• MTAMENTOS 1 \ 13 1 E M CHINA A LISBOA. POR METI SIMKIMs 1853* NA TYPOGRAPHY DE CASTRO & IRMÃO, Rua da Boa-Vista n.° 4 B. LISBOA.
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  • 3 CAPITULO PRIMEIRO, Sn tela de Sflacao, noticia de Sião* Sfnga* para* llalaca* e navegação até ao Cabo Com o rim. Concluí a primeira parte d’estes Apontamentos no ponto de ir a deixar Macao, e de começar a torna- viagem para a Europa. Continuarei agora o fio d’esta narração. Na manhã de £6 de dezembro de 1851 fui de Macao para bordo da corveta D. Joao I, ancorada na rada, para n’ella seguir viagem para Lisboa. Um sentimento de saudade e de tristeza me dominava, só modificado pela esperança dejregressar em fim á mi¬ nha querida patria ^ mas o effeito d’esle sentimento eia. muito attenuado pela consideração dos possíveis accidentes que offerece uma navegação ao longo das costas d Asia e d’Africa, tendo de estacionar em pai- zes doentios. N’esta occasião pois prevalecia mais a saudade do que deixava, do que a fagueira esperança e o futuro prazer de tornar a ver a minha terra. Ao fim da tarde olhei, do tombadilho da corveta, pela derradeira vez para a vistosa cidade de Macao, e lhe disse o ultimo adeus. O sol escondia-se brilhante detraz das montanhas da ilha de Pacsan. Na madrugada de S7 levantámos ferro com vento fresco e favorável do nordeste, e rapidamente nos afas¬ támos das varias ilhas e ilhotas próximas a Macao, e assim fomos continuando nos dias seguintes, sempre oom mar.agitado e muito balanço, proveniente em 1 *
  • parle de ir a corveta mal compassada, e do desequilíbrio que produziam 5 peças de calibre 32 á Paixhans, que da corveta íris tinham sido mudadas para este navio. No l.° de janeiro de 1852 iamos pela altura da Cochinchina e Sião. A Cochinehina é paiz hoje tri¬ butário ao império chinez, e com o qual mantivemos na secunda metade do século NV1I relações, commer- ciaes e políticas, mui lucrativas para os habitantes de Macao; mas estiveram depois interrompidas, por cau¬ sas pouco averiguadas, até que em 1712 o rei da Co¬ chinchina, por intervenção do jesuíta Joao Antonio Arnedo, propoz que se renovassem aquellas relações, e se trocaram n’essa occasião alguns presentes entre o •mesmo rei e o senado de Macao; parece porém que não chegaram a renovar-se, por se não accordarem nos termos de um tratado, ou que laes relações foram pou¬ co importantes. . Nos fins do século XVII o rei de Tonquim conquis¬ tou a Cochinchina, e o príncipe desthronado Kaou- chang manteve relações com o senado de Macao, que em 178G lhe deputou um dos principaes morado¬ res da cidade, António Vicente da Rosa, o qual sen¬ do nomeado pelo mesrao príncipe seu embaixador, se dirio-iu a Goa, a pedir soccorro, obrigando-se da parte do príncipe a ceder aos portuguezes algum território do seu reino. Nada porém foi a effeito, e o comrner- cio com a Cochinchina de todo acabou para Macao. Segundo as relações de alguns viajantes, os natu- raes da Cochinchina tem origem commum com os chins, aos quaes se assimilham na physionomia, e na maior parte dos usos e costumes; a religião é a mes¬ ma e a linguagem ainda que differente parece foi- mada sobre os mesmos princípios , usando na escripta dos mesmos caracteres que os chins. As mulheres sao muito mais activas que os homens, e se dedicam ao commercio; não vivem reclusas como na China , e sen¬ do solteiras não perdem a reputação por terem trato com os estrangeiros que vão ao paiz. A Cochinchina c o Tonquim ainda hoje estão comprehendidos na ju-
  • w o risdição espiritual do bispado de Macao, d’onde vem alguns padres chins dirigir as christandades rospectivas. Pelos vínculos religiosos ainda conservamos n’estas po¬ pulações alguns restos do nosso antigo prestigio. O primeiro portuguez que descobriu a Cochinchi- na íoi Duarte Coelho d’Albuquerque, 18 annos de¬ pois da nossa entrada na Índia, e por esse tempo as¬ sentou paz e commercio com o rei de Sião, e levan¬ tou na cidade de Hodiá, então capital, um padrão com as quinas portuguezas. E’ sabido que, depois da conquista de Malaca pelos portuguezes, os negociantes da Índia tentaram formar um novo centro de commercio em Sião; mas os nossos o impediram, compeliindo os navios de Ben¬ gala , Guzurate, Coromandel, &c. a aportarem a Ma¬ laca , cujo governo propoz ao rei de Sião o estabele¬ cimento de uma feitoria portugueza no seu reino, o que foi acceito, e alli muito prosperou , a contento dos siamezes, ganuando-nos tal affeição e confiança, que em 1660 o seu rei emprestou á cidade de Macao 605 cattes de prata (800 arrateis), além de vários ge- neros de producção do paiz, cujo valor total foi pago em successivas porções até 1723. Continuaram estas re¬ lações com vantagem para o commercio de Macao; mas foram interrompidas pelas perturbações que houve em Sião, por invasões de inimigos, principalmente dos birmans. N’esta occasião o governo de Portugal offereceu , por meio do governador da índia, soccor- ro aos siamezes, e é curioso o seguinte extracto d uma carta escripta de Sião em 28 de dezembro de 1786 . « O rei se reconhece grato á rainha de Portugal D. Maria í., pelo seu generoso affecto e signal de boa amizade, que nunca será esquecido até ao tim do mun¬ do. O rei tendo já em vários encontros batido os ini¬ migos, não duvida que ha de obrigar os birmans a pedir a paz, e que poupará a sua magestade o sacri¬ fício de enviar-lhe tropas e munições; mas pede que se dê ordem ao governo de Goa, para mandar-lhe 3;00Q espingardas no decurso de 1787. Sc os súbditos
  • 6 de sua rnagestade desejarem estabelecer uma feitoria, o rei está prompto a conceder terreno para isso, e on¬ de possam edificar uma igreja, para que os chrislãos que tem estado muitos annos sem guias espirituaes , possam ser guiados pelos padres que sua rnagestade queira mandar para Sião.» Só em annos posteriores se quizeram aproveitar es¬ tas favoráveis disposições em interesse do commercio de Macao. Um christão portuguez, nascido em Sião, foi o portador de presentes e propostas: seguiu-se uma correspondência com a corte de Sião, que por fim de¬ cidiu o conde do Rio-Pardo, governador da índia, a enviar em 1820 um consul geral para Bang-kok , capital do reino, munido de liberaes presentes para o rei, príncipes, e personagens da corte, e de instruc- ções publicas e particulares para se effeituar um trata¬ do, que comprehendia 20 artigos, e cujas bases eram a mutua alliança, amizade, e commercio entre os reis de Sião e de Portugal. Este consul residiu 12 annos em Bang-kok, sem nada fazer digno de menção , senão a licença que obteve de levantar casa para si, com vastas accommodações, e para haver um destaca¬ mento composto de 4 soldados e 1 sargento, para pro¬ teger o consulado e a feitoria , que se mandava de Ma¬ cao, sendo rendido de 3 em 3 annos; mas por aban¬ dono ou desleixo já isto mesmo acabou. Se esta com- missão tivesse sido confiada a pessoa habil, e de co¬ nhecimentos mercantis e diplomáticos, e de presumir que houvesse produzido resultados importantes: pode¬ ria ter feito construir navios, para o que, dizem, o paiz apresenta muitas facilidades, e carregando-os com os productos nativos, ter-nos-hia dado talvez a posse de um importante trafico, que actualmenteestão fazendo competidores de differentes nações. Os inglezes tem feito recentemente muitas diligencias para estabelece¬ rem regularmente relações commerciaes com Sião, e já lhe impuzeram um tratado; mas como não tem sympathias no paiz, tem sido mal cumprido, e de pouco eífeito.
  • 7 O sobredito consul foi demittido em 1833 pela sua incapacidade. Hoje ainda alli temos um , o ma- caista Marcelino de Àraujo Rosa, e ainda a nação portugueza é a unica que goza de tal privilegio em Sião, onde a nossa bandeira é respeitada ha mais de 3 séculos. Recentemente alli occorreram factos bem cu¬ riosos, e comprovativos do prestigio de que ainda go¬ zam os porluguezes n’estas partes. Em abril de 185& falleceu o velho rei de Sião com 63 annos de idade , e S7 de reinado, e o conselho supremo, composto de príncipes, mandarins e outros dignitários, chamou para occupar o throno o príncipe Somdét ~ Phra — P ar acrndr — Maha — JMong-kut. Logo que o novo rei foi proclamado, lhe dirigiu o nosso consul uma car¬ ta de felicitação , que foi entregue por via do manda¬ rim Pascoal Ribeiro d’AIbergaria, que servia de ca¬ pitão do porto e interprete do Estado, por quem o rei a mandou agradecer, convidando o consul para a festa da sua enthronisação, que teve logar em 15 de maio immediato. Dizem ter sido das mais pomposas e bri¬ lhantes de que ha noticia em Sião. O rei tinha na sala do throno, ao seu lado no logar mais nobre, o retra¬ to da rainha de Portugal, a quem trata por irmã, e adi recebeu as felicitações de vários dignitários, do consul portuguez, e dos negociantes e missionários es¬ trangeiros , assegurando a todos que permittia a con¬ tinuação dos estabelecimentos estrangeiros, tantocom- merciaes como religiosos: depois os convidou a um jan¬ tar , preparado á europea , no fim do qual distribuíram aos convidados algumas flores de ouro e prata, e moe¬ das dos mesmos metaes. No dia ^0 houve uma grande procissão, ao uso do paiz, que o novo rei acompa¬ nhou , lançando ao povo moedas de prata do valor de um maz ( 130 rs.), e em âl repetiu-se a mesma ce- remonia no rio, sendo as moedas de prata lançadas á agua em páos boiantes, da forma de limões, e em grande profusão. ^ íía em Sião primeiro e segundo rei, e chamam IVang-Nah ao-throno do segundo, ao qual foi exal-
  • 8 tado o irmão mais moço do rei Mong-kut, o princí- pe Monfanoi, em 3 de Junho, com festividades si- milhantes ás mencionadas. A procissão compoz-se de 5:000 pessoas, e de muitos elefantes e cavallos rica¬ mente ajaesados. Ilouve n’estas solemnidades salvas de tiros, e ainda a companhia ou corpo d’artiiheiros é denominada artilharia portuguesa. Entre os presen¬ tes que os príncipes reaes offereceram ao rei, figurou com especialidade o rabo de um elefante branco. Todas estas particularidades foram communicadas pelo nosso consul ao governo de Macao, acrescentan¬ do que o novo rei manifestava os melhores desejos de renovar relações de amizade, e commercio com todas as nações; que pelo egoísmo do ultimo governo, não podiam fazer tremolar as suas bandeiras no rio Mei- nam ; e que este monarcha possuo conhecimentos de sciencias, artes, e linguas estrangeiras, tendo desde logo permittido aos missionários christãos livre transi¬ to no seu reino, assegurando-lhes protecção. Na ulti¬ ma monção partiram de J3ang-kok 4 navios europeus; um para Cantão com embaixadores, outro com fazen¬ das para^ Hong-kong , e dois para Shangai. Para Ma¬ cao já não ha commercio algum , nem alli aportam em¬ barcações siamezas , como d’antes succedia : no entanto conserva-se um consulado inutil, com que se dlspendem 1:000^patacas annualmente pela fazenda de Macao. Siao é extenso, antigo e poderoso reino: confina com a China, império birman, e estados indepen¬ dentes da Peninsula de Malaca. A moderna capital é Bang-kok , que dizem contar 90:000 habitantes, a maior parte chins. E’ paiz abundante de alguns dos mais ricos productos da Asia , e seu rei denomina-se por excellencia o Senhor do elefante branco. Sempre com próspero e rijo vento, correndo 8 e 9 milhas por hora, chegámos a 3 do mez de janeiro a vista da costa de Singapura, e lançando ferro de noite, a força da corrente o fez quebrar, e se perdeu. O tempo tornou-se chuvoso e extremamente carrega¬ do, de modo que só a 5 pudemos tomar o porto , e
  • 9 demos fundo bastante ao largo, a 3 milhas da terra, onde não fui d’esta vez por me achar doente, tendo-a já visto na minha ida da Europa. Vieram a bordo muitos malaios vender vários objectos, principalmente de gutta-percha, oleos, rotas, pedras de Ceilào, &c. Em outubro precedente fora collocado um farol na Pedra Branca , rochedo isolado no meio das aguas a 33 milhas de Singapura; tem de altura 75 pés, é de rotação, c visível a 15 milhas no convez do navio: dizem que é o melhor que se tem construído até ago¬ ra a leste do cabo da Boa Esperança. O estabeleci¬ mento de Singapura havia 4 mezes tinha sido erigido em presidência independente da de Calcuttá , á qual estava sujeito desde 1830, annexando-se-llie os estabe¬ lecimentos de Ma Jaca e Pi não. bingapum, fundada em 1819 por sir Thomaz Raffle, augrnenta todos os dias o seu commercio e pros¬ peridade, tornando-se o grande centro commercial da Índia transgangetica, e colhendo grande importância de ser o ponto onde hoje convergem as linhas de va¬ pores da China, da Australia, de Bengala, e da Eu¬ ropa. A linha da Australia acha-se agora ( 1853 ) de- fmitivamente estabelecida : a primeira carreira come¬ çou em 4 de março, e repete-se no dia 4 de cada mez alternadamente, de modo que ha 6 carreiras no anno que conduzem as malas e passageiros de Sou¬ thampton a Batavia (46 dias), e aos seguintes portos da Australia: King George’s Sound (59 dias), Ade¬ laide (65 dias), Port Philip (68 dias), e Sydney (71 dias). A passagem de Southampton a este ulti¬ mo ponto é de 160 libras esterlinas. N’estes 71 dias percorrem-se 13:855 milhas marítimas, ou 4:385 le- goas, parando-se nas differenles escalas do Mediter¬ râneo, Egypto, Mar Vermelho &c., até Singapura, sendo até ahí commum esta carreira com as da China, que hoje (1853 ) tem logar duas vezes no mez, par¬ tindo de Southampton a 4 e 30, e prolongando-se já até Shangai, aonde se chega em 54 dias. Todos estes dados são exlrahidos das ultimas instrucções da Com-
  • 10 panhia Peninsular e Oriental de Navegação a Va¬ por, datadas do l.° de janeiro de 1853. O governo inglez paga a esta Companhia 199:000 libras esterli¬ nas, pela conducção da correspondência official e par¬ ticular para todo o Oriente, e ajuntando-lhe mais 20:500 libras que lhe dá pelo transporte da correspon¬ dência da Peninsula, perfaz a enorme somma de 219:500 libras (quasi 1:000 contos) o subsidio que a companhia recebe : dizem alguns que o governo britannico tira mais d’esta quantia nos portes das car¬ tas e jornaes, que sao todos cobrados por sua conta; isto porém é duvidoso; mas em todo o caso colhe a vantagem de tornar a Inglaterra o centro das commu- nicações do mundo, o que, principalmente no caso de guerra, é de immensa importância para aquella nação. A nova igreja portugueza em Singapura já estava começada, e se erigia com o producto da subscripção que, para tal fim, fizera correr em Macao o gover¬ nador Cardoso, a qual produziu umas 600 patacas, e também com o de outra que se abriu em Singapura , além dos auxílios do collegio de S. José das Missões em Macao: calculava-se a obra em 3:000 pesos, feito sob um simples plano o templo destinado a conter mais de 400 pessoas, que ainda hoje conta a commu- nidade christã portugueza rTeste paiz. Avançámos 500 legoas, como princípio de nossa carreira, quasi totalmente na direcção sul. No dia 8 pelas 7 da manhã continuámos com destino a Mu- laca, a 60 legoas na linha leste oeste, para alli largar¬ mos um passageiro hollandez, que embarcou em Sin¬ gapura. Tomámos o prático Krall, para a passagem do Estreito até Pinão, pela gratificação de 60 pata¬ cas. Foi difficil a saída do porto por entre ilhas e bai¬ xos, com vento pouco favoravel. Durante os dias 8 e 9 fomos sempre á vista da cos¬ ta malaia, toda bordada de arvoredo, e com varias montanhas para o interior, sendo as principaeso Mon- te-formoso, que serve de marcação, e é indispensável
  • 11 de avistar a quem navega n’estas diffjcels paragens, e o Monte-d’ouro ou Ophir, proximo a Malaca, cida¬ de que avistamos a 9; porém muito custou a tomar o porto por nos ser o vento contrario do norte, e já de noite fundeámos a umas 6 milhas da terra. De ma¬ nha fui para terra com o pratico n’uma embarcação malaia muiío tosca, com 4 remeiros, com a mesma apparencia da gente de Singapura. Peias 10 horas desembarquei na outr’ora famosa Malaca portuguoza ! A cidade é bonita do lado do mar, apresentando al¬ gumas casas regulares, e por toda a parte formoso ar¬ voredo, principalmente de palmeiras. Ao desembarcar rPum soffrivel caes, com um telheiro proximo, tomei uma carruagem , de varias que logo se apresentaram , em tudo similhantes ás de Singapura; muito ligeiras, aceadas, de 4 rodas baixas, dois assentos, accommo- dando bem 4 pessoas; são puxadas por um pequeno cavallo, que corre ligeiro acompanhado ao lado por um infatigável malaio meio nú. Fui primeiro á resi¬ dência do padre Gomes, governador do bispado, e lhe fallei, e ao padre Manoel seu coadjutor; ambos naturaes de Goa. Visitei a igreja de S. Pedro, que é a unica freguezia catholica da cidade: é espaçosa , estava aceada, e foi edificada haverá 100 annos; fica um pouco distante do centro da povoação, aonde vol¬ tei com o dito padre Gomes, e fomos ver os restos da antiga muralha, feita pelos portuguezes, e que cir¬ cundava um oiteiro pouco elevado proximo ao mar: d’ella só existe um pequeno lanço, contendo uma porta d’entrada em arco, ornado por cima com lavo¬ res em cantaria, representando um navio n’um escu¬ do assente sobre trofeos militares, e aos lados duas figuras, uma de mulher com roupas largas, e uma pal¬ ma na mão, e a outra de guerreiro com escudo: tem a era de 1670. Estas armas e emblemas nada tem de commum com as de Portugal, não sendo exaeto o que ouvira dizer e vira escripto em alguma parte, que existiam sobre esta porta as armas portuguezas: penso que são obra do tempo dos hollandezes, que nos con-
  • 12 quistaram esta importante cidade, a qual tiveram de ceder em 18c24 aos inglezes. A arcada em angulo do portal tem doze passos, e tantos eram os da espessura da muralha, feita de pedra escura que parece conter ferro, ligada com forte argamassa, mui similhante á das fortificações de Goa: trouxe commigo alguns pe¬ daços da dita pedra, arrancada d’aquellas venerandas muralhas, que os inglezes logo no princípio do seu do¬ mínio fizeram voar á força de polvora , e foram em grande parte cair no mar, onde nas baixas marés ain¬ da se descobrem pedaços á flor d’agua, como eu mesmo observei. Foi um acto de vandalismo, improprio de uma nação illustrada. Dizem que ha ordem do go¬ verno inglez para se conservar a porta de que acima fallei. Subi depois ao cume do outeiro, e examinei as ruinas da igreja de S. Paulo, que parece foi edifica¬ da no mesmo armo da conquista ( 1511 ); só estão de pé as paredes, e a torre que serve de telegrapho. No pavimento da igreja ha várias lapidas sepulchraes, a maior parte hollandezas, algumas de portuguezes, e d’estas a mais notável e bem conservada era a do se¬ gundo bispo do Japão D. Pedro, fallecido em 1598 em Singapura. D’este logar ha bonita vista sobre a ci¬ dade, o mar, e planícies vizinhas, todas cobertas de palmares. Reunido depois com outros companheiros que vieram de bordo, fomos a casa do governador, que nos mostrou o interior d’ella, que nada tem de notável, e parece que foi antigo convento portuguez. Vi também a casa da eschola de um fulano Souza, mestre de portuguez, que fallava com muita correc- ção, sendo nativo; disse-me que era pago pelo go¬ verno, e que tinha bastantes discípulos; mas que fal¬ tavam livros portuguezes para elles lerem, e pedia-me com muito empenho os Lusíadas. O templo protes¬ tante é pequeno, e sem belleza no exterior. Fomos depois correr a cidade em carruagens: tem ruas bas¬ tante extensas e largas, e no bairro dos nativos, mes¬ tiços ou portuguezes, as casas são todas baixas, mas aceadas, e não indicando miséria; outras são mui pit-
  • 13 torescas por debaixo dos palmares e arvoredo , que de toda a parte brota: em uma das ruas , para o lado do oriente, vimos mui lindas habitações no gosto euro- peu-asiatico, com bonitos jardins na frente. Vi um templo ou mesquita mahometana, vasto e curioso, porém não o observei bem no interior, porque não quiz descalçar-me, como exigiam os bonzos que o guardavam. A população da cidade e de lo a 10:000 almas, comprehendendo uns 10:000 chins, que alli conservam o seu vestuário, forma de habitações, e gosto das lojas. Os chamados portuguezes são 3:000, todos christãos, e que pela maior parte se empregam na pesca: descendentes dos antigos conquistadores, misturados com a raça indígena ou malaia, são fus¬ cos, mas ufanam-se muito da sua origem , e conser¬ vam a linguagem portugueza não muito corrupta, a qual é ainda a mais geral e praticada pelos mesmos hollandezes e inglezes, que nos substituíram no domí¬ nio. Estes portuguezes são obrigados a residir em bair¬ ro separado, e diziam que pagavam mais impostos que os outros súbditos britannicos. Aquella boa gente se regozijava de ver porlugue- zes do reino, que raríssimas vezes succede alli apor¬ tarem ; e da ida de um vaso de guerra nosso não ha¬ via memória na actual geração. O Festo dos habitan¬ tes são malaios do paiz , e outros oriundos de antigas famílias hollandezas, e inglezas. Europeus propria¬ mente ditos haverá $00. A guarnição é de 400 ho¬ mens, sipaes da India, e a cidade não tem fortifica¬ ções algumas: ouvi que havia alguns fortes para o in¬ terior , e vi um parque d’artilharia de campanha pro¬ ximo ao fragmento da muralha de que já fallei.. Ha 4 padres francezes da Propaganda, que alli per- tendem também introduzir a zizania entre os christãos, mas não excedem a 40 ou 50 os que tem attrahido a si. Por agora só tem capella no interior de casa, mas projectam fazer igreja, para o que já tem terreno, e alguns alicerces começados. Ainda não ha muitos an- nos Malacft florecia muito peio commeício, o qual prin-
  • eipiou a decair com o desenvolvimento e prosperidade de Pi não e de Singapura, e hoje está quasi extincto: comtudo ha 2 annos descobriram-se nas proximidades ricas minas de calem,, especie de chumbo, ou o cha¬ mado cobre de Macao, que se extrahe bastante para a Europa e para a China. Lambem d^aqui saem as rottas, ou cannas da Índia, rotim, alguma pimen¬ ta, &c. No porto apenas havia uma escuna a carre¬ gar calem, e outra dos negociantes Almeidas de Sin¬ gapura, que tinha encalhado n’um baixo, e fôra rou¬ bada pelos piratas malaios, que infestam com peque¬ nos barcos todas as paragens do Estreito. Ainda ha poucos annos havia frequência de navegação de Ma- laca para Macao, pelos navios que iam a Goa, o que de todo acabou. Esta cidade, apesar de assentada n’uma planície cercada d’aguas, é muito salubre, e vão para alli os doentes de Singapura, Macao, e outros pontos para restabelecerem a saude, o que geralmente conseguem, especialmente nas moléstias de peito. Tal era Malaca em janeiro de 1852, essa terra famosa nas nossas recordações históricas, Diogo Lopes de Sequeira, segundo as ordens que teve d’el-rei D. Manoel, navegou em 1509 de Cochim ao descobri¬ mento de Malaca, onde surgiu a 11 de setembro, assentou paz e commercio com o rei, e estabeleceu fei¬ toria. N’esta expedição ia o célebre navegador Fernão de Magalhães. Tendo o rei de Malaca quebrado a ami¬ zade com os portuguezes, Affonso (FAlbuquerque ata¬ cou a cidade em 24 de julho de 1511, e foi repulsado ; mas a 8 d’agosto seguinte, a levou d’assalto com pro¬ dígios de valor e pericia, ainda que com bastante der¬ ramamento de sangue portuguez. Malaca era então o emporio do commercio entre a India, a China, S ião, e as ilhas mais civilisadas da Oceania. A cidade occu-^ pava o espaço de uma legoa ao longo do mar, conth- nha muitas torres, consideráveis edifícios, e não me¬ nos de 100:000 almas. Tinha formidáveis fortificações defendidas por mais de 3:000 canhões de todos os ca¬ libres, e por 20:000 estrangeiros, além de grande nu-
  • mero de malaios: o interior da cidade foi tomado pal¬ mo a palmo, e 9 dias foram necessários para o con¬ quistar completamente. O despojo foi immenso, e to¬ do distribuido pelos soldados : Alfonso d’Albuquerque só para si reservou alguns objectos curiosos, para oífe- recer a el-rei D. Manoel, e seis leões de bronze que haviam de ornar o seu tumulo. Este facto faz lembrar o outro não menos honroso de D. Luiz de Ataide, que recolhendo-se do governo da índia para o reino, trouxe 4 vasilhas com agua dos rios Indo, Ganges, Tigre, e Eufrales, que se conser¬ varam muito tempo no seu castello de Peniche, como as únicas riquezas que trouxera d’aquelles Estados. D. João de Castro, nas vesperas da sua morte, não tinha com que mandar comprar uma gallinha, e foi sustentado á custa da fazenda do Estado de Goa, que governava. Abnegações sublimes, mas então communs n’aqueila geração d’antigos portuguezes! Conquistada Malaca Affonso de Albuquerque logo levantou a fortaleza, de cujas preciosas relíquias já fal- lei, e ordenou as cousas do governo com singular pru¬ dência e discrição. Immediatamente despachou embai¬ xadores e descobridores para todo aquelle remoto Orien¬ te, para Sião, Pegú, Java , China , e ilhas Molucas. Os grandes feitos obrados em Malaca deram assum¬ pto á celebre epopea Malaca Conquistada de Francisco de Sá e Menezes. Em toda a Peninsula, e pelas ilhas vizinhas se passaram notáveis e gloriosos successos du¬ rante mais de 2 séculos, até que em 1641 succumbiu Malaca aos hollandezes, depois de ^5 mezes de cêrco. A empreza do nosso estabelecimento na Peninsula de Malaca, foi recommendada ao primeiro governador da India D. Francisco d’AImeida, e repetida nas cu¬ riosas instrucções que lhe mandou el-rei D. Manoel em 1506, por lhe constar que em Castella tentavam uma expedição áquelle paiz, que diziam estar fora da linha da demarcação das nossas conquistas estabelecida pelo papa, e nas 6 náos em que foram^em 1506 para a índia Affonso d’Albuquerque e Trislão da Cunha 7
  • foi uma fortaleza inteira de madeira, metade para o ilha de Socotora, do que já fallei no primeiro vo¬ lume, e a outra metade com destino para Malaca, com 30 tiros, Í2 bombardas grossas, &c. para se ou¬ virem na dita fortaleza, como diz o documento, e bem assim vários utensílios para o fazimento da mes¬ ma fortaleza. De tarde recolhi-me para bordo, e ás 11 da noite nos fizemos de vela, navegando na direcção noroeste, para Pinao a 80 legoas de Malaca. Nos primeiros dias fomos avistando os montes Pequeno e Grande-Parcel- lar, Cabo-Rachado, a terra de Salangore &c. Sobre o baixo cm frente do Grande-Parcellar estava uma boia, e foi um escaler da corveta com dois officiaes a reconhccel-a: achava-se sobre bragas na coroa do banco, tinha grande diâmetro e a bandeira ingleza. Um brigue inglez da companhia das índias andava sondando n’eslas paragens, e trazia vários escaleres fo¬ ra. Demorados pelas calmarias, ou brizas contrarias, e tendo de fundear muitas vezes, só a 17 pela tarde ancorámos á vista da ilha de Pinão, ou do Principe de Gallos, colonia ingleza que visitei na minha ida da Europa. A navegação d’este estreito de Mala¬ ca é muito difficil, pelo perigo de muitos baixos, ilhotas, e correntes variadas, que promovem frequen¬ tes naufrágios n’estes máres, onde a sonda ou profun¬ didade das aguas muda com as estações, e com os ventos. A parte d’esta grande Península de Malaca, ainda hoje independente, é habitada por povos selva¬ gens, que divagam pelas montanhas, e pela extremi¬ dade meridional da Peninsula; mas na parte septem- trional quasi todas as populações reconhecem a supre¬ macia do rei de Sião, e lhe pagam tributos. Os sia¬ meses estão a respeito d’estes povos muito mais adian¬ tados em civilisação. N’uma obra publicada em Bang-kok em 1850, com o titulo Nova Grammatica Siamesa, escripta em latim pelo bispo francez Pallegoix, se leem curio¬ sas noticias sobre o estado da litteratura em Sião. O
  • 17 nuctor apresenta um catalogo de livros siamèzes, que apesar de incompleto contém 150 obras, que tratam de grammatical arithmelica, astronomia, astrologia* e historia; além d’isto ha muitos livros de poesia e romances, sendo muito populares alguns romances ou contos mareiaes da China, que tem sido traduzidos. Poucas d’estas obras se limitam a um só volume; vᬠrias tem %, '4, 5 ou 10 volumes, e não poucas ^0, 30, 50, 80 e até mesmo 90 volumes. A traducção dos Annaes do Pegú' comprehende fO livros, 40 as Memórias Históricas de Siao, e 55 o Codigo das Leis d’este reino. A lista dos livros sagrados do Budhismo sobe ao número de 3:683 volumes. Em um povo que nunca gozou das vantagens da arte da imprensa, maravilha tanta abundancia d’escrever. A forma dos livros é tão diversa da que se usa na Europa* que não se po¬ de calcular a materia que n’elies se contém, a não ser pelo tempo necessário para os ler. Muito mais maté¬ ria se lê em um livro siamez do que em igual tempo nas línguas europeas; porque as palavras são quasi to¬ das monosyllabas, na linguagem siameza pura. A lin¬ gua siameza é notável pela simplicidade da sua forma¬ ção; mas á similhança da lingua birman, da chineza, e de outras do Oriente, nota-se n’ella uma grande differença no modo de fallai* e de escrever, segundo a classe e condição da pessoa que falia ou escreve, em relação áquella a quem se dirige. Em Siao esta diffe¬ rença sobe de ponto , e constitue quasi linguagens dis- tinctas. Os mais simples actos da vida, como dormir, comer, passear, beber, &c. são designados por pala¬ vras inteirarnente diversas, nas differentes classes so- ciaes. Os membros do corpo também são diversamente apellidados, e assim a respeito de outras muitas cousas. Na citada grammatica siameza se refere em resu¬ mo o systema do Budhismo que voga em Siao, onde n’estes últimos 15 ou ^0 annos se tem formado uma seita , composta de homens de alguma instrucção , que regeita tudo quanto ha de miraculoso n’aquella reli-
  • Í8 gião, adherindo só aos preceitos moraes de Budha. O Budhismo na sua fórma popular em Sião é similhante ao que prevalece no Birman, em Laos, e Camboja; difíerindo pouco do que é seguido em Ceilão, po¬ rém differe muito das modificações com que o mesmo Budhismo é conhecido na China, no Tibet e Nepal. Como fallei em Camboja direi alguma cousa d’es- te paiz, tão mencionado nas nossas historias do Orien¬ te, e célebre pelo naufragio que nas suas costas soffreu Camões, na embocadura do rio Mecon. Em julho de 1850 o rei de Camboja enviou a Sin¬ gapura umchristão nativo, chamado Constantino Mon¬ teiro, que pelo nome certamente é de origem portu- gueza, encarregado de solicitar das auctoridades bri- tannicas adjutorio contra os piratas que infestavam as costas de Camboja. Em março de 1851 este mensagei¬ ro regressou para Camboja, em companhia do dina- marquez L. V. Helms, a bordo de um navio expedido em negociação áquelle reino pela casa de Almeida e Filhos, da qual já tenho fallado no decurso d’estes Apontamentos. Foram desembarcar em Kampot, e d’ahi seguiram por terra até Udong, servindo o nosso portuguez Constantino Monteiro de guia e protector do viajante Helms, o qual publicou uma resumida notícia d’esta viagem, d’onde extrahi algumas das se¬ guintes noções. Camboja jaz entre Sião e a Cochinchina. E’ re¬ gião muito pouco conhecida modernamente, por ser raras vezes visitada pelos europeus. Foi reino extenso e forte; mas opprimido pelos seus dois poderosos vizi¬ nhos, hoje está reduzido a um Estado dependente e insignificante, tendo perdido quasi todo o terreno do littoral, onde só conserva o unico e máo porto de Kampot. O paiz é fértil e muito abundante em ma¬ deira de teca, mas está assolado pelas quasi não inter¬ rompidas excursões dos siamezes e cochinchinezes no3 últimos 15 a S0 annos. Os habitantes são poucos, vi¬ vem miseravelmente, e já não se atrevem a edificar casas permanentes, porque tem sido conlinuamente i
  • Í9 Incendiadas pelos seus implacáveis inimigos ; habitam em frágeis e mal reparadas casas, ou antes cabanas de bambu. O rei reside actualmenle em Udong, a cousa de SOO milhas ao norte de ICampot: o chamado pala- cio real é um insignificante edifício construído de ma¬ deira , que contrasta com o antigo explendor dos prín¬ cipes de Camboja, que figuravam entre os mais pode¬ rosos soberanos do Oriente. Constantino Monteiro hospedou na sua casa em Udong ao viajante Helms, que obteve uma audiên¬ cia do rei, o qual mostrou muitos desejos de entreter relações commerciaes com os europeus, mas muito as difficultam o ciume e inimizade dos eochinchinezes. Udong terá 10:000 almas, e Kampot não contém mais de 400 a 500 casas, tendo muitos habitantes chins, que são os princrpaes commerciantes. Vão car¬ regar áquelle porto muitos juncos chinezes. Os elefan¬ tes, e alguns carros fragilmente construídos, são os vehiculos do paiz. As mulheres são feias, e usam cor¬ tar o eabello muito curto, e escovaho de modo que fica espetado. A moeda é similhante ás sapecas da Chi¬ na , porém de qualidade mais inferior. O sy sterna nu¬ meral só chega a 5, e d’ahi para cima usam numeros compostos, como 5 mais 1, 5 mais &c. Em Cam¬ boja também está introduzido o vício de fumar opio, e aquelles que o vendem tem pena de morte, de con¬ fisco , e de escravidão para as suas mulheres e filhos. Constantino Monteiro, o enviado do rei de Cam¬ boja , parece que era homem intelligente e de conhe¬ cimentos: em quanto residiu em Singapura deu curio¬ sas noções d’aquelle paiz, e forneceu os principaes ele- menLos para um mappa de Camboja que foi publica¬ do no Indian Archipelago. Voltando a fallar dos povos malaios, observa-se que a sua antiga civilisação progressivamente tem de¬ caído e retrogradado. No principio do século XVI os differentes reinos malaios que primeiro foram visitados pelos portugue¬ ses ? gozavam prosperidade, estavam avançados nas
  • 20 sciencias de governo, possuíam florescente commer- cio, e trato de lettras; o povo era em geral feliz sob um governo similhante ao feudalismo, mas patriar¬ chal , civilisado pelas relações do commercio , e accom- xnodado ao caracter e hábitos dos malaios. O reino de Achem no norte da vizinha ilha de Sumatra era um estado poderoso e commercial, com o qual os portuguezes tiveram muitas relações e guer¬ ras, e que muito nos disputou a posse de Malaca: desde 15^9 a 1641, nada menos de 16 expedições saí¬ ram do Achem; algumas formidáveis, como a de 1615 , que refere Faria e Souza se compunha de 500 •velas, das quaes 100 eram navios maiores que os que então se construíam na Europa, levando de 600 a 800 homens cada um, contando ao todo 60:000 comba¬ tentes a expedição. As leis mercantis que havia no Achem eram su¬ periores em seu espirito ás que existiam n’aquelle tem¬ po nos estados da Europa. Havia uma collecção de leis civis bem elaboradas, e certo systema de etique¬ tas e ceremonias. O pouco que hoje resta ou é conhecido da antiga litteratura malaia, denuncia o estado de civilisação a que tinham chegado estes povos. O codigo do reino de Menang-kabou é de antiquíssima data, e ode Ma¬ laca foi eseripto nos princípios do século XIII. A maior parte de outros codigos foram escriptos nos sé¬ culos XV e XVI, excepto os de Achem, Keddah, e Johore, cujas ultimas datas são do principio do sé¬ culo XVII; antes do qual foram escriptas várias obras malaias originaes, e outras traduzidas e imita¬ das. As numerosas paraphrases de obras sobre moral, introduzidas pelos arabes, são também de periodo an¬ terior. Em summa parece que no século XVII co¬ meçou a decadência da litteratura malaia, e o suc¬ cessive embrutecimento d’esta raça. Quem visita hoje estes paizes, mesmo os que se acham cm melhor condição, não encontra senão mi¬ séria e pobreza, algumas grosseiras habitações nas lo-
  • 2t dosas margens dos rios, frágeis canoas, ou pequenos barcos que traficam na costa , e pira team quando acham occasião; isto em logar das fortificações, dos palacios, dos portos atulhados de navios, que nos descrevem os antigos escriptores, e que denunciavam um povo po¬ deroso, independente, e avançado em civilisação. No entanto estes paizes são fertilíssimos, produzem os ge- neros mais preciosos da Asia, e o rápido incremento que toma a civilisação, a cultura, e o commercioma colonia ingleza de Singapura, nao deixará de influir poderosamente para mudar a face d’esta rica penin¬ sula. Os malaios tem tido sempre, e conservam ainda a reputação de traidores e sanguinários,* mas é facto que os portugueses quando primeiro chegaram a estas re¬ giões foram bem recebidos, e tratados com affeiçâo. Talvez que a mudança destas disposições derivasse em parte dos abusos, e oppressões que se seguiram as nos¬ sas conquistas. Modernos escriptores dizem que o fun¬ do do caracter destes povos é serem corajosos, cavalhei¬ rescos, amadores da verdade, e isemptos d’aquelle te¬ mor servil que se observa na maior parte das raças indianas: por outra parte é reconhecido que sao de temperamento precipitado, impacientes quando rece¬ bem insultos, e promptos em vingar as injurias. Estas varias noticias são colhidas do Journal of the Indian Archipelago and Eastern Asia, que se publica mensalmente em Singapura, e que contém extensos e scientificos dados para conhecimento, dhiquel- la parte do mundo, que outPora tanto interessou a nós portuguezes, e da qual hoje quasi nada sabemos. Na noite de 18 de janeiro foi um escaler da corveta levar o pratico a Georgetown, segundo o ajuste, a 15 ou 18 milhas de distancia , e tendo regressado na manhã de 19 com alguns refrescos de terra , ás 8 horas levantámos ferro, seguindo para oeste, demandando Ponta de Galles, ou a extremidade sul da ilha de Ceilão, tendo çle percorrer a distancia de 400 legoas no paralielo de 8° norte. Atravessámos o extenso gol-
  • pho de Bengala com bom tempo, e excellence vento fresco do nordeste. A’ saída do Estreito ainda avistᬠmos algumas ilhas, ou pulos na língua malaia , a cabe¬ ça da grande ilha Sumatra , e passámos ao sul da Gran¬ de Nicobar, a maior do archipelago d’este nome. Lá nos ficava ao norte o reino de Pegu , onde o nosso cé¬ lebre Salvador Ribeiro de Souza fundou em 1600 uma casa forte, e depois de extraordinárias façanhas foi acelamado rei do Pegú em 1603. Ao aproximar-nos de Ceilão tivemos chuvas e tem¬ po nublado, que 2 dias impediu a observação do sol, o que atrazou a navegação: finalmente a 28 descobri¬ mos a ponta do sul d’aquella famosa ilha, da qual já detidamente fallei no primeiro volume. N’esla paragem tivemos calmarias e cerrações, e fomos vagarosamente ao longo da costa, observando sua riquíssima vegetação, e o Pico de Adao, grande montanha para o interior, que é a mais alta da ilha, e a romaria mais afamada dos sectários de Budha , que de toda a parte alli concorrem para verem o signal do pé d’esta divindade. Na cidade de Kandy, no cen¬ tro da ilha, a superstição lambem venera n’um cele¬ bre templo o famoso dente de Budha. Vieram a bor¬ do embarcações de pescadores com peixe, cocos, ja- gra, pedras falsas, <$tc.: são de uma singular forma, bastante compridas, mas apenas com a largura para conter um homem sentado, tendo ao lado um madei¬ ro que lhes serve de contrapeso para as equilibrar, de modo que nunca podem soçobrar por maiores que se¬ jam as ondas. Eu já as tinha visto em Ponta de Galles na minha ida da Euíopa. Só a 31 chegámos á altu¬ ra de Colombo, hoje capital da ilha, e cidade impor¬ tant e, que dizem similhar mais uma cidade europea do que asiatica. Já recordámos no primeiro volume o incontestável direito que Portugal tem a esta cidade. N’este dia dirigimo-nos a oeste em demanda do Cabo Comorim , e com vento forte do nordeste atra¬ vessámos rapidamente o gol pho de Manar, onde ha a pequena ilha do mesmo nome, dependencia de CeL
  • V 23 Ião, na qual antigamente se faziam as ricas pescarias de pérolas , e que foi tomada em 1560 pelo vice-rei D. Constantino de Bragança , levantando alli fortale¬ za. De Ponta de Galles a Goa, onde nos dirigiamos, vão &40 legoas na direcção noroeste. ,.■. í
  • 24 Calio-Comorim * e navegação ao longo da costa do Malabar até &oa* No dia l.° de fevereiro amanhecemos defronte do Cabo Comorim, ou ponta do sul do vasto território do Indostão. E’ mui pittoresco o aspecto da terra , bas¬ tante montanhosa , mas apresentando bonitos perfis, e nas planícies densos palmares e arvoredos: ao longo da praia viam-se pequenas povoações, casas dispersas, e igrejas. Avistavarn-se mais confusamente os cumes dos Gattes, essa grande cordilheira que borda toda a costa do Malabar, e a maior parte da de Coromandel. D’aqui seguimos corn a navegação uniforme dos terraes e virações, que n’esta costa reinam de dezem¬ bro a fevereiro: pelas 11 da noite começava o vento, a soprar da terra, e nos fazíamos no bordo do mar até á madrugada, em que afrouxava : pelas 10 para as II do dia mudava para a viração, ou vento do mar, que nos levava no bordo da terra , de ordinário apro¬ ximando-nos muito d’ella pela tarde, e sendo ás vezes necessário fundear para evitar o perigo de maior apro¬ ximação á costa, ou perda de caminho virando de bordo, e assim esperávamos o terral: ambas estas bri¬ sas eram semp/e muito fracas, porque já a monção começava a quebrar , para dar logar aos ventos do no¬ roeste e sudoeste, que dominam de março a fim de se¬ tembro, sendo de ordinário muito violentos, impe¬ dindo a navegação durante alguns mezes na costa da
  • 25 Malabar, e fechando os portos com a amontoação das areas. Navegámos lenta , mas rnuito agradavelmente , sempre vendo a terra, e os magestosos e elevados cu¬ mes dos Gattes; e quando mais nos aproximavamos, divisávamos muitas aldêas, casas, e igrejas ao longo das praias, e por entre extensissimos e densos palma¬ res. As igrejas são quasi todas do tempo em que os portuguezes dominaram estes paizes, e todos os dias passávamos em frente de cidades que nos recordavam os altos feitos de nossos antepassados, e a grande epo- cha da gloria portugueza na índia. Vimos de noite o farol de Cochim ; cidade aonde em 1503 fizemos a nossa primeira fortaleza na Asia, theatro das nossas primeiras façanhas, e das prodigiosas victorias de Pa¬ checo. O grande Albuquerque alli edificou em 1502, sob a invocação de S. Bartholomeu , a primeira igreja que a religião christã, e o Real Padroado possuíram n’esta região. Alli falleceu Vasco da Gama aos <25 de dezembro de 1524, já então conde da Vidigueira, e vice-rei da Índia, onde tinha ido pela terceira vez: os seus ossos vieram para Portugal, e foram sepulta¬ dos na igreja do convento earmelitano da Vidigueira. Conservámos Cochim até 1663. Avistámos Calicut, onde Vasco da Gama aportou como descobridor em 20 de maio de 1498; Cranga- nor, Cananor, MangaJor, Braeelor, Onor, &c. Por toda esta costa do Malabar ainda é muito commum entre os indígenas a linguagem portugueza, e conser¬ vam muito affecto á nossa nação, apesar de terem passado ha tanto tempo para dominio estranho. A companhia ingleza das índias, esse collossal po¬ der que assoberba a Asia, governa estes povos com ex¬ trema dureza, e d’elles tira enormes tributos, cobra¬ dos ás vezes com o maior rigor e crueldade. Estas cir¬ cunstancias contribuem para lhes conservar o affecto aos portuguezes, cuja administração publica no esta¬ do de Goa, apesar dos seus muitos defeitos, comtem- plam como muito mais benigna, em comparação dos vexames que soffrem sob o dominio britannico. Pelos
  • 26 laços da religião todas as populações christãs, não só d’esta costa como de todo o Indostão, também nos conservam profundas affeições; mas o nosso prestigio sob este aspecto vai-se perdendo pelos deploráveis ef- feitos da interminável questão do Padroado Real, e da pouca attenção que o governo portuguez lhe tem dado. Por mais de uma vez vieram a bordo tonas ou embarcações com gente d’esta costa, trazendo para ven¬ der cocos, jagra, bananas, cestos de rotim de diversos feitios &c.; quasi tudo se lhes comprou a dinheiro, ou a troco de fato usado , de bolacha, e também recebiam e pareciam estimar muito as sapecas ou dinheiro da China, de que parece fazem uso para enfeites: aquella bruta gente explicava-se em máo inglez, ou entendia- se com alguns dos soldados canarinsque trazíamos para Goa: concluídas as vendas, e já alegres com a aguar¬ dente que se lhes dava , principiavam a cantar e a dan¬ çar de extravagante modo, fazendo mil tregeitos e gran¬ de berraria, parecendo n’isto completamente selvagens, tostados, e nus só com um panno cobrindo-lhes as na- degas, e alguns farrapos na cabeça. No dia 5 pela tarde veiu uma embarcação com remeiros mouros bem trajados, enviada pelas auctoridades de Tellichery, um pouco ao norte de Calicut, para saber o nome, o destino do navio, &c., e nos mostraram 3 jornaes de Madrasta: no Atheneu de 15 de janeiro li a noti¬ cia dos notáveis acontecimentos de dezembro em Fran¬ ça, o golpe d’Estado de Luiz Napoleão, suas pro¬ clamações , &c. Bem inesperadamente em tal situação tivemos conhecimento de um successo de tanta trans¬ cendência política. Passámos mui perto de Allipet, feitoria ingleza, onde se achavam fundeados 6 ou 8 navios, que n’este tempo vem aqui buscar azeite de coco, e outros generos. O tempo conservou-se excellente, e as noites de¬ liciosas de magnifico luar. N’essas noites era na ver¬ dade bello, de sobre a tolda do navio, observar a lua resplandecente com toda a sua luz? prateando as irre-
  • quietas aguas, fazendo divisar os perfis puros, e bem desenhados nos ceos, dos cumes dos Gaites, ou as suas fôrmas confusas e vaporosas, quando jaziam em distante horisonte; em quanto o navio, com o pan- no largo e alvacento, e como que riscado irregular- mente pelas sombras da cordoalha , se deslisava man¬ samente sobre as ondas, que rompia apenas com bran¬ do murmurío, impellido pela tépida e suave brisa, que o fazia balouçar vagarosamente, como se se pos¬ suíra da molleza propria dos climas orientaes. No meio d’esta formosa scena da natureza , dentro da ma- china inanimada que vogava solitária , os marinheiros agrupados á proa descantavam , versejando ao som da guitarra , contentes e sem cuidados no meio de seus rudes trabalhos, e da sua aventurosa vida: eu ía es- cutal-os, e divertia-me em ouvir, por entre muitas ideas extravagantes e disparatadas, alguns pensamen¬ tos bonitos ou graciosos. A 8 avistámos a ilha de Angediva, e defronte do seu forte ancorámos pela tarde: era a primeira terra que víamos da índia sujeita ao dominio portuguez; e se todas as mais desde Ceilão e Cabo Comorim até aqui só nos recordavam a perda de nossa grandeza, n’esta ao menos pascíamos com satisfação os olhos, porque ainda as glorias dos Gamas e dos Almeidas nao foram alli offuscadas pelos poderosos do tempo, os or¬ gulhosos inglezes. Esta ilha, pouco nomeada mesmo entre as nossas possessões, está 14 legoas ao sul de Goa , fronteira ao território do Canará: tem de comprimen¬ to 3 milhas, e quasi uma de largura; é cheia de pe¬ nhascos e elevações. Em 24 de setembro de 1498 Vas¬ co da Gama aportou a Angediva, quando se retirou de Calicut desavindo com o rei; n’ella se demorou 12 dias, sendo bem acolhido pelos naturaes, e d’alli partiu para Portugal. Em setembro de 1Ò05 o go¬ vernador D. Francisco d’Almeida se apossou d’elia, e fugiram os gentios; dizem que a fizera fortificar, mas parece mais certo que isto só teve logar mais tar¬ de no governo do conde d’Alvor. Tem actualmenle
  • 28 371 habitantes, e um forte com guarnição de 70 pra¬ ças dos indígenas; porém nada rende para o Estado de Goa, que dispende mais de 8:000 pardaos annuaes para a sua conservação. Em 9 passámos em frente de cabo de Ramas, já no território de Goa, o qual fo¬ mos costeando demandando o ancoradouro da Aguada. Sentíamos aquelle natural alvoroço da chegada a uma terra portugueza, que para alguns era a da patria, e onde iam terminar esta viagem de 45 dias outros tan¬ tos soldados, que de Macao eram reconduzidos para Goa, por doentes ou incorrigíveis. Sommavam 11:700 as chibatadas que tinham sido applicadas áquelles 45 soldados, na maior parte por causa do vicio de em¬ briaguez: eram commandados pelo tenente Victorino José d’Ayalla, e acompanhados pelo cirurgião militar Vicente do Espirito Santo Esteves. Achava-me 1:000 legoas mais proximo do meu paiz, porem ainda a 2:000 distante d’elle, e tinha novamen¬ te de muito mais me afastar antes de o chegar a ver. Em 10 de fevereiro amanhecemos á vista de Mor- mugão, onde ha ancoradouro e abrigo, unico além do de Bombaim, que se pode demandar em todo o tem¬ po n’esta costa. Bordejámos algum tempo, até que, tendo vindo para bordo um pratico, demos fundo pe¬ las 11 da manhã em frente da praça d’Aguada. E’ linda a entrada da barra , que abre quasi em triân¬ gulo, ficando á esquerda a mencionada praça, á di¬ reita o Cabo coroado de um vistoso convento e igre¬ ja, chamado Nossa Senhora do Cabo, e em frente a fortaleza dos Reis e o rio Mandovi, que conduz á cidade: todas as margens e terrenos que se descobrem se veem cobertos de coqueiros, aos quaes na Asia cha¬ mam geralmente palmeiras. Trocaram-se as salvas do eslylo, e logo apparece- ram 3 ofhciaes da corveta Iris; n’essa mesma tarde fui com elies para terra no escaler que os conduzira , como chamam aqui a uns grandes botes com 8 ou 10 remeiros nativos, que vão sempre fazendo uma singu¬ lar algazarra, como para se excitarem a remar. E1 uso'
  • 29 tia Asia nos escaleres e galiotas fazer taes algazarras , nas quaes se animam e muitas vezes se descompõem; mas estes mesmos remadores nas tonas só cantam de noite modas do paiz, e de dia remam calados. A subida do rio é linda, e muito pittoresca a vis¬ ta das fortalezas dos Reis Magos e Gaspar Dias, e dos vários edifícios, uns caiados outros de cores, que se destacam por entre as palmeiras de um e outro lado do rio: a cidade dista umas 4 milhas do ancoradouro. Ao sol posto pizei com emoção a terra famosa dos Al- buquerques e dos Gamas, e pouco depois era condu¬ zido n’uma maxila, que pela primeira vez via e ex¬ perimentava, á residência do juiz da relação o con¬ selheiro Joaquim Antonio de Moraes Carneiro, onde acceitei a obsequiosa hospedagem que já me havia des¬ tinado. Conversámos n’essa noite longamenle sobre as cousas de Macao, de Goa, e do nosso Portugal.
  • 30 * Residência em Nova-Cioa * monumento de AÍTonso d*AISui
  • 31 rotação em 10 minutos: é visivel a 13 milhas ao mar, tem proximo um relogio, e um grande sino, que per¬ tenceu aos conventos de Goa. De tarde fui passear pela cidade. Examinei de per¬ to o monumento erigido a Affonso d’Albuquerque na praça do seu nome: é uma rotunda de máo gosto, sustida por grossos pilares e columnas: debaixo da cupula está uma estatua antiga do heroe, em pedra cor de bronze, que esteve primitivamente no frontis¬ pício do recolhimento da Serra, d’onde foi transpor¬ tada para este monumento; o que se deve á lembran¬ ça patriótica do meu antigo e já fallecido condiscípulo e amigo Claudio Lagrange Monteiro de Barbuda, se¬ cretario que foi do Estado de Goa. O monumento começado em 1843 , foi inaugu¬ rado em 29 de outubro de 1847, no governo de José Ferreira Pestana. A estatua em si não é de mérito; mas é veneranda pela sua antiguidade, e pelo grande homem que representa, o qual em 1503 veiu pela pri¬ meira vez á India, e a governou de 1509 até 1515: conquistou Ormuz, Dabul, Calicut, Goa por duas vezes, Malaca, e outras varias cidades; expulsou os Árabes de Adem, chegou ás portas do Mar-Verme¬ lho , &c. Em sutntna legou á sua patria o vasto e gran¬ dioso império portuguez no Oriente, tão solidamente fundado, que 3 séculos de desgraças e de erros ainda o não fizeram perder de todo. N’esta tarde continuei o passeio até ao Campal, ou Campo de D. Manoel, que é logar aprazível, com uma bonita ponte, onde ha uma estatua de Minerva recostada, e as armas da camara com algumas ins- cripções em versos de pouco merecimento. Na manhã seguinte fui a Ribandar, logarejo pro¬ ximo, seguindo a ponte d’este nome que o une com Pangim, e que é uma obra publica magnifica: tem de comprimento perto de 2 milhas, ou com exactidão 4:448 covados; conta 44 arcos para a passagem das aguas, 38 do líido de Pangim, 3 no meio, e 3 em Ribandar: é uma espeeie de calçada ou dique atravez
  • 32 de um terreno pantanoso e alagado pelas marés: foi construída no governo do conde de Linhares , sob o rei- nado de Filippe III, e teve começo em 1633 e se acabou um anno depois em 1634; tudo segundo consta de uma inscripção, que se encontra sobre a ponte k> go á saída de Pangim. Existem mais duas inscripções, uma no meio, outra no fim da mesma ponte, que se referem a reedificações que tiveram logar cm 1699 e 1771: esta obra acha-se ainda muito solida, e bem conservada. Em pouco mais de um quarto de hora percorri na maxila toda a ponte. Caberá aqui dizer o que é este meio de conducçâo. Imagine-se um sofá sem costas, com 9 cabeceiras, suspenso por estas a um longo e grosso bambu, que assenta sobre as cabeças de 4 ho¬ mens collocados na mesma linha, 9 atraz e 9 adian¬ te, tendo cada um na cabeça um rodilhão. Do bam¬ bu pende urna cobertura, formando uma especie de barraca com o tecto cm angulo, e tendo ao lado 9 pos¬ tigos: só para defender do sol usam também de um tecto plano movei, que gira sobre o bambu á vontade do conduzido, por meio de duas fitas que leva nas mãos, si milhando um pouco ao governar um leme em escaler: chamam a estas coberturas lenda e tendilhão» Os conductores da maxila são chamados boia%cs , e per¬ tencem ás castas mais inferiores entre os naturaes; an¬ dam nus, só com o aholnei, ou especie de ceroulas muito curtas acima do joelho , que substituiu na cida¬ de o célebre langolhn (simples lenço preso, anterior c posteriormente, a um cordão que cinge os rins), e os das casas mais abastadas usam de um saiote curto da cintura aos joelhos: o seu andamento regular é o de um cavallo a trote largo; vão a grandes distancias, e é o modo de fazer jornadas em todo o Indostão. Nas maxilas póde-se ir deitado, sentado, ou recosta¬ do; mas ha algumas em forma de cadeira em que apenas se anda sentado. No logar de Ribandar visitei o commandanle da corveta íris, e partimos pelo mar para o arsenal em
  • Goa-Velha, que dista de Nova-Goa ou Pangim 5 a 6 milhas pelo rio acima, passando em frente do logar de Panei im ou S. Pedro , e de vários edifícios em ruí¬ nas, como o antigo hospital, &c. Desembarquei no arsenal, que examinei com toda a miudeza, acompa¬ nhado pelo dito commandante, que servia de inspe¬ ctor do mesmo arsenal. E’ notável pela sua grande extensão, officinas, magníficos armazéns, &c. Tem uma boa capella e muito antiga. A casa do arrpa- mento e tudo o mais se resente do grande desleixo até aqui havido, tendo-se deixado estragar, como em Macao, importantes valores em artilharia, reparos, projectis, munições, &c. O actual governador tem feito alguns melhoramentos; mas o local doentio d’este grande estabelecimento, e a sua distancia da capital, o farão abandonar mais tarde ou mais cedo, creando- se outro em Pangim, ou na margem opposta do rio. Vi uma peça de ferro , ou pedreiro mourisco, do com¬ primento de 16- palmos, e 14 pollegadas e 3 linhas de diâmetro: é construído de barras de 1 pollegada de largo, convenientemente reforçadas, e linha ao lado algumas enormes balas de pedra do seu calibre. Este pedreiro estava no baluarte S. Thiago, e por ordem do governador barão de Candal foi em 1840 recolhido para o arsenal, e inaugurado como troféo. E’ lastima que fosse redwúdo a moeda, em 1841 , outro monumento d’este genero: era uma columbrina com 16 pés de comprimento, tendo na bollada as ro¬ das e a imagem de Santa Catharina. Fora pelo sena¬ do mandada fundir em Goa cm 1595 pelo célebre fun- didor Pedro Dias Bocarro, o qual e seu filho Fran¬ cisco Dias fundiram na Índia no primeiro século da conquista muitas peças de bronze e ferro, que se es¬ palharam por todas as nossas fortalezas do Oriente, existindo ainda algumas d’ellas em Macao. O arsenal ainda no actual estado denuncia bem a opulência da antiga Goa, e a grandeza do poder por- tuguez na índia: foi ampliado no tempo da conquis¬ ta, antes da qual tinha sido fundado por Melique, 3 ‘
  • 34 % Ocem, que em 1479 fez mudar a cidade para este le¬ gar, transferindo-a da antiga Goa-Velha ou Goa Mo- golica, que jazia a duas milhas de distancia, onde ainda hoje se descobrem as suas ruínas. Pizando este terreno lembrava-me com orgulho do que fomos outr’ora, quando aqui se prepararam as fortes armadas para avassallar a Ásia. Em 1567 o \i- ce-rei D. An tão de Noronha fez saÍF de Goa ao mes¬ mo tempo as seguintes armadas: para o estreito de 3Meca 9 navios, entrando 4 galeões; para differentes portos do Malabar 25; para o norte mais de 20; e o proprio vice-rei saiu de Goa para Mangalá com 55s ■velas, entrando 21 galeões, e deixando ainda a capi¬ tal guarnecida de forças marítimas. Já nos tempos de decadência , por 1580 , ainda o governador Francisco Barreto juntou em Goa mais de 100 velas, entrando 25 galeões, 10 galés, e 70 fustas. Porém as nossas grandes corrstruçções navaes não se fa¬ ziam rFeste arsenal, onde a primeira embarcação de gavea de grande lote que se construiu foi a eorvela Tiova Goa, lançada ao mar em 9 de janeiro de 1851. O nosso grande estaleiro antigo era Cochim, onde possuíamos as ricas madeiras, que ainda hoje d’alli saem para toda a parte; os inglezes lá construem an- Hualmente de 30 a 40 navios de todos os lotes. Foi na Índia que se fez a celebre náo Santa Catharina, de 800 ou 1:000 toneladas, que em 1521 conduziu a infanta D. Beatriz á Saboia. Notarei aqui, a proposito de cousas de marinha, que a barça portugueza l>ae Alam , do proprietário mouro Mussagy Valligy, foi a primeira que da ín¬ dia portugueza se dirigiu a Lisboa, tripulada com in¬ dígenas; pelo que o dito Mussagy ao chegar a Lis¬ boa, em 1850, foi agraciado pelo governo com a gra¬ duação honoraria de capitão tenente da armada. Vi no arsenal uma plantação d’algodao , manda¬ da fazer pelo barão d^Ourem , como repetida expe-» ? iene ia e modelo para tentar introduzir esta util cul- Uua no Estado, á qual porém e a outras de grande
  • m vantagem , como a da canna , noz moscada , canel- la 9 &c. se oppõe, e a toda a especie de progresso na agricultura e na industria 5 o incrível desleixo dos pro¬ prietários 9 e os hábitos indolentes e contrários a toda a innovação ? tão arreigados no povo gentio e christão. Fui depois ver os conventos de Goa Velha. A Sé é um magnifico templo de 3 naves, beJIa frontaria, e ricas obras de talha. Affonso d’Albuquerque quan¬ do pela segunda vez tomou Goa em 25 de novembro de 1510, dia de Santa Catharina, elegeu esta Santa para padroeira da cidade, e ainda hoje o é de todo o Estado, e logo lhe erigiu no ponto por onde retomou a cidade, uma capella que por longos annos serviu de unica parochia aos christaos. Em 1532 foi ampliada^ mas em 1623 se concluiu no mesmo locai o templo da Sé que actualmente existe. Em seguida visitei os conventos de S. Caetano (onde ha algumas cellas e camas para hospedagem), o do Carmo, e S. Francisco; edificados pelos annos de 1521 , 1630 , e 1650. Todos são notáveis pela gran¬ deza , de seus templos que ainda tem bem conserva¬ dos seus excellentes dourados 5 e bellos trabalhos de madeira. Estes edifícios são extensos, posto que al¬ guns em parte já abatidos. S. Caetano similha em pe¬ queno ponto á basilica de S. Pedro em Roma, com uma elegante cupula. Vi em alguns dormitorios cTestes edifícios vários quadros, em geral de máo desenho, mas representando curiosos factos históricos, principal¬ mente os de trabalhos e martyrios de missionários nas differentes partes da Asia. Demorei-me bastante tempo na igreja e casa do Bom Jesus, tendo sido obsequiosamente acolhido pelo administrador o conego Caetano João Peres. A igre¬ ja é grandiosa, e muito notável o frontispício de gra¬ nito escuro, variado com ornatos e relevos: foi edifi¬ cada em 1594 á custa dos legados de D. Jeronymo Mascaranhas, capitão de Cochim e Ormuz, que jaz sepultado na parede direita da igreja, com epitaphio e uma lamina de bronze representando em relevo va« 3 *
  • 36 íios feitos do mesmo capitão. Debaixo do coro acham- se as relíquias de Santa Paulina Martyr. A sacristia é magnifica, e feita á custa do devoto Balthasar da 'Veiga alli sepultado em 1659: tem bellos gavetões, e sobre elles uma serie de quadros de virgens mar ty¬ res em meio corpo, que me pareceram de merecimen¬ to. O mais notável porém para ver n’esta igreja, e que mais atlrahe a allenção dos visitantes, é o tu¬ mulo do apostolo da India S. Francisco Xavier. Compõe-se de 3 degraos ou socalcos quadrilongos, tendo o l.° d’altura 6 palmos, de comprimento c26|, e de largura 13 : os outros dois vão diminuindo em di¬ mensões: todos são de finíssimo jaspe de differentes cores, contendo muitos ornatos, anjos, cherubins, re¬ levos, &c. alguns de alabastro, e tudo do mais per¬ feito trabalho. Em cada uma das quatro faces do £.° socalco ha uma lamina de bronze, representando em alto relevo, e em figuras quasi destacadas do fundo, as mais notáveis passagens da vida do Santo} vendo- se na lamina da cabeceira o mesmo Santo na praia da ilha Sanchoão (na China), estendido sobre uma mi¬ serável esteira na choupana do portuguez Jorge Alva¬ res. N’aquella ilha existe ainda a lapida da sua se¬ pultura com uma inscripção em chinez, e a seguinte traducçao portugueza : Aqui foi sepultado S. Fran¬ cisco Xavier da Companhia de Jesus Apostolo do Oriente. Este padrão se levantou no anno de 1639. Ainda hoje se veem também as ruinas de uma peque¬ na capella, que alli se edificou no mesmo anno. Aquelles relevos são de alto mérito artístico, e quanto a mim a obra mais maravilhosa que contém este fa¬ moso tumulo. Sobre o 3.° socalco assenta o caixão, forrado exte¬ riormente de prata aberta em lavores sobre veludo car¬ mesim , formando 3£ pequenos quadrados ou lami¬ nas , representando em relevo vários milagres e acções do Santo. Na borda superior do caixão ha 16 anjos de prata, e n’outras posições 6 pinhas grandes e ou¬ tras pequenas, também de prata, brincadas e com
  • * 37 flores douradas, e guarnecidas de pedras brilhantes. Ha S.° e 3.° caixão interior, e dentro existe o corpo do Santo , que antigamente se expunha com frequên¬ cia á visita dos fieis, o que pela ultima vez teve Io- gar em 1782. Estão pendentes diante do tumulo qua¬ tro grandes alampadas de prata , faltando oito simi- lhantes que foram para a casa da moeda : as quatro pesam 305 marcos, e o caixão acima referido 600 marcos. Pertenciam mais a este tumulo vários objectos d’ouro e prata de muito valor intrínseco, e de gran¬ de primor de trabalho, de que o Estado tomou con¬ ta, restando porém ainda alguns de bastante valor, ornando parte d’elles a imagem em grande do Santo, que está no altar fronteiro ao tumulo que deita para o cruzeiro da igreja, e que é de prata massiça. Diz-se que este rico mausoleo foi dadiva de um grao-duque de Toscana , e n’elle foi collocado o cor¬ po do Santo em 1655, o qual tinha sido conduzido de Sanchoâo para Malaca, e d’alli para Goa em 1554. A capella onde jaz é interiormente ornada de ricas douraduras, obras de talha, e pinturas em 27 qua¬ dros, apresentando passos da vida do apostolo, alguns dos quaes são de grande viveza e frescura de tintas, parecendo-me de merecimento, e que pertencem á eschoJa italiana. Sobre a porta da capella do lado ex¬ terior existe um quadro, representando o Santo em meio corpo, que dizem ser seu fiel retrato feito á sua chegada da Europa. S. Francisco Xavier é o protector do Estado de Goa desde 1683 , epocha em que o go¬ vernador conde d’Alvor, vendo-se em apertadas cir¬ cunstancias por invasão de inimigos, entregou o bas¬ tão e a auctoridade ao Santo, e effectivamente salvou o Estado. Os governadores vão hoje alli tomar posse e trocam o seu bastão da governança pelo do Santo. Por ultimo visitei o convento e igreja de Santa Monica. Este edifício está ameaçando ruina, bem co¬ mo todos os outros mencionados, e o tumulo de S. Francisco Xavier está ern perigo de se perder, se a
  • 38 tempo nao o removerem , ou for reparada a igreja do Bom Jesus. Em frente das Monicas existem as vastas ruínas da igreja e grande convento de Santo Agostinho, e as de \jarios outros edifícios sirnilhantes em todo o re¬ cinto da velha cidade, e que at testam a sua antiga magnificência, e quanto lhe quadrava o nome de Goa a Dourada, que os orientaes lhe davam , sendo real¬ mente para maravilhar que em tão pequeno espaço existisse tal profusão de bellos templos, e tão espaço¬ sos conventos. A extincção das ordens religiosas era geralmente muito lastimada em Goa. Havia ao tempo da extinc¬ ção, em 1835, oito ordens religiosas; quatro funda¬ das no século XVI, ties no século XVII, e uma (a carmelitana) no meado do século XVI II : tinham 37 habitações ou conventos, com 248 religiosos, 371:340 pardaos (60 contos de réis) de valor em fundos, e de lenda 60:348 pardaos, ou perto de 10 contos. Proximo da Sé existe ainda o antigo arco que or¬ nava a praça dos vice-reis, sobre o qual está a esta¬ tua de Vasco da Gama, que o historiador Diogo do Couto viu inaugurar. Tem a seguinte inscripção: Rei¬ nando cl rei D. Filippe 1 po% a cidade aqui D. Fas¬ co da Gama, primeiro conde almirante, descobridor c conquistador da Índia, sendo vice-rei o conde D* Francisco da Gama, seu bisneto, no anno de 1597. Esta eslatua existe ainda sobranceira ás vastas rui- nas de que está rodeada, como a fama do heroe que representa ha de sobreviver á existência da naçao a que legou tanla gloria ! Parece que no antigo portal da cidade, que foi depois transformado no referido arco, é que primeiro esteve a estatua de Affonso d1 Albuquerque, que se \ê actualmente em Pangim. Os governadores quando chegam á índia, desembarcam no caes chamado de Vasco da Gama, e passando por baixo d’aquelle ar¬ co vão tomar posse á igreja do Bom Jesus. De Goa a Dourada resta hoje aquelle venerais
  • 39 do monumento , e algumas desertas paredes elaustraes e igrejas, que o tempo ameaça breve desmoronar; tudo o mais, seus palacios, suas praças e ruas magnificas , seus templos sumptuosos, seus restos da archilectura india misturados com os esplendores da arte christã, t udo é um mar de ruínas! A opulenta capital do im¬ pério portuguez no Oriente chegou ao maior auge do seu esplendor no meado do século XVI; logo de¬ pois começou a decair pelas vicissitudes políticas da monarchia, mas as terríveis epidemias que n’ella se desenvolveram fizeram apressar a sua mina, e por fim abandonal-a de todo. No regresso ao fim da tarde vi perto da povoação de Panelim ou S. Pedro o palacio dos arcebispos com bei la frontaria, mas dizem estar interiormente muito arruinado. Passando em Ribandar, residência da aris¬ tocracia de Goa, vi um acompanhamento de noivado que se dirigia para a igreja : o noivo ía de casaca e es¬ padim , objecto obrigado em taes actos, levando ao lado um boiaz com alto párasol, ou umbrella. Um dos do acompanhamento ía de casaca, colete branco, um desconforme chapeo redondo na cabeça, dos que na frase chula se chamam balões, de calção branco, e de pernas nuas e chinellos nos pés sem meias. Todo o caminho é lindo, quasi sempre bordado de palmeiras, com várias casas debaixo d’ellas, e até dos telhados d’algumas lhes saíam os altos e esbeltos troncos. Quando atravessei a ponte de Ribandar o sol tocava quasi o horisonte, escondendo-se atraz de den¬ sos palmares na margem direita do Mandovi: a tarde estava perfeitamente serena, e deliciosa a brisa refri¬ gerante do fim do dia; era alta a maré, e cobria to¬ do o terreno a um e outro lado da ponte, de modo que eu , recostado mollemente na maxila, seguia com rapidez um caminho por entre as aguas espelhadas, levado pelos infatigáveis boiazes, que corriam aqui mais que o ordinário. Foi realmente muito agradavel esta parte da digressão, e deliciosamenle gozei da bel- la-scena que de todos os lados se apresentava.
