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  • ír! cri ficar c.s heroes da Patria, conimeincran.de os seus altos feitos, c honrar a mesma Patria! AS portugueses
  • > OUARTO CE\TE\ARIO DO DESCOBRIMENTO DO CAMINHO MARÍTIMO PVRl \ INDIA POR VASCO IH CAMA •L./I •> caminho •:• da •:• índia. -K- meados do XII século propa- gou-se na Europa a noticia da existência d'um reino maraviUio- so cá para as bandas do extremo Oriente—o reino do Preste-Joham, cujas regiões se pintavam como pa- raizos inundados de oiro e encantos. Havia um desejo febril em todo o Occidepte de conhecer esse reino que tinha por chefe um rei christão. As tentativas que por terra se haviam feito nesse sentido, não tinham produzido o menor resultado; e as lendas extravagantes que corriam acerca do oceano Atlântico—o mar 'Tenebroso, mar povoado de monstros e sombras phantasticas—im- pediam que por este lado se chegasse a esse ambici- onado reino. Os ricos productos da índia, oiro, sedas, especia- rias, que mercadores arabes faziam chegar por ter- ra até á Europa, onde eram vendidos por preços fa- bulosos pela enormíssima difticuldade em os trans- portar até alli, mais excitavam o desejo dos euro- peus na descoberta d'um caminho que os levasse até áquellas ubérrimas paragens. Foi um príncipe portuguez, o infante I). Henri- que, que deu o primeiro impulso para (pie esse des- cobrimento se realisasse, fundando uma escola de nautica em Sagres. Daqui partiram os ousados marinheiros que começaram a devassar o mar Tene- broso, assombrando o mundo com os seus einpre- hendimentos e as suas descobertas. Em 1486 par- tia de Lisboa o grande navegador portuguez Bak- tholomeu Dias em demanda d'esse reino do Pres- te-Joham das índias, tendo conseguido dobrar o cabo da Bôa-Esperança, a que, então, havia dado o nome de Tormentório; mas não poude ir mais além, porque as tripulações aterrorisadas lh o impediram. Por terra haviam ido, n aquelle mesmo anno, dois portuguezes, que, por não saberem arabe, não pas saram de Jeruzalein. No anno seguinte uartiran w- ji. ítiíli a A- m fá A Mj as#™ « |". « ;4- ft Iji A. SS w líf "" fá m « (è m ■* * - A n w i » ti: i j f ^ z. i? & ® n & & g m b m ± -A m m m « * it * m H Jil ãi íi — É M18 ISl „ p ik ® $ & « ft « % ai « A |l|l M m # «i «M m st W (8 ® & m ¥ & m nn * m & x ® finllf«All3l5EDEkW«l® ^ s m t& m * M jsr cb ti m fá * w tt n % m ± m m m «i n m & m H>I m /¥ at # « « * EL « m lí. ig H li A í>H nw ■&n aA m m* *. A* ÍÍ mi mtif ís to)\ # Fti ã m >m m m & m M m g N tf. ■» * Bn m « H » s í s * s n m 8 «s S tf + Hl ít í« M ÍS ffl 0 i è A 2 M li íii k U M » « a ± « t ír i«j a % z 8 %- z M m n z. =« fá aíí m m mi k ft a m k w •ff -? a íí * i g a íi a m % -n z ph ± m m 8 m ® m M m ^ # p
  • QUARTO CEMEWRIO DO DESfOBRIMEMO DO CAMIMIO MARÍTIMO RARA A IMHA POII VASCO DA (iAMA 7 '>#»>/v/y/y/vió!^^:v^^J!v.w:w:v.^ •-^.v.-.. v.->..i j « #1 M ® M n §# m h x w « # m 1* st m e vx» % # m í » i HZVkWtí-ZlN MM m oí * st « fí ® líf Íí ifij « » P ± % - m » * ífj s # m tt = « + ís «r #. êii !t r- a c u s a m n & m <1 # is « « a » - « mí »f a íf ffl Sn Ift « « # ^ ítjj ® * m « -s fii a i ? t * # 3fé í l: - ffl «s ffl (Si Ik iú m 11Í- W tm H fft ít ste aj| ^ M a M Hf SÉ + je a ^ fl A ffi B A Ú É fí i? ti SK mi ® ft- + Z Sff D) M % sâ ® is * b « e s m - - ± s *n 511 - #; * i» a A =f ft ir m ffl ti bí 1*] # ia d m m tw « 0 A * us a A # » © 0 » « tt ffi a* l#J -I- » 2 » í « fill ff A * (0 -t ■% V Z fft W Mi ± iiti ffi ± M ± 1m W tír %-■;$ 0 m A íU ii >J ii 'in 84 â - * # i Jin it «1 ft/ A ff fí tfct fsí 01 I# ífí ia 0' A fi a - ill A ir tit « fl 5E fift ÍSi U H ffl #
  • 8 OI'AUTO I'EMEMIIIO Dl) DZSG03R11IE.\T0 DO CVMIVIIO MARÍTIMO PARA A INDIA POD VASCO DA GAUA J _>• v ^ ^ v •w.-y».. v-^"v<'.v _ Alii se reuniu, no dia seguinte, todo o povo de Lisboa para assistir á partida da expedição. Foi El-Rei, íôrara os fidalgos, fôram os padres para di- zer missa, e, depois, os navegantes, que caminharam em devota procissão na direcção do rio, dirigindo-se para os navios. Os marinheiros embarcaram. Á beira do Tejo essa multidão enorme derramava la- grimas copiosas. Que sorte os esperaria n'essas phantasticas regiões que demandavam? Quantos tornariam a voltar á Patria e ao lar? El-Rei foi até junto aos navios. E a um signal dado todos levantaram ferro, voltando a prôa ao poente. Da turba immensa saiu então um doloroso adeus, envolto n'um clamor d'angustia e de esperança, a que responderam os marinheiros com uma sorriden- te saudação amarga de despedida. Estava-se a 8 de julho de 1497. o Cr O Apoz sete dias de viagem chegou a pequena frota ;'is ilhas Panarias, onde um espesso nevoeiro a dis- persou. Entre 23 e 27 de julho tornaram a reunir- se os navios na ilha do Sal, seguindo para Santiago, em Cabo \ erde. A1 li proveram-se d'agua e lenha, partindo de novo no dia 3 d'agosto, tomando muito ao largo, na direcção sul. Tres mezes depois, em 4 de novembro, avistaram terra: haviam chegado á angra a que pozeram o nome de Santa Helena, onde desembarcaram para repoisar da longa fadiga e re- conhecer a altura com o astrolábio de Behaim—um tosco triangulo de madeira. Depois de algumas escaramuças com os indígenas, partiram no dia 16, proseguindo o seu caminho. Em 19 estavam ú vista do cabo da Bôa-Es- perança. Durante tres longos dias e tres noites alli andaram batidos por um temporal medonho, (pie iazia empallidecer os mais fortes, sem que o conseguissem dobrar. Nunca aquelle cal o justifi- cou, talvez, ta o bem o nome de Tormentório que lhe pozera Bartholomeu Dias. No dia 22 dobraram, emfim, o cabo; e em 25 fundearam na bailia de S. Braz, onde as calmarias os obrigaram a demorar-se até ao dia 7 de dezem- bro. N'aquella bahia queimou Vasco da Gama, como lhe havia sido ordenado por El-Rei, a náu S. Miguel que levava os mantimentos. Por pouco que as hostilidades se rompiam com aquelles indí- genas, o que so se não deu devido á alta prudência, a par d uma grande coragem, que distinguia o nosso capitão-mór. No dia 12 sobreveiu um furioso temporal que fez com que os navios se perdessem uns dos outros, sendo necessário accenderem os pharoes para se apercebe- rem dentre a densa cerração. E no dia 15 chega- ram «aos ilhéos Chãos, derradeiro termo da viagem de Bartholomeu Dia». Daqui em diante tinham de seguir as vagas indicações de Covilhan, que se achava por essas terras do Preste-Joham a quem procuravam. JR n ft ià fé Vj rn Ê í É ^ f I $ - *Jl| $ 3ã fé flu Ê M U -f É # EI E M íé @ Hf (SJ ft N — M m # & bí # ^ ^ w m m a 5 8 ? I I fl + Í A ^ ^ i li n n k\ it - m a i|jr m m ib -d $ ft fé wpJ ill - E % Al *71 S w M H M $ a m £ w $l ® ^ & z m n z + a m # & m m & m in B s. ftfc i ^ tin a ít wj ^ £ - fit # m i3 fé m rfri jjn ê ns a m. m & m % % «i 0 M Sfê ?§* lilí )X S |n) ^ ft m fé ti'r m ± ft m m z ?4 n fç. M Ú -Y rf II fà SB A: 4Ç- TB íh — ^ ^ pfl % fé >x ft it fé u ¥ d® m is % ifn H Jl + fé gfc fp ^ x # Z- & H x ffl rn M ft fà m m m a n. w ri it n ti m m n m m -t m n m m >fo ífô iti lit u fô a w a fé m tt i w $ m m m m m fè ím m # ^ ss líi «'A u in m m m w ^ + % M. m TSk H ft £ ^ BJí m z m 0 a -a i A i ^ a ± # = m % mh % - w m a n m m m M w ft # Yj 1í% fê 7$ ^ 7f]> 14( dff* /h --ft H tfn HL # H íi ^ Í7 iili M -d ^ a m m w T.r m ft 6 z. ~ it fix m ft fá *1 > ^ rr « f> m m m «J «i ê a i Í7 # ^ na @ it ií? b# m "f: itfc «i D f ^ ífii fé & í. m m ft ifà 'Xz ^ — ft. >/h Aji "^"l] is ^ -H m n m & m ± m v> im m tè ft EE it fé Hf m n ft
  • QUARTO ÍMEYUIIO DO DESCOBRIMENTO DO CAMINHO MARÍTIMO PARA A INDIA POR VASCO DA MIA 9 ■**' - t H ff"j >* * "*s[ -rr*Suti \í? ^ ^ . Arrojaram-se então ao desconhecido, e os mais valentes desmaiavam ao pensarem que iam affrontar esses mares que apavoraram ós marinheiros de Pap.- tholomeu Dias. Ao longo da costa, as correntes impelliam-os para o abysmo do sul; e as tripulações, aterradas pela fúria indómita das ondas e dos ventos, revoltavam-se. Mas Vasco da Gama, prudente e inflexível na sua audaciosa energia, domou as revol- tas e domou as correntes. Felizmente no dia 10 de janeiro de 1498, chegavam a Inhambane, e em 22 alcançavam Quilimane, onde foram visitados pelos naturaes, alguns d'elles com toucas de sedas lavra- das na cabeça. Permaneceram ahi um mez para se refazerem das avarias e restaurarem a saúde,—o es- erobuto atacava as tripulações, fazendo horríveis es- tragos. Proseguindo na sua viagem chegaram a Moçam- bique em 2 de março, onde o sultão, que fora a bor- do cumprimentar Vasco da Gama, lhe deu infor- mações do Preste-Joham, dizendo que este era um poderoso príncipe que tinha muitas cidades n'aquel- la costa. Prometteu o sultão dar-lhe pilotos que os guiasse, mas faltou perfidamente á sua promessa. E a frota teve de seguir costeiramente até Mombaça, onde foi salva milagrosamente d'uma traição que lhe armaram os mouros. Subiram depois até Me- linde. Aqui poude Vasco da Gama reter um mouro que conhecia a rota para Càlicut, que lhe serviu de piloto. Depois d'uma travessia de vinte e seis dias do oceano indico, 'alcançavam emfim a costa indiana, tendo experimentado os mais penosos trabalhos, sof- frido as mais duras provações e luctado intrepida- mente, desesperadamente. Foi no dia 17 de maio de 1498 que avistaram a terra indiana; e foi no dia 20 que a pequena esquadra, tendo primeiro estado em Capocate, fundeou em Calicut—esse emporio, então, da costa do Malabar. Dez mezes e onze dias durara essa viagem auda- ciosa. O espectáculo que aos nossos navegantes se apre- sentava, era deslumbrante. O esplendor e riquezas do Oriente, fascinavam-os. O Samokim, rei de Ca- licut, que a principio havia recebido amigavelmente os portuguezes, íôra-lhes depois hostil, instigado pelos mercadores mouros, que já viam em nós os seus futuros dominadores e competidores no com- mercio, que monopolisavam. A asco da Gama decidiu então voltar a Portugal para levar as novas do seu descobrimento. Partido de Calicut no dia 29 d'agosto. chegou a Lisboa pre- cisamente um anuo depois. Dos cento e sessenta navegantes apenas sessenta e cinco regressaram á Patria, contando-se no numero dos mortos o irmão do grande capitão. D. Manuel frequentes vezes ia espreitar o ocea- no do alto dos rochedos de Cintra em procura das velas de Vasco da Gama, quando um dia descor- tinou ao longe a caravella Berrío. Um jubilo im- menso lhe inundou o coração: logo resolveu man- dar construir o mosteiro de Delem, esse grandioso + R í" Í5 ?T Hi! ia sfi ® -t sí» m» a íjmi a » « ± 61 mi « m* tr m a» « A {í «H ti tóâ IS «9 tS ii A U. >.t j: m E w m a t% m a i» a # as k «« an li ft M m M '« Sr í£ « Di: n U m W a ¥ Al' Br ÍF Bi S?ii li ti i i i « m m % w a «i i «I É s « # e s) # a 0 ft H A WH «1 « Ê m ft % ti ft t£ 9í ta X m « M £ »S ;¥ % A íiè -fet fi li «11 Cili nS Hl M s tk J? »í Br ;> a mfô » — # » « m K m JW Sí BI si! ftA BI » i£ ffi m m m a ft N s i ® if e n W & M 0t ff Jt S* ?íf BÊ s m ir ± ft w % w d in fiii m as eíis+isfa eu ws tè « ft Hi -t in) ffi n iíi * a ft mi m tt * « « ft - it — .11) IHí Í7 ilr SlJ iÁr IA A il» Br & 01 M + J1 9( m m M K T- « * M + tt D A 8 ± m 5 g « Ji -t li í $■ BA m VP AZfi? M # « 'ff + » # n Br m + tó - Br M A £ a, ft mt - ii $11 ip A K M i A II Í|I H t /I» iE f m m íl m hl &. ?l m ft i-i íí- m » M Vil at * /C — «I -ff, & m m x m m a g + ® * #r a m # m m ?i tà u m m «a « ® JA ± «II * ff S 61 Bf w « ft it n A « ?< ia m 1 b i i nu a it ■& ía®w^fffiSÇiHQiii!«ii is m ft tu! im kí m B a ® ® tv m a §? mi m & m - ± 9>f s «i * n a # ti ^ + * m «n ks •« us u ist m u ^ ft- st SI ® W ilfé llí m fu % ii m e m r) i :+ m m ã ã m s m & m BttíltfflJtJíSS 6 8 m ft m m » ri m ® u ra - Jt is.ífi a » fj- iê IÍ w » =f Br a IE try m % ± ia a tt m m 'fn % h n i a b a t 's s s « - e » ft tf m tt a * m H Í + m E ti M m
  • 10 OilARTO CnrnARIO DO DESC0BK1ME\T0 DO CAMIMIO MARÍTIMO PARI A IMA POR VASCO DA CARA fl5S«jfeMAM40taSfeMjlfeMMta4fefdBfc0dta^£&7uBeí ^!9^ttâtal0tMDÍfeMDfe0tJto«4wtMtaldÍlKft4lfc«!SHrcÍ^ -<■ ^ X^7^"* "*" niominiento que se ergue magestoso e magnifico, relembrando ás gerações o glorioso leito dos portu- guezes. Vasco da Gama foi recebido em Lisboa com de- lirante entliusiasmó, e El-Rei 1). Manuel cumulou- o de lionrarias e recompensas. Fstava finalmente descoberto o caminho n ariti- nio ]:ara a índia ! o o o Ff ta ai dacicsa virgtm—qre nfo foi apenas í ma ave ntura isolada do arrojadíssimo espirito portuguez, mas sim o complemento d'uma successHo de intré- pidos esforços, submettidos a um mesmo plano—des- vendou á Europa as lendas e mysterios que circula- vam desde o XII século, e trouxe ao commercio as maiores riquezas, ás sciencias os mais úteis conhe- cimentos e a Portugal um império immenso. A ci- vilisação recebeu o mais poderoso impulso; eo mar, que as nossas caravellas sulcaram, e o inundo, que descobrimos e conquistamos, ficaram abertos ao pro- gresso humano. A fama de Portugal echoou pelas mais recônditas partes do mundo. Kl-Rei D. Manuel tomou o ti- tulo de Senhor da Conquista, Navegação e Ccm- rnercio da Ethiojria, Arabia, Persia e India. E o nome de Vasco da Gama, cantado por CAMões tm estrophes sublimes, ficou inscripto em lettras fiamn.ejantes no livro immortal da Historia. Macati. 10 de maio de 1898. ^foão ^/licita (jfa<íco. Nota.—Este artigo foi cscripto para ser vertido em chinez. ./. V. ISiHSKJA U * iS m p » m m s a a « eb » n « mi meis a a ^ s m «i ft >& s .s ® n ís * m s * Et » tf 1« k n n ~ ti Patktiõmíík-AzmM W •& "ti » Z 0 tít ft! ff- « »#| M >% Hi on a rfn m i# te m - » m # si m - ft A il& S» S. H » «• yf Kn ff ê (in m » n « «t § w A f? n as m ta M + ® ± & í« ÍS2 fi A S it A ft ff ^ ± * A fi * g 15 13 m mt. h iè íi. - # & ± * ■ * Vi M SIÍHiir|#e «itilfiiíHBíl Ml K fl fâ: iW lit K A fs n 41 .11 A iíl 1(8)1 II + m 9 a ft % m f/a & # b « ti « £ ! ^® ilt í et S i» « » ± » l"i .» «t t» «t ft « W til iit ffl K « Mi t» Ja «• A i A t li fi f I i Hf a ® n m m * m % «A « « ro I « if íí ft éS ER M © ft fí (R H tj ft íí f i i ií ® m ê * s a K A ® m ír SifiHAíliHIlll# # Itt # tt « ® H ffl »p tt-ffIA#SS# ai Í» i tu id ^ a- * «i 2 í II .1 A í tt i i á x «snaw-tii* -if B Ml g rfTi if m M mB3 - ■§• fyídro .Velasco da .
