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  • DE LISBOA A' É / 4 ¥ % OA CHINA A LISBOA. POR NA TNPOGRAPHIA DE G. M* MARTINS. Rua dos Cape Hist as n.° 62. 1852.
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  • ■JL nda que é muito pouco coiiimum entre nós Portuguezes o gosto de viajar, eu desde a mi¬ nha mocidade nutri o desejo de ver o mundo, de sahir da minha patria, e do estreito circu¬ lo da cidade e do paiz em que nasci. 'Farde porém poude realisar o pensamento constante da minha vida. Contando 40 annos parti de Lisboa em Julho de 1850, na carreira para a China dos vapores inglezes da Companhia Oriental e Peninsular, e dentro em 50 dias cheguei a Macao, tendo visitado Cadiz e Gi¬ braltar; atravessado o Mediterrâneo; visto Malta e Alexandria; subido o Nilo; atraves¬ sado o deserto do Egypío ; embarcado em Suez, e descido pelo Mar-Vermelho; tocado em Adem na Arabia, e em Ceylão ; navegado pe¬ lo estreito de Malaca ; visto Pinão e Singapu¬ ra; e finalmente aportado a Hong-kong, e retrocedido para Macao. Nesta cidade me de¬ morei 16 mezes, durante os quaes visitei seus arredores, a cidade chineza de Cantão, e vᬠrios portos da costa da China até Shangai, na distancia d’umas 300 legoas para o norte de Macao. D’aqui regressei para o Reino na cor¬ veta D. João I, no fim do anno de 1851, e voltei por Singapura, e estreito de Malaca; desembarquei na cidade deste nome, tão ce¬ lebre na historia da Asia portugueza; revi as costas da Taprobana; naveguei ao longo das
  • do Malabar ; visitei Goa; segui para Moçam¬ bique ; dobrei o Cabo da Boa-Esperança; apor¬ tei a Benguella, e a Loanda no reino d’An- golla; vi no archipelago dos Açores o Faval e S. Miguel, e particularmente nesta ultima ilha examinei varias das muitas cousas curio¬ sas que contém, e finalmente em 18 d’Agos- to de 1852 terminei esta longa e variada via¬ gem, revendo a minha bella patria e cidade natal ao cabo de dois annos. Resolvo-me a publicar os Apontamentos ' desta Viagem, por me parecer que serei n’ is¬ so util a alguns dos meus concidadãos, que desejarem saber das circumstancias delia, eter algum conhecimento do estado actual dos lo- gares que percorri: teem por titulo zr Apoai- íamirnto§ «I’tama Viagem de ILfsfooa á Chin», e da CSsina a Usíj»». Deter-me-hei particularmente sobre as nossas Possessões, ainda tão importantes, e sobre as quaes idéas bem inexactas, e mes¬ mo absurdas, correm entre muita gente. Fat¬ iarei das cousas, e das pessoas, que são tudo no Ultramar, onde em grande parte as insti¬ tuições e leis pouco ou nenhum vigor tem, on¬ de quasi tudo é arbítrio, onde o espirito da maldade e da rapina muitas vezes campêa im¬ pune, dependendo geralmente do bomoumáo caracter das authoridades, e pessoas influen¬ tes, o bem estar ou a desgraça dos povos. Di¬ rei a verdade tal qual a entendo, e por ella arrostarei odios e malquerenças. Lisboa 24 d’Agosto de 1852.
  • CAPITULO PRIMEIRO. Saliida de Usboa. Era a 22 de Julho de 1850 : ao meio dia lar¬ gava do ancoradouro o vapor Iberia, eásduas horas passava entre as torres de S. Julião e de S. Lourenço, ou do Bugio. Magnifica perspecliva : á esquerda as re¬ cortadas serras de Cintra se desenhavam em escuro perfil sobre o puro asul do Ceo ^ á di¬ reita uma longa facha de terra, de altura uni¬ forme, terminava no Cabo do Espichei; no centro liiam fugindo e aproximando-se uma da outra as duas torres, como dois gigantes guar¬ dando das fúrias do Oceano a formosa Lis¬ boa. Por successivas gradações todos estes ac- cidentes de perspectiva se hiam acanhando e confundindo, até se transformarem em uma
  • orla monotona e unida no horisonte cada vez mais distante. As agoas tão socegadas ou mais que as do Tejo, hiam mudando de cor para um asul muito escuro, que mais sombria e magestosa tornava a scena do occaso do soi, que se apro¬ ximava. A infinita amplidão das ondas dominava todo o circulo do horisonte, excepto um pe¬ queno arco ao nascente : era a terra da patria que se hia esvaecendo ! Que indefiníveis impressões de saudade, de melancolia, e de incertesa senti eu ao aí- frontar pela primeira vez as solidões dos ma¬ res ! Quanto a idéa da patria é real e positiva só em taes occasiões se experimenta : todas as nossas a (feições adquirem maior intensidade, eaquelle mesmo que julgou gasto ou embota¬ do o sentimento se maravilha da nova força que elle adquire: a amisade, o amor, as re¬ lações da sociedade, a propria habitação e si- tios preferidos, tudo se nos apresenta mais bello, e com encantos que até alli parecia não havermos conhecido. O sol deixou de nos alumiar, e a lua em todo o explendor e plenitude de luz, derra¬ mava sobre as vagas a suave claridade dos seus raios; a brisa da noite soprava brandamente, e o vapor hia ovante cortando as ondas, com a elegancia e Jigeiresa do cisne, e como mergu¬ lhando as asas em cachões de revolta espuma, ao som continuo que semelhava o de trovões não interrojnpidos, ou o estrondo das vagas quebrando-se em aspera e affastada costa.
  • Era na verdade melancólica e voluptuosa esta scena! Continuámos de noite ao longo da costa de Portugal, que mal se divisava nohorisonte. A’s quatro horas da manhã de 23 via-se a costa sul do Algarve, e os picos da serra de Monchique, elevando-se detrás de uma faxa de montanhas mais baixas, reflectiam os pri¬ meiros assomos da luz do dia. Foi magestosa esta scena da madrugada e nascimento do sol, que pela vez primeira disfructei no Oceano. A’s dez horas caminhavamos ao longo da costa de Hespanha. Eram já montanhas estran¬ geiras as que avistava : as da patria hiam des- apparecendo de todo, e de longe pareciam di¬ zer-me o derradeiro adeus, representando-mas a imaginação como um amigo, ou ente que¬ rido, que me seguia e me acenava á beira do horisonte. Então o meu isolamento tornou-se comple¬ to : nada do que via e iria ver me recordava o passado da minha vida, com os seus pensa¬ mentos e affectos; a curiosidade e a varieda¬ de que em mim tem tanto império pareciam haver-se amortecido, e deixavam de ser um estimulo para as minhas resoluções. Senti então estranha commoção, e domi¬ naram-me com dobrada força os sentimentos experimentados .ao perder de vista o Tejo. Se neste momento me fora dado vacilar e escolher, seria preciso um esforço de rasão e de coherencia para prevalecer sobre a sau¬ dade e desejo de voltar ao meu paiz.
  • CAPITULO SEGUNDO. Cadiz e Gibraltar. A’s duas horas avistámos Cadiz: linda era a perspectiva, naqualsobre-saliia um alto farol. A’s tres horas fundeámos na bahia, e lo¬ go desembarquei: vi as principaes ruas, pra¬ ças, e igrejas da cidade : estas ultimas são de um extremo aceio, ornadas interiormente com vasos de flores, e os altares e capellas com de¬ licados enfeites : a cathedral é grandiosa, e no interior de magnifico effeito; começou a edi¬ ficar-se ha quarenta annos, e ainda" lhe falta uma torre para a completar. O aspecto das ruas reset)fe-se a meu ver da longa residência dos Árabes; são muito aceiadas, com passeios dos lados, porém es¬ treitas e mal calçadas; as casas cobertas de terrados teem bonita apparencia, grandes ja- nellas rasgadas, e pára-sóes de listas de dife¬ rentes cores. Cadiz é nomeada pela bellesa e garbo das suas mulheres, e algumas que tive occasião de ver pelas igrejas, de certo não des¬ mentiam aquella reputação. A população, que dizem subir a 80:000 almas, parecia muito animada, e vários vapo¬ res cruzavam a bahia.
  • [9] Esta cidade é uma praça de guerra, forte pela naturesa e pela arte, e reputada uma das mais bellas povoações da Andaluzia, muito commerciante, e o ponto principal de commu- nicação entre a Hespanha e as suas Colonias. O porto é excellente, e bem defendida: na pequena ilha de Carraça existe um antigo e optima arsenal, quasi abandonado ha vários annos >, mas agora restabelecido, e em grande actividade, tendo-se até já nelle construído va¬ pores de guerra. As ilhas do TrocaderoedeLeao que for¬ mam a bahia são bem conhecidas na historia moderna, e a celebridade de Cadiz, tão ligada ao Hercules da fabula, remonta á mais alta antiguidade. Aqui desemboca o rio Guadale- te, que corre entre os ferieis terrenos de Xe¬ rez, tão conhecidos hoje pelo excellente vinho que produzem : foi nas suas margens que se deu a desastrosa batalha do C/iryssus, que en¬ tregou a Hespanha ao jugo dos Árabes, e que tão poeticamente se acha descripta n’um ro¬ mance moderno portuguez, A’s cinco horas regressei para bordo, e d’ahi a meia hora partia o vapor: vimos fora d’agoa os temiveis rochedos los cochinos e las puercas, que com outros e restingas encober¬ tas tornam a praia inaccessivel pelo lado do sul: o mar agitou-se um pouco; mas abran¬ dou aó esconder-se o sol, cujo occaso achei explendido contemplado da proa do Iberia. O sol encobria-se no horisonte quando a a lua surgia do lado opposto, e pareciam di¬ zer-se muíuos adeus : deliciosa noite ! Vio-se confusamente o cabo Trafalgar,
  • [10] que fazia lembrar a tragica e gloriosa morte de Nelson. Olhando para aquellas plagas, mal dis- li netas no horisonte á claridade da lua, mais de uma vez me lembrou o presbytero Eurico, vagando solitário e a deshoras pelas ribas do mar, entregue a seus pensamentos severos e sublimes! Predisseram os officiaes que ás duas ho¬ ras da madrugada estaríamos em Gibraltar, e com efleito ás duas e sete minutos alli fun¬ deávamos. Ao romper do dia observei datoldaabel- ía vista da bahia de Gibraltar; seu morro, que em nada denuncia exteriormente as ma¬ ravilhas d’arte que encerra, as montanhas de Ronda, Algeciras, e ao sul o começo do Con¬ tinente africano, que eu via pela primeira vez ; vasta região tão pouco explorada, e que tan¬ tas maravilhas e mysterios encerra : occorriam- me as recordações históricas da invasão dos Árabes na nossa Peninsula , que se operou por estas immediações, e suas immensas conse¬ quências. Estas considerações, e o agradavel effei- to dos primeiros raios do sol surgindo da pla¬ nície de S. Roque, lançados sobre as eleva¬ ções d’Algeciras e montanhas d’Africa, me detinham enlevado nesta scena, realmente poé¬ tica para quem a contemplava no meio das Co~ lumnas de Hercules. A’s seis horas da manhã de 23 desembar¬ quei junto á bateria de Devil-st one, e pene¬ trei na praça sem dependencia de fiança, trocando só o passaporte por um bilhete de
  • [11] licença até ao pôr do sol, a qual sem difficul- dade foi na repartição da policia ampliada por ires dias. Dirigi-me á Fonda Hespanhola na rua principal, calle real, e fui em seguida ver a povoação, que é muito aceiada, com boas ca¬ sas e ruas, O palacio do governador tem aca¬ nhada apparencia e foi antigo convento; o edi¬ fício da Bolsa é mui pequeno, e tem uma in¬ significante livraria. O passeio da Alameda e irregular ou no gosto inglez; mas tem alguns lindos pontos de vista, e é ornado com as es¬ tatuas de Wellington, Elliot, e Neptuno qua¬ si escondidas entre o arvoredo. Os habitantes, que diziam serem de 10 a 12:000, apresentam um mixto de varias na¬ ções da Europa e das de Africa mais próxi¬ mas, e agrada a variedade de trajos que se observa: comtudo a população hespanhola é a predominante, bem como a sua linguagem. E’ falta d’agoa esta cidade, e só a reco¬ lhem em cisternas. De tarde fui ver as excavaçôes: são lar¬ gas e extensas galerias, cortadas a fogo e a ferro nos flancos do morro; mas a grande al¬ tura, com casas-matas para a artilharia, tudo para o lado de Hespanha. St. George's-Uall éum grande salão onde terminam as galerias, e que tem seis boccas de fogo de grande ca¬ libre, que maravilha como para alli se pode- ram conduzir: deste logar observam-se me¬ donhos precipicios de rochedos a pique, e ma¬ gnificas perspectivas para Hespanha; mergu¬ lha-se a vista sobre os cemitérios christão e he¬ breu, S. Roque, campo neutro, etc.
  • As mais elevadas destas baterias subter¬ râneas diziam estar a cousa de 1:000 pés so¬ bre o nivel do mar, e a 400 abaixo do ponto mais alto da montanha. As gallerias são tão espaçosas e tem tal inclinação, que se podem facilmente percorrer todas a cavallo, e pene¬ tra-lhe bastante luz e ar pelas largas canho¬ neiras. Sào aqui os grandes depositos de muni¬ ções e viveres, tanto para, a guarnição como para todos os habitantes da praça, que tem nestes logares um abrigo contra os bombar¬ deamentos. Sobre esta parte do morro ha também muitas baterias descobertas, com bellos canhões e morteiros. E’ prodigiosa a despesa e perseverança que tem havido nestes trabalhos, os quaes vão sempre em augmento, bem como os das ba¬ terias rasas próximas ao mar. Dizem que vive por estes áridos penhas¬ cos uma raça de macacos d’Africa, que as au- thoridades inglezas prohibem destruir, con¬ templando-os como um recurso no casa de fal¬ ta de viveres. Pela encosta fui das excavações até ao te- legrapho: famosa vista sobre a Hespanha, Ceu¬ ta, Mediterrâneo, Estreito, e Oceano! Vi d’alli extasiado esconder-se o sol detraz das co¬ linas d’Algeciras. Até na immensa elevação do telegrapho ha uma bateria, e estavam construindo uma torre : d’aqui Gibraltar, as povoações próxi¬ mas, e os navios tomam diminutas proporções: perto d’alli ha a celebre caverna de S. Miguel,
  • [13] mui frequentada pelos viajantes, e que dizem apresenta bellas stalactites. Desci por difficeis caminhos, e pelas pe- rigosissimas escadas feitas na parte interior das muralhas asseteiradas, que vem terminar nas proximidades da Alameda, onde já cheguei muito de noite. Aquellas muralhas são restos das antigas fortificações mouriscas, e também de obras mais modernas, principalmente do tempo de Carlos V. Na manha de 24 visitei algumas igrejas, que não achei notáveis, e entrei em uma sy- nagoga extravagantemente adornada. E’ curioso de ver o arsenal militar, onde reina grande ordem e aceio: continha 4:000 armas, e local para mais 7:000. A livraria militar é um bello edifício, ri¬ co de boas collccçoes de desenhos, mappas militares, planos de batalhas, etc. Vê-se alli o retrato do instituidor, e do official que fez a planta para as fortificações da praça. De tarde sahi da cidade em calexe, e atra¬ vessando largos fossos e pallissadas, fui peio pequeno isthmo de areia, que se diz minado, até á povoação do Acampamento, além dos postos hespanhoes : voltei para a cidade, e segui atra- vez della para a Ponta da Europa, onde ha bastantes e bonitas casas de campo sobre er- riçados rochedos, que á custa de muito tra¬ balho e ouro os Inglezes tem amenisado, for¬ mando pelo meio delles uma boa estrada e mul¬ tiplicadas baterias : chegado ao farol, regres¬ sei á cidade e me dirigi ao theatro, que é pe¬ queno mas elegante: a orchestra era péssima,
  • e composta de quinze ou dezeseis músicos da guarnição, e a companhia seria insupportavel se não fossem Volpini e Porto, que já conhe¬ cia de Lisboa: lambem a concorrência que observei era mui pequena. A guarnição actual da praça é de 3:000 a 4:000 homens de bella tropa, e diziam an¬ darem por 1:000 as boccas de fogo, que se vão augmentando todos os dias nas novas ba¬ terias ; no que os Inglezes principalmente se occupam, pois quanto a embelesamento e ar- borisação mais poderia haver nesta cidade. O governador de Gibraltar tem 32:000 patacas de soldo, e cada soldado vence um sheling. Gibraltar estava em grande decadência: todos os negociantes, grandes e pequenos, se queixavam da paralisação do commercio; os logistas quasi nada vendiam, esacrificavam as fazendas por menos do seu custo. Na verdade as circumstancias cornmer- ciaes e a importância de Gibraltar, bastante tem mudado nestes últimos annos. Logo que acabou o governo do general Espartero na Hespanha, os motivos politicos concorreram com os dos interesses da indus¬ tria hespanhola, para atacar o ruinoso trafico de contrabando, que em grande escalla se fa¬ zia por Gibraltar. Organisaram-se então os corpos de cara¬ bineiros, formados de soldados escolhidos de todo o exercito, de cuja boa organisação e conducta se seguiram logo optimos resultados, e combinado o seu serviço com o das peque¬ nas divisões navaes, que tem quasi todas pelo
  • [15] menos um vapor e que estacionam pelos por¬ tos proximos, teem dado tal caça aos contra¬ bandistas, que quasi já abandonaram as suas tentativas, pelas continuas apprehensões e per- das que soffreram. Ha porém ainda outra causa, mais solida e permanente do que a apontada, que contri- bue para o acabamento do contrabando : é o grande desenvolvimento da industria em toda aHespanha, especialmente, o que mais admi¬ ra, nas proximidades de Gibraltar. Em Cadiz contam-se hoje alguns milha¬ res de teares de tecidos de linho, em Sevilha muitas e apuradas fabricas de louça, etc. : de modo que já o contrabando não póde concor¬ rer vantajosamente com estes e outros pro- ductos. A admissão a despacho nas alfandegas dos tecidos de algodão inglezes, com certas res- tricções, tem iguahnente vencido neste im¬ portante ramo o contrabando, o qual mesmo em Gibraltar se julgava viria a acabar de to¬ do, poupando dessa maneira ao governo hes- panhol as despesas da actual fiscalísação. Também asseguravam que o contraban¬ do para Portugal pelo Algarve era já menor do que fora. Gibraltar em taes circumstancias se torna um pesado encargo para a Inglaterra, sem ne¬ nhuma das vantagens que até agora oflérecia para o seu commercio, e valioso consummo das suas manufacturas: unicamente como pon¬ to militar ficará immensamente custosa a sua conservação. Diz -se que Gibraltar é a chave do Me-
  • diterraneo; mas a verdadeira chave seria uma esquadra estacionada no Estreito, o qual ten¬ do na sua menor largura quatro legoas, deixa passar toda a qualidade de navios muito fora do alcance da artilharia d’aquella praça: com- tudo Gibraltar será sempre uíil como ponto de apoio e de abrigo para uma esquadra. O grande rochedo ou morro hoje deno¬ minado de Gibraltar, é o monte Cálpe da an¬ tiguidade : eleva-se na maior altura a 1:400 pés, e fica fronteiro ao monte 4byla do lado d’Africa, ou Sierra de las monas, como hoje lhe chamam os Hespanhoes: presume-se que estas duas montanhas, que tem alguns picos terminados em fórma de capitel, éque deram logar á ficção das Columnas de Hercules co¬ locadas á entrada do Mediterrâneo. Em 1704 oslnglezes, por surpresa ou por traição do commandante, se apoderaram des¬ te importante ponto, do qual lhe legalisou a posse a paz de Utrecht: tres sitios tem sof- 1’rido em differentes epochas por parte dos Hes¬ panhoes, e foi o ultimo em 1782, mas sem¬ pre infructuosos.
  • [17] CAPITULO TERCEIRO, O Mediterrâneo e os Aralies. 0 vapor Indus chegou de Southampton pelas onze da noite, e na seguinte manhã de 26 fui para bordo delle, acompanhado pelo consul portuguez Benso, e o negociante Machado: a ambos estes cavalheiros muito favor devi, e particularmente ao consul, e se por acaso le¬ rem estas linhas acceitein minhas gratas me¬ mórias. Ao meio dia sahimos de Gibraltar: tor¬ neámos a Ponta da Europa, e entrámos ho Mediterrâneo, descobrindo confusamente Ceu¬ ta á direita, e outras terras d’Africa. Esse ponto escuto lá no horisonte do sul que recordações me trazia á memória! A Se¬ pta de D. João I, a escolhida pelos genero¬ sos filhos deste rei alevantado pelo povo, pa¬ ra primeira empresa e exercicio do seu valor, como prova nècessaria para serem armados cavalheiros. Remontava-me pela imaginação áquelles tempos heroicos, e via primeiro D. Fuas Roupinho com as suas galés atacar uma força triplicada das dos Mouros, e morrer co¬ mo bravo; e depois a brilhante armada de 200 vélas sulcando estas ondas correr a vingal-o, 2
  • [18] e arrostando formidáveis tormentas, finalmen¬ te apossar-se d’aquella famosa praça no dia da Assumpção de 1415: via o infante D. Hen¬ rique, ainda em annos juvenis, já comman- dando uma divisão naval destinada ao primei¬ ro ataque, depois sustentar sósinho todo o pe¬ so dos Mouros n’uma estreita rua da cidade, e em seguida ser armado cavalleiro com os seus tres valentes irmãos pelas mãos de seu pai, o heroe d’Aljubarrota, na mesquita principal de Ceuta, n’um momento transformada em tem¬ plo cbristão 1 Assim o nobre D. Henrique começou com as armas a tornar posse da terra africana, que mais tarde legaria á sua patria pelas con¬ quistas ainda mais gloriosas da intelligencia. Ceuta foi por largo tempo a eschola e o theatro das façanhas militares dos Portugue- zes, e os nomes de D. Pedro de Menezes (o do bordão de zambujo), d’Alvaro d^Alma¬ da, e do Santo Infante D. Fernando alli se fizeram immortaes. A cidade de Ceuta é antiquíssima, e a sua fundação se attribue aos Carthaginezes: foi muito importante no tempo dos Romanos edos Godos. Caliida em poder dos Portugue- zes, não pôde sacudir o jugo de Hespanhana gloriosa Restauração de 1640, e lhe foi de di¬ reito cedida pelo tractado de 1658 : hoje é um presidio hespanhol, sempre mais ou menos' inquietado pelos Mouros das visinhanças. Durante toda a tarde fomos vendo ele¬ vadas montanhas da costa de Hespanha, e as cercanias de Malaga : o tempo era excellente. Na madrugada de 27 passámos o cabo de
  • [19] Gale, e viamos fto longe terra de Carthage- na; mas em breve tudo desappareceo, bem como do lado d7 Africa. Divisámos em distancia varíos navios, que disseram ser a esquadra hespanhola de ins- trucção, que pouco antes estivera em Gibral¬ tar, Ao romper do dia 28 hiamos na altura e na distancia de quinze milhas d’Argel, que não avistamos por estar nublado o horisonte. Pelas quatro horas da tarde descobrimos ’ o vapor Potting er, que caminhava para Gi¬ braltar, vindo de Constantinopla e Malta, Refrescou o vento de tarde, e apesar do pouco mar o vapor jogava muito : não avista¬ mos terra neste dia. Durante a noite e manhã de 29 conti¬ nuou o vento, e o incommodo jogar do vapor. Pelas nove horas divisámos terra d7Áfri¬ ca para áquem de Tunes, e pelas seis da tar¬ de passámos perto da ilha e rochedos de Gal- leta, á vista da costa de Tunes, a cujo Esta¬ do pertence : é deshabitada e apenas alli vão alguns pescadores. O vento e mar abrandou, mas formou-se uma trovoada espêssa: os trovões estalavam sobre as nossas cabeças, com um som agudo e vibrante como eu nunca ouvira nestes phe- nomenos da nãturesa í cahia chuva em abun- dancia. Teve para mim encanto e magestade es¬ ta scena, ainda que perigosa pelos raios que se cruzavam nos ares. O fusilar instantâneo dos relâmpagos, il- luminando a afmosphera escurecida, e aver-
  • melhando as vagas, era de um effeito temero¬ so mas sublime! O vapor se me representava então como um monstro phan tas tico, lançando por duas longas e escuras trombas negros e densos ro¬ los de fumo, que se revolviam em contorsões delirantes; bramindo estranhamente por duas fauces, que em magica rotação se moviam com vertiginosa celeridade ; resfolgando por entre vaporosa espuma o hálito da cratera que lhe formava as entranhas ; dando estremeções co¬ mo um corcel fogoso e espantado pelo ruido dos trovões; e parecendo correr sobre as agoas com a velocidade do raio a que fugia. No entanto o homem, este complexo de poder e fragilidade, sobre a espalda do mons¬ tro, rodeado de todas as com modid ades e luxo da vida, descuidoso folgava ao som de instru¬ mentos, zombando das tormentas aerias, e di¬ rigindo pela sua poderosa intelligencia os mo¬ vimentos desta creação phantastica, áqualel- le proprio dera organisação e vida! Pela alta noite do dia 30 o siroco come¬ çou a soprar fortemente, agitando as vagas : é o vento quasi constante nestes mares, e vem de léste ou d’Africa: é tépido e produz des¬ agradável sensação. A’s dez da manhã passámos ao norte da ilha Pantelaria (a antiga Cosyrci), dependencia do reino de Nápoles: via-se uma extensa po¬ voação ao longo da raiz das altas montanhas que a formam, e varias casas pelas encostas: seus habitantes pescam o coral, e tem um vol- cão extincto e valles muito íerteis. A vista da Pantelaria me fez considerar
  • que o Mediterrâneo deve ter perdido muito ultimamentê dos restos, que ainda conserva¬ va, da sua antiga poesia. Os vapores que em linhas rectas o cru¬ zam, como se quizessem formar delle um cam¬ po divjsivel em figuras rectilineas, teem’con¬ tribuído, mais do que o romanticismo e a phi- losophia, para desthronar F(olo e para zom¬ bar das temerosas Syrtes, e das voragens de Scylla e Carybdes. A extincção da pirataria barbaresca, e com ella os perigos da escravidão e das mas¬ morras, e a falta de alimento ao exercicio dos piedosos sentimentos dos que se dedicavam a remissão dos captivos, também fizeram acabar as ideas aventurosas e romanescas que se li¬ gavam ás viagens do Mediterrâneo.
  • CAPITULO QUARTO. Os Iralícs, O vapor -Indus em que hia navegando neste famoso mar Mediterrâneo é um beiJo barco da força de 450 cavallos, de 1:800 toneladas, e todo corrido na tolda, a quaj apresenta um passeio de oitenta passos de comprido sobre quatorze de largo: produzia a machina muito menos estremecimento que no Ibéria : tinha todas as commodidades, e até a de uma boa casa para banhos frios, mornos, e de chuva. Todas as tardes das sete ás oito horas ha¬ via musica, composta dos serventes: a tolda parecia então uma praça ou passeio publico, onde passeavam cavalheiros e senhoras vesti¬ das com todo o luxo 5 dançava-se e polkava-se. O pngenho é mui curioso, e tem doze boc- cas na fornalha: quando a elle desci pareceo- me impossível como um homem por quatro ho¬ ras, nos quartos que se revesam, póde sup- portar esta atmospliera de fogo. Era notável a regularidade e ordem na administração interna do vapor, a cargo do purser ou commissario, que tem de soldo 400 libras, e 600 o capitão. Ha até um emprega^
  • [23] do e repartição só para depennar aves e cor- tar carnes. Examinei uma engenhosa machina para areiar facas, que apromptava doze era cada mi¬ nuto. Entre os oitenta passageiros hia um que diziam tio do imperador de Marrocos, com um séquito de vinte e tres homens e duas mu¬ lheres, cujos rostos tive occasião de ver, con¬ tra o costume arabe, e reconheci que não eram mouras encantadas nem encantadoras: todo este bando se dirigia a Mecca, em peregrina¬ ção ao tumulo de Mafoma, e durante a via¬ gem muito distrahiam aos passageiros com os seus costumes originaes: passavam o tempo estendidos sobre a tolda resando ou lendo o Alcorão, e fazendo genuflexões e beijando o chão com o rosto para o Oriente, nadirecção de Mecca. A todos interessava um filho do chefe da comitiva: era um joven arabe de quinze a dezeseis annos, de grande vivacidade, e de sympathica e intelligente physionomia: vestia- se com elegancia, e tinha toda a energia e ar¬ dor proprio da sua raça. Entre elles havia um que fallava perfei- tamente o hespanhol, e que lhes servia de in¬ terprete, por intervenção do qual eu conver¬ sava com vários sobre os seus costumes, e os modernos acontecimentos na Africa septen¬ trional. A rudesa e fanatismo deste povo torna mui difficil trazel-o á civilisação europea. Ma¬ nifestavam unanimes grande odio contra os Francezes, expressando por energicas gesti-
  • [24] euiações o desejo de cortar a todos elles a ca¬ beça. Animava-os o sentimento exaltado da in¬ dependence, e a esperança de expulsarem os Francezes d’Argel diziam ser activamente conservada no espirito nacional, pelas muitas prophecias dos seus Scmtôes. A palavra incredulidade é quasi desco¬ nhecida entre os Árabes das tribus desta par¬ te d’Africa: elles esperam ainda um Messias pelo molde de Mafoma, que deve resgatal-os da escravidão iranceza : é o terrível MulcSaa, que significa o « Homem, da occasião,» que todos os prophetas annunciam : de maneira que o mais leve sussurro que agita as ervas seccas do deserto, ou o ruido longínquo do tro¬ pear dos cavallos, basta para excitar o espiri¬ to inquieto, crédulo, eirreflexivo do arabe, e para o precipitar na rebellião. E’ um povo indomito, verdadeiramente original e primitivo. A sua religião, intolerante e feroz por es¬ sência, não acceita nem sequer o trato com os Christãos, ameaçando-os com a perdição eterna. Para estes Árabes tudo é religioso, desde a vingança que exercem, até á pilhagem que fôrma a sua principal riqueza, eque praticam mesmo de umas tribus para as outras. A tristesa habitual do grave semblante dos peregrinos arabes, como que revellava na suaapparente humildade, a resignação que não desespera, e a energia que não se submette; mas que aguarda por melhores dias de vingan¬ ça, de rehabilitaçâo, e de triumpho.
  • [23] No sentir dos mais esclarecidos delles os destinos futuros d’Argélia se reduziam a este dilemma: completa expulsão dos Francezes, ou exterminio da raça arabe n’aquelle paiz; asseverando impossível a absorpcão da casta indígena na sociedade franceza. Não sei que sentimento, misturado de admiração e respeito, causava a vista deste ajuntamento de Árabes, amostra desse povo sobre cujo cerebro de granito quarenta sécu¬ los tem passado em vão, E’ hoje o mesmo que fora quando Jacob separava suas tendas e seus rebanhos para ir formar uma nova nação. Povo anterior aos povos históricos, e que não obstante os grandes acontecimentos em que tem figurado, as nações poderosas que tem destruído, as civilisações que ha transportado de um a outro continente, conserva ainda ho¬ je, em varias das suas fracções, o vestuário talar dos patriarchas, a organisação primitiva da tribu, a vida nomada da tenda, e o espiri¬ to imminentemente religioso que devia caracte- risar as primeiras sociedades humanas: povo, cujos avós presenciaram o diluvio, ou foram testemunhas de alguma grande manifestação da presença de Deos sobre a terra. Na Biblia só se póde encontrar o typo perdurável desta eterna raça patriarchal. Apesar do odio que os descendentes de Ismael e Esaú professam aos Hebreus, é cer¬ to que arabe era Israel: de um só tronco par¬ tiram os dois grandes ramaes religiosos que hão transformado a face da terra. Da mesma fonte sahiram o Evangelho e
  • [26] o Alcorão: o primeiro, divinamente annun- ciado, promove os progressos e a felicidade da especie humana, e nos transmitte as poucas tradições primitivas : o segundo, formado dos factos e doutrinas adulteradas do Antigo e No¬ vo Testamento, apresenta como um protesto vivo das raças pastoras, immobilisa a intelli- gencia, e conserva indeleveis em muitos dos seus sectários os costumes barbaros das pri¬ meiras idades do mundo.
  • [27] CAPITULO QUINTO. % Malta e Alexandria* Pela alia noite de 31 de Ju.llio abrandou o si- roco, mas sobreveio um denso nevoeiro que obrigou a parar o vapor por duas horas : ao romper do dia ayistámos Malta, e pelas sele horas fundeámos no porto pequeno ou Mus- cello, destinado ás quarentenas, e proximo ao lazareto: existia o cholera na ilha, do que já tivéramos notícia em Gibraltar, o que com bem pesar me impedio de percorrer a celebre cidade de La-Valette, onde um portuguez pode encontrar tão gloriosas recordações de al¬ guns heroes da sua pai ria, e todas as outras que se ligam á longa existência da famosa Or¬ dem de Malta, Com t udo mesmo da posição em que me achava eram elJas alimentadas pela vista do celebre Forte Manoel, que é uma das obras de defesa desta enseada, e que foi construído á sua custa por um Grão-Mestre portuguez D. Antonio Manoel de Vilhena, o qual tam¬ bém fez construir a cidadella chamada Burgo- Vilhena. A sua fama soou por toda a Euro¬ pa, deixou grande nomeada na historia da Or¬ dem, morreo em 1736, ejaz sepultado na igre-
  • jadeS. Joào, o melhor templo da cidade, on¬ de o seu mausoleo dizem ser dos mais magní¬ ficos. Houve mais tres Grão-Mestres portu- guezes, entre elles D. AfTonso de Portugal, filho bastardo do rei D. AfTonso Henriques. A cidade vista do mar, da posição em que nos achavamos, nada apresentava de no¬ tável, senão formidáveis e amontoadas bate¬ rias, altos edifícios com terrados, e sobre-sa- hindo um novo templo protestante, com uma esbelta torre. O solo tinha arida apparencia; mas dizem ser fértil á força de industria e trabalho na cul- tivação. A gente do mar trajava como os nos¬ sos peninsulares. Malta cahio em poder dos Francezes quan¬ do por alli passou a famosa expedição do ge¬ neral Bonaparte ao Egypto, e pouco depois passou ao domínio dos Inglezes, que até hoje a conservam, tendo-lhe augmentado muito as suas já formidáveis fortificações : dizem que os Maltezes são muito desafeiçoados aos seus aetuaes dominadores, que parece os tratam mais como libertos do que como súbditos de Inglaterra. Pelas dez horas appareceo uma esquadra ingleza de tres náos, que a todo o panno se di¬ rigia ao porto •, mas fez-se depois no bordo do mar. ; Ao meio dia entrou um vapor francez vindo de Constantinopla, e ás duas horas ou¬ tro inglez de Marselha, que trazia a malla de Londres, alcançando quatro dias mais áquella que conduzia o Indus, e que anciosamente era desejada para sahirmos desta enfadonha
  • posição, sem communicação alguma com uma terra tão digna de examinar-se, pelas suas grandes recordações históricas antigas e mo¬ dernas. Embarcaram mais alguns passageiros, en¬ tre elles um mouro do Indostão ricamente ves¬ tido, e de mui intelligente physionomia. Ao fim da tarde divisou-se de bordo um préstito fúnebre conduzindo ao cemiterio o ca¬ daver de um militar* os sinos de S. Paulo e de outras igrejas dobravam tristemente, e o sol escondia-se detrás de aridas collinas, lan¬ çando seus últimos raios de amarello pallido, atravez de uma atmosphera empoeirada e aba¬ fadiça, sobre os edificios de La-Valette, aos quaes dava uma cor sinistra, apropriada á idéa do cholera e da morte que dominava nestas paragens : tudo produzia um effeito doloroso e soturno que me impressionava profundamente. Tendo-se todo o dia recebido carvão, agoa- da, e varias victualhas, pelas nove e meia le¬ vantámos ancora. As luzes da cidade pareciam mover-se e confundir-se, e as dos botes correndo sobre as agoas, escondendo-se e reapparecendo, pare¬ ciam logos fátuos, e todas reflectindo-se em longas tachas no espelhado mar produziam lin¬ do effeito. Depois do chá houve no salão um con¬ certo de vários instrumentos, executado pelos passageiros,, mui dissonante e detestável; mas apesar disso muito applaudido com pés e mãos pela sociedade ingleza. Continuámos com bom tempo, e sem oc- correncia alguma notável, até que a 4 d’ Agos-
  • [30] to pelas dez da manha, descobrimos um farol, terra baixa, e successivamente muitos moi¬ nhos ao longo da praia, baterias, um grande porto com muitas embarcações mercantes e de guerra; entre estas viam-se uma náo ar¬ mada com a bandeira turca, e seis desmas¬ treadas no estaleiro : estavamos em Alexan¬ dria, a 700 legoas de Lisboa. Grande confusão abordo, onde os passa¬ geiros tem de deixar a sua bagagem pesada, tomando só cada um o seu sacco de viagem, e alguns pequenos objeetos que lhes sejam abso¬ lutamente indispensáveis para as sessenta ho¬ ras, pouco mais ou menos, que dura o trajecto pelo Egypío: isto mesmo tem de se entregar no Cairo, no escriptorio da Companhia do Transito, a tempo de ir para Suez; pois quan¬ do se parte de liottlac para o deserto, sóéper- mittido a cada um dos passageiros levar coin- sigo o peso de cinco libras, o que porém se náo executa com muito rigor. Com tudo os pas¬ sageiros teem o direito de accesso á sua baga¬ gem nos armazéns da Companhia em Alexan¬ dria, BoulaceSuez, o qual porém é difficil de realisar, e o mais seguro e menos livre de transtornos é, logo ao desembarcar em Ale¬ xandria, levar cada um comsigo quanto careça até Suez, pouco excedendo os limites do in¬ dicado peso de cinco libras. Fui dos primeiros passageiros que, pelo meio dia, pisaram aterra do Egypto, e em se¬ guida fomos conduzidos em uma das carretas que fornece a Companhia até ao Hotel Orien¬ tal, na bella Praça dos Consulados, vasta, e cercada de bons edifícios á europea, com um
  • [31] pequeno obelisco no centro: estava alli em construcção um grande templo protestante. N’aquella Praça tremulam as bandeiras de quasi todas as nações da Europa. O viajante deve sem demora dirigir-se á casa da administração da Companhia do Tran¬ sito, para apresentar o bilhete com que entrou a bordo do vapor inglez, e trocal-o por outro pa¬ ra ser admittido no vapor do Nilo : esta Com¬ panhia ou Administração do Transito é mantida pelo pachá do Egypto, e toma a seu cargo a con- ducção dos passageiros atravez deste paiz, desde Alexandria a Suez; mas a despesa res- pectiva já vai incluída no preço da passagem paga em Lisboa, ou em outro qualquer ponto de partida: feito isto fui percorrer algumas ruas da cidade, de bem estranho aspecto para um peninsular, eosbasares europeo e egypcio, onde se observa grande variedade de productos da Africa, da Asia, e da Europa: varias ruas eram macadamisadas, e havia postos de guar¬ da e patrulhas de soldados com tarbuxe ou bar¬ rete vermelho, calças á grega, e jalecos bran¬ cos, só com um talabarte e espingarda á eu- ropea. As mulheres quasi todas andavam com a cara coberta abaixo dos olhos com um panno preto, que semelhava na fórma a tromba de um elefante descabida. Um lisbonense em Alexandria tem ne¬ cessariamente de se lembrar de Cacilhas, dos seus burros, e burriqueiros : vê-se o estrangei¬ ro alli perseguido desapiedadamente por uma multidão de rapazes arabes, que á porfia o querem conduzir n’aquelles animaes, que são pequenos, porém muito vivos, e maisbemar-
  • reados que os da Outra-banda : em um defies corri algum tempo, e ás quatro horas, praso indicado, achava-me na Praça dos Consula¬ dos, onde cinco ou seis boas carruagens da Companhia, vieram buscar os passageiros pa¬ ra os conduzir ao embarque no canal. Animada e pittoresca scena era esta i bandos de burros e camelos, misturando zur¬ ros e mugidos á gritaria dos rapazes e condu¬ ctors ; passageiros apressados com seus sac- cos de viagem precipitando-se nas carruagens ; cambistas a oflerecerem dinheiro para trocar $ arabes a apresentarem com impertinência aba¬ nicos, chapéos, e outros objectos para ven¬ der ; um babel de linguas, ouvindo-se ao mes¬ mo tempo fallar inglez, francez, italiano, hes- panliol, portuguez, turco, eí arabe; tudo isto formou durante alguns minutos um espectacu- lo que tinha muito de curioso e de burlesco. Partimos para o canal por bom caminho, transpozemos os muros da cidade por uma lar¬ ga porta fortificada, passamos ao lado de um vasto cemiterio, e depois perto da columnade Pompeo, que está sobre um montículo de areia, a qual, talvez pela rapidez com que a vi, não me produzio tanta impressão quanta esperava de um monumento de tanta nomeada. Esta columna é um dos muitos monumen¬ tos espalhados no solo do Egypto: está a cou¬ sa de duas milhas distante das praias de Ale¬ xandria, é conhecida ha vários séculos pelo nome de Pompeo, dizendo-se ser uma home¬ nagem de Cesar á memória do seu rival, o que modernamente se tem contestado, pela tra¬ dição do paiz que refere pertencia a columna
  • [33] ao edifício da famosa bibliotheca de Philadel- fo, e mais positivamente por alguns inglezes que pertendem terem decifrado a inscripção do pedestal, que, segundo elles, está escripta em grego, e declara que fora este monumen¬ to consagrado por Poncio, prefeito do Egypto, ao imperador Diocleciano. Outro inglez, o doutor Clarke, assegura que © prefeito Pos- tumo e o povo do Egypto o inauguraram em honra do Cesar Adriano. De tudo o que pa¬ rece concluir-se, é que não foi levantada em honra de Pompeo a columna que tem o seu nome, e que apesar disto o continuará a con¬ servar provavelmente por mais alguns sécu¬ los, se antes náo fôr augmentar com os seus colossaes destroços as immensas ruinas que a cercam, rasas e informes, que não dão a mais ligeira idéa dos magníficos edifícios a que pertenceram, e que a historia refere ornavam a antiga capital do império de Alexandre. Com effeito aquella famosa columna amea¬ ça ruina pela base, segundo dizem, e já ha muito se conhece que o fuste pende um tanto para o sudoeste. Todo o monumento é de gra¬ nito vermelho: é da ordem corinthia, com o fuste inteiriço, e de altura de 89 palmos, com lie meio de diâmetro: o pedestal tem 14 palmos de alto sobre 7 e meio de base, e o capitel 12 e meio de altura. Isto é reduzido de medidas inglezas, e segundo escrevem mo¬ dernos viajantes desta nação; alguns France- zes dão-lhe outras dimensões, mas sem diíFe- .renças muito consideráveis. Alexandria fundada por Alexandre Ma¬ gno, cousa de tres séculos antes da vinda de 3
  • Christo, foi até ao século 7.° o centro do mun¬ do sabio, e o assento da litteratura e das scien- cias. Foi a corte dos Ptolomeus, que a orna¬ ram com bibliothecas, que dizem continham 700:000 volumes. Nesta cidade é que se fez a traducção da Biblia chamada Dos Setenta, e houve nella 25 concílios. O general sarra¬ ceno Amrou pelo meado do 7.° século con¬ quistou Alexandria para o califa Ornary que refere a historia fizera queimar a magnifica bibliotheca, cujos livros serviram por seis Ine¬ zes para aquecer os banhos públicos; succes- so modernamente posto em muita duvida por graves authoridades, parecendo certo que já a este tempo tinha sofírido destruições parciaes nos reinados de Julio Cesar e de Theodosio. Alexandria no tempo dos Romanos era ainda uma opulentissima cidade, e o grande interposta do commercio do Oriente com a Europa, o quando foi tomada por Amrou con¬ tinha 4:000 palacios, 4:000 banhos, 400 thea- iros, 12:000 lojas etc., n’um recinto de cin¬ co legoas de circumferencia. E que resta ho¬ je da magnifica fundação do heroe da Mace¬ donia, e da riquesa e sciencia dos Ptolo- meus ? ... . Ruinas sem grandesa, e uma co- lumna solitaria! Grande era o abatimento de Alexandria no principio deste século: os Francezes ape¬ nas lhe acharam uma população de 8:000 al¬ mas, e íoi o ultimo ponto que elles abando¬ naram, depois de inutilisados tantos heroicos esforços, e de malogrados a conquista doEgy- pto e os gigantescos projectos do grande ca¬ pitão da nossa idade. O illustrado governo de
  • [35] Mohamed-AM a fez sahir da sua decadência, restabeleceu arsenaes, creou uma marinha res¬ peitável, cuidou das suas fortificações, e re¬ parou as muralhas da chamada Cidade dos Ar*a- 6es, que teem duas legoas de circuito, flanquea¬ das por 100 torres: hoje apesar do Uovo aba¬ timento do Égypto é uma cidade florecente pelo commercio, com uma população de mais de 60:000 almas. O farol de Alexandria, que cotno já dis¬ se avistámos ao descobrir a terra, tem a appa- renda e a elevação ordinaria deste genero de construcções, eestá bem longe de assemelhar- se á famosa fabrica do antigo farol que Ptolo- meu Sotero edificou, cousa de 300 annos an¬ tes da vinda de Christo, com a magnificência que descreveram antigos escriptores, eqúeera contado por uma das sete maravilhas do mun¬ do : na ilhota de Pharos na bahia de Alexan¬ dria é que elle estava collocado, e d^onde lhe proveio o nome de farol, hoje adoptado geral¬ mente para designar estes grandes fanaes. &
  • [36] O Hilo e JSouIac. A’s cinco horas da tarde navegávamos no ca¬ nal Malimoudieli, em uma grande barca leva¬ da a reboque por outra movida a vapor com engenho de parafuso. A este canal deve Alexandria inteiramen¬ te a sua actual prosperidade, e com elle a do¬ tou também o afamado Mohamed- A li, para lhe estabelecer a communicacão fluvial com o •9 Cairo, substituindo o antigo braço do Nilo, que dizem vinha do vertiee do Delta até ao porto de Alexandria, e que se na verdade exis- tio se perdeo pela nova direcção que toma¬ ram as agoas d’aquelle grande rio. Dizem al¬ guns que na antiguidade já existira um canal semelhante ao que agora foi construído, e o qual, segundo refere um author francez, foi principiado em Janeiro de 1819, e èm Outu¬ bro do mesmo anno a agoa do Nilo entrava triumphante em Alexandria! O canal tem de extensão umas 48 milhas, IS toesas de largo, e 3 de profundidade. Di¬ zem que de 250:000 obreiros um decimo morreo de privações, e pelo excessivo traba¬ lho. A obra foi dirigida por engenheiros fran-
  • [37] cezes, e custou uns dezeseis milhões de cru¬ zados. Alexandria também ganhou a grande vantagem de ficar abastecida de agoadoNilo, livre de toda a mistura com as agoas salgadas dos lagos Mareotis e Madhyeh. Este canal em algumas paragens se asse¬ melha ao d’Azambuja em Portugal, vai des¬ embocar no Nilo no ponto de Atfeli: e bein conservado, e guarnecido a espaços de boni¬ tas casas e arvoredos, por onde se viam mui¬ tas senhoras vestidas á europea, bons carri¬ nhos, calexes, e cavallos. Os búfalos tiravam a agoa por meio de rodas ou especie de noras, para regar as ter¬ ras adjacentes, em geral mais baixas queoni- vel da corrente. Encontrávamos muitos barcos carregados de generos e de gente, quasi toda miserável e nua. Sobreveio a noite ainda longe de Atfeh: na barca não ha camarotes, nem camas; so tern uma longa camara rodeada dé almofadas, sobre as quaes cada passageiro á entrada se deve apressar a collocar um objecto seu, com o que adquire indisputável direito áqueíle lo- gar para se sentar ou deitar, se poder \ por¬ que aliás sendo grande o numero dos passa¬ geiros, não terá onde descance: os logares dos ângulos são os que offerecem mais com- modidade. A’ noite serviram muito boa refeição, e notei a brutalidade de um inglez que ficou ao . meu lado, o qual tendo comido abundante¬ mente, d’ahi a uma hora principiou a pedir ovos cozidos, que lhe foram trazendo dois a
  • dois até ao numero de qualorze! A’ observa¬ ção que lhe fiz de que lhe poderiam fazer mal, respondeo-me que estava costumado a comer vinte e trinta de cada vez; mas apesar do tal costume teve desta feita uma fortíssima indi¬ gestão, A proposito deste comilão referirei outro caso que me maravilhou no Hotel de Gibral¬ tar : um cantor italiano comia ao jantar olha hespanhola, assados, molhos, salada, ostras cruas, salame, peixe frito, fructasetc., acom¬ panhado tudo isto de grandes copos de leite, que bebia como agoa. A’s quatro da madrugada chegámos a Atfeh: foi singular a scena nocturna da pas¬ sagem da eclusa, e original a monotona can¬ tilena com que os marinheiros sirgavam a bar¬ ça, já desprendida do vapor ; desusados fachos esclareciam esta passagem, agitados por figu¬ ras negras, meias nuas, e hediondas, que mais pareciam entes fantásticos do que humanos. Estes fiichos ou fogaréos são umaespecie de fornalha ambulante, collocada e fixa per¬ pendicularmente na extremidade de um com¬ prido páo, com arcos circulares e horisontaes de ferro que sustem a lenha, a qual ardendo ibrma exactamente uma columna de fogo mo¬ vediça. As obras da éclusa me pareceram gran¬ diosas, e dizem que são muito boas no seu genero, alimentando as agoas no canal neces¬ sárias para a navegação, e evitam que elle se obstrua pela amontoação do lodo que arrasta a corrente do Nilo. Entrada a barca nas agoas do rio pará-
  • [39] mos um pouco diante da aldêa de Atfeh, que ainda ha poucos annos era uma povoação in¬ significante, e que hoje vai prosperando co¬ mo interposto do commercio entre Alexandria e o Cairo, e embelesando-se com algumas ca¬ sas de negociantes europeos: via-se de bordo um bello edifício que diziam ser um Hotel Francez. A1 luz dos fogaréos estiveram embarcan¬ do vários fardos para o vapor que nos devia conduzir, e vi pela primeira vez a singular ma¬ neira dos homens os carregarem, levando-os sobre os quadriz sustidos com os braços incli¬ nados para traz, de modo que ficavam curva¬ dos os carregadores, e com alguma apparencia d’um camello com carga. Tudo isto se fez rapidamente, e logo pas¬ sámos para o vapor numero 11, de 90 caval- los, muito lindo e commodo : vinte vapores na¬ vegam no Nilo, seis dos quaes se empregam no serviço dos passageiros e mercadorias para a índia: pelas cinco horas, já ao alvor da ma¬ nhã, vogavamos nesta afamada e magnifica cor¬ rente. Não sou amador da tão geralmente esti¬ mada bebida do café-, mas pela primeira vez na minha vida achei delicioso sabor a uma cha- veria delle que nos serviram sobre a tolda ao romper do dia. Foram-se vendo lindas paizagens, ^ bos¬ ques de palmeiras raro-semeadas, e contínuas aldèas pelas margens, muito povoadas de ho- . mens, animaes, aves domesticas, e immensos bandos de pombos, e apresentariam bonita pers- pectiva se fossem brancas as habitações ; mas
  • [40] a cór da terra de que unicamente são feitas as confunde de longe com os terrenos que as cer¬ cam, e lhes dá de perto triste e misera appa- rencia, e mais semelham em geral coviz de ani- maes do que habitações humanas. Viam-se com muita frequência uns edifí¬ cios em fórma de cupula, que dizem serem tumulos de santôes, que são os beatos ou san¬ tos que veneram os Árabes mussulhianos; or¬ dinariamente indivíduos que durante a vida fo¬ ram fanaticos ou loucos, ou que assim se fin¬ giram para viverem á custa da caridade dos verdadeiros crentes. E’ sabido que os Árabes reputam a loucura como um signal de predes¬ tinação, e que tributam aos doudos muito res¬ peito e estima. Em todas as aldèas e pelos campos se viam mesquitas com os delgados e esbeltos minare¬ tes, que produziam ás vezes o mais pittoresco effeito no meio de grupos de palmeiras. Os minaretes são torres muito elevadas, de pe¬ queno diâmetro, terminam em agulha, e tem duas ou tres ordens de varandas ou galerias ex¬ teriores, donde os sineiros ou muezins cha¬ mam vocalmente o povo á oração cinco vezes no dia, substituindo assim os sinos, os quaes os mahometanos aborrecem. Nas grandes ci¬ dades empregam para isto os cegos para não devassarem os jardins e serralhos. Os Árabes muito poeticamente chamam aos minaretes Dedos de Deos, que da terra apontam aos ver¬ dadeiros crentes para o paraiso de Mafoma, e ás varandas appellidam Annels dos Dedos de Deos. Os habitantes se acercavam das margens,
  • [41] postando-se sobre os vallados ao passar do va¬ por, formando grupos ora graciosos, ora he¬ diondos, pelos farrapos ou nudez que apresen¬ tavam, denunciando em geral uma extrema miséria que contrastava com a proverbial fer¬ tilidade destas margens, que em partes se viam mui bem cultivadas, em extensas planícies á perder de vista. Grande numero de barcos subiam e des¬ ciam pelo rio, carregados de generos, e mui¬ tos bandos de búfalos jaziam n’agoa só com a cabeça de fora. Dizem excederem a 6:000 os barcos que navegam no Nilo. Passámos a ponta do Delta, onde o Nilo se separa em dois braços principaes, chama¬ dos de Rosetta e Damietta, únicos que res¬ tam dos sete que eram conhecidos no tempo dos Romanos, e que agora quasi se perdem extravasando as suas agoas nas terras do bai¬ xo Delta, que estão em muitas partes inutili- sadas para a cultura, deixando assim de ter este famoso rio uma foz navegavel na sua des¬ embocadura no Mediterrâneo, o que seria de immensa vantagem para o Egypto. A’ proporção que subíamos, acultivação diminuía, as povoações escaceavam, e areaes de um e outro lado apresentavam esteril appa- rencía. Passámos vários braços do Nilo, alguns tão largos como a veia principal que seguia- mos : começaram a apparecer elevações ao lon¬ ge, e encontrámos dois vapores que desciam para Alexandria, conduzindo os passageiros da índia e China.
  • O occaso do sol foi sombrio e sem gran- desa, pela monotonia e triste aspecto destas margens. Anoiteceo sem termos chegado ao ponto donde ao longe poderíamos ver as famigera¬ das pyramides do Egypto, circumstancia que muito me contrariou. Com effeito estar a pou¬ cas legoas de distancia desses estupendos mo¬ numentos, contemporâneos de tantos séculos, envolvidos no véo mysterioso da sua origem e destino, testemunhas de tantos successos ma¬ ravilhosos, e cujas descripções muitas vezes me inflammaram a imaginação e o desejo de os conhecer; estar, digo, perto delles e nem ver de longe os seus vultos gigantes, foi de certo o maior desapontamento que me podia acon¬ tecer nesta viageme que bem deveras senti. O que vi do Nilo não correspondeo á idea que delle fazia, e apesar de ter alguns logares mui bonitos, não soffre comparação com as lindas paizagens e vistas do nosso Téjo. Isto é no meu entender, e talvez pela estação em que o percorri. E’ sabido que o Nilo apresenta quatro different es aspectos no anno, e dizem que o mais bello é em Setembro ao terminar da en¬ chente, e depois em Fevereiro quando aspla- nicies estão revestidas com todas as gallas de uma pomposa vegetação : comtudo repito que quanto a variados accidentes de perspectiva, cie arborisação, ede bonitas povoações, pare- ce-me que em nenhum tempo levará vantagem o Nilo tás bellas margens do meu pátrio Téjo, ao menos até Abrantes, que é até onde as co~ nheco. ** >
  • [43] O rio fertilisador do Egypto corre por umas 200 legoas desde a ultima cataracta até á ponta do Delta, e ao longo do valle que constitue o solo productivo deste paiz : parece que não excede a uma milha na maior largu¬ ra, e que é vadeavel em algumas partes. A velocidade da corrente varia de duas a tres mi¬ lhas. A sua exacta origem ainda é hoje um problema, apesar de que um portuguez, o Padre Pedro Paes, pertendeo têl-a descoberto, bem como outros viajantes. A causa das suas enchentes periódicas é que parece estar me¬ lhor averiguada*, provém das chuvas que em grande abundancia cahem na Ethiopia em tem¬ pos regulares. E’ bem fallado o antigo Nilometro que serve para medir a altura das enchentes do Nilo, e dizem que os diflérentes limites que regulam o gráo de fertilidade são ainda hoje os mesmos que foram indicados por Plinio, na sua Historia Natural. O rio não transborda ou ala¬ ga os campos: pequenos canaes de irrigação eque levam as agoas brandamente ao interior das terras, e dizem que estas adquirem tal força de vegetação com os nateiros que as agoas depõem, que se torna necessário mistu¬ rar-lhe areia para algumas especies de cultu¬ ra. A agoa deste rio é muito turva ou barren¬ ta *, mas depois de filtrada tem excellente sa¬ bor. O Nilo é afamado desde a mais alta an¬ tiguidade, aelle se ligam boa parte das gran¬ des recordações da historia sagrada e profana, e obras prodigiosas foram emprehendidas por vários dos soberanos do Egypto para lhe apro-
  • veitarem as agoas, como alguns grandes ca- naes e o famoso lago Meeris. A’ aproximação de Boulac divisou-se um farol, e viam-se foguetes contínuos para guiar os navegantes no rio, que nesta paragem e ho¬ ra requer grande pratica e perícia. A’s dez horas atracámos no caes de Bou¬ lac pouco longe do Cairo, tendo percorrido 120 milhas sobre o Nilo : ao desembarcar vi¬ mos nove carruagens postadas em linha, e quando pensávamos alegremente que ellasnos hiam conduzir, como de costume, ao Cairo, onde passaríamos nos bons hotéis desta cidade uma noite tranquilla e commoda, de que tan¬ to carecíamos, e delineando já projectos de pas¬ seios, e exame das muitas cousas notáveis da capital do Egypto, eis que nos fazem rude e apíessâdamente entrar nas carruagens 6 a 6, e nos intimam a partida iinmediata para o deserto. Ficámos surprehendidos e attonitos, e já dentro das carruagens nos disseram que a Com¬ panhia do Transito tinha tudo assim disposto, porque o cholera no dia precedente e n’aquel- le mesmo se tinha desenvolvido muito no Cai- ro, e se evitava não sómente o perigo aos pas¬ sageiros, como a necessidade de fazerem qua¬ rentena em Suez. Tive depois occasião de reconhecer quão acertada fora esta determinação; porque tal quarentena seria horrível, e talvez mortífera; pois o lazareto de Suez consistia em uma pés¬ sima barraca em um areal fronteiro á povoa¬ ção, exposta ao sol ardentíssimo d’Arabia, e sem uma unica sombra ou arvore para todos os lados onde se lance a vista.
  • [45] De Boulac só vi o pouco que fica referi¬ do : é denominado o porto do Cairo, donde dis¬ ta cousa de duas milhas, e serve de deposito ás mercadorias que vem do Delta. E’ povoa¬ ção importante, com perto de 10:000 almas, e onde no tempo de Mohamed-Ali havia im¬ portantes estabelecimentos de fabricas de pan- nos, estalleiros, uma eschola polytechnica, fundição, e uma magnifica imprensa para as lingoas orientaes. Bem pesar me ficou de não ter visitado o Cairo, a original e curiosa cidade de Sala- dino, que substituio a Babylonia dos Pharaós, e que tantos monumentos encerra dignos da attenção do viajante. Na occasiâo de ver realisado um dos so¬ nhos da minha vida, o de passar pela terra • mysteriosa do Egypto, nem pyramides nem o Cairo me foi dado avistar !
  • [46] CAPITULO SÉTIMO. O deserto, os hotels, e a miragem. O van ou carruagem em que eu havia entra¬ do no caes de Boulac foi dos primeiros a par- íir, e a todo o galope ganhou uma das sabi¬ das da povoação, fóra da qual esperámos se reunisse toda a caravana. Apeei-me neste pequeno intervallo, e me aproximei de um grupo de Árabes, que toca¬ vam e cantavam debaixo de uma grande ar¬ vore, e entrei em uma casa próxima, onde outros jogavam acocorados com busios e pe¬ quenos pesos de bronze, e alguns preparavam comida : a casa era medonha de negra e çu- ja, as paredes de terra, e o tecto de palma tecida : fóra tocava um arabe um instrumento de cana ligada com cordéis, donde tirava, fa¬ zendo feios tregeitos, sons ásperos e dissonan¬ tes ^ mas que pareciam deleitar os ouvintes. Juntas as nove carruagens, eis-nosásdez e meia da noite a correr a toda a brida para o deserto, alumiados, durante algum espaço, pelos fogaréos ou columnas de fogo semelhan¬ tes aos de que já fallei, sustidos por hedion¬ das figuras, que corriam desesperadamente ao lado das carruagens, parecendo fúrias com fa-
  • [47] dios infernaes que nos conduziam para algum holocausto a Plutão. Como outr’ora os Hebreus , por estes mesmos logares, fugiram á vingança e ao exer¬ cito de Pharaó, assim parecia que fugíamos agora a esse mysterioso e terrível flagello, o cholera, que se me representava como um co¬ lossal gigante, que nas asas dosVentos nos cor¬ ria apoz, flucluando nos ares seu negro e vas¬ to manto, que abrangia todo o horisonte do Occideníe I A novidade e estranhesa desta scena fez desvanecer um pouco a contrariedade que sof- friamos. Assim fomos correndo, passando rapida¬ mente por um caminho bordado de novas ar¬ vores, ao lado de um cemiterio, de um acam¬ pamento militar, eno fim de meia hora, ten¬ do andado cousa de cinco milhas, chegámos á primeira estação, onde se fizeram as mudas dos 36 cavallos, e assim constantemente se re¬ novaram em todas as quinze estações que ha entre Boulac e Suez, em distancia de quatro a cinco milhas, fazendo ao todo umas setenta milhas o caminho pelo deserto, que se per¬ corre em dezoito a vinte horas. Constam as estações de grandes edifícios murados, contendo cavallariças para os caval¬ los de posta, e na quarta, oitava, e duodéci¬ ma ha além disso bons hotéis. Pela uma hora da noite chegámos ao pri¬ meiro hotel, ou quarta estação, onde houve uma pequena demora, e nos deram alguns as¬ sados, chá e bolaxas; tudo porém com pouca regularidade, porque pouco tempo havia ti-
  • nha chegado o aviso da passagem extraordinᬠria dos passageiros, antes do tempo calculado : foi animada e confusa esta scena. Continuámos a correr ao grande galope : o ar tépido e sereno era tão puro, que experi¬ mentava certo prazer em respiral-o: as estrel- las eram mui scintiilantes. Passavamos de vez em quando rapidamen¬ te ao lado de longas filas de camellos, os quaes caminhando silenciosa e pausadamente na es¬ curidão da noite, pareciam renques de phan¬ tasmas. Ao chegarmos á sétima estação nascia o sol no deserto : scena nova e inteiramente ori¬ ginal para mim ; desolação completa, areaes e terras safaras, nem uma arvore em toda a amplidão do horisonte; apenas raras moitasi- nhas de entesada vegetação, rasteira e amare¬ lenta, e em grandes espaços nem isso mesmo se descobria: a areia geralmente não é muito solta, e misturada de seixos e pedras apresen¬ ta consistência que facilita o transito, e ainda que em algumas partes é assas movediça, nem oor isso aíFrouxam o galope sobre ella os va- entes cavallos arabes. Talvez algum dos leitores destas linhas esperasse aqui uma descripção poética do le¬ vantar do sol no deserto, e na verdade gran¬ dioso assumpto para isso haveria; porém n’es¬ ta madrugada cousa alguma me impressionou : o somno é muito contrario á poesia, e ás ins¬ pirações que de ordinário fazem nascer os gran¬ des espectaculos da naturesa. Justamente n’esta occasião sentia osirre- sistiveis effeitos de não ter dormido duas noi-
  • [49] tes; uma indomfnodamente' passada no canal Mahmoudi eh, e a outra peior ainda, moído e macerado pelos rudes salavancos da carruagem, que bem me faziam lembrar os que se experi¬ mentam em uma caleca na estrada de Coim- bra, só modificados pela rapidez dos vans : es¬ tes só tem duas rodas altas, correspondentes ao meio da caixa, onde vão apertadamente seis pessoas, em dois assentos parallelos ás ro¬ das a entrada é pela parte posterior, e são pu¬ xados a quatro cavallos, guiados por um co- xeiro collocado na frente do van. Estes vehiculos nada teem de commodos, e apesar de que já são excedentes para um deserto, que ainda ha poucos annos só era atra¬ vessado pelos passageiros para a índia em ca- mellos ou burros, esperam com tudo ainda mui¬ to melhoramento. Era um curioso espectaculo ver correr es¬ tes nove vans, sobre aquellas immensas e nuas planicies, ora a par uns dos outros, ora adian¬ tando-se ou atrazando-se, segundo a força dos cavallos ou a habilidade dos coxeiros, que á porfia queriam ganhar a dianteira, no meio dos gritos agudos que davam, e do estalar dos seus longos chicotes* • Pelas sete horas chegámos á oitava esta¬ ção, e segundo hotel ou central: era edifício que estavam augmentando, tinha casa de jan¬ tar bem mobilada, quartos para descanço, etc.: deram-nos um excedente e variado almoço. A’s nove horas partiram só seis carrua¬ gens : eu fiquei no hotel. Havia proximo um acampamento de 25 soldados de cavallaria e 2 officiaes: viam-se 4
  • algumas barracas de campanha, tanques de ferro para agoa, e observei o singular modo de terem os cava lios presos entre duas cordas, que correm parallelas, distantes, e em direc- ção rectilinea ou circular, adjuntas e seguras ao solo com estacas curtas; a uma das cordas está presa a mâo do cavallo por uma especie de laço também de corda, atado logo acima do casco, e do mesmo modo á outra lhe prendem um dos pés: come a palha no chão ou entre algumas pedras, e a ração em um sacco pre¬ so á cabeça. Estão os cavallos sempre sellados, e pa¬ rece impossível como aquelies nobres animaes resistem um dia inteiro immoveis, expostos a um sol ardentíssimo, e reflectido pelas areias do deserto, que me escaldavam os pés! Em algumas estacões lambem vi usarem o mesmo, e e certo que apesar deste áspero, senão cruel, tratamento os cavallos estavam vigorosos e gordos. Havia aqui um rebanho de cabras das quaes tomámos o leite : em frente deste ho¬ tel, para o norte e a hora e mieia de cami¬ nho, está sobre uma elevação o novo palacio branco, mandado construir por Abas-Paeháy actual vice-rei do Egypto, do qual ainda fat¬ iarei. Serviram-nos uma abundante refeição pe¬ lo meio dia, e partimos á uma hora nas tres carruagens que haviam ficado, depois de um agradavel e commodo descanço de seis horas. A pouca distancia vi a primeira arvore no deserto, especie de teixo, destacando-se solitário no meio dos mares de areia que o cir-
  • t»l] cundavam, e nos quaes os telegraphos que ha entre cada duas estações de longe semelham um navio á véla; sâo caiados e da forma de uma pyramide cónica truncada, e servem para avisar a chegada dos vapores, o numero dos passageiros com que se deve contar nos ho¬ téis, etc* Ao declinar do sol fui observando ophe- nomeno da miragem, parecendo-me vêr em distancia vastos lagos de asulada agoa, que suc- cessivamente desappareciam para serem sub¬ stituídos por outros t a illusao é perfeita, e concebem-se os tormentos de Tantalo que ex¬ perimentaram os soldados francezes da expe¬ dição de Napoleâo nos ateaes ardentes do Egy- pto *, foi entíio que a miragem se tornou cele¬ bre : extenuados de fadiga e morrendo de se¬ de, aquelles heroicos soldados viam com ale¬ gria as palmeiras, as casas, reflectidas no meio deiminensas superficies d’agoa, onde elles es¬ peravam em breve achar um termo aos seus soffrimentos • triste engano í á medida que el¬ les avançavam, os lagos lhes fugiam diante, e aridas planícies se desenrolavam sem cessar debaixo de seus pés: dizem que o proprio Monge, um dos maiores sábios que acompa¬ nhou a expedição, por algum tempo partici¬ pou da illusao commum ; porém bem depressa percebeo que era um efíeito de optica, do qual o mesmo sabio estabeleceo depois a theoria com¬ pleta. Encontrávamos frequentemente longas en¬ fiadas de camellos carregados, caravanas acam¬ padas tomando descanço, e em uma destas vi um camello com os pés atados que deixavam *
  • abandonado, o que me fez profunda impressão de compaixão por aquelle prestadio e paciente animal. Soube depois que os Árabes fazem isto quando o camello adoece ou fraquêa, deixan¬ do-lhe alguma comida para depois voltarem a buscal-o se melhora; de ordinário porém mor¬ re, manietado pela mão barbara do homem, que até ás ancias da morte lhe faz sentir a es¬ cravidão e a crueldade, em troco dos immen- sos serviços que lhe presta este singular qua¬ drúpede: d’aqui provém achar-se todo este caminho do deserto bordado de ossadas de ca- mellos, que servem como de balisas, e que me produziam dolorosa impressão. Fomos vendo mais cinco ou seis arvores, muito pequenas e enfesadas. Pelas quatro horas chegámos á duodéci¬ ma estação, terceiro hotel, e o mais bem mon¬ tado de todos : tem só pavimento baixo; mas com boas officinas, e excedente casa de jan¬ tar, onde nos serviram variada e optima co¬ mida, em fina loiça, cristaes etc.; neste, bem como nos outros dois hotéis, ha optima agoa do Nilo filtrada. O ar do deserto me produzia muito appe¬ tite, ao qual nestes desolados e solitários areaes satisfazia com as commodidades e regalos, que nem de longe podéra encontrai1 nas mais ame¬ nas e povoadas províncias do meu paiz : pun¬ gente comparação que sempre me occorria. Os hotéis e o sustento no deserto são for¬ necidos aos passageiros pela Companhia do Transito, e só se pagam os vinhos, bebidas espirituosas, e refrigerantes ; o que tudo se en-
  • contra das qualidades mais conhecidas, e a pre¬ ços lixos. Neste ultimo hotel nos vieram offerecer alguns pobres arabes pedras quebradas que vão buscar ás montanhas, e delias fazem col- lares e enfeites: achei-as semelhantes a outras que vi em Gibraltar tiradas da Ponta da Eu¬ ropa. e que alli facêam para ornatos. Partimos ás cinco horas, e na decima quar¬ ta estação fui ao acampamento de um peque¬ no troco de cavaliaria que estava proximo: um soldado vendo-me olhar curiosamente para oscavallos amarrados, como já referi, me cha¬ mou para me mostrar o seu , fazendo-me com- prehender por signaes que tinha ires annos, que era muito valente, e que elte o estimava muito. O arabe do deserto presa em primeiro logar as suas armas, em segundo o seu cavai- lo, e em terceiro a mulher. Em todos os acampamentos que vi ao lon¬ go deste caminho, para o guardarem das cor¬ rerias dos Beduínos ou Arabes nomadas, obser¬ vei grande miséria nos soldados, pouco menos nos officiaes, eem todos certo ar submisso pa¬ ra os Euròpeos, recebendo delles dinheiro ou tabaco de fumo com muito agradecimento, e pedindo o bocxis, ou espórtula, com que os passageiros frequentemente são importunados. . Havia aqui perto uma fortalesa de muros baixos e quadrada. Vi passar uma caravana de camellos com dois ca'vaileiros negros, trazendo comprida lan¬ ça, com uma grande borla preta no começo do ferro, e com escudo de pelle de cabra.
  • [54] Ao passarmos na ultima estação, me afas¬ tei um pouco para contemplar a sós o occaso do sol no deserto: experimentei impressões indefiniveis, e das quaes mal posso dar idéa; complexo de recolhimento, de solidão moral, de melancolia, de liberdade plena e desconhe¬ cida, e de nunca sentida expansão do espirito ! Parecia-me que a alma se dilatava va¬ gueando em novas regiões, e que solta da ter¬ ra abrangia a infinidade do espaço, como os olhos dominavam toda a amplidão do horisonte! Com quanto a extensão dos mares tenha sempre sublime e melancólica magestade no occaso do sol, nunca esta hora tanto me im¬ pressionou como no deserto. Sobre as agoas ha sempre o movimento e o sussurro das ondas, o silvar dos ventos, o cre¬ pitar da fervente espuma, o como trovejar lon¬ gínquo e surdo das rodas do vapor que nos con¬ duz; em quanto que no deserto parece que to¬ da a vida da terra se anniquilla, pelo silencio pavoroso e absoluto, e pela immohilidacle com¬ pleta de tudo que nos cerca! Astrevas surgiam do Oriente, e invadin¬ do os céos lançavam-me n’alma vagos senti¬ mentos de um temor mysterioso, que me pro¬ duziam a necessidade moral da oração, e de adorar prostrado o Supremo Author do Uni¬ verso !
