• • , MEMORIA DOS Çtostoios Q elobrados EM /s is & /is ás ás /IS /IS ás ás ás ás ás Shanghai em Commemoração cio Jf°. Centenario cio Descobrimento Marítimo cia índia por Vasco da Gama. {Compilada pela Sub=Commiss'âo Litteraria dos Festejos.) 1898.
  • MEMORIA DOS Çtesteioô Qeleírados EM Shanghai em Commemoraçào do 4°- Centenario do Descobrimento Marítimo da índia por Vasco da Gama. (Compilada pela Sub=Commissão Litteraria dos Festejos.) 18 9 8.
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  • COMMEMORAÇÃO dos factos gloriosos da historia patria serve de reavivar no povo a lembrança dos triumphos passados, enaltecer-lhe as aspirações presentes e irmanar os corações de todos os nacionaes esparsos pelo globo, vinculando-os por um feito assombroso, por um vulto heroico que se destaca soberbo e imponente na galeria dos varões illustres da humanidade. Sabido aqui, nos extremos confins do Oriente, que no reino e provincias ultramarinas se celebraria com o maior esplendor o 4o centenário do descobrimento maritimo da índia pelo immortal Yasco da Gama, os residentes portuguezes briosamente trataram de náo deixar passar despercebido no meio cosmopolita em que vivem um acontecimento de táo elevado interesse nacional. A' cidade de Shanghai, como centro do commercio e civili- saçáo no norte da China, essa China que os portuguezes primeiro abriram ao conhecimento da fé christá e ao trafico universal, e que promette ser o principal mercado vindouro europeu,—á cidade de Shanghai bem assentava que a homenagem á memoria do mais impávido navegador que viu o orbe d'ella partisse, porquanto ella representa a idéa do progresso moderno n'esta parte do vetusto império de Cathay. Assim, por convite do digníssimo representante de Portugal, o Senhor Joaquim Maria Travassos Valdez, a colonia portugueza reuniu nas salas do Club de Recreio, aos 27 de Fevereiro, em publica assembléa, afim de deliberarem sobre o modo por que se celebrasse o centenário.
  • 2 MEMORIA DOS FESTEJOS. Foi n'essa occasiào nomeada uma Commissáo Executiva para se encarregar dos festejos, composta dos seguintes cidadãos, a saber: os snrs. Joaquim Maria Travassos Valdez (presidente), Adelino Diniz, Antonio José Diniz, Chey Tsong Poo, Cheong Chi Pio, Fernando J. d; Almeida, Filomeno V. da Fonseca, Fran- cisco F. da Silva, Francisco dos Santos Oliveira (thesoureiro), Hermenegildo Pereira (secretario), Honorato Jorge, José F. Pereira, Lino Antonio Tavares, Luiz Adolpho Lubeck, Luiz Barretto e Marcos de Souza. A Commissáo Executiva poz logo máos á obra e apoiada pelas Sub-Commissões (nomes de cujos membros apparecem em idóneo lugar n'este opusculo) conseguio dentro em pouco assentar no seguinte programma:— COLONIA PORTUGUEZA DE SHANGHAI. Celebração do Quarto Centenario do Descobrimento do Caminho Maritimo da índia. PROGRAMMA GERAL. Formulado de accordo com a Regia Portaria de 2 de abril 1897 j>ela Commissáo Executiva de Shanghai. Artigo 1°. A colonia portugueza de Shanghai, em harmonia com o plano nacional dos festejos em Lisboa autorisado pela Portaria Regia mencionada acima, decidio realisar n'esta cidade, por subscripção entre todos os membros, a celebração do quarto centenário do descobrimento do caminho maritimo da índia, por meio d'um grande jubileu consagrado á memoria dos navegadores portu- guezes que, movidos pelo desejo de servirem a Deus e á patria, primeiramente descobriram as terras e mares da Africa, Asia, America e Oceania.
  • MEMORIA DOS FESTEJOS. 3 Artigo 2a, A Commissão Executiva, encarregada pela Colonia, formulou o seguinte programma, dentro dos limites da quantia subscripta pelos portuguezes residentes, a saber :— I.—Um Te Deum solemne em acção de graças pelo glorioso acontecimento da abertura do caminho maritimo da índia, na Egreja de S. José, na concessão francesa, em 17 de maio, ás 4 p.m. II.—Depois do Te Deum o Consul Geral de Portugal reco- lherá ao Glub de Recreio para receber todos os cidadãos que desejem transmittir a El-Rei e á Familia Real, á nação e a Com- missão Central Executiva de Lisboa, saudações pelo inicio das festas commemorativas do Centenario. III.—Um arraial festivo, com danças e outros divertimentos, fogo de vistas e illuminações, no jardim Chang-Su-Ho, de Bub- bling Well, no dia 18 de maio, ás 9 horas de noite. IV.—Um sarau litterario e musical, no u Astor Hall," 19 de maio ás 9 p.m., sendo a parte musical desempenhada por amado- res portuguezes; para a parte litteraria a Commissão Executiva receberá com prazer todos os trabalhos litterarios que nacionaes ou estrangeiros desejem dedicar á memoria dos descobridores portuguezes e decidirá quaes d'esses trabalhos hão de ser lidos na occasião do sarau. Será impresso um livro comprehendendo aquelles d'esses trabalhos que a Commissão indicar, o qual constituirá o monu- mento litterario da commemoração em Shanghai. Y.—Todos os cidadãos portuguezes illuminarão as suas casas nas noutes de 17, 18, 19 e 20 de maio proximo, especialmente n'esta ultima noute. Artigo 3°. Na alvorada do dia 17 do mez proximo, será arvorada a bandeira nacional no Consulado de Portugal e no Club de Recreio, sendo queimadas na occasião girandolas de foguetes; uma banda de amadores portuguezes executará o toque da alvorada marcial, percorrendo depois as principaes ruas em que habitem portu- guezes, tocando o hymno nacional e o do centenário.
  • 4 MEMORIA DOS FESTEJOS. Artigo 4o. O immortal Yasco da Gama abrio a metade do mundo á outra metade; por assim dizer foi elle quem inaugurou a historia da navegação, do commercio e da civilisação modernas, creando a navegação do Atlântico. As suas descobertas tiveram por consequência immediata tanto a expansão ultramarina portugueza senão mais a de todas as nações, marcando-lhes a estrada, até então desconhecida, por onde recolheram os thesouros e riquezas dos paizes mais longinquos e por onde derivou a fundação dos grandes impérios coloniaes que hoje ellas disfructam em todo o Oriente, e também a implantação da fé christã, primeiro na índia e depois no Extremo Oriente. Factos de tão subida monta demandam uma demonstração collectiva de gratidão pelos esforços dos marinheiros que ha quatro séculos surprehenderam o mundo com a magnitude dos seus feitos. Portanto a Commissão Executiva tem a subida honra de por esta forma convidar todos os cidadãos de Shanghai que desejam prestar um preito á memoria do universal heroe Vasco da Gama a adornarem e illuminarem nos referidos dias as fachadas das suas residências e a promoverem demonstracções de regosijo apropriadas. Artigo 5o. Quaesquer associações ou aggremiações ou individuos de Shanghai que se dignem tomar parte e eo-operar com a Commis- são Executiva, na celebração dos festejos em honra de Yasco da Gama, deverão communicar seu intento á mesma Commissão com a previa antecedência, bem como os programmas e deliberações em que tiverem assentado. Artigo 6o. Os dias 17, 18, 19 e 20 de maio de 1898, foram considerados de gala em todo o território portuguez pela citada Portaria Regia de 2 de abril de 1897, bem como nas embaixadas, legações e con- sulados de Sua Magestade Fidelissima em quaesquer pontos que se achem ; e no Reino e Colonias, os referidos dias serão feriados
  • MEMORIA DOS FESTEJOS. 5 depois do meio dia, excepto no dia 20, entrada da esquadrilha de Tasco da Gama em Calicut, o qual será de completo feriado. Artigo 7o. Opportunamente serão dirigidos convites para se fazerem re- presentar nos festejos do presente programma :— Io.—Aos diplomatas que na occasião se acharem em Shang- hai, bem como aos representantes das differentes colonias; 2o.—A's autoridades locaes ; 3o.—Aos conselhos municipaes e forças de terra e mar; 4o.—AJ imprensa local; 5o.—A varias associações de commercio, industria, sciencia, instrucçáo, religião, etc.; 6o.—A differentes escolas. N.B.—Bilhetes de admissão poderão ser obtidos por meio de qualquer membro da Commissáo Executiva. As camaras municipaes, anglo-americana e franceza, as mis- sões catholicas e vários estrangeiros distinctos havendo benevola- mente promettido a sua cooperação nos festejos, os nacionaes (tanto senhoras como cavalheiros) com louvável união e esforço trabalharam tão zelosa e diligentemente que desde logo se certi- ficou que se lograria celebrar o centenário com a pompa que a occasião exigia. De facto, correram as festas com tanto luzimento, boa ordem e manifestação patriótica, que foram aos nacionaes causa de intima satisfação, e aos estranhos e aos indigenas do paiz, objecto de admiração e louvor, resuscitando-se n'elles o interesse pelas nossas glorias históricas. Yamos em seguida, breve trecho, fazer a narração dos festejos.
  • 6 MEMORIA DOS FESTEJOS. 17 de Maio de 1898. Alvorada. A noite de 16 de maio mostrou o firmamento recamado de estrellas, mas, com a proverbial inconstância, o tempo mudou com o dia, e a grande massa da população portugueza que madrugára para saudar com a alva o primeiro dia dos festejos viu com surpreza que o céu se toldara de negras nuvens e que a chuva desabava em torrentes. Não foi porém a borrasca causa de desalento, antes lembrando os escarcéus que o Gama affrontára na sua derrota, a multidão prazenteiramente se expoz a inclemência do tempo alinhando a rua do Consulado de Portugal e aguardando pacientemente o momento do inicio da festa. Depois do toque da alvorada pela banda de amadores portu- guezes, ao som do Hymno da Carta, ao estrugir das girandolas de foguetes que fendiam os ares, içou-se o glorioso pendão das quinas no grande mastro do Consulado Portuguez. Foi elle saudado com frenéticos vivas que partiam de peitos animados pelo mais delirante patriotismo. Vivas á patria, á familia real, e ao distincto representante de Portugal em Shanghai! A banda executou ainda algumas peças do seu repertório e em seguida marchou ao Club de Recreio, onde com as mesmas demonstrações se desfraldou aos ares a bandeira nacional. Abrio-se d'este modo o dia com geral satisfação, e o enthu- siasmo que lavrava em todos agourava bem para a continuação e termo dos festejos. No porto embandeiraram os navios de guerra de diversas nações. Foi encarregado d'esta parte do programma, o membro da Commissão Executiva, Snr. Francisco F. da Silva, sendo-lhe aggregados como Sub-Commissáo os senhores Alberico J. Noronha, Eduardo M. Carion, Francisco X. d'Encarnação, Hermenegildo Pereira, Leonel M. Gutterres, Meynardo B. Rangel e Procopio Q. R. da Silva.
  • MEMORIA DOS FESTEJOS. 7 A banda de amadores portuguezes compunha-se dos senho- res :— Antonio M. Danenberg. Ignacio E. d'Almeida. Augusto C. Danenberg. José F. Gutterres. Basilio M. Carion. José E. Perpetuo. Carlos Danenberg. Leonel M. Gutterres. Daniel M. Gutterres, Jr. Lino F. d'Almeida. Eduardo M. Carion. Lucio G. d'Azevedo, Jr. Eduardo T. Martins. Meynardo B. Rangel. Elvidio E. Soares. Pompilio J. Marques. Fernando F. Carion. Procopio Q. R. da Silva. Francisco F. da Silva. Ricardo R. Allemâo. Francisco X. Machado. Virgilio de Luz. Heleno Fernandes. Te Deum na Egreja de S. José, na Concessão Franceza. Pela tarde serenou algum tanto o tempo, e o numero de pessoas que afíluiram ao templo foi enorme, tal que parecia exiguo o espaço para a sua accommodaçáo. A egreja estava lindamente adornada com bandeirolas de seda de cores variegadas, escudos e trophéus. Nos altares cente- nares de velas ardiam, reflectindo os raios nos candelabros d'ouro e nas ricas vestes sacerdotaes. Officiou S. Exa. Revma. Monsenhor Garnier, bispo d'esta % diocese, acolitado por um luzido cabido. N'esta occasiáo o illustre prelado pronunciou a allocuçáo seguinte, em francez, que resumimos :— " Começamos, diz o bispo," " a celebração do quarto centenário da descoberta do caminho marítimo para a India com dar mil graças a Deus por este grandioso feito. E é com razão que se lembre, em primeiro logar, da Divina Providencia, pois que a brilhante descoberta effeituada por Vasco da Gama abriu um vastissimo campo aos trabalhos apostólicos dos missionários. Puderam elles, pela primeira vez, levar o Evangelho ás terras que tinham estado até então fechadas ao seu zelo pela salvação das almas. Podia-se claramente ver n'isto a mão de Deus. Não ha duvida que Vasco da Gama deu exuberantes provas de coragem
  • 8 MEMORIA DOS FESTEJOS. heróica e de firme resolução; mas era da vontade de Deus que elle descerrasse a porta sellada havia tanto tempo á Palavra Divina, para que os povos, que por séculos haviam jazido nas densas trevas da morte, abrissem os olhos á Verdade. Era motivo de grande regosijo que, pela sua muita piedade, fosse Portugal, a gloriosa patria de Vasco da Gama, o primeiro paiz europeu que levasse a lampada do Evangelho ao Extremo Oriente. Laudate Dominum omnes gentes, laudate eum omnes populi, porque as nações que não haviam conhecido o Senhor vieram a conhecel-0 d'ahi em diante. Já elle o bispo, como chefe do rebanho de Christo n'estas paragens, antecipava o tempo em que todo o immenso povo d'este vasto império da China havia de ser trazido, na Sabedoria Divina, ao conhecimento da verda- deira fé, em que o facho do Evangelho havia de illuminar esta terra de modo que se tornasse christã de uma extremidade á outra." A banda de amadores portuguezes tocou o Hymno Vasco da Gama e o da Carta Constitucional. Estiveram presentes o Corpo Consular, o Taotai de Shanghai, as auctoridades municipaes, judiciaes e chinezas, os missionários catholicos, e representantes da imprensa, das associações littera- rias, scientificas, commerciaes, industriaes, e das forças de mar e terra. Foi imponente a ceremonia, e quando o venerável prelado ergueu o hymno de acção de graças ao Altissimo, que o côro de cantores e a banda repetiu e ampliou, era visivel a emoção no semblante dos circumstantes. O mar ethereo que nos circumda levaria sem duvida nas suas invisiveis ondas a mensagem d'aquellas preces até o throno excelso de Deus. Foi o Te Deum obsequiosamente offerecido pelo digníssimo Bispo, que por este modo soube mostrar aos portuguezes em quanto aquilata os serviços prestados pela nação lusa á Egreja Catholica.
  • MEMORIA DOS FESTEJOS. Os portuguezes, do seu lado, nunca olvidarão o delicado com- primento de S. Exa. Reverendissima n'esta occasiáo. O membro da Commissáo Executiva, snr. Antonio José Diniz, foi encarregado d'esta parte do programma. Recepção Consular no " Club . de Recreio % O snr. Joaquim Maria Travassos Valdez, Consul Geral de Por- tugal, recebeu em seguida no saláo do Club de Recreio os nacionaes e estrangeiros que desejavam enviar suas congratulações a S. M. El-Rei, á nação e á Commissáo Central Executiva de Lisboa. As principaes auctoridades e grande numero de nacionaes e estrangeiros acudiram ao acto que foi brilhante, distinguindo-se o snr. Valdez pela cortezia e amabilidade com que recebeu e tratou os seus hospedes. O salão estava elegantemente adornado. No fundo, n'um palco volante, erguia-se sobranceiro um grande retrato do audaz navegador circumdado pelas bandeiras de todas as nações. O snr. Adelino Diniz, em nome da Commissáo Executiva, fez a seguinte allocuçáo :— Illmo. e Exmo. Sr. A commissáo executiva do centenário da índia em Shanghae tem a subida honra de se congratular com V. Exa. como nosso digno representante aqui, e de lhe manifestar quaes sáo os senti- mentos que a animam, e que necessariamente devem animar toda a colonia portugueza n'esta cidade, n'este auspicioso dia de grande regosijo pátrio. Portugal commemora hoje o quarto centenário d'um feito que o cumulou das riquezas da India e de mais paizes d'oriente, e que, sobre tudo o cobrio d'uma gloria immorredoira; e nós, gente portugueza, gente nascida no solo portuguez, nos unimos, com toda a força d'alma, a esta manifestação que significa, que Portu- gal jámais renuncia o lugar que lhe cabe na communidade das nações cultas, das nações que muito fizeram pela religião, e, por conseguinte, pela civilisaçáo e pela humanidade. ✓
  • 10 MEMORIA DOS FESTEJOS. Somos, como sempre, apenas uma naçáo d'um punhado de homens; mas, como sempre, nunca nos hemos affastado, na pros- peridade ou na adversidade, da missão sublime que a Providen- cia nos confiou. Na affirmaçáo, symbolisada n'este nosso jubileu nacional, de que comprehendemos bem a naturesa d'essa herança gloriosa, está a garantia de que, encostados á sombra dos heroes e de mais varões preclaros que nos precederam, desde Affonso Henriques, D. Diniz, até D. Joáo I, o infante D. Henrique, Bartholomeu Dias, Vasco da Gama, Affonso de Albuquerque, Cabral, Magalhaes, e outros nomes illustres, náo nos esquecendo Luiz de Camões, o vate divino que, em poema immortal, cantou as glorias patrias; e desde o sublime auctor dos Luziadas até D. Joáo IV, e os beneméritos da patria dos tempos mais recentes; marcharemos impávidos á conquista de novos louros como naçáo missionaria, naçáo civilisadora, naçáo humanitária. limo. e Exmo. Sr.—Acabamos n'este instante de render graças a Deus por ter concedido a naçáo tam pequena e de poucos recursos missáo tam alta como a que a historia tem registrado em lettras de ouro, como attestam numerosos monumemtos deixa- dos por nossos maiores nas terras que percorreram, comprehen- dendo a Africa, a Asia, e até a Oceania, que tam longe foram os nossos navegadores, e, de outro lado do Oceano, a parte austral do Novo Mundo. Vamos, pois, agora depor juncto do throno excelso do nosso rei—de sua majestade o Sr. D. Carlos—e juncto da naçáo portu- gueza na terra do seu berço as congratulações que d'este remoto ponto do Oriente lhes enviamos. V, Exa. se dignará transmittir esta mensagem de felicitaçáo e de adhesáo que n'este momento histórico occorre á commissáo executiva local dirigir á commissáo central executiva em Lisboa, em seu e em nome da colonia portu- gueza em Shanghae. Eis o telegramma :— " Ferreira Amaral commissáo Vasco da Gama Lisboa com- missáo Shanghai felicita El-Rei naçáo alto feito maritimo tanto lustre deu Portugal."
  • MEMORIA DOS FESTEJOS. 11 Yá este telegramma servir de mais um elo á cadêa que nos prende á mái patria na glorificação dos seus ousados nautas, sobre tudo, do inclyto navegador que hoje, ha quatro centos annos, alcançou as praias longinquas de Calicut—Yasco da Gama. Portuguezes! saudemos este vulto gigante da nossa historia patria ! Honra e gloria a Yasco da Gama ! E Yiva Portugal ! Yiva El-Pei! Yiva a familia real! Yiva o dignissimo representante de Portugal em Shanghae ! O snr. Yaldez respondeu n'estes termos :— Durante mais de 7 séculos d'existencia a nação portugueza, nascida dos altivos povos da Lusitânia para ajudar os reis de Castella contra os inimigos da cruz, tem inalteravelmente occupa- do um lugar proeminente na historia, ora militando gloriosa- mante pela Egreja e expansão da fé catholica, contra os mouros, ora descobrindo paizes e mundos desconhecidos por mares nunca d'antes navegados, ora realisando prodigios nos difficeis e compli- cados problemas da colonisação. E manda a verdade que se diga: tantos louros colhidos foram em grande parte devidos aos seus excelsos príncipes e monarchas, já pelo exemplo de espadas brilhantes como as dos Affonsos, dos Sanchos, de D. Joáo I, D. João II e D. Pedro IY; já pelo zelo com que muitos apoiaram sempre, moral e pecuniaria- mente, os navegadores, exploradores e colonos, como D. Joáo II, D. Manuel, D. João III, o Infante D. Henrique e, nos nossos dias, S. M. El-Pei D. Luiz I, de saudosa memoria, e o Augusto Mo- narcha que nos rege D. Carlos I; sendo certo que sem taes prín- cipes não teriamos tido o futuro brilhante que as suas virtudes nos prepararam, nem possuiríamos esse abençoado torrão de terra livre que cobre as cinzas dos nossos avôs, nem essa terra classica illustrada por tantas victorias e tantas glorias.
  • 12 MEMORIA DOS FESTEJOS. Ouvi-vos dizer na vossa allocução patriótica : " somes apenas uma nação d'um punhado de homens " e querieis certameite signi- ficar que, apezar d'isso, a nossa nação é grande? De facto : Portugal, embora conte mais de 15:0(0,000 de habitantes só na Africa, e embora possua sob o seu domínio uma superfície de 2:200,000 kilometros quadrados, é certo que não dispõe, nem nunca dispoz, de grandes exércitos permanentes, ou de armadas collossaes como as do tempo de hoje, capazes de subjugarem o mundo inteiro, á maneira de Napoleão I, d'Ale- xandre Magno, ou d'outro grande capitão de que nos falle a historia. Permitti-me, porém, que explique, ampliando-a, a vossa phrase pittoresca: As nações não são grandes sómente pela extensão do seu território, ou pelo brilho dos seus feitos militares, ou pelos numerosos milhões da sua população, ou pelo grande poder das suas industrias. Pactos ha de ordem moral que interessam tanto ou ainda mais vivamente á humanidade e á civilisação, e que podem também tornar grandes as nações que os realisem. E' assim que todos conhecem, por exemplo, qual seja a patria de Cervantes, de Victor Hugo, de Homero, de Dante, de Goethe ou de Shakespeare, etc., porque esses nomes illustres fizeram a gloria universal das suas respectivas patrias. Nem talvez á nação portugueza se ajustassem bem glorias de outra natureza, porque a nação formou-se sob os auspícios da bandeira de Christo para cumprir uma missão altamente civilisadora : o triumpho e o esteio das doutrinas do christianismo, o mais rico dos elementos da civilisação moderna ! E o facto dos seus subsequentes successos é uma das provas das mais con- cludentes de que as grandes ideias não precisam para o seu triumpho nem a ajuda das riquezas, nem a da popularidade parti- dária, ou do deplorável apparato da força bruta, que, ao con- trario, as mais das vezes lhes cava a ruina em rios caudalosos de sangue humano.
  • MEMORIA DOS FESTEJOS. 13 Os favores que a fortuna se dignou então conceder aos nossos pequenos exércitos, ás nossas pequenas armadas e aos nossos valorosos guerreiros, foram antes devidos, deveis crel-o, ao valor da alta missão civilisadora que havia sido o constante proposito das nossas armas e dos nossos emprehendimentos; e tanto assim e, que tinha sido decretado officialmente que navio algum passaria além do Cabo Bojador, sem ter hasteada a bandeira dos cavalleiros de Christo. Podemos por tanto dizel-o afoutamente; também os nomes de Camões e de Yasco da Cama, tornando conhecido o povo portuguez, como um povo nobre, bom e dos mais úteis, realizaram a gloria da nossa Patria. Yasco da Cama foi uma das maiores glorias marí- timas dos séculos XY e XYI, porque as suas descobertas não só asseguraram a Portugal o monopolio do commercio com as índias, mas foram da mais alta consequência para a civilisação e toda a humanidade, que poude assim começar a navegação moderna e as transacções commerciaes com o Oriente. Mas seja-me também licito que o faça notar aqui: Os nossos brilhantes feitos d'armas em prol da Cruz, e as nossas descobertas marítimas, não são os únicos titulos de gloria que nos fazem grandes. Outros titulos, não menos importantes, derivados da nossa especial aptidão colonisadora, são os enormes serviços que prestamos á colonisação. Para o provar bastará que lhes recorde o seguinte: na esphera da influencia do nosso domínio colonial entrou todo esse grandioso plano oriental, sob que se havia de mais tarde erguer o famoso domínio ultramarino da Europa, e fomos nós quem o delineamos á custa de esforços heróicas, de uma tenacidade inaudita e de sublimes e immensos sacrifícios ! Este feito, senhores, é de um tão subido alcance, que nem mesmo as cousas alheias á alçada do nosso poder e vontade (a usurpação dos Philippes e guerras da independência,) que frustra- ram o nosso dominio na Asia, poderão jámais escurecer-lhe o brilho. E foi então que, nos voltamos para o Brazil, já no século XYII e quando perdidas as nossas esperanças na Asia; e, caso
  • 14 MEMORIA DOS FESTEJOS. único na historia da colonisação, esse grande império inculto e quasi virgem tornou-se logo nas nossas mãos uma enorme fonte de riqueza, achando-se no século XVIII pouco mais ou menos no gráo de desenvolvimento em que se acha hoje. Mas as invasões napoleónicas e as revoluções democráticas, que se alastraram pela Europa fizeram com que o Brazil se decla- rasse independente e se separasse de Portugal; e, para logo, esse magnânimo espirito colonisador sempre em actividade e efíicaz- mente ajudado pelos monarchas contemporâneos, volveu-se então para a Africa, aonde se acha actualmente concentrado, havendo já quem affirme que o futuro da Africa portugueza será ainda maior que o do Brazil, tão lisongeiros e esperançosos têem sido os resultados já colhidos. Náo ha, pois, a menor duvida, como dissesteis: somos e re- presentamos uma tradição que a todos merece sympathia e respeito, e no centenário não só celebramos um acontecimento nacional, universal, e internacional, mas patenteamos também a aíiirmaçâo de que estamos resolvidos a continuar as nossas tradições e a nossa missão civilisadora e honrosa. E' certamente este o motivo porque a celebração do centenário foi bem acolhida por todas as nações, e porque em Shanghai tivemos a mais completa adhesão de todos os estrangeiros ás nossas festas. Feliz considero, pois, a hora em que, reunidos sob o mesmo impulso patriótico, vindes aqui affirmar o vosso amor ao nosso magnânimo soberano, porque a mais dôce recompensa dos seus trabalhos é certamente o amor dos seus povos. Muita e também a minha ventura em me caber a honra de transmittir-lhe por intermédio do Presidente da Commissáo Cen- tral de Lisboa esse precioso testemunho; muito me penhora tam- bém a manifestação de sympathia de que immereeidamente me fizesteis alvo, a qual agradeço profundamente. Foi certamente com jubilo que saudei na vossa companhia a patria lusitana, essa nobre nação que, graças ao Deus da justiça, tem habitado até hoje na terra um olympo inviolável á força brutal.
