MTAMENTOS 1 \ 13 1 E M CHINA A LISBOA. POR METI SIMKIMs 1853* NA TYPOGRAPHY DE CASTRO & IRMÃO, Rua da Boa-Vista n.° 4 B. LISBOA.
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3 CAPITULO PRIMEIRO, Sn tela de Sflacao, noticia de Sião* Sfnga* para* llalaca* e navegação até ao Cabo Com o rim. Concluí a primeira parte d’estes Apontamentos no ponto de ir a deixar Macao, e de começar a torna- viagem para a Europa. Continuarei agora o fio d’esta narração. Na manhã de £6 de dezembro de 1851 fui de Macao para bordo da corveta D. Joao I, ancorada na rada, para n’ella seguir viagem para Lisboa. Um sentimento de saudade e de tristeza me dominava, só modificado pela esperança dejregressar em fim á mi¬ nha querida patria ^ mas o effeito d’esle sentimento eia. muito attenuado pela consideração dos possíveis accidentes que offerece uma navegação ao longo das costas d Asia e d’Africa, tendo de estacionar em pai- zes doentios. N’esta occasião pois prevalecia mais a saudade do que deixava, do que a fagueira esperança e o futuro prazer de tornar a ver a minha terra. Ao fim da tarde olhei, do tombadilho da corveta, pela derradeira vez para a vistosa cidade de Macao, e lhe disse o ultimo adeus. O sol escondia-se brilhante detraz das montanhas da ilha de Pacsan. Na madrugada de S7 levantámos ferro com vento fresco e favorável do nordeste, e rapidamente nos afas¬ támos das varias ilhas e ilhotas próximas a Macao, e assim fomos continuando nos dias seguintes, sempre oom mar.agitado e muito balanço, proveniente em 1 *
parle de ir a corveta mal compassada, e do desequilíbrio que produziam 5 peças de calibre 32 á Paixhans, que da corveta íris tinham sido mudadas para este navio. No l.° de janeiro de 1852 iamos pela altura da Cochinchina e Sião. A Cochinehina é paiz hoje tri¬ butário ao império chinez, e com o qual mantivemos na secunda metade do século NV1I relações, commer- ciaes e políticas, mui lucrativas para os habitantes de Macao; mas estiveram depois interrompidas, por cau¬ sas pouco averiguadas, até que em 1712 o rei da Co¬ chinchina, por intervenção do jesuíta Joao Antonio Arnedo, propoz que se renovassem aquellas relações, e se trocaram n’essa occasião alguns presentes entre o •mesmo rei e o senado de Macao; parece porém que não chegaram a renovar-se, por se não accordarem nos termos de um tratado, ou que laes relações foram pou¬ co importantes. . Nos fins do século XVII o rei de Tonquim conquis¬ tou a Cochinchina, e o príncipe desthronado Kaou- chang manteve relações com o senado de Macao, que em 178G lhe deputou um dos principaes morado¬ res da cidade, António Vicente da Rosa, o qual sen¬ do nomeado pelo mesrao príncipe seu embaixador, se dirio-iu a Goa, a pedir soccorro, obrigando-se da parte do príncipe a ceder aos portuguezes algum território do seu reino. Nada porém foi a effeito, e o comrner- cio com a Cochinchina de todo acabou para Macao. Segundo as relações de alguns viajantes, os natu- raes da Cochinchina tem origem commum com os chins, aos quaes se assimilham na physionomia, e na maior parte dos usos e costumes; a religião é a mes¬ ma e a linguagem ainda que differente parece foi- mada sobre os mesmos princípios , usando na escripta dos mesmos caracteres que os chins. As mulheres sao muito mais activas que os homens, e se dedicam ao commercio; não vivem reclusas como na China , e sen¬ do solteiras não perdem a reputação por terem trato com os estrangeiros que vão ao paiz. A Cochinchina c o Tonquim ainda hoje estão comprehendidos na ju-
w o risdição espiritual do bispado de Macao, d’onde vem alguns padres chins dirigir as christandades rospectivas. Pelos vínculos religiosos ainda conservamos n’estas po¬ pulações alguns restos do nosso antigo prestigio. O primeiro portuguez que descobriu a Cochinchi- na íoi Duarte Coelho d’Albuquerque, 18 annos de¬ pois da nossa entrada na Índia, e por esse tempo as¬ sentou paz e commercio com o rei de Sião, e levan¬ tou na cidade de Hodiá, então capital, um padrão com as quinas portuguezas. E’ sabido que, depois da conquista de Malaca pelos portuguezes, os negociantes da Índia tentaram formar um novo centro de commercio em Sião; mas os nossos o impediram, compeliindo os navios de Ben¬ gala , Guzurate, Coromandel, &c. a aportarem a Ma¬ laca , cujo governo propoz ao rei de Sião o estabele¬ cimento de uma feitoria portugueza no seu reino, o que foi acceito, e alli muito prosperou , a contento dos siamezes, ganuando-nos tal affeição e confiança, que em 1660 o seu rei emprestou á cidade de Macao 605 cattes de prata (800 arrateis), além de vários ge- neros de producção do paiz, cujo valor total foi pago em successivas porções até 1723. Continuaram estas re¬ lações com vantagem para o commercio de Macao; mas foram interrompidas pelas perturbações que houve em Sião, por invasões de inimigos, principalmente dos birmans. N’esta occasião o governo de Portugal offereceu , por meio do governador da índia, soccor- ro aos siamezes, e é curioso o seguinte extracto d uma carta escripta de Sião em 28 de dezembro de 1786 . « O rei se reconhece grato á rainha de Portugal D. Maria í., pelo seu generoso affecto e signal de boa amizade, que nunca será esquecido até ao tim do mun¬ do. O rei tendo já em vários encontros batido os ini¬ migos, não duvida que ha de obrigar os birmans a pedir a paz, e que poupará a sua magestade o sacri¬ fício de enviar-lhe tropas e munições; mas pede que se dê ordem ao governo de Goa, para mandar-lhe 3;00Q espingardas no decurso de 1787. Sc os súbditos
6 de sua rnagestade desejarem estabelecer uma feitoria, o rei está prompto a conceder terreno para isso, e on¬ de possam edificar uma igreja, para que os chrislãos que tem estado muitos annos sem guias espirituaes , possam ser guiados pelos padres que sua rnagestade queira mandar para Sião.» Só em annos posteriores se quizeram aproveitar es¬ tas favoráveis disposições em interesse do commercio de Macao. Um christão portuguez, nascido em Sião, foi o portador de presentes e propostas: seguiu-se uma correspondência com a corte de Sião, que por fim de¬ cidiu o conde do Rio-Pardo, governador da índia, a enviar em 1820 um consul geral para Bang-kok , capital do reino, munido de liberaes presentes para o rei, príncipes, e personagens da corte, e de instruc- ções publicas e particulares para se effeituar um trata¬ do, que comprehendia 20 artigos, e cujas bases eram a mutua alliança, amizade, e commercio entre os reis de Sião e de Portugal. Este consul residiu 12 annos em Bang-kok, sem nada fazer digno de menção , senão a licença que obteve de levantar casa para si, com vastas accommodações, e para haver um destaca¬ mento composto de 4 soldados e 1 sargento, para pro¬ teger o consulado e a feitoria , que se mandava de Ma¬ cao, sendo rendido de 3 em 3 annos; mas por aban¬ dono ou desleixo já isto mesmo acabou. Se esta com- missão tivesse sido confiada a pessoa habil, e de co¬ nhecimentos mercantis e diplomáticos, e de presumir que houvesse produzido resultados importantes: pode¬ ria ter feito construir navios, para o que, dizem, o paiz apresenta muitas facilidades, e carregando-os com os productos nativos, ter-nos-hia dado talvez a posse de um importante trafico, que actualmenteestão fazendo competidores de differentes nações. Os inglezes tem feito recentemente muitas diligencias para estabelece¬ rem regularmente relações commerciaes com Sião, e já lhe impuzeram um tratado; mas como não tem sympathias no paiz, tem sido mal cumprido, e de pouco eífeito.
7 O sobredito consul foi demittido em 1833 pela sua incapacidade. Hoje ainda alli temos um , o ma- caista Marcelino de Àraujo Rosa, e ainda a nação portugueza é a unica que goza de tal privilegio em Sião, onde a nossa bandeira é respeitada ha mais de 3 séculos. Recentemente alli occorreram factos bem cu¬ riosos, e comprovativos do prestigio de que ainda go¬ zam os porluguezes n’estas partes. Em abril de 185& falleceu o velho rei de Sião com 63 annos de idade , e S7 de reinado, e o conselho supremo, composto de príncipes, mandarins e outros dignitários, chamou para occupar o throno o príncipe Somdét ~ Phra — P ar acrndr — Maha — JMong-kut. Logo que o novo rei foi proclamado, lhe dirigiu o nosso consul uma car¬ ta de felicitação , que foi entregue por via do manda¬ rim Pascoal Ribeiro d’AIbergaria, que servia de ca¬ pitão do porto e interprete do Estado, por quem o rei a mandou agradecer, convidando o consul para a festa da sua enthronisação, que teve logar em 15 de maio immediato. Dizem ter sido das mais pomposas e bri¬ lhantes de que ha noticia em Sião. O rei tinha na sala do throno, ao seu lado no logar mais nobre, o retra¬ to da rainha de Portugal, a quem trata por irmã, e adi recebeu as felicitações de vários dignitários, do consul portuguez, e dos negociantes e missionários es¬ trangeiros , assegurando a todos que permittia a con¬ tinuação dos estabelecimentos estrangeiros, tantocom- merciaes como religiosos: depois os convidou a um jan¬ tar , preparado á europea , no fim do qual distribuíram aos convidados algumas flores de ouro e prata, e moe¬ das dos mesmos metaes. No dia ^0 houve uma grande procissão, ao uso do paiz, que o novo rei acompa¬ nhou , lançando ao povo moedas de prata do valor de um maz ( 130 rs.), e em âl repetiu-se a mesma ce- remonia no rio, sendo as moedas de prata lançadas á agua em páos boiantes, da forma de limões, e em grande profusão. ^ íía em Sião primeiro e segundo rei, e chamam IVang-Nah ao-throno do segundo, ao qual foi exal-
8 tado o irmão mais moço do rei Mong-kut, o princí- pe Monfanoi, em 3 de Junho, com festividades si- milhantes ás mencionadas. A procissão compoz-se de 5:000 pessoas, e de muitos elefantes e cavallos rica¬ mente ajaesados. Ilouve n’estas solemnidades salvas de tiros, e ainda a companhia ou corpo d’artiiheiros é denominada artilharia portuguesa. Entre os presen¬ tes que os príncipes reaes offereceram ao rei, figurou com especialidade o rabo de um elefante branco. Todas estas particularidades foram communicadas pelo nosso consul ao governo de Macao, acrescentan¬ do que o novo rei manifestava os melhores desejos de renovar relações de amizade, e commercio com todas as nações; que pelo egoísmo do ultimo governo, não podiam fazer tremolar as suas bandeiras no rio Mei- nam ; e que este monarcha possuo conhecimentos de sciencias, artes, e linguas estrangeiras, tendo desde logo permittido aos missionários christãos livre transi¬ to no seu reino, assegurando-lhes protecção. Na ulti¬ ma monção partiram de J3ang-kok 4 navios europeus; um para Cantão com embaixadores, outro com fazen¬ das para^ Hong-kong , e dois para Shangai. Para Ma¬ cao já não ha commercio algum , nem alli aportam em¬ barcações siamezas , como d’antes succedia : no entanto conserva-se um consulado inutil, com que se dlspendem 1:000^patacas annualmente pela fazenda de Macao. Siao é extenso, antigo e poderoso reino: confina com a China, império birman, e estados indepen¬ dentes da Peninsula de Malaca. A moderna capital é Bang-kok , que dizem contar 90:000 habitantes, a maior parte chins. E’ paiz abundante de alguns dos mais ricos productos da Asia , e seu rei denomina-se por excellencia o Senhor do elefante branco. Sempre com próspero e rijo vento, correndo 8 e 9 milhas por hora, chegámos a 3 do mez de janeiro a vista da costa de Singapura, e lançando ferro de noite, a força da corrente o fez quebrar, e se perdeu. O tempo tornou-se chuvoso e extremamente carrega¬ do, de modo que só a 5 pudemos tomar o porto , e
9 demos fundo bastante ao largo, a 3 milhas da terra, onde não fui d’esta vez por me achar doente, tendo-a já visto na minha ida da Europa. Vieram a bordo muitos malaios vender vários objectos, principalmente de gutta-percha, oleos, rotas, pedras de Ceilào, &c. Em outubro precedente fora collocado um farol na Pedra Branca , rochedo isolado no meio das aguas a 33 milhas de Singapura; tem de altura 75 pés, é de rotação, c visível a 15 milhas no convez do navio: dizem que é o melhor que se tem construído até ago¬ ra a leste do cabo da Boa Esperança. O estabeleci¬ mento de Singapura havia 4 mezes tinha sido erigido em presidência independente da de Calcuttá , á qual estava sujeito desde 1830, annexando-se-llie os estabe¬ lecimentos de Ma Jaca e Pi não. bingapum, fundada em 1819 por sir Thomaz Raffle, augrnenta todos os dias o seu commercio e pros¬ peridade, tornando-se o grande centro commercial da Índia transgangetica, e colhendo grande importância de ser o ponto onde hoje convergem as linhas de va¬ pores da China, da Australia, de Bengala, e da Eu¬ ropa. A linha da Australia acha-se agora ( 1853 ) de- fmitivamente estabelecida : a primeira carreira come¬ çou em 4 de março, e repete-se no dia 4 de cada mez alternadamente, de modo que ha 6 carreiras no anno que conduzem as malas e passageiros de Sou¬ thampton a Batavia (46 dias), e aos seguintes portos da Australia: King George’s Sound (59 dias), Ade¬ laide (65 dias), Port Philip (68 dias), e Sydney (71 dias). A passagem de Southampton a este ulti¬ mo ponto é de 160 libras esterlinas. N’estes 71 dias percorrem-se 13:855 milhas marítimas, ou 4:385 le- goas, parando-se nas differenles escalas do Mediter¬ râneo, Egypto, Mar Vermelho &c., até Singapura, sendo até ahí commum esta carreira com as da China, que hoje (1853 ) tem logar duas vezes no mez, par¬ tindo de Southampton a 4 e 30, e prolongando-se já até Shangai, aonde se chega em 54 dias. Todos estes dados são exlrahidos das ultimas instrucções da Com-
10 panhia Peninsular e Oriental de Navegação a Va¬ por, datadas do l.° de janeiro de 1853. O governo inglez paga a esta Companhia 199:000 libras esterli¬ nas, pela conducção da correspondência official e par¬ ticular para todo o Oriente, e ajuntando-lhe mais 20:500 libras que lhe dá pelo transporte da correspon¬ dência da Peninsula, perfaz a enorme somma de 219:500 libras (quasi 1:000 contos) o subsidio que a companhia recebe : dizem alguns que o governo britannico tira mais d’esta quantia nos portes das car¬ tas e jornaes, que sao todos cobrados por sua conta; isto porém é duvidoso; mas em todo o caso colhe a vantagem de tornar a Inglaterra o centro das commu- nicações do mundo, o que, principalmente no caso de guerra, é de immensa importância para aquella nação. A nova igreja portugueza em Singapura já estava começada, e se erigia com o producto da subscripção que, para tal fim, fizera correr em Macao o gover¬ nador Cardoso, a qual produziu umas 600 patacas, e também com o de outra que se abriu em Singapura , além dos auxílios do collegio de S. José das Missões em Macao: calculava-se a obra em 3:000 pesos, feito sob um simples plano o templo destinado a conter mais de 400 pessoas, que ainda hoje conta a commu- nidade christã portugueza rTeste paiz. Avançámos 500 legoas, como princípio de nossa carreira, quasi totalmente na direcção sul. No dia 8 pelas 7 da manhã continuámos com destino a Mu- laca, a 60 legoas na linha leste oeste, para alli largar¬ mos um passageiro hollandez, que embarcou em Sin¬ gapura. Tomámos o prático Krall, para a passagem do Estreito até Pinão, pela gratificação de 60 pata¬ cas. Foi difficil a saída do porto por entre ilhas e bai¬ xos, com vento pouco favoravel. Durante os dias 8 e 9 fomos sempre á vista da cos¬ ta malaia, toda bordada de arvoredo, e com varias montanhas para o interior, sendo as principaeso Mon- te-formoso, que serve de marcação, e é indispensável
11 de avistar a quem navega n’estas diffjcels paragens, e o Monte-d’ouro ou Ophir, proximo a Malaca, cida¬ de que avistamos a 9; porém muito custou a tomar o porto por nos ser o vento contrario do norte, e já de noite fundeámos a umas 6 milhas da terra. De ma¬ nha fui para terra com o pratico n’uma embarcação malaia muiío tosca, com 4 remeiros, com a mesma apparencia da gente de Singapura. Peias 10 horas desembarquei na outr’ora famosa Malaca portuguoza ! A cidade é bonita do lado do mar, apresentando al¬ gumas casas regulares, e por toda a parte formoso ar¬ voredo, principalmente de palmeiras. Ao desembarcar rPum soffrivel caes, com um telheiro proximo, tomei uma carruagem , de varias que logo se apresentaram , em tudo similhantes ás de Singapura; muito ligeiras, aceadas, de 4 rodas baixas, dois assentos, accommo- dando bem 4 pessoas; são puxadas por um pequeno cavallo, que corre ligeiro acompanhado ao lado por um infatigável malaio meio nú. Fui primeiro á resi¬ dência do padre Gomes, governador do bispado, e lhe fallei, e ao padre Manoel seu coadjutor; ambos naturaes de Goa. Visitei a igreja de S. Pedro, que é a unica freguezia catholica da cidade: é espaçosa , estava aceada, e foi edificada haverá 100 annos; fica um pouco distante do centro da povoação, aonde vol¬ tei com o dito padre Gomes, e fomos ver os restos da antiga muralha, feita pelos portuguezes, e que cir¬ cundava um oiteiro pouco elevado proximo ao mar: d’ella só existe um pequeno lanço, contendo uma porta d’entrada em arco, ornado por cima com lavo¬ res em cantaria, representando um navio n’um escu¬ do assente sobre trofeos militares, e aos lados duas figuras, uma de mulher com roupas largas, e uma pal¬ ma na mão, e a outra de guerreiro com escudo: tem a era de 1670. Estas armas e emblemas nada tem de commum com as de Portugal, não sendo exaeto o que ouvira dizer e vira escripto em alguma parte, que existiam sobre esta porta as armas portuguezas: penso que são obra do tempo dos hollandezes, que nos con-
12 quistaram esta importante cidade, a qual tiveram de ceder em 18c24 aos inglezes. A arcada em angulo do portal tem doze passos, e tantos eram os da espessura da muralha, feita de pedra escura que parece conter ferro, ligada com forte argamassa, mui similhante á das fortificações de Goa: trouxe commigo alguns pe¬ daços da dita pedra, arrancada d’aquellas venerandas muralhas, que os inglezes logo no princípio do seu do¬ mínio fizeram voar á força de polvora , e foram em grande parte cair no mar, onde nas baixas marés ain¬ da se descobrem pedaços á flor d’agua, como eu mesmo observei. Foi um acto de vandalismo, improprio de uma nação illustrada. Dizem que ha ordem do go¬ verno inglez para se conservar a porta de que acima fallei. Subi depois ao cume do outeiro, e examinei as ruinas da igreja de S. Paulo, que parece foi edifica¬ da no mesmo armo da conquista ( 1511 ); só estão de pé as paredes, e a torre que serve de telegrapho. No pavimento da igreja ha várias lapidas sepulchraes, a maior parte hollandezas, algumas de portuguezes, e d’estas a mais notável e bem conservada era a do se¬ gundo bispo do Japão D. Pedro, fallecido em 1598 em Singapura. D’este logar ha bonita vista sobre a ci¬ dade, o mar, e planícies vizinhas, todas cobertas de palmares. Reunido depois com outros companheiros que vieram de bordo, fomos a casa do governador, que nos mostrou o interior d’ella, que nada tem de notável, e parece que foi antigo convento portuguez. Vi também a casa da eschola de um fulano Souza, mestre de portuguez, que fallava com muita correc- ção, sendo nativo; disse-me que era pago pelo go¬ verno, e que tinha bastantes discípulos; mas que fal¬ tavam livros portuguezes para elles lerem, e pedia-me com muito empenho os Lusíadas. O templo protes¬ tante é pequeno, e sem belleza no exterior. Fomos depois correr a cidade em carruagens: tem ruas bas¬ tante extensas e largas, e no bairro dos nativos, mes¬ tiços ou portuguezes, as casas são todas baixas, mas aceadas, e não indicando miséria; outras são mui pit-
13 torescas por debaixo dos palmares e arvoredo , que de toda a parte brota: em uma das ruas , para o lado do oriente, vimos mui lindas habitações no gosto euro- peu-asiatico, com bonitos jardins na frente. Vi um templo ou mesquita mahometana, vasto e curioso, porém não o observei bem no interior, porque não quiz descalçar-me, como exigiam os bonzos que o guardavam. A população da cidade e de lo a 10:000 almas, comprehendendo uns 10:000 chins, que alli conservam o seu vestuário, forma de habitações, e gosto das lojas. Os chamados portuguezes são 3:000, todos christãos, e que pela maior parte se empregam na pesca: descendentes dos antigos conquistadores, misturados com a raça indígena ou malaia, são fus¬ cos, mas ufanam-se muito da sua origem , e conser¬ vam a linguagem portugueza não muito corrupta, a qual é ainda a mais geral e praticada pelos mesmos hollandezes e inglezes, que nos substituíram no domí¬ nio. Estes portuguezes são obrigados a residir em bair¬ ro separado, e diziam que pagavam mais impostos que os outros súbditos britannicos. Aquella boa gente se regozijava de ver porlugue- zes do reino, que raríssimas vezes succede alli apor¬ tarem ; e da ida de um vaso de guerra nosso não ha¬ via memória na actual geração. O Festo dos habitan¬ tes são malaios do paiz , e outros oriundos de antigas famílias hollandezas, e inglezas. Europeus propria¬ mente ditos haverá $00. A guarnição é de 400 ho¬ mens, sipaes da India, e a cidade não tem fortifica¬ ções algumas: ouvi que havia alguns fortes para o in¬ terior , e vi um parque d’artilharia de campanha pro¬ ximo ao fragmento da muralha de que já fallei.. Ha 4 padres francezes da Propaganda, que alli per- tendem também introduzir a zizania entre os christãos, mas não excedem a 40 ou 50 os que tem attrahido a si. Por agora só tem capella no interior de casa, mas projectam fazer igreja, para o que já tem terreno, e alguns alicerces começados. Ainda não ha muitos an- nos Malacft florecia muito peio commeício, o qual prin-
eipiou a decair com o desenvolvimento e prosperidade de Pi não e de Singapura, e hoje está quasi extincto: comtudo ha 2 annos descobriram-se nas proximidades ricas minas de calem,, especie de chumbo, ou o cha¬ mado cobre de Macao, que se extrahe bastante para a Europa e para a China. Lambem d^aqui saem as rottas, ou cannas da Índia, rotim, alguma pimen¬ ta, &c. No porto apenas havia uma escuna a carre¬ gar calem, e outra dos negociantes Almeidas de Sin¬ gapura, que tinha encalhado n’um baixo, e fôra rou¬ bada pelos piratas malaios, que infestam com peque¬ nos barcos todas as paragens do Estreito. Ainda ha poucos annos havia frequência de navegação de Ma- laca para Macao, pelos navios que iam a Goa, o que de todo acabou. Esta cidade, apesar de assentada n’uma planície cercada d’aguas, é muito salubre, e vão para alli os doentes de Singapura, Macao, e outros pontos para restabelecerem a saude, o que geralmente conseguem, especialmente nas moléstias de peito. Tal era Malaca em janeiro de 1852, essa terra famosa nas nossas recordações históricas, Diogo Lopes de Sequeira, segundo as ordens que teve d’el-rei D. Manoel, navegou em 1509 de Cochim ao descobri¬ mento de Malaca, onde surgiu a 11 de setembro, assentou paz e commercio com o rei, e estabeleceu fei¬ toria. N’esta expedição ia o célebre navegador Fernão de Magalhães. Tendo o rei de Malaca quebrado a ami¬ zade com os portuguezes, Affonso (FAlbuquerque ata¬ cou a cidade em 24 de julho de 1511, e foi repulsado ; mas a 8 d’agosto seguinte, a levou d’assalto com pro¬ dígios de valor e pericia, ainda que com bastante der¬ ramamento de sangue portuguez. Malaca era então o emporio do commercio entre a India, a China, S ião, e as ilhas mais civilisadas da Oceania. A cidade occu-^ pava o espaço de uma legoa ao longo do mar, conth- nha muitas torres, consideráveis edifícios, e não me¬ nos de 100:000 almas. Tinha formidáveis fortificações defendidas por mais de 3:000 canhões de todos os ca¬ libres, e por 20:000 estrangeiros, além de grande nu-
mero de malaios: o interior da cidade foi tomado pal¬ mo a palmo, e 9 dias foram necessários para o con¬ quistar completamente. O despojo foi immenso, e to¬ do distribuido pelos soldados : Alfonso d’Albuquerque só para si reservou alguns objectos curiosos, para oífe- recer a el-rei D. Manoel, e seis leões de bronze que haviam de ornar o seu tumulo. Este facto faz lembrar o outro não menos honroso de D. Luiz de Ataide, que recolhendo-se do governo da índia para o reino, trouxe 4 vasilhas com agua dos rios Indo, Ganges, Tigre, e Eufrales, que se conser¬ varam muito tempo no seu castello de Peniche, como as únicas riquezas que trouxera d’aquelles Estados. D. João de Castro, nas vesperas da sua morte, não tinha com que mandar comprar uma gallinha, e foi sustentado á custa da fazenda do Estado de Goa, que governava. Abnegações sublimes, mas então communs n’aqueila geração d’antigos portuguezes! Conquistada Malaca Affonso de Albuquerque logo levantou a fortaleza, de cujas preciosas relíquias já fal- lei, e ordenou as cousas do governo com singular pru¬ dência e discrição. Immediatamente despachou embai¬ xadores e descobridores para todo aquelle remoto Orien¬ te, para Sião, Pegú, Java , China , e ilhas Molucas. Os grandes feitos obrados em Malaca deram assum¬ pto á celebre epopea Malaca Conquistada de Francisco de Sá e Menezes. Em toda a Peninsula, e pelas ilhas vizinhas se passaram notáveis e gloriosos successos du¬ rante mais de 2 séculos, até que em 1641 succumbiu Malaca aos hollandezes, depois de ^5 mezes de cêrco. A empreza do nosso estabelecimento na Peninsula de Malaca, foi recommendada ao primeiro governador da India D. Francisco d’AImeida, e repetida nas cu¬ riosas instrucções que lhe mandou el-rei D. Manoel em 1506, por lhe constar que em Castella tentavam uma expedição áquelle paiz, que diziam estar fora da linha da demarcação das nossas conquistas estabelecida pelo papa, e nas 6 náos em que foram^em 1506 para a índia Affonso d’Albuquerque e Trislão da Cunha 7
foi uma fortaleza inteira de madeira, metade para o ilha de Socotora, do que já fallei no primeiro vo¬ lume, e a outra metade com destino para Malaca, com 30 tiros, Í2 bombardas grossas, &c. para se ou¬ virem na dita fortaleza, como diz o documento, e bem assim vários utensílios para o fazimento da mes¬ ma fortaleza. De tarde recolhi-me para bordo, e ás 11 da noite nos fizemos de vela, navegando na direcção noroeste, para Pinao a 80 legoas de Malaca. Nos primeiros dias fomos avistando os montes Pequeno e Grande-Parcel- lar, Cabo-Rachado, a terra de Salangore &c. Sobre o baixo cm frente do Grande-Parcellar estava uma boia, e foi um escaler da corveta com dois officiaes a reconhccel-a: achava-se sobre bragas na coroa do banco, tinha grande diâmetro e a bandeira ingleza. Um brigue inglez da companhia das índias andava sondando n’eslas paragens, e trazia vários escaleres fo¬ ra. Demorados pelas calmarias, ou brizas contrarias, e tendo de fundear muitas vezes, só a 17 pela tarde ancorámos á vista da ilha de Pinão, ou do Principe de Gallos, colonia ingleza que visitei na minha ida da Europa. A navegação d’este estreito de Mala¬ ca é muito difficil, pelo perigo de muitos baixos, ilhotas, e correntes variadas, que promovem frequen¬ tes naufrágios n’estes máres, onde a sonda ou profun¬ didade das aguas muda com as estações, e com os ventos. A parte d’esta grande Península de Malaca, ainda hoje independente, é habitada por povos selva¬ gens, que divagam pelas montanhas, e pela extremi¬ dade meridional da Peninsula; mas na parte septem- trional quasi todas as populações reconhecem a supre¬ macia do rei de Sião, e lhe pagam tributos. Os sia¬ meses estão a respeito d’estes povos muito mais adian¬ tados em civilisação. N’uma obra publicada em Bang-kok em 1850, com o titulo Nova Grammatica Siamesa, escripta em latim pelo bispo francez Pallegoix, se leem curio¬ sas noticias sobre o estado da litteratura em Sião. O
17 nuctor apresenta um catalogo de livros siamèzes, que apesar de incompleto contém 150 obras, que tratam de grammatical arithmelica, astronomia, astrologia* e historia; além d’isto ha muitos livros de poesia e romances, sendo muito populares alguns romances ou contos mareiaes da China, que tem sido traduzidos. Poucas d’estas obras se limitam a um só volume; vᬠrias tem %, '4, 5 ou 10 volumes, e não poucas ^0, 30, 50, 80 e até mesmo 90 volumes. A traducção dos Annaes do Pegú' comprehende fO livros, 40 as Memórias Históricas de Siao, e 55 o Codigo das Leis d’este reino. A lista dos livros sagrados do Budhismo sobe ao número de 3:683 volumes. Em um povo que nunca gozou das vantagens da arte da imprensa, maravilha tanta abundancia d’escrever. A forma dos livros é tão diversa da que se usa na Europa* que não se po¬ de calcular a materia que n’elies se contém, a não ser pelo tempo necessário para os ler. Muito mais maté¬ ria se lê em um livro siamez do que em igual tempo nas línguas europeas; porque as palavras são quasi to¬ das monosyllabas, na linguagem siameza pura. A lin¬ gua siameza é notável pela simplicidade da sua forma¬ ção; mas á similhança da lingua birman, da chineza, e de outras do Oriente, nota-se n’ella uma grande differença no modo de fallai* e de escrever, segundo a classe e condição da pessoa que falia ou escreve, em relação áquella a quem se dirige. Em Siao esta diffe¬ rença sobe de ponto , e constitue quasi linguagens dis- tinctas. Os mais simples actos da vida, como dormir, comer, passear, beber, &c. são designados por pala¬ vras inteirarnente diversas, nas differentes classes so- ciaes. Os membros do corpo também são diversamente apellidados, e assim a respeito de outras muitas cousas. Na citada grammatica siameza se refere em resu¬ mo o systema do Budhismo que voga em Siao, onde n’estes últimos 15 ou ^0 annos se tem formado uma seita , composta de homens de alguma instrucção , que regeita tudo quanto ha de miraculoso n’aquella reli-
Í8 gião, adherindo só aos preceitos moraes de Budha. O Budhismo na sua fórma popular em Sião é similhante ao que prevalece no Birman, em Laos, e Camboja; difíerindo pouco do que é seguido em Ceilão, po¬ rém differe muito das modificações com que o mesmo Budhismo é conhecido na China, no Tibet e Nepal. Como fallei em Camboja direi alguma cousa d’es- te paiz, tão mencionado nas nossas historias do Orien¬ te, e célebre pelo naufragio que nas suas costas soffreu Camões, na embocadura do rio Mecon. Em julho de 1850 o rei de Camboja enviou a Sin¬ gapura umchristão nativo, chamado Constantino Mon¬ teiro, que pelo nome certamente é de origem portu- gueza, encarregado de solicitar das auctoridades bri- tannicas adjutorio contra os piratas que infestavam as costas de Camboja. Em março de 1851 este mensagei¬ ro regressou para Camboja, em companhia do dina- marquez L. V. Helms, a bordo de um navio expedido em negociação áquelle reino pela casa de Almeida e Filhos, da qual já tenho fallado no decurso d’estes Apontamentos. Foram desembarcar em Kampot, e d’ahi seguiram por terra até Udong, servindo o nosso portuguez Constantino Monteiro de guia e protector do viajante Helms, o qual publicou uma resumida notícia d’esta viagem, d’onde extrahi algumas das se¬ guintes noções. Camboja jaz entre Sião e a Cochinchina. E’ re¬ gião muito pouco conhecida modernamente, por ser raras vezes visitada pelos europeus. Foi reino extenso e forte; mas opprimido pelos seus dois poderosos vizi¬ nhos, hoje está reduzido a um Estado dependente e insignificante, tendo perdido quasi todo o terreno do littoral, onde só conserva o unico e máo porto de Kampot. O paiz é fértil e muito abundante em ma¬ deira de teca, mas está assolado pelas quasi não inter¬ rompidas excursões dos siamezes e cochinchinezes no3 últimos 15 a S0 annos. Os habitantes são poucos, vi¬ vem miseravelmente, e já não se atrevem a edificar casas permanentes, porque tem sido conlinuamente i
Í9 Incendiadas pelos seus implacáveis inimigos ; habitam em frágeis e mal reparadas casas, ou antes cabanas de bambu. O rei reside actualmenle em Udong, a cousa de SOO milhas ao norte de ICampot: o chamado pala- cio real é um insignificante edifício construído de ma¬ deira , que contrasta com o antigo explendor dos prín¬ cipes de Camboja, que figuravam entre os mais pode¬ rosos soberanos do Oriente. Constantino Monteiro hospedou na sua casa em Udong ao viajante Helms, que obteve uma audiên¬ cia do rei, o qual mostrou muitos desejos de entreter relações commerciaes com os europeus, mas muito as difficultam o ciume e inimizade dos eochinchinezes. Udong terá 10:000 almas, e Kampot não contém mais de 400 a 500 casas, tendo muitos habitantes chins, que são os princrpaes commerciantes. Vão car¬ regar áquelle porto muitos juncos chinezes. Os elefan¬ tes, e alguns carros fragilmente construídos, são os vehiculos do paiz. As mulheres são feias, e usam cor¬ tar o eabello muito curto, e escovaho de modo que fica espetado. A moeda é similhante ás sapecas da Chi¬ na , porém de qualidade mais inferior. O sy sterna nu¬ meral só chega a 5, e d’ahi para cima usam numeros compostos, como 5 mais 1, 5 mais &c. Em Cam¬ boja também está introduzido o vício de fumar opio, e aquelles que o vendem tem pena de morte, de con¬ fisco , e de escravidão para as suas mulheres e filhos. Constantino Monteiro, o enviado do rei de Cam¬ boja , parece que era homem intelligente e de conhe¬ cimentos: em quanto residiu em Singapura deu curio¬ sas noções d’aquelle paiz, e forneceu os principaes ele- menLos para um mappa de Camboja que foi publica¬ do no Indian Archipelago. Voltando a fallar dos povos malaios, observa-se que a sua antiga civilisação progressivamente tem de¬ caído e retrogradado. No principio do século XVI os differentes reinos malaios que primeiro foram visitados pelos portugue¬ ses ? gozavam prosperidade, estavam avançados nas