  • OUBTO CHIBAM 110 MSfOBRIIEMO BO CAIIMO IARITIIO MBA 1 IMA BOB (ASCO DA MA IS íxrxrxxxrraic<<<<<^- PRAIA GRANDE ABE-SE que possuiraos varios estabelecimen- fifcH tos na China e entre elles contavam-se os de San-Chuang, onde morreu o thaumaturgo S. Francisco Xavier, Tamau, Lanipacau, Chin-cheu e Ningpó. Fernão Mendes Pinto que era cognominado cora o alcunha de Minto, por parecerem inverosimeis as narrações de suas aventuras, referindo-se a este ul- timo estabelecimento, diz que havia tres mil visinhos, de que mil e duzentos eram portuguezes, e o mais gente christã de diversas nações; que na povoação havia capitão, ouvidor, juizes, vereadores, prove- dor-mór dos orphãos, almotacés, escrivão da Ca- mara, quadrilheiros, quatro tabelliães de notas e seis do judicial, dois hospitaes e casa da misericór- dia, etc., de maneira que se dizia geralmente que era a mais nobre, rica e abastada povoação de quan- tas havia em toda a índia. Todos estes estabelecimentos duraram, segundo se lê na Memoria sobre a franquia do porto de Ma- cau, parte collectiva, parte alternadamente, desde 1517, em que Fernão Peres d'Andrade veiu á China, até 1557, anno em que os mercadores por- tuguezes e chins concorreram a Macau e aqui con- tinuaram até ao presente as suas relações coinmer- ciaes. Ao valor dos nossos antepassados deveu o impé- rio da China ver-se livre dos piratas que, por duas vezes, pretenderam dominal-o. A primeira foi obra dos lusitanos do século XVI; a segunda dos seus descendentes, no começo d'este século. São contestes os historiadores em que este pedaço de terra nos fora concedido pelo imperador Che- tsung, chamado em vida Kia-tsing, em premio do valor com que aniquilámos a formidável esquadra de Chan-si-lau, que desolava as costas meridionaes do império. A respeito, porém, da origem do foro de quinhen- tos taeis que pagavamos ao erário imperial, discor- dam os auctores entre si e seria trabalho para longo folego se quizessemos tentar aqui o estudo da ques- tão. Macau teve por primeiros habitadores uns com- merciantes portuguezes, cheios de energia e de acti- vidade, os quaes, começando a estabelecer-se em algumas cabanas nesta pequena quasi-ilha ligada apenas por um estreitíssimo isthmo ao districto de Heung-san, conseguiram em pouco tempo levantar um emporio de commercio da China, do Japão, de Tong-king, de Siam e de Camboja, pelo que mere- ceu esta cidade em 1580, isto é, 29 annos depois da sua fundação, o titulo de Cidade do Nome de Deus na China e os privilégios da cidade de Évora. I) esta sorte ia augmentando cada vez mais a importância desta colonia que, pela sua posição geographica e por ser o único porto europeu nestas longínquas paragens, se tornou o centro donde irradiou por todo o oriente a luz do evangelho e da civilisação. E assim se explica o renque de casas que ainda se conservam na íreguezia de Santo Antonio, cha- madas da Companhia Hollandeza, e d'outras outrora pertencentes ás diversas firmas extrangeiras, que passaram para Hongkong, e a existência d'esses inimensos claustros de varias ordens religiosas de differentes nações. Cumpre-nos notar que, a par da prosperidade sem- pre crescente, surgiram não raras vezes temíveis contratempos, e se não fossem o valor e a energia dos nossos antepassados, já se teria desencastoado da coroa de Portugal esta pedra preciosa, que ainda poderia valer muito mais, se os nossos governantes possuíssem em grau mais elevado a comprehensão dos seus deveres. Não é aqui o logar para enumerar as façanhas dos macaenses. Bastará recordar que em 1G22 uma frota dos hol- landezes tentára atacar Macau e bastou um punhado de 80 portuguezes e alguns cafres, segundo refere José Ignacio i>e Andrade, para deixar 500 mortos, 100 prisioneiros, e pôr os restantes em fuga, largando em nosso poder 8 bandeiras, armas e bagagens. * Um monumento commemorativo desta façanha se erigiu em nossos dias tio logar do triunpho, cha- mado " Campo da Victoria," uma parte do qual acaba de se transformar em " Avenida Vasco da Gama," de que este jornal se occupa em outro logar. Não mencionaremos outros factos notáveis de não menor brilho, taes como a revolta dos faitiões em 8 de outubro de 1840 e a tomada da fortaleza do Passaleão em 25 de agosto de 1849, por serem de todos mui sabidos. Apenas diremos que a cidade de Macau tem pa- ginas brilhantes na historia e não deshonra a mãe- patria. Quem a vê pela primeira vez ao demandar o seu porto sente uma agradavel impressão que causa o seu aspecto pittoresco. Bella cidade ! exclamará sem duvida o forasteiro, vendo em primeiro logar a Fortaleza da Guia do- minando a eminência da montanha, e em segundo logar, o quartel da força de 1.° linha, como primeiro edifício, na extremidade direita, com a Bateria 1.° de Dezembro em baixo, como que para defender a en- trada do porto.
  • 14 M UITO CE\TE\AR!0 DO DESCOBRIMEXTO III) CVMIMIO «IRITMO PIRI A LÍDIA POR VASCO'Dl GAIA * uíãfc, s. Outra fortaleza, a de S. Paulo do Monte, de muito maior extensão, que serve de presidio militar e de cadeia civil, deixa-se ver no planalto do monte op- posto, á esquerda; e a cidade, edificada no valle e nas encostas dos dous montes, apresenta a forma d'um se- mi-circulo, causando o todo esse, verdadeiramente, lindo panorama que nos mostra a photographia. Para se dar a ideia d'algumas construcções na Prata Grande, reproduzem-se em separado sobre o Panorama de Macau dous medalhões, representan- do no primeiro o edifício onde funcciona a repartição do correio e o Palacio da Justiça e Fazenda, e no segundo o Palacio do Governo, que fora o do falle- cido Visconde do Cercal. Sah Gabribi* Q O O Bem diversa é, porém, a impressão que se exjie- rimenta quando se desembarca no porto interior d'esta cidade, atravessando as suas ruas. Nota-se em toda a parte um socego, uma calma- ria e a mais absoluta quietação, como não se vê em nenhum dos portos nossos visinhos. Fóra d'esta cidade é tudo reboliço e actividade; sente-se a vida. Aqui, respiram-se os ares d'um domingo eterno das terras da provi ncia, entre-cor- tados pelos sons do bronze e da resaca compassada das praias. Parece uma cidade de sinecuristas, creada pela imaginação de Swift, vagueiando no ar e obedecendo a leis magnéticas desconhecidas. Tres séculos são decorridos. O pendão das qui- nas ainda tremula como tremulára em 1557 e hoje a cidade, não obstante estar vinculada aos feitos he- róicos dos briosos navegadores, vê-se anemica e sem forças para se robustecer. E triste termos de fallar assim. Procurar, porém, remediar o mal, é trabalhar para a nossa conservação, é concorrer para honrar a pá- tria, abrindo-lhe o caminho da prosperidade. Macau, fallando com franqueza, está quasi perdida. Como colonia, não serve, como a Australia, para amparar o excesso da população da Inglaterra, nem como Hongkong, para servir de deposito ás merca- dorias destiuadas ao consumo do povo chinez ou ja- ponez, nemí como a índia, para dispor ahi dos ini- mensos productos da industria ingleza que encon- tram fáceis mercados. Na Inglaterra, como em França e na Hollandaj apontam-se as colonias como as espheras mais pró- prias para o desenvolvimento da actividade, o que não acontece entre nós. E a causa prineqial do mal, o que ha de descarregar o golpe fatal sobre o commercio e a vida d'esta colo- nia, digna de melhor sorte, é o assoriamento do seu porto. : 1. '/JaMo. Inútil! Calmaria. Já colheram As vellas. As bandeiras socegarani Que tão altas nos topes tremularam. —Gaivotas que a voar desfalleceram. Pararam de remar! Emiiradeceram ! (Velhos rithinos que as ondas embalaram). Que cilada que os ventos nos armaram ! A que foi que tão longe nos trouxeram ? San Gabriel, archanjo tutelar, Vem outra vez abençoar o mar. Vem-nos guiar sobre a planície azul. Vem-nos levar 4 conquista final Da luz, do Bem, doce clarão irreal. Olhae! Parece o Cruzeiro do Sul! Vem conduzir as naus, as caravellas, Outra vez, pela noite, na ardent ia, Avivada das quilhas. Dir-se-ia Irmos arando em um montão de estreitas. Outra vez vamos! Concavas as vellas, Cuja brancura, rutila de dia, O luar dulcifica. Feeria Do lnar, não mais deixes de envolvel-as! San Gabriel, vem-nos guiar á nebulosa Que do horisonte vapora, luminosa E a noite lactescendo, onde, quietas. Fulgem as velhas almas namoradas... —Almas tristes, severas, resignadas. De guerreiros, de tontos, de poetas. Macau, 7 de M;iio de 1S!!8. Gair)il!o Passcirjlja.
  • «IMO CE5TEMM0 110 DESCOBRIIEMO DO C.MSHO MIIITO FERE A IIDU FOR TASCO IIA GIM 15 O Gonlcnario cm Macau tàLA/L ivf ^ i Vy3 ESTE Macau as suas melhores gulas para celebrar n'este momento o desembarque jfe \ do primeiro portuguez que pisou o solo "v-' oriental, vedado até então ao comrnercio e ao convívio das nações europeias. Se para a humanidade inteira este dia é de festa, porque commemora um feito que teve por consequência mais valiosa roubar ao obscurantismo milhões de indivídu- os que, vegetando á superfície da terra, desconheciam por completo as vantagens da civilisação ou dormiam sobre as ruinas de graudes nações d'outr'ora, de que nem os vestígios apagados sabiam avivar; se para a Europa a descoberta do caminho da índia syuibo- lisa o inicio do grande poderio da raça branca, char mada a dominar o mundo; se para as nações co- loniaes esta dacta representa o começo da expansão do seu comrnercio, da sua riqueza, das suas institui- ções; se, finalmente, para Portugal estes festejos avi- vam o orgulho nacional de ter sido esse recanto do Occidente a nação que ensinou ao mundo culto o ca- minho marítimo do Oriente; para Macau, a viagem de Vasco da Gama representa alguma coisa mais, porque representa a causa directa da sua existência. A descoberta e a posse do riquíssimo império hindus- tanico, não eram ainda sufiiciente premio á ousadia dos grandes navegadores portuguezcs dos séculos xv e xvi, que ao mesmo tempo iam avassalando terras do continente negro e do novo mundo. O desejo de dila- tar a fé ehristã e de levar a todos os recantos do globo o glorioso estandarte das- quinas conduziu os portuguezes a Malaca e a Siam e trouxe Rafael Pe- restuello ao império do Meio, onde os que lhe se- guiram de perto o sulco arado nos mares da China fundaram successivos estabelecimentos de que o mais perdurável foi Macau. As festas do centenário n'esta colonia representam portanto para ella mais alguma coisa do que para a India e para Portugal; porque Portugal e a índia existiam jA; e Macau nasceu dos esponsaes do pe- queno recanto occidental com a vasta região hin- dustanica. Com o nome glorioso de Vasco da Gama engloba Macau nas actuaes festas outros nomes symbolicos da gloria nacional. Ergue um monumento ao inici- ador dos impérios coloniaes nos tempos modernos; e ao mesmo tempo deposita uma corôa de louros no pedestal que supporta o busto de Luiz de Camões, na gruta que tão querida foi do immortal cantor das glo- rias nacionaes. Levanta um obelisco á memoria de Ferreira do Amaral que a emancipou da tutella secular do celeste império; e em uma das faces do obelisco inscreve o nome de Nicolau de Mesquita, o sustentador da obra da emancipação, posta em risco pelo assassinato do benemerito governador. Enlaçando n'um mesmo feixe estes quatro nomes gloriosos, Macau paga st memoria dos homens que no muudo tiveram esses nomes um tributo que a honra. Vasco da Gama é uma gloria que pertence a todo o mundo culto; porque a ello e aos continuadores da sua obra se deve o derramamento da moderna civilisa- ção por povos até alii mergulhados no obscurantismo. Luiz de Camões é a gloria de uma raça inteira; porque mostrou a que limites pode ascender o génio da litteratura, quando se libra nas azas de uma lingua neolatina. João Maria Ferreira do Amaral é uma gloria portugueza; porque mostrou ao mysteri- oso império do Meio como pode um portuguez de lei desempenhar-se d'uma missão d'honra «pie lhe 6 incumbida pelo seu paiz. ATcente Nicolau de Mes- quita é uma gloria local; porque soube provar á me- trópole que os filhos das colónias se ufanam, como os seus irmãos d'alem-mar, do nome portuguez, bus- cando honrai-o nas occasiões do perigo, como o hon- raram sempre os descendentes dos navegadores
  • 16 QUARTO CISIHAIIO DO MSCBBIIHBTO BO MHO UIITIJO Hit A ISDIA POR VASCO B.I (AHA - Z3rrrrAmfaczTx?rrxTr^m*s*ets&ta*K^ mercancia, juntam-se agora em desusado afan os bandos das esquadras, monstros negros, monstros brancos, urcos medonhos a assoprarem nuvens de vapor pelos narizes, azafainados, devorando distan- cias, girando em mysteriosas evoluções, impando de maruja, de polvora e metralha. Não é para virem saudar a primavera em flores, que elles an- dam, os monstros ; certamente que mio. Palpitam de turvas ambições, espreitam-se, cogitam, enferru- jam de invejas porventura; pavilhões russos, alle- mães, francezes, inglezes, italianos,—e quem sabe os que virão ainda ...