• Ç/t/ífU/ * l[ /h, - 1IlÍXÊ-xÍ aUkuÍÃ ÍU. Ccítt CJX^- * i+TfiTrt> {u/ÇCcJc^ Ulh*j% Ax ^' SEMANÁRIO POLITICO. NOTICIOSO E LITTER A RIO Redafção e Administração—Rua dos Prazeres, \o. 3 1.° ANNO Assisnaturas: Por moz 00 avos Numero avulso 20 avos Pagamento adeuutado MACAU, 19 DE JULHO DE 1890. Annunoios « Ern poruigue/. ó avos por linlm Em china I avo por leltru Mínimo de |*rcepçio fl.lKi N.° 1 D XOSSO PROBILAMMA. Liberdade! Esta única palavra posta no alto d este semanário basta para indicar a sua orientação. Quem diz,—liberdade—diz; justi- ça , progresso, dignidade, ordem e moralidade. Pugnar por tudo o que é justo e digno, empregar todos os esforços para que se tornem uma realidade os melhoramentos materiaes tantas vezes promettidos a esta cidade e tantas vezes preteridos por todos os governos, dar o nosso apoio franco e decidido aos que bem souberem de- fender 08 princípios da ordem e sus- tentar a moralidade na administra- ção ; eis o program ma, de que nunca nos afastaremos. 1 FORÇA. PUBLICA IX MACAU. Dois factos recentes, actualmente sem graves consequências, preoccuparam se- riamente o espirito pacifico do povo de Macau, prendendo-se, um a urna ques- tão do limites da fronteira marítima, e outro a uma medida administrati- va. Uma lancha china surta nas aguas da Ilha-Verde, com o pretexto da físcalisa- çfto aduaneira, mas realmente para ob- star ao proseguimento do aterro da mes- ma ilha, foi mandada retirar pela capi- tauia do porto, e dias depois tornou a ancorar, acompanhada d'outras lanchas, nas proximidades do logar primitivo, por ordem do mandarim de Ghin-San, que ao participar ao governo esta reso- lução reivindicava a posse d'aqnellas aguas como propriedade do império. Go- mo protesto immediato, largou a canho- neira Rio Lima o seu fundeadouro, e postou-se proximo á llha-Verde. Era seguida á troca de telegraminas e coin- municações officiaes, e quiçá por inter- ferência particular, a pendência parece que vai entrar no domínio da acção di- plomática, que absorverá a solução d'el- la, do mesmo modo que ao estipulado no tratado luzo-chinez para a delimitação das fronteiras. A inspecção da fazenda, sollicita pelo augineiito do thesouro publico, determi- nou que se impuzesse ás casas de penho- res a cobrança e mais preceitos consi- gnados na lei do sêllo em vigor. A exe- cução d'esta lei encontrou iminediata- mente resistência da parte dos interessa- dos, que dirigiram ao governo local um requerimento pedindo a eliminação da mesma lei ; e sendo-lhes indeferido, la- vraram segundo requerimento, onde in- cluíram a ameaça, por parte da commu- nidade chineza, de fecharem os estabe- lecimentos de generos alimentícios. Foi suspensa a execução da lei do imposto de sêllo até ulterior resolução do.gover- no da metrópole. Eis a narração r ígela dos factos, sem a discussão dos processos empregados, nem a analyse do incidentes que so- brevieram durante esta situação anor- mal. A única manif "tacão da força arma- da foi para o pr.i »i ro . caso a desloca- ção da canhoneira Rio L ina, á qual, ao fundear, talvez se não tivessem marcado os limites da sua futura acção. 'Nesta attitude permaneceu até á chegada do delegado do vice-rei de Cantão, que for- mulará o seu relatório baseado na confe- rencia que teve com o governo da pro- víncia, e nas informações colhidas das auotoridades chinezas circuin visinba», sem que por isso advenham providen- cias, se não as que se coadunem com o principio do statu quo consignado no tra- tado, principio que, encobrindo as ambi- ções das partes contratantes, não deixa- rá, em quanto subsistir, de crear para o futuro attritos da natureza d'este ultimo, que houve ainda meio de debellar por vias pacificas. Gabe no caso perguntar—se para a so- lução do conflicto houvesse a veleidade de empregar a força, estariam a cidade de Macau e suas dependências em cir- cumstancias, não já de promover qual- quer imposição, mas do não soffrer que ella fosse feita ? A' primeira vista, o numero das obras de fortificação e o das differeutes corpo- rações armadas parece constituir um núcleo de força insusceptível do fácil aniquilação. Ha um forte na Taipa e I um fortim em Golouan, nos quaes assen- tam a quantidade de peças que a sua extensão comporta, e que saiu guarneci- dos por um destacamento da guarda policial. Na área de Macau, e em posi- ções adequadas, estai» espalhadas for- tilezas e fortes em numero de seis, com cento e tantas boccas de fogo d'alma lisa, e três estriadas de carregar pela hocca, e ha uma bateria de campanha, para guar- nição das quaes se conta coin o pessoal seguinte: 400 homens da guarda poli- cial armados com espingardas Kropats- chek e Remington, 20 do batalhão do ultramar com espingardas Snider, ÚO da 1.» companhia do batalhão nacional em serviço activo, 30 da secção de vetera- nos ; e suppondo que se reunam inaii 100 homens das restantes companhias do batalhão nacional, todos com armas Albini, hiveria o numero total de 600 homens, alem da cooperação que podem prestar 100 homens da policia maritim i com espingardas Remington, os quaes não são obrigados a outro serviço por não serem considerados militares. E' fácil de demonstrar que estes ele- mentos de pessoal e de material em parte obsol t i. c mu quanto poderosos para re- pelfir qn ilquer força de piratas, ou paia fazer respeitar a lei e manter a tranquil li- dade geral em uma população de mais de 60:000 almas, seriam deficientes para se oppórem a uma aggressão de forças or- ganisadas; ainda que, para este caso. I devam ter-se em conta as duas canho- neiras aqui estacionadas, e que poderão luctar contra vasos de ogual lotação e ar- mamento, embora em numere) superior, sendo certo que tanto marinheiros como soldados portuguezes, quando o perigo é i in m meu te, jamais deixaram de mostrar quanto é 'nelles vivo o amor da pátria e profundo o desprezo da vida. # * # A ninguém é desconhecido quanto tem variado 110 decurso de 30 annus a arte da guerra moderna, que desenvol- veu, a par da potencia dos meios activos d'utaque e defeza, as condições naturaes de fortificação, as combinações dos pla- nos defensivos, e as exigências d'um sys- tetna estratégico. Ao govern > da metrópole compete pois resolver este problem ma. Ou pôr Macau nas circumstaiioias d'oppor a força á for- ça, não para o ataque mas para uma de- fesa valiosa, ou deixar que d'um para o outro dia nos esbulhem da posse do que tanto nos custou a conseguir, e que sejamos condemnados a soffrer a in- solência dos que se crêem mais pode- rosos. A gravidade desta questão está bem patente nos factos já apontados para que os poderes públicos se previnam contra a ousadia dos nossos visinhos, de modo a conserval-os em respeito, para não mais os vermos na attitude que li i poucos dias tomaram contra nós. Para o conseguir bastará um augmeu- to de despeza, por certo não superior ás forças do thesouro publico, com a re- modelação da força da guarnição la pro- víncia, e a compra d'algumas boccas de fogo dos ultini >8 systema.i aperfeiçoa-
  • A LIBERDADE-JULHO 10, 1890 dos para guarnecer alguns pontos mais importantes. Estamos convencidos sinceramente de que são estes os meios a empregar sem perda de tempo, e que o governo da me- trópole sem preocoupação nem reservas, pondo de parte antecipação d'opinioes, n;lo deve hesitar em dar as ordens pre- cisas para a realisaçfto d'estes melhora- mentos de que carece Macau, nílo espe- rando pela occasiilo critica, porque 'nessa hora dolorosa não servirão os sentimen- tos de virilidade, de energia e coragem, tanto dos europeus como dos macaenses, sendo certo que a população chi'neza, que forma a grande maioria, nílo deixaria de coadjuvar os seus irmãos e com patrí- cios. Dos recentes acontecimentos de- vemos aproveitar a lição. .Precisa Macau d'um batalhão d'infan- teria, nilo como o que aqui se acha des- tacado, que apenas tem 20 soldados in- cluindo os impedidos, mas d'um bata- lhão completo para serviço da guarni- ção ; d'uma bateria d'artilheria compos- ta de 150 praças e officiaes do exercito do reino, para guarnecer tio crescido nu- mero de fortalezas, onde não lia hoje um artilheiro, e do augmento de duas compa- nhias no corpo da guarda policial, que além de policiar esta cidade, tem mais o serviço da Taipa e Colouan, cuja população vae crescendo de dia para dia. Os officiaes do corpo policial devem ser nlli permanentes, para evitar os desarran- jos notáveis da actual administração e disciplina militares. Actualmente os ca- pitães e subalternos, inclusivé o ajudan- te, (que deve ser isento do serviço de escala,) destacam para Timor de dois em dois annos, resultando desta distribui- ção de serviço que os primeiros, no com- mando das companhias, pouco interesse tomam pela sua administração e discipli- na, nílo só por ser provisória a sua estada alli, mas muito principalmente pela in- dolência a que os condemn» o estado anemico, produzido pelas febres palus- tres, e os segundos, quando nílo servem nas companhias d'infanteria de Timor, vão para o interior da ilha commandar concelhos, cujo clima é na verdade mais benigno, mas onde se tornam indifferen- tes ao serviço militar, e se abandonam aos costumes indigenas, por falta de Con- vivência com gente civilisada, e por outras circumstancias que nfto vem ao caso relatar. Concluído o destacamento, voltam a Macau aonde veem, coin muita razílo, go- sar algum tempo de licença da juuta de saúde, para voltarem depois a encorpo- rar-se na guarda policial, onde pouco in- teresse podem tomar também pelo servi- ço, porque apenas preenchem ahi o tem- po para de novo destacarem para Timor, terror dos officiaes da província. (Continua) prietarios d'estas ou as associações a Esta situação, para a qual appellarão que ellas pertencem, procurassem, ao os antagonistas das futuras medidas ad- principio, por meios legaes e depois por ministrativas, deverá sempre ser evita- processos talvez neo-legaes a isenção da afim de que nâo possa formar pela d'este imposto que, alem de lhes pare- sua successâo um germen continuo de cer vexatório e um obstáculo á liberda- perturbação publica e um desprestigio de do commerciq por sujeitar os livros perenne da auotoridade. aos olhos do fisco, ia de encontro á agen- Da opportunidade da adopção do ini- cia rotineira da qual a cominunidnde chiua paulatinamente, mas a custo, con- seguirá livrar-se. Sem historiar os factos, já de todos conhecidos, que precederam a resolução final do governo interino com o fim de terminar a pendência em perspectiva, resta saber se a projectada greve se des- envolveria nos limites marcados por um direito incontestável. E' fóra de duvida que qualquer indi- viduo pode interromper o seu trabalho ou a sua industria, se não lhe conveem as condições em que são exercidos. Esse direito é incontestável, e poder algum pode destruil-o, embora seja praticado por dez, cem ou mil indivíduos .simulta- neamente ; mas por isso mesmo o exer- cício desse direito impõe aos mesmos in- divíduos o dever de respeitar nos outros a liberdade de que usufruem Os proprietários das casas de penhores podiam encerrar os seus estabelecimen- tos, se assim lhes convinha, para protes- tarem contra a applicação da lei do sel- lo ; mas não conluiar-se para forçar por meio de ameaças ou violências os proprie- tários bem dispostos dos estabelecimen- tos congeneres, o fnuito menos os de outros ramos de commercio, a concorre- posto do sei lo e da importância da gréve trataremos brevemente. empresados poucas pari o ULTRAMAR. O Governo da metrópole merece a mais aspera censura quando desattende os fi- lhos d'esta terra no provimento d'em- pregos que elles estão habilita los a des- empenhar. Não é isto justo, nem de bõa politica. Se a chusma dos preten- dentes atulha as escadas da secretaria, dèem-lhes vasão para as colónias d'A tri- ca, onde ha iinmensos tractos de terre- no a desbravar e apenas vegetam algu- mas industrias que carecem d'operanos inteliigentes e laborioso». Attenda-se ao estado actual d'esta ci- dade que, por um conjuncto de circum- stancias que não vem para aqui destrin- çar, se acha reduzida a extrema penúria, sem que ao menos se veja bruxulear no seu caliginoso horisonte um tenue raio d'esperança. E' esta a linguagem da verdade, que d'aqui se falia bem alto ao sr. ministro rem para o complemento da sua sntisfn- da marinha, para que s. exa. saiba que a ção individual. Constitue e.