20 sciencias de governo, possuíam florescente commer- cio, e trato de lettras; o povo era em geral feliz sob um governo similhante ao feudalismo, mas patriar¬ chal , civilisado pelas relações do commercio , e accom- xnodado ao caracter e hábitos dos malaios. O reino de Achem no norte da vizinha ilha de Sumatra era um estado poderoso e commercial, com o qual os portuguezes tiveram muitas relações e guer¬ ras, e que muito nos disputou a posse de Malaca: desde 15^9 a 1641, nada menos de 16 expedições saí¬ ram do Achem; algumas formidáveis, como a de 1615 , que refere Faria e Souza se compunha de 500 •velas, das quaes 100 eram navios maiores que os que então se construíam na Europa, levando de 600 a 800 homens cada um, contando ao todo 60:000 comba¬ tentes a expedição. As leis mercantis que havia no Achem eram su¬ periores em seu espirito ás que existiam n’aquelle tem¬ po nos estados da Europa. Havia uma collecção de leis civis bem elaboradas, e certo systema de etique¬ tas e ceremonias. O pouco que hoje resta ou é conhecido da antiga litteratura malaia, denuncia o estado de civilisação a que tinham chegado estes povos. O codigo do reino de Menang-kabou é de antiquíssima data, e ode Ma¬ laca foi eseripto nos princípios do século XIII. A maior parte de outros codigos foram escriptos nos sé¬ culos XV e XVI, excepto os de Achem, Keddah, e Johore, cujas ultimas datas são do principio do sé¬ culo XVII; antes do qual foram escriptas várias obras malaias originaes, e outras traduzidas e imita¬ das. As numerosas paraphrases de obras sobre moral, introduzidas pelos arabes, são também de periodo an¬ terior. Em summa parece que no século XVII co¬ meçou a decadência da litteratura malaia, e o suc¬ cessive embrutecimento d’esta raça. Quem visita hoje estes paizes, mesmo os que se acham cm melhor condição, não encontra senão mi¬ séria e pobreza, algumas grosseiras habitações nas lo-
2t dosas margens dos rios, frágeis canoas, ou pequenos barcos que traficam na costa , e pira team quando acham occasião; isto em logar das fortificações, dos palacios, dos portos atulhados de navios, que nos descrevem os antigos escriptores, e que denunciavam um povo po¬ deroso, independente, e avançado em civilisação. No entanto estes paizes são fertilíssimos, produzem os ge- neros mais preciosos da Asia, e o rápido incremento que toma a civilisação, a cultura, e o commercioma colonia ingleza de Singapura, nao deixará de influir poderosamente para mudar a face d’esta rica penin¬ sula. Os malaios tem tido sempre, e conservam ainda a reputação de traidores e sanguinários,* mas é facto que os portugueses quando primeiro chegaram a estas re¬ giões foram bem recebidos, e tratados com affeiçâo. Talvez que a mudança destas disposições derivasse em parte dos abusos, e oppressões que se seguiram as nos¬ sas conquistas. Modernos escriptores dizem que o fun¬ do do caracter destes povos é serem corajosos, cavalhei¬ rescos, amadores da verdade, e isemptos d’aquelle te¬ mor servil que se observa na maior parte das raças indianas: por outra parte é reconhecido que sao de temperamento precipitado, impacientes quando rece¬ bem insultos, e promptos em vingar as injurias. Estas varias noticias são colhidas do Journal of the Indian Archipelago and Eastern Asia, que se publica mensalmente em Singapura, e que contém extensos e scientificos dados para conhecimento, dhiquel- la parte do mundo, que outPora tanto interessou a nós portuguezes, e da qual hoje quasi nada sabemos. Na noite de 18 de janeiro foi um escaler da corveta levar o pratico a Georgetown, segundo o ajuste, a 15 ou 18 milhas de distancia , e tendo regressado na manhã de 19 com alguns refrescos de terra , ás 8 horas levantámos ferro, seguindo para oeste, demandando Ponta de Galles, ou a extremidade sul da ilha de Ceilão, tendo çle percorrer a distancia de 400 legoas no paralielo de 8° norte. Atravessámos o extenso gol-
pho de Bengala com bom tempo, e excellence vento fresco do nordeste. A’ saída do Estreito ainda avistᬠmos algumas ilhas, ou pulos na língua malaia , a cabe¬ ça da grande ilha Sumatra , e passámos ao sul da Gran¬ de Nicobar, a maior do archipelago d’este nome. Lá nos ficava ao norte o reino de Pegu , onde o nosso cé¬ lebre Salvador Ribeiro de Souza fundou em 1600 uma casa forte, e depois de extraordinárias façanhas foi acelamado rei do Pegú em 1603. Ao aproximar-nos de Ceilão tivemos chuvas e tem¬ po nublado, que 2 dias impediu a observação do sol, o que atrazou a navegação: finalmente a 28 descobri¬ mos a ponta do sul d’aquella famosa ilha, da qual já detidamente fallei no primeiro volume. N’esla paragem tivemos calmarias e cerrações, e fomos vagarosamente ao longo da costa, observando sua riquíssima vegetação, e o Pico de Adao, grande montanha para o interior, que é a mais alta da ilha, e a romaria mais afamada dos sectários de Budha , que de toda a parte alli concorrem para verem o signal do pé d’esta divindade. Na cidade de Kandy, no cen¬ tro da ilha, a superstição lambem venera n’um cele¬ bre templo o famoso dente de Budha. Vieram a bor¬ do embarcações de pescadores com peixe, cocos, ja- gra, pedras falsas, <$tc.: são de uma singular forma, bastante compridas, mas apenas com a largura para conter um homem sentado, tendo ao lado um madei¬ ro que lhes serve de contrapeso para as equilibrar, de modo que nunca podem soçobrar por maiores que se¬ jam as ondas. Eu já as tinha visto em Ponta de Galles na minha ida da Euíopa. Só a 31 chegámos á altu¬ ra de Colombo, hoje capital da ilha, e cidade impor¬ tant e, que dizem similhar mais uma cidade europea do que asiatica. Já recordámos no primeiro volume o incontestável direito que Portugal tem a esta cidade. N’este dia dirigimo-nos a oeste em demanda do Cabo Comorim , e com vento forte do nordeste atra¬ vessámos rapidamente o gol pho de Manar, onde ha a pequena ilha do mesmo nome, dependencia de CeL
V 23 Ião, na qual antigamente se faziam as ricas pescarias de pérolas , e que foi tomada em 1560 pelo vice-rei D. Constantino de Bragança , levantando alli fortale¬ za. De Ponta de Galles a Goa, onde nos dirigiamos, vão &40 legoas na direcção noroeste. ,.■. í
24 Calio-Comorim * e navegação ao longo da costa do Malabar até &oa* No dia l.° de fevereiro amanhecemos defronte do Cabo Comorim, ou ponta do sul do vasto território do Indostão. E’ mui pittoresco o aspecto da terra , bas¬ tante montanhosa , mas apresentando bonitos perfis, e nas planícies densos palmares e arvoredos: ao longo da praia viam-se pequenas povoações, casas dispersas, e igrejas. Avistavarn-se mais confusamente os cumes dos Gattes, essa grande cordilheira que borda toda a costa do Malabar, e a maior parte da de Coromandel. D’aqui seguimos corn a navegação uniforme dos terraes e virações, que n’esta costa reinam de dezem¬ bro a fevereiro: pelas 11 da noite começava o vento, a soprar da terra, e nos fazíamos no bordo do mar até á madrugada, em que afrouxava : pelas 10 para as II do dia mudava para a viração, ou vento do mar, que nos levava no bordo da terra , de ordinário apro¬ ximando-nos muito d’ella pela tarde, e sendo ás vezes necessário fundear para evitar o perigo de maior apro¬ ximação á costa, ou perda de caminho virando de bordo, e assim esperávamos o terral: ambas estas bri¬ sas eram semp/e muito fracas, porque já a monção começava a quebrar , para dar logar aos ventos do no¬ roeste e sudoeste, que dominam de março a fim de se¬ tembro, sendo de ordinário muito violentos, impe¬ dindo a navegação durante alguns mezes na costa da
25 Malabar, e fechando os portos com a amontoação das areas. Navegámos lenta , mas rnuito agradavelmente , sempre vendo a terra, e os magestosos e elevados cu¬ mes dos Gattes; e quando mais nos aproximavamos, divisávamos muitas aldêas, casas, e igrejas ao longo das praias, e por entre extensissimos e densos palma¬ res. As igrejas são quasi todas do tempo em que os portuguezes dominaram estes paizes, e todos os dias passávamos em frente de cidades que nos recordavam os altos feitos de nossos antepassados, e a grande epo- cha da gloria portugueza na índia. Vimos de noite o farol de Cochim ; cidade aonde em 1503 fizemos a nossa primeira fortaleza na Asia, theatro das nossas primeiras façanhas, e das prodigiosas victorias de Pa¬ checo. O grande Albuquerque alli edificou em 1502, sob a invocação de S. Bartholomeu , a primeira igreja que a religião christã, e o Real Padroado possuíram n’esta região. Alli falleceu Vasco da Gama aos <25 de dezembro de 1524, já então conde da Vidigueira, e vice-rei da Índia, onde tinha ido pela terceira vez: os seus ossos vieram para Portugal, e foram sepulta¬ dos na igreja do convento earmelitano da Vidigueira. Conservámos Cochim até 1663. Avistámos Calicut, onde Vasco da Gama aportou como descobridor em 20 de maio de 1498; Cranga- nor, Cananor, MangaJor, Braeelor, Onor, &c. Por toda esta costa do Malabar ainda é muito commum entre os indígenas a linguagem portugueza, e conser¬ vam muito affecto á nossa nação, apesar de terem passado ha tanto tempo para dominio estranho. A companhia ingleza das índias, esse collossal po¬ der que assoberba a Asia, governa estes povos com ex¬ trema dureza, e d’elles tira enormes tributos, cobra¬ dos ás vezes com o maior rigor e crueldade. Estas cir¬ cunstancias contribuem para lhes conservar o affecto aos portuguezes, cuja administração publica no esta¬ do de Goa, apesar dos seus muitos defeitos, comtem- plam como muito mais benigna, em comparação dos vexames que soffrem sob o dominio britannico. Pelos
26 laços da religião todas as populações christãs, não só d’esta costa como de todo o Indostão, também nos conservam profundas affeições; mas o nosso prestigio sob este aspecto vai-se perdendo pelos deploráveis ef- feitos da interminável questão do Padroado Real, e da pouca attenção que o governo portuguez lhe tem dado. Por mais de uma vez vieram a bordo tonas ou embarcações com gente d’esta costa, trazendo para ven¬ der cocos, jagra, bananas, cestos de rotim de diversos feitios &c.; quasi tudo se lhes comprou a dinheiro, ou a troco de fato usado , de bolacha, e também recebiam e pareciam estimar muito as sapecas ou dinheiro da China, de que parece fazem uso para enfeites: aquella bruta gente explicava-se em máo inglez, ou entendia- se com alguns dos soldados canarinsque trazíamos para Goa: concluídas as vendas, e já alegres com a aguar¬ dente que se lhes dava , principiavam a cantar e a dan¬ çar de extravagante modo, fazendo mil tregeitos e gran¬ de berraria, parecendo n’isto completamente selvagens, tostados, e nus só com um panno cobrindo-lhes as na- degas, e alguns farrapos na cabeça. No dia 5 pela tarde veiu uma embarcação com remeiros mouros bem trajados, enviada pelas auctoridades de Tellichery, um pouco ao norte de Calicut, para saber o nome, o destino do navio, &c., e nos mostraram 3 jornaes de Madrasta: no Atheneu de 15 de janeiro li a noti¬ cia dos notáveis acontecimentos de dezembro em Fran¬ ça, o golpe d’Estado de Luiz Napoleão, suas pro¬ clamações , &c. Bem inesperadamente em tal situação tivemos conhecimento de um successo de tanta trans¬ cendência política. Passámos mui perto de Allipet, feitoria ingleza, onde se achavam fundeados 6 ou 8 navios, que n’este tempo vem aqui buscar azeite de coco, e outros generos. O tempo conservou-se excellente, e as noites de¬ liciosas de magnifico luar. N’essas noites era na ver¬ dade bello, de sobre a tolda do navio, observar a lua resplandecente com toda a sua luz? prateando as irre-
quietas aguas, fazendo divisar os perfis puros, e bem desenhados nos ceos, dos cumes dos Gaites, ou as suas fôrmas confusas e vaporosas, quando jaziam em distante horisonte; em quanto o navio, com o pan- no largo e alvacento, e como que riscado irregular- mente pelas sombras da cordoalha , se deslisava man¬ samente sobre as ondas, que rompia apenas com bran¬ do murmurío, impellido pela tépida e suave brisa, que o fazia balouçar vagarosamente, como se se pos¬ suíra da molleza propria dos climas orientaes. No meio d’esta formosa scena da natureza , dentro da ma- china inanimada que vogava solitária , os marinheiros agrupados á proa descantavam , versejando ao som da guitarra , contentes e sem cuidados no meio de seus rudes trabalhos, e da sua aventurosa vida: eu ía es- cutal-os, e divertia-me em ouvir, por entre muitas ideas extravagantes e disparatadas, alguns pensamen¬ tos bonitos ou graciosos. A 8 avistámos a ilha de Angediva, e defronte do seu forte ancorámos pela tarde: era a primeira terra que víamos da índia sujeita ao dominio portuguez; e se todas as mais desde Ceilão e Cabo Comorim até aqui só nos recordavam a perda de nossa grandeza, n’esta ao menos pascíamos com satisfação os olhos, porque ainda as glorias dos Gamas e dos Almeidas nao foram alli offuscadas pelos poderosos do tempo, os or¬ gulhosos inglezes. Esta ilha, pouco nomeada mesmo entre as nossas possessões, está 14 legoas ao sul de Goa , fronteira ao território do Canará: tem de comprimen¬ to 3 milhas, e quasi uma de largura; é cheia de pe¬ nhascos e elevações. Em 24 de setembro de 1498 Vas¬ co da Gama aportou a Angediva, quando se retirou de Calicut desavindo com o rei; n’ella se demorou 12 dias, sendo bem acolhido pelos naturaes, e d’alli partiu para Portugal. Em setembro de 1Ò05 o go¬ vernador D. Francisco d’Almeida se apossou d’elia, e fugiram os gentios; dizem que a fizera fortificar, mas parece mais certo que isto só teve logar mais tar¬ de no governo do conde d’Alvor. Tem actualmenle
28 371 habitantes, e um forte com guarnição de 70 pra¬ ças dos indígenas; porém nada rende para o Estado de Goa, que dispende mais de 8:000 pardaos annuaes para a sua conservação. Em 9 passámos em frente de cabo de Ramas, já no território de Goa, o qual fo¬ mos costeando demandando o ancoradouro da Aguada. Sentíamos aquelle natural alvoroço da chegada a uma terra portugueza, que para alguns era a da patria, e onde iam terminar esta viagem de 45 dias outros tan¬ tos soldados, que de Macao eram reconduzidos para Goa, por doentes ou incorrigíveis. Sommavam 11:700 as chibatadas que tinham sido applicadas áquelles 45 soldados, na maior parte por causa do vicio de em¬ briaguez: eram commandados pelo tenente Victorino José d’Ayalla, e acompanhados pelo cirurgião militar Vicente do Espirito Santo Esteves. Achava-me 1:000 legoas mais proximo do meu paiz, porem ainda a 2:000 distante d’elle, e tinha novamen¬ te de muito mais me afastar antes de o chegar a ver. Em 10 de fevereiro amanhecemos á vista de Mor- mugão, onde ha ancoradouro e abrigo, unico além do de Bombaim, que se pode demandar em todo o tem¬ po n’esta costa. Bordejámos algum tempo, até que, tendo vindo para bordo um pratico, demos fundo pe¬ las 11 da manhã em frente da praça d’Aguada. E’ linda a entrada da barra , que abre quasi em triân¬ gulo, ficando á esquerda a mencionada praça, á di¬ reita o Cabo coroado de um vistoso convento e igre¬ ja, chamado Nossa Senhora do Cabo, e em frente a fortaleza dos Reis e o rio Mandovi, que conduz á cidade: todas as margens e terrenos que se descobrem se veem cobertos de coqueiros, aos quaes na Asia cha¬ mam geralmente palmeiras. Trocaram-se as salvas do eslylo, e logo apparece- ram 3 ofhciaes da corveta Iris; n’essa mesma tarde fui com elies para terra no escaler que os conduzira , como chamam aqui a uns grandes botes com 8 ou 10 remeiros nativos, que vão sempre fazendo uma singu¬ lar algazarra, como para se excitarem a remar. E1 uso'
29 tia Asia nos escaleres e galiotas fazer taes algazarras , nas quaes se animam e muitas vezes se descompõem; mas estes mesmos remadores nas tonas só cantam de noite modas do paiz, e de dia remam calados. A subida do rio é linda, e muito pittoresca a vis¬ ta das fortalezas dos Reis Magos e Gaspar Dias, e dos vários edifícios, uns caiados outros de cores, que se destacam por entre as palmeiras de um e outro lado do rio: a cidade dista umas 4 milhas do ancoradouro. Ao sol posto pizei com emoção a terra famosa dos Al- buquerques e dos Gamas, e pouco depois era condu¬ zido n’uma maxila, que pela primeira vez via e ex¬ perimentava, á residência do juiz da relação o con¬ selheiro Joaquim Antonio de Moraes Carneiro, onde acceitei a obsequiosa hospedagem que já me havia des¬ tinado. Conversámos n’essa noite longamenle sobre as cousas de Macao, de Goa, e do nosso Portugal.
30 * Residência em Nova-Cioa * monumento de AÍTonso d*AISui
31 rotação em 10 minutos: é visivel a 13 milhas ao mar, tem proximo um relogio, e um grande sino, que per¬ tenceu aos conventos de Goa. De tarde fui passear pela cidade. Examinei de per¬ to o monumento erigido a Affonso d’Albuquerque na praça do seu nome: é uma rotunda de máo gosto, sustida por grossos pilares e columnas: debaixo da cupula está uma estatua antiga do heroe, em pedra cor de bronze, que esteve primitivamente no frontis¬ pício do recolhimento da Serra, d’onde foi transpor¬ tada para este monumento; o que se deve á lembran¬ ça patriótica do meu antigo e já fallecido condiscípulo e amigo Claudio Lagrange Monteiro de Barbuda, se¬ cretario que foi do Estado de Goa. O monumento começado em 1843 , foi inaugu¬ rado em 29 de outubro de 1847, no governo de José Ferreira Pestana. A estatua em si não é de mérito; mas é veneranda pela sua antiguidade, e pelo grande homem que representa, o qual em 1503 veiu pela pri¬ meira vez á India, e a governou de 1509 até 1515: conquistou Ormuz, Dabul, Calicut, Goa por duas vezes, Malaca, e outras varias cidades; expulsou os Árabes de Adem, chegou ás portas do Mar-Verme¬ lho , &c. Em sutntna legou á sua patria o vasto e gran¬ dioso império portuguez no Oriente, tão solidamente fundado, que 3 séculos de desgraças e de erros ainda o não fizeram perder de todo. N’esta tarde continuei o passeio até ao Campal, ou Campo de D. Manoel, que é logar aprazível, com uma bonita ponte, onde ha uma estatua de Minerva recostada, e as armas da camara com algumas ins- cripções em versos de pouco merecimento. Na manhã seguinte fui a Ribandar, logarejo pro¬ ximo, seguindo a ponte d’este nome que o une com Pangim, e que é uma obra publica magnifica: tem de comprimento perto de 2 milhas, ou com exactidão 4:448 covados; conta 44 arcos para a passagem das aguas, 38 do líido de Pangim, 3 no meio, e 3 em Ribandar: é uma espeeie de calçada ou dique atravez
32 de um terreno pantanoso e alagado pelas marés: foi construída no governo do conde de Linhares , sob o rei- nado de Filippe III, e teve começo em 1633 e se acabou um anno depois em 1634; tudo segundo consta de uma inscripção, que se encontra sobre a ponte k> go á saída de Pangim. Existem mais duas inscripções, uma no meio, outra no fim da mesma ponte, que se referem a reedificações que tiveram logar cm 1699 e 1771: esta obra acha-se ainda muito solida, e bem conservada. Em pouco mais de um quarto de hora percorri na maxila toda a ponte. Caberá aqui dizer o que é este meio de conducçâo. Imagine-se um sofá sem costas, com 9 cabeceiras, suspenso por estas a um longo e grosso bambu, que assenta sobre as cabeças de 4 ho¬ mens collocados na mesma linha, 9 atraz e 9 adian¬ te, tendo cada um na cabeça um rodilhão. Do bam¬ bu pende urna cobertura, formando uma especie de barraca com o tecto cm angulo, e tendo ao lado 9 pos¬ tigos: só para defender do sol usam também de um tecto plano movei, que gira sobre o bambu á vontade do conduzido, por meio de duas fitas que leva nas mãos, si milhando um pouco ao governar um leme em escaler: chamam a estas coberturas lenda e tendilhão» Os conductores da maxila são chamados boia%cs , e per¬ tencem ás castas mais inferiores entre os naturaes; an¬ dam nus, só com o aholnei, ou especie de ceroulas muito curtas acima do joelho , que substituiu na cida¬ de o célebre langolhn (simples lenço preso, anterior c posteriormente, a um cordão que cinge os rins), e os das casas mais abastadas usam de um saiote curto da cintura aos joelhos: o seu andamento regular é o de um cavallo a trote largo; vão a grandes distancias, e é o modo de fazer jornadas em todo o Indostão. Nas maxilas póde-se ir deitado, sentado, ou recosta¬ do; mas ha algumas em forma de cadeira em que apenas se anda sentado. No logar de Ribandar visitei o commandanle da corveta íris, e partimos pelo mar para o arsenal em
Goa-Velha, que dista de Nova-Goa ou Pangim 5 a 6 milhas pelo rio acima, passando em frente do logar de Panei im ou S. Pedro , e de vários edifícios em ruí¬ nas, como o antigo hospital, &c. Desembarquei no arsenal, que examinei com toda a miudeza, acompa¬ nhado pelo dito commandante, que servia de inspe¬ ctor do mesmo arsenal. E’ notável pela sua grande extensão, officinas, magníficos armazéns, &c. Tem uma boa capella e muito antiga. A casa do arrpa- mento e tudo o mais se resente do grande desleixo até aqui havido, tendo-se deixado estragar, como em Macao, importantes valores em artilharia, reparos, projectis, munições, &c. O actual governador tem feito alguns melhoramentos; mas o local doentio d’este grande estabelecimento, e a sua distancia da capital, o farão abandonar mais tarde ou mais cedo, creando- se outro em Pangim, ou na margem opposta do rio. Vi uma peça de ferro , ou pedreiro mourisco, do com¬ primento de 16- palmos, e 14 pollegadas e 3 linhas de diâmetro: é construído de barras de 1 pollegada de largo, convenientemente reforçadas, e linha ao lado algumas enormes balas de pedra do seu calibre. Este pedreiro estava no baluarte S. Thiago, e por ordem do governador barão de Candal foi em 1840 recolhido para o arsenal, e inaugurado como troféo. E’ lastima que fosse redwúdo a moeda, em 1841 , outro monumento d’este genero: era uma columbrina com 16 pés de comprimento, tendo na bollada as ro¬ das e a imagem de Santa Catharina. Fora pelo sena¬ do mandada fundir em Goa cm 1595 pelo célebre fun- didor Pedro Dias Bocarro, o qual e seu filho Fran¬ cisco Dias fundiram na Índia no primeiro século da conquista muitas peças de bronze e ferro, que se es¬ palharam por todas as nossas fortalezas do Oriente, existindo ainda algumas d’ellas em Macao. O arsenal ainda no actual estado denuncia bem a opulência da antiga Goa, e a grandeza do poder por- tuguez na índia: foi ampliado no tempo da conquis¬ ta, antes da qual tinha sido fundado por Melique, 3 ‘
34 % Ocem, que em 1479 fez mudar a cidade para este le¬ gar, transferindo-a da antiga Goa-Velha ou Goa Mo- golica, que jazia a duas milhas de distancia, onde ainda hoje se descobrem as suas ruínas. Pizando este terreno lembrava-me com orgulho do que fomos outr’ora, quando aqui se prepararam as fortes armadas para avassallar a Ásia. Em 1567 o \i- ce-rei D. An tão de Noronha fez saÍF de Goa ao mes¬ mo tempo as seguintes armadas: para o estreito de 3Meca 9 navios, entrando 4 galeões; para differentes portos do Malabar 25; para o norte mais de 20; e o proprio vice-rei saiu de Goa para Mangalá com 55s ■velas, entrando 21 galeões, e deixando ainda a capi¬ tal guarnecida de forças marítimas. Já nos tempos de decadência , por 1580 , ainda o governador Francisco Barreto juntou em Goa mais de 100 velas, entrando 25 galeões, 10 galés, e 70 fustas. Porém as nossas grandes corrstruçções navaes não se fa¬ ziam rFeste arsenal, onde a primeira embarcação de gavea de grande lote que se construiu foi a eorvela Tiova Goa, lançada ao mar em 9 de janeiro de 1851. O nosso grande estaleiro antigo era Cochim, onde possuíamos as ricas madeiras, que ainda hoje d’alli saem para toda a parte; os inglezes lá construem an- Hualmente de 30 a 40 navios de todos os lotes. Foi na Índia que se fez a celebre náo Santa Catharina, de 800 ou 1:000 toneladas, que em 1521 conduziu a infanta D. Beatriz á Saboia. Notarei aqui, a proposito de cousas de marinha, que a barça portugueza l>ae Alam , do proprietário mouro Mussagy Valligy, foi a primeira que da ín¬ dia portugueza se dirigiu a Lisboa, tripulada com in¬ dígenas; pelo que o dito Mussagy ao chegar a Lis¬ boa, em 1850, foi agraciado pelo governo com a gra¬ duação honoraria de capitão tenente da armada. Vi no arsenal uma plantação d’algodao , manda¬ da fazer pelo barão d^Ourem , como repetida expe-» ? iene ia e modelo para tentar introduzir esta util cul- Uua no Estado, á qual porém e a outras de grande
m vantagem , como a da canna , noz moscada , canel- la 9 &c. se oppõe, e a toda a especie de progresso na agricultura e na industria 5 o incrível desleixo dos pro¬ prietários 9 e os hábitos indolentes e contrários a toda a innovação ? tão arreigados no povo gentio e christão. Fui depois ver os conventos de Goa Velha. A Sé é um magnifico templo de 3 naves, beJIa frontaria, e ricas obras de talha. Affonso d’Albuquerque quan¬ do pela segunda vez tomou Goa em 25 de novembro de 1510, dia de Santa Catharina, elegeu esta Santa para padroeira da cidade, e ainda hoje o é de todo o Estado, e logo lhe erigiu no ponto por onde retomou a cidade, uma capella que por longos annos serviu de unica parochia aos christaos. Em 1532 foi ampliada^ mas em 1623 se concluiu no mesmo locai o templo da Sé que actualmente existe. Em seguida visitei os conventos de S. Caetano (onde ha algumas cellas e camas para hospedagem), o do Carmo, e S. Francisco; edificados pelos annos de 1521 , 1630 , e 1650. Todos são notáveis pela gran¬ deza , de seus templos que ainda tem bem conserva¬ dos seus excellentes dourados 5 e bellos trabalhos de madeira. Estes edifícios são extensos, posto que al¬ guns em parte já abatidos. S. Caetano similha em pe¬ queno ponto á basilica de S. Pedro em Roma, com uma elegante cupula. Vi em alguns dormitorios cTestes edifícios vários quadros, em geral de máo desenho, mas representando curiosos factos históricos, principal¬ mente os de trabalhos e martyrios de missionários nas differentes partes da Asia. Demorei-me bastante tempo na igreja e casa do Bom Jesus, tendo sido obsequiosamente acolhido pelo administrador o conego Caetano João Peres. A igre¬ ja é grandiosa, e muito notável o frontispício de gra¬ nito escuro, variado com ornatos e relevos: foi edifi¬ cada em 1594 á custa dos legados de D. Jeronymo Mascaranhas, capitão de Cochim e Ormuz, que jaz sepultado na parede direita da igreja, com epitaphio e uma lamina de bronze representando em relevo va« 3 *
36 íios feitos do mesmo capitão. Debaixo do coro acham- se as relíquias de Santa Paulina Martyr. A sacristia é magnifica, e feita á custa do devoto Balthasar da 'Veiga alli sepultado em 1659: tem bellos gavetões, e sobre elles uma serie de quadros de virgens mar ty¬ res em meio corpo, que me pareceram de merecimen¬ to. O mais notável porém para ver n’esta igreja, e que mais atlrahe a allenção dos visitantes, é o tu¬ mulo do apostolo da India S. Francisco Xavier. Compõe-se de 3 degraos ou socalcos quadrilongos, tendo o l.° d’altura 6 palmos, de comprimento c26|, e de largura 13 : os outros dois vão diminuindo em di¬ mensões: todos são de finíssimo jaspe de differentes cores, contendo muitos ornatos, anjos, cherubins, re¬ levos, &c. alguns de alabastro, e tudo do mais per¬ feito trabalho. Em cada uma das quatro faces do £.° socalco ha uma lamina de bronze, representando em alto relevo, e em figuras quasi destacadas do fundo, as mais notáveis passagens da vida do Santo} vendo- se na lamina da cabeceira o mesmo Santo na praia da ilha Sanchoão (na China), estendido sobre uma mi¬ serável esteira na choupana do portuguez Jorge Alva¬ res. N’aquella ilha existe ainda a lapida da sua se¬ pultura com uma inscripção em chinez, e a seguinte traducçao portugueza : Aqui foi sepultado S. Fran¬ cisco Xavier da Companhia de Jesus Apostolo do Oriente. Este padrão se levantou no anno de 1639. Ainda hoje se veem também as ruinas de uma peque¬ na capella, que alli se edificou no mesmo anno. Aquelles relevos são de alto mérito artístico, e quanto a mim a obra mais maravilhosa que contém este fa¬ moso tumulo. Sobre o 3.° socalco assenta o caixão, forrado exte¬ riormente de prata aberta em lavores sobre veludo car¬ mesim , formando 3£ pequenos quadrados ou lami¬ nas , representando em relevo vários milagres e acções do Santo. Na borda superior do caixão ha 16 anjos de prata, e n’outras posições 6 pinhas grandes e ou¬ tras pequenas, também de prata, brincadas e com
* 37 flores douradas, e guarnecidas de pedras brilhantes. Ha S.° e 3.° caixão interior, e dentro existe o corpo do Santo , que antigamente se expunha com frequên¬ cia á visita dos fieis, o que pela ultima vez teve Io- gar em 1782. Estão pendentes diante do tumulo qua¬ tro grandes alampadas de prata , faltando oito simi- lhantes que foram para a casa da moeda : as quatro pesam 305 marcos, e o caixão acima referido 600 marcos. Pertenciam mais a este tumulo vários objectos d’ouro e prata de muito valor intrínseco, e de gran¬ de primor de trabalho, de que o Estado tomou con¬ ta, restando porém ainda alguns de bastante valor, ornando parte d’elles a imagem em grande do Santo, que está no altar fronteiro ao tumulo que deita para o cruzeiro da igreja, e que é de prata massiça. Diz-se que este rico mausoleo foi dadiva de um grao-duque de Toscana , e n’elle foi collocado o cor¬ po do Santo em 1655, o qual tinha sido conduzido de Sanchoâo para Malaca, e d’alli para Goa em 1554. A capella onde jaz é interiormente ornada de ricas douraduras, obras de talha, e pinturas em 27 qua¬ dros, apresentando passos da vida do apostolo, alguns dos quaes são de grande viveza e frescura de tintas, parecendo-me de merecimento, e que pertencem á eschoJa italiana. Sobre a porta da capella do lado ex¬ terior existe um quadro, representando o Santo em meio corpo, que dizem ser seu fiel retrato feito á sua chegada da Europa. S. Francisco Xavier é o protector do Estado de Goa desde 1683 , epocha em que o go¬ vernador conde d’Alvor, vendo-se em apertadas cir¬ cunstancias por invasão de inimigos, entregou o bas¬ tão e a auctoridade ao Santo, e effectivamente salvou o Estado. Os governadores vão hoje alli tomar posse e trocam o seu bastão da governança pelo do Santo. Por ultimo visitei o convento e igreja de Santa Monica. Este edifício está ameaçando ruina, bem co¬ mo todos os outros mencionados, e o tumulo de S. Francisco Xavier está ern perigo de se perder, se a
38 tempo nao o removerem , ou for reparada a igreja do Bom Jesus. Em frente das Monicas existem as vastas ruínas da igreja e grande convento de Santo Agostinho, e as de \jarios outros edifícios sirnilhantes em todo o re¬ cinto da velha cidade, e que at testam a sua antiga magnificência, e quanto lhe quadrava o nome de Goa a Dourada, que os orientaes lhe davam , sendo real¬ mente para maravilhar que em tão pequeno espaço existisse tal profusão de bellos templos, e tão espaço¬ sos conventos. A extincção das ordens religiosas era geralmente muito lastimada em Goa. Havia ao tempo da extinc¬ ção, em 1835, oito ordens religiosas; quatro funda¬ das no século XVI, ties no século XVII, e uma (a carmelitana) no meado do século XVI II : tinham 37 habitações ou conventos, com 248 religiosos, 371:340 pardaos (60 contos de réis) de valor em fundos, e de lenda 60:348 pardaos, ou perto de 10 contos. Proximo da Sé existe ainda o antigo arco que or¬ nava a praça dos vice-reis, sobre o qual está a esta¬ tua de Vasco da Gama, que o historiador Diogo do Couto viu inaugurar. Tem a seguinte inscripção: Rei¬ nando cl rei D. Filippe 1 po% a cidade aqui D. Fas¬ co da Gama, primeiro conde almirante, descobridor c conquistador da Índia, sendo vice-rei o conde D* Francisco da Gama, seu bisneto, no anno de 1597. Esta eslatua existe ainda sobranceira ás vastas rui- nas de que está rodeada, como a fama do heroe que representa ha de sobreviver á existência da naçao a que legou tanla gloria ! Parece que no antigo portal da cidade, que foi depois transformado no referido arco, é que primeiro esteve a estatua de Affonso d1 Albuquerque, que se \ê actualmente em Pangim. Os governadores quando chegam á índia, desembarcam no caes chamado de Vasco da Gama, e passando por baixo d’aquelle ar¬ co vão tomar posse á igreja do Bom Jesus. De Goa a Dourada resta hoje aquelle venerais
39 do monumento , e algumas desertas paredes elaustraes e igrejas, que o tempo ameaça breve desmoronar; tudo o mais, seus palacios, suas praças e ruas magnificas , seus templos sumptuosos, seus restos da archilectura india misturados com os esplendores da arte christã, t udo é um mar de ruínas! A opulenta capital do im¬ pério portuguez no Oriente chegou ao maior auge do seu esplendor no meado do século XVI; logo de¬ pois começou a decair pelas vicissitudes políticas da monarchia, mas as terríveis epidemias que n’ella se desenvolveram fizeram apressar a sua mina, e por fim abandonal-a de todo. No regresso ao fim da tarde vi perto da povoação de Panelim ou S. Pedro o palacio dos arcebispos com bei la frontaria, mas dizem estar interiormente muito arruinado. Passando em Ribandar, residência da aris¬ tocracia de Goa, vi um acompanhamento de noivado que se dirigia para a igreja : o noivo ía de casaca e es¬ padim , objecto obrigado em taes actos, levando ao lado um boiaz com alto párasol, ou umbrella. Um dos do acompanhamento ía de casaca, colete branco, um desconforme chapeo redondo na cabeça, dos que na frase chula se chamam balões, de calção branco, e de pernas nuas e chinellos nos pés sem meias. Todo o caminho é lindo, quasi sempre bordado de palmeiras, com várias casas debaixo d’ellas, e até dos telhados d’algumas lhes saíam os altos e esbeltos troncos. Quando atravessei a ponte de Ribandar o sol tocava quasi o horisonte, escondendo-se atraz de den¬ sos palmares na margem direita do Mandovi: a tarde estava perfeitamente serena, e deliciosa a brisa refri¬ gerante do fim do dia; era alta a maré, e cobria to¬ do o terreno a um e outro lado da ponte, de modo que eu , recostado mollemente na maxila, seguia com rapidez um caminho por entre as aguas espelhadas, levado pelos infatigáveis boiazes, que corriam aqui mais que o ordinário. Foi realmente muito agradavel esta parte da digressão, e deliciosamenle gozei da bel- la-scena que de todos os lados se apresentava.