  • MEMORIA DOS FESTEJOS. 15 Mas quem náo ha de amar a nossa querida Patria ? O destino concedeu-lhe uma potencia gloriosa e invencivel e quiz que o seu império não fosse derrubado; o tempo que tudo resolve e desfaz na sua potente mão de ferro e que zomba da vida dos homens, não fez mudar o vento favorável que ajudou o seu poder a dilatar- se e o seu prestigio a firmar-se. E ella gerou marinheiros dos mais bravos e soldados dos mais fortes; e, qual deusa Ceres, produziu uma colheita abundante de heroes. Meus senhores, concluindo direi: a nossa Patria e immortal, porque os favores com que a fortuna a tem bafejado fazem que, nem mesmo que tivesse um dia de acabar a sua existência politica, o que nunca ha de acontecer, já não possa morrer, porque : Deixaria sobre a terra um filho a que se chama o Brazil que é de todos os Estados o que tem diante de si maior futuro, e que se acha ainda na adolescência; mas tão esperançosa e ridente é ella, que desde longos annos se acha emancipado; Deixaria também uma filha a que se poderia chamar a Africa tropical, e que, apezar de ser ainda uma menina infante, a sua mão é já requestada por todos os grandes senhores da terra; Deixaria também mais filhos pela Asia e Oceania que são outros tantos florões de gloria; Deixaria a sua mãe ! a divina cruz que é a maior das rainhas da terra, e a que Portugal alastrou os membros poderosos pelas cinco partes do mundo ! A nossa Patria nunca terá que chorar ou gemer sobre a doença ou a morte dos seus filhos, pois elles sempre a honraram e sempre lhe foram úteis; mas, se o Supremo determinasse um dia acabar a sua existência politica, o que nunca ha de acontecer, ainda assim, repito, náo morreria, porque estou certo que nenhum dos seus filhos faltaria a prestar-lhe os últimos deveres, e então, sem deixarem que ella conhecesse a dôr, salvando-a da morte, haviam de envial-a a gosar um dôce somno nos sagrados arcanos da historia. Mas longe e bem longe está certamente essa hora suprema e a prova é que n'este momento todos os portuguezes espalhados pelos
  • 16 MEMORIA DOS FESTEJOS. inmimeros lugares da terra se acham reunidos sob o mesmo im- pulso patriótico, para attestarem justamente a sua muita vitali- dade. Honra lhes seja ! Terminarei, pois, aqui agradecendo-vos o ter-vos dignado escutar-me e propondo-vos as seguintes saudações : Viva a colonia portugueza de Shanghai e commissão ex- ecutiva í Vivam as communidades estrangeiras ! Viva o conselho da administração do Foreign Settlement! Viva o conselho da administração municipal franceza! Viva a armada portugueza ! Viva o exercito portuguez ! " A banda de amadores portuguezes tocou em seguida algumas peças do seu repertório e o Hymno da Carta, e a assembléa dis- persou visivelmente satisfeita. 18 de Maio de 1898. Arraial e fogo de vistas no jardim Chung Sang Ho. Hào foi mais propicio o tempo no decurso do segundo dia das festas. A Sub-Commissáo encarregada d'esta parte dos festejos teve de lutar com immensas dificuldades e foi muito de louvar que as superasse todas com tanta energia. Ao cahir da noite fez-se porem bonança e o firmamento des- dobrou o seu extendal d estrellas. Foi uma surpreza bastante agradável para o grande numero de convidados, quando se dirigiram ao Chung Sang Ho, vel-o todo illuminado com 7 a 8,000 lanternas chinezas e balões japonezes. Os lençoes d'agua que produzira a chuva reflectiam tanto os astros do céu como os luzeiros da terra, por forma que as luminárias pareciam ser o dobro do que realmente eram, e, de longe vistas, se pode dizer que transformaram o jardim n'uin parque maravilhoso proprio dos contos orientaes. Portas a dentro o grande salao apresentava-se deslumbrante- mente adornado e illuminado. Sobre os enfeites todos destacava um primoroso retrato do Ínclito navegador pintado pelo insigne
  • MEMORIA DOS FESTEJOS. 17 artista inglez Ml*. John Smedley, a quem tributamos aqui o mais profundo reconhecimento. Portas fora, como permittisse o tempo, queimaram-se lindos fogos de vista, especialmente importados de Cantao, que pro- duziram admirável effeito. Uma companhia de insignes actores chinezes representou alguns dramas de grande merecimento que muito applaudidos foram dos espectadores estrangeiros. Estiveram presentes uns 1,500 convidados de todas as nacionalidades, e aos harmoniosos acordes da banda municipal dançou-se animadamente um programma de 12 danças, afora extras. Nos intervallos serviram-se gelados e refrescos com profusão. A' meia noite serviu-se uma fina e lauta ceia, brindando-se o dia enthusiasticamente. Os pallidos raios da aurora começavam a tingir os balcões do oriente quando se retiraram os convidados, e do que elles disseram e do que a imprensa estrangeira, por insuspeita, escreveu, se conclue que por unanimidade se votou a festa como uma das mais brilhantes que n'esta cidade se deram. Os seguintes cavalheiros organisaram os festejos d'esta noite, a saber: snrs. Hermenegildo Pereira, Francisco S. Oliveira e F. V. Fonseca, da Commissáo Executiva, e os snrs. Francisco X. d'Encarnaçáo, Antonio M. d'Araujo e Silva e José M. Guedes, servindo de Sub-Commissao. 19 de Maio de 189S. Sarau Litterario e Musical no Astor Hall. Como era de esperar, sabendo-se especialmente que o saráu significava a homenagem collectiva do cosmopolitismo Shanghai- ense á memoria do grande navegador, a multidão que acudiu á festa se compunha de todas as nacionalidades, primando os representantes consulares e municipaes. O saláo " Astor " estava singela mas elegantemente decorado. No palco, o retrato de Vasco da Gama, pintado pelo distincto
  • 18 MEMORIA DOS FESTEJOS. artista o snr. Lionel M. Gutter res, assentava sobre um soberbo estrado de magnificas flores, fazendo-lhe vénia as bandeiras de Portugal e do municipio de Shanghai. Esta, symbolisando o cosmopolitismo do lugar, representava todas as bandeiras, e era a sua divisa : " Omnia juncta in unoDo tecto pendiam festoes elegantes, nas paredes fulgiam os brazões d'armas das colonias portuguezas, e, como em roteiro, a viagem de Vasco da Gama, de Lisboa a Calicut, com datas e nomes, fulgurava de quatorze escudos especiaes. Não ficaram tão pouco esquecidos os nomes do celebre Infante, dos sábios seus collegas, dos nautas predecessores do Gama, e o do immortal poeta que lhe cantou as glorias, cantando a patria, A's nove horas a banda portugueza rompeu o Hymno Vasco da Gama, composição do talentoso musico snr. Procopio da Silva, quê os espectadores ouviram respeitosamente ce pé, dando começo ao programma seguinte:— PROGRAMMA. Hymno Vasco da Gama, PRIMEIRA PARTE, I. Discurso d'abertura Pelo Snr. Joaquim Maria Travassos Valdez, Consul Geral de Portugal. II. Vasco da Gama e a Humanidade. Poema pelo Snr. Luiz A. Lubeck. III. Overtura " Domino Noir" Auber. Piano a 8 mãos e Harmonio Executada pelas Snras. D. Anna Lubeck, D. Zelinda Pereira, D. Augusta da Silva, e os Snrs. Boaventura Botelho e Procopio da Silva. IV. The Influence on China of Vasco da Gamais Discovery as seen in Works of the Ming Dynasty. Discurso pelo Snr. Dr. J. Edkins.
  • MEMORIA DOS FESTEJOS. 19 V. Canto "O Barco" Vianesi. Pelos Snrs. J. Gutterres e Ricardo Botelho. VI. Vasco da Gama—Poésie. Pelo Snr. L. de GieteR. SZEG-TJaSTID^. PASTE, I. Descobertas dos Portuguezes e seus Effeitos. Discurso pelo Snr. Adelino Diniz. II. Solo de Piano "Valse de Concert" Rosenhein, Executado pela Snra. D. Augusta da Silva. III. The Influence of Vasco da Gamais Discoveries and Travels oil the Trade of Europe. Discurso pelo Snr. P. G. von Mõllendorff. IV. Canto " A Bordo " Salvini. Pelos Snrs. L. M. Gutterres, E. J. Pereira, J. Gutterres, D. M. Gutterres, Jose dos Remedios, H. M. Pereira, J. F. Pereira, R. Botelho. V. Vasco da Gama—A Eulogy and a Defence. Discurso pelo Snr. C. E. de Lopes e Ozorio. VI. Hymno da Carta Constitucional. Pela Banda de Amadores Portuguezes. Vai mais adiante publicado o que escreveram nacionaes e estrangeiros n'este certame. Fique aqui registado o agradecimento sincero e profundo dos portuguezes aos membros d'outras colonias que enalteceram o • saráu com o valiosíssimo contingente do seu cabedal scientifico e litterario. Era já adiantada a noite quando, ao som do Hymno da Carta, se retirou a assernbléa levando comsigo uma preciosa
  • 20 MEMORIA DOS FESTEJOS. colheita de informações sobre os feitos do Gama e dos outros navegadores porbuguezes que primeiro avassalaram os mares ignotos do mundo. A Sub-Oommissáo do saráu se compunha dos snrs. Arquitriclino Barradas, C. E. de Lopes e Ozorio, Dorcelino M. Gonsalves, Lionel M. Gutterres, Marcelli no Pereira, Procopio da Silva, Ricardo F. Botelho, e da Com missão Executiva, aos quaes foi aggregada a Sub-Commissão, os senhores José F. Pereira, Luiz Adolph o Lubeck e Marcos de Souza. 20 de Maio de 1898. Illuminaçâo Publica. Chegada esta data gloriosa, na qual o Gama 400 annos atraz tinha demandado o porto de Calicut, o tempo quiz também tributar-lhe as suas homenagens. Serenou portanto, contribuindo para que as illuminações se fizessem com o máximo esplendor. A convite da Commissão Executiva, as Camaras Municipaes anglo-americana e franceza embandeiraram e illuminaram toda a rua marginal das concessões europeas n'uma extensão de 4 milhas, e o efíeito foi deslumbrante. Os consulados da França, Inglaterra, e Allemanha, e vários estabelecimentos commerciaes e O * 1bancários também illuminaram. Dos nacionaes, não houve residência que não estivesse illuminada, e algumas com tão bom gosto e arte que causou geral admiração. O gentio chinez que da cidade e dos subúrbios e povoações visinhas, milhas em redor, affiuira a admirar os fogos indagava curiosaomotivo das demonstrações, e conhecendo-o, celebrava tam- bém os feitos gloriosos do Gama e dos seus subidos companheiros. A banda de amadores portuguezes percorreu as ruas da cidade tocando hymnos e outras peças nacionaes, indo em primeiro lugar, como a gratidão ordenava, aos consulados e municípios que á festa se aggregaram. Jámais olvida o coração portuguez os comprimentos e provas de sympathia recebidos. Terminaram d'este modo alegremente as festas, e lançando um olhar retrospectivo para ellas aíFoitamo-nos dizer que de muito
  • MEMORIA DOS FESTEJOS. 21 serviram para elevar e engrandecer o nome portuguez n'estas remotas paragens do extremo oriente. Julgamos desnecessário especialisar os portuguezes que n'esta faina mais mereceram da patria. Onde todos unanimemente trabalharam, e onde todos á porfia se emularam, é difficil, e quiçá impossível, extremar os indivíduos por nome. Manda porém a justiça que se faça uma excepção. O snr. Joaquim Maria Travassos Valdez, popularissiino e bemquisto representante de Portugal, pelos seus esforços conseguiu que n'esta cidade cosmopolita, aonde o elemento portuguez não predomina, se celebrassem as festas do centenário da índia de modo táo condigno e especial como em qualquer cidade do reino, ou possessão portugueza, e portanto bem merece que aqui muito especialmente fique consignado a S. Exa. um tributo de gratidáo dos seus compatriotas.
  • 24 HYMN0 VASCO DA GAMA. HYMNO YASCO DA GAMA Gloria ao Gama, que os mares sulando Nunca d'antes arados vingou Que os portaes do Oriente ao seu liando Descerrassem ; e a patria exaltou. Quatro séculos breve passaram, E hoje os filhos do seu Portugal Esse feito qu'outro'ra cantaram Seus avós, hoje cantam igual. O cortejo dos povos do mundo Dobra a fronte saudando esse audiz Capitào, que o segredo profundo Do Oceano arrancou contumaz. Gloria ao Gama, que os mares sulando Nunca d'antes arados vingou Que os portaes do Oriente ao seu nando Descerrassem; e a patria exaltou.
  • / J. M. TRAVASSOS VALDEZ. 25 DISCURSO Proferido pelo Siir. J. Aí. Travassos Valdez, Consul-Geral de Portugal em Shanghai, na sessão litter ar ia em honra do Centenario da índia. Minhas senhoras, senhores, Pertence-me hoje abrir este certamen litterario, em honra de Vasco da Gama, por algumas palavras de explicação sobre o proposito da nossa festa, fornecer-vos os dados preliminares necessários para a sua perfeita comprehensão e apresentar-vos os eruditos que querem tomar parte n'ella. Esforçar-me-hei em desempenhar-me d'esta difíicil missão tão bem como os meus fracos recursos permittam fazel-o, para cor- responder á sympathia que vos dignastes testemunhar-nos, vindo ouvir-nos. Esta sympathia desperta em mim reconhecimento e assegura- me que desculpareis as faltas que poderei commetter. O fim da nossa festa litteraria é prestar o nosso humilde concurso para a perpetuação da memoria do grande heroe Vasco da Gama por um monumento litterario de commemoração redigido nas principaes linguas faliadas em Shanghai: o inglez, o francez, o alleinão, o italiano e o portuguez, a fim de que os seus méritos e os feitos eminentes que praticou, julgados 400 annos depois e desembaraçados de todo o erro pelo exame e o escalpello da critica moderna, sejam de novo levados ao conhecimento do mundo litterario do nosso globo. Se 11'essa empreza não tivessem cooperado sábios da força do dr. Edkins e de M. von Mõllendorff, considerados dois dos mais profundos sinologos do nosso meio cosmopolita, um poeta da patria das bellas lettras como M. Giéter e a penna de um escriptor austriaco muito conhecido aqui, associada á d'um filho da patria das bellas artes—M. Ghisi—, o nosso volume re- presentaria, é verdade, tudo o que ha de mais brilhante em talento e saber na nossa colouia portuguesa de Shanghai, mas isto seria
  • 26 DISCURSO tudo, e elle correria grande risco de mergulhar altini 110 limbo do esquecimento.* E todavia eu estou bem convencido que o poema " Vasco da Gama e a Humanidade" encerra exquisitas bellezas litterarias, porque conheço o auctor e a ternura com que cultiva as musas ha muitos annos. Sei também que o critico que nos expressará a sua apreciaçáo sobre as descobertas do grande heroe, dispõe de ura enorme capital de conhecimentos históricos e de uma penna excellente e fácil. Tenho a certeza de que o titulo sympathico escolhido pelo auctor da memoria : " Vasco da Gama, a Eulogy and a Defence " bastaria para lhe abrir immediatamente todas as portas do mundo litterario, mesmo se a sua penna náo fosse de uma correcção irreprehensivel e se o seu estylo náo fosse esmaltado por matizes graciosos e delicados. Todos esses trabalhos realçarão ainda com a honra de tomar lomar ao lado d'obras do valor das do sábio dr. Edkins e do O profundo investigador von Mõllendorff. E assim o velho adagio : —"Os santos de casa náo fazem milagres"—perderá o effeito que em mim costumam fazer os provérbios populares. Seja-me licito agora ajuntar algumas palavras para assignalar e separar das épocas as causas determinantes dos feitos do nosso heroe. Na historia náo se encontram Messias sem precursores. O génio só pela luta se revela. E' bera sabido que os grandes homens hão surgido sómente por occasiáo das grandes crises. Está-se facilmente sujeito a graves erros quando se intenta determinar os antecedentes históricos. As descobertas de Vasco da Gama tiveram logar durante os séculos XV e XVI, pois que elle nasceu em 1460 ; e repre- sentam um acontecimento da Europa moderna se admittirmos para o começo d'est'outra as primeiras ideias sociaes que assumem um caracter universal e europeu. * N'esta divagação principalmente filha de me parecer que a lingua portugueza é hoje pouco lida no estrangeiro, mio \erá ninguém o proposito de prejudicar os escriptores nacionaes, poisquecreio bem mani- festos os meus desejos e opinioés em contrario,—Nota do cuclor.
  • J. M. TRAVASSOS VALDEZ. 27 Os elementos sociaes que serviram para a constituição da Europa moderna vieram das épocas anteriores, brotando pouco a pouco, durante o grande período da Edade Media, d'entre as ruin as do Império "Romano. Os elementos foram : o feudalismo, o clero, as communas e a realeza; e existiram sempre ao lado uns dos outros, n'uraa luta obstinada, sem que nenhum delles lograsse dar a sociedade o seu nome ou a sua forma e prevalecer sobre os outros. Sob este ponto de vista, pode dizer-se que a historia da Edade Media até ao fim do XIV século é, syntheticamente fallando, a historia d'esta propria luta. Efíectivamente, todas as tentativas praticadas pelos syste- mas existentes no interior das nações para estabelecer um liame social: a theocracia, a democracia, a aristocracia e a realeza, aborta- ram, porque a característica principal d'esta época foi a falta d'ideiaa geraes e d'interesses geraes que podessem servir de liame. Esta falta era occasionada certamente pela instabilidade do estado das pessoas, da propriedade e das instituições, resultante das invasões continuas dos Barbaros e do seu egoísmo exclusivo e peculiar. Estudemos agora mais detalhadamente as ideias represen- tadas pelos elementos de que acabamos de falar. O Feudalismo era o regimen social mantido por um laço conhecido pelo nome de Padroado militar, que organisou n'uma hierarchia os guerreiros e os outros indivíduos, sem destruir a liberdade e a independência de cada um. • As relações entre os senhores e os guerreiros eram mantidas pelas ideias de fidelidade, dedicação e lealdade e uin systema de meios políticos, judiciários e militares. D'este systema extravagante e incompleto saiu todavia a cavallaria da Edade Media com esse ideal de sentimentos elevados e generosos que toda a gente conhece. Foi então também que brotaram os primeiros ensaios da poesia e litteratura, nos castellos onde a mulher subio pela primeira vez ao nivel d'im- portancia em que se conserva ainda hoje.
  • 28 DISCURSO A Egreja foi o primeiro d'esses elementos que se constituiu d'uma maneira perfeita. Encontra-se já organisada no seio da Barbarie. Esta circumstancia deu-lhe em breve a supremacia que ella exerceu sempre em nome da justiça e da verdade desde o Vo. até ao XVo. século, período em que, por tal motivo, todos os acontecimentos s'encontram constantemente subordinados ao caracter theologico. Em rasão da sua organisação superior, a Egreja prestou então enormes serviços á civilisação lutando tenazmente contra a escravatura, eliminando por sua intervenção muitas praticas barbaras dos codigos civis e penaes, buscando substituir o principio da guerra pelo da paz, o que mais augmentou a influencia e importância do criterium theologico. As GommunaSy quasi desapparecidas com o Inperio Romano, resusci taram logo que a Egreja proclamou o direi o d'Asylo, que permittio a formação de numerosas colonias de bragidos ou de ricos conscriptos nas cercanias dos templos. Auxiliadas pela realeza, buscando um ponto d'apoio contra as pretençoes exaggeradas dos Senhores ou do pov>, estas colonias successivamente augmentadas revoltaram-se p»r fim contra as extorsões dos Senhores, dando logar á formação ia Burguezia ou Terceiro Estado que organisou as milicias, os Ímpetos, o Governo. Finalmente a Realeza, que tinha funccionadc já nos tempos antigos, mas que a queda do império havia qiasi extinguido, affirina-se de novo com as cruzadas e em muito poico tenqDo rega- nha a sua antiga influencia e torna-se o mais mportante dos elementos para o estabelecimento da sociedade noderna sob a dupla forma : governo e povo. A rasão d'esta superioridade provêm de qui a realeza não representa a vontade de um só homem, mas sim personificação da soberania do direito, quer dizer a vontade essencialmente arrazoada, esclarecida e justa, bem como estrana e superior a todas a outras vontades individuaes. Esta superioridade é tal que são os propria povos que se collocam de motu proprio sob a sua tutela.
  • J. M. TRAVASSOS VALDEZ. 29 Os philosophos políticos também crêem n'ella, como o provam todos os systemas de philosophia politica da época: a theocracia, a democracia, a aristocracia e a realeza, em cada um dos quaes o chefe 6 invariavelmente a personificação da soberania do Direito, tendo por caracteres externos a unidade, a permanência e a intangibilidade. Em resumo, pois: os sentimentos sublimes da honra, do amor e da fidelidade da cavallaria da Edade Media, o criterium tlieologico de justiça e de verdade, adequado á Egreja, o espirito de revolta e d'independencia contra as exacçoes dos grandes Senhores, surgindo com as communas e o principio do direito de soberania personificado pelo chefe do estado e a sua supremacia eram as ideias sociaes do tempo e causaram os acontecimentos que precederam a vinda do nosso heroe. Repito-o, a luta de todos estes elementos entre si para o triumpho de um ou d'outro, foi a obra da Edade Media até ao fim do XIV século. Estas lutas foram sempre estereis e inúteis porque em cada um d'elles se alojavam imperfeições que lh'impediam a victoria. Assim no Feudalismo os feudos apresentam uma hetero- geneidade tão grande que não s'encon train entre elles dois eguaes. Pode dizer-se que cada um tomava o caracter do seu Senhor. Como então poderia ser possível dar-lhe uma forma homogénea? e encontrar-lhes um laço d'união ? A Egreja, no seu ardor de querer impor a todo transe a supremacia do seu criterium theologico caiu no excesso perseguindo a heresia. Rebaixou-se, collocando-se sob a dependência do governo civil. Por outro lado, um governo composto exclusivamente do membros do clero não podia dominar o povo, fóra da sua influencia. As Communas, formando a burguezia, tornaram-se antes um elemento de desunião que de união, porque em breve ella começou a obra da sua emancipação e revolta, resultando desde logo a luta sangrenta das classes.
