, i / / ■} imiimnttitiii** : i fY# 'vf i/ /V SOBRE O ESTADO DAS MISSÕES E DA BELIGliO CUIUS! 1 Celi J SEGUIDAS DE DOIS ARTIGOS PUBLICADOS NO BOLE^ TIM DO GOVERNO DE MACAO, RELATIVOS AO MESMO ASSUMPTO. por Carlos José Caldeira» LISBOA t TYP. DE BORGES, —Rua da Condessa n.° 3. 1851.
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DI1ÂS PALITO AD PUBLICO. auctor destas — Considerações — não ó ura discípulo de Luthero, nem um adepto daes- colla voltairiana ; é christão ; écatholico sin- cero e convicto. Mas é também portuguez; e não daquelfes que, levados de um fanatismo incompre- hensivel em gente illustrada, ou de interesses tac- ciosos encapotados no manto sagrado da religião, intendem, que as nossas tradições gloriosas, os nos- sos interesses legítimos, os npssos direitos adquiri- dos á custa de muito sangue e de muito cabedal — tudo deve ser immolado em holocausto a um ullra- montanismo anti-evangelico, para satisfazer as am- bições pretenciosas de um Collegio de Cardeaes. E' para lamentar, que da imprensa portugue- za sahisse um echo repercutindo as accusações que em Roma se tem assacado contra nós; é para la- mentar que os homens do direito, apoiando-se no facto y viessem applaudir a obra de ignominia ence- tada pelo Conde de Thomar, na celebre concorda- ta, em que o novo Esaií pretendia vender á Curia romana o Padroado do Oriente, por algum prato de . lentilhas. Ninguém contesta o direito, do Padroado. Mas ao direito contropõe-se o facto. Pois opponharw-se também ao facto outros factos irrecusáveis, positi- vos, terminantes. O auctor destas—Considerações — escrevendo-as a tão remota distanciada màepa- tria, mal suppunha que ellas veriam a luz da im-
prensa justamente a tempo de apresentar um for- mal desmentido aos capciosos pretextos, com que se pretende anniquilar um dos últimos padrõesda nossa gloria nacional. Dizem, que não podemos conservar o Padroa- do, porque o governo de Portugal não cuida de prover as dioceses do Oriente. E ao mesmo tem- do nega-se a confirmação ao Bispo Eleito dePekim, ofFerecendo-se-lhe um diploma de Vigário Aposto* lico ! Allega-se que o Padroeiro não envia missio- nários, que vão plantara cruz em terras de infiéis. E os cândidos pastores da Propaganda convertem- se em lobos raivosos contra os seus irmãos na fé; porque aspiram a monopolisar a gloria de tosquiar as ovelhas confiadas aos seus apostólicos cuidados. O auctordas — Considerações — não conhecia a concordata, nem a allocução de 17 de Feverei- ro, nem os artigos do Catholico; mas conhecia os factos, que alli servem de escândalo a portuguezes e indígenas; e só áquem do Oceano, depois de tri- turados e deturpados pelos que tem interesse em os desfigurar, podem vir edificar os fieis, e provar as honestas intenções dos que tem a abnegação verdadeiramente christã de nos despojar da labo- riosa e Ímproba tarefa de prégar o evangelho, só para se adornarem com as palmas do martyrio. São alguns desses factos chã e simplesmente descriptos, que entregamos aqui á apreciação do publ ico. Lembrámo-nos de addicionar ás — Consi- derações— e aos — Extractos do livro de 31r. Ga- lei— dois artigos publicados no Boletim do Go- verno de Macáo, jornal redigido pelo auctordas — Considerações —- que podem esclarecer alguns pontos, que se tocam neste opusculo. Lisboa 8 de Agosto de 1851. O Editor.
CONSIDERAÇÕES SOBRE 0 ESTADO DAS MISSÕES E DA RELIGIÃO CHRISTÃ NA CHINA. \ • . V - . ais um facto notável em si, e pela sua coincidência com as ultimas questões que se tem suscitado sobre o Padroado portuguez no Oriente; mais um brado partido das christandades chinezas, e que nào pode reputar- se suspeito, porque não nasce do espirito de nacionalidade, mos só do espirito chrislao, vae chamar a altenção do Su- premo Pastor da Egreja e do governo portuguez, sobre o estado verdadeiramente deplorável da Religião Christà na China. Cansados os chrislàos chinezes de inúteis reclamações, e nas vesperas de tomar uma terrível resolução, mandam a Portugal um enviado, que depois deve passar a Roma, a fim de expor, em representações escriptas e verbaes, os sin- gulares factos, que se estão passando. Acha-se em Macao o china Leu-iu*clicmg, natural e re- sidente de Pekim, capital do império, com a intenção do partir para a Europa em uma das próximas carreiras, diri- gindo-se primeiramente a Lisboa. Este emissário vae encar-
6 regado'pelos christãos da diocese de Pekim de levar as sua$ representações 6 Rainha de Portugal e a Suo Santidade, so- bre o lamentável estado, em que se acha aquella chrístan- dade, reclamando por mais uma vez áquclles dois supre- mos poderes, depois de tantas outras infructiferas petições em egual sentido, o regresso do Bispo Eleito de Pekim, o snr. I). Joào de França Castro e Moura, e que se lhe en- viem missionários portuguezes. Os motivos da retirada do snr. Castro e Moura da sua diocese são já bem conhecidos em Portugal. (1) A Curia romana, desatendendo as instantes representações dos chris- tãos chinezes, e as virtudes verdadeiramente apostólicas da- quelle varão, tem-Ihe negado a confirmação. Nem se pode presumir motivo, pelo qual o snr. Castro e Moura tenha in- corrido no desagrado da Curia, a nao ser que, tendo sido eleito Bispo pela