—enfiam pelos portos abertos, e por Kiao-chao, por Porto-Arthur, pelas visinhanças de Shanghae, do Tongking, por toda a parte. Ah, essa China, esse pastel, é bem bom de roer! assim os convivas se intendessem; mas parece que n"io; sabeis como os corvos se espicaçam entre si, quando o cadaver é um só e o bando dos esfaimados prodi- gioso ... o o o De toda essa costa do inferno amarelfo, n um só cantinho, parece, reina a paz. Vi-la modesta alheia a grandes febres, labuta simples dia a dia, mesqui- nha, dirão talvez, mas paz, mas calma. Eu vejo agora em pensamento esse cantinho, Macau, ban- deira portugueza desfraldada, pobre lingua de terra rochosa, escondida entre ilhotas, entre-collinas ro- chosas, nuas; e nua seria como ellas, se a persistên- cia de mais de trezentos annos dos portuguezes não a tivesse povoado de casitas, alegres, que brilham em cores vivas quando o sol lhes bate em cheio, como se uma cidadesinha provinciana, d'alem, do torrão nosso, para alli fora trazida por encanto, in- teirinha, com seu quartel e campanario. Casas, velhos fortes, egrejas, uns laivos de hortas, de quiu- taes; triste vegetação rachitica, que no solo graní- tico pouco medra. Troncos vetustos, rama densa ofierecendo sombra e doce aninho, é coisa rara, que quasi se vê só n'um oiteiro, n'um bello grupo de arvores, que milagrosamente espiga entre uns pe- nedos. E' a chamada Gruta de Camões, um mo- numento :—Em Macau passou annos de exilio Ca- mões, na gruta silenciosa compoz o seu poema. Eis pois assim Macau estreitamente vinculado á historia patriç, á epopea patria, e patria dos Lusía- das. o o o Os nossos velhos navegantes, a raça lusa heróica de outras eras, devassaram as costas de Africa, do- braram o cabo Tormentoso, traçaram o caminho das índias, bateram ás portas da China, do Japão ; e de hoje essas esquadras façanhudas, esses monstros de guerra, se por esses mares navegam, a elles o de- vem. Trilham os caminhos trilhados pelos nossos chavecos, vêem as costas que nós vimos, nomeam ainda tal cabo, tal ilha, tal cidade, pelos nomes que lhes demos. Esquece o mundo, é claro, deveres de gratidão, e esquece os factos e os nomes dos heroes. Também nós, portuguezes de hoje, os iriamos esquecendo por ventura, se não tivéssemos Camões. Na historia os factos, como n'um velho quadro as tintas, des- merecem com os séculos. A epopea morre, como tudo morre, na memoria dos povos... Mas não morre: quando, na vida da tribu, uma grande com- moção agita os corações e os põe de accordo n'um desígnio grandioso, quando uma onda vivificante de oxygenio inunda os pulmões da turba e a impelle a um grande feito, nasce, por via de regra, uma alma sensitiva, um espirito contemplativo e vibratil, de ordinário um desprotegido, um ignorado, que se vota a cantar o commettimento, buscando para abrigo um canto humilde, a choça, a gruta, o an- tro. A palavra poetizada é mais doce, ó mais ac- ceite e mais retida; fica; passa de paes a filhos em legado, de gerações a gerações, e as mães a mur- muram ás creanças; assim não morre a epopea. Os fastos hindus, por exemplo, os evangelhos dos hebreus, a peregrinação de Christo, os arrojos dos lusos, por esta maneira passam á posteridade, se eternizam na memoria. Os Lusíadas são com ef- feito a nossa Biblia civica, e por ella a lembraça do que fômos é eterna. Nem eu sei bem aquém mais deva a Patria:—se aos velhos navegantes? se a Camões ? Quando pois Portugal se prepara para erguer um brado de louvor e gratidão ao grande descobridor do caminho marítimo da índia, certamente lhe acode simultaneamente á memoria o nome do seu Vate. E, quando as colonias se unem á Metrópole no bra- do enthusiastico, Macau, talvez primeiro do que todas, tem jus a engalanar-se, a pôr-se em festa. o o o Dizem aquelles que estudam os segredos dos co- rações, que uma grande paixão, um grande amor, salvam não raras vezes o homem dos abysmos, tra- zem-n'o ao bom caminho, regeneram-n'o, inoculatn- Ihe nas artérias sangue nobre. As nações são como os homens. * * * Acorda, Portugal; acorda, que são horas!... Acorda, Pae!... Ora, para que lhe havia de dar,— o dorminhoco!—para se pôr a dormir, não sei quan- tos mil dias a seguir!... Acorda, Pae, que o sol já brilha ha muito, e é hoje dia de festa em família!... Acorda, põe-te a pé, toma coragem, e ama o teu passado, os teus heroes, o teu Camões ! ... Eu não digo que cinjas a catana, e saltes para a rua a con- quistar terras a mouros; nem que vistas os fatos domingueiros, e vas quebrar lanças pela honra das damas inglezas e namoral-as á mistura. Isso foi tempo! já lá vae, e não volta; porque a gente— percebes?—a gente só tem uma idade de bohemia, vida airada ... e tu tiveste a tua, e de tremer!...
  • «i urn l EMEMmo mi MCOMinro no caihho inimimi mia a ima íiir a asco ha caia in Mas tu tens ainda musculo, embora a barba te branqueje ; nem estás ura moribundo ura paspalhâo. Acorda, abre os olhos, põe-te a pé, lava o rosto e as mãos do pó da estrada, almoça,—que ainda tens muito trigo nos celleiros,—agarra-te á enxada, cava o teu torrão, a terra de nós todos, ama, vive uma vida honesta, dá de comer e educação aos filhos de hoje ; e verás como podes ainda ser feliz, tranquillo, respeitado ... Acorda, Portugal; acorda, dorminho- co!... Acorda, Pae, meu Pae!... Kohe, março de 1898. "jXfenceslau de t^(przcs. -«*• : í-..^=síí««- jp||pA duas instituições dignas de respeito e pro- ||§g|j tecção dos poderes públicos, e que têem um cunho verdadeira e exclusivamente nacional. São elles: a instituição municipal e a Santa Casa da Misericórdia. Pode dizer-se que não ha cidade portugueza em que ellas não existam, em que se não faça sentir a sua acção benefica e em que se não tornem uma necessidade. Occupar-nos-heinos da primeira, porque a pho- tograph ia que vamos descrever representa o edifício do Leal Senado, onde funcciona a camara municipal d'esta cidade. O regimen municipal de Macau é pouco mais ou menos idêntico ao do reino e visa hoje a dois fins: Como unidade administrativa, promove os inte- resses de todos os municipes, fiscalisa as construc- ções, reconstrucções, demolições, e aformoseamento externo dos edifícios; estabelece medidas de segu- rança individual e da propriedade; tem a seu cargo a conservação, o asseio das vias publicas, a illumi- nação publica e o matadouro; faz posturas e exerce todas as outras attribuições conferidas por lei. Como fragmento politico, acompanha o movimeu- to progressivo de todo o paiz, executa a lei eom- mum para a confecção da qual concorre por via dos seus representantes e dá e recebe auxilio nas suas relações com o estado. Encerram os seus archivos documentos valiosos, tendo sido porém os mais importantes inutilisados, quer pela formiga branca, quer pelo tufão de 1874, quer finalmente pela acção destruidora do tempo. O' que ainda existe em bom estado é o livro do seu foral em que se vêem as prerogativas de que gozava o Leal Senado, que chegou á perfeição de se corresponder directamente com os reis, e d'elles re- cebia resposta também directa, sem intervenção dos ministros. E não admira que assim fosse, porque á probi- dade e inteireza commercial juntavam os nossos antepassados extrema dedicação aos seus soberanos, a quem, embora collocados a tão grande distancia, sempre deram provas inequívocas de amor, respeito e lealdade, tanto nas occasiões afortunadas como nas adversas. E tanto em extremo amavam a pa- tria, que nunca reconheceram a legitimidade da do- minação dos Filippes de Castella, e fizeram sem- pre tremular aqui a bandeira das quinas, que no reino, assim como em todos os seus dominios, ha- via sido, de ha muito, substituida pelo pendão in- truso da Hespanha, até á acclamação de D. João IV. Mereceram por isso os macaenses que á en- trada do edifício do Leal Senado se collocasse esta legenda: " Cidade do Nome de DEUS, NÃO-HA OUTRA MAIS LEAL, EM NOME D'EL-REI NOSSO SENHOR D. JOÃO IV MANDOU O CAPITÃO GERAL D'ESTA PRAÇA, JOÃO de SOUZA PEREIRA, pôr este letreiro, EM FÉ DE MUITA LEALDADE QUE CONHECEU NOS CIDADÃOS D1 ELLA EM 1654." # * * O edifício do Leal Senado, ou Paços do Concelho, como representa a photographia, contem a secre- taria e thesouraria da camara, a repartição da ad- ministração do concelho e a das obras publicas mu- nicipaes. Tem um salão enorme que occupa quasi toda a parte da frente do edifício, onde o Leal Senado faz semanalmente as suas sessões.
  • 20 quarto a\m\m no descobrimemo ímj camiio hahiimo para a ima por vasco da uaha rV V V gr JÇ» Pom também uma capolla dedicada a Santa Ca- thauina de Senna, patrona de Macau e que ou- tr'ora servia para os presos ouvirem missa nos dias de guarda, por isso que a cadeia civil fica contigua e conununicava interiormente com o edifício, de que estamos tratando. No andar inferior, fica á direita, o posto medico- estatistico, e á esquerda, o posto municipal, a que está annexo o deposito do material de desinfecção. O Leal Senado festeja todos os atinos o dia de S. João Baptista, commemorando o anniversario do triumpho dos portuguezes contra os liollandezes que tentaram apoderar-se d'esta colonia, attribuindo a tradição, á milagrosa intervenção d'esse santo, a victoria. Muito mais poderíamos fallar, se a estreiteza do espaço, e a necessidade que temos de escrever ainda alguns artigos uol-o não impedissem. (A. Masi o. (D assalto do jpaíssalrão ItS- ANT1G0 l)0<^er'° marítimo de Portugal, es- treitamente ligado ao grande descobrimento cujo centenário hoje celebramos, tem uma das suas mais bellas affirmações na colonia de Macau, que demora n'este recanto do Extremo Ori- ente a mais de três mil léguas da mãe-patria. Esta longínqua possessão, que mostra até onde chegou o génio arrojado e emprehendedor dos portuguezes, não existiria hoje, coiritudo, e Portugal teria perdido este precioso padrão das suas glorias, se não fosse o heroico feito d'armas conhecido pelo nome de assal- to do Passaleão, que salvou a colonia d'ura com- pleto aniquilamento e consolidou o dominio portu- guez n'estas paragens. Corria o anno de 1849, quando foi trucidado O benemerito governador d'esta província João Ma ki a t ERREI RA no Amaral. A extraordinária energia e o civismo de que deu provas na libertação da colonia e na repressão das imposições e abusos das auctoridades chinezas, feriu o orgulho e o inte- resse dos mandarins, (pie exasperados premedita- ram o barbaro e traiçoeiro assassinato a que se devia seguir o inteiro extermínio dos europeus. O governador ioi morto ao escurecer do dia 22 d agosto, e na madrugada de 25, quando a cidade ainda estava immersa na mais profunda consterna- ção, appareciam torças armadas em grande numero e attitude hostil no forte do Passaleão (Pak-sa- i.eang) e coroando todas as alturas visinhas de Macau. Ao mesmo tempo que isto se dava exte- riormente, descohria-se 110 interior da cidade um plano de sublevação dos habitantes chinezes, que eram na esmagadora proporção de 40.000 para - G.000 europeus: a situação da colonia não podia ser mais critica. Como os chinezes houvessem abandonado o peque- no posto militar que tinham á entrada de Macau, nas Portas do Cerco, mandou o conselho do gover- no occupal-o n'essa mesma manhã de 25 por qua- si toda a força da guarnição, que era iimitaqissimá, eraquanto cidadãos armados patrulhavam as ruas. Da parte dos chinezes, o forte do Passaleão rompeu fogo sobre a nossa tropa, mantendo-se com mani- festa superioridade por estar fóra do alcance dos fortes de Macau, e por ter ctftnmandamento sobre a posição das Portas do Cerco, que nem sequer pro- porcionava o mais ligeiro abrigo. O tiroteio era tão violento que os defensores da barreira acharam a posição insustentável. A retirada animaria sem duvida o inimigo, e a marcha sobre Passaleão era considerada pelos re- presentantes extrangeiros 11a China, residentes eu- tão em Macau, não somente como um inútil acto de heroísmo, mas também como uma violação do ter- ritório chinez que podia trazer serias consequências. O conselho do governo parecia disposto a acatar esta opinião, quando um official de artilheria que estava ás suas ordens pediu instantemente que lhe fosse permittido ir para a linha de combate. O conselho accedeu, e esse official, que era o alferes \ icente Nicolau de Mesquita, partiu com alguns artilheiros que ainda foi possivel reunir, e um obuz, a reforçar as Portas do Cerco. Apenas alli chegado, o proprio alferes Mesquita apontou o obuz, que logo ao primeiro tiro ficou in- utilisado por se lhe haver partido o reparo. Então, só pelo impulso do seu valor é sem auctorisação al- guma, gritou por quem o acompanhava a tomar d'assalto o forte do Passaleão: 36 bravos saturam á frente, e marchou com elles a despeito do protesto do co.r.mandante da defeza, que julgava o cumu- lo da loucura e da temeridade ir um punhado de homens arriscar-se atravez de tuna milha de campo descoberto, varrido por constante fogo, na absurda esperança de tomar um forte elevado e bem guarne- cido. A corneta tocava a retirar, mas os heroes que avançaram não faziam alto. A despeito da conti- nua fuzilaria, elles tinham em cerca de uma hora alcançado o outeiro do Passaleão. Quando se dispunham a entrar no forte, a guar- nição apavorada deante de tamanha audacia fugiu, chegando ainda os nossos a aprisionar alguns solda- dos chinezes ; a bandeira portugueza foi hasteada no forte do Passaleão e as forças postadas nas altu- ras visinhas retiraram em debandada. O inimigo teve quinze mortos, e do lado de Mesquita só hou- ve gravemente ferido um soldado. Na fortaleza do Monte, de onde observavam a marcha dos acontecimentos, fizeram logo demons- trações de regosijo quando viram a bandeira portu- gueza fluctuando 110 Passaleão; mas essas mesmas demonstrações foram pelo povo tomadas como signal de perigo e de alarme, e imaginou-se por um mo-
  • Ill mil) CEHEURIO DO IIESIOBRIMEATO 110 (IMIMIO MARÍTIMO PARA A IADIA POR VASCO Dl CAMA 21 §813 ssc; e arrasta Cabral a colher outro império para a patria lusa; Magalhães estimula, ao qual uma recusa leva a servir estranhos, por tomar a peito a empreza que ideou; e, forte de despeito, o Pacifico ara e morre junto á Sonda, mas depois de forçar a terra a ser redonda. Foi ninho de condor o velho Portugal; acalentou heroes, que, em lueta desegual, dominaram o mundo e foram dando leis a ignotas nações e a poderosos reis. Hoje, velho e cançado, ainda lhe resta a gloria que transpira das paginas da sna historia; o vastíssimo império que lhe foi legado tem sido pela Europa aos poucos retaliado; o leopardo bretão, esse especialmente, cravou-lhe em toda a parte c sempre a garra ingente. Pois apezar de tanto estar de vez perdido, apezar das retaliações que tem soffrido, ainda o vasto e fernz domínio colonial faz grande e conhecido o velho Portugal. Se as glorias do passado e os erros do presente servirem de licção e prova convincente; se o génio portuguez, leal, cavalheiroso, se tornar mais prudente e menos generoso; se virmos no ultramar o que devemos ver; ainda Portugal poderá vir a ser a copia do que foi, imixmdo-sc ás nações, como patria do Gama e patria de Camões. Macau, Maio de 1808. a s. . V ^ m í:U- - fllflvCPIJHJI #■ CONTO PUERIL ST A V A \I OS na margem do rio e não longe ptC do mar. Do alto da collina viam-se as ondas azues, coroadas do espumas, que pa- reciam neve do céo on cuspo dos peixes ... No chão havia folhas de palmeira, seccas, que faziam entristecer, porque eram semelhantes ᣠlembranças que têem os velhos das alegrias das crcanças. Estava ai li perto, debaixo d'uma larangeira, o pequenito A-Smu, a chorar, com muita fome. Não tinha comido arroz havia já dois dias, as laranjas eram verdes e elle era gentio !... Olhem que tristeza tamanha !... Nós ficamos na margem do rio e cl le mais acima, a guardar quatro cabritas, que andavam aos pidos pelas pedras e já tinham comido algu- mas folhas da larangeira, Mas o pequenito A-8hiu estava ainda mais triste por causa dos piratas. O que teria acontecido ao pae d'elie? Havia tres dias que sahira no tancá a vender pelles, sandalo e licliia e ainda não tinha voltado!... E o pobresito só ficara com arroz para um dia! Que desolação!... As cabras não tinham leite, elle não tinha arroz, as laranjas eram verdes, e os piratas talvez lhe tivessem morto o pae e rou- bado o tancá! A-Siiiu já nem podia chorar; começou a bater cabeça, pedindo para o pagode grande, que estava hl longe, que seu pae viesse depressa na corrente da maré cheia, e que o dragão fosse bom para olle que tinha fome.
