\' <*> HISTORIA DO DESCOBRIMENTO, E CONQUISTA DA INDIA.
HISTORIA DO DESCOBRIMENTO, E CONQUISTA DA INDIA PELOS PORTUGUEZES feita POR FERNÃO LOPEZ de CASTANHEDA; FIELMENTE REIMPRESSA POR FRANCISCO JOSE' DOS SANTOS MARRÍCOS, Professor Rnfio ile Filosofia Racional i Moral em Lisboa. torn Liceu fa da Meia dt Dcseaibarg» Jj F.iço.
Taixao este Livro em papel em qua- trocentos réis. Lisboa ij de Dezembro de 17
V HO LIURO PRIMEIRO dos dez da his. toria do descobrimento e conquista da Índia pelos Portugueses. Agora emmen- dado c acrecentado. E nestes dez liuros se contem todas as milagrosas façanhas que os Portugueses fizerão em Ethiopia, Arabia , Persia, enas índias, dentro do Ganges e fóra dele, c na China e nas Ilhas do Maluco, do tempo que dom Vas- co da Gama conde da Vidigueira e al- mirante do Mar Indico descobrio as ín- dias , ate á morte de dom João de Cas- tro que lá foy gouernador, e visorey. Em que se contem espaço de cinquoen- ta an nos. Com priiiilegio Real.
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VII Priuilegio que bo muyto alto, e muyto poderoso Rey dom João ho terceiro deste nome deu a Fernão lopez de Castanheda per a os liuros da historia do descobrimento e conquista da índia pelos Portugueses. It U el Rey faço saber a quantos este meu Aluará virem que Fernão lopcz de Castanheda, Bedel da faculdade das artes da vniuerfidade de Coimbra me enviou di- zer que ele tinha feytos dez liuros da his- toria da Índia , que começauão do desco- brimento dela : dos quaes tinha impressos á sua custa lio primeyro liuro , e queria imprimir os outros. E porque auia mais de vinte annos que a ídaua occupado no fazer da dita historia: e tinha leuado nis- so muyto trabalho, e feyto muyto gasto de sua fazenda : me pedia que ouuesse por bem, que pessoa algua não podesse im- primir os ditos liuros senão ele Fernão lo- pez,
VIII pez, nem os vender, nem trazer de fdra do reyno polo tempo, e sob as penas que me bem parecesse. E visto seu requerimen- to , e auendo respeito ao trabalho que tem leuado em fazer os ditos liuros , e a despesa que nisso tem feyta , me praz que por tempo de dez annos que se começarão da feytura deste em adiante , pessoa algua de qualquer qualidade que seja , não possa imprimir, nem mandar imprimir os ditos liuros da dita historia da Índia, nem ca- da hum deles: nem os possa trazer, nem mandar vir impressos de fora do reyno, se não ho dito Fernão lopez , ou quem seu po- der pera isso teuer. Sob pena de qualquer im- pressor , ou liureiro , cu pessoas que os di- tos liuros ou cada hum deles imprimir , ou vender, ou teuer em sua casa, ou trouuer imprimidos de fora do reyr.o, perder os volumes, que lhe forem achados e pagar cincoenta cruzados, ametadc pera os cati- uos , e a outra metade pera quem os acusar. E este se imprimirá no principio de
IX de cada hum dos ditos liuros. Pelo que mando a todos os corregedores , juyzes, e justiças , officiaes e pessoas de meus rey- nos e senhorios que assi ho cumprão e goardem, e fação inteiramente cumprir e goardar , porque assi ho ey por bem. E este me praz que valha , e tenha força e vigor, como se fosse carta feyta em meu nome por mim assinada e passada por minha chancelaria : posto que este não seja passado pola minha chancelaria, sem embargo das ordenações do segundo liuro, que ho contrairo dispde. João de seyxas ho fez em Almeirim a quatorze dias de Junho de M.D. L1I. Manuel da costa ho fez escreuer. Pro-
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XI Prologo no primeiro liuro âos dez da historia do descobrimento e conquista da índia pelos Portugueses. Dirigido ao muyto alto e muyto poderoso Rey dom João nosio Senhor deste nome ho terceiro Rey de Portugal e dos Algarues, daquem e dalém mar em Africa , senhor de Guiné, da conquis- ta , nauegaçao e comercio de Ethio- pia , Persia , Arabia , e da Índia PER FERNÃO LOPEZ DE CASTANHEDA. Jbii M grande obrigação sam os ho- mens aos historiadores muyto alto, c muyto poderoso Rey nosso Senhor, principalmente os princepes pera quem parece que em especial se fez a his- toria, cousa tão proucitosa peia a vi- da humana que insina o que façamos e do que auemos de fugir , o que con-
XII eonucm muito mais aos princepes que aos outros homens , porque qualquer homem priuado que faça hum erro não he nada pois não dana mais que a si mesmo , e hum princepe se ho faz dana a todos os que tem debaixo de sua gouernança , porque dela ser boa ou má depende ho bem e mal de todos os de sua Repubrica. Pelo que he muito necessário ser ho prin- cepe mais virtuoso , mais sabedor e inais prudente que todos, e pera que aprenda estas cousas não tem melhor preceitor que a historia , porque ? que doutrina que discrição que prudência ha pera boa gouernança da Repubri- ca assi na paz como na guerra que a historia não insine com experiência de exempros , que sam muito mais do que hum homem pode ver em sua vida por mais comprida que seja, e por
XIII por isso todos esses princepes famor sos assi Barbaros como Gregos e La- tinos forão tão dados a ler historias. E por a historia ser tao necessária aos princepes especial as de seus an- tecessores de que muito melhor hão de tomar exempro que dos estrangei- ras foy instituido que nos reynos ou- J ^ uesse cronistas que fiel e particular- mente fereuessem os feitos dos Reys assi na paz como na guerra e os cos - tumes e qualidades que teuerao, pê- ra que ficassem por regimento de seus subccssorcs que vissem no que os auião de feguir e do que fe auião de goardar. No que eles se devião docu- par alguas oras do dia pois tanto im- porta a sua boa gouernança, e sem duutda que isso abastaua pera per si se conselharem melhor do que mui- tas vezes são conselhados y por que hi c
XlV e nas historias acharáó casos confor- mes aos em que se conselhão , em que elas como pessoas desapassiona- das dão mais verdadeiros conselhos que os conselheiros , que muitas vezes cr- rao como humanos. Do que verdadei- ramente fe pode colegir que a histo- ria he muyto mais proueitosa e ne- cessária pera os princepes que pera os homens priuados , e conhecendo eu estes seus proueitos por servir a V. Alteza tomey ho tiubalho de fazer esta , do descobrimento e conquista da India que os Portugueses fizerão, assi por mandado do muito famoso e bem afortunado Rey dom Manuel vos- so pay, como pelo de V. A. e pera serem diuulgadas pelo mundo as no- taueis façanhas que fizerão com ajuda de nosso Senhor neste descobrimento e conquista > de que não auia nenhíía lem-
XV lembrança senão em quatro pessoa3, com cuja morte se ucabaria, e sendo scritas durariao pera sempre como as dos Gregos c Romaos que ho forão, a que estas dos Portugueses c as dos Barbaros tem grande e conhecida auan- tage, porque as suas conquistas forão todas per terra , assi como a de Semi- ramis, de Ciro, de Xerxes do gran- de Alexandre, de Julio Cesar e dou- tros Barbaros , Gregos e Latinos e indo eles com suas gentes. E a da ín- dia foy feita por mar mar e por vos- sos capitães, e com nauegação dum anno e doito mczes e de de seis ao menos : e não á vista de terra se- não afastados trezentas e seiscentas léguas partindo do fim do Occidente e nauegando ate ho do Oriente sem verem mais que agoa e ceo, rodean- do toda a Sphera , cousa nunca co- me-
xvr metida dos mortais , nem imaginada pera se fazer. Com immensos traba- lhos de fome, de sede , de doenças e de perigos de morte , com a fúria e iinpeto dos ventos, e passados estes se vem na índia em outros despantosas e cruéis batalhas com a mais feroz gente e mais sabedor na guerra e abastada das munições parela, que outra nhfia Dasia. No que também inuictissimo Principe se conhece a muito grande prosperidade dei Rey vosso pay e vossa , que íem vos bo- lir de vossas casas descobristes e con- quistastes per vossos capitães o que nenhus Príncipes poderão per si desco- brir nem conquistar. E sintindo eu tamanha perda como fora perderse a memoria de feitos tão notaueis que os Portugueses fizerão, e pelas mais re- zóes que digo me dispus a tamanho tra- \
XVII trabalho como leuey em a fazer, pera o que me ajudou muito ir a índia, onde fuy com Nuno da cunha em companhia do licenciado Lopo Per- nandez de Castanheda meu pay, que por mandado de V. Alteza foy o primeiro ouuidor da Cidade de Goa. E a riqueza que lá trabalhey por al- cançar , foy saber muyto particular- mente o que ate aquele tempo fize- ráo os Portugueses no descobrimento e conquista da Índia , c isto nao de pessoas quaeisquer, senão de Capitaes e Fidalgos que ho sabiao muyto bem por serem presentes nos conselhos das cousas e na execução delas, e per cartas e summarios que examiney •coestas testemunhas. E assi vij os lu- gares em que se fizerão as cousas que auia descreuer pera que fossem mais certas: porque muitos scritores fizerão
xvni grandes erros no que screuerao por não saberem os lugares de que scre- uião. E não sómentc fiz esta diligen- cia na índia , mas ainda despois em Portugal , por não achar nela quem me disesse tanta diuersidade de cou- sas e tão particularmente como queria saber. E além de me todos affirmarem com juramento o que me disserão, me derão licença pera os alegar por testemunhas. E estas pessoas com que faley em Portugal andey buscando per diuersas partes , com muyto tra- balho de minha pessoa e gasto disso pouco que tinha : no que gastey vin- te annos, que foy ho melhor tempo de minha idade, e nele fuy tão per- seguido da fortuna efiquey tão doen- te e pobre , que por não ter outro remédio com que memantiuesse acei- tey seruir huns officios na vniuçrsida- de V
XIX de de Coimbra, onde no tempo que me ficaua desocupado do seruiço de- les com assaz fadiga do corpo c do spinto acabey de compoer esta histo- ria , que reparti em dez liuros que offreço a V. Alteza , a que Deos nosso Senhor despois de muytos e prósperos annos ficando em seu lugar ho Prin- cipe nosso Senhor, leue do senhorio da terra ao do ceo. TA-
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XX* T A U O A D A do presente liuro. TOMO I. C APITOLO I. De como el Rey dom João de Portugal ho segundo deste nome mandou descobrir a ín- dia per mar e despois por terra. Pag. I. CAP. II. De como Vasco da gama com outros capitães foy descobrir a ín- dia. & CAP. III. De como Vasco da gama dobrou ho cabo de boa Esperança, e do que lhe aconteceo ate passar ho rio do Ijjante. tá, CAP. I1II. De como Vasco da gama chegou d terra da boa gente , e despois foy ter ao rio dos bons si- naes. 22. CAP. V. De como Vasco da gama com toda a frota foy ter á ilha de Mo- çambique. ^ 27. CÁP. VI. De como ho çoltao de Mo- çambique fez paz com Vasco da gama cuydando que fosse Turco. 31. CAP. Vil. De como o çoltao de Mo- çambique quis fazer treiçao a Vas-
XXII Vasco da gama : e do que sucedeo sobrisso. tf. CAP. VIII. De como Vasco da gama se partio de Moçambique , e ho nauio sam Rafael deu em os bai- xos , que agora tem ho mesmo nome. 43. CAP. Villi. De como Vasco da gama chegou d cidade de Mombaça, e do que lhe hi aconteceo. ° 47. CAP. X. De como Vasco da gama chegou á cidade de Melinde. tf. CAP. XI. De como Vasco da gama mandou recado a el rey de Melin- de , e do que lhe respondeo. ' tf. CAP. XII. De como elrey de Me- linde se vio com Vasco da gama e assentou coele amizade, e lhe deu piloto que bo leuasse a Calicut. 63. CAP. XIII. De como partido Vasco da gama de Melinde chegou a Ca- licut , e da grandeza e nobreza desta cidade. 67. CAP. XIIII. Do grande poder delrey de Calicut, e de seus costumes : e assi dos outros reys do Malabar , e da maneyra que viuem os Naires. 73. CAP. XV. De como Vasco da gama mandou recado a elrey de Calicut que lhe queria falar. 82. " CAP.
XX Kl CAP. XVI. De como elrey de Cali- cut mandou por Vasco da gama a Pandar ane. 8 7) CAP. XVII. De como Vasco da gama deu a elrey de Calicut embaixada que lhe leuaua. 96. CAP. XVIII. De como Vasco da ga- ma quisera mandar hum presente a el rey , e lhe não foy consentido. 104. CAP. XVIIII. Do que os mouros or- denarão contra Vasco da gama. 107. CAP. XX. De como Vasco da gama ouue licen ca del rey per a se tornar aos nauios. 11i. CAP. XXI. De como tornandose Vas- co da gama pera os nauios ho de- teue ho Catual em Pandarane. 11f* CAP. XXII. De como Vasco da ga- ma se foy pera os nauios , e do que se passou despois disto. 120. CAP. XXIII. De como Vasco da ga- ma quisera deixar em Calicut hum feytor e escriuão e el rey não quis. 12.5-. CAP. XXIIIT. De como elrey de Ca- licut mandou Diogo diaz-, e Alua- ro de Braga , e do mais que pas- sou. 132. CAP. XXV. De como Vasco da ga- ma se par ti o pera Portugal, e do que
XXIV que lhe acontece o ate d ilha Danja» diua. 137. CAP. XXVI. De conto Vasco da ga- ma foy fazer agoada d ilha Danja- diua , e de como prendeo hi hum mouro. 142.' C A P. X XVII. Do que acontece o a Vas- co da gama ate d ilha Santiago. 148. CAP. XXVIII. De como Niculao coe- lho deu noua a el Rey dom Manuel que a India era discuberta. 15T. CAP. XXVIIII. De como Vasco da gama chegou a Lisboa. 156. CAP. XXX. De como Pedraluarez cabral foy por capitão mor de hua armada a Calicut. if 8. CAP. XXXI. De como çocobrarão quatro naos. j6r. CAP. XXXII. De como Pedraluarez Cabral se vio com el rey de Ouiloa. 16f, CAP. XXXIII. De como ho capitão mór Pedraluarez Cabral se vio com el rey de Ale linde. 168. CAP. XXXIIII. De como ho capitão mór Pedraluarez Cabral chegou a n Calicut. 170. CAP. XXXV. De como Pedraluarez Cabral falou a el rey de Calicut. 173. CAP. XXXVI. Do que aconteceo a Pedraluarez cabral em Calicut. x8r. CAP.
tXY CAP. XXXVII. De como Pedraluarez cabral mandou tomar húa nao pê- ra elrey de Calicut. 187. CAP. XXXVIII. Do que passarão os mouros de Meca com el rey de Calicut , e de como se leuantarao contra os Portugueses que estauao em terra. 191. CAP. XXXVIIII. De como Pedralua- rez cabral se vingou do que os mouros fizer ao. 198. CAP. XL. De como Pedraluarez ca- bral assentou amizade com el rey de Cochim. 200. LAP. XLI. De como Pedraluarez ca- t Portugal. 203. draluarez cabral tornando pera Portugal. 2 CAP. XLIII. De como foi por capi- tão mor da segunda armada da aconteceo a Pe- India João da noua. 210» *** ER-
Pag Lin 128 2; 144 «47 «$a 154 ifij ib. «69 «7* ib. 184 199 2®6 211 7 20 11 21 5 6 it 6 7 24 2] 1$ >9 Erras. ir que tosse nela iTiuyta gente Vaso da gama e detuca Niculao colho faziáo dali por eles aos doze e lhe entregou nessas vossa partes niiagres inandauáo ele E el rey de Calicut os gentio dão que uSo ousarão • Emendai. ir que se fosse nelas tnuyta gente Vasco da gania e de tença Niculao coelho que íazião dali por ele aos doze e ele lhe entregou nessas vossas partes milagres inudauao ele e a el rey de Calicut os gentios dão que não ousarão MM --V> •" "timo*»» wiviV. * HIS-
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z Da Historia da India Dalexandria , e ali a comprauao os Vene- zianos que a espalhauão pela Europa, de que ho reyno de Portugal auia seu quinhão, que os Venezianos leuauão a Lisboa em galés, principalmente reynando nos reynos de Portugal el Rev dom João ho segundo deste nome : que como fosse de rnuyto al- tos pensamentos , e desejoso dacrecentar seus senhorios e em nobrecelos a seruiço de V nosso senhor, determinou de prosseguir ho descobrimento da costa de Guiné que seus antecessores tinhao começado: porque por aquela costa lhe parecia que descobriria ho senhorio do Preste João das índias de que V tinha fama : pera que por ali podesse en- trar na Índia, donde per seus capitães po- desse mandar leuar aquelas riquezas que os Venezianos lhe yão vender. E coesta de- terminação mandou nouamente continuar * este descobrimento per mar , per hum Bcr- tolameu diaz que foy almoxarife dos alma- zens de Lisboa, que mandou por capitão rnór a este descobrimento, em. que desco- brio aquele muyto grande e espantoso ca- bo dos antigos não conhecido : que agora se chama Cabo de boa Esperança, e pas- sou auante cento e corenta legoas ate ho rio do- Iffante , e da hi se tornou pera Portugal sem achar nouas do Preste João ; o nem da índia : e naquela viagem pos em cer-
L i u. I. C a P. I. 3 certos lugares alguns padrões que leuaua com cruzes e as armas reaes de Portugal. E ho derradeyro foy em hum ilheo per- to da terra firme quinze legoas atras des- te rio do Iffante, a que pos nome ho ilheo da Cruz. E despois da partida deste Berto- lameu diaz , como el Rey tinha muytos grandes desejos de descobrir ho Preste João das índias pera ho conhecer por amigo , e por sua causa ter entrada na Índia , de- terminou de ho mandar descobrir por ter- ra : por onde ja tinha mandado hum frey Antonio de Lisboa frade de sam Francis- co e hum ley go que chegarão ate Jerusa- lem e dali se tornarão por não saberem a lingoa Arabica. E pera este descobrimento da terra escolheo hum criado seu que auia nome Afonso de payua natural de Castelo branco , e outro chamado Pero de coui- lhaã natural de hua vila deste nome : e a este disse em segredo que esperaua de- le hum grande seruiço, porque sempre ho achara bom seruidor e leal , e rnuyto di- toso nos seruiços que lhe tinha icy tos. E ho em que queria que ho servisse , era irem ele e Afonso de payua descobrir e saber do Preste João, e onde achauao a canela e a especiaria que ya da India a Veneza por terra de mouros : rogandolhe rnuyto que lhe fizesse este seruiço , que A ii ele
4 Da Historia da India cie disse que faria, e forão ambos despa- chados em Santarém aos sete dias de Mayo, de mil e cccclxxxvij. per ante el Rey dom Manuel que então era duque de Beja: e deulhes el Rey hua carta de marear que fora tirada de hum Mapamundi, pera que posessem nela os lugares do senhorio do Preste , e assi o caminho por onde fos- sem. E pera sua despesa lhes deu el Rey quatro centos cruzados da arca das despe- sas da orta Dalmeirim : e tomando deles o que pcdessem gastar, foy posto ho res- to no banco de Bertolameu florentim , e assi lhes deu el Rey hua carta de cren- ça pera serem socorridos em perigo ou ne- cessidade em quaesquer reynos que se achas- sem , porque em todos era el Rey conhe- cido. E partidos Pero de couilhaa c Afon- so de payua de Santarém chegarão a Bar- celona em dia de corpo de Deos , donde lhescambarão ho cambo pera Nápoles , a que chegarão dia de sam João: e sendo- llies dado seu caminho pelos filhos de Co- mo de medicis forão ter a Rhodes , em cuja religião não auia ainda mais de dous Portugueses, hum chamado frey Gonçalo e outro frey Fernando com quem pousa- rão , e daíii passarão a Alexandria como mercadores, e dali se forão ao Cayro, e dahi em companhia de mouros de Fez c
L i v. T. C a p. I. Ç de Tremecem em trajos de mouros forão ter ao lugar do Toro ao pé de monte Si- nay na costa Darabia no mar roxo: donde per mar se forao a çuaquem na costa da oexia , e despois a Adem. E sabendo ja bem que aquelle rey Christão que el Rey dom João cuydaua que era ho Preste João das índias era senhor de Ethiopia, con- certarão que lhe leuasse Afonso de payua hua carta dei Rey dom João e se visse coele. E por ser a moução pera a índia dc que sabião a verdade onde estaua, que fosse lá Pero de couilhãa , e que a certo tempo se ajuntassem ambos no Cayro. E partidos cada hum pera sua parte, Pero de couilhaa que ya em hua nao de mouros: foy ter a Cananor , e dahi a Calicut, que vio que era naquele tempo a principal es- cala da costa da India, e dahi foy ver a ilha de Goa, e foy a çofala e á ilha que agora chamão de sam Lourenço que os mouros chamauão da lua , e despois á Dor- muz. E tornado ao Cayro achou noua que Afonso de payua era morto : e querendose tornar para Portugal com tão boas nouas como leuaua, soube como hi andauao em sua busca dous judeus Portugueses , hum chamado Rabi habrão morador em Beja , e outro Joseph morador em Lamego e ça- pateiro, que esteuera em Babilónia e sou- be-
6 da Historia da India bera nouas da ilhn Dormuz, e do seu tra- to donde fora ter a Portugal alguns dias despois da partida de Pero de couilhaã e Dafonso de payua. E contou isto a el Rey dom João , que logo ho tornou a mandar com cartas a Pero de couilhaã , e coele Ra- bi habrao por seu companheiro: e dizia ne- las que se Pero de couilhaã tinha visto e sabido tudo aquilo a que ho mandaua que se tornasse a Portugal e que lhe faria mer- ce. E se não tinha tudo visto e sabido que lhe escreuesse o que tinha feyto , e principalmente fosse ver ho Preste João. E alem desta carta requererão os dous judeus estreitamente a Pero de couilhaã da parte dei Rey dom João que fosse ver ho Preste João, e mostrasse Ormuz a Rabi habrao. E logo Pero de couilhaã escreueo a el Rey tudo o que tinha sabido do Freste, e on- de era seu senhorio, e assi o que vira da India e Dormuz: e a carregação que se fa- zia em Calicut dcspeciaria , droga e pedra- ria : e que Calicut e Cananor cstauão em costa, e podiasc nauegar pera lá pela sua costa e mar de Guiné , indo demandar ço- fala : donde podião ir tomar a costa de Calicut. E mandada esta carta per Joseph, partiose com Rabi habrao pera Adem, donde foy a Ormuz, e hi ho deixou pera se ir a Portugal com outra tal carta sua pe- ra
Liu. I. Cap. I. ra el Rey dom João como leuara Joseph. E determinando dir á corte do Preste João, foy ver a cidade de Judá no estreito de Meca: e Meca , e Almedina e monte Si- nay. E embarcado no Toro foy ate a ci* da'de de Zeila na costa da Abexia: e dahi tomou seu caminho pera a corte do Preste João, que he como disse senhor da Ethio- pia. E chegado á corte deu a carta dei Rey dom João a Alexandre que então senho- reaua a Ethiopia , que a recebeo com muy- to prazer por ser de rcy Christao, e dis- se a Pero de couilhaa que ho mandaria a sua terra com muyta honra. E neste tem-' po morreo Alexandre e reynou Nahu seu irmão que não quis dar licença a Pero de couilhaa pera se ir, nem menos seu filho Davit que despois reynou, em cujo tempo lá foy dom Rodrigo de lima por embai- xador , como direy no quinto liuro que achou ainda Pero de couilhaa viuo de quetn se tudo isto soube. E seelRey dom João ouue as cartas que lhe Pero ae couilhaa mandou pelos judeus eu ho nao soube. E passados alguns meses despois da partida de Pero de couilhaã , el Rey dom João falou com hum frade da terra do Preste que lhe foy mandado de Roma , de quem se enformou largamente do senhorio do Preste, e per ele lhe escreueo. E também qua-
? Da Historia da India quasi neste tempo chegou a Lisboa Berto- lameu diaz do seu descobrimento: que con- tou a el Rey ate onde chegara e o que vi- ra. E determinando de prosseguir este des- cobrimento , pcra o que ordenou de man- dar fazer dous nauios : e a madeira de que se auião de fazer foy mandada coitar per hum João de Bragança moço do monte que foy védor desta obra, e foy leuada a Lis- boa no anno de mil e ccccxciiij. E queren- do el Rey dom João mandar fazer os na- uios , sobreueolhe a morte no anno de mil e quinhentos e nouenta e cinco a vinte cin- co Doutubro na vila Daluor, e sucedeolhe el Rey dom Manuel de gloriosa memoria o primeyro deste nome: a quem parece que a diuina prouidencia tinha escolhido pera es- te descobrimento, com que a fé catholica foy tão exalçada , e a real casa de Portu- gal ganhou tanta fama e honrra. C A P I T O L O II. De como Vasco da gama com outros capi- tães foy descobrir a Índia. EComo quer que el Rey dom Manuel assi como sucedeo nos reynos a el Rey dom João , assi também lhe sucedeo nos desejos que tinha de descobrir a India: lo- go
Liu. T. Cap. IT. 9 o aos dous annos de seu reynado enten- eo no seu descobrimento , pera que lhe aproueitou muyto as instruções que lhe fi- carão del Rey dom João , e seus regimen- tos pera esta nauegação : e mandou fazer dous nauios da madeira que el Rey dom João mandara cortar. E hum que era de cento e vinte toneladas ouue nome sam Gabriel: e outro de cento sam Rafael: e comprou pera ir coestes nauios hua ca- rauela de cincoenta toneladas a hum pilo- to chamado Birrio de que a carauela to- mou ho nome. E estes tres nauios auia de mandar a este descobrimento e com a capitania mòr deles cometeo hum Paulo da gama caualeyro de sua casa filho que fora Destcuão da gama alcayde mòr da vila de Sinis no campo dourique , em que tinha grande confiança por ele ser pera isso. Do que se ele escusou por hua doença que tinha com que não poderia sofrer os tra- balhos de capitão mor, pedindo a el Rey que fizesse merce daquele cargo a hum seu irmão mais moço chamado Vasco da gama que ho saberia muy bem seruir , e que ele iria também na armada por capitão pera o aconselhar e ajudar. Do que el Rey íby contente por saber que era assi, e que era Vasco da gama esprementado nas cou- sas do mar em que tinha feyto muyto ser-
lo Da Historia da Ih dia uiço a el Rey dom João : e que era ho- mem de grandes spiritos : e muyto proprio {>era dar fim a esre descobrimento, e assi ho disse quando lhe deu este cargo , en- comendandolhe muyto que satisfizesse ao credito que tinha nele, porque se assi ho fizesse lhe faria por isso muyto grandes merces , que lhe logo começou de fazer de hua comenda, e de dinheiro pera o aper- cebimento de sua viagem. E pera irem co- de despachou também a Paulo da gama e a hum Niculao coelho ambos criados dei Rey e homens pera qualquer grande fey- to. E por quanto nos nauios da armada não podião ir mantimentos que abastassem á gente dela ate tres annos, comprou cl Rey hua nao a hum Ayres correa de Lisboa que era de duzentos toneis , pera que fos- se carregada de mantimentos ate a agoada de sam Bras, e ali se despejaria e a quey- marião. Despachado Vasco da gama em monte mdr ho nouo onde el Rey estaua, partiose com seus capitães pera Lisboa: onde feyta sua armada embarcouse a gente dela, que forao cento e corenta e oyto pessoas : em Restelo, que será hiia le- goa de Lisboa, hum sabado oyto dias de Julho do anno de mil e ccccxcvij. E ao embarcar sayrão todos em procissam de nossa senhora de Belem : que he agora hum mos-
Liu. I. Cap. II. ii mosteiro da ordem de sam Hieronimo, e yao em pelote e cirios acesos nas mitos , c os frades rezando: e ya coeles a mayor parte da gente de Lisboa , e a mais dela choraua com piedade dos que se yão em- barcar crendo que auião todos de morrer. Embarcados todos e Vasco da gama com os outros cí ' ás velas e gama ya na nao sam Gabriel, e leuaua por seu piloto a hum Pero dalanquer que tora piloto de Bertolameu diaz quando fora des- cobrir ho rio do lffante : e Paulo da gama ya em sam Rafael, e Niculao coelho na carauela berrio : e hum Gonçalo nunez cria- do de Vasco da gama ya por capitão da nao dos mantimentos. E na sua companhia ya Bertolameu diaz em htía carauela ate á ilha do cabo verde , e dahi auia dir á mina. E Vasco da gama mandou a todos que sendo caso que se perdessem hum dos outros que fizessem seu caminho pera as ilhas do cabo verde , e ali se ajuntarião. E seguindo sua viagem dali a oyto dias ou- ue vista das Canarias. E indo hua noyte atraues do rio do ouro foy de noyte a çar- ração tamanha e a tormenta, que se perde- rão os nauios huns dos outros , e assi apar- tados seguirão a rota das ilhas do cabo verde per espaço de oyto dias. E sendo se partirão Vasco da já
ti Da Historia da India já juntos Paulo da gama, Niculao coe- lho , Bcrtolameu diaz, e Gonçalo nunez a hiía quarta feyra á tarde toparáo com Vas- co da gama , e saluandoho com muytos tiros dartelharia e trombetas lhe falarão. E ao outro dia que forão xxviij. de Julho chegarao todos á ilha de Santiago : e sur- girão na praya de santa Maria, onde fize- rão agoada em sete dias, e forão concer- tadas as vergas dos nauios do damno que receberão na tormenta passada , e hiía quinta feyra que forão tres Dagosto se par- tio Vasco da gama despedindose primey- ro dele Bertolameu diaz : que dali se foy caminho da mina. E Vasco da gama se- guio por sua nauegação indo caminho do cabo de boa Esperança, e com todas as naos de sua conserua se engolfou no mar, per onde nauegou Agosto , Setembro , e Outubro com muytas tormentas de ventos , chuuas e çarraçoes com que se todos virão em assaz de perigo , vendo a morte dian- te muytas vezes. E sendo já tempo de Vasco da gama ir demandar a terra, ido na volta dela hum sabado quatro dias de Nouembro ás noue horas foy vista , de que todos forão muyto ledos. E juntos os capitães saluarão Vasco da gama vestidos todos detesta, e os nauios embandeirados, e chegarão bem junto com terra e porque a
Liu. I. Cap. IT. 13 a não conhecerão mandou Vasco da gama que tornassem a virar na volta do mar , e forão nela ate a terça feyra seguinte que virarão pera terra ate que a virão , e to- rao ter a hua grande baya que por ter bom pouso surgirão nela pera íazerem agoada, e poseranlhe nome a angra de san- ta Elena. E segundo os nossos despois acharão , os homens que morauão no ser- tão daquela angra : sant nequenos de cor- po , e feos de rosto , cie coor baça , e quando falauao parecia que saluçauão : seus vestidos sam de peles dalimarias, feytos como capas Francesas. Trazem por armas huas varas dazambujo tostadas, e nos ca- bos metidos huns cornos dalimarias tosta- dos , que lhes seruem de terros , e ferem coeles. Mantense esta gente de rayzes der- uas, e de lobos marinhos , e baleas , de que aquela angra he muyto abastada , e assi de coruos marinhos c gaiuotas : e tam- bém comem gazelas , e rolas , e cotouias , e outras alimarias e aues que ha na terra cm que também ha cães como os de Por- tugal. Surta a armada mandou Vasco da gama rodear a angra pera ver se se metia nela algum rio dagoa doce c achando que não mandou Niculao coelho no seu batel ao longo da costa pera diante que ho fos- çe buscar, e achou hum dali a quatro le- goas
14 Da Historia da India goas a que pos nome Santiago, e dele se proueo a frota dagoa. Ao outro dia sayo Vasco da gama em terra com os outros capitães e algua gente pera ver que gen- te era a que moraua naquela terra, ese po- deria saber quanto aucria dali ao cabo de boa Esperança , porque ho não sabia que se não a ffi r mau a ho piloto inór na certe- za do que seria, porque quando foy com Bertolameu diaz não ouue vista do cabo se não tornandose pera Portugal, e da ida fo- ra de largo , e por isso não conhecia a ter- ra. E com tudo faziase trinta legoas do cabo ao mais. Assi que desembarcado Vas- co da gama , c andando pela terra tomarão os nossos hum homem dos seus morado- res , que andaua apanhando mel aos pés das moutas , onde ho as abelhas fazião sem mais cortiços. E coele se tornou Vasco da gama muyto ledo ás naos cuydando que teria lingoa nele, mas não foy assi, que nenhum dos lingoas que leuaua ho pode en- tender , e mandoulhe dar de comer, e co- rn eo , e bebe o de tudo o que lhe derão E vendo Vasco da gama que se não enten- dia , ao outro dia ho mandou poer em ter- ra bem vestido, o que parece que ele foy mostrar aos outros , porque ao outro dia vierão obra de quinze onde estaua a nossa frota: e Vasco da gama lhes mostrou es- pe-
Liu. I. Cap. II. i? peciaria, ouro , e aljôfar pera ver se teria aquela gente conhecimento dalgua daque- las cousas. E na pouca conta que fizerão delas conheceo que não tinhão nenhum , e então lhes deu cascaueis, anéis destanho, e ceitis : e coisto folgarão muyto. E dali por diante ate ho sabado seguinte vinhão muytos onde estaua a nossa frota : e reco- lhendose a gente da terra pera suas pouoa- ções , hum dos nossos chamado Fernão ve- íoso , que desejaua muyto de ver a sua ma- neyra de vida pedio licença a Vasco da gama pera ir em sua companhia: que lhe ele deu mais por importunação que por vontade. E indo Fernão veloso com eles tomarão hum lobo marinho, que logo as- sarão ao pé de hua serra , e ho cearão todos. E segundo despois pareceo a gente da tetra tinha ordenada rreyção aos nossos, porque aquela com que Fernão veloso ceou, tanto que teue acabado de cear ho fez tor- nar pera a nossa frota que estaua perto. E despois de partido forão a pos ele de va- gar , e quando Fernão veloso chegou á bor- da dagoa estauao os nossos ceando , e ou- uindono Vasco da gama bradar, e vendo a gente da terra que ho seguia, pareceo- Ihc que lhe queria fazer mal , deixou de cear e com os de sua nao se metteo logo no batel e foyse a terra, e lio mesmo fi- ze-
16 Da Historia da India zerao os outros capitães, e todos yao des- armados parecendolhes que os negros não farião o que fizerão: e eles em aparecen- do os nossos bateis deitarão a correr com grande grita, e assi sayrão outros que es- rauão escondidos no mato. E em os nos- sos desembarcando derão sobreles tirando- lhes com suas azagayas : de maneyra que aos nossos lhe foy forçado tornarse a em- barcar com muyta pressa, recolhendo to- dauia Fernão veloso. E vendoos os negros embarcados tornaranse, mas Vasco da ga- ma foy ferido e assi tres homens. E ain- da que os nossos ali esteuerão despois qua- tro dias não tornarão mais os negros : e por isso não se pode Vasco da gama vin- gar deles. C A P I T O L O III. De como Vasco da gama dobrou ho cabo de boa Esperança , e do que lhe acon- teceo ate 'passar ho rio do Jffdnte. FEyta agoada e carnajem, partiose Vas- co da gama húa quinta feyra pela menhaa que forão dezaseis de Nouembro e fez seu caminho na volta do mar com sul susueste. E ao sabado a tarde ouue vis- ta
Liu. I. Cap. IIT. 17 ta do cabo de boa Esperança, e por lhe ter ho vento contrayro que era susucste t e o cabo jaz nordeste suduesre tornou a vi- rar na volta do mar em quanto durou ho dia , e de noyte na volta da terra: e ho mesmo lhe aconteceo ate á quarta feyra seguinte que forao vinte de Nouembro, em que dobrou este cabo , indo ao longo da costa com vento á popa, com muyto prazer de folias e tanger de trombetas em toda a frota , porque todos esperauão em nosso senhor de acharem o que buscauao. E indo assi ao longo da terra viao andar nela muyto gado grosso e meudo, e todo muyto grande e gordo: e nao pareciao ne- nhíias pouoaçoes , porque por esta terra não as ha ao longo do mar , se nao me- tidas pelo sertão, e sam tudo casas de terra e palhaças , e a gente he baça: e vestese como a da angra de santa Elena , e assi falão e da mesma maneyra usão azagayas, e tem mais outras armas. A terra he muy- to viçosa daruoredos e dagoas , e junto com este cabo da banda do sul se faz hua angra muyto grande que entra pela terra bem seys legoas , e na boca tera bem outras tantas. Dobrado ho cabo de boa Es- perança , logo ao domingo seguinte que toy dia de santa Catherina chegou Vasco da gama á agoada de sam Bras, que he Liu. I. Tem. I. B ses-