Corôa portugueza, segundo os direitos do Padroado Real, nao quiz, com toda a dignidade, aceitar o governo do seu bispado, senão nesta qualidade, regei tando a de Vigário Apostolico, que lhe oflerecia a mesma Curia. E' sabido que pelas intrigas, e bem impróprios manejos da congregação da Propaganda Eide, as nossas missões na China tem sido invadidas pelos padres italianos e francezes, diri- gidos pelos Vigários Apostólicos, quasi todos das mesmas na- ções. Se esses Vigários e missionários, desempenhasserrt o seu ministério, como os misionarios portuguezes, com pro- veito da religião, e das almas confiadas aos seus cuidados — O 1 • • i • então a questão do Padroado perderia muito da sua impor- tância, e rebaixar-se-hia, da parte de Portugal, a uma ques- tão de caprixo menos bem fu ndado, depois das irreflectidas medidas, que aboliram rio reino e ultramar a congregação das missões, e os outros conventos donde sabiam sacerdotes para as nossas missões, sem nada lhes substituir , resultan- do em poucos arinos ficarem as christandades do Padroado (1) Sobre este assumpto vcja~sco artigo da—situação actual do Bispo Eleito de Pekim—adiante Iranscripto. N. do L\
7 porluguez na China, quasi ao abandono por falta de pa- dres. Aías a verdade é, que em geral os padres francezes, que suo hoje os que mais abundam, e os mais predilectos da Corte de Roma sào odiados pelos christàos da China, e infelizmente com razào. O seu modo de se conduzir 6 o mais impróprio para adquirir a estima e confiança daqucjles povos; a indole da sua nação, que se manifesta em todas as suas acções, é in- teiramente contraria á indole e costumes do povo chinez, o seu caracter inquieto e buliçozo, o desejo de andar sem- pre em movimento, vendo tudo, correndo todos os logares, mais pelo espirito de curiosidade, que pelas necessidades da Reli giào, lhes alienam a estima e respeito dos christàos. Além disto os francezes cometem toda a qualidade de imprudên- cias. O seu génio os leva a usar de muito aparato, e pra* ticar muitos actos de pessoal vaidade, e de ostentação exte- rior doculto; a ter pretenções ridículas a distinções; aobri- gar os indígenas a praticas contrarias aos seus costumes, mesmo quando estes se nuo oppoem aos dogmas e espirito do christianismo; a exigir delles honras e recepções perigo- zas, que dào na vista dos mandarins, e olTendem as etique- tas e ceremoniaes chinezes. De tudo isto resulta, que os chris- tàos ficam expostos às mais atrozes perseguições, por darem asillo a estrangeiros, sendo muitas vezes deportados, arraza- das as suas cazas, e confiscados os seus bens; em quanto que a elles missionários pouco se lhes dá disso, pois de or- dinário o mais que lhes succede é serem presos, e entre- gues, segundo os tratados, aos seus cônsules. Sào lambem al- tamente para censurar os embustes, as grosseiras e qua- si incríveis columnias, que repetem áquelles simples povos, a respeito da Soberana e do clero de Portugal, alcunhando de intrusos e excommungados os nossos Bispos legítimos, e propalando quantos mais aleives lhessuggere a sua malévola imaginação. Homens de educação, padres e missionários des- cem a taes baixezas e mentiras, só pelo espirito de intriga,
8 e pelo ridículo desejo de suplantar a influencia da Egreja por- tugueza ! Tudo isto é de péssimo efleito no espirito dos christãos costumados á gravidade, á mansidão, á vida laboriosa, á prudente tolerância de hábitos inveterados, mas innocentes, que custumavam encontrar nos missionários portuguezes e hespanhoes, únicos que possuem a indole propria para se coadunar com a dos chinas. E' um facto bem comprobativo do que levamos dito, que na província de Fokicn, onde, lon- go tempo ha, missionamos hespanhoes, não existem pertur- bações; nenhum missionário é descoberto e preso; e não fa- zendo bulha, nem ostentação, vão alli conservando e aug- mentando a crença evangélica. Dcve-se declarar em tributo á verdade, que entre os missionários francezes houvo outr'ora vários, e algum have- rá ainda de superior merecimento e piedade; e que em ge- ral o clero francez é instruído e morigerado, e nesta parte muito superior ao clero italiano. Mas 6 de todos o menos proprio, pelo seu actual caracter, para manter, e menos pa- ra propagar, o christianismo na China. Apenas penetram no paiz começam a funccionar, sem ter tempo para adquirir o necessário conhecimento da lin- goa chineza, e dos costumes, hábitos, e prejuízos desta na- ção. Muitos factos tem acontecido, em que estas circumstanr- cias tem produzido scenas de ridículo e escarneo, se não de escândalo, para os proprios christãos. Por todos os motivos referidos os francezes se tem de tal modo alrahido a indis- posição dos christãos indigenas, que estes, já cançodos de lhes soffrer tantas irregularidades e imprudências, ameaçam dcos expulsar do seu seio, e declaram, que, se o governo portu- guez e o Papa, não poem cobro a taes desordens, e lhes não enviam padres portuguezes, passarão sem sacerdotes europeus, contentando-se com os seus, e farão uma communidade sepa- rada, níio se lhes importando mais saber da Curia romana. Isto importa a perda de todas aquellas christandades, onde o catholicismo dentro em poucos annos terá completamente degenerado.