  • CAPITULO OITAVO, Sue®, © Egypt©, e Ahns-S*nch.n« Sobreveio-nos a noite no deserto: passámos perto de um edifício com muralhas angulosas, que me pareceo ser fortalesa, e onde havia gru¬ pos de arvores. Soube depois, segundo alguns authores, que era este o assento da cidade de Etham, onde os Israelitas fizeram a terceira parada de¬ pois da sua sahida do Egypto, como refere a Sagrada Escriptura. Perto das nove horas entravamos no ho¬ tel de Suez, muito espaçoso e commodo, com casa de bilhar, pianno, etc. : recolhi-me a um quarto e boa cama, onde gosei delicioso des- canço, depois de duas noites e dois dias de fa¬ diga e insomnia. De ordinário o trajecto d’Alexandria a Suez faz-se em 60 horas, havendo uma noite de descanço no Cairo. Actualmente (Agosto de 1852) está em construcção um caminho de ferro, que muito mais abreviará esta passagem pelo Egypto, e servirá para o transporte de mercadorias pesadas da Europa para a Asia. De madrugada fui vêr a povoação : eram miseráveis e hediondas as casas, sugissimo e
  • [56] estreito o bazar, com muito poucos generos; lia unicamente uma loja onde se vendem pro- ductos da Europa, ainda que poucos e máos : as casas dos cônsules da Russia, de França, e de Hespanha, e a da agencia da Companhia do Transito sao as melhores, e sobre todas o hotel: em algumas janellas das habitações egy- pejas se viam uns enfeites e recortados de ma¬ deira, que pareciam os últimos vestígios, pró¬ ximos a extinguir-se, da antiga elegancia e gosto dos ornatos arabes. Vi dois avestruzes que excediam a altura regular de um homem quando tinham levan¬ tado o pescoço, o qual era quasi nú de pen- nas, sendo curtas as do costado e asas. Pela corpulência e forte construcçào destas aves é muito possível o que se refere, de costumarem os negros de algumas partes d’Africa andarem n’ellas montados, e dizem que excedem na carreira ao mais veloz cavallo: defendem-se aos couces dos animaes que as atacam, e sào fáceis de domesticar. Vi também um carneiro da raça de Pekim com o rabo em form a de al¬ mofada, e um boi e uma vacca em estado de completo crescimento do tamanho de cáes da Terra Nova. Observei a chegada de uma personagem do paiz em uma especie de liteira ou maca, conduzida por dois camellos, e as suas mulhe¬ res n’outros em uma especie de camas nos flancos destes animaes. E’ Suez dependencia do Egypto, e mu¬ rada, mas muito mal; e nenhuma arvore ou verdura lhe mitiga a aridez do sólo, e o calor suflbeante do clima : não tem ago a senão a de C-/
  • [57] alguma rara chuva, ou a que vão buscará fon¬ te deMoysés, a 5 ou 6 legoas na fronteira Ara¬ bia ; os seus arredores são o deserto, e do la¬ do da Arabia estereis e abrasadores areaes: lica situada no fundo do golfo do seu nome, e apesar de ser o interposto dos generos da Ara¬ bia e da índia, importados para oEgypto, e a massagem das caravanas e romeiros que vão a Mecca, parece extremamente pobre, e dizem mal chegará a sua população a 2:000 almas. Na antiguidade foi muito importante, e se de¬ nominou Arsinoe e depois Cleopatrida, e vi¬ nha a este porto desembocar o celebre canal iVecos, começado 600 annos antes de Jesus Christo, que communicava o braço oriental do Nilo com o Mar Vermelho, do qual ainda res¬ tam vestígios. Foi neste porto que o sultão do Egypto fez preparar a grande esquadra para expulsar os Portuguezes da India, a qual íòi destruida junto a Dio pelo illustre D. Francisco d'Al- meida, e desde então data a total decadência em que calho Suez, pelo novo caminho que se abrio ao commercio da India, do qual esta ci¬ dade era o primeiro interposto com a republi¬ ca de Veneza. A povoação vista do mar não apresenta bellesa alguma : tem umaespecie de estaleiro, onde se estavam juntando as peças de um va¬ por de ferro vindas de Inglaterra, para o ser¬ viço da Companhia, e no porto havia bastan¬ tes barças arabes, bogallas ou gorabs, com a proa muito aguda; especie de chavecos, que talvez pores te modelo fossem antigainente in¬ troduzidos no Mediterrâneo: diziam que os mo
  • [58] dernos arabes destas partes são péssimos e tí¬ midos marinheiros. Pelas oito da manhã começaram a chegar as bagagens dos passageiros, trazidas em re¬ cuas de camellos, que docilmente ajoelhavam para os descarregarem : os olhos meigos des¬ tes animaes, e os mugidos lastimosos que ás vezes soltam excitam a compaixão, e parecem accusar seus ásperos e brutaes senhores da des- piedade com que os tratam, elhes correspon¬ dem aos seus utilíssimos serviços. As bagagens são transportadas para bor¬ do pela Companhia, e é para admirar a regu¬ laridade c exact idão com que se executa este serviço *, a nenhum dos passageiros faltou cou¬ sa alguma, mesmo pequenos volumes e obje¬ ct os, que aliás nunca convém levar soltos pela facilidade de se perderem ou cahirem das car¬ gos, como se recommenda nas instrucções da Companhia, as quaes muito convém a todo o passageiro tomar no ponto donde parte, e que são dadas gratuitamente pelos agentes delia, bem como em Alexandria se podem pedir as da Companhia do Transito no seu escriptorio, não menos curiosas e uteis para o viajante. (*) (*) Por falta do simples exame deslns instrucções, e de exaclas informações das poucas pessoas que em Portugal tem feito esta viagem, incutem-se em Lis¬ boa taes duvidas e receios a respeito de bagagens, que julgamos poderemos ser uteis a alguns, que do nosso reino tenbam de se transportar á Índia pelo isthmo, esclarecendo-os com a verdade e a experiencia a tal res¬ peito. Para bordo dos vapores é permittidolevar aos pas¬ sageiros da primeira classe ties hundred weights, act.,
  • Deixando a terra do Egypto terá logar di¬ zer alguma cousa sobre este paiz, tào celebra¬ do desde a mais remota antiguidade, eseu actual estado. Apesar de todas as indagações dos sábios, ou quintal de 112 arrateis portuguezes; isto é, 336 anateis aproximadamente de peso de bagagem : ás crianças e criados urn e meio cwt, ou J68 arrateis. O peso que exceder a estes limites pagará na ra- sâo de carga, entre Lisboa e Alexandria uma libra sterlina por cwt., duas entre Suez e a India, etresen¬ tre Suez e os estreitos de Malaca e a China. Mas isto não se executa: em nenhuma parle observei tal fiscalisação, nem pesar bagagens, sendo certo que as levavam de mais a maior parte dos pas¬ sageiros. Isto tudo se entende no caminho pelo mar: quan¬ to ao de terra, isto é na passagem pelo Egypto, a cada passageiro da primeira classe é dado dois cwt., ou @24 arrateis de bagagem; e ás crianças e criados um cwt., ou 112 arrateis. Tudo que exceder a estes li¬ mit e» paga na rasão de 14 shelins por cwt., ou 112 arrateis, o que se exige em Suez na vinda da Europa e no Cairo na ida. Nesta parte se observa muito rigor, sendo as ba¬ gagens pesadas com todo o escrupulo em Boulac, ou em Suez. Em Lisboa julgava-se inconveniente, e muito ar¬ riscado, trazer cartas ou papeis fechados comsigo nes¬ ta viagem : éoutro exaggerado receio; a bagagem em parle nenhuma é revistada, ao menos até á China, nem aos passageiros se exigio n’esta viagem declara¬ ção ou apresentação a respeito de cartas. Existe porém o direito de revista das bagagensno Egypto, por suspeita de conducção de objectqs para negocio, ou de os sonegar a um moderado imposto de transito a que estão subjeitos; o que tudo melhor se verá das instrucções de que acima falíamos.
  • [60] a historia antiga do Egypto está envolvida em completo mysterio. Sabe-se que foi longo tem¬ po governado theocraticamente por um colle- gio ou casta sacerdotal, que cultivava as scien- eias e artes, as quaes chegaram a ter grande Quando não ha grande concurrence, quasi lo¬ dos os passageiro., tem nos camarotes dos vapores, além do seu sacco de viagem, urría ou mais mallaa, e ás ve¬ zes toda a sua bagagem, apesar da prohibição que se lê nas instructors; e o mais conveniente é logo ao en¬ trar no vapor, e tendo sido designado o camarote ao passageiro, fazer este para alli conduzir o que lhe con¬ venha, e deixar ir o resto para o porão; pois o ac- cosso á bagagem que vai para este logar não é tão fᬠcil e frequente como representam as instrucções. A Companhia do Transito fornece, como já dis¬ semos, as carruagens no desembarque de Alexandria ale ao hot (d, e deste ao embarque no canal, e bem assim de Boiilac para o Cairo, e vice-versa; mas as despesas, sempre carregadas, nos hotéis de Alexan¬ dria, do Cairo, e de Suez, sãó por conta dos passageiros. Os preços da passagem de Lisboa a IJong-kong, proximo de Macáo, é de ISO libras ou soberanos nos cinco mezes de Abril a Agosto, e de 140 nos restan¬ tes sete mezes : os criados e as crianças de § a 5 an- nos pagam nos primeiros mezes indicados 43 libras, e 53 nos segundos. Nestes preços se inclue a passa¬ gem pelo Egypto, e são os últimos estabelecidos pe¬ las recentes instrucçôes da Companhia datadas de @6 de Julho de 185@, e ás quaes se referem todas as in¬ dicações que vão transcriptas. As passagens foram re¬ duzidas a menos 10 por cento do que eram na occa- siáo da minha ida. Podem-se calcular de 18 a fO libras as despesas regulares dos hotéis, passeios, visitas a monumentos, etc. : de modo que com pouco mais de 600 ou 700^000 réis, segundo o mez de partida, se pode hoje fazer esta agradavel e interessante viagem até á China,
  • [61] desenvolvimento, e a produzirem edifícios e monumentos maravilhosos, cujas ruínas cobrem o solo do Egypto, e ainda hoje deixam absor¬ tos os viajantes que as visitam. Este governo foi substituído pelo de chefes militares ou reis, o qual durou até á invasão dos Persas e á con¬ quista por Cyro» Com a destruição do império Persa o Egypto passou ao domínio de Ale¬ xandre Magno, e depois foi governado pelos Ptolomeus, descendentes de um dos generaes d’aquelle conquistador: Cleopatra foi a rainha ultima desta dynastia, passando então o Egy¬ pto a província romana, até ser conquistado pelos califas de Bagdad, para cahir depois nas mãos dos Turcos. O brilhante dominio do sul¬ tão Kebir, o senhor do fogo dos Árabes, ou o heroe Napoleão dos Francezes, .apenas du¬ rou tres annos no principio deste século, e o Egypto recahio no feroz governo dos Tur¬ cos : finalmente em tempos recentes é sabi¬ do o irnpulso que o esclarecido pachá Moham- med-Ali deu á civilisação e á industria do Egypto, e o futuro esperançoso que lhe pre¬ parava: seu filho Ibrahim, bem conhecido por suas victorias contra os Turcos, e que vi¬ sitou Lisboa em 1846, era capaz de continuar a gloriosa tarefa do seu pai, na qual muito o ajudava; mas fallccido antes de lhe succeder, pela morte de Mohammed-Ali, que estava qua¬ si alienado, cahio o governo do Egypto nas mãos de seu sobrinho Abas-Pachá, o qual alli descreviam como um déspota désmoralisado, pouco instruído, e feroz. O exercito de Ibrahim, que chegou a ser de 120:000 homens (quasi 10 por cento da po-
  • pulação masculina do Egypto), diziam-no ho¬ je reduzido a cousa de 6:000 infantes desorga- nisados, e a pouco inais de í :000 cavallos : destes a maior parte foram tirados do exercito para o serviço particular de Abas, e de seus beis, e para as postas do deserto. Já não existe a magnifica esquadra egy-» 3cia; seus melhores vasos foram-para Cons- antinopla: em Alexandria, como já dissemos, havia uma só náo armada, e seis desmantella- das no arsenal, que se vão desmanchando, e com a madeira delias se estava pagando aos of- ficiaes civis e militares. O commercio e a agricultura definham, as instituições litterarias e scientificas de Mo- hammed-Ali extinguiram-se completamente, e de muitas e bem montadas que eram só hoje restam um eschola de lingoas orientaes, e ou¬ tra bem deficiente de medicina. Os canaes, estradas, e a grande e utilíssima obra da bar¬ ra do Nilo estão quasi em abandono. No entanto Abas-Pachá só trata de seus nefandos praseres, e extravagantes caprichos : tem feito construir vários palacios, guarnecen¬ do-os de custosas mobilias, que da Europa tem mandado vir no valor de alguns milhões de francos; um defies denominado palacio bran¬ co, da cor das suas paredes, é no meio do de¬ serto defronte da estação central ou oitava, so¬ bre aridas e avermelhadas collinas, o qual por vezes tem feito destruir em parte e de novo edificar : diziam que hia alli fazer jardins^ que haviam ser regados com agoa do Nilo, con¬ duzida em camellos de 40 milhas de distancia. Nestas obras e nas suas extravaganeias
  • [63] obriga a trabalhar o miserável povo e os seus camel los, dando-lhes apenas alguma pouca e péssima comida; mas bastonadas em abun- dancia. Só um povo aviltado, uma raça escrava e estúpida, póde soffrer tal governo e gover¬ nante. Depois da extincção dos nlamelucos só duas raças sedentárias existem no paiz; a dos coplas ou indígenas, que conservam o culto chrisíão alterado; e a dos arabes degenerados ou/e/fós, antigos invasores e dominadores: ambas habitam nas margens do Nilo. Os Turcos são os que occupam todos os empregos, e os altos cargos de administração. Toda a população do Egypto avalia-se não che¬ gar a 4 milhões. Diziam na occasião da minha passagem pelo Egypto, que um mineralogista alemão acabava de descobrir nas immediaçÕes das ruí¬ nas de Thebas, uma rica mina de bom car¬ vão de pedra, o que seria de uma vantagem incalculável para o Egypto, onde tanto falta o combustível, usando-se geralmente do da bos¬ ta dos animaes. Para a navegação a vapor na índia tam¬ bém seria importantíssima tal descoberta, con¬ seguindo-se a facil conducção do carvão mi¬ neral para o litoral do Mar Vermelho; pois actualmente os vapores que navegam em todo o Oriente são fornecidos pelo combustível da Europa, que, pelo Cabo da Boa-Esperança, é conduzido para os depósitos de Suez, Adem, Çeylão, etc. Por informações colhidas em Suez, soube
  • que um bom cavaJlo arabe de pura raça se ti¬ ra por í:000 thalarins, que regulam por 1:000 patacas; porém os mais raros, os que igua¬ lam as fórmas e a agilidade da gazella do de¬ serto, chegam a custar 5:000 : a par disto se compra uma mulher circassiana de bellesa re¬ gular por 500 patacas, euma que se diga for¬ mosa póde-se já obter por 1:500 !
  • [65J CAPITULO MO. €í May Vermelho e idem. Pela uma liora da larde de 7 d’A gosto fui de Suez para bordo do vapor Haddington, que estava ancorado bastante ao longe; pois nes¬ tas paragens as marés em certas épocas es¬ praiam extraordi nariamente. Atravez da luz do sol amarellada, mono- tona, e desoladora perspectiva se de visava de bordo, onde havia um calor de suffocar : abor¬ recida foi a demora até ao dia seguinte pelas tres da tarde, que é quando começámos a des¬ cer pelo golfo de Suez, á vista dos dois anti¬ gos Continentes d’Africaed’Asia: montanhas aridas e medianas de um e outro lado, e as d’Arabia nos interceptavam o raio visual até aos venerandos cumes Sinai e Horeb, que aliás veríamos mais para o interior, como dizem são vistos do golfo de Akabah, que corre qua¬ si parallelo ao de Suez, e entre os quaes se prolonga a cadêa Dejebel-Mousah, de que faz parte o monte Sinai. Até nesta sagrada montanha um portu- guez acha cavalheirosas recordações da histo- na patria! 5
  • D. Estevam da Gama, o iilustre filho do grande D. Vasco da Gama, sendo governador da India, subio com uma grossa armada pelo Mar Vermelho, para destruirás galés dos Tur¬ cos abrigadas em Suez, e ha qual hia o íncli¬ to D. João de Castro, que escreveo então o seu Roteiro do Mar Roxo, que apenas ha vin¬ te annos foi dado á estampa, e que tão apre¬ ciado é por nacionaes e estrangeiros. D. Es¬ tevam visitou então o monte Sinai, e alli ar¬ mou vários cavalheiros em í 5 if, entre outros a D. Alvaro de Castro e a D. Luiz d’Attai- de, depois vice-rei da índia, e refere-se que este preferio a honra de ser assim armado ca¬ valheiro, áque lhe offereeera o imperador Car¬ los V de lhe conferir esta qualidade pelas suas próprias mãos. Hi amos cortando o mar que os Israelitas passaram a pé enxuto, o que segundo alguns authores teve logar a 15 legoas de Suez. Este famoso acontecimento e outros da Historia Sa¬ grada, que são recordados por estes logares memoráveis, não podem deixar de occupar a imaginação de quem navega nestas paragens, embora ellas nada offereçam de notável e gran¬ dioso . No dia 9 continuámos a ver terras ele¬ vadas, e deixámos á esquerda uma ilha este- ril e deserta, á qual os Inglez.es chamavam Red-one. A 10 o mar fui-se alargando; saldamos do golfo de Suez, e mal devisavamos os dois Continentes, que pela tarde desappareceram : passámos na altura de Cosseir, e de Berenice já na costa da Nubia, porto muito commer-
  • [67] ciai no tempo dos Romanos, eque fbi arsenal dos antigos Pharaós: pouco adiante nos ficou á esquerda Jédda na Arabia, hoje cidade im¬ portante, de muito commercio de perfumes, tecidos de làdecamello, cravo e café de lVíoka, e recebe de Suez muitas fazendas inglezas: vimos outra ilha deserta, e varias fomos obser¬ vando nos dias seguintes, e ao fim da tarde de 13 descobrimos um grupo delias, ao qual cha¬ mavam Juláo, com algumas arvores e matto rasteiro; a escuridão das montanhas, e a dos rochedos isolados que surgiam das agoas, pro¬ duziam a esta hora um bello effeito nesta sce- na marítima. Navega vamos em completa bonança ; mas debaixo de um calor horrível: ao ar livre e com os mais ligeiros vestidos conservava continua e abundante transpiração. O Haddington era um bello barco de fer¬ ro de 1:800 toneladas, da força de 450 ca- vallos, e com a tolda corrida em 90 passos de comprimento e 16 de largura; superior ao In¬ dus em luxo, commodidades, e regalo de co¬ midas ; tinha quatro casas de banhos ; a maior parte da tripulação, composta de uns 150 ho¬ mens, eram naturaes do Indostão, gente fus¬ ca, humilde e fraca, com um dialecto parti¬ cular a que chamam lingoa de Bengala, har¬ moniosa e efteminada: são dirigidos na ma¬ nobra pelo seu saranga e tandei, que usam de grossos cordões com apit os de prata : os ven¬ cimentos dos officiaes inglezes são avultadissi- mos; parece que o capitão do vapor apurava 1:000 libras annuaes; o primeiro dos quatro engenheiros 300 libras, e assim dos mais em-
  • [08] pregados : diziam que a despesa diaria deste barco andava por 250 libras : com o tempo sereno deitava sempre 10a 11 milhas por hora. C-onfusamenle se viram negrejando no ho- risonte as serranias de Mecca, a Cidade San¬ ta dos mahometanos, e onde elles vâo vene¬ rar a Kaaba ou casa de Deos: para alli vol¬ tam o rosto mais de cem milhões de indiví¬ duos em todas as partes do mundo, quando dirigem suas orações ao Deos de Mafoma, ao Deos desse homem extraordinário, que sou¬ be crear com a palavra e o alfange uma reli¬ gião extravagante, mas perfeitamente appro- priada á indole e á imaginação do povo ara- be, que decora com o pomposo titulo de Om el Kara (a mài das cidades) esta povoação, aliás arida, feia, e hoje miserável, segundo referem modernos viajantes. Mais adiante passámos na altura de Moka, cidade de bastante commercio, e que exporta o famoso café do seu nome. Seguindo julgámos devisar mal distincta- mente no horisônte as costas da Abyssinia, paiz que esíá hoje attrahindo muito a atfençâo dos geographos e dos homens scientificos, de¬ pois do longo esquecimento em que jazeo; por quanto desde as relações que os Portugue- zes alli tiveram no século 16.°, nenhumas com- municações houve mais da Abyssinia com pc- vos civiíisados, consequência talvez da sua po¬ sição isolada neste recanto d’Africa. Moder¬ namente missionários e viajantes francezestem penetrado nesta região, que descrevem como uma das mais bellas e ricas do mundo, confir-
  • [69] mando completamehte as narrações dos nossos primeiros portuguezes que a viram. Julgo dignas de memorar algumas das nos¬ sas recordações históricas ligadas com este paiz. No tempo de D. João II se estabeleceram as primeiras relações com a Abyssinia por meio do celebre viajante Pero da Covilhã, e depois elrei D. Manoel em 1515 alli enviou dois em¬ baixadores, sendo um delles seuproprio cape¬ lão Francisco Alvares, o qual voltou a Lisboa com Zagasabo, bispo abexim ou ethiõpico, e depois o acompanhou a Roma. O ehristianis- mo existia na Abyssinia desde o 4.° século, e o dito bispo fez n’aquelle tempo muito ruido na Europa, e desvaneceo em parte as fabulas que corriam a respeito do Preste João das ín¬ dias, cujo nome os antigos Portuguezes deram ao chefe ou rei da Abyssinia. No tempo do governador da India D. Es- tevam da Gama foi uma expedição de 400 ou 500 portuguezes, com mandados por seu filho D. Christovam da Gama, em soccorro dos Abexins christãos contra os exercitos dos mu- sulmanos visinhos que lhes faziam a guerra, aos quaes derrotaram completamente. Sobre¬ vieram depois vários successos, que termina¬ ram com a derrota e morte do mesmo D. Christovam da Gama, e quasi acabaram des¬ de então todas as relações com a Abyssinia. Refere D. João de Castro no seu Rotei¬ ro que um antigo rei d’Abyssinia, a quem fa¬ zia guerra um soldão do Egypto, tentou des¬ viar a corrente do Nilo para o Mar Vermelho, para esterilisar aquelle paiz, o que obrigou im- mediatamente aquelle soldão a fazer as pazes.
  • [70] Este atrevido project o foi depois renovado, co¬ mo é sabido, pelo grande Affonâod’Albuquer¬ que. Ao romper do dia 4 vogava mos no estrei¬ to de Bab-tl-Mandeb, que significa Porta da Desgraça ou Estreito dos Naufrágios, e é por onde o Mar Vermelho communica com o gol¬ fo d’Adem no Oceano indico: era semeado de pequenas ilhas e rochedos, e viamos terra d’Arabia. A largura deste estreito andará por 6 legoas. Em todo o Mar Vermelho- nunca obser¬ vei diflerença da cor das agoas á dos outros mares: diziam porém osofliciaes do vapor que algumas vezes, e em certas paragens, apre¬ sentam a cor avermelhada, o que se attribue aos muitos coraes que crescem no fundo. E’ muito curiosa e especificada a expli¬ cação que dá D, João de Castro, no seu cita¬ do Roteiro, sobre as cores que apresenta este mar; diz tambein que não ha rasão para que se lhe chame vermelho, e refere que os Ára¬ bes n’aquelle tempo só o conheciam pelo no¬ me de Mar de Mecca, espantando-se muito de que os europeos lhe chamassem Mar Ver¬ melho ou Roxo. Também falia dos grandes bancos de coraes encarnados e brancos, dos quaes se diz modornamente que vão cada vez alteando mais, c com as madre-perolas for¬ mam e tendem a formar recifes e bancos de considerável extensão : isto junto ás muitas ilhótas já existentes e á frequência de ventos violentos, torna bastante diíFicil e perigosa a navegação deste mar, que tem urnas 400 le¬ goas de comprido, 60 na sua maior largura,
  • e foi primeiro devassado pelos europeos nas lu¬ sas quilhas guiadas pelos Albuquerque», Cas¬ tros , e Gamas! A temperatura refrescou alguma cousa, e pelas quatro da tarde lançámos ferro na vas¬ ta e segura bahia d’Adem. Era triste o aspecto do paiz, que só apre¬ senta quebrados e negros rochedos, sem vege¬ tação alguma, parecendo requeimada a pouca terra que contém. Apenas fundeados uma multidão de bar¬ cos arabes cercou o vapor: os indigenas são quasi negros, com os dentes alvíssimos 5 an¬ davam semi-nús, e alguns usavam estranhas cabelleiras arruivadas, o que fazem artificial- mente empastando em cal seus cabellos lon¬ gos e crespos-, eram óptimos nadadores, e mergulhavam com grande agilidade para irem ao fundo buscar pequenas moedas de meio shelin, que de bordo lhe deitavam, e nenhu¬ ma lhes escapava: vinham em canoas mui es¬ treitas e frágeis. Logo depois de desembarcar montei a ca- vallo, e fui á cidade a uma pequena legoa de distancia : admirei os bellos caminhos, as vas¬ tas obras de fortificação feitas pelos Inglezes, e a estrada profundamente aberta entre altos pe¬ nhascos, que se vê logoásahida da porta, que 6 bem defendida: passada esta observa-se uma ponte que reune 0 alto d’aquelles penhas¬ cos, e que serve de çommunicação entre as muralhas da cidade. No fim da estrada se des¬ cobre uma pittoresca vista da cidade arabe de Adem, que é situada em uma baçia rodeada de altos e tostados rochedos, e onde reina a
  • mesma esterilidade que na bahia : diziam que a mais quatro ou cinco milhas para o interior ha vegetação, cultura, e até fertilidade ; falta porém de todo a segurança para os Europeos, e havia poucos dias tinham assassinado os na- turaes a dois guarda-marinhas, e ires mari¬ nheiros inglezes, que se aventuraram a ir á ca¬ ça : é d’alli que vem todos os fructos e comes- tiveis. Era grande o basar da cidade, muito concorrido, e havia varias lojas bem forneci¬ das de generos da Europa e Asia: via-se um templo protestante, e visitei uma simples e aceiada capella catholica, servida por um pa¬ dre da Saboia, que era o capellao doscatholi- cos da guarnição, o qual em vão tem procu¬ rado converter algum indígena : achava-se com elle um missionário da Abyssinia, que dava curiosas noticias deste paiz. As casas de Adem são quasi todas de can- na e bambu, e cobertas com ólcis ou tecidos da folha da palmeira: a agoa é péssima, e al¬ guma melhor vem do interior, ou mesmo de Suez e Bombaim, e delia só bebem as autho- ridades inglezas, os officiaes até capitão, e os padres, pagando todos para isso uma presta¬ ção mensal. Ha bandos numerosos de cães que fazem um motim horrível. Este logar é muito insalubre ; porém ain¬ da assim melhor que todos os outros das cos¬ tas do Mar Vermelho, que são fataes para a raça europea. Pelas nove da noite por um magnifico luar, e ao ardente bafo que exhalava o sólo e os rochedos, regressei para a povoação fron-
  • [73] teira ao ancoradouro dos vapores, e que é pro¬ priamente o moderno estabelecimento irtglez, o qual já tem bastantes casas, quartéis, um bello hotel, e uma bem fornecida loja contí¬ gua, onde vi o primeiro parse nesta viagem, com seu singular barrete ou carapuça. Quasi todos os passageiros e passageiras tinham vindo para terra, e ceámos voluptuo¬ samente no hotel em um salão aberto, na pa¬ vimento do solo, bem illuminado com grandes lampiões de vidro suspensos interior e exterior- mente, e com a agradavel e refrigerante agi¬ tação do ar, promovida por grandes ventaro¬ las, fixas na extremidade superior de uma al¬ ia vara firme no chão, e que mollemente mo¬ viam, nos quatro ângulos da mesa, outros tan¬ tos pequenos arabes graciosamente vestidos ao seu uso, ao mesmo tempo que os criados ara¬ bes mui bem trajados á oriental serviam atten- tamente os hospedes. Estes variados accidentes, com todo o cu¬ nho da novidade que para mim tinham, o ar tépido e perfumado, os brandos fulgores da lua alumiando fora os grupos negros dos Arabes destacando-se na branquidào da areia, mais ao longe o grande e escuro vullo do vapor, e por ultimo o famoso Oceano da índia, que¬ brando magestosa e lentamente suas largas on¬ das nas praias do poético paiz do Yemen, tão exaltadamente íanatico e enthusiasta; taes ac¬ cidentes, digo, me tornavam esta scena como fantastica, só propria do Oriente, e do paiz dos contos maravilhosos das Mil e uma noites. A ceia foi muito animada, abundante, variada, e no gosto europeo inglez: o peixe
  • era saborosíssimo, e eu delle comi exclusiva- mente, frito á moela da minha patria, o que, seja dito em segredo, nada tinha de fantasticp e oriental. Dormi no hotel em uma espaçosa casa, ou especie de varanda aberta ao ar livre, só rodeada na frente de grades de canna. De madrugada corri a povoação, e fui ao cemiterio, onde em vâo procurei o tumulo do governador de Macáo, José Gregorio Pegado, que falleceo neste logar no seu regresso para a Europa, e ao qual me diziam se havia alli erigido um monumento. w * Pelas sete horas regressei para bordo, on¬ de já haviam recolhido todos os passageiros, e por isso fui sósinho em um bote com quatro remadores árabes, que bem pareciam selva¬ gens de feia catadura, aos quaes os alvos e agu¬ çados dentes semelhavam a íeras : não ó po¬ rém prudente confiar delles ; são mui ladinos e ladrões, e cumpre haver toda a vigilância nas algibeiras, e não consentir a sua aproxi¬ mação e importunações pedindo o boexis, tan¬ to em uso aqui como no Egypio : roubaram a bolça recheada com algumas libras a um pas¬ sageiro ingiez. Pelas dez horas deixámos estas ardentes paragens, onde só o génio ingiez, estimulado pelo interesse e necessidade de adquirir uma estação á entrada do Mar Vermelho, poderia emprehender com bastantes sacrifícios de vi¬ das e dinheiro tão custosas obras de fortifica¬ ção e viaturas : alli ha uma forte guarnição de tropa europea e da índia, e já ostentam seu luxo os commercial!íes e empregados, rodan-
  • do em lindos carrinhos e carruagens, e destas vi aqui uma pela primeira vez que o coleiro guiava sentado na trazeira, passando as redeas por cima do tejadilho. Este porto d’Adem desde antigos tempos tem sido importante pela sua situaçãogeogra- phica e commercial, e no principio do século 16.° era cidade mui formosa e rica. O nosso intrépido viajante Pero da Covilhã a visitou por tres vezes, antes de dobrado o Cabo da Boa-Espe rança. El-rei D. João II fez sahir de Lisboa em 1187 a Pero da Covilhã e a Affonso de Paiva, um para irá índia por terra, e outro para pro¬ curar o celebrado imperante e sacerdote Pres¬ te João, personagem fabulosa, mas que tanto occupou os espirites na idade media. Pero da Covilhã pelo Egypt o passou a Adem, e d’aqui a Calicute, Cananor, e Goa; foi a Sofalla, então o grande emporio do com- mercio d’Africa oriental, e regressou a Adem, e ao Cairo, onde se separara de Alfonso de Pai¬ va, a respeito do qual soube que voltara da Ethio¬ pia sem ter obtido noticia do imaginário Prest e João das índias, e que morrera d’uma enfermi¬ dade na mesma cidade do Cairo. Aqui Pero da Covilhã se encontrou com dois judeos Rabi Abra hão e Josepe, çapateiro de Lamego, os quaes D. João II tinha expedido com mais instrucções e noticias ao encontro dos dois via¬ jantes . Pelo judeo Josepe escreveo Pero da Co¬ vilhã ao rei, mandou-lhe muitas informações do que vira nos vários paizes que percorrera, e se partio com o outro outra vez a Adem, e ambos foram a Ormuz, então a grande cida-
  • [76J de commercial da India occidental: veio depois á Abyssinia, donde nâo o deixaram sahir; ca¬ sou-se no paiz, que dizia ser magnifico e mui¬ to rico em producções, o que modernamente se ha verificado; possuio muitas terrasebens, teve filhos, e viveo longos annos assim dester¬ rado da patria. O rei mandou-o pedir por em¬ baixador ao chefe que governava na Abyssi¬ nia, porém não lhe obteve a liberdade de vol¬ tar a Portugal: parece que ainda vivia Pero da Covilhã em ISIS, quando o império por- tuguez já estava fundado no Oriente. Em 1513 Affonso d’Albuquerque expul¬ sou os Árabes desta cidade d’Adem, cumprin¬ do as repetidas recommendações do rei D. Manoel, que já contemplava este ponto como a chave do Mar Vermelho, e muito neces¬ sário para prevenir os projectos hostis do sul¬ tão do Egypto, e dominar o coimnercio de Barbara e Zeila, cidades africanas do outro lado do golfo. D. João de Castro a visitou em 1541 na viagem ao Mar Vermelho, e diz ser- a Madoca dos antigos.
  • [77] As Ilhas tie Socttiora e Ceylâ». Pelo meio dia de 15 d’Agosto perdíamos a terra de vista, e nos engolfávamos no amplo Oceano da índia, sereno e espelhado como o mais tranquillo lago: era este o festivo dia da Assumpção, ao qual se ligam varias saudosas recordações da minha vida, nunca tão inten¬ samente sentidas como na solidão destes ma¬ res, sob uma atmosphera de fogo, e a quasi duas mil legoas de distancia da minha patria, onde o pensamento me transportava íftodos os instantes. Perto do fim do dia seguinte passámos a pequena distancia da ilha de Socotoro, situada perto do Cabo-Guardafui, o mais oriental do Continente africano. Esta ilha foi descoberta por Diogo Fer¬ nandes Pereira em 1504 ou 1505, quando a esquadra de Antonio de Saldanha, sahida de Lisboa em 1503, cruzava na bocca do Mar Vermelho para surprehender os navios dos Mou¬ ros. Nas primeiras instrucçÕesd’el-reiD. Ma¬ noel ao vice-rei da India D. Francisco d’Al¬ meida, se ordenou a posse d’aquella ilha, o que
  • [78] em 1507 levou a effeito o grande Affonso d’Al¬ buquerque, e alli assentou a forlalesa de Coco com a metade d\ima villa de madeira, que levaram os seus navios e os de Tristão da Cu¬ nha, e nella deixou por governador a D. Af- fonso de Noronha, seu sobrinho. Segundo as conjecturas de I). João de Castro, no seu referido Roteiro, Socotora é a Vioscorides dos antigos, e quando a visitou era muito povoada de christãos indígenas; mas já não existia a fortalesa de Çoco. Hoje ne¬ nhuma nação europea tem estabelecimento nesta ilha, que não oílerece nenhum bom porto. For estas paragens começou o vento a so¬ prar forte e a agitar-se o mar, o que foi em augmento e durou até ao dia 22 : o vapor jo¬ gava muito, alguma agoa entrava pela tolda, e houve enjoo geral, do qual participei; po¬ rém menos que no Mediterrâneo. A 23 choveo muito, mas abrandou o ven¬ to e o mar; e no dia seguinte recomeçou opti- mo tempo, com temperatura regular. Renovaram-se os entretenimentos ordi¬ nários dos passageiros, e para mim e para o meu amigo adquirido nesta viagem, oamavel hespanhol D. Antonio Casal, volveram as de¬ liciosas horas que á noite passavam os, conver¬ sando quasi sempre sobre assumptos das nos¬ sas patrias tão vísinhas e tão irmãs, sentados sobre o engradamento junto e lateral ás rodas do vapor, fixado exteriormente no costado do barco : alli aspiravamos a tépida brisa dos tró¬ picos, suavemente resfriada pelo tenue orva¬ lho que se evaporava das agoas, açoitadas pe-
  • [79] las largas pás, quo nos faziam voar como se foramos sobre as asas de algum fabuloso hip- pogripho, vendo debaixo dos pés, ameiga cla¬ ridade da lua, turbilhões d’alva espuma, que fugiam aos olhos com vertiginosa rapidez. No dia 24 pelas onze da manhã devisá- mos com alvoroço terra da índia, e pouco a pouco íbmos distinguindo a rica vegetação e bellcsa das costas da antiga Taprobana. A’s tres da tarde lançavamos ancora na bahia de Pontci-de-Galies : encantadora vista ! Todo o terreno até á beira do mar era cober¬ to de bosques de coqueiros e palmeiras, sur¬ gindo algumas mesmo de dentro da agoa : lin¬ do efléito produzia a perspectiva do farol, das fortificações, e sobre tudo da capella catholi- ea, um pouco elevada no meio desta massa de verdura, sobre a qual se detinham agrada¬ velmente os olhos, fatigados da esterilidade do deserto e das costas do Mar Vermelho. O mar embravecido lançava rôllos de bran¬ ca espuma por entre o frondoso arvoredo, ou resvalava em mil fôrmas caprichosas pelas pe¬ nedias, produzindo uma magestosa scena. As canoas dos naturaes de Çeylão tem singular fôrma e ligeiresa, e usam de umaes- pecie de contrapesos que evita o soçobrarem, mesmo nos mares alterosos. Passei com a minha bagagem para bordo do vapor Achilles, chegado no mesmo dia de Bombaim para seguir para a China com os pas¬ sageiros vindos da Europa, que neste ponto se sèparam dos que se destinam a Madrasta e Calcutá, para onde continuou viagem o Had¬ dington.
  • [80] Recentemente (1852) acha-se estabelecida uma outra carreira de vapores da Europa, que jarte mensalmente de Plymouth, com escal¬ as pelas ilhas de Vicente, Ascensão, San¬ ta Helena, cabo da Boa-Esperança, e ilhas Mau¬ ri cias, donde veem a este porto de Ponía de Galles, e seguem também para Madrasta e Calcutá. Calculam fazer-se esta viagem em dois mezes. O transporte da bagagem e pessoas foi aqui difficil e perigoso, peio obstáculo que apre¬ sentavam as grandes oscilações de um mar ban¬ zeiro á aproximação das canoas e botes ás es¬ cadas dos vapores; mas finalmente saltei a bordo do Achilles, debaixo de uma tremenda borrasca de chuva e vento, e passada esta de todos os passageiros só fomos a terra eu, o men¬ cionado hespanhol Casal, e o addido á Lega¬ ção Franceza na China Smith: corremos a povoação que tem bastante originalidade e bel- lesa, ruas muito regulares, bonitas casas só com pavimento baixo e com as entradas por alpendres ou varandas abertas, e por toda a parte lindas arvores. Os habitantes são quasi negros, porém de meigas feições, e os homens usam de cabello comprido, junto em uma trança, enrolada e sustida por um largo pente de tartaruga, o que junto á fôrma do vestuário, que é uma especie de saia, íáz parecer aquelles que não tem bar¬ ba exactamente como mulheres. Havia uma multidão importuna de ven¬ dedores de differentes objectos fabricados na ilha, alguns mui curiosos e raros na Europa, principalmenle do marfim ondeado da queixa-
  • [81] da de elefante, e de adereços de ouro com pedras que diziam preciosas, ou que as imi¬ tam, conhecidas pelo nome de pedras de Cey- lão. No passeio que dei senti uma repentina, e profunda impressão ao devisar de súbito uma sentinella da-guarnição ingleza, vestida exacta- mente com o uniforme dos corpos de caçado¬ res de Portugal, e «Minha alma saudosa e enternecida « Um momento sequer gosou da patria! Examinei as fortificações, mui bem en¬ tretidas, e o guia me mostrava os vestígios de antigos trabalhos dos Portuguezes, quando pos¬ suíram esta ilha, cujos naturaes ainda hoje di¬ zem com orgulho serem Portuguezes, e fada¬ rem a linguagem lusitana; mas se assim era, está de tal modo corrupta que para mim eram inintelligiveis. Ao anoitecer fomos os tres para o hotel de Brant on, onde ceámos, e um pouco ele- ctrisados com alguns copos de bom xerez, con¬ versámos animadamente, e fizemos política europèa no meio dos frondosos bosques de Cey- lão! Pelas onze da noite regressámos para bor¬ do, com grande mar e chuva, e com o mes¬ mo perigo do embarque e desembarque, no meio do qual os barqueiros me esconderam, e tentaram roubar alguns pequenos objectos que eu havia comprado em terra: parece que são aqui tcão ladrões como em Adem, Pelas nove da manhã do seguinte diasa- himos de Ponta-de-Galles, e debaixo de um temporal fomos correndo a pittoresca e ver- 6
  • (iejanie cosia meridional desla formosa ilha, que pelas duas da tarde perdemos de vista. Foi este o primeiro logar, depois da mi¬ nha sahida da Europa,, que me tocou pelas suas bclíesas naturaes ; mas também foi o pri¬ meiro onde experimentei algumas contrarie¬ dades, eonde tive o desgosto de saber da mor¬ te do governador de Macáo, Pedro Alexan¬ drino da Cunha, e da existência do cholera n’aquella cidade. Hoje Ceyláo constitue uma importante colonia cie Inglaterra, unica do Indostão que depende directamente da coroa, e onde não tem domínio a Companhia ingleza das índias r diziam que havia bellas estradas para o inte¬ rior, e boas diligencias para Colombo, que é a capital, cidade de muito commercio, e que conta para maís de 60:000 habitantes. No interior desta ilha ha grande abun- dancia de elefantes, as mais estimadas espe¬ ciarias da índia, bosques dilatadissimos, e pre¬ ciosas antiguidades. Dizem serem magnificas as ruínas de M.
  • [83] d’armas, as quaes um portuguez quepisaesta terra nâo pode deixar de recordar sem orgu¬ lho, nem resistir ao desejo de fallar resumida¬ mente de algumas delias, segundo reminis¬ cências históricas de viajante* Foi descoberta em 1505 por D. Louren- ço d’Almeida, filho do l.° governador da ín¬ dia D. Francisco d’Almeida, o qual começou desde logo a conquista, e nos annos successi- vos vários dos reinos em que a ilha estava divi¬ dida foram domados pelo Portuguezes, outros adquiridos por doações, como as do rei de Co¬ lombo, Ceylão etc., que nomearam seu her¬ deiro o rei de Portugal. Chegámos assim a pos¬ suir toda ou quasi toda a ilha, que é riquíssima e muito grande, sendo pouco menor que Por¬ tugal . A fortalesa de Colombo foi fundada pe¬ los Portuguezes, parece que ainda no tempo de D. Lourenço d’Almeida, e alli se obraram muitos prodígios de valor: nos tempos de Al¬ fonso d’Albuquerque veio a ser a praça mais perigosa da Índia, pelas muitas guerras que houve a sustentar na ilha, e segundo a expres¬ são de Sá de Miranda era a eschola em que se aprendia todo o valor e disciplina militar. Pelo meado do século 17.° os Hollande- zes atacaram Colombo, e mallograda a primei¬ ra tentativa, fizeram segunda quando gover¬ nava a fortalesa o velho Antonio de Sousa Coutinho, queadefendeo com incríveis acçoes de constância e valor: era homem da tempe¬ ra dos Albuquerques e Castros, aos quaes ti¬ nha sempre na lembrança: sete mil pessoas morreram na praça pela fome e pelas doen- *
  • çásç mas apesar de tudo os soldados acudiam ás trincheiras entoando em coro as canções patrióticas de Camões ! Os Hollandezes expe¬ rimentaram graves perdas e até a do seu che¬ fe Gerarão Iluld; mas recebendo elles con¬ sideráveis reforços, Coutinho teve de capitu¬ lar em 1656 com muito honrosas condições, e o seu nome ficou com rnais direito aos lou¬ vores da posteridade que o do seu proprio ven¬ cedor. 1 No tractado entre Portugal e aGra-Bre- tanha de 23 de Junho de 1661, que foi robo- rado pelo de Vienna de 1815, estipulou-se no art. 14.°, expressa e solemnemente, que no caso eventual da Inglaterra vir a possuir no fu¬ turo a ilha de Ceilão, se obrigava a restituir a Portugal a cidade e porto de Colombo, de¬ vendo o eommercio da canella ficar conmium aos súbditos de ambas as coroas. Pelo art. 5.° do tractado de paz d’Amiens em 1802, e ulterior conquista do reino de Can- di pelos Inglezes, adquiriram estes a posse de toda a ilha de Ceylão, e se verificou o caso pre¬ visto no tractado de 1661 ; mas a nossa fiel Alliadac nunca lhe deu cumprimento, nem tal¬ vez o nosso governo jamais lh’o exigio, até que o ministro dos negocios estrangeiros, barào da Ribeira de Saborosa, cm 1839 endereçou uma formal reclamação a tal respeito ao gabinete inglez : foi logo depois demiltido, e nunca mais se fallou neste assumpto, aliás de grande im¬ portância, e que ao menos serviria para en¬ trar em conta nas reclamações pecuniárias, com que a Grã-Bretanha avexa frequentemente o governo portuguez.
  • [88] Nas instrucções mandadas ao vice-rei D. Francisco d’Almeida em 1506 por el-rei D. Manoel, é muito notável arecommendação que elle faz para assentarmos fortalesa e dominio em Ceylão, parecendo-lhe que era a melhor situação para o centro do nosso poder na Asia. Na verdade era excellente este projecto, que se se tivera realisado talvez ainda hoje con¬ servássemos esta beila colonia, como conser¬ vamos, apesar de todas as vicissitudes e des¬ graças da Monarchia, o território de Goa, don¬ de fizemos o centro do Estado da índia. Ma¬ ravilha a perspicácia, e os altos pensamentos politicos que se apresentam nas ditas instruc¬ ções, na epocha em que foram feitas, quando apenas existia imperfeito conhecimento da con¬ figuração da Asia, descoberta havia oito an- nos: com o maior tacto porém e intelligence se indicavam os pontos onde nos devíamos es¬ tabelecer, como na ilha de Socotora, Ceylão, Malaca etc. Este documento, longo tempo iné¬ dito, foi publicado nos Annaes Marítimos e Co- loniaes, e revela a energia do rei e da nação n'aquelles tempos de vastas concepções, e de rapidas e maravilhosas empresas, executadas pelos grandes homens que soubera formar o gé¬ nio de D. João II.
  • [86] CAPITULO DECIMO PRIMEIRO, Travessia «lo golfo «le Benplla, e a illia «le Desde 26 a 29 navegámos sempre com máo tempo, atravessando o grande golfo de Ben- galla : o vapor jogava e rangia muito; era pe¬ queno em proporção do Indus e do Haddin¬ gton, de 1:000 toneladas, e da força de 420 cavailos, e deitava regularmente 10 milhas por hora: tinha uma camaralinda, superior ád’a- quelles em dourados, ornatos, e pinturas: o capitão Charles Evans era mui agradavel, e excepto a officialidade e uns oito marinheiros inglezes, o resto da tripulação, que se compu¬ nha de 80 homens, eram amostras de quasi todos os povos d’Asia: Árabes d’Adem, na- turaes do Indostão, de CeyJão, da China, de Manila, e até alguns negros de Moçambique. Apesar do péssimo tempo não se sente nestes vapores o enfado, e o aborrecimento que produz uma longa viagem, e amonotonapers- pectiva do mar; porque ha a variada compa¬ nhia e conversação dos passageiros de todas as nações, e nesta carreira hiam Portuguezes, Hespanhoes, Francezes, Inglezes, um Alie- mão, um Húngaro, e dois Malaios, e além
  • [87] disto o valioso e inexgotavel recurso de boas livrarias, compostas de excellentes obras ingle- zas. Na tarde de 29 descobrimos Pulo-rondo., ilhota deserta, elevada, e coberta de arvore¬ do, na ponta sud-oesle da ilha de Sumatra, cujas montanhas se devisavam confusamente no horisonte : d’aqui seguio-se derrota a Pinão, Pulo-Penang ou ilha do Principe de Galles, co¬ mo a denominam os Inglezes, cruzando 100 Iegoas na entrada do Estreito de Malaca. O dia 30 esteve lindo, o mar chão, e pe¬ la manhã fomos vendo muitas ilhas, e eleva¬ das montanhas do reino d’Achen, na costa no¬ roeste de Sumatra. Na madrugada seguinte viam-se as cos¬ tas de Pinão, que fomos seguindo ate anco¬ rarmos pelas sete horas em frente da cidade: é agradavel a perspectiva da ilha, e da costa fronteira da Malaia : o terreno apresenta ele¬ vações e montanhas perfeitamente cobertas de denso e variado arvoredo, que só termina nas agoas. Fui para terra em uma frágil canoa, a qual era movida por um china, cuja raca aqui muito se encontra: logo no bom caes do desembarque haviam muitas carretas, ou car¬ ruagens de quatro rodas muito ligeiras, puxa¬ das por um só cavallo pequeno, mas mui for¬ te, do paiz visinho d’Achen. A cidade ou George-iown é fortificada ; tem boas ruas e muitas lojas, quasi todas chi- nezas, com bastante diversidade de comestí¬ veis e fructas: comi o gabado mangustâo, re¬ putada a melhor da Asia, eque só se da per-
  • [88] feito nos estreitos de Malaca; ao principio não me pareceo corresponder á fama que tem, mas depois acliei esta fructa realmente deliciosa, principalmente em Singapura, e é innoccnte e refrigerante, podendo-se comer em quanti¬ dade sem receio de fazer mal: semelha ex¬ teriormente a uma romã pequena rôxa-escura, abre-se comprimindo levemente a casca, eof- ferece por dentro uma substancia branca ado¬ cicada, que se desfaz em saborosíssimo summo. Dei um bonito passeio de carruagem pa¬ ra o interior, atravez de encantadoras paiza- gens: ha belias casas de campo de elegante gosto sobre columnatas ou pilares, quasi todas dos Inglezes dominadores da ilha: vi um ce¬ mitério e igrejas muito regulares. Corri quasi uma legoa até ao sitio cha¬ mado dos banhos, onde ha um moinho china de moer trigo, pelo mesmo sysíema das nos¬ sas asenhas ; mas de diverso e singular machi- nismo : os caminhos são excedentes, planos, macadamisados, e bordados de riquissimos ar¬ voredos e bosques de coqueiros, bananeiras, arvores da noz moscada, da aréca, cajueiros, cannas doces, bélel, e outras varias arvores e plantas para mim desconhecidas. Esta pomposa e mixta vegetação circum- dava ora as vistosas habitações dos europeos, ora as frágeis casas de bambus e esteiras dos chinas e malaios, porém não muito miseráveis: os carros eram puxados por búfalos, governa¬ dos por uma argola de ferro que lhes atraves¬ sa o beiço superior : encontravam-se rebanhos destes, e de bois pequenos cqmmamillo ou cor¬ cova no pescoço.
  • [89] Regressei para a cidade sempre a galope, admirando o infatigável malaio conductor, que corria a pé, e como abraçado ao pescoço do nâo menos infatigável cavallinho; em seguida foi para bordo, e pelas onze horas deixávamos este bello paiz, que é salubre apesar das gran¬ des plantações de arroz. Faltou-me o tempo para visitar ’no inte¬ rior da ilha uma formosa cascata natural, euma arvore de prodigiosa grossura, que attrahe a curiosidade de todos os viajantes que aportam aqui. Sahimos pelo lado oriental da bahia, op- posto áquelle por onde haviamos entrado, e fomos vendo os lindos contornos da ilha, eilho- tas próximas, que surgiam do mar como gran¬ des moitas de denso e alto arvoredo : conti¬ nuámos a descortinar ao longe a costa malaia: mas de tarde perdemos de vista a terra.
  • CAPITULO DECIMO SEGUNDO, Estreito de Malaea, vista da eidade deste nome. e ehegada á ilha de Siagaifiira. No Domingo 1 de Setembro, com bello dia e mar chão, vogávamos agradavelmente ao lon¬ go da costa de Malaca, que hiamos vendo em maior ou menor distancia. Neste dia de guarda houve a costumada revista á tripulação, que apresentava vistosos grupos de differentes castas, todas diversa e aceadamente vestidas: o Saranga com um ri¬ co turbante e roupas largas apresentava opti¬ ma figura para desenho. Pelas quatro da tarde passámos á vista de Malaca, que distinctamente observei com um oculo: tem bons edifícios, e dizem que ainda é populosa ; mas o seu commercio está em grande decadência: o seu bello clima e a sa¬ lubridade de que gosa lhe attrahem alguns es¬ trangeiros, que procuram restabelecer a saude. Experimentei um doloroso e patriótico sentimento, ao ver tremular a bandeira bri¬ tânica n’aquelle theatro das glorias portugue- zas, e dos feitos immortaes de A Abuso de Al¬ buquerque !
  • Ao romper do seguinte dia hiamos entre as iJhotas próximas a Singapura, inteiramen¬ te cobertas, como toda a costa da Malaia, de eterna verdura e densos arvoredos : ás sete ho¬ ras lançavamos ferro na espaçosa bahia, don¬ de se observava a pittoresca e moderna cidade de Singapura. Por um passageiro do vapor Pelam, che¬ gado na noite precedente de Hong-kong, tive logo mais tranquillisadoras noticias de Macáo ; com elle fui para terra em uma frágil embar¬ cação malaia, eem seguida tomando uma car¬ ruagem, exactamente como as de Pinão, fui a casa dos negociantes Almeidas, na cidade e no campo, dos quaes recebi o bom acolhimen¬ to e obséquios que costumam prestar aos seus compatriotas, com toda a franquesa e ameni¬ dade do seu trato : recebam elles nesta recor¬ dação um fraco testemunho do meu reconhe¬ cimento. O chefe da familia era o consul portuguez em Singapura, o qual foi dos primeiros euro- peos que se estabeleceo nesta moderna cida¬ de, principiando a cultivar terrenos, que hoje constituem importantes propriedades, enrique- cendo-se ao mesmo tempo pelo commercio, de modo que se tornou um dos habitantes mais considerados e ricos entre os da colonia. Fui á sua plantação, a cousa de tres milhas da cida¬ de, extensa e com bellosprédios, para augmen- to da qual se vão derrubando as mattas virgens de que é cercada, e por onde ainda vagueam os tigres, os javalis, e os veados: os primei¬ ros matam com frequência os malaios e chi¬ nas que penetram nos bosques, e nos limites
  • desta plantação havia poucos dias tinham mor¬ to tres homens: informaram-me que em um anno chegara a haver 400 victimas desias fe¬ ras, que apparecem agora em maior numero, em consequência do derruba mento das flores¬ tas, e de andarem espantadas : o governo dá um prémio pecuniário a quem apresenta um tigre morto, e a carne deste animal é muito estimada pelos naturaes e pelos chinas, que a compram cara, e acreditam que os livra de bexigas, e lhes communica forca sobre-naiu- rah Pelo meio dia regressei ao centro da po¬ voação, e percorri suas ruas espaçosas erecías, guarnecidas de uma infinidade de lojas chi¬ nas, e algumas tem pelo meio canaes e bra¬ ços do mar, atravessados por muitas pontes, e cobertos por immensas embarcações cie va¬ rias formas: fui ao mercado publico onde admi¬ rei a variedade de peixes, hortaliças, fructas, e principalmente os magníficos ananazes, que dizem serem aqui os melhores de toda a Asia, e em tal abundancia que ha occasiões de se venderem 1:000 por uma pataca, cse dão aos animaes: linda cousa era de ver um formoso ananaz com quatro ou cinco outros mais pe¬ quenos juntos no pé, todos maduros, e exha- lando suave cheiro. São notáveis as grandes lojas ou armazéns no gosto europeo, contendo ricos e variados objectos. Visitei a capella portugueza, que é bem pouco accoinrnodada ás necessidades do culto, e de uma coinmunidade que ainda hoje tem a veneração dos naturaes, pela tradição de nos-
  • [93] sos maiores, que foram os primeiros que pre¬ garam o Evangelho aos povos da Peninsula Malaia; contrastando pobremente com os hel¬ los templos de outras nações e de outros cul¬ tos. Ha muitos pagodes chinas, porém o prin¬ cipal que examinei é curiosissimo para o via¬ jante, que pela primeira vez observa 1 aes edi¬ fícios, de gosto mui estranho para olhos eu- ropeos: vi tamhem mesquitas mouras e ma- laias que só tinham de notável a sua sujida¬ de, e a miserável apparencia de todos os pa¬ dres ou bonzos. Na madrugada seguinte fui a outra plan¬ tação onde bebi o snra, que é a agoa quesa- he lentamente do córte feito na haste da flor do coqueiro, ou de outras arvores da mesma familia, e que se recolhe ao romper do dia, para logo se beber, aliás azéda: é muito do¬ ce e refrigerante 5 mas dei preferencia á agoa do Unha ou coco verde, quando tem a carne em estado de nata, e que é excellente para comer: provei do fructo durião, que é uma especie de jacca, cuja casca exhala péssimo cheiro-, vi colher o rabusiin, pollassan, ra- bustan, e outras diversas fruotas do paiz, que em geral achei muito enjoativas, e só o man- gustão e ananaz me foi verdadeiramente agra- davel. A manhã estava linda; o sol elevava-sc por entre nuvens, que guardavam de seus ar¬ dentes raios neste ceo do equador; as arvo¬ res recendiam aromas, e a brisa era tépida e branda; até a circumstancia da proximidade dos tigres, expulsos de seus antigos coviz,
  • [94] juntava romanesco interesse a este passeio por entre pomares de noz moscada, coqueiros, arecas, bananeiras, e outras variedades de ar¬ vores cultivadas, crescendo nos terrenos re- centemente limpos dos bosques que os cobriam, e onde ainda jaziam gigantescos troncos der¬ ribados, e os pés de grossas arvores mal quei¬ madas, que ainda ha pouco alli ostentavam toda a galla e magestade da naturesa dos tró¬ picos, produzindo espontâneos fructos para a sustentação do homem, que ingrato para com a Providencia as abate despiedadamente, sub¬ stituindo-as por mesquinhas e rasteiras plan¬ tas, e por arbustos e arvores alinhadas; es¬ cravas sob a mão do homem civilisado, que as afeiçoa e decota a seu capricho , tornando-as sempre apoucadas e sem grandesa, a par da vegetação livre como sahio das mãos do Eter¬ no ! Fui depois á eminência onde está situada a casa do governador, e que é a unica perto da cidade, donde se gosa magnífica vista des¬ ta e de todos os arredores: a casa é bonita, e havia alli um curioso viveiro de passaros da Asia, um macaco branco, ursos pequenos, e um par de ourangutcingos, macho e femea, muito mansos. Pelas duas horas da tarde voltei para bor¬ do do Achilles, e pouco depois sahiamos de Sin¬ gapura, onde passei dois dias dos mais agra- daveis e variados da minha viagem. Esta ilha, situada na extremidade da Pe¬ ninsula Malaia, foi conhecida e frequentada pelos antigos Portuguezes, é hoje uma im¬ portante colonia ingleza, e a sua cidade um
  • [95] grande centro de commercio, tendo bons e vastos edifícios públicos e religiosos, euma po- puláção composta de todas as raças da Asia, e de indivíduos de quasi todas as nações eu- ropeas: os indigenas são Malaios, porém a grande maioria dos habitantes são Chinas, que do seu paiz tem vindo aqui buscar trabalho, eque se calcula chegarem a 60:000,’ havendo ao todo umas 80:000 almas na cidade e plan¬ tações. '■>' As casas dos europeos e pessoas abasta¬ das são lindíssimas, no centro de jardins e ar¬ voredos, oecupando espaços regulares quadra¬ dos ou quadriloiigos: seu exterior é elegante, mas na estructura e interior são different es das nossas, e adaptadas ao ardente clima do paiz, proprio da sua situação a Ia e 16' de latitude norte, que é a mais baixa a que se chega nes¬ te caminho da Europa á China. As estradas são magnificas,, maeadamisa- das, e planas : algumas estendem-se já muito pelo interior da ilha, e são bordadas de arvo¬ redo e constante verdura, de que todo o ter¬ reno se acha coberto até ás ondas do mar. Maravilha o progresso e grandcsa desta povoação, que apenas conta trinta annos de existência, epromette tornar-se uma das mais importantes cidades da Asia: a sua posição para o commèrcio é excellente, formando co¬ mo um centro donde irradiam aetivas com- municações para toda a India, China e suas dependencias, Batavia, Filippinas, Archipela¬ gos proximos, Australia, e ilhas da Oceania: o commercio desta parte da Asia todo vai con¬ correndo áquelle porto; o de Pinão está em
  • decadência, experimentando a seu turno a sor¬ te que promoveo a Malaca : a ilha em si mes¬ ma exporta já muitos artigos valiosos, como a noz, pimenta, gomma, assucar, gutta-percha etc. , e a cultura vai tomando prospero e rᬠpido desenvolvimento. Achava-se na bahia um navio hespanhol, cujo capitão asseverava ter descoberto no Ocea¬ no Pacifico uma nova ilha em 7o e 30' de la¬ titude sul, e 175° de longitude occidental de Cadiz; julgou ser habitada por ter devisado os á noite, porém não se aproximou por causa do máo tempo.
  • [97] CAPITULO DECIMO TERCEIRO. O mar da China, a illia de Hong« kong, e a chegada a Macao. Desde Singapura, dirigindo a proa ao norte, trouxemos bom tempo, ainda que muito quen¬ te : ao meio dia de 6 avistámos á esquerda Pulo Sapato, que é um notável rochedo que se eleva do seio das agoas, apresentando exa- ctamente a forma de um sapato, dos que cha¬ mamos abotinados oil altos, e disto deriva o seu nome, conservado do portuguez na lingoa malaia, á qual pertence a primeira palavra Pulo ou ilha* Sem novidade continuámos até ao dia 8, em cuja tarde observei o mais bei lo occaso do sol ‘desta viagem* Foi na verdade eXplendido e arrebatador, pela disposição particular das nuvens que or¬ navam o ceo; mas resistirei á tentação de trans¬ crever a miudá descripçâô que tenho nas mi¬ nhas notas, para não enfastiar os leitores com tantos occasos, e porque terei ainda no decur¬ so destes apontamentos de fallar muitas vezes destas horas solemnes, destes momentos que a naturesa consagra a doces magoas, enosqitaes de ordinário mais me abandono aos devaneios 7
  • [98] da minha imaginação. Tenho a mania dosoc- casos, cjue não me faz mal nem a ninguém, e os que delia se desgostarem, ao verem-me en ¬ trar em tal assumpto passem adiante, que nem elles nem eun’isso perderemos cousa alguma. Com tudo darei conta das impressões que me produziram as scenas desta tarde, que foram admiradas por todos os passageiros do vapor. Essas scenas, sublimemente mages tosas, variavam com o successivo esvaecer e cambiar da luz que as produzia, e pouco a pouco per¬ dendo o seu expfendor, terminaram em um quadro escuro e sombrio; mas accidentado com as cores mais ou menos carregadas das nuvens, e com a frouxa e meiga claridade da lua, que, semelhante ao crescente musuIma¬ no, parecia lluctuar nos ceos, como n’um es¬ tandarte sobre castellos gigantes, annuncian- do a terra e o symbolo do Oriente ao viajante perdido nas solidões do Oceano! No entanto a noite com seu escuro man¬ to já dominava em toda a abobada celeste: então outra ordem de ideas e impressões suc- eedeo aos extasis voluptuosos do espirito. No centro do vasto circulo das agoas con¬ templava este novo firmamento: sentia que uma suave @ estranha tranquillidade me pene¬ trava nos seios d’alma • parecia-me que das eonstellações conhecidas, dos astros amigos e companheiros da minha mocidade, quando os observava na carreira no formoso ceo da mi¬ nha patria, parecia-me, digo, que me chega¬ vam aos ouvidos d’alma mysticos sons de ami- sade e de amor, trazidos dessa patria amada, atravez- dos espaços do Universo, pelas candi-
  • das eslrelias que poucas horas antes, na sua maravilhosa rotação, haviam visto os campos lusitanos! Estas magicas harmonias em doce trans¬ porte me arrebatavam para além dos mares, a milhares de legoas de distancia, ás plagas queridas do meu paiz ! Momentos deliciosos, que deixam impres¬ sões para a vida inteira! . . . mas quão pouco são duradouros 1 N’outro volver d’olhos descobria astros novos, constellações estranhas, desconhecidos habitantes de um ceo desconhecido. Nas regiões equinóciaes o ceo e a terra com todas as suas producções assumem um aspecto particular- porém nada me ha impres¬ sionado mais vivamente do que a vista de um novo firmamento, para me fazer sentir a gran¬ de distancia que tenho percorrido. Quando nisso attentava os meus lindos sonhos se esvaeciam, e vinhâ a triste realida¬ de opprimir-me o coraçãos A saudade e a melancolia sé augmertta- vam com as trevas solemnes da noite, e o mo- notono ruido das rodas batendo nas ondas; e a alma se reeoneentrava em sentida medita¬ ção. Singular mobilidade da imaginação do ho¬ mem ; fonte inexhaurivel de nossos gosose pe¬ sares ! No dia seguinte a vista de alguns pássa¬ ros nos annunciou a aproximação da terra: foi o ultimo da nossa viagem, passado como os precedentes desde Pinão, e que foram os mais a
  • [100] Levantava-me ao romper do dia, e to¬ mando uma chavena de chá ou de café, hia logo para a tolda respirar a pura brisa da ma¬ nhã r a esta hora não era facil achar bom lo¬ cal para estar, por causa da baldeação geral- do navio *, logo porém que via lavado o en- gradamento de madeira á popa, alii me assen¬ tava lendo e lançando a espaços a vista pela amplidão das agoas, ou pela ondulante e bran¬ ca esteira que deixava o vapor: ás oito horas hia tomar um banho deagoa fria do mar, sem¬ pre agradavel pela temperatura della, quasi do calor do corpo. Depois do almoço sentava-me debaixo do toldo do castello da proa, que tinha dezesete passos de comprido, raso e sem amurada, don¬ de se descobria livremente, todo o circulo do horisonte : ora lia, ora conversava, especkd- mente com o citado hespanhol Casal, e ás ve¬ zes eníretiamos tres e quatro horas de conti¬ nua conversação sobre a nossa bella Peninsula Ibérica, e o brilhante futuro a que póde as¬ pirar : ora cahiamos nos mais triviáes ou pue¬ ris assumptos, de aventuras e extravagancias de mocidade, ora nos elevávamos á contempla¬ ção dos mysterios do Universo, e da existên¬ cia e destinos do homem ; objectos que medi¬ tados sobre a ampla planicie dos mares, sus¬ tentando por toda a parte a abobada celeste, no. meio das vagas inquietas, no centro de infini¬ tos horisontes que se desdobram á vista a ca¬ da arfar do navio, se tornavam ainda mais grandiosos, e operavam na alma não experi¬ mentados effeitos. Ao meio dia, como que precipitado des-
  • «as elevadas regiões da imaginação nos abys- jnos das necessidades e misérias da terra* hia tomar o lanche ou refeição, chamado nos va¬ pores da Asia tiffin, em lingoa do Indostão: voltava de ordinário para o mesmo logareen¬ tretenimento, e assim passavam as horas ra- pidas até ás cinco da tarde, occasião do jantar. Pelas seis voltava ao meu poiso da ma¬ nhã, no engradamento á popa, onde se reu¬ niam quasi todos os passageiros, que no iim desta longa viagem, e reduzidos a pequeno nu¬ mero, já se conheciam por seus nomes e tra¬ to, formando como urna familia provisória, que em breve se dispersaria, para na maior parte nunca mais se verem : alli se conversava animadamente ; cada um cantarolava musicas ou cantigas do seu paiz, ou repitia e estropea- va as mais conhecidas melodias das operas da Europa, tomava-se chá ou café, e por fim pou¬ co a pouco se hiam recolhendo aos camarotes: eu de ordinário deitava-me pelas dez horas, e assim passei, gosando de boa saude, alguns dias que reputo dos mais tranquillos e suaves da minha vida, e que provavelmente terei de recordar muitas vezes com saudade. Desde Ponta de Galles, em Ceylão, nos annunciavam os officiaes do vapor qne neste dia 10 de Setembro chegaríamos a Hong-kong*: com effeito pela uma hora e meia da madru¬ gada fundeávamos na bahia de Victoria^ ten¬ do descoberto pelas dez da noite terra da Chi¬ na, esse remoto e mysterioso Cathai dos an¬ tigos,* ao qual agora tão afibuta q facilmente aportavam os. Devisava-se a povoação, semeada de lu-
  • zes, na raiz de um escuro e alto morro, que se destacava á claridade das estrellas no palli- do asul do firmamento. Nasceo o sol illuminando com successivas gradações de luz a vistosa cidade de Victoria, em amphitheatre, e as elevações que a cer¬ cam , que parecem fechar circularmente a ba- hia. Desembarquei em um tancar ou canoa chineza, que regula pelo tamanho de um pe¬ queno bote dos caes de Lisboa, mas que tem outra e singular ibrma : era conduzido por mu¬ lheres, e servia de habitação a uma familia in¬ teira, que alli vive e se propaga, como infi¬ nidade de outras em vários rios e portos da China. Percorri a cidade, que tem bellas ruas, excellentes habitações, uma boa igreja catho- lica, ura templo protestante no gosto gothico que se estava a concluir, grandiosos quartéis, grandes edifícios e obras publicas, e bons ca¬ minhos. Vários milhões de libras já se hão des¬ pendido neste moderno Estabelecimento in- glez, começado ha seis annos; mas cuja si¬ tuação é má, e semelha muito a Gibraltar, sendo ainda mais limitado o espaço entre o morro e o mar, e estendendo-se em rápido declive: de verão as casas ficam privadas dos refrigerantes ventos de léste, e de inverno di¬ zem ser o frio intenso : em geral a povoação é insalubre, e de pouco agradavel residência para os Europeos. Muito haveria a observar e dizer sobre esta nascente e importante colonia; porérn
  • [ 103] poucas horas alli me demorei : ao meio dia, a bordo da lorcha portugueza numero 10, já dei- \ava a bahia de Victoria, -que e vasta e admit- ie navios de todo o lote. H avia calma, e por isso seguíamos len¬ ta mente para Macao, por entre pequenas ilhas iodas arrelvádas e sem arvoredo, como é a de Hong-kong: mais para a tarde refrescou um pouco o vento, e fornos costeando a ilha de Lantáo. A’ noite o vento soprou rijo, e a lorcha dava fortes balanços sobre as ondas agitadas, por entre as quaes começámos a devisar as ami¬ gas luzes de Macáo, ora apparecendo, ora es¬ condendo-se, por causa das altas ondulações das vagas: apesar do mar alterado, dosineom- modos saltos da embarcação, e de alguns gol¬ pes de agoa, tal scena no termo da minha via¬ gem me aprazia á imaginação. Atravessámos a rada ou balda, e as lu¬ zes que devisavamos muito próximas começa¬ ram a fugir, e desappareceram a meus olhos: julguei, por desconhecer as localidades, que me aflastava de Macáo, o que um tanto me impacientou. Finalmente, tendo passado a for¬ taleza da Barra, pelas onze horas parou a lor¬ cha no porto interior da cidade. Era chegado ao logar do meu destino, tendo percorrido 8872 milhas geographicas, ou perto de 3:000 legoas, em 50 dias e algumas horas, e deduzindo 10, somma do tempo das diflerentes paradas, vim a andar as 3:000 le¬ goas em 40 dias : achava-me no ponto mais re¬ moto da nossa Monarchia ; nesse paiz tão pou¬ co frequentado modernamente pelos Portugue-
  • [104] zes da Europa, e que ainda no sentir com- mum do nosso povo se reputa extraordinário e maravilhoso, julgando-se uma temeraria aven¬ tura o tentar visital-o. Apesar da hora avan¬ çada, e da escuridão da noite, não mesoffreo o animo demorar-me a bordo : desembarquei, e exactamente á meia noite eu abraçava res¬ peitoso o venerando Bispo diocesano, meu pa¬ rente, beijava-lhe suas sagradas mãos, e agra¬ decia a Dêos o feliz acabamento da minha via¬ gem.
  • [105] CAPITULO DECIMO QUARTO. Primeiros «lias em Jlaeúo. e circimi- stancias deste Estabelecimento. Devo aqui declarar que até este ponto já pu¬ bliquei os presentes apontamentos, na serie do Boletim de Macáo de 1851, e agora os cor¬ rigi de alguns de seus muitos defeitos na fôr¬ ma e no estylo. D’aqui para diante não posso fazer outro tanto, por falta de tempo e paciên¬ cia, e mesmo com ambas as cousas sei que não muito os poderia melhorar. Irão sahindo qua¬ si como estão escriptos nos meus cadernos de viagem. Se por acaso nesta publicação ha algum mérito, é só o da verdade, e o das recentes noticias a respeito de paizes pouco conhecidos entre nós Portuguezes. Não devo nem posso pertender a méritos de boa dicção e estylo, e sou o primeiro a reconhecer que não o tenho, que me deixo muitas vezes arrastar pelo sen¬ timental, e pela imaginação, e que terão de se me notar outros vários defeitos. Tudo se me releve, se quizerem. Basta de satisfações *, não as esperem mais nesta parte os leitores, e vamos adiante.
  • [106] Gosando de benigna hospedagem na belia residência e palacio episcopal do Bispo de Ma¬ cao, os primeiros dias que passei nesta cidade foram occupados em receber e fazer algumas visitas, travar novos conhecimentos, c ver a cidade. Em summa saboreei os encantos da no¬ vidade, que para mim tinha uma mudança tão completa de local e trato de pessoas. Nas primeiras sabidas que fiz a cavallo para o campo fui ao forte chinez do Passaleao, cousa de uma milha para além da. Porta do Cer¬ co, ou do limite do nosso território. Aquelle forte, collocado n’um escarpado montículo em boa posição militar, linha sido recenteflienteo theatre de uma façanha digna dos tempos dos Pachecos, Almeidas, e Albuquerques, e tive logo feliz occasião de conhecer o 1,° tenente de artilheria Vicente Nicolau de Mesquita, que dirigio o ataque e tomada do Passaleao; o que naquella conjunct ura salvou Macáo de se perder para os Portuguezes. Syrapathisei com o ténente Mesquita, desde a primeira vez que lhe íallei, e pelo tempo adiante travámos amisade : elle reune a um patriotismo e abne¬ gação pouco commiim, excellentes dotes d’al¬ ma. Acceite o tenente Mesquita uma lembran¬ ça saudosa do seu amigo eappreciador, se che¬ gar a ler estas linhas escriptas tão longe delíe. Paliar no forte Passaleao conduz natural- mente a dizer alguma cousa sobre os recentes acontecimentos de Macád ; mas para esclare¬ cimento de alguns leitores, e para melhor com- prehensão das matérias que ao diante se (ra¬ tarão, convirá dar aqui uma sueeinta idéa do Estabelecimento de Macáo.