-te procedi- causa da justiça ainda encontra delenso- mcnto um delicto grave por ser um at- tentado não tanto ao direito individual e A liberdadeindustrial como aos inte- resses d'uma população inteira que não podem nunca submetter-se ás osoilla- ções provenientes dos caprichos particu- lares.- Ha uma diflerença profunda entre as consequências d'uma gréve dos proprie- tários (las casas de penhores e as da que determina a interrupção dos negocios geraes d'uma cidade ; porque, se as pri- meiras se traduzem 'num embaraço par- cial e quiçá momentâneo, as segundas , causam á população aggravo e prejuízo tanto maiores quanto maior fôr a dura- , ção da gréve. Para esse fim tendia pois a colliga- ção, caso estivesse ao seu alcance a rea- lisação das ameaças feitas, embora o pro- pósito fosse de incutir receios e crear peias ao curso ordinário dos actos admi- nistrativos, embaraçado já com outra questão externa, i Suspensa que foi a execução da lei do sei lo até á decisão do ministério da ma- rinha, porque o governo local não se julgava competente para a interpretação da mesma lei quanto á sua applicação a ) esta cidade, para a qual os resultados lhe parecia serem desastrosos, a greve d is- fazer tal coisa. res que se nâo deixam amordaçar pelo amor de sórdidas conveniências. Porám reoen'temente deupm-hiido» fwri» Macau um escrivão da administração do concelho'chitia e um desenhador das obras publicas. A experiência conven- cemos de que o sr. Brigante não estará mais habilitado do que o sr. Luz, nem o sr. Menezes mais habilitado do que o sr. Santos, que oocupavam interinamente aquelles lugares. Entretanto, que faz o pae da patria macaense, com a enormidade da sua in- fluencia e o prestigio incominensuravcl do seu t ilento '! O futuro desenganará os ingénuos. Os espertalhões, esses já estão softi iveluieu- te desenganados, mas couvem-lhes ainda fazer força de remos para seus fins in- teresseiros. O incomparável D. Basilio segue as maximas de Michiaveli—é um typo. Não é porém, por tal modo que se de- fende uma causa justa. O decreto da nomeação do sr. Bragsn- te será annullado, se elle de.- stir expres- sa ou tacitamente da mercê que lhe foi feita, isto é, se renunciar expressamente a ella ou não seguir viagem para o seu destino no praso que lhe tòr marcado. Quando não, não. O ministro não pode A &UKVE. Em todos os logares e em todos os tempos á implantação das medidas tributarias dilectas ou indirectas encontrou gran- de reluctancia da parte dos tributados, creando a coexistência d'uma dualidade solveu-se por si mesma sem maior indi- cio d'existencia que a da instabilidade da sua orgnnisação. Entre tanto esse facto contribuiu seriamente para crear uma situação anormal para a população que, já impressionada pela questão in- ternacional com o governo chinez e sempre propensa a avolumar a gravida- de de tudo, se julgou na necessidade de abastecer-se no mercado de quanto fosse A lei que se promette em relação no provimento dos empregos públicos de Macau só podia sair do cerebro desso- rado de D. Basilio. Tal lei seria con- tra todos os princípios e uma violação manifesta da carta constitucional da mo- narchia. E' egualmente impossível. Mas o caso é prometter, embora con- vencido de que hade faltar. Como haja quem acredite, isso basta para poder entre o governo e o povo, manifestada ......... por vezes em actos violentos. Por isso preciso para a sua manutenção, e de retra- chegar aos seus fins. não foi de admirar que, ao suscitar-se a ir-se das transacções commerciaes, du- Ali! D. Basilio, D. Basilio, que bello observância da lei do 6ello com respeito rante o manejo dos grévistas e a acção especiuien se não está ahi a peidei paia aos livros das casas de penhores, os pro- do governo. 1111111 coinmunidade de bernardos
  • A LIBERDADE JULIIO 19, 1S90 •3 NOTICIAS DA METROPOLE. Os jornaes da mala ultima trazem porme- nores ácerca de dois acontecimentos que teem causado profunda sensação em Portugal—a morte do illustre africanista Silva Porto, oc- corrida na Africa, e a do insigne romancista e poeta Camillo Castello Branco, occorrida em 8. Miguel de Seide (Portugal). Ambos terminaram a sua existência, sui- cidando-se. • • • Silva Porto era octogenário ; e comtudo denotava ainda uma actividade extraordiná- ria. Eis o que ácerca da sua morte, relata o Jornal da Noite : "Como ó sabido de muito», uma pequena oTpe- dição portugueza, gob o commando d'uin distincto olficitl do artilheria, muito conhecido em Lisboa, dirigia-so ha pouco para o Barotae. Não é menos sabido também de quantos mais proximamente se- guem as cousas africanas, que as intrigas e mano- bras flibusteiros inglezas, que, do lado oriental, fi- zeram ha pouco a crise do ultimatum, de ha muito nos andam assaltando também do lado do Cuban- go, do Barôtse e da Garanganja. A expedição portugueza encontrou más disposi- ções nos régulos do Bihé e do Bailundo, ou mais propriamente uma verdadeira insubordinação. No Bihé está, ha annos, estabelecida, como de costume, com a nossa licença e favor, uma missão protestan- te, de procedência americana. E pode -dizer-se que toda a influencia e acção portugueza 'naquel- les importantes sertões se achavam apenas confia- das ao antigo e considerável prestigio do conhecido e bonemerito explorador sertanejo Silva Porto, ha annos também nomeado capitão-mór do Bihé e Bailundo. Parece que Silva Porto fez esforços desespora- dog para chamar á ordem e á razão os seus antigos amigos e subordinado». Mas a intrija ex/ranha lavrara fundo ; o regulo persistiu 'numa attitude insolentemente hostil; alguns soldados pretos da pequena escolta da expe- dição desertaram ; no Bailundo as coisas não esta- vam melhoras, e po.. - sinos alimentar ao monos a esperança de um .1 -oneiiti lo .n este inoi.tento I —Silva Porto, ó bom, o. patriótico, o honradíssimo sertanejo, ciijo nome, ha quasi meio século, anda nobremente vinculado á historia da exploração africana, Silva Porto, quasi octogenário, suicidou- se I" A missão protestante,—acresenta a Província—de procedência americana, que coin licença e favor nosso, se estabelecera ha annos no Bihé, tem como director utu tal Arnaud. Parece que este chefe de missionários foi o prin- cipal instigador do terrível desastre que soffre- rnos. » • ' * A'cerca da morte do eminente romancista relata outro collega da metrópole o seguinte . " Ha cerca de dons mezes que Camillo recolhera de Lisboa a S. Miguel de Seide, cada vez mais aca- brunhado pela doença. Raríssimas vezes saia de casa, a não ser para visitar seu filho Nuno, que mo- rava defronte, 'num chalet novo e elegante. Camillo já não trabalhava : o seu único prazer era ouvir ler continuadamente. Passava a maior parte do tempo sentado em cadeiras de braços, la- mentando-se da sua sorte, fatiando na morte, na sua cegueira e no suicídio. Esta ultima ideia obsidiava-o ha muito tempo. Entretanto, tornara-se extr mainente irritável, en- furecendo-se á menor contrariedade e debatendo-se em extraordinárias crises nervosas. A verdade ó que, desde que a luz dos olhos se lhe apagou, Camillo sentiu-se invadir por um desa- lento invencível, e afferrou-se á ideia do suicídio como meio único de se libertar das dôres que o atormentavam. Quando de todo o abandonou a esperança da cura, Camillo fonnou logo tenção de ir ao encontro da morte. Ha muito tempo, dois para tres annos, que Ca- millo se não separava do revolver, com que afinal se matou. De dia trazia-o nas algibeiras; de noi- te, guardavam debaixo dos travesseiros. O revolver estava porém descarregado. Mas ultimamente, exigiu que lhe dessem cargas, e como a familia recusasse, teve uma tão violenta crise nervosa, que tiveram de lhe satisfazer o pedido. Arranjarnm-lhe, porém, umas cargas inoffensivas, sem balas. Parece no entanto, que Camillo pouco tempo andou enganado, não tardando a reclamar, 'numa excitação horrível, (pie lhe dessem cartuchos emba- lados. Arrnnjnu-os, conseguiu os ? Como? O que é certo é que os dolorosíssimos soffriuicuto.^ o desespero da sua cegueira não o deixavam nem um instante. • • lia dias, ouviu Camillo ler um nnnuncio em que se tratava d'um distincto especialista de doenças de olhos, o dr. Edmundo Machado, actualmente resi- dente em Aveiro, e que ainda lia pouco tempo era medico do nosso hospital da Misericórdia. Pensou logo cm o chamar e assim o fez, primei- ro contando-lhe em carta a sua enfermidade, por ultimo convidando-o a vir a S. Miguel de Seide. O dr. Edmrn lo Machado accedeu, e ante-hontem de manhã chegava a Famalicão, partindo em se- guida para Seide. Estavam então em casa de Camillo sua esposa o o seu compadre e amigo intimo, sr. Francisco Correia de Carvalho. O medico foi recebido 'numa sala do primeiro andar, onde Camillo se encontrava sentado em uma cadeira de braços. Conversaram muito tempo so- bre a molesti i, aconselhando-o o dr. Machado a que tratasse sobretudo do seu estado geral. —Então, doutor, estou perdido ?