i8 Da Historia da India sessenta legoas auante do cabo. He hua baya muyto grande abrigada de todos os ventos somente do norte: a gente lie ba- ça e cobrese com peles, pelejão com aza- gayas de paos tostados, e cornos e ossos dalimarias por ferros e com pedras. Na terra ha muytos alifantes e muy grandes , e assi boys que sam muyto mansos e gor- dos em estremo, e sam capados , e deles não tem cornos. E dos mais gordos se seruem os negros pera andar neles , e tra- zemnos albardados com albardas castelha- nas de tabua e sobreias hus paos que fa- zem feyção dandilhas e nelas andao. E aos que querem resgatar metenlhe hum pao desteua pelas ventans. Nesta angra está em mar tres tiros de besta hu ifiíeo em que ha muytos lobos marinhos , e deles sam tamanhos como ussos muyto grandes, e sam muyto temerosos e tem grandes den- tes , e sain tão bravos que se vão aos ho- mens : e tem a pele tão dura que nenhua lança os pode passar por grande força que leue , e estes dão burros como liões e os pequenos beirão como cabritos: e sam tantos que indo os nossos folgar hum dia a este illieo virão obra de tres mil autre grandes e pequenos. Ha também liuas aues a que chamão sotilicayros que sam tama- nhas como patos e não voão porque não tem
Liv. I. Cap. TIT. 19 tem penas nas asas e azurrão como asnos. Surto Vasco da gama nesta angra , fez despejar a nao dos mantimentos nas ou- tras naos e mandouha queimar como leua- ua por regimento. E nisto e em outras cousas se deteue aqui treze dias. E logo á sesta feyra seguinte despois que a arma- da chegou, estando os nossos nos nauios aparecerão obra denouenta homens htís ao longo da praya , outros pelos oyteiros. E vendoos Vasco da gama sefoy aterra com os outros capitães , e toda a gente ya ar- mada , e ós bateys com tiros dartelharia, porque lhes não acontecesse como na an- angra de santa Elena: e chegados os ba- teis junto com terra , lançaua Vasco da ga- ma nela cascaueis, e os negros os toma- uao, e lhe yão tomar da mão outros que lhe dauao : do que se ele ° espantaua por saber de Bertolameu diaz que quando ali estevera fugião dele. E vendo a mansidão dos negros sayo em terra com os seus, e fez coeles resgate de barretes vermelhos por manilhas de marfim. E logo ao saba- do vierão obra de duzentos negros antre homens e moços que trouuerão doze boys e quatro carneyros: e como os nossos fa- rão á terra começarão eles de tanger qua- tro frautas acordadas a quatro vozes da musica , que pera negros concertauao bem:
ao Da Historia da India o que ouuindo Vasco da gama , mandou tanger as trombetas e bailaua com os nos- sos. E nesta testa e no resgate dos boys e carneyros se gastou aquele dia : e lio mes- mo fizerão ao domingo em que veo muy- to mais gente que dantes , assi homens como molheres, e trouuerao muyto gado vacum, e tendo resgatado hum boy virão os nossos algus negros pequenos que es- tauao escondidos no mato e tinhão as ar- mas aos grandes , que parecendo treiçao mandou Vasco da gama recolher os nos- sos e foyse a outro lugar mais seguro que aquele, e os negros torao ate lá empare- lhados coeles : e ali desembarcou Vasco da gama com os nossos que yao armados. E os negros se começarão logo dajuntar como pera pelejarem: o que entendendo Vasco da gama porque lhes não queria fa- zer mal sc tornou a embarcar , e por os espantar lhes mandou tirar com dous ber- ços, e ele6 fugirão tão desacordados que deixarão as armas : despois disto mandou meter cm terra hum padrão com as armas de Portugal e hua cruz , que os negros tornarão a derribar estando ainda ali os nossos. Passados estes dias que Vasco da gama aqui esteue , partiose caminho do rio do lífante hua sesta fcyra oyto dias de Dezembro, que foy dia de N. S. da con-
Liu. I. Cap. III. 2T conceição. E indo por sua viagem dia de santa Luzia lhe deu hua grande tormenta de vento á popa com que correo a frota todo o dia com os traquetes muyto bai- xos. E nesta róta se perdeo Niculao coe- lho da conserva , e na noyte seguinte se tornou a ajuntar. Passada esta borriscada aos xvj. de Dezembro , ouue Vasco da ga- ma vista de terra onde se chamão os ilhcos chãos , que estão lx legoas da angra de sam Bras , e cinco alem do ilheo da Cruz , onde Bertolameu diaz pos ho der- radeyro padrão, e dele ao rio do lffante auia xv. legoas, e a terra era muyto gra- ciosa , e bem assombrada , e auia nela muyto gado , e de cada vez era melhor, e de mais altos aruoredos , e yao os nos- sos tão perto dela que tudo isto vião. E ao sabado passarão á vista do ilheo' da Cruz e por serem tanto auante como ho rio do lffante esteuerão á corda a noyte seguinte, porque ho não escorressem. E ao domingo forão perlongando a costa com vento á popa ate horas de vespera, que lhes saltou ho vento ao lcuante que pelo olho, e por isso se fizerão na volta do mar , e andarão assi payrando hua vol- ta ao mar, outra ú terra ate á terça fey- ra que forão xx. de Dezembro, que ao sol posto lhes tornou ponente que era á po-
ii. Da Historia da India popa. E pera reconhecerem a terra esteue- rao aquela noyte á corda, e ao outro dia ás dez horas chegarão ao ilheo da Cruz, que era sessenta iegoas a ré do que sefa- zião , e disto forão causa as grandes cor- rentes que ali ha. E neste mesmo dia tor- nou a frota a passar a mesma carreira que tinha passada leuando muyto vento a popa que lhe durou tres ou quatro dias com que rompeo as correntes que auião grande medo de não J- passar c assi yão Bertolameu diaz tinha chegado, e Vasco da gama os esforçaua , dizendo que assi quereria Deos que achassem a Índia. De como Vasco da gama chegou d terra da boa gente , e despots foy ter ao rio dos bons sinaes. E Prosseguindo por sua rota, achou dia de Natal que tinha descuberto por costa setenta legoas em leste, que era ho rumo a que leuaua em regimento, que a índia jazia, e daqui andou tanto pelo mar sem tomar terra que lhes falecia a agoa pera beber, e faziase de comer com agoa salgada. E sendo ja a regra da agoa no todos muyto passarem donde C A P I T O L O IIII. mais
Liu. I. Cap. IITI. 23 mais que a quartilho por dia , hua quin- ta feyra dez dias de Janeyro do anno de mil ccccxcviij. foy nos bateis ao longo da terra pera auer vista dela. E andando assi virão muytos negros antre homens e mo- lheres e todos de grandes corpos que an- dauão ao longo da praya. E vendo Vasco da gama que mostrauao ser gente mansa mandou sair em terra hum dos nossos chamado Martim afonso que sabia muytas lingoas de negros e coele outro homem , e forão ambos bem agasalhados daquela gente , e assi do senhor dela que ali an- daua: a que Vasco da gama mandou hua jaqueta, calças e carapuças vermelhas, e hua manilha de cobre com que folgou muyto : e disse que daria da sua terra quanto Vasco da gama quisesse. Com cu- ja licença Martim afonso porque entendia a lingòa , foy aquela noyte á pouoaçao des- te senhor acompanhandoho : e ele ya ar- rayado com a jaqueta, calças e carapuça: o que mostraua a muytos dos seus que ho sayrão a receber, e eles bat ião as palmas por cortesia : e isto por três ou quatro ve- zes. E assi andou pola pouoaçao de casa em casa mostrando aquelas peças com grande prazer, e por derradeyro mandou agasalhar os Portugueses muyto bem , e deulhes hua galinha pera cearem e papas
24 Da Histokia da India de milho. E despois de cea muytos do lugar os forao ver como a cousa noua. E ao outro dia mandou com os Portu- gueses muytas galinhas a Vasco da gama, mandandolhe dizer que ya mostrar as pe- ças que lhe dera ao senhor daquela terra, cujo vassalo era. Aqui se deteue Vasco da gama cinco dias : e a terra era muyto pouoada de gente, e a mais dela molhe- res , e os homens traziao arcos compri- dos , e frechas , e azagayas com os ferros de ferro , e punhais com goarnições desta- nho e as bainhas de marfim , e nos bra- ços e pernas manilhas de cobre, de que traziao pedaços dependurados nos cabelos : pelo que parecia auer ali abastança de co- bre e destanho. Prezaua esta gente tanto ho pano de linho que dauão por litía ca- misa muyto cobre : e por esta gente ser muyto domestica com os Portuguezes e lhes fazer agoada lhe foy posto nome a agoada da boa gente, e a hum rio onde fez agoada ho rio do cobre. E partiose daqui aos quinze de Janeiro, e nauegou ao longo da costa ate os vinte quatro que surgio na boca dum rio muyto largo. E entrado neste rio pera saber nouas da ín- dia achou que de cada vez era mais cu- berto de basto aruoredo. E indo assi, ex que aparecem certas almadias pelo rio
Liu. I. Cap. IIII. 2? abaixo carregadas de gente negra, e tudo homens de bons corpos sem outra cuber- tura mais de huns panos dalgodão cingi- dos. E chegados aos navios entrarão neles sem medo como que conhecião os Portu- gueses , porem não falauao se não por ace- nos , por não entenderem nenhum dos lin- goas que Vasco da gama leuaua : que lhes fez bom gasalhado , dandolhes cascaueis , manilhas e outras cousas com cjue mostra- uão folgar. E estes idos derao tão boa noua da conuersação dos Portugueses que ya muyta gente velos, assi por mar como por terra de que os nauios estauão perto. E auendo tres dias que estauão neste rio, forao dous negros ver Vasco da gama , que no aparato que leuauão parecido ser senhores : e os panos que cingião erão mayores que os dos outros e hum deles leuaua na cabeça húa touca com huns vi- uos de seda , e o outro húa carapuça de cetim verde. De que Vasco da gama ficou muyto ledo vendo que aqueles usauao al- gtía policia, e agasalhouos muyto bem , e mandoulhes dar de comer , e deulhes de vestir , e outras cousas : mas eles pa- recia que não estimauao cousa algua: e em hum pedaço que esteuerão na capitai- na, disse hum dos negros que yão coc- les per acenos a Vasco da gama que em sua
20 Da Historia da India sua terra , que era dali longe vira nauios grandes como os nossos, com que se acrecentou muyto ho prazer de Vasco da gama e de todos , parecendolhes que se chegauao á India: e muyto mais lho pareceo , porque despois que se estes dous senhores forao pera terra mandauao resgatar á frota huns panos dalgodao que tinhão huas marcas dalmagra. E por estas nouas que Vasco da gama achou neste rio lhe pos no- me ho rio dos bons sinaes : e mandou meter em terra hum padrão a que pos nome sam Rafael, porque se chamaua assi ho nauio que ho leuaua. E parecendolhe a ele por todos estes sinaes que digo que ainda a índia estaua dali longe , ouue por bem com conselho dos outros capitães que ti- rassem os nauios a monte, o que foy fey- to em trinta e dous dias, e os concerta- rão muyto bem: e neste tempo passarão os nossos assaz de trabalho com hua do- ença que lhes sobreueo , (parece que do ár daquela região) que a muytos lhes in- chauão as mãos , e as pernas e os pees. E coisto lhes crecião tanto as gengiuas sobre os dentes que não podião comer e ápodrecianlhe , de maneyra que não auia quem soportasse ho fedor da boca, e co- estes males padecião dores muy grandes , e morrerão alguns : o que pos a gente em gran-
Liu. I. Ca?. HIT. 27 grande desmayo. E em muyto mayor a posera se não fera por Paulo da gama que era de tão boa condição que de noyte e de dia visitaua todos , e os consolaua e curaua , e repartia coeles muy largamente dessas cousas de doentes que leuaua pera sua pessoa. CAPITOLO V. De como Vasco da gama com toda a fro- ta foy ter á ilha de Moçambique. COncertadas as naos de todo o neces- sário Vasco da gama tornou a seu descobrimento : e partiose hum sabado vinte quatro de Feuereyro , e aquele dia foy na volta do mar : e assi a noyte se- guinte por se afastar da costa que toda era muy graciosa , e ao domingo a horas de vespera aparecerão tres ilhas ao mar , e to- das pequenas, e aueria de hua á outra qua- tro legoas e em duas auia grandes aruore- dos, e a outra era calua: e Vasco da ga- ma não quis que as tomassem , por não auer disso necessidade, e foyse na volta do mar, e como foy noyte payrou , e assi ho fez seys dias. E hua quinta feyra á tarde que foy ho primeyro de Março vio quatro ilhas, duas perto da costa e duas t
z8 Da Historia da India ao mar, e por não ir de noyte dar nela? se fez, na volta do mar , porque determi- naua de ir por antrelas , como foy, man- dando diante Niculao coelho, por ser ho seu nauio mais pequeno que os outros: e indo ele á sesta feyra por dentro de hua angra que se fazia antre a terra e hua das ilhas, errou ho canal , e achou bayxo, o que foy causa de virar atras pera os ou- tros nauios que yão apos ele, e em vi- rando vio que sayão daquela ilha sete ou oyto barcos á vela , e aueria deles ao na- uio de Niculao coelho hua grande legoa : e os nossos que yão com Niculao coelho derao hua grande grita com prazer de ver aqueles barcos , e forão saluar Vasco da gama dizendo Niculao coelho. Oue vos parece senhor ja esta he outra gente. E ele lhe respondeo muyto ledo , que se deixassem ir na volta do mar , pera que podessem aferrar aquella ilha onde sayrão os barcos , e que surgirião ali pera sabe- rem que terra era , ou se achariao antre aquela gente nouas da India. E com tudo os barcos os seguião sempre capeandolhes a gente deles que os esperassem. E nisto surgio Vasco da gama com os outros ca- pitães : e tanto que forão surtos chegarão os barcos a eles: e quanto mais se chega- uão soauao neles atabalcs como que yão
Liu. I. Cat. V. 29 de festa. A gente que vinha dentro erão homens baços e de bons corpos , ves- tidos de panos dalgodão listrados e de muytas cores, huns cingidos ate ho gio- lho , e outros sobraçados como capas : e nas cabeças fotas com viuos de seda laurados de fio douro, e trazião terçados mouriscos e adagas. Estes homens como chegarão aos nauios entrarao dentro muy seguramente como que conhecerão os Por- sugueses , e assi conuersarao logo coeles, e falauao arauia: 110 que se conheceo que erao mouros. Vasco da gama lhes mandou logo dar de comer : e eles comerão e be- berão : e preguntados per hum Fernão martins que sabia arauia, que terra era aquela : disserão que era hua ilha do se- nhorio dum grande rey que estaua adiante : e chamauase a ilha Moçambique, pouoa- da de mercadores que tratauão com mouros da India , que lhe trazião prata , panos , crauo , pimenta , gengibre, aneys de pra- ta , com muytas perlas , aljôfar, e rubis. E que doutra terra que ficaua atras lhe trazião ouro : e que se ele quisesse entrar pera dentro do porto que eles ho mete- rião , e lá veria mais largamente o que lhe dezião. Ouuido isto por Vasco da ga- ma , ouue conselho com os outros capi- tães que seria bom que entrassem > assi pê- ra
3o Da Historia da India ra verem se era verdade o que aqueles mouros dizião, como pera tomarem pilo- tos que os guiassem dali por diante , pois os não tinhao: e que Niculao coelho fos- se sondar a barra: e assi se fez. E indo ele para entrar foy dar na ponta da ilha, e quebrou ho leme : e quis nosso senhor que assi como deu na ponta , assi tornou a sair pera o alto e não perigou : e achan- do que a barra era boa pera entrar foy surgir dous tiros de bésta da pouoaçao da ilha : que como digo se chama Moçambi- que e esta em quinze grãos da banda do sul , e tem muy bom porto: e lie abasta- da dos mantimentos da terra A pouoaçao he de casas palhaças , pouoada de mouros , que tratauao dali pera çofala em grandes naos, e sem cuberta nem pregadura , co- sidas com cayro: e as velas erão destei- ras de palma : e alguas trazião agulhas genuiscas , porque se região de quadrantes e cartas de marear. Coestes mouros vinhão tratar mouros da India e do mar roxo, por amor do ouro que ali achauão. E quando eles virão os nossos cuidarão que erão turcos por a noticia que tinhao de Turquia pelos mouros do mar roxo : e aqueles que forão primeiro á nossa frota ho forão dizer ao çoltão , que assi cha- mauão ao gouernador do lugar que ho go-
Liu. I. Cap. V. 51 gouernaua por elrey de Quiloa, de cujo senhorio era esta ilha. C A P I T O L O VI. De como ho çoltão de Moçambique fez faz com frasco da gama cuyaando que fosse Turco. SAbido pelo çoltao a vinda dos nossos : e como Niculao coelho estaua surto no porto , crendo que fossem turcos ou mou- ros doutra parte, ho foy logo ver ao na- uio acompanhado de muyta gente, e ele atauiado de panos de seda. E Niculao coelho ho recebeo com grande honra : e como não auia lingoa por cujo meo se podessem falar, não fez ho çoltão muyta detença no nauio. Porem bem entendeo Niculao coelho que cuydaua ele que os nossos erão mouros , e deulhe hum capuz vermelho de que ho çoltão não fez muy- ta conta , e ele deu a Niculao coelho huas contas pretas que leuaua na mão: e isto por seguro. E quando se ouue de ir {>ediolhe ho seu batel peta ir nele : e ele ho deu, e mandou coele alguns dos nossos que ho çoltão leuou a sua casa, e os con- uidou com tamaras e outras cousas, e mandou a Niculao coelho hua jarra de tamaras em con-
32 Da Historia da India conserua , com que despois conuidou Vas- co da gama, e seu irmão , a quem ho çoltão mandou logo visitar crendo que fossem turcos , e lhe mandou muyto re- fresco, e pedir licença pera ho ir ver. E Vasco da gama lhe mandou hum presente de chapeos, marlotas vermelhas , corays , bacias de latão , cascaueis e outras cousas muytas, que segundo disse o que lhas le- uou não teue em conta dizendo, que pe- ra que era aquilo bom , que porque lhe não mandaua escarlata, que isso era o que queria. E com tudo foy ver Vasco da ga- ma , que sabendo que ele auia de ir, mandou embandeyrar e toldar a frota e es- conder os doentes que leuaua, e passar á sua nao todos os sãos : e todos armados secretamente pera estarem prestes se os mouros quisessem fazer algua treiçao. E estando assi chegou o çoltão acompanhado de muyta gente e toda bem atauiada de panos de seda: e tangianlhe muytas trom- betas de marfim e assi outros instromen- tos. Ele era homem de bom corpo e ma- gro , leuaua vestida hua cabaya de pano dalgodáo branco, que he hua roupa aper- tada no corpo: e comprida ate o artelho: e em cima desta outra de veludo de Me- ca : e na cabeça hua fota de seda de ve- ludo de muytas cores e douro, e cingi-
Liu. I. Cap. VI. 33 do hum terçado rico e hua adaga: e noa pés huas alparcas de seda. Vasco da ga- ma lio reccbco ao portalò da nao , e dali ho leuou pera a tolda : onde se lhe des- culpou de lhe não mandar escarlata , por- que a nao trazia : senão cousas que desse por mantimentos quando deles teuesse ne- cessidade. E disselhe que ya descobrir a Índia por mandado de hum grande rey , cujo vassallo era. E isto lhe dizia pelo lingoa Fernão martins : e a pos isto lhe mandou dar muy bem de comer dessas con- seruas que leuaua: e do vinho: e ele co- meo e bebeo de boa vontade : e assi os que yão coele , que todos forao conuidados: e mostrauão grande amor aos nossos. Ho çoltão perguntou a Vasco da gama se vi- nha de Turquia, porque ouuira dizer que erão brancos assi como os nossos, e dizia- lhe que lhe mostrasse os arcos da sua ter- ra, e os liuros de sua ley. Ele lhe disse que não era de Turquia senão dum gran- de reyno' que confinaua coela : c que os seus arcos e armas lhe mostraria, e os li- uros de sua ley não os trazia , porque no mar não tinhão necessidade deles, e mos- troulhc algdas béstas com que mandou tirar. De que ho çoltão ficou espantado , c assi dalgdas couraças que lhe forão mos- tradas. E nesta vísta soube Vasco da ga- Liu. I. Tom. L C ma
34 DAHlSTORfADAlHDIA ma que dali a Calicut auia nouecentas le- goas, e que lhe era necessário piloto da terra: porque auia daclrar muytos baixos, e que ao longo da costa auia muytas ci- dades. E mais soube que ho Preste João estaua dali longe pelo sertão : e sabendo que tinha necessidade de piloto pedio ao çoltão que lhe desse dous, porque se hum morresse ficasse outro: e ele lhos prome- teo , com condição que os contentasse. E outra vez que ho çoltão o tornou a ver lhe leuou os dous pilotos que lhe prome- teo, e ele deu a cada hum trinta miti- caes , que he hum peso douro que na ter- ra serue por moeda , e pesa vinte hum vin- téns : e marlotas. E isto com condição que daquele dia por diante auião destar coele na nao , e quando quisessem ir á terra sempre ficasse hum na nao, porque auia ainda de fazer algua detença naque- le porto. CA-
Liu. I. C A P I T O L O VII. De como o çoltao de Moçambique quis fazer treicão a Vasco da gama : e do que sucedeo sobrisso. FEyto este concerto : auendo muyta communicação antrc os nossos e os mouros vierão eles a entender que os nos- sos erao Christaos , pelo qual toda a ami- zade que tinhão coeles se lhe tornou cm odio e desejo de os matarem , e de lhes tomarem as naos. Eisto concertaua o çol- tao de fazer , o que quis nosso senhor que hum dos pilotos mouros descobrio a Vas- co da gama sendo ho outro em terra. E sabendo ele isto, e receandose que ho po- sessem os mouros em afronta por serem muytos e ele ter pouca gente, não se quis mais deter, e partiose logo hum sabado dez de Março, auendo sete dias que che- gara. E partido foy surgir com toda a frota junto com hua ilha que estaua em mar húa legoa da de Moçambique. E is- to pera que ao domingo se dissesse missa em terra , e se confessassem e comungas- sem os nossos, porque despois que parti- rão de Lisboa nunca o mais fízerão. E despois de surta, a frota, vendo Vasco da CU ' ga-
%6 Da Historia da India gama que a tinha segura de lha íiao quei- marem os mouros , que era o que também receaua: determinou de tornar a Moçam- bique nos bateys a pedir ho piloto mouro que lhe ficaua cm terra : e deixando na frota seu irmão com recado pera lhe aco- dir se disso teuesse necessidade, partiose leuando Niculao coelho no seu batel, e leuaua também ho outro piloto mouro. E indo assi vio vir contra ele seys barcos com niuytos mouros armados darcos, frechas muyto compridas , e escudos e lanças, que como yirao os nossos começarão de Ines capear que se tornassem pera ho por- to da vila. E ho piloto mouro dizia a Vasco da gama que queriao dizer os ace- nos que os mouros fazião, e conselhaua- lhe que se tornasse : porque doutra ma- - n - —ho çoítao de dar ho ouue grande menencoria , parecendolhc que ho piloto lhe aconselhaua aquilo pera lhe fugir , c por isso Iiq mandou logo prendo-: p mandou tirar com as bombar- das qqe yão nos bateis aos das barcis; E ouuindo Paulo da gama. as bombardas na frota, cuydando que fosse outra cousa aco- dio logo no nauio berrio em que se fez á vela: e yendoos os mo.iros rir, como ja dantes fugiao , fugiiao muyto mais , e aço- terra : do que ele lhe-
Liu. I. Cap. VII. 37 lheransc á terra : e não os podendo Vasco da gama alcançar tornouse com seu irmão onde as naos estauão surtas: e ao outro dia sayo com a gente em terra e ouuio missa: e todos comungarão com muyta deuação estando confessados da noyte pas- sada. E fcyto isto se embarcarão e parti- rão no mesmo dia: porque Vasco da ga- ma desesperou de poder auer ho piloto que lhe ncaua cm Moçambique, e man- dou soltar o outro que leuaua, que parece que por se vingar dele, determinou de I10 leuar á ilha de Quiloa que era de mou- ros , e dizer ao rey dela como aquela fro- ta era de christãos , pera que os matasse todos: e disse a Vasco da gama que se não agastasse por ho outro piloto porque cie ho leuaria a hua grande ilha que esta- ua dali cem legoas , que era pouoada ametade de mouros ametade de Cnristãos, que tinhão guerra huns com outros, c que ali tomaria pilotos que ho levassem a Ca- licut : e ele lhe prometeo grandes mercês se ho leuasse onde dizia. E seguindo por sua viagem com vento muyto escasso á terça feyra seguinte que forão treze de Março á vista de terra vinte legoas don- de partira lhe deu calmaria , que durou a terça e quarta feyra. E na noyte seguinte com vento lcuante e pouco se fez na vol- ,V ta
38 Da Historia da India ta do mar: e quando veo á quinta feyra pola manhaã achouse com toda a frota a ré dc Mozambique quatro lcgoas: e aque- le dia andou ate á tarde que foy surgir junto da ilha onde ouuira missa ho do- mingo passado: e por lhe ser ho tempo por dauante pera sua nauegaçao esteue ali esperando por vento oyto dias , e neles veo ter á frota hum mouro branco que era caciz dos mouros , que em nossa lin- goa quer dizer clérigo , e disse a Vasco da gama que ho çoltao cstaua muyto ar- rependido da paz que quebrara coele, e que tornaria de muyto boa vontade a con- hrmala e ser seu amigo. E ele lhe man- dou dizer que nao fana paz coele , nem seria seu amigo ate lhe não tornar ho pi- loto que lhe tinha : e coesta reposta se foy ho caciz e nunca mais tornou. E des- pois de ido este caciz veo hum mouro que trazia consigo hum menino seu filho, e disse a Vasco da gama que se ho qui- sesse leuar na frota que iria coele ate á ci- dade de Melindc que auia dachar naque- la róta que leuaua , porque ele se queria tornar pera sua terra que era junto de Me- ca donde viera por piloto cm húa nao a Moçambique , e disselhe que nao esperas- se reposta do çoltao , que não auia de fazer paz coele, porque era christao. E Vas-
Liu. I. Cap. VII. 39 Vasco da gama folgou muyto cocstc mou- ro , porque ho enformasse do estreito do mar roxo, e assi dos lugares que auia pola costa por onde auia de naucgar ate Mclinde : e mandouho agasalhar na sua nao. E por quanto o tempo tardaua pcra fazer viagem, e a agoa da frota faltaua determinou com os outros capitães den- trar no porto de Moçambique pera fa- zer agoada , e que estaria com grande vigia, porque lhe não posessem os mou- ros lio fogo á frota. Isto determinado en- trarão 110 porto a húa quinta feyra , c como foy noyte forão os bateys lança- dos fora pera irem por agoa , que ho pi- loto mouro de Moçambique disse que estaua na terra firme , e que ele a iria mostrar : e por isso Vasco da gama ho lcuou, c partio á mea noyte indo coele Niculao coelho, e Paulo da gama ficou na frota. E, chegado onde ho piloto di- zia que estaua a agoa nunca a pode achar: porque ho piloto como andaua mais pe- ra ver se podia fugir que pcra mostrar a agoa, cnlcouse de mancyra que nunca po- de dar cocla , ( ou não quis) em todo aquele espaço que estaua por passar da noyte. E vinda a manhaã vendo Vasco da gama que não achaua agoa , não quis mais esperar porque leuaua pouca gente, .rrrr . C
4o DaHistoríadaIndia c temeose que dessem os mouros sobrelc, c quisse ir reformar de mais gente á fro- ta pera poder pelejar com os immigos se lhe quisessem defender a agoa , porque fez conta que melhor a acharia de dia que de noyte. E tornandose a reformar i fro- ta , tornou coelc Niculao coelho a fazer agoada : e leuando também ho piloto mouro, que vendo que não podia fugir, mostrou fogo ho lugar onde estaua a agoa, que era junto da praya: na qual andauao obra de vinte mouros escaramuçando a pé com azagayas, e fazendo mostra de que- rerem defender a agoa: e Vasco da gama lhes mandou tirar tres bombardadas pera darem lugar que os nossos podessem sal- tar fóra. E espantados os mouros das bombardas se embrenharão logo no mato, e os nossos fizerão agoada pacificamente, e quasi sol posto se recolherão á frota , onde acharão que fugira pera os mouros hum negro de João de Coimbra piloto de Paulo da gama. E ao sabado que forão vinte quatro de Março , véspera da An- nunciação de nossa senhora , logo pela manhaa apareceo hum mouro cm terra bem defronte da frota : e disse em voz alta, que se os nossos quisessem agoa que fossem por' ela: c isto com hum som que estaua la quem os faria tornar. E com a me-
Liu. I. Cap. VII. 4* mencncoria quo Vasco da gama ouue des- te desprezo se lhe acrecentou a que tinha da fugida do negro do piloto: de maney- ra que determinou de esbombardear a po-r uoação dos mouros por vingança. E di- zendoho a seus capitães se embarcarão to- dos nos bateys armados, e coessa gente que tinhão forão contra a pouoação^, onde os mouros ao longo da praya tinhao fey- ta hua paliçada de tauoado tao basto que se não podião ver os que esteuessem de- rrás dela: e por fóra desta paliçada antre- la e lio mar andauão obra de cem mouros armados descudos , agomias , azagayas , arcos, frechas, e fundas. E sendo os nos- sos bateys a tiro de funda lhe começarão de tirar ás pedradas: e os nossos lhe res- ponderão logo com muytas bombardadas, com cujo medo os immigos deixarão a praya, e se recolherão pera dentro da pa- liçada que com as bombardadas foy toda desfeyta, fugindo os immigos pera a po- uoação , de que ficarão dous mortos na praya. Desfeyta a paliçada e despejada, Vasco da gama se tornou com os seus, c por ver que os mouros fugião da- quela pouoação com medo que auiao dos nossos e se yão por mar pera outra que estaua da outra banda, e aespois de jantar se foy nos bateys com seus capitães 1
4i Da Historia da India pera ver se podia tomar alguns mouros , cuydando que tomando os aueria por eles ho negro do piloto , e assi dous Índios que lhe disse ho piloto mouro que estauao em Moçambique. E nesta ida só Paulo da gama tomou quatro mouros em húa alma- dia , e posto que muytas lcuauão outros muytos, vararão em terra, e fugirão, sem os nossos os poderem tomar, e nas alma- dias acharão muytos panos finos dalgodão e liuros do alcorão de Mafamede. E com quanto andou aquele dia ao longo da po- uoação, nunca pode auer fala de nenhum mouro, e não ousou de sayr em terra por- ue tinha pouca gente. E determinando ja e se partir sem ho negro nem os índios, ao outro dia fez agoada sem lha ninguém contrariar, c a segunda fcyra seguinte tornou a esbombardear a pouoação dos mouros c destruyoha de maneyra que eles se reco- lherão por dentro da ilha. E á terça feyra vinte sete de Março se partio do porto de Moçambique , e foy surgir junto dos ilheos de sam Jorge, que assi lhe pos no- me quando ali chegou, onde ainda se de- teue por lhe ser ho vento contrayro pera sua viagem, e despois de partido por ser ho vento fraco e as correntes serem gran- des tornou atras. CA-
Liu. I. 43 C A P I T O L O VIII. Be como Vasco da gama se partio de Moçambique , e ho nauio sam Ra- fael deu em os baixos , que ago- ra tem ho mesmo nome. EProseguindo sua viagem muyto ledo porque achara que hum dos quatro mouros que Paulo da gama tomara era piloto que ho saberia leuar a Calicut, hum domingo primeyro Dabril foy ter a huas ilhas que estauão bem junto da costa, c á primeyra foy posto nome a ilha do açou- tado. E a causa foy porque foy nela açou- tado ho piloto mouro de Moçambique por dizer que aquelas ilhas crão terra firme, e como ja Vasco da gama ya inchado dele dc quando lhe não quisera mostrar a agoa-~ da dc Moçambique, como ho acolheo na mentira das ilhas , parccendolhe que o 1c- uaua ali pera se perderem as naos antre- las, mandouho açoutar muy cruamente, c ho mouro confessou gue pera se perder ho lcuaua. E as ilhas erao tantas e tao juntas que se não podião estremar huas das ou- tras. E visto como erão ilhas fezsc Vasco da gama ao'amar delas!1, e assi foy e á quarta feyra que forão quatro Dabril fez sua
44 Da H tsTORíA da India sua rota ao noroeste: e antes do meo dia òuue vista de hua terra grossa r e de duas ilhas que estauão junto coela , e derredor delas auia muytos baixos: e chegado junto com esta^ terra que os pilotos mouros a re- conhecerão, disserão que a ilha dos Chris- taos (que era a de Quiloa) ficaua a ré ties Jegoas , de que Vasco da gama ficou muy- to agastado , cuydando verdndeyramente que era de Christãos, e quisera pingar os pilotos, parecendolhe que a cinte a escor- . mo, porque a nao tomasse. E eles se ciesculpauao com ho vento ser muyto , e as correntes grandes , e que singrarão as naos mais do que eles cuydarão. E porem a eles pesou mais de a não tomarem que a ele, porque csperauao de se vingar ali de- le e dos nossos , com morte de todos: de que os nosso senhor liurou ou milagrosa- mente, que sola forao nenhum escapara: porque Vasco da gama cuydando que a teira era de Christãos ouuera de sayr fóra : c com J10 pesar que tinha de a escorrer quis tornar atras pera ver se a poderia to- mar . no que se trabalhou bem aquele dia, mas nunca poderão por lhe ser pera isso ho vento contrayro e as correntes serem grandes. E então ouue Vasco da gama con- selho com os outros capitães que arribas- sem á ilha de Mombaça , que os pilotos mou-
Lfií. I. Cap. VIII. 4? mouros lhedizião que era pouoada^de mou- ros e de Christãos em duas pouoações apar- tadas , o que diziâo por enganarem os nossos, c os leuarem a matar , que a ilha era do mouros como lio era toda aquela^ costa. R sabendo que dali a Mombaça erao setenta e sete legoas fez seu caminho pcra la., e acerca da noyte vio hua ilha muyto gran. de que lhe demoraua ao norte, em que os pilotos mouros diziao que auia. duas po- uoações hua de Chnstaos, outra de mou- ros. E isto por fazerem crer aos mossos que auia por aquela terra muytos Christãos,, e indo assi com vento tendente dahi a cer- tos dias duas horas ante manhaa deu o iur uio sam Rafael em seco, em huns baixos que estauao duas legoas da terra firme : c como deu naqueles baixos fez sinal aos outros nauios pera que se goardassem : e eles surgirão a tiro de bombarda dos bai- xos , e lançando os bateis tora forao aco- dir a Paulo da gama: e virão que a agoa vazaua: pelo que conhecerão que tornando a encher nadaria o nauio, e logo lhe lan- çarão muytas ancoras ao mar: e nisto ama* nhaceo : e acabando a maré de vazar ficou ho nauio de todo em seco na praya, que era darea, que foy causa de ele nao rece- ber nenhum damno, que varou por ela e estaua dereyto com as ancoras que tinha ao mar:
46 Da Historia da India mar: c os nossos sayrao na praya em quan- to a agoa não enchia. E por sc ho nauio chamar sam Rafael poserão nome aos baixos, os baixos de sam Rafael, e a huas grandes c altas serranias que estauão na costa defronte destes baixos, as serras de sam Rafael. E estando ho nauio em seco vierao de terra duas almadias, em que vinhao mouros da terra a ver os nossos nauios , e leuarao muytas laranjas doces e muyto melhores que as de Portugal, que derao aos nossos. Ê disseranlhes qiie esforçassem, que como fosse preamar nd nauio nadaria e fariao caminho: c Vasco da gama lhes deu alguas peças, assi pelo que dizião, como por vi- rem a tal tempo: e dous deles sabendo que ele ya pera Mombaça lhe pedirão que os leuasse lá, e ficarão coele, e os outros se tornarão pera terra , e vinda a preamar sayo ho nauio do baixo, e tornarão todos a seu caminho com toda a frota.
