cátures de Cochim, em que andaua Lourenço moreno & ho •Fi.91 v.ci. i.' Prinçipe de* Cochim com mil Naires, com q guardaua ha eítaquada, tiueram ho paffo a elRei de Calecut, com tanto esforço, que nunqua ho ha ília gente, por muito que niífo trabalhaíle, pode paffar, no que eítiue- ram atte que ha maré lhes fez tomar ha conclufam delta peleja que foi mais braua, & mais cruel, do que ho foram todalas outras, na qual elRei de Calecut perdeo muita gente. Dos noífos (pela graça de Deos) poíto que muitos foífem feridos, nam morreo ninhum. 1 Na Ep.: «(q já tornára ás caravelas é hQ catur)». 3 Et. de. 3 El. I.: carauellas. * Na Ep: «em que já começava de sobir ha reponta da maré...»
  • — 199 — Capitu, cxii.1 De algúas corsas qre svcçederam depois dejle combate, & de quomo elRei de Calecut, danojado, & enuergonhado, fe foi metter em hum turcol, & fe fe\ pa\ com algús Reis, & Jenhores dos Malabares. A HO dia segvinte defte desbarato, veo elRei de Cochim vifitar Duarte pachequo, acompanhado de muitos caimães, panicães, & naires, & afsi dos mais dos mouros honrrados que morauam em Cochim, alegran- doiTe todos com elle pela viótoria que lhe Deos dera, dizendolhe elRei de Cochim que tinha feito tudo ho que lhe prometera, aho que refpondeo «t1.91v.ci.» • que nam fezera tudo pois nam efpetára elRei de Cale-*cut no Caluete, mas que ha culpa fora delRei ficar fempre na trafeira dos feus, & nun- qua pareçer na dianteira, onde elle fempre pelejàra. Feita eíta vifitaçam elRei fe tornou pera Cochim, donde cada dia mandaua vifitar Duarte pachequo com refrefcos, & coufas neçeílarias perá guerra, porque núqua fe quis partir daquelle lugar, no ql depois defte grande cõbate ho veo elRei de Calecut cometter duas- vezes, com na derradeira trazer hos meímos Caftellos, ho que fez mais por cõprazer ahos Reis, & fenhores que com elle andauam, que por vontade q tiueíle de ho fazer, mas ha fua géte andaua ja tam defacoroçoada, & hos noífos cõ todolos da parte delRei de Cochim, tã afoutos, que com menos trabalho do que ho feze- ram has outras vezes, hos desbarataram deftas duas, do q ho Çamori Rei de Calecut ficou tam cortado, que fem mais ter cota com ninguém, nem dar mais fé a feus feiticeiros, & falfos prophetas, aleuantou dia de fam Ioão pola manhã ho arraial, & fe foi metter em hum Turcol pera nelle feruir feus deofes & fazer vida de religiofo, deixando ho regno a feu fobrinho Naubeadarim. Mas antes que ifto fezelie bufcou modos & meos pera mãdar mattar Duarte pachequo, ho q lhe foi defcuberto, & por iffo prendeo algús Naires dos q era nefta cõjuraçãode q hum q an- •fi. 4»ci. i.* daua por efpia, era* de Cochim de geraçã dos Leros, hos quaes mãdou açoutar perante fim, pera defies laber ha verdade, que lhe logo corifef- farão pelo q hos madaua enforcar, mas a rogo dalgús Naires delRei de Çochim, q fe cõ elle alli achara deixou de ho fazer, & lhos mandou prefos pa defies mandar fazer juftiça. Depois do Çamori rei de Calecut eftar no turcol, lhe mandou fua mal (induzida pelos mouros) tãtos recados, & amoeítações, exortandoho outra vez à guerra, q lhe foi forçado fairffe 1 Et. xcii.
  • — 200 delle cotra fua vontade, mas iílo lhe aproueitou pouquo, porque antes q faiife do turcol, hos mais dos Reis, & fenhores, q ho ajudaram na guerra (antre hos quaes foi ho fenhor de Repelim) mandáram pedir paz a Duarte pachequo, ha qual lhe conçedeo per võtade, & pareçer delRei de Cochim, ficando eIRei de Calecut de fora, hauédo jà quafi çinquo mefes que duraua ha guerra em que ho Çamori rei de Calecut, quomo fe achou per cota de feus fcriuães, perdeo dezoito mil homes, hos treze mil denfirmidades, & hos çinquo mil nas pelejas, & muitos tiros dartelharia, & fuítalha. Duarte pachequo nam quis deixar ho paífo do vao, atte has pazes nam ferem affir- madas, porque ho pouquo tempo em q fe concluíram, & pouquo que cõ- fiaua da verdade defies fenhores do Malabar, lhe fazia pareçer q eram tudo •Fi92ci.2.« enganos. Eftando ain-*da alli veo ter cõ elle, per dentro dos rios, Rui daraujo lcriuão da feitoria de Coulam, com cartas do feitor Antonio de fá, per que ho auiiaua, quomo hos mouros da terra, confiados na viótoria q fperauam que eIRei de Calecut1 houuefle delie, hos çerquarão & mat- taram hum homem, & que afsi ho fezeram a todos fe a iífo nam acodira hos gouernadores da çidade, que lhe pedia pois eftaua é paz, que chegafle a Coulam pera caftigar hos mouros que foram culpados, porque fe ho nã fezelle lhe feria forçado (vifto has afrontas que cada dia reçebião delles) deixar ha çidade, & íe tornaré pera Cochim, pelo que Duarte pachequo, depois das pazes juradas fe partio do paífo pera Cochim ahos três dias de lulho, onde deu conta a eIRei do que paífaua em Coulam, que no entam reçebeo na çidade com grandes feitas acõpanhandoho, atte ha fortaleza, onde efteue prouendo nas coufas q compriam a feu carguo, atte hos xxvj. dias do mclmo mes de lulho de M.d.iiii, em que le foi na fua nao pera Coulam, deixando Pero raphael em guarda da çidade, cõ ha capitania das carauellas, & bateis. Chegando a Coulam fe informou de quomo paífara ho negoçio, mas vedo q ha execução feria rnuí dificultofa, por niífo fere culpados hos prinçipaes mouros da çidade, *fi. çj v. cl. i.* trattou do q era mais feruiço delRei, pedindo ahos go*uernadores, que lhe compriílem ho cotratto q fezerão cõ Afonfo dalbuquerque, per que le obrigauam a não deixarem fair nanhúa fpeçiaria daquelle porto, atte ho feitor delRei leu lenhor na ter- feita prouifam de todallas q houueífe milter, ho q lhe não cõtrariãdo, tomou de çinquo naos de mouros que eftauam á carga, toda ha pimenta q ja tinha recolhida, & afsi ho fez doutras algúas que carregauam efcondidamente, junto daquelle porto, atte q ho feitor fe proueo de toda ha que lhe era neçeífaria. Ho que feito fe fez à vela na entrada de Septébro, correndo ha cofia do Mala- 1 Et. /.; Calecut.
  • — 201 bar, atte ha chegada de Lopo ioarez à India, no qual tempo tomou algúas naos, que com ha carga entregou aho mefmo feitor Antonio de fá, cõ fer tarn temido, q nenhti Rei, nem fenhor de toda aquella prouinçia oufaua fazer coufa, em q cuidaffe que ho podia anojar. Capitu, xciii. De qaomo elRei mandov dom Françifco dalmeida à índia, & da obediência q enuiou aho Papa, & vinda do Padre frei Mauro Hifpano, a ejie Regno. HA primeira covfa notauel que fe nefteanno de m.d.v. em que agora entramos, fez nefte regno foi ha armada ' em que jelRei* mandou dom Françilco dalmeida por gouernador á índia de q trattarei no anno de M.n.vi, no qual anno M.d.v, mãdou elRei obediençia aho Papa lulio terçeiro, per dõ Diogo de foufa Bifpo do Porto, & com elle ho doólor Diogo pachequo, & afsi lhe mãdou requerer confirmaçam da ordem de Chriftus, de que hos Reis de Portugal per difpefaçam Apoftolica fam perpétuos adminillradores, aliem do que lhe mandou pedir cruzada, & indulto pera ajuda das defpefas que fazia em Africa na guerra dos mouros, ho qual Bifpo do porto ho Papa cõfirmou no Arçebifpado de Braga per aprefentaçam, & fupplicação delRei, ho que feito, & impetrados hos negoçios áque fora, fe tornou a ho Regno nefte melmo anno, do que fe aho diante dira, no qual no mes de Iunho, eftando elRei é Lisboa, veo a elle hú frade p nome frei Mauro Hifpano, guardiam do monte Siom, com cartas do Papa lulio, perque lhe mãdaua pedir cõfelho, & pareçer do q refponderia aho Soldam de Babilónia, fobre queixumes, & agrauos q lhe fcreuia delle, & delRei dom Fernando, & da Rainha donna Ifabel, Reis de Caftella, Aragam, & Siçilia, per cafo2 da continua guerra que fa- ziam ahos mouros, pelo qual frade mãdou ho trelado da carta que lhe ho Soldam per elle fcreuera, de q ho theor de verbo a verbo he ho •fi. 93 ci. i.* feguinte.* Carta do Soldam de Babilónia aho Papa lulio terçeiro. ASan&idade do Papa exçellentifsimo, fan&ifsimo, fpiritual, temente a Deos, bê feitor dos Romaos na feita ãtigua dos Chriftãos, antre hos fieis de Iefu, Rei dos Reis nazarenos, ou Chriftãos, conferuador dos 1 Na Ep.l «Ha primeira cousa notável que neste anno de m.d.v. se fez neste regno foi ha armada...» 2 Na Ep.: «e da rainha donna Isabel Reis de Castella e Aragam, per caso...» 36 \
  • 202 mares, & enfeadas marítimas, pai dos Patriarchas, & dos Bifpos, & fabedor pelos que lem hos Euangelhos na fua feita, das coufas liçitas, & inliçitas, agradauel ahos Reis, & prinçipes, & poífuidor do Regno Romão, Deos acreçente fua gloria, & lhe dé muita faude. Ho maior Rei, fenhor dos fenhores, nobre, exçellente, fabedor, jufto, conquiftador, Viétoriofo, Rei dos reis, efpada do mudo, prinçipe da fé de Maphamede, & dos q ho feguem, viuificador da juftiça, herdeiro dos regnos em todo mundo, Rei de Arabia, & de perfia, & Turquia, fombra de Deos na terras, obra das boas obras de Deos, afsi por elle mandadas, quomo na mandadas, aquelle que agora nefte tempo he quomo outro Alexandre, de quem muitos bês proçedm *, Rei dos que le affentam em throno, & cadeira real, cõferuador dos que trazé coroa na cabeça, dador de climas, & *fi. 93ci. 2.* çidades, perfeguidor dos reueis herejes, &* infiéis, conleruador de dous lugares dos peregrinos, fummo façerdote de dous templos fagrados, ajuntador, & cõferuador da fé de Maphamede, defendedor da juftiça, & bondade, fenhor dos Reis deite tépo, façerdote dos que temem a Deos, & fplendor de fé, pai da verdade, caufa de toda coufa fermola, & elegante. Faça Deos feu império perpetuo2, & feu exerçito viéto- riolo, & Deos ho ajude, & leuãte fua cadeira fobre ho planeta de Ge- minis. E pêra que vofla Sanétidade feja certo do que vos quero fazer faber vos mando efta carta, pela qual fabereis, que todolos Chriftãos, & frades que vem a nofio famolo regno, religiofos, & peregrinos, ou quaes qr outros, todos Iam guardados, & conferuados de noflã exçellente juftiça, & fei çerto que fabendo vos ifto, fabeis bem que ho Rei dos Catelães faz guerra no regno Dandaluzia, fenhoreando ha dita prouinçia, mattando muitos Mouros, trazendohos a duro, & afpero captiueiro, conftrangendo algús delles per força a fere Chriftãos, & entrar na Fé nazarena, ho que nam he liçito, nem na fua fé, nem em outra algúa, & difto lei q vos fezeram muitos mouros do Ocçidente queixume, procurãdo remedio do voífo exçellente tribunal, & piedade, a que nam deites nenhum remedio. E com ha notificaçam deltas coulas fomos poftos grandemente em húa •FL93v.d.i.4 fubi-*ta ira, com propofito de deftruirmos ho nobre Sepulchro de Hie- rufalem, & ho morteiro do monte Siom, & todalas egrejas que eftã portas debaixo de noffo fenhorio, de maneira que nam ficalfe pedra fobre pedra, & das pedras delias fe fezeffe cal, & porem fobreftiuemos na execuçam deite propofito a rogo, & por interçeftam do magnifico, & grãde Prinçipe Cartalaguo, & doutros prinçipes, & do noífo gram fecre- 1 Et. I.: proçedem. * Na Ep.: «Faça Deus seu império deste perpetuo...»
  • 203 tario, & do interprete Tangibarde, atte uos enuiar efta carta, & hauer volfa repolla pera fobrifi'o fazermos fundaméto, pera effeóto do qual mã- damos agora a voffa prefença ho frade Mauro, guardiam do monte Siom, & por iífo confydere vofia Sanélidade fobre eflas coufas, & veja le he liçito ho que faz na Andaluzia ho Rei dos Catelães, que fobre feguro, & fé dada, matta cada dia muitos Mouros, & per força hos faz tornar Chriftãos. E fe ifto vos pareçe bem, & lho cõçede voíía Sãétidade, faiba çerto q nos faremos outro tanto, porque não ficará é noífo regno nenhú Chriftão, que nam mande mattar, ou captiuar, aliem do que mandarei deftruir ho Sepulchro, mofteiros, & egrejas de Hierufalé. E ho que vos dizemos do Rei dos Catelães, iífo mefmo vos dizemos do Rei de Portu- gal, de quem reçebemos outro tamanho damno, & offenfa, ho qual vos •Fi.9tv.ci. 2.' peço que façais que totalmente defifta da naue-*gaçam da India, do que reçebemos muito dãno, em noflas rendas, & muita mingoa, bí quebra de nofla Fé, & de tudo vos peço que nos façaes çertos, fegundo vofia intençam, & Deos defporà eftas coufas em melhor. Scripta a xxij dias de Septembro1. Carta que elRei enuiou alio Papa em repojta de hua q lhe fcreueo fobre ha do Soldam de Babilónia, ha qual aqui nam pus, porque da repojla dejla delRei fe pode ver ha fubjlançia da outra. VITO bemaventurado Padre, p frei Maurohiípano, guardiam do monte SiÕ reçebi hum breue de vofia Sanétidade, & afsi ha copia de húa carta que per elle ho Soldam de Babilónia lhe enuiara, na qual principalmente fe queixaua do mui ferenifsimo Rei nofio muí amado pai, dizendo que tomando ho regno de Grada, vfára dalgúas lem razões cõtra hos moradores, infiéis deite regno .1. derribandolhe, & defixoindo deshonrradamente fuas mezquitas, & tornando per força algús mouros •Fi.54 d. Chriftãos, & & afsi pera moftrar mais feu me*do, que verdadeiro queixu- me q tenha de nós, fegundo vimos, tãbem le moftra de nos agrauado, & offendido, dizédo q em grãde damno de feu fenhorio, & perda fem eftima de feu eftado cõ noflas armadas, & gétes defcobriramos pelo mar Ocçeano atte a índia, & outras prouinçias da Afia, has qes nunqua per nenhús Reis, né Prinçipes noflos anteçeflores, né doutras gétes eftrangeiras fora defcubertas, nem nauegadas, lupplicãdo a voífa lanétidade que lhe dé 1 Na Ep.: «scripta a xxij dias do mes de Septembro.