9 Se esta ameaçadora resoluto mio tem já lido logar nos bispados» de Pekim cNankim, dçve-se talvez aos conso- Ihos dos Pastores e missionários portuguezes, (]oe sempre admoestam os chrisluos ao soHrimentu, c a nunca romper em tal excesso. No emtanto prepara-sc este acontecimento desgraçadís- simo para a Religião; c talvez ao tempo em que escrevemos já tenha começado em alguma parte a sua realisaçao. listamos certos, que a Corte de Roma não hade acre- ditar este prognostico; c bem tarde reconhecerá o mal, de que é a primeira causa. Então lastimará sem remédio o in- desculpável erro de só acreditar as lalsas e interessadas in- formações dos seus Vigários Apostólicos, e cerrar os ou- vidos a quantas representações e informações dignas de at- tenção lhe tem sido dirigidas sobre estes assumptos. Se o procedimento individual dos missionários iVancczes tanto o (Fende e aliena os ehristaos da China, imo menos de- ploráveis resultados atrahe da pai te do governo chine*, que vendo-os tao audaciosamente devassar o seu território, e os- tentar exteriormente o seu ministério, recahe na antiga sus* peita de serem os missionários agentes políticos — suspeita, em que na verdade mais se deve confirmar o mesmo governo » observando a intelligencia, em que se acham com a legnçao franceza na China, á qual recorrem sem cessar em todos os embaraços, em que os lança a sua propria imprudên- cia. E a legação, fatigando continuamente o governo chinez com questões dos missionários, o tem levado cada vez a maiores prevenções contra o cliristianismo, que se acha por isso ameaçado de uma nova perseguição geral. S ío estas as consequências do erradíssimo systema, que envolve a diplomacia nos assumptos religiosos, o qual co- meçou na embaixada de Mr. Lagiené, e continuou exagera- damente durante a residência de Mr. de Forlh Ruuen na China ; talvez só para dar á legação a importância, que não tinha por outro modo — systema este que ainda hoje não foi abandonado, porque o governo froncez está pouco escla- recido neste ponto. 2 i
10 Cumprirá dizer aqui, para melhor comprehensuo dog. las cousas, que como o povo e governo chines nfto ha talvez outro na terra tào tolerante em matérias de religião, As quaes em geral os chinas sào muito indiferentes. IV!ns todo o ciúme do governo é, que debaixo do pretexto religioso haja projectos políticos e de perturbações no império; e as grandes perseguições sempre tem derivado deste principio, quasi sempre justificado pelas imprudências dos missionários, ou pela errada ingerência dos agentes e representantes po- líticos das nações europeas em matérias de religião, como sticccde agora com os de França. Em resultado de tudo, que vae dito, pode-se infelizmen- te assegurar, que a Religião Calholica corre actualmente grande perigo na China, por causa dos missionários France- ses, e da Congregação da Propaganda. A S. Santidade cabe uma tremenda responsabilidade, e terá de responder peran- te Deus, por todo o mal que teria evitado, se quizesse en- trar no verdadeiro conhecimento do estado das christanda- des na Asia , e fizesse caminhar pelas vias regulares e ho- nestas a Congregação da Propaganda Fide, que tanto se afas- ta dos deveres do seu instituto; porque se deixa guiar por interesses mundanos, e más paixões, e trata com incrível le- viandade e desleixo os mais consequentes negocios da Egre- ja. E' por isto que muitos por aqui lhe chamam a — con- gregação de deslruenda fide =. Se o comportamento dos missionários francezes, e dos seus immediatos, os italianos, é tào impróprio entre os chi- nas, torna-se altamente reprehcnsivel e vergonhoso, pelos embustes, que escrevem para a Europa, e que sào publica- dos nos celebres Annacs da Propagação da Fé. Taes Annaes sào, geralmente fadando, em relaçào «ás correspondências francezns, um tecido de fabulas inventados - para explorar a caridade dos fieis, excitando-os, por descri- pçôes falsas ou exageradas de pretendidos progressos, a con- tinuar prodigalisando a bemdita esmola, para os manter em longiquos paizes, muitas vezes na ociosidade, e outras na \
11 abundância c nos regalos, ft' custoso dizel-o; mos a verda- de o exige. Os Amvies serão era poucos a mios jurados, pe- lo menos naquelin parte , como um vergonhoso monumento de descrédito e irrisão para o christianismo, quando fôr mais patente e reconhecido o abuso, que se está fazendo da cre- dulidade dos cutlioiicos europeus. Esses cscriptos hão de pre- judicar mais á Religião, que todas as declamações e atar quês 3os seus inimigos modernos. Os ; Annaes tão lidos e espalhados na Europa não me- recem na Ásia attenção alguma, nem ti Associação os envia muito para cá; nem poderá, jamais recrutar contribuintes por estes paizes, onde causa indignação ver a impudência, com que se illudem os fieis. Quem viesse excitado pela piedade, ou pela exaltação religiosa aos paizes d'Azia, para examinar os progressos e maravilhas da conversão dos infiéis, os. boa.