  • 40 Varias digressões em Pautgim. partida d#es(a cidade» um dia na Aguada , e recordações «TAftonso crAllm*£uei*
  • M diá; ó mais recente é o do penúltimo governador José Ferreira Pestana , faltando alguns dos retratos dos seus im media tos antecessores. Em 14 fui de tarde a um bonito passeio até ao convento do Cabo, na barra e ponta fronteira d Agua¬ da, cujo local é muito pittoresco, e o mais agradavel dos que vi nas proximidades de Pangim : domina todo o horisonte para o lado do mar, iica-lhe ao norte a Aguada, e para o sul a celebre peninsula de Mormu- gão, onde ha ruinas das famosas fortificações e mura¬ lhas que a circumdavam toda, e as da nova cidade, que para capital do Estado alli se principiou nos fins do século XVII ; conserva-se apenas hoje uma bateria em regular estado. Observei (Peste promontorio um magnifico occaso do sol, mergulhando-se no Oceano indico. Estive na igreja da invocação de Nossa Senhora e no convento, que é pequeno e serve de residência ao administrador, e a algumas famílias da cidade, quando querem ir alli tomar ares, que são muito sa¬ lubres: contíguo ha um bonito e extenso bosque de cajueiros, que estavam carregados de fructo. Também alli existe um cemitério inglez, hoje abandonado. Ao fechar do dia retirámos para a cidade, eu e um amigo que me acompanhara, ora por debaixo dos copados palmares, ora á beira das ondas em bonitas praias, e nos logares que o permittiam, caminhando a par as duas maxilas, iamos agradavelmente conversan¬ do n’aquelles leitos ambulantes. Na madrugada de 15 fui ao telegrafo, que está sobre o outeiro denominado de Pangim , que corre até ao Cabo, e onde fora talvez mais acertado ter estabe¬ lecido a nova cidade, a qual onde está é ainda doen¬ tia , especialmente em alguns logares: goza-se d’alli um bonito golpe de vista. Entrei na igreja próxima da Con¬ ceição, unica que ha em Pangim , e pouco bem arran¬ jada ; mas de longe é vistoso o frontispício : parece que foi o primeiro templo que se edificou no Estado fora da capital em 1541. D’alli fui assistir á parada do 3,°
  • batalhão; tinha boa banda de musica, e os soldados estavam bem fardados e equipados, pelo mesmo mo¬ delo dos de Portugal, tendo porém alpercatas em vez de sapatos. Fui depois ao quartel d’artilharia, e ouvi alii a missa do batalhão. A’ saída tive occasiao de observar mais detidamente o singular vestuário das mu¬ lheres nativas, que envolvem o corpo todo e a cabeça n’uma especie de grande lençol branco. Na mesma manha de 15 fui com o gentio Bicu ver o pagode de Brama, para o lado de Santa Ignez : é pequeno e muito pobre, mas fiz idéa do estylo da sua construcção, differente da dos pagodes chinezes; tem defronte da porta uma torre ou antes pyramide 3 formada de successivos socalcos ou altos degráos qua¬ drados, progressivamente menores. Entrei em varias lojas de gentios, todas mui inferiores, em pequenos cubículos, não apresentando nada de industria do paiz, apenas alguns artefactos de prata ou de ouro, que cus¬ tam a encontrar a não serem encommendados. O quartel d’artilharia é o maior e mais regular edifício da cidade; tem 4 grandes faces, e além dos alojamentos militares , estão alli estabelecidas a rela¬ ção, a livraria publica, a eschola mathematica e mi¬ litar, o supremo conselho de justiça militar, o audi¬ tório do juizo de direito, as aulas das línguas latina, franceza, ingleza, e marata, e o theatro União. Este grande quartel foi construído no tempo ( 18§7 a 1835) do governador D. Manoel de Portugal e Castro, bem como a casa da alfandega e a da moeda , o campal, &c. Pangim primitivamente era um bairro da aldêa Taleigão, só habitado pelos pilotos da barra de Goa, e por alguns pescadores, tendo apenas de notável a fortaleza do Idalcão, hoje palacio do governo, de que ha pouco fallei. Nos últimos annos do século XVII , começou a ter algumas casas de campo de fidalgos, e pessoas abastadas. No meado do seguinte século a for¬ taleza foi reduzida a palacio , e tornou-se a effectiva residência dos governadores: apesar d’isto Pangim até ao fim do século ultimo, não passou de solitária há-
  • 43 bitaçào dos vice-rejs, de nlguns empregados e fidal¬ gos, e nas outras classes só contava pescadores, azei- teiros, e alfaiates. No principio d’este século começou a mudar de face este Ioga rejo, cheio de palhoças , palmares e var- zeas , cortado em diversas direcçoes por 4 braços do rio que o banha ao norte. Para isso influiu a trans¬ ferencia para alli da alfandega em 1811, á qual^em 1818 se seguiu a da contadoria e outras repartições, e pouco depois a relação, chancellaria, &c. Tanto bastou para o povo elevar Pangim á cathegoria de villa, e depois dos melhoramentos mencionados foi em 1843 officialmente declarada cidade, e capital da ín¬ dia portugueza, com a denominação de Nova-Goa. Tem hoje bons edifícios, conta 14 ruas principaes, 3 praças, e 7 largos, tudo espaçoso e regular, e 9:500 habitantes. O dia 16 foi occupado em despedidas e arranjos para a retirada de Goa. De tarde tendo-me despedi¬ do agradecidamenle do meu benigno hospedeiro, a quem muito favor devi, embarquei n uma tona mes¬ mo á porta da casa onde residia, no bairro das Pon- tainhas, e que deitava para um braço do rio. Fomos entrar no rio Mandovi, passando debaixo dos vetus¬ tos arcos principaes da ponte de Ribandar; seguimos em frente da cidade, e contemplando estas bellas mar¬ gens , provavelmente pela ultima vez na minha vida, cheguei a bordo já de noite, durante a qual se annun- ciára a saída ; mas ficou deferida para a seguinte. Este porto de Goa é formado pelas duas extremi¬ dades das peninsulas de Salsete e Bardez, e dividido pelo extremo saliente da ilha de Goa, formando os dois ancoradouros da Aguada e Mormugâo. No da Aguada podem surgir os; navios sem risco desde se¬ tembro a fim de maio, e largar ancora em 5 braças de fundo; e no de Mormugâo em 3è e 4 proximo á terra. De inverno os ventos e os máres grossos não per- mittem a estada n’estes ancoradouros, e só em casos urgentes podem os navios com os noroestes aportar no
  • U de MormugSo. O banco que n’esta estação obstrue a barra, impede que as embarcações se acolham ao rio Mandovi. A entrada do porto é defendida pelas duas fortalezas de Mormugão e Aguada, que dominam os dois surgidouros, e a foz do rio é protegida pelos for¬ tes dos Reis Magos ao norte, e Ciaspar Dias ao sul, distantes uma milha entre si. De rios a dentro existiam vários reductos e fortins hoje abandonados. Passei quasi toda a manhã de 17 sentado indolen¬ temente no tombadilho da corveta, entregue aos dif- ferentes pensamentos que me suscitava a contempla¬ ção d’aquellas lindas margens e vistosas fortalezas. Transportava-me em imaginação ao formoso viver da primeira epocha das glorias portuguezas na Índia, re¬ passando pela memória os grandes feitos de nossos avós , é o grao de esplendor e de poder a que elevaram a capital do império portuguez na Asia; essa Goa, a rainha do universo oriental, que com espanto de to¬ dos os povos dominava em quasi (>:000 legoas de cos¬ ta , desde o cabo da Boa Esperança ás praias da Chi¬ na , e á qual obedeciam 30 cidades cabeças de provín¬ cias, e mais de 35 reinos tributários; a alliada dos imperadores da China, do Japão, do Monomotapa, e dos mais poderosos soberanos da Asia e da Africa ! Sobre tudo porém me dominavam as recordações do grande Albuquerque, e dos últimos dias da sua existência, passados no mesmo logar em que eu me achava. E1 sabido que Affonso d’Albuquerque acabou seus dias amarguradamente, e sob o pêso da ingratidão do seu soberano. Mandára elle da Índia presos para o reino, por justos motivos, a Lopo Soares d’Alberga- ria e a outro indivíduo: ambos estes conseguiram re- habilitar-se na corte; Albergaria foi nomeado para substituir Affonso d’Albuquerque no governo da ín¬ dia, e o outro seu secretario. Quando Albuquerque, estando em Ormuz ou no caminho para Goa, tal soube, juntou as mãos, e levantando-as ao Ceo disse estas memoráveis e sublimes palavras: Estou mal com
  • 45 eUrei por amor dos homens , mal com os homens por amor d'el-rei. Velho, volta-te para a igreja, e aca¬ ba de morrer ..... por quanto importa á tua hon¬ ra que morras, e nunca tu deixaste de fazer o que á honra convinha. Já tão fraco que mal podia ter se em pé, escreveu a derradeira carta a el-rei D. Manoel, em que só lhe pedia que fizesse grande a seu filho, e concluía : Pelo que toca ás cousas da Índia nada digo ; ellas faltarão por mim a vossa alteza. Chegou ainda com vida á barra de Goa, onde ex¬ pirou com 6& annos de idade, no domingo 16 de dezembro de 1515. Foi amortalhado no manto da or¬ dem inilitar de cavallaria de S. Thiago da Espada , de que era commendador, e o seu corpo se depositou na capella de Nossa Senhora da Serra, que elle mandára edificar na cidade de Goa pelo feliz successo da conquista de Malaca. Em maio de 1566 foram os seus ossos trasladados para Portugal, e se depositaram no convento da Graça em Lisboa. No Ensaio Estatístico do reino de Portugal e 41- garves , de Adriano J3albi, se lè ( e hoje já por ahi anda repetido em obras porluguezas) que na sacristia do dito convento da Graça se acha o mausoleo do invicto Af- fonso d’Albuquerque. E’ um erro que cumpriria corrir gir. O mausoleo que está na sacristia é de Mendo de Foios Pereira, secretario d’Estado d’el-rei D. Pedro II. As cinzas de Affonso de Albuquerque quando che¬ garam a Portugal foram collocadas na capella mór da dita igreja de Nossa Senhora da Graça, em nobre se¬ pultura; porque seu filho natural Braz d’Albuquer- que (a quem el-rei D. Manoel mandou que se cha¬ masse Affonso, em memória de seu pai) contratou em 1566 com os padres do dito convento, darem-lhe a capella mór da referida igreja para n’ella collocar os ossos de seu pai, e dos successores do morgado que este instituíra; para o que deu-se ao convento casaes c propriedades de muito rendimento, com a obriga¬ ção de duas missas quotidianas.
  • 46 Este Braz ou Affonso d’Albuquerque casou duas vezes: teve um filho que morreu no berço, e uma filha que foi mulher do primeiro conde de Basto, e não teve descendencia. Deixou Braz d1 Albuquerque um filho natural chamado D. João Affonso d’Albu¬ querque, o qual denunciou os referidos bens doados aos frades da Graça como . vagos para a coroa , por falta de certas aolemnidades na instituição da capella. Seguiu-se um renhido pleito, em que interveiu o mes¬ mo D. João Affonso d’Albuquerque, mas em que fo¬ ram oppositorès originários ao convento os successores legítimos de D. Constança , irmã do grande Albu¬ querque, e a favor dos quaes se decidiu a questão, sendo o mosteiro da Graça condemnado á restituição dos bens doados por Braz d1 Albuquerque, por sen¬ tença da relação de Lisboa de 10 de maio de 1603, a qual porém parece que só teve plena execução em 1681. Os frades da graça venderam depois o padroado da referida capella mór aos condes da Ericeira, para n’ella se sepultarem, e pelos annos de 1635 a 1639 foram os restos mortaes de Affonso d’Albuquerque ti¬ rados do logar em que estavam, e lançados no jazigo commum da familia dos Albuquerques, sem nenhu¬ ma distineção, na casa do capitulo que eslava no claustro grande. Estavam esses restos mortaes em um caixão grande, que continha outro de chumbo, e ti¬ nha este na tampa gravada uma lenda que indicava estar alli Affonso d’Albuquerque, segundo dizia um ancião religioso d’aquelle convento, ainda ha pouco fallecido. Eis-aqui a origem da injuria, muito gravè sem duvida , feita ás cinzas de tão grande homem. O des¬ tino as vingou em parte; porque o mausoleo do con¬ de da Ericeira D. Diogo de Menezes erigido em 1639 , onde também se continham as cinzas do governador da India D. Henrique de Menezes, teve a mesma fortuna que o de Affonso d’Albuquerque, pois que os frades quando posteriormente reformaram a igreja v
  • 47 quizeram que a casa da Ericeira corresse com as des* pezas da capella mór, e como o não conseguissem des¬ mancharam tudo , e a fizeram á sua custa. A antiga casa do capitulo faz hoje parte do quar¬ tel do regimento d’infanteria número 10, e as cinzas do maior guerreiro porluguez alli serão talvez diaria e desacatada mente pisadas pelos militares dos nossos dias ! Releve-se-me esta divagação, e outra que vem aqui a pêlo sobre as cinzas de Vasco da Gama. Já disse, fallando de Cochim, que o corpo do grande almirante fora sepultado no convento da villa da Vidigueira. Depois da extincção das ordens reli¬ giosas ficou este edifício ao abandono. Em 1344 e 1845 o abbade A. D. de Castro e Souza dirigiu por mais de uma vez representações ao governo, acerca dos bru- taes e infames actos praticados na sepultura de Vasco da Gama, e pediu que as suas cinzas fossem removi¬ das para o templo de Nossa Senhora de Belem, em Lisboa. Isto deu logar a que fosse expedido um officio ao governador civil de Beja, que foi respondido a 8 de fevereiro de 1845 por José Silvestre Ribeiro, que então exercia aquelle cargo. D’esta resposta, que cor¬ re impressa, transcrevo os trechos seguintes: « Dando á representação do abbade Castro, e ás or¬ dens do governo de sua magestade, a consideração que mereciam , entendi ser do meu dever transportar-me á villa da Vidigueira, onde descançam os restos mor- taes de Vasco da Gama. No dia seis do corrente pas¬ sei á dita villa, e sem detença me encaminhei ao edi¬ fício do extincto convento dos Carmelitas Calçados, sito a um quarto de iegoa da Vidigueira, para o lado do norte, e entrei na igreja profanada da invocação de Nossa Senhora das Relíquias, dependencia do mes¬ mo extincto convento, que tudo é hoje propriedade particular de D. José Gil Tojo Borja de Menezes , residente em Portei. a No presbyterio, para o lado da epistola, e não para o do evangelho, como diz o abbade Castro, está a sepultura de D. Vasco da Gama, tendo sobre a
  • 48 campa o seguinte epitáfio: Aqui ja% o grande ar* gonauta D. Vasco da Gama, l.° conde da Vidi- gneira , almirante das Índias Orientaes , e «ei* fumo- so descobridor. Ao lado do evangelho está também outra sepultura , onde jaz D. Francisco da Gama , 4.° conde da Vidigueira; e no meio do coro da capella mor está a sepultura de D. Vasco Luiz da Gama* 3.° neto de D. Vasco da Gama, l.° marquez de Niza. « Mal imaginava eu que na occasiâo venturosa em que ia ver com religioso respeito, e patriótica admi¬ ração os restos mortaes do illustre e afamado argonau¬ ta, D. Vasco da Gama, me estivesse reservado o sen¬ sível e dolorosissimo golpe de presenciar o aclo do vandalismo mais barbaro, que entr^ homens civilisa- dos se tem commetlido! A indignação foi n’este caso igual á vergonha, ao considerar que portuguezes des¬ naturados se arrojassem ferozes e estúpidos a profanar o jazigo d’um grande homem , talvez somente para despojarem o seu cadaver d’alguma joia de valor, que com elle tivesse sido encerrada no tumulo i « E com tudo, assim havia succedido ! Duas das pedras que cobrem a sepultura foram arrancadas, para darem entrada para o jazigo do heroe a monstros, que não se horrorisaram de devassar aquelle logar sagrado, despedaçar o ataúde, roubar alguma cousa de preço, e quebrar alguns dos venerandos ossos do magnanimo descobridor das índias Orientaes ! « Este crime, que não tem qualificação nas lín¬ guas humanas, foi perpetrado no anno de 1840, se¬ gundo me informaram o administrador do concelho da Vidigueira, e outras pessoas da mesma villa. Pergun¬ tei como pôde fazer-se isto, qual procedimento se to¬ mara em tal occasiao, ou como passou inobservado um facto de tal escandalo. .. . e ninguém soube dizer-me uma só palavra, d’onde conclui, que ninguém n’essa epocha deu a este caso a importância que merece, e que por outro lado o vandalismo dos malvados só foi igualado pelo indolente descuido de quem devia vigiar pela conservação de tão precioso monumento.
  • AO « Penetrado de profundo horror, e de pungente tristeza, mandei immediatamente lavrar um auto pelo administrador do concelho , no qual se lançasse a noti¬ cia do que se encontrou, e é o que acompanha por copia este officio. Em seguimento ordenei ao mesmo funccionario que mandasse igualmente collocar bem as duas pedras que haviam sido deslocadas, e intimasse o proprietário actual da igreja que nao deixe alii en¬ trar ninguém até que eu possa dar as providencias ne¬ cessárias. Propunha em seguida o referido governador civil o modo de fazer a trasladação de que se tratava, a qual até hoje ( 1853 ) não se realisou , tendo caído em esquecimento esta patriótica lembrança do benemerito abbade Castro e Sousa. Os manes dos dois heroes que não cabiam em to¬ da a Asia ahi jazem desprezados, e sem vindicta as injurias e as execrandas affrontas que tem soffrido as suas cinzas; em quanto outras dos mais insignifican¬ tes sevandijas, ou das maiores nullidades, por ahi es¬ tão depositadas em preciosas urnas, e em mausoléos soberbos, que o ridiculo da vaidade levanta á vaida¬ de ridícula ! Aos descendentes dos Gamas e dos Albuquerques cumpria a honrosa tarefa de salvarem, e fazerem guardar decentemente os restos mortaes d’aquelles dois grandes homens; mas se a sua ingratidão ou indiffe- rença os não estimula ao desempenho d’este sagrado dever , a nação tem o superior direito de possuir e hon¬ rar as cinzas dos seus heroes. Sal vem-se em quanto é tempo essas cinzas venerandas, e poupe-se á actual ge¬ ração mais um labéõ infame, sobre os muitos que so¬ bre ella pesam, pela perda de tantos monumentos e relíquias de nossas glorias í Voltando a fallar da morte de Affonso de Albu¬ querque, consta da historia que muitos príncipes do Oriente deram mostras de grande sent imento por ella, e que até alguns tomaram lucto. Affirma-se que os indios seus conquistados iam em romaria á sua sepul- %
  • so tura, para lhe pedir soccorro contra as vexações doa governadores que lhe succederam. Nunca a inveja e a ingratidão sacrificaram mais illustre victirna. El-rei D, Manoel parece estar modernamenle jus¬ tificado da injustiça que para com Albuquerque pra¬ ticou ; porque em uma carta ha poucos annos desco¬ berta, que o mesmo rei lhe dirigiu por via de Vene¬ za, depois da partida do Albergaria, ordenava a Af- fonso d’Albuquerque que conservasse o governo de par¬ te da índia, e lhe dava muitos louvores por ter sabi¬ do da conquista de Ormuz, Adem , &c.; carta que Albuquerque não chegou a receber. Alguns cri ticos porém vêem n’este documento mais a intenção de apro¬ veitar ainda o grande mérito d’Albuquerque, para defender os paizes que lhe davam a governar ameaça¬ dos pelos nossos inimigos, do que o desejo de reparar uma grande injustiça. Concebeu este heroe o gigantesco projecto de mu¬ dar o curso do Nilo, cortando-o na Abyssinia, e fa- zendo-o desembocar no Mar Vermelho, para des¬ truir por uma vez o poder dos turcos na Asia, com a ruina do Egypto: pediu para Portugal 100 traba¬ lhadores da ilha da Madeira, que eram liabeis em fazer aterros e obras nas montanhas; porque elle se propunha a cortar uma no referido paiz. N’aquelle tempo, e até pelos nossos historiadores, foi tal proje¬ cto reputado louco; porém modernos viajantes france- zes dizem que era praticável com algumas modifica¬ ções no plano do audacioso Albuquerque. De mais facil execução era talvez o outro seu projecto de ir a Meca destruir o tumulo de Mafoma, o que bem se- TÍa possível ao conquistador de Calayate, Curiate, Mascatte, e Ormuz, cidades da Arabia, por toda a qual já soava o terror do seu nome, que se ouviu d’uma a outra extremidade da Asia , desde o Mar Ver¬ melho ao fundo do Estreito de Malaca, d’onde os echos da fama o repetiram por Sião, Tonquim, no remoto império chinez, e pelos intrincados archipela¬ gos das Molucas.
  • Coge Çofar, tão inimigo dos portuguezés, dizia fal- lando de Albuquerque: « Este nasceu para injuria de todas as monarchias, porque com senhorear Malaca poz a todo o sul freio; rendeu Ormuz, emporio das riquezas do mundo; tomou Goa ao Sabaio para ca¬ beça de seu tyrannisado império; e sem trazer os exér¬ citos de Xerxes ou Dario , fez tributários mais reinos do que trazia soldados; levantando o pensamento a querer tirar de Meca o corpo do Profeta, poz em conselho mudar ao Nilo as correntes, para alagar o Egypto; emprehendendo seu espirito fazer duas tão fa¬ mosas injurias, uma ao ceo, outra á natureza. » Nenhuma qualidade de mérito faltou à Affonso d’Albuquerque t até soffreu uma injusta prisão, e sen¬ tiu nos seus valentes braços o. peso dos ferros cPel-rei. Refere a historia, que por influencia do celebre na¬ vegador João da Nova sobre o já fraco e velho vice* rei D. Francisco d’Almeida, este se negou a entregar a Albuquerque o governo da índia, e o mandou preso e carregado de ferros de Cochim para Cananor. Al¬ buquerque solto pouco depois, e tomando as redeas do governo, mostrou até onde chegava a magnanimi¬ dade da sua alma. João da Nova já em Ormuz lhe promovera graves desgostos e transtornos, fazendo-lhe falhar a primeira expedição que tentou contra esta cidade, pelo ter abandonado com o seu famoso navio Flor do Mar, espantado da vastidão e audacia dos projectos de Albuquerque. Este porém com amizade lhe assistiu nos momentos da morte, e quasi só lhe acompanhou o cadaver , completamente vestido de dó. As saudades do grande capitão absolveram as faltas e as offensas do velho soldado, e do audaz navegador portuguez! Ha na vida d’Albuquerque uma d’estas resoluções repentinas e originaes que revelam o genio. Conquis¬ tada Goa, mandára o Ínclito capitão metter no muro da nova fortaleza uma lapida, em que fizera gravar os nomes dos capitães que foram com elle n’aquella empreza. Como porém os proprios capitães entrassem 4 *
  • em discórdias e ciumeâ sobre ãs preferencias dos no¬ mes, Albuquerque mandou voltar a face da pedra para o interior da muralha, e ordenou que na face exterior se gravassem estas palavras: « Lapidem, quem reprobaverunt cedificantes,» k Pedra reprovada pelos edificadores, n Albuquerque, nos seis annos do seu governo, fun¬ dou e firmou o império portuguez do Oriente, pela conquista de Goa, Malaca, e Ormuz, pontos im¬ portantes que na sua vasta idéa abrangiam todo o commercio da Asia, tornando os portuguezes senho¬ res dos seus máres. Malaca era o emporio geral a que concorria o cravo das Molucas, a noz de Banda, o sandalo de Timor, a can fora de Borneo, o ouro de Sumatra e do Lequio, e as gommas, aromas, e mais preciosidades da China, do Japão, de Sião, do Pe- gú, &c. Goa reunia ao que lhe vinha de Malaca, os estofos de Bengala, as pérolas de Kalckar, os dia¬ mantes de Narsinga, a canella e rubis de Ceilão, as especiarias do Malabar, o ouro e a prata do Mocu- ranga e Cuama, com o marfim e outros productos d’Africa. Ormuz finalmente era como o interposto, onde se depositavam todas as producções da índia, para d’alli passarem pelo golfo pérsico a Bassora, e logo em caravanas á Armenia, Trebisonda, Alepo, Damasco, &c. Nasceu Affonso d’Albuquerque em 1453 na quin¬ ta do Paraiso, entre as povoações de Alhandra e V illa Franca, quinta que ainda hoje conserva o seu nome, e pertence á casa dos marquezes d’Abrantes. lira filho segundo de Gonçalo de Albuquerque, senhor de Villa Verde, e de D. Leonor de Menezes. Foi educado no proprio palacio de el-rei D. Affonso V , e D. João II, o grande conhecedor dos homens de mérito, o fez seu estribeiro-mór. Albuquerque era muito douto nos es¬ tudos astronomicos, cosmograficos, e náuticos, como educado que fôra na eschola portugueza d aquelles
  • 53 V bons tempos, e frequentes vezes propunha difficeis pro¬ blemas n’estas sciencias ao grande geometra portuguez Pedro Nunes. Em fim , abstendo-me de transcrever aqui todas as mais recordações de que me possui, e que embora vulgares e desalinhadas sempre são gratas de repetir a corações portuguezes, terminarei dizendo com alguns escriptores: que Affonso d’Albuquerque é maior que a sua fama; que os séculos collocaram n’um throno a sua figura austera; que a posteridade o reconhece co¬ mo o maior homem na gravidade honrada, na politi- ca, e na guerra que ha produzido Portugal; e final¬ mente que o seu nome deve associar-se aos de Anni- bal, Cesar, e Napoleão.
  • 54 CAPITULO pm Partida de Ooa» noticias e considerações varias sobre esta possessão* Pelas tres horas da noite de 18 de fevereiro le¬ vantámos ferro, com vento terral: ao romper do dia já iamos distantes da costa, mas só peidemos de vista pela tarde essa terra famosa, theatro dos grandes fei¬ tos , das grandes virtudes, e dos grandes crimes de nos¬ sos avós! Ao vêl-a nâo sei hoje se humilha, pelas nos¬ sas actuaes circunstancias, ou se ensoberbece ainda um coração portuguez : penso porém que as grandes acções e glorias nacionaes, embora seus effeitos passem , sem¬ pre communicam ás pessoas mais indifferentes, visi¬ tando as localidades onde se praticaram, sentimentos de orgulho e patriotismo, como se nos transportára¬ mos aos heroicos tempos de nossas conquistas, tao ra- pidas quanto extensas por todo o littoral da Ásia. As grandes recordações sempre sao caras e úteis aos po¬ vos , ainda no seu maior estado de abatimento. A estes pensamentos se juntava porém o pesar de ver tão mal aproveitados os ainda opulentos restos de nossos do- minios. O Estado de Goa é susceptivel de bastantes me¬ lhoramentos: o seu solo, montanhoso e cortado de rios, é em geral fértil, especialmente nas Novas Con¬ quistas, quasi todo abundante de agua nativa, e pro- prio para as mais ricas producções da India; e as com¬ municates fluYiaes muitas e fáceis no centro do Es*
  • tado, como cm nenhum outro local de toda a costa do Malabar e Coromandel. Só carece para o desen¬ volvimento da sua prosperidade, gemo, probidade, diligencia, e perseverança nos governadores; íntro- duccão de melhores hábitos no povo, difficilima em- prezu na verdade, ou trazer gente acliva para o paiz , e nada melhor seria do que o levar para alli colonos chins, que hoje saem para toda a parte do mundo. A melhor prova d’esta asserção é que, apesar d» atrazamento e pouca extensão da cultura, e da quasi nenhuma industria e commercio, as rendas do Estado são sufficientes para as suas despezas restnctas; e que tem havido em varias epochas, e haveria hoje, retna nescente para obras ou em prezas publicas , se o gover¬ no de Portugal não sobrecarregasse conlinuamente esta colonia com despezas inúteis ou estranhas aos seus in¬ teresses. Os fornecimentos aos navios de guerra saem caríssimos, por serem comprados aos particulares pelo duplo ou triplo do seu custo em I ortugal, os gene- ros d’este paiz, como o vinho, azeite, lonas, òcc. que de Lisboa poderiam ir de conta do Estado , se hou¬ vesse boa administração na nossa marinha. A leitura da corveta Nova Goa importou em 60 contos, in¬ cluindo todas as despezas até á sua saída para Lisboa. As construcções ficam actualmente muito caras, por¬ que é necessário comprar a madeira de téca nas pos¬ sessões inglezas, pois mui pouca nas nossas ha pela deplorável destruição das mattas, por incúria dos go¬ vernos e auctoridades locaes, que lhe não tem posto cobro, e pelo abuso que tem havido nas sementeiras chamadas comorim, queimando-se frequentemente e las arvores, só para aproveitar, n’uma cultura passa¬ geira, o terreno e as cinzas com que fica adubado , tornando-se pela ausência das florestas o clima ca a vez menos salubre. O barão de Ourem tinha procu¬ rado remediar este mal, e já havia publicado um re- gulamento para as maltas do Estado: diziam ser is o o principal pretexto das desordens que rebentaram em Satari nas Novas Conquistas, e que continuavam a
  • 56 nossa saída, achando-se os rebellados entranhados no matto, d’opde difficil seria expulsal-os, O paiz pro duz excellentes madeiras, tanto para construcções na- \aes como para a archilectura civil, sendo as mais preciosas o siçó (páo santo), puna (que serve para mastros ) , téca , sandalo, ébano , páo ferro, &c.; mas quasi todas agora sâo raras. Em geral a madeira fica muito cara pelo modo brutal, e dispendioso com que é conduzida das poucas mattas que restam nas Novas Conquistas, arrastando os madeiros de grandes distan¬ cias á força de braços ou de bois; de modo que mes¬ mo a que se corta no paiz sae mais cara do que a que Tem de Calicut e Cochim. Goa era uma antiga cidade do Indostão: tira o seu nome das duas palavras gopac e pur, que signifi¬ cam reino de Gopac, do nome do rei seu fundador. Primitivamente era conhecida pelos nomes de Go- pacpur, Goai, Goaem , e Goem : o de Goa que hoje tem é devido aos porluguezes. Todo o Estado jaz en¬ tre as latitudes 14° 53' e 15° 44' norte, e entre 73° 45' e 74° ^3; de longitude a leste de Greenwich : tem de comprimento de norte a sul 17 legoas geográficas, e na maior largura 10, estreitado entre a costa e a grande cordilheira dos Gatles, que mesmo de Pan- gim se descobrem no horisonte. O paiz é cortado em differenles direcções por oito rios principaes, que for¬ mam ao todo íÉQ ilhas, dando grande facilidade ás communicações internas: tem de superfície 1S1 legoas quadradas com 363:788 habitantes (segundo a estatís¬ tica official referida a 31 de outubro de 1851 ), quasi dois terços christâos, e o resto gentios, seguidores de irarias seitas da religião de Bramá, todos n’umas 400 aldêas. As Velhas Conquistas dividem-se em tres comar¬ cas Bardez, Salsete, e Ilhas: as Novas, que sao ter¬ renos adquiridos no fim do século passado por guerras ou cessões, tem varias divisões, ás quaes n’umas e n'outras chamam províncias, e que nem corresponde¬ rão á extensão dos nossos concelhos. As Novas Com»
  • 57 quistas comprehendem mais de dois terços do terreno total do Estado, mas pouco mais contém de 100:000 habitantes: alargam-se pelo interior á maneira de meia-lua, tocando as pontas no mar, abrangendo no centro as antigas comarcas. Além da capital as povoações mais notáveis são Margao com lí2:600 almas, e Mapuçá com 11:400. A receita do Estado anda por 1:500$000 pardaos, e a despeza por 1:600 $000: o pardao de prata cbr- responde no valor e peso a um franco, e calcula-se pela fazenda publica em 160 rs. de Portugal. As praças de Diu e Damao, e seus pequenos terri¬ tórios , são dependences de Goa, conservam-se com os seus rendimentos proprios, e mandam remanescen¬ tes para a capital. O terreno de Diu é muito povoa¬ do; contém 6:151 almas por milha quadrada. As principaes exportações são cocos, aréca e sal; as importações são muito maiores, abrangem quasi to¬ dos os objectos de primeira necessidade e de luxo, e até algum arroz. Todo o commercio se faz com Bom¬ baim , alguns portos do sul, e terras adjacentes do Ba- lagate; tudo sujeito aos inglezes. A desvantagem na balança commercial é supprida pela importação de di¬ nheiro, que remettem das possessões inglezas os filhos de Goa, empregados nas igrejas do padroado real, ou os que do baixo povo vão aíli ganhar a sua vida na qualidade de servidores, cozinheiros, alfaiates, &c. A industria manufactora se limita a alguns teares de tecidos de algodão, e a tinturarias nas ilhas de Goa e em Bardez. A fazenda possue uma fabrica de polvora, e uma cordoaria. Os officios mechaniccs são exercidos em quasi todos os ramos. A instrucção publica é dividida em primaria, se-r cundaria, e estudos superiores, que consistem nas cs- cholas mathematica e militar, medico-cirurgica, e cm dois seminários para estudos ecclesiasticos. Ha nas aldêas uma instituição singular a que cha¬ mam comrnunidades, que são umas associações agrí¬ colas possuindo bens? cujos rendimentos são dividi-
  • dos entre vários indivíduos, e em differentes propor¬ ções, segundo as classes ou castas. O direito a este re¬ cebimento é hereditário, e os que d’elle gozam deno¬ minam-se gancares, titulo e privilegio tido em gran¬ de apreço, realmente lucrativo, e do qual só gozam os homens e as suas viuvas, e as filhas solteiras em algumas gancarias. Ha aldêas em que os gancares, reduzidos a poucos, cobram 500 a 600 pardaos an- nuaes; mas o geral é de 18 a 19 pardaos, para a l.a classe: chamam jonos a esta especie de pensão, cuja cobrança começa dos 10 aos 14 annos, umas vezes por metade, outras por inteiro, no que ha uma grande variedade, bem como nos direitos e natureza d’esta propriedade, segundo o regulamento ou estylo de ca¬ da communidade, e a immensa legislação que ha a tal respeito. Estas associações são sujeitas ao paga¬ mento de foro á fazenda, e a varias despezas para o culto e outros encargos. E’ anterior á conquista a origem das communida- des. As terras do Concao, antigo nome do paiz de Goa, foram cultivadas pela gente do Canará em dif¬ ferentes sociedades chamadas gancarias , que adquiri¬ ram a propriedade da terra, mas sendo depois subju¬ gadas pelo rei de Bisnaga , lhes ficaram pagando fo¬ ros, o que continuaram ao mouro Melique, que con¬ quistou este paiz 40 annos antes dos portuguezes, aos quaes pagaram depois esses foros. São pois os ganca¬ res os descendentes dos primitivos associados, ou d’a- quelles a quem estes na occasião da conquista trans- mittiram os seus direitos. Os foros e os impostos que pagam as communidades são ainda hoje o melhor re¬ curso do Estado de Goa, cujo governo muitas vezes tem recorrido a ellas para empréstimos e derramas. A conquista das ilhas de Goa foi provocada por Sabaim Dalcão, que em 1510 preparava uma forte armada para expulsar os portuguezes da costa do Malabar, o que sendo sabido por Affonso d’AIbu- querque quando de Cochirn ía com uma frota sobre Ormuz, foi destruir a dita armada, e se seguiu &
  • 59 posse da terra 11'irma segunda expedição no fim do mes¬ mo anno. Os habitantes do paiz se dividem em tres classes: europeus, descendentes, e. indígenas. Os indígenas subdividem-se em quatro castas principaes: bramanes, charadós, sudros, e mouros. O numero dos mouros é limitado, e não reconhecem divisões além da classifi¬ cação religiosa da seita em que vivem. Tres são as religiões principaes: catholica romana, idolatria, e mahometismo. A catholica romana é a dominante; todas as mais são toleradas, mas só os gentios e mouros tem os seus templos, quasi todos nas Novas Conquistas. A lingua portugueza é commum nas capitaes das comarcas e das províncias, onde se acham estaciona¬ dos corpos militares; porém a mais geralmente usada , no trafico geral e domestico, é um composto das lín¬ guas marata e canará, com os seus dialectos em cada uma das comarcas e das províncias, e mesmo em ca¬ da casta e aldêa. Na escripta porém só se usa do dia- lecto portuguez; mas os gentios entre si escrevem nas línguas canará, indu, ou marata, sendo raros os que usam de uma sem mistura das outras. Os costumes peculiares dos habitantes de Goa va¬ riam segundo a classe, a casta, a educação, e a reli¬ gião a que pertencem. Na mesma linha marcham as suas paixões dominantes, applicações, trato publico e familiar, modo e meios de vida. Os europeus filhos de Portugal constituem uma fracção limitadíssima, e ainda assim dividida em pri¬ meira, segunda, e terceira classe. A’ primeira , e me¬ nor de todas, pertencem as auctoridades civis; á se¬ gunda osofficiaes militares; e á terceira , que é a mais numerosa, os soldados, que de ordinário vão para alli expiar as faltas, e crimes que commetteram na sua pa- tria. Os indivíduos da primeira e segunda d’estas clas¬ ses, de ordinário observam nos primeiros tempos os costumes que deveram á sua educação; mas depois os alteram com facilidade, salvas as excepções. D’aqui
  • 60 tomou origem o antigo rifão: Os portugueses em quan¬ to não bebem a agua de Banguinim (fonte de uma aldèa próxima a Goa-Velha), conservam os costumes e sentimentos com que saíram de Portugal; mas logo depois os perdem, e adaptam os do paiz. Os soldadas ou degradados, achando meios e liberdade, recaem nas mesmas faltas passadas, ou em outras similhantes; porque inveterados no vicio olham com indifferença para a mudança de paiz: alguns ha porém que refor¬ mando a vida tem melhorado de fortuna, e de credito. 'lodos estes europeus geralmente não tem outros meios de subsistência senão os seus respectivos ordena¬ dos ou soldos. Os empregados civis, quando não vem casados, raros mudam de estado. Os officiaes e solda¬ dos contrahem allianças com mais frequência; mas deixam de ordinário por sua morte as famílias em mi¬ séria , e ao desamparo. Chamam descendentes, aos filhos de pai europeu e de mãi natural do paiz, e bem assim a todos que nascem das allianças d’estes descendentes entre si. O seu numero é comparativamente maior que o dos eu¬ ropeus, mas muito diminuto a respeito dos indígenas. Os seus costumes e educação participam das duas ori¬ gens, europea e do paiz, e apesar da diuturna con¬ vivência com seus pais e mais europeus, nunca che¬ gam a adquirir o metal da voz, a frase, e a maneira de se expressar propriamente europea, mesmo que vi¬ vam em Portugal muitos annos. Os estudos entre os descendentes se limitam aos primeiros rudimentos da linguagem e escripta portu- gueza; poucos são os que passam a frequentar as es- cholas da lingua latina, e isso quasi sempre por pouco tempo e sem fructo, principalmente depois da ex tinc- ção dos conventos; cursam depois a eschola mathema¬ tics e militar, para assentarem praça em algum dos corpos. Em geral os descendentes são inclinados á car¬ reira militar, e a preferem a outras, pelo soldo que desde logo vencem, por ser menos difficil a habilita¬ ção, e pela julgarem mais honrosa. Afora poucos pro-
  • 61 prietarios o geral (Testa classe mantem-se dos seus soldos. Os descendentes inclinam-se exclusivamente aos europeus , e desprezam os naturaes do paiz, tendo desar em concorrerem com os parentes do lado da mâi , &c. Raras vezes os varões, e ainda menos as femeas, se ligam em consorcio na classe indígena. A commum rivalidade de se chamarem injuriosamente mistiços, e canarins não está de todo extincta; apesar das leis pro- hibitivas e penaes a tal respeito de S de abril de 1761 , e 15 de janeiro de 1774. Os indígenas, como já disse, dividem-se em qua¬ tro castas principaes. Os bramanes, charadós, e sudros chrislãos, ainda que não deem credito á origem que os gentios aitribuem a cada casta, todavia contem¬ plam-se como rivaes, e realmente se distinguem pelo metal da voz, e pela maneira de se expressar. Os bramanes e charadós mutuamente se disputam com singular tenacidade a primazia e nobreza genea¬ lógica das suas castas. Em 1700 e 1713 duas obras se imprimiram em Lisboa tratando gravemente dVstc assumpto; a Aureola dos índios e Nobi/iarc/úa fíra- minica do padre Antonio João de Frias, e o Prom- ptuario de Definições Indicas do padre Leonardo Paes. A Pherns Chronologica do padre Caetano de Santa Maria também tratou largamente esta ques¬ tão, muito pueril para os europeus, mas de grande importância entre os asiaticos. Perante as auctoridades estas differenças nada signi¬ ficam ; os indivíduos de qualquer das castas, que con¬ venientemente se habilitam , são admittidos aos cargos ecclesiasticos, civis, e militares: comtudo os que mais commummente os exercem são os bramanes, e alguns charadós, cujas castas é que recebem mais educação, e se dedicam ás lettras. Entre estes indígenas, e quasi geralmente entre os descendentes, está muito adulterada a linguagem por- tugueza , caindo continuamente, mesmo na locução ordinaria, em barbarismos e solecismos. Das mulhe-
  • 62 res indígenas poucas faliam o portuguez, e essas mui¬ to mal. E’ de notar que os inglezes estabelecidos no In¬ dostão nâo consentem que seus filhos fallem a lingua materna, e os habituam ao idioma marata; para que quando adultos, se regressam á metropole, possam en¬ tão adquirir a linguagem vernacula, sem os erros in¬ corrigíveis a que aliás se habituariam desde a meninice. Os consorcios não se verificam fora de cada uma das tres castas mencionadas, salvo raríssimas excepçoes, e em geral as mulheres, quando a necessidade as obri¬ ga, preferem casar com europeus ou descendentes, do que corn indígenas fora da sua casta. No ajuste e ve¬ rificação d’estes casamentos ha uma immensidade de ceremonias e usos singulares, entre elles o do mesado; que é irem os cônjuges dias depois do casamento passar algum tempo em casa dos pais da noiva, onde o noi¬ vo tem de se sujeitar a mil judiarias impertinentes, á maneira de brinquedos de entrudo, e ao revez do que se usa na China, onde as noivas é que tem de soffrer cousas similhantes. Os casamentos entre os christãos tem logar de or¬ dinário, no sexo feminino dos 13 aos 18 annos, e no masculino dos £0 aos 30. A fecundidade media nas a Ideas sadias é de 6 a 8 filhos, e os expostos são raros. Entre os gentios a distineção das castas é observa¬ da em todo o rigor. E’ sabido que 09 idolatras da ín¬ dia , geralmente chamados gentios, veneram supersti¬ ciosamente as sua3 instituições civis e religiosas, que dizem receberam do seu deus Brama; pai commum d’onde todos dimanam , mas por differentes modos. Os bramanes, na crença gentílica, saíram da cabeça de Bramá; alegoria que exprime a sabedoria, e que nasceram para estudar e ensinar: os quetris ou chara- dós dimanaram dos braços; indicativo da força, e vieram ao mundo para governar e combater: os oixo9 ou bixes tiraram a sua origem do ventre; symbolo do sustento, e tem por destino prover ás necessidades da vida, pelo eommercio e agricultura: os sudros nasce*
  • ram Jos pés; emblema da escravidão e dependência $ e são votados a servir e trabalhar. Ha uma quinta casta , ostapocod, que é o fructo do commercio illegi- timo das differentes castas entre si, que se subdivide em muitas outras, cada uma destinada a certos miste¬ res humildes, transmittidos invariavelmente de pais a filhos. Os varões gentios podem casar em todas as idades com uma ou mais mulheres, que sustentam na mesma» casa; mas as gentias devem effeituar seus consorcios antes de assomar a puberdade, sob pena de ficarem inuptas, realisando-se a união logo depois d’aquella epocha. Os casamentos sempre são contractados pelos paes, e os cônjuges só sabem da sua sorte quando se unem. Nos casamentos ha muitas e complicadas ceremo* nias, que rematam na parte religiosa, ligando os noi¬ vos por um nó no falo, estando juntos a um brazeiro de páos de certas arvores e arbustos, no qual lançam manteiga de vacca por meio de folhas de mangueira, recitando no entanto os botos ou padres orações aos ouvidos dos noivos. A’s vezes succede n'estes actos ter a noiva apenas £ ou 3 annos, e parte d’estas ceremo- nias se renovam quando os noivos, já púberes, ratifi¬ cam o contracto antes da união matrimonial. Os partos se verificam , segundo certas convenções, em casa do pai da mulher ou do marido, e então tem lugar uma infinidade de practicas supersticiosas* As viuvas dos gentios não podem passar a segun¬ das núpcias, ainda quando percam o marido antes da puberdade, e consummaçâo do matrimonio. São os gentios muito crentes em agouros, e tem por máos verem ao sair de casa uma viuva, um feixe de lenha, uma porção de carvão, um homem com a cabeça descoberta , ties bramanes botos ( padres) , dois sudros, o entrar um cão dentro de casa ou subir para o telhado; ouvirem choro por fallecimento, grasnar um corvo, chiar uma lagartixa, o piar da coruja por menos de 9 vezes, nacá (não) ou xi (não presta)
  • proferido por quaesquer pessoas fóra de casa, a pef- gunla — onde vai, espirros impares, &c. Todas estas cousas fazem amuar ou retroceder os passos a um verdadeiro crente, como precursoras de males, ou indicativas de máos resultados nos negocios que ía a contractar durante o dia, ainda que se lhe apresentem muito vantajosos. Se porém antes de se lhe apresentar qualquer máo agouro , tem tido a ventura de experimentar outro bom, então este prevalece, co¬ mo talisman, contra todos os males. Do numero dos bons agouros são, ver uma mulher casada e mâi de muitos filhos, um préstito de casamento, uma viuva que seja rapariga bem parecida e entregue á devassi¬ dão, uma vasilha com vinho, um archote acceso, uma vacca com filhos, um sudro alparqueiro ou cur¬ tidor de couros, dois bramanes botos ou um , mas con¬ duzindo flores; ouvir o piar da coruja repetido ma is de 12 vezes, espirros pares, &e. Assim os objectos de bom como de máo agouro tem seus valores estimativos, e por elles são calculados os gráos de males que se tem a recear, ou as venturas a esperar. Entre os gentios raros proprietários ha fora da cas¬ ta dos bramanes, que de ordinário são dados a em- prezas, formando sociedades ou casas de agencia, com certos regulamentos tradicionaes, sendo affoutos lan¬ çadores nas rendas do Estado. O passadio ordinário dos bramanes é arroz, legumes, manteiga , leite, e assucar; não fazem em geral uso do vinho, ou de quaesquer bebidas espirituosas, e poucos comem car¬ ne, e só do matto. Não comem em mesa, seguindo o uso primitivo de se sentarem no chao com as per¬ nas encruzadas: as mulheres jantam depois dos ho¬ mens , e sendo casadas tem por dever comer no prato em que o marido comeu. O jantar sempre termina com o mascar do betle e areca, juntando-lhe cal viva , cravo, e cardamomo. E’ indispensável aos gentios bramanes iniciar-se na cercmonia cdnipovitra ou zanvem, que os habilita ao
  • Wamanismo ou profissão sacerdotal, correspondente ao baptismo dos christãos, e á circumcisão dos maho- metanos: cumpre que se verifique até aos doze annos, e desde então é que usam do zanvem, a que os por- tuguezes chamam linha, que os gentios usam a tira¬ colo da direita para a esquerda : a que usam os bra- manes é de ties fios, em allusão á sua trindade: re¬ nova-se quando se perde, mas sem a substituir não podem tomar alimento algum. Quando tem de satis¬ fazer a precisões naturaes, do hombro passam a linha para a orelha correspondente. Os charadós, oixos , &c„ também usam da linha com fios arbitrários} mas aos sudros e illegitimos não é permittido trazel-a. E’ mui singular a theogonia dos gentios. Reconhe¬ cem e adoram uma trindade, composta dos deuses Visnú, Bramá, e Mahés. Visnu nasceu do omni¬ potente, ao qual chamam Anauta, que habita a re¬ gião eterna, e de quem descende a trindade: logo que abriu os olhos, da luz d’elles dimanou o fogo, o sol, e a lua: dos poros d’esta, que exhalavam luz, saíram as estrellas e. mais astros} da resudação corpo- rea formou-se a terra, e da respiração se originaram os ventos. Do umbigo de Visnú sahiu Bramá, e das pestanas Mahés, que são a segunda e terceira pessoas da trindade. Creado assim o mundo por Visnu, este encarregou a Bramá crear os homens, o qual formou o primeiro tendo um olho e um pé sõ} mas vendo que não po¬ dia andar, desfel-o e formou outro com 3, pés, que também se não pôde mover; tornou a desfazel-o, e por fim acertou organisal-o como actualmente existe, e lhe deu 13 mulheres, cada uma das quaes pariu montes, rios, arvores, animaes, peixes, &c. Bramá passou depois a formar outros homens similhantes, e os dividiu em castas mais ou menos nobres, segundo a preeminencia das partes do corpo em que foram ge¬ radas. ; ^ Da trindade gentílica e das 8 encarnações de Vis¬ nú fazem os gentios descender uma infinidade de deu- é
  • f»6 ses, que representam quasi sempre na figura de ani- maes. O deus Bormu é adorado na figura de elefante, como symbolo da prudência; Ilonovontu na de um macaco; Betai na de um homem hediondo e nu , sym- bolisando a lascívia; Catragão tem focinho de porco, em memória das suas torpezas; a deusa Ravana tem 10 cabeças e 20 braços; a Naguia tem rosto de cão, &c. Adoram também as cobras nagó, a que chamamos de capêllo, dizendo que são a imagem de Bramá, e apesar de serem das mais peçonhentas e mortiferas as alimentam em casa, nào as matam, nern consentem que outros o façam, e bem assim a respeito de outras quaesquer cobras. Os gentios, ainda que adoram a sua trindade e muitos deuses, crêem e confessam dimanar essa trin¬ dade de um só Deus verdadeiro e eterno; Ente per¬ feitíssimo e incorporeo, a quem veneram com milha¬ res de nomes e sob diversas figuras, ás vezes incom¬ patíveis e repugnantes com a divindade. A esse Ente invisível que preside a tudo dirigem as seguintes sau- dações especiaest « Adoro-vos Deus, cujas immensas imagens sao incomprehensiveis, immcnsos são os espelhos do vosso rosto, immcnsos os pés e mãos , e infinitos os nomes. » r> Assim como dos ares chove a agua e se une^ aos mares , c tudo é agua ; assim o Deus verdadeiro é um só , ainda que as nações do mundo o adoram com dij- ferentes nomes. n Nas Velhas Conquistas ha só dois pagodes, e uma mesquita; todos os mais templos pagãos são nas No¬ vas Conquistas. N ’esses templos ha as celebradas bair ladeiras, que são mulheres gentias que se dedicam ao serviço dos pagodes, fazendo voto de não casar; mas prostituem-se, por effeilo mesmo da sua profissão, tanto aos botos ou padres, como aos estranhos. So as da casta bramane podem dedicar-se ao serviço religio¬ so , mas prostitutas de todas as castas adoptam o no¬ me de bailadeiras, e vivem principalmente em certas aldêas das Novas Conquistas ; usam de cantos e dati-
  • ças provocantes, e enfeitam-se còm flores , e muitos adereços de ouro. A medicina entre os gentios quasi toda consiste em superstições. Aos moribundos fazem beber o ponchoco- t5i, ou agua benta, que é um composto de bosta, leite, manteiga, urina, mel., e assucar. Nos paro- cismos da morte o moribundo é lavado, e collocado sobre a terra de fresco bostiada e coberta de junco, coroam-no com uma capella de folhas de tulosse, põem-lhe na mão o rabo de uma vacca que tenha leite e bezerro ; sendo preta muito mais virtude lhe attribuem para a salvação do morto. Acreditam que assim mais facilmente passará a alma do finado para o corpo da vacca, que é a transmigração designada para os homens que vivem bem, assim como para o corpo do cão passam as almas dos homens que foram máos n’esle mundo. O cadaver é conduzido nu ao logar em que se queima, e sobre uma escada de mão feita de bambu, coberto com um pedaço de estofo de algodão; collo- cam-no sobre uma pilha de madeira, e entornando sobre elle manteiga ou azeite lhe lançam o fogo. Re¬ duzido o cadaver a cinzas, são estas lançadas, se po¬ de ser, ao mar ou ao rio. As paridas e os recem-nascidos, fallecendo ante* de completarem 10 dias, não gozam da honra de se¬ rem consumidos pelo fogo, e bem assim as gravidas e os bexigosos morrendo n’este estado. Fazem tratos repugnantes aos cadaveres, especialmente aos das gra¬ vidas e paridas. Apenas morre a padecente, fazem uma abertura na parede da casa, para por ella sair o cadaver para o logar do enterramento, e alli lhe cor¬ tam todas as juntas das extremidades, e lhe enterram no craneo, e n’outras partes do corpo, troços de páo da arvore que dá a noz vomica; põem-lhe uma moe¬ da de cobre na bocca, e por fim o sepultam. O corte das juntas é, segundo os gentios, para que a alma da fallecida não volte de noite para perseguir a família: elles acreditam nà metempsycoso, e por isso Ô *
  • ôs mais crédulos respeitam a todos os viventes , e nun¬ ca usam de alimentos animaes. Entre os gentios ainda ha poucos annos era usada uma festividade religiosa, denominada dos enganeku¬ dos ; porque consistia em perforarem em quatro pon¬ tos, com outros tantos ganchos de ferro, as costas dos indivíduos que a isso se prestavam , içando-os depois, e fazendo-os dar differentes voltas no ar. As victimas ou os fanaticos que resistiam a lào barbaro trato fi¬ cavam reputados santos. Estes espectaculos repetiam- se todos os annos; mas o governador José Ferreira Pestana conseguiu em 1844 fazel-os acabar em todo o Estado. Em Goa é limitadíssimo o numero de mouros, ou seguidores da lei de Mafoma, que adulteram com va¬ rias praticas dos gentios, confundindo-se com estes em usos e costumes. O caracter da maioria dos habitantes de Goa é dó¬ cil e soffredor; são raros entre elles os crimes, e ra¬ ríssimos os grandes áttentados. A todos se attribue perguiça e indolência, principalmente ao povo miú¬ do, que contentando-se com o absoiutamente neces¬ sário nao cura de melhorar a sua sorte, nem de asse¬ gurar a subsistência na velhice e nas enfermidades, d’onde provém haver muita mendicidade iTesta classe. Em Goa vive um homem do povo e sua mulher com uma tanga, ou rs., passando soffrivelmente. Um homem só come e bebe com meia tanga, ou 16 rs. Um trabalhador do campo ganha 1- tanga ou 48 rs. O sustento commum é o arroz, temperado com o caril, peixe, e productos do coco: faz-se vinho de coco, porém é mais barato e mais usado o do caju, que dizem ser bastante medicinal. Homens e mulhe¬ res se untam geralmente com azeite de coco. A palmeira ou coqueiro é o grande recurso d’este paiz. O fructo ou coco serve para comida, e adubo para o caril e vários guisados; dá a copra ou azeite; da casca se tira a fibra, ou cairo para cordas; a cha- reta ou casco serve de excellent© carvão para os ouri-
  • 69 ves, para engomação, e para copos, colhéres &c.; a agua é boa e refrigerante bebida. A arvore dá a mra9 ou licor que fazem manar da incisão no pedún¬ culo do cacho destinado a dar os cocos, da qual se faz a jagra, ou assucar escuro em pequenos pães, que é o do uso geral do povo; a aguardente, ou vinho finim ; o vinagre; e amassada com a cal forma uma forte ar¬ gamassa. Das folhas, ou ollas fazem tecidos que ser¬ vem para telhas 9 resguardos, vassouras, &c. O tron¬ co dá boa madeira para barrotes, para os tectos das casas e outros destinos. As palmeiras bravas não dão fructo, mas a sua madeira é muito mais rija e dura¬ doura. As palmeiras duram muitos annos, e deixam de dar fructo quando são velhas, porém não seccam. Os cocos para semente devem ser bem seccos na arvore, e lançam-se á terra em janeiro a dois palmos de profundidade, e no setembro seguinte transplan¬ tam-se, e collocam-se a distancias de dez a quatorze mãos ( a distancia do cotovelo ao extremo do dedo medio), segundo os terrenos são mais ou menos vi¬ gorosos , os quaes são lavrados pelo menos seis vezes no anno, e de tres em tres estrumados. Dos qua¬ tro aos seis começa a arvore a dar fructo, estan¬ do em terra forte: dá quatro ramos em cada tres mo mezes, simetricamente collocados nas quatro faces do tronco, e cada famo cria ás vezes 30 a 40 cocos; de modo que ha palmeira que dá de ÕOQ a 600 e mais cocos em um anno, que podem valer de 15 a S0 pardaos. Demoro-me tanto n’estes promenores, por¬ que a cultura em ponto grande dos coqueiros nas nos¬ sas possessões africanas, e talvez mesmo no Algarve, poderia trazer consideráveis vantagens a Portugal. A despeza com o cultivo das palmares calcula-se na quin¬ ta parte do produclo; a dos arrozacs nas terras boas e marinhas n’um terço, e nas altas e arenosas na me- tade. A agricultura no Estado de Goa esteve, depois da conquista, por mais de dois séculos e meio vo¬ tada ao abandono; de modo que o arroz, o pão do
  • 70 povo da India, nem chegava para a terça parte do anno, havendo abundantes e fertilíssimas terras para o produzir. O marquez de Pombal foi o primeiro que concebeu a idéa de melhorar a agricultura d’este paiz por meio de providentes leis; mas apesar do incre¬ mento que tem tido desde os fins do século ultimo, existem ainda muitos e bons terrenos por cultivar em todas as províncias, e ainda se importa arroz: o ter¬ reno de Bardez é o mais bem cultivado, nâo pela me¬ lhor qualidade do solo, mas pela maior industria dos seus habitantes. Tal é a noticia que em resumo posso apresentar do Estado de Goa. Muito mais haveria a dizer sobre a historia, costumes, e varias cousas d’este paiz; mas não o comporta a natureza d’esta obra, e o leitor cu¬ rioso pode consultar com utilidade a interessante col- lecção do Gabinete Litterario das Fonlainhas, que se publica em Goa desde 1846, redigido pelo erudito e benemerito Filippe Nery Xavier, d’onde colhi boa parte das noticias que vão referidas.
  • 71 Kavegacsio no oceano da India * vi*ta do cabo Delgado • e entrada no canal de Bio* çainbique. A distancia de Goa a Moçambique é de 900 le- goas. Com a proa ao sudoeste tivemos no resto de fevereiro vento constante e bonançoso do nordeste , que ó o geral ou de monção n'este tempo, o mar sereno, e mui bonitos dias e noites, mas com algum calor. Atravessámos o mar da Arabia, e fomos navegando no grande Oceano indico em pequenas singraduras de 1 a 2o de ex tenção, deitando regularmente de 3 a 5 , e raras vezes 6* a 7 milhas por hora. A Í22 commemorou-se o domingo gordo com al¬ gumas mascaradas, e á noite, e na do dia de entrudo os marinheiros imitaram um arraial, em que figura¬ va a Rita queijadeira com seu taboleiro de bolaxi- nha e licores , cercada de vários freguezes fadistas em figuras grutescas, dizendo muito disparate, cantando modinhas do fado acompanhadas a guitarra, imitan¬ do desordens, &c. Em 11° gráos de lat. norte, e 65° de Greenwich, se passava esta see na , animada e ale¬ gre no meio das solidões do Oceano da índia , sob o sereno e estrellado ceo dos íropicos, no convex de um navio mollemente balouçando-se sobre as ondas , com o fagueiro e tépido vento á popa, e alumiada por dois lampiões pendentes das enxarcias, cheias de curiosos
  • 72 espectadores, formando grupos variados, e rindo aos ditos mais ou menos engraçados dos interlocutores. Du¬ rante algum tempo nos entreteve esta brincadeira, e nos levou o pensamento a distante patria , pelas recor¬ dações dos costumes e folguedos populares d’estes dias. Desde a saída de Goa passava os dias mui unifor¬ memente. Levantava-me cedo, e algumas vezes ía lo¬ go para o tombadilho gozar da íresquidao da ma¬ drugada, e ver o nascimento do sol, que n’estas pa¬ ragens não é muito esplendido: o disco apparece quasi de repente no horisonte, quando está limpo de nu¬ vens, sem ser precedido pelas cambiantes fachas de luz, que n’esta occasião matizam tao Undamenle o ceo no nosso e n’outros climas. Voltava ao camarote, lia ou escrevia até ao almo¬ ço, pelas 9 horas, depois jogava algumas partidas de xadrez, e n’estes dois entretenimentos se iam alternando as horas até ao cair do dia: então de ordinário sen* tava-me á janella do alforge, que fazia parte do meu camarote, encostado e sustido no varao de bronze que a atravessava horisontalmente no meio, e d’alli via o occaso do sol com os seus variados e sempre bellos accidentes da luz reflectida nas nuvens, e nos espaços do ceo. Seguia-se a doce hora do crepúsculo, e de suavidade melancólica : elevado poucos palmos acima das aguas, ora pendia sobre ellas, ora me afastava com o regular e brando balanço do navio; se as olha-* va perpendicularmente as via fugir rapidas ao longo do costado do navio., esmaltadas d’alva espuma, com mil formas variadas e caprichosas, como se eu fora correndo sobre um tapete bordado de flores e arabes-? cos brancos n’um fundo azul escuro; se dilatava a vis-? ta até ao horisonte, contemplava uma unida e im*» mensa planície, que parecia immovel, e gradativa¬ mente escurecida do occidente para o oriente. O cons¬ tante e monotono sussurrar das ondas augmentava sua-» Yemen te a tristeza d’estas scenas, que apesar de repe-» tidas sempre me embeveciam, e me lançavam n’um enlevo dos sentidos a e n\un meditar vago e iadefuu*?
  • do, que se resumia por fim na adoração silenciosa do incomprehensivel Auctor da Natureza ! Ao accender das luzes continuava a jogar o xadrez até tomar chá, e ir deitar-me, regularmente ás 9 ou 10 horas. No l.° de março esta vamos na latitude 6o norte, e 58° de long, a leste de Greenwich , e continuámos do mesmo modo sempre com vento á popa e de bo¬ nança, apparecendo porém o ceo nublado, e por ve¬ zes alguns aguaceiros, que traziam de ordinário vento fresco, mas de pouca dura. Começaram as noites de lindo luar, e a sentir-se mais calor por nos aproxi¬ marmos da linha. Viram-se bandos de tubarões, e cardumes de peixes, e apanharam-se alguns dos cha¬ mados judeos, que são saborosos. Da sexta feira 5 para o sabbado passámos a li¬ nha: ao meio dia de 6' ao tomar-se a altura do sol achámo-nos em %7f sul, e conjecturou-se que das tres para as quatro horas da madrugada é que fora o mo¬ mento, sempre notável, em que mudámos de hemis¬ fério. Esta solemne occasião para os navegantes cos¬ tuma ser celebrada pela marinhagem com a festa de Neptuno, e seus episodios, que tem sua originalida¬ de; mas a alguns custa cara pelos máos tratos que sof- frem ; nada porem houve a bordo d’este navio. Cor¬ támos a linha em 51° e de long, de Greenwich, ou ()0° e 30' do meridiano de Lisboa. Continuando a navegação tornaram-se as calma¬ rias mais frequentes, faltando ás vezes totalmente o vento: em compensação porém começaram a appa- recer correntes fortes para oeste e para o sul, algu¬ mas de 85 milhas e mais em ^4 horas, o que nos aju¬ dava a ganhar caminho, tendo Lido singraduras de de extensão. Viu-se um baleote, que descobriu parte do costado ao lume d’agua , e appareceram immensos cardumes de peixes, em tal quantidade que ao longe parecia ser o movimento e espuma das aguas simi- lhante á arrebentaçao de um baixo. Outros cardumes circundavam o navio, e algum peixe se apanhou. Vi- Tíun-íge também inuitos bandos de passaros, que anda-
  • vam á pesca do peixe: alguns ao cair do dia vinham enjoados pousar pelos mastros, e deixavam-se facil¬ mente apanhar pelos marinheiros: eram uma especie de patos de longas azas, e faziam grande ruido gras¬ nando. A 9, 10, ell houve exercícios de manejo d’ar- tilharia, ao que geralmente os marinheiros tinham grande aborrecimento. Por estes dias as correntes di¬ minuíram , ou quasi cessaram. Ao meio-dia de 14 nos achavamos pela altura de Quilôa em 9o, á distancia de 35 legoas d’esta cidade, e a 40 do cabo Delgado que iamos demandando: manifestou-se outra vez cor¬ rente para oeste, que nos adiantou umas 19 milhas nas ultimas <24 horas. Quilôa foi visitada por Vasco da Gama em 1502, na sua segunda viagem á Índia, o qual fez tributário o seu rei, o primeiro das regiões orien- taes d’Africa que pagou páreas a Portugal. Dos 500 melicaes de ouro que pagou o dito rei, e que o Gama trouxe para o reino em 1503, se fez a custodia que el-rei D. Manoel offereceu a Nossa Senhora de Be¬ lem , como primícias das victorias do Oriente. Foi conquistada Quilôa em 1505 por D. Francisco d’Al- meida, que alii fundou fortaleza com o nome de Santiago. Viemos a perder esta praça , de que se apos¬ sou o imamo de Mascatte. Tínhamos deixado successivamente ao norte Me- linde, Mombaça, e a ilha de Zanzibar. Em 1504 Ruy Lourenço Ravasco, que fôra na armada de Antonio de Saldanha, fez tributários aos portuguezes os reis de Mombaça e de Zanzibar. Mom¬ baça foi arrazada por Nuno da Cunha em 1528. Ti¬ vemos depois álli dominio, e edificámos uma bella for¬ taleza, que viemos a perder por uma sublevação dos naturaes no reinado de el-rei D. José. Vasco da Gama na volta para Europa saindo de Melinde passou á vista de Mombaça, e ancorou no baixo de S. Rafael, onde mandou largar fogo ao na¬ vio do mesmo nome, por falta de gente para o guar-
  • 75 necer, pela muita que tinha morrido de escorbuto desde a partida da ilha de Angediva. Hoje Melinde, Mombaça, Quilôa, e a ilha de Zanzibar constituem pequenos reinos independentes, todos situados na costa do Zanguebar, e povoados por arabes negros ma home la nos. Havia dias, desde a saída de Goa, que só tí¬ nhamos visto mar e ceo: nem uma embarcação, nem um rochedo tinha quebrado a continuidade d’esta scena diaria, que embora monotona é sempre mages- tosa, e se modifica infinitamente pelos accidentes da cor das aguas, seus diversos estados de movimento, e variações do ceo; ora perfeitamente limpo e azula¬ do , ora ornado de nuvens de variaveis e fantaslicas formas, e ás quaes a luz do sol nas differentes horas do dia dá tao diversos e cambiantes coloridos. Alguns passaros esvoaçando perto do navio ao pôr do sol com seu canto sinistro, e alguns peixes voadores e outros saltando fora d’agua , foram os únicos seres animados que nos appareceram n’estas solidões do Oceano. A 15 de março, pelas 8 da manhã, pareceu ao immediato da corveta ver terra; mas o horisonte esta¬ va nublado, sobreveiu ao longe um aguaceiro, e fi- cou-se em duvida se seria ou não: era com effeito. Pelas 10 horas a vi distinctamente, muito baixa, e parecia, pelo perfil projectado no ceo, ser coberta d’arvoredo. Ao meio-dia as observações e o chronometro nos deram o ponto: estava mos por 10° de lat. , e a 10 ou 15 milhas da ilha Zimbatí na extremidade sul da costa de Quilôa, e no começo da de Moçambique, já a pouca distancia do cabo Delgado, que ao fim da tarde avistámos por sotavento da proa. Viam-se dois pangaios, ou embarcações costeiras, navegando para o sul e perto da terra, que era toda coberta d’alto arvoredo, parecendo surgir do centro das aguas, porque os cumes das collinas se figuravam ainda alagados. A’ hora de pôr do sol, que se escondia por entre
  • 76 às nuvens que bordavam o horisonte, encostado á re¬ tranca da vela ré ou mezeda, contemplava essa terra inhospita d Africa, que lambem n’esta paragem pela primeira vez viram os nossos portuguezes n’este mesmo mez de março havia justamente 354 annos. 1 ''es séculos e meio vão decorridos, e quasi em ”2u.™r ° <•’«» r»»* Apesar do trato com os europeus, esta parte d’Afri- ca parece destinada ainda por longo tempo a não ex¬ perimentar as mudanças, e os melhoramentos que o christiamsmo e a civilisaçao tem espalhado na maior parte do globo. A 16 apenas divisei do meu beliche a primeira claridade do dia, levantei-me, e ao chegar á porta da camara saindo para o convcz experimentei uma re¬ pentina , e agradavel sensação no aroma do ar que as¬ pirava , como se fosse de plantas odoríferas. Este effei¬ to sente-se geralmente á aproximação da terra, mas ate então n esta viagem nunca fôra tão pronunciado como aqui, e também quando estivemos ancorados á vista da ilha de I mão, á saída do estreito de JVlalaca. Em seguida subi ao tombadilho, e gozando d’aquel- la deliciosa e fresca briza fui pascer os olhos sobre a terra, que demorava a 6 ou 7 milhas de distancia, tendo-nos as correntes de noite aproximado muito a elía. apresentava-se á vista como uma orla de espes¬ so arvoredo, do qual se destacavam algumas elevadas arvores; projeetava-se n’oulra de terra mais distante, que era a do continente. Os dois pangaios que víramos no dia precedente seguiram parallelamente o nosso rumo. Julgou-se que a terra fronteira era a ilha Lono-a, logo ao sul de cabo Delgado, mas ao meio-dia veri- íicou-se termos perdido caminho de noite e de manhã com a força da corrente contraria, calculada de 6 mi¬ lhas por hora, e achavamo-nos apenas \° adiantados, um pouco para o sul da mesma ilha Zimbatí: de Lar¬ ue porem , tendo refrescado um pouco a viração , e
  • com a mare, passámos o cabo Delgado, que. jaz em 10°4 de latitude: é uma aguda ponta de terra muito escura 9 e um dos cabos mais notáveis, por se julgar ser o Prasum Promontorium da geographia antiga. L m pouco ao norte d’este ponto é que começam os nossos domínios actuaes d’Africa oriental, correndo pela costa abaixo alé á bahia de Lourenço Marques em 26° * Para o navegante é em geral sempre agrndavel vçr terra; porém quanto nâo o é mais para o navegante portuguez ver a terra que ainda hoje de tão longe obedece ao nosso desditoso Portugal, e que recorda os altos feitos de nossos antepassados, e os felizes tem¬ pos da nossa grandeza! De tarde fomos vendo mais a ilha Longa, a Ami- za, onde ha povoação portugueza, e quasi ao anoite¬ cer viamos a solavento da proa a ilha de Vumbo: em toda a terra se via arvoredo, que fazia bonita perspe- ctiva. Ha aqui um archipelago d’algumas 30 ilhas, cha¬ madas Querimbas; mas só 5 são habitadas, consti¬ tuindo todas o distrieto de cabo Delgado, sendo a do Ibo a principal. Vão ali mercadejar os arabes do Zan¬ zibar, Quilôa e Mombaça, e também os habitantes das ilhas Comores. Ao pôr do sol um grande pangaio nos passou mui proximo pela popa, dirigindo-se para barlavento: era da fôrma das embarcações ou bogallas arabes que eu vira em Suez: alguns dos negros arabes que a tripula¬ vam tinham vestes largas e brancas, outros iam nus do meio corpo para cima. Estes pangaios tem a popa muito elevada e larga, e a proa muito aguda e pro¬ longada sobre a agua. Ao começar da noite grandes massas de nuvens es¬ curas estavam amontoadas para o lado de terra, ras¬ gando-se em mais de um ponto com o súbito fuzilar dos relâmpagos, demorando-se por mais tempo, e com muito maior intensidade a luz electrica do que ordi¬ nariamente lenirá visto nas trovoadas. Era um espe-
  • 78 ctaculo magestoso e sombrio, que gostei de contettl* piar. Ao primeiro alvor do dia 17 subi para o tombadi¬ lho, e vi nascer o sol com o costumado esplendor, e só uma delgada cinta para oeste escura e nublosa nos denunciava a terra, que se não podia determinar qual era, pela difficuldade que offerece esta costa de reco¬ nhecer-lhe as situações, por ser toda baixa, bordada de ilhotas também todas baixas, sem montanhas, nem accidentes que offereçam pontos de reconhecimento, ou marcação, mesmo para os práticos. Esta circum- stancia, os vários bancos e baixios, e as variaveis e ra- pidas correntes, tornam a navegação muito difficil e perigosa n’estas paragens, que são das menos conheci¬ das e bem determinadas mesmo nas modernas cartas marítimas. Ao meio-dia achou-se estarmos quasi em 11°| de lat., e em frente de uma das ilhas que medeiam en¬ tre a de Vumba e a de Zanga, e á qual chamam a ilha dos Mastros, mas que não está notada na carta. Jazíamos a oeste do grupo das ilhas Comores (Co- mor, Anjoannes, Mayotta, e Mehilla), e pela al¬ tura do cabo Amber, ou ponta do norte da grande ilha Madagascar, ou S. Lourenço. Entravamos propriamente no canal de Moçambi¬ que, que vai estreitando do lado de Madagascar, cu¬ ja costa corre a sudoeste, e a correspondente do lado d'Africa vai direita ao sul. A ilha de Comor fica mes¬ mo ao meio da entrada do canal. Então é que se re¬ putou segura a viagem , e esperámos aportar breve a Moçambique: até áquella paragem se se declarasse a monção do sudoeste com violência, como ás vezes suc- cede, podíamos ver-nos na dura necessidade de arri¬ bar a Goa, onde talvez só já nos podessemos abrigar na barra de Mormugao, e teríamos de esperar até no¬ vembro pela monção do nordeste, perdendo quasi um anno de viagem. Muito devemos á Providencia pelo bom tempo que tivemos na extensa travessia do mar da India,*
  • 79 sempre com bonanças e vento á popa, já quasi no fim da monção, em que os ventos começam a ser va¬ riáveis e a formarem tempestades. De tarde as correntes nos lançaram mais para a terra, e vio-se arrebenlação em uma extensa linha, denunciando um baixo ou restinga de areia, de que foi necessário fugir aproando para o mar. Aquella arrebenlação mesmo em calmaria como estavamos, e que tínhamos frequenlemente tido nos últimos dias’, produzia tal ondulação nas aguas, que apesar da dis¬ tancia fazia jogar fortemente o navio de bombordo a estibordo De noite passámos em frente da ilha dos Mastros , e a oeste de um baixo d’areia, que na baixa-mar dei¬ xa a coroa fora d’agua, o qual não vem marcado nas cartas, e foi descoberto e examinado pelo immediate da corveta, o l.° tenente Regis de Lima, quando serviu na estação de Moçambique, e que o colloca em 12° de lat. e 41 \ de long, de Greenwich, com o fun¬ do de 7 braças nas proximidades. A 18 amanhecemos longe da terra, que só bem se divisava da gavea; suppoz-se ser a ilha de Materno, e a do lbo, que é capital do districto de cabo Del¬ gado, onde temos governador e um forte. Tem porto onde se faz algum commercio. Ao meio dia estavamos em 13° em frente da bahia Pomba, que é vastíssima e excellente, tendo já passado as ilhas de Querimbo e Fumo: pelo sul a bahia Pomba é fechada por uma ponta a que chamam do Diabo. O dia esteve de ter¬ rível calor e calmaria \ mas de tarde choveu bastante, e soprou o vento do sudoeste, o que nos obrigou u bordejar, c ir fora do caminho durante a noite.
  • Doi& «lias «le temporal»entrada e resiilencia em 91oçaml>i«lue» © varias noticias sobre esta cidatle* Na noite de 19 de março cresceu muito o vento: ao romper do dia cstavamos a braços com um temporal desfeito do sudoeste : a chuva e o vento fortissimo não cessou durante dois dias. A cerração , pelas nuvens car¬ regadas e pelos aguaceiros, tios encobria a^ terra, da qual todavia estavamos proximos: a posição era um tanto critica, pela proximidade da costa, e porque não nos convinha afastar muito d’ella nos bordos do mar, para não entrar na veia das fortes correntes paia o sul que ha a meio canal, e que nos podiam arras¬ tar para além de Moçambique, que depois nos seria difficil ou talvez impossível de tomar. Passaram-se dois terríveis dias, sempre bordejando e de capa: o balanço era violento, e o mar mui gran¬ de. Não dormi nas duas noites de 19 para 20 e 20 para 21, pela necessidade de estar constantemente agai- rado, para não saltar fora do beliche : na segunda noi¬ te a um fortissimo balanço de estibordo a bombordo, o sofá que me servia de cama saiu fora do seu logar, e foi bater com grande estrondo na opposta amurada do camarote. Em summa passei duas noites e dois dias tormentosos, e demais com agonias de enjoo, mas sem lançar, que é um estado de grande incommodo e sof- frimento.
