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O' fttoblema do Sxttemo- Otiente
DO AUTOR: Discurso de saudação á embaixada académica brasileira (1934). liãlia 0 »/. (1936). EM PREPARAÇÃO BIBLIOTECA DOS ENSAIOS DE VULGARIZAÇÃO CULTURAL V N. 2 ‘'Temas de sempre".
da tfama. ^Tetnandei ( ^ in\ ■ s;r% 1 V'" . . •• *Xft V :' ^ r\V> ?“ to till £ ama do . /&133209 xttamo Ot lenta fótopoiição. I— A/ótula. II— Keeotdatótío. III— A/o tablado dai lutai. IV— O novo mattítio da (dhina. 19 37 EDIÇÃO DO AUTOR
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A tojflolLcao Há um certo e determinado número de problemas que estão latentes no espírito humano. Vivem dentro dêle, martirizam-no ou deleitam-no. O sub-consciente gira à sua volta procurando almejada saída ou uma materialização coerente e lógica — uma espécie de gtavação vital de sentimentos dispares, envoltos pela neblina do inconformismo creador e dinâmico. Ê de todos os tempos e será para sempre o drama gigantesco da espiritualidade anónima, confusa, in¬ disciplinada que na curva ascencional ou descencional da Humanidade se esforça por emprestar sentido a uma amálgama de conceitos subjectivos. Ao contrário de muitos, sou daqueles que homena¬ geiam essa perene insatisfação espiritual, êsse cons¬ tante marchar para a meta da perfeição, especial an¬ gústia que trazendo nos seus flancos o tormento e a indecisão é, também, e paralelamente, portadora de novas ideias, de princípios condutores, de estilos per- Z
feitos, segundo os quais, e seguindo Fidelino de Fi¬ gueiredo, se ergue o edifício magestoso da cultura. Adentro dos agregados, por mais homogéneos que pareçam, subsistem diversidades de climas, usando da expressão em vóga e primeiramente imortalizada por André Maurois. Podem viver no mesmo mar da Inteligência correntes divergentes de opiniões, prin¬ cípios basilares que norteiem o homem na sua ânsia legítima de derrubar incógnitas, mas há qualquer coisa de uno e coeso a alicerçar tõdas as consciências equilibradas, venham elas donde vierem, demandem ou não portos de abrigo espirituais, aparentemente di¬ ferentes: Ê o desejo veemente de realizar um ideal humano de cultura e, atravez dêle, dotar a pobre Humanidade que nós somos de meios persuasivos e elegantes, capazes de arrostar as dúvidas cruciantes do presente e as intempéries calamitosas do porvir incerto. Nessa corrente empolgante nos enquadramos. Como todos quantos entendem que a existência do Homem à superfície da terra é mais qualquer coisa do que um triste pormenor geológico, também so¬ fremos por nós próprios e pelos outros, sentindo as dúvidas da investigação operosa e triunfante, tortu¬ rando-nos com a decifração esforçada dos fenómenos que se sentem mas não se traduzem e alegrando-nos com a claridade esbelta das conquistas sólidas do 8
mundo mental que possam, como Sísifos em labor estuante, conduzir ao alto das montanhas iluminadas o pedregulho disforme desta neurose inquieta. Qualquer que seja o campo aonde nos coloquemos, o «homem de bem», sem aplicar à expressão o men¬ tiroso conceito do convencionalismo obsoleto, en¬ contra no seu semelhante fios condutores de ideias comuns, aos quais solidàriamente lhe não repugna prestar vénia e respeito. Entenebrece-se-lhe a alma o espectáculo confrangedor das misérias físicas e mo¬ rais, da mesma forma como engalana o espirito com as merecidas vitórias da razão e da justiça. Almeja, portanto, soluções práticas que remedeiem males ou destruam incongruências. Ê a unidade augusta dos intuitos alevantados, cuja inobservância cria os re¬ voltados. Ê tudo isto, como já afirmei anteriormente, a Cultura. Já não se dá aqui ao têrmo o significado arcaico de conformidade com as descobertas da ciência, ser¬ vilismo perigoso e negativista. Pretendesse pelo con¬ trário, recordando a definição dum alto espírito por¬ tuguês e amigo meu muito querido, conformar o cabedal de conhecimentos humanos com uma série de postulados que constituem a súmula indispensável para o viver individual e, numa extensão acariciadora, para o viver atribulado das sociedades tumultuosas. 9.
Foi assim, e assim pousando, que o auor destas linhas, num âmbito de compreensivo patrioismo, elo- giou, ainda recentemente, em conferêncà pública, os valores da literatura nacional, sem cura- das suas paixões, guiado unicamente pelo norte kmroso de chamar a atenção, tantas vezes descuidadi dos seus compatriotas, para os clercs do pensameno contem¬ porâneo português que, no campo da especulação literária, não podem merecer a exautoraçã, de Julião Benda. E não é outra a sua intenção ao encetir a publi¬ cação semestral destes modestos ensaios. Materializar conhecimentos que vagieiam sem bússola no mare magnum da vida inter-p>pulos; ex¬ plicar ou pretender explicar acontecimertos que se sucedem no teatro da hora que passa; ernaiar novas modalidades que correm em abstracto nas que se impõe concretizar; arranjar, pelo menos, una explica- çãozinha para aqueles fenómenos confusas e nebu¬ losos que nos envolvem e querem subverter — eis o programa dos ensaios de vulgarização ciltural cujo N.° 1 aparece agora. E mais compensado ainda se sentiria > seu autor se, atravez dêle, outros mais competente: enfrentas¬ sem as dificuldades apresentadas, lobrigando solu¬ ções mais consentâneas com as realidad-s. Modesto soldado do exército luminosoda Cultura 1Q
aqui estamos para acatar os que saibam comandar e que, nas paragens voluntariosas do Bem, esclareçam e dinamizem, preparando o novo tipo de Homem que, nas profundezas do futuro, erga as construções aonde todos possam caber sem se acotovelarem, edificando as fortes barreiras da civilização interior que salvará definitivamente o mundo das catástrofes irremediᬠveis e trágicas. Que feliz se sentiria o autor destes ensaios se fôsse é/e o mais insignificante dos obreiros dêsse ámanhã promissor! * Não se julgue por êste introito que se vai presen¬ ciar aqui, e em ensaios sucessivos, uma tola expla¬ nação de cultura baratuncha, profundamente superfi ciai, como é geito da gente lusa. Como pequenos subsídios para uma metódica compreensão, os ensaios de vulgarização cultural vão, por certo, de encontro ao desejo de muitos; de outros vão merecer rectificações amistosas — o que é louvᬠvel — e, dum pequeno número, críticas à sua lombada pouco vistosa — o que é pernicioso... Para aqueles que já subiram a escada dos totais conhecimentos que Eça consagrou na pessoa do Topsius da «Relíquia» — estes ensaios nada valem. Como subsídios que são dirigem-se êles para aquela categoria de homens que cursam uma espécie de 11
propedêutica de cultura e que, acima das obse- diantes preocupações materialistas, querem banhar o espírito com a água lustral da imparcial observação dos factos. A par de fenómenos internacionais — que é a índole do seu número primeiro — os ensaios cuidarão dos problemas da Nação, observando os valores que se agigantam e intervindo, educadamente, na com¬ plexidade das filosofias e das mentalidades que desa¬ brochem prometedoramente. Saberá arredar partida- rismos, seitas, igreginhas e preferências pessoais. Será feita Justiça a todos que a mereçam e, no seu plano de trabalho, os ensaios dedicarão as suas pᬠginas na constante valorização da nossa grei, amando a terra que nos foi mãi e que é o motivo mais po¬ deroso desta vigília. Embora republicano por inteligência e por senti¬ mento o autor destes ensaios não se enfeudará e não cometerá a enormidade de analizar os problemas pelas lunetas unilaterais do seu pensamento. A cultura e a sua vulgarização não têm fronteiras. Galgam-nas e, na sua batalha esclarecedora, pro¬ curarão a Verdade aonde ela estiver e, trazendo-a ao tablado das discussões, ergue-la-ão á postura digna. Desenganem-se, portanto, aqueles que nos julguem erradamente e aguardemos serenamente que o pre¬ sente e o futuro saibam julgar os propósitos do por- 12
tuguês que, para além da Pátria que estremece, mais nada vê do que a felicidade humana, servida por uma Cultura compreensiva, que levante nos alicer~ ces a civilização generosa, guardiã heroica dos dias e das noites em que viverão os pequeninos seres que despontam, entre os quais brinca e se amofina a filha a quem dedica o livrinho que se vai ler. Alcobaça, Outubro de 1937. Vasco da Gama Fernandes I 13
o PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE I_ //ótuta ^uan<^° na «Vida Contem¬ porânea» desempenhámos o lugar de redactor principal, sob a direcção in¬ teligente e patriótica de Cunha Leal, encon¬ trava-se o Extremo-Oriente numa das suas fases de agudez bélica. O imperialismo nipó- nico talava de novo os campos da China már¬ tir, arrazando cidades e povoados, ceifando vidas indefesas, espalhando a morte numa jornada sangrenta e cobarde. Seria crime imperdoável duma revista por¬ tuguesa anti-imperialista, sentinela vigilante dos interesses nacionais em perigo com a adopção de semelhante filosofia de destrui¬ ção, com vista às terras ultramarinas creadas por nossos maiores e sustentada com o es¬ forço dadivoso da grei, permanecer impas¬ sível perante a derrocada da moral interna¬ cional nos mares do Pacífico. Assim resolveu- -se encetar nas suas colunas uma campanha tenaz a favor da China, acusando-se o Japão das suas truculências sem nome e reclamando- -se, embora no deserto, por um intervenciona- lismo da comunidade em prol dum país de enormes recursos e que, nos últimos tempos, parecia querer enfileirar com os seus colegas M
0 PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE de Génebra numa obra civilizadora de real merecimento. Coube-nos a nós a honra de escrever algu¬ mas palavras sôbre o assunto e. desta forma, em números sucessivos verberamos o insó¬ lito procedimento japonês, mostrando a sua tremenda injustiça de querer, à fôrça de pól¬ vora e de gazes, escravizar uma Nação inde¬ pendente e membro activo da Sociedade. Mais tarde e, a dentro do mesmo plano huma¬ nitário, proferimos, a convite da directoria do Centro de Estudos Económicos e Interna¬ cionais, uma conferência, na séde da Univer¬ sidade Popular Portuguesa, em Lisboa, sôbre os problemas do Oceano Pacifico, entre os quais a guerra sino-japonesa ocupava proe¬ minente lugar. Ou porque a campanha na «Vida Contem¬ porânea» fôsse tenaz e persistente, ou por qualquer razão por nós desconhecida, mas que não interessa, a Legação Japonesa em Portugal honrou a revista e honrou o seu modesto colaborador com pedidos de pre¬ tensas rectificações, vindo a lume, por nosso amável consenso, algumas notas dessa Le¬ gação, com transcrições de discursos do Mi¬ nistro dos Negócios Estrangeiros, Sr. Hirota,
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE e demais noticiário contraditório dos nossos pontos de vista. Nunca a revista se negou a publicar as no¬ ticias do representante japonês no nosso país, embora elas nem superficialmente a convencessem da sem razão da campanha. Pelo contrário intensificámos ainda mais, se fósse possível, essa campanha, rebatendo afirmações novas e apontando exemplos fri- zantes e contundentes que quebravam o ramo de oliveira que o sr. Hirota brandia, à ma¬ neira de chicote, para convencer estranhos e martirizar o corpo ensanguentado da China. Desta forma, e pelo que fica relatado, somos de há muito um apaixonado das ques¬ tões do Extremo-Oriente, procurando, como podemos e sabemos, estudá-las nos por¬ menores, começando logicamente por obser¬ var a vida e os interesses das potências em jógo, mostrando o alcance dos imperialismos em luta para assim tirar aquelas ilações que a nossa consciência indicava serem as melhores. É claro que a paixão da pugna jornalística da «Vida Contemporânea» não moverá o autor nesta fase de observação calma dos acontecimentos. E a prova disso encontrá- -la-ão os leitores quando sentirem nestas pá- 16
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE ginas a mesma repulsa pelo imperialismo ja¬ ponês. como pelo inglês, mais fleugmático, pelo russo e francês, mais calculado ou pelo yankee de unhas mercantilistas... Mas a par dessa natural repulsa pela sanha mavórtica dos bárbaros de todos os continen¬ tes e de tôdas as condições aqui ficará tam¬ bém os encómios merecidos aos esforços gi- gantêscos de reconstrução levados a cabo, tanto por um Japão, monárquico, como por uns Estados Unidos, submetidos à experiên¬ cia democrata da economia rooseveltiana. Nestas condições o problema complexo do Extremo-Oriente é, sem dúvida, um problema de cultura, pelos ideais que se batem e pelas civilizações que se erguem voluntariosas na luta apocalítica. Observá-lo nêste cantinho da Europa — desta Europa que no conflito distante tem tremendas responsabilidades pela fúria mate¬ rialista da sua internacional de armamentos — parece-nos propósito louvável e, assim, aqui, ensaiamos, parcamente, a sua inter¬ pretação. 17 X
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE TT JO j ., • Intercalemos uma I 1 - ■Acecotda.totio namtona a pequena e ínsuh- ciente imagem retrospectiva para, posterior- mente, em comparação com o presente, se compreender a grandeza da questão do Pa¬ cífico, um dos pontos nevrálgicos da hora internacional. Vejamos, primeiramente, algo do passado da história da China, seguindo a sistematização do Prof. Jean Escarra, na sua obra «La Chine», admirável repositório de ensinamentos sôbre o enorme país asiático. Dividamos a história chinesa nas seguintes categorias: 1. ” Período das crenças mitológicas, con¬ fuso e embrenhado em estranhas filosofias que pretendiam encontrar a origem do país há 500.000 anos. 2. ° Períodos de Fou-hi — inventor da es¬ crita (2852 a. J. C.); Chen-Mong — protector da agricultura e da medicina; Houang-ti — inventor do calendário e de Jao com o seu genro Chouen. 3.6 Período das três dinastias reais com os soberanos Wou, Tche'ng, K’ang, Tchcau e Mou, cujas façanhas inspiraram uma lite¬ ratura romanesca. 18.