  • 30 DISCURSO Finalmente, a Realeza, que nào tinha á sua disposição os meios materiaes de se fazer respeitar, nâo podia senão limitar- se a actuar como juiz de paz entre os Senhores e os burguezes, buscando readquirir a sua importância pelo exercício superior das suas funcçoes. Vejamos agora os acontecimentos d'essa epoci que foram a verificação histórica das theorias que acabamos de expor. As cruzadas dos XI, XII e XIII séculos fomm o primeiro e o mais importante de todos. Este acontecimento foi a obra dos senhores feidaes e da sua civilisação barbara. Obedecendo ao criterium thcologico do seu tempo, engajaram-se a continuar sobre as terras Ia Asia a luta do cliristianismo e do mahometismo começada 4 séculos antes. As cruzadas constituiram o 1.° acontecinento europeu geral, porque todos os povos da Christandade tomaran parte n'elle. Os cruzados tinham passado á Asia como destriidores e devas- tadores selvagens, crendo que tudo o que era mahoimtano provinha do diabo em linha recta. Em breve deram fé dts importantes descobertas feitas nas sciencias e nas artes asiaticaí e se conven- ceram da conveniência de importal-as para a Eiropa. Desde então o seu caracter mudou, adquiriram um esprito cheio de tolerância e de preciosos conhecimentos commeriaes com que voltaram aos seus paizes. E' a elles que pode s>r attribuida a introducção na Europa da bússola, da polvora ce guerra e dos caracteres d'imprensa. Lancemos agora um golpe de vista sobre a obn do fanatismo e da perseguição da heresia. Em Inglaterra, o assassinato de Thomas Dcket, bispo do Canterbury, o horrível massacre dos judeus no coidado de York, o assassinato do joven príncipe Arthur da Bretama. Em Fran- ça a perseguição e o massacre dos albigenses. Na Sicilia, a monstruosa carnificina d'eterna memoria conhecica pelo nome do Vesperas Sicilianas! Se quizermos saber o que de extravagante e btrbaro produziu a luta das classes e a emancipação da burguezk e das cidades
  • J. M. TRAVASSOS VALDEZ. 31 livres, olhemos a principio na Italia: o consorcio do Doge de Veneza com o mar, as tentativas d'assassinio dos Medicis no templo, na occasiâo dos officios divinos, a bofetada no papa Bonifacio por Colonna e a interminável quantidade de scismas em detrimento da dignidade pontifícia. Veja-se por outro lado, o massacre dos flamengos pelo conde de Artois, o exterminio dos Templários e o horrido martyrio de Jacques Molay e dos seus companheiros, o massacre feroz dos Armagnacs pelos Borgonhezes. E isto náo é tudo, e esta deplorável lista de carnificinas completa-se com as batalhas cujos nomes sangrentos são : Bon- vines, Vendôme, Courtay, Crécy, Poitiers, Azincourt, o assedio d'Orleans e também pelo assassinato de D. Pedro de Iíespanha e o martyrio de Joanna d'Arc! Eis, senhores, o triste quadro da rudez e da barbarie dos costumes na Europa na época que precedeu Vasco da Gama. A sciencia d'hoje ensina-nos que nada é inútil n'este mundo, que nada se perde. Por isso, consolemo-nos, porque d'esta horrível miscellanea e carniceria sahiu o mundo moderno. % Foi por estes meios e por semelhautes barbaras lutas com a Inglaterra que a França conseguiu formar um espirito nacional. Com os Valois extinguiu o feudalismo e ficou apta para o emprehen- dimento das grandes guerras pela independência do seu território cujo caracter popular está symbolisado em Joanna d'Arc. Foi então também que a Hespanha se constituiu, pelo casa- mento de Fernando de Castella e Isabel d'Aragão com o auxilio da Inquisição que desde o seu principio náo tinha senão um caracter politico e náo servia para defender a fe christá ainda náo abalada. Em 1485, a Allemanha, onde as lutas feudaes duravam ha mais de tres séculos, attingiu a forma de uma naçáo poderosa pela eleição de Rodolpho de Hapsburg, fundador da casa d'Austria. Um dos acontecimentos mais notáveis d'esta época tinha também logar em Italia : foi a renascença das Bellas Artes, devida á supremacia dos Medicis, príncipes illustres e commerciantes e á
  • 32 DISCURSO protecção que elles concediam aos sábios que, xpós a queda de Constantinopla, acharam refugio em Florença. Foi então, felizmente, que sob este potente iipulso, precursor da reforma social, o movimento intellectual do espirito humano tomou um voo mais elevado e de que a politics as sciencias e o commercio aproveitaram immediatamente. Portugal, do mesmo modo que a França e aAllemanha, teve o seu feudalismo, que só terminou em 1481 com a ascensão ao throno do rei D. João II, cento e quarenta annos depois da terminação das guerras com os mouros na Peninsula, na famosa batalha do Salado, em 1540, em que Affonso IV de Portugal foi alliado de Affonso VI de Castella. Esta venturosa paz secular, apenas perturbada de quando em quando por Castella, é quiçá uma das razões pelas quaes o movimento litterario da Renascença na Europa no confim do XIV século, e no inicio do século XY se affirmou entre nós como o at testa o facto da creaçáo dos nossos romanceiros. No reinado de D. Diniz, o luxo e a galanteria apparecem na côrte. Rimava-se alli ás damas e cantavam-se as romctnzas da Cavallaria, que, segundo Froissard, são os indicios da evolução. Bastaria repararmos na protecção dada aos artistas por Affonso Y e ler algumas paginas do nosso chronista Gomes Eanes d'Azurara para nos convencermos d'isso inteiramente. Do casamento do rei D. João I com D. Pliilippa, filha do duque de Lencastre, resultou a introducçâo em Portugal das novellas do Cyclo de Arthur ou da Tavola Redonda, próprias da raça céltica. Portanto, o infante D. Henrique, nascido d'este casamento, possuia uma alma de aventureiro bretão, uma fé ardente e um grande amor da patria. Os moveis do espirito da Edade Media levaram-n'o a inaugurar a serie de descobertas marítimas do mundo moderno, encontrando n'elle um meio excedente de se exercerem. Todavia, a sua obra civilisadora não teria podido realisar-se se não tivesse achado echo na alma céltica dos portuguezes Est'outros tinham para as inspirar as tradicções célticas da sua %
  • J. M. TRAVASSOS VALDEZ. 33 raça : por exemplo a da odysséa monástica das viagens de S. Bredon, admiravelmente contada por Azurara na sua chronica da conquista da Guiné. E muitas outras que não citarei, para não dar muita extensão a este discurso, mas que lhes fallavam das Ilhas Encantadas ou das Ilhas Fortunatas, da Antilia, da Athlantida e lhes formaram o génio marítimo que transparece depois das principaes peças da sua litteratura: os Luziadas e a historia tragico-maritima. Os paizes da Europa achavam-se empenhados em lutas titânicas ; a propria Italia onde se dava francamente o movimento da Renascença não se podia desembaraçar da luta das classes. Eis-nos chegados ao momento das descobertas e isso, depois de havermos examinado de uma forma geral os moveis que activa- vam o espirito portuguez n'esta época. De ha muito tempo que estavam terminadas as guerras com os Mouros na Peninsula, e o espirito de renascença que brilhava nos outros paizes da Europa, fazia-se sentir entre nós. Por outro lado a impulsão dos sentimentos da cavallaria, tinha refluído para o coração da Peninsula e fazia-se sentir a necessidade de uma esphera maior de acção. Os senhores feudaes como por toda a parte então, estavam cançados de prestar home- nagem a reis que espesinhavam o seu orgulho, como, por exemplo D.João II procedeu para com os duques de Bragança e de Yiseu. Era-lhes preciso um espaço em que se não podesse impor limites ás suas façanhas e pretensões. E, repito-o, os conhecimentos scientificos, commerciaes e litterarios da Renascença tinham alargado a esphera de trabalho dos pensadores, e podiam bem fazel-os cogitar sobre os problemas náuticos, para cujo estudo se haviâo colhido muitos dados. Pois bem, senhores, o mar sem limites, infinito, estendia-se diante das nossas costas, cheio de problemas de toda a natureza, e de mysterios que as nossas lendas célticas tinham mais ou menos a pretenção de deslindar e comprehender. Que podia resultar d'essa provocação constantemente pa- tenteada perante os sentimentos da honra e do ideal, sublime
  • 34 DISCURSO do amor e valor, qne tinham allucinado os espíritos da Edade Media, determinado os feitos épicos d'aquella época e que já náo achavam campo sufficiente d'applicaçào e actividade? Vou tentar dizer-vol-o e isso me parece de fácil comprehensáo : O valor levou-nos a affrontar os mares tenebrosos e tor- mentosos para irmos á conquista das pérolas do Oriente. O amor que nos inflammava, as crenças que outr'ora nos fazia partir para satisfazer o desejo de uma dama, havia tomado uma direcção muito mais grandiosa. Os cavalleiros partem ainda, mas o nome da dama que levam no seu pensamento e o nome da Patria e o serviço de Deus a rasão que os impelle. Assim o disse o proprio Vasco da Gama. E' assim que os paladinos errantes se transformara em caravel- las e frotas que cruzam quasi ao acaso no Oceano incommensuravel. Em todos os nossos grandes homens d'aquelle tempo encon- trareis facilmente, desenvolvidos em alto grão, os sentimentos generosos e sublimes da cavallaria. Todos eram submissos e fieis aos seus reis, todos governados pelo crifcerium theologico-o serviço de Deus, e mais ou menos influidos pelas lendas maritimas e solu- ção dos problemas náuticos. Vasco da Gama foi o typo por excellencia da amalgamação de todas essas qualidades, e por isso o seu nome representa a alma, a vida e as aspirações da nossa patria. Eis, senhores, as verdadeiras, as poderosas causas das nossas descobertas. Eis como estes factos, cuidadosamente deduzidos e filiados pelos processos modernos da historia nada tem de extraordinários. Com D. João II começam as guerras com os mouros em Africa e a conquista da terra africana, guerras que continuaram com D. Afonso V. As descobertas maritimas conduzem Bartliolo- meu Dias até ao Cabo Tormentório. Os conhecimentos dilatam- se com os progressos da Renascença e as descobertas de Colombo. Apparece então Vasco da Gama e o Cabo cujo nome tinha já sido mudado no de Boa Esperança, é dobrado: o caminho das índias está aberto!
  • J. M. TRAVASSOS VALDEZ. 35 Era a Portugal que estava reservada a gloria d'esta grande e audaciosa empreza. Acabo de expor-vos as razoes porque. Devemos-nos espantar d'isso 1 Não é notoriamente histórico que são as pequenas nações que teem prestado mais assignalados serviços á humanidade ? São numerosos os exemplos em apoio d'esta afíirmativa : apresentarei alguns citados pelo meu antigo professor d'historia no curso superior de letras, Consiglieri Pedroso : "Que resultou dos immensos impérios de Babylonia, da Assyria, dos Medas e dos Persas que, para fazerem a guerra, dispunham de milhões de soldados e de milhares de navios 1 Lutas terriveis e estereis. A luz veiu do humilde pequeno povo d'Israel entre o qual o Christianismo surgiu. Se passamos da historia antiga para a dos tempos clássicos, que vemos e para que lado irão as nossas sympathias ? Para o lado do colossal Império Romano ou para o lado da pequena Athenas, patria das artes, berço de tudo o que o mundo litterario tem produzido de melhor 1 Parece-me que a resposta não é duvidosa. Quem, pois, poderá espantar-se de ver, na Edade Media, Portugal dar ao mundo o espectáculo das suas glorias maritimas, as pequenas republicas d'ltalia ensinarem ao mundo a maneira de commerciar, a Holland a salvar a liberdade do pensamento 1" Meus caros collaboradores, está terminada a minha introduc- çáo. Espero ter erguido o quadro no qual ides brilhantemente fazer entrar os acontecimentos concernentes ao nosso heroe. Espero que nos direis como as descobertas de Yasco dá Gama produziram: Uma revolução politica que mudou a civilisação mediterrânea em civilisação atlantica pela appariçâo do inglez e do hollandez e a desappariçáo do turco, do genovez e do veneziano. Uma revolução commercial transportando para Lisboa todo o commercio do Oriente.
  • 36 DISCURSO Uma revolução económica pela importação do Oriente das especies metallicas, o que pouco depois triplicou os preços. Uma revolução administrativa pela inauguração de um novo systema colonial. Ou bem, se nos collocamos n'um ponto de vista mais geral: Uma revolução geographica, porque só a coragem e a abnega- ção dos nossos navegadores pozeram termo aos erros da geograpliia de Ptolomeu. Uma revolução histórica pela reunião dos dois hemispherios. Uma revolução scientifica pela viagem de circumnavegação de Magalhães. Terminei, senhores, e vou ouvir-vos com o maior interesse. Joaquim Maria Travassos Valdez, Ohras Consultadas.—Histoire de la Civilisation, par M. Guizot— Cyclopaedia of Universal History, by John Clark Midpath, 1885—Histoire de la Littérature Française, par J. Demogeat—Popular Epics of the Middle Age, by John Malcolm Ludlow—Prince Henry the Navigator, by C. Raymond Beasley, M.A.F.N.GS—Historia da Civilisação Moderna, por Consiglieri Pedroso—Compendio de Historia, por João Antonio de Souza Diniz—Historia de Camões, por Theophilo Braga—Introdução a Historia de Litteratura Portugueza, por T. Braga—Estudo da Idade Media, por T. Braga—A Lingua Portugueza, por A. Coelho—Noções da Litteratura Antiga e Medieval, por A. Coelho—Centenario no Estrangeiro, por Magalhães Lima—O Premio da Descoberta, por Luciano Cordeiro—Os Portuguezes em Africa, Asia, America e Oceania, por Cardeal Patriarchs D. Francisco S. Luiz—A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto—Historia de Portugal, por Carl Vogel—Droit Maritime, par Caudj*
  • J. M. TRAVASSOS VALDEZ. 37 DISCOURS Prononcé par Mr. J'. M. Travassos Valdez, Consul-General de Portugcd à Shanghai, à Za séance littéraire donnée en Vhonneur de Vasco da Gama. Traduction de A. Bottu, Vice-Consul de Portugal a Shanghai. Mesdames, Messieurs, II m'appartient aujourd'hui d'ouvrir ce débat littéraire, en l'honneur de Vasco da Gama, par quelques mots d'explication sur le but de notre festival, de vous fournir les données préliminaires nécessaires à son intelligence parfaite et de vous presenter les savants qui veulent bien y prendre part. Je tâcherai de m'acquitter de cette mission difficile aussi bien que me le permettront mes faibles moyens, pour répondre à la sympathie que vous daignez nous témoigner en venant nous écouter. Cette sympathie éveille en moi une profonde reconnais- sance et elle m'assure que vous voudrez bien excuser les fautes que je pourrai commettre. Le but de * notre fête littéraire est de preter notre humble eoneours à la perpétuation de la mémoire du grand héros Vasco da Gama, par un monument littéraire de commémoration redige dans les principales langues parlées à Shanghai: l'anglais, le français, l'allemand, l'italien et le portugais, afin que ses mérites et les faits éminents qu'il a accomplis, jugés 400 ans plus tard et débarrassés de toute erreur par l'examen et le scalpel de la critique moderne, soient de nouveau portés à la connaissance du monde littéraire de notre globe. Si à cette entreprise n'avaient pas coopéré des savants tels que le Dr. Edkins et M. von MollendoríF, considérés comme des plus profonds sinologues de notre milieu cosmopolite, un poète de la patrie des belles lettres comme M. de Giéter et la plume
  • 38 DISCURSO d'un écrivain autrichien três connu ici, associée à elle d'un íils de la patrie des beaux arts, M. Ghisi, notre olume repré- senterait, il est vrai, tout ce qu'il y a de plus briant en talent et savoir dans notre colonie portugaise de Sharhàí, mais ce serait tout, et il courrait de grands risques de plager bien vite dans les limbes de 1'oubli. Et cependant je suis ien convaincu que le poème " Vasco da Gama e a Ilumanidde" renferme d'exquises beautés littéraires, car je connais 1'auteu et la tendres- se avec laquelle il cultive les Muses depuis de longos années. Je sais aussi que le critique qui nous parlera d son apprecia- tion sur les découvertes du grand héros, dispose d'umapital de con- naissances historiques enorme et d'une plume exceente et facile. J'ai la certitude que le titre sympathique choii par 1'auteur du mémoire: " Vasco da Gama, son éloge et sa démse," suffirait pour lui ouvrir immédiatement toutes les ports du monde littéraire, même si sa plume n'etait d'une correctio irréprochable et si son style n'etait pas émaillé de nuances gracieses et fines. Tous ces excellents travaux grandiront encoreavec 1'honneur de prendre place à cote d'oeuvres de la valeur de ceies du savant Dr. Edkins et du profond chercheur von Mõllencorff. Et ainsi le vieil adage : "Os santos de casa não fazem mihgres [On n'est jamais prophòte dans son pays] " cessera l'effet que ne produisaient les proverbes populaires. Qu'on me permette maintenant d'ajouter qielques paroles pour signaler à des époques diverses les causes determinantes de notre héros. Dans l'histoire, on ne rencontre Das de Messies sans précurseurs. Le génie ne se révèle que par a lutte. II est bien connu que les grands homines surgissent seilement lors des grandes crises. On est facilement sujet à de grave erreurs quand on cherche à se rendre compte des antecedents hisoriques. Les decouvertes de Vasco da Gama eurent ieu pendant les XVème et XVIòme siècles, puisqu'il est né en 1^9, et represen- ted un événement de l'Europe moderne, si l'oi admet pour le commencement de celle-ci les premieres idées sociahs qui assument un caractere universel et Européen.
  • J. M. TRAVASSOS VALDEZ. 39 Les elements sociaux qui servirent à la constitution de 1'Europe moderne vinrent des époques antérieures, jaillissant peu à peu, pendant la grande période du Moyen Age, d'entre les ruines de l'Empire Romain. Ces elements furent: la féodalité, le clerge, les communes et la royauté; ils ont touj ours existe à cote les uns des autres, en une lutte opiniâtre, sans qu'aucun d'eux put réussir à donner à la société son nom ou sa forme et prévaloir sur les autres. A ce point de vue, on peut dire que 1'histoire du Moyen A Age jusqu'a la fin du XlVème siècle est, synthétiquement parlant, Thistoire de cette lutte elle-même. En effet, toutes les tentatives pratique'es par les systèmes existant dans l'interieur des nations pour établir l'union sociale : la théocratie, la démocratie; l'aristocratie et la royauté, ont échoué, car la caractéristique principale de cette époque a été le défaut d'idees générales et d'interets généraux pouvant servir de lien. Ce défaut était du certainement à l'instabilite de l'etat des personnes, de la propriété et des institutions, resultant des in- vasions continuelles des Barbares et de leur egoisme exclusif et particulier. Etudions maintenant plus en detail les idées representees par les elements dont nous venons de parler. La Féodalité était le régime social maintenu par un lien connu sous le nom de Patronat militaire qui établissait une liiérar- chie pour les guerriers et les autres individus sans détruire la liberté et Findependance de chacun. Les rapports entre les seigneurs et les guerriers étaient maintenus par les idées de fidélité, de dévotion et de loyauté et un système de moyens politiques, judiciaires et militaires. De ce système extravagant et incomplet est cependant sortie A la chevalerie du Moyen Age avec cet idéal de sentiments élevés et généreux que tout le monde connaít. C'est alors aussi qu'ont paru les premiers essais de poésie et de littérature, dans les châteaux ou la femme atteignit pour la premiere fois le degré d'importance qu'elle occupe encore aujourd'liui.
  • 40 DISCURSO L'jEglise a eté le premier de ces ele'ments qi se soit com stitué d'une maniere parfaite. On la voit déji organisée au milieu de la barbarie. Cela lui a vite donnela suprématie qu'elle a exercée au nom de la justice et de la érité depuis le Yème jusqu'au XVème siècle, période pendant Lquelle tous les événements sont constamment subordonnés au iaractère théo- logique. En raison de son organistion supérieure, lEglise a rendu énormément de services à la civilisation en luttan opiniâtrement contre 1'esclavage, en éliminant nombre de praiques barbares des codes civils et crimineis, en tâchant de rempacer le príncipe de la guerre par celui de la paix, ce qui ne t qu'augmenter l'influence et 1'importance du Criterium théologiqe. Les Communes, presque disparues avec l"mpire Romain ressuscitèrent après que 1'Eglise eut proclame 3 droit d'Asile, permettant la formation dans les environs des 3mples de nom- breuses colonies de fugitifs ou de riches citoyens Aide'es par la Royauté cherchant un point d'appui contre lei pretentions ex- agérées des Seigneurs ou du peuple, ces coloniess'agrandirent et se révoltèrent contre les extorsions des Seigneurs e qui donna lieu à la formation de la Bourgeoisie ou Tiers-Eta qui organisa les / milices, les impôts, le Gouvernement. Finalement la Royauté qui avait déjà foctionné dans les temps anciens, mais que la chute de 1'Empire ava; presque éteinte, s'affirme de nouveau avec les Croisades et, en ^ès peu de temps, regagne son ancienne influence et devient 1 plus important des elements pour Tétablissement de la sociétonoderne, sous la double forme : gouvernement et peuple. La raison de cette supériorité est que la royuté ne represente pas la volonté d'un seul homme, mais est bia la personnifica- tion de la souverainete' du droit, c'est à dire la olonté essentielle- ment raisonnable, éclairée et juste, étrangèr et supérieure à toutes les autres volontés individuelles. Cette supériorité est telle que ce sont les puples qui, de leur propre mouvement, viennent se placer sous sa tutelle. Les
  • J. M. TRAVASSOS VALDEZ. 41 philosophes politiques y croient aussi; cela est prouve par tous les systèmes de philosophie politique de l'epoque : la théocratie, la de- mocratie, l'aristocratie et la royaute dans chacun desquels le chef est invariablement la personnification de la souveraineté du Droit ayant pour caracteres extérieurs 1'unité, la permanence et 1'intangibilité. Done, en resume: les sentiments sublimes de l'honneur, de l'amour et de la fidélité de la Chevalerie du Moyen Age, le criteri- on théologique de justice et de vérité propre à l'Eglise, l'esprit de revolte et d'independance contre les exactions des grands Seigneurs se faisant jour avec les communes et le principe du droit de souveraineté personnifié par le Chef de l'Etat et sa suprématie étaient les idées sociales du temps qui causèrent les événements qui précédèrent la venue de notre héros. Je le repete, la lutte entre eux de tous ces elements pour le triomphe de l'un ou de l'autre, fut l'oeuvre du Moyen Age jusqu'a la fin du XIVème siècle. Ces luttes furent toujours inutiles et stériles car dans chacun d'eux se trouvaient des imperfections l'empechant de remporter la victoire. Ainsi, dans la féodalilê, les fiefs présentent une hétérogénéité tellement grande qu'il n'y en avait pas deux égaux entre eux. Chacun, on peut le dire, prenait le caractère de son Seigneur. Comment alors pouvait-il être possible de leur donner une forme homogène et de les reunir. L'Eglise, dans son ardeur de vouloir imposer à outrance la suprématie de son critérium théologique est tombée dans l'exces en persécutant 1'hérésie. Elie s'est rabaissée en se plaçant sous la dépendance du Gouvernement civil. D un autre côté, un Gouvernement compose exclusivement de Membres du Clergé ne pouvait pas dominer le peuple, hors de son influence. Les communes, en formant la bourgeoisie devinrent plutôt un element de désunion que d'union, car bientôt celle-ci commença son ceuvre d'emancipation et de revolte; la lutte sanglante des classes resultant de cette situation. Finalement, la royautê, qui n'avait pas à sa disposition les moyens matériels de se faire respecter, ne pouvait que se borner
  • 42 DISCURSO à faire acte de juge de paix entre les Seigneurs et les bourgeois, tâchant de regagner son importance par Fexercice supérieur de ses fonctions. Yoyons maintenant les événements de cette époque qui furent la verification historique des theories que nous venons d'exposer. Les Croisades des Xlème, Xllème et XlIIème siècles furent le premier et le plus important de tous. Cet événement fut l'ouvrage des seigneurs féodaux et de leur civilisation barbare. Obéissant au Criterium théologique de leur temps, ils s'engagerent à continuer sur les terres de 1'Asie la lutte du Christianisme et du Mahométisme commencée 4 siècles avant. Ces croisades constituent le premier événement universel, car tous les peuples de la Chrétienté y prirent part. Les Croisés allèrent en Asie comme des destructeurs et des ravageurs sauvages, croyant que tout ce qui etait maliometan provenait du diable en ligne droite. Ils se rendirent bientôt compte des importantes decouvertes faites dans les sciences et dans les arts asiatiques et de la necessite de les importer en Europe. Des lors leur caractere changea, ils acquirent un esprit plein de tolérance et de précieuses connaissances commerciales qu'ils rapportèrent dans leur pays. C'est à eux que peut être attribuée introduction en Europe de la boussole, de la poudre de guerre et des caracteres d'imprimerie. Jetons maintenant un coup d'ceil sur l'ounrage du fanatisme et de la persécution de 1'hérésie. En Angleterre, nous voyons Fassassinat le Thomas Becket, évêque de Canterbury, 1'horrible massacre des uifs dans le comté de York, Fassassinat du jeune prince Arthur de Bretagne. En France la persécution et le massacre des Abigeois. En Sicile, le monstrueux carnage d'éternelle mémoire coinu sous le nom de Vêpres Siciliennes ! Voulons-nous savoir ce qu'a produit d';xtravagant et de barbare la lutte des classes et Fémancipation le la bourgeoisie et des villes libres, regardons d'abord en Italie: e mariage du Doge
  • J. M. TRAVASSOS VALDEZ. 43 de Venise avec la mer, les tentatives d'assassinat des Medicis dans le temple, au moment de 1'office, la souffletade du Pape Boniface par Colonna et l'interminable quantite des schismes au detriment de la dignité pontificale. Nous voyons d'un autre côté, le masssacre des Flamands par le comte d'Artois, 1'extermination des Templiers et le hideux martyre de Jacques Molay et de ses compagnons, le massacre féroce des Armagnacs par les Baurguignons. Ce n'est pas tout, et cette liste deplorable de carnages se complete par les batailles dont les noms sanglants sont: Bouvines, Vendome, Courtay, Crécy, Poitiers, Azincourt, le siège d'Orleans et aussi par 1'assassinat de Don Pedro d'Espagne et le martyre de Jeanne d'Are ! Yoilà, Messieurs, le triste tableau de la grossièreté et de la barbarie des moeurs en Europe à 1'époque précédant Vasco da Gama! La science d'aujourd'hui nous enseigne que rien n'est inutile dans ce monde, que rien ne se perd. En effet, consolons-nous : de cette mêlée horrible est sorti le monde moderne. Ce fut par ces moyens et par ses luttes barbares contre 1'Angleterre que la France a réussi à se former un esprit national. Avec les Valois, elle a éteint la féodalité et s'est mise à même d'entreprendre les grandes guerres pour l'independance de son territoire, dont le caractere populaire est symbolise en Jeanne d'Arc. C'est alors aussi que l'Espagne se constitue par le mariage de Ferdinand de Castille et d'Isabelle d'Aragon, avec l'aide de l'lnquisition, qui à son debut n'avait qu'un caractere politique et ne servait pas à défendre la foi chrétienne non encore ébranlée. En 1485, l'Allemagne, oil les luttes féodales duraient depuis plus de 3 siècles, prit la forme d'une nation puissante par l'election de Bodolphe de Habsbourg, fondateur de la maison dAutriche. Un des événements les plus remarquables de cette époque avait alors lieu en Italie: la Renaissance des beaux arts. Cela était du à la suprématie des Medicis, princes illustres et commer-
  • 44 DISCURSO çants, et à la protection qu'ils accordèrent aux savants qui, après la chute de Constantinople, trouvèrent un refuge à Florence. C'est alors heureusement que sous cette puissante impulsion, précurseur de la reforme sociale, le mouvement intellectuel de l'esprit humain prend un essor plus eleve et que la politique, les sciences et le commerce en profitent immédiatement. Le Portugal, de rnême que la France et 1'Allemagne, a eu sa fe'odalite qui prit fin en 1481, avec le roi Don Juan II, 140 ans après la terminaison des guerres avec les Maures, dans la Pènin- sule, par la bataille de Salado, en 1340, alors que Alphonse IV était allié à Alphonse VI de Castille. Cette heureuse paix séculaire, à peine troublée de temps en temps par la Castille, est peut-être une des raisons pour lesquelles le mouvement litteraire de la Renaissance qui s'etait declare en Europe à la fin du XlVème et au commencement du XVème siècles, s'affirma chez nous, ainsi que cela est attesté par la creation de nos Romanceiros. Sous le règne de Don Diniz, le luxe et la galanterie font leur apparition à la cour. On y rimait aux dames, on y chantait les romances de la chevalerie, qui, selon Froissard, sont les indices de ce mouvement. II sufiirait en effet de remarquuer la protection donnée aux artistes par Alphonse y et lire quelques pages de notre chroniqueur Gomes, Eannes d'Azurara pour en être con- vaincu. Du mariage du Roi Don Juan I avec Dona Philippa, fille du Due de Lancastre, resulta l'introduction en Portugal des nouvelles du Cycle d'Arthur ou de la Table Ronde, propres à la race celtique. L'lnfant Don Henrique, né de ce mariage, possédait une âme d'aventurier breton, une foi ardente et un grand amour de la Patrie, Les mobiles de l'esprit du Moyen Age 1'amenèrent à inaugurer la serie des dècouvertes maritimes du monde moderne, dans lesquelles il trouva un excellent champ d'action. Cependant, son oeuvre civilisatrice n'aurait pu s'accomplir si elle n'avait trouvé de l'echo dans l'ame celtique des Portugais.
