Tornada, ANTONíO DE ALBUQUERQUE COELHO, Governador, c Capicaõ General da Cidade do Nome de Deos de Macio na China, ( Fez. de Goa ate chegar á dita Cidade no amo de 1718. Dividida em duas partes. Ejcrita PELO CAPITAÕ JOAÕ TAVARES DE VELLEZ GUERREIRO, E DEDICADA AO DUQUE, por - J D. JAYME DE LA TE , Y SAGAU.Í LISBOA OCCIDENTAL, Na Officina daMUSTCA. M.DCC.XXXII Com todas as licenças ntcrjprrias. Vendcfe na mefma Officim. )
9 AO DUQUE- EXCELLENTISSIMO SENHOR." ST A viagem, que me i olvi a imprimir , por me *ij parecer
parecer, que a lua liçaó lerá naó íó util, mas agradavel aos curiofos de femelhantes noti- cias, dedico a V. Excellencia, j mas o motivo defta dedicaçaõ | naõ he algum daquelles, que ocoftumaõíer das outras. Eu| naó pertendo , que o grande i refpeito de V. Excellencia íir-! va de eícudo contra os que qui- zerem dizer mal da obra >que- ro fim, que conheça o publico, 'j que ate os carafteres da minha j Impreííaó íabem formar pala-, vras, que podem publicar em coda a parte onde forem en-| tendidas, para teftemunho do! feu agradecimento , a honra que V. Excellencia lhes fez. Ef- creveo V. Excellencia as Ulti* mas
, J mas acçottis de/eu 1yay oGRAN- DE DUQUE D.NUNO,ej naó íatisfeito de me honrara mim, quiztambém honrara' minha Officina , mandando-; me , que as imprimiííe , e que a grandeza da ediçaõ correi- jpondefle à grandeza da mate- ! iia , e do Elcritor. Para íatisfa- zer ao preceito de V. Excellen- cia , eícclhi os mais perfeitos cara&eres, fiz a impreflaó em folha de grande papel, e para( que em tudo fcííe magnifica, mandou V Excellencia a Mon- ■fieur Quillard , igualmente deftro no Pincel, e no Buril,1 que abriíTe em planchas de co- bre tudo o que foífe precifo para o ornato do livro, o que * iij elle /
clle executou com lumma per- feição, pois naó fallando em vinhetas, letras iniciaes, ere mates, abrio para o principio da obra huma eftampa de ad- miravel idéa , a que fe fegue. outra com o Retrato do Du-' que fummamente femelhante.j No meyo íe vé outra, q repre- j íenta a pompa militar do en- terro , e no fim trinta e tres, que moftraó o magnificoMau- loleo, e todos os adornos fúne- bres de que fe veftio a igreja de Santa Jufta, quando a Ir- mandade do Senhor lhe cele- brou as Exéquias; de forte, que poífo affirmar fem vaidade nem mentira , que a minha Officina deve a V. Excellencia a glo^i
a gloria, dc q nclla 1c fizefíe a ediçaó mais perfeita, e mag- nifica , que até aqui fe tem fei- to na Peninfula de Hefpanha. Em todos os feculos, e em todas as idades fe leráó nefte grande livro as acçoens de hu Principe , que para fe fazer Heroe, foube igualar com a grandeza das virtudes agran-, deza do nafeimento, e que pa- ra fer mayor que todos os íeus Mayores , alcançou de Deos o alto beneficio deíerPay de V. Excellencia ; mas no mef mo tempo fe leráó impreíTas na Officina da Muíica. A agra- decida memoria defta honra fe con fer vara fempre na mef- ma Officina,para a publicar no * iiij Mundo
Mundo em quanto nella dura- rem os caracteres. Agora defejara eu, Senhor Excelientiflimo , huma elo- quência , e huma erudicçaó ;iguaes ao meu profundiflimo! refpeico para coma pefloa de1 V. Excellencia, para que, já que falley no material do livro, podefife também fazer hum juizo naõ íó da relaçaõ, que V. Excellencia efcreveo, mas de todas as mais obras, aflim em verfo, como em profa , de que e"e fecompoem ; mas deftas baftame dizer, que foraõccm- 8 poftas pelos melhores Poetas, e Oradores de Portugal, eda relaçaõ de V. Excellencia di- rey o que diz o ultimo dos So- netos,
netos, que no mefmo livro (e imprimirão em louvor de V.; Excellencia; e ainda que no1- fim naó eftá firmado mais que com as letras iniciaes do nome, jde feu Author , bem feconhe- ce, que he feito por hum Pa- : dre Caetano. SONETO. AReligiofa, Angular piedade, Nas ultimas acçoens irais repetida Do grande Duque, com que o fira da vida Fez principio feliz da eternidade. Com igual elocjuencia,que faudade, Deixais, Heroico JAYME, referida, Porque na muda voz do prelo ouvida, , Viva eftampada na futura idade. Etfa vida que tendes recebido De hum Pay taõ dignamente venerado, Oh que bem lha pagais agradecido/ i Pois já duas vidas tem por vós logrado; Huma em voflaj acçoens reproduzido, Outra em fuas acçoens eternizado. Deos
Deos guarde a V. Excellen-j cia muitos annos, e lhe dé to- das as felicidades que lhe deíe- ja íeu criado D. Jayme deUT.e Sagáu. PRO-
í PROLOGO- NAõ ha melhor meyo para o acenado fim de ] qualquer heróica empreza,| ainda que arrifcada , do quei huma apoftada refoluçaó,diri gida de hum natural vivo, pru- dente , e experimentado. A prudência fem refoluçaó he pufàlanimidade; e a refoluçaó Tem expericncia , e prudente ' ponderaçaõ das confequencias, he reputada por temeridade. , A refoluçaõ, que tomou o Se- nhor Antonio de Albuquerque Coelho na jornada , que em- prendeo de Goa por terra ate Madrafta, e dalli por mar até Macao, parecerá temeraria a quem
V ' \ j quem ió attender às circuni- 1 cancias do tempo, o mais incõ- jmodo naquellas partes pelas | continuas chuvas, e trovoadas; jaós rilcos dos caminhos por 'terra de barbaros, e infiéis, onde neceflariamente fe havia de atraveíTar o Reyno de Sun- da, cujo Senhor andava em differenças com o Eftado daj Índia; íehaviaó avançar rios impetuofos com as inundações! das chuvas, e arrebatados com as enchentes das aguas; fe ha- viaõ de paliar braços do mar, cuja pafíagem he tanto mais difficultofa de empreder, quaò menos feguro o modo de a ef- feituar ; le haviaò encontrar innumeraveis tigres, que infeí- i taõ
taõ aquelles montes; le havia de expor às invaíoens de deshu- manos, e atreiçoados ladroens, que impedem aquelles cami- nhos. E o que he mais, a peíToa de hum Governador doSere- niflimo Rey de Portugal, fe; havia de aventurar a Ter,oui defcortezmente tratada , ou; afrontoíaméte reprezada com i menos decoro da reputação1 Portugueza. Mas quem tam- j bem advertir,q a natural vive za, e prudente experiencia de quem fe expunha ataes peri- gos, fabia nas occalloens dar ta- lho às difficuldades, e nos repe- tes engenhoíamente vencer os obílaculos , naó reputará por temeridade o que eraaflenta-
da reloluçaój confiada naõ me nos na profpera fortuna de Cefar,c|ue na prudenteexpe- riencia de Cataõ. O qual bem moftrou oíucceíío, como íe verá no difcurfo defta Rela çaõ. Vale. r LÍCEN-j
LICENCAS DO SANTO OFFICIO. j EMINENTÍSSIMO SENHOR. T" Ia Relaçaó , que quer reimprimir D. I Jayme de la Té, e Sagáu , e nada con- tem contra a nofla Santa Fé , ou bons cof» tumes. Lisboa Occidental 10. de Julho de ! 1750. D.Antonio Cattano de Soufa. ! ¥ 7 Ifta a informaçaó , póde»fe imprimir | V a Re'aÇaó de que trata , e depois de j impreflo tornará para fe conferir , e dar li» cença , que corra , fem a qual naó correrá. Lisboa Occidental 11. de Julho de 1730. Fr.R. Lanca/Iro. Cunha. Teixeira. Sylva. Cabido, Soarts. DO ORDINÁRIO. POde»fe imprimir, e depois de impref- fo tornará para fe conferir,e dar licen» ça , para que corra. Lisboa Occidental 13. de Julho de 1730. Giuvts,
D O P A C, O. j SENHOR. POr ordem
Pag.i PRIMEIRA PARTE.^ Defcreve-fe a Jornada de Goa até chegar ao Reynode Gior. CAPITULO I. Coufas fuccedidas de Goa atè en- trar nas terras do tfeyno do Canará. Ktentando ollluílrif finio , e Revereno'if- fímo Senhor D. Se- baftiaó de Andrade e PeíTa- nha, Arcebifpo Primaz, e Go- A verna |
j z Jornada de vernador dos Eftados da índia, dar Governador à Cidade de Macao, poz os olhos no Se- nhor Antonio de Albuquer- que Coelho; e actendendo, que aflim o bem temporal daquel- la Cidade , como o efpiritual das dilatadas MiíToens, depen- dentes da mefma Cidade , e neftes calamitofos tempos taõ perturbadas, neceflitavaõ da afíiftencia de tal Governador, como afíaz experimentado daquelles Paizes , pois tinha por baftante tempo habitado nelles, determinou fizeíTelo go (na viagem para aquella Cidade. Eftavaõ no porto de Goa dous navios, que naquel-
Antonio de Albuquerque. $ le anno cinhaó vindo de Ma- cao , hum delles naõ tinha a neceffaria expedição para vol- tar : no outro fe aíTentou cm- barcaffe o dito Governador; t eftando as eoufas preparadas na noite dos 22. de Mavoà^ 7. horas levantou véla o Ca pitaò daquelle navio , por cau- la do vento, que de repente começou fortemente a aílo prar, e fe fez ao mar fem eí- perar pelo Governador , que havia dehirpara Macao, o; porque julgou devia aprovei f ,0g° do vento, quando qualquer tardança em tempo queja começava a invernada podia fer nociva àfua viagem A ij ou
^ Jornada de ou porque temeo correífe rif- co o navio ancorado , fendo mais conveniente o affaftarle Je terra, ou foíTe outro qual- quer o motivo expediente às íuas conveniências. Com efte fucceíTo parece ficava fruftrado o intento do Illuftriííimo Senhor Primaz Governador , que era, que o Senhor Antonio de Albuquer que Coelho partiffe naquelle anno para Macao> mas a acti- vidade de hum , e outro Se- nhor remediou efte accidente naõ el perado, com a refoluçaó de que aquella jornada feem- prendeííe por terra are Ma- drafta, aonde por codo o ju- lho
Antonio de Albuquerque. 5 lho poJcria achar embarcaçaõ para alguma das partes conn nantes com a China, por fer aqaelle emporio dos Inglezes hum dos mais bem providos de coda a Aíía, e expedi co em defpachar navios em qualquer | tempo para vários porcos. Aí- 1 Tentada efta refoluçaõ, expedio 1 ollluftrifíimo Senhor Primaz Governador íuas ordens , e recomendações affim às Feito- rias do Eftado, como às oucras dos Eftrangeiros; e aos 30. de Mayo o deftinado Governa- dor de Macao, no cais do Def \ embargador Agoftinho de Azevedo Monceiro, fe embar- § cou na Manchua de D. Chrif S Aiij tovaõ I V
6 Jornada de covaô de Mello, Védor da Fa- zenda , levando em íua com- panhia oCapitaõ ]oaò Tava- res de Velei Guerreiro, que eftava nomeado para a guar- nição da Fortaleza da Barra de Macao, e o feu Ajudante Igna- cio Lobo de Menezes, e no feu Balaó a Joaõ Nunes, e Paf- coal Ribeiro Portuguezes, e cinco Cafres íéus cativos,e jun- tamente dous clarins; e fazen* do fua digreffaõ ao Convento dos Religiofos Capuchos da Madre de Deos , rendeo de- vora oraçaó àquella Senhora, que he amorofa companheira, e fiel guiados viandantes; ere- cebendo em fua companhia a Fr.
Antonio de Albuquerque. 7 Fr. Angelo de Santo Antonio, e o Irmão Benedi&o,que am- bos eftavaõ deftinados para o acompanhar no fobredito na- vio até a China, fe partio da- quelle obfervantiffimo Con vento pelas 6. horas da noite, para a Fortaleza de Rachol, a - onde chegou pelas 10. reco' lhendo-fe em caía do Senhor D. Luiz da Cofta , General da Província de Salfete, e foy hofpedado com aquelle cari- nho, e agrado, que pedia a grande amifade entre ambos contrahida. Foy neceííario de- terfe alli hum dia m^is; por- que faltando os Decais de Po- da a palavra , com que tinhaó A iiij pro-
S Jornada de prometido cavallos para a- luelh jornada, por intelligen- cias, que havia entre elles, e o Rey de Sunda s o Senhor D. Luiz da Cofta applicou fua di ligencia, e cuidado a fupprir o com quefaltaraóaquelles De- cais. Deo-fe principio à jornada aos 2. de Junho com huma de vota aííiftencia , que os dous Generaes fízeraõ ao facroíàn- to Sacrifício da MiíTa, acçaõ própria da fidalguia Portugue- za, que coftuma começar fuás emprezas pela piedade. Partio o Governador levado no an- dor do General daquella Pro- vinda , com toda a mais comi- tiva
Antonio de Albuquerque. 9 eiva acima referida, recufan Jo huir.a tropa de 20. cavallos, que o General D.Luiz da Ccí >:a lhe oíferecera para o acom panhar até Coculim , aceitan- do fomente hum Cabo de Eí- juadra, e outro Soldado com ordem do dito General para -jue obedecelíem em tud« oue^ o Governador lhes man iaíie. Fez-fe o caminho pela Aldeã de Chinchini, naõ tanto por fe aviftar com o R. Padre Manoel Carvalho, da Com panhia de JESU , venerável Ancião , e de íingular eftima- çaõ, Vigário daquella Fregue- sa , quanto por viíitar a devo a Imagem de NoíTa Senhora. que
i o Jornada de que naquelle lugar he venera da com notável devoção pelo Povo. E o bom Padre admi- rado da refoluçaõ do Gover- nador, e ponderando os peri- gos , e trabalhos, a que íe ex- punha , o exhortou a que fe puzeíTe debaixo do patrocínio da May de Deos.toda fonte de piedade, e mifericordia , e norte feguro dos caminhan- tes , com o qual patrocínio po- dia efperar feliciflimo luccef- fo: o que tudo ouvio o Go- vernador com affe<5tuofa ter- n ura, prometteo hum manto à devota Imagem , e partindo pelas tres horas da tarde em demanda da Aldeã de Cocu* lim,
Antonio de Albuquerque. 1, lim, chegou lá pelas cinco, eí- cando o Capicaó de Infantaria Antonio de Abreu, que alli af- /íília de euarniçaõ, aparelha- do para nofpedar o dito Go- vernador ; mas efte rendendo as devidas graças a taõ urbana ofFerta, íe foy agafalhar na Igreja daquelle lugar, em que reíidia por Vigário oR.P. Va- lentim de Gourea da Compa nhia de J ESU, accõmodando- fe a mais comitiva em caía do dito Capitaõ de Infantaria. Amanheceo o dia feguinte, e a primeira coufa, que o Go- vernador fez, foy affiftir à Mif- fa com a fua coftumada devo- Ça5, e piedade j e preparado o I neceíTa-
12 Jornada de neceífario, difpoz a marcha, a qual como foy entrando pelas terras do Sunda, fe dividio em forma de Arrayal, preceden- do na vanguarda vinte Laica rins mofqueteiros com o Ca- pitao Joaó Tavares, e os dous Portuguezes, e na retaguarda hia o Governador com os ou- tros Laícarins, feus Cafres, e o Ajudante, levando toda a bagagem no centro, e os dous Soldados de Cavallo lhe guar- davaõ as coftas. Eraõ aquelles Laícarins da Infantaria do De- çay Nagogi Narque, que por ordem do Illuftriíílmo Senhor Primaz foraõ deputados para acompanhar ao dito Governa- dor
Antonio de Albuquerque. 13 dor até as terras do Canará. Nefta forma chegou o Arraya! à primeira vigia do Rey de Minda, que confiava de feffen- ta Laícarins, e logo lhes foy intimado,quem paliava, para onde, e a que fim. Continuou- íe a marcha, e juntamente a chuva, que naõ ceifou naquel- les dias; pela qual razaõ os ca- minhos eraõhuma continuada alagOa, e com grande traba- lho Te chegou às cinco horas da tarde à Aldeã de Parurá, que eftá ao Sul de Cabo de Ràma, onde fe aquartelou o Governa dor na barraca da vigia, que confiava de cinco Laícarins, que arrebatados do medo, lar- gara 6
*4 Jornada de garaó o pofto, fiando dos pés a fua fegurança; mas dando- Ihe f«guro,quenem elles,nem os da Aldca feriaó moleftados, com condição, que de noite nenhum chegafíe aodeftri&o' do Arrayal, íobpena de mor- rer arcabuzeado , fe focega- raõ. No dia feguinte fe pro- feguio a jornada com moleftia da chuva do Ceo, e alagos da terra; e a poucos pados anda-| dos fe encontrou hum braço] do mar, cuja largura era pou- co menos , que hum tiro de piftola. A neceífidade obriga- va a a travefíallo a pé, pois naõ I havia alli nem ponte,nem em- I barcaçaõ alguma, nem quem k / fou-
Antonio de Albuquerque. 15 oubefíe , que fundo tinha. Foy hum aventureiro a cbfer- varlhe a altura , e achou naó paííar da cintura para cima, e retirando-íe para a praya, de tal forte crefceo a agua com o quebrar das ondas, que o hia arrebatando para o mar,e com grande difficuldade fe falvou. Ficou a gente fummamen ce intimidada à vifta do cafo, e deu por impoffivel a paíía gem; mas o Governador fo- cegou a todos, e com fua natu- ral viveza obfervando aquelle lyntoma, e fegredo da natu reza, advertio, que de nove em nove ondas crefcia, e decrecia com taõ grande improporçaó; eerr
i6 Jornada di e em taõ breve efpacio de cem • po aquella nova maré , que naõ chegaraõ a defcobrír, nem Ariíloteles, nem Plinio : e fei- ta efta obiervaçaó, acabada a nona onda, o paffou com toda a gente > fera que peífoa algua perigaíle. Tanto vai em feme- lhantes occafiões haver huma cabeia íagazmente advertida, que faiba prudentemente ef pecular, e defcubrir os íegre- dos da natureza para aííim po- der cortar pelas difficuldades! Fica efte braço de mar logo à entrada da praya de Galipan, a qual he huma lingua de area, j que vay dar no rio Quilipican, e efte fahe ao mar pela dita lín- gua
Antonio de Albuquerque. i7 gua de area, c corre taõ arre batadamente ,cjue pareceo até aomefmo Governador fer im- poffivel fua paffagem. Havia alli Almadias grandes, mas naõ coftumavaõ paflar naquelle pofto, e fó huma légua mais dentro, aonde a corrente he menos fiiriofa. Naõ fe achou o Governador com fleuma de hir bufear mais longe a paíTa- gem , e mandou conduzir quantos pefeadores fe achaí- íem, e com prometia de aven tajada paga (movei, que coftu roa imprimir forças a feme- lhante gente) à força de mul- tiplicados remos fe venceo a corrente, e puzeraõ da outra B Darte
18 Jornada de parte. Vencida efta difficulda- de, logo deraõ noutra naó me- nos arrifcada, que era o rio Lolipigan , que fe havia de paliar em duas únicas Alma- ! dias, taó rotas, e defmantela- das, que pareceria grande te meridade arriícar nellas tanta gente ; mas como a fortuna ajuda aos animoíbs, paflaraó todos à outra parte com def- prezo dos perigos. Continuou íe a marcha por terra rafa, < dilatada em vargens, que por ler tal, em tempo de tantas chuvas , eraõ feus caminhos muy arrifcados. Finalmente já quaíi noite fe chegou à Aldeã Seovençar. He
Antonio de Albuquerque, j y He efta Aldeã de relpeito, e conííderaçaõ, aflim por haver nella huma Fortaleza baftante- mence grande , fabricada de pedra, e cal, com cinco balu- artes , e algumas peças de pe- queno calibre, prefidiada de cem Soldados; mas muito mais por eftar alli templo dedicado aDeos, com rcfidencia dos! Religiofos da Companhia de JESU, em que aííiília o P. Manoel Botelho da meíma Companhia. Mandou o Go- vernador fazer a marcha por dentro da Povoaçao a fom de clarins, e com a melhor pom- pa , que pode, ficando os do lu- j gar cheyos naõ menos dead j Bij mira-!
2 o Jornada de miraçaò, cjue de medo, c fel foy agafalhar à Igreja. Era eí- ] ta em tudo Apoftolica, naõ ío pela pobreza, e eftreiteza, pois era tecida de palha, e de qua- tro vara1; de comprido, e tres de largo, como também pela exemplar vida, e grande zelo das almas daquelle Religiofo. Alli expoz o Governador as 1 Imagens de Noíía Senhora da Penha , e de Santo Antonio, (eus fieis, e indivifos compa- nheiros em todas as viagens, e emprezas, e que lheferviaó igualmente de fomento à fua devoção, e de confiança a feu animo , e o Padre entoou as Ladainhas de NoíTa Senhora, a que
Antonio de Albuquerque. a que o Governador, e os mais devotamente refponderaõ.En tre tanto os da Fortaleza efta- vaó paflados de medo: fecha- raó as portas, e com rigorofa fentinella fe puzeraõ com as armas na maó j porque lhes re mordia a confciencia, quando ae alli tinhaõ hido alguns Sol- dados ajudar ao Sambagy na entrada,que poucos me7es an- tes tinha feito nas terras de Sal- íete. Mas nada íuccedeo de parte a parte, porque o Go- vernador íó attendia à fua via- gem 5 e os da Fortaleza fe da-1 vaó por muy fatisfeitos fe os deixaífem em paz. No dia íe- guinte,cinco do corrente mez,, R iij foy
21 Jornada de foy taõ grande a chuva ,e cref- ceo tanto a agua pelos cami- nhos, que chegava a dar pelos peitos; mas naò foy baftante efte incommodo a que fe inter- rompefíe a jornada. Pa(Tadas poucas horas da quelle dia ,íe emprendeo ven 'cerhuma grande dificuldade; qual era a paffagem de Chita cola, que he a boca da enfea- da das Gales, naó tanto pelas encrefpadas ondas caufadas dos grandes ventos, e tempeftades, quanto pela refiftencia, que a vigia daquelle pofto intentou fazer, impedindo a? embarca ções da paflagem. Confiava aquella vigia íómente de dés
Antonio de Albuquerque, 25 Laicarins, hum pouco refolu tos; mas acharaó quem os ven- ceíTe na refoluçaõ; porque o Governador , ainda que naõ queria exafperar a gente da- quelle Reyno, conforme nas prefentes circunftancias pedia a prudência, julgou com tudo naõ devia dar o minimo indi- cio de medo, para que a de- mafiada cautela de naõ osof- fender , naó degenerafíe em de! prezo de fua pefíca; pelo que denodadamente lhes man- dou intimar, que íenaó defif- tiaó de feus intentos,os manda- ria a todos açoutar. Foy baf tante efta intimação, para que largaílem livre a paífagem. B »ij Ven-
Jornada de Vencida a Serra de Arga- peice, cuja fobida, e defcida foy hum pouco roolefta, fe fez aíTento já quafi noite na Aldeã do Aurfia, e foy neçeíTario fa- ter quartel no alpendre de hú grande Pagode , que eftava cheyo de muita gente ; pe' qual razaó mandou o Gover- nador fechar as portas, e fazer fentinella. Seriaò nove, ou dez horas da noite, quando aquel- le Tartareo, e vil ajuntamen- to começou hum trifte, e def- compofto defcants, com o to- que de tamboris, campainhas e gaitas; e fabendo o Gover nador, que aquillo era querer iar principio às fuas diabólicas rezas,
Antonio dt Albuquerque. 15 rezas, com império, e-autho- ridade lhes fez dizer, quede- iiíliíTeni daquella acçaó, e dou- tra force, à força de cruéis bo rècadas, que os leus Cafre s ihes Jariaõ, feriaó lançados fora dc Pagode: e bailou rfto para fcj obedecido à riíca. Tanto pò- le o zelo Chriftaõ,animado ds cfficacia de hum generofo ti- pirico, que aterrou , e confun- Jio aquelles miferaveis, e en ganados eferavos de Satanás, e impedio o obíêquio, quefr queria Irazer ao diabo com dií pendio da honra Divin2.' Amanheceo o dia fexto dt Junho,e juntamente fedirigic o Arrayal para a Aldeã de An colá,
[26 Jornada de colá, com menos chuva , que os dias paliados, mas naõ com menor difficuldade; quando a I pouca diftancia do alojamento daquella noite , fe defcobrio no mar hum laftimofo efpe- «ftaculo. Era hú navio, que ló tinha fundado toda a fua efpe- I rança de fe na5 perder total- mente cm hík ancora, contra quem eftavaô aportadas a in- chada fúria dos mares, e petu lante tempeftade dos ventos; e o efperava aquella brava cofta, para deshumanamente o rece- ber em pedaços, e o entregar àquelles barbaros, a cujo Rey (conforme o coftume, ou abu- fo de quaíi toda a índia) per ten-
Antonio de Albuquerque. 27 tencem os bens dos naufrapa - ro os. Moveofe o Governador a compaixaõ, e temendo foí- fe o navio de Macao, em que tinha determinado embarcar- fe, defejava de algum modo íoccorrello , mas como naõ diftava muy longe a Aldeã de Ancolá, onde havia de jantar, e alli podia de alguma forte prover ao neceffario, conti- nuou a jornada, deixando dous homens da fua companhia cõ ordem, que foflem à praya, e alli fizeflem toda a diligencia para faber, que barco era, e de tudo lhe foflem dar noticia. He Ancolá hua das melhores, e mayores Povoações do Rey- no
2-8 Jorrada de no de Sunda, affím pelo lugar em que eftá, como pela bem lançada Fortaleza , com que he defendida, lavrada de pe- dra decantaria, diípofta com bons baluartes, e levantada cm muy bella íltuaçaõ. Poz-fe o Ârrayal em ordem, e cami- nhou a marcha para o Bazar 5 e reconhecendo o Governador grande aballo em todos os vi- finhos daquelle Povo, para os livrar do fufto, lhes mandou dizer , que o guiaíTem até a Igreja, aonde refídia o R. P. defeph Pereira da Companhia Jo JESU, Íogeito de conheci dos, e aventajados talentos, o qual recebeo ao Governador, aju n-
Antonio de Albuquerque. 2 9 ajuntando com a moderaçaõ Keligíofa, huma decente gran- deza no jantar, que lhe offe- receo de coufas muy boas, ef- feito de lua economica provi- dencia para femelhantes occa- (íoens, e juntamente o proveo para a viagem de vários doces, frutas, e outros regalos. Como nefta Igreja ouviffe dizer , que fe fofpeitava fer de Mafcate aquelle navio, que ar- riba fe fallou, e que os Mou- ros da terra o efperavaó, e os homens , que tinha deixado para o exame do dito navio, nenhuma coufa certa diíTeraõ, le refolveo apartirfe, efpeci almente íendo obrigado a fa-
$ o Jornada de zello \ affim por lhe dizer o Padre Jofeph Pereira , que o lugar dos confins entre o Sun- da, e Canará, ío diftava duas horas de caminho, como tam- bém por elle Governador te- mer, que a íua detença foíle caufa, que o Rey de Sunda, cuja Corte naõ diftava muy longe, aftutamente lhe armaf- fe alguma embofeada, em que correfle perigo fua peíToa. Pe lo que moftrando feu animo agradecido àquelle Religio- fo Padre, fe defpedio delle , e poz a caminho , que foy bem molefto, e mais comprido do que convinha, por caufa do guia, como com baftante fun- damento
Antonio de Albuquerque. 31 damento íe foi peitou , por quanto elle moftrou queria fi- car cm Ancolá. E íe confir- mou efte fundamentoj porque li chegados ao rio, que divide o I Rey no de Sunda das cerras do j Canará, fe achou a paííagem I Tem Almadias, asquaes todas eftavaó na outra parte do Ca- nara, e chamandoíe, nenhu- ma quiz vir. Vendo o Gover- nador as coufasnefta forma, fem moftrar perturbaçaõ em íeu animo, começou a difpor o neceíTario para a fua fegu- rança. A primeira couía foy prender o guia na barraca da vigia dacjuelle lugar, e junta- mente dous homens da meíma ——vigia,
5 z Jornada de vigia: mandou também reco- lher à dita barraca todos os Bi- garins dos Andores, pondo alli duas íentinellas de confiança > e como aquella paragem era deferta, deo ordem fe cortaf- fem eftacas, com que fe intrin- cheirou em tal ordem , que podeíTe acodir a huma , e ou- tra parte do caminho, guarne- cendo a eftancia com vinte ho- mens y e pôndo os outros no monte, que ficava a tudo emi nente; e difpofto tudo com no tavel prefla, e melhor modo que pode fer, fe paíTou a noi tecom vigilante iocego. CA
Antonio de Albuquerque. 3 3 CAPITULO II. Trofegue-fe a jornada ate en~veflir 9 Caminito dos Gates. A Lvejou a manhaa fe guinte, e logo o Gover nador obrigou aos dous vigias do lugar , a que conduzirfem as Almadias da paffagem, o que elles fizeraõ com naõ me nor diligencia, que medo ; e foy tal a expedição , que pelas fete horas da manhaa todo o Arrayal fe achou nas terras do Keyno do Canará. Aqui def- pedio o Governador o guia, e a efquadra dos Laícarins do C Deçay
?4 Jornada de Deçay de Dongrim com car- tas para o General da Provin- da de Salfete, e Teus Procura- dores; refervon porém a com- panhia de Coculim, contra a & ordens do Illuftriflimo Gover | na dor Primaz, conje<5iurando | prudentemente o que lhe ha- | via de fucceder. Foy o cafo, I que Segunda feira fete do dito 1 mez de Junho, depois de ven- 1 ceras dificuldades das grandes I chuvas, e as efpeííuras deefpi | nhofos matos, aviftada a For | taleza de Mirizen , primeir; i do Rey no do Canará , fe alo- 1 jou alíi o Governador pela? 0 duas horas da tarde, para ex- 1 pedir as Tuas cartas para Goa. Naó
Antonio de Albuquerque. 3 5 Naõ faltou nefte pado o Go vernador do lugar com as fuás cortefías, offerecendo a caó nobre hofpede hum pre- íente das couías da cerra, que conftava de hum ramo de fí gos, humajaqua, Betele, e manteiga, que tudo obfequio- lo recebeo o Governador, apremiando ao portador com dous Rupias, e mandou dizer lhe, que a mayor graça , que Jelle poderia receber, era ex- pedirlhe as Almadias para a paflagem do rio, que no outro dia muito cedo pertendia fa zer; mas como efla expedição jertencia àjurifdiçaõ do Aval- dar, foy neceíTario, que oGo- C ij ver
■ $6 Jornada de vernador de Macao defpa chaíTe dous homens da lua bo, e homem, que attendia mais aos lucros do Telonio, do que à authoridade dos paf íageiros, e com a capa do cul- to aos Teus monftruofos Pago- des , tirava prata a quem a ne cefíidade obrigava a paííar a quellerio. Relpcndeo elle dil íimuladamente, que ficava d- avifo. Rompeo a Aurora dv outro dia , e logo o Governa dor foy marchando para a pai fagem ; e quando os da van- guarda fe perfuadiraó, haviac de guarda a fazer ao dito Aval dar aquelle requerimento. Era efte de condirão fober
Antonio de Albuquerque• 3 7 ic achar expeditas as Alma- Jias, experimentarão tudo pe lo contrario, porque eftas efla vaó da outra parte: deraóavi- fo ao Governador , o qual mandou faber do Avaldar 2 cauía , e efte refpondeo, quei em quanto o Governador naõ mandaíle toda a fua gente a cornar marca para paíTarem , e pagar cada hum o que era coftume para os Pagodes, nac íavia de dar Almadias. Juílc potivo para ferver o nobre angue do Governador, quan lo (em o devido refpeito à lua -rfoa, o queriaõ reduzir ao; toros da gente ordinaria ; maí | muco mais juííó, quando corr j . C iij me |
Jornada de menofcsbo da piedade Chrií- taã, c]t:e tanto fomentava em leu generoío peito, era deman Jada,i_jue concorrefle para o culto dos idolos; levado pois de hurr.a innocente, e Chriftaa ira, manda a toda a gente in- veftir a caía do Avaldar, e che- gado perto delia , falta deno dadamente do Andor, e com grave império lhe intima oca ftigo de fogo} e foraõ taes as vozes, e ruido daquella negra rurba de Cafres, e Lafcarins, que a íom de clarins tocavaô a degollar.que o Avaldar fugio iefcompofto, e todo o Bazar íe defpovoou. Acodio nefte paíTo o Capi- ta 6
Antonio de Albuquerque. 5 9 taò da Fortaleza; e quando pa receria , que elle com eodo o íeu poder procuraria defende» aquelle Miniftro do Reyno deíafrontando-oda invafaò, c, hum forafteiro lhe fazia , foy tudo pelo contrario; porque com reverente fubmiftaõ , c inftancia humilde rogava ac Governador perdoalTe àquelle defeortez Miniftro, ofierecen io-fe ao tomar em léus hoir. bros, e pollo da outra parte dc rio; e como no rofto, e olhoí io Governador feimillafíe c ogo de lua muy nebre cólera 1 Capitão levantando as mãoí 10 Ceo.lhe pedia por amor dc eu Deos íocegaiíe o animo. Ciiij Aqui
Antonio de Jlbuquer que. ^ i parte o Governador, deípa- chou para Goa a efquadra dos Laícarins,refervando fó dous, que lhe íerviaó de língua. Defte lugar fe foy cami- nhando ,ou para melhor dizer navegando , tanta era a agua, que inundava os caminhos.que em algumas partes obrigava \os carreteiros dos Palanquins \ levallos febre a cabeça. A's oito horas da noice deraõ abri gada ao Governador na ígre- ja, que eftá junta da Fortaleza de Onor. E no dia feguinte, ouvida a MiíTa da Novena de Santo Antonio, que aquelles Chriftaos muy devotamente celebraõ, fe proSeguio a jor nada;
Antonio de Albuquerque. 4? outro remedio , que buícar hum Pagode, que eftavajunto: quando naõ apparecia outro ugar de agafalho. Eraeftaef- ancia muy incómoda , affim 3or ler afcjueroía, e hedionda, jomo pela muita gente enfer- ma , que alli eftava; pelo que o Governador querendo, que entraíTe dentro o Teu Andor, para nelle paCTar a noite, o que he impediaõ os batentes da porta , os mandou quebrar j mas advertida efta determina- ção pelos Gentios, offereceraõ logo o Bangaçal ao Governa- dor, que naó defejava outra coufa; e querendo emrar nelle, o achou cõ as portas fechadas. Conhe-
44 , Jornada de Conheceo Te a ardilofa traça Jaquella inurbana, e vil genta- lha , que deíla lorte pertendia excluir de hum, e outro lugar 10 Governador; e efte julgan Jo naõdevia confentir íeabu laíTe de fua moderaçaó, e pa- ciência , mandou íe quebraf- fem as portas do Bangaçal, e aos primeiros golpes as abri- raó os Gentios, e o Bramene, quedelle tinha cuidado, fazen- do da neceffidade virtude, co- meçou aeícufar a defcortefia ia fua gente com o receyo,que alia tivera, de que a fazenda, que alli eílava recolhida , cor- reria rifco, entrando no Ban« gaçal os Cafres; e o Governa- dor
Antonio de Albuquerque. 4 5 lor recebendo eftas fatisfaçóes; e efcuíãs reípondeo, que to- mava a leu cuidado a feguran cu de tudo; e aquartelado, poz entinella ao fato, ficando o Sramene taó fatisfeito, que pe- las mãos das fuás mulheres le guizou a cea ao Governador. Defte lugar íe continuou a marcha coíieando o mar, e na praya appareceraò madeiros, deípojo de alguns navios, que a tempeftade dos dias antece- dentes tinha alli lançado, cm final dajurifdiçaó , que tivera naquelles mares. Pelas onze horas daquelle mefmo dia, íe venceo a paííagem do rio de Barçalor, e o Governador fe reco-
-\6 Jornada de recolheo na Igreja , aonde a- chou ainda MiíTa, que ouvio com efpecial confolaçaõ , por fer aquelle dia Sabbado dedi- cado a Maria Santiflima, do- ce, e afFeótuoío alvo de todo o verdadeiro, e fiel Catholico. Alli foy hoípedado com mui- ta cortefia, e amor pelo Vigá- rio da V ara daquelle deftri<ào; e como era vefpera da feftivi dade do mayor luftre de Por- tugal , o gloriofo Santo Anto nio, cujo dia queria celebrar eom o obfequio o mais agra davel ao Santo, que era o con feíTarfe, e commungar , fez demora nefta Igreja. No ou tro dia > depois de íatisfazer à
Antonio de Albuquet que. 4/ Tua devoçaó, e obrigaçaò de ouvjr MiíTa, pois era Domin- go , dirigio íua derrota para a Igreja de Calianapor: antes de lá chegar ,era neceflario atra- vefíar hum rio, cujas Alma- dias eftavaõ tomadas para nel- las Te embarcar hum grande Botho, cuja dignidade entre aquelles idolatras correfponde à dos noíTos Bifpos : hia elle cõ grande faufto de gente, e de gaitas; mas o Governador ne- ahum caio fazendo daquelle negro Miniftro de Satanás, mandou aos íeus Cafres fe fe- nhoreafíem das Almadias, e nellas paíTou com toda a fua comitiva para a Igreja, fican do
48 Jornada de do o Botho cheyo naó menos de confufaó, do que de raiva, s os gentios trocando a vene- raçaõ, que lhe tinhaõ, em eí- panto, e medo. Naõ eftava Pároco na Igreja, mas fó hu Sacriftaô velho, e algum tan co tomado do vinho, o que riaõ impedio, que cortez, e devotamente recebefle ao Go- vernador, cantando as Ladai- nhas , ajudando efte taõ devo- ta ac^aó, e alli defcançou a- quella noite. Seguio fe o dia quatorze Jaquelle mez , horrível pela grande tempeftade de chuva, e molefto pela difficultofa paf- íagem de tres rios, que com abun
Antonio de Albuquerque. 49 abundancia das aguas corriaõ foberbamente furiofos. No atraveflar o rio Moliquim fuccedeo, que tendo paflado a mais gente, ficou o Governa- dor com hum Portuguez, dous Lafcarins, e os feus Ca- fres , e eftando já para fe em- barcar,chega hum Gentio, que moftrava fer peíToa de refpei- co , pois vinha feguido de íeis íomens que o acompanhavaõ armados de efpada, e rodela. Perguntou o Governador, quem era aquella períonagem, e lhe foy refpondido pelos paf- !ageiros, que era da preferi ça do R.ey, e que vinha da Corte! de Bedrul. Logo em chegan- D do
í 50 Jornada de do aquelle Gentio à praya , a gente da íua guarda pertendeo ieembarca(Te,aque feoppoz o Governador, allegando ter chegado primeiro , mas ella atrevidamente fem reípeito à pefloa, que fe lhe oppunha ioltando-fe em palavras de zombaria , faltou dentro d2 embarcado. Naó pode nefte paflo o Governador refreara cólera, e rr andou aos feus Ca- íres lançaífem aoniaracjòel les defcorcczes, o que logo íerr dilaçaó alguma íoy executado mas hum deites animado con a prefença do íeu Senhor en veftio com hum dos Cafres , t o maltratou , dandolhe hurr
Antonio de Albuquerque. 51 I peícoçaõ. Naô paliou íem cál- cico efte atrevimento, que naõ fomente foy executado no di- Ico aggreííor , mas cambem a- jbrangeo aos companheiros, pois por mandado do Gover- nador foraõ todos aquelles ne« gros muy bem facodidos à for-; Iça de Bambus, com que a pal- jíagenQ ficou franca, e expedi- j ca; o que vendo aquelle fufco! Cortefaó do Rey, e que o Go-! jvernador fe hia embarcando, J picado dos íeus negros brios,! levantou a voz, que toda le desfez em ameaças contra os pobres remeiros daAlmadia, osquaes, como fe vifíemio | re uni rayo, le lançaraõ a D ij agua
5z Jornada de agua, ficando a embarcaçaô fem ter quem aconduziííe à outra parte. Aqui fe exafpe- rou a paciência do Governa- dor , e julgando devia moftrar algum final da antiga genero- íidade Portugueza, tomou hu- ma relolu^aõ, ainda que arrií- cada, neceííaria naquellas cir cunftancias: manda lhe tragac prezo aquelle Gentio à íua pre- (ença,o qual cora a agua acè o peitos foy levado à Almadi; aonde eftava o Governador, c hia o pobre taó pafíado de me Ido, que fe desfazia em lagri ! mas, e chamando pelos remei ros, fem que os feus arrot ela dos fe atreveíTem a abrir a bo
Antonio de Albuquerque. 5 3 ca, e muito menos defembai nhar as efpadas : vendo-o o I Governador em fua prefença, ajuntando a gravidade com a benevolencia , Jhe offereceo humanarigada de tabaco, di-! zendolhe, que o naõ mandara matar, por conhecer em feu femblance, que era bom ho- ,.mem; e pofto da ontra parte, fe encaminhou para a Igreja, j onde foy hofpedado do Padre, , Franciíco Xavier, Vigário da- jquella Fregueíía, ficando muy jconfolado de ver huma Igreja: |no raeyo daquelle Paiz infiel,'1 lindamente adeada, e a me- lhor de todo o Canará. Deo k principio à marcha D iij do
54 Jornada de do dia feguinte, tomando o Governadora benção de Chri fto Sacramentado na Mifla, que ccm a fua coftumada pie dade ouvio j e levando o cami Jnho pela praya , encontrou neila finais de navios perdidos; eraó tres Leoens de madeira. Finalmente pelas tres horas da tarde, lhe deu a Feitoria de Mangalor hofpedagem ; foy na verdade muy commoda , e urbana pelo cuidado , e dili gencia do Feitor, e Alcaide mor Fernaõ Martins. Eftavaó cambem naquella Feitoria os Capitães de Mar e Guerra Alexandre Pinto de Sonfa, e Antonio dos Santos, que ti nhaõ
Antonio de jílbuquerue. 5 5 nhaó vindo com ordem do El tado a acodir aos roubos da lua jChalupa, que fetinha perdi donaquelle porto de Manga lor. Aqui foy neceííario ao ! ^Governador deterfe deus dias ' ipara preparar o neceííario cm ordem a atravefíar oí Gates, por lhe parecer impraticável 0 continuar o caminho pela bordado mar ,aflim por caufa 1 da difficuldade de pafíar os rios creícidos com as muitas aguas, ;Como por razaô das guerras. e ; magotes de ladroens, de que eftaó cheyos os caminhos aré Cochim. Defpedio pois qua renta carreteiros de Andores, e o Bramene Jacinto Franco Diiij
I ^0 Jornada de I de Sá, com cartas para o Illuí- triflimo Senhor Primaz, e ou- jtros amigos, c armou bum Andor pequeno para fi, e Ma- chiras para o P. Fr. Angelo, j e Capitaõ da Fortaleza da Bar- Ira deMacao, e Capitaó de Mar , e Guerra Alexandre ' Pinto de Soufa, o qual fe re Ifolveo a acompanhar aoGo- • ;vernador até Madrafta , para i que no calo, que na Cidade de S. Thomé encontraííe o Capi- taó , que perdeo a Chalupa, e fogio com o cabedal, que ref- cava, ulaíTe da authoridade, e induftria do dito Governador, para cobrar o que podeffe. CA
Antonio de Albuquerque. 57 CAPITULO III. Sttccejfo no atraVeJfar dos Gates, até chegar ao %eyno de Maijfur. ERa o dia dezoito dc ju- nho , quando o Gover- nador fe poz a caminho,acom- panhado de menos gente no numero, pois além das Com- panhias dos Lafcarins, que ti- nha já defpedido, fícaraõ do- entes em Mangalor o Portu- guez Joaõ Nunes, e hum Ca- fre ; mas em feu lugar fe lhe aggreSaraõ tres Portuguezes, que eftavaó na dita Feitoria dc Man-
58 Jornada de Manga lo r. Naò fe achou me- ãos dificuldade nos caminhos, que por ferem vallados de var-! gens, e quebrados dos montes, eraõ tanto mais arrilcados, quanto mayores eraó as cor- rentes das aguas, que os cor- j tavaó. Aflvn fe foy cami- nhando,até que o dia íeguinte, Sabbado de NoíTa Senhora,pe- las dez horas da manhãa, fe chegou à Fregueíia do Menino JESU em Bantual, aonde ain da achou MiíTa, que ouvio o Governador/ucceaendo lhe à medida do íeu defejo, que era em femeihantes dias, achar oc caííaõ de dar pafto à fua devo- ção. Foy-lhe neceííario ficar alli
■ 111 - | Antonio de Albuquerque. 59 alli aauella tarde, naõ tanto para ie prover de homens de carga, pois os que trouxe de Mangalor, por virem de má vontade, naõ eraó proporcio- nados , quanto porque no dia (eguinte, por ler Domingo , Iqueria naõ menos fatisfazer à obrigaçaõ, que à piedade, ou- vindo MiíTa,efpecialmente ce lebrando no tal dia os daquel- (la Freguefía, a folemnidade jdo invi<5tiífimo Martyr S. Se- I baftiaõ. Arrayou a luz do dia vinte, e celebrada a MiflTa, fe prepa- ravaõ todos para a marcha , e os homens carreteiros do An- dor, eMachiras naõappare- ciaõ;
Antonio dt Albuquerque. 61 raó aquelles honrados* Portu- guezes huma boa Machira pa ra o Governador, maselle a- inda que urbanamente agra- deceo taõ grande benevolen- cia, generoiamenre regeitou a! oíferca, qaerendo fer igual aos companheiros; e ío delia ufa-1 va , quando era taó grande a í chuva, que naõ podia íuften tar o capote, de que ufava pa- ra defender aquella pequena, e leza porçaó do braço direito, que antigamente lhe foy cor- tado. Naõ foy menos diffi- cultofa, que perigofa a conti nuaçaõ da jornada , porcaufa da paíTagem dos rios, eípecial mente nos de Obar, e Maça muti.