  • [107] Depois da conquista de Malaca em 1811 pelos nossos Portuguezes, Rafael Prestrello em¬ barcou em 1516 nesta cidade n’um junco ou embarcação chineza, das que hiam commer- ciar áquelle porto, então de primeira impor¬ tância na Asia: vio a China, regressou a Ma¬ laca com informações sobre aquelle paiz, e no anno seguinte cinco navios portuguezes e al¬ guns malaios se dirigiram á China, connnan- dados por Fernão Peres d’Andrade, o qual vi¬ sitou a celebre cidade de Cantão, e o seu com¬ panheiro Jorge Mascarenhas parece que nes¬ ta viagem logo percorreo as costas mais ao nor¬ te das províncias do Fn/i-kiçn e Tche-kiang. Fernão Peres d’Andrade foi o primeiro euro peo que commerciou na China pelo cabo da Boa Esperança. Começaram a entreter-se algumas lucra¬ tivas transacções commerciaes entre os Chinas e os Portuguezes, e passados poucos armes estes se estabeleceram em Ningpô no Tche- kiang, a cousa de duzentas legoas ao norte de Macáo, e formaram uma llorecente cidade, que muito se enriqueceo, principalmente com ocommercio do Japão, paiz por estes tempos lambem descoberto pelos Portuguezes; a qual porém em 1545 foi totalmente destruicla pelos Chinas, e mortos todos os habitantes, por atroz vingança de uma violência commettida por al¬ guns Portuguezes n’uma aldêa próxima. Tivemos depois outro Estabelecimento na costa de Chincheu, na dita província do Fub- kien, em local hoje incerto, o qual em 1549 acabou tão desastrosamente como o de Ningpô, e 30 Portuguezes que escaparam com vida des-
  • [ 108] embarcaram em Lampacáo, ilha muito próxi¬ ma a Macao, e na qual a este tempo parece que já tínhamos povoação assente, tendo em annos anteriores só entretido commercio vo¬ lante no porto deTamáo na ilha de San-shan, onde em 1552 morreo S. Francisco Xavier. Ha pouca noticia e bastante incertesa so¬ bre as occorrencias que se seguiram até 1557, anno em que os Portuguezes apparecem na historia estabelecidos na pequena peninsula de Macao, na parte sudoeste do terreno a que chamam ilha de Heang-xan, por estar separa¬ do da terra firme por ura braço do rio de Can¬ tão, na provinda chineza deste nome. SofTreo Macáo as vicissitudes da Monar- chia, e foi governado pelos Hespanhoes, es¬ tabelecidos na próxima colonia de Filippiiias; mas de prompto acudio ao generoso grilo de independence, soltado em Portugal em 1610, tendo alguns annos antes, em 1623, repellido galhardamente um formidável ataque dos Hol- landezes. Este Estabelecimento foi puramente devi¬ do, como os outros que tivéramos na China, ao espirito emprehendedor e commercial dos Portuguezes do século 16.°; o Estado em na¬ da interveio para a sua fundação, e teve um governo municipal independente desde 1585 exercido pelo senado, eleito pelos homens bons, e envestido de todos os poderes politicos : em 1623, a pedido dos moradores, foi nomeado pe¬ lo vice-rei da índia conde da Vidigueirao pri¬ meiro governador de Macao, D. Francisco Mas- carenhas, continuando porém a ter o senado a principal influencia edirecção nos negocies pu-
  • [ 109 J blicos, a qual successivamente foi perdendo, eom varias alternativas segundo o caracter dos governadores, até que depois da transforma¬ ção politica da Monarchia em 1833, a admi¬ nistração da colonia sofireo grande mudança, pondo-se em vigor a legislação geral que hoje rege no Ultramar: o senado ficou reduzido ás simples attribuições de camara municipal. Macáo e as ilhas de Timor e Solor na Po¬ lynesia constituem hoje uma província ultra¬ marina, cujo centro é a cidade do Santo No¬ me de Deos de Macáo, que jaz em 22° 12' de latitude norte e 122° 40' de longitude lésledo meridiano de Lisboa. O território que nos per¬ tence dentro dos muros da cidade, e fóradel- lc até á Porta do Cerco ou do Limite, terá 8 milhas em circuito, 3 de comprimento, e me¬ nos de 1 na maior largura, formando tudo uma peninsula de forma irregular e montanhosa, tendo aproximadamente a configuração de um X na parte mais oriental. A população act ual portugueza. ou chris- tã regula de 4 a 5:000 almas, sendo dois ter¬ ços ou mais feminina: os habitantes chinas calculam-se de 20 a 25:000. A cidade vista do mar é muito bonita, e dizein semelhar em miniatura a perspective de- Nápoles: em terra nas diíferentes alturas ha também magnificos pontos de vista. Nos primeiros tempos do Estabelecimento davam-se presentes ao imperador em cada tres annos; mas quando começou a reinar a actual dynástia tartara, pelo meado do século 17.°,. substituiram-se os presentes pelo fôro annual de 500 tacis, reputados em 500,1000 réis. Por
  • [110] este tempo começaram a consentir-se alguma© invasões da authoridade chineza em Macáo; alguns chinas vieram habitar na cidade, in- troduzio-se o hopú ou alfandega chineza, e ches:ou-se a commemorar em Macáo o nasci- mento, a exaltação «ao throno, ou a morte de membros da familia imperial. Em summa Macáo no corrente século ti¬ nha rnuita feição chineza; mas só por efleito das concessões ou tolerância do senado, que quasi sempre attendeo mais para as conveniên¬ cias commerciaes, do que para o decoro e in¬ dependência política do Estabelecimento, o qual assim se foi conservando atéaotelnpo do governador Amaral. Das circumstancias expendidas, tem al¬ guns estrangeiros pertendido t irar argumentos contra o direito da coroa de Portugal á sobe¬ rania de Macáo : é porém geralmente admit- tido que o território desta colonia foi cedido aos Portuguezes pelo império da China, eque esta cessão foi o preço de importantes serviços prestados por elles áquelle paiz: o Estabele¬ cimento sempre foi regido e governado por leis e authoridades portuguezas, e se foram con¬ sentidas algumas concessões menos conformes com o principio rigoroso de independente so¬ berania, eram ellas devidas á posição em que nos achavamos com uma nação, a quém devia- mos favor por aquella cessão, e de cuja boa amisade dependia o trato commercial que fa¬ zia a prosperidade de Macáo. Nunca porém se entendeo que, portaes concessões, se infir¬ masse ou prejudicasse a esseneia do direito de Portugal á soberania de Macáo, e os actos
  • [Ill] mais importantes della sempre alii loram exer¬ cidos. Terminada a guerra que em 1839 come¬ çara entre a Grã-Bretanha e o império da Chi¬ na, e alteradas essencialmente pelo tractado deNankim celebrado entre as duas Potências, assim as relações commereiaes e políticas da- quelle império com a Europa, como, e muito especialmente, as condições vantajosas de que gosava Macáo; j ulgou-se necessário alterar o systema de administração daquellc Estabeleci¬ mento, e ao mesmo tempo se aproveitou a oc- casiào de revindicarmos, na parte em que ha¬ via sido lesada, a plenitude dos direitos de so¬ berania no território de Macáo. Coube ao distineto capitão de mar e guer¬ ra João Maria Ferreira do Amaral, levar a eí- ieito esta espinhosa tarefa, pondo em execu¬ ção o decreto de 20 de JN ovembro de 18i5, que tornou franco o porto de Macáo • estabe¬ lecendo um novo systema de impostos, como tornava necessário a suppressâo da alfandega, unica fonte até alli da receita pública \ refor¬ mando em vários pontos outros ramos da admi¬ nistração, e reduzindo as despesas della a dois terços do que antes consummia. Já nestas medidas de administração inte¬ rior tinha Amaral excitado o resentimento o má vontade das authoridades chinezas, tão pouco habituadas a verem contrariados os seus caprichos e interesses, pois que, apesar dos seus ardiz e cavillosas maquinações, não pu¬ deram estorvar a cpie aquelle governador po- zesse um freio ás rapinas, e extorsões que eilas exerciam sobre a população chineza de M acáo,
  • jieiii impedir que esta fosse obrigada a contri¬ buir para as despesas publicas do Estabeleci¬ mento, de que fazem parte, e onde exercem as diíferentes industrias de que vivem. Augmentou porém extraordinariamente esta indisposição das authoridades cliinezas, quando o mesmo governador, desempenhando a segunda parte da sua missão, deu começo á revindicáção da i ndependenoia política de M acáo. A posse do porto da Taipa, como ponto dependente do terri torio de Macáo ; a eonstrucção alli de um forte, onde foi arvora¬ da a bandeira portugueza ; a recuperação do território occupado pelos Chinas, entre a Por¬ ta do Campo e a Porta do Cerco, que marca os limites da possessão portugueza; asuppres- sâo dos direitos de tonelagem, chamados me¬ dição, que abusivamente se cobrava para o imperador, sobre os navios portuguezes, que entravam no porto portuguez de Macáo ; a ex¬ pulsão desta cidade dos hopús ou altandegas chinezas, que parece também abusivamente alli tinham sido introduzidas, e que depois da declaração do porto franco se julgaram into¬ leráveis, talvez inconsideradamente como n’ou- tro logar melhor explicarei; e finalmente a pro- hibiçào de certas demonstrações de authorida- de com que os mandarins costumavam entrar em Macáo, c a repressão vigorosa de alguns atlentados commettidos pelos Chinas; tudo is¬ to irritou sobremaneira as authoridades chine¬ zas, porque não podendo contestar com boas rasões o direito com que eram exercidos aquel- les act os, não podiam resignar-se de boa men¬ te á quebra que em seus interesses pessoaes
  • [113] produziam alguns delles. Foram estas as cir- cumstancias que precederam e conduziram ao traiçoeiro assassinato do governador Amaral. Na tarde de 22 d’Agosto de 1849, o go¬ vernador Amaral sahira a cavallo a passear no campo, como de costume, e neste dia só hia acompanhado pelo ajudante de ordens Leite: a menos de duzentos passos antes de chegará Porta do Cerco, um china se lhe aproximou apresentando um papel como de requerimen¬ to, e outros sahiram de repente detraz de uns pequenos combros de areia que os escondiam, e ao todo sete o atacaram com taifós (espadas curtas e rectas que os chinas usam aos pares, manejando uma em cada mão), efoj-lhes facil fazer succumbir um homem, ainda que bastan¬ te valente e corajoso, que estava desarmado e só tinha o braço esquerdo : derrubaram-no do cavallo, e bem assim ao ajudante Leite. Cor¬ taram-lhe a cabeça e a mão, e sem medo ou precipitação as levaram, passando pela Porta do Cerco, onde então havia um posto de guar¬ da chineza, que a duzentos passos observou pacificamente tudo isto, e deixou passar em socego os assassinos! Existe ainda hoje uma tosca e delgada columna de pedra no sitio do assassinato, para memória deste successo, o que me parece bem improprio, e que é cousa que só serve para dar contentamento aos Chinas. Entendo que só se deveria erigir alli um monumento ao con¬ selheiro Amaral, quando elle e a nação esti¬ vessem vingados. Este inaudito acontecimento lançou o ter¬ ror e a consternação na cidade: organisou-se 8
  • [114] logo o Conselho do governo, e para correspon¬ der á altitude hostil dos Chinas (que d’ante- mâo haviam guarnecido o Passaleâo e vários pontos visinhos com numemsns forças, amea¬ çando urna invasão em Macáo), foi postar-se na Porta do Cerco na manha de 25 uma força portugueza, sobre a qual os Chinas romperam primeiro o fogo, que foi sustentado com calor desde as 10 da manhã ás 4 da tarde. O dese¬ jo e a indicação geral era ir atacar os Chinas; porém os escrúpulos e observações dos diplo¬ matas estrangeiros residentes em Macáo, sobre as consequências do que elles chamavam uma violação do território chinez, e alguns ânimos timoratos conservaram o Conselho do governo em indecisão, a qual foi quebrada pela heroi¬ ca resolução do tenente Mesquita, que sem or¬ dem superior convidou os soldados que o qui- zessem seguir a irem accommetter o Passaleâo. Trinta e seis bravos voluntariamente respon¬ deram ao seu brado, e avançaram para o forte debaixo do mais aturado fogo de artilharia e fuzil deste e das imminencias, atravezdediíE- cil terreno, caminhando apenas os soldados um a um, sobre os estreitos vallados cjue em fren¬ te do forte cortam o terreno, todo alagado com plantações de arroz; apesar de tudo dentro de uma hora aquella força se assenhoreou do forte Passaleâo, que estava guarnecido com 20 gros¬ sos canhões e 400 homens, coadjuvados por mais 2:000 nas alturas visinhas: todos fugi¬ ram abandonando a artilharia, armas, e mui¬ tas munições. Este arrojo, que antes do êxito feliz que teve era por alguns reputado louca temer ida-
  • [US] de, desassombrou Macáo, e transtornou com¬ pletamente os projectos dos Chinas, que no in¬ terior da cidade já se dispunham para o mas¬ sacre dos Europeos. Alguma força britanica e americana tinha desembarcado para proteger os Seus compa¬ triotas ; mas o Conselho do governo prudente- mente não annuio a que fossem guarnecer as fortalesas, como solicitavam. Cumpre decla¬ rar que os ministros, e cônsules estrangeiros geralmente manifestaram o maior interesse pe¬ la conservação do Estabelecimento nesta me- •9 lindrosa crise; mas ainda desta vez permittio a Providencia que se salvasse só pelo esfor¬ ço e valentia de um punhado de Portuguezes. A’ gerencia do Conselho seguio-se a do governador Pedro Alexandrino da Cunha, cu¬ ja fatal morte e suas consequências eram, á minha chegada a Macáo, o assumpto mais fre¬ quente da conversação das pessoas que se im teressavam pela sorte do Estabelecimento. Chegara o dito governador a Macáo em 26 de Maio deste anno; tomou posse a30, e d’ahi a 38 dias, em 6 de Julho, dava a alma a Deos quasi repentinamente. Este successo espalhou a consternação em todos os habitantes da colonia. O governador Cunha nos poucos dias do seu governo adqui¬ rira geral respeito entre os Portuguezes, eaté prestigio entre os Chinas. O seu proceder re¬ servado e mysterioso, o seu caracter sombrio e nada communicative, o cercavam de consi¬ deração, e fizeram desde logo conceber em to¬ dos lisongeiras esperanças de melhoramento para a colonia, e de que se realisaria o justo *
  • [ns] desaggravo nacional do attentado commettido pelos Chinas. E’ fóra de duvida que o governador Cu¬ nha era um optimo administrador, e bem o comprova o seu benefico governo de Angolla. Durante o pouco tempo que viveo em Macáo, tinha estudado perfeitamente as cousas do paiz, havia conhecido a indole dos seus habitantes, calculado os recursos de que podia dispôr, em fim avaliado tudo como homem profundo e pra¬ tico : disto se encontrou a prova no registo da sua correspondência official para Lisboa; mas também delia se deprehendia que o seu espi¬ rito estava acabrunhado ; porque apesar de se¬ rem bem verdadeiras as difficuldades da sua posição, elle parecia não estar possuído da es¬ perança e da energia que faz arrostar as con¬ trariedades, e muitas vezes vencel-as. A cruel fatalidade que soffrera no Rio de Janeiro com- mandando a náo Vasco da Gama, lhe deixa¬ ra tristes impressões que o attribularam con¬ stantemente, e lhe minaram a existência. Pela morte do governador Cunha tomou de novo o Conselho do governo a gerenciados negocios públicos. Compunha-se então do Bis¬ po diocesano, presidente; presidente do leal senado, J. B. Goularte; procurador da cidade de Macáo, L. Marques; juiz de direito, Se¬ queira Pinto; commandante da estação naval, o capitão tenente J. F. Guimarães; comman¬ dante do batalhão de Macáo, o tenente coro¬ nel Tavares d’ Almeida; e do secretario do go¬ verno, J. A. de Miranda. O Conselho do governo na precedente ge¬ rência se houvera ao mesmo tempo com pru-
  • 1Hf] dencia, e energia pouco commum nas nossas melindrosas relações politicas com a China. Manteve quanto estava ao seu alcance a digni¬ dade da nação, Ião atrozmente ofiendida ; con- seguio do vice-rei de Canlào, com ameaças bem calculadas, a entrega da cabeça e mão da illustre victima do odio chinez, e o castigo dos agentes deste crime nefando, ãalvez os Ín¬ fimos delles, talvez apenas victimas expiatórias que a doblez dos Chinas sacrificou ao justo re- sentimento dos Portuguezes, e que foram justi¬ çados em Cantão ; dirigio um manifesto ás na¬ ções europeas representadas na China, digno e bem deduzido, que mereceo os louvores dos homens intelligentes, e da imprensa inglezana China; e conforme com o sensato pensamento politico que o guiava, e com as precarias cir- cumstancias do Estabelecimento, deixou livre ao governo da Metropole a decisão desta es¬ pinhosa questão, limitando-se o Conselho do governo depois daquelles actos a manter a in¬ tegridade da colonia, e uma posição de espe- ci ativa. Este procedimento foi justamente louvado na Corte, e o digno presidente do Conselho estendeo aos assumptos civis a reputação da sua alta capacidade. Muitos dos moradores deMacáo também nesta occasião se mostraram benemeritos por difíerentes modos, principalmente concorrendo para um empréstimo gratuito que subio a avul¬ tada quantia, da qual ainda hoje estão em des¬ embolso, não tendo o governo cie Portugal da¬ do providencia alguma a tal respeito, como a justiça pede.
  • [118] Entrado na segunda gerencia via,-se o Con¬ selho do governo cercado de graves dificulda¬ des. Dos papeis officiaes e particulares do fal- lecido governador Cunha nada se deprehendia dos seus projectos, ou idéas sobre o assumpto mais urgente para o Estabelecimento; isto é o da paz, ou da guerra com a China. O gabinete de Lisboa tinha feito concor¬ rer a Macáo tres vasos de guerra, um de Goa e dois do Rio\ força marítima já na verda¬ de suíficiente e respeitável para operar na China. As instrucções enviadas para o Rio de Ja¬ neiro ao governador Cunha, segundo o cpie delias ouvi, eram quaes exigiam as circumstan- cias. Pensou-se realmente em desaggravar a honra nacional,' mandando uma expedição á China; fez-se mesmo um esboço de orçamen¬ to a tal respeito. Calculava-se de 60 a 70 con¬ tos a despesa necessária para fazer sahir de Lis¬ boa um corpo de 600 soldados, em dois brigues, um vapor, e um transporte, e em 21 a 22 con¬ tos a despesa mensal ordinaria em Macáo com os navios, e a tropa que alli se podia reunir. Este negocio não principiou mal, e attrahio par¬ ticularmente o interesse e attenção do respe- ctivo ministério do Ultramar; mas em breve teve o fado de todas as nossas cousas. O go¬ verno não querendo nem devendo tomar sobre si uma resolução de tal ordem, commetteo o assumpto á consideração do Conselho d’estado, fazendo correr pelos seus diflerentes membros os documentos, pouco numerosos e de mui fᬠcil exame, que esclareciam a quesíão„ a qual logo cahio em esquecimento pela moirosidade
  • [■119] oh nenhuma attençào que lhe deram os nos¬ sos sapientíssimos e zelosissimos conselheiros d’estado. No entanto os ditos navios chega¬ ram a Macáo; mas em que circumstancias ! A fragata D. Maria Segunda, e a cor¬ veta Íris faltas de tudo, sem sobrecellentes al¬ guns, precisando panno, toldos, calafetos etc. A íris sobre tudo estava em miseraYel estado; sem pregos, sem lona, sem cabos nos paioes: raras vezes se terá visto chegarem navios de guerra a um porto em taes circumstancias. A 1). João achava-se melhor provida. A estação naval em fins de Setembro contava nas guarnições dos tres navios 559 praças. O conselho do governo na presença des¬ tas difficuldades, teve pois forçosamente de ado- ptar o anterior systema de espectativa, e de conservação até á chegada do novo governa¬ dor; e assim se hi a vivendo de conjecturas e de esperanças, no meio de grandes apuros de dinheiro para satisfazer as despesas da estação naval, e ás mais do Estabelecimento, cujas ren¬ das pouco produziam, falhando por vezes a pres¬ tação mensal de 6:000 pesos enviada de Por¬ tugal em letras: a prestação de Goa de 1:500 patacas era recebida regularmente, eapplicada para o pagamento da força auxiliar do exerci¬ to daquelle Estado, que em numero de 150 pra¬ ças acudira a Macáo, vinda na carreira dos va¬ pores a requisição do Conselho do governo, lo¬ go depois do assassinato do governador Ama¬ ral, o que occasionou uma enorme despesa ao Estado de Goa. Tal era á minha chegada a Macáo a si-
  • tuaçao política e financeira desta colonia. O estado do commercio também nada tinha de favoravel: o porto estava deserto; quasi ne¬ nhumas transacções havia, nem generos na praça sobre que se fizessem ; algum resto de commercio de opio hia de todo escaceando, e as especulações que ainda faziam os negocian¬ tes de Macáo sobre opio e câmbios eram todas eífectuadas em Cantão. Em Macáo chamam moradores ás pessoas mais conhecidas da cidade, negociantes, ou proprietários : é uma designação semelhante á dos nossos antigos homens bons, ou das pes¬ soas que andavam na lista da governança. Es¬ tes moradores estavam divididos em dois ban¬ dos ou parcialidades, como desgraçadamente acontece em quasi todas as nossas colonias; aqui não por dissidências políticas, mas por odios e rivalidades locaes. Tratei e mantive relações com pessoas de ambos os lados, indifferent© como devia ser ás suas divisões. A’ minha chegada o Bispo diocesano sol- fria de saude, por effeito do clima e da vida se¬ dentária que passava, e os facultativos lhe ha¬ viam aconselhado como remedio radical o re¬ gresso á patria, e como paliativo os exercícios acavallo, aos quaes se não resolvera para não ir contra o estylo da terra de não andarem os padres a cavallo; prejuiso singular e só aqui existente. Instado por mim decidio-se áquel- les exerci cios, de que tirou muito proveito: sempre me lembrarão com saudade os nossos passeios matutinos nas lindas madrugadas de Outubro e Novembro; hiamos muito além da Porta do Limite, caminho de Cattai ou da
  • [121] Casa Branca, e quasi sempre viamos nascer o sol galopando sobre o território chinez. Tam¬ bém nos aprazia seguir ao longo da praia que vai na direcção de Catíai, mesmo junto as ondas, que ao desenrolar banhavam os cascos dos cavallos. Foram deliciosos aquelles pas¬ seios, e algumas das conversas que nelles en¬ tretínhamos não serão facilmente perdidas nas nossas recordações. A agradavel presença e amenidade do tra¬ to deste digno Prelado o fazem estimar, e res¬ peitar ao mesmo tempo por todos que o co¬ nhecem : comtudo o seu palacio era pouco frequentado, apesar da franca recepção que oí- ferecia: a maior parte das noites passavamos sós algumas horas, no meio de um vasto e bem adornado salão, conversando quasi sempre em assumptos da nossa patria, e nas singelas cou¬ sas da sua Arnoict $ aldêa pequena ou casal do termo da Certa na Beira Baixa, donde e natu¬ ral o mesmo Prelado, e onde vive sua respei¬ tável mãi com outros filhos •, familia distincta naquelles sitios, e que é o typo vivo dos nos¬ sos bons provincianos. O encanto que tem estas conversas, e as mais insignificantes recordações das cousas e das pessoas dos logares que nos viram nascer, só o comprehende quem o ha experimentado a 3:000 legoas de distancia do seu paiz.
  • [122] «!« frigida 19. Miwia IS, A 29 de Outubro, dia anniversario d’EI-Rei D. Fernando, os navios de guerra emban¬ deiraram em arco, e salvaram ao meio dia. A fragata D. Maria fundeada no ancoradouro da Taipa, onde se achava também a corveta ame¬ ricana Marion, salvou com os outros, e ne¬ nhuma cousa de extraordinário se notou a bordo d’aquelie navio até ás 2 e meia, hora em que se ouvio um grande estrondo e detonação, que abalou o palacio episcopal, onde me achava, e quebrou vidraças em partes da cidade: indo ás janellas que deitavam para a Taipa, vi uma espêssa e negra nuvem de fumo na di- recção em que estava a fragata, e quando foi correndo vagarosamente com o vento, appare- ceu apenas uma parte da popa do navio, que d’ahi a pouco começou a arder. Corri á Praia frande, e encontrei o ajudante do governador .eiIe a embarcar n’nma lorcha para o logar do desastre: acompanhei-o, e preseiciámos ainda no caminho duas explosões parciaes. Fo¬ mos os primeiros que de Macáo chegámos a bordo da Marion, e vi o mais doloroso espe-
  • [123] ctaculo que jámais presenciei. Os corpos de dez homens desfigurados, e com os membros quasi lodos despedaçados, jaziam no convez banhado de sangue, dando os mais lamentosos grilos: era uma scena de cortar o coração. Tinham sido tirados dos restos da fragata, ou do mar pelos escaleres da Marion *, entre elles havia o tenente mouro ou lascar Vsangi, e o guarda marinha João Bernardo da Silva Perei¬ ra, que estava de quarto, e que morreu á mi¬ nha vista em tormentos horríveis. D’ahi a pouco chegaram os escaleres da Iris e da D. João, e o proprio commandante da estação, e em seguida foram os feridos con¬ duzidos para o hospital em terra, onde depois todos vieram a morrer, á excepção de um gru¬ mete portuguez. Regressei ao fim da tarde para Macáo, onde reinava geral consternação. A’ noite continuou a arder o resto do navio não mer¬ gulhado, eera lugubre dever ao longe aquel- la grande fogueira no meio da agoa, como luz sinistra, ou tocha funeraria ardendo sobre o se¬ pulcro de tantas victimas ! O cadaver de Vsangi foi, como gentio, en¬ terrado com as honras militares no alto fron¬ teiro á fortalesa da Guia, proximo dos muros da cidade. O do commandante capitão tenen¬ te Assis foi achado a 31, e deu-se á sepultura com todas as honras devidas no cemiterio de S. Paulo : acompanhei-o com pungente saudade; fora meu amigo e antigo contemporâneo nos estudos da Academia da Marinha. Enterraram-se ao todo 71 cadaveres; fal¬ taram 117 da guarnição, os de 3 marinheiros
  • [124] francezes presos, eosde talvez 40 chinas, que estavam a bordo, ou em barcos proximos. Fo¬ ram 188 as vidas perdidas da guarnição, e mui¬ to importantes os valores que desappareceram : só o commissario parece que tinha na sua mão a somma de 20:000 pesos, pertencente a vᬠrios, e quasi todos os officiaes tinham algum dinheiro, ou objectos de valia, nos seus" ca¬ marotes a bordo. A fragata foi destruída pela explosão do paiol da polvora, onde se levou fogo de pro- posito, ou por descuido ; pelo que disseram os que sobreviveram algum tempo a esta catas¬ trophe, torna-se provável a primeira hypothe- se : o fiel da artilharia era um conhecido mal¬ vado, bêbado relaxado, e tinham-se-lhe ouvi¬ do ameaças de praticar tal atrocidade, poroc- casião de receber alguns castigos; n’aquelle mesmo dia antes da salva, parece que 0 pro- prio commandante lhe puxara pelas barbas, por alguma falta no serviço. O navio era excellente, todo de téca, e tinha no paiol 300 barris de polvora; a explo¬ são foi tremenda, ea corveta americana esca¬ pou milagrosamente, talvez pela sua proximi¬ dade : a artilharia da fragata passou-lhe por en¬ tre os mastros; os toldos ficaram como se ti¬ vera chovido sangue, mas só teve um homem levemente ferido, e alguns cabos cortados. Muito louvor foi devido á officialidade e marinhagem da Marion, que correram a salvar os feridos, no meio ainda de explosões dos paioes volantes, e os trataram com a maior humanidade, mostrando vehemeníe sentimen¬ to por tal calamidade. x
  • [128] O grumete portuguez Barbosa, unicoque sobreviveo a esta espantosa catastrophe, foi por uma leve falta chibatado a bordo da D. João pouco tempo depois de restabelecido, e d’ahi apouco desertou do serviço. Teve rasão de fu¬ gir por tal acto de barbarismo, ou de inadver¬ tência. Das praças da fragata escaparam 36, que estavam em terra, no hospital, ou destacadas. A mais graduada como militar foi o 2.° tenen¬ te João Maria Celestino.
  • [ 126] CAPITULO DECIMO SEXTO, A cidade de Cantão. Nos meados dc Novembro fui visitar esta ci¬ dade, a mais fallada na Europa entre as da China. Parti de Macáo no vapor inglez Can¬ ton • pequeno e pouco commodo em relação ao preço da passagem n’uma viagem de dez horas, e que foi de 8 pesos, e 2 por um jan¬ tar muito ordinário : não parecia um barco in¬ glez. Saliimos ao meio dia, e sempre á vista da costa da ilha de Heang-xan, e de varias pe¬ quenas ilhas, chegámos á embocadura do gran¬ de rio de Cantão, Chu-kiang, ou rio das Pé¬ rolas, e não Tigre, como indicam alguns ma¬ pas e tractados de geographia : entrámos na fa¬ mosa Bocca de Tigre, que assim chamam os Chinas á barra fortificada de Cantão : passámos as celebradas fortificações deste ponto, que se¬ riam formidáveis, ou inexpugnáveis nas mãos deEuropeos. Aposição militar é magnifica, e a collocação das baterias foi bem aproveitada pelos Chinas; a, maior parte delias são rasan- tes, e jogam de uma e outra margem com as de duas ilhas situadas no meio da corrente, mascarada uma pela outra, e que nem o mais habil engenheiro alli collocaria melhor. Veem-
  • [ 127] se baterias de grande extensão, apresentando em linha recta 100 a 120 canhoneiras, mas com o defeito de serem muito juntas. Toda esta apparencia é temerosa e póde impor á primeira vista, mas a realidade é cjuc uma fragata europea, ou mesmo uma corveta, zomba dos milhares de canhões que estas for¬ tificações podem apresentar 5 ha poucos annos o comprovou praticamente um vapor ou corveta ingleza, e o mesmo succedeo na grande guer¬ ra com a Inglaterra em 1813. Hoje estas ba¬ terias estão quasi geralmente desartilhadas e desguarnecidas: não vi nellas um só soldado, á excepção das baterias das ilhas, onde havia alguns homens como simples guarda. Os ca¬ nhões dos Chinas são péssimos, e basta dizer que o geral delles os julgam tanto melhores quanto mais largo é o ouvido, e os reparos são pranchas de madeira em que assentam as pe¬ ças. Recentemente já vão introduzindo alguns melhoramentos, fazendo carretas, etc. Até aqui as margens do rio são aridas e desagradaveis; mas seguindo vê-se bastante cultivação e arvoredo. Já perto da noite che¬ gámos a Vampú, pequena povoação, e fun- deadouro dos navios de maior lote, a cousa de 12 milhas da cidade, que jaz ao oeste, e a 100 milhas de Macáo. Estavam aili bastantes em¬ barcações de quasi todas as nações do mun¬ do-, mas na maior parte eram be lias galeras in- glezas e americanas. A’s 10 horas da noite ancorámos em fren¬ te dás feitorias europeas em Cantão, no meio de uma multidão de embarcações que atulha¬ vam 0 rio, atra vez das quaes e da iinmensi-
  • dade de tancares e botes, muito nos custou a romper 1 e algumas foram maltratadas pelo va¬ por. Era original e curioso espectaculo de ver estes milhares de embarcações todas illumina- das, e cheias de gente fazendo confusa vozea¬ ria na extranha lingoa chineza. Desembarquei, e fui para casa do nego¬ ciante Amador Viegas, portuguez de Cochim, onde estive obsequiosa e commodamente hos¬ pedado, durante os oito dias que me demorei em Cantão. Na manhã seguinte fui logo ver a feito¬ ria, que é um terreno marcado pelas authori- dades chinezas, onde os Europeos tem levan¬ tado habitações, e que entesta com o rio, so¬ bre cuja margem ha um bonito jardim ou pas¬ seio publico no gosto inglez, bem entretido, e que tem no centro uma capella protestante, pequena, mas de elegante estylo. Os prédios que ficam em frente deste jardim pertencem ás casas de commercio mais abastadas, e são magnificas e alegres vivendas 5 mas os outros que lhe ficam detraz, ainda que vastos eacea- dos, são tristíssimos para habitar, divididos em ruas em parte cobertas, e que mais semelham compridos e ensapados saguões. O interior das casas porém é agradavel pelo aceio e ricas mo¬ bílias, e as vi sumptuosas nas habitações de al¬ guns ricos parses, que visitei com um amigo negociante que me acompanhara de Macáo. Ha muitos parses estabelecidos em Can¬ tão, e alguns possuem grandes fortunas: esta raça espalhada em toda a Asia se emprega ex¬ clusivamente no commercio, para o qual tem
  • [129] um tacto especial. E’ umabella casta de homens, com a cor e physionomia dos habitantes da Pe¬ ninsula ibérica, e trajando, como já disse fal¬ tando d’Adem, roupas largas e uma carapuça, ou cobertura singular na cabeça. E’ oriunda da Persia, donde emigraram varias famílias no tempo da invasão dos Árabes musulmanos, por não quererem abraçar o mahometismo, e ain¬ da hoje conservam a antiga religião daquelle paiz, chamada dos Magos ou de Zoroastro, dizem que em toda a puresa, conservando o culto do fogo no seu templo principal em uma das cidades da Costa do Malabar, onde primei¬ ro foram estabelecer-se depois de abandonarem a patria. São zelosos observantes de seus anti¬ gos usos e costumes, casam só entre si, e não se tem até hoje misturado com outra nação. Os da China não tem entre si mulheres da sua casta, parece que por algum motivo re¬ ligioso, ou difficuldade delias exercerem o seu culto. As ruas Old China street e New China street attrahem logo a attenção do viajante. São as únicas de regular largura que se en¬ contram neste suburbio de Cantão, ornadas de lojas onde se vêem todos os milagres da in¬ dustria, da paciência, edo genio chinez. Em quanto aqui estive nem um só dia deixei de as visitar, e sempre achava novo pasto á mi¬ nha curiosidade, e novas tentações em damno da minha mingoada bolsa. . Fóra destas ruas tudo o mais é um laby- rintho de immundas e estreitíssimas ruas, ou antes corredores tapados em parte com estei¬ ras, pejados de uma multidão de populaça, de 9
  • [130] homens carregados, e de cadeirinhas de con- ducqão, que fazem verdadeiramente incom¬ mode e perigoso passear por elias um estran¬ geiro, e porque se vê logo seguido de um ban¬ do de vadios e esfarrapados gaiatos, que for¬ mam grande grupo á porta de qualquer lo¬ ja em que elle entre, que de vez em quan¬ do o acotovelam, ou lhe dirigem insultos na suainintelligivel lingoagem, e que é muito pru¬ dente fingir que se não suspeitam, nem dar-se por offendido por algum encontrão. Nestes passeios para fora da feitoria e ruas nomeadas fui sempre acompanhado com algum dos muitos Portuguezes deMacáo, que estão empregados em Cantão nas casas ingle- zas e americanas como caixeiros. Cheguei uma vez ate uma das portas da cidade, praticada na muralha, que parecia ser muito grossa, po¬ rém pouco alta, e toda encoberta com a infi¬ nidade de casas frágeis c amontoadissimas que occupam todo o espaço entre a cidade e o rio ; mas tivemos logo prudentemente de nos reti¬ rar, porque já a populaça começava a fazer grande alarido; alguns Europeos, que tem que¬ rido passar avante, tem sido apedrejados, e mesmo mortos, apesar da clausula dotractado com a Grã-Bretanha, que estabeleceo a fran¬ quia das portas de Cantão para todos os estran¬ geiros. Não merece porém a pena de affron¬ ter perigos para ver a cidade no interior, por¬ que ouvi a Europeos que lá tem entrado dis¬ farçados em Chinas, e mesmo a proprios Chi¬ nas, que não apresenta notável diíFerença do que se vê de fora. Mesmo no meio deste labvrintho ha al-
  • [131] gunias lojas ricas e curiosissimas, principal- menle as de quadros pintados em vidro, e as de lanternas ; ramo de industria que na China apresenta uma variedade, luxo, e apuro de tra¬ balho incrível: são ornadas de vidros lindamen¬ te pintados a transparente, e que produzem o mais bello eíleito quando iiluminad.as. Ha ruas completas de lojas de sapatos, de enfeites de papel, de lanternas etc. , e al¬ gumas produziam um efleito verdadeiramente theatral, enfiando-se a vista, quanto permit!ia a tortuosidade delias, por entre dois renques de taboletas que pendiam perpendicularmente dos umbraes das portas das lojas, contendo grandes caracteres chinezes de cores vivas e outros doirados, que semelhavam perfeitamen¬ te duas ordens de bastidores rírnn theatro com grande fundo. Dei alguns passeios pelo rio, onde sem¬ pre havia um movimento incrivel de barcos de todos os tamanhos, muito carregados de gente, que me parecia que a todo o momento se hiam chocar uns contra os outros ; mas que se es¬ coavam e faziam caminho como se foram li¬ geiros peixes. Vi os celebrados jardins de Ocquá, em Fctiti, na margem do rio opposta á cidade, e cujos arredores ainda muito para alli se esten¬ dem. São magnificos no gosto chinez; que nesta parte rivalisa com odosEuropeos, senão o excede, e dizem que nelles se despenderam 80:000 pesos. Foram feitos pelo rico negocian¬ te china, de quem conservam o nome, e que de simples culi (creado ou homem de ganhar) se elevou a ser o maior hão ou capitalista de *
  • [132] Cantão, deixando por sua morte para ciia de 10 milhões de patacas. Visitei o pagode de Honan, que é o naior templo e estabelecimento religioso da povin- cia: está situado n’uma ilha, os seus edifí¬ cios são principalmente de tijolo, emuit> nu¬ merosos, occupando seis ou oito geiras te ter¬ reno. Na segunda porta da entrada vfem-se duas collossaes figuras de guerreiros chi fica¬ dos, e mais adiante quatro outras, que epre- sentam antigos heroes. Seguem-se tre ima¬ gens representando o passado, o present, e o futuro Budha. Ila vários outros idolos mui¬ tas cellas, oílicinas, casa para porcosa que chamam sagrados, que nunca se matam, etc. Diziam haver perto de 200 bonzos no t an pio. Examinei algumas fabricas de vieres, e de tecidos de seda, e o que mais me naravi- lliou nestas foi ver os logares escuros e inmun- dos onde ás vezes se faziam estes artefkdos, e donde sahem limpos e perfeitos. Entrei n’um estabelecimento de jreparar ou melhorar o chá, e vi fazer a operaçfo frau¬ dulenta de darem ao chá antigo a appirencia de novo. Usavam de uma especie de amas- sadores de pedra fundos e circulares, con fogo brando por baixo, e alii misturavam 10 chá um pó asulado, como de anil, e o hian me- chendo lentamente á mão, enterrando ds bra¬ ços, que nada tinham de limpos, entre oehá até aos cotovelos. Ouvi a pessoa que me ffiompa- nhava, residente e muito conhecedora és im-
  • [133] mundos, o que por certo não será percebido pelos exquisites paladares das delicadas miladys, ou de quaesquer outros amadores desta deli¬ ciosa bebida. Geralmente porém o chá vem preparado e já bem acondicionado do interior, o que não quer dizer que por lá também não se faça o mesmo. Em Lisboa pouca idéa ha de como se faz o commercio do chá. Quem chegar a Cantão equizer comprar este genero directamente, ou por sua propria escolha, ha de ser necessaria¬ mente enganado pelos Chinas, que é em ge¬ ral a gente mais velhaca e enganadora nas transacções commerciaes. O verdadeiro e se¬ guro meio para eífectuar taes compras, é in- cumbil-as a alguma das casas mais acreditadas inglezas ou americanas, que fazem as compras em grande aos negociantes chinas, e que tem montada uma especie de repartição para este ramo de commercio, com seus provadores, que são empregados exclusivamente nas pro¬ vas do chá, e que vencem avultados salarios se¬ gundo a sua habilidade: estes homens classi¬ ficam as partidas, as qualidades, as suas diffe- rentes sortes, conforme o gosto dos difíerentes mercados do mundo. Mediante a commissão de 3 por cento so¬ bre a compra, o especulador poupa-se a fadi¬ gas, e obtem a segurança da boa qualidade do genero, segundo as indicações que deu. E’ um erro entre alguns homens de com¬ mercio em Lisboa fazerem pedidos pelas cha¬ pas, e julgarem que a qualidade do genero é constante todos os annos cm relação á mesma chapa: ainda que não haja dolo no lavrador e
  • [134] no hão ou negociante que vende o chá em Cantão, as differentes circumstancias das co¬ lheitas e do preparo fazem variar muito as qua¬ lidades. Os pedidos devem-se fazer pela qualidade ou designação do chá, e em cada qualidade especificar l.a, 2.a, ou 3.a sorte. E’ cousa singular, e que vem a proposito aqui dizer, que em Lisboa se bebe muito me¬ lhor chá do que em Macáo: chá verde bom custa a encontrar, em poucas casas se bebe, e raras vezes bem feito; o chá preto é o de uso geral, mas não ha nenhum esmero no mo¬ do de o fazer. E’ certo que está prompto a toda a hora nos ckatôcs, e é a primeira cousa que em todas as casas se offerece apenas en¬ tra uma visita. Regressando uma noite de um passeio pe¬ lo rio vi um horroroso mas explendido especta- culo : um vasto incêndio se ateara no suburbio oriental da cidade ; ardiam 200 casas, 0 cla¬ rão avermelhava o ceo, e esclarecia as scenas nocturnasnorio. Estes incêndios são frequen¬ tes em Cantão, e em todas as grandes povoa¬ ções da China. Os Chinas são muito inhabeis •• para apagar fogos; usam apenas de potes com agoa, e de muito más bombas; e nunca se de¬ cidem a derrubar alguns edifícios paira salvar outros, que é o unico meio de atalhar 0 pro¬ gresso do fogo, no meio de estreitos corredo¬ res, e da contiguidade dos prédios. Em Can¬ tão os Europeos é que quasi sempre acodem a fazer cessar esta calamidade, quando tem lo- gar perto das feitorias. E’ cousa muito original e divertida pas-
  • [135] sear de noite no rio de Cantão. Como já dis¬ se, o rio ao longo da cidade está totalmente coberto de embarcações, e ha fileiras exten¬ sas de umas a que chamam poíoes, que são uma especie de grandes barcaças, ou casas ambulantes, algumas ricamente adornadas in¬ terior e exteriormente; as portas e as janellas são de bellos arrendados de madeira dourada; ricos lustres pendem dos lectos, com infinida¬ de de lumes ; flores e rica mobilia completam o ornamento destas salas de palacios de fadas, onde se abrigam o vicio e a prostituição : são casas de alçouce, onde o jogo, as mulheres trajando sedas, as comidas e bebidas, attra- hem a mocidade e os viciosos de uma grande cidade. E’ perigoso para os Europeos visitarem taes casas quando ha nellas concorrentes chi¬ nas, e de ordinário se limitam a vêl-as de fo¬ ra : na verdade pelo seu grande numero, pela sua situação sobre a agoa, e brilhante iílumi- naçáo, tornam-se um dos mais curiosos espe- ctaculos que para o estrangeiro apresenta Can- tão. Esta cidade é a terceira em importância do império, e a capital das províncias do sul: o seu governador tem o titulo de vice-rei dos dois Úuang, isto é das províncias de Quang- tum, e Quang-si. Jaz a cousa de 60 milhas da foz do rio, Hu-man ou Bocca de Tigre, e éantiquíssima nos annaesda Chma. Em 1650, no começo da dynastia tartara, foi quasi corn- ple'taniente destruída. E’ murada em 6 milhas de circuito, com 12 portas exteriores, sendo interiormente dividida por um muro em veiha
  • [136] e nova cidade. Os seus subúrbios sâo tanto ou mais populosos que a cidade, e o todo da po¬ pulação julga-se superior a 1 milhão d’almas. Só no rio vivem perto de 300:000 pessoas em mais de 80:000 embarcações. O numero dos barbeiros excede a 8:000, o que não admira n’um paiz onde todos os ho¬ mens rapam quasi diariamente a cabeça desde a mais tenra idade. A feição geral dos edifícios revela que lhes servio de modêllo a forma primitiva das tendas, nas quaes se suppõe viveram longo tempo os antigos Chinas, nas suas primeiras migrações para o sul e oriente do império. A construcçâo das casas e pagodes é ligeira e fra-r gil na apparencia, conservando o perfil da sim* plicidade originaria : é uniforme em toda a Chi¬ na, segundo a opinião dos viajantes que tem penetrado no interior, e visto as principaes ci¬ dades ; e em geral os edifícios não tem ele¬ gância alguma, nem proporções determinadas; comtudo muitas vezes produzem agradavel ef- feito á vista. A situação de Cantão e a política do go¬ verno chinez, fizeram desta cidade o centro do commercio interno e externo. A’ excepçãodas caravanas russas que atravessam as fronteiras do norte do império, eram exclusivamente aqui mantidas as relações com os povos do Occiden- te, encontrando-se neste grande mercado as producções de todas as partes da China, de Tonquin, da Cochinchina, Camboja, Siam, Malaia, de todos os portos da índia, da Euro¬ pa, dos differentes Estados da America, edas ilhas do Pacifico. Hoje este immenso commer*
  • [137] cio leni diminuído consideravelmente, e fugi¬ do em grande parte para Shangai. E’ porém ainda o primeiro mercado do opio, genero que mais avulta na balança do commereio europeo, e que a torna desfavorᬠvel á China, donde modernamente estão sa- hindo os metaes preciosos, para pagar o exce¬ dente do valor das importações ao das exporta¬ ções, e quasi todos são levados á índia ingleza. E’ sabido que o opio é extrahido da Pa- paver somnif enim, especie de papoula cultiva¬ da na índia, e na Turquia. O governo da Com¬ panhia da índia tem o monopolio da compra aos cultivadores nos districtos do Indostão, ex- cepto em Malwa, onde porém está sujeito a exorbitantes direitos. Em Calcutá faz o go¬ verno leilões mensaes de milhares de caixas, que produzem sommas avultadissimas: o que se produz cm Patna e Benares é superior ao Malwa, e ambos são preferidos ao da Turquia pelos Chinas, que fazem passar o opio por uma operação a que chamam coser, para depois o fumarem em cachimbos apropriados. Os de¬ pósitos do opio em caixas estão a bordo de na¬ vios em Cam-singmun, a umas 30 milhas de Macáo, e alli é que se realisam as entregas contractadas em Cantão. Os preços regulam de ordinário de SOO a 600 patacas por caixa, segundo as qualidades : o Patna velho é o que obtem maior preço. No commereio do opio ha uma especie de jogo de bolsa, como o de fundes públicos na Europa, que muitas vezes tem feito a fortuna ou arruinado de repente a vários especuladores. Cantão é também um grande centro de
  • [138] instrucçâo, e aqui se fazem os exames liltera- rios dos que se propõem á vida publica, ou a obterem os diflerentes gráos de mandarins, chegando a reunir-se ás vezes de 7 a 8:000 exa¬ minandos. Os exames mais importantes tem logar em Pekim por triennios. E’ sabido que as instituições liberarias da China, são as columnas da estabilidade do go¬ verno : as forças militares são inteiramente inadequadas para garantir a união das muitas, e vastíssimas províncias que constituem este império : essas instituições porém, ainda que fazem a força e a gloria da nação, são comple¬ tamente deficientes, excepto para os fins que o governo tem em vista. A nobresa é desconhecida na China, esó a riquesa, e o espirito de patronato ou clien- tella, tem uma extensa influencia na adminis¬ tração publica, e muitas vezes embaraçam os actos governativos, torcem a justiça, protegem o crime, e conferem honras e vantagens a quem não as merece : com tudo a regra geral é ser a instrucçâo um requisito indispensável em to¬ dos aquelles que aspiram aos empregos do Es¬ tado, e sempre ella assegura o respeito, a in¬ fluencia, e a distincção. Assim a mocidade ambiciosa, sem pensar em agitações políticas, póde aspirar ás mais altas posições sociaes no império, excepto ao throno. De ordinário os mais distinctos homens d’estado elevam-se pe¬ lo seu talento, e são ao mesmo tempo philo- sophos, mestres, e governantes dos povos •, mas só se podem manter nestas situações á custa da mais implícita obediência á vontade do so¬ berano, que é absoluta e illimitada
  • [139] O povo de Cantão é geralmente reputado o de peior indole da China, e o mais contra¬ rio aos Europeos: os proprios Chinas inlet- ligentes concordam em que o luxo, as dissi¬ pações, e os crimes existem aqui em maior escala do que em nenhuma parte do império j mas asseguram ao mesmo tempo que ha a par disto mais espirito emprehendedor, vistas mais extensas, e conhecimentos mais geraes entre as altas classes dos habitantes de Cantão, do que em qualquer outra grande cidade dopaiz. O despreso e o odio que as authoridades chinezas muitas vezes manifestam contra os Eu¬ ropeos, e a indifferença e o desdem com que o geral da nação olha para tudo que é estran¬ geiro, é sem duvida ridículo e censurável; mas em grande parte se pode attribuir ao efleito que ha produzido, no espirito deste povo, o modo de sentir e de proceder para com elle da maior parte dos Europeos. No fim de oito dias já estava enfastiado desta cidade, cuja residência para os Europeos é muito desagradavel, pelo pouco espaço que lhes é dado percorrer, grande calor que se ex¬ perimenta, e outras incommodidades : só a ne¬ cessidade, ou o engodo dos interesses coinmer- ciaes fazem aqui viver vários filhos deMacáo, e muitos estrangeiros. Regressei para Macáo n’uma lorcha por- tugueza,. e vi então melhor as margens do rio até Vampú, que na vinda passara de noite: são bonitas e bem cultivadas, divisando-se al¬ gumas torres de seis e sete andares, que vão diminuindo successivamente em pyramide no gosto chinez, e que são caracteristicas deste
  • paiz : de ordinário são oitavadas, e interior¬ mente nada apresentam de notável a não ser a immensa grossura das paredes, e serem ro¬ tos os pavimentos até ao cume: tem nas di¬ visões exteriores de cada andar canteiros com flores e plantas, o que é de muito bonito ef- feito. Vi outra vez as fortificações da Bocca de Tigre, e por causa de calmarias só cheguei a Macáo ao cabo de dois dias de viagem.
  • [1*1] O Iloleíiiíi «So Governo tie Macáo* Havia uns poucos de mezes que não se publi¬ cava em Macáo o Boletim do Governo. O Bis¬ po, como presidente do Conselho, manifestou- me desejos de que eu coadjuvasse a' redacção do Boletim, a qual compete sempre ao secre¬ tario do governo. Apesar de me julgar inhabil para o objecto, annui a desejos que para mim eram preceitos. Entrei a medo nesta espinhosa tarefa, e no Boletim n.° 4 de 7 de Dezembro appare- ceo o meu primeiro artigo : versava sobre a fraquesa militar do império chinez, e o modo porque uma nação europea o pode pôr em con¬ tribuição, mesmo nós Portuguezes, com os pe ¬ quenos recursos de que poderíamos dispor. Este artigo mereceo alguma attençãò em Macáo, e mesmo a alguém em Lisboa, pois o vi depois transeripto na Revista Popular. O Friend of China, jornal de Hong-kong, o traduzio e eommentou, encarando-o como a revelação de tendências bellicosas do governo de Macáo contra a China, e a Abelha de Bom¬ baim, copiando o artigo, vio nelle laços arma¬ dos ao governo de Portugal. Faziam-me rir
  • taes cousas, quando considerava que as ideas apresentadas nada significavam senão algumas reflexões sahidas da minha pobre cabeça. Isto porém, seguido logo de uma pequena polemica jornalistica com o Friend of China, fez-me ganhar gosto á curiosa occupacao de re¬ dactor ; continuei a escrevinhar, e por fim to¬ mei de todo a meu cargo a redacçâo do Boletim. Tinha chegado á China como viajante, e improvisado um pouco em negociante, e tor¬ nei-me ainda mais improvisado redactor de jor¬ nal ; mas cumpre dizel-o, tão gratis como o mesmo Boletim, que gratis se distribuía aos moradores de Macáo, circumstancia especial a esta cidade, e singular no meio da falta de dinheiro que soffria o governo. Occupava quasi todo o meu tempo com o Boletim; porque não só tinha de escrever como de estar frequentemente na imprensa, que era pequena, e com pouco peritos com¬ positores : pertencia ao inglez indiano John Smith, exceliente homem*; mas tão zeloso pe¬ las que elle chamava regras da typographia ingleza, ou Job print, que pert endia que eu es¬ crevesse segundo a orthographia ingleza no uso de letras grandes, que nella são empregadas continuam ente e até em adjectivos : tive com Smith mui singulares questões a tal respeito, c esteve para se interromper a publicação do Boletim, se não fosse a convenção que fize¬ mos, obrigando-me eu a usar o mais possível de letras grandes, sem com tudo cahir em erros palmares da nossa orthographia. Esta conven¬ ção das letras grandes sempre me faz rir quan¬ do della me recordo.
  • [ í 43 ] Éramos chegados ao Natal, que é tam¬ bém como na Europa o meio do inverno em Macáo : passava então de perfeita saude, por¬ que é o tempo melhor neste paiz, e quando reina o saudavel e vigorisante vento norte, sempre secco e frio: ha dias tão frios como em Lisboa; mas são mui poucos. O inverno dura só de meados de Novembro afins de Fe¬ vereiro. Em Maio, Junho e Julho, é o tem¬ po das chuvas e humidades, acompanhadas de calor, que incommodam muito e estragam vᬠrios objectos. O calor durante 8 a 9 mezes é constante, ealgumas vezes excessivo: o vento léste que então reina é summamente desagra¬ dável, e produz um quebramento e prostração do corpo, a que chamam no paiz perna aze¬ da, que inhabilita muitas vezes para todo o exercicio ou occupação, e que insensivelmente gasta a vida dos que não nasceram neste cli¬ ma. As conversações desenxabidas e banaes de Portugal a respeito do tempo, são aqui substi¬ tuídas pelo fallar do vento: em Macáo anda- se sempre com a carta, dos rumos no pensa¬ mento.
  • [144] CAPITULO DECIMO OITAVO, VrasladaçSo «I«m s’estos mortaes <1® conselheiro Amaral. / . , A 19 de Dezembro chegou a Macáo a malla de Portugal do raez de Outubro, levando a no¬ ticia da nomeação do capitão de fragata Fran¬ cisco Antonio Gonçalves Cardoso para gover¬ nador desta colonia. Tratou-se logo de prepa¬ rar para o receber o palacio da residência dos governadores, e como ainda alii estivesse de¬ positado na capella respecf iva o cadaver do go¬ vernador Amaral, o Conselho do governo dis- pôz que os seus restos mortaes fossem condu¬ zidos para a capella de Nossa Senhora do Car¬ mo, na igreja de S. Francisco. Abrio-se o feretro, porque delle correra algum liquido, o que dera muito que fallar e temer aos supersticiosos Chinas. Limpou-se o craneo e os ossos dos restos de cartilagens: eu tive nas mãos esse craneo nú, e dos gol¬ pes da barbaridade e da traição lhe vi os vestí¬ gios indeleveis, como o deveriam sempre ser em ânimos portuguezes! No dia 2 de Janeiro de 1851 ás 5 horas da tarde foi o ataúde conduzido aos hombros de seis marinheiros, eáspontas do panno mor-
  • [<*»] tuario que o cobria pegaram o Encarregado de negocios de França na China, o Consul dos Estados-Unidos da America, e quatro Empre¬ gados superiores do Estabelecimento. Precedia o ataúde um destacamento do batalhão naval e outro da marinhagem das guarnições dos navios de guerra surtos no porto,t e compu¬ nham o préstito fúnebre o Corpo Municipal com o seu pendão em funeral, asAuthoridad.es civis e militares, a Officialidade da marinha e do batalhão provisorio, o Corpo diplomático e consular aqui residente, seus empregados, nu¬ meroso séquito dos moradores de Macáo, e de portuguezes e estrangeiros. Fechava este respeitável e pomposo acom¬ panhamento o batalhão de linha, com o seu tenente coronel commandante á frente. A’ porta da igreja de S. Francisco acha¬ va-se o presidente do Conselho do governo, o Bispo diocesano, rodeado de todo o seu clero, e acompanhando os restos mortaes á destinada capella, alli lhes foi cantado o competente Me¬ mento. O préstito e o todo desta religiosa cere- monia apresentava um aspecto de triste e so- lemne gravidade que muito impressionava e commovia, fazendo palpitar com sentimentos dolorosos e patrióticos os corações portuguezes. Liam-se no rosto dos assistentes os Ínti¬ mos sentimentos de saudade e respeito áquelle benemerito cidadão ; ao martyr da patria, que sellou com o seu sangue os melhoramentos, e o caracter verdadeiramente nacional que deu a Macáo. 10
  • [ Í46] CAPITULO DECIMO M0. Sabida tie ires navios mercantes por¬ tugueses para Lisboa. No meado de Janeiro sahiram de Macáo os brigues Omyum e Clara, e a barca Novo- Paquete^ todos para Lisboa, donde tinham vindo os dois brigues ; mas a barca chegou nos fins de Novembro da California, com escalla por Manila, lendo sahido de Lisboa e tocado emValparaizo nas costas da Republicado Chi¬ li. Nos modernos tempos foi a primeira em¬ barcação mercante portugueza que intentou tal viagem, que é de completa circumnavega¬ ção do globo. Os brigues Omyum e Clara trouxeram de Lisboa carga de vinho, como de costume, ao todo mais de 3:000 bariz de 5 em pipa: o mer¬ cado porém para este gentero esteve muito máo neste anno, e a maior parte dos carregamen¬ tos ficaram em ser em Macáo: vendeo-se vi¬ nho a menos de 8 patacas o barril, mais ge¬ ralmente a ÍO, eraro a 12 ou 13. Mesmo as¬ sim este genero não é consumido em Macáo, onde hoje talvez pouco exceda a um barril nas vendas ou lojas o gasto diário: quasi todo se
  • [147] exporta para Hong-kong, algum para Cantão, ou é vendido aos navios de guerra francezes. Toda a qualidade de vinhos e bebidas do resto da Europa apparecem hoje com profusão nos mercados da China, e são geralmente pre¬ feridos aos nossos vinhos pelo melhor preparo, e pouca agoardente que contém, espbre tudo pelo bom arranjo e enfeites das garrafas. E’ lastima que o pouco vinho nosso engarrafado que costumam mandar, vá tão grosseiramente acondicionado. Acreditem os nossos especula¬ dores, que em todos os mercados do mundo o bom arranjo exterior dos generos é o que se¬ duz principalmente os com pradores. Apresen¬ te-se o inais velho e generoso vinho do Porto n’uma garrafa negra, mal feita, coberta a ro¬ lha com pêz ou grosseiro lacre, como usam mandal-as, quasi nenhum estrangeiro fará caso delle, e irá comprar o mais insignificante vi¬ nho francez ou allemão n’uma bonita garrafa. Isto mesmo succede a respeito de outros ge¬ neros em que podíamos primar, como vidros de conservas, azeitonas, fructas, doces, etc. O unico vinho que apparecia engarrafado com algum esmero era o moscatel de J. M. da Fonseca, de Setúbal; mas em logar de me¬ lhorar já vai peiorando na qualidade das gar¬ rafas, e mesmo o vinho para os entendedores não é genuíno, e esta qualidade não tem accei- tacão entre os inglezes, que são os grandes consumidores de vinho na Asia. . Hoje o gosto geral é pelos vinhos fracos, como o clarete, borcléos, e mais vinhos fran¬ cezes e do rheno; o xerez também está mui¬ to em moda, eé quanto a mim perfeitamente *
  • [148] semelhante no nosso vinho branco dos arredo¬ res de Lisboa bem preparado, e que imita o da Madeira. O vinho do Porto ainda tem estimação na Asia; mas já não 6 tão da moda, e os ingle- zes tem a mania de preferirem o que elles cha¬ mam — Port-London — ou — Porto de Lon¬ dres—, e que é uma mixordia alli preparada em bonitas garrafas, ao nosso mais verdadeiro e puro Porto. Também se gasta muito cham¬ pagne, e na China vendia-se regularmente a pataca a garrafa ; dizem porém que quasi to¬ do é feito artificialmente na colonia do Cabo da Boa-Esperança. E’ pena que sendo o nosso paiz tão rico e variado em excellentes vinhos, andetâo pou¬ co aproveitado este ramo de industria, unico talvez em que poderíamos primar ou competir com as outras nações. E’ o chá o principal retorno ou carrega¬ mento dos navios que de Lisboa vão á China, e alguns mais generos, ou artefactos de me¬ nos vulto. Neste anno o preço do chá cm Can¬ tão esteve muito subido, e como os nossos na¬ vios, seguindo antigas rotinas, tem tempo cer¬ to de sabida, ainda os carregadores o tiveram de comprar mais caro, por se verem forçados a serem os primeiros a entrar no mercado, que de ordinário só se abre para os chás ver¬ des por todo o Dezembro 7 e pelos fins de Ou¬ tubro começos de Novembro para os chás pre¬ tos ; os preços vão depois diminuindo e che¬ gam a fazer considerável differença, ás vezes de 20 ou mais por cento, nas proximidades do anno novo dos Chinas (que quasi sempre cahe
  • [149] em dias de Fevereiro), pelo motivo que expli¬ caremos n’outro capitulo. Os nossos navios estão actualmentó levan¬ do de frete 12 patacas por picco de chá 5 isto é 6 patacas por cada caixa commum de 50 cattez ou 66 àrrateis (o picco tem exactamente 133 arraieis e 1 terço por tu guezes). Ainda ha pou¬ cos annos este frete era de 24 patacás por pic- eo, ou 12 patacas por caixa. Hoje apesar de reduzidos a metade, ainda os fretes são exor¬ bitantes em relação aos dos navios estrangei¬ res, que regulam de 3 a 4 libras sterlinas por tonelada de chá para Inglaterra e para os Es- tados-Unidos : isto é regularmente IG^OOOrs. por 12 caixas de chá de meio picco, queapro- xíixiadamente prefazem o volume de uma to¬ nelada. Ora ordinariamente os navios ingiezes e americanos da carreira da China, são magnifi¬ cas galeras, entretidas com o melhor arranjo, aceio, e mesmo luxo ' as tripulações ainda que diminutas vencem grandes salaríos, e apesar disto lucram com fretes tão modicos. Porque não poderá sueceder isto nos navios portugue- zes ? Merecia este assumpto ser esclarecido pe¬ los nossos homens de commercio, e pelos da nossa marinha mercante. Ao chegar a Portugal tive noticia da lei de 5 de Agosto deste anno, que reduzio a me¬ tade os direitos do chá, e o admittio a despa¬ cho soh qualquer bandeira e procedência. Tem-se dito pela imprensa que taes dis¬ posições atacavam os interesses de Macáo, e que completariam a sua decadência. Parece- me não ser bem fundada esta opinião.
  • [150] Em Macáo não ha commercio de chá, nem mercado algum de tal genero; a ponto cjue os particulares o mandam vir, para seu proprio uso, em pequenas porções de Cantão, que é onde se fazem as grandes compras para o com- mercio, e donde vem as caixas nas lorchas im- mediatamente para bordo dos navios. Os úni¬ cos interesses aflectados são os de dois outres negociantes que cessarão de tirar as suas com- missões, se acabar a nossa msigmticante na¬ vegação para Macáo, reduzida hoje a um ou dois navios por armo; commissões que aliás constituem apenas uma pequena parte do seu gyro commercial. As rendas publicas em nada se prejudicam; porque em Macáo não ha al- fandega, nem especie alguma de tributo so¬ bre as permutações do commercio, as quaes com Portugal se limitam á importação quando muito de 3 ou 4:000 barris de vinho annual- mente, cuja cessação só poderia prejudicar a nossa agricultura vinícola. E’ pois claro que a citada lei nunca pode influir na decadência ou na prosperidade de Macáo, e os interesses que ataca quando fossem attendiveis, o seriam incomparavelmente mais em Portugal do que naquelle Estabelecimento; interesses porém que me parece não estão no caso de obstarem a uma medida de geral utilidade para os con¬ sumidores de chá, genero reputado hoje de pri¬ meira necessidade. A idéa emitíida de estabelecer ainda di¬ reitos protectores para o chá importado de Ma¬ cáo em navios portuguezes, julgo-a pouco admissível; porque em ultimo resultado o be¬ neficio essencial não seria para Macáo, como
  • [151] se inculca para fundamento da idea, e essa protecção a não ser muito forte nenhum effei- to produziria, em vista da baratesa dos fretes dos navios estrangeiros, que ha pouco men¬ cionei. Entendo que insignificante ou nenhum bem pode provir a Macáo, de se procurar forçada- mente alimentar o seu limitadíssimo commer- cio com a Metropole, á custa dos interesses o-eraes desta: o melhoramento e a salvação de Macáo, no meu humilde conceito, não estão nisto : tirem-lhe o apparato de administração publica, que não pode, nem precisa manter ; reduzam o governo do Estabelecimento a maior simplicidade ; elevem o valor das patacas de 720 a 920 rs. , o que logo produzirá pelo mo¬ do mais simples quasi um terço de reducçao nas despesas publicas; e principalmente continuem- se os meios encetados pelo governador Cardo¬ so para atfrahir os hãos á cidade, e fazer res¬ tabelecer o hopu: então Macao poderá, não digo prosperar, mas ao menos conservar-se com os seus recursos, podendo esperar que recobre alguma cousa da sua antiga importân¬ cia, se occorrerem novas e inesperadas circum- stancias. Não é aqui Jogar de desenvolver mats este assumpto, a que voltarei n’outra parte destes apontamentos.
  • [ 152 ] Chegada do governador Cardoso a Macao* Na noite de 3 de Janeiro de 1851 sahio a cor¬ veta D. João para Hong-kong, afim de espe¬ rar o novo governador de Macáo; mas enca¬ lhou no lodo em frente da bateria de S. Fran¬ cisco. Fòi necessário alivial-a da artilheria, e só no fim de tres dias pôde seguir ao seu desti¬ no, onde chegou a 7 : alii o com mandante e oíficialidade receberam muitas distincções, e cumprimentos, bem como depois o novo go¬ vernador á sua chegada no vapor Pekim. Em 24 regressou a corveta a Macáo con¬ duzindo o novo governador Cardoso, que só desembarcou a 26, sendo recebido no caes pe¬ lo presidente e membros do Conselho do go¬ verno, e com todas as honras do estylo. Na tarde do dia 3 de Fevereiro teve Jo¬ gar a ceremonia da posse. O presidente do Conselho dirigio-se á fortalesa de S. Paulo do Monte, que serve de castello da cidade, le¬ vando o bastão de governador, que estava de¬ positado na Sé aos pés de Nossa Senhora da Conceição, como Padroeira do Reino: pouco depois chegou o novo governador acompanha-
  • [153] do pelo Leal Senado, e varias pessoas distin- ctas, e parando á porta do castello, onde veio recebel-o o Conselho do governo, aili se fez a leitura da carta patente da sua nomeação, e em seguida recebeo das mãos do presidente do Conselho o bastão da governança, e as chaves do castello, acompanhadas do breve discurso seguinte, que transcreverei porqúe resume em sim pi ices e eloquentes traços os factos recen¬ tes, e as esperanças que então animavam os ha¬ bitantes do Estabelecimento. « Ex.mo Sr. — Ha oito mezes que neste «mesmo logar entreguei este bastão ao illus- «tre, e chorado predecessor de V. Ex.a, que «a morte nos roubou em breves dias com o «seu esperançoso governo. « Hoje tenho a particular satisfação de o «apresentar a V. Ex.a, como insignia da au- «thoridade que a nossa Augusta Soberana ha «confiado a V. Ex.a, para felicidade de nós «todos. «O Conselho do governo, a que tenho «tido a honra de presidir, julga ter cumprido «com o seu dever levantando-o do chão, onde «fora indignamente calcado aos pés por bar- «baros e cobardes assassinos, e conservando-o «até hoje a coberto de novos insultos. « V. Ex.a hade fazer delle o uso que en- «tender mais conveniente ao serviço da Rainha «e aos interesses e á dignidade desta colonia; «e eu humilhado ao pé dos Altares, pedirei a «Deos que prospere o governo de V. Ex.% «qiie é occupação mais propria do meu sa- « grado ministério. «O Ceo ouca os meus votos.» „ 5
  • Este discurso pronunciado com sublime e natural gravidade por um Bispo, revestido com os hábitos prelaticios, echoando debaixo das abobadas de uma fortalesa levantada pelos nos¬ sos gloriosos avós nos confins do Oriente, e escutado com a mais profunda at tenção por um luzido concurso, foi na verdade de um bello effeito. Terminou a ceremonia com as varias sal¬ vas e festejos do estvlo. Houve Te-Deum na Cathedral, onde o governador depôz de novo o bastão de general aos pés da Padroeira do Reino. Estes actos públicos sempre impressionam, e fizeram palpitar de patriotismo e orgulho a alguns corações portuguezes ; considerando que, apesar da decadência da nossa briosa na¬ ção, as Sagradas Quinas do Estandarte de Por¬ tugal ainda tremulam, plantadas ha ires sécu¬ los, nesta ultima extremidade do continente da Asia, vasto theatro de nossas antigasproe- sas; e que um punhado de Portuguezes ainda pisam, e possuem jtara a patria commum, a 3:000 legoas de distancia, um tracto de terra na parte continental do recatado império da China, de que nenhuma outra nação até hoje se póde ufanar.
  • [ i55’i O aimo novo dos Cliinas. O dia 1.° de Fevereiro da era christa foi nes¬ te anno o primeiro dia do anno novo china, do qual só agora começam a contar o reinado do actual imperador chamado na lingoa man- darina Uien-Fong, que significa completa prosperidade. Pelas leis da successão o imperador rei¬ nante declara no seu testamento qual d entre os seus filhos, tanto da primeira mulher como das concubinas tartaras (nunca das chinas), deve por sua morte subir ao throno. O no¬ meado quando toma as redeas do governo, adopta uma especie de epigraphe, devisa, ou tenção para designar o seu reinado: assim quando se diz actualmente o reinado deHien- Fong, é o mesmo que dizer o reinado da — completa prosperidade. — Precedentemente se dizia o reinado de Tcto-cuang \ isto e o reina¬ do da —luz da rasâo. Os nomes proprios dos principes imperiaes, ou os que nós chamamos nomes do baptismo, nunca mais se proferem desde que elles sobem ao throno até passarem cinco reinados. 'Podo o feliz súbdito do imperador celestial que tiver
  • [Í56] um nome semelhante, tem de o abandonar, ou de usar delle em abbreviatura, para não commetter a indiscrição ou o crime de o pro¬ nunciar por inteiro. Â mesma prohibição existe, e pelo mes¬ mo espaço de cinco reinados, quanto ao uso das letras de que se compõe o nome proprio do imperador, e para obviar de algum modo aos inconvenientes e embaraços que d’aqui re¬ sultam aos seus súbditos, permitte-se quando precisam escrevel-as supprímir uma das suas partes componentes; pois como é sabido, as letras chinas são um aggpegado de differentes rasgos de penna ou pincel. E’ do estylo dos Chinas continuarem a datar seus escriptos, em referencia aos annos do reinado do ultimo imperador até ao fimda- quelle em que fallece. A appioximação e principio do anno novo é para os Chinas a mais solemne e importan¬ te épocha. Ha obrigação de ajustar então as contas, de pagar todas as dividas, desempenhar as hy- pothecas ou penhores, etc., e o credor inexo¬ rável não deixa a casa do seu devedor remis¬ so, até ao momento de bater a meia noite, que termina o anuo velho: momento magico, e o mais delicioso para os tristes devedores, pois neíie se opera uma transformação com¬ pleta. Das mais assíduas e desabridas exigências, das mais renhidas disputas, do mais violento odio e ameaças, passam os anthores e pacien¬ tes destas scenas ás mais cordíaes zumbaias e eongratuláções.
  • O devedor conta então com um alivio ou folga, que se estende muitas vezes por todo o seguinte anno, succedendo também fre¬ quentemente fazerem-se grandes abatimentos nestas dividas: elle sente-se transportado de repente a uma nova situação nos seus meios de viver. Não ha povo algum na terra onde haja tanta confiança mutua, e facilidade de vende¬ rem a credito, ou de fazerem fornecimentos e obras a pagar a longos prasos, e mesmo em¬ préstimos de dinheiro, quasi sempre sob pala¬ vra, ou simples escripto particular. Estas disposições também as estendem aos estrangeiros ; mas infelizmente muitos des¬ tes as tem diminuído, por abusos repetidos dè boa fé. Voltando porém a fallar do anno novo, diremos que o primeiro dia delle é de jejum geral para todos os Chinas, e o único que el- les também tem de guarda ou geral suspensão de trabalhos corpora.es, e de toda a qualidade de serviços* Todas as lojas ou boticas se fecham,, não ha transacções algumas, esó os absolutamen¬ te miseráveis se entregam a algum serviço ou venda para grangearem o sustento. 'Fodas as embarcações recolhem aos por¬ tos a descançarem mais ou menos dias, em¬ bandeiradas, e tocando suas bategas, especic de timbales de bronze de estrondoso e discor¬ dante som. A Macáo concorreram este anno mais que nos precedentes : talvez duzentas estavam an¬ coradas apinhadamentc no rio em a noite de 3Í
  • [ 158 ] de Janeiro e seguintes, todas com os seus lam¬ piões no gosto china. Na mesma noite igual illuminação e muita diversidade de lanternas de variados feitios e lustres, esclareciam todas as boticas ou lojas do basar, mui curioso de se visitar nestas occasiões. A’ meia noite estrondosa bulha de pan- xôes, conhecidos em Portugal pelo nome de estalos da China, annunciava a entrada do no¬ vo anno. Os Chinas gastam estes panxões com im- mensa profusão nas suas festas, e correspon¬ dem aos foguetes do ar na nossa patria. Todos os Chinas no primeiro dia do anno apparecem com os melhores fatos que teem, ou que compram para estes dias, durante os quaes se visitam, banqueteara, ejogam ; prolongan¬ do por mais ou menos tempo estas ferias e re¬ galos, segundo as possibilidades de cada um, chegando os mais ricos a fazel-as durar de quin¬ ze a trinta dias. Entre os Chinas de Macáo se passou esta notável épocha com a maior quietação, tanto no mar como na terra. No basar reinou a melhor ordem: patru¬ lhas dobradas o percorreram constantemente nestes dias, e nem um só roubo ou perturba¬ ção teve logar; cousa bem admiravel entre os Chinas nestas occasiões, em que deliberada- rnente concorrem os lanchaes, ou ladrões de terra e mar aos basares para roubarem quanto podem. Neste mez de Fevereiro, e no de Janei¬ ro, dei alguns passeios pelas ilhas próximas a Macáo, de companhia com alguns caçadores :
  • [159] são geralmente bem cultivadas e populosas, e neste tempo abundantes em caca, quasi toda de especies semelhantes ás de Portugal, e o aspecto do campo e de varias plantas muitas vezes me fazia lembrar da nossa boa terra, principalmente nos frequentes Jogares onde ha¬ via pinheiraes. Apesar da aversão natural dos Chinas para os estrangeiros, principal mente excitada pelo seu governo, eu varias vezes an¬ dava sósinho pelo meio das suas aldêas, e se mostravam gente pacifica e até hospitaleira: comtudo seriam muito imprudentes taes pas¬ seios sem levar uma espingarda carregada. Os Chinas tem um terror excessivo ás armas de fogo, e ainda que nâo usam delias para caçar, apanham toda a qualidade de caça viva, e em maior quantidade do que os Europeos, por meio de redes e armadilhas, no que são mui¬ tíssimo engenhosos, bem como nas pescas. Também fui a varias pescarias, diverti¬ mentos a que é muito dada a gente de Ma¬ cao : o peixe é abundante, mas pouco saboro¬ so ", o das especies conhecidas em Portugal é muito inferior: passa todo por ser pouco sau¬ dável para os Europeos. Tem os Chinas di¬ versos e singulares modos de pescar, até com passaros domesticados. Também passava alguns dias com alguns amigos mui agradavelmente na Ilha Verde, lindamente situada no meio do porto interior de Macáo, e que pertence ao Collegio de S. José das Missões. E’ um pequeno montão de rochedos, com uma estreita facha de terra ve¬ getal, e cultivada na circumferencia ao nivel da agoatem algum arvoredo, e uma casa e
  • [f«Oj capella : é pouco importante propriedade, mas muito pittoresca; e quem quizesse despender alli algum dinlieiro com gosto n’uma especie de habitação acastellada ou golhica, faria uma encantadora vivenda, e ao mesmo tempo um objecto de curiosidade para Macáo. A 14 de Fevereiro sahio para Goa a cor¬ veta íris, para ir fazer concerto geral do lu¬ me d’agoa para cima, e conduzio algumas pra¬ ças invalidas. O 2.° tenente Celestino, que per¬ tencera á guarnição da fragata D. Maria II, foi nesta corveta. Este individuo é notável na marinha por tu gueza, e talvez em toda a nação, pela sua extraordinária obesidade, e pelo mui¬ to que bebe : no tempo em que esteve mais gordo pesou 14 arrobas e 7 arraieis. Não é excessivo em comer, mas bebe extraordinariamente. Está nos seus 38 annos, e já se diz um bebedor decadente, urna bar¬ caça arruinada. No seu tempo dourado, co¬ mo elle diz, enxugava 18 garrafas de vinho de meia Canada a uma comida, mas hoje de¬ clara que qualquer meio almude lhe faz dar a borda. Nunca porém tomou bebedeira com¬ pleta, ou encalhou o espirito, na frase delle. Vio-se-lhe n’uma occasião beber 4 copos a fio, cheios com a genebra contida em duas botijas de Hollanda. E’ homem muito engraçado, e apesar da sua gordura é ligeiro, e trepa pelas enxarcias. Fatiando destas circumsiancias, por serem raras, estamos certos que não offendemos o tenente Celestino, porque conhecemos o seu caracter folgasâo, sendo elle o proprio que a todos as declara, e sobre ellas graceja.