  • 204 neítas coufas ho remedio q defeja ameaçando cõ lua grande foberba q le nifto lhe nam latisfazem fegundo feu defejo, que não fométe deítroirá ha trifte çidade de Hierufalem, & ho Sando fepulchro de noflo Senhor Ielu Chrifto, mas ainda pêra mais vingãça das injurias, & perda dos Mouros, promete que virá fubitamente contra ha republica Chriftã com exerçitos de guerra, & fobre ifto nos encomenda vofla Sandidade que lhe declaremos ho que fobre iífo fentimos, ho que faremos de mui boa vontade. E deixando ho que a voíla Sandidade & á real alteza delRei meu muito amado pai toqua, & pertençe, no que cremos q cada hum per coleruaçam da Fé, confyderando ha cõueniençia das couías diuida- mente, & cõ muita prudência relpõderà, & quanto aho q nos nefte cafo •h 94ci. 2.» toqua breuemente lhe declaremos noífa teçam. E ho de que primei-* ramente muito bem auenturado Padre, mais nojo reçebemos, he hos danos, & agrauos de q ho Soldam fe aqueixa a voífa Sãdidade cõtra nos, não fere maiores pera fua queda, & has caufas diffo não fere de mais effica- çia, & poré confelfamos q hos começos das coufas que com ajuda de Deos proleguimos, pera effedo de lua deftruiçam, de que pareçe que te reçeo, leré alfaz grandes, & aptos pera iffo, pola priuaçam das mercado- rias, & tratto das coufas da India. E quando noífos exerçitos (ho q cremos q per milericordia de Deos fera mui çedo) chegaré à fua cafa de Aleca, & onde eítá ho feu falfo Propheta, & tomaré por força darmas, & deftroirem tudo então nã lera fem razam ameaçar ho dito Soldam cõ ha deftroiçam do Sepulchro fando, & entam mais juftaméte le pode aqueixar & lamétar, & ifto muito fando Padre nã fam coufas vãs, nem de muita dificuldade, oulhando bê em quão pouquo tépo cõ ajuda do fenhor Deos fe fezerã tam grãdes, & profperas coufas. E conheçida bem ha difpofiçam, da índia, & afsi da cõdiçam & infidelidade da gente bar- bara ejn que nam fe deue temer nenhúa força, nem nenhúa refiftençia. E poré muito cleméte Padre pera q ho Soldam nos agrauos de q por parte dos infiéis fe queixa delRei noflo pai, nos tenha também por parti- Fi.9iY.ci. çipantes, laiba vofla fandidade que quando fe* contrattou cafamento entre nós, & ha Rainha noífa muito amada molher nifto prinçipalmente inliftimos, & houuemos por mais bemauenturado dote, pedirmos aho dito Rei noflo pai que nam fomente todalas mezquitas dos Mouros fogeitas aho Regno de Caftella has mandafle todas deftroir, mas que ainda hos leus filhos pequenos, & de pequena idade foflem tirados de feus pais, & fe baptizaflem, & hos tornaflem Chriftãos. Ha qual coufa, afsi quomo foi prometida, afsi com louuor de Deos fe acabou, & cõprio, no que reçebemos grade prazer, & benefiçio. E quãto ás ameaças, & vingança que ho dito Soldam publica com palauras de muita foberba contra ho J
  • 205 Sepulchro de Iefu Chrifto, iíTo nam podemos deixar de fentir com muita dor, & trifteza, né he fem razam, quando ho Soldam fcreue a vofla Santidade, que temos por verdadeira cabeça de nofsa Fé, nam tendo reçeo de dizer coufas de deshonrra, & abatimento da mefma Fè. Nem he de crer que efta ouíadia de infleis proçeda fenam da muita negligen- çia, & defcuido dos Prinçipes Chriftãos, que occupados em coufas hu- manas, & de feu proueito fe nam alebram das injurias que reçebé dos imigos de Deos. E finalmente nam cremos muito fanéto Padre que ho •fi.
  • — 206 Capitu, xciiii. Dalgíias covsas qve nest anno de mil, & quinhétos, & çinquo mais pajj'aram no Regno. ELRei do Emanuel foi naturalmete amador de honrra, & defejof» deixar de fim memoria, & boas leis, & fóros a feus fugeitos, & vafiallos, do que mouido, começou nefte anno 1 de Mil, & quinhentos, & çinquo hum negoçio de muito trabalho, que foi mandar reformar has leis, & ordenações antiguas do Regno, & acreçentar nellas algúas •fj.95cI.j« coufas que lhe pareçéram rieçeíTarias, & afsi fez por fer-*uiço de Deos húa obra digna de muito louuor, ha ql fe começou nelfe mefmo anno q foi mandar q íe fezeffem hos tombos de todalas capellas, fpritaes, albergarias, inftituições, & gafarias defies regnos, pera ho que fe fe- zeram grandes diligençias em tirar inquirições, pera fe faber diífo ha verdade. Hos quaes exames feitos, & acabados2 com muita diligen- 1 Na Ep.: «EIRei Dom Emanuel foi naturalmete cobiçoso de hõrra, e deixar de si memoria, do que movido, commeçou neste anno...» 1 Na Ep.: «e acreçentar nellas algúas cousas que lhe pareçerão neçessarias. Mas por estas que enadeu serem muitas delias em seu proveito, acreçentando ahos direitos que se pellas antiguas ordenações, e artigos das sizas pagava ahos Reis outros maiores, lhe nam foi bem julgado, comtudo porque ho que ordenou foi per conselho e pareçer de letrados, podesselhe relevar parte da culpa, e dobrala ahos q lhe houvera e deverá daconselhar ho cõtrairo; e tinhã obrigaçã per juramento de seus cargos, e offiçios, de ho fazer, porque destes taes homes, e da verdade que deve de trattar depéde ha honrra e fama dos Reis, e bõ governo de seus regnos, e estado: mas posto que na parte do adquirir, se lhe possa dar algúa reprehensã, foi tam vigilante nas cousas q tocavam aho Ecclesiastico, e serviço divino, que se lhe pode levar ê conta toda ha culpa que lhe deré do desejo que tinha dajútar muitos mais bes á coroa destes Regnos, do que fez em quanto viveo porque de suas rendas despendia cada anno grande parte em esmollas, e obras pias, e edificar, e repairar igrejas, e mosteiros, villas, castellos, e fortalezas, e fazer guerra aos mouros; allé do que fez per serviço de Deos húa obra digna de muito louvor, que foi mandar que se fezessem hos tombos de todallas capellas, spritaes, al- bergarias, instituições, e gafarias destes regnos, obra que se commeçou neste anno de m D.v. pera ho que mandou fazer grandes diligençias, e tirar inquirições pa se saber disso ha verdade. Hos quaes exames feitos e acabados...» Esta alteração do texto foi determinada pelas observações do Conde de Tentúgal, na Crítica. No capitolo ()4 dif que El Rey I)om Manoel Joy cobisoso, e aymda que logo diga de omra, ao diamte vaj dijemdo que tãobem o Joy da fajemda, e diç maes que parte desta culpa se pode relevar por algúas boas obras que se feq que logo nomea. Eu não sey em que autor se pode fumdar, porque suas obras forão de liberalissimo e de Rey muj perfeito no repartyr das merces, porque pera isto teve sempre muj excel em t es res- peytos, e cobiçar dacresentar maes bens ha coroa não era senão desejo de omra e glorya r •
  • 2C>7 — •çia, mandou logo fcreuer hos tombos autênticos de todas has proprie- dades, foros, rendas, & obrigações que fe tinham, a eftas cafas, & ca- pellas, de que mandou fazer de cada hum dous liuros, hum pêra ficar nos cartoreos das mefmas cafas, & outro pêra fe laçar na Torre do tombo do Regno, mas defies muim pouquos 1 fe trouxeram a ella, ho que feria per negligençia, & culpa das peffoas aque elle encomendou, & encarregou que ho fezeflem. Nefie anno no mes de Iunho por algúas fufpe&as que elRei teue da exçellente fenhora dõna Ioanna, Rainha que fora de Caftella, & Leão, fe querer tornar fecretamente pera hos ditos regnos ordenou que le viefle de Santarém2, onde então efiaua pera Lisboa, & por has informações que fobre iflo deram a elRei nam ferem de cali- dade pera fe lhe dar fè, & elRei achar depois fer tudo falfo, tenho por muito excufado fazer diíTo mais declaraçam, da qual fenhora, & de feus de seu reynno, e as palavras e modo com que fafta as merçes erão maes pera estimar que elas, sem embargo de serem muj grandes. Damião de Goes replicou nas Desculpas: Do que toca a liberalidade dei Rey Dom Manoel e cubiça, tudojso trato na verdade, porque se o nãofyese asym, diryão que era caronysta pera di^er o bem e não saber reprender o mal. 0 de Tentúgal estomagou-se com a observação de Damião de Goes e respondeu, perdendo um pouco a grave compostura de critico: Quamto ha liberalidade e cubiça dEl Rey Dom Manoel, ho que sobre isto escrevy, eu o defemderey com a pena, aymda que não he de minha profição, de muj to milhor vomtade com a espada, que hee a propria minha, porque eu não sey Rey nenhum, aymda que aquy entre El Rey Dom João de Boa Memorya, que maes merces Jiçese que El Rey Dom Manoel. E pera isto vejão as doaçois do Duque de Braguamsa e do Duque Daveyro e do Marquej de Vjla Real e do Comde de Portalegre e do Comde Pryor e do de Vjla Nova e do da Vjdigueyra, e doutras mujtas pesoas que não caberão em gramde soma de papel; e vejão hos guastos em suas armadas, e dos que façião com hos luguares dallem, e verão que quem taes cousas ffeç, não deve ser notado de cobisoso. E os Estados do Turco pretendia-os pera a sua coroa, pera com eles puder milhor syrvjr a Noso Senhor e ter maes que dar aos seus vasalos, asym que sua cobisa era samta, e por nenhum caso do mundo lhe deve de por tal nome. Damião de Goes cortou o cobisoso, causa da ira do Conde, substituiu por amador e eliminou toda a parte do texto que explicava, mais que satisfatoriamente, a significação a dar ao discutido cobisoso. Cfr. Arch. Hist. Port., vol. ix, pág. 363,'367, 372 e 373. 1 Na Ep.: «e propriedades, foros, e rédas, e quaesquer outras obrigações que se tinham, e deviam ha estas casas, e capellas, de que mandou fazer de cada hú seu livro, hu pera ficar em mãos dos administradores, e outro pera se lançar na Torre do tombo do Regno: mas destes mui pouquos...» É uma alteração de redacção justificada e apenas da autoria de Damião de Goes. * Na Ep.: «Rainha que fora de Castella e Leão de cuja real pessoa, e de seus in- fortúnios tenho scripto na chronica do prícipe dó Ioá: ordenou q se viesse de San- tarém. ..»
  • 208 •n. 95*. ei. i.» infortúnios tenho tratta-*do afaz per extenfo na Chronica do Prinçipe Dom loam, Rei que foi deites Regnos, fegundo do nomeNeíte mefmo ãno de M.d.v. per confentimentos, & vontade delRei fez loam lopez de fequeira húa fortaleza em Guadanabar do cabo de Guer pêra dentro, contra Aguiló, aque pos nome de fanfta Cruz, ha qual fortaleza elle depois foltou a elRei pola nam poder fofter, & elRei lhe fez por iífo merçe. Neíte anno3 quomo atras fica fcripto mandou elRei a Roma dom Diogo de foufa Bifpo do Porto, ho qual depois de ter negoçiado has coufas que leuaua a cargo, & fer Arçebifpo de Braga, fe tornou aho Regno per mar, depois da chegada do qual a Lisboa, que foi* no mes Doótuátubro, le ateou logo peite tam braua na çidade, de húa nao que vinha em fua compania6 tocada, fern ho elle faber, que foi neçefiario irfe elRei com toda iua cafa pera Almeirim, ha qual peítilença fe efpalhou per todo ho Regno, & foi húa das mais brauas, & cruel, que em muitos tempos fe acha, que houueífe em nenhúa outra parte da Hifpanha. Capitu, xcv. De quomo françisco pereira pejiana foi fobre húa aldea, & do que lhe aconteçeo.* FRANCISCO pereira peitana foi neítes Regnos hú honrrado fidalgo,. & muito bom caualleiro, grande dizedor, & cortezão, de quem elRei dom Emanuel, & elRei dom loam feu filho fezerão muita conta por feus feruiços, & cauallaria, no qual exerçicio deu fempre boa cota de fim afsi em Italia, onde ha exerçitou com muito louuor, quomo em Africa, & na índia, & na tomada da çidade de Tunez em companhia po7 Infante dom Luis, quando ho Emperador Carlos quinto ha ganhou ahos mouros. A eíle esforçado caualleiro eítando em Arzilla feruindo Deos, & feu Rei na guerra, deu dom loam de meneies neíte anno de m.d.v. fetéta de cauallo pera correr a húa aldea que eitá dentro na ferra que fe chama Cahara, áqual chegou em amanheçendo, pondoífe em çilada, atte q hos mouros lãçàram ho gado fora, ho qual lhe tomou todo, aho q elles aco- L Na Ep.: «fazer disso mais declaraçam...» 2 Na Ep.: «No mesmo anno de m.d.v. per consentimento...» J Na Ep.: «polia nam poder soster: e elRei lhe fez per isso merçe, e ho satisfez ha sua võtade. Neste anno...». * Na Ep.: «se tornou aho Regno p mar, e dpois de chegar a Lisboa, q foi...» » Et. Doélubro. * Et. /.: companhia. i Et. do. * H ç5 v cl. s.* /
  • — 209 — d iram, apertando com Françifco pereira íem ho leixaré atte tres legoas Darzilla, tendo ho ja feguido duas, às voltas, com tãto esforço que lhe cõueo poer ha gente em corpo fobre hum outeiro, com determinação de pelejar, mas hos mouros pareçendolhe q poderia fer çilada, fe começáram de recolher a outro outeiro, ho q elle vendo voltou fobrelles, que feriam •FLgéci. i.« entre de pé, & de cauallo* duzentos, & hos desbaratou & mattou oitenta, & captiuou trinta, & çinquo, dos Chriftãos forão muitos feridos, mas nam morreo nenhú. Hauida efta viéloria, Frãçifco pereira caminhou cõ ha caualgada, & foi recebido é Arzilla do capitam, & dos mais que eítauam na villa, com muito prazer. Nefta companhia fe achou hum muito esforçado caualleiro per nome Diogo viegas, da criaçam de do loam mafcarenhas capitão dos genetes, q por em mote mór ho nouo mattar em defafio hum criado do mefmo dõ loam fe foi Arzilla. Ho qual depois de fe Frãçifco pereira recolher aho outeiro, lhe dixe que voltaífe fobeilos mouros que eítauam no outro, aho que Françifco pereira, que de fua condiçam era affomado, refdondeo,1 olhai que confelho de homem veítido em caçote de canhamaço. Diogo viegas quomo era caualleiro, rindoífe lhe dixe, afsi Françifco pereira, eu vos prometo que efte caçote vos ha hoje de pareçer arnês de milão, aho q Françifco pereira refdõdeo, * pois tu es tam valente, volta, volta, ho q todos feze- ram cõ tanto esforço que desbaratarão hos Mouros do modo arriba dito. Diogo viegas fez nefta volta tam afsinadas coufas que Françifco pereira, depois do negoçio acabado, le lhe lãçou ahos pés, dizédoihe que ho ef- •FUgôci.a.* pãcaífe, pois lhe refpondera fem faber aquém falaua, q com feis taes* quomo elle fe atreuia a ir prender ho gram Turco dentro da çidade de Conftantinopla. Capitu, xcvi. De quomo elrei ma.nd.ov a india tre\e naos, de que foi por capitam Lopo foares daluarenga. ATRAS fiqva dito no anno de mil, & quinhentos, & quatro, quomo elRei mandou húa armada á índia de que deu ha capitania a Lopo foarez daluarenga, da qual farei relaçam nefte anno de mil, & quinhentos, & çinquo, em que tornou, fegundo ha ordé q com has outras atte qui niífo tiue. Efta armada era de treze naos groffas, em que iham, mil, & duzétos foldados3, & muitas munições de guerra, por quãto elRei 1 Et. refpondeo. * Et. refpondeo. 1 Na Ep.: «mil, e duzStos homés...» *7
  • 210 tinha ha guerra de Calecut por çerta, pellas informações que lhe ho Almirante dõ Vafquo da gama deu, quando de lá tornou ha fegunda vez. Hos outros capitães que iha debaixo da bandeira de Lopo toarez eram Pero de mendoça, Lionel coutinho, Triítão da fylua, Lopo mendez da vafco gonçelos, Emanuel telez barreto, Lopo dabreu, Phelippe de caítro, Afonfo lopez da coita, Pero afonfo daguiar, Vafquo da fylueira, Vafquo carualho, & Pero dinis de Setuual, com hos qes partio do porto de •fi. 96 y.ci. 1.» Bethlem, a xxij dias Dabril do* dito anno de mil, & quinhetos, 6c quatro. E feguindo fua viajé chegou a Moçabique ahos xxv dias de Iulho, em dia do Adoftolo2 Sanítiago, onde ho Xeque ho reçebeo quomo amigo, mãdandolhe refrefquo da terra em prefente, & húa carta que Pero da- taide fcreuéra antes que morrelfe, em que auifaua qualquer capita q alli vieífe ter dos negoçios da índia, pelo que vendo Lopo foarez que lua chegada era neçeífaria a Cochim, mãdou conçertar, & prouer ha armada, com tanta diligéçia q aho primeiro dia Dagoíto partio pêra Melinde, onde ho elRei é chegando mandou vifitar cõ refrelquos per hum Mouro honrrado per nome Debucar, & cõ elle dezaleis Portuguefes, que fe alli deixáram ficar, dos que fe faluàrã da nao de Pero dataide. Neíte porto de Melinde nam fe deteue Lopo foatez3 mais que dous dias, a cabo dos quaes, depois de fe ver cõ elRei, partio perá India, nauegando com bõ tempo atte ha Ilha de Anchediua4, onde achou Antonio de faldanha, & Rui louréço, que quomo atras fica dito, alli vierão ter, & por cafo do inuerno nam podéram paffar a diante. Iíto era ja no fim Dagoíto, em que começa ho veram na quellas partes, pelo que fe fez dalli à vela caminho de Cananor, onde chegou aho primeiro de Septembro, & loube, •(Fi.96v.!ci.j.' afsi delRei com que fe vio em terra, quomo do feitor Gon-*çalo gil barbofa, ho que Duarte pachequo fezera nas guerras delRei de Calecut. Ho que fabido, & dado a elRei de Cananor hum prefente que lhe elRei dom Emanuel mandaua, fe partio pera Calecut: ha caula de là ir (poíto que eítiueíTe de guerra com nolquo,) foi eíta. Aho dia leguinte que chegou a Cananor veo ter com elle hum Mouro de Calecut, com hú moço Português, que lhe trazia húa carta dos Portuguefes que ficaram captiuos, do tempo de Pedralures cabral, hos quaes Naubeadarim prin- çipe de Calecut leuara de Cranganor, com Rodrigo reinei, quando per mãdado de Françifco dalbuquerque alli fora reçeber pimenta, quomo 1 Et. de. 1 Et. Apoftolo. ' Et. foarez. * Na Ep.: «atte ao porto de Anchediva...»