  • 22 QI AITO CEXTEWRIO 110 DESt'ORRMIFATO DO CAMIMIO MVRITIMa PARA A INDIA POR VASfO DA CAMA ■** « ''■ s—.ívjoRíjm,%■• ^ jíuj*., . _.wo(ív.iõs"x n /-"A ' M a3 o dia pris3on e o pas não veio!... Elie e as cabritas dormiram todos, alli mesmo, debaixo da larangeira; em cima veio cantar uma ave da noite, quando elles estavam a dormir. Era uma noite de luar; muito branca e silen- ciosa. Passaram só tres tancás rio acima. Não andavam piratas por fora. Na larangeira liavia dois ramos com flores, que abriram fora de tempo. O pequenito A-Smu adormeceu e teve um so- nho muito mau; ao despertar ficou afflicto, mas não chorou, porque podiam ouvil-o os tigres es- faimados ou os piratas. Adormeceu outra vez, e então teve outro sonho; esse foi muito lindo, com muitas flores, com mui- tos pratinhos cheios de mel, com muito arroz a caliir no meio do tancá, com a arvore do chincliéo cheia de licliia, a parreira com cachos brancos muito doirados e doces, e a lua feita em pecego luminoso a abrir-se no ceo e a derramar torrentes d'estrellas e sapecas. A-Shiu accordou todo contente. Coitadito do A-Shiu! ... Mas, de repente, começou a chorar outra vez, e a bater cabeça para o pagode grande, (pio estava lá longe, pedindo á serpente que lhe trouxesse o pae! Fobre A -Shiu !... Era gentio!... Não sabia que a serpente é um bicho que não intende a gente, e que não lhe podia dar nem pae, nem arroz, nem alegria. Quando elle estava assim triste, chegou a irmã, com os pésitos a escorrer sangue, já sem folego nem voz, toda afflicta, e disse: —A-Shiu !... A-Shiu !... pirata matou pae! roubou tancá, arroz, sapecas e lenha !!... A-Shiu cahiu desmaiado. A irmã ficou com a cabecita d'elle no regaço, e a chorar, a chorar sem folego... Pode haver tristeza maior? Vede lá se é possível!... Mas o bom Deus dá sempre muito amor do seu coração ás oreancinhas infelizes. Pio acima vinha um bergantim d'Europa, todo azul e branco, com bandeira carmesim e uma rosa d'oiro no meio das cinco chaeas. t • 4 O A irmãsita, quando o viu, conheceu que era do "Grande Occidental Rei" e começou a acenar para o barqueiro, mestre nobre com lato de irmão do filho do céo, com pennas brancas na cabeça e oiro nos hombros. O bergantim parou. A-Shiu accordou em sobresalto, e seus olhitos ficaram enleiados e brilhantes de alegria. N'isto apparece na tolda do bergantim uma linda menina, toda de azul celeste, com os cabei- los doirados, e com uma grinalda de rosas e ias- m ins. — Que bonita! disse a irmã para A-Shiu; tão bonita e tão branca e a rir-se tanto para a gente!... A menina branca era princeza, filha do "Gran- de Occidental Rei," e vinha lá de muito longe amar as creancinhas que tinham i'ome e não ti- nham pae!... — "Vamos," disse a princeza. O barqueiro nobre, de hombros d'oiro, poz duas taboinhas de prata e marfim com pregos de bri- lhantes, para a princeza sahir do bergantim. Duas aias de pé pequenino acompanhavam a princeza. Ella poz a sandalia d'oiro n'um cestinho de flo- res, que uma das aias lhe colloeara na taboinha de prata, e deu um passo. A-Shiu e a irmã riram-se muito, muito!... A outra aia collocou mais adiante uma salva com doces para ella por o outro pé; depois rami- nhos de violetas e flores de chá e magnolias; e assim foi caminhando a princeza, até que se sen- tou na cadeira de marfim com pavões pintados e uma agtiia poisada no espaldar. Dois pagens com cabaias rocegantes de seda amarella, um lindo cordão de estrellas e lyrios ao pescoço e barretes de mandarins, pegaram á ca- deira e levaram-na para o sitio onde estava A- Siiiu e a irmã. Mas elles correram a encostar-se ao tronco da larangeira, escondendo a cara com as mãositas muito envergonhados. A princeza ria-se toda contente e disse: —"A-Shiu pequenito, e irmã de A-Shiu, que- reis amor da princeza, arroz, pae e muita ale- gria?" Nem responderam, os pobresitos, começaram a chorar!... . Disse então a princeza para uma das aias: —" Vae, A-Sane, dá-lhes o pratinho de crystal cor de rosa com arroz e mel, e os pequeninos fa- chis de marfim com brilhantes." A-Sane obedeceu. Elles começaram a comer, mas ainda voltados para a larangeira envergo- nhaditos. Disse a princeza para a outra aia: —"Vae, A-Guine, dá-lhes, na taça de oiro, da vossa agua perfumada com flores de coita. Então o pequenito A-Shiu e irmã voltaram-se para a princeza, e quizeram dar um passo, mas
  • QIARTO CE\TE\ARIO IK) DESIOBRIHEMO DD CAMIMIO MARÍTIMO PARA A INDIA POR VASCO DA GAMA 23 " ■" sy* W 35>L;_ ^iW^^'iV.J2W?>-4íSV.>>ík-^V v..- > J1v v? .j Í^ÍSW^ÍW-v> v? vvs^" ficaram tímidos. A princeza, sempre linda, sor- riu-lhes com amor: Animaram-se, correram, lan- çaram-se a seus pós a bater cabeça, muito humil- des, e pediram a uma das aias para a princeza os levar. —" Responde-lhes, A-Sane, que os levarei para o bom Deus dos christãos." A-Shiu começou a chorar; queria que, com elle e irmãsita, fosse também o pae que não voltou. Pobre A-Shiu ! Era chinezito: não tinha mãe e ficou sem pae ! Pobres chinezitos que não teem mãe !... A princeza ergueu os olhos ao ceu e ficou al- gum tempo assim. Eis que em seguida cortam o ar dois dragões, que passam sibilando e lançam aos pés da prin- ceza, já meio morto, o pae de A-Shiu, todo ferido pelos piratas. Mas a ferida fora em cruz; e os dragões tive- ram mêdo da cruz e das cinco chagas que viram na bandeira do bergantim ... Tudo isto aconteceu n'urn instante!... Os lindos olhos, lindos como esmeraldas, que a princeza levantara ao ceo, pestannejaram como pétalas de flores ou como azas de borboletas; e depois lagrimas ou diamantes cahiram pelos ly- rios da sua face. A-Guine colheu-as no cálix d'oiro. Disse a princeza: —" Dá-me o cálix, A-Gdine." De repente brilhou ao longe um arco iris. O bergantim deu três apitos. Tudo ajoelhou!... A princeza estava em pé, erguendo o cálix para o ceo ; seus lindos olhos fitaram-se no infinito ... Cahiram algumas gottas de chuva. E a princeza, voltando o cálix sobre os três prostados a seus pés, disse: " Eu vos baptiso em nome de Jesus!"... Macao, li de maio de 1898. Horácio Poiares. CURRENTE CALAMO, IpèlTOSA a patria que vinculou a sua grandiosa individualidade á historia universal dos po- vos, por tantos e tão illustres feitos! Ditoso o torrão meu natal que palpita e vibra tão intensamente na eterna e dcslumbrante^scin- tillação das suas tradicções tão singulares',tão in- comparáveis nos fastos de toda a humanidade que a Europa inteira e todo o Oriente se germa- nam na consagração apotheotica^dos nossos por- tentosos antepassados! Que ala de gigantes, que plêiada" de varões insignes se^foram das frescas margens do cauda- loso Tejo, manejando o frágil e tosco timão, em cata d'outros mares e remotos continentes que o occidente nem se quer sonhara, a dilatar os do- mínios de seu reino; quantos, cingindo a tersa, lealissima! espada se foram a consolidaiio vasto imperio'que os galeões deixaram na sua espumo- sa esteira; quantos, alçando a mystica e'evange- lisadora'-tcruz, a trilhar o invio e ardentíssimo sertão
  • -M 1)1 IRTO l'E\TE\ll{IO III) DESCOBRIMENTO DD CAMIMIO MARÍTIMO PIRI A INDIA POR VASCO DA CAIA Avenida "Vasco da Gama." A Avenida Vasco da Gama, cuja vista se acha representada n'nmadas photographias d'este jornal, está situada a NE. da cidade, na encosta dos ou- teiros da Guia e da Flora, entre a estrada da Flora e a da Victoria, estendendo-se desde a cal<;ada do Gaio até á rampa da Inveja que passa junta ao jar- dim do Palacio de verão do Governador da Província. Mede na sua maior extensão ó00.m e tem a lar- gura media de G5.,u E devidida no sentido longi- tudinal por muitos renques de arvores vulgarmente denominadas de S. José (Ficus chlorocarpas) que. apezar de recentemente plantadas, pruduzem já um effeito muito agradavel e que quando se tornarem frondosas formarão extensas abobadas de folhagem transformando aquelle local n'um retiro fresco e aprazível. Do lado do N. termina a Avenida por um pit- toresco jardim com a forma circular cujo diâme- tro é de 58.m sendo torneado pela rua central da Avenida. Ao centro do jardim eleva-se um elegante monumento de mármore, levantado pelo Leal Senado em 1864 para commeinorar a victoria que em 1622 os portuguezes alcançaram contra os Ilollandezes que pretendiam tomar a cidade. O mo- numento está collocado no mesmo logar onde existia antigamente uma pequena cruz de pedra, coinine- morativa d'esta acção gloriosa dos portuguezes. No mesmo jardim, entre o monumento e a rua que o tornea, com o centro na continuação do eixo da Avenida, acha-se implantado um vistoso la- go de granito, tendo ao centro uma peça mo- numental de ferro formada de differentes bacias (1'onde se desprende a agua que n'ellas é lançada I»or meio d'um tubo central. Quatro peixes, que licam n um plano inferior, lançam pela bocea outros tantos jactos de agua. Sobre a bacia superior, 3 garças simulam gozar aquella agradavel frescura rematando assim este gracioso conjuncto. O lago é cercado por uma cadeia de ferro preza a doze pe- quenas colunmatas collocadas nos ângulos d'um po- lvgono que o circurnscreve sendo ella, a seu turno, cercada por canteiros de flores dispostos segundo uma corôa circular. Symetrieos com o lago e em disposição analoga possue o jardim ainda um fontenario e dois ele- gantes caramanchões; é muito arborisado e, quan- do as arvores se desenvolverem, deve tornar-se aquelle recinto d'uma frescura agradabilíssima. Ao centro proximamente da Avenida, no ponco onde esta cruza com uma rua transversal que parte da estrada da Flora, existe um largo com a fornia polygonal onde se projecta elevar um elegante mo- numento a \ asco Da Gama. Este monumento, re- presentado na 1." vista, é constituído por dois corpos de mármore sobrepostos encimados pelo busto fun- dido em bronze do grande Navegador; o todo ele- va-se sobre uma escadaria de granito de forma hexagonal. Na superfície do corpo inferior de mármore serão collocadas -passagens moldadas em bronze abusivas á sabida de Lisboa da frota Vasco da Gama que em 1498 descobrio o caminho mari- time da India e á sua chegada a Calicut. No cor- po superior serão applicadas, em bronze também, d'um lado as armas reaes portuguezas e do outro uma inscripção lembrando a epocha em que foi le- vantado o monumento. Contíguo a este largo e do lado da estrada da Victoria procede-se actual- mente á constrncçío d'um coreto para musica, ao centro d'um pequeno jardim, sendo este recinto fe- chado por duas rampas circulares d'accesso da Ave- nida para a estrada da Victoria que devem produ- zir um lindo effeito. Do lado da estrada da Flora, é a Avenida cercada por solidos muros d'alvena- ria e possue diversas escadas e rampas d'accesso. Esta Avenida ou esplanada, que se acha ainda por assim dizer em via de formação, veio preencher uma grande lacuna que havia na cidade forma- da de ruas estreitas e de muitos beccos sem sabida dando um desafogo aos habitantes de Macau. E' curiosa a maneira como se iniciou a Aveni- da e digna de mensão especial: Determinou o governo provincial que se proce- desse ao saneamento da varzea de Tap-seac que fi- cava fronteira a esta Avenida, e constituía um dos focos d'infecção da colon ia. Esta varzea formando parte do valle principal da cidade, que seguindo pela Avenida Ferreira do Amaral e rua do Cam- po vae até ao mar, tinha cotas muito inferiores ás estradas que a circumdavam. Pelo contrario o Campo da Victoria, constituindo actualmente a Avenida Vasco da Gama, que ficava separado da varzea de Tap-seac pela estrada da Flora, elevava- se a meia encosta dos outeiros da Guia e da Flora com uma superfície bastante irregular e com gran- des desníveis. Para fazer o saneamento e aterro da varzea de Tap-seac lembrou então extrair as terras do Campo da Victoria, sendo os cortes feitos por forma a re- gularisar o campo e os caminhos que o circumdavam, dando-se assim origem ás terraplenagens da futu- ra Avenida. Iniciada por esta forma a Avenida, foram depois votadas verbas para continuarem os trabalhos não só de regularisação do campo mas de saneamento da var- zea de Tap-seac dotando-se a terra com dois melho- ramentos qual d'elles o mais valioso: um, que concor- reu poderosamente para melhorar as condições hygie- nicasda cidade extirpando por completo um dos seus cancros, conhecido por todos, apezar de dessimula- do com um sem numero de flores e arbustos que se davam lindamente n'aquelles charcos; o outro, a creação da Avenida, que fornece a Macau um recin- to bem arborisado, fresco e aprazível, onde os seus habitantes poderão, nas tardes calmosas, respirar uni ar purificado pela vegetação, fugindo ás ruas estrei- tas e beccos iminundos da cidade e que, por isso, não é talvez menos importante, n'uma colonia como esta visitada pela peste bubonica.
