A ILHA FORMOSA, Seus Habitantes, sues Producções e Commercio^M Gonstituigáo Política e Moral, a-Administração da Justiça e a sua Religião dominante, suas Minas, Hordas Selvagens, «a. * * POR P0LYD0R.0 F. DA SILVA. IMPRESSO POR DE SOUZA & Ca. 1867..
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ILHA FORMOSA Seus Ilàbitanies, suas Produeçoes 0 Commercio, sua, Constituição Política e Moral, a Administração da Justiça e a sua Religião dominante, suas Minas, Hordas Selvagens, &a. POR P. F. PA SILVA. a HONGKONG; Typ. i>e De Souza & Ca. 1867.
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ERRATA. 45—Go'lo, lea-se Soao.
PREAMBULO. O INTERESSE que hojo as naçòes enropêas tomam por essa ilha, o o desenvolvimento que o commercio tem feito n’estcs últimos annos, depois que se estabo- leceram ali algumas firmas estrangeiras, tudo concor- reo para que o escriptor d’estas mesquinhas linhas, que desde o anno do 1859 tem visitado essa ilha, e ultimamente ahi tem residido, se animasse a dar pu¬ blicidade aos vários apontamentos que fizera desde que pizara esta terra que os Portuguezes na sua era de gloria descubriram e a denominaram Formosa, pela linda perspectiva que esta ilha verdejante, em todas as estações do anno, offerece aos navegantes. O obscuro escriptor pode a indulgência do publico por sua inaptidiio 11’um trabalho do que tem pouca experiencia. O AUCTOR.
FORMOSA. A 11, li a Formosa, situada debaixo dcsropico de Cancer, do 150 milhas de comprido e 120 e largo, ó d’nma apparencia a mais linda e pictorosc que se tem visto. Dizem os Chinas que foram dies s que primeiro a descubriram, e alii aportaram noanno de 1430; e que a descuberta foi inteiramonte ocasionada por inn uaufragio. Apoz elles, em 1600, o Japonezes visita¬ ram a ilha ; mas suppoem-so que foram ahi levados por uma mal calculada derrota. Os Portuguezes, Hespanhocs e Hollandozcs foram >s primeiros Euro- pêos que para ahi foram como attetam as Historias e Monumentos, que ora ainda se pecebem. Os annaes Chinezes apontam esta invasão d’Estrangeiros em 1634, affirmaudo que depois forun expulsos pelos Chinas que se apoderaram inteirunente da ilha no anno de 1660. Do certo que os Hespanhoes e Hol- landozes conseguiram por vinte < seis annos formar uma Colonia n’essas praias lonj'inquas. As ruinas d’alguns monumentos que ainda loje existem, demos¬ tram a veracidade do facto. Cs seus descendentes, que ainda agora so percebem, sio d’uma raça mui superior á dos Chinas, e náo se nisturam com estes. Os Hospanhoes e Hollandezes, dirante o tempo que ahi se encontravam, tiveram frquontes vezes rixas e escaramuças entre si, e até connates navaes. N’uma destas colisões ficou morto o Geieral Hollandez. O nome do General Hespanliol na D. Fernando da Silva.
5 Do Galulico Felvpino capitulo Io artigo Io tirei as seguintes linhas :— “ A Ilespanha e a Hollanda disputavam entre si a posso da ilha Formosa, no principio do secnio 17. A primeira uiio con¬ tente de ter assombrado o mundo antigo com a gloria de suas façanhas, as quacs posto que certas como eram, nos parecem fabulosas ; so lança aos mares do Occidente em busca d outro mundo, que encontrou, civilizou e o submetteo ao jogo do Christianismo á força de prodígios do heroísmo, abnegaçao e piedade; afinal pôem a prôa para os mares do Oriente em busca de outras nações, se existiam, que pudessem admirar a pureza do sua fé, a altivez de sou caractcr, a nobreza de seu peito, e o valor do seu braço. Náo levavam os seus navios essas drogas perniciosas, que embrutecem o selvagem ener- vando-os com delíquios de lubricidade asquerosa e repugnan¬ te ; nem seus filhos depozitavam o erro e a mentira no seio dos povos, que com elles contratavam para medrar a sombra da anarquia o desordem. A sua missão era al,temente huma¬ nitária, as praias quo descubriam, as consagravam a Deus, o onde quer que fixavam a hastea de sna bandeira, brotava fresco o madeiro da Cruz ! Em quanto que a Hollanda, do poucos annos de vida, embriagada com uma liberdade facina- dora, nao contente do se ter emancipada da tutela do sua Mui carinhosa, nao satisfeita com ter sacudido a dobrada auctori- dade do seu Rei, e do seu Deus, lançou ao mor suas aventureiras náos para espiar os passos do sua Miii, neutralizar seus pro¬ jects, arrebatar-lho a gloria, humilhar seu nobre orgulho, dcspojal-a das suas prezas, e derribar seus altares, levantados sobro as cinzas amassadas ! ’* Era aqui n’esta ilha que desembarcaram os filhos de Hespanha, pouco antes que os Hollandezes no anno de 1634, porem pouco tempo possuiram dies esta co- lonia. Quem vier da costa da China depois de dobrar as ilhas dos Pescadores, (que também foram descubertas pelos Portuguezes) apoz um ou dois dias do navega¬ ção, divisará o cume da montanha principal de 1 or- mosa, que tem uns 12,000 pés d’alto; esta unida as outras de menos tamanho, fazendo uma longa cadeia cuja extremidade se ve desapparecer na distancia. Bancos d’area circumdam a ilha por toda a costa, e A
se elevam, em certos log-ares, clois ou tres pés acima do lume d’agoa, quando a maré é vazante. Estes bancos estão mais d’uma milha longe da terra, distan¬ tes dois cabos entre si, e paralellos. Encontram-se, entre elles estreitos canaes de profundidade de cinco a seis pés. Nenhuma habitação se apresenta á pri¬ meira vista ; a ilha pareço inculta e agreste. TAIWAN-FU. A cidade de Taiwan-fú, Capital cia ilha, está situada na Lat. 22 N., e Long. 121 L. É a melhor e mais linda cidade, que oxiste nestas paragens. É plantada ao nivel do mar, sobre uma extensa planície, distante umas quatro milhas do mar. Serpentea no espaço intermédio uma infinidade de canaes e becos, que com- municam entre si até chegar á cidade, isto ó, ao portico que fecha o lado d'Oeste; de maneira que, botos de fundo chato podem com pequena dificuldade transportar cargas para as embarcações, que ficam para fora, che¬ gando mesmo ao portal mencionado. Neste lado d’Oeste da cidade é onde os principaes negociantes estão estabelecidos com suas fazendas em armazéns, a que chamam Hongs ! Calcula-se o numero dos habitantes em Taiwan-fú ao pé de 95,000. Uma muralha de vinte pés d’alto encobre e protejo a cidade por todos os lados; esta muralha ó a imitação da de Peking; mas a construc- ção e o material são mui inferiores. Em muitos lu¬ gares a mão do tempo nas mesmas minas descobre a solidez da obra ! outro sim, os terremotos tem em grande escala concorrido para a dissolução de tudo o que havia de notável! A não ser a rebelião que de continuo incommoda esta cidade, e para subjugar a qual, o thesouro do Governo CÍiinoz tem expendido
tanto, toriam (qnom sabe ?) ha muito dado começo a levantar as muitas vuinas, que óra abundam, para repor tudo no seu antigo estado; ao menos assim me tem informado o Sub-prefeito, quando lhe lancei em rosto o grande descuido do seu Governo na actual era de progresso !. Passêia-se por cima das mura¬ lhas, e é agradavel a vista espraiando-a por ali fóra... No interior vê-se uma infinidade d'arvores plantadas em circumferencia, e em linha paraiella á muralha; assim como bambueiras, o que é muito pictoresco, al¬ gumas destas sobem até cem pés d’alto. Alem do mencionado, vê-se por entre as casas outras tantas arvores mescladas, e quasi uma terça da cidade, i.e., o que fica dentro do muro e ó destinado a jardins, parques, &a. No lado do Leste crescem arvores de tamanho itn- menso ; ha muitos sitios oin que se appreseutam es¬ pessas como florestas. N’esta parte, fóra do portal, a vista se perde n’uma extensa seara d’arroz, trigo, &a.; e em distancia se vêem as lindas montanhas com os seus cumes airosos, que parecem tocar o fir¬ mamento, tendo a maior, como já se disse, 12 mil pés d’alto. Deste lado, isto é, de Leste, ha planícies cultiva¬ das de quarenta milhas, contando do sopé dos montes mais proximos. Além da cidade, fóra do portico do Norte está um quadrado, conhecido por Terra dos sen¬ tenciados, onde milhares de homens perecem frequen¬ temente sob uma lei barbara, e ntn Governo despóti¬ co ! Este quadrado é cuberto de hervas, cerca do quinze geiras d’extensao. É também o lugar onde as tropas Mandarinas fazem as suas marchas e rovistas. Ao pé do portal, n’um fosso, amontoara centenares de caveiras dos infelizes, victimas da barbaridade legal, que pereceram neste campo. Alguns corpos dos mais recentes, sc vêem embrulhados em esteiras ao pé da porta da cidade, e ali siio expostos ao sol o chuva
8 para exemplo da plebe, exhalando um cheiro nausea¬ bundo e fétido ! Ha unia casa arruinada no fim do quadrado, onde os altos Dignatarios se rounem em diversas occasiões, quer d’execuqao, quer de revista. Na parte do Sul da cidade ha outro portico. Sa- hindo fora, a vista se estende sobre centenares de covas ou sepulturas, mausoléos dos finados; é aqui o vasto cemiterio. As sepulturas são geralmente iguaes em toda a parte da China; os ricos tem, alguns, uma lage de pedra, ou colunatas, onde siio esculpidos ver¬ sos e dedicatórias ou parabolas de Confucio; os pobres tem apenas uma simples pedra com o seu nome gra¬ vado, d’altura d’um pé, sobre a sepultura; mas os que não podem mesmo esse pouco tributar aos manes de seus amigos e parentes, cobrem com cal puro as suas sepulturas, fazendo sobresahir uma bola branca bem alizada, o sobre ella escrevem seus nomes, &a., que a primeira chuva apaga algumas vezes ; por isso estão de continuo a renovar os nomes dos finados, e como muitas vezes se confundem as sepulturas, acontece escreverem-so os nomes de uns nas sepulturas de outros !. Fora da muralha ha um templo dedi¬ cado ao Deus da Misericórdia. E como todos os tem¬ plos Chinezes, d’uma peculiar construcção. Este templo também se acha em ruinas. Atraz d’elle ha um parque, onde os bonzos criam alguns veados. E’ bonito vê-los livres correr por ali assim ! Defron¬ te do templo corria um canal, que hoje está secco, e por cima do qual, ha uma ponte, onde se reuniam os Mandarins n’outro tempo, para ouvir as canções das nymphas do mar, que nos seus botes ou gondolas percorrem os canaes todos. É este templo o lugar favorito destes magnates, quo ali vinham banque¬ tear-se com as suas concubinas ! Mas osse tempo já lá vai! Hoje tudo parece triste. O Vice-Rei desta ilha é conhecido por sua crueldade para com os re¬ beldes, e é tido por barbaro c dospotico.