- pitaes lundados, os coilegios, as instituições, profícuas, qu-a tão pomposamente se descrevem nos citados Annaes, colhe- ria o tristíssimo desengano, de que taes cousas não existem, pela maior parte, senão na cabeça de quem as escrevo, ou que são imrnensamente exageradas, para fins tão mundanos « reprehensiveis, como de encher os cofres da Associação di Fé, com tão pouco proveito do christianismo. Quem ler os Annaes da Propagação da Fé observará, que raras são as cartas dos missionários, que não (aliem em dinheiro, excitando, por todos os meios mais ou menos em>e- no.osos, as subseripções para a Associação, parecendo ser tal uniformidade o e liei to de uma instrucção geral, e muito ro- commendada, a qual na verdade tern produzido, c irá dando oplimos resultados, em quanto na Europa durar a ibusãodos contribuintes- Dos Annaes chamados da Santa infância lam- bem- com exactidão dizemos o mesmo. A Associação assim denominada, boje unida e de aceòrdo com a da Propagação da Fe, e recolhendo esmolas pelo mesmo methodo entre as creanças, diz ter por objecto o baptismo e educação destas nos paizes iníicis. Mas practicam-se neste assumpto os mes- inos abuzos, e uzom-se os mesmos artificies. Por exemplo :
12 nos Àunacs da Propagação da Fé de Janeiro de 1850 se diz, U alguma vez sem ella. De ordinário estes baptismos são incumbidos aos christâos indianas, que \ão aos logares re- • i 11 motos baptizar as creanças em perigo de vida, ou a quel las que os paes querem vender, o que com facilidade fazem quan- do ellas estão para morrer. A estes homens dão os missio- nários algum dinheiro; e sabo-se que é quasi sempre des- pendido em dissipações ; que os toes enviados não chegam, as mais das vozes aos logares do seu destino, o voltam de- pois declarando, que baptizaram tantas e tantas creanças; e lá vão os algarismos para os Annaes da Santa Infanda. Nada ha mais impróprio e reprehensivel que taes ar- gucias e embustes uzados pelos missionários de uma reli* giuo toda de pureza e de verdade. Nesta parte os missionários protestantes não ficam alraz dos catholicos franeezes, e até os excedem mesmo nas falsas informações, que dão, dos resultados dos seus trabalhos, que, pelo menos na China, são inteiramente eslereis A maxi- ma parte, delles vivem sumptuosamente com suas mulheres e filhos, á custa da credulidade dos seus correligionários n^is fascinados, que lhes subministram avultados capitães para uni proselitismo imaginário. E' necessário fazer saber estas verdades ao nosso bom povo de Portugal, do qual se tem tirado, e está a indo ti- lando uma forte contribuição, superior cm alguns atinos a
13 8 contos de rs , colhida á custa dos sinceros e piedosos alis- tados na Associação da Propagação da Pé, que julgam con- correr para uma obra meritória e profícua. Faça-se pois co- nhecer, que essas esmolas seriam muito melhor applicadas pa- ra o estabelecimento e manutenção de um bom se mina riu em Portugal, onde se educassem expressamente os mance- bos destinados ás misso.es. Delle ha um principio, ainda que muito informe e mal montado, no seminário do Bom- barral, o qual porém ajudado de tal recurso poderia satis- fazer ao importante fim da sua instituição, dando lhe o nos. so governo a devida attençâo e auxilio. Se o governo ava- liasse a importância, que ainda hoje poderiam ter as nossas missões na China, e em toda a Azia, olharia com seriedade e interesse para estes assumptos. Mas mal se pode esperar, que saiba aproveitar o a (Tecto c ligações, que ainda paten- team á Coroa portuguesa milhões de chrislàos, apesar de tão, çsquecidos por ella. Em todo o caso porem as esmolas dos fieis de Portu- gal para a obra da Propagação .da Fé devem ter outro des. tino ; porque o actual é um ludibrio para a nossa nafao. A Associação da Fé tem-se.constantemente negado a contem-: piar os nossos missionários e as nossas Egrojas d Azia, na distribuição dos seus fundos, para cujo monte nós concorre- mos; c a esta revoltante exclusão, juntam ás vezes o insul- to eo escarneo, dizendo a alguns dos nossos sacerdotes, C(^ mo succedeu em Singapore = vós viveis na miséria e no abandono da vossa nação; nós vos aggredimos, e temos os meios de ir diminuindo o vosso rebanho, habilitados pelo dinheiro, que nos dá a Associação, que vaecolhel~o também ao vosso paias.=. Isto é intolerável e deve por uma vez ces- sar. Mas se o nosso governo não souber, ou não poder re- mediar as cousas do Padroado, então a melhor np.piiçaçao, que os fieis podem dar ás suas esmolas, quando queiram em- pregal-as nesta obra, por certo a mais meritória quando se- ja dirigida pelo verdadeiro espirito evangélico, é — dize- mos — a favor das to issues hcspanbolas, quç \Do camiuban-
14 do eom regularidade e solidez sera estrondo, nem aparato» sem «fUiacs nem cartas fabulosas. Na iiespánha lia vários seminários para a educação dos missionários, e na colonia de Filipinas existem todos os antigos convénios, que são outros tantos viveiros para as mis* soes. E um (acto que suo os sacerdotes liespanboes os únicos» que não tem promovido, e não promovem perturbações nos territórios das missões portuguezaç, reconhecendo e buscando sempre a jurisdieçâo de nossos Prelados, quando nelles tra- balham, como succede ba muitos a imos em Láfu , diocese de Macao. E possível pela estranheza e inesperado destas re- velações, que se lhes não preste em Portugal inteiro credi • to, principalmente entre aqueiles, cuja nimia boa fé se acha fascinada pelns excellencias apparentes dos resultados da Asso- ciação da Fé. Especialmente para estes, e em geral para to- dos os