  • 8i À &l o tempo continuou do mesmo modo. Viu-se um navio que poucos instantes depois desappareceu. N’um intervallo de menos cerração divisou-se terra, e conheceu o immediato do navio ser a Mesa, mon¬ tanha que indicava estarmos mui proximos do porto de Moçambique, e apesar do vento ponteiro e con¬ trario o fomos demandar. Depois de fazermos um lar¬ go bordo para o mar, voltámos correndo ao longo das ilhas de Senna e de Goa, já á entrada do porto, ’e graças á pratica que o immediato tinha doestas para¬ gens, e ao bom andamento da corveta á bolina, ra¬ sando a fortaleza de S. Sebastião a poucas braças de distancia das muralhas, surgimos no ancoradouro, onde lançámos ferro pelas duas horas da tarde, quasi em frente do palacio do governo. Doce quietação succedeu de repente aos incommo- dos balanços, e passou-me logo o enjoo: o tempo po¬ rém continuou máo, de muita chuva, e fora durava o temporal, que só cessou d’ahi a sete ou oito dias. Vieram logo a bordo o filho do patrao-mor, que não pudéra tomar a corveta para servir de pratico, o ajudante do governo Pontes, e varias outras pessoas. V cidade vista do mar parecia feia e muito pe¬ quena , e só se notavam dois edifícios maiores e mais regulares, o palacio do governo, e a alfandega: as casas sem telhados, porque são de terrados, mas sem pilares nem gradaria no alto das paredes, tem appa- rencia de arruinadas, ou destruídas pelo fogo. Na ter¬ ra firme para o lado da Cabaceira viam-se prédios maiores e mais bonitos. No porto estavam muito pou¬ cas embarcações; sómente alguns pangaios, duas es¬ cunas que saíram de Goa antes de nós, o brigue de guerra D. João de Castro, e uma escuna do Estado. No dia seguinte fui a terra. Ao embarque e des¬ embarque é sempre necessário ir ás costas dos negros, porque as lanchas ficam longe da praia, em conse¬ quência do pouco fundo. Dirigi-me a casa do gover¬ nador para lhe entregar algumas cartas que para elle trazia de Goa $ e fui agradavelmente surprehendido 6*
  • encontrando pessoa do meu conhecimento cm Lisboa : era o dr. Joaquim Pinto de Magalhães; logo me re¬ conheceu , e nos recordámos do tempo e logar em que primeiro nos havíamos visto, e que se refere a uma sin¬ gular epocha da minha vida. De tarde o juiz de direito Bernardo Francisco d’Abranches veiu ao palacio, e tive a satisfação d’en- contrar n’elle outro conhecido de Portugal, e de re¬ cordarmos outras circumstaneias da minha vida. O governador oífereceu-me hospedagem , que ac- ceitei, e não voltei para bordo. A1 noite concorreram algumas pessoas: houve animada conversação, quasi toda relativa a cousas de Portugal. Não se compre- hende sem se haver experimentado, o prazer que se goza em similhantes conversações, quando a milhares de legoas da patria se encontram patrícios com quem nos recordemos das pessoas, logares, e successos do nosso paiz. Pelas 10 da noite recolhi-me a um commodo apo¬ sento, e adormeci regaladamente n’uma boa cama, que fazia bem agradavel contraste com o acanhado be¬ liche de bordo,. e com os inhospitos balanços de tres noites de temporal. A £3 , tendo dormido bem , levantei-me cedo, se¬ gundo meu costume, e antes do almoço fui com o governador ver ó quintal do palacio, que elle traz bem cultivado: tem bons parreiraes, bastantescaféseiros no- tos , e algumas figueiras, das quaes comemos bons fi¬ gos , tão saborosos e perfeitos como os do reino. Ao almoço comi excellente manteiga fresca, feita nas ma- xambas, fazendas ou quintas que vários dos morado¬ res possuem na terra firme: ha abundancia d’ella, e \ehde-se durante o tempo dos pastos a 1:600 réis pro- \inciaes, ou 400 réis fortes o arratel: é producto novo n’este paiz, e que até agora todo ia da Europa e da índia. ■ Fiz de manhã algumas visitas e regressei para o palacio, ou para S. Paulo como vulgarmente diziam , da invocação da capella que lhe é contígua, e do no-
  • 83 me d'esta antiga casa dos jesuítas, que na disposição e r^urn pateo interior ou claustro ainda conserva ves¬ tígios da antiga forma do convento. E’ hoje uma boa residência, ma is vasta e de melhor apparencia que as casas dos governadores de Macao e de Goa: na frente tem um jardim arborisado, em que se entra lo¬ go ao desembarcar, que a erribelleza bastante; foi obra do tempo do governador Valie: dos terrados desfru- cta-se boa vista, princípalmente de um mirante, qne é o ponto mais elevado de toda a ilha. Tem comtudo o palacio o defeito geral das casas de Moçambique, que é serem os pavimentos todos feitos d’argamassa , que em algumas partes cobrem com arêa muito fina: isto torna-os húmidos, empoeirados, e de desagradᬠvel pizo, e menos salubres as habitações: muito para estranhar é que tal aconteça em um paiz abundante de boas madeiras, e onde ha muitos escravos carpin¬ teiros. O actual governador começou a dar um util exemplo, intentando assoalhar de madeira as salas e quartos do palacio: a primeira sala estava quasi prom- pta, com um bonito sobrado da excellente e muito duradoura madeira chamada mucurusse, na qual só brocada peneiram os pregos. E’ de esperar que este exemplo seja seguido. A 24 de manhã cedo tomei um banho em tina, que repeti á mesma hora quasi todos “os dias que estive em Moçambique. O banho é um verdadeiro prazer e uma necessidade hygienica nos paizes quen¬ tes : a bordo dos nossos navios de gvuerra não ha esta commodidade, que não era difficii de estabelecer, e que entre os estrangeiros já está em uso. Sentia-se muito calor, apesar de não ser então a estação mais quente, e da atmosfera estar refrescada pelas chuvas: o sol era ardente e suffocador, e qual¬ quer pequena exposição a elie logo me atordoava a cabeça, mesmo debaixo de párasol ou da maxila. ]No fim da tarde fui a passeio com o governador e outras pessoas, todos em maxilas: passámos pelo sir tio chamado a Missanga , habitado por negros, e fomos 6 *
  • & praça de S. Sebastião, cujo recinto c muralhas per¬ corremos. E’ corn effeito uma bella obra de fortifica¬ ção para os tempos em que foi feita, e ainda hoje. Tem 96 peças de boa artilharia, quasi todas de bron¬ ze, e um magnifico morteiro que marca 1£ pollega- das: tem pedreiros de calibre 96 e 1^8, com grande numero de balas de pedra : d’outros projecteis ha mui¬ to pouca quantidade, e nem uma só bomba para o morteiro: as carretas e todos os reparos estão em mi¬ serável estado. As duas baterias rasantes, assentes so¬ bre rocha ao lume d’agua, são mais modernas e muito bem collocadas para defender a barra, porque os na- •vios por causa dos baixos fronteiros tem de passar jun¬ to a ellas. A fortaleza é de boa cantaria, com muralhas do¬ bradas, assentes em rocha viva, com quatro baluar¬ tes, dois para o mar e dois para a terra, dominan¬ do toda a cidade e a ilha inteira: é bem dividida in¬ teriormente, tem tres cisternas, quartéis para o ba¬ talhão, e uma igreja hoje em ruinas chamada de S. Sebastião, que está substituída para o culto por uma ermida no baluarte de Nossa Senhora, onde os gover¬ nadores recebem a posse do governo, tomando o bas¬ tão de general que está depositado no altar respective. A esta ilha de Moçambique aportou Vasco da Gama no l.° de março de 1497, e aqui achou uma cidade florescente, povoada de homens baços de varias nações, que mercadejavam por diversas partes, tor¬ nando este ponto um grande centro do commercio africano. Ficou logo sendo escala certa da nossa nave¬ gação para a 1 ndia, pela bondade do seu porto, e por isso Affonso d’Albuquerque escolheu Moçambi¬ que com mao de mestre para interposto do commercio da Europa com a Asia, e logo alli erigiu algumas for¬ tificações. Quando D. João de Castro passou por Mo¬ çambique, para ir tomar posse do governo da índia, é que fez começar ou renovar a fortaleza de S. Sebas¬ tião, escolhendo conveniente e melhor posição que a das primeiras fortificações, e n’ella trabalharam u por-
  • fia e com suas próprias maos muitos dos pórtuguezes que o acompanhavam. Durante o passeio pelos baluartes, vi d’urn d’elles sumir-se o sol no horisonte, detraz das pequenas colli- nas da Cabaceira, e o espectaculo de tanto desleixo, abandono, e abatimento do que outr'ora fomos, fez- me lembrar que assim se eclipsara a nossa grandeza, e desapparecéra esse formoso e energico viver dos tem¬ pos cavalheirosos dos Albuquerques e dos Castros, quando levantavamos fortalezas d’estas na Africa, na Asia, na America, e na Oceania, as quaes hoje nos espantam pela sua vastidão e solidez, trazidas muitas vezes as próprias pedras e os materiaes a tão distan¬ tes regiões lá d’esse recanto do mundo, do pequeno Portugal! O governador da praça o tenente coronel Cândido Maximo Moules a conserva no melhor estado que pô¬ de, corn os poucos ou nenhuns meios que lhe forne¬ cem : é um official de capacidade para disciplina e arranjo, e tido por muito probo. A 25 , dia da Annunciaçâo de Nossa Senhora , ouvi missa pelas 7 horas na capella do palacio, ou ermida de S. Paulo: notei a ausência absoluta de mulheres, vendo somente dois ou tres homens da cidade, e al¬ gumas crianças com seu séquito de moleques. Assistiu á missa o batalhão com muito pouca gente, e á saí¬ da formaram no largo proximo, e alli fizeram a para¬ da e divisão das guardas, manobrando muito mal. Nem officiaes nem soldados tem quem os instrua : bem util seria um major bom dísciplinador para comman- dar o batalhão, que é o único da província. Fui convidado n’este dia a jantar com o delegado José Vicente da Gama. Depois do jantar, servido por uma multidão de pretos, moleques e pretinhas, fo¬ mos a bordo de um pangaio ara be, que estava enca¬ lhado na praia defronte da casa do mesmo Gama, e dentro do qual víramos que estava uma bailadeira. Eu nunca tinha visto alguma d’estas mulheres., tão famigeradas no Oriente: era mui nova e de delicada
  • 86 compleição, e apesar da còr baça tinha feições e olhos engraçados; estava bem vestida com calças e pannos de seda, e carregada no pescoço, pulsos e orelhas com manilhas, collares e vários adereços de ouro, tudo de nao pequeno valor; tinha comsigo uma criança de 10 a 112 annos vestida no mesmo gosto, mas sem orna¬ tos de ouro. Era para mim scena original ver-me na tosca e suja camara de um pangaio arabe, com mais tres portuguezes, rodeados pelos principaes arabes da numerosa tripulação, negros, de physionomias regu¬ lares e agradaveis, com seus alvos turbantes, roupas largas, e longos caximbos; e em frente de uma baila¬ deira gentílica, assentada de pernas encruzadas junto a uma janella da popa, com aquelle olhar e adema- nes voluptuosos e provocadores que constituem um dos méritos da sua profissão, e que mais desenvolvem nas danças lascivas, d’onde tiram o nome de baila¬ deiras. Um dos nossos companheiros fali avo o arabe de Mascate e a lingua marata , a mais geral do Indos¬ tão, e entreteve a conversação com os homens e com nquella mulher, que no entanto ia mascando indolen¬ te e graciosamente a estimulante folha do bétel, mis¬ turada com aréca, especie de noz adstringente, ao que também juntam cal de marisco: offereceram-nos esta mistura, por ser istoenlre os orientaes um signal de cordialidade, e eu ainda mais esta vez a provei, lembrando-me que seria provavelmente a ultima no decurso da minha vida. A fui ver a igreja da Misericórdia, muito pró¬ xima do palacio: é de grandeza regular, e está em soffrivel estado de conservação. Tem no pavimento tres lapidas do fim do século passado, e nas paredes varias outras modernas, que cobrem os restos morlaes de al¬ gumas pessoas recentemente fallecidas em Moçambi¬ que, sendo todas de bom mármore e apurado traba¬ lho, executado em Bombaim. Chega-se á porta da igreja por debaixo dhima grande alpendrada, como em vários templos das nossas provindas. A Misericor-
  • . 87 dia já hoje nao exerce as fu noções de estabeleci mento pio por falta de rendimentos: alguns prédios que linha caíram em ruina, e a arrecadação dos espólios dos de¬ funtos e ausentes (dos quaes retirava seis por cento) que antigamente tinha a seu cargo, passou para ajun¬ ta da fazenda: hoje só lhe resta o redito de 20 cruza¬ dos que paga cada embarcação de gavea que entra no porto, e que montará a 600 ou 700 annualmente: n’outro tempo sustentava um hospital, que depois se reuniu ao hospital militar. Existe aqui a unica aula de instrucçao primaria, que esteve até ha pouco longo tempo sem mestre , e o que tinha então , mandado de Portugal pelo gover¬ no, gozava da fama de pouco habil e menos mori- gerado. E’ frequentada por uns 40 a 50 rapazes de diffcrentes raças e cores, que só aprendem a ler, es¬ crever, contar, e alguns princípios de grammatica. Pelo pouco que fallei com o professor pareceu-me exacta a informação que d’elle já tinha: explicou-me seus vastos projectos de estabelecer uma eschola normal ! Fui d’alli á casa da camara, que é um bello e nobre edifício, onde também se fazem as audiências judiciaes. De tarde repeti o costumado passeio com o gover¬ nador e seu séquito. Estivemos na vasta cisterna cha¬ mada da ponta da ilha , que um particular fez para aguada dos navios no tempo da escravatura, e que está bem conservada. Fui \er a pedra a que chamam de S. Francisco Xavier, situada á borda do mar, on¬ de diz a tradição que o santo tinha por costume ir meditar, e orar em quanto esteve em Moçambique na sua passagem para a Índia; mas verdadeiramente o local que os antigos mostravam, que era uma cspecie de arcada de pedra tendo um assento e uma como es¬ tante natural, já ha cousa de dez annos foi desmoro¬ nado pela acção das ondas, e jazem as pedras no mar: a pedra que hoje mostram sendo percutida com algum seixo atirado d’um pouco longe, dá urn som metaíli- co, como de um sino rachado; qualidade que tem Jgualmente outras pedras das proximidades, Ha urna
  • lenda , ou tradição popular, de ter o santo passado da terra firme para a ilha, sobre a sua estola estendida nas ondas. O terreno para este lado é coberto quasi todo por matto rasteiro, e com muitas flores simi- lhantes a uma especie de campainhas muito communs cm Macao. Estivemos até ao pôr do sol no logar da meia-la¬ ranja, d’onde deitados nas maxilas voltámos para a cidade. Era uma scena um tanto original e grotesca \er seis maxilas conduzindo o governador e os que o acompanhavam, levadas cada uma aos hombros de quatro negros nus, apenas com a tanga, formando dois a dois como um angulo agudo, em cujo vertice descançava o bambu ou canna da maxila, correndo e procurando tomar a dianteira uns aos outros, e pa¬ rando a espaços por um momento, ao signal d’uma palmada na canna, para rapidamente trocarem a po¬ sição para folgar um dos hombros, e seguirem depois com maior ardor na carreira. A quasi todos occorreu o pensamento de que daríamos um curiosissimo espe- ctaculo ao povo de Lisboa, se atravessássemos n’este singular trem o Terreiro do Paço, ou o Rocia. Passámos pela Missanga e pelo meio do basar, onde os negros vendiam generos e preparavam suas co¬ midas: este sitio é infecto pelos immundos costumes dos pretos, e amontoação de casas, apesar de se te¬ rem recentemente mandado demolir varias barracas, para fazer girar mais o ar n’aquelle bairro. Chegados ao palacio fomos para o mirante do ter- rasso, para gozar de fresquidão: alli conversámos, to¬ mámos chá, e ouvimos tocar a musica ou charanga do batalhão, a qual todas as noites ás 8 horas vem da praça á porta do palacio tocar algum tempo estropea¬ das peças de musica. Na tarde de 27 fui com o juiz Abranches outra vez para o lado da ponta da ilha, e largando as ma¬ xilas ao fim da boa estrada que ha n’aquelta direc- çâo, fomos a pé por entre o matto até ao extremo da ilha, em frente do forte de S. Lourenço, que fica m
  • 89 meio das aguas em maré cheia, e está edificado sobre rochedos que as ondas vão solapando. Tem uma pe¬ quena guarnição de soldados estro peados, e acha-se em miserável estado de defesa; defende a barra peque¬ na ou do sul, e pode jogar a artilharia com a praça, ficando ao centro o forte de Santo Antonio, onde en¬ trei e que já não tem artilharia alguma: estavam lá dois soldados que pareciam uns cadaveres ambulantes, que guardam uma ermida já meia arruinada den¬ tro do mesmo forte, dedicada a Santo Antonio, que foi n’outro tempo de grande devoção da gente de Mo¬ çambique, e até dos proprios gentios baneanes, que lhe davam boas esmolas. No regresso do nosso passeio passámos junto da igreja de Nossa Senhora da Saude, que serve hoje de capelía do cemiterio contíguo, chamado por isso da Saude. Estranha designação, que com outras simi- Ihantes usadas em Angola e Lisboa dão logar ao di¬ tado : Deos noa livre da saude de Moçambique, dos remedios de Angola, e dos prazercs de Lisboa. No domingo $8 tornei a ouvir missa na capelía do palacio, que é espaçosa: tem dois altares e altar mor, e um púlpito de madeira bem trabalhado com figuras e ornatos em relevo: os altares são guarneci¬ dos de obra de talha dourada, similhante á dos con¬ ventos de Goa : tem duas lapidas nas paredes do altar mór, uma d’ellas da filha do governador Sebastião Xavier Botelho: o frontispício é de singular e máo gosto, de argamassa em altos relevos e meias co- lumnas. Era, como já disse, a antiga igreja do col- legio dos jesuítas, denominado de S. Paulo. Obser¬ vei a mesma falta de concurrencia que no dia ^5. A’ saída da missa houve a costumada parada do batalhão, á qual sempre concorre algum povo negro. Estive observando as pretas envolvidas em pannos dos sovacos dos braços para baixo, alguns ricos a seu modo, isto é, bordadoi de missanga, e varias tinham abundancia de braceletes ou manilhas de varias cores nas pernas e nos braços. Algumas traziam os filhos,
  • 90 e os amamentavam aos peitos excessivamente disten¬ didos, parecendo têtas de cabra: dizem que é uma belleza entra ellas, e motivo de vaidade feminil o comprimento dos peitos: usavajp trazer os filhos de tres modos, escarranchados ao hombro, sobre o qua¬ dril, ou n’uma caconda (especie de faxa ) ás costas á maneira das chinas. Fui depois á sé, no fim da rua dos baneanes: é um templo espaçoso e bem conservado, e nos adornos interiores quasi no gosto de S. Paulo. Fallei com o prior, que é ao mesmo tempo o vigário, ou auctori- dadc ecclesiastica superior da província. Na volta en¬ trei em varias lojas de baneanes, na sua rua: nada tem que ver, e careciam dos objeclos que lhe eu pedia; só n’uma achei má tartaruga que me davam a S8 cruzados provinciaes o arraiei; a boa regulava de 30 a 34 cruzados, ou de ties ou quatro patacas. I De tarde dei o costumado passeio com o governa¬ dor e sua comitiva: largámos as maxilas perto dos muros da praça, e estivemos debaixo de uma copada e bonita arvore, que se acha isolada no meio d’aquelle plano d’arêa , e que a tradicção diz ser mais antiga que a fortaleza. D’alli contemplei algum tempo as vene¬ randas muralhas erigidas por D. João de Castro, ás quaes os séculos tem dado a côr enegrecida. N’esses tempos heroicos da nação porlugueza eram communs estas construcções, que hoje nos maravilham , como se observa nos domínios que ainda possuímos, e nos que já perdemos. A fortaleza de Mombaça dizem que era mais vasta do que esta, e pessoa que a visitou ha pou¬ cos annos, me affirmou não estar ainda em grande ruí¬ na, apesar de abandonada: os arabes e os negros não a tem destruído, como os civilisados inglezes fizeram em Malaca e n’outras partes ás nossas fortificações, que mereciam ser conservadas ao menos como monu¬ mentos históricos e de antiguidade. Não ha muito tempo que os habitantes de Mombaça tendo-se rebel- lado contra o imamo de Mascate, mandaram propor ao governo de Moçambique que enviasse guarnição
  • 91 para a fortaleza: por falta de gente e de meios perde¬ mos esta occasião de recuperar aquella cidade. Ao sol posto fizemos encostar as maxilas ao alto contra as muralhas da fortaleza, de modo que nos proporcionassem assento; d’alli descançados, respiran¬ do a lépida brisa da tarde, contemplando o mar que se tingia d’escuro, todos caímos insensivelmente em silencio e melancolia, cada um entregue a seus pen¬ samentos n’aquelle doce meditar que esta hora quasi sempre excita. Só fomos distrahidos. d’esta especie de esquecimento uns dos outros ao divisar-se no hoti- sonte uma vela de navio de gavea, o que sempre cau¬ sa alvoroço e satisfação nos portos pouco frequenta¬ dos , e tão distantes como este dos paizes civilisados: era a escuna americana Sylphide, vinda da dha de Zanzibar, que de noite deu fundo cm frente da cidade. Na manhã de 2!) fui a bordo, e fiz conduzir para terra alguns objectos volumosos, que desembarcaram perto da alfandega sem a menor difficuldade. E in¬ crível a facilidade com que se fazia o contrabando; tudo quanto se queria vinha da corveta para terra; os marinheiros andavam pelas casas particulares, pe as lojas, e pelas ruas offerecendo vários objectos a venda. Com a corveta Nova-Goa , que pouco tempo antes da nossa chegada havia d’alli saído, diziam ter succedido o mesmo. . , Se os rendimentos da província superabundassem 9 nem assim tal desleixo teria desculpa; mas quando os cofres públicos estavam exhaustos, os servidores do Estado com sete mezcs de atraso na capital e muito mais nos portos, as fortalezas e os estabelecimentos públicos em lastimoso estado, a tolerância de laes abusos era muito censurável. . . N ’este dia jantei por convite em casa do juiz Abranches: eram 16 os convivas, e o jantar foi deh- cndo e bem servido a moda europea, e so a multidão de negros grandes e pequenos que rodeavam a mesa nos fazia lembrar que estavamos na Africa. Ires se¬ nhoras assistiram á mesa, únicas que vi natuiae» do
  • 92 Moçambique: tinham boas maneiras, porém muito acanhadas. De tarde vieram apresentar-se ao governador , que também era da companhia, dois eleitores de Quili- mane, ambos officiaea militares que acabavam de chegar na escuna Delfim , que já se receava perdida pela longa viagem que trazia: havia socego. e com- mercio regular em C^uilimane, d onde trazia umas 200 arrobas de marfim e arroz. A 30 visitei o chamado arsenal, que consiste em dois máos barracões e um telheiro. Algumas ancoras e peças d’artilheria estavam deitadas sobre a areia sem o menor resguardo. Tem as denominadas officinas de ferraria, tanoaria, e carpintaria, tudo porém em pés¬ simo estado de organisação: possue o arsenal uns 180 escravos, a que chamam libertos da nação, e apesai da nenhuma importância, e quasi nenhum bom servi¬ ço d"este tão necessário estabelecimento, conserva o ap- parato e gastos d’administração com 1 inspector, 1 almoxarife, X escrivão, 1 fiel, mestres $ contrames¬ tres &LC • A existência em Moçambique de um pequeno ar¬ senal bem montado e fornecido, seria de grande van¬ tagem para esta cidade, onde muitos navios deixam d’arribar quando soffrem avarias, ou corridos com os temporaes, por não haver recursos para reparos e concertos, preferindo irem á cidade do Cabo ou a Zanzibar, ás vezes com perigos e inconvenientes. Se qualquer navio do Estado, ou mercante carece alli de refazer-se de quaesquer objectos de massame e mas¬ treação, só os oblem por preços exorbitantes, quando os ha nas mãos dos particulares ? e obrigando ás vezes a demoras de mezes. Está assim abandonado pela navegação mercante o melhor porto da costa oriental de Africa ; tem bom ancoradouro, é abrigado dos ventos, e só offerece al¬ gum perigo quando na monção do. sudoeste cáem as manmnuccàas, ou tufões das Mauricias, o que de or¬ dinário se conhece com antecedencia pelo estado atmos-
  • 93 ferlco, na epocha propria que é em janeiro, indo então os navios ancorar na barra de Mossuril. A 31 visitei a casa da junta da fazenda, que é um vasto e solido edifício com boas repartições \ tem uma casa forte com bons cofres, onde estavam arreca¬ dados alguns espolios de fallecidos, conservados nas suas próprias especies, como ouro em pó, peças, &c. Vi a escripturaçâo relativa a estes espolios, que me pa¬ receu estava muito regular e clara, e o cartorio em bom arranjo, tudo devido ao intelligente e assiduo escrivão da junta, José Narciso Ferreira de Passos. Examinei o hospital, que é um grande edifício quadrado em fórma de claustro, que foi o convento da ordem de S. Joao de Deus, cujos frades serviam de enfermeiros, e no tempo d’elles dizem estivera bem montado: hoje está a cargo da fazenda, porém mui¬ to decadente e falto de roupas e medicamentos. As en¬ fermarias são largas e arejadas, e notei sobre tudo o aceio da cozinha. E’ ao mesmo tempo hospital militar e civil, tendo-se-lhe reunido o da Misericórdia, ex- tincto por falta de rendimentos, como já disse. O actual administrador d’este estabelecimento, o dr. Fonseca, dizia ser util dolal-o com o resto ainda existente dos bens dos extinctos frades de S. João de Deus, consistindo em alguns terrenos aforados e foros na cidade, que mais assim se aproveitariam do que na administração do Estado. Este arbilrio seria conve¬ niente supposta uma boa administração, que ha mui¬ to alli não existe, apesar do avultado gasto que a fa¬ zenda faz com este estabelecimento, chegando a 8 con¬ tos de réis fortes annualmente.
  • 9 í CAPITULO OITAVO, Idea geral do estado religioso e moral, finan¬ ças, força publica, população, agricultu¬ ra , commercio , ânstrucçao , costumes , e systema monetário na provincia de Sloçam- bicfiae. Direi aqui o que pude colher do meu exame, e de informações sobre differentes assumptos públicos e da economia da província. Estado religioso e moral. Na província de Moçambique não ha bispado, existindo simplesmente uma prelazia, que tem sido conferida ordinariamente a bispos in partibus, com muito limitada jurísdicção. Na capitai o clero redu¬ zia-se ao cura da sé, que servia de prelado; ao cura da freguezia de Mossuril, na fronteira terra firme * que residia na cidade, servindo de capellão do gover¬ nador; e a um padre que viera ha pouco do Ibo, on¬ de era cura: são todos naturaes de Goa. O vigário capitular e o padre do Ibo tinham publica opinião de vida escandalosa, e de inhabeis pela sua ignorância para o seu sagrado ministério. O cura de Mossuril diziam ser de bons costumes, mas de mui limitada in- telligencia. Sem prelado nem padres europeus ha muitos an-
  • nos, e com tal clero, não admira a falta de senti¬ mentos religiosos nos habitantes. Em geral ninguém frequenta a igreja , ouve missa, nem se confessa ; mor¬ rem sem sacramentos , e o proprio sexo feminino é in- differente á religião. A moral publica e particular, 1ao intimamente ligada com ella , resente-se d’este es¬ tado em ambos os sexos. Na população negra as crenças eh ris lãs vão quasi extinclas, e o mahometismo faz cada dia mais progres¬ sos, o que bem perigoso seria para a continuação do nosso domínio n’esles paizes, se os negros se possuís¬ sem verdadeiramente do espirito d’aquella religião, sujeitando se á influencia do imamo de Mascate, ora estabelecido em Zanzibar, que lhes envia seus padres. O mahometismo porém para estes negros reduz-se á circumcisão, ao que elles chamam fanar, conservan¬ do aliás todas as superstições e absurdos dos seus fei¬ tiços ou idolos, e dos seus feitiçeiros ou bonzos. No entanto era a conversão ao christianismo d’estas brutas populações o unico e poderoso meio de as attrahir a nós, de as ter sujeitas, e de fazer penetrar as luzes e os benefícios da civilisaçao n’esta barbara terra d Afiica. Os antigos bem o conheceram e o praticaram com proveito, e ainda hoje por afastados sertões d’es¬ ta província se encontram vestígios dos seus perseve¬ rantes trabalhos, em alguns negros christaos, e nas ruinas dos edifícios e collegios dos jesuítas , dos quaes os negros ainda conservam memória respeitosa. Nos portos e nas villas do interior o estado reli¬ gioso é ainda peior que na capital: ou não tem pa¬ dres, ou onde os ha em geral nada tem de edifican¬ tes, e tratam mais de eommerciar, e de fazer dinhei¬ ro por todos os modos, do que de cumprir com os seus deveres. Em Sofala, Lourenço Marques, e outros portos onde não existem padres fazem-se os casamentos so por meio d’escripturas lavradas por escrivães, con¬ signa mio-se a obrigação de receber a bênção da igreja na primeira oecasião que tiverem. Succede poréin he-
  • quentes vezes separarem-se os contrahenles antes que chegue tal oceasião, cm prejuízo da moral e das rela¬ ções sociaes. Estado financeiro. A* chegada do actual governador , em outubro precedente, a divida aos empregados públicos era de 7 mezes. O governador tomou algumas quantias de empréstimo ao cofre dos defuntos e ausentes, adminis* trado pela junta da fazenda, para ir pagando aos ser¬ vidores do Estado, e tencionava pòl-os ein dia em maio ou junho seguintes, que sâo os mezes do máximo ren¬ dimento na alfandega; e ia fazendo arrecadar algu¬ mas dividas, impostos, e foros atrasados com abati¬ mentos e composições com os devedores. Nos portos o atraso era muito maior, chegando em alguns a 17 mezes, pela falta das remessas regula¬ res dos pannos, ou fazendas de lei, que é como ainda nos portos se paga aos empregados e tropa (apesar de determinações etn contrario da corte), e que lhes serve para as permutações corn os negros; por quanto estes não recebem outra cousa senão pannos nas compras avultadas do marfim e d’outros productos, e missan- ga e aguardente nas vendas pequenas de generos de consumo diário: ainda hoje nos sertões não dao valor ao ouro e ao dinheiro; e um negro prefere ás vezes um barrete vermelho a um montão de peças de ouro. A falta de pagamento aos soldados pretos faz com que elles desertem frequentemente para o sertão, só para irem adquirir alguns meios de subsistência, e al¬ gumas vezes vem apresentar-se de novo. Nos portos não ha alfandegas, mas são suppridas pelos feitores da fazenda, nos casos em que são admit- tidos generos que ainda não tenham pago os direitos na capital da província. A actual legislação só permitte a entrada de na¬ vios estrangeiros, americanos e inglezes, na capital da província; aos navios nacionaes é dado correr os por¬ tos, mas pagando os direitos na capital. Ha porém em
  • 07 \ Q,uilimane uma commissão d’alfandega. Os navios estrangeiros pretextam arribadas quando lhes convém , e então despacham e vendem quantas fazendas que¬ rem. Os direitos d’importação são de 2 b por cento; na verdade exorbitantes, e que convidam a fazer con¬ trabando. Os rendimentos públicos na capital consistem quasi exclusivamente nos direitos da alfandega , que no an¬ no ecônomico de 1850 a 51 importaram em ^00 contos provinciaes , ou 50 de Portugal : cobiam-se também, toros da fazenda , sêllos, multas, &c. tudo de pouca importância; não ha impostos pessoaes , nem pre- diaes. A falta de fiscalisação, e de força publica para reprimir o contrabando muito dirninue o rendimento d’alfandega: na cidade e por toda a costa navios nacio- naes e estrangeiros desembarcam quasi quanto querem» Dos portos vem para a capital alguns rendimentos em ouro em pó^ dinheiro de toros, dízimos 9 e íen- das d’alguns prazos da fazenda. A causa principal do empenho da província foi a estação naval, ou cruzeiro contra o traiico da escrava¬ tura* o qual consumia annualmente a terça parte do rendimento da província. Só o brigue Tejo consumiu talvez acima de cem contos, e a arruinaria mais se não fôra mandado para Goa , onde foi condem nado. Taes estações tem sido fataes para todas as nossas co¬ lónias d*Africa. Os vencimentos em dinheiro forte, e as continuas, e ás vezes bem exaggeradas exigências dos chefes e -commaiidant.es dos navios absorvem som- mas importantes , e em Moçambique nunca o serviço do cruzeiro foi util nem regular. Ao brigue Tejo forneceram-se por vezes manti¬ mentos para muilos mezes de cruzeiro, e consumia-os fundeado no porto,, com tal escandalo, que hoje se diz trivialmente em Moçambique, que se formou um baixo de ossos de gallinhas no logar ern que estava o brigue: cumpre saber que estas aves são alli tão ba¬ ratas (custam quando muito 40 rs. de Portugal cada
  • 98 uma), que se dão ás vezes como ração de carne á marinhagem. Em tempos pouco anteriores citava-se o caso de um commandante d’outro brigue de guerra, que es¬ tando em Quilimane, foi elle mesmo servir de prati¬ co da barra a bordo de um navio carregado de negros que d’alli saiu; e ma is outros factos escandalosos se contavam dos nossos cruzadores. Voltando porém a fallar das finanças do paiz, po¬ de-se dizer em geral, e assim o ouvi ás próprias au- ctoridades, que sem estação naval e despezas ex¬ traordinárias com a passagem de navios de guerra, os rendimentos da província podem occorrer ás suas des¬ pezas , mesmo no actual estado de decadência do com- mercio, e de falta de boa arrecadação. Os vencimentos dos officiaes e empregados provin- ciaes são geralmente mesquinhos e insufficientes, e por contraste alguns censuravam como excessivo o or¬ denado do governador, não exigido pelas necessidades da sua situação, nem comportável com as forças dos rendimentos da província: é de 4 contos fortes, ou 16 contos do paiz. O governador tem palacio para habitar, dispõe dos escravos da fazenda para o servir ( por abuso ou costume, e não por direito), desfructa uma bei la casa e propriedade territorial em Mossuril, que lhe deixa, além dos productos consumidos no tratamento da sua casa, ordinariamente 300 cruzados annuaes de rendi¬ mento liquido. Esta fazenda ou maxamba foi feita pelo governador Balthasar Manoel Pereira do Lago, e todos os seus successors a desfructam só com o en¬ cargo de fazerem uma festa annual a Nossa Senhora da Conceição na ermida da dita casa. Todos os gene- ros e objectos do paiz são baratos, e em Moçambi¬ que o governador não tem que ostentar luxo nem ap- parato, não tem necessidade de dar bailes, nem jan¬ tares, e pouco trato ha com estrangeiros.
  • Força publica. À província pode-se dizer que está completamente desarmada, e exposta a um infallivei insulto, ou per* da, em qualquer ataque d’uma força europea, ou. mesmo dhnvasão de negros na terra firme. O unico corpo existente é o batalhão de linha, que na cidade terá uns 120 homens, e alguns desta¬ camentos pelos portos , não chegando tudo a 200 euro¬ peus : pela maior parte e composto de degradados, to¬ dos arruinados de saude, de máos costumes , e dispos¬ tos a grandes crimes; o resto são negros, gente com que se não pode contar na guerra, principalmente sen¬ do empregados contra os da sua raça, com os quaes frequentemente se bandeam por timidez e efíéito das suas superstições, abandonando seus officiaes, como ainda não ha muito succedeu em Inhambane com o infeliz capitão Antonio Manoel Pereira Chaves, en¬ tão governador d’aquelle districto, e que por isso per¬ deu a vida. O batalhão estava péssimo em disciplina e mano¬ bra por falta de officiaes instructores, e mesmo dos necessários para o serviço e para os portos: parece que 14 ou 15 officiaes, de tantos que temos no reino, te¬ riam aqui proveitosa collocação. Cada soldado tem ISO rs. de soldo, 5 rs. para lenha, e 213 rs. por quinzena, valor correspondente a 2 panjas ou al¬ queires d’arroz, que é o pão do paiz; de modo que o moldado europeu tem ao todo diariamente 140 rs. do paiz, ou 35 rs. de Portugal, e tem mais 6 rs. fortes para massas; estão porém muito mal fardados e calça¬ dos , recebendo por anno apenas um par de sapatos muito ruins, feitos ordinariamente em Goa. O equi¬ pamento é péssimo, e em geral espingarda que se desarranja não se concerta mais por falta de operários. Pelos portos succede o mesmo ou peior, principal¬ mente no Ibo, onde diziam causa vergonha ver o que se chama tropa.. Não existia estação naval em Moçambique, e s<5 7 *
  • 100 havia a força marítima propria da província, compos¬ ta do brigue D. João de Castro de seis peças, e das escunas 4 d’Abril e Infante D. Henrique de duas pe¬ ças, todos em máo estado para o serviço da provín¬ cia, de cruzeiro, ou de communicaçâo para os portos, Tres pequenas escunas bem arranjadas podiam fazer opt imo serviço não só como cruzeiro contra o trafico da escravatura, como também impedindo o contra¬ bando de fazendas na costa; e se adrnitlirem carga do commercio, podem com o producto dos fretes tirar, se não toda, ao menos boa parte das suas despezas. População e agricultura. Segundo dados au then ticos que tive occasião de consultar, em referencia ao ultimo recenseamento fei¬ to em 1849 , a população total da cidade ou concelho de Moçambique era de 10:870 almas, sendo apenas 1:110 livres: continha no sexo masculino, 184 chris- tãos (portuguezes europeus, indígenas, e de Goa ), 195 baneanes, 184 mouros, 80 gentios, 13 parses, 33 batiás, 39 mojôjos. Actualmente porém, segundo boas informações, e por aproximação só havia na cida¬ de uns ISO portuguezes, ^40 mouros, c2h batiás, 60 baneanes e 1@ parses, que vem ordinariamente de Diu e Damão; e 6:000 negros entre livres e escravos. A cidade conterá 300 prédios, fora as palhoças. O governo de Cabo Delgado, na mesma epocha de 1849, continha 6:636 almas, das quaes 1:403 li¬ vres. O de Quilimane e Rios de Senna 34:337, sen¬ do @1:303' livres. O de Sofalla ^:380, sendo 1:685 li¬ vres. O de Inhambane 3:@67, sendo 674 livres. O de Lourenço Marques 11:9@1, sendo 40 livres. Vê-se pois que em 1849 o total da população da província era de 69:411 almas, das quaes @6:@15 li¬ vres. Este calculo, ainda que feito sobre documentos aulhenticos, não será muito exacto, pela difficuldade de fazer boas estatísticas no Ultramar, e principal¬ mente na mal organisada provinda de Moçambique.
  • 101 GotrUudo não irá muito longe da verdade a cifra de 60 a 70:000 almas, que vivem debaixo das nossas leis n’esse exlensissimo território, não chegando talvez a ©:000 os habitantes brancos, entrando mesmo os mou¬ ros e os baneanes; tudo o mais são negros, e differen- tes castas de gentios. Na ilha nada se cultiva, a não ser algum peque¬ no quintal com alguns coqueiros, cujas cimas gracio¬ sas sobresaem d’entre os edifícios vistos do mar; lam¬ bem o seu terreno é limitadíssimo, não tendo mais que um terço de legoa em comprimento, e menos de um oitavo na maior largura, sendo todo o solo (Tarêa sobre rocha viva, ficando duas ou tres milhas distante do continente. Nao fui á terra firme pelo receio das febres, mas soube que ha alli boas casas e plantações, que se esten¬ dem a duas e tres legoas para o interior, de cujos pro¬ duces se suppre a cidade diariamente. O brigadeiro reformado Cândido da Costa Soares é quem as possue mais extensas, e tira d’ellas maior proveito. Os pal¬ mares, ou coqueiraes, o milho miudo ou fino para os negros, a mandioca, alguns legumes e hortaliças, laranjeiras, cajueiros e outras arvores fructiferas, con¬ stituem a mais essencial cultura. Ouvi a pessoas que tinham estado na montanha da Meza, que se avista de toda a parte da ilha, que ha alli belíos terrenos n’uma extensa chapada, onde existe uma lagoa de boa agua, que desagua para o lado da bahia de Fernão Veloso : dizem ser logar sau¬ dável , mas aclualmente não se póde lá ir sem risco de ser roubado ou morto. Não existem n’este districto, e menos nos portos, nenhuns estabelecimentos fabris; apenas no continente se reduz a raiz da mandioca a farinha, e dislillam o summo do caju, fazendo aguardente ordinaria de 18°, e também de 36°, que se emprega na medicina. Tam¬ bém se cultiva alguma tapioca, que já vai para Bom¬ baim e Lisboa. # ’ Durante o pouco tempo do govern o do brigadeiro
  • 102 Joaquim Pereira Marinho, intentou este estabelecer em ponto grande a cultura da canna d’assucar, e do algodão. Chegou a montar uma fabrica para tecidos d’algodão, mandando vir utensílios e operários da ín¬ dia ; quiz dar impulso ás pescas da baleia, e de toda a especie de pescados que tanto abundam n’esles ma¬ res; á fabricação do sal, do azeite de purgueira, &c. Porém d’estes, e d’outros esforços a bem da província quasi nenhuns vestígios restam hoje. O café se cultiva em mui diminuta quantidade. Era então raro e caro, regulando de 3 a 4:000 rs. fortes a arroba: é muito miudo e de má apparencia , porém muito aromatico, e tem sabor especial, que muito apreciam alguns amadores d’esta bebida. Nos mattos proximos é espontâneo, e alli se vão buscar as plan Las. Causa admiração como o interesse proprio não te¬ nha explorado esta cultura. No Brazil compram-se os escravos por subido preço, nos terrenos emprega-se avultado capital, e vende-se regularmente o café no mercado do Rio de Janeiro de 1:700 a 1:800 rs. for¬ tes. Em Moçambique compram-se escravos a 9:300 rs, de Portugal, os terrenos póde-se dizer que nada cus¬ tam ao cultivador, e o raro café que apparece vende- se a 3 e 4:000 rs. ! O algodão, a canna do assucar, o arroz, e outros muitos generos poderiam ser cultivados com vanta¬ gem ; mas para taes desenvolvimentos não ha na pro¬ víncia nem capitaes, nem genio emprehendedor. O estado da navegação para Portugal também offerece um grave obstáculo: os fretes são exorbitantes e des¬ proporcionados, absorvendo o moderado interesse que, na situação actual da cultura, poderiam os generos dar em Lisboa. Os nossos navios exigem 600 rs. de frete por arroba de café para Lisboa, quando do Rio o conduzem a 130 rs.; por arroba de marfim grosso levam 1:930 rs. , e de Bombaim vai para Inglaterra, em muito mais longa viagem, a 300 rs. Os donos dos navios, como não tem competência, estabelecem fre-
  • 103 tes taes , que quasi excluem a carga que não seja de conta propria. Além da necessidade da cultura em grande escala, seria necessário isemptar o cultivador do monopolio da carga, no que talvez proveitosa¬ mente se poderiam empregar navios do Estado arma¬ dos em charruas. Já é uma banalidade repetir que o fomento da floricultura é o unico meio de elevar as nossas colonias dVAfrica e da India a prosperidade de que são susce- pliveis, e que tanto pode reverter em beneficio da mâi patria. Quando isto se disser é necessário que se apontem os meios mais apropriados para conseguir tal fim segundo as localidades. A população branca e laboriosa é a primeira ne¬ cessidade ; mas entendo que a população portugueza europea nunca alli poderá prosperar, nem dar consi¬ derável desenvolvimento á agricultura. Estes climas , ao menos no littoral, repellem a raça europea , que do ordinário se extingue na terceira geração. Os naturae* de Goa dão*se melhor, mas a população agrícola mui¬ to escacêa n'aquelle Estado, e tem em geral hábitos de inveterada indolência. A meu ver o unico modo de povoar, e de fazer prosperar verdadeiramente pela agricultura esta vasta e rica possessão, seria pela colo- nisação chineza. Os chins são o povo do mundo o mais activo, in¬ dustrioso, e cultivador; são proprios para estes climas , cujas principaes producções são similhantes ás do seu paiz. Os chins saem hoje da sua patria para toda a parle do mundo : nos estabelecimentos inglezes de Sin¬ gapura , Malaca, e Pi não ha para mais de 120:000, ern grande parle cultivadores. Tem ido em multidões para Java, California, Chili, e Peru; agora o go¬ verno hespanbol os convidou para as Filippinas, e pa¬ ra Havana foram recentemente engajados 5 a 6:000 chins, tendo n’este anno ( 1853) saído de Macao a barca portugueza Novo Viajante com uma carregação d’elles para aquelle destino. Em summa elles \ao para onde se lhes facilita transporte, c promettem vantagens.
  • 104 Já em tempos antigos houve muitos chins estabe¬ lecidos em Goa, e parece que muito uteis alli foram ; mas perseguições religiosas , e vexações das auctorida- des os fizeram abandonar aquelle Estado , e duram ainda tao vivas as tradições que transmit tiram aos seus compatriotas, que se hoje se falia a um chim em ir para Goa , mostra logo a maior repugnância, e mesmo horror a tal proposta. Se tivéssemos um governo providente, que olhasse para taes cousas, ou uma companhia emprehendedora, não era difficil fazer transportar de Macao colonias de chins para Moçambique, distribuir-lhes terrenos em propriedade, e os primeiros utensílios e meios ne¬ cessários para os deixar depois entregues a sua pro¬ pria diligencia e industria. Elles em breve espalhariam na província a cultura da canna, do algodão, do chá , e dos mais productos do seu paiz, com o qual pode¬ riam vir a estabelecer, por meio dos nossos navios, importantíssimas relações de commercio, principal- mente nas remessas de algodões, de bicho do mar, e de outras producções que a sua natural industria e aclividade saberia tirar d’este fecundo solo. Ainda que a população chineza se tornasse nume¬ rosa, entendo que nunca seria perigosa para o nosso domínio: a raça china nunca faria causa cornmum com a raça negra, para a qual tem decidido odio, e sendo de natural tímido e cobarde, e estando a força e auc tor idade publica nas mãos dos portuguezes, sem¬ pre havíamos ter a superioridade e domínio. Esta co¬ lon isaç;ão porém pedia conjunctamente a melhor or- ganisação da província, boas auctoridades, lei e jus¬ tiça em todos os ramos de administração, e indispen¬ sável augmento de força militar, não desmoralisada, nem composta de criminosos, para proteger os novos colonos, e para recobrar o domínio, ou a auctorida- de nos importantes terrenos que estão invadidos. > Conheço que no presente estado em que se acha a nação portugueza tudo isto são cousas irrealisavei* nos nossos tempos; mas em íim ahi vão essas idéas fi-
  • car consignadas na imprensa, e talvez que para o fu¬ turo se posssam levar a effeito. Comrnercio. À praça commercial de Moçambique já foi muito rica, e grandes fortunas alli faziam os portuguezes, e os gentios. Hoje acha-se em grande decadência , pelo acabamento do trafico legal da escravatura, e pela incerteza e transtornos do negocio de fazendas para o sertão. Ainda mais se sentem estes effeitos em relação ao comrnercio portuguez depois dos nossos tratados commerciaes de ^6 d’agoslo de 1340 com os Estados- Unidos d*America, e de 3 de julho de 184® com In¬ glaterra , pelos quaes foram admittidos os seus navios a negociar nas nossas colonias: o comrnercio de toda a costa de Moçambique tem caído nas mãos dos ame¬ ricanos, que levam aos portos, ou desembarcam ás vezes facilmente por contrabando em qualquer parte que lhes convenha, as fazendas próprias para as per¬ mutações com os negros, laes como pannos, polvora, espingardas, &c. Elles introduzem fazendas d’algodao melhores e mais baratas que as de Diu , Damão, e do reino, com as quaes até agora se fazia este comrnercio, e que elles vão expulsando do mercado, estabelecendo entre os negros o gosto de pannos mais finos e melhores pa¬ drões, com grave damno das fabricas de Diu e Da¬ mão, que só eram sustentadas por este comrnercio, principal recurso d’aquelles estabelecimentos. Os ame¬ ricanos recebem em troco ouro em pó, tartaruga, e principalmente marfim, genero agora muito procura¬ do, e do qual tem feito subir o preço a 34 e 36 pesos a arroba: em Moçambique nenhuma porção d’elle se podia obter, achando-se todo compromelti- do para os americanos. Admira que os seus rivaes commerciantes inglezes não lhes façam concurrencia n’este lucrativo trafico, de que elles sabem tirar to¬ do o proveito; geralmente empregam navios peque-
  • 10G nos, e com mui pouca tripulação, mas perfeita- mente arranjados e com grande aceio, fazendo con¬ traste com o desleixo e immundicia da maior parte dos nossos navios mercantes: as suas facturas são mui bem calculadas, constando de pouco de diversas cou¬ sas: levam objectos de comida, de vestuário, de lu¬ xo, &c., de modo que a variedade e esmero no pre¬ paro d’estas facturas lhes dá prompta saída. Os nos¬ sos navios, além do carregamento pesado, pouco mais levam, máo, mal calculado para a venda, e exigem preços exorbitantes. Pelo decreto de 5 de junho de 1844 a polvora só pode ser introduzida nas possessóes ultramarinas sen¬ do de manufactura portugueza, e sob a bandeira na¬ cional ; mas até agora ainda nenhuma foi de Portu¬ gal, nem o governo a tem mandado para os forneci¬ mentos militares, de modo que os governadores em Moçambique tem-se visto na necessidade de a com¬ prar aos americanos para o serviço das fortalezas e da tropa, infringindo umas vezes as leis fiscaes, ou¬ tras dispensando-as e admittindo a polvora a despacho: o que é melhor que entrar por contrabando. Os ameri¬ canos vendiam cada barril de 84 libras por tres patacas. O governo compra por vezes aos americanos as fazendas que precisa para enviar aos portos, e o mes¬ mo fazem os negociantes portuguezes e gentios para o commercio dos sertões dos mesmos portos, que hoje está muito arruinado pela falta de segurança, e pe¬ los roubos frequentes, difficuldades de realisar os pa¬ gamentos, e infidelidades dos commissionados n’este trafico. Os antigos opulentos baneanes quasi nada hoje possuem ; o commercio que elles faziam com a índia caiu quasi todo nas mãos dos batiás, naturaes de lvatch, paiz do Indostão, tributário da companhia das índias. O commercio com a metropole é bem insi¬ gnificante; regularmente só apparece alli em cada an¬ no urn navio de Lisboa. Os pangaios e navios de gavea saem de Diu, Da-
  • 107 mao, Bombaim, e Goa desde 10 de outubro a mea¬ dos de fevereiro com a monção do nordeste; chegam a Moçambique em janeiro, fevereiro e março; e re¬ gressam no principio de maio com a monção do su¬ doeste. E’ por este tempo e até junho, em que che¬ gam os navios dos portos, que o commereio tem mais actividade, e que se arrecada a maxima parte dos di¬ reitos d’alfandega: fora d’esta epocha o porto está quasi deserto. De muito transtorno era para as cargas e descar- gas dos navios a ruina em que estava a ponte da al- fandega, antiga e boa obra , toda de cantaria, e que avançava muito ao mar. Haannos arruinou-se, e nin¬ guém tratou de a reparar, mesmo no tempo que ha¬ via abundancia de dinheiro nos cofres públicos, sendo aliás tão necessária n’uma cidade commercial, como igualmente para commodidade dos habitantes e con¬ correntes estranhos. O actual governador estava resol¬ vido a restabelecel-a, e linha já posto a concurso a obra. Consta-me ( 1853 ) que já foi renovada, sob o plano e direcção de Vicente Thomaz dos Santos, e construí¬ da sobre pegões, em logar de ser como a antiga n’utn só corpo solido. Esta obra, que parece que importou em cinco con¬ tos de réis fortes, dará honra e memória ao dito go¬ vernador, que era geralmente bemquistona província. As principaes exportações da província são ouro, marfim, tartaruga, gomma copal, cairo, e arroz. O assucar e o chá verde tem bastante consumo em Mo¬ çambique , e lhe vai na maior parte de Bombaim, e algum de Goa: o chá chega ás vezes a ter o avultado preço de S a pesos por libra: á nossa chegada po¬ rém havia abundancia, e só obteve o chá superior um peso por arrátel, livre de despezas para o vendedor. Com a fronteira ilha de Madagascar também se faz algum commereio, principalmente para o porto de Bombetoc , d’onde vem gado, arroz, esteiras , &c., em troco de fazendas de lei, aguardente, e outros ge- neros. Para Zanzibar, Mayotta, e outras ilhas tam¬ bém ha algumas negociações.
  • 108 E’ sabido que o bicho do mar é um importante ramo de commercio na China. O brigadeiro Cândido da Costa Soares deu começo a uma empreza, que pode trazer grandes vantagens á província de Moçam¬ bique. Nas suas maxambas da Cabaceira tem monla- dos os apparelhos necessários para a preparação d’a- quelle prod uc Lo , sob a direeçâo de dois malaios ou manilos práticos n’estes trabalhos, que para Moçam¬ bique trouxe em março de 1851 o negociante de Lis¬ boa José Ignacio. Cardoso, que obtivera do governo de^ Portugal o privilegio para este preparo, e se asso¬ ciara com o negociante de Macao Alexandrino An¬ tonio de Mello. Falleceu porém o dito negociante Car¬ doso pouco tempo depois; mas o brigadeiro Soares o substituiu n’esta diligencia, e tinha já enviado para Eombairn uma porção do bicho do mar, para ser d alíi transportado á China. Esperava o resultado d’es- ta rejnessa, e no emtanto continuava a preparar mais porções d este genero, no que já vários dos seus escra¬ vos estavam hábeis. O bicho do mar é um producto marinho, ou es- pecie de lesma, com muito pouca animalisação e mo¬ vimento, do comprimento regular de 4 a 10 pollega- das, e de ^ de diâmetro. Causa nojo ver este ani¬ mal ; mas depois de lavado, sêcco, e posto ao fumei¬ ro, torna-se duro, e parece um pequeno rolo de taba¬ co , que é usado pelos chins como comida, e como tem¬ pero para os seus guizados: consomem immensa quan¬ tidade d’este genero, que é dos mais lucrativos e im¬ portantes no commercio entre a China e as ilhas dos archipelagos da India e da Oceania. Encontra-se em todas as ilhas desde a Australia a Sumatra, lambem em muitas do Oceano Pacifico, bem como nas costas de Moçambique. Os chins dividem este genero em algumas 30 variedades, que muito diversificam em preço. A aza de peixe é lambem um artigo que convi¬ ria preparar em Moçambique para o commercio da China, principalmente a aza ou barbatana de tuba-
  • 109 rao, que é entre os chins reputada a melhor para as suas iguarias: em toda a província ha prodigiosa abun- dancia de tubarões, que occasionam frequentes desas¬ tres e mortes de negros. Também os chins comem mui¬ to, como artigo de luxo para as mesas, o bucho dc peixe, preparado e sêcco de certo modo; imporlam-no de varias ilhas da Índia, e seria possível preparal-o talvez em Moçambique, onde se pesca muito peixe; mas actualmente a unica pesca d’alguma importanqia é a da tartaruga nas ilhas de cabo Delgado, onde a casca é de exeellente qualidade. Em Ceilão vi muitos objectos de marfim da quei¬ xada e dentes de elefante com bonita apparencia: esta materia apresenta veios e ondeados de bello effeito, e parece-me que podia ser um objecto de importante ex¬ portação para Moçambique, persuadindo aos negros que a tragam do interior, como fazem a respeito das pontas, ou grandes dentes dos elefantes. Apesar das nossas leis, dos tratados, das onerosas estações navaes, e do cruzeiro inglez, o trafico da es¬ cravatura não está de todo extincto. Dava-se noticia em Moçambique de tres carregamentos feitos recente¬ mente, um em Inhambane em outubro precedente, e dois no Ibo de 1:500 negros em navios hespanhoes que foram para Havana; também se fallava n’outro carregamento feito em Quilimane. Os dois carrega¬ mentos no Ibo diziam terem tido logar depois que altí chegou o novo governador Jeronimo Romero, que fo¬ ra para Moçambique como ajudante d’ordens do go¬ vernador geral: Romero foi nomeado governador do Ibo, não obstante ser estrangeiro, ainda que natura- lisado, e ter sido ainda ha poucos annos apprehendido pelas auctoridades portuguezas na costa de Moçambi¬ que commandando um navio negreiro! O cruzeiro inglez mal pode vigiar a extensissima costa da província de Moçambique, toda de mui dif- ficil accesso e navegação: os grandes lucros d’este com- • mercio, e o interesse de todos os habitantes dos pon¬ tos onde se podem embarcar escravos, ha de sem-
  • 110 pre inutilisar em parte toda a vigilância dos cruza* dores. Nas ilhas do Ibo, ou governo de Cabo Delgado, é onde hoje ha mais facilidade, e melhores circun¬ stancias locaes para este trafico, que aliás nunca se po¬ de fazer sem a tolerância ou connivencia das auctori- dades. E1 cousa corrente e bem sabida em Moçambique, que nenhum navio carrega escravos sem dar o boi; isto é, 6 ou 8:000 pesos, dos quaes metade pouco mais ou menos tern sido para os governadores geraes, e o resto subdivide-se em quinhões desiguaes, que sâo distribuídos entre o governador subalterno do ponto em que se faz o carregamento, feitor da fazenda, capitão da companhia de linha, commandante da es¬ tação, seu sub-delegado , &c. &c. Esta é a verdade e a regra; mas tem havido e ha¬ verá honrosas, ainda que raras excepções. A ninguém offendo directamente; repito o que era publico e sabi¬ do em Moçambique, e o que o nosso governo não deve ignorar. E’ assim que se explicam as grandes e rapidas fortunas que a maior parte das auctoridades vão fazer em Africa, e são ainda abençoadas pelos po¬ vos quando só se limitam a estes meios para as conse¬ guir, e lhes administram alguma justiça; sendo certo que n’isto nada prejudicam aos interesses dos habitan¬ tes, nem aos da fazenda publica, e da prosperidade geral da província no actual estado do seu desenvol¬ vimento. Pelo que aqui observei, e depois na contra-costa, é quanto a mim duvidosa a affirmativa commum de que o trafico da escravatura impede o desenvolvimen¬ to da agricultura nas nossas colonias d’Africa. A po¬ pulação negra não escacêa por isso nos nossos domí¬ nios , e a grande porção de numerário, quasi todo do3 emprehendedores de fora, só alli concorre para este trafico. Digo pois que a escravatura não nos consome nem população, nem capitaes proprios; antes a cessa¬ ção d’ella afugenta logo os dos estrangeiros: por con-
  • Ill sequencia a agricultura não é affectada nas suas duas principaes causas de desenvolvimento. E’ verdade que o commercio da escravatura absor¬ via a attenção e o emprego de todos, ricos e pobres, e que a sua falta tem feito applicar alguns indivíduos á cultura: isto porém é em muito pequeno ponto, e está bem longe de compensar as enormes vantagens que d’aquelle commercio provinham ao governo e aos particulares, e jámais as compensará em quanto o go¬ verno da metropole não der aos interesses d’estes pai- zes a attenção que merecem. Na Inglaterra parece que vai actualmente afrou^ xando a philantropia a favor dos negros, que tem alli chegado ao ponto de mania, e já nas camaras se ven¬ ceu com difficuldade a ultima concessão dos enormes subsidios para os cruzeiros contra o trafico da escra¬ vatura. As barbaridades que n’este commercio se prati¬ cam , tem augmentado na proporção das difficuldades que se lhe oppõe: quando o trafico era licito, o mo¬ do de conduzir os escravos a bordo tinha regulamento estabelecido por lei quanto ao seu numero, com mod i- dades, &c., e que em geral se executava nos navios portuguezes: hoje vão os negros horrivelmente amon¬ toados, e opprimidos com todas as prevenções que se tomam contra o encontro dos cruzadores, tendo já ha¬ vido exemplos de lançarem os escravos vivos ao mar, para não serem encontrados nos navios que os condu¬ zem , quando não podem escapar aos cruzeiros. Parece-me que no estado actual da sociedade das raças negras, certa servidão ou tutela lhes melho¬ raria as condições de existência. Essas populações es¬ tão no maior estado de bruteza, entregues ás mais extravagantes e cruéis superstições; seus costumes são geralmente barbaros e sanguinários, mesmo d’umas tribus para as outras; vivem quasi como animaes nos seus covis ou moradas. O negro escravo pode adquirir ideas moraes e christâs, e sempre mais ou menos go¬ za d’alguma parte das commodidades e dos beneficio»
  • m da civilisaçao , no meio da qual vive, e que prefere ao seu estado anterior; porque se tem geralmenle observado que nâo volta á sua patria, e á vida selva¬ gem quando para isso lhe dão faculdade. Não quero fallar da escravidão arbitraria, cruel , e horrível; mas sim da escravidão regulada pelas leis, nos paizes onde ell a é ainda necessária, e que podem limitar os direitos do senhor, dar garantias ao escra¬ vo , e aproximal-a da escravidão legal on tolerada, por assim dizer, que hoje se faz com o engajamento de colonos ou emigrados de todos os paizes, e do que a propria Inglaterra dá o mais extenso exemplo. Instrucção publica e costumes. A instrucção publica na capital de Moçambique reduz-se a uma eschola de primeiras lettras , que a maior parte do tempo não está provida. Então, como já disse, tinha um mestre , que foi com o ultimo gover¬ nador na galera Adamastor, pouco proprio para tal mister. Ha uma cadeira de mestra de meninas, nâo provida ha quatro annos, e que poucas vezes o tem estado. Pode-se pois dizer que nenhuns meios ha dh’nstruc- çao em Moçambique, cujos habitantes, se querem dar alguma educação a seus filhos, tem de ser, se podem , os seus proprios mestres, ou de os mandar para Goa ou Bombaim. Nos portos só ha escholas de primeiras lettras em Inhambane, Quilimane, e no lbo. A educação das crianças é mui defeituosa : desde que nascem vivem entre negros, e logo se lhes destinam quatro ou cinco moleques para o seu serviço, que continua men te as ro- deam, e lhes communicam seus máos hábitos, molés¬ tias , &c. Quando saem á rua vão ordinariamente cer¬ cadas de um bando dos seus moleques, e indo para a eschola cada um lhe leva um dos pequenos objectos do seu uso. N’isto as famílias fazem consistir sua vai¬ dade e luxo, bem como no numero dos escravos que
  • empregam no serviço domestico, sendo em algumas de 30 e mais. Os homens em geral vivem ociosos, e as mulheres não se entregam no interior das famílias ás occupações ordinárias do seu sexo; quando muito as ensinam ás negras e negros, empregando uma pessoa em cada mis¬ ter: occupam se porém commummente em fazer ca¬ nudos, enrolando o tabaco de fumo na folha de ba¬ naneira, fazendo cigarros ou cigarrilhas d’uma forma particular imitando o embrulhado do cigarro hespa- nhol, o que também fazem executar pelos escravos, e mandam vendei-os ao hasar, fazendo n’isto e n’ou- tros ramos um pequeno commercio. São as mulheres lambem as que geral mente negociam com os negros do sertão, para si ou para os homens, porque são as que entendem melhor a língua macuci pelo maior con¬ tacto em que vivem com os escravos. Nas mesas ha bastante profusão. Os perus lambem são aqui, como em Macao, objecto de grande luxo, o custam muito caros. Q uso dos grandes jantares e cèas, e do jogo forte que ainda ha poucos an nos tanto predominava em Moçambique, está quasi acabado pela decadência das fortunas. Sj/stema monetário. jEra muito defeituoso o systema monetário em Mo¬ çambique. As moedas provinciaes em circulação eram as seguintes : Barrinhas de ouro, com o peso de meticaes (4 oitavas portuguezas), que corriam por 66j cruza¬ dos, ou £6:500 rs. Meias barrinhas, hoje raras, com metade do peso e valor indicado. Apesar das barrinhas terem o mesmo peso que as nossas peças de 8:000 rs., estas corriam por 85 cruzados, ou 34:000 rs., @ va¬ rias vezes valem mais: isto provém da differença do toque ou quilate do ouro, que nas barrinhas é de pou¬ co mais de 14 quilates, e por isso o seu valor em re¬ lação ás peças não excede a 5:090 rs. de Lisboa, do
  • que se deduz, pela respectiva proporção, que na e»- pecie ouro, 520 rs. de Moçambique equivalem a 100 rs, de Lisboa. Barras de prata, a que chamam palacas, que de¬ vendo pesar uma onça, só tem de peso 7~ oitavas e 2 grãos, e correm por 6 cruzados, ou 2:400 rs. Pelo recente ensaio feito na casa da moeda em Lisboa, co¬ nheceu-se, que uma barra ou pataca trazida de Mo¬ çambique só continha 3 oitavas e 42 grãos de prata pura, ou de 12 dinheiros, sendo o toque da barra en¬ saiada 5f dinheiros: da comparação com a moeda de prata portugueza, do toque legal de 11 dinheiros, re¬ sulta que a pataca de Moçambique só vai 469 rs. de Lisboa, e por consequência, na especie prata, 512 rs. de Moçambique equivalem a 100 rs. de Portugal. Cumpre observar que se differentes barras de pra¬ ta forem submettidas ao ensaio, hão de dar muito dif¬ ferentes resultados, porque nunca foram fabricadas com metal homogeneo. Nem as patacas, nem as harrinhas são cunhadas, sendo umas simples linguetas de metal, que nas bar- rinhas ou ouro tem por base um parallelogramo re- ctangulo, e nas barras ou prata um octogono irregular. As moedas de cobre são de 80, 40, e 20 rs.; cu¬ nhadas em Lisboa, d’onde para lá se remetteram na importância de 4 contos de réis; mas por deliberação da junta da fazenda de Moçambique, fizeram-se cor¬ rer pelo duplo do valor indicado no cunho. Pia tam¬ bém moedas de 10 rs., de um metal que similha a chumbo; mas em pouca quantidade, e de cunho mui¬ to antigo. A moeda de cobre é a mais fraca da provinda: 280 rs. são quasi iguaes em peso a uma moeda de 20 rs. de Lisboa, do que se deduz que na especie co¬ bre 1:400 rs. de Moçambique equivalem a 100 js. de Portugal, e que os 8 contos únicos em circulação re¬ presentam 571:428 rs. de cobre em Lisboa. À junta da fazenda tinha ha pouco obrigado a apresentar na thesouraria geral todas as patacas e bar-
  • m tfctha*, pata serem carimbadas , e se conhecer a quan¬ tidade que andava em circulação, sobre o que nada constava nas repartições publicas: achou-se subir ao valor aproximado de 80 contos, dois terços em ouio , e um terço em prata > também por aproximação. De modo que o lotai da moeda legal circulante na pro¬ víncia 5 nas 3 especies (ouro> prata, e cobre) póde-se calcular em 90 contos. Também se pode dizer que tem curso legal as pe¬ ças portuguezas, e onças e patacas hespanholas da Eu- ropa e da America; porque são recebidas nas estações publicas por valores fixos. No mercado circula toda a especie de moeda estrangeira, mas em pequena quan¬ tidade. . IJltimamente tinham apparecido barnnhas falsas, de prata ou de cobre dourado, que se altribuiam a utn ourives da cidade $ e maravilha como os estrangei¬ ros não tem alli introduzido moeda falsa, principal- mente na especie cobre. „ E* de notar que a circulação da moeda verdadei¬ ramente provincial e limitada a cidade de Moçam¬ bique, e em pequeno ponto á ilha do Ibo. Em Lou- renço Marques, Inhambane, Sofalla, Quilimane, Senna e Tétte, será difficil achar barrinhas e patacas: todas as transacçoes são feitas a marfim , ouro em po, e nas moedas estrangeiras. Isto provém , além da ma qualidade do dinheiro provincial, de que os em¬ pregados do Estado nos portos não recebem os seus vencimentos n’aquelle dinheiro, e so nos pannos ou fazendas de lei. Este systema é máo, porque dá logar a muitos dolos e abusos, obrigando os empregados a ser negociantes. Pela portaria do ministério da ma¬ rinha de d’agosto de 1838 já se ordenou que to¬ dos os pagamentos nos portos, feitos pelo governo, fos¬ sem em moeda; mas até agora não teve execução. Não obstante porém a circulação da moeda pro¬ vincial estar quasi toda limitada á cidade de Moçam¬ bique, todavia ainda não chega para as necessidades do commercio. Tem succedido nos mezes de abril a 8 *
  • 116 junho, que é quando se realisam quasi todos os des¬ pachos na aifandega, n’um só mez montarem os di¬ reitos a 90 contos, isto é, absorverem todo o meio cir¬ culante: de modo que tem sido necessário conceder aos negociantes pagar em prestações de 1,2, e 3 me¬ ses. D’esta escassez também resulta o enorme juro que pagam os negociantes, mesmo os mais acreditados, para obterem capitaes, chegando a 2 por cento ao mez. De tudo que fica dito se deduz claramente a ne¬ cessidade que havia de uma grande reforma no svste- ma monetário de Moçambique, o que todas as pes- soas alli desejavam. Essa reforma já teve logar pelo decreto de 29 de dezembro de 1852, que mandou re¬ tirar da circulação toda a moeda provincial, e substi- tuii-a pelas moedas correntes em Portugal, com o mesmo^ valor que tem no reino; effectuando-se a troca na razão de 100 réis fortes por 410 réis fracos, ein to¬ das as especie» de ouro, prata, e cobre. *
  • 117 Partida d© Moçambique« navegação pelo ca¬ nal d*e»te nome, noticias «obre Angoxe, tluilimane» Senna* Tétte* e Soíalla» Ao romper do dia 1de abril, tratei logo de ir para bordo. A’s 6 horas lançava da corveta as ultimas vistas de despedida sobre Moçambique. Por pouco que se resida em qualquer parte, ha sempre na partida um sentimeuto de tristeza e de saudade, pelas novas relações formadas, e pelas localidades que nos agra¬ daram , e mormente quando a isto se associa a idéa de mais não voltar ao logar que se deixa: ao menos eu assim o experimentei, e muito mais pela lembrança de ter passado dez dias completos em Moçambique , gozando de commodidades e satisfação, na companhia e amigavel hospedagem do governador Joaquim Pinto de Magalhães, que sendo meu simples conhecido de Lisboa, bem como o juiz Bernardo José d’Abran- ches, me trataram ambos e obsequiaram como ami¬ gos, de que sempre conservarei e aqui lhes dedica gruta lembrança. No meio da agitação que sempre ha a bordo no momento da saída, augrnentada pelas varias pessoas que de terra vieram ao botafora, nos fizemos de vela pelas 7 horas, dirigindo a manobra, como pratico, o patrão mór mouro Nizamodim Lambate; e com fraco vento sudoeste dobrámos a fortaleza de S. Sebastião, e fomos ao longo da ilha de Goa, deixando a de Sen¬ na para oeste. Pairámos um pouco a ver se appare-
  • í 18 cia um carpinteiro e um grumete que faltavam, e que ficaram fugidos, como em Goa também ficou ou¬ tro grumete, e tres em Singapura. Passou-se revista a bordo, e acharam-se escondidos cinco moleques, que queriam seguir viagem na corveta, e foram mandados para terra. Pelas 8 horas retirou-se o pratico, e deitámos para o largo, caminhando para o terrível Adamastor, cu¬ jas iras íamos arrostar. O vento era muito escasso, tivemos algumas horas de completa calmaria, e só pela tarde perdemos de vista Moçambique, tendo passado a bahia de Mocamba, avistando-se as ilhas Mogka¬ les que bordam a costa do continente. A & o vento sudoeste soprou rijo de noite, e hou¬ ve bastante balanço, que continuou de dia fazendo enjoar algumas pessoas. Pelas 8 da manhã avistou-se terra, e ao meio dia achavamos-nos defronte do rio Antoni, tendo avançado só pela força da corrente para o sul. Ao fim da tarde virámos de bordo quasi sobre a ilha Mafamede. A 3 continuamos com o mesmo vento, porém com menos balanço: ás 9 da manhã viu-se terra, e ao meio dia estavamos em frente da Mafamede, no mesmo ponto que na tarde precedente, e ao anoitecer ainda a avistavamos pela popa. Apenas corremos |° para o sul em &4 horas. A 4 continuámos com o mesmo vento do sudoeste brando, havendo comtudo algum balanço. Ao meio dia estavamos em frente do banco de Morna, com a pequena singradura de |°, tendo passado a ponta e ilha da Caldeira. Ignorava até então que havia no inundo uma ilha designada com o meu appellido: jaz quasi na latitude de 16° 40', na altura da ilha de João da Nova, sobre a costa fronteira de Madagascar, des¬ coberta pelo portuguez do mesmo nome. Era domingo de Ramos, e começava a mysteriosa semana da Redempçao. Mil recordações da patria se me avivaram ligadas a estes solemnes dias», que iamos passar no meio da solidão dos máre3, entregues ao ca-
  • 119 pricho dos elementos , tão variaveis e temerosos n’es- tas paragens, e á vista d’estas selvagens costas, em vez de os passarmos sob a abobada sagrada dos templos , ouvindo os cânticos sublimes que a igreja entôa e di¬ rige ao Redemptor. Em logar d’estas scenas tão tocantes, e tão suave¬ mente tristes, dizia commigo : Olharemos para a vasti¬ dão dos mares encapellados, ouviremos o rugido dos ventos, o bramir das ondas, e talvez a grande voz da,s tempestades, formando tudo sublimes quadros e har¬ monias, com que a natureza revela e exalta sobre a face das aguas o immenso poder de Deos! O mar na verdade é uma das maiores maravilhas da Creação. Nada ha mais proprio a exaltar a imagi¬ nação do homem , a arrebalar-lhe o espirito para as regiões do infinito, e para a contemplação da immen- sidade e belleza do universo, do que os grandiosos es- pectaculos que elle nos apresenta 1 Por ser dia dos annos da rainha de Portugal teve a guarnição melhor jantar e ração de vinho, tendo-se matado o primeiro boi dos que se embarcaram em Mo¬ çambique, onde são muito bons, com mamilhoou cor¬ cova sobre o pescoço como na Asia i também sao ex¬ cedentes os carneiros, chamados de cinco quartos, pela grande grossura que tem a parte superior da cauda. A’s 4 da tarde via-se a terra de Quizungo, e o monte Cockburn : ao longo d’esta costa estendem-se as ilhas chamadas d’Angoxe, nas quaes se compiehen- de a de Mafamede, Caldeira , e outras : em frente da de Mafamede fica a povoação de Angoxe, que é com¬ posta em parte de mojôjos, raça oriunda das ilhas de Comoro, que d’alli negociam para Zanzibar, contra as leis e interesses da província, fazendo contrabando por toda a costa nos seus pángaios. Ha cousa de 4 an- iios foi de Moçambique uma expedição mandada pelo governador Valle, para destruir aquella povoação, porém nada se fez pelas difticuldades que o terreno of- ferecia, e lá ficou prisioneiro o guarda-marinha Gue¬ des e outro indivíduo, que haviam desembarcado co-
  • 120 mo pnriamentarios, Tentou-se segunda expedição cora a coadjuraçao d'uma fragata ingleza; mas também nada se conseguiu, por effeito de má combinação das horais do desembarque, e até hoje os mojôjos alli se conservam , e continuam a commerciar para o interior. Muito conviria empregar no cruzeiro pequenas em» barcações de guerra, e aprisionar os pangaios que fa¬ zem o commercio n’aquelle ponto, que já muito nos prejudica, e mais nos póde ameaçar no futuro, tam¬ bém pela propaganda de mahometismo que alli se pratica. Ao fim da tarde virámos no bordo do mar, pró¬ ximos a uma ilhota, e ainda bem á vista da ilha da Caldeira, que é toda coberta de denso e alto arvore¬ do, e tem uma povoação de arabes negros. Tivemos a õ tempo exeejlente, e de perfeita bo¬ nança, o que é raro n’estas paragens, porém com o vento sempre contrario do sudoeste. Ao meio dia es¬ távamos defronte da ilha lpedrom, tendo-nos levada u corrente para oeste, e tínhamos em quatro dias ape¬ nas ganho 2° para o sul. Viu-se na terra firme a pon- ta Aíacalonga , e ao fim da tarde deixávamos já ao norte o monte Coekburn , seguindo ao longo da terra de Quizungos. Na madrugada de 6 sobreveiu um grande agua¬ ceiro com forte vento do sul, que durou todo o dia, levantando vaga, e fazendo terrível balanço. O vento sul mais favoravel nos era; comtudo ao meio dia achamos-nos apenas a pouco mais de 17° , na altura do baixo de David, tendo passado a bahia de Silva. Não vimos terra, começando aqui a costa a correr para oeste, Quasi todo o dia estive deitado, por causa do incommodo jogar do navio, que era excessi¬ vo para o vento e mar que havia, attribuindo-se aa movimento especial das aguas. Toda a noite de 7 continuou o forte balanço, po¬ rém o dia appareceu bom , limpo de nuvens, e o mes¬ mo vento sul moderado. Íamos pela altura do rio de ^uilimane, onde a 15 milhas da embocadura temo§
  • a villa (Teste nome; e é este o governo subaltern© mais importante da provinda, abrangendo lodo o dis- tricto dos rios de Senna , com as villas dYste nome e de Té tie no interior. Cultiva-se aqui bastante trigo, arroz, milho, e vários legumes, que se exportam pa¬ ra outros pontos. NVstes sertões se faz ainda bastante commercio, mas a perda da feira da Manica, cujo lerritorio foi invadido pelos negros ha 30 ou 40 annosj lhe diminuiu muito a importância. Manica era um districto portuguez no reino do mes¬ mo nome, que o imperador do Monomotapa cedeu a el-rei D. Sebastião, onde tivemos urn importante pre¬ sidio e igreja, celebrando-se alli todos os annos uma feira, nos mezes de abril e maio, muito nomeada n’aquelles sertões, e na qual se resgatava muito ouro. Os district os auríferos dos sertões de Quil imane também estão invadidos pelos negros landins, que até põein em contribuição as nossas ouldora florescentes villas de Senna e Tétte, que situadas a 60 e 120 le- goas de Quilimane ao longo do Zambeze, nem sem¬ pre tem lido força para lhes resistirem ; e já estariam perdidas, se os mesmos negros não se interessassem na sua conservação, para se surtirem das fazendas que precisam. Senna é cabeça do districto denominado Rios de Senna , que abrange 3:600 a 4:000 legoas quadradas: foi importante povoação, e elevada a villa em 1763, tendo então no seu recinto 4 igrejas e muitas casas assobradadas. Tétte também é cabeça do districto dVs- te nome, ainda mais extenso que o de Senna, e foi villa muito populosa e rica, mas hoje está na maior decadência e pobreza. Em 1849 tentaram os habitantes de Tétte uma forte expedição a um logar do interior chamado Mu* zuzuros, onde ha abundancia de ouro e de pontas gran¬ des de marfim. Mas esta expedição parou no meio do caminho por impedimentos que lhe poz um régu¬ lo, e só em julho proximo se esperava em Moçambi¬ que noticia do seu resultado: se chegou a Muzuzuros,
  • 122 julga-se que poderá ter comprado marfim talvez pelo valor de um peso por arroba. O preço regular d'elle nos portos era então de 34 a 36 pesos, por ser muito procurado pelos americanos. N’estes districtos de Quilimane, Rios de Senna, e Tétte existem os grandes prazos da coroa que em numero de cem constituíam opulentissimas proprieda¬ des, de 30, 50, e mais Jegpas quadradas de extensão: o prazo denominado do Luabo, do nome do rio que o atravessa, era primitivamente maior que Portugal. Estes prazos formavam como uns morgados em bene¬ ficio dos possuidores, sendo de livre nomeação para andarem sempre nas filhas, com obrigação de casarem com portuguezes nascidos na Europa, melhorarem a» terras, e residirem nos seus prazos, sob pena de com- misso. Os encabeçamentos eram em tres vidas, com foro certo ao Estado, sendo excluídos os varões em quanto havia fêmeas. Em summa a legislação sobre este objecto era boa, e muito apropriada para desen¬ volver a cultura, e a riqueza d'estes fertilíssimos ter¬ ritórios; mas nunca foi bem executada. Os donos dos prazos geralmente não os habitam , e os passam de arrendamento, desfruclando em Por¬ tugal ou em Goa os seus rendimentos, e tanto elles como os arrendatarios commettem ordinariamente mil abusos e violências contra os colonos negros adscriptos aos mesmos prazos; de modo que actualmente estão reduzidos a quasi total despovoação e abandono de cultura, e expostos os colonos á impossibilidade de re¬ sistirem aos landins ou vátuas, nação de pretos aguer¬ ridos, que hoje dominam pelo terror em toda esta par¬ te d1 África, e que se tem senhoreado da maior parle d’estes vastos terrenos. Pelo decreto de 6 de novembro de 1838 prohibit*- se a renovação dos encabeçamentos, fazendo devolver para a coroa os prazos que forem vagando; e já alguns estão na administração da fazenda publica, o que tam¬ bém em nada tem contribuído para os melhorar, nem para evitar que de todo se vão perdendo.