  • ammo vigi» hi I'riiuriroi ucios sit» adininisíração do governador Cardoso. O primeiro documento oíiicial dimanado do no¬ vo governador de Macáo foi a sua proclama¬ ção de 3 de Fevereiro, concebida nos termos geraes do costume. Os jornaes inglezes de Hong-kong traduziram-na e delia fallarãm; acliaram-na demasiadamente bombástica, e metleram a ridículo a mania que tem as au- thoridades dos povos peninsulares de fazerem continuadas proclamações e programmas, em estylo exaggerado e retumbante, e que a maior parte das vezes apresentam miserável contras¬ te com a verdade das cireumstancias, ou com a importância dos acontecimentos a que se re¬ ferem . Achei rasâo aos Inglezes: é melhor o sys- tema de menos palavras e de mais obras. E’ certo porém que o governador Cardoso não desmentiu pelas obras as palavras ; porque ape¬ nas chegou a Macáo mostrou actividade e bons desejos de melhorar o Estabelecimento. Visi¬ tou as fortalesas, que achou no mais lamentᬠvel e vergonhoso estado a respeito do material de artilheria : digo vergonhoso, porque real- 11
  • [ÍG2] mente se deviam envergonhar aquelles que ti¬ nham a seu cargo este ramo do serviço, dei¬ xando-o chegar a tal estado por puro deslei¬ xo, incúria, e esquecimento de seus deveres: não se diga que era porque não havia dinhei¬ ro •, havia muitas cousas que não dependiam de dinheiro; mas só de serem examinadas, e de alguma boa vontade e zelo. Em todas as fortalesas poucas peças estavam em esta¬ do de fazer fogo, e não continuado-, no já quasi desmoronado forte de Mohá (feito have¬ ria pouco mais de um anno!) n’um dos ca¬ nhões principaes, dirigido sobre a Porta do Cer¬ co, no ouvido faziam as lagartixas seusocega- do ninho ; as poucas munições estavam fecha¬ das n’um caixão do qual se perdera a chave Ira vi a tempos, etc. etc. etc. Sirva isto só de dar idéa de todas as outras misérias. E no entanto que faziam os governadores de forta¬ lesas, e o major de engenheiros, todos com denominações alti-sonantes, e bons soldos e gra¬ tificações ? Tratavam das suas hortas, ou pas¬ savam vida airada e folgasã. . . . O major de engenheiros, mandado de Por¬ tugal pelo Egypto com avultada despesa, re¬ cebia mensalmente em Macáo 116 patacas. Fazia louvável contraste com estas rela¬ xações o estado de disciplina e arranjo inter¬ no do batalhão de artilheria de Macáo, devi¬ do ao seu activo e austero commandante o te¬ nente coronel Tavares d’Almeida, e ao major Buiz. Os mesmos jornaes de Iíong-kong, e alguns officiaes daquella colonia que examina¬ ram o quartel do batalhão, muito achavam que louvar.
  • [103] O governador Cardoso mandou construir um forte nas elevações para além da praia de Cacilhas: a posição era boa e muito domina¬ dora, mas parece-me que foi obra bem ociosa. Macáo já tinha sufficientes fortificações, con¬ tando-se actuahnente 9 entre fortalesas, fortes, e baterias, guarnecidas ao todo por uns Í30 canhões, a maior parte de bronze : ’era na ver¬ dade o Gibraltar da China, como lhe cha¬ mava o governador Amaral *, isto se entende em relação aos Chinas, porque contra um ata¬ que de forças europeas pouco valem, e para quasi nada serve o novo forte, que é só para uma peça de rodizio. Seria mais conveniente, e mais impunha aos Chinas, o ter-se logo feito a torre a maftello e muro na Porta do Cerco, que depois se projectava. Ofortesubio ao cus¬ to de tres mil e tantas patacas, diziam que por má direcção de trabalhos, esó veio a concluir- se d’ahi a seis mezes, O governador Cardoso estava então ainda preoccupado a respeito do que são os Chinas pelo lado militar, principal- mente na guerra oflensiva contra os Europeos. A’ sua chegada a Macáo soube-se que ti¬ nha sahido do Tejo o brigue de guerra Monde¬ go, com direcção a este porto, tocando na nossa colonia de Timor, e que se preparava o bri¬ gue Serra do Filar para o mesmo destino j uma alta personagem havia assegurado ao go¬ vernador Cardoso que também se hia fazer sahir o vapor Infante I). Liriz para Macáo. Estas cireumstancias, e a reputação de bom militar do novo governador, fizeram esperar que com efléito se trataria de desaggravar a nação do. infame assassinato do governador *
  • L'<«] Amaral, e que haveria guerra com a China; idea muito popular em Macao, e como de ins- tinctõ para vantagem do Estabelecimento. Na verdade o instincto ou opinião do povo nas queáloes publicas complicadas e duvidosas, é muitas vezes o que mais acerta, e neste caso julgo que não falhava a regra. I ma gravíssima onensa recebera anaçao portlugtleza pelo assassinato do governador da eolonia, ecomo tal representante da Soberana. Provava-se que este crime não fora isolado, particular, ou filho só da vingança de alguns Chinas que tivessem aggravos do governador Amaral. Houve conciliábulos dos mandarins ou authoridades, e dos indivíduos notáveis das povoações próximas a Mação, que se enten¬ deram com outros conciliábulos ou clubs de Cantão, onde era esperada a execução deste attentado, sobre o qual correram tempos an¬ tes tumores vagos, que passaram a ameaças positivas, as quaes o conselheiro Amaral im- prúdcntemeufe despresou, ao ponto de se en¬ fadar muito com um dos seus criados chinas que, lançado a seus pés, instantemente lhe re¬ petia as advertências do perigo, na propria tar¬ de em que foi assassinado. Pelo Manifesto do Conselho do governo, a que já alludimos, de 25 de Novembro de {843, se pode julgar a má fé e duplicidade com que andaram posteriormcnte neste nego¬ cio as authoridades de Cantão, quando se lhes ex'gio o castigo dos criminosos, e a entrega da cabeça e da mão da infeliz victima. Todas as diligencias do Siú, vice-rei de Cantão, foram fazer encarar este assassinato
  • como um simples crime particular, e como Lai o apresentou para o Supremo Tribunal naCôr- !e Imperial, despindo-o de todas as circum- stancias de negocio inter-nacionaJ, e omittin- do inteirameníe a idea das exigências, das ameaças, e dos protestos que desde logo lhe dirigio o governo provisorio de Macáo. Eu tive occasiào de ver a cópia desta correspon¬ dência para a Corte, obtida particularmente dos archives de Cantão a diligencias do governa¬ dor Cardoso, e de ler a sua traducçâo portu- gueza, donde se deprehendia o que vai refe¬ rido. De modo que ainda hoje o imperador da China ignora o que verdadeiramente se pas¬ sou em Macáo, e os graves, embaraços em que se envolveria o seu império, se em Portugal houvesse um governo com mediano tino e es¬ pirito de nacionalidade. O imperador da Chi¬ na ignora muitas vezes importantes aconteci¬ mentos que se passam nos seus vastos listados, e principalmente os que tem relação com os barbeiros ou estrangeiros. Póde-se pois dizer que Portugal linha bom direito a exigir uma estrondosa satisfação á China pela morte do governador Amaral: pa¬ ra os nimiamente escrupulosos, ou antes tími¬ dos, não ha uma prova claríssima como dese¬ javam da connivencia das authoridades chine- zas neste attentado, nem em taes assumptos nunca se podem obter provas jurídicas *, exis¬ tem porém as mais fortes indueçoes, e quasi demonstração de tal connivencia. Por causas muito menos justificadas se tem ateado gran¬ des guerras entre as nações de todo o mundo. \ imprensa ingleza na China, que se não
  • [160] póde julgar suspeita, nos reconhecia esse bom direito. Ainda em 19 de Fevereiro de 1851 dizia o Friend of China o seguinte : « Os Inglezes devem repetir a accusaçâo «que fazem os Portuguezes de que os ultrajes «os mais inauditos, quando commettidos em «um barbaro, são saneeionados e approvados «pelo» altos empregados da cobarde raça chi- «neza, e quanto mais iIlustre é a victima, « maior sem duvida é o prémio. « Juntem-se os Inglezes de vontade e co- «ração (heart and hand) aos Portuguezes, e «demos aos Chinas uma lição, que deveras «nunca mais lhes esqueça. » Admittido o direito, sufficiente ao menos, para exigir uma satisfação á China com amea¬ ça de hostilidades, cumpre examinar se havia possibilidade e conveniência de usar delle. Para isso é necessário entrar n’um rápido esboço sobre os recursos militares do império chinez.
  • 1.167] Idea geral cia força militar cio íni“ lierio chineaE9 e continuação do assmnpto precedente. Existem na Europa, e especialmeníe em Por¬ tugal, noções muito inexactas sobre o poder militar do império cliinez : a idéa de lhe fazer a guerra oflensiva sem formidáveis preparati¬ vos, se julga um sonho de imaginações exal¬ tadas, e mesmo se reputa temeridade ou ar¬ rojo de animo a segurança de vantajosa defen¬ siva, com medianos recursos, em qualquer ponto onde os Europeos se achem estabeleci¬ dos, contra as maiores forças terrestres ou ma¬ rítimas dos Chinas. Estas opiniões derivam principalmente da impressão que á primeira vista produz a idéa de luctar com uma nação que geralmente se acredita contar para cima de 360 milhões de habitantes, e de natural¬ mente se julgar que a sua força militar estará em alguma proporção com esta immensa po¬ pulação. No entanto talvez não haja outra na¬ ção no globo, á qual os Europeos possam tan¬ to prejudicar, e fazer a guerra com tão deci¬ didas vantagens, já pela timidez e cobardia na tural da raça china, atraso e arreigadas preoc-
  • [168 ] cupaçãode seu sy sterna militar, como pela per¬ turbação que não difficilmente se lhe póde le¬ var ao coração do paiz, e á fonte principal de seus recursos, o commercio. V »í ‘ r * ‘ ’ A historia da ultima guerra com os Ingle- zes assás o prova, e a observação e estudo do que se passou parece mostrar, que ainda em¬ pregando a Inglaterra menores forças, mas aproveitadas do modo que hoje indica a expe¬ rience obtida nas operações daquella primeira guerra, teria assegurado iguacs ou ainda maio¬ res vantagens ás que conseguio. Nos modernos tempos os successes de Ma- cáo, e especialmente a tomada do forte do Pas- saleão, mostram bem o que valem grandes forças e fortificações dos Chinas, contra pe¬ queníssimo numero de Portuguezes, discipli¬ nados e corajosos, e o quanto estes poderiam intentar com probabilidade de bom exito. Bias abstraindo destas e de outras consi¬ derações geraes, e de explicar a péssima or- ganisação dos seus exercitos, pela maior parte compostos de multidões reunidas na oceasião precisa, bastará apontar alguns dos costumes e practicas dos Chinas na guerra, para con¬ vencimento da sua grande inferioridade. O soldado china usa de uma grosseira caitoka ou espingarda, á qual dá fogo com um morrão ou mécha accesa, virando sempre a cara de mo¬ do que nunca fixa a pontaria : trazem a pol- vora solta em uma pequena bolsa ou sacco so¬ bre o ventre, tirando a porção necessária para cada tiro com uma pequena medida de bambu, o que dá logar, com o serviço do morrão, a frequentes explosões de que são victimas; e
  • [ÍG9] poslo quo durante a guerra com os Inglezes alguns actos de coragem e valor individual se testemunharam, comtudo basta ver ferido ou morto um companheiro para fugir, do que os mandarins ou officiaes são muitas vezes os pri¬ meiros a dar o exemplo. São porém os solda¬ dos chinezes cerahneníe hábeis e temivejs no o * manejo de armas brancas. Não conhecem, ou não admittem os Chi-* nas, as vantagens dos movimentos e tactica empregados nos combates, e por isso não se previnem contra os ataques de flanco e reta¬ guarda, apesar de repetidas efataes experiên¬ cias, preoccupação que os leva lambem a despre- sarem nas suas fortificações e baterias a segu¬ rança da retaguarda, ou das posições que as dominem, epor isso por mais formidáveis que pareçam as mais das vezes facilmente são to¬ madas. Na fundição e serviço da artilheria es¬ tão atrazadissimos : não a tem de campanha, ou é muito grosseira, e a de posição e mari¬ nha é geralmente fixa em pranchões, fazendo tiros só em uma direcçào; já começam porém a assental-a em reparos semelhando aos da Eu¬ ropa. .Entre os militares não ha espirito de clas¬ se, nem de enthusiasmo, de amor da gloria, e de verdadeiro interesse pela causa publica. À carreira militar não tem estímulos alguns, e geralmente é reputada ignóbil, e tida em (lespreso aos olhos dos homens instruídos, e nas obras e sentenças dos philosophos chine¬ zes: estes a condemnam por tornar os homens assassinos dos seus irmãos: philosophia subli¬ me e humanitaria sem duvida-, mas mui pre-
  • [170] judiciai para qualquer nação no estado actual da civilisação do mundo. Os mandarins militares são reputados in¬ feriores a todos os mandarins de letrase seien- cias, e são ás vezes escolhidos só pela força physica. Os soldados não tem paga suíliciente, nem instituições que os liguem ao serviço da patria. São casados, porque o costume obriga todo o china a tomar mulher aos 15 aimós, e quasi todos exercitam algum pequeno commer- ' cio, tem lojas, vendem pelas ruas, ou traba¬ lham nos campos. A cavallaria chineza nào tem exercícios, nem organisaçâo : os cavallos são pequenos, máos, e pessimamente tratados. Grande parte do exercito cliinez é nomi¬ nal : os mandarins militares comem os soldos que recebem do Estado para soldados que não existem, senão no numero correspondente de cabaias ou fardas, que fazem vestir aos culis ou gentes do povo que apanham, na occasião de ser preciso apresental-os em revista a algum mandarim superior, que na sua ordem cornmet- te os mesmos abusos, geraes em todas as cou¬ sas, e nos difíerentes ramos da administração publica actual na China. Os antigos regulamentos militares eram bons; prescreviam exercícios, castigos contra os fracos, etc. Tudo porém ha cahido em des¬ uso ou relaxação. No povo também não ha espirito publico : pouco lhe importa com os successos politicos. Os lnglezes acabavam de bombear cidades, e immediaíameníe se viam cercados de vendi¬ lhões. No dia seguinte ao da tomada do Pas-
  • [171] saleão os Chinas trouxeram, como de costume, toda a qualidade de comestíveis a Macáo. Os Chinas acodem sempre onde haja dinheiro, e esperança de ganho, indifferentes a qualquer outro sentimento de orgulho ou amor nacio- nal, A raça dos tartaros manchús, conquista¬ dora da China, que a domina vai para tres séculos, é que constitue o nervo ou núcleo dos exercitos chinezes: todo o tartaro nasce soldado, tem desde logo o seu soldo, e em geral espirito mais guerreiro que os Chinas; mas estão muito degenerados do que foram, e ainda que mostrem bravura não tem discipli¬ na, nem tactica os seus generaes. Quanto á marinha de guerra ainda mais inferiores e fracos são os Chinas do que em terra. Seria dilfuso dizer, nem na Europa se comprehenderiam bem, as varias causas que para isso concorrem : é suíficiente apontar o facto de que as costas da China, e mesmo os rios e canaes interiores, se acham ordinaria¬ mente infestados de multidões de piratas, que perturbam e occasionam graves prejuisos ao commercio china, e que para proteger as só- mas e outras embarcações mercantes, usam seus donos, ou os negociantes interessados nos carregamentos, contractarem por avul¬ tados preços com as lorchas portuguezas de Macáo, para darem comboyo áquellas embar¬ cações, tendo havido occasiões em que uma lorcha occupada neste serviço ganhava 800, 1:000, e 1:200 patacas mensaes, vencimentos hoje muito reduzidos, mas ainda assim vanta¬ josos. Os mesmos mandarins ou almirantes pa-
  • ra se transportarem de um porto para o outro nos seus juncos de guerra, buscavam e bus- cam, pagando-a bem cara, semelhante pro- tecção, nâo se julgando mui las vezes seguros no meio de suas esquadras, senão quando (em próxima alguma das ditas lorchas. E não se pense que estas embarcações são vasos de gran¬ de porte e força: regukirmenle não excedem ao tamanho das fragatas grandes de, descarga usadas no Tejo, ou de um hiate, mas são co¬ bertas e guarnecidas de í a 16 emais canhões de differentes calibres, e de alguma peça de rodízio ; repetidos exemplos ha de se baterem sós victoriosamente com esquadras de piratas, compostas de muitas embarcações do mesmo ou superior porte, guarnecidas com bastante artilheria, e immensa tripulação, cuja cobar¬ dia e imperícia no. manejo das armas de fogo, e terror que tem dos Europeos, lhes torna inú¬ til a sua apparente forca. Deste modo concebe-se que uma esqua¬ drilha de lorchas bem armadas (ha 60 em Ma- cáo), apoiadas por poucos e pequendsh vasos de marinha de guerra europea, e ainda melhor por pequenos vapores* poderia pôr em contri¬ buição o império chinez, percorrendo-lhe os portos, apresando-lhe as embarcações mercan¬ tes e de guerra, e at é penetrando nos grandes rios e canaes interiores, onde interrompendo ocommercio e a navegação transtornariam to¬ da a economia e movimento social deste gran¬ de corpo de nação, a qual sendo por indole essencialmente commercial, tem ligados ao commercio interno e externo os grandes inte¬ resses públicos e particulares, pois dolle deri-
  • vam muitos rendimentos do Estado, e varias for t unas individuaes » Qualquer impedimento pois na navegação desses grandes rios e canaes, que são corno as artérias do império, obrigaria o governo aos maiores sacrifícios, e a satisfazer a exigências que ainplainente compensariam og despendios ne tal empresa, a fim de remover um mal que pelas peculiares circumstancias deste paiz, pro dúz falaes consequências para todas as classes, e quebrando a cadea de immensos interesses se faz sentir em toda a extensão do império, em muito maior escala do que soffreria em eventualidades semelhantes qualquer outra na¬ ção do globo. Foi este o grande meio, talvez mais eíli- eaz que o dos combates, que por fim desco¬ briram e empregaram os Inglezes na grande guerra de 1844, para obrigarem a ceder o ga¬ binete de Pekim ás duras condições que lhe impozerarn, paralysando-Ihe a navegação e pas¬ mos o commercio no rio de Nankim ou Yang- tse-kiang, canal imperial, esuas ramificações. Por este imperfeito bosquejo se poderá julgar se era ou não possível lazer Portugal a guerra á China, mesmo no lamentável estado do nosso paiz. Quanto a mim não só era mui¬ to possível, porém de grande conveniência, e abstrahindo mesmo da questão de desaggravo nacional, digo que podia ser uma especulação, um salvaterio para Portugal. . O North-China-Herald, jornal de Sfaan- gai, em um numero dos fins de 1849, disse, íallando da questão de Macáo, que os Portu- guezes tinham bom direito para lazer a guerra
  • [174] á China, e que disso poderiam colher grande vantagem ; mas que acreditava que a inhabi- 1 idade do governo de Portugal não o saberia aproveitar, e que o melhor seria ceder o mes¬ mo governo esse direito a uma companhia, para a qual não faltariam accio)iistas1 por¬ que promettia ser uma optima especulação. Lembra-me que este trecho foi depois ci¬ tado na Camara dos Communs em Inglaterra, e muito censurado por alguns dos mais fervo¬ rosos sectários das theorias da paz universal, que se indignaram de que na imprensa ingle- za se apresentassem idéas tão immoraes, como a de se fazer a guerra a uma nação pacifica por especulação commercial. Não defendemos a moralidade da doutrina, aliás não muito es¬ tranha na imprensa de uma nação cjue fez a guerra á mesma China, para continuar a en¬ venenar a terça parte do genero humano pelo commercio do opio : só nos referimos ao North- China-Hera Id como estrangeiro, mais im¬ parcial no modo de encarar a nossa questão com a China, e porque em materia de calcu¬ lo de conveniências e de especulação, as opi¬ niões de Inglezes tem todo o peso. Falíamos na terça parte do genero huma¬ no querendo indicar a população da China: não se julgue isto exaggeraçào. Conforme o Anglo-chinese-calender de 1850 a população da China é de 337milhões, e de 375 pelos mais recentes cálculos do Chi¬ nese-Repository, preciosa collecção de folhetos mensaes publicada em Cantão. Ora segundo alguns geographos a população da terra é de 945 milhões, e a comparação das cifras dá ain-
  • £ ITS] da mais da terça parte deste numero á raça chineza, e mesmo assim é de advertir que a China é menos povoada que alguns paizes da Europa : a cada milha quadrada correspondem 257 habitantes, e por aqui se julgará da im- mensa extensão do seu território! Mas voltando ao nosso assumpto restricto, diremos que, além do direito, admittida a con¬ veniência da guerra, ella se poderia levar a ef- feito por meio de uma sonima quando muito de 1:500 a 2:000 contos (quantas iguaes e maio¬ res nâo se tem desperdiçado em guerras civis, ou em infames agiotagens), levantada nopaiz por empréstimo ou de outro modo, para com¬ prar 2 vapores pequenos na índia, guarnecer e artilhar bem algumas lorchas, enviar de Por¬ tugal uns 400 a 600 homens, entreter as 2 corvetas, ou 2 brigues, e para os mais gastos de uma expedição pouco numerosa, que tendo o grande ponto de apoio em Macáo, e alguns recursos que ainda apresenta esta cidade, po¬ dia, sem grande espanto e convenientemente dirigida, pôr em collisão o império chinez com os seus 370 milhões de habitantes! fentenda-se que não se tratava de guerra de conquista, ou de acquisição importante de território, o que seria absurdo: tratava-se so¬ mente de obter uma digna satisfação ao ultra¬ je recebido pela nação portugueza, e a par dis¬ to algumas vantagens commerciaes para Ma¬ cáo, ou a cedencia de toda a ilha de Heang- xan, a qual tem 21 legoas de norte a sul, 20 de léste a oeste, mais de 400:000 habitan¬ tes, e muita cultura, segundo documentos chi¬ nas publicados em 1827 : a sua situação éex-
  • [ 176 ] celieute, na embocadura do rio de Cantão, e tem o bom porto de .Cam-singmun. Ora em taes casos ha sempre direito a indemnisaçõéfc pecuniárias, que tinhamos fundamento para estender até muito longe- Só apontaremos os seguintes capítulos de reclamação : 1. ° Mais de 600:000 patacas deveãChi¬ na desde 1809 á Fazenda da Cidade de Macáo, pelos gastos que se fizeram com a guerra con¬ tra o famoso pirata Cam-pau-sai, que os Por¬ tuguezes destruíram naquelle anuo com perda devidas, salvando o throno da actual d y nas ti a Tsiiiff, que já ameaçado pelo grande poder de Cam-pau-sai, recorre© aos Portuguezes, cele¬ brando-se um convénio com as authoridades de Cantão : success© em que a par de muita gloria militar para os Portuguezes^ houve a mais incrível imbecilidade, ou criminosos er¬ ros, da parte das authoridades, e principal- mente do celebre ouvidor Arriaga, no nenhum partido que se tirou deste auxilio mais que ge¬ neroso, se não impolitico, dado á dynastia tar- tara, não recebendo os Portuguezes nem se¬ quer o valor da metade de 360 embarcações, 1:200 peças de arlilheria, edeimmenridade de armas e petrechos, tomados aos piratas, como nos era devido por uin dos artigos do convénio. 2. ° A. perda da fragata D. Maria II, e dos grandes valores que continha, e indemni- sações ás famílias das victimas. 3. ° As despesas da conducção e perma¬ nência da força auxiliar acudida de Goa. 4. ° As despesas da vinda de Ires vasos de guerra a Macáo, occasionada pelo assassi¬ nato do governador Amaral.
  • [ 177] 5.° Todos os gastos occasionados pela expedição que se intentasse. Que bons elementos, e outros que tavez me esqueçam, para arranjar uma continha á moda das indemnisações inglezas e america¬ nas, que por triste e passiva experiencia já conhecemos ! Os Inglezes no ajuste de contas com os Chinas no fim da grande guerra, diz-se que até admittiram nas reclamações particulares uma indemnísação a certo indivíduo, de um bom par de libras, pela perdadoseu cãosinho dogue! E’ certo que a tal conta subio á ba- gatella de 26 milhões de patacas, ou uns 70 * milhões de cruzados, que os Chinas pagaram pontualmente. Ora o ensejo para hostilisar a China era optimo, por causa da guerra civil que existia e existe ainda no império. Na província do Kuang-ú^ confinante com a de Kuang-tun ou Cantão, appareceram pelos começos de 1850 bandos armados que desceram das partes montanhosas, e começaram a fazer roubos, a impor contribuições ou resgates ás cidades, e a destruil-as: prestes foram esses ban¬ dos augmentando em numero, e por fim to¬ maram um caracter politico, formaram exér¬ citos regulares, collocou-se á sua frente um indivíduo denominado Tien-tah, ou Virtude do Ceo, que se dizia descendente da ultima dynastia chineza Ming, que regia o império quando teve logar a conquista dos Tartaros; este homem se fez proclamar imperador, per- , tendendo derrubar a actual dynastia tartara. Estes revoltosos tem tido muitos comba- 12
  • [ITS] tes e batalhas com as tropas imperiaes, que quasi sempre tem soffrido grandes derrotas, e os melhores generaes tartaros tem sido mortos ou postos em fuga; por vezes tem ameaçado a cidade de Cantào, e interrompido suas commu- nicações para o interior; tem estendido a re- bellião a parte desta província e á de Honan, subtrahindo á obediência do imperador uns 50 milhões de habitantes. Esta rebellião tem muitas sympathias em toda a China, pelo caracter de nacionalidade que apresenta no odio aos Tartaros, eéoccul- tamente protegida pelas numerosas sociedades secretas espalhadas por todo o império, e que formam uma especie de maçonaria, assumpto mui curioso e pouco conhecido, do qual falta¬ remos n’outro logar. E’ fácil de conceber o immenso partido que destas circumstancias poderiam tirar os Portuguezes, na occasião de uma guerra decla¬ rada á corte de Pekim, sendo facto que os re¬ voltados do Kuang-si já pertenderam estabe¬ lecer relações com Macáo, no tempo da pri¬ meira gerencia do Conselho do governo, e á leviandade de um dos empregados públicos do Estabelecimento, foi devi cio o perder-se tão boa occasião. Realmente a situação dos Portuguezes na China merecia ser sériamente estudada: pou¬ co tinhamos a perder, e na guerra muito po¬ deríamos ganhar: o nosso commercio é quasi nullo na China, e nenhuns interesses se per¬ turbavam com a guerra. Macáo nào correria risco de se perder, ao menos para os Chinas. A expedição é certo que podia soflrer um de-
  • sastre, pelos elementos, ou pelos asares dos combates, ainda que nestes muitas probabili¬ dades eram a nosso favor, sendo bem dirigi¬ das as nossas forças, e limitando-nos á peque¬ na guerra marítima de surpresas, de ataques vivos e repentinos, e de perturbação do com- mercio. A ’s vezes a ousadia é o melhor partido em situações difficeis. Os nossos maiores não olhavam muito para as diíhculdades das em¬ presas que intentavam ; confiavam na fortuna, que por isso quasi sempre lhes era favoravel. A objecção de que a Inglaterra, ou os Estados-Unidos, não nos permittiriam fazer a guerra á China, para não perturbarmos o seu commercio, não parecia muito procedente; porque além de que o aggravo feito á nação portugueza, revertia em alguma parte ás ou¬ tras nações europeas que commercêam na Chi¬ na, pois alli os Europeos todos formam uma especie de communidade, que tem em vários pontos interesses communs, como na propria segurança, e no respeito em que convém man¬ ter os Chinas, penso que era muito possível fa¬ zer uma guerra regular ao império, sem con¬ tender com o commercio estrangeiro, que se faz quasi exclusivamente em Cantão e Shangai, e só é permittido em mais tres portos, Amoi, Fucháo, e Ningpô. Restavam pois extensissi- mas costas, os rios principaes Yang-tse-kiang, oHoang-ho ou rio Amarello, oPeiho que cor¬ re proximo de Pekim, e muito ricas cidades e províncias, onde se poderia levar a guerra. Outra mais real objecção, e mui difficil de remediar para nós, era achar bons chefes
  • [180] ou executores subalternos do plaro e disposi¬ ções do com mandante da expedição. O gover¬ nador Cardoso, que não era estranhe nem adver¬ so ás idéas expostas, conhecia isso melhor que ninguém. A nossa marinha, que seria o prin¬ cipal ou unico elemento nesta guerra, está tão má no material como no pessoal, salvo honro¬ sas excepções. Todas as idéas referidas foram communí- cadas para a secrelaria da marinha; porém os- ministros não respondiam a taes assumptos, e o expediente para Macáo de ordinário consis¬ tia em negocios insignificantes, como despa¬ chos de alferes, licenças etc. , para satisfazer a algum empenhosinho: os assumptos graves é de interesse publico como só se recommen- davamporsi, eahiam em immediate despreso. No Conselho d’Estado succediaomesmo: houve mais de um conselheiro que demorou quatro mezes em seu poder os papeis da cha¬ mada— Questão Política com a China—,só para os ler e pôr o visto, o que seria trabalho de duas ou tres horas ! Em summa este negocio, tão importante como era, apodreceo, e cahio em completo esquecimento: até hoje (Setembro de 1852) ainda o Conselho d’Estado não deu o voto que lhe foi pedido em 1849 sobre a questão de Ma¬ cáo ! Assim vão as cousas na nossa terra: para isto servem Conselheiros d’Estado, e todo esse appárato da alta administração publica ! Não foi a diplomacia estrangeira, que nun¬ ca chegou a ser consultada em tal assumpto, nem alguma grave consideração política que
  • [181] perdeo este negocio 5 mas sómente a incúria e o abandono. Anticipei-me em tempo no que acabo de referir para fechar por uma vez este assum- p!o, que incommoda, e faz ferver o sangue a quem algum ainda de porluguez lhe gira nas veias. Sei que é inteiramente inútil fallar hoje em taes cousas: a occasião passou, vai de to¬ do perdida, e as circumstancias mudaram \ mas como os chamados homens d’Estado do nosso paiz, envolvem a decisão de certas ques¬ tões n’uma obscuridade e mysterio que fas¬ cina o publico, impede-o de formar juiso so¬ bre ellas, e conhecer a negligencia ou inépcia com que são tratadas, julguei conveniente ex¬ por este assumpto com miudesa, para mais desmascarar as ridículas pertenções de impor¬ tância que certos homens se arrogam, queren¬ do fazer persuadir como resultado de madura prudência, ou de profunda reflexão, aquillo que só provém da sua ignorância ou do seu desleixo.
  • CAPITULO VIGÉSIMO QUARTO, A cadêa ele Míscií». Por uma portaria do governo de YJacáo de 28 de Fevereiro, fui nomeado Menbro de uma Commissâo para o melhoramento da cadêa da cidade. Surprehendeo-me tal noncação; mas acceitei-a porque sempre me coníoí muito da desgraçada sorte dos presos que cáiem nas nos¬ sas prisões, e principalmente doois que co¬ nheci bem de perto todos os seis soffrimen- tos, e os criminosos abusos de qie são victi- mas, durante a minha reclusão 10 Limoeiro de Lisboa por espaço de quatro nezes, como preso politico nas nossas dissenç&s civis jiro- movidas pela reacção de Outubn de 1846. A cadêa de Macáo era pessina, e no pri¬ meiro pavimento ou terreo, escira, falta de ar, e immunda : comtudo não se aproximava de alguns dos horrorosos cárceres que vi no Li¬ moeiro. A Commissâo composta dt cinco mem¬ bros era presidida pelo Delegadi do Procura¬ dor da Coroa e Fazenda, anda com algu¬ ma diligencia e zelo na tarefa e que foi in¬ cumbida, e a levou ao cabo. Prouoveo-se uma
  • subscripção entre os moradores de Macáo, e os Portuguezes de Hong-kong e Cantão, da qual fui tliesoureiro, e que subi o a perto de 600 patacas: o governo contribuio com mais 400. Em seis mezes concluiram-se as obras da cadêa, e ficou muito melhorada, quanto o permittia o péssimo local em que> esta situada. As prisões do primeiro pavimento tornaram-se limpas, arejadas, de facil vigilância, e com- municaveis para um pateo ou passeio de pre¬ sos ; a prisão destinada para os Chinas ficou vasta e sem cornmunicação para a rua, como convinha; no segundo pavimento as prisões para mulheres portuguezas e chinas, e as de¬ mais para pessoas de alguma consideração, fi¬ caram excedentes; o regulamento da cadêa foi um pouco alterado •, e em summa o gover¬ no n’uin documento official deu-se por satis¬ feito com os trabalhos da Commissâo. À despesa total com os melhoramentos da cadêa não chegou a 1:200 patacas, tendo-se obtido as 200 que faltavam, além da presta¬ ção do governo e do producto da subscripçào, do resultado de um basar de caridade á euro- pea, para o qual concorreram com delicados artefactos e obras d’arte as senhoras de Ma¬ cáo, e muito louvor lhes cabe e aos sentimen¬ tos cívicos dos Portuguezes na China, por te¬ rem concorrido para alivio do soffrimento dos nossos semelhantes, que tem a desgraça de se¬ rem conduzidos a uma prisão publica. As contas da Commissâo foram patentes ao publico na secretaria do governo, no mez de Outubro.
  • [184] Successes na China, c considerações a respeito deste paiz. Por este tempo, Fevereiro e Março de 1851, a imprensa europea na China muito se occu- pava com as mudanças occorridas no ministé¬ rio de Pekim. Publicou-se a traduccão do de- creto imperial, declarando criminosos a Mu- chang-â e Ki-ing. Mu-chang-á era o velho e esclarecido ser¬ vidor do império, que por espaço de trinta e dois annos oceupou os mais elevados cargos do Estado, e em os doze últimos annos como pri¬ meiro ministro : Ki-ing era homem igualmen- te notável, que prestou longos e importantes serviços á sua patria, e que ultimamente fora presidente do Conselho de guerra, e o segun¬ do ministro taríaro do Gabinete. Foi este Ki-ing o negociador, e represen¬ tante do império, no famoso tractado de Nan- kim com que terminou a ultima guerra com os Inglezes. Ambos os declarados criminosos eram pois os representantes das idéas de civilisação e tra¬ to com os Europeos : a sua demissão e casti¬ go, e a condemnação da sua politica, decla-
  • [185] rada traidora e contraria aos interesses do im¬ pério, importava claramente a reprovação dos tractados com as Potências Europeas, e a in¬ tenção de os quebrar. Esta mudança ministerial deu incremento ao espirito hostil, que de tempos a esta parte tem augmentado entre os Chinas contra os Eu- ropeos, e o qual os mandarins não deixam de fomentar, ou de animar por actos proprios, para agradarem á corte e obterem valimento. O joven imperador conta 19 annos, é afferrado aos preconceitos chinas, e tomando er¬ radamente por fraquesa a moderação da Ingla¬ terra, na tolerância da falta do cumprimento exacto dos tractados com esta Potência, edos aggravos commettidos contra os agentes e súb¬ ditos britannicos, tem provocado a Grã-Bre¬ tanha á necessidade de uma guerra, que ella bem mostra querer evitar, pela evidente rasão de não perturbar e comprometier os collossaes interesses ligados ao commercio da China. E’ realmente para notar a difíerença da política da Grã-Bretanha na Europa e na Chi¬ na. Na Europa é orgulhosa, insolente, avexa- dora das nações fracas, e não tolera o menor insulto ao seu governo e aos seus súbditos. Na China é de uma paciência e longanimidade admiravel: súbditos inglezes tem sido insulta¬ dos, e outros mortos : as portas da cidade de Cantao estão fechadas aos estrangeiros, contra a clausula expressa do tractado de Nankim, e uma subsequente convenção especial para se¬ rem franqueadas de 6 de Abril de 1849 em diante, o que nesta epocha foi negado, e até hoje está illudida tal estipulação: o Ko-hong
  • [186] ou camara dos antigos hâos, poderoios e ricos negociantes monopolistas, parece existir dis¬ farçada : os direitos de exportação lo cliá fo¬ ram augmentados a pretexto de armazenagens, em dois mazes de prata por picco cb chá (240 rs. por quintal pouco mais ou menoi), para se satisfazerem aos hanistas as sommasque adian¬ taram ao governo para o resgate te Cantão, que foram de 6 milhões de pesos; dreito que, apesar de pequeno, na immensa quaitidade de chá exportado muito avulta, e poderá em pou¬ cos annos indemnisar o governo chnez dos 26 milhões de pesos que deu aos íngezes, que deste modo virão realmente a paga-os os mes¬ mos Inglezes na maior parte, e os outros Eu- ropeos. Ora tudo isto é praticado conta clausulas terminantes do íractado de Nankm; mas a Inglaterra vai tolerando taes in fricções para não perturbar, e comprometter os olossaes in¬ teresses britan-nicos ligados ao comnercio da China, e que só no ramo de tribitos do chá sobem a alguns milhões sterlinos oí que cobra o governo inglez. Áffirma-se que o governador de Hong¬ kong, que reúne sempre a qualáade de mi¬ nistro plenipotenciário, tem as mis positivas insírucções para usar de toda a pndencia nas suas relações com a China, e nuica aventu¬ rar questões que forcem o goverio da Grã- Bretanha a entrar em hostilidades Transcreverei aqui o decreb imperial a que alludi, como amostra desta es>ecie de do¬ cumentos, mui singulares pelas sms formulas, e franquesà de lingoagem. Este documento
  • [187] foi traduzido da gazeta chinezade Pekim pelo macaista José Martinho Marques, habil inter¬ prete da lingua synica. Decreto imperial, escripto com tinta verme¬ lha, (*) declarando criminosos a Mu- chang-á e Ki-ing.' « O primeiro dever de um homem mo- narcha é sem duvida empregar os homens de virtude e talento, e excluir os máos e sem que a exclusão destes seja inteiramente feita, jamais pode a administração publica ser com¬ posta só de pessoas hábeis. «O damno actualmente causado ao im¬ pério pelo desleixo, e negligencia dos empre¬ gados, póde-se dizer que é summo. « Posto que a diaria decadência do gover¬ no, e a desmoralisação quotidiana dos senti¬ mentos do povo sejam por nossa culpa, com- tudo é do dever dos altos funccionarios do im¬ pério mostrar-nos o que é justo, evitar o que não o é, e ajudar-nos n’aqui 11 o que as nossas forças nos não permittem. « Mu-chang-á revestido do logar de pri¬ meiro ministro do Estado, e tendo recebido por mais de um reinado o beneficio de ser lembrado, e promovido por nossos augustos pre¬ decessores, não tem pensado nas difficuldades do seu emprego, nem na attenção que se lhe devia prestar; nem tem mostrado a mesma (*) Quer dizer que é escripto pelo proprio pu¬ nho do imperador, a quem só é reservado usar de tin¬ ta destà cor.
  • [188] virtude? e os mesmos sentimentos do seu so¬ berano * mas ao contrario só tem procurado conservar seu logar, ambicionando honras; estorvar os homens de virtude e talento, com detrimento do império; occultar infiel e des¬ lealmente seus pensamentos, com affectada brandura, para sahir bem da sua traição, e procurar com fingidos estudos e falsa habilida¬ de descobrir as vistas do seu soberano, só para lhe agradar. «E’ digna de toda a indignação a manei¬ ra com que Mu-chang-á se tem anteriormen- te portado na questão dos barbaros (Inglezes), deitando a perder todos aquelles que eram de opinião contraria á sua. « Como por exemplo no caso de Ta-hung-á e Yao-Jung, em que determinadamente pro¬ curou acabar com elies, porque via que a ex¬ trema fidelidade e energia destes dois empre¬ gados lhe causavam estorvo ; ao mesmo tempo que a Ki-ing, que sem pejo nem consciência era quem tinha parte nas suas maldades, pro¬ tegia quanto em si cabia. «Assim innumeraveis são os casos em que tem procurado firmar-se na graça imperial, usurpando attribuições que lhe não compe¬ tiam. «Como nosso augusto pai, hoje defunto, era extremamente justo e recto, e procurava tratar a todos com sinceridade, por isso Mu- chang-á pôde desta maneira soltar as redeas aos seus desaforos. «Se S. M. tivesse na sua alta mente des¬ coberto a traição desse empregado, sem du¬ vida descarregaria logo sobre elle o mais se-
  • [ISO] vero castigo, e nenhuma contemplação o pren¬ deria; porém Mu-chang-á confiado no favor se tem portado com o maior desenfreamento, e jamais teve cuidado de se emendar. « Desde a primeira lua do corrente anno (Fevereiro de 1850) quando nós tomámos as rédeas do império, todas as vezes que havia algum assumpto a tratar, sempre tem elle ou usado de ambiguidade nos seus conselhos, ou deixado inteiramente de responder ás nossas perguntas, até que passados alguns mezes dei¬ xou então pouco a pouco conhecer a sua as¬ túcia. «Quando os navios inglezes chegaram a Tièn-tsin, ainda queria conservar a Ki-ing co¬ rno seu confidente para sustentar suas vistas, e queria fazer que o povo do império fosse vi- ctima da sua traição. «Desta sorte é inquestionável a occulta silada do seu coração. «Além disto, quando Pan-she-vgan nos recommendou Un-tso-siú para que fosse em¬ pregado, elle nos tem por vezes dito, que este funccionario estava já fraco e enfermo, inca¬ paz de ser empregado; e quando nós ordenᬠmos que o mesmo funccionario fosse a Quang- si para exterminar os rebeldes desta província, Mu-chang-á tem muitas vezes insistido em como duvidava se Lin-tso-siú poderia ou não ir. (*) (*) Tinha rasão o velho Mu-chang-á, pois Lin morreo no caminho antes de chegar a Cantão, para d’ahi se dirigir a Quang-si, tendo intentado esta jor¬ nada em obediência a um decreto do imperador*
  • [190] «Com fingidas palavras, e deaiecessarias duvidas tem elle procurado fazer qie nós igno¬ rássemos o que se passava por fora «Eis aqui pois todo o seu crine. «Quanto á falta de patriotism# de Ki-ing, sua cobardia, e inhabilidade, não iodem ellas deixar de ser por nós sum mamente estranhadas. « Quando esteve em Cantão, só tem pro¬ curado opprimir o povo para favoecer os es¬ trangeiros, sem attender aos intersses do im¬ pério, como claramente se pode provar da questão sobre a entrada da mesinç cidade. «Indo contra a rasão celeste *) e oppon- do-se aos sentimentos humanos, tem Ki-ing chegado a ponto de occasionar gravíssimas desordens. «Por isso nosso augusto pai,hoje defun¬ to, que conhecia a sua hypocrish, lhe orde¬ nou que viesse sem demora parai capital; e se bem que não lhe deu logo o de ido castigo, comtudo não deixaria de assim > fazer pelo tempo adiante. «Neste anno todas as vezes jue era cha¬ mado á nossa presença, e interrogado sobre os Inglezes, sua resposta era que on vinha tra- tal-os bem, persuadindo-se de cue nós não conhecíamos a sua traição, mas qierendo sem¬ pre assegurar o seu logar, e ordemdo : assim quanto mais procurava justificar a perda da sua consciência, mais patente elk se fazia. «Eram pois suas palavrassenelhantesaos (*) Modo com que os Chinas exirimem a idea dos princípios da jusliça innala, ou uiiversal, ou da esclarecida rasao do homem, T'ien-tci(.
  • * [191] latidos de um cão, e elle se fazia menos digno de nossa compaixão. « Posto que os designios de Mu-chang-á eram occultos, e difficeis de sabei, e os de Ki-ing claros e fáceis de ver, comtudo os cri¬ mes de ambos pelos males causados ao Estado são idênticos. «Se as leis do império não forem imrne- diatamente vingadas, como haverá bom regi¬ me para que os corações dos homens se não prevariquem ? E como faremos ver que nós não temos sido ingratos ao nosso augusto pai, que nos confiou o importante encargo do go¬ verno do império ? (*) «Mas lembrando-nos de queMu-chang-á tem sido um antigo ministro que servio em tres reinados successivos •, e que se de repen¬ te descarregássemos sobre elle as severas pe¬ nas da lei, seria isto para nossa alma uma me¬ dida intolerável, ordenamos, em prova da nos¬ sa benignidade para com elle, que seja deposto do logar que occupa, e jámais inculcado ou apre¬ sentado para ser novamente empregado. (**') « A inhabilidade de Ki-ing é summa 5 mas (*-) Isto refere-se á escolha que o fallecido im¬ perador Tao-cuang fez do actual imperador entre os seus filhos, sendo este o quarto nascido de uma das suas concubinas da tribu tartara manchú, na sex¬ ta lua (Julho) de 1331. (#*) Para se entender esta passagem cumpre sa¬ ber, que o imperador não admitte requerimentos ou pertenções a empregos, e os candidatos delies só lhe são indicados primeiro, e recommendados segundo seu merecimento, pelos altos funccionarios ou conselhos do império, e são depois apresentados ao impera nlc para lhes conferir os empregos.
  • [192] como se vio constrangido pelas circumstancias a obrar como tem obrado, usamos também de compaixão para com eíle, e ordenamos que fique o seu posto reduzido ao de qjuinto gráo, e seja empregado como aspirante ao logar de secretario de um dos seis consellio)s. « A conducta interesseira desttes dois em¬ pregados, e o total esquecimento do seu so¬ berano, são patentes a todo o império, « Para não obrarmos com excesso, temos deixado de entrar mais a fundo nos seus de- lictos; e quando tratámos desta questão, a nossa sentença não foi dada senão depois de madura reflexão. «Temos por muito tempo pensado sobre isto como vós os ministros todos vistes, e que muito tem penalisado nossa alma o sermos nós obrigados a obrar desta maneira. «D’aqui em diante todo o official, civil, ou militar, de qualquer graduação que seja, tanto da corte como das províncias, deve ex¬ citar em si a boa consciência, e fielmente con¬ correr para o bem do Estado, a fim de que os costumes inveterados pela contínua relaxação, e malícia, sejam de uma vez emendados com temor e tremor. (*) (-*) Pareceria aqui deslocada a palavra tremor, se não fosse necessária para a rigorosa tradueçao da idea chineza, que faz conhecer por dia a inteira obediência que se deve aos superiores. As ordens ou editaes dos vice-reis das provindas, e em geral as de toda ahierarchia dos empregados públicos ou manda¬ rins, sempre terminam com a frase— Tremam e obe- am. Não haja opposição ao presente edital. — Os decretos imperiaes terminam porém só com a frase—* Respeite-se.
  • [193] a Não tenham receio das difficuldades, nem procurem a torto e a direito o proprio descanço 5 e quando alguém veja que alguma medida possa ser de utilidade ao bom governo do império, e ao bem estar do povo, exponha-a directamente sem reserva: não se deixe guiar, como até agora, só pela amisade do mestre ao discípulo, (*) ou pelo amor do protector ao protegido #, mas procure cada um conservar a rectidão sem se desviar delia, e desempenhar pacificamente, como lhe cumpre, as obriga¬ ções do seu cargo. Eis o que nós ardentemen¬ te desejamos. <6 Seja o presente decreto promulgado na capital e fora della, a fim de que chegue ao conhecimento de todos a nossa vontade. Res¬ peite-se. 18 da 10.a Lua do anno 30 deTao- cuang (21 de Novembro de 1880).» Para melhor se avaliar a importância do decreto que se acaba de ler, daremos a seguin¬ te relação dos empregos das duas personagens declaradas criminosas: Mu-chang-á era leitor-explicador dos clás¬ sicos a S. M. Imperial, chronista-mor do im¬ pério, primeiro tutor do príncipe herdeiro pre- (*) Na China é levado ao ultimo gráo o amou e veneração aos mestres, que educam os mancebos, e de ordinário sempre estes respeitam e seguem as opi¬ niões daquelles, ou das pessoas que os protegem, ou de quem tem recebido benefícios} formando-se assim uma especie de patrocínios ou clientelas, das quaes sao chefes os indivíduos mais notáveis por seus empre¬ gos, saber, ou influencia. R’ a isto que allude passagem do decreto. 13
  • [Í94] sumptivo (*),. grão-ministro do palacio Vu-ing, superintendente do paço deVen-inen, minis¬ tro director dos membros da academia impe¬ rial, professor dos académicos, administrador geral do conselho das fabricas, general da di¬ visão tartara-manchíi do estandarte amarello com borda (**), examinador-verificador dos rescriptos imperiaes, grão-mestre da livraria superior, condecorado com mais seis gráos de accesso, revisor geral dos archivos, director da secretaria da chronica do Estado, grão-mi¬ nistro assistente na presença imperial, inspe¬ ctor geral das forçasemPekim, ecommandan- te da guarda imperial. Mu-chang-á do exerci cio de tantas e tão pomposas dignidades passou de repente, pelo capricho do imperador, a ser um simples tar- taro-manchú da tribu do estandarte amarello com borda, sem emprego, nem salario algum. Quanto aKi-ing já figurava em 1838 co- (*) Ao filho mais velho do imperador cosLumam designar com tal denominação, ainda que, como já vai dito, não tem direito absoluto de succeder no throno. (**) Os tariarosmanchúsconquistadoresda Chi¬ na, acham-se divididos em oito grandes tribus ou di¬ visões, que se differencêam pelas côies de seus estan¬ dartes : amarella, branca, vermelha, e azul, todas com borda de outra côr e sem ella. Tres destes estandartes ehamam-se do imperador, e das tribus respectivas descende a familia imperial. Ha mais oito estandartes tarta ros-mogoles, e ou¬ tros oito dos chinas naturaíisados lartaros, que os aju¬ daram na conquista. O estandarle verde éoda tropa chineza propria¬ mente dita.
  • mo alio empregado fóra da capital na quali¬ dade de general commandanle em Zhe-hol (fronteiras da Tartaria), e actualmente era se¬ gundo tutor do principe herdeiro presumptivo, grão-ministro do paço de Ven-inen, general da divisão tartara-manchú do estandarte bran¬ co com borda, thesoureiro-mór dà casa impe¬ rial , e superintendente do conselho de guer¬ ra. Ficou exonerado de todos estes postos, e reduzido a ter um emprego honorário, como aspirante ou sub-secretario assistente a um dos seis conselhos, sem salario algum, e como em¬ pregado do quinto gráo é tanto como um Fm, ou magistrado de cidade de segunda ordem, inferior na qualificação a governador civil em Portugal. * A corrupção e avidez dos mandarins, que exercitam a authoridade nas differentes clas¬ ses da administração, tem subido de ponto, principalmente nestes últimos cincoenta annos, em que parece muito se tem alterado a anti¬ ga veneração pelas leis e bons costumes, e o respeito ás tradições, e maximas dos antigos philosophos. A venda dos empregos públicos subalter¬ nos a concessão de gráos de mandarim, ou qualificações por dinheiro ; as extorsões de di¬ nheiro que ás vezes o imperador faz aos prin- cipaes mandarins, e que estes successiva e constantemente praticam uns para com os ou¬ tros na escala descendente, até ao miserável povo que tudo paga; a péssima administração da justiça, cujos empregados para ornais sim¬ ples acto, como por exemplo o de apresentar
  • urn requerimento, exigem logo dinheiro, sem o que os chamados meirinhos nâo o fazem che¬ gar ás mãos dos mais Ínfimos mandarins, com os quaes repartem estes illicitos proventos; o augmento espantoso do usodoopio, que ener¬ vando os corpos e os espiritos, ecreando uma nova necessidade em todas as classes, tão cus¬ tosa de satisfazer pela carestia da droga, leva á dissipação das fortunas módicas, e d’ahi á miséria e aos crimes, para saciarem aquella ir¬ resistível paixão uma vez adquirida: tudo is¬ to são causas de grande perturbação na eco¬ nomia deste povo, e em todas is suas rela¬ ções sociaes. Julgamos pois haver fundameito para pre¬ ver que uma grande crise, e desnoronamento se aproxima para este vastissim> Estado. A pirataria permanente; o grande erecente aug¬ mento das bandas de ladrões em :odas as pro- vincias; o surdo descontentamedo e odio do povo chinez contra todas as autlnridades, cu¬ jos vexames e roubos lhe esgotan a paciência, a que são tão afleitos; o antigo € concentrado ' rancor contra a dynastia e domino dos tárta¬ ros ; a existência de muitas e misteriosas so¬ ciedades secretas, que contam gande nume¬ ro de pessoas de todas as classes, e ás quaes não pertence nenhum indivíduo ca raça tarta- ra ; e linalmente o desgosto e abao, produzido em grande parte da nação, pela demissão de Mu-chang-á e Ki-ing, e em partiiular nas suas grandes clientelas; tudo parecepepararacon¬ tecimentos importantes nesta ectraordinaria nação, que só talvez por meio dt uma grande catastrophe, safairá do caminho di especial ei-
  • [197] vilisação que ella se creou, e que tem seguido inalterável durante tantos séculos. Se assim acontecer, será provável que entre as populações chinas mais facilmente pe¬ netrem os sãos principios da civilisação chris- tã e europea, que levarão este immenso agre¬ gado de homens, constituindo mais da terça parte da raça humana, á situação que compete a um povo pela naturesa dotado de tanta in- telligencia, amor ao trabalho, actividade, e industria; possuindo um sólo riquíssimo em todas as producções, e cortado por famosos rios e canaes.
  • [ 198 j Um sermão em Macáo, e o Collegio «te S. José das Missões. A 2 de Março ioi Domingo gordio: começou na Cathedral a costumada solemnidade das Quarenta Horas, e no fim das Vesperas pré- gouoBispo diocesano sobre o MysteriodaEu- charistia. Foi presente o governador e outras authoridades, e houve bastante concurso de povo. A todos arrebatou o Orador sagrado. O assumpto talvez o mais espinhoso e difficil de tratar da nossa Religião, foi apresenlado de uma maneira tão inesperada e tão brilhante, que impressionou vivamente a todas as iníelli- gencias, e na opinião das mais cultas entre os ouvintes este sermão, abstraindo mesmo da santidade do assumpto, foi um modêllo como peça litteraria, realçado no púlpito pela ma¬ neira grave e magestosa com que foi recitado, Teve o Bispo diocesano lembrança de fa¬ zer imprimir este discurso, e bem era de de¬ sejar que a realisasse, pois julgo que figuraria distinctamente entre os dos nossos sermona- rios. Em Macáo pouco se memora o tempo do
  • i 199 ] Carnaval, e neste anno só appareceram algu¬ mas raras pessoas mascaradas, e uma dança dos marinheiros da corveta D. João. Em 19 de Março, dia de S. José, fui eu com outras pessoas convidado para a festa e jantar no Collegio de S. José. O edifício é vasto, tem uma boa Igreja contígua, está mui bem situado n’uiria pe¬ quena eminencia no centro da cidade, e na bonita e extensa horta adjunta existe a arvo¬ re mais corpolenta que eu tenho visto: seis homens não lhe abraçam o tronco; não é al¬ ta, lança os ramos horisontaes, formando um docel circular de constante verdura, debaixo do qual se gosa excellente vista sobre o porto interior de Macáo. Este Collegio foi fundado pelos Jesuitas, e muito íloresceo 5 mas logo decahio quando foram expulsos em 1762. Passados annos, cm 1784, foi annexado á Congregação das Mis¬ sões, eem 1800 foram-lhe estabelecidos subsí¬ dios a cargo do Senado. Tem sido de grande utilidade para Ma¬ cáo, independente mesmo dos fins religiosos do seu instituto, que eram educar padres por- luguezes e chinas para as missões do império. Por muitos annos teve muito boas escholas e mestres, e alli recebiam uma perfeita educa¬ ção moral e civil os filhos de Macáo: ainda hoje as pessoas de mais regular instrucção, mo¬ radores da cidade, são os que estudaram no Col¬ legio, onde havia estudos especiaes paraalin- goa chineza, e onde se formaram hábeis in¬ terpretes, tão necessários para o serviço pu¬ blico da colonia.
  • [200] Um dos mestres da lingoa sjnica iòio il- Justre philologo P.e Gonçalves, que compôz numerosas obras luso-chinezas, tidas em gran¬ de apreço entre os estrangeiros, e ainda hoje asmais completas neste genero, mas bem pou¬ co lembradas em Portugal. Existem no Collegio os manusçriptos do Bispo de Pekim D. Joaquim Saraiva, alli fal- lecido em 1818, que contém valiosos elemen¬ tos para a História de Macáo, e das Missões na China, colligidos sobre antigos escriptos e documentos que o tempo e os vermes já des¬ truíram ; e bem de recear é que esta apreciᬠvel collecção tenha em breve o mesmo desti¬ no, se o governo nao ordenar que seja quanto antes recolhida para a Torre do Tombo em Portugal. E’ sabido que em Macáo a humi¬ dade do clima, e a formiga branca, atacam os livros e de prompto os destroem, principal- mente quando sáo deixados ao abandono. Infelizmente este Collegio das Missões es¬ tá em grande decadência, e provável é que se extinga pela morte do seu actual superior o digno P.e Joaquim José Leite, varão respei¬ tável em virtudes e letras, e em sentimentos patrióticos; mas que se acha na avançada ida¬ de de mais de 90 annos. São varias as causas da decadência do Col¬ legio ; mas a principal são os erros do nosso governo, em ter envolvido na abolição geral dos conventos a antiga Congregação das Missões de Rilhafolles, que não tinha o caracter de or¬ dem monastica, e era o unico viveiro para os nossos Domínios Ultramarinos. Faltaram pois ao Collegio as entradas regulares de padres
  • europeos, já preparados com a educação espe¬ cial para as Missões, e únicos com os quaes se podem conservar taes estabelecimentos ; não houve mais quem substituísse os padres velhos que hiam faltando, nem quem occupasse con¬ venientemente as differentes cadeiras de en¬ sino. • Hoje existem só no Collegio o referido superior Padre Leite, o Bispo eleito de INan- kim D. José Joaquim Pereira de Miranda, e dois padres vindos do reino em 1849, pre¬ parados no Seminário do Bombarral, aliás mui¬ to dignos pela sua piedade e exemplar con- ducta; porém não habilitados para as necessi¬ dades da instrucçào no Collegio : os collegiaes andam por 12 ou 14 entre Timores, Chinas, e filhos de Macáo, que se dedicam ao estado ecclesiastico. Já que fallei no Seminário do Bombarral direi alguma cousa sobre este estabelecimento. E5 sabido que o venerando Bispo eleito de Pe- kim D. Veríssimo Monteiro da Serra, de ac- cordo com o governo, mas a expensas suas, deu começo áquelle Instituto, doando-lhe uma casa e horta, e tomando a sua direcção, or¬ denando o governo que o Collegio de Macao contribuísse annualmente com 1:200^000 rs., ■o que se ha cumprido. Pertence de direito a este Seminário, co¬ mo filial do de Macáo, a quantia de 8:0004000 rs., que de uma maneira muito singular e ines¬ perada vieram á mão do governo, por entrega que fez o Embaixador da Russia em Lisboa, como producto da venda em Pekim do resto das propriedades das Missões portuguezas na-
  • [ 202 J quella capital, e que foi dalli remeltido atra- vez da Siberia para S. Petersburgo. Cumpre explicar, para isto melhor se en¬ tender, que o dito Bispo eleito residio 23 an- nos na corte de Pekirn, sendo empregado no observatorio imperial, e tendo um elevado gráo de mandarim como membro do Tribunal das Mathematicas: foi particular amigo do celebre estadista Ki-ing, de quem fallámos no Capitulo antecedente, homem distincto em conhecimentos e litteratura do seu paiz, e au¬ thor de uma obra que intitulou — Ensaios —, na qual revelia idéas e estudos profundos so¬ bre as doutrinas do Christianismo, que decla¬ ra achar boas. E’ natural que o longo e inti¬ mo trato que teve Ki-ing com o Bispo Ser¬ ra, muito contribuisse para a manifestação de taes idéas na imprensa chineza, por um ho¬ mem esclarecido, na occasião em que occupa- 'va os primeiros cargos do Estado. Nos princípios deste século suscitou-se na China uma perseguição aos christãos, devida originariamente á imprudência de um missio¬ nário italiano, que obrigou o Bispo Serra a au¬ sentar-se de Pekirn ; mas antes fez vender a maior parte das propriedades que possuia o Collegio que tínhamos naquella capital, eque produziram uns 20:000 pesos, os quaes o di¬ to Bispo trouxe a salvamento para o Collegio de S. José em Macáo, onde chegou em 1827. tendo vindo pelo interior do império. Como não podesse vender de repente o resto das propriedades, incumbio a sua venda ao Bispo de Nankim D. Caetano, que se achava em Pekirn, e por morte deste ficou esta incum-
  • [203] bencia ao archimandrite russiano, ou superior do Collegio da Religião grega, estabelecido em Pekim, o que escrupulosamente foi cum¬ prido, vindo a apparecer o dinheiro em Lisboa em 1846, pelo modo já referido. Esta somma acha-se ainda hoje (1852) em poder do gover¬ no, na maxima parte, ainda que já começou a ser restitui da em prestações. Com as 20:000 patacas trazidas para Ma¬ cao, como fundo das Missões, compraram-se casas na cidade, que hoje pouco rendem, e mandaram-se construir outras em Singapura, que rendem annualmente umas 5:000 patacas, quasi o unico rendimento com que mal se man¬ tém o Collegio de S. José das Missões, que tem de pagar em Portugal uma prestação de 600$000 rs. ao Bispo Serra, além do subsidio referido ao Seminário do Bombarral. Eu visitei este Seminário poucos dias an¬ tes da minha partida para a China: acho que não merece tal nome, e que nenhum bom fru- cto delle se pode esperar. O seu superior o Bispo Serra, que particularmente respeito, e que é muito venerável pelas suas virtudes religiosas, pela sua avançada idade e outras circumstancias, não pode fazer prosperar aquel- le estabelecimento, aliás tão util e necessário. Sei, porexactas informações, que aciual- mente (1852) ainda em peior estado se acha, apènas com 5 ou 6 educandos, sem um unico mestre, e n’uma completa desorganisação. O governo se quizesse attender para este importante assumpto, que liga com o da edu¬ cação geral do clero, devia entregar a outra direcção aquelle Seminário, e protegel-o effi-
  • [204] cazmente, persuadindo-se que para criar mis¬ sionários para o Ultramar é necessário um Ins¬ tituto especial e só a isso destinado, onde to¬ dos os principios de educação tendam a for¬ mar o espirito e o caracter proprio para as Missões, o que se não adquire só com a vo¬ cação e estudos geraes para o estado eccle- siastico.
  • [205] CAPITULO VIGÉSIMO SfflMO. llissões portuguezas na China, mis¬ sionários franceses, B*a
  • [ 206 ] duos nas artes e sciencias, especialmente da Companhia de Jesus, desde cuja extincçãoda¬ tou a decadência daquelles estabelecimentos de tanta gloria e utilidade para a Religião epara o Estado, eque tanto credito obtiveram entre os Chinas, gosando por vezes os missionários de grande consideração e influencia na corte e familia imperial. Depois dos successos que precedentemente referi, tendo resignado o Bispo eleito D. Ve- rissimo, foi apresentado em seu logar pelo go¬ verno portuguez o bispo eleito D. João de Fran¬ ça Castro e Moura, varão respeitável, quere- sidio por 17 annos no interior da China, e per¬ correndo as extensissimas provindas de Nan- kim, Xan-tum, e Pekim, penetrou na propria capital do império, onde ainda encontrou e praticou com o ultimo Bispo de Nankim D. Caetano Pires Pereira, que pouco tempo de¬ pois alli falleceu de avançada idade, em No¬ vembro de í 838; tendo também vivido na corte por muitos annos, não só tido publicamente como europeu, e conhecida a sua qualidade de Ministro da Religião Catholica, mas até graduado mandarim do império, c membro do tribunal de mathematicas, como o foram mui¬ tos dos antigos missionários. Com ofallecimen- to deste Bispo acabou de todo o Collegio das Missões portuguezas em Pekim, e tendo já precedido a extincção dos Collegios das outras nações, assim terminou inteirarnente a publica Missão geral europea catholica, que hoje só oc¬ culta e difficultosamente continua, conservan¬ do os Russos unicamente um Instituto religio¬ so, admit tido e tolerado por tractados.
