MEMÓRIA SOBRE KSCRIPTA PELO VISCONDE IDE SANTARÉM ABREVIADA RELAÇÃO EMBAIXADA QUE EL-REI D. JOÃO V MANDOU AO IMPERADOR DA CHINA E TARTARIA RELATORIO FRANCISCO DE ASSIS PACHECO DE SAMPAIO A EL-REI D. JOSÉ I DANDO CONTA DOS SUCCESSOS DA EMBAIXADA A QllE FÔRA MANDADO A CORTE DEPEEIMNO ANNO DE 1752 PUBLICAÇÃO FEITA POR JULIO FIRMINO JUDICE BIKER Socio correspondente do Instituto dc Coimbra LISBOA IMPRENSA NACIONAL 1870
Ao Illuslrissimo c Excellentíssimo Senhor /ecmde/Áeiío JJoao c/c oStfnc/iac/c //oltxo.
Quando tratámos 110 tomo vn da nossa obra, sobre as re¬ lações de Portugal com os outros estados, da occupação de Macau pelos inglezes em 1808, e das convenções de 21 de setembro e 11 de dezembro d’esse anno para o desem¬ barque e reembarque dos mesmos inglezes, publicámos a memória inédita sobre o estabelecimento portuguez de Ma¬ cau, escripta pelo visconde de Santarém, pertencente á nossa collecção de manuscriptos. Julgámos logo conveniente aproveitar a composição e fazer uma publicação em separa¬ do, addicionando-lhe o relatorio de Francisco de Assis Pa¬ checo de Sampaio a el-rei D. José I, dando conta dos suc- cessos da embaixada a que fôra mandado á côrte de Pekin no anno de 1752, do qual possuímos uma copia manuscri- pta. Yendo no Quadro Elementar do visconde de Santarém, tomo i, introducção, paginas liii e lix, quando dá noticia dos manuscriptos da collecção da Livraria Real, que existe na Bibliotheca da Ajuda a «Relação da Embaixada, que El-Rei Dom João V mandou á Tartaria e ã China no anno de 1725 pelo Padre Francisco Xavier da Rua»; e bem assim a «Carta que o Embaixador Alexandre Metello de Sousa e Me¬ nezes escreveu ao Secretario d’Estado, em 18 de Dezembro do 1727, dando conta da Embaixada (pie deu ao Imperador da China por mandado do seu Soberano», tratámos de obter se nos confiassem estes dois documentos para os fazer co¬ piar c ajuntar á nossa publicação. Dirigimo-nos ao indivíduo competente; escrevemos duas cartas para este fim, e não tendo resposta a nenhuma d’ellas(l) somos obrigados a desis¬ tir do nosso empenho, dando á luz sómente os documentos que possuímos. Podemos preencher de algum modo esta
lacuna com a abreviada relação da embaixada de Alexandre Metello de Sousa Menezes, copiada de um livro impresso em Lisboa no anno de 1779, intitulado «Collecção e escolha de bons ditos», que nos emprestou um nosso collega e intel- ligente colleccionador. Confiamos que tudo isto será lido com interesse pelos apreciadores das nossas relações internacionaes, e especial¬ mente das que dizem respeito a povos tão afastados do cen¬ tro da Europa. Para se poder avaliar a consideração e estima de que go- sâmos na China, bastará saber-se, que os inglezes mandaram lá duas embaixadas; da primeira foi lord Macartney o em¬ baixador, com cincoenta e cinco pessoas; partiu em 1792, e tencionando passar o inverno em Pekin, onde chegou com grandes difliculdades, recebeu em 3 de outubro ordem de partir no dia 7, sendo conduzido a Cantão em 19 de dezem¬ bro, sem ter conseguido o tratado de commercio de que fòra encarregado. Isto fez com que Anderson dissesse na relação que fez d’esta embaixada: «nós entrámos em Pekin como pedintes, estivemos como prisioneiros e saimos como foragidos». Da segunda foi embaixador lord Amherst, com um sé¬ quito de setenta e cinco pessoas. Partiu de Inglaterra em 8 de fevereiro de 1810, chegou ao golfo de Pe-Tche-Lee no principio de agosto, e desembarcou em Tong-Koo, seguindo pelo rio Pei-ho até Pekin, onde entrou no dia 29, mas por questões de etiqueta não chegou a ver o imperador ;e saindo de Ting-Cheu em 2 de setembro, chegou a.Cantão no l.° de aneiro de 1817, sem ter conseguido cousa alguma. O itine¬ rário d’estas viagens foi feito e publicado por Mr. Ellis, se¬ cretario e terceiro commissario da embaixada. Macau teve grande importância política e commercial, por ser o intermédio entre o commercio europeu e Cantão; po¬ rém depois da guerra dos inglezes com os chinas e do tra¬ tado de paz assignado em Nankin a 2!) de agosto de 1842. pelo qual foram designados cinco portos para o commercio estrangeiro, e também pela creação de um estabelecimento
7 iuglez na ilha do Hong-Kong, o nosso estabelecimento per¬ deu bastante. Por decreto de 20 de novembro de 1845 foram os portos da cidade de Macau, tanto o interno, denominado do Rio, como os externos da Taipa e da Rada, declarados portos francos para todas as bandeiras, visto terem cessado as cir- cumstancias excepcionaes que favoreciam o commercio d’a- quella cidade pela abertura de alguns portos do império da China ao commercio e navegação de todas as nações. Lisboa, 1 de janeiro de 1879. fulio Jfmnine fidicc
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MEMOKIA SOBRE PBLO VISCONDE DE SANTARÉM A historia do nosso primordial estabelecimento em Macau teve o destino de quantos fundámos. Dcixaram-ira os nossos escriptores involta na maior escuridão, por isso que não pro¬ duziram os tilulos authenlicos da nossa posse e domínio, e quando por casualidade d’clles fizeram menção, parece que de industria quizeram occultal-os aos vindouros, de sorte que é mister actualmente consumirem-se em investigações annos e annos para se desfiar a meada de confusões, e re¬ solverem-se os problemas que nos deixaram por herança. Se nos vemos, a cada passo, atalhados e obrigados a lu¬ tar com difliculdades, (piando por ventura intentámos veri¬ ficar os titulos originaes da nossa posse e dominio, estas dif- ficuldades tornam-se quasi insuperáveis, se a investigação que nos propomos fazer diz respeito ao nosso direito con¬ vencional com as demais potências c muito principalmente com as asiaticas. Houve por parte do governo, desde el-rei D. João II em diante, a política de esconder dos estrangeiros, e até dos pró¬ prios nacionaes, tudo quanto dizia respeito ás colonias; e os historiadores, uns por ignorância, outros por obediência, e por seguirem a política do governo, deixaram advertidamente de nos transmittir a maior parte das transaeções que foram n’esse tempo feitas com os povos e nações asiaticas e africanas. As questões da Casamansa, de Angra Pequena, e ultima- mente a de Macau, são evidentes provas da negligencia de que nos queixámos, ao passo que nos revelam a immensa importância e a absoluta necessidade que temos da publica-
10 ção completa de nossas relações com as potências estrangei¬ ras, nas quaes se deve necessariamente encontrar, tanto em geral como em particular, quanto respeita aos nossos direitos. Tenho ha muito colligido, pelo (pie diz respeito ás nossas relações com os potentados da Asia, um sem numero de no¬ ticias e de documentos, que se acham aqui em meu poder, concernentes á índia em geral, e a Ceilão e Malaca em par¬ ticular ; e pelo que respeita a Macau, tencionava, antes de pu¬ blicar a secção xxvm do Quadro Elementar, mandar tradu¬ zir dos Annaes dos Imperadores Chinezes a parte relativa ás concessões que elles nos fizeram, e ás relações que hão tido comnosco, das quaes, por agora, só posso tratar de uma maneira succinta. li- lias primeiras relações que (iremos com a China As relações da famosa viagem de Marco Polo ao império do Catayo (China) influíram grandemente em nossos proje¬ cts de descobrimento, e dispertaram a atlenção de el-rei U. Manuel, depois que Vasco da Gama dobrou o cabo da Boa Esperança. Por esse motivo no regimento que este gran¬ de monarcha deu a Diogo Lopes de Sequeira na occasião em que o mandava a descobrir terras no Oriente, dado em Al- meirim aos 13 de fevereiro de 1508, lhe ordenou entre ou¬ tras cousas que, depois de assentar padrões de posse em Malaca, se informasse de quanto dizia respeito á China, e se naquelle império havia estrai^jiros estabelecidos. Não constii todavia que desue essa epocha até 1517 tives¬ sem os nossos maritimosvcommunicação dirccta com aquel- les povos: if esse anno, porém, aportou nas costas d’aquelle império Fernam Peres de Andrade com uma armada, que foi a primeira de portuguezes que lá passou. Infelizmente, po¬ rém, os nossos historiadores, concordando na data, discor¬ dam nas circumstancias d’esta viagem. Fernam Lopes de Castanheda, chronista da índia, e con¬ temporâneo, allirma que Fernam Peres de Andrade fôra á China na qualidade de embaixador, e que celebrára tratados
11 de commercio com o imperador, mas não dá nem ao menos os summarios dos ditos tratados, nem me foi possível achar d’elles vestígios em nossos archivos, apesar das diligencias que para isso fiz; e se se confronta a relação de Castanheda com a de Mendes Pinto, deve-se presumir que taes tratados nunca foram celebrados. E com elíeilo o que se colhe da relação d’este ultimo es- criptor e de outros que o copiaram, vem a ser: que Fernam Peres de Andrade foi o primeiro eftropeu que passou á Chi¬ na na qualidade de embaixador em lol7; que se demorou largo tempo em Cantão, onde se applicou a observar os usos coinmerciaes d'aquclles povos, sem ter podido alcançar li¬ cença para ir a Pekim apresentar-se ao imperador; que ao depois, tendo alcançado a dita licença, partira para a capital do império, onde chegara correndo o anno de 1821; que ívesse tempo sobreviera um acontecimento que pozera cm perigo aquella missão, c fôra que se soubera em Cantão que o irmão do dito embaixador, que era vindo de Malaca á dita cidade com quatro navios, havia levantado um forte com uma bateria na ilha de Tancon para se defender dos piratas, e que alli exercera nas pessoas dos marinheiros c da tripulação dos seus proprios navios direitos magestaticos, que eram unica¬ mente da competência das autoridades chinezas, tanto por¬ que estava no território d'ellas, como por haver comprado muitos escravos,- sem se sujeitarás formalidades prescriptas pela lei; que n’aquellc mesmo tempo chegara a Nankin um embaixador do rei de Bintão, que vinha representar ao im¬ perador que seu amo havia sido injustamente esbulhado de Malaca pelos portuguezes, e solicitar d'elle o titulo de vas- sallo, para viver debaixo de sua protecção; que o governa¬ dor de Nankin ouvira aquellas queixas, e d’ellas movido tra¬ tara de dissuadir o imperador de não ter a menor relação com os Francos (assim intitulavam no oriente os europeus), que com o pretexto de commerciarem, vinham inquirir qual fosse a parte vulnerável do império, e tratar de se intro¬ duzirem n’elle com capa de mercadores para ao depois se assenhorearem dos pontos que occupassem
12 Que alem d estes receios accrescêra que a carta de el-rei 1). Manuel para o imperador, de que ia munido o embaixa¬ dor, causara também grande descontentamento, por ter sido escripta no estylo que os senhores reis de Portugal obser¬ vavam em sua correspondência com os príncipes do oriente, fórmula que não podéra ser admittida na côrte do Filho do Ceit, de que o imperador fôra inteirado por uma traducção chinezamui litteral, feita pelos musulmanos de Malaca; as¬ sim que, vista aquella caí-ta, longe de considerarem Fernam Peres como embaixador, o tiveram por um espião que havia usurpado aquelle titulo e qualidade, Que tendo fallecido n’esse entretanto o imperador Wou- tsoung, as autoridades chinezas ordenaram que Fernam Pe¬ res fosse reconduzido a Cantão, e que os portuguezes fos¬ sem expulsos da cidade; porém que havendo-se os nossos recusado a isto, seguira-se uma rixa, na qual clles não leva¬ ram a melhor, sendo todos presos e ameaçados de serem julgados segundo as leis do império, tornando-os responsᬠveis da insolência da carta do rei dos Francos, que elles ti¬ nham trazido, e da audacia que havia lido um vassallo por- tuguez de atacar um dos navios da China. Alguns autores portuguezes dizem que Fernam Peres de Andrade morrêra em prisão; o que é certo, porém, é que foi solto depois de ter sido posto a tormento com doze dos seus, dos quaes succumbiram cinco. Os que sobreviveram foram mandados a desterro em diversos pontos do im¬ pério. Casou-se Fernam Peres no desterro, e converteu ao chris- tianismo a mulher e os filhos que d elia teve, e viveu assim vinte e sete annos, o que viria a fixar a sua morte no anno de 1548 ou 1549, segundo Fernam Mendes Pinto, que assim o refere, por o ter ouvido a um china que encontrou na cida¬ de de Sempitay, que reconheceu por christão pelas primei¬ ras palavras da oração dominical que disse em portuguez, e cuja mulher era filha do nosso embaixador e se chamava Ignez de Leiria. Mas a data indicada por Fernam Mendes é errada, pois que
14 «vices, qu’on s’empressa d’accepter. Les chinois armèrent «conjoinlenient avec enx, se reservant seulement de n’etre «que de simples spectateurs. Les portugais gagnèrent ba- «taillesurbatailleétpurgèrentenfin le pays de ces brigands «si redoutés. Pour prixdeleurs victoires ils obtinrent mepe- atile He seche el aride à Ventrée de la rivière de Canton, oil ils «bátirent Macao: ils curent aussi de très-beaux privileges «dont ils ont êté privés dans la suite. On lew a laissé Ma- «ccio, mais les chinois ont élevé un fort qui commande la ville «et la citadelle portugaises, et á la moindre plainte on leur «intercepte les vivres.» Tal é a incerteza e obscuridade de nossas primeiras rela¬ ções com a China. Principiam porém ellas a ser mais se¬ guidas e conhecidas do reinado de el-rei D. João 111 em diante, como passo a mostrar. §n. Dos primeiros estabelecimentos portuguezes na Cbina, e espeeialmenle em Hacan No anno de 1542 já tinham os portuguezes um estabeleci¬ mento considerável na China, a que deram o nome de cidade de Niampó, ou Liampó, na costa oriental do império, a 50 graus N. Em 1549 fundaram outro estabelecimento em Chim- Chée. Em 1557, a requerimento dos proprios chinas (se¬ gundo escrevem os nossos autores) alcançaram dos man¬ darins de Cantão licença para commerciarem em Macau, fi¬ cando todavia inhibidos de se alargarem pelos demais por¬ tos do império, concedendo-se-lhes a faculdade de irem ás feiras de Cantão. Em 1585 e 1585 alcançaram os portuguezes estabelecidos em Macau licença do vice-rei de Cantão, com autoridade do imperador, para entre si administrarem justiça aos seus, e em 1587 tiveram licença do dito vice-rei Chin-su-g para o mesmo effeito, sendo já tão sensivel o augmento e riqueza da colonia portugueza, que os nossos lhe pozeram o nome de ci¬ dade do Nome de Deus de Macau. Estas diversas concessões dos chinas feitas aos portugue-
zes constam de uns documentos a que chamam Cliapas, de que possuo algumas copias na minha collecção diplomática, bem como das (pie existem gravadas em uma lapida nas ca¬ sas da camara de Macau, as quaes me foram dadas pelo co¬ ronel Lucas Josc de Alvarenga, que foi governador da mes¬ ma colonia. Sinto não ter aqui estes documentos, que poriam talvez em melhor luz a natureza das concessões que nos foram feitas pelos chinas; porém, se bem me recordo, nãó havia entre el- las nenhuma que delatasse de um modo formal e positivo que os chinas houvessem concedido aquelle território á co¬ roa de Portugal. Todavia, outros documentos de que em seu tempo farei menção, parecem demonstrar que os pfoprios chinas consi¬ deram Macau como uma cidade independente e fóra do do¬ mínio territorial do império. § III Obscuridade das noções que lemes relalhamente í nalureia do direito de posse da cidade de Bacau Das noticias que possuímos acerca do nosso estabeleci¬ mento em Macau, resulta o conhecimento de que não estamos de posse d’aquella cidade e território por direito de con¬ quista, porque, se assim fôra, não pagaria a dita cidade im¬ posto territorial ao imperador no principio de cada anno. Não se póde aílirmar que seja tão pouco uma colonia com todos aquelles requisitos que a constituem tal, nem também uma doação feita pelos chinas aos portuguezes, por isso que até agora não nos consta que se tenha feito convenção de so¬ berano a soberano, ou de governo a governo a este respeito. O que se colhe de mais positivo do exame das noções que temos, é que o estabelecimento portuguez de Macau é uma continuada concessão dos chinas aos nossos mercadores que alli residem. Entretanto, também se póde objectar a isto, que presente- mente não se nos póde com fundamento solido disputar o direito que temos áquelle território, pelas rasões que aponto
no | IV, não obstante o modo com que os escriptores chine- zes falam do nosso primordial estabelecimento n’aquelle im¬ pério, como passo a mostrar. Na obra de Morrisson se acha trasladado dos livros chine- zes um fragmento acerca do nosso estabelecimento em Ma¬ cau, eco seguinte, que o celebre sinologo Abel Rémusat, achando que a traducção de Morrisson não era exacta, tradu¬ ziu da maneira seguinte: «La :tá"‘e année Kin-thsing(1553)des vaisseaux étrangers «abordòrent à Hao-King. Geux qui les montaient racontèrent «que la tempête les avait assaillis, et que 1’cau de la mer «avait inouillé les objets qirils apportaient en tribut. Ils dé- «siraient qu on leur permit de les faire sécher sur le rivage «de Ilao-King. Wang-pc, commandant de la côte le leur «permit. Ils n elevèrent alors que quelques dizaines de ca- * banes de jonc. Mais des marchands attirés par 1’espoir du «gain vinrent insensiblement, et construisirent des maisons «de briques, de bois et de pierres. Les Folang-Ki (os Fran- «cos) obtinrent de cette manière une entree illicite dans «l Empire. Ainsi les étrangers commencèrent à s’etablir à «Macáo du temps de Wang-pe.» Todavia, acerca do tributo de que se trata n’esta e n’ou- tras passagens dos historiadores chinezes, é necessário ter attenção á verdadeira significação que elles dão a esta pala¬ vra, a qual é uma mera expressão de vangloria e de osten¬ tação. Remusat nas Mélanges Asiatiques transcreve algumas bio- graphias dos imperadores chinezes tiradas de suas histo¬ rias, e na de Tai-Tson, fundador da dynastia dos Mings, diz que a biographia chineza do dito imperador refere que elle espalhava o terror e a gloria do nome chinez nos paizes mais remotos, dos quaes vieram grande numero de estrangeiros pa¬ gar o tributo, participar de seus benefícios e admirar o seu governo. A este extracto accrescenta o habil sinologo as se¬ guintes palavras: «C est-à-dire en langage chinois, que sous son règne 1’accès de 1’interieur de 1’empire fut ouvert aux étrangers, et que l’attrait du commerce attira en Chine les
17 ínarchands do tons los pays do 1'Asie.» (Obra oil., vol. n, p. 15.) Á vista disto parece quo da circumstancia do pagar a ci- dadc do Macáo um tributo ao imperador, não sc segue que deixe de ser independente e do pertencer a Portugal, pois também a Coròa, apezar dc fazor parte do imperio chinez, ó governada por um rei independente, mas que todas as ve¬ zes que sobe ao throno, recebe a confirmação do imperador da China c Ibe paga um tributo. (Vej. Voyage à Pekin par VAmbassade Russe. Tom 2, p. 95). Com isto se ajusta o (pie diz o padre Lr Cninlc na sua obra intitulada Mémoire sur Vétat présent de la Chine (Paris 1690) na carta primeira dirigida a Mr. de Pontchartrain, que aqui copiamos textualmente: Pour ce quiregardela Corée, le lan¬ guiu et Siam, ils doivent à la vérité un tribal réglé à 1'Empe- reur, qui outre cela en nomme les Rois, ou les approme, quand ils prennet possession de la couronne, mais nêanmoins tons ces états ont leur gouvernemenl particular, et snnt en effet très différents de la Chine. § IV. Fundamentos pelos quaes parece eridenciar-se que a cidade de Macau í considerada pelos chinezes como independente e féra dos domínios territories do imperio Uma concessão semelhante á que os chinas nos fizeram de Macau não póde ser presentemente disputada com funda¬ mento solido de direito, pois d’ella resulta a posse de mais de tres séculos, durante uma longa successão de diversas dynastias chinezas de interesses diflerentes, como foram a chineza propriamente dita, e a tartara, que hoje reina, as quaes consentiram que os portuguezes edificassem Macau e o fortificassem, levantando baluartes e fazendo tremular n elles os estandartes nacionaes durante tantos séculos, tendo governadores e guarnição portugueza. Uma tão longa posse revestida com tacs circumstancias, confere sem duvida á co¬ roa de Portugal um direito senão eminente de soberania reconhecido pelos chinezes, pelo menos um muito especial sobre aquelle estabelecimento. a
18 0 seguinte facto praticado pelo imperador Ching-Tsou, da dynastia lartara, hoje reinante, parece demonstrar que os portuguezes c o seu estabelecimento de Macau eram consi¬ derados pelo governo chinez como sendo de uma natureza differente da dos outros estrangeiros. Um dos fundamentos que este imperador allegou para se apossar da província de Kontourg (Cantão) foi que o príncipe que nella imperava, havia violado as leis do império, entre¬ tendo um commercio regular com os Cabeças louras (os hol- landezes) e com os habitantes de Linsoung (os habitantes hespanhoes das Philipinas) Os portuguezes, posto que não só commerciavam, mas até residiam cm uma cidade por elles fortificada, não foram mencionados n’este edicto imperial, nem se allegou que as leis do império se achavam violadas pela circumstancia de possuírem elles n'aquelle território uma cidade cm que se achavam de assento e fortificados. É mais que provável não fossem os portuguezes compre- hendidos no sobredito cdicto por ser o aferro aos antigos usos c precedentes um dos mais decisivos caracteres da na¬ ção e do governo chinez; alem de que as cidades que são encerradas, são unicamente as cabeças de província, ou aquellas que formam uma jurisdicção á parte. Parece também por esta ultima particularidade, que Ma¬ cau, havendo os chinas levantado uma muralha nos limites d’esta cidade no anno xiv do reinado do imperador Wan-Ly com uma porta chamada do Limite ou do Cerco, da qual não é permitlido aos estrangeiros passarem adiante, parece, torno a repetir, que Macau foi sempre considerada pelos chinezes como fazendo uma jurisdicção separada. Estas circumstancias adquirem muito maior peso em nosso favor, quando se considera o facto de que até o ultimo con- lliclo com Inglaterra as differentes companhias dos diversos estados europeus não eram admittidas em Cantão, senão com a condição expressa que sua residência alli em virtude dos regulamentos não poderia ser perpetua, se bem que na 1 Remusat, Nouveaux Melanges Asiatiqnes, tom. ii, p. 30.
I!) realidade o viesse a .ser, pois que bastava que cilas a in¬ terrompessem, fazendo liuma viagem temporária a Macau*; o que, em meu ver, augments ainda mais as provas de que os chinas consideravam a dita cidade como um logar que não pertencia ao império, e por isso que se achava fóra d’elle, não era sujeito aos sobreditos regulamentos8. O que acontecia com os missionários também contribuo fortemente para consolidar a opinião de que Macau foi sem¬ pre considerada como independente e fóra do território da dominação chineza. O missionário Mcaheus Ricci, jesuita, foi a Macau em 1578 para de lá tratar de se introduzir no império por via de Can¬ tão, aproveitando-se do privilegio que tinham os portuguezes de Macau de alli irem traficar. Partiu com efleito em compa¬ nhia de um portuguez para Cantão, porém, não podendo conseguir de entrar na China, tornou-se outra vez para Ma¬ cau. (Biographia de Ricci.) Só teve este missionário licença para entrar na China em 1583, em consequência de haver desenhado um mappamundo chinez, no qual, conformando-se coma idéa extravagante dos chinas, representou a China no centro da carta, dando-lhe uma projccção contraria á exacli- dão. (Yeja-se Almagest, nov. 1651, in foi., p. 49, e Giro del Mondo, no conlinuador de Pinelo, part, iv, f. 198.) Ora se Macau fosse reputado parte integrante do império chinez pelo mesmo teor que Cantão, Ricci não teria podido residir na primeira d’estas cidades, nem tão pouco o Padre Rogeri que o acompanhava. O missionário italiano Intorceita partiu para a China em 1656 com 16 outros. Demorou-se em Macau para alli fazer 1 Remusat, Obra já citada. 2 Na obra de Sir George Staunton, Miscellaneous notices relating to China and our commerce intercourse, etc., talvez se encontrem algumas passagens, que poderão servir de argumentos subsidiários. Não tenho aqui esta obra, que foi impressa em 1822. Tenho apenas alguns extra- ctos e uma analyse d’ella; e posto que este autor tenha traduzido o Co- digo Penal dos Mandchous, não me consta que traduzisse ou compilasse a legislação commercial.