Entremos agora para a cidade do lado de Snl : á primeira vista apresentam-se alguns templos. O pri¬ meiro destes templos foi eregido e dedicado no século XVI á memória de Chin-kok, Mandarim que con¬ quistou esta ilha. Estiio dependuradas das paredes d’este edifício taboas com inscripçôes em memória dos offíciaes que pereceram nas batalhas; e contam o templo nove estatuas de pedra d’altnra de dez pés sobre tartarugas, também de pedra. Em characteres Manchús estiio aqui diseriptas as grandes campanhas de Formosa, desde a colonisação ! O templo imme¬ diate, chamado Wang-eú, é unicamente reservado para o Vico-Rei, e seus offíciaes, que ali vão anmial- mentc pedir pelos seus Imperadores. A rua principal é d’uma extensiio immensa, que atra¬ vessa d’Oeste a Leste ; ó a melhor da cidade ; as lindas lojas no gosto Chinez d’utn só andar, com suas tabelas e inscripçôes o lampiões de diversas cores, dependuradas das portas, ornam este passeio. Uma variedade de fazendas Europeas, assim como Chine¬ sas, são oxpostas á vista dos caminhantes, e um sem numero d’elles desde o começo do dia percorrem este logar, que se pode chamar o Mercado. Aqui tudo está em animação !. A’ proporção que se aproxi¬ ma do fim da rua nota-se a grande differença, tanto nas casas como nos artigos, quo se vendem, diminuem a importância e cada vez são mais insignificantes, até que chegando ás extremidades d’esta mesma rua, só se vêem porcos convivendo com as familias pobres, e creanças brincando com ellos, em palhoças de bambú. As ruas todas siio lageadas d’um granito de cor ver¬ melha, que se tira da mesma ilha. Das cidades Chi¬ nas que hei visto, (umas trinta muralhadas, e seis sem muros) a do Tttiwan-fú, na minha opinião, é a melhor, pelo aceio do ruas, sna extensão e bonitas lojas. Fóra do portal, á beira mar, existe um grande forte
10 por nome Ihnuj-fan-lan, quer dizer Estrangeiro de ca- bdlv rtinnclho. Foi levantado polos Hollandezes quan- do occupavam esta ilha no século XVI. Entra-se n'elle por alguns degraos de granito para o pavimento terrêo por debaixo d’utnas grandes areadas; n’este pavimento ha dois quartos húmidos e abafadiços, alu¬ miados unicamente por uma janella oolloeada em cima ao pé da torre. N’estes dois quartos experimentei uma sensação desacostumada, quando fallava com o meu companheiro, (um negociante China, que se offe- receo para meu cicerone) o echo da vóz multiplicado n’aquclles Jogares abobadados, se submergia no sub¬ terrâneo, cuja abertura ficava mesmo debaixo de nossos pés ; é d’uma profundidade de dez péz ; como ia dizen¬ do, o echo multiplicado, acabava-se n’este escondrijo mysterioso, onde milhares de victimas dos despóticos Vice-Iieis, sem duvida, encontraram o seu ultimo jazigo. Um som lugubre se espargia ahi, repe¬ tido em muitas entonações, até que desapparecia nos abysmos da torra. Querem dizer que este sub¬ terrâneo é d’uma extensão de vinte milhas, isto é, que tem communicação com o porto de Takao; roas onde está a outra abertura ? Ninguém o pode dizer ! ! As paredes d’este famoso edifício estão já destruídas pelo tempo, porem ainda demostram a solidez da obra; tem de grosso uns quinze pés, e são de ladrilhos no andar de cima, e de solidas pedras por debaixo. O forte em si é da forma quadrangular, a nos quatro ângulos existiam outras tantas torres, que óra se acham em ruinas. Um portd magnifico, com suas pontes levadiças, encarava o mar. Uma corôa, que ainda se percebe, sobre um acudo d’armas cobre o portal, e a seguinte pequena inscripçSo A. D. 1635, marca por debaixo o anno emque foi levantado este forte, que domina as eutraças dos canaes para a cidade. O centro do forte, presentemente está api-
11 nhado d’arvores, e uma chamada; do “ Pagode ” so- bresae ás outras, e serve de baliza áa embarcações que surgem em Taiwan-fú. O forte tem o nome de 'dandiu. Ha outro mais pequeno uo centro da cidade, i.e., no lado d’Oeste que também foi erigido pelos Hollande- zes, no anno 1664, quando elles aqui voltaram para reconquistar osta ilha ; chama-se este forte Eak-kan, e a villa d’esse nome ao pé do forte, tornou-se tão grande que éhoje a cidade de Taiwan-fu ! O collegio, onde an- nualmente se reúnem os filhos dos grandes, que vem até do Tientsin, é refutado pelo melhor depois do de Pekin; é aqui que disputam para obter o gráo e condecoração da 2a. o 3a. ordem, e outras vezes os em¬ pregos públicos são também disputados por meio de exames. Coisa de tres mil tem seus assentos n’esse Pantheon ou I'amplo da Sabedoria ! Só os filhos dos no¬ bres é que podem ser admittidos ahi e pagam uma contribuição ao Tao-tai ou Intendente. N’um certo dia do anno, reunem-se todos para decifrar um pro¬ blema ou qualquer questão que o Tao-tai ahi enviar ; e cada qual terá de appresentar em papel a solução do problema apóz uns dez on quinze dias, em cujo es¬ paço de tempo ficam encerrados nos seus aposentos com guarda ás portas, sem poderem communicnr-se com os de fóra. Este tempo chama-se a Estaçiio do exame, aquelle que melhor sobrosahir depois d’um des- cutido exame, que é geralmente confiado aos vinte dos mais doutos Professores, um prémio e o gráo de Mandarim é concedido pelo Vice-Roi em pessoa aos mais distinetos ! Pela morte do Taotai Tang, (que se suicidou por não poder rechassar os rebeldes de Formosa) seu cadaver permaneceo em casa de sua familia por dois annos, até quo em Novembro de 1864 por minha via foi trans¬ portado para FueJum, para d’ali ser d’outra vez con-
12 (luzido para a sua ferra natal Newchwiuj. A família toda acompanhou o caixão, que foi posto abordo do vapor Union á minha consignação, e pagaram por este serviço mil patacas ; suceodeo-lhe o sobrinho do priu- cipe Kung. Este funecionario pelo seu grão e posição está debaixo das ordens do Vice-Rei de Fuk-kien bem como esta ilha, que c dependente de Fuchau; mas tornou-se atrevido pela sua influencia na Corte, e não attende as iustrueçbes do FurJuiu. Como tem poder de vida e morto sobre os habitantes d’esta ilha, todos tem um grande medo a este déspota. Para o lugar, que elle occupa, geralmente faz-se a escolha em Fok- kie.n pelo Vice-Rei; e o cauditado quo se oflerece para o posto do Tao-tai de Formosa informa ao mesmo tempo ao Vice-Rei do presente que lhe podo fazer. Este pre- sente c em prata, e alguns tem comprado o posto por $60,000; alem d’uma eontribiiçiio que do quando em quando mandam ao V ice-Roi da Fok-hien para os con¬ servar no lucrativo emprego. Todos os funccionarios chinas roubam ao seu proprio xoverno d’um modo o mais simples. Ha em Formoa um grande numero de lorchas e embarcações peqmnas destruídas com o tempo, que não podem mais íavogar ; estas embar¬ cações são compradas pelos Mmdarins, só afim de po¬ derem no seu Relatorio a Corb de Pekin, augmentar a frota, Mandarina, que se suppiem dever existir n’estes mares. Calculam-se umas 200 a 30) embarcações inúteis; os seus suppostos gastos, e trnulaeões, quanto, devem dar que render as Taotai e seus cúmplices ? !! Ha de- íuais em diversos pontos, no iiterior da ilha, fortifica¬ ções abandonadas, e alguns fodes em ruina, que não conservam um único soldado ; mas estas fortificações e fortes dão um rendimento ixborbitante ao Tao-tai de Formosa ! Um Mandarim ne asseverou que o forte de Takao somente, appareceom o numero de / 00 sol-
13 dados, quando nunca lá vi um !! E estes supposto» soldados dão que ganhar ao Taotai mensal mente tres patacas cada um ! Em toda a illia existem nns 400 e mais fortes eguaes ao do Takao ! O Vioe-Rei de Fok- kien considera a ilha Formosa como um (Pá) districted e primeira província debaixo de suas. ordens ; e tem o dever e obrigação de visital-a uma vez em cada tres annos. Estas visitas de formalidade, e nada mais, são lucrativas ao alto funccionario ; pelo con¬ trario nada satisfactorias aos seus subordinados na illia, por quanto, quando niio se appresentam com ricos presentes e muita prata n’estas occasidcs, cor¬ rem o risco do perderem os seus postos. E’ n’ostas occasides quo os Mandarins para se salvarem, impõem taxas extraordinárias ao pobre povo ! O Taotai da ilha tom nominalmente um salario bas¬ tante mesquinho, elle percebe uns 2,00l) Taeis por an¬ no ; mas os emolumentos são exhorbitantes, e as ta¬ xas sobre a Campliora, Sal, &c., sobem a 100,000 taeis por anno ! O Taotai ou Intendente é a primeira auc- toridade da ilha, o reside em Tahcanfú que é à Capi¬ tal. O seu immediate é o Tá, quer dizer Prefeito ; depois seguem-se o Tddwan-hien ou o J uiz do Depar¬ tamento, e Tahmn-tinrj o Magistrado marítimo. O Ghintoi é o Chefe d’Auetoridade Naval e Militar ; isto é, é Almirante das frotas niandarinas, e Commau- dante em chefe em terra ; reside também na Capital. Os empregos públicos em Formosa são considerados como um jogo ou loterin, porque como todos ahi suo tão lucrativos, os candidatos compram-os quando não possam obter do Governo directamente esses empre¬ gos, que lhes convém. Segundo o ultimo traetado assignado em Pebim en¬ tre as nações alhadas e a China, a ilha Formosa tbi admittida no numero dos novos portes abertos. Por engano, um interprete Inglez na embaixada de Lord El-