  • J. M. TRAVASSOS VALDEZ. 45 Ceux-ci avaient pour les inspirei' les traditions celtiques de leur race : par exemple celle de l'odyssée monastique des voyages de Saint Bredon, racontée admirablement par Azurara dans sa chroni- que de la conquête de la Guinée. Et beaucoup d'autres que je ne citerai pas afin de ne pas donner plus d'extension à ce discours, mais qui leur parlaient des lies enchantées ou fortunées des Antilles ou de 1'Atlantique, formant ainsi le génie maritime qui, depuis, transpire dans les principaux documents littéraires : Les Lusiades et 1'histoire tragi-maritime. Les pays de 1'Europe étaient engages dans des luttes titani- ques ; même 1'Italie, ou avait franchement lieu le mouvement de la Renaissance, ne pouvait pas se débarrasser de la lutte des classes. Nous voici arrives au moment des décou vertes et cela après avoir examine d'une façon générale les mobiles qui activèrent 1'esprit portugais à cette époque. Depuis longtemps dejà les guerres avec les Maures étaient terminées dans la Péninsule, et 1'esprit de renaissance qui brillait dans les autres pays d'Europe, se faisait sentir chez nous. D'un autre côté, l'impulsion des sentiments de la chevalerie se trouvait resserrée dans le cceur de la Péninsule et le besoin d'une surface d'action plus grande se faisait sentir. Les seigneurs féodaux, comme partout ailleurs, étaient las de rendre hommage à des rois qui froissaient leur orgueil, comme par exemple Jean II avec les Dues de Bragance et de Viseu. II leur fallait un espace dans lequel on ne pouvait pas imposer des limites à leurs exploits et à leurs prétentions. Et, je le répète, les connaissances scientifiques, commerciales et littéraires de la Renaissance avaient agrandi la sphère de travail des penseurs; elles pouvaient bien les faire songer aux problèmes nautiques pour l'étude desquels ou avait déjà recueilli beaucoup de données. Eh ! bien, Messieurs, la mer sans limites, infinie, s'étendait devant nos cotes, pleine de problèmes de toute nature et de mys- tères que nos légendes celtiques avaient plus ou moins la préten- tion de démêler et de faire comprendre.
  • 46 DISCURSO Qu'est-ce qui pouvait résulter de cette provocation constante étalée devant les sentiments d'honneur et d'ideal, siblimes d'amour et de valeur, qui avaient halluciné les esprits lu Moyen Age, cause les faits épiques de cette époque et qui netrouvaient plus un champ suffisant d'application et d'activite 1 Je vais essayer de vous le dire et cela me semble être três facile à comprendre: La valeur nous a amenés à braver les mers ténébreuses et tourmentées pour aller conquérir les perles de l'Orient. L'amour qui nous enflammait, les croyances qui autrefois nous faisaient partir pour accomplir le désir d une dame, avaient pris une direction bien plus grandiose. Les Chevaliers partent encore, mais le nom de la Dame qu'ils portent dans leur pensée est le nom de la Patrie et le service de Dieu est la raison qui les pousse. Ainsi l'a dit Yasco da Grama lui-même. C'est ainsi que les paladins errants se transforment en cara- velles et en flottes qui croisent presque au hasard dans 1'Océan incommensurable. Dans tous nos grands hommes de cette époque on rencontre développés à un haut degré, les sentiments généreux et sublimes de la chevalerie. Tous étaient soumis et fidèles à leur roi. Tous, domines par le critérium théologique, travaillaient pour le service de Dieu et, plus ou moins inspires par les legendes mari- times, s'occupaient de la solution des problèmes nau tiques. Yasco da Gama a été le type par excellence réunissant toutes ces qualités; c'est pourquoi son nom represente Tame, la vie et les aspirations de notre Patrie. Yoilà, Messieurs, les vraies, les puissantes causes de nos découvertes. Yoilà comment ces faits, soigneusement déduits et enregistrés par les études historiques modernes n'ont rien d'ex- traordinaire. Avec Jean II commencent les guerres avec les Maures en Afrique et la conquête des terres africaines, guerres qui ont con- tinue avec Alphonse Y. Les décou vertes maritimes conduisent Bartholomeo Diaz jusqu'au Cap des Tempêtes. Les connaissances
  • J. M. TRAVASSOS VALDEZ. 47 s'etendent avec les progrès de la Renaissance et les découvertes de Colomb. Alors parait Vasco da Gama et le Cap dont le nom avait déjá été change en celui de Bonne Esperance, est double : la route des Indes est frayée ! C'est au Portugal qu'etait réservée la gloire de cette grande et audacieuse entreprise. Je viens de vous en indiquer les raisons. Faut-il s'en étonner ? N'est-il pas de notoriété liistorique que ce sont les petites nations qui ont rendu le plus de services à l'humanite 1 Les exemples à l'appui de cette affirmation sont nombreux: J'en prendrai quelques uns cites par mon ancien professeur d'histoire au cours supérieur de belles lettres, le Conseiller Pedroso: Qu'est-il resulte des Empires immenses de Babylone, d'Assyrie, des Mèdes et des Perses qui, pour faire la guerre, disposaient de millions de soldats et de milliers de bateaux ? Des luttes terribles et stériles. La lumière est venue de l'humble petit peuple d'Israel duquel le Christianisme est sorti. Si nous passons de l'histoire ancienne à celle des temps classiques, que voyons-nous et de quel cote iront nos sympathies ? Du côte du colossal Empire Romain ou du cote de la petite Athènes, patrie des Arts, berceau de tout ce que le monde litté- raire a produit de mieux 1 II me semble que la réponse n'est pas douteuse. Qui done alors pourra s'etonner de voir, au Moyen Age, le Portugal donner au monde le spectacle de ses gloires maritimes, les petites republiques d'ltalie enseigner au monde la manière de faire le commerce, la Hollande sauver la liberte de la pensée ? Mes chers collaborateurs, mon introduction est terminée. Lespère avoir dressé le cadre dans lequel vous allez brillamment faire entrer les événements concernant notre héros. J'espère que vous nous direz maintenant ce qu'il était et comment il mit en ceuvre de grandes qualités; vous nous direz qussi comment les découvertes de Vasco da Gama ont produit:
  • 48 DISCURSO Une re'volution politique qui changea la civilisation méditer- ranéenne en civilisation atlantique par 1'apparition de PAnglais et du Hollandais et la disparition du Turc, du Genois et du Yénitien. Une revolution commerciale transportant à Lisbonne tout le commerce de l'Orient. Une revolution économique par l'importation d'Orient des espèces métalliques, ce qui tripla à peu pres les prix. Une revolution administrative par l'inauguratien d'un nou- veau systeme colonial. On bien, si l'on se place à un point de vue plus general: Une revolution geographique, car seuls le courage et l'abnega- tion de nos navigateurs ont mis un terme aux erreurs de la géo- graphie de Ptolémée. Une revolution historique parla ré union des deux hémisphères. Une revolution scientifique par le voyage de circumnavigation de Magellan. J'ai fini, Messieurs, et vais vous ecouter avec le plus grand intérêt. Joaquim Maria Travassos Yaldez. Ouvrayes ConsuMi.—Ristoive de la Civilisation, par M. Guizot— Cyclopaedia of Universal History, by John Clark Midpath, 1885—Histoire de la Littórature Française, par J. Demogeat—Popular Epics of the Middle Age, by John Malcolm Ludlow—Prince Henry the Navigator, by C. Raymond Beasley, M.A.F.N-GS—Historia da Civílisaçáo Moderna, pôr Consiglieri Pedroso—Compendio de Historia, por Joáo Antonio de Souza Diniz—Historia de Camões, por Theophilo Braga—Introdução a Historia de Litteratura Portugueza, por T. Braga—Estudo da Idade Media, por T. Braga—A Lingua Portugueza, por A. Coelho—Noções da Litteratura Antiga e Medieval, por A. Coelho—Centenario no Estrangeiro, por Magalhães Lima—O Premio da Descoberta, por Luciano Cordeiro—Os Portuguezes em Africa, Asia, America e Oceania, por Cardeal Patriarcha D. Francisco S. Luiz—A Peregrinação de Fernão Mendez Pinto—Historia de Portugal, por Carl Vogel—Droit Maritime, par Caudy.
  • L. A. LUBECK. 49 YASCO DA GAMA E A HUMANIDADE. " Esta é por certo a terra que buscais, Da verdadeira India que apparece." * Taes palavras, a costa mal distincta Apontando, o piloto melindano Profere. Alvoroçados os impávidos Nautas alongam a vista anciosos Por descobrir os áureos minaretes E as cupulas de Calicut soberbas. Sopro de leve brisa, que do oriente Corria, espanca as névoas que occultavam A formosa cidade, e um fulvo raio Do sol nascente doira as cumiadas Dos virentes oiteiros ladeados Por graciosas palmeiras. E' chegada Alfim a meta de trabalhos tantos, Ao longe entreluzir se vê a pérola Cubiçada, e os nautas jubilosos O céu ferem com gritos d'alegria, Graças rendendo ao Ser Eterno. Yasco da Gama, o capitão indómito, Contempla silencioso aquellas ribas Que as vagas d'um ignoto oceano açoitam. Não sente arfar sob a couraça o seio Em saudosas ancias, qual palpita O coração do viajeiro á vista Dos pátrios montes. Fremem-lhe no peito Agora os Ímpetos viris da gloria, * Lusíadas, C 6, E 93.
  • POESIA. E quasi que olvidados os tormentos Da duvida, 11a mente cariciosos Perpassam os bafejos da esperança, E o espirito em visão contempla o inperio Que hade immortalisal-o e á patria miada. Por momentos o juizo vacillante Discutia se acaso era possível Que d'um sonho o phantasma, envoVendo-o Nas mentirosas pregas, lhe tolhesse A luz, e que pensando vêr não via. Já muita noite, quando, extenuado Do labutar continuo sobre as ondas Do Oceano procellosas, descançava Breves instantes a fronte no eólio Embalador do somno, hartas vezes Julgára ao longe divisar alcáçares Áureos e mil palacios de pérfido Que do mar lhe surgiam deslumbrantes, Mas do despertar a mão impiedosa Com leve aceno derrocava as falsas Miragens dos noctívagos desertos. Agora náo ! que os ledos companheiros Também o facto ingente testificam, E a armada demandando vai o porto. Acódem-lhe então á mente passadas Scenas que do passado as tintas pallidas Debuxam saudosas. A tristeza Do despedir nas praias do Restello, O adeus que os lábios proferiam trémulos Como sabido d'alma que esperava Náo mais, náo mais rever os pátrios lares.
  • L. A. LUBECK. 51 E aquelle coração de vinte e oito annos Que apenas devia ter desabrochado Aos sorrisos do amor ! Vinte e oito annos ! Dias de primavera, quadra lúcida, Em que o seio d'affectos palpitando Namora a flor, as aves, as estrellas, A mulher namorando estremecida. E ir trocar n'essa edade encantadora O ambiente embalsamado dos amores Por salso aroma d'encrespadas vagas, E em vez do céu fruir, buscar a morte ! Era que em outra charama o peito ardia Do excelso Gama. Hastear de Deus o lábaro E da patria o pendão em invios climas Rompendo o trilho por ignotos mares. Apoz as ternas despedidas, lembram-lho Aquelles longos dias, longas noites, Passados sobre o mar encapei lado, Os barineis mercê do vento, e a vida Mercê da morte. Lembra-lhe o desânimo Dos mais ousados companheiros, pérfidas Ciladas do inimigo, e os terrores Vãos que a superstição creou medonhos. Mas tudo superara o inquebrantável Animo seu, favor também celeste. E agora mede o espirito a grandeza Do feito ! A terra cresce ampliando A esphera; o oceano os pélagos desdobra Incognitos; a sciencia vê raiar A luz dos factos, e o orbe conhecendo Atreve-se a sondar o firmamento; A humanidade arranca a venda espessa Dos olhos e o clarão do dia fita.
  • 52 POESIA. Para a patria, do Oriente vê os thesouros Preparados, especiarias ricas Que em lusitanos lenhos vâo ao Tejo, De Lisboa fazendo o grande centro Do universal commercio. A gloriosa Visão, nos horisontes bruxoleando Do futuro, a alma inunda do grão Gama De jubilo ineffavel, e olvidando Os passados perigos, só nos triumphos Da diva Cruz, da patria invicta, pensa. Como Vasco da Gama, a humanidade Caminhando atravez dos longos séculos, Vence a superstição, o fanatismo, Da natura os obstáculos, trabalhos Mil, dores, soffrimentos, e o peccado, E a mesma morte, e alíirn vê assomar-lhe As torres luminosas d'um perfeito Reino, seu Ideal—reino do progresso, Fraternidade e civilisação. Mas inda para o Gama não são findos Heroicos feitos, novas descobertas,— Pelo oceano estellifero elle vaça, O " E em cada orbe descobre novas terras Mais do que a índia ricas. Elie busca, Elle prepara para a humana raça As eternas moradas do infinito. Assim a humanidade no incessante Progredir jámais sustará o passo Até que alcance e se consumma o reino Divinal nas estrellas gloriosas. Luiz Adolpho Lubeck.
  • DE. J. EDKINS. 53 THE EFFECT OF THE DISCOVERY OF THE OCEAN ROUTE TO INDIA ON THE CHINESE, AS SHOWN IN BOOKS OF THE MING DYNASTY. DISCURSO Proferido pelo Sr. Pr. J. Edkins. t In the Chinese History of Kuangtung province it is stated that in the year 1517 the Portuguese, that is to say, the Franks, came for the first time to Kuangtung in a large ship and anchored at Macao. They had cannon, whose sound was like thunder. They professed to bring gifts. The governor of Canton looked in the Statute Book. There was no law allowing them to trade. They were sent back about ten miles to the south of Tung-kuan, south-east of Canton city. They built a house and set up a palisade, depending on cannon to defend themselves. This is the first notice showing the effect of Vasco da Gama's great discovery of the ocean route to India as found in books of the Ming dynasty. The voyage to China of the Portuguese Rafael Perestrello in a junk in A.D. 1516, was the commencement of European trade with China. This was eighteen years after Vasco da Gama arrived in India by the Cape of Good Hope. Yasco da Gama is known to the Chinese more by the effects of his great discovery than by any accurate knowledge of the man or his achievements. Vasco da Gama stimulated the Portuguese people by his example, and they were the first Europeans to visit China in ships con- ducted by themselves. It was in the year 1517 that Ferdinand Andrade reached China In four Portuguese and four Malay vessels. It is said that he gave great satisfaction to the
  • 54 DISCURSO authorities at Canton by his fair dealings. His ships were allowed to anchor at San-clPuan, or St. John's Island. In the year 1514 the Emperor of China gave permission to Portugal to found a colony in Macao, and the Portuguese came and settled there in considerable numbers. For nearly four centuries then the Portuguese of Macao have helped the Chinese in their industries. At the beginning of the 18th century Macao was the richest mart by far in Eastern Asia. It was a great place of wealth and trade. Many European arts were acquired by the Chinese at that time. The Canton silversmiths learned to do finer work. The fire works of the Chinese were greatly improved. The Chinese learned to make better cannon than before. The art of enamelling on copper, known as cloisonne, would be taught in this way to the Chinese. The Chinese industries are more varied in Canton than in other parts of the empire, on account of the residence there for four centuries of a European colony. Specimens would be sent «annually to the Chinese Emperor of all beautiful products, such as vases or other ware. The Viceroy and Governor of Canton would do this. The name Si-yang-jen, applied by the Chinese to the Portuguese nation, would be given them on the information of the Arabs of Canton. The Portuguese in Macao were not accus- tomed to speak Chinese. The Arabs in Canton always spoke Chinese as their mother language. This was the reason that in the books of the Ming dynasty an Arab word Frank or Afranj came into use in China under the form Eo-lang-ki for all the nations of the Latin race. How easily Portuguese useful arts would be extended to Peking is seen in vaccination. An English- man discovered that vaccination would prevent sm
  • DR. J. EDKINS. 55 work on Chinese industries that the cloisonne colours are soft, the ornaments usually arabesque and in good taste, while the shapes of the vases are graceful. This is his judgment. To this must be added that the Peking names for the art, Fa-lan and Fa-lang, show plainly that the names were leagued from Arabs at Canton. The ornamental curves of cloisonne ware are usually from flowers. The workmen are Chinese, and, says Professor Champion, they introduce dragons and other fantastic animals occasionally into their patterns. This, as is well known, is not allowed to Mahommedans. The Canton paintings on glass and other materials are commonly regarded as very good and highly successful. This then is what has been done by the Portuguese of Macao during four centuries for the Chinese arts and industries. There has been a perceptibly useful and elevating effect 011 Chinese art from a Portuguese source in at least five trades and professions, and there may be more. Considering the prosperity of Macao during a long period when the trade in silk, tea and porcelain was growing steadily it could not be otherwise than that Portugal greatly benefited Chinese industries. This is one of the many results (and not the least striking) of Yasco da Gama's great discovery; I suppose then that the cloisonne art, as now practised in Peking, is of Portuguese origin. The voyage of Yasco da Gama not only stimulated the Portuguese nation to continue in the path of their early navigators, but it greatly influenced the commerce of Europe with India and Eastern Asia. Many European nations took part in it, and their wealth increased. The interchange of commodities added to the comfort and luxury of life, and the life of European nations became diversified in its physical and intellectual enjoyments. Prince Henry of Portugal during fifty-two years aimed to advance the path of discovery on the African coast, but at his death in 1163 only 1,500 miles had been added and the Equator was not yet reached. Thirty-six years later the successful voyage
  • 56 DISCURSO of Yasco da Gama to India by the Cape route became one of the great epoch-making events of modern history. It shines brightly among the brilliant achievements of European genius and persever- ance in the path of maritime discovery. The progress of mankind is always from small success to greater success. It is often slow, but the example of the Portuguese nation shows that steady continuance in seeking advancement in our knowledge of the world is the precursor of very important results. For ninety years during the fifteenth century, that is from about 1412, Portuguese navigators conducted a series of voyages to extend their know- ledge of the African coast. Their reward was that they reached the Cape of Good Hope at last in 1487, and in 1498 the coast of India. Bartholomeo Diaz, Yasco da Gama, and many others brought glory to their country. A host of colonies were planted in Brazil and along the African coast, and the opportunity was given Portugal to occupy the foremost place in Eastern trade for many years and to found a powerful empire in those days. In this series of geographical discoveries Yasco da Gama holds the highest place. Like Columbus, he went to find the way to India. He laid his plans successfully. His thoughts preceded his memorable achievement. It was a two years' voyage out and home again. It was achieved by steady resolution which never halted. He had courage and intellectual penetration. He was a brave man, as was shown soon after he reached India by his taking twelve men with him to face an unknown fate, which was likely to terminate disastrously at Calicut from the cruelty or treachery of the Moors. Divine Providence rescued him from his enemies in order that Southern and Eastern Asia might become open to the religion, civilisation, and science of the West. It was best for India and other Eastern countries that Brahmanism and Buddhism should not rule there for ever. Thought needed to be stirred in the minds of the people. Knowledge, education, moral- ity and religion were sorely needed by the inhabitants of those countries. There were in the acts of the Western foreigners who
  • DR. J. EDKINS. 57 arrived in India at the end of the 15th and during the 16th century too many cruel deeds, it is true. Yet in the end the result has been the increased prosperity, liberty, and enlight- enment of those nations, the way to whom round the Cape was first opened by Yasco da Gama. The Europeans are called Franks by the Arabs, and this name seems to have grown into use among the Arabs of Spain in the first instance. Clovis, the King of the Franks, about A.D. 500 had a very extensive empire. This led to the name of Frank obtaining currency in Spain. From Clovis descended Charles Martel, who defeated the Arabs at Poic tiers when 375,000 Mahommedans are said to have been killed. Charles Martel died in the year 741. Pepin and Charlemagne came after him. Charlemagne being very successful in his wars, the name of the Franks acquired among the Arabs a terrible significance. Bar Hebroeus, the Syrian historian, says that when under Richard of England the Franks took Acre they slaughtered the Arabs in the city to the number of 100,300 persons. This was in the 11th century. To the Arab mind the Frank was a cannibal, cruel and fond of blood. In Chinese books the word Frank first occurs in the Sui dynasty, when the Greek empire, about the year A.D. 605, a hundred years after Clovis, is called Jjfj ^ Folin. This name would be learned by the Chinese from the Arab merchants at Canton or from Persians in Central Asia. It became the new Chinese designation for the Roman Empire, known in the Han dynasty as ^ H Ta Ch'in. Arab traders in the Mediterranean would learn the name in the fifth century before the rise of Mahommedanism. The Arabs were fierce themselves, but the Franks were fiercer. After reading a second time what Dr. Ilirth has written on the word Folin in his work China and the Roman Orient, I still think this word means Frank, and that it came from the Franks under Clovis and Charlemagne. But because the Por- tuguese were the first European nation to open the way from Europe to the East the word came in the Ming dynasty to mean
  • 58 DISCURSO the Portuguese nation in particular. Afterwards Portugal and Spain were united from the year 1580 to 1640, and the Spaniards and Portuguese together received in China the name of Franks during that period. Portugal and Spain together represented to the Chinese mind the whole of Christian Europe. It was the * difference in religion and of race taken in combination that placed in contrast before the Chinese the two races—Mahommedan and Christian. All along the Mediterranean Sea and along the coasts of Southern Asia there was the rivalry of commerce and of war. The competition of the merchant and the deadly strife of the sword and spear never ceased, and China in the Far East could not but hear rumours of this unceasing struggle between Frank and Arab. All through the Ming dynasty from 1368 to 1644, the Tajiks or Huei Huei and the Fo-lang-ki were the principal names by which the Arabs and Franks were known to the Chinese. The great strife began through the rise of Mahommedanism and the effort of the Arabs to acquire universal empire in the name of religion. It led to the conquest of all the commercial ports of Southern Asia by the Arabs from Aden and Ormuz in the Persian Gulf to Malacca and the Philippine Islands in the east. Then in the 15th and 16th centuries the Portuguese flag appears, always combining commerce and war joined with religion. The Arabs were everywhere defeated, and to a large extent deprived of their trade. From Ormuz in the Persian Gulf to Malacca and the Philippines there was victory everywhere, The Chinese at Malacca said: "We have three enemies—the alligator, the tiger, and the Frank." They said to one another these Franks buy little children, boil them and eat them, just as the crocodile and the tiger live on human flesh, when they are able to get it. One of the great advantages of such expeditions as that of Yasco da Gama is that these foolish stories are shown to be false, The friendly intercourse of nations ought to be encouraged in order that kindly feeling may be awakened among all mankind as children of the common Father, the Almighty Ruler of the
  • DR. J. EDKINS. 59 Universe. The isolation of nations is a mistaken policy. The benefit resulting from international intercourse and the origination of friendly relations is great. By the achievement of Vasco da Gama and maritime discovery generally, men learned to know one another better, and as they knew one another better they learned to love one another more. The Chinese would have continued to believe in stories shockingly untrue of Europe and its inhabitants were it not for the Portuguese navigators of four centuries ago. For many ages the Chinese stayed at home, but they were always a trading nation, and at last they took a deep interest in the navigation of the Indian Ocean. In the year 1405 the Emperor Yung Lo, of the Ming dynasty, sent one of his best officers, Cheng Ho, to navigate the Indian seas. He went to Ormuz in the Persian Gulf and to Aden at the entrance to the Red Sea. He went again in 1407, 1408, 1412, 1415, and again in 1425 and 1430. The vessels in his fleet were 440 feet long and 180 feet wide. He had on board 27,000 men. There were 62 vessels, large and small. He sailed from Liuho on the first occasion, a small port forty miles N. W. of Shanghai. Having a powerful army he fought with princes who refused to be friendly and took them with him as his prisoners to Peking. He offered them to the Emperor. One was beheaded, and another was pardoned and sent back to his city in Ceylon. Before the time of Vasco da Gama the Chinese by these voyages had gained a knowledge of the Indian and Arabian coasts; they had visited Calicut,where the Moors nearly succeeded in a conspiracy to slay Vasco da Gama. They knew Cochin, where in 1525 Vasco da Gama died. They had visited Ormuz, Goa, and Malacca, all of which were taken by Albuquerque, During the seven voyages of Cheng Ho, Chinese sailors had become familiar with these places and with Aden and Bengal. They had the compass on their ships to aid them in navigation, but sailing was always slow work in those days. From Calicut to Ormuz it was a voyage of 25 days. Vasco da Gama was 23 days
  • 60 DISCURSO on the way from Melinda in Africa to Calicut. From Sumatra to Bengal 20 days of fair wind are required according to the Chinese accounts. There was an interval of about eighty years between the expeditions of Cheng Ho and the arrival of Yasco da Gama. The Chinese did not push the trade with the Indian Ocean at that time, as China was not then adding rapidly to her home population. There was no need for her to plant colonies in the Straits Archipelago. Her surplus population was needed in her own country to fill the vacancies made by wars. Wars in former times were awfully destructive, and so too were famines and pestilences. These causes prevented the Chinese from emigrating in masses till the last two centuries, because the country was not filled with a growing population till the sovereigns of the reigning dynasty gave tranquillity to the country. The pilots engaged by Cheng Ho's fleets were usually Arabs, and the same was true of the Chinese navigation in the times before the Ming dynasty. The Chinese, however, having the compass to help them learned to pilot their own vessels. Yasco da Gama used Arabian and Guzerati pilots when he came into the Indian seas, but he had the compass already. Th.e Arabs learned the use of the mariner's compass from the Chinese, and they taught its use to the European nations in the Mediterranean about the year 1250, or 250 years before the discovery of Yasco da Gama. The compass came into general use in Spanish ships. This number of years shows that the mariner's compass was the main cause of the Portuguese successful efforts in discovering the African coast and adding accuracy and utility to the charts of that age. If, then, the compass of China came to be commonly employed about 1420 throughout Europe it follows that Portugal and all other maritime states are greatly indebted to China for setting the example in the 12th century of applying the magnet to navigation. All such improvements progress slowly. A troubadour poet mentions the mariner's compass about A.D. 1181. Three centuries passed from the time when all Chinese
  • DR. J. EDKINS. 61 seagoing vessels were provided with a compass before the age of Flávio Gioia of Amalfi, in Campania, who about 1302 simply applied the Arab compass to use in Italian ships. The reason why the Chinese were first in employing the compass was that their astrologers had a magnetised needle long before in the astrological compass used by them in framing horoscopes intended to determine the Fêngshui of any locality on land. The first known instance is in A.D. 1122. We may ascribe to Yasco da Gama the addition of much new geographical information. He would take home to Portugal Arabian charts of the coasts of Asia and Africa, Albuquerque and others would also do this. When Yasco da Gama rounded the Cape he hugged the coast to Mozambique in 15® S. Lat. going north-east. At Mozambique he went due north to Melinda, a distance of 670 miles. He there engaged a Guzerati pilot to take him to India. It was necessary for ships to have charts of the African coasts and Mozambique channel, but this was soon abandoned in favour of the direct ocean route, so that the voyage was much sooner ended. The European nations owe to the Spaniards the discovery of America and to the Portuguese the discovery of the ocean route to India. This great event the muse of Camoens has recorded in undying poetry. The trade with and sovereignty over eastern lands have largely passed to others, but it will never be forgotten by any of the nations that now take part in eastern trade that it is to Portugal and her adventurous navigators that the credit is justly due of having been the first to open up the way to this broad and magnificent field for the enterprise of the Christian missionary, the philanthropist, and the merchant. It is only during the gloomy reign of ignorance that the Chinese and other nations who do cruel things themselves think other nations cruel too; cruelty begets cruelty; ignorance in a nation produces in the national mind the belief in monstrous atrocities on the part of other nations of which those nations were never guilty. In the intellectual ocean of human thought
  • 62 DISCURSO there is great need of many a Yasco da Gama to show the world that every nation ought to be united to every other nation in a brotherly relationship. Cruelty and bloodshed will cease altoge- ther when the nations of the world know each other better and have a better understandiug with each other.