20 os quatro volos de sua profissão, e entrou emfim no territó¬ rio chinez no 1(5.° anno do reinado do chamado Chumichi. (Vid. Notice snr les Missionnaires.) Passarei ainda a mencionar outros factos, que me parecem ofTerecer outras tantas provas de que Macau é considerada pelos chinas como independente do império e fora d’clle. Quando se declarou uma perseguição geral contra os mis¬ sionários em 1664, o Padre hitorcetta c vinte e quatro dos seus companheiros foram mandados presos de Pekin para Cantão. Fizeram estes vir de Macau outro religioso para ficar em prisão cm logar do missionário, e o deputaram a Roma ao geral. Em 1724 foi de novo proscripto o christianismo na China, porém a proscripção não se estendeu a Macau, con¬ servando-se n’esla cidade intacto, como d’antes, o culto catho- lico, prova evidente da independência d’ella, pois que, se fi¬ zera parte do império, a perseguição se estenderia aos pa¬ dres que n’ella residiam, o que succedeu pelo contrario, achando-se elles alli postos a seguro d’ella, como o estariam nas demais possessões da corôa de Portugal, facto este que se corrobora ainda mais com o que aconteceu em I71J6, rei¬ nando o senhor rei I). João V. Houve n’esse tempo outra per¬ seguição dos chinas contra os missionários, e o encarregado de negocios de França em Lisboa teve ordem da sua côrte para pedir á nossa, que houvesse de mandar ordem ao vice- rei da índia para que este ordenasse ao governador de Ma¬ cau de deixar residir n’aquella cidade os missionários jesuítas francezes, que a ella se haviam acolhido em consequência da sobredita perseguição. N’uma memória que o sobredito en¬ carregado apresentou sobre este assumpto, referia ellc que o imperador havia obrigado os missionários a retirarem-se para Cantão, cidade chineza, e depois para Macau, qui appar- tient aux portugais, onde residiam havia dois annos, sem que ninguém os inquietasse; porém que o seu governo, re¬ ceando que o governador da sobredita cidade os despedisse, pedia ao nosso governo as ordens de que já fizemos menção. (Veja-se Officio de Mr. de Montagnac e Memória, vol. lxxi, foi. 27. Arch, dos Neg. Est. de França.)
Annum a este pedido o nosso governo, e Diogo de Men¬ donça Côrte Real, então ministro dos negocios estrangeiros, tendo communicado ao dito encarregado de negocios as or¬ dens que sobre aquelle assumpto se expediam aovice-reida India por carta regia dada em 8 de maio do referido anno, ordenou a côrte de França ao encarregado agradecesse nos termos mais expressivos a Diogo de Mendonça, em nome de el-rei de França, a expedição das ditas ordens passadas a beneficio dos missionários*. Citarei ainda outro facto de muito mais recente data, e vem a ser o seguinte: Quando em 1805 occorreu a grande perseguição contra os christãos em todo o império cbinez e que o governo imperial mandou demolir os quatro conven¬ tos de Pekin, não foi a cidade de Macau involvida n’esta proscripção geral, c contihuou a conservar intactos,os seus conventos. Corroborarei esta materia com outros factos, que tendem igualmente a demonstrar que Macau foi sempre tido por independente e fóra dos domínios da soberania do im¬ perador da China. Não tendo Portugal conseguido ser com- prehendido na paz geral de Munster e reconhecido o seu novo soberano, por haver prevalecido a política castelhana da rainha regente de França e do cardeal Mazarino, assentou este que, em consequência da falta de assistência em que Portugal se devia de achar, envidariam os castelhanos con¬ tra este reino todas as suas forças, e que o senhor rei D. João IV mal poderia n’aquelle apuro sustentar-se no throno; e nesta hypothese passou instrucções ao cavalheiro de Jant, que fôra nomeado para aquella embaixada, orde- nando-lhc houvesse de apalpar o animo d’aquelle soberano sobre a determinação que tomaria, se por ventura viesse a perder Portugal. Cumprindo com estas ordens, refere o enviado o que pas¬ sara em uma curiosissima pratica que tivera com el-rei, c diz que lhe chegara elle a propor de se transferir para o 1 Veja-sc Quadro Elementar das Hei. Pol. e Vlplom. de Port., tom. v, p. 270 c nota 357.
Brazil, e que el-rei, vindo entre outras cousas a falar da ín¬ dia, lhe dissera que os liollandezes llio haviam tomado grande parte d’aquelles estados, e com particularidade Ceilão; (jue el-rei da Persia lhe tinha de fresco tomado Mascate, e o do Decan lhe fazia continuamente guerra; e que os seus vassal- los de Macau na China, entendendo que elle não estava em es¬ tado de os defender, se haviam posto debaixo da prolecção do novo Principe Tartaro, com medo de caírem em poder dos liollandezes, que haviam por vezes tentado apoderar-se de so- bresallo da cidade'. Do que se colhe (pie Macau era reputado independente pelos chinas, e considerado pelos liollandezes como uma ci- * dade do dominio da coroa de Portugal, com quem estavam em guerra. Em todo o tempo os estrangeiros reconheceram a so¬ berania da corôa portugueza em Macau, do que poderia citar infinitos exemplos; limitar-me-hei porém ao seguinte: Mr. de St. Romain, embaixador de França junto a el-rei D. Pedro II, teve ordem da sua côrte para pedir á nossa passaportes e licença para quatro jesuítas francezes passa¬ rem á China por via de Macau, protestando que elles reco¬ nheceriam em toda a parte a soberania de Sua Magestade Portugueza, tanto no temporal como no espiritual; e accres- centava o embaixador em seu officio de 28 de janeiro de 1685 as seguintes palavras, que fíelmente aqui transcrevo: De Siam ils iront à Macáo ou eu quelque autre lieu sur les frontières de la Chine, et let ils attendraient la permission et les ordres de 1’Empereur Chinois pour enlrer dans ses Mats et se rendre à sa Cour2. Alem d’estas provas da independence da cidade de Macau, tenho também por incontestável a seguinte: Os portuguc- zes não só edificaram egrejas em Macau, mas até mesmo conventos, onde os religiosos viviam em communidade. 1 Quadro Elmmlar, tom. iv, P. 11, p. cl. 2 Documento que darei na secção xxvm do Quadro Elementar, que deve encerrar as nossas relações com a Asia.
23 Ora, se o fizeram sem preceder o consentimento dos chi- nezes, este facto só por si ó um argumento que prova com toda a evidencia que os portuguezes tinham e teem alli mu dominio independente, e que aquelle território pertence á corôa de Portugal, pois se pelo contrario aquclla cidade fosse pertencente ao imperador da China, só se poderiam edificar as ditas cgrejas e conventos em virtude de um tra¬ tado feito com os chinas, e por concessão e consentimento d’elles, como o fez a Russia em 14 de junho de 1728, estipu¬ lando-se no artigo õ.° do tratado celebrado entre o embai¬ xador conde Uladislavitch e os ministros do imperador da * China que os russos occupariam d’alli em diante em Pekin o Kouam, e que se edificaria uma egreja para dies com assis¬ tência do governo chinez, etc. A leitura do que se passou na commissão nomeada por decreto de Sua Magestade de 25 de maio de 1838 para exa¬ minar os negocios de Macau, á qual se franquearam os docu¬ mentos do Àrcbivo da Marinha, ainda mais me fortifica na opinião de que é Macau uma cidade independente. O relato- rio e parecer que a sobredita commissão fez subir á presença de Sua Magestade a Rainha em 24 de julho do mesmo anno, comquanto fosse mui circumstanciado na parte legislativa e na das attribuiçõcs da camara d aquella cidade, não se explica sobre a natureza das relações que subsistem entre os chinas e os portuguezes, contentando-so sómente com fazer men¬ ção da existência d’ellas, sendo os benemeritos membros d elia mui sensatamente de parecer, que o estabelecimento de Macau, tendo sido desde a sua primeira origem de uma indole mui particular, esta imprimiu desde logo um caracler mui especial á sua legislação, e que por conseguinte se não devia regular pelos princípios e divisão dos poderes estabe¬ lecidos na Carta Constitucional. Do silencio da commissão infiro que seus benemeritos membros não encontraram nos Archivos da Marinha noções precisas sobre o assumpto que nos occupa, ou que talvez assentaram era esta matei ia alheia do ponto principal para que ella tinha sido crcãda. L toda¬ via no artigo 29.° das providencias propostas pela sobredita %
commissão vejo que ella propoz, que o caso de movie de china fosse exceptnado da forma do processo por jurados. Citarei esta parte do parecer da commissão, que transcrevo dos Animes Marítimos e Coloniaes. «A commissão sente ver-se obrigada a exceptuar da lei commum dos jurados um caso que, se a esta também fosse deixado, poderia pelo seu muito singular caracter e extraor¬ dinária gravidade pôr em risco a paz c segurança da cidade de Macau; este caso é o da morte de china, de que as leis especiaes por este mesmo fundamento teem de longo tempo feito nm caso except ional; a commissão, vendo esta excepção desde tão remota epocha consagrada nas leis e por cilas respei¬ tada até aos últimos tempos, não ousaexpôra tranquillidade dos moradores d’aquella cidade e a propria conservação de um estabelecimento tão valioso e ainda hoje tão invejado dos estrangeiros, introduzindo uma innovação até o presente rejeitada pela legislação do mesmo estabelecimento; a com¬ missão pois, á vista de tão ponderosos motivos, é de parecer que o caso de morte de china, pelo inenos todas as vezes Que houver perigo de expôr a felicidade e ordem publica do estabelecimento, ou a sua conservação em o numero das possessões portuguezas, deve ser julgado em uma junta de justiça.» Posto que a commissão nos tenha deixado na ignorância das leis especiaes que de longo tempo leem feito nm caso exce¬ ptional da morte de china, leis cuja letra e disposições se¬ ria relevante conhecer-se, por isso que ellas derramariam grande luz sobre o assumpto a que este paragrapho é con¬ sagrado, comparando o disposto no artigo 2!).° concernente á composição da junta de justiça, proposta pela sobredita commissão, e composta do governador como presidente, do juiz de direito como relator, do procurador da cidade, do substituto do juiz de direito, do delegado do procurador regio, e dos dois militares mais graduados em serviço em Macau, com o que leio de um processo feito em 4 de março do anno passado de 1844 cm Ilong-Kong, quer-me parecer q»e d esta comparação resulta mais uma prova em favor do
direito da soberania e independence da corôa de Portugal no território de Macau. Comquanto seja complicadíssima a legislação colonial dos inglezes, e diversa pela difierença que elles fazem entre as colonias adquiridas por tratados e cessões e as que são con¬ sideradas como próprias da corôa, como se vê mui particu¬ larmente nas excedentes obras de Clark, A Summary af co¬ lonial Law, e na de Montgomery Martin; pelo processo que passo a relatar parece entender-se que os inglezes reputam Hong-Kong por uma colonia da corôa, para as quaes o so¬ berano tem a faculdade de legislar e de promulgar leis dif- ferentes da legislação e estatutos propriamente inglezes, assim que se acha em paridade com Macau. Isto posto, na publicação intitulada Nouvellcs Annales des Voyages, do mez de junho de 1844, se acha escripto o se¬ guinte: «On écrit d'llong-Kong le 4 mars. Sir Henri Pettinger cl lc Major General Aquilar, Yice-Gouverneur, ont ouvcrt au- jourd'hui la cour de session criminelle, qui cst en memo temp cour d’Amiraute. Les affaires de vol furent jugées sommaire- mentparles magistrais inférieurs; ensuite deux causes, l unc d’assassinat, l’autre de meiirtre, ont été l'objet de débats so- lennels. Les accusés declares coupables par un Jury mi-par¬ ti d’anglais et de cbinois ont été condamnés, l'un à la peine capitale, l’autre à la deportation.» Se pois em Hong-Kong, cidade que o imperador da China cedeu á Inglaterra em virtude de um tratado, e que portanto ninguém duvida que seja presentemente do dominio da co¬ rôa de Inglaterra, os casos crimes são julgados por um jury metade inglez, metade chinez, quem duvidará que Macau é pertencente á corôa de Portugal, vendo em casos idênticos, c até mesmo no da morte de china, serem os réus senten¬ ciados por uma junta inteiramente composta de funccionarios portuguezes, sem embargo de ser aquelle caso por sua gra¬ vidade digno de toda a ponderação, por se interessar na de¬ cisão d'elle a paz e a conservação da mesma cidade? Taes são os argumentos que se podem fazer em favor c abono de nossos direitos ao estabelecimento de Macau, na
falta deplorável de documentos primordiaes que ponham em luz tão importante questão. §V. Das relações diplomatics qne lemos lido rom a China No | I apontei quaes foram as relações que primordial- mente tivemos com o império da China, e a confusão e es¬ curidade com que hão sido relatadas por nossos escriptores; agora farei summariamente menção daquellas de que en¬ contrei noticia, posteriores ao século xvi, e são cilas as se¬ guintes : Em maio de HiOO foi o Padre Ricci, acompanhado do Pa¬ dre Pantoja, como embaixador portuguez ao imperador da China, a quem olfereccu vários presentes em nome de el-rei de llespanha, na qualidade de soberano que então era de Portugal, e segundo alguns autores foi o dito embaixa¬ dor mui bem recebido pelo imperador. Restituída a corôa a seus legítimos Soberanos, mandou el-rei 1). João IV Antonio Fialho Ferreira a Macau, signifi¬ car aos moradores d’aquella cidade a sua exaltação ao throno, em cuja noticia assignalaram-se os moradores nas demons¬ trações de satisfação e alegria; e alem do grande donativo em dinheiro que logo mandaram a Lisboa, forneceram du¬ zentas peças de artilheria de bronze, que foram remettidas nas monções que se offereceram.1 Este facto, que nos é re¬ latado pelo conde da Ericeira, nos faz ver de que importân¬ cia era aquella colonia, particularmente pela singularidade de poder dispor de um material de guerra de tanta monta, o que não poderia haver feito senão fòra independente dos chinas. Por fatalidade, referindo-nos o sobredito escriptor este notável acontecimento, nada mais diz que venha ao nosso proposito. • 1 U autor do Portugal Restaurado, referindo-nos esta particulari¬ dade, guardou silencio sobre a questão essencial, a saber: se por esta occasião mandou o senhor I). João IV embaixador á China.
Em 1(508 mandou el-rei D. Affonso VI um embaixador ã China, o qual foi bem recebido do imperador, e alcançou d’aquelle soberano varias liberdades para o exercício da re¬ ligião e facilidades para o cominercio. O autor que escreveu esta noticia não nos disse cm que obra a encontrara, para po¬ dermos n'ella verificar se aquella embaixada havia sido acom¬ panhada de alguma particularidade concernente ao assumpto de que estamos tratando. Em 1080 aflirma o autor francez da Géographie Commerçante que os portuguezes fizeram um tratado com a côrte de Pekin, em virtude do qual foram excluídas do commercio da China todas as demais nações da Europa, tendo unicamente os portqguezes o privilegio de traficar n aquelle império, accrescentando que aquella exclu¬ são durara até o anno de 1080 tão sómente. Apesar das in¬ vestigações que fiz, não me foi possível descobrir até agora semelhante tratado. Em 1722 mandou o imperador da China um riquíssimo presente a cl-rei 1). João V, presente que foi avaliado em 800:000 cruzados1, e o embaixador chinez teve a sua pri¬ meira audiência em 22 de dezembro do mesmo anno2. Constava o presente do imperador de sessenta caixas; e o embaixador apresentou a el-rei sete pérolas avaliadas cada uma em 14:000 cruzados; e entre as cousas de que se com¬ punha o presente, vinham flores artificiaes que o imperador havia feito por suas próprias mãos3. Em consequência do que, mandou o senhor rei D. João V, em 1725, a Alexandre Metelo de Sousa e Menezes com o ca¬ rácter de embaixador ao imperador da China, com um pre¬ sente de valor do 150:000 cruzados4, que consistia cm vᬠrios cofres de veludo bordados de prata e de oiro, cheios de brocado de oiro de Lyão, bellissimas mesas de mármore e 1 Oflicio inédito do ministro de França em Lisboa, datado de 17 de novembro deste anno, o qual tenho em meu poder. 2 Officio do mesmo c da mesma data. 3 Oflicio do sobredito de 29 de dezembro do referido anno. * Officio do dito de 27 de março do anno supra.
mosaico, um lustre magnifico fabricado cm Roma, c muitas caixas de joias c outras de tabaco feitas em Paris e em Lon¬ dres1. Em 1751, no mez de dezembro, nomeou el-rei D. José jior embaixador ao imperador da China a Francisco de Assis Pacheco, provedor de Beja2, e o mandou partir para Macau em uma nau de guerra. Da viagem deste embaixador escre¬ veu uma noticia José Freire de Montarroyo Mascarenhas, ipie correu impressa em Lisboa em 1753. Conclusão i)o que lica exposto se vê que somos desgraçadamente obrigados a supprir com argumentos hisloricos a falta de documentos primordiaes do direito convencional entre Por¬ tugal e a China, pelo que diz respeito á posse da cidade cíe Macau. A questão de saber-se qual seja o verdadeiro direito que temos a esta cidade, onde em 1841 era a nossa população de 4:788 indivíduos e a chineza de 20:000, é por extremo com¬ plicada e involta em escuridade, e por esse mesmo motivo é summamente importante no momento actual do estabele¬ cimento dos inglezes naquelle império, e da abertura do commercio ás demais nações, elucidal-a, discutil-a, levando á maior evidencia o direito que nos assiste á posse d’aquelle território e cidade, afim de se evitarem agora e sempre as infalliveis contestações, que a rivalidade commercial das na¬ ções que para alli concorrerem, ha de de necessidade susci¬ tar-nos com o governo e autoridades cbinezas, já que infe¬ lizmente os senhores reis de Portugal, na epochaem
nossas armadas faziam tremor a China, se descuidaram de assegurar a posse de Macau por tratados formaes e obriga¬ tórios, na prudente previsão do futuro, e do eclipse cjue com o andar dos séculos experimenta infallivelmente toda a glo¬ ria, por mais bem fundada que seja. Conviria, pois, proceder-se a longas investigações, para se fazer uma monographia sobre este assumpto, com a qual se pozesse em evidencia esta questão. Dever-se-hia examinar: l.° Qual seja a natureza da legislação e da pratica na China em materia de aequisição e posse de propriedades ter- ritoriaos, e até que ponto e com que condições podem os es¬ trangeiros possuir terras no império, dentro de cujos limites Vivem effectivamente povos de diversas raças, que são, se me não engano, reputados estrangeiros. Varias noticias ara- bes, tiradas dos manuscriptos deMassoudy em 1718,pelo sᬠbio orientalista Renaudot, provam que não foi só aos portu- guezes que os chinas concederam licença para assentarem morada nas terras do império. No século vm da nossa era os arabes tinham na China vários estabelecimentos, e tão con¬ sideráveis eram elles que os imperadores lhes outorgaram de nomearem um cady para administrar-lhes justiça; quando porém estes povos começaram a derramar-se por Africa, os estabelecimentos que possuíam no Celeste Império foram pouco a pouco decaindo, até de todo desappareccrem. ~-° Seria mister exlrahir-se dos grandes Annaes chinezes as noticias que se encontrassem das nossas relações com esses povos, e o que d’ellos constasse respeito a ajustes de paz e de commercio comnosco celebrados, e finalmente tudo quanto fosse relativo ao nosso estabelecimento de Macau, e quacs tossem as verdadeiras concessões que dos chinas al¬ cançámos. Na magnifica collecção de livros chinezes que pos- sue a Bibliotheca real de Paris, existe a maior parte da so¬ bredita collecção dos Annaes, e alem d’isto a historia dos povos estrangeiros. Abrangem os Annaes uin periodo histó¬ rico immenso, e são tão minuciosos que o celebre sinologo Remusat se exprime a este respeito nos termos seguintes: «Les historians de la Chine dont la succession non inter-
:]() rompue embrasse une série de 25 sièclcs, n’onl jamais ne¬ glige de recueillir, sur les contrées voisines de cct empire les renseignements qui pouvaient se rapporter à l'histoire et à la géographie; ils ont rnême forme de ces renseignements des collections qui renferment cn réalité les chroniques com¬ pletes de la haute Asie dcpuis deux mille ans. II n’y a que ces recueils ot'i I on puisse cherchcr la solution d'une foule de questions liistoriques.» 3. ° Cumpriria que se examinasse se os chinas estabeleci¬ dos em Macau pagam impostos ao imperador, e se nos do¬ cumentos financeiros que o governo chinez publica todos os trimestres, se faz menção de Macau, pois em a noticia esta¬ tística sobre a China publicada no Asiatical Journal, de se¬ tembro de 1825, pag. 294, não vejo aresto algum a este res¬ peito. 4. ° Devem-se examinar por miudo as cartas dos missionᬠrios a começar do anno de 1517, c a parte histórica das bul¬ ias dos Papas relativas a Macau e á China, c as obras dos Padres Premare, Gaubil, Amiot, Du Ilalde, Muilla, Le Comte; Magalhães Kirker na sua China illustrata; Trigaut, Regni chinensis descriptio; Theoph. Spirely, De Re litteraria sinen- sium cammentarim; o nosso Semedo na sua Relação da Chi¬ na, a Relação da mesma pelo moscovita Nikiposa; a Sina et Europa de Preyelius; o Atlas Sinicus de Martinius; os livros x e xi da obra do Abbade Grosier relativos ao império da China; o Tratado das cousas da China com suas particula¬ ridades, etc., escripto por Fr. Gaspar da Cruz, que passou á índia em 1548, que se imprimiu cm Evora em 1570 e foi reimpresso em Lisboa em 1829. Deve-se lambem buscar a obra que no século xvi escreveu sobre a China o nosso com¬ patriota Francisco Ferreira Sarmento, e consultar as excel- lentes Mémoires sur les relations politiques des princes chré- tiens avec les Empereurs Mongols, nas Memórias da academia reál das inscripções e belias letras, tomo vi e vu, e o grande numero de rescriptos, decretos e instrucções dos imperado¬ res chinezes publicados pelo celebre Padre Amiot. 5. ° Deve-se examinar e extrahir quanto se encontrar
31 acerca de Macau nos livros do registo da índia, que se reco¬ lheram á Torre do Tombo no reinado de el-rei I). José. 0.° Deve-se igualmente extrahir da secretaria da marinha o que alli constar acerca das relações dos portuguezes de Ma¬ cau com os chinas, se bem que em geral os documentos dos archivos de nossas secretarias são de data recente, não ha¬ vendo nenhum anterior a 1755; mas, segundo me recordo, existem infinitos em um grande deposito no Paleo das Vaccas, que pertencem ás antigas secretarias. Quanto ao que os estrangeiros hão escripto acerca de Ma¬ cau, é sobremaneira insignificante, salvo o que se podér en¬ contrai- nas obras classicas dos missionários; tudo o mais é superficial e cheio de falsidades, sendo um dos peiores La Place na obra intitulada Voyage aulour du monde. Era a minha tenção, quando estivesse para publicara sec¬ ção xxviu da minha obra, isto é, a ultima parte d’ella, de fazer traduzir dos grandes Annaes chinezes o que alli hou¬ vesse que nos fosse relativo, c miudamente não só as obras impresses que acima cito, mas também as manuscriptas; mas, como antes dc chegar á meta deste meu trabalho tenho de concluir a publicação de nossas relações com as potências da Europa, seria por isso conveniente (se o negocio de que se trata podesse soffrer demora, sem detrimento, de alguns me- zes) fazer-se um trabalho especial sobre o nosso estabeleci¬ mento de Macau, o qual serviria de base e de fundamento de direito, e ao mesmo tempo de guia para as negociações que por ventura se devessem tratar com a China. Paris, 4 de julho de 1845.