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  • QUARTO CENTENARIO DO DESCOBRIMENTO DO CAMINHO MARÍTIMO PARA A ÍNDIA POR VASCO DA GAMA K -vf/^mynar» Air > .v • < 7>^, Actualmente, a com missão executiva do 4.° cen- tenário do descobrimento do caminho maritimo para a índia, composta de 40 membros escolhidos n'uma assembleia formada pelas principaes pessoas da ter- ra, acaba de approvar a execução d'alguns embele- zamentos d'esta Avenida, consagrando-a ao grande navegador portuguez Vasco da Gama que encheu de gloria a nossa querida patria com as suas arro- jadas descobertas. eAuguiâto ©czar i.'ePv6rcu fluneá». Jl VASCO DA GAMA ONETO Vito já no extremo sul d'Africa ardente... A dobrar vão o cabo tormentoso, Subjugando Neptuno poderoso, Galeões d'auriflamma refulgente. É Gama que, c'o a heróica lusa gente, Entre p'rigos domando o mar irôso, Vae intrépido, ovante e magestoso Rasgar o véu em que se esconde o oriente. É Gama, o argonauta varonil Cujo nome esplendente, cuja fama Nas paginas da historia se projecta! Com o fulgor ingente d'astros mil; E que da patria lusa a mente inflamma! É Gama que, do heroísmo, attinge a méta. X Xs. $arque*. r# Querer é poder f^^j^lAMOS celebrar, dentro de breves dias, o 4.° centenário do descobrimento do caminho maritimo para a índia. Com esta commemoração vae Portugal, se a li- berdade da comparação é permittida, santificar mais um de seus filhos, canonisado já, desde lon- gas eras, pelo concilio maguo da Historia; vae, deveremos dizer, collocar-lhe o busto no altar da innnortalidade, onde receberá, não as preces dos fieis, mas os preitos de homenagem e de respeitosa admiração a que lhe deram jus os seus feitos glo- riosos. Por Deus os jurou, tomando por testemu- nho o ceu, e para o derramamento da sua féchristS e para o engrandecimento da sua patria querida, com esforços sobrehumanos os delineou, em pre- bendou e realisou I Vae, pois, Portugal, pagar hoje ao heroico e audaz navegador Vasco da Gama a sua divida sa- grada de reconhecimento e de gratidão, que ape- nas esteve retardada, mas não esquecida, como não o esteve a de Luiz de Camões, a do Marquez de Pombal, a de Santo Antonio e a do Infante D. Henrique, e como não o está, nem estará nunca, a de tantos outros illustres inscriptos ainda n'essa lista, felizmente, interminável. Não! Não ficam no esquecimento essas dividas porque o facho do amor pátrio não se apagou ainda, e não se apagará jamais, etnquanto tantos dos seus descendentes, como elles heroes, tendo em mais su- bida conta o nome de portuguez' do que a sua pro- pria vida, a ariscarein ou a derem pela patria, um a um, até ao ultimo, com a mesma fé, coin a mesma coragem e com a mesma abnegação com que o fizeram n'esta cidade de Macau o valente e deste- mido Ferreira do Amaral e o arrojado Mesquita; com que o fez, em todos os tempos e em toda a parte, essa pleiade de portuguezes, cujos nomes enchem as paginas da nossa gloriosa historia, e com que o fizeram, ainda recentemente, os, não menos valorosos, martyres ou heroes, na índia, era Timor e na Africa. Rejubilemos, pois, de contentamento e de espe- rança, porque um tal paiz não poderá nunca ser ris- cado do numero das nações que nas contas da Humanidade, da Civilisação e da Religião, tem em aberto ainda, valiosos créditos a haver. Seria absurdo, seria impossível! Portugal existirá sempre emquanto existir um dos innumeros padrões que seus filhos espalharam por toda a parte do mundo, na Africa, na índia, na China, no Japão, na America e até nos confins da Oceania, no deserto, como no povoado, aqui res- guardando sagrados despojos de um martyr, além, chamando á escola, ao hospicio, á egreja, quer ti- vessem de defrontar-se com a choça do negro, quer de desafiar, altivos, magestosos e intemera- tos, as iras dos Confucios, dos Budhas, ou dos Mahomets ! Em ruinas estão hoje, é certo, alguns d'esses pa- drões, e até occultos já pela terra ou rasando-a apenas; mas ostentam-se ainda de pé, felizmente, muitos outros, encimados pela cruz na maior parte, que só por si saberão affirmar, quando aquelles já tiverem de todo desapparecido e emmudeeido, que houve um povo, destemido e religioso, que alli, n'a- quelle plaino ou n'aquella serra, em ameno valle ou no abrasador sertão, e primeiro que nenhum outro, quiz e poude, embora á custa de precioso
  • 28 QUARTO CMEYARIO DO DESCOBRIMEMO DO CAMINHO MARÍTIMO PARA A INDIA POR VASCO DA GAMA sangue, ensinar ao barbaro, ao infiel e ao selva- vagem, a palavra do Deus verdadeiro e o amor da família, e pelo exemplo, pela humildade e pelo sa- crifício, a sã doutrina da caridade humana! Um povo com tantos e tão preciosos titulos de gloria, de força e de vida, não é pequeno, não é fraco, não succumbe; poderá estar pobre, mas con- tinuando, por forma tão condigna como a de hoje, honrando e glorificando os filhos que mais lhe me- receram, tornando immorredoura a sua memoria, cobra novos alentos, robustece-se e enriquece dia a dia, e... vive! Não é arrojada a affirmativa, nem infundada a esperança. Querer é poder, e poder... é viver. Macau, 11 de Maio de 1898. domingos Jl. Amaral. Sé Cathedral AO é bem conhecida a epocha em que, primitivamente, foi construída a egreja da Sé Cathedral d'esta diocese de Ma- cau. Sabe-sc, apenas, que o Santo Padre Gregorio XIII pela sua bulia Super specula de 28 de janeiro de 1575 auctorisou que uma das capcllas, que então existia em Macau sob a invocação de Santa Maria, fosse elevada ás honras de Sé Cathedral, e também que n'ella se estabelecesse um cabido composto de dignidades, conegos, prebendas e beneficiados, cabido este que só mais tarde, em 1700, foi fundado pelo bispo D. João do Casal, constando, então, de cinco dignidades, seis conegos, dois beneficiados ou meios conegos, dois terccnarios e oito capellles. Na mesma bulia foi imposto a El-Rei D. Sebastião o encargo do pagamento das respectivas côngruas. Governava n'essa epocha a diocese D. Belchior Carneiro, da Companhia de Jesus, que era natural de Coimbra, já então bispo de Nicca, coadjuctor e futuro successor do patriarcha da Ethiopia, e que fòra sagrado em Gôa em 15 de dezembro de 1560. Pelo breve do Santo Padre Pio V de 1566, fôra-lhe commettido o encargo de governar o bispado da China e Japão que, pela bulia Excellenti do Paulo IV, ficou desmembrado do de Malaca, a 4 de fevereiro de 1557. A morte d'este prelado, occorrida n'esta cidade em 19 d'agosto de 1583, foi muito pranteada por toda a gente. A D. Belchior Carneiro se deve a instituição da Santa Casa da Misericórdia e de vários estabelecimentos de caridade nesta cidade. Era a Cathedral construída de taipa. Com o correr dos tem- pos, e principalmente pelos estragos causados pelos tufões, bas- tante amiudados n'estas paragens, foi-se deteriorando, até que, em 1836, o cabido, em vista do perigo de desabamento que o templo ameaçava, sollicitou do governo que a egreja do convento de S. Domingos passasse a servir de Cathedral, o que foi conce- dido, effectuando-se desde logo a transferencia. Por variadas razões, porém, não podia esta egreja servir defi- nitivamente para o fim a que provisoriamente fòra destinada, sendo a principal o estar situada no bazar cliinez; mas como faltavam os meios para a reedificação da Sé, o que já se alfirmava ser indispensável, o tempo ia passando sem que nada se fizesse. Em 1843, apoz uma vacancia de quinze annos, foi confirma- do pela Santa Sé o novo prelado de Macau D. Nicolau Rodri- gues Pereira de Borja, ao qual a Curia Romana, tendo co- nhecimento de quanto importava ao culto divino reparar a antiga Sé, deu, ao expedir-lhe as bulias de confirmaçáo, instruc- ções para pôr em actividade todo o seu zelo afim de isso se conseguir. O novo prelado, um dos mais eruditos filhos da congregação de S. Vicente de Paulo, então dos mais distinctos professores do Seminário de S. José, que já existia n'esta colonia aos cuidados dos padres da mesma congregação, empregou desde logo todos os meios de que podia dispor, conseguindo que o governo de Sua Magestade, em portaria de 26 de fevereiro de 1844, auctorisasse o governo da província a fazer, d'accordo com o prelado, os repa- ros e concertos de que carecesse a Sé. Procedeu-se então a uma rigorosa vistoria, reconhecendo-se que, de facto, a ruina da egreja era completa e que urgente se tornava a sua demolição, a que immediatamente se deu começo. Mas as despezas a fazer e as da reedificação eram importan- tíssimas, e no cofre provincial pouco era o dinheiro que existia. Lembrou-se, pois, o prelido de abrir uma subscripçâo entre os habitantes da cidade, que produziu cerca de sete mil patacas ; e, sob as suas indicações e do seu illustre coadjuctor e successor D. Jeroxyiio José da Matta, deu-se, ao findar o anno de 1844, começo a esta importante obra, depois de feitas por este algumas modificações no projecto apresentado polo arehitccto Thomas d'Aquino, natural d'esta cidade. Fallecendo, aqui, em março de 1845, o bispo D. Nicolau, sem que chegasse a ser sagrado, tomou conta da diocese o referido seu coadjuctor e successor D. Jeronymo da Matta que já havia sido confirmado em 1844 com o titulo de bispo de Altobosco. Como aquelle, pertencia o bispo Matta á Congregação de S. Vicente de Paulo da qual era distincto ornamento. Se muito fôra já em vida do seu antecessor o empenho que este prelado mostrara em que se desse todo o desenvolvimento á recoustrucção da Cathedral, esse empenho redobrou, ao ver-se só com um tal encargo, se bem que lhe faltassem os recursos, por- que o dinheiro da subscripçâo estava já consumido na demoli- ção e em parte dos alicerces, pois para mais não déra. Não desanimou o prelado; e, recorrendo ao cabido e aos diver- sos cofres de outras corporações religiosas, poude obter mais de setenta mil patacas que foram destinadas a essa obra, mas para a qual ainda eram insuificientes. Não havendo mais recursos de que lançar mão, teve o virtuo- so prelado de recorrer aos empreiteiros, pedindo-lhes a conclusão das obras e obrigando-se a pagar-lhes em prestações. Reconhecida, como era, a seriedade do prelado e o seu empe- nho no acabamento da obra, todos annuiram aos seus desejos, sem embargo de, só a um d'elles, se ficar então devendo quantia superior a trinta mil patacas.
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  • QLAITO CENTENARIO DO DESCOBRIMENTO DO CAMINHO MARÍTIMO PARA A INDIA POR VASCO DA GARI 31 ^C? VA; v ■ Ja. Cinco annos depois do inicio dos trabalhos, isto é, a 14 de fevereiro de 1850, era finalmente sagrado pelo referido prelado, no meio da satisfação geral da christandade macaense, esse ma- ge8toso templo, que é objecto d'esta descripção e de que a pho- tographia apenas apresenta a face virada a oeste, por se tornar hoje impossivel photographar a fachada principal em vista do arvoredo existente no largo que lhe fica junto. É esta fachada ladeada por duas torres e guarnecida, no primeiro pavimento, com pilastras e ornamentação jónica e, no segundo, or- denada com pilastras, cornijas e frontões da mesma ordem. No interior predomina este estylo. Não podemos aqui fazer uma descripção minuciosa da sua variada architectura; mas é, na verdade, este templo um edifício vastíssimo e alegre, com uma espaçosíssima capella-mór. É digna de menção especial, a forma observada na construcção do ma- deiramento superior, porque, n'um edifício de tão grandes di- mensões, não tem a menor ligação com o vigamento que sus- tenta o tecto da egreja. Junto á capella do Santíssimo ha uma escada que estabelece communicação com o paço episcopal, que lhe fica contíguo. Como commemoração da elevação ao throno d'el-rei D. Pedro V, lembrou-se o prelado de obter, por subscripção publica, um relogio para oollocar na Sé Cathedral. Dava assim o povo Ma- caense, nm testemunho do seu amor ao novo rei, e concorria com um tão importante melhoramento para a cidade por ser de gran- de conveniência para todos os seus habitantes. Posta em execu- ção esta sua ideia, pouco foi o tempo que tardou para que a sub- scripção subisse a perto de mil e quinhentas patacas. Levantada a planta da torre pelo emerito macaense Candido A. Ozorio, foi desde logo feita a encommenda á casa Thwaits & Reed, de Londres; e, tanto foi o affan e boa vontade que todos desenvol- veram, que em 81 de dezembro de 1857, annunciava o relogio aos habitantes de Macau, com o bater das doze pancadas com- passadas do seu martello, o começo do novo anno de 1858. Como demonstração do amor e respeito pelo infeliz monarcha, está no relogio, junto aos indicadores internos, uma lamina onde se acha gravada a respectiva inscripção commemorativa. E, assim, existe nesta egreja mais um padrão do patriotismo que sempre distinguiu os portuguezes d'esta parte do Oriente. Eis, a traços largos, a historia da Cathedral de Macau. Jlrthwr Aamagnini $ areosa. 1805-1809. Ura boato terrificante vem perturbar a tranquilli- dade dos habitantes de Macau, sobretudo a dos grandes capitalistas e das grandes casas coramer- ciaes, que tinham empregada, nas emprezas fluctu- ates e lucrativas do commercio costeiro, a maior parte dos seus haveres. Uma esquadra formidável de piratas surgira do repente nas aguas do mar da China, praticando as maiores depredações. Era ella commandada pelo celebre corsário Cam-pau-sai. As suas forças, di- zia-se, eram constituídas por uma guarnição de 40:000 homens aguerridos e audazes, capazes das maiores violências e dos maiores crimes. O numero dos seus vasos de guerra passava de 600 juncos, guarnecidos de poderosa artilheria de 24 e 32. As boccas de fogo da sua esquadra montavam a 4:000. Os saques e assaltos, realisados á mão armada, ca- da vez com mais frequência, nas povoações indefezas das costas da China, tornavam-se de momento a mo- mento mais irreparáveis, pela atroz crueldade com que eram praticados. Somas enormes de commer- cio costeiro, carregadas de preciosos fardos, caíam a cada passo em poder d'esses atrevidos laiicfiaes, que levavam a sua audacia a ponto de aprisionar as canhoneiras de guerra chinezas que as comboiavam. Cam -pau-sai, o chefe d'esses sanguinários piratas, apoiado no terror que inspira e na grandeza das forças que commanda, declara guerra á China e con- cebe a arrojada ideia, aproveitando-se da geral des- moralisação e fraqueza do Império, de expulsar a dynastia tartara e fazer-se proclamar imperador. A China treme. O pirata leva a sua audacia, sabendo que a sua cabeça estava posta a preço, ao extremo de ir fundear a sua esquadra em frente de Cantão e desafiar os mandarins aos seus proprios palacios a combatel-o com as canhoneiras imperiaes. As rebel- liões que promove no interior do Império em breve lhe trazem a posse d'algumas das mais ricas e exten- sas proviucias do sul da China. Os mandarins e as auctoridades superiores do Im- pério veem o perigo que as ameaça. Impossibilita- das de obstar a este desmoronamento, pedem a paz ao pirata, que lhes responde desembarcando uma horda de ladrões do mar, que se apossam das suas pessoas, pelo resgate das quaes pede uma eoinma exhorbitante. O colosso, incapaz de se defender, sente abalar-se- lhe a confiança que depositava nos seus bravos. 0 terror, um terror immenso, alastra-se por toda a parte. Cam-pau-sai, vendo quasi realisada a sua ambição e receiando-se da intervenção nos seus negocios dos portuguezes residentes em Macau, cuja coragem in-