  • POESIA. 63 'I SONNET. Or, Vasco de Gama, au coeur de triple airain, Le vaillant qui lutta contre la mer immense, Oomblé d'or et d'honneurs, de gloire et de puissance Eut un rêve, et vécut dans 1'avenir lointain; II vit les peuples frères se donnant la main, Unis en un concert de concorde et d'allianee Celebrant son courage, exaltant sa vaillance Et s'inclinant vers lui, ils chantèrent soudain: fi Ton nom ne mourra pas ! car à travers les ages Ô fort parmi les forts, sage parmi les sages Quatre siècles après nous te disons : Salut! Et que nos descendants soucieux de ta gloire Pour des siècles encor célèbrent ta memoire !!n Et Vasco de Gama, rêvant cela, mourut! Léon de Giéter, Shanghai, Mai, 1898,
  • 64 DISCURSO DESCOBERTAS DOS PORTUGUEZES E SEUS EEFEITOS. DISCUESO Proferido feio Sr. Adelino Diniz. Virá, nos annos porvindouros, um tempo em que o Oceano romperá os laços das cousas, quando a in com- mensurável terra se manifestará á vista de todos. NECA. A idade media pendia já ao seu occaso. As nacionalidades nascidas das ruinas do império romano achavam-se já consoli- dadas. Reviviam os estudos clássicos; Copérnico descobria a immobilidade* do sol e das estrellas e a mobilidade da terra e do mais planetas; a invenção de Guttemberg vinha disseminar o conhecimento humano de um modo espantoso. A tlieocracia, esteio da sociedade europea por muitos séculos, perdia de pouco a pouco terreno no campo politico; mas, se mesmo a unidade religiosa estava abalada, o concilio de Trento, proveniente da Reforma, confirmando e definindo dogmas e corrigindo costumes, preparava a Egreja para as missões na vasta esphera que se entrevia já. Era como a aurora de um novo dia a raiar para o genero humano. E era pouco antes do amanhecer d'este dia, que as nações senhoras da peninsula ibérica se abalançaram ás nave- gações, aos descobrimentos, e ás conquistas além mar, com o nobre intuito de ofFerecerem á velha Europa dois mundos onde pudesse exercer a sua actividade na dilatação da fé christa, no aperfeiçoamento das sciencias, na formação de novos estados, no *A sciencia hoje sabe que esta immobilidade é apenas apparente. Diz Humboldt no Cosmos que o sol e as estrellas chamadas fixas giram com uma velocidade vertiginosa 11a região do espaço. N. do A.
  • ADELINO DINIZ. 65 estabelecimento de relações politicas entre povos diversos, e no commercio. Convém aqui citar alguns memoráveis trechos de uma notável carta dirigida ao Jornal do Commercio de Lisboa, em julho de 1869, por Emilio Castelar, em que, tractando do iberismo, faz o eloquente tribuno espanhol lembrar os assignalados serviços prestados á humanidade pelos dois povos ibéricos. Eis o que escreve Castelar :— " Descobrir, descobrir; eis o ministério confiado pela Provi- dencia aos dois povos ibéricos. Como a peninsula phenicia situada nos confins da Asia revelou a Europa ao mundo oriental, a peninsula ibérica, com o seu assente nos confins da Europa, revelou a America ao mundo occidental do velho continente. Que importara que Guttemberg descobrisse a imprensa nas margens do Rheno, o rio do pensamento; que importára que Copérnico visse a immobilidade do sol, com os olhos fitos nos ceus do Norte; que importára que Galileo entrevisse nas oscillações da mysteriosa lampada de Pisa o movimento da terra; que im- portára que Raphael e Miguel Angelo resuscitassem as antigas formas clássicas nas ribas do Mediterrâneo; que importavam os novos pensamentos encontrados na consciência humana e a nova civilisação, producto de quinze séculos, se vós outros, com Dias, Vasco da Gama e Albuquerque, não houvéreis dilatado e engran- decido a terra até ao Oriente, accrescentando-a com o esquecido mundo do passado, a India; e se nós outros, ao mesmo tempo, com Colombo, com os Pinzones e Fernando Cortez, nào houvéramos engrandecido o planeta até ao Occidente, accrescentando-lhe o desconhecido mundo do futuro, a America? De certo que a humanidade deve aos nossos nautas, aos nossos descobridores, que parecia levarem nas suas mysteriosas velas a palavra de Deus, uma nova terra, uma nova creação." Com a uniáo das duas coroas de Aragão e de Castella e a ex- pulsão dos mouros da Granada, poude a Hespanha acceder ás sollicitaçóes de' Colombo, dando ao intrépido genovez os meios para a viagem de que resultou a gloriosa descoberta da America;
  • 66 DISCURSO e ir, depois, com os seus grandes homens e missionários, con- tinuando a obra grandiosa dos descobrimentos, exploração, coloni- saçâo e evangelisação do vasto património que a bulia Inter caetera de 4 de maio de 1493 de Alexandre VI lhe assignára. Portugal, vencedor do islamismo dentro do estreito limite do seu território, levou as suas armas victoriosas até a Africa. Visa- vam os portuguezes acabar de vez com o opprobrio da domina- ção mourisca na peninsula, fazendo guerra aos seguidores do Pro- pheta n'esse solo donde haviam provindo os continuos soccorros com que elles grandemente se sustentaram nas suas anteriores luctas de séculos; e foi com esse heroico intento que se metteram ao mar, dando assim principio á epopêa cantada por Camões, e a essa pasmosa grandeza que, segundo Cesar Cantu, na sua Historia Universal, " pareceria obra do acaso, se não fosse o resultado de esforços heroicos e constantes." Eis como descreve este eminente historiador italiano o genesis das navegações, descobrimentos e conquistas dos portuguezes :— "João de Portugal desembarcou com seus cinco filhos na Africa; e depois de ter tomado Ceuta, em frente de Gibraltar, ali deixou para governador o quinto d'elles, o valente D. Henri- que. Guerreiro e versado em todas as sciencias do seu tempo, a sua imaginação exaltou-se ao ouvir as narrações de viagens que então circulavam. Interrogou os mouros sobre o interior da Africa : informado por elles e pelos judeus da existência dos aze- naghis que habitavam para lá do paiz dos negros, assim como das minas de Guiné, concebeu o projecto de lá ir por mar. Passando a estabelecer-se em Sagres, na ponta mais meridional do reino e ao pé do cabo San Vicente, applicou-se, em companhia de pessoas instruidas, ao estudo da geographia, e empregou no progresso d'esta sciencia as riquezas da ordem de Christo, instituida para a destruição dos mouros. Effectivamente, a conversão dos infiéis, não menos que seus thesouros, era o fim da empreza; e as damas recusavam o seu amor áquelles que nao tinham ido provar o seu valor á Africa. Já D. Henrique tinha mandado um navio explorar as costas em 1412, primeira tentativa feita pelos portuguezes,
  • ADELINO DINIZ» 67 mas que falhou. As dispendiosas chimeras do infante era um assumpto de motejos para os espiritos acidiosos; porém, arrostan- do os preconceitos populares e os erros dos doutos, niio se passava anno algum que elle niio expedisse um navio, com ordem do passar além do sitio a que o precedente tinha chegado. Seus marinheiros conseguiram assim dobrar o cabo Náo, considerado até ali (seu nome mesmo o indica) como o ultimo ponto accessivel; e d'ahi o provérbio que então corria: Quem ver o cabo Nao retroce* derá ou não" Foi pois um principe sábio, laborioso o magnânimo quem preparou o futuro brilhante que aguardava Portugal. Feliz- mente, na consecução dos seus elevados projectos, houve sempre portuguezes que o secundassm. Em terra, havia descrença e criticas mordazes; e, no mar, por estas costas africanas, correntes rapidas, terríveis ondas e recifes por todos os lados; e eraip escassos os conhecimentos da navegação; além d'isso, dizia-se que sobre vagas espumantes fantasmas e espectros medonhos aguardavam os navegantes para os tragarem. Nada porém fazia esmorecer esse espirito illustrado e tenaz nem os de seus ma- rinheiros. Parecia que, quanto mais cresciam os obstáculos, mais firmes e perseverantes se achavam em lograr o seu fim. Naturalmente o conto de fantasmas e espectros mais havia de acirrar o animo do douto infante. D'este modo, continuando os portuguezes as suas viageus, Bartholomeu Perestrello des- cobriu a ilha de Porto Sane to em 1418, e João Gonsalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira a da Madeira em 1419. O cabo Bojador, considerado inaccessivel, foi dobrado por Gil Eannes em 1429, sendo com este feito aberta a costa occidental africana ás subsequentes navegações e descobrimentos dos portu- guezes. A respeito d'este cabo tinha dito o infante aos navegantes : Segui o cabo Bojador ; vos não o passareis ; porém, mantendo-vos ao largo) fareis alguma descoberta ; virai depois de bordo e tomare- mos a singrar até que o hajamos dobrado. Diniz Fernandes descobriu Senegal em 1440, e o Cabo-Verde quatro annos mais tarde, data em que se estabeleceu a Companhia
  • 68 DISCURSO de Lagos com o fito de se proseguir nos descobrimentos e fazer o commercio de Africa sob a direcção de D. Henrique. Antonio Gonsales, Nuno Tristão, Luis de Cadamosto, gentil-homem vene- ziano, Vicente de Lagos e o genovez Antonio de Noli foram con- tinuando as navegações até que se alcançou o rio Grande em 1446. E, em quanto seguiamos o rumo do sul, affastamo-nos ^ambem da costa de Portugal para o poente, e as ilhas dos Açores, começando por Sancta Maria, que tem por descobridor Gonçalo Velho Cabral, foram, por este tempo, descobertas, occupadas e colonisadas pelos portuguezes; e ellas eram tidas, pela sua dis- tancia do continente, como boa escola practica para se formarem marinheiros destinados a viagens mais distantes e arriscadas. Paia haver bons marítimos e homens de sciencia, fundou o douto infante em 1415 a sua famosa escola de astronomia, cosmo- graphia e nautica, a primeira d'este genero, segundo a opinião de muitos. E, para se firmar na posse de suas descobertas, em con- formidade do direito publico vigente na idade media, pediu e obteve D. Henrique de Martinho V doação perpetua á corôa de Portugal de todas as terras entre o cabo Bojador e as índias Orientaes, doação ampliada ou melhor definida mais tarde pela bulia de Alexandre VI de 1493, que dividiu o mundo em dois hemispherios por uma linha imaginaria traçada de polo a polo a cem legoas dos Açores, cabendo a Hespanha o hemispherio occi- dental e a Portugal o oriental. E nós ainda conseguimos da Hes- panha, pelo tractado de Tordesilhas de 7 de junho de 1494, que a linha da demarcação se extendesse ate 370 legoas ao occidente das ilhas de Cabo-Verde, ficando d'este modo os portuguezes com a faculdade de occupar e colonisar o Brazil, sem attritos com a Hes- panha, depois de Cabral ter sido ali arrojado em 1500 na sua viagem á índia. No que diz respeito a sancção papal ás nossas e ás descobertas e conquistas da Hespanha, cumpre-me observar que, com quanto seja moda rirmo-nos hoje em dia d'ella, o direito da Egreja em dar um cunho legal a taes descobertas e conquistas era plenamente reconhecido por todos os estados europeus, por isso que formava
  • 4 ADELINO DINIZ. 6 9 parte do direito das gentes. Ao passo, porém, que se introduziram mudanças nas relações internacionaes, occasionadas pela marcha dos acontecimentos, teve esse direito de desapparecer assim como as outras reliquias medievaes. Em 1458 a praça de Alcacer-Ceguer, na Mauritania Tingi- tana, foi conquistada pelas armas portuguezas, e D. Alfonso V, chamando-se então Rei de Portugal e do Algarve, Senhor de Ceuta e de Alcácer em Africa, deu começo a essa serie de titulos, que tem sido o apanagio glorioso dos soberanos portuguezes, e que bem attestam o grao da grandeza a que attingiu Portugal. Em 1460, quando os portuguezes tinham quasi alcançado Serra Leoa, em 8 grãos septemtrionaes, veio o illustre infante D. Henrique a fallecer, depois de haver nobremente trabalhado meio século na causa da religião e da sciencia, para o engrandeci- mento da patria e bem da humanidade. Estavam ainda os nossos ousados nautas muito longe da índia, alvo das suas repetidas viagens; mas, inspirados dos sentimentos iguaes aos do grande ini- ciador das glorias maritimas portuguezas, endurecidos nas fadigas do mar, e possuindo de pouco a pouco maior conhecimento da navegação, principalmente quando, mais tarde, D. João II conseguiu, com o auxilio de alguns sábios astronomos, que se fizesse uso do astrolábio a bordo dos navios,—haviam de pro- seguir nas suas arrojadas tentativas até avistarem as almejadas praias d'esse paiz tam rico como mysterioso. E avante foram os portuguezes. Em 1469-1471 se descobri- ram a Mina e as ilhas de Fernando Pó, Corisco, Anno Bom, San Thomé e Principe, e dizem que os portuguezes chegaram, em primeiro d'estes annos, á altura do cabo de Sancta Catharina. Por esta epocha iam elles firmando-se mais no continente africano, e a tomada de Arzilla e Tanger, na Mauritania, fez com que D. Affonso V assumisse o titulo de Rei de Portugal e dos Algarvest d aquém e dl além mar em Africa. Em 1481-1482 toda a costa de Guiné e adiante, até o limite sep- temtrional do reino do Congo, foi visitada pelos portuguezes, e Diogo de Azambuja fundou o Castello e a povoação de San Jorge da Mina.
  • 70 DISCURSO Em 1484-1485 Diogo Cara descobriu o grande rio Zaire e o reino do Congo, e os navegadores portuguezes chegaram aos 22 grãos parallelo austral. D. Joáo II accrescentou perante o pro- gresso que fazíamos nas nossas descobertas /Senhor de Guiné ao seu titulo. Andávamos por este tempo á procura do famoso Prestes- Joâo, que se dizia ser rei-sacerdote, potentado mysterioso, cuja amizade muito importava a D. Joáo II o cultivar, e cujo domínio náo se sabia Se estava em Africa ou na Asia. Para o descobrir, se mandou por terra o franciscano Antonio de Lisboa á índia pela Palestina e Egypto; e foram também, pelo mesmo motivo, mandados por terra Pero da Covilhã e Affonso de Payva á India e Abyssinia. Não se encontrou o Prestes-Joáo; mas, em compensação, a jornada emprehendida por Covilhã e Payva produziu excedentes resultados, pelas exactas informações colhidas por Covilhã a respeito da forma meridional do conti- nente africano, informações que muito serviram depois ao nosso eg régio navegador Vasco da Gama. Pero da Covilhã occupa por isso um lugar distincto na historia patria. Em 1486 Bartholomeu Dias emprehendeu, por mandado do rei, effeituar a passagem da extremidade da Africa, indo também incumbido de haver noticias do mysterioso rei-sacerdote. A existência d'este personagem continuou sendo um problema histó- rico insolúvel; mas Bartholomeu Dias logrou solver o im- portantíssimo problema marítimo com constância e intrepidez magnanimas. A viagem d'este insigne navegador portuguez é, por conseguinte, tida como uma das mais memoráveis dos tins da idade media. Em razão das tempestades porque passara, cha- mou Dias o grande cabo que havia dobrado o das Tormentas; porém D. João disse : Deus não rpermitta que elle conserve nome de tam mau agouro ! Chamemos-lhe Cabo da Boa Esperança. Dobrado o cabo tormentório, a estrada para a índia estava, por assim dizer, aberta ; mas os mysterios que rodeavam esse cabo ainda náo se achavam de todo desvendados; e tinham os portuguezes de sulcar outros mares ignotos e nunca d'antes nave-
  • ADELINO DINIZ. 71 gados antes de attíngirern a meta dos seus esforços. Como sempre, mantinham-se firmes os portuguezes ; e, quando D. João II morreu em 1495, via-se quasi aparelhada uma expedição para ir em demanda d'essa desejada terra oriental. D. Manoel, que succedeu 110 throno de Portugal, não afrouxou nos aprestos para levar a cabo o arrojado commetti- mento que se tornou como sonho doirado dos portuguezes do século XV, tanto mais tendo em vista a descoberta da America em 1492 por Christovão Colombo; mas sentia-se a falta de um homem em quem se reunissem todas as qualidades necessárias para tam audaz empreza. As opiniões variam sobre o modo como é que Vasco da Gama veio a ser nomeado capitão dos tres pequenos barcos destinados a serem os primeiros que levaram portuguezes á índia. Fosse como fosse, vemol-o fazer-se á vela em companhia de seu irmão Paulo da Gama e de Nicolau Coelho e deixar o porto de Lisboa, aos 2 de julho de 1497, com a fé na alma e a coragem no coração, e ir direito em demanda das ilhas de Cabo-Verde; e de lá, correndo para o meio dia, tocou a bahia de Sancta Helena; e, aos 20 de novembro, dobrou o cabo da Boa Esperança. Depois, subindo a costa oriental africana, passou Sofala, e, em 1 de março de 1498, fundeou em Moçambi- que. Em seguida dirigiu-se a Quiloa, mas, obrigado pelas cor- rentes, tomou terra em Mombaça, onde pouco se demorou, e foi velejando até Melinde, com cujo rei travou amizade, e de quem obteve um bom piloto mouro de Guzarate por nome Molemo- canaqua. Partindo de Melinde, atravessou o Oceano Indico, e viu, aos 17 de maio, diante de si uma terra alta que não poude bem distinguir por causa de nevoeiro, mas, passados dois dias, descobriu achar-se na entrada de Calicut. No seu trajecto, á altura do temivel cabo, encontrou a frota ventos contrários e rigidos, sendo as vagas alterosas ; e a equipagem, desesperada pelas privações que soffria, tomada de terror pelas tormentas—o medonho Adamastor de que falia Camões— que ameaçavam a cada momento submergir os frágeis barcos, e supersticiosa do ignoto, se sublevou com o fim de compellir o
  • 72 DISCURSO capitão a voltar. Yasco da Gama, porém, não era feito de molde a ceder a dificuldades reaes ou imaginarias. Com firmeza e audacia, que teem sido a miúdo citadas para exemplo e admiração dos posteros, logrou elle subjugar a equipagem, seguir a sua der- rota, e accrescentar uma pagina brilhantíssima á historia moderna. Chegado a Calicut, cidade mui rica e florecente pelo com- mercio de que era um dos centros, entabolou Yasco da Gama negociações com o zamorím que a governava; ao principio parecia que estas iam tomando bom caminho; mas os musul- manos, que habitavam na cidade, tramavam contra os portuguezes, por os encararem já como futuros competidores no commercio que se fazia por elles; e Yasco da Gama chegou a correr sérios perigos, que soube vencer com habilidade e intrepidez iguaes as » que mostrára no mar. Dois annos e dois mezes apoz a sua partida de Lisboa esteve Yasco da Gama de regresso á patria; e D. Monoel, informado do brilhante resultado da sua audaciosa expedição, intitulou-se, no auge de jubilo, Rei de Portugal e dos Algarves, d'aquém e tf além mar em Africa, Senhor de Guiné e da Con- quista,, Navegação e Commercio da Ethiopia, Arabia, Persia e India. Para galardoar Yasco da Gama pelos seus assignalados serviços, deu-lhe o rei o titulo de Dom e fel-o conde de Yidigueira e almirante da India; mas a maior recompensa do heroe devia achar-se na satisfação intima que sentiria em ter surgido victorioso da lucta de gigante que travara com elementos e homens; em ter, finalmente, attingido o objecto para o qual Portugal havia lidado quasi um século; e na contemplação da gloria e dos benefícios que do seu altíssimo feito adviriam á religião, á patria e ao rei. A segunda grande descoberta, na ordem chronologica, dos fins do século XY estava realisada, e a humanidade ia presencear as estupendas mudanças que se haviam de operar na sua vida com o alargamento da esphera de sua actividade. Para Portugal surgiu uma verdadeira idade de ouro. Apenas decorrido pouco mais de meio século, e todo o commercio asiatico
  • ADELINO DINIZ. 73 de diversos e preciosos generos e especiarias se concentrava em nossas màos. A importância commercial de Veneza havia desapparecido, e Lisboa occupava o seu lugar, Tinharaos destro- çado os arabes e outras forças musulmanas que, auxiliados pelos venezianos e pelos naturaes que não eram nossos alliados, foram mandados para nos expulsarem d'aquellas terras e mares das Ilidias—aonde nos levára o arrojo de um Gama—e im- perávamos alli e nos golfos Arábico e Persico, onde nos estabelecemos, para tirarmos aos inimigos os seus principaes pontos de apoio e cortarmos as suas antigas vias commerciaes. Os turcos, que então imperavam 110 levante, viram assim, como os arabes e os venezianos, escapar-se-lhes das mãos o monopolio d'esse riquíssimo comrnercio asiatico que lhes constituía o nervo do poder ; e se viram também, portanto, privados de meios para proseguirem na sua marcha devastadora pela Europa, originando-se d'ahi o facto, gloriosíssimo para nós, de ser a civilisação europea salva pelos portuguezes do flagello musulmano guiado por um fanatismo fatal. E, á medida que continuávamos ainda os descobrimentos, nos enriquecíamos pelo comrnercio, e extendiamos as nossas conquistas, creando um império com o génio e a espada de Affonso de Albuquerque—ajudado por um Pacheco, por os Almeidas—sendo a sua obra grandiosa e de subido patriotismo levada avante por Nuno da Cunha, Antonio da Silveira, João de Castro, João de Mascarenhas, Luiz de Athaide—eclipsando os nossos feitos de armas os dos antigos paladinos—iam os nossos missionários—com especialidade, um Francisco Xavier, um Fr. Gaspar da Cruz—pregando as verdades evangélicas e plantando a cruz em todas as terras aonde chegamos. Pelos esforços que fazia, Portugal chegou a ser considerado primeira potencia na Europa pelos orientaes. O nosso domínio, comprehendendo uma cadêa de feitorias e fortalezas, se extendia da Africa ate as fronteiras da China, e o pavilhão portuguez fluctuava, para ale'rn do Atlântico, no vasto território do Brazil.