—interrogou Ca- millo. li como o medico lhe procurasse desviar essa lúgubre apprehensão, dando-lhe esperanças, o illustre romancista replicou : —'Nesse caso vou para Aveiro trntar-me. O dr. Edmundo Machado dissuadiu o porem d'essa ideia. —Aveiro é mau. O ar do mar, a humidade , . . E' melhor o Gerez. Ao ouvir estas palavras, Camillo mostrou-se lo- go succumbido. Faltava-lhe mais uma esperança. E respondeu acabrunhado : —Pois sim. Irei para o Gerez. Seriam tres horas e dez minutos. O dr. Macha- do despediu-se de Camillo, sendo acompanhado até á porta pelo sr. Correia de Carvalho. —Adeus, doutor! disse-lhe ainda Camillo. E depois voltando-se para a esposa : O' Alminhas ! Vai acompanhar o doutor . . . Então ? . . . A viscondessa assim fez. Achava-su já no pa- tamar da escada do pedra que dá para o terreiro, e despediu-se do medico, quando se ouviu uma deto- nação. Correram acima. Camillo tinha dado um tiro na cabeça. l)as mãos caira-lhe o revolver, que rolara até ao chão. Estertorava. Do temporal direito corria-lhe um fio de sangue. E' que, emquunto a esposa voltava costss, Ca- millo tirou do revolver e, apontando-o ao ouvido direito, disparou, auxiliando se da mão esquerda, em concha, para faz r a pontaria, de tal modo que o pollegar e o indicador d'essa mão ficaram cha- muscados. Camillo nunca mais fallou, e ás cinco horas es- tava morto. « * Na camara dos deputados a morte de Ca- millo Castello Branco foi o único assumpto da sessão de 2 de junho ultimo. 0 «r. Alberto Pimentel, da maioria, foi o primeiro a orar, honrando e exaltando a morte do illustre suicida, e propondo ntn voto de sentimento na acta. O sr. Arroyo, por parte do governo, asso- ciou-se plenamente os discurso do sr. Pimen- tel. Os srs. Fernando Palha (progressista) e João Pinto dos Santos (porto-iranco) oraram também, tomando parte na manifestação. O sr. Fernando Palha additou a proposta do sr. Pimentel para que se encerrasse a sessão. Orou o sr. Elias Garcia, em notne do par- tido republicano. O sr. Guerra Junqueiro tomou a palavra, apresentando uma representação da Asso- ciação Académica, com o fim de conside- rar verdadeira perda nacional a morte de Camillo ; que os seus restos sejam trans- portados para o mosteiro dos Jeronymos, onde já repousam os de Herculano ; que os funeraes sejam á custa do estado, e que se considere feriado o dia etn que se effectuem. 0 illustre poeta propoz também que se con- cedessem idênticas honras ao benemerito ex- plorador portuguez Silva Porto. • • * As discussões na camara dos deputados continuavam a versar sobre o bill de inde- nt n idade. A' data das ultimas noticias, terminara o sr, Elvino de Brito o seu valento discurso, em que atacava com vigor as recentes medi- das dictatoriaes. Kespondeu-lhe o sr. minis- tro das obras publicas, defendendo a dictadu- ra. NOTICIAS DIVERSAS. Malas. Fecha na terça-feira, 22, a mala inglesa pelo Malwa. —Recebe o correio correspondências : Para Sydney e Adelaide, pelo Guthrie, até ás 6 30 a. m. do dia 18. Para Kobe, Yokohama e S. Francisco, pe- lo City of Pekim, até ás 6 30 a. tn. do dia 18. Para Singapura, pelo Iphigenia, até as 6.30 a. m. do dia 21. A nnl versa rios. Fizeram annos : Etn 16, a sra. D. Anna Gomes Alvares. Hontem a sra. D. Maria Leopoldina Tava- res, esposa do sr. Simplício A. Tavares. Fazem aunos: Em 21, a sra. Viscondessa do Cercal. Em 24. a sra. 1). Sara de S uiza Barrett) Em 25, o sr. coronel F. A. Ferreira da Silva, governador interino. Chegada. Em 15 do corrente, chegou a esta cidade, de regresso de Timor, o reverendo prelado diocesano, I). Antonio Joaquim de Medeiros. No caes era s. exa. revqia. esperado por grande numero de pessoas, faz. tido a guarda d'honra uma força da guarda policial. Justo. Consta que os professores de i.nstrucçã;» primaria da Escola Central dirigiram a S. M. uma representação, pela qual pedem se lhe» tornem extensivas as vantagens da aposenta- ção que o decreto de 13 d'agosto de 1833 c m- cede a todos os empregados das secretaria» das camaras municipaes das províncias ultra- marinas. Parece-nos muito justo o pedido. A Escola Central é tun estabeleci mento sustentado pelo leal senado ; e desde que to- dos os empregados da cantara, inclusivamen- te os zeladores, gozam das vantagens da apo- sentação, não ha razão nenhuma para que se- jam excluídos d'essas vantagens os pn.f- - res da referida escola. Nutrimos, por isso, a convicção de que nã i deixará de ser at tendida a representação a que ajludimos. Capturo. Pelas 11 horas da manhã de domingo (13), foi capturado pelo sr. administrador do con- celho, no Bêcò da Boa Vista, um indivi- duo por nome Joaquim Xavier, official de di- ligencias do Supremo Tribunal de Hongkong, accusado de se haver apossado da quantia de $1,000 que cobrara para aquelle tribunal, evadiiido-se etn seguida para esta cidade. O capturado, cuja entrega foi requisitada pelas auctoridades inglezas, acha-se ainda na cadeia d'esta cidade. Demissão. Corre com insistência o boato de que foi demittido o mandarim Lai, commandante mi- litar de Chin-san, a cuja petulância se attri- bue o ultimo conflicto havido entre as aucto- ridades portuguezas e chinezas com relação á Ilha-Verde. Affirmant também que será brevemente de- mittido o administrador d'aqitelle concelho. Processo. Consta que o sr. Dr. Manuel P. de Sande e Castro, secretario geral do governo, instau- rou acção criminal contra o editor responsá- vel do Macamse por achar offensivas da sua honra e consideração algumas expressões con- tidas no ultimo numero d'aquelle semanário. Terremoto. A' fineza do sr. director dos telegraphos devemos a copia 'dum telegramma, datado do 11 do corrente e concebido 'nestes ter,nos : " Todos os cabos entre Java e Australia foram interrompidos esta manhã ás 3 37 (tempo local). Cerca de uma hora e '20 mi- nutos antes, o mais violento abalo de terra, sentido ha muitos annus, atravessava o sul de Java de leste a oeste. As interrupções manifestavam-se até 60 milhas desde Banjoewangie Largou de Singapura com urgência o va; por reparador.
  • 4 A LTBERDADE JULHO 10, 1890 Nupclns. Em 24 do corrente contráem matrimonio a ara. D. Maria Xavier e o sr. Feliciano do Rozario, 1." amanuense da capitania do por- to d'esta cidade. —Em 27 celebram-se também as núpcias da sra. D. Maria Rago com o sr. Leoncio Gutierrez. Contrnlmlrante Teixeira da Silva. Sabe o Extremo Oriente que o digno ex- governador d'esta província, o sr. contralmi- rante Teixeira da Silva, foi nomeado director da escola naval. 1'liotogrnpho. Aeha-se 'nesta cidade o photograplio Haw Y'ue, que veio aqui estabelecer o seu ate- lier 'num dos prédios da rua do Gamboa. Haw Yue, segundo nos informam, era em- pregado do conhecido photographo Afong, ha pouco fallecido na visir.ha colonia ; o que é bastante para o recommendar ao favor do publico. Julgamento. Foi hontem o julgamento, em Hongkong, de mister Z. M. Barradas, aquelle súbdito inglez que ultimamente subtraiu ao correio da sua nação a quantia de 51:500jdollars. Dr.^Gonçnlves Pereira. Por carta do nosso presado amigo, o sr. dr. A. J. Gonçalves Pereira, referida a 29 de maio ultimo, soubemos que s. exa. se achava em Ancora, d'onde seguiria para Lisboa. Cliolera eralNagasakl. Dão os jornaes a noticia de que Nagasaki (Japão) e os pontos circumvisinhos foram in- vadidos pelo cholera de caracter viiulento. Apenas se manifestou a epidemia, deixa- ram aquelle porto todos os vasos de guerra alli ancorados, retirando-se também os visi- tantes e quantos puderam escapar-se. A Ijciglnterra perante os fortes. Diz um telegramma de Londres o seguin- te : " O Daily Chronicle publicou hontem um no- tável artigo do fundo, dizendo que a ultima nota de lord Salisbury ao governo allemão representa para n Inglaterra a ultima das baixeza», pois o mesmo é que offerecer á Allemanha uma das faces, depoi» de bom esbofeteada a outra. E isto é tanto mais para verberar, quanto, sobre a mesma questão africana, lord Salisbury usou e con- tinua usando para com Portugal dos processos mais insoleutcs e mais LARÁPIOS ! Um outro jornal, The Chronicle, também censura severamente o cobarde procedimento da Inglaterra deante de Allemanha, em tudo ò que diz respeito is questões da Africa." Horroroso crime. Lemos 'num dos jornaes de Hongkong que o secretario geral do governo d'aquella colo- nia levííra aos tribunaes dois dos seus cules, por terem estes deixado de ir, como de costu- me, buscar leite para seu amo. Provou-se o nefando crime o os malvados foram punidos. Caprichos da moda. D'uma revista da Moda 1 Ilustrada extraí- mos os períodos que seguem : " Ha coisas que se não explicam e então em ar- tigos de modas muitas vezes acontece isto. Quasi todas as senhoras dizem que os vestidos curtos são muito pieferiveis aos compridos, para passeio principalinento no campo. O vestido com- prido, embora seja pequena a cauda, enche-se de pó, e em poucos dias muda a côr na extremidade da saia. Pois apezar d'isso os vestidos vào-se fazendo arrastando um pouco no chão, e as senhoras que conhecem todos os inconvenientes quo apresenta ai- milhante moda, não teoin força para reagir contra ella, e vão abandonando os vestidos curtos, tão coininodos e elegantes, para usarem os outros. Se- rá só o desejo de mudança que as leva a isso ? "A tournure desappareceu completamento, o a saia, ficando muito lizu sobro os quadris, junta a roda toda atraz, formando dois grossos machos, ou fazendo como um leque de pregas. » E' preciso, presentemente, ter-se um bonito pescoço, senão mal irá a quem quizer andar no ri- gor da moda. Sob pretexto de simplicidade falla- se em que se usarão as gollas dos vestidos um pou- co decotadas, o sem terem a guarnecei-as nein o fiihís pequeno enfeite, renda, tu 11o ou vivo branco.' Pipas - prio n sua oração fúnebre. Imaginem que effeito mnis tétrico ! O bical onde jaz o cadaver esta cheio d amigos e conhecidos, lamentando a perda do eminente ora- dor ; no meio do lot ai. o caixão ; dentro do caixão o cadaver; ao redor do cadaver quatro velas acec- siis ; e d'um e d'outro lado, duas pequenas mesas cobei t»s de crepe. Apparecein dois criados de luto rigoroso e depo- sitam um apparato extranho sobre cada unia das duas n.ezas : um d'elles dá volta á manivella, co- mo se tocasse um realejo, o prompto. Um canto fúnebre imponepte, n agestoso, enche a estancia mortuária e.om os seus accorde». Dir-se ia «pie •naquella oaixita está-encerrada toda a commuiii- daile, com as suas diversas vozos, cantando as honras fúnebres do defunto. Mas a impressão sóbe «le ponto, apenas funccio- na o segu d appi r to. Esto reproduz com toda a fidelidade u exactidão a voz do mesmo defunto, até as suas mais claras inflexões, pedindo á assembleia com palavras eloquentes, que roguem a Deus pelo eterno descanço da sua alma. Parece mesmo que a voz sáe do propno caixão i em que está o cadaver. Tal é o poder do phonographo ! Amenidades. 'Numa assembleia. Que massador!—dizia alguém «1 um orador que acabava de fallar. Mas olhe que ó um homem do muita leitura replicou outro. —Será; mas tem uma dispepsia cerebral. — ? ! ! —Não digere o que lê. Um sujeito casado vae fíiz-r as suas compras do dia do anno bom, e volta para casa carregado «le P'-Aposto-lhe diz a mulher—que não te lem- braste da tua mulher8Ínha. Ora essa I já se vê que me lembrei. —Então, que me trouxeste ? —Nada menos de sessenta jardas de flanella. Sessenta jardus de flanella ? 1 Para que Para me fazeres camisola». Definições do album «ie Caliban. Cabana: Vista a preceito, uma choça; vista nas éclogas, um templo d'amor. Óculo. Instrumento que serve para ver e tam- bém para não ser visto. Macau Rn* do* Vva/.ere», No.