  • 211 a tras fica dito, na qual carta lhe fcreuiã que elRei de Calecut ficara tam quebrado da guerra que tiuera com Duarte pachequo, q hos gouer- nadores da çidade, fabendo q elRei açeptaria h apaz fe lha defsé pofto que àquelle tempo não eftiueífe na çidade, lhes mandaram q lhe fcreuef- fem, pêra laberem delle fe feria lua vontade fazella, ho que lhe pediam q quifeíTe, a húa porque a todollos Portuguefes viria diffo proueito, & á outra pêra com ella fairem do captiueiro em que hauia tanto tempo q eftauam. Lida ha carta Lopo foarez quifera madar ho Mouro com ha repolta, & reter ho moço, ho q elle nam quis fazer, dizendo que fe ficaífe, •fi. 97 ci. i.* que a todollos outros q* eftauão em Calecut cortarião has cabeças, ou pelo menos os tratariam mal, po1 que mouido ho deixou tornar fem relponder, fenam de palaura, dizendolhe que quãto á paz que elle fe iria dalli a Calecut por eífe fô refpeito, pola tabem defejar. Ifto lhe dixe perante ho Mouro, & a parte que lhes dixeffe, que tanto que furgifle diante do porto, trabalhafiem por fogir denoite perás naos, que elle hos mãdaria eíperar com hos bateis á praia. Defpedido ho moço fe fez Lopo foarez à vela, & a hú fabbado fette de Septembro de M.d.iiii, lurgio diante da barra de Calecut, onde logo hos gouernadores da çidade ho mandaram vifitar per hú Mouro honrrado, é cuja cõpanhia vinha ho mefmo moço Português, per qué lhe mandaram hum prefente de refrefquo da terra, & dizer que fe quifeífe dar feguro a Cojebe- quij que lhe iria fallar fobre conçerto de paz, pera ho que ja tinha cõmiíTam delRei de Calecut: Lopo foarez nam quis tomar ho prefente, relpondendo que atte nam terem alfentada paz tiueífem por excufado mandarlhe coufa nhúa. E quanto a Cojebequij que podia vir fallar com elle liuremente, ho que afsi fez, acompanhado de dous dos noflòs que eftauam captiuos na çidade, trazendo recado de parte dos regedores que •FLyrci. 2.* elRei feria na çidade dentro de quatro dias, pera fallar neftas* pazes que defejaua muito com elRei de Portugal, aho que lhes refpondeo que antes de fe fazer nenhum conçerto lhe hauiam de dar hos Portuguefes que tinham captiuos, & hos dous Lombardos Milanefes, aho que hos de Calecut nam refponderam, por cafo da entrega dos Milanefes, q quanto ahos noffos, eftauam refolutos em hos entregar, quomo fe depois foube: pelo que mandou logo esbombardear ha çidade, no que fe continuou hum dia, & meo, ho que feito le partio pera Cochim, onde chegou a hum iabbado quatorze dias do mefmo mes de Septembro. 1 Et. I.: do.
  • — 212 — Capit. xcvii. Do que Lopo Soare\ fe\ depois que chegou a Cochim, & de quomo Duarte pachequo fe veo parelle, & fordo fobre Crdgauor. HO dia em qve Lopo foarez chegou oho 4 porto de Cochim ho vieram ver á nao hos noffos, & aho outro dia defembarcou & fe foi á fortaleza, à porta da ql ho eftaua fperando elRei de Cochim, & dalli entraram pera húa falia grande, onde eftaua hum eftrado, em que fe el- Rei lançou fobre almofadas, & Lopo foarez fe aífentou em húa cadeira •FL97 *. cl. i.« defpaldas fora do eftrado, & afsi eftiue*ram ambos falado per hum bom pedaço, dandolhe logo Lopo foarez hum prefente que lhe elRei dom Emanuel mandaua. Ifto feito2 dahi a pouquos dias mandou a Pero de mendonça, & a Vafquo carualho que faiffem com has fuas naos a guardar ha cofta dalli atte Calecut, & Afonfo lopez da cofta, Pedrafonfo daguiar, Lionel coutinho, & Rui dabreu que foliem tomar carga a Coulam, por faber q tinha ho feitor Antonio de fá juta muita fpeçiaria, por induílria, trabalho, & ardis de Duarte pacheqno3, ho qual depois deftas quatro naos chegarem aho porto de Coulão, fe partio pera Cochim, onde Lopo foarez ho reçebeo quomo a homem a que todo caualleiro tinha obrigação de fazer muita cortefia, mifturada com defejo de alcançar algúa parte de tãta honrra, & gloria, quanta elle tinha ganhada nas victorias que hou- uera cõtra ho Çamorij rei de Calecut. Feita ha carga das naos que ficarão em Cochim, & vindas has que foram a Coulam, Lopo foarez foi auifado que em Cranganor, çidade que fempre tiuera ha parte delRei de Calecut, eftaua hú feu capitam per nome Mai mame, com oitenta paraos, & çinquo naos, & em terra ho prinçipe Naubeadarim, & que cada dia fe ajuntaua muita gente, á outra muita que ja alli tinha, ifto pera que •Fi.»7v.ci.a.« quomo partilfe ha noífa armada darem de fubito nas terras* delRei de Cochim, & continuaré de nouo na guerra que tinham com Lopo Soarez. Sobrifto teue elle cõfelho com ho mefmo Rei, &4 capitães da frota, pelos quaes todos fe affentou, que deflem de fubito em Cranganor, ho que concluído partio de Cochim húa noite com quinze bateis & vintaçinquo ' Et. L: aho. 1 Na Ep.i «dandolhe logo Lopo Soares hum presente de dinheiro, e outras jóias que lhe elRei dom Emanuel mãdava, per saber que ficara pobre, e empenhado das guerras que per seu serviço tivera com elRei de Calecut. Isto feito...» J El. I.: Pache quo. 4 Na Ep.: «darem de súbito na Ilha de Cochim, e cõtinuarem de novo na guerra q tinham com elRei. Sobristo teve conselho cõ ho mesmo Rei, e...»
  • — 2 I 3 — paraos, & húa carauella, todos bem efquipados, em que haueria mil homes Portuguefes, & mil Naires delRei de Cochim. Em amanheçendo chegou a Pali, porto onde ho Prinçipe de Cochim ho eftaua fperando com oito çentos Naires. Daqui partiram per mar, & per terra caminho de Cranganor, dando Lopo foarez ha dianteira delta frota do mar a Trilião da fylua, Antonio de faldanha, Pedrafonfo daguiar, Afonfo da coita, & Vafquo carualho. Ho capitam delRei de Calecut tinha duas naos em que elle eítaua com dous feus filhos, encadeadas húa na outra, bem efquipadas dartelharia, & todalas munições neçeffarias, com muita gente de guerra, frécheiros, lançeiros, & algús efpingardeiros, & ás ilhargas delias tinha postos hos paràos com muita gente, & artelharia. Hos noffos çinquo capitães em chegando abalrroarã has naos, has qes entraram (poíto q cÕ muito trabalho) mattando algús 1 dos imigos, entre hos quaes foi ho meimo capitam, & feus filhos, que morreram quomo •F1.9S01. i.* homés* esforçados, ha outra gete toda vedo has naos entradas le lançou aho mar, hos outros capitães cõ hos Naires de Cochim cometteram hos paràos de Calecut, q fe loguo poferam em fugida, fem nenhúa refiítençia. Desbaratada elta frota, Lopo foarez fez defembarcar hos noífos, dando ha diãteira ahos çinquo capitães, hos quaes jútos com ho Prinçipe de Cochim, que veo per terra, & ha outra noífa gente deram na de Nau- beadarim Prinçipe de Calecut, hos quaes depois de fe defenderem hú bom pedaço deixaram ho campo ', & entrando per húa porta da çldade 3 fairam pela outra, indolhe hos noffos no alcançe atte hos lançarem fora. Duarte pachequo, & Diogo fernandez correa, que per ordenança de Lodo4 foarez defembarcaram com algús capitães afaltados dos outros, vendo ir hos imigos de vençida, fem hos poderem alcançar, entraram também pela cidade, á qual loguo poferam fogo, que em fe começando datear fahiram das cafas algús Chriítãos dos que alli morauam 5, pedindo- lhes que ho apagalfem, por nam queimarem has egrejas de noffa Senhora, & dos Apoítolos que na çidade hauia, & aífi fuas próprias cafas que tinham meíturadas com has dos Mouros, gentios, & judeus. Deites algús *fi. 98 ci. 2.* correram á praia onde Lopo foarez eítaua com ha gête que* com elle ficou pera guarda da frota, a pedirlhe ho mefmo, aho que loguo mandou 1 Na Ep.: «(posto q CÕ muito trabalho e resistéçia) mattando algús...» 2 Na Ep.: «de Calecut, hos quaes (posto que resistissem hum bom pedaço) deixarão ho campo.. ' Et. I.: çidade. * Et. /.: Lopo. 5 Na Ep.: «sairam das casas onde estavam escondidos algús dos christãos que alli moravam...»
  • 214 acodir, mas nam pode fer com tanta diligençia, qne 1 fe nam queimafiem muitas cafas, por ferem de madeira, cubertas dola, aho modo do Mala- bar. Has dos mouros, gentios, & judeus que fe nam queimarão foram faqueadas em que houue grande delpojo. Has duas naos que eftauam encadeadas, & tres q eftauão encalhadas em terra, com muitos paràos, que hos imigos defempararam, mandou lopo foarez queimar, & recolher á noffa frota has armas, & artelharia que nellas acharam, ho qual (fazen- dofle efta obra) entrou na çidade, pera em húa das egrejas dos Chriílaos armar algús caualleiros, ho que feito fe tornou pera Cochim, onde foi bem reçebido, afsi delRei, quomo de todolos da çidade. Capitu, xcviii. Em que se declara donde efles chriflãos de Cranganar1 tracem feu principio, & dos cojlumes, & modo de religiam que tem, & do fttio da çidade. ESTA çidade de Cranganor he grande, íituada na terra do Malabar3, quatro legoas de Cochim, contra Calecut, delongo* da qual paffa hum rio, que ha çerqua por algúas partes. Habitam nella gentios, mouros, judeus, & Chriílaos, he de grande tratto, & de que todo ho Regno toma nome. Vem a ella mercadores de Suria, Egypto, Perfia, & Arabia, por cafo da muita pimenta que nella hà. Quando hos noífos vieram à India, era efta çidade gouernada per hos mefmos da terra a modo de Républica, comtudo eftaua à obediençia do Çamorij rei de Calecut: mas depois q hos gouernadores delia virão fuas coufas em declinaçam, por cafo da guerra que faziamos a elRei, elles fe lhe rebelarão, fem lhe mais quererem obedeçer. Té ho gétio defte Regno hos mefmos coftumes, & crença que tem todollos outros do Malabar. Hos Chriftãos que nella moram tem egrejas quomo has noffas, & nos altares, & paredes pitadas cruzes quomo hos de Coulão, fem nenhúas outras images, nem finos. Ajuntaffe ho pouo nas egrejas ahos domingos, onde ouué fuas pregagações *, & hos offiçios diuinos. Aho feu Papa chamão catholico. Té fua refidé- çia em Caldea com doze cardeaes, dous Patriarchas, Arçebifpos, Bifpos, & outros prelados. Hos façerdotes trazem ha tõfura em cruz, & confa- grão ho corpo do Senhor em pão afmo, & cÕ vinho de paffas, por na 1 Et. que. 1 Et. /.: Cranganor. » Na Ep.: «Cranganor he hãa çidade grande, situada na terra do Malabar...» * Et. l.: pregações. ^jÃ
  • — 215 — terra não hauer outro. Hos feculares comungão ieparadaméte ho pão, *fi. ç8v. ci. 2.* &* vinho cofagrado, quomo hos façerdotes. Baptizão hos mininos a hos quarenta dias, fe nam fucçede perigo de morte. ConfeíTam fe antes de tomar ho Sacramento, & em lugar da extrema Vnçam, que nam vfam, benze ho façerdote ho enfermo. Quãdo entrão nas egrejas lanção aguoa benta fobre fim: enterrão hos mortos aho modo da egreja Romana. Hos parentes & amigos em lembrança do morto, comem todos juntos oito dias contínuos, dizendo fempre muitas orações pela alma do defúto, depois dos quaes lhe fazé ho faimento ': nam fazendo teftamento ho que morre, fucçede na fazéda ho paréte mais chegado. Has molheres dos defuntos tiram feu dote, ho qual per lei, & coftume que tem perdem fe fe cafam antes de hú anno depois da morre2 do marido. Tem hos meimos liuros da lei velha, & noua que fam reçebidos no Cânone da egreja Ro- mã, fcriptos em lingoa Hebrea, & Caldea, hos quaes hos leus doétores (de que há algús bem doétos na lei) lhes lem em fcollas publicas, prin- çipalméte hos Prophetas. Iejúam ho aduento, & ha quarefma no mefmo tempo que nós. Nam comem coufa nenhúa, nem bebé da vefpera da Paícoa atte ho dia Tem prégadores que ordinariamente p todo ho difcurlo do anno lhes pregão. Té liuros de doétores que lhes expõem ha lei, em •Fi. 99 ci. ».■ que ftudão. Guardão com mui-*ta deuaçã ho dia da Palcoa com duas oótauas, & ho dia da Pafcoela, com muita folemnidade, por naquelle dia fam Thome metter ha mão no lado de noífo Senhor Iefu Chrifto. Guar- dam cÕ ha mefma folemnidade hos dias da Afçéçã, Péthecofte, Trídade & Afumpçam de noífa fenhora, ho do feu nafçiméto, & Purificaçam, ho do Natal, Epiphania, todolos dias dos Apoítolos, & domingos de todo ho anno. Té dia intercalar pêra cota dos annos quomo hos latinos. Hos Chriftãos, & gentios daquelle Regno fazem grandes feitas no primeiro dia de Iulho, à honrra do bemauenturado Apoftolo fam Thome. Tem moíleiros de mõjes que fe vertem de panos pretos, & da mefma ordem hos hái de freiras, que viuem com muita obferuançia, honeftidade, cafti- dade, & pobreza, afsi hús, quomo hos outros. Hos façerdotes guardão caftidade conjugal, morta ha primeira molher nam cafam mais: no ma- trimonio nam pode antre elles hauer apartaméto per nenhum cafo, fenam per faleçimento do marido, ou da molher, bem ou mal ham de viuer juntos atte morte. Hos quaes coftumes, & crença tem todolos Chriftãos q hà desde Cranganor atte Chormandel, & Mailapur, onde jaz enterrado ho Apoftolo fam Thome ho qual Apoftolo pregou ha palaura de noífo i Na Ep.: «depois das quaes lhe fasem o saimento...» * Et. morte.