Antonio de Albuquerque. 6 3 nelle fereverenciava,que pela hediondez de ieus immundos atavios, deu lugar para o def- canço da noite aos que com o trabalho do caminho do dia eftavaó baftantemente molef- tados: para a cea nada íe en- contrava , íenaõ algumas gali-! nhãs, que os barbaros habita dores de alguns caíaes, que alli íavia, deícortez, c iniquamen- te naõ queriaõ vender, mas co mo a neceffídade era grande, mandou o Governador tomar as que eraõ neceíTarias. Seguio- íe o tumulto dos Gentios para vingar a que elles chamavaõ violência j mas pagaraó com bofetadas, que receberão dos C?fres,
64 Jornada de 1| Cifres , aííim o atrevimento' de fe quererem amotinar, co- mo também a injuftiça de ne- garem as galinhas, que á nc- ceífidade juftamente fe deviaó, e juntamente foraõ fatisfeitos com o jufto preço das ditas ga- linhas. Daqui fe foy profe guindo a jornada com ascof tumadas, e quotidianas mo leftias das continuas chuvas, e arrebatados rios, até que vef- pera de S. Joaó Bautifta já de noite fe chegou a hum Pagode, onde naõ faltaraó fogueiras,e também vinho para os poucos homens de carga, que hiaõ na companhia. Seguia-fe o mais difficulto fo, \
66 Jornada dt quelle dia, e logo fe encontrou hum rio taõ íoberbamcnte ri* co de aguas , quam furiofa- mente defpenhado em Tua cor- rente , que fe precipitava em hum valle,naó menos fechado de denfos arvoredos, quecer- jrado com a efpeííura do tem- po nublado, e chuvofo. Duas horas fe gaftaraò em paíTar a ponte daquelle rio , e logo fe emprendeo a íobida dos Ga- tes , levando fempre o rio à maó direita: e fe encheo o dia inteiro naquella bem molefla fobida, que a fez mais traba- lhofa huma enfadonha praga de fanguexugas em tanta quan- | tidade, que toda a eftrada cor- ria
Antonio de Albuquerque. 6/ ria cm Tangue. Seriaõ quatro horas da carde, quando appa- recem tres Lafcarins armados de cacanas, a quem íeguiaó duas mulheres: mandalhes o Capitaõ de Mar e Guerra, que hia diante, íe afaftaflem ao caminho, ç elles confiados, naõ menos nas armas, que no feu atrevimento, fenaõ quize- raó deíviar, e o Capitaõ com defprezo os empurrou? mas hum delles impacientemente levou da catana, e enveftio o dito Capiraõ , que naquelle tempo naõ tinha íènaõobaí- taõ; mas o Capitaõ da Barra Joaõ Tavares, que vinha pou- co atraz, com fumraa diligen- E ij cia,
68 Jornada de cia, e prefteza acudio com a efpada deíembainhada, e caf- tigou a audacia daquelle Laf- carim com duas valentes cuti- ladas , que lhe atirou; e febre tudo ifto foraõ todos os tres leondemnados a entregarem as catanas. Chegaraó , aflím os tres Lafcarins, como a noticia do caio ao Governador, que vinha na retaguarda, e lhes mandou vieííem comelleaté a primeira Povoaçaó , onde conftando, que naó eraõ la- drões , fe lhes reftituiriaô fuás armas; mas elles defapparece- raô aviftada a Aldeã de Beulf- cans, confeíTando com a fua I fugida, a profiíTaó, q tinhaó do latrocinio. Nef-
J Antonio de Albuquerque. 69 I Nefta Aldeã íe refez algum | canto com o defcanço da noite, | o grande trabalho do dia ante- cedente ; e logo pela manhaa I enrregando-le ao coftumado exercício de caminhar , expe- rimentarão menos aípereza nos caminhos; mas a que fal-j tava neft.es, fobejava nos habi-j tadores daquelles lugares, os: quaes appareceraõ armados na j Povoaçaó chamada VihunzyJ mas como ainda era cedo, pois! naó paliava das tres horas da; carde , o Governador, e ccm- j panheiros continuaraó feu ca-1 minbo. Teriaõ caminhado raeya légua, quando pelo al- to dos outeiros fe começou a} £ iij ouvir?
7o Jornada de ouvir o fom de trombetinhas, efteito, que o Governador at- ribuhio ao fuccefío dos Laf- carins do dia antecedente. Bem difcorreo elle y que os Gentios da terra, para vingar 0 afrontofo cafo dos compa- nheiros , fe poriaó em armas; pelo que para evitar algumas ruins coníequencias, perten- dia meter-ie nas terras do Reyno de MaiíTur, que fe per- fuadia eftar muy perto, como na verdade eftava ,e no dia íe- guinte experimentarão, pois nao diftava de caminho mais de duas horas; mas os guias, ou perturbados com o medo, ou movidos de outro qualquer 1 ÍEL
Antonio de Albuquerque. 71 impulfo difleraó, que ate às : cerras do dito Reyno difta vao1 'mais de tresdias de caminho.j ÍNefte aperto o Governador I vendo, que o lugar em que íe( achava, por ler embaraçado com a efpeíTura das arvores, naõ era a propoííto para nelle Ce defender , ie expedio ccm a Tua gente, e poz em fitio li-' vre, e deíembaraçado; e man-j dando fazer alto,efperou a ver' a refoluçaõ daquelles negros!| armados, que jà nefte tempoj em magotes coroa vaó os mon- tes. Reíolveo-fe finalmente a-1 quella naõ menos fuíca , que S coníuía turma de bandoleiros, J Eiiij a dar
Antonio de Albuquerque. 73 j dou intimar pelo interprete, que fe pertendeflem paflar a jdiante , tiveííem por certo, 'que todos acabariaó nas bccas dos bacamartes * ou aos fios das efpadas, e catanas ; pelo que do mefmo lugar em que eftavaó, mandaííem dizer o que pertendiaó , que fendo conforme à razaõ, íe lhe con- cederia. Nefte tempo outra efquadra fe poz em forma de querer enveftir; mas o Gover- nador expedio quatro caíres bem armados contra ella, mas naõ a poderão alcançar; por- que quando vio aquelle peque- no , mas terrível efquadraó hir contra fi, valendo-fe dos pês
74 Jornada de ipés, fe retirou para o mais alto dos montes, pertendendo, ou íazeríe forte naquella eminen- cia, ou para dalli efperar me lhor occafiaõ, em que com mais íegurança fízeflem lua enveftida. Vendo o Governador as couías nefta fórroa , e que íe vinha aviíinhando a noite, fez jO feguinte arrezoado aos Ca pitaens, e mais Portuguezes: | Amigos, e fieis companheiros, naÕ menos no trabalho, que na honra, que delles nos ha de fegutr} a ne nhum de nos fe efconde, que ejles Negros, como ladroens atreiçoa- dosj Vem a tentar a no/Ja re/oluçao. para que conforme ella, temem a de- termi f
j AMonio de Albuquerque. 75 terminaçao mis conveniente aos feus latrocínios. Se virem que da- mos , ainda o minimo final de medo, tomarào animo, e brics}para que com grande numero de gente de que ■abundao , façaÕ de ws o ultimo extermínio Se houvermos de obe- decer aos iir.puljcs doJangue, e "Va- lor Vortugue^, naõ duYtdo, que desfaremos ctouella corfufa multi- dão com morit de muitos delles\mas de/la acçao q\e Je ha de feguir,fe nao o fermos a Valiadospor ladroes, je exafperar os nvús , que YiVem ef palhados por efl.vs Aldeãs, que cer- tamentefe unira?) para Vingar as mortes dos feus compatriotas ? E quando efiamos em terras alheas , e de barbaros , nao temos donde ef- j perar
76 Jornada de per,ar foccorro, mais que de nos mef- mos: amparo nao o podemos achar, fenao nefles campos, e montes, huns efcondrijos de Tigres* na na- tureza, outros habitaçao deféras ia condição , queje virem, que ao dejcuberto nos nao podem arruinar, hao cie bujcar traças, cm que alei- fofamente nos acabem. Temos che- gado a termostem que ke mais necef- faria huma prudente ajlucia.do que hum gemrofo Valor í quando aquel- la ha de fupprir, o
Antonio de Albuquerque, 7? nos cafos repentinos mais engenho- famente cojtrna fahir a "Verdadeira "Valentia. ' - - Affim difcorria prudente- mente o Governador, quando nefte tempo chega humCaeiz, muy venerado daquella gen te, porque todos com notável fummiíTaõ fe lhe inclinavaõy beijavaó os pês; e fallandolhes com grande authoridade, os exhortou à paz , dizendo, que o deixalíem hir a fallar com o Governador , que elle faria medianeiro, e mandou pedir licença ao dito Governador, para que podeíTe apparecer em fua prefença, e fallar com elle, o qual lhe concedeo o que pedia j
78 Jornada de pedia com condição, que troii- xeffe comfigo huma fó peffoa. Alcançada a licença, chegou o Caciz, e no feu modo , e fal- lar tremulo, moftrou feu ani- mo fervi 1, e apoucado. Toda a força da íua embaixada con- íiftio em dizer, que a Cabeça, que governava aquellas terras,) pedia toda a boa amifade com taó honrados paflageiros , e que para efte fim convinha ,| que íem embargo da queixa,! que os tres Lafcarins oífendi- dos tinhaô feito, foíle fua Se- nhoria , c os mais companhci-' ros com elle ao lugar aonde re- fidia o Regente, que elle Ca- ciz lhesaíTegurava todo o bom fuc-
Atautuo de Albuquerque. 79 fuccclTo , e commodo agafa lho , efpecialmente que na- quelias partes naó havia outro lugar capaz para o deícanço daquella noite. Bemadvertio |o Governador as dificuldades, que havia em qualquer das re* íoluçóes, que tomaflfe ; por- que o íeguir o que o Cariz lhe jrequeria, era hir meterfe na boca do lobo, eftribado fo- mente na palavra de hum in- fiel; ficar naquelle lugar ro- ideado de tantos barbaros, ar- mados mais dos Teus maos, e aleivofos ânimos, do que do1 ferro, eraexporfe a que com' Ia eícuridade da noite affim el-: les, como os T igres tomaflem a ou-
18o Jornada de a oufadia de os acometer, e maltratar. Pelo que o Gover- nador , perguntando aos guias fe era certo, que naõ havia ou- tro lugar commodo de agafa- lho,mais do que aquelle,que o Caciz dizia , e refpondendo elles, que era certo, fe refol- veo a feguir o dito Caciz, com condição , que íe retiraflem todos os que eftavaõ pelos ou- teiros, a qual refoluçaõ tomou, levado principalmente do mo- tivo, que era moftrar, que naõ tinha medo. Muy contente, e facisfeito ficou o Caciz, e hindo dar par- te aos feus, os fez retirar, e vol- tou com fó vinte peííoas para guiar
Antonio de Albuquerque. 81 guiar o Governador. Chega- raõ finalmente ao lugar, em que refidia o Cabeça, Regen- te daquellas Aldeãs, o qual re- cebeo o Governador com mof- cras de agrado, eurbanidade, e juntamente deu aíTaz a en- tender o gofto, e admiraçaó, que tinha de ver o modo, e or- dem daquelle , ainda que pe- queno , mas bem difpofto E(- quadraó. A principal maté- ria da converíaçaò, foy infor- marfe do cafo dos tres Lafca- rins , e o dito Cabeça perten- deo efcuíàllos, e finalmente fe refolveo a pedir fe lhes refti- tuiflem ascatanas, e que o Go vernador lhes déíTe alguma F coufa
82 Jornada de coufa para íe curarem, porque eraó pobres, e dignos de com- paixaó. Naõ deixou o Gover- | nador de reparar , cjue aquel- la reíoluçaó era ir.oftra de quem punha Leys , e dava (entenda , mas cedendo pru- dentemente a íoberania à ne ceííidade, veyo em reflituii as catana*, e dar alguma cou fa a titulo de curar as feridas, jquando nefta acqaô tanto oí- tentava de defapegado , quan to de obfequioío àquelle de quem íe tinha fiado. Se teria gaftadohumahora deefpacio nefta matéria, e outras boas, converíaçcens comendo Bete-i le, quandoaquelle Cabeça feí I def-!
Antonio de Albuquerque. 8 5 leípedio do Governador, de- terminando para feu agafalho, e mais comitiva , o Pagode em que foraõ recebidos; e or- denou aos da Aldeã acodifíem com o neceflario para a cea; e os Cacizes offereceraõ de mi mo, leite, ovos, manteiga, e huns doces a feu modo fritos, em manteiga , e a todos cor refpondeo o Governador libe- ralmente com feus prémios, e ao Cabeça mandou huma peça Je Naoceri. Efte fim teve a- queHe bem arrifcado cafo, a que taô felizmente acodio a prudência do Governador, vendo-fe aqui verificada afen-f tença do outro Sabio; Que' Fij
Jor7tada de melhor conclue a madura vi- veza de huma boa cabeça Tem braços, do que a force valen ! ria de muitos braços íem ca- ; beça. CAPITULO IV. Vajjagem do %eyno deMaiJfur, ' até entrar nas terras do Mogor. ERa Sabbado vinte e féis do mez, quando logo Spela manhaa fe continuou a: marcha, e a poucos paflos an- j .dados leentrou noReyno de 1 Maiííur, na paííagem do qual i naó houve cou(a de confídera-; çaó; aflim por fer efte Reynoj ii H
Antonio de Albuquerque. 8 5 • pequeno, e pobre, pois eftà no meditullio daquella grande^ lingua de terra, que corre atei o Cabo de Comorim.onde pe la mayor parte fó os Reynos,1 que eftaõ beira mar, por ra j/aõ do contrato, e dos muitos Mouros, de que abundaó, tem alguma riqueza; como por- que aquella gente como vil, e pufillanime, fe dava por fatis- feita, com que aquelles hofpe- des paíTafíem fem lhe fazer mal algum , o que elles guar- da vaõ,levados do refpeito, que tinhaõ ao Governador. Ven- cidos cinco dias de caminho pelas terras daquelle Reyno . chegaraõ à Corte de MaiíT F iij iur a cue
Só Jornada de a que chamaó Serigapataó , e 'como era Povoaçaó mayor, e m2Ís abundante, foy necefla- ! t^io fazer alli detença de hum dia , no qual fe fretaraò ca-i vallos, e acodio âo provimen- to , de que havia neceííidade. Mas naó quizeraõ os guardas' ) daquelia Povoaçaó,que algum Á dos pafTageirôs entrafle nella,! e como fe difíc, ou fofpeitou,' por caufa do medo, ou receyo,] que tinhaõ. Onde, fe era ver- i daddra aquella caula, he de ad-j ; ir.irar a vileza daquelles mife-: ; raveis efcravos do demonio, de tal forte fojugados de taó, cruel fenhor, que ainda no lu- gar do feu mayor poder, e for- I
Antonio de Albuquerque. 8 ça, temiaó huma caó pequena efquadra , que naõ chegava a ter vinte homens, dos quáes nem ainda ametade eraõ t»ran cos. Caíligo na verdade de fua cegueira, e peccado de infide-1 lidadet j Madrugou a Aurora do íe-J gundo dia do mez de Julho, | mais alegre, e commoda para os noííos peregrinos, pois to dos montaraó a cavallo, e fo- 1 raõ a repoufar à Povgaçaõ dej Mailure. E daqui ao outro dia íe dirigio a marcha pela Praça de Dungo , Fortaleza de enayor importancia , que governava, com outras de me- nor cota hú DeíTay, feudataric F iiij do
j8 Jornada ele ao Rey de MaiíTur. Nefla Po voaçaõ por fecreta ordem do dito Deííay, íe ufou de algu- ma induftria, para que o Go- vernador fe detiveííe alli, fen- do para ifto induzido o guia, o qual começou a defcobrir difHculdade no caminho , que jnaquelledia íe devia fazer, de [cal modo, que os arrieiros, ou ' fubornados, ou levados de fuás íiniftras intençoens, também declararaó a repugnancia, que tinhaô à expedição da viagem. Mas o Governador naó fazen- do cafo de taõ fúteis pretextos, mandou tocar a montar; po- rém a efta difpofiçaó feoppoz a repugnancia,affim dos guias, como
Antonio de Albuquerque. 89 como dos arrieiros: o que ven- do o Governador, moftrando igualmente coragem, que def- prezo, naõ menos de perigos, quedaquella vil gentalha, lan- çou a maõ às barbas de hum dos guias, e lhas arrancou , e ! naó foy neceííario mais, para que feus intentos naõ paííaf- iem a diante. Finalmente a derrota fe profeguio naquelle dia até a Aldeã chamada Dorincuthe. Dalli fe foy continuando o ca- minho pelo territorio do Def- fay de Magnicote, naó menos íofpeito, que o paliado; fen- do proprio daquelles Senhores eftar junto com a pequenhez do
ve Jornada de do tr ando, a vileza de íuas ac- çoens. O Governador, naó cjuercn-lo ficar paliando a noi te no deftriéto daquellt DeíTay, aperrou o paíío com intenção de entrar nas terras do Mogor; 'mas naó fendo baftante íua grande diligencia , e activida- de , lhe anoiceceo muito antes de chegar ao termo que jpertendia. Hia-íe engrenan- do a eípeífura da noite , o Ceo : cerrado de nuvens, naõ dava , 'nem ainda ominimo final de jeftrella alguma, 2 e fira da to- lda a (Tom brada efpantava os Icavallos, e confundia os Caval- leiros de tal forte , que íe naó conhecia, nem diftinguia hum L—
Antonio de Albuquerque. 91 ao outro; o medo dos precipi- Icios perturbava a fantefia Naõ houve outro remedio fe- naó defmontarem todos, para que a cahida em algum bar- ranco folie menos perigofa ; ; naõ apparecia indicio de ca fa J e muito menos de fogo; pelo! que o Governador mandou] aos arrieiros, que chamaflem j a voz alta, quando já que os olhos em tanta efcuridaõ nada lèrviaó, as vozes, e os ouvi- dos remediaíTem de algum modo a grande neceííidade, em que fe achavaõ. Fez-íè por j algumas vezes o que o Gover- nador mandou, até que final- mente foraõ ouvidos por huns Cam-
92 Jornada de ( Camponezes já alta noite, mas era o lugar tal, que toraó to- dos obrigados a dormir no campo, excepto o Governa dor , que com os dons Capi- taens, e o Padre Capucho lt recolheoemhum pequeno Pa- gode , que alli havia , taó im- mundo , e de mao cheiro, que foy neceíTario por muitas ve- zes queimar grande quantida- de de feno, com que íe reba- teífem aquelles hediondos, e malignos vapores. Infeliz for- te de gente, que naó conhe- cem a hediondez de fua Reli- gião, bem manifefta no im- mundo culto de feus Ídolos, e | Pagodes! A ma
Antonio de Albuquerque, 9 ? A manhaa do dia leguinte, pelas oiro horas, fez patente aos olhos dos noíTos caminhan- tes a muy linda Praça de Ben- guelur. He ella a ultima, que fítuada na fronteira do Maií- liir, faz rofto às terras do Mo- gor,bem fortificada , ecom bella guarniçaõ de Cavallaria, e Infantaria: e fobie tudo de- licioíamente aprafivel com 2 variedade de arvores, viftoíc das hortas, edeleitavel de mui- tos jardins. Naó fe permittio ao Governador, queentrafíe dentro da Povoação, mas lhe íoy determinado íeaquartelaf- íe em hum fermofo bofque de Mangueivas, e no meyo fe le~ van-
94 Jornada de vantava huma bem lançada fabrica de hum grande Pago- jde com feu, naó menos eípa- | çofo, que bem ornado tanque de agua, que igualmente re- creava os olhos, e fervia de re- frigério aos caloroíòs mem- bros. Aqui foy o Governador vifítado de todos os Cabos mi- litares , e gente principal com fingulares demonftraçoens de agrado, e agradaveis termos de politica, aos quaes correl- pondeo, naô faltando ás devi- das regras de urbanidade , o qual foy obrigado a ficar hum dia na dita Praça, para mudar 'de carruagem, e ao dia feguin- jte, fete do mez, continuou a I jot
Antonio de Albuquerque. 95 jornada,acompanhado de dous Cabos principaes, montados a cavallo, que o cortejaraõ até o ultimo termo dodeftri&o da Praça, e do Reyno de MaiíTur, e foy dormir aquella noite à Povoaçaó de Tannely, per- tencente ao Reyno do Gram Mogor. Daqui até chegar à Fortale- za de Carpaute , naõ houve coufa digna de memoria. Se- riaó quatro horas da tarde, do dia nono, quandoatraveííada a Povoação da dita Fortaleza, chega hum meníageirodoque governava aquella Praça 5 a 1 perguntar , quem era o que paliava, e para onde: e dan- do le
ç6 Jornada de do-felhe a repofta conforme a pergunta, foy o Governador iproleguindo feu caminhojmas | replicando o dito meníageiro, lhe pedio mandafíe juntamen- jte com elle hum homem de fua comitiva , que efta era a vontade do íeu Mayor , o iqualeftava à vifta em huma imuy linda caía de recreaçaõ. ÍAnnuhio a efte poftulado o. Governador, e expedio hum( Lalcarim de fua companhia, mas naõ interrompeo a jorna- da. Quando a poucos partos andados volta o dito Lafcarim com grande prefteza , e ex- poem hum recado dacjuelle Luga -tenente do Mogor, em r que
Antonio de Albuquerque, 97 que cortezmente declarava o defejo, que tinha, que elle Go- vernador lhe Azeite a honra de ficar aquella noite em fua cafa, efpecialmente, que era já tarde, e eftava o Sol proxi- mo ao occafo: outra Povoa* çaõ capaz donde repoufaíTe, naó a havia perto: o caminho, que reftava, era naó menos in- culto , e agrefte por caufa dos efpeííos matos, que povoado de muitos Tigres; todas ra zoens, que obrigaraõ ao Go vernador a aceitar taõ urbana oferta, affim para íe naõ mof- trar incivil, como para atten der a fua conveniência, e dos companheiros. G Vol
Jornada de Voltando pois para a cafa; daquelle Ca pitaó,foy recebido com todas as moftras de cari- nhofa affeiçaó, e banquetea do com opipera grandeza, a qual abrangeo a toda a co-! mitiva. Era efte Infiel dotado1 de animo dócil, e condição 1 alegre ; informado do cami- nho que levava o Governador, com generofa liberalidade, e com repetidas inftancias lhe joffereceo dous até tres mil Pa- godes , dizendo que lhos fatis- faria quando, e como quizef- fe : mas o Governador mof- trando-fe todo obfequiofo no 1 agradecimento, urbana, e def- apegadamente os regcitou, fig- i nificando
Antonio de Albuquerque. 99 nificando naõ neceííkava del- les; e no outro dia offèrecen- dolhe hum mimo, fe defpedio; mas elle continuando com Teus primoroíos termos,o acompa- nhou com húa efcelca de vin te homens de cavaIIo,por efpa cio de hum quarto de légua, e finalmente fe voltou obrigado das repetidas petiçoens do Go- vernador , que reverentemen te agradecido naõ quiz confen- tir fe continuafle taõ obfe- quiofa cortezania. A Fortale- za de Sagdor deo termo à jor nada daquelle dia j mas como dentro fe naõ achaíTe commo- do baftante, barracas levanta das no campo ferviraõ para o G ij def-
ioo Jornada de defcanço daquella noite. Sahio a luz o dia onze de Julho, no qual chegados à For taleza de Grenupen, quiz o 1 Avaldar, ou Alfandegueiro íe regiftafíe o fatoj mas o Gover- nador lhe mandou dizer, que tudo o que alli levava, era do Teu ufo, e que naõ íecoftu mava fazer tal diligencia com os Portuguezes, e muito me Inos com as peíToas de íua qua lidade. Naõ fe deu por enten- dido aquelle cobiçofo Telo- neario , e profeguindo-fe no exame, fe pertendeo abrir hú baulíinho, em que hiaõ algu- jmas coufas de devoção , per- 'tencentes ao Governador. O qual
Antonio de Albuquerque, i o i vendo as coufas chegada a taes termos,julgou nao devia paliar fem caíligo cal atrevi mento, e que era neceflario ao credito do nome Portuguez, moítrar àquelles Mogores,que ainda havia na índia, quem confervava nas veas o genero- cr i • lo langue dos antigos Almei- das , Caftros, e Albuquerques, que encherão de'afTombro a coda a Afia. Salta do cavallo com a efpada defembainhada. o meímo fizeraó os mais com- panheiros, aííim Portuguezes, como Cafres, animados com o exemplo do feu Capitaó, e obindo pela eícada davaran Ja, em queeftava aquelle bar- G "i baro
102 Jornada de baro defcortez, fe poz diante delle com voz de trovaô,e ef- piritosderayo, e lhe pergun- tou fe o conhecia. Nefte palio, !o trifte Avaldar, banhado em I íuores frios, e todo treípaíTa- ! do de medo, naõ fez mais, que 'abraçar ao Governador, e pe- j dir, que lhe perdoafle, pois ti- I nha peccado por ignorancia, e inadvertência. Naó foy necef- íaria outra couía , para que o ■Governador abrandaíTe a co- ragem, e fem dizer palavra, fe voltou, emontou a cavallo, rr.oftrando nefta acçaõ , que baftava o braço efquerdo aju- dado de generoíos brios, para fupprir o que faltava no braço direi-
Antonio de Albuquerque, i o j cHreito. Encheo-le o reftante do dia até chegar à Praça di Velar , que foy thearro de grandes glorias para o Gover- nador, enome Portuguez, co mo fe vera nos Capítulos fe- guintes. CAPITULO V. Succedido na Traça de Velur. HE a Praça de Velur hu nna das mais fortes, vif- tosas, e apraíiveis daquelle tra- fto de terra, q corre pela Cof- ra de Choromandel até Ben- gala, a qual governava Baçar Sarbà, fobnnho do Nababo, G iiii de
i c>4 Jornada de debaixo de cuja jurifdiçaõ íe comprehende todo aquelle ter- ritório. Adiantoufe o Gover* nador aos companheiros , e pofto fora da dita Praça, Te de- teve efperando a comitiva, e entre tanto notou de vagar o muito,que havia em que repa- rar naquelle grande emporioj por quanto a Fortaleza íemoí- trava inexpugnável, naõ tan- to na obra bem lançada, e de pedra de cantaria , com feus torreões, com muy bella pro porção, e em fltio defeníavel por arte, e natureza , como pela boa guarniçaô, que tinha i de muita Cavallaria,e Infan- raria, toda muy luzida, e fobre
Antonio de Amcpierque. 105 tudo pela grande, e efpaçoía cava, q a rodeava,chea de mui- tos lagartos, o mais feguro, e forte defenfivo, com que Te fa- zia incontraftavel. Afíim ef- tava o Governador naó menos obfervando , que admirando aquella fabrica, quando che- gaò os companheiros, e junta- mente alguns Mouros da ter- ra , que movidos da curiofida- de, e novidade dos kofpedes, íe moftravaõ agradaveis , e ale- gres, e diííeraò, que alli aííiftia hum Europeo , do qual íigni- fícavaõ eftar íatisfeitos. O Go- vernador com tal informe,de- fejofo de faber quem fofle a- quelle Europeo, mandou fa zer
io6 Jornada de zer diligencia per elle; o qual paflado pouco tempo, ecerti- ficado de quem era o que o procurava, e deíejava ver, ap- parece em hum galhardo ca- vallo, ricamente vefíido à Mourifca. Eraaquelle Cavalleiro Joaõ Baurifta de SantoHilario,Fran- cez de naçaó, mas de muitos annos morador na índia, e ca- iado na Cofta, com mulher de Tangue Portuguez, de que el- de ie prezava muito, e de fer fiel, e leal vaPallo do noflo Se- renifljmo Rey de Portugal,do qual já fora premiado com a Iuftrofa, e venerável infignia do Habito deChrifto:que efía, e ou- a
Antonio de Jíbuquer.} ue. 107 e outras honras elle merecia, naõ ranto por ler infigne na arte de Medicina, e Cirurgia, com a qnal tinha feito notá- veis curas, e grangeado bom nome em toda aquella terra, mas principalmente, porque com feu ííngular zelo, agraaa- vel talento , e grande aceka- çaó, adquirida daquelles Mou- ros, affim pequenos , como grandes , ajudava muito aos Religiofos da fagrada Religião da Companhia de JESUS,que occupados por toda aquella Cofta no divino emprego da falvaçaó das almas, neceffitaõ de quem follicice Teus negocies diante daquelles Mahometa- nos,
i o8 Jornada dt nos, que tem a feu cuidado aquelles lugares , e também dos moradores de S. Thomé, ou Meliapor 5 e elle o fazia com taó boa graça, e feliz fuc- ceíío,que eftavaõ aquelles Re- ligiolos Miflionarios muy fa- tisfeitos delle. E entaõ eftava aóhialméte occupado em pro- curar, que fe défle liberdade a hum Religioío da mefma Companhia de JESUS, Mif- fionario da infígne , e traba- lhola MiíTaó de Maduré, glo- riofocampo, em que muitos Confeífores de Chrifto derra- maraó feu fangue pela Fé, ao qual os Gentios tinhaõ metido em prizaõ foterranea, e nella eftava
jitaonío de Albuquerq ue. 109 eftava fepultado havia já mais de hum anno, e finalmente paflados poucos dias, foy íolto pela agencia do noflb Joaõ Bautifta de Santo Hilário ; a quem com razaó fe pôde dar o titulo, e honra de Miííiona- rio, pois nao menos ajudava a MiíTaõ com Tuas interceí- foens, que os Religiofos com fuás Prégaçoens. Muito fe alegrou o Gover- nador cõ o encontro de tal ío- geito; e feitas de parte a parte as devidas, e correfpondentes jíignificações de urbanidade , e tomados *os neceíTarios infor- jmes daquelles caminhos, e lu- .gares, íe refolveo a continuar a jorna-
no Jornada de a jornada a pequena parte,que ainda reftava de dia. Naõ ío- freo, nem levou a bem efta re foluçaõ oafte<5tuofo, e bene- volo animo de Joaò Bautifta, mas com grande ahinco , e perfuafaó pedio ao Governa- dor, ilhe fizcííe a honra de íe hofpedar aquella noite em í us caía , efpecialmente, que os companheiros eftavaô cança í dos, e os cavallos incapazes de profeguir a marcha. Deo fe por obrigado o Governador a ceder , levado naõ tanto das razoens de fua commodidade, e dos companheiros, quanto da devida correipondencia ao benévolo, e primorofo affe