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE 4. ° Período do Rei Sinan (827-782) onde principia verdadeiramente a história da China em face de documentos manuseáveis, caracte- rizada por uma interessante efervescência de ideias sociais, políticas e literárias, que aliás caracterizou tôda a dinastia dos Tcheou. 5. ° Período da repartição da China por vinte principados feudais e reinos. 6. ° Período da unificação violenta, pejada de lutas cruéis, sob o comando do rei Tcheng que alguns historiadores consideram o pri¬ meiro imperador. 7. ° Período das dinastias de Ts’iu (221 - -207), caracterizado pelo combate aos ho¬ mens de letras e aos apóstolos do confucio- nismo e levantamento das últimas barreiras da grande muralha, opondo-se às impertinên¬ cias dos mongois; dos Han, em que se vis¬ lumbram os primeiros desejos de intercâmbio com o mundo greco-latino, e uma férrea von¬ tade imperialista na conquista dos países sino- -anamitas e da Coreia, o que não quebrantou, no entanto, um glorioso incremento à cultura búdica e ocidental. 8. ° Período das invasões bárbaras do século IV, com a fundação de alguns estados hunos, mongois e turcos no norte do país. 19
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE 9. ° Período de restabelecimento da hege¬ monia no Extremo-Oriente, depois de três séculos de amortecimentos, sob a chefia do imperador Sonei (589), após os combates com os anamitas, com os habitantes da Ilha Formosa e com os turcos, vindo a derrubar a dinastia uma expedição desastrosa à Coreia. 10. ° Período da dinastia dos T’angs — período em que, na opinião do Prof. Escarra, apareceu o maior Soberano que teve a China, homem de rija têmpera que se empenhou no florescimento das letras e das artes e codi¬ ficou as leis, como se pode estudar na obra do cit. Prof. «Les Sources du droit positif actuel de la Chine». Fóra uma pequena pausa, pelo aparecimento infeliz de Wou Heou, o império dos T’angs atingiu, na sua faina expansionista, as regiões distantes da Arábia, alcançando o Tibet e anexando parte da Coreia. 11. ° Período das novas guerras civis (907-960), no decurso do qual se sucederam nada menos de cinco dinastias desgovernadas que perderam o Anaam e a Coreia. 12. ° Período das dinastias de Song, dos Yuan (mongol), de Ming e de Tsing (mand- chu): Na primeira, a par de retaliações intes- 20
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE tinas, floresceu a literatura e as artes, tão apreciadas no «Quinsay» de Marco Polo; na segunda, em que governou o imperador Yuan, classificado por R. Grousset como o «mais poderoso senhor de gentes, de terras e de te¬ souros que se conhecem no mundo, desde o tempo de Adão até aos nossos dias», esboça- -se uma meritória tentativa de aproximação intelectual, convivendo na côrte, Marco Polo, Oderic de Pordemone e Guilhaume de Prato, que, posteriormente, viriam depõr nos seus livros, com encómios e louvores; na terceira mais propensa às reviviscências tradicionais, em que se notabilizou o incremento à cerâmica. Foi nesta dinastia que se deu a primeira guerra sino-japonesa, e os portugueses, entre 1549 e 1557, se estabeleceram em Macau; na quarta em que se intensificou a infiltração mandchu, cuidando-se das letras e recebendo- -se a primeira missão inglesa que, desastra¬ damente, traria a assinatura do tratado de Nankim, fio condutor de mais ousadas inves¬ tidas britânicas e franco-russas na China. Sustentaram-se guerras com a França, com a perda da Indochina, e permitiu-se o mais efectivo acesso japonês ao continente; a in¬ surreição dos Boxers, séde das Legações, 21
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE trouxe como resultado a assinatura do Pro¬ tocolo de 7 de Setembro de 1901 e, conse- qiientemente, a permissão à Rússia de cons¬ truir o caminho de ferro do Este chinês e, fi¬ nalmente, o tratado de Portsmouth, de 22 de Dezembro de 1905, que ergueu, definitiva¬ mente, o Japão. 13.° Período da República em que o novo regime, de forma atribulada, sem sufrágio e veladamente democrata é proclamado, em 1911, por Sun Yat-Sen, ensanguentado em 1915 e 1917 pelas tentativas goradas de res¬ tabelecimento imperialista por parte de Yuan Che-K’ai e Tchang Hium. Funda-se o conhe¬ cido partido nacionalista «Kouo-Mim Tang», chefiado pelo fervoroso patriotismo de Sun Yat-Sen. * Faltando-lhe uma ética republicana — pro¬ blema mais complicado do que parece à pri¬ meira vista — a China nunca poderia impri¬ mir à sua vida interna um impulso democrata, Capaz de lançar o pais na senda das mais alevantadas reivindicações sociais, mau grado os eminentes desejos de Sun Yat-Sen — amado e venerado como herói nacional. 22
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE Não se tratava de uma obra de periferia política em que os três princípios basilares do «Kouo-Min Tang»— nacionalismo (min tsou), democracia (min K’inam) e felicidade do povo (min cheng) —vingassem, definiti¬ vamente, vazando a vida confusa da China em moldes hodiernos. Daí o período anár¬ quico que decorre desde 1912 a 1928 em que a escuridão do palco chinês era só fugitiva-’ mente iluminado pelo talento de Sun Yat-Sen. atra vez dos seus discípulos. No entanto é justo dizer-se que de 1928 a esta parte a economia e a orgânica política da Nova China mostravam reais inclinações de modernização, a tal ponto que o insuspeito depoimento de M. Cameron, chefe duma missão económica norte-americana, rezava o seguinte, suficientemente esclarecedor: «Depois de cinco anos o Govêmo Central, cujo poder se não estendia além de cinco pro¬ víncias próximas de Changai e da costa, exerce agora uma autoridade muito mais efectiva sôbre uma dúzia de províncias do centro e fiscaliza, ainda que em menor grau, outras, entre as populosas e as mais impor¬ tantes do país, e tôdas sentem a influência vivificante da Nova China. Duas províncias 23
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE situadas na extremidade sul do país, as pro¬ víncias da fronteira soviética e uma parte da China do Norte onde o «controle» do Go- vêrno não é completo, é tudo o que resta fóra do grupo de províncias controladas pelo poder central». Não andaremos, pois, longe da verdade afirmando que o panorama animador da Nova China começa a alargar-se para novos horizontes em 1928, para cá, na altura em que Cameron a visitou e que foi, nessa data, que os postulados humanitários do «Kouo- -Min Tang» iniciaram a sua luminosa tra- jectória. Já Sun Yat-Sen reconhecera a im¬ possibilidade de modificar estruturalmente a China, adaptando-a às instituições republi¬ canas recenvindas e, nessa conformidade, os seus continuadores ousados empenharam-se numa obra de gradual adaptação que iria das operações militares indispensáveis, até à for¬ mação das corporativas, agregando as gran¬ des massas populacionais de operários, com passagem por uma «pedagógica» tutela po¬ lítica. preparadora da nova consciência oriental. Que êsse labor gradual de revigoramento económico e político se ía efectuando inteli- 24
0 PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE gentemente prova-o o relatório da Sociedade das Nações, subscrito por uma comissão de técnicos que visitaram o país, em 1935, em que se salienta «o ardor, o entusiasmo e o esforço dos chefes e dos seus colaboradores na obra de reconstrução económica e técnica» e em que se assinala, além dum claro entendi¬ mento entre o Governo central e os gòvêrnos provinciais, as tendências das massas interes- sando-se pela obra empreendida, e pela «sua adaptação ao caso chinês». Para que a comissão internacional visitante chegasse a tão animadoras conclusões deveria por certo conhecer de perto os pormenores da libertação china atravez da sua admirável reforma judiciária, modernizada em 1928, do incremento à instrução pública, saída do caos e hoje com vários graus de ensino mi¬ nistrados em mais de 260.000 escolas, ale¬ gradas com uma multidão de 12 milhões de almas, para as quais ainda o Estado creou a «Science Society of China», a «Academia Sinica» e as babilónicas bibliotecas, entre as quais se destaca a «Comercial Press», que os japoneses porfiadamente incendiaram em 1932; estudaria, certamente, os progressos palpáveis da higiene pública do país, cujo 25
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE plano trienal, proposto pela Administração Nacional, se vai cumprindo perante a admi¬ ração justa de estrangeiros especializados e perante o espanto dos arquitectos turistas que se embevecem com o neo-urbanismo; con¬ tactaria com a perfeita montagem da en¬ grenagem financeira e orçamentológica que mereceria os elogios de Sir Frederick Leith- -Ross, conselheiro económico da Grã-Breta¬ nha e, num final de exame consciencioso per¬ correria o país na nova rede de comunicações por caminho de ferro que o Conselho Nacio¬ nal vai construindo, prudentemente, observan¬ do os progressos notabilíssimos na agricultura tradicional e nas obras hidráulicas, para, se¬ guidamente, navegarem nos rios e nos mares da China, explêndidos barcos da «China Mar¬ chante S. S. N. C°.» ou sobrevoar os territó¬ rios infindáveis aos cuidados dos experientes pilotos da «China National Aviation Corp». Já os novos visitantes no regresso às me¬ trópoles deveriam narrar coisas novas da China progressiva, cujos aspectos sedutores levariam Mussolini, paradoxalmente, a colo-: car-se a seu lado num célebre artigo do «Corriere delia Sera», de 18 de Janeiro de 1934 e obrigariam quási todos os países do 26
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE mundo a estabelecer relações com essa dis¬ tante Nação, outróra envolta na neblina de prejudicial incompreensão. E o mesmo sucederia com o insatisfeito mundo espiritual, eterno pesquizador da be¬ leza, ao encontrar no continente misterioso sedutores motivos, creadores duma literatura original e pujante, duma arte refinada de exo¬ tismos estéticos de raro valor e duma ciência apurada, capaz de contribuir, orgulhosa- mente, para a decifração dos impenetráveis enigmas do Universo. Foi talvez neste comunicativo espírito de internacionalismo estético que residiu a maior catástrofe da China, abrindo as suas portas francas à invasão dos homens e das coisas do ocidente — dêste ocidente traiçoeiro que apunhalando-a, ainda armou as mãos avaras do Dai-Nippon, persuadido que liquidaria assim, e de vez, quatrocentos milhões de almas, sequiosas de saber e de civilização constructiva... ★ ★ ★ E, agora, aportemos ao arco insular do Japão pletórico. Adoptemos o mesmo sistema da divisão 27
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE por períodos para uma melhor compreensão do caso japonês: 1 ° Período de formação mitológica em que se constrói o nome da terra, extraindo-se a origem de Nippon — ilha principal do ar¬ quipélago — que antecedida do adjectivo Dai ficou Dai Nippon, o «Grande Japão». 2. ° Período de tradição oral que vai até ao século VI, reforçado, aqui e ali, por alguns ensinamentos da literatura chinesa. 3. ° Período da escrita, caracterizada pela influência china no campo da literatura que levaria até lá os primórdios da ideografia. 4. ° Período das invasões bárbaras entre as quais se agigantavam as hordas de Gengis Kan. 5. ° Período do «Shogunato» revolucio¬ nado permanentemente pelas contendas entre os endeusados «shoguns» e os «samurais», época de apêgo aristrocrático e de férrea dis¬ ciplina que se transmitiria, pelos tempos, até hoje. 6. ° Período da influência portuguesa, em pleno século XVI, entregue a uma intensiva propaganda dos jesuítas, sendo de notar que o primeiro europeu que pisou terras nipónicas 28
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE foi um lusitano de nome Diogo Pereira, amigo de Francisco Xavier. A tradição portuguesa é, ainda hoje, respeitada no Japão e aos por- tuguêses se deve a moderação cristã dos ím¬ petos do «shogunato», a introdução de-novas modalidades de arte e das armas de fogo... Muitas palavras portuguesas ainda subsistem no vocabulário japonês. 7. ° Período da família Tokugawa em que se desenham as primícias do «monroísmo» nipónico, arredando qualquer contacto com os europeus e vingando, de novo, as teorias bár¬ baras dos «shoguns» — período que se man¬ teve hermético no decurso de três séculos... 8. ° Período pré-moderno que se iniciou na manhã de Julho de 1853, quando a esquadra yankee lançou ferros na baía de Uraga... ★ A época moderna do Japão... Retornemos algumas décadas atrás. Quando em 1895 o Japão derrotava a Chi¬ na, demonstrando à curiosidade pessimista do mundo o valor do seu exército, adestrado e municiado, uma certa admiração percorreu os cenáculos internacionais. Até então os nipónicos eram considerados 29
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE como sêres afastados do convívio pelo seu isolamento psicológico, agarrados à estranha espiritualidade das confusas crenças, domi¬ nados por uma vaga ideia imperialista, impos¬ sível de ultrapassar o limitado espaço da con¬ figuração da sua terra. A maneira rápida, fulminante, como os acontecimentos se sucederam, levou a êsses cenáculos, sempre possuídos dá preocupação de bem conhecer os homens e as coisas, a convicção de que, atrás dêsse exército disci¬ plinado, vivia um sentimento novo de ordem e progresso, só próprio dos povos que sentem em si a certeza dum valor real e dum triunfo inevitável sôbre as impensadas congemina- ções da diplomacia estéril. , Já nessa altura, portanto, o Japão mostrara a possibilidade de marcar, no futuro, a sua posição de país soberbo e pletórico de vitalidade. Em 1905 o leão nipónico acordava mais voluntarioso que em 1895, defrontando a Rússia, não já em pugna com a China, gente da mesma raça, mas sim desafiando as iras dum país que pela sua grandeza, ocupava, simultâneamente, na Ásia e na Europa, um logar de respeito. 30
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE Então o mundo amedrontou-se. ■' O perigo amarelo, outrora novelescamente tratado, preocupação de líricos e de român¬ ticos, embrenhava-se, agora, na consciência dos mesmos sisudos diplomatas que, em 95, se limitavam a sorrir ante as ameaças do Oriente. O som das vinte e uma salvas de artilharia, disparadas solenemente, pela celebração do tratado de Portsmouth, que pôs termo à luta russo-japonesa, ecoava pelo orbe inteiro, acordando os timoratos e os envaidecidos. É desde então, pode dizer-se, que começa a odisseia do Japão moderno. A partir da hora em que o Japão, esma¬ gando a Rússia à fôrça de chitose, pólvora de origem oriental, e mercê das peças Arsalas, prodígios saídos dos seus arsenais de metó¬ dica organização, alcançou que esta consen¬ tisse na posse da metade sul da ilha de Sa- kalina, na influência na Coréa e na Mand- chúria e no aprisionamento dos barcos de guerra em Pôrto-Artur, o mundo arregalou os olhos, ainda com mais pasmo do que arrega¬ lara nas lutas incertas de 95. A raça amarela colocava-se ao lado da raça branca. Não faltava àquela, nem a mo- 31
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE dernização dos processos de luta, nem a actualização dos métodos do govêmo e das regras de bem orientar a vida interna e ex¬ terna do Estado. A propósito das vantagens advindas para o Japão do conflito de 905 transcrevemos êstes pequenos períodos da autoria dum dos mais persistentes estudiosos do fenómeno oriental, E. Worsky Riera: «Estas vantagens materiais eram grandes, especialmente a que assegurava a influência decisiva na Coréa, porque pensavam encon¬ trar alí excelente terreno para colocar o ex¬ cesso de população que apenas cabia no seu solo natal. Mas todo o lucro significava pouco, com¬ parado com as vantagens morais adquiridas ao vencer o maior império do mundo. O seu triunfo demonstrava não somente que os japoneses podiam igualar-se aos me¬ lhores povos da raça branca, como também que, desde o momento e da hora em que se firmou o tratado de Portsmouth, o Japão, por direito próprio, formava parte do con¬ certo ou desconcerto das grandes potências». Os últimos anos vieram dar razão absoluta às palavras de Riera. 32