  • 123 Nas proximidades da referida villa de Tétte ha mi¬ nas de carvão de pedra. Uma já era conhecida antes de 1841 , porém n’este anno mais tres se descobriram nos riachos denominados Muringoze, Inhavu, e Ma- caré, que correm nos prazos Matente e Revubué. As quatro minas, ainda cjue estão muito distantes entre si* parece que todas constituem uma só, nâo sendo mais que rebentões da mesma mina, a qual se julga ter de superfície 9 a 10 legoas quadradas. As conducções eni carros até á margem do Zambeze fronteira a Tétte, nao apresentam grandes difficuldades; mas é muito difficil e dispendiosa a navegação das 120 legoas pelo rio Zambeze até Quilimane. As amostras do carvão mineral que em 1841 se mandaram de Tétte a Qui¬ limane, importaiam por quintal 38:600 rs. fracos, ou 9:600 rs. fortes. O governador Joaquim Pereira Marinho fez logo n’aquelle tempo experimentar o carvão, a bordo de um vapor de guerra inglez, e achou-se ser de primeira qualidade, o que também se verificou em Bombaim n’uma experiencia em pequeno ponto. Para Lisboa igualmente foram mandadas amostras, que parece de¬ ram o mesmo satisfactorio resultado. Esta importante descoberta caiu depois quasi em esquecimento, sendo aliás de incalculáveis resultados para o engrandecimento de Moçambique. E’ sabido, que até agora não se tem descoberto na Asia carvão, de pedra de boa qualidade , ao mesmo tempo que os inglezes nos seus vapores fazem um enorme consumo d’este combustível, que é conduzido da Europa. O governo de Bombaim offered» pagar o carvão de Tét¬ te á razão de 24 rupias, ou 9:600 rs. a tonelada. Em 1852 publicou-se em Inglaterra que os ingle- zes da colon ia do Cabo descobriram minas de carvão na costa do Natal. O medico e naturalista prussianno Wiliam Peters também verificou a existência d’estas minas, mas pa¬ rece que considerava problemática a conveniência da sua exploração.
  • !» Em todo o caso as minas de Télte devem merecer a attenção do nosso governo, e muito especialmente a das auctoridades de Moçambique. As excessivas des¬ pesas da conducção na primeira remessa do mineral 9 não são motivo para desanimar de todo: devem pro¬ vavelmente diminuil-as muito a feitura de caminhos, os melhores methodos de carreto, e algumas obras hydraulicas no Zambeze. Por meio de um contracto com o governo da índia britannica, ou entregando a exploração das ditas mi¬ nas a alguma companhia nacional ou estrangeira, tal¬ vez se aproveitasse este manancial de riqueza , que mu¬ daria quasi de repente a face da província, fazendo- lhe desenvolver todos os seus outros elementos de pros¬ peridade, e tornaria Tétle urn grande centro de in¬ dustria e de civilisação no interior da Africa , por on¬ de o domínio portuguez se poderia estender illimita- damenle. O medico de que acima fallei, percorreu os sertões de Quilimane na viagem scientifica que fez em 1844 a 1846 na província de Moçambique. Colheu muitos produclos naturaes, que enviou para o museu de Berlim , e lambem mandou vários object os para a nossa Academia das sciencias: adquiriu muitos conhe¬ cimentos relativamente a este paiz, ainda tão pouco explorado pela sciencia, e consla-me (em 1853) que acaba de publicar em Berlim o primeiro volume (Testa sua viagem. Nós portugueses, que possuimos estes terrenos ha mais de tres séculos, pouco os conhecemos para o in¬ terior, e nem uma carta geográfica temos, mesmo dos districtos mais conhecidos da província. A 9 de abril passámos em frente das boccas do Zambeze, um dos maiores rios da Africa central. O rio de Luabo, ramo do Zambeze, também desemboca n’estas proximidades. Ao meio dia verificou-se termos feito uma singradura de 90 milhas, quasi em calma¬ ria: tal foi a força da corrente que nos levou para o sudoeste. No sabado 10 de abril pelas 9 dit manhã fez-se
  • 12§ menção de appareevr a Alleluia, tocando o sino e 6 tambor, e enforcando-se na verga grande o Judas que os marinheiros d’antemao tinham preparado. Aquella pobre gente, apesar dos rudes trabalhos e privações que soffriam , sem pagamento durante 13 mezes, sem gozarem de nenhuma das commodidades que fazem supportavel a vida do marinheiro, sustentados apenas com grosseiros e máos alimentos, não perdiam comtu- do nenhuma occasião de folgarem a seu modo, com tal interesse e satisfação, como se não vê n’outras clas¬ ses, quando se entregam a alguma distracção. A mais pequena circunstancia, como agarrarem um passaro, apanharem um peixe, os alvoroça e entretêm. Fomos deixando ao norte a bahia de Massanga- no, e o nosso estabelecimento de Sofalla, outr’ora tão importante, e hoje o porto mais insignificante da província. Dizem antiquários ser a antiga Ophir, aonde vinham as esquadras da Arabia buscar o ouro, marfim , e pérolas em prodigiosa abundancia, e que d’alli partira a rainha Sabá a visitar Salomão. Pedro de Anhaya em 1505 fez tributário e vas- sallo de Portugal ao rei de Sofalla, e no mesmo an¬ uo alli fabricou uma celebre torre, hoje quasi derro¬ cada, toda de boa cantaria ida de Portugal já lavra¬ da , e que se denominava a torre da Homenagem , ser¬ vindo de fortaleza á cidade. Sofalla foi a primeira ca¬ pital da província, muito rica, e famosa por grandes acções da flor dos portuguezes, que d’alli passavam para a índia. Por 169G descobriram os portuguezes o aljôfar, e as pérolas nos máres de Sofalla, a 30 legoas da barra de Luabo, e ainda hoje, apesar do miserável estado d’esta villa, exporta annualmente para Moçambique umas 800 arrobas de marfim , a troco de pannos. O terreno d’este districto é geralmente fértil, mas sujeito á praga dos gafanhotos: dizem que o tabaco, tanto o cultivado como o silvestre, é de optima qualidade e muito abundante 5 o algodão também é silvestre e muito bom.
  • m Governava então Sofalla um indivíduo de quem se faziam amargas queixas, e que já n’outro governo subalterno foi preso pelos seus governados, e enviado para Moçambique, onde se justificou perante um con¬ selho de guerra, como tudo se justifica n’estas terras da Africa. £’ sabido que, sejam quaes forem as mal¬ versações e atrocidades que uma auctoridade prati¬ que, se, o que raras vezes acontece, o governador geral faz tomar d’isso informação judicial, sempre o accusado apparece innocente e puro. Nos casos de con- tiivencia na escravatura é isso já cousa assentada e re¬ petida : o delegado recebe ordem para querelar, abre- se o summario, inquirem-se as testemunhas da lei, e todas declaram nada saber de factos ás vezes patentes e indubitáveis. O juiz declara improcedente a accusa- ção, e ficam officialmente desmentidos factos ás vezes os mais verídicos e criminosos. O terror n’uns casos, e o interesse n’outros, preparam sempre estes resul¬ tados. Asseguram que ha muitos annos não consta que um governador geral désse parte para o governo de Portugal, ou má informação de uui governador sub¬ alterno ; pois não tem faltado motivos para recaírem justos e severos castigos sobre a maior parte dos que tem modernamente exercido governos nas nossas pos¬ sessões africanas. O habito da desmoralisação publica , e a falta de confiança que o povo tem na força e execução das leis, resultados de longas e tristes experiences, hão de talvez bastante difficultar os bons effeitos da mo¬ derna lei das sindicâncias. Só uma boa e rigorosa es¬ colha de auctoridades para o Ultramar poderão me¬ lhorar o espirito publico, e habilrtal-o a tirar proveito das boas leis.
  • ÍÍ7 Xotftcin tie lnlmmbane, e ifléa geral «lo» cose tamei tios negro» cia Africa oriental» No domingo de Paschoa, era 11 de abril, avis¬ támos o cabo Bazaruto: o tempo esteve excellente, e começou a refrescar a atmosfera, tornando-se mais agradavel e vivificante. JV1 atou-se um boi para a guar¬ nição , e tivemos um lauto jantar: nada porém substi¬ tute o agasalho e prazer que n’este dia cada um de ordinário goza no seu lar domestico. Continuámos com o mesmo tempo, e fomos cor¬ rendo para o sul, sempre ao longo da costa, e vendo a terra, despejando os bordos muito perto (Telia. Pas¬ sámos os cabos S. Sebastiao e de Lady Grey, e ao meio dia de 13 estávamos em frente do cabo das Cor¬ rentes, pouco abaixo de Jnhambane. Inhambane, situada a 18 milhas da foz do rio do mesmo nome, era já povoaçao quando os portuguezes pela primeira vez surgiram n’esta costa em 1497. A villa actual começou por uma feitoria, como os de¬ mais estabelecimentos nossos no canal de Moçambi¬ que. Em 1834 soffreu um grande desastre, perdendo alguns 300 dos seus moradores, fora os escravos, n’uma mal dirigida expedição contra os vatuas. Sobre este districto de Inhambane publicou em Goa o escrivão da armada, Duarte Manuel da Fonseca, um curioso mappa estatístico com referencia a janeiro de 1850, do qual extrahirei algumas noticias, especialmente so-
  • 128 bre os costumes dos negros do mesmo districlo, qué com poucas differenças são os que geralmente se obser¬ vam nas populações d’esta parte da Africa oriental* Em 1850 tinha a villa 3:865 habitantes, sendo li¬ vres 679, christãos 418, musulmanos 3^0, e o resto sem religião conhecida $ eram 16 os habitantes curo» peus e 7 os asiáticos, e havia uns 110 régulos tribu¬ tários nos territórios vizinhos. No districto de Jnhambane cultiva-se arroz grosso e fino de muito boa qualidade, milho, trigo &c. En¬ tre as muitas plantas são conhecidas a salsa-pafrilha e o anil. Ha magnificas madeiras de construcção. Ex¬ porta principalmente marfim, alguns dentes de cavai Ic# marinho, e cera. O marfim tem regulado de 1:500 a &:000 arrobas por anno. b N’esta villa não ha grandes fortunas: os filhos dó paiz pouco ou nenhum dinheiro possuem , porém to¬ dos tem o seu choambo (terreno com palmeiras e hor¬ ta ) e alguns negros, e os que passam por mais abas¬ tados, tem uma lancha e algum gado; corn isto \i- vem felizes, pois nada mais ambicionam; fazem pou¬ co negocio, porque a maior parte d’este é feito pelos baneanes, europeus , mouros, e asiaticos. Os filhos do paiz em geral são pouco dados ao trabalho, e ainda que tem certo respeito aos europeus, comtudo não deixam de nutrir grande odio tanto a estes, como aos asiaticos. Alli ha mais gente casada do que em outros por¬ tos da província. Os casamentos entre os nativos são como quasi todos na Africa, isto é, a vontade dos parentes da noiva; porém estes nada decidem sem pri¬ meiro mandarem deitar o cochecuche (adivinhação), e não se faz o casamento se não é approvado pelo mé- zinheiro, especie de medico e adivinho ; mas a deci¬ são quasi sempre é favoravel, e depois d’ella se dá o sim, e se trata dos ajustes. Quando a noiva vai para a igreja, é acompanhada pela madrinha, levando apoz si e aos lados immenso numero de negros e negras, fazendo grande vozeria; os escravos dos novos cônjuge»
  • 129 leram enxadas, pedras, capoeiras vazias, chicotes, e mais cousas apropriadas ao serviço domestico, e em quanto dura a ceremonia na igreja os escravos cantam , choram , saltam , dizendo : A nossa ama ou amo só noí dá este ou aquelle trabalho , a senhora foi buscar quem nos dè pancadas &c.; e todos os objectos que trazem os negros são emblemas apropriados a estas cousas : acabado o ceremonial do casamento, acompanham os noivos a casa ainda com muito maior algazarra, che¬ gando-lhes , quasi á cara, com os ramos e outros obje^ ctos que trazem. Em casa ha sempre lauto jantar, e á noite cêa e grande batuque. Depois de estabelecidos os portuguezes em Inham- bane , entearam em relação e commercio com os régu¬ los vizinhos, alguns dos quaes, ou para fazerem valer os seus direitos de suecessão, ou por desavenças que tinham entre si, pediam auxilio á feitoria, e para que lh’o dessem offereciam as suas terras para os morado¬ res poderem ir cortar madeiras, negociar , e fazer plan¬ tações sem que os régulos exigissem pagamento algum , senão por venda do terreno que cada um queria, qual era, e ainda hoje é, comprado ao régulo por um ~ capotim (duas braças de zuarte), não cedendo eiles por preço algum os logares onde estão enterrados os seus maiores. Com esta doação ficava a feitoria obrigada a soccorrel-os nas suas guerras, e elíes igualmente á feitoria, a cujos governadores se costumaram a obede¬ cer , recorrendo a estes para a decisão de suas questões sobre direitos de suecessão e outros. D’esta especie de vassallagem derivou a ceremonia ou homenagem chamada bunja, que era pratica fa- jeer-se annualmente logo depois da colheita ; porém hoje só se faz quando toma posse novo governador, para o que este manda o lingua do Estado avisar os régulos e cabos (chefes de povoações) para estarem promptos a vir para a villa, quando ouçam um tiro- em duas noites successivas. Para fazer este aviso Ie» va o dito lingua uma faca, um cartuxo de pimerr ta, duas garrafas com aguardente, e um ardian (2* 9 í-soV
  • m feraças de zuarte), para entregar a cuda um do» régu- 1$*, e utn capotim e uma garrafa com aguardente n çada um dos cabos: isto feito, é chamado o comman- dante da companhia dos mouros de Inhambane, e se lhe entrega uma porção de mantimento, que elle dislribue ás mouras para fazerem pornbe (bebida feita de milho fermentado), e logo que dão parte do dia em que ha de estar prompto faz-se o primeiro tiro, e na noite seguinte outro. Logo que os régulos mais pró¬ ximos ouvem o primeiro, fazem signal de tambor para os outros, e põem-se em marcha para a villa, acompa¬ nhados de seus secretários e mulheres, e se dirigem ao lingua do Estado, o qual, assim que tem chegado to¬ dos , o participa ao governador: este determina o dia em que ha de ter legar a banja , que regularmente é o segundo depois da participação, e fornecem-se ao lingua do Estado dois bois, dois barris com aguarden¬ te, oito panjas de arroz limpo, e oito arrateis de aça¬ frão: metade d’isto, menos a aguardente, é cozinha¬ do em cada dia em um grande caldeirão, sem maia tempero algum. No dia designado para a banja reunem-se o go«> vernador, aucloridades e mais pessoas dentro de uma barraca preparada para esse fim no largo fora da pra¬ ça ou fortaleza, formando em parada a companhia de tropa de linha, e a dos mouros. Os régulos vem for¬ mados a um de fundo, trazendo á sua frente o lín¬ gua do Estado, e dentro da barraca formam um cir¬ culo sentados sobre as pernas das mulheres: por or¬ dem do governador o escrivão da feitoria faz leitura cl,e umas instrucções regias expedidas no reinado de D. •Maria 1 , nas quaes se reeomrnenda aos régulos não çommerciarem , nem consentirem em suas praias os wafutres ( estrangeiros); depois o lingua do Estado pergunta a cada um d’elles as novidades occorridas no seu território, e tendo respondido se distribue a cada ura uma cabaia, um barrete, uma touca (a cabaia é de panno ordinário ou baeta encarnada, e a touca á uma espccie de cinta pintada), um meio parçno e uma
  • eaneca. Com isto termina o primeiro dia da banja, e os régulos sáem todos montados nos seus primei¬ ros secretários, e os outros secretários vão receber o jantar. Se é fallecido o régulo de alguma terra, compa¬ recem os pertendentes á coroa, logo depois da divisão das cabaias, e expondo o direito que lhes assiste, e fumado (coroado) aquelle ou aquella que a maioria dos régulos diz que lhe pertence. A coroação faz-se vestindo-lhe o lingua do Estado a cabaia e pondo-lhe o barrete; n’esta occasiao ha um tiro de peça, e gran¬ de algazarra dos circunstantes negros. No segundo dia são os régulos introduzidos na bar- raca com a mesma formalidade; depois de tomarem os seus logares da vespera , principiam por sua ordem a relatar os seus milandos ou questões, que são alli tnesmo decididas pelo governador. Distribue-se jantar aos régulos como na vespera, e se retiram da mesma maneira montados nos seus secretários. Os régulos na occasiao de exporem as novidades das terras offerecem os seus presentes, que são entre¬ gues ao feitor, sendo-lhes carregados em receita : 3 ou 4 dias depois da banja, vão todos os régulos e cabos despedisse do governador, e n’este acto recebem um ardian e um frasco com aguardente, e os cabos um capotim e uma garrafa com aguardente, tudo á custa da fazenda* Chamam bitongas aos cafres da villa e terras quo boje se dizem da nação. Os seus costumes são os se¬ guintes : Casamentos. Èram antigamente feitos por meio de gado, isto é* dando o pertendente uma ou duas vaccas ao pai da noiva, conforme o contrato; porém hoje como a guer¬ ra com os vátuas tem acabado com quasi todo o ga¬ do , substituem aquella dadiva, ou dote, com enxa¬ das ou fato de lei. A quantidade é variavel, e o mᬠximo entre todas as classes é de sessenta quitimbús:
  • 132 cada quitimbú é uma enxada, ou uma braça de fa* zenda. < Não ha distincção alguma entre os bitongas, e o légulo póde casar com qualquer mulher de suas terras; não sendo isempto de pagar a quantia que o pai da mulher lhe pedir ; e vice-versa o subdilo póde casar com a filha do seu régulo. Feito o casamento, a fa¬ mília da mulher emprega logo a quantia recebida pa¬ ra casamento do filho primogénito, pois que os pais são obrigados a dar as primeiras mulheres aos filhos. Depois da ceremonia do casamento, antes da con- summação, a mulher dá ao marido um bocado de mucate (especie de broa feita de milho ou mixoeira) e o marido faz o mesmo á mulher , e ambos comem; a isto chamam elles namboa, e dizem que não fazen¬ do esta ceremonia a mulher não pode conceber . de¬ pois de consummado o matrimonio a mulher dá ao ho¬ mem um púcaro de barro com agua e uma chereta ( metade da casca interior do coco) vasia, e faz com que o homem tome um bochecho e o deite , na dita chereta, fazendo ella depois o mesmo: esta^agua é levada pela mulher no dia seguinte pela manhã a casa dos seus parentes, os quaes, ajuntando-se todos, lhe mandam deitar a dita agua no chão, passando depois por cima da mesma, sendo isto grande satisfação en¬ tre elles ; e dizem que a filha e honrada e lhes deu aaude. Isto mesmo praticam muitas vezes os portugue¬ ses nativos, e mesmo os de fora. Não se fazendo esta ceremonia , e acontecendo, por acaso , fallecer alguma pessoa da familia da mulher, o attribuem a esta falta. Quando qualquer bitonga casada não quizer viver com seu marido, os pais d’ella são obrigados a entre¬ gar a esse marido tudo quanto tiverem recebido, ou então outra filha; porém se tiverem havido filhos , e o marido quizer ficar com elles, so recebe metade do que tiver dado. Se a bitonga no fim de seis mezes não conceber, o marido a vai irnmediatamente entregar aos pais, os quaes são obrigados a dar-lhe outra filha, outra qualquer parenta mais chegada, da mulher;
  • 133 e se não houver nenhuma, lhe restituem a quantia re¬ cebida para o casamento. Gravide% t nascimentos. Estando gravida a bitonga, é obrigada no primei¬ ro mez da concepção a dar parte aos seus pais, e estes fazendo um grande mucate e uma panella cheia ,de pombe, vão com isto participar aos do marido que a filha se acha gravida ; os pais do marido, depois de le- ceberem o presente, deitam no chão um pedaço de mucate e um copo de pombe, que significa darem parte aos defuntos, depois do que comem e bebem a ponto de ficarem embriagados. Nascida a criança, e tendo completado 8 dias sai fóra do quarto dentro de um sapo (especie de bandeja circular feita de palha tecida, com pequena borda de madeira, na qual se limpam os cereaes) fazendo-lhe toda a qualidade de barbaridade, saltando por cima a mãi, pai, avós e todos os parentes mais chegados, e a deixam depois nas mãos da parteira a qual cha¬ mam mncingatigadi. Todo aquelte que quizer ver a criança é obrigado a dar um tanto em missanga. Em quanto a mãi dá de mamar a seu filho é prohibida de comer todas as frutas, á excepçâo do caju. vidullerio e divorcio. N’outro tempo todo o que fosse encontrado em flagrante pelo marido, expiava a sua culpa na ponta de uma flexa; isto é se o tiro acertava , porque se acontecia errar, não tinha logar mais queixa alguma , nem mesmo reserva , odiò ou vingança; porém ha al¬ gum tempo para cá tem sido prohibido aos maridos procederem assim ; e presentemente acontecendo haver algum adultério, o marido espera a occasião de o pre¬ senciar para melhor provar a sua accusação; e quan¬ do isto não consiga, se dirige ao mesmo adultero, e @x pondo-lhe o acontecido acaba por lhe pedir o seu
  • 134 pagamento, para ú que leva comsigo a mulher para ter Li ficar o caso: o aceusado nada tendo a oppor s6 pede espera para arranjar o pagamento, que é de 15 quitimbus. Nos casos de adultério succede também com muita frequência seguir-se o divorcio, passando a mulher a viver coin o adultero, pagando este ao marido a quan¬ tia ou fazenda que elie dera na occasiâo do casamen¬ to : os filhos de ordinário acompanham a mâi para casa do novo marido. „Enterros e success aa, Logo que fallece um bitonga é immediatamenle dobrado, e embrulhado em duas braças de dotim , de-* pois do que o amarram com uma grande corda redu¬ zindo-o a um pequeno volume, e depois o vão enter¬ rar, collocando-o sentado na cova: a mulher, e na falta d’esta o parente mais chegado, é a primeira que lhe deita um punhado de terra, e cm seguida um a um vao deitando a terra na cova até estar tapada, e depois vao chorar e rapar a cabeça, Durante os ft dias de nojo, a que chamam matanga , dão sempre grande cêa; e passados elles fazem pombe, convidan¬ do para beber a todos os assistentes. O mesmo se pra¬ tica na villa. Morrendo qualquer homem que tenha filhos, o primogénito toma conta das mulheres do pai, menos da que for mâi d’elle. Quando morre um irmão, o outro mais velho toma conta da cunhada , e se elfo não gosta d’elle, os pais da mesma são obrigados a entregar aos do foiled do todo o fato que tiverem re¬ cebido para o casamento. Fallecendo o régulo passa a corôa ao irmão imme^ diato, e assim successivamente; quando o não haja,, passa á irmã mais velha, a qual abdica no seu filho primogénito; na falta de irmãos ou irmãs do régulo fal- lecido succede-lhe o tio, e não havendo nenhum d’es¬ tes, então compete & coroa ao filho mais velho da pd- Sfieira mulher,
  • 133 Usarri os negros nas suas questões de umá especi® de prova ou juizo de Deus , tomando das mâíos do me- zinheiro tanto o aecusado como o queixoso o veneno a que chamam máíú, feito da casca da arvore deno¬ minada bangue. O que morre é reputado criminoso $ e além dos seus parentes o perderem levam ainda em cima muita pancadaria, e são obrigados a pagar a quantia convencionada no objecto da disputa. Oa vatutis. Como tenho por vezes faliado nos váluas, darei aqui noticia d’esta nação e do seu actual chefe, cha¬ mado Manieuce. O Manieuce era um secretario ou chefe do vátuá Dingáná (grande potentado estabelecido ao sul dt? Lourenço Marques), que se rebellou contra élle, fu¬ gindo-lhe com alguma gente : andou primeiro errante pelo sertão fazendo-se temer por todos os régulos, pois que levava a morte e o fogo a todas as povoações que lhe não queriam obedecer e pagar tributo. As suas or¬ dens eram, e ainda hoje são terminantes e executadaá á risca: se manda um dos seus chefes a qualquer guer¬ ra, e este lhe volta sem ler vencido, é irrimediata- mente morto; e por esta maneira se tem engrandeci¬ do e feito temer, nao só pelos régulos do sertão, mas lambem em todos os nossos estabelecimentos, onde se tem introduzido tal terror pânico, que só o nome de vá tuas ou manhamboses faz debandar a tropa , ficando os officiaes sacrificados: isto tem acontecido, e conti¬ nuará a acontecer em quanto não houver exemplo de rigoroso castigo, tendo já sido por mars de uma vez, nao só merecido, mas da maior necessidade. Entre as populações negras é tal o prestigio e terror dos vá tiras , que se acontece penetrar um só d’estes n1uma povoa-’ ção sem ser present ido, ou ter dado tempo a fugirem os habitantes, chega , bate a rodela , e aqu^lles lhe dão tudo quanto exige, até as próprias mulheres. Hoje acha-se Manieuce estabelecido na margem e&- /
  • 136 querda do rio Ouro, n’um logar que os cafres deno¬ minam Inhaca: a sua gente se divide em mangas, as quaes estão espalhadas por todo o sertão, desde Lou- renço Marques até ao districto de Tétte. Estas man¬ gas são commandadas pelos filhos do Manicuce, ou pelos seus secretários, sendo hoje raras as que trazem mais de dois ou tres váluas, pois quasi todas são com¬ postas de landins, que elles tem submettido. Este régulo é hoje o maior potentado dos sertões que nos pertencem, aos quaes elle chama seus, ten¬ do-os já dividido por seus filhos. E’ prompto em man¬ dar soccorrer e auxiliar para qualquer guerra os seus tributários. Não reconhece superiores no sertão senão a si mesmo e a nós portuguezes, a quem chama me- lungos, e usa de incerta política para comnosco, estan¬ do tão depressa amigo, como inimigo ou neutral. Só em 1834 intentou invadir a villa, e sempre mais ou me¬ nos nos hostiiisa, porque a sua gente auxilia clara-? mente os régulos nossos inimigos, rouba e mata os mercadores: tem comtudo acontecido irem alguns eommerciar á sua propria povoação, e se não encon¬ tram pelo caminho alguma manga voltam a salvo. A vestimenta de que usam os vátuas consiste em umas pelíes cortadas em tiras, e cosidas com syme- tria em um cordel que trazem á roda da cintura, sen¬ do as tiras estreitas e curtas; porém tanto as que fi¬ cam na frente como atraz são mais compridas; usam de plumas ou pennas na cabeça, sobre um circulo de cabellos que tem no alto da mesma, os quaes deixam crescer, e rapam todos os mais, pondo n’aquelles uma resina mui densa e lustrosa. Junto dos tornozelos e nos pulsos amarram uns busios brancos enfiados n^um cordel, o que é ornato para os dias de gala, ou para U guerra 2 para inculcarem maior luxo , lançam sobro o circulo que tem na cabeça a maior porção possível de um azeite a que chamam mafurra, e que com o sol se derrete e espalha por todo o corpo. As armas de que usam são tres zagaias, das quaea duas são meqores e lhes servem para arremessar ao ioi-
  • 137 migo, uma rodéla de couro de boi com que defendem e tapam o corpo, e também usam de maça ou pau curto com bola do mesmo em uma das extremidades. Sendo mandada em 1840 uma embaixada a este régulo pelo governador Campos , o official encarre¬ gado d’ella foi recebido do modo seguinte: logo que chegou á povoação foi introduzido no curral do gado, como sala do conselho, onde se achavam todos bs grandes; e pouco depois entrou o Manicuce, que tra¬ zia por distincção uma mancha de tinta encarnada e branca em um dos hombros, e dois fios de missanga preta á roda da cintura; tomou assento entre os ou¬ tros , e ordenou ao secretario que mandasse sentar o official no meio do curral, para lhe communicar o fim a que vinha. A conferencia foi feita por meio do se¬ cretario, e depois de concluída apresentaram uma pa- nella de pombe, que todos beberam em signal de ami¬ zade, e saíram do curral. No dia seguinte foi dada ao official uma ponta de marfim grosso e tres do meão em retribuição do presente que este lhe levou, e dan- do-lhe mais um cabrito e dois supos de mantimento 9 (ai despedida a embaixada*
  • 138 Noticia do estabelecimento
  • 139 força os austríacos, que alli se haviam estabelecido. Lá temos hoje governador e alguns poucos moradores, que quasi nada cultivam , e só se dão á troca do mar¬ fim e pontas de abada pelas fazendas que recebem do norte, e a algum commercio com os boers ou hollan- dezes: vão annualmente d este ponto umas 1:600 ar¬ robas de marfim para Moçambique. Este d is trie to entre todos os de Moçambique é on¬ de ha mais segurança no negocio do sertão, cujos ne¬ gros são socegados e fieis, consumindo ainda hoje as fazendas grossas de Diu e Damão. Para isto concorre a vizinhança dos boers, hollandezes emigrados da co¬ lonia do cabo da Boa Esperança, que se acham esta¬ belecidos no interior, a cinco jornadas ou dias de ca¬ minho de Lourenço Marques. A existência de uma avultada população branca no interior da Africa, com governo independente, merece noticia circunstanciada. E’ sabido que os hollandezes em 1650 lançaram, os primeiros fundamentos da colonia do Cabo, que depois se tornou muito importante e populosa: os in- glezes HPa tiraram em 1795, restituiram-na em 180& pelo tratado de Amiens, retomaram-rm em 1806, e finalmente pelos tratados de 1815 lhes foi cedida pelo* rei dos Paizes Baixos. Os hollandezes nativos conservaram para com os, seus dominadores o profundo odio que já existia pela antiga rivalidade das duas nações; mas este sentiment to mais se concentrou na parte da população estabele¬ cida no interior da colonia, que vivia como errante, e independente, tendo costumes pouco civilisados, e. occupando extensos terrenos para a criação dos seus gados, que constituem quasi a sua uniea industria e? riqueza. Esta gente, por sua conta e arbítrio, entre¬ tinha frequentes guerras com os cafres independentes , que habitavam nos limites ao norte da colonia, mas que o governo lhe prohibiu. Os boers ( assim chamavam e chamam a estes hol¬ landezes, o que no seu idioma quer dizer cultivado¬ res ) já desgostosos por aquelle e por outros, motivosy
  • 140 muito mais se indispozeram quando os inglezes em 1836 extinguiram a escravatura nas suas colonias, ape¬ sar das indemnisaçòes que lhes deram pelo valor dos escravos; e emigraram em numero de 30:000 almas, segundo se calcula, transportando-se nos seus carros e cavallos, e levando seus grandes rebanhos. Dividiram-se ao principio em tres porções, que se internaram no paiz, passando alguns para além do rio Orange, combatendo sempre com os cafres. Os ingle- zes os declararam rebeldes, mas não tiveram por con¬ veniente persegui!-os atravez de tão difficeis e pouco conhecidos territórios. Um dos magotes dos boers in¬ vadiu o estabelecimento ou feitoria do porto Natal, na costa d’este nome, dependencia do Cabo; erigi¬ ram alli fortificações, e repelliram a primeira expe¬ dição que os ingíezes lá mandaram contra elles, ma® n’uma segunda e mais forte foram obrigados parte dos boers a fixarem-se no paiz sob o domínio britannico 9 c o resto de novo se internou. Assim divagaram os boers durante alguns annos por aquelles sertões, tentando sempre obter um porto de mar, e propozeram ao governo de Portugal esta- belecerem-se em rios de Senna : mas umas vezes a ne¬ gligencia, outras as contemplações com a Inglaterra, ou as suas imperiosas exigências, fizeram com que nunca se tirasse proveito das propostas e vizinhança dos boers. Então principiaram a estabelecer relações para Lourenço Marques, e a communicar por alli com os seus compatriotas hollandezes da Europa , dos quaes alguns se lhes tem ido unir. Pouco antes da nossa chegada a Moçambique ti¬ nham ido no brigue mercante portuguez Vasco da Gama, e desembarcado em Lourenço Marques al¬ guns operários e caixeiros holiandezes , que foram para ps boers, os quaes desejavam estabelecer n’aquell* nossa feitoria uma casa de agencia commercial * dizen¬ do-se que até se prestavam a fazer á sua custa urna estrada entre Lourenço Marques e as suas povoações mais próximas.
  • Os boers vem já com frequência a Lourenço Mar¬ ques, e trocam a manteiga dos seus gados e os ricos productos do paiz pelos generos da Europa e da ín¬ dia que precisam. O portuguez Joâo Albasini acha- se casado e estabelecido entre elles, possuindo muitos bens. Alguns moradores de Lourenço Marques tem ido ás suas povoações, que dizem consistir em casaes ou famílias muito distantes umas das outras, possuin¬ do vastos terrenos, necessários para a criação dos seus gados, que continuam a fazer a sua principal riqueza. Elles possuem muita abundaneia de cavallos de boa raça. Andam sempre montados e armados, o que os faz muito temidos pelos negros} contribuindo, como já disse, para a segurança e obediência que estes ain¬ da nos guardam nos sertões de Lourenço Marques. Dizem ser muito salubre e fértil o paiz que habi¬ tam , o qual fica para além das montanhas, e quan¬ do tem tentado transpôl-as, aproximando-se do litto¬ ral, parece que logo elles e os seus gados definham e adoecem. São homens bem formados e robustos, mas tem perdido a cor natural da raça hollandeza, tor¬ nando-se baça ou morena. A sua linguagem differe muito do hollandez moderno, constituindo quasi uma nova lingua. Geralmente fallando são intolerantes e fanaticos calvinistas, possuídos de absurdas prevenções contra os catholicos. As duas feições mais salientes do seu caracter são a valentia e a obstinação. Os seus cos¬ tumes e forma de governo são democráticos, e regem- se por meio de municipalidades. Os inglezes , reconhecendo a impossibilidade de tra¬ zer os boers á sua obediência, começaram a negociar com elles fornecendo-lhes do Cabo os generos de que careciam , e por fim o governo d’Inglaterra lhes reco¬ nheceu a independencia em 185&. Este facto remove todas as difficuldades políticas alé aqui existentes para os portuguezes entabolarem francas relações com elles, e para se tirar todo o proveito d’ellas na província de Moçambique. Comtiuío cumpriria n’isto muita previ¬ são e cautela, tendo em vista o caracter altivo e in-
  • vaso!’ dos boers, e a sua grande forca em relação ao estado em que se acha aquella nossa província. Apontarei outro facto a proposito do que se tem passado com os boers, em relação á negligencia do nosso governo. Quando em 184-8 a França se erigiu em republi¬ ca , é sabido que foi abolida a escravatura em todas as suas colonias. Na ilha de Bourbon causou esta medi¬ da grande perturbação nas fortunas, principalmente nas que estavam ligadas a estabelecimentos agrícolas, a ponto que por um acordo entre as auctoridades e os habitantes se suspendeu a immediata execução das ter¬ minantes ordens do governo republicano. Foi n’esta occasiao que vários colonos de Bourbon pediram ao governador de Moçambique licença, e terrenos para se estabelecerem n’esta província, por aíli subsistir a escravatura. Consultou-se o governo de Portugal, que nunca respondeu sobre tal assumpto , segundo boas in¬ formações que obtive, não obstante serem obvias as vantagens que de tal concessão resultariam* Em conclusão do que tenho a referir sobre Lou- renço Marques, direi que desde 1833 não ha alli pa¬ dre nem igreja, lendo esta sido destruída n’aquelle tempo por uma invasão que fizeram os vátuas do sul* N’este ponto é que desde antiga data tem os gover¬ nadores e feitores praticado mais malversações e vio¬ lências, impedindo o aproveitamento das muitas ri¬ quezas naturaes que apresenta este districto, e da sua optima situação para o commercio do interior*
  • 143 feufria do canal de Moçambique» illia do Madagascar, navegação pelas cosias «lo Natal e «la Cafraria» e noticia da co- lonia do Cabo. A 15 de abril já íamos fora do canal de Moçam- bique ? que termina pelo sul entre a bahia de Lou- renço Marques e o cabo de Santa Maria, ou ponta meridional da grande ilha de Madagascar ou S. Lou- renço, que é a terceira na ordem de grandeza das ilhas conhecidas sobre a terra. Os persas e os arabes a conheceram desde tempos mui remotos com o nome de Sarandib. Ruy Pereira Coutinho em 1506, indo na armada de Tristâo da Cunha, a descobriu pela parte de dentro ou occidental, e poz o nome de For¬ mosa á primeira bahia em que entrou. Deu parte do descobrimento a Tristâo da Cunha, o qual foi reco¬ nhecer a terra, e tocando vários pontos da costa oc¬ cidental chegou ao cabo da ilha em dia de Natal, e lhe deu esse nome; mas prevaleceu o de S. Louren- ço, porque Coutinho avistara a ilha no dia d’este santo a 10 de agosto. No l.° de fevereiro do mesmo anno o capitão Fernão Soares, vindo da índia para e reino, descobriu terra da mesma ilha pelo lado oriental. Por mandado d’el-rei D. Manoel foi Diogo Lo¬ pes de Sequeira em 1508 reconhecer a ilha de Mada¬ gascar ; correu ao longo das suas costas, viu varias po¬ voações por onde já achou alguns poríuguezes, e por
  • lift o nome de S. Sebastião a uma grande bahia, que ainda hoje o conserva. No armo de 1613 e nos seguintes foram da índia algumas expedições á ilha de S. Lourenço, e em 17'2Í um dos reis que alli regiam mandou embaixadores a Portugal, offerecendo os portos do seu reino para n’el- les levantarmos fortalezas. Nunca porém tivemos esta¬ belecimento n’estu ilha, onde comtudo viviam muitos portuguezes, salvos dos naufraglos frequentemente oc- corridos n’aquellas costas. Madagascar tem perto de 300 legoas de compri¬ mento, e quasi 100 na maior largura, calculando-se em quatro milhões o numero dos seus habitantes. Es¬ tava dividida em muitos estados independentes, mas no presente século formou-se alli um grande reino que os absorveu quasi todos, sob o governB de Radama, que começou a policiar este paiz adoptando as artes e sciencias europeas, ásimilhança do que Mohammed- A li fez no Egyplo; mas com a sua morte f por envene¬ namento em 1828, recaiu quasi tudo no antigo esta¬ do. A principal cidade é Tananarive no interior da ilha , em cuja costa oriental os francezes tem alguns estabelecimentos de pouca importância. Apanhou-se ao anzol um grande tubarão, que já no convex e muito ferido dava rabanadas extraordi¬ nárias, desenvolvendo prodigiosa força e vitalidade. Morreu com muita paulada e chuçada, e foi uma grande festa para os marinheiros, que o retalharam e comeram. Como tínhamos saído do canal de Moçambique, recolheram-se e amarraram-se no tombadilho as duas canoas que iam nos turcos, para que o Adamastor as não tragasse com algum golpe de mar. Iamos-nos apro¬ ximando d’essa temerosa passagem, e nenhuma cau¬ tela convinha desprezar. Fomos correndo com vento desfavorável e muito balanço ao longo da terra dos Fumos, passando a ponta d’Ouro. A 16 sobre a tarde o vento soprou muito rijo do sudoeste, e ameaçava temporal: o mar
  • 145 era gratide e o balanço terrível, Tomaram-se varias precauções, arriaram-se vergas * metteram-se dentro os dois escaleres da popa * que se amarraram bem no tombadilho, e correram-se as porias dos alforges, com receio que o mar os levasse. Felizmente o tempo não augmentou quanto se presumia * porém fez-nos per¬ der caminho. A 19 com favorayel vento fresco do nordeste e les¬ te corremos mais de' 2o para o sul, passando o cabo e porto Natal 5 nome que tem toda a costa* e que lhe deu Vasco da Gama quando a avistou no dia 25 de dezembro de 1497. Todo o mar adjacente a esta costa até ao parcel das Agulhas é chamado pelos nossos navegantes o mar das patas. A costa do Natal é má para a navegação, e quasi sempre n’ella reinam ventanias e tempestades. Os naturaes sao cafres* que quer dizer não crentes. Os ingfezes tem aqui o novo estabelecimento de porto Natal, dependencia da colo- nia do Cabo, o qual vai lendo importância e bastante desenvolvimento de cultura: dizem ser excellente todo o clima d’esta costa* e muito fértil o paiz* O mar estava muito agitado * e o balanço era ter¬ rível, obrigando-nos a comer em pé e agarrados pelas amuradas, e quasi impedindo o dormir pela violência dos solavancos. A noite de 21 ameaçou grande temporal: fuzilava em todos os quadrantes, e o ceo estava carregadissimo. Felizmente veiu chuva, com o que abrandou a vaga* que dava tremendos açoites pela popa, e julguei quo n’esta noite levasse os alforges. O vento saltou ao no¬ roeste rijo* inteiramente contrario ao de que carecía¬ mos. Ao meio dia esta vamos por 34o* na altura da bahia Algoa e cabo do Recife. N’aquella bahia, ou Pori Elisabeth, tem os in- glezes a recente cidade d’este ultimo nome, a segun¬ da em importância da colonia do Cabo: começou a erigir-se em 1820, e contava em 1846 umas 450 casas e perto de 4:000 almas. Pela tarde deu. a vigia parte de um navio pela 10
  • proa, lambem bordejando como nós: passadas duas horas nos estava paralíelo e a barlavento, e foi descain¬ do, apesar de largar mais panno, ficando-nos ao anoi¬ tecer já pela popa. Era uma bonita galera, mais com¬ prida que a corveta , e julgou-se americana. Avistar-se uma embarcação é sempre interessante acontecimento no mar: todos correm á borda a vêi-a f e começam as conjecturas sobre ser mais ou menos ve¬ leira j ha sempre em todos o natural desejo de a ven¬ cer no andamento, como urn objecto d'amor prop rio, que n’este caso ficou satisfeito da nossa parte , e tanto mais quanto os da galera fizeram toda a diligencia, com manobra e panno, para não ficarem atraz, ao mesmo tempo que nós continuávamos com as mesma» "velas. Tendo corrido dois dias com vento forte pela popa , ao meio dia de S3 estavamos a pouco mais de 35° de lat., já ao sul de todos os cabos da extremidade me¬ ridional d’Africa , onde desde o cabo do Recife corre toda a costa para oeste ern differences sinuosidades, por espaço de 7o em longit., ou mais de 100 legoas , até ao cabo da Boa Esperança propriamente dito, d’onde começa a correr para o norte. O vencimento d’este 7o em longit. é o que se chama passar o cabo. A singradura foi excellente, de quasi 3o, achando*nos exactamente no meridiano e ao sul do porto Isabel. Não se tinha avistado terra, porém haviam appa- recido bastantes passares proprios d’esta paragem, co¬ mo mangalhões, brigadeiros, mangas de veludo, al¬ mas de mestre, &c. A viração d’agulha n’estes máres é bastante eleva¬ da; no cabo Guardafui é de 4o para oeste , vem suc- cessivamente augmentando pela costa abaixo, chega a 30° na costa do Natal, e começa a diminuir para o Cabo. # mi A temperatura refrescou muito desde a saiua ao canal de Moçambique pelos conservando-se agra¬ davelmente temperada, e esperávamos encontrar mais frio no Cabo rdésta estação, que era alii a do inverno.
  • A 24 viíam-se 4 navios em diversos pontos do ho» risonte, mas só um ficou á vista , e veiu seguindo o nosso rumo sempre pela popa, apesar de trazer sobres largos. O ponto ao meio dia deu-nos em ob 2 de lat., e quasi em <23° de longit., tendo feito o navio, ape- sar da calma e máo vento, quasi 3o de singradura a caminho * devida ria maior parte a corrente , que noa adiantou 107 milhas em M horas. Desde a ponta meridional da ilha de Madagascar as acuas correm para o sul e oeste torneando o Ca- bo,°e seguem depois para o norte ao longo da costa occidental d1 Africa t esta corrente constante é uma das mais notáveis do globoi , íamos então caminhando parallelamente á costa da Cafraria , que limita pelo sul o extenso terreno da co¬ lónia do cabo da Boa Esperança , paiz que atlrahe ho- ie bastarite atterição, porque considerado nas relações política , commercial j e militar, é de alta importân¬ cia para Inglaterra como meio de segurança para o seu vastíssimo commercio e domínio na Asia. E* para admirar que os nossos antigos portúguezes ínao reconhecessem a importância doesta posição, e que hunca tentassem fazer alli estabelecimentos , apesar da bondade do clima , e dos muitos portos e bahias que offerece este paiz. São dignos de attènção os grandes melhoramentos , e & prosperidade que tt’estes últimos annos se tem desenvolvido na colonia do Cabo. . , A capital denominada Cape Town , ou cidade do Cabo é notável pela regularidade das suas ruas, to¬ das parallelas e cortando-se em ângulos rectos, pelo geral supprimento de optima agua por meio de bombas hydraulicas, pelos seus bons edifícios e fortificações, e por muitos estabelecimentos públicos. Durante os 13 annos qué precederam a 1845, mais de 60 associações se estabeleceram, taes como bancos, companhias de pescas, de seguros, de navegação a vapor, de omni¬ bus e carros de carga, de illuminação a gaz; associa¬ ções religiosas, de lítteratura e sciencias, de expio-
  • 148 rações no interior cTAfrica, &c. Ha na eidade 9 ty¬ pographies, 7 jornaes, e 6 lojas de livros. Segundo o almanak do Cabo de 1846 , o mais mo¬ derno que pude consultar, a população da capital era então de M:bOO almas, e 173:000 a de toda a colo- nia, que tem de superfície 110:^56 milhas quadra¬ das, contendo n’esta grande extensão muita varieda¬ de de terrenos, desde as mais ricas planícies até aos tractos de terra em que não ha vegetação alguma. O clima dizem que o não ha talvez igual no mundo, e que restaura a saude aos doentes asialicos, e a quaes- quer outros que soffrem os effeitos dos climas orientaes. As frutas e todas as producções da Europa sao alli abundantes e excellentes. O vinho e as lãs são os mais importantes generos de exportação * e que sáem em jivultada quantidade, i t I
  • UI CAPiTDLO DECIMO TERCEIRO, IXaTegacilo «olire o parcel da» Agnllias# antigo poder marítimo do» portugueses» recordaçôe» de Bartliolomeu Dias» ® a bonança e tempestade no cabo da» Tormenírts. Fomos correndo em frente da bahia e cabo de S. Francisco, da bahia de Plettenberg, da ponta de Risma , e entrámos no grande parcel ou baixo das Agulhas. A d’abril viram-se cinco navios em differentes posições; tres só se divisavam das gaveas, e os outros dois que se avistavam da tolda a poucas milhas de dis¬ tancia , arvoraram um a bandeira franceza, e outro a hollandeza, ao que correspondeu a corveta içando também a bandeira nacional no penol da mezena. As lusas quinas ondeavam ao brando respirar do gigante Adamastor, que guarda estas paragens se¬ gundo a famosa ficção de Camões, e que raro vê hoje esse pavilhão outr’ora tão glorioso, quando os Dias, os Gamas, os João da Nova, os Magalhães e outros intrépidos navegadores portuguezes o fizeram fluctuar nos seus ovantes lenhos , abrindo as portas do Oriente, até alli vedado ao commercio e á eiviiisação europeu. Hoje esse estandarte, divisa de uma nação infeliz e degenerada, n^al tremula de envergonhado a par d’es¬ tas bandeiras ora orgulhosas, e que ainda ha tres sé¬ culos não eram vistas fora dos mares e costas da Eu-
  • ropa ? em quanto as quinas sacro-santas avassallavam a Africa, a Asia, e o Novo-Mundo, e devassavam to- dos os mares do globo ! Causa espanto a exteqsao do nosso poder mariti- mo n’esses séculos de grandeza. No reinado d’el-rej D. Manoel despacha ramose para a India §58 navios, incluindo as naos de carreira que já eram de 400 to¬ neladas. O mesmo rei juntou uma esquadra de 400 velas para passar á Africa , e d’ellas depois escolheu 30 dos melhores vasos, que com 3:500 soldados man* dou contra os turcos, que atacavam os domínios de Yeneza na Grécia., vendo-se esta orgulhosa republica e o papa m necessidade de implorarem o auxilio de Portugal. No decurso de todo o século 16 saiVm de Lisboa para a índia 737 embarcações de guerra, afora os na* vios que expedíamos para Africa, America, e os que tínhamos nos mares da Europa, Só nos primeiros §5 an nos partiram com differenles destinos, porém a maior parte para Africa, 8§1 embarcações, e varias esquadras cujo numero de velas a historia não meneio* na: sabe-se que o nosso movimento marítimo em na¬ vios do Estado saídos de Lisboa foi de 1:093. na quar¬ ta parte d’aquelle século. Em Lisboa havia dois arsenaes, mais um no Por¬ to, e outro em S. Martinho. Tínhamos grandes se* menteiras de canhamo com feitores da fazenda em San¬ tarém , Coimbra, e Moncovvo; e as amarras e cabos que d’elle se fabricavam eram superiores aos de toda a Europa. Os nossos arsenaes estavam de tal modo montados, hem fornecidos, e havia tantos navios, que em 1508 indo el-rei D. Manoel a Ta vira com ani¬ mo de passar á Africa, em cinco dias reuniu §0:000. homens, e os navios necessários para os transportar. No tempo de D. João III havia o galeão Bota- fogo, que tinha 366 peças d’artilharia de bronze: era o maior que então se conhecia na Europa, e foi expressamente pedido pelo imperador Carlos V , par& ç ajudar no ataque de Tunes*
  • A desgraçada expedição de D. Sebastião consta va de 800 velas, e ainda no seu reinado saíram para o Oriente 97 náos, e @ caravelas. Durante a usurpaçao dos Filippes foram 3lã embarcações para o Oriente, das quaes se perderam 87 por naufrágios ou destruídas pelos inglezes e hollandezes. . Os estrangeiros vendo-nos escravisados logo inten¬ taram lançar mão das nossas conquistas. 1 arece que em 1591 é que teve logar a primeira viagem dos in¬ glezes á índia; os liollandezes os seguiram em 1590, e uns e outros se ligaram a quasi todos os príncipes do Oriente para nos despojarem. Abandonados pela tyrannica e bem pouco esclare¬ cida política hespanhola, tendo só as diminutas forças próprias das.-colonias, e apesar do esmorecimento. do espirito publico, aihda assim foram prodigiosos os es¬ forços que para a defesa e conservação d ellas prati¬ caram os portuguezes! Não havia porem milagres de valor que podessem resistir a tantas circunstancias con¬ juradas para a ruina do nosso império na Asia,, d esse 'império que se extendia n’um littoral de quasi 6:000 legoas, e de que mal soffriam o jugo 150 príncipes vencidos ou avassallados! Comtudo salvámos gloriosos restos, que ainda hoje nos consolam , e ao mesmo tem¬ po nos envergonham de tanta grandeza perdida. A còr das aguas tinha-se tornado muito verde, como de ordinário acontece nas proximidades de ter¬ ra, ainda que estavamos afastados d’ella para mais de vinte legoas. Deitou-se a sonda, e em 90 braças nao se achou fundo: ha n’este parcel das Agulhas logares com 170 braças e mais de profundidade. Depois da ceia subi ao tombadilho para gozar da serenidade da noite. Havia quasi completa calmaria ; a leve brisa , agradavelmente fria, apenas emunava de vez em quando as velas, para logo as deixar descair e bater brandamente contra os mastros e cordoalha; a lua lançava uma luz frouxa e suave, que formava nas aguas um longo listão prateado; as estrellas scmlilla- vam brilhantes sobre o fundo escuro do ceo; viam-iç
  • m as Ursas, apesar de Juno, banhadas nas aguas de Ne¬ ptuno; a grande cruz inclinada, ou constellação do cruzeiro do sul, brilhava distinctamente; a parte orien¬ tal e sul do firmamento era porém mais falha d’esses pontos luminosos, maravilhas da imménsa obra da creaçao ! Este differenle aspecto do ceo no hemisfério, meridional produz na alma contemplativa do viajante, vogando na solidão melancólica das ondas, senlimen- tos indefiníveis de tristeza e saudade; lembranças do afastamento em que está da terra quê o viu nascer, as quaes, mais que nenhuma outra situação, faz sen¬ tir a vista de novos astros percorrendo a abobada ce¬ leste. As perspectivas da terra, ou dos mares, nâo va¬ riam essencialmente nos diíferentes pontos do globo, nem produzem tão vivamente aquella sensação; mas as differenças observadas no ceo, n’esse espaço infinito do Universo, occasional*), ao menos no meu espirito, um effeilo singular; uma como mistura de melancolia e de saudade maviosa pela patria , pelo ceo de Portu¬ gal, e pelos astros que via na minha infancia, e que conheci mais tarde pelos seus nomes e posições. Estava a noite na verdade bella e poetka : era pela serenidade uma noite dos tropieos, e pela bem tem¬ perada fresquidào, uma d’essas noites deliciosas da primavera, ou do outono do nosso Portugal, e para realce d’esta scena ouviam-se os cantos dos marinhei¬ ros á proa, entoando suas cantigas singelas, n’aquelfe estalo monotono e cadenciado, que harmonisava per- feilarnente com o brando sussurrar das águas escoan-? do-se pelos flancos do navio, que se deslisava sobre as ondas do çabo das Tor mentas como se vogára n’um pacifico lago. Continuou de noite a calmaria, levantei-me cedo, e logo fui íio tombadilho. Lindo espectaculo se me apresentou • o mar estava tão sereno e espelhado, que não dava o menor movimento ao navio, que parecia ancorado no mais abrigado porto; o ar era immovel; as leves pennas do catavento conservavam-se na posi¬ ção perpendicular; o panno tqdo solto e descaído aio
  • 133 fee agitava, nem produzia nquêlles costumados sons^ como se fora sacudido, quando no mar ha calmaria. O sol tinha meio disco acima do horisonte, e parecia dividido ao centro pela linha d’agua, que fórma o grande circulo que separa do mar o ceo. A bombordo e estibordo viam-se em distancia os mesmos dois na¬ vios que na precedente tarde nos seguiam , com todas as velas largas, mas immoveis sobre a lisa superfície das aguas. Nuvens pairando pelas altas regiões da at¬ mosfera, diversa e fantasticamente dispostas, cobriam quasi todo o espaço do ceo, e ora se ornavam, ora se transvestiam com as cambiantes e lindas cores da aurora. Em summa era scena de embevecer, e mais de apreciar n’estas paragens, por serem a mansão quasi constante dos grandes temporaes, e onde tão a miudo se verificam as ameaças feitas ao nosso Gama pelo monstruoso Adamastor. Pelas 8 horas da manhã as tres embarcações que se achavam á vista, se saudaram içando as respect ivas bandeiras. Ao meio dia esta vamos por 35°f de lat., tendo feito a pequena singradura de Io para oeste. O ponto na carta deu-nos sobre o meridiano do cabo das Vaccas, que demora um4pouco a oeste da bahia e cabo de S. Braz. Em todo o dia houve perfeita bonan¬ ça , lindo sol, e atmosfera fresca e agradavel. Pela tarde appareceu um terceiro navio no horisonte. Como fallei no cabo das Vaccas direi alguma cousa sobre o intrépido navegador portuguez Bartholomeu Dias, que primeiro o visitou e lhe deu o nome. E’ sabido quanto el-rei D. João II promoveu os descobrimentos marítimos: foi elle que enviou Bar¬ tholomeu Dias para continuar a explorar a costa da Africa para além do ponto onde já tinha chegado Diogo Cam, e encarregado especial men te de rodear aquelle continente, e achar o caminho da índia. Saiu com effeito Barthòlomeu Dias do porto de Lis¬ boa em & de agosto de 1486, governando duas em¬ barcações de 50 toneladas cada uma, acompanhado dos pilotos e mestres, Pero Dias (seu irmão), Pero
  • 154 d’AIemquer, João Infante, e um fulano Leilão; sm- do seguidos d"uma terceira embarcação só com manti¬ mentos. Levavam quatro pretas e dois pretos já civili- sados em Portugal, que foram deixando em different^ pontos da costa já descoberta, com as inslrucções e para os fins politicos com que el-rei os mandava. Passada a costa de Guiné soífreram grandes tor- mentas, e foram lançados sem o saberem para o sul do cabo hoje dito da Boa Esperança, e aproando de¬ pois para o norte em busca de terra, foram dar a uma bahia, cujas margens estavam cobertas de reba¬ nhos de gado pastoreado por negros, a que deram o no¬ me d’angra dos Vaqueiros, e hoje conserva o de ba¬ hia e cabo das Vaccas. D ’alli foram costeando até 33° e 40' de lat., on¬ de collocaram um padrão, que deu o nome á que ainda hoje se chama ponta do Padrão, e pela inclinação das terras para o norte conheceu o sagaz Baritiolo- meu Dias que linha dobrado algum grande cabo. Dese¬ java elle continuar a exploração, e cumprir completa- mente a sua missão chegando á índia , mas as tripu¬ lações se amotinaram, e viu-se na dura necessidade de voltar para traz. Porque terrível transe passaria Barlholomeu Dias sendo assim contrariado nas audaciosas aspirações do seu génio! Ainda, como ChristovSo Colombo, con¬ jurou os companheiros para que se demorassem ma is Ires dias, na esperança de obter noticias da Índia. Foi então que desembarcou n’uma ilhota toda de ro¬ cha (que está dentro da bahia a que os inglezes cha¬ mam Algoa Bay ou Port Elisabeth ), onde com a» suas próprias mãos plantou uma cruz, ao pé da qual ajoelhados cornmungaram todos os que iam na expe¬ dição. A ilhota foi denominada ilhéo da Cruz , nome que ainda hoje conserva. Esse fragoso ilhéo, que até ao presente so é vi¬ sitado pelas aves marítimas em busca de alguma pre¬ sa, e que até então não fora trilhado por pés de ho¬ mem , foi a primeira das terras para além do Cabo ,
  • 155 onde se erigiu o symbolo sagrado da nossa fé , e onde o magestoso Oceano da índia uniu em sublime har¬ monia o sonoro bramir das suas vagas com as vozes dos primeiros christâos que devassavam as suas aguas, e que entoavam hymnos de louvor ao Redemptor dos homens! O illustre Barlholomeu Dias foi sem duvida o pri¬ meiro que dobrou o cabo da Boa Esperança, mas a sua fama ficou injustamente quasi eclipsada com os fuJgores da gloria de que se revestiu o nobre Vasco da Gama. O audaz navegante regressou ao longo da costa da Cafraria; chegou a um cabo e entrou n’um rio, dan¬ do a ambos o nome de Infante, porque alli desembar¬ cou Pero Ir^ante, O cabo conserva seu anligo e ve¬ nerando nome, jaz em 34° 30' de lat., mas o rio nas modernas cartas inglezas tem o nome de Breede. Por um ridículo orgulho nacional tem os inglezes muda¬ do estes e outros nomes, como o da Bahia de Lou- renço Marques , em Delagoa Bay , &e., sem utilidade alguma para a navegação, produzindo bastante con¬ fusão na geographia. Bartholomeu Dias dobrou depois o cabo das Tor- mentas, que elle assim denominou pelas muitas que experimentara á ida na sua proximidade. Tendo en¬ contrado o navio dos mantimentos, que deixara na costa occidental, aportou em S. Jorge da Mina, on¬ de já estavamos estabelecidos n’aquelle tempo, e che¬ gou finalmente a Lisboa em dezembro de 1487, no fim de 16 mezes de viagem. Apresentou-se a D. João II, e referindo-lhe a passagem do cabo das Tormen- tas, este grande rei lhe mudou o nome para o de Boa Esperança, concebendo logo a possibilidade de se che¬ gar á índia pelo mar. Eslas e outras constantes diligencias para o desco¬ brimento da índia foram o grande pensamento do príncipe Perfeito durante todo o seu reinado; não o viu porérn realisado na sua vida, mas foi elle que pre¬ parou 03 homens e as cousas para os successos que no
  • m seguinte reinado elevaram a nação portugueza a iã‘
  • 187 * haviam;arriado, e conservávamos a capa com muito pouco pan no. Mas a procella tem poesia, e poesia de terrível bel- Jeza e magestade ! Era bello e grandioso de ver as va¬ gas encapelladas formando vastas colinas d’agua, que baralhada e incessantemente se substituíam urnas ás outras, limitando-nos o horisonte, e fazendo-nos pa¬ recer que a abobada celeste se abatêra sobre nossas ca¬ beças ! Havia aspera porém magestosa harmonia no zoar do vento em sua impetuosa corrente, no seu si¬ bilar pela enxarcia, no surdo bramir e estourar das vagas rebentando em flor, e formando instantaneaa ilhas d’alva espuma undulantes á superfície d’agua, no açoutar das ondas no costado do navio, e no seu resvalar e cipr no convez! Todos estes sons discordes, mal distinctos, formavam no todo como a orchestra da tormenta, a cuja musica de poético horror tri- pudeavam os génios máos da tempestade ! Porém o homem é grande no meio da procella. O navio, este filho do seu engenho e da sua indus¬ tria, ora mergulhava a proa nas ondas, ora a empi¬ nava aos ceos, ora cedendo á violência do vento se in¬ clinava todo a um lado, e logo retomava a perpendi¬ cular, ou se lançava para o lado opposto levando como de vencida o vento : similhavam dois contendo¬ res, ambos valentes e esforçados, que alternativamente prevaleciam um sobre o outro n’uma lucta desesperada. Na verdade o homem no centro da tormenta se ostenta um ente superior. Pela sua intelligencia e co¬ ragem elie guia o frágil baixel por meio das soberbas e revoltosas ondas; elie o equilibra sobre o dorso das ■vagas gigantescas; elie o faz correr sobre as azas da tempestade, e arrostando as fúrias dos mais poderosos e temíveis elementos da natureza, o vento e o mar, as mais das vezes d’elles triunfa, deixando-os esgotar- se em vãos esforços até que abrandam de cançados: então segue no lenho ovante ao seu destino , e percorre todos os líquidos espaços do globo como rei da creação ! Na tarde de £9 já satisfeito o Adamastor de ter
  • 138 mostrado o seu poder, foi abrandando as iras í o maí começou a cair, e o vento aos recalmôes foi successi- vamente diminuindo. A noite se passou mais tranquil- lamente. N’estes dois dias nâo se viu terra, e apenas ao fim da tarde de £9 se avistaram alguns navios, a maior parte só visíveis das gaveas. Na noite de 30 cessou o vento totalmente, e ama¬ nheceu um lindo dia : o sol brilhava esplendidamente, as aguas apenas se moviam em largas ondulações, co¬ mo arquejando ainda pelas recentes fadigas, e viam-se tres ou quatro navios em calmaria como o nosso. Ao meio dia determinado o ponto achamos-nos em 36° de lat. e por 21° de longitude. Tínhamos perdido mais de Io para leste do cabo das Agulhas, e^0 para o sul em relação ao ponto do dia 27.
  • 1S9 Am ilha» de gêlo, paragem tio calio da Boa E«|ieraiiça » navegações atrevidas antigas e modernas» e seguimento da viagem ató BengueSla» (Ci No l.° de maio viram-se varias embarcações, uma de grande porte, que parecia ser fragata de guerra. Quasi todo o dia o ceo esteve nublado, e para o fim da tarde mais carregado se tornou ; o mar mostrava indo aspecto, o barometro descia, e tudo parecia in¬ dicar que iamos a ter outro temporal do noroeste. Fe¬ lizmente pela noite estes symplomas se resolveram em forte vento do sul, que augmentou a vaga e balanço, mas que nos fez correr 7 a 8 milhas a caminho; sen¬ do o jogar do navio mais doce de sentir-se quando pensámos que corremos na desejada direcçâo. O frio tinha apertado mais, principalmente quando soprava o noroeste pela proa; com tudo não era excessivo para a lat. de 36° em que paira vamos, sendo então a esta¬ ção do inverno n’estas paragens , onde se chegam a en¬ contrar as grandes massas ou ilhas fluctuantes de gêlo, a que os inglczes e geralmente os marítimos chamam ice bergs. Em 3 d’abril de 1828 na lat. 35° 54% e em 13° de long, a leste de Greenwich foram vistos icebergs por dois navios, um francez e outro hespanhol. A 28 do mesmo mez .o brigue inglez Eliza achou-se entre massas fluctuantes de gêlo na lat. 37° 32% e na long.
  • 160 14°. Alguns (Testes icebergs tinham 100 pés acima da nivel do mar e SOO de diâmetro, e o mar quebrava com grande força contra dies. No Oceano da Índia viu o capitão Farquharson um iceberg em SO d’abril de 18S9 na lat. sul 39° 13f e na long. 44°, cjue tinha duas milhas de circumfe- rencia, e coúsa de 150 pés d’altufa. A apparição de icebergs no meridiano do cabo da Boa-Esperança em tão baixas latitudes, foi scenst tão rara, que maravilhou o proprio Horsburgh, o mais experiente hydrografo d’aquelle tempo. Comlu* do já este fenomeno fora antigamente observado} em 17^7 pelo capitão Pitt, e em 1789 pelos capitães hol- landezes Staringh e Gobius, nos navios de guerra Swallow e Mercury. Na parte sul do Oceano Atlântico ,* parece que a mais baixa latitude em que tem apparecido icebergs foi no paralfelo do rio da Prata, em 37° de lat. e 47° 30' de long., onde em 6 de março de 1834- fo¬ ram vistos pelo capitão Blankley da nau ingleza Py- lades. As massas de gêlo n’este hemisfério do sul chegam a aproximar-se mais 5o do equador, do que as que fluctuam nos máres do norte do Atlântico, nos quaes a mais baixa latitude em que se tem visto icebergs tem sido no parallelo de 40° 45'; mas quando alíi chegam o gêlo derrete-se rapidamente, precipitando-se em torrentes d’agua pelos ílancos dos icebergs até que estes se afundam , produzindo grande estrondo e redomoinho nas aguas. Estas enormes massas ou ilhas de gêlo que appare- çem no hemisfério do sul destacam*se das regiões an- tarcticas , cujas planícies eternamente geladas avançam muito mais para o equador do que as regiões simi- lhantes do polo arctico. A’quellas regiões chamam Con¬ tinente do Sul os modernos geografos, mas reputam- no duvidoso, porque apenas poucos pontos se conhe¬ cem d’elle descobertos desde 18&1. N’esse denominado continente descobriu em 1841
  • 161 © capitão James Ross a terra a que deu o nome de Victoria do Sul, na lat. 70° 41', e que descreve co¬ mo um aggregado de picos montanhosos de 2:000 a 32:000 pés d’altura, cobertos de neve eterna. Foi en¬ tão que viu o mesmo capitão Ross, na lat. 77° 32', um magnifico volcao de 32:400 pés d’allura , que denominou monte Erebus, e que lançava chammas e fumo com esplendida profusão no meio d’aquelles gêlos eternos. N’esta viagem o capitão Ross chegou no dia 2 de Fevereiro de 1841 á lat. 78° 4', a mais alta a que até áquelle tempo se havia chegado no he¬ misfério do sul: no do norte até á mesma epoca não se passou da lat. 82° 45', á qual chegou o capitão Parry em 25 de julho de 1827. Segundo escriptores estrangeiros já um antigo por- tuguez, appbdidado Melgueiro, avançou a maior la¬ titude; pois referem que em março de 1660 saíra elle do Japão como mestre e piloto de um navio holla n- dez, e dirigindo-se aos máres boreaes subiu a 84°, passou entre a Groelandia e o Spitzberg, e peneiran¬ do no Atlântico veiu ter a Lisboa. Toda a noite de 1 para 2 de maio continuou com força o vento sul: das 2 para as 3 horas o official de quarto notou que o mar caíra, ou aquietara quasi de repente, e ao luar pôde divisar que a cor da agua mudára para mais escura, julgando logo que tínhamos cortado o meridiano do Cabo. Com effeito ao romper do dia viu-se que a agua, de verde que era depois que navegavamos sobre o parcel das Agulhas, se tor¬ nara azul escura; signal seguro de estarmos fora do parcel, e por consequência já a oeste do Cabo. A sa¬ tisfação animava o rosto de todos, e começaram-se a dar e receber mutuos parabéns. Entretanto o navio, com vento fresco pela popa, ía airosamente correndo sobre as ondas ainda um tanto agitadas, deitando de ò a 7 milhas. Anciosos estavamos pela determinação do ponto, que se achou ao meio dia ser de 35° e 43' de lat., e 17° e 6' de longit., tendo havido a pequena corrente 11
  • 162 de 19 milhas ? que ainda menor foi nos dias prece¬ dentes. Estavamos umas 70 milhas para oeste do cabo da Boa Esperança , e tinha mos vencido esta perigosa passagem , a mais temida de toda a viagem , dobran¬ do esse famoso cabo Tormentorio, monumento eterno das glorias portuguezas, e da lyra do poeta que as cantou. E’ bem singular a linha de demarcação que se observa nas aguas a leste e a oeste do Cabo: é como o limite bem determinado de duas zonas, no qual a côr e movimento do mar varia de repente, e onde o vento também quebra ou muda de ordinário. Nenhum navio se avistou durante o dia; foi portanto a nossa corveta a que passou o Cabo, primeiro que todos os navios que ainda no dia precedente se viam seguindo o mesmo rumo : todos deixámos certameúie para leste, pois que á bolina a corveta andava excellentemente, e nenhum nos passaria adiante na precedente noite, em que caminhámos com favoravel e forte vento do sul. Toda a noite e manhã de 3 continuou o vento re¬ gular do sul com alguma vaga, e viu-se uma galera pela proa. Ao meio dia estavamos por 34° de lat., e .15° de longit., já para o norte do Cabo, e alguns 3o para oeste. A singradura foi para mais de S°, tendo- nos arrastado a corrente 56 milhas ou quasi metade d’aquella distancia. Reputavamos-nos inteiramente a abrigo das fúrias do Adamaslor; pois ainda que viesse o terrível noroeste, já nos não podia lançar para den- Iro do Cabo. Então cada momento, cada arfar do na¬ vio nos aproximava da amada patria: tínhamos po¬ rém de percorrer ainda 73° em lat., e com as sinuo- sidades do caminho para mais de &:000 legoas. Com a demora de ò a 6 dias que tivemos pelo cabo das Agulhas, e por trazermos já um mez de via¬ gem desde Moçambique, o commandante julgou pru¬ dente reduzir as rações da equipagem a dois terços; dobrado porém o Cabo cessou o receio de maior de¬ mora até Angola, e já se dava a ração inteira. Â noite de 3 para 4 esteve linda t n lua ia plena
  • Í63 pelos ceos, chamando os olhos do naveganle para si e a mente para Deus. O navio librando-se nas pandas azas, como que comprehendendo os encantos da natu¬ reza , parecia folgar sobre as ondas, correndo contente sobre ellas. O vento refrescára, tornara-se mais largo, arredondando graciosamente todas as velas, que iam soltas, mesmo cutellos e varredouras; e a airosa cor¬ veta sem balanço algum se deslisava serena e rapida¬ mente, deitando 7 e 8 milhas, rasgando as ondas do Oceano, que murmuravam de sentidas. Assim se succedem para o navegante os tao vários accidentes da vida marítima: ora os perigos e o susto, depois a segurança e a satisfação; ha pouco os bellos horrores da procella e as fúrias do Adamastor, agora as pacificas ix Mezas da bonança e a amenidade das zo¬ nas tropicaes. E assim é a vida em todas as situações; tecido de bens e males, de prazeres e desgostos. Passámos a bahia ou aguada de Saldanha, á qual deu o nome Antonio de Saldanha quando em 1503, indo para a Índia, aili desembarcou e pelejou com os bnrbaros. No l.° de março de 1510 alli foi morto cruelmente pelos negros o illustre capitão D. Francis¬ co d’Almeida, quando da índia regressava carregado de triunfos. N ’esta bahia onde dizem que ha poucos annos ain¬ da se viam os antigos padrões que os portuguezes plan¬ taram , ha hoje povoação e varias hortas e plantações, que abastecem a cidade do Cabo. Deixámos atraz a ponta do Padre-nosso, e a ba¬ hia de Santa Helena, onde aportou o Gama, depois de nas paragens de Cabo Verde se ter separado de Bárthoiomeu Dias, que até alli o acompanhou, se¬ guindo depois para S. Jorge da Mina; mas seu irmão Diogo Dias acompanhou a expedição, como escrivão da náo capitania, que n’aquelle tempo era o terceiro emprego d’importancia a bordo. N ’esta bahia de Santa Helena, ou Angra, como os antigos lhe’chamavam , foram os portuguezes a ter¬ ra, fizeram aguada* e récfcificaram os imperfeitos ins- n *
  • 164 trumentos náutico? então usados, os astrolábios. Teve aqui logar o acontecimento do destemido Fernão Ve¬ loso , não porém na paragem onde deu o seu nome a um rio e bahia, pouco ao norte de Moçambique, como já disse. Camões descreveu este incidente n’a- quella chistosa oitava: « Disse então a Veloso um companheiro, « Começando*se todos a sorrir, « Oh lá, Veloso amigo, aquelle outeiro « E’ melhor de descer que de subir. « Sim é, responde o ousado aventureiro j « Mas quando eu para cá vi tantos vir D’acjuelles cães, depressa um pouco vim « Por me lembrar que estáveis c? sem mim» Tres dias depois, em %% de novembro de 1497 , Vasco da Gama dobrou o cabo da Boa Esperança. •Não está bem averiguado o tempo que encontrou, se? de tormentas, ou bonança: parece porém mais prova- vel que não soffreu temporaes, e, segundo João de Burros, com menos tormentas e perigos do que espe¬ ravam. No dia de Santa Calha rina foram fazer agua¬ da a um sitio da costa já a (50 legoas para além do Cabo, talvez n’aquelle que tem hoje a denominação de bahia de S. Sebastião nas cartas inglezas. Depois de partidos d’este logar sobreveiu uma violenta tem¬ pestade , e succedendo-lhe a bonança foram parar aos iiheos Chãos e ao da Cruz , nas proximidades do sitio onde Bartholomeu Dias linha collocado o seu ultimo pilar, ou padrão de posse. Continuaram a navegar e passaram de noite o cabo das Correntes, d’onde seguia ram íi Moçambique. Esta armada era composta de 4 navios, de propo¬ sto feitos para tal expedição, com madeiras do pinhal de Leiria. O maior cTestes navios não excedia a 100 toneladas, isto é, á grandeza de um hiate, não dos maiores: as ancoras, o massa me, e todos os appar.e- Ihosforam quadruplicados: as 148 pessoas que os guai>
  • 165 neciam , foram escolhidas entre os melhores marinhei¬ ros e náuticos, e se lhes concedeu considerável sala” rio, e muitos privilégios; mas só 55 resistiram aos tra¬ balhos d’esta empreza, e voltaram a Portugal. Uma das honras maiores concedidas a Vasco da Gama no seu regresso da Índia, foi a de poder usar de Dom, sendo já ao partir cavalleiro da ordem de Christo. Elle amava extremamente seu irmão Paulo da Gama, que muito o ajudou com seus conselhos, e que foi do numero dos que náo tornaram a ver u pátria. Admira hoje como Bartholomeu Dias, e Vasco da Gama arrostaram estes mares em tão pequenas em¬ barcações. A este proposito deram-se modernamente enlre nós do A casos dignos de menção. Residia em Moçambique quando por alli passei, e tive occasião de conhecer, o acreditado navegador da marinha mercante Vicente Thomaz dos Santos, que em março de 1835 saiu d’aquella cidade n’unm embarcação sua denominada Inhambane, de 80 tone¬ ladas, armada em sumaca , e tripulada com 8 negros escravos seus, e da qual elle mesmo era o capitão. Passou o Cabo em maio, e tendo feito differenles es¬ calas aportou a Lisboa em setembro do referido a ri no. Em 29 de junho de 1835 saiu de Lisboa para Mo¬ çambique a escuna Paquete da Madeira, de 100 to¬ neladas , dobrou o Cabo em agosto, e a 25 d’esle mez fundeou em Lourenço Marques, com a extraordinᬠria viagem de 56 dias, e gastou 10 d'alli a Moçam¬ bique. Foram estas as primeiras embarcações portuguezas de tao pequeno lote, que passaram o cabo da Boa Esperança nos modernos tempos. Nos antigos lemos o caso de Diogo Botelho Pereira, bem conhecido na nossa historia. Era Botelho natural de Cochim , insigne piloto e homem ousado, e tendo ido para a Índia com o vice- rei D. Vasco da Gama, tinha prohibição de voltar a Portugal, por motivos que & el-rej D , Jr ão f XI.
