AUGUSTO rfeKjlj Livreiro ' Encadernador Rv.a Nova H ■?
»
DE LISBOA A' É / 4 ¥ % OA CHINA A LISBOA. POR NA TNPOGRAPHIA DE G. M* MARTINS. Rua dos Cape Hist as n.° 62. 1852.
a ■■ ■ ' ■ ■ ■ :r
■JL nda que é muito pouco coiiimum entre nós Portuguezes o gosto de viajar, eu desde a mi¬ nha mocidade nutri o desejo de ver o mundo, de sahir da minha patria, e do estreito circu¬ lo da cidade e do paiz em que nasci. 'Farde porém poude realisar o pensamento constante da minha vida. Contando 40 annos parti de Lisboa em Julho de 1850, na carreira para a China dos vapores inglezes da Companhia Oriental e Peninsular, e dentro em 50 dias cheguei a Macao, tendo visitado Cadiz e Gi¬ braltar; atravessado o Mediterrâneo; visto Malta e Alexandria; subido o Nilo; atraves¬ sado o deserto do Egypío ; embarcado em Suez, e descido pelo Mar-Vermelho; tocado em Adem na Arabia, e em Ceylão ; navegado pe¬ lo estreito de Malaca ; visto Pinão e Singapu¬ ra; e finalmente aportado a Hong-kong, e retrocedido para Macao. Nesta cidade me de¬ morei 16 mezes, durante os quaes visitei seus arredores, a cidade chineza de Cantão, e vᬠrios portos da costa da China até Shangai, na distancia d’umas 300 legoas para o norte de Macao. D’aqui regressei para o Reino na cor¬ veta D. João I, no fim do anno de 1851, e voltei por Singapura, e estreito de Malaca; desembarquei na cidade deste nome, tão ce¬ lebre na historia da Asia portugueza; revi as costas da Taprobana; naveguei ao longo das
do Malabar ; visitei Goa; segui para Moçam¬ bique ; dobrei o Cabo da Boa-Esperança; apor¬ tei a Benguella, e a Loanda no reino d’An- golla; vi no archipelago dos Açores o Faval e S. Miguel, e particularmente nesta ultima ilha examinei varias das muitas cousas curio¬ sas que contém, e finalmente em 18 d’Agos- to de 1852 terminei esta longa e variada via¬ gem, revendo a minha bella patria e cidade natal ao cabo de dois annos. Resolvo-me a publicar os Apontamentos ' desta Viagem, por me parecer que serei n’ is¬ so util a alguns dos meus concidadãos, que desejarem saber das circumstancias delia, eter algum conhecimento do estado actual dos lo- gares que percorri: teem por titulo zr Apoai- íamirnto§ «I’tama Viagem de ILfsfooa á Chin», e da CSsina a Usíj»». Deter-me-hei particularmente sobre as nossas Possessões, ainda tão importantes, e sobre as quaes idéas bem inexactas, e mes¬ mo absurdas, correm entre muita gente. Fat¬ iarei das cousas, e das pessoas, que são tudo no Ultramar, onde em grande parte as insti¬ tuições e leis pouco ou nenhum vigor tem, on¬ de quasi tudo é arbítrio, onde o espirito da maldade e da rapina muitas vezes campêa im¬ pune, dependendo geralmente do bomoumáo caracter das authoridades, e pessoas influen¬ tes, o bem estar ou a desgraça dos povos. Di¬ rei a verdade tal qual a entendo, e por ella arrostarei odios e malquerenças. Lisboa 24 d’Agosto de 1852.
CAPITULO PRIMEIRO. Saliida de Usboa. Era a 22 de Julho de 1850 : ao meio dia lar¬ gava do ancoradouro o vapor Iberia, eásduas horas passava entre as torres de S. Julião e de S. Lourenço, ou do Bugio. Magnifica perspecliva : á esquerda as re¬ cortadas serras de Cintra se desenhavam em escuro perfil sobre o puro asul do Ceo ^ á di¬ reita uma longa facha de terra, de altura uni¬ forme, terminava no Cabo do Espichei; no centro liiam fugindo e aproximando-se uma da outra as duas torres, como dois gigantes guar¬ dando das fúrias do Oceano a formosa Lis¬ boa. Por successivas gradações todos estes ac- cidentes de perspectiva se hiam acanhando e confundindo, até se transformarem em uma
orla monotona e unida no horisonte cada vez mais distante. As agoas tão socegadas ou mais que as do Tejo, hiam mudando de cor para um asul muito escuro, que mais sombria e magestosa tornava a scena do occaso do soi, que se apro¬ ximava. A infinita amplidão das ondas dominava todo o circulo do horisonte, excepto um pe¬ queno arco ao nascente : era a terra da patria que se hia esvaecendo ! Que indefiníveis impressões de saudade, de melancolia, e de incertesa senti eu ao aí- frontar pela primeira vez as solidões dos ma¬ res ! Quanto a idéa da patria é real e positiva só em taes occasiões se experimenta : todas as nossas a (feições adquirem maior intensidade, eaquelle mesmo que julgou gasto ou embota¬ do o sentimento se maravilha da nova força que elle adquire: a amisade, o amor, as re¬ lações da sociedade, a propria habitação e si- tios preferidos, tudo se nos apresenta mais bello, e com encantos que até alli parecia não havermos conhecido. O sol deixou de nos alumiar, e a lua em todo o explendor e plenitude de luz, derra¬ mava sobre as vagas a suave claridade dos seus raios; a brisa da noite soprava brandamente, e o vapor hia ovante cortando as ondas, com a elegancia e Jigeiresa do cisne, e como mergu¬ lhando as asas em cachões de revolta espuma, ao som continuo que semelhava o de trovões não interrojnpidos, ou o estrondo das vagas quebrando-se em aspera e affastada costa.
Era na verdade melancólica e voluptuosa esta scena! Continuámos de noite ao longo da costa de Portugal, que mal se divisava nohorisonte. A’s quatro horas da manhã de 23 via-se a costa sul do Algarve, e os picos da serra de Monchique, elevando-se detrás de uma faxa de montanhas mais baixas, reflectiam os pri¬ meiros assomos da luz do dia. Foi magestosa esta scena da madrugada e nascimento do sol, que pela vez primeira disfructei no Oceano. A’s dez horas caminhavamos ao longo da costa de Hespanha. Eram já montanhas estran¬ geiras as que avistava : as da patria hiam des- apparecendo de todo, e de longe pareciam di¬ zer-me o derradeiro adeus, representando-mas a imaginação como um amigo, ou ente que¬ rido, que me seguia e me acenava á beira do horisonte. Então o meu isolamento tornou-se comple¬ to : nada do que via e iria ver me recordava o passado da minha vida, com os seus pensa¬ mentos e affectos; a curiosidade e a varieda¬ de que em mim tem tanto império pareciam haver-se amortecido, e deixavam de ser um estimulo para as minhas resoluções. Senti então estranha commoção, e domi¬ naram-me com dobrada força os sentimentos experimentados .ao perder de vista o Tejo. Se neste momento me fora dado vacilar e escolher, seria preciso um esforço de rasão e de coherencia para prevalecer sobre a sau¬ dade e desejo de voltar ao meu paiz.
CAPITULO SEGUNDO. Cadiz e Gibraltar. A’s duas horas avistámos Cadiz: linda era a perspectiva, naqualsobre-saliia um alto farol. A’s tres horas fundeámos na bahia, e lo¬ go desembarquei: vi as principaes ruas, pra¬ ças, e igrejas da cidade : estas ultimas são de um extremo aceio, ornadas interiormente com vasos de flores, e os altares e capellas com de¬ licados enfeites : a cathedral é grandiosa, e no interior de magnifico effeito; começou a edi¬ ficar-se ha quarenta annos, e ainda" lhe falta uma torre para a completar. O aspecto das ruas reset)fe-se a meu ver da longa residência dos Árabes; são muito aceiadas, com passeios dos lados, porém es¬ treitas e mal calçadas; as casas cobertas de terrados teem bonita apparencia, grandes ja- nellas rasgadas, e pára-sóes de listas de dife¬ rentes cores. Cadiz é nomeada pela bellesa e garbo das suas mulheres, e algumas que tive occasião de ver pelas igrejas, de certo não des¬ mentiam aquella reputação. A população, que dizem subir a 80:000 almas, parecia muito animada, e vários vapo¬ res cruzavam a bahia.
[9] Esta cidade é uma praça de guerra, forte pela naturesa e pela arte, e reputada uma das mais bellas povoações da Andaluzia, muito commerciante, e o ponto principal de commu- nicação entre a Hespanha e as suas Colonias. O porto é excellente, e bem defendida: na pequena ilha de Carraça existe um antigo e optima arsenal, quasi abandonado ha vários annos >, mas agora restabelecido, e em grande actividade, tendo-se até já nelle construído va¬ pores de guerra. As ilhas do TrocaderoedeLeao que for¬ mam a bahia são bem conhecidas na historia moderna, e a celebridade de Cadiz, tão ligada ao Hercules da fabula, remonta á mais alta antiguidade. Aqui desemboca o rio Guadale- te, que corre entre os ferieis terrenos de Xe¬ rez, tão conhecidos hoje pelo excellente vinho que produzem : foi nas suas margens que se deu a desastrosa batalha do C/iryssus, que en¬ tregou a Hespanha ao jugo dos Árabes, e que tão poeticamente se acha descripta n’um ro¬ mance moderno portuguez, A’s cinco horas regressei para bordo, e d’ahi a meia hora partia o vapor: vimos fora d’agoa os temiveis rochedos los cochinos e las puercas, que com outros e restingas encober¬ tas tornam a praia inaccessivel pelo lado do sul: o mar agitou-se um pouco; mas abran¬ dou aó esconder-se o sol, cujo occaso achei explendido contemplado da proa do Iberia. O sol encobria-se no horisonte quando a a lua surgia do lado opposto, e pareciam di¬ zer-se muíuos adeus : deliciosa noite ! Vio-se confusamente o cabo Trafalgar,
[10] que fazia lembrar a tragica e gloriosa morte de Nelson. Olhando para aquellas plagas, mal dis- li netas no horisonte á claridade da lua, mais de uma vez me lembrou o presbytero Eurico, vagando solitário e a deshoras pelas ribas do mar, entregue a seus pensamentos severos e sublimes! Predisseram os officiaes que ás duas ho¬ ras da madrugada estaríamos em Gibraltar, e com efleito ás duas e sete minutos alli fun¬ deávamos. Ao romper do dia observei datoldaabel- ía vista da bahia de Gibraltar; seu morro, que em nada denuncia exteriormente as ma¬ ravilhas d’arte que encerra, as montanhas de Ronda, Algeciras, e ao sul o começo do Con¬ tinente africano, que eu via pela primeira vez ; vasta região tão pouco explorada, e que tan¬ tas maravilhas e mysterios encerra : occorriam- me as recordações históricas da invasão dos Árabes na nossa Peninsula , que se operou por estas immediações, e suas immensas conse¬ quências. Estas considerações, e o agradavel effei- to dos primeiros raios do sol surgindo da pla¬ nície de S. Roque, lançados sobre as eleva¬ ções d’Algeciras e montanhas d’Africa, me detinham enlevado nesta scena, realmente poé¬ tica para quem a contemplava no meio das Co~ lumnas de Hercules. A’s seis horas da manhã de 23 desembar¬ quei junto á bateria de Devil-st one, e pene¬ trei na praça sem dependencia de fiança, trocando só o passaporte por um bilhete de
[11] licença até ao pôr do sol, a qual sem difficul- dade foi na repartição da policia ampliada por ires dias. Dirigi-me á Fonda Hespanhola na rua principal, calle real, e fui em seguida ver a povoação, que é muito aceiada, com boas ca¬ sas e ruas, O palacio do governador tem aca¬ nhada apparencia e foi antigo convento; o edi¬ fício da Bolsa é mui pequeno, e tem uma in¬ significante livraria. O passeio da Alameda e irregular ou no gosto inglez; mas tem alguns lindos pontos de vista, e é ornado com as es¬ tatuas de Wellington, Elliot, e Neptuno qua¬ si escondidas entre o arvoredo. Os habitantes, que diziam serem de 10 a 12:000, apresentam um mixto de varias na¬ ções da Europa e das de Africa mais próxi¬ mas, e agrada a variedade de trajos que se observa: comtudo a população hespanhola é a predominante, bem como a sua linguagem. E’ falta d’agoa esta cidade, e só a reco¬ lhem em cisternas. De tarde fui ver as excavaçôes: são lar¬ gas e extensas galerias, cortadas a fogo e a ferro nos flancos do morro; mas a grande al¬ tura, com casas-matas para a artilharia, tudo para o lado de Hespanha. St. George's-Uall éum grande salão onde terminam as galerias, e que tem seis boccas de fogo de grande ca¬ libre, que maravilha como para alli se pode- ram conduzir: deste logar observam-se me¬ donhos precipicios de rochedos a pique, e ma¬ gnificas perspectivas para Hespanha; mergu¬ lha-se a vista sobre os cemitérios christão e he¬ breu, S. Roque, campo neutro, etc.