14. ginchamoua Formosa—Taiwan-fú: o íViquerdizer villa ou cidade. A ilha Formosa chamam os chinas unica¬ mente Taiwan; d’aqui veio que em lugar de franquea¬ rem toda a ilha ao eommereio, abriram-lhe só o dito porto de Tawvau-fu; porem no anno 1801, por inter¬ venção de Mr. Robert. Swinhoo, o primeiro consul In- glez nomeado para Formosa, conseguiram os Estran¬ geiros ter além do Taiwan-fú osportosde Tahw no sul, e Ttimmi e Kdung no Norte da ilha. Alem d’estes portos ha muitos que não estão abertos para os es¬ trangeiros ; eu estive quasi em todos elles e para mim a bahia de So-au, a Léste da ilha, umas vinte milhas abaixo do Kelung, é o melhor para os navios se abri¬ garem de qualquer tempo. N’esta bahia só com es¬ pecial permissão da Alfandega de Tamsui as nossas embarcações podem entrar. Mais adiante darei uma descripçáo exacta de todos os portos que bei visitado. Antes comtudo de concluir o esboço tão limitado quo que fiz da capital, seria melhor fallar do eommereio que se faz aqui unicamente. De Taiwan-fú sabem todos annos durante os mezes de Septembro, Outubro, Novembro, Dezembro, até fins de Março, muitos juncos e navios estrangeiros com productos do Taiwan-fú, a saber : arroz e assucar, (ar¬ tigos principaes), feijão, néle, tamarino, gergelim, ba¬ tata doce, fructas seccas, azeite de fructa de Manila e de gergelim, pannos manufacturados em Taiwan, fari¬ nha, e uma infinidade de outros artigos de que só os chinas fazem uso, e só elles os exportam. O arroz de Formosa é reputado como o melhor na China, e a exportação so de Taivxm-fú é em um anno de 500 mil picos. Os mezes d’Abril até Septembro são perigosos pa¬ ra as nossas embarcações estarem fundeadas em Tai¬ wan-fú, não tendo aquella cidade um porto seguro, porquanto estas embarcações ficam fóra dos bancos
15 d’area, expostas aos ventos do Sul, mesmo defronte ; e sueeeds muitas vezes arrebentarem suas cadeas, e serem lançadas sobre os bancos, em quanto no mon¬ ção do Norte, estão abrigadas e defendidas pelo braço do continente. Os artigos d’importaçào siio fazendas de Manches¬ ter, ferro, chumbo, algodão e opio. Este ultimo, consome-se em Tomoan-fú de mil a mil e quinhentas caixas por anno, e o seu preço é sempre $100 acima do do Hongkong. Os importadores tem de pagar á alfandega antes mesmo do desembarque 36 taeis por cada caixa d’opio do direito ; e logo que ficar vendido, o comprador tem de pagar outra vez, outra taxa, ao Likim, alfandega dirigida por chinas unicamente, a qual vendo o passe para poder transportar o opio ao interior a rasão de $80 por caixa. A não ser isto, logo que se descubrir a fraude o comprador niio só soífrerá rigoroso castigo, mas perderá o seu opio, de maneira que o opio custa no interior muito caro, e poucas vezes é vendido ahi por menos de $1,000 por caixa. O llcnares 6 sempre preferido no sul do Formo¬ sa. Não obstante tanta vigilância e rigor, muitos dos corretores tem leito a sua fortuna, passando contra¬ bando d’opio, o d’outras fazendas, para o interior da ilha. O numero de navios estrangeii'os, que frequen¬ tam a Formosa, durante os mezes acima alludidos, só em Taitcam-jn, é de 140 a 150, o dobrado numero de juncos de Suataw, Amoy, Chinchcu, Namquan e Fu- chan. O dinheiro corrente em Taíwan-já, ha seis anuos atraz, ora praia sycec e patacas cunhadas ahi de pu¬ ra prata ; n’uma face com caracteres chinas e d’outra com uma espada e laço chinas. Essas patacas tom só o peso do 6 mazes e 8 condorius, uns 61 P°r cento menos no peso que as patacas hespanholas. Mas ho¬ je encontram-se mui poucas d elias, porque os estran-
10 geiros tem comprado tndo quanto havia, e exportado para as índias, para serem de novo cunhadas ; e ga¬ nharam com isto 6 a 8 por cento por ser a prata de Taiwan pura e sem mistura. Hoje o dinheiro corren¬ te são patacas hespanholas e mexicanas, que se rece¬ bem a peso, mesmo as chapeadas e quebradas. Como as patacas são geralinente mui escassas em Formosa, o principal methodo de negociar ahi 6 em trocas de fazendas; quando não, d A-se um credito de quinze dias ao comprador afim de poder receber em dinheiro so¬ nante o producto das vendas. Os commerciantes de Formosa são em geral bas¬ tante honrados, nunca houve, no meu tempo, casas fali idas, nem roubo ou engano entre elles nas suas transacqdes. Elles siio mui amantes dos estrangeiros, e tem uma grande confiança n’ellcs, pela expcriencia que tem de sua probidade.Esta ilha não só é gran¬ de e mui rica de producções, o solo é bastante fortil. Se ella pertencesse a qualquer nação Europea em pou¬ co tempo seria outra Australia. A Prussia tem sua mira nesta ilha, e já ha dois annos que se fallou de ir ahi com o fim de estabelecer uma colonia n’um dos por¬ tos já abertos ; e tanto assim qao n’este anno devia vir a fragata Veneta com o novo Embaixador para Pekim, que (me asseveraram) vai propor ao Imperador a compra desta ilha. Tão certo estou que o boato não é cousa de imaginação, mas sim um facto, que posso declarar haver apparecido ahi um agente do governo Prusso, ha poucos mezes, com o objecto de tirar toda a informação concernente a esto paiz, que immediata- mente foi remettida á corte de Berlin ! Oxalá que a Prussia venha a conseguir aquillo que tanto os es¬ trangeiros anlielam com excepç.io talvez dos Ingle- zcs.
17 TA KAO. Dista Takao da fortaleza Zelandia, ou de Taiwan-fú, Cidade Capital de Formosa, umas vinte cinco milhas á Leste. Ao entrar em Takao, ou no pequeno porto do Apr. Hill, monte de Macacos, (este monte de 1,500 pés d’altnra, unido ao continente, c assim denominado por causa de muitos macacos, que de quando em quando apparecem ahi) vê-se também o Whale Back, um monto mais pe¬ queno com a forma da costa d’uma balêa. Do ou¬ tro lado está o Saracen Hill, assim chamado, porque a fragata ingleza Saracen em 1848 ahi appareceu, an- eborando mesmo defronte d’essse monte, com o fim de sondar toda a Costa de Formosa, mandada pelo Alrni- rantado. Em todos os suburbios de Takao, encontram-se certas pedras de differentes tamanhos, desiguaes, car¬ comidas e queimadas, que supponho serem effeito d’al- guma erupção volcanica. A entrada de Takaoê estrei¬ ta e perigosa para embarcações de grande lote ; no porto dentro apenas 14 ou 15 embarcações nossas po¬ dem ahi estar, contanto que demandem até doze pés d’agua, d’outra sorte estiio expostas a tocar o fundo, porque na preamar tem apenas doze a treze pés. O rio na estaçiio do chuvas, isto é, em Agosto e Septembro, é rápido e caudaloso ; dentro só se vêem do lado esquerdo umas cincoenta choupanas, e meia dnzia do casas de cantaria. Hoje temos quatro a cinco casas Europeas, levantadas ultimamente com seus gudões e varandahs ; e mais ao longe um aggre- gado de choças de terra, sombreadas por margoseiras e bambueiras. Estas habitações sáo d’uns pobres pescadores. Esta ilha é comtudo povoadissima no interior. Os habitantes do interior poucas vezes apparecem cá fo¬ ra ; elles fazem seus negocios por via de correctores.
18 0 dialecto de Formosa é igual ao de Amoi e Chin- oheu. A religião é também a mesma. Catholicismo.—Aqui temos quatro missionários Do¬ minicanos Hespanhoes, e uma linda Igreja e duas ca- pellas, em logares separados. Estes Missionários tiveram ao principio grandes in- commodos com as Auctoridades do paiz, que suspeita¬ ram serem elles espias; metteram-os n’um cárcere, e se pão fôra ura Capitão Americano, talvez perece¬ riam ahi. Ainda hoje os Chinas em Formosa tem grande respeito aos Europeos, os quaes podem, sem serem molestados, andar por toda a parte. Os Padres Fernando Saintz, André Chinchon, Fran¬ cisco Herce o Rarnon Colomel são os que hoje pregam o verdadeiro Evangelho ontre os Chinas o Nativos da parte do Sul da ilha Formosa. O numero dos convertidos ao grémio Catholico 6 hoje de 200 e mais. A igreja de N. S. do Rozario foi decididarneuto obra do Pe. Fernando, que tanto tra¬ balhou para levar adianto uma vio louvável empreza no nieio d’um povo quasi selvagem. A architectura é toda Europea, e o plano foi por elle delineado. Esses Missionários tem um Asylo, onde recebem as crianças que mães desnaturaes abando¬ nam, como acontece em geral em toda a China. Aquollas infelizes creaturas são recebidas pelos nossos Missionários, os quaes pagam uma pataca por mez para a manutenção do cada uma no Asylo contí¬ guo á Igreja Catholica. O seu numero varia todos os annos; o menos que eu sei anda por cem; mas a mortandade geralmente diminue esse numero. Como a Missão Dominicana ó rica, expende além d’osta verba, muito dinheiro para sustento d’nm crescido numero de adultos, provavelmente só emquanto são catequisados, ou formados e instruídos para catequistas. Além do
sustento, os Reverendos Padres os vestem também ; todo o cuidado d’elles é tratal-os com carinho, e ás vezes siio demasiado bons com esses christãos-novos, de maneira que os residentes catholicos quasi todos os Domingos, quando ás sete horas vâo á Igreja, já não encontram Missa para ouvir, porque a única ó dedi¬ cada aos christiios-novos. A grande distancia cm que está situada a Igreja da Communidade Europea, niio nos parece ser tomada em tanta consideração, como poderia ser. E’ verdade que os catholicos europeos são muito poucos, e os Rvds. Missionários estão ahi. especialmente por causa dos Chinas ; mas etnfitn sem¬ pre pedimos que, sendo possível, se attenda á nossa rasáo acima exposta. Protestantismo.—Depois de sete annos que os mis¬ sionários catholicos tem trabalhado na vinha do Se¬ nhor, com arduo trabalho, vencendo mil difficuldades, e com risco de vida, appareceram no anno passado dois missionários protestantes em Taiwan-fu o começa¬ ram também a ensinar aos gentios, pregando nas ruas publicas, em dialecto do paiz, as Eseripturas Santas; a vantagem, que por emquanto tem estés sobre aquel- les, consiste em saberem os primeiros bera a lingua china, e até escrevem-na, emquanto os nossos missio¬ nários apenas so fazem entender, c dependem intei¬ ramente de cathequistas ; mas que esperamos se hade remediar n’esta Missão, como n’outras tem acontceido. Elles eram acompanhados d’um medico europeo, que tambom é versado no dialecto do paiz, com uma botica ambulante ; este ultimo attendo e cura os en¬ fermos Chinas gratuitamente. Em Taiwan-fu não pu¬ deram fazer a sua residência os protestantes, em con¬ sequência de serem os Chinas mui escrupulosos e sus- poitos ; eis o que lhes succedeo um dia : O medico pro¬ testante trazia sempre os dedos manchados com lidar com medicinas, ácidos, &a., e suspeitaram ser elle ma-