  • 21 am recear que elle renovasse o caso de Fernam de Magalhães. Construiu-se por aquelle tempo a fortale¬ za de Dio, e o nosso Botelho intentou levar esta im¬ portante noticia a Portugal: com a planta que tirou a occult as da fortaleza, e copia do tratado feito com o sultão Badur, se partiu disfarçadamente de Baçaim em novembro de 1535, n’lirna fusta que elle fizera construir á sua custa em Cochim , que tinha pal¬ mos de quilha, de boca, e 6 de pontal, levando cinco portuguezes de tripulação e oito escravos mari¬ nheiros. Occultou a todos o seu verdadeiro destino, e depois que lh’o declarou já pela costa de Melin- de, os escravos receando grandes perigos de tal nave¬ gação se revoltaram e surprehenderam os portuguezes, que por muita valentia conseguiram srAvar-se, mor- xendo tres dos escravos e um dos portuguezes, ficando Diogo Botelho perigosamente ferido; mas assim mea- tno continuou a navegar com a equipagem reduzida a dez homens. Em janeiro de 1536 dobrou o cabo da Boa Esperança soffrendo terríveis temporaes, e entrou em Lisboa no mez de maio com perto de sete mezes de viagem. D. João 111 teve difficuldade em perdoar a deserção e desobediencia de Botelho, apesar do ar- tojo d’esta empreza , uma das mais atrevidas que men¬ ciona a historia maritima. Na tarde de 5 o vento começou a diminuir, e mudou-se em calmaria, que durou toda a noite. So¬ bre a madrugada principiou a soprar o noroeste um tanto rijo e frio: iamos correndo fora do caminho, e deitando á bolina 6 a 7 milhas. As vizinhanças do Cabo ainda se faziam sentir. De manha avistou-se uma bonita embarcação de 3 mastros, que horas depois deixámos pela alheta. Nas paragens do Cabo houve bastantes doentes na marinhagem , e se aggrovou o estado dos que já o es¬ tavam , sendo a maior parte de febres; mas depois me¬ lhorou o estado sanitarifo. A 6o vento ora norte ora noroeste tornou-se vio¬ lento , e levantou grande vaga, obrigando-nos a estas
  • Í67 de capa: o balanço era terrível, e em ambas as d i rea¬ ções, de popa á proa, e de bombordo a estibordo , que é o que mais provoca o enjoo. Havia mar alteroso, que entrava pelo convez, sal¬ tando em espadanas pela proa a cada violento arfar do navio. O vento foi rondando para oeste, o que nos fez correr um tanto a caminho. Tínhamos passado já o rio de Olifanle, e iamos em frente das terras dos Namaquas, deixando muito para oeste a ilha de Tris- tão da Cunha, descoberta pelo illustre portuguez d’es- te nome , quando acompanhava Affonso de Albuquer¬ que na sua segunda viagem á índia. Esta ilha jaz no meio do Oceano; suas montanhas tem de altitude, ou altura sobre o nivel do mar, quasi 8:400 pés, e avis¬ tam-se a £5 Égoas de distancia; é deserta, e tem pró¬ ximos dois ilheos. M uito se distinguiu Tristão da Cunha nas cousas da índia, e foi a primeira personagem da famosa embaixada, que el-rei D. Manoel enviou ao papa Leão X, participando-lhe as maravilhosas conquistas do Oriente, e entregando á Santa Sé o dominio es¬ piritual d’ellas, d’onde dimanou o nosso direito do Padroado. O papa lhe concedeu a honra singularíssi¬ ma na etiqueta romana d’acjuella epocha, de fa liar a sós com elíe nTim gabinete. A fama d’esta embaixa¬ da , e da sua nunca vista magnificência, resoou n’esse tempo por toda a Europa, e ainda entre nós existe bem viva a memória d’ella. Tristão da Cunha foi o primeiro vice-rei nomeado para a índia , mas uma ce¬ gueira temporária o fez substituir pelo nobre D. Fran¬ cisco d’Almeida. Ao meio dia de 7 esíavamos por £8° de lat., pas¬ sámos os ilhéos Seccos, cabo das Voltas, rio d’O ran¬ ge e Angras juntas. Toda a costa que iamos corren¬ do desde 16° até 31° em lat., é indicada nas carta» inglezas como esleril e sem agua doce, em mats de 300 legoas de extensão. O vento soprando rijo do sul e sudoeste nos fazia correr rapidamente oito e nove milhas. Era agradave!
  • 168 o ver de tarde e á noite o navio na sua veloz carreira galgando as ondas, rasgando-as com violência, fazen¬ do-as espadanar pela proa e flancos, e cair em chuva no convez, deixando n’um largo rasto d’espuma assi- gnalada a sua passagem. Rebentou a escola do cu Lei Io do traquete , e a respectiva vela se fez logo em pedaços. Todo o velame e appárelho da corveta ía cm pés¬ simo estado, e nao se podia aproveitar o vento quanto comportaria o navio largando-lhe mais parmo, pelo receio d’estes e d’outros sinistros; aliás em logar de dez milhas que chegou a deitar n’esta noite, deitaria onze ou doze. O casco da corveta estava exceliente; não fazia agua, apesar de lhe faltar o cobre em gran¬ de parte, ou ir arregaçado, o que também muito lho diminuía o andamento. Bem poucos r.ávios se terão aventurado a passar o Cabo tão mal preparados, sem sobrecellentes como este ía, e apenas com dois mezes de mantimentos desde Moçambique: confiávamos po¬ rém na fortuna da corveta, que diziam ter sempre feito viagens felizes. A 8 passámos á Angra pequena correndo sobre a mesma terra dos INamaquas. ISTesta Angra pequena, ou dos Ilhéos, collocou Bartholomeu Dias, na sua Ida para o cabo Tormentorio, o padrão SantTago, que lá existe ainda hoje, e é um titulo do nosso di¬ reito sobre aquella Angra, a ilha da Possessão, e a ilha Ichaboé, d’onde se carrega o guano, estrume hoje tão procurado, e tão lucrativo no commercio. Também o ha na babia de Saldanha, e o direito quo pagam ao governo do Cabo os navios que o carregam n’estas paragens, constitue actuaimente um dos mais importantes rendimentos d’aquella colonia. A 9 cortámos o parallelo do tropico de Capricór¬ nio (63° 28' ), entrando na região dos tropicos, d’onde havíamos saído na contra-costa 30 dias antes; e já se conhecia sensível differença na atmosfera para quente. Passámos a ponta do Pelicano, e o cabo da Cruz; e desde o das Agulhas não avistámos mais ter* ra* da qual seguíamos distantes 40 a í>Q Jegons,
  • 169 À 10 com bonança e venlo sul passámos á angra de Santo Ambrosio, praia das Pedras, e a das Neves. Collocaram-se as ancoras no seu logar á proa, d’onde antes do Cabo se haviam tirado para o meio do con¬ vex; voltaram os escaleres para os turcos, e as peças que, por prevenção contra as tormentas do Cabo, ti¬ nham ido para o porão, d "alli se tiraram collocando- se em bateria. A corveta era commandada pelo capitão tenente Domingos Roberto d’Aguiar, levava 144 pessoas de guarnição, tinha 15 earonadas de 32, e duas peças columbrinas de bronze : o seu porte porém é de 22 canhões. Foi construída em Damão por Jadó Simagi, e lançada ao mar em novembro de 1828: é toda de téca, e conta.ido 24 annos de idade estava ainda em todo o vigor e valentia. A corveta íris que tem ape¬ nas 9 annos, feita em Lisboa, lá ficou toda podre em Goa, fazendo um concerto que quasi é reconstruil-a. A 11 ao meio dia esta vamos no parai leio de cabo Frio. Vogavamos em completa bonança, rnas ajuda¬ dos pelas correntes, que em toda esta costa são cons¬ tantes para o norte, assim como os ventos do sul a oeste são também permanentes, alternados ás vezes com os lestes terrnes. E’ por isso que os navios que vão para cabos a dentro, tem de ir muito a oeste, e descerem pelo meio do Atlântico, ou quasi encosta¬ dos ás costas d’America, para encontrarem a região dos ventos variaveis. Na madrugada de 12 o vento soprou do norte, cousa bem rara nVstas paragens, e nos obrigou a bor¬ dejar fora de caminho, trazendo-nos nebrina húmida e fria, desagradavel e insalubre, como o tinha sido a copiosa cacimba que durante 3 ou 4 noites caíra." A 13 passámos a peninsula dos Tigres, que forma a bahia, a que os inglezes chamam Great fish bay, pelos 16° de lat. Quasi no mesmo parallelo, e a 6o oeste de long, nos ficava a memorável ilha de Santa Helena, descoberta e assim denominada por João da fíova em IóOl ? quando de Lisboa ja para a India, e
  • 170 logo n’aquelles tempos dizia um nosso historiador*: Santa Helena cousa pequena , porém muito nomeada. Previa-se-lhe a importância como logar d’escala para a navegação da Asia, e d’ora avante ficará para sem¬ pre celebre nas recordações do século XIX , e na his¬ toria do famoso guerreiro, que foi o primeiro genio dos tempos modernos. A 14 esta vamos por 15° de Iat., na altura da ba- hia de Mossâmedes, ou angra do Negro como os an¬ tigos lhe chamavam, onde temos o novo estabeleci¬ mento d’aquelle nome, que senti não visitássemos. Tínhamos passado a manga das Arcas, ou porto de Pinda, que jaz pelos 16°, ao qual os inglezis cha¬ mam Port Alexander, que é fechado ao norfâ pelo cabo Negro, em cujo ultimo extremo ílu fochho se acha um padrão de D. João II, que se avila do mar, sendo o terceiro e ultimo que plantou ( nosso insigne navegador Diogo Cam nas suas viagens ce des¬ coberta ao longo das costas da Africa. E’ d’este pa¬ drão que começam pelo sul os domínios portuguezes na Africa occidental, e iTeste ponto se vêem as pri¬ meiras arvores quando se navega a vista da cosU desde o cabo da Boa Esperança na extensão de quasi 500 Jegoas, apresentando só areas e rochedos estereisa orla marítima de tão vasto troe to de terra. A 15 pelas 10 da manhã os vigias annunciaram terra por estibordo, que pouco a pouco foi avultando mostrando-se alta e montanhosa. Ao meio dia estáva¬ mos por 13° de Iat., e inferimos que era a anpa de Santa Maria, ilhéo do Pina, ou bahia das lorres; achando nos então a 40 milhas da ponta do Sonbrei- ro, á entrada da barra de Benguella. Fomos cada vez mais aproximando-nos da terra, que se mostrava escarpada, e perfeitamente a rida. Avistámos as salinas, ou marinhas de sal , ondehavia uns barracões em que arvoraram a bandeira pomgue- *0. Das 4 para as 5 horas descobriu-se a poia ou morro do Sombreiro que demandavamos: afies da noite a deixámos pela alheia, e já víamos os mvios
  • m na bahia de Benguella. Continuámos a navegar até ás 8 horas, e então o commandante mandou dar fundo, aguardando para o dia seguinte entrar no ancoradouro. As aproximações de Benguella sao bem tristes: tu¬ do é arido e esteril, e á hora do crepúsculo uma bar¬ ra cinzenta escura cingia o horisonte, esvaecendo-se n’outra superior d’amarello pallido, o que junto á immobilidade tétrica das aguas, e ás ideas aterrado¬ ras que se suscitam á vista d’esta§ insalubres plagas, tudo produzia na alma pesada e pungente melancolia.
  • 172 Resiclencia em Benguella♦ varias» noticia» «resta cidade, os mouros vindos de Zan¬ zibar á contra-costa, e tentativas de des¬ cobrimentos no interior da Africa pelos portuguezes* *v A 16 de maio apenas rompeu o dia fui ao tomba¬ dilho; não corria a mais leve aragem , e o m;ar pare¬ cia um lago soccgado. Pelas seis horas da mainhã sus¬ pendeu-se ferro , mas sem vento nada avançámcos. Pou¬ co depois chegou a bordo em um escaler o cajpilao do porto Soares , que foi logo rodeado pela officialidade e passageiros, todos ávidos de saber noticias da terra e da Europa. Só pelas nove horas refrescou a viração e podemos seguir, fundeando pelas dez na bahia de Benguella. Nada tem de piltoresco o aspecto geral dVsle por¬ to: pelo sul e norte avançam para o mar duais cordi¬ lheiras de elevadas collinas esbranquiçadas, calvas e sem a menor vegetação, e na extremidade da que corre para o sul acha-se o morro do Sombreiro, que pela forma mais apropriadamente se chamaria tigela com o fundo para cima, e que similha a urn cone de larga base truncado proximo do vertice, coim a for¬ ma natural de um reducto, em cuja plata-fórma está assente um farol, que de noite nao vimos acceso. A cidade jaz no fundo da bahia n’uma planície* que do mar parece ir terminar na raiz de altas mon¬ tanhas lá para o interior do paiz: pela situação do ter¬ reno poucos edifícios se viam de bordo:
  • 173 porém a igreja, a fortaleza, e um grande barracao o« telheiro. No porto havia oito navios mercantes, que eram uma galera americana, um brigue francez, e seis em¬ barcações portuguezas. A escuna de guerra Conde do Tojal também alli estava, e o seu commandante veiu logo a bordo. Pelas onze horas divisou-se ao longe um vapor, que em breve fundeou a pouca distancia de nós: era o Fire-fly da marinha de guerra ingleza, cruzador que vinha de Angola, e mandou-nos pelo official que foi ao seu regislo vários numeros do jornal caricato ingles o Punch. Ao romper do dia 17 fui para terra n’um escaler da corveta: b^via ligeira neblina, o ar estava tépido e o mar sereno, mas ondulado em largas vagas. Ao arrebol da madrugada o ceo do oriente repintava-se de pallidas cores, mas sem a viveza e lindo matiz que acompanha de ordinário o nascimento do sol: havia n‘esta see na e no aspecto da terra um quer que fosse de sinistro. A corveta fundeou á distancia de mais de dua3 milhas, e por isso era sol nado quando abicáinos á praia defronte da alfandega. Aqui vi o que era a ca- lêma : as areas formam um declive mui rápido, onde o movimento das aguas produz terrível resaca, e im¬ pede a aproximação das canoas: foi necessário ao es¬ caler dar a popa á praia, lançar um ancorote, e con¬ servar-se sobie os remos, em quanto dois pretos ca- bindas, que logo se aproximaram de terra, entraram pela agua ate mais da cintura e me tomaram aos hom- bros, e assim mesmo o rolo da calêma ainda me ala¬ gou até aos joelhos. No entanto a calêma era insigni¬ ficante para o que costuma ser, chegando em muitas occasiões por dias e dias a impedir todos os embarques e desembarques^ e n’outros pontos da costa ainda é peior, como em Novo Redondo, onde succedem fre¬ quentes desastres e mortes. Desembarcado proximo á fortaleza do S, Filippe*
  • 174 fui logo visitai-a; é extensa, com baixas e espessíssi¬ mas muralhas de taipa, pouca artilharia, mas regu- íarmente montada. Foi construída em 1694, ejá ree¬ dificada tres vezes, lendo capacidade para quarenta peças. Segui na direcçâoda igreja denominada de Nos¬ sa Senhora del Populo, que tein bom frontispício, e continuei por largas ruas e grandes praças formadas por vários prédios mui distantes uns dos outros, tudo porém alinhado e regular, e com varias alamedas de arvores recentemente plantadas, e pouco desenvol¬ vidas. Entrei em varias casas de portuguezes íalli es¬ tabelecidos, e em toda a parte achava born {acolhi¬ mento, e me offereciam mesa e hospedagem, que ac- ceitei em casa do negociante José Luiz da Silva Vian- na no largo de S. Filippe: alii almq, ?A, e achan¬ do-se presentes varias pessoas idas ha pouco do reino, entrou-se em animada conversação, e varias noticias obtive de Portugal, porque muito ancioso estava. Dissertou-se sobre política; e fallando-se mas ses¬ sões da Camara elogiaram com enlhusiasmo os -discur¬ sos do deputado José Maria do Casal Ribeiro. Eu de¬ pois de gozar por algum tempo de silenciosa e interior satisfação, declarei que este deputado era meu irmão; o que maior cordialidade estabeleceu entre mim e aquellas obsequiosas pessoas. Perto do meio dia fui á alfandega , que é «edifício pequeno, mas sufficienle para esta repartição e para a delegação de fazenda também aqui estabelecida; e partem dVlle alamêdas de arvores até á praia onde se desembarcam as fazendas, que são conduzidas ro¬ lando-as, ou em carretas puxadas por negros até aos armazéns. Rende a alfandega de 60 a 70 conlos an- nuaes. De Lisboa \em regularmente 15 a S0 navios que carregam cera , marfim , gomma copal, courama, e principalmente urzella , que é o ramo que promove mais actividade commercial e prosperidade a Benguel- la, que aliás estariam completamente acabadas depois das ultimas medidas legislativas do Brazil sobre o tra¬ fico da escravatura. Mais de mil escravos andam oc-
  • 175 cupados constantemente na apanha da urzella, e já chegam pela costa abaixo alé perto de Mossâmedes. Póde-se dizer que o movimento commercial e trato mercantil de Benguella pouco é inferior ao de Loanda. Voltei para casa em maxila para evitar a ardência do sol: são pelo mesmo systema das de Goa e Mo¬ çambique ; pendem-lhe porém do tendilhão umas com¬ pridas cortinas , e só dois pretos as conduzem , os quaes vão a passo lento dando menos com modo que as das ditas cidades. De tarde fui até ao desfcrtilhado forte do Calundo, e ao cemiterio do mesmo nome. Ha um ou¬ tro separado para escravos, porque até para estes lo- gares o orgulho dos homens inventou vaidosas sepa¬ rações ! O cemiterio collocado no cimo de uma pequena ondulação de tJíreno, é murado e de paredes caiadas, servindo ás vezes de marcação para os navios que en¬ tram no porto. Singular coincidência , guiarem-se pela habitação da morte aquelles que tão frequentemente a vão encontrar n’este clima! Antigamente usavam enterrar os cadaveres mesmo dentro da cidade, nos quintaes e á superfície da terra, o que muito concor¬ ria para promover doenças. Na madrugada de Í8 estive lendo os jornaes de Lisboa, que alcançavam a SO de fevereiro. Nunca para mim a leitura de um jornal foi mais agradavel e interessante, do que n’esta e n’outras occasioes depois que saí de Portugal. Os propríos annuncios, as noti¬ cias dos espectaculos, os nomes conhecidos e desco¬ nhecidos das suas peças tudo me interessava , lia com at tenção, e me excitava saudosas recordações. Quando saí, passei pela praça do pelourinho, que tem no centro este emblema municipal, formando uma «pecie de obelisco com sua gradaria: fica nVsta pra¬ ça a casa da camara , que está renovada e tem soffri- vel apparencia; também alli existe o mercado, ha muito tempo começado, interrompido e agora conti¬ nuado , que parece ficará vasto e commodo, tendo na fr.ente uma extensa gradaria.
  • 176 Fui a casa do governador, o major de engenhei¬ ros Amaral, a cumprimental-o. Esta casa é das peio- res de Benguellu, e bem pouco propria para o palacio do governo e secretaria. Na residência do meu benigno hospedeiro havia uma horta ou quintal, que me causou agradavel sur- preza no meio da aridez do interior de Benguella : tem bons parreiraes em parte fechados com latadas de vi¬ gorosas varas de roseiras de cheiro, trazidas do presi¬ dio interior de Caconda , onde se diz crescem como malto, e servem de sebe aos negros para defenderem das feras as suas plantaçcões: tem duas oliveiras cresci¬ das e perfeitamenle enramadas , porém ainda não de¬ ram fructo. E’ um logar aprasivel, e ouvi que o mais bem cultivado da cidade, a qual certamente achei muito melhor do que esperava. “ Foi pelo anno de 1617 que os porluguezes vin¬ dos de Loanda em uma expedição com mandada por Manoel da Cerveira Pereira, fizeram ass-ento nVsta terra, que se dizia então ser muito sadiat, de bons ares e aguas. Anleriormente já houvera urm principio de estabelecimento e fortaleza no morro do íSombreiro , que se perdeu. A povoação actual está em \%\° de lat. sul e por 88£° de long, a oeste de Lisboa $ desde 1843 tem tido considerável melhoramento; as construcções das casas são muito melhores, os tectos são quasi todos de telha, ha arborisação e mais policia e aceio; mas neste ponto ainda muito resta a fazer. Girande parte das habitações são baixas só de um paviiruento ao ní¬ vel do terreno, mas interiormente espaçosas, tendo todas grandes pateos e algumas espaçosos quintaes, obtendo-se com facilidade agua para as regas por meio de cacimbas, ou poços com pouca profundidade. Actualmente viam-se em construcção nov
  • auburbios. Na cidade ha 13 ruas, 6 largos, 4 traves¬ sas, duas praças, e cinco chamados bairros: as ruas são tão largas que mais parecem praças, limpas, mas de péssimo piso sobre arêa solta escaldada pelo sol, e algumas tem arvores de sombra, que pouca offerecem por agora. Todo o districto de Benguella conta hoje pouco mais ou menos 163:000 habitantes. Ha na cidade alguns artistas; rhas todos os obje- ctos de luxo e de vestuário importam-se do Rio de Ja¬ neiro e de Lisboa por excessivos preços. Alguns mora¬ dores tinham carrinhos, cavallos, e muares de regalo , sendo muito de louvar a franqueza do trato dos mes¬ mos moradores: ás horas de comida ha mesa franca para quem se apresenta, sendo as que vi, abundantes e bem servida^, ape»ar da carestia dos generos de im¬ portação. Ainda ha hoje em Benguella fortunas avul¬ tadas, e diziam que girava mais 'dinheiro que em Loanda. Proximo do rio Cavaco ha uma fabrica de telha e tijolo pertencente ao negociante José Luiz da Silva Vianna: no trem nacional também se fabricam estes objeclos, bem como cal no estabelecimento do Lobito. O aspecto do paiz nas circumvizinhanças da cida¬ de é montanhoso e escalvado, e das montanhas se des¬ penham grossas torrentes de agua no tempo das chu¬ vas , que vem formar pantanos em torno da cidade , que muito contribuem para a sua insalubridade. To¬ davia tem-se tornado mais salubre em razão dos recen¬ tes melhoramentos, mas ainda nenhum europeu esca¬ pa ás febres residindo algum tempo no paiz, por me¬ lhor regimen que tenha, e todos na côr do rosto logo mostram a fatal influencia do clima. Dizem que influe muito na insalubridade do ar a chamada lagoa ou charco que existe próxima da for¬ taleza; mas a antigos residentes ouvi, que a agua d’ella não se corrompe, e até cria peixes, porque communica com o mar pela infiltração das areas. O clima do Dombe e o das margens do rio Ca- * tumbella , que desemboca lpgo ao norte da baliia, di- ' lí
  • zem ser melhor, e ha alli bastante cultivação mos ari- mos ou fazendas dos moradores de Benguella. As rendas publicas excedem ás despezas só pró¬ prias do reino de Benguella: de 1850 a 1851 foram de 70:830^000 rs.; e ainda que se fornecem come- dorias aos navios da estação naval e aos vasos de guer¬ ra que por alli passam, e se enviam 6:000$000 rs. íinnuaes para Mossamedes, tudo estava em dia, e ia ainda dinheiro para Loanda. Do actual governador dizia-se geralmente bem. Pena é que se não tenha edificado um cates, por se julgar que seria destruído pela calêma ; serndo por consequência péssimo e arriscado o embarque , e des¬ embarque das fazendas. Seria talvez possível fazer um canst] da chamada lagoa ou deposito de aguas junto á fortaleza de S. Filippe para o mar que está bem proximo, e formar uma doca para desembarque e abrigo das canoas. As conducções no interior da cidade são também feitas por negros puxando carretas, havendo muitos bois» mansos que as poderiam puxar. Os negros e negras usam do mesmo vestuário que em Moçambique, mas elles andam mais cobertos, e ellas mais carregadas de missanga, principalmente no pescoço. Todos os escravos empregados no serviço do¬ mestico faliam muito soffrivelmente portuguez, que em geral aqui é mais puro do que em Goa, .Macao, e Moçambique. Sube em Benguella que em tres d’abril precedente chegaram alli tres mouros, acompanhados por uma ca¬ ravana de 40 carregadores, conduzindo marfim, e es¬ cravos para permutarem por fazendas. Estes ousados commercianles vieram da costa de Zanzibar, segundo disseram , atravessando do Oriente para o Occidents todo o sertão africano, e referiram que pelo interior das terras foram successivamente desfazendo-se de to¬ dos os objectos de negocio que traziam, trocando-os por marfim e escravos. Por fim reconhecendo ser-lhes já difficil voltar ás suas terras, por falta de fazendas
  • para o commercio com os negros, resolveram prose- guir a viagem na esperança de as encontrar mais para o interior por troca de marfim , como lhes haviam as¬ segurado. Com effeito no sertão de Catanga se avista¬ ram com o major do Bihé, Francisco José Coimbra, que se dirigia a Benguella com os seus funadores, o qual os convenceu a que o acompanhassem. Urn d’estes mouros chamado Àbdel disse que era natural de Surrate ( no Indostão ), tendo seus pais nas¬ cido em Mascatte (na costa da Arabia), que tinha como piloto percorrido as costas da índia, e associan- do-se depois a outro mouro chamado Nassolo, resol¬ veram ir á ilha de Zanzibar, onde este tinha um pa¬ rente. A1U chegados reuniram-se os tres, e decidiram ir negociar continente, para o que se dirigiram a Bacamoio, povoação gentílica no Zanzibar, onde se encontram brancos que sabem escrever, e que alli vão mercadejar. Em Bacamoio arranjaram carregadores para con- ducção das fazendas , e começaram a sua excursão atra- vez do continente africano até chegarem a Benguella , seis mezes depois da partida da contra-costa, tendo no decurso d’este tempo soffrido muitas privações, e a morte de tres pessoas da caravana. A distancia em linha recta do Zanzibar a Benguel¬ la é de 300 legoas aproximadamente, e os pontos que os mouros disseram ter percorrido são os seguintes: De Bacamoio foram ás terras do Giramo, depois ás do Cuto, e seguiram para Segora, onde atravessaram serras elevadas até Gogo. D’este ponto até Mimbo gastaram lõ dias sem encontrar povoação alguma, ex¬ perimentando muita falta d’agua; seguiram para Gar¬ ganta, e ahi tomaram um guia que os conduziu a Muga, onde encontraram muito gado. Vieram depois a Nugigi, topando n’esta paragem com o lago Tau- ganna, e foram alli obrigados a construir uma embar¬ cação , na qual atravessaram o mesmo lago no espaço de um dia e uma noite, e aportaram a Marungo, povoação cujos habitantes tem por costume arrancar¬ ia *
  • 180 so os dentes. D’alli se dirigiram para Casembe, onde ficou um dos mouros natural de Mascatte, cnanauo Said Gerad, com dois mulatos como guardas dc mar¬ fim que deixaram n’este ponto, em quanto os nitros seguindo para Gatanga tiveram a felicidade de mcori- trar alii os funadores do referido major Coimua, e lodos juntos vieram a Cahava , caminho de Micaco- lna, onde corre o rio Leambege, que parece ser o Zambeze que vai a Quilimane. Atravessaram is po¬ voações de Cabita e Bunda, notando que n esta ul¬ tima corre o rio Lunguebundo, confluente do Leam- beo-e. D’esta paragem se dirigiram ao Cuanza, Bihé, e Benguella. N’esta cidade estiveram hospedasse fi¬ zeram transacções na casa do negociante José Luiz da Silva Vianna, que se desvelou em os Vi^tar lem; e o mesmo para cora elles praticaram todos os htbilan- tes de Benguella , de modo que os mouros mosfavam- se muito satisfeitos, dizendo que se não fosse a grande difficuldade da viagem, talvez se abalançassem a cm- prehender outra em companhia de mais especuLadores. Poucos dias antes da nossa chegada a Benguella, haviam d’alli saído estes destemidos viajantes para a contra-costa, seguindo o mesmo itinerário. Ogovei- nador geral d’Angola propoz o prémio de un: conto de réis, e o posto de capitão de passagens a qiem o» quizesse acompanhar, a fim de se obterem esclareci¬ mentos sobre o modo de estabelecer a commumcaçao entre as costas oriental e occidental, e de se colherem noticias minuciosas do interior da Africa, qm tanto faltam, e de que tantas vantagens podem resultar, não só para a sciencia, mas para os interesses futuros das nossas possessões de Angola e Moçambique. O governador de Benguella propoz esta empreza ao abastado sertanejo do Bihe, Antonio Francisco Ferreira da Silva Porto, que a acceitou sob algumas condições, levando officios para o governador de Mo- çambique, e convenientes instrueçoes para esta via-
  • 181 / este inhospito paiz apresenta a eada passo ás investi¬ gações do homem. Um auctor moderno refere que de 4& viajantes co¬ nhecidos, que desde 1538 intentaram reconhecer os pai- zes da Africa interior, apenas um bem pequeno nu¬ mero deixou de succumbir no meio da sua caneiia. E1 por isto que ainda se labora em tanta ignorância a respeito das terras da Africa central, e que apesar da presumpção dos estrangeiros *( que tanto nos tem accusado de incapacidade e de não ter promovido an¬ tigamente a civilisação na Africa), e dos muitos meios de que modernamente podem dispor para conhecer e civilisar este vasto continente, elle se conserva quasi estacionário, e com pequenas differenças tal qual o deixaram os^Hortuguezes nos fins do século X VI, po¬ dendo-se desconfiar da possibilidade de civilisar esta parte do globo, que parece destinada a ser o domici¬ lio eterno da barbaridade. Esse grande tracto de terra na parte meridional da Africa, collocado entre a co¬ lónia do Cabo e as nossas províncias de Moçambique e Angola, jaz de todo inexplorado até ao 5o de lat. norte, sendo ainda mal conhecido o interior da parte septentrional. Os nossos antigos portuguezes sempre tiveram mui¬ to a peito as descobertas no interior da Africa, tanto para os seus fins politicos e conhecimentos geográfi¬ cos , como para espalharem o christianismo, que 6 a civilisação. Já no tempo do infante D. Henrique, o ©usado portuguez João Fernandes foi investigar o interior do paiz dos Azenegues, d’onde trouxe muitas noticias ao mesmo infante. El-rei D. João 11 enviou varias pes¬ soas ao interior da Africa, entre ellas Mera Kodii- gues e Pero de Astuniga com expresso destino á ce¬ lebre e rnysteriosa cidade de Tombuctu , da qual já então houvera noticia, e onde só em 18^26 é que pe¬ netrou o primeiro europeu. El-rei D. Manoel tentou descobrir o caminho, do Congo para a Ethiopia 7 e estabelecer a communica-
  • 182 çao por terra entre as duas costas, sendo Gregorio da Quadra encarregado d’esta empreza, que se mallogrou. Os reis D. João II e D. Sebastião nunca perderam de vista este objecto. Em 1606 partiu d’Angola Bal¬ thasar Re bei lo d’Aragao, com o intuito de chegar á contra-costa, mas teve de retroceder. Em 1668 o il- lustre Salvador Correa de Sá se offereceu a el-rei D. Pedro II, para ir pessoal men te abrir a communica- ção por terra desde Cuarna e Monomotapa ate An¬ gola. Em 1680 e 1798 novas tentativas se fizeram para este effeito; mas só em 1807 , governando Angolla An¬ tonio de Saldanha da Gama, se realisou ímallmente a primeira expedição de Loanda á contra-costa, a qual voltou em 1809, trazendo a embaixada dos mol- luas, nação que já commerciava com Moçambique. Seguiu-se logo outra expedição que foi até Moçambi¬ que, de cujo governador trouxeram cartas para Loan¬ da, em 1815, os feirantes pretos Pedro João B.aptista e Antonio José. Desde então até hoje não cons»ta que se repetissem outras similhantes expedições. Na madrugada de 19 regressei para bordo, © antes das oito horas estava restituído ao meu beliche, que sobre as ondas occupava havia cinco mezes, disposto a dizer para sempre adeus a Benguelia. Aqui embarcaram-se tres bois para as rações da guarnição: vieram para bordo arrastados n’agiua por uma lancha, a cuja borda lhes amarraram as calbeças, e depois foram içados pelas pontas para dentro cia cor¬ veta : os pobres animaes depois de tão barbaros tratos e tão grosseiro modo de conducção, ficaram sem mo¬ vimento estendidos no convez, e só passadas algumas horas se foram animando e pondo em pé, mas varias vezes succede morrerem. Pelas cinco da tarde levámos ancora, e com mui-, to fraca viração nos fomos afastando de Benguelia, onde estivemos quatro dias; e posto que desejava re- tirar-me quanto antes, não desgostei da cidade, e fi¬ quei grato a alguns dos seus habitantes, e particular isente ao meu obsequioso hospedeiro.
  • Chegaria a Loanda, varia» noticia»
  • 184 •velha, insignificante feitoria na embocadura do tip Longa. A 22 houve calmaria; continuou a ver-se terra, e ao meio dia estavamos já a menos de 1° de Loanda. O tempo tinha continuado de neblina, e o mar ban¬ zeiro ou de largas ondulações, que é o que produz a calema , mesmo em perfeita bonança. Passámos em frente da embocadura do rio Cuan- za, em cujas margens tiveram logar as primeiras es- treas do valor portuguez n’esta parte de Africa, que tanto fazem recordar o nome do insigne capitão Paulo Dias de Novaes, o digno neto de Bartholomeu Dias. Continuámos sempre a poucas milhas de distancia da costa, que se apresentava esteril e pouco ele7ada, e pelas seis da tarde fundeámos defrontei-ia pcnta das Palmeirinhas, porque nSo era prudente demaidar de noite o porto de Loanda. Ao romper do dia 23 levantámos ferro e fcmos in¬ do com a fraca viração ao longo das ilhas de Casanga e de Loanda, entre as quaes se forma a barra falsa de Corirnba, hoje quasi inutilisada. As praias da ilha Casanga são bonitas, semeadas de arvoredo , e de alguns engraçados grupos de palmei¬ ras, que deleitam a vista, cançada da aridez da costa até aqui percorrida d’este lado occidental de Africa. Pelas dez horas avistou-se uma baleia; vi-ilhe parte do lombo fóra de agua , e o repuxo que produziia quan¬ do resfolegava era bastante alto. Pelo meio dia passámos em frente e proximos da barra de Corirnba, dentro da qual se via uma escuna fundeada : fomos seguindo com branda viração ao longo da praia da ilha de Loanda, que era ornada de co¬ queiros e de algumas casas de campo com agradavel apparencia. A’ uma hora via-se distinetamente a ci¬ dade, a fortaleza de S. Miguei, e quando nais nos aproximámos se nos apresentou a perspective le edifí¬ cios sobre o viso das collinas, tendo a fortaleza à es¬ querda em bella situação sobre um morro: d’tste mo¬ do se apresentava a cidade pelas costas; mils $uçççs$i-
  • 185 vamente a perspective foi mudando , encobrindo-se a parte alta pela fortaleza, para ir apparecendo do ou¬ tro lado, juntamente com a casaria da cidade baixa, arvoredos, e navios no porto, formando tudo um in¬ teressante e variado painel, que eu não esperava ver n’uma povoação africana. Seguimos além da fortaleza prolongando-nos com a ilha, e depois fizemos um lar¬ go bordo para o mar a fim de fugir da restinga de area, que desde a ponta da ilha corre muito para o mar: afastámos-nos da cidade talvez seis milhas até á ponta ou morro das Lagostas, onde atravessámos para esperar o escaler que trouxe a bordo o capitão do por¬ to, o qual pelas cinco horas da tarde principiou a di¬ rigir a manobra, fazendo bordos muito curtos para en¬ trar a barra 5 Vias sobrevindo a noite, entendeu-se me¬ lhor ancorar, o que fizemos pelas sete horas. O capitão do porto era homem de máo humor, e creio que pouco liabil: esteve a ponto de encalhar a corveta, que no ultimo bordo em direcção ao morro -fez virar em tres braças escassas de fundo, tendo a son¬ da passado de repente de sete a quatro e meia, e de¬ mandando a corveta para navegar duas e meia braças folgadas. A’ noite vieram a bordo os officiaes do brigue Co- rimba e da charrua Principe Real, que estavam no porto, havendo então o costumado chuveiro das cu¬ riosas perguntas de quem chega. Mal rompeu o dia ^4 fui ao tombadilho: a ma¬ nhã estava pouco neblinosa e perfeitamente serena, e o mar parecia um espelho. Estavamos a meia distan¬ cia entre a ponta ou morro das Lagostas e o fundea- douro. Muito bonito aspecto apresentava a cidade, e n’um sentido inverso áquelle em que a víramos na ma¬ nhã precedente. Via-se de frente a cidade baixa e al¬ ta; ficando os navios ancorados interpostos entre ella e nós; a fortaleza de S. Miguel á direita coroando o morro em que está collocada, que termina em escarpa no mar; seguia-se logo no horisonte uma extensa li¬ nha baixa formada pela ilha de Loanda com seus es-
  • 18f) path ados e graciosos grupos de arvores; e a esquerda prolongavam-se as alturas quasi escalvadas, que vem terminar na ponta das Lagostas. Suspendemos ferro pelas oito horas, e com o fraquíssimo sopro da viração fomos dar fundo ás nove, proximo do brigue e da charrua. Depois do almoço fui a terra; e como tínhamos fundeado a perto de uma legoa de distancia, vagaro¬ samente fomos avançando ao longo da praia da terra firme, e examinando differentes edifícios e bo>ns pré¬ dios á feição dos da Europa, muito caiados e bem conservados, que fazem realmente agradavel ía apro¬ ximação a esta cidade. A’s onze horas pisei o terreno do reino de Angola , desembarcando no caes da alfan- dega, e logo me dirigi á praça da Q áStanda a casa do physico mor da província o doutor Manoel Maria Rodrigues de Bastos, meu antigo conhecido , de quem fiquei hospede. Achei-me então na cidade de S. Pau¬ lo da Assumpção de Loanda , 148 dias depois dia saída de Macao, 95 de Goa, 45 de Moçambique e 4 de Benguella. N’esta noite ainda fui dormir a bordo. O com- mandante da corveta achava-se bastante magoado, porque tivera resposta negativa á requisição do paga¬ mento de alguns mezes á guarnição, que fizera ao go¬ vernador apenas chegara : os cofres públicos estavam exhaustos, e o governo sómente se prestava a dar os fornecimentos necessários para a corveta seguir viagem pana Lisboa. Na verdade a situação do commandante era melindrosa. A’ saída de Macao deviam-se nove mezes á marinhagem, e deu-se-lhe esperança de que iriam receber nos portos por onde a corveta devia fazer escala; mas esta esperança foi mallograda pela falta de recursos. O atrazo estava em quinze mezes, e os po¬ bres marinheiros nem um real tinham para comprar tabaco de fumo: apenas á saída de Moçambique o commandante lhes fizera distribuir algum, á custa delle. Demais em Benguella os officiaes tinham rece¬ bido ires mezes de comedorias 7 porém nada deram á
  • 187 maruja, declarando o governador d’aquella cidade que só estava auctorisado a pagar comedorias, e nao sol¬ dadas. Isto me pareceu bastante injusto: os desgraça¬ dos marinheiros viram receber dinheiro aos seus supe¬ riores tão necessitados como elles a respeito de come¬ dorias , pois que todos a bordo tem igual ração de po¬ rão • não digo que não sejam devidas, mas em laes circunstancias foi muito odioso receberem pagamento só os officiaes, fosse a que titulo, fosse. O soíirtmen- to, constância, e obediência dos nossos marinheiros são’ admiráveis e bem dignos de louvor. Tudo isto me fez impressão , e me decidiu a otie- recer ao commandante o dinheiro necessário para um mez de pagamento á marinhagem , que effectívamante receberam, ar>>ipar do dinheiro de lortugal, e nao com a perda que costumam soffrer todos os que rece¬ bem do Estado na província de Angola; porque o auomento de 9b por cento sobre os pagamentos que sãcTdevidos em moeda forte, é hoje insuíhcienle paia compensar a depreciação da moeda provincial, corren¬ do cada peça de 8:000 rs. por 13:000 rs. Este offere- cimento deu logar á portaria do ministério da mari¬ nha de 6 de dezembro de 1852(*), e o dinheiro me foi pago no tempo devido pelo governo em Lisboa. (• 1 Tendo chegado ao conhecimento de Sua Magestade A Bainha , que na oecasião ein que a corveta D. Joao I se achava cm Angola na viagem que este anno fizera de Macao para <> reino. 'o cidadão Carlos José Caldeira, que n etla vinha de passagem , sabendo do atraso, em que se achava o pagamento das soldadas a marinhagem d’aquella corveta , nao so espon. a- neamente se offerecêra a adiantar os meios necessários paia um mez dc taes soldadas, como effectivamente adiantou na impor¬ tância de fill $620 réis, mas alem d’isso mera o adiantamento d’esta quantia ao par do dinheiro de Portugal, recusando o favor do cambio que se acha auctorisado para os saques que d’alli se fazem sobro o cofre d’esta repartição bem como qual¬ quer prémio ou iuteresso pela quantia adiantada , e de que lm embolsado no praso de ties e melo mezes ; Manda A Mesma Au¬ gusta Senhora, pela Secretaria de hstado dos Negocio* da Ma¬ rinha e Ultramar, Significar ao mencionado Carlos Jose Cal¬ deira, que viu com agrado aquejle seu generoso proccdimen- ■ to, e que por elle se tornou digno do seu Heal Louvor, - ta¬ co, em 6 de dezembro de 185.?. A. A. Jtrins d'Atouyuus.
  • 188 Bem conheço que me não ó proprio falUrr n’este assumpto, mas faço-o porque entendo que poderá ani¬ mar outras pessoas a actos similhantes, attenuando o receio geral e ás vezes exaggerado de confiar no go¬ verno. Este receio era tal em Angola, que appare- cendo repetidos annuncios officiaes da junta de fazen¬ da para tomar dinheiro provincial, saccando sobre a pagcidoria de marinha ao cambio ou abatimento de por cento auctorisado pelo ministério respeclivo, quasi ninguém entrava n’esta transacção, apesar de muito vantajosa, produzindo %% por cento die lucro em tres a quatro mezes, que é o tempo que medeia de ordinário entre o saque e o pagamento em Lisboa, quando é pontual. Convirá explicar isto um pouco. Quem tem 13:000 rs. provinciae«.q*querendo re- duzil-os a dinheiro forte para transportar para Portu¬ gal , só obtem no mercado monetário de Loanda uma peça ou 8:000 rs.; mas se entrega aquelíes 13:000 rs. á junta de fazenda recebe d’ella uma lettra po>r 9:750 rs. fortes sobre a pagadoria da marinha ( 13::000 rs. menos por cento ) segundo o cambio estabelecido: por consequência em cada 8:000 rs. ganha 1:750 rs. ou quasi ©2 por cento. Ora taes letras na maior parte tem sido pagas, e póde-se dizer que sempre o são mais tarde ou mais cedo; mas por falta de regularidade o governo soffre todas as consequências do desacredito, como se effectivamente as não pagasse. Logo que a fa¬ zenda publica se regularise convirá attender a este as¬ sumpto; mas nunca se pode esperar que a junta de fazenda faça os saques por cambio muito favoravel, pois que as próprias letras sobre o governo inglez se compram a razão de 6:600 rs. provinciaes por libra, o que dá em Lisboa 10 por cento de vantagem. Durante a minha residência em terra , todais as tar¬ des saía de maxila a differentes passeios pela cidade. Fui ao antigo passeio publico, hoje destruído por in¬ cúria e abandono, e onde observei a singularidade de terem alli collocado o tumulo de um inglez. Visitei o castello de S, Miguel, onde a.penas se
  • 189 entra dá nos olhos a seguinte inseripçao, posla 130 angulo do revelim, e que fielmente transcrevo com a mesma orlhographia com que se acha esculpida: Foi reedificado este revelim no anno de 18ol sen¬ do Governador Geral desta Provinda o Ex.mo Con¬ selheiro Adrião Accacio da Silveira Pinto, por ordem do mesmo Ex.™ Senhor Foi construída a estrada que da Esplanada conduz á Fortaleza, e consertados os Parapeitos da Estrada coberta e muralhas da con¬ tra escarpa Melhorando-se Progressivamente o estado de ruina em que se achava a Fortaleza. No alto d es¬ ta inscripção vêem-se as armas de família do mesmo Adrião Accacio, que as collocou também com inscri- pções n’outros logares em que se fizeram obras publi¬ cas durante a eia administração. w A fortaleza está collocada em uma posição emi- nentemente militar e pittoresca: o painel é soberbo sobre a cidade entremeada de arvores, o porto, a ilha e o Oceano : depois das bellas perspectivasde .Ma¬ cao não tinha visto nada melhor nas nossas possessões. A fortaleza está muito aceiada, os caminhos e rampas bem conservados, e todos os muros interior e exterior- mente rebocados e caiados de amarello. A fortaleza de S. Miguel, celebre por ser a primei¬ ra posição militar occupada pelos portuguezes (1575 ) , está levantada sobre o monte d’este nome, que se ele¬ va 116 pés acima do nivel do mar. Esta fortaleza pela importância de sua posição deve ser considerada a prin¬ cipal defensa da cidade. Tem uma fórma muito irre¬ gular , por haver sido necessário aproveitar a disposi¬ ção do terreno, e por ter sido construída em differen¬ ces epochas, aos lanços, segundo o gosto e capricho dos governadores ou direclores das obras. O polygono da fortificação pode considerar-se inscripto em uma cur¬ va fechada oblonga, cujo diâmetro maior é de 340 pés e o menor de 47. O seu perímetro está dividido em 17 frentes de desigual grandeza, formando ângulos salientes e reintranles, sendo uma só abaluartada com revelim na frente, cercada de estrada coberta e espia-
  • 190 nada. As outras frentes não tem fosso. As obras exte¬ riores são o revelim que cobre a porta principal, e uma bateria inferior do lado que olha para o norte. O armamento da fortaleza consistia em 59 peças e dois morteiros ,*posto que tenha 131 canhoneiras; e a sua guarnição em uma companhia de artilharia. Tem casa para residência do governador, uma capella da invo¬ cação de S. Miguel, diversos armazéns e um paiol construído no terrapleno da bateria do lado do noroes¬ te, e outras officinas. Tem uma grande cisterna á pro¬ va de bornba, que por tres a quatro mezes pódle abas¬ tecer uma guarnição de 3 a 4:000 homens, a razão de canada por dia. Nas suas proximidades nao tem al¬ turas que a dominem , nem poços ou fontes que pos¬ sam fornecer agua á tropa, a não ser^p as cacimbas da ilha. Estava preso na fortaleza de S. Miguel o coronel do Bihé Arsenio Pompilio, de quem então muito se faliava em Loanda. Eu já o tinha visto n’umai sessão do tribunal de justiça : inquiriam-se testemurnhas, e notei a singularidade ou antes illegalidade de estar o réo interrogando as testemunhas, e dictando-lhes os depoimentos, isto na presença do seu advogado, a quem a lei só concede esta ultima parte. Este coronel foi prèso e processado por failido de má fé e sleiiionato, e o seu processo trazia Loanda em agitação: os habitantes estavam divididos em dois bandos, e chamavam a isto guerra arsénica : era as¬ sumpto que havia tomado as proporções de negocio de Estado. Só apontarei, que começou por divergên¬ cias na eleição da camara municipal de 1851 , asquaes passaram a maior ponto nas imrnediatas eleições de deputados, e degeneraram em questões de amor pro- prio e de graves offensas pessoaes. Um dos que se mos¬ trou offendido, até alli amigo e beneficiador do coro¬ nel Arsenio, apresentou-lhe lettras que havia retido longo tempo , e o fez quebrar, apparecendo depois cir¬ cunstancias que deram fundamento á accusação de fal- Iencia de má fé e de sleiiionato, ou de ter vendido
  • 191 bens depois de fallido, no que appareceram complica¬ das varias pessoas conhecidas. A maioria e melhoria dos habitantes de Loanda era contraria ao accusado, mas também era muito geral a opinião de que alguém a quem chamavam então o dictador de Angola, sem ser governo , explorava habilmente este negocio em seu proprio proveito. As eleições de deputados nas províncias ultrama¬ rinas tem sido e são a origem de graves desintelligen- cias, de permanentes intrigas, e de muitas violências e immoralidades; sem que da representação de taes províncias na assemblea nacional lhes tenha resultado beneficio algum. E’ hoje opinião adoptada por muita gente sensata, que não haja deputados pelo Ultramar. A Inglaterra, cujos exemplos em administração pu¬ blica são sempre attendiveis, não os tem para as suas colonias. A boa gerencia de um conselho ultramarino supprirá muito melhor ás necessidades das nossas pos¬ sessões, do que os deputados que ellas possam nomear. Vi reunida a junta de justiça n’uma boa sala no palacio do governo, em cuja ante-sala estão alguns retratos de capitães generaes de Angola, e uma in- scripção em mármore preto e letras douradas, que a camara municipal de Loanda , em 1851, fez gravar em honra do governador Pedro Alexandrino da Cunha. A organisaçâo do tribunal ou junta de justiça era pés¬ sima e mesmo monstruosa, mas os recentes decretos publicados em janeiro de 1853, elaborados no conse¬ lho ultramarino, muito hão de melhorar a adminis¬ tração de justiça. Resta porém muito a fazer ainda no que toca á legislação. Continuei meus passeios. N’outra tarde fui á máian- ga do povo, que é um grande poço circular, do qual uma multidão de negros tirava agua a balde. Mais adiante ha outra maianga chamada do rei, d’onde se tira água para as repartições publicas e para o hospi¬ tal. Toda esta agua é má, mas d’ella bebe a maior par¬ te da população , e só a gente abastada usa da que se vai liuscat* ao rio Bengo, que depois de filtrada fica boa.
  • 192 Entrei n’um mosseque (assim chamam ás casas de campo pelos altos, e arimos ás fazendas e terras de cultura). O aspecto geral do campo é feio e arido; raras arvores se vêem, e o terreno parece saibroso e esteril. A 30 de abril, domingo do Espirito Santo, fui assistir ao pontifical na Sé ou igreja dos Remedios, que é vasta e aceiada: a musica era marcial, e do bata* Ihão do commercio, sendo a que se usa sempre nas festividades, por falta de outra. Assistiu o governa* dor, porém muito pouca concurrencia havia no tem¬ plo, uma unica senhora vestida á europea., poucos homens, e alguns negros e negras. Visitei uma senhora de muita nomeada em Loan- da, D. Anna Joaquina dos Santos Silva, a mais rica negociante e proprietária de Angola, á qual muitos chamam a baroneza de Loanda, porque já esteve para lhe ser dado este titulo, e os negros a appellidam An- gana Dembo, especie de soberana. E’ senhora idosa e que outr’ora possuiu fortuna de uns poucos de mi¬ lhões de cruzados, e que ainda hoje muito av ulta: di¬ zem que tem S:000 contos em dividas n’esta provín¬ cia. Possue uns mil escravos, e quasi outros tantos lhe andam fugidos. Já esteve no Rio de Janeiro onde ostentou extraordinário fausto, e dispendeu em seis mezes uns 40 contos do paiz, ou mais de S0 de Por¬ tugal. E’ viuva por segunda vez, e tem uma filha unica , casada no reino com um cavalheiro da casa dos Guedes Garridos, da Bouça, nas proximidades de Coimbra. N’outra tarde fui á fortaleza do Penedo por um bonito caminho bordado de arvores ao longo da praia. Esta fortaleza está construída sobre um rochedo ou ilhota de pouca extensão, a meio quarto de legoa da cidade. Tendo sido no seu principio um pequeno for¬ te , foi no tempo do governador e capitão general D. Francisco Innocencio de Sousa Coutinlio ( 1764 a 177(2) consideravelmente augrnentado com muita so¬ lidez e perfeição, e depois reedificado pelo capitão-
  • 193 general Manoel de Almeida e Vasconcellos (1790 a 1796). Tem uma cisterna que póde conter 11^5 al- mudes de agua. O seu polygono é um pentágono ir¬ regular formando duas baterias, uma inferior com 37 canhoneiras, e outra superior a barbete, em que podem assentar-se SO ou S3 peças. Tem paioes , armazéns, * quartéis, prisões, ermida dedicada a S. Francisco, e casa para o governador, tudo á prova de bomba. O seu armamento consistia em 47 peças de artilharia e um morteiro; mas os reparos da artilharia, ainda que pintados, estão em máo estado, e os melhores não po¬ derão resistir a oito tiros successivos. Esta fortaleza ser¬ ve de registo aos navios que entram no porto, e salva aos de guerra estrangeiros. Nos seus paioes se deposita a polvora do ^tado e dos particulares. Observa-se*'aqui o mesmo escandalo que na forta¬ leza de S. Miguel; lê-se no angulo do mar da bate¬ ria baixa o seguinte: Governando esta província o Ex.mo Sr. Conselhei¬ ro Adrião Accacio da Silveira Pinto, foi aformosea- da e completamente reparada esta fortaleza em gran¬ de ruma, principalmente este angulo do mar da ba¬ teria baixa em 1850. No alto d’esta inscripção acham-se também as ar¬ mas de família do mesmo governador, como na for¬ taleza de S. Miguel; e é para admirar a incúria ou a falta de brio nacional da aucloridade competente em não ter mandado arrancar taes documentos de uma fi- laucia fofa, e de uma reprehensivel audacia. Está próxima da fortaleza outra casa pertencente ao governador, cercada de algumas arvores e com um pequeno jardim, onde havia varias flores da Europa. Este sitio á beira mar e com bonita vista para o por¬ to e para a cidade, não deixa de ser pittoresco e agradavel. Governava a fortaleza do Penedo o major Castro, o mesmo que ha poucos annos acompanhou a Portugal o principe do Congo D. Nicolao Agua Rosada. Ainda que não tive occasiao de visitar a fortaleza 13
  • de S. Pedro da Barra, darei aqui resumida noticia (Telia. Esta fortaleza ou forte, fica a uma legoa de distancia da cidade. Teve origem no tempo em que os hollandezes estiveram de posse d’esta colonia, os quaes abriram na rocha de granito a bateria inferior ou do mar. Em 1703 o senado da camara, governan¬ do aquelles reinos, deu mais desenvolvimento a estas obras de fortificação, e cincoenta annos depois o go¬ vernador e capitão general D. Antonio Alvares da Cu¬ nha levantou este forte quasi desde o seu pé (1753 a 1758). Posteriormente fizeram-se-lhe algumas* mudan¬ ças. Tem uma cisterna que pode conter 760 almudes de agua, casa para o governador, armazéns para mu¬ nições de boca e de guerra, quartel para soldados, e um oratorio. O seu polygono differe. pouco de um quadrado de 146 pós de lado exterior, tendo n’elle quatro meios baluartes que ligados pelas competentes cortinas formam quatro frentes, das quaes a que olha para o mar tem duas baterias, uma inferior e outra superior, construídas a barbete. A fortaleza esslá guar¬ necida com S6 bocas de fogo de differentes calibres. Tem próxima a fonte da Cassandama, que lhe forne¬ ce agua e aos habitantes do campo e seus gados. N’um dia de madrugada fui ao cemiteriodo Alto das Cruzes, n’uma elevação sobranceira ea pouca distancia da cidade. E’ um espaçoso terreno quadran¬ gular , cercado por uma especie de vallado, tendo no centro uma cruz sobre uma base pyramidal em de- graos: na rua que vai da entrada a esta cruz ha vᬠrios monumentos, que cousistem quasi todos em pyra- mides de cantaria, feitas em Portugal, no gosto já tão commum e enfadonho das que se veem nos cemi¬ térios de Lisboa : nem um único havia que tivesse ele¬ gância e originalidade, e quasi todos tinharm inseri- pções em verso. Notei não haver capella para deposito dos corpos. O meu genio triste inclina-me a passear por cemi- terios, mas aborrecem-me n maior parte das inscripções que se leem nesses monumentos da vaidade dos que
  • 198 morrem , ou dos que ficam no mundo. À adulação e u mentira tem invadido até a tremenda mansão da morte. Quantos sentimentos falsos e mentidos não vão por essas lapidas? Quantas lisonjas a mortos não estão revelando a miserável ironia de quern as fez, e provo¬ cando o sarcasmo a quem as lê? Quantos viúvos e viuvas, ou ricos herdeiros inconsoláveis, não zombarn do mundo e de Deus, affectando dor e saudade nas inscripções sobre a pedra, quando, ingratos ou esque¬ cidos , só o contentamento e o egoísmo lhes fica es¬ culpido no coração? Quantas infamias, quantos cri¬ mes atrozes não jazem muitas vezes ligados á memó¬ ria d’esse pó, sobre o qual pesam soberbos mausoleos , como a justúja de Deus pesará na eternidade sobre a alma condemnada que o animou ! Oh ! quanto mais me agrada a louza rara e singe¬ la, onde se lê um só nome, uma só letra, sem data, sem elogios! Letra que só sabe decifrar no intimo de sua alma aquelle que dedica puros affectos, ainda para além da vida, ao objecto mysterioso do seu amor, e da sua saudade; mysterio que julgaria profanar se o patenteasse ao vulgo indifferente, ou á sociedade cor¬ rompida ! Ao regressar do cemiterio passei por alguns mosse- ques, consistindo quasi todos em plantações de man¬ dioca, sem arvores, nem belleza, excepto o do nego¬ ciante Flores, que apresentava arvoredo, e uma casa de elegante fachada. D’estas elevações ha bonita vista sobre o porto, onde estavam fundeados 1& navios mer¬ cantes, sendo um só estrangeiro. A 10 de junho foi dia do Corpo de Deus. Pelas 7 horas chegou o bispo á Sé, e se começou a missa solemne, com o ceremonial que é de uso, e á qual muito pouca gente assistiu; concorreram porém algu¬ mas senhoras, em geral vestidas com muito luxo. Vie¬ ram successivamen te chegando os corpos militares; uma guarda de honra do commercio se postou á porta da igrçja 5 fts companhias de sapadores e artilharia, e o
  • 196 batalhão de linha se postaram em alas, formando um rectangulo na praça da Quitanda, dita ofhcialmente de D. Pedro. Seriam ao todo uns 600 homens, bem fardados em grande uniforme, de bella apparencia militar, e manobrando com bastante perfeição, não tendo inveja aos corpos bem disciplinados do exercito de Portugal. Foram chegando os membros da camara municipal, e varias auctoridades e empregados civis e militares, todos vestidos no rigor da etiqueta; viam- se ricas fardas bordadas a ouro, &c. N’estas faustosas apparencias é que abundamos, até por estas distantes colonias, fazendo bem miserável contraste co>m o que nos falta em boa policia e governo. As pessoas convidadas para a festividade d’este dia, em vez de assistirem á missa nos logares jftue lhes esta¬ vam destinados, conservaram-se pela maior parte no adro da igreja, e o maior numero com o chapeo na cabeça, passeando defronte das portas abertas do tem¬ plo, em frente do throno de Deus. O pouco respeito pela religião do Estado , e cren¬ ças de nossos pais, é sempre censurável, principalmen¬ te em actos públicos, e ainda mais nas colonias, onde tantos elementos ha de desmoralisação. Se se pertende moralisar o paiz, expressão muito commum e louvável em certa roda de gente de Loanda, cumpre que as au¬ ctoridades e pessoas influentes dêem exemplos de prati¬ ca e de veneração do christianismo, solida base de toda a verdadeira moral e civilisação, e fazendo jassim co¬ meçarão n’esla parte a moralisar-se a si mesmos, que é o melhor meio de conseguir a moralisação dos outros. O governador chegou já depois de terminada a missa, e pelas 9 horas saiu a procissão, que quasi se reduzia ao cabido que precedia o pallio, e ao acompa¬ nhamento de varias pessoas que o seguiam, sem nenhu¬ ma cleresia nem irmandades, e fechava o préstito a guarda do commercio, a qual depois de recolher o Sa¬ cramento deu tres descargas de fuzilaria, perfeita¬ mente executadas, ao que correspondeu a fortaleza de S. Miguel com uma salva real.
  • Mas, nao obstante as observações referidas, este acto religioso foi realmente mais esplendido e appara- toso do que eu esperava ver em uma colonia africa¬ na. Na verdade Loanda tem melhorado muito n’estes últimos annos, e póde-se dizer hoje uma cidade poli¬ ciada , contendo boas casas, e espaçosas praças e ruas, pelas quaes se veem alguns elegantes carrinhos, carrua¬ gens, e cavallos de regalo, encontrando-se muitas lo¬ jas vastas e aceadas , ricamente sortidas de todas as mercadorias. No l.° semestre’de 1852 tinham-se ex¬ pedido pela camara municipal 253 licenças para esta¬ belecimentos públicos; entrando 13 casas commer- ciaes, 37 lojas de fazendas, 24 mercearias, 53 taber¬ nas , e varias outras industrias. Em 1851 contava a cidade 7’igrejas, 2 palacios , 2 hospitaes'Ymilitar e da misericórdia), 4 quartéis, 1 terreiro publico, 173 casas de sobrado, 391 terreas, 2:683 cubatas ou barracas onde habitam os negros, contendo ao todo 6:334 fogos com perto de 15:000 habitantes, sendo brancos pouco mais de 800, nao contando os da força militar. A cidade tem illumina- ção publica , uma companhia para acudir aos incên¬ dios, e 9 estações de policia, que é feita por uma companhia de empacasseiros (soldados negros), deno¬ minada de segurança publica : ó dividida em alta e baixa cidade, tendo dentro das barreiras cinco quar¬ tos de milha de comprimento, e ires quartos na maior largura. Foi-me proveitosa a vinda a Loanda: vendi com lucro considerável quasi todos os objectos de luxo que trouxe da China com destino para Lisboa, e que nun¬ ca pensara vender alli depois da passagem da galera Smirna com um carregamento completo de generos da China, que tiveram muita extracção, e da corveta Goa que também vendeu muitos productos da indus¬ tria chineza, e da India. A galera Smirna era da pra¬ ça de Macao, e do negociante Alexandrino Antonio de Mello, que intentou a especulação de a mandar á costa oriental de Africa, onde fez avultadas e vania-
  • 198 josas vendas nos portos de Mossamedês, Benguella, e Loanda, principalmente em arroz e assucar da Chi¬ na, que era a carga pesada ou de estiva; seguiu para o Rio de Janeiro com o resto do carregamento. Uma negociação bem dirigida de Macao, n’um navio que toque nos portos de Moçambique e de Angola, até ao Rio de Janeiro ou a Lisboa, offerece muitas pro¬ babilidades lucrativas; ou também pelo inverso ir de Lisboa a Macao o navio carregado com os generos que para alli se costumam enviar, e na volta vir fazendo aquella escala. Tendo sabido que algumas pessoas da co)rveta ha¬ viam obtido do administrador da alfandega liciença para expor á venda na mesma alfandega vários objectos, eu sollicitei a mesma permissão, e me M concedida. Além (Teste mercado costuma haver ourro menos li¬ cito a bordo de varias das nossas embarcações de guerra, cujas praças d’armas são em muitas occasiões lima verdadeira feira , patente a nacionaes e estran¬ geiros, que vão a bordo fazer suas compras, e passam depois tudo por contrabando. Já um distincto escriptor da classe da marinha, o primeiro tenente Francisco Maria Bordalo, disse pela imprensa , que uma parte dos officiaes da nossa arma¬ da nos envergonham dentro e fora do paiz, tornando- se negociantes de retalho e contrabandistas. Tem ra¬ zão aquelíe escriptor, e é insuspeito o seu testtemunho. INada ha rnais improprio e nocivo ao brio,
  • 199 manha ás 5 da tarde. Parece incrivel n incúria, c o desleixo n'este ponto dos empregados fiscaes, e das auctoridades superiores. Ouvi que os guardas d’alfan- dega que estacionam a bordo dos navios mercantes em descarga, iam de noite ficar para casa, e se aponta¬ vam outros abusos e extravios, que mesmo assim já são menores do que foram. Os direitos que se cobravam na alfandega sobre objectos da China eram a oitava parte dos respectivos direitos em Lisboa, e pagos na moeda fraca do paiz, fundados na disposição do § 6.° do art. l.° da pauta das alfandegas de Angola, publicada em “25 de junho de 1849; quanto a mim mal applicada para taes obje¬ ctos , porque não são de industria nacional, nem na¬ cional isados^ pois na nossa colonia de Macao nada se fabrica, nefTf ha alfandega, e tudo quanto se carrega nos navios portuguezes é comprado em Cantão , e vem logo directamente para bordo dos mesmos navios. Constou-me que esta applicação do referido artigo fora provisória, e que se consultára a tal respeito o gover¬ no da metropole. Se porém os rendimentos d’alfande- ga não forem melhor fiscaiisados, então mais vai dei¬ xar as cousas como estão, porque o augmento dos di¬ reitos nos artefactos da China fará com que nenhuns absolutamente vao á alfandega, que deixará de rece¬ ber esses mesmos poucos que ora cobra. A’ nossa chegada reinavam na terra muitas doen¬ ças. No primeiro dia em que desembarquei, durante pouco tempo vi tres enterros. Conduziam os corpos em maxilas, acompanhados com pranteadeiras negras es¬ cravas, ou alugadas, fazendo uma descompassada vo- zeria. Não era tal vista de bom agouro para um rc- cem-chegado a estes climas. Felizmente porém não adoeci, mas senti-me com muitas disposições para isso nos últimos dias que estive em terra. A bordo adoe¬ ceram sete marinheiros com febres, porém o estado sa¬ nitário da população europea tinha melhorado com a estação do cacimbo, ainda que raras eram as pessoas que mais ou menos não soffriam.