Antonio de Albuquerque. 11 j <5to de quem o convidava.Foy- íe a lua cafa, na qual có toda a alegria, decencia, e limpeza foy hoípedado, moftrando o bom foaó Bautifta nas obras exteriores, qual era o intimo do leu affedto; o qual também leeftendeo aos outros compa- nheiros, e mais gente. Eftan- do elle occupado nefía na5 me- nos caritativa , que honrada acçaõ , lhe chega recado do Governador da Praça, do qual era chamado. Affligio-íècom eíle recado , confiderando-fe! ,obrigado a deixar taõ honrado hoípede, qual era o que tinhai em fua cafa; e voltando-fe pa-; ra elle, lhe diíTe: Senhor, mui i; to
Ii2 Jornada de to me peza fer chamado neftas | circunftancias, em que necef- i fariamente hey de fer privado da honra, e alegria, que te- nho com a preíença de vofía Senhoria; mas como já eftou de pofíe a levar femelhantes moleftias, por naó fakar ao fervido de Deos, e delRey nof fo Senhor, pois por efta cauía eftou fora de minha caía, e mulher, fogeitandome a afíif tir, e obfequiar ao Governa- dor defta Praça , por iíTo me naó fera agora taõ molefto pri varme defta confolaçaò : pelo que peço a vofía Senhoria li- cença , para hir onde íou cha- mado. Com
Antonio de Albuquerque. 115 Com fígnificaçoens de cor tezia, e affe<5tolhe deu o Go- vernador a licença, que pedia, e juntamente o louvou dos grandes íerviços, que fazia a huma, e outra Mageftade, Di- vina , e humana, aííegurando- lhe de huma, e outra parte as devidas retribuiçoens. Pouco tempo íe deteve com o Gover nador da Praça Joaõ Bautifta de Santo Hilário, e voltando para caía, aífim fallou ao feu honrado hofpede : Senhor, o Mouro, que governa efta Pra ça, também eftende luajurif- diçao pelas Fortalezas, e Lu- gares circumvifinhos , e hei hum deftes o Lugar. e Forra-; H lzaj
i j 4 Jornada de leza de Grenupen j e como to- dos os dias íe lhe dá parte do que luccede pelos Lugares do íeu deftri&o, íabe do lucceíío com oAvaldar da dita Forta- leza de Grenupen, e ficou ad-, mirado naò menos da genero- fa refoluçaõ com que V. Se- nhoria fe houve, mas também ida gente, Cafres, e clarins; e perguntando-me, que homem! era, donde vinha , e para on-j de hia, lhe refpondi confor- • me a verdade pedia , e a V. Se- 'nhoria he devido : e o Mouro louvida a minha reporta, man- ;dou logo huma afpera repre- Ihenfaõ ao dito Avaldar , e vi- rando-fe para mim , diíTe: de- I fejo
Antonio de Albuquerque. 115 fejo ver taõ nobre, e honrado Portuguez, e agora eu o hiria bufcar a voíTa caía, fe naó fof- fe contra o eftylo dos que go- vernaõ efta Praça , que naó podem fahir da Fortaleza fem expreíía licença do Nababo ; pelo que vos peço,acabeis com elle, me faça o gofto de vir a efta Fortaleza. Affim me de- clarou fua vontade efte Go vernador; por tanto peço a V. Senhoria, faça efte obfequio àquelle Mouro, de quem tan- ta dependencia temos os Por tuguezes, que vivemos neftas terras. Ouvio attento o Governa dor tudo acima referido , e H ij con
116 Jornada de conliderando os inconvenien»! tes, que havia em íatisfazer ao que aquelle Mouro pertendia, íe eícuíou, expondo algumas difficuldades , que lhe cccor- reraó , com as quaes ficando; de alguma lorte íatisfeitò Joaó Bauciila , foy dar re peita ao Governador da Praça, e vol- tando !ogo para ca!a,declarou leu lenrimento , proftrando-fe! aos pés do noffo Governador, com grande dor do feu cora çaó , a qual lhe accreícentava efficacia às palavras, perorou delia forte: Senhor, ha pou co tempo, que eu em nome do qtie governava efta Praça, ipedi a V. Senhoria fe dignai-
Antonio de Albuquerque. 117 íe viíitallo; agora cem chega- do efta matéria a taes termos, que naò fou eu o que hey de ier orador, mas o lèrviço de Deos, e delRey noíTo Senhor, a honra do nome Portuguez, e a neceífídade das Chriftan-1 dades de toda efta Cofta. He efte Mouro lobrinho do Na- babo, e herdeiro forçado de todos os (eus Eftados}a autho- ridade, e aceitaçaô, que tem com o dito Nababo, he a ma- yor, que íe pode confiderar ; o bem, e mal, que pode fazer, aíTim aos Portuguezes, como aos mais Chriftãos de todo o deftricí-o do Nababo leu tio, í he coufa a todo1; patente, emi- Hiij nifefta;
i8 Jornada de nifefta; o defcjo, e empenho, ;ue moftra de íe aviftar com V. Senhoria , eu o naó poíTo explicar; odefprazer, que to- mará , íe V. Senhoria lhe fal- car a efte íeu defejo, declara bem a condição deftes Mou- ros , que tanto he mais huma» na, tratada com modo ob(e- quiofamente cortez , quanto (mais íe enfurece em lhe en» trando qualquer ciúme , de que íuas peííoas ficaó ainda le- vemente vilipendiadas. O naô condefcender V. Senhoria ao gofto defte Mouro, hadefer por elle attribuido, ou a pou- quidade , e baixeza de animo | Portuguez, ou a menos deco- ro,
Antonio de Albuquerque, e i9 j ro, do que aquclie, que fe de- j ve à lua peflToa $ de qualquer force que o tome , corre gran des quebras o ferviço de Deos, e delR.ey noflo Senhor, a hon- ra do nome Portuguez, e o que requere a necefíidade dei-! tas Chriftandades; porque fe o attribuir ao primeiro moti to , he natural, que defpreze a naçaó Portugueza ; e que ef- timaçaò, e que patrocínio po- derão nelle achar os Portugue- zes , fendo em feu animo ava- j liados por baixos ? Se o deitar ao íegundo motivopeceííaria- jmente procurará a vingança, 'que lhe íerá muy fácil o tomai- la em V. Senhoria, em mim, H iiij e em
112o Jornada de je em todas as Chriftandades j das terras de íeu tio. E com que cara poderey apparecer Idiante delle r como fe acabará jde effeituar a liberdade, que eu ando negociando para a- quelle Religiofo MiíTionario, ;que pofto em muy afpera prí- 'zaõ,eftá próximo à morte? Pelo que na maõ de V. Senho- ria eftá atalhar taó terríveis 'confequencias , attender ao íerviço Divino , e Real, impe- dir o mal, que pôde vir a nòs i todos, augmentar o afft d:o, e benevolencia, que efte Mou- ro rroflra aos Portuguezes, aviíhndo-fe com elle , e fatis- j fazendo ao defejo, e empenho, que
Antonio de Albuquerque. 121 que eilc cem de íe ver com V. Senhoria. Defta forte perorava aquel- le folicito zelador , aííím do j fervido Divino, como da hon- j ra Portugueza, e o Governa- j dor naõ deixava de fe penetrar 'da força das fuás razoens. Mas! 'ponderava mais em feu ani-l ;mo hum prudente medo, de jque aquellas viftas cô o Mouro inaõ teriaó a fatisfaçaó, que el- !le defejava , e daria matéria ; para que os emulos achaflem j jmotivo às cavilaçoens ; pelo! ' que reípondendo brevemente às razoens taó fortemente al-: legadas ,concluhio, que eftava prompto para fazer a viíita, í que;
122 Jornada de que com tanto ahinco perten- dia , e defejava ; porém que havia de Ter com eftas condi- çoens: primeira , que havia levar as bandeiras com Armas Reaes, e com ellas arvoradas, havia de entrar até o lugar, onde foíTe a deícançar. Segun- da , que havia de acompanhai- lo o feu Padre Capucho , até à prefença do meimo Mouro. Terceira, que o Capitaó Ta- vares lhe havia em íua com- panhia fazer corpo da Guarda, com as mais ceremonias ne- ceflarias à tal função. Eftas condições apontou aftutamen- te o G overnado^períuadindc- fe, que por parecerem impra- ticáveis- i _ i
Antonio de Albuquerque. 12 $ ticaveis,datiaõ por terra có ar- chite&ada machina das viftas, com o que governava aquella Praça ; porque quanto à pri- meira, além de que naó haviaój as taes bandeiras, fe inclinava,1 a que o Mouro naó levaria ai bera, que as Reaes iníigniasde; Portugal levantafíem cabeça1 em íua prefença , conciliando-^ j fe o refpeito, e veneraçaó dos ivaíTallos do Gram Mogor. Quanto à fegunda , fe períua- ;dia,que aquelle foberboMa-j j hometano naó quereria expor- j 1 le a fer obrigado a reverenciar jo humilde habito de S. Fran- jei fco, vindo raõ honrado na companhia do Governador. No
« 124 Jornada de No tocante à terceira, duvida- va íè lhe concedeííe uiar den- tro daquella Praça preemi- nencia taó grande. Com efta refoluta repofía foy o noíío ]oaó Bautifia cV Santo Hilário ao Governado» Mouro> e era tal o defejo,qut efte tinha de feaviftar como Governador Europeo , que veyoem todas aquellas condi çoens: antes accrefcentou f que era ília vontade, e gofío, que elle fízefle a Tua entrada com c mayor faufto, e pompa , que podeíTe fer; e a efte fim deu todos os Teus poderes, e com- miíToens ao diro Joaó Bautifta, para dilpor a fórma da entra- da, í
12 6 Jornada de mar , lhe cornou a pedir pelo amor de Deos, e ferviço Real, naõ deíprezafle aquella occa- íiaó de tanta honra , e gloria para a naçaõ Portugueza, que ferviria naó menos de admira- do, do que de enveja aos Fran- ! cezes,Inglezes, Hollãdezes, Di- ; namarquezes, que afliftem pe- las Fortalezas daquella Cofta, 'coftumados fomente a ver ; Portuguezes, ou fugitivos de Goa, largando o ferviço del- Rey, ou attentos íó aos inte- : refles de fuas conveniências. Chegado a eftes termos one- igocio, e empenho daquelle Mouro, julgou o Governador, que já naó podia reíiftir, e que fe
Antonio de Albuquerque, 127 fe fizeíTe o contrario,feria ava- liado por idolatra de feus ca- prichos^ defprezador dos aug- mentos do credito Portuguezj pelo que deu o Teu benepláci- to , e logo Te começou a difpor o neceflario para a entrada. CAPITULO VI. Defcre"\>e-Je a entrada, que o Go- vernador fe^ na Fortaleza de Velur , e o mais que pajjou. H Avia já muitos annos, quando depois que por noíTos peccados, que me- recerão tal caftigo, ou por fal-1 ta!
2 23 Jormda.de ca de valor Portuguez, canga- do do muico , que tinha obra- do na índia, e para melhor di- zer deliciofamente gaftado nos últimos tempos, le perdeo a Cidade de Meliapor , ou S. Thomé, antigamente naó me- ínos rico emporio do contra- to, que gloriofo teathro de Va- roens fingulares, aífim em vir- tudes religiofas , e Chriftans, como em heróicas acçoens mi- litares ; havia digo naquellas terras notavelmente deícahi ido a eftimaçaó do nome Por- cuguez; pois em Meliapor os 1 poucos Portuguezes , que rei itavaó, opprimidos naó menos da pobreza, que dos Governa- dores -
f 150 Jirmdáde pultada naquellas cerras. I Era o dia doze de Julho, de dicado ao grande Joaó Gual- berto, infigtie naó tanto pela il- luftre nobreza de feu fangue ,e gcnerofo valor de feu animo, 'quanto pela mais gloriofa ac- Içaõ, com que hum Hcroe Ca- 1'tholico pôde íahir , qual foy perdoar a feu inimigo, homici- da de feu irmão, ao qual taó ge- nerofamente tem imitado o noíTo Governador, tanto affim, que nem feus emulos o poderàô com verdade negar ; pela qual acção parece oquiz Deos pre miar, dando-lhe nefte dia tanta gloria, e honra: feriaõ tres ho rai da tarde, quando prepara- do)
Antonio de Albuquerque. 1.5-1 do, edifpofto cudo o que era neceííario para a fahida do Go- vernador, defceo efte a hum grande pateo, onde o eftava ef perando huma bem compafla- da ordem de acabales, e outra naõ menos fuave de frautas, acomDânhadas da uniforme di- veríidade de outros muitos inf- trumentos muíicos, que todos por íua ordem deraó principio aos applaufos do Governador. Appareceo elle acompanhado de Fr. Angelo, JoaóBautiftade Santo Hilário, o Capitaõ Joaõ Tavares, e mais quatro Portu- guezes, e juntamente os feus Cafres, todos lindamente vefti- ;dos. Defronte dà. porta daquel- 1 ij le
i|t jornadáde le paceo, ie dilatava huma eí paçofa praça, em que eftavaó preparados íeis Elefantes, e fc eftendiao c?uas muy numerofas alas, huma de Cavallâria , e ou- tra de Infantaria, ambas luftro- | famente armadas, não fallando da grande multidão de Povo, qne concorreo a ver efte alto» Logo os Cabos militares pcftos em ordem, e com notavtl gra- vidade , e deftreza fizeraó fuas cortezias ao Governador, que confiftiraô na fua coftumada zumbaya; as quaes acabadas, fe dividirão em duas alas, a Cavai- laria pelo lado direito, e a In- fantaria pelo efquerdo, deixan donomeyoeípaciodefembara çado. Feital
f ; Antonio de Albuquerque. i33 | | Feita cila funçaó , chegaraô junto ao Governador com o Elefante de eftado, e fazendo-o ajoelhar , fobio pelos eftribos Joaõ Bautifta de Santo Hilário, para levar de maò, e ajudar a fobjr ao Governador , que ao fom de todos os infírumentos muílcos, e vivas de grande mul- tidão de Povo,que prefenteef- jtava , montou naquellc Elefan- ; te, e íe Tentou em huma alta, e bem ornada charola; e logo o Capucho Fr. Angelo fobio ao dito Elefante, e le fentou nou- tra charola , que eftava atraz de menor fabrica. Seguiofe o Capitao da Guarda João Tava- res, também em íeu Elefante, I iij galhar-
134 Jornada de galhardamente fellado : nefte tempo Joaô Bautiíta de Santo Hilário, montado em hum Ca- vallo Arábico, linda, e fermola- mente íoberbo} fe chegou ao Governador, c com grande re- verencia lheoffereceo hum al- fange deíembainhado, cõ guar* niçoens de ouro, final de gran- de poder, e iníignia dos Gover- nadores de mayor fuppofíçaó no Mogor, para que o levaííe levantado na ma5; e logo com fuás ceremonias fe deu íinal, pa- ra que o Elefante fe pozeffe em pè , efe deu principio àquella pompofa marcha na forma fe- guinte. Hia cm primeiro lugar hum Elefante
*"*—"p**——■——— Antonio de Albuquerque, i 3 5 Elefante com duas bandeiras ro xas, a que acompanhavaõ mui- tas gaitas fuavemente fonoras. ÍSeguiafe outro com dous gran- des atabales de eftado: occupa- va o terceiro lugar o terceiro Elefante , que fuftentava duas bandeiras verdes. Aefte feguia 0 auarto Elefante, carregado de inítrumentos muficos, que a feu modo fazia tnuy plaufivel a- quelle a&o.Todos eftes Elefan- tes hiaõ rodeados de gente ar-; mada, com lanças guarnecidas de prata, e cafcaveis do mcfmo metal, e entrefachadamente fe ouvia ofom dediverfas gaitas, e tamboris. Logo fe feguiaõ i dous Cafres do Governador,! 1 I iiij mon- [
£ I x 6 Jornada de j montados em cavallos ricamen- | te ajaezados, que tocavaõ cla- rins; eatraz deftesappareciaój dousPortuguezes,também a ca-1 vallo, gravemente vcílidos, que | levavaõ as bandeiras Reaes ar-1 voradas em lanças compridas, J aos quaes rodeavâó féis CafresI armados de catanas, e mais dous Portuguezes em brioíos cavai- los, com bacamartoens na maõ, piftolas no cinto , e efpadas lar- gas, e cobertos os lados, além da Cavallaria, e Infantaria desfila da, dos Archeiros do Governa- dor Mouro, que todos eraõ de i jLanguinatas. Seguiaíe, fazendo 9 jde íi viftofa oftentaçaõ, João 8 Bautiftade Santo Hilário, vcfti-1 do f " 1 V
Antonio de Albuquerque. 137 do de huma cabaya detèla, c cabarbanda , tcda repaffada dc ouro, com hum alfange na maó guarnecido dc prata , ccm o qual cfgrimia à Mcurilca , e repetidamente a poucos pafíbs andados, fe voltava para o Go- vernador, que im mediatamen- te íc feguia, como quem queria receber fuás ordens. Guardava as coftas do Governador o Ca- pitaó Joaó Tavares,levantado i no leu Elefante, e rematavafe efta luzida cavalgata com todos os Cabos da Cavallaria, que to- da com taõ linda ordem, e dif- 1 poíiçaõ fazia huma muy recrea- tiva vifta ,e viftofo divertimen- to. Defta
i$8 Jornada de Defta íorte fe foy caminhan- do efpacio de hum quarto dc hora,acclamado o Povo aoGo- jvernador com vozes honorifi- cas, que fignificavaó: Viva o grande Portuguez ; e chegadosj ao portal da Praça , fizerao alto as alas militares, e ío entrou! dentro o que fica deferito íèi achava no centro defte luftrofo ^acompanhamento. Ao paliar do Governador pela primeira porta, lhe deu todo o Povo tres vivas; e paíTando mais duas por- tas , todas chapeadas de ferro com grandes efpigoens, chegou à praça do Caftello,aonde eftava tanta multidão de gente > que limpedia a paffagem, e era ne- ceíTario,
j Aritonio de Albuquerque. 139 Lcefíario ,que os Archeiros uíaí (em violentamente das Langui | natas contra aquella multidão, para fazer expedito o caminho. Chegando nefta forma à porta jdo pateo do Governador Mou- Jro, fè apeou do Elefante o nof fo Governador, aquém deu a maõ o dito J020 Bautifta e apeados também os outros dous o Padre Capucho , e Capitaó T a vares, foy cortejado, e con- duzido dos Mouros mais gra- ves, e principaes da Praça atèà porta do jardim, que juntamé- telervia de pateo ao Manjalcs; x nefta porta eftava efperando em pé o Governador Mouro, scompanhadodos Mouros do íeuj
Antonio de Albuquerque. 141 lezâ, e da luzida gente, que a guarnecia : da grande benigni- dade , juftiça, e aceicaçaõ, com que governava os Povos,e dou- tras coufas femelhantes , de que naõ pezava ao Mouroj e contando cada hum algumas novidades, pertencentes às Cor- tes dos íeus Reynos, fe paflou aos brindes, que íe fizeraõ com' variedade de bebidas conforme o coftume daquelles Mouros. Aflim fe levou boa parte do tempo; e querendo-fe defpedir' o Governador, o Mouro lhe pedio,que ceaffe com elle aquel- ía noite, e ficafle ao menos tres dias defcançando das moleftias do caminho, e o exprimio com I caô;
142 Jornada de tao carinhofas palavras , que bem moftrava o grande a ffe&o do feu animo. Mas o Governa- dor naõ ficando atraz nas affe- duoías fignificaçoens de feu |animo agradecido, íe efeufou lanhando a culpa ao tempo, que naõ podia fofrer demoras, quã* ido a viagem, que lhe era necef- Tario fazer para a China, necef- jíitava de Tua preferi ça em Me- liapor o mais cedo, que podeffe ;fer,pelo que ficava com grande( 'pena, por naõ poder gozar in- teiramente de tantos favores, j Satisfeito o Mouro com efta .reporta, entrou com outro lan- !ço de primorofa offerta , e foy rogar ao Governador fe fervif- fe,
Antonio de Albuquerque. 143 íe, que o feu eftado o acompa- j nhafle até aCidade de Saõ T ho- mê j mas elJc julgando naó de- via aceitar, agradecidamente cortez regei tou a offerta, ainda que o Mouro repetidamente lne inftou aceita fie; e o Gover- nador para moftrar que naò deíprezava feus favores, íe deu por obrigado a aceitar os Palan-' quins , e hua eíquadra dequin-j ze cavallos, e trinta peoens.j Antes do Governador fe partir ' daprefença do Mouro, julgou' naõdevia perder a occaííaõ dei empenhara benevolencia, que elle lhe raoftrava, e affim ren~ dendo-lhe as graças pela grande, honra, que lhe tinha feito, lhe; diíTe:
144 Jornada de diíTe: Senhor, naô ha quem naó conheça, e confcíTe a grandeza, e benignidade de vofio anim«, com que fomentais aos Porcu- guezes, e em efpecial aos Rfli- giofos Miflionarios deílas ter- ras; pelo que eu em nome de to- dos vos rendo as graças, reco- jnhecendome obrigado a fer 'pregoeiro de voflas heróicas, e Angulares virtudes era qual- quer parte do Mundo, que me achar. O que refta he, que con- tinueis com as demonftraçoens de voffb benevolo animo, cou fa tao própria de huma nobre indole,qual hea vofTa, e efpe- cialmente vos empenheis a con- cluir a liberdade .daqqclje bom
Antonio de Albuquerque. 145 -leligiofo, que taõ iniquamen- &05 Gentios prenderão, e que- rem acabar à força de molef- £,as 1 e por quem vos cem roga- do voíto leal fervidor Joa5 Baucifta de Santo Hilário, ao qual tenho exhortado, que con- tinue nos devidos obíequios à voíía peííoa, e tenho por certo naõ faltara 2 obrigação taõ juf- ta. Ouvio o Mouro com mof- tras de contentamento efta pra- tica j e refpondeo com íígnifica- çoens de iatisfeito,e de que pref co fe concluiria a liberdade do Religiofo, que pertendia, co- mo na verdade fe concluhio; e acompanhando o Governador fC "ir»
14$ Jornada de até à porta, e defpedindofe, lhe oífcreceo huma cabaya, touca, e cabarbanda, tudo muy rico, c de grande valor, e preço j e oj Governador lhe correlpondeoj cóm algumas curiofidades, que jobom JoaõBautiíla tinha pre-j parado para efte fim> e feitas as cortezias, e ceremonias devidas nas defpcdidas, Te voltou com' 0 mel mo acompanhamento ,ej pelo mefmo caminho, e conti-: nuandofe os vivas, eapplaufos daquelle obfequiofo Mourifmo,- ; fe recolheo a caía de Joaó Bau- Iciíla, que naó acabava deex- 1 plicar a alegria, que tinha de taõ feliz fucceflo, e honra , que naquelle dia recebera o Gover- nador,
" - i i——r dntonlo de Albuquerque. 147j ador, enelle anaçaó Portu- *uezaj e naquella noicc banque- teou ao Governador , e mais comitiva, naô menos com gran- deza de animo liberal, do que de affe&o carinhoío. CAPITULO VII. Tarte o Governador fiara a Cidade, de Sao Thomè, e dalli Vaj a Ma- dra/lapaÕ, e 9 que lhe fuccedeo nejjes lugares, S Ahio da Praça de Velur o Governador aos 15. de Ju- lho , e dirigio o caminho para Saõ Thomé com o raefmo a- companhamento, com que no K ij dia
148 Jornada de dia antecedente tinha hidc a vi ficar o Moiiro Governador da- quella Praça ; e fó houve a dif ferença, que em lugar dos deus Elefantes, em que foraó o Go vernador, o feu companheiro Capucho, e o Capitaó Tavares, iubftituiraõ Palanquins rica-j mente ornados, e o do dito Go- vernador,alem de ler de mayor pompa, era guarnecido de pra ta j e tendofe caminhado por efpacio de meyo quarto de lé- gua, defpedio todo oacompa nhamento, que era proprio do eftado do Governador Mouro, fazendo os Cabos da milicia nas defpedidas fuas cortezias mili- tares. Hia difpofto o arrayal do Gover '
Antonio de Albuquerque- 1491 Governador nefta fórma. Pre- cediaõ dous Cafres montados a jcavallo , tocando clarins : Te* guiaõ-le dous Portuguezes tam- bem a cavallo,com as bandeiras ; Reaes defpregadas, e arvoradas ,em lanças altas, a que guarne- !ciaõ os outros Portuguezes, e Cafres, poftos nos feus cavallos, je armados; e logo os demais fe jfeguiaõ, levados nosíeus Palan- jquins, e de huma, e outra par- te as efquadras Mcgoras de quinze cavallos, e trinta peoens. jDefta forte íe foy caminhando, epaílou pelo arrayal do Naba- bo, que governa aquellas terras, epor averiguado, que fez o Governador, conftava aquelle K iij arrayal
150 Jornada de tf arrayal de trinta mil cavallos, e j cincoenta mil Toldados de Infan- taria, c vinte Elefantes. Palian- do o Governador, os Cabos do dito arrayal lhe fizeraõ toda a | honra, e cortezias devidas. Aqui fedefpedio do Gover-ij nador Joaó Bautifta de Santo ;! Hilário; e não tendo aquelle vo- zes, nem palavras baftantes, com que declarar feu animo agradecido , e fe efprayar nos i louvores devidos as Catholicas, | e zelofas agencias dc varaô tao benemerito no ferviço de Deos, e Sua Mageftade Portugueza ií fe defpedio também delle , alie- í gurandolhe da Divina bondade o premio a feus merecimentos, )í eda
Antonio de Albuquerque i 51 | e da Tua parte proteftou de ter I huma eterna lembrança delle, Ijpromettédo íer em toda a par- .te certo elogiador de luas ac çoens. E profeguindo feu cami- nho , em que naõ houve fuccef- 1 ío de confideraçaó, aos dezafeis doditomez chegou a aviltara Igreja de noíTa Senhora do Mó te, que em lugar eminente faz huma naõ menos aprafivel, que devota vifta aos paffageiros. Se nos dias paíTados tinha o Gover- i nador feito àquelles Mouros of-1 ;tentaçaõ de hum muy nobre, e refpeitado Portuguez, receben- do tantas honras do Mouro Go- vernador deVelur , hojequiz moftrar aos mefmos Mouros, e K iiij Gentios
içi Jornada de Gentios íua grande piedade , e muy Chriftãa devoção, renden- do as devidas honras, e venera- çoens à Rainha dos Anjos. Foy 0 caio , que chegando quafi ( meya légua de diftancia da dita i Igreja de noffa Senhora, frenda de repente parar o Palanquim, falta em terra, e virado para a ! parte , onde eftava fita a Igreja, ajoelha com toda a reverencia, e fumifíaõ, a que advertindo os mais Chriftãos, naõ podendo jreííílir à forca de tal exemplo, 1 fazem o meimo i e rezando de- votamente a Salve, fe levanrou, e meteo no Palanquim , fican do todos a*]uèlles Mouros che- yos de admiraçaõ. Acção na verda
Antonio de Albuquerque. 15 3 verdade , com que ficou roais honrado o Governador, do que cora o triunfante applaufo,coro que foy cortejado na Praça de Velur. Finalmente, pelas oito horas |da noite daquelle meímo dia 'entrou na Cidade de Saõ Tho- me , onde achou lindamente preparada para feu agafalho a ! caía de Joaõ Bautifta de Santo Hilário , por quanto efte hon I rado varaõ,naó podendo affiftir com fua prefença em Saõ T ho- me ao obfequio do Governa- dor , quando tilava occupado em Velur no íerviço do Mouro Governador daquella Praça, ti- nha expedido com toda a dili gencip ~ ' ~' 11 TT
iiç4 JorHáda de jaeticia aviío a fuá caía ,com or- |ídem,para q ícaííiftiffc promp- V tamente com tudo o neceítario lao dito Governador , que na li verdade tudo executou com [ifummo cuidado aquella muy r devota, e honrada familia.Con- I ferva ainda a Cidade de S.Tho- |l mé alguns veftigios da fua anci- llga grandeza, pois alli reíide a IjSéEpiíccpal, que entaõ eítava I ;vacante, e cuidava daquelle Bil- lipado hum Governador, pofto llpelo Illuftriffimo Primaz de I Goa. Tem feu Capitaó mor, ■!,que governa aquella pequena, e pobre Republica,com íeus Offi- ciaes, e fevem ainda nella al- gumas familias, que procuraó, 1& como
j Antonio de Albuquerque. 155 como podem, fomentar o bil- tre Portuguez. Pot induftria, e diligencia de Joaõ Bautifta de Santo Hilário, tinhaõ nefla Ci- ; dade retumbado os eccos das | honras, com que fora recebido emVelur o Governador, pela qual razaõ eftavaó muy con* tentes os Cidadãos delia; eaf fim como elle chegou, foraõ lo- go todos os principaes,aflím Ec- clefiafticos, como feculares,a : vilitallo, e darlhe os parabéns não menos da lua chegada , que da honra, e luftre, que tinha grangeado ao nomePortuguez; e o Governador lhescorrefpon- dia com fummo agrado,confir- mando com íua prefença , o
i $6 Jornada de que tinha apregoado a fama. T ratou logo o Governador ide pôr em praxe o (eu intento, que era embarcarfe para Ma cao, o mais deprefía,que podef jfe fer. Naó eftava a Cidade de Saõ Thomé com poíles para expedir barco; íó reftava a ef- perançs em Madrafta, diftantei pouco mais de hum quarto de1 légua, que com a grande rique za do contrato, podia facilmen jte fatisfazer ao que o Governa dor pertendia ; por tanto efte avifou logo ao Inglez Governa dor daquella Praça, de como o queria hir viíitar, e preferi» tarlhe humacarta dollluftrifli- mo Primaz Governador da In dia,
Antonio de Albuquerque. 157 dia ; e logo no dia dezanove do mez, acompanhado do Gover- nador do B'!pado, e dos princi- paes Cidadãos, levados em Pa- lanquins , que fariaõ o numero de vinte, fe poz a caminho pa- ra Madrafta, onde foy recebido pelo Governador daquella Pra- ça com toda a foldadeíca for* jmada, efalvasde artelharia, e mais applaufoe militares , naõ querendo elle ficar atraz aoGo* vernador de Velur nas honras devidas a taõ honrado hoípede. Foy recebido na fala pelo Go- vernador Inglez, acompanhado de todos os Confelheiros da; Companhia do contrato,com alegres lignificaçoens de urba-l nidadej!