As mais elevadas destas baterias subter¬ râneas diziam estar a cousa de 1:000 pés so¬ bre o nivel do mar, e a 400 abaixo do ponto mais alto da montanha. As gallerias são tão espaçosas e tem tal inclinação, que se podem facilmente percorrer todas a cavallo, e pene¬ tra-lhe bastante luz e ar pelas largas canho¬ neiras. Sào aqui os grandes depositos de muni¬ ções e viveres, tanto para, a guarnição como para todos os habitantes da praça, que tem nestes logares um abrigo contra os bombar¬ deamentos. Sobre esta parte do morro ha também muitas baterias descobertas, com bellos canhões e morteiros. E’ prodigiosa a despesa e perseverança que tem havido nestes trabalhos, os quaes vão sempre em augmento, bem como os das ba¬ terias rasas próximas ao mar. Dizem que vive por estes áridos penhas¬ cos uma raça de macacos d’Africa, que as au- thoridades inglezas prohibem destruir, con¬ templando-os como um recurso no casa de fal¬ ta de viveres. Pela encosta fui das excavações até ao te- legrapho: famosa vista sobre a Hespanha, Ceu¬ ta, Mediterrâneo, Estreito, e Oceano! Vi d’alli extasiado esconder-se o sol detraz das co¬ linas d’Algeciras. Até na immensa elevação do telegrapho ha uma bateria, e estavam construindo uma torre : d’aqui Gibraltar, as povoações próxi¬ mas, e os navios tomam diminutas proporções: perto d’alli ha a celebre caverna de S. Miguel,
[13] mui frequentada pelos viajantes, e que dizem apresenta bellas stalactites. Desci por difficeis caminhos, e pelas pe- rigosissimas escadas feitas na parte interior das muralhas asseteiradas, que vem terminar nas proximidades da Alameda, onde já cheguei muito de noite. Aquellas muralhas são restos das antigas fortificações mouriscas, e também de obras mais modernas, principalmente do tempo de Carlos V. Na manha de 24 visitei algumas igrejas, que não achei notáveis, e entrei em uma sy- nagoga extravagantemente adornada. E’ curioso de ver o arsenal militar, onde reina grande ordem e aceio: continha 4:000 armas, e local para mais 7:000. A livraria militar é um bello edifício, ri¬ co de boas collccçoes de desenhos, mappas militares, planos de batalhas, etc. Vê-se alli o retrato do instituidor, e do official que fez a planta para as fortificações da praça. De tarde sahi da cidade em calexe, e atra¬ vessando largos fossos e pallissadas, fui peio pequeno isthmo de areia, que se diz minado, até á povoação do Acampamento, além dos postos hespanhoes : voltei para a cidade, e segui atra- vez della para a Ponta da Europa, onde ha bastantes e bonitas casas de campo sobre er- riçados rochedos, que á custa de muito tra¬ balho e ouro os Inglezes tem amenisado, for¬ mando pelo meio delles uma boa estrada e mul¬ tiplicadas baterias : chegado ao farol, regres¬ sei á cidade e me dirigi ao theatro, que é pe¬ queno mas elegante: a orchestra era péssima,
e composta de quinze ou dezeseis músicos da guarnição, e a companhia seria insupportavel se não fossem Volpini e Porto, que já conhe¬ cia de Lisboa: lambem a concorrência que observei era mui pequena. A guarnição actual da praça é de 3:000 a 4:000 homens de bella tropa, e diziam an¬ darem por 1:000 as boccas de fogo, que se vão augmentando todos os dias nas novas ba¬ terias ; no que os Inglezes principalmente se occupam, pois quanto a embelesamento e ar- borisação mais poderia haver nesta cidade. O governador de Gibraltar tem 32:000 patacas de soldo, e cada soldado vence um sheling. Gibraltar estava em grande decadência: todos os negociantes, grandes e pequenos, se queixavam da paralisação do commercio; os logistas quasi nada vendiam, esacrificavam as fazendas por menos do seu custo. Na verdade as circumstancias cornmer- ciaes e a importância de Gibraltar, bastante tem mudado nestes últimos annos. Logo que acabou o governo do general Espartero na Hespanha, os motivos politicos concorreram com os dos interesses da indus¬ tria hespanhola, para atacar o ruinoso trafico de contrabando, que em grande escalla se fa¬ zia por Gibraltar. Organisaram-se então os corpos de cara¬ bineiros, formados de soldados escolhidos de todo o exercito, de cuja boa organisação e conducta se seguiram logo optimos resultados, e combinado o seu serviço com o das peque¬ nas divisões navaes, que tem quasi todas pelo
[15] menos um vapor e que estacionam pelos por¬ tos proximos, teem dado tal caça aos contra¬ bandistas, que quasi já abandonaram as suas tentativas, pelas continuas apprehensões e per- das que soffreram. Ha porém ainda outra causa, mais solida e permanente do que a apontada, que contri- bue para o acabamento do contrabando : é o grande desenvolvimento da industria em toda aHespanha, especialmente, o que mais admi¬ ra, nas proximidades de Gibraltar. Em Cadiz contam-se hoje alguns milha¬ res de teares de tecidos de linho, em Sevilha muitas e apuradas fabricas de louça, etc. : de modo que já o contrabando não póde concor¬ rer vantajosamente com estes e outros pro- ductos. A admissão a despacho nas alfandegas dos tecidos de algodão inglezes, com certas res- tricções, tem iguahnente vencido neste im¬ portante ramo o contrabando, o qual mesmo em Gibraltar se julgava viria a acabar de to¬ do, poupando dessa maneira ao governo hes- panhol as despesas da actual fiscalísação. Também asseguravam que o contraban¬ do para Portugal pelo Algarve era já menor do que fora. Gibraltar em taes circumstancias se torna um pesado encargo para a Inglaterra, sem ne¬ nhuma das vantagens que até agora oflérecia para o seu commercio, e valioso consummo das suas manufacturas: unicamente como pon¬ to militar ficará immensamente custosa a sua conservação. Diz -se que Gibraltar é a chave do Me-
diterraneo; mas a verdadeira chave seria uma esquadra estacionada no Estreito, o qual ten¬ do na sua menor largura quatro legoas, deixa passar toda a qualidade de navios muito fora do alcance da artilharia d’aquella praça: com- tudo Gibraltar será sempre uíil como ponto de apoio e de abrigo para uma esquadra. O grande rochedo ou morro hoje deno¬ minado de Gibraltar, é o monte Cálpe da an¬ tiguidade : eleva-se na maior altura a 1:400 pés, e fica fronteiro ao monte 4byla do lado d’Africa, ou Sierra de las monas, como hoje lhe chamam os Hespanhoes: presume-se que estas duas montanhas, que tem alguns picos terminados em fórma de capitel, éque deram logar á ficção das Columnas de Hercules co¬ locadas á entrada do Mediterrâneo. Em 1704 oslnglezes, por surpresa ou por traição do commandante, se apoderaram des¬ te importante ponto, do qual lhe legalisou a posse a paz de Utrecht: tres sitios tem sof- 1’rido em differentes epochas por parte dos Hes¬ panhoes, e foi o ultimo em 1782, mas sem¬ pre infructuosos.
[17] CAPITULO TERCEIRO, O Mediterrâneo e os Aralies. 0 vapor Indus chegou de Southampton pelas onze da noite, e na seguinte manhã de 26 fui para bordo delle, acompanhado pelo consul portuguez Benso, e o negociante Machado: a ambos estes cavalheiros muito favor devi, e particularmente ao consul, e se por acaso le¬ rem estas linhas acceitein minhas gratas me¬ mórias. Ao meio dia sahimos de Gibraltar: tor¬ neámos a Ponta da Europa, e entrámos ho Mediterrâneo, descobrindo confusamente Ceu¬ ta á direita, e outras terras d’Africa. Esse ponto escuto lá no horisonte do sul que recordações me trazia á memória! A Se¬ pta de D. João I, a escolhida pelos genero¬ sos filhos deste rei alevantado pelo povo, pa¬ ra primeira empresa e exercicio do seu valor, como prova nècessaria para serem armados cavalheiros. Remontava-me pela imaginação áquelles tempos heroicos, e via primeiro D. Fuas Roupinho com as suas galés atacar uma força triplicada das dos Mouros, e morrer co¬ mo bravo; e depois a brilhante armada de 200 vélas sulcando estas ondas correr a vingal-o, 2
[18] e arrostando formidáveis tormentas, finalmen¬ te apossar-se d’aquella famosa praça no dia da Assumpção de 1415: via o infante D. Hen¬ rique, ainda em annos juvenis, já comman- dando uma divisão naval destinada ao primei¬ ro ataque, depois sustentar sósinho todo o pe¬ so dos Mouros n’uma estreita rua da cidade, e em seguida ser armado cavalleiro com os seus tres valentes irmãos pelas mãos de seu pai, o heroe d’Aljubarrota, na mesquita principal de Ceuta, n’um momento transformada em tem¬ plo cbristão 1 Assim o nobre D. Henrique começou com as armas a tornar posse da terra africana, que mais tarde legaria á sua patria pelas con¬ quistas ainda mais gloriosas da intelligencia. Ceuta foi por largo tempo a eschola e o theatro das façanhas militares dos Portugue- zes, e os nomes de D. Pedro de Menezes (o do bordão de zambujo), d’Alvaro d^Alma¬ da, e do Santo Infante D. Fernando alli se fizeram immortaes. A cidade de Ceuta é antiquíssima, e a sua fundação se attribue aos Carthaginezes: foi muito importante no tempo dos Romanos edos Godos. Caliida em poder dos Portugue- zes, não pôde sacudir o jugo de Hespanhana gloriosa Restauração de 1640, e lhe foi de di¬ reito cedida pelo tractado de 1658 : hoje é um presidio hespanhol, sempre mais ou menos' inquietado pelos Mouros das visinhanças. Durante toda a tarde fomos vendo ele¬ vadas montanhas da costa de Hespanha, e as cercanias de Malaga : o tempo era excellente. Na madrugada de 27 passámos o cabo de
[19] Gale, e viamos fto longe terra de Carthage- na; mas em breve tudo desappareceo, bem como do lado d7 Africa. Divisámos em distancia varíos navios, que disseram ser a esquadra hespanhola de ins- trucção, que pouco antes estivera em Gibral¬ tar, Ao romper do dia 28 hiamos na altura e na distancia de quinze milhas d’Argel, que não avistamos por estar nublado o horisonte. Pelas quatro horas da tarde descobrimos ’ o vapor Potting er, que caminhava para Gi¬ braltar, vindo de Constantinopla e Malta, Refrescou o vento de tarde, e apesar do pouco mar o vapor jogava muito : não avista¬ mos terra neste dia. Durante a noite e manhã de 29 conti¬ nuou o vento, e o incommodo jogar do vapor. Pelas nove horas divisámos terra d7Áfri¬ ca para áquem de Tunes, e pelas seis da tar¬ de passámos perto da ilha e rochedos de Gal- leta, á vista da costa de Tunes, a cujo Esta¬ do pertence : é deshabitada e apenas alli vão alguns pescadores. O vento e mar abrandou, mas formou-se uma trovoada espêssa: os trovões estalavam sobre as nossas cabeças, com um som agudo e vibrante como eu nunca ouvira nestes phe- nomenos da nãturesa í cahia chuva em abun- dancia. Teve para mim encanto e magestade es¬ ta scena, ainda que perigosa pelos raios que se cruzavam nos ares. O fusilar instantâneo dos relâmpagos, il- luminando a afmosphera escurecida, e aver-
melhando as vagas, era de um effeito temero¬ so mas sublime! O vapor se me representava então como um monstro phan tas tico, lançando por duas longas e escuras trombas negros e densos ro¬ los de fumo, que se revolviam em contorsões delirantes; bramindo estranhamente por duas fauces, que em magica rotação se moviam com vertiginosa celeridade ; resfolgando por entre vaporosa espuma o hálito da cratera que lhe formava as entranhas ; dando estremeções co¬ mo um corcel fogoso e espantado pelo ruido dos trovões; e parecendo correr sobre as agoas com a velocidade do raio a que fugia. No entanto o homem, este complexo de poder e fragilidade, sobre a espalda do mons¬ tro, rodeado de todas as com modid ades e luxo da vida, descuidoso folgava ao som de instru¬ mentos, zombando das tormentas aerias, e di¬ rigindo pela sua poderosa intelligencia os mo¬ vimentos desta creação phantastica, áqualel- le proprio dera organisação e vida! Pela alta noite do dia 30 o siroco come¬ çou a soprar fortemente, agitando as vagas : é o vento quasi constante nestes mares, e vem de léste ou d’Africa: é tépido e produz des¬ agradável sensação. A’s dez da manhã passámos ao norte da ilha Pantelaria (a antiga Cosyrci), dependencia do reino de Nápoles: via-se uma extensa po¬ voação ao longo da raiz das altas montanhas que a formam, e varias casas pelas encostas: seus habitantes pescam o coral, e tem um vol- cão extincto e valles muito íerteis. A vista da Pantelaria me fez considerar
que o Mediterrâneo deve ter perdido muito ultimamentê dos restos, que ainda conserva¬ va, da sua antiga poesia. Os vapores que em linhas rectas o cru¬ zam, como se quizessem formar delle um cam¬ po divjsivel em figuras rectilineas, teem’con¬ tribuído, mais do que o romanticismo e a phi- losophia, para desthronar F(olo e para zom¬ bar das temerosas Syrtes, e das voragens de Scylla e Carybdes. A extincção da pirataria barbaresca, e com ella os perigos da escravidão e das mas¬ morras, e a falta de alimento ao exercicio dos piedosos sentimentos dos que se dedicavam a remissão dos captivos, também fizeram acabar as ideas aventurosas e romanescas que se li¬ gavam ás viagens do Mediterrâneo.