  • 2 I 6 — \ *fi. 99ci. i.« fenhor Iefu Chriíto a eítes de Cranganor, & ahos* de Coulam, & primeiro que a eftes ahos da ilha de Çacotor à quomo elles tem per luas ledas, & liuros autênticos. Pera mòr çerteza do que farei aqui meçam do q Pero de fequeira (homem a que fe pode dar credito) me dixe acerca da veri- ficaçam deite fanéto Apoítolo, fer ho primeiro que pregou ha nofla fé catholica naqllas partes, q foi afsi. Seruindo elle no anno de M. d. xliii, ho offiçio de theíoureiro do depofito em Cochim, veo ter áquella çidade hum Bifpo de Cranganor, p nome Iacobo, Caldeo de naçam, ho qual per fua dignidade, & honeftidade poufaua no mofteiro de fanéto Antonio, da ordem de fam Françifco, onde adoeçeo denfirmidade, de q veo a falecer, ho qual Pero de fequeira, por ter com elle algúa amizade, iha viíitar muitas vezes. Elte bõ home vendoífe no extremo ponto da vida, com muita vergo- nha lhe rogou, q fe Deos foífe feruido ho leuar pa fim, quifeffe vfar húa ef- mola, & charidade com elle, & com todolos Chriftãos da çidade de Cran- ganor, ha qual era, que elle por neçefsidade, & fer pobre emprenhara1 a hum çerto home que moraua na ferra duas taboas de cobre, em que ef- tauam talhados aho boril priuilegios que hos fenhores daquella çidade deram aho bemauenturado Apoítolo fam Thome, pa hos Chriftãos que elle ja •Fi 99T.ci. i.« entam tinha conuertidos, & pêra todollos* que depois ho foífem, & que eftas taboas empenhara por vinte cruzados, hauia ja algús annos, fe fua pobreza lhe dar lugar pera has poder remir, que lhe pedia que pera confolaçam de fua alma mãdaífe logo por ellas, & has guardaffe, porque fe Deos lhe defle vida elle lhe pagaria hos vinte cruzados, & morrendo ho fariam hos Chriftãos de Cranganor, pelo muito que lhes importaua. Pero de fe- queira * mouido deitas palauras, mandou hum feu criado com ho dinheiro, em companhia de hum 1'açerdote, dos que acompanhará ho Bifpo, que conheçia ho home que tinha has taboas, has quaes lhe trouxeram antes do Bifpo faleçer, de que leuou muita confolaçam. Morto ho Bifpo Pero de fequeira moítrou eftas taboas aho gouernador da Inda3, q então era Martim afonfo de foufa, que logo mandou bufcar quem leífe ho coteudo nellas, mas nam fe achou quem has entendeffe pola antiguidade da fcri- ptura, & diferéça das linguajes, do que ja deíefperado, lhe vieram a en- culcar hú judeu, que também viuia na ferra, homem doóto em muitas lingoajes, & experto na antiguidade delias, aho qual mandou has taboas com cartas delRei de Cochim, per que lhe mandaua q declaraífe ho que fe nellas continha, ho qne * ho judeo fez, com muito trabalho, porque ha 1 Et. /.; empenhara. 1 Et. fequeira. 5 Et. índia. 4 Et. I.: que.
  • — 217 — •Fi.99 t. ci. i.* fcriptura era de tres lingoajés, Caldeu, Mala-*bar, & Arabio, & ho eltylo muito antigo: mas ha fubítãçia dos priuilegios nam fe continha em cada húa deitas lingoajés p fim, fenam em todas tres juntas, pondo húa palaura, ou adiçam Caldea, & outra Malabar, & outra Arabia. E neítas tres lingoajés eitauã has taboas fcriptas, ho que ho judeu mãdou declarado em lingoa Malabar, da qual fe trefladou na Portuguefa. Eftas taboas fam de metal fino, de palmo & meo cada húa de comprido, & quatro dedos de largo, fcriptas dambalas bãdas & infladas pela banda de çima cÕ hú fio darame grofTo. Ho que fe nellas conthem he que ho Rei q entã regnaua daua de fua liure võtade aho Apoltolo iam Thome, que entam refidia em Cranganor pera edificar hum templo naqlla çidade, tantos couados Dalephãte de terra em redõdeza, medida que íaz dez palmos, q he húa braça de craueira. Ha ql caia ho Apoitolo edificou no lugar que lhe aquelle Rei deu, q he no fitio onde agora eítá ha noíla fortaleza : declarando mais que todolos Chriítãos que naquella redondeza edificail e cafas não pagaffem nenhum tributo ahos Reis daquelle regno. E afsi mais que pera entretimento do téplo lhe fazia doaçam do quinto das mer- cadorias q trouxeffem hos mefmos Chriítãos àqnella 1 çidade, pela baia •fi. iooci. I.* do porto delia, que entam era de grãde tratto: ho qual priuilegio fe lhes* atte gora guarda. Eítas taboas forão carregadas* em reçeita fobello mefmo Pero de fequeira, & depois fobello thefoureiro que ho fucçedeo, onde aho prefente deuem ainda deitar, ho treslado das quaes mandou Pero de fe- queira3 em lingoajem Português, a elRei dom loam terçeiro, que fanéta gloria haja, & lhe foi dado: mas ho que fe delle fez nam pude faber, nem fe acha na torre do TÕbo, onde per razam ho deuerão de lançar, quomo coufa digna de memoria. Capit. xcix. Do que Lopo soarei dalvarenga fe\ depois da viãoria que hotiue em Cranganor atte fe partir da índia, & chegar aho regno. HVM dos reis q ajudarão na guerra aho Çamorij rei de Calecut foi ho de Tanor feu vezinho, com ho qual ho mefmo Çamorij depois de fair do Torcol, por caufas que fe entrelles moueram, começou de ter debates, de que fe feguio guerra, do que mouido ho Rei de Tanor, no mefmo tempo em que Lopo fuarez foi fobre Cranganor, labendo que ho t Et. àquella. * Na Ep.: «Has quaes taboas forã carregadas...» ' Na Ep.: «ho treslado destas taboas mãdou Pero de sequeira. 38
  • 2 18 de Calecut iha (ocorrer ha çidade, le lançou em çilada, em hum lugar •Fi.iooci.j* eftreito per onde hauia de paliar, em que ho desbaratou, & mattou* mais de dous mil homes. Polo q temendo que fe fe nam aliafle cõ hos noflos, que elRei de Calecut bufcaria todolos modos que podefle pera ho deftruir, mandou feus embaixadores a Lopo íoarez, dando lhe conta do que paflaua, & feruiço q fezera a elRei de Portugual, pedindo lhe ajuda contra leu imigo. E por lhe eftes embaixadotes 1 dizeremi que ho Çamorij eftaua jà preftes pera vir fobre elRei, com húa grande armada, mandou em focorro Pero Raphael com foldados Portugueíes, delles befteiros, & efpingardeiros, que chegou a Tanor no mefmo dia em que ho Çamorij, com ajuda dos noflos foi desbaratado do que ficou tam abatido, q hos mais dos mouros de Calecut fe foram viuer a outras partes, pera eftarem feguros, & fazerem milhor feus negoçios, dos quaes algús fretáram deza- fette naos grofias, bem efquipadas, & artilhadas pera fe irem pera Mequa, em que loguo começaram de carregar ha fazenda, & mercadorias que tinham em Calecut, òc outros lugares. Lopo foarez que fe fazia preftes perá torna viajem, fabendo ho que paflaua fe apreflou quanto pode, pera de caminho dar em Pandarane, onde eftas dezafette naos eftauam, pera has mandar queimar, antes de fairem do porto. Polo que deixando por capitam de •FI.IOOT.ci...-quatro velas a Emanuel telez barreto,* de que hos outros capitães que ficauão debaixo dg lua bandeira, erão Chriftouão jufarte, Pero raphael, & Diogo pires, fe fez á vela aho xxvj dias de Dezembro, & fendo tanto a vante quomo Pandarane, lhe fairão vinte paráos dos que eftauam em guarda das dezafette naos, nos quaes vinha muita, & boa géte de guerra, que com grande grita vierão cometter has carauellas de Pero Raphael, & Diogo pirez, hos quaes per mãdado de Lopo foarez ihão diante hú bom pedaço, de longo da cofta, cõ vento calma. Eftes paráos em che- gando, começaram de feruir hos noflos de frechadas, eípingardadas, & bõbardadas, do que fe defendiam com muito trabalho, ho que vendo hos da frota lhe acodiram feguindo hos paráos atte hos fazerem recolher pera onde eftauam has naos, das quaes quomo Lopo foarez houue vifta fez amainar, & hauido cõfelho do modo que has cometteria, fe acordou que nos bateis, òí. com has carauellas, por eftarem detrás de hú arreçife, a que has noflas naos não podiam chegar, por irem muito carregadas, pera ho que mandou armar quinze bateis, & fazer voga pera terra, leuando has 1 El. embaixadores. ' Na Ep.: «e serviço q fezera ha ElRei de Portugal, cuja amizade lhe mandava pedir, pera elle, e seus vassallos lhe serem sujeitos, e se poerem ha sua obediençia, ha qual ho Lopo Soares logo reçebeo. E por lhe estes embaixadores dezerem....
  • — 219 — carauellas á toa, atte has metter no arrecife, por ho vento fer calma: na boca do qual eltauam duas bombardas aflencadas em hum baítilham, de •fi. ioot. cl. j.4 que hos noífos foram mal trattados aho entrar. Has* naos eltauão juntas húas com has outras, has popas em terra, & diante das proas por repairo hos lemes atraueffados, & encadeados hús com hos outros aho lume daguoa. Ha gente que tinhao pêra fe defender era muita, & boa artelharia, com tudo hos noífos propondo ha honrra aho perigo, entraram no arreçife, & foram cometter has naos per meo de muitas frechadas, & bombar- dadas, do que foram bem feruidos, & de bombas de fogo, depois que hos abalíroaram, dos quaes ho primeiro foi Triítao da fylua, que aferrou ha mòr delias, que eítaua á entrada do arreçife, & porque nelta hauia muita mais gente que nas outras, de que reçebia muito damno, foi aferrar outra em que entrou poíto que lho hos de dentro defendeílem com muito animo: com tudo hos que efcaparam do ferro fe lançaram aho mar, & ha nao ficou defpejada. No mefmo tempo aferrou Afonfo lopez da coita outra de q era capitam hum Turquo, home mui esforçado, ha qual entrou cõ muito trabalho: hos primeiros q fobiram foram ho meítre da nao, Afonfo lopez, & Aluaro lopez criado delRei, que depois foi fcriuão da camara de Sãtarem. Neíte tempo Lionel coutinho, Duarte pachequo, Pedrafonfo daguiar, Vafquo carualho, Antonio de faldanha, Rui lourenço, «fi. íoid. i.* & hos demais ho fezeram quomo esforça-*dos caualleiros, & afsi Pero Ra- phael, & Dioguo pirez com has carauellas, porque Pero Raphael foi cair com ha correnre 1 da maré na gorita de húa das naos, donde pola entrar, & por fe defender faiho cõ tres homês mortos, & todos feridos fem ficar nenhú. Diogo pirez encaminhado peràs naos, de húa bombardada lhe mattaram ho meítre, que iha gouernãdo, pelo que antes de fe poder acodir aho leme, foi dar fobre hús penedos, donde ha tiraram à toa. Elta peleja foi braua, & durou muito, mas em fim hos imigos defempararão has naos, por cafo do fogo que lhes hos noíios poferao, em que ai deram muitas mercadorias, que ja nellas eítauam carregadas, fem fe ialuar coufa nenhúa tudo à viíta dos noífos, & dos da terra, que da praia eltauão pal- mados, oulhado quomo fe tão de fubito abrafauã dezafette naos groilas, com muitos paráos que eltauam apar delias, em que hos mais delles vião pereçer fuas fazendas, fem lhe poderem dar remedio. Hauida elta viftoria Lopo foarez fe recolheo às naos, com lhe mattarem xv homés Portuguefes2, & ferirem çento, & vintafette. Dos imigos, quomo fe foube em Cananor (pêra õde fe Lopo foarez dalli partio aho primeiro dia de 1 Et. /.: corrente. 2 Na Ep.'. «com lhe mattarem xxv homes Portugueses...» A
  • — 220 Ianeiro de M.d.v,) morreram mil, & fette çentos. Tomada ha carga em •n. 10, a. a.* Cananor que ainda era neçeífaria pera has naos fe defpedio del-*Rei, & dos Portuguefes que eílauam na çidade, & encomendando muito a Ema- nuel telez, Chriltouao jufarte, Pero Raphael, & Diogo pirez, ha guarda da coita do Malabar, & coufas delRei de Cochim, feguio fua viajem com mais duas naos, das cõ q partira de Portngal' carregadas de muita fpeçiaria, & outras mercadorias, cõ que chegou a Melinde ho primeiro dia de Feuereiro, onde foi bê feftejado delRei. Recolhida ha fazenda que alli deixara Antonio de faldanha, das prefas que fezera no cabo de Guardafum, indo perá índia, foi ter a Quiloa, cõ téção de reçeber has pareas q elRei era obrigado pagar cadanno, do que defenganado fe fez à vela ahos dez dias de Feuereiro pa Moçambique. Alli efteue doze dias prouendolte das coufas neçellarias perà viajem, donde dous dias depois de lua chegada defpedio pera ho Regno (com nouas do q tinha feito) Pero de mendoça, & Lopo dabreu, dos quaes Pero de mendoça fe perdeo no caminho fem le faber Õde, & Lopo dabreu veo a Lisboa noue dias antes que Lopo foarez, ho qual cõ toda ha frota junta chegou a Lisboa2 ahos xxij dias de Iulho do mefmo anno de M.d.v. a quê elRei fez muita honrra. E porque nam pareça efqueçimento farei aqui relaçam de Diogo fernandez peteira capitão da nao de Setuual que partio do Regno, na •fi. loi v. «í. i.» Capitania de An-*tonio de faldanha, quomo a trás fica dito, ho qual chegou a Cochim, eltando ja Lopo foarez pera partir, pelo que nam pode hauer carga, lenam depois das outras naos acabarem de ha tomar, com que entrou no porto de Lisboa, pouquos dias depois de Lopo foarez. E eíte anno foi ho em que atte aguora mais fpeçiarias, & outtas3 riquezas vieram da India a eftes Regnos, porq Lopo loarez partio de Lisboa com treze naos, & entrou cõ quatorze, & ha de Diogo fernandez peteira forao quinze, com ho qual lopo foarez veo Duarte pachequo muito contra vontade del- Rei de Cochim, que lhe pedio per muitas vezes que lho deixaífe pera legurança de lua pelToa, & regno. 1 Et. Portugal. 1 Et. /.; Lisboa. J Et. outras. \
  • \ Capit. c. Em que per hit padram de blasam darmas, & ittjignias que elRei de Cochim deu a Duarte pachequo pereira fe approudo, & cõfirmão na verdade, hos notaueis feitos q fe\ na India côtra ho Çamorij rei de Calecut, & afsi pela honrra que lhe elRei dom Emanuel fe\ em chegando a ejle regno. PORQVE has vi&orias q Deos deu a Duarte pachequo pereira, cõ- tra ho Çamorij rei de Calecut,* lam de cãlidade ' que pelo tempo a diante fe poderiam julgar por fabulofas, trattarei nefte capitulo do telti- munho que diffo dá ha honrra que lhe elRei dom Emanuel fez depois de fer nefte regno & ha que reçebeo delRei de Cochim antes que partiífe da índia, & quanto à delRei de Cochim ho negoçio palia delta maneira. Hauidas has grandes vistorias de que ja trattei, elRei de Cochim quis gratificar a efte valerofo caualleiro hos feruiços que lhe fezera com merçes, afsi de dinheiro, quomo de jóias, & terras, que lhe daua no leu Regno, do que nam quis tomar nada, dizendo que ho feruiço que fezera fora a elRei dõ Emanuel, & que delle fperaua ho galardam, ho que vendo elRei de Cochim, & labendo ho modo q fe entre hos Chriftãos da Enropa1 tem, açerqua dos blafões darmas q lhes hos Emperadores, & Reis dam, em teftimunho de feus feruiços, lhe mandou hum padram darmas, de que fòmente porei aqni3 ho mais fubftãçial no modo que fe fegue. Itirámà marnetim, Qulfuniramá, Coul, Trimupate, Rei de Cochim, lenhor de Vaipil, de Arraul, de Chiriuaipil, & Narungante, Bramana môr, midiante hos deofes Tilaram, Pagode, ahos que efta minha carta virem, faço faber que no anno de mil, & quinhentos, & quatro, (conta dos Chriftãos) no •Fi. loa d. i.* mes de Março, elRei de Calecut veo fo-*bre minha terra, com toda ha força, & poder do Malabar, pêra me deftruir, por eu acolher, & fauo- reçer hos Portuguefes, que aho meu porto arribauam, pelo qual refpeito hos mais dos Reis, Nambeadaris, Caimáes, & outros fenhores do Malabar que me foram contrários, no qual tempo natn tiue outro íocorro que húa armada de Portuguefes, de que era capitam Duane pachequo pereira, fidalguo da cafa delRei de Portugal meu fenhor, & irmão, ho ql me alfegurou minhas terras, cõ muitos trabalhos, & fadigas, & pelejas, em que fempre vençeo elRei de Calecut, & hos que com elle, contra ml » Et. calidade. * Et. /.: Europa. » Et. aqui.