  • 74 DISCURSO Poude o Poeta, contemplando tanta grandeza, e fazendo passar diante de si todos os vultos illustres que mais honraram a patria, avassallando o mundo com os seus descobrimentos e as conquistas que fizeram com a espada e a cruz, romper em seguintes sublimes estrophes :— " As armas, e os Barões assinalados, Que da occidental praia lusitana, Per mares nunca d'antes navegados, Passaram inda além da Taprobana, Em perigos, e guerras esforçados, Mais do que promettia a força humana ; E entre gente remota edificaram Novo reino, que tanto sublimaram : E também as memorias gloriosas D'aquelles reis, que foram dilatando A fé, o império ; e as terras viciosas De Africa, e de Asia andaram devastando : E aquelles, que per obras valerosas Se vao da lei da morte libertando; Cantando espalharei per toda parte, Se a tanto me ajudar o ingenho, e arte." E poude o immortal cantor das grandes glorias portuguezas, dirigindo-se ao monarclia que presidia os destinos da nobre e heróica nação luza, exclamar :— íC Vós, poderoso rei, cujo alto império O sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do hemispherio; E, quando desce, o deixa derradeiro." Os argonautas, no seu trajecto da Grécia a Colchida, tiveram para lhes embalar o somno e cantar o valor com que iam a cata do vellocino a lyra de Apollo dedilhada pelos dedos de Orpheo; e nós temos a tuba canora e bellicosa de Luiz de Camões para perpetuar a memoria esplendida da viagem sublime do Gama, dos altos feitos, das façanhas épicas dos portuguezes.
  • P. G. VON MÕLLENDORFF. 75 THE INFLUENCE OF YASCO DA GAMA'S DISCOVERIES AND TRAVELS ON THE TRADE OF EUROPE. DISCURSO Pelo Snr. P. G. von Móllendorjf. The fifteenth century ushers in the beginning of modern history, the Middle Ages disappear, a new era begins. More than anything else the development of navigation brought this about. After a series of discoveries on the West Coast of Africa Columbus discovered America and Vasco da Gama found the way to India by sea. During the Middle Ages commerce had vastly extended, but continued more or less on the lines laid down in antiquity by the Phoenicians and their successors, the Carthaginians. The Italian cities, Venice and Genoa, as the leaders in the South, the Planseatic Towns and the Netherlands in the North, had not made any remarkable progress in navigation, nor had they dis- covered new countries. The trade routes were the same as in ancient times, and ships never went out of sight of land. The voyages undertaken by the Arabs and the geographical know- ledge gained thereby, were not made common property, although it seems strange that the ambition to become better acquainted with the Orient, which originated in the Crusades, should not have led to researches in this direction. Marco Polo's travels during the latter part of the 13th century, read with avidity in all countries, opened up visions of unknown lands heretofore shrouded in mystery. He informed ignorant Europe of Asiatic trade routes and how Indian products were brought to us by way of Egypt. The charts of the period
  • 76 DISCURSO represented Africa extending as far as the Malay Archipelago, making the Indian Ocean to be an inland sea. It was Marco Polo's book, together with Arabic tales of Indian commerce, which drew the attention of the King of Portugal to the feasibility of reaching India by sea and thus appropriating the trade of the Arabs. Portugal had the great fortune to be ruled by a succession of highly intelligent Princes. Joào I., 1385-1433, paid great attention to foreign commerce, increased the importance of the Portuguese navy, and thus laid the founda- tion of his country's greatness. This Prince "da boa memoria ," was the first to acquire the Spirit of the Age. He foresaw the change that was coming and led his country to gather the first fruits. His emissaries to East Africa and to Arabia brought him corroboration of what he had divined, namely that Africa could be sailed round and that it ended in a Southern Cape. Este é o primeiro Rei que se desterra Da Patria, por fazer que o Africano Conheça pelas armas quanto excede A lei de Christo á lei de Mafamede. First King was he who, with these thoughts imbued, Banished himself that Africans might know By force of arms how greatly doth exceed The law of Christ the law of Mahomed. Thus a series of discoveries were made, which culminated in those of America by Columbus and of the sea route to India by Vasco da Gama. Columbus had an erroneous conception of the position of India; he believed he could reach it by sailing west- wards. Vasco da Gama's voyage was based on a scientific calculation. Columbus' discovery was a happy accident, Gama's success was the scientific solution of a great problem. We can hereby conceive what it meant in those times to undertake voyages into unknown regions. Everyone still believed the stories of terrible sea-monsters, of the jelly sea, etc., circulated by the Phoenicians to deter competitors from following them on their voyages. The aids to navigation were of the most primitive
  • P. G. VON MÕLLENDORFF. 77 kind, and the ships were unwieldy craft of 130 to 200 tons. Truly it required more than ordinary courage to sail in such a way from the coast into the unknown terrors of the ocean ! The Infante Henry the Navigator led the first voyages, which were started in the year 1115. Assim fomos abrindo aquelles mares Que geração alguma não abrio, As novas ilhas vendo e os novos ares, Que o generoso Henrique descubrio. Thus went we forth those unknown seas to explore Which by no people yet explored had been ; Seeing those isles and climates new, before By noble Henry's first discoverers seen. In 1419 Madeira was discovered and was planted with vine and sugar-cane. In 1430 the Azores were reached. In 1445 Bartolomeo Dias arrived at Cape Yerde. In 1471 the Equator was passed. A naval academy, founded by Prince Henry, im- proved the astronomical and mathematical aids to navigation, and sea charts in the modern style were constructed. As the sun's sight could only be taken on land, the navigators had to land from time to time in order to determine the latitude. King John II, 1481-1495, "o principe perfeito," appointed a commission to devise better forms of astronomical instruments capable of being used on board ship. With the help of these instruments the Cape of Good Hope was discovered in 1487, and in 1497 the Southern extremity of Africa was doubled. Trabalha por mostrar Yasco da Gama Que essas navegações, que o mundo cauta, Não merecem tamanha gloria e fama Como a sua que o céo e a terra espanta. Vasco da Gama's labours hard, to prove That all those voyages which the world doth sing Should not such sense of fame and glory move Aa his, which heaven and earth set wondering.
  • 78 DISCURSO On the 20th of May, 1498, Yasco da Gama landed in Calicut on the west coast of Malabar, and the great problem of finding the sea route to India was solved. The results of this discovery were extraordinary. The first epoch of the history of commerce was closed, new trade routes were opened. Commerce rose henceforth to a point and attained an extension, of which the nations heretofore engaged in it had never dreamed. Instead of sailing merely within sight of land, ships were now able to cross oceans. Indian produce, instead of passing through the Levant to the Italian ports and thence into the hands of German merchants, were now brought by Portuguese to the markets of the Netherlands, especially to Antwerp. In India, the Portuguese Viceroys, Almeida and the great Albuquerque, gradually achieved their desire to exclude the Arabs from Indian commerce and to give Portugal its monopoly. The trade between India, Arabia and Egypt became entire- ly Portuguese and was extended to Malacca through the conquest of that city. Through this extension the Portuguese became the masters of the trade with China and Japan, the Philippines and the Malay Archipelago; the whole of the Far Eastern trade became concentrated in Lisbon. E tu, nobre Lisboa, que no mundo Facilmente das outras es Princesa, Que edificada foste do facundo Por cujo engano foi Dardania accesa. And thou, proud Lisbon, who 'midst earth's displays, As Princess others easily dost sway. Thou whom that Eloquent resolved to raise, Whose fraud Dardania did in ashes lay. The Italian cities, Venice, whose connection with Alexan- dria, the centre of the Indo-Arabian trade, was very extensive, leading the van, were for a long time doubtful whether Portugal could succeed in her undertaking. In their self-sufficiency they allowed the time to pass when they might have participated in the Portuguese triumph and retained a share in the new trade.
  • P. G. VON MÕLLENDORFF. 79 When they at last woke up, it was too late. Portuguese ships had already established an invincible competition, Lisbon had already become the market of the world for Indian goods, and the Indo-Arabian trade route was a thing of the past. Vene- tian gold helped Egyptian rulers for a time to resist Portuguese enterprise, but in the end they were easily defeated. Venetian ambassadors tried, with all their renowned diplomatic finesse, to obtain by treaty the exclusive right to take over all mer- chandise landed in Lisbon, but it was too late ; this had already been done by Antwerp. For some time Venice retained control of the overland route from India, by which spices, dyes, etc., con- tinued to be brought viâ Aleppo and Syria. But when Venice had lost most of her possessions in the Orient, the Levantine commerce gradually slipped out of her hands as well. The Dutch ports, especially Antwerp, then became the market for the ex- change of Indian, German, and Northern, i.e., Scandinavian and Russian, products and goods. The Portuguese, discovering this complete commercial organisation where rich and complete stocks of all staples could be found, brought their Indian merchandise to Antwerp ; Lisbon was the first, Antwerp the second great market for Indian products. Thus Vasco da Gama's great dis- covery brought Europe into direct communication with Asiatic ports ; for his fatherland he opened a new era; under Manuel and Joào III Portugal rose to the zenith of her splendour, she became the leading commercial nation of Europe and the Queen of the Eastern Seas. Ningpo, May, 1898.
  • 80 DISCURSO VASCO DA CAMA. A EULOGY AND A DEFENCE. DISCURSO Proferido pelo Sr. C. E. de Lopes e Ozorio. Four hundred years ago, Portugal's grandest dream was realised—the maritime way to the land of fabulous riches, and the source of commercial wealth—India—was found ! This glorious deed, immortalised so eloquently in one of the few of the universal epics, sung by one of the most illustrious of the world's bards, the great Camões, was not the result of chance, but an achievement long conceived and arduously attained, after nearly a century of patient study, years of fiercest struggles against the elements, physical, natural and supernatural, at the sacrifice of many precious lives and fortunes. That a land of enormous wealth from whence Venice, Genoa, and other cities of the Mediterranean derived their commercial standing and splendid opulence, existed beyond the sea, was a fact well-known to the Western nations of the 15th century. To discover this land and draw away a part at least of its commerce and its riches by a direct sea route was the ambition of the most enterprising of the maritime countries of that period. Fore- most among these nations of navigators were the Spaniards and the Portuguese who were, so to say, feeling their way to the goal of their desire, through " seas never traversed before." As a result of these continued researches the former discovered America, a new world in its sylvan and primordial state, and the latter the route by the sea to the kingdom which was known to exist in the East, but where no one could locate the exact spot.
  • C. E. DE LOPES E OZORIO. 81 With the wild and angry sea ever striking against her coasts it was only natural that Portugal should nurture and rear the sturdiest, bravest, the most intrepid and persevering mariners who, from the earliest ages, had ventured in their diminutive craft, the caravellas, first along the coasts and then further and further out to sea. With an unquenchable spirit of adventure, ever roaming and ever seeking for new lands, every decade found these hardy sea-rovers a few miles nearer to the end of their quest. From Coast to Capes, from Capes to Archipel agoes they crept along till they doubled the Cape of Good Hope, and half the way was reached. This discovery roused their desire to go still further on, and the navigators received the most flatter- ing encouragement from the people and the most munificent help from Royalty. To Royal Prince Henry, the Navigator, more than any one individual or corporation, Portugal is indebted for all the glorious and brilliant achievements of her sons on the sea, for not only did this exalted personage found the first school of navigation on a thoroughly scientific basis at Sagres, but he also dedicated his whole life and fortune and the funds of the Noble Order of Christ to train men to face with a more perfect know- ledge the perils of the deep. Himself no mean navigator, he knew more than others that, to venture out in the open sea, there were dangers to encounter; dangers which only a thorough grasp of the then known science of navigation could lessen, especi- ally as legends of untold perils and miseries of the most fantastic and gruesome nature had gathered round the earlier navigations. In this maritime university no doubt were trained many of those who subsequently astonished the world by their daring deeds and added a brilliant lustre to the country which gave them birth. But one sad page in the history of Portugal's sea achievements remains. The man who had planned, encouraged, dedicated his whole life, sacrificed pleasure and everything else, did not live to witness the accomplishment of the undertaking he had initiated—the discovery of the region of Hindustan—by one who was not even born before he closed his eyes in eternal sleep.
  • 82 DISCURSO Though his body lay buried, his spirit hovered and had sway over the destiny both of those whom he had and those he had not trained. His self-sacrifice, his assiduity, and his teaching had left a lasting effect and influence over not only his own native land, but a wider area. Historians and biographers are silent or very scant in their notice of the early days of those intrepid navigators, and especial- ly so of Yasco da Grama. His contemporaries never dreamt that four centuries later his memory would be still fresh, in fact fresher, not only in the minds of those of his race, but also of the world. His deeds to-day are told in letters of gold by his nationals as well as those of other races, for the benefits derived from his discovery are universal. One lingers in regret that so little of his early life is known, even the most brilliant of his modern biographers has only a few lines on the first years of his life. It is only left to conjecture that if he did not have a nearer con- nection with the school at Sagres, its influence must have touched him to a certain extent. That he had shown some aptitude for, and knowledge of, sea life and was endowed with more than ordinary powers of endurance and courage, good qualifications to see any difficult undertaking through to a successful issue, may be assumed from the fact that the nation would not have en- trusted the command of the greatest maritime enterprise ever attempted by Portugal in the hands of one so young as Yasco da Gama, if he had not been well qualified for the post. He was only 28 years old when he started to reach the shores of the Indies. Older men, like his brother Paulo da Gama, voluntarily gave way to him, leaving us in no doubt that he was the most fit to take the leadership, although it is averred that he owed his appointment by a fortuitous condition of things through the augury of the Astronomer Zacuto, that the way would be found by two brothers whose names he could not tell. This incident may have accelerated the decision of King Emanuel, but if Yasco da Gama had not been gifted with a sound knowledge of naviga- tion or had been destitute of bravery and firmness he would not
  • C. E. DE LOPES E OZORIO. 83 have been given the supreme command of the fleet even under more prophetic circumstances. That the choice had been a proper one was proved by the after results of the expedition. Vasco da Gama's full nature was then revealed. Without his indomitable courage, stubborn perseverance, strength of mind, force of character, firmness of temper, coolness in the most trying moments, sternness, self-control and forbearance when injured or insulted, whenever and wherever occasion demanded, the ex- pedition would not have been crowned with such momentous results, results which at once revolutionised the existing scientific theory, dissipated for ever the wild and exaggerated tales of the sea, deviated the channel of trade from its old course, removed the seat of wealth from the coast of the Mediterranean to the % seaboards of the Atlantic, and turned Lisbon into a centre of commerce, opulence, and splendour. The chroniclers of this famous voyage were loud in their testimony as to the tremendous power Vasco da Gama exerted over his followers, forcing, as if by magic, their respect, allegiance, and obedience. The first attempt at mutiny was at once put down with a firm hand, with- out resorting to brutal force, but simply through strategy of the subtlest nature. This particular trait of his character was again revealed later on. In the midst of the greatest danger at Calicut and while his and his companions' lives hung as if on a thread, which the least inconsiderate move would have snapped, and hurled them all to eternity, he was cool and collected, at the same time inflexible and resolute to a degree that inspired a reverential awe in his enemies and thereby saved his and their lives. He knew how to handle his foes, he knew how to brins: ' O about others to his way of thinking, he never jeopardised his country, on the contrary, his mode of procedure and the fearless way he faced danger exacted reverence and enforced allegiance from the Eastern Potentates to his country and his King. He was a diplomat as well as a discoverer. He could dissemble and appear bland as a lamb, although within his heart was raging a passion as ferocious as that of a lion entrapped. But for these
  • 84 DISCURSO multifarious phases of his character, which proved that lie was a leader not in name only, the fate of Nunes Goelho and others would have been sealed and their blood would have coloured the Kingdom of the potentate, Samorim, as a first sacrifice on the altar of intrepidity. In the face of what he had undertaken and undergone his reward was inadequate ; he received the same benefactions as any mere court sycophants of those days gob But Vasco da Gama worked for no material gain, his thoughts were of the duty he had imposed upon himself to do for his king, his country, and the human race. His were the thoughts altruistic. His was the desire to make those swarthy magnates know that his king and his country were not to be trifled with, and in this he succeeded. He carried this Gospel and worked to see it promulgated and laid his life down in the solemn discharge of his glorious mission. He died amidst the scenes of his conquests and his trials, in Cochin, while acting as Viceroy of India, in the vigour of man- hood. Thus passed away a grand figure whose shadow still looms large in the horizon of fame, though four centuries have passed away since the substantial part of it which gives the shade had crumbled away. As we see the light emitted from a star long since dead so also we see his light, with this difference; the former will diminish in brilliancy one day and fade away, but the latter will increase its effulgency so long as this earth exists. But around his memory, years after his death, nay, centuries, there has gathered an ominous cloud of charges. He was accused of being cruel to a degree verging on barbarism and savagery, he was charged with being ambitious, vindictive, and, even more, ungrateful! Thus by some he was rewarded. That he was stern, and sometimes very hard his fondest admirers will not deny, but that he was naturally barbarous, without being justified in his implacable vengeance, is a false ac- cusation. Hemmed in by hypocrisy, treachery, and falsehood, he only did what any one would do under the extreme circum- stances he was placed in, especially when he knew that the
  • C. E. DE LOPES E OZORIO. 85 relentless harassing against him originated from the hereditary enemies of not only his country, but of all Christendom—the vindictive Moors. The work of destruction and annihilation did not commence with him. What he did was the work of reprisal, the avenging of the cruelty and barbarity perpetrated, under the mask of friendship, against his countrymen. But for his prompt- ness in striking terror into the hearts of the guilty, the record of massacres would without doubt have been darker and lengthier. If he had been lenient, courting favour by adulation, the abuse would have continued and the Western people would not have had any hold on the natives, and the seed which he had planted would not have borne fruits so easily. Fruits, alas ! of which the planters did not reap much benefit. That he was ambitious, vindictive, spiteful and, worse still, ungrateful to his country and his King are falser accusations, which his own life gave the lie to. But an abler and louder voice than mine has been raised in his defence in the last num- bers of the Revista Portuguesa.*- Sousa Monteiro has once, and it is hoped for ever, dispelled the dark cloud which casts a sombre aspect on a glorious name, a name which, in these days when his jubilee is resounding in every sphere where the blue and white banner flutters in the same wind which blew it centuries back over seas and lands untraversed and untrodden by a white man, should never have a pall over it. We, here, are doing something to remove this dark cloud by this commemoration. The unanimity and the readiness which all nations here have joined with us in rendering homage to Yasco da Gama and laying the united tribute at his feet reveals the significant fact that all recognise in him a great discoverer, who has done so much to bring religion, civilisation, and pro- gress to the East and make the people of the Orient more humane, much earlier than they would have been brought. The nation, which, with only so to speak a handful of men, has done V * March aud April 1898 numbers.
  • 86 DISCURSO so much for humanity in the olden days and produced such a galaxy of names, as Prince Henry, Dias, Magalhaes, Cabral, above all Vasco da Gama, and others, is still on the march of progress and is to-day equally rich in heroes, like Serpa Pinto, Cappelo, Ivens, etc., who, with so few resources and such in- adequate means, as they had, have upheld their country's name and added fresher laurels to it. Portugal ! the country which we shall always uphold, possesses hearts ready for any sacrifice, for it is she that is the only realm which has granted at home and abroad an equality of rights. Her legislation re- cognises all as equals, be they black, be they yellow, be they white, every one is not a subject, but a full citizen, able to enjoy all privileges and all rights. In the words of Virgil : Quo res cunque cadant, unum et commune periclum, Una sal us ambobus erit. Portugal has passed through her years of rest, she will not be satisfied with only her ancient glory, but she will, in unison with other nations, carry the divine law by bringing humanity in closer relation, marching towards one throne, and that, the Divine one, the seat of justice, the seat of love, the seat of unity, and the seat of brotherhood. Portuguezes dos dias d'agora, Vinde prestes, que o tempo é contado, Nos annaes recolher, do passado, Seguranças de um largo porvir. Porque o povo, que teve em partilha, Um legado táò grande de gloria, Era indigno da vida e da historia, Se das máos o deixasse fugir ! Tendes hoje uma nova missão, Já marcada nas leis do destino 1 Quem não sente este impu so divino, Que nos leva, tão longe, além-mar? Quem não sente, que havemos agora, Por mandados de lei sobre humana, No chão virgem da terra africana, Do futuro os impérios fundar ?
  • C. E. DE LOPES E OZORIO. 87 Vede bem, que o passado renasce, Portuguezes dos tempos d'agora ! Novamente partir, mar em fora, Que o porvir nos acena de lá ! No cliáo virgem da terra humana, Novo império teremos um dia! O presente, o presente o anuuucia ; O futuro, o futuro o dirá.
  • 88 DISCURSO LA VIA MARITTIMA ALL' INDIA. DISCURSO Pelos Snrs. Cav. Ernesto Ghisi e Emilio S. Fischer. L'India, questo immenso ricco impero dei tropico deli' Estremo Oriente, abitato da un sesto dell' intera popolazione dei mondo, ha attirato a se già nei tempi antichi, i comraercianti ed i navigatori come pure i vicini avidi di conquista; le pianure fertilissime dei Gange svegliarono già le cupidigie deli1 Egitto, degli Ebrei, dei Fenici e degli Arabi, clie, parte dal Golfo Persico e parte per mare dal Mar Rosso ed afctraverso il Mare Indiano, come pure dal Levante, dell' Asia Minore, dalla Persia e dai passi deli' Himalaia, vi si t rasp or taro no per conquistarvi tesori e riportarli ai loro paesi. La notizia di queste favolose e facilmente conquistabili ric- chezze si diffuse sempre piu in Europa, e cosi accadde clie nel 1254 o 1255 i f ratei li Maffeo e Nicola Polo, nobili Veneziani clie si recavano a Costantinopoli, pensarono di prolungare il loro viário dal levante alie lontane regioni delia Tartaria. Essi sono i primi che ci portarono notizie delia rotta e des- crizioni dei costumi dei popoli incontrativi, e Marco Polo, il figlio di Nicola, che fu condotto assierae nel 1269 dal Gran Khan del Cathay, si rese famoso nella storia per le sue opere e descri- zioni dei suoi viaggi. Noi dobbiamo citare questo fatto perche fu Marco Polo che dovette navigare per 18 mesi con un' Ambasciata del Gran Khan di Persia, e che ci racconta delia città di Zaitun nella província di Fokien (probabilmente Foochow o nieglio Amoy) e poi parla di Malacca, Sumatra, Giava e Ceylon, del Mare Indiano, di Ormuz e dei Golfo Persico, di dove poi egli traversò la Persia e 1'Asia Minore ritornando a Venezia dopo 24 anni di assenza nel 1295.