  • 9 SEMANÁRIO POLITICO, NOTICIOSO E LITTEEAEIO Redacção e Administração—Rua dos Prazeres, Ho. 3 Asaignaturasi i° a ivnvrn i P'»rme7- «o avos I. ililliVy ' Numero avulso 20 avos j Pagaiiioutu adeanlr.rto A FORÇA PDBLICi EH MAÇAI'. (Conclusão). E' 8UFFICIENTE o exposto como prova de que a organisação actual não pode pro- duzir nem disciplina neiu bons costumes, necessários para o fiel desempenho do serviço militar, que requer, alem disto, uma profícua instrucção debaixo das suas variadas e complicadas formas. Parece-nos incontestável que a perma- nência dos officiaes nos corpos das guarni- ções de Macau e Timor é o único meio de garantir ao soldado aquelles elemen- tos de que acima tratamos e que devem presidir a toda a força organisada. Alem d'isto, a separação dos quadros e a permanência dos officiaes nos seus corona beneficia outros ramos de ser- viço publico, taes como o preenchimen- to das com missões em Timor, preen- chimento por vezes demorado pelo esta- do transitório dos officiaes em viagem ou em convalescença. O ajudante, dei- xando de ser amovível, attcnderá com mais conhecimento de causa ao movi- mento da secretaria, dirigirá com inte- resse e firmeza o serviço dos officiaes in- feriores, e mio desconhecerá quaes os documentos que tem de apresentar em uma inspecçfto para justificar as ver- bas lançadas nos livros de matricula e outros, Para a realisaçfto de medida tão util, deverá Timor ter um batalhão de quatro companhias de cem soldados cada uma, com a constituição orgânica que o gover- no entenda dever dar-lhe. Náo representa este alvitre uma inno- vação de iniciativa nossa, porque antes da annexaçilo do governo de Timor ao de Macau, já alli havia o " Batalhão Defen- sor de Timor," composto de quatro com- panhias, e que foi extincto, creando-se as duas actuaes companhias d'infanteria, que não satisfazem ás necessidades do districto. Todavia é necessário que o batalhão não seja composto unicamente de solda- dos africanos, como actualmente, mas sim de duas companhias d'europeus e duas de indígenas e africanos; porque estes, em geral, recem-vindos das selvas, são en- tregues aos seus proprios insti netos ou á direcção inconveniente de praças incor- rigíveis, resultando d'ahi um aggrava- inento para a disciplina e mais precei- tos militares. Os penúltimos africanos mandados pa- ra Timor desembarcaram alli em cami- sa, por não terem fardamento, e 'nessg estado destacaram em acto continuo MACAU, 26 DE JULHO DE 1890. para o interior da ilha. A consequência d'este desleixo é que o recruta nunca passa de recruta, e nunca chega a comprehender a importância d'uma sen- tinella, não avalia a necessidade de se identificar com os habites militares, não conhece a tactica, não distingue o bom do mau, finalmente não é um soldado, e a sua ignorância é compromettedora em qualquer occasião ou logar em que se encontre para serviço. E' este o modo como o governo da I metrópole guarnece as suas colónias. • Isto é lastimoso, mas uma verdade incon- testável. A organisação proposta augmentará nos officiaes apenas dois capitães, dois tenentes, e dois alferes, ficando assim desembaraçadas as duas guarnições do labyrintho em que se encontram actual- mente, e o thesouro publico livre de des- pender a importante sonimi\ que annutil- mente gasta com as paisagens constan- tes dos officiaes e suas famílias. 'Neste caso, porém, para não serem prejudioa- dos direitos adquiridos, a promoção de- veria ser feita como se fosse um só qua- dro, tendo os officiaes passagem para um ou outro corpo á proporção qne se des- sem as vagas. Como se vê, a administração das nos- sas colónias é ainda para o governo da metrópole um problema muito comple- xo, que demanda estudos, e muitos sa- crifícios pessoaes e pecuniários; porem Macau está fóra d'esta regra pelas suas condições especiaes. Carece apenas do augmento da força da sua guarnição, que não pode ser arbitraria, não só porque é necessário defender a todo o transe, doa inimigos internos e externos, este pe- queno torrão no extremo oriente, que representa um padrão de gloriados tem- pos áureos de Portugal, de cuja monar- chia faz parte integrante, mas porque o thesouro tem recursos para nos acau- telarmos contra uma enorme população chiqeza, e prevenirtno'-nos contra as con- sequências que podem resultar das con- dições geographicas em que estamos collocados e da natureza das fronteiras, pois que as gerações passam, mas as na- cionalidades ficam. O homem pode deixar de exigir aqnil- lo a que tem direito, pode mesmo alie- nar o que é seu, mas as nações não, por- que a nação não somos só nós ; também o são s nossos antepassados, que nos le- garam a independência, e cuja memoria devemos honrar ; e são-uo também os nossos vindouros, que nos hão-de amaldi- çoar, se lhes legarmos a escravidão. Por isso a defeza, que para o hotnem é apenas um direito, para as nações é o mais sagrado de todos os deveres ; e o Annunoioa i Em porluguez 5 avos por linlia I V " ■) Em china 1 avo por leltra j 1" . 4» Mínimo de percepção $1.00 I esquecimento 'desse dever, o mais ne- : fundo de todos os crimes. # * # Depois de havermos leito as conside- rações que julgámos necessárias, e indi- cado as medidas que nos pareceram mais urgentes sobre o pessoal militar d'esta província, não vein fora de propósito dizer alguma coisa com relação ao actual ma- terial d'infanteria, porque se impõe co- mo uma das primeiras necessidades at- tendee ao estado d'arm amento de toda a guarnição. Náo basta armar, municiar, e equi- par; é preciso, c muito essencial que haja uniformidade no svsfcema d'arma- mento. O d'esta guarnição é de quatro system as, como já dissemos, o que 'numa tão diminuta força é tanto mais para considerar e attendee, quanto é certo que d'este es.ta do d'annayienUv resulta- riam em caso de oonflicto graves conse- quências, fáceis de prever, como é a fal- ta de confiança que o soldado teria em si proprio, vendo-se com peior armamen- to do que o seu camarada, e até do que ò inimigo que tiver a bater, pois na actuali- dade não é só a quantidade, é também a qualidade das armas que decide as ba- talhas, bem como a superioridade do ele- mento material e moral. A questão da defeza de Macau interes- sa a todos que teem coração portuguez, e deve por isso ser tratada com espirito despreoccupado de qualquer paixão par- tidária ou politica. Ninguém veja pois 'nestas linhas que temos traçado, mais do que o desejo de ver este paia dotado de boas condições de resistência, por meio d'uina organisação de força regular e adequada que a província pode e deve ter, não só para podermos conservar a nossa autonomia, mas para termos direito á nossa existência aqui. Só assim ficará garantido o direito in- dividual e de propriedade, e M icau florescerá com a afflueneia de grandes capitães. Assim succede com as grandes na- ções : a dialéctica das bocoas de fogo é irresistível; e se não convence, vence. A granada é a lógica de ferra, e cada es- tilhaço um silogismo, cuja conclusão pode ser a morte d'uma nação ou de parte d'el- la. E' um sophisina, dirão ; mas um so- phismu que derruba e aniquila quem não estiver armado com argumentos simi- lhantes. A defeza pessoal é uma consequência do instincto da conservação. Os ho- mens usam de revólver ; as nações usam de Krupps. Os homens sustentam o di- reito natural, matando em defeza pro- pria ; as nações armam-se para def.v.a
  • o 1 do direito das gentes. Nada mais har- mónico nem mais necessário para o equilíbrio social. Não se diga que somos pequenos, e que seremos necessariamente esmagados pelo primeiro punhado de soldados do império celestial que se lembrar de in- geral ^desempenha as Çfuncções do seu cargo. O sr. secretario geral pode ter errado, tem'errado de^certo, porque nin- guém está livre d'isso; mas o que toda a gente sabe, toda sem excepção,,é que s. exa. nunca concorreu para uma injustiça e que é incapaz de commetter uma inde- vadir Macau, porque a historia apresenta licadeza, quanto mais um crime, e crime numerosos exemplos da grandeza de co- tão grave como aquelle de que o accusa ragem e energia portugueza. O que receamos é que o governo me- o Macaense. Por isso a consciência pu- blica se revolta contra os manejos pouco tropolitano condemne a guarnição d'esta dignos do articulista d'aquella folha, que cidade a uma morte moral, por não at- t. Terminado o jantar, a virtuosa rapari a subiu a um tablado, expressamente co ist do para o sacrificio ; em seguida approxima- ram-se os mais velhos dos aldeões e inclinarain- se tres vezes deante d'ella conn se o fizessem a um idolo. Finalmente, um tiro annunciou que ia con- sumar-se o sacrificio. Então, ella subiu ao cadafalso com as mãos soltas, e suicidou-se. O seu corpo foi depositado 'num ataúde. E espera-se que o Imperador concederá uma tabuleta, exaltando a virtude de qual- quer mulher, que se entregar a tal sacrificio, logo que o vice-rei leve o caso ao seu conheci- mento. —O tempo nos últimos dias tem sido pés- simo. No noite d'hontem desencadeou-se aqui uma enorme trovoada, a maior de quantas tem havido nesta cidade. A tempestade era acompanhada de valen- tes bategas de agua, e durou desde a meia noite d'hontem até á madrugada d'hoje. As chuvas devem ter causado damnos con- sideráveis nas searas. Até outra. A. Communicado. gar o joroalistá, o homem que deve ter dá ao diabo, quando, convidado para ser cor- grf) por norma o considerar o seu mister í respondente de qualquer periódico, pensa em Macau. 22 de julho de 1890. P° como um sacerdócio e por missão escla- recer a opinião publica, discutir serena- mente as questões d'interesse geral e lu- tar pela verdade e pela justiçai Não é nem pode ser esta a missão da imprensa; e, desde o momento em que assim procede, um jornal perde o direito á consideração publica, já não pode espe- rar que a sua voz seja escutada com res- peito, e as suas opiniões, por mais justas que sejam em algutn assumpto impor- tante, deixarão de ter o minimo valor, porque serão sempre taxadas de par- ciaes. Desde que um jornal, saindo do caminho da rectidão e da seriedade, pro- stitue as suas columnas ao primeiro es- crevinhador que se quer servir d'ellas para saciar rancores e vingar-se torpe- mente de suppostas affroqtas, esse jornal deslionra-se, e o despreso de toda a gente honesta e digna ha-de votaho fatalmen- te ao aniquilamento, gravando-lhe no alto das suas columnas a affrontosa palq- vra—pasquim—única denominação a que fica tendo direito. Uin jornal serio e que queira provar que o seu fim é—labutar pela verdade, lia phrase do ultimo numero do Macaen- se, não procede por esta forma, quando julgue necessário discutir os actos d'uni empregado publico que, na sua opinião, errou ou exorbitou. Accusa-o franca- mente, apresenta as provas das accusa- ções, pede para elle o castigo que tiver merecido; mas não o insulta, não o _ca- lumnía, não o diffama, não falta delibera- damente á verdade, occultando covar- de e miseravelmente o nome que subscre- veu a infamia. # * # 'Numa terra como esta, em que todos se conhecem e em que não ha meio de se encobrir qualquer acto da vida publi- ca ou particular dos cidadãos, não existe pessoa alguma que não esteja habilitada á apreciar o modo como o sr. secretario - ■PHHHBI colíigir algumas noucias para se desempenhar d'esta ardua tarefa. Pois é o que me está acontecendo a mim. que 'noeta- momento procuro assumpto paru esta correspondência, e nada encontro que possa interessar aos seus leitores. 