  • [207] O Bispo D. João continuou a residir no interior do império, e por toda a parte gran- geou o affecto e veneração dos christâos chi¬ nas confiados ao seu cuidado pastoral, e em tão subido ponto, que depois da sua retirada para Macáo aqui enviaram mais de uma vez encarregados, e supplicas para regressar para entre elles, endereçando até nesse sentido re¬ presentações a Sua Santidade, e ao governo, de Sua Magestade, que pela imprensa já fo¬ ram publicadas em Portugal. O que deu motivo a afastar-se daquella christandade este digno Bispo, foram desgraça¬ damente as difficuldades suscitadas sobre ques¬ tões de jurisdicção, pela Congregação da Pro¬ paganda Fide, sempre tão injustamente adver¬ sa aos direitos do Real Padroado portuguez ; difficuldades que o decidiram a retirar-se, por effeito de virtuosa abnegação em favor dos in¬ teresses geraes da Religião, do que deveriam tomar exemplo os sacerdotes e dignidades da Igreja Romana, que lhe deram logar a mostrar em tal resolução o espirito, verdadeirameníe propagador do Christianismo que o guiava. A Curia Romana, desattendendo as ins¬ tantes representações dos christâos chinezes, e ás virtudes verdadeiramente apostólicas da- quelle varão, tem-lhe negado a confirmação. Nem se póde presumir motivo, pelo qual o Sr. Castro e Moura tenha incorrido no des¬ agrado da Curia, a não ser que, tendo sido eleito Bispo pela Coroa portugueza, segundo os direitos do Padroado Real, não quiz, com toda a dignidade, aceitar o governo do seu bis¬ pado, senão nesta qualidade, regeitando a de
  • [208] Vigário Apostolico, que lhe ofíeneia a mesma Curia. Recolhido em Agosto de 1147 aò Colle- gio de S.José das Missões em Micáo, do qual é filho e ornamento, não lhe comentio seu re¬ ligioso e patriótico animo ficar ofioso nos tra¬ balhos evangélicos, em quanto se não apla¬ navam as referidas questões, hoje affectas ao governo na importante e protrihida questão doPadroado Real na Asia, e por sso deste so¬ licitou e obteve licença para exercitar o seu alto ministério entre os rudes povjs das nossas possessões de Timor, para onde fartio em No¬ vembro de 1850, acompanhado can um padre china, para promover e espalhai quanto pos¬ sa os benefícios da Religião e ca civilisação, constante empenho do seu illustndo e piedoso espirito. Eu tive occasião de conhecir este varão, cuja presença, realçada pelo gave trajo chi¬ ne z de que sempre usava, infunlia respeito e estima. Deste modo não ha hoje um unico missio¬ nário portuguez no interior da China, e ape¬ nas na diocese de Macáo haven uns 5 ou 6 padres chinas, que dirigem algunas christan- dades da província de Cantão, sj1> as instruc- eões e jurisdicção do Bispo respictivo, e esses mesmos são guerreados pelos ptdres da Pro¬ paganda. E’ sabido que pelas intrig», e bem im¬ próprios manejos da Congregarão da Propa¬ ganda Fide, as nossas Missões ia China tem sido invadidas pelos padres italiinos e france- zes, dirigidos pelos Vigários Apcstolicos, quasi
  • [209 ] todos das mesmas nações. Se esses Vigários e missionários desempenhassem o seu ministé¬ rio como os missionários portuguezes, com proveito da Religião e das almas confiadas aos seus cuidados, então a questão do Padroado perderia muito da sua importância, e rebaixar- se-hia, da parte de Portugal, a uma questão de capricho menos bem fundado, depois das ir- reflectidas medidas que aboliram no reino e ultramar a Congregação das Missões, e os ou¬ tros conventos donde sahiam sacerdotes para as nossas Missões, sem nada lhes substituir, resultando em poucos annos ficarem as chris- tandades do Padroado portuguez na China, quasi ao abandono por falta de padres. Mas a verdade é, que em geral os padres francezes, que são hoje os que mais abundam e os mais predilectos da Côrte de Roma, são malquistos pelos christãos da China, e infeliz¬ mente com rasão. O seu modo de se conduzir é o mais im¬ próprio para adquirir a estima, e confiança da- quelles povos; a indole da sua nação, que se manifesta em todas as suas acções, é inteira¬ mente contraria á indole e costumes do povo chinez} o seu caracter inquieto e buliçoso, o desejo de andar sempre em movimento, ven¬ do tudo, correndo todos os logares, mais pelo espirito de curiosidade que pelas necessidades da Religião, lhes alienam a estima e respeito dos christãos. Além disto os francezes commet- tem toda a qualidade de imprudências. O seu genio os leva a usar de muito apparato, a pra¬ ticar muitos actos de pessoal vaidade, e de os¬ tentação exterior do culto; a ter pretençoes
  • [210] ridículas a distincçoes; a obrigar os indígenas a praticas contrarias aos seus costumes, mes¬ mo quando estes se não oppõem aos dogmas e espirito do Christianismo ; a exigir delles hon¬ ras e recepções perigosas, que dáo na vista dos mandarins, e ofíendein as etiquetas e ce- remonias chinezas. De tudo isto resulta, que oschristãos ficam expostos ás mais atrozes per¬ seguições, por darem asylo a estrangeiros, sen¬ do muitas vezes deportados, arrasadas as suas casas, e confiscados os seus beis; em quanto que a elles missionários pouco arriscam nis¬ so, pois de ordinário o mais qu* lhes succede é serem presos e entregues, segundo os tra- ctados, aos seus cônsules. Sào também alta- mente para censurar os embustes, as grossei¬ ras e quasi incriveis calumnias que repetem áquelles shnplices povos, a respeito da Sobera¬ na e do clero de Portugal, alcunhando de intru ¬ sos e excommungados os nossos Bispos legíti¬ mos, e propalando quantos mais aleives Jlies suggére a sua malévola imaginação. Homens de educação, padres e missionários descem a taes baixesas e mentiras, só pelo espirito de intriga, e pelo desejo de extinguir de todo a influencia da Igreja portugueza. Tudo isto é de péssimo efleito no espirito dos christâôs, costumados á gravidade, á man¬ sidão, á vida laboriosa, á prudente tolerância de hábitos inveterados, mas innoceníes, que costumavam encontramos missionários portu- guezes e hespanhoes, únicos que possuem a indole propria para se coadunar com a dos chi¬ nas. E’ um facto bem comprovativo do que le¬ vamos dito, que na província do Fuh-kien, on-
  • [211] de longo tempo ha missionam os hespanhoes, não existem perturbações ; nenhum missionᬠrio é descoberto e preso", e não fazendo bu¬ lha, nem ostentação, vão alli conservando e augmentando a crença evangélica. Deve-se declarar em tributo á verdade, cjue entre os missionários francezes houve ou- tr’ora vários, e alguns ha ainda de superior merecimento e piedade \ e que em geral o cle¬ ro francez é instruído, morigerado, e nesta parte muito superior ao clero italiano; mas é de todos o menos proprio, pelo seu actual ca¬ rácter, para manter, e menos para propagar, o Christian ism o na China. Apenas penetram no paiz começam a func- cionar, sem ter tempo para adquirir o neces¬ sário conhecimento da lingoa chineza, dos costumes, hábitos, e preconceitos desta nação. Muitos factos tem acontecido, em que estas circumstancias tem produzido scenas de ridí¬ culo e escarneo, se não de escandalo, para os proprios christãos. Se o procedimento individual dos missio¬ nários francezes tanto offende e aliena os chris¬ tãos da China, não menos deploráveis resulta¬ dos attrahe da parte do governo chinez, que vendo-os tão audaciosamente devassar o seu território, e ostentar exteriormente o seu mi¬ nistério, recahe na antiga suspeita de serem os missionários agentes politicos; suspeita em que na verdade mais se deve confirmar o mes¬ mo governo, observando a intelligencia em que se acham com a Legação franceza na Chi¬ na, á qual recorrem sem cessar em todos os embaraços, em que os lança a sua própria im-
  • [212] prudência. x4 Legação , íktigando continua- mente o governo chinez com questões dos mis¬ sionários, o tem levado cada vez a maiores pre¬ venções contra o christianismo, que se acha por isso tal vez ameaçado de uma nova perse¬ guição. São estas as consequências do erradíssimo sjrsteiiia que envolve a diplomacia nos assum¬ ptos religiosos, o qual começou na embaixada de Lctgrené, e continuou exaggeradamente durante a residência do Barão de Forth Rouen na China; talvez só para dar á Legação a im¬ portância que não tinha por outro modo; sys- íema este que ainda hoje não foi abandonado, porque o governo francez está pouco esclare¬ cido neste ponto. Cumprira dizer aqui, para melhor com- prehensão destas cousas, que como o povo e governo chinez não ha talvez outro na terra tão tolerante em matérias de Religião, ás quaes em geral os chinas são muito indiferentes; mas todo o ciume do governo é, que debaixo do pretexto religioso haja projected politicos e de perturbações no império : as grandes per¬ seguições sempre tem derivado deste princi¬ pio, muitas vezes justificado pelas imprudências dos missionários, ou pela errada ingerência dos agentes e representantes politicos das na¬ ções europeas em matérias de Religião, como suecede agora com os de França. Em resultado de tudo que vai dito, po¬ de-se infelizmente assegurar que a Religião Catholica não faz na China os progressos que deveria, por causa dos missionários francezes, edaCongregaçãò da Propaganda. A S. San ti-
  • [213] dade cabe uma tremenda responsabilidade, e terá talvez de responder perante Deos por todo o mal que teria evitado, se quizesse entrar no verdadeiro conhecimento do estado das chris- tandades na Asia, e fizesse caminhar pelas vias regulares e honestas a Congregação da Propa¬ ganda Fide, que tanto se afasia dos deveres do seu Instituto; porque se deixa guiar por interesses mundanos, e más paixões, e trata com incrível leviandade e desleixo os mais con¬ sequentes negocios da Igreja. E’ por isto que muitos lhe chamam na Asia — Congregação de destruenda Fide. Não é a proposito entrar nesta publicação em mais particularidades a tal respeito, alias bem curiosas •, mas as pessoas a quem ellas interes¬ sem as podem ler n’um opusculo, que fiz pu¬ blicar em Lisboa em 1851, com o titulo de — Considerações sobre o estado das Missões, e da Religião Christã na China—. Transcre¬ verei porém aqui alguma cousa do que disse a respeito dos conhecidos Annaes da Propa¬ gação da Fé. Se o comportamento dos missionários fran- eezes, e dos seus immediatos os italianos, é tão improprio entre os Chinas, como vai dito, torna-se altamente reprehensivel e vergonhoso, pelos embustes que escrevem para a Europa, e que são publicados nos celebres Annaes. Taes Annaes são, geralmente fallando, em relação ás correspondências francezas, um tecido de fabulas inventadas para explorar a caridade dos fieis, excitando-os, por descripções falsas ou exaggeradas de pretendidos progres¬ sos, a continuar prodigalisando a bemdita es-
  • [214] mola, para os manter em longínquos paizes, muitas vezes na ociosidade, e outras na abun- dancia e nos regalos. E’ custoso dizel-o, mas a verdade o exige 5 os Annaes serão em pou¬ cos annos julgados, pelo menos naquella par¬ te, como um vergonhoso monumento de des¬ crédito e irrisão para o Christianisino, quando for xnais patente e reconhecido 0 abuso, que se está fazendo da credulidade dos catholicos europeus. Esses escriptos hão de prejudicar mais á Religião, que todas as declamações e ataques dos seus inimigos modernos. Os Annaes, tão lidos e espalhados na Eu¬ ropa, não merecem na Asia attenção alguma, nem a Associação os envia muito para lá; nem poderá jámais recrutar contribuintes por estes paizes, onde causa indignação ver a impudên¬ cia com que se illudem os fieis Nada ha mais improprio e reprehensivel do que certas argúcias, e embustes usados por alguns missionários de uma Rdigião toda de puresa e de verdade. Nesta parte os missionarás protestantes não ficam atraz dos catholicos fancezes, eató mesmo os excedem nas falsas iiformações que dão dos resultados dos seus tabalhos, que, pelo menos na China, são inte;amente este- reis. A maxima parte defies vfem sumptuo¬ samente com suas mulheres e fihos, á custa da credulidade dos seus correligiorarios mais fas¬ cinados, que lhes subministrair avultados ca¬ pitães para um proselytismo irmginario. Cumpre que saiba estas vírdades o nosso bom povo de Portugal, do qual se tem tirado, e está ainda tirando uma forte contribuição,
  • [218] superior em alguns annos a 8 contos de réis, colhida cá custa dos sinceros e piedosos alista¬ dos na Associaçáo da Propagação da Fé, que julgam concorrer para uma obra meritória e profícua. Acreditem que essas esmolas seriam muito melhor applicadas para o estabelecimen¬ to, e manutenção de um bom Seminário era Por¬ tugal, onde se educassem expressam ente os mancebos destinados ás Missões. Se o gover¬ no porém não tratar disso, em todo o caso as esmolas dos fieis de Portugal para a obra da Propagação da Fé devem ter outro destino; porque o actual é um ludibrio para a nossa na¬ ção. A Associação da Fé tem-se constante¬ mente negado a contemplar os nossos missio¬ nários e as nossas Igrejas da Asia, na distri¬ buição dos seus fundos, para cujo monte nós concorremos; e a esta revoltante exclusão, juntam ás vezes o insulto e o escarneo, dizen¬ do a alguns dos nossos Sacerdotes, como suc- cedeu em Singapura—Vás viveis na miséria e no abandono da vossa nação j nós vos ag- gredimos, e temos os meios de ir diminuindo o vosso rebanho , habilitados pelo dinheiro que nos dá a Associação, que vai colhel-o também ao vosso paiz —. Isto é intolerável e deve por uma vez cessar. Mas se o nosso go¬ verno não souber, ou não poder remediar as cousas do Padroado, então a melhor applica- çâò que os fieis podem dar ás suas esmolas, quando queiram empregal-as nesta obra, por . certo a mais meritória quando seja dirigida pelo verdadeiro espirito evangélico, é, dizemos, a favor das Missões hespanholas, que vão cami¬ nhando com regularidade e solidez sem estron-
  • [216] do nem apparato, sem annaes nem cartas íã- bulosas. Esta applicação piedosa serÉ mais um vin¬ culo para as sympathias que se vão estabele¬ cendo, para as relações que se vâ> estreitando entre as duas nações peninsular©. Na Hespanha ha vários Seninarios para a educação dos missionários, e ia colonia de Filippinas existem todos os antigis conventos, que são outros tantos viveiros pa’a as Missões. E’ um facto que são os âacerdotis hespanhoes os únicos que não tem promovido, enâo pro¬ movem perturbações nos territcrios das Mis¬ sões portuguezas, reconhecendc e buscando sempre ajurisdicção de nossos Pelados, quan¬ do nelles trabalham, como sucede ha muitos annos em Xq/w, diocese de Mado. E’ possivel pela estranhesae inesperado destas revelações, se lhes não peste em Por¬ tugal inteiro credito, principamente entre aquelles, cuja nimia boa fé se adia fascinada pelas excellencias apparentes do? resultados da Associação da Fé. Para estes, e em geral para todos os lei¬ tores destas linhas, recommendanos a leitura de um notável impresso, dadoáluzem Poissy (França) em 1848, e que tem por titulo — Esboço do estado das Missões na China apre¬ sentado ao SS. Padre Pio IX. pelo missio¬ nário Gabet—,do qual fiz extrado nas citadas Considerações. E’ um testemunio insuspeito, que destroe toda a idéa de prevenção, ou de amor proprio nacional, que se ne podesse im¬ putar ; e disso darão a prova
  • « A maior parte das perseguições vem das contestações, que tem logar entre os missio¬ nários. « Queixam-se conti nuamente os missionᬠrios da sua pobresa, como do unico obstáculo que impede os seus progressos. Ao ouvil-os parece sempre que estão na vespera de con- ver todo o território da sua Missão, com tanto que se lhes augmente o subsidio annual com alguns mil francos. A Associação da Propaga¬ ção da Fé accede a estes desejos, esão remet- tidas as sommas. No anno seguinte os mes¬ mos queixumes, as mesmas exigências da sua parte. Assim passam toda a vida a solicitar soccorros, e o momento de principiar a con¬ versão dos fieis nunca chega. «Os neophytes costumam-se pouco a pou¬ co a ver no missionário um mercenário rica¬ mente assalariado. «Tanto dinheiro, que recebem com fre¬ quência, faz insensivelmente nascer suspeitas e desconfianças. Perguntam os christâos chi- nezes entre si, que interesse podem ter os po¬ vos estrangeiros em conservar, com tão grande despesa, um propagador da sua doutrina em paizes tão remotos ? «Os sentimentos de generosidade e de desinteresse extinguem-se nos indigenas, que ajudam o missionário a tratar dos negocios da Missão; e attribuindo suas funcçÕes a uma especulação financeira, negam-se a fazer sem • salario cousas, para as quaes o missionário é tão abundantemente remunerado. «A Igreja em vez de se nacionalisaren¬ tre os indigenas, fica pelo contrario no meio
  • delles como uma planta exotica, alimentada com o dinheiro estrangeiro e só delle depen¬ dente. «Todos os missionários se queixam, que, em Jogar de receber alguns soccorros dos in¬ dígenas, são considerados por estes como ove¬ lhas, a quem todos se julgam com direito de arrancar a la. «NossoSenhor prometteu aos pregadores do Evangelho, que nada lhes faltaria; os fieis suscitados [tela Providencia se impõem collecías para ajudar a sua sustentação: para que pois tantos e tão importunos pedidos de dinheiro, que incommodam e escandalisam os secula¬ res ! Quanto mais edificante seria vér os mis¬ sionários confiarem mais nestas palavras do Di¬ vino Mestre : — Buscai primeiro o Reino de JJeos e a sua Justiça, e tudo o mais vos será provido ,• porque vosso Pai Celeste sabe quaes são as vossas precisões. «Quando tem Jogar questões de jurisdic- eão, os missionários parecem inteiramente ou¬ tros • o zelo, as virtudes e os talentos, com que tinham entrado na Missão só lhes servem para se aggredir, e supplant ar uns aos outros • a espionagem, as accusacões maliciosas, as in¬ terpretações calumniosas, tudo se põe em pra¬ tica para triumphar de um adversário; o cui¬ dado da Missão, a conversão dos povos, e to¬ dos os outros deveres, perdeu.-se totalmente de vista; não se cuida mais que do ataque e da defesa. « Os christâos tomam partidos, e dividem- se emfacções encarniçadas, chegando ás vezes a derramar-se sangue, e a ser necessária a in-
  • [219] tervenção dos infiéis, para accommodar taes desordens. «Porestas circumstancias o Christ’an ismo é olhado como uma seita de sediciosos e in¬ quietos. «Destas contestações resulta a diminuição da fé entre os neophytos. O caracter de apos- tolos, attribuido antes aos missionários, des- apparece, ficando olhados como homens am¬ biciosos, sem zelo pelo verdadeiro bem, e mui¬ tas vezes sem lealdade na sua conduct a. a Se em consequência destas disputas um missionário é supplantado pelo seu competidor, os christâos conservam-se aílectos ao seu anti¬ go pastor, com o qual a Religião está, por as¬ sim dizer, identificada a seus olhos, e recusam receber o novo. Daqui nascem schism as deplo¬ ráveis ; os enfermos morrem sem Sacramen¬ tos, e os meninos não são baptisados. Talé o espectaculo que por vezes tem apresentado, e ainda hoje apresentam grandes christandades na Asia. (*) «Quanto ás contestações, que hão tido logar na China, convém notar duas cousas. A primeira é que uma unica vez tiveram por objecto questões dogmáticas, por occasião da celebre disputa sobre os ritos e ceremonias chi- nezas \ a origem de todas as outras tem sido pretenções oppostas entre missões visinhas, re- làtivamente á jurisdicção sobre certos territo- (*) E’ exactamente o que esta acontecendo nas Missões de Pekim depois da retirada forçada, para evitar taes contestações, do eximio Bispo eleito de Pe¬ kim, cuja falta os christâos deploram como a de um pai zeloso e amado.
  • [ 220 ] rios. A segunda observação a fazer é, que se não encontra um só china que tenha sido o author destas perturbações ; são sempre os mis ¬ sionários europeus que suscitam estas difficul- dades, e a ellas arrastam os Chinas. « Quando um missionário forma o desígnio de se introduzir em Missão alheia, fazendo re¬ tirar delia os antigos operários, não lhe faltam pretextos mais ou menos especiosos para en¬ cobrir seus projeclos. AI lega, por exemplo, que a Missão confiada ao seu cuidado não con¬ tém sufficientes christãos; que não póde resi¬ dir commodamente no território delia; que parte deste se acha encravado cm outras Mis¬ sões, como se as Missões estrangeiras fossem para achar christandades numerosas e flores¬ centes, e não para augmentãr os adoradores do verdadeiro Deos; para achar residências commodas, e não para passar os dias sem ter onde reclinar- a cabeça, a exemplo do Divino Mestre. « Pobres povos ! . . . E7 atra vez de tantos perigos, ecom tanta difliculdadc, que um raio da verdadeira luz chega aos vossos desertos; vós conservaes cuidadosamente essa luminosa faisca de vida e de esperança, que a Religião vos oflerece, no meio de vexações de todo o género, de anciedade, de terrores e de conti¬ nuo martyrio! Para que pois continuareis a ser accommettidos destas tempestades sempre re~ nascentes ? Quando cessarão para vós as mu¬ danças, as perturbações, e os conflietos de ju~ risdicção l Quando chegará em fim o tempo, em que a fé possa ser-vos annunciada sem em¬ baraços, e sem confusão ? > 7
  • [ 221 ] « Se alguns missionários, possuídos de urna inexplicável inquietação, desviam seus olhos e at tenção do logar onde o pai de familia os col- locou, para os pôr com inveja naquelle em que trabalham os seus visinhos, e põem por obra mil meios para os supplantar, taes missio¬ nários tornam-se, sem o saber, os mais pode¬ rosos cooperadores dos desígnios do homem inimigo, contra o campo do pai de familia. Não sómente o terreno que lhes fora confia¬ do ficará estéril, mas ainda farão frequente- mente desapparecer o fructo do trabalho, e a fertilidade do campo do seu visinho. A confu¬ são, o schisma, e a discórdia serão ordinaria¬ mente os únicos fructòs daquelles campos. Se¬ melhantes missionários tomam sobre si uma res¬ ponsabilidade immensa, porque parece que a elles são dirigidas estas palavras : — Vós fechaes o Reino dos Ceos ao homem ; porque nem en- traes, nem aos que hiam entrando permitiís que entrem — Claudilis regnum ceeloruni ante ho¬ mines vos enim non intratis, nec introeimies sinitis intrare. «Certas ordens religiosas, muito imbuidas do espirito de corporação substituem-se, por assim dizer, á verdadeira Religião. Osneophy- tos são instruídos no culto quasi exclusivo das praticas e das fórmulas dessas ordens, e pare¬ cem não pertencer mais á grande sociedade christã. «Um tal abuso na presença de neophy tos, já naturalmente inclinados a identificar a Re¬ ligião com o padre, tem produzido uma des¬ ordem tal, que é diíficil na Europa fazer-se uma idéa delia. Daqui nasce uma especie de
  • [ 222 J Religião restricta, exclusiva, e mais propria a isolar e dividir ainda mais os lieis, queaunil-os em um só rebanho. «Uma multidão de extensos desenvolvi¬ mentos, inteiramente accommodados aos cos¬ tumes, e estado da sociedade na Europa, e por consequência incomprehensiveis na Asia, confundem as ideas aos neophyfos, e lhes fa¬ zem perder um tempo considerável. Além disso vendo elles este ou aquelle ponto de dou¬ trina ser objecto de tantas disputas, e ser com¬ batido com tanto afinco por uma multidão de sectários, a sua fé vacilla, e a verdade da Re¬ ligião não lhes parece já tão clara. Como pa¬ ra os christãos indigenas todas estas contro¬ vérsias se passam ao longe, os catholicos, os schismaticos, os hereges são os mesmos a seus olhos; e a idéa de que existem na Europa tantas disputas sobre pontos de doutrina, que se lhes dizem incontestáveis e artigos de fé, prejudica infinitamente á simplicidade da sua crença. «Os desenvolvimentos com que os theo- logos moralistas da Europa tem tratado os pre¬ ceitos do Decálogo, e sobre tudo o sexto, produzem também sobre elles as mais funestas impressões. Infecciona-se-lhes a imaginação, e a consciência se lhes revolta de achar des- criptas tão circumstanciadamente semelhantes matérias. Muitas vezes julgam achar nisto a descripção dos costumes europeus; ouvem es¬ tas explicações com uma curiosidade maligna e ciosa, e acabam por formar uma idéa horrí¬ vel da moralidade dos christãos da Europa. «Estas misérias e muitas outras, que le-
  • [223] varia muito tempo a enumerar, não teriam lo- gar se se adoptasse uniformemente o Cathe- cismo Romano, e sómente um professor, mis¬ sionário experimentado nos usos e costumes do paiz, désse de viva voz sobre cada artigo os desenvolvimentos necessários,» Ora eis aqui como um missionário fran- cez, que mostra ser homem esclarecido e de sincera piedade, descreve o estado das Missões da Asia, eocaracter de vários propagandistas. Este missionário foi a Roma, esperando obter alguma providencia contra os malles querefe- rio no seu opusculo; porém nada conseguio, e tudo continua do mesmo modo: as suas ver¬ dades muito desagradaram, e o seu Esboço ape¬ nas espalhado entre poucos missionários, pro- duzio entre elles grande agitação, e grave des¬ gosto. E’ bem conhecida em Portugal a — Ques¬ tão do Padroado Real do Oriente—, de que niuito se ha occupado a imprensa periodica, e que tão magistralmente foi tratada pelo author da — Memória sobre a Aliocução do SS. Pa¬ dre Pio IX, no Consistorio secreto de 17 de Fevereiro de 1851 —. Ha seculcs que dura esta malfadada questão; mas nunca foi mais mal conduzida, nem se achou em peior estado do que hoje. A Convenção de 21 de Outubro de 18Í-S entre os Plenipotenciários de Portugal e de Roma, de que só o publico teve noticia quan¬ do em Agosto de 18ol foi publicada no jornal O Paiz, é um documento vergonhoso para o nosso governo. De tudo alli se tratou, exce- pto- do que mais cumpria: o negocio do Pa-
  • droado do Oriente ficou acl referendum, e ad referendum se aclia ha quatro annos comple¬ tos ! Não conhecerão os nossos negociadores que a demora neste assumpto, é sempre o que tem tido em vista a Curia Romana, que sabe perfeitamente que só com isso ganha a ques¬ tão ? Todos os dias os padres da Propaganda cerceam a jurisdicção real dos nossos Bispos, O Padroado da índia acha-se em grande parte usurpado, o da China está inteiramente invadido, e no estado em que se acham as nossas cousas naquelle paiz, rasoavel seria ce¬ dermos nelle do nosso bom direito ; com tanto que se conserve a antiga circumscripção das dioceses da índia, e que se decida por uma vez um assumpto que tantos escândalos, e pre- uisos tem causado á Religião entre as popu- ações christãs na Asia,
  • [22S j CAPITULO VIGÉSIMO OITAVO, As sociedades secretas ua China. As associações secretas parece terem existido desde remota antiguidade em toda a Asia. Actualmente é fóra de duvida que existem na China, na índia ingleza, e em outras partes. E’ mui singular que na índia ingleza, ainda ha poucos annos, a sua existência era desconhecida pelos mais activos funccionarios britannicos, e calculam-se em milhões os as¬ sassinatos commettidos pelos membros destas associações, e que foram por longo tempo en- yolvidos no maior mysterio. Na China actualmente são mais conheci¬ das as seguintes sociedades secretas : San-/to-/ioei: a sociedade da União de Tres, isto é da união do ceo, terra, e homens. Ch'im-lien-kiáo: a seita do trate asul, a flor nymphea, ou lirio d’agoa. Pai-lien-kiáo : a seita do trate branco, ou nenuphar. Nien-f ou-kiáo : a seita da cabeça do be¬ zerro. Hung-iang-kiáo : a seita do sol. Vu-xang-láo-mu : a seita sem mãí natu- 15
  • [ 226 ] ral, o que exprime a idéa de que o indivíduo pertence tão inteiramente á sociedade, que quebra os laços mais sagrados para os Chinas, os do respeito e obediência filial. Mim-tum-kiáo : a seita da clara nobresa, ou da illustração e honra. Tsing-cha-mun-kiáo : a seita do chá pu¬ ro, da qual se falia na Gazeta de Pekim de Junho de 1816. Koam-mao-kiáo: a seita do boné ama- rello. Po-iim-tsimi: a seita da origem da bran¬ ca nuvem. A que hoje está muito espalhada, e que tem agitado e agita mais o império, é a pri¬ meira : não ha cidade, villa, ou aldêa onde não haja um grande numero de sectários da União de Tres, principalmente nas províncias do sul: em algumas povoações é tal o seu nu¬ mero que zombam das authoridades, e se apre¬ sentam publicamente com o seu distinctivo, que é uma cinta de seda asul de rede, mui se¬ melhante ás bandas dos officiacs militarespor- tuguezes. No norte, e especialmente em Pekim, pa¬ rece que é mais dominante a seita dos Pai- lien-kiáos, os quaes no reinado de Kia-king, avô do actual imperador, estiveram aponto de conseguir o fim mais ou menos pronunciado de toclas estas sociedades, que é a expulsão da dynastia tartara. Em 1813 prepararam uma conspiração, e chegaram a apoderar-se por sur¬ presa do palacio e quasi da familia imperial; mas por acaso Mien-mng, um dos filhos do im¬ perador, tinha ido naquelle dia á caça, equan-
  • [227] do voltou achou o palacio invadido; conservou porém um sangue frio admiravel; como nâo era conhecido dos conjurados, fingio-se tam¬ bém um delles, procurou lhe mostrassem o chefe , e com resolução verdadeiramente he¬ roica, apontando-lhe a sua espingarda de ca¬ ça, lhe disparou um tiro , matou-o, e se de¬ clarou o príncipe : os Pai-lien-kiáos, aterrados por esta audacia, perturbam-se, fogem, e acu¬ dindo algumas guardas fieis fizeram nelles gran¬ de matança, seguida de uma perseguição ge¬ ral no império. Assim a coragem de um só homem sal¬ vou uma dynastia de ser extincta, e o Estado de grandes perturbações : esta acçâo lhe valeo o throno, pois o pai de Mien-ning o escolheo para seu successor, declarando no testamento que era em attenção a este grande serviço: reinou sob o nome de Tao-kuang, e falleceo nos princípios de 1850. No principio do reinado de Kia-king, os Pai-lien-kiáos revoltaram cinco províncias, e sustentaram a guerra oito annos. Ficou appa- rentemente extincta a sociedade com a perse¬ guição, mas appareceo renovada na referida seita da União dos Tres. ET mui curiosa a circumstancia de que os Pai-lien-kiáos usam de uma formula ou senten¬ ça nos logares das suas reuniões, e nos seus documentos, comprehendida em quatro letras chinezas que se pronunciam fu-ming-fcin-idng, que para o vulgo e para o governo significa: exalte-se a virtude, derrube-se o vicio ,* e que corresponde á bem conhecida frase maçónica — cingir templos ã virtude, e cavar mas- *
  • [228] morras ao crime—; inas paraos iniciados nos segredos da sociedade, por una mistificação ou subtilesa mui obscura paraos Europeos, e que prende em uma especie de trocadilho de palavras, a primeira e quarta letra são trans¬ formadas n’outras duas, apresentando então a formula o occulto sentido de — exalte-se Ming (denominação da ultima dynastia chineza); derrube-se Tsing (denominação da actual dy¬ nastia tartara). Todas estas associações parecem ter tido primitivamente muita analogia com a maçona¬ ria, quanto ao objecto da beneficencia e mutua protecção de seus membros, porém depois al¬ gumas se apartaram delle, pelo desejo de obte¬ rem violentamente algumas vantagens, e de adquirir o poder politico derrubando a dynastia tartara. Adirecção da sociedade da União de Tres é confiada a tres indivíduos: os seus regula¬ mentos, que não são conhecidos dos Europeos, dizem estarem escriptos sobre panno, que lan¬ çam aos poços ao menor alarme: dizem tam¬ bém que as ceremonias da iniciação tem lo- gar de noite; ficam os adeptos fóra da porta, ha perguntas e respostas, conta-se uma histo¬ ria da origem da sociedade, e leem-se livros de versos onde se revela o proposito de res¬ taurar os Mings: ha juramentos, prestações dos socios, e especie de provas, como a da pas¬ sagem sobre uma ponte de espadas, e no fim das ceremonias cortam a cabeça de uma galli- nha, como usam os Chinas nos juramentos, o que significa: « Assim pereçam todos aquelles que divulgarem o segredo. »
  • [229] Reconhecem-se por signaes, que consistem em numeros misticos, dos quaes o numero tres é o principal: outros signaes fazem-nos com os dedos, no modo de pegar com tres delles nas chicaras de chá, na maneira de se sentarem, etc. etc. Vê-se pois que os San-ho-hoei e outros tem muita semelhança com os maçons, e per- tendem como estes remontar a sua origem a uma alta antiguidade: comtudo parece que a desta seita em particular data da intrusão da actual dynastia, pela conquista fartara. Der¬ rubar esta dynastia é o fim occulto das prin- cipaes associações \ mas quaes são os meios que empregam para o conseguir, que autho- ridade os membros delias tem uns sobre os ou¬ tros, qual é o seu vinculo de união e o seu nu¬ mero, são cousas envolvidas em mysterio, e apenas algumas noções dispersas se tem podi¬ do colher^sobre tal assumpto. Parece que os associados adoram ou pres¬ tam juramento a Kwcinti, ou Deos da Guer¬ ra. O preambulo do juramento de alguns re¬ sume-se no seguinte: Nós reverenciamos o ceo como nosso pai, a terra como nossa mâi, o sol como nosso ir¬ mão, a lua como nossa cunhada. Nós oramos perante o altar dos cinco antepassados, respei¬ tamos Wán- Yun-Lug como fundador da nos¬ sa irmandade, a todo o corpo da associação como nossos virtuosos irmãos, e a toda a fa¬ mília de Hung como honrados parentes do mesmo sangue. Juram, ferindo-se e bebendo o sangue,
  • que hão de viver e morrer juntos, e dedica¬ rem-se ao bem-estar do paiz de Kinlan. Os artigos do juramento são 36, e todos ter¬ minam com imprecações contra si mesmos se forem prejuros, entre as quaes são rnais singu¬ lares as seguintes: Vomitar sangue e morrer. Morrer da fe¬ rida da cobra, ou pela mordedura de um ti¬ gre. Ser o corpo cortado em pedaços. Morrer pela espada. Morrer por myriadas de facadas. Ser cortado em myriadas de pedaços por mi¬ lhares de espadas. Ser destruído pelo Ceo. Ser exterminado pelo Decs do trovão. Ser mordi¬ do por um tigre quando subir um monte, e afogado quando entrar na agoa. Ser morto pe¬ lo trovão, e destruído pelo fogo. Ser afundado no inferno, e nunca experimentar transmigra¬ ção. A sociedade Siáo-Táo, ou da espada cur¬ ta, dizem estar actualmente muito activae es¬ palhada na turbulenta província do Fuh-kien. As ramificações destas seitas estendem-se a toda a parte onde se accuimilam as migra¬ ções chinezas, e acham-se em Balavia, Singa¬ pura, Malaca, Pinão, Manila, e Ilon-kong : os seus membros obrigam-se por juramento a defenderem-se muíuamente contra os ataques dos oíficiaes da policia, a prestarem-se soc- corros para escapar á justiça, e para se vin¬ garem uns aos outros: todavia o fim queappa- rentam é sempre a beneficencia, e usam da divisa —partecipar mutuamente da felicida- de, e snpportar reciprocamente a desgraça. — Nos Estreitos de Malaca e Possessões eu- ropcas a sociedade da União dos Tres está ra~
  • [231 j mificada nas duas : Hae-shan-hwuy ou socie¬ dade da terra e do mar, e E-hiny-hway, ou sociedade do direito de rebelliào. Apenas chega um novo emigrado da Chi¬ na, logo o convidam 5 se rejeita é perseguido, e os que tem dinheiro levam-nos a legares afas¬ tados e roubam-nos ; se se ■queixam á justiça combinam-se os contrários para os depoimen- nosos. As duas associações tem um chefe cada uma, chamado irmão maior, e os das suas subdi¬ visões irmãos menores. Em Singapura as sociedades secretas tem perturbado a segurança publica, as funcções da justiça e das authoridades, pelas ameaças de assassinatos, e recentemente fizeram des¬ ordens e algumas destruições de propriedades no interior da Ilha, pertencentes a chinas que se tem separado das sociedades por se haverem feito christãos: o governo vio-se obrigado a adoptar energicasprovidencias. Em 1846 tam¬ bém alli houve graves desordens por causa de dissensões entre estas sociedades. Na Java tem dado muito cuidado ao go¬ verno hollandez, e a revolta recente dos Chi¬ nas naqueiie paiz, talvez fosse influída por tacs associações. Em Pinão também existem varias delias, das quaes dá muita noticia sobre o numero dos seus membros, chefes, e fins ostensivos o n.° 43 do volume 10.° do Friend of China. Em Hong-kong poucas ha, pela nenhuma importância dos chinas alli residentes; mas podem de futuro influir na China, pela proxi-
  • midade, e segurança de que gosam, quando se não involvam nos negocios da Colonia. O objecto apparente de todas estas socie¬ dades, como já se disse, é a beneficencia e o soccorro mutuo, e parece que algumas na sua origem tiveram realmente este destino e o tem ainda; outras tinham fins commerciacs ou re¬ ligiosos ; porém pela maior parte tem degene¬ rado, tornando-se conspiradoras contra o gover¬ no, ou contra a ordem social, eaté algumas tem por fito puramente os roubos e os assassinatos. Apesar da facilidade que parece haveria de penetrar nos mj sterios, e disciplina interna destas sociedades, existentes em colonias eu- ropeas, comtudo muito poucas noções se tem colhido a tal respeito. Suspeia-se porém que mesmo as sociedades estabeleádas fóra da Chi¬ na, tramam contra a dynastia tartara, pois as authoridades chinezas castigan severamente, até á pena de morte, os que lhes cahem nas mãos vindos de Singapura « outros pontos, quando os julgam filiados nas litas sociedades. O governo imperial ten tido grave in¬ quietação depois que descobro que até solda¬ dos, meirinhos, e baixos empregados estavam filiados nestas sociedades. No codigo penal chine: ha disposições muito severas contra todas ;s sociedades se¬ cretas, especialmente contra a da União dos Tres, applicando-se frequenbmente a pena de morte, eem geral todos os seis chefes ou pre¬ sidentes tem a pena ultima, e os membros a de desterro perpetuo para a 'hirtaria occiden¬ tal, onde são entregues comi escravos a mu- sulmanos poderosos.
  • [233] Dizem que nenhum destes clubs admiíte indivíduos da raça tartara, o que mais tende ainda para o governo os considerar inimigos e fazer-lhes perseguição. No estado de agitação em que hoje se acha a China, e do qual talvez são a principal causa estas sociedades, seria muito curioso co¬ nhecer melhor a sua organisação e demais cir- cumstancias, o que sendo em todos os paizes difficil pela naturesa de taes associações, na China édifficilimo pela lingoagem, pelociume nacional, e por todos os obstáculos que seop- põem ao trato dos Europeus com o singular povo chinez. Julgo que sobre este assumpto ainda nin¬ guém escreveo modernamente em Portugal, por isso apresentei todas as noticias que poude colher na China. Os curiosos nesta matéria podem consultar a interessante collecção do Chinese Repository, de que já fallei, e os es¬ clarecimentos do doutor Milne contidos no 1.° volume das Transacçôes da Real Sociedade Asiatica de Londres.
  • [234] Elpedição cias Ilhas Filippinas con¬ tra o sultão e piratas cie Solo* Nos princípios de Abril chegou a iYIacáo a no¬ ticia do bom resultado da expedição hespanho- la, que de Manila partira contra os piratas de Solo, com o proprio governador á frente, o general Urbistondo, bem conhecido carlisla nas ultimas guerras civis em Hcspanha. A ex¬ pedição compunha-se de Ires vapores de guer¬ ra, da corveta Villa de Bilbao, e de outros navios e transportes, conduzindo uns 3:000 homens de tropa de desembarque. Em 28 de Fevereiro cahiram em poder dos hespanhoes as formidáveis fortificações da Ilha de Solo, apossando-se de 130 peças, e muitas munições. Um dos fortes príncipaes foi tomado e re¬ tomado varias vezes; mas a final o Padre Fr. Pascoal Ibanez, da Ordern dos Recoletos de Manila, alli firmou a bandeira hespanhola, per¬ dendo logo a vida, tendo combatido valente- mente. Os fortes e a povoação foram reduzidos a
  • .[ 235 ] cinzas; mas o sultão Maliamad conseguio fu¬ gir para o interior. Foi este um brilhante feito para as armas hespanholas, e um serviço para a humanidade a destruição daquelle famoso retiro de piratas, que havia 200 annos eram o terror e o flagello da CoJonia das Filippinas, e dos archipelagos visinhos. Este acontecimento parece que não foi muito agradavel á política ingleza, que se sus¬ peitava protegia occultamente o sultão de Solo. Em Macáo porém foi bastante estimado, pela sympathia que merece uma nação tão visinha e irmã da nossa. As Filippinas, longo tempo desaproveita¬ das pela Hespanha, tem prosperado muito nes¬ tes últimos tempos. A marinha mercante, ede cabotagem tem tido um desenvolvimento ex¬ traordinário. Segundo uma Memória publicada em Manila em 1850, nesle anno contavam-se matriculadas 2:011 embarcações, medindo 69:839 toneladas; quando em 1842 só havia pouco mais de 600 embarcações, medindo umas 36:000 toneladas: isto prova que o commercio marítimo mais que duplicou em nove annos. A população anda por 4 milhões de habi¬ tantes ; as rendas publicas são muito exceden¬ tes ás despesas, e a Metropole tira hoje gran¬ des vantagens desta importante Colonia.
  • [ 236 ] O clero c o culto eu» Mncá@. O clero em ÍVIacáo é sufficénte para o cul¬ to, e em geral de costumes exemplares, go- sando de influencia e considençâo entre os ha¬ bitantes, que se distinguem an ambos os se¬ xos pelos seus sentimentos :eligiosos, e boas practicas da antiga educação por tugueza. Ha 10 ou í 2 irmandades e confnrias cm Macáo ; todas possuiram n’outro termo capitaes, que hoje não existem na maior pate, por causa de más gerencias e abusos. Aaundam também as instituições pias: ha una hospital a cargo da Misericórdia, civil e miliar; ha outro pa¬ ra leprosos; um cofre de pibres, e até uma confraria chamada da Caridkde, só composta de senhoras, semelhante á Associação Conso¬ ladora dosAfflictos em Lisbra, mas de funda¬ ção mais antiga, pelo respdtavel Padre Joa¬ quim José Leite, de quem já fallámos. Em Macáo todas as festvidades religiosas se fazem com perfeição e lecencia, estando hoje reduzidas ás necessária:. N’outro tempo, por abuso do espirito de de/oção, havia eon- *
  • [237] tinuadas procissões, e varias costumeiras im¬ próprias do culto christão, as quaes fez cessar de todo o actual Bispo. Na Sé, e nas demais Igrejas, vi celebrar a Semana Santa neste anno com o maior de¬ coro, e a pompa appropriada. Na Quinta feira Maior o Bispo diocesano fez reunir pelo meio dia doze pobres n’uma das salas do seu palacio, ejuntos n’uma mesa a jantar foram servidos humildemente pelo mesmo Bispo. Era tocante aquelle espectaculo : doze mi¬ seráveis, a maior parte delles velhos, cegos, ou estropiados — chinezes, timores, e macais- tas — alli se viam reunidos como irmãos pelos laços do Christianismo; e um Bispo portuguez, nascido no extremo occidente, descia da altura a que o tem elevado as suas virtudes, e o alto ministério que exercita, á alegre humildade de servo, cumprindo o exemplo do Divino Mestre. A Religião christã impõe preceitos subli¬ mes, tão ternos para o coração como admirᬠveis para o espirito do homem ! Acabado o abundante jantar foram dis- tribuidas aos convivas toalhas e cabaias bran¬ cas, e revestidos com ellas sahiram todos em procissão, precedidos da Cruz e seguidos pelo Bispo, dirigindo-se para a Sé, onde se seguio a costumada çeremonia do Mandato, ou Lava- pés.
  • [238] Woticia se!n*e as lorelias tie Macao. Em 2o de Abril sahio da radii, do Macao a cor¬ veta D. João I, com destino para Shangai, on¬ de havia pouco tempo fora reconhecido pelas authoridades chinezas o Consul portuguez, e convinha alii fazer tremolar pela primeira vez o nosso pavilhão de guerra. O commandante da corveta levava instruc- cões para recolher informações sobre o proce¬ dimento de varias das lorchas de Macáo, nas costas do norte da China, e para adoptar pro¬ videncias opportunas para serem castigados os excessos e crimes por ellas praticados, do que havia continuas queixas em Macáo dirigidas peio governador de Hong-kong, que pedia ou antes exigia sérias medidas a tal respeito. Desgraçadamente estas queixas tinham em grande parte fundamento, e para ellas bem se comprehenderem entrarei em algumas par¬ ticularidades sobre as lorchas de Macáo, e im¬ portância do seu trafico; assumpto pouco co-
  • nhecido, porém curioso em mais de um sen¬ tido. Ainda em 1835 contava a praça de Ma- cáo 18 navios de longo curso: hoje tem ape¬ nas 8, e são: 3 barças, 2 brigues, e 3 escu¬ nas. As lorchas da mesma’ praça andam por GO actualmente em serviço, medindo ao todo umas 4:000 toneladas. Ha 8 lorchas de 100 toneladas para cima, contando a maior 146 ; ha 34 de 50 a 100 to¬ neladas, e as restantes são para menos de 100 toneladas, sendo a mais pequena de 38. Estas lorchas montavam 557 canhões de calibres differentes; a saber : Calibre yy yy yy yy yy yy yy yy í 2 3 4 9. 12 18. 24 Paixhans Canhões yy yy yy yy yy yy yy yy Total ... 557 A lorcha de maior força montava 20 pe¬ ças, e tinha portinholas para mais 2: as mais pequenas tem de 4 a 6 peças, e em quasi to¬ das estão montados em rodizio os canhões do calibre superior. Os armamentos e petrechos de guerra eram os seguintes:
  • [uo ] Espingardas. 304 Lanças. 423 Espadas. 182 Machados. 81 Pistolas. 54 Bailas.15:725 Metralha em libras portuguezas. 14:131 Barris de polvora. 502 O total das lorchas, pelas matriculas cor¬ respondentes quando se fazem ao mar, levam termo medio de 380 a 420 portuguezes, e de 480 a 525 chinas. Estes promenores são colhidos de dados officiaes, e ainda que haja continua alteração na artilheria, armamentos, e tripulações das lor¬ chas, nunca descerão das cifras indicadas, que vão cotadas pelo minirno, ecom muita proba¬ bilidade podemos dizer que varias vezes o nu¬ mero dos canhões não descerá de 600; porque nem todas as lorchas trazem sempre a artilhe¬ ria que comportam. Estas lorchas foram todas feitas em Ma- cáo, e grande parte nos annòs de 1847 e 1848, e algumas posteriormente. Esta cidade apre¬ senta muitos recursos e operários para as cons- trucções navaes, e em poucos mezes bastantes lorchas se poderiam fazer epetrechar. Em Dezembro de 1841 um tufão destruio neste porto 12 ou 13 lorclas, e no seguinte Abril estavam construídas de novo 18 a 20, todas de particulares ; pois * governo não pos- sue uma unica, e as afreta quando as neces¬ sita para o seu serviço. A construcção destas enbarcações é muito boa: o cavername ó geralnente de canfora, e
  • [241] as mais peças principaes de léca, e outras boas madeiras. São de fundo chato, deman¬ dando muito pouca agoa, e se aproximam das praias ás vezes a ponto de desembarcarem gen¬ te. Tem coberta, e boas camaras e accommo¬ dates para passageiros. Usam de dois mastros com vellas latinas e redondas. Taes embarcações percorrem todos os al¬ terosos mares da China; vão aos estreitos de Malaca e archipelagos visinhos, ao golfo de Bengala, e até uma já foi á California atraves¬ sando todo o Oceano Pacifico. Antes de 1837 era diminuto o seu nume¬ ro em Macáo * empregavam-se no commer- cio costeiro proximo, e nas cargas e descargas dos navios na bahia ou rada de Macáo; mas em 1843 é que começaram a ir mais para os comboios e serviço do norte, e em maior quan¬ tidade depois que terminou a guerra dos In- glezes com a China: os grandes interesses que então fizeram, ganhando de 1,200 a 1,500 patacas mensaes, e o incremento que tomou este trafico estendendo-se em 1846 até Shan- gai, convidou á construcção do avultado nu¬ mero de lorchas que presentemente tem esta praça. Das 60 andavam ultimamente 40 no nor¬ te, e o resto se empregam no commercio cos¬ teiro de Hong-kong, Cantão, etc. Os fretamentos mensaes regulavam se¬ gundo o tamanho e forças das lorchas; nos comboios das somas de 180a450 patacas; na vigia de pescadores de 250 a 450; e quando dão protecção á marinha imperial sobem a 800 e 1:000 patacas. Assomas são embarcações mercantes chi- 16
  • [242] nezas corres ponde rites na capacidade ás nossas escunas, brigues, e ainda grandes barças ou galeras, que muitas vezes conduzem riquíssi¬ mos carregamentos. Ha também lorchas fretadas para guardar ilhas e portos das devastações dos piratas, pa¬ gas pelos habitantes ou pelo mandarim local. Os proprios mandarins, ou almirantes da marinha imperial, as tem tomado ao seu servi¬ ço, para guardar os portos e embocaduras dos rios, ou para sahirem com suas esquadras em perseguição dos piratas, pelos quaes são ordi¬ nariamente batidos, e bloqueados ou destruí¬ dos nos proprios portos, quando não tem este auxilio, mas com elle sempre os destroem, e dando pomposas participações ao imperador das vantagens que a si attribuem, obtem fa¬ cilmente elevação e recompensas. São os piratas ás vezes tão descarados e tão audazes para com os mandarins, que os vão desafiar por pasquins, eás vezes por cha¬ pas (officios) ou enviados; mas com a expres¬ sa condição de não irem acompanhados de lor¬ chas portuguezas. E’ mui ordinário apresen¬ tarem-se emissários dos piratas a proporem res¬ gate de prisioneiros, ou de navios cahidos em seu poder, e negoceiam-no a dinheiro ou ge~ neros, com os habitantes ou com os manda¬ rins. E’ incalculável o numero dos piratas ou lanchacs que infestam as costas da China: é quasi uma raça que se perpetua e propaga no mar, recrutando-se sempre em terra nas clas¬ ses desmoralisadas e miseráveis da sociedade. Possuem vastas esquadras e dominam por ve¬ zes ilhas.
  • [243] No anno de 1847 combinaram-se volun¬ tariamente em Ningpo 7 lorchas portuguezas, foram por sua conta bater os piratas estabe¬ lecidos n’uma ilha próxima, e colheram um despojo que vendido e repartido coube amais de 2:000 patacas a cada lorcha. A causa de serem as esquadras imperiaes quasi sempre batidas pelos piratas está, além dos defeitos da sua organisação e tactica, na superior coragem das tripulações destes, deri¬ vada do seu modo de vida, e dos perigos a que andam affeitos : elles batem-se ás vezes com bravura contra as lorchas portuguezas, e quan¬ do se não podem escapar e se veem perdidos, tem o barba.ro costume de lançarem ao mar amarradas as mulheres, crianças, e o dinheiro e objectos preciosos, fructos de seus roubos; alguns tem a coragem de preferirem afogar- se a entregarem-se prisioneiros, e de ordinário fazem saltar aos ares as suas embarcações quan¬ do as abandonam. Os seus juncos ou lorchas são mui fortes, e quando fazem rombo ao lume d’agoa nem por isso a embarcação vae a pique, pois usam construil-as com repartimentos feitos por pare¬ des de madeira parallelas, e perpendiculares á quilha, que dividem o porão em 7 a 10 es¬ paços até á altura superior á linha do mar; de modo que podem-se encher d’agoa um ou mais intervallos, sem soçobrar a embarcação. Explicamos esta bem simples e engenho¬ sa idéa, por nos parecer que é pouco conhe¬ cida, e não executada ainda nas construcções navaes portuguezas, posto que já foi adoptada em alguns navios inglezes. *
  • [ 2 U ] Vê-se da historia da China, que emmaís de uma occasiâo chefes de piratas causaram graves perturbações no império, chegando a assenhorearem-se de províncias, e a pôr em pe¬ rigo a dynaslia. Pondo de parte citações que nos levariam muito fóra do nosso assumpto restricto, só di¬ remos que ao valor dos Portuguezes deve o império chinez duas vezes a salvação, contra os piratas que pertenderam dominal-o: a pri¬ meira no século 16.° destruindo a esquadra do notável chefe Cham-gui-silau: a segunda no começo do presente século, quando em 1805 o poder dos piratas tinha crescido a ponto de possuirem uma esquadra de 1:800 embarca¬ ções, entre grandes e pequenas, guarnecida com muita artilheria e alguns70:000 homens, e que vindo a ser commandada depois pelo fa¬ moso Cam-pau-sai, tentou este coroar-se im¬ perador da China, expulsando a dynast ia tar- tara, áqual fez tão cruel guerra até 1809, que em Novembro deste anno , a solicitações dos Chinas, se assignou entre elles e os Portugue¬ zes um tractado para anniquiliar Cam-pau-sai, o que estes conseguiram em cinco mezes com prodígios de valor, obrigando-o depois de san¬ guinolentos combates a capitular com os restos da sua esquadra e 17:000 homens, facto em que já tocámos de passagem. Este Cam-pau-sai era habil, valoroso, e tinha recursos e capacidade para conseguir seus altos intentos*, chegou ; offerecer só pela neutralidade dos Portuguees ceder-lhes algu¬ mas províncias do imperii, o que estes des- presaram, talvez com maios política do que
  • generosidade, depois mal correspondida pela dynastia imperial. Quem quizer ter circumslanciada noticia destes successos consulte a — Memória sobre a destruição dos piratas da China —, publica¬ da por J. J. d’Andrade em 1824. Voltando porém a foliar no trafico que as lorclias portuguezas fazem no norte, cumpre saber que além dos bons afretamentos já refe¬ ridos, tem muitas occasiões de haverem ou¬ tros interesses de consideração, dando comboio a embarcações avulsas, tomando fretes, salvan¬ do presas, aprisionando piratas, etc. E’ muito para notar que as nossas lorchas nos difierentes serviços em que se empregam, não só vão aos quatro portos do norte abertos aos estrangeiros, depois da ultima guerra corn oslnglezes, Amoi, Fuchao, Ningpô, e Shan- gai ç mas ainda frequentam e penetram em to¬ dos os outros portos e rios intermédios; o que os mandarins locaes toleram a instancias dos negociantes e pescadores, e também para pro¬ veito e segurança propria, comoremedio con¬ tra o flagello dos piratas. Também merece attençâo a circumstan- cia de que as nossas lorchas vão nos comboios até á Coréa, Japão, e Ilha Formosa; mas á vista de terra as despedem, por serem paizes vedados aos Europeus. Por estes comboios, por serem no mar alto, ainda hoje dão de 800 a 1200 patacas mensaes. Por informações de pessoas competentes julgamos não errar muito, calculando aproxi- madamente em mais de 200:000 patacas (200 contos de réis), o total producto dos interesses
  • das lorchas, empregadas no trafico do norte, em cada um dos primeiros annos em que to¬ mou importância. No de 1850 nào seria para menos de 100 a 120:000 patacas. O lucro para os proprietários daslorchas, liquido das soldadas e mais despesas, se póde reputar entre a terça e a quarta parte daquel- la quantia: isl o é abstraindo os casos de de¬ sastre, ou de infidelidade dos patrões, que tem motivado a vários dos mesmos proprietários se¬ veras perdas. Resulta ainda desta navegação o emprego demais de 300 marítimos macaenses, e a con¬ sequente actividade nos officios ligados com as construcções e apparelhos navaes. Nestes tempos de decadência commercial, e de falta do trabalho único a que se dedica a classe proletária portuguezà de Macáo, que¬ remos dizer a vida do mar, aquçlla navegação é da maior importância economica e política para esta cidade, onde todas as artes e officios fabris são exercidos pelos Chinas. Também pelo lado militar se tem colhido notáveis vantagens da navegação no norte : os marítimos de iVlacáo estão mais aguerridos-, aquella vida aventurosa, o habito dos com¬ bates com os piratas, c a consciência da sua superioridade, os fazem atrevidos e corajosos; até aos mesmos chinas que se empregam nas lorclias, se communica o valor dos portuguezes; alguns já estão muito destros no manejo de nos¬ sas armas de fogo, e servem mui bem aos ca¬ nhões. Por estes dados póde-se fizer alguma idéa da importância do trafico das lorchas portugue-
  • zas nos portos do norte da China. Diremos agora com pesar, mas animados pelo amor da verdade e dos interesses do Estabelecimento de Macao, que muitos abusos e malefícios tem praticado aquelles mesmos que mais immedia- tamente eram interessados em os evitar. F/ desgracadamente certo que a conduct a de vários patrões e marinheiros das lorchas tem sido a mais vergonhosa e reprehensivel 5 tanto para com os seus compatriotas como para com os Chinas. Não entrarei em promenores a tal respei¬ to; só direi que vários dos proprietários de lor¬ chas e negociantes de Mácao tem sido victi- V—/ i mas da péssima conducta, e infidelidade dos seus patrões, que ás vezes passam annos sem darem noticia de si; outros prestam contas inexactas dos lucros e gastos, ou se levantam e fogem com o dinheiro alheio, causando toda aespecie de prejuisos, e lançando o descrédito entre os Chinas sobre as lorchas e a reputação de seus proprietários. No meio destes desvios é bem lisongeiro poder assegurar, que não faltam honrados pa¬ trões que conservando a boa ordem, e a mo¬ ralidade entre os seus subordinados, se tem comportado optima mente, praticando até act os de repressão e justiça contra os desordeiros e a favor dos Chinas, dos quaes ganhando o re¬ conhecimento e afíecto salvam assim a digni¬ dade e reputação do nome portuguez, que aquelles miseráveis tanto compromettem. No entanto não tendo esses dignos ho¬ mens missão e authoridade especial, pouco tem podido remediar estes males, e até pelas
  • difficuldades e prejuisos que lhes promovem os mal intencionados, se teem visto algumas ve¬ zes obrigados a retirarem-se daquellas para¬ gens. Este manancial de commercio e trabalho ameaça perder-se. Os estrangeiros já entram em concorrência comnosco : temos ainda a nos¬ so favor o antigo prestigio do nome portuguez entre os Chinas, ea preferencia que elles dâo ao nosso trato, por effeito de longos hábitos e tradições; mas á força de escândalos e ma¬ lefícios, e na presença de activos e poderosos rivaes, estas vantagens podem acabar. Este assumpto mereceo ao governador Car¬ doso séria attenção, como lhe cumpria; mas ao tempo que sahio de Macáo pouco se havia remediado. Uma das mais urgentes medidas era haver um Consul portuguez hábil e enér¬ gico emNingpôouFuchao, tendo uma lorcha de guerra á sua disposição, para fazer respei¬ tar a sua authoridade entre os lorcheiros, que deveria sanecionar os contractos entre elles e os Chinas, e sujeitar o serviço das lorchas a um regulamento policial para interesse de to¬ dos, evitando as desordens e prejuisos que mu- tuamente se promovem os patrões, n’uma mal entendida concorrência e rebaixa nos preços dos serviços. Um accôrdo entre o governo e os proprie¬ tários das lorchas para regularisar um systema, que, sem embaraçar ou entorpecer o serviço do commercio para que ellas são destinadas, pozesse comtudo á disposição do mesmo gover¬ no as lorchas necessárias para as commissões publicas, esse accôrdo, dizemos, poderia tal-
  • vez levar as consideráveis forças marítimas da praça de Macáo a um pé de terem sempre em respeito a todo o império chinez, ede mante¬ rem a dignidade e os direitos nacionaes nesta parte da Asia; e seriam de grande recurso reunindo-se, e operando com o maior numero possível nas occasiões extraordinárias. E’ digna de attenção a circumstancia de que o trafico das lorchas é, na maxima parte, exercido pelas classes mais necessitadas do po¬ vo de Macáo. Aos principaes negociantes e capitalistas poucas lorchas pertencem : esses entregam-se quasi exclusivamente ao coinmer- cio do opio e de câmbios•, commercio que é quasi esteril para o geral da população de Ma¬ cáo : queremos dizer, não alimenta emprego ou trabalho algum para os proletários, não se serve de braços nem de transportes marítimos do Estabelecimento, e poucos rendimentos pú¬ blicos promove : o movimento de tal commer¬ cio reduz-se em Macáo a operações de escri- ptorio. A maior parte das lorchas pertencem ou a indivíduos de muito módica fortuna, ou as mais das vezes a pequenas sociedades de duas, tres ou mais pessoas : deste modo os lucros são repartidos por muitos, chegam ás ultimas classes do povo, e constituem hoje o único es¬ casso recurso de grande numero de famílias de Macáo. Vê-se de tudo que acabamos de dizer, que o trafico das lorchas é quasi o unico que ainda dá alguma vida a Macáo, e que pode mesmo augmentar-lha. E’ pois do primeiro dever tanto do go-
  • verno de Macáo, como do governo da Metro- pole, não deixar arruinar um trafico que tão proveitoso é áquella Colonia, edo qual aetual- mente muito depende a sua conservação. A’ minha chegada a Portugal vi nos jor- naes de Macáo a nomeação de um Consul para Ningpô e Fuchao, como ordenado men¬ sal de ISO patacas, devendo ser registados no Consulado de Ningpô todos os contractos de fretamento entre os lorcheiros e os chinas, de¬ duzindo-se da importância defies 4 por cento para as despesas do Consulado.
  • [251] Ar&'ifmtta da corveta II. Joio £. Em 21 de Maio, com excellente tempo, vio-se entrar na rada de Macáo a corveta D. João, toda empavesada e até com sobres joanetes largos. Causou isto geral surpresa, e logo gran¬ de desgosto ao governador. A corveta vinha arribada, e falhara a commissão de Shangai. Havia sahido em 25 de Abril, demorou- se em Hong-kong 4 dias, eseguio para o nor¬ te. Logo nos primeiros dias houve máo tem¬ po, eventos contrários do primeiro quadrante. A corveta foi bordejando quasi sempre á vista da costa da provincia de Cantão, porém nada adiantava, ou antes perdia caminho, talvez por não despejar os bordos mais sobre aterra, co¬ mo esta permitte alli e usam os práticos. Não quiz o commandanfe ancorar na bahia de Cha- lon-tau, ou montras abrigadas que ha nesta costa, e esperar melhor tempo, o qual conti¬ nuou sempre máo, e a 7 de Maio peiorou com fortes rajadas de vento e mar de arreben- tação: neste dia o navio esteve algumas horas de capa.
  • [ 252] No fim de ÍO dias eslava outra vez a cor¬ veta á vista da Pedra-branca, por onde passa¬ ra em 30 de Abril. Até 16 de Maio continuou sempre o tempo mais ou menos contrario; rasgaram-se algumas vellas, quebraram-se al¬ gumas vergas, e houve outras avarias em ge¬ ral de pouca importância: neste dia a corveta esteve de capa; mas começou a ser enxova¬ lhada pelo mar grosso que augmeníava, e um dos officiaes o 2.° tenente Marques, que hia como practico, mas sabendo pouco desta na¬ vegação, declarou ao commandante que a cor¬ veta não podia aguentar a capa: o mar da China costuma ser de vaga curta, e tem um certo movimento como pyramidal que lhe é peculiar, talvez pelo effeito de muitas e en¬ contradas correntes, cujo movimento cança e poe ás vezes em risco os navios. Em conse¬ quência o commandante convocou a sua offi- cialidade, e todos unanimes assignaram no mes¬ mo dia 16 o termo de arribada para Macáo, achando-se a corveta em 116° de longitude a léste do meridiano de Greenwich, e em 22° 18' de latitude norte. Houve neste termo tuna falta que se diz essencial, e que é não ter sido assignado pela mesfrança, ou ofliciaes de proa do costume, os primeiros mestres carpinteiro, calafate, edo navio : comtudo em separado tinham estes fei¬ to declarações por escripttodeque algumas fer¬ ragens, o mastro do traquete (que apesar dis¬ so servio até Lisboa), etc. etc., não se acha¬ vam em bom estado. No conteúdo do termo exaggerou-se al¬ guma cousa a importância das avarias. O na-
  • [253] vio não se achava todo aberto indo agoa a toda a parte: fazia só alguma agoa pelos trin- canizes com a forca de vella. Inscrever-se co- mo rasão de arribada o perigo que correria o navio na volta de Shangai contra monção, pa¬ rece muito improprio. Essas reflexões, quando a prudência as dictara, 'deviam fazer-se antes de se aceitar a com missão. A corveta foi-se conservando, quasi sem¬ pre de capa, até ao dia 18, em que o tempo abonançou, e tornou-se de todo bom a 19 e 20, o que se aproveitou para demandar e en¬ trar a 21 na rada de Macáo. Ora parece que quando a 18 de Maio o tempo melhorou, a corveta poderia seguir ou¬ tra vez o rumo para Shangai; mas ninguém pensou nisso. Tinham-se-lhe mettido em Macáo dois mezes de mantimentos, e nem os de um mez estavam gastos. As avarias soffridas eram fáceis de remediar, como eflectivamente se re¬ mediaram mesmo no mar, excepto a chapa da boça da verga grande, por não haver appropria- da forja. 7 Julga-se pois que era muito possivel chegar a Shangai, e não se faltar a uma commissãoa que se ligava importância. E’ verdade que o navio não levava os sobrecellentes e preparos precisos n’um vaso de guerra; porémmaisou menos sempre assim andou, e se a corveta não sahio de Macáo com os aprestos necessários, ocommandante tinha o direito de se recusará commissão que lhe era ordenada; logo que a aceitou devia fazer toda a diligencia para cum- pril-a. Argumenta-se que nesta occasião vários
  • [254] navios sahidos de Hong-kong para Shangai ti¬ veram de arribar; mas todos soffreram avarias de consideração. A corveta americana Marion t Já foi a Shangai com o mesmo tempo, e o va¬ por de guerra inglez Salamander, que tam¬ bém para alli se dirigia, apesar de arribar a Amoi com avarias, seguio depois ao seu des¬ tino. Em conclusão, esta arribada foi de péssi¬ mo effeito em Macáo, e aos olhos dos estran¬ geiros lançou mais umanodoa sobre a marinha portugueza. Entrei em tantos promenores deste suc- cesso, porque nunca ha sido bem esclarecido, e até foi bem diversa e inexactamente apre¬ sentado pela imprensa periodica de Lisboa: refiro-o guiado por documentos authenticos que consultei, e por boas e repetidas informações. Em 27 de Maio, 5 dias depois da arriba¬ da, sahio a corveta para Vampú no rio de Can¬ tão , onde esteve algum tempo fundeada, e d’alli regressou para M;acáo. Logo que a corvetai arribou o governador Cardoso fez preparar a lorcha Adamastor para ir a Shangai, e eu me dispuz a fazer esta cu¬ riosa viagem.
  • [255] Visita da governador de Mon$-koiig a Macáo, e a administração do govcrnaelor Cardoso. iNos primeiros dias de Junho Sir George Sa¬ muel Bonham chegou na fragata Cleopatra a Macáo, onde veio pela primeira vez, efoi re¬ cebido com todas as honras devidas ao seu alto cargo. Ao fim de tres dias retirou-se precipi¬ tadamente para Hong-kong, por ter recebido a desastrosa noticia da perda do bello vapor de guerra Reynard, da marinha britannica, no Bai¬ xo da Prata, onde fora para recolher a tripu¬ lação dabarca Velocipede^ naufragada no mes¬ mo Baixo, que demora a léste e a cousa de 200 milhas de Macáo, onde grande numero de naufrágios tem tido Jogar. Por fortuna o bri¬ gue de guerra Pilot, que seguia o vapor, pôde recolher os naufragos dos dois navios. O governador de Hong-kong mostrou-se mui cordial com o nosso governador, e é certo que em geral as author idades inglezas na Chi¬ na se mostram mais attenciosas, e obsequia- doras para os Portuguezes do que ordinaria¬ mente costumam sêl-o na Europa.
  • [ 256 j Eram decorridos 4 a 5 mezes de gerencia do novo governador, e já sensíveis melhora¬ mentos se observavam em Macáo. N’outra parte já dissemos o lamentável estado em que elle achara o material de guer¬ ra das fortalesas, e a este tempo já em cada uma delias havia algumas peças escolhidas com apalamenta completa, capazes de sustentarem fogo. Tinham-se feito reparos nas estradas, plantado arvores ao longo delias, e no Campo de Sáo Francisco. Activou-se a arrecadação dos impostos, e de dividas atrasadas á Fazen¬ da, e melhorou-se o systema do lançamento da decima aos Chinas e da sua cobrança. In¬ tentavam-se reformas nos diversos ramos da es- cripturação e da arrecadação da Fazenda pu¬ blica, que se achavam n’um indefinível estado de confusão; reformas que depois se levaram a effeito. Cortavam-se abusos , evitavam-se extravios, eem summa o governador Cardoso procurava quanto podia melhorar as circum- stancias do Estabelecimento, e obter recursos para as despesas publicas, ás quaes hia satis¬ fazendo no meio de graves embaraços. Infeliz- mente porém das suas diligencias não colhia todo o possível fructo, porque tinha a vencer hábitos inveterados de mollesa e desleixo na maior parte dos empregados, e não era coadju¬ vado na sua actividade e zelo pelos funccio- narios da província, que mais intervinham nos actos da administração. Alludimos principal¬ mente ao juiz de direito, que ainda hoje tem em Macáo extensas attribuições, que não cum¬ pria devidamente, e muitos desgostos e emba¬ raços promovia ao governador, não só nas cou-
  • [2K7] sas do serviço, como pelo despreso das conve¬ niências que exigia o seu logar de magistrado. Entre portuguezes e estrangeiros o juiz de direito tinha perdido todo o prestigio da sua posição, e apresentava mais um triste e pre¬ judicial exemplo das consequências de nomea¬ ções para logares impbrtantes por mero favo¬ ritismo. Sabe-se que o ministro Costa Cabral fez nomear o actual juiz de direito de Macáo, cedendo ás importunações de um dos seus ami¬ gos, e logo a imprensa independente naquelle tempo censurou tal escolha. Para juizes no Ultramar, e especialmente em Macáo, nunca deve o governo nomear ra- pazollas apenas sahidos da Universidade, sem pratica, Sem conhecimentos alguns de negocios públicos. Ha sempre no reino abundancia de delegados, alguns com bastantes annos de serviço, ou de bacharéis práticos na advoca¬ cia, e é destes que o governo deve nomear. Em Macáo carece-se para juiz de um homem feito, experiente, e de conselho; e não que vá para alli aprender o seu officio, quando seja capaz disso •, porque não tem com quem apren¬ der ou consultar. O juiz alli intervem com frequência nos actos da administração, varias vezes é membro do governo, e está em con¬ tacto com estrangeiros, perante os quaes mui¬ to cumpre que as authoridades do Estabeleci¬ mento saibam adquirir consideração. 17
  • [258j CAPITULO TRIGÉSIMO «UARTO. Pallida de Macáo para Shangai, Hong^kon^ e navegação até Amoi. Ao meio dia de 16 de Junho de 1851 fui para bordo da lorcha n.° 60, Adamastor, fundeada no porto da Taipa, donde ás 4- horas da tarde partimos pela sahida de Cahó para lésle. Fomos navegando á vista das nove Ilhas, sempre com o tempo carregado, e com inces¬ sante chuva, que continuou de noite ; passᬠmos ao norte de Lantáo, e pelo canal grande de Cam-singmun. Amanhecemos á vista de Hong-kong, e pelas 9 horas atravessámos a bahia de Victo¬ ria, observando a sua pittoresca cidade ; a mon¬ tanha sobranceira, e todas as elevações dos arredores tinham os cumes escondidos em den¬ sas nuvens prenhes de chuva, que a espaços foi cahindo durante a manhã. Estavam no porto uma corveta, e um bri¬ gue de guerra inglezes; uma náu que serve de hospital da tropa, e poucos navios mer¬ cantes. O commercio não tem aqui concor-
  • [259] rido, apesar da magnificência deste Estabe¬ lecimento, do seu bom porto, que é franco ha 10 annos, edos muitos recursos marítimos queofferece, tendo até um dique, no system a de plano inclinado, onde os navios são postos em secco para concertar. As grandes transacções commerciaes con¬ tinuam a fazer-se em Cantão; alli carregam todos os navios, e as casas principaes de Hong¬ kong tem lá agentes, e o seu gyro mais im¬ portante. Nem um só hão, ou capitalista chi¬ na, se ha estabelecido em Victoria, onde só¬ mente residem alguns milhares de Chinas das mais infimas classes da sociedade. Todos os esforços do governo, e do genio inglez para fazer de Hong-kong um grande fóco de commercio teem sido baldados, e é enorme a despesa que isso tem occasionado, desde que a Grã-Bretanha em 18 4 1 tomou pos¬ se desta Ilha. O governador tem de ordenado 6:000 libras; mais 1:000 do que pagam ao seu presidente os Estados-Unidos da America. A tropa absorve acima de 40:000 libras annuaes. Ordinariamente ha 25 vasos de guerra ingle- zcs nos mares da China, guarnecidos termo medio por 4:500 homens, que dispendem cou¬ sa de 450:000 libras; além dos navios que são mantidos pela Companhia das índias. Os jornaes inglezes calculam em não me¬ nos de 600:000 libras annuaes, a despesa quô láz a Inglaterra para proteger o seu commer¬ cio na China, e geralmente censuram o seu governo pelos sacrifícios que faz a nação com Hong-kong, cujos rendimentos são muito in¬ feriores á despesa da sua administração local, *
  • [260] apésar dos impostos, e dos excessivos fóros dos terrenos em que se tem levantado edifícios. Continuámos por entre o continente, va¬ rias ilhotas, e as costas de Hcng-kong, todas verdejantes, mas faltas de arvoredo, passando á vista da povoação chinezade Kau-lun, ou no¬ ve buracos, na terra firme, que é fortificada, e das pequenas aldèas de Cbai-van, onde ha dois grandes edifícios que servem de postos da policia ingleza: vimos outro semelhante na al- dèa de Siake-ou, quasi na ponta septentrional da Ilha, e hiamos devisando como um traço ou longa fita toda a estrada que já a circunda. Pelo meio dia passámos o canal deFalau- nun, que na sua parte mais estreita tem ape¬ nas I \ braças entre rochedos, e entrámos no temeroso mar da China. Apesar do péssimo tempo, que a esta ho¬ ra começou a aliviar, a navegação era agrada- veí pela variedade de perspectivas que ofifere- cia a multidão de ilhotas, pequenas bahias, quédas d’agoa das montanhas, e algumas ha¬ bitações e pagodes em sitios bonitos que hia¬ mos observando. Linda foi a manhã de 18 : estávamos em pleno mar, por onde se devisavam algumas só- mas : a ferra parecia não se vêr \ mas a pers¬ picaz vista dos chinas a descobria no horison- te ennublado , e mais tarde a reconhecemos cla¬ ramente , achando-nos na ponta de léste da ba¬ nia de Hong-hoi; depois passámos porfóra das ilhotas e pedras que ha entre esta ponta e a de Sha-Ion-tau, por onde sedevisam duas povoa¬ ções, e uma fortificação. Passei algum tempo agradavelmente na tolda, onde corria fresca
  • [261] viração, e depois deitado no camarote com o rosto encostado á vigia, aspirando á superfície as puras e refrigerantes exhalações do mar, passei horas esquecidas de doce ociosidade e enlevo. Prolongava a vista quasi ao lumed’a- goa, onde ora mergulhavam, ora surgiam as praias, os rochedos, e as montanhas que bor¬ davam o horisonte. Em algumas ilhotas rnais próximas as ondas como qu,e brincavam, ves¬ tindo e despindo momentaneamente os pene¬ dos de alva espuma. No meio de uma deliciosa embriaguez dos sentidos, fui cahindo em somnolencia até ador¬ mecer ao suave balouço das vagas, e acalen¬ tado pelo seu melancólico susurrar. Fomos vendo vários barcos de pescadores recolhendo as redes: chamou-se um delles a bordo, onde veio com difficuldade pelo receio de lhe tirarem o peixe, como usam abusiva¬ mente fazer as Iorchas e navios redondos. Os pobres chinas pescadores mostravam grande temor; queriam dar uma porção de peixe, e irem-se logo embora: custou a demoral-os pa¬ ra se lhe tomar quanto se queria, e se lhe pa¬ gou na proporção de 40 sapecas o catte, que foi o que pediram: partiram contentes, e tal¬ vez maravilhados deste bom procedimento para com elles. A tarde esteve bella, o vento era bran¬ do, e a favor: hiamos em frente da bahia de Hie-che-chin, e ao fím da tarde avistava-se Capxi, seus dois pagodes e forte. Até ás 9 da noite demorei-me sentado á popa, em entre¬ tida conversação, ou ouvindo cantar canções dapatria, que excitavam recordações saudosas.
  • [262] Na manhã de 19 passámos em frente, e em distancia de duas amarras, ou 240 bra- ças, do Cabo da Boa-Esperança, ou Pin-koc, como lhe chamam os Chinas. E’ o segundo cabo deste nome que julgo existir no glo¬ bo, tão pouco conhecido quanto o outro é no¬ meado, Hiamos encontrando muitos barcos de pes¬ cadores, que reunidos em distancia pareciam grandes esquadras. Vimos sobre as agoas ho¬ mens em pé, que pareciam caminhar sobre as ondas, e mais de perto reconhecemos que se sus¬ tinham em cima de jangadas muito pequenas, que faziam mover com dois remos que se cru¬ zavam na altura do peito: vistos de longe pro¬ duziam um singular effeitoaqnelles chinas nús, com o grande e largo chapeo terminado em bico, e como saltando sobre as ondas inquie¬ tas. A’ vista da ilha de Namoa passámos por entre um dos muitos pesqueiros que ha nestas paragens, eque são como umaespecie de cer¬ cados ou redis de ovelhas, formados por gros¬ sas estacas de entena ou pinheiro firmadas no fundo do mar, e ligadas entre si por meio de cordas e redes. Estava aqui uma barca e um brigue inglezes, que se conservam nesta pa¬ ragem ancorados servindo de deposites de opio: tinham ambos altas redes pelos bordos, como meio de defesa contra os piratas que por vezes tem tentado roubal-os. Em varias ilhotas se descobrem fendas , arcadas, singulares fôrmas de terreno, e vᬠrios caprichos e bellesas da naturesa, muito abundantes nesta costa.
  • Tanto na ilha de Namoa, como na fron¬ teira terra firme, devisámos varias torres, al¬ gumas muito elevadas, de vários andares no gosto chinez, e igualmente muitos pontos for¬ tificados, quasi todos em elevações, que pa¬ recia não terem artifiieria, e estarem abando¬ nados. A costa que corremos até este ponto é montanhosa, porém não esteril, ainda que des¬ pida d’arvoredo : toda é bordada de uma infi¬ nidade de ilhotas, pedras, e rochedos, que fa¬ zem perigosa esta navegação.
  • Chegada a Aaioi, e noticia «lesta cidade» À 20 de Junho amanhecèmos perto da ponta de Ting-tae, onde vimos tres pequenas p\ra¬ ra ides cónicas caiadas, que dizem serem indi¬ cativas da residência de mandarins, e em se¬ guida a povoação de Tinai, que era murada; apresentava varias ruinas, e dizem ser só com¬ posta de pescadores piratas, que os mandarins não tem força para desalojar, e aos quaes tem cedido aquelle terreno : as encostas próximas mostravam muita cultivação, algum arvoredo, e casas dispersas. Em uma alta montanha próxima devisava- se a maior torre que até aqui temos obser¬ vado, eque de muito longe póde servir de ba- lisa a quem demandar Amoi. Pelas 7 horas da manhã atravessámos a bahia de Ti ng-tae, e entrámos pelas 9 na de Amoi, deixando á direita as ilhas de Taetan e Saetan, onde estavam fundeadas uma galera eumabarcainglezas, depositos deopio, como mesmo appareJho e redes que vimos em Namoa.