  • 222 erao. Pelo que hauendo refpecto ahos muitos íeruiços que me fez, fem por iíTo nunqua de ml querer tomar nada, de meu proprio moto, & liure vontade, & poder abfoluto, por memoria, & final de feus feitos, & dos trabalhos que por mi paífou nefta guerra, & por hõrra de fua pefloa, & dos que delle deiçéderem, lhe dou por infignias, & finaes de feus feitos, & honrra que niífo ganhou, hum ícudo vermelho, por final de muito fangue que dos de Calecut derramou nefta guerra, & dentro nelle lhe dou çinquo coroas douro é quina, por final de çinquo Reis que nella des- baratou, & ha bordadura defte feudo lhe dou brãca cõ ondas azues, & •fi. iça d. i.* oito caftelos nella, de madeira verdes, armados na-*guoa fobre dous nauios rafos cada caftello, por duas vezes que ho combaterão com eftes oito caftellos, & dãbas hos desbaratou, doulhe lette bandeiras de ponta, aho derredor defte feudo, tres vermelhas, & duas brancas, & duas azues, por fette cõbates q lhe elRei de Calecut deu em peífoa, & em todos fette ho desbaratou, & por fette bãdeiras que lhe tomou das mefmas cores, & feição, & doulhe hu Elmo de prata aberto guarneçido douro, & ho Paquife douro, & vermelho, & por Timbre hú caftello do mefmo theor, & nelle húa bandeira vermelha de ponta. Has quaes infignias, & armas elle po- derá trazer, mifturadas cõ has armas de fua linhajem, ou fem ellas quomo elle quifer, com ha dita bordadura, ou fem ella, quomo lhe milhor pa- reçer, porque eu de meu proprio moto, & liure vontade, & poder abfoluto lhes dou quomo dito tenho, a elle, & a todos hos que delle defçenderem, pelos muim grandes, & afsinados feruiços que me tem feito, quomo ar- riba he declarado: & por fua guarda, & minha lembrança, lhe mandei ler feita efta carta per mim afsinada, Chricandà fcriuao de fua fazéda ha fez em Cochinij ahos dous dias do mes Dagofto, de mil, & quinhêtos, & quatro, cota dos Chriftãos. Foi efte padrão darmas tresladado de lingoa Malabar na Portuguefa, per Aluaro vaz icriuão da feitoria de Co- •fi.iwt.c1.i• chim,* & coçertada com ho mefmo Chiricandá. Ho que toca á grande honrra que lhe elRei dom Emanuel fez em chegando a efte Regno, he ho feguinte. A quinta feira depois da armada de Lopo foarez íurgir no porto de Lisboa, mandou fazer hõa proçiffam folemne, do modo que fe fazem has do corpo de Deos, em que foi da Sé atte ho morteiro de iam Domingos, leuando Duarte pachequo á fua ilharga, junto configo, onde ho Bifpo de Vifeu dõ Diogo ortiz fez húa pregaçam, em que relatou tudo ho que lhe acenteçera na índia, & ho mefmo mandou fazer p todo ho Regno, & ho fereueo ahos mais dos Reis, & Prinçipes chriftãos. Mas ho fim deftas horras, em galardam de tantos feruiços, & doutros que Duarte pachequo depois fez a elRei, quomo fe aho diãte dirá, foi de ca- lidade, que fe pode delle tomar exemplo pera hos homes fe guardarem
  • 223 dos reuefes dos Reis, & Prinçipes, & da pouqua lembraça que muitas vezes té daquelles, a que fam em obrigaçam, porque ha môr merçe que Duarte pachequo alcãçou pello premio dos taes feruiços, foi ha capitania da çidade de iam George da mina, donde por capítulos que delle deram ho madou elRei trazer aho Regno em ferros, & iem lhos tirarem dos pés efteue muito tempo prefo na cadea, atte que por fe iaber leré parte •Fi. 102 v. cl.a.* das culpas que lhe punhao fal-#fas, & has outras tarn leues, que em hum tal homem nam podiam ter nome de culpas, ho íoltaram, tam pobie, quomo ho era quando foi perá mina. E afsi viueo todo ho mais do dif- curfo de fua vida, com muito defgofto, & em tanta pobreza, que leu filho, vnico, ligitimo, loam fernandez pachequo, & fua maim, q aho prelente viuem, por lhe elle nam deixar fazenda pera le poderem mater quomo deuem, paífam tam eftreita vida, que fam conítrangidos a viuer, elle nam quomo hos feus próprios feruiços (aliem dos de ieu pai) merecem, & ella do pouquo que lhe elle pode dar, & eimolas que lhe fazem pelfoas honrradas. Eíte foi ho galardam que Duarte pachequo houue em iatiffa- çam de tam grandes, & memoraueis feruiços quomo foram hos que fez à Coroa deites Regnos 4. Cpitu. 2 ci. Do na/cimento do infante dom Ivis, & das calidades de fua real pejfoa ATRAS fica dito/quomo por cafo da peite3 q nomes Doctubro, de mil, & quinhentos, & çinquo, fe ateàra na çidade de Lisboa le fora elRei a Almerim. E porque começou de dar rebates no mefmo •Fi. io3cl. i." lugar, & em Santarém,* de que ja eram mortas algúas peiloas, elRei le toi aforrado Abrantes, onde ha Rainha pario hum filho ahos tres dias do 1 Êste final de capítulo não agradou ao Conde de Tentúgal, que na Critica insi- nuou : No capitolo ioo trata o autor do maao gualardão que se deu a Duarte Pacheco, e na verdade de seus gramdes cirvjços não ha que neguar senão que forão muy abaly- sados, mas de suas culpas que depois podia cometer, não sey se estaa o autor bem em- farmado, por que eu ouvy dyjer que foram algúas gramdes, e não sey se pode crer de tão excelente Rey que sem elas lhe dese tal gualardão. E não dovjdo poder ser acusarenno falhamente, como se as vefcs costuma fa\er contra as pesoas de que se haa mujta inveja, e estes puderyão ter a culpa e não El Rey, que ade julguar segundo ho aleguado e provado. Damião de Goes manteve o texto primitivo sem fazer caso das observações do Conde de Tentúgal. Cfr. Edgar Prestage, op. cit., pág. 363. í Et. I.: Capitu. » Na Ep.: «polo caso da peste...»
  • — 224 — mes de Março do anno de mil, & quinhentos, & feis, a que poferam nome dom Luis, ho qual foi tam ordenado de virtudes, que pera natu- reza de todo comprir com hos dotes que lhe deu, lhe houuera de conçeder occafiam para poder conquiftar mòres regnos, & fenhorios do q ho fez a Alexandre, porq pa ha execução diífo lhe fobejou ho animo, & pera ho fazer lhe nam faltou mais que não nafçer Rei, ou ho fer de algum grande Regno. Foi muito catholico Chriftão, de pura, & boa confçiençia, emparo de religiofos, pobres, viuuas, & orphãos, a cujas neçefsidades fupria com muitas efmolas, & merçes. Amou muito feus criados, & hos agafalhou todos, partindo com elles de feus bés, fegundo ha calidade de fuas'peffoas, & feruiços: no exerçiçio das armas, aísi a pé, quomo a cauallo era tam manholo, que nenhum outro homem lhe fez nunqua auentajem. Nas artes liberaes teue por meítre ho doélor Pero nunez Português de nafçam, que foi nellas hum dos doélos homés de feu tempo, nas quaes eíle Prin- çipe foi também doótrinado, que fe has quifera ler publicamente, ho fezera fem lhe faltar auditório, & nellas compos hú liuro de modos, porpoçoes, •fl iojcl.a.* & medidas. Foi homem de meã íla-*tura, louro, & de bom pareçer, bem difpofto, & prazenteiro, no fallar, galante, no veítir, & bÕ cortefam, em todalas canas, touros, juítas, & torneos em q fe achou, de nenhum faiho fem ganhar algús dos preços, & muitas vezes hos maiores, afsi de galante, quomo de esforçado, & bom mantenedor, ou auétureiro, pelos quaes dotes, & virtudes q nelle, defde fua moçidade começarão a dar final de quem hauia de fer, & pela muita obediençia q fempre teue a elRei feu pai, & á Rainha fua maim, elles lhe foram em quanto viuerão muim afeiçoados, ha qual obediençia, & na mefma igualdade teue depois a elRei dom loam terçeiro feu irmão, atte ha hora de fua morte, & em tãto que não deixou de fer tachado, & acõfelhado dalgús que tiuefle niífo outro modo. Pello qual acatamento, & diuida obediençia ho teue elRei leu irmão fempre em muita conta, tanto que nenhúa coufa fez, nem trat- tou, das que tocauam ahos negoçios da guerra, & da paz, quomo do gouerno do Regno, & de fua fazenda que não fofle per feu confelho, & pareçer, nem tão fomente era prefente a todos elles neguoçios, mas ainda ahos defpachos dos offiçios, honrras, & merçes q elRei daua, & fazia a todos leus moradores, & vaflallos, no que todos erão delle tam fauore- çidos, q igualmente lhe dauão por iífo has graças, & lhe beijauã ha mão, •fi.io3t.c).i.* quo-*mo á mefma peífoa delRei. E fe algum defgoílo houue antre elle, & elRei feu irmão que fe fentiífe, foi polo não querer deixar palfar em Africa a fazer guerra ahos Mouros, nem á índia, tendo aflentado com hos do feu cõfelho que pera efta viajem lhe armaíTem feífenta naos, ho aper- çibiméto das quaes fe começou de fazer cõ muita diligençia: mas per
  • / 225 algús refpeótos ie não acabou de poer é obra efte tão honrrofo negoçio, nos quaes requerimentos trabalhou muito, & por muitas vezes, fem lho elRei querer conçeder. Efta vontade de fazer guerra ahos infiéis 1 foi fempre nelle tão firme em quanto viueo, que no anno de mil, & quin- nhentos, & trinta, & dous, fabendo que ho Emperador dom Carlos quinto do nome, feu cunhado cafado com ha Infante donna Ifabel íua irmã fe aperçebia pera fazer guerra aho Turco, que cõ grã poder vinha fobello regno de Húgria, fe fez fecretaméte preftes pera ho acompanhar neíta honrrofa viajem, ho que fabendo elRei, per refpectos que ho a iffo moue- ram, lhe tomou ha menajem q ho nã fezeffe. Mas quomo efte defejo juntaméte com ha idade íe foíTe nelle de dia em dia acreçentando, deter- minou de nã perder outra tal occafião, pelo que querendo ho mefmo Emperador, no anno de M.d.xxxv, paflar em Africa, a conquiftar ho regno •fi. i®3v.ci. a.* de Tunez, depois da partida de húa ar-*mada que lhe elRei mandou pera ajuda defta emprefa. Efte valerofo Prinçipe fe foi húa noite fecre- tamente da corte que então eftaua em Euora cÕ propofito de per nenhum modo tornar aho regno2 fem fe achar nefte negoçio cõ ho Emperador feu cnnhado3, do que elRei ficou defcontente pola perda que reçebia de fua aufençia, & por não ir com ho apparato q cõuinha a fua real peffoa. Quomo fe na corte, & pelo Regno foube da partida do Infante algús fenhores, & fidalguos ho feguirão fem pedirem liçença a elRei, & ontros 4 lha vierão pedir, dos quaes foi hum dom Ioão de lãcaftre, Duque Daueiro, que de Setuual le veo pela pofta a Euora, mas por muito que nilfo infiftifle elRei lhe não quis dar, appontandolhe razoes muim efficaçes, com que ho diuertio do penfamento com que vinha. Dos que fe forão fem liçéça foi ho Duque de Bragança do Theodoíio, ho qual ou que ho Infante teueífe comunicado com elle efta fua ida, ou com defejo q teria de fe achar em hum tal, & tão honrrofo feito de guerra, fe partio de madrugada Deuora, ie- guindo ha via que ho Infante leuaua, ho quel5 achou em Aronches. Elrei na mefma hora q foube da ida do Infante, & do Duque, defpachou dom Antonio de ataide primeiro conde da Caftanheira, pelo qual, hauendo refpeito a *pi. 104d. '•* quantas vezes negara aho Infante ho effefto de feus altos, & va-*lerofos 1 Na Ep.: «... foi pollo nã querer deixar passar em Africa a fazer guerra ahos Mouros, no qual requerimêto trabalhou muito, e per muitas vezes sê lho elRei querer conçeder. Este desejo de fazer guerra ahos infiéis ..» * Na Ep.: «Este valeroso Prinçipe se foi secretamête da corte cõ preposito de per nenhú modo tornar aho regno.. ' Et. cunhado. 4 Et. /.: outros. * Et. I.: qual. >9
  • 226 — peníamétos, lhe mandou liçença pera profeguir no que tinha começado, & credito 1 pera tomar de mercadores çem mil cruzados, offereçêdolhe allé difto tudo ho que lhe delle, & de feu regno mais comprilfe, mandando loguo algús fidalgos que fe foflem pera elle, & ho acompanhaffem, & a algús dos que lhe pera ifio pediram liçença ha deu, com a todos fazer merçe pera ajuda do caminho. E a Antonio de faldanha, que iha por capitão da armada, que mandaua aho Emperador, fcreueo que em toda aqlla viajem onde quer q ho Infante feu irmão eftiueffe, em todo, & p todo lhe obedeçefie quomo a elle mefmo fe prefente foffe, & fezeífe tudo ho q lhe mandaffe. Na qual viajem efte magnânimo Prinçipe ganhou nome de bõ capitão, & esforçado "caualleiro, quomo fe dirá na Chronica delrei do Ioão feu irmão, onde per extenfo, quomo em feu proprio lugar fe deue trattar, ho fucçeífo defta viajem, na qual elle foi caufa vnica de ho Em- perador ir fobre Tunez, quomo ho tinha determinado: porque depois de ter ganhada de caminho ha Goleta, ho pareçer de todo feu confelho, por fe chegar ho inuerno, foi q fe deuia de tornar pera Caítella, ho q fe não fez por ho Infante ho contrariar, per cujo confelho ho Emperador paffou a diante. E tornando aho negoçio a que foi ho code da Caftanheita2, •fi. 104.ci. i." elRei lhe deu húa carta de* crença pera ho Duque de Bragança & lhe mandou por elle dizer q não paífaffe a diante, do que ho Duque ficou bê agaftado, & fcreueo húa carta a elRei, na qual lhe mandaua muim afin- cadaméte pedir liçença pera acompanhar ho Infante, & ho feruir nefta viajem, a elta carta refpondeo elRei com outra fcripta de fua propria mão de que ho theQr de verbo ad verbum he ho feguinte. Honrrado Duque fobrinho, amigo q muito amo, & prezo, fe me não pareçera muito meu feruiço mãdaruos tornar, por vos tirar da grande pena que fei que cõ iffo reçeberes, folgara de vos dar ha liçença que me pedis, mas porq me ei por mais feruido de vos em vos tornardes, vos rogo muito que vos defaguafteis, & folgueis de vos tomar pois que eu ho ei por melhor, porq çerto he que fempre haueis de hauer por mòr vofia honrra, & ter mór contentamento do que virdes, q ei por mais meu fer- uiço, nem eu me poffo hauer por feruido de vos, fe não do que mais noífa honrra for, & por iffo vos encomendo, & mando, que loguo vos 1 Na Ep.: «... e per nam ir com ho aparato que convinha ha sua real pessoa: com tudo respeitando ha quantas vezes lhe negára ho effeito de seus valerosos, e altos pensamentos, mãdou logo trás elle dõ Antonio dataide primeiro conde da Castanheira, que ho alcãçou ainda em Arroches, por quem lhe mandava liçença pera proseguir no que tinha começado, e credito...» * Et. l.: Caftanheira.