  • 200 Assegurava-se que era mui sensível o tnielhoramen- to do clima n’estes últimos annos, devido em parte á reforma de máos hábitos , de comesanas, de ceias lau¬ tas ? e á cessação do commercio da escravatura, que obrigava a ter amontoadas porções de negros nos pa- teos das casas, como em curraes de brutos, sem aceio algum, e d’onde se exhalavam pestilentes miasmas. As orgias e o jogo forte também cessaram ou tem di¬ minuído muito em Loanda. O commercio da escravatura parece que esteve de todo paralysado nos últimos dois annos; mas durante os poucos dias que estive em Loanda corriia por certo que tinham saído das proximidades duas (carregações de escravos, e de uma ao menos não havia duvida» I
  • 201 n Noção liisforica d*Angola** administração d© Pedro Alexandrino da Cunlia * © noticias geraes sobre população, clima, religião, força publica, finanças», agricultura, e com- mercio. Depois d,as descobertas do nosso celebre navegador Diogo CanT^ que de 1485 a 1491 percorreu toda a costa d’Angola e Benguella, estabeleceram os portu¬ gueses trato e commercio n’estes paizes; porém attra- hidos mais pelo ardor das descobertas e conquistas na Asia, não trataram de fazer alli estabelecimentos per¬ manentes, até que em 1575 foi mandado de Portugal o famoso capitão Paulo Dias de Novaes, nomeado l.° governador e capitão mór da conquista d’Angola, com uma expedição de 7 navios, e vários missionários, de que alguns eram jesuítas. Desembarcou n’aquelie an¬ no na ilha de Loanda em solemne procissão, e d’alli passou á terra firme, e fundou a villa de S. Paulo, edificando uma igreja sobre o morra de S. Miguel. Tal foi a origem da cidade de S. Paulo de Loanda. Continuou Paulo Dias a conquista para o interior, e depois de repetidos successos e victorias morreu no meio dos seus gloriosos trabalhos em 1589. Succede- ram-lhe vários governadores que foram augmentando a colonia, que obteve grande prosperidade nos princí¬ pios do século XVII sob o governo do insigne Ma¬ noel da Cerveira Pereira, que pelo anno de 1617 con¬ quistou o reino de Benguella, e fundou a povoação chamada hoje cidade de S. Filippe de Benguella. Por 1633 começaram os hollandezes a hostilisar-nos
  • n’estas paragens, e em 1641 appareccram com uma formidável armada sobre Loanda, que foi abandona¬ da pelos seus habitantes, entrando n’ella os lollande- zes em <25 d’agosto d’aquelle anno, e no de 1645 to¬ maram Benguella. No entanto os portuguees se ha¬ viam retirado para o interior, concentrando-e princi¬ palmente em Massangano, e sustentando a gierra com os hollandezes; mas achavam-se em grande aperto, quando em li2 d’agosto de 1648 surgiu á barra de Loanda o heroe Salvador Correa de Sa Benevides, que do Rio de Janeiro saíra com uma exp
  • 203 rios regulamentos em differentes ramos de administra¬ ção , e deixou outros preparados, cuja publicação sus¬ pendeu logo que lhe constou a nomeação do seu suc¬ cessor Adrião Accacio da Silveira Pinto, para lhe não impor os seus trabalhos, os quaes todavia este apro¬ veitou. Até este ponto levava Pedro Alexandrino da Cunha a sua rara abnegação no serviço publico, dei¬ xando a outros, e mesmo algumas vezes attribuindo- lhes o mérito e os trabalhos que só lhe pertenciam. Foi a agricultura sobre tudo que lhe mereceu o maior desvelo: aproveitou quantos meios tinha á sua disposição para promover o seu desenvolvimento, não só aconselhando os principaes proprietários para que a cila se dedicassem com fervor, como dando-lhes ins- trucções sobre culturas, confiando-lhes pretos libertos, mandando ir*sementes e plantas, dando frete gratis nos navios do Estado a alguns dos seus productos, con¬ cedendo só postos de &.a linha a quem mostrava em¬ pregar-se na agricultura, &c. De tão intelligentes e perseverantes esforços resultou em grande parte o augmento de producção que hoje se nota em Angola. Também é muito de mencionar o serviço que pres¬ tou áquella província moralisando os empregados pú¬ blicos, que, especialmente os das alfandegas, proce¬ diam alli bem pouco dignamente. A decencia, a gra¬ vidade, e a honra substituíram a relaxação, a impu¬ dência , e o escandalo que antes se encontravam em algumas das repartições publicas de Loanda. Foi justo sempre nos negocios públicos, fiel exe¬ cutor das ordens do governo, e não se sujeitando ao domínio de outrem, conseguiu fazer cessar as intrigas; flagello que talvez é alli mais damnoso do que as fe¬ bres endemicas do paiz: por isso desagradou no come¬ ço da sua administração a alguns moradores de Loan¬ da, costumados a dominar tudo, e a ingerir-se com prejuízo geral nas cousas do governo; mas por fim ti¬ nha adquirido o respeito e o amor de todos os seus administrados, pela sua independence e honra, pela justiça e inteireza com que governava? e pelo zelo e
  • 204 efficacia com que procurava sempre desenvolver a pros¬ peridade da província. Por fim quando deixou o governo é que soube que tinha por amigos todos os moradores de Loanda, que íx porfia procuraram mostrar-lhe a sua affeição. A oc- cultas d’elle representaram para Portugal (infelizmen¬ te em vão) que fosse reconduzido, e em 1849 o ele¬ geram deputado ás cortes, por voto unanime dos elei¬ tores. O nosso governo o condecorou com a commen- da da Torre Espada pelos seus serviços em Angola, e o governo inglez reconhecendo a honra d’eiste nosso funccionario, e o zêlo com que cumpria e faizia cum¬ prir o tratado para a suppressão do trafico dai escrava¬ tura , fez a seu respeito especiaes recommendações ao governo portuguez. ^ Regressado a Portugal foi incumbido'de importan¬ tes commissões, que lhe acarretaram graves desgostos, indo a final morrer a Macao, onde só o levára o res¬ peito pelas ordens do governo, e o capricho que sem¬ pre mostrou de nunca se negar a servir a suia patria. Já referi no primeiro volume quanto este su
  • nador disse rrurn documento official, que o seu pro¬ cedimento civil fòra inalteravelmente optimo e exem¬ plaríssimo, e que muito o auxiliára em supportar as fadigas da administração com o seu zelo, fidelidade, intelligence, e assiduidade. Estas expressões tem gran¬ de significação e valia por serem d’aquelle governa¬ dor , cujo caracter era tão grave e severo. Um dos bons serviços especiaes do secretario João de Roboredo, foi por em ordem o archivo da secreta¬ ria do governo geral, que estav'a reduzido a um mon¬ tão de truncada e carcomida papelada, tendo-se per¬ dido importantes documentos por desleixo, deixan¬ do-os roer pelo insecto chamado celalé, que produz os mesmos effeitos destruidores que a formiga branca em Macao. JDs papeis que escaparam á delapidação dos hollande&s, no tempo do seu domínio, á negli¬ gencia, e aos vermes foram archivados methodicamen- te, e em ordem chronologica; trabalho insano, con¬ tinuado depois assiduamente pelo secretario Francisco Joaquim da Costa e Silva, que também mereceu o louvor de Pedro Alexandrino. Nos modernos tempos em que, especialmente no Ultramar, são tão raros os bons empregados públi¬ cos , é grato mencionar alguns que alli bem serviram, e deixaram boa mernoria. População e clima. Os nossos domínios d1 Angola e Benguella jazem entre 8 e 18° de lat. sul, mas desde os 5o 12' já ti¬ vemos posse, e ainda temos o direito sobre a costa res- pectiva. O littoral que effectivamente dominámos é de 170 legoas, sobre 100 para o interior, comprehenden- do tudo aproximadamente a superfície de 17:000 le¬ goas quadradas, contendo por aproximação 500:000 habitantes, que obedecem á coroa portugueza ou que lhe são tributários. N’este numero contam-se 1:417 brancos, 5:300 pardos, 380:400 pretos livres, e uns 112:000 escravos, Existem alguns territórios indepen-
  • 206 dentes encravados nos nossos domínios, onde se julga haver acima de 400:000 almas. O clima ao longo da costa é todo mais ou menos doentio, mas no interior ha terras que passam por sau¬ dáveis. As moléstias que actualmente mais se obser¬ vam no paiz sâo as febres inflammatorias agudas, e as dysenterias, que são muito frequentes nos pretos. As febres intermittentes simples tornaram-se menos communs, e cedem á dietetica, sendo hoje raros os casos typhoides. Religião, e mstrucção publica. E’ muito deplorável o estado da religião n’estes paizes. O bispado d’Angola, que teve gjincipio na só do Congo em 1597, esteve modernamente 14 an~ nos sem bispo residente, até que alli chegou em abril de 185^ o actual bispo D. Joaquim Moreira Reis, que empregava todas as diligencias para melhorar as cousas da religião. Os templos do interior estão quasi todos desmoro¬ nados , tendo sido extraviadas a maior parte das suas pratas, e mesmo algumas das pertencentes ás igrejas da capital. Em junho de 185^ apenas havia 13 cléri¬ gos em toda a província : 4 conegos e 3 sacerdotes in¬ dígenas; 3 conegos, 1 beneficiado, e 1 minorista que foram de Portugal com o referido bispo; e 1 presby- tero irlandez. Dizia-se geralmente que os padres indí¬ genas eram na maior parte relaxados, tendo muitos filhos, e dando-se á embriaguez. A pesar de haver tão poucos ecclesiasticos, clles não tem grande trabalho com as funeções do seu ministé¬ rio; porque quasi ninguém vai á missa, e raras sao as pessoas que se confessam e recebem sacramenitos, mes¬ mo á hora da morte, sendo em geral os m
  • 207 do (Testas também duas em Benguella, e uma na maior parle dos presidios. Todas porém são quasi nominaes, porque de ordinário estão vagas, ou apenas se conser¬ vam abertas seis mezes no anno, pelas doenças de que são accommettidos os professores, e por outras causas. No fim de 1850 todas as escholas da província eram cursadas por 7 brancos e ^69 nativos, o que em rela¬ ção a 500:000 habitantes, por cada 10:000 dá 5 que apenas adquirem alguma pequena instrucçao. Força publica. Existia em Loanda um batalhão d’infanteria de linha , com 8 companhias , e 456 praças. Compoe-se na maior parte de degradados por crimes capitaes, de algumas praça^voluntarias , e de uns 100 negios re¬ crutados: tem duas bellas companhias de flancos , gra¬ nadeiros e atiradores, todas de homens brancos esco¬ lhidos, e que não tem inveja ás melhores companhias dos corpos de Portugal. Os soldados são perfeitamente subordinados, e parece incrivel que tendo sido a maior parte grandes facinorosos, apenas houvesse pequenas faltas a castigar, e poucos casos de embriaguez. N’este batalhão é grande a mortalidade por causa das febres do paiz, que atacam com muita frequên¬ cia os soldados, expostos aos rigores do sol e do ca¬ cimbo no serviço da guarnição da cidade, sem terem actualmente capotes nem calças de panno para os res¬ guardar , fazendo sempre o serviço de calça branca em todas as estações. O fardamento e vestuário é á sua custa, porque se lhes devem tres annos de massas, e o grande uniforme que vestem nos dias de galla, ou nas paradas geraes, tem doze annos de idade 5 mas ainda conserva boa apparencia, apesar de estar todo remendado. . Havia mais em Loanda os seguintes corpos: Uma companhia d’artilharia com 100 homens de bella gente, também na maior parte degradados, e igualmente subordinados, a qual guarnece o caslello
  • 208 de S. Miguel, e dá destacamentos para as fortalezas do Penedo e S. Pedro. Uma companhia de sapadores com 100 praças pou¬ co mais ou menos, composta de degradados, e que se emprega nas obras publicas. O chamado esquadrão de cavallaria, que teria uns 30 cavallos muito inferiores, 12 dos quaes estavam em operações na guerra de Cassange com o gentio: os restantes existiam na cidade empregados em orde¬ nanças do governador, e em perseguir alguns deserto¬ res, que tentam sempre passar para o Amibriz. O batalhão de voluntários caçadores
  • 209 to para um ponto de tanta importância como é Loan- da, sendo ao mesmo tempo prodigo em dar armas excellentes aos corpos que tão frequentemente se tem organisado no paiz para guerras fratricidas, e que pela maior parte ficam extraviadas. Para a Africa porém regateam-se meia duzia de espingardas, sempre que d’alli se reclamam para conservar o decoro da nossa bandeira, e manter- na obediência os sovas do inte¬ rior , que constantemente se estão rebellando! Nos presidios de Muxima, Massangano, Camba- be, Pungo Andongo, Duque de Bragança, Encoge, Novo Redondo, e Caconda lia companhias de linha, compostas de negros e de alguns brancos que para alli se mandam de castigo. Em Benguella ha também duas companhias ú<' linha, e uma em Mossamedes. Ha mais em todos estes presidios, á excepção de Novo Redondo, e nos districtos companhias moveis de linha, e a tropa a que chamam Guerra Preta , ou empacasseiros, os quaes nas guerras contra os gen¬ tios são sempre os que marcham na frente, apoiados pelas companhias de linha e moveis. E’ péssimo o ar¬ mamento de toda esta gente: a maior parte das suas espingardas não tem fechos, e se os tem faltam-lhes outras peças principaes. A força de l.a linha em Angola regula por <2:000 homens no estado completo, mas no effectivo de or¬ dinário não excede a 1:500. Toda a força militar no estado completo chega a õ:$00 homens, e a despesa com a folha respectiva é de 160 contos de réis, mais de metade do rendimento total da província. Finanças. No anno economico de 185& a 1853 o rendimen¬ to publico de toda a província foi calculado no orça¬ mento em ^97 contos, e a despesa em 330, havendo o deficit de 33 contos no estado completo; mas lendo em conta as muitas vagaturas que ha nos quadros, ainda existia o saldo de 10 contos. N’este orçamento 14
  • 210 porém não entra a despesa com a estação naval, por¬ que está a cargo da metropole; mas é supprida pelos cofres d’Angola, o que tem ordinariamente produzi¬ do o deficit de 70 a 80 contos annuaes, montando aquella despesa, e a da com missão mixta a perto de 100 contos. O thesouro de Portugal é por isto deve¬ dor ao de Angola por avultada quantia. N’esta província ha quasi todos os impostos exis¬ tentes no reino, porém quasi todo o rendimento pro¬ vém das alfandegas, que entram por 210 comtos no calculo da receita. A moeda peculiar da província denominai-se ma¬ cula , valendo as de cobre 50 rs. cada uma, e n’esta especie ha moedas de meia, uma, e duas macutas: na especie prata ha moedas de 2,4,6 > 8 , 10, e 12 macutas, tendo o cambio ou augmento' de 25 por cen¬ to em relação ás de cobre. As praças de Loanda e Benguella experimentam grande falta de moeda provincial de prata e d
  • 21 i Jgricullura• Felizmente começam a desenvolver-se alguns ramos de cultura, que podem fazer prosperar muito esta rica província. O algodão, segundo ouvi, já se cultiva nos pre¬ sidios de Massangano, Cambambe, e nos districtos d’Ambaca, Dande, e Calumbo. Dizem ser de opti¬ ma qualidade , e que os algodoeiros são grossos e altos. Isias margens do Bengo e Dande produz-se muita canna d’assucar de boa qualidade, e d’alli trazem os negros diariamente grande numero de cannas para o mercado da Quitanda em Loanda, e que o povo pre¬ to compra para mastigar. D. Anna Joaquina dos San¬ tos Silva , rií^i proprietária de que já fallei e que pos- sue muitos feirenos e plantações nas ditas margens, intentou desde 1846 estabelecer alli um engenho para a distillação de aguardente e fabrico do assucar; e em 1851 obteve excedentes amostras de assucar e aguar¬ dente, productos muito valiosos para o commercio doeste paiz, tanto do sertão como da metropole. Em Mossamedes a colheita da canna em 185*2, e a optima qualidade de assucar que produziu dão as melhores esperanças de que esta cultura tomará final- mente o incremento que se deseja, e que tantas van¬ tagens deve promover. Alguns proprietários de Ben- guella também começam a dedicar-se a este ramo de agricultura. O arroz produz em quasi todos os districtos, mas no de Ambaca é onde mais se cultiva, e dizia-se que em 1851 fora alli a colheita para mais de 700 arrobas. A cultura das batatas está muito espalhada, es¬ pecialmente em Massangano, Ambaca, e Dembos, sendo de optima qualidade. O café, tão importante artigo de exportação, pou- • co cuidado tem merecido aos especuladores. Em 1835 João Guilherme Pereira Barbosa encontrou um matto de caféseiros no districto de Cazengo, que tentou e conseguiu explorar, e cultivando~o depois, elevou a 14 *
  • âi2 producção a mais de 1:000 arrobas. Este estabeleci¬ mento estava agora dirigido por Antonio José Lopes Soeiro , que vai augmcntando a cultura, trazendo já ao mercado de Loanda para cima de *2:000 arrobas. N’aquelle districto ha mais alguns cultivadores de ca¬ fé, e nos presidios de Muxima, Massangano, Cam- bambe, Pungo Andongo, S. José de Encoge, e n’ou- tras partes ha já grandes plantações de caféseiros. Os coqueiros sâo tidos n’este paiz como arvores pouco importantes, quando na índia constituem só de per si a riqueza de muitos povos. O governadoir Adrião Accacio da Silveira Pinto teve a boa lembrança de requisitar ao governo de Goa a vinda para Angola de um cultivador entendido na plantação dos coqueiros, e no modo de tirar d’elles todo o provei*o de que são susceptiveis. E com effeito na corveta D. João veiu de passagem o portuguez indiano Christovão José de Mendonça, contractado pelo governo para o mencio¬ nado fim, com o vencimento de 600 patacas amnuaes , e outras vantagens. Apenas chegado a Loancda, quiz logo aproveitar-se do seu préstimo o proprietíario José Maria Mattoso da Camara, o qual também obteve do governador geral que lhe fossem entregues dois na- turaes do Estado de Goa, que tinham vindo como grumetes na corveta D. João, e que podiam coadju¬ var o mencionado Mendonça. O dito Mattoso da Camara possue em Caibo Lom¬ bo, a duas legoas ao sul de Loanda, uma b*oa fazen¬ da , de uma legoa de frente e perto de quatro de fun¬ do , com grande casa e uma vasta ollaria, onde fabri¬ ca telha, tijolo e louça de barro vidrada e nao vidra¬ da, objectos que sempre se tem importado da metro- pole por subidos preços. Também tem tres fornos de cozer cal de conchas, e um curral com ISO bois de carro. E’ pertença d’este estabelecimento na fronteira ilha de Casanga um terreno de uma legoa de frente e um quarto de largura, com horta e plantação de carrapateiros e algodoeiros, que promette tornav-se importante; e á beira mar tem uma plantação de co-
  • 213 queirós, que conta i:$00 pés, parte dos quaes pro¬ duz já abundante fructo. Em dezembro de 185$ publicou-se officialmente no Boletim d’Angola, que o proprietário Mattoso co¬ lhia bons resultados dos trabalhos dirigidos pelo refe¬ rido Mendonça, na extracçao e preparo dos importan¬ tes productos que fornecem os coqueiros (já miuda- mente mencionados no capitulo V d’este livro), convi¬ dando-se os cultivadores da provincia a tirarem parti¬ do d’este exemplo, e a receberem do mesmo Men¬ donça as necessárias instrucções. £m abril de 1853 vie¬ ram para Lisboa amostras do azeite de cõco, e de cor¬ das de cairo fabricadas no referido estabelecimento. Oxalá que esta cultura e industria se generalise na provincia, para a qual será um grande manancial do riqueza. TanlBem dos cajueiros, que por toda a parte crescem em Angola, se pode tirar o vinho e aguar¬ dente, que é de tanto consumo na índia, e que mui¬ to o poderá ter na Africa. A cultura da mandioca, feijão, e milho acha-se muito augmentada. No anno agrícola do l.a de se¬ tembro de 1850 ao fim de agosto de 18-51 a produc- ção do paiz foi aproximadamente de $93:349 arrobas de farinha de mandioca, 80:7$4 de feijão, e 55:941 de milho. Os preços regularam de 500 a 800 rs. a arroba de farinha, 500 a 900 rs. a de feijão, e de 400 a 600 rs. a de milho, em dinheiro provincial. Ainda ha poucos annos a maior parte da farinha era importada das ilhas de S. Thomó e do Rio de Ja¬ neiro , d’onde no referido anno agricola apenas se re¬ ceberam $4:453 arrobas de farinha ^ de modo que a producção do paiz está muito próxima do consumo. Com tudo nos portos do sul ainda ha falta d’este arti¬ go. pela pouca actividade dos seus habitantes. Minas. Tem sido e é duvidosa a existência em Angola de minas de ouro ou de prata; sendo- porém abundantes
  • 214 * as de ferro , que os negros desde remotos tempos ex* trahem, fabricando com elle vários objectos. A fabri¬ ca de ferro estabelecida em 1800 no Gòlungo Alto re- mette presentemente para Loanda 4S0 barras de ferro cada mez; porém as minas de cobre e de enxofre, rToutro tempo exploradas, estão agora em abandono por falta de especuladores. Existem minas de carvão de pedra nos sítios da Cabengama, e Quitatua na foz do D ande, como parece que foi descoberto em 1839 pelo doutor João Conrado Lang, mas de sua averi¬ guação não se tem tratado até agora, nSo obstante a grande importância d’este mineral. Industria e commercio, * • • ,*o A industria fabril n*este paiz acha-se ainda em muito atrazo, com quanto vá agora tomando algum incremento. Estabeleceu-se em Loanda uma fabrica de tecidos * d^algodâo do proprietário Valentim José Pereira, que principiou a trabalhar em 5 de setembro de 1851. Além d^isso já se faz cal, louça «de barro, telha, tijolo, sal, debulha-se e limpa-se o algodão, construem-se embarcações, fabrica-se o ferro, extrahe- se o azeite de palmeira, &c. A industria commercial é a mais importante da província, mas está ainda soffrendo o abalo e crise pro¬ duzidos pela repentina suppressão do trafico) da escra¬ vatura , e luctando com as difficuldades que apresenta o commercio interno, pela falta de estradas e meios de transporte para conduzirem os generos de exportação e de consumo aos mercados de Loanda e Benguella. E’ sabido que todas as conducções são feitas ás costas dos negros carregadores, que tem de transitar quasi sempre por caminhos escabrosos, por serras, despenha¬ deiros, e mattos cerrados. S>em vias de communicação nunca se pode espe¬ rar desenvolvimento considerável na agricultura, e no commercio interno, que alimenta o externo, Comtu- do o que se faz com a metropole tem lido considera- 4
  • 215 rei augmento n’estes últimos annos, em que as entra¬ das dos navios mercantes no porto de Loanda tem re¬ gulado annualmente por 80, sendo mais de Õ0 nacio- naes, e d’estes o maior numero da praça de Lisboa. O valor das importações de 1850 a 1851 foi 804 con¬ tos, e 495 o das exportações. Sabe-se quanto é difficil no nosso paia obter dados estatísticos commerciaes, faltando as publicações offi- ciaes a tal respeito. Consegui porém obter a seguinte nota feita por pessoa que estava ao alcance de a for¬ mar com exaclidão.
  • Generos vindos das possessões portuguezas dfAfrica occidental, e entrados na alfanâega de Lisboa durante o anno de 1852.
  • 217 Estes generos foram conduzidos em 22 navios por- tuguezes, e todos exportados de Angola e Benguella, á excepçao do café, a maior parte do qual veiu da ilha de b. Ihomé. Não se póde dar como exacto o valor do marfim, porque se reuniu n’uma só addição a quantidade do de lei, meão, e escaravêlho, ape¬ sar de que o calculo foi feito segundo o sortimento que de ordinário vem de Angola. Acha-se junto o ca- de S. 1 home, Cabo Verde, e de Angola, mas pode-se calcular que o d’esta ultima procedência mon- taria de 10 a 12:000 arrobas, e que o total das expor¬ tações de Angola para Lisboa em 1852 regulou pelo minimo por 700 contos de réis fortes, attendendo a que faltam na nota acima alguns generos que também vieram, taes como azeite de palma, pontas d’abada, dentes de címillo marinho, pelles de onça, e outros de menos vulto. Advirta-se porem que, além dos generos mencio¬ nados , se exportou de Loanda e Benguella para o luo de Janeiro e Pernambuco grande porção de ce¬ ra , azeite de ginguba ou mandobim, e oleo de pal¬ ma, saindo carregados 7 ou 8 navios 5 exportação de grande importância, pois que a cêra foi talvez dois terços da que veiu para Lisboa, e o azeite e oleo, constituindo a maior parle dos carregamentos como generos volumosos, subiria a grande valor; porquanto o azeite de ginguba regulou de 90 a 95:000 rs. a pi¬ pa, e o oleo de palma de 55 a 60:000 rs. Saíram mais paia Londres o brigue Alliança e o patacho Zar- go, carregados com cêra, urzella, marfim, e outros generos, e bem assim vários navios da União Ameri- cana, com carga dos mesmos generos e gomma copal. Da nota transcripla vê-se que a cera, e a urzella sao os generos que mais avultam no commercio; mas a urzella é o. de maior importância para a nossa na- vegaçao, pois que pelo seu volume fornece a maior paUe da carga dos navios. Este producto é um mus¬ go (lichen fuciformis) que cresce e se apega em cer¬ tas arvores e arbustos, tendo util applicação nas artes
  • 218 de tinturaria para produzir a cor da betarraba e suas variantes. Propriamente o nome de urzella se dá no com- mercio estrangeiro á massa preparada com os lichens ou musgos colorantes, e tendo a côr vermelha violeta muito carregada. Ha poucos annos só eram conheci¬ dos no commercio os lichens rocella txnctoria, rocella fuciformis , e outros colhidos nos rochedos, sendo pre¬ feridos os que se produzem nas ilhas Canarias, de Ca¬ bo Verde, da Madeira, e de Sardenha , e de menos valor os que se encontram nos Pyreneos, no> Auver¬ gne, na Suécia e na Noruega. Também nos rochedos da costa de Portugal se acham estes musgos. O lichen que se cria nas arvores não era aprovei¬ tado , e do que se produz na Europa se sa,bia que pou¬ ca ou quasi nenhuma materia colorante contém; mas em 183*2 principiaram as primeiras diligencias para aproveitar a urzella ou musgo que produzem as arvo¬ res em Angola, diligencias excitadas e dirig;idas pelo negociante da praça de Lisboa, Francisco Illodrigues Batalha, o qual depois de muitos sacrifícios
  • 219 variar inteiramente desde 1830 o estado das relações commerciaes entre os doispaizes. Antes d’aquella epo- cha quasi todas as relações commerciaes da nossa Afri¬ ca Occidental eram com o Brazil, indo apenas de Por¬ tugal um a dois navios annualmente, que levavam para Angola umas 1£0 pipas de vinho; depois foi cres¬ cendo a navegação até ao ponto em que hoje se acha, empregando-se actualmente de ^0 a %ò navios na car¬ reira de Portugal para Angola, que levam regularmen¬ te de 1:800 a ^:000 pipas de \inho, além de muitos productos portuguezes agrícolas e industriaes, consti¬ tuindo a urzella a maxima parte da carga que os di¬ tos navios trazem no seu regresso ao reino. Esta na¬ vegação emprega algumas 400 pessoas, e promove a subsistência de mais de 100 famílias. D’este dé&nvolvimento de communicações tem re¬ sultado para Angola o augmento do commercio cm todos os ramos, da civilisação, e da população euro- pea, tendo-se até por causa da exploração da urzella reconhecido muitos logares da costa, que antes não foram visitados. Por estes resumidos dados se pode avaliar a impor¬ tância do serviço que fez á sua patria, e em especial áquella província, o benemerilo negociante Francisco Hodrigues Batalha.
  • 220 Kdéa geral «lo» costumes dos negros nos nossos domínios d*Angola* Dividem-se em tres castas os habitantes d’e>ta vasta região; europeus, mulatos, e pretos. t>'estes os que habitam o sertão se dividem em tantas nações quantos são os potentados ou sovas, e todos se podem distri¬ buir em tres classes: A primeira de pretos calçados, que são os que se tem civilisado e adquirido conheci¬ mentos , a ponto de chegarem a exercer cargos eccle- siaslicos, civis e militares , ou occupar-se no commer- cio e em pombeiros, especie de agentes no sertão das casas de negocio da cidade; a segunda classe compoe- se na maior parte de soldados da l.a e &.a lirha, em- pacasseiros, e artistas livres e escravos; a terceira é a dos pretos que habitam os sertões, e se empregam uns na agricultura, outros em conduzirem ás cosias os pro- ductos aos mercados, e o resto vivem no ocb e exer¬ cício de seus costumes selvagens. A lingua bunda, que dizem se acha h
  • 221 mui supersticiosos, e adoram ou prestam culto a um sem numero de divindades, que elles invocam segun¬ do as propriedades que lhes attribuem; principalmen¬ te nas occasiõcs de doença , para saberem a sua causa, deixando-se muitas vezes morrer por não quererem su¬ jeitar-se a tratamento regular: prestam-se todavia com muita facilidade, e até grande desejo a receber o ba- ptismo; porém dos que o recebem poucos são os que vivem como christãos, por falta de educação e outras causas. Habitam em pequenas cubatas ou choças, feitas umas de páos a pique e cobertas de capim sêcco, e outras todas de palha. Os seus moveis consistem em um podão, uma panella, algumas esteiras, uma ou duas vasilhas^jara agua, em algumas partes um tear de tecer as tangas, e outros objectos de insignificante valor. São excessivamente immundos, tanto nas casas, como nas pessoas. Os pretos andam quasi nus, trazendo apenas uma tanga ou estreita faixa, pendente da cintura: alguns trajam calça, jalleca, e calçam chinellos, querendo por isso chamar-se brancos; outros usam, nos braços e nas pernas, de manilhas de cobre e de ferro. As mulheres enrolam-se n’uns pannos de zuartes, ou d’outr$s fazendas de algodão ou palha, conforme suas posses, passando-os por baixo dos braços, e cain¬ do-lhes até aos joelhos. Usam também em algumas partes de grandes pannos que tingem de escuro com certas hervas, e com que se cobrem da cabeça até aos pés, á maneira de grandes capas, deixando apenas ver parte do rosto; e trazem a carapinha penteada com differentes feitios, e cheia de azeite de palmeira, usando também muito enfeitar-se no pescoço e braços com contas, missangas, avelorios, e coraes. São os homens muito perguiçosos: passam geral¬ mente os dias deitados junto das cubatas a fumar n’um cachimbo ou a fiar, quando não andam'pelos batuques ou danças a divertir-se e a embriagar-se, ou não es¬ tão empregados no serviço de carreto. São as mulhe-
  • vos que cultivam algum pedaço de terra junto das ha¬ bitações , ou os escravos , forçados a isso pelos senhores* Naturalmente cobardes na maior parte dos distri- ctos do interior da nossa província, são cruéis, fracos e até ladrões, principalmente uns para com os outros: torna-se porém notável, que sendo o commercio de transito feito no interior ás costas de prelos, os quaes quando conduzem as faciuras ou não vão acompanha¬ dos, ou se o vão é apenas por um ou dois pretos la¬ dinos dos feirantes a que chamam pombeiras, raras vezes acontece roubarem das fazendas que levíam. Sustentam-se ordinariamente das folhas (da man¬ dioca, da raiz da mesma planta ou farinha de páo^ de milho, feijão, hervas, gafafthotos , alguma caça , e algum peixe dos rios e lagoas; reservando os outros viveres ou subsistências para os comer rfa occasiâo das solemnidades dos seus funeraes, ou para os vender ou trocar por fazendas e cachaça, ou aguardente de'ean- na, a que dão apreço extraordinário especialmente nos seus festins, e que é um poderoso demento para fa¬ zer a guerra , ou restabelecer a paz, e para conseguir d’elles tudo quanto se quizer. Além (Testa bebida usam lambem da que chamam uhalla (feita de milho pisa¬ do ), de farinha de mandioca e agua, e do vinho de palma. Torna-se mui notável a maneira porque entre estes povos se celebram os casamentos, se tratam as doen¬ ças, e se fazem os enterramentos e exequias. Darei tTisso uma breve noticia. Casamentos 4 Distinguem dies duas maneiras de celebrar o ma¬ trimonio: ou segundo as formas da nossa religião e leis, a que chamam propriamente casamento, ou a seu modo gentílico, a que chamam lembamento. Nos primeiros observam o seguinte: Celebrado o sacramento e servido um jantar segundo as posses do noivo j é este quasi violentado pelos parentes a reco-
  • 223 lher-se com a noiva a um quarto de antemão prepa¬ rado, onde tem collocada junto da cabeceira da cama uma espingarda carregada; duas horas depois, pouco mais ou menos, os parentes da noiva como impacien¬ tes de saber se ella foi achada immaculada, e se o noi¬ vo é varão perfeito, balem fortemente á porta com grande arruido, até que o noivo disparando a espin¬ garda pela janella dá signal de estar o matrimonio çonsummado, e de ter achado a mulher virgem: n’es- te caso todos que estão de fora correspondem com ap- plausos e repetidos tiros, deixando depois os noivos tranquillos o resto da noite, em quanto os parentes e amigos folgam satisfeitos e contentes. Se porém o noivo não dá o tiro, entendido fica que o matrimonio não está çonsummado, ou que em algum d’elles falta ou defeito,- n’este caso ficam os parentes e amigos tristíssimos, tratando logo de inda¬ gar d’onde a falta provém. Quando o homem accusa a mulher de macula, o sogro ou outros parentes tra¬ tam por meio de dadivas de resolvel-o a que não faça o caso mais publico, separando-se da mulher, ao que quasi sempre elle annue; quando porém é a mulher que accusa o homem de impotência, o casamento fica immediatamente annullado, e o homem mal visto e aborrecido de todos. Não se guarda porém entre estes povos, apesar de christãos, o preceito religioso de terem uma só mu¬ lher ; pois que além d’esta tem outras a que chamam concubinas, e muitas escravas chamadas mucambas, vivendo com todas juntamente. Nos lembamentos procedem da maneira seguintes Logo de tenra idade são as mulheres pedidas aos paes ou parentes para serem lembadas, começando o noivo logo que ellas chegam á puberdade a mandar-lhes de tempos a tempos presentes de missangas, sal, peixe, carne ôcc., e recebendo também outros similhantes dos paes d’ella. Decorrido algum tempo, faz-se o lemba- mento, que consiste na remessa aos paes da noiva de certa porção de fazenda (que varia segundo a riqueza
  • 224 do noivo c outras circunstancias), com a indispensᬠvel garrafa de aguardente, sendo este presente levado por um dos parente9 do noivo, o qual conduz a noiva para casa d’aquelle, acompanhada por outros que vão cantando, e a introduzem n’um quarto preparado para a receber, onde dorme duas ou tres noites sem se juntar com o noivo,* depois volta para casa dos paes em companhia do mesmo parente, e regressando em fim para casa do noivo se consumma o lembamento. Se é encontrada virgem, o homem trata logo de o communiear aos sogros ou parentes, por meio de uma garrafa de aguardente, ou outra qualquer bebi¬ da, completamente cheia; se pelo contrario a não en¬ contra intacta, faz esta communicação mandando a garrafa apenas meia, praticando em seguida muitos máos tratos com a mulher, para oble? U’ella a decla¬ ração da pessoa que a desflorara, resultando d’isto um processo a que chamam opanda, de que fallarei no seguinte artigo* Estas scenas repetem-se em todos os lermbamentos que os negros fazem durante a sua vida, e como usam da polygamia, tomam ás vezes 5 , 10, e mais mulhe¬ res, segundo as suas possibilidades, para as ir dotan¬ do; consistindo a sua fortuna e opulência no maior numero d’ellas que possuem, pois que são as mulhe¬ res que em grande parte se occupam nos trabalhos ru- raes e n’outros, de cujo producto sustentaim os seus filhos, e os maridos, ou barregões como lá lhes cha¬ mam. Ora como uma só não póde trabalhar tanto que sustente por todo o anno seu marido ou antes senhor, acontece algumas vezes que este reparte o anno em tantos prasos de tempo quantas são as suas mulheres ou barregãs, e em cada praso é obrigado a cohabitar com a respectiva mulher, a qual o sustenta , esmeran¬ do-se em tratal-o bem em quanto goza da sua compa-* nhia. O mais geral porém é viverem com as mulhe¬ res em commum, ou com parte d’ellas, trabalhando todas para o sustentar. Se alguma deixa de cumprir com 03 seus deveres, tem elle o direito de a restituir á
  • 225 . sua família, recebendo o dote que deu por ella. D’es- ta maneira o marido passa a vida regaladamente, no meio da abundancia, do ocio, e de prazeres variados. Divorcio. Quando algum preto desconfia da fidelidade de sua mulher ou amasia, ou mesmo não tendo a menor desconfiança, e pertende ganhar á custa do credito d’ella alguma cousa, obriga-a torn ameaças e até com pancadas a declarar que tem commettido opanda ou adultério com um certo indivíduo, expondo-se a mulher, quando não satisfaça a similhante exigencia, a ser victima da brutalidade do homem. Obtida a declaração verdadeira ou falsa, o mari¬ do ou amasio1 Tnanda chamar logo um dos parentes d’elia, que geralmente é o tio, e fazendo-lhe patente a declaração da mulher o encarrega da cobrança da expiação do crime, o que é arbitrado em grandes som- mas em relação aos meios do adultero. Se o indiví¬ duo a quem é attribuido o crime, mas que muitas ve¬ zes o não tem commettido, recusa pagar a opanda, é citado para a presença do chefe, e ainda que não seja alli convencido de réo, assim mesmo a final resolve-se a pagar por temer os feitiços de que ás vezes lhe re¬ sulta a morte. Apesar de todo este processo, nem por isso o homem se separa da mulher que accusou, antes ao contrario continua a viver muito bem com ella, porque d’esse recurso lança mão muitas vezes para obter fazendas, gados, e outros objectos, attribuindo opandas, ora a uns, ora a outros. Se a mulher ajudada dos parentes, e por não po¬ der supportar o marido, resolve separar-se d’elle, este faz logo conta da despesa que fez com ella em todo o tempo que viveram juntos, exigindo d’ella e dos pa¬ rentes o seu pagamento, ao que estes se prestam por quererem libertal-a, levando elle então em conta al¬ guns presentes que da mulher haja recebido. Esta separação também se pratica da mesma for- 15
  • 226 ma muitas vezes por não ter a mulher filhos, porque sempre se suppõe que o defeito está no homem, que fica por isso desprezado, ou mal visto de todos;.e en¬ tão a divorciada pode unir-se a outro homem. Doenças. Logo que algum preto ou preta adoece, trata o doente ou a sua familia de indagar a causa da molés¬ tia, que attribuem geralmente a feitiços de algum inimigo, ou a hungi ( paixão mortal), ou ai nzumbi ( alma do outro mundo); e para saberem quail d’estas tres causas seja a da doença chamam um preto, a que dão o nome de quimbanda, o qual depois de usar de certos embustes prestigiosos declara a causa da doen¬ ça , e trata do seu curativo, de ordina. ió com infusões e fricções de vegetaes, e ligando ás vezes com certas cordinhas os braços e pés do doente. Finalmente se a causa é attribuida ao nzumbi, ou alma do outro mun¬ do, o quimbanda diz que esta pede um escraavo, que o doente tem de comprar, ainda que para issto se in- divide, mas que em vez de ser para o nzumbi é para o charlatão do quimbanda. Durante a moléstia, para o feiticeiro não saber do doente e lhe fazer maior mal, o mudam occultamen- te de noite para outra casa distante da sua, para a qual, se morre, reconduzem depois o cadaver, e en¬ tão os seus parentes e amigos concorrem para as despe¬ sas do enterramento, a que chamam obito ou tambe. Enterramentos ou obitos. Annunciam a morte de qualquer individuo por tiros de espingarda, e começa logo a juntar-se em casa do morto grande numero de pessoas de ambos os sexos, umas carpindo e pranteando muito á roda d’elle, em quanto outras tocam, cantam e dançam os seus batu¬ ques: os parentes, entornando sobre si cinzas e. im- mundicies, andam apressurados a entrar e a sair de
  • 227 casa do defunto com grande gritaria e muitos tregei- tos, mostrando d’este modo a sua dor e sentimento; e muitas mulheres, sem serem parentes, giram pelo quintal da casa continuamente, em turmas de danças e cantigas fúnebres. Se o morto tem de ser enterrado em sagrado, ti¬ ram-lhe as unhas e alguns cabellos, fazendo d’isto e de diversos milonfos ou feitiços um pequeno embru¬ lho, que enterram em logares privativos, levantando sobre a sepultura uma especie de tumulo abrigado por uma casa mui pequena, diariamente varrida por al¬ guma pessoa da família ou escravo durante o oitava- rio das solemnidades do obito, e sobre elle poem di¬ versos ulensilios domésticos, bebidas, e manjares em signal de con^emoração. Depois d’isto O defunto e o cônjuge vivo são ambos levados em tipoias differen- tes para casa dos sogros, onde deixam o vivo, e levam o morto a enterrar ao cemiterio mais proximo, indo com grande acompanhamento de ambos os sexos can¬ tando e dançando, para que a alma do defunto vã alegre; julgando em algumas partes que para ella ir mais contente, é necessário que haja desordem e até ferimentos, de que ninguém pode queixar-se. Concluído o enterramento é o viuvo ou viuva levado ás costas de uma pessoa do seu sexo á margem d’um rio, onde o mergulham para se lavar, e sendo depois reconduzido para casa, fica encerrado por oito dias em um quarto sem luz, e privado de comer co¬ zido , de lavar o rosto, e até de fallar a pessoa de dif- ferente sexo. As exequias, ou obitos, como lhe chamam os pre¬ tos , são depois celebradas por oito dias e ás vezes mais, reunindo-se todos os parentes e vizinhos, co¬ mendo e bebendo em excesso, e cantando e dançando* Durante estes dias matam muitas aves, porcos, vi- tellas, carneiros, para tudo ser consumido nos banque¬ tes; e se o casal do morto não tem meios, os parentes fazem as despesas, chegando muitas vezes a empenhar para isso algum d'elles, por dinheiro ou fazenda. 15 *
  • 228 O viuvo ou viuva conserva-se por tempo de um anno n’este estado, e só depois póde tornar a casar- se , preferindo o parente mais proximo do fallecido cônjuge, havendo-o. Mas, para que assim o possa fa¬ zer , é mister que o seu estado de liberdade seja reco¬ nhecido pelos parentes , os quaes reunindo-se de novo matam um cabrito e uma gallinha, que cozinham com certos feitiços para todos comerem ; mas se o viu¬ vo ou viuva recusa a comida, é por elles accusado de crime contra a castidade, que tem de expiar com da¬ divas por todos arbitradas. Snccessões. Na maior parte dos sertões de Anjja a successao das heranças é regulada por modo que os filhos não herdam dos pais, mas sim os irmãos uterinos destes. Esta forma de successao é commum a muitos outros povos barbaros, que a fundam em razões tão singula¬ res como oppostas á ordem natural hereditar ia, reco¬ nhecida e adoptada pelos codigos das nações civilisadas. No ultimo dia do oitavario das solemnilades do obito, assentam n’um banco o parente mais clegado do fallecido, que julgam deve ser o herdeiro, apesentan- do-se n’este acto todos os bens do defunto, em geral muito insignificantes, mas que assim mesmo são mui¬ tas vezes causa de grandes desordens, porque os ir¬ mãos, tios, sobrinhos, primos, e netos todos que¬ rem herdar. Governo , administração, e guerras, O governo dos povos do interior de Angola é uma ©specie informe de soberania electiva. Os sovas, che¬ fes das povoações ou tribus, sao eleitos pela parte dos seus súbditos que formam a sua corte, e a que cha¬ mam macotas, que são os fidalgos, ministros, ou con¬ selheiros dos sovas. Quando fallece algum sova, reunem-se os maco-
  • 229 tas em assemblea para eleger o seu successor , durando estas reuniões por espaço de oilo dias, e sendo geral¬ mente no fim d’elles que se faz a eleição, a qual sem¬ pre recai em descendente de antigos sovas, escolhendo ora n’uma ora n’outra familia, e quasi nunca na mes¬ ma do antecessor. Vão então os macotas buscar o sova eleito, baten¬ do-lhe á porta, e quando elle pergunta quem é, lhe respondem que o chamam para ir acudir ao infortú¬ nio que succedèra na casa de um parente, e logo que abre a porta e sai, é agarrado e conduzido a uma cu¬ bata a que dão o nome de cásui; alli o prendem amarrando-o pelos pés, e assim o conservam por al¬ guns dias, até que se distilla do corpo do sova morto uma baba, rme dão a beber ao successor. Em quanió guardam para o dito fim o corpo do morto, conservam também o eleito sentado ou deila- do n’uma especie de tarimba sobre uma esteira, fa¬ zendo-se n’este intervallo grande festa, em que se con¬ somem muitas bebidas. Depois da referida operação é o sova morto enter¬ rado no cerni ter io privativo, e então se faz a coroação do seu successor, pondo-lhe as insignias da sua digni¬ dade, que são um barrete na cabeça, na mão esquer¬ da o sceptro (que consiste n’um bocado de pao com um rabo, ou cauda de algum animal), o bastão na mão direita, e um pequeno couro de lontra cingindo- lhe a cintura \ depois o macota mais graduado lhe faz uma cruz na testa com fuba (farinha feita de milho), untam-lhe as mãos com a mesma farinha, e por fim o proclamam sova, tomando logo posse do sovado, e de todas as mulheres do seu antecessor. Passado algum tempo os macotas apresentam ao chefe do districto o novo sova para ser confirmado, e d’este acto feito com certas ceremonias se lavra termo. Os sovas tratam os seus súbditos por filhos; mas que funesto amor paternal! Em algumas partes ainda se sacrificam creaturas humanas por occasião do falle- cimealo e exaltação de algum regulo ou sova. I.ra
  • 230 Cassange praticam-se barbaridades que fazem estreme¬ cer ? por oecasião da morte do jaga e da posse do que o substitue. Em Ambaca ( no cubado do Piri) lançam ao rio as crianças, a quem nascem primeiro os dentes de cima. Só o exercício da religião christã poderá pôr termo ou minorar estes actos, que repugnam e tanto são para lamentar. A sua administração interna varia muito segundo as localidades. Em geral costumam dividir os seus ter¬ ritórios em districtos, cada um com seu chefe , no cen¬ tro dos quaes assenta o rei a sua tenda, ccom o seu séquito de macotas ou gangas, a cujo cargo está a administração das terras, rendas, &c. Os negros sao valentes nos combates, e manejam com destreza as azagaias, frechas, e espingardas. As suas guerras são quasi sempre de senho? lo para senho¬ rio, de libata para libata, com a simples mira na ra¬ pina: talam os campos, arrebatam os rebanhos, e as¬ saltando as cubatas captivam homens, mu.lheres, e crianças. Teria muito mais que dizer sobre os costumes e modo de viver d’esta gente , se o comportasse a nature¬ za d’esta obra. Mencionei apenas alguns dos costumes que me pareceram mais singulares, pelos quaes se po¬ de avaliar o estado de ah azo e de rudeza d’uquelles povos.
  • 231 Fundação da Colonta de ^ossamedei» o sen actual estado» Ainda qu^não visitei este novo estabelecimento, direi d’elle o que pude colher de varias informações que obtive, e que alcançam até ao fim de 185^. A bahia de Mossamedes, a que os inglezes cha¬ mam Litte Fish Bay, jaz em 15° 8' de lat. sul, e 21° IV de long, a leste de Lisboa. Por ordem do go¬ verno foi explorada em 1785 por mar e terra, com vistas de se fazer alli um presidio, o que porém caiu cm esquecimento, e só em 1839 o vice-almirante A. M. de Noronha, governando Angola, encarregou de uma nova exploração por mar ao capitão tenente Pe¬ dro Alexandrino da Cunha, ao mesmo tempo que o tenente João Francisco Garcia partia por terra ao mesmo destino. No relatorio do primeiro feito em 1840, e na memória do segundo em 1841 se dão cu¬ riosas noticias sobre a fertilidade e riqueza dos territó¬ rios contíguos para o interior, as quaes todavia pare¬ ce não serem tão grandes, conforme depois se reco¬ nheceu. Logo em 1840 começou a povoação, e depois all* se estabeleceram feitorias de negociantes de Angola e Benguella, e se levantou um forte , sendo estes traba¬ lhos continuados em 1841 pelo capitão tenente Fran¬ cisco Antonio Gonçalves Cardoso (commandante do brigue Tejo alli estacionado), e que penetrou até á
  • 232 Huila, a 50 ou 60 legoas no interior, onde pela pri¬ meira vez fez tremolar a bandeira portugueza. Foi crescendo o estabelecimento, e em agosto de 1849 alli desembarcaram 165 colonos portuguezes, idos de Pernambuco, sendo 115 homens, 87 mulheres, e menores; levando tres maquinas de engenhos para o fabrico do assucar, e os utensílios respectivos; e em 1850 chegaram mais 80 a 90 colonos, idos da Bahia e do Rio de Janeiro. Mossamedes conslitue hoje um districto, mas por agora verdadeiramente não é mais que um jpresidio, porque o governador reune todas as attributes mili¬ tares, judiciaes, e administrativas. E* a ultima po¬ voação na parte sul da província d’Angola, assente tPum areal cercado d*outros, onde pogeos dias ha de excessivos calores por causa das constarias virações do sul, regulando a temperatura pela do mez de maio em Portugal. 1 em uma nascente de boa agua com partí¬ culas ferre as: o clima é salubre, e no littoral da pro¬ víncia é o ponto onde melhor vive, e vingja na sua pureza a progenie da raça branca. Não ha chuvas, e a humidade das terras provém das inundações, con¬ servada depois pelos cacimbos, ou névoas baixas, que duram de 4 a 5 mezes. O fundeadouro e o porto são excellentes, havendo sempre desembarque seguro, mesmo nas maiores calê- mas. Na bahia abunda prodigiosamente peixe de boa qualidade, do qual fazem salgas e séccas que expor¬ tam para Benguella, Loandu, e ainda pan o inte¬ rior. Os povos proximo» criam muitos gados, ]ue já se vão costumando a vender, e os mais distante os ven¬ dem até mesmo com preferencia á cera e irar fim, o que produz muita abundancia e barateza de carnes, que se exportam para abastecimento da estaçio naval, e consumo em Loanda, propondo-se agora ílguns es¬ peculadores a seccar a carne á maneira do Brazil, o que se pode tornar um importante ramo deexporta- SSq* Um boi grande custa, termo medio, >;0Q0 rs.
  • 233 no interior, e 9:000 rs. na povoação, onde regular¬ mente se vende a carne de consumo a 1:000 rs. a ar¬ roba, ou a pouco mais de 600 rs. fortes. TJltimamen- te tentava-se fabricar manteiga, o que se pode fazer em ponto grande, principalmente nos Gambos, onde ha prodigiosa abundancia de leite. D’antes muitos dos negros dos arredores recusa¬ vam-se , e ainda alguns se recusam , a vender gados em maior quantidade, porque pareçe que os tem na mes¬ ma conta dos nossos bens vinculados, sendo regulada a importância e consideração do indivíduo pelo nume¬ ro de cabeças que possue. Em algumas partes só ma¬ tam os bois, e lhes comem a carne por occasiao dos casamentos e obitos, fazendo com as caveiras e pontas uma especie monumentos fúnebres. Além dos'gados commercia-se com o gentio em sal mineral, marfim, cera, urzella, abada, milho, e feijão. Nos limites de Mossamedes desembocam duas no¬ táveis torrentes, ou rios Bero e Giraul, que apresen¬ tam nas suas margens varzeas de terreno vegetal, mais ou menos salgado. Ainda porém não estão bem mar¬ cados os tempos proprios de lançar á terra as sementes de differentes productos, nem também conhecida a vantagem que se tirará das differentes culturas, pois que ha tres annos tem faltado as grandes inunda¬ ções, que fertilisam as terras. Comtudo ha já algumas plantações da canna sacarina feitas pelos colonos, sen¬ do as principaes no Bumbo, Cavalleiros, e Giraul: a do Bumbo é dirigida pelo colono José Leite d’Albu¬ querque, homem laborioso e muito intelligente na cul¬ tura da canna e fabrico do assucar; acha-se porém a 30 ou 35 legoas de Mossamedes, n’um paiz muito fértil e abundante em mattas, mas doentio, e é prote¬ gida por um destacamento da companhia de linha do districto: a dos Cavalleiros que pertence a Bernardino Freire de Figueiredo e Castro; e a do Giraul que foi estabelecida á sua custa por J. J. da Costa, colono que veiu do Brazil com numerosa familia, e algum
  • 23 i capital. Começam a fazer-se sementeiras d’algodao de que vi uma amostra de superior qualidade, mas faltam ainda as maquinas para o descaroçar. Planta-se a mandioca ou pão commum , que por agora não tem chegado para o consumo; attendendo porem ao incremento que vai tomando esta cultura talvez no fim (Teste anno ( 1853), ou no proximo já possa chegar. Abunda em excellentes hortaliças e ba¬ naneiras, produzindo também muito boas uvas - e já vai havendo algum arvoredo, mas ha muitai falta de lenha. Contam-se já umas 400 habitações, sendo 48 de pedra e barro cobertas d’argamassa, das quaes uma so e de pavimento alto , e o resto são cubatas. O nu¬ mero actual de colonos idos do Brazil,4 d’uns 100 de ambos os sexos e todas as idades, e regulam por $0 os principaes moradores que anterior e posterior- mente alli se tem ido estabelecer. Os habitantes negros serão uns 600 entre livres e escravos, comprehenden- do talvez 800 almas toda a povoação, incluimdo perto de 200 brancos. Existem uns 20 operários de differen- les officios, alguns muito perfeitos. Ha 12 vendas ou lojas de fazendas e molhados ou líquidos, 3 padarias, e umas 8 casas de commercio, que por termo medio giiam com o capital de 8 a 10 contos cada uma. Mo¬ de/namen te tem ido a Ui negociar 3 navios [portu^ue- zes e 2 braziíeiros, que se deram bem , achiar/do pa¬ gamento nos retornos das suas permutações, com tanta ou mais promptidão que nos outros portos da provín¬ cia : com tudo o maior movimento é no commercio de cabotagem para Benguella e Loanda. Ha uma botica do governo, e um soffrivel hospi¬ tal, que poderá conter 20 a doentes5 mas que de ordinário muito poucos contem, o que bem prova a salubridade do sitio. DuranLe o anno de 185^ o maior numero de doentes que alli se reuniu foram 13, entre brancos e negros, incluindo feridos e os de moléstias chronicas; e quando em julho de 1849 visitou aquelle estabelecimento 0 governador d’Angola Aclrião Acca-
  • 235 cio da Silveira Pinto, estava o hospital fechado por falta de doentes. Existe um mestre regio, regendo effeclivamente a cadeira de instrucção primaria, com 1$ discípulos, tendo uma pequena bibliotheca fornecida pelo gover¬ no, e apropriada ao ensino da infancia. Ha também uma mestra regia, que tem 4 discípulos. Observa-se em geral mais moralidade nos costumes da população , do que de ordinário se encontra nas colon ias d’Africa. Uma parte dos colonos foram casa¬ dos, e outros se tem casado depois. Em outubro de 185$ foi a Mossamedes o padre D. Antonio da Rocha Leite, secretario do bispo d’Angola, mandado por este em missão especial, e alli celebrou 1$ casamentos entre colonos^ e 70 e tantos baptismos de brancos e negros. Os míácimentos de brancos orçam por 30 de¬ pois do estabelecimento definitivo da colonia. E’ muito para lastimar que n’esta nascente povoa¬ ção faltem os soccorros religiosos; não ha alli padre nenhum permanente, e a igreja está ainda por con¬ cluir, tendo sido começada no meado de 1849. Tam¬ bém o pequeno forte que protege o povoado está por acabar, mas tem montadas G peças de differentes ca¬ libres. O governo durante dois annos sustentou todos os colonos que permaneceram no Estabelecimento e se entregaram á cultura, e só lhes suspendeu o subsidio em outubro de 185$, vivendo já todos soffrivelmente pelo producto do seu trabalho. Até ao fim do dito an¬ no não havia qualidade alguma de imposto, nem di¬ reitos d’alfandega, o que parece conveniente continuar até que a colonia se consolide, e se desenvolva de mo¬ do que possa contribuir para as suas despesas publicas , que aliás se limitam a 500^000 rs. mensaes, forne¬ cidos pelo cofre de Benguella. Com taes elementos parece que esta colonia devia ter prosperado, e adquirido maior importância; mas diversas causas tem concorrido para assim não aconte¬ cer ; a principal talvez foi a má escolha dos colono,s 3
  • / tendo sido em boa parte perdida a grande despesa que o governo de Portugal fez com o transporte d’elles, por serem quasi todos impróprios para uma colonia agrícola, taes como caixeiros, escreventes, logistas, vadios, &c., de modo que em breve tempo desampa¬ raram o Estabelecimento, ou foram victimas de doen¬ ças, restando hoje poucos, e d’esses os principaes se dedicaram com preferencia ao commercio. O gosto e dedicação á cultura parece que se tem desenvolvido agora, depois das felizes experiemcias fei¬ tas com a canna da colheita de 185£, que offeireceu o morador e proprietário Fernando Cardoso Guimarães, e que se moeu no engenho que fez montar o governa¬ dor José Here u la no Ferreira da Horta, produzindo assucar de tão boa ou melhor qualidade gue o do Bra¬ zil, e com o accrescimo pelo menos dé1 Qò por cento sobre a producção ordinaria da canna n’aquelle paiz. Vi as amostras d’aquelle assucar que vieram para o conselho ultramarino, nos estados bruto, puirgado, refinado, e cristallisado; e dizem que os tres emgenhos que foram comprados pelo governo são perfeiitos no seu genero. Pelas poucas experiencias até agora praticadas, a conclusão geral que se pode tirar a respeito da cultura em grande, é que será vantajosa a da canna e a do algodão • porém não a do café, que em vão íse tem ensaiado. Em summa Mossamedes está ainda ino seu começo, e posto que nos últimos tres annos tenhia cres¬ cido e melhorado, comtudo carece ainda de muitas diligencias, cuidados, capitaes, e espirito emprehen- dedor. Vivem proximo» a Mossamedes duas tribus de gen¬ tios, que pouco tem perdido dos seus hábitos natu- raes, e que ainda se podem dizer nómades. Os h
  • 237 bas, saídas directamente de Mossamedes para Portu¬ gal , sendo esla na opinião de alguns a melhor urzella de Ioda a província. Os sertões de Mossamedes são ainda muito pouco conhecidos , e por isso julgo util transcrever aqui as noticias mais modernas que ha d’elles, as quaes jun¬ tas ás que publicou o tenente Garcia e a outras mais antigas, podem conjunctamente fornecer elementos para o conhecimento d’aquelles paizes, no que tanto interessam a geografia e outras sciencias, e os nossos interesses ligados com o futuro d’esta nova colonia. Segundo exactas informações que obtive, o colono Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro y que tem ido ao interior do paiz, dá as seguintes no¬ ticias * Seguindo ^jara o nascente a torrente Bero até á sua origem a oeste dos Gambos, encontiam-se uns 14 sovados pouco consideráveis, cujos povos se chamam Mondombes, ou filhos do Dombe, nómades que vi¬ vem de caça e do gado que pastoream. Seguindo também para o nascente a torrente Gi- raul, encontra-se um esteril deserto, cortado de cor¬ dilheiras, em cujos valles ha pequenas arvores que criam urzella, e que se julga darão gomma copal. Passam-se umas 20 legoas até chegar ao Bumbo, on¬ de o gentio é pouco, fraco, mal conformado, e mui¬ to industrioso no modo de aproveitar as aguas para regas: o terreno é riquíssimo em pomposa vegetação e muito boas madeiras, tendo dois valles fertilisados pela torrente do Bruque, que dimana da serra de Xela (em cujas faldas do poente jaz o Bumbo), e pela da Banja, que tem a sua origem nos largos cam¬ pos da TJmpata. Estes dois valles são susceptiveis de muita cultura, e n’um d’elles ha uma plantação de canna, algodão , e mandioca, pertencente a José Leite d’Albuquerque, e já acima mencionada : o clima po¬ rém d’estes logares é muito insalubre. Subindo a serra de Xela pelo Bruque, encontram- se duas veredas; a da direita conduz ao Jau, e a da
  • 238 esquerda a Umpata, sovado dependente do Jau, e d ahi a Huila, cujo sova é hamba ou especie de im¬ perador , á auctoridade do qual se subtrahiram o Jau , Urnpata, Bumbo, e todos os cubaes de origem Mon- dombe, em consequência d’uma revolução que teve Jogar no corrente século. ® /au* Umpata, e Huila ficam entre os 14 c lb do líit. sul: pela serra de Xela se desce para estes territórios, que são cortados de rios e riachos, tendo fertilíssimos campos abundantes em paistos, e que produzem bem o milho, feijão e batata, mão po- lem a canna, por causa do frio, que em mauio alli chega a gelar a agua. Estas terras são salubres, ejul- ga-se que n’ellas poderá prosperar a raça branca. O gentio comrnercia com Mossamedes em,gadosj cera, e algum marfim. . ^ 3 l)a Iluila ou do Jau seguindo depois para o nas¬ cente encontra-se o Hai, terreno fértil em pastos, mas secco, porque nenhum rio o atravessa ; abunda porém em gados, e feijão, creado na estação chuvosa I a tri- bu que o habita é muito antiga, e pouco numerosa. Caminhando cjuasi sempre a leste se chega aos Cambos, a umas 50 legoas de Alossamedes, piiz rico em gados, cereaes, e bem povoado, tendo mu tos ca¬ çadores de elefante e abada. „ Todos os povos mencionados, que habitam para além da serra de Xela, parecem da mesma origem , e tem quasi os mesmos costumes, chamando-se geral¬ mente Munhenhecas, porque cortam a caraphha, e ao contrario os Mondombes a deixam crescer, forman¬ do níl cabeça uma especie de esfera, variando aliás muito na forma do penteado. As referidas terras foram vistas pelo dito colonò Bernardino, segundo elle diz, accrescentando que, apesar da difficuldade de obter informações claras de gente tão rude, pôde saber mais o seguinte ácerca d aquelles desconhecidos sertões. 1 ornando os Gambos por ponto de partida, ao noite fica Quihita, ao nordeste Quipungo, a leste
  • 239 Molondo, ao suesle Camba, ao sul o Humbe, e a oeste os cubaes dos Gambos, abundantíssimos em gados. Na margem direita do rio Cunene, que divide o Humbe e a Camba do Cuanhama, fica o sovado d’este nome, que é onde até hoje tem chegado os feirantes brancos. Seguindo depois para o suesle já os cafuzes (pretos que negociam com fazendas que vâo buscar a Bengueíla) tem chegado ao Mocusso, abundante mer¬ cado de marfim, que se julga distaç umas ^50 legoas de Mossamedes.. Além do Mocusso, no sertão dos Ambuellas, caminhando para o nascente ha um rio caudaloso, que corre de nascente a poente , a que cha¬ mam Liambege ou Diambege, sendo talvez o Zambe- ze, que vai a Quilimane. As missangas alli usadas pelo gentio, dizem que não são as que se introduzem pelo commerci3&na costa occidental, mas sim as que lhe vão da contra-costa. Para o norte de Quipungo ficam os Monnanos, em cujas terras temos o presidio de Caconda; e ao sueste e sul da Camba os Muximbas e Mocimbos, povos errantes, com muito gado, e muitos caçadores de elefantes, parecendo que chegam a divagar até ao paiz dos Hottentotes. Por esta rapida e imperfeita idéa de taes paizes, se pode julgar da sua importância, e quanto poderá avultar o commercio com elles, uma vez attrahido ao bom e salubre porto de Mossamedes, cuja situação é excellente a respeito d’estes sertões, dos quaes darei melhor e mais circunstanciada noticia no capitulo se¬ guinte. Seria muito conveniente dirigir para Mossamedes parte dos emigrados que da Madeira, dos Açores, e de Portugal vão para o Brazil; porém seria talvez ainda de maior conveniência, e mais extensos resulta¬ dos a colonisação chineza, applicando a este districto e em geral a toda a província d’Angola, 5 que já disse no capitulo VIII sobre as vantagens que os co¬ lonos chins trariam a Moçambique. Com o elemento da população chineza , que for- i
  • 240 «- moso império portuguez se poderia formar n’esfa terra de Africa! Situado no meio d’este vasto continente, teria por limites orientaes e occidentaes os oceanos In¬ dico e Atlântico, separados pela distancia de 600 le- goas, e pelo norte e sul d’esta extensa zona iriamos estendendo successivamente a nossa influencia e poder, até dar as mãos á influencia e poder das nações fran- ceza e ingleza, que da Argélia e do Cabo caminham de pontos oppostos para se avizinharem comnosco. En¬ tão a civilisação europea dominaria em toda & Africa; as montanhas do Atlas, as serras da Lua, oss desertos de Sahara, da Nubia, da Lybia, as correnttes desco¬ nhecidas e mysterioâas do Nilo, do Zaire, do Zam- beze, tudo seria transposto pelos prodígios do genio e da industria moderna; e as raças negras arrancadas á bruteza e á superstição, tomariam ta?.cez o logar que lhes compete na escala da humanidade, participando dos seus progressos.
  • tDutiraa nol&cias isoB&e*© serlôets d© Mom» •a medes. Para comp]elar e desenvolver as anteriores noções sobre este inexplorado paiz, passo agora a transcrever litteralmente uma memória inédita, datada em Mos- samedes a £8 de setembro de 1852, e escripta por Bernardino José Brochado , antigo residente no paiz, homem de educação e alguns estudos, que conhece varias das línguas d’estes sertões. Esta memória foi por elle offerecida ao tenente coronel José Herculano Fer¬ reira da Horta, então governador de M ossa medes, á bondade do qual devo ter d'clla conhecimento, e au- ctorisação de a publicar. Q auctor principia do modo seguinte: Lançado pelas vicissitudes da vida n’este sertão de Mossamedes , fui instigado pela curiosidade a que rou¬ basse algumas horas aos meus afazeres, e as destinasse á observação dos objectos mais salientes d’elle, com- prehendidos desde a conhecida terra do Dombe, ao sul de Benguella, incluindo a vasta extensão do ter¬ ritório dos Mucubaes, até um pouco ao sul de cabo Negro. A este exame superficial seguiu-se-me o desejo de escrever os apontamentos que tinha colhido, a hm de me nao esquecerem certas minuciosidades gentili¬ ças, que não deixam de ser importantes, consideradas debaixo do ponto de vista descriptive. 16
  • 212 M UGUBAES. Esta região desde a margem do mar e nn sua maior extensão de largura abrange de SO a 30 legoas, e no maior comprimento desde as proximidades do Dombe até ao Gueunumgimbe , 90 a 100. Demarcação. Ao S. com os Muximbas, no N. com o Dombe, a L. com o interior, servindo de de¬ marcação a cordilheira de montanhas conhecida n’es- tes logares, ao O. com o Oceano. Divisão. Em muitas tribus, cada uma d’elilas com seu chefe: estas tribus são quasi independentes umas das outras, prestando todavia estes chefes alguma obe¬ diência a quatro outros principaes. Qualidade do terreno. E’ montanhoso , dando em seus intervallos passagem ás rarissimas^figuas das chu¬ vas que os tornam vegetáveis, salvo nas margens de alguns rios, filiaes da cordilheira de montanhas supra¬ mencionada , onde a vegetação é mais ou menos per¬ manente. Clima. E’ ardentíssimo , sendo mais tempeirado nas proximidades do mar. E’ doentio, concorrendo para isso as más aguas, que em geral são salobras. Productos naturaes. Sal commum em pequenos cristaes, que elles depois ngglomeram formando um cone, unica industria entre elles. Este gentio pouco dado á caça tem todaviia algum marfim. Não cultivam mantimentos, salvo alguns que vivendo proximos ás teiras que os cultivam , o fazem , mas ainda em pequena quantidade. Caracter dos habitantes. Sem cxcepção sao tími¬ dos, vingativos, dados ao roubo e á ociosidade, li¬ mitando-se unicamente a pastorearem seus gados vac- cum e ovelhum, em que abundam, e que constituem a sua riqueza, e únicos alimentos, sendo o seu prin¬ cipal o leite. Religião. Não se lhes conhece principio algum re¬ ligioso, não sendo mesmo idolatras; todavia ha entre elles uma idea vaga da existência do auctor da na tu-
  • 243 reza, não lhe prestando culto algum. São assaz cre* dulos no feiticismo, uso geral em quasi todo o gen¬ tio de Africa. Vestuário. O dos homens 6 assaz simples , constan¬ do apenas de um pequeno couro de carneiro com que encobrem o assento, e outro com que encobrem as partes genitaes, usando além d’isso de uma grande trunfa redonda, ornada pelo proprio cabello, consti¬ tuindo esta um signal distinclivo e o unico indicio de luxo entre elles: o das mulheres consta igualmente dos mesmos dois couros de carneiro, e igualmente col- locados, porém grandes, tendo em torno da cintura grande quantidade de missangas, indicio de luxo entre ellas; usam trazer na cabeça um couro com dois bicos amarrado de t|d sorte, que a não ser a falta de outro bico, se assimima ao chapeo de uma auctoridade ec- clesiastica. Armas, São unicamente a frecha , a azagaia, e o porrinho, sendo-lhes desconhecida outra qualquer ar¬ ma, a nao serem os que vivem nas proximidades dos brancos, que alguns já se inclinam ás armas de fogo. Forma de governo. Ainda que com tendencia para o despotismo, todavia não deixam os sovas de delibe¬ rar cousa alguma sem previamente serem ouvidos seus macotas (conselheiros). Quillengues. Esta terra dista de Benguella 40 legoas a rumo do S., e comprehende Q0 a *25 legoas em quadro. Demarcação, Ao N. com Dombe e Benguella, ao S. com a raça dos Munhanecas, a L. com o Nanno, ao O. corn a Huila e Cubaes. Qualidade do terreno, E’ uma planície semeada de montanhas e circumdada por outras maiores; na mór parte é arenosa, com tudo varia em outros loga- res. A‘s chuvas são regulares de novembro a abril, co¬ rno no geral d’estas costas; no entanto dá-se o caso de faltarem vários annos, do que procede haver rfessas 16 *
  • 244 «pochas falta considerável de mantimentos. Os terre¬ nos são no geral ferteis em vegetação. Clima. £’ quente e doentio, sendo por isso mui frequentes as moléstias geraes de Africa, e com espe¬ cialidade na estação chuvosa. Produclos. Farinha de mandioca, milho, macam- balla (especie de milho miudo), massango (similhante á alpista). Os brancos tem alli introduzido algumas frutas não só próprias da Europa como da America. Caracter cZos habitantes. E’ falso em grande parte. FJao deixando de ser ladrões, são comtudo hospitalei¬ ros : não são dados á guerra, pois quasi no geral são cobardes, e mesmo ociosos como o gentio precedente, pelo que o sova toma o nome de Muane Lucuballa, que quer dizer senhor dos Cubaes, vigj.0 ser ele o so¬ va maior potentado d’aquella raça. ' Religião. A mesma. Comtudo muito gento é in¬ clinado ao baptismo, abraçando isto como im uso nosso, e não como crença sua. Vestuário. O mesmo que os precedentes, quanto aos homens; porém as mulheres usam sobre a cabeça de tres rolos do proprio cabello adelgaçados pari as ex¬ tremidades , dispostos no sentido da testa á nica; no mais o mesmo que os precedentes, isto coma raça propria de Quillengues, pois as differentes tr.bus re¬ fugiadas conservam os usos e costumes das terras a que pertencem. Armas. Além das usuaes, usam mais das armas de fogo, a que são muito inclinados, introducçâo fei¬ ta pelos brancos. População. Póde bem calcular-se sem mui.o erro, de 80 a 100:000 almas. Forma de governo. A mesma que a precedente. Todavia ha alli uma auctoridade portugueza com o titulo de regente, que é subalterna do governo de Benguella, estendendo-se a sua auctoridade ómente aos brancos e filhos do paiz, que vivem iseitos das leis gentílicas; pois no caso contrario depenlem da mpprovaçao do sova, tornando-se por assim dizer quasi
  • 245 um governo mixto. Existe alli uma insignificante de¬ fesa quasi com apparencia de um reducto, porem construída de madeira, tendo quatro pequenas bocas de fogo e alguns soldados. Esta terra, que se pode considerar uma das maio¬ res e mais opulentas d’este sertão, deve em grande parte o seu estado de grandeza á concorrência de mui¬ tos herdeiros de differentes outros Estados, que sendo perseguidos pelos chefes dos Estadqs que lhes devem pertencer, se refugiam n’esla terra formando peque¬ nas tribus, mas obedientes debaixo do poder do sova d’ella. Munhànecás. Esta raça á dividida em seis tribus ou Estados in¬ dependentes e cõmposta de sete sovados , que são Hui- la, Jau e Umpata, que só formam um Estado; Hay, Quihita, Gambos e Quipungo. Demarcação. Ao S. com o Humbe, ao N. com Quillengues, a L. com o Nanno, e ao O. com os Cubaes. Religião, forma de governo, armas e productos, o mesmo que o precedente, exclusive a farinha da mandioca. Descreverei cada um dos Estados em especial* Huila. Confina aoN.eO. com os Cubaes, servindo de limites (em parte) a grande cordilheira, a L. com Quillengues, e ao S. com Hay e Gambos. Está situada entre 6 e 10 legoas dos Cubaes, SO de Quillengues, e do Hay e Gambos 9 a 18 legoas. Tem ties a ires e meia legoas em quadro. Qualidade do terreno. E1 montanhoso por ser si¬ tuado proximo do cume da grande cordilheira, com soberbas planícies, ferteis o mais possível, toda corta¬ da de pequenos rios e riachos de excellente agua , que coadjuvam a sua fertilidade , sendo susceptivel em gum- ' de parte das producçôes da Europa.
  • 246 Clima. O mais temperado em todo aquelle sertão com estações regulares, e até alguma cousa similhante ao de Portugal, excepto desde maio a setembro. Caracter dos habitantes. Além das qualidades dos da precedente, são corajosos para a guerra, o que é devido talvez á necessidade de defender seu pequeno território. Festuário. Os homens usam cabeça rapada; no entanto alguma cousa variam segundo o gosto do indi¬ víduo. Encobrem o assento com um couro pequeno de boi, com umas azelhas que seguram em urma cor- iêa que trazem em torno da cintura, e pela frentte usam d’outro que enfia pela corrêa e dobra sobre si nnesrno, havendo muitos que já usam pannos de fazenda, ao que hoje dão a preferencia. As mulheres usam de um grande couro cortado quasi corn o feitio de uma toa¬ lha, porém com maiores bicos, sendo seguro pela gran¬ de quantidade de missanga. O modo por que amarram o cabello também differe, constituindo isto dififerença entre as diversas raças. Usam em Jogar dos trees rolos das de Quillengues, quatro com a mesma fórmia, saí¬ dos do cume da cabeça , e rematando nas fontes. População. Pode dar-se-lhe sem grande erro de 3:000 a 3:500 almas. Jau. Demarcação. Esta terra tem 12 a 14 Jegcons em quadro. Confina a O. com os Cubaes, a L. corro Qui- pungo, ao S. com os Gambos, eaoN, com a Huila, distando duas legoas dos Cubaes, 18 a 20 de Quipun- go, 15 a 16 dos Gambos , fazendo limites entre ella e a Huila o pequeno rio Quipumpunhime. Qualidade do terreno. Não obstante achar-se tão proximo da Huila, alguma cousa varia; no'e?ntanlo pouco differe do d’aquella, tendo grande parte do ter¬ reno incapaz de cultura, por se achar situado sobre o cume da grande cordilheira. Clima e o mais, o mes¬ mo que a Huila. População. De 10 a 12:000 almas.
  • 247 U MPATA. Este pequeno Estado é pertencente ao sova do Jau, do qual é tributário, conservando-se alli aquelle chefe com o nome de sova por um antigo costume entre elles, por ter sido este povo e o do Hay os primeiros povoadores d’aquellas partes. Demarcação. Fica comprehendida na antecedente, pois fôrma tudo a mesma terra, e bem assim todos os ma is artigos. Hay. Este pequeno Estado acha-se debaixo da protecçSo do sova dos Gambos , em razão de suas pequenas forças. Demarcação. Tem meia legoa em quadrado. Con¬ fina ao S. coar os Gambos, ao N. com o Jau, a L. com Quipungo, ao O. com os Cubaes, distando dos Gambos 8 a 9 legoas, 6 do Jau, 16 a 18 do Qui- ' pungo, e 5 a 6 dos Cubaes. Qualidade do terreno. Pouco differe do do Jau , com tudo é o logar de todo o sertão onde ha maia abundancia de mantimentos, não só porque aquelle povo capricha sobre isso, como também porque o ter¬ reno o facilita. £’ também onde se encontram os me¬ lhores pastos para gado. Clima. Pouco ou nada differe do do Jau , não có pela pouca distancia, como por se achar quasi na mes¬ ma elevação. População. Não se lhe poderá dar mais de 1:000 a 1:200 almas. Quipungo. Demarcação. Tem 7 a 8 legoas em quadiô. Con¬ fina ao N. com Quilíengues, ao S. com Mulando, ao O. com © Jau, a L. com os vastos sertões do Nan¬ no :• dista de Quilíengues 12 legoas, 15 do Nanno, 20 do Jau, e 24 do M ulondo. Qualidade do terreno. E1 bastante montanhoso, •€ alguma cousa mais quente que os precedentes.
  • 248 População. Terá de 8 a 10:000 alma?. Este povo é o mais ladrão de toda esta raça 5 che¬ gam a accommetter comitivas de viandantes peelas es¬ tradas , resultando d’isso o serem poucas as tenras quo tenham com dies boa amizade. Quiiutà. Esta terra tem meia legoa em quadro. Demarcação. Confina ao S. com os Gamboa, ser- findo de limites o rio Caculovar, ao N. com ío Hay õ legoas, a L. Quipungo 18, ao O. com os CulbnesS. Qualidade do terreno. E’ a mesma que o dos Gam- bos, junto ao qual se estabeleceram, para se porem a coberto de seus inimigos; sendo fundado este peque¬ no Estado por um fidalgo da terra de iSaila, que sen¬ do expulso por seus habitantes, se refugiou n’este lo- gar com o povo que o quiz acompanhar, isto, segun¬ do dizem, haverá trinta annos. Clima. Já é mais quente que os precedentes, por ficar em posição menos elevada.* Aqui já vão finali¬ zando as montanhas. População. Deverá ter de 1:000 ti 1:200 almas, Gambos. Este Estado tem 20 a 22 legoas de comprido de N. a S., e 8 a 10 de L. a O. Demarcação. Ao S. com o Humbe 24 legoas, ao N. com o Hay e Jau , a L. com Mulondo 24- legoas, € a O. com os Cubaes duas a tres. Qualidade do terreno. E’ pouco montanhoso por *£er onde finalisam as ramificações da grande cordilhei¬ ra, começando aqui as extensas planícies de todo o resto do interior. O terreno é barrento, em grande parte mui irregular e variado. Tem força de vegeta¬ ção na estação chuvosa, mas logo que as chuva; dei¬ xam de ser regulares acaba, devido isto á fortidâb de¬ masiada do terreno.
  • 249 Clima. Alguma cousa já uiffere do da Huila e Jau , por quanto achando-se menos elevado do que estas, já é alguma cousa mais cálido, principalmente na estação chuvosa, em que não só os brancos, como os indígenas são accommettidos de febres intermittentes. Caracler dos habitantes. Supposto que não tão va¬ lentes como os da Huila, comtudo não se podem cha¬ mar cobardes, concorrendo muito para isso o orgulho de que são possuídos, visto ser a terra mais populosa d’esta raça. Productos naturaes. Em todas estas terras ha cera em alguma abundancia, com especialidade na Huila, Jau e Quipungo. Também ha algum marfim , sendo em maior numero nos Gambos, em razão de serem os mais dados^á vida de caçador. População. Póde dar-se-lhe de 50 a 60:000 almas. Forma de governo. E’ a mesma que as preceden¬ tes. Comtudo tem a observar-se que as terras do gen¬ tio quanto maiores tanto mais são viclimas das arbi¬ trariedades e despotismos dos sóvas, por ser sua cren¬ ça assim fazel-o, para se tornarem temidos e respeita¬ dos pelo seu povo, o que já não succede aos das ter¬ ras pequenas que lhes convém afagar. Também nos Gambos existe grande quantidade de pedra iman, bem como porção de minas de ferro, e por isso talvez outros metaes, o que se ignora, por' não haver ainda alli ido pessoa entendida sobre taes matérias. Muiiumbes. Tres Estados differentes são comprehendidos n’esta raça, a saber: Mulondo, Camba, e Iiumbe. Demarcação. Ao N. e NO. com os Gambos, ao O. com as terras do Solle e Dongona (raça muxim- ba) 3 a 4 legoas, a L. com terras pertencentes ao Nanno, a S. e SE. com o rio Cunene, que serve de limites a estas terras.
  • 230 Mu LON DO. Este Estado tem 8 a 0 legoas em quadro. Demarcação. Confina ao N. com Quipungo $4 legoas, ao S. com o rio Cunene, a L. com o Luce- que 25 legoas, ao O. com a Camba 6. Qualidade do terreno. E’ arenoso, mas fértil nas estações chuvosas, tendo extensas planícies. Não tem rio nenhum mais que o dito Cunene, na margem do qual é situada a terra, extendendo-se ao longo por elle no maior comprimento. Clima. E’ mais quente que o dos Gambos , não deixando comtudo de ser igual, quando não mais salubre. Productos. Além dos que produzgm nas outras terras, com excepção do milho, de que sémèam pouca porção por lhe serem pouco affeiçoados, é notável uma especie de feijão que dá debaixo da terra, bem similhante ao mendobim , com gosto particular, a que os naturaes dão o nome de lingomene. Caracler dos habitantes. São os mais ladroes, e lambem os mais laboriosos d’esta raça , e valentes para a guerra, mas não tanto como os da Camba. São hos¬ pitaleiros como o geral n'estas tres terras. Vestuário. Os homens usam cabeças rapadas, dois ou tres pequenos rabichos no alto da cabeça, fazenda adiante e couro de boi atraz. As mulheres não usam de missangas na cintura como as das mais terras até aqui descriptas, usam de panno adiante e atraz, cas- sungos e missangas no pescoço mui variados, e o mes¬ mo na cabeça. O amarrado do cabello é desde a nuca até á testa, mui similhante á parte superior de um capacete grego, e terminando lateralmenle por duas rosetas de cabello natural similhantes a orelhias de girafa. Forma de governo, religião e armas» O mesmo que o geral. População. Poderá ter 10 a 12:000 habitantes.