  • [265] A entrada d’Amoi é muito bonita e es¬ paçosa : as montanhas de um e outro lado são em geral aridas, e semeadas de rochedos mui¬ to negros; mas á aproximação da cidade as .margens deste lado apresentam algum arvore¬ do, uma longa baterja desartilhada, varias ca¬ sas, e algumas agradaveis situações, em tres das quaes ha vistosos pagodes, vendo-se no pri¬ meiro uma enorme pedra que apresenta para o lado do mar uma face lisa, com uma inscri- pção chineza em grandes letras. A’s 11 horas emeia dêmos fundo defron¬ te e muito perto da povoação era 15 braças: o porto é excellente, abrigado, profundo, e nelle estavam 8 navios mercantes (3 hespanhoes e 5 inglezes), alorchaportuguezan.°27, eal¬ gumas 150 grandes sómas, todas alinhadas era pelotões de 5 a 7, e guardando estes distan¬ cias regulares. As marés aqui variam muito quanto ao tempo de duração, o que parece provir das correntes encontradas das diversas ilhas, e canaes das proximidades: nas agoas vivas sobem a 18 pés de elevação, de modo que as sómas para fabricar, tem toda a fa¬ cilidade de ficar em secco, approximando-se da terra nas marés altas, e se conservam di¬ reitas por terem o fundo chato. Não ha tancares neste porto: só vi sam~ panes, tendo na metade ou em duas porções do compranento uma coberta rasando a borda ; são agudos na proa, e alargam desproporcio¬ nadamente para a popa, apresentando quasi a fórma triangular ; são bastante pesados, e me¬ nos ligeiros que os tancares: muito poucas mulheres se viam trabalhando no mar: cada
  • [266] sampane tinha regularmente um homem, re¬ mando ao lio-lio ou zinga, isto é com um re¬ mo só á popa. A cidade, do logar onde lançámos ferro, ti¬ nha misera apparencia: as casas eram amon¬ toadas, irregulares, feias, e arruinadas em par¬ te, mas um tanto diversas na apparencia das do sul da China, por ser aqui o tijolo, de que são geralmente construidas, de cor avermelhada, e não cinzenta como em Macáo e Cantão. Dentre estas immundas habitações se destaca¬ vam algumas bonitas casas de europeus, sendo a mais elegante e vasita a do Consul francez. Defronte desta parte da cidade está a ilha de Ko-lon-sue, onde os Inglezes estiveram acampados no tempo da guerra : tem uma pe¬ quena mas alegre povoação, com algum arvo¬ redo e vistosos rochedos, e ha alli uma capella e um cemiterio protestante. Ao meio dia desembarcámos em Amoi, o commandante da lorcha Barruncho, o official Miranda, e eu. Dirigimo-nos a casa do Consul americano Bradle, atravez de um Jabyrintho de estreitas e sugissimas ruas do basar, seme¬ lhantes ás peiores do de Macáo. Vestuário, physionomia, e cor da população são as mes¬ mas que na província de Cantão : poucos chi¬ nas se viam mais claros, e nas poucas mulhe¬ res que vi, observei nos penteados mais apu¬ ro, e enfeites de flores. De tarde, eu e o official Miranda, fomos a casa do negociante Tai, e d’alli sahimos em pequenos cavallos chinezes, acompanha¬ dos pelo mesmo neg
  • [ 267 ] basar, cobertas em grande parte com estei¬ ras, e empachadas com infinidade de obje- ctos á venda, que a todo o momento me parecia derrubar, e que atropellaria a gen¬ te que de toda a parte surdia, e os câes e crianças que se atravessavam no caminho ; na- dadisto porém aconteceo, graças em primeiro logar ao esguio e esbranquiçado inglez que nos precedia a todo o trote, dando gritos e chico¬ tadas em quantos càes surdiam das lojas, eque ás vezes alcançavam também aos tímidos chi¬ nas, que se escapavam ou cosiam nos peque¬ nos espaços que lhes restavam, para se esqui¬ varem ao furor destes adoudados passeantes; e em segundo logar ao habito e segurança dos cavallitos que davam difficeis voltas, trotavam e galopavam sobre lages movediças e cheias de buracos, donde faziam saltar pastas de la¬ ma, e no mesmo passo subiam e desciam de- gráos com que frequentemente topavamos. Em summa era uma cavalgada verdadeiramente á ingleza e estouvada. Achámo-nos finalmente fora da cidade, caminhando do mesmo modo por difficeis ca¬ minhos e estreitos carreiros, atravez de pe¬ quenos campos de arroz e cereaes bem culti¬ vados : em certo sitio porém tivemos de nos apear, mais pela prudência dos cavallos, que não quizeram passar senão áredea, do que pe¬ la dos cavalleiros. Fomos andando com os cavallos á mão até ao pagode chamado da Bocca de tigre, e subimos com elles extensas escadarias até meia encosta de um elevado morro, formado de enor¬ mes penedos uns sobre os outros, sahindo den-
  • tre elles copadas e belas arvores, e nas cavi¬ dades e grutas, que fornam, estão collocados os altares e idolos, de taimnho regular, dourados, e que nada apresentan de notável. Tendo segurado is alimarias a troncos de arvores, continuámos mossa ascensão, que se foi tornando de mais cm mais difficil, por mal aííeicoados degráos, era naturaes, ora artifi- ciaes ou picados nas Delias, dominando suc- cessivamente maior perção dohorisonte, edes- ffuctando bellas paizajens. Cheguei ao mais alto tope do rochedo que coroa o morro, e para o qual difficilmente se sobe introduzindo os pés em pequenos buracos feitos na pedra, e só sentado se póde descer com toda a cautela: valeu porém a pena des¬ ta fadiga, augmentada pelo grande calor, a explendida vista de que gOsei, sobranceira á cidade d’Amoi, descobrindo grande parte da ilha, toda a bahia, mares e sahidas visinhas, a terra fronteira do continente, e tendo debai¬ xo dos pés enormes massas de rochedos, for¬ mando antros e cavidades temerosas. Descemos difficihnente ; tomámos os nos¬ sos cavallos, que desceram á mão com a mes¬ ma segurança e agilidade centenares de de¬ gráos, enos afastámos deste encantador Jogar, o mais bello neste genero que tenho visto. Fronteiro a este pagode ha outro deno¬ minado das Mil pedras, cuja situação também parecia magnifica, e via-se outro pintado de amarello, que dizem ser dedicado ao impera¬ dor, e prohibido ás vistas dos europeus. Da altura acima descripta fiz idéa da ex¬ tensão da cidade d’Amoi, cuja parte principal
  • [269] é um grande amontoado de casas n’uma pla¬ nície fronteira ao ancoradouro, seguem-se mais duas grandes povoações ou arrabaldes, inter- cortados de arvoredos e campos, e outro na terra firme. Calcula~se conteracidade200:000 habitantes, e toda a ilha d’Amoi uns 400:000 ; o seu principal commercio com os europeus é em algodào e opio; tudo vendido a dinheiro, pois deste ponto nenhum genero de conside¬ ração se exporta para os estrangeiros: o gran¬ de commercio é o costeiro, e para a ilha For¬ mosa, exportando-se muito assucar, que se re¬ puta ser o de melhor qualidade da China, e na verdade o bom assucar d’Amoi, eristalisado ou candi, reduzido a pó é de um brilho e bran¬ cura admiráveis. Regressando atravessámos a cidadella; grande recinto com muitas habitações, cerca¬ do de um muro arruinado, com duas portas acastelladas, e em cada uma havia duas más peças collocadas em pranchões sobre o chão, únicas que ha na tal chamada cidadella. Ao fim da tarde tínhamos concluído o nos¬ so variado e turbulento passeio, que nos pro¬ porcionou a benignidade dos socios da casa de Tai. O povo desta cidade é attencioso e agra- davel para com os europeus, que gosam da liberdade de irem a toda a parte e de fazerem casas onde lhe convém, e vão até a grande distancia para o interior, sem perigo, nem disfarce. Poucos europeus ha aqui estabe¬ lecidos, e os que existem são inglezes ou americanos. A algumas milhas para o inte¬ rior da terra firme ha uma bella Igreja hespa-
  • [270] nhola, onde reside um Bispo desta nação é alguns missionários, que são bemquislos no paiz, e vem frequentemente de Manila, don¬ de ha para este porto bastantes relações com- merciaes* Amoi esteve antigamente aberto ao com- mercio europeu, ao mesmo tempo que oporto de Cantão; mas esta permissão durou pouco, e foi restringida á ultima cidade. Esta província do Fuh-kien tem de ex¬ tensão 57:150 milhas quadradas, e perto de 15 milhões de habitantes: nella se acham os grandes districtos das plantações de chás pre¬ tos, que fornecem os mercados de Cantão e Shangai: os seus naturaes são muito activos; mas passam por serem bastante turbulentos, e dão-se em grande numero ao officio de bar¬ beiros, sahindo aos milhares para todas as pro¬ víncias da China. O Fuh-kien pelo lado occidental confina com a provincia de Kiang-si, a mais densa¬ mente povoada de todo o império; pois em 27:000 milhas quadradas contém 30:500:000 habitantes : isto é n’uma superfície menor que Portugal comprehends dez vezes a sua popu¬ lação. y • . •' Na tarde de 2Í, aproveitando o principio da vasante, largámos d’Amoi, com o pratico que se tomou aqui, ganhando 10 patacas men- saes e ração: era um velho de boa physiono- mia, que trazia um panno em roda da cabeça em forma de turbante, uso que vi em muita gente do povo. Sahimos bordejando entre as ilhas que ha pelo meio da bahia: e depois que anouteceo
  • [271] íòmo-nos guiando por uma especie de farol ou grande luz a bordo dos navios inglezes de que já fallei, estacionados em Taetan, e que di¬ zem ser signal para os compradores de opio alli irem de noite, por ser objecto de contrabando. Seguimos pelo sul de Taetan, e fomos de noite torneando a’ ilha de Quemoi-grande pela costa exterior. .-ar
  • [ 272 j CAPITULO TRIGÉSIMO SEXTO. Navegação ao longo da costa do Fiih-kien; descripção de uma lorclia. e uma noite de tormenta. Hiamos navegando no grande canal do Fuh- kien, ou da Formosa, formado entre a terra firtne e a ilha deste nome, que é dependencia da província do Fuh-kien, e muito importante pela sua grande extensão, portos, e produ- ctos: a China não tem nella dominio comple¬ to *, a parte oriental é occupada por selvagens independentes, e a parte sudoeste por pira¬ tas, ou populações ferozes, que matam todos os europeus que lhes cahem nas mãos, pelos frequentes naufrágios que tem logar nas suas praias. O vento que toda a noute soprara rijo tornou-se bastante forte, e agitou grandemen¬ te o mar. As ondas cavadas rebentavam em flor, matisando a superfície esverdeada das agoas, com uma infinidade de pontos brancos, move¬ diços, e cambiantes.
  • [273] Eu sentado a sotavento sobre a culatra de um canhão, cuja bocca de vez em quando beijava as ondas, agarrado á amurada, para resistir aos balanços e ao vento, que fazia voar a lorcha, aprazia-me em contemplar as largas depressões, o emmaranhar das ondas, e asas- peras bellesas desta scena. O espirito do homem parece ensoberbe¬ cer-se em taes situações, quando reflexiona na segurança e ousadia com que caminha sobre os abysmos dos mares, eno dominio que tem ganho neste temeroso elemento, tão livre e in¬ dómito de sua naturesa. Era na verdade bello vêr este pequeno baixel lançar-se donoso e ligeiro sobre o dorso das maiores vagas, deitando para mais de 9 mi¬ lhas por hora. De certo que mais graça e encanto ha nos movimentos de uma embarcação de vella do que nos vapores: o apparelho elevado, os pannos cheios semelhando longas asas, a re¬ gularidade do casco não quebrada pelas pro¬ tuberâncias das rodas, lhe dão quanto a mim superior bellesa sobre os seus rivaes e vence¬ dores na velocidade, principalmente vogando com vento fresco em mar agitado. A lorcha apesar de bastante mar, não mettia agoa, o que se attribue á especial con- strucção destas embarcações. Tentarei descre¬ ver esta em que vou. Tem de comprimento 70 pés, e de bocca 24, diminuindo pouco a largura até á popa.- Do convez á quilha, ou de pontal, terá 12 pés. O fundo á popa é chato; porém a 1 terço do total comprimento da lorcha tomado da popa, 18
  • 274] começa a quilha, sobeçanho ou soleira, como dizem em Macáo \ a qual progressivamente vai augmentando d« altura até á proa, for¬ mando aqui a curvado patilháo, o qual e a quilha tem de 7 a £ buracos para dar maior facilidade no virar d bordo. Demanda 9 péí d’agoa com o leme, e 6 sem elle. A proa é pouco aguda, e termina quasi em uma linha perpendicular ao mar, o que lhe dá muito fea apparencia: já algumas iorchas porém construem as proas como as es¬ cunas. Da popa pa;a a proa ha um forte de¬ clive, que nesta apresenta em differença de ní¬ vel talvez mais de um pé. A popa é redonda, alonga-se muito em curva sobre a linha d’agoa, e é separada em duas partes iguaes por urna fenda da largura de 1 pé e meio, eque avan¬ çando no convez cousa de 8 pés vai perpendi¬ cularmente terminar na agoa: nesta fenda gy- ra o leme, cuja porta é um grande paralleio- gramo, alongado umas vezes na direcção ho- risontal, outras na perpendicular, com vários cortes nas taboas, formando uma especie de xadrez, por onde a agoa passa. Este leme nào tem machos, e é simples¬ mente sustido por cabos ou bocas, que de duas pequenas traves, ou latas atravessadas no con¬ vez sobre a fenda vão prender na madre do leme, cuja porta na sua metade ou dois ter¬ ços anda abaixo do plano do fundo, e como se alonga além da popa, produz muita impressão n’agoa, o que explica a rapidez dos movimen¬ tos que communica á embarcação, principal- mente no de virar de bordo *, porque o fulcro do movimento, pela disposição da quilha e da
  • [275] mastreação, se estabelece na linha do mastro do traquete, que fica muito proximo á prôa; bem differentemente dos navios communs, nos quaes o fulcro ou eixo do movimento nesta manobra é principalmente na popa. Este leme é movido por uma grande cana ou braço, proporcionado á força que elle em¬ prega, eem cuja extremidade ha um sj sterna de cordas no estvlo dos Chinas, semelhante aodosgualdropes, que parece imperfeito , mas que os Chinas manejam excellentemente. Concebe-se que em fundo baixo sempre o leme toca primeiro, e logo a madre se incli¬ na com perigo de fazer avarias na popa, o que se evita suspendendo o leme por meio de um molinete mais ou menos grosseiro, collocado a ré da madre sobre a dita fenda. Chamam os nossos e os Chinas camecois ás duas partes que ficam assim inteiramente separadas na popa, as quaes aproveitam para paioes ou para belixes. Segue depois a cam ara, que nesta lorcha é pequena, mas bem arranjada, com dois bons camarotes, cabides d’armas, armarios, paiol, etc. etc. Da camará á antepara da prôa é o logar da carga, nesta lorcha occupado pelos manti¬ mentos e marinhagem. O apparelho consiste em dois mastros; o grande collocado a mais de metade do compri¬ mento da lorcha, contado da popa, e o do tra¬ quete muito proximo á prôa; ambos teem suas grandes vellas quadrilongas, de esteira, ou de panno, tendo a espaços ligadas horisontalmen- te varas de entena ou de bambu, que corres-
  • [276] pondem aos nossos rinzes, e sao óptimas para aproveitarem toda a força do vento: sobre a vella grande ha uma gávea, e no grupes a cos¬ tumada bqjarrona e vella d’estai, do que não usam as lorchas propriamente chinas. A’ pôpa mesmo encostado ao painel sahe um pequeno mastro, com uma vella a que cha¬ mam gata, mas é mais propriamente rnezena. "IJsam sempre levar a proa muito met tida, o que dizem dá melhor andamento* Uma das cousas mais singulares das lor¬ chas é o systema da collocaçào dos mastros, que são de ordinário de excedente madeira e de grande peso i não assentam no fundo ou sobre-quilha; mas atravessam o convez n’uma folgada enóra, e descem até 1 e meio ou 2 pés a descançar n’um forte pranchào, atravessado horisontalmente entre a coberta e o fundo, e apoiado nos topos pelas amuradas da embar¬ cação. Os mastros são amparados por quatro grossos barrotes introduzidos nos quatro lados da enóra, e que- os acompanham no convez até á altura de um homem. Por este modo nas occasiões precisas po¬ dem os mastros inclinar-se sobre a tolda, até virem, descançar na grinalda da pôpa,. o que usam fazer quando as. lorchas estando ancora¬ das preveem a vinda de temporaes ou. tufões, havendo para isso no convez uma taboajá appro- priada que se tira,, e deixa espaço para a in¬ clinação do mastro.. Esta operação é imprati¬ cável no nosso systema de construcções; mas é bem notável a habil dade com que os Chi¬ nas se servem delle, mesmo nas suas sómasde grande lote..
  • [ 277 ] São estas as feições geraes das lorchas por¬ ing uezas de Macáo, que só variam nas dimen¬ sões, sendo a Adam as tor das medianas, e de 80 toneladas. Vai armada em guerra, e guarnecida com 16 canhões; t i dç calibre i, e 2 de 6 em ro- dizio: é commandante o segundo tenente Vi¬ cente Ferreira Barruncho, immediato o guarda marinha sub-chefe, ou 2.° tenente graduado José Antonio Pereira de Miranda; de guar¬ nição o guarda marinha graduado Rodrigo Ma¬ ria da Costa Osorio, í patrão, 1 fiel, 23 ma¬ rinheiros porluguezes, 1 soldado naval, i chi¬ nas, e o pratico tomado em Amoi. Aos homens da arte apresentam as lorchas muitos defeitos de construcçào, de apparelho, e de systema de leme; mas a verdade é que para os mares e costas da China são exceden¬ tes, ainda que seja talvez possível melhoral-as sem lhes alterar as suas boas qualidades. De ordinário andam as lorchas tripuladas com muito poucos portuguezes, ás vezes 2 ou 3, e raro excedem a 6; a maior parte dos ma¬ rinheiros são chinas, que são os homens do le¬ me, e que verdadeiramente dirigem a nave¬ gação, com os práticos que se tomam princi¬ palmente d’Amoi para o norte, os quaes usam de agulhas magnéticas de construcçào chine- za, que dizem ser mui finas. Estas navega¬ ções não são guiadas pelas cartas mari Limas, nem por instrumentos astronomicos, que ape¬ nas trazem poucas lorchas, cujos patrões são inais intelligentes e cuidadosos. E’ para notar que em todo o mar da China é quasi nulla a va¬ riação da agulha, regulando entre 0o e Io.
  • [278] ’ Ao fim da tarde passou por nós uni va¬ por que vinha do norte, que correspondeo com a bandeira hespanhola a nossa que içámos, o qual se conheceo ser da casa de Jardine de Kong-kong: hiamos em frente da ilha Hae- tan, ou Altar do Mar, e realmente tem a for¬ ma de um altar. O dia esteve nublado e escuro, o vento para a noite cada vez foi soprando mais rijo, e o mar crescendo: ao anoitecer fusilou em lodos os quadrantes, e pelas 8 horas parou de repente o vento. Então começo ui um temporal em calma, dando a lorcha extraordinários e desencontra¬ dos balanços, com perigo de desarvorar, e ao virar de bordo quebrou pela muita vaga a cana do leme junto a mexa: quasi ao mesmo tem¬ po estando eu deitado no belixe, me achei de súbito alagado por um golpe d’agoa, que abrin¬ do a vigia penetrou com ímpeto no camarote, e tudo encharcou. Andei quasi nú e molhado aos tombos primeiro que podesse vestir roupa enxuta. Ha¬ via aqui uma ardentia muito forte que deixava a roupa luminosa. No entanto o vento saltou ao noroeste, trazendo agoaceiros bastante fortes : a lorcha dava cada vez mais terríveis balanços, que pa¬ reciam desconjuntal-a, ao mesmo tempo que a madre do leme batia fortemente e abalava cs camecois ; a embarcação porém mostrou bem a sua valentia nesta occasião. Em todos os quadrantes continuava a fu- silar, principahnente ao nordeste, e de um modo que cegava j o vento lambem rodava em
  • [279 j todas as direcçoes do horisonte, abonançando e cahindo de vez em quando aos recalmões: eram todos os indícios de um tufão. Grandemente enjoado, e estendido no pa¬ vimento da cam ara, ouvia em silencio o que se passava no convez; a grita dos chinas na sua estranha lingoàgem, e a vozeria dos nos¬ sos marinheiros, no meio das continuas e pe¬ rigosas manobras das velias, que se rasgaram partindo-se as escotas: de uma vez levaram um china suspenso para fora da borda, en’ou- tra o commandante hia sendo arrojado ao mar. Em sumiua o caso esteve um pouco se¬ rio, já me dispunha a ver um tufão declarado e as suas consequências, que podiam ser bem desastrosas pela posição em que nos achava- mos, rodeados de escolhos, baixos, e ilhotas, no meio de completa escuridão. Até á meia noite correo-se para o mar quanto se pôde; a esta hora tendo-se fixado um pouco o vento ao norte, virámos no bor¬ do da terra, e assim se foi passando a noite entre receios e esperanças até que raiou o al¬ mejado dia, á avista da terra na bahia King, e já com mais bonança continuando a deman¬ dai-a fomos, atravez de um labyrintho de ilhas e estreitos, fundear á 1 hora em 6 braças na vasante no porto de Shiom-ha, na bocca do norte do estreito de Hae-tan,
  • [280] O dia de S. João, o porto de ha, e sua descripção uautiea pelo segundo teneutc Mfrnmln. Este abrigo de Shiom-ha é vasto e seguro, rodeado por todos os lados de pequenas eleva¬ ções, avistando-se só ao longe altas montanhas para o norte, e apesar de continuar rijo o ven¬ to nordeste, o mar aqui estava muito socegado. Este porto ou bahia parece vir contornado na carta, mas sem nome, e nelle achamos fun¬ deada a lorcha n.° 4, entrada nesta mesma manhã com um comboio de 9 sómas, que de Ting-hoi acompanhava a Fu-chau a tomarem madeira, para d’ahi seguirem a Ningpô, segun¬ do declarou o mestre que foi chamado a bordo. Ha neste recinto quatro pequenas povoa¬ ções, e quasi todo o terreno está cultivado. De tarde, tendo cessado um pouco a chuva miuda que durou todo o dia, fui com o guarda marinha Osorio e os chinas da lorcha á povoa¬ ção que nos ficava mais próxima, denominada Shiom-ha, onde fomos mui bem acolhidos pe¬ los seus habitantes: um velho logo nos con-
  • [281] duzio a sua casa, deu-nos chá, que chamam aqui /é, e cachimbos para fumar, e o mesmo nos repetiram outros. Passeámos um pouco, e tendo colhido algumas alcachofras nos valla- dos, que alegremente descobrimos tão appro- priadamente em vespera de S. João, regres¬ sámos para bordo ’possuidos de quantas ternas recordações da patria, e da infancia aquella agreste planta nos suscitava neste sólo estran¬ geiro. Raiou o dia de S. João, triste, nublado, e soprando rijo e frio o vento do nordeste. Na precedente noite queimámos devota e classi¬ camente as alcachofras colhidas em Shiom-ha, cada um por suas tenções. De madrugada fo¬ mos examinal-as *, mas ou ellas não tem as vir¬ tudes das da nossa boa terra, ou alli são mal correspondidos os nossos affectos ; porém vão antes as culpas ás alcachofras de Shiom-ha, al¬ cachofras pagãs, que nunca ouviram cantar lou¬ vores aogloriosoS. João. Não duvidemos, em¬ bora sejam illusões, que um pensamento de amor ou de saudade, envolvido nessas singelas e poé¬ ticas praticas populares da noite cie S. João, nos fosse dirigido desde a patria a este remoto e ignorado recanto do mundo onde nos acha¬ vam os. Na antecedente noite encostado á amurada, ao som do leve bater da agoa no costado do navio, e do brando susurrar do vento, re¬ cordava docemente as scenas do meu paiz, e procurava em vão, pelos campos e povoações próximas, devisar as fogueiras, ouvir os canta¬ res, os folguedos, e escutar as invocações ás mouras encantadas nesta festejada noite. Mas,
  • [282] em logar destas scenas via as casas de Shiom-ha ornadas de luzes, e íachos divagando pela praia, e ouvia dissonantes e barbaros instrumentos, com que na aldêa festejavam os seus idolos ; podia pois dizer-se, pela coincidência daocca- siào, que: Até os Chinas no Cathai Festejam a Sào João. Como um nosso poeta diz: Até os Mouros na Mourama Festejam a Sào João. De manhã vieram fundear no porto algu¬ mas somas do comboio que estavam fora; eram de Ningpô, e tem uma fórma especial e mais aproximada á das nossas lorchas : ha nellas um homem encarregado de cada uma das vellas, que tem por obrigação içai-as no porto da par¬ tida, e arreal-as no da chegada; se occorre neste intervallo a necessidade de tal manobra, esse homem não a executa sem um sagualc ou presente do capitão da sóma, como um porco, ou cousa semelhante. Vimos durante 0 dia andarem muitas em¬ barcações pequenas á pesca de uma especie de alforrecas vermelhas, que apanhavam mui¬ to facilmente com um sacco de rede na extre¬ midade de um páo: vi depois que preparam e salgam parte delias para comer, e exportar. De tarde veio a bordo 0 velho que hontem nos acolhera em Shiom-ha e outros chinas : cor¬ reram toda a embarcação com muita curiosi¬ dade ; provaram vinho de que parece não gos¬ taram, e a final partimos, o commandante,
  • [ 283 ] ini mediato, e eu, com o bom e alegre velho para terra: levou-nos a sua casa, onde com impertinência nos fez tomar chá, fumar e acei¬ tar bolos: conduzio-nos a dois pagodes ; uin delles grande, eonde o bonzo, de miserável e feia apparencia, nos apresentou um livro em que havia varias tiras de papel vermelho, es- criptas em china, pelos visitantes do templo, e nos fez notar as assignaturas europeas de Marcos Savard, Doutor José Villate (ambos residentes em Macáo), e mais duas inintelli- giveis: nelle escrevemos também os nossos nomes. Tivemos de beber o indispensável chá, e tomar uma fumaça, continuando nosso pas¬ seio acompanhados por muitos homens e ra¬ pazes, aos quaes fomos atirando sapecas. As casas todas eram miseráveis, a gente com phy- sionomias mais claras que no sul, e vimos al¬ gumas mulheres engraçadas, ecom exquisiíos penteados, sahindo-lhes do cesto do cabello um como pé que sustinha flores na extremi- dade, ficando-lhes sobranceiras á testa, de mo¬ do que andando parecia que as flores as se¬ guiam, movendo-se de per si no ar; o que não deixava de apresentar sua originalidade e graça. Nos pequenos espaços cultivados que percorremos vimos principalmente feijào, ba¬ tatas, e milho. Ao fim da tarde regressámos para bordo, e á noite repetio-se na povoação a illuminaçào e a musica da vespera. O guarda marinha Miranda fez uma des¬ cri pç ão nautica deste porto de Shiom-ha, que transcrevo por ser o primeiro trabalho desta naturesa, ao menos nos modernos tempos,
  • [ 284] feito por uni official da nossa armada na costa da China ao norte de Macáo, e porque este official d’ahi a poucos dias perdeo a vida de- sastrosamente no serviço da nação. Além de ter em vista que este trabalho possa ser util a alguns navegadores portuguezes naquellas pa¬ ragens, apraz-me consignal-o aqui como tri¬ buto de aflecto á memória do infeliz mancebo seu author. Descripcâo nautica do porto de Shiom-ha pelo 2° tenente José Antonio Pereira de Miranda. Quem está em mar navega para O. até White-roks, logo puxa para o S. até avistar o que eu chamo corôa, e que é o monte de 1420 pés que ha na ilha de Haetan (altar do mar), e avista também um morro na terra próxima da ponta Guiú-cok-sarie, que na carta tem o nome de Coivs-fiorn (cabeça de vacca), e tem quatro Ilhas a E. Puxa para o S. até marcar o referido morro a 04N0. : então deita a 04N0., e navega até marcar ao N. o ilheo de fóra da ponta. Depois marca uma ilha que está ao NE. do Scopel na carta, ou Tane-san em china: navega-se direito a elia, echegan¬ do a distancia de meia amarra se costèa, e se continua costeando todos os ilheos que se se¬ guem até ao Scopel: passa ao N. dos tres ilhotes que o seguem, e estando muito perto do mais ao N., navega direito a uma torre que avista na terra firme, e que será rumo de
  • [285] O. Na bocca do porto ha duas restingas, dís-. tantes entre si 1 quarto de milha. Montadas as restingas, o que se conhece quando começam a apparecer tres grandes pe¬ dras n’uma quebrada na terra do N., e por marcar no N. o l.° pico de E. , se continua puxando a O., encontrando 6 braças de fundo na baixa mar, lodo duro. A agoa sobe regu¬ larmente 18 pés, e o canal tem de largura cou¬ sa de milha e meia: ahi se fundêa a abrigo de todos os ventos, pois mesmo a vaga de E. não póde alli entrar, por estar o porto fechado com ilhas e rochedos. A terra que fórina o porto, começa pela restinga do N. , logo sobe muito, e tem um pico talvez de 400 pés: na falda deste para o SO. está uma povoação que parece ter sido importante, pelas fortificações arruinadas que apresenta, mas hoje é quasi só habitada por pescadores: ha uma grande quebrada, e logo segue uma montanha mais alta que o primeiro pico, obra de milha e meia de comprido: em baixo para o Lado do porto ha diversos montí¬ culos cultivados, e sahe uma porção de terra que no praia-mar é uma peninsula que corre NE-SO. Do lado NO. tem uma povoação on¬ de disseram haver um mandarim, e se viam os telhados de um pagode, q.ue parecia bem conservado. Na extremidade desta peninsula está o ilheo que a carta marca : mais distante ha uma cordilheira que acaba no porto com uma ponta de terra muito rasa, e pelo O. delia vi nave¬ garem grandes sómas: esta ponta é muito com¬ prida, e com as. ilhas que formam o lad©; S.
  • [ 286 ] do porto, determinam um canal por onde se entra no estreito de Haetan. Pelo O. desta terra rasa ha uma grande povoação, com muito arvoredo, eonde poude perceber muitas embarcações fundeadas; jun¬ to a ella e sobre um morro redondo, que cor¬ responde a uma cordilheira que se acha mais longe, está situada a torre que é boa marca para a entrada do porto, cujo lado do sul é formado por uma grande ilha no baixa-mar, que se subdivide em outras no praia-mar, na¬ vegando os pescadores por entre os seus mor¬ ros, por ser muito rasa, e para E. tem uma povoação pequena e é cultivada, sendo para O. toda de pedra e cheia de morros. O porto no praia-mar parece muito gran¬ de, porém no baixa-mar vê-se que- não passa de um canal, de que se descobrem cousa de 3 milhas de comprido com meia de largo, e 6 braças de fundo. Quem demanda ou sahe o porto, tem montado a restinga do N. quando o l.° pico da terra do N. demora 15° NE., e a torre na terra firme a O. , e nesta posição o meio da ilha Tane-san demora a E. ; quanto á restin¬ ga do S. se está na frente delia quando 3 pedras grandes começam aapparecer, e o l.° pico demora por 23° NE., e a torre por 4.° NE. Com vento feito S. ou N. sahindo do por¬ to com proa de E., com uma arribada ou or¬ çada se safa da terra. Deve-se notar que quan¬ do a agoa enche na barra encosta para o N., e quando vasa para o S., e que não montando as restingas se vê a embarcação obrigada a
  • [287] fundear proximo ao Scopel, onde o fundo é pedra, bem como na barra. Em todo o canal até á ilha Tane-san en¬ contram-se 6 a 7 braças em meia-maré. No dia 20 da lua o praia-mar foi proxi¬ mamente ás 8 horas e 1 quarto, .pelo que jul¬ go será o estabelecimento 4 horas e 15 minu¬ tos. E’ muito inexacto, mas sempre poderá servir em caso de necessidade.
  • ( [288] CAPITULO TRIGÉSIMO OITAVO. Salt ida de $hiom-ha9 poesias por(u« gtiezas^ e curiosidade histórica sobre a Ilha de Chit-salon. Tendo-se mostrado na manhã de 26 o vento alguma cousa favoravel, começaram todas as embarcações chinas ancoradas no porto, em nu¬ mero de 14, a içarem as vellas muito vagarosa¬ mente por meio de grosseiros molinetes, acom¬ panhando este trabalho com grande vozeria ou cantilena. Pelas 9 horas suspendemos, e pôz-se em movimento toda a frota, que apresentava um formoso painel: talos se hiam ajudando, mes¬ mo a nossa lorcha, com os remos ao lio-lio ouzinga. Ao sahir da barra tornando-se o ven¬ to escasso e quasi pela proa, o comboio voltou para traz e tornou a dar fundo, operação que seguio a sua lorchacomboíante n.° 4, que nes¬ te acto nos fez suas despedidas arreando e içan¬ do varias vezes a bandeira. Nós continuámos a navegar aproveitando a agoa da vasante. A’s 4 da tarde tendo mar e vento contrario fundeámos em um reconcavo formado pela pon-
  • [289]. ta do sul da entrada de Fuchau, devisando ao oeste uma grande povoarão : sào muito pitto- rescos os contornos das montanhas, que se viam cultivadas em varias partes em sucalcos, ma¬ nando delias abundantes jorros d’agoa. A’s 11 da noite fizemo-nos devella, apro¬ veitando uma aragem do nordeste e a maré, bordejando para a terra até ás 4 da madruga¬ da, e ás 9 fundeámos em 13 brapas, á vista de White dogs, que é um grupo de pequenas ilhas, assim designadas na carta. Depois do anoitecer, quando estavamos desfructando a refrigerante brisa da noite, lem¬ brou-se o immediato que tinha uma colleeção de versos, que logo foi buscar, e rodeado pelo com mandante, o guarda-marinha e eu, come¬ çou a ler alto, á luz da bitacula, curiosas poe¬ sias dos jovens poetas modernos, pela maior parte do nosso conhecimento, e alguns de mi¬ nha relação: foi repetindo com expressão e sentimento a Liberdade e a Filha do Castel- lão, de A. Serpa; o Canto do Abencerragem e a Minha Patria, de F. Palha; o Festim de Balthasar e o Cântico, de J. de Lemos ; o Jáo e o Hyiimo, de A. F. de Castilho-, o D. Ra¬ miro, de D. João d’Azevedo; O que eu erae o que sou, de José Osorio ; e outras producçôes de Mendes Leal, Corrêa Caldeira, Zaluar, etc. etc. A poesia destas composições era realçada pela poesia da situação, e por serem assim inesperadamente ouvidas, n’uma noite tépida e serena; sob o ceo do ultimo oriente; ao brando balouçar das vagas ; como cadenciadas e applaudidas pelo mónotono susurro dos ma-
  • [290] res, que os nossos aventurosos navegadores primeiro sulcaram; e á vista confusa das re¬ moías costas do Fuh-kien, por onde nossos maiores primeiro se estabeleceram. Escutar os enthusiasticos cantares dos nos¬ sos compatriotas^ referindo-se quasi todos ás grandiosas recordações da patria ; ouvir os no¬ mes e as glorias dos Gamas, dos Aíbuquerques, dos Camões, e de outros heroes lusitanos, no meio de taes eircumstancias, produzia no es¬ pirito um doce en.levoT tão suave de sentir quão difficil de explicar; sensações intimas, harmonias drahna„, e mysteries do entendimen¬ to, que não se podem trarismittir, nem mes¬ mo sentir-lhe mais os encantos, fora destas si¬ tuações, deste ambiente de grandesa e de som¬ bria magestade que a afcna aspira sobre a vasta & melancólica solidão dos mares! Na noite de 28 passámos muito perto de uma ilha chamada Chu-saionr que os Chinas diziam significa — Ilha portugueza —, e como pouco depois fundeámos pela falta de vento*, ainda a vimos ao romper do dia 29 ; fica pró¬ xima á que tern na carta o nome de Spider, um pouco antes de Double Peak ou Li-shen: disseram os Chinas ser habitada por chrisíáos, e que o são igualmente os povos das imme- diações.. Seria bastante curioso, e util para a histo¬ ria., apurar a origem deste nome de—Ilha portugueza—. Será talvez o Jogar, hoje incer¬ to, onde se estabeleceram os Portuguezes dois an nos depois da mortandade de Liampô ou Ning-põ, de que félla Fernão Mendes Pinto, dizendo ser 100 legoas abaixo daquelle porto,.
  • [291] em Chincheu, nome que ainda hoje dão a esta parte da costa do Fuh-kien ? Este Estabelecimento durou apenas dois annos e meio, e teve desastroso fim em 1544 ou 1547 por causa da avidez e rapacidade de Ayres Botelho de Sousa, capitão-mor daquel- le porto de Chincheu e provedor dos defuntos, que provocou a vingança dos Chinas; começa¬ ram por cortar os mantimentos á gente da ter¬ ra, e por fim a vieram atacar com grande fú¬ ria, queimando 13 navios: de 500 portugue- zes só escaparam 30 com vida, sem cousa que valesse um só real, como diz o citado historia¬ dor. O vento desde madrugada refrescou, e sen- do-nos muito favoravel fomos correndo perto de terra, por entre varias ilhas e canaes, que apresentam bonitas e variadas perspectivas, algumas enseadas e abrigos muito pittorescos por entre rochedos, sendo o aspecto geral da costa todo de terra grossa ou montanhosa, apresentando por vezes bellos grupos de mon¬ tanhas, pedaços cultivados, e raras povoações ; mas tudo coberto de terra vegetal e de rastei¬ ra verdura. Lançámos ferro de noite no an¬ coradouro formado pelas Ilhas de Mia-ow, Gaug-pin, San-pwan, e Tong-tau, na bahia de Wan-chow. m-
  • [ 292 ] Um tristlssisaao ittp*. jierse^iiSç."» a um pirata^ c chegada á Ilha de Chussan. Na madrugada de 30 de Junho levantámos ferro, eaosahir do ancoradouro vimos fundea¬ das algumas sómas, duas lorchas chinas arti¬ lhadas, e inais ao longe uma lorcha portugue- za. As lorchas chinas tornaram-se suspeitas, e o commandante quiz fazel-as registar, man¬ dando muito perto delias fundear a Adamastor, que foi talvez o primeiro erro que commet- teo ; porque se elias fossem piratas ficava-nos toda a superioridade conservando-nos á vella, o que o vento e mar bem permittiam. Man¬ dou em seguida o immediate na pequena cha¬ in ou canoa, unica que tinha a nossa lorcha, para examinar as embarcações chinezas, e eu o acompanhei desta vez voluntariamente para satisfazer á minha curiosidade. Uma das lor¬ chas apresentou papeis em chinez das autlio- ridades de Hong-kong, e ainda que se não pôde verificar se eram verdadeiros e se per¬ tenciam á embarcação, como taes se reputa-
  • [293] rain, e passámos á outra lorcha, donde tinham mostrado uma bandeira ingleza, mas que não içaram ; nella achámos no meio da tripula¬ ção de uns 40 chinas um marinheiro inglez, que declarou ser o patrão da lorcha, e nos apresentou os papeis da embarcação, que se reduziam acartas do Consul inglez em (Cantão e do seu delegado em Vampú, das quaes se colligia que se chamava Sarah, que não esta¬ va regular, nem tinha direito a usar da ban¬ deira ingleza. Regressámos para a Adamastor trazendo o dito marinheiro, que declarou chamar-se Fen- /o?«, e os taes papeis, os quaes traduzi de no¬ vo para conhecimento do commandante. O Fenton estava assustadissimo-, tremia de me¬ do, e declarou então não ser o verdadeiro pa¬ trão ou mestre da lorcha, que era um china, e que elle apenas servia como simples mari¬ nheiro. Estas circumstancias e outras, como o apparelho da lorcha etc., quasi evidenciavam que era um pirata, e o commandante resolveo que o inglez ficasse na Adamastcr, e que a Sarah nos acompanhasse para Shangai; mas imprudentemente mandou ir a bordo delia o Fenton para trazer a sua roupa, e mostrar o china verdadeiro patrão da lorcha : ao mesmo tempo ordenou ao immediate) que voltasse á Sarah para lhe dar busca rigorosa, e trazer o china patrão, eme pedio desta vez que acom¬ panhasse o mesmo immediato para lhe servir de interprete com o inglez, bem como foi o mestre da nossa lorcha para servir de interpre¬ te para com os chinas. Fomos pois os tres na chata com cinco marinheiros desarmados.
  • [294] Chegados a bordo da Sarah apresentou-se um china, rapaz de 16 ou 18 annos, que de¬ clarou ser o mestre da lorcha, faltando comigo em soffrivel inglez, e dizendo-lhe eu da parte do oíFicial que nos havia acompanhar para a Adamastor, respondeo resolutamente que não, com tal firmesa que me maravilhou n’um chi¬ na, e tendo eu transmittido esta resposta ao official, este me disse pois ha de ir para den¬ tro da chata ainda que seja arrastado. No entanto tres dos nossos marinheiros revolviam p porão e todos os logares da lorcha, e acha¬ ram varias armas, panellas de fogo, certos mix- 1 cs preparados para queimar as vellas, redes de abordar, etc., tudo petrechos para a pira« taria. A lorcha tinha algumas peças de peque¬ no calibre, e só uma de 12 ou 18 mal colloca-* da em rodisio. Eu prevendo que haveria confusão no momento do embirque para a chata, fui des¬ cendo para esta c>m todo o vagar. O imme¬ diate encaminhou-se para ré, para onde se ti¬ nha aíFasiadó o raxiz china, corn o qual con¬ tinuou a foliar poi meio do patrão da nossa ku> cha : estava-os eu observando em pé na chata quando vi ooífipia agarrar pelo cachaço o dito rapaz, e empurral-o fortemente para diante, co¬ mo querendo pbrgaL-o a vir para achata. Ao verem isto os chiras, que estavam no convez acocorados a comer arroz, alvorotam-se, gri¬ tam, ameaçam, ; principiam a arregaçar as mangas das cabais, lançam cio mar as tigellas em que comiam,e correm para a popa: no meio desta confuso eu vi ainda o guarda-ma¬ rinha Miranda levxr as mãos aos copos da es-
  • [295] pacta, da qual já não pôde servir-se; porqUe no mesmo momento, cercado de todas as par¬ tes pelos chinas, lhe cravaram um taifó ou es¬ pada no peito, o que eu não cheguei a vêr, pois no mesmo instante sentia os primeiros golpes na cabeça com um chuço ou lança, de ferro em meia-lua, que me derrubaram sobre o paneiro da chata, e que foram seguidos de mais lançadas, ferindo-me no braço direito, e na espadoa esquerda. No meio do atordoa¬ mento em que fiquei ouvi distinctamente o primeiro tiro da nossa lorcha, que poucos mi¬ nutos tardou, o qual pela proximidade em que foi disparado, e por eu me achar entre as duas lorchas, me produzio um forte choque, que me restituio os sentidos. Quando desci para a chata estavam nel- la dois marinheiros, que se .lançaram ao mar apenas começou a desordem, e o mesmo fize¬ ram os outros tres e o mestre que estavam dentro da lorcha ; porém dois defies não sa¬ biam nadar, e vieram agarrar-se á borda da chata, onde os chinas os perseguiram ás lan¬ çadas , e os feriram ligeiramente: mas co- mo fugiram todos da amurada com o tiro da Adamastor, estes dois marinheiros poderam então cortar a bóça ou corda que prendia a chata á lorcha, e saltando para dentro pega¬ ram nos remos e logo nos affastamos, indo eu já sentado a governar ao leme \ mas com todo o fato encharcado no sangue que abundante¬ mente me corria das feridas da cabeça. Os dois marinheiros, que salvando a sua vida tam¬ bém salvaram a minha, chamavam-se Pedro José Corrêa e Manoel d’Oliveira.
  • [296] Como visseios os outros marinheiros e o mestre nadandonas proximidades, tentando em vão chegar ; Adamastor, os fomos reco¬ lher debaixo de Igum fogo de kaitokas ou fu¬ zilaria dos china; conseguimos salvar dois : o mestre, que a crrente havia affastado mais, neste intervalloafundou-se, desapparecendo para sempre, e > terceiro marinheiro fomos buscal-o á outra orcha china, onde amigavel¬ mente o haviam recolhido, mão annuindo ás incitações dos pratas que a convidavam para nos fazer fogo. Fialmente passados mais de 20 minutos nestes acidentes abordámos á Ada- mastor, onde quisi milagrosamente nos achᬠmos a salvo. No entanto> fo2;o de baila e metralha da V-/ nossa lorcha nã< tinha cessado, e ao qual o pirata mão resporlia, tratando só de largar a amarra e de içaras vellas para fugir: iguaes manobras se iazim na Adamastor; mas o pi¬ rata conseguio fimeiro pòr-se a caminho, e ainda que com paca demora o seguimos, co¬ mo tinha melhor adamento foi logo ganhando distancia sobre ns, e breve se pôz fóra do al¬ cance da nossa riicula artilheria de 4, e jáde longe nos fez umliro com o seu rodizio, cuja baila nos zunio prto da proa. A caça come-: çou pelas 8 horase continuou até ás 4 da tar¬ de ; então já o prata levava as vellas alaga-, das, e o commanante julgando inútil conti¬ nuar retrocedeo jxra o mesmo logar que pre- sencjara as triste occorrencias da manhã, o qual demorava pos 28° de latitude e 12í°de longitude leste de Greenwich, ficando pouco ao norte de Ouen-tcou, na costa da província dq Tche-kiang.
  • [297] Apenas chegado a bordo me recolhi a um dos camecois, a mim proprio lavei a ca¬ beça com agoa iria, procurando do modo pos¬ sível fazer estancar o sangue, que havia per¬ dido e hia perdendo em grande quantidade: só depois que>o fogo diminuio é que pude ser curado pelo escrevente da lorcha, que tinha alguma pratica de enfermeiro. E’ facil de imaginar as differentes impres¬ sões que então me agitavam, o sentimento pro¬ fundo das duas desgraçadas mortes que pre¬ senciara, o insulto que soffria a bandeira por- tugueza, a falta de prompta vingança na lor¬ cha pirata, e a incertesa da gravidade e con¬ sequências das minhas feridas. A tudo isto se juntava ver os erros que se haviam commetti- do, e a confusão que reinava a bordo na oc- casião do fogo : os nossos marinheiros mostra¬ ram-se bravos, como o são geralmente; mas a falta de disciplina e de exercícios era bem manifesta: gritavam, corriam, faziam tiros, sem a ordem e sangue frio que faz aproveitar a coragem e a valentia: a maior parte dos 32 tires que se dispararam não foram aproveita¬ dos *, o reparo do rodisio da proa desfez-se ao primeiro tiro; no da popa quebrou-se logo a retranca; todos os mais reparos tiveram ava¬ ria; despegaram-se algumas taboas da amura¬ da; deixaram pegar fogo a dois cartuxos; e acharam-se depois peças com a baila no fundo. Estas miúdas e exãctas circumstancias da¬ rão idéa aos homens da arte de como hia pre¬ parada a lorcha de guerra Adamastor. Na ver¬ dade a nenhum respeito hia este navio appro- priado para a commissão a que se destinava,
  • [298] e já fora bem pouco acertada a escolha delle quando o governo de Macáo o afretou, pre¬ ferindo-o a lorchas de maior lote e com artí- lheria de superior calibre. O 2.° tenente de marinha José Ántonio Pereira de IVliranda, era um mancebo de 23 annos, filho de um lavrador no Ribatéjo. De¬ pois do curso da sua arma, terminado em 1845, andou sempre embarcado successivamente na chai-rua Princeza Real, no brigue Mondego, no vapor Infante D. Luiz, e na corveta D. Joào Primeiro, com a reputação de intelligen- te e caprichoso no desempenho de seus deve¬ res, dando esperanças de vir a ser um distincto official da nossa Armada; mas sendo digno de melhor sorte acabou tão prematuramente e sem gloria ás mãos de assassinos, talvez provoca¬ dos pelo seu pundonor e arrojo em querer cum¬ prir as ordens que recebera, sem talvez atten- der á prudência que a occasião exigia. O mestre da lorcha era um bom homem, filho de Macáo, onde deixou uma infeliz viuva e filhos: chamava-se Rufíno Gordo, eera so¬ brinho directo do celebre litterato e académico Monsenhor Gordo, bem conhecido em Portu¬ gal pelos homens de letras no principio deste século. Ambos estes portuguezes foram vidimus no serviço da sua patria, e lá ficaram sepulta¬ dos nos abysmos dos mares bem pouco conhe¬ cidos de Ouen-tchou. Deos se amercêe delles em outro mundo melhor, já que neste nem ao menos tiveram uma sepultura christã. No l.° de Julho recolheo-se o ferro que se tinha largado com boia, bem como outro
  • [299] ferro com 30 braças de corrente, que deixara o pirata. Achava-se neste Jogar a lorchan.°6, que estava guardando pescadores ganhando 400 pa¬ tacas mensaes. Fizemo-nos á vella com sudoeste fresco, e pelas 2 horas da tarde fundeámos perto da ilha Taow-pung, n’uma estreita passagem. Logo nesta mesma tarde levantei-me com custo, e fez-me o escrevente Durào o segundo e mais completo curativo das feridas, desco¬ brindo na ca beça além das duas maiores, duas ou tres muito pequenas como picadas. Os pobres marinheiros bastante me capti- varam, quando nesta tarde sabendo que eu me havia levantado, e que parecia estar livre de perigo, pediram ao commandante para virem ver-me á camara, e darem-me os parabéns, o que aquelle lhes concedeo, e eu lhes agrade¬ ci ; presando o singelo interesse que me mos¬ travam aquelles rudes corações, que apenas havia alguns dias me conheciam, e fazendo- lhes distribuir um quartilho de vinho a cada um, novos cumprimentos repetiram, e se foram muito contentes. Também aqui terá logar declarar os as¬ síduos cuidados e desvelos que me prodigali- sou o commandante, a cujos olhos mais de uma vez acudiram lagrimas ao contar o perigo em que me vio, ou por enternecimento ao ver as progressivas melhoras que eu experi¬ mentava. Estas demonstrações em momentos que se não podem fingir, me patentearam a sua boa alma, e penhoraram a minha gratidão, da
  • [ 300 ] qual sou lambem devedor ao guarda-marinha Osorio. Ao romper do dia 2 levantámos ferro com tempo muito bonançoso, passámos por entre as ilhas de Gubock e Chicok, e mais acima na embocadura do rio Tai-chow, viram-se muitas somas fundeadas, e ao anoitecer dê¬ mos fundo perto da ilha Gutau-mun. Repeti o curativo das feridas, que feliz¬ mente apresentavam boa apparencia, mostran¬ do indícios de nào criar, e de se ir fechando; desvanecendo-se o receio que me occorrera de estarem envenenadas as armas chinas, e lam¬ bem o de me sobrevir febre, da qual só senti ligeiro aballo. A’ meia ndie nos fizemos de vella, mas tendo falhado o ento de novo se fundeou, e só pelas 4 da mmhá continuámos viagem por entre um labvrirtho de ilhas que nào vem na carta, e em gerd de mais bonito aspecto do que aqudias que até aqui tínhamos visto ; ver¬ dejantes, cultivadas, e corn algum arvoredo, circumsíancias que foram augment ando nas proximidades de Sinpu, povoação que apre¬ sentava uma perspectiva arrebatadora: a ci¬ dade parecia pequena, porém tinha varias ca¬ sas, e pagodes lindam feri te collocados pelas en¬ costas e no meio de arvores havia grande mo¬ vimento na população, parecendo que era dia de festejo, vendo-se homens e mulheres mui¬ to bem vestidas,. caminhando ern longas filas, ou sentados debaixo das arvores: no porto ha¬ via bastantes embarcações muito embandeira¬ das, e entre ellas vimos a lorcha n.° 45. Pa¬ recia que navegavamos no meio de, um lago
  • [301] ou de um tanque, por todos os lados cercado de formosas colinas, cultivadas em sucalcosaté ao cume, com arvoredo e matto forte pelas quebradas, apresentando um agradavel matiz de diíferentes cores de verdura : das agoas sur- giam pequenas ilhotas, pouco elevadas, culti¬ vada em todas a coroa de terra vegetal, que era como contida n’uma cinta de rochas, se¬ melhando grandes vasos artificiaes sobre as ondas. Em summa Shipú é o local maispitto- resco e original que temos visto nesta costa: a saliida para leste que logo demandámos é muito diíficultosa, e estreitada entre escarpa¬ dos rochedos, fazendo a agoa vários e rápidos redemoinhos, que só podémos vencer pela muita pratica e pericia dos chinas. Na manhã de 4 passámos pelo canal de Foto, e avistámos pelas 2 da tarde a ilha do Chussan, a maior do archipelago deste nome; quasi que só avançavamos com a corrente, pois o vento era excessivamente fraco, e ten¬ do-se tornado contrario, fundeámos proximos á ponta sul de Kitou, e o mesmo fizeram jun¬ to a nós varias somas, e um taumão, especie de lorcha china, que quasi sempre nos seguio desde Hong-kong. No dia seguinte viemos fundear em frente da povoação de Chussan, que na carta tem o nome de Tão-tou, e Ting-hae. No meio do canal Mervins, encontrámos a lorcha n.° 21, que hia comboiando 8 sómas para Vancháo, e neste porto de Chussan es¬ tava a lorcha n.° 1, cujo mestre veio abordo, e disse que viera de Ningpô com cargae com¬ boio por 200 patacas mensaes, eque hia com
  • [302] outro comboio para Hang-cheu-fú: aqui lhe offereciam 400 patacas mensaes para guardai pescadores. Dos chinas que vieram a bordo um queria saber se esta lorcha se fretava, pa¬ recendo que havia aqui falta delias. Nestes dois ou tres mezes porém é que falham mais os serviços para as lorchas, porque os chinas pouco navegam com medo dos tufões, e por isso varias tinham ido para Macáo. No por¬ to achavam-se mais de 100 somas, entre ellas 10 de mandarins, ou de guerra. O ancoradouro é espaçoso e abrigado por todos os lados por diversas ilhas. Toda a po¬ voação fica muito baixa; para o lado do mar, parece que para a defender das agoas, tem uma especie de vallado ern escarpa muito ex¬ tenso, e de espaço em espaço com aberturas que semelham canhoneiras. Dos chinas que vieram a bordo ver a lor¬ cha, um fallava alguma cousa o inglez, e ou¬ tro soflrivelmente o portuguez : eram dados e agradaveis, como dizem ser toda a gente desta terra.
  • [303] CAPITULO QUADRAGÉSIMO. A cidade de \inaii
  • [304] ires séculos que os Portuguezes habitaram em Chinghae, na embocadura do rio, conservam- se todavia alguns vestígios dos seus trabalhos. O principal e uma fortalesa da fórma de um polygno irregular, sobre o morro que está á direita e ao norte da foz, a qual está hoje trans¬ formada em pagode: dizem os naturaes que aquella fortalesa é obra dos antigos Portugue¬ zes, e é quasi evidente que assim seja, pela fórma da dita fortalesa, que contém ângulos salientes, reintrantes, baluartes, e couraça. Existem ígualmente algumas pontes de fórma ordinaria, todas de cantaria, e n’algu¬ mas delias ainda se percebem letras romanas ; porém já illegiveis. O terreno em que está hoje a Igreja fran- eeza5 dentro da cidade, é o mesmo onde outr’ora estava edificada a Igreja portugueza, segundo aopiniào do padre IJanincourt, Vigário Apos- iolico alli residente, e a tradição dos christãos chinas: além da dita Igreja^ os Portuguezes tinham outra em a sua povoação de Chinghae. As embarcações costeiras e de pesca, que excedem ao numero de 3:000, conservam ain¬ da o antigo apparelho portuguez, e são as úni¬ cas que difiérem de todas as embarcações chi- nezas da costa da China. Sendo o porto de Ningpô, um dos prin- cipaes do commercio chinez, e hoje aberto ao dos estrangeiros, tem em frente e a léste o ri¬ co archipelago de Chussan, por onde de ordi¬ nário estão acoitados os piratas chinas para atacar os navios, e apoderar-se dos com¬ boios que vem dos outros portos, roubando não sómente as cargas importantes, mas tam-
  • [305] bem capturando geralmente os capitães e car¬ regadores, afim de negociar o seu resgate por avultadas sommas. Esta interrupção do commercio, e as con¬ sideráveis perdas que se seguiam, obrigou os coinmerciantes a representarem aos mandarins ou authoridades do paiz, que elles se viam na necessidade de usar da protecção dos chris- tàos, seus antigos conterrâneos, para guardar seus comboios contra os piratas. Os manda¬ rins se nào os authorisaram para a admissão das lorchas portuguezas, ao menos as teem to¬ lerado desde então, sendo deste modo que co¬ meçou este importante trafico, e por fim, re¬ conhecida a vantagem das lorchas para a pro¬ tecção do commercio, os mesmos mandarins do mar se resolveram a reforçar as suas pró¬ prias esquadras com as lorchas portuguezas, pagando avultada somina, e empregando ás ve¬ zes de 10 a 12 embarcações destas no seu ser¬ viço. • Foi muito ílorecente o nosso antigo Esta¬ belecimento de Ningpô. Fernão Mendes Pin¬ to refere nas suas Peregrinações que tinha 3:000 visinhos, dos quaes 1:200 eram portu- guezes, e que fazia importante commercio com o Japão, dobrando-se o dinheiro tres e quatro vezes em qualquer fazenda que para lá se le¬ vava : havia ouvidor, juizes, camara, e vario3 officios públicos; dois hospitaes e casa de mi¬ sericórdia, onde se despendiam cada anno mais de 30:000 cruzados, e a camara tinha 6:000 de renda r dizia-se geralmente que era a mais no¬ bre, rica, e abastada povoação que do seu ta¬ manho havia em toda a Asia, e era chamada 20
  • nos documentos públicos — muito nobre c sem¬ pre leal cidade de Liampô por el-rei nosso senhor. Um dos moradores, chamado Lançar o te Pereira, para haver alguns mil cruzados que confiara a chinas de pouco credito, commetteo violências ri’uma aldêa visinha, donde se seguio uma terrível vingança, cahindo os Chinas com 60:000 homens sobre a povoação, que em cin¬ co horas ficou arrasada, segundo conta Fernão Mendes Pinto como testemunha de vista, com morte de 12:000 christãos, entrando 800 por- tuguezes, todos queimados vivos em 3o náos e 42 juncos. Isto aconteceo em 1542 segundo Pinto, ou cm 1545 segundo outros. Depois deste grande desastre é que os Portuguezes estiveram estabelecidos em Chincheu, como vai dito n’outra! parte. A tradição dos Chinas e os vestmos ainda •* # o hoje existentes da residência dos Portuguezes em Ningpô, confirmam as noticias que nos transmittio Fernão Mendes, postas em duvida mesmo entre nós, e rehabilitam nesta parte a verdade das suas narrações, reconhecida mo- dernamenle por muitos cscriptores e viajantes estrangeiros, entre os cpiaes está gosando da merecida reputação este nosso insigneaventu- reiro e histojiador. Ningpô é uma das cidades de primeira classe, ou/íís, da província do Chekiang, que conta ao todo 89 cidades, e muitas povoações pequenas, contendo 26:300:000 almas, n’uina área igual a duas vezes o reino da Dinamarca. Ningpô é o porto principal da província, e di¬ zem ter uns 300:000 habitantes: a sua capi-
  • [307] tal é a rica cidade de Hancheu, cuja popula¬ ção dizem iguala á de Pekim, enella termina o famoso canal imperial que communica estas duas cidades, e outras muitas intermédias no espaço de 200 legoas, continuando a corninu- nicação fluvial d’alli até Cantão, pelos rios in¬ teriores. 4
  • [308] A ilEaa tie Clatissase, e partida para §Iiangai. O máo tempo nos demorou em Chussan; ea G vieram a bordo mais chinas e barbeiros, que no dia antecedente já tinham apparecido para exercitar o seu officio. Esta classe é numerosíssima na China, e quasi toda composta de naturaes da província do Fuh-kien, que por isso é chamada dos bar¬ beiros ; que andam pelas ruas com a sua loja completa ás costas, trazendo banco paraofre- guez, lume, agoa quente, e todos os mais utensílios da sua profissão; não lhes póde tiri¬ tar trabalho n’uma nação onde todos os do ge- nero masculino rapam diariamente a cabeça, quasi desde que nascem. A 7 com a maré e uma pequena aragem do sudeste fizemos de vella, seguindo-nos 25 sómas, e o taumâo de Macáo, para aproveita¬ rem a companhia da lorcha : fazia bonita vista esta pequena armada, navegando muito junta, e quasi tocando-se algumas embarcações, no meio de grande vozeria dos chinas ao faze-
  • [ 309 ] rem as suas manobras. Assim fomos até que saltou o vento ao noroeste fresco, trovejando para o sul: as sómas e o taumào logo arriba¬ ram, e d’abi a pouco fizemos o mesmo, tor¬ nando a fundear pouco distantes do logar don¬ de partíramos. Na manhã de 8 tendo melhorado o tem¬ po, cedi ao desejo de ir a terra, eme acompa¬ nhou o guarda-marinha: um china que nos guiava para a capella catholica nos conduzio equivocadamente a casa do inglez Frederik Gough, missionário protestante da Igreja An¬ glicana, que nos acolheo um pouco embara¬ çado, mas muito cordialmente, e se ofTereceo com bondade para nos acompanhar á capella que procurávamos No caminho entrámos n’um pagode, que achei curioso por conter dois longos balcões com uma especie dos nossos presepios, onde se representava em bem trabalhadas figuras de differentes tamanhos, os diversos juisos e castigos do inferno da religião de Budha; ha¬ via corpos a pesar, outros esquartejados, met- tidos em fornos, em lagos de sangue, etc. : para o tal inferno representava-se a entrada por uma ponte, donde uns como diabos dei- íavam os corpos ao rio, e sahia-se, depois de uma enfiada de juízes e de tormentos, por ou¬ tra ponte que dava entrada para o Ceo, se¬ guindo diziam os chinas, que nos rodeavam, ao inglez que isto nos explicava. Este pagode fica n’uma elevação donde segosa bonita vista sobre campos extensos e muito planos, que vão terminar na raiz das montanhas, todos cheios de viçosas plantações de arroz, e muito
  • [310] bem cultivados, tendo por meio casas e arvo¬ redo, que semelhavam as nossas granjas e ca- saes: as encostas das montanhas são lambem na maior parle cultivadas. Descemos para a povoação, extramuros da cidade, e nesta penetrámos por uma gran¬ de porta de cantari# ^ é toda cercada de boa muralha, e a atravessámos até oulra porta cio lado do norte, perto da qual e a capelia chris- tá, onde nos deixou o bom inglez, que pelo caminho foi distribuindo folhetos em chinez, que me disse comerem os princípios geraesdo Chrstianismo : parece porém que não fazia por aqui nenhuns proselytes, como em geral suo* cede a todos os missionários protestantes na China. Entrámos por um pequeno jardim, na maior parle coberto com uma bonita parreira bem carregada de cachos, e que servia como de virente alpendre á porta da capelia, onde vimos um padre china, que com muito agrado nosfallou em bomfrancez, enos conduzio pri¬ meiro a um quarto da sua casa para descan- çarmos. Soube então que não havia actual- mentenailha padre algum europeu, e que este missionário se chamava François Fan, que tinha ido ainda novo para França com rnais tres jovens chinas de Cantão, e que em Paris estivera dois annos a educar, donde voltou, e esteve em Macáo algum tempo ha cousa de 15 annos. Depois de algum descanço, e reanimado com alguns tragos de puro Bordéos que nos offereceo, nos levou o padre Fan a sua capel¬ ia, pequena mas muito aceada, e cujos orna- /
  • [311} mentos eram parte no gosto chinez, parte no gosto europeu. Ajoelhado perante um retábulo de Jesus Christo, neste singelo templo, no centro de um paiz pagão, e a tão grande dis¬ tancia da minha patria, ccmmovklo dirigi ao Senhor minhas orações. Depois dos felizes tem¬ pos da infancia, e da innocencia, talvez nun¬ ca orei a Decs com tanto fervor, e tâo do fun¬ do d’alma, como nesta ocçasião; rendendo- lhe graças por me haver salvado do imminen- te perigo que ultimamente correra, e pela fe- Lcidade e prompíidao com que me hia resta¬ belecendo das feridas recebidas. Sinto que o momento de um grande pe¬ rigo, em que se vê a morte como certa, col- locando-nos ás portas da eternidade, nos deixa depois, se a Providencia delíe nos salva, al¬ guns g[feitos dessa aproximação á futura vida. O espirito sente-se mais frequentemente re¬ conduzido para Deos, e para a Religião : os nossos senfimentos e disposições como que me¬ lhoram, e aproveitam alguma cousa da util advertência sobre a fragilidade desta vida, e do quanto ella póde estar bem próxima do seu fim quando menos o pensamos. Colhi do padre Fan algumas informações do paiz. Esta ilha tem 51 milhas e meia de circumferencia, com o máximo cumprimento de 21, e de largura 10. A capital Tinghae é cercada de muros, e tem 2 milhas deçircum- ferencia, com quatro portas formando ângulos rectos, nos quatro pontos cardeaes: a altura dos muros é quasi de 15 pés, e teem em rodá um fosso com 3 pés de fundo e 33 de largo: os habitantes sobem a 400:000, que geralmente
  • [312] vivem do arroz, fructos que cultivam, e de peixe, unico producto de cominercio externo, secco ou salgado; também exportam sai: fa¬ zem-se grandes pescarias, que chegam a em¬ pregar 20:000 pessoas. A gente é de muito boa indole e amiga dos europeus, que entre elles vivem e percorrem a ilha inteira com to¬ da a segurança, como também me affirmou o parlre Gough, do que elle mesmo era o exem¬ plo residindo em uma casa isolada no meio do campo: ha em toda ella sete capellas catholi- cas, mas só servidas pelo padre Fan, e outro também china, que as visitam e nellas se de¬ moram alternadamente : contam 200 christaos e uns 100 cathecumenos, e são perfeitamente tolerados pelo povo e pelos mandarins. Esta Missão estabelecida, como dependencia da de Ningpô, haverá só 10 annos não tem soffrido perseguição nem vexações algumas, e segundo dizia o padre Fan já tem adquirido alguns bens por doações dos christaos, que todos são re¬ centes. Como me achasse ainda um pouco des- íallecido e fatigado, mandei vir cadeiras de conducção, e nellas regressámos pelo meio da cidade até ao embarque : as ruas são mais acea- das e largas do que as que tinha até aqui vis¬ to em povoações chinas, é as casas e lojas tem melhor aspecto, mesmo no basar. A côr dos habitantes aproxima-se da dos europeus meri- dionaes ; poucas mulheres vi, porém algumas engraçadas. A muralha ao longo da praia, e o para¬ peito ou vallado de terra com aberturas ou ca¬ nhoneiras, seria uma excellente bateria rasan-
  • [313] le, se fora guarnecida com bons canhões ; po¬ rém é singular que não haja um unico nesta cidade, nem nos fortes dos arredores, cujos muros em geral estão bem conservados, ao que parecia de longe. Os Inglezes retiveram esta ilha dois an- nos em seu poder, como refens para o paga¬ mento das indemnisações de guerra, e fizeram um edifício para hospital, que bem se distin¬ gue pelo estylo europeu, eque está bem con¬ servado, servindo hoje de alfandega china. E’ natural que se os Inglezes tivessem escolhido esta ilha em logar de Hong-kong, ella seria hoje um grande emporio mercantil: a sua situação é magnifica •, pois se acha na bocca de todos os grandes rios que penetram no interior do império, e quasi no centro do seu extenso litoral, n’um ponto muito proprio para escala de navios, e para troca de pro- ductos. Apenas dista algumas horas de via¬ gem nas boas marés da commercial ciaade de Ningpô. Na manhã de 9 veio a bordo o padre Fan visitar-nos, acompanhado com dois christãos chinas. O cornmandante os acolheo civilmen¬ te, fel-os descer á camara, e tomar vinho e agoa de soda; maravilharam-se de vêr saltar a rolha das garrafas desta agoa, que lhe era des¬ conhecida. Conversámos longamente, e fallan- do dos bellos exercites da Europa, sobre as mi¬ nhas reflexões do que poderia ser a China se uma vez adoptasse a disciplina e artes bellicas desta parte do mundo, disse singelamente o padre Fan que Deos não lho permittia, e con¬ servava a sua nação nesta cegueira, por serem
  • [314] pagãos 5 pois se os Chinas tivessem a polícia europeia, poderiam ser muito prejudiciaes á christandade, eá existência de muitas nações: juiso que me pareceo bem exacto. Com eífeito parece providencial que esta immensa aggregação de homens adiantados a muitos respeitos na sua civilisação, só se con¬ servem principalmente afrazados na arte da guerra, não por inhabilidade, mas por causa das suas preoccupações. Um moderno escri- ptor chinez, Kiamiv discorrendo sobre a su¬ perioridade das armas e dos navios europeus, diz que se o governo quizesse, e o perm it tis- sem os preconceito^ populares, a China teria dentro em seis mezcs armas, iiáos, e vapores iguaes aos da Europa. Talvez não fosse tào depressa ; mas é certo que se no correr do tem¬ po se adopíarcm taes in novações no império, e se á semelhança dos Russos do reinado de Pedro I, os Chinas viessem a adquirir espirito guerreiro, então este singular povo exercitaria provavelmente no mundo uma grande influen¬ cia, eem especial nos destinos da humanidade na Asia. Com estas e outras considerações entretivemos algumas horas de conversação. De tarde levantámos ancora: foi vistosa a nossa sahida do porto precedidos e seguidos de algumas 40 somas, que se entregavam ta¬ citamente á protecçáo desta lorcha, contra os muites piratas que infestam este archipelago: fomos navegando sempre com vento escaço, vendo atéaoíim do dia bonitos logares e sitios cultivados; então fundeámos ao sul de Chin- Rarboar, á vista de uma fortalesa quadrada; mas desguarnecida : assomas todas fundearam no mesmo sitio.
  • [315] Navegação até Shangai, © aiotlcia* desta ©idade. Pela meia noite de 10 aproveitando a maré e o vento seguimos viagem : a manhã estava serena e agradavel, cera mudo de vêrolargo comboio das sómas circundando alorcha, com as vellas todas enfunadas e o vento em po¬ pa, Todo o dia fomos navegando desta form a, atravessando a larga baliia de Hang-chèu-fú, e para a tarde perdemos a (erra de vista em todo o horisonte. Esta bahia de Hang-cheu-fú é de muito perigosa navegação, sendo imprudência tental-a de noite. O vapor inglez Phlegeton quando foi reconhecer, no tempo da guerra, o rio Tsientang que desemboca nesla bahia, encon¬ trou uma corrente de maré de 11 milhas e meia por hora, achando-se a 19 milhas de distancia das terras altas de Chapú, e a 2 da margem: no fim das agoas mortas a corrente era de 5 milhas e meia. Este vapor perdeo uma ancora e um cabo, e depois com toda a força da ma- china, coberto de vellas, e tendo um ferro no
  • [316] fundo, ainda assim derivava. Estas circumstan- cias leem-se na — Guia de navegação das cos¬ ias da China, traduzida por Durand, Paris 1846—, bem util para quem percorre estes mares. Na madrugada de 11 fundeámos entre as duas pontas da entrada da ribeira de Shangai, ou rio YYussung, vendo ao norte a povoação deste nome. Este rio se lança no braço do sul da desembocadura do Yang-tse-kiang. Pelas 8 horas ajudados da corrente principiámos a su¬ bir o rio, com vento contrario: vários navios europeus estavam ancorados em Wussung, e alguns eram depositos de opio: as somas que nos seguiram de CJmssan, e que ainda aqui não nos largaram, embaraçando-se umas ás ou¬ tras e á nossa manobra, pareceram varias ve¬ zes que hiam a cahir sobre a lorcha; mas a singular pericia dos chinas nestes movimentos, fez com que todos fossemos avançando sem ac- cidente alburn, semelhando esta frota com as mais embarcações que cruzavam o rio, um bando de grandes peixes que se moviam em- baralhadainente, mas esquivando-se uns aos ou¬ tros quasi no momento de se tocarem. Nas duas pontas da entrada de Wussung ha fortificações: na de léste vê-se uma ©spe¬ cie de reducto com muros altos, porém emrui- na, e n’uma plataforma baixa e a descoberto viam-se 8 canhões que pareciam de grosso ca¬ libre: na de oeste corria ao longo da margem em considerável distancia um vallado de terra, com muitas aberturas ou canhoneiras, bem collocadas e quasi rasaníes com a agoa, porém só na extremidade oeste se viam algumas pou-r
  • [317] cas peças e duas a descoberto. O terreno todo é baixo, porém muito aprasivel, todo coberto de campos cultivados, de muito arvoredo, por entre o qual se devisavam bastantes casas. Pouco acima do ancoradouro dos navios redondos ha uma passagem estreita, talvez de duas amarras; depois alarga o rio, apresen¬ tando as margens a mesma bonita vista, epa¬ recendo muito ferteis e povoadas; pouco aci¬ ma estreitam novamente, e semelhavam em varias paragens as nossas lindas paizagens do Ribatéjo no mez de Abril e Maio. Subiam a par de nós algumas sómas de Chan-tong, ou do norte, de melhor eonstrucção que as do sul, e tendo quatro mastros; algu¬ mas eram de grande capacidade, com formi¬ dáveis letras aos lados da popa, e notei que não tinham olhos na proa, como tanto usam os Chinas nas suas embarcações. Pelas 4 da tarde ancorámos defronte da cidade de Shangai, tendo gasto 12 horas na subida do rio, na extensão de 15 milhas; é uma boa veia d’agoa com bastante fundo, até para navios de alto bordo: achámos aqui fun¬ deados o brigue de guerra inglez Contest, a corveta franceza Capricieuse, a galera portu- gueza Sofia, da praça de Macáo, e duas lor- chas da mesma cidade. O connnandante, o guarda-marinha, eeu logo desembarcámos, e acompanhados por al¬ guns compatriotas, que tivemos a satisfação de encontrar, fomos passear pelo bairro euro¬ peu, por onde ha boas casas, todas de Ingle- zes ou Americanos, algumas grandiosas, e to¬ das no gosto das de Singapura, no centro de
  • . [318] grandes quadrados de muros baixos, e rodea¬ das de jardins e arvoredos; as ruas que as di¬ videm são rectas e largas : ha muitos edifícios em construcçào, e vai-se aqui formando uma bella cidade no gosto europeu-asiatico. Esti¬ vemos em uma capella catholica, servida pelo Í)âdre Lemos, china que foi educado no Col¬ égio de S. José de Macáo, e que se enten¬ deu comnosco em soífrivel portuguez: a ca¬ pella é singela e pobre, mas bastante acea- da; o commandante e eu alli orámos: a sin- gelesa, a forma estranha, o local do templo, rodeado de um pequeno jardim, tudo nos edi¬ ficava, e nos fez gratos os momentos que alli estivemos em silencio. Passámos á cidade chineza, que é mura¬ da, e a parte que percorremos era immunda, fétida, cheia de agoas estagnadas, de cloacas inteiramente expostas á vista, e de uma po¬ pulaça porquíssima, com as feições e cor de homens e mulheres com pouca differença dos chinas do sul. Sahimos enojados deste recinto, que era parte do basar, e regressámos ao sitio euro¬ peu, que faz com aquelle um perfeito contras¬ te, apresentando bella vegetação por entre lin¬ das habitações: fomos á do doutor Murray, que vio as minhas feridas, eme consolou com o favoravel prognostico de um prompto cura¬ tivo. Todos os navios que tomam cargadechá e de seda sobem á cidade, gastando ás vezes uma semana a subir as lo milhas do rio, pela suaestreitesa, fortes e encontradas correntes: a corveta franceza gastou 3 dias. Trata-se ago-
  • [319] ra de estabelecer um vapor para reboque. À maior parte dos navios que vem aqui são in- glezes e americanos; francezes apenas veio um desde que se abrio este porto ao commer- cio europeu, e em terra apenas ha o Consul desta nação, seus empregados, e um nego¬ ciante. A barca Sofia é o primeiro navio re¬ dondo portuguez que veio aqui; as lorchas po¬ rém ha muito tempo que frequentam este porto. No dia 12 fomos fundear defronte da cas a do Consul portuguez, próxima á alfandega china, que é notável edifício noestylodopaiz, e que se destaca singularmente no meio das construcções europeas. Veio do brigue inglez um guarda-marinha a cumprimentar da parte do seu commandante ao da nossa lorcha, e quasi em seguida o mes¬ mo praticou o commandante da corveta fran- ceza. Fomos a casa do Consul portuguez Beale: é magnifica a sua residência ; fôrma um gran¬ de quadrado, com primeira e segunda ordem decolurnnatas, rodeado de um lindo jardim no mais apurado gosto inglez: esta propriedade e seus vastos armazéns, soubemos que impor¬ tara em 100:000 patacas: o salão no pavi¬ mento baixo para onde ncs conduziram esta¬ va ricamente mobilado á europea; mas com muitas curiosidades do paiz, e primores artís¬ ticos dos Chinas: notei um pedaço de tijolo cinzento que da grande muralha fora trazido pelo capitão do vapor Reynard, quando no anno passado foi a Tien-tsin, no. rio Peiho e perlo de Pekim, levar as cartas da Rainha Vi-
  • [320] cloria e de lord Palmerston, ás quaes o im¬ perador celestial não deu importância, antes as fez receber muito desdenhosamente por um mandarim inferior. E’ bem sabido que a gran¬ de muralha da China corre por espaço de mais de 500 legoas, desde a margem do golfo de Leáo-Tong até ao interior da Tartaria, for¬ mando antigamente a fronteira deste paiz com o império: hoje esta prodigiosa obra deixou de ser a barreira entre os dois povos; porque a população chineza tem transbordado para as provindas dos Tartaros manchús, seus con¬ quistadores, a ponto tal que o idioma do paiz já desappareceo do uso com mu m, e é apenas uma lingoa morta: na China propriamente di¬ ta a raça tartara já ha muito teria sido absor¬ vida pela dos Chinas, se não foram o espirito de casta e os previlegios de que gosam. Fallámos ao Consul Beale, que pela sua presença, agradaveis maneiras, e pelo interes¬ se e imparcialidade, despida do natural orgu¬ lho nacional inglez, que manifestou pelos ne¬ gócios dos Portuguezes, desvaneceo inteira- mente a desfavorável impressão, que fizera no commandante não o ter recebido no dia pre¬ cedente, do que deu muito civis desculpas, em rasão do seu máo estado de saude : referi-lhe todas as circumstancias do acontecimento de 30 de Junho, de que se mostrou bastante ma¬ goado, concluindo elle mesmo por este sue- cesso, e por outras circumstancias, que se não deviam só accusar as lorchas portuguezas de violências, e actos de pirataria, como estava em uso, attribuindo-se-lhes quantas maldades praticavam indivíduos de todas as nações.