i^8 Jornada de nidade j c feitos os brindes cof tumados, função, a que fe naõ pôde faltar encre aquella naçaó, fe leo a carta do SenhorPrimaz lavio, em que o Governa- dor fe podeffe logo embarcar para Macao. Mas o Governador Inglez, atcendendo mais às razoens de fua conveniência, do que às de capricho , declarou naó eftar em tempo, que podeffe execu- tar o que fe lhe pedia, allegando o fer já tarde para armar barco, e haver falta de patacas na ter- ra. Cruel ferida para quem naõ tanto olhava para a razaó da' fua conveniência , quanto para toda fe dirigia à expedição ocre-
Antonio de Albuquerque. 159! o credito do nome, e reputaçaó Porcugue?a! Punhafelhe diante í dos olhos híía jornada por terra jtaõcuftofa, eperigofa, que ti-i j nha feito com intuito , de que em Madrafta acharia embarca- çaõ , em que logo podeffe hir para a China a exercitar o Teu cargo i e que depois de tantos j ttapalhos, e perigos, era obriga- do a ficar detido cm Saõ Tho- !mé contra afua expe&açaó, e .0 que tinha promettido em- | Goa; e concJuia, que ficaria a-j batida naõ menos fua reputar! | çaõ, que a do nome Portuguez;! pelo que tomou huma reíòlu-j íçaõ, que a alguns parecerá de, homem temerário, e fantafti-í CO,'
{16o Jornada de ■co, mas eHe julgou fer mais ne- ceíFaria naquellas circunftan cias, quando muitas vezes pars íuftentar a honra, e alcançar os i fins, que íe pertendem, convém ufar de apparencias , ou para melhor dizer eftribarfe, e con- fiar na Divina Providécia. Foy 'a refolucaò pedir ao Governa-i dor Inglez, que fuppofto naój •havercommodidade deembar-j caçaó para a China, lhe fizeífe graça de ver fe havia algum na- vio capaz , que elle o queria cõ prar, e juntamente Piloto pra tico. Reíolveoíe o Governador a tanto, porque ainda que elle fe naõ achava com poííes p3ra fazer aquella compra,como era homem
Antonio cie Albuquerque. 161 nomem largo igualmente de animo , que de confiança em Dtos, a dentou comfigo, que naô faltaria quem attendendo ao credito do nome Portu- guez, o ajudafle com prata. O que na verdade aílím fucce- deo, pois naó faltaraó zelofos, que antes quizeraò arriícar a fua prata , aue pôr em perigo a honra da Naçaõ. Entre tanto, que o navio fe preparava , largou o Governa- dor as velas ao vento Favonio de íua piedade, e devoção, vi- íitando os Santos lugares, on- de feconíerva, e reverencea a pia memoria do primeiro Apoftolo do Oriente, oglorio- L ío
ióz Jornadáde ío Saõ Thome. A primeira romaria, que fez, foy vificar a Sanca Capella, queeftá na antiga Sé, a qual fendo Tem- plo dos ídolos, foy dada em premio ao Sanco Apoftolo pe- la railagrofa facilidade, com que moveo aquelle celebre madeiro, de que fazem men- ção as noflas hiftorias da Afia. Defte madeiro fe confervaó ainda algumas obras, princi- j palmente huma porca, da qual recebeo o Governador hum pedaço, e oeftima por hum 'grande chefouro j orecabolo| 1 da Capella, onde eftá hum re- | licario com -a ligadura enfãn- Iguentada, pano de amarrar a | cabeça,
Ani:onio de Albuquerque. 16$ cabeça, e o ferro da lança com que mataraõ ao Santo Apofto-' lo. Memorias todas, que ainda' agora movem a piedade dos Chriftãos, que habitaõ para a ; parte de Cochim , a hir em !romaria à Cidade de Saó Tho- mê, tributar osobfequios de fua devoção. Daqui dirigio feu caminho o Governador ao monte pequeno, diftante da Cidade huma légua, no qual' íe vc o antigo Collegio dos Religiofos da Companhia de jESUS, onde debaixo do Al- tar mor da Igreja fe venera a! lapa, em que o grande Apofto-' loviveo por algum tempo ef- condidoj e nella íe conferva L ij hum
164 Jornada de hum Alçar, cm que dizia Mif- la, e na pedra da mefma lapa; fe vé elculpida huma Cruz, obra domelmo Apoftolo, co mo cambem huma fonce, que broca do rochedo, que dizem' foy aberca pelo dito Santo A poftolo, da qual bebeo o Go vernador, que acompanhado; do Reverendo Padre Reytor Francifco de Vafconcellos, an- dou vifitando aquelles Sancos lugares, onde também fe vem! impreffos os finaes dos joelhos, e mãos do Sanco, como tem a pia cradiçaõ. O monte,que a diftinçaõ do oucro, chamaó grande, e eftá diftaacc da Cidade duas léguas, he
Antónia de Albuquerque. 16 5 he também lugar de muita piedade, e veneraçaõ: alli eftá huma Igreja, em que fecon .ferva a devota Imagem de Maria Santiílíma, que dizem, era do glorioío Apoftolo,e foy pintada pelo Euangelifta Saôj Lucas , e obra tantos prodi-j gios, e milagres, que os Gen- tios , e Mouros recorrem a ella- 'em fuás necefíidades. Naó. quiz o Governador deixar de: render feus piedofos affe&os a efte Santo lugar , e Imagem, onde vio no Altar môr huma Cruz de pedra, obra daquelle imuy zelofo Apoftolo , ainda, illuftrada com alguns finaes de Tangue > que nella faltou do} L iij corpo
166 Jornada de j corpo do Santo, quando foy alanceado no tempo, que prol-j trado diante da mefma Cruz,' tftava orando. Certificou o R. | P. Pafcoal Pinheiro, Governa-1 dor algum tempo daquelie Biípado, e de preíente Paro-, cho daquella Igreja, que por algumas vezes tinha fuado a , dita Cruz com maravilhoío, e ;< |abundante licor, e fe tinha ob-1 fervado , que entaõ manava-! aquelle fuor, quando eftaval para íucceder algum grande ! infortúnio ao Eftado da índia. Bemdito íeja Deos, que ainda! moftra tanto amor aos Portu- guezes da índia, que com fi- ntes exteriores declara o fen-
Antonio de Albuquerque. 167 j cimento, que cem de noíías infelicidades, caufadasdos pec-, cados, e deícuidos, com que nos havemos. CAPITULO VIII. 1 Embarca/e oGoVernador paraMa- cao, e refere/e o que lhe fuccedeo atè chegar ao Q(eyno de Gior. SAhio a luz do dia cinco dei Agofto, e nelle fe reíolveo; o Governador a dar principio à viagem para Macao.Naó ef- cava o navio ainda de codo a- f arelhado , porque o Piloco nglez,que o venaeo por agen-1 cia do Governador cambem L iiij Inglez,
i68 Jornada de |í Inglez, o entregou taó mal aviado, e taõ falto do neceila rio, que até de vélas foy obri gado a provello. Embarcou le pois o Governador naqutlle dia, queccmoera dedicado à fefta de noíTa Senhora das Ne- j ves, fe prometteo feliz, e íe igura viagem;qu£ quando com |tal guia, e norte íe principia | qualquer acçaò , cerro ,efegu- ro fepòde prometter o fim, 'que fepertende. Efta mefma Eftrella do mar lhe íerenou, c encheo de confiança o cora- çaõ, quando confiderando o tempo incommodo porcaufa |das continuas tempeftades, e famatras, e o navio naõ muy feguro,
I Antonio de Albuquerque. 16 9 feguro, e forre para reliftir aos açoutes das empoladas ondas, efuriofos temporaes, parecia temeridade entregarfe ao mar. E na verdade tinha o animo cheyo de confiança ; e com razaõ, pois naquelle dia de ma- nhãa tinha vificado a Igreja de noíía Senhora da Luz , cuja< memoria fe feftejavâ com gra- de folemnidade; e depois de fe confeíTar, ouvir Mifla,e re- ceber o Diviniííimo Sacr2rr,ê- to da Euchariftia por meyo do Governador do Bifpado o Re- verendifíimo Padre Fr. Anto nio das Chagas, Religiofo Ca-' pucho, depoíitou nas mãos da- 'quella amabiliffima May de i miíe
j 170 Jornada de mifericordia huma petição, |cm que a tomava por Patro- na, e Advogada para o bom jfucceíTo da viagem. Foy-lhe neccffario eíperar tres dias | embarcado pelo Piloto Inglez, quefe deteve em terra tratan- do de Tuas conveniências, que! j finalmente íe foy embarcar aos oito do meímo Agofto, e pelas onze da noite fe largou o pano ao vento, que efta va baf- tanteroente efperto. Foy o dia terceiro da via- gem notável cora a inclemen- !cia do tempo, e dos mares, os jquaes defafiados do vento, fe .encrefparaóde tal force, que o pobre baixel, ípertenderaó çoçobrar
\ I Antonio de Albuquerque. 171 : baixel, que eftar.do elle da for j tequeeftava, pouco bailaria, fe o naõ defendeíTe o patroci- j nio de Maria Santiffima, de- baixo de cuja protecção fe ti- ; nha pofto o Governador, e os | que o acompanhavaó. O ven- to de repente apanhou asga- vias, fazendolhe forte impref- í faõ ; e de tal forte inclinou o | navio , que fe tiveraó todos por perdidos, e clama raõ a Deos mifericordia. O que valeo aos pobres affli&os, foy ; aplacarfe algum tanto a fúria do vento, que a continuar na i mefma tefídaõ, era infallivel a ruina de todos. Com tudo o ímpeto do temporal naó abra- dou
171 Jornada de idou dcíorte , que naõ fizefle grande força no maftro gran de, e orendefle com notável 'medo dos que hiaõ no barco. ' A agua, que efte fazia, era tan ; ta, que toda a gente com as bombas na maõ , naõ podia vencer o curfo delia. Em hua palavra : todos tiveraó por certo,e evidente milagre, e ef-j pecial favor Divino, o eícapa- rem com vida. Esfriada hum !pouco a força da tempeftade, fe foy continuando a viagem com fumma vigilancia, e cui- dado , porque naõ faltava5 ca- .da dia as famatras, tres, e qua- tro vezes, vencendo a paciên- cia o grande trabalho, queef- tas
TV Vy» ■■•rrr ->---°g----'?^5-aa£3siaaeiaapar- Antonio de Albuquerque, 17$ tas cauiavaõ,atê que nnalmen- te aos vinte e hum do dito mez ; fe aviftou a cabeça do Achem, c fe en veftio com a boca do eí- treito de Malaca, Heaquelle eftreito grande exercicio de paciência para! quem navega, pois a calmaria,* e malacia do mar confome; naõ menos os mantimentos, que o calor dos navegantes j cj nefta occafiaó foy extraordi*; Inaria a detença nelle , pois fe ' gaílou bum mez até chegar a Malaca; e por efta razaõ foy neceffario à gente danaoiifar de tal parcimonia, q por mui- tos dias uíaraõ de huma fó co-, mida, efpecialmente por lhe' faltar
Í'i 74 Jornada de faltar a agua, valendo-íe da' que chovia, naõfendo pofíi j vel chegarfe às Ilhas, em que; fe coftuma fazer. Aos dezano ve de Setembro fe aviftou Ma j laca, Cidade antigamente dos; jPortuguezes, onde o grande' AfFófo de Albuquerque obrou accoens taõ maravilhofas para [ a lobjugar ao domínio Portu- j guez; mas haja annos por pec- cados, ou inércia dos mefmos ; Portuguezes, eftá íenhoreada ,do jugo Holládez.Deviafe paf- far de largo aquelle porto,que' para fe evitar a antiga deman-| ;da,elles tem com os Portugue- zes,pertendendo,que os barcos deftes vaó alli pagar ancora- gens;
Antonio de Albuquerque. 1751 I gens; mas onofiô Governa-; | dor, obrigado da neceffidade, c! I falta de agua, julgou devia I experimentar fortuna, e ver |j fc achava eortezia , ou com-j | paixaó naquelles Hollandezesj i e furto à franquia, atirou com huma peça, pedindo embarca- çaõjfoy efta expedida de terra,' para laber que barco era,' quem vinha nelle , e que per- ! tendia: a efta embarcaçaò def- eco logo o Piloto Inglez com huma carta eferita aoGover-' nador daquella Praça, j Era aquelle Governador Hollandez homem de animo ' dócil, e coraçaò brando, e len- do o que continha a carta, en-1
i "]6 Jornada de tendeo vinha no barco pefiba, com que devia ufar de termos honrados; e prevendo, que os do Coníelho da Companhia! haviaó de fazer demanda pelas' dividas (como elles dizem) an- jtigas das ancoragens; e que- rendo atalhar as moleftias, que por iffo poderiaó vir ao Go- vernador Portuguez, tratou com grande affabilidade ao I Piloto, e lhe ordenou, que tor- • 'naííe para o navio, que elle proveria do neceílario. Era fua intenção, que o navio efti- veíTe expedito com o leu Pilo to, para que no cafo,que os do Confelho determinaíTem al-í guma coufa contra o dito na-1 vio
Antonio de Albuquerque. 177 vio podeíTe dar à vela, c por- íe cm cobro 1 mas o Piloto, que parece veyo com inten- ção de ficar no dito porto de Malaca, como diíTeraó algus, começou a tergiverfar, e ref- pondeo ao Governador Hol- íandez, que elle de nenhum modo hiria a bordo Tem levar repofta; e naó obftante, que o dito Governador o tornou a exhorcar ^ue fe voltaííc para o navio, que elle no outro dia mandaria repofta, o Piloto fe ficou, e nofeguinte dia foy reprezado, que parece, que he o que pertendia. Finalmente a repofta , que veyo de terra ao Governador, M foy /
i/S Jornada de j foy, que pagaffe ancoragens, c que a efte hm ficava repreza-' do o feu Piloto. Pareceolhe a efte demanda injufta, naõ tan- to pelo que requeria, quanto' por fer feita à fua peíToa. A re- foluçaó , que fe devia tomar, naõ era fácil de comprehen j jder. Por huma parte a necefli-j dade obrigava aefperar, e pe-J , dir mifericordia t por outra o largara vela,era final de medo, e confiíTaò de eftar culpado, o que feria mais indecente , e in-, decorofo, quando o navio ti- nha tremolantes as bandeiras! Reaes. intentar a vingança de tal injuftiça, e deícortezia, pa- recia temeridade, eftando o navio
Antonio de Albuquerque, 179 navio falto de muitas coufas ncceíTarias, e os Hollandezes abaftados, e em fui caía. Que remédio? Tirar forças dane- ceííidade, e fraqueza, e appel-» lar para afortuna, que ajuda aos animofos. Efcreve *0 Hol-j landez refolutamente , que! hum Governador doSerenif- (imo Rey de Portugal, naõj era peíToa tal,a quem fe fizeíTej íemelhante demanda; que ou acodiíTe ao navio com o necef» fario, ou lhe remetteífe o feu Piloto, para quepodeffe dar à vela. Naõ foy a repofta do Hollandez taõ cortez, e hon- rada , como devia íer,e tinha íido o dia antecedente ; pelo! M ij que(
18o jornada de que o Governador , tomando fogo, lhe tornou a efcrever cõ alguma afpereza , lançando-* lhe em rofto o que era.Irritaõ- | íe os ânimos de parte a parte, S e depois de fe fazerem os pro- I teftos, de que eraò naçoens, 1 que yiviaó em boa paz, e ami- | íade, denunciafe o defafio,e 1 preparaõ-íe para a batalha, o | Governador pondo em ordem t o feu navio com os poucosPor- tuguezes, que nelle vinhaõ, e mais negros, e cinco peças de artelharia de pouco caiibre ■ o Hollandez expedindo cinco chalupas baftantemente petre- j chadas; o Portuguez foy o pri- l meiro, que deu moftra de fi, pondo- mstxaaBamsamm
Antonio de Albuq uerque. 181 pondo-íe àvifta ao inimigo, ,econvidando-o aodefafio pa- í ra longe da Fortaleza: o Hol- landezfez feu movimento, e volta, mas fempre afaftado, e ■ fora de tiro de peça. j Aílim andaraô alguns dias, até que o Governador impa- ciente de demoras, deita for- | te fallou aos da nao: „ Amigos, ;„e companheiros igualmente i „ na gloria, que nos trabalhos,1! „ temos chegado a termos,que „ou havemos áeemprender ! „ huma acçaó, que ainda que „ a alguns parecerá temeraria, „e imprudente, he na verda- „de glorioía, e digna do no- „me Portuguez ; ou havemos M iij „ da-
181 Jornada de „ daqui fafoir com grande del- „ douro noíTo, c expoftos a „ perecer todos indecorofa- „ mente. O vento naõ nosfa- „ vorece j a falta de Piloto pra- „tico nos impoflibilita a na- „ vegar por entre tantos bai- „ xos: a neceffidade, quaíí ex- „ trema em q nos vemos, naõ !„approva o hirmos acabar, !„ao defamparo no meyo def- „ te eftreito: com a noíía vol- „ ta, ou fogida eíTes Hollandc- „ zes tomaràõ animo a nos fe-' „guir, e efperar commoda. „ occafiaò, em que totalmen-1 „ te nos arruinem : pelo que „a refoluçaS , que devemos „ tomar, digna do nome Por- „ tuguez/
Antonio de Jlbuqutrque. 183 „ tuguez, he enveftir naô me-j „nos aquellas chalupas de | „ guerra, que a Fortaleza, do „ qual fe feguirà, que] ou elles „à vifta da noíía refeluçaõ „ atemorizados, viráó no que „ pertendcmos, ou nos tnata- „ remos com elles , defafron- „tando generofamente noíTa' „ reputaçaò , quando mais vai „ huma gloriofa morte , que „huma vida com defcredito „confervada. Aflim levado de; feus brios dizia o Governador; j e algús dosPortuguezes appro- varaò a reíoluçaó > e fe offere-1 ceraó animolamente para 1 empreza ; mas a outra gente' da nao,íeguindo o exemplo do j | M iiij Padre [
ib'4 Jornada de Padre Capellaõ, a defappro- vou fou por mais temeraria ,c imprudente , ou por menos conforme às Leys da Chrif- candade. Vendo o Governador, que naõ era geralmente approva-l da fua determinação ,refolveo largar opofto, ehir navegan- do , como podefle, até adiar pofto, em que íerefizeíTe do neceííario. Tinha elle repre- zado huma chalupeta de Ma- layos dependente de Malaca , em recompenfa do Piloto re- prezado em terra; pelo que mandou dizer ao Governador j Hollandez lhe remetteíTe o feu Piloto, pois fequeria fazer à véla,
Antonio de Albuquerque. 185 I! vela , edefta íorte largaria a jchalupeta; mas naõ íeconfe- ! guindo effeito algum, fe refol- ] veo a largar a dita chalupeta,e I dar à véla, efpecialmente ten- í do perdido huma ancora. Pri- l meiroque fe fizeflfe à véla,mã- 1 deu avifo ao Governador Hol- lar.dez, que elle partia a tal hor c que fe mandaííe as cha- j lupa5 cm Teu feguimento, efta- , ; va prompto para as receber. ■ Aos vinte e íeis do dito mez, ' dia claro, largou o pano,fazen- ; do finaes com peças de leva, e foy navegando com grande trabalho ; porque como naõ havia Piloto pratico,era necef- íario,que o mefmo Governa- dor'
! s86 Jornada de idor com a Tua eftimativa, c com a experiencia, que tinha das vezes, que navegara aquel- jlcs mares, fuppriffe a falta de ; Piloto. Aosdous de Outubro ife embocou o eftreito chama- do do Governador, ondefoy neceflario prepararfe para pe-! lejar com hum navio, que o jfeguia : repartio-fe a gente a Teus poftos, expedira5-fe as armas, e mais petrechos bclli- 'cos; mas como o dito navio, 'parece naõ trazia intenção de pelejar, fe meteo no eftreito de Sincapura , e logo entrou pelo Rio de Gior o do noftbi Governador. Nefte lugar oj | que padou, fe verá na fegunda | | parte. PAR.-!
PARTE SEGUNDA, Refere-fe o foccedido cm Gior, edalli até Macao. CAPITULO L Tocaí-fe algumas coufas pertence* [tesão Reyno de Gior» Mprendo agora con- tar as acçoens do Go-! vernador obradas cm1 Gior, as cjiiaes na verdade por alguns, e efies bem affe
Í|l88 Jornada de «| no intrépido; e por outros, a | quem faltar a affeiçaó.feraó a- jivaliadas porpafto, ou de ter- ribilídade imprudente, ou de J temeridade bem afortunada. Eftes fe fundarão em q o Go- | vernador,eftribado em hú bar- co mal petrechado, ecomfóí dozePortuguezes,os quais eraó, (naõ fiquem fem nome nefte| efcrito , os q nos trabalhos, e nas obras deraõ boa parte pa4 raelle)o Capitaõ JoaõTavares de Vellez Guerreiro, o Meftre iJoaõdaCofta, o Condeftavel , Domingos dos Santos, Anto- jnio Lopes, Pafcoal da Sylva, Pedro Farobo , Ignacio Lobo, 1 Pafcoal Rodrigues , Antonio ! Ro-
Antonio de Albuquerque. i89 Rodrigues, Miguel da Cofta, Antonio da Cofta, Lourenço Fernandes. Naõ fallando no Reverendo Padre Fr. Tho- maz de Saõ Jofeph, Capellaó do navioj e olrmaõ Fr, An- gelo de Santo Antonio, Medi- co, c de naçaõ Italiano, ambos Religioíos Capuchos da Serafi- ca, e obfervantiffima Provín- cia de Madre de Deos; e a ou- tra chuíma de gente negra, mais proporcionada para tirar pelas cordas, e menear velas, do que para atirar com peças, e brandir lanças; com muy poucas bocas de fogo, cinco pecinhas, e efías de menor ca-, libre} finalmente íem o necef- i fario;
— .Hj-.AiEaE»——i— a' 190 Jornada de I íario aparelho pertendeo op- 1 porfe a mais de oitocentas bar- | cas de guerra, asquaes, ainda j I que pequenas , eraõ bem pe- | trechadas, e providas de gente: 3 e em prender outras acçoens | arriicadas em terra alheya ; tu* ido o qual na verdade parece, ^ queargue hum ja&anciofo ap-j | petite de gloria,máis fundado; | em a imprudenteeíperança da- jj fortuna , do que no maduro i l coníelho da verdadeira valen-1 j tia. Mas toda effanota íc def-j vanece, fe feattender ao que os livres de paixaõ coníideraõ,; que as generofas acçoens mais iíeeftribao em huma prudente audacia, acompanhada de boa1 jí difp°:'
f 192 Jornada de gue vileza de animo o dei mayar à vifta dos perigos: naõ he temeridade obrar muitas vezes, o que parece fer mais atrevimento arrifcado , cjue prudente valentia, quando as circunftancias, e neceffidade o pede. Mas antes que le prove com a praxe do Governador efte difcurfo, que em feu lugar j fe fará , toquemos' algumas coufas pertencentes ao eftado de Gior. O Reyno de Gior, fito no traólo dos Malayos, e na terra I firme, oppofta à Ilha da Sarna* |tra, vay correndo cofta mar Ide Malaca ate Talangane, e Juntamente comprehende hú numero
Antonio de Albuquerque. 19} numero fem numero de Ilhas, das cjuaes fe formaõ muitos cf treitos, c entre eftesnaõ he o de menor conta o de Sincapu- ra; no fim do qual, à maõ ef- querda,na parte que olha para o Noroefte, fe abre a foz de hum grande rio, ou para me- lhor dizer, a boca de huma en- leada, que dentro íe reparte em vários canaes, huns mayo- res , outros menores, forma- dos , e diftintos com a varie8 dade de Ilhas, femeadas por to- da aquella enfeada. Deftes ca naes o principal he o que le vay dilatando com feus gyrosi por mass de dez lcgoas atè a; principal Povoaçaõ, e Corte N defte
19 \ Jornada de defte Reyno , a qual tem fua fituaçaõ entre o íegundo , e cerceiro grao da linha Equino- cial para a parte do Norte. E fendo afíinr, que eftando efta terra no centro da Zona Tór- rida , por boa razaò devia ex- perimentar exceílivos calores, Iique por caufa dosrayos dire- ! dlos do Sol, he natural o fa- jzer efte nella mayor impref- | fao, íoccede pelo contrario, pois he frefca, e aprafivel, go- zando das propriedades de huma perpetua Primavera, coufa ordinaria pela mayor parte em todoaquelle tra&o de terra; por quanto por cau- fa da muita agua, ja dividida 2 em
Antonio de Albuquerque. 195 em vários canaes, já dilatada em grandes lagos, ejá defpe- dida de perennes fontes, fe le- vantaó continuados vapores, que refreícaó o ar, e lhe mo- deraò o calor, e juntamente fe reíolvem em quafí quoti- dianas chuvas, que naõ me-! nos refrigeraõ a terra , que a fertilizaõ. Daqui nafce o fer, muy viçofa com a variedade,' e grandeza de muitas arvores, que com Teus compridos, co- pados ,e efpeflos ramos impe- dem os rayos do Sol. Com tu- do, por caufa dos vapores grof- fos, de que abunda, naõhei muito fadia , efpecialmenre| aos Eftrangeiros, que naõ fo- N ij raõ
196 Jornada de raõ criados em femelhantes aguaçaes. A gente natural da terra nas cores participa huma media- nia entre Europeos, e Ethio- pes. Os que habitaò junto do jmar grande, parte feguem a , maldita íeita Mahometana, Í atr iicoados par natureza, e de ! pouca fidelidade. Bom nume- ro dos naturaes, e fubditos jdefte Reyno tem feu per- petuo domicilio , ou habi- taçaó em barquinhas : o qual he muy ordinário por toda aquella parte da Afia até a China, confervando fuás co- mo povoaçoens,com numero fas famílias, no meyo da agua.
Antonio de Albuquerque. 197 A terra de íi he fértil, mas as muitas guerras, que fomenta jentre íi, a fazem efteril. Abun da de pimenta ,ouro, efíanho, ,paodeA guila, canfora , tar- taruga, ninho de paííaro, pao i preto, rotas, a flim debafioens, como finas, maifim, azeite de ipao, breu muybarato, ma* ;deira,efpecialmente para maí- ,tros de qualquer forte dena- I vios, pois tem paos muy grof- ifos,direitos, e compridos. An- tigamente efteReyno de Gior foy fogeito ao Rey de Siaõ, como também foraó todos os ■que correm deTeneçari ate a jCofta do Golfo, que propria- mente fe chama de Siaõ. Mas N iij como \
* 19 8 Jornada de como aquelle Rey,algum tem- po terror de Bengala, Pegu, Laos, e de outros circunviíi- nhos, defcahifíe do íeu antigo poder, aílim por caufa da ma- lícia ingenita aos AÍIaticos, co- mo principalmente por razaõ i dos bandos, edivifoens, que; cm Sia5 coftumaõ haver na morte dos feus Reys, o Rey- no de Gior fe rebelou, e levan- tou própria Cabeça, porque fe 1 governa; e neftes últimos tem- j pos fe dilatou tanto , que por j aquella Cofta té mayor efpa- cio de terra, que qualquer dos outros Reys. Mas como eftes Reynos ca-1 recem da verdadeira Cruz da
Antonio de Albuquerque. 199 j Fé , que he o que preícreve as i cercas, efeguras leys da jufti- ça, fcccedenelles muitas vezes, que por falta defta naõ ha a devida correipondencia, e fub- ordinaçaõ entre os Principes, e os vaffallos. Por efta caufa ha já vinte annos foy morto cem violência por feus valíal- los o proprio Rey de Gior, ou porque efte era menos dotado de entendimento, e razaó, ou porque o feu governo degene- raffe em tyrannia. Por morte do qual foy levantado em Rey o Datubandar do Rey no, Da- tubandar he dignidade , ou ti- tulo grande, que fempre anda annexo a famílias,ou calas de "N iiij fan-
ÍÍ2oo Jornada de i Cangue Real. Tem a feu cargo I o governo das Armadas, dif- poem da gente de guerra, e pro ê os poftos tocantes a ella com raõ abíoluto mando, que nefte particular he quali igual <10 mefmo Rey. Do qual pro- v ém ter efte fua mageftade li ;muy lefa, e arriscada a ficar arruinada , como íoccede a i jcada pado, e íe vio na guerra, ; de que em feu lugar fe fará jmençaõ. Todos os doReynol ideraõ obediencia aefteDatu- ! bandar, o qual depois de tres iannos, em que governou o | Reyno com paz, e quietaçaõ,! j ou porque era hcmem de bom r entendimento , e ccníiderou, I que | 1
Antonio de Albuquerque- 201 que naó eftava feguro no thro- no, e naó queria experimen- tar a adveria fortuna de feu anteceííor, ou por outro qual quer motivo, largou oRey- no a feu irmaõ, com condição, que o fuftentaíTe , e naó pro- cedeííe em matéria , que to- caííe a crime de morte , íem primeiro oconfultar; no qual bem moftrava fer homem de condição branda, e benigna. E fte irmaó do R ey velho fe chamava Raiamuda: era ho- mem aftuto, e de bom enten- dimento; e logo que tomou 'poíTe do governo, procurou applicar os meyos neceflarios, affím para a fua confervaçaõ, como
202 Jornada de como para a fegurança dos feus Eftadcs, e íe fundou em adquirir forças, e riquezas, as quaes chegaraó a fer tantas, que dizem excedia nellas a to- ldos os mais Reys da Coita Malaya. O poder , quefe po- de alcançar, que teria, fegun- ido as mais certas noticias,conf- iava de mais de cem Galés de porte, naô fallando no gene- ro das embarcaçoens, a que lehamaõ Caca pus, Paraos, que |também fe armaó de guerra; e por tudo excedia o numero 'de mil embarcaçoens; e neftas jfortificaçoens fe funda aquella gente, porque como as terras quafí todas faò alagadiças , e I corta-
r Antonio de Albuquerque. 203 cortadas de agua, as fuás guer- ; ras codas faõ navaes. Abundava de muita artelharia, pois di- zem, que tinha mais de mil pe- ças , a mayor parte de bronze, poucas de calibre de doze ate vinte e quatro libras, as mais de duas, tres, e quatro libras. Pedreiros contavaó mais de dous mil. Dous grandes arma- zéns com vários generos de ar- mas , e petrechos de guerra. A riqueza de ouro parecerá in- crível ,pois dizem , que quan- do efte Rey Raiamuda fogio, carregara trezentos homens de ouro. A multidão de gente, afíim em terra, como nas bar- 'cas, he muy grande: a que ti- I nha
204 Jornada de nha de armas na Corte , di- zem , q»e chegaria a cinco mil homens, naó entrando aqui a guarniçaó da Armada , a qual pertence à gente maritima, que habita aquellas Ilhas, e terra de beira mar. Mas fendo tanto o poder, e riquezas defte Rey, naô foraõ baftantes, para, I que naô perdeíTe o Reyno, po- j 'dendo mais a traiçaõ do íeu patubandar , que toda a Tua «grande cabeça, poder, e rique* Jzas; verificando-feacjui o dito; ique para confervaçao de hum Reyno, mais vai a fidelidade dos grandes, que ricas forças, e fortes exercitos. Mas antes que fe veja o qae foccedeo nef- í ta
í Antoni§ de Albuquerque. 105 | ca matéria , demos vifta à en- jtrada do Governador em [ pior , e aos fuceffos dos pri- I meiros dias. CAPITULO II. I Entra o Governador em Gior, e o que lhe Juccedeo nos primeiros dias. ENtrado que foy o navio pelo rio,ou canal deGior, loube o Governador, que ef- tavaõ dentro duas emoarca- çoens Europeas, huma de In- glezes, outra de Dinamarque- zes,que alli vieraõ a contratar; e eícreveo aos Senhorios lhe> í man-'
206 Jornada de mandaíTem Pilotos práticos daquelle canal, para que fegu- ramente podefíe entrar oleu| navio a algum furgidouroac-j commodado, quando elle naõ! levava gente , que foubeflej nem baixos, nem altos daquel-! les lugares. O Capitaó Dina- marquez expedio logo hum Piloto, que conduzio o navio em quanto os ventos, e enché- te da maré o ajudou} e deixan- do roteiro do rumo, que de- viaõ feguir no refto do cami- nho , fe voltou para o feu na- j vio; e porque na maré feguin- i te fe apartaraõ do dito roteiro, 'por inércia dos proprios Pilo- (tos, encalhou o navio naõ me- nos
Antonio de Albuquerque. 207 nos com manifefto perigo de fe abrir, do que com notável medo , e efpanto dos que viraô o fundo em taó medonho ef- tado, que ficaraõ todos os que nelle vinhaó embarcados , igualmente admirados, de que trouxeffem fuás vidas eftriba- das em taõ fraco fundamento, que agradecidos à Divina bon- dade , que por fua infinita mi- Ifericordia os tinha livrado de tantos perigos; e pofto em lu- gar , onde podelTem alimpar, econcertar o navio, ficando nefte paíTo confirmado aquil* lo ; que he muitas vezes bem afortunada huma defgraça, e perigo, quando íaõ caufa de• fe
1208 Jornada de fe evitarem outros mayores íperigos; o qual fe vio bem neí ta occafíaõ, porque tendo dan- jtes o Governador aflentado comfigo, de examinar, e alim- par o navio, agora totalmen- te fe refolveo a executallo. Fi- nalmente ajudando os dous Pi- lotos de hum, eoutro barco, Ifoy livre o navio do banco, em que fe achava, e levado a lugar feguro, lançou ancora. No tempo, em que o navio hia fazendo fua entrada pelo rio, appareceo o Rey de Gior, que acompanhado de muitas embarca^oens, e cortejado de muita gente, fe andava recre- ando , talvez defcuidado do W
jj Antonio de Albuquerque. 209! [que paliados poucos fttczes- eftava para lhe fucceder. O j Governador fabendoque era ) o Rey, einpavezou ofeuna-li viodeflamulas, egalhardetes,1? difpondo em bella ordem a'[ j gente , tocando os clarins, e ( juntamente hum defira maó j que trazia da Cofta, fazia do - f cemente foar huma arpa; e af- , j fim que o navio emparelhou ' com as embarcaçoens Reaes, | diíparou cinco peças, falvan-! do ao Rey: o qual tudo junto p foynaó menos agradavel aos I? olhos s quejocundo aos ouvi-; dos, e formou o Rey concei- j | to, que naquelle navio vinha jj 1 pefloa de grande luppoíi^aò, t I o ' %!