  • 251 Camba. Tem 4 legoas em quadro. Demarcação. Confina ao N. e NO. 24 legoas, a L. com JVI ulondo, a O. com o Humbe, 8 a 9 legoas, ao S. e SE. com o rio Cunene. Caracter dos habitantes. Os mais familiares, ex- cepto com brancos. São os mais destros para a guerra, pelo que são temidos por terras poderosas. População. 5 a 6:000 almas. Humbe. Tem 16 legoas em quadro. Demarcação. Ao N. Gambos, 24 legoas, ao O. as terras de êolle e Dongona, 3 a 4, a L. a Camba, ao S. e SE. o rio Cunene. Caracter dos habitantes. São mais fracos para a guerra que os dois precedentes povos, sendo além d’isso bastante orgulhosos, para o que concorre o se¬ rem os mais ricos em gados; no entanto os brancos não deixam de ser alli bem tratados. População. De 50 a 60:000 almas. N’estas terras o gentio é o mais destro que se co¬ nhece no jogo do porrinho, de que tiram vantagem sobre todos os outros povos. Nas duas ultimas não ha cera, salvo em Mulon- do que a aproveitam, tornando-se assim mais um ra¬ mo não pouco importante comparativamente com ou¬ tras terras, o que já nao succede á Camba e Humbe, que esperdiçam o bagaço da cêra depois de haverem chupado o mel. Também ha marfim em alguma quantidade, pois nao obstante haverem caçadores, empregam mais a pequena industria de fazerem grandes fossos nas extre¬ midades do rio, cobertos com ramos e folhagem , onde cai grande numero de elefantes na occasião em que vem beber agua. O Humbe é cortado pelo rio Caculovar, que ten-
  • 252 do sua nascente ao N. da Huila 4 ou 5 legoas, de¬ pois de receber d’alli alguns riachos e o rio Quipum- punhime, passa por Quihita, corta os Gambos ao meio no seu maior comprimento , segue ao Humbe e desagua no Cu none. Descripçtio do rio Cuncne. Este rio tendo sua nascente em Galangue, no cen¬ tro das terras do Nanno, depois de banhar vários Es¬ tados d’aquelles sertões , e recebendo vários rios e ria¬ chos chega ao Luceque (ultima terra ao poente do Nanno), onde recebe mais os rios Ké e Culovai, e seguindo ao mesmo rumo (poente) 25 Iegoas, che¬ ga a Mulondo, onde se lhe junta mais a rio Quintan- da (vindo das Nhembas e Handa a rumo de L. e LSE. ), segue á Camba e Humbe, a meio do qual se lhe reune o Caculovar, e continuando a banhar Don- gona e So lie e mais vários povos pouco conhecidos da raça dos muximbas, dizem que já não mui disLante domar se prolonga ao longo da costa por alguns dias de marcha a rumo de entre S. e SO., até que desagua no Oceano. Suppõe-se ser este rio o que na desembo¬ cadura do mar chamam das Trombas. Seu leito no tempo da sêcca (fallo nas terras do Humbe ou Mu- humbes) tem de 50 a 60 braças de largo, e fundo suf- ficiente para navegar uma lancha, mas na forçai das aguas transborda e suas margens abrangem meia legoa e mais. Todo elle é coalhado de jacarés e cavallos ma¬ rinhos. A natureza foi aqui mais pródiga do que em outras partes na propagação de similhantes amfibios. O exame d’este rio é indubitavelmente necessário pelas importantes vantagens que d’elle podem resiullar a este districto; taes são a fertilidade de suas margens e localidade, havendo abundantíssima quantidade de mattas, e excellente temperatura, sendo para lamen¬ tar que da parte do governo tenha havido tanta inac- ção, desprezando offerecimentos de pessoas que com algum conhecimento do sertão, coadjuvadas por elte
  • 253 em algumas despesas , se prestariam levar ao cabo tãç util empresa. Muxnuus. Ao poente dos Gambos, ^0 a £5 legoas, e ao S» onde finalisam os Cubaes 10 a 15 legoas, principia a ser habitado por esta raça , que em grande parte se pô¬ de dizer nâo ter residência fixa; elles vivem onde mais commodidades encontram para pastagens de seus nu¬ merosos gados, considerados por assim dizer quasi errantes, comludo sempre dentro dos limites d’aquel- las partes onde não habitam outros povos. Esta raça se extende desde 40 a 50 legoas de Móssamedes a ru¬ mo do S. até ao rio Cunene, onde nas margens aquém do mesmo e ao O. do Humhe, formam as duas po¬ derosas terras do Dongona e Solle, abrangendo até ás proximidades do mar, mais ou menos povoado. Passando á outra banda do rio segue o mesmo cor¬ dão de immensas terras, tudo da mesma gente, que circumdando as terras limítrofes ao Quanhama pelo O. até á costa do mar, se prolongam até mais de 150 legoas para o S. Estes singulares povos são selvagens o quanto é possível, não communicam com seus vizinhos logo que sejam de outra raça, nem tão pouco consentem nin¬ guém dentro de seus limites, por medo de que lhes vão vigiar seus gados para lh’os irem roubar com guer¬ ra , para o que são valentes em defesa do seu territó¬ rio , e preferem antes morrer devorados por seus inimi¬ gos, do que serem prisioneiros d’elles. As próprias mu¬ lheres fazem tanto estrago na guerra como os mesmos homens. São amantes do seu paiz natal a ponto que se não sujeitam á escravidão como os mais povos: pre¬ ferem antes ser devorados pelas feras ou acabar á min- goa em suas repetidas fugas, ao melhor tratamento que se lhes dê. Não cultivam mantimento nem cousa alguma para sua manutenção; unicamente se alimen¬ tam de leite, carne e frutas silvestres. As suas únicas armas são azagaias, porrinhos e frechas envenenadas.
  • 254 Fôrma de governo. Assimilha-ge ao republicano* Nao tem sova, nem quem os governe; quando se trata da defesa do paiz, a causa é commum, e quando se suscita alguma questão, são chamados dois ou Lnesdos vizinhos mais velhos, e o que dies decidem é comside- rado como sentença definitiva; no mais todo o chefe de família é senhor absoluto nos seus limites e soibre o que lhe pertence. Mucuanhamas. As tribus ou sovados em que esta raça se diivide, são: Quanhama, Var, Handa, Caffima, Dconga, Quambe, Ganjella, Qualude, Quimbande, Qua- mato de Nay Cuba, Quamato de Nay Binga. Demarcação. Esta raça confina aogO. e S. com os Muximbas 5 a 8 legoas, ao SE. com as terras do Mucuço 80 a 90 legoas, a L. 50 a 60 com o rio Cu¬ bango e os Ganguellas, a N E. com os Nhembas 25 , ao N. 15 a 16 legoas com o rio Cunene e os Mu- nhumbes. Qcaniiaua. Este Estado o maior de todos d’esta raça tem 18 a %0 legoas em quadro. Demarcação. Ao N. com o Var tres legoas, ao S. com Ganjella 18 a ^0, ao O* com o Quamato 7 a 8, a L. com Caffima. Qualidade do terreno. E’ mais arenoso que na terra do Humbe, sendo até em logares totalmente solto, não sendo comtudo falto de vegetação em con¬ sequência da regularidade das chuvas na estação pro¬ pria. Clima. E’ ardentíssimo de setembro a abril, doen¬ tio, grassando principalmente febres intermittentes, ophtalmias e inflammações de scrotos e pernas. Product os. Só usam semear a maçambala, mas* sango, o tal lingomene, e algum feijão macunde, lia-» vendo comtudo já alguma mandioca, que o actual so¬ va começa a introduzir.
  • Çaracler dos habitantes. São o mais hospitaleiros possível, mui destros para a guerra, traiçoeiros, desmascaradamente ambiciosos, e muito inclinados ao roubo, se bem que temem fazei-o em consequência dos actuaes sovas punirem com pena de morte qual¬ quer furto nas estradas aos viajantes: sao demasiada¬ mente ciosos quanto a mulheres. Vestuário. Os homens usam a cabeça toda rapa¬ da, e os vestuários constam unicamente de couros. Das nadegas até á boca do estomago trazem uma grande tira de couro cingida á barriga, toda coberta por ci¬ ma de tiras tao finas como fio de vela, e tres punhados das mesmas pendentes, um ao meio das nadegas e cada um dos outros nas ilhargas: por diante em lo- gar de panno é um bucho de boi bem surrado, e por detraz um ba.íete (como de clérigo) com cabello com uma orelha ao lado, como a de mula, mais alta que a dobra do mesmo , e do centro sai um rabo co¬ rno o de uma caçarola de ferro; este barrete é preso por duas azelhas a grande quantidade de corrêas. As mulheres usam as mesmas tiras e corrêas na barriga, mas em legar de tres punhados de tiras são quatro, dois um pouco sobre as nadegas, e dois na frente das ilhargas; por diante o mesmo bucho de boi, mas em log ar dos barretes dos homens, trazem um couro preto com cabello, caindo da cintura por baixo das mesmas corrêas até á cava do joelho, com umas retinidas que amarram para diante por baixo do dito bucho, servindo para não se lhe ver a parte exterior das coxas. O amarrado do cabello é o mesmo que um sueste (usado pelos marítimos), com a differença de que ao lado da testa sai um rabo de cada lado do compri¬ mento de um palmo, e dois ditos para as costas saídos da aba que cobre o pescoço. Sobre o couro trazem um saiote feito de missangas de varias cores, desde a cin¬ tura até quasi á extremidade do mesmo couro; nos braços maiores ou menores manilhas de cobre, pouco mais finas que o dedo minimo e com o pêso entre qua- tro e doze arraieis, e em cada pé um até quatro ar-
  • 256 golões do mesmo metal, pesando de 8 a 12 anateis5 e no pescoço grande quantidade de missanga coberta com variados coraes, &c. Estes enfeites condizem com a riqueza do homem a quem pertencem; mulher ha que traz comsigo só em missangas, coraes, &c. o va¬ lor de mais de vinte a vinte e cinco bois. Usam un¬ tar-se com azeite extrahido de differentes frutas silves¬ tres mal cheirosas, que misturado com tacula em pó produz um insup por lavei fedor. trinas. Unicamente a azagaia, porrinho e frecha» envenenadas, com uma força tal de veneno qiue mata em duas horas depois do ferimento. Elles tamb-em pos¬ suem o contra-veneno, que applicado logo livra de todo o perigo. População. Deverá ser de 80 a 100:000 almas. Fôrma de governo. E’ especialn^nte despótico, considerando-se os sovas senhores das vidas e forlunaa de seus vassallos, aos quaes chamam escravos. Var. Tem esta terra 4 legoas em quadro* Dista do Quanhama 3 legoas a rumo do N, Qualidade do terreno. A mesma que a precedente. Tem uma lagoa saída do rio Quintanda, que entra pela terra dentro mais de duas logo as, e que transbor¬ dando em tempo de chuvas, se extende em todo o comprimento do Quanhama, deixando pelos regato9 e cacimbas grande quantidade de peixe de agua doce. O mais, o mesmo que a precedente. População. 6 a 8:000 almas. Handa. Tem menos de uma legoa em quadro. Dista do Quanhama 12 a 13 legoas a rumo de NNE.; demarca por L. com o sertão dos Nhembas 16 a 18 legoas, e por O. com o rio Cunene, 14 a 15. Qualidade do terreno. O mesmo. E’ regada esta
  • 257 terra pelo rio Quintanda, saído dos Nhembas, e des¬ agua no Cunene quasi fronteiro a Mulondo. Carader dos habitantes. Unico gentio exceptuado além do rio Cunene em barbarismos, por não ser da mesma raça, mas sim da dos muhumbes, dos quaes conservam os usos, costumes, vestuário e língua. Possuem perto da terra uma grande mina de fer¬ ro, que está confiada á sua guarda, arrogando-se a si o Aymbire (sova de Quanhama) toda a auctori- dade e direito de propriedade, não consentindo que os povos das outras terras extráiam ferro, salvo os pequenos Estados com que está em harmonia. População. Poderá calcular-se de 1:000 a 1:500 almas. Caffima. * Tem meia legoa em quadro. Dista do Quanhama (J a 7 legoas a rumo de L. Este Estado é o mais pequeno de quantos tem por limites o Quanhama; todavia já foi em outro tempo poderoso. O actual sova por meio de fossos e estaca¬ das poz-se mais a coberto de seus ambiciosos vizinhos, pelos quaes já é mais respeitado. População. Terá de 800 a 1:000 almas. Donga. Tem IS legoas em quadro. Dista 14 a 15 legoas do Quanhama a rumo de ESE. Qualidade do terreno. Mais arenoso que o Qua¬ nhama , e susceptivel de muitas fomes não sendo as chuvas abundantes. Carader dos habitantes. Mais ladrões e mais bár¬ baros que os das precedentes, pelos quaes até são te¬ midos. Vestuário. Os homens em logar de barrete usam de uma especie de pá feita de couro com as compe¬ tentes azelhas em que enfiam as corrêas. As mulheres 17
  • usam um pequeno couro quasi redondo; por diante o mesmo bucho uns e outros, e em logar do sueste, quatro grandes torcidas artificiaes de cabello, duas por detraz das orelhas e as outras pela frente caídas até á cintura. Differem alguma cousa do Quanhama na linguagem, comtudo entendem-se perfeitamente. Este gentio é o unico que communica com o da raça dos Mucuancallas, que é sabido existir n’este ser¬ tão, distante d’elle SO a ^5 legoas no centro do deser¬ to, e senhores de uma grande mina de cobre,, ou mi¬ nas , que fornecem o necessário para os arg'oloes já mencionados e outros enfeites. Além do colbre tem mais o sal em grande quantidade. Quambe. Tem 18 legoas em quadro. Dista do Quanhama 7 a 8 a rumo de SE. Caracter dos habitantes. Sao barbaros, ladrões, e mais destros para a guerra do que todos os preceden¬ tes, vivendo sempre em desharmonia com steus vizi¬ nhos. No mais é o mesmo. População. 30 a 40:000 almas. Ganjella. Tem 18 a S0 legoas em quadro. Dista do Quanhama 18 a *20 legoas a rurmo de S. Qualidade do terreno, O mesmo, porénn muito susceptivel de fomes, em consequência de se acharem as terras já muito cançadas por serem muito antigas, passando seus habitantes por serem os primeiros po- voadores d’ellas. Caracter dos habitantes. Muito dóceis e familia¬ res , devido isto talvez á necessidade que tem die transi¬ tar por differentes terras, por ser o gentio d’aquella raça mais laborioso. Produdos. Sal e canhameira (especie de dongo). População. 80 a 100:000 almas.
  • 259 Qualude. Pequeno Estado independente, mas sem sóva ou quem o represente, com uma ]egoa em quadro. Dista do Quanhama lâ a 13 legoas a rumo de SSE. Forma de governo. Assimilha-se ao republicano 9 porque já pertencem á raça dos muximbas. População. Umas 3:000 almas. Quimbande. , Tem 10 legoas em quadro. Dista do Quanhama 15 a 16 legoas a rumo do SO. E’ da mesma raça que a precedente. População. 40 a 50:000 almas. Quamato de Nay Cuba. Tem 5 legoas em quadro. Dista do Quanhama 8 a 9 a rumo de OS O. Forma de governo. O mesmo que o Quanhama f e tudo o mais. População. 8 a 9:000 almas. Quamato de Nay Binoa. Tem 4 a 5 legoas em quadro. Dista do Quanhama 7 a 8 legoas. Estas duas ul¬ timas são em tudo o mesmo que o Quanhama, raça a que pertencem. População. 6 a 7:000 almas. Em todas estas terras não ha cera, e o marfim é em diminuta quantidade, em razão de não serem os naturaes dados á vida de caçador, nem terem outra dedicação mais do que a criação de numeroso gado vaccum. Ao nascente da terra da Handa, 16 a 18 legoas, principiam as terras dos Nhembas que se extendem de N. a.S., e para o interior abrangem até ao rio Cu¬ bango, saído das terras do Nanno, do mesmo tama¬ nho ou maior que o rio Cunene. Aquelle rio , que ser¬ ve de demarcação pelo poente ao grande sertão dos 17 *
  • 9 2GQ Ganguellas que confinam e circumdam o Bih é, é o mesmo que segue para os vastos sertões do Mucuço, onde se lhe junta outro do mesmo tamanho, tornan¬ do-se já aqui um caudaloso e importante rio: este se¬ gundo rio também é saído do Nanno. Ao nascente do JVlucuço ( que deve distar de Mossamedes em linha re¬ cta umas §50 legoas a rumo de SE.) dizem haver um outro rio maior que todos os precedentes , o qual segue para a costa oriental. Seu tamanho é tal, que forma grande quantidade de ilhas pelo centro, sendo habita¬ do por um gentio que se sustenta unicamente die peixe e de raizes silvestres criadas em suas margens: (o nome que dâo a este rio é Liambege, outros Diambege. Todos os desertos ou mattas que separam urnas d’outras terras além do Cunene, são habitados por Mucuancallas, povos de côr amulataíia, com usos, costumes, vestuário e lingua particular. Vivem erran¬ tes pelos mattos, abundantes em caça, o essencial de «eu alimento^ e na falta frutas e raizes silvestres, bem como o mel que comem com tudo em que é contido, como cera, nova criação de abelhas &c. Não gastam fazendas, e muito pouca missanga consomem ; ao que dão grande apreço é ao tabaco e pango (aliarnba). São francos com os viandantes -, e tratam-nos bem, com especialidade se ha algum indivíduo mulato que elles julgam pertencer á sua raça. Com esta memória que, repito, transcrevi liite- ralmente, e que me parece adianta os escassos conhe¬ cimentos que temos d’estes paizes, concluo o que ti¬ nha a dizer sobre Angola , cumprindo-me declarar que á benignidade do ex-secretario d’esta província João de Roboredo devi algumas das noticias que apresento, e que também colhi outras do Almanack Statistico da Província de Angola para o anno de 1852, im¬ presso em Loanda, primeira publicação d’este genero n’aquelle paiz, e mui curioso de ler para os que se interessam nas cousas dos nossos domínios ultramarinos,
  • SCI CAPITULO VIGÉSIMO, £;&fordo» o <*cm$i
  • 1 26â O passageiro Miguel Caetano Pinto, que embar¬ cou em Moçambique bastante doente para vir resta- belecer-se em Portugal, experimentou consideráveis melhoras depois da saída d’aquelle porto, mas pelas paragens do cabo de Boa Esperança peiorou, e o seu estado se foi aggravando successivamente até que fal- leceu no dia 17 pelas 9 da manhã, tendo bem pouco tempo antes declarado as suas ultimas vontades, em testamento oral, ou nuncupative. Lisongeio-me de ter concorrido, pelas lemlranças que lhe suscitei n’aquella afflicliva occasião, para o bem de seu filho natural Augusto Caetano Pinto, mancebo de 18 annos que estudava em Goa, e que instituiu seu herdeiro universal. Pelas 7 horas da noite o cadaver foblevadoda ca- mara em um tosco caixão de madeirlf sem fo*ro al¬ gum , feito no mesmo dia, e deposto junto ao patim de estibordo: lançaram-lhe dentro saccos de ireia e balas d’artiiharia, e pregaram a tampa rasa do caixão. Passaram-se uns 10 minutos n’estes preparativos, du¬ rante os quaes se observou uma scena digna da penna de Young. A officialidade e passageiros estavam alii con lan¬ ternas nas mãos, as quaes lançavam frouxa e ncerta luz sobre as suas figuras, e as dos marinheires api¬ nhados em redor, e trepados pel a enxarcia grande, formando tudo um grupo singular e confuso de ho¬ mens, todos com a cabeça descoberta, e que se mo¬ viam uniformemente como se fossem um só corpo, para se equilibrar contra o balanço do navio, o qual corria á bolina com vento fresco, deitando 6 a 7 mi¬ lhas; a vela grande enfunada e amurada a bombor¬ do, formava corno uma abobada pardacenta sobre os assistentes, e além d’ella scintillavam as estrelllas na escuridão do ceo, onde o disco da lua nova apenas se divisava como um ligeiro e gracioso traço, feito na abobada do mundo pela mão invisível de algum anjo de Deus. Geral silencio reinava em todos os circumstantes j
  • 263 só se ouviam a espaços iguaes as martelladas do pre¬ gar da tampa do caixão, e o ruido continuo das va¬ gas cortadas pela proa do navio, como se fosse o fú¬ nebre canto da igreja pelo finado. Finalmente o pesado e grosseiro féretro foi levado ao patim do portaló: ouviu-se um baque surdo e mal distincto na agua, e um cadaver descia rápido aos abismos do Oceano, no momento em que o imme- diato dizia com voz soturna: Rezemos um Padre Nosso e Ave Maria por alma d'este nosso irmão. Assim passou uma existência, assim desapparece- lam para sempre aos olhos dos homens os últimos ves¬ tígios de um homem! Se o fallecido morresse em terra, pelos haveres que possuía seria provavelmente conduzido o seu ca¬ daver ao sepuilhiro em faustosos coches, envolvido em ricos pannos, acompanhado de amigos, e deposto em vaidoso monumento. Aqui o coche que levou esse ca¬ daver foi um navio, que pelo espaço de 10 horas cor¬ reu velozmente com elle sobre as ondas do Atlântico; o panno mortuário foi a alva espuma das ondas v e a sepultura o abismo dos mares! Fez-se porém bem sensível n’este acto a falta de um ministro da religião. O padre na ordem do mun¬ do e do christianismo é o ministro indispensável nas scenas solemnes da vida. Elle recebe, como diz Lamar¬ tine, o homem do seio da sua mãi, e só o deixa no tumulo; abençoa ou consagra o berço, o leito nu¬ pcial, o da morte, e o do sepulchro; é por condição o consolador de todas as misérias da alma e do corpo, e sua palavra cai d’uma esfera superior sobre as intel- ligcncias e os corações, com toda a auctoridade da sua missão divina. Todos os navios de guerra deviam ter um capel- lão, segundo a lei e boa policia antiga da nossa ma¬ rinha. Se ha minucioso cuidado em prover ás necessi¬ dades fysicas da tripulação d*um navio, como se des- presam inteiramente as suas necessidades moraes? E não será a religião a primeira d’elias l
  • I 264 Um bom padre , um verdadeiro sacerdote de Deus , ê tão necessário como ulil a bordo, onde pode exer¬ cer salutar influencia nos costumes, na disciplina, e nlé na coragem dos marinheiros. Cumpre porém que o governo faça boas escolhas, ou antes que os prelados auxiliados pelo mesmo gover¬ no, criem e eduquem um clero digno e destinado a tal missão, a qual certamente nem é, nem pode ser exercida dignamente por esses poucos capellães actuaes da nossa armada, que, como é notorio, carecem das qualidades indispensáveis para o exercicio da sua\ reli¬ giosa profièsão. E’ também necessário que os commandantes e a officialidade prestem aos capellães a precisa considera¬ ção , e que sejam os primeiros a dar o exemplo ás suas tripulações de regularidade de costumés, e de senti¬ mentos religiosos, ou ao menos de respeito por elles. A inania ou moda da incredulidade e mofa nos as¬ sumptos de religião vai passada nas nações mais cultas: entre nós porém, e especialmente em algumas «classes e nas colonias de Africa, ainda subsiste, pela dlistan- cia a que caminhámos na ordem da civilisação mo¬ derna. Na marinha franceza attende-se e se prove ás ne¬ cessidades moraes e religiosas das tripulações dos seus navios de guerra : sempre me lembram com emoção as scenas que presenciava a bordo da corveta Capri- cieuse, na minha viagem de Shangai para Macao. Ao por do sol os tambores tocavam á chamada, e reunida a guarnição os ofíiciaes se aproximavam, formando todos o grupo de uns £00 homens. Em se¬ guida á marcha executada por dois tambores colloca- dos junto ao mastro grande, um guardião ou chefe de marinheiros lia a ordem do serviço, ou dos postos que certos chefes deviam occupar no caso de combate. Depois avançava gravemente o capellao para o centro do grupo, descobria-se , benzia-se, e todos o imita¬ vam: recitava em voz alta uma breve oração, termi¬ nada a qual dispersava-se a multidão aos signaes dos.
  • 265 tambores ? quebrando-se o silencio religioso que dura¬ va alguns minutos. Esta occasiâo era solemne, e sempre me fazia pro¬ funda e indefinível impressão. Tudo o que nos rodea¬ va concorria para dar a esta oração em com mu m tal caracter de gravidade, de grandeza, de mysteriosa e sombria magestade, que me arrebatava o espirito, e de ordinário ia depois d’ella melancolicamente re¬ clinar-me sobre o tombadilho, olhando mudo e extᬠtico para o mar e para o ceo! Concluiu-se no dia 18 o inventario do espolio do fallecido Pinto: em dinheiro achou-se 4:400 $000 rs., e subiu ao valor total de mais de 5 contos. De tudo ficou depositário o commissario do navio. Era este o terceiro fallecimento a bordo desde que saímos de M3foo. O primeiro foi do cozinheiro Al¬ fredo, á saída de Singapura, e também fez suas dis¬ posições em testamento escriplo, approvado pelo es¬ crivão do navio, que tem auctorisação e fe para estes actos. Procedeu-se a inventario do seu espolio no valor de 260 patacas; mas commetteu-se depois, no meu entender, uma grande irregularidade, que foi fazer arrematar em leilão todos os objectos de que elle se compunha, indo a corveta á vela poucos dias depois da saída de Moçambique. Se esses objeclos estivessem sujeitos a deterioração antes do fim da viagem , havia razão fundada para tal resolução, e ainda assim julgo que o leilão devia ter sido feito em Goa ou Moçam¬ bique, fazendo-o annunciar em terra para chamar con¬ correntes; porque á vela é o mesmo que fazel-o ás portas fechadas, pelo pequeníssimo numero de lança¬ dores, e contemplações de inferiores para superiores. Mas o espolio de que trato não estava n’este caso; constava de fato, sedas, vários artefactos da China, e cousas de prata e de ouro, tudo de facil arrecada¬ ção, e conservação. Eu só censuro a resolução adopta- da, porque a sua execução correu com toda a regu¬ laridade. Em Macao parte dos salvados na explosão da fra-
  • 266 gata D. Maria II, também foram vendidos em lei¬ lão a bordo da corveta D. João, achando-se fundea¬ da no porto, e ao qual ninguém concorreu da cida¬ de, arrematando-se objectos de valia por preços insi- gnificantissimos. Parece-me que se deviam prohibir todos os leilões a bordo, excepto os dos espolios da roupa dos marinheiros.
  • 267 Cbibatadas a Itordo, entrada» no liemisferio «Io norte» noticia sobre as illaas «Be IS. SIio- mé e Principe e o forte dMjadá, um encon¬ tro no mar» e barris de carne estragada* Entre as õ e 6 horas da tarde de SI de junho cor¬ támos o meríSlano de Lisboa, pelos 5o 30' de lat. sul. Se então pozessemos a proa ao norte e corrêsse¬ mos 890 legoas chegávamos a esta cidade pelo cami¬ nho mais curto. Tivemos porém ainda de nos afastar umas 400 para oeste. N’este dia contávamos as mesmas horas que em Lisboa. A differença da medida do tempo é uma das cousas que impressiona o espirito nas differentes regiões do mundo. Succedia-me isto frequentemente em Ma¬ cao, onde pela differença de 1-22° em long, se contam 8 horas de adiantamento de tempo em referencia a Lisboa. Os actos diários da vida ficam invertidos, quando alguma vez pensamos no que fazem os nossos amigos e conhecidos em Portugal. Quando é tarde em Macao é manhã em Lisboa, e na maxima parte das horas o dia corresponde á noite e vice-versa. N’um d’estes dias levou 46 chibatadas um taifeiro,” moleque de 1^ a 13 annos, e n’outra occasiao também foi chibatado um mulatinho da mesma idade. Alguns commandantes dos nossos navios de guerra sao .verdadeiros déspotas; não respeitam leis nem a humanidade. O quero, a chibata, e as palavras des¬ compostas , são a sua norma. O regulamento provisio¬ nal da marinha é letra morta: n’elle se prohibe dar
  • 268 mais cie 55 chibatadas por dia no mesmo indivíduo; mas a bordo da corveta n’esta viagem quasi sempre se deu para mais d’este numero e até ao de 300, que levou um marinheiro preto quando estavamos fundea¬ dos em Goa. Continuámos correndo a caminho com o vento ge¬ ral do sudoeste, fazendo singraduras de 3o, sendo aju¬ dados pela corrente quasi Io em cada dia. A 54, dia de S. João, estavamos em 16° 38' de long, e 4o 55' de lat. Na noite precedente entretive¬ ram-se a bordo com as usanças costumadas de sortes, tenções de namorados, &c.; praticas adquirida» na primavera da vida, que jámais esquecem, mesnno ao nauta vogando nas solidões do mar, longe da jpatria onde taes recordações o transportam. Na noite de 56 para 57 cortámos * linha, pelos 83° de long, oeste de Greenwich, e entrámos mo he¬ misfério do norte. Havia 6 rnezes que tínhamos saído de Macao, e 113 dias que cortáramos a linha no Oceano da índia, navegando no hemisfério dco sul. Influiria talvez a imaginação, mas é certo que? Jogo pareceu a todos que sentíamos respiração mais agra¬ da ved e vivificante. íamos então navegando na parte mais estreita entre os dois continentes da Africa e da America: ao meio dia de 56 estavamos a 580 legoas de Pernambuco, e se dessemos a popa ao vento em 5 ou 6 dias alíli po¬ díamos aportar. Do lado d’Africa iamos quasi a igual distancia do cabo Bojador, tão temido pelos primei¬ ros navegadores portuguezes, e cujo encanto quebrou o famoso Gil Eannes em 1434. Lá deixávamos no fundo do golfo de Guiné as nossas possessões da Lquinoccial, ou ilhas de S. Tho¬ rn é e Principe, descobertas por João de Santarrem e Pero de Escobar pelo anno de 1470. As ilhas de S. Thorne e Principe prosperaram muito até ao meado do século XVI, chegando a pri¬ meira a exportar annualmente 150:000 arrobas d’assu- c«r5 e a segunda a pagar de a 14;0Q0 anobas d»
  • 2C9 dízimos do mesmo producto. Declinaram porém rapi¬ damente; comtudo em 1626 ainda havia em S. Tho¬ mé 76 engenhos, vendendo-se então no paiz uma arro¬ ba d’assucar por 80 réis, como consta dos livros da fazenda real. Vieram depois as sublevações d’escravos, invasões de inimigos, dilapidações dos governadores, e grandes desíntelligencias e desordens entre as aucto- ridades do paiz, que o reduziram á ultima miséria, acabando em 1716 os últimos 13 engenhos que resta¬ vam. Os motins e as guerras civis còntinuaram no de¬ curso do século ultimo, e mesmo no actual. Só desde 1848 melhoraram as cousas publicas n’aquella provín¬ cia ultramarina, tendo o governador llené Vimont Pessoa regularisado as finanças, pago em dia aos ser¬ vidores do Estado, e feito funccionar regularmente as auctoridades ‘Mablicas, e entrar na agricultura muitos braços d’ella desviados pelo serviço militar, a que deu melhor organisaçâo. E’ d’este tempo que data o saldo que se encontra nos orçamentos annuaes da província, mostrando o de 1852 a 1853 que as rendas publicas são de 25 contos de réis fortes, e as despesas no esta¬ do completo regulam por 24:500^000 réis, havendo o saldo de quasi 500 $000, e que no estado effectivo sobe a 3:500$000 réis. Mas por noticias mais recen¬ tes e apuradas o saldo mesmo no estado completo é de 6 contos. Também desde 1848 tomou incremento a cultura do café, de que se exportam annualmente umas 30:000 arrobas, apesar de se perder em S. Thomé uma boa parte da colheita, ás vezes um terço, por causa do máo systema de o apanhar. E’ de boa qualidade, e regula actualmente ( 1853 ) na praça de Lisboa a 3:300 réis por arroba. Também o cacau se cultiva e exporta, mas em pouca quantidade e mal preparado. Em S. Thomé começa outra vez a desenvolver-se a cultura da canna do assucar. O negociante José Maria de Freitas comprou terras para tentar a men¬ cionada cultura, e assentou um pequeno alambique
  • 270 perseverança, sem auxilio algum das auctoridades, conseguiu em 1853 fazer umas 50 a 60 pipas de boa aguardente, e em agosto do mesmo anno tinha exten¬ sos e lindíssimos taboleiros d’esta planta, que pareceu a pessoa muito entendida que os viu produziriam 150 pipas; e outra similhante plantação estava começada maior talvez que a primeira. Calcula-se de 10 a 13 contos de réis fortes o capital empregado n’este esta¬ belecimento, que é de grande importância, não só pelo que já produz, mas pelo estimulo que promove a alguns capitalistas para entrar iT estas empresías, e que sendo favorecidos pelo governo, principalrmente ministrando-lhes braços de pretos libertos, podem tal¬ vez em 10 annos restituir áquella colonia a prosperi¬ dade de que gozou no século XVI. Na ilha do Principe dão-se circunlí .Anciãs diversas das de S. Thomé; sendo esta mais agricultora, e aquella mais commerciante, para o que concorrem a sua posição geographica, seus bons e seguros portos, suas numerosas e óptimas aguadas, a bondade e iabun- dancia de comestíveis, e finalmente o caracter lhospi- taleiro de seus habitantes; de modo que é o ponto mais frequentado pelos navegadores dos golfos de Be- nim e de Biafra. Os navios de guerra francezes, in- glezes, e americanos alli se refazem de aguada e vi- ctualhas; e acontece mesmo virem navios buscar agua á bahia de Oeste ou das Agulhas, para aproviisionar a ilha da Assumpção, quando alli ha falta d’ellla. Em cumprimento do tratado entre a França e a Inglaterra para a suppressão do trafico da escravatu¬ ra , foi em 1846 uma esquadra franceza de 36 navios cruzar n’aquelles mares, tendo sido a ilha do Princi¬ pe o ponto escolhido para descanço e aprovisionamento da mesma esquadra, o que juntamente com a fre¬ quência dos navios inglezes do cruzeiro deu á ilha con¬ siderável animação e consumo de seus productos. En¬ tão os habitantes occuparam-se exclusivamente da cria¬ ção de gados, e da cultura de mantimentos proprios para abastecer os navios, abandonando pouco a pou-
  • 271 co a plantação do café e do cacao, de que tiravam menos proveito. Reduzida porém em 1850 a referida esquadra a 6 navios, e hoje a 4, tornou a ilha ao estado de abatimento de que tinha saído, para o que também concorrem as recentes perturbações que alli tem havido, e o ter diminuído a navegação mercante n’aquellas costas. A população d’estas ilhas regula por 15:000 ha¬ bitantes. No século NVI durante o tempo da sua prosperidade não eram taxadas de doêntias, sendo de crer que a cultura das terras, e o corte das mattas ti¬ vessem melhorado o seu clima, o qual tendo depois peiorado pelo abandono da cultura, é natural que agora melhore com a renovação d’esta. Durante o anno de 1852, na freguezia de N. S. da Conceição, unica do cono“Mio da ilha do Principe, houve 243 obitos (só dois de brancos) e 83 nascimentos, sendo maio e agosto os mezes de maior mortalidade; tudo segundo um mappa colligido na camara municipal do dito concelho. Já tivemos varias fortalezas e feitorias na terra fir¬ me próxima, na costa da Mina, e na enseada de Be- nim, mas de tudo só hoje nos resta n’esla ultima parte o insignificante estabelecimento ou forte de S. João Baptista d’Ajudá, fundado em 1680. A grande for¬ taleza e boa cidade de S. Jorge da Mina, erigida em 1482 por D. João II, caiu em 1637 no poder dos hollandezes, que ainda hoje a possuem com outros estabelecimentos na costa da Mina, onde outros ha dos inglezes e francezes, todos em geral de pouca im¬ portância. O chamado forte de Ajuda consta hoje apenas d’alguns parapeitos de barro em completa ruína, sen¬ do o nosso domínio bem precário, porque o rei do Dahomé alli tem toda a influencia e auctoridades suas, a que os brancos se veem na necessidade de obe¬ decer , nem lhes sendo permittido telharem as suas ha¬ bitações senão por especial concessão. Aqui os negros veneram muito a cobra boá, tendo algumas reunidas
  • 272 n’uma casa, sustentadas á custa do povo, e com sa¬ cerdotes para seu culto. . Em Ajudá fazia-se muito negocio de escravatura, que actualmente está substituído pelo do azeite de pal¬ ma , de que se exportam annualmente de 3:500 a 4:000 toneladas, ao preço regular de uma pataca pela medida de vinho denominada galão. Em 1S5& os inglezes tiveram em rigoroso bloqueio toda a costa ehtre Quitá e Benim , para obrigar os chefes das povoações do littoral, e ojei do Dahome a assignar um tratado para a abolição do trafnco da escravatura, o que conseguiram, e o direito de com¬ mercial’ e ter cônsules nos portos d’aquella cost:a. INo mesmo anno compraram aos dinamarquezes os estabe¬ lecimentos que por aqui possuíam, de modo que se pode dizer que estão senhores do litqc/al de Benim, onde até agora não tinham dominio} e se estabelece¬ rem feitoria na embocadura do rio da Lagoa, (jue pa¬ rece já reconheceram que dá entrada a navios aité 100 toneladas, pode tornar-se em pouco tempo umi porto muito mais importante para o commercio do «azeite, do que Ajudá e Porto Movo. Possuindo os inglezes as duas extremidades do lit¬ toral, Quitá e Onim, o podem dominar todo, soc- correndo as feitorias intermédias pela lagoa que vem do rio das Voltas, um pouco a oeste do cabo» de S. Paulo, e que segue pelo interior a pouca distaincia da praia até quasi ao Porto Novo , e d1ahi ao rio de Benim. Toda esta costa é defendida por um banco de area a cousa de 100 braças da praia, que se toma um baluarte inexpugnável contra qualquer tentativa de desembarque. . Em °27 de junho avislaram-se 3 navios, succeden- do sempre verem-se embarcações por esta paragem, que é uma especie d’encruzilhada, onde vem passar quasi todos os navios que tem de cortar o equador no Atlântico. . „ A pela uma hora da tarde avistamos uma em- barcaçuo, que atravessou ao passar perto da nossa, e
  • a corveta fez o mesmo, tendo-se içado as respectívas bandeiras portugueza e ingleza. Veiu a bordo o capi¬ tão da galera, que disse ser também o dono d’ella. Era um alegre inglez muito fallador, e que nos trou¬ xe jornaes do seu paiz até fins de maio, pelos quaeà soubemos do estado político da Europa. Demorou-se quasi duas horas, conversando e bebendo vinho do Porto, e no intervallo mandou vir do seu navio ba¬ latas, manteiga, presunto, frutas de conserva, quei¬ jo londrino, e doces, com o que presenteou o com- mandante, que também lhe retribuiu com outros mimos* A galera chamava-se Mary Ann, trazia dias de Liverpool, e dirigia-se para Calcutá: era um bo¬ nito navio, e mie proximo de nós ao alcance da voz natural, arfava elegantemente sobre as grossas vagas do mar. Pelas 6 horas retirou-se o bom do inglez, ainda maisalegre do que viera, e em quanto estivemos atra¬ vessados outra vela se descobriu no horisonte; era outra galera ingleza, que passou perto de nós ás 6 horas, atravessou, e dirigiu-nòs os comprimentos ma- rilimos do estilo, que consistem em içar a bandeira no penol da mezena e arrial-a até meia altura por 3 vezes consecutivas, ao que da corveta se correspondeu do mesmo modo, agradecendo por fim a galera içan* do de novo e arriando logo a bandeira. Estes costumes marítimos são bons, uteis, e hu¬ manitários. Quando os navios se encontram por acaso nos vastos desertos dos mares e vem á falia, sejam quaes forem as nacionalidades tratam-se como ami- gos que inesperadamente se encontram em paiz re¬ moto , e é das boas praticas da gente do mar presta¬ rem-se todos os serviços ou soccorros que mutuamente careçam. No l.° de julho começaram os ventos variaveis do quadrante de oeste ora frescos ora bonançosos, mas acompanhados de bastante chuva e cerração: não se viu o sol, e durante o dia divisaram-se vários navios, 10
  • 274 havendo ao fim da tarde alguns 8 á vista, quasi to¬ dos galeras. Nos dias precedentes se tinham successivamente deitado ao mar os barris de carne salgada, embarca¬ dos em Loanda para gasto da guarnição, por se achar podre, e n’este dia foram os últimos, fazendo ao todo barris com 6:918 arrateis de carne, no valor de quasi 400:000 rs., que a fazenda publica perdeu. Se não fora a boa viagem que iamos fazendo, e haver de economias nos ranchos sêccos 18 barris de carne embarcada na China e em Moçambique, e mails ou¬ tros comestíveis, o navio seria forçado a arribair a al¬ gum porto do Brazil, para se refazer de manltimen- tos, no que faria avultada despeza. Quando se dão estes e outros similhantes factos, bastante frequentes nos fornecimentos^da nossa mari¬ nha, devia-se exigir severa responsabilidade dos que n’elles são culpados. O vinho e a aguardente quasi sempre estão adulterados quando se chegam a distri¬ buir ao miserável marinheiro, ás vezes com grawe pre¬ juízo da sua saude. No almoxarifado de Loanda nao houve o devido cuidado no preparo da carne, e a que veiu para bordo foi de máos bois, mortos na mesma occasião, e sem estar enxuta foi mettida nos barris, até com pedaços de coração, baço, &c.; deitando-lhe depois agua mistu¬ rada com um pouco de salitre, ou com pequena «quan¬ tidade de sal, E’ sabido que em Mossamedes se 1 fazem excellentes salgas: o gado é alli muito melhor e ma 19 barato, saindo o barril á fazenda por 10:000, c em Loanda por 16:000 rs. A respeito dos fornecimentos dos generos de Por¬ tugal para as estações navaes da Africa, nada parece mais facil e conveniente do que mandal-os do arse¬ nal de Lisboa , pelos navios de guerra ou charruas que para lá forem ; evitando-se assim compral-os nas loca¬ lidades, aonde são máos e a preços exorbitantes.
  • 378 Noticia da» illia» de Calto Verde» Nos primeiros dias de julho experimentámos bas¬ tantes calrnarigs, e n’uma das madrugadas muito me Impressionou o espeetaculo que o mar apresentava* Ligeiras nuvens cobriam o ceo quando o sol surgiu das aguas , a brisa apenas se sentia passar sobre o ros¬ to, e a vasta planície do mar se movia vagarosamenle em largas ondulações; nenhumas ondas, nenhuma es¬ puma , nenhum ruído era produzido por este mages- toso movimento t reinava no Oceano o silencio miste¬ rioso e tremendo do deserto l Esta scena apresentava um quer que fosse de forte e de terrível que assustava o espirito. Parecia-me que o genio das tempestades estendido sobre as aguas dei¬ xava ver no jogo dos musculos sua força prodigiosa, preparando-se para n^um momento de capricho revol¬ ver as ondas do Oceano desde os mais profundos abis¬ mos até ás nuvens do ceo. Continuámos com tempo chuvoso e de calmaria: a falta de vento é muito commum rfestas paragens, e demora ás vezes muitos dias a navegação; comtudo tivemos felicidade, porque a 4 começou a declarar-se o vento de leste, chamado das brisas de Cabo Verde, achahdo-nos pelos 11° 47; de lat. e ^4° ^4' de long* Nos 9o de lat. já costumam dominar aquellas brisas, mas n’esta viagem os ventos geraes nos acompanharam até quasi aos 10°, 18 *
  • 276 No dia 10 o ponto foi 18° 41' de lat. e 31° de long. Saímos fóra da sombra das ilhas de Cabo Verde, e por isso começaram a soprar rijas as brisas do nor¬ deste, abrindo ás vezes até leste. A corveta ia então andando mal, porque estava muito leve, por lhe fal¬ tarem os mantimentos, e ter pouca artilharia. Passámos a 80 legoas a oeste da ilha de Santo Antão, a mais occidental das do archipelago de Cabo Verde, que constitue a nossa colonia d’este nome, e que jaz entre os 14 e 17° de lat. boreal e os 14 e 16° de long, oeste de Lisboa , dividindo-se em dois grupos, chamados ilhas de Barlavento e ilhas de Sotavenito, que se estendem quasi em forma de meia lua, cujo lado convexo é voltado para o continente d1 Africa, d’onde a ilha de Maio dista apenas 9.3 legoas, em referencia ao cabo chamado Verde, uescoberto em 1443 por Diniz Dias, mas já antigamente conhecido pelos romanos pela designação de Hesperium Promon- torium ou Arúnarium Africce. Estas ilhas começaram a ser descobertas em rmaio de 1460, por uma expedição de ties navios enviiada pelo infante D. Henrique, em que ia o genovez An¬ tonio de Nolle; mas parece que foram conhecidas pelos phenicios, carlhaginezes e romanos, que as cha¬ mavam as Gorgonidas, e sabiam que eram situadas ao sul das ilhas Fortunatas, hoje denominadas Canarias. Povoadas as principaes ilhas de Cabo Verde pielos criados do infante D. Fernando, e pelos colonos» de Guiné, foi crescendo rapidamente a população, de modo que em 1538 já era considerável, e se erigiu um bispado n’aquellas ilhas. Antigamente quasi todos os navios portuguezes iam alli refrescar, nas suas viagens para a India e para a costa da Mina; e Vasco da Gama lá aportou quando ia á descoberta do cabo da Boa Esperança. Na Senegambia fundámos alguns estabelecinen- tos, de que hoje restam os dois districtos de Bissai e Cacheu, que compõem a Guiné portugueza, e fa;em parte da acLual província de Cabo Verde.
  • 277 Em 1582 e 1595 soffreu esta colonia invasões de inimigos e saques, renovados cm 1712 pelos fiancezes, datando d’esla epocha a sua maior decadência. Faltou desde então o commercio, e repetindo-se as sêecas, a que é muito sujeito este archipelago, sobrevieram . grandes fomos, tendo sido as mais calamitosas em 1749, 1775, e 1832, que causaram grande mortan¬ dade na população, a qual em 1834 era de 56:000 almas, reputando-se hoje de 90:000. O clima é geralmente máo, porém não tanto co¬ mo se acredita. Santiago e Maio sao as ilhas mais doentias, mas Santo Antão, Fogo e Brava gozam reputação de sadias. Em Cabo Verde, como nas de¬ mais possessões portuguezas da Africa, ha o provérbio de que se devem evitar quatro SS : sol, saia, seia, e sereno ; rifã-4 trivial, mas que na verdade encena a melhor regra de hygiene para estes paizes. Ainda não foi estudada devidamente a geologia do archipelago de Cabo Verde, mas na moderna obra Corografia Cabo-Cerdiana, se leem algumas noções a tal respeito, que se resumem no seguinte: Este archipelago, como quasi todas as ilhas do Oceano, indica dever a sua origem a consecutivas erupções volcanicas, não apresentando em parte algu¬ ma montanhas primitivas, sendo Santiago, Santo Antão, e Fogo as mais montanhosas, mas sem syste- ma gerai na sua formação. Quasi todas as ilhas tem em derredor altíssimas rochas, na maior parte talhadas a pique, principal¬ mente nos cabos ou pontas, havendo apenas pequenas praias na foz das ribeiras, cujos leitos de pouca largu¬ ra passam entre elevadíssimas paredes de rocha , ge¬ ralmente a prumo, correspondendo-se os bancos late- raes de rocha e ferras, bem como os ângulos salientes e reintrantes, evidenciando que nos antigos choques das revoluções do globo o centro das terras se rachou em vários logares. Nas rochas á borda do mar e bem pronunciada a estructura das camadas, na maior parle constituídas
  • 278 por substancias decompostas pela acção do fogo,,e se¬ paradas por bancos de arêa , terra vegetal, argilas, &c. No interior o esqueleto das montanhas é basalto eteo- rile: os montes de segunda ordem são de argila, na maior parte combinada com ferro, e as camadas origi¬ narias de silex, &c, estão rotas, desorganisadas, e confundidas; apparecendo sobre ellas misturados ban¬ cos de lava e prqjecções voleanicas, sendo rarcs os bancos calcareos. Outros montes são de seixos sfhis» tosos, e quasi toda a terra que se cultiva é na rraior parte composta da moinha fina de lavas dcrregadas. A terra vermelha, muito commum em Santiago e Santo Antão, resulta da decomposição de basalto e tufo ver» melho. Estas ilhas sao muito ferieis em gados e em virfos productos agrícolas, e pela animação “;:i cultun da purgueira, café, e assucar começam hoje a sai do estado de decadência em que tem jazido. Em M3 exportaram-se para Lisboa 55& moios de semen ta de purgueira, e em 185-2 tornou-se sete vezes maior esta exportação, que subiu a 3:756 moios, fornecendo 39 carregamentos de navios, e que custaram em Cabo Verde 75:1^0$000 réis da moeda provincial; ’alor que muito augmenta em Lisboa pela importante ma» nipulação do azeite extrahido d’esta semente, e ípro- veitamento do resíduo ou massa, optimo estrime, que na maior parte se m porta para França, entraído na classe dos adubos das terras que alli denomham íourteaux. A exportação do assucar para Lisboa reguloi no mesmo anno por &:000 barricas, contendo de 6 a ^0:000 arrobas, sendo lá comprado regularmene a 1:^80 réis a arroba, e vendido em Lisboa ao peço médio de $:000 réis, achando sempre p romp ta vmda pela sua boa qualidade. A exportação do café regulou por 800 sacca ou 4:000 arrobas, e pela sua optima qualidade oleve em Lisboa o preço medio de 3:600 réis, e no corcntò wmo ( 1853) tem subido de 3:800 a 4:000 réis,
  • 279 Vê-se pois que n’esta província se vai desenvol¬ vendo a cultura, e desapparecendo a crise que lhe produziu a decadência do comrnercio da urzella (que abundantemente se produz nos rochedos, e alcantis de suas montanhas), depois que esta começou a exportar- se d’Angola, como já referi no capitulo XVII. As suas rendas publicas, segundo o orçamento de 1852 a 1853, são de perto de 90 contos de réis for¬ tes, e as despesas 103, sendo o deficit mais de 13 contos. Será ocioso repetir quanto a colonisação chineza pode ser vantajosa para este archipelago, para a Gui¬ né portugueza, e ilhas de S. Thomé e Principe, se todavia estes climas não lhe forem contrários.
  • 2§Q ©Bscrvaçdes gei aes «ofire os nossos domínios ultramarinos»noticia das colónias fiespa- nSsolas» e considerações sobre a idea da União Peninsular. De tudo quanto tenho dito a respeito dos nossos domínios ultramarinos, se patentêa que “) nossos maio-» res souberam adquiril-os com raro valor e habilidade, e que de todos tiraram mais ou menos proveito , ele-» irando alguns a alto gráo de prosperidade. Vieram depois, no fim do século XVI, as vicissitudes e des^ graças políticas da monarchia, que nos fizeram per¬ der boa parte d’esses domínios, e cair em abatimento todos os outros. O mais lastimável porém é, que nos modernos tempos o desamparo, o desleixo, e as pes^ simas administrações os reduzissem ao miserável esta¬ do em que caíram, e de que hoje apenas alguns vão saindo atravez de mil difficuldades, e quasi só jpelos seus proprios esforços. l' Direct am ente para o thesouro de Portugal nada rendem as nossas possessões, e até para uma d’ellas (Macao) vai mensalmente do reino um subsidio. Considerado no todo, e segundo o orçamento de 18ò| a 1853, o seu rendimento geral é de, em numeros redondos, 75£ contos de réis, e a sua despesa de 830, havendo o deficit de 78 contos. E’ para notar que a par da decadência e desapro¬ veitamento das nossas colonies, as do vizinho reino de Hespanha tem prosperado muito nos modernos teni* pos? fornecendo graces recqrsQs á, metropolc,
  • 281 Para melhor se avaliar este contraste darei resu¬ mida noticia do actual estado das colonias Filippinas e Cuba ? extrahida das obras ofíiciaes, Informe sobre el estado de las Islas Filipinas en 1842, por D. Si- nibaldo de Mas; Memórias históricas y estadisticas de las Jslas Filipinas en 1850, por D. Rafael Diaz Arenas; da obra sobre Cuba de D. Ramon de la Sa¬ gra ; das Balanzas mercantiles de las Jslas de Cuba y Puerto Rico en 1850, impressas por ordem do gover¬ no hespanhol; do opusculo impresso na Habana em 1852, intitulado Estado politico y economico de la Ela de Cuba en 1851, por la redaccion del diário de la marina de Habana; e de alguns outros dados que reputo seguros. As ilhas Filippinas constituem um archipelago na Oceania occidental ou Malesia, de mais de 300 le- goas de extensão, comprehendendo talvez 1:000 ilhas, todas mais ou menos sujeitas aos hespanhoes, sendo a principal d’ellas Manila ou Luçon , e jazem a umas S00 legoas ao oriente de Macao. Longo tempo desaproveitadas pela metropole , que dispendia com ellas sommas avultadas, quasi de re¬ pente mudaram de situação. O movimento do seu commercio externo cresceu quasi 50 por cento em 13 annos: em 1837 entraram 134 navios no porto de Manila ( unico da colonia em que são admit tidas em¬ barcações estrangeiras ), e o numero d’elles foi succes- sivamente augmentando, subindo a 208 em 1850. Em 15 annos duplicaram os valores das importações e ex¬ portações, que em 1850 regularam cada uma por 4 milhões de patacas. O commercio interno e de cabotagem augmentou ainda emjnaior proporção. Em 1842 a matricula de embarcações de toda a especie empregadas no commer¬ cio, feita na commandancia geral da marinha em Ma¬ nila , foi de 643 embarcações , medindo 28:609 tone¬ ladas; e em 1850 foi de 2:011, medindo 69:230 to¬ neladas. E ainda que na primeira indicação não en¬ caram em conta as embarcações de uma só tonelada 3
  • 282 é na verdade para maravilhar, que no curto espaço de 9 annos pelo menos duplicasse o commercio marí¬ timo, occupando mais do duplo das embarcações, e da sua capacidade ou tonelagem. As rendas publicas, em successivo augmento , quin¬ tuplicaram no espaço de 36 annos: em 1816 foram de 1:094:255 patacas, e em 1852 de 5:595:640. A população quadruplicou em pouco mais de um século. Segundo documentos officiaes era de um mi¬ lhão de almas em 1735, e de 3:815:878 em 1850. N ’estes censos officiaes se incluem somente os habitan¬ tes das Filippinas christãos, e submettidos ao govverno hespanhol. O seu augmento não provém só do desenvolvi¬ mento natural da população, mas também da conver¬ são ao christianismo dos idolatras, ir'_ nometanos, e selvagens que ha no interior e nas montanhas das ilhas, de que restam talvez mais de um milhão por converter ou conquistar, havendo d’estes uns 200:000 na ilha de Luçon que não podem communicar, nem commercial' com povo algum senão por meio dais po¬ voações e portos christãos. Segundo boas conjectures póde-se computar em 5 milhões de habitantes a po¬ pulação geral das Filippinas. Em 1842 a cidade de Manila e seus arrabaldes con¬ tinha uns 150:000 habitantes, 2:150 carruagens, de 4 a 5:000 cavallos, mais de 1:000 lojas de gemeros, e 266 de vinhos e bebidas espirituosas da Europsa. E* a cidade mais povoada de toda a Oceania. No entanto a prosperidade das Filippinas está ain¬ da longe de se comparar com a de Cuba, apesar do seu muito maior território e população, e de não ser o solo filippino menos fértil e salubre que o de Cuba. Isto provém dos defeitos da administração que; rege nas Filippinas, assim como dos embaraços c encargos que ainda pesam sobre a sua agricultura e commercio, devendo-se esperar que a importância doesta colonia, aliás já grande, muito maior o seja dentro em pouco tempo, desenvolvendo todos os seus recursos > e apro-*
  • 283 veitando todas as vantagens que offerece a sua optima situação entre os immensos mercados da China, da India, da Malesia, da Australia, dos Estados hes- panhoes sobre o Oceano Pacifico, e da California e demais Estados Unidos. As ilhas de Cuba e Porto Rico jazem na pro¬ ximidade do golfo do Mexico, na America septen¬ trional. Durante os 10 annos decorridos de 1841 a 1850 entraram nos portos habilitados da *ilha de Cuba de 3:000 a 3;500 navios annualmente, mas a capacida¬ de d’elles ou seu numero de toneladas, quasi dupli¬ cou n’aquelle intervallo , chegando em 1850 a 874:014 toneladas. A marinha mercante propria da ilha é mui¬ to considerável, e conta 7 navios de mais de 400 to¬ neladas, ®5 dC800 a 400, 96 de 80 a 800, 876 de 80 a 80, 17 vapores, e umas 8:600 embarcações me¬ nores. Do referido se conclue que duplicou também a quantidade de mercadorias transportadas, sendo certo que as producções da ilha tem ido em extraordinário augmento. Em 1850 havia 687 engenhos d’assucar, lendo-se desde 1846 construído de novo 168, em geral monta¬ dos a vapor e com as maquinas modernas de fabrica¬ ção, a qual se faz em muito maior ponto do que nos antigos engenhos, em que só se usava da força animal. Só o valor das maquinas importadas para os novos en¬ genhos subiu á quantia de 1:836:500 patacas. Outros engenhos se tem posteriormente construído, e a fabri¬ cação de um d’elles é de 85 a 30:000 caixas d’assu- car annualmente. Para este grande desenvolvimento agricola e com¬ mercial muito tem contribuído os caminhos de ferro, que desde 1834 se começaram a construir na Cuba. Em 1851 existiam construídas 338 milhas ou 110 le- goas, e mais 30 em projecto de construcçâo, sendo 11:066;000 patacas o capital das differentes empre¬ sas d’estes caminhos, que todas se organisaram na mesma ilha. Em 1850 o total rendimento das vias fer-
  • 284 roas foi de 670:600 patacas, provindo 377:300 das cargas, e @93:300 de passageiros. Os valores das importações e exportações duplica¬ ram no decurso dos 24annos decorridosde 1826 a 1850, regulando n’este ultimo as primeiras por 30:600:000 patacas, e as segundas por 87:500:000, incluindo os depositos, tendo havido em relação ao anno ante¬ rior o augmento de 10 por cento na importação , e de 14 na exportação, apesar das perturbações políticas que por aquelle tempo houve na Cuba, promovidas pela expedição dos americanos do norte. Em 18.51 o augmento da producção e da exportação foi imuito notável, em todos os generos principaes, assuicar, melaço , aguardente , café , e tabaco : exportaraim-se 1:548:000 caixas de assucar, tendo havido sobre o anno de 1850 o augmento de 298:400 baixas; e a ex¬ portação só do tabaco em rama foi de 9:240:000 ar¬ raieis, e o augmento 1:261:800 arrateis. Em 1852 o valor total da exportação excedeu a 30 milhões de patacas. As rendas publicas também tem crescido propor¬ cionalmente, e em 1850 foram de 12:248:7111 pa¬ tacas , segundo os documentos officiaes} mas pelo cjue se lò no citado opusculo impresso na Habana a receita real foi de 10:220:384 patacas, provindo a differença de se incluírem nas rendas publicas verbas apparentes, taes como depositos judiciaes, descontos nos vencimen¬ tos de empregados, e outras. Em 18ol houve em re¬ lação ao anno anterior o augmento de 1:700:000 pa¬ tacas, só no ramo da receita das alfandegas. Em 1852 o rendimento subiu a mais de 14 milhões de parcas, ou perto de 14:000 contos de réis. Em todo o caso os reditos d’esta ilha excedem á totalidade dos de Portugal, que pelo orçamemlo de 1853 a 1854 são de 10:807 contos, tendo ella apenas um milhão de habitantes, só metade dos quaes são brancos; população que anda pela terça parte da do nosso reino. , A despesa publica é pouco inferior a receita 3 o
  • que é devido á manutenção da grande força militar que guarnece a ilha. O exercito em 1851 compunha- se de 20:800 homens, e 1:380 cavallos, além da con¬ siderável força de 2.a linha. A esquadra era de duas fragatas, seis vapores, e varias embarcações menores, guarnecidas ao todo com SOO canhões, e S:500 ho¬ mens. Actualmente ( 1853 ) o exercito regula pela mesma força, e a esquadra compõe-se de 27 navios, entrando duas fragatas, e dez vapores. N’esta ilha ha um bom arsenal,' e em 1851 alli se construiu um dique, ou plano inclinado, em que entram navios de mais de 1:000 toneladas. Ha também uma universidade com as faculdades de filosofia, jurisprudência, medicina e cirurgia, e farmacia, nas quaes se matricularam 1250 alumnos no curso de 1850\i 1851. Nos portos da ilha de Porto Rico entraram em 1850 uns 1:200 navios, medindo 132:000 toneladas, nâo incluindo os de cabotagem; e no mesmo anno a importação regulou por 5:200:000 patacas, e a ex¬ portação por 5:900:000, tendo uma e outra mais que duplicado desde 1828. Em 18512 os rendimentos pú¬ blicos foram de 1:644:000 patacas. A população da ilha era de 319:000 almas em 18129, e de 700:000 pouco mais ou menos em 1850. A importação nas Filippinas de vinho, vinagre, e mais líquidos espirituosos da Europa, subiu em 1850 ao valor de 192:408 patacas; na Cuba a 3:156:535; e em Porto Rico a 317:329, sendo o total valor d’aquelles productos importados nas colonias referidas a avultada quantia de 3:666:272 patacas, quasi 9 mi¬ lhões de cruzados. Se estes ricos mercados nos fossem abertos a par dos productos hespanhoes, de grande vantagem seria para a principal industria do nosso paiz, que é a dos vinhos. O governo hespanhol sollicito em augmentar a pros¬ peridade das suas colonias, e conhecendo as vantagens da colonisação chineza, não só a promove nas Filip-
  • 286 pinas, mas até fez angariar 6:000 chins, que no cor* rente anno ( 1853 ) vão sendo transportados para Ha* bana, onde darão ainda maior impulso e desenvolvi* mento á agricultura, para que são muito aptos. Podem ver-se no fim d’este volume os mappas es- talisticos, onde se desenvolvem alguns dos dados que vão transcriptos. Comparando o estado das colonias portugueza3 com o das hespanholfts, que não tem no seu solo e clima grande superioridade as nossas, occorre naturalmente a idéa da vantagem que resultaria ás possessões* que temos, se os nossos interesses cornmerciaes e ecomomi* cos se identificassem com os de Hespanha, comnnúni¬ ca n d o-se ao nosso paiz esse espirito activo e emprehen- dedor que tanto se manifesta na vizinh^ nação, e que mesmo independente da acção do governo desenvolve rapidamente seus recursos, e a faz crescer todos os dias em população, riqueza, e importância política. Quantos productos, quantos novos mercados, e que vasta esfera de desenvolvimentos não resultauiam para a prosperidade das duas nações peninsulares, se recebessem um impulso commurn e energico as bellas possessões que ainda contam , espalhadas por todo o globo, e em excedentes situações! À identificação dos interesses cornmerciaes e eco- nomicos, a que tende o progresso da industria e da civilisaçao na Península, conduzirá á identidade das ideas e á assimilação dos interesses de toda a especie, e naturalmente á fusão das duas nacionalidades, para o que tantas outras causas concorrem , taes como a origem commurn , a similhança da linguagem , do cli¬ ma , dos costumes, e da religião dos dois povos. Quasi todos os homens pensadores de Portugal jul¬ gam inevitável a absorpção da nossa na nacionalidade hespanhola, porém uns a encaram como desgraça e anniquilamento politico, e outros como o unico fu¬ turo esperançoso para o nosso paiz , se for convenien¬ temente prevenida e preparada. £’ hoje reconhecido que a Hespanha não pensa*
  • 287 nem póde seriamente pensar em nos conquistar: im- pede-lh’o o seu proprio interesse, as idéas que n’este século dominam na política europea e nas relações in- ter-nacionaes, e sobre tudo o brio portuguez, mais de uma vez provado contra toda a sujeição estranha, e que ha de sempre repellir valentemente qualquer ten¬ tativa de fusão violenta, quando na minima parte en¬ trasse em alguma combinação futura de união penin¬ sular. Mas se, como em gerai se pensa , a absorpção é inevitável, e consequência necessária do contacto en¬ tre os dois povos, que as \ias ferreas e os interesses communs hão de estabelecer pelo seu desenvolvimento natural e irresistível, parece que o verdadeiro amor do nosso paiz não está em uma resistência inútil, e que nos ligue ao atrazamento e ao barbarismo em relação ao resto da EuVípa, mas que antes deve consistir em diligenciarmos que essa absorpção nos seja vantajosa quanto possível, transformando-a antes n’uma união voluntária, decorosa, que enlace as duas dynastias, e que se effectue a tempo de ainda levarmos para o monte commum da riqueza da nova nacionalidade ibérica esses restos, ainda tao valiosos, da nossa anti¬ ga opulência colonial. Todo o peninsular que contempla sobre o mappa geographico este bello tracto de terra, quasi todo cer¬ cado de mar, unido apenas ao resto da Europa pela magestosa cordilheira dos Pyreneos, e recordando-se da historia d’esta formosa peninsula a compara com a sua actual situação, não pode deixar de se sentir ar¬ rastado pelo desejo de ver reunidos todos os elemen¬ tos ibéricos rdurna vasta e poderosa nação, e elevada a patria commum d’estes povos irmãos ao gráo de im¬ portância que lhe compete. Que immenso porvir de grandeza e gloria poderá ter a nação ibérica, tão felizmente collocada no occi- dente da Europa, possuidora de riquíssimas colonias, e com os seus vastos portos sobre o Mediterrâneo e o Atlântico, com a amenidade do seu clima, a riqueza do seu solo, e a indole heroica de seus habitantes,
  • 288 retemperada n’uma nova existência nacional; ação herdeira das gloriosas recordações dos dois povos que dividiram entre si o mundo para largo campo dasuas descobertas e conquistas ! Quando no meio do Atlântico eu me enlregva a estas cogitações, mal suppunha que ao chegar aPor- tugal veria a grandiosa e fecunda idéa da unidad ibé¬ rica discutida pela imprensa , continuando depoia ser tratada por alguns dos nossos mais hábeis escrip^res, tendo apparecido uma curiosa memória sobre ese as¬ sumpto intitulada Iberia, da qual se fez recentenente segunda edição, e que é digna de ser lida por t)do o portuguez que se interesse no futuro destino à. sua patria.
  • 289 Considerações a respeito dos climas do glo« bo 9 serviço da enfermaria a l)ordo. e lem¬ branças sobre os nossos antigos navega*» a dores* A 7 de jullírfjá as brisas se tinham declarado com- pletamente, mas pouco favoráveis do nordeste e nor- noroeste, escassas, e caindo muitas vezes em calma* na, de modo que pouco ganhávamos em lat., e bas¬ tante íamos descaindo para oeste. Nos dias precedentes sempre tivemos á vista mais cu menos navios, e n’um d’elles vimos uma bonita galera austríaca, seguindo o nosso rumo, e que era poucas horas nos deixou pela popa. Foi a primeira embarcação que até alli encontrámos com melhor an¬ damento do que a corveta. No dia , pelos 22° de lat. e 34° de long., co¬ meçou sobre as aguas a apparecer sargaço, ou hervas marinhas , que parece se destacam do fundo do mar, e que sempre se encontram n’estas paragens. N’este dia tivemos o sol no zenith, e como dia¬ mante angular no fecho da abobada celeste, dardejava seus raios a prumo sobre as nossas cabeças. Chegaram para nós os máximos dias d’aquelle anno , diminuindo desde então com rapidez, porque nós e o sol mutua- mente nos iamos affastando. Ao tempo de passarmos a linha o sol parava no tropico de Cancer, e volvendo-nos o rosto brilhante retrocedeu ao nosso encontro á entrada da zona tem- 19
  • 290 perada, como para nos dar os emboras do nosso re¬ gresso á patria. Por este tempo já eram reconhecidos os effeilos da melhor atmosfera que respirávamos: o estado sanitario da guarnição tinha sensivelmente melhorado, e todos se sentiam com mais vida e animação. Na verdade os nossos climas são bem preferíveis á major parte dos do globo. A Europa occupa a posição mais conveniente para o desenvolvimento corporal e intellectual do homem. Esta parte da terra possue grandes vantagens comparada com os paizes situiados entre as mesmas latitudes. No norte d’America a :zona da temperatura media, tendo quasi a mesma extensão em comprimento ou long., tem apenas meia largura da da Europa. E’ sabido que as zonas da tempe-atura do globo nao seguem as latitudes, e pelas modernas observtçoes se tem chegado aos seguintes curiosos resultados. l.° Que a zona tropical da Africa é a mais quente da terra. ^.° Que a zona tórrida da terra na África é 2o 2 de Fahrenheit mais quente que a do sul da Asit, e 4o % F. mais quente do que os paizes da costa topi¬ cal da America. 3. ° Que os paizes tropicaes na Ásia são F. nais quentes que os correspondentes na America. 4. ° Que os paizes tropicaes nas costas do Velho Mundo, são £° 88 F. mais quentes que os paizes tro¬ picaes do Novo Continente. 5. ° Que a zona tropica do grande Oceano Pacifi¬ co 9 nas paragens livres de correntes de ar, é F. mais quente do que a zona correspondente do Oceano Atlântico. A natureza tem estabelecido linhas sobre a super¬ fície da terra, além das quaes o homem civilisadonão pode passar sem pôr em perigo as suas faculdades rnen- taes e corporeas. No syslema das linhas isothermes de Humboldt, a possibilidade de habitação para a raça humana cessa além da curva isotherme de 5o F. „ ou
  • 291 antes entre as curvas £3° e 33° F., onde apena3 em algumas regiões ha raríssimos habitantes. O vento continuou constante do nordeste e do nornordeste , e nos foi deitando para oeste. A 15 iamos pela altura das ilhas Canarias, pertencentes á Hespa- nha : parece que foram conhecidas pelos cosmografos arabes do duodecimo século com o nome de Ralidcit J mas de novo descobertas por navegadores portuguezes, antes de ir a ellas o francez Bettencourt. O sargaço foi apparecendo em abundancia , umas vezes em pequenas nodoas circulares sobre a superfície das aguas, outras extendendo-se em linhas de um a outro extremo do horisonte, ou em largas mantas que tapisavam as ondas. O mar do sargaço é um grande banco de hervas marinhas, ou especie de prado oceâni¬ co , que offered^) maravilhoso espectaculo d um ajun¬ tamento de plantas entretecidas, e que se estende dos 19 a 34° de Jat. norte, passando o seu eixo principal 7° a oeste da ilha do Corvo. O tempo corria então muito agradavel e tempera¬ do, e as tardes eram deliciosas. Passava as horas do crepúsculo como nas costas do Malabar, sentado na janella de estibordo do meu camarote: o bulicio das vagas emaranhadas, o zenir da espuma, e o ciciar do vento tinham para mim magicas harmonias, e a face escurecida do Oceano encantos inexpremiveis de me¬ lancolia e de mysterio I Oh 1 como me embevecia então a belleza do Ocea¬ no 1 A belleza, esse enigma, esse emblema de Deus espalhado em toda a creação, em parte alguma se manifesta mais n’este globo do que na amplidão dos mares! Belleza! . •. com o cantor de Jocelyn, dizia eu nos meus soliloquios, d’onde vieste ao mundo , porque te amâ o homem? Ninguém te sabe explicar, mas todos soffrem o teu império, e bem na alma o sentia eu á vista do formoso Oceano! A 16 tivemos vento duro do nordeste rondando mais para o norte, com algum mar e balanço. A sin- gradura foi de mais de , mas muito fora do cami- 19 *
  • Lm nho, e ficámos cm 30° de lat. e 40° de long. Nãío c muito commum durarem as brisas de Cabo Verde ain¬ da tao constantes por esta lat.; mas como tardaram em nos apparecer, também se demoraram em nos deixar. N’este dia deu parle ao commandante o doutor ou facultativo do navio de se terem acabado as dietas para os doentes na enfermaria, que ficaram na alter¬ nativa de comer da caldeira , ou de se reduzirem todos a arroz cozido simplesmente n’agua. Quando os nossos navios de guerra fazem manti¬ mentos , o numero das dietas para a enfermaria é re¬ gulado por uma tabela fixa , em relação ao lote do navio e ao tempo calculado da viagem. Isto póde servir em circumstancias ordinárias, ain¬ da que apresenta por vezes inconvenientes na pratica; mas para os navios que vem de cabosTa dentro care¬ cia-se d’uma disposição especial. Elles trazem geial- mente a maior parte da tripulação arruinada de saú¬ de, e vem tomando pelos portos das nossas possessões d1 Asia e d’Africa praças de marinhagem e de tropa; gente quasi sempre invalida ou muito doente, como aconteceu com esta corveta : isto augmenta necessaria¬ mente o movimento ordinário da enfermaria, e por consequência os fornecimentos de dietas pela tabefia não chegam ao fim da viagem, e ficam os desgraçados doentes nas tristes circumstancias acima referidas. Se a nossa marinha fosse bem organisada, devia-se attender a estas especialidades, e muito particular¬ mente ao bom arranjo das boticas e das enfermaria- a bordo. Na corveta não havia propriamente enferna- lia: os doentes estavam na coberta no espaço que e- gue á antepara de bombordo do alojamento dos guir- da-marinhas, sem divisão nem abrigo algum, stm catres, estendidos sobre o chão, que todas as manias é baldeado, e onde vai ter a agua quando ha muto mar. O marinheiro no meu entender é o homem qte serve o seu paiz debaixo dos mais rudes trabalhe, affrontando quasi diariamente a morte, e pela mais
  • 293 revoltante injustiça é de todos os servidores da nação o mais mal pago, e o peior tratado. Ao marinheiro, mesmo servindo na9 insalubres costas d’Africa , chega-se a dever quatro annos de sol¬ dadas, a sua comida é geralmente má, o vinho ou aguardente péssimo, a bordo muitas vezes soffre gran¬ des extorsões, mais ou menos patentes, porém geral¬ mente sabidas da gente marítima ; e finalmente, se per¬ de a saude no mar, lá vai para uma possilga augmen- tar seus soffrimentos, ou abreviar a existência. A 18 começou a fraquejar a brisa, variando por vezes, e chegou a soprar do sudeste; mas caímos quasi em calmaria, e ficámos em 41° 14' de long, e 33° 7f de latitude. Passámos na altura da ilha da Madeira, pelos 3&°, a qual foi descreria em julho de 1419, por Trislão Vaz Teixeira e João Gonçalves Zarco, ambos da casa do infante D. Henrique, que em 1418 os mandára descobrir terras d’Africa, e n’este mesmo anno encon¬ traram a ilha de Porto Santo, onde logo se estabele¬ ceram. O celebre navegador Bartholomeu Perestrello colo- ivisou Porto-Santo, e casou sua filha D. Filippa Mo- niz Perestrello com o famoso Chrístovão Colombo, a quem communicou os vários conhecimentos e noticias marítimas que larga experiencia e espirito indagador lhe haviam adquirido; e parece que foram taes no¬ ções que deram a Colombo a idéa da existência do Kovo-Mundo, e que o guiaram na sua immortal des¬ coberta. A influencia dos portuguezes liga-se pois a este grande feito, para que nenhuma gloria lhes seja es¬ tranha nos grandes suceessose descobrimentos d’aquella epocha. A 19 chegámos ao ponto mais occidental dVsla derrota , a 41° 30' de longitude e 33° 30' de latitude. O banco da Terra Nova só nos ficava distante uns 15° na direcçao nornoroeste, e se as brisas do primeiro quadrante nos continuassem , já pensávamos que nos obrigariam a ir á pesca do bacalháo. Ao menos teria-
  • 294 mos por consolação ver aquelles mares e costas, que também não escaparam aos nossos affoutos navegan¬ tes, na grande epocha dos descobrimentos marítimos. Refere um de nossos historiadores ou chronistas, que peio anno conjecturado de 1463, João Vaz Cor- terreal e Alvaro Martins Homem , estabelecidos na ilha Terceira, descobriram a Terra-Nova; mas alguns navegadores estrangeiros nos disputam a prioridade. IT porém fora de duvida que Gaspar Corterreal, fi¬ lho do dito Joao Vaz, em 1500 visitou e explorou primeiro aquellas regiões em navios seus; deu-lhes no¬ mes portuguezes, como á Terra de Lavrador, Baihia da Conceição, &c., que ainda hoje tem; e trouxe comsigo 57 indígenas, mas voltando segunda vez com Intenção de descobrir pelo occidente ,ç ao norte novo caminho para a índia, lá se perdeu rros gelos do po¬ lo, bem como depois seu irmão Miguel Corterreal,' que fora procural-o. Estas navegações deram origem ás grandes pesca¬ rias portuguezas no banco da Terra Nova, onde fo¬ mos dos primeiros povos da Europa a fazel-as, e que tanto prosperaram no reinado de D. Manoel e n’ou- tros subsequentes, que em 1550 só em Aveiro havia 150 navios empregados n’aquella e n’outras pescas lon¬ gínquas. Nenhuma idea grande escapou aos portuguezes do principio do século XVI. Corterreal procurava a pias- sagem pelo noroeste d’America , empveza ainda nâo conseguida, e que sua repetição tem illuslrado mais de um nome moderno; Magalhães dava a volta inteira do globo; e Álvaro de Savedra, o descobridor da jNova Guiné ou Terra dos Papuas, tentou trazer das Ilhas Molucas mercadorias á Europa, atravessando o Oceano Pacifico, e fazendo-as passar pelo islhmo de Panamá. Este grande homem até chegou a pensar, e a propor a um dos Filippes os meios de realisar a aber¬ tura do mesmo isthmo, para tornar communicaveis os dois Oceanos. Quando regressei de Shangai para Macao na cor-
  • 295 veta Capricieuse 9 clieguei aos 1^5° de long, leste, quasi também no mesmo parallelo de .10° 3(V em que iamos navegando n’este dia 19 de julho, e achando- nos então como vai dito na longitude oeste de 41 307, considerava que já me achára quasi em dois pon¬ tos do globo d’aquelles que os geógrafos chamam pe- riécos, que são os que estando situados no mesmo he¬ misfério e parallelo, contam entre si 180° de longitu¬ de, ou horas de differença no tempo, tendo exa- ctamente invertidas as horas do dia e da noite, como os antípodas. Tenho pois percorrido metade do globo terrestre do oriente ao occidente, e pouco menos também de metade do norte ao sul, em quasi iguaes distancias de urn e outro lado do equador. w \ S0 já i®nos aproados ao oriente, em direcçao ás ilhas dos Açores, mas caminhando vagarosamente com fracas brisas de oeste até sudoeste. Tínhamos a vista algumas embarcações, e todas fomos deixando pela popa. O sargaço foi successivamente diminuindo, e■ n’este dia desappareceu de todo. # A’s 10 horas da manhã de %% contavá-se meio dia cm Lisboa, completando-se exactamente dois annos que saíra d’esta cidade. Considerava em quantos di¬ versos logares do globo, e em quantas scenas variadas e grandiosas tinha visto; e parecia-me ter vivido mais n’aquelles dois annos do que em toda a minha exis¬ tência anterior. líealmente uma viagem , e com especialidade esta que intentei, influe muito no espirito do homem, eleva-lhe o pensamento, enclie-o de grandes ideas, e faz-lhe ver differentemente muitas cousas que tanto nos preoccupam nos estreitos limites do nosso paiz. Eu co¬ mo que senti uma renovação no meu ser, uma certa excitação e actividade moral, de^ que já não me jul¬ gava capaz pela minha compleição e idade, mas que foram causadas pelas impressões que me fizeram alguns dos grandes espectaculos da natureza que presenciei.