20 niif'actor d’essa droga perniciosa, chamada opio, e que dos corpos dos mortos elle o preparava; tanto as¬ sim que morrendo uma mulher que elle tratava, con- seguio fazer uma anatomia do cadaver; a operação foi immediatamente divulgada pela cidade (principal¬ mente pelos medicos e boticários chinas, que desde que appareceram os missionários e o doutor, elles perde¬ ram muito) e apinharam alguns centos da plebe de¬ fronte da casa dos protestantes, o a apedrejaram, ar¬ rombando as portas, de sorte que foram elles obriga¬ dos a fugir por outra rua. Não obstante a interfe¬ rência do Consul Inglez, nunca mais tornaram a Voltar a Tavwan-fu, mas fundaram em Takao o seu estabele¬ cimento, e uma capella, onde, durante a ausência dos missionários, o doutor reune nos. Domingos a com- munidade protestante, e ahi préga; n’outros dias de semana attende aos gentios. O digno Doutor Max¬ well é homem muito respeitado e bemquisto pelos ox- trangeiros, aos quaes sempre foi prompto em attender. Hoje vive em Takao, curando principalmente os Chi¬ ns^. Temos um outro medico, que veio directamente de Londres, afim d’attender á communidade extran- geira em Takao, cujo numero é hoje de vinte pessoas. Foi no mez d’Agosto do 1859 que fiz a minha pri¬ meira excursão pela Formosa, e demorei-me por vinte dias em Takao; estavam n’este porto, além do Eamont (escuna de Dent & Ca.) na qual tomei a minha pas¬ sagem, um navio d’opio pertencente ao Capitão liooney e as escunas Garland e Macto. Aos 28 d’Agosto houve ali uma grande tempestade ; o vento começou pelo Nordeste, e era bastante rijo ; o firmamento se eseu- receo, e de noute (na vespora) o barometro desceo a 29.8, e gradualmente abaixou até 27. A nossa em¬ barcação tinha quatro ferros no fundo, e tirando esta, as outras no rio garraram todas. Um grande junco de cinco mil picos perdendo os ferros cahio sobre a
nossa pobre embarcação e ficou por ella esbarada todo o tempo quo durou a borrasca, quebrando os nossos gorupés, fazendo um estrago assás grande. A tripu¬ lação toda (30 Chinas) se refugiou abordo da escuna com todas as cousas que puderam salvar do junco. Na manhã do dia 28, vimos sahir do porto á garra a escuna Hamburgueza Macto com um ferro ainda no fundo, pois quo perdera o outro, e com ella mais de trinta botes. Ai ! que nunca mais os vimos !!! E’ de crer que encontraram nas ondas o fim. A escuna Macto foi cahir sobre uns escarpados rochedos, e de¬ pois ficou sobre as praias do Ape, HiU. O nosso Capi¬ tão logo mesmo debaixo d’aqnelle tempo, foi soccor- rer com a sua tripulação, bem como o Capitão Rooney, aos naufragados da dita escuna, deixando-me abordo com um piloto entre 30 chinas, tendo abordo thesouro e opio no valor de $60,000. Quando avistaram a es¬ cuna, pois que foram por terra, viram que os piratas já se tinham apoderado d’ella; assim mesmo prose- guiram, e elles logo que viram vir os Europeos, se dis¬ persaram e fugiram pela montanha acima ; e aquelles só puderam salvar o chronometro e os papeis da es¬ cuna. O capitão não quiz abandonal-a, e ficou com a sua tripulação em quanto os que foram soccorrêl-o voltaram para comer. Na volta, seriam seis horas da tardo, o vento já se tinha então acalmado, encontraram o capitão deitado no convéz já exânime, pois que os piratas tornaram a voltar e o assassinaram, assim co¬ mo a um marinheiro. N’aquella mesma nouto os ca¬ pitães Oliver e Rooney íbram á casa do mandarim e o trouxeram abordo do navio d’opio exigindo-lhe para quo lhes entregasse os assassinos. N’outro dia desem¬ barcaram com vinte homens, e foram para a povoação Iam Tia' onde os piratas tinham depositado os seus es¬ pólios, para obrigar ao mandarim d’aquella villa a en¬ tregar aquelles cúmplices na morte dos dois Europeos,
22 mas logo que desembarcaram, sahiram-lhes ao encon¬ tro uns 50 Chinas com lanças, &a., para accommettel-os, porém alguns tiros disparados sobre elles, e quatro Chinas estendidos por terra em castigo de sua ousadia, foi sufficiente para afugentar o resto. Os marinheiros não satisfeitos com isso lançaram fogo ás casas, e em breve reduziram a cinzas umas vinte e einco d’ellas. Depois dleste memorável acontecimento, fomos ao funeral do pobre capitão (o primeiro Europeo que foi enterrado em Takao) e n’nm pedaço de madeira es¬ crevi o seu nome e a data d’aqnelle desastroso evento para elle, e para o proprietário da escuna; deve-se mar¬ car o logar onde os seus restos foram sepultados ; um anno depois o capitão Rooney collocou uma pedra so¬ bre o seu tumulo com uma minuciosa descripçâo do oc- corrido. Os Chinas, enfurecidos contra nós, se preparavam para nos assaltar, e só esperavam auxilio de Tã/man-fu, mas sahimos d’ali antes que elbs pudessem usar de sua traição. O único missionaro que lá então estava, o Rev. Pe. Fernando Saintz, n’esta occasiáo era obri¬ gado a refugiar-se abordo dos navios estrangeiros, porque o ameaçavam, e o teriam sacrificado para se satisfazerem das perdas que soffreram com os Euro- peos. Sahindo nós de Takao pilhamos no canal de For¬ mosa outra barrasca que nunca experimentei maior ! N’essa occasião solemne não pude deixar de me recordar da seguinte famosa estancia de Camoens, que me havia impressionado em rapaz : No mar tanta tormenta e tanto damno, Tantas vezes a morte apercebida, Na terra tanta guorra tanto engano Tanta necessidade aborrecida! Onde pode acolhcr-se um fraco humano ?
Onde terá segura a curta vid a ? Qne nâo se arme e se indigne o Cáo sereno Contra um bicho da terra tiio pequeno p Camões, cauto lo. CVI. Terremotos.—Em Formosa como em Manila In ter¬ remotos todos os annos, principalmento entre os Ine¬ zes d’Outubro e Novembro. Porém como a Formosa é montanhosa nunca houve aqui occasiãode se lamentar grandes estragos e desgraça. No meu tempo só uma unica vez cakiram umas 50 casas do Chinas, euns 120 d’estes ficaram entre mortos o feridos ou molestados de¬ baixo dos tectos. No anno do 1865 tivemos terremo¬ tos mui frequentes, (este phenomeno é aqui procedido de muitas minas d’enxofro o carvão pedra, que abun¬ dam n’esta ilha) e em dias successivos ; era também em Novembro ; sentimos o primeiro choque ás 6 A. m. e ás 10 horas; estando ao almoço tivemos outro que durou por um minuto; n’aquelle mesmo dia repeti¬ ram-se os choques por cinco e seis vozes. Para quem inda nunca experimentara estes choques, que se asse¬ melham aos do cadeia eletrica, sentiria um enjoo e uma peculiar sensação que durarão por alguns dias, e a todo momento julgará haver terremotos. Em 16 de Dezembro do anno passado ás 11 horas e 20 mi¬ nutos A. M. houve um terremoto que muito nos assus¬ tou, também durou por um minuto; arvores, casas, o navios no porto puzeram-se em movimento; as aguas do rio abaixaram-se n’aquelle momento uns tres pés, e de repente se augmcntaram de tal maneira que julgᬠvamos ter uma inundação ; todos os caes ficaram cu- bertos. E’ de suppor pela formatura das pedras espalhadas em TaJcao, e por se ter encontrado nos- cumes dos montes conchas e caracoes do mar, que nos séculos pas¬ sados devia haver algutna erupção volcaniea em Takao
mesmo. Hoje existe ainda na ilha nm monte cuja ex¬ tremidade se vê do lado de Leste (dando volta á ilha) que de quando em quando lança muito fumo, e á noite se percebem as lavas. De Takao a Tavu>an-fu, ha cominunicações diarias, e a caminhada por terra se faz por cadeiras, e leva apenas seis horas de tempo ; sahindo de Takao a pri¬ meira villa que se encontra é San-te-cliú, quer dizer que n’outro tempo só existiam ires casas do pedra e cal; o resto das habitações era de barubú. Depois se- guem-so as villas de Kussia, Poa~ló-tek e Tan-tio-soa. Em todas estas povoações ha tabernas chinas, onde por pouca cousa os Chinas comem e bebem. Em Takao, e em todo este lado do Snl da ilha, ha grandes produções d’arroz e assucar. Do arroz ha duas messes (searas) em cada anno nos mezes de Julho e Outubro, e a exportação monta a 300 mil picos por anno. D’assucar só uma vez ao anno, isto é, nos fins de Dezembro ssio recolhidas as canas d’assucar e já na primeira semana de Janeiro se exporta o assucar novo. Tanto o arroz como assncar sãp mui apreciados o procurados nos portos da China. A oxportaçáo d as¬ sucar de Takao tem chegado a 150 mil picos; os pre¬ ços são moderados em compax-açáo dos d’estes artigos da índia e Manila. A mór parte do commercio d’esta ilha é feito pelos Chinas negociantes em Amoy e Ningpo. D’aqui se exporta também longans (fructas seccas) em grande quantidade para o Norte, bem como, o gergelim, tamarino, farinha, azeite, trigo, feijão, couro, tobacco dos nativos, e pequena porção de canella,; d’este ultimo artigo, algum dia hade haver grande desen¬ volvimento, por quanto ha extensas florestas, mas no interior, em poder de selvagens, e a difficnldade de o obter e transportal-o é grande. Ha também mel, vindo dos montes, mas em pequena quantidade.