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE Mas acompanhemos o Japão no seu pro¬ gressivo desenvolvimento. A vitória sôbre a Rússia coagia os homens do Estado japonês a cuidar, orgulhosamente, da situação interior, protegendo a indústria e o comércio na consecução dum harmónico plano de conjunto, destinado a integrar o seu país nos quadros dos povos de grandes destinos. Assentavam-se as primeiras linhas férreas, sob a direcção de engenheiros alemães, seve¬ ramente recrutados entre os mais compe¬ tentes; professores alemães, ingleses e norte- -americanos ministravam ao camponês as primeiras lições de agricultura, moderni- zando-o. A pesca, principal riqueza nacional, exer¬ cida, atribiliàriamente, por tôdas as costas insulares, começa a obedecer a uma sistema¬ tização, superiormente dirigida, nos seus re¬ flexos económicos, por «comités» de espe¬ cializados. As universidades europeias sentiam bater às portas uma multidão juvenil de japone¬ ses, despidos dos preconceitos da sua raça, libertados do «Kimono» e das fadigas da religião, trazendo, bem gravada no cérebro, 33
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE a ideia de servir, em futuro bem próximo, a pátria que os orgulhava. O espanto dos professores era grande. Os moços japoneses igualavam e às vezes excediam os rapazes da raça branca. Devotados ao estudo, entregavam-se a êle com o mesmo entusiasmo místico com que na sua terra se prostariam ante a enigmática figura dos milhentos deuses. Oito anos bastaram ao Japão para iniciar a substituição dos técnicos estrangeiros por pessoal nacional, regressado da Europa no inteiro conhecimento da barafunda das técni¬ cas, embrenhado na confusa aparência dos múltiplos problemas da economia. «Nasceu a indústria e cresceu tão depressa que não só pôde atender às necessidades da população como também esteve em condições de exportar — e exportou — grande quan¬ tidade de mercadorias para outros países. Cobriu-se o país de estradas; funcionaram os caminhos de ferro; tôda a classe de obras pú¬ blicas tomou um desenvolvimento que podia classificar-se de maravilhoso e que pasmava o's mesmos estrangeiros que com os seus con¬ selhos o haviam provocado. Osaka converteu- -se num centro industrial que crescia por 34
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE momentos; Yokohama e Nagasaki em pontos bem providos de aparelhagem moderna; a nova capital do império cresceu como a es¬ puma, e, em vinte anos, a sua população au¬ mentou com maior rapidez que a das cidades norte-americanas», escreve ainda Riera. Já não era um país misterioso o Japão. Era uma realidade palpável, uma nação plena de energia que apresentava 1.700 barcos saídos dos seus estaleiros, num total de dois milhões e meio de toneladas, que per¬ corriam já os principais portos da Ásia e que se atreviam a tomar o rumo da Europa, na cabal demonstração dum sol que despontava. Vejamos, nos números, o notável incre¬ mento da economia japonesa, após o novo período que se inaugurava na sua vida. Comércio (exportação e importação) A.nofl Milhões do «Yens» 1879. 1887 1897. 1907 1916 1917 1918 1919 60 98 328 329 2.000 2.345 3.617 4.273 35
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE De notório, nêste pequeno quadro, é o aumento formidável na década que vai de 87 a 97. O comércio, em 1916, atingiu, como se vê, a astronómica cifra de 2.000 milhões de «yens». Reservas-ouro do Estado Anos Milhões de aYens» 1914. 1917 . 1918 300 1.313 1.600 A marinha mercante, que era, em 1908, de 806.000 toneladas, cresce, em 19M, para 1.700.000 toneladas, já categorizada como a sexta marinha mercante do mundo, e atinge, em 1918, 3.100.000 toneladas. A maior parte das empresas comerciais e industriais distribuem fabulosos dividen¬ dos aos accionistas, variando entre 60 e 100 % o quantitativo dos lucros distri¬ buídos... Razão tem Riera quando afirma que a «História não regista um caso de transforma¬ ção portentosa como o do Japão, nem ascen¬ são tão rápida». 36
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE * O crescimento célere do Japão era já um facto. A Europa e a Norte-América voltaram, en¬ tão, as suas atenções para ò Oriente. Em especial esta última acautelava-se, so¬ bremaneira, vislumbrando, nêsse crescendo assustador da vitalidade nipónica, um perigo imperialista que a hora presente eloquente- mente confirma. País insular, o problema da estabilidade do Japão resume-se numa defesa marítima para resguardar as suas costas e num desenvolvi¬ mento do comércio de exportação para revi¬ gorar a economia nacional. Quanto a esta última parte analisá-la-emos, mais demoradamente, noutro sítio dêste traba¬ lho, ao referirmo-nos ao seu «dumping», que tantas apreensões está causando ao mundo. Há que atender ainda, no que toca à ma¬ rinha de guerra, à homogeneidade da tripu¬ lação dos barcos, homens em plena moci¬ dade, conhecedores do «métier», como pou¬ cos e industriados na arte da guerra, ao contrário do pessoal americano onde pre¬ domina a heterogeneidade de raças, sem vi- 37
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE bração patriótica e sem outra finalidade que não seja ganhar, socegadamente, a vida, em rendosos cruzeiros pelo Pacífico. Êste instinto de defesa dos americanos em face dos nipónicos, se não se justificasse pela necessidade de evitar qualquer surpresa de¬ sagradável no seu próprio território continen¬ tal, aplaudia-se pela conveniência de evitar uma hegemonia no Pacífico que poderia pro¬ porcionar ao Japão — como infelizmente se vai verificando — a adopção irredutível dum novo monroísmo, mantido pelas armas, que aniquilasse, de vez, tôdas as perspectivas económicas do Extremo-Oriente. Tudo isto corrobora a nossa afirmação de que, dum jacto, inesperadamente, aparecia no convívio mundial um país robusto, pletórico duma estranha actividade, decidido a con¬ quistar, pelo seu valor intrínseco, logar de relevo entre as mais categorizadas potências, A industrialização progressiva, mas cal¬ culada, do país era um facto incontestável. O Estado, integrado numa sábia política pro- teccionista, impulsionava o progresso indus¬ trial, nomeadamente no capítulo da sêda e do algodão que, a breve trecho, teriam por com¬ panheiros os utensílios eléctricos, preparados 38
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE segundo as indicações da moderna técnica europeia. A exportação japonesa subià, assim, animadoramente. Abriam-se-lhe os mercados do Oceano Pacífico, Sibéria oriental e China, derrotando a concorrência europeia que, nessas paragens distantes, já antes da invasão nipónica, sofria tratos de polé pela deficiência dos produtos importados e pela altura sempre crescente dos preços. ' Como consequência dêste facto, a frota mercantil japonesa começava a competir coin as restantes do mundo. Só assim o Japão po¬ deria dar saída aos 172 % de aumento regis¬ tados pelo seu comércio durante a guerra! Ao lado do imperialismo americano, absor¬ vente, mas desordenado pela ausência duma excitada consciência nacionalista, surgia, en¬ tão, o imperialismo japonês, após tantos anos de quietude misteriosa, como se essa longín¬ qua terra, tão sujeita às sacudidelas sísmicas’, estivesse numa paciente gestação. Nada já restava do país que em 1854 sé curvara ante as ameaças da esquadra ame¬ ricana impondo-lhe a abertura dos seus por¬ tos ao comércio mundial! Constituído pelas quatro ilhas principais 39
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE Yeso, Hondo, Shikokú e Kin-Siú, o seu po¬ derio estende-se desde o extremo meridional de Kamtchatka até à grande ilha Formosa, compreendendo, ainda, a península da Coréa e a ilha de Sakalina. O censo da população, incluindo coló¬ nias, é de 66.500.000 habitantes números êstes colhidos no «Annuaire Statistique de la Société des Nations», de 1933/34. Proprietário dum território propício a um cultivo intenso, o Japão conserva também, no sub-solo apreciáveis .reservas de minério que valorizem imenso a sua posição de potentado económico. Vejamos a traços largos algo a êste res¬ peito, começando pelas reservas minerais. O ferro não abunda em terras japonesas, o mesmo sucedendo com o carvão. Conside- rou-se sempre isto como a causa principal — senão a única — da aparente quietação ni- pónica. Quanto ao primeiro minério — cuja ex- tracção não excedeu 227.000 toneladas em 1933 — tem o Japão o problema parcialmente resolvido com a posse de 46 % dos altos for¬ nos chineses, hoje nas mãos do Mikado, que prossegue na política cautelosa de atrair pela 40
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE fôrça dos «yens» tôdas as acções das com¬ panhias exploradoras do ferro. Àparte a necessidade de colocação do seu excedente populacional, as tentativas absor¬ ventes do Japão na China justificam-se com es deficiências interiores de ferro, deficiências que findariam, rapidamente, com a ambicio¬ nada formação dum grande império que abrangesse a Coréa, a Mandchúria e a China. Após a guerra ocupava o Japão o segundo logar entre os países produtores de cobre. A indústria modernizada e manejada por uma pleiade de técnicos europeizados, estende-se pelos distritos de Shikoku e Hondo. Me¬ diante uma perfeita montagem dos seus ser¬ viços internos, nêste particular, o Japão pôde fornecer, periodicamente, cobre à China, Grã- -Bretanha. França, Estados Unidos e índia inglesa, exportação essa que diminuiu para atender às necessidades comerciais que re¬ queriam o precioso metal para a confecção de muitos artigos. As últimas estatísticas fornecidas à Socie¬ dade das Nações pelo «Bureau des Recher- ches Économiques Mitsubisch», de Tókio, atribuem ao Japão, em 1932, a produção de 41
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE 71.900 toneladas de cobre, e, em 1933, 69.300 toneladas. A sêda artificial é a grande produção ja¬ ponesa. Basta ver que o Japão sozinho produz 44.420 toneladas das 45.920 toneladas pro¬ duzidas por tôda a Ásia. Os grandes países têxteis — Estados Uni¬ dos, Inglaterra com Bradford, Manchester e Notlinghan e Alemanha com Crefeld — são os mais importantes compradores da sêda nipónica. Nêste capítulo da economia japonesa fa¬ lharam um pouco os planos dos fabricantes e gorou-se, por completo, a tentativa do gover¬ no de Tókio de transformar Moscovo num grande depósito da sêda produzida, levada até lá pelos caminhos de ferro do trans- -siberiano cujo preço de transporte seria mais barato do que aquêles que os japoneses teriam de pagar para fazer chegar, por via marítima, essas imensas cargas até à Europa. Estava também nos falhados planos do govêmo ja¬ ponês a possibilidade de estender êsses depó¬ sitos até Berlim. A eclosão da guerra de 1914 contrariou os desejos do Japão. Após o conflito, a expor- 42
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE tação japonesa foi-se normalizando aos poucos, e, pelos recentes números obtidos, verifica-se que o seu «dumping» incide em grande parte em produtos com origem na sêda ou manufacturados com ela. As pescarias japonesas, outrora, como dis¬ semos, orientadas por processos antigos, ocupam o primeiro lugar na produção mun¬ dial, seguido pelos Estados Unidos, com me¬ tade, e pela Inglaterra e Noruega. Em 1932 a tonelagem de peixe deminuiu sensivelmente. Nêste ano o peso do peixe não ultrapassou 3.020 toneladas no valor de 230 milhões de «yens», enquanto que, em 1930, essa quantia subiu a 263 milhões de «yens». Outra produção importante do Japão é o chá. Está em quarto logar na produção; em 1932 foi de 404.000 quintais, circunscrita em especial à Ilha Formosa e a tôda a parte norte da capital. Eis a traços largos os sustentáculos prima¬ ciais da economia japonesa. Não fugimos à tentação de fornecer ao leitor estudioso alguns quadros elucidativos do movimento económico japonez até 1933: 43
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE Numeros índices da produção industrial (Não incluindo pescarias nem indústria florestal) Agrupamentos 1030 1931 1932 193S Fios de algodão. Tecidos de algodão. Sêda bruta. Hulha. Cobre. Papel. Cloreto de cálcio. Soda cáustica. 118 145 175 111 137 188 149 177 120 147 180 98 131 183 123 197 131 160 160 99 124 180 144 225 145 175 159 114 120 198 199 281 Movimento da navegação marítima (Toneladas dos navios entrados e saídas) Anos Entrados Safdos 1930 . 1931 1932 1933 56.432 54.771 53.967 59.253 56.354 54.670 53.994 59.181 Navios construídos ( Incluídos os navios è vela ) 1928 1929 1930 1931 1932, 1933, 112 184 86 53 63 107 44
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE Importação e exportação de mercadorias à) — Em milhares de toneladas Ados Importação Exportaç&o 1930 . 1931 1932 1933 18.635 '18.263 17.733 19.958 6.246 5.295 5.955 7.308 b) — Em milhões de «yens» Ados Importação Bxportaç&o Halança 1930 . 1931 1932 1933 . 1.517 1.218 1.383 1.883 1.742 1.539 1.483 1.856 225 321 100 27 Ao estudar êstes números, tenhámos sem¬ pre em conta que o japonês é um sêr reser¬ vado, guardando avàramente os segredos do seu patente progresso... A ausência de notícias quanto à produção de automóveis e de cerveja demonstra bem o cuidado oriental em não dar o flanco ao en¬ carniçado inimigo europeu e norte-ame¬ ricano. .. (Um caso curioso: a cerveja japonesa custa — por caixote e colocada no pôrto da 45
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE Beira (Moçambique) — a ridícula quantia de 40$00. A nossa nas mesmas condições — em¬ bora inferior em qualidade — custa 200$00. Esta informação foi-nos fornecida pelo ge¬ rente duma das mais importantes fábricas de cerveja de Lisboa). ★ ★ ★ Como terceiro elemento fundamental dêste pequeno recordatório, observemos os Estados Unidos — convencidos que é nêste triunvi¬ rato que reside, primacialmente, o grande e aflitivo problema do Extremo-Oriente. Quem nos diria a nós, alguns anos atrás, que os Estados Unidos constituiriam nos tempos de hoje, um motivo intelectual de pa¬ ciente e aturado estudo? A profunda revolução espiritual que abala nêste momento o corpo fatigado do capita¬ lismo yankee, consegue, pela complexidade de que se reveste, ocupar um lugar preferente nas nossas inquietações de estudioso, ávido por descortinar na barafunda mental contem¬ porânea um caminho de seguro piso. País novo, com as qualidades dinâmicas dos países que irrompem, bravamente, na 46
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE senda do trabalho, procurando vencer pela robustez do organismo social e não pelas re¬ flexões do seu espírito, os Estados Unidos, passadas as horas, sempre fugidias do predo¬ mínio material, querem entrar, agora, no campo agreste das meditações, concentrando o cérebro, pendendo, dolorosamente, a cabeça nos desalentados minutos que a especulação traz aos homens para depois os iluminar com a claridade animadora da Justiça. A paisagem percorrida há-de lhe trazer recordações. Potentes máquinas a funcionar ininter¬ ruptamente, num labor insano e frutífero — gigantesca orquestra que transmitisse ao mundo a brutalidade wagneriana do tra¬ balho. Centenas de homens percorrendo as ofici¬ nas, num vai-vem incansável, confundindo o vozear infernal com o matraquear dos milhen- tos maquinismos. Barcos com pesada carga e transatlânticos sumptuosos acostando aos modernos molhes dos seus portos, apetrecha¬ dos para os impulsos magníficos da concor¬ rência que avassalaria o mercado internacio¬ nal, fornecendo-o de matéria prima, arran¬ cada da fértil gleba, ou de matéria manu- * 47