CAPITULO QUARTO. Os Iralícs, O vapor -Indus em que hia navegando neste famoso mar Mediterrâneo é um beiJo barco da força de 450 cavallos, de 1:800 toneladas, e todo corrido na tolda, a quaj apresenta um passeio de oitenta passos de comprido sobre quatorze de largo: produzia a machina muito menos estremecimento que no Ibéria : tinha todas as commodidades, e até a de uma boa casa para banhos frios, mornos, e de chuva. Todas as tardes das sete ás oito horas ha¬ via musica, composta dos serventes: a tolda parecia então uma praça ou passeio publico, onde passeavam cavalheiros e senhoras vesti¬ das com todo o luxo 5 dançava-se e polkava-se. O pngenho é mui curioso, e tem doze boc- cas na fornalha: quando a elle desci pareceo- me impossível como um homem por quatro ho¬ ras, nos quartos que se revesam, póde sup- portar esta atmospliera de fogo. Era notável a regularidade e ordem na administração interna do vapor, a cargo do purser ou commissario, que tem de soldo 400 libras, e 600 o capitão. Ha até um emprega^
[23] do e repartição só para depennar aves e cor- tar carnes. Examinei uma engenhosa machina para areiar facas, que apromptava doze era cada mi¬ nuto. Entre os oitenta passageiros hia um que diziam tio do imperador de Marrocos, com um séquito de vinte e tres homens e duas mu¬ lheres, cujos rostos tive occasião de ver, con¬ tra o costume arabe, e reconheci que não eram mouras encantadas nem encantadoras: todo este bando se dirigia a Mecca, em peregrina¬ ção ao tumulo de Mafoma, e durante a via¬ gem muito distrahiam aos passageiros com os seus costumes originaes: passavam o tempo estendidos sobre a tolda resando ou lendo o Alcorão, e fazendo genuflexões e beijando o chão com o rosto para o Oriente, nadirecção de Mecca. A todos interessava um filho do chefe da comitiva: era um joven arabe de quinze a dezeseis annos, de grande vivacidade, e de sympathica e intelligente physionomia: vestia- se com elegancia, e tinha toda a energia e ar¬ dor proprio da sua raça. Entre elles havia um que fallava perfei- tamente o hespanhol, e que lhes servia de in¬ terprete, por intervenção do qual eu conver¬ sava com vários sobre os seus costumes, e os modernos acontecimentos na Africa septen¬ trional. A rudesa e fanatismo deste povo torna mui difficil trazel-o á civilisação europea. Ma¬ nifestavam unanimes grande odio contra os Francezes, expressando por energicas gesti-
[24] euiações o desejo de cortar a todos elles a ca¬ beça. Animava-os o sentimento exaltado da in¬ dependence, e a esperança de expulsarem os Francezes d’Argel diziam ser activamente conservada no espirito nacional, pelas muitas prophecias dos seus Scmtôes. A palavra incredulidade é quasi desco¬ nhecida entre os Árabes das tribus desta par¬ te d’Africa: elles esperam ainda um Messias pelo molde de Mafoma, que deve resgatal-os da escravidão iranceza : é o terrível MulcSaa, que significa o « Homem, da occasião,» que todos os prophetas annunciam : de maneira que o mais leve sussurro que agita as ervas seccas do deserto, ou o ruido longínquo do tro¬ pear dos cavallos, basta para excitar o espiri¬ to inquieto, crédulo, eirreflexivo do arabe, e para o precipitar na rebellião. E’ um povo indomito, verdadeiramente original e primitivo. A sua religião, intolerante e feroz por es¬ sência, não acceita nem sequer o trato com os Christãos, ameaçando-os com a perdição eterna. Para estes Árabes tudo é religioso, desde a vingança que exercem, até á pilhagem que fôrma a sua principal riqueza, eque praticam mesmo de umas tribus para as outras. A tristesa habitual do grave semblante dos peregrinos arabes, como que revellava na suaapparente humildade, a resignação que não desespera, e a energia que não se submette; mas que aguarda por melhores dias de vingan¬ ça, de rehabilitaçâo, e de triumpho.
[23] No sentir dos mais esclarecidos delles os destinos futuros d’Argélia se reduziam a este dilemma: completa expulsão dos Francezes, ou exterminio da raça arabe n’aquelle paiz; asseverando impossível a absorpcão da casta indígena na sociedade franceza. Não sei que sentimento, misturado de admiração e respeito, causava a vista deste ajuntamento de Árabes, amostra desse povo sobre cujo cerebro de granito quarenta sécu¬ los tem passado em vão, E’ hoje o mesmo que fora quando Jacob separava suas tendas e seus rebanhos para ir formar uma nova nação. Povo anterior aos povos históricos, e que não obstante os grandes acontecimentos em que tem figurado, as nações poderosas que tem destruído, as civilisações que ha transportado de um a outro continente, conserva ainda ho¬ je, em varias das suas fracções, o vestuário talar dos patriarchas, a organisação primitiva da tribu, a vida nomada da tenda, e o espiri¬ to imminentemente religioso que devia caracte- risar as primeiras sociedades humanas: povo, cujos avós presenciaram o diluvio, ou foram testemunhas de alguma grande manifestação da presença de Deos sobre a terra. Na Biblia só se póde encontrar o typo perdurável desta eterna raça patriarchal. Apesar do odio que os descendentes de Ismael e Esaú professam aos Hebreus, é cer¬ to que arabe era Israel: de um só tronco par¬ tiram os dois grandes ramaes religiosos que hão transformado a face da terra. Da mesma fonte sahiram o Evangelho e
[26] o Alcorão: o primeiro, divinamente annun- ciado, promove os progressos e a felicidade da especie humana, e nos transmitte as poucas tradições primitivas : o segundo, formado dos factos e doutrinas adulteradas do Antigo e No¬ vo Testamento, apresenta como um protesto vivo das raças pastoras, immobilisa a intelli- gencia, e conserva indeleveis em muitos dos seus sectários os costumes barbaros das pri¬ meiras idades do mundo.
[27] CAPITULO QUINTO. % Malta e Alexandria* Pela alia noite de 31 de Ju.llio abrandou o si- roco, mas sobreveio um denso nevoeiro que obrigou a parar o vapor por duas horas : ao romper do dia ayistámos Malta, e pelas sele horas fundeámos no porto pequeno ou Mus- cello, destinado ás quarentenas, e proximo ao lazareto: existia o cholera na ilha, do que já tivéramos notícia em Gibraltar, o que com bem pesar me impedio de percorrer a celebre cidade de La-Valette, onde um portuguez pode encontrar tão gloriosas recordações de al¬ guns heroes da sua pai ria, e todas as outras que se ligam á longa existência da famosa Or¬ dem de Malta, Com t udo mesmo da posição em que me achava eram elJas alimentadas pela vista do celebre Forte Manoel, que é uma das obras de defesa desta enseada, e que foi construído á sua custa por um Grão-Mestre portuguez D. Antonio Manoel de Vilhena, o qual tam¬ bém fez construir a cidadella chamada Burgo- Vilhena. A sua fama soou por toda a Euro¬ pa, deixou grande nomeada na historia da Or¬ dem, morreo em 1736, ejaz sepultado na igre-
jadeS. Joào, o melhor templo da cidade, on¬ de o seu mausoleo dizem ser dos mais magní¬ ficos. Houve mais tres Grão-Mestres portu- guezes, entre elles D. AfTonso de Portugal, filho bastardo do rei D. AfTonso Henriques. A cidade vista do mar, da posição em que nos achavamos, nada apresentava de no¬ tável, senão formidáveis e amontoadas bate¬ rias, altos edifícios com terrados, e sobre-sa- hindo um novo templo protestante, com uma esbelta torre. O solo tinha arida apparencia; mas dizem ser fértil á força de industria e trabalho na cul- tivação. A gente do mar trajava como os nos¬ sos peninsulares. Malta cahio em poder dos Francezes quan¬ do por alli passou a famosa expedição do ge¬ neral Bonaparte ao Egypto, e pouco depois passou ao domínio dos Inglezes, que até hoje a conservam, tendo-lhe augmentado muito as suas já formidáveis fortificações : dizem que os Maltezes são muito desafeiçoados aos seus aetuaes dominadores, que parece os tratam mais como libertos do que como súbditos de Inglaterra. Pelas dez horas appareceo uma esquadra ingleza de tres náos, que a todo o panno se di¬ rigia ao porto •, mas fez-se depois no bordo do mar. ; Ao meio dia entrou um vapor francez vindo de Constantinopla, e ás duas horas ou¬ tro inglez de Marselha, que trazia a malla de Londres, alcançando quatro dias mais áquella que conduzia o Indus, e que anciosamente era desejada para sahirmos desta enfadonha
posição, sem communicação alguma com uma terra tão digna de examinar-se, pelas suas grandes recordações históricas antigas e mo¬ dernas. Embarcaram mais alguns passageiros, en¬ tre elles um mouro do Indostão ricamente ves¬ tido, e de mui intelligente physionomia. Ao fim da tarde divisou-se de bordo um préstito fúnebre conduzindo ao cemiterio o ca¬ daver de um militar* os sinos de S. Paulo e de outras igrejas dobravam tristemente, e o sol escondia-se detrás de aridas collinas, lan¬ çando seus últimos raios de amarello pallido, atravez de uma atmosphera empoeirada e aba¬ fadiça, sobre os edificios de La-Valette, aos quaes dava uma cor sinistra, apropriada á idéa do cholera e da morte que dominava nestas paragens : tudo produzia um effeito doloroso e soturno que me impressionava profundamente. Tendo-se todo o dia recebido carvão, agoa- da, e varias victualhas, pelas nove e meia le¬ vantámos ancora. As luzes da cidade pareciam mover-se e confundir-se, e as dos botes correndo sobre as agoas, escondendo-se e reapparecendo, pare¬ ciam logos fátuos, e todas reflectindo-se em longas tachas no espelhado mar produziam lin¬ do effeito. Depois do chá houve no salão um con¬ certo de vários instrumentos, executado pelos passageiros,, mui dissonante e detestável; mas apesar disso muito applaudido com pés e mãos pela sociedade ingleza. Continuámos com bom tempo, e sem oc- correncia alguma notável, até que a 4 d’ Agos-
[30] to pelas dez da manha, descobrimos um farol, terra baixa, e successivamente muitos moi¬ nhos ao longo da praia, baterias, um grande porto com muitas embarcações mercantes e de guerra; entre estas viam-se uma náo ar¬ mada com a bandeira turca, e seis desmas¬ treadas no estaleiro : estavamos em Alexan¬ dria, a 700 legoas de Lisboa. Grande confusão abordo, onde os passa¬ geiros tem de deixar a sua bagagem pesada, tomando só cada um o seu sacco de viagem, e alguns pequenos objeetos que lhes sejam abso¬ lutamente indispensáveis para as sessenta ho¬ ras, pouco mais ou menos, que dura o trajecto pelo Egypío: isto mesmo tem de se entregar no Cairo, no escriptorio da Companhia do Transito, a tempo de ir para Suez; pois quan¬ do se parte de liottlac para o deserto, sóéper- mittido a cada um dos passageiros levar coin- sigo o peso de cinco libras, o que porém se náo executa com muito rigor. Com tudo os pas¬ sageiros teem o direito de accesso á sua baga¬ gem nos armazéns da Companhia em Alexan¬ dria, BoulaceSuez, o qual porém é difficil de realisar, e o mais seguro e menos livre de transtornos é, logo ao desembarcar em Ale¬ xandria, levar cada um comsigo quanto careça até Suez, pouco excedendo os limites do in¬ dicado peso de cinco libras. Fui dos primeiros passageiros que, pelo meio dia, pisaram aterra do Egypto, e em se¬ guida fomos conduzidos em uma das carretas que fornece a Companhia até ao Hotel Orien¬ tal, na bella Praça dos Consulados, vasta, e cercada de bons edifícios á europea, com um
[31] pequeno obelisco no centro: estava alli em construcção um grande templo protestante. N’aquella Praça tremulam as bandeiras de quasi todas as nações da Europa. O viajante deve sem demora dirigir-se á casa da administração da Companhia do Tran¬ sito, para apresentar o bilhete com que entrou a bordo do vapor inglez, e trocal-o por outro pa¬ ra ser admittido no vapor do Nilo : esta Com¬ panhia ou Administração do Transito é mantida pelo pachá do Egypto, e toma a seu cargo a con- ducção dos passageiros atravez deste paiz, desde Alexandria a Suez; mas a despesa res- pectiva já vai incluída no preço da passagem paga em Lisboa, ou em outro qualquer ponto de partida: feito isto fui percorrer algumas ruas da cidade, de bem estranho aspecto para um peninsular, eosbasares europeo e egypcio, onde se observa grande variedade de productos da Africa, da Asia, e da Europa: varias ruas eram macadamisadas, e havia postos de guar¬ da e patrulhas de soldados com tarbuxe ou bar¬ rete vermelho, calças á grega, e jalecos bran¬ cos, só com um talabarte e espingarda á eu- ropea. As mulheres quasi todas andavam com a cara coberta abaixo dos olhos com um panno preto, que semelhava na fórma a tromba de um elefante descabida. Um lisbonense em Alexandria tem ne¬ cessariamente de se lembrar de Cacilhas, dos seus burros, e burriqueiros : vê-se o estrangei¬ ro alli perseguido desapiedadamente por uma multidão de rapazes arabes, que á porfia o querem conduzir n’aquelles animaes, que são pequenos, porém muito vivos, e maisbemar-