'Nestas condiçOes, vejo-me obrigado a recorrer nos jornaes que recebo para lhe poder transinittir qlgqmas noticias, e mostrar-lhe, ao menos por este meio, que não me escasseia a vontade de ser prestavel ao seu semanário. Por hoje, ahi vão algumas noticias que me depara a imprensa d'esta localidade. Pelo Daily Echo, vô-se que o commercio vae decaindo a olhos visto. — Os negociantes de chá continuam tam- bém 8offrendo enormes perdas, e affirma-se que não haverá aqui mais colheita ; a tal ponto chega o esmorecimento que d'elles se tem apoderado. —O preço do arroz tinhff subido, ha sema- nas, consideravelmente, chegando a augmen- tar de uma pataca o preço do pico. Consta, porém, que o governo, por tal motivo, orde- nou que a sua iinmensa provisão de arroz fos- se exposta á venda por um preço muito bai- xo, de sorte que os negociantes se viram com- pellidos a reduzir também os seus preços, pas- sando assim o arroz a vender-se muito mais barato do que se vendia anteriormente. —Anda por cá a sra. Influenza a fazer das suas entre os nativos ; e consta que a cidade interior se acha toda infestada. —Parece que o vice-rei se está vendo em complicações, desde que ordenou o augmento dos direitos de tonelagem. Os patrões dos juncos, apenas tiveram conhecimento de tal ordem, convocaram em " Ningpo Joss House" uma assembleia, a fim de se resolver sobre os passos que deveriam dar ; e por unanimidade deliberou-se que se reagisse contra aquella ordem e se suspendesse o trafico entre Ningpo e Fuchau, se o vice-rei persistisse no augmen- to dos direitos. Esta resolução, ao que parece, fez assustar o vice-rei, que provavelmente desistirá do seu intento. —Conta o Daily Echo um caso de suicidio, uma brutalidade, que para os chinas é toda- via tida como um acto de grande virtude. 5tores, Pennittaiu-ii.e que eu venha nas colu- mnas do Bini il lustrado jornal re pel lit as insinuações malévolas contidas 'num ar tigo publioa. o caense, tocante na qualidade d'esta comarca < iltimo riomer»^ch> minha humilde pe advogado do audi Ma- Occupa-se esse artigo d'uma causa de policia correccional que o sr. dr. Manuel Paes de Saúde e Castro move contra o auctor ou auctores de dois artigos diffa- matorios, publicados no Macaense de 13 do corrente mez, que aquelle cavalheiro considera ullensivos da sua honra e con- sideração. Custa-me ainda a acreditar que o sr. Basto—na hypothese de ser elle o auctor do artigo a que alludi, e que vários cavalheiros lhe attribuein—logo no co- meço da acção viesse, por meio da im- prensa, tratar da defesa dos taes artigos, que talvez sejam também obra sua, quan- do o bom senso lhe devia ter aconselha- do que deixasse correr a causa no san- ctuario da justiça, livre de qualquer esca- rapela intempestiva. E' evidentíssimo o empenho de metter medo ao sr. dr. Sande e Castro. Creia, porem, o articulista que este respeitável cavalheiro não se abalou com taes amea- ças, nein me causaram danino algum as pedradas que o articulista me deitou por detrás do monturo; ao contrario, lisou- geia-me que me tenha vez para o campo da imprensa, chamado outra d'onde me retirei ha mais d'uin anno e aonde volto novamente, prompto a repellir as provocações acintosas do articulista ou articulistas do Macaense e dos seus esbirros, pondo bem clara a minha assignatura, confiado em que o meu an- tagonista procederá da mesma forma e com a mesma lealdade, se é que se pre- sa de cavalheiro. Não trato 'neste momento de respon- .der ao articulista a proposito das recen- tes nem das anteriores invectivas c in
  • A LIBERDADE JULHO 26, 1890 3 Jiirias dirigidas ao sr. dr. Sande e Cas- tro ; a resposta ha de vir, necessaria- mente, na sentença que absolva ou con- deinne o auctor ou auetores dos artigos incriminados. O publico sensato sabe aguardar pela decisão do tribunal para poder acertadamente formar o seu juizo sobre as lamurias do articulista do Ma- caense. Estou perfeitamente informado de que os factos que se deram entre o sr. dr. Sande e Castro e os srs. Ephraim Manassés da Silva, José Rodrigues e Clé- lio do Rozario não teem as cores coin que são pintados pelo articulista. Tem- po virá em que essas coisas se esclare- çam. Eu me encarrego d'essa tarefa. Mas suppondo por um momento que na eleição do sr. Adolpho Loureiro o sr. dr. Sande e Castro tivesse praticado vio- lências contra o sr. Manassés, usasse de ameaças ao sr. Rodrigues e provocasse o sr. Clélio—-oque eu na > approvaria—pan. ce-tne que o Macaense é o menos compe- tente para pedir a reparação condigna de semelhantes acontecimentos. Digo isto fazendo lembrar aos reda- ctores d'aquella folha, ao menos a um d'elles, e quiçá ao proprio articulista, que na eleição do sr. Pinto Basto contra o benemerito dr. Magalhães, o seu princi- pal redactor andou em pandega amena, em bambochata entre um grupo da fa- cção governamental, percorrendo a cida- de e provocando com gestos de garoto os cidadãos pacíficos que ficaram venci- dos 'naquella desgraçada e escandalosa eleição, em que a lei foi verdadeiramen- te vilipendiada pela falsificação do recen- seamento, pelas violentas ameaças aos funccionarios civis e militares que viam no dr. Magalhães o cavalheiro mais di- urno de ser eleib on sentmte do povo 'i pre iça dos niaru- pé da urna, capitaneados !■• má catadura e prom- 'iii as facas contra os ci- dadãos que trabalhavam mais desassom- bradamente a favor do ínclito facultati- vo, se o resultado do apuramento fosse desfavorável ao governo. O articulista do Macaense viu tudo isto e mais do que isto. Como correli- gionário da facção governativa e da com- muna da Costa Rica, viu, talvez coin ju- bilo, partirem para o exilio de Timor, poucos dias depois da eleição, as pobres victimas da mais refinada prepotência d'um governo despótico e iníquo. Met- tidas na coberta da microscópica es- cuna Principe Carlos, apertadas como sar- dinhas em tigella, iam as infelizes victi- mas, entre as quaes figuravam o honra- do alferes Antunes e sua esposa, succum- bindo aquelle poucos Inezes depois da sua chegada ao paiz dos pantanos. Era a lei de garrote que assim determinava o castigo pelo gravíssimo crime de votar 'num amigo, 'num homem de bem. Os factos que deixo aqui narrados já são velhos, ó verdade. Deram-se ha 11 annos. Mas é preciso citai-os para os homens que não os presenciaram nem d'elles ouviram fallar, formarem ideia do que é e do que vale a algazarra do athle- ta do Macaense, meu ruidoso antagonista, que enrista a lança, qual outro Quixote, só por eu ter, no exercício da minha profissão, acceitado a procuração do sr. dr. Sande e Castro para chamar ao tri- bunal o auctor ou auetores dos artigos diflamatorios em desaggravo da offensa feita á sua honra e consideração; e só por este facto veio o articulista com um tom altisonante dizer "que não ha muito pretendia arvorar-se (eu) de estrénuo defensor de publicas liberdades." Se d'es ta cida» j is arrnadóí ara vi eram estes os meus esforços, não me afas- tei do trilho seguido. As publicas liber- dades não se abalam coin chamar ao tri- bunal qualquer individuo que injuria e diffama outro por odio e malqueren- ça. lllude-se ainda o articulista quando me attribue o desejo de concorrer, por qualquer forma para cercear as liberdades publicas. Não quero tal. Desejo, pelo contrario, o maior respeito para todas as liberdades, mas condemno as demasias ou abuse s dessas liberdades, que muitas vezes se convertem em instrumentos de vis paixões, injuriando e diffamando, como aconteceu com o auctor ou aueto- res dos artigos incriminados, levados pelo rancor, pelas influencias partidárias e especulação politica. Estranho completamente ás vicissitu- des e variações dessa retrograda politica sem princípios nem crenças que por ahi campeia em honra dos egregios Imitado- res que sabem aproveitar-se bem da op- portunidode, e desprendido inteiramente das paixões partidárias, requeri o com- parecimento do editor responsável do Macaense e a apresentação dos autogra- phos dos artigos diflamatorios, a fim de ser conhecido o seu auctor ou auetores, contra quem teria de seguir o processo, convencido como estou de que o sr. Ga- briel da Gosta, que bem recentemente tomou a responsabilidade d'aquella fo- lha, é inhabit para escrever artigos ; mas oonsta-me que as coisas já estam bem preparadas, de forma que iia de ser o po- bre e inexperiente mancebo, ou qualquer manequim encarregado de desempenhar o papel de bode expiatório, auxiliado pelo luminoso raio do sol nascente. Admirável deve ser a defesa ! D'alli devem sair primores de coherencia, de seriedade e de"argumeiitaça^_ O articulis- ta já auticipou que a prova da verdade dos factos imputados ao sr. dr. Sande e Castro será fatalmente esmagadora para este cavalheiro. A miurque, segundo o arti- culista, fui empregado pelo sr. Sande e Castro para fazer o requerimento inicial da acção ; a mim, que assignei de cruz esse mesmo requerimento que é obra d'ambos —minha e do meu constituinte—obra que foi copiada do Procurador de si mesmo que estava na banca de trabalho do arti- culista: a mim caberá a má sorte de fa- zer papel triste. Muito pode a monstruosa paixão! Esse ar de triumpho é magestosamen- te ridículo e essa impudência por si só mostra o deplorável estado de perturba- ção em que estava o articulista quando se esforçou por analysar o citado requerimento, como é fácil ver nas suas próprias palavras acima transcriptas e por mim sublinhadas. Então o pedido 'nesse requerimento é contrario á lei ( Como é que foi deferido por um magistrado intelligente e de alta e inconcussa reputação ? E como é que no Procurador de si mesmo—obra escri- pta por um bacharel formado em direito e de muita boa fama—vem consignada uma formula errada e imperfeita? Ora, se no entender do articulista, a alludida formula contem uma estrambó- tica comminação, para que com tanto em- penho mandou elle vir de Lisboa essa obra que, elle mesmo