40 Varias digressões em Pautgim. partida d#es(a cidade» um dia na Aguada , e recordações «TAftonso crAllm*£uei*
M diá; ó mais recente é o do penúltimo governador José Ferreira Pestana , faltando alguns dos retratos dos seus im media tos antecessores. Em 14 fui de tarde a um bonito passeio até ao convento do Cabo, na barra e ponta fronteira d Agua¬ da, cujo local é muito pittoresco, e o mais agradavel dos que vi nas proximidades de Pangim : domina todo o horisonte para o lado do mar, iica-lhe ao norte a Aguada, e para o sul a celebre peninsula de Mormu- gão, onde ha ruinas das famosas fortificações e mura¬ lhas que a circumdavam toda, e as da nova cidade, que para capital do Estado alli se principiou nos fins do século XVII ; conserva-se apenas hoje uma bateria em regular estado. Observei (Peste promontorio um magnifico occaso do sol, mergulhando-se no Oceano indico. Estive na igreja da invocação de Nossa Senhora e no convento, que é pequeno e serve de residência ao administrador, e a algumas famílias da cidade, quando querem ir alli tomar ares, que são muito sa¬ lubres: contíguo ha um bonito e extenso bosque de cajueiros, que estavam carregados de fructo. Também alli existe um cemitério inglez, hoje abandonado. Ao fechar do dia retirámos para a cidade, eu e um amigo que me acompanhara, ora por debaixo dos copados palmares, ora á beira das ondas em bonitas praias, e nos logares que o permittiam, caminhando a par as duas maxilas, iamos agradavelmente conversan¬ do n’aquelles leitos ambulantes. Na madrugada de 15 fui ao telegrafo, que está sobre o outeiro denominado de Pangim , que corre até ao Cabo, e onde fora talvez mais acertado ter estabe¬ lecido a nova cidade, a qual onde está é ainda doen¬ tia , especialmente em alguns logares: goza-se d’alli um bonito golpe de vista. Entrei na igreja próxima da Con¬ ceição, unica que ha em Pangim , e pouco bem arran¬ jada ; mas de longe é vistoso o frontispício : parece que foi o primeiro templo que se edificou no Estado fora da capital em 1541. D’alli fui assistir á parada do 3,°
batalhão; tinha boa banda de musica, e os soldados estavam bem fardados e equipados, pelo mesmo mo¬ delo dos de Portugal, tendo porém alpercatas em vez de sapatos. Fui depois ao quartel d’artilharia, e ouvi alii a missa do batalhão. A’ saída tive occasiao de observar mais detidamente o singular vestuário das mu¬ lheres nativas, que envolvem o corpo todo e a cabeça n’uma especie de grande lençol branco. Na mesma manha de 15 fui com o gentio Bicu ver o pagode de Brama, para o lado de Santa Ignez : é pequeno e muito pobre, mas fiz idéa do estylo da sua construcção, differente da dos pagodes chinezes; tem defronte da porta uma torre ou antes pyramide 3 formada de successivos socalcos ou altos degráos qua¬ drados, progressivamente menores. Entrei em varias lojas de gentios, todas mui inferiores, em pequenos cubículos, não apresentando nada de industria do paiz, apenas alguns artefactos de prata ou de ouro, que cus¬ tam a encontrar a não serem encommendados. O quartel d’artilharia é o maior e mais regular edifício da cidade; tem 4 grandes faces, e além dos alojamentos militares , estão alli estabelecidas a rela¬ ção, a livraria publica, a eschola mathematica e mi¬ litar, o supremo conselho de justiça militar, o audi¬ tório do juizo de direito, as aulas das línguas latina, franceza, ingleza, e marata, e o theatro União. Este grande quartel foi construído no tempo ( 18§7 a 1835) do governador D. Manoel de Portugal e Castro, bem como a casa da alfandega e a da moeda , o campal, &c. Pangim primitivamente era um bairro da aldêa Taleigão, só habitado pelos pilotos da barra de Goa, e por alguns pescadores, tendo apenas de notável a fortaleza do Idalcão, hoje palacio do governo, de que ha pouco fallei. Nos últimos annos do século XVII , começou a ter algumas casas de campo de fidalgos, e pessoas abastadas. No meado do seguinte século a for¬ taleza foi reduzida a palacio , e tornou-se a effectiva residência dos governadores: apesar d’isto Pangim até ao fim do século ultimo, não passou de solitária há-
43 bitaçào dos vice-rejs, de nlguns empregados e fidal¬ gos, e nas outras classes só contava pescadores, azei- teiros, e alfaiates. No principio d’este século começou a mudar de face este Ioga rejo, cheio de palhoças , palmares e var- zeas , cortado em diversas direcçoes por 4 braços do rio que o banha ao norte. Para isso influiu a trans¬ ferencia para alli da alfandega em 1811, á qual^em 1818 se seguiu a da contadoria e outras repartições, e pouco depois a relação, chancellaria, &c. Tanto bastou para o povo elevar Pangim á cathegoria de villa, e depois dos melhoramentos mencionados foi em 1843 officialmente declarada cidade, e capital da ín¬ dia portugueza, com a denominação de Nova-Goa. Tem hoje bons edifícios, conta 14 ruas principaes, 3 praças, e 7 largos, tudo espaçoso e regular, e 9:500 habitantes. O dia 16 foi occupado em despedidas e arranjos para a retirada de Goa. De tarde tendo-me despedi¬ do agradecidamenle do meu benigno hospedeiro, a quem muito favor devi, embarquei n uma tona mes¬ mo á porta da casa onde residia, no bairro das Pon- tainhas, e que deitava para um braço do rio. Fomos entrar no rio Mandovi, passando debaixo dos vetus¬ tos arcos principaes da ponte de Ribandar; seguimos em frente da cidade, e contemplando estas bellas mar¬ gens , provavelmente pela ultima vez na minha vida, cheguei a bordo já de noite, durante a qual se annun- ciára a saída ; mas ficou deferida para a seguinte. Este porto de Goa é formado pelas duas extremi¬ dades das peninsulas de Salsete e Bardez, e dividido pelo extremo saliente da ilha de Goa, formando os dois ancoradouros da Aguada e Mormugâo. No da Aguada podem surgir os; navios sem risco desde se¬ tembro a fim de maio, e largar ancora em 5 braças de fundo; e no de Mormugâo em 3è e 4 proximo á terra. De inverno os ventos e os máres grossos não per- mittem a estada n’estes ancoradouros, e só em casos urgentes podem os navios com os noroestes aportar no
U de MormugSo. O banco que n’esta estação obstrue a barra, impede que as embarcações se acolham ao rio Mandovi. A entrada do porto é defendida pelas duas fortalezas de Mormugão e Aguada, que dominam os dois surgidouros, e a foz do rio é protegida pelos for¬ tes dos Reis Magos ao norte, e Ciaspar Dias ao sul, distantes uma milha entre si. De rios a dentro existiam vários reductos e fortins hoje abandonados. Passei quasi toda a manhã de 17 sentado indolen¬ temente no tombadilho da corveta, entregue aos dif- ferentes pensamentos que me suscitava a contempla¬ ção d’aquellas lindas margens e vistosas fortalezas. Transportava-me em imaginação ao formoso viver da primeira epocha das glorias portuguezas na Índia, re¬ passando pela memória os grandes feitos de nossos avós , é o grao de esplendor e de poder a que elevaram a capital do império portuguez na Asia; essa Goa, a rainha do universo oriental, que com espanto de to¬ dos os povos dominava em quasi (>:000 legoas de cos¬ ta , desde o cabo da Boa Esperança ás praias da Chi¬ na , e á qual obedeciam 30 cidades cabeças de provín¬ cias, e mais de 35 reinos tributários; a alliada dos imperadores da China, do Japão, do Monomotapa, e dos mais poderosos soberanos da Asia e da Africa ! Sobre tudo porém me dominavam as recordações do grande Albuquerque, e dos últimos dias da sua existência, passados no mesmo logar em que eu me achava. E1 sabido que Affonso d’Albuquerque acabou seus dias amarguradamente, e sob o pêso da ingratidão do seu soberano. Mandára elle da Índia presos para o reino, por justos motivos, a Lopo Soares d’Alberga- ria e a outro indivíduo: ambos estes conseguiram re- habilitar-se na corte; Albergaria foi nomeado para substituir Affonso d’Albuquerque no governo da ín¬ dia, e o outro seu secretario. Quando Albuquerque, estando em Ormuz ou no caminho para Goa, tal soube, juntou as mãos, e levantando-as ao Ceo disse estas memoráveis e sublimes palavras: Estou mal com
45 eUrei por amor dos homens , mal com os homens por amor d'el-rei. Velho, volta-te para a igreja, e aca¬ ba de morrer ..... por quanto importa á tua hon¬ ra que morras, e nunca tu deixaste de fazer o que á honra convinha. Já tão fraco que mal podia ter se em pé, escreveu a derradeira carta a el-rei D. Manoel, em que só lhe pedia que fizesse grande a seu filho, e concluía : Pelo que toca ás cousas da Índia nada digo ; ellas faltarão por mim a vossa alteza. Chegou ainda com vida á barra de Goa, onde ex¬ pirou com 6& annos de idade, no domingo 16 de dezembro de 1515. Foi amortalhado no manto da or¬ dem inilitar de cavallaria de S. Thiago da Espada , de que era commendador, e o seu corpo se depositou na capella de Nossa Senhora da Serra, que elle mandára edificar na cidade de Goa pelo feliz successo da conquista de Malaca. Em maio de 1566 foram os seus ossos trasladados para Portugal, e se depositaram no convento da Graça em Lisboa. No Ensaio Estatístico do reino de Portugal e 41- garves , de Adriano J3albi, se lè ( e hoje já por ahi anda repetido em obras porluguezas) que na sacristia do dito convento da Graça se acha o mausoleo do invicto Af- fonso d’Albuquerque. E’ um erro que cumpriria corrir gir. O mausoleo que está na sacristia é de Mendo de Foios Pereira, secretario d’Estado d’el-rei D. Pedro II. As cinzas de Affonso de Albuquerque quando che¬ garam a Portugal foram collocadas na capella mór da dita igreja de Nossa Senhora da Graça, em nobre se¬ pultura; porque seu filho natural Braz d’Albuquer- que (a quem el-rei D. Manoel mandou que se cha¬ masse Affonso, em memória de seu pai) contratou em 1566 com os padres do dito convento, darem-lhe a capella mór da referida igreja para n’ella collocar os ossos de seu pai, e dos successores do morgado que este instituíra; para o que deu-se ao convento casaes c propriedades de muito rendimento, com a obriga¬ ção de duas missas quotidianas.
46 Este Braz ou Affonso d’Albuquerque casou duas vezes: teve um filho que morreu no berço, e uma filha que foi mulher do primeiro conde de Basto, e não teve descendencia. Deixou Braz d1 Albuquerque um filho natural chamado D. João Affonso d’Albu¬ querque, o qual denunciou os referidos bens doados aos frades da Graça como . vagos para a coroa , por falta de certas aolemnidades na instituição da capella. Seguiu-se um renhido pleito, em que interveiu o mes¬ mo D. João Affonso d’Albuquerque, mas em que fo¬ ram oppositorès originários ao convento os successores legítimos de D. Constança , irmã do grande Albu¬ querque, e a favor dos quaes se decidiu a questão, sendo o mosteiro da Graça condemnado á restituição dos bens doados por Braz d1 Albuquerque, por sen¬ tença da relação de Lisboa de 10 de maio de 1603, a qual porém parece que só teve plena execução em 1681. Os frades da graça venderam depois o padroado da referida capella mór aos condes da Ericeira, para n’ella se sepultarem, e pelos annos de 1635 a 1639 foram os restos mortaes de Affonso d’Albuquerque ti¬ rados do logar em que estavam, e lançados no jazigo commum da familia dos Albuquerques, sem nenhu¬ ma distineção, na casa do capitulo que eslava no claustro grande. Estavam esses restos mortaes em um caixão grande, que continha outro de chumbo, e ti¬ nha este na tampa gravada uma lenda que indicava estar alli Affonso d’Albuquerque, segundo dizia um ancião religioso d’aquelle convento, ainda ha pouco fallecido. Eis-aqui a origem da injuria, muito gravè sem duvida , feita ás cinzas de tão grande homem. O des¬ tino as vingou em parte; porque o mausoleo do con¬ de da Ericeira D. Diogo de Menezes erigido em 1639 , onde também se continham as cinzas do governador da India D. Henrique de Menezes, teve a mesma fortuna que o de Affonso d’Albuquerque, pois que os frades quando posteriormente reformaram a igreja v
47 quizeram que a casa da Ericeira corresse com as des* pezas da capella mór, e como o não conseguissem des¬ mancharam tudo , e a fizeram á sua custa. A antiga casa do capitulo faz hoje parte do quar¬ tel do regimento d’infanteria número 10, e as cinzas do maior guerreiro porluguez alli serão talvez diaria e desacatada mente pisadas pelos militares dos nossos dias ! Releve-se-me esta divagação, e outra que vem aqui a pêlo sobre as cinzas de Vasco da Gama. Já disse, fallando de Cochim, que o corpo do grande almirante fora sepultado no convento da villa da Vidigueira. Depois da extincção das ordens reli¬ giosas ficou este edifício ao abandono. Em 1344 e 1845 o abbade A. D. de Castro e Souza dirigiu por mais de uma vez representações ao governo, acerca dos bru- taes e infames actos praticados na sepultura de Vasco da Gama, e pediu que as suas cinzas fossem removi¬ das para o templo de Nossa Senhora de Belem, em Lisboa. Isto deu logar a que fosse expedido um officio ao governador civil de Beja, que foi respondido a 8 de fevereiro de 1845 por José Silvestre Ribeiro, que então exercia aquelle cargo. D’esta resposta, que cor¬ re impressa, transcrevo os trechos seguintes: « Dando á representação do abbade Castro, e ás or¬ dens do governo de sua magestade, a consideração que mereciam , entendi ser do meu dever transportar-me á villa da Vidigueira, onde descançam os restos mor- taes de Vasco da Gama. No dia seis do corrente pas¬ sei á dita villa, e sem detença me encaminhei ao edi¬ fício do extincto convento dos Carmelitas Calçados, sito a um quarto de iegoa da Vidigueira, para o lado do norte, e entrei na igreja profanada da invocação de Nossa Senhora das Relíquias, dependencia do mes¬ mo extincto convento, que tudo é hoje propriedade particular de D. José Gil Tojo Borja de Menezes , residente em Portei. a No presbyterio, para o lado da epistola, e não para o do evangelho, como diz o abbade Castro, está a sepultura de D. Vasco da Gama, tendo sobre a
48 campa o seguinte epitáfio: Aqui ja% o grande ar* gonauta D. Vasco da Gama, l.° conde da Vidi- gneira , almirante das Índias Orientaes , e «ei* fumo- so descobridor. Ao lado do evangelho está também outra sepultura , onde jaz D. Francisco da Gama , 4.° conde da Vidigueira; e no meio do coro da capella mor está a sepultura de D. Vasco Luiz da Gama* 3.° neto de D. Vasco da Gama, l.° marquez de Niza. « Mal imaginava eu que na occasiâo venturosa em que ia ver com religioso respeito, e patriótica admi¬ ração os restos mortaes do illustre e afamado argonau¬ ta, D. Vasco da Gama, me estivesse reservado o sen¬ sível e dolorosissimo golpe de presenciar o aclo do vandalismo mais barbaro, que entr^ homens civilisa- dos se tem commetlido! A indignação foi n’este caso igual á vergonha, ao considerar que portuguezes des¬ naturados se arrojassem ferozes e estúpidos a profanar o jazigo d’um grande homem , talvez somente para despojarem o seu cadaver d’alguma joia de valor, que com elle tivesse sido encerrada no tumulo i « E com tudo, assim havia succedido ! Duas das pedras que cobrem a sepultura foram arrancadas, para darem entrada para o jazigo do heroe a monstros, que não se horrorisaram de devassar aquelle logar sagrado, despedaçar o ataúde, roubar alguma cousa de preço, e quebrar alguns dos venerandos ossos do magnanimo descobridor das índias Orientaes ! « Este crime, que não tem qualificação nas lín¬ guas humanas, foi perpetrado no anno de 1840, se¬ gundo me informaram o administrador do concelho da Vidigueira, e outras pessoas da mesma villa. Pergun¬ tei como pôde fazer-se isto, qual procedimento se to¬ mara em tal occasiao, ou como passou inobservado um facto de tal escandalo. .. . e ninguém soube dizer-me uma só palavra, d’onde conclui, que ninguém n’essa epocha deu a este caso a importância que merece, e que por outro lado o vandalismo dos malvados só foi igualado pelo indolente descuido de quem devia vigiar pela conservação de tão precioso monumento.
AO « Penetrado de profundo horror, e de pungente tristeza, mandei immediatamente lavrar um auto pelo administrador do concelho , no qual se lançasse a noti¬ cia do que se encontrou, e é o que acompanha por copia este officio. Em seguimento ordenei ao mesmo funccionario que mandasse igualmente collocar bem as duas pedras que haviam sido deslocadas, e intimasse o proprietário actual da igreja que nao deixe alii en¬ trar ninguém até que eu possa dar as providencias ne¬ cessárias. Propunha em seguida o referido governador civil o modo de fazer a trasladação de que se tratava, a qual até hoje ( 1853 ) não se realisou , tendo caído em esquecimento esta patriótica lembrança do benemerito abbade Castro e Sousa. Os manes dos dois heroes que não cabiam em to¬ da a Asia ahi jazem desprezados, e sem vindicta as injurias e as execrandas affrontas que tem soffrido as suas cinzas; em quanto outras dos mais insignifican¬ tes sevandijas, ou das maiores nullidades, por ahi es¬ tão depositadas em preciosas urnas, e em mausoléos soberbos, que o ridiculo da vaidade levanta á vaida¬ de ridícula ! Aos descendentes dos Gamas e dos Albuquerques cumpria a honrosa tarefa de salvarem, e fazerem guardar decentemente os restos mortaes d’aquelles dois grandes homens; mas se a sua ingratidão ou indiffe- rença os não estimula ao desempenho d’este sagrado dever , a nação tem o superior direito de possuir e hon¬ rar as cinzas dos seus heroes. Sal vem-se em quanto é tempo essas cinzas venerandas, e poupe-se á actual ge¬ ração mais um labéõ infame, sobre os muitos que so¬ bre ella pesam, pela perda de tantos monumentos e relíquias de nossas glorias í Voltando a fallar da morte de Affonso de Albu¬ querque, consta da historia que muitos príncipes do Oriente deram mostras de grande sent imento por ella, e que até alguns tomaram lucto. Affirma-se que os indios seus conquistados iam em romaria á sua sepul- %
so tura, para lhe pedir soccorro contra as vexações doa governadores que lhe succederam. Nunca a inveja e a ingratidão sacrificaram mais illustre victirna. El-rei D, Manoel parece estar modernamenle jus¬ tificado da injustiça que para com Albuquerque pra¬ ticou ; porque em uma carta ha poucos annos desco¬ berta, que o mesmo rei lhe dirigiu por via de Vene¬ za, depois da partida do Albergaria, ordenava a Af- fonso d’Albuquerque que conservasse o governo de par¬ te da índia, e lhe dava muitos louvores por ter sabi¬ do da conquista de Ormuz, Adem , &c.; carta que Albuquerque não chegou a receber. Alguns cri ticos porém vêem n’este documento mais a intenção de apro¬ veitar ainda o grande mérito d’Albuquerque, para defender os paizes que lhe davam a governar ameaça¬ dos pelos nossos inimigos, do que o desejo de reparar uma grande injustiça. Concebeu este heroe o gigantesco projecto de mu¬ dar o curso do Nilo, cortando-o na Abyssinia, e fa- zendo-o desembocar no Mar Vermelho, para des¬ truir por uma vez o poder dos turcos na Asia, com a ruina do Egypto: pediu para Portugal 100 traba¬ lhadores da ilha da Madeira, que eram liabeis em fazer aterros e obras nas montanhas; porque elle se propunha a cortar uma no referido paiz. N’aquelle tempo, e até pelos nossos historiadores, foi tal proje¬ cto reputado louco; porém modernos viajantes france- zes dizem que era praticável com algumas modifica¬ ções no plano do audacioso Albuquerque. De mais facil execução era talvez o outro seu projecto de ir a Meca destruir o tumulo de Mafoma, o que bem se- TÍa possível ao conquistador de Calayate, Curiate, Mascatte, e Ormuz, cidades da Arabia, por toda a qual já soava o terror do seu nome, que se ouviu d’uma a outra extremidade da Asia , desde o Mar Ver¬ melho ao fundo do Estreito de Malaca, d’onde os echos da fama o repetiram por Sião, Tonquim, no remoto império chinez, e pelos intrincados archipela¬ gos das Molucas.
Coge Çofar, tão inimigo dos portuguezés, dizia fal- lando de Albuquerque: « Este nasceu para injuria de todas as monarchias, porque com senhorear Malaca poz a todo o sul freio; rendeu Ormuz, emporio das riquezas do mundo; tomou Goa ao Sabaio para ca¬ beça de seu tyrannisado império; e sem trazer os exér¬ citos de Xerxes ou Dario , fez tributários mais reinos do que trazia soldados; levantando o pensamento a querer tirar de Meca o corpo do Profeta, poz em conselho mudar ao Nilo as correntes, para alagar o Egypto; emprehendendo seu espirito fazer duas tão fa¬ mosas injurias, uma ao ceo, outra á natureza. » Nenhuma qualidade de mérito faltou à Affonso d’Albuquerque t até soffreu uma injusta prisão, e sen¬ tiu nos seus valentes braços o. peso dos ferros cPel-rei. Refere a historia, que por influencia do celebre na¬ vegador João da Nova sobre o já fraco e velho vice* rei D. Francisco d’Almeida, este se negou a entregar a Albuquerque o governo da índia, e o mandou preso e carregado de ferros de Cochim para Cananor. Al¬ buquerque solto pouco depois, e tomando as redeas do governo, mostrou até onde chegava a magnanimi¬ dade da sua alma. João da Nova já em Ormuz lhe promovera graves desgostos e transtornos, fazendo-lhe falhar a primeira expedição que tentou contra esta cidade, pelo ter abandonado com o seu famoso navio Flor do Mar, espantado da vastidão e audacia dos projectos de Albuquerque. Este porém com amizade lhe assistiu nos momentos da morte, e quasi só lhe acompanhou o cadaver , completamente vestido de dó. As saudades do grande capitão absolveram as faltas e as offensas do velho soldado, e do audaz navegador portuguez! Ha na vida d’Albuquerque uma d’estas resoluções repentinas e originaes que revelam o genio. Conquis¬ tada Goa, mandára o Ínclito capitão metter no muro da nova fortaleza uma lapida, em que fizera gravar os nomes dos capitães que foram com elle n’aquella empreza. Como porém os proprios capitães entrassem 4 *
em discórdias e ciumeâ sobre ãs preferencias dos no¬ mes, Albuquerque mandou voltar a face da pedra para o interior da muralha, e ordenou que na face exterior se gravassem estas palavras: « Lapidem, quem reprobaverunt cedificantes,» k Pedra reprovada pelos edificadores, n Albuquerque, nos seis annos do seu governo, fun¬ dou e firmou o império portuguez do Oriente, pela conquista de Goa, Malaca, e Ormuz, pontos im¬ portantes que na sua vasta idéa abrangiam todo o commercio da Asia, tornando os portuguezes senho¬ res dos seus máres. Malaca era o emporio geral a que concorria o cravo das Molucas, a noz de Banda, o sandalo de Timor, a can fora de Borneo, o ouro de Sumatra e do Lequio, e as gommas, aromas, e mais preciosidades da China, do Japão, de Sião, do Pe- gú, &c. Goa reunia ao que lhe vinha de Malaca, os estofos de Bengala, as pérolas de Kalckar, os dia¬ mantes de Narsinga, a canella e rubis de Ceilão, as especiarias do Malabar, o ouro e a prata do Mocu- ranga e Cuama, com o marfim e outros productos d’Africa. Ormuz finalmente era como o interposto, onde se depositavam todas as producções da índia, para d’alli passarem pelo golfo pérsico a Bassora, e logo em caravanas á Armenia, Trebisonda, Alepo, Damasco, &c. Nasceu Affonso d’Albuquerque em 1453 na quin¬ ta do Paraiso, entre as povoações de Alhandra e V illa Franca, quinta que ainda hoje conserva o seu nome, e pertence á casa dos marquezes d’Abrantes. lira filho segundo de Gonçalo de Albuquerque, senhor de Villa Verde, e de D. Leonor de Menezes. Foi educado no proprio palacio de el-rei D. Affonso V , e D. João II, o grande conhecedor dos homens de mérito, o fez seu estribeiro-mór. Albuquerque era muito douto nos es¬ tudos astronomicos, cosmograficos, e náuticos, como educado que fôra na eschola portugueza d aquelles
53 V bons tempos, e frequentes vezes propunha difficeis pro¬ blemas n’estas sciencias ao grande geometra portuguez Pedro Nunes. Em fim , abstendo-me de transcrever aqui todas as mais recordações de que me possui, e que embora vulgares e desalinhadas sempre são gratas de repetir a corações portuguezes, terminarei dizendo com alguns escriptores: que Affonso d’Albuquerque é maior que a sua fama; que os séculos collocaram n’um throno a sua figura austera; que a posteridade o reconhece co¬ mo o maior homem na gravidade honrada, na politi- ca, e na guerra que ha produzido Portugal; e final¬ mente que o seu nome deve associar-se aos de Anni- bal, Cesar, e Napoleão.