ABREVIADA RELAÇÃO DA MANDOU AO IMPERADOR DA CHINA E TARTARIA VIM CIIIM PELO SEU EMBAIXADOR ALEXANDRE METELLO DE SOUSA MENEZES a quem conferiu os empregos de ira Conselheiro no Conselho ultramarino, Depulado o Chancellor da Junta da Bulia da Cruzada e Conscrrador doa privilégios da mesma, Commendador na Ordem de Nosso Senhor Jesus Chrislo, fiscal das mercês o dos passaportos, Conscrrador das fabricas reaes da seda d’esto reino, e Secretario do Sereníssimo Senhor Infante H. Manuel Tinha Sua Magestade o magnifico Senhor D. João V rece¬ bido um grande presente, que o Imperador da China c Tar- taria Kam-Ki lhe tinha mandado pelo Padre Magalhães, je¬ suíta, missionário na Côrle de Pekim; e supposto que sò re¬ cebeu parte do dito presente, porque o principal d’elle se queimou no Rio de Janeiro, por desgraça de um incêndio com que ardeu a nau em que vinha, Sua Magestade informa¬ do da sua grandeza e preciosidade, e movido do superior es¬ pirito com que se animava o seu grande coração, determi¬ nou gratificar-lho com o riquíssimo presente de trinta cai¬ xões de exquisitas preciosidades; c tendo a noticia de que era morto o Imperador, se resolveu a encaminhar a mesma lembrança e agradecimento a seu quarto filho Yum Chim, que lhe ficou succedeudo no império; c contendo esta diligencia um importante negocio, de que se não rompeu o segredo, levava por titulo a civilidade de cumprimentar o Imperador reinante com o pezame da morte de seu pae e com os para¬ béns da sua exaltação ao throno, para cuja diligencia foi Sua Magestade servido nomear com o caracter de Embaixador a Alexandre Metello de Sousa Menezes, conhecendo com a sua vasta comprehensão, que este benemerilo sujeito encheria bem o titulo e ministério que lhe conferia, pelas excedentes 3
34 qualidades de litteratura e prudência de que era adornado, e que tinha feito conhecer na embaixada de Castella, aonde com o emprego de Secretario foi respeitado ifaquella Gôrte como sabio e politico. Assim determinado, mandou Sua Magestade provel-o de quanto lhe podesse ser necessário para exercitar a nobreza de seu espirito, e fazer conhecida a grandeza do Soberano que o mandava, e entre as mais cousas lhe fez preparar qua¬ tro magníficos vestidos de tissu e veludo, ricamente borda¬ dos, uns de prata, outros de ouro, com todas as suas perten¬ ças do mesmo gosto e preciosidade; um caixote com toda a casta de moeda portugueza, que se cunha em todo o reino; um grande numero de caixões de diflerentes grandezas cheios de frasqueiras, em que iam os licores e os regalos mais delicados que se fazem e se produzem no nosso paiz; muitas peças ricas o varias curiosidades de grande valor e de especial gosto, e tudo em abundancia, para fazer os cum¬ primentos pessoaes, e todas aquellas que lhe ofTerecesse qualquer occasião de capricho e liberalidade; muitos e ricos vestidos para todas as classes de creados, uns para as via¬ gens, outros para servirem na Côrte e embaixada, tudo igual na riqueza e no gosto, dando-lhe, com a carta credencial e ci¬ fra de que devia usar, outras muitas cartas de recommenda- ção e ordens para o Governador e Gamara de Macau, e para todos os bispos e prelados daquelle continente. Com estes magníficos preparos e instrucções que lhe fo¬ ram dadas, levando por seu Secretario ao Doutor Francisco Xavier Rua, Protonotario de Sua Santidade, Prior de Re- quexos, Advogado do numero da Gasa da Supplieação, e toda a mais familia do seu séquito, se embarcou no dia 12 de abril no anno de 1723 na fragata Nossa Senhora cia Oliveira, que estava preparada para o conduzir a Macau, e sendo recebido com salva de artilheria e visitado na sua camara por todos os oíTiciaes, o Capitão de mar e guerra Duarte Pereira lhe mandou pôr um soldado de guarda á porta da mesma ca¬ mara. Com os vários successos que se costumam padecer em 4
.'fu jornadas de mar, e tão dilatadas como esta, tomou porto em Macau a 10 de junho de 172(5; e como o Governador da cida¬ de, por noticias antecedentes que teve, esperava Embaixa¬ dor de Portugal, apenas divisou a bandeira do tope, mandou logo a seu bordo o Sargento-mor a felicitar o Embaixador, e a offerecer-lhe a sua casa, emquanto se não preparava outra para o seu hospicio, c ao mesmo passo mandou convocar os oiTiciaes de guerra e o Senado da Camara para qualquer ex¬ pediente, na consideração de se receberem ordens reaes, que se devessem executar logo, e por outra parle mandou prevenir lanchas com amarras, ancoras, pilotos e todo o soccorro necessário. O Embaixador, antes de entrar a nau, despachou o seu Secretario com as cartas de Sua Magestade para o Governa¬ dor e Senado da Gamara, ás quaes ajuntou as suas,-em que dava noticia da sua chegada: recebeu o Governador a carta de Sua Magestade, com a nova da sua feliz saude, com sal¬ vas de artilheria e mosquetaria, e despachou logo seu filho Ajudante General a cumprimentar novamente o Embaixador e oíTerecer-lhe o desembarque para a sua casa, com ordem de que, se o Embaixador não acceitasse a olTerta, se deixas¬ se ficar a bordo ás suas ordens; o Embaixador depois de agradecer a repetição d'este cortejo, respondeu com as diffi- culdades do desembarque, emquanto a nau não entrava e se segurava no rio; e porque se achava encalhada, se cuidou com muita diligencia na sua segurança, supposto que não dava mnito cuidado por ser o fundo de lodo. No dia seguinte passou o Governador a bordo da nau, e depois de quatro horas de conferencia se recolheu a dar ex¬ pedição, assim ao desembarque, como a metter dentro a nau. Aos 12 entrou com muitas salvas de artilheria de vários navios que se achavam no rio, e das fortalezas por que pas¬ sou; e occorrendo ifeste dia alguns embaraços para o desem¬ barque, se reservou para o dia 13 de junho, no qual desem¬ barcou o Embaixador acompanhado de vários ofliciaes de guerra, dos cidadãos, e de muitas embarcações que se fize-
ram ajuntar e adornar, distinguindo-se, em tudo, a do Em¬ baixador, a quem salvaram todos os navios c fortalezas. Na praia do seu desembarque se erigiu uma ponte de ma¬ deira, com a decencia e ornato a que o tempo deu logar, cheia de muitas flammulas de seda de varias côres e outros adornos que a faziam vistosa, e offerecia um passo agrada- vel aos olhos; esperavam-no duas companhias de infanteria, os officiaes da Gamara, o Governador, e com este acompa¬ nhamento de tudo o que havia mais nobre e mais lustroso na cidade se recolheu a sua casa, aonde foi cumprimentado de todos os prelados das religiões, officiaes da Gamara e de todos aquelles que eram mais respeitados na terra pelos seus ministérios e pessoas. Gonsiderou-se que o presente remettido de Lisboa, sem embargo de vir encaixotado e breado, poderia ter experi¬ mentado algum damno, e não seria acertado que se olTere- cesse sem se lhe fazer exame, para lhe remediar algum prejuízo que tivesse experimentado, e para este eíTeito se tomou o expediente de se desembarcar sem publicidade; e recolhido em uma casa vizinha da do Embaixador, se abriu, e achando-se da mesma forma em que se tinha embarcado, se conduziu a depositar-se em casa do Governador, com a ordem e solemnidade seguinte. Abria o caminho o Ajudante General, a que se seguia uma companhia de granadeiros com bandeira de armas reaes, logo o Ouvidor da cidade, e por sua ordem iam os caixões, a que cobriam pelos lados doze sargentos; atrás dos caixões vinham dois Juizes ordinários, e a estes se seguia o Capitão mandante, o Sargento-mor, e os Gentis-homens do Embaixa¬ dor com outra companhia da infanteria da fragata, e a tudo isto fazia séquito uma grande multidão de povo, convidada dos clarins c caixas que iam na mesma comitiva. Com esta ordem foi levado á casa do Governador, aonde elle o esperava com os officiaes da Gamara, muitos cidadãos e militares, que todos o vieram esperar e receber á porta, e a companhia da guarda do Governador marchou alguns pas¬ sos, e veio acompanhando, na fórma que permittiu a estrei-
37 teza da rua; e posto o presente na sala que estava destinada para este deposito, se fez termo em que assignou o Gover¬ nador e os oíTiciaes da Gamara; os caixões vinham cobertos de veludo verde, agaloados de prata, e os que não tinham esta decencia eram seis muito grandes que levavam bofetes, ban¬ cas e outras peças fabricadas de mármores e de madeiras do nosso reino. Depois que o Embaixador descançou alguns dias, e rece¬ beu os cortejos que lhe renderam ainda os missionários es¬ trangeiros, que desceram de Cantão para este obséquio, en¬ trou na consulta do termo que se devia seguir, conforman- do-se ás políticas chinenses; e chamando a conselho os mis¬ sionários práticos no ritual d’aquelle paiz, e dois prudentes cidadãos que se tinham deputado para assistirem ao Embai¬ xador em nome da cidade, se determinou que devia o Em- baixador'escrever uma carta ao Vice-Rei de Cantão,’dando- lhe noticia da sua chegada e do ministério a que vinha; mas esta diligencia se frustrou, porque em Cantão entenderam o Illustrissimo Rispo de Nankim c outras pessoas bem consi¬ deradas e intelligentes do genio e espirito altivo d’aquelles Mandarins, que se não devia entregar a dita carta, porque na soberba chinense poderia achar alguma resposta, que por seguir o seu estylo e os seus termos, não fosse tão deco¬ rosa quanto pedia a pessoa que representava o Embaixador, e com esta consideração foi retida. O Senado da Camara, como tribunal dependente e obriga¬ do a participar aos Mandarins quaesquer noticias extraordi¬ nárias, deu conta por sua chapa (que é o mesmo que instru¬ mento authentico) em 15 de junho, avisando da chegada do Embaixador que El-Rei seu amo enviava de Portugal com presentes, para dar ao Imperador os parabéns da sua eleva¬ ção ao throno; e 11a chapa com que 0 Mandarim respondeu perguntava quem era este senhor, quando pretendia entrar, que familia 0 acompanhava, de quem era 0 navio que 0 trans¬ portara, e se trazia algum genero de negociação? A que se respondeu satisfazendo a todas as perguntas. Aqui principiou logo 0 Embaixador a combater grandes
38 difiiculdades, e por primeira e principal foi o titulo de Em¬ baixador tributário; porque o Secretario na chegada de Can¬ tão, a que foi mandado pelo Embaixador para concluir com mais brevidade os pontos que o mettiam em duvidas, lhe disse que sabia que o Vice-Rei, na conta que deu ao Impe¬ rador d’esta embaixada, incluíra a palavra cimcum, que quer dizer tributário, o com o mesmo termo veio a chapa do Mandarim da villa de Hiam-san, apressando a jornada do Embaixador com a advertência de que lhe era muito conve¬ niente toda a brevidade; e n’estas proposições e respostas se passavam muitas chapas, sem conclusão alguma, principal¬ mente por se achar o Vice-Rei de Cantão embaraçado com os exames a que devia assistir pessoalmente. Mas na ultima chapa se explicou o Embaixador com toda a claridade, fazendo aviso a Cantão pela Camara de Macau, de que elle certamente não entraria no império com o titulo de Embaixador tributário, porque não tinha obrigação algu¬ ma de pagar tributo, e só vinha na figura do grande Rei de Portugal seu senhor dar parabéns ao Imperador do throno a que subira, e que o presente que trazia, era irmão e na mesma fórma d’aquelle que o Imperador defunto tinha man¬ dado a El-Rei de Portugal; e que elle tem preparado uma carta, pela qual recorre ao sabio, prudente e grande Impe¬ rador, em que lhe declara o fim d’esta embaixada, e lhe pede o mande tratar com a honra devida ao seu caracter, determinando por imperial" decreto, que n’esta fórma seja tratado e recebido na sua Còrte de Pekim, e que pede ao Vice-Rei de Cantão lhe aprompte um postilhão, que a toda a diligencia leve a dita carta, cuja resposta esperará em Macau. N’esle tempo saindo o Vice-Rei dos exames, e informan¬ do-se do que se tinha passado n’esta materia, expediu as suas ordens com tanta promptidão e eíficacia, que logo mu- dando-sc o estylo das chapas para a correspondência das cartas, a primeira que recebeu o Senado de Macau foi do Mandarim de Hiam-san, que continha em substancia, saber o dia em que determinava S. Ex.a entrar cm jornada, para
39 se lhe fazerem promptos todos os preparos, estimações e cortezias com que deve ser tratado um senhor de tanto res¬ peito, e que nada d'isto se deve attribuir a clle Mandarim, porque era determinação e despacho por decreto do Vice-Rei, que lhe enviou por outro Mandarim do seu palacio, com a consideração de que um grande senhor que vem em nome do seu Rei dar parabéns ao Imperador, não reparando na distancia de nove mil léguas, o seu tratamento deve ser o mais honorifico; e que as duas letras dm cum (Embaixador tributário) fòra erro do escrivão, que se retratara e será re- prehendido. No outro dia chegou segunda carta do dito Mandarim quasi com os mesmos termos, segurando que do Vice-llei e Man¬ darins de todas as cadeiras seria o Senhor Embaixador res¬ peitado e conduzido com uma honra fóra da regra ordinaria, e que pedia se participasse esta protesta ao Senhor Embai¬ xador; e a dita carta veio conduzida por um Mandarim do Vice-llei, e pelo quarto Mandarim de Iliam-san, que chega¬ ram a G de outubro, os quaes depois de darem noticia ao Procurador de que traziam guarda conforme as suas ceremo- nias, com sessenta pares de insignias para oflerecerem ao Senhor Embaixador em obséquio do seu caracter, mandaram cumprimentar o Governador, e pedir-lhe licença para o fa¬ zerem em sua casa, o que logo lhe foi concedido, e estes mesmos traziam um presente, que a carta explicava ser de quatro cousas, das quaes pediam recebimento. O Governador os esperou e recebeu com todo o ceremo¬ nial, e entrando a dar pessoaes satisfações sobre o erro do escrivão na chapa, em que se poz o nome de tributário, accrescentaram que traziam estas, e aquellas insignias de¬ monstrativas da grande estimação, honra e predicamento com que respeitavam a S. Ex.a, em signal do que apresenta¬ ram um papel vermelho, aflirmando ser do Vice-Rei, sellado com o seu sello publico, em que não podia haver falta, pedin- do-lhe se interessasse em conseguir que o Senhor Embaixa¬ dor os quizesse admittir á sua presença. O Governador lhes respondeu que as dependencias da
40 embaixada tocavam immediatamente ao Senhor Embaixa¬ dor, a quem deviam propor aquellas satisfações, e a chapa vermelha que traziam, e que elle estava tão certo da sua bondade e cortezia, que lhes segurava que se lhe pedissem audiência, elle infallivelmente os receberia com a civilidade que era innata com o seu espirito e nobreza, não obstante as justas queixas que tinha da incivilidade do titulo com que pretenderam tratal-o. Com esta certeza fizeram os Mandarins pedir audiência ao Embaixador, conforme o seu estylo, e no outro dia o foram buscar vestidos das suas cabaias de ceremonia, que são as de que usam na presença e nos cumprimentos dos seus su¬ periores, e chegando á sala da visita ajoelharam para entra¬ rem nas suas ceremonias, mas o Embaixador os mandou le¬ vantar e assentarem-se com elle em cadeiras iguaes, ainda que os Chinas muitas vezes o rogaram que quizesse tomar a sua cadeira do docel; com esta igualdade (que elles agra¬ deceram) entraram a dar as suas satisfações, e a discorrer sobre a jornada e modo do seu tratamento. O Embaixador agradecendo o mimo que lhe trouxeram, e significando-lhes o quanto se conhecia obrigado aos obsé¬ quios com que o tratavam, passou a mostrar algum senti¬ mento da semrazão com que lhe deram o titulo de tributᬠrio, dizendo-lhes, que como aquelle nome fôra publico e es¬ lava nas chapas que se costumam guardar nos cartorios, pe¬ dia a razão que por outra chapa se fizesse publico o erro do escrivão, e se lhe desse por publico .instrumento aquella honra c obséquio que lhe tributavam em particular, para o que devia esperar a resposta da carta, que sobre estes pon¬ tos tinha escripto ao grande Imperador. Elles lhe responderam, que ao Vice-Rei não lhe parecera enviar a carta, porque podia fazer tudo o que ella preten¬ dia; e que quanto ao escrupulo de se fazer precisa a publici¬ dade, elle mandava fixar por Mandarins editaes públicos em todas as partes, e logo se principiaram a pôr em Macau do teor seguinte: “Eu o Mandarim de lliam-san, quarta cadeira, aviso por
41 este edita), que o Senhor Embaixador de Portugal vem para Macau para ir a Pekim a dar os parabéns ao Senhor Impera¬ dor, e agora tenho por noticia que o meu povo anda dizendo que o Senhor Embaixador vem a tributar. Desde o principio até agora nunca houve tributo de Portugal, e agora tenho ordem dos Senhores Mandarins maiores para receber ao Se¬ nhor Embaixador para ir a Pekim; assim por este edital avi¬ so a lodo o meu povo, que d’aqui em diante se alguém dis¬ ser palavra de tributo, o cabeça da rua o traga amarrado á minha casa para o levar a Cantão entregar ao Chifu para se castigar com todo o rigor: todos obedeçam, e se não quei¬ xem.—Jun Chin Cinté.» Com estas disposições resolveram os Mandarins a sua par¬ tida, levando carta do Senado, em que se agradecia ao Vice-Rei o grande obséquio de mandar pelos seus Mandarins satisfa¬ zer pessoalmcnte a S. Ex.a e lhe trazerem estado, que co¬ nheciam e confessavam ser grande honra, mas que o Senhor Embaixador o não acceitava, querendo ser acompanhado só com a sua Corte; que acceitara o mimo, e que avisaria do tempo em que determinava partir para Cantão: elles, antes de se retirarem, buscaram novamente o Embaixador com os seus papeis azues de visita, conforme o seu ceremonial, e depois passaram ã casa do Secretario da Embaixada, de quem receberam um papel com as condições que S. Ex.a re¬ queria para a sua introducção e tratamento no império com o caracter que lograva; mas reflectindo-lhe que, como o titulo de Embaixador tributário tinha sido por chapa (isto é, por papel aulhentico) que se costuma guardar nos cartorios e fa¬ zer fé para o futuro, era indispensável que esta retractação se fizesse, não só por edital, mas também por chapa, para ficar servindo de regra para o recebimento de outro Embai¬ xador que podesse vir da sua Côrte áquelle império, com cuja ponderação pediram os Mandarins despedida para se retirarem. Acabadas as visitas, foi o Embaixador informado de que não era política ficar com os papeis azues que lhe tinham offerecido os Chinas; porque esta ceremonia, sendo entre el-
42 les o termo de maior submissão, também era estylo politico não se acceitarem, e assim lh’os mandou a casa, de que se mostraram muito obrigados, e juritamente agradecidos aos mimos que o Embaixador fez enviar para todos os conducto- res do presente, regalando-os largamente com varias curio¬ sidades da Europa e do reino, que levava preparadas para estas occasiões de capricho. A 27 de outubro chegaram os mesmos Mandarins com duas chapas do teor seguinte: «Eu Governador de Hiam-san, por razão de fazer saber ao meu povo o negocio da embaixada de Portugal, declaro que o grande Senhor Mandarim da casa real de Portugal, do reino do occidente, de alcunha Metello, por ordem do seu Rei vem de longe a dar os parabéns ao Imperador da sua assumpção ao throno, e não é Embaixador que venha offe- recer tributo; ha gente ignorante que lhe dão o titulo de Em¬ baixador tributário; n’isto se lhe faz uma grande injuria opposta a toda a cortezia: agora por mandado que recebido Vice-Rei, em que me manda fazer este expresso a lodo o genero de gente do meu povo, a todos totalmente declaro, que se houver algum que se atreva a dar-lhe o nome de Em¬ baixador tributário, e que assim o divulgue, mando ao ca¬ beça dos Chinas de Macau me avise distinctamente para o castigar com severidade; portanto, despacho expresso no primeiro da decima lua do anno quarto do reinado do Impe¬ rador Yum Chim: 20 de outubro de 1726.» A segunda chapa dizia assim: «Eu Governador da cidade de Cantão, obedecendo á or¬ dem do Vice-Rei e do superior Governo, que também rece¬ bi, em que mandava despachasse Mandarim e barças, que adiante viessem receber o Embaixador europeu, de alcunha Metello, e os mais da sua comitiva, e comsigo levasse para a metropole as cousas europêas, afim de partir para a Côrte a dar os parabéns ao Imperador; e conforme esta ordem ti¬ nha cu ordenado ao Governador da villa de Iliam-san ti¬ vesse preparado duas barças grandes e seis menores, e jun¬ tamente da metropole despachei mais tres com outra pro-
43 pria dc Mandarim, para irem até á villa de Hiam-San a receberem o Embaixador, como já fica registado n’este car¬ tório: «E como até agora não tem chegado, de novo despacho Mandarim que vá recebel-o, ao qual ordeno que vá a Macau a receber o Senhor embaixador Metello e ao Senhor Secre¬ tario da sua embaixada, e aos mais da sua comitiva, e que tragam comsigo as cousas europêas, afim de serem condu¬ zidas e acompanhadas para a Côrte. Este negocio se dirige a dar os parabéns ao Imperador da sua assumpção ao thro- no, e juntamente a perguntar-lhe pela sua santa saude, o que differe muito das embaixadas de Siam, Tum-Kim e mais reinos tributários á China. Os Mandarins inferiores tenham preparado por todo o caminho gente e barças, e os Manda¬ rins de armas despachem soldados para guarda e acompa¬ nhamento do Senhor Embaixador, ao qual convém tratar com toda a cortezia, sem oflensa, para manifestar a todos a gran¬ de honra e tratamento que dá o presente reinado; assim o ordenamos, aos vinte e nove da nona Lua do anno quarto de Yum Chim: 26 de outubro de 172G.» Apresentadas as duas chapas ao Embaixador, elle gratifi¬ cou toda a cortezia e satisfação com que era tratado, mas que, para de todo socegar o seu animo, se fazia preciso que a sua carta detida em Cantão fosse sem falta remettida ao grande Imperador, para saber se eram da sua mente estas de¬ terminações, e se as ditas honras lhe haviam de ser rendidas em toda a parte do império por onde passasse, e na face da mesma Côrte Imperial, sem cuja certeza não sairia de Ma¬ cau : com esta instancia foi a carta remettida por postilhão despachado a toda a diligencia, com ordem de não perder tempo na jornada. Aportou finalmente a Pekiin o expresso a 26 de novem¬ bro coma carta dirigida ao Imperador, na qual Sua Excellen¬ ce lhe dava parte da sua chegada a Macau, declarando o grande embaraço que lhe faziam as duas letras com que o recebiam, porque elle não vinha como Embaixador de um ltei tributário, mas como de um bom e affectuoso amigo, que
ã custa de uma distancia tão considerável o mandava com o caracter de Embaixador, significante da sua real pessoa, sómente para mostrar o seu affecto a Sua Magestade rei¬ nante na Asia e Tartaria, e o agradecimento á cortezia e cumprimento que devia ao Imperador seu pae defunto, que para Sua Magestade Portugueza era de uma memória muito obrigante e saudosa; á vista do que rogava a Sua Magesta¬ de Imperial, que com estas considerações passasse aos seus Mandarins as ordens opportunas para elle entrar em jorna¬ da, e ser recebido em Pekim. Esta carta foi acompanhada de outra do Vice-Rei, que dava conta ao irmão do Imperador do que se tinha passado com o Embaixador, as satisfações que se lhe tinham dado, e a constância em que estava de não entrar no império em- quanto as honras que pretendia lhe não fossem certificadas por ordem do mesmo Imperador, accrescentando que elle na verdade não era da ordem dos mais Embaixadores que entra¬ vam na China como tributários; c sobre isto o informava lar¬ gamente da grande equipagem que trazia, da magnificência do trato, e da profusão da liberalidade com que em tudo mostrava ser um grande senhor da sua Côrte, cujas noticias estimularam ainda mais o desejo que havia em Pekim de ver esta embaixada. Emquanto estas cousas se passavam em Macau e se dis¬ corriam em Pekim, o Regulo 13 irmão- do Imperador, a quem estava encarregado o despacho dos negocios do impé¬ rio, e a inspecção das dependencias das missões, tinha varias conferencias com os missionários portuguezes, para se clari¬ ficar sobre o motivo d’esla embaixada; a que respondia o Padre Magalhães, que tinha acompanhado o Embaixador até Macau, que elle falando muitas vezes com o Embaixador sobre os pontos da sua embaixada, não sabia mais do que vir da parte de El-Rci seu amo a cumprimentar o Imperador reinante sobre a morte do Imperador seu pae e sobre a sua exaltação ã corôa, e no mesmo tempo rogar-lhe que communique a sua protecção e beneficencia aos habitantes de Macau e outros seus vassallos que residem na China.