reados que os da Outra-banda : em um defies corri algum tempo, e ás quatro horas, praso indicado, achava-me na Praça dos Consula¬ dos, onde cinco ou seis boas carruagens da Companhia, vieram buscar os passageiros pa¬ ra os conduzir ao embarque no canal. Animada e pittoresca scena era esta i bandos de burros e camelos, misturando zur¬ ros e mugidos á gritaria dos rapazes e condu¬ ctors ; passageiros apressados com seus sac- cos de viagem precipitando-se nas carruagens ; cambistas a oflerecerem dinheiro para trocar $ arabes a apresentarem com impertinência aba¬ nicos, chapéos, e outros objectos para ven¬ der ; um babel de linguas, ouvindo-se ao mes¬ mo tempo fallar inglez, francez, italiano, hes- panliol, portuguez, turco, eí arabe; tudo isto formou durante alguns minutos um espectacu- lo que tinha muito de curioso e de burlesco. Partimos para o canal por bom caminho, transpozemos os muros da cidade por uma lar¬ ga porta fortificada, passamos ao lado de um vasto cemiterio, e depois perto da columnade Pompeo, que está sobre um montículo de areia, a qual, talvez pela rapidez com que a vi, não me produzio tanta impressão quanta esperava de um monumento de tanta nomeada. Esta columna é um dos muitos monumen¬ tos espalhados no solo do Egypto: está a cou¬ sa de duas milhas distante das praias de Ale¬ xandria, é conhecida ha vários séculos pelo nome de Pompeo, dizendo-se ser uma home¬ nagem de Cesar á memória do seu rival, o que modernamente se tem contestado, pela tra¬ dição do paiz que refere pertencia a columna
Christo, foi até ao século 7.° o centro do mun¬ do sabio, e o assento da litteratura e das scien- cias. Foi a corte dos Ptolomeus, que a orna¬ ram com bibliothecas, que dizem continham 700:000 volumes. Nesta cidade é que se fez a traducção da Biblia chamada Dos Setenta, e houve nella 25 concílios. O general sarra¬ ceno Amrou pelo meado do 7.° século con¬ quistou Alexandria para o califa Ornary que refere a historia fizera queimar a magnifica bibliotheca, cujos livros serviram por seis Ine¬ zes para aquecer os banhos públicos; succes- so modernamente posto em muita duvida por graves authoridades, parecendo certo que já a este tempo tinha sofírido destruições parciaes nos reinados de Julio Cesar e de Theodosio. Alexandria no tempo dos Romanos era ainda uma opulentissima cidade, e o grande interposta do commercio do Oriente com a Europa, o quando foi tomada por Amrou con¬ tinha 4:000 palacios, 4:000 banhos, 400 thea- iros, 12:000 lojas etc., n’um recinto de cin¬ co legoas de circumferencia. E que resta ho¬ je da magnifica fundação do heroe da Mace¬ donia, e da riquesa e sciencia dos Ptolo- meus ? ... . Ruinas sem grandesa, e uma co- lumna solitaria! Grande era o abatimento de Alexandria no principio deste século: os Francezes ape¬ nas lhe acharam uma população de 8:000 al¬ mas, e íoi o ultimo ponto que elles abando¬ naram, depois de inutilisados tantos heroicos esforços, e de malogrados a conquista doEgy- pto e os gigantescos projectos do grande ca¬ pitão da nossa idade. O illustrado governo de
[35] Mohamed-AM a fez sahir da sua decadência, restabeleceu arsenaes, creou uma marinha res¬ peitável, cuidou das suas fortificações, e re¬ parou as muralhas da chamada Cidade dos Ar*a- 6es, que teem duas legoas de circuito, flanquea¬ das por 100 torres: hoje apesar do Uovo aba¬ timento do Égypto é uma cidade florecente pelo commercio, com uma população de mais de 60:000 almas. O farol de Alexandria, que cotno já dis¬ se avistámos ao descobrir a terra, tem a appa- renda e a elevação ordinaria deste genero de construcções, eestá bem longe de assemelhar- se á famosa fabrica do antigo farol que Ptolo- meu Sotero edificou, cousa de 300 annos an¬ tes da vinda de Christo, com a magnificência que descreveram antigos escriptores, eqúeera contado por uma das sete maravilhas do mun¬ do : na ilhota de Pharos na bahia de Alexan¬ dria é que elle estava collocado, e d^onde lhe proveio o nome de farol, hoje adoptado geral¬ mente para designar estes grandes fanaes. &
[36] O Hilo e JSouIac. A’s cinco horas da tarde navegávamos no ca¬ nal Malimoudieli, em uma grande barca leva¬ da a reboque por outra movida a vapor com engenho de parafuso. A este canal deve Alexandria inteiramen¬ te a sua actual prosperidade, e com elle a do¬ tou também o afamado Mohamed- A li, para lhe estabelecer a communicacão fluvial com o •9 Cairo, substituindo o antigo braço do Nilo, que dizem vinha do vertiee do Delta até ao porto de Alexandria, e que se na verdade exis- tio se perdeo pela nova direcção que toma¬ ram as agoas d’aquelle grande rio. Dizem al¬ guns que na antiguidade já existira um canal semelhante ao que agora foi construído, e o qual, segundo refere um author francez, foi principiado em Janeiro de 1819, e èm Outu¬ bro do mesmo anno a agoa do Nilo entrava triumphante em Alexandria! O canal tem de extensão umas 48 milhas, IS toesas de largo, e 3 de profundidade. Di¬ zem que de 250:000 obreiros um decimo morreo de privações, e pelo excessivo traba¬ lho. A obra foi dirigida por engenheiros fran-
[37] cezes, e custou uns dezeseis milhões de cru¬ zados. Alexandria também ganhou a grande vantagem de ficar abastecida de agoadoNilo, livre de toda a mistura com as agoas salgadas dos lagos Mareotis e Madhyeh. Este canal em algumas paragens se asse¬ melha ao d’Azambuja em Portugal, vai des¬ embocar no Nilo no ponto de Atfeli: e bein conservado, e guarnecido a espaços de boni¬ tas casas e arvoredos, por onde se viam mui¬ tas senhoras vestidas á europea, bons carri¬ nhos, calexes, e cavallos. Os búfalos tiravam a agoa por meio de rodas ou especie de noras, para regar as ter¬ ras adjacentes, em geral mais baixas queoni- vel da corrente. Encontrávamos muitos barcos carregados de generos e de gente, quasi toda miserável e nua. Sobreveio a noite ainda longe de Atfeh: na barca não ha camarotes, nem camas; so tern uma longa camara rodeada dé almofadas, sobre as quaes cada passageiro á entrada se deve apressar a collocar um objecto seu, com o que adquire indisputável direito áqueíle lo- gar para se sentar ou deitar, se poder \ por¬ que aliás sendo grande o numero dos passa¬ geiros, não terá onde descance: os logares dos ângulos são os que offerecem mais com- modidade. A’ noite serviram muito boa refeição, e notei a brutalidade de um inglez que ficou ao . meu lado, o qual tendo comido abundante¬ mente, d’ahi a uma hora principiou a pedir ovos cozidos, que lhe foram trazendo dois a
dois até ao numero de qualorze! A’ observa¬ ção que lhe fiz de que lhe poderiam fazer mal, respondeo-me que estava costumado a comer vinte e trinta de cada vez; mas apesar do tal costume teve desta feita uma fortíssima indi¬ gestão, A proposito deste comilão referirei outro caso que me maravilhou no Hotel de Gibral¬ tar : um cantor italiano comia ao jantar olha hespanhola, assados, molhos, salada, ostras cruas, salame, peixe frito, fructasetc., acom¬ panhado tudo isto de grandes copos de leite, que bebia como agoa. A’s quatro da madrugada chegámos a Atfeh: foi singular a scena nocturna da pas¬ sagem da eclusa, e original a monotona can¬ tilena com que os marinheiros sirgavam a bar¬ ça, já desprendida do vapor ; desusados fachos esclareciam esta passagem, agitados por figu¬ ras negras, meias nuas, e hediondas, que mais pareciam entes fantásticos do que humanos. Estes fiichos ou fogaréos são umaespecie de fornalha ambulante, collocada e fixa per¬ pendicularmente na extremidade de um com¬ prido páo, com arcos circulares e horisontaes de ferro que sustem a lenha, a qual ardendo ibrma exactamente uma columna de fogo mo¬ vediça. As obras da éclusa me pareceram gran¬ diosas, e dizem que são muito boas no seu genero, alimentando as agoas no canal neces¬ sárias para a navegação, e evitam que elle se obstrua pela amontoação do lodo que arrasta a corrente do Nilo. Entrada a barca nas agoas do rio pará-
[39] mos um pouco diante da aldêa de Atfeh, que ainda ha poucos annos era uma povoação in¬ significante, e que hoje vai prosperando co¬ mo interposto do commercio entre Alexandria e o Cairo, e embelesando-se com algumas ca¬ sas de negociantes europeos: via-se de bordo um bello edifício que diziam ser um Hotel Francez. A1 luz dos fogaréos estiveram embarcan¬ do vários fardos para o vapor que nos devia conduzir, e vi pela primeira vez a singular ma¬ neira dos homens os carregarem, levando-os sobre os quadriz sustidos com os braços incli¬ nados para traz, de modo que ficavam curva¬ dos os carregadores, e com alguma apparencia d’um camello com carga. Tudo isto se fez rapidamente, e logo pas¬ sámos para o vapor numero 11, de 90 caval- los, muito lindo e commodo : vinte vapores na¬ vegam no Nilo, seis dos quaes se empregam no serviço dos passageiros e mercadorias para a índia: pelas cinco horas, já ao alvor da ma¬ nhã, vogavamos nesta afamada e magnifica cor¬ rente. Não sou amador da tão geralmente esti¬ mada bebida do café-, mas pela primeira vez na minha vida achei delicioso sabor a uma cha- veria delle que nos serviram sobre a tolda ao romper do dia. Foram-se vendo lindas paizagens, ^ bos¬ ques de palmeiras raro-semeadas, e contínuas aldèas pelas margens, muito povoadas de ho- . mens, animaes, aves domesticas, e immensos bandos de pombos, e apresentariam bonita pers- pectiva se fossem brancas as habitações ; mas
[40] a cór da terra de que unicamente são feitas as confunde de longe com os terrenos que as cer¬ cam, e lhes dá de perto triste e misera appa- rencia, e mais semelham em geral coviz de ani- maes do que habitações humanas. Viam-se com muita frequência uns edifí¬ cios em fórma de cupula, que dizem serem tumulos de santôes, que são os beatos ou san¬ tos que veneram os Árabes mussulhianos; or¬ dinariamente indivíduos que durante a vida fo¬ ram fanaticos ou loucos, ou que assim se fin¬ giram para viverem á custa da caridade dos verdadeiros crentes. E’ sabido que os Árabes reputam a loucura como um signal de predes¬ tinação, e que tributam aos doudos muito res¬ peito e estima. Em todas as aldèas e pelos campos se viam mesquitas com os delgados e esbeltos minare¬ tes, que produziam ás vezes o mais pittoresco effeito no meio de grupos de palmeiras. Os minaretes são torres muito elevadas, de pe¬ queno diâmetro, terminam em agulha, e tem duas ou tres ordens de varandas ou galerias ex¬ teriores, donde os sineiros ou muezins cha¬ mam vocalmente o povo á oração cinco vezes no dia, substituindo assim os sinos, os quaes os mahometanos aborrecem. Nas grandes ci¬ dades empregam para isto os cegos para não devassarem os jardins e serralhos. Os Árabes muito poeticamente chamam aos minaretes Dedos de Deos, que da terra apontam aos ver¬ dadeiros crentes para o paraiso de Mafoma, e ás varandas appellidam Annels dos Dedos de Deos. Os habitantes se acercavam das margens,
[41] postando-se sobre os vallados ao passar do va¬ por, formando grupos ora graciosos, ora he¬ diondos, pelos farrapos ou nudez que apresen¬ tavam, denunciando em geral uma extrema miséria que contrastava com a proverbial fer¬ tilidade destas margens, que em partes se viam mui bem cultivadas, em extensas planícies á perder de vista. Grande numero de barcos subiam e des¬ ciam pelo rio, carregados de generos, e mui¬ tos bandos de búfalos jaziam n’agoa só com a cabeça de fora. Dizem excederem a 6:000 os barcos que navegam no Nilo. Passámos a ponta do Delta, onde o Nilo se separa em dois braços principaes, chama¬ dos de Rosetta e Damietta, únicos que res¬ tam dos sete que eram conhecidos no tempo dos Romanos, e que agora quasi se perdem extravasando as suas agoas nas terras do bai¬ xo Delta, que estão em muitas partes inutili- sadas para a cultura, deixando assim de ter este famoso rio uma foz navegavel na sua des¬ embocadura no Mediterrâneo, o que seria de immensa vantagem para o Egypto. A’ proporção que subíamos, acultivação diminuía, as povoações escaceavam, e areaes de um e outro lado apresentavam esteril appa- rencía. Passámos vários braços do Nilo, alguns tão largos como a veia principal que seguia- mos : começaram a apparecer elevações ao lon¬ ge, e encontrámos dois vapores que desciam para Alexandria, conduzindo os passageiros da índia e China.