leitores destas linhas, addicionaremos, corno testemu- nho insuspeito, uma collecção de passagens extrahidas fielmen- te de um notável impresso, dado á luz em Poissy (França) em 18 58, e que tem por titulo =? Esboço do estado das missões na China apresentado ao SS. Padre Pio 9.", pelo missionário Gabei —. Este missionário mostra ser homem esclarecido, e do sincera piedade c boa fé. Foi a Poma afim de obter nígu- mas providencias contra os inales que refere; porem nada eonsegiiio; e tudo continuou no mesmo estado. As suas ver- dades muito desagradaram ; e o seu opúsculo, «apenas espa- lhado entre poucos missionários, produzio cnlre ellcs grau* de agitação, e grave desgosto. O proprio bispo actual de Samos, Vigário Apostolico do Japão sofíreu entre ellcs gra- ves accusaçdes, porque declarou ser verdade o que se diz no opusculo, cm uma carta dirigida ao auctor, e que. este es- tampou na frente da sua obra ; o que foi pur alguns consi- derado como indiscripçào do andor, mas é na verdade» ama valiosa e irrecusável confirmação dos factos, que aIli se re- lerem. Damos em seguida alguns extractos deste importante
15 i esonplo, quo sentimos não poder aqui- transcrevei ne sita integro, para se ver claramente, ã luz da sinceridade c da l>oa í£, este quadro hediondo de embustes e de hypocrcsias. iFV / . / r / J r
16 ih Si* EXTRACTOS t)0 OPÚSCULO OÉ Mn. GABEI SOBBE MISSÕES. A maior parte das perseguições vem das contestações* que tem logar entre os missionários. Oueixam-sc continuamente os missionários da sua po- breza, como do único obstáculo, que impede os seus pro- gressos. \o ouviUos parece sempre, que estão na véspera de converter todo o território de sua missão, com tanto que se lhes augmente o subsidio annual corn alguns mil francos. A Associação da Propagação da Pé accede a estes desejos, e são remettidas as sommas. No anno seguinte os mesmos queixumes, as mesmas exigências da sua parte. Assim pas- sam toda a vida a solicitar soccorros, e o momento de prin- cipiar a conversão dos fieis nunca chega. Os neophitos costumam- se pouco a pouco a ver no mis- sionário um mercenário ricamente assalariado. Tanto dinheiro, que recebem com frequência, faz in- sensivelmente nascer suspeitas e desconfianças. Perguntam os christãos chinezes entre si —que interesse podem ter os po- vos estrangeiros cm conservar com tão grande despeza um propagador da sua doutrina cm paizes tao remotos? Os sentimentos de generosidade e de desinteresse cx-
17 tihguem-se nos indigenas, que ajudam o missionário a tra- tar dos negocio? da missão ; e attribuindo suas funcções a uma especulação financeira, negam-se a fazer sem salario cousas, para as quaes o missionário é tào abundantemente re- munerado. A Egreja, em vez de se nacionalisar entre os indige- nas, fica pelo contrario nomeio defies, como uma planta exo- tica, alimentada com o dinheiro estrangeiro e só delle depen- dente. Todos os missionários se queixam, que, em logar de receber alguns soccorros dos indigenas, são considerados por estes como ovelhas, a quem todos se julgam com direi- to de arrancar a lã. Nosso Senhor prometteu aos prógadores do Evangelho, que nada lhes faltaria; os fieis suscitados pela Providencia se impõem colectas para ajudar a sua sustentação; para que pois tantos e tão importunos pedidos de dinheiro, que in- ço m mod ãm e escandalizam os seculares! Quanto mais edi- ficante seria ver os missionários confiarem mais nestas palavras do Divino Mestre : = Buscae primeiro o Beino de Deus ea sua justiça; e tudo o mais vos será provido; porque Vosso Pae Celeste sabe quaes são as vossas precisões.» (Capitulo 1.°) « Quando tem logar questões de jurisdicçào os missio- nários parecem inteiramente outros; o zelo, as virtudes e os talentos, com que tinham entrado na missão só lhes servem para se aggredir, e suplantar uns aos outros; a espionagem as accusações maliciosas, as interpretações calumniosas tudo se põe em pratica para triumfar de um adversário; o cuidado da missão a conversão dos povos e todos os outros deveres perdem-se totalmente de vista; não se cuida mais que do ataque e da defeza. Os christuos tomam partidos, e dividem-se em facções encarniçadas, chegando ás vezes a derramar-se sangue, e a ser necessária a intervenção dos infiéis, para acommodar taes desordens. 1 ® 15 i or estas circunstancias o chrisiianismo ó olhado como 9 • * .« • ••. , uma seita de sediciosos c inquietos, 3
18 Bestas contestações resulta a diminuição da fé entre os neopliitos. O caracter de apostoles, attribuido antes aos mis- sionários, desaparece, ficando olhados coroo homens ambicio- sos, sem zelo pelo verdadeiro bem, e muitas vezes sem leal- dade na sua conducta. Se em consequência destas disputas um missionário é suplantado pelo seu competidor, os christàos conservam-se af- fectos ao seu antigo pastor, com o qual a religião está, por assim dizer, identificada a seus olhos, e recuzam receber o novo. Daqui nascem schismas deploráveis; os infermos mor- rem sem sacramentos, e os meninos não são baptisados. Tal é-o espectáculo, que por vezes tem apresentado, e ainda ho- je apresentam grandes chrislandades da Azia.» (Capitu- /o 3/')(l) « Quanto as contestações, que bao tido logar na Chi- na, convém notar duas couzas. A primeira é que uma única