o confessa, se acha em activo serviço na sua banca de tra- balho'? Para que serve então o Cami- nha, Correa Telles e outros formulários, que também andam nas mãos do meu contendor? Acho tudo isto d'uma lógica admirá- vel. Peço, srs. redactores, o favor de publica- rem estas mal traçadas linhas, que a força d'uma injustificável pro vocação me obri- gou a escrever. De vv., etc., José da Silva. Noticias da metrópole Os jornaes recebidos pela inala ultima al- cançam aJ4 de junho. —Consta que Sua Magestade'a Rainha se acha novamente no seu estado interessante. —Estavam causando vivissima impressão em Lisboa os últimos acontecimentos do Chire. A imprensa verbera com vigor o infame procedimento do consul inglez Buchanan. Tanto a camara dos pares como a dos de- putados se oecupain do novo attentado do Chire. A opposição, exaltadissima, atacava o governo com violentíssimos discursos, pro- nunciados em ambas as câmaras. —A este proposito, transcrevemos d'um collega da metrópole o seguinte protesto do energioo official, Alfredo Ferreira Machado, encarregado do governo de Quilimane ; " Tendo-me participado o exmo. sr. governador militar do Chire, o tenente da armada portuguesa João Antonio de Azevedo Coutinho, em seu tele- gramma urgentíssimo, os factos ultimamente prati- cados no Chire por inglezes que ali se acham, os quaes teem conseguido com as suas insinuações o exemplos sublevar e tornar revoltosos os indígenas d'aquollas povoações ; Tendo-se ultimamente dado o facto altamente re- prehensivel e selvagem de ter o inglez Bueliauam, que actualmente exerce o cargo de vice-consul a qtie se arvorou em commandante das forças irregu- lares, m indado amarrar a uma arvore e fuzilar em seguida dois cypaes, que pela auctoridudc portti- gueza tinha n sido uuindudos fallar com o Inhucua- na Lundo; Constando mais as faltas de respeito e acata- mento por esses inglezes praticadas, ein menospre- zo á bandeira portugueza ; ..Em nomo dg Sjih Magestade El-rei de Portugal, em nome da inviolabilidad] dos elementos de na- cionalidade e das gentes ; Protesto energicamente perante todas as nações civilisadjis contra semelhantes attentados e crimes praticados no Chire, tornando as auctoridades in- glezas única e solidariamente responsáveis por to- das as consequências funestíssimas, que do seu in- qualificável procedimento possam advir. Secretaria do governo do districto de Quelimane, 22 de abril de 1890.—O encarregado do governo, Alfredo Augusto Ferreira Machado, major do exer- cito de Portugal." —A Época, referindo-se áquelles aconteci- mentos, escreveu o seguinte : " Ha muitos annos que, coin um valente e bri- oso official do exercito portuguez, que foi governar Timor, se deu um facto que caracterisa uma epocha. Cheio de patriotismo esse official, que era portu- guez de lei, uni homem de bem ás direitas, viu-se no governo d'aquella possessão a braços com mui- tas difficuldades, e p.ocurou venccl-as todas, o que conseguiu, procurando também 11a sua correspon- dência official para a metrópole informar as esta- ções officiaes superiores de tudo o que se passava. Acabado o tempo do governo, dirigiu-se a Lis- boa, e chegando aqui foi apresentar-se no ministé- rio da marinha e ultramar. Calculava que seria bem recebido, festejado, e enoontrou-se em frente da indifferença e insensibilidade burocráticas ! N. o desanimou e, de boa fé, perguntou qual era a repartição, a cargo da qual estava a correspon- dência coin a possessão portugueza que governára. Obtida a informação, procurou pela sua correspon- dência official, e depois de algumas buscas verifi- cou que estava toda intacta, por abrir ! Ora francamente, embora exista esse precedente, e talvez outros mais, não é verosímil que o facto se tenha repetido agora coin o protesto do sr. major Machado, c ein todo o caso o que não é admissive! é que o governo, publicado o protesto nos jornaes, não tenha procurado pela secretaria da marinha e ultramar informar-se do que houve. Por outro lado, embora o governo lenha encar- regado de missões importantes em Moç.imhique e em Londres um membro do partido progressista a um da esquerda dynastica, e embora os respectivos jornaes partidários continuem a aggredir o poder executivo em Portugal, não podemos adinittir qua o governo, dada a noticia do protesto, não tenha iin- inediatameiite pedido noticias aos seus dois empre- gados de maior confiança.
  • A LIBERDADE—JULHO 20, 189U Se o governo não tem força, s lura de pedir essas informações, amanhã, cm Lisboa, na séde"do*gremio litterario, por exemplo, poderão dois inglezes entrar pelo edi- tieio, de revolver cm punho, e, dirigindo-se á sala de leitura, matar á queima roupa qualquer portu- guês que lhes seja suspeito, c o poder executivo, divulgado ojeaso_.nos jornaes, nada fará 1 ?" —Uni collega dajmetropole dá a noticia de terem sido eleitos socios da sociedade de geo- graphia de Lisboa, os srs. dr. Lourenço Pe- reira Marques, João C. da Cunha, Eusébio H. d'Aquino e João Maria da Silva, nossos compatrícios residentes em®Hongkong. —Faliavá-se na saida do sr. Franco Cas- tello Brancojda^pasta da fazenda. —Entrou na especialidade, na câmara dos deputados, a discussão do bill de. indemnida- de. A' data das ultimas noticias estava no uso .da palavra o sr. Elias Garcia, combaten- do energicamente as ultimas medidas dictato- riaes. Tinham também orado os srs. Dias Ferreira, Baptista de Souza e outros, atacan- do com vigor a dictadura. —Do parecer^relativo á eleição dos deputa- dos por accumulação, mostra-se que os can- didatosjmaisjvotados foram : José Maria de Alpoim Cerqueira Borges Cabral......... 56:092 Luiz Gonzaga dos Reis Torgal 46:477 Francisco José de Medeiros 38:093 Joaquim Pedro de Oliveira Martins 35:849 Caetano Pereira Sanches de Castro 34:588 —Em 10 de junho foi commemorado o an- niversario da morte do eminente e glorioso poeta Luiz de Camões. —Falleceu em 7 de junho ultimo o conse- lheiro Augusto Henrique Ribeiro de Carva- lho, juiz do supremo tribunal de justiça. O finado foi juiz de direito 'nesta comarca de Macau, onde casou com uma senhora na- ural d'esta cidade. —Foi promovido a segundo-tenente da ar- mada o guarda marinha sr. João Jardim, que se acha actualmente em Macau, e a quem enviamos o nosso parabém —Segundo o Diário de Noticias, vão ser mandadas regressar á metrópole as canhonei- ras /fíVZíwaJe Tejo, que eer:io_aqui substi- tuídas pela canhoneira Diu. —O tribunal de ! não se julga á al- to, filha do sr. visconde de Senna Fernandes então e esposa do sr. José Basto. Em 2 d'agosto, o sr. Jeronymo Maher (Amoy). Os nossos parabéns. Núpcias. Em 19 do corrente, celebraram-se as nú- pcias da sra. D. Etel vira Ismalia de Senna, professora da Escola Central, com o sr. José Maria d'Assumpção Ozorio, empregado da repartição de fazenda. Em 24, as da sra. D. Annacleta Maria Xavier com o sr. Feliciano do Rozario. Hoje contraem matrimonio a sra. I). Ma- ria Rago com o sr. Leoncio Gutierrez. Desejamos a todos uma prolongada lua de mel. Enfermos. algum tanto incommodado de vigário da freguezia conego Francisco A. de S. d'Al- Tem estado saúde o revdo. Lourenço, o sr meida. Acha-8e também enfermo o sr. Simpjicio A. Tavares, digno escrivão da caniara. Desejamos-lhes prompto restabelecimento. Vigário de S. Lourenço. Diz-se que durante o impedimento do di- gno parocho da freguezia de S. Lourenço, o sr. conego Francisco d'Almeida, será s. revma. substituído pelo revdo. conego, o sr. Illydio de Gouveia. Louvor. Pela portaria provincial n.° 102, foi louva- do o abastado negociante e súbdito portuguez, Chou-sin-ip, pela doação que este cavalheiro fez ao governo da propriedade da caldeira da Barra. Esta doação, segundo declara a mesma portaria, desembaraça o governo da immensa difficuldade em que se via, pela fal- ta d'um local appropriado para a construcçào d'uma doca de abrigo para as lanchas de va- por e outros barcos pertencentes ao Estado. Lei ou arbitrio 1 O decreto de 20 de dezembro de 1888, art. 1.°, applicou ao ultramar o regulamento de fazenda publica de 4 de janeiro de 1870. Se- gundo este regulamento, as execuções fiscaes por impostos são administrativas e só passam nos casos previstos verificação de poderes jul- gou nulla a eleição do deputado por Margão Para 0 juízo ^qntehcioso (India), em que fora candidato góVèfnameii- nos artigos 47. e 49. tal o sr. João da Costa Brandão, e opposicio- nisttv o sr. Christovum Pinto, que já na ulti- ma Bessão representára aquelle circulo. —Trazem os jornaes mais pormenores acer- ca do suicídio do iufeliz sertanejo Silva Por- to. " Este desgraçado acconteci mento—diz a eom- iriunicação dirigida á sociedade de Geographia— deu-se no dia 31 de março na casa de Belmonte, onde elle fizera explosir uma porção de polvora, tendo se deitado 'num quarto embrulhando se na Bandeira Portugueza." Silva Porto deixou Jna orphandade uma filha mala ingleza Noticias diversas. Malas. Espera-se na quarta-feira, 30, a mala fran- ceza pelo Congo. —Fecha na terça-feira, 29, pelo Oxus. —Recebe ojcorreiojcorrespondencias : Para a Europa, pelo Sachscn, até ás 6'.30 a. m. do dia 30. Para Timor, Port Darwin, Thursday Is- land, Cooktown, Towusville, Brisbane, Syd- ney e Melbourne, pelo Airlie, no dia 30. Para Kobe, Yokohama e S Francisco, pelo Oceanic, até ás 6.30 a. m. do dia 30. Para Singapura, Bata via e Surabaya, pe- lo Tunnadice, até ás 6.30. a. in. do dia 31. Anniversnrios. Fizeram annos em 22 o sr. Francisco Xa- vier Alvares, e a filha mais velha do sr. Joa- quim das Neves e Souza. Fazem annos : Em 29, o sr. dr. Bernardo d'Araujo Roza, pirurgião-mór da guarda policial. Em 31, a sra. D. Casimira Fernandes Bas- O regulamento de 7 de novembro de 1889 não determinou coisa alguma em contrario ; logo são nullas as execuções fiscaes por im- postos que na procuratura se instauram no juizo contencioso. A quem competir pedimos que ponha ter- mo a esta irregularidade e faça cumprir a lei. Coniniissáo. No dia 29 parte para Hongkong, a fim de tomar passagem 'num dos vapores da carreira da Australia, o sr. Leonel Cardoso, 1." es- cjipturario da repartição de fazenda provin- cial. O sr. Cardoso seguirá viagem para Ti- mor, aonde vai no desempenho d'uma commis- são de serviço, commissão que, segundo nos informa pessoa competente, consiste em orga- nisar a repartição de fazenda d'aquelle dis- tricto em harmonia com o regulamento geral da administração da fazenda e contabilidade publica recentemente posto em vigor no ul- tramar. Luto. Está de luto o sr. David Gomes d'Amaral, tenente-ajudante do batalhão d'infanteria do ultramar, por motivo do fallecimento de seu sogro e de sua sogra, que succumbiram, am- bos no mesmo dia, victimas d'uin eugano de- plorável no uso d'um medicamento que a me- dicina lhes aconselhára. Sentimos, e enviamos ao digno official os nossos pezames. Morte repentina. Consta-nos que na estação da Taipa foi ante-hontem pelas 10 horas da noite encon- trado morto 'numa cadeira um soldado. Procedeu-se hontem, pelas 2 horas da tarde ao competente auto do corpo de delicto, ignoraudo-se por ora o resultado. Mister Barradas. Consta que o julgamento de mister Barra- das não se verificou no dia 18, como. noticiá- ramos, tendo sido addiado para a quarta-fei- ra ultima. Óbito. Em 4 do corrente falleceu em Singapura o sr. Carlos Eugénio da Luz, filho do sr. Leo- i nardo F. da Luz. I Sentimos. Telegram mas. Pauis 7 de junho.