aio Jornada de ,foy ifto grande caufa, para que o Governador foííe de.' ;pois tratado com tanta honra, j Tanto vai no principio haver- jfehum de tal modo, que fe concilie veneraçaó, e refpeito; j e porque por muitas vezes nass primeiras entradas falca requi-! j iito taó neceíTario, fe fegucm j 5 ruins effeitos nas emprezas co- j i meçadas. Mandou também naquelle mefmo lugar o Go- I vernador vifitar ao Rey por Ihum Piloto, offerecendo-lhe ! hum regalo de pouca valia,' ! mas de muita eftim açaò para § o meímoRey, ehuma,eou- fl tra coufa recebeo efte com •! grande agrado. |l Naó
Antonin de Albuquerque, z 11 Naõ faltou o Rey com as correfpondencias de cortezia ao Governador, pagandolhe a viíita pelofeu Sibandar, com feu Real mimo, offerecido ao mefmo Governador. Siban- dar he cargo de Miniftro prin- cipal do Reyno, que tem a fua conta defpachar navios, regif- tar fazendas, ajuftar contratos, refolver o que a eftes perten- ce , conduzir os Capitaens dos , Ravios ao Rey, e cuidar dei! tudo, que he proprio dos Mer- cadores. Ficara o Rey fumma- jmente fatisfeito,naó menos da jbellica coníonancia dos clarins, que do feftivo, e fuave íom da arpa, emandou pelo melmo O ij Siban-
212 Jornada de Sibandar, pedir de merce lhos j jmandaíTe a Palacio, porque os j 'defejava ouvir juntamente j 'cora íuas mulheres,e família, | ! Muy neceíTaria he em feme- I | lhantes cafos a cortezia , mas I deve fer acompanhada das re- | gras da verdadeira Chriftan- |> dade, fogeita em tudo às leys da Ij Igreja Catholica. Bem arriíca- II da fe repreíentou ao Gover- i1 nador, nefte cafo, a refoluçaó |! por huma,e outra parte ; por- |! que ou havia de negar o que l ie lhe pedia , e era exporíeà 1; indignaçaó daquelle Rey , que ||como infiel, e poderofo em |í íua terra, era-lhe fácil a vin- il gança, coufa que ao Gover li nador
! Antonio de Albuquerque. 215: nador naô convinha >pois ne-i ceflitava dellepara concertar j o navio; cu havia de fatisfa-l zeraodefejo daquelle Prínci- pe , e era arrifcar o bem efpi- ritual, aííim dos dons Cafres,' como do Arpifta, quando po | deria fuccéder , que elle leva- do de Teu goílo , pertenderia oonfervar em íeu Palacioj aquelles irfíruir.cntos de re-| creaçaõ , e divertimento, com 1 evidente rifco defua íalvaçaô:( o qual fez grande pezo ao Go-1 vernador , eípecialmente fa- bendo, que no Palacio do R ey efiavaõ dous Cafres fogidos, e femclfiante gente naquelíes lu- gares , íenJo naturalmente ru- O iij de,
214 Jornada de j de, enaô fundada radicalmen- te nos principios da Fé Catho- ílica, trazem moralmente per- j ciidas fuás almas. Movido o Governador dei- ta razaõ, tomou huma refolu- çaõnaõ menos generofa, que ChrifMa , reípondendo, que naõ podia fazer o que fe lhe pedia, quando fe arrifcava, a jque os ditos Cafres, e Arpifta, ou fogiííem, ou foffem detidos em Palacio. Naó fe indignou f oRey com a repulfa , e como | tinha grande defejo de es ou- vir tocar no feu Palacio, repe- tio com inftancia a primeira petição, dando feguro,e empe- nhando lua Real palavra, que os j I
Animo de Albuquerque. 215 | os reíiituiria , e faria com que.J tornailem para o navio. Deo- f feo Governador por obrigado'5 a com prazer àquelle R ey , pe-11 lo que os remetteo,e junta»ji mente com elles o Capitaõ.« Joaõ Tavares de VellezGuer-j reiro, para que o viíitafle em | nome do Governador , e lhe' prefentafíe huma offerta de alguiras coulas, que trouxera de Saõ Thorr.é, e eraõ duas . peffas de pano branco daCofta, j baftantemente fino, dous fral- j cos de agua rofada, e dous cor- \ tes decarmezim. Chegados a Palacio foraooArpa, ecla- rins recebidos com grande ex- pe
; 2 s 6 Jornada de ! mo Rey os levou ao lugar das | mulheres, e Damas mais efti- madas delle, as quaes como a coufa nova, e inaudita por el- I Ias, ouvirão naõ io com inex- iplicavel contentamento, mas também com notável admira- çaõ, crefcendo na Corte, e em Palacio o conceito, que íe fa- |i zia do Governador, que tra- zendo comfigo taõ íingulares! inftrumentos da recreaçaó, , naõ podia deixar de fer ho- mem de mayor esféra. PaíTou ifto aos nove ce Ou- tubro ; e fabendo o R ey, que f o Capitaô Joaõ Tavares vinha * em nome do Governador a fazer fuaviíica, eapprefentsr a offerta
j Antonio de Albuquerque. 217 a offerta referida, querendo em honra do dito Governa- dor , e lua , fe fizefíe a cere- monia com pompoío faufto, e íolemnidade , aífíftindo os Grandes da fua Corre, refer- veu o a<5to para o dia feguinte, ficando aquella noite em Pala- cio o dito Capitaõ joaõ Ta-' vares, acompanhado des dousj Capitaens dos navios de Di- namarca , e Inglez , e tratado com grandeza, juntou fe no outro dia toda a Corte do í Rey, e prefente ella em Pala- cio, foy admittido o Capitaõ Joaõ T a vares, a quem corte- jarão os dous referidos Capi- taens, e em nome do Gover- nador
| 2! 8 Jornada de nador fez fua vifita, ob em- baixada com naõ menos gra- vidade de fua peíToa, que agra- ;do do Rey, e toda a Corte ; .'ficando os dous Capitaens igualmente admirados , que envejofos, pois naõ tinhaõ re>! cebido feir.elhantes honras,' quando elles offereceraõ cou-, Tas de mayor preço, e eftima- çaõ do que as offerecidas em nome do Governador. Mas poderão elles entender , que! í aquelle Rey, ainda que bar- baro, fabia fazer diftinçaõ de ! peífoas , e que como era de j bom entendimento, avaliava'{ , a oíferta naõ pelo preço, que \ emfi tinha, mas peio que re-jl 1 cebera á
| Antonio de Albuquerque . 2 s 9 j cebera de quem a offerecia. i Succedeo noa&o daquella offerta huma coufa, quepo* dendo parecer a alguns teme- ridade , foy antes ca ufa de ma-! yor refpeito, e eftimaçaõ da naçaò Portugueza, Foy o caio, que fendo coíitume,que o mef- mo^ue offerece o prefente ao Rey, o deve levar na maõ, co- mo o tinhaó feito os dous Ca- pitaens fcbreciitos, o Capitaõj Tavares , naõ fomente naó; quiz fazer a talceremonia,mas! também ao Sibandar, cjuere-j petidamente Iheinftouafizef-j Fe , impaciente, e denodada- mente o afFaftou de íí com ai maõ,diante de toda aCorte, edo
£3ESíTT 22o Jornada de e domefmo Rey, obrigando ao dito Sibandar , a que elle em pelToa , e na própria maõ levafíe aofferta, fendo crime entre elles naõ menos tal acçaó de impaciência , e acometi- mento, como a de faltar àquel- ;la ceremonia. Mas quando ef* i te, que parecia atrevimento, e, falta de refpeito, moftrava fer, digno decaftigo, foy avaliado ipor acçaõ de pefloa , que naõ ;eftava fogeita às leys dos ho- ímens ordinários: ainda que o , Sibandar,dandofe por offendi- do , confervou no animo a raiva, e defejo de vingança, que depois pertendeo pôr em .execução. Também oáCapi-j taens!
Antomo de Albuquerque, 221 caens dos dous navios quizeraô oftentar de cortezes com pu- blicas fígnificaçoens de honra ao Governador , viíítando-o folemnemente , e depois con- vidando-o a banquete nos feus 'navios , o cjue fizeraó com : magnifica grandeza , e gran- de eftrondo naõ menos de Tal- vas extraordinarias , que de variedade de pratos ,e licores. cAPi-i
à 222 Jornada de CAPITULO III. 'fyferem-fe outras coufas fuccedi- | das naquelles dias• COmo crefcia a eílima- çaõ, que em Gior íe fa- zia do Governador, aílím fe | augmentava o refpeito , com! que era tratado, ainda do mef- mo Rey; pelo que fabendo ef- te, que o Governador queria | concertar o Teu navio , lhe mandou offèrecer, e determi- nar lugar commodo, em que 0 podefíe encalhar, e concer- itallo, dando ordem aosfeus, |que obedeceíTem ao dito Go- 1 vernador l
Antonio de Albuquerque. 127, vernador em tudo o que lhe mandate , e fominiftraflem, Tem dificuldade alguma, tudo I o que foíFe neceííario: o qual fe executou à rifca , fendo caf- tigados os que falta vaó. Ven- do o Capitaõ Inglez , que à fombra do Governador podia concertar também o feu navio com mayor commodidade, e menos defpeza, e pertenden- do mais cedo partirfe , pedio ao Governador lhe fizeífe o favor de lhe deixar primeiro' concertar a fua embarcado, e juntamente permittiffe mudar o íeu fato para o dito barco, em quanto fe tratava do con- certo do feu navio. Veyo nif- ío
224 Jornada de fo liberal, e benevolamente oi Governador , e concluído o dito concerto , querendo o In- glez compenfar o favor, que fe lhe tinha feito, naô fó levou para ofeu barco o que havia no do Governador, mas tam- Ijbem com repetidas inftancias o convidou, que foffe morar nelle, pondo-lhe diante dos olhos as inconveniências , e incommodidades , que teria, eftando no navio em quanto fe concertava : mas o Gover- nador nunca quiz aceitar aof* ferta , e fe ficou no feu navio, ainda que com notável incom-j modo ; porque mais olhava | para a honra ,que para a com- [ modidade
D Antonio de Albuquerque. 225 l modidade de íua peííoa ; e quando defcia do navio a ver j | o concerto,que fe fazia no fun- do, lahia com guarda de doze n peíloas armadas, ficando lem- pre outra guarda no mefmo | navio, como era coftume. Eftando por efte tempo ain- j | da encalhado o navio , e na ! obra do concerto , íuccedeo £ hum cafo , que trouxe comíi- 3 go varias coníequencias, que poderiaõ caufar graves molef-j tias aoGovernador.fe eftecom { '. lua auchoridade, e prudência . lhe naô acodifíe, desprezando!? o de que outros fariaó muito ! cafo. Succedeo pois, que hum 'j marinheiro nafcido na Coifa, j P mas èiíi.-?->vÍ
lz2Ó Jornada de luas caiado no Reyno deGior, [juntamente com hum Mala- var do barco Dinamarquez, (compraraS a hum Porcuguez, ique vinha no barco do Gover-i nador, alguma roupa da Co'- j ca, o qual, feito o preço , e fia- \ jdo na íua palavra, lha encre-j ; gou , relervando para outra occaíiaõ o receber a praça,Mas paliados alguns dias, requeri- ( do o Malavar, que pagaííe o preço da roupa, naõ quiz, di- zendo , que o outro marinhei- ro tinha levado a dita roupa, e ! que aelle naó competia fatis- fazer o preço. Foy o pleito ao Governador, o qual examinan do a cauía, achou, que o Ma- i| lavar
& | Antonio de Albuquerque, n? | lavar eftava obrigado a fatis-1 is fazer a divida, pelo que pater-, Ínalmente oadmoeftou ,a que1 pagafíe o preço, em que fe ti-1 | nha ajuftadopela dita roupa, j j Ouvioefteaadmoeftaçaõ,mas! p. attendendo mais às razoens da | íua conveniência, do que da |l juftiça , econfciencia, e fiado, Íque o Capitaõ Dinamarquez, o Sibandar , e gente da terra o , i defenderiaõ , naõ fatisfez ao ' |i que devia. Vendo o Governa-;, |ídor tal refoluçaõ, e confide-jj |í rando por huma parte, que íe- • (j, ria menoscabo de fua pe(íoa, 'i |(íe diflímulaíTe , eque abriria ] l, porta,a que o acrevimeoto da 8 | queiia gente intentafíe alguma | | Pij coufa
jj 228 Jornada de ' coufacom menosrelpeito , do que ie lhe devia > e pela outra parte prevendo , que íe ulaíTc de remedios violentos contra jjaquelle Malavar, irritaria con- tra íi o CapitaóDinamarquez, ISibandar , e outros, fazendo mais calo da honra , do que de i coníequencias, que elle com lua natural deftreza poderia facilmente remediar, ie deter- minou a prendello. Levado o Governador dei- ta refoluçaó, manda chamar o dito Malavar, prendeo,lan- çandolhe machos nos pés, com intimaçaõ, q aíHm havia de ef- tar ate que pagaííe o que devia. A viftadefta execução fe exaf-
Antcnio de Albuquerque. 229 'i perou o Capitaõ Dinamar-;| quez, e pareceria, que tinha jjj alguma razaó, pois era natu- I ral, que naó levaííe a bem , | 1 que o Governador fízeíTeexe- | j cuçoensem homem defuaju-jl rifdicçaõ; mas obrigado doji medo, e refpeito, íe callou; e o | Malavar vendo , que fó com a | facisfaçaó da divida ficaria li-J vre daprizaó , pagou o quejl devia, c logo foy íoito. A(íim'| que o Malavar Te vio livre das j mãos do Governador, coníide-,! randole naó menos íobrado de cólera, e afronta, que falto da j prata, que tinha pago, procu-, irou tomar vingança: convoca : j todos os da f ua isaçaõ, que naõ | P iii craó |
2 ^ o Jornada de eraó poucos os que havia em Gior, e juntamente com elles 1 vay a fallar com o Rey, quei-j xandoíe de que tinha íido in jufta , e injuriofamente trata-! do do Governador, e pedin-j, dolhe, que lhe mandafle dar; fatisfaçaó. Bem quizera o Rey j comprazer à peciçaó do íuppli-; cante, porquanto os da lua; naçaõ lhe eraó de grande preP timo, elucro no feu Reyno, mas era tal aeftimaçaó, que fazia do Governador, que an- j tes quiz faltar às conveniênciasj próprias, que ao refpeito ,que ie lhe devia ; e aOim procu- rando confolallos, os defpedio, dizendo , que lhes naó podia deípa-!
Antonio de Albuquerque. 1$ 1 | deípachar fua petiçaõ comcj pertendiaô. Vendo elles, que nsda con^ j cluiaõ por efte caminho, fe fo-!| raõ valer do Sibandar. Fomen- j tava efte em feu peito grande :j defabrimemo contra o Go-jj vernadcr , e fua gente, naõ íojj pelo fuccedido com o Capitac-; Joaõ Tavares no a£to da viíi-:] ta , e offerta ao Rey , como fi- | ca referido no capitulo paflfa- j do, do que defejava vingarfe; : mas também, porque nenhum j lucro tinha com o navio do j Governador ; ecomo era aí- faz ccbicolo, naõ levava com bom animo, naõ achar alli as| 'conveniências, que tirava dos - ( P 5;ij outros j
x 3 2 Jornada de outros barcos, com os roubos, que lhes fazia ; pelo que pare cendolhe, qua tinha boa occa-i íiaõ pára executar a vingança, que pertendia,fe foy ao Rey,e |lhe failcu defta forte : „Se- „nhor, emhuma Mageflade „ nao fazem boa uniaô lobera- „ nh , e brandura »o Príncipe fe quizer (er rei peitado, naó1 deve moftrarfe remiíío,diflí- j | „ mulando faltas, ou exceffos, | „ que cedem ern diminuiçaõi „ de fua authoridade : vay per j !„dida a ícberania, que aíTec-l „tando osapplauiosdebenig- „ na , grangea a nota de menos „ temida , e refpeitada. Che- I,, gou a efte porto hum eftran- geiro';
Antonio de Albuquerque. 2] 3 „geiro altivo , e totalmente „oppofto às ceremonias da „ nofía ley, naó menos ambi- i„ ciofo de honra, que defape-j gado dos lucros, e interenes ;„dos outros Mercadores: V.! i „ Mageftade com fua grande j „ clemencia lhe tem feico hon- í „ ras extraordinárias, das quaes! | „ abufando elle , fc tem tor- 3'„nado inlolente nsõ menos 3 „ no dei prezo, com que feha 1,-coni a noíía gente, que no |„modo detratarfe , com que |'„ em terra alhea femoftra in- á „ dependente, e abfoluto. Naó I „ fallo na íoberba, e atrevi- | „ mento , com que fe houve o § „feu Capitaõ no aétoda viíi-
| i j 4 Jornada de „ ca, e offerta a V. Mageftade. „ Deixo de ponderar a altivez, „e arrogancia , com que fe „ cjuer fa/?er cernido naõ fómé- „ te dos feus, mas cambem de „ nòs mefmos. Sómence digo, „ que fe naõ pôde paflar por alco a auchoridade, que ulur- „ poiíj caftigandoao Malavar, „com nocavel afronta naõíó „ daquella naçaò caõ beneme- „ rica , e neceííaria nefte Rey-j j'„no, mas também doCapi- !„taó de Dinamarca. Se efta „ infolencia fe deixa paííar fem „ alguma exemplar demoní- traçaó de juftiça Real, os brios daquelle infolente ef- j, crangeiro íe atreveraó a ma- |i yores i
i Antonio de Albuquerque- 235 „ yores couías, .com que peri- „ gue o refpcito devido à peí- „foa deVoíía Mageftade. E „ íe Voíía Mageftade proce- „deraocaftigo contra elle,que „ fe pôde temer de quem fe „ fia mais em íeu atrevido ani j „ mo,do que no braço direito,! „ fem o qualnaõ ha valentia? | Affim difcorria aquelle bar- baro,nac menos ccbiçofo, que, vingativo-, rraso Rey,a quemj naõ faltavaõ as prerogativas Reaes com baftante cabeça, e prudência, naò fez cafo do ar- rezoado do Sibandar.Efte ven- do , que naõ era ouvido, pro- curou femear zizania, e em- brulhar o Governador, naõ fó; com!
—— ———— \ 2^6 Jornada de com a gente da terra, mas tam- bém com cs de Dinamarca, e íngíez , os quaes lhe naõ efta- vaó muito affe&os , quando era taô grande a deflemelhan <ça, que havia entre elles, eo Governador , alíím na Reli- gião, e coftumes, como no' porte de vida, e trato de pef- I íoa. Do que tendo noticias o | Governador, deíejava dar a conhecer àquelle Sibandar,que; 'coufa foliem Portuguezes j' mas naõ podia achar commo- da occafiaó, porque o dito Si- bandar naòcoftumava vir ao inavio do Governador , pois naõ achava nelle o que perten- ; dia. que era furtar 5 pelo que o; i ' G >ver
Antonio de Albuquerque. %\7 j Governador ordenou à fua gente, que quando o dito Si- bandar foííe ao barco Jnglez, que naó eftava longe, o aviíal-i i fe. PaíTando pois elle hum dia para o dito barco, e avifadoo Governador, o mandou con vidar ao íeu navio. Ficou o po- bre paffadocom tal convite, e |como lhe remordia a ccníci- | encia, temia apparecer diante I de quem conhecia, naõ feria ;cabal a fatisfaçaõ, que défíe: 1 mas era neceííârio apparecer. ; Que remedio * Torna por pa- drinho o Capitaó Inglez , e| e acompanhado delle, obedeceo r I ao chamado do Governador. * Chegado à preíença deite, ou- vio
Jornada de vio eílas palavras,dicas com igual gravidade, ereíoluçaõ: Sabey} que a e/pada 'Portuguesa he muy comprida, tanto affltn, que \ pôde chegar â Corte do Vojjo (Rey, fefor neceffario, Baftaraóeftas palavras dicas com a energia, ieeflícacia , de que fabia ufar quem as proferio , para que jaquelle Malayo naõ foíle a di- ance com as embrulhadas, que fazia. | Acabado oconcerco do na- vio a dous de Dezembro,fahio para o furgidouro, e fe prepa- rou cudo oneceiTario, affím para dar à vela na primeira commoda occafiaõ, como pa- ra eftar expedico para o que I P2:
.. 1 L_ | j Antonio de Albuquerque. 239 'f jpodeííe fucceder. Mas entre ; tanto que naõ partia, aconte- cerão outras coufas, com que o Governador íè dava mais a conhecer, e a naçaõ Portugue- za. Ha em Gior huma certa cafta deMalayos, a quecha |maõ Buguys, os quaes em íen- do cativos do Rey, íe fazem infolentes , opprimindo o Po- vo , roubando, ferindo, e ma- tando •, e como trazem por ro- 'deli a íombra do Rey , nin- guém fe atreve a opporlelhe, e fazer mal. Havia hum deftes na Aldeã chamada Panchor, junto da qual efta*a íurto o navio; eaili fe tratava como 1) Príncipe abfoluto, temido , e (j relpei- 5
2^° Jornada de rei peitado daquelle miferavel Povo, Periuadiofe elle, que cambem com a gente do Go- vernador poderia livremente moftrar íeus atrevidos defafo- ros; pelo que em huma occa- íiaó, que hum official do Go- vernador comprava naquella Aldeã alguns mantimentos ne- ; ceifa ri os para a gente do navio, ; chega efte Buguy; e atraveflan- 'do todo o mantimento apreça- ndo , o levou, e mandou meter (nafua embarcaçaó, (em que ! algum dos que eftavaò pre- | Tentes, fe atreveííe a abrir a boca. Foy logo a toda a prefla javiío ao Governador do que j paliava , o qual íòbindo ao( tom-!
Antonio de Albuquerque. 241 tombadilho do navio, vio paf- far ao dito Malayo na íua em- barcado com o mantimento violenta, edefcortezmente re- prezado, echamando-o, elie nenhum cafo fez de quem o chamava.O que vifto pelo Go- vernador ,expede com toda a diligencia huma embarcaçaõj pequena em Teu feguimento, o que advertindo o Malayo, po- emfe em reíiftencia, e ferindo a hum dos Cafres do Gover nador, manda tocar a rebate j na Povoaçaõ, para a qual in- ! direitando a proa, Ce foy a for talecer com os íeus. Nefte paffb íe accendeo a coragem ao Governador , e CL engro'- j
242 Jornada de engroíTando a gente,que man- dou a cerra, expedindo a ar- telharia, que dominava a Po- voaçaò, tocando os clarins a degollar, deo final à gente,que tinha em terra, a que envef- tiíTem com o Buguy, e todos os mais, que íe pozeflem em ; reíiftencia ; o qual Buguy a- caftellandofe em "humTemplo de idolos, foyalli acometido, e ferido de tal forte, que tudo nelle era fangue, ficando os da Povoaçaó taò atemorizados, aflim do que viaó executado no Buguy, como do que ou- viaó nos clarins bellicamente fonoros, qdefamparando fuas cafas, fe forao a pôr em fegu- ro
>
244 Jornada de aparelhar os inftrumentos neceflarios. Acodem nefte paf- fo os dous Religiofos de Saõ Francifco a interceder por el- le , mas o Governador fe moí- trava hum a rocha em naõ que rer perdoarlhe. Repetia o Ma I layo com toda a fummiffaó as preces » e inflavaó os Religio los com a interceííaõ, ate que finalmente oGovernador ir.of- crando inclinarfe à piedade,lhe perdoou, e o deixou hir livre a curaríe. Chegou a noticia do calo ao Rey, e quando alguns íè perfuadiaó, queefte fe ha- via dar por aggravado, fucce- deo pelo contrario , porque mandou dar fatisfaçaõ ao Go- verna-
Antonio de Albuquerque, 245 vernador, moftrando,que fen- tia íe lhe fizeffe tal deícorte- zia i ejuntamente lhe rendeo as graças,por ter enfinado com I o caftigo ao feu cativo. CAPITULO IV. Tecle ofyy de Gior foccorro ao .Governador contra iaqukhil:j ' referem-fe ascaufas, eoque j pajjou nejia matéria, NO capitulo primeiro fi-j ca tocado brevemente,; como o Rey de Gior, chama-: do Raiamuda, governava por[ renuncia, que lhe tinha feito ! feu irmaó mayor, e que efte j Q iij fora
2 46 Jornada de fora acclamado por Rey de- pois da morte violenta, que os de Gior deraò ao feu antecef- for. Defte pois violentamente morto,hum filho, ou verdadei- ro , ou fingido , fogio para o Rey dos Manacabus, o qual tem as terras do íèu dominio na Cofta fronteira a Malaca, e era parente do Rey morto de Gior. Paílados algus annos, o Principe fugitivo , que to- jmou por nome Raiaquichil, | pertendeo recuperar o Reyno | de Gior, com o pretexto de fer filho legitimo do Rey vio- | lentamente morto; e para ef |te fim ajuntou alguma gente, affim do Rey dos Manacabus, ; como
248 Jornada de to Raiaquichil, lhe mandou as doze Galés, que pedira. Mas efte fe apoderou logo das ditas Galés, e metendo nellas a gen- te , que tinha junta, acometeo a Bancules, terra pertencente a Gior, e íe declarou por legi- timo herdeiro , e fenhor de , Gior. Chegou efta noticia ao Rey Raiamuda, e vendo, quene* ceífitava de poríe em defenfa, e naõ fe fiando totalmente nas forças dos feus Grandes, que conhecia naó terem verdadei- ra lealdade, bufcou íoccorro nos eílrangeiros; ecomoefta- va para partir o barco de Di- namarca , meteo nelle hum í Em-
Antonio de Albuquerque. 2 49 ^ mbaixador, para que fofle pedir ajuda a Malaca5 roas ef- te já lá achou outro Enviado Je Raiaquichil, que tinha hido 30 meímo fim ,e nenhum del- les achou o que pertendia no Hollandez , affim porque as forcas daquella Praça eftaõ rauy diminutas , como tam- bém , porque parece julgaraõ aftutamente os Hollandezes, que convinha deixar enfraque- cer aquelies dous Principes, conforme a politica muy ufa- da entre quem governa, cujo diframe he, bufcar augmentos no proprio Eftado com as fo- mentadas difíenfoens entre os viíinhos. Mas no que feeftri- bou
j 250 Jornada de j bou mais o Rey Raiamuda, I foy em felicitar foccorro do Governador; por tanto man- dou o Sibandar ao navio, pa- ra que da fua parte lhe pedifle, que o ajudaííe com o dito na- vio ,hindo até a barra, onde déíle batalha aofeu inimigo; e que para efte effeito promet- tia dar dez cates de ouro. Ou- vida a propofta, relpondeo o Governador, que a naçaõ Por- tugueza naó era tal, que fer- vifle por paga a algum Princi- pe, e muito menos, que to- maíTe armas alugada por di- nheiro j que na defenfa de feus amigos, e de quem fe valia del- |la , expunha generofamente a vida
Antonio de Albuquerque. 2 51 vida íem eíperança de premio, ou lucro algum temporal; que o Teu navio naõ havia fahir da- quelle pofto , íenaõ quando ultimamente défle àvèla para hir tomar pofíe do feu gover- no j mas que eftivefle certo o íeu Rey, que elle no lugar em que eftava , faria, que ne- nhum de íeus inimigos entrai* fe, fem que primeiro pagafle com a vida a fua oufadia. Ficou o Rey Raiamuda com eft arepofta íatisfeito,c6- fíderando-le íeguro poraquel- la parte; e expedio Armada, com que desbarataffe o inimi- go , que lhe feria muy fácil, fe achafíe fidelidade no Datuban- dar.
252 Jornada de dar. Por quanto o Príncipe Raiaquichil vendo, que naõ ti- nha poder baftante, com que acometeíTe a entrar pelo canal, que vay à Corte de Gior, pois naõ íe achava com mais de trinta Galés, eeffas muy mal providas de bocas de fogo , íe deixou ficar por aquelles ef- treitos roubando as embarca- çoens,que podia colher,ate que finalmente o Datubandar de Gior o avifou fecretamente , eperfuadio, quelevafle adi- ante a em preza começadajpro* mettendc ajudallo; porque co- mo elle cuidava da gente ma- rítima, com que Te guarneciaó jas Armadas, a qual coftuma 1 obe-
Antonio de Albuquerque. 253 obedecer ao dito Datubandar, naó tinha o Príncipe, que te- mer o grande poder do R ey de| Gior. Animado Raiaquichil com a perfuafaõ , e promefía do Datubandar,foy profeguin- do a em preza, e entrando pela boca do eftreito de Sincapura. Todos os moradores daquel- Ias Ilhas, inftruidos com a dili gencia, e ordens do Datuban dar, rendiaô obediencia ao di to Príncipe, Tudo o qual fabi- do por Raiamuda,ainda alheyo da aleivofa traiçaô do Datu- bandar , expedio o terceiro1 irmaõ comhuma Armada de! feííenta Galés, entrando tres Garabus, que faó embarca- çoens
254 Jornada de çoens Reaes, cm que hiaó tres Cabos, todos parentes muy chegados do Rey, hum irmaõ, outro cunhado, e o terceiro fo- brinho do dito Rey. Chegados à vifta do inimi- go , o enveftiraõ, confiados no grande poder , que levavaõ; mas contra aaleivofia naõha poder, que reíifta. Tanto que as duas Armadas fe enveftiraõ, agente da Armada Real feL lançou à agua, e foy nadando para Raiaquichil; o que ven- do os Cabos, per tenderão dar fogo às peças, e pedreiros,que baftavaõ para deftruir a Arma- da inimiga; mas nenhuma pe- gou fogo.E confíderando-íe os pobres
Antonio de Albuquerque. 255 pobres perdidos , naó tive- raõ outro remedio, que pro- curar falvar as vidas, fogindo em barquinhas ligeiras , nas quaes chegaraó à Corte,levan- do as triftes novas ao Rey, o qual ío entaõ acabou de abrir; os olhos, e entender, que nas entranhas da lua Corte tinha o aIeivofo,que o entregava; pe- lo que lançando logo maõdo Datubandar, quiz nelle fazer' exemplar caftigo ,matando-o. Mas o Rey velho, e irroaõ mayordeRaiamuda,fe oppoz, levado naó menos do amor natural a fua filha, caiada com1 0 dito Datubandar , do que períuadido de huma pruden-" 1 te
2 ç6 Jornada de te politica, que era obrigallo' com benefícios , para que, emendafíe a traiçaô, que tinha' ordido; por tanto aconíelhou ao irraaó, que difíeffe ao Da- tubandar , que lhe perdoava o crime da aleivofia, e juntamé-, te lhe largaria o governo do Rey no , para que com igual traiçaõ, vendo fe no governo, deftruiife o Príncipe levanta- do. No qual partido veyo o, Datubandar, mas já era tarde, j quando o dito Príncipe já efta- va muy poderofo. Eftando as coufas nefte efta- do,Raiamuda na5 perdia as ef- peran^as de fe poder coníervar no governo; e confíderando, que
Antonio de Albuquerque. 2 57 que Raiacjuichíl naó le apode- rando da Corte, nunca pode- ria fer abfoluto íenhor doRey- no, tornou a inftarao Gover- nador , pedindo-lhe ajuda, e a efte fim deípachou hum feu Palaciano, com rico prefente, dizendo, que ío com feu foc-! corro fe poderia confervar no Reyno, quando tinha já per-j dido as forças marítimas. O- j brigado o Governador aílim da neceflidade do Rey, como do affe&o, q lhe tinha moftra- do, lerefolveo confiadamente a prometter-lhe todo o favor, I e aflegurar-lhe , que nenhum de feus inimigos entraria por raquelle canal a oífendello, e I R dcía-
258 Jornada de j defapoíTallo do R.eyno. Éftava! 'já o Príncipe Raiaquichil fóra ] [da boca do eftreico de Sincapu* j ra, com muy numerofa , e poiTante Armada, e pertendia, | embocando o canal, fazer fua entrada ate a Corte de Gior; mas julgou devia primeiro eí- piar o caminho, e a efte fim masdou adiante algumas em- í barcaçoens, as quaes chegando ! junto do navio do Governa- I dor, efte lhes mandou dar ca- I! ça, e tomando-as por força, ! alguns dos que nellas vinhaõ ! mandou entregar ao Rey, e ; a dous, que entendeo o mere- ;ciao , refervou , e executou ! nelles a fenteriça de morte, en- |! forcan
Antonio de Albuquerque, 259! forcandoos , ficando o Rey| muy contente com efta execu- ção, e com eíperanças de fe aííegurar no Reynoj e o Prín- cipe levantado com baftante medo, e receyo de que naò po- deria levar ao fim a empreza .começada com taõ bons fuc* 1 ceílos. | O Datubandar traidor, que j já fe fazia com o Senhorio de \ Gior, pois tinha por íi a ma- j yer parte da Corte, e o bene- j l placito de hum, e outro Rey, J velho, e moço, e ió le receava f do poder marítimo, queeJIeí infielmente tinha entregue a Raiaquichil, vendo a valentia, deftreza , e felicidade , com j
*6 o Jornada de que o Governador tinha pre- zo^ caftigado a gente do Prin- | cipe pertendente , procurou i também valerfedo feu favor, | e acompanhado de toda a fua | ! Armada , fe foy ao navio a vi (itallo. Recebeo-o o Governa dor com toda a gravidade, e cortezia, fazendo por moftrar a pompa,que encheíTe os olhos i daquelle barbaro i e como efte exteriormente íe quizeííe ven der parcial de Raiamuda, qua- do íeu intento era ver íe podia desbaratar a Armada de Raia quichil, ou ao menos impedil- lo, ou dividirlhe o poder , pa- ra que naó ferviffeae impedi mento à poíTe do governo,que
Antonio de Albuquerque. 2 61 já hia tomando, para o que era neceíTario mandar alguns dos) (eus confidentes a negociar| com os da Armada, que obede- cia ao dito Raiaquichil ;e porj ' quanto naõ podia entrar, nem i íshir embarcaçaõ algúa, qual- quer que fofle, e para ondej Jquer que fahiffe, fem que pri- meiro foffe regiftrada pelas! fentinellas do Governador , el delle recebelTe paíía porte, i fobpena de fer preza , e cafti-: gada , aflentou com o dito; Governador, que as embarca- çoens, que elle mandafTe , le- vaffem paííaporte , ou cartaz do meín.o Governador, para que na volta podtflem fegura- R iij mente
, lói Jornada de 1 mente paííar. Aflim eftava o .Governador, íenhor de todo laquelle canal, e codas as em- barcações com grande medo fe naõ acreviaõ a andar por alliJ O Rey Raiamuda,vendo-fe cada vez mais apertado, e co- nhecendo os favores, que ti- nha recebido do Governador, mandou ao feu Secretario oí- ferecerlhe vinte mil patacas., dizendo, que era para ajuda de cufto do loccorro, que lhe da- va ; mas o Governador gene- rofamente as regeitou, e fo- mente lhe pedio quatro cou- sas: a primeira, que déíTe li-' cença para levantar igreja pu- blica, eque osChriftf
Antonio de Albuquerque. 16 y ídtfíetr. ter lugar, e habitaçaó fin todo ofeu Reyno : a íe-j gunda ,que Iheenviaffe todos! os Chrifiãos de varias nasces, que tinha cativos» e em efpe- ciai os dous Cafres fugidos^ue eflavaó em Palacio: a terceira, que pagaííe ao Capitaõ Inglez :dez mil patacas , que na lua Corte íe lhe deviaõ, e naõ; queriao reflituir: a quarta, e' ultiira, que lhedéfle íeis peças de artelharia, e oito pedreiros, ebafíante quantidade depcl-; vora, e bala. Ifio o que o Go-1 .vernador pedic, no cual ha muito , que ponderar; porque1 regeitando ouro ,e prata ,dc que eftava tem necefíltado, íó R iiij pedio |
264 Jornada ae pedio aquillo, que era proprio de hum verdadeiro,e fiel Chri- ftaó, e de hum nobre , e gene- rofo Toldado j defprezou ri- quezas , que naquella occa- íiaõ podia alcançar muitas, e íó percendeo adquirir honra, e nome , negociando o culto do verdadeiro Deos , refgatan- :do almas perdidas, e íolicitan- do a fatisfaçaõ de dividas alheas. SeaceitaflTe o ouro, e prata , que íe lhe offerecia, 1". moftraria, que era mercador; pedindo o que pedio, moftrou (ler o que era. Só na ultima pe- ;tiçaó parece moíírou algum | final de cobiça; mas quem con- íiderar, que feria ftolida im- pru-
Antonin de Albuquerque. 265 prudência naõ procurar c que iheera neceíTario,aflim para íc defender do Príncipe per- tendente, a quem tinha offen- dido, caftigando a fua gente, como para aflegurar aquelle canal, como tinha promettido, naõ duvidará, que foy muy honrada aquella petição, e li- vre de toda a cobiça. Satisfeito o Secretario com a repofta do Governador, a levou ao leu Rey , o qual con- ííderandoa muita difficuldade e pouca honra, e íegurança, com que no Reyno fe podia confervar, quando o Datuban- ;dar tinha jágrangeado para fij quafi toda a Corte, tratou de fazer!