  • 227 tornes : de minha mão, Deuora ahos xv de Maio M.d.xxxv. Tãto que ho Duque reçebeo efta carta fe mais replicar á vontade delRei mãdou a feus offiçiaes que quinze mil cruzados com que fe então alli achaua offere- çeífem ahos fidalguos, & caualleiros que iham com ho Infante, & deífem fi. 104*. ci. 1.* a cada* hum fegundo ha calidade de íua pefToa, ho que algús acçeptaram, & elle fe foi a Villa viçofa, & dahi a Euora onde lhe elRei fez bõ gaía- lhado, & moftrou leuar muito contentaméto de fua tornada, & lhe deu particularméte muitas razões per que fe mouera aho não deixar ir com ho Infante, de q ho Duque fe teue por fatisfeito, & lhe beijou por iffo ha mão, reçebendo ha boa vontade, & amor q lhe elRei tinha por húa grãde merçe. E porque acreçente mais ahos louuores do Infante direi aqui ho que fobre fua real peffoa per minhas mãos paífou. Elrei dom Ioã tet- çeiro 1 feu irmão, que fan&a gloria haja, eítãdoho eu feruindo em Anuer 1 Na Ep.: «... per cujo conselho ho Emperador passou adiante. E porq acre- çente mais ha seus louvores, direi aqui ho que sobre sua real pessoa per minhas mãos passou. ElRei dõ loam terçeiro...» Estes textos de Damião de Goes referentes à jornada de Tunis foram corrigidos e aumentados em virtude das reflexões do Conde de Tentúgal que na Critica escreveu primeiro: No capitolo 101 trata do naçimento do Infante Dom Lui{, e logo dele diç suas gramdes vertudes e exçelemçias com mujta reção e verdade, e tãobem diç da sua jda a Tunes, e de como El Rey Dom Ioão seu irmão mandou ho Conde da Castanheyra espos ele, pelo qual lhe mandou liçença pêra prosegujr sua jornada. E não sey por que não achou o autor o Duque de Braguança Dom Theodosyo, que El Rey mandou prymeyro a ver sepoderya estrovar ho Infante de seu preposito, e quando o Duque ho não pode acabar, lhe mandou pidir liçemça muj aficadamente pera acom- panhar e çirvjr o Infante na jornada, mas por El Rey lha não querer daar se tornou pera a corte. E porem em Arramches, aomde alcansou o Infante amies que se despedise dele, deu a alguns fidallguos de sua companhia creo que todo o dinheiro ou quaqi que comsigo levava, e isto tudo deixou o autor por não perder o costume que leva em toda a sua istorya, a qual me torno afyrmaar que liee muj sospeita, e se for vista com ho vaguar que se requere, que eu não tive, creo que se acharão outras muitas faltas que não comvem pera chronyca de tão exselemte Rey, e deixala com elas sarya muj gramde. Damião de Goes replicou nas Desculpas: Day da do If ante a Tunes não tenho eu culpa em não esprever que emtreveio o Senhor Duque Dom Theodosyo niso, se não ele, e numca mo dixe nem depois de seu falesymento pesoa nenhíia, e eu não são nygroman- tico pera adevjnhar, nem tenho esprito familiar que mas pudese dyqer nese tempo, no qual eu estava em Ytalia: porque se estivera no Reyno, tivera das cousas dele maes no- ticia. Mas jaa agora com as lembranças de suas senhorias ficarej maes destro pera os em tudo syrvjr, de maneyra que tenhão eles rejão de me favoreçer e façerem sempre mujlas merçes. O Conde doeu-se e replicou: E quamto ha ida do Ifamte Dom Luij a Tunef, haa tão pouco tempo que não tem Demião de Goes necesidade de ser nigromantyco, nem de ter espryto famyliar pera saber o que se feq nela, e ha corte estaa chea de mujtos homens que forão na jornada, de quem o ele pudera saber, por que o Senhor Duque
  • — 228 » sn oduquado 1 de Brabante me mãdou no anno de M.d.xxíx, às partes de Hoftelãda a negoçios de feu feruiço, & dahi á corte delRei de Polonia, Sigismundo primeiro do nome, que neíte tempo eftaua em Vilno, çidade metropoli & prinçipal no ducado de Lituania, donde depois de ter aca- bados hos negoçios a que iha: tornei á çidade de Danfique em Pruísia (donde partira) a tomar coclufam nas coufas que naquellas partes ainda tinha q fazer, & dalli me fui a Cracouia, çidade prinçipal, & metropoli da Polonia minor. Nefta çidade de Cracouia, achei Chriftopharo Sche- louifquo, que entã era Viçerei dambalas Polonias, por elRei fer abfente, •Kl. 104v.ci. 2* & loam tarnouio capitam da çidade, & fron-*teiro mór dos confins dentre Polonia, & Tartaria, homem de muita authoridade, a quem elRei dõ Emanuel armou caualleiro com outros dous gentis homes Polonos, no ano de M.d.xvi. é Lifboa, na egreja de fam Giam, quomo fe dira em feu lugar, do qual por efta razam fui eu bem feítejado por algús dias. Eftes dous fenhores (entre outras praticas que tiuemos) me deram a en- tender q elRei Sigifmundo feu fenhor (fe pera iffo fofTe comettido) daria de boa vontade húa fó filha que tinha per nome donna Heduige, de fua primeira molher donna Barbara, irmã delrei Iam fçepufiéfe de Húgria, Dom Theodosyo não era pesoa pera lhe ir dijer o que fizera em tão pequena jornada, nem as pesoas nobres e notavees no reynno não tem obriguação de lhe ir dejer ho que seu pay e avos fijerão, mas ele tem a de lhe preguntar, ou mandar preguntar, e das emfor- maçõis que lhe vão dar a casa, arreneguarya eu delas, se fose ele. E na reposta que ey de daar as emendas da chronyca, dyrey ho que nisto pasou, por que estava presente na corte, e em idade que quigera acompanhar ho If ante, e perdoe Deos a quem mo es- trovou. Na Reposta, disse por fim: No capitolo 101 esprevy largo em meus apomtamenlos, todavia declaramdo me maes, digo que o senhor Duque Dom Theodosyo estava na corte dacento quando ho Ifante Dom Luij se foy dela pera Tunes. E quamdo isto acomteseo, não avja muito tempo que o senhor Duque seu pay faleçera, e creo que aymda traria doo por ele, e El Rey o mandou dahy da Corte apos o Ifante Dom Lui\ pela posta com pouca companhia, a qual me não lembra, sem embargo que estava presemte, mas Eytor de Figueyredo, que amtão syrvja de veador e aymda agora hee vivo, creo que era hum deles, e por que me não afyrmo bem, de ele se poderá saber. Tãobem me pareçe que hia hum Brabosa que o syrvja das chaves amtão, que creo que era irmão ou mujto pa- rente de Marya de Moraes, cryada da senhora Ifante Dona Isabel. Tãobem se poderaa ssaber alguas cousas destas de Framçisco de Melo, que segumdo minha lembrança era presemte, e eu o era tãobem a todas estas cousas, e quigera ir na companhia do senhor Duque pera ir com ho Ifante, ho que deixey de façer por mo estravarem, e o senhor Duque mandou logo de Romches, em cheguamdo, hum fidalgo de sua casa com avjso a El Rey do que achara no Ifante, e amtão creo que com este recado se mandou ho Comde de Castanheyra. ' Cfr. Edgar Prestage, op. cit., pág. 263-264, 367, 373. 1 Et. 1.: em Anuers no duquado.
  • — 22g * aho Infante dõ Luis pon molher, & com ella tal dote qual hú tal Prin- çipe quomo elle mereçia, & illo per palauras de q eu pude bem entéder, terem elles commiffam delRei pera me fallárem niflo. Ha qual fenhora Infante eu vi, & lhe fallei na mefma çidade de Cracouia, onde entam eftaua com fua cafa, & eftado, em hum fermofo Gallello que na çidade há, molher muito difcreta, & de bom pareçer. Da qual pratica depois de fer na çidade de Anuers auifei elRei per minhas cartas, dizendolhe nellas que deite cafamento poderia refultar vir ho Infante dom Luis a fer Rei de Polonia, por quanto elRei nam tinha fenam hum fó filho, da •FLioSci. i.« Rainha fua fegunda molher, per nome donna Bona, filha de Galeaço* esforçia duque de Milão *, ha qual, & afsi ho filho nam eram bê quiltos do pouo, nem dos nobres do Regno, & porque ho regno era de eleição poderia fer que depois de fua morte elegeffem ho Infante por Rei de hum tal regno quomo ho aquelle he, do que houue repoita, dandome fua Alteza has graças do auifo que lhe dera, ho que quis poer aqui por memoria, & lembrança deite tam illuítre Prinçipe. E pera fe faber quam conheçido, & eítimado foi dos Reis, & Prinçipes que em leu tépo viue- ram, ho qual no mes de Ianeiro de Mil, & quinhentos, & feífenta, em que iíto fefcreueo faz quatro annos, & trinta, & çinquo dias q faleçeo, em idade de quarenta, & noue annos, & noue mefes, com muita dor, & trifteza de todos aquelles que ho conheçeram, & conuerláram fua Real peffoa, & virtuofos cuítumes. Faleçeo junto de Lisboa em Enxobregas, nas cafas de dom Antonio de noronha conde de Linhares, que eítam de longo do Tejo, aliem do morteiro de fam Bento da orde de fam loam Euãgelifta dos azues. Acompanhárãno per mãdado delRei dom Ioão terçeiro feu irmão (atte q fpirou) dom Antonio dataide conde da Cafta- nheira, & Pero dalcaçoua carneiro fecretario delRei, & do leu cõfelho. Nam foi cafado, deixou hum filho per nome dõ Antonio, que houue de •fi. io> ci. a.' húa dõzella.* Ho qual aho prefente he Prior da ordem de fam Ioão, homem mui afabil, cortes, & be inftituido nas artes liberaes, & tam magnifico, & liberal que todalas riquezas do mudo fe poderiam ter nelle por bem empregadas. 1 Na Ep.: «... per nome dona Bona, filha de loam Galeaço esforçia duque de Milão...»