—Diz a correspondência de Lon- I dres para o Jornal dos Debates que os alleinães estão j perfeitamente resolvidos a estender a sua esphera de influencia na Africa até ao Congo, cortando as- sim as couimunii ações á duas companhias inglezas ^ da Africa do Sul e do Norte, e recusam proseguir as negociações, se a Inglaterra não acceitar "tm principio essa extensão. Presume-se que as negociações não proseguirão, e que o marquez de Salisbury deixará correr os acontecimentos, reservando-se para acceitar mais tarde os factos consumados, i Londrks, 11.—Dizem que a França, ao prestar a sua adhesão á conversão da divida egypciaoa, insiste em que os benefícios da operação se appli- quem ao augmento do exercito egypciaco, accordo que daria em resultado obter a evacuação dos in- glezes d'aquelle paiz. Londres, 19.—A convenção anglo-allemã con- cede á Inglaterra o exclusivo cuidado de Zanzibar. Paris, 23.—O convénio anglo-allemão, limitando a influencia de ambos os paizes sobre a Africa e annunciando um protectorado inglez sobre Zanzi- bar, é muito critico. A França e a Inglaterra entraram em negocia- ções com o fim de declarar valido o decreto de 1862, em que se garante a independência do sultão de Zanzibar. Londres, 23.—Na camara dos deputados fran- cezes, M. Ribot disse que em virtude do convénio anglo-fraucez, celebrado em 1862, a Inglaterra não pôde assumir o protectorado de Zanzibar, sem prévio consentimento d* França. Paçis, 25.—Em Fort de France, Martinica, um horroroso incêndio destruiu as tres quartas parles da povoação. Seis mil habitantes ficaram som pousada. As .Camaras votaram um credito de 200:000 francos, pedido, para os primeiros socooi- ros, pelo sub-secretario de estado das colonics. Londres, 29.—'Num despacho, enviado por Lord Salisbury ao goyerno francez, se diz que a Inglaterra não pôde consentir que o almirante da esquadra franceza tome por si medidas com respei- to aos pescadores inglezes. Annuncios. PELA Procuratura dos negocios sinicos e cartó- rio do escrivão abaixo assignado correm édi- tos de dez dias contados d'esta data citando todos os credores certos e incertos do china Chong-tak- chi, capitão da embarcação n.c 868, da classe To da villa da Taipa, que se julguem com direito ao producto da arrematação da mesma embarcação, venham deduzir os seus direitos, sob pena de não serem attendidos, depois de expirado o prazo aci- ma. Macau, 23 de julho de 1890. O escrivão, EVARISTO LOPES. Y erificado,—SI L V A. SI BQAmM m PI %& Está conforme. A. O. Marques. PARA ALUGAR CASA com oito quartos e varanda, na Praia do Manduco. mf 3E-1 OUTRA, com jardim, em bom sitio. Renda Módica Dirijam-se á Calçada do Bomparto, N.° 2. Macau Rua dos Prazeres, No. 3
  • SEMANÁRIO POLITICO, NOTICIOSO E LITfER ARIO Re«la<<ào e Administração—Itua dos Prazeres, Ao. 3 Assigriatriras: Io AATIVO Por mez 00 HV09 -1-• illi ll U Numero avulso 20 avo» Pagamento adcantado MACAU, 30 DE AGOSTO DE 1890. Annunolos i Em portuguez 6 avos por linha Em china 1 avo por leltra Mínimo de percepção $1.00 i\.° 7 II IHPUSTO. Vai grande a celeuma da população con- tra o actual procedimento da administra- ção da fazenda no seu intuito de fazer convergir para o thesouro publico todas as fontes de receita estagnadas no meio creado pelas tendências locaes e pela restrioçflo, mais ou menos explicita, con- tida no formulário de qualquer lei quan- to á sua parte applicativa para esta ci- dade. Estas tendências, inherentes a todos os lugares, mas aggravadas aqui pela heterogeneidade da massa popular, refe- rem-se á renitência geral em satisfazer os encargos produzidos pelo regimen fiscal, encargos que vão ferir os interes- ses, quer iinii viduaes quer collectives, pe- la cerceai-lo do rendimento do producto liquido do trab iHio empregado 1'ara a completa extincçAo d'es ta reni- tência seria necessária a utopia (fuma 1 especial e .belli definida localisaçilo das i taxas; isto e, que cada qual pagasse se- gundo as suas necessidades e ao mesmo tempo auferisse vantagens immediatas e proporcionadas. Mas, infelizmente, as instituições modernas não podem com- portar siniilhante subdivisão de attri- buições irregularmente fraccionada e su- jeita aos embaraços monies e materiaes insuperáveis, porque teem nos seus eflei- tos uma generalidade d'acção, á qual é impossivel subtrairem-se. Segundo el- las, o governo é como o sol que, absor- vendo o vapor d'agua, amontoa nas re- giões atmosphei icas a quantidade de nu- vens necessária para ifs desfazer em se- guida em chuva ; mas este system», não obstante a sua apparente belleza, tem o inconveniente de encobrir o emprego e a distribuição dos seus recursos aos con- tribuintes, que, vendo os rendimentos desfeitos em fumo e ignorando d'onde de- riva a chuva que fecunda estes, habitu- am-se a considerar as exigências do go- ; verno como uma exacção, e os seus bene- fícios como dons da natureza. Consiste a restricção na expressa re- commendaçâo do governo metropolitano de que, para a applicação de medidas di- manadas de quaesquer leis ou regulamen- tos, se attenda quanto possível aos usos, costumes e religião da maioria da popu- lação. 'Nesse proposito deliberado de não constranger as tradições chinezas está o principio regulador, que, estabele- , cendo a harmonia da coexistência de duas raças distinctas e fazendo successi- vamente brotar pontos de cohesão entre ellas, fundados na historia e nas relações de mutua convivência, ha de vincular no tempo as condições necessárias para a sua duraçáo. A' sombra d'este mesmo principio medraram as nossas institui- ções, que paulatinamente se irão substi- tuindo ás arbitrariedades e rotina locaes, assegurando pela sua acção benéfica aos habitantes d'esta cidade o bem estar in- tellectual, mural e material. De todos os ramos de serviço creado por ellas merece honrosa menção o do tribunal judicial, que entrou de chofre na plena aeceitação da tnassa popular chi- neza, cônscia do seu incontestável mere- cimento, porque, expressão subida e fun- damento principal da ordem material, auxiliar vigilante da disciplina moral e desembaraçado das parcialidades, dos ri- gores excessivos e das vinganças impla- cáveis peculiares á jurisprudência chine- za, representa a applicação imparcial de regras bem definidas e a sancçfto do cum- primento de deveres imprescindíveis. Outro tanto itã.n se node affirinar da administração financeira. Na olasse de contribuição permanente deixaram de figurar, em virtude da iin- munidade provocada pela restrioçfto já referida e saficcionada pelas auctoridades transactas, alguns encargos que a actual inspecção da fazenda provincial procura restaurar, bem como insiste em seguir rigorosamente os meios repressivos con- signados na lei para os que em pleno exercício jazem no estado remissivo. A cada acto da inspecção surge imme- diata reacção da população, que procura por todos os mudos esquivar-se a novos compromissos; e a imprensa da localida- de, tornando-se ecco do clamor geral, chega a citar casos em que alguns d'es- ses actos vão contra a legislação vigente. Sem tratar d'esta ultima parte, cuja ille- galidade, a ter se dado, deve estar affecta á consideração da auctoridade competen- te para de futuro ser obviada pela in- specção, cumpre averiguar quaes as con- dições em que deve ser auginentada a qualidade da mu teria collectavel, o que arrasta a cobrança de novos impostos. Se o auginento do imposto novo mira só a cumprir a lettr.i da lei, não parece con- veniente que se sobrecarreguem os habi- tantes coin novas imposições fiscaes, que tendem sempre a collocal-os em embara- ços sem resultados proveitosos; mas se por ventura tem por fim acudir ao esta- do da colonia proporcionando meios para melhorar as suas circuinstancias conside- radas sob diversos aspectos, então tem razão de ser e constitue para o estado um direito, para o exercício do qual de- vem einmudecer quaesquer snggestões que não sejam as de proveito geral. Era de desejar que esse direito de in- stai laçáo de novos impostos se praticas- se sem originar attritos para se não cair no antigo axioma: suminum jus, summa injuria—o excesso do direito produz exces- so de injustiça, e de modo a não afastar os capitaes aqui empregados á procura de melhores condi ões de estabilidade, '] perigo esse já apontado pelo Macaense, com para ndo-o nas suas consequências coin as da ficção da morte da gallinha to n ovos de ouro. Os novos impostos, quando cobrados por necessidade e na importância deter- minada pelos limites justos do rendimen- to do capital empregado, devem ser sa- tisfeitos pela coinmimidade chineza, por- que o contrario estabeleceria um des- accordo absoluto com as vantagens da sua residência 'nesta cidade, onde é benefi- ciada pelo estado ao par dos nacionaes em tudo e ainda alem dos limites das suas aspirações. E' racional pois que contri- bua quanto possuem troca d'essas vanta- gens, porquanto o que se exige U'elia i nãq.é um jugo odioso nem obrigações ser- vis, mas simplesmente a necessidade de a sujeitar a umas leis e deveres ooin- m uns. A resistência aturada dos chinas em acceitar a serie de medidas administra- tivas não é motivo para as deixar de vez, cointanto que se subordine o proces- so da sua implantação á acçáo do tempo, da opportunidade e do tacto administra- tivo, filhos da natureza das circumstan- cias e do governo intelligente, factores, ao impulso dos quaes os rendimentos do im- posto, assente em bases seguras e largas, e refreado em moderada taxa, poderão desenvolver os paralisados trabalhos pú- blicos e até 'num futuro mais ou menos proximo attingir um excedente de recei- ta que chegue a ir saciando os esfaimados cofres do ministério da marinha. uma pa&ka m nisrau n MACAU. Portugal estendeu os limites do sen ter- ritório caminhando na senda aventurosa das conquistas, e, estabelecendo-se nos paizes conquistados, iniciou a éra da li- berdade commercial, franqueou á Euro- pa os riquíssimos mercados do mundo até então desconhecidos, e já na expansão das suas relações económicas e politicas com o Oriente conseguiu, pelo anno de 1530, que os poi tuguezea se estabeleces- sem 'neste pequeno torrão em que vive- mos, e para onde fizeram centralisar a dupla corrente commercial da Europa e da Asia. Desde então até fins do século passa- do era Macau, sob a acção exclusiva do»