vez tiveram por Qbjecto questões dogmáticas, por occasião da ce- lebre disputa sobre os ritos e ceremonias chinezas; a origem dc todas as outras tem sido pretenções oppostas entre mis- sões visinhas relativamente á jurisdicçâo sobre certos territó- rios. A segunda observação a fazer é, que se não encontra um sò china, que tenha sido o auctor destas perturbações; sào sem- pre os missionários europeus, que suscitam estas dificuldades, e a ellas arrastam os chinas. Quando um missionários forma o desígnio de se introdu- zir em missão alheia, fazendo retirar delia os antigos opera* tíos, não lhe faltam pretextos mais ou menos especiosos, pa- ra encobrir seus projectos. Allega, por exemplo, que a missão confiada ao seu cuidado não contem sulficientes christãos» que não pode residir commodamente no território delia; que parte deste se acha encravado em outras missões, como se as, missões estrangeiras fossem para achar christaudades, numero- (1) E' exactamente o que está acontecendo nas missões^dc Pe- kim depois da retirada forçada, para evitar taes contestações, do exímio Bispo Eleito de Pekim, cuja falta os christãos deploram, como a de um pae zeloso e amado. ' T»
19 sás e florescentes» enào para augmentar os adoradores Jo ver- dadeiro Deus; para achar residências commodas, e nuo para pas- sar os dias sem ter onde reclinar a cabeça, a exemplo do Di' vino Mestre. Pobres povos!. . E' atravez de tantos perigos, e com tanta dilíiculdade, que um raio da verdadeira luz chega aos vossos desertos; vós conscrvaes cuidadosamente essa lumino- sa laiscade vida e de esperança, que a religião vos offere- ce, no meio de vexações de todo o genero, de anciedade, de terrores e de continuo martírio! Para que pois continuareis a ser aeomettidos destas tempestades sempre renascentes? Quan- do cessarão para vós as mudanças, as perturbações e os eon- llictos de jurisdicçào ? Quando chegará em fim o tempo, em que a fé possa ser-vos annunciada sem embaraços, e semeou- lusào ! » (Capitulo 4.°) O Capitulo S.° trata da maneira como é tratado o*clero indígena pelos actuaes missionários, que o despresam e nào lhe dáo Consideração; e das más consequências que daqui re- sultam. O Capitulo 6.° ó dedicado a considerações sobre a necessi- dade para os missionários de um profundo estudo da lin- gua chineza, e das funestas consequências para a religião da ignorância da mesma lingua. O Capitulo 7.° contem reflexões de menos interesse, sobro a prelerencia das differentes congregações, que hoje dào mis- sionários para a China. ' * «Se alguns missionários, possuídos de uma inexplicável inquietação, desviam seus olhos e attençâo do logar onde o Pae de familia os collocou, para os pôr com inveja naquel- le, em que trabalham os seus vizinhos, e poem por obra mil meios, para os suplantar, taes missionários tornam-se, sem o saber, os mais poderosos cooperadores dos desígnios do homem inimigo, contra o campo do Pae de familia, Nào somente o terreno, que lhes fora confiado, ficará esteril; mas ainda la- rào frequentemente desaparecer o fructo do trabalho, e a fertilidade do campo do seu vizinho A confusão, o schisma,
20 e a discórdia serão ordinariamente os únicos fructos d'aquel- les campos. Semelhantes missionários tojuam sobre si uma responsabilidade immensa, porque parece queaelles sao diri- gidas estas palavras : t= Vós fechaes o Reino dos Ceos aos ho- mens, porque nem entraes, nem aos que iam entrando per- metis que entrem — Claudilis regnum caelorum ante homines vós enitn noil intralis, nec introeunlcs sinitrs intrare. [Capitulo 8.) O Capitulo 9.° trata de considerações geraes sobre a ma^ neira de estabelecer o christianismo em uma nação. No Capitulo 10.° depois de considerações muito sensatas sobre o mao metlíodo de prégar a Religião adoptado por al- guns missionários, lê-sc a seguinte passagem : «certas or- dens religiosas, muito imbuídas do espirito de corporação substituem-se, por assim dizer, á verdadeira Religião. Os neophitos são inslruidos no culto quasi exclusivo das prati- cas e das fórmulas dessas ordens, e parecem não pertencer mais á grande sociedade chrisla. Um tal abuzo na prezença de neophitos, já natural- mente inclinados a identificar a Religião com o padre, tem produzido uma dezordem tal, que é diffici) na Europa la- zer-se uma idea delia. Daqui nasce uma especie de religião restricta, exeluziva, e mais propria a isolar e dividir ainda mais os fieis, que a unil-os em um só rebanho. Uma multidão de extensos desenvolvimentos, intei- ramente acommodados aos costumes, c estado da sociedade na Europa, e por consequência incomprehensiveis na Azia, confundem as ideas aos neophitos, c lhes fazem perder urn tempo considerável. Alem disso vendo ellcs este ou aquclle ponto de doutrina ser objecto de tantas disputas, e ser com- batido com tanto afinco por uma multidão de sectários, a sua fò vacilla, e a verdade da Religião nao lhes parece já tão clara. Como para os cbrislãos indígenas todas estas contiover- sias se passam ao longe, os cathohcos, os schismaticos., os he- reges sf.o os mesmos a seus olhos; e a ioea de que exis- tem na Europa tantas disputas sobre pontos de doutrina, «jue se lhes dizem incontestáveis e artigos de íc, prejudica iinfi- ni ta mente á simplicidae da sua crença.