  • 32 01ARTO (EATKWRiO INI DESCOBRIMEXTO 110 fAMIXIlO MARÍTIMO RARA \ IXDIA POR USUI DA I.AMA - ■ iòí - «.-v.*..»--.:. Vi.- ^ * è; v4^»>2V^-«íxv . ■ ■ • -.-w * .•>< -.- ^ - dómita já então se tornara lendária pelas gentilezas anteriormente praticadas, resolve chamal-os a si e envia um emissário a Macau a offerecer, no caso de conservarem a neutralidade, duas das mais ricas províncias do sul do Império, Kuang-tunge Kuang- si. Macau, firmando-se na tradiccional generosida- de, (jue tantas oecasiõos nos tem proporcionado de nos precipitarmos na ruina, comrnette a leviandade de recusar a proposta, repelliudo-a corn orgulhoso brio. Cam-pau-sai, então, dirige-se para o norte. As atrocidades commettidas pela sua horda sanguinária tornam-se de momento a momento mais irreparáveis. As esquadras imperiaes, enviadas a combater os bandidos, são aprisionadas por este ou repel lidar com grandes perdas. Levantam-se protestos de to- da a parte, logo afogados em sangue ou convertidos cm declaradas rebelliões. Os Tártaros dominadores, ao verem o aspecto que tomam os acontecimentos, pedem auxilio aos portuguezes estabelecidos em Ma- cau. Urge tomar providencias. Quarenta lorehas por- tuguezas, armadas em guerra, levantam ferro de Macau e dirigem-se para o norte, ao encontro dos 600 juncos dos piratas. Cam-pau-sai, confiado na auda- cia dos seus e no numero da tripulação e meios de defeza, cem vezes superior, dos navios que commau- da, espera-as atrevidamente. M;is o impeto dos portuguezes foi tremendo; me- donho o primeiro combate e horrorosa a carnificina. Cam-pau-sai, o rei dos mares, recua pela primeira vez, diante de tanta audacia, e a custo consegue sal- var-se, levando comsigo o resto da sua esquadra gi- gante, composta dos juiicos menos devastados pela artilheria inimiga. As lorehas portuguezas dividem-se então, e em grupos de seis e oito, aproam em todas as direcções. Durante cinco longos mezes, os canhões das nossas lorehas, troando dia e noite, accordam os eccos ador- mecidos das montanhas da costa e das vagas altero- sas do mar largo. Prodígios de valor, rasgos de heroísmo memorá- veis se manifestam então. Cam-pau-sai, batido em todos os recontros, perseguido em todas as suas fortifi- cações insulares, c obrigado a procurar refugio nos seus últimos reductos, com os restos da sua esquadra desmantelada. Os combates multiplicam-se, porem, em volta dos seus derradeiros entrincheiramentos. Cam-pau-sai, perseguido como uma fera, abandona as fortalezas, que suppunha inexpugnáveis e, n'um ultimo e desesperado esforço, faz-se ao largo comos juncos que lhe restam. As lorehas portuguezas seguem-lhe na esteira. Cam-pau-sai vè-se em breve cercado n'um circulo ameaçador pelo inimigo encarniçado que lhe jurou a peida. Vae travar-se o supremo combato; o momento é solemnèv fundo o silencio que reina. Cam-pau-sai reúne em volta de si todas as suas forças, compostas' de 160 juncos, carregados de grossa artilheria e tri- pulados por gente aguerrida, e espera o ataque das lorehas. No tope dos mastros tremula o pavilhão negro do pirata. Em numero de trinta, avançam as lorehas ousada- mente para a esquadra que lhes corta o horisonte. Ouve-se uma detonação tremenda; nuvens de fumo espesso se interpõem entre os dois inimigos; torren- tes devastadoras de balas e de metralha envolvem as heróicas lorehas por todos os lados. Por entre o ru- gir da artilheria, o grito de á abor
  • QUARTO CE.MEMRIO DO IKCORRIIEHO Di) CAMiMIO MARÍTIMO PARA A IMA POR VASCO DA GASA 35 por momentos que seja, espraia o olhar sobre essas pequenas collinas penhascosas e aridas, coroadas todas ellas por algum edifício, um pharol, um forte, um hospital, uma ermida; sente ferir-lhe a vista uma isolada mancha de verdura destacando na ar- gila das collinas de Mom-ha e da Guia e sobran- ceira ás habitações agglomeradas do bairro do Tarrafeiro. São os jardins da gruta de Camões, a estancia preferida do poeta, aonde, segundo a tra- dicção, elle veio compor algumas das melhores es- trofes do seu poema immorredoiro. Razão tinha decerto o modesto procurador dos defunctos e ausentes de preferir este recanto de Macau para os seus devaneios geniaes. Ainda hoje, é a gruta o único ponto em que uma vegetação den- sa e possaute põe a nota de clima tropical a este pequenino recorte da costa sul da China. Os tu- fões, que periodicamente nos envia o emmaranhado archipelago do sul, e o leste violento e carregado de emanações salinas, que por toda a parte cresta a vegetação do littoral, impedindo-lhe o desenvolvi- mento e evaporando-lhe a seiva, respeitam as arvo- res collossaes da gruta, como se a natureza quizesse pagar assim o seu tributo de orgulhosa admiração á memoria do grande mortal, que foi uma das suas obras mais completas. Quanto á gruta era si, pouco merece o nome de gruta, que lhe foi consagrado pelos séculos. Tres grandes rochedos dispostos ein dolmen, circumscre- vem uma passagem, protegida do sol e da chuva, mas pouco de molde a inspirar um génio que se enlevava na contemplação do infinito e, cantando as penas e glorias humanas, se perdia a cada passo na admira- ção das variadas formas do bello, com que a natureza cobriu a esphera destinada á habitação do homem. Eu creio facilmente que o poeta preferiria a som- bra benefica e densa das copadas ficus ou a contem- plação extatica das montanhas que, para o norte, velam os segredos do collossal império do Meio e, do lado da Lapa, escondem o pôr dos astros, que vão allumiar as saudosas terras do Occidente. * * # O anterior proprietário da gruta quiz corrigir a natureza e romper a tradicção ligada a este mo- numento. Na melhor das intenções, transformou o dolmen natural em um mausoléu d'uma architec- tura duvidosa, ligando os rochedos por dois porticos d'alvenaria de tijolo rebocados; e sobre o rochedo do tecto assentou um mirante, coberto de telha, tal- vez na convicção ingénua de que, se o poeta tivesse podido dispor d'aquella gaiola, os Lusíadas teriam porventura saido obra mais perfeita. Está esse monumento perpetuado nas gravuras que encimam as descripções da gruta no Archivo Pittoresco de 1858 e nas Colonias Portuguezas de 1886. Em 1885, a gruta e os seus jardins viram-se con- demnados pelas circurastancias a passar ás mãos dos padres francezes, que aqui pretendiam estabele- cer um sanatório, talvez uma missão. Felizmente, o então governador Thomaz Rosa pôde a tempo ob- ter para o estado essa relíquia da nossa passada glo- ria, obstando assim a que ella seguisse o caminho de tantas outras, que jazem em poder do estrangeiro. O primeiro cuidado do governador Roza foi re- integrar na sua simplicidade natural a gruta, des- truindo-lhe os porticos e o mirante e deixando que as folhas carnosas e as corollas de cera da hoya matisem livremente as paredes exteriores e o tecto do dolmen. E' assim que a photographia annexa representa a gruta, a que, das modificações intro- duzidas pelo antigo proprietário, só foram conser- vadas as lapides, em que havia esculpidos os tribu- tos d'admiração d'alguns viajantes estrangeiros, e mantido o busto do laureado poeta e modesto sol- dado, que, em vida e pela eternidade dos tempos, teve e terá o nome glorioso de Luiz de Camões. G. S. % ti 02 da infanda. Cantando espalharei por toda a partd* Se a tanto me ajudar o engenho o arte Camões. Lus. C. I E. II. Depois d'um somno profundo de quatro séculos, resurge a memoria ingente de Vasco da Gama ao grito dos festejos nacionaes. Paga-se a divida. Como o faremos melhor, nós mães, do que incu- tindo na débil mente de nossos filhos, uma nobre gratidão por aquelle que, no meio de tantas contra- riedades, privações e perigos, conseguiu levar a cabo a grande empresa, que cobriu Portugal de im- morredoira gloria ?! Ensinemos, pois, a esses pequeninos seres que nos cercam, quaes as glorias dos nossos antepassados, lembrando-lhes que um enorme quinhão d'esses lou- ros os devemos ao grande, ao intrépido e corajoso navegante que, ao deixar a patria e a família, diri- giu os passos firmes para a náu, por Deus guiada, coin a bandeira das quinas por divisa, em demanda da índia Oriental, embora a turba na praia do Res- tello bradasse affiicta: "Temerário! " Nada porém o detinha. Entendia dever realisar os sonhos do monarcha então reinante ! E seguindo o rumo com o maior vigor, eil-o, apóz tormentosas dificuldades, nas pra- ias de Calecut a 20 de Maio de 1498. Quando mais tarde nossos filhos comprehenderem bem a historia d'este feito glorioso, elles, relembran-
  • B6 QUARTO CEMEWRIO DO DO CAINHO MARÍTIMO MM A 1MIIA POR VASCO D\ li AHA do o preito que hoje se presta, orgulhosos e enthu- siastas, exclamarão: " Bem hajas Patria que soubeste dar apreço ao eminente vulto lusitano das descobertas indianas ! " Bem hajas, que assim rememoraste ás porvin- douras eras, o ousado feito, onde, engastado, so- bresae o nome glorioso de Vasco da Gama ! " Macau, Maio de 1898. $NNA $ ALDAS. •• •<• ;; Fachada Ho antigo convento He í Pás. O objecto que mais avulta ao avistar Macau é esse mole granítico que constitue a fachada da antiga egreja de S. Paulo. As suas ruínas, taes como representa a photogra- phia, são a recordação palpitante d'um passado grandioso, a concretisação não só do doce entrelaçar da arte com a religião, mas do que a intelligencia tem de mais elevado, e do que o sentimento reli- gioso tem de mais puro, nobre e santo. Como se nos arrebata o espirito perante a im- ponente magestade d'essas ruinas! Como a ima- ginação nos toma azas e foge pelo vago campo das regiões ideaes! E não nos sentimos orgulhosos ao lembrarmo-nos de que foram os portuguezes os primeiros europeus que atravessaram os mares do oriente, estabelece- ram feitorias, navegações e commercio na índia, nas ilhas do archipelago das Molucas, nos reinos de Siam e Cambodge, na China e no Japão, introduzindo as sciencias e levando até aos confins do mundo o pro- gresso e a civilisação ? Perante esse padrão de gloria, soltamos hoje um brado sinceramente patriótico, saudando com en- thusiasmo os heroes aa cruz e da espada, porque se estes sabiam vencer com o In hoc signo das Quinas, aquelles sabiam evangelisar com a divisa: Docete omnes gentes. A espada, dizia o infante D. Henrique a Gil Eanes, a espada de um christão tem lamina e tem cruz : lamina bem temperada para derribar os infi- éis, cruz bemdita para afugentar os espíritos maus. Guerreiros valentes e patriotas, missionários vir- tuosos e civilisadores, eis o que engrandeceu Portu- gal e lhe deu o império na Asia, na Africa e na Oceania, onde a cruz implantada por um Xavier, um João de Brito e quejandos, e onde a espada brandida por um Albuquerque forte, Castro des- temido e outros, fizeram curvar a cerviz aos 53 reis vassallos de D. Manuel e de D. João III. Não é d'admirar, pois, que n'esse tempo de pro- fundas crenças e em que, segundo attesta Manuel de Faria y Souza, na sua Asia Portugueza, "no es grande en numero, como en calidad esta probla- cion; tendrá asta mil portugueses; gente lusida, como poderosa em riqueza, y de la mejor de la ín- dia," se desse expansão ao espirito religioso, cons- truindo-se ao culto divino a egreja de S. Paulo, cuja fachada reproduz este jornal e que vamos succinta- mente descrever segundo os apontamentos que pu- demos colher. o o o Esta egreja foi erigida em 1594-1602 pela bene- mérita Companhia de Jesus, no planalto d'uma col- lina situada quasi ao centro da cidade. O grande seminário, annexo á egreja, foi no sécu- lo XVII um centro celebre de instrucção e de in- fluencia politica. Depois da expulsão dos jesuítas dos domínios portuguezes (A.l). 1759), serviu o seminário de quartel militar, o mesmo que aconteceu em Portu- fal, até que foi devorado por um incêndio na noute e 26 para 27 de janeiro de 1835. A fachada, toda de granito, conserva-se intacta. Diz a tradição que a egreja foi construida por operários japonezes trazidos a Macau adrede para este fim. Uma vasta escadaria, sem duvida maior que a do Capitólio em Romã, dá accesso á egreja; e o enge- nheiro ou artista que deu o risco procurou amenisar a architectura com objectos de devoção. As tres portas que conduzem ao templo estão collocadas no meio de dez columnas de ordem jóni- ca, e sobre ellas se levantam outras dez de ordem corinthia, constituindo cinco nichos separados. No nicho que fica acima da porta principal ve-se a figura de uma mulher calcando o globo e abaixo d'ella lêem-se estas palavras: Mater Dei. Em cada lado da Rainha do Ceo, em lugares distinctos, ha quatro estatuas de santos jesuítas.