O occaso do sol foi sombrio e sem gran- desa, pela monotonia e triste aspecto destas margens. Anoiteceo sem termos chegado ao ponto donde ao longe poderíamos ver as famigera¬ das pyramides do Egypto, circumstancia que muito me contrariou. Com effeito estar a pou¬ cas legoas de distancia desses estupendos mo¬ numentos, contemporâneos de tantos séculos, envolvidos no véo mysterioso da sua origem e destino, testemunhas de tantos successos ma¬ ravilhosos, e cujas descripções muitas vezes me inflammaram a imaginação e o desejo de os conhecer; estar, digo, perto delles e nem ver de longe os seus vultos gigantes, foi de certo o maior desapontamento que me podia acon¬ tecer nesta viageme que bem deveras senti. O que vi do Nilo não correspondeo á idea que delle fazia, e apesar de ter alguns logares mui bonitos, não soffre comparação com as lindas paizagens e vistas do nosso Téjo. Isto é no meu entender, e talvez pela estação em que o percorri. E’ sabido que o Nilo apresenta quatro different es aspectos no anno, e dizem que o mais bello é em Setembro ao terminar da en¬ chente, e depois em Fevereiro quando aspla- nicies estão revestidas com todas as gallas de uma pomposa vegetação : comtudo repito que quanto a variados accidentes de perspectiva, cie arborisação, ede bonitas povoações, pare- ce-me que em nenhum tempo levará vantagem o Nilo tás bellas margens do meu pátrio Téjo, ao menos até Abrantes, que é até onde as co~ nheco. ** >
[43] O rio fertilisador do Egypto corre por umas 200 legoas desde a ultima cataracta até á ponta do Delta, e ao longo do valle que constitue o solo productivo deste paiz : parece que não excede a uma milha na maior largu¬ ra, e que é vadeavel em algumas partes. A velocidade da corrente varia de duas a tres mi¬ lhas. A sua exacta origem ainda é hoje um problema, apesar de que um portuguez, o Padre Pedro Paes, pertendeo têl-a descoberto, bem como outros viajantes. A causa das suas enchentes periódicas é que parece estar me¬ lhor averiguada*, provém das chuvas que em grande abundancia cahem na Ethiopia em tem¬ pos regulares. E’ bem fallado o antigo Nilometro que serve para medir a altura das enchentes do Nilo, e dizem que os diflérentes limites que regulam o gráo de fertilidade são ainda hoje os mesmos que foram indicados por Plinio, na sua Historia Natural. O rio não transborda ou ala¬ ga os campos: pequenos canaes de irrigação eque levam as agoas brandamente ao interior das terras, e dizem que estas adquirem tal força de vegetação com os nateiros que as agoas depõem, que se torna necessário mistu¬ rar-lhe areia para algumas especies de cultu¬ ra. A agoa deste rio é muito turva ou barren¬ ta *, mas depois de filtrada tem excellente sa¬ bor. O Nilo é afamado desde a mais alta an¬ tiguidade, aelle se ligam boa parte das gran¬ des recordações da historia sagrada e profana, e obras prodigiosas foram emprehendidas por vários dos soberanos do Egypto para lhe apro-
veitarem as agoas, como alguns grandes ca- naes e o famoso lago Meeris. A’ aproximação de Boulac divisou-se um farol, e viam-se foguetes contínuos para guiar os navegantes no rio, que nesta paragem e ho¬ ra requer grande pratica e perícia. A’s dez horas atracámos no caes de Bou¬ lac pouco longe do Cairo, tendo percorrido 120 milhas sobre o Nilo : ao desembarcar vi¬ mos nove carruagens postadas em linha, e quando pensávamos alegremente que ellasnos hiam conduzir, como de costume, ao Cairo, onde passaríamos nos bons hotéis desta cidade uma noite tranquilla e commoda, de que tan¬ to carecíamos, e delineando já projectos de pas¬ seios, e exame das muitas cousas notáveis da capital do Egypto, eis que nos fazem rude e apíessâdamente entrar nas carruagens 6 a 6, e nos intimam a partida iinmediata para o deserto. Ficámos surprehendidos e attonitos, e já dentro das carruagens nos disseram que a Com¬ panhia do Transito tinha tudo assim disposto, porque o cholera no dia precedente e n’aquel- le mesmo se tinha desenvolvido muito no Cai- ro, e se evitava não sómente o perigo aos pas¬ sageiros, como a necessidade de fazerem qua¬ rentena em Suez. Tive depois occasião de reconhecer quão acertada fora esta determinação; porque tal quarentena seria horrível, e talvez mortífera; pois o lazareto de Suez consistia em uma pés¬ sima barraca em um areal fronteiro á povoa¬ ção, exposta ao sol ardentíssimo d’Arabia, e sem uma unica sombra ou arvore para todos os lados onde se lance a vista.
[45] De Boulac só vi o pouco que fica referi¬ do : é denominado o porto do Cairo, donde dis¬ ta cousa de duas milhas, e serve de deposito ás mercadorias que vem do Delta. E’ povoa¬ ção importante, com perto de 10:000 almas, e onde no tempo de Mohamed-Ali havia im¬ portantes estabelecimentos de fabricas de pan- nos, estalleiros, uma eschola polytechnica, fundição, e uma magnifica imprensa para as lingoas orientaes. Bem pesar me ficou de não ter visitado o Cairo, a original e curiosa cidade de Sala- dino, que substituio a Babylonia dos Pharaós, e que tantos monumentos encerra dignos da attenção do viajante. Na occasiâo de ver realisado um dos so¬ nhos da minha vida, o de passar pela terra • mysteriosa do Egypto, nem pyramides nem o Cairo me foi dado avistar !
[46] CAPITULO SÉTIMO. O deserto, os hotels, e a miragem. O van ou carruagem em que eu havia entra¬ do no caes de Boulac foi dos primeiros a par- íir, e a todo o galope ganhou uma das sabi¬ das da povoação, fóra da qual esperámos se reunisse toda a caravana. Apeei-me neste pequeno intervallo, e me aproximei de um grupo de Árabes, que toca¬ vam e cantavam debaixo de uma grande ar¬ vore, e entrei em uma casa próxima, onde outros jogavam acocorados com busios e pe¬ quenos pesos de bronze, e alguns preparavam comida : a casa era medonha de negra e çu- ja, as paredes de terra, e o tecto de palma tecida : fóra tocava um arabe um instrumento de cana ligada com cordéis, donde tirava, fa¬ zendo feios tregeitos, sons ásperos e dissonan¬ tes ^ mas que pareciam deleitar os ouvintes. Juntas as nove carruagens, eis-nosásdez e meia da noite a correr a toda a brida para o deserto, alumiados, durante algum espaço, pelos fogaréos ou columnas de fogo semelhan¬ tes aos de que já fallei, sustidos por hedion¬ das figuras, que corriam desesperadamente ao lado das carruagens, parecendo fúrias com fa-
[47] dios infernaes que nos conduziam para algum holocausto a Plutão. Como outr’ora os Hebreus , por estes mesmos logares, fugiram á vingança e ao exer¬ cito de Pharaó, assim parecia que fugíamos agora a esse mysterioso e terrível flagello, o cholera, que se me representava como um co¬ lossal gigante, que nas asas dosVentos nos cor¬ ria apoz, flucluando nos ares seu negro e vas¬ to manto, que abrangia todo o horisonte do Occideníe I A novidade e estranhesa desta scena fez desvanecer um pouco a contrariedade que sof- friamos. Assim fomos correndo, passando rapida¬ mente por um caminho bordado de novas ar¬ vores, ao lado de um cemiterio, de um acam¬ pamento militar, eno fim de meia hora, ten¬ do andado cousa de cinco milhas, chegámos á primeira estação, onde se fizeram as mudas dos 36 cavallos, e assim constantemente se re¬ novaram em todas as quinze estações que ha entre Boulac e Suez, em distancia de quatro a cinco milhas, fazendo ao todo umas setenta milhas o caminho pelo deserto, que se per¬ corre em dezoito a vinte horas. Constam as estações de grandes edifícios murados, contendo cavallariças para os caval¬ los de posta, e na quarta, oitava, e duodéci¬ ma ha além disso bons hotéis. Pela uma hora da noite chegámos ao pri¬ meiro hotel, ou quarta estação, onde houve uma pequena demora, e nos deram alguns as¬ sados, chá e bolaxas; tudo porém com pouca regularidade, porque pouco tempo havia ti-
nha chegado o aviso da passagem extraordinᬠria dos passageiros, antes do tempo calculado : foi animada e confusa esta scena. Continuámos a correr ao grande galope : o ar tépido e sereno era tão puro, que experi¬ mentava certo prazer em respiral-o: as estrel- las eram mui scintiilantes. Passavamos de vez em quando rapidamen¬ te ao lado de longas filas de camellos, os quaes caminhando silenciosa e pausadamente na es¬ curidão da noite, pareciam renques de phan¬ tasmas. Ao chegarmos á sétima estação nascia o sol no deserto : scena nova e inteiramente ori¬ ginal para mim ; desolação completa, areaes e terras safaras, nem uma arvore em toda a amplidão do horisonte; apenas raras moitasi- nhas de entesada vegetação, rasteira e amare¬ lenta, e em grandes espaços nem isso mesmo se descobria: a areia geralmente não é muito solta, e misturada de seixos e pedras apresen¬ ta consistência que facilita o transito, e ainda que em algumas partes é assas movediça, nem oor isso aíFrouxam o galope sobre ella os va- entes cavallos arabes. Talvez algum dos leitores destas linhas esperasse aqui uma descripção poética do le¬ vantar do sol no deserto, e na verdade gran¬ dioso assumpto para isso haveria; porém n’es¬ ta madrugada cousa alguma me impressionou : o somno é muito contrario á poesia, e ás ins¬ pirações que de ordinário fazem nascer os gran¬ des espectaculos da naturesa. Justamente n’esta occasião sentia osirre- sistiveis effeitos de não ter dormido duas noi-
[49] tes; uma indomfnodamente' passada no canal Mahmoudi eh, e a outra peior ainda, moído e macerado pelos rudes salavancos da carruagem, que bem me faziam lembrar os que se experi¬ mentam em uma caleca na estrada de Coim- bra, só modificados pela rapidez dos vans : es¬ tes só tem duas rodas altas, correspondentes ao meio da caixa, onde vão apertadamente seis pessoas, em dois assentos parallelos ás ro¬ das a entrada é pela parte posterior, e são pu¬ xados a quatro cavallos, guiados por um co- xeiro collocado na frente do van. Estes vehiculos nada teem de commodos, e apesar de que já são excedentes para um deserto, que ainda ha poucos annos só era atra¬ vessado pelos passageiros para a índia em ca- mellos ou burros, esperam com tudo ainda mui¬ to melhoramento. Era um curioso espectaculo ver correr es¬ tes nove vans, sobre aquellas immensas e nuas planicies, ora a par uns dos outros, ora adian¬ tando-se ou atrazando-se, segundo a força dos cavallos ou a habilidade dos coxeiros, que á porfia queriam ganhar a dianteira, no meio dos gritos agudos que davam, e do estalar dos seus longos chicotes* • Pelas sete horas chegámos á oitava esta¬ ção, e segundo hotel ou central: era edifício que estavam augmentando, tinha casa de jan¬ tar bem mobilada, quartos para descanço, etc.: deram-nos um excedente e variado almoço. A’s nove horas partiram só seis carrua¬ gens : eu fiquei no hotel. Havia proximo um acampamento de 25 soldados de cavallaria e 2 officiaes: viam-se 4
algumas barracas de campanha, tanques de ferro para agoa, e observei o singular modo de terem os cava lios presos entre duas cordas, que correm parallelas, distantes, e em direc- ção rectilinea ou circular, adjuntas e seguras ao solo com estacas curtas; a uma das cordas está presa a mâo do cavallo por uma especie de laço também de corda, atado logo acima do casco, e do mesmo modo á outra lhe prendem um dos pés: come a palha no chão ou entre algumas pedras, e a ração em um sacco pre¬ so á cabeça. Estão os cavallos sempre sellados, e pa¬ rece impossível como aquelies nobres animaes resistem um dia inteiro immoveis, expostos a um sol ardentíssimo, e reflectido pelas areias do deserto, que me escaldavam os pés! Em algumas estacões lambem vi usarem o mesmo, e e certo que apesar deste áspero, senão cruel, tratamento os cavallos estavam vigorosos e gordos. Havia aqui um rebanho de cabras das quaes tomámos o leite : em frente deste ho¬ tel, para o norte e a hora e mieia de cami¬ nho, está sobre uma elevação o novo palacio branco, mandado construir por Abas-Paeháy actual vice-rei do Egypto, do qual ainda fat¬ iarei. Serviram-nos uma abundante refeição pe¬ lo meio dia, e partimos á uma hora nas tres carruagens que haviam ficado, depois de um agradavel e commodo descanço de seis horas. A pouca distancia vi a primeira arvore no deserto, especie de teixo, destacando-se solitário no meio dos mares de areia que o cir-