45 Esta resposta não satisfez o Regulo, on para melhor dizer o Imperador, de quem elle era o órgão, porque receava muito que o Embaixador trouxesse ordem de lhe falar em favor da religião christã; porque de uma parte estava reso¬ luto a não conceder cousa alguma que tocasse a este ponto, e por outra não queria expôr a uma negativa publica um Ministro que elle desejava ver e não desagradar, e assim sem declarar-se, perguntava muitas vezes aos missionários se o Embaixador traria alguma outra commissão que fosse molesta, diflicil ou desagradavel; e repetindo-lhe sempre a mesma resposta, de que não tinha mais fim que uma civili¬ dade e gratidão, que eram virtudes inseparáveis dos Monar- chas portuguezes, e muito apurada no espirito do seu actual Rei, o Regulo lhes disse, que sendo assim, elle Ihespromet- tia, que o Embaixador portuguez seria recebido e tnatado na jornada e na Côrte com as maiores honras que jamais se fizeram n’ella a outro algum Embaixador. Por ultima conferencia perguntou o Regulo aos missionᬠrios, que sentido se dava na Europa áquellas duas letras chinezas, que tanto rejeitava o Embaixador? e dizendo-lhe, que muito mau, porque significavam tributo, obrigação, su¬ jeição e dependencia, elle lhe achou razão na exclusiva, di¬ zendo : eu bem conheço que estes caracteres só se empregam nos que dependem de nós e nos pagam tributo, e não é cousa que entre em pensamento, que os Europeus, que estão no fim do mundo, sejam nossos súbditos e tributários, ou que nós pretendamos d efies cousa alguma d’estas; mas pondero que o querer mudar o uso antigo poderá ter suas consequên¬ cias, porque é regra do império, que se não deve alterar; mas eu resolverei com o Imperador e com o Tribunal de ri¬ tos outras duas letras, que melhor se ajustem ao caracter e ao gosto do Embaixador. No outro dia fez saber que se tinham mudado as duas letras em outras duas GY Há, isto é, dar parabéns ao Impe¬ rador, e (pie estava determinado mandar um Mandarim dos superiores com um Europeu, para irem encontrar o Embai¬ xador a Macau, e lhe servirem de conduclores até Pekim,
46 ordenando ao Mordomo mór, que escolhesse para este effeito um Mandarim capaz de dar boa conta do que o Imperador lhe incumbisse nas suas instrucções; e foi eleito com grande gosto dos Portuguezes um Mandarim, que sobre a sua pru¬ dência tinha uma especial inclinação aos Portuguezes, que em todas as suas dependências costumava tomar interesse e fazer-lhes protecção; e depois de todas estas disposições se expediu o dito Mandarim, que era o Presidente do Tribunal interior do crime, e com elle um Europeu, para conductores do Embaixador até Pekim, determinando que a sua jornada seria mais conveniente por agua para melhor resguardo dos seus presentes e commodo da sua grande equipagem. A 9 de dezembro partiram de Pekim os dois enviados, e quasi no mesmo tempo saiu o Embaixador de Macau, e se vieram encontrar perto do rio Kians, aonde se preparam as embarcações para o transporte, e sendo recebidos com gran¬ des civilidades, e distinctas honras dos mais Embaixadores. A 12 de maio se soube que vinha chegando á Côrte, e o Imperador o mandou visitar com alguns regalos, os quaes recebeu a 14, nove léguas antes de Pekim, aonde achou promptos os quarenta cavallos e as mais equipagens que tinha mandado comprar para a sua entrada na Côrte, a qual fez a 18 com grande ordem, magnificência e concurso do povo, tendo o Governador Geral de Pekim o cuidado de mandar desempedir as ruas, dispondo n’ellas as guardas de ambos os lados, que evitassem o tumulto; porque a turba do povo foi tão immensa, que até buscou os telhados para ver a funeção, e o que mais os admirou foi a grande quanti¬ dade de cruzados novos em prata que o Embaixador man¬ dava lançar por todo o caminho, o que também fez quando saiu da sua primeira audiência. Avisado o Imperador da sua chegada, lhe determinou o dia 23 para lhe dar audiência, mas sobrevieram algumas difficuldades ao Embaixador, sendo a primeira sobre o modo de apresentar ao Imperador a carta de El-Rei seu amo: o costume d’esta Côrte é pôr a carta sobre um bofete que está na sala da audiência, e o Embaixador queria dal-a immedia-
47 lamente ao Imperador, como se praticara com o Embaixador de Moscovia, c a 20 determinou o Imperador que fosse sa¬ tisfeito como pedia. No mesmo dia foi chamado o Embaixador ao Tribunal de ritos, que tem a incumbência de ensinar as ceremonias aos estrangeiros e a todos aquelles que lião de ir á presença do Imperador; mas o Embaixador, julgando que aquelle exer¬ cido não era conveniente á sua dignidade, se esqusou com a representação da pessoa que fazia, c que ainda quanto a elle era desnecessário ensinar-lhe o que sabia perfeitamente; e dispensado n’este ponto, ainda entrou em nova duvida, por¬ que vindo em cadeira com oito portadores até Pekim, que¬ ria ir á audiência na mesma fórma, mas contempladas maduramente as razões por que lhe não era permittido, não entrou n’esta disputa; e vencidas outras mais que»occorre- ram, se determinou o dia 28 para a sua primeira audiência, para o que saiu de casa pelas sete horas da manhã com todo o seu cortejo ordenado na fórma seguinte. Marchavam adiante dois Mandarins de armas, a que fa¬ ziam comitiva seis soldados de cavallo armados dc setas e aljavas; seguiam-se dezeseis músicos com instrumentos, que faziam saber a marcha da comitiva; depois iam em fda trinta andas de madeira preciosamente trabalhadas, com seus pés para descançarem, trancas, cordas e demais prepa¬ ros pertencentes á sua conducção, tudo amarello, e cada uma d’ellas ía com um caixão de regalo para o Imperador, as cobertas também eram amarellas de seda, guarnecidas com borlas e franjas de seda carmezim; as andas eram leva¬ das por moços vestidos de encarnado, e como eram de dilTe- rente grandeza, umas eram levadas por quatro moços, outras por oito, e também por doze e por dezeseis, fazendo o numero de duzentos sessenta e dois os moços que se occupavam n’este trabalho; ás andas se seguiam alguns ministros a ca¬ vallo, desembaraçando o caminho da muita gente que o oc- cupava, não obstante estarem as ruas guarnecidas de solda¬ desca; depois iam os quatro clarineiros do Embaixador e o timbaleiro com clarins e timbales de prata, as bandeiras e
48 guarnições de damasco verde, tudo bordado e franjado de ouro, levando preciosamente bordadas as armas reaes de Portugal, e adiante de cada um ia um creado a pé vestido de encarnado, e os ditos clarineiros vestiam casacas de panno azul com voltas de gran, meias da mesma côr e os vestidos todos agaloados de prata, assim pelas costuras como pelas fímbrias e orlas, com vizos de veludo amarello entre os galões, e todos com plumas brancas; dez lacaios em duas ordens con¬ tinuavam a marcha, vestidos na mesma fôrma dos clarineiros, também a cavallo, e cada um levava a pé á sua ordem um creado vestido de encarnado; dois archeiros a pé, cada um com seu montante, com casacas e calções de panno azul, vol¬ tas de escarlate agaloadas de prata, com barrete de grana¬ deiros de veludo azul, com luas de tela de ouro e seda en¬ carnada, e n’elles as armas do Embaixador em escudos de prata batida. Logo iam por sua ordem o estribeiro, seis gen¬ tis-homens, o Secretario, e todos vestidos, uns de estofo de ouro, outros de estofo de prata, outros de seda, e tudo rica¬ mente bordado de ouro c prata, chapéus com grandes plu¬ mas, espadins de prata, etc., e cada um levava adiante do cavallo um creado vestido de encarnado; dois archeiros com seus montantes na fôrma dos primeiros; a cadeira do Em¬ baixador de veludo azul, bordada e agaloada de prata e ouro de grande primor e forrada de sctim carmezim, e o Em¬ baixador vestido de tissú de ouro e pardo, cujos portadores vestiam de seda azul com guarnições de seda branca, meias de seda de côr de fogo, sapatos de seda negra, chapéus de veludo azul, com penachos de plumas encarnadas, e ás ilhar¬ gas da cadeira seis soldados, tres de cada parte, fardados na mesma fôrma dos archeiros, mas com espingardas, baio¬ netas na bôca da arma, bandoleiras, patronas, etc. Atraz da cadeira iam dois ajudantes de camara com casacas de veludo azul com voltas de veludo carmezim agaloadas de prata, com os seus dois creados vestidos de encarnado, e os aju¬ dantes, um levava o chapéu de sol, e o outro o cochim; dois cavallos á destra, com preciosas sellas e arreios, e cobertos com pannos de veludo carmezim agaloados de prata com es-
4!) cudo das annas do Embaixador; a liteira de caminho, quo era de setim azul; a ella se seguiam doze andas de preciosa fabrica, porém tintas de azul, nas quaes ía a equipagem do Embaixador, levadas cada uma por oito moços vestidos de encarnado, c as andas cobertas de reposteiros de veludo azul bordados com as armas do Embaixador; vinte e quatro carros matos cobertos de azul, em que ia a equipagem da casa; os mais creados e olliciaes da casa acompanhavam sem terem logar determinado, todos em cavallos do Embaixador, como eram todos os mais d esta grande comitiva. Fóra da ordem referida iam detraz da cadeira o Padre interprete, o Padre confessor e vários missionários, que assistem na Côrte de Pekim, uns a cavallo, outros em carruagens da terra; o Tagira, conductor do Embaixador, com outros ministros de inferior esphera com muitos creados. Enumerada á multidão de gente que compunha este cor¬ tejo, entrando os soldados que iam em guarda das andas, que lambem pertencem ao mesmo corpo e á familia do Em¬ baixador, que constava de confessor, interprete, oito gentis- homens, dois ajudantes de camara, dez lacaios, oito porta¬ dores, quatro clarineiros, um timbaleiro, dez archeiros, do- zentos e sessenta e dois moços de carregar, dois mestres de cozinha, dois copeiros, um cabelleireiro, dois compradores, um escrivão de letra china, cinco moços de cavallariça, seis moços para differentes ministérios de cozinha e copa, vinte e tres creados de acompanhar, conductores de cavallos etc., chegava o numero da gente a perto de seiscentas pessoas. Com esta ordem chegou a Palacio, em que entrou pela porta do meio dia até á sala do conselho, em que se lhe poz o jantar e a todos os do seu séquito, acompanhando-o n’esta occasião um Conde c um dos Ministros de Estado; desta sala passou a outra, aonde o Imperador lhe mandou dizer, que levasse comsigo dois dos seus Mandarins, para cujo eíTeito escolheu o Embaixador o Secretario da Embaixada e Fructuoso Xavier Pereira Pinto, e disposto tudo, foram con¬ duzidos para a sala da embaixada com esta ordem. Iam a diante dois Mandarins, que chamam da presença,
cun grande da Côrte, quo senda de Introductor, e logo o Embaixador trazendo em ambas as mãos a carta credencial, a que seguiam o Secretario e Fructuoso Xavier, conduzidos por um Mandarim; assim chegaram á sala imperial, cujo pateo estava guarnecido de duas ordens de Mandarins em habito de ceremonia; a sala estava cheia de Grandes do império assentados de ambas as partes em quatro linhas, e o Imperador apparecia no meio, posto no seu tlirono. Entrou o Embaixador pela porta occidental, e conduzido pelo Intro¬ ductor, subiu os degraus do tlirono, e posto de joelhos apre¬ sentou a carta de El-Rei, que o Imperador recebeu e entre¬ gou a um Mandarim, o qual a teve sempre levantada nas mãos, emquanto durou a audiência; depois se levantou, e saindo pela mesma porta, se foi pôr diante da do meio, que também estava aberta, e ao entrar fez ellc e todos os da sua comitiva as nove ceremonias do costume, e d aqui foi condu¬ zido ao pê do tlirono ao logar em que se tinha posto uma almofada, que era superior a todos os Grandes, e depois de assentado um breve tempo, se poz de joelhos sobre a dita almofada e fez a sua fala ao Imperador, fazendo-se enten¬ der pelo interprete que estava á ilharga do Embaixador, e acabada a fala e a resposta, lhe ministraram o chá e aos mais da sua comitiva, o que acabado, se retiraram, fazen¬ do-se tudo com profundo silencio; e o Embaixador tinha a todos em uma reverente admiração pela gravidade, modéstia e exactidão com que observava o ceremonial, não faltando a cousa alguma, nem parecendo confuso ou embaraçado, e fazendo-se tudo com igual satisfação de ambas as partes; ao despedir ouvio o interprete que o Imperador disse aos da sua Côrte: este homem é polido e sabio, e digno de estima¬ ção. Retirando-se a sua casa com a mesma ordem, fez espalhar sobre o povo muita quantidade de dinheiro em prata por todo o caminho; e a 7 de junho foi a uma casa de campo em que estava o Imperador, para lhe olíerecer os presentes de El-Rei seu amo, que eram exquisitos e taes, que ainda quando se possam ver outros de maior magnificência, não
se acharam mais bem imaginados, nem com tanta perfeição e de mais bom gosto. Dois Mandarins acceitaram o presente do Hei e do Em¬ baixador, e acharam as caixas em que iam fabricadas com tanto primor, e com fechaduras e chaves de prata, (pie as levaram á presença do Imperador com as mesmas cousas que continham; o Imperador cheio de admiração mandou os dois Grandes que lhe tinham assistido ao jantar, que disses¬ sem ao Embaixador, que o costume da China é não acceitar tudo o que se offerece, e que não sabia se se usava o mesmo na Europa, ou se seria indecente o acceitar uma só parte? O Embaixador respondeu a isto com grandes attenções e desculpas, especialmente dos da sua oHerta, e com estes cumprimentos se despediram, dando-lhe os Mandarins as mãos ao modo da Tartaria. Passados alguns dias lhe mandou o Imperador um pre¬ sente de mil taéis com um cortezissimo recado, o que acceitou o Embaixador, pedindo licença para os ir agradecer pessoal- mente, o que lhe foi permittido, rogando-o juntamente para ver a sua casa nova de campo e os jardins, o que se verifi¬ cou no dia 13; e dando-lhe de jantar, como na primeira vez, foi conduzido em barca a fazer passeio pelos canaes, mos¬ trando-lhe os jardins; e todo o mais tempo que mediou a sua partida, empregou o Embaixador em obras de christandade e magnificência, e nos contínuos divertimentos que lhe da¬ vam, emquanto se preparavam os grandes presentes que havia trazer para El-Rei; e como n’este tempo occorreu o dia de S. João, nome de El-Rei seu amo, o Embaixador-o mandou celebrar com uma comedia, e deu um grandioso banquete na sua casa. A 7 de julho teve ordem para ir de tarde (por causa do calor) passar a noite em uma casa do Regulo, que é vizinha á do Imperador, afim de se achar na manhã seguinte em estado de se lhe dar a audiência de despedida, e com effeito a teve pelas seis horas, Sem que na sala se achassem mais que tres Grandes; porém a escada estava cheia de olficiaes vestidos de ceremonia para darem o vinho e servirem ás me-
zas cle fructa: na galeria estavam duas ordens de músicos e instrumentos; levantou-se a tenda amarella, que é á ma¬ neira de um pavilhão, em que está o boleie, porém os vasos de ouro c prata n'esta occasião tinham o seu logar no pateo. Com a ordem já dita chegou ao Palacio, e subindo á sala em que estava o Imperador no seu estrado feito á maneira de um pequeno throno, o Embaixador se assentou em uma almofada que se preparou para elle, e todos os mais ficaram de pé: os ofliciaes da casa do Imperador lhe trouxeram o vi¬ nho em ceremonia, e depois lhe trouxeram um copo de ouro, que elle recebeu com ambas as mãos, e no mesmo tempo tres Grandes do império e o interprete conduziram o Em¬ baixador ao pé do throno, e o Imperador lhe deu o copo com um gracioso cumprimento, o que acccitando-o e bebendo, fez um reverente agradecimento a esta especial honra, e vol¬ tando para o seu logar, o convidaram a comer das fructas, que estavam postas em pirâmides sobre mezas bastante¬ mente altas, e depois de uma conversação em que o Impe¬ rador fez varias perguntas e honras ao Embaixador, este lhe pediu a determinação para o dia da sua retirada. Ao sair d’esta audiência trouxeram alguns presentes ao Embaixador e ás pessoas da sua comitiva da parte do Im¬ perador, e lhe fizeram ver trinta c cinco balms que esta¬ vam destinados para El-Rei, e sete para elle, dizendo-lhe ao mesmo tempo, que o Imperador determinava o dia 12 do mesmo mez para a sua partida o mais cedo, ou o de 10 o mais tarde; este tempo occupou o Embaixador em dar e re¬ ceber presentes, e em muitas acções de piedade e de gran¬ deza. A 14 vieram dois Grandes do império dizer ao Embaixa¬ dor o ultimo adeus da parte do Imperador, com ordem de o acompanharem até ao embarque, e de novo o presentearem. A 16 se poz em ordem a marcha para as embarcações, que estavam no canal, duas léguas distantes da Côrte, aonde foi convidado para a ceia com os dois Grandes na sua barca, em que os ofliciaes da cozinha do Imperador a tinham pre¬ parado, e toda a sua comitiva foi servida com grandeza em
outra barca, e no outro dia despedidos os Grandes para Pe- kim, entrou o Embaixador na viagem para Portugal. Não posso deixar de dizer, que este respeitável Embaixa¬ dor merece um especial c distincto Iogar na nossa historia, não só pela magnificência da sua Embaixada, dirigida pelas altas idéas e grande coração do magnifico e soberano Hei que o mandou, mas também pelas resoluções políticas e acertos com que se portou no meio de tantas contradicções, , com uma nação tão melindrosa e tão apegada aos seus cos¬ tumes, vencendo todas e ainda as que se julgavam imprati¬ cáveis, com que conservou a reputação do seu Soberano e de toda a Europa aos olhos de uma Còrte que até á sua vinda não falava mais que de tributários, quando n’ella appareciam Embaixadores; mas a voz que desde a entrada na China principiou a espalhar a fama, do espirito, política e liberalidade d este Embaixador, a grandeza da sua Côrte, o numeroso da sua familia, o precioso das suas galas; isto attra- hiu de sorte os olhos dos Chinenses e a expectação da Côrte, que á custa de todas as dispensas queriam comprar o gosto de verem uma Embaixada que a China nunca tinha visto igual era numero de estrangeiros, que em tudo mostrassem tanto ao vivo a grandeza dos Príncipes da Europa, que por isso não houve algum que antes d'este Embaixador fosse recebido e tratado com tanta distincção, mandando o Impe¬ rador, que tanto na Côrte, como fóra d’ella, lhe fizessem honras até então nunca vistas, singulares e extraordinárias. Ainda que como catholicos devemos discorrer, que tudo deveu á piedade christã com que edificou os antigos e novos lieis d aquelle paiz, commungando muitas vezes publica e de- votissimamente, o que imitavam todos os do seu séquito; a boa e religiosa ordem da sua casa e familia, não abusando da liberdade que se lhe permittiu por graça especial contra o costume d'aquella Côrte; a modéstia e civilidade em toda a parte, a rectidão com que pagavam, a liberalidade com que agradeciam, a edificação com que se portavam; por pré¬ mio d’estas virtudes lhe facilitaria Deus o bom elfeito em tudo o que emprehendeu, c com que faz preciosa a sua memória;
e por não fazer mais extensa esta relação, passo em silencio muitos pontos de estimação, que usou com elle o Imperador, e deixo de contar muitos acertos e discretos repentes do Embaixador,
KELATORIO DE FRANCISCO DE ASSIS PACHECO DE SAMPAIO A D. JOSÉ I DARDO COSTA DOS SVCCESSOS DA E11BAIAADA A QUE FORA MANDADO Á CORTE DE PEIII NO ANNO DE 175Í Senhor: Quiz Vossa Magestado nos princípios do seu felicíssimo governo mostrar ao mundo todo, que o zèlo da propagação da fé nos Monarchas portuguezes passa de paes a fillips como herança da natureza, e a este fim foi servido nomear-me seu Embaixador ao império da China, para cultivar por este modo a amizade do Imperador actual, promover a conserva¬ ção e augmcnto das missõés do mesmo império, restabele¬ cimento do real padroado, e outros interesses politicos, cuja honra devo muito mais que ao meu merecimento á minha fortuna. Para esta expedição saí de Lisboa no dia 23 de feverei¬ ro de 1752, e com cinco mozes e dezesete dias de viagem cheguei a Macau a 11 de agosto do mesmo anno. Jâ n’esta cidade se sabia que vinha Embaixador, por avisos particula¬ res que se adiantaram em os navios de Londres, e por esta razão logo que a nau se reconheceu pela bandeira, foi recebi¬ da com uma salva geral de todas as fortalezas, sendo este cortejo com que o Governador D. Rodrigo de Castro annun- ciou ao povo a minha vinda, o primeiro objecto que provo¬ cou toda a expectação dos Chins, pelo respeito que sempre lhes mereceu esta embaixada. Nos dias seguintes em que a nau se deteve pelas diflicul- dades de entrar a barra, fui cumprimentado pelos Ofliciaes da Camara, Governador, Cabido, Prelados (las religiões e mais pessoas de distineção da cidade; e tendo-se concluído
a ponte
logo deram á embaixada o titulo de tributo, e entraram a tratar esta acção por um modo tão pouco civil, que bem mos¬ trou terem as perturbações dos annos de 748 e 749, e ainda mais a providencia que n'esse tempo deu Goa a estas desor¬ dens, acabado de reduzir ao maior abatimento o nome por- tuguez n’aquelle império. Pretendiam os Mandarins não só dar-me o titulo, mas su- jeitar-me em tudo á lei de tributário. Quizeram que eu lhe désse uma relação das cousas que trazia para pagar o tri¬ buto, como elles diziam, e que entrasse para Cantão sem es¬ perar ordem do Imperador; para este fim citavam nos seus papeis o exemplo de outras embaixadas, e com estas instan¬ cias pretenderam que eu passasse pelo mesmo ceremonial que elles actualmente praticavam com o Embaixador de Sião, que concorreu no mesmo tempo a oíTerecer o seu tributo dos elephantcs. Foram respondidas com desembaraço estas proposições: dizia-se a elles que a Coroa portugueza não pagava tri¬ buto a Monarcha algum do mundo, antes na Asia o recebia de muitos Heis; que eu me não atrevia a dar-lhe a lista que me pediam, sem resolução expressa do Imperador, porque só elle podia a seu arbítrio declarar-me o modo de fazer-lhe manifesto o (pie trazia para lhe offerecer em nome de Yossa Magestade, e ultimamente que, sem ordem sua e se ajustar primeiro o tratamento que devia ter por todo o império, não dava um passo fóra de Macau. Veiu de proposito o Chykien da villa de Hianxan, expedi¬ do pelo Suntó e Vice-Rei, a praticar estas duvidas com o Se¬ nado, e depois de propor as suas razões e de as querer pro¬ var com documentos dos seus Tribunaes, se retirou com a mesma resposta; e porque a disputa não só era impertinente, mas indecorosa, declarei aos Olficiaes da Camara, que se as chapas não mudassem de estylo no modo de tratar-me, eu as não queria ver, e que isto mesmo respondessem aos Man¬ darins. Assim o fez o Senado, e esta resposta produziu uma sus¬ pensão de semelhantes praticas, que durou o tempo de mez
58 e meio. Esperava eu que em Pekim tivessem melhor succes- so as minhas negociações, por me constar que o Imperador lia com emulação na chronica de seu pae as embaixadas de Roma, Portugal e Moscovia, e anciosamente desejava lison¬ jear-se com os mesmos obséquios; e tendo aquelle refugio em (pie salvar os respeitos da Coròa, sem offender a pieda¬ de d esta expedição, entendi que não devia sacrificar-me ce¬ gamente ao arbítrio d’estes Mandarins, á vista de todas as nações da Europa que observavam com a maior vigilância os progressos d’esta disputa. Não esteve ociosa a minha obrigação emquanto durou este silencio: procurava por todas as vias que me eram possíveis, saber os projectos dos Ministros de Cantão: Francisco Roth, director da Companhia oriental de França, por intervenção do Padre Joao Silvano Neuviali, que me serviu na versão das chapas, por ser nas letras sinicas o mais perito dos que as¬ sistem em Macau, me participou todas as conferencias que os Mandarins faziam, em que eu não tinha poucos votos a meu favor, remettendo-me com esta occasião a copia de al¬ guns papeis que, sem despeza sua, soube tirar dos Tribu- naes. A 3 de novembro chegou a primeira noticia do bom suc- ccsso que tiveram em Pekim as minhas prevenções; porém ainda tão confusa que inquietou a todos! Dizia o aviso que se preparassem casas para um Enviado na Côrte, que vinha receber-me e conduzir-me á presença do imperador, e pare¬ cia não caber no tempo que esta resolução fosse efieito das minhas cartas I Mas com outro papel se desvaneceram no dia G estes receios, porque n'elle se referia que eram dois Ministros, um d’elles o Padre Halerstein, Presidente do Tri¬ bunal da mathematica, e se pedia uma exacta relação da mi¬ nha família, para expedir-se o que fosse preciso para a nossa conducção por todo o império. Respondi a estes avisos, que os Mandarins me haviam tra¬ tado cm vários papeis com o titulo de tributário, e que sem eu receber uma satisfação condigna a este aggravo, ociosa¬ mente procuravam aposentadorias para os grandes Enviados
I da Côrte, porque sem ella nem sairia de Macau, nem lhe da¬ ria o rol que me pediam. Appareceu com eííeito a satisfação no dia 14, posta em editaes públicos; n’elles se declarava que o reino de Portugal não pagava tributo á China, e pro- raettia rigorosos castigos a todos os que se atrevessem a dar- me o nome de tributário; e assim se concluiu esta imper¬ tinente disputa, ticando eu só com o cuidado de pôr-me prompto a partir, logo que chegassem os meus condu- ctores. Passados alguns dias me certificaram as cartas de Pekim da felicidade que até áquella hora só conhecia pelos elíeitos, no diíferente modo com que me attendiam os Mandarins: dizia-se n’ellas que chegando os meus avisos a 2 de outubro, fôra immcdiatamente o Padre Halerstein falar ao Xu-Tagin, Ciovernador da cidade, que possue o segundo logar no Minis¬ tério e valimento do Imperador, e lhe participara que eu es-“ tava em Macau e desejava passar á Côrte; que este Ministro o ouvira com summo gosto, e lhe pedira uma representação por escripto para a mandar á Tartaria, onde o Imperador es¬ tava n’esse tempo divertindo-se na caça dos tigres, exercí¬ cio em que costuma empregar os mezes do outomno de cada anno. Assim o fez o Padre, e correu o negocio com tanta expe¬ dição que no dia 10 se lavrou o primeiro decreto, que orde¬ nava se escolhesse um Mandarim do Tribunal do Nuy-Vu-Fu (que é a Camara imperial) e que este, como Presidente da mathematica, partisse pela posta a Macau, para ambos me receberem e conduzirem á Côrte; e successivamente se ex¬ pediu outro ao Suntó e Vice-Itei de Cantão, dando-lhe noticia do primeiro, e com expressa recommendação para que me tratassem de sorte que eu me não desgostasse, e me dessem em seu nome um banquete com a maior grandeza e solem- nidade que costuma praticar-se na China, e mandou que o expresso fizesse precisamente seiscentos lizes de caminho por dia, que corresponde ao numero de sessenta léguas por- tuguezas. Notavam as cartas dos Padres muitas circumstancias que