54 CAPITULO pm Partida de Ooa» noticias e considerações varias sobre esta possessão* Pelas tres horas da noite de 18 de fevereiro le¬ vantámos ferro, com vento terral: ao romper do dia já iamos distantes da costa, mas só peidemos de vista pela tarde essa terra famosa, theatro dos grandes fei¬ tos , das grandes virtudes, e dos grandes crimes de nos¬ sos avós! Ao vêl-a nâo sei hoje se humilha, pelas nos¬ sas actuaes circunstancias, ou se ensoberbece ainda um coração portuguez : penso porém que as grandes acções e glorias nacionaes, embora seus effeitos passem , sem¬ pre communicam ás pessoas mais indifferentes, visi¬ tando as localidades onde se praticaram, sentimentos de orgulho e patriotismo, como se nos transportára¬ mos aos heroicos tempos de nossas conquistas, tao ra- pidas quanto extensas por todo o littoral da Ásia. As grandes recordações sempre sao caras e úteis aos po¬ vos , ainda no seu maior estado de abatimento. A estes pensamentos se juntava porém o pesar de ver tão mal aproveitados os ainda opulentos restos de nossos do- minios. O Estado de Goa é susceptivel de bastantes me¬ lhoramentos: o seu solo, montanhoso e cortado de rios, é em geral fértil, especialmente nas Novas Con¬ quistas, quasi todo abundante de agua nativa, e pro- prio para as mais ricas producções da India; e as com¬ municates fluYiaes muitas e fáceis no centro do Es*
tado, como cm nenhum outro local de toda a costa do Malabar e Coromandel. Só carece para o desen¬ volvimento da sua prosperidade, gemo, probidade, diligencia, e perseverança nos governadores; íntro- duccão de melhores hábitos no povo, difficilima em- prezu na verdade, ou trazer gente acliva para o paiz , e nada melhor seria do que o levar para alli colonos chins, que hoje saem para toda a parte do mundo. A melhor prova d’esta asserção é que, apesar d» atrazamento e pouca extensão da cultura, e da quasi nenhuma industria e commercio, as rendas do Estado são sufficientes para as suas despezas restnctas; e que tem havido em varias epochas, e haveria hoje, retna nescente para obras ou em prezas publicas , se o gover¬ no de Portugal não sobrecarregasse conlinuamente esta colonia com despezas inúteis ou estranhas aos seus in¬ teresses. Os fornecimentos aos navios de guerra saem caríssimos, por serem comprados aos particulares pelo duplo ou triplo do seu custo em I ortugal, os gene- ros d’este paiz, como o vinho, azeite, lonas, òcc. que de Lisboa poderiam ir de conta do Estado , se hou¬ vesse boa administração na nossa marinha. A leitura da corveta Nova Goa importou em 60 contos, in¬ cluindo todas as despezas até á sua saída para Lisboa. As construcções ficam actualmente muito caras, por¬ que é necessário comprar a madeira de téca nas pos¬ sessões inglezas, pois mui pouca nas nossas ha pela deplorável destruição das mattas, por incúria dos go¬ vernos e auctoridades locaes, que lhe não tem posto cobro, e pelo abuso que tem havido nas sementeiras chamadas comorim, queimando-se frequentemente e las arvores, só para aproveitar, n’uma cultura passa¬ geira, o terreno e as cinzas com que fica adubado , tornando-se pela ausência das florestas o clima ca a vez menos salubre. O barão de Ourem tinha procu¬ rado remediar este mal, e já havia publicado um re- gulamento para as maltas do Estado: diziam ser is o o principal pretexto das desordens que rebentaram em Satari nas Novas Conquistas, e que continuavam a
56 nossa saída, achando-se os rebellados entranhados no matto, d’opde difficil seria expulsal-os, O paiz pro duz excellentes madeiras, tanto para construcções na- \aes como para a archilectura civil, sendo as mais preciosas o siçó (páo santo), puna (que serve para mastros ) , téca , sandalo, ébano , páo ferro, &c.; mas quasi todas agora sâo raras. Em geral a madeira fica muito cara pelo modo brutal, e dispendioso com que é conduzida das poucas mattas que restam nas Novas Conquistas, arrastando os madeiros de grandes distan¬ cias á força de braços ou de bois; de modo que mes¬ mo a que se corta no paiz sae mais cara do que a que Tem de Calicut e Cochim. Goa era uma antiga cidade do Indostão: tira o seu nome das duas palavras gopac e pur, que signifi¬ cam reino de Gopac, do nome do rei seu fundador. Primitivamente era conhecida pelos nomes de Go- pacpur, Goai, Goaem , e Goem : o de Goa que hoje tem é devido aos porluguezes. Todo o Estado jaz en¬ tre as latitudes 14° 53' e 15° 44' norte, e entre 73° 45' e 74° ^3; de longitude a leste de Greenwich : tem de comprimento de norte a sul 17 legoas geográficas, e na maior largura 10, estreitado entre a costa e a grande cordilheira dos Gatles, que mesmo de Pan- gim se descobrem no horisonte. O paiz é cortado em differenles direcções por oito rios principaes, que for¬ mam ao todo íÉQ ilhas, dando grande facilidade ás communicações internas: tem de superfície 1S1 legoas quadradas com 363:788 habitantes (segundo a estatís¬ tica official referida a 31 de outubro de 1851 ), quasi dois terços christâos, e o resto gentios, seguidores de irarias seitas da religião de Bramá, todos n’umas 400 aldêas. As Velhas Conquistas dividem-se em tres comar¬ cas Bardez, Salsete, e Ilhas: as Novas, que sao ter¬ renos adquiridos no fim do século passado por guerras ou cessões, tem varias divisões, ás quaes n’umas e n'outras chamam províncias, e que nem corresponde¬ rão á extensão dos nossos concelhos. As Novas Com»
57 quistas comprehendem mais de dois terços do terreno total do Estado, mas pouco mais contém de 100:000 habitantes: alargam-se pelo interior á maneira de meia-lua, tocando as pontas no mar, abrangendo no centro as antigas comarcas. Além da capital as povoações mais notáveis são Margao com lí2:600 almas, e Mapuçá com 11:400. A receita do Estado anda por 1:500$000 pardaos, e a despeza por 1:600 $000: o pardao de prata cbr- responde no valor e peso a um franco, e calcula-se pela fazenda publica em 160 rs. de Portugal. As praças de Diu e Damao, e seus pequenos terri¬ tórios , são dependences de Goa, conservam-se com os seus rendimentos proprios, e mandam remanescen¬ tes para a capital. O terreno de Diu é muito povoa¬ do; contém 6:151 almas por milha quadrada. As principaes exportações são cocos, aréca e sal; as importações são muito maiores, abrangem quasi to¬ dos os objectos de primeira necessidade e de luxo, e até algum arroz. Todo o commercio se faz com Bom¬ baim , alguns portos do sul, e terras adjacentes do Ba- lagate; tudo sujeito aos inglezes. A desvantagem na balança commercial é supprida pela importação de di¬ nheiro, que remettem das possessões inglezas os filhos de Goa, empregados nas igrejas do padroado real, ou os que do baixo povo vão aíli ganhar a sua vida na qualidade de servidores, cozinheiros, alfaiates, &c. A industria manufactora se limita a alguns teares de tecidos de algodão, e a tinturarias nas ilhas de Goa e em Bardez. A fazenda possue uma fabrica de polvora, e uma cordoaria. Os officios mechaniccs são exercidos em quasi todos os ramos. A instrucção publica é dividida em primaria, se-r cundaria, e estudos superiores, que consistem nas cs- cholas mathematica e militar, medico-cirurgica, e cm dois seminários para estudos ecclesiasticos. Ha nas aldêas uma instituição singular a que cha¬ mam comrnunidades, que são umas associações agrí¬ colas possuindo bens? cujos rendimentos são dividi-
dos entre vários indivíduos, e em differentes propor¬ ções, segundo as classes ou castas. O direito a este re¬ cebimento é hereditário, e os que d’elle gozam deno¬ minam-se gancares, titulo e privilegio tido em gran¬ de apreço, realmente lucrativo, e do qual só gozam os homens e as suas viuvas, e as filhas solteiras em algumas gancarias. Ha aldêas em que os gancares, reduzidos a poucos, cobram 500 a 600 pardaos an- nuaes; mas o geral é de 18 a 19 pardaos, para a l.a classe: chamam jonos a esta especie de pensão, cuja cobrança começa dos 10 aos 14 annos, umas vezes por metade, outras por inteiro, no que ha uma grande variedade, bem como nos direitos e natureza d’esta propriedade, segundo o regulamento ou estylo de ca¬ da communidade, e a immensa legislação que ha a tal respeito. Estas associações são sujeitas ao paga¬ mento de foro á fazenda, e a varias despezas para o culto e outros encargos. E’ anterior á conquista a origem das communida- des. As terras do Concao, antigo nome do paiz de Goa, foram cultivadas pela gente do Canará em dif¬ ferentes sociedades chamadas gancarias , que adquiri¬ ram a propriedade da terra, mas sendo depois subju¬ gadas pelo rei de Bisnaga , lhes ficaram pagando fo¬ ros, o que continuaram ao mouro Melique, que con¬ quistou este paiz 40 annos antes dos portuguezes, aos quaes pagaram depois esses foros. São pois os ganca¬ res os descendentes dos primitivos associados, ou d’a- quelles a quem estes na occasião da conquista trans- mittiram os seus direitos. Os foros e os impostos que pagam as communidades são ainda hoje o melhor re¬ curso do Estado de Goa, cujo governo muitas vezes tem recorrido a ellas para empréstimos e derramas. A conquista das ilhas de Goa foi provocada por Sabaim Dalcão, que em 1510 preparava uma forte armada para expulsar os portuguezes da costa do Malabar, o que sendo sabido por Affonso d’AIbu- querque quando de Cochirn ía com uma frota sobre Ormuz, foi destruir a dita armada, e se seguiu &
59 posse da terra 11'irma segunda expedição no fim do mes¬ mo anno. Os habitantes do paiz se dividem em tres classes: europeus, descendentes, e. indígenas. Os indígenas subdividem-se em quatro castas principaes: bramanes, charadós, sudros, e mouros. O numero dos mouros é limitado, e não reconhecem divisões além da classifi¬ cação religiosa da seita em que vivem. Tres são as religiões principaes: catholica romana, idolatria, e mahometismo. A catholica romana é a dominante; todas as mais são toleradas, mas só os gentios e mouros tem os seus templos, quasi todos nas Novas Conquistas. A lingua portugueza é commum nas capitaes das comarcas e das províncias, onde se acham estaciona¬ dos corpos militares; porém a mais geralmente usada , no trafico geral e domestico, é um composto das lín¬ guas marata e canará, com os seus dialectos em cada uma das comarcas e das províncias, e mesmo em ca¬ da casta e aldêa. Na escripta porém só se usa do dia- lecto portuguez; mas os gentios entre si escrevem nas línguas canará, indu, ou marata, sendo raros os que usam de uma sem mistura das outras. Os costumes peculiares dos habitantes de Goa va¬ riam segundo a classe, a casta, a educação, e a reli¬ gião a que pertencem. Na mesma linha marcham as suas paixões dominantes, applicações, trato publico e familiar, modo e meios de vida. Os europeus filhos de Portugal constituem uma fracção limitadíssima, e ainda assim dividida em pri¬ meira, segunda, e terceira classe. A’ primeira , e me¬ nor de todas, pertencem as auctoridades civis; á se¬ gunda osofficiaes militares; e á terceira , que é a mais numerosa, os soldados, que de ordinário vão para alli expiar as faltas, e crimes que commetteram na sua pa- tria. Os indivíduos da primeira e segunda d’estas clas¬ ses, de ordinário observam nos primeiros tempos os costumes que deveram á sua educação; mas depois os alteram com facilidade, salvas as excepções. D’aqui
60 tomou origem o antigo rifão: Os portugueses em quan¬ to não bebem a agua de Banguinim (fonte de uma aldèa próxima a Goa-Velha), conservam os costumes e sentimentos com que saíram de Portugal; mas logo depois os perdem, e adaptam os do paiz. Os soldadas ou degradados, achando meios e liberdade, recaem nas mesmas faltas passadas, ou em outras similhantes; porque inveterados no vicio olham com indifferença para a mudança de paiz: alguns ha porém que refor¬ mando a vida tem melhorado de fortuna, e de credito. 'lodos estes europeus geralmente não tem outros meios de subsistência senão os seus respectivos ordena¬ dos ou soldos. Os empregados civis, quando não vem casados, raros mudam de estado. Os officiaes e solda¬ dos contrahem allianças com mais frequência; mas deixam de ordinário por sua morte as famílias em mi¬ séria , e ao desamparo. Chamam descendentes, aos filhos de pai europeu e de mãi natural do paiz, e bem assim a todos que nascem das allianças d’estes descendentes entre si. O seu numero é comparativamente maior que o dos eu¬ ropeus, mas muito diminuto a respeito dos indígenas. Os seus costumes e educação participam das duas ori¬ gens, europea e do paiz, e apesar da diuturna con¬ vivência com seus pais e mais europeus, nunca che¬ gam a adquirir o metal da voz, a frase, e a maneira de se expressar propriamente europea, mesmo que vi¬ vam em Portugal muitos annos. Os estudos entre os descendentes se limitam aos primeiros rudimentos da linguagem e escripta portu- gueza; poucos são os que passam a frequentar as es- cholas da lingua latina, e isso quasi sempre por pouco tempo e sem fructo, principalmente depois da ex tinc- ção dos conventos; cursam depois a eschola mathema¬ tics e militar, para assentarem praça em algum dos corpos. Em geral os descendentes são inclinados á car¬ reira militar, e a preferem a outras, pelo soldo que desde logo vencem, por ser menos difficil a habilita¬ ção, e pela julgarem mais honrosa. Afora poucos pro-
61 prietarios o geral (Testa classe mantem-se dos seus soldos. Os descendentes inclinam-se exclusivamente aos europeus , e desprezam os naturaes do paiz, tendo desar em concorrerem com os parentes do lado da mâi , &c. Raras vezes os varões, e ainda menos as femeas, se ligam em consorcio na classe indígena. A commum rivalidade de se chamarem injuriosamente mistiços, e canarins não está de todo extincta; apesar das leis pro- hibitivas e penaes a tal respeito de S de abril de 1761 , e 15 de janeiro de 1774. Os indígenas, como já disse, dividem-se em qua¬ tro castas principaes. Os bramanes, charadós, e sudros chrislãos, ainda que não deem credito á origem que os gentios aitribuem a cada casta, todavia contem¬ plam-se como rivaes, e realmente se distinguem pelo metal da voz, e pela maneira de se expressar. Os bramanes e charadós mutuamente se disputam com singular tenacidade a primazia e nobreza genea¬ lógica das suas castas. Em 1700 e 1713 duas obras se imprimiram em Lisboa tratando gravemente dVstc assumpto; a Aureola dos índios e Nobi/iarc/úa fíra- minica do padre Antonio João de Frias, e o Prom- ptuario de Definições Indicas do padre Leonardo Paes. A Pherns Chronologica do padre Caetano de Santa Maria também tratou largamente esta ques¬ tão, muito pueril para os europeus, mas de grande importância entre os asiaticos. Perante as auctoridades estas differenças nada signi¬ ficam ; os indivíduos de qualquer das castas, que con¬ venientemente se habilitam , são admittidos aos cargos ecclesiasticos, civis, e militares: comtudo os que mais commummente os exercem são os bramanes, e alguns charadós, cujas castas é que recebem mais educação, e se dedicam ás lettras. Entre estes indígenas, e quasi geralmente entre os descendentes, está muito adulterada a linguagem por- tugueza , caindo continuamente, mesmo na locução ordinaria, em barbarismos e solecismos. Das mulhe-
62 res indígenas poucas faliam o portuguez, e essas mui¬ to mal. E’ de notar que os inglezes estabelecidos no In¬ dostão nâo consentem que seus filhos fallem a lingua materna, e os habituam ao idioma marata; para que quando adultos, se regressam á metropole, possam en¬ tão adquirir a linguagem vernacula, sem os erros in¬ corrigíveis a que aliás se habituariam desde a meninice. Os consorcios não se verificam fora de cada uma das tres castas mencionadas, salvo raríssimas excepçoes, e em geral as mulheres, quando a necessidade as obri¬ ga, preferem casar com europeus ou descendentes, do que corn indígenas fora da sua casta. No ajuste e ve¬ rificação d’estes casamentos ha uma immensidade de ceremonias e usos singulares, entre elles o do mesado; que é irem os cônjuges dias depois do casamento passar algum tempo em casa dos pais da noiva, onde o noi¬ vo tem de se sujeitar a mil judiarias impertinentes, á maneira de brinquedos de entrudo, e ao revez do que se usa na China, onde as noivas é que tem de soffrer cousas similhantes. Os casamentos entre os christãos tem logar de or¬ dinário, no sexo feminino dos 13 aos 18 annos, e no masculino dos £0 aos 30. A fecundidade media nas a Ideas sadias é de 6 a 8 filhos, e os expostos são raros. Entre os gentios a distineção das castas é observa¬ da em todo o rigor. E’ sabido que 09 idolatras da ín¬ dia , geralmente chamados gentios, veneram supersti¬ ciosamente as sua3 instituições civis e religiosas, que dizem receberam do seu deus Brama; pai commum d’onde todos dimanam , mas por differentes modos. Os bramanes, na crença gentílica, saíram da cabeça de Bramá; alegoria que exprime a sabedoria, e que nasceram para estudar e ensinar: os quetris ou chara- dós dimanaram dos braços; indicativo da força, e vieram ao mundo para governar e combater: os oixo9 ou bixes tiraram a sua origem do ventre; symbolo do sustento, e tem por destino prover ás necessidades da vida, pelo eommercio e agricultura: os sudros nasce*
ram Jos pés; emblema da escravidão e dependência $ e são votados a servir e trabalhar. Ha uma quinta casta , ostapocod, que é o fructo do commercio illegi- timo das differentes castas entre si, que se subdivide em muitas outras, cada uma destinada a certos miste¬ res humildes, transmittidos invariavelmente de pais a filhos. Os varões gentios podem casar em todas as idades com uma ou mais mulheres, que sustentam na mesma» casa; mas as gentias devem effeituar seus consorcios antes de assomar a puberdade, sob pena de ficarem inuptas, realisando-se a união logo depois d’aquella epocha. Os casamentos sempre são contractados pelos paes, e os cônjuges só sabem da sua sorte quando se unem. Nos casamentos ha muitas e complicadas ceremo* nias, que rematam na parte religiosa, ligando os noi¬ vos por um nó no falo, estando juntos a um brazeiro de páos de certas arvores e arbustos, no qual lançam manteiga de vacca por meio de folhas de mangueira, recitando no entanto os botos ou padres orações aos ouvidos dos noivos. A’s vezes succede n'estes actos ter a noiva apenas £ ou 3 annos, e parte d’estas ceremo- nias se renovam quando os noivos, já púberes, ratifi¬ cam o contracto antes da união matrimonial. Os partos se verificam , segundo certas convenções, em casa do pai da mulher ou do marido, e então tem lugar uma infinidade de practicas supersticiosas* As viuvas dos gentios não podem passar a segun¬ das núpcias, ainda quando percam o marido antes da puberdade, e consummaçâo do matrimonio. São os gentios muito crentes em agouros, e tem por máos verem ao sair de casa uma viuva, um feixe de lenha, uma porção de carvão, um homem com a cabeça descoberta , ties bramanes botos ( padres) , dois sudros, o entrar um cão dentro de casa ou subir para o telhado; ouvirem choro por fallecimento, grasnar um corvo, chiar uma lagartixa, o piar da coruja por menos de 9 vezes, nacá (não) ou xi (não presta)
proferido por quaesquer pessoas fóra de casa, a pef- gunla — onde vai, espirros impares, &c. Todas estas cousas fazem amuar ou retroceder os passos a um verdadeiro crente, como precursoras de males, ou indicativas de máos resultados nos negocios que ía a contractar durante o dia, ainda que se lhe apresentem muito vantajosos. Se porém antes de se lhe apresentar qualquer máo agouro , tem tido a ventura de experimentar outro bom, então este prevalece, co¬ mo talisman, contra todos os males. Do numero dos bons agouros são, ver uma mulher casada e mâi de muitos filhos, um préstito de casamento, uma viuva que seja rapariga bem parecida e entregue á devassi¬ dão, uma vasilha com vinho, um archote acceso, uma vacca com filhos, um sudro alparqueiro ou cur¬ tidor de couros, dois bramanes botos ou um , mas con¬ duzindo flores; ouvir o piar da coruja repetido ma is de 12 vezes, espirros pares, &e. Assim os objectos de bom como de máo agouro tem seus valores estimativos, e por elles são calculados os gráos de males que se tem a recear, ou as venturas a esperar. Entre os gentios raros proprietários ha fora da cas¬ ta dos bramanes, que de ordinário são dados a em- prezas, formando sociedades ou casas de agencia, com certos regulamentos tradicionaes, sendo affoutos lan¬ çadores nas rendas do Estado. O passadio ordinário dos bramanes é arroz, legumes, manteiga , leite, e assucar; não fazem em geral uso do vinho, ou de quaesquer bebidas espirituosas, e poucos comem car¬ ne, e só do matto. Não comem em mesa, seguindo o uso primitivo de se sentarem no chao com as per¬ nas encruzadas: as mulheres jantam depois dos ho¬ mens , e sendo casadas tem por dever comer no prato em que o marido comeu. O jantar sempre termina com o mascar do betle e areca, juntando-lhe cal viva , cravo, e cardamomo. E’ indispensável aos gentios bramanes iniciar-se na cercmonia cdnipovitra ou zanvem, que os habilita ao
Wamanismo ou profissão sacerdotal, correspondente ao baptismo dos christãos, e á circumcisão dos maho- metanos: cumpre que se verifique até aos doze annos, e desde então é que usam do zanvem, a que os por- tuguezes chamam linha, que os gentios usam a tira¬ colo da direita para a esquerda : a que usam os bra- manes é de ties fios, em allusão á sua trindade: re¬ nova-se quando se perde, mas sem a substituir não podem tomar alimento algum. Quando tem de satis¬ fazer a precisões naturaes, do hombro passam a linha para a orelha correspondente. Os charadós, oixos , &c„ também usam da linha com fios arbitrários} mas aos sudros e illegitimos não é permittido trazel-a. E’ mui singular a theogonia dos gentios. Reconhe¬ cem e adoram uma trindade, composta dos deuses Visnú, Bramá, e Mahés. Visnu nasceu do omni¬ potente, ao qual chamam Anauta, que habita a re¬ gião eterna, e de quem descende a trindade: logo que abriu os olhos, da luz d’elles dimanou o fogo, o sol, e a lua: dos poros d’esta, que exhalavam luz, saíram as estrellas e. mais astros} da resudação corpo- rea formou-se a terra, e da respiração se originaram os ventos. Do umbigo de Visnú sahiu Bramá, e das pestanas Mahés, que são a segunda e terceira pessoas da trindade. Creado assim o mundo por Visnu, este encarregou a Bramá crear os homens, o qual formou o primeiro tendo um olho e um pé sõ} mas vendo que não po¬ dia andar, desfel-o e formou outro com 3, pés, que também se não pôde mover; tornou a desfazel-o, e por fim acertou organisal-o como actualmente existe, e lhe deu 13 mulheres, cada uma das quaes pariu montes, rios, arvores, animaes, peixes, &c. Bramá passou depois a formar outros homens similhantes, e os dividiu em castas mais ou menos nobres, segundo a preeminencia das partes do corpo em que foram ge¬ radas. ; ^ Da trindade gentílica e das 8 encarnações de Vis¬ nú fazem os gentios descender uma infinidade de deu- é
f»6 ses, que representam quasi sempre na figura de ani- maes. O deus Bormu é adorado na figura de elefante, como symbolo da prudência; Ilonovontu na de um macaco; Betai na de um homem hediondo e nu , sym- bolisando a lascívia; Catragão tem focinho de porco, em memória das suas torpezas; a deusa Ravana tem 10 cabeças e 20 braços; a Naguia tem rosto de cão, &c. Adoram também as cobras nagó, a que chamamos de capêllo, dizendo que são a imagem de Bramá, e apesar de serem das mais peçonhentas e mortiferas as alimentam em casa, nào as matam, nern consentem que outros o façam, e bem assim a respeito de outras quaesquer cobras. Os gentios, ainda que adoram a sua trindade e muitos deuses, crêem e confessam dimanar essa trin¬ dade de um só Deus verdadeiro e eterno; Ente per¬ feitíssimo e incorporeo, a quem veneram com milha¬ res de nomes e sob diversas figuras, ás vezes incom¬ patíveis e repugnantes com a divindade. A esse Ente invisível que preside a tudo dirigem as seguintes sau- dações especiaest « Adoro-vos Deus, cujas immensas imagens sao incomprehensiveis, immcnsos são os espelhos do vosso rosto, immcnsos os pés e mãos , e infinitos os nomes. » r> Assim como dos ares chove a agua e se une^ aos mares , c tudo é agua ; assim o Deus verdadeiro é um só , ainda que as nações do mundo o adoram com dij- ferentes nomes. n Nas Velhas Conquistas ha só dois pagodes, e uma mesquita; todos os mais templos pagãos são nas No¬ vas Conquistas. N ’esses templos ha as celebradas bair ladeiras, que são mulheres gentias que se dedicam ao serviço dos pagodes, fazendo voto de não casar; mas prostituem-se, por effeilo mesmo da sua profissão, tanto aos botos ou padres, como aos estranhos. So as da casta bramane podem dedicar-se ao serviço religio¬ so , mas prostitutas de todas as castas adoptam o no¬ me de bailadeiras, e vivem principalmente em certas aldêas das Novas Conquistas ; usam de cantos e dati-
ças provocantes, e enfeitam-se còm flores , e muitos adereços de ouro. A medicina entre os gentios quasi toda consiste em superstições. Aos moribundos fazem beber o ponchoco- t5i, ou agua benta, que é um composto de bosta, leite, manteiga, urina, mel., e assucar. Nos paro- cismos da morte o moribundo é lavado, e collocado sobre a terra de fresco bostiada e coberta de junco, coroam-no com uma capella de folhas de tulosse, põem-lhe na mão o rabo de uma vacca que tenha leite e bezerro ; sendo preta muito mais virtude lhe attribuem para a salvação do morto. Acreditam que assim mais facilmente passará a alma do finado para o corpo da vacca, que é a transmigração designada para os homens que vivem bem, assim como para o corpo do cão passam as almas dos homens que foram máos n’esle mundo. O cadaver é conduzido nu ao logar em que se queima, e sobre uma escada de mão feita de bambu, coberto com um pedaço de estofo de algodão; collo- cam-no sobre uma pilha de madeira, e entornando sobre elle manteiga ou azeite lhe lançam o fogo. Re¬ duzido o cadaver a cinzas, são estas lançadas, se po¬ de ser, ao mar ou ao rio. As paridas e os recem-nascidos, fallecendo ante* de completarem 10 dias, não gozam da honra de se¬ rem consumidos pelo fogo, e bem assim as gravidas e os bexigosos morrendo n’este estado. Fazem tratos repugnantes aos cadaveres, especialmente aos das gra¬ vidas e paridas. Apenas morre a padecente, fazem uma abertura na parede da casa, para por ella sair o cadaver para o logar do enterramento, e alli lhe cor¬ tam todas as juntas das extremidades, e lhe enterram no craneo, e n’outras partes do corpo, troços de páo da arvore que dá a noz vomica; põem-lhe uma moe¬ da de cobre na bocca, e por fim o sepultam. O corte das juntas é, segundo os gentios, para que a alma da fallecida não volte de noite para perseguir a família: elles acreditam nà metempsycoso, e por isso Ô *
69 ves, para engomação, e para copos, colhéres &c.; a agua é boa e refrigerante bebida. A arvore dá a mra9 ou licor que fazem manar da incisão no pedún¬ culo do cacho destinado a dar os cocos, da qual se faz a jagra, ou assucar escuro em pequenos pães, que é o do uso geral do povo; a aguardente, ou vinho finim ; o vinagre; e amassada com a cal forma uma forte ar¬ gamassa. Das folhas, ou ollas fazem tecidos que ser¬ vem para telhas 9 resguardos, vassouras, &c. O tron¬ co dá boa madeira para barrotes, para os tectos das casas e outros destinos. As palmeiras bravas não dão fructo, mas a sua madeira é muito mais rija e dura¬ doura. As palmeiras duram muitos annos, e deixam de dar fructo quando são velhas, porém não seccam. Os cocos para semente devem ser bem seccos na arvore, e lançam-se á terra em janeiro a dois palmos de profundidade, e no setembro seguinte transplan¬ tam-se, e collocam-se a distancias de dez a quatorze mãos ( a distancia do cotovelo ao extremo do dedo medio), segundo os terrenos são mais ou menos vi¬ gorosos , os quaes são lavrados pelo menos seis vezes no anno, e de tres em tres estrumados. Dos qua¬ tro aos seis começa a arvore a dar fructo, estan¬ do em terra forte: dá quatro ramos em cada tres mo mezes, simetricamente collocados nas quatro faces do tronco, e cada famo cria ás vezes 30 a 40 cocos; de modo que ha palmeira que dá de ÕOQ a 600 e mais cocos em um anno, que podem valer de 15 a S0 pardaos. Demoro-me tanto n’estes promenores, por¬ que a cultura em ponto grande dos coqueiros nas nos¬ sas possessões africanas, e talvez mesmo no Algarve, poderia trazer consideráveis vantagens a Portugal. A despeza com o cultivo das palmares calcula-se na quin¬ ta parte do produclo; a dos arrozacs nas terras boas e marinhas n’um terço, e nas altas e arenosas na me- tade. A agricultura no Estado de Goa esteve, depois da conquista, por mais de dois séculos e meio vo¬ tada ao abandono; de modo que o arroz, o pão do
70 povo da India, nem chegava para a terça parte do anno, havendo abundantes e fertilíssimas terras para o produzir. O marquez de Pombal foi o primeiro que concebeu a idéa de melhorar a agricultura d’este paiz por meio de providentes leis; mas apesar do incre¬ mento que tem tido desde os fins do século ultimo, existem ainda muitos e bons terrenos por cultivar em todas as províncias, e ainda se importa arroz: o ter¬ reno de Bardez é o mais bem cultivado, nâo pela me¬ lhor qualidade do solo, mas pela maior industria dos seus habitantes. Tal é a noticia que em resumo posso apresentar do Estado de Goa. Muito mais haveria a dizer sobre a historia, costumes, e varias cousas d’este paiz; mas não o comporta a natureza d’esta obra, e o leitor cu¬ rioso pode consultar com utilidade a interessante col- lecção do Gabinete Litterario das Fonlainhas, que se publica em Goa desde 1846, redigido pelo erudito e benemerito Filippe Nery Xavier, d’onde colhi boa parte das noticias que vão referidas.
71 Kavegacsio no oceano da India * vi*ta do cabo Delgado • e entrada no canal de Bio* çainbique. A distancia de Goa a Moçambique é de 900 le- goas. Com a proa ao sudoeste tivemos no resto de fevereiro vento constante e bonançoso do nordeste , que ó o geral ou de monção n'este tempo, o mar sereno, e mui bonitos dias e noites, mas com algum calor. Atravessámos o mar da Arabia, e fomos navegando no grande Oceano indico em pequenas singraduras de 1 a 2o de ex tenção, deitando regularmente de 3 a 5 , e raras vezes 6* a 7 milhas por hora. A Í22 commemorou-se o domingo gordo com al¬ gumas mascaradas, e á noite, e na do dia de entrudo os marinheiros imitaram um arraial, em que figura¬ va a Rita queijadeira com seu taboleiro de bolaxi- nha e licores , cercada de vários freguezes fadistas em figuras grutescas, dizendo muito disparate, cantando modinhas do fado acompanhadas a guitarra, imitan¬ do desordens, &c. Em 11° gráos de lat. norte, e 65° de Greenwich, se passava esta see na , animada e ale¬ gre no meio das solidões do Oceano da índia , sob o sereno e estrellado ceo dos íropicos, no convex de um navio mollemente balouçando-se sobre as ondas , com o fagueiro e tépido vento á popa, e alumiada por dois lampiões pendentes das enxarcias, cheias de curiosos
72 espectadores, formando grupos variados, e rindo aos ditos mais ou menos engraçados dos interlocutores. Du¬ rante algum tempo nos entreteve esta brincadeira, e nos levou o pensamento a distante patria , pelas recor¬ dações dos costumes e folguedos populares d’estes dias. Desde a saída de Goa passava os dias mui unifor¬ memente. Levantava-me cedo, e algumas vezes ía lo¬ go para o tombadilho gozar da íresquidao da ma¬ drugada, e ver o nascimento do sol, que n’estas pa¬ ragens não é muito esplendido: o disco apparece quasi de repente no horisonte, quando está limpo de nu¬ vens, sem ser precedido pelas cambiantes fachas de luz, que n’esta occasião matizam tao Undamenle o ceo no nosso e n’outros climas. Voltava ao camarote, lia ou escrevia até ao almo¬ ço, pelas 9 horas, depois jogava algumas partidas de xadrez, e n’estes dois entretenimentos se iam alternando as horas até ao cair do dia: então de ordinário sen* tava-me á janella do alforge, que fazia parte do meu camarote, encostado e sustido no varao de bronze que a atravessava horisontalmente no meio, e d’alli via o occaso do sol com os seus variados e sempre bellos accidentes da luz reflectida nas nuvens, e nos espaços do ceo. Seguia-se a doce hora do crepúsculo, e de suavidade melancólica : elevado poucos palmos acima das aguas, ora pendia sobre ellas, ora me afastava com o regular e brando balanço do navio; se as olha-* va perpendicularmente as via fugir rapidas ao longo do costado do navio., esmaltadas d’alva espuma, com mil formas variadas e caprichosas, como se eu fora correndo sobre um tapete bordado de flores e arabes-? cos brancos n’um fundo azul escuro; se dilatava a vis-? ta até ao horisonte, contemplava uma unida e im*» mensa planície, que parecia immovel, e gradativa¬ mente escurecida do occidente para o oriente. O cons¬ tante e monotono sussurrar das ondas augmentava sua-» Yemen te a tristeza d’estas scenas, que apesar de repe-» tidas sempre me embeveciam, e me lançavam n’um enlevo dos sentidos a e n\un meditar vago e iadefuu*?
do, que se resumia por fim na adoração silenciosa do incomprehensivel Auctor da Natureza ! Ao accender das luzes continuava a jogar o xadrez até tomar chá, e ir deitar-me, regularmente ás 9 ou 10 horas. No l.° de março esta vamos na latitude 6o norte, e 58° de long, a leste de Greenwich , e continuámos do mesmo modo sempre com vento á popa e de bo¬ nança, apparecendo porém o ceo nublado, e por ve¬ zes alguns aguaceiros, que traziam de ordinário vento fresco, mas de pouca dura. Começaram as noites de lindo luar, e a sentir-se mais calor por nos aproxi¬ marmos da linha. Viram-se bandos de tubarões, e cardumes de peixes, e apanharam-se alguns dos cha¬ mados judeos, que são saborosos. Da sexta feira 5 para o sabbado passámos a li¬ nha: ao meio dia de 6' ao tomar-se a altura do sol achámo-nos em %7f sul, e conjecturou-se que das tres para as quatro horas da madrugada é que fora o mo¬ mento, sempre notável, em que mudámos de hemis¬ fério. Esta solemne occasião para os navegantes cos¬ tuma ser celebrada pela marinhagem com a festa de Neptuno, e seus episodios, que tem sua originalida¬ de; mas a alguns custa cara pelos máos tratos que sof- frem ; nada porem houve a bordo d’este navio. Cor¬ támos a linha em 51° e de long, de Greenwich, ou ()0° e 30' do meridiano de Lisboa. Continuando a navegação tornaram-se as calma¬ rias mais frequentes, faltando ás vezes totalmente o vento: em compensação porém começaram a appa- recer correntes fortes para oeste e para o sul, algu¬ mas de 85 milhas e mais em ^4 horas, o que nos aju¬ dava a ganhar caminho, tendo Lido singraduras de de extensão. Viu-se um baleote, que descobriu parte do costado ao lume d’agua , e appareceram immensos cardumes de peixes, em tal quantidade que ao longe parecia ser o movimento e espuma das aguas simi- lhante á arrebentaçao de um baixo. Outros cardumes circundavam o navio, e algum peixe se apanhou. Vi- Tíun-íge também inuitos bandos de passaros, que anda-
vam á pesca do peixe: alguns ao cair do dia vinham enjoados pousar pelos mastros, e deixavam-se facil¬ mente apanhar pelos marinheiros: eram uma especie de patos de longas azas, e faziam grande ruido gras¬ nando. A 9, 10, ell houve exercícios de manejo d’ar- tilharia, ao que geralmente os marinheiros tinham grande aborrecimento. Por estes dias as correntes di¬ minuíram , ou quasi cessaram. Ao meio-dia de 14 nos achavamos pela altura de Quilôa em 9o, á distancia de 35 legoas d’esta cidade, e a 40 do cabo Delgado que iamos demandando: manifestou-se outra vez cor¬ rente para oeste, que nos adiantou umas 19 milhas nas ultimas <24 horas. Quilôa foi visitada por Vasco da Gama em 1502, na sua segunda viagem á Índia, o qual fez tributário o seu rei, o primeiro das regiões orien- taes d’Africa que pagou páreas a Portugal. Dos 500 melicaes de ouro que pagou o dito rei, e que o Gama trouxe para o reino em 1503, se fez a custodia que el-rei D. Manoel offereceu a Nossa Senhora de Be¬ lem , como primícias das victorias do Oriente. Foi conquistada Quilôa em 1505 por D. Francisco d’Al- meida, que alii fundou fortaleza com o nome de Santiago. Viemos a perder esta praça , de que se apos¬ sou o imamo de Mascatte. Tínhamos deixado successivamente ao norte Me- linde, Mombaça, e a ilha de Zanzibar. Em 1504 Ruy Lourenço Ravasco, que fôra na armada de Antonio de Saldanha, fez tributários aos portuguezes os reis de Mombaça e de Zanzibar. Mom¬ baça foi arrazada por Nuno da Cunha em 1528. Ti¬ vemos depois álli dominio, e edificámos uma bella for¬ taleza, que viemos a perder por uma sublevação dos naturaes no reinado de el-rei D. José. Vasco da Gama na volta para Europa saindo de Melinde passou á vista de Mombaça, e ancorou no baixo de S. Rafael, onde mandou largar fogo ao na¬ vio do mesmo nome, por falta de gente para o guar-
75 necer, pela muita que tinha morrido de escorbuto desde a partida da ilha de Angediva. Hoje Melinde, Mombaça, Quilôa, e a ilha de Zanzibar constituem pequenos reinos independentes, todos situados na costa do Zanguebar, e povoados por arabes negros ma home la nos. Havia dias, desde a saída de Goa, que só tí¬ nhamos visto mar e ceo: nem uma embarcação, nem um rochedo tinha quebrado a continuidade d’esta scena diaria, que embora monotona é sempre mages- tosa, e se modifica infinitamente pelos accidentes da cor das aguas, seus diversos estados de movimento, e variações do ceo; ora perfeitamente limpo e azula¬ do , ora ornado de nuvens de variaveis e fantaslicas formas, e ás quaes a luz do sol nas differentes horas do dia dá tao diversos e cambiantes coloridos. Alguns passaros esvoaçando perto do navio ao pôr do sol com seu canto sinistro, e alguns peixes voadores e outros saltando fora d’agua , foram os únicos seres animados que nos appareceram n’estas solidões do Oceano. A 15 de março, pelas 8 da manhã, pareceu ao immediato da corveta ver terra; mas o horisonte esta¬ va nublado, sobreveiu ao longe um aguaceiro, e fi- cou-se em duvida se seria ou não: era com effeito. Pelas 10 horas a vi distinctamente, muito baixa, e parecia, pelo perfil projectado no ceo, ser coberta d’arvoredo. Ao meio-dia as observações e o chronometro nos deram o ponto: estava mos por 10° de lat. , e a 10 ou 15 milhas da ilha Zimbatí na extremidade sul da costa de Quilôa, e no começo da de Moçambique, já a pouca distancia do cabo Delgado, que ao fim da tarde avistámos por sotavento da proa. Viam-se dois pangaios, ou embarcações costeiras, navegando para o sul e perto da terra, que era toda coberta d’alto arvoredo, parecendo surgir do centro das aguas, porque os cumes das collinas se figuravam ainda alagados. A’ hora de pôr do sol, que se escondia por entre
76 às nuvens que bordavam o horisonte, encostado á re¬ tranca da vela ré ou mezeda, contemplava essa terra inhospita d Africa, que lambem n’esta paragem pela primeira vez viram os nossos portuguezes n’este mesmo mez de março havia justamente 354 annos. 1 ''es séculos e meio vão decorridos, e quasi em ”2u.™r ° <•’«» r»»* Apesar do trato com os europeus, esta parte d’Afri- ca parece destinada ainda por longo tempo a não ex¬ perimentar as mudanças, e os melhoramentos que o christiamsmo e a civilisaçao tem espalhado na maior parte do globo. A 16 apenas divisei do meu beliche a primeira claridade do dia, levantei-me, e ao chegar á porta da camara saindo para o convcz experimentei uma re¬ pentina , e agradavel sensação no aroma do ar que as¬ pirava , como se fosse de plantas odoríferas. Este effei¬ to sente-se geralmente á aproximação da terra, mas ate então n esta viagem nunca fôra tão pronunciado como aqui, e também quando estivemos ancorados á vista da ilha de I mão, á saída do estreito de JVlalaca. Em seguida subi ao tombadilho, e gozando d’aquel- la deliciosa e fresca briza fui pascer os olhos sobre a terra, que demorava a 6 ou 7 milhas de distancia, tendo-nos as correntes de noite aproximado muito a elía. apresentava-se á vista como uma orla de espes¬ so arvoredo, do qual se destacavam algumas elevadas arvores; projeetava-se n’oulra de terra mais distante, que era a do continente. Os dois pangaios que víramos no dia precedente seguiram parallelamente o nosso rumo. Julgou-se que a terra fronteira era a ilha Lono-a, logo ao sul de cabo Delgado, mas ao meio-dia veri- íicou-se termos perdido caminho de noite e de manhã com a força da corrente contraria, calculada de 6 mi¬ lhas por hora, e achavamo-nos apenas \° adiantados, um pouco para o sul da mesma ilha Zimbatí: de Lar¬ ue porem , tendo refrescado um pouco a viração , e
com a mare, passámos o cabo Delgado, que. jaz em 10°4 de latitude: é uma aguda ponta de terra muito escura 9 e um dos cabos mais notáveis, por se julgar ser o Prasum Promontorium da geographia antiga. L m pouco ao norte d’este ponto é que começam os nossos domínios actuaes d’Africa oriental, correndo pela costa abaixo alé á bahia de Lourenço Marques em 26° * Para o navegante é em geral sempre agrndavel vçr terra; porém quanto nâo o é mais para o navegante portuguez ver a terra que ainda hoje de tão longe obedece ao nosso desditoso Portugal, e que recorda os altos feitos de nossos antepassados, e os felizes tem¬ pos da nossa grandeza! De tarde fomos vendo mais a ilha Longa, a Ami- za, onde ha povoação portugueza, e quasi ao anoite¬ cer viamos a solavento da proa a ilha de Vumbo: em toda a terra se via arvoredo, que fazia bonita perspe- ctiva. Ha aqui um archipelago d’algumas 30 ilhas, cha¬ madas Querimbas; mas só 5 são habitadas, consti¬ tuindo todas o distrieto de cabo Delgado, sendo a do Ibo a principal. Vão ali mercadejar os arabes do Zan¬ zibar, Quilôa e Mombaça, e também os habitantes das ilhas Comores. Ao pôr do sol um grande pangaio nos passou mui proximo pela popa, dirigindo-se para barlavento: era da fôrma das embarcações ou bogallas arabes que eu vira em Suez: alguns dos negros arabes que a tripula¬ vam tinham vestes largas e brancas, outros iam nus do meio corpo para cima. Estes pangaios tem a popa muito elevada e larga, e a proa muito aguda e pro¬ longada sobre a agua. Ao começar da noite grandes massas de nuvens es¬ curas estavam amontoadas para o lado de terra, ras¬ gando-se em mais de um ponto com o súbito fuzilar dos relâmpagos, demorando-se por mais tempo, e com muito maior intensidade a luz electrica do que ordi¬ nariamente lenirá visto nas trovoadas. Era um espe-
78 ctaculo magestoso e sombrio, que gostei de contettl* piar. Ao primeiro alvor do dia 17 subi para o tombadi¬ lho, e vi nascer o sol com o costumado esplendor, e só uma delgada cinta para oeste escura e nublosa nos denunciava a terra, que se não podia determinar qual era, pela difficuldade que offerece esta costa de reco¬ nhecer-lhe as situações, por ser toda baixa, bordada de ilhotas também todas baixas, sem montanhas, nem accidentes que offereçam pontos de reconhecimento, ou marcação, mesmo para os práticos. Esta circum- stancia, os vários bancos e baixios, e as variaveis e ra- pidas correntes, tornam a navegação muito difficil e perigosa n’estas paragens, que são das menos conheci¬ das e bem determinadas mesmo nas modernas cartas marítimas. Ao meio-dia achou-se estarmos quasi em 11°| de lat., e em frente de uma das ilhas que medeiam en¬ tre a de Vumba e a de Zanga, e á qual chamam a ilha dos Mastros, mas que não está notada na carta. Jazíamos a oeste do grupo das ilhas Comores (Co- mor, Anjoannes, Mayotta, e Mehilla), e pela al¬ tura do cabo Amber, ou ponta do norte da grande ilha Madagascar, ou S. Lourenço. Entravamos propriamente no canal de Moçambi¬ que, que vai estreitando do lado de Madagascar, cu¬ ja costa corre a sudoeste, e a correspondente do lado d'Africa vai direita ao sul. A ilha de Comor fica mes¬ mo ao meio da entrada do canal. Então é que se re¬ putou segura a viagem , e esperámos aportar breve a Moçambique: até áquella paragem se se declarasse a monção do sudoeste com violência, como ás vezes suc- cede, podíamos ver-nos na dura necessidade de arri¬ bar a Goa, onde talvez só já nos podessemos abrigar na barra de Mormugao, e teríamos de esperar até no¬ vembro pela monção do nordeste, perdendo quasi um anno de viagem. Muito devemos á Providencia pelo bom tempo que tivemos na extensa travessia do mar da India,*
79 sempre com bonanças e vento á popa, já quasi no fim da monção, em que os ventos começam a ser va¬ riáveis e a formarem tempestades. De tarde as correntes nos lançaram mais para a terra, e vio-se arrebenlação em uma extensa linha, denunciando um baixo ou restinga de areia, de que foi necessário fugir aproando para o mar. Aquella arrebenlação mesmo em calmaria como estavamos, e que tínhamos frequenlemente tido nos últimos dias’, produzia tal ondulação nas aguas, que apesar da dis¬ tancia fazia jogar fortemente o navio de bombordo a estibordo De noite passámos em frente da ilha dos Mastros , e a oeste de um baixo d’areia, que na baixa-mar dei¬ xa a coroa fora d’agua, o qual não vem marcado nas cartas, e foi descoberto e examinado pelo immediate da corveta, o l.° tenente Regis de Lima, quando serviu na estação de Moçambique, e que o colloca em 12° de lat. e 41 \ de long, de Greenwich, com o fun¬ do de 7 braças nas proximidades. A 18 amanhecemos longe da terra, que só bem se divisava da gavea; suppoz-se ser a ilha de Materno, e a do lbo, que é capital do districto de cabo Del¬ gado, onde temos governador e um forte. Tem porto onde se faz algum commercio. Ao meio dia estavamos em 13° em frente da bahia Pomba, que é vastíssima e excellente, tendo já passado as ilhas de Querimbo e Fumo: pelo sul a bahia Pomba é fechada por uma ponta a que chamam do Diabo. O dia esteve de ter¬ rível calor e calmaria \ mas de tarde choveu bastante, e soprou o vento do sudoeste, o que nos obrigou u bordejar, c ir fora do caminho durante a noite.