t»l] cundavam, e nos quaes os telegraphos que ha entre cada duas estações de longe semelham um navio á véla; sâo caiados e da forma de uma pyramide cónica truncada, e servem para avisar a chegada dos vapores, o numero dos passageiros com que se deve contar nos ho¬ téis, etc* Ao declinar do sol fui observando ophe- nomeno da miragem, parecendo-me vêr em distancia vastos lagos de asulada agoa, que suc- cessivamente desappareciam para serem sub¬ stituídos por outros t a illusao é perfeita, e concebem-se os tormentos de Tantalo que ex¬ perimentaram os soldados francezes da expe¬ dição de Napoleâo nos ateaes ardentes do Egy- pto *, foi entíio que a miragem se tornou cele¬ bre : extenuados de fadiga e morrendo de se¬ de, aquelles heroicos soldados viam com ale¬ gria as palmeiras, as casas, reflectidas no meio deiminensas superficies d’agoa, onde elles es¬ peravam em breve achar um termo aos seus soffrimentos • triste engano í á medida que el¬ les avançavam, os lagos lhes fugiam diante, e aridas planícies se desenrolavam sem cessar debaixo de seus pés: dizem que o proprio Monge, um dos maiores sábios que acompa¬ nhou a expedição, por algum tempo partici¬ pou da illusao commum ; porém bem depressa percebeo que era um efíeito de optica, do qual o mesmo sabio estabeleceo depois a theoria com¬ pleta. Encontrávamos frequentemente longas en¬ fiadas de camellos carregados, caravanas acam¬ padas tomando descanço, e em uma destas vi um camello com os pés atados que deixavam *
abandonado, o que me fez profunda impressão de compaixão por aquelle prestadio e paciente animal. Soube depois que os Árabes fazem isto quando o camello adoece ou fraquêa, deixan¬ do-lhe alguma comida para depois voltarem a buscal-o se melhora; de ordinário porém mor¬ re, manietado pela mão barbara do homem, que até ás ancias da morte lhe faz sentir a es¬ cravidão e a crueldade, em troco dos immen- sos serviços que lhe presta este singular qua¬ drúpede: d’aqui provém achar-se todo este caminho do deserto bordado de ossadas de ca- mellos, que servem como de balisas, e que me produziam dolorosa impressão. Fomos vendo mais cinco ou seis arvores, muito pequenas e enfesadas. Pelas quatro horas chegámos á duodéci¬ ma estação, terceiro hotel, e o mais bem mon¬ tado de todos : tem só pavimento baixo; mas com boas officinas, e excedente casa de jan¬ tar, onde nos serviram variada e optima co¬ mida, em fina loiça, cristaes etc.; neste, bem como nos outros dois hotéis, ha optima agoa do Nilo filtrada. O ar do deserto me produzia muito appe¬ tite, ao qual nestes desolados e solitários areaes satisfazia com as commodidades e regalos, que nem de longe podéra encontrai1 nas mais ame¬ nas e povoadas províncias do meu paiz : pun¬ gente comparação que sempre me occorria. Os hotéis e o sustento no deserto são for¬ necidos aos passageiros pela Companhia do Transito, e só se pagam os vinhos, bebidas espirituosas, e refrigerantes ; o que tudo se en-
contra das qualidades mais conhecidas, e a pre¬ ços lixos. Neste ultimo hotel nos vieram offerecer alguns pobres arabes pedras quebradas que vão buscar ás montanhas, e delias fazem col- lares e enfeites: achei-as semelhantes a outras que vi em Gibraltar tiradas da Ponta da Eu¬ ropa. e que alli facêam para ornatos. Partimos ás cinco horas, e na decima quar¬ ta estação fui ao acampamento de um peque¬ no troco de cavaliaria que estava proximo: um soldado vendo-me olhar curiosamente para oscavallos amarrados, como já referi, me cha¬ mou para me mostrar o seu , fazendo-me com- prehender por signaes que tinha ires annos, que era muito valente, e que elte o estimava muito. O arabe do deserto presa em primeiro logar as suas armas, em segundo o seu cavai- lo, e em terceiro a mulher. Em todos os acampamentos que vi ao lon¬ go deste caminho, para o guardarem das cor¬ rerias dos Beduínos ou Arabes nomadas, obser¬ vei grande miséria nos soldados, pouco menos nos officiaes, eem todos certo ar submisso pa¬ ra os Euròpeos, recebendo delles dinheiro ou tabaco de fumo com muito agradecimento, e pedindo o bocxis, ou espórtula, com que os passageiros frequentemente são importunados. . Havia aqui perto uma fortalesa de muros baixos e quadrada. Vi passar uma caravana de camellos com dois ca'vaileiros negros, trazendo comprida lan¬ ça, com uma grande borla preta no começo do ferro, e com escudo de pelle de cabra.
[54] Ao passarmos na ultima estação, me afas¬ tei um pouco para contemplar a sós o occaso do sol no deserto: experimentei impressões indefiniveis, e das quaes mal posso dar idéa; complexo de recolhimento, de solidão moral, de melancolia, de liberdade plena e desconhe¬ cida, e de nunca sentida expansão do espirito ! Parecia-me que a alma se dilatava va¬ gueando em novas regiões, e que solta da ter¬ ra abrangia a infinidade do espaço, como os olhos dominavam toda a amplidão do horisonte! Com quanto a extensão dos mares tenha sempre sublime e melancólica magestade no occaso do sol, nunca esta hora tanto me im¬ pressionou como no deserto. Sobre as agoas ha sempre o movimento e o sussurro das ondas, o silvar dos ventos, o cre¬ pitar da fervente espuma, o como trovejar lon¬ gínquo e surdo das rodas do vapor que nos con¬ duz; em quanto que no deserto parece que to¬ da a vida da terra se anniquilla, pelo silencio pavoroso e absoluto, e pela immohilidacle com¬ pleta de tudo que nos cerca! Astrevas surgiam do Oriente, e invadin¬ do os céos lançavam-me n’alma vagos senti¬ mentos de um temor mysterioso, que me pro¬ duziam a necessidade moral da oração, e de adorar prostrado o Supremo Author do Uni¬ verso !
[56] estreito o bazar, com muito poucos generos; lia unicamente uma loja onde se vendem pro- ductos da Europa, ainda que poucos e máos : as casas dos cônsules da Russia, de França, e de Hespanha, e a da agencia da Companhia do Transito sao as melhores, e sobre todas o hotel: em algumas janellas das habitações egy- pejas se viam uns enfeites e recortados de ma¬ deira, que pareciam os últimos vestígios, pró¬ ximos a extinguir-se, da antiga elegancia e gosto dos ornatos arabes. Vi dois avestruzes que excediam a altura regular de um homem quando tinham levan¬ tado o pescoço, o qual era quasi nú de pen- nas, sendo curtas as do costado e asas. Pela corpulência e forte construcçào destas aves é muito possível o que se refere, de costumarem os negros de algumas partes d’Africa andarem n’ellas montados, e dizem que excedem na carreira ao mais veloz cavallo: defendem-se aos couces dos animaes que as atacam, e sào fáceis de domesticar. Vi também um carneiro da raça de Pekim com o rabo em form a de al¬ mofada, e um boi e uma vacca em estado de completo crescimento do tamanho de cáes da Terra Nova. Observei a chegada de uma personagem do paiz em uma especie de liteira ou maca, conduzida por dois camellos, e as suas mulhe¬ res n’outros em uma especie de camas nos flancos destes animaes. E’ Suez dependencia do Egypto, e mu¬ rada, mas muito mal; e nenhuma arvore ou verdura lhe mitiga a aridez do sólo, e o calor suflbeante do clima : não tem ago a senão a de C-/
[57] alguma rara chuva, ou a que vão buscará fon¬ te deMoysés, a 5 ou 6 legoas na fronteira Ara¬ bia ; os seus arredores são o deserto, e do la¬ do da Arabia estereis e abrasadores areaes: lica situada no fundo do golfo do seu nome, e apesar de ser o interposto dos generos da Ara¬ bia e da índia, importados para oEgypto, e a massagem das caravanas e romeiros que vão a Mecca, parece extremamente pobre, e dizem mal chegará a sua população a 2:000 almas. Na antiguidade foi muito importante, e se de¬ nominou Arsinoe e depois Cleopatrida, e vi¬ nha a este porto desembocar o celebre canal iVecos, começado 600 annos antes de Jesus Christo, que communicava o braço oriental do Nilo com o Mar Vermelho, do qual ainda res¬ tam vestígios. Foi neste porto que o sultão do Egypto fez preparar a grande esquadra para expulsar os Portuguezes da India, a qual íòi destruida junto a Dio pelo illustre D. Francisco d'Al- meida, e desde então data a total decadência em que calho Suez, pelo novo caminho que se abrio ao commercio da India, do qual esta ci¬ dade era o primeiro interposto com a republi¬ ca de Veneza. A povoação vista do mar não apresenta bellesa alguma : tem umaespecie de estaleiro, onde se estavam juntando as peças de um va¬ por de ferro vindas de Inglaterra, para o ser¬ viço da Companhia, e no porto havia bastan¬ tes barças arabes, bogallas ou gorabs, com a proa muito aguda; especie de chavecos, que talvez pores te modelo fossem antigainente in¬ troduzidos no Mediterrâneo: diziam que os mo
[58] dernos arabes destas partes são péssimos e tí¬ midos marinheiros. Pelas oito da manhã começaram a chegar as bagagens dos passageiros, trazidas em re¬ cuas de camellos, que docilmente ajoelhavam para os descarregarem : os olhos meigos des¬ tes animaes, e os mugidos lastimosos que ás vezes soltam excitam a compaixão, e parecem accusar seus ásperos e brutaes senhores da des- piedade com que os tratam, elhes correspon¬ dem aos seus utilíssimos serviços. As bagagens são transportadas para bor¬ do pela Companhia, e é para admirar a regu¬ laridade c exact idão com que se executa este serviço *, a nenhum dos passageiros faltou cou¬ sa alguma, mesmo pequenos volumes e obje¬ ct os, que aliás nunca convém levar soltos pela facilidade de se perderem ou cahirem das car¬ gos, como se recommenda nas instrucções da Companhia, as quaes muito convém a todo o passageiro tomar no ponto donde parte, e que são dadas gratuitamente pelos agentes delia, bem como em Alexandria se podem pedir as da Companhia do Transito no seu escriptorio, não menos curiosas e uteis para o viajante. (*) (*) Por falta do simples exame deslns instrucções, e de exaclas informações das poucas pessoas que em Portugal tem feito esta viagem, incutem-se em Lis¬ boa taes duvidas e receios a respeito de bagagens, que julgamos poderemos ser uteis a alguns, que do nosso reino tenbam de se transportar á Índia pelo isthmo, esclarecendo-os com a verdade e a experiencia a tal res¬ peito. Para bordo dos vapores é permittidolevar aos pas¬ sageiros da primeira classe ties hundred weights, act.,
Deixando a terra do Egypto terá logar di¬ zer alguma cousa sobre este paiz, tào celebra¬ do desde a mais remota antiguidade, eseu actual estado. Apesar de todas as indagações dos sábios, ou quintal de 112 arrateis portuguezes; isto é, 336 anateis aproximadamente de peso de bagagem : ás crianças e criados urn e meio cwt, ou J68 arrateis. O peso que exceder a estes limites pagará na ra- sâo de carga, entre Lisboa e Alexandria uma libra sterlina por cwt., duas entre Suez e a India, etresen¬ tre Suez e os estreitos de Malaca e a China. Mas isto não se executa: em nenhuma parle observei tal fiscalisação, nem pesar bagagens, sendo certo que as levavam de mais a maior parte dos pas¬ sageiros. Isto tudo se entende no caminho pelo mar: quan¬ to ao de terra, isto é na passagem pelo Egypto, a cada passageiro da primeira classe é dado dois cwt., ou @24 arrateis de bagagem; e ás crianças e criados um cwt., ou 112 arrateis. Tudo que exceder a estes li¬ mit e» paga na rasão de 14 shelins por cwt., ou 112 arrateis, o que se exige em Suez na vinda da Europa e no Cairo na ida. Nesta parte se observa muito rigor, sendo as ba¬ gagens pesadas com todo o escrupulo em Boulac, ou em Suez. Em Lisboa julgava-se inconveniente, e muito ar¬ riscado, trazer cartas ou papeis fechados comsigo nes¬ ta viagem : éoutro exaggerado receio; a bagagem em parle nenhuma é revistada, ao menos até á China, nem aos passageiros se exigio n’esta viagem declara¬ ção ou apresentação a respeito de cartas. Existe porém o direito de revista das bagagensno Egypto, por suspeita de conducção de objectqs para negocio, ou de os sonegar a um moderado imposto de transito a que estão subjeitos; o que tudo melhor se verá das instrucções de que acima falíamos.