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE facturada atirada, voluntariosamente, pelos portões das babilónicas organizações comer¬ ciais e industriais. Os arranha-céus formavam no conjunto. Seriam as sentinelas anunciadoras da pros¬ peridade geral projectando-se, incompreensi¬ velmente enormes, pela rêde interminável das avenidas, pejadas de multidão de contundente heterogeneidade. As gentes respiravam o ar alegre dos gran¬ des triunfos. O Eldorado reflectia-se no olhar confiante do transeunte ginasticado. Para a América! Para a América! À inversa pareceria a fuga precipitada da gente de Moisés chicoteada pelo furor san¬ guinário dos faraós... Como paisagem que é sempre o passado — montanhas e colinas que se não voltam a admirar — a história yankee é uma arre¬ piante antítese com o panorama actual da sua vida de nação independente, segura do papel que lhe está guardado no quadro das pugnas para uma melhor sociedade universal. Convenceram-se os Estados Unidos dessa verdade, curvados sob o pêso atormentador das tremendas dificuldades do post-guerra que, na sua trágica invasão, também atingi- 48
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE rara as costas e o coração da Norte-América, obrigando a desfilar pelas avenidas, outróra iluminadas pela luz das fantasias, a legião impaciente dos sem-trabalho. O mundo apresentava à sêde devoradora das gentes que compartilhavam nêsse magno problema, os aspectos macabros dum esque¬ leto, desarticulando-se, nervosamente, inde¬ ciso no seu caminhar. Retalhara-se infamemente um corpo que, se não primava por vigorosa resistência, nada, no entanto, levava a crer que estivesse num triste e pesaroso ocaso. Surgidos do confusionismo da hora, como formigas que, cautelosas, procurassem acolhe¬ dor abrigo, à espera da bonança, apareciam, aqui e ali, braços exaustos que reclamavam vingança, cabeças em febre que exigiam fé e perseverança. Na estrada larga e deserta das inquieta¬ ções espirituais luziam já alguns ténues cla¬ rões, suaves madrugadas de bom senso que despertavam as multidões atordoadas pelo ribombar do canhão ou inutilizadas, com fa¬ tídicos esgares, pela sanha canibalesca dos gases asfixiantes. Travava-se a sempiterna pugna entre os 49
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE desvarios impensados da matéria e as refle¬ xões ponderadas do espírito. A Norte-América, nêste particular, mos¬ trou bem os seus firmes desejos de prosseguir no mesmo desastrado trilho de trocar a inte¬ ligência pelos resultados práticos da sua pre- vilegiada indústria... Nunca a história nos apontou um só exem¬ plo que seja do triunfo da matéria sôbre o espírito. As seguintes palavras de Angel Ossorio, notabilíssima figura moral da Es¬ panha, transcritas do seu trabalho «Cartas a una senora sobre temas de derecho político» definem, melhor do que eu, o que há de signi¬ ficativo nêsse embate cruel entre as duas po¬ tentes forças: «Terá um homem o direito de coibir outro homem, impondo-lhe o seu critério e escra¬ vizando a sua acção? De nenhum modo, porque então privá-lo-á de responsabilidade, contradizendo a obra do Creador. Não tema ninguém que êste conceito da li¬ berdade arraste à licença e à anarquia, trans¬ formando os homens em bandos de feras que disputam o triunfo do seu capricho ou da sua necessidade. Não. Na vida tudo é limitado: a fôrça física, a capacidade mental, o tempo 50
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE de que dispomos, o espaço em que nos move¬ mos. A liberdade, como todos os direitos e po¬ deres, é limitada também. As suas limitações são duas: uma de consciência e outra de con¬ veniência. A de consciência tem um sentido * religioso, porque não nos podemos revoltar contra aqueles postulados fundamentais que aceitamos. Quero dizer, que o homem que admite as verdades reveladas impõe a si pró¬ prio uma limitação à sua investigação e à sua crítica. Mas esta coacção e a vontade pró¬ prias (vem a ser uma valiosa manifestação da liberdade) nada têm que ver com as coisas privadas, isto é, com a liberdade política, que é o fim destas cartas. «A limitação imposta pela conveniência é igualmente clara. Sendo o homem social por natureza, tem que coexistir com os restantes: t como os desejos de uns têm de estar em luta com os dos outros, ou resolvemos os conflitos a sôco, ou prestamo-nos todos a estabelecer uma norma limitativa dos nossos movimen¬ tos. Essa norma é a lei. A lei é, pois, o cume da nossa liberdade?» Aplicados êstes princípios ao pequeno es¬ tudo a que nos abalançamos verificamos que 51
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE os Estados Unidos, longe de os seguirem após a guerra, negavam ao seu semelhante, nêste caso representado pelos outros agre¬ gados nacionais, o legítimo direito de coope¬ ração. O grito inflamado — América para os americanos! — produto execrável do seu des¬ trambelhado monroísmo, é o reflexo, exu¬ berante, do afastamento egoísta da luta comum. A massa operária vivia na agonia alegre das horas bem passadas. Na sua consciência ainda não surgira a ne¬ cessidade de se aglutinarem formando frentes únicas do trabalho. A mentalidade europeia não fizera sentir, com profundeza, a influência notável da sua nova e robusta formação intelectual, fazendo ver aos yankees as vantagens duma forte união capaz de suster os violentos combates da época das vacas magras. Os movimentos de massas só se organiza¬ vam para homenagens servis aos senhores do capitalismo ou para, no dizer pitoresco de Jaime Menendez, «receb:r o aviador que ti¬ nha cruzado o Atlântico, a nadadora que atravessara a Mancha cu o galã de cinema 52
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE que dançava tangos admiravelmente e que fazia estremecer o coração de milhares de dactilógrafas sentimentais». Transviado do bom caminho, seduzido pelo prosseguimento duma existência unifor¬ me, o trabalhador yankee ligava-se aos destinos da «American Federation Labor», dirigida por Samuel Compers, William Green, Mathew Woll, que, integrados na po¬ lítica que Davies, Coolidge e Hoover, consi¬ deravam de «sensatez e cordura», começar por exterminar as veleidades humanitárias da «Industrial Workers of the World», enri¬ quecendo-se a si e aos seus apaniguados, num avolumar de fortunas colossais. A inconsciência do reduzido grupo dos be¬ neficiados não lobrigava o aspecto calamitoso em que mourejava a restante gente proletária, afastada dos grandes centros. Vejamos êste exemplo: enquanto Rocke¬ feller, Morgan e Mellon arrecadavam mi¬ lhões de dólares, os magnates da Wall Street gastavam 100.000 dólares em disfarces para os seus bailes de máscaras e os sócios de certas emprêsas gastavam 50.000 dólares para presentear a filha dum amigo, parte da população obreira, os mineiros, trabalhavam 53
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE três vezes por semana ganhando 10 a 12 dó¬ lares semanais. A contradição era tão fhgrante que muito antes da actual situação pãcológica dos Es¬ tados Unidos o insuspeito Frederich Tow- send Martin definia o seu país nos seguintes termos, duma precisão que aterra: «À classe que eu represento — os ricos ociosos como êle a apelidava — não interessa a política... Poucas vezes escuto entre as mi¬ nhas gentes as conversações políticas. Quan¬ do falamos dos méritos dos candidatos polí¬ ticos ou da importância relativa dos seus pro¬ gramas, a discussão converge invariàvelmente para o ponto da sua utilidade no mundo dos negócios. Não nos importam nada os direitos estatais, nem qualquer outra questão, a não ser que fortaleça ou ameace as condições do¬ minantes. Mas se se referem à questão das tarifas, ou tocam, sobretudo, na mais vital de tôdas as questões, o problema da regulamen¬ tação federal das companhias industriais, as gentes entre as quais vivo convertem-se em fanáticos exaltados... «Nada importa qual é o partido político no poder. Não somos políticos, nem pensadores: somos os ricos». 54
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE * Era sôbre um país com esta estranha com¬ pleição que incidia a luz rehabilitadora da Razão. A falange dos portadores dela era dimi¬ nuta, mas o entusiasmo que os empolgava era demasiadamente forte para esmorecer na caminhada com vigor traçada. O estado actual da política yankee é um pouco a consagração da evolutiva marcha desses le¬ gionários da Verdade. Entre êles ocupa um lugar preferente Upton Sinclair, grande temperamento de doutrinário, homem moderno de sólida cul¬ tura, inteligência europeizada com os ensina¬ mentos da mentalidade ocidental. Fundador da antiga «Liga pela Democra¬ cia Industrial», agremiação de fins humani¬ tários, Sinclair não parou com êsse cometi¬ mento o seu labor ordenado. A publicação contínua dos seus admiráveis romances signi¬ fica que o espírito aberto e desempoeirado se não aniquilou com os fumos das primeiras e difíceis vitórias. A situação reooseveltiana e a recente con¬ sagração do sufrágio à obra do Presidente é 55
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE o fruto dessa mutação do panorama mental dos Estados Unidos — obra de Sinclair e dos seus amigos que nas longínquas paragens da Califórnia pensam na reforma integral do país, imprimindo uma nova estrutura à or¬ gânica estadual, de geito a enveredá-la pelas correntes hodiernas da política e da economia. O seu trabalho publicado na importante revista «Le Mois», de Novembro de 1934 é um repositório rico da nova doutrinação. Aqui deixamos alguns trechos para conhecimento dos interessados. Por êles se verifica o que há de moderno no pensamento de Sinclair: «Aqui nêste Estado nós dispomos, em ouro, da; maior parte das fontes naturais da riqueza. Nós temos uma terra apta a produzir quási tudo o que os homens precisam. Nós temos os meios materiais de produção que são as maravilhosas criações do engenho humano. Nós temos minas, quintas, casas de habita¬ ção — tudo que faz a segurança e o conforto do povo. Entretanto estranha paralisia feriu êste país. Os frutos apodrecem no chão, os vegetais são lançados ao mar porque se não vão vendê-los. Milhares de pessoas erram sem lar e há milhares de lares que não são ocupados por ninguém. 56"
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE «Um milhão dos «sem trabalho» quere tra¬ balhar e não se lho permite. Nós devemos re¬ conhecer e proclamar o direito de tôdas as criaturas humanas dêste Estado a possuir os meios de produção, a trabalhar, a produzir o que é necessário à sua vida e à daqueles que êles amam». ... Mas incompreensivelmente um país que já se encontra dotado de tão animadora com¬ pleição espiritual, adultera-a e, como o Japão ambicioso, também quere, — sabe-se lá por¬ que meios... — esmagar com a sua armadura mercantilista o Extremo Oriente. Há nisto, como em determinados fenó¬ menos da vida colectiva, inversões de valores e de cultura que acicatam o homem para as dúvidas tormentosas. Daí só há que concluir que as ideias mais generosas e os sacrifícios mais torturantes merecem, duma maneira geral, à comunidade, uma efémera apreciação, para, de novo, ela se debruçar sôbre a miríade extensa dos seus incalculáveis interesses. Assim se passará com a Norte-Amé¬ rica. Puderá ela ser sacudida, na superfície, por vendavais agrestes de reivindicação, trazidos 57
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE de paragens emancipadoras, revolucionando o seu substractum psicológico, mas manterá inerte certa camada estraficada, ante a qual se debatem, como nas escarpas duma ensea¬ da, os vagalhões da história. A materialização vertiginosa da sua vida social, a partir do começo do século XX, com a predominância escandalosa dos arqui-milio- nários, compradores de castelos medievais a transplantar para o Colorado, deveria ter creado raízes profundas na terra americana, cada vez mais agarrada à seiva abundante do comércio, na defensiva contra as claridades económicas que prometem — e consegui-lo-ão — renovar os métodos da banca e da riqueza norte-americana. Falidas as esperanças no milagre de Hoo¬ ver, transformado no tremendo desastre que povoou as ruas e os campos yankees de 12 milhões de desempregados, a política roose- veltiana constitui, nesta hora, o somatório das esperanças intelectuais do país. Tem-se pretendido erradamente descobrir na economia rooseveltiana uma tentativa de lenta sovietização e que o Presidente seria para a sua Pátria o Kerensky da Rússia post- -tzariana. Tremendo equívoco que quaisquer 58
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE rudimentos filosóficos derrubariam sem re¬ médio! A Tecnocracia é um produto vivo da ima¬ ginação norte-americana. Confundí-la com os sistemas leninistas é conjeçar por não conhecer êstes — o que é proverbial — e não possuir a mais pequena sombra de compreensão dum caso especial e único, que pretende resolver- -se sem plágios nem imitações, mas antes en¬ tregue aos resultados da experiência prática. É claro — e retornamos ao ponto de par¬ tida destes últimos períodos — que os Esta¬ dos Unidos, por tempos mais próximos, con¬ duzirão parte da sua política no sentido ex- pansionista, procurando os mercados que os novos concorrentes disputam febrilmente, como sucede naqueles que no Extremo- -Oriente o Japão lhe vai ocupando, à custa de sangueiras infindas. No dia em que a política rooseveltiana consiga definitivamente estabelecer o equilí¬ brio na vida nacional, creando normas supe¬ riores de conduta, disciplinando a produção, fixando salários mínimos nos novos códigos industriais — como pretende o «National In¬ dustrial Recovery Act» — fundando em novos alicerces as suas construções de 59
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE fragilidade espiritual — nêsse dia é de supôr que o imperialismo desapareça do número das suas preocupações e que nc Extremo-Oriente se elimine mais um motho de inquietação alvoroçada. Aguardemos resignadamente o futuro, em¬ polgados com a mesma esperança que fez vibrar a pena de Bertranc de Jouvenel nas páginas do «Marianne», econvencidos que o imperialismo é um produto do anti-Espírito, esperemos pela nova culturização do espírito yankee até aos mais obscuros recantos, para assim sentirmos a nova era de paz que fatal¬ mente se sucede às eras das inevitáveis convulsões. Num pequeno arti¬ go, forçadamente daò lutai sintético, que Nao- take Sato, embai¬ xador do Japão em Paris, escreveu para o número de Agosto de 1935 da revista «Le Mois», afirmava-se, embora com intuitos de literatice pacifista, que a paz no Extremo Oriente é, também, a paz mundial. O diplo¬ mata nipónico teve o especial cuidado de su- 60
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE blinhar estas palavras do seu artigo, de forma que são elas as únicas que vêm grifadas no depoimento que a publicação francesa adqui¬ riu sabe-se lá por que preço de trabalho... Resta saber qual a intenção do ministro japonês ao escrevê-las. Seriam uma ameaça verdadeira de futuros conflitos na hipótese de não serem coroadas de êxito as tentativas absorventes do Japão, ou Mr. Sato, como mau discípulo de Hirota, escrevê-las-ía no intuito pacificador de não querer atear no Extremo Oriente um conflito que cèleremente, degene¬ raria numa sangueira geral? Mistérios a que responderá, por certo a quietude diplomática do Japão e a movimen¬ tação aguerrida das suas grandes massas de homens armados... Deixemos o campo das inofensivas divaga¬ ções e enfrentemos as duras realidades do presente, que se não compadecem com dis¬ cursos de formulários ou escritos de retórica burocrática. As três grandes nações, pilares do pro¬ blema do Extremo Oriente, são, sem dúvida e como já ficou assinalado, o Japão, a China e os Estados Unidos. Admirará, portanto, a muita gente que nas 6.1