  • [321] Combinou-se que se participasse ao Tao-tai, ou governador da cidade, a chegada da lor¬ cha, e que se lhe fizesse uma visita official. Regressados á lorcha, mandou o comman* dante dar uma salva de 17 tiros ao pavilhão franeéz, que segundo o costume se arvorou no mastro da proa, e pouco depois foi correspon¬ dida com o mesmo numero de tiros pela Ca- pricieuse. O mesmo cumprimento se fez em seguida com o pavilhão inglez, saudando-o com 13 tiros, em rasão da menor patente do commandante e porte do respecíivo vaso de guerra, o qual respondeo de prompto com ou¬ tros 13 tiros, em honra da bandeira portu- gueza, que ambos os navios igualmente arvo¬ raram . Pela primeira vez neste porto, tanto nos antigos como nos modernos tempos, fluctuou o pavilhão de guerra portuguez, e ao troca¬ rem-se estas saudações, ao estampido da arti- 1 her ia, com as duas nações mais poderosas do occidente da Europa, os nossos corações pal¬ pitavam com tristesa por nos vermos em uma pobre e pequena lorcha, em logar dos altivos galeões com que outr’ora as sagradas quinas assoberbaram os mares de toda a Asia. Em quatro navios ondeava a bandeira de Portugal, que sendo tão rara e tão menosca¬ bada nos portos da Europa, nas costas da Chi¬ na é muito frequente, e muito temida pelos naturaes. Soubemos do Consul Beale que a lorcha n.° 29 fizera violências, e se portara insolen¬ temente com oTao-tai, exigindo-lhe dinheiro por pertendidos chinas piratas que havia to-
  • [322] mado. Tam bera disse que durante nove mezes estivera uma lorcha em certa paragem em Ningpd, exigindo para si uma contribuição pa¬ ra deixar passar as embarcações chinezas. Es¬ te facto caracterisa bem o que é a China, e qual a força das authoridades deste paiz!
  • [323] Apresentação aos Cônsules, e noti¬ cia de um naufragio na Coréa. No Domingo 13 o commandante e eu fomos ouvir Missa á capella do padre Lemos, no re¬ cinto do Consulado francez: o mesmo padre é que celebrou, conservando sempre na cabe¬ ça um barrete como de clérigo, bordado a oi¬ ro, e também estiveram cobertos os dois acó¬ litos chinas, que estavam vestidos de cambaias brancas, tendo na cabeça chapeos de palha da fórma de um funil sem tubo, cahindo do ver- tice franjas vermelhas. Este uso é para se conformarem ás idéas da polidez chineza, que contempla como in¬ decoroso ter a cabeça descoberta perante qual¬ quer superior. O padre pronunciava devagar e distincta- mente o latim, e a Missa durou bastante tem¬ po ; a novidade dos objectos que nos cerca¬ vam, destacando-se principalmente quatro lan¬ ternas chinezas acesas pendentes do tecto; o *
  • [ 324 ] canto das aves, que pareciam acompanhar com as suas melodiosas intonações a oração dos fieis; os pensamentos diversos que natural- mente nos occorriam ■ tudo nos fazia singular e religiosa impressão. Fomos depois a bordo da Capricieuse cum¬ primentar o capitão Rocquemaurel, que nos recebeu com muita afiabilidade : todos os oífi- ciaes fallavam com saudade e reconhecimento da bella recepção que tinham tido em Macáo, onde esta corveta estivera algum tempo. Pas¬ sámos d’alli ao brigue ingiez Contest, de 12 canhões, commandante Spencer, joven official da familia dos lords do mesmo nome, e que também nos recebeu muito lisongeiraiifente, repetindo ao nosso commandante oflerecirnen- tos para qualquer auxilio de que carecesse. Voltámos a bordo para tomar a bandeira que o commandante foi entregarão nosso Con¬ sul, como presente que lhe enviou o governa¬ dor de Macáo : era toda de touquim, com as armas portuguezas primorosameníe bordadas, presa a uma íânça com o ferro e o conto dou¬ rado : depois de a- receber o Consul Beale, sa- himos com elle em cadeiras, enos foi apresen¬ tar ao Consul de França, que nos recebeu com toda a a Afabilidade- e cortezia da sua nação, realçada pelas excefientes qualidades pessoaes de um perfeito cavalheiro: entraram em se¬ guida o commodoro Rocquemaurel e o con¬ de Miguel Kleezkowski, joven e talentoso polaco, interprete da lingoa chineza no Con¬ sulado francez, que eu já conhecia de Macáo : no meio da agradavel conversação que se es- íabeleceo, ouviram-se as bategas annuncian-
  • do a chegada doTao-tai, que entrou no salão muito risonho, fazendo muitas zumbaias, e dis¬ putando com muitas ceremonias o logar que tomaria. Apenas se annunciou o Tao-tai, todos pozemos os chapeos na cabeça, segundo as idéas da civilidade ehineza; mas notei queornesmo Tao-tai depois de sentado tirou o séuchapeo; nós o imitámos, e tendo-lhe o conde Kleez- kowski apresentado o commandante e mais porthguezes, a todos risonho e affavel apertou muito as mãos. Parecia homem de 50 annos, de maneiras delicadas, e exteriormente nada apresentava de notável no seu vestuário, que indicasse ser, como era, a primeira authorida- de do paiz, com o posto correspondente a co¬ ronel : vinha em uma cadeira pouco rica, e acompanhado dos costumados meirinhos. No dia seguinte o commandante, o guar¬ da-marinha, e eu fomos ter com o Consul Bea¬ le, c com clle sahimos para nos apresentar ao Consul americano J. Griswold, e ao Consul inglèz Rutherford Alcock, o qual muito nos faiiou de Portugal, onde servio na guerra en¬ tre D. Pedro e D. Miguel, tendo estado no Porto durante todo o cerco. Seguimos a casa do Vice-Consul inglez Robertson, que ê lam¬ bem Consul dinamarquez, e que igualmente conservava muitas reminiscências de Hespanha e Portugal, em cujos paizes servio de commis- sario nas guerras civis da successao. Por ulti¬ mo fomos apresentados a mhtres Alcok, ten¬ do sido convidados por seu marido, que nos recebera na casa do Consulado. A propria re¬ sidência do Consul Alcock é magnifica, ador-
  • [326] nada com todo o gosto e luxo * sua mulher, e duas outra senhoras que nos appareceram, nos receberam com o maior agrado. Muito poucas senhoras europeas ha por agora em Shangai, onde os prazeres da sociedade e da convivência muito se resentem desta falta. As cadeiras em que fomos tinham espe¬ lho, cuspidor, e pequenos jarros para flores; são as seges do paiz, semelhantes em toda a China: correspondem na fórma ás liteiras de mão, ou cadeirinhas usadas em Portugal. Ao fim do dia fomos para o jantar no Con¬ sulado francez, que foi muito bem servido, e animado pela conversação: assistio o nosso Consul e outras pessoas: terminado o jan¬ tar pelas 10 horas com o mais puro e bello chá, viemos para o lindo salão, onde havia uma graciosa mistura de moveis e objectos da Europa, da China, e do Japão, alguns mui¬ to curiosos, e de raro trabalho; ricos marche¬ tados, esculpturas, etc. Dois pequenos cães do Japão, muito bonitos e meigos, entretive¬ ram algum tempo a companhia, fazendo habi¬ lidades. As senhoras, que tinham extrema amabilidade, cantaram ao pianno alguns ro¬ mances francezes com bastante gosto. Esta familia Montigny é muito estimável e digna de consideração : o seu chefe é um completo cavalheiro, que muito se ha distin¬ guido pelo zelo e energia com que desempe¬ nha as suas funcçoes consulares, e mais de uma vez ha prestado valiosos serviços a súbditos portuguezes, pelos quaes mostra muitas sym¬ pathies. Havia poucos mezes dera uma pro¬ va brilhante da sua intrepidez e humanidade,
  • [ 327 j que muito realçou as bellas qualidades do seu carac t cr. O balieiro francez Nareval, do Havre, nau¬ fragou nos principios deste anno n’um dos ar¬ chipelagos nas costas da Coréa, região muito pouco conhecida ao nordeste da China, de cu¬ jo império é dependencia. A maior parte da ’tripulação acolheu-se a uma ilha; o resto da gente èmbarcou-se n’um lanchão com alguns mantimentos, e tentou a arriscada empresa de atravessar o mar Amarello, para chegar a algum dos portos do norte da China, o que conseguiu por muita felicidade 5 mas depois de incríveis trabalhos, soflrimentos, e morte de alguma. Finalmente chegaram a Shangai em lastimável estado alguns dos marinheiros francezes, em 19 de Abril, e informando do occorrido ao Consul Montigny, elle tomou a repentina e heroica resolução de ir em pessoa procurar os naufragos, com 0 seu não menos decidido e ardente interprete Kleezkowski. Fretou a lorcha de Macáo n.° 51 que se achava no porto, e partio logo atravez do tem¬ pestuoso e pouco conhecido mar Amarello em busca dos seus compatriotas, como ao acaso, pela difficuldade de determinar o verdadeiro logar do naufragio, que mal podiam conhecer dois ou tres dos marinheiros miraculosamente chegados a Shangai, de que se fez acompa¬ nhar. A lorcha, que era uma das mais pequenas e mal arranjadas de Macao, soffreo uma tem¬ pestade, e esteve a ponto de naufragar na ilha Quelpart • mas por fim a Providencia coroou tão nobres esforços, e depois de vários inci-
  • dentes e actos de arrojo, os náufragos foram encontrados retidos presos entre os Coréanos, que estavam para os mandar paraPekim, on¬ de provavelmente poucos chegariam pela íVa- quesa, privações, e miséria que soflriam. Em 8 de Maio todos os que tinham es- capado a este desastre, e os seus salvadores, chegaram a Shangai, onde foram recebidos com alvoroço, tendo sido o procedimento do Consul francez justamente admirado, e muito elogiado na imprensa ingleza. Entre OS marinheiros trazidos da Coréa achavam-se cinco porlugnezes, todos naturaes das ilhas de Cabo-Verde, que faziam parte da equipagem do Nareval, e que. foram logo en¬ tregues á protecçào do nosso Consul. A’ memória desta nào vulgar acçào de humanidade e coragem, acham-se ligados o nome e a bandeira poríugueza, sob a qual o digno Consul Montigny se dirigio á Coréa; embora o estandarte antigo e venerando do Gama tremulasse n’uma pobre íorcha meio ehi- neza, como se faz sentir no interessante e bem escripto roteiro desta viagem, publicado no Çtorth-China-JIeraIcl^ eno qual algumas curio¬ sas noticias se encontram sobre o paiz, indo¬ le, e costumes dos Coréanos. que foram vistos por estes aventurosos viajantes. Nas noites immediatas tivemos outros jan¬ tares de etiqueta em casa dos Cônsules inglez eportuguez, igualmenteagradaveis, eembella companhia. Na tarde de 16, eu e alguns companhei¬ ros fomos examinar o ediíicio da alfandega; mesmo alli vivem os empregados, que eram
  • muito aitenciosos, e de boas maneiras. Entrᬠmos no templo protestante recentemente aca¬ bado, no bairro europeu; é singelo, más de elegante architectura, com alta e pesada torre quadrada no topo: outra torre semelhante se devisaemum templo situado no meio da cida¬ de china, para os chinezes protestantes, que são em mui pequeno numero em relação aos chinas catholicos. No passeio que dêmos ao campo vimos lindos sitios: toda a planície é cortada de ca- naes, abertas, e regueiras por onde penetra a agoa nas enchentes, alimentando a rega e a verdura das campinas e dos arvoredos; obser¬ vámos uns engenhos muito singulares para fa¬ zer subir a agoa em plano inclinado, por uma especie de cadeia de pás de madeira, que mo¬ viam dois homens por meio de manivelias. Pas¬ sámos por uma aídêa chamada das Teias, por¬ que a maior parte das mulheres tinham as ca¬ baias abertas ao lado dos peitos, que em parte ficavajn á vista : vimos mais mulheres do que homens trabalhando no campo, porém nas em¬ barcações poucas ou nenhumas andam. Não usam aqui enterrar os mortos $ ex¬ põem-nos no campo dentro dos caixões, que ás vezes col locam sobre um assento ou pedes¬ tal de argamaça : os cadaveres assim expostos dissecam-se, astaboas abrem-se, e os ossos ás vezes cabem pelo chão. Este péssimo costume deve contribuir, na estação dos calores, para as febres que se desenvolvem em Shangai. Varias sómas estavam varadas em terra complelamente em secco, para concertar, e construiam-se novas, muito mais bem feitas e
  • [330] Com melhor forma exterior do que as que vão a Macho. Em toda a parte a gente do povô nos olha¬ va com agrado; as mulheres não se retiravam, mesmo quando paravamos para as observar, e até os homens que estavam comendo em me¬ sas ao pleno ar affavelmente nos ofFereciam arroz. O calor neste mez de Julho é terrível em Shangai. Nesta cidade e nos arredores não ha agoa de fontes; faz-se uso dado rio, queé tur¬ va e suja: usam nas casas europeas trazel-a do rio para grandes vasos ou tinas de barro, e lançar-lhe pedra-hume, que se desfaz depo- sitando-se no fundo, e a aclara muito; de¬ pois passam-na por filtros, engarrafam-na, ea collocam no gelo, ficando assim excedente e muito fresca. O gêlo é de uso geral e indispensável neste paiz no tempo dos grandes calores, que de ordinário não se estendem além de Junho, Julho, e A gosto: de inverno ha rigoroso frio, e chega a gelar-se o rio pelas margens. Do gêlo fazem grandes deposit os, e o fornecem a preços mensaes: íegulava então a 12 patacas pela entrega de 1 pico cada dia. Constantemente bebiam os ao almoço excel- lente leite de bufalas, que é o de uso geral no paiz, e quasi sempre á noite em qualquer das casas que frequentávamos, tomavamos bellos sorvetes. A 19 sahio a barca portugueza Sofia com destino a Pákuan, pequeno porto na costa do Tche-kiang, para carregar pedra-hume, da qual ha abundantes minas nas proximidades ;
  • [331] mas quando a embarcam já tem passado por certo processo de queima em fornos: é obje- eto de muito commercio no sul da China, e muito se exporta para a índia, onde a esco¬ lhem e preparam para mandar para a Europa .
  • [332] Apresentação ao Tao-tai^ e elresiiia- stasiclas que preecdes*am ao re« coMlieeimeitâo do Consul por- tisgisez em §haiigai De casa do Consul portuguez partimos as S horas da tarde do dia 20 para a apresentação ao Tao-tai: dois chinas vestidos de cabaias brancas e compridas hiam adiante como anda¬ rilhos, e seguiam-se a cadeira do Consul, acom¬ panhada pela ordenança do batalhão naval em grande uniforme; a do commandante, por dois marinheiros da lorcha, em todo o aceio; a do conde Kleezkowski, pelo seu gracioso cittai, especie dejokei china; e as do guarda-mari¬ nha, Pedro Loureiro, e a minha; todas con¬ duzidas por cuiis aceadamente vestidos. Caminhámos algum tempo atravez de mui estreitas ruas, bordadas de sujíssimas lojas, donde se exhalavam os cheiros mais exquisi¬ tes e enjoativos dos objectos de comida ex¬ postos á venda, fumo, etc. Chegámos a uma das entradas da cidade, entrando nella por duas portas successivas, ou arcadas, escuras,
  • sujas, è baixas, a ponto de ser necessário àos culis descerem as cadeiras dós hombros para as passar. As ruas da cidade propriamente dita, isto é as que estão de muros a dentro, eram quasi pelo mesmo gosto das outras - só a espa¬ ços se alargavam, e apresentavam lojas maio-* res e mais aceadas, onde se vendiam fazen¬ das, artefactos etc. , com as taboletas pendu¬ radas nas hombreiras como em Cantão. Em todas as lojas, encruzilhadas, e re¬ cantos se via multidão de homens, em geral nús da cintura para cima; poucas mulheres, e uma immensidade de crianças; tudo enfilei¬ rado ou amontoado para deixar passar as ca¬ deiras , que hiam apressadamente por meio daquelíe labyriutho de tortuosas ruas. Durou o trajecto quasi meia hora: che¬ gados á residência do Tao-tai, rompeo uma musica muito dissonante, estando os tocadores em uma especie de coreto, e semelhando no efFeito geral a gaitas de folies mal tocadas, acompanhadas por peiores zabumbas: ao mes¬ mo tempo se davam duas salvas de tres tiros cada uma, em honra do eommandante e do Consul, com uns grandes praes, especie de morteiros. Entrámos por dois pateos, onde havia mul¬ tidão de criadagem e de meirinhos, e varias pinturas e ornatos extravagantes : apeámo-nos no fundo do segundo pateo, nhuna grande ca¬ sa abarracada onde veio ao nosso encontro o Tao-tai. Precedendo risonhos cumprimentos nos fizeram sentar em roda de uma mesa, collo- cada no meio de um vesti bulo em frente da
  • [334] sala de recepção, tendo de dois lados arvore¬ do, e algumas pedras brulas, semelhando jar¬ dim rústico; mas tudo de pouco gosto e apu¬ ro. O Tao-tai sentou-se em um dos lados da mesa, tendo á esquerda (logar de honra en¬ tre os chinas) o nosso Consul, e á direita o commandante, seguindo-se nós outros e dois chinas: eram authoridades correspondentes a governador civil ejuiz em Portugal; faltava a aulhoridade militar, que elles ingenuamente declararam que estava incommodado por ter bebido de mais no ultimo jantar em casa do Consul Montigny. O Tao-tai é de pura raça tartara, e nas¬ cido na Manchuria; os outros dois sào chinas, mas em nada difleriam nas physionomias, e na lingoagem : o Tao-tai no barrete tinha pennas curtas de pavão e botão asul, distinctivos de graduação : conservou-o na cabeça, e nós eu¬ ropeus também entrámos cobertos; mas pouco depois de sentados elle descobrio-se, e o mes¬ mo fizemos nós. Apenas entrados serviram-nos chá, em tigelas com tampas de louça, da fôrma dos pires eommuns, e com as quaes tirávamos o chá para o ir bebendo, afastando as folhas que estavam dentro em infusão: o chá bebeo-se sem assucar, segundo o costume geral da China. Pedro Loureiro ainda que não empregado official, ha sido apresentado ao Tao-tai como secretario do Consul, nas occasiões em que o tem acompanhado; eu que não podia concor¬ rer nesta apresentação como simples curioso, e que fui a convite do nosso Consul, tive de figurar em alguma qualidade, e foi na de se-
  • cretario do coin mandante. 0 interprete tinha apromptado bilhetes ao modo china, em papel encarnado, com os caracteres apropriados pa¬ ra designar cada um dos visitantes 5 entrega¬ ram-se ao Tao-tai, segundo 0 costume. Depois do chá serviram-nos uma refeição, composta de quatro pratos com pecegos e ma¬ çãs do tamanho de nozes, ameixas semelhando rainhas claudias, euma íructa peculiar do paiz que tem toda a apparencia demedronhos, mas differente sabor; doze pratos mais cobriam a a mesa, contendo bollos chinas, doces, amên¬ doas e pevides de melancia torradas : a cada um dos convivas serviram em tigelas pequenas leite coalhado e soro, temperado com alguma substancia doce; era agradavel, e nos disse¬ ram ser manjar propriamente tartaro. Serviram-nos vinho china de arroz, mor¬ no segundo 0 costume, em chicaras muito pe¬ quenas como as dos apparel hos de crianças na Europa, e deitado por um bulle de louça : na cor parecia vinho branco, e 0 sabor não era desagradaveí. O conde era quem sustentava a conver¬ sação com os chinas, com muita facilidade, traduzindo o que elles diziam ora em inglez, ora em francez. Entre outras amabilidades chínezas disse 0 Tao-tai que fezia muito calor, e que sentia profundamente oincommodo que havia soffrer 0 commandante com a sua farda abotoada. Os Chinas tem rasão em acharem ridí¬ culo e incommodo o vestuário dos homens eu¬ ropeus, em comparação dos seus trages largos, que em nada constrangem 0 corpo.
  • No fim da refeição tornou a vit o chá do mesmo modo que no principio, etudo foi ser¬ vido por vinte ou mais criados que nos rodea¬ vam. A visita prolongou-se por mais de uma hora: á sahida o Tao-tai acompanhou o com- mandante até ao entrar na cadeira, levando-o pela mão esquerda, signal de mais considera¬ ção. Partimos na mesma ordem, erepetiram- se as salvas e a musica, caminhando diíhcil- mente as nossas cadeiras atravez dá immensa multidão apinhada em frente da casa, e que apresentava um estranho aspecto para euro¬ peus : regressámos pelas mesmas ruas, sendo objecto da curiosidade do povo que de toda a parte surdia. Terá aqui logar referir alguns pròmeno- res que tiveram logar, quando se estabeleceram as nossas relações políticas com as authorida- des de Shangai. Quando se espalhou em Shangai a noticia de que hia alii a corveta D. João, o Tao-tai mostrou-se um pouco inquieto, e informou-se cuidadosamente sobre a sua força, guarnição, etc. : pouco depois insinuou que não tinha du¬ vida de reconhecer o Consul portuguez, logo que este lhe participasse a sua nomeação, pois que até então sómente o Consul inglez lhe par¬ ticipara, que o negociante Beale tinha licença do governador de Hong-kong para acceitar aquelle cargo, em serviço do governo portu¬ guez. Nesta participação o interprete do Con¬ sulado inglez Med/mrst, usou para traduzir os sons da palavra — Portugal — dos caracteres chinas correspondentes aos sons—Fu-tum-ga—
  • [337] o que produzio grande confusão no Tao-tai pois a significação de laes caracteres corres¬ pondia a — reino das uvas e dentes —; procu¬ rou informar-se com os europeus que exquisi¬ te reino era este, e julgou até ser .alguma pro¬ víncia de Inglaterra ■, mas parecia-lhe estranho que houvesse outro Consul para ella, tendo já a Grã-Bretanha um em Shangai: finalmente custou muito a convencer-se de que se tratava de Portugal, que na China é só conhecido pe¬ lo antigo e venerado nome de tradição Tair- sai-ion, o Grande reino do Oceidente. E’ duvidoso se o interprete Medhurst pec- cou por ignorância, ou por acintoso espirito de nos deprimir, como em muitas cousas usamos da sua nação a nosso respeito. Conhecidas estas disposições, o nosso Con¬ sul, de accordo com o de França, officiou ao Tao-tai participando-lhe estar nomeado Con¬ sul de Portugal em Shangai, o que por annos tinha demorado, pelo receio de não ser reco¬ nhecido, como não fora o de Cantão, e por causa das desintelligencias que se seguiram ao assassinato do governador Amaral, por quem o negociante Beale foi nomeado Consul. Se- guio-se uma curiosa correspondência. Os officios ou chapas que nesta occasiâo se trocaram teem muita originalidade pelo es- tylo, fraseologia, e singular maneira de con¬ duzir os negocios na diplomacia do celestial império, e quem desejar lêl-os póde achal-os nos Boletins de Macáo n.os47 e 49 de 1831. Em fins de Maio teve logar a recepção official do Consul portuguez, com as honras e formalidades do estylo, acompanhado pelo ca- 22
  • [ 338 ] valheiro Montigny, e empregados do Consu¬ lado francez, que sempre se mostravam solí¬ citos nos negocios de Portugal, prestando par¬ ticularmente o Conde Kleezkowski valiosos serviços ao seu alcance, na qualidade de in¬ terprete, e sempre gratuitos. Este illusfre cavalheiro polaco merece na ver¬ dade alguma demonstração de reconhecimento da parte do governo porluguez, á semelhança do que já se praticou com o Consul Montigny, a quem foi enviada uma condecoração. O Tao-tai pagou depois a visita do com- mandante da Adamastor, em casa do nosso Consul, com as formalidades costumadas, e nas vesperas da partida da lorcha mandou a bordo um presente de carneiros, aves, e va¬ rias victualhas para a guarnição. \
  • [339] CAPITULO QUADRAGÉSIMO QUIM Ida a Tapikò, «§ pasquims chinas^ e os Chincheus* Em 23 de Julho chegou a Shangai a lorcha de Macáo n.° 43, e neste dia veio a bordo um prelo portuguez, que de Ningpô chegara pe¬ los rios interiores em dois dias a este ponto; deu noticia de estarem alli 12 lorchas, e de haverem algumas desordens em terra pelas suas tripulações. Disse que para alli voltava pelo mesmo caminho, no qual alguns euro¬ peus tem ultimamente transitado sem perigo; mas as authoridades chinezas estáo reclaman¬ do contra isto, como abuso, e quebra dos tra¬ ct ados. Tendo sido convidado para assistir ao ca¬ samento de um portuguez, fui na manha de 27 com o commandante paraTapikô, a cousa de 2 milhas pelo rio acima: fomos vendo a ci¬ dade assente na margem esquerda, e que só apresenta por este lado um montão de casas, frágeis e immundas, avançando sobre a agoa, tendo em frente lonaas enfiadas de somas e
  • [ 340 J juncos tocando-se uns nos outros, otíerecendo passagem á innnensidade de gente que eon- teern , e que gira no rio em inumeráveis bo¬ tes. Em Tapikô fomos agradavelmente rece¬ bidos pelo Vigário Apostolico de Shangai, Ma- resca, que reside aqui, onde neste dia esta¬ vam mais tres Vigários Apostolicos, Spelta, coadjutor do de Shangai, Fourcade do Japão, e Molly de Pekim. Acha-se ha muito em construcçào neste local uma Cathedral devas¬ tas proporções, que dizem diflicilmente se con¬ cluirá pela muita despesa que exige. Vimos alguns seminaristas chinas, que vivem n’uma casa d’aqui distante uma legoa, e um pouco mais longe em Sikavei tem os Jesuitas um Collegio, e uma igreja recentemente acabada. Segundo me informaram estes padres, ha na Missáo de Shangai de 60 a 70:000 chris- tãos, espalhados pelo interior, havendo pou¬ cos na cidade : diziam que era a mais flores¬ cente da China. Depois da ceremonia do casamento, nos dirigimos a almoçar em casa dos noivos, onde se reuniram todos os portuguezes residentes em Shangai, em numero de 10, que estào em¬ pregados pela maior parte em casas de com- mercio. Moços bem comportados, com algum conhecimento da lingoa ingleza e deescriptu- raçâo, empregam-se aqui vantajosamente ; al¬ guns principiam por ganhar de 25 a 3(1 pata¬ cas mensaes, além de casa e mesa, e passam depois a vencer 50 e 60 patacas. Os nego¬ ciantes inglezes preferem em geral os caixei¬ ros portuguezes macaistas aos seus nacionaes.
  • Os cônjuges de que tenho faltada sao D. Vicencia Paula de Almeida, e Antonio dos Santos, ambos macaistas. E’a primeira senho¬ ra portugueza que veio a Shangai, e o seu ca¬ samento também o primeiro que tevelogarna communidade da mesma nação, nesta remota cidade. "Fendo sabido que a corveta franceza sa¬ bia paraMacáo, tomei a deliberação de pedir passagem nella, ao que promptamente annui- ram o Cônsul e commandante respectivos. Dispuz-me pois a sahir desta cidade, cuja re¬ sidência já se me tornava enfadonha e incom- moda, sobre tudo pelo excessivo calor. Des¬ pedi-me com saudade do commandante e guar- da-marinha da Adamastor, e na manhã de 29 fui para bordo da Capricieuse, onde tudo es¬ tava disposto para dar á véla; mas sobrevie¬ ram negocios e conferencias com o Tao-tai que demoraram a partida. No dia seguinte, quando já hiamos descendo pelo rio, achan¬ do-se a bordo o Consul Montigm recebeo um bilhete do Consul inglez, avisando-o que na- quella madrugada de 30 de Julho haviam appa- recido vários pasquins na cidade, e no arra¬ balde dos Chincheus, incitando o povo a ata¬ car os Europeus e destruirdhes as proprieda¬ des, ameaçando com a morte aos chinas que estavam ao seu serviço, se immediatamente o não deixassem ; accrescentava o aviso que a populaça lia com avidez taes pasquins, e se agitava. A instancias do Consul resolveo o capitão Rocquemaurel retroceder com a corveta para a frente da cidade china, e tomaram também
  • [ 342 j posições convenientes o brigue Contest, e a nossa lorcha, para onde voltei. Este successo tinha origem em certas questões suscitadas pelos Chincheus, ou chi- nas do Fuh-kien, que são aqui numerosos, e formam uma população á parte, muito turbu¬ lenta: queriam elles que se annullasseavenda de um terreno comprado pelos Inglezes para augmentar o seu cerniterio. Era a primeira vez que neste ponto se manifestavam taes dis¬ posições, que fizeram acabar a confiança e li- berdade com que os Europeus viviam no paiz, aponto de penetrarem a 30 e maismilhas pa» ra o interior, em partidas de prazer, nos Ine¬ zes de Janeiro a Maio, que sâo os de menos occupações no commercio : hiam demorar-se dias pelos logares chamados as collinas, na mencionada distancia de Shangai, e que são as primeiras elevações que se encontram nas immediações daqueila cidade, onde termina a extensissima planície que a cerca.
  • Idea serai de SSiangai, e do sen commercio. A cidade de Shangai é murada n’um circuitu do 5 a 6 milhas, mas sem baluartes, fossos, cu qualquer obra exterior de defesa, achando- do-se as casas dos bairros lora dos muros le¬ vantadas junto a elles; tem cinco entradas, sem fortificação alguma-, as ruas sào geralmen¬ te estreitas, sugissimas, e cada porta é uma loja; a população não descerá de 300:000 al¬ mas, além talvez de 100:000 que vivem no rio, em mais de 1:000 juncos e sómas que sempre aqui se acham ancoradas, e n’uma inunensidade de embarcações pequenas. Shangai póde-se dizer que é o porto da cidade de Suchau, situada a cousa de 100 mi¬ lhas de caminho pelo rio, sobre o canal impe¬ rial, e que é reputada entre os Chinas a cida¬ de de delicias do seu paiz, onde concorrem as pessoas ricas de todo o império, para gosarem de praseres, encontrando-se alli as embarca¬ ções de recreio mais sumptuosas, os melhores
  • [ 344 ] jardins, e as mulheres mais bellas : dizem que é o Paris da China; até porque d’alli sahem as modas, que só de tres em Ires annos mu¬ dam nos vestidos e penteados do sexo femi¬ nino , regulando-se por ellas as senhoras da corte. Esta proximidade de Suchau, das boccas do Yang-tse-kiang, e do Hoang-ho ou Ama- rello, dão a Shangai grande importância com¬ mercial, muito augmenlada desde 1844, de¬ pois que foi aqui permittido ocommercio com a Europa. O Yang-tse-kiang é um grande rio de 2:200 milhas de curso, que banha os mu¬ ros de Nankim, e que é navegavel por cer¬ ta nares de legoas no interior para grandes na¬ vios, formando portos muito frequentados : no de Hankou, situado a 400 legoas do mar, di¬ zem haver constantemente 6 a 8:000 embar¬ cações: Os Inglezes durante a guerra subiram em náus de linha até Nankim, a muitas legoas ca foz, e a bordo de uma clellaS foi assignado o importante tract ado de Nankim. Yang-tse- kiang significa em chinez o — filho do Ocea¬ no —-, ou — rio por excellencia —. Os tributos na China em parte são pagos em especie, e conduzidos annualmente em grandes frotas das provindas do sul ás do nor¬ te do império, para os abastecimentos públi¬ cos, e fornecimento de Pekim. Estas frotas sobem pelo grande canal, e atravessam em Março o Yang-tse-kiang. Uma nação europea em guerra com a China póde causar-lhe im- menso mal, estacionando neste tempo uma es¬ quadrilha nas embocaduras do canal sobre o
  • [348] rio, que não ficam muito distantes da foz, e impedindo a passagem das frotas, ou destruin¬ do-as lançará a perturbação em todo o norte do império, occasionando graves transtornos ao governo na propria capital. Os navios chinas que vem a Shangai são classificados em navios do norte, doFuh-kien, e de Cantão. Regularmente chegam do norte por anno uns 900, no tempo da monção do nordeste, e do Fuh-kien e Cantão quasi ou¬ tros tantos: além disto pelo Yang-tse-kiang, e pelos seus braços, entram em Shangai an- nualmente umas 6:000 embarcações de diffe- rentes lotes, que não sahem ao mar, e condu¬ zem para o interior os generos importados pelos navios do norte, do sul, e da Europa, trazen¬ do d’alli o que estes exportam. Ha pois um movimento annual no rio de 7 a 8:000 embar¬ cações, além de um sem numero de botes pa¬ ra as necessidades do commercio, e da popu¬ lação, e que são os únicos meios de transporte do paiz-, pois o terreno de Shangai, e o dé grande parte da China, é muito favorecido pe¬ la naturesa em communicações fluviaes. O commercio europeu em Shangai é de duas naturesas ; de contrabando e legal: o opio constitue o primeiro, e o mais importante. Em Wussung estão de ordinário 4 a 6 navios car¬ regados d’aquella droga, e alli vão os botes chinas recebel-o, depois de o ajustar em Shan¬ gai, pagando-o sempre em prata pura, ou sai- ci, que são uma especie de barras, da fórma de um sapato chinez, que se recebem a peso em todas as transacções pecuniárias na China. Este trafico faz-se claramente j as authorida-
  • [ 346 ] des tanto chinas como inglezas não o ignoram, mas como estas nãooauthorisam, julga-se nâo infringido o tractado de Nankim. O valor do opio vendido em Shangai, anda annualmente por uns 8 milhões de pesos, perto de 20 milhões de cruzados. No commercio legal as principaes impor¬ tações sào tecidos de algodão, branco e cru, e pannos de lã. W para notar que da Russia chegam a Shangai pannos de là, vindos pelo interior, eque se vendem tão baratos como os inglezes, talvez pela compensação que os ne¬ gociantes moscovitas tiram dos retornos de chá, que levam do mercado de Kiatka, nas frontei¬ ras da Siberia. As exportações para a Europa consistem principalmente em chá e sedas. Nasvisinhan- ças de Shangai existem grandes cidades manu- íáctureiras, onde os tecidos de seda se fabri¬ cam com mais perfeição, e mats baratos que em Cantão. Os grandes districtos productores do chá eseda também estão proximos, de mo¬ do que são para aqui conduzidos estes gcneros com brevidade, e pouca despesa} e vice-versa os productos da Europa. O chá vende-se ás vezes de 20 a 30 p. c. menos que em Cantão: com tudo este mercado ainda é bastante supe¬ rior ao de Shangai, sendo mais abundante e variadamente provido, especialmente de chás verdes finos. No anno commercial de 1850 a 51, a ex¬ portação total de Shangai em seda crua foi de 17:237 balas, das quaes 15:479 para Inglater¬ ra: a de chá foi de 36:832:300 libras, sendo 25:860:400 de chá preto; tendo havido um
  • [ 347 j augmento de exportação sobre o anno de 1849 a 50 de 14:041:100 libras. Para Inglaterra foram 21:639:300 li¬ bras, em 50 navios, para os Estados-Unidos 11:068:100 libras, em 22 navios ; e apenas os restantes 4:124:900 libras para outros paizes. Do chá exportado para os Estados-Uni¬ dos um terço foi preto, principalmente sou¬ chong e congou; mas para Inglaterra dos 21 milhões de libras, em numeros redondos, não chegou a 2 milhões de chá verde, e excedeo a 18 milhões o chá preto congou, queéornais ordinário de todos. No mesmo anno a exportação de chá de Cantão para Inglaterra foi de 63:633:600 libras, em 115 navios; sendo apenas um quinto ver¬ de : para os Estados-Unidos foram 17:331:475 libras. De modo que só n’um anno a Grã-Bre¬ tanha importou mais de 85 milhões de libras de chá, e a America do Norte mais de 28 mi¬ lhões. Vê-se pois evidentemente a causa da pro¬ gressiva decadência de Cantão, cujocommer- cio virá a reduzir-se ás exportações da propria província e das mais visinhas, e ás limitadas importações do seu consumo, em logar de ser como até aqui o unico ponto de permutação, entre os povos europeus e chinez. O grande movimento commercial na Chi¬ na toma decididamente a direcçâo do norte, e Shanghai parece destinado ao emporio delle. Hong-kong, que nunca teve verdadeira im¬ portância commercial, mais a perderá e ficará talvez reduzido a estabelecimento politico e
  • [348] militar, bem pesado para o governo britanni- co; nem mesmo servirá de estação para os navios mercantes, que desde já vão e vem da Europa directamenteaShangai, até pelas con¬ veniências e menos perigos da navegação. Esta nova phase commercial não deixa também de afíectar os interesses de Macáo, cujos habitantes sempre colhiam algumas van¬ tagens da proximidade dos focos de commer- cio ; ao menos para o emprego da sua moci¬ dade, que terá de o procurar mais longe. As principaes casas de commercio em Shangai são as de Jardine, Beale, e Griswold: das primeiras duas calculavam-se os interesses liquidos em mais de 100:000 pesos annuaes. Em geral são muito avultados os lucros que os negociantes europeus realisam nesta cidade, onde por isso uma povoação magnifica se des¬ envolve rapidamente, com todo o luxo e com- modidades de apurada civilisação : com tudo tão bello Estabelecimento não deixa de estar ameaçado de alguma catastrophe, pelo cego e brutal odio dos Chinas contra os Europeus, e mais ainda da parte do seu governo e au- thoridades. No sentir de pessoas esclarecidas Shan¬ gai terá de ser, mais tarde ou mais cedo, uma possessão ingleza, e attendendo á sua posição geographica e commercial, e á bellesa e ferti¬ lidade do seu território, nas mãos daquella acti- va nação, se tornará em pouco tempo um paiz delicioso: o clima por certo que é salubre; pois apesar do nenhum aceio que ha na cida¬ de chineza, dos muitos charcos e fócos de in- fecçào, e dos corpos mortos expostos pelos cam-
  • pos, as epidemias não são communs, esó em Julho, Agosto, e princípios de Setembro, em que ha o maior calor, é que os Europeus me¬ nos regulados no seu viver experimentam al¬ gumas febres. O balanço commercial da China com a Europa lhe é cada vez mais desfavorável; pa¬ rece que o mesmo não succede comocoinmer- cio que faz com a Russia em Kiatka, e com os navios do Japão que vem a Chapú annual- mente, unico porto que lhes está destinado • mas isto não compensa o desfavor com o da Euro¬ pa, e como o producto das minas de ouro e prata do império é pouco impor'.ante, a China vai rapidamente empobrecendo em metaes pre¬ ciosos. A prova evidente é que o valor da pra¬ ta vai augmentando em relação á moeda miú¬ da, ou billon do paiz, que é a sapeca : a pa¬ taca ou peso hespanhol ha cousa de 20 annos trocava-se por 800 a 900 sapecas, em 1845 por 1:200, e hoje por 1:450 a 1:500. A grande exportação da prata é princi¬ palmente das provincias do norte, para a com¬ pra do opio, não tendo a dar em troco, como as do sul, os valiosos generos chá e secla: di¬ ziam notar-se, como prova do gradual empo¬ brecimento do paiz, que o consumo de arti¬ gos de luxo, como o bicho do mar, ninho de passaro, etc., tem diminuído muito, fazendo decahir muitos ramos de commercio china. Aos nossos navios talvez conviesse ir com¬ prar chá a Shangai, depois de deixarem a car- ga de vinho em Macáo, levando só alguns barris, e vinhos engarrafados. Os Chinas dão preferencia aos vinhos doces e licores ] porém
  • [350] mui lo poucos consomem, nem é de esperar que o uso do vinho se introduza no povo, ape¬ sar que geralmente gostam delle, porque nun¬ ca pode competir com os baixos preços dos vi¬ nhos do paiz, extrahidos do arroz. A louça ordinaria do Fuh-kien é boa e barata, e a de barro vermelho excellenle para vários utensí¬ lios : em Shangai vendiam-se 40 peças por uma pataca, na maior parte bules de differentes tamanhos e feitios, dos que são muito estima¬ dos em Lisboa por fizerem bom chá. OarroZ compra-se de l a 1 e meia pataca por picco ba¬ lança, ou 6 arrobas, e o assucar de pedra, ou em pó de 3 a 7 e meia patacas também por picco. Se os direitos nestes generos fossem dL minuidos em Portugal, sendo conduzidos da China em navios portuguezes, talvez a nos¬ sa navegação se conservasse, ou mesmo au- gmentasse para este paiz, com vantagem dos consumidores, convidando também a trazer o chá directamente, sem especial protecção a este produclo, como foi recentemente estabe¬ lecido. Em Shangai ha grande miséria entre o bai¬ xo povo, como em todas as cidades conheci¬ das do litoral da China! muita gente morre de fome, de nudez, e de frio. O infanticídio, tão cornmum na China, é devido na maior parte á extrema indigência; pois os Chinas contem¬ plam como felicidade ter muitos filhos, e quan¬ do os não temproprios, possuindo meios, com¬ pram os alheios. Em Shangai ha logares pú¬ blicos onde lançam as crianças, sacrificando quasi sempre as femeas, e raras vezes os va¬ rões. O povo é indifferente a estes horrores,
  • [351] as authoridades os toleram, e todos os julgam como cousas naturaes. Os Chinas são muito pouco compassivos e benevolos entre si, tendo em nenhum a [tre¬ co a vida dos seus compatriotas. Se um china vê outro em perigo imminente, não o soccor- re, e deixa-o morrer á sua vista. Em Macáo eram frequentes estes casos entre a gente do mar, deixando afogar qualguer china que ca- hia nas ondas, podendo ás vezes facilmente salval-o. -í ’ Também os Chinas não apreciam muito a propria vida : em Macáo eram frequentes os suicídios, e na China não são muito raros os casos de se offerecerem pessoas a soílfrerem a pena de morte por outras, mediante certo pre¬ ço, o que as leis ou os costumes admittem. A pena de morte é applicada tão summariae frequentemente que horrorisa: em Cantão qua¬ si diariamente se vêem cabeças expostas no campo das execuções, e ás vezes em não pe¬ queno numero. Faltam na China as instituições inspira¬ das pelo espirito christão e de caridade: os chamados hospitaes e sociedades de beneficên¬ cia, nem de longe offerecem á humanidade soffredora o allívio que lhes proporcionam na Europa. A civilisação europea é muito supe¬ rior nesta parte, e quasi em tudo, á civilisa- çào chineza.
  • [ 352 ] Mastros «le ferro* Missões e Igrejas em Pefeim* Estava em Shangai uma galera holíandeza com mastros de ferro, que por curiosidade fui vêr: são formados por tubos, com dois planos ou laminas no interior, do mesmo metal, e cor¬ tando-se em angulo recto : cada tubo ou mas¬ tro real é composto de duas telhas semi-circu- lares, adaptada uma á outra. Aapparencia des¬ tes mastros é como se fossem de madeira, e affirmava o capitão que além de leves e dura¬ douros, eram muito bons para o andamento do navio, que fez esta primeira viagem de Liver¬ pool a Shangai em 118 dias. Observei também no mesmo navio um systema de roda do leme, que o faz moverem quaesquer circumstancias com a força de um só homem, ou mesmo de um rapaz : todo o apparelho deste systema é de ferro, bastante simples, e occupando pouco espaço. Achavam-se fundeados em Shangai uns 30 navios europeus, quasi todos bellas galeras
  • [353] e clipers de 800 a 1:000 toneladas: era aepo- cha annual de mais actividade no comrnercio da Europa. Os clipers são navios expressamen¬ te construídos para navegarem contra monção, e os que se construem nos Estados-Unidos são reputados mais veleiros: Inglezes e Ameri¬ canos andam sempre em rivalidade, e fazem exorbitantes apostas sobre o tempo das via¬ gens, como em regatas ou desafios. O actual Vigário Apostolico de Pekim, Molly, que encontrei em Tapikô, dava noti¬ cia de se achar ainda fechada e intacta a Igreja Catholica em Pekim, que era das Missões por- tuguezas, e onde officiou até ao fim da sua vi¬ da o Bispo de Nankim D. Caetano Pires Pe> reira: logo que este falleceo, em 1838, o go¬ verno imperial fez fechar o templo, e pôr séllos nas portas, não se tendo mexido em cousa al¬ guma no interior da Igreja, ficando as alfaias e todos os mais objectos no estado e logar em que se achavam, e onde até hoje se conser¬ varão. Duas Igrejas tinham as Missões portugue- zas em Pekim : a mais antiga com a invoca¬ ção de S. José, chamada pelos Chinas Tsung- tang, ou — Casado Oriente—, foi destruida por um incêndio em 1814, e nunca se pôde obter licença para reconstruil-a. A Igreja ain¬ da hoje existente era a Cathedral, denomi¬ nada pelos Chinas Nang-tang, ou — Casa do Sul—. Havia mais uma Igreja franceza, e ou¬ tra italiana, que foram derrubadas, quando a Missão italiana se retirou de Pekim em 1811, seguida pouco depois pela franceza. O Bispo Molly reside em uma aldêa pro- 23
  • xima a Pekim, e alguns outros padres trance- zes nas proximidades, o que na verdade é con¬ tra o espirito dos tractados com a França, que só concederam o exercício da Religião Chris¬ ta no império, porém nunca a introdueçâo dos estrangeiros no paiz : com tudo o governo pa¬ rece que não póde ignorar a existência delles tão perto da capital. Este Bispo veio para Shan- gai pelo grande canal: vestido de cabaia e fal- lando chinez passava por china para com todos com quem tratava, e alguns até lhe pergun¬ tavam se alguma vez vira os ôarbaros, dos quaes fazem extravagante idéa os povos do in¬ terior, reputando-os como monstros hediondos. O imperador havia despedido do seu ser¬ viço todos os soldados christãos, usando deste meio indirecto de perseguição, eflicaz entre os chinas; porque os priva da sua ração de arroz, de que muitos só vivem. Estas perseguições porém, e todas as que lem havido contra , os christãos, não são por es¬ pirito de intolerância ou de fanatismo; mas sim pelo receio politico da influencia dos es¬ trangeiros, e de que promovam perturbações no império. As perseguições das authoridades aos christãos chinas não são com o pretexto da Religião que professam, porém sim pelo que¬ brantamento das leis do paiz, que prohibem dar recepção aos estrangeiros, ou entreter corn elles intelligencia. Não ha povo em geral mais indifferente em matérias de Religião do que é o povo chi¬ nez. Na China ha varias Religiões: os man¬ darins e a gente a que chamam illustrada, ou que cursou as Universidades, seguem geral-
  • mente a Religião de Confucio, ou Doutrina dos Letrados; Religião do Estado, e que parece se reduz a uma especie de homenagem que prestam ao seu primeiro philosopho, ao qual dedicam templos •, mas as suas idéas verdadei¬ ramente religiosas são muito obscuras para os Europeus : referem-se sempre á Rasâo-Eter- na, como principio creador e conservador. Di¬ zem que o geral dos indivíduos desta classe são ou materialistas ou pantheistas. A Religião mais seguida entre o povo é o'Budhismo ; mas dividido e sub-dividido em ritos diversos successivamenle mais absurdos. Ha também bastantes mahometanos. Em geral na China não ha enthusiasmo nem fanatismo nos sectários de qualquer das Religiões alli conhecidas; os mesmos christãos são geralmente tibios.
  • [ 3S6 ] Os jmicos na Clibia. No principio do século dezesete o jesuíta Ricci, e os seus illustrados companheiros em Pekim, tiveram inesperadamente noticia da existência de uma colonia de judeos em k’hae-fung-fii, capital do Honan. Urn estudante judeo, na¬ tural daquella cidade, que se achava em Pe¬ kim, apresentou-se aos missionários declaran¬ do professar a mesma Religião que elles ensi¬ navam ; mas depois de algumas explicações mutuamente conheceram que as suas Religiões eram distinctas. Ás interessantes informações obtidas des¬ te judeo, determinaram Ricci tres annos de¬ pois a mandar um christào china a K’hae-fung- íu, para verificara exactidào delias. Cópias de algumas porções do Pentateuco em hebreu fo¬ ram trazidas por este mensageiro; outros Is¬ raelitas vieram a Pekim, e curiosas eommuni- caçôes tiveram logar. No começo do século dezoito o padre Go~ zani., entào residente mesmo em K’hae-fung-
  • [337] fú, enviou a noticia mais. completa sobre os judeos alli existentes, e desde então até hoje decorreo século e meio sem haver mais nenhum esclarecimento sobre este curioso assumpto. Depois do Irac.tado de Nankim algumas pessoas na Europa se lembraram dos judeos da China, e desejaram saber qual era o seu es¬ tado actual. Miss Cook ofiereceo para tal fim o dinheiro sufficiente, á disposição de uma so¬ ciedade estabelecida em Londres para promo¬ ver o Christianismo entre os judeos. Começaram as diligencias, e em 15 de Novembro de 1850 partiram de Shangai dois chinas christâos protestantes, com as instruc- ções necessárias para procurarem os Israelitas, e munidos de cartas em hebreu de tres nego¬ ciantes judeos de Bagdad, estabelecidos em Shangai: chegaram a 9 de Dezembro a K’hae- fung-fú, tendo percorrido 700 milhas, na di- recção noroeste de Shangai. Vê-se dos roteiros que os dois chinas es¬ creveram desta viagem, que no paiz que atra¬ vessaram nas visinhanças do rio Amarello, o povo era geralmente pobre e infeliz; viram muitas habitações arruinadas, varias aldêas destruidas, e pouca cultura; eífeito das fre¬ quentes devastações pelas grandes enchentes deste lamoso rio, um dos maiores do mundo, e que tem de curso para mais de 1:000 legoas. Em K’hae-fung-fu acharam com eífeito os chinas viajantes a synagoga dos judeos, redu¬ zida a um templo quasi a cahir em rui nas, e a algumas familias, das quaes as mais pobres vivem á roda do mesmo templo, quasi sem vestuário nem abrigo; outros indivíduos são
  • [388] logistas de retalho na cidade, e alguns dão-se á agricultura nos suburbios. Pouco conheci¬ mento tem da sua Religião, mas apesar disso esta ainda os separa da multidão do povo, en¬ tre o qual vivem, pela maior parte mahome- tano, conservando-se como depositários inscien¬ tes dos oráculos de Deos, e sobrevivendo co¬ mo testemunhas solitárias da gloria passada de Israel. Nem um sóindividuo póde actualmen- te leros livros hebreus, e ha 50 annos que não teem um Rabbi. A esperança de um Messias parecia estar inteiramente esquecida. De seten¬ ta nomes de famílias, ou tribus que houve n’ou¬ tro tempo parece que só existem sete. A introducção do judaismo na China, se¬ gundo as tradições dos actuaes judeos, teve logar no tempo da dynastia Han, ha cousa de 18 séculos, no principio da era christã. O tem¬ plo actual diz-se ter sido construido em 1190, e foi augmentado e reedificado varias vezes, como consta das muitas inscripções, ou pran¬ chas de pedra escriptas em chinez, que ha no interior do templo, duas das quaes são bas¬ tante extensas, e muito valiosas pelas noticias históricas e religiosas que contém. Os mensageiros chinas compraram aos ju¬ deos oito manuscripíos, em papel grosso de¬ bruado de seda, e que parece ser fabricado na Persia. Pelo exame rápido que delles se fez em Shangai, deprehendeo-se que combinam geralmente com o texto recebido do Velho Tes¬ tamento hebraico. Taes foram em resumo os resultados das investigações a que sepropozeram rs dois chi¬ nas, que voltaram segunda vez aK’hae-fung-
  • [359] fu, e foram mais felizes ainda na sua missão, pois trouxeram em Julho para Shangai seis dos doze rolos da lei que tinham visto na primei¬ ra visita, contendo cada um uma cópia com¬ pleta de todo o Pentateuco, ou os cinco livros deMoysés, que foram comprados por 400 taeis de prata (cousa de 130 libras sterlinas) aos ju- deos solemnemente reunidos em numero de 300: estão escriptos com bella e legivel letra em grossos pergaminhos cozidos uns aos outros, e t m cada rolo 30 pés de comprimento por 2 a 3 de largura; nao se lhe vê pontuação, nem nenhuma das modernas divisões em sec¬ ções ou livros, e acham-se perfeitamente con¬ servados. Quarenta outros pequenos inanus- criptos hebraicos também foram trazidos, e é possível que o seu exame esclareça a antiga historia e migração desta fracçào do povo ju~ deo, ha 18 séculos perdida no meio do grande império chinez, no qual penetrou atravessan¬ do desde a Palestina os vastíssimos paizes da alta Asia. r, Dois dos judeos chinas acompanharam os referidos mensageiros, e achavam-se em Shan¬ gai para estudarem a lingoa hebraica, cujo co¬ nhecimento se perdeo inteirainente entre aquel- les Israelitas, os quaes manifestaram grandes desejos de restabelecerem regularmente o cul¬ to hebreu na sua synagoga. Os citados manuscriptos foram logo en¬ viados para Londres, e publicou-se depois um folheto em Hong-kong— The Jews at K'hae- fung-fú—, escripto pelo Bispo de Victoria, muito interessante neste assumpto.
  • [360] « CAPITULO QUADRAGÉSIMO NONO, Partida de Sliangai , um navio russo, e chegada a Tflacá». O negocio dos Chincheus foi-se apaziguando, e appareceram por fim editaes das authorida- des condemnando os pasquins, segundo as exi¬ gências dos Cônsules. Estes pasquins foram traduzidos, e pelas suas frases julgou-se serem obra de algumas associações secretas dos Chin¬ cheus. A 11 de Agosto a Capricieuse sahio para Macáo, e nella segui viagem •, porque a Ada- mastor tinha de se demorar em Shangai. Descemos rapidamente o rio com vento forte e de feição, gosando as lindas vistas dos campos de ambas as margens. Pelo meio da tarde lançámos ferro nas agoas do Yan-tse- kiang. Entre os navios ancorados em Wussung, pela maior parte inglezes, havia um russo de bellaapparencia, cuja presença nestas paragens tem sido assumpto de graves questões políti¬ cas. De alguns annosaesla parte este mesmo
  • [361] navio lem vindo por vezes a Shanghai, trazen¬ do ricas carregações de pelles, dos Estabeleci¬ mentos russos na America septentrional, so¬ bre o Oceano Pacifico, os quaes dizem terem já grande desenvolvimento e importância, o que em parte confirma a construcção de tão bello navio: em troco da sua carga, leva chá para aquelles Estabelecimentos, epara os pai- zes proximos da Russia asiatica. Esta permu¬ tação porém tem-se feito por contrabando em Wussung, tendo-se negado constantemente as authoridades chinezas a consentir que tal na¬ vio seja admittido no porto de Shangai, e ahi trafique livremente; apesar das reclamações do governo russo, baseadas nos últimos tractados que abriram os cinco portos ao commercio eu¬ ropeu ; argumentam porém os Chinas que ten¬ do a Russia um tractado especial, pelo quai se faz o commercio por (erra nas fronteiras dos dois impérios, por meio das caravanas, não tem- direito a participar do commercio mariti- mo. Esta contestação tem sido suscitada pela politica ingleza, e o Consul desta nação em Shangai bastante tem intrigado neste ponto com as authoridades chinezas, para não admit- tirem o navio russo, do mesmo modo que tem succedido em Cantão : apesar disto o commer¬ cio tem-se feito por contrabando, e mesmo o ultimo imperador fallecido Tao-kuan, estava muito inclinado a admittir o commercio russo pelos portos marítimos; o que para a Russia é bastante vantajoso, pois póde evitar o immen¬ se contrabando de chá, que os Inglezes nestes últimos annos tem introduzido na Russia pela Dinamarca, e importal-o directamente nos %
  • seus navios vindos da Europa, que levarão o cháá Russia europea muito mais barato, do que por meio das extensas e difficeis jornadas das caravanas. Durante 10 dias navegámos com vento duro do sul contrario, e mar bastante agita- do; mas depois tornou-se favoravel, entrámos no canal da Formosa, e a 29 de Agosto anco¬ rámos na rada de Macáo, com 18 dias de via¬ gem, sem notável accidente. Toda a navega¬ ção foi fóra da vista de terra. Fiquei muito grato ao favor e bom aco¬ lhimento que devi ao digno commandante e oílicialidade da Capricieuse, que é uma bella corveta, ou sloop-war, como hoje chamam ás que tem a bateria coberta: estava perfeita¬ mente arranjada para a viagem de circum- navegação do globo, a que fòra destinada, ten¬ do vindo de França pelo Cabo de Horn para a estação da China, devendo regressar pelo Ca¬ bo de Boa-Esperança. Entre outros aperfei¬ çoamentos marítimos, tem uma machina de destillaçâo para agoa salgada, que funcciona juntarngnte com o fogão: a agoa desti liada fica perfeitamente potável, mas é muito insipida ao paladar, e o seu frequente uso arruina o es- tomagó ; era só destinada para o serviço da co- sinha, e dos camarotes. A destillação era cons¬ tante em quanto se conservava o fogão aceso, e a agoa corria logo por certos apparelhos para os depósitos : em caso de necessidade a por¬ ção diaria poderia supprir os gastos da guar¬ nição, que se compunha de 2S0 pessoas. As sieop-war, tem vantag'ens sobre as cor¬ vetas comm uns, principalmente a da maior fa-
  • [363] cilidade e desembaraço na manobra do pan no e da artilheria na occasião de combate : a sua construcção já é praticada ha annos entre ou¬ tras nações, e não sei porque ainda não foi adoptada no nosso arsenal, ao menos uma vez para experieneia. No fim de dois mezes e meio voltei á mi¬ nha anterior residência em Macáo, que tornei a ver com todo o prazer de um ausente: esta cidade era então para mim uma segunda pa- tria, pelo trato e relações de amisade que alli me ligavam. Por este tempo continuava com furor a guerra do Kuang-si, obtendo vantagens os re¬ voltados, que já cunhavam moeda em nome do novo imperador, que haviam proclamado, com a legenda da dynastia Ming, e deixavam crescer o caoello ao antigo uso dos Chinas: dizia-se que as mulheres tomavam também uma parte activa nesta guerra, que parecia ter de se prolongar por muito tempo, e talvez de fin¬ dar pela independence do Kuang-si eHonan. As noticias da China alé meado de 1852 apre¬ sentam este negocio com o mesmo aspecto. Alguns daquelles povos são meio-selvagens, e parte dos seus districtos montanhosos nunca se sujeitaram inteiramente ao dominio tartaro; a sua lingoagem é mui diversa da das outras províncias, que também nisto differem muito entre si: ouvi chinas de Cantão e de Shanghai falJando em péssimo inglez para se fazerem entender : a classe iIlustrada falia uma lingoa especial a que chamam mandarina, que mes¬ mo assim se modifica em diversas províncias.
  • [364] ©eserícres, considerações sofere Macáo, e negocio* politicos com os Chinas. Eram frequentes as deserções no Batalhão de Macáo, e nos principios de Setembro de¬ sertaram em dois dias successivos 8 soldados e 1 corneta, e 3 delles abandonaram as senti- nellas que faziam, indo completamente arma¬ dos. Constou conservarem-se todos nas próxi¬ mas aldêas no território chinez, e o governa¬ dor mandou forças do Batalhão para os captu¬ rar, o que conseguiram depois de bastantes fadigas. Teve o governador motivo para suspeitar que um fulano Rosario, residente em Macáo, fora quem promovera esta deserção, com o fim de receber os ditos soldados n’uma lorchapara irem piratear; logo o fez prender, e o man¬ dou chibatar «até que os facultativos decla- «rassem officiulmente que corria perigo imrni- «nenfe a vida do réo.» Este castigo e estas palavras, exaradas n’uma portaria publicada no Boletim, foram objectos de grave censura
  • e accusação ao governador Cardoso, e os que lhe eram desafeiçoados por motivos bem alheios a este assumpto, o exploraram quanto poderam para malquistar o governador. Commetteo elle na verdade um grande - abuso do poder, em que oprecipitou a sua jus¬ ta indignação contra um crime das mais gra¬ ves consequências, eque podia compromelíer a segurança do Estabelecimento. Estava ao al¬ cance das leis militares o julgamento e castigo do réo, como alliciador de soldados para paiz estrangeiro em tempo de guerra, como se po¬ deriam encarar as circumstancias de Macáo em relação á China. No entanto este castigo, em¬ bora illegal, dado com todo o apparato mili¬ tar, foi de muito salutar efleito, e fez de todo cessar as deserções : a opinião publica o julgou bem merecido, pela péssima reputação que ti¬ nha o castigado, ao qual geralmente se attri- buia a alliciaçâo. O Rosario levou 1700 e tantas chibata¬ das sobre os quadris, e foi para o hospital 5 d’ahi a menos de dois mezes estava completa¬ mente bom, e conservava-se preso ao tempo que o governador Cardoso foi substituído pelo governador Guimarães, do qual um dos pri¬ meiros actos governativos foi mandal-o soltar, logo no dia immediate áquelle em que sahi- ra de Macáo o seu antecessor, que ainda em Hong-kong teve noticia deste acto, julgado acintoso e irregular. Se o governador Cardoso commetteo um grave abuso, fazendo castigar um homem sem preceder processo e julgamento, parece que em não menos grave abuso cahio o governa'
  • dor Guimarães mandando soltar esse homem por proprio arbítrio, estando indiciado de um crime gravissimo, e sobre o qual existia no Juizo de Direito o depoimento de quatro tes¬ temunhas que o condemnavam. Pará a soltura do réo não era rasâooter já recebido castigo; porque esse castigo não correspondia á pena do crime de alliciador, que fazia o objecto daac- cusação. Innocente ou criminoso o indiciado só podia Jegalmente ser solto depois de julga¬ do civil ou militarmente. Já referimos como foi tratada em Portu¬ gal a chamada — Questão política com a Chi¬ na—. Por este (empo (Setembro de 1851) desenganou-se o governador Cardoso, que era baldado esperar mais a tal respeito por uma resolução da Corte, e decidio-se a tomar um arbítrio por si mesmo. A situação de Macáo fòra até então mui¬ to falsa e difficil: não era nem de paz, nem de guerra com os Chinas. Macáo só vive pelo commercio, e não é possível alli haver indus¬ tria fabril ou agricola portugueza de alguma consideração, que dê emprego e subsistência a 4 para 5.000 habitantes, na maior parte dos quaes ha péssimos hábitos inveterados de re¬ pugnância ao trabalho, e especialmente aos officios mechanicos e de domesticidade. Toda a pequena industria é exercida pelos Chinas, não sendo em geral possível á nossa gente com¬ petir com elles, e menos ainda dedicar-se á cultura no pequeno terreno que possuímos, que não excederá a duas milhas quadradas. O commercio em Macáo sempre foi de duas especies, europeu e china. O commercio
  • [367] europeu fioreceu ainda muito nos annos de 1841, 42, e 43, durante a guerra dos Ingle- zes com a China * todos os negociantes ingle- zes recolheram áquella cidade, onde girou na- quella epocha immenso dinheiro, as casas e godôes ou armazéns subiram a preços exorbi¬ tantes, construiram~se muitos edifícios, e os cofres públicos transbordavam com dinheiro. Acabada a guerra, estabelecidos os In- glezes em Hong-kong, e abertos cinco portos da China ao commercio europeu, todo o mo¬ vimento commercial fugio de repente de Ma- cáo, cessando as immensas vantagens que lhe produzia, e que poderiam continuar, ao me¬ nos em parte, se não fora o funesto erro do governador Adrião Acaeio da Silveira Pinto, em não annuir logo ás propostas que lhe fize¬ ram os Inglezes para declarar Macáo porto- franco, medida que depois se adoptou já fórã de tempo, não produzindo nenhum bom resul¬ tado, e só desfalque nas rendas publicas. Por este tempo ainda considerável commercio chi¬ na se fazia em Macáo, onde estavam estabe¬ lecidas umas poucas de casas de ricos hãos, que giravam com muitos milhões de patacas, introduzindo deste ponto para todas as provin¬ ces do império as fazendas e generos do seu commercio, que despachavam primeiro no ho- pú, ou alfandega chineza que havia em Ma¬ cáo, e que depois com a respectiva chapa ou despacho entravam livres em todo o império. Em 1848 o governador Amaral expulsou o hopú de Macáo, levado por falsas idéas de decoro nacional: julgou incompatível a conti¬ nuação do hopú, que aliás só cobrava direitos
  • [368] para o imperador sobre o commercio china, depois de íer sido aboiida a alfândega portu- gueza, e entendeu ser excelleníe occasião de levara effeito esta medida o novo rompimento de hostilidades com que os Inglezes ameaça¬ vam os Chinas, no que também se enganou, porque não veio a ter Jogar. Cumpre dizer que a memória do Conselheiro Amaral, como go¬ vernador de Macáo, será sempre digna de res¬ peito e gratidão nacional, ese commetteu er¬ ros tiveram ao menos uma nobre origem. Com a expulsão do hopú os háos trataram logo de se retirar, porque não podiam conti¬ nuar a fazer d’alli o seu commercio para o in¬ terior, por circumstancias mui peculiares des¬ te trafico que seria longo explicar j mas ainda tentaram o restabelecimento do hopú, e che¬ garam a ofierecer alguns mil taeis mensaes pa¬ ra o governo de Macáo, por cotisação dos mes¬ mos hãos, que muito interesse tinham em se conservarem neste ponto, por terem aili os seus estabelecimentos, propriedades, e certas van¬ tagens Jocaes quen’outra parte não achariam* Segundo e menos desculpável erro commétteo o governador Amaral em não acceitar taes pro¬ postas, quando já o amor-proprio nacional es¬ tava satisfeito, a expecíaliva das hostilidades dos Inglezes desvanecida, e vindo com o res¬ tabelecimento do hopú um rendimento solido e avultado para a Colonia, já em tanto apu¬ ro de meios pela falta dos rendimentos da abo¬ lida alfândega. Finalrnenteoshãos tiveram de abandonar Macáo, e se foram estabelecer em Vampíi perto de Cantão, manifestando sempre desejos
  • [369] de voltar para Macáo, donde também muitos logisías e operários chinas logo se retiraram, por lhes faltar alimento ao seu commercio,* e trabalho braçal« Desde então cessou a grande concorrên¬ cia de embarcações chinas; os nossos navios deixaram de ser fretados, como o eram quasi sempre pelos hãos; varias casas egodões fica¬ ram por alugar ; e com o concurso de outras causas as fortunas foram-se reduzindo, e a mi¬ séria progressivamente augmentando, até ao ponto assustador em que hójé se acha. Na ver¬ dade Macáo está muito pobre; a miséria é mui¬ to maior do que apparentemente se manifesta; famílias inteiras definham á mingoa; a neces¬ sidade, e os máos hábitos de ociosidade, tem lançado na prostituição e nos vicios a muita gente; as dividas e as insolvências são abun¬ dantes, eos capitaes quasi de todo desappare- ceram de Macáo. Por este ligeiro esboço do triste estado de Macáo, poder-se-ha comprehender a im¬ portância do pensamento politico de chamar os hãos. O governador Cardoso o propôz ao Con¬ selho do governo, e bem assim a uma reunião dos principaes moradores de Macáo. Por todos foi a idéa plenamente approvada, sendo una¬ nimes as opiniões de que era esteounico meio de recuperar Macáo algum movimento, e vida commercial. Assim authorisado, aproveitou o governador certas intelligencias já estabeleci¬ das com os Chinas. Veio a Macáo um man¬ darim com o seu secretario, que parecia estar deaccordo com os hãos. Era homem esperto, e depois de algumas conferencias, encetou-se
  • [370] estedifficil negocio com a publicação de algu¬ mas chapas ou proclamações no gosto china, que pela maior parte só continham generalida¬ des, especie de program mas governativos ten¬ dentes a captar os Chinas, e convidal-os para Macáo, sendo certo que entre dies tiveram muita acceitaçâo. E’ cousa mui diíhcil tratar com os Chi¬ nas ; são summamente finos e velhacos, e em manhas políticas ninguém os excede. Atravez de muita obscuridade, e da idéa fundamental de voltarem os hâos e o hopú, pagando este uma som ma determinada á Fazenda de Ma¬ cáo, percebia-se um desejo de restabelecer o estado antigo de cousas na cidade, em respeito á população chineza. Hia o negocio nestes termos, ainda pouco adiantado, quando em meado de Novembro chegou a noticia da demissão do governador Cardoso. O seu successor tomou todo o inte¬ resse neste assumpto ; chegou a publicar em seu nome mais duas chapas, de accordo com o referido mandarim, e tomou a resolução de escrever directamente ao Vice-Rei Siú, parti¬ cipando-lhe achar-se nomeado governador de Macáo, com as vistas de facilitar a intentada negociação ; mas na terceira chapa que lhe foi proposta para publicar havia expressões impró¬ prias, e mesmo idéas falsas a respeito do es¬ tado de segurança em Macáo, que não podiam apparecer sem descrédito do governo, e menos dignidade para Portugal. O governador Gui¬ marães com toda a rasão não quiz publical-a, do que resultou, bem como de anteriores em¬ baraços, os dois chinas retirarem-se, e inter¬ romper-se a negociação.