206 Jornada de fazer huma legura retirada> e períuadindo-le, que no navio do Governador poderia hir lem medo, nem receyo, até o Reyno de Pam , ou Talanga- ne,para onde queria fogir com codas as fuas riquezas ,
Antonio de Albuquerque. 267 j ando delias naõ íó codas a» iuas couías , mas cambem! lua peíToa , lhe pedia licen-j ça para íe ir recolher no íeu navio; e fe acafo naõ podef- íe ifto effeicuarfe, ao menos jromaííe 3 íua conca defender Iduas Chalupas carregadas de ,fazenda, e comboyallas acèo jReynode Pam , ou Talanga j jne ,da qual fazenda fe tiraria' iO preço das dez mil pacacasj ■para íereftituirem aolnglez.í No cocance aos Chriftãos caci v°s j pe^as, pereiros, polvora, e bala , naó havia dificuldade, e a efte fim mandou logo algus Chriftaos, parce das peças, que• pedira , e boa quancidade de polvo-
268 Jornada de ,| polvora , e bala. Vifta a petiçaódoRey, jul-1 gou o Governador devia dar- lhe todo o favor , e ajuda, que pedia; e a efte fim enviou o Capitaô Joaó Tavares de Vel- lez Guerreiro, com amplas fa- culdades , e commiíToens para ajuftar, affim o modo conve- niente da retirada do Rey, co- 'moosmeyos para fefatisfaze- rem as dez mil patacas aoln- glez. Mas comoeftes pontos íe haviaó de tratar por meyo de hum lingua , ou interpre- te, iníígne embrulhador, e embufteiro , o qual attendia mais às fuas conveniências, e furtos , do que à juftiça dos ne-, godos,
Antonio de Albuquerque- 269 gocios, de que fe fazia media- neiro t e interprete, pela qual razaõ naó interpretava fiel- mente as propoftas, e refolu- çoens, o ponto naó acabava de íe concluir à fatisfaçaò das partes. Accrefcentoufe a ifto chegar à Corte a nova, que Raiaquichil vinha já entrando pelo canal, e apoderandoíe do que encontrava , e o Datuban dar, já como íenhor da Corte, preparando-fe para adefenía; pelo que o Rey tratando de fe pôr em falvo aos quatro de Março de mil fetecentos e de- zoito, entregou ao Capitaó Joaò Tavares os Chriílãos, que reftavaõ , huma barrica de
*7° Jornada de de polvora,íeis peças de arte lharia, c naquella noite fogio, levando fomente o ouro, que tinha embarcado nas Chalu- pas, e juntamente hum efqua- draõ de trezentos homens de guerra , que mais hiaó carre | gados deoufo, do que de ar-, | mas, e deixando as mais rique- zas nas ditas Chalupas, com as liftas, que mandou entregar ao Governador, e huma, e ou- ,tra coufa lhe chegou àmaó, para que efte tomaíTe delias entrega. Mas logo, que o Rey fogio, os que eftavaõ guardan- do as Chalupas, vendo muy perto a Raiaquichil com todo oíeu poder,as queimaraó com tudo,
| Antonio de Albuquerque. 271 tudo o que dentro tinhaô, pa- ra que o inimigo fenaõ apro- veicaíTe delias j comprindofe à riíca,que as coufas injuftamen- te adquiridas , juftamente fe perdem , íegundoa regra cer- ta da Divina Providencia. CAPITULO V. Conta-fe o que pajfou entre 1{aia- quichil, e o Goyernador. PErdido, e fogido da for- te que fe vio o Rey Raia- niuda, o Governador entrou | em perigos, e lances de mayor I Elderaçaõ, porque de huma. e tinha jà àvifta a Raia- quichil
272 Jornada de quichil poderoío, eíoberbo, com mais de trezentas embar- caçoens de guerra , a quem el- le tinha offendido, prendendo, e matando íua gente, e lhe era muy natural o querer to- mar vingança; a fogida, além de que era daríinal de cobar- dia , e medo, coufa indigna de íua pefloa, e reputaçaõ , pa- recia impofiivel, porque ha-' ! via de íer pelo meyo do inimi-j |go, que tinha occupadotodo aquelle canal com muita gen-; te, e artelharia; e por mais valente , e briofo que feja o Leaó,naó pôde prevalecer cer- cado de muitos rafeiros arma- dos de cólera, e dentes; e fi- nalmente
Antonio de Albuquerque, 273 nalmente acaba,ainda que íe- ja com irorte de muitos dos (eus contrários: da outra par- te, poftoque eflava o Datu bandar, que íe lhe moftrava ' afFeiçoado, naõ havia muito que fiar delle; porque alem de que o poder era pouco, tinha animo veríatil, e naõ podia haver feguro em fua incorcf- tancia , e infidelidade. G In- glez, ainda, que Europeo, era mais mercador que Toldado, e attendia mais às conveniências do lucro , que aos intereííes da honra , e tinha poucas forças no barco, e menos em feu ani- mo , enos de fua gente. No eftreito de tantas anguftias fa- S cilmente
; 274 Jornada de cilmente perderia o animo qualquer homem , que naój foíTe o Governador; mas elle | naó fazendo cafo dos perigos, j que bem via preientes, fe pre- parou naô menos para impe-j •diro paflodo inimigo, que pa- ra fe defender. I O que faltava de medo no ' Governador, fobraya no Prín- cipe Raiaquichil, quando te- J mia experimentar o mefmo, I i que nas fuas embarcaçoens de efpia poucos dias antes le tinha I executado, Mas querendo ten- tar fortuna , efcreveo huma carta ao Governador, em que • jnaõ menos dava final do me-j ido , que tinha , do que mof (
Antonio de Albuquerque. 27 5 crava deíprezallo. Pedia licen- ça para poder entrar na Corte de Gior, e iníinuava, que lem ella entraria. A efta carta rei- pondeo o Governador a fe- guinte. „ Antonio de Albu- querque Coelho , &c. AÍ „ Raiaquichil, General da Ar- „ mada, que dizera eftar fora, „que li a fua carta , e confidc „ rando em ms mandar per- „ guntar, fe quero, ou naõ fer „ leu amigo; porque feeu qui- „ zer fer, me pede o deixe en- „ trar a tomar efte Reynodej „ Gior ; e íenaò, que nem as „ minhas balas poderão furar, „ nem as efpadas cortar. Ref- „ pondo, que eftou nefte por- í Si, toj
176 Jornada de „co com trato amigavel com „ o Rey de Gior, elperando a „ monçaó para hir para o meu „ governo da China, que fera | „ da qui a hum irsez ; e o Ca- „ pitaó da Fragata Ingleza et-, „perando a iatisfaçaõ do di-i „ nheiro , que nefte porto lhe „ devem:e que advirto a Raia- „ quichil, que fe quizer a mi- „ nha amizade, a procure por „meyos licitosj e que fe qui- „ zer tomar efte Reyno, o fa- 1 „ ça depois de íahirem eftes na-j vios defte porto, porque em „ quanto nelle eftiver, furaràó „ as minhas bailas, e cortaràò „ as efpadas, como na occa- „ fiaS , fe a houver, o experi- mentará.
Antonio cie Albuquerque. 277 „ meneará.Panchor $.de Mar- „ ço de 1718, Efta fielmente a carta,que o Governador efere- veo a Raiaquichil , que foy dous dias antes, que o Rey '• Raiamuda fogiífe. | A'vi fia defta refoluçaõ, com que Raiaquichil moítrava ter determinado entrar,e íenhore- arle da Corte, tratou o Gover- nador de fe preparar o melhor,;, que podefle ; e quando as for-; ças, que tinha,na realidade naòl eraó baftantes para a Armada inimiga, julgou devia valerfe I í de fingidos,e enganofos eftra- ] tagemas bellicos , indufíria, j que felé nashiftorias, uíaraó j nas guerras os mais iníígnes S iij Capi-1
278 Jo rnada de Capicacns. Para efte fim na- quella noite dos quatro para os cinco de Março difpoz, e : adereçou o navio de tal forte, que ao outro dia, ao primeiro romper da Aurora,appareceo naõ menos viftofo , que terrí- vel aos que naõ fabiaõda cau- telofa induftria com q eftava preparado. Tocava5 duas cai- xas de guerra ageitadas de dous atabales, íoavaò dous clarins, e hum tiro de peça demayor calibre , que era de quatro, faudou a Alva, que vinha def-, ípontando. Moftroufe logo o |navio todo empavezado de bandeiras, e galhardetes,que! naõ menos deiafiavaõ o vento, \ Suci|
Antonio de Albuquerque. 2 79 que o inimigo; corria bataria Iaberta de popa a proa, guarne 'cida deartelharia: duas peças peloeípelho da popa, eduas! pela proa , que por todas raof-! travaó ler dezaíeis: mas a ver-; jdade he , que cinco eraõ de jpao, mas taó artifíciofamen- .telançadas, que enganavaõ os , olhos j oito pedreiros , grana ! deiros nas gavias, e barris nos lais, fingidamente fabricados/ porem dentro area, e por fora breo: bons caixoens de fogo no tombadilho; e caftelio da proa, guarnecidos de quinhentas lan- ças de arremeço (que fe tinhaó tona adoàs embarcaçoens, de que nocapitulo paliado fefez , Siiij mençaõ j
280 Jornada de mençaò ,) e fechados de boa arrombadas, cubertasde pave zes de tal forte, que naó fó caufou terror , e efpanto aos barbaros daquella terra , mas também notável admiraçaõ aos Inglezes, que vifinhos eíta- vaô , e nac pcdiaó entender, como, e donde appareceífe fragatinha também eíquipada. Defta forte preparado o Governador, efperava a Raia- quichil, quando aos cinco de Março, lá pela tarde, apparece efte com a fua Armada per- tendendo acometer a paíTa- gem j mas o Governador lhe expedio logo hum menfr.geiro com intimaçaõ, quenaò paf- faííe
p ilíaíT Antonio de Albuquerque. iS I íafle a diante , e que de oucra j forte experimentaria o rigor | das fuás balas, e os fos das ínas dpadas. Avifta defta intima-! çaó abate o Príncipe o pano, lança ancoras, e envia caute- lofamentealgunsCabos princi- paes da lua Armada,todos caf- ta Buguys, ao dito Governa- dor, afiim para o divertir, e reconhecer lua peííoa , e for- ças do navio , corro para que entertendo-o, podeííem paliar as primeiras Galés. FoyoGo-j vernador avifado, de que os! ditos Cabos vinhaó com to-; dos os íinaes de A mouca ( que! he outra femelhante refolaçaõ' àcom que osdous Romanos Decios
202 Jornada de Decios facrificaraõ luas vidas àj cufta das mortes de muitos dos Jfeus inimigos.) Veftiaõ cabayas ,de damaíco azul, cahiaó lhe 'os cabellos da cabeça foltos , e largos ate a cintura , cingiaó- fe com crescrifes, aimaordi- naria daquella gente , traziaõ os olhos efpantados por caufa da bebida, que coftumaõ to-' mar em femelhantesoccaíioés.' Recebeos no tombadilho o' Governador, vertido de tela de ouro,a(Tentado em lua ca-j deira , e defcaníavaó os pés em hum caixaõ de fogo > eftavaõ em pé dous Portuguezes aos lados com catanas, e rodellas, jdous, também Portuguezes, à; entrada^
| Antonio de Albuquerque. 283 í entrada do melmo tombadi- lho com bâcamartoens cnca- irados, e apontados, e dous Laícarins com íuas partafa- nas, e toda a mais gente com bella ordem difpofta porfeus j lugares, e poftos com mechas acezas: tudo o qual de tal for- te atemorizou aquelles barba- ros Malayos ,c}ue mudando os primeiros intentos , com que vieraó, julgaraõ , que o mais acenado caminho , eraconci jliar para o leu Principe agra- da do Governador; pelo que com o melhor modo, e mayor! efficacia, que poderão, moftra- jraõ o grande defejo,que Raia- quichil tinha decontrahirami íade.
2^4 Jornada de íade, e confederaçaó com fua j Senhoria, e que a efte fim tra- zia5commi(Taõ,e poderes am- plos para effeimar a dita con- federação , e amiíade, no mo do, que a fua Senhoria mais: agradaíTe. Nefte tempo o Inglez, cu-| jo navio eftava junto ao do; Governador , começa a gritar' (dizendo, que as Galés doini-j 'migo pertendiaó paíTar ; e o1 Governardor à vifta do caío fe; levanta em pé, e virandofe pa- ra os Malayos com naõ menos jacrimonia, que circunfpecçaó, lhes difle , cj fe foflem logo de fua prefença, e diíTefíem ao íeu Príncipe, que fendo elle taó
| Antonio de Albuquerque. 285, taõ falto de íinceridade, c ver- dade, naó era digno de íua ami- lade, e favor j e dizendo ifto, mandou lego,que feafleflaf- íem , e dilparaílem as peças contra as Galés, e ccmeçcu/e a executar efla ordem com tal ; expedição , e artifício, que os Buguys paflados de medo, e| | com toda a fumifíaô pedi- rão ao Governador fufpendef- íe a ordem, cjue elles aííegura- i vaõ t que o ícu Príncipe viria !em tudo o que fua Senhoria quizeflej e faltando nas fuas embarcaçcens, obriga raõ às Galés fe retirafíem , e tornai- fem atraz, es foraô a furgir com o mais da Armada fòra ! de
| 2&6 Jornada de de tiro de peça. Com acçaõ taõ artificiola, e prudente íe ganhou o Governador tal no- me , e eftimaçaõ, que naõ fo- mente fe livrou de ficar alli morto, e vencido da multidão,' mas ficou tido em grande re- putaçaõ,aí?im o tempo, que lá efteve, como ainda agora, o qual teííemunhaó muitos Por- jtuguezes, que efteanno paf-; faraó por Talangane, e vieraõ de viagem a Macao. No dia' feguinte veyo o interprete do Príncipe ao Governador, di- zendo em nome de feuSenhor, que fuppoftoSua Senhoria naõ querer dar licença, para quea Armada paíTafle,ao menos cõ j ) cedefle
Anton i o de Aibv. quer que. 2 87 cedeíle, que algfia gente faltai- feem terra,quandodiíioneceí- j fitava muito o Principe. Era •jquafí noite, e difcorrendo o Governador, que efta peticaÕ | poderia fer algum ardid da- Jquelle Principe, negou a licen- ça, reíervando para o dia fe-, Iguinte o tratarfe daquelle pon- . to j e a ífim foy defpedido o in •, terprere. J Amanheceo o dia ferimo de I.Março » guando o Principe impaciente de demoras, fez !huma volta com grande parte ída Armada, e delembarcando com baftante gente,pertendeo dar principio a huma Fortale- za em lugar eminente, efron.
íj 288 Jornada de ,ro do navio; e mandou dizer ! ao Governador, que empren- Sdia aquella obra, para nella le fortificar contra leu inimigo o Datubandar, que naò fomen- te lhe pertendia fazer refíften- cia , mas também acometello. Bem enrendeo o Governador j os intentos daquelle Príncipe, |que eraó fortifícaríe naquelle ; lugar , naó tanto contra o Da- Itubandar , quanto contra elle iGovernador , e dalli fazer eí- cala, para que com o feu Exer- cito podefle acometer a Corte; pelo que mandalhe logo dizer, que defifta da obra , e que naó dèhum paffo, atèque primei- ro fe naò aííentem os pa&os, e parti
Antonio de Albuquerque. 289 partidos entre arr.bos. Tinha já o Governador determina- do de conceder àquelle Princi pe paíío franco para aCorte,no caio, que elle guardaíTe ami- ga vel correípondencia ; por- que por huma parte feconíi- derava livre das obrigaçoens do concerto, que tinha feito com Raiamuda , quando efte já era fogido, e largado o Rey- no, enaõ podia ter eíperanças deo recuperar; por outra par- te via , que o Reyno neceíía- riamente havia de cahir nas mãos de Raiaquichil , ou do | Datubandar: eftealèmdeque era indigno de íoccorro por ter lido aleivofo, e infiel, e |___ T que
29° Jornad* de que naó tinha direito ao Rey- no, era fem duvida de meno- res forças; onde julgou fer me- nos mal viefle o Reyno aRaia- quichil, eque naò devia impe- dirlhe a entrada , deixando o cjue lá quebraíTe a cabeça com 0 Datubandar. Tanto que Raiaquichil en- 1 tendeo, que o Governador fa zia menção de concertos >e que fem eftes naó podia levan- ítar a Fortaleza, lhe mandou |perguntar, que partidos que »ria ? E o Governador continu ando com a fua grandeza de animo, e coraçaõ livre de co j biça, refpondeo, que nenhúa outra coula queria mais,que
Antonio de Albuquerque. 291 licença ampla, para que no K-cyno de Gior fe lcvantaflc Igreja publica, lugar, c habi- ta çao para Portuguezes, e aos Chriftaoi liberdade, para Te exercitarem nos minifterios da Religião: além difto, que íc pagafle ao Inglez o dinhei- ro , que fe lhe devia sa Corte, e o Rcy fogido fe obrigara a rcftituir. Muy contente ficou oRaiaquichil com a propofta, nao menos admirando o def- intereflado animo do Gover nado' quealegrandofe deter Já da lua parte varaõ de taõ generoíos efpiritos; e aíTentan- do-ie para paíTar o papel do concerto, fuccedeo, que hum "T* r|o*
Icj2 J1' nada de dos feus Capitaens dc grande, valência, e nome entre aqucl la gente, quiz paflar com a Tua cmbarcaçaó; e mandando lhe o Governador, que íe re tiraífe , o nao quiz fazer j j 0 que vendo o dito Governa j dor, ordenou íelhe aíícftaíTc. ! huma peça de artelharia; e ad-; Ivertindo o Príncipe nao me ; 1 nos oteimofoatrevimento da j | quelle Malayo, que a determi i jnaçaó do Governador, lança j • maõ de huma efpingarda, e fa ( zendo pontaria àquelleseu Ca- pitão, o atemorizou dc caí for te, que o obrigou a retirar.e. PaíTou o Príncipe o papel j do concerto , e amilade , e o j man-1
i An orno dt Albuqua que. 19 < j mandou ao Governador por j lum doi íeus principaes Capi- 1 ;acns ; e o Governador man- jou também oupo papel de .ronfedtraç ò ao Príncipe, e • ie hum , e outro pipel fe verá |o theor ttesladado fielmente' "io capsulo lerimo fazendo-fej grandes fefí?s defalva de arte-! tharia no acfto dopa (Ta r osdi- jeos papeis co contrato. No dia' |feguin.ee. psílou o mefmo Prin- | :'pe outro napel de concerto, je;n-que fe obrigava pagarao jlnglez dez mil patacas, de que acima íe fez mençaójCom con-; jdiçaó, que o dito Tnglez havia- |de ir com o leu na \:o, e ger.te ajudallo a conquiftar a portale T rj za
~v4■ jcrnuuuuf za,que diftava dalli tres léguas, e de que eftava íenhor Datu- bandar , ainda que a reftitui- (jaó das dicas patacas naóteve efíeitó, pelas caufas, que em íeu lugar veremos. Neftedia I mandou o Principe feu pre- | íente ao Governador, que cor- refpondeo com outro, e o Ca- pitaò, que o levou, e offereceo, foy recebido com eftrondolas falvas deartelharia. Naõ en- trou porem o Governador no concerto de ajudar em peíloa ao Principe na conquifta da Fortaleza,aflím por julgar naõ convinha aquella empreza à fua authoridade, como por fe perfuadir, que entaò realçaria mais
Antlnio de Albuquerque. 29ç irais o Teu íoccorro, quando l indo neceíTario , com bom íucccíTo o défle,naõ fendo a iflo •brigado, como na verdade ulim fuccedeo, e logo fe verá. Antes de chegar a Corte,cf cava huma Fortaleza , ainda que de madeira, muy forte, •ao tanto pela tranqueira de ^rofljííjmos paos, difpoftaem íitio commodo, quanto pela j^narniçaõ de boa artelharia, pois tinha quatorze peças, to das de bronze, cujo calibre era de doze,deza/eis,e vinte e qua- :ro libras; e o rio , que a For- taleza dominava, erataõ ef- ,treito, como tiro de clavina, jnem podiaó pa/Tar asembar caçoe ,
2^/6 fornada de caçoens, fc naõ lucceflivamen- í te, huma depcis da outra e hum quarto de Itgua antes de emparelharem com a Fortale- za,lhe endireiravaõ as prcas, e. Jchcgaaas a ella em igual dií-r tancia, lhes davaõneceííaria-í í mente as popas. Corria a ccu- Iraça das pecas lançada ao lume ida agua , e íobia a tranqueira até meyo mente, que logo íe cótinuava até o cume, cerrado todo de m 3 to. Da oiiera pa rte Ja terra fronteira 3 Fortaleza ífe eftendia huma linha de qua- ( •:?o Chalupas bem armadas, 'ttimacom doze peças decali >«*e de quatro ate dc-ze libars; útra Chalupa, que jogava dez • * - peças;
Antonio de Albuquerque. 297 peças; e as outras duas, cada numa tinha íeis. Alem difte eftavsõ por íua ordem difpof- tas vinte e quatro Gales, baf- canteroente petrechadas de ar - mas , e gente: e todo eíle po der, aíTim da Fortaleza, como das emtarcaçoens. obedecia ac Datubandar, que !e tinha de- clarado Rey de Gior, e inimi- go de Raiaquichil, a quem an tes tinha elle ajudado. E nr> verdade as forças psra fede j fender. e impedir ao inimigo, eraó bsíhntes , poií fóda Cor - , te trouxe mais de quatro mil i homens de armas j mas como lhe falta va o animo , e a indnf- tria militar, pouco a prove ita i raó. Pot
Jornada de Porcaufa da dica Fortaleza, Raiaquichil temia muito, e julgava por impoííível acjuella paííagcm, e porefla razaõ de- lejava, que o braço, e forças j Europeas o ajudaítcm, e mui- :to mais as do Governador, o qual porjuftas razoens, naó quiz entrar na tal emprcza.O Inglez com o defejo de arreca- dar as fuás dez mil patacas,ain» da que bem contra a fua von- itade , fe hia aventurar, depois de íígnifícar por muitas vezes o deiejo que tinha , de que o Governador oacompanhaflfe, pofto que íe naõatreveoa pe dillo claramente. Chegada à vifta da Fortaleza, aflim a Ar- mada
ti, Antonio de Albuquerque. 2991 mada de Raiaquichil, como c' I barco do Inglez^pparece hum .menlageiro do Datubandar, com hum recado defte, que dizia: Daria paflo livre, e pof- fe do Reynoa Raiaquichil, fe dcíTefeguro, quenaó execu taria ca ftigos alguns, e perdoa- ria a todos aquelles, de que fe tivefle por offendido. Veyoef- tc facilmente na condição, e paliou logo o léguro, que íe lhe pedia, e o defpachou. Quã- do de repente apparece tremo- lando na Fortaleza bandeira vermelha , e logo fe difpara huma peça de vinte e quatro, cuja baila fez tal eftrago na Ar mada, que efta fe efpalhou, e afFaftou . - f* -. : (
joo Jornada de jaffaftou da vifta da Fortaleza, ficando todos naó menos che^ vos de medo , que admirados, naó fabendo a caufa de muda , ca no Datubandarí mas logo jfedivulgou fer a cawía daquèl Ja mudança , íaber de certo o Datubandar , que o Governa- j dor nao vinha na Armada, e, que antes mandara pedir o di ■ to feguro, períuadindo fe, que; o mefmo Governador em peí Toa hia capitaneando , e ani .] mando aquella Armsda. Efta no::;ia mandou logo o Príncipe Raiaquichilno Go- vernador , que diftava dalli oi to léguas, e juntamente pedia confelho do que devia fazer- eo .1
Antonio de Albuquerque. $ o 1 j c o ffiglez claramente rr andou j pedir íoccorro , dizendo , qnr ao menos mandaíTe no efcaler ao Capitaõ Jcaó Tavares de VellezGuerreiro,de noite coro as clarins , que infallivelmente amanheceria a Fcrrakza íem gente.Mas o Governador que- rendo eníínar àquelles Bárba- ros a induftria milirar, expedio o Capitaó Joaõ Tavares ao Príncipe, roandandolhe dizer, que defpachaíTe duzentos ho- mens elpingardeiros a occupar o cume do monte eminente à Fortaleza : o qual occupado, no meímo tempo de cima os duzentos homens, e debaixo a Armada varejai!em a Fortale- za
s 02 Jornada dt za com repetidas cargas. Pare ceoao Príncipe, que era bom oconfelho, edefpachou os du centos homens,os quaes fenho reandofe daquelle oiteiro,acha raõ plantados doze pedreiros com fua tranaueira principia da, e fazenao fugir a pouca gente, que acharaõ, deraô car gas, aflim dos pedreiros, como das mais bocas de fogo, que le- vavaõ, contra a Fortaleza, de tal forte, que fizeraõ defpejar a gente, que defendia a còura ça i e o Datubandar vendo-fe de cima, e de baixo apertado, deíamparoM tudo, fiando íua egurançada fogida, e o Prín- cipe fe apoderou, aflim da For rale**
Antonio de Albuquerque. 202 caleza, como da Armada, c lo- go pelo fcu lingua de eftado mandou a noticia ao Governa- t dor, e juntamente asgraçaij |PelJ con/elho, que lhe tinha! 1 dado, lem o qual nada conclui-íi ria. Dcfta forte ficou Raiaqui-!' chil fenhor do Reyno,valendo- j j lhe mais a direcção de huma 1 boa cabeça, que todo o íeu po- der. r CAPT-
5 04 Jot iada de CAPITULO VI. %elatao-je algumas diferenças ; que o Governador teye com os Ingleses, e outros. NUnca pode íèr folicfa, e verdadeira a familiari dade, e correfpondencia entre peíloas de diverfa Religião, e coftumes; e quando falta a uni- formidade nas inclinaçoens, e jmodo de viver, naõ podem có- cordar os génios entre íi en contrados. Moftravafe o Go vemador de brios levantados, folido, e verdadeiro nas roz ximas da Religião Catholicaj e ini
Antoni o de Albuquerque, 5051 e inimigo das vis, e baixas ac- çoens da cobiça, confiante de ! renfor da íua authoridade, e grandeza, e em todas asíuas' , obras dava claros íínaes da in- genita nobreza do feu animo. Pelo contrario os Capitaens, e Officiaes dos outros barcos fe davaó a conhecer pelo feu modo de proceder naómenos 1 humilde, que pouco ajuftado às leys da verdadeira Chrif- tandade. No negociar por meyosbaixos, e vis, procura; vaó fuas conveniências, e os dotes da nobreza, egenerofi- dade pouco , ou nada refplan- deciaò em fuas acçoens. Efta differença de huns, e outros, V que
foó Jornada de que ao lume natural, edara- zaõ, ainda entre Barbaros, fe naó eftá totalmente oíFuícado, fe dava bem a conhecer, e o que conciliava de refpeito ao Governador, diminuhia deef- timaçaõ aos dous Capitães In- glez, e de Dinamarca. Por ef- ta caufa o dito Governador, ainda que delles era temido, naõ lhes levava as attençoens, do affe&o. Accrefcentouíe a ifto a alienaçaõ, que delles te- ve hum forafteiro, todo reve- rentemente addi&o aos obíe- quios do Governador. Morava em Gior hum Gre- go de naçaõ, chamado Lazaro David , bem quifto, e aceito do
Antonio de Albuquerque. 307 do Rey Raiamuda , o qual lhe tinha dado para confertehua Dama dofeu Paço, eooccu-r pava em couíàs do fen íerviço,! na5menos honradas, quelu-j crofas. Efte, tanto queoGo-; vernador entrou no porto dei Gior, contrahio com elle ami-j Jade , e fc offereceo para o ,que lhefoíle neceíTario, e pu- nha por obra a vontade, que lhe tinha moftrado, e offere- cidode ofervirj efpecialmen- te declarava ao Rey a grande differença , que havia entre j Portuguezes, e Inglezes, Ca- tholicos, e Hereges, e louva* jVa muito ao Governador de deíintereíTado, e alheyo dos V ij vicios,
308 Jornada de vicios,c baixezas dos ditos In- glezes, e Dinamarquezes; e os informes defte Grego íbraõ grande caufa, para que o Rey Raiamuda fizefíe tanta honra, e eftimaçaó do Governador. Nao oufavaò os dous Capi- taens obrar alguma coufa con ( tra o Grego, mas con ferva vaó era feu animo odeíejo devin gança , ate que Te oitereccíTe occaíiaô,a qual finalmente te- ve o Capitaó Inglez. Lazaro David, quanto que vio, que Raiamuda nao podia | períeverar no Reyuo , e que! Raiaquichil fe hia apoderan-, do de tudo,procurou de fe pôr em falvo, e aííegurar Tua pef- loa,
Antoni» de Albuquerque. 309 loa , e caía >quando íabia muy bem que com a mudança do governo entre aquelles Barba- ros naõ ío o Rey defapoílado 5 experimenta ruina, mas tam- = bem íeus validos. A efte fim fe meteo em huma chalupa de Chinas mercadores , que na quelle porto eftava junto da Fortaleza, com perto de duas gj mil patacas, e outros moveis de caía, com fua conforte, e dous criados, julgando,que alli por mais delconhecido, e ef- condido , eftaria feguro. Mas | naò lhe valeo efta prevenção, porque tomada a Fortaleza , |como fe vio no Capitulo palia- í do, oslnglezes querendo a- V iij pro«
$io Jornada de proveitarfe da occaiíao, fe po- zeraô a roubar as embarca- çoens, que acharaõ ; c como deíTem na dita chalupa deChi- nas, encontraraõ, c conhece- rão a Lazaro David, que efta- va muy doente, e de cama; e pofta de parte a compaixaó, jque elle pedia, o prenderão, í a mulher, a quem contra as! ! leys da reverencia, e piedade, i devida àquelle fexo, fuitaraõ asjoyas, que tinha, e os leva-l raõ a todos para o feu barco, roubando-lhes o melhor,e mais preciofo, que acharaõ. Chegou efta noticia aoGo-, —nador, queeftava tres le- is diftante, e movido naõ menos
Antonio cie Albuquerque. 5 11 menos da compaixaõ, e afFe- d:o, que lhe merecia Lazaro Oavid , que da deshumana crueldade daquelles Hereges, defpachou ao Capitão Joaõ Tavares, a que requerefle ao; Capitaõ Inglez a entrega de! Lazaro David, e fuascouías.j jEílava o Capitaõ Inglez muyí i íoberbo, aílím por caufa da vi-' toria na tomada da Fortaleza,'; a que elle muy pouco tinha1 concorrido, quando aprinci-|| pai caufa daquella vitoria tinha: íido o Governador, como fa-j tisfeito, echeyo naõ tanto da; graça do novo Rey, como das] prezas das embarcaçoens,quej tinha roubado, e reípondeo aoi V iiij Ca-j
312 Jornada de Capitaõ Tavares , que nem trinca Governadores tirariaõ do feu barco ao dito Grego.' Eraõ onze horas da noite cjua-j do chegou eftarepofta aoGo-1 vernador, o qual coníidcran-j do , que íobre a razaõ de pie- .dade, e mifericordia, quede-j | via ao affli&o Grego , fe lhe. ! accrefcentava de novo a obri- gaçaò de defafrontar íua au- thoridade, e pefloa offendida cora tal repofta, efteve quaíi com impulfos de levar ona- ' vio, e hir em peííoa caftigar o atrevimento daquelle Herege;1 | mas moderando os Ímpetos da i coragem com os lenitivos da prudência , julgou devia pri- i] meiro
Antonio de Albuquerque. 31 z meiro tentar meyos, com que antes conciliaííe o novo Rey, enaô que oirritafíe, o qual j juftamente fe poderia dar por 1 joffendido , vendo que dentro J jdo íeu porto o Governador j; fazia juftiça em hum homem,! ;que o tinha ajudado na toma- da da Fortaleza, femque pri- meiro lhe déíTe parte. I Pelo que tomando mais acertada refoluçaójenvia o Ca- ipitaõ Tavares, acompanhado de tres homens, e bem inftrui- |do de accommodadas direc- jçoens ao novo Rey, para que lhe déíTe noticia de tudo o fuc- cedido, e pedirlhe, que naõ levafle a mal, íe o Governador no
5 i 4 Jornada de no leu porco , e cjuafi em fua prefença caftigafle as deícor- cezias, e infolencias do Inglez. Erao duas horas da noice quan- do o Capitaõ Tavares chega | ao Gorabo do Rey, que efíava dormindo, e os guardas o def- pertaraõ, e lhe diíTeraõ o que paííava entre o Inglez,e o Go- vernador , e o que efte reque- ria. Ficou o Rey afluítado, porque como naõ tinha ainda pacifica poíTe da Corte, naõ queria oífender alguma das partes com que engroíTafíe o partido contrario $ mas coníi- derando, que lhe era mais con- veniente ter da fua parte antes ! ao Governador, que ao Inglez, deípa-
Antonio de Albuquerque. 315 defpachou a hum Horamcai, titulo grande entre aquelles Malayos, pedindo ao Capitaó Tavares fe focegafle, e aífe gurandolhe, que o Inglez ha- via de dar a devida fatisfaçaõ, fobpena de lhe naõ valer a im- munidade do porto: e junta- mente de/pachou ordem ao di- to Inglez,que entregalTe aoCa- picaò Tavares o que o Gover- nador requeria, eque eftivef- íe certo, que fazendo o contra- rio , elle lhe naõ poderia valer' contra a jufta indigna^aõ do Governador. A'vifta defta refoluçaõ do Rey naõ pode o Inglez negar o que fe lhe demandava, e af- íim
316 Jornada de fim entregou Lazaro David , je fua mulher ao dito Capitaõ; ecomo aquelle vinha grave- . mente doente, o Governador lufou de caridade, procurando 'que ocuraflem, o que fe fez quanto o tempo, e lugar per- mittiaó. Tratou logo o Grego de recuperar a fua fazenda>que o Inglez lhe tinha roubado, valendoíe do meímo Gover- nador , a que ajudava muito a jauthoridade do Governador. ,Mas o Inglez vendo, que o obrigavaó a largar o que já íe tinha injuftamente appropria- do , procurou malquiftar ao ;Rey com o Governador, af- fím por via do feu interprete, como
| Antonio de Albuquerque. 317 como por alguns da comitiva do mefmo Rey; c a primeira coufa, que pertendeo, foy co- mo Herege, que era, fazer que o Rey revogafíe a licença, que tinha dado, para que nofeu Reyno íe IevantaíTe Igreja je a efte fim ufou de todo o arti- ficio , que pode, defacreditan- do os Catholicos,e em eípecialj ao mefmo Governador. Che-Í gou a efte a noticia do que or-i dia o Herege,eattendendo,que; 'já naõ hia íómentc a reftitui- çaõ do que fe devia ao Grego, e o credito de fua pelToa, mas; também, e principalmente a' honra Divina, e da Religião Catholica, naó pode dar ma-| yores.