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE convulsas passagens da vida nessa parte do globo, os Estados Unidos não intervenham afanosamente, despejando a sua metralha e sacrificando ao novo Molock a fina flor da juventude. Nesta parte a política norte-americana tem- -se mostrado hábil. Aliada do eixo Londres- -Paris é com êle e atravez dele que os Esta¬ dos Unidos vão anestesiando as fúrias nipó- nicas e procurando, à margem dos morticínios, acautelar os interêsses do seu comércio que foram a primacial causa dos tratados desde 1921. Quere-nos parecer, entretanto, que o pa¬ norama actual não será de molde a aconselhar ao governo de Roosevelt a mesma prudente política de sapa. Os japoneses que principia¬ ram por desrespeitar totalmente os interêsses americanos na Mandchúria conquistada, inun¬ dando por baixo preço os novos mercados e tornando impossível a vida dos súbditos do novo continente, dão mostras, nesta nova fase da luta desesperada, de erguer, sôbre as con¬ venções e os conciliábulos, a certeza da sua ocupação manu militari e económica. As palavras, repassadas de comovedor pa¬ cifismo, proferidas por Mr. Cordell Hull, mi- 62
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE nistro dos negócios estrangeiros dos Estados Unidos, quebrar-se-ão de encontro à agres¬ sividade nipónica, a essa agressividade tu- multuária que, no dizer de William Brown, no seu «Perigo Amarelo», se transformará «na maior catástrofe quê desde as eras mais remotas tem abalado o mundo». E porquê esta decidida atitude do imperia¬ lismo japonês a esta luta de vida ou morte que sofismadamente o general Taa quere jus¬ tificar pela «vontade de rectificar a civiliza¬ ção materialista do ocidente pela civilização moral do oriente»? Dividamos o assunto por partes: l.° Nevrose imperialista: A loucura impe¬ rialista apoderou-se, por completo, do país do sol nascente. Uma exagerada noção de auto- -suficiência perturba a mente escaldante dos governantes japoneses, apoiados pela juvenil côrte dos oficiais do exército que, alistados em sociedades, galvanizam o povo para as grandes aventuras de conquista, escudados na protecção divina que nunca falha... Mais de 600.000 pessoas se encontram ofi¬ cialmente registadas nêsses agrupamentos. Foi dêles que saiu a idea macabra de abater 63
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE a tiro o chefe do partido democrático Inuyé, o primeiro ministro Inukay e o director da banca Mitsiu, bàrbaramente assassinados nos princípios de 1931, acusados de frouxidão nos impulsos a dar ao imperialismo pretensamente absorvente... Submetidos à dura ancestralidade de gran¬ deza e poderio — Dai Nippon — «O Grande Japão» — a nevrose das grandes expansões subjuga-os definitivamente. Do canto afastado da estreiteza insular lo¬ brigam novos mundos a desentranharem-se, caprichosamente, para gáudio das suas multi¬ dões campezinas. Estranha psicose colectiva que fugiu, por certo, às subtis observações de Gustavo le Bon e que levarão cuidados à mansão de Sigmundo Freud, o mestre atribulado da psi¬ canálise! No que toca ao exército, a parte natural¬ mente mais inflamável do sonho imperialista, o fenómeno reveste-se de características alar¬ mantes. Concedamos a palavra a William Brown que, na obra já citada, nos descreve a psico- patologia do exército japonês nos factos que vão narrados: 64
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE «Os oficiais japoneses trabalham com tôda a sua energia para impôr o regresso à simpli¬ cidade, ao desinteresse absoluto, ao sacrifício integral pela dinastia e pela pátria. O exér¬ cito vive segundo êstes princípios. É inútil re¬ cordar que nenhum oficial japonês hesita um segundo em oferecer a vida quando a honra do seu país ou o brio da sua casta estão em causa. Em 1932, um jóvem aviador suicidou-se porque, devido aos nevoeiros, sobrevoou o palácio imperial. Poderia ter visto — não che¬ gou a ver — o Mikado de alto: crime imper¬ doável. Pouco tempo depois, quatorze oficiais fi¬ zeram «Karakiri» — suicidaram-se porque os créditos para o exército não foram votados por unanimidade. Ao mesmo tempo, dois teatros e vários cinemas representavam uma peça e vários quadros glorificando o extraordinário sacri¬ fício dos «três heróis de Xangai»; foram três soldados que, durante duros combates em tôrno da cidade chinesa, correram a lançar uma bomba nas obras de defesa do inimigo, fazendo-se depedaçar com elas para terem a certeza de as destruir. Glorificaram-nos como 65 s
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE heróis nacionais, e suas famílias foram cober¬ tas de honrarias e dinheiro. Ainda não há muito tempo, uma parte, aliás pequena, mas interpretando o sentir de tôda a classe, revoltou-se, chegando a tomar conta de algumas repartições e de um ministério. Para não fazer perigar a dinastia, renderam- -se os revoltosos e os seus cabecilhas fizeram «Karakiri» — suicidaram-se, enterrando as espadas no ventre. O govêrno houve por bem pôr uma pedra sôbre o assunto. O exército está pronto para o sacrifício, sem pensar sequer se êste é útil ou não, e exige o mesmo sacrifício dos políticos e dos industriais, sobretudo sem se preocupar de¬ masiado com que os métodos de expansão económica tenham de ser forçosamente diver¬ sos dos métodos de expansão territorial, sem pensar que as lutas económicas nos mercados internacionais constituem também uma guerra que exige sacrifícios. No caso do Japão, o sa¬ crifício dos camponeses e dos operários. O exército, trabalha com tôdas as suas energias por conduzir a guerra contra a Rús¬ sia e a América, elabora planos pormenoriza¬ dos para a conquista da Sibéria e da Austrᬠlia, e colabora com todos os partidos que so- 66
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE nham uma nova «idade de ouro» semelhante ao período de Nara, espécie de comunismo de Estado. Durante êste período remoto da história japonesa, entre o século VII e o século VIII da nova era, o imperador governava como monarca absoluto por intermédio de três ou quatro grandes chefes militares e de funcio¬ nários, cuidadosamente escolhidos pelos seus conhecimentos, pelo saber, comprovados em concursos severos e constantes. Então, nada contavam os nobres, nem comerciantes, nem dinheiro. Tôdas as terras pertenciam ao im¬ perador, que as concedia por parcelas a cada um dos cidadãos. O trabalho era obrigatório. Mas ao mesmo tempo o Estado cuidava de todos os seus membros. Os jovens oficiais de hoje, quási o exército inteiro, sonham regressar a esta era. O seu programa, contém a nacionalização das ter¬ ras, das indústrias, dos bancos, a participação dos operários em todos os lucros das fábricas, a educação das crianças a expensas do Es¬ tado, seguros sociais, pensões na velhice. Em 1919, tôdas estas ideias foram exara¬ das num «Plano de Reorganização Nacional do Japão», redigido por Tiki Kita. Êste livro 67
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE encontra-se hoje nas mãos de todos os oficiais nipónicos. Transformou-se numa espécie de Bíblia do exército. O seu espírito é comunista, militarista apenas quando se trata da ex¬ pansão territorial: «O Estado — diz êsse plano — tem o direito de fazer a guerra às nações que têm territórios exageradamente extensos ou governados de maneira deshuma- na. Exemplo: arrancar a Austrália à Grã- -Bretanha e o extremo oriental da Sibéria à Rússia. O estado terá o direito de fazer a guerra para libertar os povos oprimidos. Exemplo: para libertar a índia do jugo inglês e a China da opressão estrangeira». O exército inteiro, desde o soldado ao ge¬ neral, crê nestes conselhos. E a vontade de os realizar é mais importante que o número e as qualidades dos soldados nipónicos. que são extraordinários. Baseando-se no facto de que, durante a grande guerra, houve países que enviaram para as frentes de batalha quási 17 % da sua população, o general Sato exprimiu a opinião de que o Japão poderia, em caso de necessi¬ dade, mobilizar 11.900.000 homens para en¬ viar 3.800.000 para o «front». As tropas de terra regulares contavam, em 68
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE 1929, 250.000 soldados e 15.000 oficiais; em 1933, 300.000 soldados e 17.000 oficiais. Se¬ gundo opinião unânime dos adidos militares estrangeiros, êste exército é resistente, bem treinado. Os soldados nipónicos são impor¬ tantes pelo seu municiamènto, pelas somas que custam ao país. Em 1913, jã o Japão dispende 33 % do orçamento nacional com o exército. Em 1933 gasta 44 %: 457 milhões para a marinha. E êste bilião de «yens» — com valor de compra de dez biliões de francos — representa para os seus armamentos tudo o que recebe regu¬ larmente dos contribuintes. O resto é pago por empréstimo. Mas, sobretudo o aumento dos orçamentos militares é alarmante: o go¬ verno japonês inscreveu no ministério da Guerra 443 milhões de «yens» ouro em 1930, 445 milhões, em 1931, 660 em 1932, 820 em 1933, para chegar a 937 milhões de «yens» ouro em 1934. Mas, mais importante que os armamentos e a ingerência dos militares na política do go- vêrno é o facto dos oficiais propagarem por tôda a parte as suas ideias socializantes, pois o «Plano de Reorganização Nacional do Ja¬ pão» não é apenas o «credo» dos soldados 69
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE activos, mas cada vez mais o de tôda a classe média, em parte graças à Liga dos Reser- vistas, que conta três milhões de membros. Logo que um soldado ou um graduado acabam o seu tempo, tratam de levar o seu uniforme para casa e em cada festa, tal como na Alemanha, êles têm orgulho em tornar a vestí-lo, bem como de propagar as ideias económicas e nacionalistas dos seus oficiais. A liga espalha pelos campos a ideia de que Tóquio é um centro de corrupção e que o Ja¬ pão deve regressar à austeridade e à disci¬ plina de antes do parlamentarismo. Em 1931, esta propaganda tornou-se tão ardente, que o govêrno pensou em persegui¬ ções. Mas nêsse momento, a vitória da Man- dchúria — fruto exclusivo dos estudos do exército — fortificou de maneira extraordinᬠria a posição dos militares. Era o comêço da ofensiva económica, que pedia novos sacri¬ fícios da parte dos operários, que envenenava ainda a situação dos camponeses. Estalaram revoltas do exército contra os poderes civis e as oligarquias. Um movimento fascista nacional-socialista, de um vulto inesperado, terminou na consti¬ tuição de gabinetes militares: o general Araki 70
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE torna-se, por certo tempo, o verdadeiro se¬ nhor do Japão, Começa um período de terror, os assassí¬ nios políticos sucedem-se. Em Outubro, de 1931, numa reunião do «Keizai Club», após longas hesitações e pesqúizas científicas, re- solve-se a desvalorização do «yen», o plano de batalha monetária que deveria inaugurar a grande ofensiva contra os mercados mun¬ diais. Talvez a esperança de ganhar grandes somas na Bolsa desempenhasse um papel tão importante nestas condições como o facto de ser necessário abrir caminho às mercadorias nipónicas, reduzindo o valor do «yen», pri¬ meiro em 40 %, depois em 50, 60 e 65 %. Em todo o caso a desvalorização foi resolvida pelo «bem do país». O barão T. Dan, director do Banco Mitsiu, presidia a assembleia, orga¬ nizava as manobras. Um homem dos Mitsiu, o Sr. Inuyi, era ministro das Finanças. Talvez êste último quizesse sinceramente manter o padrão ouro. Talvez suas hesitações obede¬ cessem a um cálculo inconfessável. O caso é que êle hesitou semanas sôbre semanas antes de promulgar o decreto proibindo a exporta¬ ção do ouro. E, durante todo êste tempo, os Mitsiu e os Mitsubishi exportavam para os 71
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE Estados Unidos a maior parte dos seus fun¬ dos, depreciavam o «yen» para o comprar em seguida. E, segundo o general Araki, teriam ganho com estas maquinações mais de sete¬ centos milhões de «yen». — Setecentos milhões roubados ao país! — clamavam os oficiais. —• Somas ganhas pelo país ao estrangeiro! — ripostavam os banqueiros. O barão T. Dan e o ministro Inuyi, que não passavam dos executantes de um plano que aproveitava provavelmente mais ao Japão do que aos Mitsiu, pagaram com suas vidas esta traição». Mataram-nos em Fevereiro de 1932, pouco depois dos oficiais terem abatido o primeiro ministro Inukai, «demasiado pacifista». O mi¬ nistro dos Negócios Estrangeiros, o barão Shiderhara, genro do chefe da casa Mitsu¬ bishi, foi gravemente ferido e escapou por milagre. Prenderam os assassinos. Organizou-se uma lista dos proscritos. Depois, o caso foi depressa abafado, porque os jovens conspi¬ radores não pertenciam apenas à «Liga da Fraternidade do Sangue», organismo pode¬ roso creado por um fanático que foi chefe de 72
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE uma repartição de espionagem e padre depois, — Nissho Inuye, — pertenciam também ao «Dai Nippon Soiranto», o partido para a «criação do Japão maior». Eram todos de fa¬ mílias importantes, possuindo amizades só¬ lidas no exército. As armas dos assassinos provinham de oficiais de marinha. «A política e o próprio país — declarou o autor do atentado contra o ministro das Fi¬ nanças— estão corrompidos pela oligarquia, pelas forças do dinheiro. Para os purificar, há só um meio: abater as cabeças, provocar exemplos retumbantes. Êstes crimes repugnam-nos, mas é necessário cometê-los para bem do país». A maioria dos culpados foi condenada pró- -forma. Estão hoje quási todos em «liberdade provisória», são todos heróis nacionais. Du¬ rante a organização do processo contra os assassinos, o general Araki, então ministro da Guerra, recebeu nove dedos mínimos ainda cobertos de sangue. Vinham cuidadosamente embrulhados num pedaço de sêda e colocados numa caixa de madeira preciosa. Acompa¬ nhava-os uma missiva, redigida em termos enérgicos, reclamando clemência em favor dos onze acusados. Os signatários da missiva 73
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE não ocultavam que se sentiriam muito felizes em sacrificar a vida, se êsse sacrifício apro¬ veitasse aos «patriotas». Os oficiais ordenan¬ ças do Ministro da Guerra resolveram con¬ servar êstes dedos num frasco de álcool e expô-los no gabinete de trabalho do general Araki. E os «complots» aumentam em número e em audácia. Em Março de 1934, após um silêncio de quatro meses, o governo deu a conhecer ao público um «complot» que tivera por fim matar o presidente do partido, Seiyu- kai, Kisabrera Suzuki, e o ministro da Ins¬ trução Pública, na ocasião de um congresso realizado em Novembro de 1933, em Kaza- moe, de assaltar um banco para obter os fun¬ dos necessários, de marchar sôbre Tóquio, de massacrar todos os memaros do gabinete e os financeiros em evidência e, depois de pro¬ clamar a lei marcial, estabelecer a ditadura militar. Desde o fim de 1931 que os membros do Keizai Club têm uma vida difícil. Os aten¬ tados tornaram-se tão numerosos que muitos dos grandes, industriais, banqueiros e nego¬ ciantes nipónicos usam costas de malha de¬ baixo dos fatos. Mais de metade dos mem- 74
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE bros do Keizai Club e quási todos os políticos ligados aos Mitsui e aos Mitsubishi foram obrigados a separar-se de seus filhos e de suas mulheres porque tentavam atingi-los matando-lhes os entes mais chegados; a maio¬ ria destes homens de negócios anda cuidado¬ samente guardada por vários detectives parti¬ culares. Mas êstes homens não são timoratos. Sabem que a sua vida está em perigo, mas continuam da mesma maneira a unir-se para resistir às reivindicações dos oficiais, para elaborar novos planos de expansão econó¬ mica, para reunir tôda a sua influência política a fim de evitar o triunfo dos desígnios mais ou menos comunistas do exército, a fim de evitar a guerra aberta que bloqueando os seus mercados, os privaria das matérias primas. Para apaziguar o fanatismo dos jovens ofi¬ ciais, dão presentes ao exército. Em dois anos e meio, a defesa nacional recebeu de parti¬ culares dezoito milhões de «yens» em ofertas. Mas, àparte estas dádivas, esta publicidade sonante de patriotismo, os grandes capitalis¬ tas japoneses fazem todo o possível por con¬ vencer o exército de que a industrialização é o melhor meio de combate, que o exército e as oligarquias devem entender-se como se en- 75
