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HISTORIA DO DESCOBRIMENTO, CONQUISTA DA ÍNDIA PELOS PORTUGUEZES 'FEITA POR FERNÃO LOPEZ DE CASTANHEDA j FIELMENTE REIMPRESSA POR FRANCISCO JOSE"' DOS SANTOS MARRÍCOS, Professor Régio de Filosofia Racional e Moral em Lisboa. Na Offic. de Simão Thaddeo Ferreiras Lifíflfrt da Meia do Desembarca do Pnço.
Taixao este Livro em papel em qua- trocentos réis. Lisboa 13 de Derembro dc l797' „ ■ Com smco Rubricas. r ' %
T A U O A D A TOMO II. C APITOLO XLIIII. De como dom Vasco da gama tornou d índia por capitao mór de húa armada. Pag. r» CAP. XLV. De como dom Vasco da gama chegou ao porto de Calicut, e do que fez. 3» CAP. XLVI. De como dom Vasco da gama chegou a Cochim , e do mais que passou. 9. CAP. XLVII. De como el rey de Ca- licut mandou dizer a elrey de Co- chim que não desse carrega a dom Vasco. XI. CAP. VLVIII. De como indo dom Vasco da gama per a Cananor foy cometido de vinte uoue nãos de mou- ros. 14. CAP. XLVIIII. De como foy sabido em Cochim que el rey de Calicut lhe auia de fazer guerra. 18. CAP. L. De como el rey de Calicut declarou aos senhores que ho ajuda- uao , que queria fazer guerra a do presente liurc. Cochim. 21 CAP.
TI CAP. LT. Do grande aperto em que estauao os Portugueses com medo que el rey de Cochim os entregasse a elrey de Calicut. 28. CAP. LlI. De como ho príncipe de Calicut comeieo muytas vezes den- trar na ilha de Cochim pelo passo do vao. 33. CAP. LIII. De como foy morto Na- ramuhim príncipe de Cochim por trey cao dei rey de Calicut. 37. CAP. tllll. De como se perdeo Vicen- te sodrc e outros em Curia mu- ria. 43. CAP. LV. De como partirão pera a índia por capitães móres de tres armadas Francisco dalbuquerque, e Afonso dalbuquerque , e Antonio de Saldanha. 46. CAP. LVI. De como Francisco dal- buquerque começou de fazer guerra aos inimigos dei rey de Cochim. ji. CAP. LV!i. De como Francisco dal- buquerque começou de edificar bo castelo Manuel.' q<ç. CAP. LV1II. De como Afonso dal- buquerque chegou a Cochim. 58. CAP. LVI III. Do que Duarte pacheco fez em Repelira, e em Cambalão. 61* CAP. LX. De como Duarte pacheco des-
VII desbaratou trinta e quatro pa- raós. 64. CAP. LXI. De como Afonso dalbu- querque foy carregar a Coulao e assentou feytoria. 70. CAP. LX1I. De como se assentou paz antre Francisco dalbuquerque e el rey de Calicut, e como foy que- brada. 77. CAP. LXIII. De como Francisco dal- buquerque e Afonso dalbuquerque se partirão per a Portugal, e deixa- rão por capitão mór a Duarte pa- checo em Cochim. 82. CAP. LXIIII. Do que aconteceo a An- tonio de saldanha e aos seus capi- tães ate chegarem á Índia. 87. CAP. LXV. Do que ho capitão mór Duarte pacheco fez em Cananor indo per a Cochim : e do que lá pas- sou com el rey. 93. jCAP. LXVI. De como ho capitão mór Duarte pacheco fez que não despouoassem a cidade, os mouros de Ccchim. 98. CAP. LXVII. De como ho capitão mór Duarte pacheco fez hum salto cm terra de Repelim, e de como se partio per a ho passo de Cambaia o a esperar elrey de Calicut. 104. CA P.
VIII CAP. LXVIII. De como el rey de Calicut combateo os nossos no pas- so de Cambalão : e de como foy desbaratado. 113. CAP. LXV11II. Do que fez ho capitão mór Duarte pacheco despois deste combate. 1x8. CAP. LXX. Do segundo combate que el rey de Calicut deu ao capitão mór Duarte pacheco. 120. CAP. LXX1. De como el rey de Ca- licut foy desbaratado no terceyro combate. 124. CAP. LXXII. De como elrey de Ca- licut quisera deixar a guerra. 128. CAP. LXX111. De como elrey de Calicut deu ho quarto combate a Duarte pacheco. 133. CAP. LXXI1I1. De como alguns que erao da parte dei rey de Calicut se passarão per a elrey de Cochim. 143. CAP. LXXV. Como elrey de Calicut em pessoa combateo ho passo do vao. 146. CAP. LXXVÍ. Do que Duarte pache- co disse ao príncipe de Cochim so- bre a treyção que lhe foy feyta. 15" 3. CAP. LXXVH. De como elrey de Calicut mandou deitar peçonha nos mantimentos que os nossos auião de • comprar. 156. CAP.
IX CAP. LXXVIII. De como ho capitão mór Duarte pacheco pelejou comcin- coenta e dous paraós dos inimigos. 161. CAP. LXXVII1I. De como osimmigos entrarão na ilha de Coçhim, e fo- rão desbaratados por certos poleds. 166. CAP. LXXX. De bua treyção que hum mouro de Cochim quisera fa- zer ao capitão mór Duarte pache- co. iyi. CAP. LXXXI. De como hum mouro inuentou a el rcy de Calicut huns castelos de madeira , com que po- dassem aferrar as nossas caraue- las. iyy. CAP. LXXXII. Do ardil que inuen- tou Duarte pacheco per a que lhe não abalrroassem as carauelas com os Castelos. 182. CAP. LXXXIII. De como el rey de Calicut deu combate aos nossos com os castelos , e de como foy desba- ratado. I go. CAP. LXXXIIII. De como el rey de Calicut quisera desbaratar com hum ardil ho capitão mór Duarte pacheco. 107. CAP. LXXXV. Dum ardil com que el rey de Calicut quisera matar ho capitão mór Duarte pacheco. 10 r. CAP.
CAP. LXXXVI. De como el rcy de Calicut se meteo em hum pagode : e despois se tornou a sayr. 208. CAP. LXXXVil. De como muytos daqueles reys e senhores que aju- dando a elrey de Calicut pedirão paz a Duarte pacheco. aix* CAP. LXXXVIII. Das armas que el rey de Cochim deu ao capitão mór Duarte pacheco. 213.' CAP. LXXXV1III. De como ho capitão mór Duarte pacheco foy socorrer ao feytor de Coulão. 221. CAP. XC. De como Lopo soarez par- tio pera a índia por capitão mór da armada que foy no anno de mil quinhentos e quatro. 227. CAP. XCI. Como ho capitão mór Lopo soarez chegou a Cananor e se vi o com elrey. 231. CAP. XCII. Da destruição que ho capitão mór Lopo soarez fez em Calicut : e de como chegou a Co- chim. 136. CAP. XCIII. De como Duarte pa- checo se partio de Coulão pera Co- chim. 119* CAP. XCIIII. De como ho capitao mór Lopo soarez pelejou em Cranganor com húa armada de Calicut. 240. CAP.
X! CAP. XCV. Be como el rey de Ta- nor palio paz ao capitão mór Lo- po soarez. 244. CAP. XCVI. Be como ho capitão mór Lopo soarez pelejou com os mouros em Pandarane. 245'. CAP. XCVil. De como ho capitão mór Lopo soarez chegou a Lisboa, e da muyto grande honra que el Rey dom Manuel fez a Duarte pa- checo. 15a. CA-
c A P I T O L O XLIIII. De como dom Vasco da gama tornou d índia por capitão mor de hua armada. SAbido por elRey dom Manuel o que elrey de Calicut fizera a Pedraluarez cabral , determinou de mandar hua grossa armada pera se poder vingar dele: e ten- do dada a capitania mór dela a Pedralua- rez cabral lha tirou por alguns justos res- peitos e a deu a dom Vasco da gama, que com o regimento do que auia de fkzer se partio de Lisboa a dez de Feuereyro , de mil e quinhentos e dous leuando em sua conserua dez naos grossas , das quaes a fora ele forao capitães dom Luis Couti- nho , Pero dataide , Francisco da cunha , d030 lopez perestrelo , Antonio do cam- po, Pedrafonso daguiar, Gil matoso, Ruy de castenhcda , Gil fernandez , Diogo fer- nandez correa que ya por feytor da ar- mada e de Cochim , e cinco nauios re- dondos que auiâo de ficar na índia em goarda da feytoria , de que forao capi- tães Vicente sodré , Bras sodré seu ir- Liu. I. Tom. 11. A mão,
2 D A HlSTOR I A D A I N D I A mão , Antonio fernandez , Pero rafacl, Diogo pircz e João rodrigucz badarças a quem se auia de dar na índia híia caraue- la que ya laurada na mesma armada, e lá se auia darmar, c a fôra estas quinze ve- las se ficauao aparelhando cinco naos de que ya por capitão mór hum Estcuão da gama primo de dom Vasco da gama que partio aos cinco do Mayo seguinte , a que não soube o que aconteceo na via- gem. E dom Vasco da gama despois que partio de Lisboa que dobrou ho cabo de boa Esperança , mandou a Pedrafonso da- guiar do cabo das correntes com a mayor parte da armada pera Moçambique, e ele ficou com quatro nauios em que foy a ço- fala e vio no sitio da terra que era pera ' fortaleza, e resgatou algum ouro em vin- te cinco dias que hi esteuc em que assen- tou amizade com elrey de çofhla. E par- tindo pera Moçambique se perdeo ao sair do rio ho nauio Dantonio fernandez com se saluar a gente. E chegado a Moçambi- que , e deixando hi feytoria pera as naos que ali fossem acharem mantimentos, se partio pera Quiloa , cujo rey leuaua em regimento que fizesse tributário a elRey dom Manuel pois não queria sua amiza- de. E chegado a seu porto, chegou tam- bém Esteuão da gama com as cinco naos :■ . A , jtl .\K\Ít .1 ..VÚJ» *
Liu. L Cap. XLIUI. 3 e dom Vasco teue maneyra como ho rey de Quiloa lhe foy falar ao mar, e como sabia que era mentiroso não se quis fiar em sua palaura , e prendeoho e com ho mandar meter debaixo dagoa, lhe prome- teo de se fazer tributário delRey dom Manuel e lhe pagar de pareas cadanno dous mil miticais douro, e poios daquele deixou em arrefens hum mouro principal que auia nome Mafamede alconez , a que queria mal secretamente por se temer de- le que lhe tinha de tomar ho reyno que ele tinha usurpado ao proprio rey, e não mandando ele as pareas por cuydar que dom Vasco matasse Mafamede alconez, que vendo que tardauão as pagou á sua custa, e assi se liurou. C A P I T O L O XLV. De como dom Vasco da gama chegou a» porto de Calicut, e do que fez. DE Quiloa se partio dom Vasco da gama pera Melinde , e visitado cl rey prosseguio sua viagem pera a costa da ín- dia, e a monte Deli topou hua nao de mouros de Meca que yão pera Calicut, e serião trezentos todos de peleja , a fóra moliieres e meninos , e e6ta foy tomada A ii por
4 Da Historia da Índia por força pelos capitães da frota em que os mouros pelejarão bem. E querendo os senhores da nao e outros negar a dom Vasco que não leuauão nenhua fazenda na nao, mandou deitar dous no mar, e logo os outros confessarão que leuauão muyta e boa fazenda, de que a melhor foy en- tregue a Diogo fernandez correa pera el- Rey que a tirou logo da nao, e a some- nos foy dada a escala franca aos Portu- gueses , e os meninos filhos dos mouros mandou dom Vasco goardar e despois os fez frades em nossa senhora de Belem, e logo foy posto fogo á nao estando os outros mouros metidos debaixo de cuberta e fechados: e isto por vingança do que os mouros de Meca fizerão a Pedraluarez. Os mouros como sintirão ho fogo, traba- lharão tanto que se soltarão, e ho apaga- rão com muyta agoa que a nao fazia po- ios buracos das bombardadas , que lhe de- rão na peleja. E dom Vasco que estaua na nao Desteuão da gama acodio logo e afer- rou a nao dos mouros, que como homens determinados acodirão logo defendendosc com muyto esforço, e deles trazião tições acesos com que tirauão aos Portugueses pe- ra os queimarem e também se defendião que ainda que muytos forao mortos nun- ca lhes poderão entrar a nao, e por anoy- tc-
Liv. I. Ca?. XLV. 5 tecer cessou a peleja , que mandou dom Vasco que cessasse , e que desaferrassem a nao: e mandou aos capitães que a cer- cassem com as suas. E assi a tcuerao to- da a noyte em que os mouros com gran- des clamores se encomendarão a Mafame- de que os liurasse: e como foy de dia dom Vasco tornou a mandar dar fogo á nao por Esteuao da gama , que lho deu com alguns bombardeiros , por mais que lhe os mouros contrariarão : e ho fogo pegou de maneyra que ardeo ametade da nao, e parte dos mouros se afogarão ne- la com se ir ao fundo , e parte forão mortos no mar onde se deitarão , e assi forão todos morros. E daqui se foy dom Vasco a Cananor, assi pera ver I10 feytor que hi deixara João da noua, como pera se ver com elrey : de quem I10 feytor. lhe disse muyto bem , e que era verdadei- ro amigo dei Rey de Portugal. E des- pois de lhe dom Vasco mandar I10 embai- xador que lhe leuara Pedraluarez cabral se vio coele em hua casa de madeira que el- rey mandou fazer junto do mar pera esta vista , com hum cais muyto metido no mar todo toldado de panos ricos, em que dom Vasco desembarcou indo acompanha- do de todos os capitães da frota , e de muyta gente darmas com muytas trombe-
6 Da Historia da Índia tas, e atabales , e bateis toldados e em* bandcirados, c elrey lio estaua esperando á porta da casa que estaua rodeada de dez mil Naires todos com suas armas com que faziao grande arroido. E elrey em dom Vasco chegando a ele abraçouho e foran- se assentar em duas cadeiras despaldas que dom Vasco mandou leuar pera isso , e el-. rey se assentou na cadeira por amor de dom Vasco posto que era contra seu cos- tume : e dom Vasco lhe apresentou dous bacios dagoa ás mãos cheos de ramos de coral grosso , cousa fermosa de ver , e despois assentou coele amizade em nome dei Rey dom Manuel de Portugal: e des- pois que assentasse feytoria em Cochim, a assentaria em Cananor. E isto feyto partiose dom Vasco e foy surgir no por- to de Calicut pera ver se podia auer res- tituição da fazenda que se hi tomara quan- do matarão Aires correa : e em chegando tomarão os da armada ate cincoenta pes- cadores que andauão pescando: o que el- rey logo soube e ficou espantado de ver tamanha frota, e com medo que lhe faria muyto danno se quis saluar com mandar pedir perdão a dom Vasco com disculpa que os mouros de Meca fizerão aquela treiçao sem ho ele saber : pedindo a dom Vasco que assentasse trato e feytoria em Ca-
Liu. I. Ca?. XLV. 7 Calicut como tinha começado: e mandou este recado por hum mouro da terra que foy vestido em hum abito de írade que ficou dos que yão com frey Anrrique: e em cheganao a bordo da capitaina falou per Dt-o gradas , e então conhecerão que era mouro, que ateli cuydauao que fosse frade: c ele disse que vinha assi por lhe não tirarem com artelharia. E dado ho re- cado a dom Vasco , respcndeo que não auia de falar em cousa damizade , nem de trato ate que elrey não pagasse tudo quan- to fora tomado a Aires correa. E sobre como isto auia de ser se gastarão trcs dias sem se tomar concrusão, ate que dom Vasco dngastado mandou dizer a elrey , que se dali ao meo dia lhe não mandaua a fazen- da que fora tomada a Aires correa que llie auia de fazer guerra a fogo e a san- gue , e auia de começar em mandar en- forcar os seus pescadores: e assi ho fez porque elrey nao comprio , e em sendo meo dia a hum tiro que desparou hua bombarda forão enforcados todos os cin- cocnta pescadores que estauao repartidos pelas naos , que muyto espantou aos de Calicut que ho virão da praya. E despois de mortos os enforcados lhes forao corta- dos os pés e as mãos, e forão leuados a terra em hum paraó com húa carta de dom
8 Da Historia da Índia dom Vasco pêra elrey em arabigo que di- zia que lhe mandaua aquele presente por sinal de quão bem lhe auia de pagar as mentiras que lhe tinha dito: e que a fa- zenda dei Rey seu senhor ele a cobraria a cento por hum: do que elrey ficou muyto injuriado e corrido de não se poder vin- gar , nem ousaua vendo tamanha frota. E dom Vasco chegadas as naos ho mais per- to de terra que pode , mandou varejar a cidade com a artelharia que fez muyto grande danno e destruição, e derribou ho çarame delrey contra quem ho pouo fazia muyto grande cramor, pedindolhe que fi- zesse paz com os Portugueses. E feyta es- ta destruição , dom Vasco se partio pera Cochim e deixou hua armada de seys na- uios naquela costa pera que fizesse guerra a Calicut tomando as naos que saíssem do seu porto e quisessem entrar nele e ficou por capitão mór hum Vicente sodré seu parente que de Portugal vinha dirigido pera isso, e os outros capitães forão Bras sodré seu irmão , Pero rafael, Diogo pi- rez , Fernão rodriguez badarças e Pero dataide. CA-
L i u. I. 9 C A P I T O L O XLVI. De como dom Vasco da gama chegou aCo- chim, e do mais que passou. CHegado dom Vasco ao porto de Co- chim Gonçalo gil barbosa , c Lou- renço moreno lio forao logo ver, c lhe disserao lio escândalo que elrey teucra de Pedraluarez cabral se ir sem lhe falar , mas que sempre os tratara muyto bem. E elrey ho mandou visitar , e dandolhe arrefens desembarcou e se vio coele, e lhe deu húa carta delrey dom Manuel em que lhe agradecia o que fizera a Pedraluarez cabraí: e assi lhe deu hum presente , que era hua coroa douro, hum colar do mes- mo , dous gomis de prata sobre dourados, dous tapetes grandes e finos , dous panos darmar deras de figuras, hua peça de ce- tim carmesim e outra de tafeta , e hua tenda. O que elrey recebeo com muyto prazer: e armada atenda dentro nela as- sentou amizade com dom Vasco e lhe deu hua casa pera feytoria, e assi assentai ao ho preço a que se auia de comprar a pi- menta na feytoria, e de tudo se fez hum contrato assinado por elrey , que lhe deu pera elRey dom Manuel dous baxceletes
Jo Da Historia da Índia de pedraria muyto ricos , hua tocha mou- risca de prata de dez palmos de compri- do , duas toucas de bengala finíssimas, hua pedra tamanha como hua auelaa , muyto proueitosa contra a peçonha que se acha na cabeça de hua alimaria a que na Índia chamao bugoldaf. E logo foy apou- sentado na feytoria Diogo fernandez Cor- rea y que como disse toy de Portugal e forao seus escriuães Lourenço moreno que já la estaua , e hum Aluaro vaz que ya de Portugal , e dom Vasco lhe deu hum lingoa e certos Portugueses carrega á capitaina. E nisto mandou elrey de Calicut a dom Vasco por hum brame- ne que lhe queria pagar o que se tomara a emey de Portugal quando os mouros matarao Aires correa , que ho fosse logo receber. Dom Vasco porque não se fiaua deirey prendeolhe ho bramcne pera lho pa- gar se mentisse : e porque a sua nao to- maua carrega foy na Desteuao da gama , em que partio logo pera Calicut e não quis que outro nenhum capitão fosse coe- le posto que lhe todos aconselharão que não fosse assi porque ya a muyto perigo e assi foy, porque vendo elrey de Cali- cut quão desacompanhado ya quiseraho tomar com trinta e tres paraòs darmada da feytoria , e começouse que
LITT. I. Caf. XLVI. II ue derao sobrele ao quarto dalua, tão e supito que sc não acertara destar sobre htía ancora no mais fora tomado, e a es- ta mandou ele logo cortar a amarra e jun- tamente desferir a vela, e com ho terre- nho que ventaua escapou aos paraós que ho seguirão tão apertadamente que ainda correo risco de ser tomado se lhe não aco- dirão Vicente sodré e os outros capitães que andauão na costa , que pelejarão com os paraós e os fizerão fugir. E dom Vasco se tornou a Cochim e mandou enforear ho Bramcne delrey de Calicut. C A P I T O L O XLVII. De como elrey de Calicut mandou dizer a elrey de Cochim que não desse car- rega a dom Vasco. GRandemente se ouue elrey de Calicut por injuriado de lhe dom Vasco en- forcar lio seu Bramene: e vendo que não se podia vingar polo medo que tinha da artelharia dos Portugueses , quis attentar se podia fazer com elrey de Cochim que não consentisse na sua cidade a feytoria dei Rey de Portugal , nem desse caircga a dom Vasco, e mandoulhe por hum Bra- mene esta carta. Sou-
ia Da Historia da Índia Soube que fauoreces os frangucs , e os agasalhas em tua cidade : e lhe dás carrega e mantimentos : e quiçá que não ves quanto dauno nos vem disso a todos, e quanto me anojas , rogote que te lem- bre camanhos amigos fomos ategora, e não queyras anojarme por tão leuc cousa como he a amizade dos frangues , que sam huns ladrões que andão a roubar as terras olhe as : e que por amor de mim os não acolhas, nem lhes dês ntnhua es- peciaria , que afira fazeres nisso a todos boa obra, a fazes a mim : que ta paga- rey no que mandares. Não te encareco isto mais porque creo que ho farás tão leuemente como eu farey por ti outras cousas de mór importância. Visia esta carta por elrey de Cochim como ele era muyto bom , verdadeyro e prudente, não ho demoueráo cousa algua aquelas palauras: e respondeo a elrey de Calicut por esta maneyra. Não sey como possa ser que cousa de tamanho peso como he lançar os fran- gues fora de minha cidade, tendoos toma- dos sobre mim faça tão leuemente como dizes : tal cousa te não cometi nunca so- bre os mouros de Meca 3 nem sobre ou- tros
Líu. I. C AP. XLVII. 15' tros muytos mercadores que assentarão cm (Jalicut. E em agasalhar os frangues e dar- Ihe carrega, nao cuido que te anojo, nem a ninguém , pois se costuma antre uJs vender nossas mercadorias a quem no las compra , e fauorecermos os mercadores que vem a nossas terras. Os frangues me vierao buscar de muy longe ^ e por isso os recolhi e emparey , e nao sam ladroes como dizes, porque trazem muy- ta soma de moeda douro e de prata e de mercadorias , e falão verdade. Tua ami- zade eu a conseruarey fazendo o que de- vo, e as si ho deues de querer, porque doutra maneyra não serás meu amigo, e a ti nem a ninguém não deue de pesar que ennobreça minha cidade. E ficando elrey de Calicut muyto agastado desta reposta, tornoulhe a escre- uer esta carta. Pesame muyto do bordo que leuas co- migo , porque vejo que queres deixar mi- nha amizade pola dos frangues que tenho por inimigos, que será causa de ho ser teu: outra vez te torno a rogar que os não recolhas nem lhes dês carrega, e não ho querendo fazer Deos acoime tua cul- pa : que eu protesto de não ser culpado no danno que se recrecer. CA-
14 Da Historia da Índia C A P I T O L O XLVIII. De como indo dom Vasco da gama per a Lananor foy cometido ele vinte noue naos de mouros. "T\E todas estas cartas nunca elrey de V J Cochim quis dar conta a dom Vasco senão quando se ouue de partir, dizendo que lho não dissera mais cedo por lhe não dar má vida em cuydar que faria o que iii ey de Calicut cometia, affirman- dollie que era tamanho amigo dclRey de Portugal que perderia Cochim se fosse necessário pera mostrar sua amizade. O que lhe dom Vasco agardeceo muyto , cer- tincandolhe que elrey dom Manuel ho aju- daria e fauoreceria 'de maneyra que não somente teria segura sua cidade, mas po- deria conquistar outras , e cresse que tu- do aquilo delrey de Calicut erão feros , porque dali por diante auia de ter tanta guerra com os Portugueses que faria muy- to em se defender quanto mais fazela a outrem. Então lhe disse a armada que auia de ficar na índia pera fazer guerra a elrey de Calicut > e de Cananor a mandaria pera Cochim, por isso que não receasse os fe- ros delrey de Calicut. E despedido dei» rey,
Liu. I. Cap. XLV1II. 15" rey , se partio pera Cananor com dez naos carregadas , porque lá auia de carregar as tres de treze que lcuaua. E sabendo os mouros que leuaua as naos carregadas, cuydarão que não se poderia ajudar da artelharia e que ho tomarião, e por isso sayrao do porto de Pandarane vinte noue naos que ho esperauáo coessa determina- ção , todas bem chcas de mouros aperce- bidos de suas armas , e foranno cometer tres legoas ao mar: sobre que logo man- dou arribar seus capitães : e Vicente sodré que ya diante com Diogo pirez, e Pero rafael forão os primeyros que começarão de pelejar com os immigos , aferrando duas naos que também yão diante afasta- das das outras , e Vicente sodré aferrou com bua , e Diogo pirez e Pero rafael com outra. E como os mouros virão jun- to de si os Portugueses , quis nosso se- nhor que lhe ouuerão tamanho medo que se deitarão ao mar, e porque já se chega- ua dom Vasco com os outros capitães desparando sua artelharia, de cujo estron. do se os mouros das outras naos espanta- rão tanto que arribarão fugindo deixando as duas naos em poder dos Portugueses , que nos bateys matarão os mouros que se lançarão ao mar que forão trezentos:' e dom Vasco mandou descarregar as naos em
16 Da Historia da Índia cm que foy achada muyta riqueza, prin- cipalmente hum idolo douro que pesou trinta arratens de monstruosa figura, e ti- nha por olhos duas finas esmeraldas com liua vestidura douro e pedraria com hum robi nos peytos do tamanho da roda dum cruzado que daua grande claridade , e muytos guindes, e perfumadorcs e cospi- dores de prata e seys talhas grandes de porcelana fina de ter agoa. E queymadas estas duas naos , partiose dom Vasco pê- ra Cananor, onde se vio com clrey com que acabou dassentar a feytoria que tinha dada: e obrigouse elrey de dar»a elRey dom Manuel toda a especiaria que fosse necessária pera carregação de suas naos a hum certo preço logo nomeado , e que seria amigo delrey de Cochim , e não ajudar contrele elrey de Calicut sopena de os Portugueses lhe fazerem guerra. E dom Vasco se lhe obrigou em nome delRey de Portugal de ho ajudar contra todos aque- les que por sua causa lhe fizessem guerra: e de tudo isto se fez hum contrato assi- nado por ambos , e em Cananor ficou por feytor Gonçalo gil barbosa, e por escri- uães hum Bastião aluarez e hum Diogo go- dinho , e' por lingoa Duarte barbosa , e ficarão mais na feytoria Francisco correa, João da vila que eu ainda conheci em Ca- na-
Liv. I» Cap. XLVIII. 17 nanor, Gaspar homem e outros que por todos forao vinte que elrey tomou sobresi com a fazenda dafeytoria. E carregadas aqui dom Vasco tres naos mandou a Vi- cente sodré que se fosse com a armada dos seys nauios que lhe ficaua pola costa do Malabar, onde andaria ate Feuereyro , e se teuessé certeza que elrey de Calicut auia de fazer guerra a elrey de Cochim que inuernasse em Cochim e ho ajudasse: e não auendo guerra fosse ao cabo de Goardafum a fazer presas nas naos dos mouros de Meca que fossem da Índia. E partido Vicente sodré, ele se partio pera rortugal com treze naos a vintoyto de Dezembro de mil e quinhentos e tres, e- no cabo das correntes passado Moçambi- que lhe sobreueo hum temporal de vento , com que se apartou dele a nao Desteuâo da gama, e sem mais outro contraste che- gou a Lisboa ho primeyro de Setembro do mesmo anno , e todos os grandes da corte delRey dom Manuel ho lorao rece- ber ao cays, e ho leuarão ao paço: onde ho elRey recebeo com muyta honrra, e lhe fez merce do almirantado do mar In- dico, e o fez conde da vila da Vidiguei- ra. t Liu. L Tom. IL B CA-
i8 Da Historia da Inôia C A P I T O L O XLIX. De como foy sabido em Cochim que el- rey de Calicut he auia de fazer guerra. Vicente sodré que ficou na costa de Calicut , fezlhe a mais guerra que da determinação que ti- nha de fazer guerra a elrey de Cochim pera que se foy a Panane por ser perto, e ali ajuntar sua gente : o que logo foy sabido em Cochim polas espias que elrey lá trazia , com que seus moradores fica- rão muy assombrados de medo por sabe- rem quáo poderoso era elrey de Calicut e quão pouco elrey de Cochim : e mais porque criao que não tinha rezao pois que- ria defender os Portugueses que erao inimi- gos de sua ley , a aue por essa causa queriao grande mal eInes rogauao pragas, c querianlhe muyto grande mal, e alguns priuados delrey lhe consclhauâo que deuia detitregar os Portugueses a elrey de Cali- cut , e que não quisesse guerra coele pois era mais poderoso : c não quisesse perder ho reyno. O que lhes elrey de Cochim estranhaua muyto , e dizia que esperaua em com tudo elrey de Ca- j- : • Deos
Liu. I. Cap. XLIX. 19 Deos de vencer a elrey de Calicut, por- que se lhe fizesse guerra auia de ser sem rezão. E por este aluoroço que elrey via nos seus tinha grande goarda nos Portu- gueses. Neste tempo veyo ter ao porto de Cochim Vicente sodré com os seys nauios darmada que disse , cujos capitães erão Bras sodré , Pero dataide , Pero rafael , Diogo pirez e Fernão rodriguez badarças que ficou etn lugar Dantonio fernandez que se perdeo , e deixaua feyto grande danno na costa de Calicut , assi no mar como na terra. E com sua chegada per- derão os Portugueses ho medo que tinhao. E chegando ele ao porto, porque tardaua em desembarcar , lhe mandou Diogo fer- nandez correa dizer por Lourenço more- no escriuão da feytoria (que mo contou) a certeza que tinha da guerra que elrey de Calicut queria fazer a Cochim e onde estaua , pedindolhe da sua parte , e reque- rendolhe da dei Rey de Portugal que lhe desse algua da sua gente, e com a outra esteuesse no porto e não se fosse dele , porque com sua estada ficariao os Portu- gueses e elrei de Cochim muyto fauoreci- dos. Ao que Vicente sodré respondeo, que era capitão do mar e não aa terra , e por isso não auia de pelejar senão no mar, que se elrey de Calicut ouuera de B ti fa-
20 Da Historia da Índia fazer guerra por mar a Cochim, que ele ajudaria elrey, mas que por terra não ti- nha de ver coisso , que queria ir desco- brir ho cstreyto do mar roxo pera que fi- cara na índia , o que lhe Diogo fernandez tornou a mandar requerer que não fizesse , nem se fosse de Cochim, e que goardasse a feytoria dei Rey de Portugal, pera que fi- cara na índia, e não pera descobrir lio es- treyto : porque elrey de Calicut não fazia a guerra a Cochim senão pera tomar a feytoria delRey de Portugal , e os Portu- gueses que estauão nela , e que elrey de Cochim não tinha gente pera se defender por isso que não se fosse, protestando de ser obrigado a pagar a elRey de Portugal todo ho danno que recebesse por sua ida: e com tudo Vicente sodré não quis senão irse , por esperar de fazer muytas presas onde queria ir t e partiose com os outros capitães , sem lhe lembrar ho perigo em que ficaua a feytoria , e os Portugueses , e elrey de Cochim. E esta he a verdade, ainda que alguns digão que Vicente sodré se mandou offrecer a elRey de Cochim pera ho ajudar na guerra se teuesse neces- sidade, e se não que iria descobrir hoes- treyto. E que elRey lhe respondeo, que por ser entrada de inuerno lhe não auia de fazer elrey de Calicut guerra, nem lira po-
Liu. I. Cap. XLIX. 2i poderia já fazer na entrada do verão se- guinte, quando ele auia de vir do estrey- to , por isso que bem podia la ir inuer- nar, que ho jnuerno ho seguraua delrey de Cali cu t lhe fazer guerra. E bem pare- ce que quem isto diz não foy á índia , nem soube que ho melhor tempo que cl- rey de Calicut tinha pera fazer guerra a Cochim era em Março, Abril, Mayo, ate meado Junho, em que sabia cerro que não auião de chegar á índia naos de Por- tugal , com cujo medo sabia que não po- dia fazer guerra a Cochim senão no tem- po que digo. E bem se mostrou nesta guer- ra que fez como direy adiante. CAPITOLO L. De como elrey de Calicut declarou aos se- nhores que ho ajudando, que queria fazer guerra a Cochim. DEspois que elrey de Calicut foy em Panane , se ajuntarão com ele muytos senhores seus vassallos e amigos , que ti- nha mandado chamar pera ho ajudarem na guerra : e outros forao sem serem cha- mados , porque sabendo que aquela guer- ra era por amor dos nossos que estauao em Cochim (que todos desejauão de ver ' * 1
n. Da Historia da Índia lançados fóra da Índia) hiao de muyto boa vontade a destruir a elrey de Cochim. Em tanto que ate os seus proprios vassa- los ajudauão elrey de Calicut, como fc- rão ho Caymai de Chirabipil , e ho de Cam balão, e ho da ilha grande que está defronte de Cochim. Elrey de Calicut tendo estes senhores juntos, lhes disse. Se de boas obras se gera amizade antre as pessoas, eu e vós por minha causa , e em geral todos os Malabares a deuemos de ter muyto grande com os mouros, por- que ha bem seyscentos annos que entrarão no Malabar , e em todo este tempo ate oje nunca ninguém recebeu deles escândalo, não auendo nenhuns estrangeiros que os não facão quando nouamente ocupão algúas terras, antes como que forão nossos na- turais se, derão com a gente com todo amor e amizade que se deue duns natu- rais a outros com que a terra foy sem- pre prouida por eles de muytos manti- mentos e mercadorias que foy causa de ho pouo enrriquecer e as rendas do rey- 110 irem. em grande crecimento , princi- palmente nesta cidade em que os mouros fizerao a principal escala de toda a ín- dia : pelo que eu tenho muyta rezão de os fauorecer , e clesfauorecer aos frangues que com tanto seu prejuyzo querem as- sen-
L i u. I. C a P. L. 23 sentar na terra , mais per a a tomarem e destruyrcm , que per a lhe jazerem prouei- to: do que der ao assaz de sinais nesses poucos de dias que aqui esteuerao, as si como fqy em me bo capitão mor prender os meus embaixadores, e em fazer nouas leys em minha cidade que carregasse pri- meyro suas naos que os mouros as suas, e sobrisso lhe reteue hua nao que foy causa de lhe os mouros fazerem o que Ji- zerao , que eu cuydo que foy ordenado de De os por sua soberba: e nao lhe ten- do eu nisso culpa me queymou dez naos em meu porto , e me destruyo a cidade com sua artelharia , ate me fazer fugir de meus paços, e cies pois ainda me quey- mou duas naos , o que não fizera se 'vie- ra per a tratar , antes me mandara fa- zer queixume dos mouros , e esperara que os castigara e nao fazer o que fez , que mais parece de ladroes como cies sam, que de mercadores que se querem fazer per a coes sa cor se poderem senhorear desta terra : o que elrey de Ccchim com quanto lho mandey dizer nunca quis en- tender : e sendo meu vassalo, e sabendo o que me eles tem feyto, os recolheo , e recolhe, e lhe deu carregação per a suas naos, e agora lhe deu feytoria, o que lhe per muytas vezes mandei rogar que bo nao
24 Da Historia da Índia não fizesse. Pelo que determino de ho destruir , e per a isso vos viandei pedir que vos ajuntásseis : e também vos pe< o que me digais se tenho rezao de ho fazer assi. O que a todos pareceo muyto bem, e louuarão muyto sua determinação, prin- cipalmente ho senhor de Repelim, por- que tinha grande odio a elrey dcCochim por lhe ter tomada htía ilha chamada Ar- rul : e ho mesmo fizerão trcs mouros prin- cipais. Contra o que foy hum irmão del- rey chamado Nambeadarim que era prín- cipe herdeyro por sua morte : e lego ali disse a elrey. Ho parentesco que tenho contido , e outras muytas cousas te podem certificar que sobre todos quantos aqui estão ey de desejar tua honrra e pro- ueito, e por isso ha de ser mais vercla- deyro meu conselho que ho seu , porque eles como não tem tamanha obrigação per a te aconselhar como eu tenho, mais parece que te constlhão segundo a von- tade que te vem per a a cousa , sobre que te dão conselho , que segundo a rezão que ha pera a fazeres. E se eles sem lijon- jaria , e tu sem ira quiserdes julgar a causa dos frangues achareis que ainda ategora não ha nenhúa pera não serem muyto bem agasalhados nas tuas terras , e nas outras do Malabar, e não dei talos de- i
Liu. I. Cat. L. de/as como a ladroes o que se lhe não pôde chamar posto que qua viessem , pois de todas as partes do mundo se ajuntáo. aqui a comprar as mercadorias que não ha nelas, e as si trazem as que não ha nesta terra. E desta maneyra vierão os frangues , e segundo costume de merca- dores te trouuerão da parte do seu rey ho mais rico presente que te nunca foy dado, e afora suas mercadorias trouuerão muyta moeda douro e de prata , o que não traz quem vem per a fazer guerra: que se eles pera isso vierao não dissimu- larão a fugida que quiser ao fazer os ar- refens , a que chamas embaixadores a que prenderão porque querido fugir estando ho seu capitão mor em terra, e reconci- liandose iogo contigo como gente sem sos- peita forão tomar a nao que leuaua ho alifatite , que te entregarão quanto leua- ua , o que os ladroes não costumão, nem menos pagar também , nem tratar tanta verdade como tratauão. Oi
i(s Da Historia da Índia porque os jrangues a não podessem auer per a carregação de suas naos. E por is- to ser muyto notário lhe dêste licenca que lha tomassem: e coesta licença man- dou ho seu capitão mór fazer represaria tia nao dos mouros que estaua carregada t tendo eles toda a culpa se aleuantarão contra os frangues, e fizerão o que se sabe. E com tudo eles como homens pací- ficos esperarão todo hum dia per a ver se querias dar lhe algua desculpa : e vendo que não então se vingarão , e não com treyção como os mouros , que nao forão pera defender as naos, ainda que agora falão muyto , e te conselhão que faças guerra a elrey de Cochim , porque os re- colhe o em sua cidade : pera o que não ha nenhíia rezão , pois ele os não recolheo por-te fazer pesar , senão como a quaes- quer mercadores que vão a seu porto por- que ho mesmo fez elrey de Cananor, e quisera fazer elrey de Coulão, o que eles vão fizer ão se sentirão que os frangues erão ladroes. E se os tu queres desarrey- gar da Inclia e por essa causa queres fazer guerra a elrey de Cochim, he ne- cessário que a facas também a elrey de Cananor: porque de Cananor farão o que receas fazerem de Cochim: e se não dei- xa elrey de Cochim : e nao te digão que te
Liu. I. Ca?. L. 27 te atreues coele , porque be menos podero- so ciu6 tlvty dt Cananor. E I\3iTibc3rd.