  • CAV. ERNESTO GHISI E tJMILIO S. FISCHER. 89 Senza diminuire l'importanza dello scoperte di Marco Polo, che gia nel 13mo. Secolo, prima di Colombo ha fatto conoscere nuovi paesi all' Oecidenbe, bisogna però notare in modo special© che da ciò sorse nei principi Europei l'idea die nel 16mo. Secolo ragginorse ii massimo sviluppo e li spinse alia scoperta di nuove contrade. E quesbo fatto e questa attività da parte dei gloriosi Prin- cipi Portoghesi forrnano la ragione, per chi oggi il Portogallo e con lui tutti i popoli civilizzati del mondo festeggiano il 400° anniver- sario della scoperta della via marittima delle Indie per mezzo di Don Vasco de Gama. Mentre, come già dicemmo, non era conosciuta al commercio altra via che quella del Levante, e mentre i prodotti Indiani giungevano in Europa sempre pel Golfo Persico e per la via dell' Egibto, Si ria o Asia Minore, non si credera possibie una circum- navigazione delle coste d'Africa epoi l'attraversare il mare Indiano. Gli astronomi del tempo e piu vecchi avevano però già l'idea che le singole parti del mondo abitato fossero tutte circondate dal mare, ma ciò non bastava per dare ai navigatori la sicurezza che avrebbero potuto trovare una rotta diretta per l'lndia. Neppure a ciò bastavano i tentativi fatti 6 secoli prima di Cristo dal re Fenicio Necho per circumnavigare l'Africa, e quelle del negoziante greco Euxodus due secoli prima di Cristo, che tentó la stessa cosa. Le carte geografiche del tempo erano troppo vaghe, per far si che si credesse possibile la circumnavigazione dell' Africa, e special- mente se guardiamo la parte ovest non si conosceva piu in là dell altezza di Sierra Leone cioè a G° nord dell' Equatore, parte che venno scoperta ed esplorata dall' ammiraglio Cartaginese Hanno. Sulla costa est non si potera avere dati precisi che fino al capo Delgado civè 10° al sud dell' Equatore, punto che era stato toccato da mercanti Arabi ed Egiziani, a cui piu tardi si aggiunse nel Medio Evo ed ni tempi di Marco Polo; il Mada- gascar e le coste di Sofala, 20° al sud.
  • 90 DISCURSO L'interesse dunque e 1'attenzione di questi principi Porto- ghesi si concentrarono nello scoprire questa rotta marittima che congiungesse i punbi conoscinti all5 Est ed all' Ovest deli5 Africa, ed a ciò consacrarono tempo e denaro, mandando spedizioni per terra e per mare, alio scopo di illuminare le scienze geogratiche dei mondo, ed oltre a questo trovare mezzi per 1'espansione deli' Impero Portoghese e lo sviluppo dei suo commercio. Ali' época stessa però la Spagna per mezzo di Cristoforo Colombo, che versato nelle scienze astronomiche seppe tirarne la conclusione che attraversando la piccola tratta deli' Oceano Atlântico sarebbe arrivato al paese di Cathay e di Zipongo (China e Giappone) già da Marco Polo descritti, equipaggiò alcune caravelle a confidatele al gran navigatore scopri con esse il nuovo emisfero. II Genovese trionfante accennò, al suo ri torno, con orgoglio alia sua scoperta del cammino per l'Oriente, e questo spinse ancor di piu i Principi Portoghesi ad una pronta azione. A quest' época sorsero gli eroi marittimi Portoghesi, i cui nomi la storia tramandò ai posteri, essi sono Bartolomeo Diaz Vasco de Gama e Fernam Magalhaes. Bartolomeo Diaz percorse da Lisbona nel 1486 e 1487 tutto il cammino fino al Capo delle Tempeste, di la si apri, al 25° grado di latitudine sud la via ali' Oriente attraverso 1'Oceano Indiano, e perciò dopo, il nome dei Capo fu eauibiato in quello di Capo di Buona Speranza. Vasco de Gama lo segui con una spedizione nel 1494 al 1499, passo il Capo di Buona Speranza e scoperse 1'ambito cammino all' India, dove approdò il 17 Maggio 1498. Fernam Magalhaes percorse tutti i mari partendo dalla Spagna e viaggiando per il sud deli' Atlântico attraverso lo stretto nominato da lui, ed il Pacifico, indi girando il Capo di Buona Speranza ritornò nell' Atlântico facendo 6,400 miglia, ossia l'intiero giro dei mondo. Tutte queste grandi scoperte Portoghesi come tutte le pià grandi intraprese mondiali ebbero un periodo di preparazione.
  • CAV. ERNESTO GIIISI E EMILIO S. FISCHER. 91 Don Enrico il Na virador si acquistò questo titolo per il suo grande interesse alio sviluppo delia marina Portoghese, spingendo la medesima ad entrare in concorrenza con quelle delle altre nazioni, però a lui non spetba di vedere la realizzazione dell' idea delle scoperfce del cammino marittimo per l'lndia. I suoi sforzi furono continuati da Juan il Grande, Edoardo, Alfonso V, l'Africano sotto il regno del quale si scopii la Costa d'Oro di Guinea, e poi da Juan II, però tutti morirono prima della spedizione di Vasco de Gama. Eu sotto Juan II dal 1481 al 1495 che col l'idea di scoprire la via marittima alie Indie ed oltre il navigatore Diego Cam si spinse fino alie bocche dei Rio Zaire alie coste dei Congo ed arrivò fino al 22° di latitudine sud. Piutardi Bartolomeo Diaz, come già dissi, nel 1486-87 giunse fino al Capo delle Tempeste che poi il Re denomi- no Capo di Buona Speranza, ed oltre a ciò nel 1487 il Fidalgo Pero do Covilhaam fu mandato per terra in Oriente per prendere informazioni sull' Habesh e l'lndia. I suoi rapporti al Re e poi il riborno di Colombo dopo la scoperta dei suo nuovo cammino marittimo erano le principali cause che il Re comandò \ • colla massima alacrità rallestimento dei bastimenti coi quali Vasco de Gama era destinato ad andare alie Indie per la via dei Capo, dopo che il Porbogallo nel 1494 si era messo d'accordo colla Spagna per il limite deli' influenza nelle nuove possessioni d'oltremare. II cugino di Juan II, don Manuel continuò con zelo 1'opera ed ali' 8 Luglio dei 1497 la squadra del Gran Capitano Vasco de Gama partiva da Lisbona. La squadra era composta dal bastimento da lui comandato che era il "S. Gabriele " di 120 tonnellate e por dal " S. Rafael" della portata di 100 tonnellate, comandato da suo fratello Paolo; a questi era unita la caravella "S. Miguel" di 50 tonnellate, ed un battello di provviste il " Tejo " di 200 tonnellate. Bartolomeo Diaz che aveva preso parte alia costruzione di questi bastimenti, aceompagnò de Gama fino in Guinea. La squadra aveva un complemento di circa 300 uomini di cui la
  • 92 DISCURSO niaggior parte soccombette agli strapazi del viaggio e non rivide la patria. Sorpassando i particolari storici di questo lungo viaggio fino ali' arrivo felice alia meta tanto agognata, e sorpassando pure i particolari dei ritorno avventuroso delia spedizione, diremo solo che Vasco de Gama, lasciõ la foce dei Tago ai 15 Luglio 1897, passo in vista delle Canarie, si tenne lontano dal Golfo di Guinea facendo rotta verso Sud Ovesb, per trovare i venti d'Ovesb favorevoli che lo portastero al sud-est verso il Capo di Buona Speranza. Giro il Capo ai 22 di Novembro 1897 e di là si diresse al nord-est incontrando venti sfavorevolidurante tutta la navigazione. Durante questo periodo fra gli approdi che fece sulla costa orientale d'Africa citerò solo il piii importante civè Port Natal dove arrivò il 24 Dicembre; ai 6 di Gennaio 1498 si arresto nella baia di Lagoa e diede il nome di Bio dei Re al fiume che sbocca nella baia commemorando la festa deli' Epifania. Malgrado che la sua spedizione fosse in gran parte disturbata dallo seoraggiamento che piu volte colpí Pequipaggio fino a spingerlo alP ammutinamento, egli segui imperterrito la sua idea. Solo in Aprile il glorioso navigatore toccò Mombassa e Malinde, 3 gradi e 15 miglia al sud dell' Equatore, dove trovo finalmente dei commercianti Ebrei, Armeni ed Assiri che avevano trafficato colle Indie Cola riusci ad ingaggiare un pilota che conos- ceva il mare Indiano e ohe favorito da venti di Sud-Ovest (Monsoni di Sud-Ovest) porto felicernente la piccola flotta di de Gama in appena 4 settimane alia 700 miglia lontana costa dei Malabar. Lo scopo di don Enrico il Navigador fu infine raggiunto da de Gama. La costa Indiana appari il 17 Maggio 1498 al Capo Ely a 12° di latitudine nord e pochi giorni dopo gettava Pancora in Calicut dove la spedizione ebbe campo di giudicare Pimportanza dei commercio indiano. I Portoghesi furono bene accolti dagli indigeni, ma dopo destarono le gelosie dei negozianti Maomettani, e per questo dopo tre meai di permanenza egli si accinse al ritorno in patria.
  • \ CAY. ERNESTO GIIISI E EMILIO S. FISCHER. 93 La traversata dell' Oceano Indiano si fece in breve tempo e 1' 8 Gennaio 1499, de Gama approdò felicemente a Malindi dove fu riceverto di nuovo ospitalmente dagli indigeni, indi prosegui lungo la costa Orientale d'Africa fino al Capo e di là ritornõ in Portogallo. Le sofferenze delia ciurraa non furono poche, e Vasco de Gama perdette suo fratello Paolo, che mori all' isola Terceira nell' Arcipelago delle Azzorre, e finalmente solo con 55 uomoni restanti del suo equipaggio entrò a Lisbona il 18 Settembre 1499 dopo piu di due anni di assenza, ricevuto con grandi onori dal popolo e colmato di doni dal lie don Manuel che gli conferi il titolo di " don." In questo modo Vasco de Gama sciolse il problema delia rotta marittima per 1'India e porto con se una gran quantità di notizie scien ti fiche, geografiche, astronomiche, geologiche e commercials Poco tempo dopo organizaò una nuova spedizione percorse tutti i mari ed innalzò la batidiera Portoghese su molti punti delia costa Africana ed Indiana allargando enormemente i do- mini del Re don Manuel, che moií nel 1521. Sotto il regno del suo successore Juan III., Vasco de Gama parti col titolo di Viceré, per lTndia dove morí lontano dal suo paese il 24 Dicembre 1524 nel suo 55° anno di etá. Egli proveniva da una vecchia famiglia patrizia di Sines nella provincia di Alemtejo, ed oggi le sue ossa riposano nella Chiesa di Belem vicino a quella dei gran poeta Portoghese Camões. Non possiamo chiudere questo piccolo opuscolo redatto coll' aiuto di cenni storici senza dimostrare la grandezza e 1'importanza delia parte che il Portogallo ha avuto nell' época delle scoperte geografiche, grandezza ed importanza che furono poi diminuite e perche^ Per gli attacchi severi che ebbe a soffrire dalle nazioni limitrofe che ne minacciarono 1'indipendenza togliendo al paese i mezzi e la possibilita di pensare alie colonie. A quei tempi non esistevano il vapore e 1'elettricità e durante queste guerre gli Olandesi e gl' Inglesi ne approfittarono per impossessarsi di tutto quello che pote v ano.
  • 94 DISCURSO La grande idea del Portogallo per la scoperta di lontane contrade non perderá mai la sua gloriosa importanza, perche dobbiamo qui citare che il commercio che nel medio Evo trovavasi esclusivamente nelle mani dei Mori e degli Arabi, fu liberato da questo monopolio dagli sforzi deli' Amrniraglio Alfonso de Albu- querque, il quale stabilí fortezze in tutti i punti importanti ed occupò lo stretto de Babe el Mandeb impedendo ai battelli Arabi e Moreschi di battere la rotta delle Indie. E appunto questa è 1'idea che generò 1'altra altrettanto gloriosa dei taglio deli' istmo di Suez nel 1869, porchè quest' opera non sarebbe stata fatta se il commercio non avesse a mezzo dei Portughesi preso radiei stabili e lucrose in India da necessitare una rotta piu breve per arrivarvi. A loro devesi la suppressione delia pirateria che infestava i mari delia Cina; il Governo con mezzi energi-ci puni anehe i propri sudditi che pirateggiavano, e libero il commercio di questa piaga ottenendo in compenso dal governo Cinese la cessione di Macao. Non solo nell' Oriente l'opera colonizzatrice dei Portogallo si fece rimareare; guardiamo un poco il Brasile. Scoperto nel 1500 dai Portoghesi fu poscia perduto nel diciottesimo secolo, durante l'occupazione dei Portogallo da parte delia Spagna. Benchè il Brasile sia rimasto lungo tempo sotto la dominazione Olandese, pure i Brasiliani rimasero Portoghesi nel cuore, ed appena poterono scuotere il giogo, volarono ad unirsi al loro paese di elezione. Ed in seguito a ciò è ammirevole il constatare quanto ottenne il Portogallo per la colonizzazione e la civilizzazione dei Brasile in meno di mezzo secolo. II Portogallo ha sempre ottenuto maggiori successi che la Spagna, benchè quest' ultima avesse per la prima scoperto per mezzo del Genovese Colombo 1'America, e mantenne la sua bandiera alzata press'a poco nell' istessa época in Africa, in Asia e nel Brasile. Le possessioni coloniali Portoghesi sono ora ridotte alie isole Azzorre, a Madera, e Capo Yerde, ad Angola e Benguela e
  • CAY. ERNESTO GITISI E EMILIO S. FISCIIER. 95 Mozambico in Africa, a Goa o Diu in India, a Timor in Oceania e Macao in Gina, però questo basta ad impedire che la fama che il Portogallo si acquistò colle sue conquiste, malgrado il suo piccolo território e la sua limitata popolazione, venga dimenticata nella storia del mondo. La casa Braganza dovette durante le guerre Napoleoniche emigrare in Brasile paese sul quale durante il periodo di quasi un secolo ottenne il massimo successo tanto dal pun to di vista della colonizzazione come di quello delia civiltà, e ciò dimostra la grande attitudine colonizzatrice del Portogallo che nessun altro paese ha finora superato. L' attuale Principe regnante del Portogallo Don Carlos I contribui col massimo zelo a mantenere intatto Timpero colonial© Portoghese resistendo agli attacchi delle nazioni limitrofe,
  • 96 DISCURSO DIRCURSO NO QUARTO CENTENARIO DE YASCO DA GAMA. Dirigido pelo Revdo. Antonio Maria Alves) S.«/., á Colonia por- tugueza de Shanghai na Egreja do Sagrado Coração de Jesus, em Hongkew; 22 de Maio de 1898. Catiiolicos e Portuguezes muito amados em Jesus Ciiristo : Ha factos nas paginas da historia que synthetisam toda a grandeza de um povo, ao mesmo tempo que avivam a nossa fé sobre os destinos da Providencia ao fazer d'esse povo uma nação independente. Tal é o facto que n'estes dias com estrondosos festejos temos commemorado, e comnosco o mundo inteiro, lá onde quer que se fala a lingua portugueza, que mais ou menos e' ainda em todo elle. O descobrimento do caminho maritimo para a índia é, em effeito, o facto culminante da nossa historia; a epopêa grandio- sisssima do nosso génio e da nossa fé. O inspirado Camões d'elle tomou assumpto para o seu im- mortal poema—os Lusiadas. As nações, ao verem-nos dobrar o Cabo da Boa-Esperança pasmaram de tanta audacia, e acclamaram-nos, a unisono, descobri- dores arrojados e grandes argonautas. E tinham razão; que tudo n'esta Odysséa foi grande :— grande o commettimento, porque foram grandes os obstáculos a vencer; grande o heroe de que Deus se serviu para o levar a cabo; grandes, em fim, os bens que d'aqui derivaram para o mundo social e religioso. Ides vêl-o a largos traços. Mas antes permitti-me que vos confesse que se experimento extraordinário jubilo de poder, a esta distancia da patria, falar em portuguez a portuguezes da pagina mais brilhante, e, porque não hei-de dizel-o 1 mais por- tugueza das nossas glorias; sinto-me egualmente confuso vendo-
  • REVDO. ANTONIO MARIA ALVES, S. J. 97 me sem os dotes, que a grandeza de um tal feito requeria para ser condignamente tractado. Náo peço, pois, a vossa attenção, que o assumpto de sobejo se recommenda; peço sim a vossa indulgência para tudo o que vos disser n'este breve discurso. Vos sabeis, senhores, que Portugal logo na alvorada do seu nascimento no campo de Ourique, foi eleito por Christo para gueneiro e argonauta apostolico do seu nome e evangelho. Eu te escolhi e a teus descendentes,—disse Christo ao fun- dador da monarchia n'aquella miraculosa appariçâo, donde tomá- mos as quinas sacrosanctas que refulgem na bandeira nacional ; eu te escolhi e a teus descendentes para levarem meu nome e fun- dai em meu império entre nações remotas e náo conhecidas. Alta missão ! grandioso mandato ! que nossos primeiros reis reis batalhadores—começaram para logo a desempenhar contra as hostes mouriscas, que invadiam o continente, afim de o limparem d esse povo descrente e desnaturado e arvorarem o pendão das quinas, onde antes pompeava orgulhoso o crescente musulmano. Depois vieram as luctas renhidas com a vizinha Hespanha, até que alfim affirmámos nossa independência com heróica bravura, em Atoleiros e Aljubarrota. Era o primeiro passo para a conquista que Deus nos confiára. Portugal virou-se depois para o mar. E'olnfante D. Henrique— o austero solitário de Sagres—quem inicia a nossa epopêa marítima. A Madeira, os Açores, Cabo-Verde, S. Thomé, Mina e Congo lá surgem já dentre as ondas, para lhe virem ofFertar o tributo de suas riquezas, e prestar vassallagem á patria. Era muito; mas náo era tudo. A missão de que fomos investidos em Ourique, pedia que nos abalançássemos a mais levantados commettimentos; pedia que fossemos com a cruz es- trellada nas vellas de nossos galeões percorrer todos os mares, levar a luz da fé a todos os povos que jaziam immersos no paganismo. Taes eram os projectos do magnânimo D. Joáo II, os quaes depois herdou em grande porção o felicissimo D. Manuel, a quem passou o sceptro.
  • 98 DISCURSO Logo no principio do seu reinado começou o afortunado monarcha todos os preparativos para a gloriosa expedição ; e, em breve, baloiçavam no Tejo, em frente do Paço, os navios que deviam ir affrontar ignotas ondas. Só faltava achar um homem capaz de tamanha empreza;— um homem que tivesse ao mesmo tempo a dureza do diamante e a resistência do aço, a bravura dos heroes e a fe ardente dos sane tos. Esse homem deparou-lh'o a Providencia em um cavalleiro da sua casa, por nome Yasco da Gama. Yasco da Gama para quem estava reservada a sublime gloria de em breve vir a ser o maior dos descobridores, que sulcaram os mares de um e outro hemispherio ! Yasco da Gama o portuguez navegador de mais fina tempera pela elevação de seu caracter e pela firmeza na fé, que engendrou a máe-patria! Mas sigamol-o por um pouco na sua viagem. Ide comigo ao Tejo. Era o dia 7 de Julho de 1497, em uma sexta-feira, vespera da partida. Yasco da Gama com seu irmão Paulo da Gama e Nicoláo Coelho, que deviam assumir o commando das naus, vâo velar a noite na capellinha* de N. Senhora de Belem, que se erguia devota e solitária na praia do Restello, defrontando com o rio. Alli orou devotamente Vasco da Gama para que a Providencia lhe fosse propicia; para que a Yirgem, orago da capellinha, lhe fosse nas tribulações do Oceano estrella que lhe guiasse a derróta. Eis, Portuguezes, eis o homem de fé, eis esse domador dos mares, que em breve veremos a braços com suas iras, prostrado crente e humilde ante as aras sagradas ! mas então maior do que nunca; que tanto mais se eleva e engrandece o homem, quanto mais se abate e apequena ante a magestade do Deus tres vezes sancto. * Foi construída por ordem do Infante D. Henriqne, para que os nossos marinheiros antes de encetarem as suas viagens, alli fossem implorar o auxilio do céu. Cf. Historia de Portugal por P. Chagas.
  • REVDO. ANTONIO MARIA ALVES, S. J. 99 No dia seguinte, sabbado, reunia-se turba sem conto na praia do Restello; celebraram-se missas; e depois os nave- gadoies, empunhando cada uni d'elles sua tocha, em devota pro- cissão, na qual se encorporou o raonarcha e toda a fidalguia, dirigiram-se para o rio, onde embarcaram. feoou, em fim, o signal da partida. As naus levaram ancoras, e virando para o poente lá foram sulcando mansa e alterosamente as aguas do Tejo, barra-fóra. Vae affouta, ó nobre e audaciosa esquadrilha; vae, que a Provi- dencia divina te mareia as vellas e rege o leme; vae, que a Es* Irei!a elos mares que teus tripulantes invocaram na praia do Restello bi ilhar-te-ha serena em meio das cerrações e tempestades. Engolfaram-se nos paramos azulados; e em breve tempo com ventos bonanças houveram vista de Cabo-Verde, onde sau- daram a bandeira portugueza. Depois fizeram-se ao largo x O • A pai tir d este dia sobre os riscos de cortarem ondas nunca dantes domadas por outros lenhos, os mares tornaram-se cada vez mais borrascosos; ás tormentas succederam-se tormentas, e o Cabo da Boa-Esperança não apparecia. Passaram-se mezes inteiros n'estas angustias, desencadeando- se por ultimo horrisona tempestade, que ameaçou sossobrar toda a frota. O vento sibilou medonho no cordame, e encapellou de modo a superfície das aguas, que os navios começaram a ser arremessa- dos a todos os rumos, desobedecendo ao leme e á mestria dos pilotos. A luz instantânea do relâmpago, e o amiudado rebombo do trovão, correndo sobre os mares sem topar echo em parte alguma, faziam mais pavorosa a scena. Não se avistavam em torno senão ondas sobre ondas, que ou se vinham quebrar com fragor contra os flancos dos míseros na- vios, ou lhes cahiain em serras sobre o con vez. O desalento era geral ém toda a tripulação. A Portugal! gritaram todos—que são invencíveis e infer- naes estes mares—a Portugal! . . O •
  • 100 - DISCURSO E tel-o-hiam feito, como o fez a caravella de Bartliolomeu Dias, nem nós estariamos hoje aqui celebrando a pagina de oiro# das nossas descobertas, se Yasco da Gama de pé, em meio dos marinheiros aterrados, com a espada em punho, e os olhos fitos na cruz que ia nas vellas e nas quinas que fluctuavam nos mas- tros, lhes não bradasse :—A'vante ! que a bandeira de Christo náo recua ! . . . . Mas pouco a pouco os mares foram acalmando. O Cabo das Tormentas estava vencido, graças ao valor e fe do grande heróe, que rendeu suas ondas furiosas, e as fez gemer debaixo das qui- lhas das nossas naus, como se temeram seu braço armado de força mais que humana. A esquadrilha poz logo a prôa ao nordeste, e qual guerreiro que sahe victorioso da refrega, foi singrando triumphante, costa a costa, as escuras ondas africanas, descubrindo novas enseadas e novas terras,—Natal, Sofala, Moçambique, Mombaça, e Melinde, e plantando a bandeira das quinas na orla de todos os mares. Em Melinde, n'um outeiro vizinho á cidade, levantou Yasco da Gama uma columna de mármore branco, encimada pelo escudo das quinas de um lado, e do outro por uma esphéra com a lettra— Rei Manuel—em caracteres doirados. E no mesmo acto ao som de trombetas, e ao troar de toda a artilharia das naus, tomou posse d'aquellas regiões para Jesus Christo e para a patria. Yasco da Gama avançava de triumpho em triumpho ; mas Deus reservava-lhe outro ainda maior, o supremo a que podia anhelar n'esta vida. O momento de arrancar do selvagismo os povos indianos che
  • REVDO. ANTONIO MARIA ALVES, S. J. 101 Eu te saúdo também, ó terra da India! Portugal vae intro- duzir-te novos elementos de civilisação, vae pôr-te em relações com a culta Europa. Em troca de tua canella, de teus marfins e de tuas pérolas opulentar-te-ha com outras riquezas de mais subido valor. Olha, ó índia paga, olha a bandeira que tremula nos mastros / da lusa frota. E branca, branca, immaculada como a gloria do paiz! Yê n'ella as quinas sagradas; contempla nas vellas enfuna- das aos ventos que beijam tuas cidades e aldeias, a cruz, —esse labaro sacrosancto. Passará algum tempo, e essa cruz e essas quinas serão arvo- radas nas clareiras de tuas serras e á sombra de teus palmares ; essa cruz e essas quinas adornarão o tecto humilde de tuas chou- panas e a fachada de teus soberbos palacios. Ante essa cruz e essas quinas ruiráo os pagodes e torpes varellas que hoje abrigam teus deoses infames; e sobre suas ruinas levantar-se-hão templos magnificos ao verdadeiro Deus que desconheces. E tu, ó grande Yasco da Gama, maior que os mais famosos vultos que até hoje viu passar ante si a historia, conquistador não de provincias, nem de reinos, nem de impérios, mas de um mundo novo, volta á terra natal; vae levar ao afortunado mo- narcha, que cora anciedade te aguarda, as novas da tua descoberta vae entregar-lhe o roteiro da tua navegação gigantesca. Diz-lhe que esse mundo que descobriste jaz sepultado nas trevas do paganismo mais aviltante; diz-lhe que esses povos pedem a Portugal, mais ainda que a civilisação, a sua fé. Não descreverei, senhores, o alvoroço que houve em Lisboa á chegada da ovante esquadrilha, só direi que o augusto monarcha ao cahir-lhe aos pés Yasco da Gama, travando-lhe do braço, com os olhos marejados de lagrimas,—lagrimas de alegria e reconhecimento para com tal vassallo—D. Yasco !—disse —levantae-vos, e abraçou-o estreitamente. Era a primeira recompensa com que remunerava tantos e tão relevantes serviços.