60 justamente davam a entender a distincta estimação que o Imperador fazia da embaixada: a todas excedia no meu con¬ ceito a de dar estas ordens antes de receber o aviso dos seus Ministros de Cantão, e sem preceder consulta do Tribunal dos ritos, sendo esta a praxe recebida como lei n’aquellc impé¬ rio, supposto consistir todo o systema do governo da China na infallivel observância dos seus estylos, não duvidando a cada passo prescindir das forças da razão, só por conservar a autoridade dos costumes. Tinham os Mandarins (comprehendidos na demora do seu aviso) recebido estas ordens com susto; e por satisfação ao engano com que até áquelle tempo me suppozeram no maior apeito, não duvidavam aflirmar que por ineios naturaesnão eia possível se tivessem adiantado tanto as minhas negocia- çik s na (.ôite; faziam todas as disposições para alli me re¬ cebei em com o maior cortejo, mas não podia encobrir-se o desgosto que tiveram de não dar-me as leis na formalidade da minha entrada. I ez-se esta paixão notoriamente mais sensível ao Suntó, que no poder do cargo e altivez do genio dava maior exercí¬ cio ao odio com que aborrece aos Europeus, que devia parti¬ cipar de seu irmão o Conde Ne-Cum, autor da ultima perse¬ guição das ebristandades, que ha poucos annos, tendo o pri¬ meiro logar na estimação do Imperador, pelo mau successo da guerra de um rebelde, onde serviu como General supre¬ mo, perdeu de um mesmo golpe a graça e a cabeça, horosco¬ pe» fatal em que parece terem nascido no presente governo d’aquelle império quasi todos os validos. A 14 de dezembro chegou a Macau o Padre Halerstein, e no dia seguinte o seu companheiro, que era um Tartaro Mon- gú, e ambos foram recebidos com iguaes cortejos do Sena¬ do e Governador, que os mandou salvar com grande diífe- icnça aos mais Mandarins que costumam irá mesma cidade. Na primeira visita que logo me lez o Tartaro, conheci que em muitos accidentes de sinceridade disfarçava uma artificiosa simulação do orgulho, que ao depois lhe declarou o tempo no decurso da viagem : fui pagar-lhe a visita no mesmo dia,
01 por não faltar ao rito mais recommendadó nas políticas da China; e esta foi a primeira vez que saí de casa e fui visto depois do meu desembarque, sendo a noticia d'cstc recolhi¬ mento e da boa disciplina em que conservei a minha faniilia, os motivos mais ellicazes que até ao tlirono do Imperador me grangearam o respeito e estimação com que sempre me trataram. Quando o Padre passou por Cantão, já os Mandarins ha¬ viam recebido a resposta dos avisos, que a Corte ainda não tinha quando elle partiu para conduzir-me; e um d elles que não seguia a parcialidade do Suntó, lhe confessou que o Im¬ perador resolvera que eu tinha obrado em tudo com acerto, que elles me não deviam obrigar a dar-lhe a lista que me pediam, o que eu poderia fazer voluntariamente, se quizes- se; e a noticia d'esta resposta empenhou mais ao Padre em mandar a relação ao Tagin, Governador de Pekim, porque’ elle desejava lisonjear ao seu Monarcha, antecipando-lhe a certeza do que vinha no presente. Não duvidei satisfazer ao empenho do Padre, em que tam¬ bém se interessava o Tartaro seu companheiro; e como para se escrever esta relação na phrase sinica, com as individua¬ ções precisas e letras correspondentes á preciosidade das cousas e alto respeito da Magestade que as mandava, era conveniente que se vissem, fomos todos a casa do Governa¬ dor, para onde tinha passado o presente com publica solem- nidade, por satisfação ao reparo que já se fazia, em que ago¬ ra se não praticava o mesmo que se observara no tempo do Imperador Yum-Chym, e alli se escreveu a lista, e eu tive esta occasião de ver o Governador em sua casa, que dese¬ jando-o fazer em correspondência dos repetidos obséquios e continua assistência que lhe devi, me não atrevia a cumprir este desejo, supposta a pouca reputação em que os Chinas leem aquelle logar. Na tarde do dia 20, ajustado para a nossa partida, sai de Macau: constava a minha comitiva de setenta e uma pes¬ soas, contando n’este numero os dois Jesuítas da vice-provin- cia, que ficaram na Côrte, um a titulo de mathematico, ou-
iro do cirurgião, e os vinte soldados e alferes da guarnição da nau, que entre todos fizeram a melhor especie, para o agrado e attenção dos Chinas; o Governador, Senado da Camara, Prelados das religiões, e mais pessoas que consti¬ tuem o corpo civil d’aquella cidade, me acompanharam até uma legua de distancia, onde a noite poz o ultimo termo a esta cortezia. Continuou-se a viagem nos dias seguintes, e a 23 fiquei uma legua distante de Cantão; n’esle logar recebi os primei¬ ros cumprimentos das nações da Europa, que ao depois se multiplicaram com visitas de lodosos directores das compa¬ nhias que alli assistem, e com repetidas descargas de infan- teria que tinham formado nas feitorias, esmerando-se cada um no modo de festejar-me com tal excesso, que muitas ve¬ zes discorri ser a necessidade que teem de falar a lingua portugueza naquelle paiz, para melhor expedição dos seus negocios, a que lhe influía nos corações uma vassallagem de alTecto não menos extremosa que a dos natoraes no empe¬ nho de obsequiar esta embaixada. Repetia-se por todas as vias a noticia do resentimento do Suntò e Vice-Rei, c esta certeza me trazia no maior cuidado; e ainda que os Chins sejam conhecidos no mundo pelo espe¬ cial dom de saber dissimular inimizades nas acções publicas, pareceu-me providencia mais segura não acceitar a aposenta¬ doria que me tinham preparado em terra, porque com este arbítrio seriam menos as occasiões de expôr-me ao perigo que temia: communiquei ao Padre Halerstein o meu pensa¬ mento e o modo com que podia cortezmente desembaraçar- me dos Mandarins, se elles me instassem para que saísse da barca, e o Padre concofdou em tudo com o meu voto, asse¬ gurando-me que esta resolução era a menos arriscada em semelhante conjunctura. Vieram com elíeito o Ju-Chyn-su, e outros Mandarins cum- primentar-me da parte do Suntó e Vice-Rei, e me convidaram para as casas que havia tempo estavam destinadas para a minha accommodação: respondi-lhe que, como o Imperador tinha mandado dois grandes Enviados pela posta para me
conduzirem ã sua presença, era juslo que eu correspondes¬ se a este excesso, mostrando-lhe os desejos que tinha de possuir sem demoras uma honra tão estimável, c que assim antes de chegar á Côrte, determinava não entrar em outra casa que não fosse a barca; e como esta resposta se ajustou cabalmente á idéa que todos conservam do respeito que se deve ao seu Monarcha, foi constante que tivera entre elles notável acceitação, e os provocara a maior diligencia para me expedirem sem dilações, assignando logo o dia seguinte para o jantar, e que no outro estaria tudo prompto para cu continuar a minha jornada. Muitas vezes tinha eu praticado com o Padre sobre os lo- gares de banquete, e elle me assegurava que nenhuma du¬ vida poderia haver em dar-se-me o primeiro, supposto que o convite não dizia relação a outro algum dos assistentes: este era também o meu conceito, regulando o discurso pelo ’ que refere a historia das políticas da China; porém, com o mesmo aviso de que só esperavam os Mandarins que eu fos¬ se para se dar principio a esta funcção, vein também por escripto o ceremonial que deviam seguir os convidados, em que se me dava o terceiro logar, assignando o primeiro e se¬ gundo para os meus conduetores. Logo o Padre ponderou ao mensageiro que veiu apresen¬ tar-lhe o ceremonial por commissão do Suntó, que n’elle ha¬ via erro, de que sem duvida resultaria alguma questão, que diflieultosamente se comporia, porque o Embaixador, sendo o principal convidado, havia querer o primeiro logar, que justamente lhe tocava; respondeu elle a esta proposição, que todos sabiam que o primeiro logar era do Embaixador, pois o que alli se dava aos conduetores se não devia contar para a preferencia, c só lhe pertencia pela ordem de conduzir. Deu-me o Padre a noticia do que passava; não cabia no tempo dilatar a resolução, nem dictava a prudência executar a primeira que me occorreu para desfazer esta machina do Suntó, em um paiz onde se não percebem as immunidades de uma Embaixada, e em conjuncture tão critica, que clara¬ mente se conhecia ser todo o empenho d’este Ministro mal-
04 quistar-me na presença do Imperador, e procurava o meio mais proprio de alimentar-lhe a desconfiança, defeito trans¬ cendente a todos os nascidos n’aquelle Império, dando-lhe parte de qualquer alteração que houvesse, com as cores que quizesse introduzir-lhe a sua maldade. Obrigou-me, sobretudo, a causa final d’esta expedição a ir ao banquete, ajustando com o Padre que elle questionaria com o Suntó esta duvida, sem referir-me cousa alguma do que praticara na disputa, djzendo-lhe que cu não sabia ain¬ da o que o ceremonial mandava; que em uma só palavra po¬ deria participar-me o successo das suas instancias, porque eu no ultimo aperto tomaria o partido de fazer-me desen¬ tendido, e de rogar ao mesmo Suntó, me assignasse algum Mandarim para guiar-me nas ceremonias d aquella solemni- dade; porque sendo differentes os estylos da Europa, que¬ ria ter um conductor a quem imitar o melhor que me fosse possível n’esta occasião. ' Esta foi ultimamente a conclusão da disputa que o Padre teve com o Suntó, que sustentou, ainda mais com a autorida¬ de do cargo que com as forças da razão, que o logar dos con¬ ductors não fazia numero para a preferencia dos assentos; e dizendo-lhe o Padre que um só bastava para a acçâo de conduzir, (piando entrámos na sala em que estavam as me- zas, tomou a quarta, ficando o Tartaro seu companheiro na primeira, eu na segunda, e o Secretario na terceira. Não podia occultar-se o empenho com que o mesmo Tarta¬ ro meu conductor, desvanecido com a honra de Enviado do seu Monarcha, seguiu o partido do Suntó n’esta occasião, e não houve mal fundadas suspeitas de ser elle o autor d’esta idea, que ambos defenderam contra o sentir dos mais Man¬ darins assistentes; e esta foi a única acção que em todo o progresso da embaixada ainda hoje me conserva escrupu¬ loso, nos desejos que tenho de proceder no serviço de Vossa Mageslade com o maior acerto. No dia 28 destinado para as mais dependences da minha expedição, mandou o Vice-Itei pelo Thesoureiro da fazenda real entregar-me o passaporte para os trânsitos da viagem,
65 e mil e cem taéis, com um recado que dizia que, segundo as leis d’aquelle império, a todos os Embaixadores se fazia as¬ sistência de mil taéis; porém, que recommendando o Impe¬ rador que me tratasse com excessso aos meus antecessores, se resolvia a fazer aquelle augmento, por cumprir com a dif- ferença d’esta recommendação. Hem sabido é o estylo da Asia vulgarmente praticado com os Embaixadores n'estas as¬ sistências, e não ignorava eu que todos os que me precede¬ ram no emprego haviam recebido os mil taéis, c com esta certeza respondi ao Thesoureiro, que supposto não carecia de cousa alguma para fazer os gastos da jornada, era obri¬ gado a acceitar as grandezas do Imperador, por dar-lhe gosto na execução das suas ordens. Soube o Tartaro meu conductor o que se passava com esta assistência, e veiu logo advertir ao Padre, que d’aquelle di¬ nheiro seria preciso dar contas em Pekim, e não sabia se eu o quereria receber com este encargo, parecendo-lhe melhor que o levasse algum dos Mandarins dos que haviam acompa¬ nhar-me, os quaes o poderiam distribuir no que me fosse preciso no caminho: participou-me o Padre o que havia n’este particular, e ainda que eu facilmente lhe mostrei nas memó¬ rias das embaixadas antecedentes, que esta advertência não tinha fundamento, c era toda uma chimera inventada pela perversidade do seu companheiro, conclui que estimava muito o reparo, porque me dava boa occasião para não ser- vir-me d’aquelle dinheiro sem ofTensa do Imperador. Para este fim fiz que o Padre o levasse ao Thesoureiro da fazenda, e da minha parte lhe dissesse, que eu devera ao meu conductor o beneficio de fazer-me semelhante aviso, o qual me obrigava a repôr aquelle donativo na sua presença, e lhe pedia o quizesse deixar, porque não podia dar-se caso em que eu necessitasse d’elle; nem me era decente receber prata de que houvesse dar contas, pois só a Vossa Magestade as daria do meu procedimento, que as de dinheiro eram em¬ prego muito humilde para a distineção do meu caracter. Quiz o Thesoureiro satisfazer-me, e logo respondeu que semelhante obrigação era supposta;. porém como o Padre lhe
66 assegurou, que eu sem duvida a não acceitaria segunda vez, com o parecer do Vice-Rei se entregou a prata ao Ul-fu que me acompanhava; e ainda que clle em muitas occasiões a mandou offerecer pelo decurso da viagem, teve o trabalho de a guardar e restituir da mesma sorte que a recebeu, porque sempre lhe respondi que me sobrava muita da que trazia para as minhas despezas. Com estes exemplos do orgulho do meu conductor saí dò Cantão no dia 29, já determinado a evitar, com o pretexto de alguma moléstia, todas as occasiões de concorrer com elle em publico; mas não foi preciso affectar causas para obser¬ var este preceito, porque as asperezas do clima, no desabri¬ go das barças e maior rigor do inverno, me pozeram inca¬ paz de receber nas metrópoles das províncias os cumprimen¬ tos dos Mandarins, e assim passei até á Côrte, sem ter contes- ção alguma no ceremonial com que devia ser tratado; por¬ que, como o Padre já vinha prevenido para que eu seguisse o estylo tartaro no modo de corresponder as visitas por cs- cripto, que he hoje o mais polido e pratico entre os Minis¬ tros principaes d’aquelle império, fiquei livre da maior op- pressão que podia ter no cuidado de sustentar a dignidade do meu caracter, sem offender nas respostas a civilidade d’es- tas attenções. Ê este uso o mais grave na acceitação de todos os Manda¬ rins, e além de ser o mais facil de observar, corre entre elles como argumento infallivel da grandeza das pessoas: os que presidiam ao governo civil e militar das cidades e villas man¬ davam o seu papel de visita a encontrar-me na distancia de duas e tres léguas; ao depois vinham pessoalmente com o mesmo papel, e toda a correspondência destas cortezias consistia em se lhe acceitar, e restituir-se-lhe logo que eu o via, dizendo-se-lhe que já me constava o favor que me fa¬ ziam. Esta formalidade de tratar aos Mandarins de menos gra¬ duação acautelou aos Vice-Reis que assistem nas capitaes, para me não mandarem semelhantes papeis, porque facil¬ mente perceberam a boa instrucção que eu trazia-na política
07 que devia com ellcs praticar, e assim cada um se escusava por diverso modo, e o de Ilan-cheu mandou dizer-mc que não me oflerecia o seu papel de visita, porque da mesma sorte que elle não conhecia as letras da Europa, não entende¬ ria eu as da China. A 20 de abril, quando já estava na província de Péchi-li, da cidade de Tien-Cin-Fu, se adiantou o Quin-Chay tartaro a (lar parte á Còrte do logar em que me deixava, que assim se entendeu ser preciso pelas noticias que vinham de que o Im¬ perador me esperava com impaciência, e julgava proceder a demora de algum descuido dos conductores: a 27 tornou para as barças e me assegurou seria preciso fazer a minha entrada em Pekim até ao primeiro de maio, porque o Impe¬ rador queria logo dar-me audiência, e estava summamente ancioso de receber a Embaixada sem maiores dilações; e isto mesmo certificavam todos os Padres que nos mesmos dias vieram a cumprimentar-menaquelle sitio. Isto supposto, tomei a resolução de sair das barças antes (le chegar a Chankia-van, ultimo logar em que é navegave! aquelle rio; porque corn as poucas aguas que havia n’este tempo, precisamente teria a demora de muitos dias para vencer tres léguas, que só me restavam de caminho. A este logar mandei vir cincoenta cavados que já tinha comprados, c no dia 30 fui pernoitar a uma casa que se tinha preparado por minha ordem, uma pequena legua de Pekim, onde achei um Official das ordens do Xu-Tagin, Governador da cidade, que vinha visitar-me da sua parte, e perguntar quando que¬ ria fazer a minha entrada publica, para elle dar providencia a tudo o que fosse preciso para o socego e applauso d’esta solemnidade. Respondi-lhe, que supposto o beneplácito do Imperador, entraria no dia seguinte pelas tres horas da tarde; e disposta a occasião com a formalidade que exponho no papel junto a esta conta, entrei na Còrte á hora determinada: não bastou a experiencia de ter visto nas mais cidades d este império um numero de homens quasi infinito, para que me não servisse agora de novidade a multidão; pareceu-me que via o mundo
lodo em cada rua, e não era maior o concurso que o pasmo com que todos admiraram a gravidade e luzimento d’esta acção, nem foi menor o respeito que os soldados e Manda¬ rins, que defendiam os logares do nosso transito, fizeram observar aos assistentes, não permittindo que algum a visse de cavallo ou dentro de carruagem. Foi a observância d’esta ordem o primeiro testemunho pu¬ blico que o Imperador deu na Còrte, da estimação que fazia da embaixada, querendo que a minha aposentadoria logras¬ se o mesmo privilegio; porque a guarda tartara que assistia na primeira porta, fazia apear, sem distincção, a todas as pessoas que entravam na rua e assim passavam todo o es¬ paço que occupava a frontaria das casas, e com grande in- commodo do povo não consentia que passasse carruagem alguma, ainda das que servem ao transporte de mantimen¬ tos, nem homem descoberto ou que viesse sem barrete de ceremonia; c era o logar tanto a proposito para o contínuo exercício d’estas attenções, que não havia instante do dia em que estivessem ociosos os soldados. Pouco depois de entrar em casa tive recado do Xu-Tagin, que vinha visitar-me, e a antecipação d’este aviso me deu tempo para o receber com o mais distincto cortejo que podia compôr a assistência de toda a minha familia: chegou elle com pouca demora, e com particulares demonstrações de agrado, de que é fértil aquella nação, festejou a minha vinda. Entre as pessoas da sua comitiva trazia este Ministro um filho seu, já Mandarim da terceira ordem, (pie ficou de pé com os mais assistindo á visita; advertido pelo Padre que servia de interprete, de quem era, o convidei para sentar-se, porém não consentiu o pae que o fizesse, e a todas as mi¬ nhas instancias satisfez com a resposta de que era um pe¬ queno Mandarim, que não devia ter assento 11a minha pre¬ sença. Disse-me que 0 Imperador quereria ver-me 110 dia 4, se eu já estivesse descançado da moléstia que precisamente me daria uma jornada tão grande em tempo tão rigoroso. Res-
69 pondi-lhe que estava expedito para ir á presença de Sua Ma- gestade quando fosse do seu real agrado, e desejava muito que se me abreviasse o tempo de possuir esta honra; e com isto se despediu, deixando a todos os Padres que na mesma hora me assistiam, cheios de admiração e alegria por esta vi¬ sita, attenção que elles reputaram por uma das maiores fe¬ licidades da embaixada, e que não tinha exemplo, nem de¬ via esperar-se, segundo o inalterável systema com que aquelle império se governa. No dia seguinte 2 de maio fui formalmente avisado de que o Imperador determinava dar-me audiência no dia 4 pelas 8 horas da manhã, c (pie instruído no ceremonial das embai¬ xadas inais solemnes do tempo de seu pae, declarara que o Xu-Tagin me havia introduzir na sua presença, que elle re¬ ceberia a carta credencial pela sua propria mão, e ao depois faria eu a ceremonia das cortezias; que seria interprete a Padre Agostinho llalerstein, satisfazendo-me por este modo a tudo o que eu podia desejar n’estas disposições. Não se occultava ao Tribunal do Lipu, a que pertence pri¬ vativamente a direcção das embaixadas, que o Imperador na occasião presente prescindia d’esta formalidade; mas nem por isso desistiu da sua jurisdicção no empenho de se intro¬ duzir agora n’estas dependencias; e certos os Mandarins que o dia 4 era o destinado para a audiência, fizeram um memo¬ rial ao Imperador, em que lhe davam parte da minha vinda, propondo-lhe o mesmo dia 4 para me admittir á sua presen¬ ça, e só erraram a hora, porque lhe assignaram por melhor a do meio dia. Respondeu o Imperador a esta representação, que já sabia, e nada mais; e este desengano bastaria para que elles se abstivessem por uma vez de semelhantes diligen¬ cias, se não temessem como delicto grave o deixar de per¬ sistir no que era emprego proprio do seu ministério. Promettia a tarde do dia d uma notável alteração na mu¬ dança do tempo; e porque a hora propria de ir ao Paço, ou seja por cortezia ou dependencia, é ao romper da manhã, não se esqueceu o Imperador do incommodo que podia dar- mc esta novidade, e já de noite mandou dizer-me que o tem-
70 po ameaçava grandes chuvas, e que por esta causa não con¬ sentia que fosse ao Paço de madrugada; que até ás dez ho¬ ras poderia ir, se não chovesse, aliás ficaria transferida para outra occasião a audiência, pois elle sabia muito bem o aceio e riqueza com que trajava a minha família, e não queria que se molhassem. Decidiu a manhã a meu favor a questão d esta urbanida- de, e não sendo preciso usar db uma altenção que na minha intelligencia excedeu a toda a esfera da política, fui ao Paço, observando a comitiva quasi a mesma ordem com que entrei na Côrte; e porque a occasião notoriamente me facilitava a liberdade de a dirigir como eu quizesse, não duvidei ir em cadeira, levada por oito homens e outros tantos de reserva, tendo para mim, que me era licito não observar o que a mi¬ nha instrucção me recommendava n’este particular, e que seria negligencia manifesta acautelar o perigo que não po¬ dia suppôr, perdendo com imprudente receio a melhor con- junctura de augmentar uma circumstancia tão especiosa naquelle Império para o lustre e decoro d’esta acção. Seriam seis horas quando cheguei á porta principal da parte de oeste: o Oflicialda guarda vendo nos primeiros da familia que se apearam, que todos levavam espadins, ad¬ vertiu logo ao Padre Halerstein que não podiam entrar com elies. Mandou o Padre dar parte ao Governador, que já es¬ tava no Paço, e entretanto me deteve na cadeira; pouca de¬ mora teve este embaraço, porque logo vein ordem que o desvaneceu; e assim fomos conduzidos, depois de passar muitos pateos, até uma sala da guarda interior, que ficava próxima á da audiência, e até alli nos acompanharam todos os Padres, por mercê especial do dia, merecendo pela quali¬ dade de Europeus o que só poderiam conseguir pelo grau de Mandarins. Havia n’esta sala tres assentos destinados para os que de¬ víamos entrar na audiência, mercê extraordinária, por ser lo- gar aonde nem aos Régulos se permitte esta honra; pelas oito horas em ponto entrei na audiência: o Xu-Tagin me in¬ troduziu e levou até ao throno do Imperador, o qual rece-
71 bendo a carta, a deu a ura dos Mandarins do seu lado, que a teve levantada nas mãos emquanto durou aquelle acto. Saí fóra da sala a fazer as cortezias da parte de leste, que é cir- cumstancia de maior distineção n’esla ceremonia, e entran¬ do segunda vez, logo o Imperador fez signal para que todos se sentassem, e se me dar o chá-tartaro, e immediatamente perguntou pela saude de Vossa Magestade, e se estava o reino em paz e abundancia. Respondi a esta pergunta, e ouvida por elle a resposta, me deu logar para fazer-lhe uma breve fala, em que lhe dis¬ se que os Monarchas portuguezes praticavam em muitas oc- casiões a maxima política de imitar as acções mais distinctas de seus gloriosos ascendentes; que Vossa Magestade entra¬ ra a reinar dando ao mundo uma manifesta prova d’esta Observância, porque dos últimos confins do occidente me > mandava deproposito a dar-lhe o parabém da sua exaltação âquellc throno, felicíssimo governo de tantos annos, e agra- decer-lbe os benefícios com que tratava aos seus vassallos, que existiam nos domínios do seu império; que por este modo não só pretendia Vossa Magestade seguir os exemplos de seu augustissimo pae, mas fazer-lhe as mais particulares demonstrações da sua amizade, e dos desejos que tinha que esta correspondência se conservasse tão segura, como mere¬ ciam os antigos e generosos motivos que tivera na sua ori¬ gem; que este era o único negocio da minha embaixada; e se o desconhecimento que eu tinha das expressões que po¬ deriam ser mais gratas aos seus ouvidos, me não deixava ex¬ plicar mais vivamente as sinceras intenções de Vossa Mages¬ tade, a sua alta comprehensão devia supprir quanto faltasse na efiicacia das minhas palavras. Tinha o Imperador ordenado que o Padre Ilalerstein par¬ ticiparia tudo o que eu lhe propozesse, ao Xu-Tagin na lin¬ gua sinica, para que elle lho referisse na tartara, e que por esta mesma phrase corressem as respostas; pareceu cautela para que o Padre as não percebesse da sua bocca, e não se duvidou que o Ministro tivesse a liberdade de as corrigir, se entendesse que assim era preciso; mas não bastaram estas
72 prevenções para que deixasse de ouvir-me com sobresalto, que se deu a conhecer a todos os assistentes, mostrando me¬ lhor o susto que tivera, na alegria e agrado de que innnedia- tamente se revestiu, logo que se capacitou do que eu lhe disse. Respondeu-me que elle tinha retratado no seu conceito o bom coração de Yossa Magestade (esta é na China a expres¬ são que tem melhor energia para agradecer um favor que se não espera), que sempre tratara os Europeus como seu pae e avós, e que agora os estimaria e trataria melhor; que eu me explicara muito á sua satisfação c o deixava summa- mente agradado; e com outros elogios que só podiam ter fundamento na sua real beneflcencia, me despediu da sua presença. Tem estabelecido a política d’aquella nação que todos os que falam ao Imperador, depois de possuir esta honra, es¬ perem algum espaço em outra sala, e cada um mede pela sua propria attenção o tempo d’esta demora. Já o Padre me tinha lembrado esta cercmonia, e ainda que eu me daria por desobrigado de a praticar, a satisfação com que sai da au¬ diência insensivelmente me convidou a seguir o mesmo rito, de que tirei mais um exemplo da summa advertência d’estes homens; porque apenas detive o passo na sala onde esperei antes de entrar, perguntou um dos Mandarins que motivo me suspendia, e dizendo-lhe o Padre o que era, o Xu-Tagin acudiu logo, que o Imperador não consentia que me demo¬ rasse, que nada mais tinha que dizer-me, e só queria que, sem dilação, me recolhesse a casa a descançar. - Creou o Imperador no dia seguinte ao Padre Agostinho Halerstein, Mandarim da terceira ordem, e lhe deu dois mil taéis de ajuda de custo. Dizia o decreto, que lhe fazia estas mercês em attenção ao serviço de me acompanhar e condu¬ zir de Macau á Côrto, e ás despezas que faria por occasião d’esta viagem; e com este despacho não só teve o Padre au- gmento na graduação, por ser até alli da quinta ordem, mas também na renda, que costuma crescer ã proporção dos graus em todos os officios.