a8 Da Historia da Índia C A P I T O L O LI. Do gr ando aperto em que estauao os Por- tugueses com medo que elrey de Co- chim os entregasse a elrey de Calicut. ELrey de Cochim sabia tudo isto por espias que trazia com elrey de Cali- cut : e andaua muy triste não por medo da guerra : mas por não ter gente com ouc se defendesse, porque todos aqueles de que esperaua ajuda por vassalagem e amizade erão da parte delrey de Calicut: que se forao da sua bem certa tinha a vi- toria. E assi estaua em duuida porque ti- nha muyto pouca gente , e a mais dela lio ajudauao contra sua vontade , princi- palmente os moradores de Cochim que querião grande mal aos Portugueses , e di- zião publicamente que elrey osdeuia den- tregar, ou lançalos de Cochim porque se escusasse a guerra : e afora isto muytos dos moradores fugiao e deixauao suas ca- sas com medo da guerra. E coisto tinhão os nossos grande remor que bem vião ho grande perigo em que estauao, com quan- to os elrey scguraua. E ho feytor pcdio embarcaçao a elrey pera se irem a Cana- nor,
L i u. I. C a p. LI. 29 nor , dizendolhe que hi estariao seguros ate que viesse a armada de Portugal : e que ele ficaria liure da guerra : e os seus desapressados com que elrey mostrou muy- to giande tristeza. E disse ao feytor que bem sabia que de desconfiado lhe pedia a embarcação , e por isso lha não auia de dar: e que lhe rogaua muyto que não desconfiasse dele , porque ele lhe daua sua fé que lhe ya tanto em os ter viuos que antes perderia lio reyno e a vida que os entregar a elrey de Calicut : nem a ou- trem que lhes fizesse mal. E quando sua desauentura fosse tanta que perdesse Co- chim: que lhe não faleceria onde se aco- lhessem ate que viesse a armada de Por- tugal: e posto que elrey de Calicut viesse muyto poderoso, nem por isso tinha logo certa a vitoria , porque ela se alcançaua mais vezes pelos poucos e esforçados , que poios muytos sem esforço : quanto mais que a justiça que ele tinha da sua parte lha auia de dar : por isso que des- cansassem e rogassem ao seu Deos que lha desse. Coestas palauras e com os Por- tugueses entenderem que elrey as dizia com animo de as comprir : ficarão des- cansados , e lhe quiserão beijar a mão , mas ele não quis, nem menos que ho aju- dassem na batalha, pera o que se todos
3o Da Historia da Índia offerecerao: e ele respondeo qae os não auia de poer em parte perigosa , porque os queria ter viuos pera testemunhas de uanto trabalhara por sua vida. E dali por iante encomendou a guarda deles a algun3 Naires de que confiada. E porque asses- segasse ho aluoroço que auia contra eles, mandou ajuntar esses senhores que esta- uão coele, e assi alguns Naires principais dos que faziao ho aluoroço, e disselhes. Não posso deixar destar muyto triste por 'vos ver tão desleais , e não me espanto da gente baixa , por sua baixeza lhes fazer vilezas : mas de vós outros que soys Naires , e fostes sempre leaes: es- tou espantado que me quereis fazer que- brar a fé que dei ao capitão mór dos ff ungues de lhe goardar os seus como a meus naturais, e por isso os deixou nes- ta cidade em que me vós outros conselbas- tes que cs recebesse: e agora por verdes que elrey de Calicut tem algúa mais gen- te que eu , conselhaisme que faça bua, cousa que se eu fora tão mao que a qui- sera fazer mo ouutreis destranhar : e vós ho julgay, se estando em poder dou- tro rey com seguro se ho tirieis em boa conta fazendouos o que me conselho is que faça aos frangues: mormente tendo o que vos pedisse tão pouca rezao pera ser nos- so
Liv. I. Ca?. LI. 31 fo imniigo , como tem elrey de Calicut, e bo rey que vos teuesse tão pouca causa de vos entregar como eu tenho pera en- tregar os frangues. Pois se isto he as- si, como me conselhais que faça aquilo que aueis de reprehender a outrem'- nao me dando pera isso mais rezao que medo delrey de Calicut , sabendo que muyto mais pera estimar he a morte honrrada que a vida com deshonrra: que nao podia ser mor pera mim que quebrar minha fé, nem mayor pera vós que terdes rey mentiroso, contra quem lhe tem dado tan- to proueito, como me tem dado os fran- gues. E porque elrey de Calicut sabe que bo ouuera de ter se eles teuercío feytoria em sua terra , com enueja busca estes achaques pera me fazer guerra: e porque lhe parece que posso pouco quer vingár em mim a magoa que tem do que perdeo: que se ele quisesse lançar da Índia os frangues e pelejar com quem os tem em sua terra , primeyro auia de começar em elrey de Cananor que está primeyro. Mas nao he senão com enueja de meu proueito, e com soberba de lhe parecer que nao po- der ey tanto como ele : e porque eu isto sey , e sey que faço o que deu o em lhe não entregar os frangues > espero em Deos que me ha de dar vitoria contrele, e vós y 1 as-
32 Da Historia da Índia si ho esperay se soys meus amigos. E vendo todos sua determinação , espanta- dos de sua grande constância: Jhe pedi- rão perdão do medo que teuerão, prome- tendolhe que ho não terião mais , e que morrerião todos por seu seruiço. O que lhes ele agradeceo muyto, e mandou lo- f;o chamar ho feytor e os nossos : e deu- he conta do que fizera , e perante eles fez seu capitão mór ao principe Naramu- him que era seu irmão e seu herdeyro, e mandou a todos que lhe obedecessem como a ele mesmo ; e mandoulhe que com cinco mil e quinhentos Naires fosse assentar arrayal junto de hum passo: que se chama ho passo do vao, por onde sa- bia que elrey deCalicut determinaua den- trar na ilha de Cochim. E neste passo com maré vazia dá agoa pelo giolho. CA-
L i u. I. 33 C A P I T O L O LII. t)e como bo príncipe de Calicut cometeo muytas vezes dentrdr na ilha de Co- chim pelo passo dó vao. SAbendo elrey de Calicut que Naramu- him tinha seu arrayal no passò do vao per onde dcterminaua de entrar sua gente em Cochim receouho , porque sabia que era hum dos mais esforçados caualeyros que auia em todo Malabar, e muyto di- toso na guerra: e coeste reccyo mais que com vontade de fazer comprimentos com elrey de Cochim, lhe mandou esta carta. Muyto trabalhei por escusar esta guerra contigo, se quiseras temperar tua soberba com fazer o que te pedi , pois era tão justo e proveitoso per a todos: e por que esta nossa rotura se não acrecente mais, te faco saber que sou vindo a Re- pelim com grande exercito per a entrar em tua terra a tomar os jrangues com todas suas mercadorias. Porem querote prirneyro anisar, per a que mos mandes : e se ho fizeres perderey ho odio que te tenho pelo passado : e senão prometvte de te tomar a terra , e meter á espada to- dos os seus moradores, w Liu. I. Tom. II. C El-
34 Historia da Índia Elrey dc Cochim posto que cstaua tão mingoado de gente, e via que pode- ria ser o que elrey de Calicut dizia não se mudou de sua determinação j e respon- deolhe esta carta. Se o que me pedes cem tanta sober- ba , me requereras por mais brandas pa- lauras não te teuera por menos esforça- do do que cuydas que te poderey ter, por- que onde ha saber ou esforço não ha des- cortesia nem mao insino : estas sam as cousas que Deos não sofre , nem eu ho tenho tão agrauado que consinta tanto em meu danno , que a vitoria deste fey- to não seja minha , e destes esforça- os homens que estão comigo , tu se- jas muy bem vindo com todas tuas so- berbas , que eu creo que elas com a justa causa que tenho abastarão pera me de- fender de ti , e doutros meus inimigos; que não acharás nunca tão fraco que fa- ca cousa tão vergonhosa como me pedes: e se tu costumas tais entregas , eu as não costumey nunca, nem as ey dacostu- mar, dos frangues, nem de cousa sua não faças conta, porque os hey de defen- der : por isso não me mandes mais recado. Coesta reposta jurou elrey de Caia- que
Liu. I. Cap. LII. 3J cut que auia de destruyr elrey de Co- chim, e parciose logo de Repelim , que foy lio derradeyro dia de Março, e en- trou em terra delrey de Cochim , em que não fez nenhum danno por os senhores daquelas comarcas ho ajudarem. E aos dous Dabril estando já muyto perto do vao onde estaua Naramuhim alguns capi- tães esforçados na muyta gente que tinhão quiserao entrar ho passo , e ele lhes de- fendeo a entrada, matandolhe muyta gen- te. O que elrey de Calicut teue a mao sinal: e com tudo despois dassentar seu arrayal , mandou ao outro dia ho senhor de Repelim com dobrada gente da que fora ho dia passado, e muyta outra por mar em paraos , parecendolhe que toma- ria ho passo , mas não foy assi , porque Naramuhim ho defendeo com muyto es- forço , e ajudou ho Lourenço moreno com alguns dos Portugueses , que também ho fez como muy valente caualeyro: e assi em outras muytas pelejas que despois ou- ue Naramuhim com os iirunigos, em que sempre foy vencedor , fazer.dolhes muyto grande danno de mortos e de feridos. O que vendo elrey de Calicut, como era in- constante arrependiase de ter começada a guerra que cuydaua de logo em chegando ao passo ho entrar. E por isto mandou C ii »1-
3
L i v. I. 37 C A P I T O L O LIII. De como foy morto Naramuhim príncipe de Cochim por treyçao delrey de Calicut. VEndo elrey de Calicut que não po- diao os seus capitães entrar ho passo a Naramuhim , ordenou de ho fazer en- trar por treição : pera o que se concertou secretamente com hum Naire pagador do soldo dos Naires de Naramunim a que deu muyto dinheiro, porque não mandas- se ao arrayal a paga do soldo que man- daua cada certo dia , porque os Naires a fossem buscar , e ficando Naramuhim com. menos gente ele cometesse ho passo e ho entrasse. E assi ho fez ho Naire, mandan- do dizer aos do arrayal de Cochim que fossem receber ho soldo porque lho nao podia mandar , e eles forão htia noyte com licença de Naramuhim , encomendan- dolhe muyto que tonarssem ante manhaa, o que eles não poderão fazer por lhe nao pagarem senão bem de dia. E entretanto que estauão em Cochim cometeo elrey de Calicut ho passo com toda sua gente por mar e por terra , e com muyta artelharia que trazia : e como Naramuhim estaua . . i com
38 Da Historia da Índia com menos ametade da gente que tinha e ho poder delrey de Caíicut era mor do que nunca fora , entrou por força ho pas- so. E deste impeto leuou Naramuhim ate os palmares: onde ele fez todos os seus em hum corpo e rorapeo muytas ve.:es os immigos matando muytos, mas como tinha poucos cercaranno E despois de fa- zer muytas brauezas', foy morto de fre- chadas com dous seus sobrinhos também especiais caualeyros , e os seus se desba- ratarão logo , e ficarão no campo muytos mortos. E elrey de Calicut não quis se- guir os viuos por ser quasi noyte que ate então durou a batalha , e também dos seus forão mortos boa parte. E sabida esta no- ua por elrey de Cochim , esteue hum pe- daço fora de si, e quasi que ho teuerão por morto: principalmente os Portugueses que estauão cocle , c os Naires não en- tenderão neles por acodirem a elrey, que doutra maneyra segundo todos ficarão com aquelas nouas , e com ho mal que lhes queriao não fora elrey poderoso de os liurar da morte. E nisto tornou elrey a si arrebentando em choro, e dizendo pa- lauras que os nossos não entenderão. E tão desacordado estaua que os não via, e preguntou por eles : e eles se leuanta- râo então chorando com dó dele: que ven-
Ltu. I. Cap. Lin. 39 vendoos , lhes disse que não ouuessem medo , porque nem aquela desauentura auia de teí poder pera ho fazer mudar do que lhes tinha dito , polo que lhe eles quiserao beijar a mão , e ele nao quis e sentindo ho aluoroço que tinhao os seus contra os nossos, pera os assessegar es disse. Agora que a fortuna se mostra tanto contra mim , cuydaua eu que como verdadeyros amigos e leays vassalos auieys . de trabalhar por me desagasiar : e vos como que seguis a parte dtlrey de Lalt- cut acrecentaisme a paixao^ que tenho , as si pela morte de meu irmão , e de meus sobrinhos como por serdes contra os fran- gues , que vos tantas vezes encomenc.ey, e que sabeis que muyto mais sentirey receberem qualquer ofensa de vós outros, de que senti a morte de meus sobrinhos , porque eles morrerão defendendome, e vos com me of enderdes perseguis aos que eu tenho debaixo de meu amparo, e que me ficarão pera minha consolação , porque assaz he grande pera mim em tamanha desauentura cuydar que me vem este mal por fazer coeles o que deuo, e não ittais que eles sam a causa, nem que poios em- par ar fauorece Deos contra mim aelrey de Calicut, porque ho nao faz senão poi ofensas que lhe tenho feytas , e quer que
4° Da Historia da Índia aja esta causa per a as pagar , e que seja elrey de Calicut ho executor de sua justiça, per a que também por outros pec- caáos que fez as pague, por amor que me destruye por goardar a fé aot estran- jetros e hospedes (cousa a que todos te- mos tanta obrigação) por isso não vos pareça que por empar ar os frangues re- cebo estes ca .tigos , nem cuydeis que el- rey de Calicut me pode destruir de todo, 1tUt'raiju'a 1U? me agora lançasse fora de Locbim, não tardará muyto a armada os frangues , e ho seu capitão mor me tornará a restituir : e entretanto reco- Ihcrnosemos d ilha de Vaipim: e por sua fortaleza, e por ho inuerno que temos d porta espero em De os que escapemos del- rty de Ca icut. h pois eu que perco mais que vos me consolo coisto, consolaiuos vós , e não acrecenteys. minha tristeza com ho aluoroço que fazeys. Vendo os seus sua grande constância muyto espantados de- la asscssegaransc do aluoroço que tinhao contra os nossos , prometendolhe de com- prir seu mandado , e assi ho fizerao. E foy tamanha a constância delrey que man- dandolhe ainda elrey de Calicut cometer que ihc desse os nossos , e qne desistiria da guerra, não quis : respondendo que de tinha a vitoria mais por treyção que por
Liu. I- C a P. L1II- 41 por valentia: que se fora por ela seu ir- mão , nem seus sobrinhos não morrerão , mas matarão a quem os quisera matar: e pois eles erao mortos não sentia peidcr Cochim , porque os frangues que espera- ua muy cedo ho restituirião e vmganao dele. Ò que sabido por elrey de t alicut, mandou logo destruir a terra a fogo e a sangue, de que foy ho medo rama. .o nos moradores de Cochim , que os mais rugi- rão da cidade: e de volta cceles fugio ho terceyro principe de t ochim , parecem < - lhe que elrey de Calicut ho fizesse roy , e assi fugirão dous milaneses lapidairos que estauão com ho feyter, que sabiao fundir artelharia , hum chamado ;oãc N a- ria e outro Pedro Antonio : estes cis^c- rão a elrey de Calicut ho medo que ya cm Cochim, e quão pouca gente ehey ti- tinha pera se defender , pelo que determi- nou de ir sobrele, e partiose logo : c el- rey de Cochim lhe sayo ao encontro com a gente que tinha e com os Portugi eses que aquele dia fizerão cousas marauillcsas em hua batalha que os reys se derao, em que elrey de Cochim foy ferido e der. a- ratado. E por ficar ferido e ter perdida a maior parte de íua gente não quis dar outra , e passouse a hua ilha chamada Vaipim que está defronte de Cochim que
42 Da Historia da Índia os Malabares tem em grande veneração por ser antreles cousa santa : e era seu costume que quem se ali acolhia não po- dia receber nenhum mal, e leuou consigo os Portugueses e a feytoria. E vendo el- rey de Calicut que era ali acolhido , não curou mais dele , mas mandou queymar Cochim, e por entrar ho inuerno se reco- lheo a Cranganor , deixando em Cochim gente de goarnição em tranqueyras que mandou fazer. E ficando os Naires de Cochim muyto tristes pela morte dos prín- cipes , e por seu rey ser vencido. Qua- torze deles que ho mais sintirão determi- narão de vingar esta injuria, e morrer so- brisso , e assi ho jurarão , e deixarão cre- cer os cabelos das barbas e das cabeças. F. a estes taes chamão na lingoa Malabar Chauer que na nossa quer dizer morto, e assi se tem elles por mortos quando as- sentão em tais determinações, e geralmen- te Jhes chamão na índia A moucos, e es- tes são muyto temidos dos outros homens porque sabem que vão a morrer, e por medo da morte não hão de deixar de ma- tar quem quiserem. Estes quatorze Amou- cos partirão de Vaipim com determina- ção de fazerem a elrey de Calicut todo ho mal que podessem : e dando no seu arrayal que tinha em Cranganor lhe mata- rão
Liu. I. Ca p. L1II. 43 rão muyta gente , e vendo que se punhao em ordem de lhes resistir passarão a C ali- cut: e entrando de supito matarao muytos dos seus moradores e queimarão parte da cidade e a gente matou or.ze deles , e os outros se recolherão a hua serra , onde andarão cinco annos , de que os de Cali- cut auião medo grandíssimo , poios supi- tos rebates que lhes dauão. E despois de receberem deles muyto danno acabaiao as vidas. C A P I T O L O LIIIL De como se perdeo Vicente sodré e outros em Curia muria. PArtido Vicente sodré com sua arma- da do porto de Cochim sem querer dar ajuda a elrey , nem aos nossos que estauão na feytoria , íoyse na volta do reyno de Cambaya em busca das naos de mouros que viessem do mar roxo a Ciaii— cut que vinhão muyto ricas. E na costa de Cambaya tomou por força darmas com ajuda dos outros capitães cinco naos des- tas que digo, em que em dinheiro se to- marão passante de duzentos mil pardaós, e a mór parte dos mouros forão mortos, e as naos queimadas. E dali se foy a
44 Da Historia da Índia ilhas chamadas Curia muria que estão ao mar do cabo de Goardafum pera conser- tar seus nauios por fazerem muyta agoa e chegou vinte Dabril de mil e quinhen- tos e tres. E com quanto as ilhas erão pouoadas de mouros sayo em terra , por- que os moradores não erão homens de guerra , antes com medo fizerao muyto bom recebimento aos Portugueses venden- dolhes mantimentos e conuersando coeles. E tendo Vicente sodré hua carauela tirada a monte disseranlhe que no mes de mayo sobreuinha ali tamanha tormenta' de vento norte que não auia nao questeuesse no por- to que não desse á costa e por isso não paraua ali nenhua naquele tempo : e que assi ho deuia ele de fazer, e mudarse pe- ra a outra banda da ilha abrigada de nor- te ; e passada a tormenta tornaria a surgir ondestaua. E cuydando ele que lhe queriao fazer algua treyção por serem mouros , nunca se quis mudar , dizendo que as naos que dauão á costa erão as que tinhão an- coras de pao, e as suas erão de ferro , e por mais que os mouros ho tornarão a persuadir nunca quis mudarse: o que não fizerao Pero rafael, nem Fernão rodriguez badarças , nem Diogo pirez que logo se mudarão ho derradeyro Dabril : e Vicente odre e seu irmão ficarão, e quando a tor- nien- v
Liu. I. Ca?. LIIII. 4J menta veo as suas naos derao á costa, por mais ancoras que tinhão e forão espa- danadas : e foy morta muyta gente: antre ela morrerão os dous irmãos e perdeose tudo quanto estaua nas naos. E os nauios de Pero rafael e de Fernão rodriguez e de Diogo pirez escaparão onde se acolhe- rão e assi a carauela do Pero dataide que estaua a monte. E bem lhes pareceo que a perdição dos dous irmãos , fora pelo peccado que fizerão em não acodir a elrey de Cochim , e deixarem os Portugueses em tamanho perigo como ficauao: e por isso determinarão de se tornar a Cochim pera os a udarem se disso teuessem necessi- dade. E fizerao capitão mór a Pero dataide , c partirão na entrada de Mayo , c por ho inuerno da Índia lhe fazer já rosto passa- rão na viagem muyto grandes tormentas com que se virão quasi perdidos : e nao podendo arribar a Cochim tomarão Anja- diua : onde lhes fcy forçado invernarem por amor do tempo. E passados tres ou quatro dias que ali chegarão, chegou tam- bém hfía nao de que era capitão Antonio do campo , que indo com dom Vasco da gama lhe morreo logo ho piloto: e por isso foy sempre ao longo da costa pelo aue se deteue tanto, e com muyto traba- 10 chegou a Anjadiua , onde inuernarao to-
46 Da Historia da Índia todos , com assaz de fadiga , por não te- rem que comer. C A P I T O L O LV. De como partirão per a a índia por capi-, taes mores de tres armadas Fran- cisco dalbuquerque , e Afonso dalbuquerque , e Antonio de saldanha. D Este anno de mil e quinhentos e tres , parecendo a elrey de Portugal, que o Almirante dom Vasco da gama deixaria assentadas pacificamente as feytorias de Co- chim , e de C,ananor , e que não aueria necessidade de mandar grande armada , nao quis mandar mais de seys naos repar- tidas em duas capitanias. Das primeyras tres foy capitão mór hum fidalgo chama- do Afonso dalbuquerque, que despois go- uernou a índia , como direy no terceyro liuro. E forao seus capitães Duarte pache- co pereyra de que faley atras , e Fernão martins Dalmada que dizem que morreo na viagem de gordo : e este partio logo. Das outras tres naos foy por capitão mór Francisco dalbuquerque que foy seu primo Dafonso dalbuquerque. Fo-ao seus capitães Niculao coelho, que foy no descobrimen- to
Liu. 1. Caí. LV. 47 to da índia , e Pero vaz da veiga. Outra armada dc tres naos partio também pera descobrir ho estreito do mar roxo , e es- perar na boca dele as naos dos mouros de Meca: edesta foy capitão mór hum fidal- go Castelhano chamado Antonio de Salda- nha , e fòrão seus capitães Ruy Lourenço rodriguez rauasco, c Diogo fernandez pe- teyra" E esta armada partio despois das duas , de que a Dafonso dalbuquerque par- tio a scys Dabril , e a de Francisco dal- buquerque a quatorze. E assi huns como os outros passarão no caminho muytas tormentas , com que se perdeo Pero vaz da veiga. E Francisco dalbuquerque que partio derradeyro chegou primeyrò que Afonso dalbuquerque com Niculao coelho a Anjadiua em Agosto: onde ainda achou Pero dataide, e os outros capitaes que hi inuernarao, de que sabendo a guerra que era declarada delrey de Calicut, e delrey deCochim sobre os nossos, foy logo com toda a frota que era de seys velas, pera Cananor pera hi saber o que passaua em Cochim. E em Cananor fizerão os nossos, grande festa com sua vinda. E elrey foy falar ao mar a Francisco dalbuquerque , e contoulhe o que sucedera em Cochim , a onde elrey estaua. E sabido isto partiose logo pera Cochim , e chegou quasi noyte,
48 Da Historia da Índia a hum sabado dous de Setembro do mes- mo anno. E logo foy visto por elrey ter vagias , queá sabia sua vinda. E foy a fe.?ti muyto grande em Vaipim por sua chegida, não sómente em elrey , e nos Portugueses , mas em todos os moradores de Cochim : e fazião grandes tangidas, e folias : em que logo os de Calicut^ que estauao nis tranqueyras atentarão. E sa- bendo a causa disso , como foy noyte fu- girão pera Cranganor , e assi ho Milia mandado elrey de Calicut, que também sabia a vinda do capitão mór pela via de Cananor, donde foy auisado. E ao domin- go como foy manhaã Francisco dalbuquer- que foy surgir na boca do rio de Co- chim : e elrey ho mandou visitar polo nosso feytor. E a segunda feyra pela ma- nhaã deixando Francisco dalbuquerque as naos a recado se foy nos bateis armados a Vaipim: e assi leuou consigo as duas carauelas pera lhe ajudarem , se viessem paraós de Calicut. E indo hum pedaço das naos chegou Duarte pacheco : que sa- bendo ao que ya Francisco dalbuquerque se lançou logo no seu batel com algua gente, e partio apos ele com tanta pres- sa dos remeyros, que ho alcançou antes de chegar a Vaipim , onde ho elrey de Cochim estaua esperando á borda dagoa com
L i u. I. C a P. LV. 49 com os Portugueses , e com quanta gen- te estaua recolhida na ilha. E era ho pra- zer tamanho em todos , que vendo elrey de (. ochim os nossos bateis começou de bradar alto, Portugal , Portugal: e aiu- douho toda a outra gente. E os Portu- gueses dos bateys responderão pelo mes- mo modo, Cochim , Cochim a pesar de Calicut. E quando Francisco dalbuquerque saltou em terra , elrey ho leuou nos bra- ços com as lagrimas nos olhos de prazer, dizendo que não queria mais vida que ate ser restituído em Cochim , pera que sou- bessem os seus quanta rezao teuera de passar tanta fadiga por emparar os nossos , e seruir a elrey de Portugal: em cujo no- me lhe ho capitão mór deu muytos agra- decimentos , e lhe prometeo vingança de seus immigos : e de sua parte lhe deu dez mil cruzados pera gastar entretanto que não recolhesse suas rendas : e isto do co- fre que leuaua. O que elrey de Cochim teue em muyto , porque estaua muy po- bre. E os seus teuerão aquilo por grande- za : e foy muvto falado antreles e já lhes arecia bem fazer elrey o que fizera poios ortugueses. E logo elrey foy leuado a Co- chim , e entrou com grande alegria que fazião os seus: e os nossos que dali por diante* forão muyto bem quistos dos de Cochim. Liu. I. Tom. II. D E
jo Da Historia da Índia E não tardou nada que as nouas delrey estar dentro forao a elrey de Calicut e dos cruzados que lhe dera lio capitão mor. E vendo que a guerra se aparelnaua man- dou alguns Cai mais pera suas terras por confinarem com as delrey de Cochim. C A P 1 T O L O LVI. De como Francisco dalbuquerque começott de fazer guerra aos inimigos delrey de Cochim. MEtido elrey de posse de Cochim , Francisco dalbuquerque se despedio dele, pera ainda dali ate noyte lhe dar al- gua vingança de seus immigos , e foyse a ilha que está defrome de Cochim. E co- mo os moradores dela estauao bem fora de serem cometidos aquele dia, tomaran- nos os nossos de sobresalto , e fizerao neles grande matança , e queimarão^ alguas pouonções , e despois se embarcarão sem nenhua afronta. E indose Francisco dalbu- querque pera a frota , disse a elrey o que fizera. E ao outro dia tornou á mesma ilha pera a destruir de todo. E leuaua seyscentos homens , que tantos tinha com os dos nauios que achou : e yao c?!ye todos os capitães. £ ho Caymal da ilha
Liv. I. Cap. LVI. 5T o estaua esperando á borda dagca com obra de dous mil Naires , os mais deles fre- cheiros , e os outros de lanças , despadas, e escudos : que trabalhou quanto pode por tolher a desembarcaçao aos Portugue- ses , que sem receberem nenhum danno fuerão muyto nos immigos com as setas : e os fizerao fugir, indo apos eles ate á outra banda da ilha: e forão tão aperta- dos que não teuerão outro remedio senão lançarse ao mar. E ficando muytos mor- tos , e feridos : e não tendo os nossos com quem pelejar , poserão fogo ás po- uoações da ilha , e destruiranna toda. E ao outro dia foy Francisco dalbuquerque a outra chamada Charauaipim , que era duin Caymal vassalo delrey de Cochim, que fora em ajuda delrey de C alicut: por- que por espias delrey de Cochim sabia que estaua ho Caimal bem apercebido pera se defender: e tinha tres mil Naires, setecentos frecheiros , e corenta espingardeyros : c suas casas fortalecidas com tranqueyras E assi tinha por mar alguns paraós artilhados , que lhe dera elrey de Calicut. E estes es- tauão no porto , onde os Portugueses auiao de desembarcar , pera lhe tolher que não entrassem nele. E sobre isso ouue grande pele-a de bombardadas: e os immigos por aerradeyro fugirão, e os Portugueses fica- D ii rao
52 Da Historia da Índia rão no porto , onde estauao metidos na- goa ate á cinta grande numero dos immi- gos , defendendolhes que não pojassem em terra, tirandolhe muyta soma de frechas, e de lanças, e infindas pedradas. Mas co- mo a nossa artelharia começou de jugar , se afastarão pera ho sertão : e feytos ali em corpo; derão assaz que fazer aos Por- tugueses no desembarcar : porque se de- fendião muy rijo. E por mais que aperta- uão coeles, nunca deixarão ho campo de golpe, senão pouco a pouco se forão re- colhendo aos palmares. E ali com ho em- baraço que as palmeiras fazião se defende- rão hum pedaço, e despois fugirão sem nenhua ordem: e os nossos ho seguirão. E indo no encalço ho condestabre de Fran- cisco dalbuquerque, que se chamaua Pero de lares se achou só com tres Naires que virarão a ele, e hum deles lhe deu hua frechada nos peitos : e por amor dhum peito que leuaua lhe não fez nojo: e em ho Naire desfechando, desfechou ele hua espingarda que leuaua de tres tiros , e to- dos çeuados: e deu ao Naire pelos pey- tos, e vazouho da outra parte : e logo desfechou outra vez em num dos dous que ficauão e matouho : e nisto ho ferio ho terceyro com á agumia em hua perna, e quisera fugir , e Pero de lares ho matou com
Liv. I. Cap. LVI. 5-3 com a espada. E desbaratados os immi- gòs , pôsse Francisco dalbuquerque em ca- minho pera as casas do Caimal, que tinha recolhida nela sua gente , e estaua forte com tranqueiras. E leuaua os capitães re- partidos por ambas as bandas da ilha, ca- da hum com sua gente: e polo meyo da ilha a gente de Cochim. E nesta ordem yao todos queimando, sem auerquem lhes resistisse. E indo nesta ordenança sobreuie- rão alguns paraós' de Calicut da banda da ilha, por onde ya Duarte pacheco: e por serem muytos saltarão em terra , e peleja- rão coele, de maneyra que foy necessário acodir Francisco dalbuquerque corri a gen- te de sua capitania , e por achar muyto mais dura resistência nos immigos do que cuydou : e se temeo que acodisse ho Cai- mal com toda a gente que tinha: que ho poeria cm muyto grande trabalho. E man- dou a Niculao coelho , que coin Antonio do campo , e Pero dataiae, fosse dar nas casas do Caimal , ho que logo foy feyto. E Niculao coelho foy ho primeyro que chegou ás tranqueiras que ho Caimal ti- nha feytas diante das suas casas pera as ter mais fortes. E foy aqui a peleja muy- to grande , que antre os immigos auia muytos frecheiros, e com tudo os Portu- gueses pelejarão com tamanho esforço, que
£4 Da Historia da Índia que entrarão as tranqueiras. E ho primei- ro que sobio foy hum Garcm mendez mo- rador na vila de Santarém , escriuão da nao de Antonio do campo.^ E entradas as tranqueiras , os nossos lorão apos os ini- migos ate ás casas do Caimal, que hi foy morto defendendose muy bem. E assi forao mortos e feridos muytos dos seus , e as casas roubadas. E dos nossos forao feridos dezoyto, e hum morto. E no es- paço em que isto passou Francisco dal- buquerque , e Duarte pacheco desbaratarão os da armada de Calicut, ficando na praya muytos mortos , e feridos : e os outros se recolherão aos paraós e fugirão. E per memoria de tamanho feyto como este foy , armou Francisco dalbuauerque ali alguns caualeyros , que certo ho feyto foy pera isso: porque de tres mil Naires que ho Caimal tinha, os menos escaparão : e a ilha foy toda destruida a ferro e a fogo. E assi ficou elrey deCoçhim bem vingado do Caimal. CAt
L i u. I. C A P I T O L O LVII. De como Francisco dalbuquerque começou de edificar ho castelo Manuel. DEspois disto determinando Francisco dalbuquerque, de fazer guerra ao se- nhor de Repelim , partiose húa noyte com os outros capitães pera hum lugar seu , que está quatro legoas de Cochim , onde che- gou ao outro dia ás oyto horas. E esta- , uanno esperando á borda dagoa bem dous mil Naires : de que os quinhentos erao frecheiros. E chegando a tiro de berço de terra despararao sua artelharia , com que fizerao despejar a praya aos immigos , e recolherse aos palmares: e ali esperarão Francisco dalbuquerque : que desembarca- do com os nossos , os foy cometer, indo Niculao coelho na dianteyra , que logo com os seus deu nos immigos , e apos ele outros capitães. E neste primeyro encontro forão feridos alguns dos nossos , de fre- chadas que os immigos tirauão detrás das palmeiras, com que se emparauao : pelo 3ue vendo os Portugueses que lhe nao po- iao por diante fazer nenhum nojo , co- meterannos de traues , tirandolhe com as béstas , e espingardas, e derribando alguns os
56 Da Historia da Índia os fizerao fugir pera ho lugar, ate^ onde os forao seguindo : e no lugar fizerao ne- les muyto mór destroço que no campo, onde andauao espalhados: porque ali to- mauãonos juntos nas ruas , e podiannos melhor ferir: e matarão muytos , e outros fugirão. E ficando ho lugar despejado foy queimado, roubandoho primeyro os Nai- res de Cochim , a que Francisco dalbu- querque daua a saco todos estes luga- res , porque vissem os immigos , que não fazia a guerra por via de roubar , senão pera vingar elrey de Cochim Que quando ele tornou coesta vitoria, lhe fez muy alegre recebimento : e rogoulhe que se não posesse em mais trabalho, qfie se daua por vingado. E ele lhe dis- se , que posto que se desse por vingado, ele não estaua satisfeyto, que ho deixasse pelejar, que não auia por trabalho seruilo. E vendo quão contente elrey estaua, pe- diolhe licença pera fazer hua fortaleza de madeyra: porque despois que se partisse pera Portugal ficasse a feytoria delRey seu senhor segura , e assi os nossos : e que este seria ho mór semiço que poderia fazer a elRey seu senhor. Ao qué ele res- pondeo, que a elRey de Portugal deseja- ua ele de fazer outros mores seruiços que aquele. Porque de sua mão fazia conta que
Liu. I. Cap. LVII. 57 que tinha Cocbim , pois ele que era vas- salo lha restituirá , que podia fazer fortale- za , e quanto quisesse: e que logo a man- daria fazer á sua custa. Áuida esta licen- ça , acordou com os outros capitães, que se fizesse a fortaleza á borda do rio de Cochim , acima da cidade pera ho sertão, porque hi estaua mais segura : e defen- deria que não entrassem as armadas de ( alicut. E por não terem pedra , nem cal, nem oficiais que a fizessem , nem outros materiays necessários , fizerai.na de madey- ra , que elrey mandou cortar em abastan- ça , assi de palmeiras , como doutras ar- uores. E deu muyta gente pera fazer a obra , dizendo que não queria que os nossos trabalhassem : porque bem lhes abastaua ho trabalho da guerra : e com tu- do eles não deixarão de trabalhar. E os capitães se repartirão com sua gente : e começarão a fortaleza a vinte seys de Se- tembro do mesmo anno , de mil e quinhen- tos e três. E elrey ya muytas vezes ver como trabalhauão , e folgaua muyto de ver a diligencia dos nossos no trabalho , e di- zia que não auia tays homens no mundo, porque erão pera tudo. CA-
58 Da Historia da Índia C A P I T O L O LVIII. De como Afonso dalbuquerquc chegou a Cochim. AUendo quatro dias que a fortaleza era começada , chegou Afonso dal- buquerquc , que com tromentas e tempos contrairos não pode chegar mais cedo: porem trazia a sua gente saa , de que Francisco dalbuquerque ficou muyto ledo: e logo lhe deu parte da fortaleza pera a fazer com os da sua nao. E com sua vin- da se acabou em breue tempo: e por ser de madeira era tão forte e fermosa, co- mo podia ser outra de pedra e cal. Era feyta em quadra , e tinha o vão de noue braças de largo, e de comprido , as pare- des erão de duas andainas de palmeiras e outras aruores fortes metidas no chão per- cintadas , com percintas de ferro muyto fortes , pregadas com pregos muyto gran- des : e ho vão dantre as andainas era en- tulhado de terra e area. E destas andainas, tinha dous baluartes em cada canto, e to- dos bem artilhados, e era cercada de ca- ua que se enchia dagoa. E ao outro dia despois que foy acabada fizerão Francisco dalbuquerque, e Afonso dalbuquerque hua pro-
Liu. I. Cap. LVIIL 5*9 procissão , em que ho vigairo da fortale- za leuaua hum Crucifixo debaixo dum pa- ]yo , indo diante os trombetas tangendo com grande festa. E coesta solemnidade entrarão na fortaleza: que ho vigairo ben- zeo : e lhe foy posto nome Manuel , por honn-a de nosso Senhor, e por memoria dei Rey dom Manuel, de quem erao vassa- los aqueles que a edificarão. Benta a for- taleza foy dita hua missa cantada, e pre- gou hum frade de sam Francisco chama- do frey Bastão : e disse quantas graças deu ião de dar a nosso Senhor, por per- mitir que dum reyno tão pequeno como ho de Portugal , e da fim do occidente fossem Portugueses a terra tão longe, co- mo era a índia, fazer fortaleza antre tan- ta multidão de immigos de santa fé ca- tholica, que prazeria a nosso Senhor que aquela seria começo doutras muytas. E as- si disse a muyta obrigação que os nossos tinhao a elrey de Cochim, pelo que fize- ra por seruir a elRey de Portugal. Ho que clrcy de Cochim estimou muyto quando ho soube. E acabada a fortaleza tornarão Francisco dalbuquerque, c Afonso dalbu- querque , a proseguir a guerra , contra os immigos delrey de Cochim : e forao dar em huas pouoaçoes que estauão na borda dagoa cinco legoas ae Cochim , porque sa-
óo Da Historia da Índia sabião por suas espias, que auia ali pou- cos Naires. E partirão pera lá com sete- centos dos nossos duas horas ante manhaã, ás noue do dia chegarão ás pouoaçóes , em que aueria passante de seys mil almas , afóra os meninos , e os Naires de goarni- ção, que serião trezentos , e todos fre- cheiros. Afonso dalbuquerque desembar- cou na primeyra pouoação com alguns capitães , e Francisco dalbuquerque com os outros em outras, hum tiro de falcão desta. E como tomarão os immigos de sobre salto , fizerannos logo fugir : e mais porque em desembarcando foy pos- to fogo a tudo. E vendo os nossos fugir os immigos , seguirão apos eles e matarão muytos, e cansando de os seguir destrui- rão a terra , que neste tempo foy toda apelidada pelos immigos. E como he muyto pouoada ajuntaranse bem seys mil Naires , e derao sobre os nossos ao em- inente a Duarte pacheco 7 _ ho seu batel onde ho deixou. E carrega- rão tão rijo sobrele e sobre os seus , que lhe ferirão oyto com frechas , ainda que se defendião valentemente : e fazião grande matança nos immigos. Mas como eles erão muytos em demasia tratauãonos des- ta maneyra : e tratarannos peor , senão so- barcar, e apertarannos icipal
Liu. T. Cap. LVIII. 6r socorrerão os outros capitães mores , que estando embarcados se tornarão a desem- barcar. Ho que vendo os immigos fugi- rão , deixando ho chão cuberto de mortos e de feridos , que cairão com as espingar- dadas , e setadas. E fugidos queimarão os Portugueses quinze paraós que estauão varados, e tomarão sete que estauão no mar, e foranse, dando grandes apupadas, como que zombauão deles. O que ho se- nhor de Repelim cuja a terra era sentio muyto , e mais por quão mal prouido J10 acharão. E temendo que os Portugue- ses fossem sobre outra pouoação que es- taua hua legoa daquelas pelo rio acima, a proueo de gente de guerra. C A P I T O L O LIX. Do que Duarte pacheco fez em Repelim , e em Cambaleio. E Sabendo Francisco dalbuquerque , e Afonso dalbuquerque deste lugar , determinarão de ho destruir : e aquela mes- ma noyte partirão, e forão repousar dian- te da nossa fortaleza ate a mea noyte , porque chegassem em amanhecendo ao lu- gar a que yão. E com quanto fazia escu- ro partirão a estas horas: e como se não viao