  • 23o Capitu, cii. De quomo elrei mandov Tristam da cunha à índia por capitam de híia armada, & do aleuantamento que fe em Lisboa fe\ contra hos chri/lãos nonos. ANTES qve eIRei foffe de Lisboa pêra Almeirim, ordenou de mandar Tr.iftão da cunha à índia por capitão de húa armada, daqual, & do que neíta viaje fez fe dirá a diante, no anno de mil, & quinhentos, & oito, em que tornou. Pelo que neftes dous capítulos que fam hos der- radeiros deita primeira parte 1 trattarei de hú tumulto, & aleuantamento, que fe ahos xix dias Dabril deftanno de M.d.vi, em domingo de Pafcoella fez em Lisboa contra hos Chriftãos nouos, que foi pela maneira feguinte. No mofteiro de fam Domingos da dita çidade eftà húa capella aque chamão de Iefu, & nella hum Cruçifixo, em que foi entam vifto hum final, a que dauão cor de milagre, com quanto hos que fe na egreja •fi. io5 v.ci. i.* acharam julgauam fer ho con*trairo, dos quais hú chriftão nouo dixe q lhe pareçia húa candea açeía que eftaua pofia no lado da imagem de Iefu, ho que ouuindo algús homes baixos, ho tiraram pelos cabellos arrafto fora da egreja, & ho mattaram, & queimaram logo ho corpo no refio. Aho qual aluoroço acodio muito pouo, aquém hum frade fez húa pregaçand conuocandoho cõtra hos chriftãos nouos, apos ho que fairão dous frades do mofteiro, com hum Cruçifixo nas mãos bradando, herefia, herefia, ho que imprimio tanto em muita gente eftrangeira, popular, marinheiros de naos q entam vieram de Holãda Zelanda, Hoeftelãda, & outras partes, afsi homes da terra, da mefma condiçam, & pouca calidade, que jútos mais de quinhêtos, começaram a mattar todolos chriftãos nouos que achauam pelas ruas, & hos corpos mortos, & meos viuos lançauão & queimauam em fogueiras que tinham feitas na ribeira, & no refio, aho ql negoçio lhes feruião elcrauos, & moços, que cõ muita diligençia acarretauam lenha, & outros materiaes pera açender ho fogo, no qual domingo da Pafcoella mattaram mais de quinhentas peíToas. A efta turma de maos homês, & dos frades, que fem temor de Deos andauam pelas ruas conçitando ho pouo a efta tamanha crueldade, fe ajuntaram mais de mil •fi.io5v.ci.2.» homês da terra, da calidade* dos outros, que todos juntos à fegunda feira continuaram nefta maldade com mór crueza, & por ja nas ruas nam acharam nenhús chriftãos nouos, foram cometter com vaiuês, & eícadas, has cafas em que viuiam, ou onde fabiam que eftauam, & tirandohos delias 1 Na Ep.: «Pollo que nos dous capítulos seguintes, que sam hos derradeiros desta primeira parte...» A
  • 231 ariaíto pelas ruas, cõ feus filhos, molheres, & filhas, -hos lançauam de miftura viuos, & mortos nas fogueiras, fem nenhúa piedade, & era tamanha ha crueza q atte nos mininos, & nas crianças que eftauão no breço 1 ha executauam, tomandohos pelas pernas fendendo hos e pedaços, & esbor- rachandohos darremefo nas paredes. Nas quaes cruezas fe nam efqueçiam de lhes metter a faquo has cafas, & roubar todo ho ouro, prata, & en- xouaes que nellas achauam, vindo ho negoçio a tanta diífoluçam que das , egrejas tirauã muitos homés, molheres, moços, moças, defies innoçentes, defapegandohos dos Sacrários, & das images de noífo Senhor, & nofia Senhora, & outros Sanótos, com que ho medo da morte hos tinha abraçados, & dalli hos tirauam, mattando, & queimando mifticamente fem nenhú temor de Deos afsi a ellas quomo a elles. Nefte dia pereçeram mais de mil almas fem hauer na cidade quem oufaífe de refiftir, pola pouca géte de forte que nella hauia, por eftarem hos mais dos honrrados fora, por cafo da •Fl.to6ci. i.« pefte. E fe hos alcaides, &* outras juftiças queriam acodir a tamanho mal, achauam tãta refiftéçia, que eram forçados a fe recolher a parte onde eftiueffem feguros, de lhes nam aconteçer ho mefmo que ahos criftaos nouos. Hauia antre hos Portuguefes, q andauam encarniçados nefte tão feo, & inhumano tratto, taes, que por fe vingarem do odio, & mal queréça q ti- nham cõ algús Chriftãos lindos, dauam a entender ahos eftrangeiros que eram chriftãos nouos, & nas ruas, ou é suas cafas onde hos iham faltear hos mattauam, fem ê tamanha defauetura fe poder poer ordé. Pafiado efte dia, que era ho fegúdo defta perfeguiçam, tornáram à terça feira eftes dãnados homes a pfeguir em fua crueza, mas nam tãto quomo nos outros dias, porque ja nã achauam quê mattar, por todolos chriftãos nouos q efcaparam defta tamanha fúria, fere poftos em faluo, por peffoas horradas, & piadofas q niffo trabalharam tudo ho q nelles foi, & ho tépo, & defordem delle lhes pode cõçeder, fem podere euitar q não pereçefem nefte tumulto mais de mil, & noue çétas almas, q tãto fe achou per conta q mattaram eftes maos, & peruerfos homes, no q paffarão ha mór parte daquelle dia, no ql à tarde acodirão á çidade Aires da fylua Regedor, & dom Aluaro de caftro gouernador, com ha gente que poderam ajuntar de luas valias, *fi. 106ci. ».* fendo ja quafi acabado, & pa*çifico ho furor defta gente, canlada de mattar, & defefperada de poder fazer mais roubos, dos que ja tinham feitos. Efta noua derão a elRei na villa de Auis, indo dabrantes vifitar a Infante donna Beatriz, fua maí, q eftaua em Beja de que foi muito triste, & anojado, pelo que, pera le prouer em tamanha2 defordem, logo dalli mãdou ho 1 Et. L: berço. * Na Ep.: «... triste, e anojado. Polio que, pera se prover em tamanha. ..v /
  • — 232 — Prior do Crato, & dom Diogo lobo, baram Daluito com poderes, pera caftigarem hos que achafsé culpados, dos quaes muitos foram prefos, & enforcados p juftiça, prinçipalmento 1 dosnaturaes, porque hos eftrangeiros cÕ hos roubos, & defpojo que leuauam fe acolheram a fuas naos, & íe foram nellas cada hú pera dõde era. Ahos dous frades, que andáran com ho Cruçifixo pela çidade tiráram has ordés, & per fentéça foram queimados. E elRei mãdou proçeder por feu procurador cõtra hos da çidade, & termo, & offiçiaes delia de que muitos perderam hos offiçios, & has fazendas, & contra ha çidade, & termo foi dada íentença, ha qual me pareçeo de íubftancia pera fe poer de verbo a verbo no capitulo feguinte. Capitu, ciii. Em que fe relata ha sentença que fe fobrejle defajlrado cafo deu cõtra ha çidade de Lisboa & feu termo, & ho demais •fi.io6t.cI.!.* que elRei fobre iff o fe\* SABIDA por elRei ha vnião que fe fezera ê Lisboa determinou de dar logo fobriffo caftigo ahos culpados. Polo que em chegando a Beja fe defpedio cÕ breuidade da Infante donna Beatriz sua mal, que de ahi a pouquos dias faleçeo na mefma çidade, & fe veo a Euora pera alli fperar recado, & certeza do que paífaua em Lisboa, ho que íabido, por ha çidade ainda eftar impedida de pefte fe veo a Setuual, pera de mais perto, & com mor breuidade prouer nefte cafo, dõde por informações que teue da muita negligençia que Aires da fylua Regedor da cafa da Sup- plicaçam, & dõ Aluaro de caftro Gouernador da cafa do Çiuel de Lisboa, nelte cafo vfaram, & afsi hos vereadores, lhes eftranhou per fuas cartas a todos ho erro que em hú tal, & tam graue negoçio cometteram, fobelo que elRei logo mãdou proçeder, & fe deu húa fentença, de que ho theor he ho feguinte. Dõ Emanuel pela graça de Deos Rei de Portugal &c. Fazemos faber que oulhãdo nos hos muitos infultos & danos que em ha noffa çidade de Lisboa, & feus termos foram comettidos, & feitos de muitas mortes de hrciftãos2 nouos, & queimamento de fuas peífoas, & afsi outros muitos males fem temor de noffas juíliças, nem reçeo das •Fi. 106t.cl.».* penas em que comettendo hos* taesmalefiçios encorriam, nam efguardando quanto era cõtra feruiço de Deos, & noífo, & contra ho bem, & affoffego da dita çidade, viílo quomo ha culpa de tam inormes damnos, & ma- lefiçios, nam tam fomente carregaua fobre aquelles que ho fezeram, & 1 Et. prinçipalmente. * Et. /.: chriftãos.
  • — 233 — cometteram, mas carrega iífo meimo muita parte fobre hos outros mora- dores, & pouo da dita cidade, & termo delia, em q hos ditos malefiçios foram feitos, porque hos que na dita çicjade, & lugares eftauam le nam ajuntaram com muita diligençia, & cuidado com noffas juftiças, pera refiftiré ahos ditos malfeitores, ho mal, & damno que afsi andauam fazendo, & hos prenderem pera hauerem aquelles caftigos que por tam grande defobediençia às noffas juftiças, mereçiam, & que todolos moradores da dita çidade, & lugares do termo em que foram feitos deueram, & erarn obrigados fazer, & por ho afsi nam fazerem, & hos ditos malfeitores na acharem quem lho impediffe, creçeo mais ha ouladia, & foi caufa de muito mal le fazer, e ainda algús deixauam andar feus criados, filhos, & feruos nos taes ajuntamétos fem diffo hos tirarem, & caftigarem quomo theudos eram. E porque as taes coufas nam deue paífar lem graue puniçam, & caftigo, fegundo ha diferença, & calidade das culpas que hús, •Fi. 107cl. i." & outros nilTo tem. Determinamos, &* mandamos fobre ello com ho pareçer de algús do noífo conlelho, & defembargo, que todas, & quaefquer peífoas, afsi dos moradores da dita çidade, quomo defora delia que forem culpados em has ditas mortes, & roubos, afsi hos q per fim mattaram, & roubarão, quomo hos q pera as ditas mortes, & roubos deram ajuda, ou cõfelho, allé das culpas corporaes, q por fuas culpas mereçem, percão todos feus bés, & fazendas afsi moués quomo de raiz, & lhe fejão todos confifcados pera coroa de noífos Regnos, & todolos outros mo- radores, & pouos da dita çidade, & termos delia, onde hos taes ma- lefiçios foram comettidos que na dita çidade, & nos taes lugares prefentes eram, & em hos ditos ajuntamentos, nam andatam, né cometteram, nem ajudaram a cometter nenhum dos ditos malefiçios, nem deram a iífo ajuda, nem fauor, & porem foram remiffos, & negligentes em nam refiftirem ahos ditos malfeitores, nem fe ajuntaram com luas armas cõ noffas juftiças, & poerem fuas forças pera contrariarem hos ditos males, & damnos, quomo fe fazer deuera, percão pera nos ha quita parte de todos feus bés, & fazendas, moués, & de raiz, pofto q fuas molheres é ellas partes tenhão, ha qual quinta parte fera també confifcada pera Coroa de noífos Regnos. Outrofi determinamos, & hauemos por bé •Fl. 107 ci. a.* (vifto ho que* dito he) que da publicaçam defta em diante nam haja mais na dita çidade eleiçam dos vinte quatro dos mefteres, né iífo mefmo hos quatro procuradores delles, que na camara da dita çidade foiham deftar pera entenderem no regimento, & fegurança delia, cõ hos vereadores da dita çidade, & hos nam haja mais, nem eftem na dita camara, lem embargo de quaefquer priuilegios, ou fentenças que tenham pera ho poderem fazer, & bem afsi polas coufas fobreditas deuaffamos em quanto 3o
  • — 234 — noffa merçe for ho pouo da dita çidade, pera apoufentarem com elles, •Fi.io7».ei.i • quomo fe faz geralméte em* todolos lugares de noífos reggnos, ficando porem ha renda da impofiçam pera fe arrecadar, quomo atte agora íe faz, per oíliçiaes que nós pera iflo odenarmos *, pera fazermos delia ho que houuermos por bé, & noflo leruiço. Porem mandamos aho noffo corre- gedor da dita çidade, & a todolos outros corregedores, juizes, & juftiças a que pertençer, & ahos vereadores da dita çidade, & aho noíifo apoufen. tador mór, que affi ho cumpram, & guardem em todo fem duuida, nem embargo que a iflo ponhão. porque afsi he noífa merçe. Dada em Setuual •n. 107 v. ci. a.* a xxij dias de Maio de M.d.vi.* Acaboufe de imprimir efta primeira parte da Chronica do feliçifsimo Rei dom Emanve,l2 em Lisboa em cafa de Françifco Correa, impreflor do ferenifsimo Cardeal Infante. 1 Et. l.: ordenamos, * Et. I.: Em AN VEL,
  • Tauoada dos Capítulos da Primeira parte da Chronica del Rei dom Emanuel. Capitvlo Primeiro. Em que fe Iratta do falecimento delRei dom Ioão, E declaram algãas claujulas de seu tejlamento. Pâg. 3 Cap. ii. De quomo dom Emanvel foi alevantado, & jurado por Rei, & do q logo Jcreueo ahos ejlados do regno, E outras coufas q ordenou. 8 Capitu, iii. Em que fummariamente se declara quomo ha fucçeffam defies Regnos nam pertencia, direitamente, per falecimento delrei dom Ioão, fenam a elrei dó Emanuel. 9 Capitulo, iiii. Do tempo em qve elrei dom Emanuel nafçeo, 6 do mi- lagre que Deos entam por elle fe\. 10 Capit. v. Da criação que elRei Dom Emanvel teue atte ha idade em que lhe elRei dom loam deu ha fortunada deuifa da Sphera, & affenta- mento pera jufêtar fua cafa. 11 Gap. vi. Da cafa, & ejiado qve dom Emanvel teue depois da morte do Duq de Vi/eu dom Dioguo feu irmão, atte que per vontade de Deos foi Rei defies regnos. i3 Capitu, vii. De quomo se elrei foi Dalcaçer do Jal a Monte mòr ho nono, onde dom George ho veo ver ha primeira ve\, & do que dom Diogo femãde\ dalmeida, Prior do Crato feu aio dixe a elRei. i5 Cap. viii. Do que fe fe\ em Monte mòr depois dos e/lados do Regno ferem juntos, & do recado que elRei mãdou ahos Reis d Cafiella, & a hos q la andauão de ferrados & obediência que mandou a ho Papa. 16 Capitu, ix. De quomo elRei confirmov has merçes que elRei dom Ioão fe\ á hora de fua morte, & doutras particularidades açerqua da jufiça, & oficiais delia. 19 Capitu, x. De quomo elRei libertov hos ivdeus que ficaram captiuos do tempo dei Rei dom loam. 21 Capit. xi. De quomo elrei entendeo em prouer hos lugares de Africa,