Liu. I. 47 CAPITOLO IX. De como Vasco da gama chegou á cida- de de Mombaça, e do que lhe hi aconteceo. E Seguindo sua rõta, hum sabado sete Dabril a horas de sol posto foy surgir dc fóra da barra da ilha de Mombaça, que está junto com a terra firme, e he muyto farta de muytos mantimentos, s. milho, ar- roz , gado, assi grosso como meudo , e todo muyto grande e gordo , principal- mente os carneyros, que todos sam derra- bados e tem muytas galinhas. He também muyto viçosa de hortas em que ha muyta ortaliça , e muytas fruytas. s. romaãs , fi- gos da Índia, laranjas doces e agras , li- mões e cidrões, e muy singulares agoas. Nesta ilha está htía cidade que tem ho no- me da ilha em quatro grãos da banda do sul, he grande e situada em alto onde ba- te ho mar, fundada sobre pedra que se nao pôde minar : tem na entrada hum padrão, e á entrada da barra hum baluarte peque- no e baixo junto do mar. He a mór par- te desta cidade de casas de pedra e cal, sobradadas e lauradas de macenaria , e to- da bem arruada. Tem rey sobre si , eos mo-
48 Da Historia da India moradores dela sam mouros, huns bran- cos outros baços, assi homens como mo- lheres : e prezanse de bons caualeyres , e andao muyto bem tratados : e assi as mo- lheres com panos de seda e joyas douro e pedraria. He cidade de grande trato de todas as mercadorias '■ tem bom porto onde ha sempre muytas naos: vemlhe da terra firme muyto mel , cera e marfim. Chegado Vasco da gama á barra desta cidade , não entrou logo pera dentro por ser ja quasi noyte quando acabou de sur- gir , e mandou embandeyrar e toldar as naos por festa, e fazer em todas grandes alegrias. Eassi estauao todos muyto ledos crendo que na ilha auia pouoação de Chris- tãos, e que ao outro dia auiao dir ouuir missa á terra e que ali curarião os doentes que. leuauão que erão quasi todos, os que escaparão da viagem, porque a mayor par- te dos que partirão de Portugal erão mor- tos de doenças geradas do muyto trabalho que passauão. E estando Vasco da garpa aqui surto, forao bem noyte obra de cem homens em hua barca grande , e todos com terçados e escudos. E em chegando á capitaina quiserão entrar todos com as armas: e Vasco da gama não quis , nem deyxou entrar mais de quatro , e estes sem armas, e disselhe pelo lingoa que lhe per-
Liv. I. Cap. IX. ' 49 perdoassem porque como era estranjeiro não sabia de quem se auia dc fiar: e rnan- douos conuidar com alguas conseruas de que eles comerão , e disseranlhe que lhe não tinhão a mal o que fazia , e que eles lio vinhão ver como a cousa noua naque- la terra, e que se não espantasse de tra- zerem armas , porque se acostumaua na- quela terra trazerennas 11a guerra , e na paz. E disseranlhe que clrey de Mombaça sa- bia de sua vinda , e por ser noyte 110 não mandara visitar , mas que ho faria ao ou- folgaua muyto com sua daria especiaria com que carregasse as naos. E disscrão mais que apartado dos mouros auia muytos Christãos que mora- uão sobre si , com que Vasco da gama folgou muvto , e então acabou de crer que auia Christãos naquella ilha , vendo que concertauão aqueles mouros com o Que lhe tinhão dito os pilotos. E com tu- do ele não deyxou de ter algíia sospeita que aqueles mouros vinhão ver se pode- rião tomar algum dos nauios. E assi era porque elrey de Mombaça bem sabia que os nossos erão Christãos : e o que fizerao em Moçambique , e desejaua de se vingar deles: e era sua tenção raatalos a trdos , e tomarlhe os nauios. E com este funda- Ltu. I. Tom. I. D men- mais de I10 ver: e lhe
So Da Historia da India mento ao outro dia que foy dia de ranos lhe mandou dizer por dous mouros muy- to aluos , que ele rolgaua muyto com sua vinda , e se quisesse entrar pera ho seu porto lhe daria tudo ho de que teuesse ne- cessidade , e por seguro lhe mandou hum anel e de presente hum carneyro , e muy- tas laranjas, cidrões e canas daçucar. E disse aos mouros que lhe dissessem que erao Christaos, c que os auia na ilha. O que eles fizerão com tanta dissimulação que os nossos cuydarão que erão Chris- taos. E Vasco da gama lhes fez muyto gasalhado e lhes deu algíías peças , e man- dou agradecer a elrey ho offerecimento que lhe fazia, dizendo que ao outro dia entraria pera dentro, e mandoulhe hum ra-» mal de coraes muyto finos. E pera mais confirmar a paz com elrey, mandou coe- les dous dos nossos. E estes forão dous degradados dalguns que trazia pera auen- turar coestes recados , ou pera os deyxar em lugares onde visse que era necessário pera que soubessem o que ya neles, eos tomasse da volta que fizesse. Chegados os nossos á terra com os dous mouros ajun- touse logo muyta gente a velos , e foy coeles ate os paços aelrey, onde entrados antes que chegassem a elrey passarão qua- tro portas, e a cada híía estaua hum por- tey-
Liu. I. Cap. IX. 'yi reyro com hum terçado nu na m2o, e el- rey estaua com pouco estado, mas fez muyto gasalhado aos nossos , e mandou- lhes mostrar a cidade pelos mesmos mou- ros com que vierao. E indo eles pela ci- dade virão andar por ela muitos homens presos com ferros : e como não entendião a lingoa , nem os mouros a sua: nao pre- guntarão que presos erão aqueles : e cuy- darão que serião Christaos que os auia por aquelas partes , e que tinhão guerra com os mouros. Também estes nossos fo- rão leuados a casa de dous mercadores ín- dios , parece que Christaos de sam Tho- me : que sabendo que os nossos erao Chris- tãos mostrarão coeles muyto prazer, e os abraçauão , e conuidarao : e mostraranlhe pintada em hua carta a figura do Spirito sancto a que adorauão. E peranteles fize- rão sua adoração em giolhos com geito domens muyto deuotos , e que tinhao den- tro o que mostrauão de fora. E os mou- ros disserão aos nossos por acenos que outros muytos como aqueles morauão era outra parte dali longe , e por isso os nao leuauão lá : mas despois que fossem pera ho porto os irião ver. E isto diziao poios enganar, e os acolher no porto onde de- terminauão dé os matar. E vista a cidade pelos nossos , forão tornados a clrey : que r D ii Uie
St Da Historia da India lhe mandou mostrar pimenta , gingibre , crauo, e trigo tremes, e de tudo lhe deu mostra que leuassem a Vasco da gama : a ue mandou dizer por seu messageiro que e tudo aquilo tinha muyta abastança , e lhe daria carrega se a quisesse. E .assi de ouro, prata , ambar , cera , e marfim e outras riquezas em tanta abastança que sempre as ali acharia de cada vez que quisesse por menos que em outra parte. E quando ele vio a especiaria, e que el- rey lhe mandaua prometer carrega , foy muyto ledo, e muyto mais da enformação ue lhe os nossos derao da terra e dos ous Christaos que acharão: e ouue con- selho com os outros capitães, e acordarão que entrassem no porto e tomassem a es- peciaria que lhes dessem : e despots se irião a Calicut, onde se a não podessem auer ficariao com a que ali ouuessem , e assentarão dentrar ao outro dia. E neste tempo vinhao alguns mouros á capitaina e estauao com os nossos em tanto assesego e concórdia que parecia que os conheciao de muyto tempo : e vindo ho outro dia em começando a maré de repontar, man- dou Vasco da gama leuar ancora pera entrar no porto. E não querendo nosso senhor que os nossos ali acabassem como os mouros tinhao ordenado desuiouho per es-
Liu. I. Cap. IX. 5-3 esta maneyra, que leuada a capitaina nun- ca quis fazer cabeça pera entrar dentro e ya sobre hum baixo que tinha por popa. O que visto per Vasco da gama por não se perder , mandou surgir muy depressa, o que também fizerãò os outros capitães. E vendo alguns mouros que estauao na nao que surgia pareceolhes que não entraria aquele dia a frota no porto e recolheranse a húa barca que tinhao a bordo pera se irem á cidade. E indo por sua popa, os pilotos de Moçambique lançaranse á agoa e os da barca os tomarão e foranse , posto que Vasco da gama bradou que lhe dessem os pilotos. E quando vio que lhos nao dauão , disse aos seus que lhe parecia que nosso senhor permitira aquilo pera osgoar- dar dalgíia treiçao que lhe estaua ordena- da. E como foy noyte pingou doUs mouros dos que trazia catiuos de Moçambique , pera que lhe dissessem se lhe tinhao ordenada treiçao : e eles confessarão o que disse, e que os pilotos se lançarão ao mar, pare- cendolhes que ele sabia a treição: e por isso não quisera entrar 110 porto. E que- rendo ele pingar outro mouro pera ver se concertaua coestes, deitouse ao mar com as mãos atadas e outro se deitou ao quar- to dalua. Sabido per Vasco da gama este segredo deu muytos louuores a nosso se- nhor
5"4 Da Historia da India nhor por os liurar tão milagrosamente: e disserao todos a Salue na capita ina. E re- ceando que os mouros os cometessem de noyte ordenouse que a vigiassem toda to- dos armados: e a este tempo se achauão ja os doentes melhor , que como forao defronte desta cidade se acharão sãos , o que parece que foy milagre de nosso se- nhor pela necessidade que tinhão de saú- de. E nesta mesma noyte á mea noyte sentirão os que vigiauão no nauio Berrio bolir ho cabre de hua ancora que estaua surta , e logo cuydarão que erão toninhas, senão quando atentando bem virão que erão os immigos, que a nado estauão pi- cando ho cabre com terçados, pera que cortado désse ho nauio ã costa e se per- desse , ja que doutra maneyra ho não po- dião tomar. E logo os nossos bradarão aos outros nauios , dizcndolhes o que passaua pera que se goardassem. E nisto os do nauio sam Rafael acodirão, e acharão que alguns dos immigos estauão pegados nas cadeas da enxarcia do seu traquete. E ven- do eles que erão sentidos calaranse abai- xo e com os outros que picauão ho cabre do Berrio fugirão a nado pera duas alma- dias que estauão de litigo em que os nos- sos sentirão rumor de muyta gente, e re- mandoas com muyta pressa se tornarão á ci-
Liu. I. Caí. IX. 55 cidade, donde á quarta e quinta feyra, que ainda despois disto Vasco da gama ali esteue yao os immigos de noyte a nado ver se podião picar os cabres das ancoras: mas nao poderão por a grande vigia que tinhão os nossos : e com tudo deranlhe assaz de trabalho , e os poserão em muyto temor de lhes queymarem os nauios. E foy muyto não sayrem os mouros a eles nas naos , o que parece que foy com medo da nossa artelharia , que sabião que vinha na frota t porem ho mais certo he que nosso senhor lhe pos este medo pera livrar os nossos , que saindo os immigos a eles ouuerao de ser todos mortos. CAPITOLO X. De como Vasco da gama chegou d cidade de Me.inde. VAsco da gama se deixou estar ali aqueles dous dias pera ver se podia auer pilotos que ho leuassem a Calicut, porque sem eles auia de ser muy difhcul- toso poder lá ir, porque os nossos pilo- tos não a conhecião , e despois que vio que não podia auer pilotos , partiose á gesta feyra dendoenças pela manhaa , ven- tandolhe pouco vento: e ao sair da barra
5'6 Da Historia da India lhe ficou hua ancora por os nossos esta- rem muyto cansados de leuar as outras , e não a poderem leuar : e achandoa deá- pois os mouros a leuarão á cidade , e a poserao junto dos paços dei rey onde a achou dom Francisco dalmeida ho primey- ro viso rey da índia , quando tomou esta cidade aos mouros como direy no segun- do liuro. E partido Vasco da gama de Mombaça, sendo auanfe dela oyto legoas surgio hua noyte junto com terra por lhe acalmar ho vento : e em amanhacendo apa- recerão dous zambucos (que sam nauios pequenos) ajulauento da frota tres legoas ao mar. E como Vasco da gama desejaua dauer pilotos pera que ho leuassem a Ca- licut , parecendolhe que os tomaria nos zambucos em auendo vista deles se leuou e arribou sobreles comos outros capitães,' c seguioos ate horas de vespera que tomou hum deles, e ho outro se acolheo á ter- ra onde foy varar e nestoutro se tomarão bem dezasete mouros, antre os quaes auia hum velho que parecia senhor de todos , que trazia consigo hua moça sua molher: e assi se acharão muyras moedas douro e de prata, e alguns mantimentos que Vas- co da gama repartio pelos outros nauios. > E neste mesmo dia ao sol posto chegou a frota defronte da cidade de Melinde
Liu. I. Cat». X. S7 que está dezovto legoas de Mombaça em tres grãos da banda do sul. Não tem bom porto por ser quasi costa braua , e estar de dentro dum arrecife em que arreben- ta ho mar : e por isso he ho surgidou- ro das naos lonje da terra, está assentada em hum campo ao longo do mar e pa- recese com Alcouchete : tem ao derra- dor muytos palmares e arequaeis que to- do ho anno estão verdes , e assi muytas hortas com noras em que ha todo o gé- nero dortaliça e de fruytas , principalmen- te de laranjas doces que sam muyto gran- des e gostosas : he muyto abastada de mantimentos , milho , arroz , gado grosso e meudo, e galinhas e tudo muyto gor- do e barato: he grande e bem arruada , e de muyto fermosas casas de pedra e cal, de muytos sobrados , e eyrados com muy- tas genelas. A gente natural dela he gentia preta e bem desposta, e de cabelo revol- to : os estrangeiíos sam mouros arabios, que se tratao muyto bem , especialmente os nobres , da cinta pera cima andão nuus , e pera baixo se cobrem com panos de se- da e dalgodão muyto fino : e outros como capelhares sobraçados , e nas cabeças fò- tas de panos de seda e ouro. Trazem ada- gas ricas com grandes borlas de seda de cores, e terçados bem goarnecidos, e to-
58 Da Historia da India dos sam esquerdos, e trazem arcos e fre- chas , e sam grandes frecheiros, e presu- mem de bons caualeyros. Posto que se diga comummente caualeyros de Mombaça , e damas de Melinde , porque as moíheres daqui sam fermosas e and ao todas rica- mente atauiadas. Morão também nesta ci- dade muytos Buzarates gentios do reyno de Cambaya , que lie na Índia , que sam grandes mercadores, e tratão em ouro de que ha algum na terra , e assi ambar , mar- fim , breu e cera, que dão aos mercadores que ali vem de Cambava, com cobre azou- gue, e panos dalgodao, e huns e outros ganhão. Ho rey desta cidade he mouro, e seruese com mór estado e com mais po- licia que os outros reys que atras ficauão. Chegado Vasco da gama defronte desta cidade, foy grande prazer em todos os da frota porque viao cidade como de Por- tugal , e derão por isso muytos louuores a nosso senhor. E querendo Vasco da gama ver se por algum modo poderia auer dali pilotos que ho leuassem a Calicut, man- dou surgir : porque ate então não poderá saber dos mouros que t- mou no zambuco, seauia antreles algum piloto que soubesse ir a Calicut , e sempre dizião que não , ainda que forão metidos a tormento. CA-
Liu. I. 59 C A P I T O L O XI. De como Vasco da gama mandou recado a elrey de Mc linde , e do que lhe respondeo. NO outro dia que foy dia de Pascoa de rcsurreyção aquele mouro velho casado , que foy catiuo com os outros mouros disse a Vasco da gama que em Melinde cstauao quatro naos de Christaos Índios c se lio quisesse mandar a terra com os outros que dariao por si pilotos Christaos, e mais lhe darião tudo quanto lhe fosse necessário : do que ele foy muy- to contente. E mandando leu ar ancora foy surgir mea legoa da cidade donde nao veo ninguém á frota , por auerem medo de os tomarem, que bem sabiao do zambuco que os nossos tomarão que crao Christaos < e cuydauão que erao nauios darmada. E a segunda feyra pela manhaa mandou Vasco da gama leuar ho mouro velho no seu ba- tel a hua baixa que estaua defronte da ci- dade donde fazia íbnta que viriao por ele. E assi foy que afastado ho nosso batel y veo da terra húa almadia e leuou o mou- ro a elrey : a quem deu ho recado dc Vasco da gama. E como nosso senhor que-
6o Da Historia da India queria que a India se descobrisse, folgou elrey muyto cóesce recado , e desfxfis de comer mandou ho mouro ein hua almadia e coele hum seu criado , e hum caciz : por quem mandou dizer a Vasco da ga- ma que folgaria muyto dauer paz antreles, e que lhe daria os pilotos que queria e mais qualquer outra cousa de que teuesse necessidade: e coisto mandou tres carney- ros e laranjas e canas daçucar. Vasco da gama respondeo a elrey pelo mesmo mes- sejeiro; agradecendolhe a paz que queria que ouuesse antreles , e pera se assentar entraria ao outro dia pera dentro do por- to , e que soubesse que era Vassallo dum rcy Christão muyto poderoso da fim de occidente que desejando de saber ondesta- ua a cidade de Calicut a mandaua desco- brir, e lhe mandara que de caminho as- sentasse amizade com todos os reys que a quisessem coele- E que auia dous annos que partira de sua terra. E que elrey seu senhor era tal príncipe que clc auia de folgar de o ter por amigo. E mandoulhe de presente hum balandrão vermelho que era trajo daquele tempo, e hum chapeo , e dous ramaes de coraes e tres bacias da- rame , e cascaueis , e dous alambeis. E ao outro dia que foy a segunda oytaua de Pascoa se chegou a frota mais á cidade, e
j Li u. I. C a p. XI. 1 6l e logo clrey tornou a mandar visitar Vas- co da gama com mór aparato: porque ouuindo de quão longe era , e o que bus- caua, teue a el Rey dé Portugal por gran- de animo em ho mandar, e Vasco da ga- ma em lhe obedecer : e estimouho muyto , e veolhe grande desejo de ver homens que auia tanto tempo que andauão no mar, e assi lho mandou dizer, e que se queria ver coele ao outro dia : e a vista seria no mar. E mandoulhe seys carneyros, e muy- tos crauos e cominhos, gingibre, pimen- ta , e noz. E consentindo Vasco da gama que se vissem , entrou mais pcra dentro c surgio perto das quatro naos dos índios que lhe ho mouro dissera : e sabendo os donos das naos que os nossos erão Chris- taos forao logo visitar Vasco da gama que a este tempo estaua na nao de Paulo da gama, e erão homens baços, e de bons corpos , e bem despostos : Vestião htías roupas compridas de pano dalgodão bran- co de pouca fralda : trazião barbas gran- des , e os cabelos da cabeça compridos co- mo molheres , e entrançados debaixo de fótas que trazião nas cabeças Vasco da ga- ma lhes fez muyto gasalhado, preguntan- dolhe primeyro se erão Christaos , e isto pelo lingoa que lhe falaua arauia , de que eles sabião algua cousa , e disserão que -A D nao
6i Da Historia da India não era aquela a sua propria lingoa, se- não que sabião dela algua cousa pela com- municação que tinhão com os mouros , de que aconselharão a Vasco da gama que não se fiasse, porque sempre auião de ter nas vontades outra cousa do que mostrauão. E ele por esprementar se erao Christãos e ti- nhão algua noticia de nosso senhor, man- dou trazer hum retauolo de nossa senhora do pranto em que estauão também pintados algus dos apostolos : e mostroulno sem lhe dizer o que era. E eles em ho vendo lançaranse no chão e adorarão ho retauolo e rezarão hum pouco. E Vasco da gama folgou então muyto mais coeles , e pre- guntoulhes se erão de Calicut: e eles dis- serao que não, e que erao doutra cidade mais adiante chamada Cranganor : e não souberão dizer nada de Calicut. E dali por diante em quanto a frota ali esteue , yão eles cada dia ao nauio de Paulo da gama a fazer suas orações diante daquele retauolo , e offerecião ás imagens crauo, pimenta , e outras cousas. E estes índios não comião vaca segundo os nossos soube- rão deles. CA-
Liu. I. 63 C A P 1 T O L O XII. De como elrey de Melinde se vio com Vasco da gama e assentou coele ami- zade , e lhe deu piloto que ho leuasse a Calicut. ADerradeyra oytaua de Pascoa despois de comer foy elrey de Melinde em hua almadia grande junto da nossa frota, e leuaua vestida hua cabaya de damasco carmesim, forrada de cetim verde, e na cabeça hiía touca muyto rica. Vinha as- sentado em hua cadeyra despaldas ao mo- do antigo, e era darame muyto bem la- urada e fermosa, e nela htía almofada de seda: e outra tal como esta junto coele: cobriase com hum sombreyro de pe de ce- tim carmesim , e ya junto coele como pa- jem hum homem velho que lhe leuaua hum terçado rico com a bainha de prata. Trazia muytos anafis , e duas bozinas de marfim de comprimento doyto palmos ca- da hua , e erao muyto lauradas : e tan- gianse per hum buraco que tinhão no meyo: e concertauao com os anafis. Vinhao com elrey obra de vinte mouros fidalgos atauia- dos todos ricamente. B em elrey querendo chegar aos nauios sayo Vasco aa gama no seu
64 Da Historia da Imdia seu batel embandeyrado e toldado, e ele vestido de festa com doze homens dos mais honrados da frota: onde deixaua seu irmão. E em chegando elrey perto dele, disselhe que lhe queria falar no seu batel pera o ver de mais perto: e logo se me- teo no batel , e fezlhe tamanha cortesia como se fora rey como ele , e olhaua pa- rele e pera os outros , como pera cousa es- tranha. E disselhe que lhe dissesse ho no- me de seu rey e mandouho escreuer : e preguntoulhe muyto meudamente por ele e por seu poder. E elle lho disse: e que mandaua descobrir Calicut pera auer de lá especiaria : porque a não auia em sua ter- ra. E despois de lhe elrey dar algua en- formação dela e do estreito do mar roxo, e lhe prometer piloto que ho leuasse lá , lhe rogou muyto que fosse coele pera a cidade, e que folgaria nos seus paços, e que descansaria do trabalho do mar, e que ele iria também folgar aos seus na- uios. Vasco da gama lhe disse que não trazia licença delrey seu senhor pera sair em terra, e que se ho fizesse daria de si muyto má conta. Ao que elrey respondeo que se ele fosse aos nauios que conta da- ria ao seu pouo ou que dirião : e porem que lhe pesaua muyto de não querer ir ver a sua cidade, que estaua a seruiço do seu
Lib. I. CA?. XII. 6$ seu rey , a quem mandaria seu embaixa- dor , ou escreueria se ele quisesse tornar por ali de Calicut : e ele lhe prometeo de tornar. E cm quanto ali csteuerao mandou Vasco da gama pelos mouros que trazia catiuos e deuos a elrey, dizendo que se lhe poderá fazer outro mayor^seruiço que lho fizera: do que elrey foy tao con- tente que disse, que mais ho estimaua que lhe dar outra cidade como a sua. E des- pois de acabarem de falar e confirmar amizade antreles , andou clrcy folgando por antre a nossa frota , donde tirauao muytas bombardadas , que ele folgaua muyto douuir tirar: e Vasco da gama an- daua coele: e elrey lhe dizia que nunca vira homens que folgasse tanto de ver co- mo os Portugueses : e que folgara de os ter consigo , pera ho ajudarem em guer- ras que tinha ás vezes com seus immigos , porque lhe parecião homens pera muyto. E Vasco da gama lhe disse que se os es- prementara que muyto mais lho paiccerao, e que eles ho ajudarião 6C elrey seu se- nhor mandasse suas armadas a Calicut, como esperaua em Deos que mandaria : se lha deixasse descobrir. E despois que el- rey assi andou folgando pedio a Vasco da gama que pois nao queria ir ver a sua ci- dade, que mandasse lá dous dos nossos a Liu. L Tom. I. ' E ve-
66 Da Historia da India rcrem os seus paços, e que ele deixaria dous dos seus na frota pera que a vissem , c deixou hum seu filho , e hum caciz, eass se fez: e leuou consigo dous dos nossos, deixando concertado com Vasco da gama , que ao outro dia fosse no seu batel ao lon- go da terra , e que veria seus caualeyros a caualo. E ele ho fez ao outro dia que foy quinta feyra : e foy coele Niculao coelh) e nos bateys que yao artilhados, forao ao longo da praya, onde andauao muytcs ho- mens , e antreles dous de caualo escaramu- çando : e como Vasco da gama chegou perto da terra chegouse toda aquela gente ao pé de hua escada de pedra dos paços delrey questauão á vista , e ali tomarão elrey em huas andas , e leuaranno ao batel de Vasco da gama , a que disse palauras de muyto amor: e tornoulhe a pedir que fosse á terra : porque seu pay que estaua entreuado descjaua muyto de ho ver: e que em quanto fosse ele e seus filhos fica- não nos nauios. E com tudo isto ele se escusou de ir a terra , e espedindose delrey andou hum pedaço ao longo dela. E das naos dos índios lirauao muytas bombar- dadas por festa : e quando eles viao passar os nossos leuantauao as mãos , dizendo com muyta alegria Christe , Ckriste, E com licença delrey , lhe fizerao aquela noy-
Liu. I. Cat. XII. 67 noyte grande fesra dc foguetes e tiros : c dauão grandes gritas. E estando Vasco da gama ainda neste porto ao domingo que forão vinte dous de Abril foy hum pri- uado delrey visitalo , e ele estaua bem agastado por auer dous dias que não vinha ninguém da cidade a frota : c temeose que elrey estaria agrauado dele porque nao quisera ir á terra : e quereria quebrar a amizade que tinhao assentado , e pesaua- lhe disso, porque ainda não tinha pilotos. E quando vio que aquele seu criado lhos não leuaua teue má sospeita delrey, e por isso lho deteue. E sabendo elrey a causa disso, mandoulhe logo hu piloto guzarate chamado Canaqua, desculpandose de lho não ter mandado : e assi ficara o amigos como dantes. C A P I T O L O XIII. De corno partido Vasco da gama de Me- linde chegou a Calicut, e da gran- deza e nobreza desta cidade. PRovido Vasco da gama de todo ho necessário pera sua viagem , partiose de Melinde pera Calicut hua terça feyra xxiiij. Dabril , e dali começou logo datra- uessar hum golfão de setecentas e cinco- E ii ea-
68 Da Historia da India enta legoas , porque faz ali a terra lida muyto grande enseada, e corre a costa de norte a sul: e Vasco da gama foy em les- te a demandar a Calicut. E logo ao do- mingo seguinte virão os nossos ho norte, que auia muyto que deixarão de ver, e vião ho sul. E deulhes Deos tão boa ven- tura que fazendo ja rosto ho inuerno da índia, pelo que faz naquele golfão gran- des tormentas, ele não achou nenhua, an- tes vento á popa. E htía sesta feyra que forão dezgsete de Mayo , auendo vinte tres que era partido de Melinde , e que não vião terra, ouuerão vista dela, indo a frota oyto legoas ao mar , e a terra era al- ta : e logo Canaqua deitou ho prumo e achou corenta e cinco braças e por se ar- redar desta costa , como foy noyte se fez ho caminho ao sueste: e ao sabado a foy demandar : e não se chegou tanto a ela ue podesse auer perfeyto conhecimento ela , e isto pelos muytos chuueyros que acharão despois que virão terra , que era ja inuerno na índia , cuja costa esta era. E ao domingo vinte de Mayo vio ho pi- loto híías serras muyto altas que estão so- bre a cidade de Calicut, e chcgouse tanto á terra que as conheceo e com muyto pra- zer pedio aluisaras a Vasco da gama : di- zendo que aquela era a terra que desejaua de
Liu. I. Cap. XIII. 69 de chegar , e ele lhas deu, e logo man- dou dizer a Salue , onde todos derao muytos louuores a nosso Senhor, e foracv feytas grandes alegrias nos nauios : e no mesmo dia á tarde forão surgir duas le- goas abaixo de Calicut, legoa e mea da costa, defronte de hum lugar chamado Capocate, com que se ho piloto enganou , cuydando que era Calicut. E surta a frota acodio logo gente de terra em quatro al- madias a saber que naos erão aquelas , porque nunca virão outras daquela feição, nem ir em tal tempo a aquela costa. E esta gente vinha nua , saluo que cobrião suas vergonhas com huns pequenos panos, e erão baços , e alguns entrarão na capi- taina. E ho piloto Guzarate disse a Vasco da gama que aquela gente erão pescado- res , e que era gente mezquinha, que assi chamão na índia á gente baixa c pobre. E toda via ele lhes fez gasalhado e lhes mandou comprar pescado que trazião: e deles se soube que ho lugar não era Cali- cut que era mais adiante , e offereceransc a leuar lá a frota , o que logo Vasco da ama quis que se fizesse, e as almadias o leuarão a Calicut, que he hua cidade situada na costa do Malabar, híía prouin- cia da segunda índia. Esta prouincia co- meça no monte Deli, e acaba no cabo de
7o Da Historia da India Comorim que he espaço de setenta c duas legoas de comprimento, e tem doze, c quinze de largo , he toda terra baixa, e alagadiça, e de muytas ilhas, está antre ho mar indico e hua serra muy alta que pôc termo antrcla e hum grande reyno chamado Narsinga. E dizem os índios que esta terra do Malabar foy mar em outro tempo e que chegaua ate á serra, e que correo pera onde agora sam as ilhas de Maldiua que então era terra firme , e a cobrio, e descobrio estoutra do Malabar: cm que ha muytas e muy viçosas cidades, e ricas por trato: principalmente a de Ca- licut que em viço e riqueza precedia a to- das neste tempo : cuja edificação foy des- sta mancyra. Antigamente ho Malabar era todo de hum rey que tinha seu assento na cidade de Coulão : e reynando ho der- radeyro rey que ouue nesta terra que se chamaua Sarranaperima (que a este tempo aucria seyscentos annos que era falecido) descobrirão os mouros de Meca a índia, c forão ter ao Malabar por amor da pi- menta e outra especiaria , e carregarão suas naos na cidade de Coulão que era neste tempo a principal de todo Malabar po- uoada de gentios : e ho rey era gentio. E desta vinda dos mouros tomarão eles a sua eia como nós tomamos do nacimento de
Ltu. I. Cap. XIII. 71 de nosso senhor Jesu christo. Coestc rey tomarão os mouros tanta conuersaçao, e ele coeles que se conuerteo á sua seyta, e deixou a que tinha. E foy tanto ho amor que teue a seyta de Mafamede, que deter- minou de ir morrer á casa de Meca : c antes que partisse partio todo ho seu se- nhorio com seus parentes : e ter.doho dado todo que lhe não ficauão mais de doze le- goas de terra c|ue estauao ao derrador do lugar donde se auia dembarcar, que era hua praya despouoada deuho a hum mo- ço seu sobrinho que I10 seruia de pajem: e mandoulhe que fizesse pouoar aquele lu- gar em memoria de sua cmbarcaçao , e deulhe a sua espada e hua tocha mourisca que trazia por estado. E mandou a todos esses senhores com quem repartira seu se- nhorio que lhe obedecessem , e ho teues- sem por seu emperador, saluo aos reys dc Coulao e de Cananor , c mandou que nem eles nem outro nenhum senhor 110 Malabar podesse mandar laurar moeda saluo elrev de Calicut. E coisto se embarcou ali onde agora está Calicut , em que os mouros tomarão tamanha deuação por se aquele rey ali embarcar pera a^ casa de Meca , que nunca despois quiscrao fazer sua car- regação senão naquele porto, e deixarao ho' de Coulão que por isso se desfez,
72 Da Historia da India principalmente despois que Calicut foy edificada, e muytos mouros assentarão ne- la de viucnda. E como erao grandes mer- cadores e de muy grosso trato , veose a fazer a mayor escala e a mais rica de toda a índia, porque nela se achaua toda a es- peciaria , droga, noz, e maça que se po- dia deseiar todo genero de pedraria, per- las , e aljôfar, canfora , almizquere, sân- dalos , c aguila , lacre, porcelanas , cestos dourados, cofres , e todalas lindezas da China , ouro , ambar, cera , marfim, e ala- quccas , muyta roupa dalgodao delgada, e grossa , assi branca como pintada , muy- ta seda solta e retroz e todo genero de panos de seda è douro, e brocados, bro- cadilhos , chamalotes , graãs , escarlatas , alcatifas , tafeciras , cobre , azougue , ver- melhão , pedra hume, coral, agoas rosa- das , e todo ho genero de conseruas. De modo que nenhua cousa de mercadoria de todas as partes do mundo se podia pedir que não se achasse nela. A fora isto era muy apraziuel por ser situada na costa ao longo dum arrecife quasi costa braua , cer- cado de muytas ortas em que ha muytas fruytas da terra e muyta ortaliça e muy singulares agoas: e muytos palmares e are- cais : na tara ha pouco arroz que he ho principal mantimento assi como antre nos -flhq
Liu. I. Cap. XIII. 7? ho trigo , e este lhe vem de fòra cm muy- ta abastança, e assi tem de todos os ou- tros : lie muyto grande, e espalhada e to- da de casas palhaças: senão as casas dos ídolos, mezquitas e casas delrey que sam de pedra e cal e telhadas: porque por ley outrem as não pode ter desta maneyra. Era pouoada de gentios dediuersas seytas e de mouros grandes mercadores : e tao ricos que auia alguns que tinhao cincocnta naos , c não auia anno que nao viessem a este porto seyscentas naos e dahi pera cima. CAPITOLO XIIII. Do grande poder delrey de Calicut, e de seus costumes : e assi dos outros reys do Malabar , e da maney- ra que viuem os Naires. POr esta cidade ser de tamanho trato e tão pouoada, e assi a terra ao der- rador crecerão as rendas de seu rey em tanta maneyra que veo a ser o mais rico rey do Malabar de dinheyro : e mais po* deroso de gente : porque em hum dia ajuntaua trinta mil homens de peleja, e em tres cem mil, c chamauase çamorim que em sua lingoa quer dizer emperador: por-
74 Da Historia da India que assi ho era ele antre os reys do Ma- labar que não erao mais de dous a fora ele. s. clrey de Coulão , e elrey de Ca- nanor : que posto que outros se chamauão reys não ho eraa Este rey de Calicut era bra men e j como também ho sam os outros; que antre os Malabares sam sacerdotes, e por isso hão todos de acabar sua vida em hum pagode que he casa de oração dos seus idolos que tem deputado pera is- so : e sempre nela ha dauer hum rey que os sirua : e este morto p6e logo em seu lu- gar o que reyna: e no reyno póe outro que lhe sucede e ainda que o que reyna não queyra entrar no pagode; morto ho que está nele hao no de fazer entrar por força. Estes reys do Malabar sam homens baços e andao nus da cinta pera cima e pera baixo se cobrem com panos de seda, e dalgodao , e ás vezes se vestem de duas roupas curtas que chamão bájus de seda ou brocado e dc graã com muyta pedra- ria, principalmente elrey de Calicut. Fa- zem as barbas a naualha e deixão huns bigodes compridos á maneyra de Turcos , seracnse com pouco estado , mórmente no comer que he muy pouco. Mas elrey de Calicut se seruia então com muyto gran- de. Estes reys não casão nem tem ley de casamento: porem tem hua manceba de
LiV I. Cap. XITII. 75 de linhagem de naires que antre os Mala- bares sam fidalgos : e esta tem em casa apartada perto dos paços , e danlhe certa cousa por mes pera seu gasto: com que viucm muy abastadamente: e cada vez que os descontentao a deixão : e os filhos que fazem nelas não os tem por filhos , nem hcrdão horeyno, nem outra cousa sua: e como sam homens não tem mais valia que a da parte da mãy : sam seus herdeyros seus irmãos se os tem , c senão suas so- brinhas filhas de suas irmaas, as quaes não casão, nem tem mandos certos , e sam muvto liures em escolherem quem lhe melhor parece , e sam muy estimadas e tem muy grandes rendas: e como cl^ga algua a dez annos que he a idade pera conhecerem homens mandao seus parentes chamar fora do reyno algum mancebo Naire, e rogarlhe com presentes que lhe vá leuar a virgindade : e quando chega o recebem com muyta festa. E despots de a corromper atalhe hua joya ao pes- coço , que ela traz toda sua vida em rouy- ta estima por sinal da liberdade que lhe foy dada pera fazer de si o que quiser, porque sem aquela cirimonia nao podia conhecer homem. Estes reys tem ás vezes guerra huns com os outros, e ejes mes- mos entrão nas batalhas e pelejao se he ne-
7*5 Da Historia da India ncGessario: quando morrem queimannos ^ - aguila, e ao quei- mar se ajuntao todos seus irmãos e pa- rentes mais chegados : e todos os grandes do reyno : e ate serem todos juntos se espéra tres dias antes de ho queimarem, pera verem se falcceo de sua morte , ou se ho matarão, porque matandoho alguém sam obrigados a vingalo. Despois que os queimao e que enterrão a cinsa rapanse todos sem ficar cabelo nenhum , ate ho mais pequenino menino que seja gentio, e geralmente deixão de comer betele, que he hua erua de que gostão muyto: e is- to por treze dias : e ao que ho come cortanlhe os beiços por justiça. E nestes dias ho príncipe não manda nem gouer- na pera ver se acodirá alguém que con- tradiga ser ele rey: e acabado este ter- mo os grandes do reyno lhe fazem jurar todas as leys e costumes do rey passado : e de pagar todas suas diuidas: e de tra- balhar por ganhar algua cousa que estê perdida do reyno. E este juramento lhe tomao tendo ele a sua espada na mão es- querda e a dereyta sobre hua candea ace- sa , metido nela hum anel douro em que toca coin 06 dedos e ali faz seu juramen- to , e fcyto lhe lanção hum pouco dar- ressio com muy roz,