6z Da Historia da Iwdia vião huns aos outros : receando Afonso dalbuquerque de ficar atras , mandou aper- tar ho remo , e coisto se adiantou tanto de todos que chegou ao lugar hum grande pedaço antemenhaá: e enfadandose des- perar disse aos seus que dessem no lugar , e ho queimassem , porque por os inimi- gos estarem descuydados de sua vinda ho fariao leuemente , e assi ho fizerao. E sen- tindo os immigos ho fogo leuantaranse lo- go e acodiranlhe : e indoihe acodir , de- rão os nossos neles e matarão alguns , e os outros fugirão , porque era gente mez- quinha e não tinhão armas. Porem os Nai- res que estauão em goarda do lugar que erao dous mil acodirão logo , e começa- rão de pelejar muy brauamente , e tanto que conueo a Afonso dalbuquerque mandar recolher os seus , porque não seriao mais que quarenta , de que lhe matarão hum , e outros estauão muyto feridos de frechas: e ouueranlhos de matar todos se se nao recolhera, o que fez com muyto grande trabalho, nem ho poderá fazer se os gro- metes que ficarão no seu batel poserão fogo a hum falcão, de cujo medo em des- parando se afastarão os immigos , e nisto amanheceo, e chegou Francisco dalbuquer- que : e quando soube o que passaua , mandou desparar toda a artelharia dos ba-
L i u< I* C a P. LIX. 6^ reis, pera fazer afastar os immigos que estauão na praya. E estando assi quisera Duarte pacheco desembarcar hum pouco afastado donde os outros estauão, e indo pera desembarcar achou muytos Naires de peleja, que passauao per hum passo muy- to estreito pera irem ajudar. E como aqui- lo vio, mandou poer ho batel perto daque- le passo, e com a artelharia lhe tolheo que não passassem , ao que logo acodirão os nossos, e pojarão todos em terra, e dan- do nos immigos os fizeião fugir : e por nao saberem a terra os não seguirão, e queimarão ho lugar. E Duarte pacheco e Pero dataide , se apartarão com sua gen- te , pera irem queimar outro que estaua mais acima , e de caminho desbaratarão dezoyto paraòs darmada de Calicut , e queimado o lugar a que yão tornaranse pera oa capitães móres. Que por ser ain- da cedo se forão á ilha de Cambalão pe- ra a destruir : por ho seu Caimal ser im- migo delrey de Cochim , e queimarão hua grande pouoação. E Duarte pacheco com seys paraòs de Cochim iby queimar outra , pelejando primeyro hum pedaço com muytos dos immigos, de que matou alguns : e queimado ho lugar se recolheo coin os seus, de que lhe ferirão sete: e recolhido pelejou com treze paraòs de Ca-
64 Da Historia da Índia licut, que desbaratou com ajuda de Pero dataide e Dantonio do campo que sobre- uierão. E acolhendose os immigos em hum esteyro entrou coeles Duarte pache- co e fez varar hum paraó , e tomouo: e entre tanto se acolherão os outros. E por os nossos terem os remeyros muyto can- sados os não seguirão, e tornaranse pera os capitães mores: com que se forão pera Cochim. E dando conta a elrey do que fizerao , ele se deu por vingado de seus immigos, e lhes rogou que não fizessem mais guerra. C A P I T O L O LX. De como Duarte pacheco desbaratou trin~ ta e quatro paraos. COesta guerra que digo não auia quem ousasse de trazer grão de pimenta a vender á feytoria , nem os mercadores se atreuião a buscala , e com quanto nisso trabalharão, não poderão auer mais que trezentos bahares dela , e mandarão dizer aos capitães móres que fossem por ela a noue legoas de Cochim: ho que eles logo fizerão , acompanhados dos outros capi- tães , e por não serem sentidos partirão de noyte , e no caminho destruyo Duarte pa-
L i u. I. C a P. LX. 6? pacheco hua ilha, pelejando com seys mil Naires , acompanhado sómente da gente da sua capitania. E os capitães móres des- baratarão trinta e quatro paraós dos immi- gos. E acabado isto , forão Duarte pache- co , e Antonio do campo destruir hua grande pouoação na terra firme, desbara- tando primeyro dous mil Naires, de que forão muytos mortos e feridos, e dos nos- sos nenhum : e coesta vitoria se tornarão pera os capitães móres , que mandarão lo- go pela pimenta que estaua dali perto : e já noyte se partirão pera Cochim, donde auião de mandar ho tone que leuaua a pimenta , carregado de mercadoria atroco dela , e pera ir seguro mandarão em goar- da dele a Duarte pacheco com tres capi- tães : e leuaua cada hum cincoeata dos nos- sos , e dos de Cochim quinhentos. E par- tido Duarte pacheco passou antemanhaã pelo passo estreyto que já disse : e por isso não foy visto , e sendo o dia bem claro , passou pela boca dua enseada , onde estauão frecheiros sem conto , que lhe tirarão com suas frechas , e se os ba- teis não forão apadessados receberão os nossos muyto dano , porque ho rio he estreyto , e chegauanlhe as frechas. E vendoos Duarte pacheco estar apinhoados parecendolhe que lhes poderia fazer mal, Liu. I. Tom. II. E dei-
66 Da Historia da Índia deixou hum dos capitães em goarda do tone, e ele com os outros dous , seguin- do hos de Cochim , poserão as proas dos bateis em terra , em que auia melhoria de dous mil homens , e mandando jugar os falcões que leuauão, por proa derão pelos immigos , de que cspedaçarao muytos , e os fizerão retirar tanto da borda dagoa, que aos nossos lhes ficou lugar pera poja- rem em terra sem perigo e assi lio rize- rão todos. E como os mais leuauão espin- fjardas , e bestas , forão dar Santiago ne- es , que já fazião rosto , tirandolhe tantas frechadas, que parecia toparense no ar huas com as outras, e pelejarão valente- mente huns e outros , e durou antreles quasi hum quarto de hora. E com tudo fugirão os immigos ficando muytos mor- tos porque não trazião armas defensiuas: e os nossos os forão seguindo ate hum lu- gar que estaua perto : de que sairão tan- tos Naires, que ajuntados com os que fu- gião, voltarão sobre os nossos e poseran- nos em muy grande aperto por serem bem seys mil homens, e muytos deles traba- lhauão por se meter antre ho rio e os nossos pera lhe tolher que senão acolhes- sem a ele , ho que os nossos não consen- tirão com assaz de trabalho. E assi como defendião ho rio se chegauão parele : no > que
Liv. I. CaP. LX. 6^ que fizerão todos muy grandes façanhas , e como forão perto dele os que estauão nos bateis se apartarão em duas partes ficando hua rua larga por onde os nossos se embarcassem sem lhes tocar a artelha- ria : com cujo medo os immigos deixarão embarcar sem nenhum ser morto nem fe- rido , que pareceo milagre , sendo os iin- migos tantos e eles tão poucos. E dali por diante ate ho tone ser em saluo nao achou Duarte pacheco mais perigo , e tor- nandose pera Cochim quasi ás dez horas do dia chegou ao passo , por onde pas- sou de madrugada e achouho todo çarrado de trinta e quatro paraòs qne estauão en- cadeados , bem fornidos de gente darmas : principalmente de frecheiros : e cada hum tinha seu tiro por proa : e em ambas as pontas do passo em terra esraua muyta gente que crendo que os nossos auiao de ser ali mortos, ou tomados acodião a ve- lo. E em os nossos aparecendo derão os immigos hua grande grita. Duarte pache- co que os vio mandou ter os bateis : e juntos disse a todos. Se nao soubera se- nhores que ha dous meses que pelejais coestes perros , e que sabeis suas rebola- rias : e que os conheceis , ainda que vos tenho por muyto esforçados, parecer ame que vos posera em afronta estarem como E ii es-
68 Da Histokta da Índia estão , porem não digo eu ha dotts. meses mas esta manhaa Deos seja louuado te- uestes vós a barba a perto de sete mil de que deixastes ho chão bem cuberto de Mortos : e assi fareis a estes com ajuda de nosso senhor , porque postoaue estem embarcados, a nossa artelharia lhe arrom- bará os seus paraós : ecomo eles sanimais alterosos que os nossos bateis não nos poderá fazer a sua outro tanto : poris- so com a confiança em nosso Deos demos neles leuando nossos bateis encadeados. Ao «que todos responderão. Que assi seria bem : e que não ya ali nenhum que ouues- se medo a tais perros. E encadeados os quatro bateis e os paraós de Cochim de- trás desparando logo sua artelharia a tiro despingarda forão cometer os paraós , bradando todos por Santiago, e os immi- gos derao também grande grita , e pose- rão fogo a seus tiros que passarão por al- to o que os nossos não fizera o antes ar- rombarão alguns paraós ao lume dagoa e os desencadearão. E acabando esta çurria- da estauão os nossos a tiro de lança dos immigos, que parece que com medo dos nossos os abalrroarem lhes derão lugar pê- ra que passassem : o que eles fizerão de boa vontade, porque não cuydauão que lhes auia de ser tão fácil. E toda via ti- ra n-
L i u. I. C a p. LX. 69 rando a artelharia e arremessos : e como passarão por eles viraranlhe logo as proas porque se os seguissem lhes tirassem com a artelharia, que despois de Deos cia era sua saluação, e segundo os immigos erao muytos ainda ela não abasta ua pera os de- fender : principalmente de dez paraós que os seguiao muy brauamente, e os outros trabalhauão por se ajuntar coestes, mas não erão remeyros : e isto ualia aos nos- sos , que de quando em quando fazião ar- remetidas os immigos , porque não cuy- dassem que lhe fugião. O que lhe ouuera de custar a vida , porque nestas arremetidas os outros paraós os alcançarão, e cercarão em redondo e apertauannos com frechadas e arremessos , e ferianlhe alguns : o que vendo os de Cochim fugirão pera lá que era perto : e disserão como ficauão os nossos : ao que os capitães mores acodirao logo: mas já seu socorro foy escusado: porque os nossos meterão dous paraós no fundo em que morrerão quantos estauão neles : e co- mo nos outros auia muytos feridos e mor- tos fugirão, e os nossos ficarão quasi to- dos muyto feridos : e por isso Duarte pa- checo os não quis seguir , e foyse pera Cochim. E no caminho achou os capitães móres que os yão socorrer, e com muy- to grande prazer chegarão a Cochim on-
7o Da Historia da Índia de lhes elrey fez grande festa, muyto es- pantado do que fez Duarte pacheco , e a ele mesmo rogou que lho contasse. E da- li por diante o teue em muyta conta. De como Afonso da!btic[uerc[ue foy carre- gar a Coulao e assentou feytoria. DO desbarato destes paraós foy logo auisado elrey de Calicut , assi como ho era de todas as cousas que passauão nesta guerra : de que tinha nossos da índia : a que naturalmente que- ria mal com medo que tinha de lhe toma- rem a terra. E por isso desejaua de os lançar dela: e ho procuraua com tanta di- ligencia , e assi em lhes tolher que não ouuessem pimenta. Porque fazia conta, que não a leuando pera Portugal, seria causa de não tornarem á índia : pois essa era a cor que dauão á sua vinda. E dali por diante proueo as armadas que trazia nos rios com tamanha força de gente, e tan- tas munições , qua nunca os nossos pode- rão auer mais de mil e duzentos quintais de pimenta dos quatro mil bahares que os mercadores tinhão prometido. E esta C A P I T O L O LXI. cuydado por desejar muyto foy
Liu. I. Cap. LXI. 71 foy auida com assaz bombardadas e lan- çadas , e com infindo derramamento de sangue dos immigos. E por derradcyro el- rey de Calicut teue maneira com os mer- cadores de Cochim, que não dessem mais pimenta ao capitão mór, escusandose com a guerra. E de tal maneyra estauão sobor- rados, que nem rogos delrey de Cochim , nem peitas de Francisco dalbuquerque os poderão mudar, pera que dessem pimen- ta. E desesperando de a auer em Cochim , foy Afonso dalbuquerque , com Pero da- tâíde, e Antonio do campo, a buscar car- rega d cidade de Coulão : porque sabia que seus regedores desejauão lá nossa fey- toria , pelo offerecimento que mandarão fazer a Pedraluarez cabral, e ao Conde al- mirante. Eleuaua determinado que quando lhe não quisessem dar carrega , que lhe fizesse guerra. Partido Afonso dalbuquer- que de Cochim com os capitães que di- go , chegou ao porto da cidade de Cou- lão , que está doze legoas de Cochim. Esta cidade como já disse, antes da edi- ficação de Calicut , era a principal do Malabar , e ho mais grosso e rico porto de toda aquela costa. E com tudo ainda he grande e fermosa, suas casas , pago- des, e mesquitas, sam como as de Cali- cut, e tem muyto bom porto he muyto abas-
72. Da Historia da Índia abastada de mantimentos, e sam como os de Galicut. Seus moradores sam Malabares gentios e mouros. Os mouros sam muy- to ricos , e grandes mercadores : princi- palmente depois que ouue guerra antre elrey de Calicut , e os nossos , que muy- tos mercadores de Calicut se forão lá mo- rar. Tratão pera Choramandel, Ceilão, ilhas de Maldiua , Bengala , Pegu , Çama- tra, e Malaca. Ho Rey desta cidade hí muy grande senhor de terra : em que ht grandes cidades , e muyto ricos porto; de mar , em que tem grandes dereytos: e por isso he muyto rico de tesouros, e muyto poderoso de gente darmas: de que a mór parte sam frecheiros. Traz sempre em sua goarda trezentas molheres, que também sam frecheiras , e muy des- tras em tirar. E trazem todas nas mamas htías fundas de panos de seda : com que as trazem tão apertadas que não lhe fazem nenhum nojo ao tirar. Tem ho mais do tempo guerra com elrey de Narsinga: e da lhe assaz que fazer. Ho mais do tem- po está em htía cidade chamada Cale: e tejn regedores em Coulão : em que está húa igreja que milagrosamente fez ho apostolo sam Thome, vindo ali prégar a santa fé catholica. E segundo a gente da terra tem , foy desta maneyra: amanhe- ce o
L i v. I. C a r. LXI. 73 ceo hum dia no mar hum muyto grande tronco daruore que encalhou na praya. E porque fazia nojo mandou elrey tiralo: mas nem gente, nem alifantes ho poderão tirar tamanho era , que nem sómente no mouião. E vendo ho apostolo que deses- perauão de ho tirar, preguntou a elrey , se tirandoho lhe daria hum pedaço de chão em que fizesse hua igreja cm louuor de nosso senhor Jesu Christo, que ho ali mandara. Elrey se rio dele vendoho tao fraco como ele andaua da muyta austinen- cia que fazia: e ele lhe respondco que ho poder de Deos com que ele csperaua de tirar aquele tronco era muyto mór que ho seu. Elrey lhe prometeo o que pedia , se ho tirasse. Então atou ho apostolo hum cordão, que trazia cingido em hum esSa" lho do tronco : e tirando por ele leuouho ate ho lugar onde queria. Do que todos sespantarão: e muytos se tornarao Chris- tãos : e elrey lhe deu lugar pei a a igi"eja j que ele logo começou de edificar. E por ser costume na terra , que quando se co- meça algua obra , antes que os officiacs lhe ponhão mão lhe dão certo arroz : e despois que começão lhe dao cada dia a noyte hua moeda chamada fanão que vai dezaseys reays. Quando ho apostolo ouue de começar a obra chamou os officiaes, e
74 Da Historia da Índia deu a cada hum tanta quantidade darea quanta ihe auia de dar darroz, que por virtude de nosso senhor se tornou nele. E despois que começarão de trabalhar daua a noyte hua cauaca a cada oflkial, e tor- nauase fanão: de que todos sespantauão muyto : e dizião que aquele homem era santo , e chamauanlhe Martama: e cada dia se conuertião muytos. E ainda agora antie os gentios deste reyno auerá bem doze mil casas de Christaos que de gera- ção em gerarão procederão destes. E tem antre si alguas igrejas : e isto no sertão. Assi acabou ho apostolo a sua igreja , que mandou enmadeirar daquele tronco. E ven- do clrey de Coulão quantos se conuertião por seus milagres , mandouho lançar fora de sua terra. E ele se foy a hua cidade chamada Malaipur , na mesma costa , e do senhorio delrey de Narsinga. E ainda aqui por ser persseguido dos gentios, segundo dizem os Christaos de Coulão , se aparta- ua só pelos matos. E andando assi dizem que hum gentio que andaua caçando vio estar muytos pauóes juntos no chão: c an- treles hum muyto mòr que todos , que estaua sobre hua lagia , a que ho caçador rez hum tiro com hua frecha, e atraues- souho . e leuantandose com os outros tor- nouse no ar corpo domem. Do que ho ca»' ça-
Liu. I. Cap. LXI. 75 çador espantado se foy contalo a cidade: de que veo lio gouernador dela velo: e vio que aquele corpo era ho de sam 1 ho- me , e na lagia estauáo figuradas duas pe- gadas domem. E ho gouernador lio man- dou enterrar em hua igreja que ali fabricara. E cnterraranno seus discípulos: e eles le- uarão a lagia que tinha as pegadas, e po- seranna junto da coua. E quando ho me- terão nela nunca lhe poderão meter de- baixo da terra o braço dereyto. E assi es- teue por muytos annos ate que ali forao Chins em romaria por I10 terem por santo. E quiseranlhe cortar ho braço pera lio le- uarem em relíquias pera sua terra. e em ho querendo fazer encolheose ho braço pera dentro e nunca mais foy visto. Esta igreja onde foy sepultado lie feyta como as nossas com cruzes no altar: e hua grande no meyo da abobada com pauocs por diuisa : e está muyto danneficada e cercada de mato , porque a cidade ie despouoada , e hum mouro poore tem cuydado dela por não auer na terra dei re- dor Christãos: e pede esmob aos que ali uão em romaria assi Christãos como gen- tios : "e os mouros lha dão também por estar na sua terra. Chegado Afonso dalbu- querque ao porto desta cidade, e saben- doho os regedores forao assentar coele pas
y(> Da Historia da Índia á sua nao, que se fez com condição que os nossos teuessem feytoria na cidade : e que pera aquelas naos lhe dessem carrega: no que se logo entendeo. E no tempo que aqui esteue em quanto hua nao carre- gaua andauao duas , duas legoas ao mar: vigiando as que passauão doutras partes e a todas fazião por bem, ou por mal que fossem seus donos falar a Afonso dalbu- querque, e darlhe obediência como a ca- pitão mór delrey de Portugal: e não lhe fazia nenhum danno somente ás dos mou- ros do mar roxo , e a estas queimaua des- pois de saqueadas por vingança do que fi- zerão a Pedraluarez cabral: do que os de Coulão auião grande medo. E acabada a casa da feytoria, e carregadas as naos dei- xou Afonso dalbuquerque nela por feytor a hum Antonio de sá com dous escriuães, s. Ruy daraujo , e Lopo rabelo , e ho Madeyra por lingoa, e frey Rodrigo por capelão, e Ruy dabreu, Pero lourenço, e Gonçalo gil: e outros que per todos fo- rão vinte , e deixandoos era paz , partiose pera Cochim. CA-
L i v. I. 77 C A P I T O L O LXII. De como se assentou paz antre Francis- co dalbuquerque e elrey de Calicut, e como foy quebrada. MUyto pesou aos mercadores mouros de Coulão do assento da nossa fey- toria porque a lóra lio odio que tinhão aos nossos parecialhes cjue os auião de fa- zer ir dali e trabalharão quanto poderão com elrey de Coulão: que não consentis- se a feytoria , e não lio podendo acabar meterão por terceyro a elrey de Calicut a quem escreuerao o que passaua. Mas tão pouco acabou como eles do que ficou muyto triste: e mais conheceo que pera lançar os nossos fóra da índia lhe aprouei- taua pouco não os acolher em seu porto , pois os reys de Cananor, de Cochim , e de Coulão os acolhião nos seus e lhes da- uão carrega. E vio claramente que não tendo paz com os nossos perderia suas rendas , porque os mouros que lhas dauão não tratauão como dantes com medo dos nossos. E tendo paz coeles tornarião a seus tratos • e ele cobraria seus dereytos, de que tinha perdido muyta parte. Pelo qual em todo caso lhe conuinha ter paz com
78 Da Historia da Índia com os nossos. E deitada esta conta , não quis dar parte dela se não a seu irmão, que lhe aconselhou que assi ho fizesse, dandolhe pera isso muytas rezóes. E se- cretamente mandarão recado a Francisco dalbuqucrque sobre as pazes , com condi- ção que pagaria em pimenta a fazenda que fora tomada a Pedraluarez cabral. E com o parecer dos outros capitães, e del- rey de Cochim foy assentada a paz com condição que elrey de Calicut mandasse despejar suas armadas que trazia pelos rios: e pela fazenda que fora tomada a Pedraluarez desse quatro mil e quinhentos quintaes de pimenta pera os leuarem na- quelas naos. E que auia de mandar entre- gar presos em ferros os Italianos arrenega- dos : e que nenhua nao de mouros de Ca- licut podesse nauegar pera ho mar roxo: e que auia de ser amigo delrey de Cochim. E coestas condições foy íeyto hum con- trato de pazes antre elrey de Calicut , e Francisco dalbuqucrque : somente se ti- rou a entrega dos dous arrenegados, em que elrey de Cal:cut não quis consentir. E tirando esta condição assinou elrey ho contrato. E isto foy feyto tão secretamen- te que nunca ho senhor deRepelim, nem nenhum dos mouros ho souberao se nao despois de feyto : do que eles ficarao muy-
Liu. I. Cap. LXII. 79 muyto escandalizados , e tão sospeitosos delrey que alguns se forao de Calicut. E este segredo teue Nambeadarim , porque a paz ouuesse effeyto : porque nunca ho ouuera se ho souberao os mouros. Assen- tada a paz , logo Nambeadarim se partio pera Cranganor: porque hi se auia de dar a pimenta que não quis que se desse em Calicut, por se escusarem brigas , ou ou- outras deferenças que poderião recrecer antre os nossos , e os mouros : e também pera dali poder logo recolher as armadas que andauão pelos rios E a Cranganor mandou Francisco dalbuquerque Duarte pacheco pera leuar a pimenta que podesse na sua nao: eque leuasse a hum caualeyro chamado Rodrigo reynel pera feytor da- quela pimenta, e coele dous escriuaes. Os quaes Duarte pacheco mandou a terra dandolhe primeyro Nambeadarim arrefens. E como ele desejaua muyto que esta paz fosse por diante fez aos nossos todo ho bom gasalhado que pode. E deu na car- regação da pimenta todo ho auiamento que foy possiuel : e deulhe oytocentos quintais de pimenta. E sabendo Francisco dalbuquerque a cousa como ya, porque se desse mór pressa , em quanto Duarte pa- checo descarregaua mandou a Niculao coe- lho que fosse por mais pimenta, e em quan-
8a Da Historia da Índia quanto hum descarregaua ya outro carre- far. E andando nisto, leuando hum dia uns Malabares hum tone de pimenta por dentro dos rios pera Cranganor, ho fey- tor de Cochim sem ho saber Francisco dalbuquerquc ho mandou tomar por ho- mens da feytoria , dizendo que elrey de Calicut com dissimulação de dar pimenta aos nossos mandaua ao mar roxo contra ho contrato das pazes. E a pimenta ioy tomada , e morto hum dos Malabares : do que Nambeadarim se aqueixou muyto a Duarte pacheco , porque conhecia a elrey seu irmão por tal que se auia de querer vingar , se Francisco dalbuquerque não desse disso algua emenda: mas ele a não deu. O que sabendo elrey de Calicut man- dou a Nambeadarim que soltasse pelos rios as armadas que tinha recolhidas , ate cobrar o que valia a pimenta que lhe tomarão. E reuolueose a cousa de modo que os merca- dores que lauauão pimenta á nossa feyto- ria de Cochim a não querião leuar. E Francisco dalbuquerque que via que tinha culpa naquilo, não ousaua de se queixar a Nambeadarim das armadas que soltara pelos rios, e dissimulaua. E mandou dizer aos mercadores que leuassem a pimenta a hum certo passo: e que ele a iria hi re- caber. E mandou lá Pero rafael na sua ca-
Liu. I. Cap. LXII. 8t carauela, e hum batel armado em sua com- panhia. E como forão no passo forão lo- go sobreles corenta paraós , e pelejarão coeles, e ferirãolhe muytos. E tão mal tra- tada foy a carauela , que foy necessário ao batel ir pedir socorro a Francisco dalbu- querquc, que lhe foy logo acodir: e com sua ida fugirão os paraós , e a carauela ficou tão furada das bombardadas que a leuarão ao porto da nossa fortaleza : e ti- raranna a monte pera a concertarem , e daqui ficarão as pazes quasi quebradas : e não se deu em Cranganor mais nenhua pi- menta , nem Nambeadarim não quis dar licença a Rodrigo reynel: nem aos outros com quanto lha ele pedio pera se ir pera Cochim , e disselhe que se não fosse por- que as pazes não erão quebradas de todo que ele espera ua de as tornar a assentar : e fazialhe o mesmo fauor que dantes, com todo lio gasalhado que podia ser, e ainda que Rodrigo reynel escreueo a Fran- cisco dalbuquerque que ho mandasse pedir ele não quis, dizendo que se deixasse es- tar , porque se ho mandasse pedir que- brarseyao as pazes de todo : o que ele não queria porque esperaua de as tornar a assentar quando passasse por Calicut pera onde estaua de caminho. Liu. 1. Tom. U. F CA-
81 Da Historia da Índia C A P I T O L O LXI1I. De como Francisco dalbuquerque e Afonso dalbuquerque se partirão per a Por- tugal , e deixarão por capitão mor a Duarte pacheco em Cochini. Stando as cousas nestes tennos foy dado hum recado a Francisco dalbu- querque de Cojebequim, mouro de Cali- cut que era grande amigo dos nossos co- mo já disse, que elrey de Calicut estaua determinado de tornar sobre Cochim des- pois de sua partida pera Portugal: e to- malo e fortificalo de maneyra que defen- desse o porto a armada que viesse. E pe- ra isso tinha aquirido todos os senhores do Malabar: e que se affirmaua que ho auiao dajudar elrey de Cananor e elrey de Coulao , e os mercadores mouros lhes dauao grandes ajudas. E ho mesmo es- • creueo Rodrigo reyncl dahi a poucos dias, e que elrey de Calicut ajuntaua gente e mandaua fazer muyta artelharia: e que os mouros de Cochim crao em sua ajuda , por isso que se nao fiasse deles. E dali a dous dias foy elrey de Cochim ver Francisco dalbuquerque e contoulhe ho mes
Liu. I. Cap. LXIII. 83 mesmo que ho sabia de huns bramenes que vinhao de Calicut, dizendolhe que oulhassem em que perigo fL-aua de perdei Cochim senão ficasse armada que ho de- fendesse , pondolhe diante quantos dannos tinha recebidos por soster nossa amizade: c como por essa causa se leuantarao os seus contrele e ainda lhe querião tornar a fazer a mesma guerra: e porem que ele confiaua tanto na ajuda dos nossos, que não queria outra pera se defender de seus immigos: por isso que lha não negassem. Ao que Francisco dalbuqucrque respondeo, que se ele soubesse quanto tinha ganha- do nos dannos que recebera por soster os nossos, que receberia outros muyto mó- res : se mayorcs podem ser. Porque dei- xando a fama que ganhara de verdadeyro e magnânimo: tinha cobrado por amigo a cl Rey de Portugal que era senhor da taes vassalos como vira , que também serião seus pera ho seruir quando com- prisse : e que com pouco trabalho ho fa- rião senhor doutras cidades mayores que as de Cochim : e cresse que assi como ho eles restituirão em seu estado, que assi ho conseruarião nele: e que ele cria tão pouco em elrey de Calicut, que posto que as pazes esteuerão mais firmes do que estauão não se fora da Índia sem F ii dei-
34 DaHjstoriadaIndia deixar nela hua armada, porque bem sa- bia quão pouco se elrey de Caiicut parecia coele em ser verdadeyro: e se dissimula- ua isto , era pera ver se podia acabar de carregar em paz : porque por guerra nao acabaria nunca : e acabauaselhe a moução de sua viagem. Coesta reposta fi- cou elrey satisfeyto , e não podenuo Fran- cisco dalbuquerque auer mais pimenta que a que tinha que era bem pouca , determi- nou de se partir pera Portugal , e pri- meyro declarar quem auia de ficar por ca- pitão mór na índia pera que ho soubesse elrey de Cochim. E como ele sabia que a ficada era muyto perigosa por a muyto pouca gente que podia deixar não ousaua de cometer a nenhum dos capitães que fi- casse , e por derradeyro de a offrecer a todos , e eles a não quererem a deu a Duarte pacheco que a aceitou de boa von- tade mais pera seruir a Deos e a elRcy : que por lhe ser proueitosa : que bem sa- bia quão pouca fazenda auia de ganhar em ficar na índia da maneyra que sabia que auia. de ficar: e sabendo elrey de Co- chim como ficaua , ouuese por contente disso polo que dele sabia. E despois dis- to se partio Francisco dalbuquerque leuan- do toda a armada com dizer a elrey de Cochim que a leuaua ate Cananor .por amor /
Liu. I. Ca p. LX1II. 8? amor da armada de Calicut que lio não salteasse: e por lhe não fazer algua roin- dade no seu porto onde se auia de deter: como deteue pera pedir Rodrigo reynel , e os outros que hi estauão. E sabido por elrey sua determinação , lhe mandou dizer que ho não leuasse: porque ele não auia as pazes por quebradas. E se quisesse es- perar , lhe acabaria de que não era verdade o que diziao cio ana- lo delrey de Calicut : ou deu a entender que lho parecia assi , porque ficassem de melhor vontade os que auião de ficar na índia. E não quis leuar Rodrigo reynel, nem os outros: nem quis esperar pera to- mar toda a pimenta, porque era já tarde. E vindo ali ter coele Afonso dalbuquer- que de Coulão se partirão pera Cananor, onde lhes Rodrigo reynel escreueo que a noua da ida delrey de Calicut sobre Co- chim era muyto certa, e que todos os ~~~ que fizera forão por me- tauão no porto. O que os capitães mo- res encobrirão , porque ho não soubesse Duarte pacheco, a quem deixarão na sua nao , e mais duas carauelas , de que erão capitães Pero rafael , e Diogo pirez: e hum batel de hua nao, e deixaranlhe no- auia de dar. E vendo queimar as naos que es uen-
85 Da Historia da Índia uenta homens: porque tirando os de que tinha necessidade pera marearem as naos , os mais estauao muyto doentes. E assi lhe deixarão a mais artelharia , e munições que poderão. E sabendo todos ho grande poder dclrey de Calicut , espantauanse de querer Duarte pacheco ficar com armada tão pequena : e dauanno já por morto, dizendo. Perdoe Deos ci Duarte pacheco, e aos que fie ao coele. E ainda que ho ele ouuia não deixou de ficar , mostrando que ficaua muyto contente, nem nunca pedio mais gente que a que lhe deixauão. E despachado partiranse os capitães mores pera Portugal ho derradeyro de Janeyro de mil e quinhentos e quatro , partindo primeyro Afonso dalbuquerque, e Francis- co dalbuquerque , e Niculao coelho se perderão no caminho , porque nunca mais ouue noua deles. E Fero dataide foy ter a Quiloa : e na barra se lhe perdeo a nao: e ele se saluou com algua gente com que se foy a Moçambique em hum zambuco: e hi morreo de doença. E primeyro que morresse escreueo hua carta pera qualquer capitão de Portugal que hi aportasse , em que contaua sua perdição , e como ficaua a índia. E Afonso dalbuquerque , e Anto- nio do campo chegarão a Lisboa a vin- te tres Dagosto do anno que digo. E Afon-
Liv. I. Cap. LXIII. 87 Afonso dalbuquerque contou a elrey como ficaua a índia e deulhe quatrocentos arra- tens daljofar c corenta de pérolas e oyto com conchas onde ho aljôfar nace, a que chamamos madre pérola , e hum diamão tauoleta tamanho como hua grande faua , e muytas joyas de pedraria , e dous caua- los hum arabio e outro persiano. C A P I T O L O LXIIII. Do que aconteceo a. Antonio de Saldanha e aos seus capitães ate chegarem d índia. ATras fica dito como Antonio de Sal- danha partio de Lisboa por capitão mór de Ruy Lourenço rauasco , e de Dio- go fernandez peteira pera andar darmada no cabo deGoardafum e descobrir despois ho estreito do mar roxo. Pois partido ele de Lisboa por culpa do seu piloto foy ter á ilha de sam Thome e daqui á quem do cabo de boa Esperança , affirmandose ho piloto que I10 tinha dobrado , e achouse atras dele onde agora se chama a agoada de Saldanha, que por Antonio de Saldanha ir ali ter primeyro e fazer agoada em hum rio que se ali mete no mar lhe ficou es- te nome : e daqui se partio Antonio de
88 Da Historia da Índia saldanha só porque os outros dous capi- tães já antes de chegar aqui se apartarão dele com tempo, e no caminho passado Moçambique tomou tres naos de mouros que se lhe renderão sem peleja, e coelas chegou a Melinde onde achou Ruy Lou- renço rauasco , que apartado dele com lio temporal que lhe deu foy ter a Mo- çambique , donde não achando Antonio de saldanha se foy a Quiloa , e despois de ho esperar alguns dias e não vindo se par- tio, e saindo do porto tomou dous zam- bucos de mouros de Mombaça que man- dou dar a elrey de Quiloa por lhe fazer honrra, e por andar por ali esperando An- tonio de saldanha se foy a htía ilha que sc chama Zanzibar vinte legoas a ré de Mombaça , que tem rey e he pouoada dc mouros, e antrela e a terra firme se faz hum canal, onde se Ruy Lourenço dei- xou estar bem dous meses em que tomou muytos zambucos carregados de mantimen- tos da terra, e despois se foy ao porto da cidade de Zanzibar onde chegou ao sol posto, e por isso não pode fizer mal a alguas naos e muytos zambucos que hi estauão: e ao outro dia lhe mandou elrey hum recado , que se ele era o que toma- ra os mantimentos que leuauão pera sua cidade que lhe perdoaua com tanto que ; > lhe
Liu. I. C a P. LXIIII. ?9 lhe desse a artelharia que leuaua e resti- tuísse o que tinha tomado. Ao que Ruy Lourenço respondeo , que se tomara os mantimentos fora por lhos não quererem vender : e que não costumaua de dar a sua artelharia nem lha auia de dar : e que se quisesse ser amigo delRey de Portugal que ho seria seu. Ouuida esta reposta por elrey , mandou embarcar muyta gente em paraós que tinha pera tomarem a nao: o que vendo Ruy Lourenço antes que os mouros acabassem dembarcar mandou lá hum Gomez carrasco por capitão do ba- tel com trinta e cinco homens que com hum tiro que leuaua começou desacodir os paraós antes que saíssem do porto , com cujo medo os mouros os começarão de despejar. E nisto chegou Gomes car- rasco a quatro que ainda estauão pejados, e aferrando coeles matou com os seus muytos mouros e os outros fez saltar ao mar , e tomando os paraós se tornou á nao e em se tornando chegou á praya hum fi- lho delrey com quatro mil mouros os mais frecheiros que ya acodir aos paraós , e deixaranse estar como que goardauão ho porto. E Ruy Lourenço que os vio da- 3uela maneyra , mandou depressa passar a nao alguns tiros a dous zambucos que tinlta cm que mandou por capitães Gomez car-
90 Da Historia da Índia carrasco e Lourenço feo que leuando tam- bém Jio batel se chegarão a terra iio mais que poderão. E ho filho delrey vendoos ir , cuy' ' erião desembarcar e eles fizcrão desparar sua artelharia e da primeyra çurriada derribarão trinta e cinco mouros segundo se despois soube, e antreles foy ho filho delrey e ouue muytos feridos , e os outros fugirão e forão dar as nouas a eirey , que por não ser destruido mandou pedir paz a Ruy Lourenço que lha deu com condição que ficasse Vassalo delRey de Portugal com pagar cem miticais de tributo cadanno e trinta carneyros. E ele foy contente , e pagou logo ho tributo daquele anno. Isto feyto foyse a Melin- de em busca Dantonio de saldanha que não era ainda vindo: e achou que elrey de Mombaça fazia guerra a elrey de Me- linde por ser amigo delRey de Portugal, e que estaua pera vir sobrele com muyta gente , do que elrey de Melinde estaua agastado: e Ruy Lourenço ho esforçou , dizendo que ele faria tanta guerra a elrey de Mombaça que ho deixasse: e partiose logo pera Mombaça e de caminho tomou duas naos e tres zambucos em que tomou doze mouros que erão os principaes re- gedores dua cidade daquela costa chama- aj untou leuauão as proas
Liu. I. C a P. LXIIII. 91 da braua que alem de sc resgatarem por muyto preço por saluarem hua nao que vinha atras em que traziao muyta riqueza se tizerao vassalos delRey de Portugal com quinhentos miticaes de tributo cadan- no que logo pagarão. E chegado Ruy Lourenço á barra de Mombaça pos-se ali pera tolher as naos que fossem de fóra que nao entrassem, e soube logo que elrey de Mombaça era partido pera Melinde , e assi era. E sabendo elrey de Melinde como ya lio sayo a receber e ouuerao ba- talha. E não ficando a vitoria com ne- nhum elrey de Mombaça se tornou logo, porque soube como Ruy Lourenço estaua 11a sua barra e temeose de desembarcar, e fazerlhe muyto danno na cidade por a pouca gente que lhe ficaua : e andando muyto depressa chegou a Mombaça onde achou que tinha recebido muyto grande perda de seus dereytos por as naos que Ruy Lourenço estoruara que não fossem a seu porto, e vio que lhe nao podia fa- zer outra mayor guerra que aquela. E nes- te tempo chegou Antonio de saldanha a Melinde. O que sabido por elrey de Mom- baça temeose que com seu fauor lhe fizes- se elrey de Melinde guerra, e por isso fez paz coelc. E vendo Antonio de sat- danha que elrey estaua em paz , partiose com
92 Da Historia da Índia com Ruy Lourenço., e dobrado lio cabo do Goardafum forão ter a hum lugar gran- de chamado Mete senhoreado por hum Xeque . com cujo consentimento Antonio de saldanha mandou fazer agoada, e fa- zendoha leuantaranse os mouros contra os Portugueses , que saindo bem da peleja com deixarem tres mouros mortos se re- colherão : e esbornbardeado ho lugar , não se quis Antonio de saldanha ali deter mais , e atrauessou á costa Darabia acima Daaeni pera ir inuernar a huas ilhas que se chamao de Canacani, e antes de che- gar a elas tomou duas naos de mouros : e querendo fazer agoada na costa não po- de por lho contrariarem os mouros per duas vezes , e tendo muyta necessidade dagoa por as ilhas a não terem, se partio pera outras que não pode tomar, pelo que lhe foy necessário irse caminho da Índia , e por ser já lá inuerno foy com muyto perigo tomar a ilha Danjadiua, on- de ho achou Lopo soarez como direy adiante , e Diogo fernandez peteira tam- bém passou muyta fadiga e foy ter a Cochim no cabo da guerra que Duarte pacheco teue com elrey de Caíicut como agora direy. CA-
L i u. I. 93 C A P I T O L O LXV, Do que ho capitão ' ~ 'eco e do que lá passou com elrey. PArtido Francisco dalbuquerque pera Portugal , Duarte pacheco que ficaua por capitão mór na índia , cm quanto se auia de deter em Cananor pera tomar man- timentos , foy surgir fóra da ponta de Ca- nanor: e dali mandaua a Pero rafael ardar de largo , e que lhe fizesse arribar quan- tas naos podesse : e ele ficaua só : porque Diogo pirez ficara em Cochim com sua carauela a monte. E Pero rafael fazia ar- ribar as mais das naos huas por medo de as meter no fundo com artelharia , ou- tras por sua vontade. Duarte pacheco sa- bia muy miudamente donde erão, e pera onde yão, e o que leuauão , e se achaua pimenta tomauanlha. O que fez a alguas naos que yão de Calicut. E tão rigurosa- mente ho fazia que era muy temido. E fazendo isto hua noyte derao sobrele ebra de vinte cinco velas tão de supito, que lhe fizerao crer que era armada de Calicut por as atoadas que disso trazia. E pola pressa em que se vio mandou alargar a fez em Cananor an-