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  • 01 Allio (INTENARJO 1)0 DESCOBRIMENTO DO CAMIM10 MARÍTIMO PARA A INDIA POR VASCO DA liAHl Síf* " %'.uJLv Na divisão superior está a estatua de S. Paulo e logo em cima uma pomba representando o Espirito Santo. Alem d'isso, destacam-se muitas outras figuras de pedra, taes como um grande navio, um esqueleto inteiro, monstros marítimos e decorações de flores com caracteres siuicos. Na pedra da esquina, á esquerda, lê-se o seguinte dístico: Virgini Magnas Matri Civitas Macaensis Libem Posuit An. 1602. o o o O recinto da egreja serviu por algum tempo do cemitério catbolico; mas está hoje completamente abandonado. Ao Leal Senado da Camara está confiada a con- servação da fachada, que, como peça notável de architectura, é visitada pelos nacionaes e extran- geiros, que admiram n'ella a energia, o génio em- prehendedor e a radiosa crystalisação da alma por- tugneza^ q^e abriu o extremo oriente á civilisação chrisfik / / <Ã. £8 a st o. ?harol da Suia Na eminência d'um dos pontos mais culminantes da cidade, que d'um lado desce para o mar em ver- tente de alcantiladas rochas, apenas cortado a meia encosta por uma estrada de circumvallação e do outro, não menos Íngreme, deu no emtanto lugar, no sopé, a trabalhos da edilidade local,—construiu a providencia uma fortaleza e a piedade uma ermida, ambas sob a invocação da Senhora da Guia. Fo- ram iniciadas estas construcções no anno de 1622. Sobre a primeira diz o seguinte um relatório militar publicado algures n'um Boletim da província: "... as fortalezas de Macau em numero de cinco dissemina- das, onde a sua collocação foi reconhecida como ne- cessária, formam um grupo de obras de fortificação permanente, que tem por íiui manter a posse e a se- gurança do território em casos de invasão por terra ou de violenta tentativa de desembarque; situadas a d iflorentes altitudes, quatro acham-se subordinadas ao eoinmandamento d'uma, que é a da Senhora da Guia, a qual por esse facto vê o terreno para além das outras. A artilharia d'esta fortaleza compõe-se de 14 peças de ferro lisas de diflerentes calibres que atiram a barbete ou por canhoneiras com acção manifesta n'um campo de tiro limitado s<5 pelo alcance da tra- jectória dos seus projecteis." E mais adiante também se lê: "... os elementos activos e passivos das forta- lezas não satisfazem ás exigências da guerra moderna, uns por constarem unicamente de boccas de fogo d'al- ma lisa, outros por terem sido construídos na epocha, em que pela fraqueza potencial d'artilharia, as phases da luta só adquiriam importância nas proximidades das obras." ♦ * * Que se poderá dizer da ermida, senão que, seme- Uiando-so a todas na singeleza de edificação e até nas lendas, que mais arreigadas se encontram na crença popular á medida que são transmittidas ás gerações successivas, se distingue pelo culto de intensa vene- ração prestada á imagem, que sobre o seu único altar recebe, na luz sempre accesa d'uma Iam pada, perenne testemunho do piedoso reconhecimento ou das con- fiadas promessas dos que navegam. Em determinados dias do anno, ao som estriden- te do sino que, pelo tempo da sua caduca existência, conjuga com a extrema negrura das muralhas da fortaleza, concorre á ermida grande numero de fieis, sobretudo na reconducção processional da imagem, que regressa da Sé Cathedral. Essa multidão, vista á distancia, serpeando pela ladeira, que é tanto mais íngreme quanto foi necessário conduzil-a pelas linTTas de menor declive para a facilidade d'ascensão, pare- ce, no seu conjuncto, uma interminável serpente, quo, subindo vagarosamente o monte, se lhe fosse en- roscar na eumiada. ♦ # # Nas eras que vão longe, o signaleiro, prevenido, postava-se no saliente do reducto, á espreita do bar- co que semestralmente, quando muito, demandava o porto com as novas do reino, novas sempre recebidas com o alvoroço do repicar dos sinos e agglomeração de gente na praia. Com o decorrer, porem, do tempo e, ao impulso do iucremento das relações comraer- ciaes, as viagens multiplicaram-se de forma a entra- rem no domínio do expediente da vida ordinária; mas, se a navegação n'essa evolução do progresso se de- senvolveu extraordinariamente, também os naufrá- gios e o triste cortejo das suas fataes consequências se lhe seguiram de perto. Foi então que na mento de todos pairava a idêa da construcção d'um pharol, até que, no trionnio administrativo do Governador Coelho de Amaral, teve ella a sua solução practica. O pharol da guia conta mais de 30 annos do exis- tência e foi o primeiro cujo fanal brilhou nas costas da China. O seu edifício, juucto ao da ermida, coin- põe-se d'uma torre de secção circular feita de alvena-
  • 12 QllRIO CEXTEWRIO DO DESCOBR1HEXTO DO CAMINHO M\RIIIMO PIRI \ WWW POR VASCO DA f.AMA ■-" —AV"V"T--!•--> y— TlitT'inki ifi áiW^V i ria e encimada por uma cupula forrada de zinco que resguarda a luz no seu movimento de rotação, cujo mechanismo revela não só a subtileza de engenho como a perfeição de trabalho de execução, pouco de esperar dos recursos artísticos d'aquelles tempos. A altura do fóco da luz, medida sobre a base dopharol, é de 22.™ e sobre o nivel das aguas de 99.™ A po- tencia luminosa passa de 20 milhas nas noites lim- pas de bruma A torre é contornada por uma va- randa onde a vista, pendendo para a cidade, a descobre desenhada num largo painel, em que as construcções, segundo as ondulações do terreno, ora se destacam em relevo ora se projectam numa mesma planície ; e alargando pelo horisonte em roda, corre, já pelo grupo de ilhas que se escondem umas atraz das outras até se confundirem com as aguas do mar, já pelo terri- tório china, em que se admira as escalvadas serranias caprichosamente escalonadas, deixando entrever nos seus intervallos as nesgas de extensos campos de ar- rozaes. * * * O primeiro pharoleiro foi o velho Diogo, brigada reformado, que accumulava também as funcções de fiel da fortaleza; de aspecto marcial e rude no tracto, personificava a antiga educação do soldado para o qual a disciplina ora tudo. O pharol merecia-lhe particulares cuidados: não po- dia tolerar que a luz amortecesse e muito menos se apagasse, com receio d'algum " conflicto internacio- nal " para o paiz, e por isso as suas vigilias eram to- das na contemplação do seu pharol. E, quando, já muito doente, se sentia abeirar da sepultura, ainda procurava, dizia elle, ir contar em cada gyro da luz os minutos da sua já exhausta vida. O Diogo morreu; mas os raios luminosos do pha- rol continuam na serenidade da sua diurna rotação, e talvez que um d'elles, perdido do feixe, va, des- lisando na lousa do velho militar, indicar-lhe aquel- les minutos d'outr'ora, integrados hoje na eternidade. vras usadas por essas diversas nacionalidades. Mas a feição predominante d'esse dialecto era a construc- ção grammatical copiada da lingua chineza, como se nota pela repetição d'uma mesma palavra para indicar plural, uso de termos auxiliares para indi- car o tempo passado, e outros característicos pró- prios da estructura grammatical chineza. Durou este dialecto por muito tempo, até que com o desenvolvimento que tem tido a instrucçâo publica em Macau, u'estes últimos trinta annos, passou por uma grande transformação. Hoje as palavras usadas são todas portuguezas, e só não ha completo rigor na observância das dis- tincções de singular e plural, masculino e feminino e tempos dos verbos. E' de crer que, modificado como está, desappare- cerá também em breve, porque hoje, em Macau, mesmo no seio das famílias, e em todas as classes, falla-se o portuguez. Como reliquia do passado, apresentamos sob a forma epistolar uma amostra do patois que se falla- va em Macau, ha trinta ou quarenta annos d'esta parte. ■^eilca JVCICL&CO. cia. £TLLuxl. Correspondência, entre uma, tia e sobrinha. líông-Kông, 1.° di Abril di 1898. Titi Aunica Eu di qui tempo tá querê cscrevô pra vôs, mas tem tanto an- cusa qui fazê, qui nôm pôde pégá peuna. Nós tudu tá bom, nom tem doença. Mas ouvi; qui novidadi sam este ?. Macau vai fazê tantu festa ; aqui tá fallá qni Macau lôgo tem quatru dia di festa. Vôsôtro na Macau túdu gente já ficá ricu ? Tem tantu di- nhero, pra sentásentá, vai fazê quatru dia di festa? Qui foi ? Eu tá nvi fallá qui sara centenário di índia; mas, centenário di India sam qui cusa ? Isplicá um pôco pra eu sábi; nunca bom priguiça; contá tim tiui pra tim tim pr'eu uvi. Vôsso subrinha mia. <^. ^ J&eUenço. i fcg<—-«K : ■ O PATOIS DE MACAU jS primeiros habitantes de Macau, recrutados en- W™ tre os marítimos portuguezes, malaios, japo- nezes e chinezes, produziram, corno era d'es- perar, um dialecto em que vinham baralhadas pala- Resposta Macau, 2 di Abril di 1898. Minha Béba II on ti já achávôsso carta. Mutu contente sabê qui vôsôtro tudu tá bom. Mas vôs divéra sam bura ! Nun sábi qui cusa sam centená- rio di índia ? Vai iscóla prende qui prende, nun sábi nada ; já basta iá, rai- nha Béba. Agora sara paciência : eu contá, vos nvi: Eu mútu priguiça papiá tanto; nadi contá lenga lenga, um pôco na mas, pra satisfazê vôsso crusidadi, já basta. Aquelle tempo, nôsso ré, chomá Dom Manuel. Tudu gente sábi qui tem India, mas nun sábi quálu ona caminhu di mar pôde vai alli. Dom Manuel mandá Vasco di Gama vai busca acunga cami- nho ; já dá qnatru naviu pr'elle.
  • 01 MTU (MAW# M MSCOBRUEAW IN) CAIHM IIIIWO PAIA A IMA POII VASCO DA tilt 45 •»->,vt->>>>>->s-sn^3saxr£x«0^rxrrsx3cxx»c^«?7. Ca vá nom tem niunga ôtro naçam qui já vem pra China fazê negócio, cuza di 80 nnuu. Tudu chá, seda, lóça, cherátn, vai di Macau pra Lisbua, di alli pra tudu téra de E'ropa. Vôs lémbrá qui láia moda purtnguez nádi ficá ricu ? Cavá 80 anuu sam já vem hollandez, já Vem inglez fazê negocio. Agora nunca uvi fallá mas qui inglez, allemám, francez, hol- landez, italiano, dinamarquez, láia láia de gente; mas quim já insiná caminha pra elôtrô vera pra índia, |>ra China, sam pur- tuguez qui já abri porta, fazê caminhn pra tudo gente vem; purisso, agora qderê fazê Centenario di índia, pra fazê recordá qui sam pnrtuguez antigu qui abri ôlo di tudu mundu, já insi- ná caminhu di ludia, já insiná fazê negocio, já trezê padri pre- gá nôsso riligiám, já fazê eiviiizá mundu. Agora vôs já sabi qui cusa sam centenário di India, qui foi fazê esi ufia festa. Azinha vem Macau iá, pra assisti festa ; nunca bom faltá. Adeus. Vôsso titi Anniea. •®*>- o^o. ; g da gjWra, Que u China tem permanecido estacionaria, resis- tindo, quanto possível, ao impulso civilisador da «■poça, é uma verdade incontroversa. É um facto notável, único no seu género—diz um erudito escriptor— que a China depois de chegar a um grau de civilisação tão eminente, conservasse uma lingua monosyllabica e uma religião absoluta- mente fetichista. E se considerarmos que o estado monosyllabico é <> primeiro pelo qual passa a linguagem articulada e que a primeira phase da evolução religiosa é o fetich ismo, parece podermos concluir que a onda invasora do progresso deparou com um dique na zona habitada pelas raças amarellas do extremo oriente asiatico entre o Thibet e o mar amarello. Alancea-nos o espirito essa apathia chineza, esse desprezo ignaro a que votam os cidadãos de rabicho tudo que não seja exclusivamente d'elles. E afer- ram-se de tal modo ás suas instituições vetustas, que não ha demovel-os de tão recalcitrante teimosia. Saia embora victorioso o seu visinho japonez, que lhes deu uma lição tremenda; desmantelem-se-lhes os fortes, e esquarteje-se-lhes o império, nada os con- vencerá da superioridade da civilisação occidental. Pouco se lhes dá que as sciencias se tenham des- envolvido inspirando-se no fecundo methodo de in- ducção e deducção, e que se estejam registando quasi diariamente novas conquistas do saber humano, so- bretudo na archeologia prehistorica, na anthropolo- gia, na linguistica, na balística, na engenharia e em outros ramos da sciencia. Mostram-se insensíveis a tudo. No campo das artes—que são a manifestação das emoções, das ideias e das necessidades, livre de im- posições de dogmas estheticos—veremos a mesma pasmosa indiíferença. Contentam-se com a sua " arte nacional." Não têem necessidades physicas, por isso a ima- ginação não labuta em busca de meios para satisfa- ção mais completa dessas necessidades, desenvol- vendo a industria, que defende, conserva e facilita a vida. Não têem tão pouco necessidades moraes—em cuja lista entra a actividade cerebral e—d'aqui a razão porque não lhes progridem as artes. E essa arte chineza, que os europeus admiram, revelada em jarras, em loiças, em sedas e em outros artefactos, é tudo uma velharia que só como novi- dades ou cousas nunca vistas podem merecer o apre- ço dos extratigeiros. A arte sob o ponto de vista psyehologico é a per- sonalidade do artista. O que admiramos na arte é o génio do artista, c o génio é o poder de crear. A chamada " arte nacional" commum a todos os indivíduos d'um povo ou duma raça, essa mons- truosa universalidade do mesmo gosto, que foi o ca- racter dominante das grandes épocas artísticas, mas que na actualidade não passa d'um plagio, deixou dc ter a sua razão de ser, porque o plagiário não
  • 45 QUARTO CENTENARIO DO DESCOBRIMENTO DO CAMINHO MARÍTIMO PARA A INDIA POR VASCO DA GAMA tem concepção propria, não tem espontaneidade nem independência e não faz senão galvanisar a arte an- tiga suffocando a manifestação de suas impressões pessoaes—a creação. A educação hodierna, pois,—diga-se de passa- peni—que se limita a admirar e a imitar os clássi- cos antigos, e isso pela combinação de forças orga- nisadas nos lyeeus e nas universidades para se oppor á expansão de originalidades, deve ser reprovada. Em nome do progresso e da philosophia evolutiva, consignamos aqui um protesto contra o despotismo do classicismo académico. ♦ • • Mas donde provém as considerações supra que insensivelmente nos acudiram aos bicos da penna? Do dever que nos occorre de dizer algo sobre o Pagode da Baíra que damos á estampa. A aichitectura d'este templo é do mesmo estylo, sempre invariável, de todos os pagodes da China de todos os tempos. Innovar é verbo que se não conjuga na China. A sua civilisação de hoje é a mesmíssima que a das remotas eras em que floresceu Confúcio. Isto pro- va—seja dito ao menos em sua honra—quanto ella nos precedeu na civilisação. Na descripção do pagode cremos vir a proposito transcrever o seguinte: "Os primeiros architectos, que são sacerdotes, constroem monumentos que, devendo ser um obscu- ro emblema da Divindade, reproduzirão n'um mo- delo ideal os grandes traços d'architectura natural. Ora imitam o sublime das altas montanhas, cons- truindo Pyramides, instar montium eductce Pyra- mided, diz Tácito; ora imitam o firmamento com a abobada estrellada e as cavernas com labyrinthos subterrâneos; ora reproduzem o mar, as rochas apru- madas e as florestas da natureza, pelas florestas das eolumnas . . . Não é a morada d'homens que elles imitam numa heróica emulação, é a architectura divina . . . Tal é a origem da architectura. Não é senão uma natureza reconstruida". (1) No mesmo sentido affirma Lamennais, dizendo que as religiões da índia encerram uma ideia pan- theistica, alhada a um sentimento profundo das ener- gias da natureza. O templo deve ter o cunho d'esta ideia e d'este sentimento. Ora o pantheismo tem o (1; La Grammaire des arts du dessiu, por Ch. Blanc, pag. 59. quer que seja d'iramenso e de vago; logo quanto mais engrandecerem indefinidamente o templo, dei- xando de ofíerecer um todo regular que a vista pode abranger, e forcejando, pelo que está por acabar, por fazer crer que o edifício não tem limites, tanto mais a ideia pantheistica terá a sua expressão. O Pagode da Barra, tal como se vê, encerra o gé- nio typico chinez e está construído por entre grutas, montes e florestas. Faz-nos lembrar as cavernas e as florestas que foram os primeiros refúgios dos ho- mens no estado selvático. A sua fundação dista pouco da do estabelecimento de Macau. Ao entrar no porto interior desta cidade, pouco depois de passar a fortaleza da Barra, avista-se no sopé duma montanha escarpada uma agglomera- ção de pequenos templos, levantados entre montões de rocha, ensombrados por grandes arvores. O con- juncto desses edifícios constitue o Pagode da Barra. Tanto o templo que fica no alto, como as outras tres eapellas que ficam a meio caminho e em baixo, são dedicados á deusa da Misericórdia, debaixo de varias denominações. Foi este o primeiro pagode que se levantou em Macau, e conta-se a seguinte lenda sobre a sua ori- gem: No reinado de Wan-li, da dynastia Ming, (quasi pelo anno de 1573), um junco da província de Fu- kien tornou-se iugovernavel, e pereceram todos os que estavam a bordo, menos um marinheiro, que era devoto da deusa Ma-tsu-koc, o qual, abraçando a sua sagrada imagem com a determinação de agarrar-se a ella, foi recompensado pela sua poderosa protec- ção e preservado da morte. O junco foi arrastado pelas ondas até que o devo- to de Ma-tsu-koc pôde desembarcar, são e salvo, em Macau, onde, levando a imagem para a montanha de Amacoe, no sopé da qual está hoje construído o pagode, collocou-a junto a uma grande rocha que era o melhor logar que pôde encontrar, o único templo que os seus meios então podiam proporcionar. Quasi 50 annos depois, um famoso astronomo des- cobriu que havia um tanque na província de Can- tão que continha muitas pérolas custosas e brilhantes, pelo que aconselhou a sua Magestade imperial Sunke que as mandasse buscar. O creado de confiança do imperador Sunke, ao chegar a Macau, passou a noite na aldeia de Amacoe, onde a deusa lhe appareceu em sonho e lhe disse onde estavam as pérolas. Elie foi procural-as, e achou milhares d'ellas, muito lindas; e cheio de gratidão, construiu um templo em Amacoe, e dedicou-o á deusa que lhe deu a informa- ção.