Liv. I. Cap. XIIU. 77 roz, fazendolhe grandes cirimonias em que lhe dizem muytas orações : e ele ado- ra tres vezes ao sol, e logo os Caimaes que sam senhores de titolo lhe jurao na mesma candea de lhe serem leaes. Aca- bados os treze dias tornão todos a comer betele , e carne e pescado como dantes , saluo elrey que toma dom por seu ante- cessor: e o dom he que por espaço de hum anno não come carne nem pescado nem betele , nem ha de rapar a barba, nem fazer as unhas nem ha de comer mais que híia vez no dia , e lauase to- do antes que coma e reza certas horas do dia : e despois de acabado ho anno faz hua cerimonia pela alma do rey pas- sado á maneyra de saymento em que se ajuntàrao cem mil homens , cm que dá muytas esmolas : e acabada esta cerimonia confirmao ho príncipe por herdeyro do reyno , e despois se vay toda aquela gen- te. Elrey de Calicut, e assi todos os ou- tros reys do Malabar tem hum regedor que tem cargo da justiça , e assi manda em outras muytas cousas como elrey pro- priamente. Agente de peleja que tem el- rey de Calicut, e assi os reys do Mala- bar sam Naires , que sam todos fidalgos , e não tem outro officio se não pelejar quando he necessário , e sam gentios: tra-
78 Da Historia da India trazem continuamente as armas com que pelejao que sam arcos , frechas , lanças , agomias , e escudos , e tem que andao coelas muyto honrrados e galantes : po- rem andão nus sómente com huns panos dalgodao pintados que cs cobrem da cin- ta ate ho giolho: è descalços com toucas nas cabeças. Vivem todos com elrey ou com senhores de terra de que tem mora- dia , e sam tão isentos em sua fidalguia e tão escoimados , que se não tocão com nenhum vilão, nem lhe hão dentrar em casa. E os vilãos sam obrigados quando vão polas estradas de ir bradando que vão, porque se os Naires vierem lhes di- gão que se afastem do caminho : e se ho assi não fazem matannos os Naires. Nem os reys podem fazer Naires senão forem de linhagem de Naires : seruem muyto bem aqueles com que viuem, assi de dia como de noyte, e não es timão deixar de comer e dormir por seruir bem : fazem tão pouca despesa que duzentos reaes que tem de moradia por mes lhes abasta pê- ra cada hum e hum moço que ho serue. Estes per ley do reyno não podem casar, e por isso não tem filhos certos , porque os que tem sam de mancebas com que dormem tres e quatro, per concerto que fazem huns com os outros pera ho faze- rem
Liu. I. Cap. XIIII. 79 rem sem auer briga antreles ; e cada hum ha destar coela hum dia certo de meyo dia a meyo dia: e aquele ido vem outro. E assi passao sua vida sem os ouuir nin- guém , e mantenna muy honrradamente: e qualquer deles que a quer deixar a dei- xa , e ela a eles : e estas molheres hão de ser Nairas porque não podem dormir com vilaãs, e estas também não casão , e porque eles sam tantos a hua molher não tem por seus filhos os que hão nelas, ainda que se pareção coeles, e os filhos de suas irmaãs sam seus herdeyros. Esta ley de não poderem casar os Naires fize- rão os reys : "* tendo eles mo- podessem aturar a guerra. E por eles ser- uirem também e serem fidalgos sam pri- uiligiados de não poderem ser presos, nem morrer por justiça, E quando algum mata outro: ou mata vaca que antreles he grande pecado porque as adorno : ou dorme com molher baixa: ou come em casa de vilão , ou diz mal delrey, se lio elrey sabe certo , dá hum escrito seu cm que diz a hum Naire que com outros dous ou tres mate tal Naire porque pe- cou , e eles ho matão ás cutiladas onde ho achão , e despois de mono p6e so brele ho escrito delrey pera que saiba ho lheres nem teuessem amor por-
8o Da Historia da Inbia porque ho matarão. Estes Naires não po- dem tomar armas, nem entrar em desafio antes de serem armados caualeyros : e co- mo sam de sete annos logo os põe a deprender a jugar de rodas as armas , e pera serem nisso muyto destros seus mes- tres os desconjuntão , e despois lhes insi- não a jugar daquelas armas a que os vem mais incrinados. E as que se mais costu- mão antreles sam espadas e escudos. Os mestres que os insinão sam graduados naquele jogo darmas em que insinão , e chamanse panicais na sua lingoa : e sam muyto venerados antre os Naires, e qual- quer seu dicipulo, posto que seja velho, ou seja grande senhor ho na dadorar em ho vendo, e isto por ley: e mais sam obrigados a tomar lição dous meses do anno em toda sua vida, pelo que sam muyto desenuoltos nas armas e prezanse muyto disso. Quando algum quer ser ar- mado caualéyro vayse a elrey bem acom- panhado de seus parentes e amigos , e primeiramente lhe offerece sessenta fanòes douro, hua moeda assi chamada que se- rão tres cruzados pela nossa. E logo el- rey lhe pergunta se quer goardar ho cos- tume e ley dos Naires : e dizendo ele que si , mandalhe cingir híía espada, e poendolhe a mão dereyta na cabeça diz cer-
Liu. I. Cap. XIIII. 81 certas palauras como que reza sem ho ninguém ouuir: e despois ho abraça , di- zendo em sua lingoa huas palauras que na nossa querem dizer, goardards os bra- menes e as vacas. Isto dito ho Naire adora elrey 3 e dali por diante fica caua- leyro. Estes quando assentao viuenda com alguém , obriganse a morrer coeles e por eles , o que goardao de maneyra que se matao seu senhor em algua guerra pelejao tanto ate que os matão, e se não sam presentes vão despois matar a quem os matou, ou mandou matar : sam grandes agoireyros , e tem dias bons e mãos, adorão ho sol e a lua , e a candea , e as vacas e qualquer cousa que se lhe oíFcre- ce em saindo pela manhaã de casa: e crem leuemente qualquer vaidade. Mc te- se ho diabo neles muytas vezes , e dizem que he hum dos seus deoses, ou pago- des , que assi lhe chamão , e fazlhe di- zer cousas espantosas que eírey crê , e ho Naire em que ho diabo entra vayse com a espada nua diante delrey tremendo to- ,do, e dando cutiladas em si, e diz. Eu sou tal deos e venhote dizer que faças tal cousa, e isto bradando como doudo : e se elrey duuida de ho fazer então dá muyto mores brados e gritos , e muyto móres cutiladas ate que ho crê elrey. Ha Liu. I. Tom. I. F tam-
82 Da Historia da India também outros generos de gentes no Ma- labar de diuersas seytas e custumes que seria prolixidade dizclas , que todos obe- decem aos reys , senão os mouroa, que sam deles muy estimados pelos grandes dereytos que lhe pagão de suas merca- dorias. C A P I T O L O XV. De como Vasco da gama mandou recado a clrey de Calicut que lhe queria falar. SUrto Vasco da gama fora do arreci- fe de Calicut nas mesmas almadias que ho ali trouuerao mandou hum dos degradados que leuaua a Calicut: assi pê- ra que visse que terra era como pera fa- zer expertencia nele dogasalhado que lhe farião por ser Chrisrao : porque cuydaua que auia Christãos cm Calicut a cuja praya chegado o degradado , começou logo de se ajuntar a gente a velo como a homem estranho : e preguntauao aos Malabares ue yao coele que homem era. E eles izião que lhe parecia mouro que vinha com outros naquelas tres naos que viao, de que os de Calicut se espantauão, por ser ho seu trajo muyto differente do que tra-
Liu. T. Cap. XV. 85 rrazião os mouros que vinhão do estrei- to , e yao muytos após ele , e alguns que sabião arauia lhe falauão , mas ele não respondia, porque não entendia: do que se eles espantauão , que sendo mouro não entendesse arauia.- E indo assi crendo que Tosse mouro , leuaranno á pousada de dous mouros naturais de Tunez em Ber- béria , que forão ter a Calicut, e erão hi estantes. E hum deles que ama nome Bom- taibo sabia falar castelhano , e conhecia muyto bem os Portugueses , segundo des- pois disse que os vira cm Tunez em tem- po delrey dom João em hua nao chama- da a Raynha, que elrey lá mandaua muy- tas vezes buscar cousas de que tinha ne- cessidade. E em entrando ho degradado em sua casa, disselhe logo Monçaide : e este nome foy corruto pelos Portugueses, e mudaranno em Bomtaibo como lhe cha- mauão todos os que forão nesta viagem , conhecendoho por Português. Al diablo que te doy quien te traxo a cá : e des- pois lhe preguntou de que maneyra vie- ra ali ter. Ho degradado lho disse , e quantas naos yão. Espantado Bomtaibo de irem por mar , lhe preguntou que yão buscar tão longe: e ele lhe disse que yão buscar Christãos , e especiaria. E pregun- toulhe mais porque não mandauão lá F ii ram-
84 Da Historia da India também elrcy de França e elrey de Cas- tela , e a senhoria de Veneza, respondeo ele , que porque lho não consentia elrey de Portugal: ao que Bontaibo disse que fazia muyto bem de lho não consentir. E agasalhouho, e mandoulhe dar de comer huns bolos de farinha de trigo , a que os Malabares chamão a pas , e coeles mel. E despois que comeo, disselhe Bontaibo que se tornasse pêra as naos e que iria cocle a ver Vasco da gama, e assi ho fez. E entrando na capitaina , começa de di- zer a Vasco da gama em castelhano. Boa- ventura , boauentura, muytos rubis, muy- tas esmeraldas , muytas graças deueis de dar a Deos: porque vos trouue a terra onde ha toda a especiaria , pedraria e to- da a riqueza do mundo. E quando assi ho ouuirão falar estauão todos pasmados , que não crião que ouuesse homem tão longe de Portugal que entendesse a nossa lingoa *. e dauão graças a nosso senhor chorando de prazer, e Vasco da gama ho abraçou , e I10 fez assentar a par de si, preguntan- dolhe se era Christao : e como fora ter a Calicut: ele lhe disse donde era , e que fora ter a Calicut pela via do Cairo , e contoulhe de que maneyra conhecera os Portugueses, e que sempre fora seu ami- go por lhe suas cousas parecerem muyto bem, /
Liu. I. Cap. XV. 8^ bem , e que assi ho seria ao presente , e que ho seruiria em tudo o que po- desse. O que Vasco da gama agradeceo muyto, promettendolhe de ho fazer coe- le muyto bem : certificandolhe questaur» ho mais ledo homem do mundo em ho achar ali e telo de sua parte: e que cria que Deos lho deparara pera dar ho fim que desejaua a seu descobrimento : porque sem ele pouco fruyto ouuera de tirar de seu trabalho, rogandolhe que lhe dissesse que homem era elrey de C alicut , e se ho receberia de boa vontade por embaixador dei Rey de Portngal. E ele lhe disse que elrey de Calicut era bom homem e muy- to vão , e que lio receberia bem por em- baixador de rey estrangeiro : porem que muyto melhor recebido seria se dissesse que era vindo a assentar trato em Calicut, e leuaua mercadoria pera isso, porque do trato resultaua a elrey grande proueito jelos dereytos que tinha, que era sua Principal renda: e que estaua então em >anane hua vila cinco legoas de Calicut ao longo da costa , que lá lhe mandasse dizer como estaua ali : o que pareceo bem a Vasco da gama, e pela vontade que achou em Bontaibo lhe deu alguas peças , c rogoulhe que fosse com Fernão martinz ho lingoa, per quem maudou re-
$6 Da Historia da India cado a elrey de Calicut: o que ele fez de boa vontade. E chegados diante del- rcy j Fernao martinz lhe disse per outro lingoa que hi estaua , que Vasco da gama lhe trazia cartas delRey de Portugal que ho nao mandara a outra cousa senão a is- so , que se mandasse que lhas leuaria. El- rey antes de lhe responder mandou dar a ambos de dous senhos panos dalgodão e de seda dos que ele cingia , que erao muy- to bons. E despois de lhe terem dados os panos , preguntou a Fernão martinz que rey era aquele que lhe mandaua as cartas , e quão longe era seu reyno. E ele lho disse , dizendo também como era Christão e a sua gente Christaã : e ho trabalho que tinhao passado no mar em chegar a Calicut. E de tudo elrey mos- trou espantarse : e mostrou que folgaua muyto de tao poderoso príncipe como el- Rey de Portugal e Christao lhe mandar em- baixada , e mandou dizer a Vasco da ga- ma que fosse muy bem vindo , e que ele fosse ancorar suas naos a Pandarane hfia vila abaixo donde primeyro surgira: que tinha porto mais seguro que Calicut, on- de as naos corrião risco de se perderem : e de Pandarane se fosse por terra a Cali- cut onde já estaria pera lhe falar, e man- douluç hum piloto que ho leuassc a Fan- da-
Liu. I. Cap. XV. 87 darane, que ho lcuou lá, e quando foy ao entrar dentro 11a barra , Vasco da gama não quis tanto entrar dentro como ho pi- loto- quisera, porque não sabia o que su- cederia despois. CAP1TOLO XVI. De como elrey de Calicut mandoit por Vasco da gama a P andar ane. EStando neste porto deranlhe hum re- ,cado do Catual de Calicut , que lie como corregedor da corte , que ele era x indo a Pandanne com outros homens no- bres por mandado dclrey pera ho acompa- rem ate Calicut que podia desembarcar quando quisesse. E por ser já tarde se es- cusou Vasco da gama de ir aquele dia, e mais pera auer conselho com seus capi- tães ácerca de sua ida aos quaes , e assi a outros homens principaes da fróta: dis- se que queria ir verse com elrey ue C.au- cut e assentar coele trato e amizade. CJ que seu irmão contrariou dizendo que nao deuia de ir a terra , porque posto que tos- se de Christãos auia nela muytos mouros, de que se deuia de crer que auião de pro- curar sua destruyção pois erão seus niof* taes immigos : porque quando os de Mo-
88 Da Historia da India çambique e de Mombaça por sómente pas- sar por seus portos os quiserao matar, que farião os de Calicut sabendo que que- rião estar coeles de mestura e ter trato on- de ho eles tinhao , e deminuirlhe coisso seus ganhos e proueitos , que era de crer que com todas suas forças trabalharião po- lo destruyr, e crendo que ho começo e cabo de sua destruyção estaria em sua morte, não lhe auiãó de faltar manhas pê- ra lha dar , e ele morto por mais que el- rey ho sintisse não ho poderia resucitar: quanto mais que como eles erão naturaes, e ele estrangeiro quem sabia quanto daria a elrey de sua morte, e o que seria de- les despois dela , e se se perherião todos c ficaria seu trabalho perdido. E pera se isto escusar e eles estarem seguros , era bem que não fosse a terra: mas que man- dasse hum deles ou outrem que fizesse ho que ele faria, porque os capitães mores não se auião de auenturar em perigos se não com tanta necessidade que se não podesse al fazer. E coeste parecer re fo- rão rodos , ao que Vasco da gama res- pondeo. Eu ainda que saiba morrer nco ey de deixar de me ver com elrey de Ca- licut pera ver se posso assentar coele ami- zade e trato e auer especiaria : e outras cousas de sua cidade pera que sejao tes- te-
Liu. I. Cai». XVI. 89 temunhas em Portugal que ho descobri■» mento de Calicut foy verdadeyro, porque indo sem elas a cabo de tanto tempo se nos Deos lá tornar seria duro de crer que descobríramos Ca 'icut: e estaria suspenso^ ho credito de nossa honrra ate virem ca pessoas sem sospeita que dissessem como era verdade o que dizíamos. Pois parece- uos que esperaria eu antes a morte que esperar de sofrer tanto tempo como temos gastado e auemos de gastar que viessem descobrir a verdade de nosso merecimen- to , e entre tanto julgarem os enuejosos como quisessem, certo que antes me dei- xaria morrer que esperar ho que digo: quanto mais senhores que me não auentu- ro a tamanho perigo de morte como vos pa- par ece , nem vós ficais em risco de vos per- derdes , porque eu vou per a terra onde ha Christaos: e negocear com rey que dese- ja de irem muytas mercadorias a sua ci- dade pelo proueito que lhe delas resulta , porque quantos mais mercadores tanto mayor crecimento de suas rendas, e nao vou per a me deter tantos dias que ten hão os mouros tempo de me fazer treyçao, porque ho assento que ey de tomar com elrey se acabará de tomar ate tres dias : e nestes estarey sempre a recado. E a hon- ra deste assento se nosso senhor quiser ' que
90 Da Historia da India que ho eu tome não darey eu por nenhum preço , e elrey não ho poderá tomar com outrem melhor que comigo, porque mais honrra me ha de catar e mais vergonha ha dauer de mim sabendo que sou capi- tão mor desta frita e embaixador delRey de Portugal que a outra pessoa qualquer que seja: quanto mais que qualquer que vá não sendo eu auerseha elrey por inju- riado , e parecerlbeha que ou me despre- zo de lhe ir falar, ou desconfio de sua verdade, e cada hua destas lhe fará não ter nenhum credito em nós outros. E deixadas estas cousas não posso eu dar tão largas instruções a quem lá for pera que faça também ho que he neces cario co- mo eu : e se por meus peccados' me ma- tassem , ou prendessem melhor será acon- tecerme por fazer ho que deuia: que ficar viuo sem ho fazer, e que me aconteces- se , vós senhores ficais no mar , e em bons nauios como ho souberdes acolheiuos, e leuareis nouas de nosso descobrimento. E nisto se não fale mais, porque eu pra- zendo a Dtos ey dir a Calicut e verme com elrey. Quando todos virão sua deter- minação disserao que fosse: e ali se as- sentou que fossem coele doze pessoas, s. Diogo diaz seu escriuão e Fernão martinz ho lingoa, e ho seu veador, ejoao de sá que
Liu. I. Cap. XVI. 91 que despois foy tesoureyro da casa da In- dia , e hum marinheiro chamado Gonçalo pirez que fora de sua criação , e hum Al- uaro velho, e Aluaro de Braga que des- pois foy escriuão dalfandega do Porto , e assi outros a que não soube os nomes que coele erão treze: e que ficasse nafró- ta por capitão mór seu irmão , e que du- rando sua ausência não recolhesse nela pes- soa algua, e todos os que fossem abórdo esteuessem em suas almadias : e que cada dia ho fosse Niculao coelho esperar a terra nos bateys. Isto assentado , ao outro dia que foy segunda feyra vinte oyto de Mayo embarcouse Vasco da gama comos doze que digo todos atauiados I10 melhor que poderão : e os bateis muyto crespos com artelharia , e bandeiras, e trombetas, que sempre forão tangendo ate ele chegar á terra onde ho Catual ho estaua esperan- do acompanhado de duzentos Na ires , que ho acompanhauão continuamente , e assi outros muytos que não erão de sua com- panhia , e toda a gente do lugar. Desem- barcado Vasco da gama, foy recebido do Catual com muyto prazer , e assi dos que ho acompanhauão , como que folgauão coele : e despois de recebido foy toma- do em hum andor que lhe mandaua elrey de Calicut pera ir nele , porque naquela ter-
Da Historia da India terra não se custuma andar a caualo , e andão nestes andores que sam como leytos dandas senão que sam descubertos , e qua- si rasos tão baixas tem as goardas. Cada andor destes quando ha de seruir he le- uado por quatro homens aos hombros , e isto assi por não auer bestas na terra, co- mo por estado : porque em outras partes em que ha bestas não os leuão senão ho- mens , que também correm aposta coeles se osreys ou senhores vão caminho longo, e se querem andão muyto em breue tempo. Podem ir assentados ou deitados como lhe vem á vontade , e cubertos com sombrei- ros de pé, jjue lhe também leuão homens a que chamão boys , e assi vão empata- dos do sol e da chuua. Ha também outros andores que tem por cima híia cana em ar- co , que por serem muyto leues os podem leuar dous homens. Tomado Vasco da ga- ma neste andor, partiose com ho Cai uai que ya em outro pera hum lugar a que não soube ho nome , e os nossos yão a pé, e leuaualhes ho fato essa gente baixa cia terra que lhes ho Catual mandou dar , e no lugar que digo comerão ele em hua pousada , e Vasco da gama em outra, e os nossos comerão pescado cozido e arroz com manteiga e fruytas da terra , que sam differentes das nossas, porem muyto sa-
Liu. I. Cap. XVI. 93 borosas , e chamão a huas jacas, a ourras mangas , e a outras figos : e beberão agoa muyto singular como a ha por aquela ter- ra, que não deue nada á dantre douro e minho. Acabando de comer foranse embar- car , porque auião dir por hum rio acima que ali se ya meter 110 mar. E Vasco da gama se embarcou com os nossos em duas almadias juntas hua com a outra, que na- quela terra se chama jangada : e ho Ca- tual com os seus embarcarão em outras muytas. E a gente que acodia ás prayas do rio a ver os nossos era sem conto , por- que aquela terra hc muyto pouoada. lrião por este rio obra de hua legoa, e ao lon- go dele estauão varadas muytas naos gros- sas. E desembarcados tornaranse aos an- dores e prosseguirão seu caminho , e a ca- da passo lhe sayão milhares de gente, e tão cnleuados yao em ver os nossos que assi como as molheres sayão com os me- nos nos colos , yão após eles sem sentir ho caminho. Deste lugar que digo leuou ho Catual Vasco da gama a hum pagode dos seus idolos , dizendolhe que era hua igreja de muyta deuação : e assi o cuydou ele mais porque lhe vio sobre a porta Êrincipal sete sinos pequenos, ediante de- t hum padrão darame daltura dum masto de nao e no capitel hfia grande aue do mes-
94 Da Historia da India mesmo arame que parecia galo, e a igre- ja era do tamanho dum grande mosteiro laurada toda de cantaria e telhada de la- drilho, que prometia ser de dentro hum rermoso edifício. E Vasco da gania se ale- grou muyto de a ver , e pareceolhe. que estaua antre Ghristãos : e entrado dentro com ho C.atual, receberannos certos ho- mens nus da cinta pera cima, e pera bai- xo cubertos com huns panos ate ho gio- lho , e com outro sobraçado , e sem nada na cabeça , com certo numero de linhas per cima do ombro esquerdo , e lançadas pera baixo do ombro dereyro, assi como os Diáconos trazem a estola quando ser- uem á missa: e estes homens se chamao Cafres e sam gentios , e seruem no Mala- bar nos pagodes. Estes deitarão agoa de hua pia com isope a Vasco da gama, e ao Catual , e aos nossos : e despois lhe derao sandolo moido pera poerem nas tes- tas , como ca se põe a cinza, c assi pera poerem nos^ buchos dos braços , onde os nossos os não poserão por irem vestidos, mas poseranno nas testas. E indo por es- ta igreja virão muytas imagens pintadas pelas paredes , e delas tinhão tamanhos dentes que lhe sayao fóra da boca htía polegada, e outras tinhão quatro braços e erao reas do rosto que pareciao diabos; ho
Liu. I. Cap. XVI. 9? ho que pos algua duuida nos nossos de crerem que era igreja de Christãos : e che- gados diante da capela que estaua no meyo do corpo da igreja , virão que tinha hum curucheo a modo de sé , também de canta- ria : e em hua parte deste curucheo estaua hua porta darame per que caberia hum homem, e sobião a ela per hua escada de pedra, e dentro nesta capela que era hum pouco escura estaua metida na parede hua imagem , que os nossos enxergarão de fó- ra, porque os não quiserão deixar entrar dentro , acenandolhe que não podião lá entrar senão os Cafres : os quaes acenando pera a imagem nomeauão sancta Maria, dando a entender que aquela era a sua imagem. E parecendo assi a Vasco da ga- ma , assentouse em giolhos, e os nossos coele e fizerão oração. E João de sá que. estaua duuidoso de ser aquilo igreja de Christãos por ver aquela fealdade das ima- gens que estauão pintadas nas paredes, em se assentando em giolhos disse. Se isto he diabo eu adoro a Deos verdadeyro. E Vasco da gama que ho ouuio oulhou pa- rele sorindosc. E ho Catual e os seus co- mo forão diante da capela deitaranse no chão de bruços com as mãos por diante , e is- to tres vezes , e despois leuantaranse e fize- rão oração cm pé. CA-
96 Da Historia da India C A P I T O L O XVII. De como Vasco da gama deu a elrey de Calicut embaixada que lhe leuaua. D Aqui prosseguirão seu caminho ate chegarem a Calicut , a cuja entrada leuarão Vasco da gama e os nossos a ou- tro tal pagode como este: e quando fòy ao entrar da cidade, era a gente tanta as- si da que saya dela a ver os nossos co- mo da que ya coeles , que não cabia pe- la rua. E Vasco da gama ya espantado de ver tanta gente: e quando se ali vio deu muytas graças a nosso senhor por lio dei- xar chegar a esta cidade , pedindolhe que ho encaminhasse de maneyra que tornasse a Portugal com ho recado que desejaua. E despois de ir hum pedaço por aquela rua por onde entrou , por a gente ser tan- ta que não podião romper os que ho le- uauão no andor se meteo ho Catual coele em húa casa : e ali foy ter coele hum ir- mão do Catual que era grão senhor , e vinha por mandado delrey pera ho acom- panhar ate ho paço T e leuaua consigo muy- tos Naires, e diante muytas trombetas e anafis que yão tangendo, e assi hum Nai- re que leuaua húa espingarda com que ti- ra*
Liv. I. Cap. XVII. 97 raua de quando em quando. E despois de se receberem Vasco da gama c este se- nhor com muyto prazer abalarão pera os paços delrey com grande estrondo de tan- geres e arroido da gente, que despois da vinda do irmão do Catual deu lugar e se afastaua, e yao com tanto acatamento co- mo que fora ali a pessoa delrey de Calicut y e iriao bem tres mil homens darmas , e pelos telhados , e pelas portas das casas não tinha conto a gente que estaua. E Vasco da gama ya tão ledo de se ver as- si receber que disse aos seus rindo. Ouao fora estão agora de cuydar em Portugal que nos fazem tamanho recebimento : e coisto chegou aos paços delrey com mais de hua hora de sol. Os paços tirando se- rem terreos erão muyto grandes, e pare- dão ser hum fermoso edifício , poios muy- tos aruoredos que pareciao perantre as ca- sas , e estes erão de muytos e fermosos jardins que auia dentro , em que auia muy- tas froles e eruas cheirosas , e tanques dagoa pera recreação delrey , que nunca saè dos paços senão quando vay fora de Calicut. Dos paços sayrão muytos caimais e outros senhores a receber Vasco da ga- ma : e entrarão coele em hum terreiro muyto grande: e dali passarao quatro pa- tios , e á porta de cada hum estauão dez Liu. I. Tom. I. G por-
98 Da Historia da India porteiros: e estas portas passarão por for- ça de muytas pancadas que os porteiros dauáo na gente pera fazerem afastar, que não entrasse. E chegando á derradeyra porta que era da casa onde elrey estaua y sayo de dentro hum homem velho e bai- xo de corpo, que era ho bramene mòr delrey, e abraçou Vasco da gama , e le- uouho dentro com os seus. E nesta entra- da carregou a gente tanto em demasia que se afogarão alguns. E não aproueitaua da- rem os porteiros muytas pancadas de que muytos forão feridos: e coisto teuerão os nossos lugar dentrar. Deste terceiro pa- tio entrarão na casa onde elrey estaua que era grande e cercada ao derrador dassen- tos de pao huns acima dos outros a modo de teatro: e ho chão estaua cuberto de veludo verde de pelo, e as paredes apa- ramentadas de panos de seda de muytas cores. Elrey era homem baço e grande de corpo e de boa idade, estaua lançado em hum catele cuberto de hum pano branco de seda e douro ; e per cima hum ceo muyto rico. Tinha na cabeça hua carapu- ça de veludo , feyta ao modo de celada antiga , cuberta de pedraria e perlas , e nas orelhas híías arrecadas do mesmo: ti- nha vestido hum baju branco , de pano dalgodão finíssimo, com botões de per-
Lxu. I. Cap. XVII. 99 las muyto grossas e as casas de fio dou- ro : tinha cingido hum pano branco do mesmo algodão , que lhe chegaua ao gio- Iho, e os dedos das mãos e dos pes cheos daneis douro com muyto fina pedraria , e nos braços muytos braceletes ricos , e nas pernas manilhas douro. Junto coeste cate- le estaua hua batega de pe alto tcda dou- ro , oue sam de beiça de copos de Fran- des chãos, senão que sam mayores e me- nos couos. E nesta estaua ho betcle que elrey mastigaua com cal c areca, que são huns pomos de tamanho de nozes nosca- das : e comese isto em toda a Índia por- que faz bom bafo , e enxuga muyto lio estamago, e mata a sede: e como hc mas- tigado lançanno fóra , que não ho engo- lem e tomão outro. E pera lançar este be- tele mastigado e cospir , estaua ali hum cospidor douro, tamanho como hua bacia meaã também de pé , e assi estaua hum guinde douro que he da feiçã dagomil ou quasi , e estaua cheo dagoa pera elrey lauar a boca quando acabasse de mastigar ho betele que assi se costuma. E este be- tele lhe daua hum homem velho que es- taua junto do catele, e os outros que es- tauão na casa tinhão as mãos ezc uerdas diante das bocas porque não fosse ho seu bafo ter a elrey , ho que ham por grande G ii des-
loõ Da Historia da India descortesia, e assi cospir ou escarrar , e por isso não ho faz ninguém na casa on- de está eln 171 ido Vasco da gama ho costume da terra, que he abaixarse to- do tres vezes com as mãos juntas como quem louua a Deos estendidas pera diante: e elrey lhe acenou logo que se fosse per- to dele, c mandouho assentar naqueles as- sentos que disse. E assentado entrarão os seus e adorarão elrey assi como ele fez : e elrey os mandou também assentar de- fronte dele : e mandoulhes dar agoa ás mãos pera desencalmarem , porque posto que fosse inuerno não deixaua de fazer calma. E lauadas as mãos mandoulhes dar figos e jacas pera que comessem logo, o que eles fizerão de boa vontade e sem pe- jo , o que elrey folgaua de ver porque ou- lhaua pareles eriase, e despois falaua com ho velho que lhe daua ho betele. E muy- to mais mostrou folgar quando os nossos pedirão de beber, que lho derao por guin- des : e como sabiao que se costumaua be- ber dalto por auerem os Malabares por çu- gidade tocar com osr beiços no vaso por onde bebem quiserao beber dalto : e não sabendo ainda aquele modo de beber daua- Ihes a agoa no goto e tussiao e outros er- rauão a boca , e cayalhes a agoa pelo ros- nesta casa reuerencia segundo to,
Liu. I. Cap. XVII. ioi to, entornandoselhe pelos peitos, do que elrcy muyto gostaua : e oulhando pera Vasco da gama, disselhe por hum lingoa que falasse com aqueles homens honrrados que ali estauao: e que dissesse o que qui- sesse que eles ho dirião. Do aue ele nao foy nada contente , porque lhe pareceo aquilo desprezo : c respondeo pelo lingoa : Que ele era embaixador delrey de Portu- gal , hum rey muyto poderoso : e que os reys Christãos costumauão de não receber as embaixadas por terceyras pessoas se não por si mesmos: e inda perante muyto poucas pessoas e estas de muyta confiança. E por se isto assi costumar nas terras donde ele vinha, não auia de dar a em- baixada a outrem se não a ele. O que cl- rey disse que era bem, e que assi se fi- zesse E logo mandou leuar Vasco da gama com Fernão martinz pera outra casa que esta- ua com outro catele como aquele eassi apa- ramentada : e despois que lá esteue foyse el- rey parela ficando os nossos na casa de fora, e isto seria sol posto. E elrey como foy na camara , lançouse no catele^ nao estando hi afóra Vasco da gama e Fernão martinz mais que ho lingoa delrey, e ho bramene mór , e ho velho que lhe daua ho bctele , e mais hum seu védor da fazenda. Elrey pregufi- tou a Vasco da gama de que parte domun-
102 Da Historia da India do era , e que queria : ao que ele respon- deo que era embaixador dum rev Christao do cabo do occidente , senhor dum reyno principal chamado Portugal, e assi dou- tros muytos, pelo qual era muyto pode- roso de gente , e muyto mais rico de to- das as cousas necessárias pera hum rey ser muyto mais rico que nenhum outro daquelas partes : e que auia sessenta annos que os reys seus antecessores tendo fama que na Índia auia reys Christãos e muyto grandes senhores principalmente elrey de Calicut , mandaua descobrir por seus ca- pitães aquela cidade pera terem amizade com os reys dela, e os terem por irmãos como era rezao : e visitarennos por seus embaixadores: e não porque tiuessem ne- cessidade de sua riqueza porque a que auia em suas terras , douro , prata e outras cousas de preço lhe sobejaua : e que os capitães que yão a este descobrimento an- dauão nele hum anno e dous , ate que lhes falecia ho mantimento: e sem acharem o que buscauão se tornauão pera Portugal o ue tinha custado muyto. E que elRey om Manuel que então reynaua, desejan- do de dar fim a esta empresa que auia tanto tempo que duraua , por lhe não fal- tar ho mantimento como dantes lhe dera tres nauios carregados deles, e ho manda- ra
Liu. I. Cap. XVII. 103 ra por capitão mór de todos tres , dizen- dolhe que não tornasse a Portugal ate que lhe não descobrisse aquele rey dos Chns- taos que era senhor de Calicut, porque se tornasse sem isso lhe mandaria cortar a cabeça: e que se ho achasse que lhe des- se duas cartas suas ; que lhe daria ao ou- tro dia por ser então já tarde, e que lhe dissesse que ele era seu irmão e amigo, que lhe pedia muyto que pois mandaua de tão longe buscalo que quisesse aceitai sua amizade , e lhe mandasse seu embaixador pera a confirmar , e que dali por diante se visitassem por seus embaixadores, como se costumaua antre os rcys Christãos. El- rey mostrou que folgaua com a embaixa- da, e assi I10 disse a Vasco da gama , e que ele fosse muyto bem vindo: e pois elRey de Portugal queria ser seu amigo e irmão , que ele lio seria seu, e lhe man- daria sobrisso seu embaixador : ho que Vasco da gama lhe pedio muyto que fi- zesse : porque não ousaria daparecer diante delRey seu senhor sem ele. Élrey lhe por- meteo que I10 mandaria , e que logo ho despacharia. E despois de lhe pergunt ar polo estado delRey de Portugal, equan o auia de sua terra a Calicut , e quãuto se deteuera na viajem , por ser já muyto noyte lhe disse que se recolhesse: e per-
104 Da Historia da India guntoulhe se queria pousar com mouros se com Christãos, e ele disse que com ne- nhuns senão só , e elrey mandou a hum mouro seu feytor que o fosse apousentar, e lhe fizesse dar todo ho necessário. C A P I T O L O XVIII. De como Vasco da gama quisera mandar hum presente a elrey , e lhe não foy consentido. DEspedido Vasco da gama pera se ir á pousada , posto que serião passa- das quatro horas da noyte , ho Catual e os outros que ho acompanharão se forão eoele , indo todos a pé , e nisto sobreuco hua chuua tamanha que as ruas yao todas cheas dagoa. E por isso Vasco da gama mandou alguns criados seus que ho leuas- sem ás costas: e assi pola agoa , como P°la grande detença que fazião em chegar á pousada se agastou, de maneyra que se queixou com ho feytor delrey. Dizendo que se ho auia ele de trazer pela cidade toda aquela noyte: e ele lhe disse que se nao podia mais fàzer porque a cidade era grande e espalhada: e leuouho a sua casa peia descançar hum pouco, e daualhe hum caualo pera ir nele, e por ser sem sela o não quis, dizendo que antes iria a pé: e as-
Liu. I. Cap. XVIIÍ. 10? assi foy ate chegar á pousada onde aque- les que ho acompanhauao ho deixarão bem apousentado, e ja lá os seus tinhao todos seu fato. Aqui descansou aquela noyte com muyto prazer dever tão bom começo na- quela negoceação. E ao outro dia que era terça feyra determinando de mandar pre- sente a elrey , porque sabia de Bontaibo que se não podia mandar sem ho seu feytor e ho Catual ho verem primeyro , mos- troulho, e erão quatro capuzes de graã : e seys chapeos , quatro ramaes de corais, doze alam beis, hum fardo de bacias de latão, em que auia sete peças , híía caixa daçucar , dous barris dazeite , e dous de mel. Vendo ho feytor e ho Catual estas peças começaranse derir, dizendo que nao era aquilo nada pera mandar a elrey, que ho mais pobre mercador que ya a seu porto lhe daua muyto mais , que aquilo que se lhe queria fazer presente, que lhe mandasse algum ouro : porque elrey não auia de tomar aquilo. Do que Vaso da gama ouue menencoria, e assi ho mostrou , dizendo que se ele fora mercador ou fora tratar que leuara ouro : porem que não era mercador, senão embaixador por isso ho não leuaua , c que aquilo que queria mandar a elrey de Calicut era clo^ seu , e não do dclrey seu senhor, porque nao tendo
IO6 Da Historia da India ele certeza se acharia elrey de Calicut, lhe nao. dera nada parele, e que quando tornasse a mandar outra vez pela certeza que teria de ho adiarem lhe mandaria ouro, prata , e outras cousas muyto ricas. Eles dis- serão que aquilo seria assi: porem que ho costume daquela terra era que todo ho es- trangeiro que ya falar a elrey lhe auia de fazer presente, e este conforme á grande- za de seu estado. Ao que Vasco da gama repricou, dizendo que era muy bem que se goardasse seu costume , e ele por se goardar fazia aquele presente, que não era de mór preço por as causas que lhe di- zia , que ho deixassem leuar a elrey, e quando ho nao quisesse que ho mandarião pera os nauios: e eles disserao que logo ho poderia mandar, porque ho não auião de leuar a elrey, nem consentir que lho leuassem. E dado este desengano de que Vasco da gama ficou assaz agastado, dis- selhes que pois eles nao querião que man- dasse aquele presente a elrey, que lhe que- ria ir falar pera se tornar a seus nauios ( e isto era com determinação de dar conta a elrey do que passaua acerca do presente) e eles disserao que era bem : porem que por quanto se auião de deter coele no paço, e era muyto necessário irem fazer hum pouco , que ho irião fazer e logo tor-