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE tendem na Europa, que ainda não chegou o momento para a grande ofensiva guerreira, que a economia japonesa ainda está longe de bastar-se a si própria. Serão apenas ambiciosos, pacifistas ou guereiros mais previdentes? Pouco interessa agora sabê-lo. O que se verifica é que os membros do Keizai Club, os Mitsiu e os Mitsubishi, são activos como os generais, como o ministro Araki ou o almirante Usumo». Se passarmos do exército à marinha verifi¬ caremos que a enfermidade psicológica é a mesma. Assim o descreve o mesmo Brown nestes períodos aterradores: «A última invenção japonesa consiste num torpedo que, expelido por um submarino or¬ dinário, conterá, um piloto que o dirigirá in¬ falivelmente para o seu alvo. O piloto morrerá, mas, procurando a morte, êle terá, pelo menos, a certeza de não deixar escapar o inimigo. A despeito dos perigos mortais que êles sabem ter que suportar, receberam-se mais de 5.000 pedidos para 400 postos. Os 400 eleitos começaram o seu serviço. 76
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE Em Fevereiro de 1934 oito oficiais morre¬ ram experimentando alguns destes novos en¬ genhos». «O comandante Kuga, gravemente ferido durante a luta em tç>rno de Xangai, feito pri¬ sioneiro pelos chineses durante o tempo em que esteve desmaiado, resgatado por ocasião do armistício suicidou-se, «porque mesmo in¬ consciente, um oficial japonês não pode dei¬ xar-se aprisionar». «Nos barcos de guerra japoneses os oficiais vivem, aos dois e dois, em cabines mas. ver¬ dadeiras células, quási que não comem senão arroz sêco; oficial de três galões não ganham mais de mil francos por mês, dos quais dão muitas vezes duzentos ou trezentos para me¬ lhoramentos do barco. «É verdade, dizia um destes oficiais, que nós mal ganhamos para alimentar nossas famílias. Mas graças às nos¬ sas privações, já pôde o nosso país, êste ano, construir mais três navios». Nenhum cérebro individual congeminaria semelhantes sucessos. Nenhuma alma colectiva, em perfeito equi¬ líbrio, se deixaria invadir por esta trágica promiscuidade de ideias e razões. 77
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE Há, portanto, uma nevrose imperialista no Japão. 2.° Super-populaçãO: Apertados no seu arco insular, terra pobre e pouco arável, com seis grandes ilhas, espalhando-se numa ex¬ tensão de 3.500 quilómetros, e uma população densíssima, proliferando sem paragens, o Ja¬ pão consegue manter, na sua estreiteza ter¬ ritorial, nada menos de 67.800.000, segundo c problemático censo de 1935. Para se estabelecer um paralelo, mais con¬ vincente, basta reparar que o Japão contando com 380.000 quilómetros quadrados, aten¬ dendo ainda a que só 17 % dessa extensão é insuficientemente cultivável e a França pos¬ suindo 550.000, suporta os sessenta e sete milhões já citados e esta movimenta quarenta milhões! Esta diferença insignificante: 27 milhões de almas a mais no Japão! Mas socorramo-nos da eloquência fria dos números para atingir a gravidade do assunto. 78
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE Aumento da natalidade do Japão Anos Almas 1731. 8 . 1828 . 1846 1872 1882 1892 1903 . 913. 1920 1930 1935 26.549.000 25.086.000 27.201.000 26.208.000 33.100.000 36.700.000 41.089.000 46.732.000 53.362.000 55.963.000 64.450.000 67.800.000 As quebras na natalidade ou as pequenas descidas nos primeiros números explicam-se pelas medidas restritivas postas em prática pelo «shogunato» que, mais clarividente do que os actuais governantes, considerava o au¬ mento da população como um perigo iminente para o futuro do império. As práticas impeditivas eram usadas por todo o lado e se se não pautavam pelas mo¬ dernas teorias anti-concepcionistas, eram, no entanto, largamente usadas, nos campos e nas cidades o que levou E. Honjo a escrever que «o povo japonês, tanto no campo como nas 79
O PROBLEMA DO EXT REMO-ORIENTE cidades, praticava o infanticídio como quem arranca legumes ou ervas pela raiz». Se, por desventura, algum casal mais afa¬ noso violava os preceitos do «shogun» sofre¬ ria, a dor imensa, de assistir à morte do filho em demasia... A política prudente do «shogunato» sofria, a seguir, o golpe mortal que lhe seria desfe¬ rido pela soberba côrte do imperador Meiji, a braços já com uma rápida industrialização do país, sorvedouro insaciável de homens e mulheres que as doutrinas anteriores íam eliminando, numa visão antecipada do mal- tusianismo. E daí por deante as ilhas do Dai-Nippon eram superpovoadas por uma multidão me¬ lancólica, mas tenaz — a milagreira da po¬ derosa reviviscência nacional! Acrescente-se que, segundo os melhores cálculos, a população deverá aumentar até 1965 para 108.900.000! * Praticando cautelosanente a política de super-povoamento o Japão integrava-se aden¬ tro do seu ancestral plaio de domínio em ex- 80
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE tensão e profundidade. Caminhava-se, com frenesi, para a meta da vitória, inebriados por um narcizismo deletério, enfermidade de to¬ dos os imperialismos, procurando-se concre¬ tizar uma ideologia milenária que Tanaka, no seu conhecido «memorandum», de 1927, sin¬ tetizava em dois eloquentes períodos: «Para conquistar a China, devemos primei¬ ro conquistar a Mandchúria e a Mongólia. E, para conquistar o Mundo, devemos primeiro conquistar a China». Não se trata aqui, portanto, duma ideia li¬ mitada para atender às prementes necessida¬ des da hora nevrótica do Japão. Além da Mandchúria e de mais território china, o im¬ perialismo nipónico pretendia, e material¬ mente pretende, um alargamento incomensu¬ rável de expansão, atingindo o mundo inteiro que ficaria obedientemente submetido às fle¬ chas mortíferas do arco insular. Justificar doutro modo a sanha imperialista do Japão parece-nos, por isso, contrariar as realidades psicológicas do seu povo e dos seus governantes, apostados em cumprir as determinações dos deuses e da embófia como sucintamente ficou traduzido nas palavras do presidente Tanaka. 81
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE Apostado no cumprimento dêsse programa nada demoverá o Japão de empreender os pri¬ meiros passos, agora em ensaios, na China do martírio. Tôda a política japonesa se orienta nêsse caminho, parcelarmente dividida para sua me¬ lhor efectivação. Conquistada a China abria- -se-lhe a estrada da unificação das raças e das almas afins — o bloco militar de 800 mi¬ lhões de almas que congregasse nada menos que o Japão, China, Indochina, Pérsia e Anatólia! E daí o resto do universo... Submetidos às duras inclemências dessa mistica perturbante não admira o atrevimento das chancelarias de Tóquio, quando, antes do actual conflito, se referiam assim às reivin¬ dicações chinesas e aos desejos da China em orientar a sua política económica para novos climas: «As reivindicações do Japão na China po¬ dem colocá-lo em oposição com as outras po¬ tências; mas está decidido a fazer todo o pos¬ sível para cumprir a sua missão no Extremo- -Oriente. Quere estar em boas e amistosas relações com as outras nações; mas está de¬ cidido a trabalhar só (ebaixo da sua plena 82
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE responsabilidade. Deseja a restauração da ordem e a unificação da China. Mas, se a China se apoia noutra nação para combater, não terá outro remédio senão opôr-se vigoro¬ samente. Se as potências estrangeiras se con¬ certam, a sua intervenção terá para a China as piores consequências. O Japão não se opõe ci negociações individuais entre qualquer po¬ tência e a China conquanto não tenham por objecto perturbar a paz». Acresce ainda que Hirota, o actual titular da pasta dos estrangeiros, secundado pelo seu embaixador em Washington, deturpando o último período da nota acima transcrita, advertia as demais nações de que se abstives¬ sem de interferir no estado chinês, dando a perceber que quaisquer tratados comerciais a estabelecer individualmente com êste país ne¬ cessitavam do beneplácito de Tóquio. Avisada e inteligentemente pensava o vis¬ conde Cécil quando, a propósito dêste embró- glio mistificador, escrevia: «Não. A voz é a voz de Hirota: mas as mãos são as mãos de Araki. A política de conquista que dirige com o seu partido militar foi seguida sem descanço desde a suposta explosão no caminho de ferro de Mukden 83
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE em 18 de Setembro de 1931, até ao presente. O pôr à prova as reacções das potências oci¬ dentais antes de empreender uma nova «éta- pe» de agressões, faz parte dessa política. Daqui a audácia das tropas japonesas depois da primeira excursão fóra da zona do caminho de ferro da Mandchúria para ver se o Con¬ selho da Sociedade das Nações se mostrava de bom ou mau humor. Quando se descobriu que as armas da Sociedade não eram mais do que palavras, continuou o avanço». Mas como nem tudo são rosas, em especial no labirinto da vida internacional, ao super- povoamento rápido e desordenado não cor¬ respondeu uma imediata ocupação de territó¬ rios capaz de absorver o excesso populacional que torna irrespirável as cidades e espalha a fome pelos campos. Daí a uma nova directriz para aliviar a plétora asfixiante: a política da emigra¬ ção. Naturalmente propensos a viver na terra mãi, preferindo comer as folhas das árvores com arroz da Coreia, o japonês recebeu mal a ordem de despejo e reagiu ordeiramente. For¬ tes pressões internas obrigavam-no, no en¬ tanto, a abandonar o lar e a procurar, na terra 84
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE estranha, o alimento e o trabalho que não en¬ contrava na sua. Corajosamente e com uma pertinácia admi¬ rável lançaram-se à aventura, invadindo os Estados Unidos, as Filipinas, o México, o Canadá e o Brasil além duma multodinária infiltração na China. No primeiro dêstes paí¬ ses fez-se sentir um forte movimento de re¬ pulsa manifestado após a anexação das ilhas Hawai, onde já labutavam 30.000 japoneses. Roosevelt em 907 concretizava a ideia no seu tratado com Tóquio e mais tarde, em 1924, consagrava-a definitivamente. Ao contrário das restantes nações que dei¬ xam as correntes emigratórias entregues a si mesmas, em especial no que se refere às des¬ locações para o estrangeiro, o governo nipó- nico dinamiza-as e favorece-as, subsidiando- -as como se tratasse — como são na realidade — dum autêntico problema nacional. Não há da parte do japonês, nêste parti¬ cular, uma manifestação livre da sua vontade, um desejo obsediante de aventura ou uma pesquiza de fortuna por ambição insaciável. Limita-se a obedecer religiosamente, e da mesma forma como se arregimenta e morre nos campos da batalha ou se suicida, cortando 85
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE os intestinos, também abandona a terra e a família, num êxodo inconsciente, por vezes, mas conscientemente pensado pelo Mikado, clarividente e omnisciente. Basta relembrar o que se passou com o Brasil para constatar esta verdade. Para uma melhor vulgarização do assunto observemos êste bem deduzido artigo, inserto no n.° 28 da valiosa revista de S. Paulo, «Inteligência»: «Setecentos emigrantes japoneses desem¬ barcaram no Brasil, em 1908, e foram distri¬ buídos pelas plantações de café de S. Paulo. Três anos mais tarde, uma leva chegou e foi enviada a Minas Gerais. Estas experiências tiveram tanto êxito, que os govêrnos dos Es¬ tados e os lavradores de todo o Brasil, cla¬ maram por novas remessas. Em resposta aos seus apêlos, e à vista da escassez de trabalha¬ dores por tôdas as partes do país, o govêrno federal concordou em financiar a importação de japoneses em grande escala. A êsse tempo, entretanto, o Japão estava remetendo o seu excesso de população para os Estados Uni¬ dos, e, até 1924, quando os Estados Unidos promulgaram a lei contra os emigrantes ama- 86
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE relos os pedidos do Brasil foram pràticamente deixados à margem. De 1924 para diante, o Brasil tornou-se a Meca dos emigrantes ja¬ poneses. Cincoenta por cento dos que aban¬ donaram seus lares, a princípio, pagas pelo governo japonês e,'mais tarde, por sociedades de emigração subsidiadas. Os japoneses en¬ traram no Brasil em tal número, que o público e a imprensa se alarmaram, pedindo medidas restrictivas. Em consequência, inseriu-se uma cláusula, na Nova Constituição de 1934, limi¬ tando a entrada de emigrantes vindos de qualquer país, por ano, a dois por cento dos membros de cada nacionalidade que se hou¬ vessem fixado no Brasil durante os cincoenta anos procedentes. Pelo sistema de quotas assim estabelecido, 2.884 japoneses ficaram com o direito de admissão, durante o ano de 1935, mas, na realidade, 9.611 de facto en¬ traram pelos diferentes portos. Os propugnadores da restrição alegam que os japoneses, em virtude do seu padrão de vida, fazem competição desigual aos peque¬ nos lavradores do interior e que, visto como não se assimilam aos nativos, ameaçam for¬ mar poderosos centros estrangeiros no vasto território do Brasil, se continuarem a entrar 87
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE no país em grande massa. Não se nega que êles sejam trabalhadores, sóbrios e dotados de. iniciativa, nem que tenham prestado va¬ lioso serviço ao desenvolvimento agrícola e industrial. O número dos japoneses, actual- mente residentes no Brasil, é calculado em 200.000, representado 0,56 por cento do total da população. Estatísticas publicadas pelo govêrno de São Paulo mostram que 172.169 entraram pelo pôrto de Santos, até ao fim de Maio de 1936, e, destes, 140.000 resi¬ dem provàvelmente no Estado, nos dias de hoje. Foram empregados, a princípio, no desbas- tamento de amplas zonas florestais virgens, beirando as estradas de ferro. Feito isto, fo¬ ram enviados para as plantações de café. Mais tarde, depois do colapso do mercado de café, começaram a plantar algodão e frutas para exportação, e vegetais para consumo in¬ terno. Como proveitoso acessório, cultivaram amoreiras e bichos-de-seda para a mais re¬ cente indústria de São Paulo, utilizando-se dos quintais e de tôda a polegada de terreno, para tal fim. No curso de poucos anos, torna¬ ram-se independentes e adquiriram, ou arren-. daram, pequenas plartações. Hoje, possuem 88
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE mais de 12.000 propriedades no Estado de São Paulo. Afóra estas actividades individuais, um sindicato de Tókio detém uma concessão do govêrno de São Paulo, para explorar, com trabalhadores japoneses, ampla área de ter¬ reno na costa sul, em Iguape e municipali¬ dades vizinhas. Esta região baixa e fértil, havia-se, até então, subtraído ao desenvolvi¬ mento. Durante os quatrocentos anos que se passaram, desde que os portugueses primeiro ali se instalaram, os poucos habitantes, des¬ providos de quaisquer facilidades de trans¬ porte reduziam as suas actividades à pesca. Agora três colónias organizadas, com a popu¬ lação de 6.000 japoneses, encontram-se esta¬ belecidas no districto. Sob a direcção de técnicos, criam gado, plantam arroz, algodão, milho e cana de açúcar. Onde apenas exis¬ tiam brejos e choupanas de sapé, agora se vêm escolas, hospitais, edifícios administrati¬ vos e oficinas, com estabelecimento industrial para beneficiar a produção do núcleo. Em adição às maiores colónias, o sindicato administra um pequeno núcleo em Castanhal, a 40 milhas a oéste de Belém pela estrada de ferro de Bragança. Ali, os principais são o 89