[60] a historia antiga do Egypto está envolvida em completo mysterio. Sabe-se que foi longo tem¬ po governado theocraticamente por um colle- gio ou casta sacerdotal, que cultivava as scien- eias e artes, as quaes chegaram a ter grande Quando não ha grande concurrence, quasi lo¬ dos os passageiro., tem nos camarotes dos vapores, além do seu sacco de viagem, urría ou mais mallaa, e ás ve¬ zes toda a sua bagagem, apesar da prohibição que se lê nas instructors; e o mais conveniente é logo ao en¬ trar no vapor, e tendo sido designado o camarote ao passageiro, fazer este para alli conduzir o que lhe con¬ venha, e deixar ir o resto para o porão; pois o ac- cosso á bagagem que vai para este logar não é tão fᬠcil e frequente como representam as instrucções. A Companhia do Transito fornece, como já dis¬ semos, as carruagens no desembarque de Alexandria ale ao hot (d, e deste ao embarque no canal, e bem assim de Boiilac para o Cairo, e vice-versa; mas as despesas, sempre carregadas, nos hotéis de Alexan¬ dria, do Cairo, e de Suez, sãó por conta dos passageiros. Os preços da passagem de Lisboa a IJong-kong, proximo de Macáo, é de ISO libras ou soberanos nos cinco mezes de Abril a Agosto, e de 140 nos restan¬ tes sete mezes : os criados e as crianças de § a 5 an- nos pagam nos primeiros mezes indicados 43 libras, e 53 nos segundos. Nestes preços se inclue a passa¬ gem pelo Egypto, e são os últimos estabelecidos pe¬ las recentes instrucçôes da Companhia datadas de @6 de Julho de 185@, e ás quaes se referem todas as in¬ dicações que vão transcriptas. As passagens foram re¬ duzidas a menos 10 por cento do que eram na occa- siáo da minha ida. Podem-se calcular de 18 a fO libras as despesas regulares dos hotéis, passeios, visitas a monumentos, etc. : de modo que com pouco mais de 600 ou 700^000 réis, segundo o mez de partida, se pode hoje fazer esta agradavel e interessante viagem até á China,
[61] desenvolvimento, e a produzirem edifícios e monumentos maravilhosos, cujas ruínas cobrem o solo do Egypto, e ainda hoje deixam absor¬ tos os viajantes que as visitam. Este governo foi substituído pelo de chefes militares ou reis, o qual durou até á invasão dos Persas e á con¬ quista por Cyro» Com a destruição do império Persa o Egypto passou ao domínio de Ale¬ xandre Magno, e depois foi governado pelos Ptolomeus, descendentes de um dos generaes d’aquelle conquistador: Cleopatra foi a rainha ultima desta dynastia, passando então o Egy¬ pto a província romana, até ser conquistado pelos califas de Bagdad, para cahir depois nas mãos dos Turcos. O brilhante dominio do sul¬ tão Kebir, o senhor do fogo dos Árabes, ou o heroe Napoleão dos Francezes, .apenas du¬ rou tres annos no principio deste século, e o Egypto recahio no feroz governo dos Tur¬ cos : finalmente em tempos recentes é sabi¬ do o irnpulso que o esclarecido pachá Moham- med-Ali deu á civilisação e á industria do Egypto, e o futuro esperançoso que lhe pre¬ parava: seu filho Ibrahim, bem conhecido por suas victorias contra os Turcos, e que vi¬ sitou Lisboa em 1846, era capaz de continuar a gloriosa tarefa do seu pai, na qual muito o ajudava; mas fallccido antes de lhe succeder, pela morte de Mohammed-Ali, que estava qua¬ si alienado, cahio o governo do Egypto nas mãos de seu sobrinho Abas-Pachá, o qual alli descreviam como um déspota désmoralisado, pouco instruído, e feroz. O exercito de Ibrahim, que chegou a ser de 120:000 homens (quasi 10 por cento da po-
pulação masculina do Egypto), diziam-no ho¬ je reduzido a cousa de 6:000 infantes desorga- nisados, e a pouco inais de í :000 cavallos : destes a maior parte foram tirados do exercito para o serviço particular de Abas, e de seus beis, e para as postas do deserto. Já não existe a magnifica esquadra egy-» 3cia; seus melhores vasos foram-para Cons- antinopla: em Alexandria, como já dissemos, havia uma só náo armada, e seis desmantella- das no arsenal, que se vão desmanchando, e com a madeira delias se estava pagando aos of- ficiaes civis e militares. O commercio e a agricultura definham, as instituições litterarias e scientificas de Mo- hammed-Ali extinguiram-se completamente, e de muitas e bem montadas que eram só hoje restam um eschola de lingoas orientaes, e ou¬ tra bem deficiente de medicina. Os canaes, estradas, e a grande e utilíssima obra da bar¬ ra do Nilo estão quasi em abandono. No entanto Abas-Pachá só trata de seus nefandos praseres, e extravagantes caprichos : tem feito construir vários palacios, guarnecen¬ do-os de custosas mobilias, que da Europa tem mandado vir no valor de alguns milhões de francos; um defies denominado palacio bran¬ co, da cor das suas paredes, é no meio do de¬ serto defronte da estação central ou oitava, so¬ bre aridas e avermelhadas collinas, o qual por vezes tem feito destruir em parte e de novo edificar : diziam que hia alli fazer jardins^ que haviam ser regados com agoa do Nilo, con¬ duzida em camellos de 40 milhas de distancia. Nestas obras e nas suas extravaganeias
[63] obriga a trabalhar o miserável povo e os seus camel los, dando-lhes apenas alguma pouca e péssima comida; mas bastonadas em abun- dancia. Só um povo aviltado, uma raça escrava e estúpida, póde soffrer tal governo e gover¬ nante. Depois da extincção dos nlamelucos só duas raças sedentárias existem no paiz; a dos coplas ou indígenas, que conservam o culto chrisíão alterado; e a dos arabes degenerados ou/e/fós, antigos invasores e dominadores: ambas habitam nas margens do Nilo. Os Turcos são os que occupam todos os empregos, e os altos cargos de administração. Toda a população do Egypto avalia-se não che¬ gar a 4 milhões. Diziam na occasião da minha passagem pelo Egypto, que um mineralogista alemão acabava de descobrir nas immediaçÕes das ruí¬ nas de Thebas, uma rica mina de bom car¬ vão de pedra, o que seria de uma vantagem incalculável para o Egypto, onde tanto falta o combustível, usando-se geralmente do da bos¬ ta dos animaes. Para a navegação a vapor na índia tam¬ bém seria importantíssima tal descoberta, con¬ seguindo-se a facil conducção do carvão mi¬ neral para o litoral do Mar Vermelho; pois actualmente os vapores que navegam em todo o Oriente são fornecidos pelo combustível da Europa, que, pelo Cabo da Boa-Esperança, é conduzido para os depósitos de Suez, Adem, Çeylão, etc. Por informações colhidas em Suez, soube
que um bom cavaJlo arabe de pura raça se ti¬ ra por í:000 thalarins, que regulam por 1:000 patacas; porém os mais raros, os que igua¬ lam as fórmas e a agilidade da gazella do de¬ serto, chegam a custar 5:000 : a par disto se compra uma mulher circassiana de bellesa re¬ gular por 500 patacas, euma que se diga for¬ mosa póde-se já obter por 1:500 !