Liu. I. Cap. XVIII. 107 tornarião pera irem coele , porque elrey não queria que fosse sem eles, por quan- to era estrangeiro , e auia muytos mouros na cidade. E cuydando Vasco da gama que lhe falauão verdade no tornar logo, disse que esperaria por eles , mas elles nao tornarão em todo aquelle dia. C A P I T O L O XIX. Do que os mouros ordenarão contra Fus- co da gama. COmo quer que neste tempo os mou- ros de Calicut tinhão trato em CJui- loa , Mombaça e Moçambique por amor do ouro que se achaua nestes lugares: que lhes ya de çofala por as naos que la tinhão mandado que tornarao inuernar a Calicut e chegarão primeiro que Vasco da gama, souberão quanto lhe acontecera des que chegou a Moçambique ate que par- tio: e no caminho , ate Mombaça e ate Melinde: e como dizia que ya buscar Calicut por amor da especiaria que 11 auia, pera ellley de Portugal mandar hi carregar suas naos dela. E quando eles virão Vasco da gama : e souberão que a causa de sua vinda e a sustancia de sua embaixada era sobre o que lhes tinhão di- to :
io8 Da Historia da India to: e que elrey de Calicut ho ouuira i parte e mostrara contentamento de sua embaixada ficarao muy salteados , porque sabião que elrey auia de folgar de irem muytos mercadores a Calicut , porque quanto mais fossem tanto mais baratas auiao de vender suas mercadorias, e tanto mais cara auiao de comprar a especiaria o que sintirão mtyto porque viao claramen- te auanto perdiao do muy to que ganhauao tendo sos ho trato da especiaria: e mais ho desgosto grandíssimo que teriao vendo mesturados coeles Christãos , a que tinhão odio mortal : e mais que os auiao de ter por competidores em seus tratos. E isto bem considerado e examinado por todos juntos em consulta, acordarão que traba- lhassem todo ho possiuel com ho Catual ecom ho feytor delrey de Calicut que lhe fizessem crer que Vasco da gama que era cossairo e não viuia senão de roubos , c que ya espiar a terra pêra saber que naos yao a ela pera como fosse verão as ir es- perar ao mar e roubalas: por isso que ho nao deixasse ir de Calicut. E isto a fim que ficando ele na cidade com os que ie- uaua os matariao poucos c poucos por que não tornassem a sua terra com nouas do descobrimento de Calicut e lhes im- pedissem ho trato que tinhão. E pera que
Liu. I. Ca». XIX. ' 109 ho Catual e feytor persuadissem a elrey que cresse que Vasco da gama era cossai- ro contaranlhe o que fizera em Moçam- bique contra os mouros , e despois que partira ate chegar a Melinde. Eles por amor da peita contarão logo tudo a elrey: e assi o presente que lhe Vasco da gama quisera fazer: no que se parecia bem que não trazia mercadoria, nem era mercador senão cossairo. E como elrey era homem incostante: e vendo que Vasco da gama lhe não daua presente como os mercado- res lhe costumauão de dar , começou dc crer o que lhe disserão ho Catual e fey- tor , e esteue pera ho mandar prender: mas parece que nosso senhor ho estoruou pera se a índia descobrir , e se lhe fazer Já tanto seruiço como he feyto poios ir- mãos da companhia de Jp.su : conuerten- do tanto numero de infiéis á nossa sancta fé. E por isto em que I10 Catual e feytor andauao não querião que Vasco da gama mandasse ho presente a elrey , etrabalha- uão que não lhe tornasse a falar, porque não ho ouuindo se indignasse mais contre- le. E de tudo isto derao conta os mou- ros , que lho agradecerão muyto , perme- tcndolhes muyto mais do que lhes tinhão dado se leuassem aquilo auante. E por dis- simularem foranse á pousada de Vasco da ga-
no Da Historia da India gama leuando consigo Bontaibo : e fin- gindose seus amigos mostrarão que ho querião insinar no que auiao de fazer. E disseranlhe que quem queria negociar com elrey que lhe auia de fazer presente , por isso que lho fizesse se queria ser despa- chado : e Bontaibo como amigo lhe dis- se ho mesmo : e que não somente ho auia de fazer a elrey, mas aos officiaes que ho auião de despachar, senão que nunca se- ria despachado. E Vasco da gama se lhes queixou que ao dia dantes quisera fazer hum presente a elrey: e que ho seu feytor e ho à.atual lho não consentirão e se forão , e que nunca mais tornarão. E mostroulhe as peças do presente. E os mouros lhe dis- scrão que não erão aquelas peças pera dar a hum rey tão poderoso como ho de Ca- licut , nem lhas desse, porque lhe parece- ria que fazia escárnio dele. E o mesmo lhe disse Bontaibo : e estranhoulhe muyto não trazeroutras cousas de preço, poisas auia em Portugal: e ele se lhes desculpou com não ser certo de descobrir Calicut : e Bontaibo lhe conselhou que posto que não desse presente a elrey , que trabalhasse por lhe falar e auer licença dele pera se tornar aos nauios porque lhe não fizessem os mou- ros algum mal , que começaua dentender neles que lhes pesaua com sua yinda, e co- isto se foy coeles. C A-
Liu. I. I in C A P I T O L O XX. De como Vasco da gama ouue licença del- rey pera se tornar aos nauios. CUydando Vasco da gama no que lhe Bontaibo disse , e vendo que lio Ca- tual e feytor tardauao determinouse não fossem coele ate lio outro dia a horas de comer de se ir sem eles ao paço : mas eles vierão : e ele sem mais falar na tardança lhes pedio que fossem falar a elrey. E parece que nosso senhor andaua abrindo caminho pera se descobrir a índia , porque com quanto eles querião estoruar a Vasco da gama que não falasse a elrey , foranse logo coele aos paços: e mandarão dizer a elrey que estauao ali com Vasco da gama. E elrey por estar trastornado algum tanto ho não mandou entrar senão despois dobra detres horas que chegou , e que não entrassem coele mais que ho seu lingoa: do que ele ficou muy descontente , porque lhe não parcceo bem aquele apartamento. E en- trado onde elrey estaua , não foy recebi- do dele com ho gasalhado da primeyra: e disselhe secamente que ho esperara ho dia passado , e que não fora a ele. Ao que Vas-
in Da Historia da India Vasco da gama disse que deixara de ir por se achar muyto cansado do caminho. E não quis dizer ho porque, por não dar causa a elrey de lhe falar no presente, que bem lhe parecia que lhe não estorna- ra ho Catual e ho feytor de ho mandar a elrey se não por saberem que ho aucria por cousa baixa: e mais que lhe auião de dizer como ho virão. Porem não se pode escusar de lhe elrey falar nele : dizendo- Ihe logo que ele lhe dissera que era de hum rey muyto poderoso e rico, e que lhe não trazia nenhua cousa, trazendolhe embaixada damizade , que não sabia que amizade queria coele quem lhe não man- daua nada. Ao que Vasco da gama res- pond eo , que se não espantasse de lhe não trazer nada, porque não tinha certeza de ho achar, e agora que ho achara veria o que elrey seu senhor lhe mandaua, se ho Deos deixasse leuarlhe as nouas de seu des- cobrimento : e que se ele quisesse dar credi- to a suas cartas que ali lhas leuaua, eque ne- las veria o que lhe dizia. E elrey em vez de lhe pedir as cartas, disselhe que ou ho man- daua ho seu rey descobrir pedras ou ho- mens , e se mandaua descobrir homens co- mo lhe não mandaua aigua cousa: e pois a não trazia que lhe disserão que tinha húa sancta Maria douro que lha desse. Vas-
Liu. I. Cap. XX. 115 Vasco da gama se achou muy afrontado de lhe elrey estranhar tanto não lhe leuar pre- sente , c mais de lhe pedir tão sem vergo- nha aquela imagem. E respondeolhe que a sancta Maria que lhe disserão era de páo dourada e não douro : e posto que lio fo- ra que lha não ouuera de dar por quanto ela ho goardara no mar : e ho leuará a sua terra. E elrey não repricou a esta res- posta , e pediolhe as cartas que leuaua del- Rey, e ele lhas deu , hua em lingoagem Português outra em arabigo. E disselhe que vinhão assi porque não sabia elRcy seu senhor qual daquelas lingoas se en- tenderia em sua terra. E pediolhe que pois a lingoa Portuguesa se não entendia 'senão a arabiga, e auia hi Christaos Índios que a entendiao que as mandasse ler por hum deles , porque por os mouros serem inimi- gos dos Christaos reccaua que mudassem as palauras da carta. E elrey ho mandaua assi: porem não se achou índio que sou- besse ler a letra mourisca ou foy feyto acinte. E vendo Vasco da gama que auião de ler mouros, pedio a elrey que fosse Bontaibo hum deles, e isto por lhe pare- cer que falaria mais verdade que os outros pelo conhecimento que tinha coele : e el- rey mandou que a lesse com outros tres : e lida por eles primeyro antre si , a lerão Liu. /. Tom. I. H ai-
Ii4 Da Historia da India alto declarando a elrey o que dizia: Que era que sabendo elRey de Portugal como ele era hum dos mais poderosos reys da India e Christao desejara de ter coele ami- zade , e trato, pera auer de sua terra es- peciaria que sabia que auia nela muyta, e que de muytas partes do mundo a yão ali comprar. Eque se ele lhe quisesse dar licença pera mandar por ela que lhe man- daria de seus reynos muytas cousas que no seu não aueria , as quaes lhe diria aquele seu capitão mór e embaixador. E quando daquelas cousas não fosse contente, man- daria moeda douro ou de prata pera a comprarem. E que assi das mercadorias como das moedas lhe daria ho seu capi- tão mostra. Elrey ouuindo estas palauras, como desejaua que pera acrecentamento de suas rendas fossem muytos mercadores a Calicut, mostrouse contente com a carta, e fez melhor rosto que dantes: e pergun- toulhe que mercadorias auia em Portugal. Ele nomeou muytas , c disse que de todas trazia mostra , e assi das moedas: que lhe desse ele licença pera ir por elas aos na- uios , e que deixaria na pousada quatro ou cinco homens dos seus em quanto lá fosse. Elrey crendo mais o que lhe ele dizia, que o que lhe os mouros tinhão dito, disselhe que fosse embora , e que
Liu. I. Cap. XX. 115- leuasse os seus consigo que não era ne« cessario ficar nenhum em terra , e que trouuesse sua mercadoria , e que a ven- desse ho melhor que podesse. Coesta li- cença ficou ele muyro ledo , porque se- gundo vio elrey mal assombrado no co- meço da pratica, pareceolhe que lha não désse. E coisto se foy pera a pousada , acompanhandoo ho Catual por mandado delrey. E por ser aquele dia já tarde se não quis partir. C A P I T O L O XXI. De como tornandose Vasco da gama pera, os nauios ho deteue ho Catual em Pandarane. EAo outro dia que foy ho derradeyro de Mayo mandou ho Catual hum ca- ualo em osso a Vasco da gama pera ir nele a Pandarane. E por ho caualo vir da- quela maneyra não quis ir nele , e pedio hum andor ao Catual, que lhe logo man- dou dar , e nele se partio pera Pandarane , e todos os seus coele, e assi muytos Nai- res que I10 acompanhauão. E quando os mouros ho virão ir, j>arecendolhe que se ya de todo, ficarão tao magoados que se forão ao Catual, e peitaranlhe muyto di- H ii nhei-
n6 Da Historia da India nheiro porque fosse apos ele e que ho prendesse dessimuladamente , e que eles teriao maneyra como ho matassem pera que ele ficasse sem culpa. E posto que lhe elrey quisesse dar algua pelo prender, que eles lhe aueriao perdão. Efizeranno partir logo , e andou tanto que passou pelos nossos que ficauão atras de Vasco da gama por ele ir depressa , e eles não poderem an- dar tanto que fazia calma e arrontauão. E chegado ho Catual a ele, disselhe que por- que andaua tão depressa que parecia que ya fugindo; e isto por acenos. O que -ele bem entendeo : e diselhe também por ace- nos que fugia da calma. E chegados a Pandarane , porque os nossos não pareciao ainda , disse Vasco da gama que não auia dentrar sem eles no lugar, e meteose em hum estão (que auia muytos por aquele caminho pera se acolherem das chuuas) e hi esperou por eles ate quasi sol posto, que tudo isto tardarão por errarem ho ca- minho. E Vasco da gama se queixou co- eles, dizendo que não era aquilo tempo pera ho deixarem , e que já fora nos na- uios senão fora sua tardança. E pedio lo- go hua almadia ao Catual pera se ir aos nauios , e ele pelo que esperaua de fazer lhe disse que era já muyto tarde, e que os nauios estauao longe e como fizesse es- cu-
Liu. I. Cap. XXI. 117 euro que os poderia errar que melhor se iria ao outro dia. Ao que ele disse que se lhe logo não désse almadia pera se ir que se tornaria a elrey, porque elrey ho mandara ir pera os nauios e que ele ho queria deter, e que era muyto mal feyto sendo ele Christao como eles. E isto dis- se muyto menencorio , e mostrando que se queria tornar pera Calicut. E I10 Catual por dissimular disse que lhe daria xx. al- madias se tantas quisesse , que ele lhe acon- selhaua por bem que ficasse , que se se quisesse ir que se fosse : e fez que man- daua buscar almadias , c dissimuladamcnte mandou esconder os donos delas, porque as não déssem. E entre tanto que as yão buscar leuou Vasco da gama ao longo da praya: e como ele já tinha má sospeita desta gente pelo que lhe fora feyto em Calicut, disse a Gonçalo pirez I10 mari- nheiro , que com outros dous dos nossos fosse diante ho mais que podesse: e se achasse Niculao coelho com os bateis , lhe dissesse que se escondesse porque auia medo que ho Catual lhe tomasse os ba- teis com a muyta gente que leuaua: Gon- çalo pirez e os outros forão fazer isto. E ho Catual se deu tanto de vagar com a almadia por mais que se Vasco da gama apressa- ua, que se çarrou anoyte de todo, e erão pasr
118 Da Historia da India passadas dela bem tres horas. E assi por isto, como por não tornarem mais os que leuarão ho recado a Niculao coelho , se deixou Vasco da gama ficar ali aquela noyte , e foy apousentado em casa de hum mouro. E ho Catual os deixou , com dizer que ya buscar Gonçalo pirez e os outros dous , e foyse: e não tornou senão pola menhaã. E tanto que tornou logo lhe Vas- co da gama pedio almadias pera se ir: e e ele lhe disse que mandasse chegar mais pera terra os nauios , e que então se iria : do que se ele agastou muyto , parecendo- lhe que lho dizia , pera com a muyta gen- te que tinha, lhe ir tomar os nauios em almadias: e por isso não quis. E respon- deo com grande animo, que não auia de mandar tal cousa estando em terra, por- que se ho mandasse, que pareceria a seu irmão que ho tinhao preso , e que ílho fazião fazer por força , e que se iria pera Portugal sem ele. Ho Catual e os outros falando todos juntamente muyto rijo lhe disserão que se honão fizesse ho mio dei- xarião ir: ao que ele mostrandose muy desagastado : respond eo que sc ho não deixassem ir, que se tornaria a elrcy de Calicut, e lho diria , e quando ho ele qui- sesse deter em sua terra , que folgaria muyto de morar nela. Ho Catual disse que
Liu. I. Cap. XXI. 119 que se fosse queixar. Porem não lhe daua lugar pera isso, porque as portas da ca- sa estauão todas fechadas , e ela toda chea de Naires com suas armas , e não deixa- uão sair nenhum Português. E quis Deos que ho Catual não ousou de matar Vasco da gama nem os seus, que bem quisera fazelo, por amor dos mouros que lhe pei- tarão : e sendo ele muyto grande priuado delrey, tomoulhe tamanho medo dele que não ousou. E ho porque dizia a Vasco da gama que mandasse chegar os nauios pera terra, era porque chegados os pode- riao os mouros tomar , e matar quantos estauão dentro : c vendo que Vasco da ga- ma não queria mandar chegar os nauios pe- ra terra , por ter causa de ho ter e darlhe opressão , já que ho não ousaua de matar, cometcolhe que lhe desse as velas dos nauios e os lemes: do que se Vasco da gama co- meçou de rir, dizendo que não auia de dar hua cousa nem outra, pois clrey ho dei- xaua ir sem nenhtía condição , que fizesse ho que quisesse, porque elrey ho saberia e lhe faria justiça. E com tudo cstaua muyto agastado. E estando assi chegou Gonçalo pirez com recado de Niculao coelho que lo- go com os bateis : a que oesperaua Vasco da gama mandou dizer que se tornasse aos nauios, notcficandolhe como ficaua , e as- si
lio Da Historia da India si ho fez Niculao coelho, e acolheose com grande afronta , porque forao apos ele muytos immigos em almadias por mandado do Catual pera ho tomarem , mas não poderão. O que sabido pelo Ca- tual tornou a cometer Vasco da gama que escreuesse a seu irmão que fizesse chegar os nauios pera terra: e ele não quis , com dizer que ho fizera : mas que seu irmão' não auia de querer, e posto que quises- se : que sabia mu/to certo que a gente ho não auia de consentir. Ao que ho Catual repricou que não dissesse aquilo por que se auia de fazer o que ele mandasse. E com tudo Vasco da gama não quis escreuer a carta , porque receaua de mandar chegar os nauios pera terra pela rezão que já disse. C A P I T O L O XXII. De como Vasco da gama se foy pera os nauios , e do que se passou des- pois disto. Disto se passou todo este dia em que os Portugueses estcuerão em gran- de agonia: e vinda a noyte os meterão em hum patim Jadrilhado , e cercado de paredes baixas, e veo ho dobro da gente que os goardou de dia, pera os goardar
Liu. I. Cap. XXII. hi de noyte. E Vasco da gama os esforça- ua porque sentio que receauão de os apartarem huns dos outros no dia se- guinte : e ele também receaua ho mesmo, mas não ho daua a entender : e mostra- uase muyto confiado que como elrey de Calicut soubesse que eles assi estauão , que os mandaria logo soltar. E por se mostrar desagastado ceou coeles galinhas , e arroz que mandou comprar de dia. E ho Catual estaua espantado de ver quão pouco lhes daua de os terem assi, e da constância de Vasco da gama não querer mandar chegar os nauios a terra , nem conceder em nenhua das outras cousas que lhe pedia : e pareceolhe que era por de mais telo preso pera o fazer: e quis Deos que determinou de ho soltar com medo delrey saber que ho tinha preso , sobre ho mandar ir liuremente. E ao outro dia que foy sabado dous de Junho , disselhe que pois dissera a elrey que tiraria sua merca- cadoria em terra que a mandasse tirar , porque ho seu costume era: que qualquer mercador que vinha a Calicut punha logo em terra sua mercadoria e gente : e nao tornaua aos nauios senão despois de a ter vendida: e que como a mercadoria vies- se ho deixaria tornar aos nauios. E ainda que pareceo a Vasco da gama que lhe não
i2i Da Historia da India falaua verdade, disselhe que logo manda- ria pola mercadoria, que lhe desse alma- dias pera a trazerem : porque seu irmão não quereria que os seus bateis viessem a terra ate ele não ir aos nauios. Do que que ho Catual foy contente , porque es- peraua de se entregar na mercadoria , cuy- dando que erao cousas de muyto preço como Vasco da gama dizia , que despa- chou hum dos seus com carta a seu ir- mão, que dizia como ficaua, e que não tinha outra má vida senão estar metido em húa casa, que do mais a tinha muyto boa, e que lhe mandasse algua pouca de mercadoria pera contentar ho Catual que ho deixasse ir : e que teuesse sua prisão por verdadeira se ho não visse nos nauios despois da mercadoria ser em terra: e se assi fosse que não a goardasse mais e se partisse logo pera Portugal, e contasse a elRey o que tinha feyto e como ficaua, porque confiaua em sua alteza que lhe désse tal armada de gente com que tor- nasse a livralo: que não ouuesse medo que lio matassem neste tempo porque ele es- taua disso seguro. E vista esta por Paulo da gama mandoulhe logo a mercadoria com outra carta , em que dizia que nunca Deos quisesse que tornasse sein ele aPor- tugal , que quando os immigos ho não qui-
Liv. I. Cap. XXII. 123 quisessem soltar, que esperaua em nosso senhor de dar tanto esforço a esses pou- cos que cstauao na frota , que com a ar- telharia que tinhao ho fossem liurar, e que disto fizesse conta e não doutra cou- sa. E chegada a mercadoria a terra , e entregue ao Catual , e assi Diogo diaz que ficaua por feytor: e Aluaro de Braga por seu escriuão: e foise Vasco da gama aos nauios , e não quis mais mandar ne- nhúa mercadoria ate ver como se vendia aquela, nem quis mais ir a terra por não se ver noutra afronta, do que pesou muy- to aos mouros por se desesperarem de ho poderem matar. E não lhe podendo fa- zer outro mal zombauão da mercadoria que deixarão em terra e fazião que não se vendesse : do que se ele mandou queixar a elrey, e assi ao que lhe ho Catual fizera , dizendo que por essa causa não fora mais a terra: porem que cstaua a seu seruiço com aquela armada : e elrey se mostrou muyto mencncorio do que lhe fora feyto, dizendo que castigaria aqueles que lho fi- zerão : e quanto á mercadoria mandou se- te ou oyto mercadores gentios guzarates que a comprassem. E mandou a hum Naire honrado pera que esteuesse na fei- toria , e que se hi chegasse algum mouro que ho matasse. Mas ou por isto ser fin-
ii4 Da. Historia da India gido, ou por os mouros peitarem os merca- dores , eles não comprauão nenhtía cousa, antes a abaterão, de que os mouros an- dauao muyto ledos e dizião que agcra veriao se eles sós erao os que não querião comprar a mercadoria dos Portugueses : e com tudo não ousarão mais çle ir á feito- ria, sabendo que hi estaua ho Naire por mandado delrey. E se dantes querião mal aos Portugueses muyto mais lho quiserão dali por diante: de maneira que como al- gum ya a terra, parecendolhes que ho in- juriauao nisso cospiao no chão, dizendo Portugal, Portugal. E eles que ho enten- dião rianse, porque vissem quam pouco lhes daua disso e assi lho mandaua Vasco da gama que ho fizessem. E vendo ele que não compraua ninguém a mercadoria, pareceolhe que era por estar naquele lugar e que em Calicut se venderia milhor , e ho mandou assi dizer a alrey pedindolhe licença pera a mandar lá : que ele logo deu, e por seu mandado e á sua custa foy lá leuada : e com tudo nunca Vasco da gama quis tornar a terra pola offensa que lhe ho Catual fizera. E porque Bontaibo que ho ya ver muytas vezes lhe dezia que ho fizesse assi, porque elrey era homem mudauel , e poderia ser que os mouros ho mudarião da vontade que tinha pelo muy- to
Liu. I. Ca?. XXII. 125" to credito que tinhão coele. E era Vasco da gama tão recatado que por ser mouro senão fiaua dele, nem lhe daua conta de nenhtía cousa que ouuesse de fazer, porem £or ho ter de sua mão e lhe dar auisos íe daua muytas peças c dinheiro. C A P I T O L O XXIII. De còmo Vasco da gama quisera deixar em Calicut hum feytor e escriuão e elrey mio quis. POsta a mercadoria em Calicut ordenou Vasco da gama que todos os da ar- mada fossem a terra pera verem a cidade e comprarem o que quisessem , e cada dia mandaua de cada nauio hum homem , e vindos aqueles yão outros. E quando fa- zião este caminho os gentios por esses lu- gares por onde yão os chamauão a casa, e lhes dauão de comer : e cama se era tarde pera passarem dali , e ho mes- mo lhe fazião em Calicut e dauanlhe do que tinhao , e os nossos a eles do que le- uauão , que erao manilhas de latão e de cobre , estanho e roupa de vestir: e anda- uão tão seguros como em Lisboa: e muy- ta gente da terra pescadores e outros gentios yão cada dia aos nauios vender pescado , e figos, cocos e galinhas , que
126 Da Historia da India dauao a troco de biscoito e por dinheiro. E outros muytos vinhão com os filhos pe- queninos sem trazerem nada a vender, se- não a ver os nauios. E Vasco da gama os recebia a todos com muyto gasalhado, e lhes mandaua dar de comer: c tudo isto Í>or fazer paz e amizade com elrey de Ca- icut, e ser deles bem quisto : e coisto erão eles muytos nos nauios , e se deixa- uão tão devagar estar neles que se çarra- ua a noyte e não se acabauao de ir ate que os nossos lhe dezião que se fossem. E nisto se passou ate dez dias Dagosto que era começo do tempo que podião partir da costa da India, e se ya acaban- do o inuerno dela. E vendo Vasco da ga- ma ho assessego da gente da terra com os nossos , e a communicação que auia antreles , e quão seguros andauão por Ca- licut sem receberem escândalo dos mou- ros nem dos Naires creo que tudo aquilo vinha porelrey querer amizade com elRey seu senhor que sem sua authoridade não fora possiuel que em perto de dous me- ses que auia que os nossos conversauão em Calicut lhe não fizerão os mouros ou os Naires algum escândalo: e por isso de- terminou de deixar em Calicut o feytor que lá estaua coessa mercadoria que ti- nha , posto que a menos dela era vendi- da:
Liu. I. Cap. XXIII. 127 da: porque estaria já ho alicece feyto pe- ra outra boa que elRey seu senhor manda- ria , deixandolhe nosso senhor leuar nouas daquele descobrimento, e não seria neces- sário tornar de nouo a fazer assento de fei- toria : e com conselho de seus capitães e principais da armada mandou hum pre- sente a elrey de Calicut dalambeis corays e outras cousas , mandandolhe dizer por Diogo diaz que lho leuou , que lhe per- doasse ho atreuimento de lhe mandar aque- le presente , porque deseja de lhe mostrar quanto era seu seruidor lho fizera mandar, e não parecerlhe que cousas tão baixas erão pera se apresentar a hum rey tão poderoso como ele era. E que se ele te- uera as que se lhe podião apresentar, que com muyto melhor vontade lhas mandara do que lhe mandaua aquelas. E por quan- to dali por diante se chegaua ho tempo pera se poder partir pera Portugal, ele queria ordenar sua partida. E se auia de mandar embaixador a elRey seu senhor pera confirmação de sua amizade coele , ho po- dia mandar fazer prestes. E mais que con- fiando ele na que tinha assentada com S. A. e assi nas mercês que tinha dele rece- bidas queria deixar em Calicut aquele fey- tor com seu escriuão com a mercadoria que tinhão, assi pera testemunho da paz e
ii8 Da Historia da India e amizade, que deixaua assenta com S. A. como pera penhores da verdade de sua embaixada , e do que elRey seu senhor auia de mandar despois que soubesse nouas dele. E também pera testemunho de seu descobrimento, e ter credito em Portu- gal , lhe beijaria as mãos mandar a elRey seu senhor hum bahar de canela ( que são quatro quintais do peso de Portugal) e outro de crauo, e doutra especiaria , e co- mo ho feytor fizesse dinheiro que lho pa- garia , porque não tinha ao presente pera o pagar. E primeiro que Diogo diaz des- se este recado se passarão quatro dias sem elrey querer que entrasse a lhe falar indo cada dia ao paço. E quando ho mandou entrar diante dele olhouho muyto carrega- do , e preguntoulhe que queria tão mal assombrado, que Diogo diaz ouue medo que ho mandasse matar : e dandolhe o recado , quando lhe quisera dar ho pre- sente não ho quis ver: e mandou que ho dessem a seu feytor. E a reposta que deu pera Vasco da gama foy que pois se que- ria ir que fosse: mas que primeyro lhe auia de dar seyscentos xerafins ( que vai cada hum ccc. réis) que assi era costume da terra. Tornando Diogo dias com esta re- posta acompanharanno muytos Naires , que ele cuydou que era por bem : mas che-
t Liu. I. Cap. XXIII. 129 chegando á feitoria eles se poserao á por- ta , guardando que não saísse ele nem outrem. E forao logo dados pregões pela cidade, que sopena de morte nenhúa al- madia não fosse abordo da nossa frota. Porem antes disto Bontaibo foy dizer a Vasco da gama em segredo, que não fos- se a terra nem mandasse, porque ele sa- bia certo dos mouros que se fosse ele ou os seus lhes auia elrey de mandar cortar as cabeças: e que todos aqueles compri- mentos que ateli fizera coele assi de lhe dar casa de feitoria em Calicut, como de bom tratamento dos nossos forao dissimu- lates pera ho acolherem coeles em ter- ra , e cs matar a todos : e isto por indu- zimento dos mouros , que tinhão feyto crer a elrey que erao ladrões , e andauão a fur- tar , e que não forao a seu porto senão pera roubar os mercadores que fossem a ele, e espiarem a terra : e irem despois tomala com grande armada , e ho mesmo disserão a Vasco da gama dous malabares. E estando ele cuydando no que faria por este auiso que tinha por verdadeiro, ex- que muyto de noyte chegou á capitaiiu hum escrauo de guiné de Diogo diaz que era Christao, e sabia bem a lingoa Por- tuguesa : e disse como ele e Aluaro de Braga ficauao presos, e a reposta que cl- Liu. /. Tom. I. I rey
130 Da Historia da India rey dera ao seu recado: e do mais que fizera á cerca do presente : e dos pregões que mandara-dar : e que Diogo diaz teue- ra m.meyra como lio mandara , dando di- nheiro a hum pescador que ho leuasse a bordo em anoytecendo e por não ser en- tendido não escreuera. Vasco da gama que isto ouuio ficou muy agastado, e esperou pera ver em que aquilo parau3, e passou- se hum dia sem ninguém ir a bordo. E ao outro dia que toy quarta feyra quinze Da- gosto , foy hua' só almadia a bordo da capitaina em que forão quatro moços que leuauão a vender pedras finas , e parecen- do a Vasco da gama que yão por espias pera verem o que lhe faziao, e pera se saber como estauão com elrey , os agasa- lhou como dantes , fazendo que não sabia nada da prisam de Diogo diaz , e não quis lançar mão destes porque viessem outros mais e de mais preço em que faria^ repre- saria , ate cobrar os seus que estauão pre- sos em terra a quem escreuco hua carta por estes moços com palauras dissimula- das , que querido dizer como ele sabia sua prisam, porque se fosse ás mãos doutrem que a não entendessem^ E os moços lhe derão a carta, e contarão a elrey lio bom gasalhado que lhes fora feyto : que lhe fez crer que Vasco da gama não sabia da pri-
Liu. I. Cap. XXIIÍ. 131 prisam dos nossos , com que folgou niuy- to , e tornou a mandar que fossem a bor- do : e com grande auiso que não desco- brissem como J10 fey tor e os outros es- tauão presos , porque fazia conta de deter assi Vasco da gama ate poder armar so- brele , ou que viessem as nãos de Meca e que ho tomarião. E dali por diante fo- rao os malabares a bordo , e Vasco da ga- ma lhe fazia bom tratamento sem lançar mão de nenhum, porque não via homem de preço , ate que ao domingo seguinte forão seys homens honrrados com deza no- ne que leuauão consigo em hua almadia. E parecendo a Vasco da gama que por estes aueria ho feytor e ho escriuão , fez neles represaria , somente deixou dos ro- meiros na almadia , por quem mandou htía carta escrita em lingoa Malabar ao feytor delrey : em que lhe dezia que lhe mandasse I10 seu feytor e escriuão c que lhe mandaria os seus. E vendo ho feytor delrey a carta deulhe disso conta : e ele lhe mandou que fizesse logo leuar os pre- sos a sua casa, pera ali os mandar cha- mar e fazer que não sabia nada de sua prisam, e dali os mandar a Vasco da ga- ma , porque lhe desse os Malabares , cu- jas molheres lhe yão chorar a prisam de seus maridos: e por isso ele queria soltar 1 ii os
132 Da Historia da India os nossos , que ainda estcuerao a'guns dias em casa do fey tor. - . C A P I T O L O XXIIII. De como elrey de Calicut mandou Diogo diaz y e Aluar o de Braga , e do mais que passou. TTEndo Vasco da gama que lhe nao V mandauão os presos , quis ver se com fazer que se partia lhos mandauão , e quar- ta feyra vinte tres Dagosto ma miou leuar ancora e dar ás velas , e por causa do vento que lhe era por dauante foy surgir quatro legoas ala mar de Calicut, e ali se deteue esperando ate ho sabado pera ver se lhe mandauão os presos. E vendo que nao auia disso memoria foyse na volta do mar, e surgio tanto a ele que quasi que não vião a terra. E estando surto ao domin- go esperando pela viração foy ter coelc hum Tone com certos Malabares , que lhe disserao que andauão em sua busca pera lhe dizer' como Diogo diaz, e os outros licauão em casa delrey pera lhos mandar e que eles ficauão de lhos leuar ao outro dia, e que lhos não leuarão logo por se não deterem e o poderem alcançar; e não vendo ele os presos pareceolhe que erao mor-
Liu. I. Cat. XXIIII. 133 mortos , c que os Malabares lhe mentião e dizianlhe aquilo pera ho deter , e ar- marem em Calicut contrele e tomarenno, ou que esperauão pelas naos de Meca que ho tomariáo , e disselhes que se tossem e que não tornassem mais a bordo sem os seus homens, ou cartas suas senão que os meteria no fundo ás bombardadas , e que se logo não tornassem com recado que cortaria as cabeças aos que tinha to- mados. Coeste recado se partirão , e vin- da a viração Vasco da gama deu ás velas , e perlongando ao longo da costa foy sur- gir diante de Calicut em se poendo ho sol: e ao outro dia chegarão a bordo da capitaina sete almadias e em hua vinhao Diogo diaz e Aluaro de Braga , as outras corn muyta gente , de que nenhua não ousou dentrar nos nauios. E poserão Dio- go diaz c Aluaro de Braga no batel da capitaina, que ainda estaua por popa , e afastaranse logo esperando reposta de Vas- co da gama: a que Diogo diaz disse que como eirey de Calicut soubera que era partido mandara logo por ele a casa do seu feytor, e lhe fizera grande gasalhado não sabia nada de sua prisam , dos Malabares que tinha presos e sabida lhe dissera que fora bem íeyto. E que lhe preguntara a causa da prisam pre-
134 Da Historia da India preguntara se lhe pedira ho seu feytor al- gua cousa , dizendo contra ho mesmo fey- tor que estaua presente que bem sabia ele que auia pouco tempo que mandara ma- tar outro fey tor, porque leuara peytas a huns mercadores estrangeiros : e despois disto lhe dissera , que lhe dissesse que lhe mandasse ho padrão que dizia que queria que se posesse em terra, que tinha a Cruz e as armas reaes de Portugal, e que se fosse contente podia deixar a ele Diogo diaz por feytor em Calicut: e que sobre isto lhe dera hua carta pera elRey de Portugal assinada por ele e escrita por Diogo díaz em hua ola que lie folha de palmeyra , em que custumão de escreuer as cousas que hão de durar muyto , e di- zia. Vasco da gama fidalgo de vossa ca- sa vco a minha terra, com que folguey muyto : em minha terra ha muyta canela, muyto crauo, gingibre , muyta pimenta, e pedraria: o que eu quero da vossa he ouro, prata, coral, e escarlata. Vasco da gama que já não se fiaua delrey , não quis responder a seus offerecimentos , e man- doulhe os seus Naires e os outros deixou, dizendo que ficauão ate lhe trazerem a mercadoria que ficaua em terra , e man- doulhe ho padrão que lhe mandaua pedir: e çoisto se forao aqueles que leuarãp Dio- go
Liu. I. Cap. XXIIII. 135- go diaz , e ao outro dia foy ter Bontaibo com Vasco da gama, e disse que fugia de Calicut porque ho Catual lhe tomara per mandado delrey toda sua tazenaa di- zendo que era Christao e que fora por terra a Calicut por mandado delRey de Portugal pera ho espiar, e disselhe mais que tudo aquilo vinha pelos mouros : e porque assi como lhe tomauao a fazenda lhe farião mal na pessoa se acolhera antes que lho fizessem. Vasco da gama folgou muyto coele, e disselhe que ho leuaria a Portugal e lá cobraria em dobro a fazen- da , a fora outras merces que lhe cl Rey seu senhor faria : e mandoulhc logo dar muyto bom gasalhado. E apos isto ás dez horas do dia chegarão a bordo da capi- taina tres almadias carregadas de gente e em cima das tostes vinhão alguns aíambeis dos nossos, como que vinha ali a merca- doria , e apos estas trcs vinhão outras quatro que se poserao de largo : e das tres em que yão os alambeis disseráo a Vasco da gama que ali vinha a sua rner^ cadoria , que a poriao no seu batel: que mandasse ele também poer os Malabares
136 Da Historia da India aqueles Malabares pera testemunhas de seu descobrimento. E que se viuesse que ele tornaria muy cedo a Calicut, e então sa- berião se erão os Frangues ladroes como os mouros fizerão crer a elrey de Calicut, e por isso lhe fizera tantas cousas mal fey- tas. E acabando de dizer isto mandoulhes tirar ás bombardadas e os fez fugir. O que elrey sentio muyto quando ho soube: e se as suas naos esteuerao no mar ele mandara sobre Vasco da gama, mas es- tauao varadas por ser inuerno : o que he de crer que nosso senhor ordenou que os nossos fossem lá neste tempo porque po- dessem escapar, e dar nouas do descobri- mento desta terra pera se restaurar nela a sancta fé catholica : o que não fora se os nossos forão no verão, porque poderá el - rey de Calicut ajuntar seu poder que era tamanho como já disse , e mandar sobre- les, e tomalos a todos que nenhum não tornara com nouas a Portugal, ou também os mouros de Meca que esteuerao em Ca- licut os matarão a todos segundo erao muytos e lhes querião mal.