  • 102 DISCURSO Depois nomeou-o Conde da Vidigueira e Almirante dos mares da India, Persia e Arabia. Mais tarde será nomeado Vice-Rei das índias, aonde voltará pela terceira vez D. Vasco da Gama para alli findar gloriosamente sua carreira, como conquistador valente, no campo em que se coroou de loiros. E para monumento duradoiro, que ficasse recontando evos a dentro a magnitude de um tal feito, e a fé dos 160 marinheiros, que primeiro dobraram o Cabo das Tormentas, mandou D. Manuel, no sitio da solitária capellinha do Restello, aonde os vimos ir orar antes da partida, levantar á Virgem, como trophéu de grati- dão, um templo grandioso e em tudo real, que se ficou chamando Sancta Maria de Belem. Esse templo lá se ergue ainda hoje com a vistosa frontaria para o Tejo, segredando aos mareantes e á patria suas glorias d'outr'ora. Ha alvura de seus mármores, na magestade de seus arcos, no rendilhado de suas frechas e na laçaria de suas naves, em tudo parece que nos está dizendo:—Que Lysia foi rainha dos mares, quando foi mais crente e fiel á sua missão. Entào, em effeito, foi incomparável o prestigio do nome portuguez em todo este Oriente, quando seguindo os trilhos e a estrada aberta por Vasco da Gama, lhe enviámos guerreiros crentes como um D. Affonso de Albuquerque; governadores intemeratos e fieis a Deus e á patria como um D. Joáo de Castro ; missionários como um S. Francisco Xavier;* um B. João de Britto, um Ven. Gonçalo da Silveira e tantos outros, que seria longo enumerar. Foi então que assentámos nosso domínio em toda a costa indiatica, nos apoderámos do commercio da Arabia e da Persia, nos estabelecemos em Aden, Mascat e Ormuz. * Embora hispanhol de naçao, foi o sancto enviado por Portugal para evangelizar em possessões portuguezas ou ao menos sujeitas ao Real Padroado. Amou sempre com entranhavel amor os portuguezes, de sorte que bem o podemos chamar portuguez de coração.
  • REVDO. ANTONIO MARIA ALVES, S. J. 103 Foi então que passando ainda áquem da decantada Tapro- bana, ultima balisa dos descobrimentos do nosso heróe, viemos conquistar Malaca e entalhar em seus muros com a cruz de Christo o nome portuguez. Foi então que desembocando o estreito de Singapura, 9 pondo a proa de nossos galeões em differentes rumos, uns desce- ram a descobrir essas plêiadas de ilhas oceânicas, em que tantas proezas obraram nossas armas; outros vencendo os mares da China e mofando dos tufões, que os varrem, vieram plantar o pendão portuguez e a cruz victoriosa de Christo em toda a costa do celeste império: e avançando sempre passaram a con- quistar para a Egreja o império da aurora, onde em breve se viram renovados, no fervor e heroismo de seus martyres, os primeiros tempos do Christianismo. " E se mais mundo liou vera, lá chegára " nosso génio e crença. Os traços com que n'esses tempos de fé marcámos nossa pas- sagem em todo o Oriente, foram tào gigantescos, que não os pode- ram apagar até lioje os séculos, nem os apagarão os tempos do porvir; e, ainda quando desapparecesse a Europa e com ella essa facha de terra, que se chama Portugal, ficariam elles attestando que por aqui passámos conquistando e vencendo com a espada em uma das mãos, e com a cruz de Christo na outra. Não vou por diante, porque o tempo não m'o permitte. Findo, pois, catholicos e portuguezes, com uma palavra de parabéns pelos patrióticos festejos, com que todos e principal- mente a illustre commissão executiva sob a intelligente e sabia presidência do nobre representante de S. M. Fidelíssima, vos esforçastes por honrar o grande génio da patria—Vasco da Gama. Mas, se os grandes centenários teem por fim despertar patrio- tismo, também não é menos certo que visam a modelar nossa vida pela d'aquelles, a quem festejamos, mormente quando elles são taes como o nosso heróe. Sêcle, pois, ó Portuguezes, fieis, como Yasco da Gama foi fiel, ao íei e á patria, e mais que tudo ao rei-Jesus, que é o nosso pri- meiro fundador :—"Eu te escolhi e a teus descendentes."
  • 104 DISCURSO Portuguezes corre-nos estreita obrigação de desempenhar sempre e em toda a parte e de todas as maneiras a divina missão de salvar almas e de tornar conhecido Jesus. Não podemos, como Vasco da Gama, descobrir novos mundos, que não lia mais mundos a descobrir, mas podemos fazer mais do que isto, podemos abrir o céu a tantas e tantas almas, para quem o mais grosseiro paganismo o tein ainda aferrolhado. Mostremos em tudo que nos anima aquelle mesmo espirito de religião, de que o grande navegador sempre fez gala, e estimou como o seu melhor titulo de nobreza. Sejamos n'uma palavra portuguezes como Vasco da Gama foi portuguez,—homens de lealdade, de crença e fé,
  • r COM. HERMENEGILDO ANTONIO PEREIRA. 105 ARTIGO ClffiSTEZ ORIGINAL DO COMMENDADOR HERMENEGILDO ANTONIO PEREIRA. & Ni Wí ^ M Jut 'M — "tí M Iff ãi i}£ ~g ffá ijj m íw Hç Hg 3f jgj | ! m m m m g f § f « á & m M f £ Í5 m Ifi f í 9 # x S íi# ^ iíf íí ir i;y £ w |§ fl V ± # A if LI 4° fe it HJ J± aSfS««fA£t"#sis*tt «S#SfíifI * ?m% m *^ mfàÊmÚ £if, 1I « ^ li fôj # ia a ã » fr S â 75 f ^ Ê & ^ e» ® 0 JJ# ti "I § à » S J? í S 2& $58 ® ^ £? «b ^ ^ ^ ÉP ífe S AU ^ Él í£ -lSI?ifiis*t85 ffi * S p„ í? $1 H w ^ ÍÈ ?É 'K i± a «a -ir A A s .g Ui m || íf «S 1111 f § f p | f I ! 11 m 3 illlifllf851858? IlflflftêlflISâl 1 S M È X ?l »£ £ ? «- '" ® * ^ * MAÍffl5SS5f*fW¥,f®í» Ji, A íi jfij gfc ^ ||n ^ ^ Jjjp p
  • 106 ARTIGO CHINEZ. :£ m st flu g & & m á z mu p.íf & % ^ m m & M m m 3 w m ± m ® w n % m u m # % m & ® % a $ M éii Í fj ttiiij*&á:j&«#:ê£SEH ft t ít a & íí is s â # m & il & ® % m m lé^HííiH ft * A ffó d£ £ # -g É ^ •+" ft ffl SE ^ 1 iê pT #J ^ ft fí ifê £ ft # ta * m .ft & s§ j§ jk ip & $$ g n « fg ft 7# ii *h ft lí íS ft :fê PH ft £ & lg iT itfi fi f f ê a f if - is « SfS^±AttA«Siíá:í&á:ã^i|L MÍ £ ItSc^^ttPÍS^AIfea^WEPIIW+B .'„. -££? • tfct -p— *77. if; (ir » . .r^A tifc I,,1 ri4« «a. Jl-Í- 3S s £ .§ ¥ ^ jg # * it £ m ^ ^ ft ni % tt « ^ a m tt 1 h is - # ® a ft & ^ÍBJEIlÊIi^WSSf&aA^B»^» ^»»l®ÍIÈWÍ!f^Saft£í*AèKg EÈA«fÍIá:«^»i8aaÃia*®® ® frA§«BII®}ÃÍT^ft»4:Jf»2PSe» awAWaiiawfF^^^ftiSi w - £ /ill »Tlfffi3}S-lfll^(8AS«J4aAi&»í a a # s jfô .if ti m § ;> ^ t ííi íci fi ft m tt >b* mm |i# it £ fj $ it a * •. — — a A —m- % I . _ . • ■ f I_ * Trf *TT"? ff — — « 1 _ ■/. r» »-* ■ „ nu w. I ►w 2,? m ± fá ?A m -a ft ft fí n# fiii #n PH «ÍÔBWíF + lí^ffSitiíAAJI S filí ft tf# fg fl — M P»1 a & ft S & ii fill ÍW£(A®I^A^t{SlW^ gfl M *'J SEM ± na $>J» S ^ # wk W — A M á: iS^h^íf^A^ág 'wft fig ft Í5 IS ^'J ra iSá:amííl!l&Ãfê*®$aB^RS rfo fê |I jtfc il totó li ã *P í§ ± iS A B5: m X W ~ m Z A & fâ M # z £ ti & a M m h uc m Tt? % PH ít c a n § fti m m #n ^ n ti, M A ^ w m m íiaí SÉ*|?^î iPftRjIBÃf *881' >y
  • COM. HERMENEGILDO ANTONIO PEREIRA. 107 EL * i ? S f 5 M 0 + f m ii m - tfj & ti # H A It £ % S aft m £ ^ ^ H £ a tf- r# S 1 ti ® # FbI ÍJÍ i®. A lí p| £ $ iff IE 5 !f# F|J h flg Hg J® f&,„ A & te * 5é g + lg 3c £ g rn& ff r >5 is ^ ? 5 -i ^ € r ií - mfâ ^wp? ^ a 3? ^ jífc A |J A 3Í ¥ W A — PP J£ í£ ^ #*i a ' » »**v ^r>^| y a ij^p i az Tm^, AP -* Í Ír m S If ¥ ® S ^ ^ ^ ^ ^ ?& M M FbI S if W k $s |$ H -w H a 5£SfISS¥*®if*w*S SSSSíiSf^íí®^ ® lip. tu M M g |g ^ jft » H $ a I Sr á fi É« íí ^ Í3? Í!S ÊS ^ .g IM ^ i SiSinííaSgssis*» S'J te gj pg ¥JJ 3§ $| ^ 4Í tt« «. ~ Fift ??íflÍfÍlKgiÍ®MííÉ + ft pn ^ m 3 fi ò2[ *&Píí @ ® ^ ^ ® I f. I f g 2 * P # g fS f'J K If J3 IS ¥1 J'J A m i& M iíij íil lift ik jjf M fir ô áfe íR in S É X
  • 108 TRADUCÇÂO. TRADUCÇAO. Portugal é um reino que está situado na parte mais occi- dental da Europa, e confina ao norte e a leste com a Hespanha, ao oeste e sul com o Oceano Atlântico, e é classicamente chama- do Lusitânia. A monarchia portugueza começou durante o reinado do Imperador Shao Sheng (fg gg) da d y nas tia Song (jjj). Antes d'essa épocha as terras de Portugal estavam sob o dominio de vários povos, incluindo Romanos e Mouros. Foi um cavalleiro muito valente por nome Henrique, que era bisneto d'ura Rei de França chamado Roberto, que fundou a monarchia. Este cavalleiro que vinha era companhia de vários outros para ajudar a Hespanha nas suas continuas guerras contra os Mouros, prestou tão grandes serviços e obrou taes actos de valor, que o Rei de Hespanha, chamado Afonso, conferiu-lhe o titulo de Conde, e deu-lhe a sua filha chamada Thereza em casamento, dando-lhe ao mesmo tempo por dote uma parte de Portugal que já estava conquistada aos Mouros, e com liberdade de ir con- quistando quanto mais pudesse. Henriqne tomou posse das suas terras, continuou a guerrear e extendeu os seus domínios. De pois da morte de Henrique os seus successores continuaram a lucta, fazendo sempre novas conquistas, ate' que os Mouros foram inteiramente enxotados de Portugal. Estando já as terras de Portugal livre dos Mouros, os Portu- guezes pensaram em procurar outras terras pelo Oceano fora. Havia em Portugal, na épocha do Imperador Yung Lo m) da dynastia Ming (0Jj), um príncipe chamado Henrique, muito afíeiçoado á navegação. Elie estudava tenazmente o melhor modo de se haver com as difficuldades dos Oceanos e fundava escolas para ensinar aos Portuguezes a maneira de navegar ornais scienti- ficamente possível n'aquelle tempo. Depois de ter formado um certo numero de capitães, estes foram para o mar em barcos muito
  • COM. HERMENEGILDO ANTONIO PEREIRA. 109 pequenos o maioi nem chegava a 100 toneladas—começando primeiro por estar sempre á vista de terra e fazendo depois mais ao laLgo. Desta manena foram navegando ate que descobriram as terras do lado occidental da Africa e as muitas ilhas do litoral. Persistiram os Portuguezes na navegação por muitos annos até que um dia, durante o reinado do Imperador Cheng Hua (jjg da dy nas tia Ming (0JJ), Bartholomeu Dias descobrio o Cabo da Tormenta. Não podendo passar d'ali a diante por causa das gran- des ondas e muitos perigos, Bartholomeu Dias voltou a Portu- gal. Quando o Bei soube da descoberta d'esse grande Cabo, alegrou-se muito e deu-lhe o nome de Boa Esperança em vez de Tormenta, e desde então teve a idea de procurar a índia dobrando este Cabo. Sabia-se então que existiam as terras da India, que havia alli riquezas fabulozas, cujo commercio com a Europa era só feito por via de Veneza e Génova, e outras terras no Mediterrâneo, aonde os Árabes levavam os produclos da índia, passando pelo Mar Vermel lio e atravessando as terras d'Africa. Para obter essa riqueza era necessário procurar outro ca- minho a fim de desviar o grande commercio feito pelos Árabes, se não de todo ao menos em parte, por isso era preciso procurar o caminho por mar. Os Poi tuguezes tendo ja conseguido descobrir a costa occi- dental da Africa, e sendo considerados bons marinheiros, decidi- ram ir procurar a índia, dobrando o Cabo da Boa Esperança. Para este fim tinham de utilizar-se de barcos de maior lotação do que aquelles em que Bartholomeu Dias viajou. Reinava n'esse tempo em Portugal o Rei D. Manuel. Este monarca, aproveitando-se de tres barcos especiaes que o seu ante- cessor tinha mandado construir para ir descobrir a índia, fez aprontar todo o necessário, e escolheu Vasco da Gama para commandar a expedição. » No verão (* M) do decimo anno do reinado do Impe rador Hung Chih fâ) da dynastia Ming, depois de estar tudo devidamente preparado, partio Vasco da Gama de Portugal
  • 110 TRADUCçÃO. para essa desconhecida viagem, levando por capitão do segundo barco a seu irmão Paulo da Gama, e por capitão do terceiro barco a Nicolao Coelho. No começo andou tudo muito bera, mas mezes depois de correr por mares desconhecidos, encontrando frequentemente temporaes, os seus marinheiros, cansados já de tantas privações e perigos, amotinaram-se e queriam voltar a Portugal. Mas como Vasco da Gama era homem de grande tacto e muita cora- gem, poude abafar o motim, castigando ao mesmo tempo os chefes dos amotinados. Proseguindo na sua viagem, Vasco da Gama encontrou com muitas difficuldades, principalmente nas terras da Africa Oriental por onde elle passava; comtudo, sem desanimar, foi navegando até que um dia, no verão ()J* do decimo primeiro anno do Imperador Hung Chih (íj/, fâ) attingio ao fim da grande empreza a que tinha sido mandado pelo seu Rei. Tinha elle chegado 11'esse dia a Calicut, uma das principaes terras da índia onde se fazia grande comrnercio. Devido á sua fina diplomacia, Vasco da Gama foi bem rece- bido pelo Rei de Calicut, e depois das formalidades das trocas de cortezia, mandou desembarcar as fazendas que tinha trazido de Portugal, fizeram-se muitas trocas e compras, e conseguio metter a bordo muitos productos e fazendas valiozas da índia. Mas os Árabes que se achavam por lá, vendo as naos rivaes no campo do comrnercio que até então estava nas mãos d'elles, comprehenderam que uma nova era ia encetar-se, não achavam outro meio senão intrigar e tratar de fazer com que os Portu- guezes fossem mal vistos do Rei de Calicut, e isso conseguiram até certo ponto, porque o Rei de Calicut usou de meios para fazer mal aos Portuguezes, mas estes que tiveram noticias, estavam de atalaia, livraram-se da traição e conseguiram aprisionar alguns homens notáveis da terra que levaram até Portugal a fim de elles mesmos poderem contar em Portugal da traição dos de Calicut. Vasco da Gama fez-se então de vela para a torna viagem, e chegou a Portugal no ^ j||) decimo segundo anno de Ilung ,
  • COM. HERMENEGILDO ANTONIO PEREIRA. ê 111 Chih fcendo levado poaco mais de dois annos e dois mezes para essa trabalhosa viagem. Grande foi a alegria de todos, desde o Rei até o ultimo súb- dito. Todos comprehenderam o grande valor d'esta descoberta, e os Portuguezes não perderam tempo em organisar expedições successivas, e em pouco tempo todo o commercio da índia ficou transferido para Portugal, e Lisboa tornou-se um grande centro do commercio. Por as fazendas não terem que passar por muitas mãos, ellas podiam ser vendidas por ametade do preço a que se costumava vender. Em outras successivas expedições os Portuguezes, alem de ar- ranjarem commercio, conquistavam também muitas terras e muitos logares da Africa e da índia tornaram-se colonias de Portugal. Da índia os navios Portuguezes continuaram a navegar mais para o leste e vieram até a China. Era no decimo primeiro anno do reinado do Imperador Chêng Teh (j£ da dynastia Ming que o capitão Portuguez por nome Fernam Peres de Andrade chegou a Cantão, aonde teve uma entrevista com o Vice-Rei, fez commercio e arranjou para que Thomé Pires fosse o chefe da embaixada ao Imperador da China. Mais adiante, durante o reinado do Imperador Long King Jg), os Portuguezes chegaram até Ningpo, e descobri- ram as terras do Japão. Mais adiante, durante o reinado do Imperador Kang Hi da presente dynastia, os Portuguezes estabeleceram-se em Peking, onde os seus babeis missionários ensinavam astronomia, mathe- matica, geometria e varias outras sciencias. Os nossos livros contam a historia, por isso não achamos necessário repetil-a aqui. De sorte que, conforme a historia de que fazemos uma breve resenha, se pode ver que, um paiz ainda que pequeno, pode prestar grandes serviços á humanidade em geral quando existam n'elle homens illustres com força de vontade e com animo de trabalhar.
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  • Xista bos 5nb3críptores para as jfestas bo Centenario, Almeida, A. J. d* Almeida, F. A. M. d' Almeida, F. J. d' Almeida, I. E. d' Almeida, J. d' Almeida, J. M. d' Almeida, L. d' Allanson, Win. Allemáo, R. Andrade, J. J. Aquino, A. d' Aquino, E. H. d' Aquino, J. C. d' Aquino, J. F. d' Aquino, T d' Azevedo, F. H. d' Azevedo, Jr., L. G. Assumpção, H. J. d' Assumpção, J. C. P. d' Baptista, T. P. Barradas, A. C. Barradas, A. F. Barradas, M. F. Barreto, L. Botelho, B. M. Botelho, E. F. Botelho, E. P. Botelho, J. M. Botelho, R. Bot tu, A. Bojol, J. Britto, J. Britto, J. M. Britto, J. M. C. Britto, Y. M. Caldas, Augusto das Campos, A. P. P. Carion, B. M. Carion, E. M. Carion, E. F. Carion, L. A. Carion, U. Carneiro, J. L. Carneiro, P. Carneiro, R. Carneiro, V. F. Castilho, S. P. Castro, L. de Chai Yu-pak Chaves, J. C. Cheng Yu-kew Chen Tsong-poo Cheong Chi-pio Cheong Tsing-poo Chiu Cl iun-sung Chun Chiu-tung Chun Wun-chee Club de Recreio Collaço, J. R. Coll aço, L. J. Collaço, M. J. Costa, F. C. Costa, F. G. da Costa, F. M. da Costa, Galdino da Costa, J. E. da Costa, Jr., F. G. da Costa, P. F. Costa, R. da Cruz, B. A. da Cruz, J. A. Danenberg, A. C. Danenberg, A. M. Danenberg, C. Delgado, C. M.
  • 114 LISTA DOS SUBSCRIPTORES. Diniz, A. M. Diniz, Adelino Diniz, Antonio J. Encarnação, C. d' Encarnação, F. X. d? Encarnação, L. d' Fai Hong-seng Ferrás, J. A. Ferreira, F. M. Figueiredo, H. A, de Figueiredo, J. A. de Figueiredo, Jeronymo J. de Fonseca, F. V. da Fonseca, Y. P. da Gomes, E, Gomes, S. F. Gonsalves, D. M. Gonsalves, F. S. Gonsalves, Th. Guedes, J. M. Gutierrez, F. X» Gutierrez, Q. J. Gutierrez, T. M. Gut ter res, D. M. Gutierres, F. M. X. Gutterres, J. F. M. Gutierres, Jr., D. M. Gutterres, L. M, Jesus, J. G. de Jorge, H. Kiang Tao-kweng O O Kwan Tsi-ming Leong Nie-chu Li A-keng Li A-tuck Liang Lo-chuan Liu Shen-ming Lopes, L. L. Lopez, T. M. Lopez, H. J. N. Loureiro, Jno. A. W, Loureiro, J. W. Lubeck, L. A. Machado, A. J. Machado, F. X. Machado, J. Machado, Julião M. Madeira, J. R. Maher, Ó. Maher, Jorge D. Maher, J. M. Marçal, F. M. Marçal, Jorge Marçal, S. Marques, F. G. M. Marques, P. Marques, R. M. Martins, E. T. Martins, R. F. Mattos, F. M. R, Noronha, A. J. Noronha, C. H. Nunes, Generoso Nunes, I. S. S. Oliveira, A. M. d' Oliveira, Aur. d' Oliveira, A. S. Oliveira, F. S. Oliveira, J. M. d' Oliveira, O. M. S. Oliveira, W. d' Ozorio, C. E. L. Ozorio, E. C. Passos, M. D. L. dos Pere Pere Pere Pere Pere Pere Pere Pere Pere Pere ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra A. P. Ed. J, E. P. H. A. H. M, J. F. J. G. J. L. J. M. E. M. A,
  • LISTA DOS SUBSCRIPTORES. 115 Pereira, M. R. Pereira, P. A. Pereira, T. S. Petersen, M. A. Perpetuo, José E. Portaria, F. Portaria, V. Rangel, I. M. Rangel, M. B. Rangel, S. J. Rangel, T. Remedios, A. H. Remedios, Arthur dos Remedios, F. Placé dos Remedios, J. M. B. dos Remedios, J. M. P. dos Remedios, R. P. dos Remedios, S. B. dos Remedios, S. G. dos Rocha, C. J. Robarts, A. A. Robarts, C. A. Rodrigues, A. J. Rodrigues, F. E. Rodrigues, F. X. Rodrigues, Leandro Roza, Aug. A. da Roza, J. B. da Roza, L. M. Roza, P. da Roza rio, Art. do Rozario, F. do Rozario, F. P. Rozario, J. F. do Rozario, L. A. Rozario, S. Rozario, Theodoro A. Sales, Eug. Sá, Lino J. Sanches del Aguila, E. Santos, D. F. dos Senna, A. R. de Senna, C. M. de Senna, F. X. Senna, Jr., J. F. de Senna, Lourenço Senna, R. M. Severim, A. B. Sheh Hung-kuang Silva, A. M. da Silva, E. F. Silva, F. da Silva, F. F. da Silva, F. X, B. Silva, J. M, B. da Silva, J. M. da Silva, L. J. da Silva, Jr., A. M. da Silva, P. Q. R. da Siqueira, E. I. Siqueira, F. F, Soares, E. E. Souza, E. M. de Souza, Marcos de Souza, M. F. de Souza, R. C. de Souza, S. A. de Tavares, C. A. Tavares, Lino A. Tavares, Ph. A, Tavares, P. J. Tong Chok-kwang Valdez, J. M. T. Vandenberg, F. V. Vieira, U. A. Vieira, Jr., U. A. Weng Tuck-sung Wong Siu-heng Wung Ken-sain Xavier, J. Xavier, J. R. Xavier, L. A. Xavier, M. A. Xavier, P. M. Xavier, S. Yung Chi-chuan Yvanovich, A.
  • • • • • • • Pagina. 1 24 25 37 49 53 63 Memoria dos Festejos Hymno Vasco da Gama • •• Discurso—J. M. T. Valdez ... Versão Franceza do Discurso—A. Bottu • • • • Vasco da Gama e a Humanidade—Luiz A. Lubeck The Effect of the Discovery of the Ocean Route to India on the Chinese, as shown in Books of the Ming Dynasty— Dr. J. Ed kins ••• Vasco da Gama, Soneto—Leon de Gieter # * ••• ••• Descobertas dos Portuguezes e seus Effeitos—Adelino Diniz G4 The Influence of Vasco da Gama's Discoveries and Travels on the Trade of Europe—P. G. von Mollendorff Vasco da Gama.—A Eulogy and a Defence—C. E. de Lopez c0zolio La Via Marittima all' India—Cav. Ernesto Ghisi e Emilio S- Kscher ••• ... Discurso Bevdo. Antonio Maria Alves, S J 7 • • • ... Artigo Chinez—Com. Hermenegildo A. Pereira Versão Portugueza idem Lista dos Subscriptores 75 80 88 96 ... 105 ... 108 ... 113 if f. JjjfAé
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