  • — 236 — & deu hos diurnos dos tributos & pareas dos me/mos lugares às Egrejas, & da embaixada q lhe veo de Ca/lella, & a que. 22 Capi. xii. De húa viãoria que dom loam de menejes fendo capitão Dar- \illa houue dos mouros. 23 Capi. xiii. Da vinda dos filhos do dvque de Bragança alio Regno, & da grande liberalidade que elRei com elles vfou. 20 Capitu, xiiii. De quomo elRei fe\ conde de Portalegre Dioguo da Silua de menefes feu aio, & do que fe niffo paffou. 3i Capit. xv. De quomo elRei mãdou a Roma Pero Correa fobre negoçios q tinha cõ ho Papa, & per a acõpanhar ho Cardeal de Portugal dõ George da Cojla, atte e/lés Regnos. 33 Capitu, xvi. De quomo elRei acreçentov has rações dos lugares Dafrica, & de húa embaixada q lhe veo de Veneza, & fobre que. 33 Capitu, xvii. De quomo elRei alcançou do Papa que hos commêdadores da Ordem de Chriflus, & de Auis podeffem cafar, & do Jaimêto que mandou fa\er em Torres vedras por elrei dom loão, & de quomo fe\ ho primeiro Code Dalcoutim. 34 Capit. xviii. De quomo elRei mandou lançar hos Mouros, & Iudeus fora de feus Regnos, & fenhorios. 35 Cap. xix. Da embaixada q hos Reis de Cajlella matidaram a elRei fobre alianças. 3q Capit. xx. De quomo elrey mandou tomar hos filhos ahos Iudeus que fe ihão fora do Regno, & porque caufa nam fe\ ho mefmo ahos mouros. 38 Capitu, xxi. Do frudo que se fe\ em tornarem hos Iudeus Criflãos 40 Capi. xxii. De quomo fe começou a trattar ho cafamento delRei com ha Prinçefa donna If abei. 41 Capitu, xxiii. De quomo ElRei mandou Vasquo da Gama por capitam de tres naos, pera profeguir no que jà era defcuberto, atte uer fe podia chegar á índia. 43 Capit. xxiiii. Em que fe / tratt a do casamen/to dei Rei com ha Prinçefa dona IJabel, & de quomo ha re/çebeo em Valença Dalcantara, / & da Í morte do Principe dom / loão de Cajlella, & outras particularidades. 46 Capit. kxv. De quomo elRei assentou de dar foraes nonos a todolos lugares" do regno, & ho modo que niffo teue. 48 Capi. xxvi. De quomo elRei fe\ cortes em Lisboa, nas quaes entre outras coufas fe affentou fer neçejfaria fua ida a Cajlella, com ha Rainha fua mother, pera onde loguo partio, deixando á Rainha dona l.eanor fua irmã o regimento do Regno, & per todallas comarquas al- çada. 49 Capitu, xxvii. Do que se passou desno dia q elRei, & ha Rainha par-
  • — 237 — tirã Deluas, atte chegarem a Tolledo, onde lios elRei dom Fernando, & ha Rainha donna Ifabel, ejtauam fperando. 53 Capi. xxviii. De quomo elRei, & ha Rainha entravam em Tolledo, & do que fe nijfo pajfou. 55 Capitu, xxix. De quomo elrei dom Emanuel, & ha rainha donna Ifabel fia molher foram jurados em Tolledo por Príncipes herdeiros dos Regnos de Cajlella, & Leant. 58 Capitu, xxx. De quomo hos reis de Castello, & Portugal partirá de Toledo pera ho regno de Aragam, & chegaram a Çaragoça. 6i Capit. xxxí. De quomo elRei libertou ha clerefia de nam pagar ff as, difimas, & outros direitos reaes, ha qual liberdade depois tãbê cõçedeo á ordem de Chrifus. 62 Capit. xxxii. De quomo ha Rainha pario hum filho & morreo do parto delle. 63 Capiiulo. xxxiii. Da embaixada que elrei mandou alio Papa Alexandre, efando ainda em Cafella, & fobre que. 64 Cap. xxxiiii. De quomo ho príncipe dom miguei foi jurado, & dos preui- legios que em Jeu nome elRei outorgou aho regno, & do prefente que lhe mandou o Papa Alexandre, & da morte de dom Pedro primeiro Marques de uilla Real. 65 Capitu, xxxv. Do que vafquo da gama pa/sou em fua viajem, atte chegar á aguoada de Jam Bras. 67 Capitu, xxxvi. Do que uasquo da gama pafsou atte chegar á Ilha de Mo- çambique. 71 Cap. xxxvii. De quomo ho xeque Çacoeia, cuidando q eram hos nojfos turcos, ou mouros, veo ás naos uerje com Vafquo da gama, & do que lhe depois aconlcçeo em Mombaça. 74 Capit. xxxviii. Do ftio da çidade de melinde, & do que Vajquo da gama pajfou com ho Rei delia, & do caminho que fe\ atte chegar a Ca- lecut. _ 78 Capitu, xxxix. Do que Vasquo da gama fe\ depois que Jurgio, & do re- cado que mâdou a elRei de Calecut. 81 Capitulo .xl. Do que Vasquo da gama pasfou atte chegar a Calecut, onde ho elRei efaua fperando. 84 Capitu, xli. Do modo que elRei de Calecut teue em receber Vajquo da gama, & dalgúas praticas que có elle pajfou. 86 Cap. xlii. Da crêça, Seita, Çerimonias, e cofumes dos gentios Canaris, Bramanas, Naires, & do ftio da terra do Malabar, & çidade de Ca- lecut. 88 Capit. xliii. Do que Vafquo da gama passou cÔ elRei de Calecut ha fe- 3i
  • — 238 — gunda ve\ que J'e com elle uio, & do que lhe couleçeo alie partir de Panderane. 91 Capitulo .xliiii. Do que Vasqvo da gania pasfou em Anchediua, & dalli alie chegar aho Regno. 9b Capit. xlv. De quomo ho corpo delrei dom loam foi leuado da Sé de Sylues aho conuenlo da Batalha, & do cajamêto de dom George feu filho, & de dom Afonfo Condejlabre, & da morte do Prinçipe dom Miguel. 98 Capit. xlvi. De quomo elrei casou com ha Infante donna Maria, filha dei Rei dom Fernando, & da Rainha donna Ifabel, reis de Caflella, & Daragam, & do titulo que acreçentou, pelo defcobrinúto da índia, ahos outros títulos que jà linha. 101 Capit. xlvii. De quomo elrei determinou depaffar em Africa fa^er guerra ahos mouros, & dos apreçebimentos que per a iffo fe\. 104 Capit. xlviii. De quomo dom loam de meneses Capiam Dar\illa, & dom Rodrigo de Môjanâo Capitam de Tanger, foram fobre híias aldeas que eflam junto Dalcaçerquibir, & do que niffo federam. 106 Capit. xlix. De quomo elrei de Fe\ ueo correr a Tanger, & do que fe niffo paffou. 107 Capitulo .1. De quomo e/Rei de Fe\ foi correr Ar\illa, com ho qual dom loam de mene/es pelejou, em que de hua, & da outra parte mor- reram algíís Caualleiros. 108 Capitulo .li. Darmada que elRei mandou em ajuda dos Vene\eanos contra lios Turquos, & do fucçeffo da uiajem que fe\. 110 Capitu, lii. Do que ho conde passou nesta uiajem depois que partio do porto de Me^alquibir at te tornar alio Regno. 111 Capit. liii. Da fundaçam do mosteiro de Bethelem, & da Torre. 113 Capit. liiii. Da fegunda armada que elrei mandou à Índia de que foi por capitão Pedralure\ cabral. 115 Capitu, lv. De quomo ha frota partio do porto de Bethelem, & do defco- brimento de terra de fanâa Cru\ a que chamão do Brafil. 117 Capitu. Ivi. Dalgúas particularidades da terra de fanâa Cru\, & coflumes da gente delia. 118 Capitu, lvii. Do que Pedralure\ cabral pasfou depois que partio da terra de fanâa Cru\, alie chegar a Calecut, & do fitio da ilha, & cidade de Quiloa. 12b Capitu, lviii. Do que Pedralure\ cabral paffou em Calecut. 129 Capitu, lix. Do quomo per treiçam dos mouros de Calecut foi morto Aires correa, & outros Portuguefes, & do que fobriffo Pedralure\ cabral fe\. 131
  • — 23g — Caihtu. lx. Do que Pedralvre\ cabral pasfou em Cochim, & Cananor, & dahi atte chegar a Lisboa. 184 Capitulo. Ixi. Do cafamenlo do dvqve de Bragança dó Iaimes, & da mudança que qui fera fa\er de fua rida, ejlado: & partida de dom Vafquo da gama perà India lia fegunda ue\. Capitu. Ixii. Do nafçimento do príncipe dom loam, & da armada que elRei mandou aho EJtreilo. » 139 Capitu. Ixiii. De quomo elRei mandou loam da noua á índia por capitam de quatro naos, & do que paffou atte tornar aho Regno. 140 Capi. lxiiii. De quomo elRei foi aforrado a Gallina vifitar a cafa do Apo/tolo Sanãiago. 143 Capitu, lxv. De quomo elRei quifera passar em Africa, & ha caufa porq de/i/lio de ho fa\er, & darmada q mãdou à índia, capitães Afonfo dalbuquerque, & Françifco dalbuquerq, & da ida de Gonçalo coelho a terra de S. Cru\. 145 Capitu, lxvi. De quomo elrei mandou duas naos em bufca dos corte Reaes, q Je perderam indo a de [cobrir perà banda do Norte. 146 Capitu, lxvii. De quomo Elrei fe\ cortes em Lisboa onde ho Príncipe foi jurado, & do feruiço q lhe hos pouos fe\eram pera ajuda das re- parações dos lugares Dafrica & outras defpefas neçejfarias. 147 Capit. lxviii. Do que ho almirante dom Vasquo da gama paffou ha fe- gunda ue\ que foi á índia atte chegar a Cochim. 148 Capitu, lxix. Do que ho Almirante dom Vasquo da gama fe\ em Cochim, & Calecut, & do mais q paffou em fua uiajem atte tornar aho Regno. i5i Cap. lxx. De quomo dó loam de meneses, E dó loam de menefes Cõde de Tarouqua foram correr ho capo Dalcaçerquibir, & do que lhe acon- teçeo. 154 Capitulo, lxxi. Doutra Entrada que ho conde de Tarouqua, & dom loam de menefes federá atte hfía legoa Dalcaçer quibir, 156 Capit. lxxii. Doutra entrada que dom loam de menefes fe\ no mefmo anno. 157 Cap. lxxiii. De quomo elrei de Calecut começou de fa\er guerra a Tri- múpará rei de Cochim, & porq caufa. 158 Capi. lxxiiii. De quomo se perderam nas ilhas de Curia, Muria Viçente jodre, & Bras fodre feu irmão, & do q hos outros capitães depois paffaram. 161 Capitu, lxxv. Do nafçimento da infante donna Ifabel, & do capitulo que elRei fe\ no conuento de Tomar da ordem de noffo Iefu christo. i63 Capit. lxxvi. De quomo elrei mandou me/ires a Congo, pera enjinarem /
  • — 240 — hos daquellas prouitiçias has coufas da noffa fé, & Lopo foare\ à India por capitam de híía grojfa armada. 164 Capitu, lxxvii. Do que Afonso dalbvqverqve & Frãçifco dalbuquerque paffaram em fita viajem, at te chegarem a Cochim. 164 Capi. lxxviii. De quomo elrei de cochim dev liçêça a Françifco dalbuquerq pera fa\er húa fortaleza onde lhe bem pareçeffe, & da chegada Dafonfo dalbuquerque. t 167 Capitu, 'lxxix. Do Jitio da cidade de covlam, & dos cojlt/mes dos Cri/lãos que nella viuem, & de quomo Afoufo dalbuquerque foi lá com tres naos, & do que fe\. 169 Capit. Ixxx. De quomo se federam pa^es entre hos noffos, & elRei de Calecut que Je logo quebraram, & da partida de Afonjò dalbuquerque, & Françifco dalbuquerque pera ho regno, & do que paffaram na via/ em. 171 Capit. lxxxi. Da viajem qve Antonio de Saldanha fe\ à India, S do que paffou at te la chegar. 173 Capit. lxxxii. Da morte de dom afonso condejlabre de Portugal & da Rainha de Cajlella donna If abei, & do najçimêto da Infante donita Beatri\ 175 Capit. lxxxiii. De quomo dom loam de menefes foi por mar a Larache, & do que alii fe\. 176 Cap. lxxxiiii. De quomo dom loam de meneses foi J'obre húas aldeas de Mouros, & do que paffou nejla entrada. 177 Capii. Ixxxv. De quomo depois da partida de Afonfo Dalbuquerque, & Frãçifco Dalbuquerque fe renouou ha guerra entre hos Reis de Ca- lecut, & de Cochim, & do que Duarte pachequo pereira niffo fe\. 179 Capitu. Ixxx vi. Do que dvarte pacheqvo fe, depois de chegar alio paffo de Cambalam, & de quomo ho Çamorij, Rei de Calecut ho comelteo ha primeira ve\, & foi desbaratado. 181 Capit. lxxxvi. Do fegúdo, e terceiro combate, que ho Çamorij Rei de Calecut deu alios noffos, em que também foi desbaratado. 184 Capitulo, lxxxviii. De qvomo elrei de Calecut paffou ho rio de Repelim, & affeniou feu arraial nas terras de Porquà, onde comettendo hos paffos de Palurt, & ho do vao foi outra ve\ defbaratado 187 Cap. lxxxix. De quomo Elrei de calecvl em peffoa combateo ho paffo do vao, onde foi desbaratado, & dalguas coufas que antes, & depois difjo aconteceram. ig© Capitu, xc. das treições qve per conselho do fenhor de Repelim, elRei de Calecut ordenaua pera mattar & dejlroir hos noffos, ho que lhe nam focçedendo à vontade, quis fa\er pa\, & doutras particularidades. 194
  • 241 — Capito, xci. De quomo dvarte pacheqvo desbaratou outra ve\ elRei de Calecut. ig6 Capitu, cxii. De algíias corsas que svcçederam depois dejle combate, & de quomo elRei de Calecut, danojado, & enuergonhado, fe foi metier em hum turcol, & fe fe\ pa\ com algíís Reis, & Jenhores dos Mala- bates. jçg Capitu, xciii. De quomo elRei mandou dom Françijco dalmeida à índia, & da obediência q enuiou aho Papa, & vinda do Padre frei Mauro Hifpano, a efe Regno. 20, Capitu, xciiii. Dalgiías corsas qre nestanno de mil, & quinhetos, & çinquo mais pajfaram no Regno. 206 Capitu, xcv. De quomo françisco pereira pejlana foi fobre lifla aldea, & do que lhe aconteçeo. 208 Capitu, xcvi. De quomo elrei mandou a india tre\e nãos, de que foi por capitam Lopo foares daluarenga. 209 Capit. xcvii. Do que Lopo Soareç fe\ depois que chegou a Cochim, & de quomo Duarte pachequo fe veo parelle, & forão fobre Crãganor. 212 Capitu, xcviii. Em que se declara donde efes chriflâos de Cranganor tracem feu principio, & dos c of umes, & modo de religiam que tem, & do fitio da çidade. 214 Capit. xcix. Do que Lopo soareç dalvarenga fe\ depois da vi âl or ia que houue em Cranganor atte fe partir da índia, & chegar aho regno. 217 Capit. c. Em que per hu padram de blasam darmos, & injignias que elRei de Cochim deu a Duarte pachequo pereira fe approuão, & cõfrmão na verdade, lios notaueis feitos q fe\ na Índia cõtra ho Ça- morij rei de Calecut, & afsi pela honrra que lhe elRei dom Emanuel fe\ em chegando a ejle regno. 221 Cpitu. ci. Do nafçimento do infante dom Ivis, & das calidades de fua real pejfoa 2 23 Capitu, cii. De quomo elrei mandov Tristam da cunha à índia por ca- pitam de hiia armada, & do aleuantamento que fe em Lisboa fe\ contra hos chriflâos nouos. 23o Capitu, ciii. Em que fe relata ha sentença que fe fobrejle defajlrado cafo deu cõtra ha cidade de Lisboa & feu termo, & ho demais que elRei fobre iffo fe\. 232
  • -f, L í
  • EDIÇÕES DA IMPRENSA DA UNIVERSIDADE (extracto do catálogo) SCRIPTORES RERVM LVSITANARVM SÉRIE A) Publicado: FERNÃO LOPES DE CASTANHEDA. — História do descobrimento, e conquista da índia. Ed. revista pelo Sr. Tedro de Azevedo, vol. i. Em papel de linho qo^oo Em papel de algodão ... 35$oo Vol. ii no prelo. DAMIAM DE GOES. — Chronica do Felicíssimo Rei Dom Emanvel. Conforme a ed. princeps. Rev. pelos Drs. J. M. Teixeira de Carvalho e David Lopes. 4 vols. Em papel vergé. No prelo: DAMIAM DE GOES. — Chronica do príncipe Dom loam. Conforme a ed. princeps. Em preparação: JOÃO DE BARROS e DIOGO DO COUTO. — Décadas. Ed. revista pelo Dr. António Baião. Papéis relativos á guerra da restauração e independência de Portugal. série b) Publicados: I. — HIERONYMO OSORIO. — De rebus Emmanvelis gestis, 3 vols 6o$oo II.—Itinerários Quinhentistas da India a Portugal.— Rev. e prefaciados pelo Dr. António Baião vol. i8$oo III. — Comentários do grande Afonso d'Albuquerque. — Conforme a a.» ed. Rev. e prefaciada pelo Dr. António Baião. vol. 1 (Partes 1 e 11) e 11 (Partes 111 e iv).. 35j(>oo Em preparação: D. FRANCISCO MANUEL DE MELO. — Epanaphoras de varia historia portugueza. Ed. dirigida pelo Dr. Edgar Prestage. História Trágico-marítima. DUARTE GALVÃO. — Crónica de D. Afonso Henriques.
  • p ' N;. f
  • 進階搜尋|全站搜尋