[65J CAPITULO MO. €í May Vermelho e idem. Pela uma liora da larde de 7 d’A gosto fui de Suez para bordo do vapor Haddington, que estava ancorado bastante ao longe; pois nes¬ tas paragens as marés em certas épocas es¬ praiam extraordi nariamente. Atravez da luz do sol amarellada, mono- tona, e desoladora perspectiva se de visava de bordo, onde havia um calor de suffocar : abor¬ recida foi a demora até ao dia seguinte pelas tres da tarde, que é quando começámos a des¬ cer pelo golfo de Suez, á vista dos dois anti¬ gos Continentes d’Africaed’Asia: montanhas aridas e medianas de um e outro lado, e as d’Arabia nos interceptavam o raio visual até aos venerandos cumes Sinai e Horeb, que aliás veríamos mais para o interior, como dizem são vistos do golfo de Akabah, que corre qua¬ si parallelo ao de Suez, e entre os quaes se prolonga a cadêa Dejebel-Mousah, de que faz parte o monte Sinai. Até nesta sagrada montanha um portu- guez acha cavalheirosas recordações da histo- na patria! 5
D. Estevam da Gama, o iilustre filho do grande D. Vasco da Gama, sendo governador da India, subio com uma grossa armada pelo Mar Vermelho, para destruirás galés dos Tur¬ cos abrigadas em Suez, e ha qual hia o íncli¬ to D. João de Castro, que escreveo então o seu Roteiro do Mar Roxo, que apenas ha vin¬ te annos foi dado á estampa, e que tão apre¬ ciado é por nacionaes e estrangeiros. D. Es¬ tevam visitou então o monte Sinai, e alli ar¬ mou vários cavalheiros em í 5 if, entre outros a D. Alvaro de Castro e a D. Luiz d’Attai- de, depois vice-rei da índia, e refere-se que este preferio a honra de ser assim armado ca¬ valheiro, áque lhe offereeera o imperador Car¬ los V de lhe conferir esta qualidade pelas suas próprias mãos. Hi amos cortando o mar que os Israelitas passaram a pé enxuto, o que segundo alguns authores teve logar a 15 legoas de Suez. Este famoso acontecimento e outros da Historia Sa¬ grada, que são recordados por estes logares memoráveis, não podem deixar de occupar a imaginação de quem navega nestas paragens, embora ellas nada offereçam de notável e gran¬ dioso . No dia 9 continuámos a ver terras ele¬ vadas, e deixámos á esquerda uma ilha este- ril e deserta, á qual os Inglez.es chamavam Red-one. A 10 o mar fui-se alargando; saldamos do golfo de Suez, e mal devisavamos os dois Continentes, que pela tarde desappareceram : passámos na altura de Cosseir, e de Berenice já na costa da Nubia, porto muito commer-
[67] ciai no tempo dos Romanos, eque fbi arsenal dos antigos Pharaós: pouco adiante nos ficou á esquerda Jédda na Arabia, hoje cidade im¬ portante, de muito commercio de perfumes, tecidos de làdecamello, cravo e café de lVíoka, e recebe de Suez muitas fazendas inglezas: vimos outra ilha deserta, e varias fomos obser¬ vando nos dias seguintes, e ao fim da tarde de 13 descobrimos um grupo delias, ao qual cha¬ mavam Juláo, com algumas arvores e matto rasteiro; a escuridão das montanhas, e a dos rochedos isolados que surgiam das agoas, pro¬ duziam a esta hora um bello effeito nesta sce- na marítima. Navega vamos em completa bonança ; mas debaixo de um calor horrível: ao ar livre e com os mais ligeiros vestidos conservava continua e abundante transpiração. O Haddington era um bello barco de fer¬ ro de 1:800 toneladas, da força de 450 ca- vallos, e com a tolda corrida em 90 passos de comprimento e 16 de largura; superior ao In¬ dus em luxo, commodidades, e regalo de co¬ midas ; tinha quatro casas de banhos ; a maior parte da tripulação, composta de uns 150 ho¬ mens, eram naturaes do Indostão, gente fus¬ ca, humilde e fraca, com um dialecto parti¬ cular a que chamam lingoa de Bengala, har¬ moniosa e efteminada: são dirigidos na ma¬ nobra pelo seu saranga e tandei, que usam de grossos cordões com apit os de prata : os ven¬ cimentos dos officiaes inglezes são avultadissi- mos; parece que o capitão do vapor apurava 1:000 libras annuaes; o primeiro dos quatro engenheiros 300 libras, e assim dos mais em-
[08] pregados : diziam que a despesa diaria deste barco andava por 250 libras : com o tempo sereno deitava sempre 10a 11 milhas por hora. C-onfusamenle se viram negrejando no ho- risonte as serranias de Mecca, a Cidade San¬ ta dos mahometanos, e onde elles vâo vene¬ rar a Kaaba ou casa de Deos: para alli vol¬ tam o rosto mais de cem milhões de indiví¬ duos em todas as partes do mundo, quando dirigem suas orações ao Deos de Mafoma, ao Deos desse homem extraordinário, que sou¬ be crear com a palavra e o alfange uma reli¬ gião extravagante, mas perfeitamente appro- priada á indole e á imaginação do povo ara- be, que decora com o pomposo titulo de Om el Kara (a mài das cidades) esta povoação, aliás arida, feia, e hoje miserável, segundo referem modernos viajantes. Mais adiante passámos na altura de Moka, cidade de bastante commercio, e que exporta o famoso café do seu nome. Seguindo julgámos devisar mal distincta- mente no horisônte as costas da Abyssinia, paiz que esíá hoje attrahindo muito a atfençâo dos geographos e dos homens scientificos, de¬ pois do longo esquecimento em que jazeo; por quanto desde as relações que os Portugue- zes alli tiveram no século 16.°, nenhumas com- municações houve mais da Abyssinia com pc- vos civiíisados, consequência talvez da sua po¬ sição isolada neste recanto d’Africa. Moder¬ namente missionários e viajantes francezestem penetrado nesta região, que descrevem como uma das mais bellas e ricas do mundo, confir-
[69] mando completamehte as narrações dos nossos primeiros portuguezes que a viram. Julgo dignas de memorar algumas das nos¬ sas recordações históricas ligadas com este paiz. No tempo de D. João II se estabeleceram as primeiras relações com a Abyssinia por meio do celebre viajante Pero da Covilhã, e depois elrei D. Manoel em 1515 alli enviou dois em¬ baixadores, sendo um delles seuproprio cape¬ lão Francisco Alvares, o qual voltou a Lisboa com Zagasabo, bispo abexim ou ethiõpico, e depois o acompanhou a Roma. O ehristianis- mo existia na Abyssinia desde o 4.° século, e o dito bispo fez n’aquelle tempo muito ruido na Europa, e desvaneceo em parte as fabulas que corriam a respeito do Preste João das ín¬ dias, cujo nome os antigos Portuguezes deram ao chefe ou rei da Abyssinia. No tempo do governador da India D. Es- tevam da Gama foi uma expedição de 400 ou 500 portuguezes, com mandados por seu filho D. Christovam da Gama, em soccorro dos Abexins christãos contra os exercitos dos mu- sulmanos visinhos que lhes faziam a guerra, aos quaes derrotaram completamente. Sobre¬ vieram depois vários successos, que termina¬ ram com a derrota e morte do mesmo D. Christovam da Gama, e quasi acabaram des¬ de então todas as relações com a Abyssinia. Refere D. João de Castro no seu Rotei¬ ro que um antigo rei d’Abyssinia, a quem fa¬ zia guerra um soldão do Egypto, tentou des¬ viar a corrente do Nilo para o Mar Vermelho, para esterilisar aquelle paiz, o que obrigou im- mediatamente aquelle soldão a fazer as pazes.
[70] Este atrevido project o foi depois renovado, co¬ mo é sabido, pelo grande Affonâod’Albuquer¬ que. Ao romper do dia 4 vogava mos no estrei¬ to de Bab-tl-Mandeb, que significa Porta da Desgraça ou Estreito dos Naufrágios, e é por onde o Mar Vermelho communica com o gol¬ fo d’Adem no Oceano indico: era semeado de pequenas ilhas e rochedos, e viamos terra d’Arabia. A largura deste estreito andará por 6 legoas. Em todo o Mar Vermelho- nunca obser¬ vei diflerença da cor das agoas á dos outros mares: diziam porém osofliciaes do vapor que algumas vezes, e em certas paragens, apre¬ sentam a cor avermelhada, o que se attribue aos muitos coraes que crescem no fundo. E’ muito curiosa e especificada a expli¬ cação que dá D, João de Castro, no seu cita¬ do Roteiro, sobre as cores que apresenta este mar; diz tambein que não ha rasão para que se lhe chame vermelho, e refere que os Ára¬ bes n’aquelle tempo só o conheciam pelo no¬ me de Mar de Mecca, espantando-se muito de que os europeos lhe chamassem Mar Ver¬ melho ou Roxo. Também falia dos grandes bancos de coraes encarnados e brancos, dos quaes se diz modornamente que vão cada vez alteando mais, c com as madre-perolas for¬ mam e tendem a formar recifes e bancos de considerável extensão : isto junto ás muitas ilhótas já existentes e á frequência de ventos violentos, torna bastante diíFicil e perigosa a navegação deste mar, que tem urnas 400 le¬ goas de comprido, 60 na sua maior largura,
e foi primeiro devassado pelos europeos nas lu¬ sas quilhas guiadas pelos Albuquerque», Cas¬ tros , e Gamas! A temperatura refrescou alguma cousa, e pelas quatro da tarde lançámos ferro na vas¬ ta e segura bahia d’Adem. Era triste o aspecto do paiz, que só apre¬ senta quebrados e negros rochedos, sem vege¬ tação alguma, parecendo requeimada a pouca terra que contém. Apenas fundeados uma multidão de bar¬ cos arabes cercou o vapor: os indigenas são quasi negros, com os dentes alvíssimos 5 an¬ davam semi-nús, e alguns usavam estranhas cabelleiras arruivadas, o que fazem artificial- mente empastando em cal seus cabellos lon¬ gos e crespos-, eram óptimos nadadores, e mergulhavam com grande agilidade para irem ao fundo buscar pequenas moedas de meio shelin, que de bordo lhe deitavam, e nenhu¬ ma lhes escapava: vinham em canoas mui es¬ treitas e frágeis. Logo depois de desembarcar montei a ca- vallo, e fui á cidade a uma pequena legoa de distancia : admirei os bellos caminhos, as vas¬ tas obras de fortificação feitas pelos Inglezes, e a estrada profundamente aberta entre altos pe¬ nhascos, que se vê logoásahida da porta, que 6 bem defendida: passada esta observa-se uma ponte que reune 0 alto d’aquelles penhas¬ cos, e que serve de çommunicação entre as muralhas da cidade. No fim da estrada se des¬ cobre uma pittoresca vista da cidade arabe de Adem, que é situada em uma baçia rodeada de altos e tostados rochedos, e onde reina a
mesma esterilidade que na bahia : diziam que a mais quatro ou cinco milhas para o interior ha vegetação, cultura, e até fertilidade ; falta porém de todo a segurança para os Europeos, e havia poucos dias tinham assassinado os na- turaes a dois guarda-marinhas, e ires mari¬ nheiros inglezes, que se aventuraram a ir á ca¬ ça : é d’alli que vem todos os fructos e comes- tiveis. Era grande o basar da cidade, muito concorrido, e havia varias lojas bem forneci¬ das de generos da Europa e Asia: via-se um templo protestante, e visitei uma simples e aceiada capella catholica, servida por um pa¬ dre da Saboia, que era o capellao doscatholi- cos da guarnição, o qual em vão tem procu¬ rado converter algum indígena : achava-se com elle um missionário da Abyssinia, que dava curiosas noticias deste paiz. As casas de Adem são quasi todas de can- na e bambu, e cobertas com ólcis ou tecidos da folha da palmeira: a agoa é péssima, e al¬ guma melhor vem do interior, ou mesmo de Suez e Bombaim, e delia só bebem as autho- ridades inglezas, os officiaes até capitão, e os padres, pagando todos para isso uma presta¬ ção mensal. Ha bandos numerosos de cães que fazem um motim horrível. Este logar é muito insalubre ; porém ain¬ da assim melhor que todos os outros das cos¬ tas do Mar Vermelho, que são fataes para a raça europea. Pelas nove da noite por um magnifico luar, e ao ardente bafo que exhalava o sólo e os rochedos, regressei para a povoação fron-
[73] teira ao ancoradouro dos vapores, e que é pro¬ priamente o moderno estabelecimento irtglez, o qual já tem bastantes casas, quartéis, um bello hotel, e uma bem fornecida loja contí¬ gua, onde vi o primeiro parse nesta viagem, com seu singular barrete ou carapuça. Quasi todos os passageiros e passageiras tinham vindo para terra, e ceámos voluptuo¬ samente no hotel em um salão aberto, na pa¬ vimento do solo, bem illuminado com grandes lampiões de vidro suspensos interior e exterior- mente, e com a agradavel e refrigerante agi¬ tação do ar, promovida por grandes ventaro¬ las, fixas na extremidade superior de uma al¬ ia vara firme no chão, e que mollemente mo¬ viam, nos quatro ângulos da mesa, outros tan¬ tos pequenos arabes graciosamente vestidos ao seu uso, ao mesmo tempo que os criados ara¬ bes mui bem trajados á oriental serviam atten- tamente os hospedes. Estes variados accidentes, com todo o cu¬ nho da novidade que para mim tinham, o ar tépido e perfumado, os brandos fulgores da lua alumiando fora os grupos negros dos Arabes destacando-se na branquidào da areia, mais ao longe o grande e escuro vullo do vapor, e por ultimo o famoso Oceano da índia, que¬ brando magestosa e lentamente suas largas on¬ das nas praias do poético paiz do Yemen, tão exaltadamente íanatico e enthusiasta; taes ac¬ cidentes, digo, me tornavam esta scena como fantastica, só propria do Oriente, e do paiz dos contos maravilhosos das Mil e uma noites. A ceia foi muito animada, abundante, variada, e no gosto europeo inglez: o peixe
era saborosíssimo, e eu delle comi exclusiva- mente, frito á moela da minha patria, o que, seja dito em segredo, nada tinha de fantasticp e oriental. Dormi no hotel em uma espaçosa casa, ou especie de varanda aberta ao ar livre, só rodeada na frente de grades de canna. De madrugada corri a povoação, e fui ao cemiterio, onde em vâo procurei o tumulo do governador de Macáo, José Gregorio Pegado, que falleceo neste logar no seu regresso para a Europa, e ao qual me diziam se havia alli erigido um monumento. w * Pelas sete horas regressei para bordo, on¬ de já haviam recolhido todos os passageiros, e por isso fui sósinho em um bote com quatro remadores árabes, que bem pareciam selva¬ gens de feia catadura, aos quaes os alvos e agu¬ çados dentes semelhavam a íeras : não ó po¬ rém prudente confiar delles ; são mui ladinos e ladrões, e cumpre haver toda a vigilância nas algibeiras, e não consentir a sua aproxi¬ mação e importunações pedindo o boexis, tan¬ to em uso aqui como no Egypio : roubaram a bolça recheada com algumas libras a um pas¬ sageiro ingiez. Pelas dez horas deixámos estas ardentes paragens, onde só o génio ingiez, estimulado pelo interesse e necessidade de adquirir uma estação á entrada do Mar Vermelho, poderia emprehender com bastantes sacrifícios de vi¬ das e dinheiro tão custosas obras de fortifica¬ ção e viaturas : alli ha uma forte guarnição de tropa europea e da índia, e já ostentam seu luxo os commercial!íes e empregados, rodan-
do em lindos carrinhos e carruagens, e destas vi aqui uma pela primeira vez que o coleiro guiava sentado na trazeira, passando as redeas por cima do tejadilho. Este porto d’Adem desde antigos tempos tem sido importante pela sua situaçãogeogra- phica e commercial, e no principio do século 16.° era cidade mui formosa e rica. O nosso intrépido viajante Pero da Covilhã a visitou por tres vezes, antes de dobrado o Cabo da Boa-Espe rança. El-rei D.