8i À &l o tempo continuou do mesmo modo. Viu-se um navio que poucos instantes depois desappareceu. N’um intervallo de menos cerração divisou-se terra, e conheceu o immediato do navio ser a Mesa, mon¬ tanha que indicava estarmos mui proximos do porto de Moçambique, e apesar do vento ponteiro e con¬ trario o fomos demandar. Depois de fazermos um lar¬ go bordo para o mar, voltámos correndo ao longo das ilhas de Senna e de Goa, já á entrada do porto, ’e graças á pratica que o immediato tinha doestas para¬ gens, e ao bom andamento da corveta á bolina, ra¬ sando a fortaleza de S. Sebastião a poucas braças de distancia das muralhas, surgimos no ancoradouro, onde lançámos ferro pelas duas horas da tarde, quasi em frente do palacio do governo. Doce quietação succedeu de repente aos incommo- dos balanços, e passou-me logo o enjoo: o tempo po¬ rém continuou máo, de muita chuva, e fora durava o temporal, que só cessou d’ahi a sete ou oito dias. Vieram logo a bordo o filho do patrao-mor, que não pudéra tomar a corveta para servir de pratico, o ajudante do governo Pontes, e varias outras pessoas. V cidade vista do mar parecia feia e muito pe¬ quena , e só se notavam dois edifícios maiores e mais regulares, o palacio do governo, e a alfandega: as casas sem telhados, porque são de terrados, mas sem pilares nem gradaria no alto das paredes, tem appa- rencia de arruinadas, ou destruídas pelo fogo. Na ter¬ ra firme para o lado da Cabaceira viam-se prédios maiores e mais bonitos. No porto estavam muito pou¬ cas embarcações; sómente alguns pangaios, duas es¬ cunas que saíram de Goa antes de nós, o brigue de guerra D. João de Castro, e uma escuna do Estado. No dia seguinte fui a terra. Ao embarque e des¬ embarque é sempre necessário ir ás costas dos negros, porque as lanchas ficam longe da praia, em conse¬ quência do pouco fundo. Dirigi-me a casa do gover¬ nador para lhe entregar algumas cartas que para elle trazia de Goa $ e fui agradavelmente surprehendido 6*
encontrando pessoa do meu conhecimento cm Lisboa : era o dr. Joaquim Pinto de Magalhães; logo me re¬ conheceu , e nos recordámos do tempo e logar em que primeiro nos havíamos visto, e que se refere a uma sin¬ gular epocha da minha vida. De tarde o juiz de direito Bernardo Francisco d’Abranches veiu ao palacio, e tive a satisfação d’en- contrar n’elle outro conhecido de Portugal, e de re¬ cordarmos outras circumstaneias da minha vida. O governador oífereceu-me hospedagem , que ac- ceitei, e não voltei para bordo. A1 noite concorreram algumas pessoas: houve animada conversação, quasi toda relativa a cousas de Portugal. Não se compre- hende sem se haver experimentado, o prazer que se goza em similhantes conversações, quando a milhares de legoas da patria se encontram patrícios com quem nos recordemos das pessoas, logares, e successos do nosso paiz. Pelas 10 da noite recolhi-me a um commodo apo¬ sento, e adormeci regaladamente n’uma boa cama, que fazia bem agradavel contraste com o acanhado be¬ liche de bordo,. e com os inhospitos balanços de tres noites de temporal. A £3 , tendo dormido bem , levantei-me cedo, se¬ gundo meu costume, e antes do almoço fui com o governador ver ó quintal do palacio, que elle traz bem cultivado: tem bons parreiraes, bastantescaféseiros no- tos , e algumas figueiras, das quaes comemos bons fi¬ gos , tão saborosos e perfeitos como os do reino. Ao almoço comi excellente manteiga fresca, feita nas ma- xambas, fazendas ou quintas que vários dos morado¬ res possuem na terra firme: ha abundancia d’ella, e \ehde-se durante o tempo dos pastos a 1:600 réis pro- \inciaes, ou 400 réis fortes o arratel: é producto novo n’este paiz, e que até agora todo ia da Europa e da índia. ■ Fiz de manhã algumas visitas e regressei para o palacio, ou para S. Paulo como vulgarmente diziam , da invocação da capella que lhe é contígua, e do no-
83 me d'esta antiga casa dos jesuítas, que na disposição e r^urn pateo interior ou claustro ainda conserva ves¬ tígios da antiga forma do convento. E’ hoje uma boa residência, ma is vasta e de melhor apparencia que as casas dos governadores de Macao e de Goa: na frente tem um jardim arborisado, em que se entra lo¬ go ao desembarcar, que a erribelleza bastante; foi obra do tempo do governador Valie: dos terrados desfru- cta-se boa vista, princípalmente de um mirante, qne é o ponto mais elevado de toda a ilha. Tem comtudo o palacio o defeito geral das casas de Moçambique, que é serem os pavimentos todos feitos d’argamassa , que em algumas partes cobrem com arêa muito fina: isto torna-os húmidos, empoeirados, e de desagradᬠvel pizo, e menos salubres as habitações: muito para estranhar é que tal aconteça em um paiz abundante de boas madeiras, e onde ha muitos escravos carpin¬ teiros. O actual governador começou a dar um util exemplo, intentando assoalhar de madeira as salas e quartos do palacio: a primeira sala estava quasi prom- pta, com um bonito sobrado da excellente e muito duradoura madeira chamada mucurusse, na qual só brocada peneiram os pregos. E’ de esperar que este exemplo seja seguido. A 24 de manhã cedo tomei um banho em tina, que repeti á mesma hora quasi todos “os dias que estive em Moçambique. O banho é um verdadeiro prazer e uma necessidade hygienica nos paizes quen¬ tes : a bordo dos nossos navios de gvuerra não ha esta commodidade, que não era difficii de estabelecer, e que entre os estrangeiros já está em uso. Sentia-se muito calor, apesar de não ser então a estação mais quente, e da atmosfera estar refrescada pelas chuvas: o sol era ardente e suffocador, e qual¬ quer pequena exposição a elie logo me atordoava a cabeça, mesmo debaixo de párasol ou da maxila. ]No fim da tarde fui a passeio com o governador e outras pessoas, todos em maxilas: passámos pelo sir tio chamado a Missanga , habitado por negros, e fomos 6 *
& praça de S. Sebastião, cujo recinto c muralhas per¬ corremos. E’ corn effeito uma bella obra de fortifica¬ ção para os tempos em que foi feita, e ainda hoje. Tem 96 peças de boa artilharia, quasi todas de bron¬ ze, e um magnifico morteiro que marca 1£ pollega- das: tem pedreiros de calibre 96 e 1^8, com grande numero de balas de pedra : d’outros projecteis ha mui¬ to pouca quantidade, e nem uma só bomba para o morteiro: as carretas e todos os reparos estão em mi¬ serável estado. As duas baterias rasantes, assentes so¬ bre rocha ao lume d’agua, são mais modernas e muito bem collocadas para defender a barra, porque os na- •vios por causa dos baixos fronteiros tem de passar jun¬ to a ellas. A fortaleza é de boa cantaria, com muralhas do¬ bradas, assentes em rocha viva, com quatro baluar¬ tes, dois para o mar e dois para a terra, dominan¬ do toda a cidade e a ilha inteira: é bem dividida in¬ teriormente, tem tres cisternas, quartéis para o ba¬ talhão, e uma igreja hoje em ruinas chamada de S. Sebastião, que está substituída para o culto por uma ermida no baluarte de Nossa Senhora, onde os gover¬ nadores recebem a posse do governo, tomando o bas¬ tão de general que está depositado no altar respective. A esta ilha de Moçambique aportou Vasco da Gama no l.° de março de 1497, e aqui achou uma cidade florescente, povoada de homens baços de varias nações, que mercadejavam por diversas partes, tor¬ nando este ponto um grande centro do commercio africano. Ficou logo sendo escala certa da nossa nave¬ gação para a 1 ndia, pela bondade do seu porto, e por isso Affonso d’Albuquerque escolheu Moçambi¬ que com mao de mestre para interposto do commercio da Europa com a Asia, e logo alli erigiu algumas for¬ tificações. Quando D. João de Castro passou por Mo¬ çambique, para ir tomar posse do governo da índia, é que fez começar ou renovar a fortaleza de S. Sebas¬ tião, escolhendo conveniente e melhor posição que a das primeiras fortificações, e n’ella trabalharam u por-
fia e com suas próprias maos muitos dos pórtuguezes que o acompanhavam. Durante o passeio pelos baluartes, vi d’urn d’elles sumir-se o sol no horisonte, detraz das pequenas colli- nas da Cabaceira, e o espectaculo de tanto desleixo, abandono, e abatimento do que outr'ora fomos, fez- me lembrar que assim se eclipsara a nossa grandeza, e desapparecéra esse formoso e energico viver dos tem¬ pos cavalheirosos dos Albuquerques e dos Castros, quando levantavamos fortalezas d’estas na Africa, na Asia, na America, e na Oceania, as quaes hoje nos espantam pela sua vastidão e solidez, trazidas muitas vezes as próprias pedras e os materiaes a tão distan¬ tes regiões lá d’esse recanto do mundo, do pequeno Portugal! O governador da praça o tenente coronel Cândido Maximo Moules a conserva no melhor estado que pô¬ de, corn os poucos ou nenhuns meios que lhe forne¬ cem : é um official de capacidade para disciplina e arranjo, e tido por muito probo. A 25 , dia da Annunciaçâo de Nossa Senhora , ouvi missa pelas 7 horas na capella do palacio, ou ermida de S. Paulo: notei a ausência absoluta de mulheres, vendo somente dois ou tres homens da cidade, e al¬ gumas crianças com seu séquito de moleques. Assistiu á missa o batalhão com muito pouca gente, e á saí¬ da formaram no largo proximo, e alli fizeram a para¬ da e divisão das guardas, manobrando muito mal. Nem officiaes nem soldados tem quem os instrua : bem util seria um major bom dísciplinador para comman- dar o batalhão, que é o único da província. Fui convidado n’este dia a jantar com o delegado José Vicente da Gama. Depois do jantar, servido por uma multidão de pretos, moleques e pretinhas, fo¬ mos a bordo de um pangaio ara be, que estava enca¬ lhado na praia defronte da casa do mesmo Gama, e dentro do qual víramos que estava uma bailadeira. Eu nunca tinha visto alguma d’estas mulheres., tão famigeradas no Oriente: era mui nova e de delicada
86 compleição, e apesar da còr baça tinha feições e olhos engraçados; estava bem vestida com calças e pannos de seda, e carregada no pescoço, pulsos e orelhas com manilhas, collares e vários adereços de ouro, tudo de nao pequeno valor; tinha comsigo uma criança de 10 a 112 annos vestida no mesmo gosto, mas sem orna¬ tos de ouro. Era para mim scena original ver-me na tosca e suja camara de um pangaio arabe, com mais tres portuguezes, rodeados pelos principaes arabes da numerosa tripulação, negros, de physionomias regu¬ lares e agradaveis, com seus alvos turbantes, roupas largas, e longos caximbos; e em frente de uma baila¬ deira gentílica, assentada de pernas encruzadas junto a uma janella da popa, com aquelle olhar e adema- nes voluptuosos e provocadores que constituem um dos méritos da sua profissão, e que mais desenvolvem nas danças lascivas, d’onde tiram o nome de baila¬ deiras. Um dos nossos companheiros fali avo o arabe de Mascate e a lingua marata , a mais geral do Indos¬ tão, e entreteve a conversação com os homens e com nquella mulher, que no entanto ia mascando indolen¬ te e graciosamente a estimulante folha do bétel, mis¬ turada com aréca, especie de noz adstringente, ao que também juntam cal de marisco: offereceram-nos esta mistura, por ser istoenlre os orientaes um signal de cordialidade, e eu ainda mais esta vez a provei, lembrando-me que seria provavelmente a ultima no decurso da minha vida. A fui ver a igreja da Misericórdia, muito pró¬ xima do palacio: é de grandeza regular, e está em soffrivel estado de conservação. Tem no pavimento tres lapidas do fim do século passado, e nas paredes varias outras modernas, que cobrem os restos morlaes de al¬ gumas pessoas recentemente fallecidas em Moçambi¬ que, sendo todas de bom mármore e apurado traba¬ lho, executado em Bombaim. Chega-se á porta da igreja por debaixo dhima grande alpendrada, como em vários templos das nossas provindas. A Misericor-
. 87 dia já hoje nao exerce as fu noções de estabeleci mento pio por falta de rendimentos: alguns prédios que linha caíram em ruina, e a arrecadação dos espólios dos de¬ funtos e ausentes (dos quaes retirava seis por cento) que antigamente tinha a seu cargo, passou para ajun¬ ta da fazenda: hoje só lhe resta o redito de 20 cruza¬ dos que paga cada embarcação de gavea que entra no porto, e que montará a 600 ou 700 annualmente: n’outro tempo sustentava um hospital, que depois se reuniu ao hospital militar. Existe aqui a unica aula de instrucçao primaria, que esteve até ha pouco longo tempo sem mestre , e o que tinha então , mandado de Portugal pelo gover¬ no, gozava da fama de pouco habil e menos mori- gerado. E’ frequentada por uns 40 a 50 rapazes de diffcrentes raças e cores, que só aprendem a ler, es¬ crever, contar, e alguns princípios de grammatica. Pelo pouco que fallei com o professor pareceu-me exacta a informação que d’elle já tinha: explicou-me seus vastos projectos de estabelecer uma eschola normal ! Fui d’alli á casa da camara, que é um bello e nobre edifício, onde também se fazem as audiências judiciaes. De tarde repeti o costumado passeio com o gover¬ nador e seu séquito. Estivemos na vasta cisterna cha¬ mada da ponta da ilha , que um particular fez para aguada dos navios no tempo da escravatura, e que está bem conservada. Fui \er a pedra a que chamam de S. Francisco Xavier, situada á borda do mar, on¬ de diz a tradição que o santo tinha por costume ir meditar, e orar em quanto esteve em Moçambique na sua passagem para a Índia; mas verdadeiramente o local que os antigos mostravam, que era uma cspecie de arcada de pedra tendo um assento e uma como es¬ tante natural, já ha cousa de dez annos foi desmoro¬ nado pela acção das ondas, e jazem as pedras no mar: a pedra que hoje mostram sendo percutida com algum seixo atirado d’um pouco longe, dá urn som metaíli- co, como de um sino rachado; qualidade que tem Jgualmente outras pedras das proximidades, Ha urna
lenda , ou tradição popular, de ter o santo passado da terra firme para a ilha, sobre a sua estola estendida nas ondas. O terreno para este lado é coberto quasi todo por matto rasteiro, e com muitas flores simi- lhantes a uma especie de campainhas muito communs cm Macao. Estivemos até ao pôr do sol no logar da meia-la¬ ranja, d’onde deitados nas maxilas voltámos para a cidade. Era uma scena um tanto original e grotesca \er seis maxilas conduzindo o governador e os que o acompanhavam, levadas cada uma aos hombros de quatro negros nus, apenas com a tanga, formando dois a dois como um angulo agudo, em cujo vertice descançava o bambu ou canna da maxila, correndo e procurando tomar a dianteira uns aos outros, e pa¬ rando a espaços por um momento, ao signal d’uma palmada na canna, para rapidamente trocarem a po¬ sição para folgar um dos hombros, e seguirem depois com maior ardor na carreira. A quasi todos occorreu o pensamento de que daríamos um curiosissimo espe- ctaculo ao povo de Lisboa, se atravessássemos n’este singular trem o Terreiro do Paço, ou o Rocia. Passámos pela Missanga e pelo meio do basar, onde os negros vendiam generos e preparavam suas co¬ midas: este sitio é infecto pelos immundos costumes dos pretos, e amontoação de casas, apesar de se te¬ rem recentemente mandado demolir varias barracas, para fazer girar mais o ar n’aquelle bairro. Chegados ao palacio fomos para o mirante do ter- rasso, para gozar de fresquidão: alli conversámos, to¬ mámos chá, e ouvimos tocar a musica ou charanga do batalhão, a qual todas as noites ás 8 horas vem da praça á porta do palacio tocar algum tempo estropea¬ das peças de musica. Na tarde de 27 fui com o juiz Abranches outra vez para o lado da ponta da ilha, e largando as ma¬ xilas ao fim da boa estrada que ha n’aquelta direc- çâo, fomos a pé por entre o matto até ao extremo da ilha, em frente do forte de S. Lourenço, que fica m
89 meio das aguas em maré cheia, e está edificado sobre rochedos que as ondas vão solapando. Tem uma pe¬ quena guarnição de soldados estro peados, e acha-se em miserável estado de defesa; defende a barra peque¬ na ou do sul, e pode jogar a artilharia com a praça, ficando ao centro o forte de Santo Antonio, onde en¬ trei e que já não tem artilharia alguma: estavam lá dois soldados que pareciam uns cadaveres ambulantes, que guardam uma ermida já meia arruinada den¬ tro do mesmo forte, dedicada a Santo Antonio, que foi n’outro tempo de grande devoção da gente de Mo¬ çambique, e até dos proprios gentios baneanes, que lhe davam boas esmolas. No regresso do nosso passeio passámos junto da igreja de Nossa Senhora da Saude, que serve hoje de capelía do cemiterio contíguo, chamado por isso da Saude. Estranha designação, que com outras simi- Ihantes usadas em Angola e Lisboa dão logar ao di¬ tado : Deos noa livre da saude de Moçambique, dos remedios de Angola, e dos prazercs de Lisboa. No domingo $8 tornei a ouvir missa na capelía do palacio, que é espaçosa: tem dois altares e altar mor, e um púlpito de madeira bem trabalhado com figuras e ornatos em relevo: os altares são guarneci¬ dos de obra de talha dourada, similhante á dos con¬ ventos de Goa : tem duas lapidas nas paredes do altar mór, uma d’ellas da filha do governador Sebastião Xavier Botelho: o frontispício é de singular e máo gosto, de argamassa em altos relevos e meias co- lumnas. Era, como já disse, a antiga igreja do col- legio dos jesuítas, denominado de S. Paulo. Obser¬ vei a mesma falta de concurrencia que no dia ^5. A’ saída da missa houve a costumada parada do batalhão, á qual sempre concorre algum povo negro. Estive observando as pretas envolvidas em pannos dos sovacos dos braços para baixo, alguns ricos a seu modo, isto é, bordadoi de missanga, e varias tinham abundancia de braceletes ou manilhas de varias cores nas pernas e nos braços. Algumas traziam os filhos,
90 e os amamentavam aos peitos excessivamente disten¬ didos, parecendo têtas de cabra: dizem que é uma belleza entra ellas, e motivo de vaidade feminil o comprimento dos peitos: usavajp trazer os filhos de tres modos, escarranchados ao hombro, sobre o qua¬ dril, ou n’uma caconda (especie de faxa ) ás costas á maneira das chinas. Fui depois á sé, no fim da rua dos baneanes: é um templo espaçoso e bem conservado, e nos adornos interiores quasi no gosto de S. Paulo. Fallei com o prior, que é ao mesmo tempo o vigário, ou auctori- dadc ecclesiastica superior da província. Na volta en¬ trei em varias lojas de baneanes, na sua rua: nada tem que ver, e careciam dos objeclos que lhe eu pedia; só n’uma achei má tartaruga que me davam a S8 cruzados provinciaes o arraiei; a boa regulava de 30 a 34 cruzados, ou de ties ou quatro patacas. I De tarde dei o costumado passeio com o governa¬ dor e sua comitiva: largámos as maxilas perto dos muros da praça, e estivemos debaixo de uma copada e bonita arvore, que se acha isolada no meio d’aquelle plano d’arêa , e que a tradicção diz ser mais antiga que a fortaleza. D’alli contemplei algum tempo as vene¬ randas muralhas erigidas por D. João de Castro, ás quaes os séculos tem dado a côr enegrecida. N’esses tempos heroicos da nação porlugueza eram communs estas construcções, que hoje nos maravilham , como se observa nos domínios que ainda possuímos, e nos que já perdemos. A fortaleza de Mombaça dizem que era mais vasta do que esta, e pessoa que a visitou ha pou¬ cos annos, me affirmou não estar ainda em grande ruí¬ na, apesar de abandonada: os arabes e os negros não a tem destruído, como os civilisados inglezes fizeram em Malaca e n’outras partes ás nossas fortificações, que mereciam ser conservadas ao menos como monu¬ mentos históricos e de antiguidade. Não ha muito tempo que os habitantes de Mombaça tendo-se rebel- lado contra o imamo de Mascate, mandaram propor ao governo de Moçambique que enviasse guarnição
91 para a fortaleza: por falta de gente e de meios perde¬ mos esta occasião de recuperar aquella cidade. Ao sol posto fizemos encostar as maxilas ao alto contra as muralhas da fortaleza, de modo que nos proporcionassem assento; d’alli descançados, respiran¬ do a lépida brisa da tarde, contemplando o mar que se tingia d’escuro, todos caímos insensivelmente em silencio e melancolia, cada um entregue a seus pen¬ samentos n’aquelle doce meditar que esta hora quasi sempre excita. Só fomos distrahidos. d’esta especie de esquecimento uns dos outros ao divisar-se no hoti- sonte uma vela de navio de gavea, o que sempre cau¬ sa alvoroço e satisfação nos portos pouco frequenta¬ dos , e tão distantes como este dos paizes civilisados: era a escuna americana Sylphide, vinda da dha de Zanzibar, que de noite deu fundo cm frente da cidade. Na manhã de 2!) fui a bordo, e fiz conduzir para terra alguns objectos volumosos, que desembarcaram perto da alfandega sem a menor difficuldade. E in¬ crível a facilidade com que se fazia o contrabando; tudo quanto se queria vinha da corveta para terra; os marinheiros andavam pelas casas particulares, pe as lojas, e pelas ruas offerecendo vários objectos a venda. Com a corveta Nova-Goa , que pouco tempo antes da nossa chegada havia d’alli saído, diziam ter succedido o mesmo. . , Se os rendimentos da província superabundassem 9 nem assim tal desleixo teria desculpa; mas quando os cofres públicos estavam exhaustos, os servidores do Estado com sete mezcs de atraso na capital e muito mais nos portos, as fortalezas e os estabelecimentos públicos em lastimoso estado, a tolerância de laes abusos era muito censurável. . . N ’este dia jantei por convite em casa do juiz Abranches: eram 16 os convivas, e o jantar foi deh- cndo e bem servido a moda europea, e so a multidão de negros grandes e pequenos que rodeavam a mesa nos fazia lembrar que estavamos na Africa. Ires se¬ nhoras assistiram á mesa, únicas que vi natuiae» do
92 Moçambique: tinham boas maneiras, porém muito acanhadas. De tarde vieram apresentar-se ao governador , que também era da companhia, dois eleitores de Quili- mane, ambos officiaea militares que acabavam de chegar na escuna Delfim , que já se receava perdida pela longa viagem que trazia: havia socego. e com- mercio regular em C^uilimane, d onde trazia umas 200 arrobas de marfim e arroz. A 30 visitei o chamado arsenal, que consiste em dois máos barracões e um telheiro. Algumas ancoras e peças d’artilheria estavam deitadas sobre a areia sem o menor resguardo. Tem as denominadas officinas de ferraria, tanoaria, e carpintaria, tudo porém em pés¬ simo estado de organisação: possue o arsenal uns 180 escravos, a que chamam libertos da nação, e apesai da nenhuma importância, e quasi nenhum bom servi¬ ço d"este tão necessário estabelecimento, conserva o ap- parato e gastos d’administração com 1 inspector, 1 almoxarife, X escrivão, 1 fiel, mestres $ contrames¬ tres &LC • A existência em Moçambique de um pequeno ar¬ senal bem montado e fornecido, seria de grande van¬ tagem para esta cidade, onde muitos navios deixam d’arribar quando soffrem avarias, ou corridos com os temporaes, por não haver recursos para reparos e concertos, preferindo irem á cidade do Cabo ou a Zanzibar, ás vezes com perigos e inconvenientes. Se qualquer navio do Estado, ou mercante carece alli de refazer-se de quaesquer objectos de massame e mas¬ treação, só os oblem por preços exorbitantes, quando os ha nas mãos dos particulares ? e obrigando ás vezes a demoras de mezes. Está assim abandonado pela navegação mercante o melhor porto da costa oriental de Africa ; tem bom ancoradouro, é abrigado dos ventos, e só offerece al¬ gum perigo quando na monção do. sudoeste cáem as manmnuccàas, ou tufões das Mauricias, o que de or¬ dinário se conhece com antecedencia pelo estado atmos-
93 ferlco, na epocha propria que é em janeiro, indo então os navios ancorar na barra de Mossuril. A 31 visitei a casa da junta da fazenda, que é um vasto e solido edifício com boas repartições \ tem uma casa forte com bons cofres, onde estavam arreca¬ dados alguns espolios de fallecidos, conservados nas suas próprias especies, como ouro em pó, peças, &c. Vi a escripturaçâo relativa a estes espolios, que me pa¬ receu estava muito regular e clara, e o cartorio em bom arranjo, tudo devido ao intelligente e assiduo escrivão da junta, José Narciso Ferreira de Passos. Examinei o hospital, que é um grande edifício quadrado em fórma de claustro, que foi o convento da ordem de S. Joao de Deus, cujos frades serviam de enfermeiros, e no tempo d’elles dizem estivera bem montado: hoje está a cargo da fazenda, porém mui¬ to decadente e falto de roupas e medicamentos. As en¬ fermarias são largas e arejadas, e notei sobre tudo o aceio da cozinha. E’ ao mesmo tempo hospital militar e civil, tendo-se-lhe reunido o da Misericórdia, ex- tincto por falta de rendimentos, como já disse. O actual administrador d’este estabelecimento, o dr. Fonseca, dizia ser util dolal-o com o resto ainda existente dos bens dos extinctos frades de S. João de Deus, consistindo em alguns terrenos aforados e foros na cidade, que mais assim se aproveitariam do que na administração do Estado. Este arbilrio seria conve¬ niente supposta uma boa administração, que ha mui¬ to alli não existe, apesar do avultado gasto que a fa¬ zenda faz com este estabelecimento, chegando a 8 con¬ tos de réis fortes annualmente.