94 Da Historia da Índia ancora pelo escouuem que a não pode le- uar pelo cabrastante. E dando ás velas se fez na volta do mar pêra se poer a balrauento daquelas velas , em que man- dou desparar sua artelharia. E como erão zambucos carregados darroz, acolheraose quanto poderão, e alguns vararão em ter- ra se não hua grande nao de mouros que vinha em sua conserua , em que irião bem quatrocentos que crão do reyno de Cana- nor. E parecendolhe que se podessem ajudar dos nossos andarão coeles ás fre- chadas , e bombardadas ate lio quarto dal- ua que disserão quem erão tendolhe mor- tos noue homens , e feridos muytos. E porque já neste tempo não ousaua de pas- sar por ali nenhua nao com medo de ser tomada , partiose Duarte pacheco pera Co- chim, e no caminho pelejou com alguas naos de mouros, e delas tomou e quei- mou , e outras meteo no fundo : e com muyto grande vitoria chegou a Cochim a nossa fortaleza onde soube do feytor que a noua da guerra delrey de Calicut era verdadeira , e que elrey de Cochim esta- ua com grande medo, e que os mouros de Cochim erão muyto contraíres a soster a guerra contra elrey de Calicut. E ao outro dia foy ver elrey de Cochim leuan- do seus bateys apadessados , embandeira-
L i u. T. C a r. LXV. 95" dos c artilhados: e fezse muyto dc festa pera que alegrasse elrey de Cochira, que sabendo quão pequena armada lhe ficara não se pode alegrar : e muyto triste lhe disse que os mouros de Cochim lhe ti- nhão dito que ele não ficaua na índia se- não pera recolher a fazenda da feytoria de Cochim com ho feytor , e os mais que estauao nela, e leuar tudo a Cananor, ou a Coulão : que lhe rogaua muyto que lhe dissesse se era verdade, porque a ele lho parecia segundo a pequena frota que lhe ficaua , nem ele não quereria ficar pera pe- lejar com tamanho poder como era I10 de elrey de Calicut, senão pera fazer o que lhe os mouros dizião : por isso que lhe dis- sesse a verdade, porque se era assi busca- ria seu remedio em quanto teuesse tempo: posto que ele ho tinha bem mao se ho ele desemparaua, pois não tinha outrem que I10 ajudasse: e conhecendo Duarte pache- co a desconfiança delrey agastouse muyto, e respondeolhe, dizendo. Muyto me es- panto ele ti tendo tanta experiência da lealdade dos Portugueses preguntarme se jiquey pera fazer tamanha treyçao como seria se fizesse em tal tempo o que te disserão os mouros: e crelos sabendo que sqm tamanhos nossos inimigos como está notorio: e sabendo tudo isto não deueras de
ç6 Da Historia da IríDiA de poer em prática hua cousa tão fára de rezão. Porque se a Francisco dalbuquer- que quisera fazer muyto melhor fora fa- zelo ele com todos os capitães , porque deixandome só pera ho fazer corro risco de me sair nesse mar bua grossa arma- da delrey de Calicut e tomarme. E que- rendo todauia que ficara pera ho fazer , ele to dissera e que ho fazia por se te- mer delrey de Calicut ' porque te tinha por tão arrezoado que te não parecera mal faze lo por essa causa: pois dela te resultaua proueito que ficauas liure da amizade delrey de Calicut , o que se os mouros bem atentarão não disserão tama- nha falsidade , e crê que se nos podessem empecer em mais que ho farião , e a ti pelo amor que nos tens, e eu ho sey muy bem : mas não te dê disso, que posto que percas a eles e aos outros de teu seruiço cobras a mim e a quantos Portugueses qua ficão que morreremos todos por te se ruir se for necessário : e pera isso fi- camos na índia , e eu principalmente : que ninguém me obrigaua a isso-, se eu não quisera. Mas obrigoume ho desejo que tenho de te seruir pola fé que goar- daste aos no*sos ate perder Cochim , e ho ver queymado. Do que te deues de prezai muyto '■ pois por isso se estendera tua
/ L i u. I. C a p. LXV. 97 grande fama per toda a terra: e ficará teu louuor per a sempre, que he ho melhor tesouro que os reys podem deixar > e porque mais trabalhão os bons. E crê que elrey de Calicut ficou vencido em te quei- mar Cochim. E assi como foste despeis bem vingado de teus immigos pelos Por- tugueses , assi serás agora ajudado , e emparado por eles: que ainda que pare- çao poucos , e a frota muyto pequena, eu te prometo que muyto cedo pareçamo.s mus tos nas obras , que espero em nosso senhor que auemos de fazer em defender qualquer passo , por onde elrey de Cali- cut quiser entrar : e que hi ho auemos desperar : e nos não auemos de mudar de noyte nem de dia. E pera os passos que são estreitos sobeja a nossa armada. E por isso me não ficou mayor, que pê- ra os rios abasta esta. Epois me a mim escolherão pera ficar, cre que sabino que deixauão quem te escusará de trabalho, e os teus de fadiga. E eu , e os que co- migo ficão, auemos de ter sobre nós todo ho peso da guerra. Tu folga , e descansa , que prazendo a nosso senhor nao ha de ser como da outra vez, que perdeste Co- chim. Liu. I Tom. II. G CA-
98 Da Historia da Índia CAPITOLO LXVI. De co:no ho capitão mór Duarte pacheco fez que nao despouoassem a cidade, os mouros de Cochim. ASsessegado coisto elrey, doaluoroço em que os mouros ho tinhão poste: foy ver Duarte pacheco os passos de Co- chim , pera fortalecer os que teuessem dis- so necessidade , e achou que nenhua nao tinha senão ho dovao, em que man- dou fazer hua estacada pera ho çarrar , que nao podesse entrar nenhum nauio dos inimigos. E neste tempo foy auisado per carta de Rodrigo reynel , que çamalama- car hum mouro principal de Cochim , e assi os outros trabalhauao quanto podiao por se despouoar a cidade , porque elrey ficasse só, e sobristo fora çamalamacar fa- lar duas vezes a elrey de Calicut , e lhe escreuia cartas : do que Duarte pacheco fi- cou muyto agastado : e por atalhar que nao ouuesse efeyto aquele ardil, pareceo- lhe que seria bom enforcar çamalamacar, pera que os outros ouuessem medo. E sa- bendoho elrey de Cochim não quis , di- zendo que se enforcasse aquele , os outros se amotinarião logo, e não aueria manti- inen-
Lm. I. Cap. LXVI. 99 mentos na cidade , porque eles os man- dauão trazer por mercadoria , por isso que seria melhor dissimular. E vendo Duarte pacheco que elrey não queria, disselhe que queria fazer htía pratica aos mouros : e que tinha cuydado hum ardil pera que se não fosse ninguém da cidade, que mandasse aos seus que lhe obedeces- sem no que lhe mandasse. Ho que elrey mandou perante ele mesmo: e isto man- dado , ele se foy com obra de corenta dos nossos a Cochim a casa de Belinamacar, hum mouro mercador honrrado que mora- ua perto do rio : e rogoulhe que mandas- se chamar certos mouros que lhe nomeou: porque lhes queria dar conta de hua cousa que releuaua a todes , a que os mouros forão logo , porque lhe auiao grande medo , e vindo eles lhes disse. Mandeyuos chamar honrrados merca- dores , pera vos dizer o porque fiquey na índia, porque quica ho não sabeis todos, t por isso dizem alguns que fiquei pera recolher a feytoria, e leuala a Coulaoj. ou a Cananor: e porque saybais que não he assi vos quero dizer a verdade. hu não fiquei pera outra cousa senão pera goardar Cochim : e se for necessário mor- rer com quantos ficarão comigo sobre vos
ico Da Historia da Índia defender delrey de Calicut: e isto vereis claramente se ele vier, que vos prometo que ho hey de esperar no passo de Cam- balao , per onde me dizem que quer en- trar : e ali se ousar de pelejar comigo prende lo per a ho leu ar a Portugal, li ate que não vejais ho contrairo disto , vos rogo tnuyto que não vos vades de Cochim donde sey que estais abalados pera vos ir, e ãluoroçais ho pouo pera isso : e como soys os"principais, tomao os outros de vós exemplo pera ho fazer: e eu me espanto muyto de homens tão sesudos co- mo vós, quererdes deixar as casas em que nacestes , e a terra em que morais ha tanto tempo , não com medo do que vistes, mas do que somente ouuis, que ainda pera molheres he cousa fea , quan- to mais pera vós, que se vos quiséreis ir com me verdes desbaratado, não vos posera culpa , mas fazerdelo sem me verdes dar batalha, ou he por couardia, ou por malicia : pois sabeis que ainda ontem tão poucos Portugueses vencemos a esses milhares dimmigos, que agora, vos hão de vir buscar , e se me dtzeis que éramos mais do que agora somos, as si então auiamos de pelejar em campo largo , onde era necessário sermos muy- tes : e agora em passo estreyto tanto aue- mos
Liv. I. CAI\ LXVI. ioi mos de fazer poucos como muytos , pois se eu sey pelejar, bem ho ouuirieis di- zer : porque eu fuy bo que fiz mais dan- no aos inimigos, e bem ho' sabe elrey de Cochim, que mais perderão que vós se eu fosse vencido. É confiado em mim e nos que ficarão comigo , espera ate verem que per a este feyto que esperamos , e pois ele espera , vós porque vos ireis. Lem- breuos que eu e os que ficarão comigo , ficamos na índia tão longe de nossa ter- ra pera defender elrey ae Cochim. E vos seus vassallos, e naturais da terra que- reis desemparar a ele e a ela: cousa muy vergonhosa he esta pera poleás: quanto mais pera homens tão honrrados como vós : pecou os muyto que não façais tama- nha deshonrra a vos mesmos , nem a mim tamanha injuria, em desconfiar que vos clefenderey , porque vos dou minha fé, que vos posso defender doutro poder mayor que ho delrey de Calicut, e por is- to me escolherão pera este feyto-. que bem^ sabiao os que me deixarão na índia a guerra que elrey de Calicut auia de fi- zer , e ho poder que tinha , por isso vos torno a rogar que cr cais que sendo f» viuo que nunca elrey de Calicut metera pé em Cochim. E rogouos que ninguém bula consigo, porque quem fizer outra
ioi Da Historia da Índia cousa saiba certo que se ho tomo que ho ey denforcar , e assi ho juro por minha íey , e sabe que ninguém me pôde escapar : porque aqui ey destar neste porto "vigiando de aia e de noyte, e agora veja cada hum o que lhe cumpre: e se jizer o que lhe rogo termeha por amigo , e senão por inimi- go , e mais cruel do que espera que ha de ser elrey de Ca icut: e cada hum diga logo o que quer fazer. E dizendo isto acendeoce tanto em ira, que sem artentar por isso falaua tão alto como que peleja- ua com alguém : e tinha o rosto tão ver- melho que parecia verter sangue, com que aos mouros se lhe dobrou tanto ho medo que tinhão dele , que cuydauão que os queria logo enforcar, e começarão de se lhe disculpar do que lhes dizia. E ele os não quis acabar douuir , pera lhes fazer mór medo. E mandou logo surgir a nao defronte de Cochim , e hua das carauelas , e os dous bateis , postos em tal compas- so, que ninguém j>odesse sayr de Cochim per mar , que nao fosse visto: e tinha também muytos paraós esquipados , com que de noyte vigiaua os rios que cercauão a cidade. E como era sol posto, tomaua rodos os barcos que podião leuar gente e fato , e mandauaos amarrar aos seus na- uios, e faziaos vigiar : e pola manhaã os tor-
Liu. I. Ca?. LXVI. 103 tornaua a seus donos. E continuamente corria estes rios , amanhecendo e anoyte- cendo em diuersas partes: porque não te- uessein dele neniiua certeza : e pera que lhe ouuessem medo, mandaua prender al- guns dissimuladamente, e mandauaos acu- sar pelos nossos que se queriao ir: e ti- nhaos presos , com dizer que os auia de mandar enforcar. E andando vigiando hua noyte , topou quatro macuas , que são pes- cadores , pescando sem sua licença : e fez que sospeitaua que se queriao ir, e pren- deos em ferros , dizendo oue os auia de mandar enforcar. E sabendoho elrey , e crendo que os auia denforcar mandoulhos pedir: do que se ele mostrou muyto me- nencorio, dizendo que não auia de fazer ley pera a não goardar , por isso que lhos não auia de mandar: e que os auia den- forcar. E logo os mandou leuar pelo seu meirynho a hua ilha pera que os enforcas- se : e secretamente lhe disse que lhos tor- nasse a trazer, e mandouos meter debaixo da cuberta da sua nao : onde despois de os ter escondidos alguns dias, os mandou a elrey muyto secretamente, porque se nao soubesse que os nao enforcarão. E coisto lhe ouuerao tamanho medo, que ninguém ousaua de sayr de Cochim sem sua licen- ça : e com isto se assessegarão os mouros e
IC4 Da Historia da Índia e gentios. E com todos estes trabalhos Sue Duarte pacheco tinha , as mais das noytes saya em terra de Repelim , em que queimaua lugares , mataua gente, tomaua vacas , e barcos, e lhe fazia muytos ou- tros dannos : de que os mouros de Co- chim sespantauão muyto, como podia so- frer tanto trabalho , e dizião que era diabo. C A P I T O L O LXVII. De como ho capitão mór Duarte pacheco fez hum salto cm terra de Repelim, e de como se par tio per a ho pas- so de Cambai ao a esperar elrey de Calicut• NEste tempo foy certificado elrey de Cochim , que elrey de Calicut era chegado a Repelim , pera hi ajuntar sua £ente 'Je *rse a Cochim pelo passo de Cambalao. E o mesmo recado escreueo Rodrigo reynel , que a este tempo ficaua muyto doente , e morreo despois. E elrey dc Calicut mandou tomar quanto lhe acha- rão. E sabendo os mouros de Cochim que elrey de Calicut estaua em Repelim , quiserão aluoroçar ho pouo pera que fu- gissem: mas ninguém ousou de ho fazer, com
Liu. I. Ca P. LXVII. 105: com medo de Duarte pacheco. E jde que isto sabia , por mostrar a todos quão pou- co temia elrey de Calieut, nem a seu ex- ercito e armada, deu hua noyte em nua pouoaçao de terra de Repelim a horas que todos dormiao e poslhe ho fogo. E ele bem ateado forão os nossos sentidos , e acodio logo grande multidão de ísaires , assi do lugar como dos derredor. E Duar- te pacheco se recolheo aos bateis com muyto perigo , e feriraolhe cinco homens . e dos inimigos ficarão muytos mortos e feridos: e com tudo os viuos seguirão os nossos hum bom pedaço em se tornando pera Cochim. E tantas forão as frechadas sobre os bateis que as padessadas yao to- das cubertas de frechas. E sabendo elrey de Cochim como era chegado á fortaleza foyho ver, porque ouue por muyto gran- de cousa ousar ele de saltear a terra, em que cstaua elrey de Calieut tao poderoso, e assi lho disse. Do que Duarte pacheco se rio , e disse que não queria senão que acabasse elrey de Calieut de chegar , e que rompesse cocle batalha, e ali veria pera quanto erão os nossos. E deixando coisto assessegada a gente de Cochim, e também com fazer hua fala aos principais, ordenou sua gente , que ^se queria partir pera ho passo de Cambalao. E na sua nao
io6 Da Historia da Índia deixou vinte cinco homens com lio mes- tre delia , que se chamaua Diogo pereyra, que deixou por capitão em sua ausência : e deixoulhe bem dartelharia e munições pera se defender. E os nomes dos que fi- cauao coele erao, Christouao pirez escri- uao da mesma nao, Aluaro vaz , Afonso aluarez , João do porto , João pirez , João girarte, Rodrigo afonso, Simão aluarez , Bertolameu, Antonio vaz , Aluaro dobi- dos , Diogo de coruche , Francisco ra- mos , Aionso do porto , Paulo genues: aos outros^ não soube os nomes. Na forta- leza ficauao trinta e noue homens , cujos nomes erao: Diogo fernandez correa fey- tor , e alcaide mór , Lourenço moreno , Aluaro vaz , escriuães da feytoria, Aires lopes alcaide pequeno , ho vigairo João de Santiago, Gonçalo fernandez , Simão mazcarenhas , frey Gastão , Diogo fernan- des, Ruy gomez, João fernandez , João pirez , Aluaro cotano barbeiro , Andre diaz , Goterre, João pirez, Aluaro da- breu , Coronel , Pero fernandes , Fernão soarez, João de sogouia mercador Caste- lhano , ho Teixeira, Lopo de carualhais, João fernandez , Tristão de repeda ciriei— ro , Bastião dalmeida , Marfim bombardei- ro , Christouão jusarte , João caramenho , Manuel martinz criado do Ifãnte, Diogo
Liv. I. Caí. LXVII. 107 fernandez criado do bispo da Goarda, João Luys , Pero ribeyro, João do basto, Rodrigo correa , Diogo rodriguez , Jcao marquez , Lião rodriguez. E os que leuou forao estes , Pero rafael, que era capitao da carauela santa Elena , leuaua vinte quatro homens coele : que forao Duarte fernandez escriuão : Esteueanes mestre, Francisco fernandez , Pedreanes , João diaz, Lourenço darmada , Pero vaz , Jorge do porto , Gonçalo fernandez , João fernan- dez , Francisqueanes , Niculao lures Pero coelho , Pero bras , Maçarelos , João de leça , João de Santarém , Bautista genues, Isbrão dolanda , Pero^ alemão , bombar- deiros , e dos outros não soube os nomes. Em hum dos bateis, em que mandou que andasse Diogo pirez capitão da caraue- la santa Maria , em quanto se lhe con- certaua, forão Rodrigo esteuez , Manuel gonçaluez mestre da carauela , Bras fernan- dez , João de caminha , Pero mendez , Diogo de bragança, Saluador gonçaluez, Antonio delgado , Luys de maçans , João gonçaluez, Fernando de sam Pedro , ho Cardoso , ho Leytão , Domingueanes, Diogo de sam Pedro, Francisco Castelha- no , Afonseanes , Adão gonçaluez , Per- uando desmeralda , Fernando do mestre , Diogo rodriguez pequeno, Ausbrote , Mi-
108 Da Historia da Índia guel afonso bombardeyros. Ho capitão mór foy em outro batel, em que leuaua estes homens que erão coele vinte e hum. s. Simão dandrade, que era ainda moço, Afonso anibal, João fernandez, João de vale meirinho da carauela santa Martha, Antonio gomez, Lopo de çancal, Matheus bombardeiros, Pero vaz , Tristão fernan- dez , Garcia afonso , Inhigo de Portugale- te , Marcos luys , Pedreanes carpinteiro, Jorge grego, João gomez hojardo, Dio- go fernandez , Diogo canario , Joio de vila de conde , Jeronimo pirez , Fernão luys : e por todos erão setenta e tres os da carauela, e dos bateis. E todos con- fessados e commungados , se partio Duar- te pacheco pera ho passo de Cambalao em sesta feyra de ramos dezaseys Dabril de mil e quinhentos e quatro. E desamar- rouse do porto com muyto prazer e festa de tiros e folias. E chegando defronte de Cochim foy falar a elrey que ho esperaua á borda dagoa tão triste que ho não po- dia encobrir. E Duarte pacheco fazendo que ho não entendia , lhe disse , que ali yao todos com muyto grande vontade pera ho defender delrey de Calicut: a aue yão buscar, porque não cuydasse que lhe auião medo. Elrey se sorrio como por for- ça : e deulhe quinhentos Naires de cinco mil
Liu. I. Cap. LXVII. 109 mil que tinha, de que fez capitães Can- dagorá , e Frangorá seus vedores da fa- zenda , e ao Caimal de Palurte, e ao Fa- nicai darraul, a que mandou que obedeces- sem a Duarte pacheco como a sua pró- pria pessoa. E acabado isto oulhou elrey pera a nossa armada, e pera os seus Nai- res e entristeceo-se muyto , como quem via quão pouca cousa aquilo era em com- paração do poder delrey de Calicut: c disse a Duarte pacheco. Lembrame ho pe- rigo em que te vejo: e o que me aconte- ceo ho anuo passado : rogote que queiras o que poderes: e não te engane o coração. E lembrete quanto perde elrey de Portu- Í\al se te perdes. E coesta derradeira pa- aura se lhe arrasarão os olhos dagoa: do que se Duarte pacheco agastou muyto, e aisselhc que mais podião poucos e esfor- çados , que muytos e couardos. E se os nossos erão esforçados bem ho tinha vis- to : e quão couardos erão os immigos. E que no lugar onde os auia desperar pou- cos abastauão pera ho defender: por isso que se não agastasse. E coisto se partio, e chegou ao passo de Cambalão duas ho- ras ante manhaã. E não achando nenhum sinal da vinda delrey de Calicut, foy dar em hua pouoação do Caimal da mesma ilha, onde chegou em amanhecendo. E no
tio Da Historia da Índia no porto estauao cm terra bem oitocen- tos frecheiros com alguns espingardeiros. E posto que sobre os nossos chouião muytas frechadas , e espingardadas , as padessadas os defendião , que erao de ta- uoas de grossura de dous dedos. E che- gando a terra despararão sua artelharia, com que fizerão alargar ho campo: e eles desembarcarão. Porem logo os immigos tornarão sobrei es, e teueraolhe rosto bem mea hora: e despois fugirão ficando muy- tos mortos. E como já os nossos tinhao posto fogo ao lugar, e andaua bem atea- do , recolheose Duarte pacheco: e tornan- dose ao passo matarão os nossos cm ter- ra muytas vacas que leuarão , posto que bem contrariados pela gente da terra. E sendo já no passo, mandoulhe ho Caimal de Cambalao pedir pazes com hum pre- sente que lhe ele não quis tomar, nem fazer paz coele por ser immigo delrey de Cochim : donde lhe chegou recado per hum Bramene, que ao outro dia lhe auia elrey de Calicut de dar batalha: e que es- taua injuriado de se lhe ele poer naquele passo por onde queria entrar. E disselhe que se affirmauão todos que elrey de Ca- licut ho auia de prender: ou matar na ba- talha. Ao que ele respondeo que aquilo esperaua ele de fazer a elrey por amor do
Liu. I. CAP. LXVII. iii dia que era de grande solemnidade pera cs Christãos : que mal acertarão os seus feyticeyros de lhe prometerem a vitoria em tal dia. Hum Naire que vinha com ho Bramene ouuindo dizer isto , disselhc rin- do como por escárnio : que lhe via muy pouca gente pera fazer o que dizia, e que a delrey de Calicut cobria a terra e ho mar: que como auia de ser vencido Do que ele ouue muyto grande menencoria, cuydando que fosse delrey de Calicut, c deulhe muytas bofetadas , dizendo que lhe fosse dizer que ho vingasse: do que os outros ficarão com tamanho medo que nunca mais ousarão dabonar a elrey de Calicut. E aquela tarde lhe mandou elrey de Cochim quinhentos Naires de que ele não fez nenhua conta , nem dos outros: porque sabia que auião de fugir: e no.» nossos despois de nosso senhor tinha con- fiança. E todos aquela noyte fizerão gran- des alegrias , porque soubesse elrey de Calicut que ho não temiao, e mostratnio muyto esforço pera lhe dar batalha. Do que estaua muyto ledo e antes que ama- nhecesse lhes disse a todos. Senhores e amigos meus o prazer e con- tentamento que vejo em vós tenho por muy- to certo pronostico da grandíssima mercê que
iii Da Historia da Índia que nosso senhor auerd por seu seruiço de nos fazer oje, e creo verdadeiramente que assi como nos dd ousadia , per a que sendo tão poucos ousemos desperar a tan- tos milhares de gente como sam nossos inimigos : que assi nos ha de dar esforço per a lhe resistirmos : e que quer oje fa- zer tamanho milagre como este será, pê- ra que seja conhecido seu poder: e sua santa fé exalçada, e da sua parte vos peço eu que assi hc creais, porque sem isso ainda que nós fossemos tantos como os immigos, e eles tantos como nós: to- das nossas forças não sericio nada per a os vencer , e sendo como digo toda a multi- dão dos immigos vos parecera muyto pouca pera os vencerdes , e eles vos julgarão pelo dobro do que eles sam pera vos te- mer : e crede que se vindo oje com tama- nha presunção por serem muytos : e te- rem por tão certo de vos tomar vos ou- uerem medo, daqui por diante lhes fica- rão os spiritos tão quebrados pera vos cometer, que se ho fizerem mais ho farão por medo delrey de Calicut, que por von- tade que tenhão pera isso. Por tanto lem- breuos que coes ta confiança aueis de pe- lejar pera vos nosso senhor fazer tama- nha mercê como será daruos vitoria com honrra sobre todos os Portugueses : e fa- ma
Liv. I. Cap. LXV1I. 113 ma antre os estranjeiros, e merecimento diante delrey nosso senhor pera vos fazer mercês com que sustenteis vossas vidas. Ao que todos responderão , Que no comba- te veria quão bem lhe lembrauao suas pa- lauras : e logo em giolhos disserao a Sal- ue regina entoada: e despois húa Aue Ma- ria com voz baixa. E nisto chegou Lou- renço moreno da nossa fortaleza : e trazia quatro dos nossos espingardeyros pera se achar no combate, e Duarte pacheco fol- gou muyto com sua vinda por ser muyto esforçado. C A P I T O L O LXVIII. De como elrey de Calicut combateo os nossos no passo de Cambaiao : e de como foy desbaratado. ESta noyte por conselho dt>s dous Ita- lianos arrenegados mandou elrey de Calicut fazer hua estancia de cinco bom- bardas defronte donde estaua Duarte pa- checo pera dali lhe darem combate quan- do ho dessem por mar, porque pola es- treiteza do passo lhe podião fazer muyto danno. E como amanheceo que foy domin- go de ramos, abalou elrey por terra com corenta e sete mil homens de peleja antre ■Liu. L Tom. II H Nai-
H4 Da Historia da Índia Naires e mouros , e acompanhauanno aqueles reys e Caimais que ho ajudauão com suas pessoas e gente. s. Betacorol rey de Tanor com quatro mil Naires, Catanambari rey de Bipur , e de Cucurrao junto da serra de Narsinga com doze mil Naires, Cocagatocol rey de Cotogao an- tre Cananor , e Calicut junto da serra com dezoyto mil Naires, Curiuacuil rey de Cu- riua, antre Panane, e Cranganor com tres mil Naires , e assi Nambeadarim príncipe de Calicut, Nambea seu irmão, e delrey de Calicut, Paranhira eratocol senhor de Cranganor, Elancol nambeadarim senhor de Rcppiim , Papucol senhor de Chalião antre Calicut, e Tanor , Parinhara muta- coil senhor da terra que está antre Cran- ganor , e Repelim, Benara nambeadarim acima de. Panane pera a serra , Nambari senhor de Banalacheri, Papapucol senhor de Bepur antre Chani e Calicut , Papucol senhor de Papuranguri: ho Caimal de Man- gate , Nara , e outros muytos Caimais: que por serem muytos os não escreueo. Os instermentos de guerra erão tantos, que quando tocauão parecia que furauao ho ceo : e a gente cobria a terra : e os que yã.o na dianteira, chegando á estancia deiao fogo á artelharia, que segundo esta- ua perto da carauela, parece que foy mi- la- V
Liv. I. CAP. LXVIII. iiç lagre não lhe acertar nenhum tiro. E dos nossos acertauão todos nos immigos e ma- tauão muytos: e ate ho sol saydo tirou a carauela trinta tiros : e então começou de sayr da lio de Repelim a armada dos immigos , que era de cento e sessenta na- uios de remo. s. setenta e seys paraós com atrombadas de sacas dalgodao , que este a-dil derão os Italianos , porque lhe a nossa artelharia não fizesse nojo: e leuaua cada hum duas bombardas, e vinte cinco homens , cinco espingardeiros , e os outros frecheiros. E vinte destes paraós yão en-- cadeados , e çarrados pera aferrarem logo a carauela : yão mais cincoenta e quatro catures, e trinta tones de coxia com cada hum sua bombarda , e dezaseys homens de peleja de diuersas armas. E a fóra es- tes nauios armados yão muytos outros com gente que cobriao 110 rio: eyão em todos dez mil homens , de que era capitão mór Nambeadarim, e soto capitão ho senhor de Repelim. E certo que era cousa de. grande espanto ver tamanha multidão de immigos por agoa , e por terra , que tudo cobrião e todos rneyos nús, c huns ba- ços , e outros negros. E o sol daua nas lanças e agomias que trazião muyto lu- zentes : e resprandecião muyto mais com ho sol reuerberar nelas, e assi os escudos H ii que
ii6 Da Historia da Índia que erao de muytas cores , e tão finas que parecido espadas açacaladas.^ E pera mais espantar os nossos aleuantauao gran- des gritas , e apos eles tocauao seus ins- tormentos de guerra : e isto tao ameude que nunca cessauáo com bua cousa ou com outra. E os nossos estauão no meyo de tamanha multidão, que quasi se nao en- xergauão metidos na carauela, e nos ba- teis com que tomauao quasi todo ho pas- so , com cabos dados de huns aos outros : e as amarras forradas de cadeas por lhas nao cortarem, e todos muyto esforçados dando fogo aos tiros , com que receberão aos immigos. E neste tempo os delrey de Cochim fugirão todos, e ficarao somente Ghandagorá e Frangorá por estarem na carauela e nao os deixarem fugir , pera que vissem o que fazião os nossos no combate , que andaua já muyto trauado. E erão tantas as bombardas e espingar- dadas que nem auia quem ouuisse , nem visse com ho fumo da artclharia , e a ca- rauela , e os bateis ardião em fogo. E na primeyra çurriada arrombarao alguns paraos dos immigos , e lhe matarao c ierirao muyta gente , sem os nossos receberem nenhum danno, estando dos immigos a ti- ro de lança: e como erão muytos e sem ordem, huns toruauao os outros que não pe-
Liu. I. Cap. LXVIII. 117 pelejassem. E com tudo a çarraçada dos vinte paraós que estaua diante, apertaua muyto os nossos com a espingardaria que traz ião. E os nossos sofriao muyto grande trabalho mais de cansados , que de feri- dos. E auendo hum pedaço que duraua esta afronta , mandoulhe Duarte pacheco tirar com hum camelo que ate então não tiraua pera outras partes : e de duas vezes que tirou desmanchou a çarraçada e ar- romboulhe quatro paraós, que logo fica- rão alagados : e coisto foy desbaratado e fugio. E logo outros paraós continuarão ho combate : de que os nossos meterão oyto 110 fundo, e arrombarão treze, e os outros se afastarão com muytos mais mor- tos e feridos que os pnmeyros. E apos estes entrou ho senhor de Rcpelim com outro escoadrão , e apertou muyto rijo os nossos: e assi elrey de Calicut de terra. E este combate foy muyto mais rijo que ne- nhum dos outros cm que forão mortos e feridos muytos mais immigos que dantes: que era já a agoa de côr de sangue. E por mais que ho senhor de Rcpelim bra- daua que aferrassem a carauela nunca ou- sarão antes fugirão , e assi fugirão os da terra. E seria já despois de vespera , que ate então durou ho combate, em que dos immigos assi na terra como no mar forão mor-
n8 Da Historia da Índia mortos trezentos e cincoenta homens co- nhecidos a fora os outros que passauao de mil : e dos nossos não morreo nenhum somente alguns feridos de frechadas , e al- guns escalaurados dos pelouros dos inimi- gos : que com quanto lheacertauão e yão muyto furiosos , e erao de ferro coado não fazião mais que escalauralos como qualquer pedra darremesso , porem as suas arrombadas forão todas passadas e que- bradas : e hum dos bateis foy arrombado: mas não de maneyra que não fosse con- certado antes dc noyte. C A P I T O L O LXIX. Do que fez ho capitão mor Duarte pacbe- co despois deste combate. CAndagorá e Frangorá que estauão com Duarte pacheco quando virão os immigos desbaratados sem ncnhúa per- da dos nossos ficarão muyto espantados : e pediranlhe perdão de desconfiança que teuerão de poder resistir aos immigos , e confessaranlhe que ouuerao tamanho me- do que cuydarão de morrer, e que já es- tauao bem seguros delrey de Calicut não poder entrar por aquele passo : ele lhes rogou que assi lio dissessem a elrey de
> Liu. I. Cap. LXIX. 119 Gocliim e á sua gente : e que lhes fizessem perder ho medo que tinhão , e despedios logo pera Cochim , onde eles acharão 110- ua que Duarte pacheco fora desbaratado, que assi ho forão lá dizer os Naires que fugirão em se começando ho combate. E sabendo elrey como passara os castigou de palaura muy rijamente : e mandou vi- sitar Duarte pacheco pelo príncipe de Co- chim , e por não deixar a cidade Cm tal tempo ho não fez por sua pessoa: e assi lho mandou dizer com outras muytas pa- lauras damor. E coesta vitoria que nosso senhor deu aos nossos crerão elrey de Co- chim e seus vassalos tanto neles que per- derão ho medo delrey de Calicut, e não ouue quem falasse em se ir de Cochim. Duarte pacheco naquela noyte seguinte mandou aos seus que erão da vigia que a cada quarto fizessem folias e muytas fes- tas de tangeres : porque os immigos sou- bessem que ficarão muyto descansados: e que os não tinhão em conta : e sabendo ele que no dia seguinte lhe não auião de dar combate, despois de comer foy com corenta Portugueses sobre hum lugar do Caimal de Cambalao em que matou muy- • ta gente, e ho queymou sem lhe matarem nem ferirem nenhum dos seus. E ao ou- tro dia foy pola outra carauela que estaua con-
izo Da Historia da Índia concertada , e entregue a capitania dela a Diogo pirez acabou de çarrar o passo, e deu a capitania do batel em que andaua Diogo pirez a Christouao jusarte. E ate lhe elrey de Calicut dar outro combate fez sempre muyto danno em Cambalão , e á vespera do combate correo ho rio dambas as bandas e fez grande destruyção. C A P I T O L O LXX. Do segundo combate que elrey de Calicut deu ao capitão mor Duarte pacheco. ELrey de Calicut ficou muyto magoado de não poder desbaratar os Portugue- ses daquele primeyro combate , cujo es- forço deitou em rosto aos seus capitães e lascarins desfionrrandoos grandemente. E auido perdão dos seus pagodes cjue os Bramenes lhe fizerão crer que estauao me- nencorios dele, lhe disserão ho dia em que auia de desbaratar os Portugueses que acertou de ser em dia de Pascoa , pera o que fez hua armada mayor que a passada de cem paraós e outros tantos ca- tures e oytenta tones, em que se embar- carão quinze mil homens : de que os cin- co mil erão frecheiros , e duzentos espin- gardeyros} e trezentos e oytenta tiros dar- te-
Liu. I. CA P. LXX. 121 telharia, os mais deles de metal que lhe fazião os dous milaneses que por isso os tinha em grande estima, e lhe fazia muy- tas mercês. E vindo lio dia de Pascoa cuydou clrey de Calicut de tomar por ma- nha Duarte pacheco , e mandou sessenta paraós sobre â sua nao pera que indolhe acodir deixasse ho passo desemparado, e ele podesse entrar em Cochim. E estes paraós forão sem os ver Duarte pacheco por hum esteiro de maré que se metia no rio de Coehim , por onde também elrey de Calicut poderá ir sem passar pelo pas- so de Cambalao : e deixauaho de fazer porque auia por injuria deixar de ir por aquele passo por amor de Duarte pacheco que lho defendia. E estando ele esperan- do polo combate espantado de como tar- daua tanto , sendo noue horas do dia lhe foy dito da parte delrey de Cochim que acodisse á sua nao porque lha tomauao os paraós que estauao sobrela. E entendendo ele logo ho ardil delrey de Calicut teue conselho, em que foy acordado que fos- se socorrer a nao com a carauela de Dio- go pirez e ho batel de Christouao jusar- te, porque tinha terrenho e vazante de maré que ho auiao dajudar a ir mais asi- nha: e que se ho combate da nao fosse ardil pera os inimigos entrarem ho passo que
122 Da Historia da Ikdia que não podia a sua armada ser tamanha pois estaua repartida , que lhe não defen- dessem a entrada a carauela e ho batel que ficauão 110 passo ate que ele tornasse: que seria muy cedo com a maré e viração que comcçarião a esse tempo. E coeste conselho se partio: e indo á vista da nao deu a carauela em hum baixo com que Duarte pacheco fez algua detença em a ti- rar dele : e como os immigos a virão fu- girão logo com medo. E nisto ventou a viração com que se Duarte pacheco tor- nou ao passo onde já a frota deirey de Calicut estaua ás bombardadas com a ca- rauela e com ho batel por mar e por ter- ra e tinhannos em grande aperto. E com a vinda de Duarte pacheco que lhe deu nas cosias e os outros por diante forão tao mal tratados que fugirão , huns pelo rio acima e outros varando em terra. E nesta peleja perderão os immigos dezanoue paraós queimados e alagados e forão mor- tos perto de duzentos deles e dos Portu- gueses nenhuns : o que parecia milagre : porque a hum calafate Bizcainho que auia nome Inhigo de Portugalete deu em hum ombro hum pelouro de pedra do tamanho de liúa grande laranja , e derribandoho passou ainda lonje sem lhe fazer mais que hua pisadura no hombro e no rosto e
Liu. I. Cap. LXX. til csteue hum pouco atordoado: e a outro deu outro pelouro sem lhe fazer mal , e despois foy dar na padessada da carauela que era de boa grossura e passouha. E outro despois de dar em dous homens, a que não fez nada passou a amurada da carauela e assi outros. O que os Portu- gueses tinhão por milagre e louuauão nos- so senhor que lhes daua esforço pera re- sistirem aos immigos de que não fazião conta : e por isso logo ao outro dia foy Duarte pacheco queimar hum lugar do Caimal de Cambalão, e no caminho des- baratou quatorze paraós carregados de gente. E tornado ao passo foy certifica- do por dous Bramenes que no dia seguin- te lhe auia delrey de Calicut dar outro combate , polo que lhe deu hum fardo darroz , que pera ho tempo era grande dadiua por a grande valia que tinha. CA-
-í 104 Da Histoaia da Índia C A P I T O L O .LXXI. De como elrey de Calicut foy desbarata- do nu terceyro combate. COmo quer que elrey de Calicut tinha por muy certo leuar nas mãos os Portugueses no primeyro combate: e vio que não pode no primeyro nem no se- gundo arrependeose logo de fazer esta guerra e quisera deixala se poderá, mas os mouros ho estoruarão: e também seus vassalos se enfadauão coela com ho medo que auião aos Portugueses , em tanto que não se querião embarcar pera este terceyro combate, e cmbarcaranse com pregações dos Bramenes que elrey mandou que lhes pregassem. E a armada com que deu este terceyro combate foy mayor que a do se- gundo, e de mais artelharia, e auia co- renta mil homens por mar e por terra, e em terra hua estancia donze tiros darte- lharia: e por conselho dos dous milaneses forão os nauios da armada repartidos por escoadrões pera que em cansando huns entrassem outros. E em amanhecendo co- meçarão os de terra de dar ho combate estando coeles elrey de Calicut que ho ati- çaua com muyta pressa. Duarte pacheco 1 por-
Liu. I. Caf. LXXL 115: porque os do mar se chegassem bem ás carauelas , e lhes fizesse mayor danno mandou a todos que não se mostrassem ate os immigos não serem bem chegados. E eles cuydando que era com medo derão hua grande grita dandoos por tomados, porque assi ho disserão os Bramenes da parte dos pagodes , e os inimigos ho ti- nhão por tão certo que indo cm boa or- dem se desordenarão com enueja de quem chegaria primeyro pera aferrar. E chegan- do a tiro de lança despararão os Portu- gueses toda sua artelharia dando pelos da terra e pelos do mar , matando muytos immigos , e metendolhe oyto paraos no fundo , de que ficarão tão salteados que se teuerão sem passar auante. Ecomo por comprirem com elrey de Calicut que os via jugauão com sua artelharia. E vendo elrey quão pouco faziao , mandou afastar ho sennor de Reoelim que estaua na dian- teira e meter Nambeadarim com lhe man- dar que aferrasse logo as carauelas mas tão pouco fez hum como ho outro, pos- to que os de sua capitania trabalharao bem por aferrarem; porem os Portugueses fa- zião marauilhas em se defender. E era a peleja muy aspera dambas as partes, assí darremessos , frechadas , e espingardadas que cobrião ho ceo, e muytas frechas cai- VV ,■ ' rão
ii6 Da Historia da Índia rão nas carauelas trancadas huas nas ou- tras: por onde se pôde ver quantas erao que se encontrauão no ar: e coisto e com ho fumo da artelharia não auia quem se visse nem ouuisse , e ver antre toda esta matinada e multidão dos immigos quatro cousinhas tão pequenas como as carauelas e os bateis de que os Portugueses se de- fendião também que os não podião os immigos aferrar era pera louuar a nosso senhor por tão milagrosamente mostrar seu poder , de ho dar aos Portugueses pera alem de se defenderem offenderem aos im- migos com tantas mortes , feridas , alei- jões e destruição de nauios , que de ho fião poderem sofrer se afastarão do com- bate sem darem poios brados de Nambea- darim nem por seus ameaços: e brasfema- uão dos Bramencs que lhes mentião. E cm começando de se afastar acendeose fo- go no batel de Christouão jusarte, pelo que tornarão ao combate com grandes gritas cuydando de tomar ho batel , que não tomarão por lhe ser defendido muy rijamente, pelo que se afastarão de todo e fugirão, e ho mesmo fez elrey de Ca- licut com quantos estauão coele leuando a artelharia da estancia. E isto seria hua hora despois de meo dia , e ho combate foy muy to mayor que nenhum dos passa- dos :