7,18 Jornada de yores largas à paciência. Man- da defafiar o Inglez, e logo lar- gar vela , e levar o navio até onde eftava ancorado o Here- ge Inglez,que era junco daFor- caleza, o qual com a noticia, e medo de quem vinha fobre elle,lançou afogir, e fefoy j meter junto dos Palacios do , Rey, para que com a fombra .defte nao podefle fer aco- metido. Mas fe agora lheva- |lco a protecção Real, pouco lhe aproveitou paliados algus dias, para que naõ foíle mor- to violentamente, e o feu na- vio com a mais gente fenten- ciado ao Fifco, mas finalmen- te livre por interceíTaò do Go- ver-
Antonio de Albuquerque. 3 iy vernador, como cm leu lugar fe vera. I A reftituiçaõ das coufas rou- badas ao Grego, naõ íepode totalmente fazer; porque co- mo o roubo tinha lido entre a confuíaõ de muitos,que em fe» melhantes caíos coftumaõ a-j contecer, e cada hum fe apo-j dera do que acha, naô foy fa- j cil de averiguar cm cujai mãos' eftiveíTe a preza. No Capitu-1 Io oitavo fe verá, como pelos ■fucceííos que alli fc relataràõ, obarcolnglez por ordem de Raiaquichil foy entregue à dif- poíiçaõ do Governador, o qual mandou fe reftituifle a Lazaro' .David o que íc lhe tinha rou-j badoj
J110 Jornada de bado;e feita a diligencia, fe lhe reftituio o que alli fe achou, que naõ foy tudo o que lhe | furtaraõ, mas fó o que íem ef- | trondo, c violência fe pode i aehar, diffiraulando o Gover- nador algum tanto com a op primida gente do Inglez,e naô j j querendo accrefcentar oppref- faó a oppreffaõ. CAPITULO VII. Toma ô Governador folemepoffe do lugar para a Igreja, OS empenhos do Herege Inglez, referidos no Ca- pitulo precedente, accenderao mais
Antonio de Albuquerque. $ 21 | mais a piedade do Governa- dor , e deíejo de logo tomar pofle do lugar promettido pa ra a Igreja. O que fez aos 25. de Março, como logo vere- mos , depois de lançar aqui fi- elmente tresladados os papeis auchenticos do contrato, ou concerto entre Raiaquichil, e o Governador. O papel de Ra-j iaquichil dizia afíim : „ Em „ nome de Deos Amen, 1150, „annos Amen,aos 7.de Março „ dia bom , baixo del!e,eu El- „ Rey, íervidor de Deos, em „feu nome, emeu pay, que „ fou filho de ElReyMacamo- „ rom, já defunto, e eu feu le- gitimo herdeiro, criado em X cafi
3 22 Jornada de „cafa de ElRey Menancabo, „ meu avô, em baixo de hum „ monte verde de ElRey Ma- „ caduli Rehan de Parituan fw Hian Satty monte verde>c]ue j„me mandou de lá, enave-| „ gando pelo mar, vim em de-1 „ manda do Reyno de meu| „ pay, mandado pelo dito meu' „avô para o meu Reyno.com : „ toda lua Armada, Cabos, e n gente, de que fe compoem, „ todos vaffallos de ElRey Me- nancabo meu avô, e nefte , mar obedecido de todos os que habitaó em Tuas prayas pela recomendacaô, que o di- ,»to Rey meu avô fez adita, >> A rmada, me meceíTe de pof-
Antonio de Albuquerque. 323 ,, fe do dito Reyno de Gior, e | „ Pam , c foíTe por elles acom- („panhado aíTim por terra, co j „ mo por marje vindo para eí- tj te porto de Gior, encontrey m nelle ao SenhorGovernador, » e Capitaó General da Cida „ dede Macao,furto naPovoa- „ çaõ chamada Panchor, me j>, vali delle, para cjueme per-' !„ mittiííe entrada , e em tudo „ me ajudaííe como a irmaõ, e |» compadecendofe de mim, e j„ reconhecendo era eu olegi- j„ timo herdeiro do Reyno , fe „ inclinou a favorecerme, pe-| „ dindo-o eu Príncipe, como o ,, dito Senhor Governador me ,, deixaífe entrar na Corte de X ij Gior,
324 Jomada de „ Gior,lhe promctti guardaria „amifade com o leu Rey j, de Portugal, e que lhe dava „efte juramento , como le foí- „feamefma pe(loa Real do j„ íeu Rey, para que o dito Se- „ nhorGeneral me ajudai- e em „ tudo , como valido do íeu j ,,Rey, para que elle também „ fe obrigava ao meímo, para „ ccm a naçaó Portugueza ,o „ que tudo juro ao dito Senhor „ General, como Principe,que „ íou j e que naõ ajudai! e Deos „ na guerra , nem na paz , a „quem cfte juramento quc- „ brade; e como efta he a aii- !,,ança, que prometto ao dito, !„ Senhor General, lhepermit-|
316 Jornada de „gavel, com que chegou a ef- „ te porco do Reyno de Gior o ,> Príncipe Raiaquichil,herdei- rodo dito Reyno, tendo já |„conquiftado,a mayor parte „ delle, por eftar de pofle ou-, | „ tro Rey, que dizem lhe naó: „ tocava, achandome eu nelle; „ de invernada, por naõ poder ,, vencer a monçaõ para o meu «governo, refpeitando tanto »a minha aflíftencia no dito ,, porto, que fe naõ refolveo a „ tomar a Corte do dito Rey. „ no,em cujo rio eu eftava,íem „ que commetteffe comigo osj „ partidos feguintes, de querer, „ tratar verdadeira amifadecò, „ElRey meu Senhor,promec-i tendo
Antonio de Albuquerque. 327 „ tendo no feu Reyno Igreja, ,, etodo leu favor, e amparo „ a ella , e franca paííagem ,, para os navios Porcuguezes, „ que ao dito feu Reyno che- „ gaiTem , tratando como vaf- „ failos deiRey meu Senhor, a | „ quem promettia verdadeira, „ e leal irmandade, na forma; „ que entre peíTòas Reaes fe „ coftuma , tudo a fim que eu lhe déííe franca paíTagem, e j„ o defenieíle em qualquer „ invafaò, que os inimigos lhe ,, quizeíTera fazer, cm quanto „ naó chegaíTe a monçaó para „ hir para o meu governo: em „ coníideraçaõ de tudo o que, „ e reconhecendo, que ElRey X iiij meu
328 Jornada de „ meu Senhor, que Deos guar-j „ de, levaria bem favorecefíej „eu ao dito Príncipe, fegundoj „o trato, que promettiape- ,, la fua chapa, fellada com íeu „ Real fello, de que já fico en- „ tregue, lhe paííey efte para „ firmeza também , de que o „ dito Senhor o aceitará debai- „ xo de fua Real protecção. „ Dada no Rey no de Gior, e „ por mim aííinada, e fellada „ a 7 .dias do mez de Março de ,,1718. &c.„ Eftes os papeis dos concer- tos, paííados entre o Governa dor,e Raiaquichil, pelos quaes nem efte podia negar o pro mettido, nem aquelle deixar de
Antonio de Albuquerque. 319 de fazer o que devia para ceu- fa, que cedia tanto no augmen to da honra Divina, e Religião Catholica; pelo que mandou avifar ao Rey, que queria to- mar pofíe do lugar para a |Igreja, efpecialmente vindo- jfe chegando o tempo, em que podia partir para Macao. Ne- nhuma difficuldade moftrou Raiaquichil, ainda que o In- ,glez,e outros feoppunhaõ; e cortezmente mandou dizer ao Governador, que lhe perdoaf- í íe naõ afliftir elle em peflfoa com toda a fua Corte à lolem* nidade da pofíe, por quanto as guerras, com que ainda ef tava occupado, lhe naõ davaõ lugar
$$ o fumada de |j lugar a fe achar prefente, mas || que mandava o lingua , e Ca-ji capo de Eftado, (embarcaçaõj Real,de que ufaoRey)no qual o Governador podeííe com-; moda,e honradamente defem- barcar; e juntamente mandou determinar o lugar para a igreja, que omefmo Gover nador eícolheo naó menos ale- gre , e recreativo, e com as conveniências neceííarias para a Igreja, queproprio, ecom as comodidades, que requeriaõ os barcos, que alli foíTem ; era I cfte junto da Povoaçaô de Gi-1 orla ma. Giorlama diíla duas léguas I da Povoaçaõ de Panchor, para I a boca I
j Antonio de Albuquerque. 33 1 a boca da barra, e defta eftl quatro léguas. Tem bom fun- do, ebaftante povoaçaó. He , lugar ameno, naó menos pela F"'~ ídancia de boa agua, que apraíivel do terreno,muy rertil, por efta ca ufa antiga- mente foy Corte dos Reys de Gior; e ainda conferva a cava, que em circuito tem tres lé- guas , e por onde podem nave- gar embarcaçoens. Deforte, que aquella porçaò de terra faz huma Ilha torneada, capaz para nella fe fundar huma Ci- dade, naõ menos fermofa, que forte, pois no meyo tem hum monte, donde mana huma pe< renne fonte de boa agua, no qual
332 Jornada de qual monte fe pôde fabricar' huma Fortaleza , que igual- mente defenda a terra,e o por to. Tem mais efle lugar huma cxcellencia, e he, que em todo aquelle dilatado canal,que cor- re da boca da barra até a Cor- te, he o de melhor furgidou- ro, e o mais feguro , e capaz, onde qualquer embarcaçaõ, por mayor que feja, pôde re- ceber competente carga; por efta ca ufa coftumaó os barcos vir da Corte com pouca carga, e tomar alli a mais, de que ne- ccflitaõ.Tendo pois efte lugar tantas conveniências, julgou o Governador, que era o me ! , lhor, e o mais accommodadoi parai
Antonio de Albuquerque. 555(1 para nelle fe fundar Igreja, at- fl tendendo naó fomente à com- Imodidade do Sacerdote opera- rio, que alli reíidiíTe, mas tam- bém à conveniência dos bar- cos Portuguezes, que lá qui zeflem hir. i Refplandeceo o feliciílimo; dia 25. de Março, em que o Divino Verbo, fazendo defpo- ibrios com a natureza huma- na, tcmou peííoalmente ade-'j fejada poffe da perdida cerra' de Adam , e Teus defcenden-í 1 ces para a libertar Jo cativeiro dodemonio, a que eílava fo- geita, e fantificar, ajuntandofe- jlhe com o vinculo mais eftrei- 1 to , que podia. Efte dia julgou o Go-1
4-H Jornada de o Governador íer oroaispro- prio, e a propofíco para cornar pofíe daquelle lugar paraDeos, e para a Igreja Romana,e lan- itificar aquella cerra immunda ■ já com os elpnrcos ricos de I Mafoma, já com os abomina jveis facrificios dos 1 dolos ,ex alçando nella o Real Eftandar-|j cedanoíia Redempçaó, efa*;' zendo feofFerecefíe opurifli- mo Sacrifício do ímmaculado i Cordeiro. Neííe dia logo peSa manhaa o Reverendo Padre Capellaó Fr. Thomaz de Saó Joíeph, Religiofo Capucho da Província da Madre de Deos, com oCapitaó Joaó Tavares de Vellez Guerreiro, fe foraó a cerra
Antonio de Albuquerque. 335 aterra noCacapo de Eftado do Rey, e levantaraõ bum Al-j tar com a mayor decencia, que j podia fer ,ornando ode peitas de feda , e finos panos da Coi- ta, arvoraraõ o Sagrado Eftan- darte da Cruz, e da outra par- te a bandeira das Reaes Armas, de Portugal; eeílando tudo I preparado , com aíHftencia da g mayor parte da gente da nao,| fe principiou a Miíía a Tom de clarins,caixa,e falvas de arte-1 lharia , o qual feftivo, e eftron-! 'dofo applaufo íe repetio ao le-, vantar da Hoftia, e Caliz, e no tempo de acabar a Miíía, ref- pondendo igualmente o navio com alegre, e íonora falva. Aca-
336 Jornada de Acabada a Mifla, fe difpoz húa devota ProciíTaõ, mais viftoía pela piedade dos que a forma- vaó, do que pelo pequeno con- jcurfo, e variedade de gente, que tinha, e a fizeraó mais plaufivel os clarins, caixa, e ar- telharia com íua varia, e eí- j I trondofa harmonia. Defta forte fe tomou pofle j daquelle lugar, lançando nelle ' fundamento hum Catholico.e I piedofo defejo da propagaçaó ida Fé de Chrifhx Mas diráal- ' gum, cuja inclinaçaõ he mais para notar as Apoftolicas ac- çoens, do que para imitallas: E que prudência he, tomar pofle daquelle lugar, e deixar
Antonio de Albuquerque. 337; nelle arvorada a Sanca Cruz,| eíem baftante efperança de que alli fe levante a Igreja, an- tes com grande fundamento, de que o Sacrofanto inftrumé- co de noíTa Redempçaó fera ultrajado daquella infiel, e bar- bara gente ? Principiar empre- gas , cujos acertados fins fe naó podem prudentemente efpe- rar , mais he temerário appe- tite de gloria, do que delibe- rado de maduro coníelho. Eí- tes , e outros diícurfos fará! quem mais imitar a aranba,fa- zendo veneno das flores, do que a abelha , que chupando as mefmas flores, as converte em doce mel ;e moftrará ,que Y dege-
^8 Jornada de degenera do Apoltolico zelo dos antigos Portuguezes, do tempo do nunca aílaz louvado Infante D. Henrique, primei- ro deícobridor dasConquiftas, ate aquelle por anthonomaíia! empenho da piedade Chriítãaj D. Joaõ III. dos quaes antigos, portuguezes, huma parte dos; géneros, quelevavaó nosna- é vios, eraõ Cruzes, que levan-i tavaõ , e deixavaõ nas terras, j que deícobriaò, tefixmunhan do com cfta acçaò, que a pof- íe que tomavaõ daquellas ter- ras , mais era em nome de Deos, e da Igreja Romana, do que do íeu Rey.Continuem os Portuguezes deíle tempo com oan
Ani onio de Albuquerque. 339 o antigo zelo dos anteparados, e levantaríeiíaó as Cruzes íem medo, de que fe deitem por ; terra. Mas quando os intentos j todos atiraó a lucros tempo- raes, enada aos intereíTes da gloria Divina, e Portugueza, tanto aííim , que para que aquelles fe naõ diminuaò, fal- ta em muitos barcos Capellaõ, com evidente riíco da falvaçaõ de muitos, fe nas terras dos in- fiéis ie nac levantaõ, nem dei-j j xaó Cruzes, ficaõ lá em íeu lu- gar mãos exemplos. Yij CA-
,0 Jornada de CAPITULO VIII. Tatroçina 9 Governador os Inglt- j %es ,eo Jeu barco» SEmpre hum animo gene- rofo encontra occafioens,' ' em que faça alarde de fua mag-, ! nanimiuade , e benevolencia,; (em que offenías recebidas lhe( íirvaõ de remora. No Capitu- lo Ví.vimos o Governador ac- cefo em jufta cólera contra os Inglezes, nefte o veremos be- i nigno Proteótor dos mefmos | Inglezes. Andavaó eftes dema- íiadamente fogofos, procuran- do arrecadar as dez mil pata- I cas,
Antonio de Albuquerque. 3 41 cas, cjue lhe deviaõ: naõ fe da- | va da parte dos Malayos a di- ligencia , que elles queriaó, (quando por huma parte are- j volta das guerras, e por outra ■o apego daquella gente às coulasalheas ,íerviaó de nota- i vel impedimento à devida fa- tisfaçaó ,efpecialmente, que o Rey fogido Raiamuda, e o leu Sibandar cambem fogido, eraõ iosque receberão, e deviaõ as jjdez mil patacas j efaziafedif- ificultofo ao novo Rey, ou à j fiia gente, pagar o que naõ ti- nhaõ recebido. Accrefcentou j íe a ifto, que Lazaro David,já melhorado da fua enfermida- : de, pugnava , e fazia toda a Y iij dili-
!;4* Jornada de ! diligencia dentro da meíma { Corte, para que os Inglezes lhe reftituifiem tudo o cjue lhe ti- nhaó roubado; e coroo eftes ' naõ déflTem fatisfaçaõ à parte, ferviraõ de exemplo aos Ma- jlayos, para que também naó l reftituiflTem o que deviaõ. 1 Eftando defta forte de par* \ te aparte os ânimos inquietos, | erevolcofos , era chegado o I tempo de o Governador íe 1 partir para Macao, pelo que | avifou o Raiaquichil dainten-| | çaõ , que tinha de logo lar-' S-gar véla para hir tomar poíie! |jdo íeu governo. O Principe, 1 có efta noticia de/pachou o íeu I, língua no Cacapo deEftado, para
Anemia de Albuquerque. 343 para conduzir aoCapitaô Joaó Tavares a Palacio, que em no ine do Governador havia fa- zer asdeípedidas do dito Prin- ícipe , ou novo Rey. Eraõ íete Mo roez de Abril, quando o di- to Capitaò Tavares, acompa- nhado dos Portuguezes Anto- nio Rodrigues, e Paichoal de Souía, e do Grego Lazaro Da- jvid, baftantemente preparados para o que podefle fucceder, '.pois as defeonfianças, e pouca fé dos Hereges Inglczes reque- riaõ toda acautela, encami- nhou para a Corte, onde che- gado,fòy recebido do Rey com notáveis demonftraçoens de- agrado, e cortezia : e logo £3. Y iiij zen-
11544 Jornada de i zcndo a deípedida era nome | do Governador, infínuou os motivos, que o obrigavaó a continuar a viagem interrom- \ pida,edccaminhonaódeixou ; paííar em íilencio naó menos osembuftes do Interprete dos Inglezes, que as defarrezoadas ; desconfianças dos mefmos In-^ i glezes.AoquerefpondeooRey com humaoraçaó mais chea, i de affe&o, e reverencia, do que de eloquencia. «Finalmen- te (dizia elle ) já me quer dei* „ amparar meu irmaã mayor, „o Governador: mal poffoí „ declarar meu fentimento, ! „ quando vejo me vay fal- tt tando o amparo de taõ no* bre,
Antonio de Albuquerque. 345 ; „ bre, c fiel amigo, cujo gene- „rofo animo hia eu com o „ tempo cada vez mais conhe- „ cendo. Oh fe foííe pofíivel, „que elle meconcedefíe mais „ tempo, em que eu podeíle „ moftrar os primores de meu „ agradecimento! Juntamente „ provaria com as obras, que „ nunca dey credito ao que „ feus emulos me differaõ, mas j„ agora de algum modo mof- „ trarey, quaó alheyo foy fem- „pre meu animo de crer al- „ guma coufa, que foíTe , nem „ ainda de minimo dcfdouro „ de meu irmaõ mayor o Go- vernador. „E dizendo ifto, mandou,que viefle à fua pre- íenÇ«
! 6 Jornada de ! lença o Interprete dos Jngle- izes. Chegou o dito Interprete, acompanhado do íeu Capitaõ, e outro Inglez, e juntamente , quatro marinheiros, todos ar- jmados; e poftos na prefença jdo Rey, começou efte a repre : hender o dito Interprete, afe- ando-lheaaleivofianaó menos inasobras, que nas palavras, com as quaes pertendera offuf- . car a honra do Governador, e .obrigar a fua Real peííoa , a que lhe déííe credito; mas o In- jterprete, que era huminfíg- nearchite&o de embrulhadas, negava tiveííe dito coufa algua contra o Governador, e a per- I tado
jj Antcmo de Albuquerque. 347 Ijtado com arelaçaõ dasmef- I mas palavras, que elle tinha I dito, recorria à falta da memo- !ria, dizendo,queíenaõ lem- brava de ter dito atai coufa.j Finalmente o Rey depois de, reprehender aíperamente ao! dito Interprete,fe virou para o! Capitaõ Tavares, e lhe diífe, jque naó procedia a mais con- jtraaquelle vil homem, aífím porque era prudência naó fa- zer caíò dos ditos de femelhan- te gente, como porque tinha por certo, que a generoíidade do Governador fe daria por juftamente offendida , vendo que por fua cauía fe tomavaõ empenhos, naó menos para averi ê
J $48 Jornada de ' averiguar verdades da boca de j 1 hum embufteiro, que para to- j imardelle a ultima fatisfaçaõ; joque entaô compria era, que 'fuppofto fer aquella a ultima i deípedida, convinha moftrar I íe naó efquecia do que pro- mettera ao Governador acer- ca de fatisfazer ao Capitaõ In-, glez as dez mil patacas; mas porque achava naõ íer tanta a divida, quando o dito Capitaó já tinha recebido algumas cou- fas em fatisfaçaõ, julgava, que na varanda do íeu Confelho fe tratafíe do ajufte, e fedeter- minaííe o que fe lhe devia pa- gar: e dizendo ifto, aflim ao ! Inglez, como aos demais,man-
Antonio de Albuquerque. 349 ,dou fe ajuntaffem no dito jConfelho, e ao Capitaõ Joaõ Tavares pedio, que afliftifle no mefmo Confelho , afôm para que com a lua auchorida- [de Te trataííe o negocio mais pacificamente, e fizeíTe execu- tar a fatisfaçaó à divida de La- zaro David, como cambem porque entre tanto queria pre- parar algum final de fua lem- brança , para offerecer ao Go- vernador. Deípedido da prefença do Rey oCapitaójoaó Tavares, íe encontrou logo a poucos pátios andados fora da iala do Rey com os Inglezes, que o eí- peravaó, e todos juntos tive- ra ó
; 35° Jornada de raó entre li varias di (putas; ; mas o Interprete foy o que fe adiantou com o Portuguez Antonio Rodrigues; e como de parte a parte fe accendeííe a cólera , hum Inglez , que junto eftava,difparou huma eí-j copeta contra o Portuguez, e como ao ferir do fuzil , efte defviafle algum tanto o corpo,' lhe paíTaraõ duas balas a efpa-f doaefquerda. Irritado o Por- tuguez da dor, que fentia, tira com toda a prelTa de hum ba- camarte , com que em o Ma- : layo , que eftava mais perto, ; empregou hum tiro com tal (uccefio , que naõ chegou a hum quarto de hora , que naõ j tnor- i . . . _ I
! Antonio de Albuquerque, 351 morrefle. Neíte tempo o Ca- pitaõ Joaô Tavares tinha baí- itante em que fe occupar, ccm ,que naõ pode advertir,e mui- ,to menos remediar o que paf- fava entre oPortuguez , eo Malayo, porquanto ieempe- nhava em reprimir ao Capi taõ Inglez , que hia tirando huma piftola do cinto. Aoeí-j trondo dos tiros acodio a guar- da Real ,e vendo o Portuguez (íerido, foylogo dar parte 20! Rey, gritando a altas vozes:! ínglezes traidores, matadoresj da gente do Governador. Al- tamente penetraraõ eftas vo- zes o coraçaõ do Rey,ccm que accelerado, ou arrebatado fal- tando
' J..U W waBOSWBBW.V nM^i' MUI I I jí 352 Jornada de tádo do throno, defembainhou 0 cris, que tinha na cinca , e chegando à porca da fala, man- dou que todos os Inglezes fof- fem morcos , e a gente do Go- vernador levada à Tua preíen- ÍSa- .n A' viíta defta Real ordem fe levantou huma notável con- fuíàó naquelle labyrintho d ânimos, e corpos defaíocega- jdos. De huma parte os Ma- j layos, que pela mayor parce eraó Cabos militares , terri- veis com lanças, cacanas, e cri les, e muito mais comoodio] ; contra osEuropeos, eípecial- 1 mente Inglezes, clamavaó fe dividiííem os Portuguezes dos Ingle-
Antonio de Albuquerque, 3 5 $ ínglezcs.Da outra parte os In- giezes, ainda cj no animo efíi- veííem divididos dosPortugue- zes, entaó com os corpos fe uniaò a elles, para affim efca- parem da morte, de tal forte,q hús fe naõ podiaõ feparar dos outros. Faziaõ os Malayos en : vertida a algu,e efte íe defendia, | gritando: General, General, e com taõ bom íucceílo , cj logo ficava livre; e vendo todos, q a palavra General era o melhor, e mais feguro efeudo contra os Malayos, e para livrarem da morte, começaraó todos a gri- tar: General, General. Os Ma layos perturbados com tae? vozes, naó íe podiaó determi nar
Jornada de nar à execução da ordemReal, até que conhecendo ao Capi taõ Inglez, com o qual fe naó podiaõ enganar , enveftiraõ ; com elle. Eftava elle abraçado | com o Capitaó Joaó Tavares, de cujos braços, e protecção| efperava remedio em taõevi-j dente perigo;nem leengana- va de todo , porque o dito Ca- pitaò Tavares naó menos ge- nerofo, que compa(íivo,fez, to- do o esforço para livrar da morte ao Inglez, com notável rifco de ficar juntamente com elle morto. Mas como os Ma-1 layos eraó muitos,com grande j força, eviolência, obíequio-! fos ao mandato do íeu Rey, tira-;
Antonio de Albuquerque. 355 ciraraõ ao Inglez dos braços do Capitaó Tavares, e o ma« caraó a cruéis lançadas, fican- do íoaquella principal Cabeça dos Ingleses facri ficada viti- ma ao furor Malayo. Morto defta forte o Ca pi- tão Inglez , foraó todos os mais com o nome de gente do Governador levados à preíèn- çadoRey, o qual com fingu- llares moftras de fentimento do fucceflo recebeo carinhofa mente ao Capitaõ Joaõ Tava- res ; e vendo logo, e palpando a ferida do Portuguez, fe ac- cendeo mais contra os Ingle (zes,epronunciou íentençade jconfifcaçaõ do barco, e fazen Z ij da
Jornada de da Inglcza, e morte da mefma gence.Nefte cafo oCapitaõT a vares fazendo alarde de íeu animo naõ menos pio,q efque- cidode aggravos, pedio com grande inftancia ao Rey , íul- pendeíTe a execução de fua fen tença, ate é[ delia fe délTe noti- cia ao Governador.Porq,dizia elle, o affe&o, que oGover nador merece a VoíTa Alteza, pede que efta íentença fenaó dè à execuçaó, antes de fer re- vifta pelo mefmoGovernador, como parte principal, e muy intereíTada , quando por fua ingenita nobreza , e piedade he obrigado a patrocinar mui- tos dos lentenciados, affim por inno- /
j Antoni9 de Albuquerque. 357 innocentes, ou menos culpa- dos,como por homens da mef- ma ley ,que elle proíeíía; e hef jufto, queVofía Alteza naõ caufe efta moleftia a quem fe reconhece taõ obrigada, e affe- ftuofa. Moftrou o Rey cuftar- Ihe o haver de fufpender a exe« cuçaó da fentença , mas era lance de animo generofo , e agradecido, ofuípendella; pe- lo queannuindo ao poftulado doCapitaõ Tavares, refpon- deo, que em obíequio defeu irmão o Governador,lhe man- dava aviío, e efperava fua re- ! pofta; e a efte fim expedio o j !ícu lingua de Eftado ao dito ( Governador , para que em Z iij feu
3 58 Jornada de íeu nome lhe déíTe noticia do fuccedido, e lhe pediííe, que défle por bera feito tudo o que íe tinha determinado em caf- tigo do grande atrevimento daquella gente. Nefte tempo chegaraõ os 'guardas ao Palacio, trazendo prezo ao Inglez, que tinha fei- jto o tiro acima referido con- |tra o Portuguez Antonio Ro- drigues , e juntamente levavaõ a noticia de que o Interprete ;dos Inglezes ficava morto em huma palhota. O Rey man- dou logo, que fofle morto o dito Ingíez i mas intercedeo o Capitaõ Tavares, pedindo lhe 'fizeíle o favor de lhe entregar aquelle
] Antonio de Albuquerque. 359 jaquelle Inglez para o preíentar ■ ao Governador , eveyonifio 1 o Rey; e como os Malayos af- .fim do Palacio, como da Ar* ' mada, andavaó alterados com ■olucceíTo, mandou o Rey ao, iCapitaó Tavares, foííe para o! [barco Inglez com íeu compa- nheiro Antonio Rodrigues , e Pafchoal de Soufa, e mais gen-l te, que pertencia ao dito bar- co , para que entre tanto, que .vinha a repofta do Governa- _ dor , pátrocinatíe, e defendei- íe aos Inglezes contra a violên- cia dos Malayos, o qual logo | fez o dito Capitaõ, e achou os pobres Inglezes taó quebrados ! de animo, e cheyos de medo, Ziiij queí
j 360 Jornada de que mal íc pôde explicar, os iquaes quanto que virão em jíua preíença ao Capitaõ Ta- | vares, fe abraçaraó com elle pedindolhe mifericordia. Fo- raõ também mais de duzentos Malayos a meterfe de guarni- çaó no dito barco, efperar pela refoluçaõ do Governador.T u- do ifto atemorizou de tal forte ao Piloto Inglez, que julgan- do devia meter fua petição ao mefmo Governador,lhe efcre- veo a feguinte carta, treslada- da fielmente do original, que dizia affim : „ Senhor Gene- „ ral. Me vejo em grande tra „ balho: efpero em V. Senho- „ ria, que me acuda, porque efta
Antonio de Albuquerque. 3 61 „ efta carde me quizeraò dar „ faque, e o Capitaó ]oaõ Ta- „ vares cm nome de V.Senho- „ ria, e o delle, quiz Deos, que „ livrey, e toda a gente defte „barco; eaílim peço a V. Se- „ nhoria pela grande amifade, „ e entrada , que tem com El- ,j Rey, peço muito de favor queira ajudamos, e favore- cer; pois de prefente o feu „ Çapitaõ livrou a minha gen- i „ te de hoje naó fer toda mor- „ta, e cu também livrarme, „foy porelle fe obrigar eftar „ nefte navio,ou para bem di- „ zer, chalupa ; e o q ordenar o „Senhor Capitaó, fico fempre „ como obrigado. Bordo , cujo favor
^ 62 Jornada de „ favor, que receber, ficarey „ confeííando. Guarde Dcos a „ V. Senhoria. Servidor de V. „ Senhoria Recli Vvallis. „ Thom. Frafon. „ Atèqui a carta , que efcreveo o piloto do barco, em que eftava. Sabendo o Governador o que pafíava , e compadecen-j doíe naó menos do Piloto In-, glez, que fe valia delle, que dos mais Chriftaos, fallou ao Interprete, dizendolhe,que em fcu nome pediffe ao Rey, que revogafle a íentença, efpecial- mente nao tendo aquelles po- bres culpas, pelas quaes mere- ceííem taó grave caftigo , quando já os dous mais culpa-
i Antonio de Albuquerque. 363 j dos tinhaó pago com as vidas, i eque loltafle olnglez prezo. , Ouvida pelo Rey efta petição, ou requerimento do Governa- dor , refpondeo, que concedia tudo o que íe lhe pedia, com condição , que elle Governa- dor paílafíe hum papel firma- do, efellado, pelo qual pro-j 'metteffe, efeobrigaíle anaô, favorecer, e ajudar aos Ingle ; zes contra elle Rey, e que os ditos Inglezes cedeflem do di- reito, íe algum tinhaó, às dez mil patacas, que elle Rey fe obrigara apagar; e que elle Governador tomafíe à íua dif- poíiçaõ o barco, e lhe pozeí- íe Capitaõ, como julgaííe. Sa- bida
$64 Jornada de | bida pelo Piloto efta refoluçaò, efcreveo ao Governador a fe- guinte carta: „ Senhor General. O Capi- „taò de V. Senhoria efcreve „ fobre noíío particular, e ef- „ peraraos na generoíídade de „V.Senhoria, nunca haveráj „coufa, que dé defaire à fua ^ „ pefloa, pois efperamos, que, „ com a repofta de V. Senho-} „ ria como para nofla redemp- „ çaò , pois confeflamos taõ „ obrigados, como (e foíTe o „mais logeito de V. Senhoria, „ pois nos tem libertado as vi- ndas, navio, e o que nelle ef- „ tá , e que os agradecimentos „ efpero dar a V. Senhoria pef-
Antonio de Albuquerque. 565 „ ícal, que para iíío he necef- „ fario o papel, e petitorio de „ V. Senhoria com ElRey; e „ pedimos a V. Senhoria faça „ ifto com brevidade, porque „ naõ eftamos aqui feguros, e „ de tudo quanto V. Senhoria „ tem ouvido de mim, foy tu- „do embrulhadas, e de tudo „ darey a V. Senhoria fatisfa- „ çaõem prefença, pois tenho „muita vontade dever aV. „ Senhoria, e tenho faudade; e „ no mais Deos guarde, &c. „ Bordo 9. de Abril de 1718. „ De V. Senhoria os mais hu- „ mildes fervos, e leaes. Ricli „ Vvallis. Thom. Fraíon. „ He aqui digno de admiraçaõ , que fa-
3 66 Jornada de fabendo aquelles Malayos, que eftavaó de guarda no barco In- glez, que o Governador inter- cedia pelos Inglezes, fem efpe- rar ordem do íeu Príncipe,lar- garaó o barco, fem que lhe roubaíTem couía alguma, que he aííaz encarecimento do ref- peito que tinhaó ao Governa- dor , ficando os Inglezes nota- velmente admirados; mas naó fe dando ainda por feguros, pe- dirão ao Capitaõ Tavares, os naó defamparaíTe; o que elle fez até que foy chamado do Rey. Entendida pelo Governa- dor a determinaçaõ do Rey, e que o Piloto Inglez, e os ou- tros
Antonio de Albuquerque. 367 tros do feu barco ,para fe li- vrarem do perigo, e vexaçaõ, em que eftavaõ,vinhaõ no que o Rey queria, julgou devia paflar o papel, que Raiaqui- chil pedia, na forma feguinte: „ Antonio de Albuquerque, „ &c. Por quanto EIRey defte „ Reyno de Gior, que Deos „allumie (o qual tem ligado „ amifade comigo, em nome „de ElRey meu Senhor de „ Portugal, que Deos guarde, „ permitcindo Igreja , e liber- „ dade Catholica Romana em „ todo feu Reyno, de que te- „ nho tomado poíTe) perdoou „ asvidas a todos os Inglezes da „ chalupa SucceíTo, e largou a
3 68 Jornada de „ dica chalupa , fazenda delia „ do Fifco,em que tinha incor- rido pelo crime, que com- „ metteo o Capitaó, e Jerubaf- „ fa da dita chalupa, já deíun- „ tos, querendo nas portas do „ Palacio matar a tiros o meu „ Capitao, que tinha manda- do adefpedir da minha par- „ te do dito Rey, tudo por alei „vofía do dito JerubaíTa, ôcc. „ e tendo o dito perdaõ a meu rogo,e pelaReal amiíade con- „ trahida;pelo q me pede o di „ to Rey, lhe paffo efte, para q „ em Renhum tempo fe poíTaó „ queixar os Inglezes do fucce- „ dido, nem taò pouco reque- rer o que lhes devia o Rey,
Antonio de Albuquerque. 369 ,,e Sibandar fogidos , como ;j cambem pedir comprimento „ da nova obrigaçaõ , que o „ ditoRey tinha pafTadoa meu j„refpsito aodico Capitaõde-j „ Funto, de que os ajudaria, pa- gandolhe o que os outros lhe j„ deviaó j porque me diz o di „ co Rey ha a dita obrigaçaõ ,, por invalida , e a dica divida „por nenhuma,em pena do '„ crime fuccedido 5 e em facis- | „ façaõ das vidas, que perdoa, „ e da chalupa, e fôzenda, que „ dodiro Fifco larga,condição, ; r,com que me deu palavra' do1 „ dico perdaõ , a que declaro >, neftapara em nenhum tem- „ po com razaò haver queixa Aa do
}7° Jornada ae „ do dito Rey , naó fe lhe re- „ querer a dica fatisfaçaó, pro ! „ mettendo também , que naó i„ajudarey a dita chalupa em | „ coufa algúa contra o ferviçO| „ do dito Rey, mas antes im*| „ pedirey obre o contrario,o q „ dos ditos Inglezes naõ elpero,; „ pois reconhecem a ir.erce, ql a meu reípeito lhe faz o dito „ Rey,q lhe naó deve nada,e íó j „ a meu reípeito íe tinha obri-j„ gado a ajudallos.Dado a bor- „ do na barra defíe Reyno de „ Gior, aos io.de Abril, &c. Vifto pelo Rey o papel do j Governador} paliou também ; o teu de perdaó aos ditos Ingle- zes , o qual quero pôr aqui co« dof
Antonio de Albuquerque. 371 do palavra por palavra, aííim para que fe veja a eftimaçaõ, que fazia do Governador, co mo para que confte da verda- de do fuccedido. Começa o coafto do Rey: j „ Em nopie de Deos.Amen. Aos 1150.aunos da noíTa Era , „ &c. em novedaLua de Abril „ chegou a efta Corte o Capi. f d taõ Portuguez com mais al- »gúns Portuguezes a deípe- ,,dirfe de mim da parte do leu » General, que eftava de par n rida j e recebidos por mim „ com aquelle agrado, que me „ merecia aamiíade, que ce- „ nho contrahida com o dicc „ General na forma da minha3 Aaij e lua
372 Jornada de j| «, e fua Chapa, me pareceo ía-ji „ tisfazer ao dito General;ave- e „ riguando as falíidadcs, com | „ que quizeraó perturbar adi \ i„ ta amifade entre mim ? e o j I „ dito General; e como tndojj I,, me tinha chegado pelo Jeru-jl „ bafla dos Inglezes, o mandeyj „chamar, o qual veyo a meu ,, Palacio com o feu Capitaó,e „ gente armada , e averigua ,,da a falfidade do dito Jcru í„baíía , com que pertendia „ perturbar a amifade, que ha „ via entre mim, e o dito Ge „ neral , de que tinha naícido ,■ querer o dito General pe- „ leijar com o dito Inglez, que „ fe retirou para eira Corte porj
Antonio de Albuquerque. $73 „ por cuja cõíideraçaõ queria, „ parecendome , que o Capi- „ taô Inglez n?õ era culpado.' 5, na traiçaõ do dito Jerubalía, com o meu Confelho fazer, que o diro General perdoaí- .íeao dito Inglez, por cujo! Lreípeito queria eu paílar í„obrig2çac ao dito General, j„deque em termo de dousj i „ annos mandaria fatisFazer ao |„ Inglez, o que lhe devia o „ Rey intruío já fogido , e o j, feu Sibandar também aufen- „ te, pois o dito General me „ tinha pedido favoreceíTe nif- „ to ao dito Inglez, para o que j „ tinha dado minha Chapa; e | „ mandandoos para a varanda j | A a iij do.