Liu. I. 137 C A P I T O L O XXV. De como Vasco da gama se par tio per a Portugal, e do que lhe aconteceu ate d ilha Danjadiua. Ainda que Vasco da gama estaua con- tente de ter descuberto Calicut, não ho podia ser de todo por não ficar em amizade com elrey pera tornar seguramen- te a frota que elRey seu senhor mandasse. E vendo que não era mais em sua mão, contentouse com ter descuberto o que ti- nha, e ter sabido da India e sua nauega- ção quanto abastaua pera poder tornar a ela. E com leuar mostras despeciaria , droga , e pedraria , e doutras cousas que auia nela, como agora vemos : que tudo lhe ouue Bontaibo."E não tendo mais que fazer, partiose leuando os Malabares que tinha, porque por meo deles se fizesse a paz com elrey de Calicut quando tornasse outra armada. E logo á quinta feyra ao meyo dia andando em calmaria húa legoa abaixo de Calicut forão ter coele obra de setenta tones grandes carregados de gen- te de guerra, com que parece que elrey de Calicut cuydou de ho tomar , e ven- doos mandoulhcs tirar com a artelharia : e se
138 Da Historia da India sc ela não fora sempre eles chegarão aos nossos e os meterão em trabalho, porque andarão obra de hora e inea ladrando apos eles, e por hua trouoada que sobreueo , que por força leuou os nossos pera ho mar, os deixarão os immigos , e se forão: e os nossos seguirão seu caminho pera Melinde com grandes calmarias. E indo coelas ao longo da costa sem andar quasi nada , pareceo bem a Vasco da gama, que posto que elrey de Calicut lhe fizesse tantas roindades , que pola necessidade que os nossos que tornassem despois dele a Calicut, auiao de ter de sua amizade, pera se poder auer carrega despeciaria , que seria bom fazer coele algum compri- mento , e mais pois lhe não podia já em- Íecer, e que elrey folgaria coele segundo o vira amigo de honrras. E hua segunda feyra dez dias de Setembro lhe escreueo hua carta em arabigo feyta por Bontaibo , em que dizia que lhe perdoasse de lhe le- uar os Malabares , porque os não leuaua senão pera testemunhas do que tinha des- cuberto como lhe mandara dizer, e senão deixara feytor em Calicut (do que lhe pesaua inuyto ) fora por recear que ho ma- tassem os mouros , por amor de quem não fora muytas vezes a terra, mas nem por isso deixaua de ser muyto grande seu ser*
Liu. I. Cap. XXV. 139 uidor, e que elRey seu senhor auia de folgar muyto com sua amizade, e manda- ria muy cedo sua armada em que lhe man- dasse muy ta abastança do que lhe manda- ua pedir , e que ainda ho trato dos Por- tugueses em sua cidade lhe auia dacreccti- tar muyto suas rendas. E esta carta deu a hum dos Malabares que leuaua pera que a leuasse por terra onde ho mandou dei- tar : e despois se soube que a dera a el- rey de Calicut. E continuando Vasco da gama dali sua viagem indo á vista de ter- ra no sabado seguinte a duas legoas dela foy ter com a frota a huns ilheos e dum deles que era pouoado acodirao logo muy- tas al madias com gente a vender pescado e outros mantimentos. E Vasco da gama lhe fez muyto gasalhado , e lhe mandou dar camisas e outras cousas com que mos- trarão muyto contentamento : e pregun- toulhcs se folgarião de deixar ali metido hum padrão com hua Cruz e armas del- Rey de portugal em sinal que os Portu- gueses erão seus amigos. E eles disscrao que si , e que coele alHrmariao que eiao os nossos Christãos : e então ho mandou meter, e chamauase o padrao de sancta Maria: e por isso se chamou aquele ilheo do mesmo nome. Daqui como íoy noyte que ventou ho terrenho se fez á vela , e
E4o Da Historia da India indo sempre ao longo da costa á quinta fcyra seguinte dczanoue de Setembro foy ter com hua terra alta muyto graciosa e de bons ares , e estauão junto dela seys ilhas pequenas e ali surgio: e indo a ter- ra pera fazer agoadi achou nela hum ho- mem mancebo , que preguntado se era mouro se Christão, disse que christão e isto deuia de ser com medo que ho não matassem, que por aquela terra não auia nenhuns Christãos: e este leuou os nossos or dentro de hum rio e lhe foy mostrar ua íermosa agoada que nacia antre huns penedos, e por isso lhe foy dado hum barrete vermelho. Ao outro dia pela me- nina vicrão de terra quatro homens em hua almadia abordo da capiraina que trou- uerao a vender muytas aboboras e pepi- nos : e preguntados se auia naquela terra canela ou pimenta, disserão que não auia mais que canela. E pera Vasco da gama auer mostra dela , mandou coeles dous dos nossos, que lhe trouuerao dous grandes ramos daruores de que se ela tira , e di- ziao que auia ali hua muyto grande mata delas, porem que era braua : e quando tornarão coela vierão em sua dbmpanhia vinte homens de terra com muytas gali- nhas aboboras e leyte de vacas : e disse- rão a Vasco da gama, que mandasse coe-
Liu. I. Cap. XXV. 141 íes alguns dos nossos , porque dali a hum pedaço tinhão muyta canela seca, e que lornarião ao outro dia coela, e^com vacas porcos e galinhas : porem ele não lhe quis dar ninguém , porque receou de ser aqui- lo treição. E ao outro dia antes de jantar indo os nossos cortar lenha a terra , en- xergarão longe do lugar onde estauão dous nauios pegados com terra. E estando Vas- co da gama pera ir saber que nauios erao, mandou ver da gauia se pareciao outros, e foylhe dito que obra de seis legoas ao mar pareciao oyro naos grandes que an- dauão em calmaria: e coesta noua deixeu de ir saber que nauios crão os dous , e pósse a pique a esperar as naos se lio fos- sem cometer, e elas como lhes igoalou a viração tomarão de 16 quanto poderão: e sendo duas legoas dos nossos que os po- dião ver, foyse Vasco da gama a elas: ho que vendo a gente que ya nelas come- çarão logo darribar pera terra a jjopa. E indo assi quebrou ho leme a hua antes de chegar íá , e a gente dela se passou logo ao paraó e se acolheo a terra , e Ni- culao coelho que ya mais perto da nao a foy logo abalroar , cuydando dachar nela algua riqueza, e não achou mais que co- cos e jagra que he açúcar de palmeiras , e também achou muytos arcos frechas es- pa-
141 Da Historia da Imdia padas lanças e escudos, e as outras sete derão em seco , e porque nas naos os nos- sos lhe não podião chegar, passaransc aos bateis e forannas esbombardear, e os ini- migos fugirão deixandoas : e vendo isto Vasco da gama tornouse pera os nauios. E estando surto ao outro dia chegarão a bordo sete homens da terra em hua al- madia , e disseranlhc que aquelas oyto naos erão de Calicut, que as mandaua elrey pe- ra ho tomarem , e que isto souberao da gente que fugira delas. CAPITOLO XXVI. De como Vasco da gama foy fazer agoa- da a ilha Datijadiua , e de como prendeo hi hum mouro. SAbido isto per Vasco da gama não quis ali estar mais , e foy surgir na ilha Danjadiua , que era dali dous tiros de bombarda em que lhe disserao que auia agoa. He ilha pequena, e está hua Iegoa da terra firme, ha nela muyto aruoredo, e tem dous tanques dagoa doce nadiuel, e são muyto grandes e todos de cantaria, c hum deles era daltura de quatro braças. Ha no mar desta ilha muyto pescado e marisco. Antes que os mouros viessem á In-
Lio. I. Cap. XXVI. 143 India era pouoada de gentios e auia nela grandes edifícios , principalmente hum pa- gode , e despois da nauegaçfo dos mouros do mar roxo que aqui tomauao agoa e le- nha , forao deles tão mal tratados que lio não poderão sofrer, e a despouoarão : e antes que se fossem derribarão quasi todo ho pagode de que lhe nao deixarao mais que a capela , e assi os outros edifícios. E com tudo ainda os gentios da terra fir- me (que he delrey de Narsinga) tinhao tamanha deuação neste pagode que yao fazer nele suas orações a tres pedras ne- gras que estauão no meyo da capela. E esta ilha foy chamada Anchediua que na lingoa Malabar quer dizer as cinco ilhas, porque ao derrador dela estão outras qua- tro , e os Portugueses corromperão este nome e ficou em Anjadiua como lhe cha- rnão. Surto aqui Vasco da gama mandou Niculao coelho a terra a descobrir: e ele foy armado com os seus , e achou tudo assi como digo , e mais híia prava muy- to boa pera espalmar os nauios. E porque Vasco da gama tinha ainda muyto cami- nho pera andar, e não sabia quando acha- ria outra praya tão boa , ouue conselho com os outros cãpitães que espalmassem ali. E ho primeyro nauio que tirarão a monte foy ho Berrio : e cada dia vinha . gen-
144 Da Historia da India gente da terra a vender mantimentos aos nossos. E estando nisto virão vir duas atalayas que são como fustas e vinhão en- bandeiradas , e com estendartes nos topos dos mastos e dentro soauão atambores e trombetas como cousa de festa e vinha ne- la muyta gente, e elas vinhão a remos , e em sua goarda ficauão cinco ao longo da costa. E dos Malabares que Vasco da gama leuaua , soube que aquelas fustas erão de ladroes de que era capitam hum gentio chamado Timoja morador em hum lugar dali perto chamado Honor, e andaua a furtar com manha de mostra que era de paz , e despois que entraua nos nauios se via que os podia tomar os romana. E por isso chegando os paraós a tiro de bom- barda lhes mandou tirar dos dous nauios que estauao no mar ás bombardadas : e a gente começou de bradar. Tambarane , Tambarane, porque assi chamão a Deos, e dizião que erão Christãos. E não lhe deixando os nossos de tirar fugirão pera terra. E Niculao coelho que cstaua no seu batel foy apos eles ás bombardadas : e se- guioos tanto que mandou Vasco da gama Jeuantar Jiua bandeira pera que se tornas- se , e tornouse. E ao outro dia estando os capitães em terra com quasi toda a gente da frota trabalhando no Berrio, che- ga-
Liu. I. CA?. XXVI. 14J garão dous paraós pequenos em que viriao are doze homens da terra , que em seus trajos parecião honrrados , e derao a Vas- co da gama hum feixe de canas daçucar, e logo cm lho dando lhe pedirão que lhe deixasse ver os nauios porque nunca vi- rão outros : do que se ele agastou muyto, parecendolhe que erão espias: e nesta pra- tica chegarão outros dous paraós com ou- tros tantos homens. E os que vierão pri- meyro vendo que Vasco da gama se agas- taua coeles disserao aos que chegauao que não desembarcassem e que se tornassem, e tornaranse todos. E espalmado ho Berrio estando a capitaina a monte, e todos os capitães em terra, veo ter coeles hum ho- mem em hum paraó e seria de idade de corenta annos , e não parecia daquela ter- ra porque trazia húa cabaya de pano bran- co dalgodão que lhe chegaua ate ho arte- lho , e na cabeça hua touca muyto fotea- da , ena cinta hum terçado: ecomo des- embarcou foy logo abraçar Vasco da ga- ma como que ho conhecera , e ho mesmo fez aos outros capitães , dizendo que era Christão leuantisco e que fora trazido àquela terra em idade muyto pequena, e que viuia com hum mouro chamado ça- bayo senhor de hua ilha chamada Goa que estaua dali doze legoas e de muvta terra Liu. I. Tom. I. K no
146 Da Historia da India no sertão, e que tinha corenta mil homens dc caualo. E por quanto andaua antic os mouros goardaua de fora a sua ley , mas dentro em sua alma era Christáo. E estan- do em casa do ça1 L"~ ~ c'^~\ naos de íeyção nunca vista na India , e que ninguém entendia a sua Iingoagem, e que andauao todos vestidos. E quando ele aquilo ouuira logo lhe parecera que crao Christãos e pedira licença ao çabayo pera os ir ver, a quem dissera tanto bem deles que desejaua muyto de os ver, e lhe mandaua dizer que lhe daria tudo o que quisesse de sua terra : e se andasse cnfa- dadado do mar, equisesse morar nela lhe daria renda de que fosse contente. E por derradeyro lhe pedio hum queijo , dizen- do que o queria pera mandar a hum com- panheiro que trazia , que com medo não quisera passar da terra firme , e pera que ho não ouuesse e soubesse que era viuo lhe queria mandar aquele queijo por sinal. E Vasco da gama lho deu e mais dous pães moles : e atentando Faulo da gama nisto, e no muyto que aquele homem co- nheceo que era espia: pelo que preguntou a esses nomens da terra que hi estauão 6e ho conhecião. E sabendo deles que era capitão das oito naos que auia pouco que fo- ter huns homens
Liu. I. Caí. XXVI. 147 forão cometer Vasco da gama, disselho. E ele ho mandou logo meter na capirai- na , onde por tormentos confessou que era espia do çabayo, c ya saber como estaua apercebido: porque estauão muytos nauios darmada por esses rios da costa pera irem eobrele, e detinhanse por corenta nãos gros- sas que esperauão porque lhes não podes- se escapar. E sabido isto por Vasco da gama mandouho prender pera lio leuar a Portugal por testemunha das cousas da ín- dia. E receando que aquela armada fosse sobrele , partiose logo a htía sesta feyra cinco Doutubro. E dali a duzentas legoas confessou aquele homem que ya preso a Vasco da gama que era mouro, e ya por parte do çabayo pera lhos leuar: porque lhe disserão que andauao perdidos ao lon- go da costa. E este se tornou despois Christão , e Vaso da gama que foy seu padrinho lhe pos nome Gaspar á honrra dum dos tres Reys magos , e dculhe ho seu apelido da gama , e despois se disse que este Gaspar da gama era judeu por se achar que fora casado com liua judia que morauu em Cochim.
148 Dà Historia da India C A P I T O L O XXVII. Do que aconteceo a Vasco da gama ate d ilba Santiago. E Continuando Vasco da gama sua via- gem pera Melinde despois de bem engolfado achou grandes calmarias que dão no mar muyto grande fadiga como eu tenho visto 11a viagem da India. E passados muytos dias de calmarias sobre- uierão ventos contrairos com que lhe foy forçado pairar e andar ás voltas quando não podião pairar no que passauão im- menso trabalno : e cessando estes ventos tornarão as calmarias, e apos elas torna- rão os véntos , e hora hua cousa hora outra durou isto quatro meses com que a gente andaua pasmada crendo que aqueles tempos erão ali naturais, e que não auião de poder passar auante, e mais por adoe- cerem os mais deles de lhe incharem as gengiuas e lhes apodrecerem assi como no rio dos bons sinais e fazianselhe medo- nhas chagas nas pernas e nos braços de que morrerão trinta pessoas e os outros tanto montauão como mortos que não se podião bolir, e coisto ya faltando a agoa u apertauase a regra. É pera mayor des- toa-
Liu. I. Cap. XXVIX 149 consolação affirmauao os pilotos que aque- les tempos crão ali gerais e por isso du- rauão tanto , que se ho não forão já se acabarão - e assi ho cria a gente pelo que desmayarão de todo e se derão por mor- tos , e bradauão todos a grandes brados que arribassem a Calicut ou a outro lu- gar da India que melhor seria morrerem em terra que no mar : e requerião a Vas- co da gama e aos outros capitães que ar- ribassem , e também I10 requerião os pi- lotos e os mestres em muytos conselhos que Vasco da gama fazia sobrisso: e res- pondia com muyto esforço que não pedia ser que aqueles tempos ali fossem gerais porque se I10 forão não se poderá naue- gar por aquele golfão como nauegaua pê- ra Melinde e outras partes , por isso que cressem que aqueles tempos auião de ter fim : e dizialhes outras muytas cousas pê- ra os esforçar , porem os pilotos não fica- rão nada contentes , e fizerao todos con- juração com os mestres, e marinheiros , e outra gente algua, que como tornasse ven- to que arribassem com ele a Calicut. Ho que sendo discuberto a Vasco da gama prendeo os pilotos, e ele tomou ho cuy- dado de mandar a via , e ho deu aos ou- tros capitães em quanto andassem naquele trabalho. E auendo nosso Senhor piedade
ijo Da Historia da India dele: mandou vento que em obra de de- zaseis dias pos a frota á vista da outra costa diante da cidade de Magadaxo , que virâo a dous de Feuereyro: e por ser de mouros, em passando ao longo dela, lhe mandou Vasco da gama tirar muytas bom- bardadas. E a hum sabado cinco de Fe» uereyro defronte de hua vila chamada Pa- te lhe sayrao oyto nauios darmada que com medo da artelharia lhe fugirão , e da- li foy surgir a Melinde onde se deteue cinco dias por amor dos doentes que leua- ua, e com licença delrey mandou meter em terra hum padrão com húa Cruz e ar- mas reais de Portugal : e partiose a dez de Feuereyro leuando hum embaixador que elrey mandaua a elRey dom Manuel, c aos dezasete de Feuereyro queimou ho nauio sam Rafael nos baixos deste nome assi por fazer muyta agoa como por não ter gente qne podesse marear mais de dous nauios: e Paulo da gama foy coele, e dali com Niculao coelho foy ter á ilha de Zanzibar que está em altura de seys grãos dez legoas da terra firme. He gran- de e muyto viçosa, e abastada de manti- mentos , e os matos sam laranjais: he po- uoada de mouros, gente fraca pera armas, tratanse bem de suas pessoas , sam os mais mercadores e tratão na terra firme: tem
Liu. I. Cap. XXVII. i?I tem rey sobre si que também he mouro. E sabendo elrey que Vasco da gama es- taua no seu porto assentou coele amizade. E partido dali Vasco da gama foy surgir ho primeyro de Março aos ilheos de sam Jorge, e mandando meter hum padrao naquele , em que á ida ouuio missa se partio e aos tres de Março fez agoada e carnagem nagoada de sam Bras de lobos marinhos e soliticairos que nao auia ou- tra carne, e esta leuou pera ho resto da viagem per que prosseguio sem nenhum contraste nem tomar mais terra ate á ilha de Santiago. C A P I T O L O XXVIII. De como Niculao coelho deu noua a elrey dom Manuel que a Índia era dis- cuberta. NAuegando Vasco da gama c Niculao coelho pera esta ilha de Santiago, apartouse Niculao coelho hua noyte e foy- se caminho de Portugal pera ir diante di- zer a elrey dom Manuel como a índia era discubcrta, e ganhar as aluisaras de tfto boa noua como sabia que aquela auia de ser pera elRey. E aos dez dias de Ju- lho do anno de mil e quatrocentos e no- uen-
ijri Da Historia da India uenra e noue chegou á vila de Cascavs. E sabendo hi como elRey dom Manuel estaua na vila de Sintra desembarcou e se foy logo lá e contou a elRey quanto acon- tecera a Vasco da gama despois que par- tira de Portugal e chegar a Calicut e se tornar , do que elRey ficou tão contente como a quem se daua hua noua de tama- nho prazer como aquela era, e fezlhe por isso muyta merce dacrecentamento de honr- ra e detença posto que muytos rão podião crer que a India era discuberta , e mais não vendo nenhua mostra despeciaria nem de nenhua cousa da índia, porque tudo trazia Vasco da gama que crião que era morto pois não chegara com Niculao coe- lho , nem chegou senão dahi a dous me- ses. E auião todos por muyto impossiuel este descobrimento por aucr sessenta an- nos que se andaua apos ele sem se poder saber nem rastejar: e parece que por ins- piração diuina começou lio IfFante domAnr- rique este descobrimento por mar mais que outro nenhum príncipe da Europa que erão senhores de muyto mayor estado que ele , porque dele herdassem os reys de Portu- gal que forao dali por diante este desco- brimento principalmente ho inuictissimo Rey dom Manuel , pera quem a diuina prouidencia tinha goardado lio effeyto de-
Liu. I. Cap. XXVIII. 15-3 le que era a India , cujo descobrimento estaua profitizado dantes pola Sibila Cumea segundo se conta em hum autentico liuro que anda impresso em latim que se intitu- la da sagrada antiguidade , em que se contem muytos letreiros antigos , que forao buscados e achados em muytas partes Da- sia, Dafrica e Deuropa, per mandado do Papa Niculao quinto e dalguns senhores ccclesiasticos tão curiosos destas antiguida- des , que com muyto grande despesa as ijiandarao buscar polo mundo. E antrestas foy achado hum letreiro segundo no mes- mo liuro conta hum Valentino morauio : que diz que no anno de mil e quinhentos e cinco que foy seys annos despois deste descobrimento , aos noue dias Dagosto nas rayzcs do monte da lua a que chama- mos agora a rocha de Sintra junto da praya do mar forao achadas debaixo da terra tres columnas de pedra quadradas , e cada hua tinha cm hua das quadras cor- tadas nas mesmas pedras huas letras ro- manas , das quaes em hua das columnas se poderão ler por as outras estarem gas- tadas do tempo , e ainda estas que se le- rão forao as pedras em que estauao cozidas com grande arte. E estaua hua regra como titulo que dizia em latim. Si-
154 Da Historia da India Sibile raticiuium occiduis deereturn. Que na lingoajem Portuguesa quer dizer. >» Proficia da Sibila determinação aos »» do occidente. >> E abaixo desta regra estauao quatro ver- sos latinos que dizião. Voluentur saxa Uteris et ordine rectis, Cum vide as or i ens Occident is opes , Gauges , Indus, Tagus erit mirabile visu > Merces commutabit suas u ter que sibi. Que querem dizer na nossa lingoa. » Serão reuoltas as pedras com as letras » dereytus e em ordem , »> Quando tu occidente vires as rique- » zas doriente. » Ho Ganges , Indo e ho Tejo será cou- » sa marauilhosa de ver. >» Que cada hum trocará com ho outro >» as suas mercadorias. E ainda dizem alguns que poucos dias antes de Niculao colho chegar a Sintra forao achadas estas columnas , e foy dito a elRey dom Manuel por cujo mandado Ruy de Pina que a esse tempo era coro-'
Liu. I. Cap. XXVIII. ry? nista tirou em lingoagem estes quatro ver- sos e ho titulo. E cjuando clRey dom Ma- nuel vio o que dizião ficou muyto espan- tado com todos os de sua corte, e ouue sobrisso diuersos pareceres, porque huns lio criao outros dizião que por^ nenhum modo podia ser, c que aquilo erao genti- lidades a que não se deuia de dar nenhum credito. E estando a cousa assi cm duuida, dizem que chegou Niculao coelho que a desfez com a noua que deu do descobri- mento da India. E foy a profecia auida por verdadeyra: e como quer que os Por- tugueses sabem melhor pelejar que gran- gear antiguidades , não ouue quem fizesse mais caso daquela, e as pedras ficarão na praya do rio de maçãs, e querem dizer que aquele Valentino morauio que diz que as achou, vendo que os Portugueses não faziao caso disso: quis atribuir assi a glo- ria de ele ser o qu achou, e os versos sarn muy celebrados cm Italia e auidos por autênticos, e que forão achados da maneyra que digo. guidade. E como CA-
ijó Da Historia da India i C A P I T O L O XXIX. De como Vasco da gama chegou a Lisboa. AChando Vasco da gama menos Ni- culao coelho , esperou por ele hum dia e vendo que não rinha scguio seu ca- minho pera a ilha de Santiago, onde che- gado fretou hua carauela pera ir nela a Portugal mais asinha que na nao em que ya , assi por fazer muyta agoa com que cortaua pouco , como por leuar muyto doente seu irmão Paulo da gama , e dei- xou por capitão da nao a João de sá seu escriuão. E partido Vasco da gama desta ilha por ir a doença de seu irmão em crecimento , lhe foy forçado tomar a ilha terceyra, e tiralo em terra : e hi fa- leceo como muyto bomChristão que era. E ele falecido, partiose Vasco aa gama pera Portugal, e chegou a Belem em Se- tembro do anno de mil e quatrocentos e nouenta c noue , auendo dous annos e dous meses que dali partira com cento e coren- ta e oyto homens de que não tornarão mais que cincoenta e cinco , e ainda forão muytos pera os immensos trabalhos que passarão , de brauas tormentas e terriueis doenças, e daqui mandou Vasco da ga- ma
Liu. I. Cap. XXIX. 1Ç7 ma recado a elRey dom Manuel que era chegado. E recebendo elRey contentamen- to grandíssimo coesta noua , mandou a dom Diogo da silua de meneses conde de Portalegre que fosse por ele com muytos fidalgos , como foy, e lio leuou ao pa^o onde não podiao chegar com a multidão da gente que acodia a ver cousa tao noua como lhes parecia Vasco da gama , assi por ter feita bua cousa tamanha como era descobrir a índia, como por cuydarem to- dos que era morto, e elRey lhe fez tan- ta honrra como merecia quem com aque- le descobrimento daua tanta gloria ao eterno Deos e a ele immenso louuor e fa- ma por todo ho mundo, e proueito aos reynos de Portugal. E em galardao de ser- uiço tão assinado como este foy lhe fez elRey merce de dom, e lhe deu por ar- mas as armas reais de Portugal: e de tre- zentos mil réis de tença na dezima do pescado na vila de Sinis com promessa de 10 fazer senhor dela, por quanto era da- li natural : e em quanto lha não podesse dar lhe daria quatrocentos mil réis de ten- ça. E despois que ouue em Lisboa casa da índia lhos passou a ela: e que assen- tandose trato em Calicut podesse lá carre- gai" duzentos cruzados despeciaria sem pa- gar nenhuns dereytos em Portugal, e deu- ihe
ijS Da Historia da India lhe hum aluará de lembrança de ho fazer conde : e assi lhe fez outras merces que serião largas de contar. E por este nouo descobrimento , acrecentou elRey dom Ma- nuel a seus ritulos outros muyto famosos, como sam senhor da conquista, nauegação e comercio de Ethiopia , Arabia, Persia e da Índia. C A P I T O L O XXX. De como Pedraluarez cabral foy por ca- capitãoi nór de híta armada a Calicut. VEndo elrey dom Manuel a muyto grande merce que lhe nosso senhor fizera em descobrir a índia , determinou logo de mandar lá hum fidalgo com hua grossa armada pera que assentasse amizade com elrey de Calicut , e assi hua feyto- ria naquela cidade onde ho feytor teuesse a fazenda que fosse necessária pera se hi gastar , e lhe carregasse despeciaria as naos 3ue a leuassem : e assi determinou de man- ar quem lá pregasse a ley euangelica , assi pera reformação dos Christaos que lá ouuesse , como pera trazerem em conheci- mento dela os gentios. E pera assentar esta amizade com elrey de Calicut e feytoria ; es-
Liu. I. Cap. XXX. 15-9 escolheo a hum fidalgo chamado Pedral- uarez cabral, que fez capitão mòr darma- da que auia de mandar a Calicut que foy de aez naos e tres nauios redondos, cujos capitães a fora ele forão Sancho de thoar que ya na sua subcessão , Niculao coelho, Aires gomez da silua , Simão de miranda dazeuedo, Vasco dataide , Pero dataide , Simão de pina , Nuno leytao , Bcrtolameu diaz, e Diogo diaz seu irmão: que auião de ficar emcofala com híta feytoria que se auia hi de fazer: de que auia de ser fey- tor hum Afonso furtado. Y; nais por ca- pitães hum Gaspar de lemos e hum Luis pirez. E ya também com Pedraluarez ca- bral hum frey Anrique frade da ordem de sam Francisco grande letrado na sancta Teologia pera pregar: e yão coele cinco frades outros pera ho ajudarem. E ya por feytor desta armada hum Aires correa que também leuaua a feytoria que se auia de fazer em Calicut. E yão por seus escri- uães Gonçalo gil barbosa de santarem , e Pero vaz caminha. E forão feytos. pera esta armada mil e quinhentos homens : e chagado ho tempo de sua partida estando em restelo por elRey dom Manuel fazer honrra a Pedraluarez cabral foy em procis- são a nossa senhora de Belem leuandoho consigo e ho teue na cortina em quanto ou-
i6o Da Historia da India ouuio missa, em que pregou dom Diogo orriz bispo de viseu. E a mayor parte da pregação for?.o louuores de Pedraluarez cabra! por aceitar aquela ida : e acabada a missa ho bispo que a disse benzeo hua bandeira das armas reaes de Portugal que elRey deu por sua mão a Pedraluarez : e assi lhe pos na cabeça hum barrete ben- to que ho Papa lhe mandara. E deitando- lhe ho bispo a benção ho leuou elRey a embarcar , falando sempre coele ate ho mar : e hi lhe beyjarão Pedraluarez e os outros capitães a mão: e dandolhes elRey a benção de Deos e a sua se embarcarão nos bateis , desparando toda a artelheria da frota com grande arroido: e elRey se tornou a Lisboa por não poder a armada partir aquele dia polo estoruo do tempo, e ao outro que forão noue de Março de mil e quinhentos fez a capitaina sinal ás outras que se leuassem , o que logo fize- rao : e posta toda a frota á vela sayo aquele dia de foz em fora , e proseguio sua viagem , e aos quatorze de Março ouue vista das Canarias e aos vinte dous passou pola ilha de Santiago , e aos vinte quatro se apartou dela com tormenta Luis pirez que arribou a Lisboa. CA-
Liu. I. 161 C A P I T O L O XXXI. Dt como coçobrarao quatro naos. DEsaparecida a carauela de Luis pi- rez esperou Pedraluarez cabral porela dous dias , e aos vinte quatro Dabril que foy derradeyra oytaua da Pascoa foy vista terra , e que era outra costa oposta a de Africa , e demoraua a loeste, e reconhe- cida a terra pelo mestre da capitaina que lá foy , mandou Pedraluarez surgir pera fazer agoada e a descobrir , e por ho por- to em que surgio ser bom , lhe pos nome porto seguro. E em terra forao tornados dous homens dos naturais dela , que por não se entenderem com nenhum dos lin- goas que Pedraluarez leuaua os mandou soltar vcstindoos primcyro á Portuguesa , pera que os outros soubessem que era gen- te de paz, e folgassem de ir á frota co- mo forão dali por diante , leuando muyto refresco, e sem nenhum medo entrauão nas naos , e por isso Pedraluarez . se dete- ue aqui alguns dias , e dia da Pascoela ouuio missa em terra , que foy dita em hua tenda com grande solenidade , e pre- gou frey Anrique , e cm quanto ho officio diuino foy celebrado se ajuntou muyta Liu. /. Tom. I. L gen-
162 Da Historia da India gentc da terra e fazião grandes festas , e despois de comer resgatado em terra com os Portugueses dos mantimentos que auii na terra , e barretes, e chapeos de penas daues muyto fermosas , e alguns Portu- gueses forão ver as suas pouoações , e vi- rão a terra muyto viçosa daruorcdo , e fresca com muytas agoas , e abastada de muytos mantimentos , e de muyto algo- dão, e por esta terra ser a que agora se chama Brasil, que he de todos bem sabi- da não digo dela mais : e em oyto dias que Pedraluarez aqui fez de detença foy visto hum peixe que ho mar deitou íóra, que era da grossura dum tonel , e era de comprimento de tres varas e mea , e era redondo, tinha a cabeça e os olhos como de porco , e as orelhas Dalifante, não ti- nha dentes , e tinha rabo do comprimento dum cauallo. Nesta terra mandou Pedral- uarez meter hum padrão de pedra com húa Cruz , e por isso lhe pos nome terra de santa Cruz, e despois se perdeo este nome e lhe ficou ho do Brasil por amor do pao brasil: desta terra mandou Pedral- uarez a Gaspar de lemos na sua carauela com cartas a elRey dom Manuel, em que dizia ho que lhe ateli tinha acontecido , e mandoulhe hum homem daquela terra, e ao outro dia que forao tres de Mayo par-
Liu. I. Cap. XXXI. 163 tiose Pedraluarez cabral com toda a frota, leuando a róta do cabo de Boa esperan- ça , faziáo dali a mil e duzentas legoas , e he hum golfão muy temeroso , por amor dos brauos ventos que quasi ali sempre cursao. E nauegando por eles aos doze de Mayo apareceo no ceo da parte do orien- te hiia cometa que durou dez dias, e sem- pre de cor de fogo : e despois a hum sa- bado vinte tres de Mayo deu em toda a frota hua trouoada de nordeste , com que todos tomarão as velas , e correrão quasi todo aquele dia aruoreseca com lio mar muyto grosso, e sobre a tarde alargou ho vento, com que derao algua6 velas e fi- -zerão caminho , e assi fòrao ate I10 dia seguinte, que tornou I10 vento a esforçar, com que todos mesurarão as velas e agar- rucharão os papafigos, eantre as xj. e do- ze horas do dia comcçouse darmar hum bulcão da parte do noroeste , com que acalmou I10 vento que cairão as velas so- bre os mastos. E como ainda os pilotos não sabião os segredos daqueles bulcões, cuydarão que era calmaria verdadeyra e deixauanse estar , senão quando sobreuem hum peganho de vento tão furioso, que não deu tempo pera amainarem , e çoço- brou quatro naos sem escapar delas pes- soa algua, de que erão capitães Bertola- L ii meu
164 Da Historia da India meu diaz, Aires gomez da silua , Simão de pina, e Vasco dataide, e as sete fica- rão meas alagadas , e ouuerao de çoçobrar se lhe não rompera ho vento as velas , e saltandolhes logo ho vento ao sudueste arribarão coele , e por ser muyto correrão aruoreseca ate o outro dia , que abran- dando ho vento se ajuntarão as naos que yão espalhadas , e porem tornou logo a tromenta com que ho mar se embreueceo muyto mais que dantes , e durou vinte dias continos com que a frota correo ar- uoreseca , e andaua ho mar tão grosso que parecia impossiuel escaparem as naos de serem comidas , porque as ondas se le- uantauão tão altas que parecia que as pu- nhão nas nuuens e despois no abismo: com os vales que se abrião , e de dia era a agoa de cor de pez , e de noyte de cor de fogo , e o arroido que faziao as enxár- cias era muy medonho, e tudo era tão es- pantoso que ho não pode crer senão quem ho vir , e com a força do vento se apartarão as naos, e com Pedraluarez foy Simão de miranda, e Pero dataide , e Niculao coe- lho. E Nuno leytão, com Sancho de thoar, e Diogo diaz arribou só , c o que lhe aconteceo direy adiante. Ç A-?