No dia 6 foi o mesmo Padre chamado ao Paço; e o Conde Fu, primeiro Ministro, com o Xu-Tagin lhe disseram, que a 11 havia o Imperador receber o mimo e dar-me de jantar na sua quinta de Yuen-Ming-Yuen, assistindo elle em pessoa a este convite; perguntaram-lhe se sabia que eu quizesse ver alguma das cousas notáveis d’aquella cidade, ou gostaria de alguns dos divertimentos que alli se costumavam fazer, por¬ que o Imperador desejava festejar-me por todos os modos que lhe fossem possíveis, e me havia concedido ampla liber¬ dade para ir aonde quizesse, e só elle teria o cuidado de avi¬ sar ao Tagin Governador, para estarem aguadas e limpas as ruas por onde houvesse de passar. Lembrou-se o Padre que na província de Xantum nos agra¬ damos todos de ver a destreza com que uma mulher passou algumas carreiras a cavallo, pondo o corpo em diversas fi¬ guras na maior violência da desfilada, e muito sinceramente lhe deu esta noticia; disse-lhe mais que eu desejava ver as egrejas, a torre da mathematica, e aquelle notável sino ge¬ ralmente conhecido no mundo pela fama da sua grandeza. Logo contou ao Imperador esta resposta, porque na mesma noite vein um Mandarim com recado da sua parte ao Padre, para que me advertisse que o sino estava em um pagode, (jue poderia ser que eu não quizesse ontrar irelle, c não suc- cedesse desgostar-me de ter saido de casa inutilmente. A 7 teve o Padre segundo aviso do Conde, que o esperava para falar-lhe, e todo o negocio consistiu em dizer-lhe se gostaria eu de ver o estado do Imperador quando sae de ce- remonia, porque elle ia a Tien-Tan sacrificar ao céo para lhe dar chuva, e fazia solemncmente esta funcção. Uespondeu- lhe o Padre que ao seu parecer estimaria eu muito esta honra; e pouco depois de recolher-se a casa, veiu um Mandarim da parte do Imperador dizer-me que na madrugada seguinte ia fazer um grande sacrifício ao céo, e desejava n’esta occasião ver a minha comitiva, e que eu visse a sua; que se quizesse dar-lhe este gosto, me estaria o Xu-Tagin esperando na porta Cyen-Muen, para me assistir e mostrar tudo o que alli hou¬ vesse para ver.
74 Respondi-lhe que agradecia muito a Sua Magestade o que- icr fazer-me esta honra, e que eu me considerava o homem mais feliz do mundo, porque os seus favores se ajustavam a todas as medidas dos meus desejos: fui com effeito na ma¬ drugada do dia 8, e já na porta me esperava o Governador da cidade: mostrou-me os elephantes, carruagens, e todo o mais apparatoso cortejo que para este fim estava distribuído pelos seus logarcs, e ultimamcnte me pediu que mandasse pôr a minha família em ordem que podesse ser vista sem confusão. Pouco depois apparcceu o Imperador; vinha em uma ca¬ deira de extraordinária grandeza, conduzida por sessenta e quatro homens, seguido de parte da sua guarda, que consta¬ ria de quatro mil cavallos tartaros; e apenas me viu, fez adiantar o Conde a repetir-me que fôra sacrificar ao cêo, e pedir-lhe a chuva necessária para a producção das searas, e me dera aquelle incommodo pelo grande desejo que tinha de ver a minha comitiva, e que eu visse a sua; passou ainda quando eu recebia este recado, e com especial attenção e summa benevolencia foi reparando em todos, deixando-me de alguma sorte satisfeito de que poderia o nosso luzimento produzir-lhe uma especie capaz de supprir na sua estimação quanto nos faltou na desigualdade do numero, porque em tão copioso concurso só nos faria logar esta diflerença. Sabia o Imperador medir muito bem as occasiões que cu desejava aproveitar, e lembrando-se que com pequeno des¬ vio podia d alli recolher-me a casa pelo Tribunal da malhema- tica, tinha ordenado aos Mandarins que me esperassem n’aquella hora; deu-me o Xu-Tagin esta noticia. Fui ver a torre das observações, aonde ha instrumentos-de não menor antiguidade que grandeza; o residente tartaro me convidou com varias mezas de chá e doce, assegurando-me que todos os que me assistiam tinham passado sem dormir, porque o Imperador os fizera avisar que se prevenissem para esta visita, tão fôra de horas, que os obrigara a levar a noite toda na diligencia de ter aquelles logares com o preciso aceio.
Já o Xu-Tagin me havia convidado para ver a quinta c casa da recreação, que está contígua ao Paço de Pekim, chamada In-Tay, obra do grande Imperador Yum-Io; fui no dia 9 des¬ tinado para este passatempo pelas oito horas da manhã ; es¬ perava-me o mesmo Tagin com um dos Goláos do império, o Tartanga, Presidente do Tribunal dos Mandarins, e o U-Fú, primo do Imperador; e primeiro que tudo me mostraram o Tuon-Tyel, que são umas salas de bella architecture, orna¬ das ao gosto da China, mas com muita riqueza e per¬ feição. Deste logar, com assistência de toda a comitiva, me con¬ duziram a ver os lagos e barças em que passeia o Impera¬ dor, que são de uma fabrica mui vistosa, sem dilTerença na figura e ornato das melhores salas do seu palacio; d’elias passámos a uma planície, que, ao seu modo, tem o mesmo uso que as picarias da Europa, na qual vimos um numeroso concurso de cavalleiros, e alli me communicou o Xu-Tagin, que o Imperador sabendo que cu na província de Xantum gostara de ver umas carreiras de cavallo, queria mostrar-me agora os homens mais destros que tinha n'este exercício e lhe serviam para o seu divertimento. Fomos todos para o sitio onde o Imperador costuma assis¬ tir a estas funeções, e depois de sentados, ao signal que fez um dos Mandarins, principiaram as carreiras. A velocidade e multidão dos que corriam fez imperceptiveis as acções mais principaes, que eu quizera curiosamente distinguir. Todo o primor das operações que se fizeram, consistiu na destreza e força dos cavalleiros, e elles executaram movi¬ mentos tão admiráveis, que, sem arriscar-se verdade na exaggeração, póde hem affirmar-se que n’esta especie não ha mais que ver. Chegou o dia 11 assignado para a conducção do mimo, e com a mesma ordem que entrei na Corte o fui acompanhando até á quinta, aonde já estava pelas oito horas da manhã: sem consumir tempo nas duvidas de receber tudo, mandou o Im¬ perador recolher logo os caixões, merecendo-lhe a mesma galanteria o que eu lhe offered em meu proprio nome; e
70 convidando-me o Xu-Tagin, com outros Mandarins, para en¬ trar em uma das casas do primeiro pateo, alli me deram e a toda a comitiva, em diversos logares, um esplendido jantar de peixe, que se tinha prevenido d’esta qualidade por ser em sexta feira, que até n’estas exacções experimentei a sin¬ gular advertência com que sempre me tratou. Com pouca demora fomos todos conduzidos ao sitio onde havia ser a solemnidade do banquete: havia irelle uma tenda de campanha armada com a mesma figura das salas do pa- lacio; as columnas que serviam para sustentar o tecto dis¬ tinguiam os logares dos convidados, porque fóra d’ellas o ti¬ veram os Padres que servem no Paço com as mais pessoas da minha familia, e por mercê especial o teve também o Padre Felix da Rocha, pela razão de me assistir em casa como in¬ terprete nas occasiões em que o Padre Halerstein estava fóra. Saiu o Imperador de uma casa que ficava em pequena dis¬ tancia, em cadeira descoberta, seguido de alguns Mandarins da sua guarda; precediam-n’o dois, incensando-o cada um com o seu thuribulo de ouro; todo o concurso, que era innu- meravel, se poz em fórma para o cortejar, segundo o rito d’aquelle império; cantou a musica que estava distribuída em diversos córos; e com a pausa que esta nação observa, como circumstancia necessária ao decoro e grandeza das pessoas, chegou ao throno.. Apenas se sentou, fez signal para que entrassem todos os que haviam possuir commigo aquella honra; principiou im- mediatamente a comedia, que constaria de duzentas figuras ricamente vestidas; seguia-se a ceremonia de receber o vi¬ nho e chá, que é a principal destas funcções. O Conde seu cunhado e primeiro valido lhe levou o vinho, observando o compasso da musica nos movimentos do corpo, com uma alTectação tal, que só teria desculpa nas invenções d’esta na¬ ção. Concluído este acto, fui chamado ao throno; acompa¬ nhou-me o Xu-Tagin e o Padre Halerstein; deu-me o Impera¬ dor da sua mão um copo de ouro com vinho, dizendo-me que bebesse o que podesse; bebi um pouco, e depois de agrade-
77 cer-lhe esta grande attenção, lhe disse que n’aqueUa hora acabava de cumprir com todos os negocios que me tinham conduzido ã sua presença, que, entregue a carta e o mimo, só me restava que Sua Magestade me assignasse o dia em que devia retirar-me para Macau. Por este modo satisfiz á minha instrucção, e elle me res¬ pondeu que muitas vezes se lembrava que Vossa Magestade desejaria jã ver-me cm Portugal; porém que de nenhuma sorte havia de assignar-me o dia da partida; a esta atten- ciosa resposta repliquei que eu estava ás suas ordens n a- quella Côrte, e Sua Magestade havia pcrmitlir-me que não tivesse arbítrio proprio n’esta eleição; mostrou que se agra¬ dara muito d’esta instancia, e disse para o Padre interprete: «Pois bem, tu escolherás a occasiãoque te parecer melhor», alludindo a ser o Padre Presidente do Tribunal da malhe- , matica, onde se costumam escolher os dias faustos, posto que este Imperador não cré, nem usa de semelhante su¬ perstição. Retirei-me, depois d'esta pratica, para o meu logar; foi o Imperador distribuindo por todas as pessoas da minha comi¬ tiva os pratos que tinha na sua mesa, e ao mesmo tempo me convidou para que visse a comedia e estivesse a meu gosto, porque elle bem sabia que aos Europeus era summamente violento aquelle modo de^ssentar-se; era preciso usar d’esta faculdade do Imperador, e assim tive a occasião de ver al¬ guma cousa da comedia, privilegio que poucos lograram naquelle acto; porque os Mandarins que assistiam, nem se atreveram a lançar os olhos ãs representações que se fize¬ ram, observando-se quo o respeito que teem ao seu Monar- cha, até parece que lhes tira a propriedade de viventes, por¬ que nem a mesma respiração se lhes percebe. Acabado o banquete, o Conde valido, o Xu-Tagin, outro Coláo que sempre me assistiu, e dois Régulos da Tartaria genros do Imperador, me levaram a uma casa para que visse parte do presente que jã estava destinado para Vossa Mages- lade; e depois de me apresentarem algumas cousas, foram mostrar-me aquella grandiosa quinta. Faz-se o transito de
78 uns sitios para outros em pequenas barças, pelos canaes de agua que a repartem toda em muitas ilhas. Estavam as mar¬ gens do canal por onde passei bordadas de tanta especie de divertimentos, que a variedade deixou muitas vezes confusa a attenção, para nao distinguir a todos: havia representa¬ ções, musicas, danças, brigas fingidas e outras mutações se¬ melhantes, sempre cm exercício, e o Conde não se satisfazia de me repetir que aquelle modo de festejar-me fòra todo da eleição do Imperador. Depois de ver vários aposentos, tanques e jardins, ainda que ao seu gosto, magnifico tudo, passámos á casa que por desenho dos Padres se fabricou com o titulo de curopêa, em que a naturalidade do architecto deve supprir a que falta na do edifício; havia-se concluído com a maior pressa, pelo grande empenho que o Imperador teve que eu a visse na sua ultima perfeição. Esperava-me no portico a musica, a que ellc chama também europèa, que consta de rehecão, (lautas e rehecas, em que tocam algumas sonatas que os Pa- dies lhes ensinaram. Achava-se a primeira sala ornada de muitas alfaias da Europa, a maior parte impróprias; mas todas estas impropriedades se reduziam a uma boa harmo¬ nia com a excellente pintura dos tectos, obra do grande Cas- telhoni e de outros Padres que servem no paço. D esta casa sai para outras, todas de sumptuosa archite- tura; e ultimamente, despedido dos Régulos, me levou o Con¬ de á sua quinta, por uma porta particular que a faz commu- nicavel com as do Imperador, e depois de mostrar-me as suas casas, até as mais interiores, nos deu a todos uma ceia com grandeza, acompanhada de comedia, e não duvidou de con- fcssai muitas xezes que o Imperador lhe concedera a mercê de poder convidar-me, pela especial graça que lhe fazia. Concluído o dia n estas funcçoes, nos recolhemos a casa, onde achei parte do mimo que já tinha visto; e para todos os da família, menos os que entrámos na audiência, um pau de piata que pezava 53 taéis, 10 peças de seda para os de pri¬ meira ordem, e 8 geralmente para os mais. Já era publico que o Xu-Tagin estava a partir com brevi-
7!» dade para a Tartaria a executar uma commissão particular da Corte, cujo segredo dava geral assumpto ás conversações d’aquelle tempo, e que na falta do Conde Ha-Cum, primeiro nomeado para assistir-me na sua ausência, que no dia do grande sacrifício quebrara um braço da queda de um ca- vallo, havia servir-me o Hay-Tagin, Presidente do Tribunal da Fazenda, que já tinha logrado as estimações de primeiro valido do Imperador, e era Ministro de tanta probidade e tão venerado pelos seus merecimentos, que na providencia do presente governo conseguiu o privilegio de conservar a vida, perdendo a graça do seu Monarcha. Pedia a occasião maior diligencia na paga da visita que me fez, e assim, depois de o prevenir com aviso antecedente, fui no dia 14 a sua casa, onde elle me esperava com o cor¬ tejo de todos os Mandarins seus subalternos. Por imitar ao Conde deu-me de jantar e comedia, que entre aquella nação é o mais distincto applauso das visitas. Sobre a mesa que me tocava havia duas caixas de primoroso charão, cheias de vários doces: disse-me que o Imperador, sabendo que eu o visitava, pouco antes lh’as tinha mandado, para que as pu- zesse na minha mesa, que em sua casa não havia cousa tão preciosa, e que a mim me devia possuir agora a honra e ri¬ queza d’aquelle mimo. Serviu-me ao jantar seu filho mais velho, sem que nenhuma diligencia minha pudesse evitar o excesso d’esta cortezia. Seguia-se fazer a estes Ministros um presente das cousas da Europa, para de alguma sorte lhes agradecer a assistên¬ cia e aífecto com que me tratavam; devia principiar pelo Conde, porque n’esta mesma preferencia lisonjeava ao Ta- gin; reparti com elles o que levava preparado para estas oc- casiões, e o Padre Halerstein foi o interprete dos recados: viu o Conde o que lhe offerecia, e respondeu que elle deixa¬ va ficar aquelle mimo, porque sendo meu, o devia tratar com esta veneração; mas que sem o beneplácito do Imperador se não atrevia a acceital-o; que pediria licença, e ficava obri¬ gado a dar-me conta do successo. O mesmo praticou o Xu-Tagin, e ambos a conseguiram,
so dizendo-lhe o Imperador, que vindo eu de Ião longe, deviam todos cuidar em dar-me gosto, porque assim o recommcn- dava alei da boa hospitalidade. Só com o Ilay-Tagin, que também merecia a mesma demonstração de agradecimento, me não foi possível praticar semelhante correspondência, adiantando-se elle a prevenir o Padre interprete para que eu o não cumprimentasse por aquelle modo, porque não queria pedir ao Imperador a licença que concedera aos mais. Ainda o Tribunal do Lipu não desistia de todo das suas pretenções! Fez segundo memorial ao Imperador, referin¬ do-lhe que na fôrma dos seus estatutos me devia dar trcs banquetes, e outros donativos, a que elles dão o nome de prémios; porém que attentos os Ministros ao modo com que Sua Magestade me tratava, não sabiam o que fizessem para cumprir com as suas obrigações. Teve esta representação a mesma resposta que a primeira, que já sabia, e a consequên¬ cia de ser eu convidado para segundo jantar no dia 18, de¬ clarando-se ao mesmo tempo que em Cantão havia receber outro, porque com esta honra queria o Imperador despedir- me da ultima metropole dos seus domínios. Não desconhecia o P. Ilalerstein o desgosto que me dava esta noticia, porque foi boa testemunha da violência com que passei pelo primeiro caso de Cantão; manifestou ao Xu-Tagin o succedido a respeito dos logares, e o sentimento que me causara semelhante semrazão: respondeu-lhe o Tagin que o Suntó não procedera com acerto, e que aquella agudeza só nos seus poucos annos poderia ter desculpa; que elle deixa¬ va de o referir ao Imperador, porque não era política inquic- tal-o quando o via tão alegre e gostoso da embaixada; mas que facilmente remediaria esta desordem, porque o mesmo Mandarim havia acompanhar-me a Macau, e elle o mandaria advertido do logar que lhe tocava, para que eu ficasse satis¬ feito, e a funcção se fizesse sem disputas; e por fim, passa¬ dos dois dias, disse ao Padre que fosse descançado, porque já não teria questões de precedencia. Fui no dia 18 ao segundo convite, que se fez á imitação do primeiro, posto que em tudo foi menor a solemnidade.
st Saiu o Imperador para o throno por uma casa interior, que lhe ficava próxima, e depois de receber o vinho e chá com as ceremonias do estylo, me chamou e fez o mesmo que na primeira occasião: disse-me mais que, segundo as leis do seu Império, deviam os Tribunaes supremos dar-me tres banquetes; porém, que elle quizera livrar-me de Tribunaes, e em logar d’elles me convidara a segundo jantar, e me pe¬ dia fizesse particular memória d’esta acção, para a referir a Vossa Magestade logo que chegasse á sua presença. Deu-me n’esta occasião um pequeno frasco de pedra com tabaco, dizendo-me que gostaria que o estimasse por ser cou¬ sa do seu uso: findou-se o banquete, e o Conde me levou á sua quinta, aonde nos deu a todos novamente de jantar, e ao depois, em companhia dos dois Régulos, do Xu-Tagin e outros Mandarins, foi mostrar-me o resto da quinta do Im¬ perador, e em uma das casas achei um refresco de vários doces e fructas nevadas, que se me olfereceu em seu nome, fazendo-ine assistir no mesmo logar a uma procissão de im- mensidade de andores, assistidos de musicas e danças, or¬ denados ao seu modo, mas tudo com admiravel aceio; e ao depois me constou que aquella festividade se fazia em obsé¬ quio de um pagode por devoção da Imperatiz mãe, e se pre¬ parava para que ella a visse no dia seguinte, e que o Impe¬ rador quizera lisongear-me com este ensaio que sempre se costumava fazer, para que não houvesse algum desacerto na boa ordem e compostura d aquelle acto. Acabada a funeção, se despediu o Tagin Governador, e na mesma hora deu principio á sua jornada de 'fartaria. A do¬ cilidade de genio d’este Ministro, e, sobretudo, o declarado empenho com que se interessava em concorrer para o maior decoro d’esta acção, me fez justamente sensível a sua au¬ sência, deixando-me entregue a Hay-Tagin, que estava pre¬ sente para esta ceremonia; e n’esta occasião ficou determi¬ nada com o parecer do Padre Halerstein a nossa partida para o dia ultimo de maio, porque o Imperador tinha resolvido que ambos fossem os árbitros d’esta eleição; e assim fui a 27 ao Paço receber a carta recredencial e a segunda parte c
82 do mimo que vem para Vossa Magestáde; e alli tiveram ves¬ tidos, que lhe deu o Imperador, os dois Mandarins que fo¬ ram encarregados de a levar aos hombros em todos os trân¬ sitos que fizesse por terra no decurso da viagem. Era o dia seguinte destinado para a despedida; fui á quinta aonde esperei na mesa a hora de audiência, como sempre succedia; sabiam todos que a occasião era de ausentar-me, e o Conde com outros Mandarins que me assistiam, entrou a fazer-me muitas expressões da saudade em que os deixa¬ va; agradeci-lhe este favor, certificando-lhe que me não de¬ viam menor correspondência as attenções que tinha recebi¬ do de todos os grandes da Còrte, e muito especialmente do Imperador, porque a sua benevolencia me faria para toda a vida uma memória saudosa. Sempre suspeitei que de todas as minhas aeções era sciente o Imperador, e que as mesmas praticas que tinha com os Mandarins se lhe referiam logo, trazendo para este fim muitos espias prevenidos, que successivamente lhe iam dar conta do que ouviam, e agora se verificou ser realidade a minha presumpção. Fui conduzido a uma pequena sala aonde elle me esperava tão despido n’esta occasião dos ac- cidentes de Monarcha, que verdadeiramente fez concordar o modo de tratar-me com as palavras que me dizia. Achava-se unicamonte assistido de cinco ou seis Manda¬ rins da sua guarda, e depois de fazer-me sentar junto a si, e da ceremonia indispensável do chá tartaro, disse-me que já lhe constava o sentimento que cu tinha de apartar-me da sua presença, c que nisto sabia corresponder-lhe igualmente ao alfecto c estimação (pie sempre fizera do meu procedi¬ mento; que desejava fosse bem succedido na viagem, e em testemunho do seu bom coração me dava aquelle signal (é um artefacto de pedra verde, a que elles chamam luy, que explica felicidade e bom fim em tudo o que se pretende). Recommendou ao Padre interprete, que cuidadosamente me tratasse na jornada: e depois de ouvir com summo agrado quanto lhe disse em gratificação de honras tão estimáveis, om expressões que pareciam nascidas de uma amizade
83 muito intima, me despediu da sua presença. Passei ao Con¬ de, aos dois Régulos e outros Mandarins, que sempre costu¬ mavam assistir-me, os quaes igualmente se quizeram distin¬ guir nas demonstrações de sentimento da minha separação, e assim nos retirámos todos satisfeitos de se ter conseguido esta boa acceitação entre gente que ainda conserva uma viva memória da sua primeira barbaridade na desconfiança com que trata aos estrangeiros, e superioridade que aflecta ás mais nações do mundo. Já cu tinha visto as egrejas antigas; restava uma a que muitos não duvidaram chamar egreja da embaixada. Ha em Pekim um Religioso propagandista piemontez, da ordem dos Agostinhos descalços, que entrou a servir no Paço a titulo de pintor; é dotado de raríssimo engenho e de um desem¬ baraço tal, que a qualquer hora estará prompto para pôr em . contingências a sua propria conservação; observou elle o gosto com que o Imperador festejou as primeiras noticias da embaixada; ouvi-o falar muitas vezes n'este particular com um respeito que pareceu excessivo, e ainda aos mais empe¬ nhados nas honras d’esla acção: capacitou-se que a occasião lhe facilitava a licença que não conseguiria se a pedisse; e sem mais conselho que o da sua propria resolução, apenas soube que eu me aproximava á Côrte, abriu os alicerces a um novo templo, e com muita brevidade fez crescer a obra. Entende-se que o Imperador teve logo noticia d’esta no¬ vidade, porque llfa não fez, quando por alli passou do gran¬ de sacrifício para a quinta, ver o edifício quando já estava nas abobadas, e só disse: o Europeu quer mostrar ao Em¬ baixador a sua egreja concluída, mas não será facil que o consiga no breve tempo da sua demora!—Este dito, ao mesmo tempo que socegou ao Padre, lhe acccndou mais os desejos que já tinha de que eu fosse vel-a; mas sempre re- ceiou que se lhe frustrasse este empenho do seu gosto; a opposição que os Propagandistas teem ás regalias do padroa¬ do d’estas missões, fez que a propria consciência lhe inspi¬ rasse este receio.