|74 Jornada de „do meu Confelho, antes de a „ella chegarem, foy ferido '„hum Portuguez de hum tiro <„dehum Inglez; ao queaco- >, dindo a minha guarda, e ven- 1 j, do ao dito Portuguez ferido, gente do dito General, com „ quem tinha ligado particu- lar amifade , deraò lebre os „ ditos Inglezes,onde foy mor-: „ to o dito Gapitaó, e de vários „ tiros, que houve, fe achou' „ morto o dito Jerubaíla, do „que informado, e averigua- ndo o fucceíTo, íegundo as leys „ do Reyno foraõ condemna- „ dos todos oslnglezes à mor- „ te com fifeo do barco, e fa- i„zénda delle, reíervando taó j fómen-
Antonio de Albuquerque. 375,; „ fomente a meu Confelho as' vidas dos marinheiros Chrif- „ taos,por ferem da ley do dito! „ General , a cuja execução „ acodio o dito Capitaò Portu- ,jguez , pedindo da parte do: „ íeu General fufpendeffe a ,, execução do Decreto, porq „ queria elle dar conta ao dito, , „ General, e eu o fizeflè, pela „ boa amiíade , antes da dita „ execução, o que feito, foraò „ taes os rogos, que m£ chega- „raõ do dito General , quej „ houve por bem o meu Con-j „felho condefcendeííe nelles,! „ e perdoaffe as vidas, e a mais „ execuçaó decretada; pelo que j | „mandey ,foflem todos logo- Aa iiij no
176 Jornada de „ no navio entregues àdifpoíi- „ çaó do dito General, por cu- ,j jo reípeito lhes tinha perdoa- is do > nao lhe faltando do dito „naviocoufa alguma, como !,> conftou aoCapitaõ do dito'; » General, a quem foy entre- „gueodito navio, paraole- „ var ao dito General, tudo $) em coníideraçaõ da amiíade, „ que com elle tenho feito,cjue, „ durará em quando no Mun<: „ do houver Sol, e Lua , fican- „do taõ fomente condemna- „ do o dito Inglez, em naõ vir „ requererme a efte Reyno, o „ que o dito Rey intrufo, e Si „ bandar fogidos lhe nao paga - I ' » raõ j pois lendo o crime, que | com •
■ Antonio de Albuquerque. 377 „ cõmecteo o dito Capitaõ, taõ „ grande, o naõ condemnou o ,, meu Confelho, mais,que em „ me naó pedir para fempre, o „que eu lhe naõ devia, e íó a „ rogos do dito General o que- j ,, ria favorecer niíTo, do q tudo j „ me paílou obrigaçaõ oCapi-j „ taõ, e Piloto Inglez para emI „ nenhum tempo fe praticar „ o contrario;e como me acho jj „ com o Reyno ainda pertur- „ bado com inimigos por ter- „ ra, e mar , e ha taõ fomente hum mez de minha aíTjften-i „ cia nefte Reyno , naó tenho, „coula capaz de offerecer ao „ dito General em final de mi-, „ nha amifade,c[ue ío por lem-j bran-
378 Jornada de „ brança lhe offereço humas „ peças de artelharia de bron- „ze, efperando ter occaíiaô „ para fazer o que defejo. Da- „ da em Gior fob o meu final,e | „ fello. Era acima, &c. Defte papel fe vè a eftima- çaõ,que acjuelle F.ey fazia do! Governador, do qual fe deve. também fazer huma obferva- çaó ,e he,que o Rey naó tinha| baftante caufa para temer o! Governador , efpecialmente matando, ou prendédoa gente do barco Inglez,quando fabia muybem, quaõ poucas eraò j as forças, que tinha no feu na- vio ; logo a que fim tanta cor- tezia, tantos íinaes de amor, I efti-l
j Antonio de Albuquerque. $79'] eftimaçaò, e benevolencia ? A razaõ difto deixo eu a que a dè por mim o bem affe&o leitor, que certamente dirá, que os honrados termos de hum ani- mo nobre , generoío, e deíin- { itereílado por fi fe conciliaõ j refpeito , e veneraçaõ, ainda j dos mefmos barbaros. PaíTado 1 o dito papel, mandou o Rey | chamar o Capitaó Joaó Tava- res ao barco, que com grande j dificuldade íargaraó os Ingle- zes, ficando lo com o Portu- guez ferido para lua defenfa.! O Rey recebeo com muito 'agrado ao dito Capitaõ , e lhe declarou o muito,que com elle podia o refpeito , que ti- nha
1 3 8o Jornada de nha ao Governador, pelo que lhe offerecia aquelle barco com huma pequena dadiva de | algumas peças de bronze , e í humas poucas bufaras em final de fua beuevolencia, e animo agradecido. Defpedio-íe o Ca- pitaòTivares do Rey , e jun- tamente com o lingua do mef- mo Rey, e a offerca referida fe meteo no Cacapo deEftado,! e vieraõ ate o barco Inglez. Fi-1 i nalmente o barco Inglez foy ] dado por livre com agente3j • que nelle eftava , e entregue à difpofíçaõ do Governador, o qual liberalmente lhe confir- mou , e ratificou a dita liber- dade, e lhe determinou por Ca-
w Antonio de Albuquerque. 5 81 Capitaõ, em lugar do próprio morto no Palacio, ao Piloto. E defta íorte partio o dito bar- co Inglez, e veyobuícar junto da barra o navio do Governa- dor , para que com Tua fom- bra, e protecção fe feguraííe idas embarcacoens de guerra, íqueandavaõ por aquelles ca- nses , e enleada , dos quaes ain- da fe naodavaõ por íeguros os Inglczes. Tanto que o barco Inglez chegou junto do Governador, o íalvou com toda a fua arte- lharia, agradecendo daquella forte o favor, que delle tinha recebido: e logo o Capitaõ Pi- loto Inglez com alguns outros ! prin-
3Sa jornada de principaes fe foraõ ao navio a render as graças ao Governa- dor, rcconhecendofe por obri- gados a feu taõ finguíar bem- feitor, e o Governador eíque cendofe de aggra vos recebidos, os tratou com benevolencia, e benignidade.Alguns marinhei- ros pela mayor parte Catholi- cos, que em peuoa naò pode- rão hir logo moftrar feu ani- mo agradecido, o fizeraó por carta, que efcreveraó, e a(l?g j naraõ, como aqui vay tresla dada fielmente: „ Senhor General. Agrade „ cemos todos a diligencia, que „o Senhor Capitaó de V. Se- „ nhoria tem feito com ElRey em
Antonio de Albuquerque. 383 „em nome de V. Senhoria, „ por onde ficamos livres das „ vidas, cjue eftavamos fenten- „ ciados ao fupplicio da morte; L mas como noíTo Senhor aco- j„ de aos mais deiamparados, a „ iflo achamos o patrocínio de í„ V. Senhoria para tal minif- ' „ terio, de que todos, e cada „hum em particular agradeça, „ e renda as graças a V. Senho- „ ria pelo tamanho beneficio; „ e como nos falta palavra i „ para conhecer , e agrade- „ cer os favores, e zelo Ca- „ tholico, como de V. Senho- „ ria , que fe naó fora elle, ef- „ tivéramos os que efcapaíle- „ mos vivos, infiéis, e os mor- tos
3% Jornada de „ tos fenti nome de Jefus; e no „ mais nos falta palavras. Te „ nha V. Senhoria muita vida, „e perfeita faudepara ampa- „ ro dos affligidos, como fo „ mos nefteGior.Guarde Deos „ a V. Senhoria,&c. „ Os mais humildes fervos Jntin BarVer, Domingos Coutinho^c.Seguem fe mais dez aííinados, que fe deixaõ por brevidade. Em conclufaõ deíleCapitu- lo quero aqui lançar o tefte j munho autnentico, que o Ca pitaõ Piloto}e os mais Officiaes do barco Inglez deraó ao Go vernador, em que fe confeííaõ obrigados na forma feguinte: „Confefíamos nòs abaixo afluía-
Antonio de Albuquerque. $85 „ affinados, Capitaõ, e maisj „ Officiaes, e gente da lotaçac j „do vergantim SuceeíTo, dej, I „que he Senhorio Meftre; i „ James Vvilliamum > Merca-j ! ,,dor Jotin Dean, que tendo) „ vindo aefte porto do Rey no • „ de Gior a fazer contrato,che- , gou também a efte no princi „pio de Outubro paíTado de „ arribada o Senhor Antonio „ de Albuquerque CoeIho,Go- vernador , e Capitaõ Gene- gra! da Cidade de Macao, aj; quem abaixo de Deos deve- 9 „ mos todos as vidas, e o dito „ Senhorio o vergantim , e asjf „ fazendas ; porque aíem doj „ dito Senhor nos ter ajudado,! j Rb para tn
J—p—T ■,) *Ea^sgsgsasCTg-cBK ■ 3 86 Jornada de „ para que o Rey padado, que „ perdeo o Reyno, nos íacisfi- „ zelfe a quantia de nove 3 ou „ dez mil patacas, o que tinha ,, promettido, e effeituara , íe „ naõ foífe a pouca verdade do „no(To Jerubaíía , também „ obrigou o Principe,que con« „ quiftou o Reyno para íe va „ler do dito Senhor, que nos „ íacisfizeííe adita quantia re- „ ferida , vifta a fogida do dico! ,i Rey,cujo Reyno o dito Prin*' „cipe conquiftava, íèndonòs , obrigados a ajudai lo no que „ podefíemos, de tudo o que , paliou o dito Príncipe Cha- , pa de obrigaçaõ ao dito Se* „ nhor, que entregou ao Capi- tao
Antonio de Albuquerque. 3 87 „ ta-5 Ricardo Langdon, qut „ Deos haja, e ultimamente 2 „ 8.deite mez de Abril, tendo i„ os Malayos morto o ditòCa-j j» picaõ Langdon, e fendo tam „ bem morto o noflo jerubaf- „ fã, em occaílaó , c|ue o Ca „ pitaõ Joaõ Tavares deVel ,, iez Guerreiro íe tinha vindo ,,deípedir do Principe Rey da „ parte do dito Senhor Gene- pafíando oditoPrinci „ pe ordem,para que todos foi „ icm mortos, tomando o ver S »>gancim, acodio o dito Capi ! »taó, pedindo ao Principe da „ parte do dito Senhor Gene- „ ral^ fufpendeííe a dita execu- çaõ, por quanto naõ havia de Bbij kr
• 5 88 Jornada de |„ ler contente delia , e Sua Al- „ teza como Teu amigo , e ir „ maõ , naó devia proceder „nella, fem lha dar alaber,j •, pois eraó também Euro peos >, amigos do dito Senhor Ge „ nera!. A'vifta do que man l„dou odito Príncipe
Antonio de Albuquerque. 389 „dita fupplica chegou, efta- „ vão já os ditos Malayos apo- „ derados do noíio vergantim,! ,efperando taõ fomente final, „para todos fermos mortos „em caio, que o dito Senhor „ não procuraííe por nòs, com „ a qual fupplica fomos per- „ dcados nas vidas, vergantim, „e fazendas, e nos mandou o dito Príncipe entregar ao fJ dito Senhor Governador, a „quem confeílamos dever o „ acima declarado, moftrando „ por efte o noíío reconheci- „ mento, pata em todo o tem- í „ po o naó deixarmos de con- 1 „ feííar , offerecendonos aíiim „ ao dito Senhor, em finai do Bb iij noflo
39° Jornada de , tf noífo agradecimento. Na „ barra de Gior,aos 17. de ■ „ Abril de 1718. annos „ (^jcli : Vvallis.Thom.Fra/on.Jotin Bar- ber. Danell Stingsbis, Eraó aííi- nados mais por lua ordem 21. com feu nome, efinal. A' vif- ta defte teftemunho, e dos pa- peis referidos nefte Capitulo, naõ refta mais, que fe poíía di- zer; eaffim naõ ha para que nos detenhamos nefta mate ria. Antes que of dous navios do Governador, e Ingiez fe apartem, he bem que naõ dei- xemos paliar em filencio húa notável acçaõ de piedade, e re- j ligiaõ do noíTo Governador. Hei
í Antonio cie Albuquerque. 391I iHeella , que como no barco' j Inglez havia ir.uitos marinhei-' Iros naícidos na Cofta , ecria-' dos com a doutrina Catholica,! e no dito barco íe naó uíavaó os Ritos Romanos , nem fe guardavaô os preceitos da Igre- ja , os ditos marinheiros Chrif- raos naó podiaõ fatisfazer às obrigaçoens de Catholicos ; o Jque vendo, e fabendo o Go- vernador , com íua ingenita propensão àscoufas da Igreja Romana, pedindo, ou uíando da authoridade, que alli íe ti- nha conciliado,obrigou ao Ca jpitaõ herege, que permictifle j 'aos ditos Catholicos íeus mari- nheiros , a que nos dias de Feí- Bbiiij ta!
,, 392 Jornada de j ta foílem ao Teu navio a ouvir MiíTa ; e naõ parando aqui o íeu pio , e generofo animo, mandava a lancha do íeu na viopara os conduzir, e junta mente para levar alguns Mou ros , que comíigo trazia, os quaes fervifíem no barco In- glez no tempo, que os Catho- licos aífiftiaó à MiíTa, obrando com huma única acçaõ dous heroicos a&os, hum de pieda de,e religião, outrodejuftiça, le he que le lha devia, em que fe naõ faltafíe ao neceííario íerviço do íeu barco$ e naõ obftante efía cautela , levava . tanto a mal oHerege a aííiílen-j ;CÍa a MiíTa dos Teus marinhei- ros,
Antonio de Albuquerque. 39? jros,que naõ podendo moftrar i ao Governador o difíabor grã ide, que difto tinha,omanifef jtava aos pobres Chriftaos, caí» tigandoos, quando delia vol- ta vaó para o barco. Finalmen- te, como e-ftavaó para íe apar- tarem os barcos, e era Tema na j Santa,ulando de mayor authc- ;ridade para aquelles, que íe re- iconheciaõ, e con feda vaó porj [obrigados, fez que todos aquel-j les marinheiros Catholicos fe confeííaíTem, e commungaí- fem em ordem a íatisfazerà obrigaçaõ do preceito da Igre- ja , couía, que naõ tinhaõ feito havia annos: que tal he a def- graça dos Catholicos, que vaó fervir
594 Jornada de fervir em barcos de Hereges: mas felices eftes, q acharaó a occaííaõ de hum tal Patrono,cj j naó fomente lhe defendeo as | vidas, e liberdade, mas tam» bem lhes livrou as almas do cativeiro do demonio. CAPITULO ultimo. Parte o Governador para Macao e dajfe noticia do que lhe (uc- cedeo no caminho. A Os 18. de Abril deraõ à véla os dous barcos, o tío Governador, e o do Inglezj eefte por quaíi todo acjuelle dia
Jntonio de Albuquerque. 3 9Ç1 dia foy fempre acompanhan- j do ao Governador, naó canto j por oblequio, quanro por me Ido das embarcaçoens Malayas, e fó quando fe vio fora, e lon- ge da barra deGior, feapar i tou , falvando com toda a fua jartelharia ao Governador.Foy trabalhofa a viagem , princi- palmente por falta de Piloto; porque hum íó, que havia no' navio, era falto de noticia, e ' experiencia daquella viagem: pelo que foy obrigado o Go- vernador a tomar à fua conta a í direcção delia, guiado de al- guma eftimativa, e reminif- cencias, que tinha das vezes, que paífou aquelles mares. Com
3 ç6 Jornada de Com efta determinaçaõ na noite daquelle meímo dia 18. mandou lançar ancora no mcyo do eftreito, que defem- boca para o fatal penedo, ini- migo das embarcaçoens, a que chamaó Pedra branca, naó íey fe tanto pela cor, que em fi tem , quanto pela que caufa( nos que de perto a aviftaô; e comrazaó, pois tem fervidof a tantos de naufragio, e de inf- trumento dajuftiça, e furor Divino, pagando nella íua fo berba , e cobiça. He perigofa, e terrivel,ainda aos mais expe- rimentados, e infignes Pilotos, affim porque fe coftuma ordi- nariamente pairar por junto delia
Jntonio cie Albuquerque. $9 7 delia eípacio de hum tiro de moíquete, como pelo grande baixo, que corre da parte do Oefte, que he o caminho, que coftuiraò fazer os barcos, que I vem do eftreito de Malaca. Rompeo o dia 19. de Abril com medonha carranca de ameaças, e finaes evidentes de furiofo vento,que eftava para íoprar ; o qual accreícentois tanto mais o medo, quanto mavor era o perigo da Pedra branca , que eftava por proa. A( vifta de taes annuncios, o provido, e experimentado Go vernador Piloto manda logo ao mefmo tempo fufpender a | ancora, recolher o eícaler, íe J gurar
] 98 Jornada de furar pela poupa a lancha , e esfazer outra, que trazia de relerva , paííar contrabraços ao Traquete, pôr gente capaz, e expedita nos topes, e diípor i tudo o mais neceflario para refiftir à tempeftade, e correr com ella feguro; e foy tudo executado com taõ feliz acer to,e opportuna conjunção, que o mefmo foy acabar com efta ijobra de acautelada preven j çaó, que começar hum tem : poral taó furiofo, que a naõ ef- , car o navio providamente pre j parado, corria evidente peri- go de fe perder. Foy necefía- rio dar a poupa ao vento, e . foy com taó bem fucceffo,que o na-
Antonio de Jlbuque* que. 399 o navio To com o Traquete, valendoíe das vigias dos topes, diftando adita Pedra nove lé- guas , donde eftava, paliando por junto delia, em tres horas e raeya fe achou ter o navio andado quatorze léguas; naõ jleaffaftando todo efte tempo o Governador do tombadilho, que coberto com hum capote, reííftiaà fúria do vento, e ri- gor da chuva, por acudir ao governo do navio, que ío do leu mando ,e direcção depen- dia a fegurança delle, e de tan tas vidas. Defta lorte livre o barco do perigo,íê avifinhou aPulolaot, | Ilha engraçadamente viftcfa, e fer-
400 Jornada de e tercil, aonde coftumaõ ordi- nariamente hir os barcos pro verle de frutas , galiinhas, e outras coufas neceíiarias. Per tence efta ao Rey de Gior, e tem alli feu Sibandar , que a governa. Como o navio trazia íómente o arroz neceífario agua , e carne de duas bufaras que o Rey tinha mandado d prefente ao Governador, e ef- ta va falto de outras coufas ne IcelTarias ,de que fenaõ tinha jfeito provimento em Gior, porquanto depois que feco meçaraó as guerras, com a gente, que fogia para os ma- tos , defappareciaó também cs ! mantimentos, julgou o Gover nador
Antonio de Albuquerque. 401 ! nador fe devia prover na dica | Ilha de algumas couías. Man- dou preparar hua lancha com agente neceílaria, e que le- valíeai hum lombreiro , cuf chapeo de Sol, dadiva , que o Rey de Gior tinha feito ao Capicaõ Joaó Tavares, e favor entre/outros íingular,com que por léus merecimentos o pre- miara , e com que naquelle Reynoienaó coftumaõ hon rar, fenaõ aos feus Grandes. Quanto que na Ilha oSibandar conheceo o fombreiro, nobre iníTgnia dos (eus mais honra dos Malayos, deíceo logo à : praya a render a devida hon ! ra , eobfequio, e executar as j Cc ordens j
' 402 Jornada de ordens, que fe lhe déíTem , e como encendeo quem era o que eftava no navio, e o que pertendia, procurou bufcar o j reírefco neceíTario , de que a Ilha naõ eílava muy abundan te; quando nefte tempo da par- te de terra fe começaò a en groííar as nuvens, e logo a fu- zilar com relampagos, e rom- per com eftrondofos trovoens, |e o que fe coftuma íeguir, fu- riofo vento,que ameaçava rui- j na ao navio, fe quizeíFe fiarle na ancora: pelo que o Gover- nador a toda a preflTa dando íinal à lancha, para que fe reco- jlheffe , procurou fazerfe ao mar, onde mais livre dos pe- rigos
Antonio de Albuquerque. 405 rigos da terra, rècebeííe os ar- rebatados Ímpetos do vento, ficando a gente da nao deícon- lolada com a falta de refrefco,; de que tanto neceílitava. Proíeguioíe a viagem até paliar Polocondor , Ilha, que! jfica nove grãos para o Norte, e ferve de baliza aos Pilotos, para fe livrarem dos baixos de Pulo Siííi, e Rabo de Lacrao;' e por mais que o Governador advertio ao Piloto navegaííe por fundo de trinta, e trinta e cinco braças em demanda da terra , para que affim foííe igualmente affaílado das cor-' rentes da boca de Camboja, e dos ditos baixos, foy tal a iner- Cc ij ciai
4.04 Jornada de cia daquelle Piloco, que deven- do hir tomar 2 cerra de Co- chinchina , fe hia embocando nos perigoíos baixos de Cam- boja, defo*te,que advertindo o Governador no lugar, em que fe achava , nunca pode conhe- cer qual fofíe, fendo que tinha òaftante noticia daqueílaCofta, pslo que julgou , que para lie- .Turaríe , devia buícar tundo, em que commodamence iur- giííe, o que fez em altura de iete braças,ate que a obíerva- caó do Sol podeííe dar a conhe- ,cer, que terra foíTe aquella, Sonde eftavaõ, Finalmente lu- zio o dia com Sol claro, que a hora competente íe pode to- ma r,
! Antonio de Albuquerque. 405! 'mar, mas a altura do Sol naó| concordava com a íituaçacda! I Cofta defcrita nas Cartas dej j marear. Entra nefte caio o Pi-í i loto em confuíos labyrinthos, ei |perturbadas íantafías, íemque jpodeile darrazaó deíí, nem ! da viagem, que levava. Accreí-1 centou o medo , e perturbaçao .o vento algum tanto rijo, e |contrario , que começou aaí- jfoprar. Difficultofo he o paf- ífo, que íe dá por caminho ce- ' go, e milito mais,fe quem guia 1 o caminho, também he cego! j Naõdelmayou o Governa- j j dor, manda fazer na volta do 1 mar; carrega o vento , e com jelle as correntes para as bocas, l Cc iij que
406 Jornada de que abria a Cofta; e como ef- tas eraõ arrebatadas, ainda que o vento impellia o navio, aju- dado do leme para o mar, ellas como mais poderoías,e fen ho- ras díquella Cofta, naó cediaõ ao vento,antes íoberbamente o venciaõ, elevavaó o navio para terra ; de tal forte, que em pouco tempo defcahio tres léguas para Oefte. Que reme- dio ? Manda o Governador dar fundo em doze braças,e diípondoíe para levar íobre ancoras o temporal, que ef* pantofas, e cerradas as nuvens ameaçavaõ, como prudente q era, tratou com todo o afin- co de íe certificar, que terra era
j Antonio de Albuquerque, 407 j J era a que apparecia , quando o primeiro grao da providente cautela he conhecer o inimi- go , de que íe deve fugir; e de- pois de varias conferencias com o Piloto,e Cartas,(e aíTen- tou , que era a boca de Cam- boja, taõ cerrada de baixos, que metia horror , efpecial-, iraente a quem naó tinha expe- ! riencia daquella entrada. Por 'canto a reíoluçaó acertada foy ! dobrar ancoras, e amarras, e, iefperar mudança de vento fa-j jvoravel. Entre tanto começa- j raó a encreíparfe as ondas def*, i afiadas do vento, que furioti-; mente fehia embravecendo, ■ e defcarregaraõ Tua cólera noj Cc iij navio .
4o8 Jornada de navio com canto impero, que parecia o pertendiaó fepuitar. Foy neceííario arriar todos os maftareos, e vergas, para que aquelíe bruto, e furioío com- bate tivcííe menos em que fa-, zer Teus golpes. Carregou a; noite com horríveis trevas, e a vifta deitas, tomando mayor ouladiaa tempeftade,defcarre- gou coro mais força. Entra o medo em todos, de que faltan- do as amarras, o navio embar-, rafie em terra , e fe fízeííe em pedaços comdifpendio detan tas vidas. Entre tantas affli- çoens , e perigos , o Padre .Capeliao tomou por expedi- .ente remedio o dos exorcif- ir.os,
i Antonio de Albuquerque. 409 mos , quecheyo de confiança cm Deos devota, e compungi- damente fez contra a tempeí- tade; e o Governador a exem- plo do A poftolo da índia S.Frã- cifco Xavier , deitou reliquias ; de antos ao mar , e com bom • Tucceflo , pois antes de ama- nhecer focegou algum tanto; a tempeftade,e o mar/entindo; aquelle infenfível elemento a efricscia da virtude Divina , e jdos merecimentos dos Santos. Succedeo naquella noite huma coufa oaõ medonha, quaõ ridicula. Seriaõdez ho- ras da noite, quando o Gover- nador obíervou , que arreben- tavaõ os mares pela poupa. En- tra i
\ 41 o Jornada de era providamente (olicito em duvida, fe feriaó baixos, que antes com a perturbaçaõ, por cauíada principiada tempefta- de, fe naõ advertiraó; manda fecretamente pefíoa de fua confiança} que da poupa com cuidado obferve, e examine,! fe aquelle reluzente quebrar:' de ondas perfeverava no mef- tiio lugar, e achoufe, que era permanente. Mais cuidado da- va ao Governador a perturba- çaõ,q cau faria aquelle acciden- te à gente da nao, do q o mef- mo accidéte; por tanto poz to- da a cautela, para qefta fe naó alterafle : quando pela parte de bombordo apparece outro final
Antonio de Albuquerque, 411 í final, reluzindo o mar com al- vejantes ondas. Perturboufe a gente igualmente medrofa,c]ue defconfiada das vidas, acode ao Governador pedindo, que levando ancoras, fe faça à xè- la ; mas efte perrendendo foce- !gallos, moftrava íer aquelle re-i imédio inútil, e improporcio.j I nado, e o proprio era confiarfe j i nas ancoras, e eíperar , que: |amainafleo temporal; porque! aquelles íínaes íeeraõ de ver- dadeiros baixos, naò falhando as ancoras, e amarras, naõ ha- via que temer; e mais digno de temor era levar ancora, e largar vela,fiando o navio da inconftancia dos mares, e cor- rentes
412 Jornada de rentes cora evidente perigo de j de cahir nos apparentes baixos. Aflim flu&uavaô, naõ me-| nos o navio, que os ânimos da-1 quella gente em cega confu- laó, quando o Governador re- para , que aquelies reprefenta- dos baixos fe vinhaõ chegan ! dopara o navio. Nefte paíío^ os marinheiros perderaó o ti-; no, e perfuadindofe, q eraõ,ou! fantaímas marinhas,ou as Ilhas; nadadoras, que no mar Egeo j fingio a fabulofa Grécia, pedi- rão ao Padre Capellaõ lhes fi- zeííeos exorcifmos. O Gover- nador entre riío, e impaciên- cia, advertindo já o queaquil- lo poderia fer, osexhortou ,a
Antonio de Albuquerque. 41 ? que depozeflTem o medo,quan- do cardumes de pequenos pei xes, ou çargaííos, ou outros quaesquer partos do mar.leva dos à toa da agua , naó eraó ibaftante cauía para affim os 'perturbar, e obrigar a valerfe |lios exorciímos. Finalmente ■ íe focegou a gente algum tan- to com o que ouvio ao Gover- nador, e a luz do dia os acabou de ferenar, experimentando I com feus olhos, fer verdade o 3 que às efcuras tinhaó ouvido: eem dez dias, que durou o vento contrario , peia qual cauía íoy neceíTario, que o na- vio eftiveííe alli ancorado, íe viraó aquelles flutuantes bai xos,
1414 Jornada de xos, ou ilhotas de ovas de pei-l xe, que entravaõ pela boca da-1 quellerio com acorrente em! tanta quantidade, e taõ juntas,! que faziaófuas divifoens,eca-j minhos;ecomo as noites eraó efcuras, a efcuma das ondas re | batidas entre aquelas partosI marítimos, reprefentavaõ bai- xos.PalTados dez dias,moftran- dofe o tempo algum tanto mais favoravel, fe foy coftean- j do a terra,fempre com a fonda jna maõ , e lancha expedita, j porque era neceííario paílar | pelos baixos, e vencidos eftes, íe foy navegando com baftan- te trabalho,ate que finalmente :aos 2 de Mayo íe aviftou ter- ra da China. Anni
4*6 jornada de ias frefcas, e verdura para o! comer , e fóufavaódemanri-j mentos falgados, davaõ rna-i yor pafto à doença, e comera-j raõ muitos a inchar; e afíim! que fe aviftou terra da China, dous, nosquaes o mal tinha lançado mayores raizes, quaíi de repente,e fatiando acabaraó feus dias. Dava grande molef- tia ao Governador ver a íua [gente taõ affli&a ,e naõ poder jremedialla j mas procurava jconfolalla do melhor modo, ;que podia; e ainda que eftava [algum tanto tocado da meíma enfermidade, nem por ido dei- xava de defcer a viíitar , e ani- jmar os enfermos, foccorren- l do os
A ttonio de Albuquerque, 417 do-os com o que havia; ede cal force difl/mulava o mal, que fentia, que para dar ani mo acs defcahidos, e moílrar, quetinhaõ Pay, quedelles ti vefte cuidado, fe fingia fam, e expedito para os conlolar em Tuas moleftias,e affliçoens. Finalmente o Piloto pouco experimentado, perfuadindo jíe, contra a eftimativa doGo i vernador, que eftava mais a Leite, do que na verdade era, j deu com o navio emfecono j tempo, que o Governador fe i tinha recolhido na Camera ! para deícançar ; mas paliadas j algumas horas com a enchente j da maré fahindo daquelle lu jl Dd garjj
41Jornada de gar aos 25. de Mayo embocou pelo canal, que vay entre as duas Ilhas, das quaes a queef- tá à maõ direita , he a que te- ve a felicidade de receber em (1 o incêndio do amor Divino, e zelo das almas, o grande A- poftolo das índiasSaó Francif- co Xavier , chamada vulgar- mente Sanchuaô , ou Xam chuen, como dizem os Chinas. Como o Governador eftava com a doença de que íe fez menção, foy cbrigado a def- embarcar, dizendo o Medico! Fr. Angelo , que fe naó defem barcava , certamente morreria • em termo de 24. horas. Em terra foy bem tratado dos Chi ! nas
Antonio de Albuquerque. 419 nas naturaes; mas como era necefTario para melhorar, vir j logo para Macao, íe meteo em | huma barca Cínica, baílante- II mente petrechada,na qual chc- ;gou a Macao aos 29. do dito jmez de Mayo, e logo foy con-' [dúzido pelos Reverendos Pa- jdres da Companhia de Jefu .para o leu Collegio, aonde a primeira entrada, que fez, foy na Igreja, render as graças à ! Chrifto Sacramentado por taõ j íingulares benefícios, alcança-í jdos da Divina mifericordia je |lcgo encaminhando-fe paraa Capella de Saõ Francifco Xa- vier , onde feexpoz a relíquia do feu Sagrado braço, devota- j Dd ij ment |
420 Jornada de mente a beijou , e facrificou nas aras daquelle grande Apof- tolo nao menos íua affe&uo- la piedade, que o governo, de que vinha tomar pofle, pro teftando mais com o coraçaõ, do que com a boca o defejot que tinha de fe pôr debaixo de l ua protecção; e como per ten- dia logo no feguinte dia tomar poíTe do governo , como na verdade tomou com toda a paz, e quietaçaõ, procurou primeiro aliftarfe debaixo da bandeira defte grande Genera- liílimo do Oriente, aííentan- do com figo, que íeguindo as maximas de tal Antefignano, quanto feu eftado lhe permitif
Antonio de Albuquerque. 421 j fe, todas fuás emprezas teriaôl o acercado fim , ou foílem di- rigidas pelas regras da pruden-! cia,ou livradas na bem funda- 1 da efperança da fortuna , cu 1 movidas de huma necefíaria refoluçaó, ou finalmente leva- das do zelo da honra Divina, e! i fervido de Sua Mageftade. Ej certamente os principies do; feu governo , fundados nas re- gras da Chriftandade, e bene volencia, com que procura at- trahir aos mal contentes, cor tando muitas vezes por fí, daó a entender quaes feraõ feus progreíTos,aflim nas bem acer- tadas maximas do feu proce- der , como no augmento tem Dd iij poral
4 2 2 Jornada de poral da Cidade, que a Divina bondade começou a profperar com muitos, e ricos barcos, de- pois de huma fumma pobreza, e defamparo. Seja tudo para mayor gloria Divina , e bem temporal,e efpiritual deita Ci dadedeMacao, edas Miíloens dependentes delia. F I M.
INDEX DOS CAPÍTULOS da primeira parte defte livro. CAP. I. Oufas fucce- y. j didas de Goa atè entrar nas ter- ras do %eyno do Canará. Foi. f. CAP.II. Profegne-fe a jor- nada atè erívefkir o caminho dos Gates. 7, Dd iiij CAP.
4*4 INDEX. CAP.III. Succejfo no atra- í/oí GÍJ^Í , atè chegar ao %ey- no de Maijfur. 57. ; CAP,1V. Tajfagem do %ey- no de Maijfur atè entrar nas terras do Mogor. 84. CAP. V. Succedido na 'Pra- ça de Felur, 105. CAP.VI. VefcreVefe a entra- da, que o Governa- dor fe^ na Fortale- za de Felur , e o mais quepaffou. 127. CAP.VII. Tarte o Governa- dor pata a Cidade de Sao Thomè, e àalli Vay aMadraf- tapaõ
INDEX. 425 tapao ,e o que lhe Juccedeo nejjes lu- gares. 147. C\?.VlU.Embarca/e o Go• yernador para Ma- cao , e refere fe o que lhe fuccedeo atè chegar ao %eyno de Gior. 167. SEGUNDA PARTE. CAP.I. ${efere-fe o Jucce- dido em Giory e dal- li atè Mac ao. 187. Toçao-fe algumas ccufas pertencentes ao %ejno de Gior. ibi. CAP. IL Entra o Governa- dor
42Ó INDEX. dor em Gior , e o que lhe fuccedeo nos primeiros dias. 205. CAP. III. (Referem-fe outras coufas fuccedidas naquelles dias. 2 21. CAP. IV. Tede o ^ey deGior foccorro ao Gover- nador contra ^aia- quichil: referem-fe as coufas, t o que pajfou nejla maté- ria. 245. CAP* V. Conta-fe o que paj- fou entre %aiaqui- chil, eo Governa- dor» 27 \» CAP. VI. %§lataÕ-fe algu- mas diffetenças,# 0G0•
INDEX. 427 o Governador te- ve com os Ingle- %es, e outros. 3 04. CAP. VII. Toma o Governa» dor folemne pofje do lugar para a Igreja. 320. CAP.VIII.Patrocina o Go- vernador os Inole- ò %es, e o feu 'Bar- co. 540. CAP.ultim.^íjrfeo Governa- dor para Afacão, e da-Je noticiado qut lhe juccedeo no caminho. 394. F I M