  • [371] Foi este o estado em que ficou tal nego¬ cio á minha sahida de Macáo. No meu enten¬ der bem conviria náo o abandonar : com pa¬ ciência, muito geito e tactica também á chi- neza, talvez se possa levar ao cabo, apesar de apresentar muitas diíliculdades. Para se fazer idéa da importância com¬ mercial que se liga á existência do hopú nos Estabelecimentos europeus na China, basta ler-se o seguinte trecho do Friend of China do t.° de Janeiro de 1851, jornal de Hong¬ kong : “ O fechar-se á força a alfandega china de «Macáo foi uma medida de suicidio, um gol- «pe mortal para os interesses do Esíabeleci- « mento, e inteiramente suggerido por falsas « noções do que é devido á dignidade de uma «Potência Europea. « Hong-kong estaria, hoje em melhor po- «siçâo, se tivesse sido adloptada a proposta de « Sir Henry Pot finger, de se pagar ao go- «verno chinez uma renda por toda a Ilha, e «de consentir que corressem livremente o por- «to os empregados da alfandega chineza, de- « baixo de conveniente inspecção. » Os Inglezes teem feito repetidos e liberaes offerecimentos aos hàos para se estabelecerem em Hong-kong, que tem sido rejeitados ain¬ da pela esperança de voltarem para Macáo, onde as circumstancias especiaes do Estabele¬ cimento podem permittir a existência do hopú melhor que em Hong-kong, e do que depen¬ de essencialmente a vinda dos hãos. *
  • SCc®si»EBílas em Ílíifiu». e tuna questão iiioneturia. Ao mesmo tempo que seguiam as negociações com os Chinas, nomeou o governador uma commissão para propor reducções nas despe¬ sas publicas, a qual trabalhou com actividade, e hoje (Setembro de 1852) os seus trabalhos se acham no Conselho Ultramarino: no que delles vi, ernMaeáo, achei que não abrangiam talvez algumas essenciaes economias que se po¬ dem fazer no Estabelecimento. Os juizes de d rei to no Ultramar tem todos Í:000j009rs. forte, recebendo a quantia correspondente na moeda das respectivas pro¬ víncias ; mas o de Macáo tem por excepçào 2:000^000 rs. ou 2:000 taeis, pelo decreto de 14 de Maio de 1840: é o mesmo ordenado que recebiam os antigos ouvidores, no qual se comprehendiam 800 taeis, como administra¬ dores da alfandegaque eram; atlribuiçâo que ho¬ je não existe. A Commissão propôz 1:500,1000 rs. para o juiz de direito, recommentlando ao
  • [373] mesmo tempo que, em compensação, se con¬ ceda aos que exercerem este logar, mais al¬ guma melhoria ou adiantamento na carreira da magistratura. Parece que seria mais rasoavel reduzir o ordenado á regra geral de 1:000.4000 réis, ou 1:0 0 taeis; porque na verdade não ha rasão para que o juiz em Macáo tenha mais do que em Angola, Moçambique, ou Goa. Este or¬ denado já é vantajoso, para logar de 1 .a entran- c a. O governo paga a passagem e ajuda de custo na viagem de ida e volta na carreira dos vapores, que é propriamente um prazer por muitos invejado, dá boa casa para habitar n’um paiz são, e n’uma boa cidade; recebe além disto o juiz de 200 a 300 patacas de emolu¬ mentos annuaes; eno fim de Ires annos volta ao Reino, para seguir na sua escala a carreira da magistratura. Deque mais vantagens carece um juiz de direito em Macáo? Não propoz a Commissão reducção al¬ guma no ordenado do governador, que é de 3:000$000 rs. ou 3:000 taeis 5 mas parece que o deveria ter fei(o, porque esse ordenado sem¬ pre foi de 2:000 taeis, e só no tempo do go¬ vernador Adrião Accacio foi levado a 3:000, a pedido delle sob o menos exacto pretexto de dar jantares aos mandarins quando vinham a Macáo; hoje nem tal pretexto existe. Diz-se que um governador em Macáo tem muitas des¬ pesas a fazer; mas grande parte dessas des¬ pesas são voluntárias, não exigidas pelo servi¬ ço, nem pelas verdadeiras necessidades da sua posição. Se a nação está pobre vivam pobremente
  • [ 374] os seus empregados. Que verdadeira necessi¬ dade ha de darem bailes e jantares ? Estas cou¬ sas lá por fora só servem para sermos escarne¬ cidos pelos estrangeiros, que dizem com mui¬ ta rasão, que no meio de todos os nossos des¬ arranjos e misérias governativas, só somos for¬ tes em ridículas ostentações epataratices. Fa¬ çam-se os nossos governadores das Colonias, eem geral todos os empregados, distinguir pe¬ la probidade, pela justiça, pelo zelo no bem estar dos seus governados, e embora vivam com a maior simplicidade, hão de sempre adqui¬ rir o amor e o respeito dos nacionaes, e a ve¬ neração dos estrangeiros. Os Albuquerques e os Castros viveram pobremente; mas foram os heroes da sua epocha, e tem sido e serão a admiração da posteridade. O governador de Macáo com o seu antigo ordenado de 2:000 taeis, que linha nos tempos mais prosperos da Colonia, e com a habitação que lhe dá o Es¬ tado, pode viver em Macáo decentemente. O vencimento de 2:000$000 rs., um posto de accesso na classe militar, uma magnifica via¬ gem, e a residência n’um excellente paiz, já convidam de sobejo aos que estiverem no caso de pertenderem ou acceitarem taes empregos. A suppressão do Bispado de Macáo, pro¬ posta pela Commissão, é bem entendida; mas será dependente das negociações com a Curia Romana sobre o Padroado Real. O negociante Alexandrino Antonio de Mello, membro da Commissão, propôz como refórma que o valor das patacas em Macáo, actualmente de 720 rs., fosse elevado a 920 rs. ; o que não foi approvado, e quanto a mim
  • [375] era nisto que estava a economia mais justa, mais simples, e vantajosa para a Fazenda de Macáo. Este assumpto é um pouco embaraçado, e para se entender entrarei em algumas expli¬ cações, porque o julgo de interesse publico. Cumpre primeiro dar alguma idéadosys- tema monetário da China, que é o adoptado em Macáo. Os Chinas só teem uma especie de dinhei¬ ro cunhado, que sâo as sapecas, pequena moe¬ da de latào. O ouro e a prata correm como dinheiro ; mas em barra ou pedaços, que tem uma certa forma, e que sâo tomados a peso em todos os pagamentos e nas transacções com- merciaes: a unidade maxima do peso para o dinheiro é o tael, que se divide successiva- mente em 10 mazes, o maz em 10 condrins, e o condrin em 10 cachas. Note-se que usam os Chinas desde tempos immemoriaes o syste- nia decimal nos pesos, e também nas medidas lineares, que só hoje na Europa a tanto custo j se vai vulgarisando. O dinheiro europeu que mais concorre á China sào as patacas hespanholas, que nos por¬ tos onde ha cornmercio com os estrangeiros lambem sao dinheiro corrente, recebidas po¬ rém ao peso de 7 mazes e 2 condrins, ou de 720 condrins por cada uma, que é o peso da prata de uma boa pataca hespanhola. Todos os Chinas porém que recebem patacas logo as ca¬ rimbam, com a firma ou signal particular que cada loja ou estabelecimento usa, de modo que no fim de pouco tempo desapparece todo o cu¬ nho das patacas, e tornam-se umas informes
  • [376] chapas de prata, que se vâo quebrando por accidente, ou pela necessidade de dar trocos em mazes e condrins: chama-se-lhe então prata quebrada, queé oquemais gira em Ma- cáo, Na China é raro verem-se patacas lim¬ pas, isto é inteiras e sem carimbos ,* mas as que apparecem não tem por isso mais valor do que a prata quebrada. Sabido isto passemos agora ao nosso as¬ sumpto restricto. A labella dos ordenados e emolumentos dos empregados públicos em Macáo, de todas as ordens, é calculada em réis de Portugal; mas não havendo alli dinheiro portuguez era necessário, para se fazerem os pagamentos pú¬ blicos, estabelecer a relação entre esses réise a unidade monetaria do paiz. Determinou-se que essa relação fosse de 1:000 rs. por cada tael ou 100 condrins de prata: ora tendo as patacas 720 condrins de peso de prata, seguio- se em rigorosa proporção hear cada pataca re¬ putada em 720 rs., para os pagamentos esta¬ belecidos em réis que se tivessem a fazer em Maçáo. Deste modo o governador que tem 3:000)1 rs. de ordenado, segundo o Orçamento, rece¬ be em Macáo i: 166 patacas; o Bispo que tem de côngrua 2:000,^000 rs., recebe 2:777 pa¬ tacas , o juiz que tem também 2:000$000 rs., recebe igualmente 2:777 patacas, eos emolu¬ mentos também em réis calculados do mesmo modo •, e assim a respeito de todos os empre¬ gados. Dizer que, se o empregado recebe cada pataca por 720 rs. nada lucra j porque quando
  • [377] a vai gastar lhe é recebida pelos Chinas no mesmo valor de sete e dois, ou 720 rs., é um absurdo, baseado n’um trocadilho de palavras, que cumpre esclarecer. O preço dos genercs e manufacturas vendidas pelos Macaistas e pe¬ los Chinas são sempre em patacas : os Chinas não se regulam pelo nosso systema monetᬠrio, nem mesmo o conhecem ; o que querem é que cada pataca com que se lhes paga tenha de peso 7 mazes e 2 condrins, ou 720 condrins de prata • se elles faliam em 720 é referindo- se aos condrins que deve ter a pataca, e nun¬ ca a réis, que é cousa que não sabem o que significa. Se um China hoje me vende, por exemplo, um leque por uma pataca, recebida por mim do governo á rasão de 720 rs., pelo mesmo preço de uma pataca me venderá ama¬ nhã outro igual leque, ainda que o governo me tenha pago com ella á rasão de 3, 4, 8, ou 10 tostões. Para os Chinas é inteiramente indifferente o valor em réis com que o gover¬ no paga em patacas aos seus empregados ; por¬ que para elles as patacas tem um valor fixo no peso de 7 mazes e 2 condrins. Insisto tanto neste ponto, porque é uma cousa com que muita gente argumenta, por confusão natural, ou talvez capciosa em alguns. Ora quando o governo de Portugal man¬ dou admit tir ao curso legal os pesos hespanhoes em 1846, deu-lhes o valor de 920 rs., e hoje mesmo sem terem aquelle curso não valem me¬ nos no mercado. Parece pois rasoavel que os mande reputar em Macáo ao menos por 920 rs., o que produzirá de repente e pelo modo mais simples uma economia de 28 p. c. em
  • [378] quasi todas as despesas publicas do Estabele¬ cimento, e nãò á custa dos empregados ; por¬ que em rigor deixarão de receber só aquella parte que de mais se lhes paga. Se o governo recebesse as rendas publi¬ cas calculadas em réis, então não haveria tal¬ vez tanta justiça nesta alteração ; mas não suc- cede assim : os exclusivos do latão ou jogo de parar, da loteria, do sal, da carne, do peixe, etc., são arrematados e pagos em patacas; as decimas e impostos tanto aos Portuguezes co¬ mo aos Chinas são lançados e arrecadados 11a mesma especie, e só o imposto do papel sella- do é cobrado em réis, cu o rendimento de 230 taeis annuaes é dos mais insignificantes da Co- lonia. Observe-se que 720 taeis de prata pesam tanto como 1:000 patacas, que se compram em Lisboa quando muito por 930-1000 rs. : o governo querendo fazer pagar estes 930$00 rs. em Macáo, pelo actual systerna de fÓOOO rs. por tael, dá 930 taeis; isto é mais 210 taeis em peso effeclivo de prata, do que o peso que corresponde ás 1:000 patacas. As prestações mensaes de 6:000 pesos que vão, ou devem ir mensalmente de Portu¬ gal, são enviadas pela Agencia Financial de Londres em letras sobre a Companhia das ín¬ dias, e são sempre vendidas em Macáo ou Can¬ tão com sacrifício, e pelo estado dos câmbios o governo de Lisboa despende actualmente 1^000 rs. ou mais por cada pataca que põe em Macáo, onde as dá no valor de 720 rs. O cambio ordinário da China para a Eu¬ ropa é de perto de 5 shelins por pataca, eem
  • [379] muitas occasiões é de 5 shelins e alguns pen- nys; de muita vantagem para quem recebe pa¬ tacas a 720 rs., que lhe produzem em Lisboa de 1$000 a 1$100 rs. Já n’outra parte disse¬ mos, que o valor da prata vai progressiva¬ mente augmentando na China, e quasi tem duplicado nos últimos vinte annos, em rela¬ ção ás sapecas, ou raiz da moeda chineza. Esta questão reduz-se a saber se é ou não exacta, nas actuaes circumstancias dos câmbios e do valor dos metaes preciosos, a relação es¬ tabelecida de 1$000 rs. por tael de prata na China. Entendo que não o é, e acho que esta materia deve attrahir a attençâo do governo. Seja como for, a situação financeira de Macáo carece de promptas e decisivas provi¬ dencias. O orçamento do corrente anno eco- nomico de 1852 a 53, apresenta na receita 34:192 taeis, e na despesa 68:975. A verba militar é de 40:281 taeis, isto é absorve mais da totalidade das rendas publicas.
  • O jogo do Então. a Io teria eliisBeza, e os edMeios públicos em Macáó. Depois da extincção da Alfândega, unica fon- te de receita desde a origem do Estabeleci¬ mento, as rendas publicas derivam das deci¬ mas e impostos; de alguns foros, licenças, e outras pequenas verbas; e dos exclusivos se¬ guintes: venda de carne de porco, de vacca, de peixe, de sal na Taipa, de opio cosido, da pesca de ostras, do jogo do latão, eda loteria chineza. O total dos rendimentos públicos an¬ da por 34:000 taeis; os dois últimos exclusi¬ vos são das verbas mais importantes, e por sua naturesa dignos de alguma explicação. O latão é um jogo de parar muito usado entre os Chinas; semelha ao nosso jogo da banca, e consiste em separar de um montão de sapecas uma porção ao acaso, e depois de feitas as paradas a favor dos n.os 1, 2, 3^ ou 4, aarbitrio dos que apontam, são contadas 4 a 4 as sapecas separadas até á ultima parcella, que tem de ser de 1, 2, 3, ou 4 sapecas, e
  • [381] que determina o só numero em que ganham os pontos 2 ou 3 vezes a parada, sendo perdidas a favor do banqueiro as outras apostas sobre os 3 numeros restantes. Ha certas condições e variedades no modo de apontar, que tem alguma analogia com as da banca portugueza. O privilegio de dar este jogo arremata-se em hasta publica, e o arrematante, que é de ordinário agente de uma sociedade, estabelece varias casas, onde concorrem os Chinas, que em geral tem paixão pelo jogo de parar, eao que se costumam desde crianças; porque os vendilhões de dilíerentes acepipes ou golosei- mas, as jogam ao dado por todas as praças e ruas de Macáo, e os rapazinhos alli vào arris¬ car as sapecas que podem adquirir, em logar de comprarem logo o que desejam, tomando assim insensivelmente uma inclinação tão pre¬ judicial. O producto deste exclusivo já foi mais importante ; porém ainda figura em 8:640 taeis no orçamento de Macáo de 1852 a 53: além disto, e de varias despesas inherentes, paga o arrematante algum dinheiro oceultamente aos mandarins das visinhanças do Estabelecimen¬ to, os quaes por ameaças, e por todos os mo¬ dos que podem, arrancam dinheiro, mesmo aos Chinas que vivem debaixo das nossas leis e protecção. A loteria chineza é diaria, e feita por mc- thodo mui singular. Todos os dias se vende um plano, que consiste em 80 letras chinezas, impressas n’um pequeno pedaço de papel, que é ao mesmo tempo o bilhete, o qual o compra¬ dor toma peio valor que prefere, n’uma certa escala de preços, cujo minimo é de 5 sapecas
  • [382] (3 réis aproximadamente), e combinada tam¬ bém em relação ao numero de letras com que quer jogar o comprador, que no acto da com¬ pra as escolhe e nota com traços encarnados. Das 80 letras escolhe a direcção da lote- ria um numero determinado, formando uma sentença ou pensamento para cada extracção diaria, que se patentêa ao publico. A felici¬ dade do jogador está em se conterem nesta sentença, algumas ou todas as letras que no¬ tou no bilhete, e o prémio está na proporção do maior ou menor numero de letras em que acertou, e do custo do bilhete. Tudo isto é regulado por cálculos de progressão muito in¬ trincados, apresentando uma grande maioria de probabilidades a favor da loteria, de modo que o prémio grande, ou a combinação rnais favorᬠvel para o comprador de bilhete (que se eleva a algumas mil patacas), passam-se annosean- nos que se não realisa. Succede, ainda que ra¬ ras vezes, tirar-se bom numero de patacas com cinco sapecas. Este systema é muito engenhoso; mas de uma complicação incrível, e muito diíficil de explicar nos seus promenores : o que deixo dito dará porém delle uma idéa geral. Maravilha quanto são ageis e activos os chinas empregados na escripturação, e no ser¬ viço desta empresa: todas as noites as contas ficam fechadas, os prémios pagos, e o serviço do dia completo, com uma prestesa e regula¬ ridade admiravel. Muita genle de Macáo joga na loteria. O empresário paga ao governo, segundo o ci¬ tado orçamento, 4 :320 taeis, faz grande des-
  • [383] pesa com empregados, casa, etc., e lambem dá a occuJtas dinheiro aos mandarins, como o do latão. Tanto o rendimento do latão como o da loteria tem successivamente diminuído, com a gradual decadência do Estabelecimento, e a falta de concorrência a Macáo de chinas fo¬ rasteiros, e das embarcações; mas ainda assim produzem 18:000 patacas. Nenhum edifício publico civil ha notável em Macáo. O palacio do governo é pequeno, e falto de commodos. A casa do senado é vas¬ ta, e de boa apparencia; mas está muito ar¬ ruinada, etem sobre a porta de entrada as ar¬ mas de Portugal com a seguinte inscripção : CIDADE DO NOME DE DEOS, NÃO HA OUTRA MAIS LEAL. «Em nome d’El-Rei Nosso Senhor D. «João IV, mandou o Governador geral da Pra¬ tt ça, João de Sousa Pereira, pôr este letreiro, «em fé da muita lealdade que conheceo nos «moradores delia em 1654.» Ha tres ermidas e nove igrejas em Macáo, das quaes a Cathedral é a maior e inaisbella, tendo sido reconstruída desde os fundamentos no local da antiga Sé, pelo actual Bispo dio¬ cesano nos annos de 1845 a 50, e por elle foi sagrada em 21 de Dezembro de 1849, primei¬ ra ceremonia desta naturesa que se vio em Ma¬ cáo : é de estylo moderno, com elegante fa¬ chada, e duas torres rematadas em cupolas. A Cathedral é ao mesmo tempo igreja da Fre-
  • guezia da Sé, a mais populosa das tres em que Macáo esiá dividida, sendo Oragos das outras S. Lourenço e Santo Antonio. E’ mui formosa a frontaria da igreja de S. Paulo; unica parte que resta deste nobre edifício, que pelos Jesuiias foi erigido em 1662, segundo a inseripção existente na parte occi¬ dental da fachada. À igreja e collegio foram consumidos pelo fogo em Janeiro de 1834, eo dito frontispício serve hoje de entrada para o cemiterio publico: é todo de granito, e de ele¬ gante archiíectura grega 5 na parte inferior tem 10 coíumnas da ordem jónica, e outras 10 da ordem corinthia n’uma. íileira sobreposta ás primeiras, havendo entre todas di Aferentes ni¬ chos com boas estatuas. Existia ainda ha pou¬ cos annos um relogio de torre, que foi pre¬ sente de Luiz XIV de França a este Collegio de Jesuiias, que outr’oramuitofloresceo, che¬ gando a ter 90 collegiaes, 2 cadeiras de latim, 2 de theologla, 2 de philosophia, e 1 de bellas letras, com grande livraria, gabinete as trono- mico, etc. : foi um dos principaes focos de ins- iruccâo no Oriente. > Pela bellesa da archítectura, e boa exe¬ cução do trabalho, é o monumento referido a unica cousa digna de attenção que neste ge- nero existe em Macáo. O cemiterio está bem arranjado, tendo areadas e tumulos lateraes, e sepulturas rasas no pavimento da antiga igreja. Houve em Macáo tres conventos de fra¬ des: Sao Domingos, São Francisco, e Santo Agostinho : nas igrejas respectivas ainda hoje ha culto; dois dos conventos servem dequar-
  • [385] leis militares, e o terceiro de residência das Irmãs da Caridade francezas. Ha um mosteiro de freiras denominado de Santa Clara. As duas ermidas de Nossa Senhora da Pe¬ nha de França, e da Guia ou das Neves, são dignas de mencionar-se entre os edifícios reli¬ giosos de Macáo, pelos magníficos locaes que occupam, nos cumes dos morros da Penha e da Guia. As lorchas portuguezas , quando sa- hem ou entram no porto, costumam saudar com salvas de artilheria a ermida da Penha. Como recordação histórica é de mencio¬ nar que um simples pilar de pedra, que existe no plaino ao sopé do monte da Guia, é a haste da antiga Cruz quealli foi collocada, para mar¬ car o logar até onde chegaram os Hollande- zes, no desembarque e ataque que fizeram em Macáo no dia de São João de 1622, tendo sido repellidos com grave perda. Em geral as casas dos moradores de Ma¬ cáo são muito boas, e mais vastas, elegantes, ecommodas do que aquellas que em Portugal habitam pessoas de igual condição ; teem bellas entradas e escadarias, largas venezianas nas janellas, ou Varandas, e boas mobílias: em Macáo ha bastante gosto neste ponto, e o maior luxo consiste em ter mobilia, loiças, e vários objectos da Europa: as escadas e os sobrados são pintados a oleo com differentes debuxos, o que é de bonito eflfeito. Entre as construcções chinezas em Ma¬ cáo só são para notar quatro principaes pago¬ des, um em cada uma das aldêas de Moha e Patane, outro no caminho de Patane para a Porta do Cerco, e o quarto perto da Fortalesa 25
  • da Barra : os dois últimos sàode bonita archi- tectura no estylo chinez, e muito bem situa¬ dos, principalmente o da Barra, que tem dií- ferentes nichos ou capellas em amphitheatro, por entre grandes penedos, e frondosas arvo¬ res, que o fazem muito pittoresco. Os Chinas escolhem com muito tacto e *gosto os locaes dos seus pagodes, construin¬ do-os de ordinário por entre penedias e arvo¬ redos, e em sitios românticos ; são muito ama¬ dores das arvores, e sendo grandes e bellas as conservam pelo meio dos muros e edifícios, ou affeiçoam estes de modo que não tenham de as derrubar. Todos os edifícios deMacáo, e na China, estão sugeitos aos estragos da formiga branca, que ataca toda a qualidade de madeira, e a deslrue com incrível rapidez, chegando a fazer cahir de repente os sobrados e tectos das ca¬ sas, por novos que sejam, quando não haja a prevenção de fazer chegar a todas as partes do edifício o ar ealuz, unico meio conhecido até hoje para diminuir um pouco este flagello, que se estende a todos os objectos, e particular- mente a livros e papeis.
  • ©s autos, ou o theatro chine* em Macáo* Nao lia edifício permanente para theatro, e o mesmo succede nas cidades chinezas: pare¬ ce que só em alguns grandes pagodes ha lo¬ cal, e construcções apropriadas para.estes es- pectaculos, que em geral se representam n’um grande barracão com o teclo angular e muito elevado, coberto com esteiras ou colmo ; o ma¬ deiramento é formado de bambus, fortemente ligados com fios de roiim ; é aberto por todos os lados, e só tem uma frágil parede de taboas no fundo do que chamaremos palco, aos lados do qual correm parallelas uma especie de va¬ randas ou trincheiras, com assentos para os espectadores, que os querem pagar, e o seu preço para os Europeus não excede a um maz de prata, ou um tostão: o espaço intermédio constitue a platéa, sem sobrado, nem amphi- theatro, com a entrada toda aberta em frente do palco, gratuita para o povo, que vê o es- pectaculo de pé, e que sempre concorre em
  • [388] multidão. Os indivíduos que ficam na primei¬ ra fileira da platéa, são obrigados a apoiar-se com as mãos na extremidade do palco, que lhes fica na.altura das cabeças, formando co¬ mo um renque de escoras com os braços nús, para resistirem aos contínuos embates das on¬ das dos espectadores, os quaes, vistos das va¬ randas, formam apinhados umaespecie de pa¬ vimento composto de cabeças muito unidas, rapadas na maior parte do casco, e que ora são levadas todas n’uma direcção ora n’outra, exac- tamente como as vagas de um mar banzeiro. Se o espectador levanta a vista para o te- cto vô um bando de attais (rapazes ou gaiatos chinas) de todos os tamanhos, pendurados, escarranchados, e a marinhar pelos bambus, semelhando ligeiros macacos, e que quando lhes dá a vontade, ou o capricho ourinam so¬ bre aquella respeitável assembíéa. Nestes theatres não ha panno de bocca: as decorações são muito singelas e grosseiras, e as poucas mutações na scena todas se fazem á vista do publico: de noite são illuminados com fachos e luzes sobre o tablado. Duram as representações de dia das 11 ás 5 da tarde, e continuam das 7 á meia noite, ou mais. A re¬ presentação é contínua, e não tem os inter- vallos dos nossos actos ; mas hascenas succes- sivas que se vão annunciando por uma especie de cartaz, ou taboleta, que penduram n’uns barrotes, na posição que corresponderia ás co- lumnas do proscénio. De dia dão-se quasi sempre peças sérias ou históricas, reproduzindo os antigos aconte¬ cimentos do império, entrando o imperador e
  • [389] os seus ministros, e nas quaes de ordinário ha guerras, combates singulares, conspirações, traidores castigados, e pulos ou grandes exer¬ cícios gymnasticos, no que os Chinas são ha¬ bilíssimos, e mui superiores ao que neste ge- nero se vê na Europa: os pulos com voltas duplas e triplas no ar, que apenas executa al¬ gum artista celebre europeu, vêem-se fazer como cousa commum por uma duzia de ho¬ mens n’uma scena. De noite representam-se as peças jocosas ou entremezes, havendo quasi sempre uma cama no palco, e scenas lascivas tão ao vivo que offendem o gosto dos Europeus, e impe¬ dem que o theatro seja frequentado por mu¬ lheres decentes, macaenses ou chinas. As tres unidades são despresadas no thea¬ tro chinez, como na eschola romantica da Eu¬ ropa : uma mulher concebe, torna-se gravida, tem o filho, e cresce este, tudo em acto suc¬ cessive. Vi uma scena em que uma mulher por ciúmes matou o amante, sugando-lhe o sangue como um vampiro, depois lhe arran¬ cou o coração e os intestinos, e veio passear pelo palco com as tripas penduradas da bocca, fazendo que as devorava com o praserdeuma fera esfaimada. Tal scena parece-me que não lembrou ainda aos nossos românticos exagge¬ rates. O theatro chinez é antiquíssimo nos an- naes deste povo, muito rico em producções dramaticas, e algumas se tem traduzido mo¬ dernamente em inglez e francez que apresen¬ tam bastante mérito e regularidade. Dizem que ha varias analogias entre o antigo theatro
  • [390 j grego e o chinez : ha coros, musica, e as per¬ sonagens que entram nas peças vem no prin¬ cipio declarar ao auditorio quem são, e o pa¬ pel que vão representar. Certas qualidades do seu caracter, como a valentia, o saber, a fra- quesa, a traição, etc. , são reconhecidos pelo espectador por determinados distinctivos ou or¬ natos. Varias acções subentendem-se por si- gnaes convencionados : por exemplo, o actor que traz um chicote suppõe-se que vem a caval- lo, e quando o entrega é indicio que se apêa. A orchestra está no fundo do palco, e é composta de uma especie de rebecas, de gai¬ tas com forma e sons semelhantes áclarineta, e de bategas ou timbales, o que produz uma mu¬ sica estrondosa e infernal, que acompanha qua¬ si constantemente a declamação; junte-se a isto o frequente rebentar dos panxões ou es¬ talos sobre a cabeça dos actores, admiravel¬ mente a proposito no fim das falias, ou nas passagens de maiores atíectos*, e fazer-se-ha idéa da bulha confusa e incommoda que se experi¬ menta, e que cobre a voz dos actores, apesar de berrarem ás vezes extraordinariamente. Os representantes são todos homens 5 vi alguns de bastante merecimento, eque expri¬ miam bem no rosto e gestos, por onde eu só os podia avaliar, diíferentes affectos e paixões. Os vestuários das altas personagens são magní¬ ficos, de ricas sedas e bordados. Estas companhias são ambulantes, e ajus¬ tam-se pelos dias de representação, segundo o mérito dos actores e a riquesa da guarda-rou¬ pa : regulam de 50 até 200 patacas por dia. As representações tem logar de ordinário na occa-
  • [391.] sião de festas nos pagodes, para o que con¬ correm os devotos como nas nossas funções de arrayal. Outras vezes os logistas de qual¬ quer povoação ou bairro da cidade, cotisam-se só para o fim de haver theatre, ou fazem cor¬ rer subscripçÔes: de ordinário dura de 3 a 8 dias, e se construe diante de um pagode, de modo que o palco fique em frente dos idolos. Nas representações que vi em Macáo, nas al- dêas de Patane e da Barra, o palco ficava so¬ bre a agoa; porque os respectivos pagodes sâo situados á margem do rio, e succedia por ve¬ zes irem tomar de repente um banho alguns dos espectadores, que estando junto ao palco eram arrojados pela pressão enorme da mul¬ tidão. No pagode da Barra presenciei uma re¬ presentação, que teve logar ás 7 horas da ma¬ nhã, de assumpto religioso, ou especie de ora¬ tória, em que houve só miraica: vários gru¬ pos de mulheres (homens transvestidos), lin¬ damente vestidas, formavam nas suas atitudes letras chinezas, exprimindo certos pensamen¬ tos, e epithetos das suas divindades: no fim do espectaculo uma figura, representando um deus do paganismo, lançou ás mãos cheias sa¬ pecas sobre a platéa; foi curiosa a scena de confusão cjue se seguio, ao serem apanhadas e disputadas pela multidão, não só por ser di¬ nheiro, mas pelas idéas supersticiosas de feli¬ cidade que os Chinas ligavam á posse de taes sapecas. Uma grossa amarra formada de pan- xões, pendurada do tecto, começando a es¬ tourar veio ainda tornar mais grutesca e diver¬ tida a scena.
  • [392] Sendo a dança conhecida e praticada en¬ tre os povos mais barbaros, é muito singular que não seja usada nem appreciada pelos Chi¬ nas ; antes a encaram como cousa ridícula, Uns mandarins de Cantão assistindo a um bai¬ le, estranharam muito as danças e valsas eu- ropeas ; disseram que nâo comprehendiam co¬ mo em tal cousa houvesse praser, e que quan¬ do muito taes exercícios só seriam prop rios pa¬ ra mandar executar por criados, a fim de di¬ vertir seus amos. Na musica nâo tem os Chinas melhor gos-r to, enaodao appreço algum ás mais sublimes composições europeas: a cantoria porém é commum entre elles; mas nem homens nem mulheres tem boas vozes, ao menos eu nunca taes as ouvi; com tudo não deixam as mulhe? res de ter alguma graça no cantar, e também algumas vezes é supportavel a rebeca china, donde alguns tocadores tiram sons harmonio¬ sos, mas sempre monotonos para ouvidos eu? ropeus. Fallárnos ha pouco nas cabeças rapadas dos Chinas. Em todo o império e suas depen¬ dências os chinas varões rapam a cabeça des¬ de pequeninos, deixando somente no alto del¬ ia uma madeixa, que forma uma trança que chega em muitos até aos pés. Este uso foi im¬ posto aos Chinas haverá 200annos, pelos seus últimos conquistadores os Tartaros manchus, debaixo das mais severas penas, que a final o introduziram em toda a massa da população: houve porém no principio grande repugnância e resistência, a qual pouco tempo depois da conquista degenerou em umarebelliào formal.
  • [393] que se estendeo a varias províncias, fazendo recuar e pondo em perigo o dominio dos Tar- taros. Os Chinas mostraram nesta occasiào que amavam mais o seu cabello que a sua pa- tria, pela independencia da qual nenhuns es¬ forços fizeram, entregando-a como facii presa á audacia dos Tartaros, que elles impruden- teinente haviam chamado a intervir nas suas divisões civis. E’ porém singular que a raça tartara não adoptasse o uso propriamente chinez, ainda mais extravagante e até cruel, de darem aos pés das mulheres a fórma aproximada de um pé de cabra não fendido, dobrando os quatro dedos menores para debaixo da sola do pé, e entranhando-os nella, ficando só o polegar na posição natural, comprimido e alteado todo o pé: desta maneira ficam as mulheres privadas do jogo das articulações nesta parte do corpo, de modo que andam como se tivessem só cal¬ canhares, apesar do que algumas correm, po¬ rém a outras é necessário andarem abordoadas. Se a cabeça rapada e a trança foram impos¬ tas pela força, os pés desconjunctados foram in¬ troduzidos pela lisonja, ou segundo outros pelo ciume. Na China, como em vários povos da Europa, a pequenez dos pés sempre foi repu¬ tada uma bellesa nas mulheres, e o capricho ou loucura de um antigo imperador dizem que levou á exaggeração esta reputada perfeição, dando a fórma actual mente usada aos pés de uma das suas concubinas, o que se tornou em moda nas familias dos grandes da corte, don¬ de em breve passou a quasi todas as classes da nação, excepto ás mais infimas. As mu-
  • [394] lheres que trabalham no campo, as que vi~ vem sobre a agoa, e geralmente as meretri¬ zes tem pé grande. A condicão das mulheres na China, sen- do melhor que na maior parte do Oriente, e comtudo muito inferior á que gosam na Euro¬ pa. De ordinário pouca ou nenhuma educação intellectual recebem, e não sabem ler nem es¬ crever, o que não succede entre os homens ; raro é o china, mesmo das mais baixas clas¬ ses, que não saiba ler e escrever ao menos 80 ou 100 letras do seu idioma, para os usos mais necessários da vida. E’ sabido que os Chinas não tem alfabeto; isto é letras representando sons componentes de palavras : as suas letras ou caracteres significam idéas e não sons ; da¬ qui vem haver na lingoa chim 10:000 caracte¬ res, segundo dizem, e raríssimo é o china que os conhece todos. As mulheres vivem reclusas no interior de casa, raras vezes são vistas, não herdam os bens patrimoniaes, que só são divididos en¬ tre os varões, nem escolhem os maridos. Os casamentos fàzem-se por ajuste entre as famí¬ lias, ou por meio de corretores ; o marido e a mulher só se conhecem no acto do casamento. Todo o china de ordinário casa aos 1G ou 18 annos ; mas além da primeira mulher ou legi¬ tima póde ler concubinas, porém os filhos ha¬ vidos delias só tratam e respeitam como mãi a primeira mulher, á qual as outras também são subordinadas, vivendo quasi sempre na mesma casa, e de bom accordo entre si.
  • [395 ] Regresso da lorclia Adaniwstor. piratas clsiiias, e demissão d© governador Cardoso. A lorcha Adamaslor sahio de Shangai nos fins de Agosto, e visitou no regresso para Macáo os portos de Ningpô, Fuchau, e Amoi, en¬ contrando por toda a costa as nossas lorchas : a bandeira portugueza é a que mais frequen¬ temente se encontra hoje na navegação cos¬ teira da China, entre Cantão e Shangai, e a que tem ainda mais prestigio entre os C hinas. Mais de 4-0 Jorchas andavam então nestas pa¬ ragens, nos comboios e serviços de que já te¬ mos fallado, e é para notar que a quantidade e o movimento das sómas de commercio e das pescarias seja tal, que dariaoccupação talvez ao duplo daquelle numero de lorchas, e muito mais proveito do que actualmente, se cessas¬ sem ou se reprimissem as desintelligencias e desordens, que promovem vários patrões das lorchas, e se se sujeitassem a um regula¬ mento para interesse de todos. Conseguin¬ do-se regularisar este importante trafico, so-
  • [396] bre as bases convenientes, póde-se talvez dizer que boa parte da navegação costeira 11a China de Cantão a Shangai, se fixaria nas mãos dos Portuguezes. A Adamastor trouxe tres lorchas deNingpô em sua conserva, por abandonadas da tripulação, ou por anterior requisição de seus donos. Por aquelle tempo infestava estes mares uma grande esquadra de piratas, composta de mais de 40 somas e taumões, alguns com mui¬ ta artilheria: o seu chefe, depois de enrique¬ cido pela pirataria nos portos do sul e oeste do império, dirigio-se para o norte, e tornou- se um pirata generoso, roubando das embar¬ cações que encontrava só as que mais tenta¬ vam a sua ambição, e dirigindo-se principal¬ mente a atacar as esquadras imperiaes. Nas iminediaçôes deNingpô, mandava a terra ven¬ der opio e varias fazendas roubadas, desembar¬ cando a sua gente em grandes povoações, sem que as authoridades se atrevessem a obstar- liie. Encontrou varias lorchas portuguezas, as quaes tratou muito bem, respeitando as em¬ barcações dos seus comboios. Depois que cheguei ao Reino vi em jor- naes da China, que augmentara muito a força destes piratas nas costas do norte, e que se atreveram a deter as nossas lorchas, e a exi¬ gir dinheiro delias, e das somas que comboia¬ vam, chegando algumas a recolher para Ma- cáo. E’ natural que o desgraçado successoque teve logar em San-pwan com a Adamastor, haja influído para tal audacia da parte dos Chi¬ nas. Aquelles piratas porém no principio de 1852 submetteram-se ao governo imperial 5
  • [397] os chefes principaes passaram a ser mandarins* encarregados de cruzar e vigiar nas mesmas paragens onde até então tinham commettido toda a especie de atrocidades. Estes casos são muito frequentes na Chi¬ na. O celebre pirata Cani-pau-sai, de que já falíamos, depois de capitular com os Portu- guezes, foi, segundo as convenções com o Vi- ce-Rei de Cantão, feito mandarim de elevado gráo, e depois chegou a ministro d'Estado, gosou por largos annos do favor imperial, ede grande influencia na corte. Para os homens de coragem e de genio, é a pirataria uma es¬ pecie de carreira : começam roubando no mar em pequeno ponto, vão augmentando em for¬ ça, e reunindo adherentes até que se achem em estado de tentarem maiores empresas, e de ameaçarem as grandes povoações, e os man¬ darins dè terra; entram em negociações com elles, e terminam quasi sempre por obterem um emprego importante do Estado, edistinc- ções, atraiçoando de ordinário os seus compa¬ nheiros. Succede porém por vezes, terem es¬ tes especuladores um trágico fim quando jul¬ gam ter satisfeito a sua ambição, sendo deca¬ pitados, ou mortos traiçoeiramente, pela per¬ fídia daquelles com quem tratam. A pirataria na China é quasi inextinguí¬ vel ; está como nos hábitos de uma parte da população. Nas proximidades, e quasi dentro dos portos de Macáo e de Hong-kong, nunca se navega com segurança nas embarcações chinas, e mesmo as nossas lorchas é necessᬠrio sempre andarem bem armadas e preveni¬ das. Aos basares de Macáo e de Hong-kong
  • é que se vão vender quasi todos os roubos que se fazem nas paragens próximas, e ás vezes mesmo nas costas mais distantes, sem que se¬ ja possivel haver rigorosa policia a tal respeito. Em Setembro de 1852 teve logar outro successo bem lamentavel, e semelhante ao que aconteceu na Adamastor. O 2.° Tenente d’Ar¬ mada, Francisco Xavier dos Santos, foi apre- hender uma lorcha de piratas, ancorada no proprio porto de Macáo, apenas acompanha¬ do por um soldado, e um marinheiro: chega¬ ram a apoderar-se delia, mas depois os chinas mataram o soldado, o official morreu affogadq, e só o marinheiro se salvou. Os piratas fugi¬ ram, porém depois foram constrangidos a en¬ calhar a lorcha, salvando-se a gente em terra. Estes acontecimentos são de péssimo effeito para nós no espirito dos Chinas. A lorcha Sarah andando a piratear nos fins de 1851 nas immediações de Hong-kong, depois do acontecimento de San-pwan, foi quei¬ mada n’um mallogrado ataque que fez a uma soma mercante, morrendo quasi toda a tripu¬ lação : salvou-se porém o inglez Fenton, que foi trazido muito mal tratado para Hong-kong, onde preso se restabeleceo, e passou por um processo como pirata, em que foi absolvido e solto; mas d’ahi a tres mezes sendo de novo capturado pirateando com os chinas, foi condem- nado a prisão e tres an nos de trabalhos públicos. Na mala de Novembro chegou a Macáo o decreto da demissão do governador Cardoso, sendo nomeado para lhe succeder o capitão- tenente Izidoro Francisco Guimarães. Causou isto geral surpresa e sentimento : o caso das
  • [399] chibatadas no Rosario não era ainda sabido na Corte, e não servira ao menos de pretexto pa¬ ra esta demissão, que só teve logar para sa¬ tisfazer certas vistas e vinganças particulares, porque tão frequentemente os nossos ministros d’Estado se deixam influir nas suas resoluções. Em 19 de Novembro tomou posse o novo governador com as formalidades do estylo ; mas a ceremonia não teve a animação, e esperanço¬ so interesse que distinguio o acto da posse do governador Cardoso. As circumstancias já eram muito diversas, e bem as reconheceo o proprio governador Guimarães, dizendo no discurso que naquella occasião dirigio ao seu antecessor: « Posto que V. Ex.a me lega uma empresa mui- «to superioras minhas forças, édejustiça con- «fessar que ella é hoje muito mais leve do que «quando V. Ex.aa tomou sobre si, neste mes- «mo logar ainda não ha dez mezes. » Com efíeito em menos de dez mezes mui¬ tos melhoramentos promovera a Macáo. Além dos que já indicámos, e que foram sempre pro¬ gredindo, o governador Cardoso foi incansável em estabelecer a economia e o arranjo nos dif- ferentes ramos do serviço, e descia ás vezes ás maiores minuciosidades. Fez remover dos ar¬ mazéns do Senado os objectos militares da Fa¬ zenda, e os pôz em boa arrecadação na For- talesa do Monte, evitando que se estragassem completamente, como já succedera a muitos, pelo mais indesculpável desleixo. Fez estender a aulhoridadc portugueza a algumas das aldêas chinas das ilhas visinhas, e talvez mais nisto se poderia ter adiantado se se não preoccupas- se com infundados receios dos Inglezes. Au-
  • gmentou as rendas publicas, principalmente pela regularidade da cobrança, e tendo satis¬ feito a quasi todas as despesas do tempo da sua gerencia, deixou em cofre ao seu successor 32:000 patacas, quando no dia em que rece¬ beu o governo não havia 80 patacas disponíveis ! È’certo que destas 32:000 patacas, umas 6 ou 7:000 pertenciam ao cofre dos defuntos e ausentes ; mas ainda deduzidas, e pagos os 5 mezes do augmento do atraso á corveta D. João, durante a gerencia do governador Cardoso, e algumas dividas de fornecimentos ou obras do mesmo tempo, e mais attenuando quanto pos¬ sam aquella quantia os adversários deste go¬ vernador, sempre a final hão de restar alguns pares de mil patacas como fructo do seu bom governo, e que elle juntava e conservava como reserva, para acudir a qualquer crise extraor¬ dinária que sobreviesse ao Estabelecimento. O governador Cardoso tinha defeitos, co¬ mo todos os homens : era ás vezes precipitado ou cahia em obstinação, e teve demasiadas contemplações pessoaes. Ninguém porém lhe poderá negar independencia e probidade, zelo no serviço, e amor da justiça. Foi em summa um dos melhores governadores que moderna¬ mente tem ido a Macáo, e d’alli ainda nenhum sahio com provas tão manifestas e documen¬ tadas de sympathia, e reconhecimento da maior e melhor parte dos seus moradores. No dia em que entregou o governo ao seu successor, foi hospedar-se no Paço-episcopal, donde na noite de 24 de Novembro partio para Hong-kong na corveta D. João, e d’alli seguio para a Eu¬ ropa na carreira dos vapores deste mez.
  • [401] Jk Gruta «1c Camões, e despedida de Macáo. Com este nome é bem conhecido em Macáo o Jogar onde o Cantor dos Lusíadas, segundo a tradição constante, tantas vezes abrigou a sua nobre cabeça, e se entregou aos sublimes extasis da sua alma. Em Portugal geralmente não se fórma apropriada idéa deste sitio fa¬ moso, e que é quanto a mim o mais bello que ha nesta cidade, e que o seria em toda apar¬ te do mundo. Asseme-lha-se muito á celebrada Penha- verde, ou Quinta de D. João de Castro, em Cintra; mas contém ainda mais bellezas natu- raes. E’ um montículo proximo á margem do porto ou rio interior de Macáo, e quasi a pi¬ que para este lado, sobranceiro á povoação chi- neza de Patane : sobre elle estão lançadas con¬ fusamente grandes massas de granito, arredon¬ dadas nas extremidades, como se nota nas pe¬ nedias de Cintra. Do forte terreno vegetal a descoberto en- 26 \
  • [ 402 ] (re os penedos, e das varias fendas, surge uina multidão de bellas arvores, de quasi todas as especies da China, e outras dos Estreitos de Malaca, da Java, de Manila, e de Goa; for¬ mando todas um lindo e copado bosque: en¬ tre estas arvores sobre-sahem, pela sua corpo- lencia e belleza, as que chamam de pagode, ou de baniane como as denominam na índia, e com as suas raizes, que se espalham em fôr¬ ma de tecido, cobrem inteiramente as pene¬ dias próximas. Os troncos de algumas assen¬ tam mesmo sobre altos rochedos nús, as suas raizes os vestem como de uma tunica, e vao longe entranhar-se na terra vegetal que as ali¬ menta : também outras fibras ou raizes descem perpendicularmente dos ramos, e arreigando-se no terreno formam novos troncos ligados á ar¬ vore principal, parecendo column as* _ Estes accidentes; as fôrmas e posições ca¬ prichosas dos penedos, ostentando alguns admi¬ rável equilíbrio; a variedade e vigor do arvo¬ redo, entre o qual se destacam bonitos grupos de agigantados bambus, semelhando as touças dos castanheiros em Portugal 5 a multidão das aves gorgeando por entre a verde folhagem, tudo, tudo arrebata a um amador da natureza. A arte também não falta para realce des¬ tas bellezas, e todas as vantagens do terreno se acham aproveitadas: ha lindos caminhos em declive, serpeando por entre os rochedos im¬ pendent es, cruzando-se em differentes direc- ções, conduzindo aossitios iriais pitiorescos, e a vários mirantes, affeiçoados sobre os roche¬ dos, donde se gozam deliciosas vistas ao per¬ to e ao longe : vários arbustos e arvores fru-
  • [ 403 ] cliferas estão misturadas, com feliz irregularida¬ de, por entre o arvoredo silvestre; encontra- se uma elegante rotunda, e outros logares apra¬ zíveis para descanço; em fim nada lia alli de monotono, e o limitado terreno parece ter-se multiplicado pela variedade e prazeres que offe- rece a quem o percorre. O actual proprietário, membro do Senado e procurador da cidade de Macáo, o cavalheiro Lourenço Marques, continuando a obra dos seus antecessores, muito se tem esmerado, por benemerito e patriótico espirito , em tornar este local pelo lado da arte verdadeiramente encantador. E’ só para lastimar que os aper¬ feiçoamentos de architectura se estendessem á Gruta de Camões, de per si tão bella em toda a sua rudeza e simplicidade ; ainda quan¬ do assim nào fosse, qualquer embellezamento ou alteração da mão do homem alli praticada, seria sempre um deturpamento, e um atten- tado contra o bom gosto. Esta Gruta, cuja celebridade durará a par da memória do grande Poeta, fica quasi na parte mais elevada do montículo, c é formada de Ires grandes rochedos: dois apresentan¬ do duas paredes quasi parallelas, distantes 135 centímetros, no prolongamento de 332, com a altura de 450; o terceiro assenta ho- risontalmente sobre estes dois, formando o te- cto, que fica bastante saliente para o lado orien¬ tal da Gruta, á maneira de um alpendre. Entre os dois rochedos parallelos acha-se um pedestal quadrilongo, de 56 por 111 cen¬ tímetros de base, e de 153 d’alto, e nas duas faces correspondentes aos lados abertos da Gru- *
  • la estão gravadas na pedra, e pintadas de pre¬ to, as seis oitavas dos Lusiadas: Canto X. Est. XXIII. — C. VII. Est. LXXIX, LXXX, e LXXXI. — C. VI. Est. XCV. — C. VIII. Esí. XLIÍ. Sobre o pedestal es(á o busto de Camões ao natural, de cor bronzeada, e tirado em gre¬ da por artistas chinas, sobre o retrato que se vê á frente da edição dos Lusiadas do padre Thomaz José d’Aquino, reproduzida em Pa¬ ris em 1815. Ahiexistioanleriormente outro busto que mãos brutaes e sacrílegas mutilaram. Esíe e outros acíos de brutalidade, e má educação, decidiram o proprietário dojardimanão o fran¬ quear inteiramente ao publico, como d’antes succedia, e a resguardar o interior da Gruta, fazendo-lhe as obras que hoje se veem. Na pequena base onde assenta o busto lê-se o seguinte: NASCEG LUIZ MORREO DE 1524 CAMÕES 1579 As excrescencias feitas na Gruta consis¬ tem em dois porticos em arco, de alvenaria, nas duas entradas correspondentes, fechadas com baixas cancellas de madeira: o principal olha para o occideníe, eé coroado por uma en- tablatura da ordem dorica, com ornatos emble¬ máticos no frizo; sobre a architrave estão escul¬ pidas em relevo na alvenaria, e pintadas de pre¬ lo, as seguintes letras chinas : Hcl '||* tque significam « O Sabio por excellencia.»
  • [408] Do mesmo modo nas pilastras de alto a baixo se acham os caracteres seguintes : «y que dizem : « As qualidades do espirito, e do coração o elevaram acima da maior parte dos homens. Os litter atos sábios o honraram e veneraram j mas a inveja o redu%io á mi¬ séria. Seus sublimes versos estão espalhados por todo o mundo. Este monumento foi eri¬ gido para transmittir a sua memória á pos¬ teridade. » Nas bases das duas pilastras se lê : na da direita —L. Marques, Erexit.— na da esquer¬ da— A. J. de Vasconçellos, Delineavit. E’ singular a circumstancia que, passa¬ dos quasi 300 annos desde a morte de Camões,
  • [ 406 ] nesta primeira e humilde edificação que lhe foi dedicada, só appareça uma inscripção no idioma chim, tão afastado e avêsso do nosso, como para symbolisar o ingrato esquecimento daquelJes que foliavam a mesma linguagem, cujas riquezas e harmonias tanto patenteou o sublime Poeta que a eternisou na terra. Como para estas innovações não foram quebrados os rochedos, éfacil por isso fazel-as desapparecer quando se queira, e restaurar a Gruta ao seu primitivo estado. Sobre a formidável massa de granito, que forma o tecto da Gruta, se acha um bello mi¬ rante, com uma cupula no gosto chinez, e don¬ de se desfruta deliciosa vista. Dalli nas suaves horas da madrugada de um bello dia, ou nos poéticos e saudosos instantes dooccaso do sol, uma alma sensível e melancólica pode gozar doces extasis; ora olhando os sacros ro¬ chedos que deram abrigo ao grão Poeta, e os antigos (roncos que lhe ministraram som¬ bra; ora vendo as límpidas agoas e as ilhas verdejantes, os montes fronteiros e as varzeas graciosas, por onde triste dilatava os seus olhos; e por fim contemplando o formoso ceo que lhe inspirava os carmes! No murmurio das ondas, e no susurrar dó bosque; no gemer da brisa, e no canto da ave; os ouvidos d’alma parecem escutar o no¬ me do Cantor immortal! Na solidão da natu¬ reza, e no recolhimento dó espirito, tudoalli de Camões diz a saudade! A natureza e a poe¬ sia parece terem feito deste logar o templo do grande Génio, onde é forçoso que o adore todo aquelle que se preza de ter nascido na terra que elle tanto amou!
  • Quão maviosas, quão tocantes soam alli aquellas palavras que um insigne poeta mo¬ derno pôz na boca de Camões ] d Oh gruta de Macáo, soidào querida, « Onde tâo doces horas de tristeza, « De saudade passei! gruta benigna « Que escutaste meus languidos suspiros, « Que ouviste minhas queixas namoradas, a Oh fresquidâo amena, oh grato a»ylo a Onde me ía acoitar de acerbas mágoas, Onde amor, onde a pai ria me inspiraram « Os maviosos sons e os sons terríveis « Que hão de affrontar os tempos e a injustiça ! « Tu guardarás no seio os meus queixumes, « Tu contarás ás provindouras eras a Os segredos d’amor que me escutaste, « E tu dirás a ingratos Portuguezes « Se portuguez eu fui, se amei a pairia, * Se, além della e d’amor, por outro objecto « Meu coração bateu, luctou meu braço, « Ou modulou meu verso eternos carmes. A Gruía de Camões, este asylo sagrado da desgraça e do genio, é visitada por quan¬ tos naeionaes e estrangeiros Vem a Macáo, e delia faliam muitos escriptores e illustres via¬ jantes. O celebre estadistaehinez Ki-ing, de quem temos fallado, a visitou varias vezes, em quan¬ to esteve em Macáo no anno de Í845, sendo então Vice-Rei de Cantão e commissario im¬ perial ; e a melhor idéa que se lhe pôde dar do Genio raro que alli se recorda, foi dizer- lhe que era o Confucio portvgnez: então Ki- ing saudava constanlemeyte o busto do Poeta, com as zumbaias próprias do seu paiz. Os seguintes versos acham-se esculpidos, o ...
  • [408] em letras doiradas, sobre uma pedra collocada reintrante no rochedo, em continuação da Gru¬ ta para o lado do oriente. Patané lieu charmant et si clier au Poete, Je rToublierai jamais ton illustre retraile; Ici Camoens, au bruit du flot retentissant, JVléla Paccord plaintif de son lulh gémissant. Au flambeau d*Apollon allumant son Gánie J1 chanta les Héros de la Lusitanie : Du Tage, à l’urne d’or, loin des bords paternels De Bellune il cueillit les lauriers immortels : Malheureux exile, cet emule d’Homere Acheta son Génie au prix de sa misère. 11 posséda, du moins pour charmer ses doulf.urs, Les baisers de l1 Amour et les chants des neuf Soeurs. Lusus et les Chinois honorent sa memoire : Le temps qui détruit tout agrandira sa gloire. Mui qui chéris ses vers, qui pleurai ses malheurs J aimais à saluer ces bois inspirateurs. Je visitais cent fois cet humble et noble asile; Dans ta Grot te, ô Louis, mon cceur fut plus tranquille* Agile plus que toi, je fuyais dans les champs Et le monde et mon cceur, Ten vie el les Lyrans. Au grand Louis de Camoens, Portugal's d’origine Cas- tillane. Soldat religi'eux, voyageur et Poèle exile; L’humble Louis de Rienzi, Franqais d’origine Romane, Voyageur religieux, soldat et Poete expatrie, 30 Mars 18i7? A respeito do author destes versos dire¬ mos duas palavras. Na bem conhecida Obra Precis de Geo~ graphie Universelle, de M aíte-Brun. edição de 1843, tomo quinto, pagina 170, nota nu¬ mero tres, encontra-se a seguinte passagem que fielmente traduzimos : « Os versos que se lêem na Gruta de Ca-
  • [409] mões são de Mr. de Rienzi, que consagrou vários annos a percorrer a India, as costas da China, e a Oceania. Foi-nos dito por este Viajante que elle fez esculpir em Macáo um busto de Camões; que o collocou na Gruta, e que fez gravar á roda da imagem do Poeta uma inscripçào em chinez, e outra que elle compôz em versos francezes ; porém que um inglez arrendatario do jardim, invejoso deque a honra tributada á memória de um grande homem recahisse sobre a Nação Franceza, fez desapparecer a inscripçào que decorava o bus¬ to monumental.» O viajante Rienzi faltou feiamente á ver¬ dade : a composição dos versos francezes, e os pensamentos para a inscripçào chineza são as únicas cousas que lhe pertencem, mas que só onze annos depois da sua retirada de Macáo foram aproveitadas : tudo o mais é uma fabu¬ la, bem imprópria de um homem de letras. Quando Rienzi esteve em Macao, de 1827 a 1829, já havia vários annos que se não ar¬ rendava o jardim de que se falia, nem se ar¬ rendou mais aíéhoje, vivendo sempre alli seus proprietários portuguezes, e nunca Rienzi lá fez gravar inscripçào alguma-, nem até a es¬ cultura dos seus versos na pedra foi á sua cus¬ ta, e se não fora a contemplação devida á me¬ mória dos que já não existem (suicidou-se em França em 1844 ou 1845), entraríamos em mais algumas particularidades menos lisongei- ras a seu respeito. Rienzi subministrou os pensamentos da inscripçào em chim, segundo colligi de um manuscripto de sua letra que vi, e do mesmo
  • [410] parece entender-se que o padre Lamiot, mis¬ sionário francez, os traduzio para a lingua chi¬ na : passados vários annos, em 1840, é que po¬ rém se tratou de gravar a dita inscripção, e foi então de novo apurada por um versado lit- terato chim, Gai-Pang, que areduzio a esta¬ lo sublime : dizem os entendidos estar escri- pta com eiégancia e pureza. Fernando Denis, no tomo segundo do Portugal Pittorcsco, fallando desta Gruta, diz que foi alli que Camões recebeu as mais no¬ bres inspirações, e accrescent a : «apesar disto o simples monumento que lhe foi consagrado não é homenagem portugueza. » Provavelmen¬ te o illustre historiador foi induzido a este er¬ ro pela citada passagem deMalte-Brun : cum¬ pre vindicar a verdade, para não augmentar ainda mais a feia nodoa de ingratidão, que tanto envergonha nesta parte a nação portu¬ gueza. Algumas paginas mais adiante das pala¬ vras transcriptas, diz Fernando Denis que o antigo Vice-Consul de França em Macáo, Cha¬ in ye, a esse tempo tratava de mandar um bus¬ to de bronze para esta cidade, obra do babil cin¬ zel de Júlio-Droz. Sabemos que este busto foi encommendado pelo cavalheiro Lourenço Mar¬ ques, para o collocar na Gruta; mas até hoje (Novembro de 1852), nem está feito. Fernando Denis escreveu recentemente a um seu ami¬ go em JLisboa, dizendo-lhe que Julio Droz se prestava afazer o busto de Camões, em bron¬ ze e maior que ao natural, pela módica quan¬ tia de 600 francos, em attenção ao objecto e destino deste seu trabalho.
  • [ill] Todas as obras já descriptas feitas naGru* ta em 1840, o busto existente, o pedestal, a collocação da pedra com os versos francezes, tudo tem sido feito por diligencias e á custa do referido cavalheiro Lourenço Marques, que na verdade ha despendido avultada quantia no aformoseãmento, que ainda continua, do sitio tão amado pelo Cantor das nossas glorias, a cuja memória este cidadão paga um raro tri¬ buto entre Portuguezes, e o unico que até agora se lhe tem rendido neste genero. Causa lastima, senão vergonha e indigna¬ ção, considerar que em Macáo, nas diAferen¬ tes e longas epochas em que os cofres públi¬ cos transbordavam de dinheiro, se hajam des¬ baratado centos e centos de milhares de pata¬ cas, em gastos pueris, em funções, e em ex¬ travios, e que nunca houvesse a lembrança de erigir um monumento, uma estatua, á memó¬ ria do grande Camões, que tão viva e peren- ne devêra ser nesta cidade. Em nenhuma par¬ te da Monarchia ficaria melhor coliocada, do que sobre o grande rochedo que cobre a Gru¬ ta, no pavimento onde hoje se acha o miran¬ te chim : parece que a natureza lhe tem ex¬ pressamente preparado o soberbo e formoso pedestal, no montículo que tentámos descre¬ ver : a estatua sendo de dimensões convenien¬ tes, póde, surgindo do vertioe, lindamente re¬ matar aquelle bosque pyramidal, e ser vista pi f loresçam ente de muitos pontos de Macáo, e do mar. Não seria difficil realisar este pensamen¬ to, se os moradores de Macáo nisso se empe¬ nhassem : a estatua feita em Portugal não im-
  • [412] portaria em muito, e a sua conducção poderia obter-se do governo, em algum vaso de guer¬ ra que fosse á China, ou do patriotismo d’al- gum dos proprietários dos navios mercantes que vão a Macáo. A Gruta de Camões tem inspirado bellos versos a vários estrangeiros seus visitantes: transcreverei algumas das melhores composi¬ ções modernas de que tenho noticia. IN CAVERNAM URI CAMOÊNS OPUS EGKEGIUM COMPOSUI3SK FERTUR. Hie, in remotis sol ubi rupibus Frondes per altas mollius incidit, Fervebat in pulchram camoenam Ingenium Camo*énlis ardens : Signum et pdclse mármore lúcido Spirabat dim, carminibus sacrum, Parvumque, quod vivens amavit, Effigie deeorabat antrum : Sed jam vetustas, aut manus impia Prostravit, eheu ! Triste silentium Regnare nunc solum videtur Per scopulos, virides et umbras ! At fama nobis restat — at inclytutn, Restat pdetse nomen — at ingenii Slat carmen exemplum perenne, Area nec monumenta quserit.
  • [413] Sic usque Virtus vincit, ad ultimas Perducta fines temporis, exilus Ridens sepulchrorum inanes, Marmoris et celerem ruinam ! J. F. Davis. Macaio, MDCCCXXXI. SONNET TO MACAO. Gem of the orient earlh and open sea, M acao! . . that in thy lap and on thy breast Hast gathered beauties all the loveliest, Which the sun smiles in his majesty! The very clouds that top each mountain’s crest Seem to repose there, lingering lovingly. How full of grace the green cathayan tree (1) Bends to Lhe breeze — and now thy sands are prest . With gentlest waves, which ever and anon Break their awakened furies on thy shore! Were these the scenes that poet looked upon Whose a lyre though known to fame knew misery more l v (^) They have their glories, and earth’s diadems Have nought so bright as genius gilded gems! Dr. Bowring. Macao, 30th July, 1849. (1) Bamboo. (2) 4* Aquelle cuja lira sonorosa Será mais affamada que ditosa, » Camões.
  • [414] En el recinto de la sacra gruta, Donde resuena de tu fama el eco, Osára, yo, trazar oscuro nombre Con atrevida mano? No discujpára, no, de agravio tanta Sentir del estro la viviente llama, Y enardecido de la gloria al templo Osar seguirte. Desecho pues el pensa mien to loço, I descubrindo mi cabeza humilde, Tributo pago a tu talento grande Camoens ilustre. *21 de Maio 1850. LA GROTTE DE CAMOENS. A Monsieur Lourenço Marques. Pourquoi ces ornemens, et ce double portique, Ces modernes frontons masquant la grotte antique, Ces frivoJes decors, lout ce luxe emprunlé? Rendez, rendez plutôt à ce lieu solitaire Son simple et noble aspect, son cachet de mystere, Et sa sauvoge majesté. Laissez Ehumble rocher sans festons, sans sculpture. Pare des seuls attraits qu’il tient de la nature. Que lui sert cet eclat? Pour qu'il frappe les yeux A-t-il besoin de faste et de pompe étrangère ? 11 soffit au ciseau de graver sur sa pierre Ce nom qui fut si glorieux. Brisez ces lourds barreaux au profane vulgaire Fermant de tous cotes le sacre sanctuaire. Ouvrez lui librement Faeces de ce séjour; Qu’il puísse pénétrer sous cette voute sombre Oil le Barde fameux venait s’asseoir à Fombre Et s’abriter des feux du jour;
  • [MS] Qu’il puisse contempler la paUible retraite Qui retentit des chants de Filluslre poete; S’inspirer aux accords de sa sublime voix; Demander à Fecho de répéter encore Les sons mélodieux que la lyre sonore Faisait entendre sous ses dpígts. CPest là que, loin du bruit, et s’isolant du monde, Au milieu du silence et de la paix profonde, Sous cette roehe nue, ouverte an doux Zephyr, Respirant la fraichcur au sein de ces ombrages, J1 aimail à tracer ses immortelles pages Pour les léguer à Favenir ; C’est là que déposant son armure pesa ate, Fatigué de combats, et de lutte sanglante, L’intrepide soldat, le fiei aventurier, Dans un champ plus fecond cherchant une autre globe A son front couronné déja par la Victoire Attachait un nouveau laurier; CTest là qu’a son pays, sa chère et douce idole, Consacrant sa pensee et sa male parole, Entrainé par Félan de sa hrulanle ardeur, II jelait hardiment sur le sol poelique L’eternel fondemenl, la base granitique D'un monument plein de grandeur; Là que, donnant Lessor à son vaste genie, Des valeureux enfants de la Lusitanie 11 chanlait dans ses vers les glorieux exploits; De Vasco de Gama celábrait les conquêtes, Et Fimpuissant courroux du Géant des tempetes Soudain se calmant à sa voix; Là que, suivant de pres les traces de Virgile, Heureux imitateur, il semait dans son stile D’un colon’s brillant Feclat et la fraicheur; Et tirant de son luth une tendre harmonie, Au chantre gracieux de Fantique Ausonie Disputait souvent sa douceur.
  • [ 4Í6 ] C’est de là que parti pour revoir sa patrie, Assailli par les vents sur la mer en furie, Au sein de P Ocean par la vague emporté, Conlre les flots fougueux luttant avec courage, 11 arrachait au gouffre, et sauvait du naufrage Ses vers, son immortalité; C’est de là que, voguant vers les rives du Tage, Vers ces bords fortunes, lémoins de son jeune âge, 11 s’etait élancé, le coeur libre et joyeux, Souriant à Paspect de ses vertes campagnes, De ces bois d’orangers, de ces belles montagnes, Dont 1’image charmait ses yeux; A 1’aspect de ses Iieux, oíi son ame ravie S’etait épanouie au souffle de la vie, Oil le pauvre exile rêvait tant de bonheur, Et qui devaient bientôt, abritant sa misère, Pour prix de ses travaux, au bout de sa carrière, Ne lui laisser que la douleur. La honte, la douleur, les lambeaux, la misère Ce fut là le partage et 3’unique salaire Du poete immortel, orgueil du Portugal! ^ Tandis que, le front ceint d’une riche aureole, Pétrarque, ivre d’honneurs, montait au Capitole, Camoens mourait à Phopital! Dans un quartier désert de cetle ville immense, A Lisbonne, berceau de sa joyeuse enfance, On voit encor la place oil pauvre, mendiant, N’ayant pour se vêtir qu’une étoffe grossière, Sans aliments, sans pain, assis sur une pierre, II tendait la main au passant. Un grabat d’hopital, un bloc de pierre nue, Des hailions pour manteau, pour asyle la rue A celui dont la voix charmait tout 1’Univers! Et pas une statue, offerte à sa memoire, Qui rappelie son nom et ses titres de gloire, Et le venge de ses revers!
  • [417] Pas un seul monument, une pieuse image Qui dise à PEtranger, cherchant sur le rivage, Aux lieux qui Pont vu naiLre, un simple souvenir: Par un tardif respect sa palrie oublieuse A voulu se laver d’une laehe honteuse Et lui prouver son repen'tir ! Honneur du moins à vous, enfant de cette terre Oil s’assevait Camoens sous Pombre hospitaliere. A vous, de Macao digne et glorieux fils ! De soins religieux entourant sa retraite, Vous avez fait, vous seul, pour Pillustre poete Bien plus que n’a fait son pays. Jules Zanole. Macao 19 Mai 1851. Releve-se á imaginação do poeta Jules Zanole a exaggeração, que reputamos fabulo¬ sa, sobre alguns dos factos apontados nestes seus versos. A corveta D. João l.° teve ordem de recolher para Lisboa : aproveitei tãoboaocca- sião de regressar para o Reino, visitando ao mesmo tempo as possessões portuguezas da ín¬ dia e da Africa. Em 24 de dezembro fui dizer o ultimo adeus á Gruta de Camões, «onde tão doces horas de tristeza, de saudade passei» , e em despedida escrevi na parede da Gruta estas maviosas e alheias palavras, precedendo o meu nome que cedo dalli desapparecerá com ellas, porém nunca da minha memória o sentimento que exprimiam. Era aquelle o meu passeio frequente e fa¬ vorito, e nada me aprazia mais do que divagar poralli sósinho ao fim da tarde, ao claro da lua, 27
  • [418] ou mesmo na escuridão da noite. Toda a mi¬ nha vida me lembrarão essas doces horas tão repassadas de deliciosa solidão e melancolia! De qualquer logar da terra onde me conduza o destino sempre visitarei com o pensamento a Gruta de Camões, penetrado de encanto e saudade! O dia de Natal de 1851 foi o ultimo que passei em Macáo, e na honrosa companhia do Bispo diocesano, de quem me separei possuí¬ do do maior reconhecimento, saudade, e affe- cto. Por 16 mezes residi em Macáo, só com a ausência da hida a Cantão, e viagem de Shan- gai: para sempre me será grata a recordação deste tempo, e a dos amigos que alli adquiri. E’ um bello paiz, e pela salubridade, situa¬ ção topographica, gozos e commodidades da vi¬ da, é sem duvida ainda hoje Macáo a mais preferível e agradavel de todas as nossas ci¬ dades coloniaes. FIM DO TOMO PRIMEIRO.
  • [419] IlTDIGfS DAS MATÉRIAS COMIDAS NESTE TOMO, Aos Leitores . .. g Capitulo!.—Sahida de Lisboa . ... _ 5 Cap. II.—Cadiz e Gibraltar , , , , ^ 3 Cap. III. —O Mediterrâneo.. 17 Cap. IV. —Os Árabes ...... _ Cap. V. — Malta e Alexandria. ... _ §7 Cap. VI.—O Nilo, e Boulac .... _ 33 Cap. VII.—deserto, 03 hotéis, e a mi¬ ragem ^.. 46 Cap. VIII.—Suez, o Egypto, eAbas-Pa- chá — 55 Cap. IX. — O Mar Vermelho e Adem . 65 Cap. X. —*• As ilhas de Socotora e Ceylão. 77 Cap. XI. — Navegação no golfo de Ben- galla, e a ilha de Pinão.. gg Cap. XII. — Estreito de Malaca, vista da cidade deste nome, e chegada á ilha de Singapura.* . . . _ qq Cap. XIII.—O mar da China, a ilha de Hong-kong, e a chegada a Macáo . . — 97 Cap. XIV.— Primeiros dias em Macáo, e circumstancias deste Estabelecimento . — 105 / Cap. XV. — Explosão da fragata D. Ma¬ ria II.. , Cap. XVI.—A cidade de Cantão. . . _ 126+ Cap. XVII. — O Boletim do Governo de Macáo. 241 Cap. XVIII. — Trasladação dos restos mor- taes do conselheiro Amaral. . . . . — 144 * Cap. XIX.-—Sahida de tres navios mer¬ cantes portuguezes para Lisboa ... — Cap. XX. — Chegada do governador Car¬ doso a Macáo. 15^ ' Cap. XXI. — Q anno novo dos Chinas . — 155 4-
  • [ 420 ] Cap. XXIT. —Primeiros actos da admi¬ nistração do governador Cardoso . • . pttg. 4-Cap. XXIII. —Idea geral da força mili¬ tar do império chinez, e continuação do assumpto precedente. ...... 1 Cap. XXI V. — A cadèa de Macáo . . — *(Cap. XXV. — Successos na China, e con¬ siderações a respeito deste paiz • • • Cap. XXVI. — Um sermão em Macáo, e o collegio de S. Jose das IVIíssoes. . . Cap. XXVII. — Missões portuguezas na China, missionários francezes, Padroado Heal, e a Sociedade da Propagação da Fé • • — Cap. XXVIII. — As sociedades secretas na China ..'.«••••• • • Cap. XXIX. —Expedição das ilhasFilip- pinas contra o sultão e piratas tie Sold . — +. Cap. XXX. —O clero e o culto em Ma- cá . Cap. XXXI.—Noticia sobre as lorclias de Macáo . . • » • • • • • • Cap. XXXII. — Arribada da corveta D. João . JL Cap. XXXII1. — V isita do governador de Hong-kong a Macáo, e a administração do governador Cardoso...... Cap. XXXIV.—Sahida de Macáo para Shangai, Hong-kong, e na\egação até Amoi.. 161 167 m 184 198 $05 $$5 $34 $36 $38 $51 $55 $58 Cap. XXXV. — Chegada a Amoi, e no¬ ticia desta cidade . . . . Cap. XXXVI. — Navegação ao longo da costa do Fuh-kien, descripção de uma lorcha, e uma noite de tormenla. . . Cap. XXXV11—O dia de S. João, o porto deShiom-ha, esua descripção nau- tica pelo segundo tenente Miranda . . Cap. XXXVIII.—Sahida deShiom-ha, poesias portuguezas, e curiosidade histó¬ rica sobre a ilha de Chu-saion . • . — §64 — ■ mi
  • [421] Cap. XXXIX. — Um tristíssimo re vez, perseguição a um pirata, e chegada á ilha de Chussan., Cap. XL. —A cidade de Ningpô, e os ves¬ tígios do antigo Estabelecimento dosPor- tuguezes. Cap. XLI. — A ilha de Chussan, e par¬ tida para Shangai. Cap. XLII. — Navegação até Shangai, e noticias desta cidade. Cap. XLIIf.—Apresentação aos Cônsu¬ les, e noticia de um naufragio na Coréa. Cap. XLIV".—Apresentação ao Tao-tai, e circumstancias cjue precederam ao re¬ conhecimento do Consul portuguez em Shangai Cap. XLV.—Ida a Tapicô, os pasquins chinas, e os Chincheus. Cap. XLVI. — Idea geral de Shangai, e do seu commercio. Cap. XLVII. — Mastros de ferro, Missões e Igrejas em Pekim. Cap. XLVIII.—Os judeos na China. Cap. XLIX.—Partida de Shangai, um navio russo, e chegada a Macáo . . . .pCap. L, — Desertores, considerações sobre Macáo, e negocios politicos com os Chi¬ nas • ^Cap. LI. — Economias em Macáo, e uma questão monetaria ... . -jCap. LII. — O jogo do lata), a loteria chineza, e os edifícios públicos em Ma¬ cáo Cap. LIII.—Os autos, ou o lheatro chi- nez em Macáo. Cap. LI V. — Regresso da lorcha Adamas- tor, piratas chinas, e demissão do gover¬ nador Cardoso. Cap. LV. ■—A Gruta de Camões, e des¬ pedida de Macáo. fim no ÍNDICE. pag. 292 — 303 — 308 — 315 — 323 — 332 — 339 — 343 — 352 — 356 — 360 — 364 — 372 — 380 — 387 — 395 — 401 •
  • , í -; lOt / I ç? (• * M.V Xc,& 8è'£ óaii \88 10* *xava; ojíVí -iiáiss ai J 77/. .q.-jO i.1 fifeí'i§«dó -* céJfi‘tlq cíhi í; o&>iu*$32T»q , . . . * - - . iÍB*.q?ík.í V> vrilí ‘•aov se í> ^-jv : : .i/'] :•*') ol -í;!:b A — JX .qnD ;:ob o!■ asu>ijaiadmUÍ!. •• iac .)b /.©|J . . •.‘ 2*Ya**\'QVÍ -isq - - u<: i ob ijdli A—'.l.lTi .*£nf> 11;y :iJ:*. orK . 1 L( /I ) \ ^ c. . . . . . . .oí*iibb &\ yo r.:i'ji.ío.'í -ifvíiGv.) 'eoa uòpnjfíOtfS-:-!/v—- .IIÍJX] .?;á3 ,fiòio-J án oigfirôw/jíi rru ab âbfjoaa Ç.-3Í - JisJ-oaT or* tfeíiJnafôriA — .71J X .c:gD -tn o/i- niLiâb^D3ic[ saíp. i » s-:>: ; ,í? f.->q L/cilo'.) <>b v ;.v. * . i-.qniuH - fibt — tVJX .qaD . . , - cu:>íl:‘/nifi ) eo a r.ui<Í > d çifí^nfidH 9b í/na;-/ ,'.-èL-í—. J YJX .qaO .. ■•>: >. >|7Írn >) 7 7/ ob f :-bvi r ;í ,:>V!- V ’>!;• aciJ uM . - .] I 7 J X • . . . . . . • jni/loH nm g/jjar^l a • nriidQ fen joabq 7 > *•- .1 « / br_ .q-aÇ> «ni çi. •qrrsíi^ ab ebif ,/JJX . ' :iv- /- • i |i ÍV ■ •/' - :• tn. '• -V ';(! -— b -idO 80 f.VV BOaiití-Xj ÇOn-Tc;7Ví D eOfíOfi|í • n s • i » • » i ■ • t ííjli , ..;>hí-íám>aí osísaup jihaiol n .< leia b c , O — . ILi .qa ) - g1/1 rna ec/iildirq sobilií)? so -j ,fiS‘>nnb . » . . , . . . . .OC ) ' ;íU v 70 -■ *Q • i !.l * . . . , > - - - • vrnjibi :3fi-«ioí <-b G.-^aigaU - -. ’/ LI .q ,0 - •' [.* o& itfiab a ',-3aiíf3 r-rJíníq çioJ . ■ . . . oftobifsO ol'cn í çsao£!tfl3-al> aibi© A — .VJ .!> . . , . .oha&M vi* íibib í ■.-■iDiaVii o a m-*
  • [423] ERRATAS. Pag. 17 u a 99 26 99 66 55 59 sv 73 80 jt 86 95 90 » 97 »» 100 95 120 95 128 » 168 55 177 207 59 217 59 278 59 282 59 313 99 326 Erros. — titulo — O Mediter¬ râneo e os Árabes — leia se linha 19 — cavalheiros 95 5 — adulteradas 55 11— cavalheiros 59 15 — cavalheiro *9 8 — vindo 95 3 — parte — titulo —Travessia do 99 3 —de Ma taca 95 2 —trouxemos 95 19 — citado 59 29 — prejuiso 59 6 — vozearia 59 1 — preoccu pavão 95 3 — taves 95 30 — Sr. 95 7 —conver 95 6 — e 55 29 — hontern 55 16 — na bocca 55 2 —outra Emendas. — O Mediterrâneo» — cavalleiros. — adulterados. — cavalleiros. — cavalleiro. — ido — partem — Navegação no — da IVIalaia — tivemos — referido — prevenção — vozeria — preoccupaçoes — talvez — Bispo — converter — que — no dia precedente — próxima — outras Haverá outras erratas que serão de fácil emenda para o leitor.
  • .8ATAÍ1ÍI3 a (m r. :A. 0 í ? '>**- O— >m 6Í*i! - .-oií-Jlí-fÊ > — ,*•>"i -:: ■ • 1 * — obi — tnM :::■•! — c,» — cSliUM tib-— «oni*vH — obiialoi ~— oE^fijvoiq — ciioxo/ — i -j .Yu:*] lj .1 rj — X - Vl« f - **• <>(]«({$ 'IJjlSiflU*— • »;:p — 0Jii©bv>«yt!j ui.b o s — CnfixOItt — ,«n*v51 •‘Ij < í>c» O * i> eOibiiUvr.) f > :i‘J fítfcVr.l OTÍ3í5Jb/S> shfii] oh 6/it^vtii r iOaUtrt »f> « (Mil OX #04 j obeli'» Oriu^Kj Stt*9SOV ►09iq S'>Viij .i8 19V009 i* ni'jlnoH r.i^od Gti £ :I(jo — oflllft .— 091! :ll — Cl 5-ífflÍÍ — õ —a — 51 — a * tf U *» f< — ofu tiJ • — >: f? — Cf -es. —; h — s — 0£ -~P& — i)t « ft rt rf ff ff ff ft re ft ft ft' _ re ;. e * 03* ft ft v» (>e aa oc tt »t *t3 rt W f? CKU f« OSt ft «if ft ad i ft t?t tr /*tOSL rt tlS « 4ftè (f *.:••/. fr ^{S « ^su: ft wi'l «;i• livin') (tail ••■:• toa mtp eal*i**j iriítô r.- fiji; ■ t - Í-. ^ tj/u? * *:> v. ' ' •' . *■ . * *. V . *• * ^ JX1 •* v.
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