  • or.™ cintura d» discomioeuo do caiiibo «arum tut a iidia piir vasco da caoa ao Em 1828 os negociantes de Fukien e Taiehao subscreveram com mais de dez mil taeis de prata para restaurar esse pagode e embellezal-o. O actual bonzo d'esse pagode chaina-se Sin-Can, é muito atpigo dos portuguezes, e faz-se entender em portuguez. Sobre uma rocha que fica á entrada do templo, está esculpido um junco chinez, representando o barco de que falia a lenda. Silo notáveis os baixos relevos esculpidos em pe- dra e que exornam o parapeito da entrada principal. Parecem-se muito com as decorações dos templos e palacios de Babylonia e de Ninive que foram ha pouco tempo descobertos nas ruinas d'aquellas gran- des cidades antigas. Todos os chinas consagram grande veneração a este pagode por ser o mais antigo, e dizem que tem avultados rendimentos proprios para as despezas do culto. A Porta. do Cerco No limite norte da peninsula de Macau e ligando esta á ilha de Iiian-chan, existe um pequeno isthino de quinhentos e quarenta metros de comprido, ao fim do qual se levantava outrora uma muralha chamada Muralha do Limite ou do Cerco, onde se achava uma porta com o mesmo nome de Porta do Cerco. Fôra esta muralha construída por ordem do impe- rador Van-hj, em 1573, e constituía a balisa que indi- cava aos portuguezes, que em 1557 tinham vindo estabelecer-se em Macau, até onde lhes era permitti- do alongarein-se. A porta, que era guardada por soldados chinezes, primitivamente, apenas se abria para dar passagem aos agentes dos mandarins quando vinham a Macau, tendo sido prohibido aos portuguezes o ultrapassal-a, porque alguns cafres, criados d'estes, fugindo a seus senhores, tinham commettido vários roubos nas po- voações -próximas. Tendo, porem, os chinezes vindo estabelecer um mercado proximo á muralha, passou ella a abrir-se urna vez por semana para os portuguezes poderem ali abastecer-se. Como em geral suocede, os vendedores foram avan- çando para áquem da porta, sendo-lhes mais tarde permittido, e a outros chinezes, viverem em Macau; em resultado do que passou esta a ser aberta diaria- mente e mesmo a deixar de se fechar. Desde ent.lo até 1849 nada de notável oecorreu n'este local. Governava n'esta epocha a província o contra - almirante da armada conselheiro João Maria Fer- reira do Amaral. Foi elle o primeiro dos governantes de Macau que ousou oppôr-se, e até pôr cobro, aos abusos e prepo- tências dos mandarins, que abertamente aqui exer- ciam a mais absoluta acção fiscal e auctoritaria. As medidas enérgicas tomadas por este beneméri- to governador, tendentes a assegurar o predominio único da acção portugueza na colonia, tinham já le- vado os habitantes chinezes, aqui em grande numero, a promover algumas rebelliões, instigados por esses mandarins, contra as auctoridades portuguezas. Taes rebelliões, porem, eram promptamente suf- focadas; e o nobre governador ia seguindo o caminho administrativo que a si mesmo tinha traçado e qiy,;, em tio breve tempo, tanto beneficiou esta colonia. Afinal occorreu n'aquelle anno um facto de inol- vidável memoria, que deu logar a que o valor dos portuguezes se evidenciasse mais urna vez. Não podiam os mandarins chinezes soffrer em si- lencio os actos do bravo governador, deprimentes da auctoridade que até então tinham aqui exercido, an- tes os consideravam como affrontas a eiles feitas; e por isso, premeditaram contra elle, levando a effei- to, na tarde de 22 d'agosto d'esse anno, o mais hor- rível dos crimes. O valente e destemido official tinha por habito dar todas as tardes, com o seu ajudante, um passeio a cavallo em volta da cidade. Por varias vezes fôra o governador avisado da in- conveniência de tal passeio sem maior companhia, porque era bem conhecido o rancor que contra elle havia por parte dos chinezes; mas jamais calaram no seu animo taes avisos. Como de costume, sahira o governador n'essa tar- de a passeio, com o seu ajudante, quando, ao passar na estrada que vai ligar-se á do isthmo, foi assaltado por um bando de facínoras, emissários' d'aquelles
  • 50 QUARTO CENTENARIO DO DESCOBRIMENTO DO CAMINHO MARÍTIMO PADA A INDIA POR VASCO DA CAMA ^ ■"r S3«w»ix.*j*A.x,tAs<* r^" ** • v'xS^uáí^*^yw^»<*ttóLwí*jeiw^u^ke*^í»tí5k.^^HS5 ^V v*^' ^ ^ V^. • * mandarins, que, atacandoo traiçoeiramente, lhe de- ceparam a cabeia, fugindo em seguida para o terri- tório cbinez eom esse tropheu da sua proeza, que para elles constituía a lettra, pagavel á vista, da im- portância que haviam de receber como premio da sua tão grande infamia. Passando junto á guarda chineza que se achava á Porta
  • QUARTO CENTENARIO DO DESCOBRIMENTO DO CAMINHO MARÍTIMO PARA A INDIA POR VASCO DA GAMA 5:5 — i •Porto interior de ||acau Dos três grandes rios, Si-kiang ou de Oeste, Peh- kiang ou do Norte e Sliau-kiang ou do Este, que cortam em tres sentidos as duas províncias chinas de Quang-tung e Quang-si, os dois primeiros, reuuindo- se em Sam-shui, formam um só, que desce proxi- mamente para SE. em linha muito tortuosa, rarai- fieando-se em numerosos canaes e recebendo diversos affluentes numa extensão de 57 milhas até Mo-to., prolongando-se ainda d'este ponto até Macau num percurso de 14 milhas a formar o golfo de Broad- way» que sai para o mar pela rada e canal da Taipa, sendo parte d'um canal d'esse golfo, que constituo o porto interior de Macau, correndo proximamente NS. marginado a E. pela cidade portugueza e a W. por parte da ilha chinada Lapa, a que os chinas chamam Van-chai, tendo ao fundo a ilha Verde, e medindo 2 milhas de comprimento da entrada até esta ilha, por 1 i na sua maior largura a montante e J na menor. A margem china é montanhosa e arida, sem ve- getação de especie alguma e sem construcçõcs, ten- do apenas á beira-mar duas povoações, a da Ribei- rinha ou Gapvhang, pequena, formada quasi exclu- sivamente de barracas d'ola e sem importância, onde as barcaças vão buscar agua para fornecer ás embar- cações, e a de Sia-coc-choi, que á sombra de Macau se tem desenvolvido, tendo alguns estaleiros para construcção de embarcações ckiuas, mas ainda pou- co importante também. A margem portugueza é bastante accidentada e guarnecida á beira-mar por casas de construcção li- geira com um e dois andares, que servem para habi- tações e estabelecimentos chinas. A' entrada do porto está a velha fortaleza de S. Thiago da Barra construída em 1628, tendo proximo a doca " D. Car- los " para abrigo de pequenas embarcações, com um plano inclinado para concerto das lanchas a vapor do governo; a montante estão estabelecidos importan- tes estaleiros para construcção e reparação de em-' barcações chinas, e não menos importantes depósitos de madeiras. Do porto podem ver-se, além das fortalezas de S. Paulo do Monte e de N. S.a da Guia, alguns dos principaes edifícios da cidade, como o quartel da po- licia marítima, as egrejas de S. Lourenço e S. José, a fachada da antiga e Della egreja de S. Paulo des- truída por um incêndio em 1835, e ainda o frondoso arvoredo da quinta, onde existe a celebre gruta de Camões. Na ilha Verde, que pertenceu a uma antiga fa- xnilia de Macau e que é noje propriedade do Seminá- rio de S. José, está cstaLelecida uma fabrica de cimento pertencente a uma companhia que, além das edifícações precisas para a sua industria, tem cons- truido bonitas casas de habitação para os seus prin- cipaes empregados; ha também ali uma capella e uma casa pertencentes ao Seminário. Proximamente a meio do porto, no qual se vêem em constante movimento centenas de embarcações chinas de todos os tamanhos, e no sentido do seu eixo, existe um banco bastante extenso, formado de areia e lodo, conhecido pelo nome de Cam-pan-zan. Como porto commercial sabe-se que foi Macau, em epochas que já vão longe, o centro do eonuner- cio do extremo oriente com o resto do mundo; não me constando porem que existam documentos, pelos quaes possa ser avaliada a importância d'esse com- mercio, que depois decahin, apresento em seguida um marina relativo ao movimento do porto e á im- portância do commércío desde 1880, anno etn que oficiosamente e coin toda a exactidão possível cotmne- çou a ser feito pela capitania, sendo capitão do [Hirto o Sur. Demkthlo Cinatti e eu sen immediate, o regis- to de todas as mercadorias entradas e sabidas, fur- mulando se depois mappas, que eram publicados na folha oficial da provincia. Junto também um inap- pa, indicando, com relação aos últimos cinco, annos o numero de embarcações de pesca fundeadas no porto interior no dia do anno novo china, fazendo-se sem- pre a contagem n'esse dia por ser habito dos chinas passal-o no porto para onde pescam. CD © 00 H 3 0 O 00 00 -0 «o 0 c3 O cS S CD O « o PU o J > o S Valor total ^ ^ 3© ísi ** OQCO esf >}í co ««J Go ^ e-T cT is. «O 3* >0 «3 Ç© C- ©j Cfc CNJ O K. Sj So Oi «o >. «q 30 00 -O NNSn vi «o N S N Gp co oj co *4 oí co Q> •O O o c; oj c ^ G; «o o» c* N O "5 CO C\j O* $> *o' CO 'Ô c* 5o *>»' O) «O «Ó M E o cs o *- ' e 3 tj 5 i «r a X w Valor em patacas N ^ «o N 5 uj C} oc N ÇTISTOO of ÍO' >-Tco'oo* «o «o cT: 't ** N ^ O ^ N W í N N ^ S ç 3} C) H} Ò «O C5 «o n. 0} 00 C>^ Co *q> «o ÍC["<} O ** Co cd oj *0 co «í oò >4 e»j N N N c; Ci N N *1J «O ^ 1-» «01 C^1 çq Í- Oí1 «q OJ C» tv, O 05 30 C> Oí o> C) oj "Sti Cs» *o T—-< >—< ^ •»—4 8BqO.IO[ op oj o ai n £ •f> 'O lO O) »/> Oi C\| Co ^ CS «O to "C ^ 'O Cs "O ^ 35 O} ^ N c; CO N O) opj. .q OtJH^p SOfABU op ojoumtf qiaoNCoCÍOÍOOjOllOieoOOíívjOOí :i5t5*»a;ír)C!5i.w5Xi^05 5^^v0N OjNW3®'i5 0toNNN005N©e^$C5 Importação das mercadorias Valor em patacas —» —» SOCCCCtOr-MííiíNOíC-fMS O -T N • O C «H « KÍ « »C I- ■—«_ O rJj -f' iC N cf o «íf NFHHN* IO o> t~? 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  • 01 QUARTO CE\TE5A#I0 CO MCOBMEMO DO CtllHO MARÍTIMO PAIIt A I5D1A PO» VASCO OA GAMA uSCdSfc^St Embarcações de pesca fundeadas em Macau no dia do anno novo china. Annos Numero do embarcações 1894 1895 1896 1897 1898 807 855 822 754 886 Do exame d'estes mappas, que não analyso para não alongar demasiado a descripção de que me en- carreguei, conclue-se que não seriam desanimadoras as condicções de Macau como um interposto de com- mercio, se contra cilas se não erguesse um podero- síssimo inimigo de todos bem couliecido e que aos mais animosos faz perder a vontade de tentarem no- vas emprezas de navegação,—o assoriamento—que do porto interior se estende para a bahia da Praia Grande, Taipa e rada, e a proposito do qual julgo dever transcrever o que j;i em 1884 dizia o Snr. Conselheiro Adolpho Loureiro no seu relatório e com relação ao mesmo anno. " As eircumstancias do porto de Macau são deplo- ráveis. Abandonadas as cousas a si mesmas, sem que sejam contrariados por obras adequadas os seus naturaes effeitos, a perda total do porto é não só fa- tal, mas deve ser próxima. " Hoje o porto commercial de Macau só tem ac- cesso, para os chamados navios d'alto bordo, pela rada exterior. Pelo canal de Tam-shau s<5 pódem transitar pequenas lanchas e tankás. As lorchas e juncos chinezes pódem entrar em Macau pelo canal de Malo-ckau e da Taipa; mas os navios de maior caladura só pódem vir do mar do Cantão, atraves- sando a rada exterior " Os navios, que entram, tem pois de atravessar uma larga rada de pequenissimo fundo; e se não fura a força das suas machinas não poderiam muitas vezes os vapores cortar a massa do lodo e de vasa em que se cravam, como succede numerosas vezes ao White-Cloud, ao Kicm-pin, ea todos os da carreira para Hongkong e Cantão, e áquelles outros que es- peram para entrar, a hora da maior maré. " Um navio de maior caladura é condemnado a ficar fora da rada, em um mar desabrigado, e a mais de 4 milhas do porto de Macau. " O Africa, transporte de guerra portuguez, que cala 19 pés, teve de fundear em frente da ponta Cabrita, a 4 milhas ao mar, e ali foi obrigado a per- manecer alguns dias, demorando-se muito as suas operações de carga e descarga, que são assim feitas d um modo não isento de perigos e muito dispen- dioso e prolongado. " Entrando no porto, encontra-se este pejado de pequenas embarcações nativas. Uma facha de vasa e de depósitos terrosos estende-se ao longo dos caes, onde só em prea-mar pódem abordar as lanchas e algumas lorchas. " Todos estes males se aggravam diariamente, fa- zendo-se o envazamento geral do porto,, e dos canaes que lhe dão accesso, na proporção de dois centíme- tros por anno." '% De então para cá todos os governadores da coló- nia tem instado com o governo central para que se façam as obras projectadas pelo Snr. Conselheiro Loureiro, mas infelizmente sem coisa alguma con- seguirem, d'onde resulta que o estado do porto é cada vez peior, npproximando-se mais e maÍ6, c a grandes passos, o resultado fatal previsto. ZÃàZiK '/<* < ft/va
  • I 55 JQLABTO CENTENARIO DO DESCOBRIMENTO DO CAMINHO MARÍTIMO PARA A INDIA POR VASCO DA CAMA a?íúw/.^v;ui/ru%t>Sií^Xé^wiíZV.XXi>i^*^"V V^.'•"^s." "*" SUMMARIQ Artigcs litterarios e desoriptivos :— Glorificar os heroes da Patria, commemornndo os seus altos feitos, é honrar a mesma Patria!—E. A. II. Galhardo; 8 de julho de 1497-20 de maio de 1498— >Jt José, Bispo de Macau; A Caminho da Índia—João Pereira Vasro, tradueção em chi- nes por Pedro Nolasco da Silva; Praia Grande—A. Basto; San Gabriel—Camillo Pessanha; O Centenario em Macau,— J. Gomes da Bilra; Portugíd-Maòau,— Weiícesíctit de Moraes-, O edifício do Leal Senado—A. Basto; O assalto do Passaleão— E. A. Marques-,' Hontein, Hoje e Amanha—G.8.; Na China conto pueril—Horácio Poiares; Currente calamc—Mario B. de Lima; Avenida "Vasco da Gania"— A u/justo Cotar d' Abreu Nu- nes; A Vasco da Gama—J. L. Marques; Querer é poder— Do- mingos M. Amaral; Sé Cuiliedral—Arthur Tamujnini Barbosa; Cam-pau-sai, 180Õ-1809—AbeUlard Gomes da Silva; A Gru- ta de Camões—G. S.; A Vóz da infancia—Anna Caldas; Fa- chada do antigo convento de S. Paulo—A. B tslo; Pharol da Guia—E. C. Lourenço; O Patois de Macau—Pedro Nolasco da Silva; O Pagode da Harm—A. Basto; A Portado Oêrco—Ar- thur1: Tamagnini Barbosa; Porto interior de Maoan—A. Talone da Costa e Silva. Vistas photographicas Projecto do monumento a Vasco da Gama — Praia Grande —Edifício do Leal Senado—Avenida Vasco da Gama—Sé Ca- thedral—Gruta de Camões — Fachada do antigo convento de S. Paulo—Pharol da Guia—Pagode da Hurra—Porta do Cer- co—Porto interior. Notas:—Os clichés das vistas photographicas foram tirados pelo photognipho amador Caui.os Caudal. Todos os trabalhos res- peitantes a este "Jornal Único," foram executados em Macau. -■ —»JOOQii^3^aaaa Presidente da com missão executiva da celebração em Macau no ivcentenario DO DESCOllKIMENTO DO CAMINHO MARÍTIMO PAIiA A TNDÍA '/Scj^dc/zfetlet ^c/erce-ic/et C////ere/er.í/c ( /yCc/)eycecd . MS'r//(f.). e/c riSjl£||COM MISSÃO ENCARREGADA DA DIRECÇÃO E PUBLICAÇÃO D ESTE "JoRNAL Í NICO " Oommcudador Antonio Joaquim Hasto, Conselheiro Arthur Tamagnini da Motta Haruosa, Dr. José Gomks da Silva, iin liouAcro Poiares, Eduardo Cyiullo Lourenço, Pedro Nolasco da Silva e Joio Pereira Vasco.
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