  • 296 Chegada ao Faial, noticia (Vesta Hlia» e da sua Caldeira. O tempo nos foi correndo favoravel, sempre ccm Tentos bonançosos do terceiro quadrant#^ e ao romper tio dia ^7 de julho esta vamos á vista das ilhas do Faial e do Pico, a qual muito avultava no horisonle na distancia estimada de SO legoas, representando uma montanha de larga base, de forma cónica, e truncada horisonlalmente pelas nuvens que lhe enco¬ briam a summidade. Como houve calmaria só no hm da tarde chegᬠmos á distancia de 6 ou 7 milhas da terra, e então o perfil das elevações do Faial desenhava-se no ceo perfeitamente, bem como o cabeço da grande monta¬ nha do Pico, que a similhante hora se me representta- Ta como o genio do Oceano assentado sobre as onda:s, com o corpo envolvido n’uma vasta clamyde de nu- Tens, e saudando com a cabeça descoberta o rei da luz, que ao mar levava um dia mais! Na madrugada de S8 tínhamos descaído bastante para oeste, mas com vento sul ainda que escasso con¬ seguimos pelas 7 horas aproximar-nos bastante do Faial, achando-nos em frente das povoações do Nor¬ te , Praia, e Ribeira Funda, assentes em encostas bem cultivadas e vicejantes com os campos de milho: d’algumas casas dispersas saíam ondeando delgadas e brancas columnas de fumo5 ç uma singela ermida se
  • 297 destacava pela alvura das paredes no meio dos diversos matizes dos campos, retalhados em figuras quadrangu- lares. Tudo isto me fazia lembrar com saudoso encanto as campestres scenas das nossas aldêas. Pairámos entre as pontas do Capêlo e dos Cedros, e chamou-se a bordo um jeque ou barco de pesca, do qual tomámos pratico, e fazendo-nos no bordo do mar descobrimos ao longe a ilha Graciosa, pequeno circulo que das ondas surge como um açafate de flo¬ res, ea ilha Terceira com suas montanhas nublosas. Todo o dia bordejámos, e só ao fim da tarde dobrᬠmos a ponta da Ribeirinha. Uma barca balieira ame¬ ricana navegava perto de nós, demandando também o porto da Horta, onde lançámos ferro á uma hora da noite, vindo logo a bordo um official da corveta Por¬ to, que alli effiava ancorada, e pelo qual soubemos as desejadas noticias de Portugal. Ao romper do dia fui logo ao tombadilho observar a bonita perspectiva da cidade da Horta, que edifica¬ da na costa meridional da ilha no fundo de um largo crescente, se estende n’uma longa linha de casas gra¬ ciosamente dispostas, e seguindo a curva que descreve a enseada, sobresaindo as fachadas de varias igrejas, e uma alta e isolada torre. Ruas parallelas, e diversas habitações por entre pomares de laranjeiras, se elevam successivamente no declive da colina , tudo inlermea- do de faias e arvoredos, que sempre se conservam vi¬ cejantes. O terreno ao nordeste vai-se alteando em amphitheatro, apresentando pittoresco painel pela for¬ ma dos montes e rica vegetação, até que se confunde ao longe com as montanhas, que elevando-se suave¬ mente em forma cónica vão terminar na boca da fa¬ mosa Caldeira do Faial, que na maior parte dos dias está coroada de nuvens. O porto é formado por uma bella enseada, termi¬ nando ao norte na ponta Espalamaca, e ao sul no monte da Guia, em cujo cimo ha uma ermida, e na base o antigo castello da Greta, que serve hoje de la- íareto. Dentro da enseada vê-se o monte Queimado 5
  • 298 que tira o nome da sua negra apparencia, e que bem demonstra as transformações volcanicas que a ilha tem experimentado. Completa o quadro a magestosa montanha do Pi¬ co, cuja extremidade entra na bahia do Faial, ea assombra com o seu elevadíssimo cume, que tem 7:613 pés de altitude. Na base e perto do mar vêem- se varias casas, e crescem as laranjeiras e as plantas dos tropicos; nas encostas superiores divisa-se a vinha, e a parte mais elevada é inculta e esteril. F ronteiro á cidade e na distancia de 4 milhas ifica o porto da Magdalena, na ilha do Pico} sua viizi- nhança e a vista da ilha de S. Jorge a 4 ou 5 leg^oas dão grande belleza á bahia, animada pelos barcos que conlinuamente atravessam o canal, e pelos balieiros que na estação da pesca n’elle bordejai. N’esta occa- sião achavam-se só n’este porto, além da corveta men¬ cionada, duas barças balieiras, e alguns barcos das ilhas. A’s 8 horas fui para terra, e me alojei na hospe¬ daria de Silva, na rua Direita, e em seguida per- corri parte da cidade, que tem bons prédios, e algu¬ mas ruas com passeios lateraes, mas em geral mal cal¬ çadas com lagedo largo. Visitei o moderno mercado, que é bonito, arborisado, e bem fornecido. p]sta povoação foi erecta cidade em 1833, e conta hoje tres freguezias, com 1:404 fogos, e 7:057 haibi- tantes. A ilha toda contém S5:000 almas, tem 7 le- goas de comprimento sobre 4 na maior largura, e for¬ ma com as do Pico, Flores e Corvo o districto admi¬ nistrativo da Horta. Ao hm da tarde fui para o lado da ponte e igreja da Conceição, e subi pela ingreme e extensa ladeira do Pilar, até á ermida d’este nome, d’onde se dis- fructa um bello quadro de toda a cidade e do porloj realçado na minha imaginação pela aproximação da noite, e pelo surgir da lua, que se elevou plena e na- gestosa detraz da montanha do Pico, despedindo do seu olhar frouxo e sereno a meiga luz que prateava os
  • 299 mares, e esclarecia os campos. Alli insensivelmente me demorei, entregue áquella doce melancolia contem¬ plativa que taes situações sempre me produzem. Na tarde seguinte fui passear ao campo, cujo as¬ pecto geral é muito agradavel, especialmente na fre- guezia dos Flamengos, onde o local das bicas é pit- loresco, e tem uma fonte recentemente reparada, com boa agua , do que a ilha é extremamente falta, fazen¬ do-se geralmente uso da dos poços, qup é salobra por ser agua do mar filtrada. A construcçao de vastas cis¬ ternas seria de grande conveniência para esta ilha, onde escasseiam dois dos artigos de primeira necessida¬ de , agua e lenha. A falta d’esta deriva principalmente do desleixo na plantação de matlas nos terrenos bal¬ dios , que sao proprios para faias e pinheiros. No FaiaFíia apenas dois pedaços d’estradas que assim se possam chamar: um da cidade aos hlamen- gos, na distancia de meia legoa, e outro da mesma extensão no caminho chamado da Féteira, macada- misado, e que deve na sua continuação circumdar toda a ilha pela beira-mar. Os meios de transporte são os carros, e raras vezes os barcos, sendo os primeiros muito dispendiosos por causa dos péssimos caminhos do interior. Os carros que vi eram todos muito pequenos e baixos, sendo os bois que os puxavam da raça peque¬ na a que os do paiz chamam cagarros, usando de gros¬ seiras e pesadas cangas, não ligadas ás pontàs, o que muito desaproveita a força d’aquelles animaes. O exemplo d’alguns proprietários poderia remediar estes defeitos. Na cidade vi uma pipa cheia conduzida por 4 bur¬ ros, pelo mesmo systema que é levada em Lisboa por 4 gallegos a páo e corda, caminhando os burros uni¬ formemente, e dando com facilidade as voltas dos ca¬ minhos. Este meio de conducçao é antigo na ilha de S. Miguel, e tinha sido ha poucos mezes introduzido no Faial, para onde veiu uma carregação de burros d’aquella ilha amestrados n’este serviço.
  • 300 Ilavía na cidade s6 um carrinho, e vi alguns bom cavallos estrangeiros; porém os vehiculos mais usados são os cavallos pequenos das ilhas de S. Jorge e Ter¬ ceira , e mais geralmente os burros. Passei a noite na casa d’Alagoa, por convite do director da alfandega João de Carvalhal, onde inespe¬ radamente me achei no meio de um baile, estando presentes umas 30 senhoras, vestidas com muito gosto, e de elegantes maneiras. Ouvi que poucas eram em proporção das que costumam concorrer a taes reuniões, por se acharem na ilha do Pico a maior parte das fa¬ mílias abastadas, que alli tem as suas propriedades e casas de campo. Havia também bastantes cavalheiros, igualmente vestidos com esmero e de agradavel trato, achando-se presente a officialidade da corveta Porto, que comprehendia 30 aspirantes que ríiivegavam para exercício de instrucção. As reuniões e saraus são frequentes no Faial, e muito concorridos pelas senhoras. Ha duas filarmóni¬ cas, e uma assembles, o que n’uma tão pequena ci¬ dade como esta denuncia bastante civilisaçao e amenos costumes. No domingo, l.° d’agosto, fui á missa da Mise¬ ricórdia, que é um bom templo todo ornado de obra de talha, pertencente ao convento de S. Francisco, onde agora se acha o hospital, que visitei acompanha¬ do pelo seu director o doutor Oliveira. As cellas
  • 301 Existe também no mesmo edifício um asylo de men¬ dicidade , que diziam ser susceptivel de muito melho¬ ramento. Fui ao palacio do governo civil, antigo collegio dos jesuítas, onde reside o chefe superior administra¬ tivo do districto, e estão reunidas todas as repartições publicas, mesmo as de justiça e municipaes: tem um jardim que serve de passeio publico nos dias santifica¬ dos, nâo havendo outro na cidade, ma$ que seria fᬠcil de fazer arborisando a pequena praça quadrada, onde se acha a vistosa torre da antiga matriz. De tarde passeei na bonita quinta do consul ame¬ ricano , C. W. Dabney, que contém varias plantas exóticas, como o chá, canella, café, pimenta, &c., que prosperam em pleno ar. A família Dabney é das ma is conhecidift no Faial: o pai do actual consul es¬ tabeleceu-se na ilha, começou a attrahir a attenção dos americanos para este archipelago, pela pesca da baleia que se faz rTestas paragens, e encarreirou para o Faial os navios balieiros americanos, para se refa¬ zerem de mantimentos e apparelhos, deixando quan¬ do precisam o azeite em deposito. Isto foi success!va- rnenle augmentando, e hoje é um trafico de grande importância e vantagem para a ilha. Em 1851 entra¬ ram no porto acima de 170 balieiras, que tiveram em deposito uns 8:000 barris d’azeite, no valor de 200:000 patacas. O consul Dabney lhes fornece todos os man¬ timentos, e todos os objectos de que carecem perten¬ centes a estaleiro, tendo montado um pequeno arse¬ nal bem fornecido; e conserva tão bem regularisado este serviço, que os navios ao longe, por certo syste¬ rna de signaes, dizem o que carecem, e immediata- mente lhe é levado a bordo, sem precisarem ancorar. As balieiras inglezas, francezas, e de todas as na¬ ções se dirigem ao dito consul, o qual na verdade exercita um monopolio muito lucrativo para elle, mas ao mesmo tempo de grande vantagem para a ilha, pelo consumo dos mantimentos, e por todos os lucros que derivam da concorrência de navios.
  • 302 O Faial nos annos regulares exporia cercaes e ba** tatas, abundando principalmenle em milho e trigo. O termo medio da producção annual é de 4:400 moios de milho, e 1:400 de trigo; representando tudo o va¬ lor de 134 contos de réis. O vinho regula por 500 pipas, que se vendem ge¬ ralmente a 10:000 réis, e por esta ilha se exporta o produzido na do Pico, em muilo maior quantidade; mas este commercio está hoje em grande decadência, por ter o vinho do Pico passado de moda entre os es¬ trangeiros. Produz pelo menos 1:000 arrobas de manteiga, e segundo as estatísticas de 1849 creou 1:600 bois, $50 ovelhas, 160 cabras, e 1:050 porcos. Tem abun- dancia de hortaliças, mas pouco variadas. Frutas, creação, lenha, carvão, à?d. tudo se im¬ porta do Pico, onde a maior parte dos terrenos do lado de oeste pertencem aos moradores do Faial, e são occupados por vinhas, sendo esta parte do Pico a respeito da Horta, na situação e frequência, o mes¬ mo que a Outra-banda em relação a Lisboa. O Faial já chegou a produzir 10:000 caixas de laranja, mas em consequência do desgraçado mal que atacou as laranjeiras, as ultimas exportações tem sido de 5 a 6:000 caixas, que geralmente se vendem a 1:500 réis. E’ sabido que n’estas ilhas as laranjeiras não exi¬ gem cultivo algum ; basta plantal-as e fazer-lhes abri¬ gos com outras arvores, de ordinário giestas, faias, e o pitosporum ou arvore do incenso. O povo do Faial e do Pico distingue-se na indus¬ tria de fabricar flores, especialmente de pennas, e obras de pita e de palha, exportando bastante das ul¬ timas. A alfandega da cidade da Horta está mal situada pela distancia em que se acha do caes de desembar¬ que , e não tem as precisas accommodaçôes, fazendo- se até deposito de generos em casas particulares, o que offerece muitos inconvenientes á devida íiscalisa-
  • 303 ção. Dizia-se geralmente que era esta pouco regular, fazendo-se bastante contrabando, não só para o con¬ sumo da ilha , como d’aqui para o resto do archipelago. Em novembro de 1851 um forte temporal destruiu em varias partes a muralha que corre ao longo da ci¬ dade da Horta, e a defende do mar, o qual n’aquella occasião ameaçou de a destruir em grande parte. As camaras legislativas votaram 40 contos para os concer¬ tos, que estavam em andamento, e já alguns concluí¬ dos : o governador civil incumbiu a direcção especial d’elles a algumas pessoas, segundo as localidades em que tinham seus prédios, tarefa que alguns desempe¬ nharam com louvável interesse e actividade. Também soffreu estrago o unico cáes que ha em toda a exten¬ são da grande cortina, ao qual muito conviria dar nova construcçtj. A necessidade de formar um porto seguro contra os temporaes que ha de inverno n’estas paragens, é o assumpto constante e forçado das observações e dese¬ jos dos habitantes do Faial, e que salta aos olhos de todos os viajantes que alli aportam. Este ancoradouro é por sua natureza o melhor dos Açores, mas está desabrigado contra os violentos ven¬ tos do sudeste. Ha muitos annos se falia n’uma pro- jectada doca, que uns querem fosse em Porto-pim , outros que formada por um paredão que avançasse do monte Queimado, sobre os rochedos que alli jazem á flor e fora d’agua. E1 certo que a força dos mares no inverno é extraordinária, e talvez destruísse o dique ou paredão; mas com perseverança e boa direcção é provável que se fizesse obra permanente. Tem-se já calculado em 150 contos o custo d’ella: para empreza partitular não daria immediata vantagem só com os SOO ou S50 navios que entram annualmente, mas esse numero augmentaria quando os navegadores de todas as nações, que passam por estes mares e que sobem ao numero de 13:000 navios annualmente, soubessem que encontravam um seguro abrigo, e meios de se reparar. Seja como for, este assumpto é de alto interesse
  • 30Í para os Açores, e o governo devia tomal-o muito «em consideração, e tratar definitivamente de formar um porto seguro n’esta ilha ou na de S. Miguel, quando não possa ser em ambas. A emigração dos naturaes do Faial para o Brazil é objecto que se não pode deixar em silencio fallando d’esta ilha, ainda que já esteja bastante tratado pela im¬ prensa portugueza. Na verdade é uma vergonha e um mal, mas que não se pode evitar, e ao qual só cum¬ pria dar outra direcção. A população nas ilhas cresce ra¬ pidamente , e apesar da emigração não se sente falta de braços no Faial, sendo também suppridos por gente que acode das outras Ilhas; mas continuando como até agora deve tornar-se bastante sensível; por quanto do Brazil pouca gente volta, e com fortuna ainda me¬ nos. Mais vantagem fazem aquelles ^ae vão para as balieiras americanas, ou mesmo para os Estados Uni¬ dos, d’onde alguns passam á California, e muitos tem voltado com dinheiro, de modo que por este motivo se tem augmentado em algumas ilhas o valor da proprie¬ dade territorial, especialmente na das Flores , onde tem chegado quasi ao triplo do que era ha poucos annos. Segundo ouvi continuam graves abusos na accu- mulação de colonos a bordo de navios, contra os re¬ gulamentos que ha a tal respeito, e inculpavam-se n’isto e n’outras cousas algumas auctoridades. A população nos Açores cresce mas não pesai, e por isso nem conveniente seria talvez dar outro numo a emigração, mas sim mudar as condições da proprie¬ dade, acabando os numerosos vínculos, e tornando a terra allodial, podendo então provavelmente os Aço¬ res supprir abundantemente ás necessidades do duplo da sua população actual. Ha geralmente boa educação e agradavel trato na classe media dos proprietários e negociantes do Faial; as senhoras são prendadas, em geral bonitas, e de boas maneiras; e existe bastante espirito de sociabili¬ dade, sendo sensível a influencia do contacto com os estrangeiros, e do modo de viver icglez»
  • SOS  Indòle do povo é boa, e a classe baixa respei¬ tosa e agasalhadora, nutrindo sentimentos de religião* misturados porém de muitas superstições, e de usos ou abusos censuráveis. A costumeira das coroas do Es¬ pirito Santo, degenerada da sua boa instituição pri¬ mitiva em beneficio dos pobres , tem-se tornado escan¬ dalosa e quasi pagã, devendo por isso merecer a at- tenção da superior auctoridade ecelesiastica, já que os vigários e curas, ou em geral por pouco,esclarecidos* ou por cálculos interesseiros, não cohibem abusos tão contrários á santidade e pureza do christianismo. A respeito do clero, geralmerite falto da necessᬠria instrucção , ouviam-se bastantes censuras , cuja exac- ção nao pude avaliar. E’ certo porém que os curas tem grande influencia na população dos campos, mas nem sempre uscftn d’ella como devem. A administração publica na parte financeira di¬ ziam-na regular, não havendo dividas activas nem pas¬ sivas, á excepção de poucos foros por cobrar, e estan¬ do em dia os pagamentos públicos» Na parte de segurança publica, esta é completa a ponto de serem raríssimos os roubos, não obstante em muitas habitações não usarem nas janellas portas internas, mas só vidraças; assim como também muito pouco frequentes são os casos de ferimento ou de mor¬ te, e em geral os de outros crimes; o que todavia se (deve attribuir mais á boa indole do povo do que ao po¬ der publico. No ramo de instrucção faltam muito n’esta ilha escholas e estabelecimentos, existindo um lyceo muito incompleto na sua organisação. Apenas quatro dias me demorei no Faial, agrada¬ velmente passados, e parti com o desgosto de não teu visto a Caldeira, porque sempre os práticos me disseram que não estava o tempo proprio para ir áquelle logar, que vi continuamente coberto de espessos nevoeiros. Comtudo darei d’ella breve noticia extrahida na maior parte da Descripção da formosa Caldeira do Faial, por João Pedro Soares Lima, e impressa em 1835.
  • 306 Indo para a Caldeira de qualquer ponto do litt- ral da ilha, gastam-se duas a ties horas de caminhí, sempre subindo, e gradualmente avistando os mais i- teressantes painéis que offerecem as ferteis e risonls campinas do Faial, rodeadas pelo vasto Oceano. Qua- do se julga ter chegado ao cume da mais alta monl- nha, é que o espectador surprehendido descobre a m- gestosa cavidade, cuja forma se aproxima muitoa vima pyramide cónica truncada, vasada e tendo volt- do para cima o circulo da base maior. O caminho em roda d’esta cavidade chama-se bo ca ou borda da Caldeira, e melhor se diria varanla dos encantos da nature%a, que vai seguindo as dife¬ rentes ondulações do terreno ao longo das cumiada , n’uma circumferencia de quasi 6 milhas, tendo a Cl- deira uns 1:500 pés de profundidade perpendiculr. Da borda olhando para o fundo mal se divisam aa pessoas. Toda a superfície ou parede da grande cavidade é guarnecida de vistosos arbustos, e cíe varias planta , que formam um quadro encantador. Parece á primi- ra vista impraticável a descida, mas verifica-se sm maior perigo, por intricadas sendas, sombreadas a espaços por cheirosos zimbros, e offereccndo encana¬ dores e variados quadros até chegar ao fundo da Cl- deira, onde ha espaçosas e bem niveladas planície 9 retalhadas por crystallinos regatos da mais pura agui, e cobertas de musgo, flores, e plant as aromatics, vendo-se quasi no centro uma grande lagoa, povoda de peixes, e de algumas aves aquaticas. De inveio esta lagoa transforma-se n’um grande lago que occua todo o fundo da Caldeira, contendo varias ilhas e diz-se no paiz que sao tantas quantas as dos Açor6, mas na verdade é maior o seu numero. N’este fundo ha também varias grutas, e tocn- do-se uma flauta ou uma corneta, quem está na br- da da Caldeira ouve singulares harmonias produzias pelas repetições dos echos, por cinco e mais vezes. Cavando-se o terreno em qualquer parte, iogi a
  • m % dois pés de profundidade apparecem vestígios volcaní- cos, o que confirma ser esta immensa bacia a cratera cTalgum grande volcão extincto. Ao pôr do sol, as névoas impellidas pelo vento apenas tocam nas cumieiras da Caldeira, precipitam- se n’ella de repente, e se condensam enchendo-lhe to¬ do o espaço, que durante a noite é occupado por den¬ sos nevoeiros, sendo admiravel o quadro que apresen¬ tam ao romper do dia, figurando o Opeano em cal¬ maria ; mas pouco a pouco se elevam, e desappare- cem rolando pelo ceo, gozando-se então da mais vis¬ tosa perspectiva. Estes nevoeiros também ás vezes se condensam durante o dia, desfazendo-se em copiosas chuvas, e surprehendendo os visitantes da Caldeira. % SO #
  • 308 Partida do Faial, cliogada á UlmdeMilgnol» Yiftifu áo Furnas» o noticias «Uversas. Ao meio dia de 2 de agosto fui para bordo, e de¬ mos á vela pelas 7 horas da tarde com òom vento no¬ roeste, saindo pelo canal do sul. Ficaram em terra ou desertaram tres marinheiros, e embarcaram como pas¬ sageiros para Lisboa o bacharel Manoel Garcia (da Rosa e sua mulher. Na madrugada do dia 3 estavamos a leste do Pico. lista ilha é a maior dos Açores, tem 60 legoas de cir¬ cuito, mas a montanha tira-lhe uma boa parte da área cultivavel: as terras que jazem fronteiras á cida¬ de da Horta sáo as mais ferteis, e pelo resto do ter¬ reno áspero e escabroso só se divisam pequenas aldêas, casas dispersas, e as choupanas de pobres lavradores e cabreiros. E’ bastante difficil a ascensão ao pico ou summida- de da montanha, gastando-se de ordinário dois dias para subir as 7 ou 8 legoas que dista da planície pela parte accessivél, mas póde-se ir a cavallo até ties quartos da distancia. Tivemos calmaria , porém tendo depois refrescado o vento, ás tres horas se annunciou terra pela proa, que ia dirigida sobre a ponta da Ferraria em S. Miguel. Ao romper do dia 4 estavamos proximos de terra, vendo as pontas do Norte e da Ferraria, e a pouca distancia velejava a corveta Porto, que saíra do Faiial
  • 309 antes de nós, e tinha ido á Terceira. Seguimos ao longo da costa, aprazível, cultivada, e com bastante arvoredo. A’s 8 horas fundearam ambas as corvetas. E1 lin¬ da a vista da bahia e cidade de Ponta Delgada, que é cercada de extensos bosques de laranjeiras, entre¬ cortados de campos de milho, tudo semeado de bran¬ cas habitações: a serra de Agua de Pau terminando em brando declive na ponta da Galé, rnais fazia real¬ çar a belleza da perspectiva. Desembarquei ao meio dia, e tendo visitado al¬ gumas pessoas do meu conhecimento, parti ás tres ho¬ ras em companhia do major José de Bettencourt At- taide em direcçâo ás Furnas, objecto que n’esta ilha mais me excit^a a curiosidade. Seguimos pela estra¬ da de Rosto de Cão, e passando pelas povoações da Atalhada, Lagoa, e Agua de Pau, chegámos ao fim da tarde a Villa Franca do Campo (a 5 legoas da ci¬ dade), que tem boas casas e igrejas; e boa apparen- eia tinham todos os povoados por onde passámos, in¬ dicando geralmente um paiz prospero. Passámos a noite n’esla villa, acceitando a beni¬ gna hospedagem que nos offereceu o bacharel Alvaro de Bettencourt, e ás tres horas da madrugada nos po¬ demos a caminho. Ao passar da ponta da Garça dei¬ xámos o littoral, que até aqui seguíramos, e entrᬠmos nas subidas e descidas das Gaiteiras, grupo de serros e cabeços, que é preciso transpor para entrar no Valle das Furnas. E1 eminentemente pittoresca esta pas¬ sagem , por estreitos carreiros, debaixo de arcadas de verdura, e ora descendo ora subindo por empinadas ladeiras. N’esta madrugada chuvia, e a cada momen¬ to julgava que o burro em que montava escorregaria commigo por aquelles precipícios: eu ia á moda do paiz, sentado, e seguro ás andilhas; e a cavalgadura sem freio nem arreata era dirigida unicamente pelas vozes, e pelas bordoadas do rapaz burriqueiro. •F’inalmente pelas 7 horas saímos do labvrinlho das Gaiteiras, e fomos costeando a lagoa das Furnas, no
  • 310 ralle d’este nome*, vendo fumegar do ladcl opposto aa caldeiras chamadas da lagoa. O sitio é lindo, e pas¬ sada a lagoa entra-se n’um terreno em parte cultiva¬ do, pouco depois na aldèa das Furnas, e d’ahi nas ce¬ lebradas caldeiras, que ficam 8 legoas distantes da ci¬ dade. Fui logo examinal-as detidamente com ávida curiosidade, que me fez esquecer todo o temor que segundo dizem produzem ordinariamente nos visitan¬ tes, aproximando-me de todas quanto era possível, mesmo da mais temerosa, chamada de Pedro Bote¬ lho, e que deu por ventura origem ao ditado popu¬ lar : Irás •parar á caldeira de Pedro Botelho, a quial na verdade parece um respiradouro do inferno. „ De uma caverna pouco profunda espadana impe- tuosamenle um borbulhão d’agua lodosa , muito quen¬ te, e envolta em denso fumo, que tor ha difficil ver¬ se a bocca da caldeira, ouvindo-se um ribombo al¬ ternado e forte, como som de zabumbas. Dizem no paiz que quando n’ella se Jançam pedras ou agua firia augmenta a effervescencia e o estrondo, que tambcom variam segundo o estado da atmosfera, servindo de barometro para os habitantes do valle. A caldeira chamada grande, ou da agua clara, lambem é muito notável, e formada por um borbu¬ lhão de agua fervente, de 5 palmos de diâmetro e de S a 3 d’altura, tendo esta diminuído nos ultirnos r.nnos: produz grande ruído, como som de atabales, e deitando-se-lhe qualquer animal, em poucos minu¬ tos o consome, não deixando mais vestígios do que os ossos. Fntre estas duas caldeiras ha outra, que se formou haverá 10 an nos, tendo desde então diminuido a in¬ tensidade d’aquellas. Ha outras mais pequenas, e no sitio chamado pro¬ priamente das caldeiras, que terá 400 passos de com¬ primento sobre SOO de largura, o terreno está semea¬ do de orifícios expellindo fumo, ou agua lodosa, cue borbulha em toda a parte onde se faça qualquer cavi¬ dade, absorvendo-se em si mesma, ou correndo cm
  • 311 regos. À temperatura d’estas aguas é sensivelmente de 05° centígrados, e bem assim a do terreno a mui pe¬ quena profundidade, incommodando ás vezes os pés mesmo na superfície. Os habitantes para cozerem os seus alimentos e para outros usos servem-se das aguas, e dos vapores ardentes que se exhalam das fendas da terra. O enxofre cobre por toda a parte o solo, e di¬ zem que o instincto ensina o gado a vir demorar-se pelos outeiros vizinhos entre o fumo sulfureo, para se limpar dos insectos. Todas as nascentes d’esle valle se reúnem n*uma caudalosa ribeira, que desagua no mar, merecendo bem o nome que lhe dao de Ribeira Quente. Na verdade sente-se certo terror involuntário quan¬ do , satisfeita a curiosidade, se considera a posição pouco segura
  • 312 guns estrangeiros distinctos tem escripto sobre o mes¬ mo assumpto. N’esta manhã tomei um banho da agua da cal¬ deira grande, que me produziu agradável sensação. As casas dos banhos eram mal construídas e repara¬ das, mas estavam outras em construcção que promet- liam mais apuro e commodidade. Voltei á aldêa, onde me alojei n’uma estalagem, muito similhante nos seus máos arranjos ás das nossas provindas, apesar da frequência que ha n’este sitio, cuja importância tem augmentado nos últimos annos, contendo hoje umas 1:600 almas, bonitas casas, e um hospital para os pobres que vem aos banhos; ó muito salubre, e apresenta frequentes exemplos de lon¬ gevidade. Varias senhoras e cavalheiros da &dade estavam no valle a banhos, ou por diversão para gozarem das bel/ezas do sitio, que na verdade junta a seus subli¬ mes horrores rica vegetação, bastante cultura, elo- gares muito pittorescos: um d’elles é o Tanque, pas¬ seio ou ponto de reunião de lodos os banhistas, onde passei agradavelmente o resto da manhã. Era a antiga e aprazível residência do consul americano Hickling, pertencente hoje ao visconde da Praia, que alli esta¬ va construindo uma nova e bella casa. De tarde fui com alguns companheiros até á la¬ goa, que tem perlo de uma legoa de circumferencia, e mais de G braças na maior profundidade: alli em¬ barcámos n’um pequeno escaler, e atravessando-a fo¬ mos ao lado das caldeiras, que apresentam os mesmos fenomenosque as outras na extremidade do valle. Vol¬ támos pelo caminho recentemente feito ou melhora¬ do, que segue as sinuosidades do lago, e n’uma pe¬ quena elevação onde foi necessário cortar o terreno, sente-se fortissimo calor, e não se pode conservai a mão dentro d’algumas cavidades lateraes. Tornámos a embarcar n’outro escaler, e cruzámos de novo a lagoa até ao delicioso retiro do Valle do Junco: quando regressámos o sol ia desapparecenda^
  • 313 as aguas, ligeiramenle encrespadas pela brisa, se es¬ cureciam com as sombras dos cabeços que cercam o lago, cobertos de denso arvoredo; ranchos de senho¬ ras passeavam pelas bordas da lagoa, ou n outios es¬ caleres que vogavam á vela; n’uma das margens fu¬ megavam as caldeiras, recordando-nos constantemente que esta pacifica e encantadora perspectiva, era como a delgada téla que nos encobria a vista horrível do ■volcão que por baixo tumultua; em ,fim a hora da poesia melancólica se fazia sentir com todos os encan¬ tos e contrastes de tão bella scena, que dizem náo ser inferior ás melhores que apresentam os celebrados la¬ gos da Suissa. # Passei a noite em casa do doutor Leite da Clama,1 onde houve uma pequena e agradavel reunião. As famílias que Cíncorrem ás Furnas convivem perfeita¬ mente, e ouvi que se passava aqui o verão muito agradavelmente. De madrugada puz-me a caminho para a cidade, pelo lado do norte, seguindo a estrada da Achada da3 Furnas, que vai pelo centro d’utna vasta chapada to¬ da inculta e coberta de mato. Ao chegar ao alto cha¬ mado Calços da Maia , arrebatou-me a perspectiva so¬ bre o logar d’este nome, e as extensas ribas do mar , prolongando-se até á distante ponta da Bretanha. Pas¬ sei por Porto Formoso, subi a ladeira da Velha, lo¬ gar historico nos modernos annaes dos Açores, e che¬ guei á villa da Ribeira Grande, importante povoação que pode pertender os foros de cidade: fui ver a igre¬ ja matriz, que é bom templo, e de cuja torre se des¬ cobre magnifico panorama sobre a villa, o mar, e 03 extensos e risonhos campos e pomares dos arredores# A’ saída da Ribeira Grande vi ao^ longe o logar das Caldeiras , onde as ha similhantes ás do valle das Furnas, porém não tão abundantes nem intensas, fal¬ tando ào sitio as bellezas naturaes que o outro apre¬ senta: as aguas são aproveitadas para banhos, haven¬ do já casas próprias para elles, e concurrencia de fa¬ mílias no Yerão#
  • 314 As tres legoas de estrada entre a Ribeira Granule e a cidade, cortam a ilha na sua largura atravez de campos e collinas bem cultivados, e de bonito aspe¬ cto. A’s tres horas entrei em Ponta Delgada, 48 de¬ pois que d’alli safra, tendo percorrido umas 16 le¬ goas, e visto a maior parte do norte da ilha. Nos dias seguintes vi os logares e quintas mais no¬ táveis de Ponta Delgada e seus arredores. A cidade é vasta, aceiada, e pela sua riqueza, trato, e commer- cio é a terceira da monarchia. Tem muitos morado¬ res abastados, e contavam-se uns 60 trens particulares. O rendimento de cada uma das tres casas principals da ilha excede a 100:000 cruzados, e reputam-se pou¬ co importantes as que rendem para menos de 10 a 18:000 cruzados, existindo de 2 a 3:000 vínculos. ^ Segundo cálculos feitos por inglczes á de meio mi¬ lhão esterlino, ou 8:850 contos, o capital que pos¬ suem todos os habitantes de S. Miguel, não incluin¬ do o valor das terras. Segundo o orçamento de 1853 a 1854, a receita publica das ilhas dos Açores e Madeira é de 487 con¬ tos, e 381 a sua despesa, existindo o saldo de 46 contos. A ilha de S. Miguel rende perto de 800 cot- tos, gasta só de 100 a 180, supprrndo corn o exce¬ dente as despesas das outras ilhas do archipelago, e aos frequentes saques do lbesouro de Portugal. A população da cidade regula por 82:000 almas, e por perto de 100:000 a de toda a ilha, que tern de comprimento doze legoas, e de uma e meia a tres de lar gura, contando de superfície 86 legoas quadradas. Apesar da importância do commercio èxterno de S. Miguel, e de ser Ponta Delgada o unico ponto onde elle se faz, a feição nobiliária e agrícola é pre¬ dominant e nos habitantes d’esta cidade, sendo o conn- mercio feito em grande parte pelos inglezes. A indole do povo michaelense é boa, sendo com- mum encontrar n’elle sujeitos d’altos espíritos e gran¬ des aptidões. A. civilisação moderna tem feito grande progresso em todas as suas classes, e a sua moralidade
  • 315 augmentado bastante, sendo raros os crimes capitaes. Laborioso, activo, e inlelligente tem ganho mais do que nenhum dos outros nossos povos insulares, com as transformações políticas da monarchia. Quando a propriedade pela extincção dos vinculos se tornar livre, mais dividida, e por consequência mais bem cultivada, então esta ilha sera talvez uma terra solidarnente rica e florecenle. São dignos de ser vistos pelo viajante o castello de S. Braz, o alio da Mãi de Deus, o pico Tosquiado, as quintas do barão de Fonte Bella , do barão das Laran¬ jeiras, do morgado Lauriano, e outras; bem como as novas propriedades dos morgados José do Canto e Jose Jacome , onde os trabalhos cm andamento rivalisam no apurado gosto egrandeza das habitações e dos jardins. Ha no altónla quinta do morgado José do Canto uma linda casa, cujo tecto coberto de colmo contrasta com a elegancia e apuro do interior, e perto dVdla existe um mirante, coberto em parte com as folhas de uma palmeira que cresce ao lado. N’um dos meus passeios estive ao fim da tarde sentado n’aquelle mi¬ rante , e contemplando o magnifico panorama que d’alli se descobre, abandonei-me aos meus costuma¬ dos devaneios da imaginação. A palmeira que eu vira na sua propria patria , nas abrazadoras margens do Nilo, e nos desertos arenes da Africa, campeava aqui a par de rica vegetação, e crescia entre os apuros do luxo e da civilisação euro- pea. O logar, a hora, e as minhas recordações me tornavam esta situação verdadeiramente poética : dis¬ traindo lançava a vista pelos terrenos ligeiramente on¬ dulados, cobertos de pomares e arvoredos, parecendo, pelo effeito dos raios muito oblíquos do sol, um mato rasteiro, por entre o qual alvejavam as casas, e que < se estendia até ás abas da serra d’Agua de Pau: a multidão dos edifícios da próxima cidade, o mar em frente, os navios ancorados, e lá no fim o azulado arco do horisonle do vasto Oceano, davam a este qua¬ dro grandiosa magestade!
  • 316 Passavam-me pelo pensamento os desvairados pon¬ tos da terra em que tinha visto nascer e sumir-se o astro do dia, depois que saíra da minha patría: pelas alturas do Calpe, nas margens do Nilo, nos areaes do deserto, pelas aguas do mar Vermelho, nos requei¬ ro ados rochedos d’A rabia, nos vecejantes palmares da índia, pelas longes e ricas terras da China, nas bru¬ tas praias d’Africa oriental e occidental, nos mares do cabo Tormentorio, pelas solidões dos dois Oceanos, e finalmente aqui sobre estes fragmento» voleanieos no seio do Atlântico! E sempre, e em toda a parte grandeza e magesta- de n’estas horas solemnes; ou fosse no meio da nudez do deserto, na melancólica soidão das aguas, ou ro¬ deado das maiores pompas da naturep ! E’ porque o sol e o ceo tem uma belleza superior ? que não é da terra, nem dependente das seenas apoucadas do nosso mesquinho globo!
  • Continuação tie noticia» »ol>re a tília do 1$, Miguel, estabelecimento» publico»» o nocõe» commerciaes. O cgvalhe® Antonio Borges teve a bondade de me acompanhar a mostrar-me a casa que possue no sitio do Botelho, digna de ser examinada por causa da bei la collecçâo que contém de mobilia antiga, qua¬ dros, e varias raridades artísticas. O mesmo cavalhei** ro trazia em construcçao na lagoa das Sete Cidades, 7 legoas a oeste de Ponta Delgada, uma casa de cam¬ po, que além da belieza do sitio já attrahia a concor¬ rência dos curiosos, e que senti não ter tempo de visitar. O gosto pelas boas habitações e regalos da vida muito se desenvolve aclualmente em S. Miguel, onde se faziam muitas novas construcções. Para isto tem contribuído as viagens pela Europa, que nos últimos tempos tem feito vários morgados e cavalheiros da ilha, na qual felizmente se encontram artistas hábeis, filhos do paiz, e que executam em geral com perfei¬ ção os differentes trabalhos em que os empregam, dis¬ tinguindo-se especialmente os canteiros, carpinteiros, e marceneiros, não sendo comtudo barata a mão d’obra. ' No regresso de um passeio, vindo pela estrada de Jlosto de Cão, encontrei um bando de trabalhadores
  • 318 composto e popularisado cm S. Miguel pelo insígttd poeta Antonio Feliciano de Castilho. Ha 5 ou 6 annos foi de Portugal para Ponta Del; gada o professor de musica Guilherme Pereira Ran¬ gel, e alli se tem generalisado muito entre o bell* sexo o gosto, e estudo de tão agradavel arte, até en¬ tão pouco cultivada na ilha, e a que até hoje pouco se dão os homens da alta jerarchia, havendo comtudo duas sociedades filarmónicas para os das outras classes. Ha também na cidade um club, e uma assemblea re¬ creativa. O gosto pela poesia e lilteratura também nasceu modernamente em S. Miguel, onde hoje ha vários jovens de mérito e de esperanças, na maior parte for¬ mados na eschola do vate Castilho. Ha em Ponta Del¬ gada 4 typographias, e publicam-se Jjornaes, sendo dois exclusivamente litlerarios* A bibliotheca publica conta uns 9:500 volumes, parte dos quaes pertenceram aos extinetos conventos íla ilha, e superabunda em sermonarios e scienciais ecclesiasticas, mas está muito falha em bellas letras. Não tem edições antigas anteriores ao século XVI, e em manuscriptos o mais importante é a Chronica vioncistica, descriptiva e histórica dos Açores desde o seu descobrimento até 1695, escripta pelo padre Monte Alverne. A instrucção publica tanto primaria como secun¬ daria está n’esta ilha tão desorganisada como no rei¬ no , e muito mal seria da primeira senão fora auxi¬ liada gratuitamente pelas muitas escholas nocturnas, e seus methodos simplificados, tudo devido á bene- merita sociedade dos Amigos das letras e artes, alli estabelecida. Ern quanto o nosso governo não organi- sar perfeitamente o lyceo d’aquelie districto, e não pagar melhor aos professores primários, que actual- mente apenas percebem 100:000 réis de ordenado, o povo de 8. Miguel não terá satisfeita urna das maio* res necessidades sociaes, que é a instrucção primaria* Tem a cidade um theatro de moderna e bonita
  • 310 eonslrucção, e onde n’uma peça portugueza vi repre¬ sentar uma actriz hespanhola, que se expressava no seu propHo idioma, e agradou-me esta singularidade por se conciliar com as minhas tendências ibéricas. No edifício do extincto convento de S. Francisco existe o hospital da Misericórdia, que no seu genero é um exceliente estabelecimento, augmentado moder¬ namente com quatro enfermarias, duas das quaes já estavam occupadas, c na grandeza, ventilação, uten¬ sílios e serviço, não me pareceram inferiores ás me¬ lhores do hospital de S. José em Lisboa. Estando aca¬ badas todas as quatro podem conter 312 doentes. Segundo o estatuto o hospital deve só ter 200 doentes em curativo effectivo, mas existem sempre 270 por termo medio^, incluindo os militares e da marinha de guerra. Pretorominam as irritações de estomago pe¬ culiares ao clima, no qual parece se faz a transição das moléstias de peito, frequentes no norte, para as de entranhas, que são as dominantes no sul, ou nos paizes quentes. A administração do hospital é composta de uma mesa de 12 irmãos , eleita annualmente pela irman¬ dade da Misericórdia, e que d’entre si escolhe o pro¬ vedor. Os rendimentos de proprios regulam de 26 a 28 contos, e com as sobras das despesas se tem reali- sado, e vão augmentando consideráveis melhoramen¬ tos n’este estabelecimento; tudo devido ás boas admi¬ nistrações que uUimamente tem havido. Entre os estabelecimentos públicos também são de mencionar uma associação commercial, uma socieda¬ de de agricultura, e outra dos amigos das letras e artes. E’ celebre o vestuário das mulheres n’este paiz. Usam de pesado capote de panno azul, caído dos hombros em largas pregas, mas sem cabeção, e substi¬ tuído o usado lenço branco de Portugal por um largo capello do mesmo panno, que envolve toda a cabeça, tornando-a disforme, e occultando parte do rosto. Admira que um trajo tao pesado, e só proprio contra
  • 320 o frio se haja conservado no clima mais que temper#» do dos Açores. Mais singulares porém são as carapu* ças dos homens do campo, feitas á feição da cabeça, com uma vasta palia horisontal, que alguns usam re¬ virada para cima nas extremidades, o que lhes dá vis¬ tos de frente exactamente a appnrencia de uma arma-*» dura de boi. Taes carapuças vão caindo em desuso $ sendo substituídas pelos chapeos de palha, e pelos de feltro. A ilha de Santa Maria foi a primeira descoberta no archipelago dos Açores, em 1432 por Gonçalo Ve* lho Cabral, que a achou deshabitada, e segundo a tradição o mesmo Cabral aportou a S. Miguel em 8 de maio de 1444, e foi o primeiro povoador e capi* tão donatario d’esla ilha, que é hoie uma das mais ricas porções da monarchia portugueáí. A sua vanta¬ josa posição geográfica, seu fértil terreno e benigno clima, e sua população laboriosa e frugal lhe deram importância desde o seu descobrimento, e facilidade de estabelecer proveitosas relações com outros paizes» Sua população e o seu commercio tem ido sempre em progressivo augmento: contava 25:000 almas em 1600, € sem erro notável se póde dizer, segundo algumas bases estatísticas, que foi augmentando 10:000 almas cm cada meio século até ao anno de 1800 ^ duplican¬ do esta proporção no ultimo meio século, pois em 1850 não existiam menos de 85:000 habitantes. O progresso do commercio parece ter precedido o da população, apesar das alterações que houve nos principaes artigos de exportação. No começo do século XVII as exportações annuaes equivaliam a 30 con¬ tos, e era então o pastel granado (que se carregava na maior parte para as tinturarias de Inglaterra) o principal artigo, que formava 85 por cento da expor¬ tação, e .os restantes 15 consistiam em productos de lavoura. As importações eram de 20 contos, consis¬ tindo em 46 por cento de tecidos, 41 de diversos ar-' tigos de construcçao e alimenticios, 11 de generos co- Jorjiaes, e 2 por cento de ferragens e outros metaes.
  • Pelo meado do século XVIII a exportação ele- Vou-se a 116 contos de réis, e mostra uma alteração nos elementos constituintes do commercio. Os cereaes . formaram 82 por cento da exportação; a saída de pannos de linho fabricados na ilha começou a decair , tendo chegado a 300:000 varas no principio d’aquelle século, sendo para mais de 500:000 o total da sua manufactura; o pastel não se exportou mais, porque foi substituído pelo anil, que o commercio da Asia trouxe á Europa; e por aquelle tempo saiu uma pe¬ quena porção de fruta de espinho, como primícias da principal riqueza que hoje possue a ilha. A importa¬ ção subiu a mais de 74 contos, sendo 54 por cento de tecidos estrangeiros, 22 de generos coloniaes, 19 de artigos não especificados, continuando quasi no mes¬ mo o consumò?l3e metaes* Passados lOOannos, na epocha actual , os elemen¬ tos do commercio soffreram nova mudança. O termo medio dos 5 annos findos em 1850 nos apresenta o tri¬ plo da exportação de 1750, subindo a 586 contos, e sendo composta de 60 por cento de fruta, 38 de ce- Teaes, e 2 por cento de outros generos. A importação , calculada do mesmo modo, foi de 416 contos, for¬ mando 80 por cento os tecidos e artigos não especifi¬ cados, e 20 os metaes e generos coloniaesi As laranjeiras sao hoje a providencia, a riqueza, e o ornamento da ilha. Os pomares formam bosques debaixo dos quaes se pode passear a cavallo, e já hou¬ ve arvore que produziu 29:000 laranjas. A exportação tem chegado a 200:000 caixas, que carregam mais de 300 navios; porém o termo medio annual regula por 150:000 caixas, e calcula-se n’outra igual quantidade as laranjas que se perdem, e as que se consomem no paiz. O preço de cada caixa d’embarque regula de 1:200 a 2:000 réis provinciaes. No meio d’estas transformações do commercio e dos elementos da prosperidade da ilha, o progresso tem sido constante, apesar das crises que em differen- tes epochas taes transições devem ter produzido, e que 21
  • © fácil de prever terão de se repelir. A doença que tem já destruído tantos laranjaes, mostra úontinuar , e pode acabar com todos; demais o desenvolvimento do commercio em todo o mundo, e a aproximação de lodos os paizes pela força mechanica do vapor , torna duvidosa a conservação de mercados vantajosos para os cereaes e fruta de S. Miguel. Parece pois que con* virá prevenir uma crise, talvez não remota, escolhen¬ do novos productos, e preferindo os que não podem ser produzidos nos climas da Europa, e da America do norte. Muitas plantas dos Iropicos vegetam bem no clima dos Açores, e em S. Miguel abundam os capi¬ tães a a população laboriosa, para se poderem promo¬ ver novos ramos de cultura; seus campos e montanhas podem criar matérias filamentares, generos coloniaes, e madeiras de tinturaria e marcenaria^ que deem no¬ vas e melhores bases á prosperidade de S. Miguel, re¬ putada hoje bastante precaria, e que em todo o caso convinha assegurar pela abertura de boas estradas cen- traes, e sobre tudo pela conslrucçâo d’uma doca , esse desideratum dos miehaelenses ^ que pode peia arte tra¬ zer maravilhosa opulência á sua ilha, já tão bem fa¬ dada pela natureza.
  • 323 teologia (ia ilfiia cie ®. Mágciel. Como nos/^óminios portuguezes muito poucas ap- plicações se tem feito da moderna sciencia geologica , entendo que não será supérfluo transcrever as seguin¬ tes observações, colligidas em 1851 pelo doutor W. D. Conybeare, distincto geologo mais conhecido pelo nome de Deão de Llandaff, e que foram publicadas na Revista dos Agores. Attrahido á ilha de S. Miguel pelas noticias que tive de que apresentava em grandiosa escala os mais instructivos indícios de todos os resultados salientes, produzidos por erupções volcanicas, vim completar as minhas observações sobre esses phenomenos, que tor¬ nam uma parte do Atlântico tão interessante, pelas for¬ mações antigas e submarinas da Madeira; do gigan¬ tesco respiradouro do pico de Tenerife, desde pouco tempo em actividade; e ilhas vizinhas das Canarias. No anno de 1849 visitei estas ultimas ilhas; achei porém que colheria lição mui imperfeita, se deixasse de examinar com cuidado esta de S. Miguel; e quan¬ do toco o fim d’aquelle meu desejo, ainda que n’elle punha as mais elevadas esperanças, confesso que corn & inspecçâo ainda as ultrapassei. Antes de fallar dos resultados geraes do meu exa~ 21 *
  • 324 me n’esta ilba, lembrarei, para fazer ver a vasta im¬ portância volcanica d’este grupo centro-atlantico, que não só esta parte, mas ainda todo o Oceano, parece um immenso theatro cTacção volcanica: (1) desde a ilha de Tristão da Cunha, no sul, até á da islandia, no norte; e das Canarias, no nascente, até ás Anti¬ lhas no poente; nenhum rochedo se levanta acima d’esta vasta expandidura d’aguas, que não seja indu¬ bitavelmente de origem volcanica: e os geologos con¬ cordarão commigo que em todo este grande campo de observação a ilha de S. Miguel é o exemplar mais interessante e instructive). Entro nas minhas observações sobre as partes d esta ilha de mais recentes vestígios volcanicos, comprehen- didas entre a magestosa cratera das ^ete-cidades, a oeste, e a das Furnas, a leste: além d’esta ultima perdem-se os indícios da acção volcanica, e ainda que as pedras sejam de origem ignea, sâo comtudo, como as da Madeira, de formação submarina, e ter-se-hao accumulado, muito antes que uma convulsão levan¬ tasse a dominar em o mar os mais elevados picos da Vara, e de S. Bartholomew Começarei por algumas reflexões sobre as duas cra¬ teras extremas, que acabo de referir; depois passarei revista breve ás innumeraveis pequenas crateras e pi¬ cos volcanicos, que constituem a parte media do cor¬ dão central, ou espinha da ilha. I. Grande cratera das Sete-cidades. (8) 1 arcce- / 1) Idêntico caracter tem o Oceano Pacifico , onde as ilhas de Sandwich e Sociedade encerram as maiores crateras do nosso •dobo, algumas com duas léguas de diâmetro, lista largura, porém, nem excede a decima parte da das crateras que se tem descoberto na superfície da lua. , . , _ . . „ (.2) Washington Irving, na Biogrnphia dos Companheiros de Colombo, nota uma tradição, que talvez explique a origem d’este nome. Dizia-se , que conquistada a península pelos mou¬ ros, sete bispos com seus rebanhos fugiram por mar, e abort a- ram certas ilhas, que encontraram no Atlântico, onde estabe¬ leceram sete cidades, perdendo a commun.caçao com a patria conquistada. No tempo de Colombo os sábios entretinham-se com a possibilidade de descobrir estas setes cidades ; e talvez algum d’eHes se lembrasse impor lai nome a esle bello laiJe.
  • 325 me dever chamar-lhe cratera composta, porque a sua crusta exterior pode considerar-se dividida em quatro cratéras interiores, cada urna objecto bem distincto, distribuídas pelos lados oppostos de uma grande la¬ goa, que se estende pelo diâmetro maior da cratera principal, quasi subdividida nas duas partes a que se deram os nomes de lagoa grande e lagoa azul. A cir- cumferencia de toda a cratera nao pode ser de menos de tres legoas, contendo uma superfície somente in¬ ferior á área das colossaes cratéras do Pacifico. Chegado ás cumieiras fiquei admirado da vista da lagoa, mil pés abaixo de nós, dominada por grandes precipícios de em torno, e pelas cratéras, secundarias sim, mas sempre interessantes, do interior. Logo cri que esta comlvvtiçao de objectos era o exemplo mais magestoso que se podia descobrir, dos effeitos da for¬ ça volcanica : e em quanto parecia adivinhar as ener¬ gias horríveis da natureza, de que aquelle logar fora testemunha, senti, com duçura tão intima que mal posso descrever, a impressão do seu repouso actual! Lá vi habilaçoes pacificas espalhadas pela margem da lagoa, campos ricos de cultura, fraldas dos volcoes adormecidos vestidas d’arbustos verdejantes! Esta cratéra, e as partes lemilrophes, são geral¬ mente de massa espessa de aggregados pumiceos, mis¬ turados com fragmentos de lava, e tufos arenaceos. As escarpas apresentam rochedos de varias lavas, conten¬ do cristaes de amphibolia , pyroxene, felspatho e oli- vina, e passando facilmente a uma constituição tra- chytica. II. Grande cratéra das Furnas. O valle das Fur¬ nas é rodeado por uma serrania cicíoide em vasto am- phythealro, elevada sobre o nível do mar 2:500 pés no lado do norte, e 1500 pés no lado do sul. Na parte do oeste d’esta cratéra existe a lagoa , de uma milha de comprimento, sobre meia milha de largura , que pela sol falara das caldeiras que estão em arção na extremidade septentrional, parece ser uma cratéra subor¬ dinada-. A superfície da lagoa está 900 pés sobre o mar.
  • 326 Correndo do norte para leste entramos no povoa¬ do, e alli encontramos a solfatára e aguas thermaes a que as Furnas devem a sua fama. Estas aguas (exis¬ tindo comtudo n’outros logares) estão principalmente em parte d’uma peninsula formada pela ribeira, e pelo regato que passa diante dos banhos. Na parte em que o foco interior projecta gazes a superfície está bran¬ queada de sulfatos, principalmente de alumina, mis¬ turados com enxofre cristallisado, e crustas siliciosas, formadas pela agua quente, e pelos restos d’arvores carbonisadas. A ribeira de leste volta para o sul tocando nas raias orientaes da cratera, atravessa depois para o lado opposto, e contorna os declives que descern das altu¬ ras da lagoa secca, e Pico da vigia. ^A.qui é de ver a notável formação da lagoa secca, em qúe se eleva um montículo de uns ISO pés d’altura, 400 pes inferior ao cume do Pico da vigia. Este montículo, que talvez seja producto da erupção pumicea que teve Jogar no meado do século XVII , tem cavidade central como se observa em todas estas cratéras, e parece ter so ff ri¬ do pouca mudança com o decurso do tempo^. TSão assim as fraldas das alturas circumjacentes, que são pro- íundamente escavadas nas suas massas incoherentes, e cultivadas nas cavidades. A lagoa secca constitue assim um centro, cercado de uma circumvalaçao do mesmo systema d’obras volcanicas, contornadas pelo Pico do corral fundo, e completadas com o grande amphy- theatro das Furnas. O recinto d’este ampbytheatro, que tem as partes mais dispersas, apresenta muito maior variedade de combinações scenicas, do que a vasta simplicidade da cratera das Sete cidades. Comtudo d’algurts altos da circumferencia se pode alongar a vista e comprehender ‘todo o systema, embellezado, para os que n’isto bus¬ cam os sorrisos da natureza, pela perpetua folhagem de muitas plantas indígenas, que parecem nascidas para estender um veo sobre os testimunhos dos horro^ xm por entre os quaes o valle surgiu»
  • 327 Pouca solidez na constituição das alturas tem da¬ do causa já a quedas de muitas de suas faces, a que chamam vulgarmenle quebradas; já a quedas de par-» tes mais compactas, minadas por aguas subterrâneas. Das primeiras, é queda mais notável a do pé do Pi¬ co da vigia, de que desce um regato que cai na ribei¬ ra , com salto de mais de 150 pés d’altura : das segun¬ das sao exemplo as duas quedas que occorreram nas ele¬ vações do norte, próximas da actual hospedaria das Furnas. Nas escarpas d’eslas quebradas apparecem en¬ terradas, segundo fui informado, arvores de varias especies, que apesar dos muitos séculos que tem de¬ corrido, depois das convulsões que as subverteram, suem bem conservadas, e próprias para vários usos de marcenaria. ( III. Caam central. Secção estreita de perto de quatro legoas de comprido, com uma base geral de 800 pés sobre o nível do mar, espessamente coberta de pi¬ cos e montículos voleanieos de 800 a quasi 1:000 pés cTaltura , e se estende entre a serra das SeLe-cidades e a d’Agua de Pau. A maior parte tTess.es cerros apre¬ senta as mais evidentes feições de cratéra, e posso as¬ severar que ern nenhuma parte encontrei, em espaço igual, tão numerosos respiradouros das forças destruido¬ ras, que as convulsões subterrâneas arremessam á crus¬ ta do globo. A actividade d’estes picos parece ter oc- corrido em epocha mui remota, porque, informado sobre as datas das differentes erupções, que occorre¬ ram desde a descoberta da ilha, vejo que, apenas em dois pontos, esta parte central foi desde então pertur¬ bada. Muitos d’esles picos ainda apresentam caracter cascalhudo e esteril na sua superfície interior; mas cPelIes alguns já são affeitos á cultura; experiencias felizes na extremidade de leste, provaram que se pres¬ tavam á plantação de matas. Mas apesar do disfarce (1) Entre outros objectos, existem bengalas feitas de um eedro, desenterrado na quebrada da ribeira da Forja, que a Julgar pelas estratificações sobrepostas, e por outras indicações locaes, poderá ter estado enterrado por mais de dois mH anuos.
  • 328 que Ceres projecta sobre a marcha destruidora de Plutão, ainda em muitas partes se pode acompanhar com a vista as correntes de lava, que d’estes picos correram sobre o mar. Distinguem-se, a que do Pico do fogo, talvez na sua ultima erupção em 165&, cor- ieu sobre Rabo de peixe; outra na mesma direcção e vizinhança, derivada do Pico da cova; e outras final¬ mente entre Fenaes da luz e o morro das Capellas, Em todas estas correntes permanece a superfície ondu¬ lada e riscada, demonstrando o primitivo estado de fluidez e movimenlo; porém mui frequentemente se encontra a crusta da lava perturbada e quebrada por convulsões posteriores; apresentando hoje fragmentos de todos os tamanhos, separados entre si, levantando do nivel geral as mais phantasticas fó»$j|\s. Subi algumas eminências: a vista’que se me an¬ tolhava admirou-me! Do cume da Serra gorda, ele¬ vação de quasi 1:600 pés, que domina a rica cidade de Ponta Delgada, gozei do mais bello e vasto pano¬ rama: aqui numerosos montículos, que correm para leste pelas duas costas oppostas, lavadas pelo vasto Atlântico: alii a industriosa villa da Ribeira grande, e a grandiosa serra d’Agua de Pau prolongada ás pon- tas dos Fenaes dVjuda, e ao elevado Pico da vara! Interessou-me não só o Pico da pedra, o triforme, com o Caldeirão ao pé, como vasta bocca de mina; mas também a bella cratera do Pico vermelho ao sues¬ te d’Agua de Pau, cujas escorias encarnadas ainda re¬ sistem á vegetação, apesar da data remota da forma¬ ção do pico. Alongando a vista d’esle para o mar, o escolho quo corre por alguma distancia, parece ser a lava vasada da cratera. > Pelo caminho d’Agua de Pau a villa Franca en¬ contram-se bellos exemplares de obsidiana porphyrica , e fragmentos de pedra granítica abundando no raro mineral pyrrhite em cristaes quasi rnicroscopicos. São os objectos que principalmente achei dignos da atten- çâo do mineralogista.
  • 329 Partida «la Ilha de ». Miguel» e cltegada a Lisboa. Fui para bfrdo na madrugada de 11 d’agoslo, e pelas 6 horas m manha se fez de vela a corveta , com fresco e favorável vento do noroeste. Fomos correndo ao longo das costas pittorescas da ilha, e ao meio dia já íamos deixando pela popa a parte mais oriental d’ella: houve então um pequeno intervallo de calma¬ ria, parecendo que o navio suspendera a sua carreira, como o viandante pára a fim de dizer o ultimo adeus e demorar as vistas sobre o paiz que deixou com sau¬ dade; sentimento de que eu ia possuído pelas bellezas (Taquella formosa terra, onde apenas residi 7 dias, que foram os mais agrada veis e variados d’esta viagem. Navegámos sempre com vento favoravel e bonan¬ çoso, ató que no dia 17 ás 6 horas da tarde o vigia da gavea bradou : terra pela proa. Dezenas de vozes repetiram estas doces palavras, porque era a terra da patria! O horisonte estava enfumaçado, e chegou a noite sem que a terra se avistasse distinctamente da tolda; mas ás 8 horas yiu-se um farol de rotação, e depois mais alguns dos que ha na barra de Lisboa e cabos proximos. " Era terminada a nossa longa viagem, ao cabo de $35 dias da saída de Macao, tendo fundeado uma vez proximo á Pedra Branca no mar da China, outra
  • 330 em Singapura, 12 vezes no estreito de Malaca, 5 na costa do Malabar, uma em cada um dos portos de Goa, Moçambique e Benguella, duas em Loanda, uma no Faial, e duas em S. Miguel: ancorámos ao todo 27 vezes. Percorremos segundo a derrota 20:260 milhas, ou perto de 7:000 legoas, é juntando-lhe as que andei por mar na ida da .Europa a Macao, e na viagem d’esta cidade a Shangai, excede a 12:000 le¬ goas o caminho que andei no espaço de dois annos. Ao romper do dia 18 estavamos em frente da ser¬ ra de Cintra, e ás 8 horas entrámos na balda de Cas- cães, onde recebemos um piloto dá barra , e nos de¬ morámos á capa esperando a maré. Que alvoroço, que esperanças, que deliciosas impressões todos então experimentavam á vista do suspirado '^gjo ! Mas para mim taes sensações se apresentavam de rhvstura com uni sentimento extranho, não sei se doloroso, melancólico, e confuso a ponto de em vão o pertender explicar a mim mesmo. Seria presentimento de futuras recorda¬ ções por estes tempos da vida, que não volveriam mais; de saudade pelos logares que vi, e não tornaria mais a ver, ou pelas vagas do Oceano, onde oito mezes acabava de passar ? A’s 10 horas passámos em frente da torre de b. Julião, pelo corredor ou barra do norte, e o pratico repetiu as palavras sacramentaes: Seja louvado A/osso Senhor Jesus Christo, que estamos no porto a salva¬ mento ; palavras a que por communs ninguém por ven¬ tura daria attençã®, mas que para mim foram como um remate singelo, tradicional, religioso e tocante, que bem se quadrava com os sentimentos que mc ani¬ mavam no fim d’esta aventurosa viagem. FIM.
  • APPENDICE.
  • I •
  • 333 Mappa do movimento dos navios de longo curso no porto de Manila. Annos Navios entrados Toneladas Navios sahidos Toneladas 1837 1838 1839 1840 1841 1847 1850 134 129 154 187 177 1 âo8 48:779 35:847 41:950 56:578 55:945 62:732 77:861 134 129 154 187 190 172 198 48:739 35:847 41:950 56:578 60:489 58:467 72:987 Mappa dos valores em patacas dos generos importa¬ dos e exportados nas ilhas Filippinas, não inclu¬ indo os do commercio de cabotagem, nem os me- taes preciosos. Annos Importações Exportações 1810 1835 1839 1840 1841 1S47 1850 900:000 1:900:397 2:153:248 2:028:865 1:849:650 3:789:381 3:954:074 500:000 2:563:179 2:674:220 2:992:912 3:220:400 3:126:141 4:053:447
  • f . , , • '' . - .fcU ' : •"> m. f-.-'* +Í*r • * *«•* **»*•- r.*i >Í oT m- vc^í .-a » \ -> • > ^ : í *■ £\V.fO..: Tf y>:r -0; f A ' s? biíín- •é í i a r oe i ía í 8@* r gfií>í,í- oT xicH n i ■. ■-atíríí-H Í e r - v; . i íí 1 -‘.y-V; z ) - ■ d v •'V-' • ■ -••• • - v:V. , LV. . . ■ v’. - • -v- ' '■■■■ ' .V »CWW-.- - '> «I»'. ' *> • "V- c9Ô;>i: ■ «00; 0O<1 . “£• -t-'id'S: : iag— 0';i:0êk;;, : ■ I:<•«.:i •; i • ■' :Kc
  • 335 Rendas publicas nas ilhas Filippinas. Povoação das ilhas Filippinas, segundo documen¬ tos ojjxciaes publicados pelo governo hespanhol. Annos Habitantes 1735. 1:000:000 1792 . 1:391:523 1805 1:741:234 1812 . . 1:933:531 1817 2:236:210 1829 2:593:287 1840 3:209:077 1845 . . . . 3:507:277 1846 3:552:394 1849 . ;. 3:740:492 1850 3:815:878 é
  • e- * •» / * #■> *
  • Navios entrados nos portos habilitados da ilha de Cuba t não incluindo os de cabotagem. Annos Navios nacionaes Navios estrangeir. Total Toneladas 1841 1842 1843 1844 1845 1846 1847 1848 1849 1850 1:053 884 815 855 917 847- 8S*T 875 877 878 1:981 1:773 1:770 2:380 1:715 2:244 2:922 2:673 2:336 2:478 3:034 2:657 2:585 3:235 2:632 3:091 3:741 3:548 3:213 3:356 467:839 ' 472:106 477:792 597:920 473:015 550:158 689:770 728:285 712:572 874:014 Somma 8:820 22:272 31:092 6:043:471
  • V • • * > . / V! ✓ /
  • / Mappâ âos valores em patacas dos generos impor¬ tados pelos portos habilitados da ilha de Cuba. Ànrios Em bandeira nacional Em bandeira estrangeira Em deposito TOTAL 1769 1770 1771 1772 1773 1774 1826 1827 1828 1829 1830 1831 o 1832| 1833 = 18341 1835” 1836 1837Í 1838 c 18391 18 W 1810 1841 1842 1843 1844 1845 1846 1847 1848 1849 1850 2:858:793 2:541:32§ 4:523a 9 J2 4:961:043 4:739:776 7:198:000 10:956:000 11:979:980 14:113:783 14:387:730 13:363:741 13:218:853 16:969:796 13:651:329 15:648:870 15:222:318 16:366:844 18:455:071 10:307:339 12:744:885 12:978:111 11:213:371 10:195:503 9:558:000 10:698:000 9:363:937 10:967:625 10:249:790 10:058:351 11:837:377 11:037:764 8:974:069 16:740:248 10:213:247 9:953:615 10:528:155 1:527:258 1:292:530 1:283:291 1:759:621 2:066:646 2:033:508 2:521:442 1:236:283 952:000 2:394:000 3:357:172 incluídos os depositos hSo incluídos os depositos 1:869:481 1:623:426 2:285:798 14:925:754 17:352:854 19:534:922 18:695:856 16:171:563 17:708:000 24:048:000 24:700:189 25:081:408 24:637:527 23:422:096 25:056:231 28:007:560 22:625:399 32:389:119 25:435:565 28:189:941 30:606:653 m *
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  • Mappa dos mlores em patacas dos generos expor¬ tados pelos portos habilitados da ilha de Cuba.
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  • Rendimentos públicos da ilha de Porto Rico. Annos Patacas
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  • ÍNDICE DAS v Capitulo I. — Saída de Macao, noticiade Sião, Singapura, Malaca, e navegação até ao Cabo Comorim , . . . i pag. 3 Cap. II. — Cabo Comorim, e navegação ao longo da costa do Malabar até Goa. — 84 Cap. III. — Residência em Nova-Goa, monumento dg, Affonso d’Albuquerque, visita ao are ^al e a Goa Velha, tumulo de S. Francisco Xavier, e noticias di¬ versas 30 Cap. IV. — Varias digressões em Pangim , partida d’esta cidade, um dia na Agua¬ da, e recordações d’Affonso d’Albu¬ querque .— 40 Cap. V. — Partida de Goa, noticias e considerações varias sobre esta possessão. — 54 Cap. VI. — Navegação no Oceano da ín¬ dia , vista do cabo Delgado, e entrada no canal de Moçambique.— 71 Cap. VII. — Dois dias de temporal, en¬ trada e residência em Moçambique, e varias noticias sobre esta cidade ... — 80 Cap. VIII. — Idéa geral do estado reli¬ gioso e moral, finanças, força publica, população, agricultura, commercio, ins- trucção, costumes, e systema monetário na província de Moçambique . . , 94 Cap. IX. — Partida de Moçambique, na¬ vegação pelo canal d’este nome, noticias sobre Angoxe, Quilimane, Senna, Tét- te, e Sofalla . ..— 117 Cap. X* — Noticia de Inhambane, e idéa
  • be.ral elos costumes j&oz. negros da Africa oriental.. • • Pao Cap. XI. — Noticia do estabelecimento de Lourenço Marques, e dos boers ou hollandezes africanos . . • * Cap. XB. Saida do canal de Mozambi¬ que, ilhade Madagascar, navegação pe¬ las costas do Natal e da Cafraria, e no¬ ticia da colonia do Cabo . * * • • Cap. XI11. — Navegação sobre o parcel das Agulhas, antigo poder marítimo dos portuguezes , recordações de Bartholomew Dias, e a bonança e tempestade no ca¬ bo das Tormentas Cap. XIV. — As ilhas de gelo, pass, em do cabo da Boa Esperança, navegares atrevidas antigas e modernas, e segui¬ mento da viagem até Benguella Cap. XV. Residência em Benguella, va¬ lias noticias d’esta cidade, os mouros vin¬ dos de Zanzibar á contra-costa, e tenta¬ tivas de descobrimentos no interior da Africa pelos portuguezes . . . " Cap X VI. — Chegada a Loanda , varias "noticias d’esta cidade, guerra arsénica, cemitério, procissão do Corpo de Deus, e vendas n’alfaodega . , • • • • Cap XVII. — Noção histórica d Angola, administração de Pedro Alexandrino da Cunha, e noticias geraes sobre popula¬ ção , clima, religião, força publica , fi¬ nanças , agricultura, e commercio . . - Cap. XVIII. — Idea geral dos costumes dos iip°tos nos nossos dominíos d Angola, Cap. XVIII, — Fundação da Colonia de 'Mossamedes, e seu actual estado . . - Cap. XIX. — Outras noticias sobre os sertões de Mossamedes . . • • • • Cap. XX. — Saída de Loanda, um en- ísr 138 143 149 159 m 183 SOI 22Q 231 241
  • 1 terro a bordo, e considerações sobre o serviço religioso na marinha .... pag. 261 Cap. XXI. — Chibatadas a bordo, entra¬ da no hemisfério do norte, noticia sobre as ilhas de S. Thomé e Principe e o forte d’Ajudd, um encontro no mar, e barris Jparne estragada.— 267 . XXII. — Noticia das ilhas de Cabo CapeieLv • .— S7& y* XXIII. — Observações geraes sobre q >s nossos domínios ultramarinos, noticia das colonias hespanholas, e considerações sobre a idea da União Peninsular . . — 280 Jap. XXIV. — Considerações a respeito dos climas do r .bo, serviço da enferma¬ ria a bordo, e lembranças sobre os nos¬ sos antigos navegadores.— 289 ap. XXV. — Chegada ao Faial, noticia (Testa ilha, e da sua Caldeira ... — 296 Cap. XXVI. — Partida do Faial, che¬ gada á ilha de S. Miguel, visita ás Fur¬ nas , e noticias diversas.. 308 Cap. XXVII. — Continuação de noticias sobre a ilha de S. Miguel, estabeleci¬ mentos públicos, e noções commerciaes. —- 317 Cap. XXVIII. — Geologia da ilha de S. Miguel .. 323 Cap. XXIX. — Partida da ilha de S. Mi¬ tel , e chegada a Lisboa . . . , — 329 nu do índice.
  • erratas. Pag. Hu. Erros. 20 19 25 45 61 69 179 195 193 234 297 Emendai. 3 14 deste sentimento — Ieia- 37 mesmo os que 6 explendor 20 pela grandeza ,de seus templos que 37 deu-ise ao convento 35 ajtribuem 34 tres me 26 300 17 rara 30 que a 12 400 32 com o cantor de Joce- hn i dizia eu &c. se — deste esperançoso sent mento meslno íios que esplendor pela grandeza de templos, que doou ao convento áltribuem tres I 600 rasa a quem 200 cor' o cantor de Joc 1 izia eu &c. Outras erratas haverá de facil emenda para o leitor. p:i,nei™ volume não f„ram indicadas as seeuintes ratas, o que se faz aqui por serem esscnciaes. ° Pag. lin. Erros. Emendas. 375 29 376 20 377 10 ” 12 720 — leiaie 720 720 aos coiidrins 72 72 72 ás cachai
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