9 í CAPITULO OITAVO, Idea geral do estado religioso e moral, finan¬ ças, força publica, população, agricultu¬ ra , commercio , ânstrucçao , costumes , e systema monetário na provincia de Sloçam- bicfiae. Direi aqui o que pude colher do meu exame, e de informações sobre differentes assumptos públicos e da economia da província. Estado religioso e moral. Na província de Moçambique não ha bispado, existindo simplesmente uma prelazia, que tem sido conferida ordinariamente a bispos in partibus, com muito limitada jurísdicção. Na capitai o clero redu¬ zia-se ao cura da sé, que servia de prelado; ao cura da freguezia de Mossuril, na fronteira terra firme * que residia na cidade, servindo de capellão do gover¬ nador; e a um padre que viera ha pouco do Ibo, on¬ de era cura: são todos naturaes de Goa. O vigário capitular e o padre do Ibo tinham publica opinião de vida escandalosa, e de inhabeis pela sua ignorância para o seu sagrado ministério. O cura de Mossuril diziam ser de bons costumes, mas de mui limitada in- telligencia. Sem prelado nem padres europeus ha muitos an-
nos, e com tal clero, não admira a falta de senti¬ mentos religiosos nos habitantes. Em geral ninguém frequenta a igreja , ouve missa, nem se confessa ; mor¬ rem sem sacramentos , e o proprio sexo feminino é in- differente á religião. A moral publica e particular, 1ao intimamente ligada com ella , resente-se d’este es¬ tado em ambos os sexos. Na população negra as crenças eh ris lãs vão quasi extinclas, e o mahometismo faz cada dia mais progres¬ sos, o que bem perigoso seria para a continuação do nosso domínio n’esles paizes, se os negros se possuís¬ sem verdadeiramente do espirito d’aquella religião, sujeitando se á influencia do imamo de Mascate, ora estabelecido em Zanzibar, que lhes envia seus padres. O mahometismo porém para estes negros reduz-se á circumcisão, ao que elles chamam fanar, conservan¬ do aliás todas as superstições e absurdos dos seus fei¬ tiços ou idolos, e dos seus feitiçeiros ou bonzos. No entanto era a conversão ao christianismo d’estas brutas populações o unico e poderoso meio de as attrahir a nós, de as ter sujeitas, e de fazer penetrar as luzes e os benefícios da civilisaçao n’esta barbara terra d Afiica. Os antigos bem o conheceram e o praticaram com proveito, e ainda hoje por afastados sertões d’es¬ ta província se encontram vestígios dos seus perseve¬ rantes trabalhos, em alguns negros christaos, e nas ruinas dos edifícios e collegios dos jesuítas , dos quaes os negros ainda conservam memória respeitosa. Nos portos e nas villas do interior o estado reli¬ gioso é ainda peior que na capital: ou não tem pa¬ dres, ou onde os ha em geral nada tem de edifican¬ tes, e tratam mais de eommerciar, e de fazer dinhei¬ ro por todos os modos, do que de cumprir com os seus deveres. Em Sofala, Lourenço Marques, e outros portos onde não existem padres fazem-se os casamentos so por meio d’escripturas lavradas por escrivães, con¬ signa mio-se a obrigação de receber a bênção da igreja na primeira oecasião que tiverem. Succede poréin he-
quentes vezes separarem-se os contrahenles antes que chegue tal oceasião, cm prejuízo da moral e das rela¬ ções sociaes. Estado financeiro. A* chegada do actual governador , em outubro precedente, a divida aos empregados públicos era de 7 mezes. O governador tomou algumas quantias de empréstimo ao cofre dos defuntos e ausentes, adminis* trado pela junta da fazenda, para ir pagando aos ser¬ vidores do Estado, e tencionava pòl-os ein dia em maio ou junho seguintes, que sâo os mezes do máximo ren¬ dimento na alfandega; e ia fazendo arrecadar algu¬ mas dividas, impostos, e foros atrasados com abati¬ mentos e composições com os devedores. Nos portos o atraso era muito maior, chegando em alguns a 17 mezes, pela falta das remessas regula¬ res dos pannos, ou fazendas de lei, que é como ainda nos portos se paga aos empregados e tropa (apesar de determinações etn contrario da corte), e que lhes serve para as permutações corn os negros; por quanto estes não recebem outra cousa senão pannos nas compras avultadas do marfim e d’outros productos, e missan- ga e aguardente nas vendas pequenas de generos de consumo diário: ainda hoje nos sertões não dao valor ao ouro e ao dinheiro; e um negro prefere ás vezes um barrete vermelho a um montão de peças de ouro. A falta de pagamento aos soldados pretos faz com que elles desertem frequentemente para o sertão, só para irem adquirir alguns meios de subsistência, e al¬ gumas vezes vem apresentar-se de novo. Nos portos não ha alfandegas, mas são suppridas pelos feitores da fazenda, nos casos em que são admit- tidos generos que ainda não tenham pago os direitos na capital da província. A actual legislação só permitte a entrada de na¬ vios estrangeiros, americanos e inglezes, na capital da província; aos navios nacionaes é dado correr os por¬ tos, mas pagando os direitos na capital. Ha porém em
07 \ Q,uilimane uma commissão d’alfandega. Os navios estrangeiros pretextam arribadas quando lhes convém , e então despacham e vendem quantas fazendas que¬ rem. Os direitos d’importação são de 2 b por cento; na verdade exorbitantes, e que convidam a fazer con¬ trabando. Os rendimentos públicos na capital consistem quasi exclusivamente nos direitos da alfandega , que no an¬ no ecônomico de 1850 a 51 importaram em ^00 contos provinciaes , ou 50 de Portugal : cobiam-se também, toros da fazenda , sêllos, multas, &c. tudo de pouca importância; não ha impostos pessoaes , nem pre- diaes. A falta de fiscalisação, e de força publica para reprimir o contrabando muito dirninue o rendimento d’alfandega: na cidade e por toda a costa navios nacio- naes e estrangeiros desembarcam quasi quanto querem» Dos portos vem para a capital alguns rendimentos em ouro em pó^ dinheiro de toros, dízimos 9 e íen- das d’alguns prazos da fazenda. A causa principal do empenho da província foi a estação naval, ou cruzeiro contra o traiico da escrava¬ tura* o qual consumia annualmente a terça parte do rendimento da província. Só o brigue Tejo consumiu talvez acima de cem contos, e a arruinaria mais se não fôra mandado para Goa , onde foi condem nado. Taes estações tem sido fataes para todas as nossas co¬ lónias d*Africa. Os vencimentos em dinheiro forte, e as continuas, e ás vezes bem exaggeradas exigências dos chefes e -commaiidant.es dos navios absorvem som- mas importantes , e em Moçambique nunca o serviço do cruzeiro foi util nem regular. Ao brigue Tejo forneceram-se por vezes manti¬ mentos para muilos mezes de cruzeiro, e consumia-os fundeado no porto,, com tal escandalo, que hoje se diz trivialmente em Moçambique, que se formou um baixo de ossos de gallinhas no logar ern que estava o brigue: cumpre saber que estas aves são alli tão ba¬ ratas (custam quando muito 40 rs. de Portugal cada
98 uma), que se dão ás vezes como ração de carne á marinhagem. Em tempos pouco anteriores citava-se o caso de um commandante d’outro brigue de guerra, que es¬ tando em Quilimane, foi elle mesmo servir de prati¬ co da barra a bordo de um navio carregado de negros que d’alli saiu; e ma is outros factos escandalosos se contavam dos nossos cruzadores. Voltando porém a fallar das finanças do paiz, po¬ de-se dizer em geral, e assim o ouvi ás próprias au- ctoridades, que sem estação naval e despezas ex¬ traordinárias com a passagem de navios de guerra, os rendimentos da província podem occorrer ás suas des¬ pezas , mesmo no actual estado de decadência do com- mercio, e de falta de boa arrecadação. Os vencimentos dos officiaes e empregados provin- ciaes são geralmente mesquinhos e insufficientes, e por contraste alguns censuravam como excessivo o or¬ denado do governador, não exigido pelas necessidades da sua situação, nem comportável com as forças dos rendimentos da província: é de 4 contos fortes, ou 16 contos do paiz. O governador tem palacio para habitar, dispõe dos escravos da fazenda para o servir ( por abuso ou costume, e não por direito), desfructa uma bei la casa e propriedade territorial em Mossuril, que lhe deixa, além dos productos consumidos no tratamento da sua casa, ordinariamente 300 cruzados annuaes de rendi¬ mento liquido. Esta fazenda ou maxamba foi feita pelo governador Balthasar Manoel Pereira do Lago, e todos os seus successors a desfructam só com o en¬ cargo de fazerem uma festa annual a Nossa Senhora da Conceição na ermida da dita casa. Todos os gene- ros e objectos do paiz são baratos, e em Moçambi¬ que o governador não tem que ostentar luxo nem ap- parato, não tem necessidade de dar bailes, nem jan¬ tares, e pouco trato ha com estrangeiros.
Força publica. À província pode-se dizer que está completamente desarmada, e exposta a um infallivei insulto, ou per* da, em qualquer ataque d’uma força europea, ou. mesmo dhnvasão de negros na terra firme. O unico corpo existente é o batalhão de linha, que na cidade terá uns 120 homens, e alguns desta¬ camentos pelos portos , não chegando tudo a 200 euro¬ peus : pela maior parte e composto de degradados, to¬ dos arruinados de saude, de máos costumes , e dispos¬ tos a grandes crimes; o resto são negros, gente com que se não pode contar na guerra, principalmente sen¬ do empregados contra os da sua raça, com os quaes frequentemente se bandeam por timidez e efíéito das suas superstições, abandonando seus officiaes, como ainda não ha muito succedeu em Inhambane com o infeliz capitão Antonio Manoel Pereira Chaves, en¬ tão governador d’aquelle districto, e que por isso per¬ deu a vida. O batalhão estava péssimo em disciplina e mano¬ bra por falta de officiaes instructores, e mesmo dos necessários para o serviço e para os portos: parece que 14 ou 15 officiaes, de tantos que temos no reino, te¬ riam aqui proveitosa collocação. Cada soldado tem ISO rs. de soldo, 5 rs. para lenha, e 213 rs. por quinzena, valor correspondente a 2 panjas ou al¬ queires d’arroz, que é o pão do paiz; de modo que o moldado europeu tem ao todo diariamente 140 rs. do paiz, ou 35 rs. de Portugal, e tem mais 6 rs. fortes para massas; estão porém muito mal fardados e calça¬ dos , recebendo por anno apenas um par de sapatos muito ruins, feitos ordinariamente em Goa. O equi¬ pamento é péssimo, e em geral espingarda que se desarranja não se concerta mais por falta de operários. Pelos portos succede o mesmo ou peior, principal¬ mente no Ibo, onde diziam causa vergonha ver o que se chama tropa.. Não existia estação naval em Moçambique, e s<5 7 *
100 havia a força marítima propria da província, compos¬ ta do brigue D. João de Castro de seis peças, e das escunas 4 d’Abril e Infante D. Henrique de duas pe¬ ças, todos em máo estado para o serviço da provín¬ cia, de cruzeiro, ou de communicaçâo para os portos, Tres pequenas escunas bem arranjadas podiam fazer opt imo serviço não só como cruzeiro contra o trafico da escravatura, como também impedindo o contra¬ bando de fazendas na costa; e se adrnitlirem carga do commercio, podem com o producto dos fretes tirar, se não toda, ao menos boa parte das suas despezas. População e agricultura. Segundo dados au then ticos que tive occasião de consultar, em referencia ao ultimo recenseamento fei¬ to em 1849 , a população total da cidade ou concelho de Moçambique era de 10:870 almas, sendo apenas 1:110 livres: continha no sexo masculino, 184 chris- tãos (portuguezes europeus, indígenas, e de Goa ), 195 baneanes, 184 mouros, 80 gentios, 13 parses, 33 batiás, 39 mojôjos. Actualmente porém, segundo boas informações, e por aproximação só havia na cida¬ de uns ISO portuguezes, ^40 mouros, c2h batiás, 60 baneanes e 1@ parses, que vem ordinariamente de Diu e Damão; e 6:000 negros entre livres e escravos. A cidade conterá 300 prédios, fora as palhoças. O governo de Cabo Delgado, na mesma epocha de 1849, continha 6:636 almas, das quaes 1:403 li¬ vres. O de Quilimane e Rios de Senna 34:337, sen¬ do @1:303' livres. O de Sofalla ^:380, sendo 1:685 li¬ vres. O de Inhambane 3:@67, sendo 674 livres. O de Lourenço Marques 11:9@1, sendo 40 livres. Vê-se pois que em 1849 o total da população da província era de 69:411 almas, das quaes @6:@15 li¬ vres. Este calculo, ainda que feito sobre documentos aulhenticos, não será muito exacto, pela difficuldade de fazer boas estatísticas no Ultramar, e principal¬ mente na mal organisada provinda de Moçambique.
102 Joaquim Pereira Marinho, intentou este estabelecer em ponto grande a cultura da canna d’assucar, e do algodão. Chegou a montar uma fabrica para tecidos d’algodão, mandando vir utensílios e operários da ín¬ dia ; quiz dar impulso ás pescas da baleia, e de toda a especie de pescados que tanto abundam n’esles ma¬ res; á fabricação do sal, do azeite de purgueira, &c. Porém d’estes, e d’outros esforços a bem da província quasi nenhuns vestígios restam hoje. O café se cultiva em mui diminuta quantidade. Era então raro e caro, regulando de 3 a 4:000 rs. fortes a arroba: é muito miudo e de má apparencia , porém muito aromatico, e tem sabor especial, que muito apreciam alguns amadores d’esta bebida. Nos mattos proximos é espontâneo, e alli se vão buscar as plan Las. Causa admiração como o interesse proprio não te¬ nha explorado esta cultura. No Brazil compram-se os escravos por subido preço, nos terrenos emprega-se avultado capital, e vende-se regularmente o café no mercado do Rio de Janeiro de 1:700 a 1:800 rs. for¬ tes. Em Moçambique compram-se escravos a 9:300 rs, de Portugal, os terrenos póde-se dizer que nada cus¬ tam ao cultivador, e o raro café que apparece vende- se a 3 e 4:000 rs. ! O algodão, a canna do assucar, o arroz, e outros muitos generos poderiam ser cultivados com vanta¬ gem ; mas para taes desenvolvimentos não ha na pro¬ víncia nem capitaes, nem genio emprehendedor. O estado da navegação para Portugal também offerece um grave obstáculo: os fretes são exorbitantes e des¬ proporcionados, absorvendo o moderado interesse que, na situação actual da cultura, poderiam os generos dar em Lisboa. Os nossos navios exigem 600 rs. de frete por arroba de café para Lisboa, quando do Rio o conduzem a 130 rs.; por arroba de marfim grosso levam 1:930 rs. , e de Bombaim vai para Inglaterra, em muito mais longa viagem, a 300 rs. Os donos dos navios, como não tem competência, estabelecem fre-
103 tes taes , que quasi excluem a carga que não seja de conta propria. Além da necessidade da cultura em grande escala, seria necessário isemptar o cultivador do monopolio da carga, no que talvez proveitosa¬ mente se poderiam empregar navios do Estado arma¬ dos em charruas. Já é uma banalidade repetir que o fomento da floricultura é o unico meio de elevar as nossas colonias dVAfrica e da India a prosperidade de que são susce- pliveis, e que tanto pode reverter em beneficio da mâi patria. Quando isto se disser é necessário que se apontem os meios mais apropriados para conseguir tal fim segundo as localidades. A população branca e laboriosa é a primeira ne¬ cessidade ; mas entendo que a população portugueza europea nunca alli poderá prosperar, nem dar consi¬ derável desenvolvimento á agricultura. Estes climas , ao menos no littoral, repellem a raça europea , que do ordinário se extingue na terceira geração. Os naturae* de Goa dão*se melhor, mas a população agrícola mui¬ to escacêa n'aquelle Estado, e tem em geral hábitos de inveterada indolência. A meu ver o unico modo de povoar, e de fazer prosperar verdadeiramente pela agricultura esta vasta e rica possessão, seria pela colo- nisação chineza. Os chins são o povo do mundo o mais activo, in¬ dustrioso, e cultivador; são proprios para estes climas , cujas principaes producções são similhantes ás do seu paiz. Os chins saem hoje da sua patria para toda a parle do mundo : nos estabelecimentos inglezes de Sin¬ gapura , Malaca, e Pi não ha para mais de 120:000, ern grande parle cultivadores. Tem ido em multidões para Java, California, Chili, e Peru; agora o go¬ verno hespanbol os convidou para as Filippinas, e pa¬ ra Havana foram recentemente engajados 5 a 6:000 chins, tendo n’este anno ( 1853) saído de Macao a barca portugueza Novo Viajante com uma carregação d’elles para aquelle destino. Em summa elles \ao para onde se lhes facilita transporte, c promettem vantagens.
104 Já em tempos antigos houve muitos chins estabe¬ lecidos em Goa, e parece que muito uteis alli foram ; mas perseguições religiosas , e vexações das auctorida- des os fizeram abandonar aquelle Estado , e duram ainda tao vivas as tradições que transmit tiram aos seus compatriotas, que se hoje se falia a um chim em ir para Goa , mostra logo a maior repugnância, e mesmo horror a tal proposta. Se tivéssemos um governo providente, que olhasse para taes cousas, ou uma companhia emprehendedora, não era difficil fazer transportar de Macao colonias de chins para Moçambique, distribuir-lhes terrenos em propriedade, e os primeiros utensílios e meios ne¬ cessários para os deixar depois entregues a sua pro¬ pria diligencia e industria. Elles em breve espalhariam na província a cultura da canna, do algodão, do chá , e dos mais productos do seu paiz, com o qual pode¬ riam vir a estabelecer, por meio dos nossos navios, importantíssimas relações de commercio, principal- mente nas remessas de algodões, de bicho do mar, e de outras producções que a sua natural industria e aclividade saberia tirar d’este fecundo solo. Ainda que a população chineza se tornasse nume¬ rosa, entendo que nunca seria perigosa para o nosso domínio: a raça china nunca faria causa cornmum com a raça negra, para a qual tem decidido odio, e sendo de natural tímido e cobarde, e estando a força e auc tor idade publica nas mãos dos portuguezes, sem¬ pre havíamos ter a superioridade e domínio. Esta co¬ lon isaç;ão porém pedia conjunctamente a melhor or- ganisação da província, boas auctoridades, lei e jus¬ tiça em todos os ramos de administração, e indispen¬ sável augmento de força militar, não desmoralisada, nem composta de criminosos, para proteger os novos colonos, e para recobrar o domínio, ou a auctorida- de nos importantes terrenos que estão invadidos. > Conheço que no presente estado em que se acha a nação portugueza tudo isto são cousas irrealisavei* nos nossos tempos; mas em íim ahi vão essas idéas fi-
car consignadas na imprensa, e talvez que para o fu¬ turo se posssam levar a effeito. Comrnercio. À praça commercial de Moçambique já foi muito rica, e grandes fortunas alli faziam os portuguezes, e os gentios. Hoje acha-se em grande decadência , pelo acabamento do trafico legal da escravatura, e pela incerteza e transtornos do negocio de fazendas para o sertão. Ainda mais se sentem estes effeitos em relação ao comrnercio portuguez depois dos nossos tratados commerciaes de ^6 d’agoslo de 1340 com os Estados- Unidos d*America, e de 3 de julho de 184® com In¬ glaterra , pelos quaes foram admittidos os seus navios a negociar nas nossas colonias: o comrnercio de toda a costa de Moçambique tem caído nas mãos dos ame¬ ricanos, que levam aos portos, ou desembarcam ás vezes facilmente por contrabando em qualquer parte que lhes convenha, as fazendas próprias para as per¬ mutações com os negros, laes como pannos, polvora, espingardas, &c. Elles introduzem fazendas d’algodao melhores e mais baratas que as de Diu , Damão, e do reino, com as quaes até agora se fazia este comrnercio, e que elles vão expulsando do mercado, estabelecendo entre os negros o gosto de pannos mais finos e melhores pa¬ drões, com grave damno das fabricas de Diu e Da¬ mão, que só eram sustentadas por este comrnercio, principal recurso d’aquelles estabelecimentos. Os ame¬ ricanos recebem em troco ouro em pó, tartaruga, e principalmente marfim, genero agora muito procura¬ do, e do qual tem feito subir o preço a 34 e 36 pesos a arroba: em Moçambique nenhuma porção d’elle se podia obter, achando-se todo compromelti- do para os americanos. Admira que os seus rivaes commerciantes inglezes não lhes façam concurrencia n’este lucrativo trafico, de que elles sabem tirar to¬ do o proveito; geralmente empregam navios peque-
10G nos, e com mui pouca tripulação, mas perfeita- mente arranjados e com grande aceio, fazendo con¬ traste com o desleixo e immundicia da maior parte dos nossos navios mercantes: as suas facturas são mui bem calculadas, constando de pouco de diversas cou¬ sas: levam objectos de comida, de vestuário, de lu¬ xo, &c., de modo que a variedade e esmero no pre¬ paro d’estas facturas lhes dá prompta saída. Os nos¬ sos navios, além do carregamento pesado, pouco mais levam, máo, mal calculado para a venda, e exigem preços exorbitantes. Pelo decreto de 5 de junho de 1844 a polvora só pode ser introduzida nas possessóes ultramarinas sen¬ do de manufactura portugueza, e sob a bandeira na¬ cional ; mas até agora ainda nenhuma foi de Portu¬ gal, nem o governo a tem mandado para os forneci¬ mentos militares, de modo que os governadores em Moçambique tem-se visto na necessidade de a com¬ prar aos americanos para o serviço das fortalezas e da tropa, infringindo umas vezes as leis fiscaes, ou¬ tras dispensando-as e admittindo a polvora a despacho: o que é melhor que entrar por contrabando. Os ameri¬ canos vendiam cada barril de 84 libras por tres patacas. O governo compra por vezes aos americanos as fazendas que precisa para enviar aos portos, e o mes¬ mo fazem os negociantes portuguezes e gentios para o commercio dos sertões dos mesmos portos, que hoje está muito arruinado pela falta de segurança, e pe¬ los roubos frequentes, difficuldades de realisar os pa¬ gamentos, e infidelidades dos commissionados n’este trafico. Os antigos opulentos baneanes quasi nada hoje possuem ; o commercio que elles faziam com a índia caiu quasi todo nas mãos dos batiás, naturaes de lvatch, paiz do Indostão, tributário da companhia das índias. O commercio com a metropole é bem insi¬ gnificante; regularmente só apparece alli em cada an¬ no urn navio de Lisboa. Os pangaios e navios de gavea saem de Diu, Da-
107 mao, Bombaim, e Goa desde 10 de outubro a mea¬ dos de fevereiro com a monção do nordeste; chegam a Moçambique em janeiro, fevereiro e março; e re¬ gressam no principio de maio com a monção do su¬ doeste. E’ por este tempo e até junho, em que che¬ gam os navios dos portos, que o commereio tem mais actividade, e que se arrecada a maxima parte dos di¬ reitos d’alfandega: fora d’esta epocha o porto está quasi deserto. De muito transtorno era para as cargas e descar- gas dos navios a ruina em que estava a ponte da al- fandega, antiga e boa obra , toda de cantaria, e que avançava muito ao mar. Haannos arruinou-se, e nin¬ guém tratou de a reparar, mesmo no tempo que ha¬ via abundancia de dinheiro nos cofres públicos, sendo aliás tão necessária n’uma cidade commercial, como igualmente para commodidade dos habitantes e con¬ correntes estranhos. O actual governador estava resol¬ vido a restabelecel-a, e linha já posto a concurso a obra. Consta-me ( 1853 ) que já foi renovada, sob o plano e direcção de Vicente Thomaz dos Santos, e construí¬ da sobre pegões, em logar de ser como a antiga n’utn só corpo solido. Esta obra, que parece que importou em cinco con¬ tos de réis fortes, dará honra e memória ao dito go¬ vernador, que era geralmente bemquistona província. As principaes exportações da província são ouro, marfim, tartaruga, gomma copal, cairo, e arroz. O assucar e o chá verde tem bastante consumo em Mo¬ çambique , e lhe vai na maior parte de Bombaim, e algum de Goa: o chá chega ás vezes a ter o avultado preço de S a pesos por libra: á nossa chegada po¬ rém havia abundancia, e só obteve o chá superior um peso por arrátel, livre de despezas para o vendedor. Com a fronteira ilha de Madagascar também se faz algum commereio, principalmente para o porto de Bombetoc , d’onde vem gado, arroz, esteiras , &c., em troco de fazendas de lei, aguardente, e outros ge- neros. Para Zanzibar, Mayotta, e outras ilhas tam¬ bém ha algumas negociações.
108 E’ sabido que o bicho do mar é um importante ramo de commercio na China. O brigadeiro Cândido da Costa Soares deu começo a uma empreza, que pode trazer grandes vantagens á província de Moçam¬ bique. Nas suas maxambas da Cabaceira tem monla- dos os apparelhos necessários para a preparação d’a- quelle prod uc Lo , sob a direeçâo de dois malaios ou manilos práticos n’estes trabalhos, que para Moçam¬ bique trouxe em março de 1851 o negociante de Lis¬ boa José Ignacio. Cardoso, que obtivera do governo de^ Portugal o privilegio para este preparo, e se asso¬ ciara com o negociante de Macao Alexandrino An¬ tonio de Mello. Falleceu porém o dito negociante Car¬ doso pouco tempo depois; mas o brigadeiro Soares o substituiu n’esta diligencia, e tinha já enviado para Eombairn uma porção do bicho do mar, para ser d alíi transportado á China. Esperava o resultado d’es- ta rejnessa, e no emtanto continuava a preparar mais porções d este genero, no que já vários dos seus escra¬ vos estavam hábeis. O bicho do mar é um producto marinho, ou es- pecie de lesma, com muito pouca animalisação e mo¬ vimento, do comprimento regular de 4 a 10 pollega- das, e de ^ de diâmetro. Causa nojo ver este ani¬ mal ; mas depois de lavado, sêcco, e posto ao fumei¬ ro, torna-se duro, e parece um pequeno rolo de taba¬ co , que é usado pelos chins como comida, e como tem¬ pero para os seus guizados: consomem immensa quan¬ tidade d’este genero, que é dos mais lucrativos e im¬ portantes no commercio entre a China e as ilhas dos archipelagos da India e da Oceania. Encontra-se em todas as ilhas desde a Australia a Sumatra, lambem em muitas do Oceano Pacifico, bem como nas costas de Moçambique. Os chins dividem este genero em algumas 30 variedades, que muito diversificam em preço. A aza de peixe é lambem um artigo que convi¬ ria preparar em Moçambique para o commercio da China, principalmente a aza ou barbatana de tuba-
109 rao, que é entre os chins reputada a melhor para as suas iguarias: em toda a província ha prodigiosa abun- dancia de tubarões, que occasionam frequentes desas¬ tres e mortes de negros. Também os chins comem mui¬ to, como artigo de luxo para as mesas, o bucho dc peixe, preparado e sêcco de certo modo; imporlam-no de varias ilhas da Índia, e seria possível preparal-o talvez em Moçambique, onde se pesca muito peixe; mas actualmente a unica pesca d’alguma importanqia é a da tartaruga nas ilhas de cabo Delgado, onde a casca é de exeellente qualidade. Em Ceilão vi muitos objectos de marfim da quei¬ xada e dentes de elefante com bonita apparencia: esta materia apresenta veios e ondeados de bello effeito, e parece-me que podia ser um objecto de importante ex¬ portação para Moçambique, persuadindo aos negros que a tragam do interior, como fazem a respeito das pontas, ou grandes dentes dos elefantes. Apesar das nossas leis, dos tratados, das onerosas estações navaes, e do cruzeiro inglez, o trafico da es¬ cravatura não está de todo extincto. Dava-se noticia em Moçambique de tres carregamentos feitos recente¬ mente, um em Inhambane em outubro precedente, e dois no Ibo de 1:500 negros em navios hespanhoes que foram para Havana; também se fallava n’outro carregamento feito em Quilimane. Os dois carrega¬ mentos no Ibo diziam terem tido logar depois que altí chegou o novo governador Jeronimo Romero, que fo¬ ra para Moçambique como ajudante d’ordens do go¬ vernador geral: Romero foi nomeado governador do Ibo, não obstante ser estrangeiro, ainda que natura- lisado, e ter sido ainda ha poucos annos apprehendido pelas auctoridades portuguezas na costa de Moçambi¬ que commandando um navio negreiro! O cruzeiro inglez mal pode vigiar a extensissima costa da província de Moçambique, toda de mui dif- ficil accesso e navegação: os grandes lucros d’este com- • mercio, e o interesse de todos os habitantes dos pon¬ tos onde se podem embarcar escravos, ha de sem-
110 pre inutilisar em parte toda a vigilância dos cruza* dores. Nas ilhas do Ibo, ou governo de Cabo Delgado, é onde hoje ha mais facilidade, e melhores circun¬ stancias locaes para este trafico, que aliás nunca se po¬ de fazer sem a tolerância ou connivencia das auctori- dades. E1 cousa corrente e bem sabida em Moçambique, que nenhum navio carrega escravos sem dar o boi; isto é, 6 ou 8:000 pesos, dos quaes metade pouco mais ou menos tern sido para os governadores geraes, e o resto subdivide-se em quinhões desiguaes, que sâo distribuídos entre o governador subalterno do ponto em que se faz o carregamento, feitor da fazenda, capitão da companhia de linha, commandante da es¬ tação, seu sub-delegado , &c. &c. Esta é a verdade e a regra; mas tem havido e ha¬ verá honrosas, ainda que raras excepções. A ninguém offendo directamente; repito o que era publico e sabi¬ do em Moçambique, e o que o nosso governo não deve ignorar. E’ assim que se explicam as grandes e rapidas fortunas que a maior parte das auctoridades vão fazer em Africa, e são ainda abençoadas pelos po¬ vos quando só se limitam a estes meios para as conse¬ guir, e lhes administram alguma justiça; sendo certo que n’isto nada prejudicam aos interesses dos habitan¬ tes, nem aos da fazenda publica, e da prosperidade geral da província no actual estado do seu desenvol¬ vimento. Pelo que aqui observei, e depois na contra-costa, é quanto a mim duvidosa a affirmativa commum de que o trafico da escravatura impede o desenvolvimen¬ to da agricultura nas nossas colonias d’Africa. A po¬ pulação negra não escacêa por isso nos nossos domí¬ nios , e a grande porção de numerário, quasi todo do3 emprehendedores de fora, só alli concorre para este trafico. Digo pois que a escravatura não nos consome nem população, nem capitaes proprios; antes a cessa¬ ção d’ella afugenta logo os dos estrangeiros: por con-
Ill sequencia a agricultura não é affectada nas suas duas principaes causas de desenvolvimento. E’ verdade que o commercio da escravatura absor¬ via a attenção e o emprego de todos, ricos e pobres, e que a sua falta tem feito applicar alguns indivíduos á cultura: isto porém é em muito pequeno ponto, e está bem longe de compensar as enormes vantagens que d’aquelle commercio provinham ao governo e aos particulares, e jámais as compensará em quanto o go¬ verno da metropole não der aos interesses d’estes pai- zes a attenção que merecem. Na Inglaterra parece que vai actualmente afrou^ xando a philantropia a favor dos negros, que tem alli chegado ao ponto de mania, e já nas camaras se ven¬ ceu com difficuldade a ultima concessão dos enormes subsidios para os cruzeiros contra o trafico da escra¬ vatura. As barbaridades que n’este commercio se prati¬ cam , tem augmentado na proporção das difficuldades que se lhe oppõe: quando o trafico era licito, o mo¬ do de conduzir os escravos a bordo tinha regulamento estabelecido por lei quanto ao seu numero, com mod i- dades, &c., e que em geral se executava nos navios portuguezes: hoje vão os negros horrivelmente amon¬ toados, e opprimidos com todas as prevenções que se tomam contra o encontro dos cruzadores, tendo já ha¬ vido exemplos de lançarem os escravos vivos ao mar, para não serem encontrados nos navios que os condu¬ zem , quando não podem escapar aos cruzeiros. Parece-me que no estado actual da sociedade das raças negras, certa servidão ou tutela lhes melho¬ raria as condições de existência. Essas populações es¬ tão no maior estado de bruteza, entregues ás mais extravagantes e cruéis superstições; seus costumes são geralmente barbaros e sanguinários, mesmo d’umas tribus para as outras; vivem quasi como animaes nos seus covis ou moradas. O negro escravo pode adquirir ideas moraes e christâs, e sempre mais ou menos go¬ za d’alguma parte das commodidades e dos beneficio»
m da civilisaçao , no meio da qual vive, e que prefere ao seu estado anterior; porque se tem geralmenle observado que nâo volta á sua patria, e á vida selva¬ gem quando para isso lhe dão faculdade. Não quero fallar da escravidão arbitraria, cruel , e horrível; mas sim da escravidão regulada pelas leis, nos paizes onde ell a é ainda necessária, e que podem limitar os direitos do senhor, dar garantias ao escra¬ vo , e aproximal-a da escravidão legal on tolerada, por assim dizer, que hoje se faz com o engajamento de colonos ou emigrados de todos os paizes, e do que a propria Inglaterra dá o mais extenso exemplo. Instrucção publica e costumes. A instrucção publica na capital de Moçambique reduz-se a uma eschola de primeiras lettras , que a maior parte do tempo não está provida. Então, como já disse, tinha um mestre , que foi com o ultimo gover¬ nador na galera Adamastor, pouco proprio para tal mister. Ha uma cadeira de mestra de meninas, nâo provida ha quatro annos, e que poucas vezes o tem estado. Pode-se pois dizer que nenhuns meios ha dh’nstruc- çao em Moçambique, cujos habitantes, se querem dar alguma educação a seus filhos, tem de ser, se podem , os seus proprios mestres, ou de os mandar para Goa ou Bombaim. Nos portos só ha escholas de primeiras lettras em Inhambane, Quilimane, e no lbo. A educação das crianças é mui defeituosa : desde que nascem vivem entre negros, e logo se lhes destinam quatro ou cinco moleques para o seu serviço, que continua men te as ro- deam, e lhes communicam seus máos hábitos, molés¬ tias , &c. Quando saem á rua vão ordinariamente cer¬ cadas de um bando dos seus moleques, e indo para a eschola cada um lhe leva um dos pequenos objectos do seu uso. N’isto as famílias fazem consistir sua vai¬ dade e luxo, bem como no numero dos escravos que
empregam no serviço domestico, sendo em algumas de 30 e mais. Os homens em geral vivem ociosos, e as mulheres não se entregam no interior das famílias ás occupações ordinárias do seu sexo; quando muito as ensinam ás negras e negros, empregando uma pessoa em cada mis¬ ter: occupam se porém commummente em fazer ca¬ nudos, enrolando o tabaco de fumo na folha de ba¬ naneira, fazendo cigarros ou cigarrilhas d’uma forma particular imitando o embrulhado do cigarro hespa- nhol, o que também fazem executar pelos escravos, e mandam vendei-os ao hasar, fazendo n’isto e n’ou- tros ramos um pequeno commercio. São as mulheres lambem as que geral mente negociam com os negros do sertão, para si ou para os homens, porque são as que entendem melhor a língua macuci pelo maior con¬ tacto em que vivem com os escravos. Nas mesas ha bastante profusão. Os perus lambem são aqui, como em Macao, objecto de grande luxo, o custam muito caros. Q uso dos grandes jantares e cèas, e do jogo forte que ainda ha poucos an nos tanto predominava em Moçambique, está quasi acabado pela decadência das fortunas. Sj/stema monetário. jEra muito defeituoso o systema monetário em Mo¬ çambique. As moedas provinciaes em circulação eram as seguintes : Barrinhas de ouro, com o peso de meticaes (4 oitavas portuguezas), que corriam por 66j cruza¬ dos, ou £6:500 rs. Meias barrinhas, hoje raras, com metade do peso e valor indicado. Apesar das barrinhas terem o mesmo peso que as nossas peças de 8:000 rs., estas corriam por 85 cruzados, ou 34:000 rs., @ va¬ rias vezes valem mais: isto provém da differença do toque ou quilate do ouro, que nas barrinhas é de pou¬ co mais de 14 quilates, e por isso o seu valor em re¬ lação ás peças não excede a 5:090 rs. de Lisboa, do
que se deduz, pela respectiva proporção, que na e»- pecie ouro, 520 rs. de Moçambique equivalem a 100 rs, de Lisboa. Barras de prata, a que chamam palacas, que de¬ vendo pesar uma onça, só tem de peso 7~ oitavas e 2 grãos, e correm por 6 cruzados, ou 2:400 rs. Pelo recente ensaio feito na casa da moeda em Lisboa, co¬ nheceu-se, que uma barra ou pataca trazida de Mo¬ çambique só continha 3 oitavas e 42 grãos de prata pura, ou de 12 dinheiros, sendo o toque da barra en¬ saiada 5f dinheiros: da comparação com a moeda de prata portugueza, do toque legal de 11 dinheiros, re¬ sulta que a pataca de Moçambique só vai 469 rs. de Lisboa, e por consequência, na especie prata, 512 rs. de Moçambique equivalem a 100 rs. de Portugal. Cumpre observar que se differentes barras de pra¬ ta forem submettidas ao ensaio, hão de dar muito dif¬ ferentes resultados, porque nunca foram fabricadas com metal homogeneo. Nem as patacas, nem as harrinhas são cunhadas, sendo umas simples linguetas de metal, que nas bar- rinhas ou ouro tem por base um parallelogramo re- ctangulo, e nas barras ou prata um octogono irregular. As moedas de cobre são de 80, 40, e 20 rs.; cu¬ nhadas em Lisboa, d’onde para lá se remetteram na importância de 4 contos de réis; mas por deliberação da junta da fazenda de Moçambique, fizeram-se cor¬ rer pelo duplo do valor indicado no cunho. Pia tam¬ bém moedas de 10 rs., de um metal que similha a chumbo; mas em pouca quantidade, e de cunho mui¬ to antigo. A moeda de cobre é a mais fraca da provinda: 280 rs. são quasi iguaes em peso a uma moeda de 20 rs. de Lisboa, do que se deduz que na especie co¬ bre 1:400 rs. de Moçambique equivalem a 100 js. de Portugal, e que os 8 contos únicos em circulação re¬ presentam 571:428 rs. de cobre em Lisboa. À junta da fazenda tinha ha pouco obrigado a apresentar na thesouraria geral todas as patacas e bar-
m tfctha*, pata serem carimbadas , e se conhecer a quan¬ tidade que andava em circulação, sobre o que nada constava nas repartições publicas: achou-se subir ao valor aproximado de 80 contos, dois terços em ouio , e um terço em prata > também por aproximação. De modo que o lotai da moeda legal circulante na pro¬ víncia 5 nas 3 especies (ouro> prata, e cobre) póde-se calcular em 90 contos. Também se pode dizer que tem curso legal as pe¬ ças portuguezas, e onças e patacas hespanholas da Eu- ropa e da America; porque são recebidas nas estações publicas por valores fixos. No mercado circula toda a especie de moeda estrangeira, mas em pequena quan¬ tidade. . IJltimamente tinham apparecido barnnhas falsas, de prata ou de cobre dourado, que se altribuiam a utn ourives da cidade $ e maravilha como os estrangei¬ ros não tem alli introduzido moeda falsa, principal- mente na especie cobre. „ E* de notar que a circulação da moeda verdadei¬ ramente provincial e limitada a cidade de Moçam¬ bique, e em pequeno ponto á ilha do Ibo. Em Lou- renço Marques, Inhambane, Sofalla, Quilimane, Senna e Tétte, será difficil achar barrinhas e patacas: todas as transacçoes são feitas a marfim , ouro em po, e nas moedas estrangeiras. Isto provém , além da ma qualidade do dinheiro provincial, de que os em¬ pregados do Estado nos portos não recebem os seus vencimentos n’aquelle dinheiro, e so nos pannos ou fazendas de lei. Este systema é máo, porque dá logar a muitos dolos e abusos, obrigando os empregados a ser negociantes. Pela portaria do ministério da ma¬ rinha de d’agosto de 1838 já se ordenou que to¬ dos os pagamentos nos portos, feitos pelo governo, fos¬ sem em moeda; mas até agora não teve execução. Não obstante porém a circulação da moeda pro¬ vincial estar quasi toda limitada á cidade de Moçam¬ bique, todavia ainda não chega para as necessidades do commercio. Tem succedido nos mezes de abril a 8 *