21 Os desenvolvimentos, com que os theologos moralistas da Europa tem tratado os preceitos do Decálogo, e sobre tu- do o sexto, produzem também sobre clles as mais funestas impressões. Infecciona-se-lhes a imaginação, e a consciência se lhes revolta de achar descriptas tão circunstanciadamente semelhantes matérias. Muitas vezes julgam achar nisto a dis- cripção dos costumes europeus; ouvem estas explicações com uma curiosidade maligna e ciosa, e acabam por formar uma idea horrível da moralidade dos christaos da Europa. Estas misérias e muitas outros, que levaria muito tem- po a enumerar, não teriam logar, se se adoptasse uniforme- mente o cMhecismo romano; e somente um professor, missio- nário experimentado nos uzose costumes do paiz désse de v i \ a voz sobre coda artigo os desenvolvimentos necessários.» Seguem-se varias considerações sobre a educação do clero indígena, que tão despresada é pelos modernos mis- sionários, afustando-se nisto da pratica dos antigos, e espe- cialmente dos portuguezes, que deram sempre consideração ao dito clero, e promoveram o seu augmento com ins- tituições apropriadas, como a do collegio das missões de S. José de Macao, ende ainda hoje, apezar da sua grande deca- dência, se educam podres chinas, que vão para o interior do império dirigir as chrjstandades portuguezas, e aos quaes os missionários ífancezes suscitam quando podem embaraços e tribulações.
22 DA SITUAÇÃO ACTUAL DO BISPO ELEITO DE PEKIM. (Artigo publicado no Boletim do de Macao; iV.° 7 do corrente anno.) * f{ í í ; > : • ■ * •> r t * * > 4 Macao Sabbado 4 de Janeiro de 1851. ■ *» • — ■ > v J»' f i r. . t ( j' • ? i, . • s • 'i ■,. 1 * t ' * ■ t *'*' * * 'rfc*. C " a , § V 4 v.* < J J T j » No dia 21 de dezembro, anniversario da sagração do sua Ex. Uev.ma o Bispo Diocesano houve na Egreja Cathe- dral missa pontifical rezada ; e nessa occasiao receberam ordens cinco ordinandos ; dois de prima tonsura e meno- res; dois de subdiacono, e um de diácono; quatro destes, filhos de Macao, e um chinez destinado ás missões, que es- ta diocese tem no império china. Por esta occasiao diremos também, que alem das or- dens inferiores^conferidas por vezes por S. Ex.a Rev.ma a vários ordinandos, depois que rege esta diocese as tem da- do de presbítero a quatro outros, dois dos quaes chinezes, que havendo concluído sua educação civil e religiosa no col- legio de S. José das missões, estabelecido nesta cidade, se diri gio um no mez ultimo de novembro para as referidas missões, e outro nos princípios do mesmo mez acompanhou o Ex."1* Bispo Eleito de Pekim para as Ilhas de Timor e Solor. Este respeitável varão, o sr. d. João de França Cas-
23 tro e Moura rcsidio por 17 annos no interior da China, e per- correndo as extensíssimas provindas de Nankim, Xan-tumv c Pekim, penetrou na propria capital do império, onde ainda encontrou e praticou com o ultimo Bispo de Nankim d. Caetano Pires Pereira, que pouco tempo depois alli falleçeu de avançada idade, em novembro de 1838, tendo vivido na- quella corte por muitos annos, não só tido publicamente co- mo europeu, e conhecida a sua qualidade de Ministro da Re- ligião Catholica, mas até graduado mandarim do império, e membro do tribunal de mathcmatieas, como o foram mui- tos dos antigos missionários. Com o falleí imento do dito Bis- po acabou de todo o collegio das missões portuguezas em Pekim, e tendo já precedido a extincçáo dos collegios das ou- tras nações, assim terminou inteiramente a publica missão geral europea catholica, que hoje só occulta e dificultosa- mente continua, conservando os russos unicamente um ins- tituto religioso admittido e tolerado por tratados. Aquellas missões, sempre sob a jurisdicçáo dos Bispos portuguezes, duraram por mais de 200 annos, com varia fortuna, e nellas figuraram elevados talentos, e insignes indi- víduos nas artes e sciencias, especialmente da Companhia de Jesus, desde cuja extincçáo data a decadência daquelles es* tabelecimentos de tanta gloria e utilidade para a Religião e para o Estado, e que tanto credito obtiveram entre os chi- nas, gozando por vezes os missionários de grande considera- ção c influencia na edrte e familia imperial. Voltando porem ao nosso assumpto, do qual esta digres- são nos afastou, diremos, que o dito sr. d. João dc França por toda a parte grangeou o affectô e veneração dos chris- tãos chinas confiados ao seu cuidado pastoral, e em tão su- bido ponto, que depois de sua retirada para Macao aqui en- viaram mais de uma vez encarregados e supplicns, para re- gressar para entre elles, endereçando até nesse sentido re- presentações a S. Santidade? e ao governo de S. Magcstade, que pela imprensa já foram publicadas em Portugal. O que deu motivo a afastar-se daquella chHstandade o