Liu. I. Cap. LXXI. 127 dos: c dcspois soube Duarte pacheco que forao dos immigos mortos seyscentos , e que lhes meterão no fundo vinte dous pa- raós. E vendo ele que fugião foy apos eles nos bateis tirandolhes muytas bombar- dadas , e despois saltou em terra e quei- mou dous lugares , e coisto estauão os immigos muyto espantados , e dizião que ho Deos dos Portugueses peleiaua por eles. E logo na noyte seguinte rendido ho quarto da prima foy Duarte pacheco com corenta e cinco Portugueses nos bateis queimar hua grande pouoacao por as es^ pias lhe darem auiso que ho podia fazer o que fez ate ho quarto dalua. E tornando ao passo , mandou dizer a clrey de Co- chirn o que fizera aquela noyte, por onde podia julgar quão cansado ficaua com os seus do combate: por isso que descansas- se e não lhe lembrasse a guerra, e por is- so mandou elrey fazer grandes festas. E os mouros de Calicut que ho sabião tinhão por isso grande magoa, e vendo que não se podião vingar dos Portugueses que es- tauão com Duarte pacheco, quiserão vin- garse dos que estauão nas feytorias de Cou- lão e de Cananor escreuendío a estes dous reys que tal dia tomara elrey de Calicut as carauelas e matara os Portugueses , e. estaua pera entrar em Cochim que matas-' > sem
128 Da Historia da Índia sem os que estauao nas suas cidades como ho tinhao prometido a elrey dc Calicut, o que eles quiserao fazer se os nao tor- uarão os Bramenes , dizendo que não ma- tassem tão leuemente homens que tomarão em sua goarda ate que elrey de^Calicut lhe não escreuesse, e assi ho fizerão: e logo se soube a verdade , pelo que também cessarão de fazer o que os mouros queriao. C A P 1 T O L O LXXII. De como elrey de Calicut quisera deixar a guerra. ALguns daqueles senhores que aju- dauao elrey de Calicut vendo quão mal lhe socedia a guerra , e quão bem a Duarte pacheco temerão que ho desba- ratasse de todo, e porque se assi fosse fi- cauao perdidos por terem suas terras ao longo dos rios que lhas tomaria : e por isso determinarão de se ir do arrayal e po- erse em parte que se a elrey dc Calicut lhe não fosse melhor reconciliarião com elrey de Cochim pera que Duarte pacheco esteuesse bem coe es , e se nao tornarseyao pera elrey de Ca icut. E estes forão ho Mangate muta Caimal vassalo delrey de Co- chim 3 e hum seu irmão, c hum primo,
Liu. I. Cap. LXXII. 129 ue logo ao outro dia despois deste derra- eyro combate se partirão secretamente e foranse pera a ilha de Vaipim. E quando elrey de Calicut ho soube sintioho muyto * e renououselhe a magoa de se ver desba- ratado tantas vezes , e lembrandolhe quan- to danno tinha recebido despois de ter começada aquela guerra não tinha nenhtía paciência. È querendoho alguns daqueles reys e senhores conselhar, lhe diziao que não se agastasse por logo não vencer, porque os Portugueses não se defendião se não como desesperados , e porem como erão poucos não lhes auia daproueitar , e que os auião de tomar por derradeyro , e que lhes parecia que senão erão já toma- dos que era por a sua gente os não tef em conta. E ficando elrey muyto agasta- do destas palauras , lhes respondeo. Ainda, que cada bum de vós seja tão esforçado que vos pareça pouco serem os frangues vencidos , nao sou tao fraco que mo não pareça nem mc parece que vedes em mim temor pera me esforçardes coessas pala* uras , porque me podeis dizer que eu mais não sinta: pelo que neste caso me nao podeis dizer cousa que me satisfaça , e se sintisseys o que eu sinto conheceríeis camanko feyto será vencer os frangues que vos fazeis tão pequeno , e não bo hey Lin. I. Tom. II. I por
130 Da Historia da Índia por grande em serem vencidos senão em se defenderem como se defendem, que pa- rece que bo seu De os peleja por eles , e que os faz inuenciueis : e quereis ver que be as si, a nossa gente he muyta , e se he esforçada e sabe pelejar viose em muytas batalhas que vences desbaratan- do grandes exercitas como sabeis, e des- pcis que peleja com os frangues parece que per de o ho esforço , e bo saber pele- jar : e he bo seu medo tamanho que sen- do sem conto a respeito dos frangues, não ou são d aferrar coe!es: no que vejo o que todo homem de bom juyzo deue de ver ue
Liu. I. Cap. LXXII. 131 mais sinte sua perda direy meu parecer: que he de fazermos paz com os fran- gues e sermos seus amigos , porque como diz elrey, ho seu láeos peleja por eles, e cu assi ho creo : porque doutra maney- ra já for ao tomados. E também me aju- da a crer isto a sem rezão que fazemos em fazer guerra aos frangues per a des- troirmos elrey de Cochim, a que sem tie- iihua causa temos feyto tanto danno , ma- iandolhe ho anno passado os seus prínci- pes , e quasi toda sua gente: e queiman- dolhe Cochim sem nenhua causa como di- go pois não foy por mais que por recolher em sua terra os frangues, que engeita- dos delrey de Calicut hoforao buscar, não somente engeitados mas mortos, e rouba- dos , e lançados fora de Calicut tendo se- guro delrey , e recebidos em sua goarda , sem terem feyto porque recebessem tanto mal : porque se foy por deterem a nao de Cogeçameçadim nao tinhão culpa, por- que elrey lhe mandou que a deteuesstm. E se então fora de todos conselhado tão verdadeiramente como ho foy de mim , os mouros ouuerao de pagar o que fizerão : e se ho pagarão mostrarase não ter elrey culpa no que eles fizer ão pois a não ti- nha , e isto abastara per a conseruar a amizade dos frangues , e não se furão de I ii Ca-
ijl Da Historia da Índia Calicut a Cochim , onde elrey por vidos conselhos trabalhou tanto poios auer corno que lhe teuerão fiyto grandes males , sendo eles tão bons , tao verdadeyros , tão mansos e tao esforçados e agarde- cidos do bem que lhe fazem , que por amor delrey de Melinde que os agasalhou alargarão duas naos carregadas douro: bem vistes quão rico presente trottuerãu a elrey , que mercadorias tinhão e quanto dinlmro per a a carga : bem vistes como derão a mo dos alifantes a elrey , não fazem isto ladroes que lhe os mouros clra- mão, nem no sarn senão homens pera'fol- garem de os ter por amigos : c mais pois elrey perde tanto em suas rendas não tendo coeles amizade e se lhe acrc- centão muyto tendoa, porque não a tendo como sam muyto poderosos no mar defen- derão que não venhSo nenhuns naos a Ca- licut , e elrey ficará sem nenhua renda: pelo que se deue de fazer a paz. E co- mo quantos ali estauao erâo peitados pelos mouros que consclhassem a elrey que não desistisse da guerra, assi ho fizerao estra- nhandolhe muyto dizer que queria desistir dela , abonandoo de poderoso, louuandoo de muy ciuel, poendolhe temor de infa- me se desistisse da guerra. E os mouros lhe ofirccerão logo suas pessoas e fazendas pe-
Ltv. I. Cap. LXXTI. 135 pera a guerra: e tanto fizerão huits c ou- tros que elrey escolheo a guerra: c logo ali se assentou, que pois elrey não podia passar polo passo de Cambalao, que pas- sasse por outro que auia nome Palinhar lonje daquele, que por ser muyto forte e quasi impossiuel a passagem por ele nao se goardaua : e despois delrey passar por ele passaria a Cochim polo passo do vao como fizera ho anno passado. E isto as- sentado , logo ao outro dia foy leuantado I10 arrayal, e elrey passou pelo passo que digo, e assentou seu arrayal em terra de Repeiim e deperquá sem ho saber Duarte pacheco, que nao tcueráo suas espias tem- po pera lho dizerem senão quando elrey de Calicut começaua de passar. CAPITOLO LXXIII. De como elrey de Calicut deu ho quarto combate a Duarte pacheco. Orno Duarte pacheco sabia que não j podia estornar a elrey a passagem por Palinhar por nao poder leuar lá as ca- rauclas nem 03 bateis por amor dos bai- xos que auia : porem sospeitando que a passagem delrey per ali era pera entrar pe- lo passo do veo : determinou de lho de- fen-
134 Da Historia da Índia fender , e porque não podia leuar lá as carauelas também por amor de baixos le- uouas a outro chamado Palurte que está dous terços de legoa do passo do vao, que he de largo hum tiro de bésta e de comprido hum pouco mais , e com baixa- mar dá a mayor altura dagoa pela cinta * e ho outro he quasi descuberto e com preamar não se pode passar por ser a agoa muy alta : e por este passo do vao ser tão perto do de Palurte lázia Duarte pacheco conta que ho guardaria na vazan- te da maré com os bateis , e ho de Palur- te ficaria goardado com as carauelas. E chegado a este passo, saltou na ilha Dar- raul em que soube que andauão quinhen- tos Naires de Calicut e com sua gente matou muytos e catiuou cincoenta que deixou denrorcar por lhos elrey de Cochim mandar pedir. E sabendo que ao outro dia que era ho primeyro de Mayo auia elrey de Calicut de cometer dentrar polo vao, deixou Pero rafael nas carauelas com hum sinal que lhe faria se se visse em afronta : e ele foyse antemanhaã com os bateis ao vao : e em chegando mandou dar aos seus grandes gritas pera que os immigos soubessem que era chegado^e que os não temia. E vendo que ho nao cometiao, toinouse a Palurte com a en- chem»
Liu. I. Cap. LXXIII. 135- cliente dagoa e com a vazante se tornou ao vao , e assi se reuezaua de dia e de noyte nas vazantes e enchentes com rnuy- tas calmas e chuuas e com outros muytos trabalhos que passou com os seus em hum mes e vinte tres dias dcspois que se mu- dou do passo de Cair.balao. E em quanto lhe clrey de Calicut não deu combate fez grande destruyção na terra : e nisto foy anisado que clrey de Calicut lio auia de combater no passo de Palurte e que ho senhor de Repelira tinha adianteira com quinze mil homens. E assi fez ele mostra da armada hua tarde vespera do dia em que se auia de dar ho combate , c tirou toda a artelharia , e dauao os immigos suas coquiadas, e Duarte pacheco mandou fazer ho mesmo aos Portugueses : e man- dou arrasar a ponta da ilha Darraul por- que os immigos não assentassem antre I10 aruoredo algum tiro secreto com que lhe fizessem danno, e mandou dar cabos diía carauela a outra >.pera fazer dous bordos se lhe comprisse: e toda a noyte fez com os seus grandes alegrias. E antemanhaã chegarão do vao Simão dandrade e Cliris- touão jusarte , porque ficaua seguro com a maré que enchia. E despois de todos comerem , lhes disse. Bem sabeis compa- nheiros que elrey de Calicut nem oje so- bre
136 Da Historia da Índia Ire nós determinado de nos entrar, ou for este passo , ou polo do vaoeu pela experiência que de vós tenho não lhe hey medo. E sobre tudo com a confiança na misericórdia de nosso senhor que por sua piedade nos não ha de negar sua ajuda, onde importa tanto pera a sua gloria , por cuja honrra pelejamos principalmente : e despois pola delRey nosso senhor. E de- ueis de crer que assi como nos ajudou sempre nos ajudará agora e tende por si- nal disso ser oje baixamar ao meo dia ate cujo termo nao podem os inimigos co- ' meter ho vao, e por a força de sua pe- leja ser ate estas horas se ate elas lhe defendemos este passo como espero: eu vos dou por seguro o vao. E pera nos defen- dermos nao vos ponhão temor seus feros, pois sabeis bem onde chegão: e lembreuos que o que ategora tendes feyto pola mise- ricórdia de nosso senhor (ele seja louua- do) he hua cousa tamanha , que pera muyto mais : e muyto mais gente do que somos se pôde contar por milagrosa. E pois ho nosso bom Deos todo poderoso, vos quis com sua ajuda deixar fazer cousas tão milagrosas: encomendouos muy- to como a verdadeyros Christãos que não queirais perder esta gloria por algúa pouca defronta que podereis oje mais re- ce-
Liv. I. Cap. LXX1II. 137 ceher que os outros dias: porque será pê- ra acrecentamento da honrra e fama que ganhastes ategora. Ao que todos x-espcn- dera ">, Que assi ho fárido : r que todos estauão per a ho ajudar ate morte. E sen- do ho dia claro apareceo a nonta da ilha cuberta de immigos , perS darem dali combate com alguas bombardas que tinhão assentadas em estancias de terra , que os empatasse da nossa artelharia. E dali co- meçarão logo de combater muyto rijo : c nisto apareceo a frota , que era de ccl. nauios. E por uir ainda lonje c os immi- gos apertarem de terra, se meteo Duarte pacheco nos bateis , e á força de remo remeteo a ela : e sem temer os muytos tiros que lhe tirauão saltou nela com os nossos : de que os immigos pola miseri- córdia de nosso senhor ouuerão tamanho medo que se recolherão de tras das suas estancias , onde os nossos esteaerão pele- jando cocles , ate que a frota chegou per- to que se tornarão a recolher. E vendo Duarte pacheco doze paraòs que vinhão desmandados diante , foy pera os cometer: c por se eles deterem , e não ousarem de passar auante , os não pode aferrar: e por iá chegar teda a frota recolheose as caraue- las : deixando arrombados dotts paraós. E recolhidos mandou abaixar tedes os seus,
138 Da Historia da Índia porque os não matassem os tiros dos im- migos que erão muyto bastos : c chega- ráose logo corenta paraós encadeados muyto perto das carauelas que as querião aferrar. E nisto mandou Duarte pacheco dar ás trombetas, e os nossos se Jeuanta- rão com lida grande grita desparando toda sua arteiharia que desencadeou logo alguns dos paraós. E por isso lio senhor de Re- pelim mandou ajuntar coeles outros : e os tiros erão tantos dambas as partes que nenhua das frotas se enxergaua com fumo ainda que dos immigos morrião boa soma como erão muytos : ho senhor de Repelira os fez passar auante, que quasi chegando ás carauelas. E dandoas por aferradas, ces- sarão de tirar com a arteiharia , e então se accndco a peleja mais braua que dan- tes : e as frechas , e setas, e lanças , e paos tostados erao em tanta auondança, que faz ião sombra nos nauios : e erão os grites e brados tantos , que parecia fun- dirse ho mundo. E durou a peleja hum bom pedaço sem se inclinar a vitoria a nenhua parte: cm que os nossos sofrerão trabalho immenso. Porque como os im- migos erão sem conto , como huns can- sauao entrauao outros de refresco. O que os nossos rão pedião fazer , e de cada vez ihes era necessário terem ncuas for- ças:
Liu. I. Cap. LXXIII. 159 ças : no que se pode crer sem duuida, que nosso senhor supria ali com sua mi- sericórdia : e assi lio dizia Duarte pacheco aos seus trazendolhe á memoria o que tinháo feyto , eoque lhe prometerão de fazer na- quela batalha. E assi ho fazião eles: e ar- rombarão , e meterão no fundo rantos paraós , e matarão tantos dos immigos que já com medo não querião pelejar, nem por mais promessas que lhe ho senhor de Repelim fazia : aquém elRey de Cahcur, que estaua de terra combatendo os nos- sos , mandaua dizer muyto a miude que apertasse com as cara:; cl as , e as aferrasse. Mas nem por isso a gente ho queria fa- zer , tamanho era ho medo que auia dos nossos. O que vendo I10 senhor de Re- pelim quis entrar ho passo pera contentar elrey : ao que eles resistirão muyto rijo, posto que com afronta grandissima: por- que os immigos apertauão muyto por en- trar : e como os paraós yao muy fechados, fez a nossa artelharia muy grande destro- ço neles, e nos immigos. E as carauelas também receberão muyto danno, que to- das forao passadas , e as arrombadas , es- pedaçadas , e feridos muytcs dos nossos. Mas quis nosso senhor , que ho fizerão tão esforçadamente , que estes do mar se afastarão, e os que estauão em terra dei- xa-
140 Da Historia da Índia xarxo lego a ponta com muyto danno que receberão. E vendo elrey de Calicut que ho combate dos paraós cessaua, mandou dizer ao senhor de Repelim que mal compria coele o que lhe promettera da- ferrar as carauelas , 011 entrar ho passo: e que ho via muy afastado delas, e que seu irmão seria já perto do vao : e ele estaua lonje de ir lá. E coeste recado tor- nou ho senhor de Repelim a apertar com as caruuelas : c começou de chamar os seus : de que ho seguirão alguns que os outros auiáo medo : e com aqueles fez tanto como dantes. E estando Duarte pa- checo nesta fadiga , chegou Candagorá, e disselhe da parte delrey de Cochim, que Natnbcadarim ya ao vao com grossa gente: e que não tardasse : porque elrey de Calicut lhe auia dir nas costas. E ven- do ele que ainda era muyta agoa por va- zar , mandoulhe dizer, que se não agas- tasse : que bem sabia ho tem po a que auia dacodir. Partido este messegeiro chegou logo outro com ho mesmo recado a Duar- te pachcco que respondeo que os deixas- se : porque não era aquele ho dia delrey de Calicut , nem era tempo de perder ponto, que se auenturaria nisso muyto: e que não era ainda desembaraçado dos pa- raós. E posto que Nambeadaritn chegasse ao
Lrui I. Caf. LXXIH. 141 30 vao , não ho auia dc poder passar T por auer muyta agoa por vazar: que cie sabia quando auia dir. E como já se che- gaua a vazante da maré , foyse elrey de Calicut com a gente que tinha peia aju- dar a seu irmão a entrar J10 vno : c com sua ida os immigos se afastarão dc todo, e se forao. E deixando Duarte pa- chcco este passo seguro, partiosc pera ho vao: onde auia de fazer pouca detença , por ali durar pouco a vazante da maré. E chegando lá foy baixamar de todo , e a gente de Nambeadarim começam de che- gar e leuaua alguns berços encarretados : Duarte pacheco pos a proa neles, e en- trou pelo vao ate dar em seco tirando com a artclharia e espingardaria , e almazem de setas, e arremessos com que fez neles tanto danno , que se deteueriío sem pas- sar mais atlante. E como eles erao muy- tos, os nossos não podiao errar tiro : e os immigos não acertauãò nenhum : por- que todos dauão nas padessadas dos bateis. E nisto chegou a força da gente de Nam- beadarim y que erao dpze mil homens, e liuns cometerão dentrar I10 vao, outros carrcgauão sobre os bateis que não nada- uão. li foy hua braua peleja sobre chega- rem a eles: c os tiros e arremessos erao muytos dambas as partes : que certo não se
142 Da Historia da Índia se pôde contar quão medonha cousa era ver os bateis que se não podião bolir, e os nossos dentro cercados dc tantos inimi- gos^, que não trabaihauão por outra cousa senão por chegar a eles. E como Deos milagrosamente os tinha, que ho não po- dião fazer , antes muytos se retirauão , e outros se tinliao quedos , caindo muytos mortos, e feridos, que era a agoa de cor de sangue. E isto d ufa ria hua grande ho- ra : e no cabo dela começarão os bateis de nadar. Os nossos que ho entenderão apertarao tao rijo com os immigos que lhes fizerão deixar ho vao, e acolheranse a terra muyto contra vontade de Nam- beadarim, a que neste tempo chegou gen- te de refresco, que lhe elrey mandaua. E coela tornou a entrar no vao, e tão aluo- raçado que nao atentou pola maré que crecia. E Duarte pacheco polo enga- nar mostrando que lhe auia medo se reti- rou bem pera dentro do vao , sem tirar sua artelharia : e com a gente abaixada. Os immigos dando grandes gritas entra- rão apos ele com agoa pela cinta: e ven- doos ele bem metidos virou sobreles ás bombardadas , e ferindo e matando alguns os fez fugir. E mór danno lhes fizera , te os deixara entrar mais dentro. E não os deixou porque a gente dc Cochim co.
Liu. I. Cap. LXXIII. 145 meçaua já de sayr ao vao. E não quis que cuydassem que ho ajudauao, nem me- nos quis que ho ajudassem 110 começo: porque trabalhaua por lhes mestrar que os seus abastauao pera desbaratar os ini- migos sem sua ajuda. E recolhidos os ini- migos a terra , que seria a horas de vés- pera , fezlhe tanto danno que se meterão bem pelo sertão: e assi nesta peleja co- mo na de Palurte lhe não matarão ne- nhum dos seus : e dos inimigos não se pode saber ho numero dos mortos, senão que forão muytos e perderão muytos pa- raós. E elrey de Calicut ficou tão agasta- do , e triste por ho senhor de Repelint t nao aferrar as carauelas , nem seu irmão entrar I10 vao , que lhes disse a ambos palauras muyto injuriosas. C A P I T O L O LXXIIII. De como alguns que erao da parte delrey de Calicut se passar tio pera elrey de Cochim. Di Esbaratados oá immigos , e clica a ' maré no vao tornousc Duarte pache- co ás carauelas, que achou em paz. E el- rey de Cochim lhe mandou preguntar co- mo lhe ya, e aos seus: e ele lhe respon- deo
144 DaHistortadaIndia deo que bem, eque assi lhe iria semprei se soubesse que se auia por seruido do que t:nha feyto. Vencida esta batalha , ho JVtangate , e seu irmão que estauão na ilha de Vaipim perderão de todo a espe- rança que elrey de Calicut ouuesse vito- ria. E tendo mandado parte de sua gente a elrey de Cociiim se forao parele com a outra , com que Duarte pacheco não fol- gou nada, porque se não fiaua deles pola. deslealdade que tinhão cometida a elrey de Cochim ho anno passado : e por lhe não quererem acodir com sua gente no começo daquela guerra sendo seus vassa- los : porem dissimulou isto. Ao outro dia que elrey ho foy ver leuandoos comsigo e todos ho abraçarão despois, e oulhauan- 110 como espantados do que tinha feyto contra elrey de Calicut. E entendendóos ele disselhes que se não espantassem , porque ainda tornaria a fazer o que tinha feyto, e que não oauessem por muyto desbaratar a elrey de Calicut , porque a outros móres reys desbarataria com aque- la gente. E os senhores responderão que se não espantauão de desbaratar a elrey de Calicut, senão de como ousara de ho co- meter : ao que ele disse que assi fizera elrey grande doudice nisso. E passadas antreles outras muytas palauras de muyta honr-
Litr. I. Cai». LXXIIII. 145- Jionrra de Duarte pacheco , offreceranselhe ho Mangate e outros senhores por serui- dorcs delRey de Portugal: e dcspois se tornarão pera Cochim , a que logo foy noua que no arrayal delrey de Calicut sobreuiera htía supita doença : que como hum homem adoecia morria logo, e aque- le que mais duraua não passaua de dous ou tres dias j e erao muyto poucos os que durauao tanto , e a doença era como peste : senão que não naciao leuações : e morriãò cada dia duzentos homens: e por isso se foy a mór parte da gente do arrayal , porque a doença durou muytos dias, e foy cousa de milagre que não morriao se não no arrayal delrey de Calicut que com esses reys e senhores que I10 âjudauão se afastou hum pouco do corpo da gente porque se lhe não pegasse este mal. E assi esteue em quanto durou, que sem du- uida parece que foy praga mandada per nosso senhor pera que os nossos teuessent tregoas , e descansassem : porque cessarão os immigos da guerra em quanto durou esta doença: e os de Cochim cstauao coe- la muyto ledos. E neste tempo forão ter a Cochim muytas naos dos mouros que hi morauão: que por seu mandado yac> de Charamandel inuemar a outras partes : porque não ouuesse em Cochim manri- Liu. I. Tom. IÍ. K men-
146 Da Historia da Índia mentos : e se despouoasse. E parece que nos- so senhor não quis que isto ouuesse effeyto e deu tempo nas naos com que lhes foy forçado arribar a Cochim, e ali inuerna* rão em que lhes pesou , e venderão os mantimentos que trazião com que a terra foy muyto abastada. C A P I T O L O LXXV. Como clrey de Calicut em pessoa combai• teo ho passo do vao. TOdas estas prosperidades delrcy de Cochim forao logo sabidas por elrey de Calicut que lhe acreccntarao mais a magoa que tinha dever quão mofino era» E desconfiando de seus capitães fazerem cousa boa, quis meter coeles sua pessoa pêra entrar ho vao : e esquecido de quan- tas injurias dissera aos Bramencs , pregun- toulhes qual seria bom dia pera este come- timento. E eles lhe disserao que os pago- des estauão muyto menencorios dele por as injurias que lhes dissera ; e que era pendença lhe mandauão que fizesse hum turcol no lugar da peleja : e que aueria vitoria, e que desse a batalha a hua quin- ta feyra seys ou sete de Mayo. Do que logo Duarte pacheco foy auisado por suas-
Liv. T. Cap. LXXV. 147 espias , e mandou fazer padessadas nouas, e arrombadas , e muyta soma de dados de ferro pera meter em rocas de fogo com que tirassem aos immigos e assi muytos paos tostados agudos pera arremessos , e muytas estacas dareca de pontas agudas e sotis , pera meter no vao pera os immi- gos se estreparem nelas : porque todos Íráo descalços, e já tinha metidos abro- hos de ferro : e por serem curtos acraua- uanse na area. E feyto isto tornouse pera as carauelas , onde deixou repousar sua gente ate á mea noyte. E despois de co- merem deixando em seu lugar a Pero ra- fael, partiose pera ho vao nos bateis : e chegou lá hua quinta feira sete de Mayo bua hora ante manhaá dando suas gritas, e fazendo suas festas costumadas por es- forçar os de Cochim: e porque soubessem os de Calicut que era chegado, e achou trezentos Naires na estacada , que lhe dis- sera o , que ao dia dantes despois de ele ido, se forao dali muytos Naires do Man- gate : o que lhe pareceo treyçao e man- douho dizer por num Naire ao príncipe de Cochim, e que se viesse logo pera a estacada , porque ele estaua já no vao es- perando por elrey de Calicut que seria coele em amanhecendo. Mas este Naire não deu I10 recado ao príncipe, se não a lí ii tem-
148 Da Historia da Iwdia tempo que não aproueitou. E em ama- nhecendo começou da somar ho exercito dos immigos que vinha repartido por esta maneyra: yão diante trinta tiros dartelha- ria , e logo ho príncipe Nambcadarim com hum escoadrao de dez mil homens , os dous mil frecheiros, e trinta espingar- demos : detrás dele ho senhor de Rcpe- lim com outra tanta gente: e nas costas elrey de Calicut com quinze mil homens, c obra de quatrocentos com machados pê- ra cortarem a estacada. E Duarte pacne- co não tinha mais que corenta homens cm ambos os bateis : e cm cada hum qua- tro berços , porem bem prouidos de mu- nições. Os immigos que acompanhauao a artelharia , que era hum bom corpo de gente: em chegando começarão logo de tirar aos nossos. O que vendo Duarte pa- checo foysc a eles tirando sua artelharia com que lhes fez deixar a praya e reco- Iherse ao palmar ficando alguns morros. E dali csteuerao hiun pedaço jogando as bombardadas ate que chegou todo ho cor- po dos immigos, que cobriao toda aterra. Nambcadarim que rinha a dianteira man- dou logo cometer os nossos com grande fúria, e eles lio fizerao ter : assi com a artelharia , como com as rocas de fogo que lhe lançauão , e os dados matarão 4 muy-
Liu. I. Cap. LXXV. 14 9 fttuytos : e vendoos os immigos saltar fi- cauão muy espantados , e cuydauão que crao feytiços , e porque a agoa vazaua muyto rijo recolheose Duarte pacheco pê- ra lio alto por não ficar em seco , e man- dou a Christouão jusarte que tomasse a boca do vao c a defendesse , porque a não tomassem os immigos , que cada vez apertauao mais pera entrar : c entrarão muytos , e sobre isto foy hua muyto crua c espantosa peleja, e forão tantos mortos e feridos dos immigos , que se tcuerão por mais que Nambeadarim lhes bradaua que passassem auante, e era a pressa ta- manha dos nossos em se defender pelo grande aperto cm que esteuerão que não ouuio : que lhe disserão alguns que os Naires de Cochim erão fugidos da esta- cada , e a deixarão só. E nisto se auiuou mais a peleja , porque chegou elrey de Calicut , que Duarte pacheco conheceo por a bandeira, c sombreiro que leuaua , e mandou tirar com hum berço ao lugar onde parecia com tenção de ho matar , e não foy morto por se ele baquear do an- dor cm que I10 leuauão , e ho pelouro matou dous homens junto dele , e como ele isto vio afastouse logo dali, com que os seus se aluoraçarao tanto que sa mete- rão de roldão ao vao, c com a fúria que
i^o Da Historia da Índia leuauão sc encrauarão muytos nas esta- cas em atentar por isso : e cayão huns por cima dos outros , e embaraçaranse de maneyra que esteuerão quedos , e teueráo os nossos tempo de os matar com setadas e espingardadas, mas nem por isso deixa- uão de cobrir a agoa e a terra tantos erao. E nisto os dos machados derão na estaca- da (sem os nossos atentarem com acupa- ção que tinhão) e como a acharão sem goarda por serem fugidos os de Cochim começarão de a cortar: e entrarão Jogo alguns frecheiros dando grandes gritas , e tirarão aos nossos que ficarão cercados de todas as partes: de que os combatiao for- temente. Duarte pacheco que vio a esta- cada entrada esteue em grandes duuidas, porque se lhe acodisse entrauão os immi- gos ho vao e dandolhe nas costas ho to- marião ás mãos, e se lhe não acodia en- trarião por ela todos e iriao destruyr Co- chim sem lho poder defender. E por der- radeyro determinou dacodir á estacada, porque nela se poderia melhor emparar dos immigos e oifendelos , que do batel. E dizendo isto aos seus , remeteo a ela des- parando sua artelharia em roda uiua , e ti- rando com as rocas de fogo, e com ou- tros arteficios, e arremessos, e entra po- ios immigos que yão pera a estacada , e to-
Liir. I. Ca p. LXXV. rçr tolheolhes que não passassem auante ma- tando alguns. E andando nisto quasi que itcou em seco por ser muyta agoa vazia. E logo Nambeadarim carregou sobrele com dezaseys mil homens , e dando gran- des gritas chegarão tanto ao batel que lhe .ançauão mão dos remos, e a barafunda, era tamanha que parecia que se fundia ho mundo, e as frechadas dos immigos e ar- remessos erao tão bastos que marauao a eles mesmos , e cs nossos se defendião com grande esforço de detrás de suas ar- rombadas , c por isso os não podião en- trar , porem afogauannos por serem tantos. E desta vez esteuerao quasi perdidos se lhe nosso senhor não acodira com sua mi- sericórdia , porque tinhao rachado hum trauessão: c desfeytas quasi todas as ar- rombadas , c gastadas as munições que durou a peleja mais tempo do que Duarte pacheco cuydou. E estando nesta afronta chega a maré que senão via com a grande reuolta : e pola falta que tinha de muni- ções , e se reformar da gente por ter fe- rida muyta lhe foy forçado chegar á boca do vao onde esperaua dachar tudo por dei- xar dito a Pero rafael que lho mandasse, e leuou trabalho grandíssimo cm sayr donde cstaua , que nunca ho batel pods virar com os immigos que ho tiuhão cer- ca-
i?» Da Historia da Índia cado, e cercado deles sayo com a popa por^ diante, e assi foy ate chegar a Chris- touão jusarte, que também teue assaz de fadiga em defender a boca do vao , e ma- tou com os seus muyto grande soma dos immigos. E achando aqui o que ya bus- car , refezse de tudo com Christouão ju- sarte : e leuouho consigo por não ser ne- cessário defender mais a boca do vao por amor da enchente dagoa que ho fazia des- pejai; dos inimigos, e ho mesmo fizerão outros que estauao na estacada poios aper- tarem muyto com a artelharia, e muytos forão mortos, huns de feridas, outros da fogados : e os nossos os seguirão ate a banda de Porquá onde estaua elrey de Ca- licut muyto enuergonhado pelo que dissera a^seu irmão e ao senhor de Repelim e não fazia mais que eles : e apertados os immigos dos nossos fugirão todo3. E in- do elrey fugindo pela borda dum palmar defronte das carauelas , mandoulhe Pero rafael tirar com hua bombarda grossa, que lhe matou dum tiro treze homens e hum deles daua ho betele a elrey, e ma- touho tão perto dele que ho encheo de sangue: e elrey se baqueou do andor com medo, ficandolhe na peleja morta gente sem conto , sem dos nossos morrer ne- phu m, durando ela de pola manjiaã ate
Lttr. I. Cai». LXXV. 15-5 lio meo dia. E quando elRey dom Ma- nuel de Portugal soube despois esta vito- ria por amor da lealdade que elrey de Cochim usou com os nossos na guerra S assada e nesta, e do seruiço que lhe fez íe deu seyscentos cruzados de tença de juro , que se lhe pagão com grande solen- nidade: eho padrão desta tença lhe leuou despois dom Francisco dalmeida primeyro visorey da índia como direy no segundo liuro. C A P I T O L O LXXVI. Do que Duarte pacheco disse ao príncipe de Cochim sobre a treyeão que lhe foy feyta. DEspois que elrey de Calicut fugio, partiose Duarte pacheco pera as cara- uelas sem querer falar ao príncipe de Co- chim por amor da treyção que lhe fizerão os seus Naires em deixarem a estacada : e pareceolhe que ele fora em consentimento disso pois não viera a tempo: e mandan- dolhe ele pedir que lhe filiasse d borda dagoa , lhe mandou dizer que não podia por leuar sua gente cansada , e que pola manhaã lhe ouucra de falar quando lhe mandou dizer que elrey de Calicut ya pc-
*54 Da Historia da Índia fcjar cocle no vao: e pois não fora não tinha mais que falar que deixarlhe Cochim seguro delrey deCalicut , e coisto mandou remar rijo : e tirar bombardadas , e dar gritas. E parecendo ao príncipe aquela reposta aspera: e de quem estaua agraua- do de e , "tornouilie a mandar pedir que íhe falasse, e ele de importunado lhe foy falar : queixandose ho principe de sua re- posta, lhe preguntou que culpa lhe daua. r. ele lho disse , e que lhe parecia que aqui- lo fora rreyção do Mangate e de seus parentes: e porem que não cresse que lhe podia empecer : porque a desconfiança que tinha dele c dos seus lhe faria fazer suas cousas com melhor recado , e quem tão mal goardaua sua terra que leuemente a perderia , e se aquilo fora trato que pou- co ganhara em se ele perder , e se lio não era que não podia disculpar os seus de Fí;OS ',aincía 9ue ser a gente fraca, ou esforçada lhe vinha do capitão. Ao princi- pe vierão as lagrimas aos olhos com aspe- reza destas palauras: e disse que lhe não desse culpa no que dizia , porque a não tinha, nem cresse dele o que dizia, por- que seu recado lhe não fora dado mais cedo, nem soubera que elrey deCalicut auia dir ao vao , e que ho não julgasse por Iiomeni de tratos, e mais pera quem tan-
Liu. I. Cap. LXXVI. i55r tantas vezes se auenturaua a morte por amor delrey de Cochim, que se lhe mais cedo fora dado seu recado , mais cedo fora: ecoisto disse outras cousas com que Duarte pacheco perdeo a sospeita que ti- nha e ficarão amigos. E Duarte pacheco se foy pera as carauelas onde elrey de ( o- chim lio foy ver saindo ele em terra a recebelo : e elrey lio abraçou com muyto amor, e a todos os nossos: e assi man- cou que o fizessem os senhores que yao coele E querendo elrey desculpar ho prin- cipe da culpa que lhe deu , disselhe que não soubera que elrey de Calicut auia de ir ao vao se não quando ele mandara cha- mar ho príncipe que fora já tarde: e que não vira os Bramenes : por quem lhe man- dara dizer da vinda delrey ;de Calicut. Duarte pacheco lhe disse, que ele quise- ra escusar de falar naquilo, mas que pois vinha a proposito que lhe diria o que en- tendia : que era não lhe serem ho Man- ga te , nem seus parentes tão leays como ele cuydaua, e que se ho eles não forão dantes, como ho auião de ser querendo sua amizade mais por constrangimento de temor que por amor: e que era certo que eles fizerão que os Bramenes lhe dessem seu recado pois mandarão ir a tal tempo a sua gente da estacada: e por a culpa que
i5"> Da Histor r a d a Tmot a. que sàbião que tinhão ho não forão ver, e pois não rinha necessidade deles pera que os queria em Cocliim , que os deixas- se ir pera elrey de Calicut: porque lá se temeria deles menos que em Cocliim. E que também os seus Naires ho deixarão já duas vezes que não sabia que aquilo era, que se lhes mandaua hua cousa pe- rante ele: e outra em secreto que ho des- enganasse, e que isto lhe não dizia por necessidade que teuesse dos seus : mas porque não conhecessem os immigos quão traços erão. Elrey de Cochim ficou muy- to triste do que lhe Duarte pacheco disse: e discufpouselhe tanto que ele ficou satis- feyto: e outra vez tornou elrey a mandar aos seus que lhe obedecessem como a ele mesmo. C A P I T O L O LXXVII. De como elrey de Calicut viandou deitar peçonbet nos mantimentos que os nos- sos auiao de comprar. ELrey de Calicut ficou muyto espanta- do dever tantos mortos dum só tiro: e teue por grande marauilha escapar dali viuo : e porem ficou muyto corrido de não fazer mais que os outros indo ele em
Liv. I. Ca?. LXXVII. Tf-j pessoa , e polo encobrir tornaua a culpa aos bramenes e feiticcyros que lhe consc- lharao que desse a baralha : e disselhes que erao muyto grandes mintiroscs, que cada dia ho enganauão , e que os não auia mais de crer , que se lio- assl fizera da primeyra vez que ho enganarão, que não recebera tanta perda como recebeo. E as- si disse muytas injurias aos Naires: e es- taua tão menencorio que parecia doudo. Os rcys que ali estauão lhe disserão que não tinha rezão de os culpar de fracos : porque não ouuera outros homens que lhe resistirão senão os firangues que erão fey- ticeiros e com feyriços podião tanto. Ao que ho senhor de Repeiim também quis ajudar. E elrey lhe disse que se cies erão pera tão pouco como lhe não aferrara as carauclas com tão grossa armada como leuaua : e quem lhe matara tanta gente , e porque lhes- não entrara ho vao : dizen- do! he muytas vezes que se calasse que não fizesse tão pouco do que era tanto , que se não podia vencer com tantos milhares de homens, que não posesse a culpa de serem os seus vencidos aos feyriços se não a seu pouco esforço : do que cie ficou grandemente enuergonhado c dissimulou , c conselhoulhe que mandasse deitar peçonha na agoa de que se presumisse que os nos-
i^8 Da Historia da Índia nossos podiio beber: c assi os mantimen- tos que lhe vendessem e que mandasse Naires a Cochim , que matassem secreta- mente dos nossos os mais que podessem, e por esta maneyra os apouquentaria pois não podia por outra. E este conselho mandou logo elrey que se posesse em obra : e ouueia dauer efeyto senão fora por Charcanda hum Naire que fora criado do príncipe Naramuhim que ho descobrio a Duarte pacheco, que mandou logo que sopena de morte se não tomasse nenh.ua agoa peia os nossos senão em fonte que cada vez se abrisse de nouo , porque na terra auia tanta agoa que abastaua pera is- so. E pera os mantimentos ordenou dous homens que os não comprassem sem pri- meyro tomar a salua quem lhos vendesse. E pera os Naires que auiao de matar os nossos proueo elrey de Cochim como era necessário , assi ficarão os ardis delrcy de Calicut todos atalhados , a que despois que ho soube foy conselhado pelos mouros que mandasse queimar Cochim secreta- mente , e que mandasse combater junta- mente a nao e as carauelas, e que man- dasse leuar cobras de capelo em panelas pera aue as deitassem nas carauelas e mordessem aos nossos , e quando pele- jassem mandasse deitar pelo ar pós peço- nhen-