25 Fructas.—O emanous aqui é considerado o inollior na China, o abunda muito ; eompra-so com por uma pa¬ taca ; as laranjas também siio consideradas como me. lhores, não só por serem mui doces, mas por serem do tamanho bastante grande. Longans, dos quaes fazem grandes carregamentos, e lananas siio mui boas, mo¬ rangos, pecegos, o ameixas também produz esta ilha, as¬ sim como cocos. Selvagens de Formosa.—Esses assim chamados siio os verdadeiros nativos da ilha. A sua origem não se podo traçar, ha comtudo nas cinco Iribus d’esta raça aborigine uma mistura do dialectos, polos quaes são conhecidos. Em Keltmg ao Norte como em Tavwan-fu ao Sul, querem dizer, quo siio doscendentes dos Iles- panhoes e Hollandozes, os quaes, quando batidos pelos Chinas, se dispersaram aqui; muitos filhos do .Philip- pinas e de Java então no serviço d’aquelles, se refu¬ giaram nos montes, o por conseguinte misturaram-se com os nativos, o bojo vomos os seus descendentes. Um ou dois dialectos d’ossa gente assemolhatn-se ao Tagalo de Manila, o algumas palavras siio Ilespa- nholas; como carabáo por cavallo &a., e os algarismos e o modo do os contar são quasi oguaes aos Maíaios. As cinco trilnis são Kali dos Montes do Sul, Kio-ings do Norte, os Tilocos das montanhas do N.E., os Gamalans das planícies do N.E., e os Sin Bangs. Esta ultima raça está quasi a desapparccor, mistu- rando-so com os Chinas. Os selvagens do Norto tem os seus domicílios feitos de canas e taboas mal corta¬ das, amarradas com rottim, o cubertos com folhas do palmeiras e palha ; em quanto que os do Sul tom uns as suas casas de bambu, cubertas com o chamado cajao, e outros possuem as casas do pedra-negra, ou pedra do escrever, que se usam nas nossas aulas ; porque mes¬ mo em Takao, nos montes, ha uma grande quantidade de rochedos d’estas mesmas pedras, que elles cortam
e com as quaes laze in seus domicílios, qne geralmente não siio muito grandes ; o maior deve ter uns 81 pés sobre 10 de lai-go,cm duas repartções, com uma unica porta (sem janellas); dentro d’estas casas estão espa¬ lhadas pelles d’animaes, sobre as quaes elles dormem ; outros tem as suas casas em arvores, n’urna altura de 8 a 10 pés acima do chão ; de maneira que quando sc recolhem tem de trepar ás arvores para se introduzi¬ rem n’ellas. Elles são democraticamente governados pelos seus chefes, como cinco Republicas separadas. Estão sempre em guerras entre si, isto é, villa contra villa, famílias contra familias visinhas. Estas hordas juntamente prefazem hoje um total de quasi 15,000 ! Elles tem um odio atroz contra os Chinas, e não po¬ dem ver um China sem que o imolem immediatamente, porque, dizem elles, os Chinas sempre foram seus inimigos, e por causa d’elles foram obrigados a subir aos montes ; d’outra sorte estariam vivendo nas pla¬ nícies. Os Chinas, i. e., os Mandarins, da mesma ma¬ neira os aborrecem, e offerecem grande preço por cada cabeça d’um selvagem. Todas as vezes que os selva¬ gens matam um China, é aquelle dia para elles de grande festa e regosijo : convocam- se as tribus amigas e á noite, assentados ao redor de fogueiras, começam a embebedar-se com o sam-slm, ou vinho preparado por elles, ou trocado com os Chinas, dançando até mui tarde. A cabeça do China é trazida e appresen- tada na reunião como tropheo ; e o conquistador passa pela ceremonia de ta-tú, isto ó, é cortado na cara e no braço com um signal. Quantos são os signaes que cada homem tiver, são outras tantas cabeças de ini¬ migos que tem cortado. Com a cabeça decapitada jo¬ gam aquella noite, e logo que alguns dias depois a carne apodreço, convida de novo o conquistador aos seus amigos mais íntimos para beberem com elle, ser¬ vindo-se da caveira por vaso, onde põem o licor, o be-
bem dois a dois juntos !! ! Usam também copos de madeira com duas repartições, o quando siio amigos bebem juntamente e ao mesmo tempo do mesmo copo. Essa caveira é dependurada entre as outras que elle tivesse obtido, em outras occasiões, sobre a porta do seu domicilio. Aquelle que mais victimas fizer du¬ rante duas estações, o que se conhece polos tá-tús, sig- uaes que traz, é muitas vezes eleito unanimemente para chefe. Estes selvagens não são canibaes, mas não repugna-lhes comer carne crua d’animaes, como a do viado, &a., e bebem o vinho depois d’algum combate, com o sangue dos vencidos, para se robustecerem, dizem elles; estes homens sao fortes, robustos o altos; as mulheres são d’estatura mais baixa. Os homens não trazem barbas, porque as arrancam logo que as tenham. Tom os olhos grandes o negros, orelhas grandes e na¬ riz chato; os cabellos cortam-os ; as mulheres porem criam-os, e tomam o cuidado de os repartir no centro como as nossas. Tanto homens como mulheres fazem buracos nas orelhas, e trazem n’ellas brinquinhos e ca- raeoes ; no pescoço, braços e pés trazem bracelletes de conchas e coraos. Essa gente é d’uma cor d’oliveira, mas as mulheres são mais brancas que os homens. Ás mulhores do Norte que eu vi (em Soao) são hem apessoadas, e tinham typos quasi d’Europeos. Os seus vestuários variam segundo as estações, que elles con¬ tam sõ duas, a do frio e de calor. O fato do verão das mulheres é composto d’umas tiras de panno leve, de cores, (sendo a cor vermelha mais apreciada) que atravessam metade do peito e hombro, com as extre¬ midades presas atraz das costas; e um saremg que deixa metade do corpo nú. Os homens trazem unica¬ mente o sarong, andam sempre descalços ; ás vezes quando fazem grandes caminhadas atam nos pés umas sandalias de pelle de viado, presas com fitas. No in¬ verno vestem-se de pelles de viado, leopardo, tigre ou
28 urso, que elles mesmos agarram ou matam nos montes. Dizia-se que antes da vinda d’extrangeiros aqui, esses selvagens, como nunca tinham visto vestuários, anda¬ vam todos níis. Elles vivem só de caça, que os ho¬ mens dosde o romper do dia vão matar (viados, ursos, &a.,) comem a carne assada ligoiramente, sem condi¬ mento algum, o fazem uso da polio para vestidos o cu- bortores. As armas que usam são o arco o frecha, lanças o espadas curtas, manufacturadas por elles mes¬ mos, o já usam o Kai-to china, que apreciam muito ; e atiram melhor que os mesmos Chinas. Nutrom-se do batata doce, o d’uma especio de trigo e milho quo so dão espontaneamente polos montes, os quaes ellos cozom n’uma tigola com agua simplesmente. São mui amantes do fructas e cocos. As mulheres vão aos montes cortar lenha, carregam a agua e cuidam dos filhos. Os homens quando estão cm idade de se casarem, não perguntam nem aos seus paes, nem aos pacs da noiva, nem mesmo á noiva so querem. O per- tendento faz por si a sua escolha, e prepara a sua casa; em certo dia appareco com os sons amigos á porta da noiva, o a levam para a pousada nova, e ali se embe¬ bedam tocando o tambor ; e algumas matronas trazem grinaldas de flores o corôam aos suppostos novos ea- zados. Cada um d’olles tem só uma mulher ; mas para elles o adultério não ó crime, o commettem-o aborta¬ mento. Estes solvagens são mui amigos d’extrangeiros, prin- cipalmcnto d’Europeos, os quaes os visitam do conti¬ nuo, e n’estas visitas dão-so muitos presentes. Os ex- trangoiros levam-lhes lenços do coros, agulhas, tesou¬ ras, latas com ou sem polvora e algum vinho espirituo¬ so, &a., e trazem de volta, algumas armas e roupas manufacturadas pelos selvagens, tabaco c cachimbos, que todos elles usam, mel, cocos, &a. Esteve ha pouco tempo um amigo meu residindo entre os solva-
gens por doze dias, e não o qnizerara largar, ató lhe offereeeram para ser sou chefe. Toda a idea d’ellea ó baixar um dia dos montes, e expulsar os Chinas da ilha ; mas isto 6 impossível pola grande differença da população, quo existe entro ellcs o Chinas. Deve ha¬ ver no interior, em poder dos selvagens minas d’ouro e prata; olles não dão valor a esses metaes; tanto assim que quando os Europeos os foram visitar, offe- receram-lhos patacas mexicanas, o niio só as recusa¬ ram rocobor, mas ató as lançaram fóra. Em nma oe- casiiio deram os selvagens do Sul aos Padres Hespa- nhoes um vaso de pura prata, mui toscamonte prepa¬ rado com partículas minoraos misturadas, quo diziam os Chinas, que o viram, ser prata de Formosa, que os selvagens haviam doscuberto. Não ha duvida que esta ilha é bastanto rica em minas, c o solo ó mui fér¬ til. Aqui tudo quanto é vegetal se produz sem gran¬ des difficuldades. O lago d’agua salgada no interior da ilha, o volcão, e as muitas minas não exploradas ainda, offerecem aos exploradores Europeos uma aberto para beneficiar a si, o a communidade extrangeira na China. As redes de quo os selvagens usam para agarrarem os animaes agrestes, são feitas do bambú, ou tecidas de rotlim; e armam-nas cm certos logares conhecidos nas florestas, quo o Viado, o Porco-Montez, e a Baposa froquontam em bandos. Outros põem ou armam suas redes no meio do campo d’este modo : Fixam, ontor- rando abaixo do chao tres a quatro pós, um bambu, o a outra extremidade ó inclinada, tocando mesmo a terra o apenas levomente retida por uma pedra; n’osto hambú está o laço feito do boas cordas, nas quaes o viado ou a raposa nas suas corridas, ó preza pelos pés logo que tocar no hambú, por quanto este se levantará a qualquor minimo choque ; o logo que o animal é preso, cabem-lhe os selvagens om cima e d’olle se npo-
30 deram immediatamente. D’esta maneira centenares de viados, &a., são agarrados. Usam também de arcos e frechas (antigamento as suas únicas armas) para ca¬ çarem esses anitnaes ; e outras vezes como correm mui ligeiro, e são mui ageis, lançam-se das arvores uo centro d’um bando de viados, e com elles andam cor¬ rendo os montes até que conseguem agarrar alguns pelas pontas. Quando vão a estas caçadas sabem duas a tres villas juntas, prefazendo um numero do duzentas a trezentas pessoas, e dividem entre si o resultado da caça. E’ de admirar que esses selvagens mio possuem um chefe supremo sobre todos; estão divididos em re¬ publicas, como já acima fiz menção; mas omitti as particularidades. Em cada uma das republicas o che¬ fe d’ella reune em conselho doze pessoas de mais confiança, e estas devem ser de idade de quarenta ou mais annos ; mas o que é também para se admirar, não obstante a sua ignorância, é o saberem elles dis¬ tinguir as suas idades, porquanto sabem exactamente quaos as pessoas que nasceram no mesmo dia, no mes¬ mo raez e anno ! Quando se muda o chefe, os con¬ selheiros são de novo eleitos pelo povo, e os que já serviram, passam pela cerimonia da líxtracçào de m- bellos, isto ó, extrahem da testa os cabellos para terem um signal, pelo qual sejam reconhecidos como conse¬ lheiros. 0 podor, porem, d’oste conselho não ó abso¬ luto, não obstante que a communidade é obrigada a sugeitar-se â sua decisão. Em qualquer materia ou negocio publico, reunem-se as pessoas do conselho e o chefe, perante os habitantes, e decidem apóz algu¬ mas horas d’argumento até que chegam a convencer aqnella assemblea da equidade do conselho. Durante todo esse tempo conservam-se todos em boa ordem e socego. Cada membro do conselho falia cada um por sua vez, e etn quanto não concluir, ninguém o in-