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE cacau, as madeiras, as frutas e os vegetais. Em Bragança mantem-se uma estação expe¬ rimental, destinada a proporcionar conselhos aos colonos e, em Belém, pôrto de desembar¬ que, construiu-se um hotel com acomodações para quinhentos emigrantes. Os recem-che- gados são conservados ali, e recebem instru¬ ções sôbre higiene e condições locais, antes de serem enviados para os núcleos. Os principais productos dos núcleos do Amazonas são o arroz, o cacau e o guaraná. Êste último — fruta de que extrai a guarani- na, base da euritmina — encontrou mercado feito no Japão. Como acontece com a maioria do excesso da produção das actividades japo¬ nesas, assiste ao Japão o dever de enfrentar as obrigações do comércio recíproco para com o Brasil. Opção para outra concessão de dois milhões e meio de acres, no Amazonas, foi assegurada pelo governo do Estado a dois japoneses, antes da lei de emigração de 1934. A concessão é valiosa, posto que compreende terras situadas nas margens de rios navegᬠveis, em uma das mais populosas e férteis regiões do Estado. A concessão autoriza os concessionários a colocar 10.000 famílias ja-. ponesas na sua área, garante isenção de taxas 90
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE estaduais e municipais e reserva-lhe o direito de explorar quaisquer minerais encontrados na concessão. Muitos dos favores assegura¬ dos entram em conflito com a Constituição de 1934, mas há dúvidas sôbre se esta anula obrigações anteriormente assumidas pelo go- vêrno do Estado. Independentemente das colónias organiza¬ das, milhares de japoneses cultivam cacau, arroz, fumo, ou colhem borracha e castanha. Outros, entregam-se à pesca do pirarucu, grande peixe de água dôce, que, secado e sal¬ gado, vai, ràpidamente tomando o lugar do bacalhau importado pelos mercados brasilei¬ ros. Aqui e acolá, encontram-se jovens per¬ tencentes às escolas agrícolas japonesas. Al¬ guns fizeram acordo com proprietários de grandes terras, e, de conformidade com as cláusulas estabelecidas, lavram uma área sem pagamento de aluguer, e dividem os lucros com o proprietário. Há um caso em que um japonês capitalista enviou ao Brasil grande grupo de estudantes, à sua custa, colocou-o numa área de terra, e pretende passar a pro¬ priedade da mesma para o referido grupo, se êste puder constituir uma colónia que se baste a si própria, dentro de cinco anos». 91
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE Verifica-se atravez desta rápida leitura a fé inabalável dos japoneses e a sua confiança ilimitada em si próprios, grandes qualidades de trabalho, vivíssima inteligência e um poder sobrenatural de adaptação. Só assim se compreende a troca de habitat do japonês, exòticamente oriental, pela for¬ nalha luxuriante da selva brasiliana, criando e impulsionando iniciativas, ultrapassando os naturais nas concepções de organização e re¬ velando potencialidades materiais em embrião prometedor. Compreende-se e pode-se aceitar uma bem intencionada política emigratória, atentos os benefícios que ela pode trazer. Torna-se mes¬ mo questão de humanidade abrir as portas aos povos pletóricos, desde que nas terras invadidas os problemas locais não atraves¬ sem crises de superpopulação e desemprêgo. Mas daqui a uma preconcebida ideia imperia¬ lista de infiltramento vai uma distância abis¬ sal... E que sempre asiim pensamos prova-o a transcrição que vamcs fazer dum artigo nosso, publicado na «Vida Contemporânea» de Ju¬ nho de 1935. Alí, como agora, íos inclinamos pela colo- 92
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE cação de parte do excedente populacional ja¬ ponês nas planícies desérticas e malbaratadas da Austrália, desde que, a governação local soubesse, com uma prudente vigília, refrear os impulsos absorventes. Segue o modesto artiguelho que tem ainda a vantagem vulgarisadora — não é outro o nosso intuito — de chamar a atenção dos es¬ tudiosos para o oportuno e utilíssimo livro de Antoine Zischka: «A leitura dum interessante trabalho de Antoine Zischka, «Le Japon dans le monde», sugeriu-me êste artigo. Trata-se dum livro indispensável para a compreensão absoluta do complicado caso japonês que já, em nú¬ meros anteriores, nos suscitou algumas mo¬ destas considerações. A evolução económica e política do Japão desde 1854 a 1934 é estudada nêste volume de 311 páginas com um cuidado e ponderação admiráveis, procurando sempre colocar os factos e os homens nas suas diversas posições, definindo com precisão os complexos contor¬ nos do fenómeno e integrando as realidades nipónicas no quadro vasto da economia mun¬ dial, para assim melhor se compreender a ex¬ tensão dos seus reflexos. 93
C PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE Dividido em quatro partes distintas — as¬ pectos do Japão, a expansão paca o sul, a ex¬ pansão para o norte e a expansão mundial — o livro de Antoine Zischka passa em revista minuciosa tôdas as particularidades da vida japonesa. No seu primeiro capítulo o autor descreve o poder sobrehumano das oligar¬ quias do Dai-Nippon que têm nos Mitsui e nos Mitsubish os seus expoentes máximos, mostrando a sua poderosa influência na vida interna do Estado e a grandeza dos ser¬ viços externos de propaganda, organizados de forma a competir com os melhores congé¬ neres. No mesmo capítulo é digna de nota a anᬠlise judiciosa feita por Zischka aos problemas de superpopulação e organização da mão de obra, ligados intimamente às deficiências da emigração e ao «chomage» aflitivo que se exemplifica na circunstância de se ver fre- qiientemente pelas ruas de Tókio, um auto¬ móvel com dois «chauffeurs», um para guiar e outro para atender os passageiros, e os eléctricos com quatro empregados encarrega¬ dos da cobrança. Ainda nesta parte do livro, o ilustre escritor descreve a influência da mi¬ séria rural sôbre os métodos de expansão, o 94
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE poder do exército e o valor táctico da sua marinha. Na segunda parte dêste importante traba¬ lho. Zischka fala-nos, com grande número de pormenores, da expansibilidade nipónica para o sul, com as dificuldades da barreira ameri¬ cana nas Filipinas; da importância da espio¬ nagem japonesa em Singapura «Le carrefour de TOrient», da especial situação psicológica das índias Neerlandezas e por fim na Aus¬ trália — «1’espace pour le Japon». A terceira parte dedica-a o autor ao estudo das condições de fixação japonesa nos ter¬ ritórios do norte, analizando o problema coreano — «le poignard qui menace le cceur du Japon»; — à conquista pacífica da Man- dchúria; ao exame da China com a consecução dum desejado plano pan-asiático e à escalpe- lização do perigo russo, com a industrializa¬ ção da Sibéria e a bolchevização crescente das populações insubmissas. Por fim na última parte do seu trabalho, Antoine Zischka examina o desenvolvimento recente de algumas indústrias japonesas com a correlativa evolução dos processos químicos e físicos. Conclui o livro pelo estudo dos problemas 95
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE demográficos, fornecendo aos leitores inú¬ meros quadros necessários para uma fiel in¬ terpretação da miríade de problemas ligados ao Japão moderno. Chamo a atenção do leitor interessado pe¬ las questões internacionais, dentre as quais o caso oriental ocupa proeminente lugar, para esta obra indispensável. * * * De todo o livro o que mais chamou a minha atenção foi o capitulozinho dedicado pelo au¬ tor à Austrália nas suas relações com o poten¬ tado nipónico. Já tinham chegado até mim vagas notícias dum desejado intervencionismo japonês em terras australianas mas confesso — pela carência de elementos de informação — a minha ignorância dos detalhes dêsse grande cometimento. Os dados fornecidos por Zischka propor¬ cionam-me, como disse, êste artiguelho. A Austrália merece bem a cognominação de colónia sem colonos. Numa tão grande ex¬ tensão territorial a escassez de habitantes é verdadeiramente aflitiva, — não chega a sete milhões. 96
O PROBLEMA DO EX T REMO - O RI EN T E A impressão duma visita à Austrália é de que a civilização tendo deixado vestígios con¬ sideráveis, primou em espalhá-los de tal for¬ ma que o seu mapa nos dá ideia duma super¬ fície aqui e ali tocada por qualquer minúsculo sôpro de vida. Em Cambera, a capital federal, o viajante recebe logo a primeira impressão de despo- voamento dêsse continente. Grandes estradas alcatroadas separam, por dezenas de metros, os edifícios uns dos outros, a estação separada da cidade vinte minutos, o Parlamento a re¬ gular distância dos ministérios — com todos êstes intervalos despidos de habitações, quais ilhas no extenso mar australiano. Para bem compreender o problema vejamos que no Japão a densidade populacional atinge 169 habitantes por quilómetro quadrado, 1.000 homens por quilómetro quadrado de terra fértil e 2.600 homens por um quilómetro quadrado em volta de Tókio, ao contrário da Austrália onde um oitavo de homens ocupa um quilómetro quadrado, sendo a densidade maior nos terrenos do norte, a menor parte envolta pelos desertos, que sobe a 3.000 qui¬ lómetros por cada homem... Em contradição com o superpovoamento 97 7
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE oriental a Austrália vive uma vida relativa¬ mente feliz, os seus habitantes fortes e bona¬ cheirões espalhando-se como resignados ma¬ draços pelos seus 69 %> de terrenos cultivᬠveis — num desafio às aflições do seu vizinho insular, apertado no arco flexível. Lógica seria portanto a ambição nipónica por essas extensões lamentàvelmente deser¬ tas, avaras à intromissão estrangeira, num monroísmo desesperante que chega a evitar contactos com o elemento neo-britânico e a castigar severamente os funcionários que, em 1933, se descuidaram na fiscalização das en¬ tradas de chineses ansiosos por colocar os seus caprichosos produtos. Nestas condições a vida australiana é duma uniformidade dionisíaca. Nada de arrelias, nem de canseiras, nem de trabalhos. Cada um tem o território que precisar, os salários são compensadores pela ausência de concorrentes e a velhice tem a segurança duma remuneração permanente — uma autên¬ tica reforma... Deixa pacientemente apodrecer o seu grão e desde 12 de Julho de 1932 até 12 de Setem¬ bro de 1933 foram lançadas ao mar nada menos de 8.780 laranjas... 98
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE Não aprofunda a terra na pesquiza do car¬ vão. As suas minas são superficiais. Uma vi¬ sita ao território de Newcastle mostra bem o desprêso do australiano em querer arrancar à gleba aquilo de que não necessita. A sua produção de lã interessa sobrema¬ neira o Japão. As relações com a Austrália caracterizam-se por circunstâncias especiais. São dois povos desconfiados. O japonês embevecido com essa planura atraente para a sua multidão não quere dar o braço a torcer, colocando-se numa situação de inferioridade, dando mostras de grande necessidade da pro¬ dução lanígera da Austrália. Tanto assim é que na altura em que o Com¬ monwealth elevava as tarifas aduaneiras para a saída da lã, o govêrno de Tókio voltando as costas à produção australiana procurou com¬ pensar-se dessa contrariedade com a obten¬ ção de facilidades de compra nos mercados do Cabo, da Argentina e da Europa. Os australianos, por seu turno, conhecedo¬ res dos desejos do imperialismo japonês, ve¬ lado sempre por promessas de concórdia e de bons desejos de estreitas interdependências económicas, põe de reserva os seus intentos, vigiando-os nas visitas inocentes para a pesca 99
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE de moluscos, sem desprezar uma pachorrenta preparação para um conflito no oriente que os coagisse a intervir. Sentimos, um profundo respeito pela inte¬ gridade dos territórios pátrios de cada um. Mas perguntamos: Haverá alguma coisa de razoável e humano que explique essa ex¬ tensão desértica australiana, pletórica de ri¬ queza, no momento em que milhares de japo¬ neses esfomeados se amontoam numa pro¬ miscuidade aterradora e impossível?» Mostra o pequeno artigo, entre outras coi¬ sas, a imparcialidade com que quero orientar êste trabalho. Dum lado o absorvente impe¬ rialismo nipónico; do outro o fleugmático im¬ perialismo britânico. Como imperialismos que são ambos, mere- cem-se um ao outro... % 3.° Expansão económica: Há no dicionário reduzido das aspirações expansionistas do Japão esta expressão que pode esclarecer bas¬ tante — «Sangjô rikkoku» — que, em portu¬ guês, poderá exprimir o seguinte: industriali¬ zação do país. E como no breviário ancestral se incluia o preceito, vá de imprimir à indústria um incre- 100
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE mento formidável que ficou traduzido elo- qiientemente nas páginas anteriores! Acicatados pelas grandezas da técnica, vá de transformar o país numa metrópole con¬ fusa e movimentada — europeização assom¬ brosa que merecia a Júlio Samerwein as pala¬ vras seguintes, saídas a lume nas páginas do «EI Sol»: «A primeira impressão é de pujança. Eu tinha atravessado êste país havia sete anos, quando Tókio e Yokoama começavam apenas a ressuscitar depois do terramoto que havia destruído seiscentas mil casas. Hoje, as suas cidades, as suas ruas principais lembram as naves americanas. Milhares de autos, carros eléctricos e autobuses; começou a construção de metros, os pavimentos são uniformes, as avenidas de bom asfalto e os ministérios, as casas comerciais e os Bancos estão instalados em sumptuosos arranha-céus. O povo que circula nesta aglomeração de seis milhões de habitantes quási tão numerosa como Londres, é uma estranha e fascinante mistura de duas civilizações. Na rua seguinte em que um homem ou uma mulher se vestem à japonesa ou à europeia, não é somente o seu trajo que muda como também o seu andar, a 101
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE sua atitude, os seus gestos. Êste gentleman desce do seu escritório de elevador. Calçado com sapatos à americana, marcha com passo firme e decidido, atravessa a ave¬ nida e sobe para o seu automóvel, que o leva a vertiginosa velocidade. Durante todo o dia trabalhou junto ao telefone, ditou à dactiló¬ grafa, telegrafou e negociou em inglês e agora acende o seu cigarro com um acendedor eléctrico e abstrai-se com as últimas notícias do Japon Times. Deante da sua pequena man¬ são pára o seu carro; sobe a escadaria; a sua criada, de Kimono, prosta-se perante êle (mudou de alma) e êle mirou-a com olhos frios e imperiosos. Se sua mulher está ali, ajuda a criada a despojá-lo do seu fato e a tirar-lhe os sapatos, tudo no meio de respeitosas per¬ guntas àcêrca da saúde do seu chefe». Que admirável síntese da estranha duali¬ dade espiritual dêsse povo! Mas retomemos o fio da nossa despreten- ciosa conversa. Industrializado ràpidamente o país, mercê dos impulsos da técnica e da feroz campanha imperialista que conduzia a um apertado re¬ gime de economia, pretensamente dirigida, o 102
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE Japão, embora lutando com a escassez de ma¬ térias primas, lançou-se abertamente na luta de concorrência, creando o seu dumping. Observemo-lo e procuremos justificá-lo: O que poderemos entender por dum¬ ping? Roberto Michels na «Organisacion del Comércio exterior» (colecção Labor), define-o da seguinte forma: «Saída para o mercado exterior, a preço reduzido e ainda recorrendo a um custo inferior ao normal, do excesso da produção nacional». Di Nola, economista italiano, citado por Michels, contraria, um pouco a definição, ar¬ gumentando que o dumping pode muitas ve¬ zes resultar não dum excesso de produção nacional, mas sim do desejo dos industriais de conquistar, com manifesto prejuízo das ne¬ cessidades nacionais, os vários mercados es¬ trangeiros resultando daí uma inquietação progressiva nos meios compradores das loca¬ lidades que passam a ver no dumping, um ele¬ mento de ruína e desbarato. Carlos Gide enfileira ao lado dos apolo¬ gistas sérios do dumping como se pode ver dum trabalho publicado na «Revue de Econo¬ mic politique», combatendo aqueles que vêm 103