L i v. I. CAPITOLO XXXII. De como Pedraluarez Cabral se vi o com elrey de Quilocu PRosseguindo Pedraluarez Cabral com aqueles dous capitães que arribarao coele passando ainda muytas tromentas, se achou com o cabo de Boa esperança dobrado, e escorrendo çofala , ouue vista das ilhas primeyras. A cuja sombra esta» uao duas naos' de mouros que leuauão ouro de çofala, que despois de tomadas pelos capitães da armada , soube Pedral- uarez que eram dum primo delrey de Melinde, que ya nelas , e por isso lhas tornou sem tomar delas nada , antes por ser primo delrey de Melinde lhe fez muyta honrra. E partindo daqui aos vinte de Julho chegou a Moçambique, e feyta agoada e tomado piloto , tornou a sua viajem caminho de Quiloa , que he hua ilha na costa de Ethiopia cem legoas auante de Moçambique , he terra muyto viçosa dortas que dam muyta fruyta e ortaliça, e em que ha muy boa agoa , colhense nela muytos ligumes , e assi muyto mi- lho, tem grande criação de gado grosso e miúdo, e ho mar lhe dá muyto e bom pes-
166 Da Historia da India pescado , está em noue grãos da banda do sul , tem htía cidade chamada Qui- loa , grande e populosa pera aquelas par* tes, de casas de pedra c cal ae muytos sobrados , e pouoada de mouros. Os na- turays da terra sam pretos , e os estran- jeiros brancos, todos falão arabia , e tra- tanse bem no vestido, principalmente as molheres , que andao muy arraiadas de pe- ças douro , sam os mais mercadores de grosso trato , que a este tempo era a mayor parte dele em ouro que auiao de çofala , e dali se espalhaua por Arabia fe- Iix e outras partes , de que aqui acodião muytos mercadores , de cujos nauios lio porto estaua sempre muy ocupado, e es- tes sam cosidos com cairo , e breados com encenço brauo , por não auer na terra breu. Ho inuerno desta terra começa em Abril e acaba em Setembro. Chegado Pe- draluarez ao porto desta cidade chegarão também os outros capitães que se aparta- rão dele, com ho grande temporal que disse atras , e despois de chegados viose Pedraluarez com efrey de Quiloa. Ele es- taua em hum batel toldado e embandeira- do e com suas trombetas, acompanhado dos capitães da frota , e outra gente no- bre , todos vestidos de festa. E elrey foy muyto acompanhado em muytas almadias, com
Liv. I. Cap. XXXII. 167 com grande arroido de trombetas , bozi~ nas de marfim , e anafis, e em chegando ao batel de Fedraluarez, desparou a arte- Iharia da frota , de que elrejr e os seus ouuerão grande medo, polo nao terem em costume , c despois de ele , e Fedraluarez se receberem , e ele ver a carta damizade, que lhe elRey dom Manuel escreuia , e so- bre ter trato em sua terra, disse que era contente, e que ao outro dia fosse a terra quem lhe dissesse as mercadorias que que- ria. E este foy Afonso furtado , que ya por feytor pera çofala. Mas elrey induzi- zido pelos mouros estranjeiros , a que pe» saua de os Portugueses ali tratarem, não quis comprir nenhtía cousa do que assen- tara com Pedraluarez , escusandose com dizer que não tinha necessidade de suas mercadorias. E por Pedraluarez lctrar por regimento que lhe não fizesse guerra , não lha quis fazer, e partiose pera Me- linde. CA- i -
i68 Da Historia da India C A P I T O L O XXXIII. De como ho capitão mór Pedraluarez Ca- bral se vio com elrey de Melinde. E Partido daqui foy surgir no porto de Melinde ao dous dias Dagosto, e por amor delrcy de Melinde nao quis to- mar tres naos de mouros de Cambnya que hi estauao carregadas de muyta riqueza. E sabendo elrey que estaua ali, ho man- mandou visitar por dous mouros honrra- dos , mandandolhe muytos patos , gali- nhas e carneiros , e outros refrescos , man- dandoselhe offrecer pera tudo ho de que teuesse dele necessidade, porque era ta- manho amigo delRey de Portugal, que ti- nha por suas as suas cousas. Pedraluarez lhe mandou logo por Aires eorrea hua carta delRey dom Manuel, e hum arréo de gineta que lhe leuaua de presente com outras peças ricas, e foy com grande ma- gestade de trombetas diante , e acompanha- do de muytos homens vestidos de festa. E elrey ho mandou receber com grande solenidade com que foy leuado ao paço, onde foy recebido delrey com muyta honr- ra E dandolhe Aires correa ho presente que lhe leuaua , esteueho vendo peça e pe-
Liu. T. CAP. XXXIII. 169 peça , e preguntando polo nome de cada nua, c despois mandou ler a carta que lhe Aires correa deu delRcy dom Manuel, escrita de hua parte em arabigo, e da outra em Português: e com licença de Pe- draluarez ficou Aires correa com elrey a seu rogo , e em tres dias que la esteue lhe preguntou elrey muy largamente por elRey dom Manuel, e pelo modo de sua gouernança, e poios costumes de seus Rey- nos. E elrey quisera que Pedraluarez fora a terra folgar pêra ho ter por seu ospede , e por se ele escusar disso elrey ho foy ver ao mar , ate onde foy em hum caua- lo ageazado do arréo que lhe lcuou Ai- res correa. E nesta vista deu elrey hum piloto a Pedraluarez que ho leuasse a Ca- licut , e lhentregou dous degradados pê- ra que se enformassem do sertão daquela terra ate ho estreito, e hum deles foy João machado , que aproueitou despois tanto aos Portugueses como se conta no Liuro Terceiro.
i7o Da Historia da India C A P I T O L O XXXIIII. De como bo capitão mor Pedraluarez Ca- bral , chegou a Calicut. D Aqui se partio ho capitão mór Pedral- uarez caoral pera Calicut aos sete Dagosto e aos vinte dous chegou a Anje- diua, e hi se deteue alguns dias com es- perança de tomar naos de mouros de Me- ca , que ali yão fazer naquele tempo agoa- da, e aqui se confessarão e comungarão todos os da armada. E partindo daqui foy surgir ao mar , hiía legoa de Calicut, a treze de Setembro: e os da terra lhe fo« rão logo vender mantimentos. E elrey ho mandou logo visitar, com palauras dami- zade, rogandolhe que entrasse. E como ele não podia assentar amizade com el- rey sem falar coele , determinou de ir a terra , pera o que lhe mandou pedir por Afonso furtado arrefens logo nomeados, s. ho Catual, e hum naire chamado Araxa- menoca, e outro. E tanta foy a dificul- dade em os dar que se gastarão tres dias antes de consentir nisso. Porque os mou- ros a que pesaua muyto desta vista pelo efeito dela , trabalhauão quanto podião com elrey que não desse os arrefens, di- zendolhc que não fizesse tal cousa , que se
Liu. I. Cap. XXXII1I. 171 se os desse ficaua nisso desonrrado , por- que parecia que Pedraluarez nao se tia.— ua dele , o que era grande abatimento de sua pessoa. E com tudo elrey deu os arrefens , pondo primeyro em condição que auião de partir eles de terra em Pe- draluarez abalando da frota. Isto concerta- do aos dezoyto de Setembro se foy Pe- draluarez a terra leuando consigo trinta desses principays da armada todos vesti- dos de festa que auião destar coele em quanto esteuesse em terra , e leuaua sua cozinha , copa e cama , porque auia destar com grande estado , conforme ao cargo que leuaua , e acompanhauanno todos os capitães da frota em seus bateys , que yão todos de festa. E ao mar ho forão rece- ber por mandado delrey de Calicut muy- tos nayres com muytas trombetas e outros instormentcs alegres e era todo ho mar cuberto de bateys , tones e almadias. E nisto forao leuados os arrefens á nao de Sancho de thoar , que chegados entra- rão com grande dificuldade pelo re- ceo que tinlião de os catiuarem, e chega- do Pedraluarez a terra achou gente sem conto que I10 estaua esperando : e do ba- tel foy tomado em hum andor que elrey mandou pera isso , e foy lcuado a hum jarame , que he casa terrea de madeyra que
171 Da Historia da India que elrey mandou fazer pera se verem j por Pedraluarez não ir aos seus paços que era longe. Ho çarame estaua todo alca- tifado , e no cabo estaua hua capela pe- quena em que elrey estaua assentado em hum estrado rico com hum dossel de ve- ludo carmesim. Tinha cingido hum pano dalgodao branco finíssimo , com muytas . rosas douro que ho cobria da cinta ate os giolhos, e todo ho mais estaua nú, tinha na cabeça húa cousa de brocado feyta a modo de capacete antigo , nas orelhas ti- nha arrecadas de diamantes e pérolas fi- nas , os braços cheos de manilhas douro dos cotouelos ate ás mãos com pedraria sem conto de muyto preço, c ho mesmo tinha nas pernas , e cubertos daneis os dedos das mãos e dos pés de fina pedra- ' a no dedo pole- grande, que luzia como brasa. E toda es- ta pedraria não era nada em comparação da que tinha em hua cinta que era cousa sem preço. E de todos os membros de seu corpo em se bolindo reberuerauao rayos. Estaua junto coelc hua cadeira real antiga toda de prata e douro laurada de pedraria, e da mesma maneyra era hum andor em que elrey fora leuado ao çara- me, ho cospidor em que cospia era de com hum robi
Liu. I. Cap. XXXIIII. 17j ouro, e do mesmo ouro estauao ali muy- tos perfumadores , de que sava muyto sua- ue clieyro. E por estado tinna acesas seys tochas mouriscas douro. Estauao no çara- me vinte trombetas , de que dez e sete erao de prata e tres douro. Seys passos deste lugar em que elrey estaua, estauao dous irmãos seus que se chamao principes , porque herdao ho reyno: e mais affasta- dos estauao caymaeis panicaeis e outros grandes, e todos em pé. C A P I T O L O XXXV. De como Pedraluarez Cabral falou a el- rey de Calicut. ENtrado Pedraluarez cabral neste çara- mc onde elrey estaua foy espantado de seu grande estado , e feyta sua reue- rencia ao nosso modo, fezlhe elrey muy- to gasalhado com ho rosto , e mandouno assentar junto dos principes, que era a mayor honrra que se lhe podia fazer. E assentado deu hua carta ao lingoa que a desse a elrey, que lha mandaua elRey dom Manuel escrita em lingoa Arabic», e em Português , feyta por hum fidalgo chama- do Duarte galuão. £
174 Da Historia da India E dec:/a. GRande e de muito poder Principe çatnorim, per merce Key de Calicut. Nós dom Manuel por sua diuina graca Rey de Portugal ' ' ' > mos muyto saudar, como aquele que muy- to amamos e prezamos. Deos todo pode- roso, começo, me o e fim de todas as cou- sas , por cuja ordenança cursam os dias, tempos e feytos humanos , assi como por sua infinita bondade criou ho mundo e ho rerhio per Christo Jesu nosso saluadòr. Assi em seu grande e infinito saber or- denou muytas cousas pera os tempos que auião de vir, pera bem e proueito da ge- ração humana , inspirando polo Spirito sancto nos corações dos homens, quando aquelas cousas que por homens auião de ser feytas fossem postas em obra em tempos por ele limitados , e não antes nem despois. E por isto ser assi verdade e conhecida por experiência , se como sam e verdadeiro juyzo quiserdes considerar a grandeza e nouidade e mistério da ida de nossas gentes e nauios que forão a vós e a essas vossas terras. Deueys de fazer nessas partes Doriente, o que todos fa- A.frica Senhor
Liu. I. Cap. XXXV. 175" zemos nestas do Ponente , que he darmos muytos louuores ao senhor Deos, porque em vossos dias e nos nossos fez tanta merce ao mundo, que por vista nos po- dessemos saber e ver e conhecer , e ajuntar e vizinhar por conversação, es- tando as gentes dessas terras e destas tão afastadas huas das outras do começo do mundo ategora , e tão sem cuydado nem esperança disto, que ho senhor Deos quis que fosse, inspirando auerá sessen- ta annos em hum nossoTio Vassalo nosso chamado ho Ijfante dom Anrrique, Prin- cipe de virtuosa vida e sane tos costumes, que por seruiço de Deos tomou proposito inspirado por'ele de fazer esta navega- ção , e poios Reys nossos antecessores foy ategora prosseguida. E querendo nosso senhor far lhe ho fim por nós desejado , quis que estes nossos que ora lá forão de húa só viagem fizessem outro tanto caminho ate chegar a vós, quanto estaua feyto nas viagens passadas de sessenta annos. Sendo eles os primeyros que pera lá mandamos tanto que por graça de Deos tomamos ho regimento de nossos Reinos e Senhorios. Assi que ainda que esta cousa seja feyta per homens , não se deue de julgar senão por obra de Deos a cujo poder he possiuel o que os homens não
176 Da Historia da India vão podem fazer. Porque do principio do mundo ouue em Oriente e em Occidente muy poderosos Reys e Príncipes, de que contão estoriadores terem grandes desejos pera fazerem esta navegação : e leuarao nisso muyto trabalho: e não quis nosso Senhor darlhe poder pera isso como ago- ra nos deu , por ser assi sua vontade. E poys em quanto Deos não quis que is- to fosse não teuerão os passados poder pera ho fazerem , não deite ninguém de cuydar que agora que ho ele quis ho pos- são homens contrariar , sendo agora muy- to mayor injuria contra Deos querer re- sistir d sua vontade tão manifesta do que dantes era perfiar contrela, que não era sabida , e antre as causas porque principalmente damos muytos louuores a nosso Senhor neste Jeyto , he por nos ser dito que ha nessas partes gentes Chris- taãs , que foy e he ho nosso principal de- sejo , pera nos concertarmos comuosco em amizade, amor e conformidade, como ha antre os Reys Christãos, porque bem he de crer que não ordenou ho òenhur Deos tao marauilhosa cousa como he esta nos- sa ntiuegacâo pera ser somente seruido nos tratos e proueitos temporays dantre nós: mas também nos spirituaeis e sal- vação das almas que mais deuemos de es~
Liu. I. Cap. XXXV, 177 estimar e de que ele he mais seruido, pera que a sua sancta fé seja communi- cada autre nós como ho foy por todo ho mundo bem seyscentos annos despois da vinda de jesu Christ o seu filho ate que por peccados dos homens nacerao algúas seytas e heresias contra a fé Christaã, que fesu Christ o disse primeyro que vies- sem , peru proua dos lions e jiera cond:- naçao dos maos que não auião de crer a verdade pera serem saluos. E estas sey- tas e heresias occuparão autre essas vos- sas e nossas terras muyta parte da ter- ra , por onde se impedio a auer por terra communicaçao das gentes de cá com as de lá, que agora se pode ter coesta nauega- çao, que foy descuberta por Deos a que nada he impossiuel. E conhecendo nós tu- do isto, e desejando de prosseguir e com- prir como deuemos o que nos ho muy al- to Deos todo poderoso mostra ser tanto sua vontade , mandamos agora lá nosso capitão com tiaos e mercadorias, e nosso feytor pera que lá fique , e estê com vos- so aprazimento. E mandamos pessoas re- ligiosas e doutrinadas na fé e religião Christaã, pera que celebrem ho officio di- uino, e menistrem os sacramentos, pera que possais ver a religião e fé que te- mos , que foy instituyda per Jesu Cirri s- Liu. L Tom. L M to
178 Da Historia da India to nosso saluiidor: e dada a doze aposto- los e a seus discipo'os , per que foy ge- ralmente pregada despois de sua sane ta resurrei cão e recebida em todo bo mundo li d)us destes apostolos. s. sam Thome e som Bertolameu pregar ao nessas vossa partes da índia, fazendo muytos grandes mi a- grcs , tirando essas "gentes do erro da gentilidade e idolatria em que todo piun- 'do estaua dantes, e conuertendoas d ver- dade da sancta fé Christaa , que também cá foy pregada por alguns de seus após- tolos : e consideradas estas cousas e as rezoes que ha per a crermos que esta nos- sa nauegaçao e ida de nossas gentes a vós foy por vontade do muyto alto Deos : vos rogamos como Irmão que vos quei- rais conformar com seu querer e vonta- de, e por fazerdes vosso proueito e de vossas terras as si espiritual como tem- poral tenhais por bem de receber nossa amizade, e de ajuntar a vossa comnos- co , e assi trato e conuersaçao que vos tão pacificamente apresentamos per a ser- uiço de nosso Senhor : e queirais rece- ber e tratar a nosso capitão e gente com aquele, são e verdadeiro amor^ que volos mandamos : porque em rezao do- mens cabe folgardes muyto com gente que de tão longe vay buscar vossa amizade, con-
Liu. I. Cat. XXXV. 179 conversação e trato, e que vos leva tan- to proveito de nossas terras , que^ não podereis auer mais doutra r nenhuas , posto que por algtias vontades danadas , que nunca falecem achássemos em vós ko contrairo: o que per tcda rezão não po- demos esperar de vossa virtude. E corn tudo nosso proposito he seguir a vonta- de de nosso senhor Deos todo poderoso, antes que a dos homens, e não deixar- mos por nenhuas contrariedades de pros- seguir e continuar esta navegação , tra- to e conversação nessas terras , tendo esperança em nosso Senhor que nosso tra- balho nao seja debalde , porque firmemen- te cremos e esperamos , que pois ele fez essas terras e volas deuia possuir e a gente dela, ele ordenará como no seu se faça sua vontade. E como não faleça quem nelas acolha e receba nossa amiza- de , e nossas gentes que lá vão tanto por sua vontade , e a que marauilhosãmente abrio caminho e deu poder pêra irem a elas e ele mesmo he sabedor quanto dese- jamos que seja antes por boa paz e ami- zade. E a ele praza daruos sua graça pera conhecerdes e obrardes as cousas de sua vontade e sancto seruico. E acerca desto crede e day fé a Pejraluarez ca- bral, fidalgo de nossa casa , e nosso ca- M ii pi-
i8o Da Historia da T nt d i a pitão mor em todo o que de rtossa parte vos falar , requerer e co nuosco tratar. De Lisboa ho primeyro de Março de mil e quinhentos. Dada esta carta a elrey foylhe logo lida pelo lirigoa , e despois lhe deu Pe- draluarez hum presente que lhe mandaua cl Rey dom Manuel , que era destas pe- cas. Hum bacio de prata dagoa ás mãos de bestiães dourado , e hum agomil e hua copa com sobrecopa. Duas maças de pra- ta. Quatro almofadas destrado, duas dc brocado e duas de veludo carmesim. Hum esperauel de borcado broslado de veludo carmesim. Hum tapete muyto fino , e dous panos darmar deras , hum de figuras, ou- tro de verdura. Elrey mostrou que folga- ua muyto coestas peças , e preguntou de que seruia cada hua. E despois disse a Pe- draluares que se fosse pera sua pousada ou pera a frota se quisesse : porque era necessário mandar polos arrefens que esta- uão no mar pera comerem em terra, por seu costume lhe defender que ho nao fi- zessem lá. E Pedraluarez lhe disse que ainda que mandasse pedir os arrefens os nao auião de dar porque auiao de cuydar que era recado falso. Ao que elrey disse que se tornasse á frota e que lhe mandas- se
Liu. I. Cap. XXXV. 18r se os arrefens : e que ao outro dia torna- ria pera assentarem ho trato que eiRey de Portugal queria ter em Calicut. Do que Pedraluarez ficou muyto agastado porque lhe pareceo aquilo desprezo , e teue a elrey por homem incostante. C A P I T O L O XXXVI. Do que aconteceo a Pedraluarez cabral em Calicut. EM quanto Pedraluarez esteue falando com elrey de Calicut desejando os mouros de auer reuolta antreles, porque não ouuesse effeito ho trato que Pedralua- rez queria assentar em Calicut : fizerão com num escriuão da fazenda delrey que fosse á frota a pedir os arrefens da parte de Pedraluarez: e Aires correa não os quis dar , porque ele deixara dito que posto que lhos pedissem da sua parte que os não desse. E estando nesta pratica ho es- criuão do mar em hua ulmadia e Aires correa do bordo da nao , os arrefens polo que lhes ho escriuão disse lançaransc ao mar pera se acolherem na almadia e tugi- rem , o que fora se lhe Aires correa não acodira muyto prestes no esquife da nao com alguns marinheiros que tomarão Ara- xa-
182 Da Historia da India xamenoca e outro , c assi quatro malaba- res : mas ho Catual fugio. E em Pedral- uarez saindo do çarame soube o que pas- saua por hum Português : e com ho agas- tamento que trazia delrey , e com o que isto lhe deu não teue acordo pera recolher o fato que tinha na sua pousada, nem Afonso furtado que lá estaua com sete Portugueses, e embarcandose com grande pressa tirou caminho da frota á força de remo, e entrado na capitaina mandou lo- go meter Araxamenoca e ho outro debai- xo de cuberta , porque não fugissem, e mandou fazer queixume a elrey do escri- uão pola reuolta que fizera: mandandolhe dizer que lhe não auia dc mandar os ar- refens se lhe não mandasse os Portugue- ses e I10 fato que deixara em terra. E por ser noyte quando este recado foy a elrey ficou a cousa assi. Porem elrey não deu nenhum castigo ao cscriuão , nem mandou nenhua desculpa a Pedraluarez , senão mandoulhe ho seu fato com os Portugue- ses. E os que lhos leuauão nunca ousarão de chegar á frota com medo que os to- massem , pelo que ao outro dia mandou Pedraluarez os arrefens por Aires correa, que os entregasse aos Malabares afastados da frota , e estando juntos huns , e outros pera fazerem esta entrega, saltou Araxa- me-
Liu. I. Cap. XXXVI. 185 menoca nagoa pera fugir, mas não pôde , que hum marinheiro ho apanhou pelos cabelos e deu coele no batel, e ho outro fugio nesta volta, e acolheose aos Malaba- res. E Afonso furtado com cinco Portu- gueses teue tempo defiigir pera Aires cor- rea que se tornou d capitaina e contou a Pedraluarez ho que passaua , que estaua muy espantado da pouca verdade dos Ma- labares e inais dclrey , a que os mouros nao deixauão de matinar com repetirem muytas vezes os males que lhe tinhao di- to dos Portugueses: e fazendolhe crer que se forao pera paz, que não lhe pedirão aiTcfcns , e se narão dele como fazião to - dos os mercadores , e sem mais cautela fora Pedraluarez a terra e assentara trato, mas por ir de guerra pedia arrefens pera se segurar. E coisto passarao tres dias sem elrey mandar nenhum recado a Pe- draluarez , que auendo dó Daraxa mcnoca por auer tantos dias que não comia ho mandou a elrey liuremente , e ele lhe man- dou os dous Portugueses que ainda esta- uão em terra, e I10 seu fato. E despois com prazme delrey , que deu em arreiens dous mouros honrrados netos dum mouro Guzarate, foy Aires correa a terra pera assentar feytoria , que assentou com licen- ça delrey, a que disse que elrey de Por-
i4 Da Historia da India tugal teria sempre nela outras tais mer- cadorias como os Mouros de Meca leua- uão a Calicut: e nesta pratica lhe pro- meteq elrey de lhe fazer carregar as naos em vinte dias, e que a sua carrega seria primeyro que a de nenhuns estrangeiros , porque deixaria todos por dar amamento a elRcy de Portugal , e mandou apousen- tar Aires corrca em htías casas do guzara- te auo dos arrefens, a que rogou que fos- se lingoa e corretor Daires correa , e ho instruísse no modo de comprar e vender daquela terra: ho que ele niío fez, por- que logo os mouros de Meca ho fizerão da sua parte com muytas peitas que lhe dcrao , e lhe faziao comprar a especiaria mass cara do que se vendia aos mouros , e fazialhe vender a mercadoria de Portu- gal por menos do que valia : e quando Aires correa auia de filar a elrey faziaho saber aos mouros pera que fossem presen- tes , e ho estrouassem no que podessem, e ho que Aires correa queria dizer a el- rey , mandauao ele ao reues, ecoisto nfio podia Aires correa aproueitar a fazenda da feytoria antes perdia muyto : e tudo is- to veo Aires correa a saber , per hum mouro chamado Cojebequim , homem muyto principal em Calicut, por ser ca- beça dos mouros naturaeis da terra, que Ji-
Liu. I. Cap. XXXVI. 1*5- tinhao bando contra os do Cairo, e do Estreito de Meca , de que era cabeça ou- tro mouro do Cairo que auia nome Coje çamecerim , que gouemaua as cousas do mar de Calicut, e por esta diuisam que auia antre estas duas nações de mouros , e ser Cojebequim cabeça de hum dos ban- dos , quis ele tomar amizade com os Por- tugueses pera se fauorecer coeles, e por isso tinha conuersação com Aires correa, e lhe descobrio a treiçao que ho Guza- rate lhe fazia , e mais que Coje çamece- rim a rogo dos outros mouros de Meca por cuidarem que fazião mal aos Portugue- ses , não deixaua ir á frota nenhum dos que estauao na feytoria: dizendo que as- si lho mandaua clrey que ho fizesse, c coessa cor não deixaua tornar á frota ne- nhum dos que dela yão a terra. Ho que sabido por Aires correa ho escreueo a Pe- draluarez , affeandolhe muyto ho caso, e e dizendo que lhe parecia que os mouros querião fazer algua treição : e cuydando Pedraluarez que seria assi, por se segurar se leuou do porto com toda a frota, e se afastou hum pouco pera ho mar onde sur- gio, do que se clrey espantou muyto , e sabido Daires correa ho porque ho fazia: disselhe que ele proueria como os mouros não fizessem mais ho que fazião dantes,
i86 Da Historia da India porque folgaua muyto de os Portugueses terem trato em sua terra : e segurando Ai- res correa quanto pode se tornou Pedral- uarez ao porto, e elrey tirou de corretor e lingoa Daires correa lio mouro Guzara- te polas falsidades que fazia , e deu ho mesmo carrego a Cojebequim , por saber que era amigo Daires correa , a quem pê- ra que vendesse melhor a fazenda da fey- toria deu buas casas de Cojebequim que estauao junto do mar: e fez delas doação peru sempre a elRey de Portugal pera ter ali sua feytoria : e a escritura disso foy feyta em hua folha douro batido. E por que todos soubessem que ali era a feyto- toria dei Rey de Portugal, mandou a Aires correa que posesse sobrela hua bandeira das armas Reais , e assi se fez , e dali por diante ho fauorecia muyto , e por isso os da terra tinhão grande amor aos Por- tugueses , e tinhão coeles muyta conuer- sação. CA-
Liu. I. 187 C A P I T O L O XXXVII. De como Pedraluarez cabral, mandou to- mar húa nao per a elrey de Calicut. DUrando esta conuersação antre os Portugueses e os Malabares , mandou elrey dizer a Pedraluarez cabral, que ele mandaua comprar hunt Alifante a hum mouro de Cochim chamado Patemarcar , e não lho quisera vender dandolhe por ele tanto quanto outrem lhe podia dar , e afo- ra nao lho querer vender lhe mandara di- zer alguas descortesias , e antrelas fora que mandaua o Alifante a Cambaya , e^ auia de passar á vista de Calicut que lá lho podia mandar tomar poios Portugueses em que confiaua muyto: pedindolhe que pois a nao auia de passar á vista de Calicut que lha mandasse tomar, porque compria muyto á sua honrra tomarse. Pedraluarez como tinha a elrey por inconstante , re- ceaua que não lhe desse a carrega como lhe tinha prometido , fazia conta de ir carregar a Cochim , e por isso desejaua destar bem com elrey de Cochim , pelo que se lhe fazia graue de tomar a nao , re- ceando de ho anojar nisso, e assi ho dis- se aos capitães cm hum conselho que so- bris-
188 DA Historia DA INDIA brisso teue : e eles lhe conselharão que com tudo era necessário tomarse a nao, pera elrey ter credito nos Portugueses. E por isso mandou Pedraluarez fazer prestes a Pero dataide no seu nauio , e deulhe sessenta homens, e mandou a hum fidal- go chamado Duarte pereyra pacheco que fosse coele , e a outro que auia nome Vas- co da silucira , ambos valentes caualeiros. E hum sabado ao meo dia apareceo ao mar a nao de Cochim que leuaua ho Ali- fante que era muyto grande , e leuaria trezentos mouros de peleja. Elrey de Ca- licut que ainda não sabia como os Portu- gueses pelejauão , quando soube que vinha a nao saio á praia pera ho ver , cuydan- do que auia air toda a nossa frota a pe- lejar com a nao. E quando vio ho nauio de Pero dataide que era muyto pequeno, e soube que aquele só auia de pelejar com a nao teueo por escárnio, e cuydando que Pedraluarez ho fazia dele, lhe mandou di- zer , que se lhe auia de mandar tomar a nao como lhe tinha prometido , que mandas- se outras naos , e nao aquela tamanina : ao aue Pedraluarez respondeo que ele sa- ' ' bia bem hoque fazia, e que aquela abas- taua pera tomar outra muyto maior que aquela , e pera saber ho que os Portugue- ses fazião, e como pelejauão, que man- das-
Litr. I. Cap. XXXVII. 187 dasse coeles alguns mouros pera que os «r vissem, e ainda que elrey nao ficou satis- feito coesta reposta, mandou hum mouro com Pero dataide, que ya á vela apos a nao , e por se deter em tomar ho mouro, se alongou a nao muyto dele: a que tor- nou a seguir ate á noyte que lhe desapa- receo , e perdendoa da vista pareceolhe que surgeria junto da terra e por isso foy costeando , e ao quarto dalua foy dar com a nao , que estaua dando á vela , e arribando sobrela posto a sotauento man- dou aos mouros que amainassem , e eles como que zombauao dele derão hua gran- de grita, e tocarão seus instormentos , e tiraranlhe frechadas sem conto : e os Por- tugueses vendo isto lhe derao hua surria- da de bombardadas , e hua dum camelo lhe fez na proa ao lume dagoa hum bura- co com que lhe entrou muyta agoa , e as ou- tras matarão alguns mouros, e os nauios com medo doutra tal arribarão a Cananor, e metcranse já bem de dia em hua baya que tem, e posseranse antre quatro naos outras, a que chamão meter em concha: Pero dataide entrou na baya e mandou es- bombardear as naos , e quasi que as tinha rendidas se lhe não valerão certos paraós de mouros, com que pelejando os Portu- gueses deixarão as naos e os paraós tam- bém
190 Da Historia da India bem forao desbaratados se lhe não anoy- tecera : do que os mouros de Cananor e vv outra gente que forão ver a peleja estauão espantados , Pero dataide como foy noyte de todo que não pode pelejar, saiose da baya pera ho mar, porque lhe não quei- massem de noyte ho nauio , e achou que lhe não tinhão feridos mais de noue ho- mens , pelo que determinou com conselho, ue pois não podia meter a nao no fiindo e a aferrar , posto que fosse contra ho regimento que leuaua, que era não aferrar a nao mas metela no fundo, e como foy manhaã tornou a entrar na baya, e achan- do que os mouros dauão 3 vela pera se acolherem, mandou desparar sua artelha- ria , com que arrombou a nao ao lume dagoa , e vendo os mouros que não tinhão saluação renderanse , e a nao ficou em po- der dos Portugueses : do que a gente de Cananor que estaua na praya ficou muyto triste , e os Portugueses os fizerão despejar ás bombardadas. Feyto isto partiose Pero dataide pera Calicut leuando a nao e chegou lá ao outro dia. E elrey foy á praya auer a nao , que teue por muyto grande façanha tomarse por tão poucos Portugueses, e fi- carem todos viuos. E Pedraluarez mandou dar a elrey a nao com ho Alifante que cie queria e outros que se acharão nela, e