Ltu. I. CAP. LXXVII. 15*7 nhentos que os cegassem : e que tomasse a combater ho passo do vao , e icuasse alifantes armados pera trastornarem os bateis, e que não podia ser que coisto não desbaratasse os nossos : o que de creo que seria assi. E começando de se perceber pera isso , foy dito a elrey de Cochim, onde se ieuantou grande rumor com ho medo que a gente ouue coestas no- uas: e elrey foy ver Duarte pacheco e lho disse : do que se ele rio dizendo que tu- do aquilo erao feros delrey de Calicut que fazia sempre pera ver sc lhe auia» medo, e em fim auia de fazer tão pouco como ateli. Porque ele tinha ordenada hua cousa que se elrey viesse ho auia de Í)render , e tomarlhe os alifantes , e matar- hc quanta gente trouuesse. E que já ht> fizera , se lhe lembrara mais cedo : por isso que se não agastasse, e que se tor- nasse a Cochim , c que lhe mandasse quantas cadeas, e amarras de naos lá ou- uesse, porque lhe erão necessárias pera o- que auia de fazer. Do que elrey foy muy- to ledo : e logo lhas mandou. E Duarte pacheco fingio que queria fazer hum grau- de edifício , e dous dias não consenti» que nenhum de Cochim fosse ao vao. E neste tempo mandou abrir á borda d3goa grandes couas e altas : e. trauessar nelas gran-
i6o Da Historia da Índia grandes viças. O que vendo os de Co» chim, crerão o que lhes dizia: e perderão ho medo que tinhao , e desejauao que viesse elrey de Calicut: a que forao as noius de todas estas cousas , e do que Duarte pachcco dizia. O que os seus crerão, e ouuerão tamanho medo que por nenhua maneyra quiserão ir coele ao vao nem menos pelejar com as carauelas. E não fez tão pouco quando os pode persuadir que fossem pelejar com a nao de Duarte pacheco : o que ele sabendo mandou reca- do a Diogo pereira : e que fizesse como homem, que lhe não auia dacodir: por- que se temia , que mandar elrey de Cali- cut sobre a nao , era trato. E Diogo pe- rcyra lhe respondeo , que perdesse o cuy- dado, que ele lhe daria boa conta dela + e assi ho fez: posto que pelejarão coele oytenta paraós: de que alagou dous, e arrombou tres: e matandolhe muyta gen- te os fez fugir. E estes se forão a hua ilha que está hi perto, que se chama a terra dos cinco Caimais: e refazendose de gente foranse a outra ilha delrey de Cochim , que está quasi defronte da nos- sa fortaleza , e saltarão nela muytos dos immigos , e poseranlhe fogo. E os mora- dores que erao gente baixa e não peleja- uão fugirão logo j lançandose ao mar pe-
Lru. I. Cav. LXXVII. i6t Ia outra banda da ilha: c foranse a nado pera a nossa fortaleza. E Lourenço more- no quisera ir sobre os immigos , mas ho feytor não quis , dizendo que erão muy- tos , e que ele ao mais que podia leuar dos nossos serião quinze: e que yão em grande risco, que melhor acodiria Duarte pacheco. E mandoulho dizer: e querendo ele ld ir , soube que os immigos erão idos: e por isso não foy. C A P I T O L O LXXVIII. De como ho capitão mór Duarte pacheco pelejou com cincoenta e clous paraós dos immigos. DEspois disto estando Duarte pacheco hum domingo jentando na sua cara- uela que viera de vigiar aquela noyte, como fazia as outras , disselhe hum ho- mem que estaua no topo do masto , que pola banda de Repelim vinhão dezòyto paraós de Calicut. E sabendo que não erão mais disse aos seus; Ea filhos, vós outros estais pera dar nestes paraós. Bem sey que estais cansados do trabalho desta noyte e doje: j)orem estes sam os paraós que queimarão a ilha de Cocbim, eles sam poucos e recolheu se , e agora Liv. I. Tom. II. L pas-
i6z Da Historia da Índia passa de mco dia: se dermos neles, es- pero que nosso senhor nos ajude , e que os Ieuemos na mão. Todos disserão que esrauão prestes. E deixando recado a Pero rafael que lhe socorresse na sua carauela se fosse necessário , embarcouse nos ba- teis , e mandou a dous paraós de Cochim que hi estauao que se adiantassem, porque erao mais_ remeiros peia que lhe fizessem deter os immigos: que vendo ir os nos- sos contreles amainarão, e tomarão os re- mos, e deixaranse ir pareles. E chegando aos nossos a meo rio, sairão supitamente detrás de hua ponta dezaseys paraós , e apos eles dezoyto: e feytos com os pri- meyros em tres esquadrões , poseranse a tiro de bombarda huns dos outros. Duarte pachcco que vio tantos pesoulhe de os ter cometido por quão singelo ya , que não leuaua mais que corenta e quatro dos nos- sos : e como já não auia outro remedio determinou de os aferrar : e esforçando os seus pos a proa em os primeyros, e tirandolhe ás bombardadas arrombou dous. Ho que vendo os immigos teueranse, e os nossos lhe derão hua grande grita : e remetendo a dous que yão diante pera os aferrar, sentirão nas costas huns dos ou- tros esquadrões , que apertauão coele ás bombardadas. E por isso Duarte pachcco
Lia. t. Cap. LXXVIII. i6? virou a estes com ho seu batel: e poert- do a popa na do outro deixouho , pera que pelejasse com os dous que ya aferrar. De que lio estrouarão os inimigos que sobreuierao : e poseranse huns com os ou- tros ás bombardadas, e os nossos ficarão cercados deles : porem estauao mais segu- ros dos tiros que os immigos , por amor das padessadas que tinhao: e meteranlhe quatro paraós no fundo, e em outro arre- bentou hum tiro, e matoulhe ho bombar- deiro , e outros dous homens, e os outros se lançarão logo ao mar e fugirão pera terra a nado. E os nossos tomarão ho pa- raó , e outros fugirão, indo os nossos apos eles ás bombardadas : e alcançandoos jun- to com terra chegaranse tão perto, que ju- gauao as lançadas, tendo os immigos as popas dos paraós em terra. E os nossos os desbaratarão logo, se não sobreuierão por terra muytos em sua ajuda : e com tudo aferrarannos. E os primeyros que saltarão em hum paraó dos immigos fòrão , João gomez bojardo , e Niculao pires, e com outros que saltarão logo fizerão recolher os immigos á popa do paraó , onde se defenderão hum pouco : e assi neste pa- raó como em outros foy a peleja muy grande. E dos immigos huns pelejauão , outros se lançauão ao mar e fugião pera L ii ter-
164 Da Historia da Índia terra: c por derradeyro assi ho fizerão to- dos com medo dos nossos , que fizerão este dia cousas marauilhosas. E segundo se despois soube, nunca- os immigos te- uerao por tamanho feyto nenhum de quan- tos os nossos fizerão nesta guerra como este: nem ouue ate este tempo outro que lhe tanto quebrasse os corações , porque a fóra serem vencidos morrerão muytos : e dos nossos ficarão alguns feridos. Des- baratados os immigos , os nossos tomarão - quatro paraòs que não poderão leuar mais, e acharão neles muytas armas , e treze bombardas , as quatro delas erão muyto boas , e hua era de metal, que ti- rana ferro coado , e mais furioso que hum falcão. E partido Duarte pacheco tornarão os immigos a meterse nos paraós , e se- guiranno ás bombardadas , mas não que lhe chegassem. E ele os leucu assi ate ás carauelas. E deixandoes hi , tornou sebre os immigos ás bombardadas , e arrombou alguns deles , e os outros fugirão sem os poder alcançar. E tornandose vio da ban- da de Repelim grande multidão dos im- migos que acodião aos paraós. E da ban- da de Çochim esraua elrey coesses senho- res que ' ho ajudauão : que indo visitar Duarte pacheco chegou defronte das cara- uelas a tempo que ya de largo pelejar 1 l „ com
Lm. I. Cap. LXXV1II. i6ç com os paraós , e por isso vio a peleja, e fez grande festa com a vitoria dos nos- sos E conhecendo Duarte pachcco que elrey de Cochim cstaua em terra , man- dou logo que fizessem as carnuelas prestes, pera ho festejarem com a artelharia. E foy- se logo parele que ho recebeo bradando com todos os seus, Portugal, Portugal. E Duarte pacheco com os nossos, Co- chim , Cochim. E apos isto saluao as ca- rauelas com a arrelharia : e Duarte pache- co saltou em tesra , e elrey ho leuou nos braços com grande alegria : e os outros senhores ho abraçarão despois : e esteuerão falando no que lhe acontecera com os irn- migos. E crendo elrey que fora peleiar com os paraós com os ter visto todos disselhe , que se posera em grande risco: e ele não lhe querendo dizer como fora , lhe disse que cada vez que se achasse com outros tantos , pelejaria com eles: e que cometeria por seu seruiço outros móres feytos que aquele : e offreceolhe a presa dos paraós que tomara , que elrey não quis : saluo quatro bombardas , e outras muytas armas: e fez Duarte pacheco pc- rantele noue caualeyros: e dizendolhe el- rey , como cada dia se yão parele muytos daqueles que lhe forão reueis , que ajudauão a elrey de Calicut: ele ho auisou que se não jiasse deles. C A-
j66 Da Historia da Índia C A P I T O L O LXXIX. De como os inimigos entrarão na ilha de Cochim , e furão desbaratados por certos poleás. MUyto triste ficou elrey de Calicut pelo desbarato dos seus paraós, e por as bombardas que perdeo : e disse sobre isso muytas palauras magoadas. E por não anojar os mouros não disistio da guerra , que temia iremse de Calicut, e perder toda sua renda. E os mouros lhe conselharão que mandasse meter naos » grandes pelo rio de Cranganor : que ya ter ao ae Repelim , por onde yão ao passo de Palurte : e como as naos erão muyto mais altas que as carauelas podelas yão aferrar. E elrey lio cjuisera fazer, mas não pode ser , por nao poderem as naos chegar ao passo por hus bayxos que estauão no caminho e tornaranse. E ven- do os mouros isto conselharão a elrey, que mandasse combater ho vao pelo prín- cipe , e pelo senhor de Repelim tantas vezes que cansassem os nossos, e os to- massem e isto se determinou. Do que sendo Duarte pacheco auisado , foy ama- nhecer ao vao, leuando com os bateis os qua-
Liu. I. C a P. LXXIX. 167 quatro paraós que tomara , e pôsse da ban- da da terra de Porquá, onde saio a espe- rar os immigos como costumaua, porém eles não vierao: porque sabendo ho prín- cipe, e senhor de Repelim como a nossa armada estaua acrecentada, ouuerao medo de serem desbaratados , e não quiserão ir. E porque não andassem em delongas de pelejas , determinarão de entrar na ilha de Cochim por outro passo que se chamaua de Palinhar hua legoa abaixo do vao que era mi í era tão forte com grosos e bastos , que parecia que era im- possiuel poder entrar gente por ele. E por isso ho mais do tempo estaua sem goar- da: e também porque nunca os immigos fizerão inclinação de entrar por ele : c co- mo ho príncipe, e ho senhor de Repelim sabião que estaua mal goardado, quiserao prouar de entrar porele : e mandarao ir diante muyta gente baixa , com macha- dos , enxadas , e cestos , pera fazerem ca- minho aos Naires : e como ho passo estaua sem goarda logo foy feyto ^ e os Naires começarão dentrar , e lorão dar com muytos poleás, que sam trabalhado- res , gente muyto ciuil antre os Malabares. E como virão entrar os immigos, e não virão quem lho defendesse: defenderãoho vasa cspinheyros muyto eles:
168 Da Historia da Índia eles . e apilidarao logo a terra dando suas coquiadas, a que acodirao liuns com en- xadas , outros com paos feytiços e pedras, porque não podem ter outras armas: e huns de cá , outros de lá fizerão hum bom corpo de gente , è derão nos inimi- gos , ainda que erão Naires , que lhe de- fendia a sua 1 ey sopena de morte , que se nao tocassem coeles. Porque crem os Nai- res que ficao çujos : e tanto crem isto , que ainda aqui com medo de se çujarem, vendo remeter os poleás a eles fugirão. E como os dianteiros derao nos traseiros desbarataranse , e fugirão tão desatinados que cayao liuns por cima dos outros, e os poleas tomando as armas a muytos que matarão, ás pancadas matauão coelas ou- tros : e assi os desbaratarão e lançarão tora da ilha : e os outros que estauão por entrar nela não ousarão de passar auantc, crendo que andaua ali Duarte pa- checo. E assi se forão desbaratados ho príncipe, e ho senhor de Repelim, com muyta gente morta, por se os seus Nai- ra não quererem tocar com os poleás de Cochim. E sabendo na fortaleza desta peleja acodiolhe Lourenço moreno com alguns dos nossos , e já não achou que azer , que era ho fèyto acabado, que se tão prestes que nem a gente que jran-
Liv. I. Ca?. LXXIX. *6? mandou elrey de Cochim em socorro não achou que fazer : mas posse em goarda daquele passo. Os poleás despois que des- baratarão os immigos atauiaranse per man- dadado de Lourenço moreno , dos paos c armas dos mortos : e forão dar conta a Duarte pacheco do que tinhão feyto, que nunca soube da ida dos imnugos a^ Pali- nhar, senão a tempo que não podia so- correr. Porque pera ir por agoa^ auia bai- xos por onde os seus bateis não podião nadar. E quando vio os poleás que che- gauao a ele , leuantouse a recebelos, cren- do que fossem Naires. Candagorá que es- taua coele lhe disse, que se não aleuan- tasse porque erão os poleás que desbara- tarão os immigos. E ele folgou muyto com sua vinda , e fezlhe muyto gasalliado , e mandouos assentar , ainda que Candagorá não quisera, e mandauaos leuantar, e ele não quis , dizendo que rezao era que se fizesse honrra a homens que a também souberão ganhar: e pois fizerão hum fey- to tão honrrado que já não auião de ser poleás , senão Naires, e que assi ho auia de pedir a elrey. E logo Candagorá lhe disse que elrey ho não auia de fazer, por- que não podia : porém Duarte pacheco os mandou todos assentar em rol, pera pedir a elrey de Cochim que os fizesse *_ Nai-
170 Da Histoma da Índia Na ires , e assi lho pedio. Do que se elrey escusou, dizendo que era seu costume não poderem ser Naires , senão os que naciao Naires: que se ho poderá fazer lio fizera de muyto boa vontade, que bem via que ho mereciao : mas que os Naires se le- uantarião contrele , porque tinhao por pre- uilegio antigo, que não podesse ser Nai- re quem ho não era de seu nacimento. E insistio tanto Duarte pacheco com elrey que lhe fizesse Naires os poleás, que lhe disse que pois lhos não queria fazer, ue buscaria quem lhos fizesse. E elrey isse que se ouuesse rey na índia que o quisesse fazer , que ele o faria. E vendo Duarte pacheco que não podia ser, con- tentouse que elrey desse preuilegio a estes poleás, e aos seus descendentes, que po- dessem passar pelos caminhos, posto que passassem os Naires , sem terem por isso pena , e que podessem trazer armas , e que fossem liures de todo tributo. Ecois- to que ouue se acrecentou ho amor que lhe tinlião os de Cochim. CA-
Lio. I. 171 C A P I T O L O LXXX. De hiia treyçao que hum mouro de Co- chim quisera fazer ao capitão mor Duarte pacheco. ELrey de Calicut que desejaua muyto dauer as treze bombardas que lhe os nossos tomarão concertouse com hum mouro de Cochim chamado Çamalamacar mercador rico c honrrado que lhas ouues- se. E ele se offreceo a isso , por querer grande mal a Duarte pacheco , como to- dos os outros de Cochim lho querião , posto que dissimulauao. E pera auer as bombardas ordenou hua treyçao , que ou as auia dauer, ou se auia Duarte pacheco de perder : e começou de a ordir, com lhe fazer saber por elrey de Cochim que tinha cem bahares de pimenta pera ven- der na nossa feytoria: e por se temer dos nossos que estauao nos passos do vao de Palurte , lhe era necessária húa bandeyra que leuasse aruorada em hum tone , onde tinha embarcada a pimenta, pera que ven- doha os nossos lio não salteassem. Duar- te pacheco deu a bandeyra , e disse que se fosse necessário que ele iria pelo tone: o mouro disse que abastaua a bandeyra,
37* Da Historia da Índia porque ele não se temia tanto dos inimi- gos , como dos nossos sem seu sinal. E esta palaura pareceo mal a Duarte pache- co , porque conhecia ho mouro por roim ; e porque elrey era o corretor a não espe- culou bem. E como ho mouro teue a bandeara mandou dizer a elrey de Calicut que csreuesse toda sua frota detrás da pon- ta de Repelim , e que vendo ir pelo rio abaixo hum tone com hua bandeyra bran- ca que tinha hua cruz vermelha , saíssem a ele dez ou doze paraós e que ho to- massem > pera que Duarte paeheco lhe fosse acodir com os bateis , a que logo sairia roda a armada , e que ho tomarião: e quando não , que pelo tone que tinha feyto crer que ya carregado de pimenta aueria as treze bombardas. E estando elrey de Calicut muyto ledo com este ardil, hum dia -pela nvunhaã passou ho tone: e por amor da bandeyra que leuaua dei- xouho Duarte pacheco passar , senão quan- do indo hum pedaço das carauelas vio sair a ele dez ou doze paraós. E vendo isto acodiolhe com os bateis , e paraós, c hum catur em que ya Pero rafael. E in- do ao longo da terra vio vir contrele hum homem correndo , e acenandolhe que es- perasse : ho que ele fez , posto que neste instante os immigos tomarão ho tone. E
Liv. I. Cai». LXXX. 173 chegando ho homem que era hum Pani- cal á borda dagoa, disse a Duarte pache- co , que não passasse auante: porque de- trás da ponta de Repelim estauao cento e oytenra paraós de Calicut: e porque ho Panical e outros Naires que hi estauao não cuydassem que ele auia medo aos inimigos, disse que bem sabia que esta- uão ali, mas que não auia de sofrer to- marem assi ho tone. E dizenco isto pos a proa nos que ho tomarão, e fez que os va demandar. E mandou a Pero ratael que fosse descobrir a ponta , e se visse os inimigos que tirasse hum tiro , e vi- rasse logo : e senão que aruorasse hua bandeyra. E ele virou logo, tirando hum tiro porque vio os immigos : e eles sairao apos ele, vendo que erao descubertos: é tirauanlhe muytas bombardadas. E Duarte pacheco lhe acodio logo, tirando do seu batel e dos outros. E sobre recolher Pero rafael foy hum áspero jogo de bombarda- das : e os immigos apertauão os nossos n uy- to rijo . e com muyto trabalho se ajuntou Pero rafael com eles : e logo Duarte pa- checo se recolheo pera as carauelas com as popas por diante , e as proas nos immigos por lhes poder tirar com a artel liaria. E eles trabalhauão quanto podião por lhe chegar sem temor da nossa artelharia : «
174 Da Historia da Índia ás vezes chegauao a 'oote de lança , e assi foy co n muyta afronta até chegar ás ca- rauelas , onde se recolheo com outra muy- to mayor, e todos os seus : porque co- mo os immigos yão táo pegados coeles , passarão os nossos muy grande perigo : e os immigos ficarão tão perto das caraue- las como nunca esteuerão , e tudo foy pê- ra mdr seu mal, que como elas começa- rão de jugar com a artelharia fizerannos afastar com alguns paraós arrombados, em 3ue lhe matarão algua gente : e os nossos íe dauao grandes apupadas , fazendo es- cárnio de quão pouco fizerão. E indo já os immigos , Duarte pacheco foy apos eles nos bateis , tirandolhe bombardas com magoa do tone que vira tomar, que cuy- daua que ya carregado de pimenta, co- mo lhe dissera Çamalamacar. Do que aquele dia á tarde o desenganou lio mes- mo Panical que lhe dera ho aniso da ar- mada delrey de Calicut: e disselhe a ver- dade do trato de Çamalamacar , c a cila- da que lhe tinha armada com ho tone, e disselhe mais que se não fiasse de nenhum mouro de Cochim , porque todos erâo seus immigos. E por estes auisos lhe fez Duarte pacheco merce : e ao outro dia estando ele em terra , foy Çamalamacar ao passo com outros mouros , e mostrou? se
L i v. I. C a i\ LXXX. 17? se muyto triste pela perda do seu tone, que ya carregado de pimenta. Duarte pa- checo lhe disse que não se agastasse, porque tudo faria por ele não perder sua pimenta. E ele respondeo que se cometes- sem elrey de Calicut com os paraós e bombardas que lhe tomarao que poderia ser que daria a pimenta a troco. Ao que Duarte pacheco disse , que pera tão pouca pimenta lhe parecia muyto grande preço ho das bombardas e paraós, e po- rem que tudo faria por ele ser satisfcyto , e que fossem ver as bombardas : e isto di- zia indose coeles pera os bareis e chegan- do a eles disselhe que entrasse no seu pera ir ver as bombardas que estauão nas carauelas. E ele com medo sem saber de que não quisera entrar: mas Duarte pache- co ho fez entrar por força : ao que os outros fugirão pera Cochim. E chegado Duarte pacheco á sua carauela com C^ama- lamacar , mandouho açoutar , e despois picar com hum caniuete , dizendolhe que como lhe teuesse dado muytos tormentos ho auia logo de mandar enforcar , pela treyção que lhe quisera fazer , e contoulhe como a soubera, picandoho sempre com ho caniuete: com o que ho mouro pagou bem o que tinha feyto. E estando pera ho enforcar foy dito a Duarte pacheco da par-
176 Da Historia da Índia parte delrcy de Cochim , que lhe pedia que não fizesse nada até ele ir, que já ya de caminho : porque lhe ya muyto em se fazer assi. E a causa deste recado lhe chegar tão cedo, foy acharenno no cami- nho os mouros que fugirão , que ya visi- tar Duarte pacheco : de quem se lhe quei- xarão , dizendo que leuaua Qimalamacar ás carauelas pera ho matar, prometendo- lhe se tal fosse de se irem todos de Co- chim. E como este era hum dos grandes medos que elrey tinha naquela guerra po- ia falta de mantimentos que aueria mandou este recado tão depressa, e Duarte pache- co por amor dele não mandou enforcar Çamalamacar, posto que lhe pesou muyto de ho não ter feyto : c ate que elrey veo ho atormentou fortemente que nenhum ca- belo lhe deixou na barba. E chegado el- rey contoulhe toda a treyçao que ordena- ra , pedindolhe muyto que lho deixasse enforcar: o que ele não quis conceder pe- la rezão que disse , pedindolhe por isso muytos perdoes , e certificandolhe que le- uara tanto gosto como ele em ser enforca- do , porque I10 merecia: e vendo Duarte pacheco isto lho deu. E elrey ho leuou çomsigo a Cochim reprendendoho muyto do que fizera. C Ar
L i u. I. 177 C A P I T O L O LXXXI. De como hum mouro inuentou a elrey de Calicut huns castelos de madeira, com que podes sem aferrar as nossas carauelas. VEndo elrey de Calicut quão pouco lhe aproueitauao seus ardis : e que com quanto poder tinha não podia fazer que tendo os nossos tão pouco deixassem ho passo, quisera leuantar ho arrayal, e irse senão fora pelos mouros que ho re- prenderão disso, e assi esses reys e senho- res que estauão coele : e quasi que ho de- teuerão por força , com lhe affirmarem que Duarte pacheco não podia estar ali muy- to: e que como se fosse entraria ho pas- so , e tomaria Cochim. E elrey estaua já tão quebrado dos espiritos , que posto que via que aquilo não auia de ser , dei- xauase ir com o que lhe dizião. E saben- do Duarte pacheco o que disserão a elrey de sua partida , pera que soubesse quão de vagar estaua , mandou fazer huas casas em hua ponta que entraua muyto no rio: e mandou abrir hua caua pera que ficasse em ilha, porque ho não podessem entrar pola banda da terra firme. E na pontinha Liu. L Tom, II. M da
178 Da Historia da Índia da ponta mandou fazer hum bastião muy- to forte da terra , e de madeira cercado de caua , em que mandou poer dous fal- cões com que varejaua ho rio : e ali jun- to tinha sua armada , em que sava muy- tas vezes aos paraós dos inimigos , que por lhe fazerem sobrançaria se lhe mos- trauao : e quando lhe fugiao os ya buscar por esses rios , e esteiros : e fazialhes tanto danno que os immigos não ousauão da- parccer senão muytos : e porem poucas vezes por estarem ja muytos cansados e quebrados de verem tantas vitorias aos nossos, e eles não poderem alcançar ne- nhua. E por isso lhe não sayão senão quando lho elrey mandaua : o que não esperauao da primeyra. E coesta fraqueza dos immigos tinhão os nossos tempo de fazer em suas terras muyto grande des- truyção com ferro e fogo. Com que an- dauão os moradores tão espantados que não ousauão de dormir nos lugares , por- que os nossos os salteauão de noyte : e yaose dormir ao campo , por estarem ínais seguros : e tinhão tamanho medo que yão clamar a elrey de Calicut que lhes valesse, e que acabasse de destruvr os nossos, ou fizesse paz coeles : porque já não * podião sofrer as fadigas daquela guerra r e senão que lhes seria forçado irem
Liu. I. Caí. LXXXI. 179 irem buscar outra terra em que morassem. E coisto estaua muyto triste, e não se sabia dar a conselho porque se queria fa- lar na paz , ameaçauanno os mouros , que se irião de Calicut: o que ele temia muy- to pola renda que nisso perdia: e doutra parte via perder sua terra com que perdia seu estado. E sem se poder determinar estaua em grande agonia , e ela lio pos em tal estremo que determinou de querer paz com Duarte pacheco, e tão secreta- mente que se não soubesse senão despois de feyta. E a ninguém deu então conta de seu pensamento senão a dous mouros mercadores de Cochim , de que hum auia nome Chirina marear , e ho outro Mamal- le marear. E este-s instruidos por ele dis- simuladamente disserão a Duarte pacheco antre outras cousas que se ele quizesse paz com elrey de Calicut , que não faria mais guerra a Cochim, e que logo se iria com toda sua gente. E isto dizião, dando a entender que elrey de Calicut não sabia nada disso, senão que se ele quisesse ne- gociarião aquilo com elrey polo seruir. E ele que bem entendia sua roindade , lhes respondeo muy secamente : que não podia crer que hum rey tão poderoso e tão rico como se cuydaua no Malabar que era el- rey de Calicut, estando tão acompanhado M ii de
18o Da Historia da Indía de reys e grandes senhores , e de tanta gente de guerra , quisesse fazer paz com quem não tinha mais que setenta e quatro companheiros , nem quisesse deixar por seu medo o que tinha começado: e pois eles erao tamanhos seus semidores como sabia que não dissessem cousa de que ele receberia tamanha vergonha, nem lhe de- uiáo daconselhar que desistisse da guerra como sabia que lha conselhauao que não desistisse : porque a ele não lhe dau3 nada dela, nem queria paz ainda que elrey qui- sesse , senão seguilo até entrar em Cali- cut : o que soubessem certo que auia de fazer ainda que se elrey fosse, e que eles assi lho fossem dizer: porque lhe prome- tia que senão fora por elrey de Cochim que lhe dera a paga dos tratos em que andauao, e que se fossem logo , porque lhe não daua nada de serem quão roins erao. O que eles fizerao mais rijo que de vagar , e teuerão em muyto irense sem outra pena: e não ousando de ir a Cali- cut mandarão dizer isto a elrey : que coes- ta reposta desesperou de poder fazer paz, e não quis falar nela. E nestes dias tor- nou ao arrayal a doença que se aleuantara es dias passados, e tornou a matar muy- ta gente . e com medo dela fugia também muyta: e estcue ho arrayal em risco de se
Liu. I. Cap. LXXXI. 181 se Ieuantar de todo. Porém os mouros man- darão trazer de Cananor e de Termapatão seys mil e quatrocentos homens os mais deles frecheiros , e alguns espingardeiros : e assi refizerao a frota com corenta pa- raós, que trazia cada hum duas bombar- das , e ainda despois vco muyta gente. E porque com tudo isto entendião os mou- » ros que elrey tinha vontade de desistir da guerra por quão mal lhe ya nela, acharão hua enuenção pera que podessem aferrar as nossas carauelas. E esta deu hum mou- ro de Repelim chamado Coge alie, que andara por muytas partes do mundo , on- de vira muytas cousas: e por isso , e por ter bom natural era de muy soiil engenho. Este fez hum castelo de madeira sobre dous paraós, lançando duas vigas da proa e popa dum , á proa e popa do outro, e de tamanho comprimento camanha auia de ser a largura do castelo que foy feyto em quadra. E antre estas duas vigas yão ou- tras tão juntas que fazião hum sobrado : e de cada quadra auia hua andaina de vi- gas daltura dua lança ou pouco menos , encaixadas as cabeças em conchas de ma- deira , e pregadas com grandes pernos de ferro: e nos corpos das vigas auia tres ordens de furos fechados com barões de ferro, que ao parecer era cousa muy for- te.
i8z Da Historia da Índia te. E neste castelo podiao ir até corenta homens com alguns tiros dartelharia , c por amcr dos paraós sobre que era fundado podia ir polo rio e aferrar as carauelas por sua altura : de que elrey ficou muyto ledo quando ho vio , e fez muyto grande merce a Coge alie. E por a vitola daquele castelo mandou lazer ainda sete pera que coeles aferrassem os seus as nossas cara- uelas , o que tinha por muyto certo que auia de ser assi. C A P I T O L O LXXXII. Do ardil que inuentou Duarte pacheco pera que lhe não abalrroassem as carauelas com os Castelos. D Estes castelos foy logo Duarte pache- co auisado per suas espias : e mais que auião os immigos de fazer balsas de fogo pera queimarem as carauelas : e quan- do as não podessem queimar as aferrariao com os castelos. O que ouuindo a gente de Cochim ho crco logo , e foy toda muy toruada de medo : e com o que lhe os mouros fazião , dandolhe por certo ho des- barato dos nossos, e que auião os immi- gos de tomar Cochim aluoraçandose pera se irem. Do que elrey de Cochim foy as-
Liu. I. C a p. LXXXII. 183 assaz triste, e mais tão desconfiado que lhe parecia que com aqueles castelos auião os nossos de ser desbaratados. E dissimu- lando isto por amor dos seus, mandaua- lhes poios esforçar, que fossem preguntar a Duane pacheco se esperaua poder resis- tir a elrey de Calicut : to que eles faziao assi pera verem o que ele dizia , como pera saberem de que maneyra estaua. E ele lhes dizia , que porque lhe preguntauao aqui- lo : pois elrey de Calicut jâ fora com ou- tros medos tamanhos como aqueles e le- uara a cabeça quebrada , que assi seria então , e que sespantaua muyto domens que sabião também quão couardos erao os de Calicut crerem logo qualquer medo que lhes faziao: e que esperassem ho fim daquele combate porque auia de ser como ho dos outros. E que quando não , que ainda terião tempo pera se saluar: e com quanto eles vião que ele dizia bem era ho seu medo tamanho , que^ se não atreuiao a esperar: e como que não tinhao ouuido lhe preguntauão de nouo, se auia despe- rar elrey de Calicut. E importunaraono de maneyra com estas preguntas , que dagas- tado espancou tres deles , dizendo que se lhes dizia hua cousa , e sabiao por expe- riência do passado que lhes falaua verda- de , porque ho não crião. E pera os mais es-
184 Da Historia da Índia espantar, mandou perante todos meter no chão hum pao muyto alto , e agudo, que antre os Malabares se chamaua caluete , em que matao por justiça a mais ciuel gente da terra: e espetannos nele. E por- que matao assi nele a gente ciuel, se di- zem a hum Naire, Naire caluete tenno po- la mayor injuria que se lhe pode fazer. E posto assi aquele caluete , jurou de espe- tar nele elrey de Calicut se lhe desse combate: porque dizia que já tinha acha- do hum ardil pera ho prender logo : e mandou a todos os seus que por desprezo delrey de Calicut dissessem com grande grita Camarim caluete: e eles começarão a dizer assi muytas vezes. O que a gente de Cochim teue por tamanha ousadia co- mo tinhao, que era esperarem os nossos ho combate : e forao perdendo parte do medo que dantes tinhão : e diziao que auiao desperar I10 dia em que se desse ho combate. E como foy aruorado ho caluete, yão a velo todos os de Cochim: e antre- les forão hoMangate, e outros muytos se- nhores que erão vindos nouamente em fa- uor delrey de Cochim , crendo que os nossos auião de ser desbaratados: e arre- pendiãose de terem deixado elrey de Ca- licut : e nenhum deles não podia crer que Duarte pacheco mandasse meter aquele
Liu. I. Cap. LXXX1I. i8y caluete por desprezo delrey de (jilicur. E pera saberem aquilo certo ho forao ver, e disseranllie o que se dizia cm Cochim que daquela vez auiao as carauelas de ser afer- radas : por isso que visse bem o que lhe compria E ele que entendia a tenção com que lhe aquilo dizião , rcspondeolhes , que ho que lhe cumpria pera segurança de Co- chim era não deixar aquele passo , e se isso não fora que no passo de Cambalao agarda- ra ele ho seu rey de Calicut pera ho nao deixar passar. E se cuydauão que auia com os seus tamanho medo delrey de Calicut co- mo eles auiao , que estauão nisso muyto en- ganados : porque não auia cousa cm toda a Índia que lho fizesse: por isso não temia ho lião delrey de Calicut, nem fazia estima de- le nem de seus feros : e se eles ousassem des- perar sua vinda ali ho virião desbaratar com toda sua armada. E cressem que se ele ho fosse aferrar em pessoa , ou se posesse em parte onde lhe ele. podesse chegar , que ho auia de prender, e despois metelo naque- le caluete que vião : porque pera isso ho mandara leuantar. E isto dizia com hum aspeito tão menencorio , que eles ouuerao medo que lhes fizesse algum mal, e por isso quiserao dissimular cocle, dizendo que nao criao eles que elrey de Calicut ho podesse desbaratar: mas que ho auisaulo co-
186 Da Historia da Índia como seruidores dei Rey de Portugal. E ele lhes disse que se forão seruidores del- Rey de Portugal , como dizião que não ouuerao de mandar a sua gente que se fos- se da estaca Ja, auendolhc elrey de Cali- cut de dar batalha: e que auiao dassesse- gir a gente de Cochim do aluoroço em que andaua , e mostrarselhe muyto esfor- çados : e não irem com biocos a ele e aos seus, que não erão fracos de coração, que por medo fizessem o que eles fizerão lio anuo passado: e que se ho não entendião que tornassem despois do combate, e lho declararia : e que ho deixassem entender no que lhe releuaua mais. E eles se forão sem responder palaura , de medo que auião dele. E com quanto ele dissimulaua que não tinha em conta os castelos delrey de Calicut , eles lhe dauão assaz de trabalho no spirito que receaua muyto de ho aferra- rem , por amor da muyto pouca gente que tinha. E pera que lhe não podessein aferrar suas carauelas, mandou fazer hum caniço de mastos de naos chapados com muytas chapas de ferro : e era de largura do comprimento dos mastos , e de oyto braças de comprido : e estaua por proa das carauelas afastado obra dum tiro de pedra , amarrado com seys ancoras , rres a montante e tres a jusante pcra que es- tc- »
Lio. I. Cap. LXXXII. i«7 teuesse mais firme , e porque ficassem as carauelas tão altas como erao os castelos , inuentou Pero rafael huns chapiteos leitos de meos mastos , que estauão impinados e pregados nas amuradas das carauelas , em cujos mastos çarrauão os sobrados dos chapiteos , que erao tamanhos que pcdiao bem espaçosamente pelejar seys ou sete homens cm cada hum. E tendo isto r<-y - to á vesoera do dia que auia de ser ho combate, ho foy elrey de Cochim visitar. E ele ho recebeo com os seus foliando e can- tando pera que se alegrasse, que bem en- tendia pelo que conhecia dele quão tris- te andaua , e quão clieo de medo. E com todas estas festas não se pode alegrar , antes lhe vierão as lagrimas aos olhos com piedade dos nossos que daua todos por mortos : e abraçando com muyto gasa- lhado a Duarte pacheco , ho fez^ também abraçar a esses senhores que yao coeie. E isto com hum geito de^ser aquela a dcrradeyra vez que se auião de ver. E despois' se apartou coele , e com alguns dos nossos : e como homem róra de si lhe disse. Elrey de Calicut tem muyto ar a,ide Poder , e nós muyto pouco ■ e cu não tenho nenhúa esperança de defender Cochim , nem menos os meus: e conto es- tão pera fugir como fores desbaratado. •>
188 Da Historia da Índia pois eu estou perdido, rogote que te saT- uss em quanto tens tempo, porque des- pois nao sey se ho auerd. E como que se ihe dera hum nó na garganta não pode mais falar. Do que se mostrando Duarte pacheco muyto agastado , lhe respondeo quasi com ira , dizendo. Ojte fraqueza be a que conheces em mim pera me dize- res que me ponha em saluo? Ouc aqui e em qualquer parte que estê, estou muy- to seguro , nao somente de me defender dclrey de Calicut mas de ho desbaratar por mais poderoso que venha. Nao me di- zias tu todos estes dias , que De os pe- lejava poios Portugueses ? Pois como du- vidas que ho nao faça agora ? Eu espero nele que d menhaã me vejas poer naquele caluete elrey de Calicut. E nisto nao te- nloo eu duvida, se me ele esperar, nem tu a deues de ter se quiseres cuidar nas vitorias que nos nosso Senhor tem dadas tantas vezes, tendome elrey de Calicut a mesma avantajem que me agora tem. E isto deues de crer, e nao o que te dizem os mouros de Cochim , que todos nos que- rem mal : nem os a 'uorocos que fazem os Naires que hao medo de qualquer cou- sa : pese te muyto do que me tens dito, e tomate pera Cochim , e tem a gente que se uao vd t e dei x ame coes te passo, que
L i v. I. C a p. LXXXII. 189 que eu te darey boa conta dele. Elrey por não lhe dar paixão se mostrou nuiyto esforçado com aquelas palauras que lhe respondeo: e tornouse pera C.ochim , on- de também por esforçar sua gente se mos- trou ir muyto esforçado , e confiado em os nossos defenderem ho passo, segundo ho esforço que achara em Duarte pacheco : e affirmoulhe por sem duuida , que hode- fenderião , e coisto assessegou os Naires c toda a gente de Cochim do aluoroço que trazião pera fugir, crendo que auiao os nossos de ser desbaratados. E ainda sobris- to atentarão os mouros de os fazer fugir , poendolhe grandes medos , mas nunca poderão. C A P I T O L O LXXXIII. De como elrey deCalicut deu combate aos nossos com os castelos , e de como foy desbaratado. PArtido elrey de Cochim , Duarte pa- checo se foy pera a sua carauela dis- simulando o descontentamento que lhe fi- cou de ver elrey tão fraco de coração: o que podia ser causa de despouoar Co- chim , de que ele tinha grande receo. E querendo cear com os seus chegou Lou- ren-
190 Da Historia da Índia renço moreno com esses da feytoria, com que costumaua de ir: porque como disse nunca errou nenhua batalha das que os ini- migos derao aos nossos. Acabada a cea re- pousarão rodos até a mea noyte , c con- fessados e ausolutos pelo vigairo , Duarte pacheco lhes disse. Senhores e amigos meus , muyto alegre estou cie ver que vos lembra ho principal , que he a alma : porque sou certo que coesta lembrança terá nosso Senhor cuydaclo de vos dar vi- toria de vossos immigos , não somente por satisfação de vosSo trabalho, como por exalçamento de sua fé catholica. E pera que saiba elrey deCochim , e os seus que nosso Senhor he Deos verdadeyro , e po- deroso sobre os poderosos: e não descon- fiem do que lhes eu prometo em seu no- me , assi como ontem desconfiaua da vito- ria que lhe prometia : que bem vistes quão triste e desconfiado partio , que de nos ter por perdidos me dizia que me po- sesse em saluo. E nunca enxerguey nele tamanho medo , nem nos seus tão grande desmayo. E isto lhes faz terem ho poder delrey de Calicut por mayor do que he que posto que fosse tamanho como eles cuidão muyto mayor sem comparação he bo de nosso Senhor : e vós bem ho vistes nos socorros passados que nos mandou.