116 junho, que é quando se realisam quasi todos os des¬ pachos na aifandega, n’um só mez montarem os di¬ reitos a 90 contos, isto é, absorverem todo o meio cir¬ culante: de modo que tem sido necessário conceder aos negociantes pagar em prestações de 1,2, e 3 me¬ ses. D’esta escassez também resulta o enorme juro que pagam os negociantes, mesmo os mais acreditados, para obterem capitaes, chegando a 2 por cento ao mez. De tudo que fica dito se deduz claramente a ne¬ cessidade que havia de uma grande reforma no svste- ma monetário de Moçambique, o que todas as pes- soas alli desejavam. Essa reforma já teve logar pelo decreto de 29 de dezembro de 1852, que mandou re¬ tirar da circulação toda a moeda provincial, e substi- tuii-a pelas moedas correntes em Portugal, com o mesmo^ valor que tem no reino; effectuando-se a troca na razão de 100 réis fortes por 410 réis fracos, ein to¬ das as especie» de ouro, prata, e cobre. *
í 18 cia um carpinteiro e um grumete que faltavam, e que ficaram fugidos, como em Goa também ficou ou¬ tro grumete, e tres em Singapura. Passou-se revista a bordo, e acharam-se escondidos cinco moleques, que queriam seguir viagem na corveta, e foram mandados para terra. Pelas 8 horas retirou-se o pratico, e deitámos para o largo, caminhando para o terrível Adamastor, cu¬ jas iras íamos arrostar. O vento era muito escasso, tivemos algumas horas de completa calmaria, e só pela tarde perdemos de vista Moçambique, tendo passado a bahia de Mocamba, avistando-se as ilhas Mogka¬ les que bordam a costa do continente. A & o vento sudoeste soprou rijo de noite, e hou¬ ve bastante balanço, que continuou de dia fazendo enjoar algumas pessoas. Pelas 8 da manhã avistou-se terra, e ao meio dia achavamos-nos defronte do rio Antoni, tendo avançado só pela força da corrente para o sul. Ao fim da tarde virámos de bordo quasi sobre a ilha Mafamede. A 3 continuamos com o mesmo vento, porém com menos balanço: ás 9 da manhã viu-se terra, e ao meio dia estavamos em frente da Mafamede, no mesmo ponto que na tarde precedente, e ao anoitecer ainda a avistavamos pela popa. Apenas corremos |° para o sul em &4 horas. A 4 continuámos com o mesmo vento do sudoeste brando, havendo comtudo algum balanço. Ao meio dia estavamos em frente do banco de Morna, com a pequena singradura de |°, tendo passado a ponta e ilha da Caldeira. Ignorava até então que havia no inundo uma ilha designada com o meu appellido: jaz quasi na latitude de 16° 40', na altura da ilha de João da Nova, sobre a costa fronteira de Madagascar, des¬ coberta pelo portuguez do mesmo nome. Era domingo de Ramos, e começava a mysteriosa semana da Redempçao. Mil recordações da patria se me avivaram ligadas a estes solemnes dias», que iamos passar no meio da solidão dos máre3, entregues ao ca-
119 pricho dos elementos , tão variaveis e temerosos n’es- tas paragens, e á vista d’estas selvagens costas, em vez de os passarmos sob a abobada sagrada dos templos , ouvindo os cânticos sublimes que a igreja entôa e di¬ rige ao Redemptor. Em logar d’estas scenas tão tocantes, e tão suave¬ mente tristes, dizia commigo : Olharemos para a vasti¬ dão dos mares encapellados, ouviremos o rugido dos ventos, o bramir das ondas, e talvez a grande voz da,s tempestades, formando tudo sublimes quadros e har¬ monias, com que a natureza revela e exalta sobre a face das aguas o immenso poder de Deos! O mar na verdade é uma das maiores maravilhas da Creação. Nada ha mais proprio a exaltar a imagi¬ nação do homem , a arrebalar-lhe o espirito para as regiões do infinito, e para a contemplação da immen- sidade e belleza do universo, do que os grandiosos es- pectaculos que elle nos apresenta 1 Por ser dia dos annos da rainha de Portugal teve a guarnição melhor jantar e ração de vinho, tendo-se matado o primeiro boi dos que se embarcaram em Mo¬ çambique, onde são muito bons, com mamilhoou cor¬ cova sobre o pescoço como na Asia i também sao ex¬ cedentes os carneiros, chamados de cinco quartos, pela grande grossura que tem a parte superior da cauda. A’s 4 da tarde via-se a terra de Quizungo, e o monte Cockburn : ao longo d’esta costa estendem-se as ilhas chamadas d’Angoxe, nas quaes se compiehen- de a de Mafamede, Caldeira , e outras : em frente da de Mafamede fica a povoação de Angoxe, que é com¬ posta em parte de mojôjos, raça oriunda das ilhas de Comoro, que d’alli negociam para Zanzibar, contra as leis e interesses da província, fazendo contrabando por toda a costa nos seus pángaios. Ha cousa de 4 an- iios foi de Moçambique uma expedição mandada pelo governador Valle, para destruir aquella povoação, porém nada se fez pelas difticuldades que o terreno of- ferecia, e lá ficou prisioneiro o guarda-marinha Gue¬ des e outro indivíduo, que haviam desembarcado co-
120 mo pnriamentarios, Tentou-se segunda expedição cora a coadjuraçao d'uma fragata ingleza; mas também nada se conseguiu, por effeito de má combinação das horais do desembarque, e até hoje os mojôjos alli se conservam , e continuam a commerciar para o interior. Muito conviria empregar no cruzeiro pequenas em» barcações de guerra, e aprisionar os pangaios que fa¬ zem o commercio n’aquelle ponto, que já muito nos prejudica, e mais nos póde ameaçar no futuro, tam¬ bém pela propaganda de mahometismo que alli se pratica. Ao fim da tarde virámos no bordo do mar, pró¬ ximos a uma ilhota, e ainda bem á vista da ilha da Caldeira, que é toda coberta de denso e alto arvore¬ do, e tem uma povoação de arabes negros. Tivemos a õ tempo exeejlente, e de perfeita bo¬ nança, o que é raro n’estas paragens, porém com o vento sempre contrario do sudoeste. Ao meio dia es¬ távamos defronte da ilha lpedrom, tendo-nos levada u corrente para oeste, e tínhamos em quatro dias ape¬ nas ganho 2° para o sul. Viu-se na terra firme a pon- ta Aíacalonga , e ao fim da tarde deixávamos já ao norte o monte Coekburn , seguindo ao longo da terra de Quizungos. Na madrugada de 6 sobreveiu um grande agua¬ ceiro com forte vento do sul, que durou todo o dia, levantando vaga, e fazendo terrível balanço. O vento sul mais favoravel nos era; comtudo ao meio dia achamos-nos apenas a pouco mais de 17° , na altura do baixo de David, tendo passado a bahia de Silva. Não vimos terra, começando aqui a costa a correr para oeste, Quasi todo o dia estive deitado, por causa do incommodo jogar do navio, que era excessi¬ vo para o vento e mar que havia, attribuindo-se aa movimento especial das aguas. Toda a noite de 7 continuou o forte balanço, po¬ rém o dia appareceu bom , limpo de nuvens, e o mes¬ mo vento sul moderado. Íamos pela altura do rio de ^uilimane, onde a 15 milhas da embocadura temo§
122 julga-se que poderá ter comprado marfim talvez pelo valor de um peso por arroba. O preço regular d'elle nos portos era então de 34 a 36 pesos, por ser muito procurado pelos americanos. N’estes districtos de Quilimane, Rios de Senna, e Tétte existem os grandes prazos da coroa que em numero de cem constituíam opulentissimas proprieda¬ des, de 30, 50, e mais Jegpas quadradas de extensão: o prazo denominado do Luabo, do nome do rio que o atravessa, era primitivamente maior que Portugal. Estes prazos formavam como uns morgados em bene¬ ficio dos possuidores, sendo de livre nomeação para andarem sempre nas filhas, com obrigação de casarem com portuguezes nascidos na Europa, melhorarem a» terras, e residirem nos seus prazos, sob pena de com- misso. Os encabeçamentos eram em tres vidas, com foro certo ao Estado, sendo excluídos os varões em quanto havia fêmeas. Em summa a legislação sobre este objecto era boa, e muito apropriada para desen¬ volver a cultura, e a riqueza d'estes fertilíssimos ter¬ ritórios; mas nunca foi bem executada. Os donos dos prazos geralmente não os habitam , e os passam de arrendamento, desfruclando em Por¬ tugal ou em Goa os seus rendimentos, e tanto elles como os arrendatarios commettem ordinariamente mil abusos e violências contra os colonos negros adscriptos aos mesmos prazos; de modo que actualmente estão reduzidos a quasi total despovoação e abandono de cultura, e expostos os colonos á impossibilidade de re¬ sistirem aos landins ou vátuas, nação de pretos aguer¬ ridos, que hoje dominam pelo terror em toda esta par¬ te d1 África, e que se tem senhoreado da maior parle d’estes vastos terrenos. Pelo decreto de 6 de novembro de 1838 prohibit*- se a renovação dos encabeçamentos, fazendo devolver para a coroa os prazos que forem vagando; e já alguns estão na administração da fazenda publica, o que tam¬ bém em nada tem contribuído para os melhorar, nem para evitar que de todo se vão perdendo.
123 Nas proximidades da referida villa de Tétte ha mi¬ nas de carvão de pedra. Uma já era conhecida antes de 1841 , porém n’este anno mais tres se descobriram nos riachos denominados Muringoze, Inhavu, e Ma- caré, que correm nos prazos Matente e Revubué. As quatro minas, ainda cjue estão muito distantes entre si* parece que todas constituem uma só, nâo sendo mais que rebentões da mesma mina, a qual se julga ter de superfície 9 a 10 legoas quadradas. As conducções eni carros até á margem do Zambeze fronteira a Tétte, nao apresentam grandes difficuldades; mas é muito difficil e dispendiosa a navegação das 120 legoas pelo rio Zambeze até Quilimane. As amostras do carvão mineral que em 1841 se mandaram de Tétte a Qui¬ limane, importaiam por quintal 38:600 rs. fracos, ou 9:600 rs. fortes. O governador Joaquim Pereira Marinho fez logo n’aquelle tempo experimentar o carvão, a bordo de um vapor de guerra inglez, e achou-se ser de primeira qualidade, o que também se verificou em Bombaim n’uma experiencia em pequeno ponto. Para Lisboa igualmente foram mandadas amostras, que parece de¬ ram o mesmo satisfactorio resultado. Esta importante descoberta caiu depois quasi em esquecimento, sendo aliás de incalculáveis resultados para o engrandecimento de Moçambique. E’ sabido, que até agora não se tem descoberto na Asia carvão, de pedra de boa qualidade , ao mesmo tempo que os inglezes nos seus vapores fazem um enorme consumo d’este combustível, que é conduzido da Europa. O governo de Bombaim offered» pagar o carvão de Tét¬ te á razão de 24 rupias, ou 9:600 rs. a tonelada. Em 1852 publicou-se em Inglaterra que os ingle- zes da colon ia do Cabo descobriram minas de carvão na costa do Natal. O medico e naturalista prussianno Wiliam Peters também verificou a existência d’estas minas, mas pa¬ rece que considerava problemática a conveniência da sua exploração.
!» Em todo o caso as minas de Télte devem merecer a attenção do nosso governo, e muito especialmente a das auctoridades de Moçambique. As excessivas des¬ pesas da conducção na primeira remessa do mineral 9 não são motivo para desanimar de todo: devem pro¬ vavelmente diminuil-as muito a feitura de caminhos, os melhores methodos de carreto, e algumas obras hydraulicas no Zambeze. Por meio de um contracto com o governo da índia britannica, ou entregando a exploração das ditas mi¬ nas a alguma companhia nacional ou estrangeira, tal¬ vez se aproveitasse este manancial de riqueza , que mu¬ daria quasi de repente a face da província, fazendo- lhe desenvolver todos os seus outros elementos de pros¬ peridade, e tornaria Tétle urn grande centro de in¬ dustria e de civilisação no interior da Africa , por on¬ de o domínio portuguez se poderia estender illimita- damenle. O medico de que acima fallei, percorreu os sertões de Quilimane na viagem scientifica que fez em 1844 a 1846 na província de Moçambique. Colheu muitos produclos naturaes, que enviou para o museu de Berlim , e lambem mandou vários object os para a nossa Academia das sciencias: adquiriu muitos conhe¬ cimentos relativamente a este paiz, ainda tão pouco explorado pela sciencia, e consla-me (em 1853) que acaba de publicar em Berlim o primeiro volume (Testa sua viagem. Nós portugueses, que possuimos estes terrenos ha mais de tres séculos, pouco os conhecemos para o in¬ terior, e nem uma carta geográfica temos, mesmo dos districtos mais conhecidos da província. A 9 de abril passámos em frente das boccas do Zambeze, um dos maiores rios da Africa central. O rio de Luabo, ramo do Zambeze, também desemboca n’estas proximidades. Ao meio dia verificou-se termos feito uma singradura de 90 milhas, quasi em calma¬ ria: tal foi a força da corrente que nos levou para o sudoeste. No sabado 10 de abril pelas 9 dit manhã fez-se
12§ menção de appareevr a Alleluia, tocando o sino e 6 tambor, e enforcando-se na verga grande o Judas que os marinheiros d’antemao tinham preparado. Aquella pobre gente, apesar dos rudes trabalhos e privações que soffriam , sem pagamento durante 13 mezes, sem gozarem de nenhuma das commodidades que fazem supportavel a vida do marinheiro, sustentados apenas com grosseiros e máos alimentos, não perdiam comtu- do nenhuma occasião de folgarem a seu modo, com tal interesse e satisfação, como se não vê n’outras clas¬ ses, quando se entregam a alguma distracção. A mais pequena circunstancia, como agarrarem um passaro, apanharem um peixe, os alvoroça e entretêm. Fomos deixando ao norte a bahia de Massanga- no, e o nosso estabelecimento de Sofalla, outr’ora tão importante, e hoje o porto mais insignificante da província. Dizem antiquários ser a antiga Ophir, aonde vinham as esquadras da Arabia buscar o ouro, marfim , e pérolas em prodigiosa abundancia, e que d’alli partira a rainha Sabá a visitar Salomão. Pedro de Anhaya em 1505 fez tributário e vas- sallo de Portugal ao rei de Sofalla, e no mesmo an¬ uo alli fabricou uma celebre torre, hoje quasi derro¬ cada, toda de boa cantaria ida de Portugal já lavra¬ da , e que se denominava a torre da Homenagem , ser¬ vindo de fortaleza á cidade. Sofalla foi a primeira ca¬ pital da província, muito rica, e famosa por grandes acções da flor dos portuguezes, que d’alli passavam para a índia. Por 169G descobriram os portuguezes o aljôfar, e as pérolas nos máres de Sofalla, a 30 legoas da barra de Luabo, e ainda hoje, apesar do miserável estado d’esta villa, exporta annualmente para Moçambique umas 800 arrobas de marfim , a troco de pannos. O terreno d’este districto é geralmente fértil, mas sujeito á praga dos gafanhotos: dizem que o tabaco, tanto o cultivado como o silvestre, é de optima qualidade e muito abundante 5 o algodão também é silvestre e muito bom.
m Governava então Sofalla um indivíduo de quem se faziam amargas queixas, e que já n’outro governo subalterno foi preso pelos seus governados, e enviado para Moçambique, onde se justificou perante um con¬ selho de guerra, como tudo se justifica n’estas terras da Africa. £’ sabido que, sejam quaes forem as mal¬ versações e atrocidades que uma auctoridade prati¬ que, se, o que raras vezes acontece, o governador geral faz tomar d’isso informação judicial, sempre o accusado apparece innocente e puro. Nos casos de con- tiivencia na escravatura é isso já cousa assentada e re¬ petida : o delegado recebe ordem para querelar, abre- se o summario, inquirem-se as testemunhas da lei, e todas declaram nada saber de factos ás vezes patentes e indubitáveis. O juiz declara improcedente a accusa- ção, e ficam officialmente desmentidos factos ás vezes os mais verídicos e criminosos. O terror n’uns casos, e o interesse n’outros, preparam sempre estes resul¬ tados. Asseguram que ha muitos annos não consta que um governador geral désse parte para o governo de Portugal, ou má informação de uui governador sub¬ alterno ; pois não tem faltado motivos para recaírem justos e severos castigos sobre a maior parte dos que tem modernamente exercido governos nas nossas pos¬ sessões africanas. O habito da desmoralisação publica , e a falta de confiança que o povo tem na força e execução das leis, resultados de longas e tristes experiences, hão de talvez bastante difficultar os bons effeitos da mo¬ derna lei das sindicâncias. Só uma boa e rigorosa es¬ colha de auctoridades para o Ultramar poderão me¬ lhorar o espirito publico, e habilrtal-o a tirar proveito das boas leis.
ÍÍ7 Xotftcin tie lnlmmbane, e ifléa geral «lo» cose tamei tios negro» cia Africa oriental» No domingo de Paschoa, era 11 de abril, avis¬ támos o cabo Bazaruto: o tempo esteve excellente, e começou a refrescar a atmosfera, tornando-se mais agradavel e vivificante. JV1 atou-se um boi para a guar¬ nição , e tivemos um lauto jantar: nada porém substi¬ tute o agasalho e prazer que n’este dia cada um de ordinário goza no seu lar domestico. Continuámos com o mesmo tempo, e fomos cor¬ rendo para o sul, sempre ao longo da costa, e vendo a terra, despejando os bordos muito perto (Telia. Pas¬ sámos os cabos S. Sebastiao e de Lady Grey, e ao meio dia de 13 estávamos em frente do cabo das Cor¬ rentes, pouco abaixo de Jnhambane. Inhambane, situada a 18 milhas da foz do rio do mesmo nome, era já povoaçao quando os portuguezes pela primeira vez surgiram n’esta costa em 1497. A villa actual começou por uma feitoria, como os de¬ mais estabelecimentos nossos no canal de Moçambi¬ que. Em 1834 soffreu um grande desastre, perdendo alguns 300 dos seus moradores, fora os escravos, n’uma mal dirigida expedição contra os vatuas. Sobre este districto de Inhambane publicou em Goa o escrivão da armada, Duarte Manuel da Fonseca, um curioso mappa estatístico com referencia a janeiro de 1850, do qual extrahirei algumas noticias, especialmente so-
128 bre os costumes dos negros do mesmo districlo, qué com poucas differenças são os que geralmente se obser¬ vam nas populações d’esta parte da Africa oriental* Em 1850 tinha a villa 3:865 habitantes, sendo li¬ vres 679, christãos 418, musulmanos 3^0, e o resto sem religião conhecida $ eram 16 os habitantes curo» peus e 7 os asiáticos, e havia uns 110 régulos tribu¬ tários nos territórios vizinhos. No districto de Jnhambane cultiva-se arroz grosso e fino de muito boa qualidade, milho, trigo &c. En¬ tre as muitas plantas são conhecidas a salsa-pafrilha e o anil. Ha magnificas madeiras de construcção. Ex¬ porta principalmente marfim, alguns dentes de cavai Ic# marinho, e cera. O marfim tem regulado de 1:500 a &:000 arrobas por anno. b N’esta villa não ha grandes fortunas: os filhos dó paiz pouco ou nenhum dinheiro possuem , porém to¬ dos tem o seu choambo (terreno com palmeiras e hor¬ ta ) e alguns negros, e os que passam por mais abas¬ tados, tem uma lancha e algum gado; corn isto \i- vem felizes, pois nada mais ambicionam; fazem pou¬ co negocio, porque a maior parte d’este é feito pelos baneanes, europeus , mouros, e asiaticos. Os filhos do paiz em geral são pouco dados ao trabalho, e ainda que tem certo respeito aos europeus, comtudo não deixam de nutrir grande odio tanto a estes, como aos asiaticos. Alli ha mais gente casada do que em outros por¬ tos da província. Os casamentos entre os nativos são como quasi todos na Africa, isto é, a vontade dos parentes da noiva; porém estes nada decidem sem pri¬ meiro mandarem deitar o cochecuche (adivinhação), e não se faz o casamento se não é approvado pelo mé- zinheiro, especie de medico e adivinho ; mas a deci¬ são quasi sempre é favoravel, e depois d’ella se dá o sim, e se trata dos ajustes. Quando a noiva vai para a igreja, é acompanhada pela madrinha, levando apoz si e aos lados immenso numero de negros e negras, fazendo grande vozeria; os escravos dos novos cônjuge»
129 leram enxadas, pedras, capoeiras vazias, chicotes, e mais cousas apropriadas ao serviço domestico, e em quanto dura a ceremonia na igreja os escravos cantam , choram , saltam , dizendo : A nossa ama ou amo só noí dá este ou aquelle trabalho , a senhora foi buscar quem nos dè pancadas &c.; e todos os objectos que trazem os negros são emblemas apropriados a estas cousas : acabado o ceremonial do casamento, acompanham os noivos a casa ainda com muito maior algazarra, che¬ gando-lhes , quasi á cara, com os ramos e outros obje^ ctos que trazem. Em casa ha sempre lauto jantar, e á noite cêa e grande batuque. Depois de estabelecidos os portuguezes em Inham- bane , entearam em relação e commercio com os régu¬ los vizinhos, alguns dos quaes, ou para fazerem valer os seus direitos de suecessão, ou por desavenças que tinham entre si, pediam auxilio á feitoria, e para que lh’o dessem offereciam as suas terras para os morado¬ res poderem ir cortar madeiras, negociar , e fazer plan¬ tações sem que os régulos exigissem pagamento algum , senão por venda do terreno que cada um queria, qual era, e ainda hoje é, comprado ao régulo por um ~ capotim (duas braças de zuarte), não cedendo eiles por preço algum os logares onde estão enterrados os seus maiores. Com esta doação ficava a feitoria obrigada a soccorrel-os nas suas guerras, e elíes igualmente á feitoria, a cujos governadores se costumaram a obede¬ cer , recorrendo a estes para a decisão de suas questões sobre direitos de suecessão e outros. D’esta especie de vassallagem derivou a ceremonia ou homenagem chamada bunja, que era pratica fa- jeer-se annualmente logo depois da colheita ; porém hoje só se faz quando toma posse novo governador, para o que este manda o lingua do Estado avisar os régulos e cabos (chefes de povoações) para estarem promptos a vir para a villa, quando ouçam um tiro- em duas noites successivas. Para fazer este aviso Ie» va o dito lingua uma faca, um cartuxo de pimerr ta, duas garrafas com aguardente, e um ardian (2* 9 í-soV
m feraças de zuarte), para entregar a cuda um do» régu- 1$*, e utn capotim e uma garrafa com aguardente n çada um dos cabos: isto feito, é chamado o comman- dante da companhia dos mouros de Inhambane, e se lhe entrega uma porção de mantimento, que elle dislribue ás mouras para fazerem pornbe (bebida feita de milho fermentado), e logo que dão parte do dia em que ha de estar prompto faz-se o primeiro tiro, e na noite seguinte outro. Logo que os régulos mais pró¬ ximos ouvem o primeiro, fazem signal de tambor para os outros, e põem-se em marcha para a villa, acompa¬ nhados de seus secretários e mulheres, e se dirigem ao lingua do Estado, o qual, assim que tem chegado to¬ dos , o participa ao governador: este determina o dia em que ha de ter legar a banja , que regularmente é o segundo depois da participação, e fornecem-se ao lingua do Estado dois bois, dois barris com aguarden¬ te, oito panjas de arroz limpo, e oito arrateis de aça¬ frão: metade d’isto, menos a aguardente, é cozinha¬ do em cada dia em um grande caldeirão, sem maia tempero algum. No dia designado para a banja reunem-se o go«> vernador, aucloridades e mais pessoas dentro de uma barraca preparada para esse fim no largo fora da pra¬ ça ou fortaleza, formando em parada a companhia de tropa de linha, e a dos mouros. Os régulos vem for¬ mados a um de fundo, trazendo á sua frente o lín¬ gua do Estado, e dentro da barraca formam um cir¬ culo sentados sobre as pernas das mulheres: por or¬ dem do governador o escrivão da feitoria faz leitura cl,e umas instrucções regias expedidas no reinado de D. •Maria 1 , nas quaes se reeomrnenda aos régulos não çommerciarem , nem consentirem em suas praias os wafutres ( estrangeiros); depois o lingua do Estado pergunta a cada um d’elles as novidades occorridas no seu território, e tendo respondido se distribue a cada ura uma cabaia, um barrete, uma touca (a cabaia é de panno ordinário ou baeta encarnada, e a touca á uma espccie de cinta pintada), um meio parçno e uma
eaneca. Com isto termina o primeiro dia da banja, e os régulos sáem todos montados nos seus primei¬ ros secretários, e os outros secretários vão receber o jantar. Se é fallecido o régulo de alguma terra, compa¬ recem os pertendentes á coroa, logo depois da divisão das cabaias, e expondo o direito que lhes assiste, e fumado (coroado) aquelle ou aquella que a maioria dos régulos diz que lhe pertence. A coroação faz-se vestindo-lhe o lingua do Estado a cabaia e pondo-lhe o barrete; n’esta occasiao ha um tiro de peça, e gran¬ de algazarra dos circunstantes negros. No segundo dia são os régulos introduzidos na bar- raca com a mesma formalidade; depois de tomarem os seus logares da vespera , principiam por sua ordem a relatar os seus milandos ou questões, que são alli tnesmo decididas pelo governador. Distribue-se jantar aos régulos como na vespera, e se retiram da mesma maneira montados nos seus secretários. Os régulos na occasiao de exporem as novidades das terras offerecem os seus presentes, que são entre¬ gues ao feitor, sendo-lhes carregados em receita : 3 ou 4 dias depois da banja, vão todos os régulos e cabos despedisse do governador, e n’este acto recebem um ardian e um frasco com aguardente, e os cabos um capotim e uma garrafa com aguardente, tudo á custa da fazenda* Chamam bitongas aos cafres da villa e terras quo boje se dizem da nação. Os seus costumes são os se¬ guintes : Casamentos. Èram antigamente feitos por meio de gado, isto é* dando o pertendente uma ou duas vaccas ao pai da noiva, conforme o contrato; porém hoje como a guer¬ ra com os vátuas tem acabado com quasi todo o ga¬ do , substituem aquella dadiva, ou dote, com enxa¬ das ou fato de lei. A quantidade é variavel, e o mᬠximo entre todas as classes é de sessenta quitimbús:
132 cada quitimbú é uma enxada, ou uma braça de fa* zenda. < Não ha distincção alguma entre os bitongas, e o légulo póde casar com qualquer mulher de suas terras; não sendo isempto de pagar a quantia que o pai da mulher lhe pedir ; e vice-versa o subdilo póde casar com a filha do seu régulo. Feito o casamento, a fa¬ mília da mulher emprega logo a quantia recebida pa¬ ra casamento do filho primogénito, pois que os pais são obrigados a dar as primeiras mulheres aos filhos. Depois da ceremonia do casamento, antes da con- summação, a mulher dá ao marido um bocado de mucate (especie de broa feita de milho ou mixoeira) e o marido faz o mesmo á mulher , e ambos comem; a isto chamam elles namboa, e dizem que não fazen¬ do esta ceremonia a mulher não pode conceber . de¬ pois de consummado o matrimonio a mulher dá ao ho¬ mem um púcaro de barro com agua e uma chereta ( metade da casca interior do coco) vasia, e faz com que o homem tome um bochecho e o deite , na dita chereta, fazendo ella depois o mesmo: esta^agua é levada pela mulher no dia seguinte pela manhã a casa dos seus parentes, os quaes, ajuntando-se todos, lhe mandam deitar a dita agua no chão, passando depois por cima da mesma, sendo isto grande satisfação en¬ tre elles ; e dizem que a filha e honrada e lhes deu aaude. Isto mesmo praticam muitas vezes os portugue¬ ses nativos, e mesmo os de fora. Não se fazendo esta ceremonia , e acontecendo, por acaso , fallecer alguma pessoa da familia da mulher, o attribuem a esta falta. Quando qualquer bitonga casada não quizer viver com seu marido, os pais d’ella são obrigados a entre¬ gar a esse marido tudo quanto tiverem recebido, ou então outra filha; porém se tiverem havido filhos , e o marido quizer ficar com elles, so recebe metade do que tiver dado. Se a bitonga no fim de seis mezes não conceber, o marido a vai irnmediatamente entregar aos pais, os quaes são obrigados a dar-lhe outra filha, outra qualquer parenta mais chegada, da mulher;
133 e se não houver nenhuma, lhe restituem a quantia re¬ cebida para o casamento. Gravide% t nascimentos. Estando gravida a bitonga, é obrigada no primei¬ ro mez da concepção a dar parte aos seus pais, e estes fazendo um grande mucate e uma panella cheia ,de pombe, vão com isto participar aos do marido que a filha se acha gravida ; os pais do marido, depois de le- ceberem o presente, deitam no chão um pedaço de mucate e um copo de pombe, que significa darem parte aos defuntos, depois do que comem e bebem a ponto de ficarem embriagados. Nascida a criança, e tendo completado 8 dias sai fóra do quarto dentro de um sapo (especie de bandeja circular feita de palha tecida, com pequena borda de madeira, na qual se limpam os cereaes) fazendo-lhe toda a qualidade de barbaridade, saltando por cima a mãi, pai, avós e todos os parentes mais chegados, e a deixam depois nas mãos da parteira a qual cha¬ mam mncingatigadi. Todo aquelte que quizer ver a criança é obrigado a dar um tanto em missanga. Em quanto a mãi dá de mamar a seu filho é prohibida de comer todas as frutas, á excepçâo do caju. vidullerio e divorcio. N’outro tempo todo o que fosse encontrado em flagrante pelo marido, expiava a sua culpa na ponta de uma flexa; isto é se o tiro acertava , porque se acontecia errar, não tinha logar mais queixa alguma , nem mesmo reserva , odiò ou vingança; porém ha al¬ gum tempo para cá tem sido prohibido aos maridos procederem assim ; e presentemente acontecendo haver algum adultério, o marido espera a occasião de o pre¬ senciar para melhor provar a sua accusação; e quan¬ do isto não consiga, se dirige ao mesmo adultero, e @x pondo-lhe o acontecido acaba por lhe pedir o seu
134 pagamento, para ú que leva comsigo a mulher para ter Li ficar o caso: o aceusado nada tendo a oppor s6 pede espera para arranjar o pagamento, que é de 15 quitimbus. Nos casos de adultério succede também com muita frequência seguir-se o divorcio, passando a mulher a viver coin o adultero, pagando este ao marido a quan¬ tia ou fazenda que elie dera na occasiâo do casamen¬ to : os filhos de ordinário acompanham a mâi para casa do novo marido. „Enterros e success aa, Logo que fallece um bitonga é immediatamenle dobrado, e embrulhado em duas braças de dotim , de-* pois do que o amarram com uma grande corda redu¬ zindo-o a um pequeno volume, e depois o vão enter¬ rar, collocando-o sentado na cova: a mulher, e na falta d’esta o parente mais chegado, é a primeira que lhe deita um punhado de terra, e cm seguida um a um vao deitando a terra na cova até estar tapada, e depois vao chorar e rapar a cabeça, Durante os ft dias de nojo, a que chamam matanga , dão sempre grande cêa; e passados elles fazem pombe, convidan¬ do para beber a todos os assistentes. O mesmo se pra¬ tica na villa. Morrendo qualquer homem que tenha filhos, o primogénito toma conta das mulheres do pai, menos da que for mâi d’elle. Quando morre um irmão, o outro mais velho toma conta da cunhada , e se elfo não gosta d’elle, os pais da mesma são obrigados a entregar aos do foiled do todo o fato que tiverem re¬ cebido para o casamento. Fallecendo o régulo passa a corôa ao irmão imme^ diato, e assim successivamente; quando o não haja,, passa á irmã mais velha, a qual abdica no seu filho primogénito; na falta de irmãos ou irmãs do régulo fal- lecido succede-lhe o tio, e não havendo nenhum d’es¬ tes, então compete & coroa ao filho mais velho da pd- Sfieira mulher,
133 Usarri os negros nas suas questões de umá especi® de prova ou juizo de Deus , tomando das mâíos do me- zinheiro tanto o aecusado como o queixoso o veneno a que chamam máíú, feito da casca da arvore deno¬ minada bangue. O que morre é reputado criminoso $ e além dos seus parentes o perderem levam ainda em cima muita pancadaria, e são obrigados a pagar a quantia convencionada no objecto da disputa. Oa vatutis. Como tenho por vezes faliado nos váluas, darei aqui noticia d’esta nação e do seu actual chefe, cha¬ mado Manieuce. O Manieuce era um secretario ou chefe do vátuá Dingáná (grande potentado estabelecido ao sul dt? Lourenço Marques), que se rebellou contra élle, fu¬ gindo-lhe com alguma gente : andou primeiro errante pelo sertão fazendo-se temer por todos os régulos, pois que levava a morte e o fogo a todas as povoações que lhe não queriam obedecer e pagar tributo. As suas or¬ dens eram, e ainda hoje são terminantes e executadaá á risca: se manda um dos seus chefes a qualquer guer¬ ra, e este lhe volta sem ler vencido, é irrimediata- mente morto; e por esta maneira se tem engrandeci¬ do e feito temer, nao só pelos régulos do sertão, mas lambem em todos os nossos estabelecimentos, onde se tem introduzido tal terror pânico, que só o nome de vá tuas ou manhamboses faz debandar a tropa , ficando os officiaes sacrificados: isto tem acontecido, e conti¬ nuará a acontecer em quanto não houver exemplo de rigoroso castigo, tendo já sido por mars de uma vez, nao só merecido, mas da maior necessidade. Entre as populações negras é tal o prestigio e terror dos vá tiras , que se acontece penetrar um só d’estes n1uma povoa-’ ção sem ser present ido, ou ter dado tempo a fugirem os habitantes, chega , bate a rodela , e aqu^lles lhe dão tudo quanto exige, até as próprias mulheres. Hoje acha-se Manieuce estabelecido na margem e&- /
136 querda do rio Ouro, n’um logar que os cafres deno¬ minam Inhaca: a sua gente se divide em mangas, as quaes estão espalhadas por todo o sertão, desde Lou- renço Marques até ao districto de Tétte. Estas man¬ gas são commandadas pelos filhos do Manicuce, ou pelos seus secretários, sendo hoje raras as que trazem mais de dois ou tres váluas, pois quasi todas são com¬ postas de landins, que elles tem submettido. Este régulo é hoje o maior potentado dos sertões que nos pertencem, aos quaes elle chama seus, ten¬ do-os já dividido por seus filhos. E’ prompto em man¬ dar soccorrer e auxiliar para qualquer guerra os seus tributários. Não reconhece superiores no sertão senão a si mesmo e a nós portuguezes, a quem chama me- lungos, e usa de incerta política para comnosco, estan¬ do tão depressa amigo, como inimigo ou neutral. Só em 1834 intentou invadir a villa, e sempre mais ou me¬ nos nos hostiiisa, porque a sua gente auxilia clara-? mente os régulos nossos inimigos, rouba e mata os mercadores: tem comtudo acontecido irem alguns eommerciar á sua propria povoação, e se não encon¬ tram pelo caminho alguma manga voltam a salvo. A vestimenta de que usam os vátuas consiste em umas pelíes cortadas em tiras, e cosidas com syme- tria em um cordel que trazem á roda da cintura, sen¬ do as tiras estreitas e curtas; porém tanto as que fi¬ cam na frente como atraz são mais compridas; usam de plumas ou pennas na cabeça, sobre um circulo de cabellos que tem no alto da mesma, os quaes deixam crescer, e rapam todos os mais, pondo n’aquelles uma resina mui densa e lustrosa. Junto dos tornozelos e nos pulsos amarram uns busios brancos enfiados n^um cordel, o que é ornato para os dias de gala, ou para U guerra 2 para inculcarem maior luxo , lançam sobro o circulo que tem na cabeça a maior porção possível de um azeite a que chamam mafurra, e que com o sol se derrete e espalha por todo o corpo. As armas de que usam são tres zagaias, das quaea duas são meqores e lhes servem para arremessar ao ioi-
137 migo, uma rodéla de couro de boi com que defendem e tapam o corpo, e também usam de maça ou pau curto com bola do mesmo em uma das extremidades. Sendo mandada em 1840 uma embaixada a este régulo pelo governador Campos , o official encarre¬ gado d’ella foi recebido do modo seguinte: logo que chegou á povoação foi introduzido no curral do gado, como sala do conselho, onde se achavam todos bs grandes; e pouco depois entrou o Manicuce, que tra¬ zia por distincção uma mancha de tinta encarnada e branca em um dos hombros, e dois fios de missanga preta á roda da cintura; tomou assento entre os ou¬ tros , e ordenou ao secretario que mandasse sentar o official no meio do curral, para lhe communicar o fim a que vinha. A conferencia foi feita por meio do se¬ cretario, e depois de concluída apresentaram uma pa- nella de pombe, que todos beberam em signal de ami¬ zade, e saíram do curral. No dia seguinte foi dada ao official uma ponta de marfim grosso e tres do meão em retribuição do presente que este lhe levou, e dan- do-lhe mais um cabrito e dois supos de mantimento 9 (ai despedida a embaixada*
138 Noticia do estabelecimento
139 força os austríacos, que alli se haviam estabelecido. Lá temos hoje governador e alguns poucos moradores, que quasi nada cultivam , e só se dão á troca do mar¬ fim e pontas de abada pelas fazendas que recebem do norte, e a algum commercio com os boers ou hollan- dezes: vão annualmente d este ponto umas 1:600 ar¬ robas de marfim para Moçambique. Este d is trie to entre todos os de Moçambique é on¬ de ha mais segurança no negocio do sertão, cujos ne¬ gros são socegados e fieis, consumindo ainda hoje as fazendas grossas de Diu e Damão. Para isto concorre a vizinhança dos boers, hollandezes emigrados da co¬ lonia do cabo da Boa Esperança, que se acham esta¬ belecidos no interior, a cinco jornadas ou dias de ca¬ minho de Lourenço Marques. A existência de uma avultada população branca no interior da Africa, com governo independente, merece noticia circunstanciada. E’ sabido que os hollandezes em 1650 lançaram, os primeiros fundamentos da colonia do Cabo, que depois se tornou muito importante e populosa: os in- glezes HPa tiraram em 1795, restituiram-na em 180& pelo tratado de Amiens, retomaram-rm em 1806, e finalmente pelos tratados de 1815 lhes foi cedida pelo* rei dos Paizes Baixos. Os hollandezes nativos conservaram para com os, seus dominadores o profundo odio que já existia pela antiga rivalidade das duas nações; mas este sentiment to mais se concentrou na parte da população estabele¬ cida no interior da colonia, que vivia como errante, e independente, tendo costumes pouco civilisados, e. occupando extensos terrenos para a criação dos seus gados, que constituem quasi a sua uniea industria e? riqueza. Esta gente, por sua conta e arbítrio, entre¬ tinha frequentes guerras com os cafres independentes , que habitavam nos limites ao norte da colonia, mas que o governo lhe prohibiu. Os boers ( assim chamavam e chamam a estes hol¬ landezes, o que no seu idioma quer dizer cultivado¬ res ) já desgostosos por aquelle e por outros, motivosy
140 muito mais se indispozeram quando os inglezes em 1836 extinguiram a escravatura nas suas colonias, ape¬ sar das indemnisaçòes que lhes deram pelo valor dos escravos; e emigraram em numero de 30:000 almas, segundo se calcula, transportando-se nos seus carros e cavallos, e levando seus grandes rebanhos. Dividiram-se ao principio em tres porções, que se internaram no paiz, passando alguns para além do rio Orange, combatendo sempre com os cafres. Os ingle- zes os declararam rebeldes, mas não tiveram por con¬ veniente persegui!-os atravez de tão difficeis e pouco conhecidos territórios. Um dos magotes dos boers in¬ vadiu o estabelecimento ou feitoria do porto Natal, na costa d’este nome, dependencia do Cabo; erigi¬ ram alli fortificações, e repelliram a primeira expe¬ dição que os ingíezes lá mandaram contra elles, ma® n’uma segunda e mais forte foram obrigados parte dos boers a fixarem-se no paiz sob o domínio britannico 9 c o resto de novo se internou. Assim divagaram os boers durante alguns annos por aquelles sertões, tentando sempre obter um porto de mar, e propozeram ao governo de Portugal esta- belecerem-se em rios de Senna : mas umas vezes a ne¬ gligencia, outras as contemplações com a Inglaterra, ou as suas imperiosas exigências, fizeram com que nunca se tirasse proveito das propostas e vizinhança dos boers. Então principiaram a estabelecer relações para Lourenço Marques, e a communicar por alli com os seus compatriotas hollandezes da Europa , dos quaes alguns se lhes tem ido unir. Pouco antes da nossa chegada a Moçambique ti¬ nham ido no brigue mercante portuguez Vasco da Gama, e desembarcado em Lourenço Marques al¬ guns operários e caixeiros holiandezes , que foram para ps boers, os quaes desejavam estabelecer n’aquell* nossa feitoria uma casa de agencia commercial * dizen¬ do-se que até se prestavam a fazer á sua custa urna estrada entre Lourenço Marques e as suas povoações mais próximas.