31 terrornpe, e rnostra bastante enthusiasino e muita elo- quencia e dignidade n’estas occasiões, e o povo cal- lado e attento, não ouza fazer a ruais pequena como¬ ção ! Os oráculos das mulheres adivinhas ou consagra¬ das a seus Deoses imaginários, são estrictamente obe¬ decidos, e tem uma grande influencia nas decisões de qualquer questão ; d’este modo—se ellas julgam que esta ou aquella decisão desagrada ou offende aos seus Deoses, a decisão do conselho é substituída immedia- tamente. O castigo o mais rigoroso que dão, não consiste em outra cousa mais, que uma muleta—-de um vaso de licor, uma pelle de viado, uma porção d’arroz, &a. To- das as muletas são geralmente d’urna natureza ridí¬ cula, o que nada valem. O castigo corporal não é co¬ nhecido nem adoptado entre essa gente. Liberdade, fratornidade e igualdade c o verdadeiro motto d’elles, porque de facto, elles parecem serem todos iguaes : entre elles não ha amos ou criados, ou distineção qual¬ quer. Não obstante esta igualdade, elles são mui ci¬ vis entre si, isto é, não obstante serem outros mais ricos ou possuem alguns artigos mais raros, tratam-se como irmãos ; a velhice é unicamonte olhada com um pouco mais de distineção e attenção. Os mandarins tem pago avultadas sommas por cada cabeça dos nativos, que se 1 hosr apresentam; mas sei que tamborn um medico Lurojieo pagara $150 por duas caveiras dos selvagens, que as queria para um museo ! TAMSUI. A verdadeira traducção d’esta palavra significa “agua molhada ” é um absurdo! mas assim é: os ( binas deram esse nome ao lugar, em consequência do cahir ahi muita chuva durante seis mezes do anno, começando desde Septembro ate Março ; é um conti¬ nuo chover ! o sol apparece de quando em quando só
32 por um ou dois dias ; aliás as densas neblinas cobrem o porto, as villas e tudo quanto lia ; e por conseguinte ha muita humidade em Tammi! Querem dizer que as chuvas se sáo mais abundantes em Tammi procodem da attracçáo de tantos cumes d’estas montanhas tão altas quo tem a ilha na extromidado do Norte; o d’alii também a insalubridade do local, o muitas enfermi¬ dades durante o inverno. O rlioumatismo até mesmo para quem nunca o tevo, basta só permanecer um par do mezes no afamado Tamsui, para desde logo ficar hordeiro d’uma herança tão pouco invejável! Durante os mezes de chuva, as paredes d’estas casas tão mesquinhas, como som cxcepção são todas ahi, d’um andar, ladrilhadas, e sem nonhuma ventilla-
Ao grupo do Norte nós demos o nome do Jardine, « ao do Sul o de Dent, sendo estes os nomes das duas casas rivaes que foram as primeiras que tiveram seus armazéns e agencias n’este porto. Eu e alguns amigos subimos ao cume do monto Dent, e quasi metade do monte Jardine. E’-me inexplicável a sensaçiio que experimentei quando no cume lancei a vista para baixo, e para o horisonte- Debaixo de meus pés, a uma profundidade de 1,700 pés, vi as casas e as habitações tão pequenitas como cartas de jogar, e os navios no porto como champanas; a gente não se destingnia. Sahimos de casa As 5 horas, antes de raiar o dia, e depois d’uma caminhada fastidiosa pelos caminhos Ín¬ gremes e escorregadiços, em certos logares; outras vezes sustentando-se o corpo pelo equilíbrio, agarran¬ do-nos ás hervas, conseguimos ás duas horas da tarde chegar ao cume, que me parecia quando em baixo, que era agudíssimo, mas ao contrario, asseguro que é um quadrado que media quando menos 80 para 60 pés. N’um bambii que levei de 30 pés icei a bandeira de Dent & Ca. que em baixo só com o binoculo podiam discernir! Era grandioso e magnifico o espectaculo, que se me offerecia á vista ! o dia felizmente não era muito quen¬ te, e o sol apparecia e escondia-se entre as nuvens, que corriam como phantasmas sobre as nossas cabeças ! Era no inverno que teve lugar essa excursão, em Dezembro de 1862. Viam-se duas cadeias de monta¬ nhas, uma em continuação da em que nos achavamos, unindo com a do continente, que juntava com os mon¬ tes de Jardine, deixando um vacuo entre estes dois montes. N’esse vacuo ou antes profundo valle, é que serpentea o rio de Tamsui, que se ramifica em meia duzia de canaes pequenos, e cuja principal confluente é o Keluug. Viam-se também oito a dez villas e al- deas separadas, plantadas aqui e além nas fraldas dos
:u montes, e a beirados canaes cercadas de altas Bambu - eiras, e grande extensiio de varzeas e arrozaes, trigo, feijào e tudo d’uma cor verdejante, e muito apra¬ zível á vista. Xo rio as embarcações chinas de con¬ tinuo estavam em movimento, que pareciam como ou¬ tros tantos animaes viventes, que se mexiam, em pontos negros. No horizonte a vista se expande u’um mar sem fim Parecia-me n’aqnelle momento que esta terra cercada do mar era apenas a unica, a esquecida !... E’ aqui qne a mente e os olhos se elevam a essa abobada, que nôs serve de tecto, a que chamamos o firmamento, e em ponderaçiio perguntamos a nòs mesmos. O que será isto ? E’ a mansáio d’Aquelle que nôs tirou do pó e nos fez crentes ! O tnundo vive u’esse espaço inuuenso Aonde Deos derrama a creação, Com os sens raios o Sol tributa incenso A quem lhe dera o orbe por mansão ! A um poder ocoulto immense e íòrte Cedem impérios, curvam-sc nações, E vão sem murmurar de vida a morte Do passado apagando as tradições. Astros, flores tudo inclina a fronte , Comprindo do Senhor as sabias leis, Por todo o longo espaço do horisonte Só elle impera como Bei dos Reis ! Vergando a face para o chão fecundo Onde a vida resurge dentre o pó Eu te adoro oh Senhor ! oh Rei do mundo, Porque em meu coração reinas tu só ! (O Somtabio Sb. F. S. G.) Julguei muito a propozito collocar aqui os lindoa versos d’um meu amigo, ha muito tempo auzente d6 sua patria, Macao. Estava eu n’esse cume táo elevado, e por monmntoa entregue a um lethargo ! Scismava e meditava 1 Ao
relancear d'olhos dei fé d’um homem a meu lado, um companheiro na minha solidão ! e desculpem meus lei¬ tores se deixo por um momento o fio da narraçào pa¬ ra lhes dizer, que sobresaltado cuidei ver o mesmo Sa- tanaz, que tinha levado Christo a um monte, e mos¬ trando-lhe o mundo lh’o oflferecia, comtanto que o ado rasse ; o que deu lugar a uma bella resposta do Divi¬ no Mestre ! A primeira villa ao entrar em Tamsui, é conhecida pelo nome de Ho-bey. Tem 500 casas mal edificada» d’uin só andai-, unidas umas ás outras ; de cana, e tecto de palha; algumas, mui poucas, de ladrilhos Ha também alli dois pagodes e uma Alfandega. Os Chinas que vivem n’esta villa são eorrectores e pesca dores; ha também um numero de 500 vagabundos, culis desertores dos juncos de Natnoa,os quaes são atre¬ vidos e desordeiros ; muitas vezes tem-se sublevado contra os mesmos mandarins, e commettido mil abu¬ sos impune men te. O que ha de notável em Ho-bey é o Forte edificado sobre o primeiro monte, ao entrar o porto no lado direito, pelos Hollandezes, quando estes dominaram a ilha, como já se disse, no anno de 1634 Esse forte cd’umaconstrucqaoe de materiaestáo solidoa que durará séculos ; é de forma quadrangular com doia portaes, na altura de 10 pés, elevados sobre o chào; com baluartes, e a torre, em cima, dominando a en¬ trada do porto, tem d’alto 60 pés, e os seus muros uns 10 a 12 pés de grosso. É conhecido pelos estrangei¬ ros por Forte Vermelho. Dentro d’elle ha uma passag em subterrânea, que atravessa o rio. Dizem que na fu¬ gida dos Hollandezes por este sitio, deixaram enter¬ rados todos os seus haveres, e munições de guerra n’este escondrijo, de que hoje só se vêem vestígios. Ha também em Hobey, na entrada do porto um fa¬ rol, que os estrangeiros contribuem para conservar. Depois de JTobey segnem-se nmas quatro villas an-
tes de chegar á cidade de Banca, que é a cidade mer¬ cantil e principal em Tamsui. 0 Tantio-lian é outra villa annexa, onde residetn os agentes dos Hongs em Banca. Toda a população China em Tamsui incluindo a das villas deste district», constará pouco mais ou menos de 25,000 almas. A mòr parte sáo vindos de Fuchau, Amoy e do Norte. As mulheres Chinas em Formosa vestem-se como todas as outras da China ; com a differença que na China trazem as cabaias d’uma só cór, o azul ou preto, em quanto aqui cada qual adopta a côr que quizer, co¬ mo verde, vermelho e amarello, e ornam os cabellos com flores artificiaes, moças e velhas, e quasi em todas as classes sem distincção apertam os pès com o calça¬ do chamado chipins, e todas comem o belle, de manei¬ ra que trazem sempre os dentes sujos... O solo é rico e extenso, tendo alem de altas monta¬ nhas, muitos lagos, que contribuem para o desenvol¬ vimento da agricultura ; e os Chinas são bons traba¬ lhadores. Aqui em Tamsui ha mais producçóes que n’outros pontos da ilha, e por conseguinte mais com- mercio. O commercio d'arroz somente emprega todos os annos 100 navios. O d’assucar, quasi egual numero. Ha também aqui para a exportação, o chá, a camplio- ra, o enxofre, fructas, madeira, anil, canhamo, rottim, carvão e carvão-pedra e também o azeite petroling. O chá produz-se aqui em grande abundancia, mas os Chinas não sabem refina-lo, nem perfuma-lo, de manei¬ ra que exportam o chá para Cantão, Fuchau e Macao, e de lá ou fica misturado com o que se produz n’ou- tras partes, ou apoz certo processo, fica prompto pa¬ ra o mercado. A camphora (do Loureiro camphora) é produzida por certas combinações com uma certa proporção do oxigénio, que é um fluido elástico e invisível e é mais pesado que o ar atmospherico. A or.ygenaçáo ou a
operação faz-se da maneira seguinte : Eseolhein-se as arvores de camphora mais novas e sumarentas (as idosas são secas e fazem perder muito tempo sem grande utilidade), e cortam-se os ramos, e as raizes em pedacitos, reservando o tronco principal para ma¬ deira ; e esses pedacitos são lançados n’uma grande caldeira de ferro, e cheia a caldeira com agua doce, cobrem-na com uma tampa, também de ferro e aboba¬ dada, e lançam fogo á lenha; esses pedacitos são cosidos e redusidos apoz uma ou duas horas, á cam¬ phora em grão que se impregna na tampa, e que era unicamente o gaz ou vapor que exposto ao ar se con¬ gela e fica em griios, e depois é reduzido a pó ! E a camphora passa para outros vasos com alguns bura¬ cos no fundo, donde escorrega o oleo chamado oleo da camphora, que também tomam muito cuidado em con¬ servar. Ha em Formosa, principal mente ao Norte, grandes florestas do Loureiro-camphora ■ e até nos montes cres¬ cem espontaneamente; mas a mór parte d'estas flo¬ restas estão em poder dos selvagens. A negociação deste artigo é monopolizada pelo Taotai ou Inten¬ dente da ilha,• e o contrabandista corre o risco de perder a cabeça, quando é pilhado pelos Mandarins, com os quaes alguns negociantes, tem conseguido entrar em contracto, comprando certa porção. Os manda¬ rins só pagam $ ti a $7 ao pico ao manufactureiro, e vendem aos negociantes a ,$(15, 16 e até ,$20 por ca¬ da pico. É fabuloso o rendimento, que dá este nego¬ cio tanto aos mandarins como ao especulador, que o exporta para Hongkong e índia. Em 1862 o preço desto artigo em Hongkong tinha chegado a $36 por pico e hoje está a $28. O comprador recebe-o dos mandarins em sacos, outros em háldes ou tabs e paga por cada um, alem do preço da camphora, $2. Em cada balde ou tab cabem tres picos. Antes poi'em do