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE no dumping um elemento encarecedor dos preços de venda nos mercados externos. Para atenuar os contras do dumping têm os economistas alvitrado a adopção da cha¬ mada Protecção da qualidade (Qualitatss- chutz), em virtude da qual os países expor¬ tarão as qualidades mais finas, deixando para os gastos internos as qualidades inferiores. Tal política foi posta em prática na Suíssa e no Japão respectivamente com os queijos e com a sêda. Em que condições se estará operando o dumping japonês? Parcelemos, como de costume, o assunto: I — A unidade económica: Tôda a org⬠nica económica do Japão obedece a um plano de férrea unidade. Primeiramente era ao Estado que competia a superior directriz da vida económica. Mais tarde passou a competência para as mãos avaras e tenazes das duas maiores famílias nipónicas, verdadeiras monopolizadoras da economia e da finança — os Mitsui e os Mitsubishi. Para se fazer uma ideia do poder fantástico dessas duas famílias, basta saber que à pri- 104
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE meira pertencem os potentados económicos do primeiro quadro que se segue e à segunda os do segundo: 1,° Quadro Nome do potentado Natureza Capital 1— Mitsui Russan Kaisb .... 2— Mitsui Tozan Kaish .... 3— Mitsui Ginko . 4— Mitsui Trust . 5 —Sakai Celluloid 6— Muke. 7— Toshin . . . . 8— Gofukulén . . 9— Shibanza . . . 10— Hokkaido. . . 11— Toho. 12— Kanegafuchi . 13— Hokai Ywo . . 14— Taiwan. . . . 15— Tariku Coe . . 16— Taisho . . . . 17— Claude e Dan- cki. Car.*s de navegação Sociedade mineira Banco Sociedades Bancárias Fábricas de papel Fábricas de tintas Soc. de entrepostos Armazéns de molas Oficinas metalúrgicas Sociedade mineira Sêda artificial Algodões Enxôfre Plantações de açúcar Madeiras Seguros Nitratos 100 mllbões de yens 100 » > » 885 » » » 260 “ » » ? » » » » » >» » » » » ») » Não nos foi possível averiguar os capitais de todos os monopólios da família Mitsui, mas, segundo Brown, as transacções comer¬ ciais, em 1930, orçavam pela cifra astronó- 105
O PROBLEMA DO EXTREMO - ORIENTE mica de I bilião e 700 milhões de «yens». Há a acrescentar que a família mencionada ainda estende os seus negócios pelas diversas con¬ cessões que possui na Rússia e no México e que pertence à internacional de armamentos, pelas suas afinidades comerciais com a firma Shneeider-Creuzot... 2.° Quadro Nome do potentado Natureza Capital 1— Banco Mitsu¬ bishi . 2— -Mitsubishi Shi¬ pyard . . . . 3— Mitsubishi Co¬ mercial. . . . 4— Mitsubishi Mi- niny. 5— Kiushu e Iron Workes. . . . 6 — Sabhraline . . 7—Mitsubishi mo¬ toro . 8 —M itsubishi eléc- trica . 9—Nippons . . . 10— Meijá. 11 —Nachin .... 12 —S. A. Mitsubishi 13— S. A. Showa. . 14— Meijá. 15— Asliberi . . . Construções navais Importe exportações Carvão e cobre Aço Serrações Aviões e automóveis Equip.ms eléctricos Nitratos Refinações de açúcar Bolachas Papel Conservas e peixe Seguros Ferro e carvões 750 milhões de yens 368 » » » PicúojSo anoal 75,00 llbr. 106
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE A família Mitsubishi alarga, também, o seu raio de acção até Berlim, Paris, Londres e Nova York e, como a sua aliada Mitsui, tam¬ bém pertence à internacional de armamentos, por intermédio da casa Vickers, sua con- sócia... É quási certo que nos quadros anteriores faltam ainda elementos para atestar o real puder das duas famílias proprietárias do Japão. Mas pela pequena amostra se pode avaliar o resto. Quando seria natural que em qualquer país ocidental as duas famílias se degladiassem raivosamente, na preconcebida ideia de con¬ centrar numa delas todo o poderio económico, no Japão as coisas passam-se, paradoxal¬ mente, de maneira diferente. Ambas sabem quanto vale a unidade para uma campanha que interessando o país, mais interessa a elas... Nas salas opulentas do «Keizaí Club» — agremiação respeitada e quási religiosamente venerada — os magnates da plutocracia ni- pónica concertam os seus negócios e, numa fraternidade inimitável, os membros das duas famílias combinam e estabelecem os planos 107
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE de ataque, consultando a miríade de do¬ cumentos pertinentes às suas intensas rela¬ ções mercantis e preparando, com afan, a ex¬ plosão destruidora do «dumping» (a). Não se julgue, entretanto, que a unidade económica examinada seria bastante para o progresso e felicidade crescente dos planos. A chave do enigma reside num outro ele- (a) — Já êste livro ia para o prelo quando nos chegaram alguns números interessantes que não queremos deixar de ar¬ quivar para melhor compreensão do problema. Fomos colhê-los a um pequeno estudo do Prof. Pacheco de Amorim, inserto no seu último livro «Finanças e Economia», em que o catedrático coimbrão analiza a economia japonesa. São êles: 1) — índice da produção industrial e da produção dos maquinismos Anos ProduçSo industrial Produçfto de maquinisiros 1927 . 1928 1929 1930 1931 . 1932 1933 1934 1935 . 82,9 89.7 100,0 94.8 91,6 97.8 113,2 128.7 141.8 100,0 94,0 107,0 137,6 180,0 211,9 108
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE — Indices dos preços por atacado e do custo de vida Anos Atacado Custo de vida 1926 . 1927 1928 1929 1930 . 1931 1932 1933 1934 . 1935 107.7 102,2 102.8 100,0 82.4 69.6 73,2 81.6 80,8 84.4 109,7 102,9 105,5 100,0 85.5 74,7 75,4 80,3 82,0 83.6 3) — Comércio externo (em milhares de toneladas métricas) Anos Importação Exportação 1926. 1934 . 1935 1,416 1,921 2,188 50 7 No mesmo livro vem a notícia, para nós desconhecida, de que o nosso comércio de panos em Africa está sendo enorme¬ mente prejudicado pelo «dumping». mento — o mais preponderante de todos — e que é umas das resultantes da terrível nevrose imperialista que dominando as forças armadas 109
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE se estende, também às populações trabalha¬ doras dos campos e das cidades. É o objectivo do nosso estudo a seguir. II — Vida Social: O conformismo gregário do trabalhador nipónico é significativo. Pos¬ suído pela mesma mística absorvente luta desesperadamente pelo Dai-Nippon. Da sua bôca não se solta um queixume, nem os seus olhos, melancolicamente rasgados, se ilumi¬ nam pelo desespero incontido. Vivendo em autênticas estrumeiras, aper¬ tados em compartimentos exíguos mal respi¬ rando, o trabalhador japonês suporta alegre¬ mente as desventuras, num estoicismo, verda¬ deiramente espartano, para honra e felicidade do Mikado. Sóbrios na alimentação bastam-lhe insufi¬ cientes refeições de arroz e peixe sêco para suportar as intempéries físicas das horas in¬ findáveis de trabalho nas oficinas e nos campos. As «magaya» são o maior monumento à fé inabalável dêsses obreiros dum grande im¬ pério, antros infectos onde, numa promiscui¬ dade revoltante, se agacham famílias inteiras, de prole numerosa, sem higiene, nem decoro. 110
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE Mais de dezoito mil famílias vivem em Tó- kio nestas condições... Se nos campos o feudalismo do «shogu- nato» ainda perdura, em tôda a sua crueza, nas cidades mascara-se com a balbúrdia das técnicas. Tôda a gente trabalha. Não há respeito por idades nem por sexos. Creanças que no ocidente estariam arreda¬ das de qualquer labor são empregadas no Japão em pequenas indústrias de porcelanas ou na manufactura de brinquedos. Mais de doze horas é a média diária do trabalho japonês! E a mulher, escrava entre as escravas, ocupa nêsse gigantesco laboratório um lugar de sacrifício. 68 % de operários são mulheres, na grande indústria, horrivelmente pagas e ainda, sujeitas a demoras infindáveis na liqui¬ dação dos seus míseros salários. E a propósito de mulheres — ente despre¬ zível entre os nipónicos — não é desproposi¬ tado relembrar que, para povoar a Mandchú- ria conquistada, os agentes governamentais compraram, nos campos exaustos, nada me¬ nos de 42.000, na idade das fugazes ilusões... Num ambiente de tão revoltante escrava- 111
O PROBLEMA DO EXT REMO-ORIENTE tura seria natural que uma consciência prole¬ tária fizesse ouvir os seus justos clamores. Afastados da concepção humanitária, nada lobrigando, além do «Dai Nippon», o ope¬ rário japonês prossegue imperturbável na sua faina milenária. Recalcamento de instintos? Vá lá advinhar-se qualquer coisa na alma plural dessa multidão impenetrável... Os cinco ou seis «yens» mensais bastam! * Os dois elementos apontados — unidade económica e vida social — justificam, a nosso ver, o calamitoso dumping que, à semelhança, dos canhões nipónicos pretende fazer calar os protestos da economia ocidental, a braços com a enfermidade imperdoável da crise. E que o facto é grave basta atentar nas mu¬ ralhas aduaneiras que se vão levantando a essa assoladora invasão comercial, aos pro¬ testos consecutivos dos órgãos oficiais, e às constantes representações dos organismos económicos, em perigo, aos poderes consti¬ tuídos. Nada, no entanto, ainda evitou que os pro- 112
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE dutos japoneses, transportados em verdadei¬ ras caravanas, inundassem os mercados e me¬ recessem a preferência justificável dos com¬ pradores. Ainda recentemente a Associação dos fa¬ bricantes de cerveja alemã reclamava junto do Fiihrer contra a importação da cerveja japonesa que se vende mais barata que o custo das garrafas... O mesmo vai sucedendo com a indústria das lâmpadas, dos lápis, dos bonecos e de bugigangas, das bicicletas, dos vidros de cristal e do sabão... Kataru-mioche (o silêncio é precioso) -— eis a divisa do industrial nipónico que consegue fenomenalmente vender na Inglaterra um ex- plêndido wisky mais barato do que o nacio¬ nal; que coloca nos mercados europeus apa¬ relhos radiofónicos, com quatro lâmpadas, por 200$00; que fornece bicicletas para crean- ças a 70$00 e câmaras de ar a $70; que en¬ trega por 14$00 uma dúzia de peúgas de al¬ godão e leilôa relógios a 64$00 ao quilo... ★ * * Mas no tablado das lutas no Extremo- -Oriente não estão só o Japão e a China, em- 113 s
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE bora pelas características dos seus embates sejam os dois países mais em evidência. A par da fogosidade imperialista do Japão existem também outros imperialismos, menos perigosos nas suas consequências materiais, mas que seria imperdoável não causticar. São êles: I — Estados Unidos: O imperialismo comercial norte americano salienta-se na luta com o Japão para a obtenção do mercado chi¬ nês. Basta relembrar que, em 1906, a América vendia 33 milhões de «dollars» de algodão à China e que o Japão, com a rápida industria¬ lização e com os seus centros produtores fóra da Pátria, fez descer para 183.000 «dollars», em 1926! Acresce que, ao lado da concorrência comercial, os Estados Unidos ainda persistem na esperança de derrubar o antagonista no campo militar e, para isso, lhes aponta, inutil¬ mente, os canhões de «Diamond Head», que alguns já chamam o «Gibraltar americano». Atentem os incrédulos nestas palavras do presidente da comissão naval americana no Senado: «Nêste mundo civilizado, nós somos sós e 114
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE sem amigos. Devemos contar unicamente com nós próprios para assegurar a defesa nacional e a protecção do nosso comércio». II — Inglaterra: A fortaleza inabordável que é Singapura, cada vez mais apetrechada, é a sentinela britânica no complexo oriental. Daí a espionagem nipónica, cada vez mais aturada em redor da cidade privilegiada... É claro que a potencialidade guerreira desse «Carrefour de 1’Orient» não tem evi¬ tado a cruzada económica do Japão e a des¬ truição lenta, mas decidida, do comércio in¬ glês na China e em todo o Oriente, onde Hong-Kong se debate na crise aguda das horas das vacas magras... A quem quizer aprofundar esta parte do problema recomendamos a leitura proveitosa do livro do comandante da marinha japonesa, Ishumaru. «O Japão deve combater a Grã- -Bretanha». Lá vem a rivalidade anglo-nipónica. Sinte- tiza-a Ishumaru nêste período: «Esta luta pelo domínio económico atinge muito sèriamente o desenvolvimento do Japão; para êste, tanto euanto para a Inglaterra, é uma questão de vida ou de morte». 115
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE Para isso não esconde Ishumaru os intuitos do seu país: O Japão deveria ocupar a Aus¬ trália, a Nova Zelândia e Hong-Kong, re¬ nunciando a Grã-Bretanha ao mercado chinês! III — Rússia: A industrialização da Sibé¬ ria, transformada, mercê da técnica, num po¬ tentado de primeira grandeza, é, entre outros motivos, a que não é estranha a propaganda política, uma fonte de contendas económicas entre o Japão e a Rússia. Já nos referimos à infiltração russa na Chi¬ na e ao desbarato que sofreu o comércio ni- pónico. Acrescentaremos, agora, que as ex¬ portações russas de produtos siberianos, atin¬ giu, para a Mongólia, 7,7 milhões de rublos e para a China ocidental nada menos de 10,6 milhões. Daí a negativa permanente de Tókio em estabelecer pactos de amizade com Moscovo para, como pensa Hirota, «o Japão ficar com as mãos livres». Mas ainda não são só êstes. Seria fasti¬ diosa a enumeração pormenorizada de todos os culpados das carnificinas do Extreme - -Oriente. 116
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE Ficando por aqui estamos convencidos que o leitor se inteirou verdadeiramente do pro¬ blema grave e perturbador que é o Pací¬ fico. jjT /> // _ Novamente a I V - L/ A/ovo mat- . China mártir so- títio da (2hi na: fre as duras pro¬ vações duma in¬ vasão nipónica, desta vez com requintes de¬ molidores nunca observados. Procurar as razões? Ei-las no estudo a que nos abalançamos, atravez da gélida formatura dos números e do mostruário infinito das ra¬ zões expostas. Milhares, milhões de mortos apodrecem no norte da China, expostos à voracidade dos abutres. Shangai, arde numa labareda an¬ gustiosa, derruindo-se ante a metralha po¬ tente. Mocidades chinesas e japonesas reta¬ lham-se canibalescamente na conquista das melhores posições militares... Eis o quadro dêste fim de Setembro! 117
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE Lá longe, em Tókio, em Londres, nos Estados Unidos — por todo o mundo — duas categorias de homens observam o pro¬ blema. Uns, os Mitsui, os Mitsubich, a Shneider, os Vickers, os homens da sêda, da lã, do fer¬ ro, do aço, das mercadorias — esfregam as mãos de contentes... Outros — os idealistas da Paz — lamen¬ tam as amarguras do seu semelhante, cravam os olhos em Génebra para, desiludidos, os subirem até ao Céu à procura do milagre da ressurreição impossível... Sem pertencermos aos primeiros e sem, como os segundos, prantear as dôres nos «muros das lamentações», comove-nos, no entanto, o sofrimento atroz da China e para ela vai a nossa solidariedade sincera e nessa solidariedade vai também um cuidado para os nossos irmãos de sangue, encravados era Macau, no litoral do infortunado país. Como acabará a nova fase do imperialismo no Pacífico? Por uma guerra duradoura, contra a qual se opõe a penúria financeiro dos nipó- niCos? Para uma conquista da China, em contra- 118
O PROBLEMA DO EXTREMO-ORIENTE dição com a ofensiva inesperada e heroica do povo chinês? Por uma conflagração geral? Mundo cheio de surpresas, época incon¬ gruente, sucessos inesperados, reviravoltas acrobáticas, atitudes indefinidas — eis a vida que nós vivemos. Quem ousará raciocinar, com lógica, numa ambiência desta triste conformação? 119
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