84 Valeu-se do Padre Halerstein, ponderando-lhe o perigo que se seguia, se eu tratasse aquelles logares com desigual¬ dade, e ainda que alguns o quizeram despersuadir d’esta in¬ tercessão, a mim me pareceu que não eram proprios o mo¬ tivo e o tempo para reflectir nas razões que podiam embara¬ çar-me, e assim não duvidei n’esta occasião, em que me re¬ colhia despedido, ir ver a obra; e para desassombrar mais o Padre do susto que tivera, lhe dei a outro titulo uma es¬ mola com que poderia findar a sua egreja, na qual se havia com efleito dizer a primeira missa na festa'do Corpo de Deus, poucos dias depois da nossa partida. Na mesma tarde de 28 veiu Castelhoni com um recado do Imperador, que se dirigia a fazer-me uma nova e mais par¬ ticular demonstração de affecto, a qual precisamente me obrigava a tornar ao Paço para lhe agradecer aquella hon¬ ra ; porém, como estava despedido, recommendei ao mesmo Castelhoni praticasse com o Conde esta resolução, e visse se poderia ser no dia 30, porque no seguinte devia eu sair da Côrte. Referiu o Conde ao Imperador o que eu pretendia, e a sua resposta foi, que elle me desejava muitos annos na sua companhia, e que eu em tão breve tempo queria retirar-me! Que no dia 6 de junho fazia a sua festa da quinta lua, e ti¬ nha particular gosto que cu a visse; e como não considerava que a demora me daria grande detrimento, esperava que eu quizesse iicar, e bastaria que fosse á quinta n’aquelle dia. Chegou Castelhoni com a resposta, e pouco depois um Mandarim da casa do Conde a repetir-me da sua parte o mesmo aviso: toda a dilação na Côrte me era summamente sensível, pela mesma causa que muitos entendiam me devia ser gostosa, mas era forçoso vencer todas as contradicções com que a minha intelligencia se oppunha a esta demora, e assim respondi que estimava muito ter mais esta occasião de dar gosto ao Imperador, e o tinha muito particular em dila- tar-mc para receber tão grande honra. Jã disse que nos banquetes foram adinittidos os Padres que servem no Paço, e que por mercê mais especial conse-
8o guira a mesma honra o Padre Felix da Rocha, a titulo de meu interprete nos impedimentos do Padre Halerstein; enten¬ deram, pela pratica que teem dos estylos da Còrte, que de¬ viam agradecer ao Imperador o beneficio que lhes fizera, e assim o esperaram na aula da pintura, aonde elle vai todos os dias, e alli descobertos, em signal de um reconhecimento inais humilde, lhe deram as graças pelos favores recebidos n’estas occasiões. Ouviu-os o Imperador com a fiabilidade, e continuou a re¬ petir as expressões com que costumava honrar-me, (piando falava com elles. Procurou se havia na Còrte algum que fosse natural da minha terra. Respondeu-lhe o Padre Rocha que elle. Immediatamente o tratou com attenção mais distin- cla, e lhe perguntou a que titulo tinha elle vindo. Respon¬ deu -o Padre que por mathematico. Logo discorreram os mais que a pergunta se dirigia a fazer-lhe alguma mercê, e com efieito acertaram as conjecturas, porque no dia 2 de junho baixou um decreto que o fazia Mandarim da sexta or¬ dem, com exercício no Tribunal da mathematica, e no mes¬ mo dia disse o Imperador a Castelhoni, que sendo aquelle Padre meu patrício, sem duvida me daria gosto grande o seu despacho. Na mesma tarde de 2 tive recado que o Hay-Tagin com o Tartanga, Presidente do Tribunal dos Mandarins, assistido de um numeroso concurso de outros, vinham trazer-me um novo presente para Vossa Magestade, que constava de varias peças de seda, cheiros e abanos, que teem uso proprio n’a- quelle tempo; correspondi quanto me foi possível no modo de o receber ao apparato com que este mimo chegou ã mi¬ nha presença, e os mesmos conductores me advertiram que não era preciso ir no dia seguinte ao Paço agradecer o que me tocava, obrigação infallivel, segundo a política d’aquelle paiz, porque o Imperador me absolvia d’esta ceremonia, e mandava dizer-me que só me queria lá sem falta no dia 6, para lhe assistir á sua festa. A 5 se repetiu o aviso para que fosse pelas oito horas; an¬ tecipei-me, por não esperdiçar esta circumstancia de mere- #
86 cer; e depois do jantar, que sempre estava prompto, me conduziram ao lago que havia ser o theatro da festividade, onde já appareciam armadas as barças que n’ella faziam a principal figura. Passei á casa em que estava o Imperador assistido de oito Régulos; havia junto a elles um assento li¬ vre em que mandou sentar-me, ficando o Conde e o Padre in¬ terprete de pé, fóra de uma pequena grade que a cercava, aonde estavam preparados mais dois assentos para o Secreta¬ rio e outro, (jue costumavam acompanhar-me mestas occasiões. Depois de dar-me o chá tartaro, disse-me que a festa d'a- quelle dia era das mais notáveis que todos os annos se fa¬ ziam para o seu divertimento, e que o desejo que tinha que eu lhe assistisse, o persuadira a dar-me o incommodo de maior demora na sua Côrte. Respondi-lhe que não só agra¬ decia a Sua Magestade o conceder-mc mais esta occasião de dar-lhe gosto, mas também todas as mercês que fazia aos Europeus que se empregavam no seu serviço, e muito espe- cialmentea que agora fizera ao Padre Rocha, e desejava que elle correspondesse nos acertos de servir a Sua Magestade, a tudo o que merecera na honra de tão generoso provi¬ mento. Gostou summamente o Imperador de que eu lhe rendesse as graças pelo despacho do Padre, e chamando-me junto a si, deu-me uma caixa que parece ser fabricada de coral; e de¬ pois de eu a ter nas mãos a esteve abrindo, e tirou d’ella um papel dobrado em fôrma de livro, que se compunha de va¬ rias letras c pinturas: disse-me que uma e outra cousa era obra da sua mão, que não duvidava dar-me n’ellas a maior prova da estimação que lhe merecera, sendo que no seu Im¬ pério não podia pessoa alguma possuil-as; respondi-lhe que guardaria com ornais respeitoso disvelo aquelle preciosíssi¬ mo thesouro; e com effeito me constou, que se alguma vez succedia a raridade d’esta galanteria, por morte do Impera¬ dor que a fez era preciso se restituíssem logo no Paço seme¬ lhantes papeis, e que não importava menos que a vida esta restituição. Passou a dizer-me que aquelles que alli estavam, eram Re-
87 gulos seus tios e primos, que os convidara de proposito para que eu tivesse esta occasião de os ver. Agradeci-lhe a honra que me fizera, assegurando-lhe que como pessoas da grande família Ta-Cyn os venerava com o maior respeito. Tinha no mesmo throno uma jarra de porcelana, que mostrava pelos lados a figura de algumas barças semelhantes ás que haviam compor o festejo d’aquelle dia; pegou n’ella e jiergunlou-me se me parecia bem. Respondi-lhe que na sua presença não sa¬ bia distinguir com acerto as perfeições que lhe suppunha, porque os favores que Sua Magestade me fazia occupavam Ioda a esphera das minhas attenções. Mandou logo que a le¬ vassem a minha casa, e com uma repetição eflicacissima de boas viagens me despediu d'este logar. Fui para outra casa que lhe ficava próxima, onde estava parte da minha comitiva com os Padres, e todos os Coláos do Império e Presidentes dos Tribunaes, que o Imperador or¬ denara me assistissem n'esta occasião: principiou immedia- tamente a festa, a qual se compunha de uma quantidade de barças que giravam o lago, seguindo-se umas a outras com espaço que deixava perceber tudo o que havia de notável no primor, magnificência e graça, com que eram fabricadas; em quasi todas se viam representações com allusão á nossa des¬ pedida, e ao mesmo tempo se lançava um fogo incessante, que na agua conserva a sua actividade, feito em varias fôr¬ mas de peixes e aves, que no movimento c figura não desdi¬ ziam muito da sua propria natureza. Acabada a funcção, disse o Conde que seria preciso vir ainda dar as graças pela mercê de ser admiltido a tão plau¬ sível solemnidade, e que no dia 8 poderia eu sair da Côrte. O Hay-Tagin, a quem pertencia por officio o maior cuidado de dirigir-me n’estas acções, me advertiu que esperasse pelo seu aviso, que elle se encarregava de saber a vontade do Imperador n’este particular. Foi a sua diligencia muito favo¬ rável aos meus desejos, porque o Imperador respondeu que elle não tinha animo para deixar de falar-me, se eu fosse á quinta, e que a occasião era para elle de grande embaraço; que fosse o Padre Halerstein apparecer em meu nome, por-
88 f|ue assim se observava a cercmonia do estylo sem moléstia minha. Foi o Padre, c soube que o dia era particular, e que a festa se repetia com assistência das Rainhas e Imperatriz reinante. Corriam por todo o Império os progressos da embaixada com pasmo universal; este era o assumpto todo da Gazeta de Pekim, em que se reconhecia a realidade dos successos, sempre devedora ao artificio da composição; e ainda os mes¬ mos Europeus, que teem participado com as influencias do clima do espirito d esta nação, contavam como milagres de benevolencia as acções de que foram testemunhas. Antes de eu chegar á Corte, já tinha visto em varias car¬ tas as admirações que se faziam do applauso com que a em¬ baixada se esperava, e da satisfação e alegria com que o Impe¬ rador estimava este cortejo; as asseverações dos Padres po¬ deriam persuadir-me, sem injuria da credulidade, que me concedia Deus a gloria de servir de instrumento para o bom successo das pias intenções de Vossa Magestade; esupposto não deixei de conhecer que n’estas expressões se compre- hendia uma grande parte de obséquio a tão generosa expe¬ dição, acliei-me obrigado a fazer que os mesmos Padres ti¬ rassem a consequência á declamação de felicidades com tanto excesso encarecidas. Mandei para este fim pedir a cada um o seu parecer por escripto sobre o que prudentemente poderia tratar-se n’esta embaixada em beneficio da santa lei: recebi os votos, e n’el- les o desengano que já premeditava ao tempo que os pedia; e a experiencia propria me deixou bem advertido, que os applausos com que o Imperador se antecipou em esperar-me, foram, sem duvida, nascidos do insaciável desejo que tinha de não merecer menos que seu pae ás nações da Europa, e que o não falar em ponto de religião foi o motivo mais efiicaz que ao depois lhe mereceu aquelle agrado e distineção com que sempre me attendeu. Creio, comtudo, que assim o Imperador como os Minis¬ tros do seu Conselho não deixaram de conhecer que por po¬ lítica se não praticára esta materia, sendo ella no seu mes-
mo conceito a causa total de merecer a Vossa Magestade esta attenção. Quando o Padre Halerstein foi chamado para se lhe dizer que podia eu livremente ir aonde quizesse, per¬ guntou-lhe o Conde se sabia elle o caso das províncias de Fokien e Kienam, que foi o da perseguição das christanda- des que deu ao céo os veneráveis martyres da sagrada or¬ dem dos Prégadores e Companhia de Jesus, um defies por- tuguez. Respondeu-lhe o Padre, que com grande pezar seu o sa¬ bia ! E o Conde lhe tornou: «Pois como o sabes, já terás ad¬ vertido o desastrado fim que tiveram os autores d’essa mal¬ dade!» O mesmo Conde, que com o valimento do Impera¬ dor falava com toda a liberdade n’estes particulares, disse- me a mim, que era christão, e por este motivo fòra sempre inclinado aos Padres; ao que eu lhe respondi, que se elle comprehendêra os bens que perdia em o não ser, sem duvi¬ da fizera as maiores diligencias para unir esta qualidade ás perfeições da sua vida; e quem seriamente reflectir na per¬ spicácia incomparável d'esta nação, não deixará de discorrer com fundamento, que n’eslas praticas se rebuçava um modo também politico de dar a satisfação ao que a embaixada lhe não pedia. Saí finalmente de Pekim a 8 de junho. Assistiu-me o Hay-Tagin até á hora de entrar na cadeira, para ir logo dar parte ao Imperador da minha retirada no mesmo dia. Per¬ noitei nas barças, e no seguinte continuei a minha derrota para Macau. Entrou o mez de julho, em que a intemperança do clima nos fazia insupportavel a viagem. No inverno vi nos trânsitos de terra cair de repente, mortos de frio, alguns dos homens que serviam para a conducção das cadeiras e da mais equipagem. Agora presenceei os mesmos effeitos pela intensão do calor nos que tiravam as barças pelas sirgas. Com esta incommodidade chegámos a Hancheu no dia 28; passámos a 29 esta cidade, e fomos dormir a outras barças que já estavam promptas e nos quizeram servir de sepultu¬ ra, porque na mesma noite estivemos todos no risco de per¬ der as vidas.
90 Nos primeiros dias da lua 7.ae8.a enche a maré n’aquelle rio com impulso tão rápido, que de um só golpe cresce á sua maior elevação, e é tal a violência que as mesmas arvo¬ res das margens aonde chega, lança por terra; as barças que n’esta occasião não podem recolher-se ás enseadas em que a enchente é menos furiosa, costumam esperai-a com as proas em tal proporção que não desmintam nada para os la¬ dos, porque d esta sorte a mesma força do mar as levanta e livra d aquelle precipício: parece que os Mandarins adverti¬ ram ao Padre este phenomeno tão notável, que já desafiou a curiosidade do Imperador para vir observal-o de uma torre; porém elle não discorreu que o successo seria tão considerᬠvel, e nos deixou recolher a todos tão innocentes que nem a vigilância desusada dos marinheiros nos deu cuidado. Era mais de meia noite quando a maré rompeu n’este im¬ petuoso assalto; aflirmava um dos soldados, que a esta hora não estava recolhido, ter visto despenhar-se de repente so¬ bre as barças um monte de aguas tão crescido, que lhe não serviram os mais eminentes de toda a China para compara¬ ção da sua grandeza; a que entrou nas barças em grande copia acordou a muitos que dormiam, e como o perigo alli é quasi instantâneo, padecemos o maior susto ao mesmo tem¬ po que a occasião d’elle tinha passado. Submergiu-se uma das barças, porém, como todas são fabricadas em fôrma de casas, para melhor commodo dos passageiros, sobre o tecto se conservaram quatro pessoas da comitiva o tempo que bas¬ tou para serem percebidos pelos clamores com que pediam soccorro, e deverem a um companheiro o beneficio de os salvar n’esta tribulação. A lo de setembro passei o monte Melim, em que finalisa a província de Kiansí: esperava-me no primeiro passo do districto de Cantão uma visita do Suntó e Vice-Rei, que ago¬ ra me adiantaram esta cortezia a cento e trinta léguas de caminho; traziam os Mandarins enviados a esta diligencia ao Padre Halerstein o formulário que havia praticar-se na assistência do banquete; e ainda que o Padre quiz recatar- me esta noticia, por outra via me constou logo que tinha vin-
91 o o que a disposição dos logares se dirigia pela mesma or¬ em do primeiro. Passaram alguns dias, e como a noticia por tantos moti- ros me inquietava, resolvi-me a falar ao Padre na materia, lando-lhe por novidade o que elle muito bem sabia; disse- me que o não assustava o papel, porque o considerava feito pela antiga providencia, e que seu companheiro seria o mes¬ mo que não quizesse seguir aquella ordem, segundo a reso¬ lução que trazia da Côrte, dada pelo Xu-Tagin, da qual não podiam ler sciencia os Mandarins de Cantão. Não me satisfez este discurso, porque a minha descon¬ fiança ainda das propriedades da razão tirava escrúpulos para duvidar da fé d’esta nação. Pedi-lhe que visitasse o seu companheiro, e que n’esta occasião procurasse algum meio de dizer-lhe, que já elle leria reparado no erro do formulᬠrio e disposto o modo de o emendar, segundo a advertência que lhe fizera o Xu-Tagin; e recommendei-lhe muito que nem lhe declarasse que eu sabia o que se passara na Côrte a este respeito, nem o que agora novamente se ordenava, por¬ que para todo o caso seria conveniente esta cautela. Foi o Padre, e acabou de conhecer que todas as suas expe¬ riências lhe não bastavam para viver na China sem enganos; propoz ao seu companheiro o que sentia, e elle lhe respon¬ deu que assim era, que o Xu-Tagin o tinha advertido do logar que lhe competia, e lhe estranhara o erro passado; porém, que depois de partir para a sua jornada da Tartaria, consul¬ tara elle o Conde e a outros Coláos do Império no Tribunal do Nuy-Vu-Fu sobre o particular, e que lodos assentaram que o Tagin não tinha razão; que o Suntó procedera com acerto, porque o logar do conductor se não contava para nu¬ mero de preferencia, e que assim não lhe restava mais que dizer, porque aquella era a ordem que infallivelmente havia seguir. Veiu o Padre referir-me o que passára, todo cheio de admi¬ ração pela simulação com que tinha corrido aquellc negocio, e ao depois soube que o Suntó, autor da idéa, que já estava em Pekim ao tempo da nossa partida, influirá n’esta indus-
92 Iriosa machina para sustentar a sua opinião, valendo-se para este fim da autoridade do Conde, seu particular amigo. Dava o Padre varias saídas a este caso, porém de todas não duvi¬ dava confessar que a consequência mais favoravel seria es¬ perar uma resolução da Côrte, exposta á contingência de ser patrocinada pelo valimento do Conde, e pôr-me no precipício de um desar maior, ou de perder tudo o que se contava de felicidade n’esta expedição. Todas as suas proposições no meu conceito eram não só arriscadas, mas intoleráveis; porque em Cantão qualquer instante de demora me era sensível, supposto que os Man¬ darins d'aquelle dislricto, com a frequência de Macau, pro¬ pendem conhecidamente para diminuir o respeito a tudo o que pôde dizer relação àquella cidade; e depois de se ter communicado ao Xu-Tagin a questão dos logares, ficaria eu em menos boa reputação no juizo d'aquelle Ministro, se ago¬ ra tornasse a passar pela mesma desigualdade, sem alguma prudente demonstração do meu resentimento. Suppostas estas razões, pareceu-me melhor aproveitar-me de um meio que me facilitava fugir á occasião, sem excitar a duvida: havia tempos que eu padecia uma moléstia muito trivial nas pessoas que passam aos climas do oriente, a qual com o excesso dos calores se tinha exasperado, de sorte que passava muitos dias de pé sem poder sentar-me; e como esta queixa era bem notoria aos Mandarins que me acompanha¬ vam, disse eu ao Padre que no meu mal tínhamos o melhor remedio, porque algumas léguas antes de Cantão avisaria por elle ao seu companheiro que a minha moléstia tinha crescido, para que désse parte ao Suntó do impedimento que havia para sentar-me; mas que tão reconhecido era aos be¬ nefícios do Imperador, que assim mesmo não duvidava ir á sala do banquete fazer a ceremonia de acceitar e receber tão grande honra, e me retiraria logo, supposta a incapacidade em que estava para assistir como devia áquelle acto. Chegou o tempo de pôr-se em pratica este projecto. Seis léguas antes de chegar a Cantão foi o Padre dar parte ao seu companheiro do que havia; passou elle logo a ver-me, e na
93 visita empenhou todas as efficacias da sua persuasão, para que eu me demorasse alli emquanto passava o maior acci- dente da moléstia, para poder assistir ao banquete sem op- pressão, ou que fosse e me sentasse um pequeno espaço; porque elle teria prevenido tudo para que a solemnidade se concluísse sem demoras. Respondi-lhe que eu queria recolher-me a Macau a toda a pressa para tratar da minha saúde, e forlalecer-me para a grande viagem da Europa, e que um só instante de sentar- me era tempo infinito para o embaraço que me causava a minha queixa. Com esta resolução fizeram ambos aviso ao Suntó da minha indisposição, pedindo-lhe ao mesmo tempo a brevidade e certeza do dia do banquete, ao que elle res¬ pondeu que, em attenção á minha moléstia, me daria um assento alto, para estar n’elle à minha vontade, e que o jan- • tar estaria prompto á hora que eu o quizesse. Veiu o Tartaro dar-me esta noticia, empenhando-me no¬ vamente para a condescendência do que o Suntó propunha; respondi-lhe que o uso de tantos mezes me dera bem a co¬ nhecer a seriedade com que n’aquelle paiz se observavam as ceremonias de semelhantes funeções, sendo este ponto o que definia o merecimento dos homens politicos na estimação dos sábios; que eu era um Ministro publico que, ou não de¬ via entrar nas acções, ou fazel-as com acerto; que a minha moléstia me incapacitava para cumprir com os respeitos de¬ vidos áquella honra; e ultimamente, que para eu correspon¬ der ao especial afiecto que devera ao Imperador, bastava o excesso de ir a pé áquelle Iogar, tendo para mim que, se elle soubera a minha incapacidade, me dispensaria em ludo pelo muito que lhe tinha merecido, como todo aquelle Império não ignorava. Todas as instancias se suspenderam com esta resposta, e veiu o mensageiro a 27 dizer-me que a 29 seria o banquete e se faria ludo como eu ordenasse. Do dia 25, em que prin¬ cipiaram os recados, até ao dia 28, em que cheguei a Cantão ao pôr do sol, se foi espaçando o caminho de sorte que to¬ dos os dias se andava alguma pequena parle d’elle; e para
94 se encher o tempo com uma demora que pareceu precisa, concorreram os cumprimentos da Camara de Macau, que alli mandou um dos Vereadores a cortejar-me, e do Governador, que mandou ao mesmo íim um Official militar, e as visitas dos Europeus que nos mesmos dias me foram ver, repetin¬ do ao depois na cidade os mesmos applausos com que a pri¬ meira vez me festejaram, que agora pareceram maiores, por¬ que a assistência de todos os navios fez mais numeroso o concurso d’estes obséquios. Já eu cuidava em restituir-me de um excesso que pratica¬ ra quando cheguei áquclla metropole na ida para a Côrte, nascido de um dos preceitos da minha instrucção: ao rece¬ ber na sala os primeiros cumprimentos, tinha visto que o Pa¬ dre Halerstein fizera um grande reparo em não estar alli o Suntó e Vice-Rei, e perguntando-lhe eu o motivo d’esta admi¬ ração, só soube dizer-me que esperava viessem áquelle logar, supposto que as recommendações do Imperador deviam me¬ recer-lhe uma urbanidade mais distinct»; lembrou-me não ser o primeiro em visital-os, porém como o Padre me não dava outra causa maior que esta consideração, soltei a duvida com a observância das minhas ordens. A continuação do tempo e occasião de chegar ás metrópo¬ les de outras províncias me deu a conhecer que esta ordem de política tem sua formalidade particular, e não é geral- mente praticada. Em todas as cidades, e principalmente nas capitaes do Império, ha uma sala publica onde os Suntós e Vice-Reis vão esperar os Mandarins de igual graduação, e ainda os de menor, sendo Enviados da Côrte; porque o minis¬ tério, emquantopermanece, os faz superiores a todos; segue- se a esta cortezia a visita dos que alli chegam, que verda¬ deiramente a reputam por uma correspondência á primeira attenção de saírem de casa e de maior distancia para os cortejarem n’aquelle logar; e isto foi o que vi praticar sem discrepância em todas as metrópoles a que cheguei. Dava-me a minha moléstia a occasião que eu procuraria de proposito, e ainda a restituição me saiu mais proporcio¬ nada ao excesso que eu desejava corrigir, porque o novo