carregamento, estão de continuo a .guar a camphora e assim é necessário, porque a canvhora é sugeita á evaporação. Não obstante os cuiddos que hei toma¬ do n’alguus carregamentos que fiz, tmpacotando a cam¬ phora em caixas apropriadas, forratas com uma folha de zinco e soldada, tenho achado qie durante um mez perde uns 8 per cento no peso ; e i camphor a em bal¬ des perde 16 a 18 por cento i.e. induindo a agua, que sempre deitam dentro. A camphou que annualmente sahe de Tammi, e dos portos circunvisinhos, como de Teuckcham, Hmlany, &a., monta a 13,000 picos, mas es¬ ta porção poderia augmentar-se, ediegar a triplicar se os manufactureiros fossem íiropeos, com suas machinas apropriadas para o fim ! Previno aos com¬ pradores da caniphora para terem mito cuidado com os mandarins vendedores, que sácuns finos ladrões; roubam no peso, roubam mesmo n camphor a, quero dizer, ás escondidas misturam em ada balde de cani¬ phora de 3 picos, uns 40 a 50 librs de sal; isto na vespera de se pezar ; por quanto t difficil differençar o sal misturado da camphora ( me gabo de ser o primeiro que descubri essa faude, por ter lan¬ çado muita agua na occasião de pear a camphora. Vi que a côr d’agua que esvaia não ea tão limpida como antes de lança-la dentro do balde,) provando-a, achei- a salgada ; tbi então que descolri o roubo. Outras vezes misturam-na com farinha. Enxofre e Minas de Enxofre.—los meus primeiros dias em Tarnsui consegui mandar ím ou dois carrega¬ mentos d’esse artigo a Hongkong porque então não existia a Alfandega Europeu. Eu fui o primeiro es¬ trangeiro, que tive sua caca de ccnmercio n’este por¬ to. A exportação do enxofre já íio é permittida pela authoridade local aos estrangeire, posto que existem minas em Tamsui mesmo, distant 5 milhas da villa Hobry. Os que estiveram em Tamil não ficariam sem
visitar estas ininas. que sáo mui notáveis, e qualquer dá-se por satisfeito, niio obstante a caminhada, tendo que trepar uns montes, e apoz trez horas de andar, su¬ bindo sempre, encara com outros dois montes d’altura, de 1,200 a 1,300 pés, um defronte d’outro, o quasi nm terço abaixo, isto é, tendo subido uns 400 pés, vê- se um grande plano ou vacuo entre estes dois montes d uma extençâo de 500 pés! Os montes d'aqui para cima siio cnbertos d’umas hervinhas amarellas, ou como quei¬ madas, e encontram-se pedras de cal e areas brancas es¬ palhadas aqui e ali! Antes porem de chegar ao lo- gar d’excavaçao, ou minas, a terra parece ser mui fér¬ til, porque niio obstante as hervas e plantas que es- pontaneamente-se produzem ahi, encontra-se também grande porção d’ananazes !! ! O cheiro do enxofre sente-se n’uma distancia d’uma a duas milhas. Em proporçsio que o visitante se aproxima, sentirá nas plantas dos pés um certo calor até chegar á boca das minas, onde o calor ás vezes é de tal natureza, qne é impossivel ficar ahi. Neste plano vêem-se uns 100 buracos on exeavações de 8 a 15 pés de fundo, ondo os CThinas trabalham tirando o enxofre, que correndo por estes buracos, tem muitas vezes cauzado explosiio, e outras vezes matado alguns Chinas. De todas as 100 exeavações sahem fumo e em algumas, espes so como do cano d’algum vapor, e ouve-se uma bulha como muitos vapores juntos quando estáo a largar o gaz ! É sublime este espectaeulo, e é inexplicável a sensaçáo que tive n’aquelle momento . cuidei estar no meio de "V olcoes, e senti, como de facto assim era, o tremor do terreno debaixo de meus pés ; tnaa, caso raro, ahi perto corria um regato d agua pura o cris¬ talina, a qual desce até se misturar com o rio. Antes porem de chegar ao rio no sopé dos montes acima di¬ tos, reune-se n’uma bacia ou tanque. Essa agua fu- megante e fervida tem differenles temperaturas.
40 Ao pé das minas a agua é fennte tanto que coze¬ mos alguns ovos de galinha, n'unlenqo metido n'esta agua, em alguns segundos; e no inque tenho-me ba¬ nhado, e a agua era tépida, e d ma temperatura a mais agradavel e salutar. Aqi tem vindo muitos estrangeiros afim de tomar esteianho, que é recom- mendado pelos medicos, e é intro bom para quem padece de rheumatismo. Rottim requer-se algum tempo ara produzir bastan¬ te e de boa qualidade. O que pisentemente ha aqui é muito inferior, e só serve para mpacotar caixas do fazendas; e para isso cortam-n em duas metades para dobrar-se melhor. Os Chias exportam muito para Amoij e Hongkong. O Anil vae só para os portos d Norte, como Ningpo Sfumghae, onde os Chinas tem cviado navios carre¬ gados d’esto artigo, que produz ;sta ilha em grande escala. O anã refinado é em pdaços e custa mais que o anil liquido, este ultimo vaiem baldes de 4 picos. O Canhamo, de que fazem os Cinas cordas para suas embarcações, é admiravel como cresce aqui esponta¬ neamente, e com pouco cuidado. E’ hoje um dos ar¬ tigos d’ex]K>rtaçao, e de muita importância. Elles avaluam-n’o pelo comprimento O mais comprido que não excede de 12 pcs, é o mis caro ; o preço é de $6 a 14 por pico. Azeite petrolino existe nos snbubios de Tamsui, mas os Chinas, ignorando ainda o alor, e talvez o uso d'este olêo, nao tem dado o preç ao que elles podem tirar da ilha. Eu mandei uma jarra fa d’amostra aos Senhores Dent & Ca., esei qne Sr. Swinhoe, que tarn- hem residio aqui, tinha niio só ecdado a Londres, mas até'o examinou, e fez experiecia d’elle. Algumas milhas abaixo de Tamsui enconlam-se poços ã'azeite petrolino, e graças ao Capitão Silivan, Mr. Swinhoe procnrou duas garrafas d’esto azitc, e as levou com-
11 *>ipjo a Tuglatcrra para ser analizado. E’ muitodifterente do azeite da India, ou d’America; mas assirnelha-se ao azeite de resina; avaluaram-n’o algumas pessoas a £15 por tonelada. Importação: consiste de productos da China, como também fazendas Europeas, como elepliante, algodão, fuido, la, camelão, cubertores de lã, &a. O principal ó o opio, cujo preço excede o dos outros mercados na China. O seu preço (o de Benares) tom sido de $200 a 300 sobro o preço de Hongkong, e o consumo em Tarnsui, e seus destrictos é de 150 caixas por mez. A grande ineon- voniencia de enviar opio o fazendas a Formosa, niio ten¬ do uinguçm ainda estabelecido uma linha de vapores n’esta carreira, o risco em que incorre o carregador, se envia ahi uma embarcação de vella, tendo poucas vezes de encontrar tempo bom no canal de Formosa-, tudo isto concorre para que o opio, e as fazendas euro¬ peas sejam no Norte de Formosa muito escassas, e por conseguinte muito procuradas o caras. E’ esta ilha bastante rica, cm gados como vaecas, cabras e páreos montezes, veados, (estes abundam muito, de modo que se faz da sua carne e pelle artigos d’ex- portação); ha também coelhos, fuinhas, pombos, patos e phaesoes. O Sr. Swinhoe, que é naturalista, não só escreveo muito sobre os animaes e plantas de Formosa, mas tem enrequecido os Museos e o Palacio d’Exposi- ção em Londres com o que poude levar da ilha. Elle tom gasto muito dinheiro em acumular todas as espe- cies de passaros desconhecidos lá na Europa, e em elassifical-os; e até deu o seu nome a uma nova especie de phaesão=Swinhoe phaesant; c teve uma medalha na ultima cxhibiçáo. O primeiro phaesáo d’6lle que chegou vivo a Londres vendeo-se a £100. Dos animaes ferozes, ha alguns tigres o ursos-, cobras ha em grande abundancia; mas a mór parte náo é de qualidade venenosa.
Unia continua emigração rios chins da China pro priamente dita, prevalece até hoje, e os terrenos sao comprados por preços modicos pelos capitalistas, os qnaes induzem os seus patrícios a virem estabelecer- se em Formosa, c até compram os trabalhadores para cultivar os seus campos. Os limites da jurisdicção dos Chinas, segundo o Mappa d’elles, abrange somente metade da ilha, a da parto de Oeste. A popnlaçao Chi¬ na n’esta ilha, calcula-se cm dois milhões e meio ! KELUNG. Ké siguitica, no dialecto de Fockien, gallinha, e Lung, uma gaiola de gallinhasj em consideração de abundarem aqui essas aves, sendo parto do commercio, n’outro tempo. Defronte mesmo do porto está cell ceado uma illtola também da formatura d’uma gaiola do gallinhas; al¬ guns querem por isso dizer, quo d’aqui proveio o nome de Ke-lung, que também se dá a esta ilhota. E’ de 100 pés d’alto, e ao redor tem uma profundidade de 10 a 15 braças. Está justamente na extremidade do Norte da Ilha Formosa. Aqui existo um porto bem seguro, unico talvez que não é cercado de bancos d’a- rêa, como Tamsui, Taiwan e Talcao. D’aqui se exportam o arroz (do destricto de Kap- chui-lan, muito rico em producções d’estc genero,) nélle, madeira e sobre tudo o melhor carvão do pedra da ilha; por causa d’umas minas, não longe do porto, de que mais adiante fallarei. As casas dos Chinas, c as ruas siio como dordiuario; e nao ha nada mais de notável, a não ser as minas acima alludidas, e a caverna subter¬ rânea, quo dizem os Chinas ser frequentada jielos es¬ píritos dos antigos colonos da ilha. 1) aliarei priraci- ramente das minas d.c carvão. Essas minas estão ao Oeste do porto. Os trabalhadores siio Chinas, vivem
4:: em choças de bamba e palha. As excavaçdes ou bu¬ racos oram como vinte, gahindo d’nm lado da monta¬ nha, encarando o mar. Estas excavaçdes correm n’uma linha horizontal, tendo a sua entrada de 4 pés d’alto e 10 do largo. O carvão appareco d’amhos os lados, em duas linhas paralollas, tendo uns 2 a 3 pés de carvão; o tecto e o solo siio d’uma pcdra-areenta, de que usam alguns navios para lavar o convóz. Do tecto está de continuo a pingar agua j estas passagens subterrâneas extendem-se uns 100 a 150 pés, entra¬ nhando-se pelo monto dentro. Aqui e ali uns candiei- ros metidos entre pedras alumiam aos trabalhadores, que a mór parte andam sem roupas e besuntados Cuidei estar no reino de Plutiio! Esses homens anda¬ rão por 80 a 100; trahalham com bastante preguiça, e tiram somente o carvão da superfície. Aqnelles que chegam a tirar sufficiente porção, que os compense com 5 a 8 avos por dia, já ficam satisfeitos; e por isso estão de contiuuo a mudar-se. O carvão de Kdung é o melhor da ilha; mas com- parando-o com o carvão d’outras partes, o de Formosa ó mais betuminoso, e se queima rnais depressa; com- tudo os barcos a vapor das companhias da China usam d’este carvão, misturando metade com o carvão In- glez. Nas minas o preço não chega a 15 avos por pico. Em Kelung compra-se a #2.40 a 2.50 por tone¬ lada. Kdung tom um porto pequeno, e a cidade plantada nas fraldas d’um monto, não tem mais que 400 a 500 casas, sendo metade dos Agentes dos Hongs de Ta.mstU, com o qual porto ha communieação diaria por terra Dista do Tamsui umas vinte milhas. Em cadeiras se faz a jornada em 10 horas; até a metade de cami¬ nho, passa-se por lindas campinas e bonitas aldêas e villas, oude vivem as famílias felizes d’ostes oampone- zes com os seus filhos e gados, e a gente é mui hospi-