24 Ex.mo Bispo Eleito de' Pekim foram desgraçadamente as diffieuldades suscitadas por questões de jurisdição pela Con- gregação da Propaganda Fide, sempre tão injustamente adversa aos direitos do Real Padroado portuguez; diffieulda- des, que o decidiram' a retirar-se, por effeilo de virtuosa abnegação, em favor dos interesses geraes da Religião, do que deveriam tomar exemplo os sacerdotes, e dignidades da Egrèja Romana, que lhe deram logar a mostrar em tal re- solução o só espirito verdadeiramente propagador do chris- tianisrno, que o guiava. Recolhido em Agosto de 1847 ao cottegio de S. José das missões ern Macao, do qual é filho e ornamento , não lhe consentio seu religioso e patriótico animo ficar ocioso nos trabalhos evangélicos, cm quanto se não aplanam as re- feridas questões, hoje afectas ao governo de S. Magestadc; e por isso deste solicitou e obteve licença para exercitar o seu alto ministério entre os simples e rudes povos das ricas, mas tão esquecidas e despresadas possessões de Timor, onde irá promover e espalhar quanto possa os benefícios da Reli- gião e da civilisaçâo, único e constante empenho do seu illustrado e piedoso espirito; c talvez assim concorra podí- rosamente para o futuro melhoramento daquella colonia, tio susceptível de prosperidade e importância, pela sua posiçio geográfica, pasmosa fertilidade de seu solo, valiosas produ- ções, e boa indole dos habitantes.
25 ESTADO DA RELIGIÃO CHRISTÀ NA CI1INA. (>ArUg.o publicado no Boletim do Governo de Macao — N.° 19 do corrente anno.) Macao, Sabbado, 29 de Março de 1851. No N.° 16 do Boletim dêmos noticia da existência de uma obra publicada pelo disfcincto estadista chioez Ki-ing, aquelle que com Mu-chang-a incorreu na desgraça aj imperador, a qual obra elie intitulou «Ensaios», e onde, ana- lisando as doutrinas do christianismo, conclue que : u lendo examinado a religião practicada pelos homens do occidente [os europeosj, a acha Ioda verdadeiramente boa», hi-ing ice longo trato com o sr. d. Veríssimo Mon- teiro da Serra, bispo Eleito que foi de Peklm, durante os ^3 armor, ci e crie esteve empregado no observatório impe- ritíl ue Pekim, como membro do tribunal das malhemati- cas, e lhe dedicou particular estima, E muito natu e que o sr. d. Veríssimo aproveitasse todas as cccasiôcs j oU» explicar es pontos mais cssenciacsda nossa religião, indic^ndo-lhé os muitos e cptimes livros so- bro esta meteria cscriptos em chuiez pelos antigos missio- nários cotholicos, afim de cAue algum dia lodessc Iu-ino, co- 4
26 mo membro da família imperial, esclarecer o seu governo sobre o espirito civilisador e sublime do christianismo. De facto assim succedcu quando este alto funccionario apresentou o seu memorial ao throno, pedindo a tolerância da Religião Christa na China ; e ultimamente levou mais longe o fructo daquelias explicações, publicando os ditos «Ensaios» dos quaes um nosso benigno amigo, promette dar alguns extractos para o Boletim, logo que obtenha a dita obra. Quando Ki-ing esteve em Macao para arranjar os tra- tados com os francczes perguntou com todo o interesse, pelo seu antigo amigo, o sr. Serra, a esse tempo já retira- do para Portugal, onde ainda hoje este venerável anciào do fundo do seu retiro do Bombarral, ou do Bom-successo, na lagoa d'Obidos, lhe será bem grato saber, que os eíFeitos da sua palavra vão fructificando com o tempo nestes remotos paires, e de um modo tão novo na China, como o de serem apresentadas ao publico taes ideas pela imprensa por um ho- mem esclarecido, na occasião em que occupava os mais al- tos cargos do .estado. Se para o sr. d. Veríssimo em particular deve isto ser assaz lisongeiro, náo o ó menos para a naçào portugueza, sob cujo Padroado, e direcção dos seus Pastores, tanto pros- peraram n'outro tempo as missões da China, chegando a gran- gear a tal ponto o affecto doschristàos chinezes no Real Pa- droado, que hoje maravilha a dedicação, que ainda manifes- tam á Coroa portugueza, apesar das desgraçadas causas, que tem havido próprias e extranhas, para o anniquilamento dc taes ligações. Já que por incidente tocámos este assumpto, observare- mos aqui, que as missões modernas na China ajudadas por grandes recursos pecuniários, e protegidas de todo o modo pelos altos poderes da Egreja, por vastas e influentes asso- ciações, e pela diplomacia de uma grande naçào europiea estuo, apesar de todas estas vantagens, bem longe de apne- fcentar os resultados, que obtiveram as antigas missões com- fiadas aos porluguczes.
fé 27 // E' uma triste verdade, que a Religião Ghrist3, em vez de progredir na China pelos esforços de tantos missionários estrangeiros, vae em diminuição e decadência entre o po- ro, e que por outra parte se acha ameaçada de grandes ca- lamidades derivadas de diversas e complicadas causas. st m m-