95 Suntó, que não tomou partido nos escândalos do seu ante¬ cessor, veiu esperar-me á sala, aonde o Padre lhe agradeceu da minha parte aquella cortezia, que eu por molesto pessoal¬ mente não recebera, como desejava, e passaria o mesmo com o Vice-Rei, se elle não estivesse fechado com os exames, occupação que os prohibe, segundo as suas leis, de todas as acções que os obriguem a separar-se d'aquelle acto. No dia seguinte fui ao banquete, observando a comitiva a mesma ordem com que andei na Côrte, só com a differença dc irmos todos a pé, e a cadeira por estado entre a guarda e criados de libré. Logo ao entrar, o meu conductor se adian¬ tou a tomar-me o passo com alguma precipitação, porém quando entendeu que me guiava para o logar das mesas que estavam nos lados, se achou só, porque eu tomei o caminho para o meio da sala, e d’alli disse para o Suntó, que mandas- * se dar-me o copo com vinho, que queria beber á saude do Imperador. Assim se executou, juntos já no mesmo logar os princi- paes assistentes; na presença de todos disse ao Suntó, que podia participar ao Imperador que a minha moléstia, de que eram testemunhas os Mandarins que me acompanhavam, me prohibia que possuísse aquella honra tão consummada como eu quizera; mas que em testemunho das minhas obrigações fizera o excesso de vir d’aquella fórma, porque a todo o custo queria fazer publico o meu agradecimento, e ultima- mente conclui que o Suntó devia dispensar-me de ir visital-o, porque a minha incapacidade me não permittia que tivesse este gosto; e assim nos recolhemos ás barças, aonde vieram logo as mesas com tudo o que havia n’ellas, como na pri¬ meira occasião se tinha praticado. Na tarde do mesmo dia foi o Padre visitar o Suntó, e viu o papel em que elle dava conta ao Imperador do que se pas¬ sara no banquète; e achou que tinha todas as circumstancias do successo, dispostas com ordem, que elle ficaria não só satisfeito, mas desvanecido do excesso com que eu me qui¬ zera mostrar reconhecido aos seus favores; e não me ficou receio de que mostrasse este e mandasse outro, porque o
96 susto n’elles foi tão extraordinário que se julgaram na ulti¬ ma hora da sua perdição, se o Imperador chegasse a descon¬ fiar que me tinham desgostado em alguma cousa n’esta occa- sião. Parti a 30 para Macau, e a 5 de outubro fiquei uma legua de distancia d’aquella cidade, aonde vieram cumprimentar- me o Governador, Senado, Prelados das religiões e muitas pessoas que quizeram fazer-lhe companhia n’esta civilidade: ajustou-se a minha entrada para o dia seguinte pelas oito ho¬ ras da manhã; o Governador e Senado concorreram para que esta funcção fosse a mais luzida e estrondosa que viram os habitadores d’aquelle paiz. Tinham fabricado arcos de ex¬ cedente e vistosa architectura, no espaço que havia da ponte onde desembarquei até á minha aposentadoria. Receberam- me com repetidas salvas das fortalezas e navios, e festeja¬ ram as noites com luminárias e fogos de não menos custoso que singular artificio. Concluíram ultimamente com a solemnidade de uma acção do graças, a que eu assisti, notando-se n’estes obséquios que a obediência portugueza, ainda em partes tão remotas, não se esquece de fazer prodígios para executar as ordens dos seus Monarchas; porque para satisfazer ás insinuações de Vossa Magestade não só foi sobrenatural o esforço desta despeza, mais ainda mais notável o desembaraço de festeja¬ rem este dia com tantos applausos, na mesma hora que re¬ ceberam a noticia certa da perda do navio de Timor, que acabou de reduzir aquelle povo ao ultimo periodo da sua ruina. Despediram-se os meus conductores no dia 10. Partia o Tartaro, segundo o Padre me referiu, abysmado do estron¬ do com que fui recebido: tratou-me na despedida com taes demonstrações de sentimento, que ainda em uma amizade verdadeira pareceriam alfectações. Repetiam as cartas de Pe- kim, que o Imperador depois da minha ausência me conti¬ nuava maiores honras, e esta noticia dispertava successiva- mente as admirações dos que a ouviam. De todos eu fui sem¬ pre o menos satisfeito, porque, como Ministro de Vossa Ma-
97 gestade, sem reflectir em circumstancias mais ponderáveis, medindo só pela distancia o obséquio que se fez ao Impera¬ dor n’esta embaixada, não duvidei que merecia muito mais, e lançando os olhos ao fim a que esta acção se dirigia, sempre me pareceu que o fructo a não desempenhava. Comtudo, devo dizer que poucos mais accidentes de esti¬ mação pódem lograr-se em um paiz onde o conhecimento dos Europeus teve o seu principio com as mesmas circumstan¬ cias de inferioridade que elles consideram em todos os po- voadores do mundo, a respeito da sua grandeza. Os Padres que alli deram os primeiros passos, pelo merecimento das suas sciencias lograriam o mais distincto logar na veneração de uma monarchia que não reconhece mais nobreza que a das virtudes próprias (excepto a casa real e a do seu philo- sopho Confucio, especialmente privilegiadas para a succes- , cessão d’esta qualidade), porém, como pretendiam fundar um império para Deus na humildade, lançaram o mais se¬ guro alicerce a este edifício, tanto assim que antigamente chegaram a usar nos seus memoriaes da phrase—Poey- Chyn—vassallo de vassallo. As mais embaixadas foram menos favorecidas, porque não havia no Império um aulico tãoconsummadocm políticas como ^ o Xu-Tagin, e mais vezes se deixou passar a razão pelas oppressões que sempre padece, quando uma violência se não póde defender com outra. Tive noticia que este grande ho¬ mem se instruíra com uma circumspecção exactissima em todos os pontos que faziam horror aos Embaixadores, para agora os desvanecer; por isso não tive prémios de prata, assistências de Tribunaes, não houve reparos em que fosse ao Paço em cadeira de oito, o Imperador me falou sempre com tão particular agrado; e fui o primeiro que conseguiu que fosse o titulo da relação do presente, que com elle se costuma offerecer, com as letras Ly-Tam (mimo que se offe- rece por cortezia) em logar de Sym-Cum (cousas de tri¬ buto). Pelo mesmo motivo despachou ao Padre Felix da Rocha Mandarim extraordinário no Tribunal da mathematica; aoPa- 7
98 dre Halerstein, depois de uma ajuda de custo excessiva para a estreiteza costumada em semelhantes dadivas, augmentou a graduação e a renda, ao mesmo tempo que nada deu ao Tar- taro seu companheiro, que igualmente o servira; até por evi¬ tar a occasião de se escrever nos caixões do presente que maudou, a letra que significa prémio, usou agora de uma cautela que decidiu advertida e graciosamente este embara¬ ço, remettendo-me o mimo em uns tabuleiros muito ordinᬠrios cobertos de pannos amarcllos, com recado que uma e outra cousa lhe restituísse logo. Todos os dias eram certos os regalos que me fazia, man¬ dando-me pratos da sua mesa, doces, perus, que lhe veem da Persia, e para maior dislineção successivamente ia cres¬ cendo a graduação dos mensageiros até ao ultimo, em que um primo seu foi o portador do mimo e do recado; porém, não se me occultou a mira, que rebuçavam estas e ainda mais particulares attenções, que todas na minha intelligen- cia se dispunham a convidar para segunda embaixada; ex¬ plicando-se o Imperador muito claramente n’este objecto, pela bocca do Conde, que a qualquer dos contínuos favores que me fazia, dava um grande applauso, dizendo-me logo, que semelhantes benefícios só se correspondiam hem tornan¬ do outra vez áquella Côrte, e esta pratica era tão repetida, que hem dava a conhecer que influía n’ella mais superior empenho. Chegou-se o tempo de partir de Macau, e ainda me restavam as ultimas honras com que o Imperador quiz assistir-me na despedida, ordenando que tres Mandarins fossem acompa¬ nhar-me algumas léguas ao mar. Vieram elles para este fim na antevespera do meu embarque, e traziam uma carta, que se dizia ser do Vice-llei de Cantão para Vossa Magestade; segundo o seu estylo a remetteram ao Senado para que me fosse entregue por esta via: veiu o Procurador dar-me noti¬ cia d’esta novidade, e eu a mandei aos Padres para que ver¬ tessem as letras do sobrescripto, as quaes diziam ser uma carta do Vice-Rei de Cantão, para Vossa Magestade a mandar ler em audiência publica.
Tomei a resolução de a não acceitar, e responder ao Se¬ nado por cscripto, que restituíssem aquelle papel aos Man¬ darins, porque eu para Yossa Magestade levava carta do Imperador, e não podia receber outra. Quiz um d’elles, (pie ora o mesmo que me acompanhou á Côrtc, introduzir-me pelo interprete que me servia n’estas occasiões, que a re¬ cebesse, aíDrmando-lhe que d’ella me poderiam resultar muitos bens; mas o que por então me pareceu mais acertado, com o voto dos Padres, foi restituil-a e privar-me d'esta re- commendação. Embarquei ultimamente na tarde de 3 dc janeiro ; acom¬ panhou-me o Governador, Senado, muitos Religiosos e ou¬ tras pessoas até ã nau. Os Mandarins, só costumados a na¬ vegar pelos rios, á hora da partida me fizeram saber o susto que tinham de chegar até ao sitio em que a nau estava em . franquia, e com este receio respirei eu do que tinha que el- les alli chegassem, e mandei dizer-lhes que bastava fossem uma legua para me fazerem mercê e cumprirem com a von¬ tade do Imperador; e para me assegurar n’esta delibe¬ ração lhes enviei o meu interprete para os acompanhar, advertindo-o do logar em que deviam retirar-se, aonde com effeito se despediram com uma salva de morteiros da sua barca. Na madrugada do dia 4 nos fizemos á véla: a viagem foi summamente trabalhosa, porque depois de termos no golfo de Hynão c estreito de Sunda tempos muito pesados, ulti¬ mamente no Cabo da Boa Esperança pareceu, ainda aos mais animosos e experimentados nos perigos do mar, que o dia 2 de maio era o ultimo das nossas vidas; mas a podero¬ sa mão de Deus nos salvou, quando a diligencia dos homens de nada valia já para o nosso remedio, e n’esta consternação viemos a contar por grande fortuna o arribar a Moçam¬ bique. Tratou-me n’esta ilha o General Francisco de Mello de Cas¬ tro com o agasalho que pedia a minha infelicidade, e com attenções tão particulares, que só podiam ter por objeclo o querer distinguir-se no serviço de Yossa Magestade, reco-
100 nhecendo que esta mesma causa me levara ao districto do seu governo. Chegada a nova monção, saímos d'aquellc porto a 23 de novembro: ao passar a barra encalhou a nau em uma restinga que corre da terra firme para a fortaleza, e devemos o não acabar a viagem na mesma bora em que lhe davamos principio, a ser occasião em que a maré enchia, como me assegurou o mesmo General, que percebendo de terra este perigo, nos acudiu a toda a pressa. Experimentamos agora que o assegurar as monções é o melhor roteiro das viagens do oriente, porque sem contra¬ tempo notável passámos o cabo, e viemos ao Rio no dia 22 de fevereiro, na mesma hora em que entrava a capitânia com os primeiros navios da frota, em cuja conserva nos recolhe¬ mos ao reino. Estes, Senhor, foram os successos que me pareceram di¬ gnos demais particular memória para os referir a Vossa Ma- gestade, os quaes só contarei como felizes, se ultimamente merecer a honra de Vossa Magestade se dar por bem servi¬ do das diligencias que fiz por cumprir n’esta occasião com as minhas obrigações. A bordo da nau Nossa Senhora da Conceição e Lusitania. de agosto 31 de 1750. Francisco Xavier Assis Pacheco e Sampaio. Fórma da entrada de Mim no l.° de maio dc 1753 Em primeiro logar iam todos os Padres que assistem no collegio e residências da Côrte, a cavallo, com os seus cria¬ dos que os costumam acompanhar. Em segundo os dois Guinchaes meus conductores, também a cavallo. Seguia-se um Cabo de esquadra de granadeiros, a cavallo, fardado de verde, com cabos e debruns de panno berne, or-
101 nado de pistola, espingarda, e espada na mão, seguido de uma fileira de tres soldados com as armas altas, na fórma com que costumam marchar os dragões. Seguiam-se os caixões do presente em vinte e nove ando¬ res pintados de amarello com cobertas de lim franjadas de retroz, tudo da mesma côr; e á proporção da sua grandeza eram levados com ordem successiva por quatro, seis e oito homens, vestidos todos de panno encarnado, plumas da mes¬ ma côr, chapéus, meias e cintos de seda verde, e junto ao andor decimo quinto iam dois soldados para fazerem obser¬ var a ordem da marcha sem interpolação. Ao ultimo andor seguia-se o timbaleiro com a libré de Corte, e os quatro trombeteiros em duas fileiras, todos em cavallos brancos. Seguia-se o criado que servia de mordomo, com o seu ves- • tido de Côrte, e um cafre á estribeira, com a farda que se lhe havia feito para servir na cadeira, que era de veludo azul agaloado de prata, e os cabos côr de ouro. Seguiam-se os seis criados que serviam de gentis-homens em tres fileiras, os de um lado com guarnições de prata nos vestidos, os de outro com guarnições de ouro, e cada um com seu cafre à estribeira, todos fardados da mesma sorte que o primeiro. Seguia-se o criado que servia de estribeiro, também com seu cafre, como os demais, e todos oito cm cavallos malha¬ dos, com sellas, chaireis, e mantas de veludo azul agaloadas e franjadas de prata, arreios de retroz encarnado, com fer¬ ragens douradas. Seguia-se o Secretario com dois cafres á estribeira, vesti¬ dos de bolantes, o cavallo arreiado de veludo azul, e o chai- rel bordado de prata e ouro. Seguia-se a cadeira conduzida por oito Chinas, e outros tantos de reserva, todos vestidos ao seu modo, de cabaia azul, cabos e plumas côr do ouro; aos lados dois criados a cavallo, um com o sombreiro, que era de veludo carmezim cercado de galões e franja de ouro, e outro com o assento tartaro, que era de panno berne.
102 Seguia-sc o Alferes puxando a guarda, que constava de doze soldados repartidos em tres fileiras, com o tambor e Sargento, todos armados, fardados e com as armas altas, da mesma sorte que os primeiros. Seguiam-se os dois cavallos de mão com telizos de velu¬ do carmezim bordados de prata e ouro, com arreios e fiado¬ res do mesmo veludo cobertos de galão de ouro. Seguiam-se quatro criados em duas fileiras, também a ca- vallo. Seguiam-se os doze andores do meu fato, cobertos com reposteiros de veludo azul bordado de retroz. Seguiam-se quatro criados de libré em duas fileiras, e a estes em alguma distancia as mais pessoas da familia, guia¬ dos pelo interprete ordinário, lodos a cavallo, e na sua con¬ serva traziam os carros com a bagagem de toda a comitiva. Itclarno do presenlc que o Imperador manda a Sua Magrsladc Seis peças do seda com grandes dragões. Quatro ditas de selim com dragões e nuvens. Seis ditas com flores soltas, redondas e ouro. Seis ditas de veludo. Vinte ditas de setim de ouro. Cincoenta e duas ditas de setim de varias cores lavrado e liso. Oito ditas de setim com flores de nova moda. Vinte e duas ditas de lim de varias cores. Quarenta e quatro ditas de saia. Quatorze ditas de saia de Hancbeu. Vinte e seis ditas de 16. Oito ditas de gorgorão. Vinte e duas ditas de outros lins. Tres vasos de pedra branca com dragões, passaros e ra¬ mos. Um bule de pedra branca.
loa Uin vaso de pedra verde com suas argolas da mesma pedra. Um vaso de pedra mais escura com flores e folhas de arvore. Um tronco de pedra branca e vermelha. Dez tigellas de cobre dourado, esmaltado. Dois bules do mesmo cobre. Dois pratos redondos entalhados de charão. Um taboleirinho comprido entalhado de charão. Duas bocetas pequenas de charão lavrado. Dois pratinhos do mesmo charão com meias canas. Quatro pratos redondos do mesmo charão. Duas bocetinhas para cheiros, do mesmo charão. Um par de bocetas de charão cm terno, cada uma com sua banquinha. Um par de bocetas de charão do Japão, com suas banqui- nhas de cinco pés. Um par de bocetas quadradas do mesmo charão, com suas cobertas e mesas. Um par de bocetas do mesmo charão, sem cobertas, com suas mesas. Duas tigellas de charão do Japão, com suas cobertas. Duas estantes do mesmo charão. Um par de bocetas em terno, com suas cobertas e mesas do mesmo charão. Um pequeno guarda-vento, do mesmo charão. Um vaso para pincéis, do mesmo charão. Um travesseiro para a calma, do mesmo charão. Duas tigellas do mesmo charão, com suas tampas. Quatro mesas grandes do dito charão. Seis pares de lanternas de 16, de oito cantos, com moldu¬ ras de pau sandalo douradas. Um livro com folhas de rede e flores de matizes, tudo de marfim e orlas de tartaruga. Dois pratos de cabaça acharoados. Um vaso de cabaça. Duas tigellas de cabaça forradas de prata.
104 Quatro tigellas pequenas de cabaça acharoadas por deritro. Duas estantes de pau sandalo com suas varandinhas. Duas ditas do mesmo pau, com flores de fio de prata e ouro embutido. Louça Duas jarras amarellas com flores de varias cores. Dois vasos para peixes, de pintura azul. Dois ditos mais pequenos. Dez jarras pequenas com diversas pinturas. Dois bules esmaltados. Seis ditos de porcelana, de diversas pinturas e feitios. Trinta e seis tigellas de diversas pinturas. Oito ditas de varias cores. Vinte chavenas de varias cores e pinturas. Quatorze pires de varias côres e pinturas. Quarenta chicaras de varias côres c pinturas. Quarenta pratos de varias côres e pinturas. Cento e cincoenta folhas de seda crua, com diversas pin¬ turas e côres. Duzentas folhas de papel de varias côres. Cem folhas de papel branco grande, chamado Pul-chà. Duzentas folhas de papel coreano. Vinte bocetas de tinta de Nankim. Vinte e quatro bocetas de cheiros. Oito ditas de bolsinhas bordadas. Vinte e seis ventarolas. Duzentos leques de diversos feitios e pinturas. Oito bocetas de pastilhas de cheiro. Oitenta bolas de Pul-chá. Dez bocetas de extracto de chá. Dez ditas de extracto de pinhões. Quatro ditas de melão secco de Hamin e cheiroso. Vinte bules de Huy-Xa. Vinte ditos de Lugan-Xa. Seis bocetas de farinha de ninféa. Seis ditas de semente da mesma ninféa.
10o I'rtsentc da quinta Iii.i Quarenta peças de seda chamada Xá, de varias côres. Cem peças de seda chamada Nono. Oito caixas dc ventarolas. Cincoenta ditas de loques. Vinte de cheiros. Doze de cheiros, para pendurar nos leques. Dez de continhas de cheiros. Vinte e duas dc; massas medicinaes. Presente que deu ao Embaisador Uma peça de seda de grandes dragões. Duas ditas de setim, com matizes. Duas ditas de veludo. Quatro ditas de setim de varias côres, liso e lavrado. Seis ditas de lim. Nove ditas de saia. Duas ditas de seda lavrada, dc varias côres. Quatro ditas de gorgorão. l)ois vasos de pedra, com seus pés de pau sandalo. Dois ditos pequenos de esmalte, um com sua cobertura. Um par dc bocetas de charão, com seus ramos e llores. Dois pares de bocetas de charão douradas. Um bule de charão. Uma tabaqueira de cabaça lavrada. Quatro pires de cabaça acharoados. Dois vasos de pedra verde e parda. Sete jarras de porcelana pequenas, de diversa pintura e feitio. Oito tigellas com llores azues. Doze pires de diversas pinturas. Quatro pratos vermelhos. Vinte folhas de seda pintada. Vinte folhas dc seda para escrever. Vinte folhas de papel de varias côres. . S
100 Vinte folhas de papel branco. Vinte folhas de papel coreano. Seis bocetas de tinta. Quarenta abanos de varias fôrmas. Oito bules de Lugan-Xa. Quatro bules de Huy-Xa. Oito bolas de Pul-chà. Uma caixa com farinha de ninféa. Uma dita com semente da mesma ninféa. Fronte da quinta lua Trinta peças de seda chamada Xá. Quarenta ditas de seda chamada Nono. Duas caixas de ventarolas. Doze ditas de leques. Seis de cheiros para os leques. Quatro de continhas de cheiros. Vinte e cinco de massas medicinaes. Presente do Secretario Uma peça de seda de grandes dragões. Duas ditas de saia lavrada. Duas ditas de veludo. Sete ditas de setim de varias côres. Quatro ditas de lim. Seis ditas de saia. fia qu nti lua Doze peças de seda chamada Xá. Dez ditas de seda chamada Nono. Uma caixa de ventarolas. Quatro ditas de leques. Seis ditas de cheiros para pendurar nos leque Duas de massas medicinaes.
107 Presente do Mordomo 0 mesmo (jue ao Secretario em ambas as occasiões. Presente dos Gentis-homens A cada um dez peças de seda ruim e um pau de prata que pesava cincoenta e tres taeis. Presente dos soldados, criados dc libré e aos mais da família A cada um oito peças de seda e outro semelhante pau de prata. !b quiala loa para todos Cincoenta peças de seda chamada Xá. Cem peças de seda chamada Nono. Relação do presente que Sua llagestade Fidelíssima mandou ao Imperador da China N.° 1.—Uma caixa grande coberta de veludo carmezim. guarnecida toda de galões de prata, e todas as ferragens também de prata, a qual leva dentro duas espingardas e dois .pares de pistolas, guarnecido tudo e tauxiado de ouro e prata, e unia faca de mato também guarnecida de ouro e o punho esmaltado. N.° 2—Uma dita mais pequena coberta e forrada do mes¬ mo veludo, guarnecida por dentro e por fóra de galões de prata, na qual vão seis caixas para tabaco: uma de ou¬ ro, outra de Victorina, outra de madrepérola, outra de agata e duas de asparo verde, uma d elias esmaltada, e todas guarnecidas de ouro, e vão mais na dita caixa seis estojos em tudo semelhantes ás ditas caixas. N.os ,1 e 4 — Quatro caixas semelhantes ás primeiras com
quatro laminas de prata batida em flores, e nos meios qua¬ tro figuras do mesmo metal, (pie representam os quatro tem¬ pos do anno. N.os o e 6— Duas caixas cobertas, forradas e guarnecidas como as primeiras, que levam quatro peças de tissu de ouro e prata, e duas de sarja, uma de ouro e outra de prata, in- voltas eni pannos de chamaiote carmezim, todo guarnecido de renda de prata. N.os 7, 8 e fl — Tres caixas grandes semelhantes ás mais, que levam duas peças de panno amarello, duas de panno es¬ carlate, uma de panno azul, e outra de panno verde, invol- tas todas em pannos do chamaiote, guarnecidos de renda de prata. N.os 10 e 11 — Duas ditas grandes semelhantes ás mais, que levam uma armação de pannos de raz involtos em pan¬ nos do mesmo chamaiote e guarnição. N.os 12 e 13 — Duas frasqueiras cobertas, forradas e guar¬ necidas, por dentro e fóra, da mesma sorte que as caixas, que levam doze frascos grandes cristalinos de rosasolis, de cachundé, e herva doce. N.os 14 c 15 — Duas ditas semelhantes ás primeiras, de rosasolis, de canella, cidra e baunilha, côr vermelha. N.os 16 e 17—Duas ditas semelhantes ás mais, de vinho branco de Carcavellos. N.os 18 e 19 —Duas ditas em tudo semelhantes, de vinho tinto do Barreiro. N.os 20 e 21—Duas ditas de quinze frascos cada uma cristalinos e bem lavrados, cheios de pastilhas de bocca: de canella e cachundé e brancas. N °s 22 e 23—Duas ditas cheias de pastilhas de cheiro de tres qualidades, e igualmente repartidas. N.os24 e 25 — Duas ditas com doze frascos de balsamos do Peru, Brazil, S. Thomé e Cupahyba. N.08 26 e 27 — Duas ditas como as antecedentes, cheias de tabaco de amostrinha, do mais selecto. N.os 28 e 29 — Duas serpentinas de prata lavrada, de cin¬ co luzes cada uma, feitas por Germano.