taleira. Na outra metade do caminho passa-se por uma floresta, e tem de subir e descer alguns montes para chegar á cidade, onde a plebe consta de pescadores. Também se vai a Tamsui do KAhiuj pelos Rápidos, i. e., por um canal, que descendo de Kelung, com grande rapidez mistura suas aguas com o rio de Tamsui. E’ muito pittoresoo e romântico, fazer esta viagem sobre os Rápidos propriamente chamados, porque as aguas sempre descem e nunca sobem, o a velocidade com que corre é de 10 milhas por hora! -Os Chinas usam de certos botos ou antes canoas, construídas para o fim de atravessar esses Rápidos; esses botes de fundo chato, são alguns d’uma só taboa, escavada no centro, outros de diflerente tamanho sáo como qual¬ quer embarcação China, com velas, &a., e até levam cargad’um logar ao outro; trazem só duas pangalhas, uma na prôa outra na popa, horizontalmente, só para guiar e desviar a embarcação d’algnm perigo, porque a embarcação apenas larga do caes, por si só corro como vapor, e muitas vezes julguei que ia esbarrar so¬ bre algum rochedo; é admiravel como o homem da pangalha desvia a canoa logo. D este modo se atra¬ vessa esto lindo canal de 40 pés de largo e umas 15 milhas d’extensao até chegar a Tamsui. Para voltar contra a corrente, dois Chinas saltam fora do bote e levam -no á sirga, caminhando com bastante traba¬ lho, porquanto o canal não é fundo, tendo apenas 2 a 3 pés em alguns logares. O canal não corro n’uma linha direita, mas em zig-zag. Ouve-se uma bulha immensa n’esso canal, que fazem as aguas do encon¬ tro com os rochedos e pedras; o ha riachos c peque¬ nas cataratas, que vindo dos montes se misturam com estas aguas. Nas estações de chuva houve uma vez no meu tempo inundação das aguas d’este canal, que destruio villas e campos dos pobres aldeões. Dizem que nas fendas d’esses montes altos, qua
45 servem de muros ao ditto canal encontraram n’uma oceasiáo alguns Chinas e um Capitão Alemão que visitara aquelle logar, oiro em pó; e o Capitão o levou para Europa, depois de o mostrar a alguns amigos seus na China. Ha em Kelung os mesmos artigos tanto dc exportação como de importação como em Tammi, mas exceptuando o carvão de pedra, aqui as t.ransacções são em mais peqpiena escala que lá. Alem d’um pequeno forte dos Chinas, ha cm Kelung, já em ruinas um Forte velho, que foi levantado polos Hespa- nhoes, quando estes vieram estabelecer-se aqui, no tempo em que os Holland czes oecupavani o Sul da ilha. Nenhum banco impede a entrada d’este porto, e ha muita agua no auchorndonro, de sorte que navios de 15 pés carregados podem estar aqui. E’ o porto uni¬ camente exposto ao vento Norte, porque encara exac- tamente ao polo do Norte sendo aqui a extremidade da ilha. GOÀO OU A BAHIA DE GOÀO Esta Bahia ó a melhor que possue Formosa para abrigarem-se as embarcações das borrascas, que são mui frequentes tanto no canal como ao redor d’esta ilha. A bahia de Godo oíferece um abrigo a Leste da ilha, distante de Kdung umas 36 milhas ; e por terra se caminha em dois dias, passando pela villa de Kap- chui-lan. Um pouco acima de Goão ha um rio peque¬ no, que também vaza as suas aguas no de Tamsui; chama-se Kalewan. Na primeira villa os habitantes são chinas residentes ahi para negocio, e trabalhado¬ res que vivem com a manufactura da campliora, que ahi existe, como também n’outras villas cerca do Godo Ha também uma infinidade de habitações dos cama- lans ou nativos, que andam misturados, convivendo com os chinas, e estão em paz com elles ; e até alguns fal lain o dialeeto de Fockien
Elies são mui civis e hospitaleiros. Todos os nati¬ vos da raça aborigine de Goão, e dos lugares eircuin- visinhos andarão por 4,000. São conhecidos pelo nome de camalans. Em 1802 visitei pela primeira vez lodos estes lu¬ gares, indo de passagem na escuna Vindex Capitão Roper, a qual ficou fundeada 11a baliia de Goão Esta bahia é como uma bacia, cercada de montes por todos 03 lados, e bem defendida de qualquer tempo. E’ grande quanto sufficiento para d’utna vez anchorarem 6 a 7 navios; tem de fundo uns 15 a 18 pés d’agua. O fundo é d’area, e de coroes. D’um lado do Sul da Bahia ha tuna pequena aldêa, de chinas da raça aborigine, 0 d’outra banda algumas casas de pescadores, os quaes nos trouxeram peixes em abundancia e por preço mui connnodo : até com¬ pramos umas seis tartarugas grandes por $1 cada unia ; matamos uma e tivemos uma rica sopa ao jantar, pre¬ parada por um cozinheiro Europeo. Uma das tarta¬ rugas em um dia deitou 76 ovos, quo também serviram- nos optimamente durante a viagem que fizemos ! Todos os dias vinham nus 40 a 50 selvagens das aldeias visinhas a bordo da nossa escuna, e do tudo se admiravam ; alguns vinham nús. As mulheres ves¬ tem sarongs, c algumas, não feias, siio mais brancas que os homens, trazem os seus cabellos divididos no meio e ornados com coraes c conchinhas, como também nos braços e pés ! Tanto elles como cilas fumam cigar¬ ros preparados por elles mesmos, e cachimbos de bam- hú. Gostaram muito dos charutos do Manila, que di¬ vidimos entre elles uma vez ! Deitamos garrafas va¬ zias na agua, o mergulharam em porfia para as apa¬ nhar ! E’ aqui em Godo, quo de quando om quando descem dos montes os macacos ; alguns graudes que são Ba- boiins de cauda curta, e alguns que eu vi tão de perto
como do bordo do navio ao eárs, umas 50 jardas, ti¬ nham os cabcllos negros, e olhos grandes e sem cau¬ da. No centro de quinze d’ollos, o mais alto devia ter 4 pés : apenas um ou dois d’essa altura, o rosto era de 1 a 2 pés. No outro dia quando appareceram, o Capitao lloper e quasi toda a tripulação e eu, fomos á terra, armados, com o fim de caçar o maior d’elles, fe¬ rindo-o levemente ; mas oram tiio vivos, quo logo que nos viram, deitaram a fugir, saltando de pedra em pedra, levando nos braços os mais pequenos. Assim mesmo demoramo-nos em Goão cinco dias, e volta¬ mos á ilha do lado d’Oeste e fui desembarcar em Tetick- cham. TEUCK-CHAM. E um dos principaes districtos do norte de Formo¬ sa ; c uma cidade muralhada onde reside um Intenden¬ te ou Taotai. E’ uma rica e muito limpa cidade de 3,000 almas ; está abaixo de Tamsui 40 milhas ao Sul. As ruas sáo lageadas de granito, e as lojas bem orna¬ das e pintadas ; o commercio é interno ; e vem de Tamsui os principaes generos do importação. Em todas as lojas encontram-se fazendas Europeas em abundancia. Na monçiio de Sul appareeem frotas de juncos de Fuchau e Namô, e como não ha porto, ficam, como em Tavwanfú, anchorados fora do banco e muito expostos. Vendo-se o opio aqui $100 mais caro que em Tuni¬ sia, e passa-sc muito contrabando entro estes dois lo- gares ! Demorei-mo por oito dias n’csta cidade, ficando em casa do Intendente, que era mui civil e hospitaleiro. I em um lindo Palacete no centro da cidade, cercado de jardins por todos os lados, e uma torre no meio do jardim sobre um lago, coro pontes que cruzam o lago
E’ a melhor vivenda China que liei visto ! O jardim era cultivado e retalhado por meandros de murtha e trepadeiras, com bancos de pedra, adornados com va¬ sos de diversas dores. Arvores de densa copa e de muitos troncos formavam duas alas, e ornavam um lindo passeio sob suas sombras. Itebalçavam-so no lago alguns patos, e’brincavam alguns meninos (filhos do feliz proprietário d’este tão lindo sitio), remando n’um botezinho, que sempre se achava no lago, para recreio d’elles ; o rumorejo indistincto das aves e dos regatos, e as vozes dessas crianças, que se espraiavam por ali, faziam-me recordar d’um sitio, que só em Ma¬ cao pode com este rivalizar ! Aqui ha depositos de camphora, o o comprador só o podo obter do Intendente, com quem eu tinha um contracto a executar, e o qual me hospedou no seu palacete, e tratou-me com bastante urbanidade, de maneira que quando quiz voltar a Tarnmi por terra, (de cadeira) mc dou para protecçno (em consequência de ter alguns salteadores n’aquelle tempo assaltado os caminhantes, e até matado algumas pessoas, que lhes queriam resistir,) mn corpo de sua guarda, com¬ posto do 30 soldados e um sargento, que me escolta¬ ram por dois dias o noutes, já se vê, pagando eu por comedoria d’elles durante a jornada, demorando-nos 4 a 5 vezes por dia nas estradas e nos montes, a fim de deixar a gente e os cules comer e fumar. O Taotae d’este sitio, bem como d’outros pontos da ilha estio debaixo do do Taewanjú, cidade capital; mas a nomeação é da côrte. Quando alguém quer entrar no negocio de campho¬ ra, que só por via do Intendente é quo se obtem, dá-se- lhe muitos presentes, d’antemao. Sei d’um Capitão Iu- glez (outr'ora no emprego dos Srs. Dent & Ca.) que tendo dado muitos regalos, a saber um anel de bri¬ lhante no valor de #500 á mulher do Intendente, e
#1-000 ao mosmo era caixas de musica, revolvers, es. pel lios, &e., é quo ponde conseguir aquillo quo só de¬ via ser concedido a outrem, que muito antes d’elle lia- via contractado. Os chinas, com pouca oxcepçáo, siio interesseiros, principahnente os ompregados públicos. Do Tawkham passei para uma outra cidade ou villa chamada HAOLANOí, umas 10 milhas abaixo do Tcuckcham ao Sul, enca¬ rando a costa da China. Aqui nada ha de notável j vivem os homens do campo com suas famílias cm ha-' bitaçdes mesquinhas. Com pequena porção do seu rendimento, esses camponozes traficam ao mesmo tem¬ po coin os seus visinhos ricos das próximas cidades. D’aqui sahera o arroz o assucar em grande quantida¬ de. Peço aos meus leitores, antes do eonncluir o cshoço mesquinho que fiz da Ilha Formosa, que era o meu intento alargar mais, so me não falhasse o tempo, que me desculpem a brevidade d’estas linhas, attendendo á rasão acima mencionada ; so cila não fosse, teria o gosto do occupar-llies o ocio por mais tempo, se por ventura julgassem merecer esto opuseulo alguma sua attençiio. E principahnente aps mens amigos e patrícios que dedico esta obrita. Acceitam-u’a assim como está 1