Liú. I. Cap. XXXVII. 191 e assi todo lio mais: mandandolhe dizer , que não teuesse por muyto tomarem tão poucos Portugueses aquela^ nao , porque outras cousas mayores farião por seu ser- uiço : do que lhe elrey mandou muytos agradecimentos, e por seu rogo lhe man- dou Pedraluarez , Pero dataide , Duarte pa- checo, Vasco da silueira , e outros dos que forão na tomada da nao porque de- sejou de os ver , e a todos fez muyta honrra e merce. E vendo elrejr que tao Íoucos Portugueses tomarão 'tão asinha ua nao a tantos mouros , lhes ouue dali por diante tamanho medo que desejou de os ver fóra de Calicut , receando que lha tomassem. C A P I T O L O XXXVIII. Do que passarão os mouros de Meca com elrey de Calicut , e de como se leuati- tarâo contra os Portugueses que estauao em terra. COm a tomada desta nao se ouuerâo os mouros de Meca por muy afron- tados , e ficarão muy descontentes delrey , porque fazia tanta conta dos Portugueses que os tomaua pera vingadores de suas oífensas, ho que era em seu desprezo, e temerão que teuessem os Portugueses tan- ta
192. Da Historia da India ta valia com elrey que lhes fizessem per- der a sua que era muyto grande, em tan- to que mandauao os Gentios como se- nhores da terra, e lhes tomauao a pimen- ta pelo preço que queriao , sem efes ou- sarem de lhes contradizer: e tão sogeitoi lhes erã o que muytas vezes não ousauão de sair das casas com medo deles, e por estas opressões que tinhão querião mayor bem aos Portugueses que a eles, e folga- uão de lhes vender antes a especiaria que a eles, mas não ousauão com medo: e os mouros que lio entendião, e vendo que também elrey fazia conta dos Portugueses, e mandaua que carregassem primeyro que rodos os estrangeiros , deranse por desua- lidos e desacreditados na terra , e mais vendo que os Portugueses leuauão tantas mercadorias como eles e tão boas , e que comprauao tanta pimenta: e por isso de- terminarão destoruar por quantas vias po- dessem que Aires correa nao podesse com- comprar nenhua pimenta , e dauao por ela mais do que valia , e porque abatessem as mercadorias da feytoria dauão as suas por menos preço , e coestas manhas de que usauão , não pode Aires correa em tres mezes que auia que estaua em Cali- cut auer carrega mais que pera duas naos , ho que Pedraluarez sentia muyto, porque
Lru. I. CAP. XXXVITI. T93 bem sabia as roindades que fazião os mouros de Meca , e as manhas que tinhao- pera não auer carrega, e que tudo faziao com atreuimento delrey de Calicut: e po- lo fauor que lhes daua ho que se parecia em quão remisso era em os castigar poios queixumes que lhe mandaua fazer deles, e senão fora ho rico presente que lhe ti- nha dado, e ho muyto tempo que ali ti- nha despeso ele se fora a Cochim , e as- sentara amizade com elrey , de que tinha fama que era muyto melhor homem que elrey ae Calicut: porem ho gasto que ti- nha feyto cm Calicut ho constrangia a não se ir a Cochim. E por ser tarde pera car- regar as outras naos que podesse partir pera Portugal na moução, determinou de mandar aquelas duas que estauao carrega- das , e escreuer a elLley dom Manuel a verdade delrey de Calicut, e quanto me- lhor se faria a carrega em Cochim, e ele ficaria em Calicut ate ver seu recado, ou ver se podia auer carrega pera as outras naos. E com tudo mandouse queixar a el- rey de Calicut do mao auiamento que lhe tinha dado , e de quão mal comprira a promessa que tinha feyta de dar carrega a todas as naos em vinte dias e primey- ro que a todos os mercadores, e que era • dos derradeiros, e os mouros tinhão leua- Liy. L Tem. 1, N do
194 Oa Historia da India do tudo, sem querer obedecer a seu man- dado. E mostrandose elrey muyto espan- tado , respondeu a Aires correa que lhe deu este recado que tomasse Pedraluarez- a pimenta que achasse aos mouros ainda que a teuessem carregada, c que lha pa- gasse como a tinhao comprada. Ho que foy logo sabido pelos mouros de Mecar c como eles não desejauao mais que ter causa pera pelejar com ho feytor , e matar quantos estauão coele , parecendolhes que daqui naceria immizade antre elrcy e os Portugueses pera que se fossem e não tor- nassem ali mais, concertarão de fazerem que Aires correa mandasse dizer a Pedral- uarez que por virtude do que elrey tinha mandado tomasse hua nao de Coge ça-< meccrim que estaua carregada de pimen- ta , e que coela carregaria alguas das naos de Portugal, e ho mesmo Coge çamecerim que mostraua ser amigo Daircs correa lho disse em segredo, mostrando que folgaria de tomar a nao , não dizendo que era sua , nem Aires correa ho soube : e muyto le- do com o ardil ho mandou dizer a Pedral- uarez cabral , que como sabia a inconstân- cia delrey , e ho credito que os mouros de Meca tinhão coele, e quanto valião e podiao na cidade , temeo que se tomasse a nao que se escandalizariãò e leuantarião con-
Liu. I. Cap. XXXVIII. 197 contra os Portugueses, e como erão muy- tos matariao logo os que estauao na fey- toria , e por isso não queria tomar a nao , mandando dizer a Aires correa a rezão porque. E não auendo ele por boa mandou fazer tantos requerimentos a Pe- draluarez que tomasse a nao porque seria grande perda pera elRey de Portugal nao se tomar , que lhe foy forçado satisfazer a seu requerimento, e com quanto estaua doente de quartas que auia annos que tre- mia e sangrado daquele dia , mandou os capitães da armada nos bateis e com gen- te que deteuesse a nao que não partisse e q íando nao quisesse por bem , que a deteuessem por torça , e a descarregassem. E Coge çamecerim e os outros mouros que estauao prestes em lhe fazendo hum sinal que os Portugueses querião deter a nao, dão rebate huns aos outros , e saem como cães danados com suas armas cami- nho da feytoria , e matarão logo esses Portugueses que acharão pola cidade. E tinhão ordida esta treiçao tão secretamen- te que nunca Cogebequim nem outros amigos dos Portugueses ho poderão saber: e sairão tão de supito, que não ouue tem- po pera Aires correa ser auisado: se nao entrou muyto depressa na feytoria hum veneziano chamado Micer benaiuito estan- N u t?
196 Da Historia da India te em Calicut que conliecia Aires correa , c disselhe que quem queria fazer merca- doria , não tomaua a nao e deixauaa par- tir , e isto pola nao que os Portugueses estauao tomando, e acabando de dizer is- to toniouse a sair com a pressa que en- trou sem esperar reposta. E Cogebequim que soube o impito com que os mouros yão contra os Portugueses, foy correndo pera auisar Aires correa, e os mouros lhe yão tanto nas costas , qite entrando ele muyto depressa na feytoria todo enfiado, nao pode mais dizer que Aires correa , Aires correa, leuantando as mãos como homem agastado. E nisto chegarão os mouros com grandes gritas, e erão muy- ios armados todos darcos, e frechas , lan- ças , terçados, e cofos. E na feytoria cs- tauão setenta Portugueses com os frades , e tinhão suas espadas, e ate oyto bestas, sem mais outras armas defensiuas , nem offensiuas, tamanha era a confiança no se- guro delrey de Calicut, e tão pouco ho euy- dado do que compria a suas vidas : e com quanto os Portugueses erao tao poucos e tinhão tão poucas armas , defenderanse hum pedaço sem os mouros os poderem entrar, e nele mandou Aires correa aruo- rar hua bandeira sobre a feytoria , pera que lhe acodissem darmada como acodirão .. os
Ltu. I. Cap. XXXVIII. 197 os bateis que tinhao tomada a nao mas não prestou, porque já Aires correa e os mais dos Portugueses erão mortos , e os outros fugirão per híia porta que sava á praya indo os mouros apos eles onde aca- barão de matar algíís , e outros que forão ate vinte escaparão muyto feridos iançan- dosc ao mar, e tomarannos os bateis, e antrestes foy hum Antonio correa filho Dai- res correa que seria moço donze annos , que despois em homem fez na índia cou- sas muy notaueis , como direy no liuro quinto, e assi escapou frey Anrique , que despois foy bispo de Ceita. E acabada de fazer esta destruição pelos mouros, saluou Cogebequim dous Portugueses que escon- deo em sua casa: hum auia nome Fernão •peixoto natural de Vila franca , e outro João roiz. E eirey de Calicut folgou dos mouros fazerem isto aos Portugueses, pe- Ta tomar a fazenda que estnua na fcytoria •que era muy ta , e toda a ouue.
198 Da Historia da India C A P I T O L O XXXIX. De como Vedealuarez cabral se vingou do que os mouros fizerão. SAbida por Pedraluarez a morte Daires Correa, vio quão mal fizera em man- dar tomar a nao dos mouros, e ficou muy agastado de lhe acontecer tamanho desas- tre a que não pode fugir vendoho primey- ro: e por ser tão tarde , e não ter onde carregar nem onde iouernar senão em C a- licut , não quis logo vingar aquela ofFen- sa, mas temporizar com elrey ate ver se lhe mandaua algua disculpa do que os mouros fizerão , porque coisso ficaria sa- tisfeyto por não ficar desauiado , e esperou por todo aquele dia por este comprimen- to , que elrey não fez , porque lhe não pesou do que os mouros fizerão, antes ho ouue por proueito por amor da fazenda que ouue. E vendo Pedraluarez passar aquele dia , e que elrey não mandaua ne- nhua disculpa , ao outro que forao dezase- te de Dezembro , mandou por seus capi- tães tomar dez naos de mouros que esta- uão no porto carregadas de fazenda e de gente , e forão tomadas por força darmas , e forao mortos seiscentos mouros, e ou- tros
Liu. I. Cap* XXXIX. 199 iros feridos, sem morrer: nenhum Portu- guês. Tomadas as naos foy achada nelas fílaua especiaria , e outra fazenda , e tres Alifantes que Pedraluarez mandou salgar pera mantimento da gente: e despejadas ficarão nelas os catiuos atados de pés e de mãos, e assi forao queimadas á vista de muyta gente da cidade que estaua na prava Dera lhes acodir mas nao ousarao com medo da nossa artelharia. E era es- pantosa cousa de ver arder dez naos to- das juntas, e fazerense carudes , e ouuir a grande grita des mouros que estauao den- tro e nisto se gastou todo aquele dia. E ao outro tendo Pedraluarez chegadas as naos a terra ho mais que pode, mandou desparar a artelharia que em todo I10 dia nao fez outra cousa, e fez muyto grande dano por toda a cidade , derribando ca- sas , quebrando aruores , e matando gente sent conto. E elrey de Calicut lhe ioy for- çado sairse da cidade , porque junto dele espedaçou hum pelouro hum Naire seu priuado : e da banda do mar nao ficou nenhua casa em pé nem a gente ousou desperar, e passouse da banda do sertão, pelo que Pedraluarez nao teue ao outro dia em que os danificar: e vendo que ali não tinha remedio , determinou de se ir a Cocliim auer se podia fazer amizade com seu
20o Da Hist-oria da India seu rey, de one rinha emformação que era muyto bom homem. E estando pera par- tir, vinhao duas naos de mouros ptra en- trar no porto , e ele as seguio ate hura porto chamado Fundarane , onde vararão em terra , e por isso as não pode tom. r. C A P 1 T O L O XL. De como Pedraluarez cabral assentou amizade, com elrcy de Cochim. D Este porto de Fundarane , prosseguio Pedraluarez sua viagem pera Coclnm com toda a armada e no caminho tomou duas naos carregadas darroz, que yão pê- ra Calicut e os que yão nelas escaparão deitandose ao mar. E despejadas as naos forão queymadas : e despois disto aos vin- te quatro de Dezembro chegou a Co- chim , que he hua cidade na costa do Ma- labar dezanoue legoas auantc de Calicut pera ho sul ; e está cm noue grãos da banda do norte situada ao longo dum rio que se mete no mar com que a cidade fi- ca em ilha, emuyto forte, porque não se pôde entrar senão por certos passos. Tem bom porto e limpo que se faz na foz deste rio: a terra ao derredor he alagadi- ça e íeyta em ilhas; viçosa e fresca, mas
Liu. I. Cap. XL. 2or dá poucos mantimentos. A cidade he de casss como as de Calicut, e pouoada de gentios e de mouros estrangeiros que sam grandes mercadores por amor da muyta pimenta que ha na terra e muyto mais que em Calicut. Seu rey era gentio e tinha os costumes do de Calicut: era pobre c se- nhor de pouca terra e de pouca gente , nem podia laurar moeda, e mais de cada vez que auia rey nouo em Calicut despu- nha de rey ho de Cochim, e^ estaua era sua mão darlhe ho reyno ou não: c mais era elrey de Cochim obrigado dir a seus paras que sam batalhas que dão a outros reys. Chegado Pedraluarez cabral ao porto desta cidade , não quis mandar recado a elrey por Gaspar por recear de não tor- nar mais , e mandouho por hum gentio que se tornara Christão estando em Cali- cut , e queria ir coele a Portugal, que se chamaua Miguel e por sobre nome Jogue que era antes de ser christão. E Jogues sam homens que tem húa certa religião antre os gentios , e andão polo mundo fazendo romarias a pagodes e casas dora- ção da sua seyta. Por este Miguel mandou Pedraluares offerecer a elrey amizade del- Rey dom Manuel, e rogarlhc da sua par- te que lhe mandasse dar carrega de pi- menta £ doutra especiaria pera quatro naos
202 Da Historia da India naos a troco de mercadorias ou comprada por dinheiro. O que elrey outorgou, mos- trando pesarlhe muyto da treiçao que em Calicut fora feyta aos Portugueses ,. de que mostrou estar bem enformado e esti- malos muyto. E pera que Pedraluarez man- dasse a terra quem negociasse a carrega das naos , mandou em arrefens dous Naires principais , com condição que se auiao de reuezar com outros dous que ficariao em quanto aqueles fossem comer, porque não podião comer no mar. E Pedraluarez man- dou logo a terra por feytor da carrega Gonçalo gil barbosa de Santarém, e por seu escriuão hum Lourenço moreno , e por lingoa hum Madeira com quatro de- gradados que os seruissem , e não quis que fossem mais porque se perdessem pou- cos se acontecesse algum desastre como em Calicut. E lio feytor foy recebido com muyta honrra per muytos Naires que ho leuarão a elrey que cstaua nú , saluo que tinha cingido hum pano branco que lhe chegaua ate ho giolho. E assentado em huns degraos a modo de theatro acompa- nhado de pouca gente. Ho feytor lhe apre- sentou da parte de Pedraluarez cabral hum bacio de prata dagoas mãos cheo daça- frão, e hum grande barnegal de prata cheo dagoa rosada e certos ramais de corais., *- pe-
Liu. I. Cap. XL. 203 pcdindolhe perdão de lhe não mandar mais, porque aquilo lhe ficara do despojo , e que não lho mandaua senão por sinal damiza- de. O que elrey agardeceo muyto, e des- pois de falar hum pedaço com Gonçalo git sobre elRey de Portugal ho mandou apousentar, e dali por diante ho fauore- ceo muyto e lhe deu todo auiamento quan- to pode ser pera fazer a carrega: a que os gentios da terra ajudauão com tanto amor que parecia permissão diuina a mu- dança de Calicut a Ccchim pera a igreja catholica multiplicar na Índia como multi- plica , e ho estado delRey dom Manuel se acrecentar tanto, com proueito de sua fa- zenda. CAPITOLO XLI. De corno Pcdraluarez cabral se par lio pe- ra Portugal. COmo em Calicut se ouue por muyto estranha a ida dos Portugueses por irem de tão longe soou muyto por toda a terra , e assi ho rico presente que elRey de Portugal mandara a elrey de Calicut, e as mercadorias que mandaua pera a feyto- ria , pelo que não ouue nenhum rey do Malabar que não ouuesse enueja a elrey
204 Da Historia da India de Calicut por tal gente ir carregar a sen porto , pelo grande proueyto que sabião que auia dauer, e todos desejauão que fos- sem carregar aos seus portos , eestranharão muyto a treiçao que lhes fez elrey de Ca- licut, c sabendo que era de lá desauindo, e que estaua em Cochim mandaranlhe lo- go embaixadores elrey de Coulao e elrey
Liv. I. Ca?. XLI. ÍÔJT chegar, c andou ás voltas ate noyte. E os mouros como lhe auião medo , posto que a viração lhes seruia á popa não se chegarão muyto: e ao outro dia queren- do Pedraluarez chegar a eles com lio ter- renho que ventaua achou que a nao de Sancho de thoar estaua muyto afastada dele por descair aquela noytc, e como ela era a principal da conserua e que leuaua mais gente despois da sua, conselbaranlhe os outros capitães que nao pelejasse sem cia porque eles leuauão muy pouca gente e essa doente. E vendo Pedraluarez que nao podia pelejar com os immigos c que lio vento lhe seruia á sua viagem pera que estaua prestes, não quis tornar a Cochim e fezse na volta do mar pera ir a Cana- nor tomar algua canela que lhe falecia pe- ra acabar de carregar , e assi se partio le- uando os arrefens delrey de Cochim e dei- xando em terra Gonçalo gil barbosa e os outros. E os immigos vendo que se ya mostrarão que querião pelejar coele e lio seguirão ate noyte , e aos quinze de Janeyro de mil e quinhentos e bum foy surgir no porto de Cananor, que he hua cidade na costa do Malabar trinta e hua legoa de Calicut da banda do norte : tem bua baya muyto boa que lhe faz lio por- to muy seguro , a terra lie viçosa e fres- ca,
206 Da Historia da India ca , e dc muyto boas agoas , e de poucos mantimentos, saluo dc pescado de que ha grande soma. Tem pimenta cm abastança, muyto gingibre , grande multidão de tama- rindos , mirabolanos , canafistola e carda- momo que sam mercadorias que se gastão bem : ha nela grandes tanques dagoa em que se crião lagartos como os de sam Tho- me , c comem homens , ho seu bafo chei- ra como algalia: nos matos ha cobras tão peçonhentas que matão com ho bafo , e outras não tão peçonhentas mas muyto grandes, e ha morcegos tamanhos como minhotos que tem ho focinho como rapo- sa , e sabem também que os gentio dão galinhas por eles. A cidade de Lananor he como a de Calicut, saluo que não lie ta- manha , he pouoada de gentios e de mou- ros estrangeiros. Seu rey he gentio, go- arda os costumes do de Calicut, não Jie tão poderoso de gente nem senhor de tan- ta terra, nem tem tanta renda. Neste por- to tomou Pedraluarez cabral quatrocentos quintais de canela, e por lhe clrey mandar mais e ele a não querer por não ter ne- cessidade dela, cuydou elrey que seria por não ter dinheiro pera a comprar, e que lho tomarião todo quando fora a treição de Calicut : e como desejaua muyto a amizade delRey de Portugal, e .que man- * - das-
Liu. I. Cai. XLT. 107 dasse carregar cm sua cidade , mandou dizer a Pedraluarez , que se deixaua de to- mar a canela que llie mandaua por falta de dinheiro ou de mercadorias , que ele. lha fiaria ate tornar á Índia. O que lhe Pedraluarez mandou agradecer e dizer a cau- sa porque não tomaua a canela, e mostrou ao messegeiro muyto dinheiro que ainda tinha pera a comprar se teuera necessida- de. Eelrey polo desejo que tinha da ami- zade com elRey de Portugal, mandoulhe hum embaixador com Pedraluarez cabval, que dali escreueo a elrey de Cochim des- culpandose de se partir sem lhe falar, e de lhe leuar os seus arrefens , encomen- dandolhe muyto os Portugueses que fica- uão eiii Cochim, a que escreueo também. E os arrefens escreuerão a elrey que íol- gauao muyto de ir a Portugal, e que Pe- draluarez lhes fazia boa companhia. E com tudo elrey ficou muyto agrauado de Pe- draluarez por se ir sem lhe falar e leuar- lhe os arrefens, e dizia que lio enganara , porem tratou sempre Gonçalo gil e os outros muyto bem.
2o8 Da Historia da Iwdia C A P I T O L O XLII. Do que aconteceo a Pedraluarez cabral tornando pera Portugal. D Este porto dc Cannnor se partio Pe- draluarez cabral pera Portugal, e ho derradcyro dia dejaneyro tomou naquele golfão hua grande nao de mouros carrega- da de mercadoria que deixou ir sem bo- lir nela por saber que era dclrey de Cam- baya e assi lho mandou dizer, porque sua ida àquelas partes não era pera fazer guer- ra como dizião os mouros de Meca se não pera fazer amizades e tratar , c se fizera guerra aelrey de Calicut fora pola treição que lhe fizerão os mouros de Meca poi- sou consentimento. E estes comprimentos fazia Pedraluarez porque não esquiuassetn na índia os Portugueses : e despois disto deu a nao de Sancho de thoar em hum baixo por má vigia e perdeosc, e escor- rendo Pedraluarez Melinde foy ter a Mo- çambique, donde mandou Sancho de thoar em hua nao das da armada a descobrir a ilha de çofala , mandandolhe que descu- berta se fosse pera Portugal , pera onde se ele partio despois de dar pendor ás naos , e ate ho cabo de boa Esperança cor-
Liu. I. Cap. XLII. 209 correo rnuytas tormentas com que se apar- tou de sua conserua hua nao que nunca a mais vio cm toda a viagem , e passados muytos e grandes perigos dobrou ho ca- bo a vinte dous de Mayo. E continuando daqui sua nauegação foy aferrar lio cabo verde, onde achou Diogo diaz hum dos capitães que partio coele de Portugal que se. apartou dele com a tormenta com que çoçobrarao as quatro naos , e este lhe contou como por erro do seu piloto se metera no mar roxo, e hi andou muy- to perdido , e perdera ho batel , e lhe morrera muyta gente. E não se atreuendo o seu piloto ao leuar aa índia , se tor- nou pera Portugal, e no caminho lhe mor- rera tanta gente de fome e de sede que lhe não ficarão viuas mais de sete pessoas que auia muytos dias que milagrosamen- te mareauão a nao, e a trouuerão ali com ajuda de nosso senhor, porque doutra ma- neyra não poderá ser , e daqui se partio pera Portugal, e chegou a Lisboa I10 der- radeiro de Julho de mil e quinhentos e hum e foy recebido com grande solemni- dade. E el Rey dom Manuel lhe fez muy- ta honrra , e despois chegou Sancho de thoar que descobrio çofala , de cujo sitio direy adiante : e coesta derradeyra nao tornarão seys a Portugal de doze que fo« Liu. I. Tom, I. O rão
aio Da Historia da India rao na armada dc Pedraluarez cabral, e as seys se perderão. C A P I T O L O XL1II. De como foy por capitão moor da segun- da armada da Índia João da noua. ANtes de Pedraluarez cabral tornar de Calicut, não sabendo ainda el Rey dom Manuel nada do que lhe acontece- ra , e cuydando que tudo estaua assenta- do mandou quatro naos as mais delas de armadores que mandauao fazenda , e deu a capitania mór delias a hum João da no- ua alcayde pequeno da cidade de Lisboa homem esforçado. E dandolhe lio regi- mento do que hauia de fazer , se partio de Lisboa coesta armada de quatro naos, de que a fora ele forão capitães Francis- co de nouais, Diogo barbosa e outro, e hião nelas oytenta homens com a gente do mar , porque como cl Rey cuydaua que tudo na índia estaua em paz não ouiz mandar mais gente. E partido João da noua de Lisboa sem lhe acontecer cou- • sa que seja de contar foy ter a agoada de sam Bras , onde se achou em terra hum çapato dependurado em huma aruo- re com huma carta dentro que dizia que pas- 1
Liu. I. Cap. XLIII. 211 passara por hi Pero dataide que fora com Pedraluarez cabral , e contaua o que lhe acontecera em Calicut, Cochim e Cana- nor, porque soubessem os capitaes Por- tugueses que não auião dir a Calicut se não a Cochim. E vendo Joao da noua esta carta não quis por conselho dos ou- tros capitães deixar Aluaro de Braga em Çotala com ho nauio que leuaua por lhe ficar muy pouca gente, e desta agoada foy ter a Quiloa , onde soube de hum Português degradado que hi deixou Pe- draluarez ho mesmo que dizia na carta de Pero dataide, e outro tanto soube des- pois dei rey de Melindc , a cujo porto foy ter. E tendo esta noua por certa, atrauessou ho golfão e foy surgir em An- gediua : e estando hi passarão^ sete naos de mouros de Cambaya que uao ousarao de pelejar coele com medo de sua arte- Iharia, e daqui se foy a Cananor , onde vendose com el rey foy por ele certifica- do de todo o que acontecera a Pedralua- rez em Calicut , e do mais que despois fez : el rey lhe offreceo carrega pera as naos que leuaua, que ele não quis tomar sem ir a Cochim , e verse com Gonçalo gil que Pedraluarez cabral deixara por feytor , e logo se partio : e de caminho tomou poi força hua nao de mouros de Calicut e O ii quey-
2ii Da Historia da India queymada chegou a Cochim , e Gonçalo gil barbosa ho foy ver ao mar , e lhe "dis- se que el rey de Cochim ficara escandali- zado de Pedraluarez cabral por lhe leuar os seus arrcfens, porem que sempre tra- tara bem os Portugueses que lá ficarão , e porque os mouros lhe poserao htía noy- te fogo na casa onde pousauão os reco- lhera aos seus paços , e se de dia yão fora mandaua cocles Naires que os goar- dasscm dos mouros que desejauao de os matar , e assi lhe disse que não tinha car- rega d especiaria pera lhe dar , porque a mercadoria da feytoria não se vendia que estoruauão os mouros a venda, c também aconselhauao aos gentios que lhe não des- sern nhua pimenta se não a troco de di- nheiro, por isso que não poderia carre- gar se ho nao leuaua. E por que João da nona nem os outros capitães ho não le- uauao se não mercadorias não se quis mais deter , e tornouse a Cananor pera ver se poderia hi tomar carrega a troco delas. E sabendo el rey como ele não le- uaua dinheiro, disselhe que por não tor- narem as nnos vazias de todo a Portugal ficaria por fiador de mil quintais de pi- menta e de cincoenta de gingibre , e de quatrocentos e cincoenta de canela ate se vender a mercadoria que leuaua , com con- di-
Liu. I. Cap. XLIII. 213 dição que a deixasse em Cananor com hum feytor e hum escriuão : £ assi foy feyto, e mais deixou com ho feytor al- guns Portugueses. E carregada esta espe- ciaria que digo, aos quinze dias de De- zembro aparecerão ao mar oytenta paraós que passauao pera monte Deli : c estes crão de hua grande armada que^ elrey de Calicut mandaua pera tomar João da no- ua , e os que estauao coele carregando em Cananor. O que el rey mandou dizer a João da noua , e porque ele não tinha gente com que se defendesse que seria bom desembarcar essa que tinha , e a ar- telharia, e que em terra se defenderia melhor. E ele não quis, dizendo que es- peraua em nosso senhor de se defender dos mouros com aquela pouca de gente que tinha. E ao outro dia dezaseys de Dezembro amanheceo a baya de Cananor cercada da armada dei rey de Calicut, que era de cento e tantas velas assi naos como paraós tudo cheo de mouros bem apercebidos , de frechas , de lanças ,^e despadas e de muytos arremessos. João da noua tanto que vio esta armada, cha- mou logo os capitães , e disselhes. Se os mouros nos aferríio segundo sani muytos e nos poucos , não temos saluacão : e pe- ra nos saluarmos he necessário com a es-
214 Da Historia da India esperança em nosso senhor resistirlhes com a ar telharia que nos não cheguem , por isso senhores tende cuydado, eponha- mos as naos húas a par das outras em proporção que todas juntamente possam j tf gar com sua ar telhar ia : o que logo foy feyto. E nisto começa a nossa arte- Uiaria de desparar coin hum brauo estron- do cubrindo tudo de fumo , e desapare- lhando, e espedaçando muytos nauios dos mouros, e metendo outros no fundo , e matando em todos muyra gente, o que cs mouros não podião fazer aos Portu- gueses por não terem anclharia , c toda sua peleja era com frechadas com que perfiauão dentrar os Portugueses como que esperauão de lio fazer, e assi perfa- rão ate ho sol posto. E vendo que de cada vez recebião mais datnno, leuantarão hua bandeira branca em sinal de paz , que se tcuerao vento pera fugirem bem ho fi- zerao segundo estauão destroçados: ejoão da noua que também tinha a sua gente cansada e algúa ferida, e a mayor parte da artelharia arrebentada , folgou muyto quando vio a bandeira , e porem receou que os mouros farião aquilo pera verem como estauão os Portugueses, e receou também que respondendoihe ele com ban- deira de paz cuidarião que estauão des-
Liu. I. Cap. XLIII. n? baratados , e por isso a desejauao , pelo que trabalharião polos aferrar pera os to- marem : e coeste receyo mandou leuantar ho seu guião não deixando de tirar sua artelharia. E os mouros que tinliao ne- cessidade tornarão a leuantar a bandeira branca : e parecendo a João da noua que a paz era de verdade , mandou leuantar outra. E despois disto assentarão tregoas ate ho outro dia com condição que os mouros descercassem a baya : e ela des- cercada sayose João da noua pera ho mar e por ventar a viração surgio perto dos mouros sem poder ir mais auante, c de noyte lhe quiserão os mouros queimar a frota indo em almadias : o que sintido pe- los capitães mandarão alargar as amarras e yaose afastando , e os immigos os yão seguindo , o que eles vendo rirarãoliies com a artelharia e os fizerao afastar. E desesperados os mouros de poderem fa- zer damno aos Portugueses , em ventando ho terrenho derão ás velas e foranse pera Calicut. E João da noua deu muytas gra- ças a nosso senhor por lhe escapar tanto a seu saluo. E deixando ho feytor que disse com feytoria em Cananor, sc espe- dio del rey e partiose pera Portugal, onde chegou a saluamento sem mais carrega que a que disse. E el rey de Calicut quan--
2i6 Da HIST, DA Ind. LIU. I. C. XLIII. quando vio que a sua armada não pode tomar a dos Portugueses por força , aten- tou de a tomar por manna , e per hum Fernão peixoto dos catiuos que ficarão em Calicut de Pedraluarez cabral, mandou dizer a João da noua , que lhe pesara muyto do que os mouros de Meca fize- rão aos Portugueses sobre o que dera grande castigo aos culpados, e que faria disso toda a satisfação que lhe bem pa- recesse , porque desejaua muyto de ser amigo dei Rey de Portugal , e que te- uessc trato em sua cidade, e se lá quises- se ir carregar que lhe daria carrega. E quando se Fernão peixoto partio coeste recado, lhe disse Cojebequim secretamen- te que dissesse ao capitão mór dos Por- tugueses , que por nenhum modo fosse a Calicut, porque el rey ho queria matar, e a quantos yão coele , e por isso Gon- çalo peixoto se deixou ficar em Cananor. I