Liu. I. C ap. LXXXIIT. 191 E assi espero que seja agora: e coesta confiança venceremos a nossos inimigos : sustentaremos a hotirra que temos ga- nhada , que daqui por diante crecerd tan- to que ficaremos no mundo por espelho de valentia. E coisto tão temidos na Ín- dia , que nem elrey de Calicut, nnn outro nenhum nos ousará de cometer , assi que ganhando honrra seguraremos repouso pê- ra os trabalhos que temos. E acabando responderão todos : Que sem a vitoria não querião vida. E estando nisto que seria duas horas despois da mea noyte come- çarão de ouuir algtías bombardadas que tiraua a frota de Calicut: começando da- balar: e elrey ya por terra acompanhado de passante de trinta mil homens com seus tiros de campo como costumaua: e muyto confiado, que auia de desbaratar os nossos , e coisto dobrada soberba da que tinha. E ya diante ho senhor de Repelim com algúa gente que auia de fazer alguns valos na ponta Darraul pera emparo dos immigos no combate e trazia grande voza- ria de gritas , e tangeres. Duarte pacheco se foy logo a terra muy caladamente e pôsse na ponta pera onde os immigos yão : a que defendeo que não fizessem os valos : c sobristo matarão os nossos al- guns. E sabendo elrey de Calicut que Duar-
192 Da Historia, da Índia Duarte paclieco ho fora esperar mandou aos seus com grande menencoria que lho tomassem viuo pera se vingar dele á sua vontade. E sobristo ouue grande peleja e morrerão muytos dos immigos: que nem lio prenderão nem poderão íazer os valos. E começando damanhecer que era dia Dacensão apareceo a outra frota que vinha perto, e nisto recolheose Duarte paclieco aos bateis , e porem com inuyta fadiga por a grande multidão de immigos que carregou sobre os nossos que todos sc embarcarão sem falecer nenhum ficando dos immigos muytos mortos e feridos. E despejada a ponta poseranse os immigos nela e começarão de combater os nossos com a artelharia, a que eles também aco- dirão com a sua fazendolhe muyto grande danno, porque todos os tiros empiegauao nos immigos que estauao descubertos : e eles emparados , e por isso lhe nao fazia a artelharia nenhum mal. O que vendo elrey de Calicur, mandou recado aos da frota que fizessem remar rijo , e acodissem a desapressalo dos nossos. E chegando a frota vinha cousa muyto medonha , por- que diante yao as balsas de fogo arden- do : e apos elas cento e dez paraós cheos de gente , e dartelharia, e muytos deles encadeados , e detrás cem caturcs da mc»- ' ma
Liu. I. Cap. LXXXIII. 193 ma mancyra, e oytenta tones de coxia larga , cada hum com trinta homens de peleja: e sem os tires , e por goarda de tudo os oyto castelos que ficarão pega- dos com a ponta por não ser ainda de todo a decente da maré. Os immigos yão fazendo grandes alaridos de gritas, e tan- geres dando os nossos por tomados , e coisto tirauao tantas bombnrdadas que era cousa despanto. As balsas que yão dian- te chegarão aos caniços que estauão por proa das carauelas : e por isso lhe não poderão chegar pera as queymarem , e não somente elas mas nenhuns dos nauios da frota , de que todos os que poderão ca- ber na dianteira se pegarão com o cani- ço : e dali combatião os nossos , que sem duuida forão daquela vez aferrados se lio caniço não fora. Com este impeto que foy muyto grande durou a peleja hum pedaço ate que a maré começou dedecer: e neste tempo receberão os immigos muy- to danno : assi de paraós arrombados e metidos no fundo , como de muyta gente morta e ferida , e decendo a ®aré alar--, garanse os castelos da ponta , e ajudan- doos com cabos, porque os alauão, foran- se dereytos pera as carauelas, no mayor yão corenta homens de peleja , e em dous meãos trinta e cinco em cada hum: e nos Liu. I. Tom. II. N oy-
194 Da Historiada Índia outros trinta todos frecheiros c espingar- demos , e a fora isso ieuauão bombardas : e yão postos em ala , e tão medonhos que erao pera lhe auer medo hua grossa ar- mada , quanto mais duas carauelas e dous bateis. E este foy hum dia em que nosso Senhor mostrou bem que tinha de goardar os nossos: porque nem a vista de tantos e tão soberbos artifícios pera os comba- terem , nem hua tamanha frota e tão po- derosa , nem a medonha grita dos immi- gos, nem ho brauo estrondo da artelha- ria os fizerao espantar. E chegando ho mavor dos castelos junto com ho caniço desparcu sua artelharia nas carauelas. Duar- te pacheco lhe mandou tirar com ho seu camelo que lhe deu em cheyo mas não lhes fez nenhum danno, nem menos com outro tiro com que lhe logo tirarão : de que ficou tão triste , que leuantou os olhos pera o ceo dizendo. Senhor nao me acoi- mes meus pecados em tal tempo. E isto tão alto que alguns lho ouuirão. Neste tempo chegarão os outros castelos , e po- seranse a par deste : e com sua chegada se auiuou ho combate muy rijo de todas as partes , e forão as frechas tão bastas que faziao sombra r e alguas vezes não parecia ceo nem terra, com a fumaça da artelharia. Duarte pacheco tomou a man- ,-tro , VI . ,U .wwt .««lar
Diu. I. C a P. LXXXIII. iqç dar tirar ao castelo mayor com ho camelo: e como dos tiros passados lhe tinhao aba- lados os fechos que erao delgados aca- barao de quebrar, e leuou hum lanço de vigas com alguns homens mortos: ao que òs nossos derao grande grita. E Duarte pacheco nosto em giolhos deu graças a nosso Senhor: e tornando ho camelo a ti- rar outro tiro, leuoulhe outro lanço de vi- gas com muytos mortos e feridos. E carre- gando mais a artelharia foy todo dcsfeyto enij pouco espaço , c os immigos se afas- tarao coele: porem os outros se deixarão estar pelejando muy fortemente : e assi eles como os nossos leuarao este dia mór trabalho que em todas as pelejas passadas. E por derradeyro os nossos fizerao tanto danno nos ^astelos, e meterão no fundo , e arrombarão tantos paraós que não o po- dendo os immigos sofrer se afastarão do combate e foranse: e seria hora de véspe- ra que tanto durou começando pola ma- nhaa. E dos iinmigos morrerão muytos segundo se vio nos corpos que ficarão so- bre a agoa : e dos nossos não morrerão nenhuns , nem forao feridos mais que al- guns que ficarão escalaurados dum tiro grosso que deu na proa da capitaina , e passouha e ho pelouro deu por anrre muy- tos que ali estauão e não lhe fez nenhum N ii mal.
196 Da Historia da Índia ma!. E vendo Duarte pacheco que os ini- migos se yao foy apos eles nos bateis, e paraos esbombardeandoos: e deu nos que cstauao na ponta Darraul com elrey e por força das bombardas os fez fugir , fican- do mortos trezentos e vinte homens. E feyto isto se tornou pera as carauelas, onde aquela tarde ho foy ver ho príncipe de Cochim da pane delrey que se lhe mandou disculpar de ho não poder ir ver por sua pessoa. E ele lhe mandou dizer que lhe não auia de receber ncnhtia dis— culpa, ate não saber que não estaua tris- te : e que lhe pedia que dali por diante cresse melhor em Deos: porque já ho dia dos castelos era passado, e ele estaua no passo como dantes com sua gente muyto prestes pera o seruir. E neste mesmo dia o forao também visitar aiguns senhores dos que ajudauão elrey de Cochim onde auia muyto grande alegria por esta vitoria. E assi o forão ver muytos mouros mer- cadores que lhe leuarao grandes presentes cuidando que ganhauão sua amizade , e fazia a todos muyto gasalhado rogando- lhes que fossem leais a elrey de Cochim porque coisso seria seu amigo. E ao ou- tro dia pola manhaa o foy ver elrey de Cochim e fizerao ambos grande festa : e despois desta vitoria perderão os de Co- ii chim
Liu. I. Cap. LXXXIII. 197 chim ho medo delrey de Calicut e o não tinhão em conta. C A P I T O L O LXXXI1II. De como elrey de Calicut quisera desba- ratar com bum ardil ho capitão mor Duarte pacheco. MUyto espantado ficou elrey de Cali- cut de não poderem os seus caste- los aferrar as carauelas. Eauendo por im- pcssiuel poderensc aferrar nem desbaratar Duarte pacheco, quisera desistir da guer- ra e irse pera Calicut se os mouros não forão, e assi os dous Italianos milaneses que lhes derão hum ardil pera desbaratar Duarte pacheco: e este foy que ho com- batesse de noyte, e como era de noyte entrarião os seus ho passo sem os Portu- gueses os verem, que também por ser de noyte não se auião de defender também como de dia. E parecendo isto bem a elrey e a todos os do conselho, foy acor- dado que se desse de noyte ho combate por terra somente : e que I10 principe Nambeadarim , e ho senhor de Rcpelim com corenta mil homens começariao ho combate , e em começando certos Naires que rerião sobre palmeiras acenderião fo- go >
198 Da Historia da Índia go, a cujo sinal acodiria elrey de Cali- cut com ho resto de sua gente cora cin- coenta mil homens e cometeria dentiar polo passo acima' dondestaua Duarte pa- checo , que ocupado com a peleja do principe ho não veria , e assi entraria na ilha de Cochim , e a tomaria o que ouue- ra de ser, se nosso Senhor não atalhara que ordenou eme soubessem isto as espias delrey de Cochim que andauão no aiYayal delrey de Calicut} e delas ho soube elrey de Cochim que ho mandou dizer secreta- mente a Duarte pacheco por Lourenço moreno , que ficou coele pera ser na pele- ja que auia de ser na noyte seguinte , pe- ra o que logo Duarte pacheco se perce- beo , eneomendandose muy deuotamente a nosso Senhor com todos os outros porque se lhes aparelhaua grande perigo nem Du- arte pacheco teue por tamanho ho comba- te dos castelos como aquele por ser de noyte em que nao podia ver também co- mo de dia, c viase em grande afronta. E com tudo como confiaua em nosso Senhor achou com sua ajuda, hum ardil pera des- fazer ho delrey de Calicut: e foy contra- minarlhe ho sinal do íogo que lhe auião de fazer , e mandarlhe fâzcr outro mais cedo pera que a sua gente sembaraçasse com a do principe, e quereria Deos que coes-
' LIV. I. CA P. LXXXIII1. 199 cooste embaraço não faria nada: pera o que em anoytecendo mandou poer liuns ÍJaires em híias palmeiras a que deu aui* so do que auiao de fazer, e mandou es- pias pera que lhe dessem recado de quan- do ho principe de Calicut abalasse pera ho vao , que ho fi/erão assi. E em I10 prín- cipe c ho senhor de Repelim querendo chegar ao vao mandou ele fazer ho sinal do fogo. E os que estauao com elrey de Calicut como tinhão ho tento no fogo que avia de ser sobre as palmeiras em lio vendo disseranno a elrey , que muyto apressado cuydando que tardaua abalou logo: e como ainda a gente do principe não era chegada ao vao c não esperaua d d elrey senão despois de começarem a pe- leja no vao , cm a sim indo cuydou que era gente delrey de Cochini que lhe saya dalgua cilada em que esraua, e ajudouos a enganar, não auer nenhua deferença an- tre huns e os outros , nem na cor , nem nas armas , nem nos trajos. E cuydando que fossem immigos virão a eles offenden- doos muy rijo com suas armas: o que vis- to pelos delrey cuydarão também que os do principe erao immigos que lhe sayão de cilada , poense em defensão sobre que trauarao hua braua peleja que durou ate pola manhaã em que morrerão muytos dan-
zoo Da Historia da Índia dambas as partes. E Duarte pacheco que ouuia ho arroido que fazião e não os via cometer ho vao éstaua inuyto espantado do que aquilo seria , e per dous homens que mandou a isso soube o que era pelo que com todos deu muytos louuores a nosso Senhor e vio claramente a merce grandíssima que lhe fizera em os liurar de perderem Cochim , que perderão sem duuida se ouuera efièyto a determinação delrey. E rompendo a alua foyse a terra nos bateis e paraós , e desparando primey- ro sua artelharia nos immigos , desembar- cou e deu neles que já fugião com medo dele e do desastre que lhes acontecera, que em amanhecendo conhecerão o enga- no que teuerão e fugirão muy espantados. E Duarte pacheco achou muytos mortos no campo e com grande prazer se reco- lheo ás carauelas e coele recebeo a elrey de Cochim que logo ho foy ver, que fi- cou pasmado do que acontecera a elrey de Calicut: e disse que nunca conhecera claramente^que Deos pelejara poios Portu- gueses senão então, nem teuera por certo que o auia de liurar delrey de Calicut se não então : c mandou fazer grande festa em Cochim. CA-
L i u. I. 201 C A P I T O L O LXXXV. Dum ardil com que elrey de Calicut qui- sera matar ho capitão mor Duarte pacheco. MUyto espantado ficou elrey de Ca- licut de ver quão milagroso desuio deu nosso Senhor pera os nossos não se- rem desbaratados como ele cuidaua , que nunca teue por tão certo de ho serem co- mo daquela vez : e então desesperou de todo de ho serem : e por isso assentou consigo de disistir da guerra se os mou- ros fossem disso contentes, e também os reys e senhores que ho ajudauão : e juntos huns e outros lhes disse. Bem vedes quão pouco nos aproueita nosso poder contra os frangues , e quão pouco nos fundem quantos ardis i nu entanto; pera os desba- ratar : e bem vistes quão desuiado sayo este derradeyro do que cuydauamos: que p>arcce que Deos ho ordenou as si pera que escapassem de nossa fúria , no que he de crer que os fauorece pola pouca justiça que temos nesta guerra o que nos mos- trou no começo : e se eu fora bem conse- Ihado não a prosseguira mais como os não desbaratamos no primeyro combate. E que-
zoz Da Historia da Índia quereis -ver como Deos os favorece e pele- ja par eles a fora as muyto grandes vi- torias que tem alcançado de nós , e os muytos dannos que nos tem feyto , que não ha poder na índia que se nos poderá tanto defender segundo estamos poderosos : e es- tes que não tem poder nem sam nada em nossa comparação, defendense e ojfendennos como que forão mais que nós : e recebennos com festas nas pelejas como que fossemos os poucos e eles os muytos , e a terra fos- se sua e nós os estranjeiros : pois que he isto senão que Deos os fauorece , e peleja por eles , e segundo estão vitoriosos e ho credito que tem alcançado no Malabar hcy medo que nos facão daqui aleuantar e nos destruão de todo , e não será muyto porque ho iuuerno vense e os rios crecem, e eles corrermos todos. E está certo que se prosseguimos* a guerra que hão aqui de chegar , e que nos hão de fazer reco- lher com muyto danno e deshonrra: e pois não somos poderosos pera os desbaratar- mos por guerra parece que deuemos querer paz coeles efazer deles amigos. E o pri- meyro a que preguntou seu parecer foy a seu irmão que agastado delrey não tomar seu conselho no começo daquela guerra lho não quisera dar, C importunado dele lhe deu seu parecer, dizendo que receaua que
Liu. I. C a P. LXXXV. 203 que Duarte pacheco não quisesse sua ami- sade , e pera lha offrecer, e ele engeitar- Iha seria tamanha deshonrra como ser tant.s vezes desbaratado como fora : e pois com a amizade não podia ganhar tanto como perderia engeitandoselne que lha não deuia.de pedir senão deixarse pe- ra lio capitão mòr que fosse de Portugal no anno seguinte: que vendo quão pouco lhè aproueitaua a guerra e como não sa- bia como lhe iria nela folgaria com a paz. E sobristo porque não parecesse que fu- gia com medo que se deixasse estar e não se fosse senão quando parecesse que se ya por amor do inuerno. E despois de ido, e que parecesse que pola necessidade do tempo se fora, bem poderia falar na paz, e poderia ser que Duarte pacheco a quises- se temeroso de se mudar sua boa ventura : e pera ho prouocar a querer amizade que lhe não desse mais combate : e pois lhe não seniião de mais que de perder sua gente. Este conselho de Nambeadaritn foy reprouado pelos reys e senhores , e poios mouros principalmente que disserão que elrey não se deuia de ir , nem por mór inuerno que fizesse, nem por mais gente que perdesse : e que auia de dar tantos combates aos nossos ate que os tomasse, e não somente auiao de procurar a destruy- $ão
204 Da Historía da Índia çao daqueles: mas também dos que esta- uão em Cananor e em Coulão , a cujos reys deuia logo de mandar homens de credito com cartas em que affirmasse que aferrara os nossos com os castelos e os ma- tarão a todos e tomara as carauelas, por isso que matassem todos os nossos que lá estauao como lhe tinhao prometido. E posto que a elrey pareceo melhor o con- selho de seu irmão que este , tomouho por amor dos mouros que rcceaua irense de Galicut : e Logo ele e os mouros es- creuerão aos reys de Coulão e de Cana- nor : o que se assentou no conselho, mas não se lhe deu fé por outra noua como esta que lá fora ser falsa : e com tudo por induzimento dos mouros que mo- rauão nestes dous lugares forao os nos- sos postos em afronta , e não ousauão de sayr das feytorias. E em Coulão foy morto hum ás cutiladas e os outros não, porque foy recado certo de Calicut que mandarão os gentios que os nossos erão viuos e o que fizerão. Pelo que ioy respondido a elrey de Calicut que não auião de matar os nossos em quanto os do passo não fossem desbaratados que os desbaratassem e então compririão coeles. O que sabido pelo senhor de Repelim e pelos mouros apertarão logo com elrey de
Liu. I. C A P. LXXXV. 20J Calicut que os combatesse. O que ele qui- sera escusar por estar muyto quebrado dos spiritos , mas não pode: e mandando dar o combate per mar c por terra sucedeolhe como dantes , e por isso mais por impor- tunação dos mouros que por sua vontade deu em pessoa outro combate com os cas- telos e com muyto mais gente e mais na- uios que da outra vez: e durou o comba- te mais espaço, e também foy desbarata- do e rcccbeo, mór perda que dantes. E coesta vitoria dos nossos ficarão os de Co- chim seguros de todo dos immigos , c assi elrey que foy visitar Duarte pacheco em hum andor, e com mais estado do que tinha despois que começou a guerra o que logo foy sabido no arrayal dos immigos, e esses reys e senhores que estauao com elrey de Calicut lhe disserao que se não auia de sofrer, que estando ele tão pode- roso de gente , elrey de Cochim o teuesse em tio pouca conta que se desse por li- ure dele. Ao que elrey de Calicut respon- deo que elrey de Cochim tinha rezao de fazer o que fazia pois ele estando tão po- deroso podia tão pouco que o não desbara- taua , que se eles sintião o que dizião que pelejassem com os nossos porque ele se lançaua de mais entender na guerra , por- que tinha por sem duuida que de cada Yez
io6 Da Historia da Índia vez auia de receber mór danno , e parece que de muyto agastado mandou a todos que o deixassem só, e assi esteue hum gran- de pedaço muyto cuydoso : c despois disso mandou a alguns Naires em que tinha confiança que se fossem dissimuladamente a Cochim , e trabalhassem por matar Duarte pacheco , e quaesquer outros dos nossos : e como os Naires sam homens que não tem mais segredo na cousa que em quanto a cuydão logo se isto rompeo, de maneyra que o soube Duarte pacheco, que logo teue mais recado em si: e nos nossos do que dantes tinha , e pera auer os Naires que ho vinhao matar fez duas quadrilhas de Naires de Cochim de que se muyto fiaua hua que andasse ao longo do vao e outra ao longo do rio que per quartos vigiauão de noyte , e de dia os que yão e vinhao. E durando assi esta goarda soube que era sua espia hum Nai- re de Cochim da casta dos leros , e tra- zia consigo alguns Naires não conhecidos que parecião de Calicut o que sabido por ele fez de maneyra que logo lhos prende- rão a todos : e trazendolhos mandouos açoutar muy brauamente perante os outros Naires de Cochim , e despois mandou que os enforcassem. O que vendo os de Cochim lhe pedirão que lhe desse outra Pe-
L tu. I. Cap. LXXXV. 207 pena pois erão Naires : e que lhe não fi- zesse tamanha injuria. E nao querendo ele senão que os enforcassem , lhe disserao òs seus capitães que ho nao deuia de man- dar , que lhe lembrasse quanta perda e trabalho passara elrey de Cochim por de- fender os nossos : e que sinteria muyro enforcarem aqueles Naires pois os prende- ra em sua terra, porque era tomarlhe a justiça : e mostraua aos senhores de fóra que estauão com ele que era rey empres- tado : e pois lhe tiuera sempre grande acatamento que ho não deuia desacatar no cabò. O que parecco bem a Duarte pncheco , e agradeceolhes muyto este con- selho : e logo mandou poios Naires que mandara enforcar, de que dous estauão já meos mortos , e com os outros os man- dou a elrey de Cochim : e lhe mandou dizer como lhe merecião a morte , e a causa porque os não mandara enforcar. O que elrey estimou , porque lhos derão perante muytos senhores de fóra , e alguns mouros de Cochim, que por vituperarem elrey dizião que os nossos erao os que mandauão: e não cie. E dali por diante teue Duarte pacheco tal auiso: que ho ar- dil delrey de Calicut nao ouue effeyto. k CA-
2o8 Da Historia da Índia C A P I T O L O LXXXVI. De como elrcy de Calicut se meteo em hum pagode : e despois se tor- nou a sayr. SEndo já na fim dc Junho > que ho in- uerno ya em crecimento parccco a Duarte pacheco que por essa causa não podia elrcy de Calicut estar ali muyto , e por isso determinou de dar nele ao le- uantar do arrayal , porque a experiência que tinha dos immigos das vitorias passa- das , lhe fazia crer que lhe faria muyto danno. E estando pera desencadear os mastos e poerse a pique, foy auisado que elrey de Calicut mandaua reformar os cas- telos e fazer mayor armada pera ho com- bater. E esta fama lançou elrey : porque que bem lhe parecia pelo que tinha visto Duarte pacheco que aula de dar nele ao leuantar do arrayal que determinaua de le- uantar e irse: e isto tão secretamente que ninguém ho sabia senão Nambeadarim: e pola rezao que digo fazia mostra de que- rer combater ho passo de Palurte : e ho do vao tudo juntamente , porque ocupado Duarte pacheco em os defender ambos se podesse ele ir a seu saluo. E hum sabado
Liu. I. Cap. LXXXVI. 109 á tarde vcspera de sam João em que- di- zião que auia de ser ho combate , mos- rrouse a armada dos immigos como cos- tumaua. Duarte pacheco esteue esperando toda a noyte que J10 auiao de combater , e em amanhecendo não ouuio nenhum si- nal de combate. E estando suspenso no que seria, soube pelos Bramenes que el~ rey de Calicut leuantara ho arrayal e se fora a Repelim , e que já lá seria : do que ele ficou muyto magoado , e no mes- mo dia sayo em Repelim e pelejou com muyta gente dos immigos , em que fez muyta desrruyção: e tornandosc ao passo ficou ainda nele alguns dias pera mais se- gurança de Cochim , que auia medo que elrcy de Calicut tornasse se se fosse logo. Do que elrey estaua bem fora , antes ya tão corrido do pouco que fizera , e tão triste e descontente do mundo , que como passou ho rio de Repelim , apartouse com os reys e senhores que I10 acompanhauão, e disselhes chorando. A tão enuergonhado homem como cu estou, pequena vergonha será deitar eS' tas lagrimas , que a magoa de minha desauentura me arranca do coração que de muyto a fadigado (porque ho tido pode- ra fazer em pubrico ) quer ir desabafar Liu. I. Tom. II. O e/t-
no Da Histokia da Índia onde ho ninguém veja. Outra dor tenho também a fora a de minha deshonrra , que he não vos poder pagar a obrigarão em que vos sou , que hey por tamanha que se me visse liure dela ficaria mais contente que de tornar a tomar Cochim. E pois Ocos nao quis que ho tornasse a ganhar e me pós em tamanha deshonrra, nao quererá ele que eu mais viu a cm abito de rey, antes por enmenda de meus peccados quero acabar meus dias em hum turcol: ou viuer as si até Deos tirar ho odio que mostrara nesta guerra que me tinha. Boje por diante podeis fazer o que quiserdes: e de minha terra e gente o que vos comprir. Nao vos ojfreço minha pes- soa , pGrque homem tão desauenturaclo co- mo eu nao ho deueis de querer em vossa comDanhia. E coisto acabou, e eles lio ciuiserao consolar , mas nao^ poderão , ííem tiralo daquela determinação, e íoyse meter em hum turcol com alguns Brame- nes que leuou consigo. E sabendo sua mey como ali estaua , lhe mandou dizer que ela não estaua menos triste que ele , e que por seu ençarramento auia grande re- uolta em Calicut, e erão idos muytos mer- cadores , e outros estauão pera se ir, nem auia nenhuns mantimentos , porque os nao traziao com tnedo dos nossos : e pois acer->
Lív. I. CA P. LXXXVI. 211 acertara tão mal em tomar guerra coeles (do que lhe a ela pesara muyto ) que não deuia de tornar a Calicut ate não cobrar ho credito que tinha perdido : e prosse- guisse a guerra com os nossos , e se per- desse nela de todo : ou vencesse. Coeste recado ficou elrey muyto mais agastado : e mandou logo chamar seu irmão, e en- comendoulhe ho regimento do reyno, mas despois sayo do turcol e tornou a ser rey. C A P I T O L O LXXXVII. Dc como muytos daqueles reys e senhores que ajudauao a elrey de Calicut pe- dirão paz a Duarte pacbeco. AQueles reys e senhores que ajudauao a elrey de Calicut , despois que se ele meteo no turcol se deteuerão alguns dias em Repelim , esperando se se arre- penderia do que tinha fieyto: e vendo que não, cada hum se foy pera suas terras : porque como os mais as tinhão ao longo dagoa , e ela começaua de crecer com ho inuerno , ouucrao medo que Duarte pa- checo entrasse pelos rios e lhas destruisse: e perdendo a esperança de lhas poderem defender quiserao procurar dauer sua arni- O ii . 2a-
112 DAHístobia DA ÍNDIA zade. E tomando por intercessor a elrcy de Cocliim que por sua boa condição lio quis ser, sem lhe lembrar ho mal que lhe fizerao, e mandoulhes seguro pera que podessem ir a Cocliim , donde ya coeles a Duarte pacheco e lhe rogaua que os re- cebesse em sua amizade : o que ele lez por amor dele. E outros reys c senhores que não poderão ir mandarão seus embai- xadores a fazer estas pazes, assi também inuytos mercadores mouros moradores em Calicut pera poderem tratar se forao pera Cocliim de morada com licença: e outros se forão pera Cananor , e outros pera Couláo; de modo que Calicut se dcspeja- ua cada dia. E por a passajem dos mou- ros pera Cocliim se deixaua Duarte pache- co estar no passo, c porque andauão muy- tos paraòs de Calicut peles rios pera os goardar com que pelejou alguas vezes: c lhe fez muyto danno , e assi em terra de Repelim em que sayo a tomar vacas , e nestas saydas pelejou com muytos immigos em que fez grande destruyção. E hum dia toparão certos dos nossos com alguns to- nes des immigos que cstauão em liua ala- goa , e tirandoos de lá e leuandoos pera ho rio ouuerao com os inimigos htia bra- ua peleja , em que forao mortos muytos e dos nossos nenhuns. E despois disto logo lio '
Liu. I. Cap. LXXXVII. ir? lio senhor de Repelim fez amizade com Duarte pacheco , e se vio coele e acodio com tnuyra pimenta que auia em sua terra. C A P I T O L O LXXXVlil. Das armas que elrey de Cochim deu ao capitão mor Duarte pacheco. E' Stando assi Duarte pacheco no passo 4 foy ter coele hua noyte por dentro dos rios Ruy daraujo escriuao da feytoria deCoulao que lhe disse da parte do fey- Tor conto ele c os outros nossos que es- tauáo na feytoria licauao cercados de muy- ta gente per mandado dos regedores de Coulão, que primeyro que os mandassem cercar lhe tomarão por força toda a pi- menta que tinhão em Coulão , e em Cay- coulao , e matarão sobrisso hum dos nos- sos. E tudo isto por induzimento dos nxwros da terra , per amor do recado que lhe fora de Calicut que os nossos erão desbaratados. E porque ainda era necessá- rio estar ali Duarte pacheco oyto dias se não partio logo e mandou a Ruy daraujo que esperasse. E nesta detença lhe ieuarão hum dia alguns dos nossos tres Naires de Calicut que ho espiauão pera ho matar. Do que elrey de Cochim foy auisado : e
2T4 Da Histokia da Índia porque lhe pareceo que Duarte pacheco leuaria gosto em os mandar enforcar por ho caso ser pera isso, e por amor dele lio deixaria de fazer e lhes mandaria: em sa- bendo que lhos leuauão lhe mandou dizer, que lhe pedia muyto que fizesse deles o que lhe bem parecesse porque leuaria nis- so muyto gosto, que não queria outro senão ho seu. E conhecendo Duarte pa- checo que elrey de Cochim fazia aquilo por lhe dar contentamento , porem que não goardaua seus costumes, mandoulhe os Naires, dizendo que nunca Deos qui- sesse que ele por sua causa deixasse de goardar seus costumes , que não dizia ele mandarlhe aqueles tres Naires , mas que se quisesse lhe iria por outros a Calicut: porque tudo merecia ho seruiço que rinha feyto a elrey de Portugal. E isto estimou elrey tanto como defenderlhe Cochim : e por estas cortesias e outras de que Duar- te pachcco usou sempre com elrey, e ho muyto acatamento que lhe sempre teue como que esteuera em sua liberdade lhe tinha ele grande amor. E auendose de ro- do por seguro, se foy hum dia ao vao a rogar a Duarte pacheco que não Ieuasse mais má vida , e que se fosse pera Cochim que já estaua seguro delrey de Calicut, e por isso se foy Duarte pacheco aos tres
Liu. I. Cap. LXXXVIII. »IJ dias de Julho , auendo tres meses e meo que ali estaua sofrendo com os que esta- ndo coele tanto trabalho como nunca so- freo em nenhum cerco dos mais apertados que forao no mundo, e fazendo tantas fa- çanhas como nunca outros nenhuns fizerão, assi gregos como latinos nem bárbaros. E dando rnuytos louuores a nosso senhor fiola muy assinada mercê que lhe fez cm he dar tantas e tão sobrenaturais vitorias se foy a Cochim , onde lhe elrey com todos os moradores lhe fez lio mais feste- jado recebimento qut pode e dahi ho acom- panhou ate a nossa fortaleza. E vendo el- rey quanto Duarte pacheco fizera em sua defensão lhe pedio muyto perdão de lho não poder satisfazer como desejaua por causa de sua pobreza , e daualhe grande soma dcspeciaria, que ele não quis tomar por saber quanta necessidade elrey tinha, c dissolhe que ho trabalho que leuara por defender sua terra não fora por outro inte- resse mais que por desejar dc ho seruir, por- que conhecia sua bondade e tamanho amigo era dei Rey de Portugal seu senhor e de seus vassallos. E vendo elrey que lhe não que- ria tomar nada, acrocentoulhe sua honrra com lhe dar dom e armas como rey que era, pera testemunho de suas façanhas: porque soube quanto se estas duas cousas estima- uao
2i6 Da Historia da Índia uão antre os Portugueses , c a carta das armas vi eu em pubrica forma com ho blasao delas que foy tirada da lingoa Ma- labar em que a fez Chericanda hum escri- uão da fazenda delrey de Cochim , c ti- rouha em lingoajem Português Aluaro vaz cscriuao que era naquele tempo da feyto- ria de Cochim sendo lingoa hum Teixei- ra lingoa da feytoria e ho mesmo Cheri- canda escriuao da fazenda. E eu vi esta carta assinada por elrey de Cochim e di- zia. Iterama maratinquel unirramacoul trimum : parti rey de Cochim senhor de Vaipim , e Darraul , e Charauaipil, e Narengate, Eramene mor , mediante os deoses tiuerem pagode. Aos que esta minha carta virem faco saber que no atino de mil e quinhentos e quatro , pela conta dos Christãos no mes ae Março, elrey de Ca- licut vco sobre minha terra com toda a força e poder do Malabar com soberba indiuida contra vontade dos deoses pera me destruir minha terra e gente, por eu acolher e fauorecer os Portugueses que a meu porto arribarão , e lhe dar carrega pera suas naos , polo qual respeito os mais dos reys e senhores do Malabar me for ao contrair os, e veo acompanhado de
Liu. I. Cap. LXXXVIII. 217 cinco reis de sua valia que ercío , elrey de Tanor, elrey de Curlor , elrey de Co- togao , elrey de Bcpur , e ele Çamorim rey de Calicut com muytos Nambeadarins , e Caimais , e senhores de terras com muy grossa gente , no qual tempo eu ndo ti- nha nenhum socorro somente ko dos deo- ses , por cuja graça e vontade me ficou hita pequena armada dos Portugueses: da qual era capitão Duarte pacheco pereyra fidalgo da casa delRey de Portugal meu senhor e irmão . e com sua armada e gen- te sofreo ho dito Duarte pacheco muy grandes afrontas e perigos em muytos combates e pelejas que ouue com elrey de Calicut em passos e vãos de Cocbim que lhe ele deftndeo porque não entrasse em, minha terra: e sete vezes foy cercado e combatido por elrey de Calicut em pessoa e por esses reys e senhores que coelc erão, por terra e por os rios com gran- des frotas de nauios de remo: em os quaes combates e pelejas duas vezes ho vierão combater com oyto castelos de madeira armados nagoa sobre dous nauios rasos: cada castelo com bombardas grossas e muytos archeiros e espingardeyros , com toda outra frota de nauios de remo com tnuyta gente e artelharia em huns passos que ele por mim tinba no rio de Cocbim: C
2i8 Da Historia da Índia e ho dito Duarte pacheco com os seus ho desbaratou , c lhe ferio e matou muyta gente: e ouue dele a vitoria em todos os combates e pelejas que coele ouue, e com seus capitlles e gente , e tres meses e meo esteue em guerra com elrey de Cali- cut nos passos de Cambaleio, e Darraul, e Palurle sofrendo muy grandes afrontas fauoreceudo meu partido : ajudandome a soster minha terra com mais risco de se perder ajuyzo de todos , que de me poder socorrer nem s aluarse as st mesmo , e por vontade e ajuda dos deoses fez ho dito Duarte pacheco tanto danno a elrey de Calicut nesta guerra que ho não pode so- frer e lhe conueo aleuantarse com seu arrayal e irsc com esses reys e senhores que ho ajudauao que estauao já muy des- baratos e mingoados de credito, e'tinhao perdida muyta gente assi morta como ferida , em a qual guerra me ho dito Duarte pacheco tem feytos muy grandes e assinados serui cos: e no comeco dela ele me prometeo de ir receber elrey de Cali- cut ao caminho no passo de Cambalao : e assi ho fez poendose em risco de se per- der. Ecoisso e com as cousas que fez me segurou minha terra , as quaes cousas Duarte pacheco fez com sua gente e algita pouca miuha de que lhe tinha dado carre- go >
Liu. I. CaP. LXXXVIII. 2i9 go, i? muytas delas fez em minha pre- sença , que eu mandey todas escreuer por pessoas autenticas , porque forão muy grandes segundo sua pouca força e foo grande poder dclrey de Calicut '■ e a juy- zo de todos os Malabares mais parecido suas cousas serem feytas por mão efauor dos deoses, que por rezão nem força hu- mana : e porque eu fuy muy bem socorri- do e ajudado por ho dito Duarte pachcco e sua gente, e me tem feytos muy gran- des e assinados seruiços nesta guerra, e defendeo a elrey de Calicut os passos , e vãos e entradas de Cochim, e me aju- dou a defender minha terra qucstaua em condi cão de a perder se ele não fora , o que lhe niío posso negar que forão seus feytos muy notários e gerais em toda a bulia , nem lhe posso pagar seus grandes seruiços como eles merecem não querendo ele de mim tomar nada. Eu Iterama ma- rafinquei unirramacoul trimumpati rey de Cochim de meu proprio moto e liure vontade, e poder ausuluto : por memoria e sinal de seus feytos, e das afrontas que por mini passou nesta guerra , e por bonrra de sua pessoa, e dos que dele de- fenderem lhe dou ho dom que soube que os Portugueses tem por bonrra, que elo se possa chamar dom Duarte pachcco, e
uo Da Historia da Índia toehs os que dele decenderem : e assi lhe dou por insinias e sinais de seus feytos e honrra que nisso ganhou hum escudo vermelho por sinal do muyto sangue que derramou dos de Calicut nesta guerra, e dentro nele lhe dou cinco coroas douro 'em quina por cinco reys que nela desbaratou. E a bordadura deste escudo lhe dou bran- ca com ondas azueis , e nela oyto caste- los verdes de madeyra armados nagoa so- bre dous nauios rasos cada castelo , por duas vezes que ho combaterão com estes oyto castelos e dambas os desbaratou: e doulhe sete bandeiras de ponta ao derre- dor deste escudo , tres vermelhas e duas brancas, e duas azueis por sete combates que lhe elrey de Calicut deu por sua pes- ' soa , e em todos sete ho desbaratou , e por sete bandeiras qne lhe tomou , das mes- mas cores e feycao que abaixo irão : e doulhe hum elmo de prata aberto goarne- cido douro e ho paquife douro e vermelho, e por timbre hum castelo do mesmo teor com bua bandeira vermelha de ponta ne- le : as quais insinias e armas ele pode- rá trazer mesturadas com as armas de sua linhagem, ou sem elas, ou como ele quiser com a dita bordadura ou sem ela, como lhe melhor parecer que eu de meu proprio moto e liure vontade, e poder au- so-
Liu. I. Cap. LXXXV1II. 2ii soluto lhas dou como dito tenho com bo dom a ele e a todos os que dele decendc- rem por viuy grandes e assinados serui- ços que metem fiytos como acima he de- clarado : e per a sua guarda e minha lem- brança lhe mandey ser feyta esta carta por mim assinada. Chericanda escriuao de sua fazenda a fez em Cochim, e foy ter la dada por mim Aluar o vaz escriuao da ditafeytoria de Cochim e assinada por elrey de Cochim. Feyta em Cochim aos dous dias do mes Dagosto de mil e cccciiij. annos. C A P I T O L O LXXXIX. De como ho capitao mor Duarte pacheco foy socorrer ao feytor de Coulao. SAbendo Duarte pachcco a necessidade que auia dir socorrer ao feytor de Coulao esperou ate que ho tempo não fosse tão verde como era : e peia ir mais seguro foy na sua nao e deixou as cara- ueías em Cochim pera que goardassem ho porto de Cochim, e deixou por capitão mór Pero rafael, e quis nosso senhor que afastado de terra achou ho mar brando e chegou sem perigo a Coulao : e com sua chegada ficarão os mouros muyto tristes por terem alguns lançadas ao mar cinco nãos