Os boers vem já com frequência a Lourenço Mar¬ ques, e trocam a manteiga dos seus gados e os ricos productos do paiz pelos generos da Europa e da ín¬ dia que precisam. O portuguez Joâo Albasini acha- se casado e estabelecido entre elles, possuindo muitos bens. Alguns moradores de Lourenço Marques tem ido ás suas povoações, que dizem consistir em casaes ou famílias muito distantes umas das outras, possuin¬ do vastos terrenos, necessários para a criação dos seus gados, que continuam a fazer a sua principal riqueza. Elles possuem muita abundaneia de cavallos de boa raça. Andam sempre montados e armados, o que os faz muito temidos pelos negros} contribuindo, como já disse, para a segurança e obediência que estes ain¬ da nos guardam nos sertões de Lourenço Marques. Dizem ser muito salubre e fértil o paiz que habi¬ tam , o qual fica para além das montanhas, e quan¬ do tem tentado transpôl-as, aproximando-se do litto¬ ral, parece que logo elles e os seus gados definham e adoecem. São homens bem formados e robustos, mas tem perdido a cor natural da raça hollandeza, tor¬ nando-se baça ou morena. A sua linguagem differe muito do hollandez moderno, constituindo quasi uma nova lingua. Geralmente fallando são intolerantes e fanaticos calvinistas, possuídos de absurdas prevenções contra os catholicos. As duas feições mais salientes do seu caracter são a valentia e a obstinação. Os seus cos¬ tumes e forma de governo são democráticos, e regem- se por meio de municipalidades. Os inglezes , reconhecendo a impossibilidade de tra¬ zer os boers á sua obediência, começaram a negociar com elles fornecendo-lhes do Cabo os generos de que careciam , e por fim o governo d’Inglaterra lhes reco¬ nheceu a independencia em 185&. Este facto remove todas as difficuldades políticas alé aqui existentes para os portuguezes entabolarem francas relações com elles, e para se tirar todo o proveito d’ellas na província de Moçambique. Comtiuío cumpriria n’isto muita previ¬ são e cautela, tendo em vista o caracter altivo e in-
vaso!’ dos boers, e a sua grande forca em relação ao estado em que se acha aquella nossa província. Apontarei outro facto a proposito do que se tem passado com os boers, em relação á negligencia do nosso governo. Quando em 184-8 a França se erigiu em republi¬ ca , é sabido que foi abolida a escravatura em todas as suas colonias. Na ilha de Bourbon causou esta medi¬ da grande perturbação nas fortunas, principalmente nas que estavam ligadas a estabelecimentos agrícolas, a ponto que por um acordo entre as auctoridades e os habitantes se suspendeu a immediata execução das ter¬ minantes ordens do governo republicano. Foi n’esta occasiao que vários colonos de Bourbon pediram ao governador de Moçambique licença, e terrenos para se estabelecerem n’esta província, por aíli subsistir a escravatura. Consultou-se o governo de Portugal, que nunca respondeu sobre tal assumpto , segundo boas in¬ formações que obtive, não obstante serem obvias as vantagens que de tal concessão resultariam* Em conclusão do que tenho a referir sobre Lou- renço Marques, direi que desde 1833 não ha alli pa¬ dre nem igreja, lendo esta sido destruída n’aquelle tempo por uma invasão que fizeram os vátuas do sul* N’este ponto é que desde antiga data tem os gover¬ nadores e feitores praticado mais malversações e vio¬ lências, impedindo o aproveitamento das muitas ri¬ quezas naturaes que apresenta este districto, e da sua optima situação para o commercio do interior*
143 feufria do canal de Moçambique» illia do Madagascar, navegação pelas cosias «lo Natal e «la Cafraria» e noticia da co- lonia do Cabo. A 15 de abril já íamos fora do canal de Moçam- bique ? que termina pelo sul entre a bahia de Lou- renço Marques e o cabo de Santa Maria, ou ponta meridional da grande ilha de Madagascar ou S. Lou- renço, que é a terceira na ordem de grandeza das ilhas conhecidas sobre a terra. Os persas e os arabes a conheceram desde tempos mui remotos com o nome de Sarandib. Ruy Pereira Coutinho em 1506, indo na armada de Tristâo da Cunha, a descobriu pela parte de dentro ou occidental, e poz o nome de For¬ mosa á primeira bahia em que entrou. Deu parte do descobrimento a Tristâo da Cunha, o qual foi reco¬ nhecer a terra, e tocando vários pontos da costa oc¬ cidental chegou ao cabo da ilha em dia de Natal, e lhe deu esse nome; mas prevaleceu o de S. Louren- ço, porque Coutinho avistara a ilha no dia d’este santo a 10 de agosto. No l.° de fevereiro do mesmo anno o capitão Fernão Soares, vindo da índia para e reino, descobriu terra da mesma ilha pelo lado oriental. Por mandado d’el-rei D. Manoel foi Diogo Lo¬ pes de Sequeira em 1508 reconhecer a ilha de Mada¬ gascar ; correu ao longo das suas costas, viu varias po¬ voações por onde já achou alguns poríuguezes, e por
lift o nome de S. Sebastião a uma grande bahia, que ainda hoje o conserva. No armo de 1613 e nos seguintes foram da índia algumas expedições á ilha de S. Lourenço, e em 17'2Í um dos reis que alli regiam mandou embaixadores a Portugal, offerecendo os portos do seu reino para n’el- les levantarmos fortalezas. Nunca porém tivemos esta¬ belecimento n’estu ilha, onde comtudo viviam muitos portuguezes, salvos dos naufraglos frequentemente oc- corridos n’aquellas costas. Madagascar tem perto de 300 legoas de compri¬ mento, e quasi 100 na maior largura, calculando-se em quatro milhões o numero dos seus habitantes. Es¬ tava dividida em muitos estados independentes, mas no presente século formou-se alli um grande reino que os absorveu quasi todos, sob o governB de Radama, que começou a policiar este paiz adoptando as artes e sciencias europeas, ásimilhança do que Mohammed- A li fez no Egyplo; mas com a sua morte f por envene¬ namento em 1828, recaiu quasi tudo no antigo esta¬ do. A principal cidade é Tananarive no interior da ilha , em cuja costa oriental os francezes tem alguns estabelecimentos de pouca importância. Apanhou-se ao anzol um grande tubarão, que já no convex e muito ferido dava rabanadas extraordi¬ nárias, desenvolvendo prodigiosa força e vitalidade. Morreu com muita paulada e chuçada, e foi uma grande festa para os marinheiros, que o retalharam e comeram. Como tínhamos saído do canal de Moçambique, recolheram-se e amarraram-se no tombadilho as duas canoas que iam nos turcos, para que o Adamastor as não tragasse com algum golpe de mar. Iamos-nos apro¬ ximando d’essa temerosa passagem, e nenhuma cau¬ tela convinha desprezar. Fomos correndo com vento desfavorável e muito balanço ao longo da terra dos Fumos, passando a ponta d’Ouro. A 16 sobre a tarde o vento soprou muito rijo do sudoeste, e ameaçava temporal: o mar
145 era gratide e o balanço terrível, Tomaram-se varias precauções, arriaram-se vergas * metteram-se dentro os dois escaleres da popa * que se amarraram bem no tombadilho, e correram-se as porias dos alforges, com receio que o mar os levasse. Felizmente o tempo não augmentou quanto se presumia * porém fez-nos per¬ der caminho. A 19 com favorayel vento fresco do nordeste e les¬ te corremos mais de' 2o para o sul, passando o cabo e porto Natal 5 nome que tem toda a costa* e que lhe deu Vasco da Gama quando a avistou no dia 25 de dezembro de 1497. Todo o mar adjacente a esta costa até ao parcel das Agulhas é chamado pelos nossos navegantes o mar das patas. A costa do Natal é má para a navegação, e quasi sempre n’ella reinam ventanias e tempestades. Os naturaes sao cafres* que quer dizer não crentes. Os ingfezes tem aqui o novo estabelecimento de porto Natal, dependencia da colo- nia do Cabo, o qual vai lendo importância e bastante desenvolvimento de cultura: dizem ser excellente todo o clima d’esta costa* e muito fértil o paiz* O mar estava muito agitado * e o balanço era ter¬ rível, obrigando-nos a comer em pé e agarrados pelas amuradas, e quasi impedindo o dormir pela violência dos solavancos. A noite de 21 ameaçou grande temporal: fuzilava em todos os quadrantes, e o ceo estava carregadissimo. Felizmente veiu chuva, com o que abrandou a vaga* que dava tremendos açoites pela popa, e julguei quo n’esta noite levasse os alforges. O vento saltou ao no¬ roeste rijo* inteiramente contrario ao de que carecía¬ mos. Ao meio dia esta vamos por 34o* na altura da bahia Algoa e cabo do Recife. N’aquella bahia, ou Pori Elisabeth, tem os in- glezes a recente cidade d’este ultimo nome, a segun¬ da em importância da colonia do Cabo: começou a erigir-se em 1820, e contava em 1846 umas 450 casas e perto de 4:000 almas. Pela tarde deu. a vigia parte de um navio pela 10
proa, lambem bordejando como nós: passadas duas horas nos estava paralíelo e a barlavento, e foi descain¬ do, apesar de largar mais panno, ficando-nos ao anoi¬ tecer já pela popa. Era uma bonita galera, mais com¬ prida que a corveta , e julgou-se americana. Avistar-se uma embarcação é sempre interessante acontecimento no mar: todos correm á borda a vêi-a f e começam as conjecturas sobre ser mais ou menos ve¬ leira j ha sempre em todos o natural desejo de a ven¬ cer no andamento, como urn objecto d'amor prop rio, que n’este caso ficou satisfeito da nossa parte , e tanto mais quanto os da galera fizeram toda a diligencia, com manobra e panno, para não ficarem atraz, ao mesmo tempo que nós continuávamos com as mesma» "velas. Tendo corrido dois dias com vento forte pela popa , ao meio dia de S3 estavamos a pouco mais de 35° de lat., já ao sul de todos os cabos da extremidade me¬ ridional d’Africa , onde desde o cabo do Recife corre toda a costa para oeste ern differences sinuosidades, por espaço de 7o em longit., ou mais de 100 legoas , até ao cabo da Boa Esperança propriamente dito, d’onde começa a correr para o norte. O vencimento d’este 7o em longit. é o que se chama passar o cabo. A singradura foi excellente, de quasi 3o, achando*nos exactamente no meridiano e ao sul do porto Isabel. Não se tinha avistado terra, porém haviam appa- recido bastantes passares proprios d’esta paragem, co¬ mo mangalhões, brigadeiros, mangas de veludo, al¬ mas de mestre, &c. A viração d’agulha n’estes máres é bastante eleva¬ da; no cabo Guardafui é de 4o para oeste , vem suc- cessivamente augmentando pela costa abaixo, chega a 30° na costa do Natal, e começa a diminuir para o Cabo. # mi A temperatura refrescou muito desde a saiua ao canal de Moçambique pelos conservando-se agra¬ davelmente temperada, e esperávamos encontrar mais frio no Cabo rdésta estação, que era alii a do inverno.
A 24 viíam-se 4 navios em diversos pontos do ho» risonte, mas só um ficou á vista , e veiu seguindo o nosso rumo sempre pela popa, apesar de trazer sobres largos. O ponto ao meio dia deu-nos em ob 2 de lat., e quasi em <23° de longit., tendo feito o navio, ape- sar da calma e máo vento, quasi 3o de singradura a caminho * devida ria maior parte a corrente , que noa adiantou 107 milhas em M horas. Desde a ponta meridional da ilha de Madagascar as acuas correm para o sul e oeste torneando o Ca- bo,°e seguem depois para o norte ao longo da costa occidental d1 Africa t esta corrente constante é uma das mais notáveis do globoi , íamos então caminhando parallelamente á costa da Cafraria , que limita pelo sul o extenso terreno da co¬ lónia do cabo da Boa Esperança , paiz que atlrahe ho- ie bastarite atterição, porque considerado nas relações política , commercial j e militar, é de alta importân¬ cia para Inglaterra como meio de segurança para o seu vastíssimo commercio e domínio na Asia. E* para admirar que os nossos antigos portúguezes ínao reconhecessem a importância doesta posição, e que hunca tentassem fazer alli estabelecimentos , apesar da bondade do clima , e dos muitos portos e bahias que offerece este paiz. São dignos de attènção os grandes melhoramentos , e & prosperidade que tt’estes últimos annos se tem desenvolvido na colonia do Cabo. . , A capital denominada Cape Town , ou cidade do Cabo é notável pela regularidade das suas ruas, to¬ das parallelas e cortando-se em ângulos rectos, pelo geral supprimento de optima agua por meio de bombas hydraulicas, pelos seus bons edifícios e fortificações, e por muitos estabelecimentos públicos. Durante os 13 annos qué precederam a 1845, mais de 60 associações se estabeleceram, taes como bancos, companhias de pescas, de seguros, de navegação a vapor, de omni¬ bus e carros de carga, de illuminação a gaz; associa¬ ções religiosas, de lítteratura e sciencias, de expio-
148 rações no interior cTAfrica, &c. Ha na eidade 9 ty¬ pographies, 7 jornaes, e 6 lojas de livros. Segundo o almanak do Cabo de 1846 , o mais mo¬ derno que pude consultar, a população da capital era então de M:bOO almas, e 173:000 a de toda a colo- nia, que tem de superfície 110:^56 milhas quadra¬ das, contendo n’esta grande extensão muita varieda¬ de de terrenos, desde as mais ricas planícies até aos tractos de terra em que não ha vegetação alguma. O clima dizem que o não ha talvez igual no mundo, e que restaura a saude aos doentes asialicos, e a quaes- quer outros que soffrem os effeitos dos climas orientaes. As frutas e todas as producções da Europa sao alli abundantes e excellentes. O vinho e as lãs são os mais importantes generos de exportação * e que sáem em jivultada quantidade, i t I
UI CAPiTDLO DECIMO TERCEIRO, IXaTegacilo «olire o parcel da» Agnllias# antigo poder marítimo do» portugueses» recordaçôe» de Bartliolomeu Dias» ® a bonança e tempestade no cabo da» Tormenírts. Fomos correndo em frente da bahia e cabo de S. Francisco, da bahia de Plettenberg, da ponta de Risma , e entrámos no grande parcel ou baixo das Agulhas. A d’abril viram-se cinco navios em differentes posições; tres só se divisavam das gaveas, e os outros dois que se avistavam da tolda a poucas milhas de dis¬ tancia , arvoraram um a bandeira franceza, e outro a hollandeza, ao que correspondeu a corveta içando também a bandeira nacional no penol da mezena. As lusas quinas ondeavam ao brando respirar do gigante Adamastor, que guarda estas paragens se¬ gundo a famosa ficção de Camões, e que raro vê hoje esse pavilhão outr’ora tão glorioso, quando os Dias, os Gamas, os João da Nova, os Magalhães e outros intrépidos navegadores portuguezes o fizeram fluctuar nos seus ovantes lenhos , abrindo as portas do Oriente, até alli vedado ao commercio e á eiviiisação europeu. Hoje esse estandarte, divisa de uma nação infeliz e degenerada, n^al tremula de envergonhado a par d’es¬ tas bandeiras ora orgulhosas, e que ainda ha tres sé¬ culos não eram vistas fora dos mares e costas da Eu-
ropa ? em quanto as quinas sacro-santas avassallavam a Africa, a Asia, e o Novo-Mundo, e devassavam to- dos os mares do globo ! Causa espanto a exteqsao do nosso poder mariti- mo n’esses séculos de grandeza. No reinado d’el-rej D. Manoel despacha ramose para a India §58 navios, incluindo as naos de carreira que já eram de 400 to¬ neladas. O mesmo rei juntou uma esquadra de 400 velas para passar á Africa , e d’ellas depois escolheu 30 dos melhores vasos, que com 3:500 soldados man* dou contra os turcos, que atacavam os domínios de Yeneza na Grécia., vendo-se esta orgulhosa republica e o papa m necessidade de implorarem o auxilio de Portugal. No decurso de todo o século 16 saiVm de Lisboa para a índia 737 embarcações de guerra, afora os na* vios que expedíamos para Africa, America, e os que tínhamos nos mares da Europa, Só nos primeiros §5 an nos partiram com differenles destinos, porém a maior parte para Africa, 8§1 embarcações, e varias esquadras cujo numero de velas a historia não meneio* na: sabe-se que o nosso movimento marítimo em na¬ vios do Estado saídos de Lisboa foi de 1:093. na quar¬ ta parte d’aquelle século. Em Lisboa havia dois arsenaes, mais um no Por¬ to, e outro em S. Martinho. Tínhamos grandes se* menteiras de canhamo com feitores da fazenda em San¬ tarém , Coimbra, e Moncovvo; e as amarras e cabos que d’elle se fabricavam eram superiores aos de toda a Europa. Os nossos arsenaes estavam de tal modo montados, hem fornecidos, e havia tantos navios, que em 1508 indo el-rei D. Manoel a Ta vira com ani¬ mo de passar á Africa, em cinco dias reuniu §0:000. homens, e os navios necessários para os transportar. No tempo de D. João III havia o galeão Bota- fogo, que tinha 366 peças d’artilharia de bronze: era o maior que então se conhecia na Europa, e foi expressamente pedido pelo imperador Carlos V , par& ç ajudar no ataque de Tunes*
A desgraçada expedição de D. Sebastião consta va de 800 velas, e ainda no seu reinado saíram para o Oriente 97 náos, e @ caravelas. Durante a usurpaçao dos Filippes foram 3lã embarcações para o Oriente, das quaes se perderam 87 por naufrágios ou destruídas pelos inglezes e hollandezes. . Os estrangeiros vendo-nos escravisados logo inten¬ taram lançar mão das nossas conquistas. 1 arece que em 1591 é que teve logar a primeira viagem dos in¬ glezes á índia; os liollandezes os seguiram em 1590, e uns e outros se ligaram a quasi todos os príncipes do Oriente para nos despojarem. Abandonados pela tyrannica e bem pouco esclare¬ cida política hespanhola, tendo só as diminutas forças próprias das.-colonias, e apesar do esmorecimento. do espirito publico, aihda assim foram prodigiosos os es¬ forços que para a defesa e conservação d ellas prati¬ caram os portuguezes! Não havia porem milagres de valor que podessem resistir a tantas circunstancias con¬ juradas para a ruina do nosso império na Asia,, d esse 'império que se extendia n’um littoral de quasi 6:000 legoas, e de que mal soffriam o jugo 150 príncipes vencidos ou avassallados! Comtudo salvámos gloriosos restos, que ainda hoje nos consolam , e ao mesmo tem¬ po nos envergonham de tanta grandeza perdida. A còr das aguas tinha-se tornado muito verde, como de ordinário acontece nas proximidades de ter¬ ra, ainda que estavamos afastados d’ella para mais de vinte legoas. Deitou-se a sonda, e em 90 braças nao se achou fundo: ha n’este parcel das Agulhas logares com 170 braças e mais de profundidade. Depois da ceia subi ao tombadilho para gozar da serenidade da noite. Havia quasi completa calmaria ; a leve brisa , agradavelmente fria, apenas emunava de vez em quando as velas, para logo as deixar descair e bater brandamente contra os mastros e cordoalha; a lua lançava uma luz frouxa e suave, que formava nas aguas um longo listão prateado; as estrellas scmlilla- vam brilhantes sobre o fundo escuro do ceo; viam-iç
m as Ursas, apesar de Juno, banhadas nas aguas de Ne¬ ptuno; a grande cruz inclinada, ou constellação do cruzeiro do sul, brilhava distinctamente; a parte orien¬ tal e sul do firmamento era porém mais falha d’esses pontos luminosos, maravilhas da imménsa obra da creaçao ! Este differenle aspecto do ceo no hemisfério, meridional produz na alma contemplativa do viajante, vogando na solidão melancólica das ondas, senlimen- tos indefiníveis de tristeza e saudade; lembranças do afastamento em que está da terra quê o viu nascer, as quaes, mais que nenhuma outra situação, faz sen¬ tir a vista de novos astros percorrendo a abobada ce¬ leste. As perspectivas da terra, ou dos mares, nâo va¬ riam essencialmente nos diíferentes pontos do globo, nem produzem tão vivamente aquella sensação; mas as differenças observadas no ceo, n’esse espaço infinito do Universo, occasional*), ao menos no meu espirito, um effeilo singular; uma como mistura de melancolia e de saudade maviosa pela patria , pelo ceo de Portu¬ gal, e pelos astros que via na minha infancia, e que conheci mais tarde pelos seus nomes e posições. Estava a noite na verdade bella e poetka : era pela serenidade uma noite dos tropieos, e pela bem tem¬ perada fresquidào, uma d’essas noites deliciosas da primavera, ou do outono do nosso Portugal, e para realce d’esta scena ouviam-se os cantos dos marinhei¬ ros á proa, entoando suas cantigas singelas, n’aquelfe estalo monotono e cadenciado, que harmonisava per- feilarnente com o brando sussurrar das águas escoan-? do-se pelos flancos do navio, que se deslisava sobre as ondas do çabo das Tor mentas como se vogára n’um pacifico lago. Continuou de noite a calmaria, levantei-me cedo, e logo fui íio tombadilho. Lindo espectaculo se me apresentou • o mar estava tão sereno e espelhado, que não dava o menor movimento ao navio, que parecia ancorado no mais abrigado porto; o ar era immovel; as leves pennas do catavento conservavam-se na posi¬ ção perpendicular; o panno tqdo solto e descaído aio
133 fee agitava, nem produzia nquêlles costumados sons^ como se fora sacudido, quando no mar ha calmaria. O sol tinha meio disco acima do horisonte, e parecia dividido ao centro pela linha d’agua, que fórma o grande circulo que separa do mar o ceo. A bombordo e estibordo viam-se em distancia os mesmos dois na¬ vios que na precedente tarde nos seguiam , com todas as velas largas, mas immoveis sobre a lisa superfície das aguas. Nuvens pairando pelas altas regiões da at¬ mosfera, diversa e fantasticamente dispostas, cobriam quasi todo o espaço do ceo, e ora se ornavam, ora se transvestiam com as cambiantes e lindas cores da aurora. Em summa era scena de embevecer, e mais de apreciar n’estas paragens, por serem a mansão quasi constante dos grandes temporaes, e onde tão a miudo se verificam as ameaças feitas ao nosso Gama pelo monstruoso Adamastor. Pelas 8 horas da manhã as tres embarcações que se achavam á vista, se saudaram içando as respect ivas bandeiras. Ao meio dia esta vamos por 35°f de lat., tendo feito a pequena singradura de Io para oeste. O ponto na carta deu-nos sobre o meridiano do cabo das Vaccas, que demora um4pouco a oeste da bahia e cabo de S. Braz. Em todo o dia houve perfeita bonan¬ ça , lindo sol, e atmosfera fresca e agradavel. Pela tarde appareceu um terceiro navio no horisonte. Como fallei no cabo das Vaccas direi alguma cousa sobre o intrépido navegador portuguez Bartholomeu Dias, que primeiro o visitou e lhe deu o nome. E’ sabido quanto el-rei D. João II promoveu os descobrimentos marítimos: foi elle que enviou Bar¬ tholomeu Dias para continuar a explorar a costa da Africa para além do ponto onde já tinha chegado Diogo Cam, e encarregado especial men te de rodear aquelle continente, e achar o caminho da índia. Saiu com effeito Barthòlomeu Dias do porto de Lis¬ boa em & de agosto de 1486, governando duas em¬ barcações de 50 toneladas cada uma, acompanhado dos pilotos e mestres, Pero Dias (seu irmão), Pero
154 d’AIemquer, João Infante, e um fulano Leilão; sm- do seguidos d"uma terceira embarcação só com manti¬ mentos. Levavam quatro pretas e dois pretos já civili- sados em Portugal, que foram deixando em different^ pontos da costa já descoberta, com as inslrucções e para os fins politicos com que el-rei os mandava. Passada a costa de Guiné soífreram grandes tor- mentas, e foram lançados sem o saberem para o sul do cabo hoje dito da Boa Esperança, e aproando de¬ pois para o norte em busca de terra, foram dar a uma bahia, cujas margens estavam cobertas de reba¬ nhos de gado pastoreado por negros, a que deram o no¬ me d’angra dos Vaqueiros, e hoje conserva o de ba¬ hia e cabo das Vaccas. D ’alli foram costeando até 33° e 40' de lat., on¬ de collocaram um padrão, que deu o nome á que ainda hoje se chama ponta do Padrão, e pela inclinação das terras para o norte conheceu o sagaz Baritiolo- meu Dias que linha dobrado algum grande cabo. Dese¬ java elle continuar a exploração, e cumprir completa- mente a sua missão chegando á índia , mas as tripu¬ lações se amotinaram, e viu-se na dura necessidade de voltar para traz. Porque terrível transe passaria Barlholomeu Dias sendo assim contrariado nas audaciosas aspirações do seu génio! Ainda, como ChristovSo Colombo, con¬ jurou os companheiros para que se demorassem ma is Ires dias, na esperança de obter noticias da Índia. Foi então que desembarcou n’uma ilhota toda de ro¬ cha (que está dentro da bahia a que os inglezes cha¬ mam Algoa Bay ou Port Elisabeth ), onde com a» suas próprias mãos plantou uma cruz, ao pé da qual ajoelhados cornmungaram todos os que iam na expe¬ dição. A ilhota foi denominada ilhéo da Cruz , nome que ainda hoje conserva. Esse fragoso ilhéo, que até ao presente so é vi¬ sitado pelas aves marítimas em busca de alguma pre¬ sa, e que até então não fora trilhado por pés de ho¬ mem , foi a primeira das terras para além do Cabo ,
155 onde se erigiu o symbolo sagrado da nossa fé , e onde o magestoso Oceano da índia uniu em sublime har¬ monia o sonoro bramir das suas vagas com as vozes dos primeiros christâos que devassavam as suas aguas, e que entoavam hymnos de louvor ao Redemptor dos homens! O illustre Barlholomeu Dias foi sem duvida o pri¬ meiro que dobrou o cabo da Boa Esperança, mas a sua fama ficou injustamente quasi eclipsada com os fuJgores da gloria de que se revestiu o nobre Vasco da Gama. O audaz navegante regressou ao longo da costa da Cafraria; chegou a um cabo e entrou n’um rio, dan¬ do a ambos o nome de Infante, porque alli desembar¬ cou Pero Ir^ante, O cabo conserva seu anligo e ve¬ nerando nome, jaz em 34° 30' de lat., mas o rio nas modernas cartas inglezas tem o nome de Breede. Por um ridículo orgulho nacional tem os inglezes muda¬ do estes e outros nomes, como o da Bahia de Lou- renço Marques , em Delagoa Bay , &e., sem utilidade alguma para a navegação, produzindo bastante con¬ fusão na geographia. Bartholomeu Dias dobrou depois o cabo das Tor- mentas, que elle assim denominou pelas muitas que experimentara á ida na sua proximidade. Tendo en¬ contrado o navio dos mantimentos, que deixara na costa occidental, aportou em S. Jorge da Mina, on¬ de já estavamos estabelecidos n’aquelle tempo, e che¬ gou finalmente a Lisboa em dezembro de 1487, no fim de 16 mezes de viagem. Apresentou-se a D. João II, e referindo-lhe a passagem do cabo das Tormen- tas, este grande rei lhe mudou o nome para o de Boa Esperança, concebendo logo a possibilidade de se che¬ gar á índia pelo mar. Eslas e outras constantes diligencias para o desco¬ brimento da índia foram o grande pensamento do príncipe Perfeito durante todo o seu reinado; não o viu porérn realisado na sua vida, mas foi elle que pre¬ parou 03 homens e as cousas para os successos que no
m seguinte reinado elevaram a nação portugueza a iã‘