az2 Da Historia da Índia naos que carregauão com grande pressa porque se partissem antes que ho capitão mór chegasse , que bem lhes parecia que auia de ir na entrada do verão, mas não tão cedo porque repousaria da guerra pas- sada : e muytos se forão logo com me- do. Os da cidade decercarao logo os nos- sos , e todos amigos forão receber ho ca- pitão mór ao mar , e leuaranlhc muyto re- fresco , assi os da cidade como os mou- ros : que ele recebeo muyto bem dissimu- lando o que tinhao feyto por não aluoro- çar a terra. E disselhes que era ali vindo pera fazer tudo o que lhe comprisse e goardar a amizade e paz que estaua as- sentada antreles, e elRcy de Portugal seu senhor. E porque húa das condições do contrato da amizade fora que se não le- uasse pera fóra nenhua especiaria ate que ho nosso feytor não nossas naos , que ele não auia de consen- tir que esta condição se quebrasse por ser muyto principal antre todas as outras: e por isto não auia nenhfía nao de sayr do porto sem as mandar buscar primeyro se leuauão especiaria. O que os mouros sofrerão muyto contra sua vontade , po- rem consentirão polo medo que lhe a- uião , e por ele mostrar aos mouros que Teuesse necessidade
Liu. I. Cai». LXXXIX. 225 tinha comprimento coeles mandou rogar aos senhores das naos que estauão 110 porto que não comprassem nenhua espe- ciaria senão pera comer : e lhe dessem a que tinhao carregada: porque de toda ti- nha necessidade pera as nossas naos que esperaua que erão muytas. E isto das naos serem muytas lhes dizia pera lhes quebrar os espíritos, o maixioulhes que logo des- carregassem a especiaria e a entregassem ao nosso feyter. O que os mouros ouue- rão pormuyto graue cousa e não ho que- rido fazer e por isso se detinhao : o que ele vendo , e temendo que a tardança era pera se fazerem fortes, mandou logo atra- uessar a sua nao diante das proas das cin- co que estauao começadas de carregar e e mandou fazer prestes os seus pera pele- jarem ; mandando aos .senhores das naos que logo descarregassem a especiaria. E porque na praya andaua muyta gente e se temeo que fosse socorrer as naos , man- dou li lio seu batel hem artilhado que ho defendesse e nele ya Ruy daraujo , assi Íiera isso, como pera entrar nas naos e as azer descarregar : porque já os senhores delas com medo ho consentião. E descar- regadas as naos, mandou dizer aos rege- dores da cidade , porque parecesse que tinha coeles comprimento que não ouues- sem
2*4 Da Historia da Índia sem por mal o que fizera aos mouros , porque mnis lhemercciao pola afronta em que poserao os nossos que estauao na fey- toria: e que se auisassem que não deixas- sem sayr do porto nenhtía nao sem lho primcyro fazerem saber pera as mandar buscar , senão que soubessem certo que as mandaria tomar pera elrey seu senhor, o que lhe eles prometerão. E com tudo ele esteue aquela noyte em vigia sobre as naos , e com ho seu batel ao longo da praya, pera que nenhua gente da terra fosse ás naos : e assi esteue alguns dias que ho tempo não deu lugar pera sair ao mar , e com sua licença sayrao do porto tres naos dos mouros hua , e hua, c coesta diligencia ouuc muyta especiaria : e também porque os mouros de Calicut como ho virão no. porto fugirão com me- do. E sendo ho tempo brando já na en- trada de Setembro , sayose pera fora da barra a vigiar que não passasse nenhua nao com especiaria , e tomou alguas que mandou descarregar: o que os mouros , e assi os da cidade auiao por muyto grande sugeição. E entendendo ele isto, porque não se posessem coele em algum estremo com que faria pouco proueito na fazenda delrcy seu. senhor: deu licença aos mou- ros e aos regedores da cidade que pera Cho-
Liu. I. Cap. LXXXIX. «y Choramandel leuasse cada nao certos far- dos de pimenta e mais não. Do que eles forão muy contentes , e lho agardecerão muyto. É auendo ainda os mouros isto por opressão quiserão por manha deitalo dali, deitando fama que estauão em Cou- lão homens de hua nao de Calicut muyto rica que ficaua em hua pequena ilha ao mar de Coulão, porque indo em sua bus- ca carregassem e se fossem. E querendo ele ir buscala foy auisado do ardil dos mouros , e por os acolher na empresa mostrando que ya buscar a nao, foyse a Caicoulão que he perto: e tornando achou na costa duas naos de mouros que se par- tião carregadas e tomouas. E vendo os mouros que lhe não aproueitara aquele ardil buscarão outro, que fizerão hum pa- tamar dissimulado que ya de Calicut: e dizia antre outras cousas que se armauão em Calicut vinte naos pera irem sobrele: e isto se teue por tão certo que crendoho ho feytor lhe mandou recado, e também alguns mouros seus amigos que ho forão ver lho affirmarão por muyto certo. E ele lhes respondeo que viessem com suas naos quando quisessem que ali ho auião dachar onde esperaua de as desbaratar. E dali por diante ho mais do tempo andaua de largo e de dia surgia , e de noyte an- Liu. I. Tm. II. P
zz6 Da Historia da InDia daua á vela , hua volta ao mar outra á ter* ra por lhe não escapar nenhua nao como não escapaua. E andando assi hua madru- gada tomou hum barco que saya de Cou- lão pera ir a hua nao que ele deixara ir e no barco tomou alguns mouros de Ca- licut, e conhecendo que erão de lá : por- que lhe pareceo que poderião ser ria que fora morto ás cutiladas mandaua que os enforcassem : o que se ouuera de fezer se lhe os regedores da cidade não mandarão pedir que sobresteuesse ate lhe fazerem certo como os mouros não erão de Calicut senão naturais de Coulão: e assi ho prouarão , e por isso escaparão. E despois disto tomou duas naos e rou- bouas, e assi como vigiaua em Coulão asi si ho fazia Pero rafael em Cochim , e por isso ouue aquele anno a mais fermosa carrega pera as nossas naos , que nunca despois ouue : o que se fez com muyto trabalho e perigo , assi do capitão mór oomo dos seus. na morte daquele homem nosso ■~j »■ CA-
r - L i u. I. I 117 C A P I T O L O XC. De como Lopo soarez partia per a a índia por capitão mor da armada que foy - no anuo de mil e quinhentos e quatro. D Este anno de mil e quinhentos e qua- tro sabendo Elrey de Portugal como elrey de Calicut ficaua de guerra com os nossos , mandou em seu fauor hua arma- da de doze naos grossas , e deu a capita- nia mór delas a hum fidalgo chamado Lo^ Í10 soarez , que em tempo Delrey dom oão ho segundo fora capitão 11a Mina, E os capitães desta armada forão Pero de mendoça , Lionel coutinho , Tristão da silua, Lopo mendez de Vasconcelos , Lo- po dabreu, Felipe de eras to, Afonso lo- pez da costa, Pedrafonso daguiar, Vasco aa silueira, Vasco carualho , Pero dinis de Setuuel todos fidalgos e caualeyros , e que forão por capitães naquela viagem d3 Índia: e todos leuauão consigo boa gente de peleja , e bem armada. E despachado se partío de Lisboa a vinte dous dias Da- bril do mesmo anno : e continuando sua viagem aos dous dias de Mayo foy na parajem do cabo verde: e fazendo aqui P ii ajun-
228 Da Historia da Índia ajuntar os capitães , mestres , e pilotos da armada lhes tez hua Fala, trazendolhes á memoria quão tarde partirão de Portugal: e por isso tinhão necessidade de terem grande diligencia e não fazerem os des- manchos que se ateli fizetão, e todos por mao recado , assi como foy dar hita nao pola capitaina, c outras duas por outras: no que se correra grande perigo e assi não seguirem alguns de noyte ho seu fo- rol , e huns yão d ante outros ficauão atras : e alguns a balrauento por onde se poderião perder huns dos outros : e por atalhar a isso, e pera bom regimento da armada fez hua postura escrita pelo seu escriuao, e assinada por ele e por os ou* tros capitães que todas as naos seguissem de noyte seu forol , ficando detrás da sua nao: e que em nenhíia nao ouuesse de noyte outro fogo senão a candea da bita- cora, e dentro na camera do capitão , e que vigiassem os mestres e os pilotos, e teuessem grande tento que híía nao não desse por outra , e que lhe respondessem quando fizesse sinal, e que ho saluassem de dia , e nao passassem diante dele de noyte, e quem fizesse ho contrairo pagas- se dez cruzados e fosse preso are á Ín- dia sem vencer soldo. E porque alguns mestres e pilotos erão negrigentes e poç sua
Liu. I. Ca?. XC. 229 sua culpa dauão huas naos pelas outras xnandouos mudar das em que yão pera ou- tras. ti Coesta diligencia que fez foy dali por diante a armada em boa ordem e não se fez nenhum mao re«.ado. E indo assi no mez de Junho que se fazião na volta do cabo de boa Esperança sobreueolhe hum dia hum muy forte temporal de ven- to cotn que toda a frota correo dous dias e hua noyte aruoreseca com muyto gran- de perigo de se perderem : e era a çarra- çãb tamanha que mais parecia noyte que dia. E passados estes dous dias virão si- nais de terra que pareceo a todos que se- rião perto dela: e por essa causa era a çurração tamanha, que despois de verem estes sinais foy muyto mayor. E por isso mandou Lopo soarez que a cada relogio tirassem na sua nao duas bombardadas a que as outras respondessem : porque se não perdessem huas das outras, b acabada esta tormenta , achouse menos a nao de Lopo mendez , que vendo Lopo soarez que nao parecia seguio seu caminho. E logo a poucos dias deu hua nao tamanha pancada em outra que abrio tanto pela roda que se via dentro muyto bem , e en- troulhe tanta agoa de roldão que se ya ao fundo. Lopo soarez arribou logo so- brela e chegou tão perto que pediao cu-
ajo' Da Historia da Ikdia uir lio esforço que daua á gente dizendo que trabalhassem por tomar a agoa sem medo de se perderem : porque ele lhes acodiria como acodio com gente que mandou no seu batel, posto que ho mar andaita grosso e corria ho batel risco de se perder. E coisto trabalhou tanto a gen- te da nao , que quando anoyteceo acabou de tomar ametade da agoa : e pera se to- mar a outra que ficaua , mandou Lopo soarez que naquela nao se fizesse ho fo- íol, e os capitães a seguissem pera lhe acodirem se teuesse necessidade. E abo- naçando ho tempo ao outro dia a agoa foy tomada de todo com huns couros que pregarão e brearão. Passado este perigo sem mais lhe acontecer cousa que de con- tar seja , chegou a Moçambique em dia de Santiago , onde ho Xeque lhe fez gran- de recebimento , e lhe^ mandou muytos mantimentos , e lhe deu a carta de Pero dataide que lhe deixou antes que morres- se , como já disse. E sabendo per ela a guerra delrey de Calicut com os nossos , concertada a nao que tirou a monte se partio pera Melinde ho primeyro Dagos- to. E chegado ao seu porto elrey ho mandou visitar por Adebucar hum mouro muyto honrrado , por quem lhe mandou os dezaseys nossos que escaparão da nao
' - Liv; I. Cap. XC. de Pero dataide. E passados dous diafc partiose caminho da índia e chegou a An- iadiua, onde achou Antonio de saldanha e Ruy Lourenço que hi inuernarao como disse atras , que quando virão tamanha frota cuydarão que era de Rumes. C A P I T O L O XCI. Como ho capitão mór Lopo soarez chegou a Cananor e se vio com elrey. EStando aqui Lopo soarez veo hi ter Lopo mendez de Vasconcelos que se perdera de sua conserua com tempo , e despois de vindo se partio pera Cananoi ■% onde chegou ho primeyro de Setembro: e ali soube do feytor a guerra dclrey de Calicut : e como ele com os outros nos- sos que estauao cm Cananor , se virão per xnuytas vezes em perigo de morte. E ao outro dia despois que chegou foy a teria pera se ver com elrey de Cananor: e to- rão coele todos os capitães da frota em seus bateis vestidos de festa com os que os acompanhauão, e os bateis embandei- rados e artilhados. Ho de Lopo soarez ya toldado e alcatifado , e ele assentado em hua cadeira despaldas de veludo car- mesim com almofadas do mesmo aos P"s < I a
ili Da Historia da Índia leuaua hum gibão de cetim de cores feyto cm enxadrez , e hfias calças desta maney- ra , huns çapatos de veludo negro com muytas pontas douro miúdas, e hum bar- rete com outras grossas : hua roupa fran- cesa de veludo negro apertada com hum cinto de fio douro , com hum punhal e bracamarte douro, e hum colar de tres voltas feyto dalcatruzes esmaltados, e ne- le hum apito douro esmaltado. Leuaua dous pajés vestidos como ele, e seys trom- betas com bandeiras de seda , leuaua huns orgãos que lhe yão tangendo em hum es- quife junto do seu batel, enele hum pre- sente pera elrey deCananor que lhe man- daua Elrey de Portugal, s. seys colchões dolanda , dous trauesseiros enfronhados eom suas almofadas , tudo laurado douro : dous cubertores de veludo carmesim , e ho de cima auartapisado de tres tiras de bor- cado : a ao meo de largura dum palmo, e as outras de tres dedos : hum leyto dou- rado com cortinas de cetim carmesim com a forcadura de fio douro. E quando Lopo soarez se desamarrou das naos desparou toda a artelharia e despois tocarão as trombetas e atabales , e em acabando co- meçarão os orgãos que forâo tangendo ate chegarem a terra onde auia grande multi- dão de mouros , e dc gentios que sayão a
Liu. T. Caí. XCI. 233 á ver Lopo soarez , que desembarcado se meteo em hum çarame que pera isso estaua feyto junto do mar: e nele foy armado ho ley to e feyta a cama , e junto coele hum estrado em que se ho capitão mór assentou. Elrey de Cananor quando veo leuaua diante tres alifantes armados como pera pelejarem , c detrás hum esqua- drão de tres mil Naires despadas , e es- cudos , e lanças : e outro de dous mil frecheiros. E detrás destes ya elrey em hum andor muyto rico. E chegando ao çarame desparou toda a nossa artelharia. Lopo soarez recebco elrey á porta do ça- rame : e despois de se abraçarem , lhe apresentou a cama: em que se elrey logo lançou , e ele se assentou no estrado , e ali esteuerão falando por espaço de duas horas. E neste tempo hum seu lebré qui- sera filhar hum dos alifantes : e porque ho tinhão preso daua saltos e huyuos que não auia quem se ouuisse, nem quem ho teuesse : o que foy causa de se elrey e Lo- po soarez deterem menos do que se ouue- rão de deter. Despois desta vista com el- rey chegou hum mouro de Calicut com quem vinha hum moço Português que le- uaua a Lopo soarez hua carta dos nossos que ficarão catiuos do tempo de Pedral- uarcz,.em que diziao que elrey de Cali-
234 Da Historia da Índia cut ficara tão quebrado da guerra que teuera com Duarte pacheco que se mete- ra no turcol dauorrecido do mundo : e que muytos mouros desesperados de terem trato em Calicut se forão morar a outras partes : e por isso auia em Calicut gran- de fome. Pelo que elrey de Calicut e ho principe e seus regedores , e assi todos os moradores de Calicut desejauao de ter paz com os nossos. E determinando já de a mandar pedir , derao licença aos nos- sos que estauão catiuos que lhe escreues- sem aquela carta que lhe escriuiao : assi pera lha darem , como pera lhe pedir que os tirasse de catiueiro. E ele vista esta carta , quisera responder a ela pelo mou- ro e que ficara no moço: mas ele não quis, dizendo que de necessidade auia de tornar com ho mouro : porque lhe derão licença pera leuar a carta com condição que não tornando que cortassem as cabe- ças aos nossos que ficauão em Calicut , a que Lopo soarez mandou dizer de palaura, que quando fosse pera Cochim surgiria ho mais perto que podesse de Calicut, e que fugissem eles de noyte pera a frota ', ou a nado , ou em almadias : e isto por- que soube do mesmo moço que os cati-í uos andauão sem ferros pela cidade com dous Naires que os goardauao, e' 4C noy- l.j te
Liv. I. Cap. XCI. te dormião em hum çarame. E dcspois disto partiose pera Calicut, onde chegou hum sabado sete de Setembro. E como surgio foy a ele ho moço que lhe lcuara a carta a Caiianor e foy coele hum mou- ro Criado de Cojebequim que lhe leuou hum presente dos regedores de Calicut. De cuja parte lhe disse, que se quisesse dar seguro a Cojebequim que iria falar Coélc sobre ho concerto da paz. A que ele respondeo que não auia de tomar ho pre- sente , nem outra cousa algtía ate a paz não ser feyta , e quanto a Cojebequim que lhe poderia ir falar seguramente como ser- uidor dei Rey de Portugal. E mandou di- zer aos nossos que trabalhassem por fugir. Sabida esta reposta pelos regedores, man- darão logo Cojebequim que leuasse a Lo- po soarez dous dos nossos que cstauão catiuos , crendo que coisso ho prouocarião a fazer paz , pedindolhe que esperasse quatro dias que elrey poderia tardar, por que já erão a chamalo , e que sabião quç faria quanto ele quisesse. E ele respondeo, que não auia de fazer cousa algua ate lhe primeyro não entregarem os dous Italia- nos que se lançarão em Calicut : e que sendolhe entregues faria o que fosse bem. E não lhe mandou nenhum recado sobre cs catiuos, porque tinha fera si que po-*
136 Da Historia da Índia derião fugir : mas não poderão, porque sabendo os Italianos como Lopo soarez os pedia, conselharão aos regedores que teuessem grande goarda sobre os catiuos : porque poios auer faria ele a paz com as condições que elrey quisesse , porque erao muyto estimados antre os nossos : e que os não auia de deixar por nenhum preço. E crendo os regedores isto , esfriarão de falar mais na paz , e poserão os catiuos em tal ' a não poderão fugir. E Francisco dalmeida que fugirão alguns ; e os outros morrerão de doença. Da destruição que ho capitão mór Lopo soarez fez em Calicut: e de como chegou a Cochim. VEndo Lopo soarez que os regedores não tomauão nenhua concrusain coe- le: e desesperado de auer os catiuos , quis se vingar em esbombardear a cidade hum dia e meo , em que fez nela muyto gran- de destruição , que derribou ho çarame delrey, e parte dúa mezquita , e outras muytas casas , e matou muyta gente que acodio á praya: de que ele estaua perto ficarão tempo do visorey dom C A P I T O L O XCII, com
» Litr. I. Cat. XCII. 237 com sete naos das mais pequenas da frota , e pegados com terra todos os bateis arti- lhados. Feito isto partiose pera Cochim, onde chegou hum sabado quatorze de Se- tembro : e este dia esteue no mar, e foy visitado dos nossos. E ao outro dia des- embarcou na nossa fortaleza da mesma maneyra que desembarcou em Cananor. Elrey de Cochim ho estaua esperando á porta da fortaleza: e dali ho reccbeo com grande festa. E despois de se abraçarem se tomarão pelas mãos, e se forão a hua sala : em que estaua feyto hum estrado real com hua cadeira despaldas. E porque elrey se assentou no estrado segundo seu costume , que he assentarse no chão: mandou Lopo soarez afastar a cadeira pera fóra do estrado, e assentouse nela : o que lhe foy tachado per todos , e disserão que se ouuera dassentar no estrado com elrey: a quem ele deu hua carta delRey de Portugal de muytos agardecimentos do que fizera por amor de seus vassalos: of- frecendoselhe muyto por essa causa : e el- rey disse que de tudo era pago, no que Duarte pacneco fizera por ele. E ao outro dia lhe mandou Lopo soarez htía boa so- ma de dinheiro que lhe elRey de Portu- gal mandaua, porque sabia que estaua po- bre. E despois disto mandou a Pero de men-
a38 Da Historia da IudU piendcça , e a Vasco carualho que fost sem darmada em suas naos a goardar aquela costa ate a de Calicut pera que tomassem as naos dos mouros que çaysetn com a especiaria. E assi mandou Afonso lopez da costa , Pedrafonso daguiar , Lio- rel coutinho , e Ruy dabreu que fossem carregar a Coulao por saber que auia lá especiaria em auondança. E mandou a Tristão da silua que fosse a Cranganor por dentro dos rios com quatro bateis ar- mados pera pelejar com alguns paraós de Calicut que andauao darmada: e Tristão da silua esbombardeou alguns : e assi al- guns Naires que lhe sayrão em alguas pon-» tas : e sem chegar a Cranganpr tomou hum zambuco de Calicut carregado de pi- menta com que se tornou a Cochim , onde carregou com os outros capitães que car- regarão muy pacificamente: e foy a espe« ciaria tauta que sobejou muyta.
i- Li v. I. 23 $ cr. ■ C A P I T O L O XCIII. De como Duarte pacheco se partio de Coulão peraCochim. DUarte pacheco que andaua na costa de Coulão como lá vio os capitães ^ c que era chegado capitão mór : porque não tinha mais que fazer , partiose pera Cochim a vinte dous Doutubro : e indo por seu caminho ouue vista de hua nao muyto alamar, a que deu caça todo aque- le dia e parte da noyte, que se lhe aco- lheo a Coulão , onde auendo fala dela soube que era de nossos amigos , e que vinha de Choramandel, e que detrás vi- nhão tres naos de Calicut: pelo que foy logo em sua busca , e perlongou aquela noyte a costa com ho terrenho. E em amanhecendo que ya na volta do mar ou- ue vista de hua vela que lhe fugio tanto que a não pode alcançar senão tarde per- to da costa, onde pelejou coela hum pe- daço , porque trazia muyta gente e defen- diase: e por derradeiro amainou , não se atreuendo a defender. Rendida a nao , que os nossos a entrarão , mandou Duarte pacheco alijar dela algua da gente em ter- ra : e a outra mandou meter ma sua nao cjí pre-
S40 Da Historia da Índia presa em ferros. E sabendo que esta nao era húa das tres de Calicut que ele ya buscar, metendo nela dos nossos que a goardassem a leuou consigo , e as outras duas. E sendo tanto auante como Como- rim , deulhe hua toruoada com que se ou- uera de perder: e passada dela surgio na costa hua legoa de terra e ali esteue aquela noyte em que lhe fugirão a nado trinta mouros , de que tomarão doze com ho batel: e despois disso andou doze dias ás voltas esperando pelas naos. E vendo que não vinhão, nem achando nouas delas , leuou a nao que trazia a Coulão. E des- pois de a entregar ao feytor com toda a fazenda que era muyta, se foy pera Co- chim. C A P I T O L O XCIIII. De co>no ho capitão mor Lopo soarez pe- lejou em Cranganor com húa armada de Calicut. ACabadas de carregar as naos que car- regauão em Cochim: e chegadas as que carregarão fora, pos Lopo soarez em conselho se daria em Cranganor, por quan- to era da parte delrey de Calicut, que ja cstaua em Calicut fóra do turco!: e estaua ho
Liu. I. Ca?. XCIIII. 241 ho seu capkao mòr do mar com oytenta araós, e cinco naos : e em terra Nam- eadarim com boa soma de gente. E auia noua que como se Lopo soareis partisse pera Portugal que auia elrey de C.alicut de tornar a prosseguir a guerra. E acorda- do per todos os capitães que dessem em Cranganor, partio de Cochim liua noyte com quinze bateis e vinte cinco paraós de Cochim todos artilhados, e apadessados : e hua carauela em que irião passante de mil dos nossos, e mil Naires: e antema- nhaã chegou a Paliporro que não pode mais andar por os baixos do rio: e os bateis erão pesados por amor das padessa- das e artelharia. E ali foy ter coele ho príncipe com oytocentos Naires , e huns per terra, e outros per mar partirão pera Cranganor, ondestaua ho capitão mór do mar de Calicut em duas naos nouas : e tinhaas encadeadas e artilhadas e basteci- das de muyta gente de guerra , os mais deles frecheiros : e detrás destas naos , e das ilhargas estauão os paraós também com muyta gente: e tinha consigo deus filhos valentes homens. Chegada a nossa frota começou de jugar a artelharia dua parte e doutra : e Tristão da silua , Afon- so da costa, Vasco carualho, Pedrafonso daguiar, e Antonio de saldanha que yão Tiu. I• Tm. II. na
242 Da Historia da. Ikdi/l na dianteira abalrroarão com as duas nao» sobre o que pelejarão hum pouco. E en- tradas as naos forão despejadas , morren- do primcyro ho seu capitao tnór, e seus dous filhos que pelejarão muyto valente- mente , e outros muytos: porque aqui foy toda a força da peleja, que nos paraós a quem os outros capitães cometerão ouue pouco que fazer, que logo^ que virão as naos entradas se desbaratarão. Desbarata- dos os immigos do mar , mandou Lopo soarez que desembarcassem os nossos : e desembarcarão primeyro os cinco capitães que digo que leuauão a dianteira, a que Nambeadarim quis resistir com alguns Naires que tinha com quem os nossos pe- lejarão com tanto esforço que os fizerão fugir indo apos eles, e poserão fogo a al- guas casas , que todo ho lugar estaua des- pejado dos mouros , e dos gentios , que bem souberão como yao sobreles. E tam- bém Nambeadarim e sua gente assi como fugirão da praya vazarão logo fóra. Duar- te pacheco , e o feytor Diogo fernandez correa desembarcarão por outro cabo com os outros capitães, e começarão de quei- mar. E Lopo soarez ficaua na praya tendo a gente que se não desmandasse. Os Chris- tãos da cidade que estauão escondidos pe- las casas como virão que lhe punhão ho
Liu. I. Cap. XCIIII. 245 fogo sayrão donde estauao bradando aos npssos que os não matassem , que erao Christãos. E alguns se forâo logo a Lopo soarez a pedirlhe por amor de nosso Se- nlfor que mandasse cessar lio fogo por se nao queimarem alguas igrejas de nossa Se- nhora, e dos apostolos que auia na cida- de : e as casas também que estauao de mestura com as dos gentios , e dos mou- ros. E por seu rogo mandou ele que fi- zessem cessar ho fogo. E assi se fez , mas com tudo erão já queimadas muytas casasj que por serem feytas de madeira ardei ao logo. E apagado lio fogo forao roubadas as casas dos mouros que forão muytas e despois queimadas, e assi cin- co naos e os pnraós. E Lopo soarez qui- sera ir pelejar com Nambeadarim que es- taua hi perto, e indo cie lhe fugio e por isso se tornou : e feytos alguns caualey- ros se foy pera a nossa fortaleza , onde elrey de Cochim ho foy visitar. CA-
244 Da Historia da Índia C A P I T O L O XCV. De como elrey de Tanor fedi o paz ao ca- pitão mór Lopo soarez. HDahi a dous ou trcs dias chegou hum . embaixador delrey de Tanor rey do Malabar e ve/inho delrey de Calicut, que lhe disse da sua parte que seria vassalo delRey de Portugal se lhe desse ajuda contra elrey de Calicut que lhe fazia guer- ra : e que lha deuia de dar porque saben- do ele que elrey de Calicut ya em socor- ro de Cranganor se posera em cilada com quatro mil Naires , e lhe matara deus mil, e ho desbaratara: pelo que elrey de Cali- cut não poderá socorrer a Cranganor. E logo Lopo soarez o recebeo por vassalo deiRey de Portugal, e mandou Pero rafael em sua ajuda que foy na sua carauela com cem Portugueses , que pelejarão também que desbaratarão elrey de Calicut , e lhe matarão muyta gente: do cjue ficou mais abatido que com as vitorias de Duarte pacheco por ser com seu vezinho , que foy causa de lhe os outros perderem ho medo , e se leuantarem contrele, e por isso os mouros de Calicut e de Cranga- nor desconfiarão de poderem tratar pera Me-
Liu. I. Ca P. XCV. 24? Meca que muytos determinarão de se tor- rar pera suas terras , pera o que carrega- rão dezasete nãos grossas em Pandarane. C A P I T O L O XCVI. De como ho capitão mor Lopo soarez pe- lejou com os mouros em Pandarane. CHegado I10 tempo de Lopo soarez se partir pera Portugal deixou pera segurança de Cochim hua armada de duas carauelas e hua nao , de que ficou por ca- pitão mór hum fidalgo que auia nome Ma- nuel telez de Vasconcelos, e por seus ca- pitães Pero rafael , e Diogo pires. E de ficar este Manuel telez e não Duarte pa- chcco pereyra , pesou muyto a elrey de Cochim , e senão conhecera Lopo soarez por tão seco de condição sempre lhe pe- dira que ficara Duarte pacheco por capitão mór , e rogoulhe a ele que lho rogasse : do que Duarte pacheco se escusou. E co- nhecendo elrey a causa porque ho fazia , nao quis apertar coele que ho fizesse : e não tendo nada que lhe dar ofFreceolhe grande soma de pimenta, que lhe ele não quis tomar porque sabia a necessidade que tinha dela : e deixando grande soidade cm elrey de Cochim e em todos os seus se
246 Da Historia da In dia se foy embarcar , e partiose com Lopo soarez que por roim pilotagem escorreo ho porto dePanane que quisera tomar pê- ra se ver com elrey de "I anor. E dali por diante mandou a Pero rafael e a Diogo pirez que fossem diante da frota vi- giando ho mar : e sendo eles tanto auan- te como Pandarane ao longo de terra, sayranlhe do porto dez paraós de mouros da companhia das dezasete naos que dis- se: e de cuydarem que Lopo soarez não ousaria de pelejar coeles por irem as suas naos carregadas , lhe começarão de tirar com a artelliaria dando grandes gritas. Lopo soarez e os outros capitães que yao aiarnar ouuindo as bombaraadas arribarão a terra , c chegarão tão perto que virão as dezasete naos que carregauao. E saben- do Lopo soarez que erão de mouros, as- sentou em conselho de pelejar coelas nas carauclas e nos bateis da armada que erão quinze: porque as naos por irem carrega- das não pederião chegar a terra onde as outras estauão: e mais que cm chegando a elas as aferrassem: e porque os mouros erão muytos e os pederião tratar mal em cs aferrando posessem logo fogo. E embar- cados tedos ferão contra as naos que es- tauão de dentro dum arrecife pegadas húas com as outras e as popas em terra, e
Liv. I. Cap. XCVI. 247 c os lemes atrauessados nas proas e tinhão boa soma dartelharia , c muyta gente a mais dela branca , e estes frecheiros : e na boca do arrecife estaua bua estancia com dous tiros pera defender a entrada. E que- rendo Lopo soarez entrar no arrecife , vio que andauão as carauelas largas de ter- ra por não auer vento e os bateis yao a remos , pelo que tornou pera as rebocar com lio batel em aue ya. E^ os outros capitães postoque no virão nao quiserão tornar e passarão auante fazendo apertar ho remo: porque os pelouros chouiao da parte dos mouros e as frechas erão sem conto. E como os bateis erão rasos , e as naos altas ficauão os Portugueses em dis- cuberto e recebião muyto danno. E com tudo romperão perantre toda aquela mul- tidão de tiros : e entrando no arrecife bra- dando por Santiago forão aferrar as naos: e I10 primeyro capitão que aferrou foy Tristão da silua. E como a gente da nao era muyta deranlhe tantas frechadas , pe- dradas e zagunchadas que lio fizerão des- aferrar , e foy aferrar com outra em que por não auer tanta gente entrou logo com os seus a pesar dos mouros que lho qui- serão defender, de que forão mortes al- guns e os outros lançaranse ao mar. E Tristão da silua aferrando cocsta aferrou * Afon-
248 Da Historia da Índia Afonso lopcz da cosia com outra que pa- recia a capitaina , de que era capitão huin turco , e assi os que cstauao coele que erao muytos. E ao aferrar foy a pedrada, e lançada tanta que era cousa despanto: c foy acerto que antes dos nossos chega- rem 3 ela tiraranlhe os inimigos com hum tiro do conues , e com a força do couce ue deu desfez hum pedaço da amurada a n.ao: e abriose hum grande portal, em que os immigos não atentarão por acodi- rem á proa da nno. E ficando ho ncsso batel ao longo dela daquela parte donde estaaa ho portal, entrarão os nossos por ele. E os primeyros que entrarão forão ho mestre Dafonso lopez , c hum Aluaro Jopez criado dei Rey, que agora he eseri- uao da camara de Santarém, e assi ouiros de que não pude saber os nomes : que todos juntos com outros que despois en- trarão pelejarão com os immigos: e ma- tando muytos fizerão meter huns debaixo de cuberta , e outros saltar na agoa: de que se afogarão a mór parte, porque leua- uao sayas dc malha Juntamente com estes capitães aferrou Pedrafonso daguiar com outra nao de nua banda , e Lionel Couti- nho da outra: e assi Duarte pachcco , Vas- co carualho, Antonio de Saldanha, e Ruy ioyrenço , c todos ho fizerão muy esforça- -• A * ' da-
Liu. I. Cap. XCVI. 249 damente. E assi como tomauao a nao, assi lhe punhao logo ho fogo que se ateou nelas com muyta fúria. O que fez grande espanto nos inimigos , e desmayarao de maneyra que os mais se lançarão 20 mar. E andando nisto chegou Lopo soarez com as carauelas: e entrando no arrecife , que as deixou da toa hum dos tiros de terra deu logo com hum pelouro pola carauela de Pero rafael e matoulhe tres homens , e feriolhe dez. E por falta do vento a leuou a agoa que enchia, e deu coela na gorja de hua nao das que estauao por aferrar , que tinha muyta gente. E como a nao era mais alta que ela , e a tinha debaixo da proa , em que os inimigos carregarão, tratauão muyto mal os nossos. E outra bombardada matou I10 mestre a Diogo pirez que ya gouernando a carauela: c deixando de gouernar antes que lhe acc- dissem ao leme foy dar sobre huns pene- dos , em que jouue ate a batalha ser aca- bada. E vendo Lopo vaz ho perigo em que Pero rafael cstaua , mandou que lhe acodissem : e assi ho fizerão entrando na carauela que estaua chea de mouros : e os nossos I10 fizerão também que os fzerão despejar : porem os da carauela ficarão to- dos feridos. E entretanto todis as naos dos immigos forao queimadas , e. aquela per
250 Da Historia da Imdia por derradeyro em que ardeo muyta fa- zenda que estaua já carregada. E porque em terra auia muyta gente que se ajuntaua quanto podia e dos nossos estauão muytos feridos , sayose Lopo soarez com os seus capitães e foyse ás naos: onde achou que forão dos nossos mortos vinte cinco , e feridos cento e vinte sete: porem a vito- ria fby muyto grande , porque afóra ar- derem as naos com muyta riqueza que ti- nhão , soubese por mouros de Cananor que forão mortos naquela peleja duas mil almas. E coeste destroço ficou elrey de Calicut tão destroçado, que dahi a bons dias senão pode restaurar, porque perdeo ali muyto , e os mouros se forão todos de Calicut: pelo que auia tamanha fome que se despoaua a cidade. C A P I T O L O XCVII. J)e como ho capitão mor Lopo soarez, che- gou a Lisboa, e da muyto grande honrra que elRey dom Manuel fez a Duarte pacheco. NO outro dia que foy ho primeyro de Janeyro se partio Lopo soarez pera Cananor pera se abarrotarem as naos : e chegado soube do feytor que sua vitoria fo-
L i v. I. C a v. XCVII. 151 fora muyto sentida dos mouros , e ficarão coela tao quebrados que auia por seguros os nossos que ficauão na Índia : porque segundo a soberba que ate que fora a vi- toria vira nos mouros de Cananor sempre lhe parecera que auião de ho matar , e aos que estauao em sua companhia : e ho mes- mo lhe di6se elrey de Cananor. E auendose Lopo soarez de partir , antes de sua par- tida fez hua fala a Manuel telez e aos que ficauão coele sobre o que auião de fazer: trazendolhes á memoria a Duarte pacheco: e não lhe quis deixar mais ar- mada do que deixou Francisco dalbuquer- que e cem homens de peleja. Porem não ouue na índia guerra despois de sua par- tida , por elrey de Calicut ficar como dis- se. E partido dè Cananor pera Portugal, chegou a Melinde ho primeyro de Fe- uereyro , onde sem elle sayr cm terra Antonio de saldanha foy á cidade por muytas e muy ricas presas que hi deixa- ra , que fez no cabo de Goardafum quan- do passou pera a Índia , e daqui foy ter Lopo soarez a Quiloa per? arrecadar as pa- rias do rey dela , que ele não quis dar. E dali parrio a dez de Feuereyro, e sem lhe acontecer cousa que de contar seja che- gou a Lisboa a vinte dous de Junho dc mil e quinhentos e vinte cinco annos, co m
■2$i DA HIST. DAIHD.Liií. I.C. XCVII. com mais duas naos das que leuara quan- do partio pera a índia e todas carregadas de muytas e muy grossas riquezas , pelo que lhe elRey dom Manuel fez muyta honrra, e assi a Duarte pacheco sabendo o que fizera na índia, com que lhe soste- ue as feytorias que lá tinha , e lio credi- to de seu poder. E porque todos soubes- sem scruiços tão assinados , logo a hua > quinta feyra despois da chegada do capi- tão mór mandou fazer hua solenne pro- cissão como em dia de corpo de Deos : cm que foy da See até lio mosteiro de sam Domingos , leuando consigo a Duar- te pacheco. E pregou dom Diogo ortiz bispo de Viseu e disse por ordem todas as cousas que Duarte pacheco fez na guer- ra contra elrey de Calicut. E não somen- te se fez isto em Lisboa , mas no Algar- ue, e em todas as cidades e vilas nota- ueis de Portugal: e isto por mandado del- Rey e ele escreueo todo ao Papa per dona João sutil, bispo que então era de çafim que lcuou as cartas, e assi ho escreueo a muytos reys da Christandade pera que fos- sem la sabidas façanhas tão notaueis. O que se não acha que nenhum rey nestes reynos fizesse por vassalo. LAUS D E O.
Foy impresso este primeiro Livro da His- toria da índia em a muyto nobre & leal cidade de Coimbra , por Ioão da Bar- reyra impressor dei Rey na mesma vni- versidade. Acabouse aos vinte dias do mes de Iulho. De M. D. L111I.