  • o navegadores portuguezes, o emporio para onde derivavam todos os prod netos eu- ropeus e asiáticos, onde se realisava a sua perniutaçflo, e d'onde divergiam em seguida para os extremos oppostos da sua proveniência. As relações com a China mantinham- ! se cordeaes pela extrema prudência dos portuguezes em evitar attritos, em exe- cutar as clausulas do contrato de cessão do território, e no auxilio que prestáva- mos ás auctoridades chinezas contra a pi- rataria, que então infestava estes ma- res. A cubiça ingleza, porem, desenvolvi- da com a amigavel alliança contra os francezes, que haviam invadido Portugal, e com o progresso das companhias da índia, tentou alargar os domínios da sua acção, escolhendo Macau para alvo das suas operações, a titulo de soccorro, que nilo lhe era pedido; e introduzindo a si- zania, aproveitava a incúria do nosso go- verno, que ía successivamente transfor- mando Portugal em interposto do seu commercio, e por isso não admin\que os inglezes tentassem substituir-nos na ad- ministração d'esta colonia. pelo emprego ( da força ou da diplomacia. Etn 22 de março de 1802, o primeiro sobrecarga da companhia ingleza, aucto- risado pelo general de Bengala, mandou uma carta ao governador de Macau, dizendo-lhe que em Lintin se achava um transporte com tropa para soccorrer esta colonia, e que o commandante das forças navaes lhe entregaria em mão propria uma carta do mesmo general. No dia seguinte desembarcou o dito commandante, acompanhado do coronel commandante da tropa e d'outro official, e dirigindo-se á residência do governador alli lhe fez entrega da referida carta, bem como da copia das ordens dadas nos go- , veimadores de Diu e Damão para rece- berem nas suas guarnições o soccorro de tropas inglezas. Em seguida perguntou indiscretamente ao-govei nador que gen- , te caberia na fortaleza do Monte. O governador, José Manuel Pinto, com quanto não ficasse snrprehendido com este procedimento, declarou imme- diatameute que não consentiria 110 des- embarque de tropas inglezas, porque esta cidade não estava nas condições de Diu ou Damão, por quanto era um estabeleci- mento em que só aos portuguezes era per- tnittido poderem residir; que podiam, se quizessem, defender o porto de quaes- quer tentativas dos francezes, mas nun- ca desembarcar forças, para não trazer complicações graves com a China, e que para defender a cidade tinha elle gover- nador força suffioiente. Não obstante, para que esta resolução tivesse completo valor, reuniu o senado, em conselho, a quem expoz o oceorrido ; e este, estando d'accordo com a delibera- ção tomada pelo governador, fez ao mes- mo tempo um protesto contra similhan- te tentativa, tornando responsável o commandante das forças pelas complica- ções futuras, e representou ao ministro do ultramar contra o procedimento dos inglezes. Em vista da attitude tomada pelo go- vernador e senado, a tropa de desembar- que voltou a Bombaim. Por tão firme resolução, foi louvado o senado de Macau em nome do príncipe regente nos seguintes termos: " Fiz presente ao Principe Regente, nosso Se- nhor, a representação que o Senado de Macau diri- giu a esta secretaria d'Estado; e vendo Sua Alte- za Real com muita satisfação a maneira por que Vm.CM se houveram com os inglezes que pretendiam introduzir tropas nessa cidade; Manda Sua Alteza R ai louvar esse Senado pela fidelidade e acerto com que se comportou em tão criticas circumstan- cias.—Deus guarde Vm.'". Salvaterra de Magos em 21 de fevereiro de 1805.—Visconde de Anadia. —Srs. Juiz e Vereadores, e Procurador do Senado da Camara da Cidade de Deus de Macau." Não podium, porem, os nossos amigos e fieis alliados supportar nem consentir que alguém nos prejudicasse; por isso, novamente receiosos de que os francezes tomassem posse de Macau, Lord Mints, governador geral das índias Britannicas, envia ao governador e capitão geral de Macau, o seguinte officio: A s. exa. o governador de Macau.—Senhor.— Antes que v. exa. receba este officio soin duvida terá alcançado os uitimos desnslres do continente da Europa, e terá sido informado de que o governo da França, depois de ter effcctivãmente subjugado aquellas nações do continente, as quaes tinham pra- ticado os últimos esforços das suas armas, para a preservação dos seus direitos e independência, con- tra as usurpações o violências da França, resolveu não permittir por mais tempo ao governo de Por- tugal gosar d'aquelle systema de neutralidade, a qual com tão exemplar e publica fé tinha até en- tão mantido, e isto com vistas de pôr em execução o objecto das suas mais injustificáveis determina- ções. O cabeça da França não fez escrúpulo em violar todos os principias de equidade e honra, pa- ra marchar com suas armas á mesma capital dos dominios do vosso Soberano. Terá chegado á presença de v. exa., que debaixo I da irresistível infinencia desta militar usurpação, Sua Alteza Real o Principe Regente foi compelli- do a declarar que Sua Alteza Real se tinha unido ao Imperador da França, excluindo os navios Bri- tannico8 dos portos de Portugal ; porem a Sua Alte- teza Ileal e a toda a Real Fainilia de Portugal, com a ajuda dos poderes Britannicos, se lha facili- tou o poder partir dos limites dos usurpadores, lar- gando a capital e proseguindo deOaixo d'uma es- colta dos navios Britannicos de guerra para as pos- sessõ"8 de Sua Magestade Fidelíssima na America do Sul; e assim, trasferindo-se o logar do goveum , de Lisboa para o Brazil, annullando aquelia estra- nha e usurpadora auctoridaiie, debaixo de cujo freio a hostil proclamação promulgada em nome de Sua Alteza Real se tinha verificado, e declarando ao mundo uma resolução de manter rigorosamente Hquallas resoluções de .amizade e alliança, pelas qu-ies as Coroas de Portugal e Grau Bretanha teem por tão longo temyo sido unidas. Profundamente eu laiielito o acontecido em in- juria e insulto, qual á Qfrpa de Portugal tem sido admittida pela violência sem lei e atrocidades do procedimento da França. lie comtudo olijeoto de congratulação, quo a Familia Real de Portugal se posesse em circumstnncias de se retirar para outra parte dos seus dominios, nos quaes, com ajuda das forças Britannicas, e connexão pelos antigos laços da Cordeal Amizade que tem ha tanto tempo e tão firmemente unido as duas Coroas e nações, pôde o seu soberano estar descauçado e seguro d'a- quella nação, a qual tein insultado a sua dignidade, invadido sua independecia, e usurpado a possessão dos seus dominios Europeus. Estes successos têem agora unido as Coroas de Portugal e Gran-Bretanha em uma causa commum. A poteneia que assistiu ao livramento do Vosso So- berano da degradada influencia d'uma estrangeira anctoridade suprema, se hade empregar agora em proteger e segurar a sua anctoridade nas remanes- centes porções dos dominios de Sua Megestade em qualquer parte do globo, contra as armas e arte- factos do perturbador commum da pnz e tranquili- dade do mundo. Sem duvida terá chegado á noticia de v. exa., qua em seguimento deste systema de cooperação de- fensiva, Sua Alteza Ileal o Principe Regente tom já publicado ordens para pôr as possessões Portu- guesas nas índias do Este debaixo da protecção de Sua Magestade Britannica. Em consequência do dito systema, esto Governo tem recebido ordens de dar providencias para a segurança das possessões de Sua Magestade Fidelíssima ua India e na Chi- na, a quaesquer intentos que o cabeça da França tem, sem duvida, ha tempo premeditado, e os qtiaei, debaixo das circuinstancias da sua recente usurpa- ção dos territórios Portuguezes na Europa, se po- dem agora esperar em breve periodo de teinpo- V. exa. terá observado ou attendido, de que com inteira concorrência da Corte de Lisboa, uma guar- nição Britânica tem ha muito tempo estado desta- cada na Colonia do Goa, a fim da sua protecção. Da necessidade deste arranjo, ainda que mantido durante um periodo de tempo em o qual o Gover- no de França apparentemente respeitava a inde- pendência de Portugal, recentes successos teem da- do abundantes provas. O importante augmento disto no presente momento é bastantemente obvio para que requeira explicação, e por cônsequencia s. exa. o Vict-Rei Capitão General das possessões Portuguezas na India e China, ti I aos interesses de Sua Augusta Soberana, tem agora promptamen- te consentido a qualquer distribuição e augmento de forças britânicas, que forem calculadas para a segurança das possessões de Sua Magestade Fide- líssima, d'aqtiella colonia tão importante, contra os maiores esforços das armas da França. Ha de estar na lembrança de v- exa., que no an- no de 1802, quando se receberam intelligenciaa que o governo da França meditava adoptar medidas bouis á independência de Portugal, o Governador Britannico nH índia despachou para os mares da China uma força militar para os expressos fins de proverá defeza de Macau. O mosmo arranjo ago- ra se rende, vista a natureza dos últimos succes»os na Europa, muito mais urgente, conforme as ordens as quaes eu tenho advertido 110 principio d'este pre- sente. Eu tenho despachado uma semilhante for- ça para a prolécção dessa colonia, e s. exa. o Com- mandante em Chefe das força» navaes de Sua 51 \- gestnde Britannica na índia, tem apromptado uma esquadra com uma parte da guarnição destinada para este fim. Seria fazer injustiça aos sentimentos da lealdade e fidelidade de v. exa. para com o seu Augusto N berano, o admittir que v. exa. duvidará, ou não se- rá disposto de receber este britânico destacameni no estabelecimento de Macau, ou de não cooperar para semilhante arranjo, como se mostra ser ncci 1- sario para a sua effectiva segurança; por isso con- fiadamente descanço 11a inteira concorrência de v. exa. na explicação das medidas que teem sitio adoptadas; agora somente me resta de rogar a v. exa. que seja servido de communicar com o official do commando em chefe das tropas para este assum- pto, sobre a sua accommodação e distribuição, e de concertar com elle todos os arranjos que possam ser necessários para effectiva segurança do estabe- cimento contra os designios da França. Eu tenho dirigido uma carta á Selecta Deputa- ção de Sobrecargas em Cantão sobre este assum- pto ; eu rogo que v. exa. queira favoravelmente re- ceber quaesquer oc.correncias que a Depulaçár possa julgar necessário de subiuetler á sua cuiim deraçào. He supérfluo ajuntar que o proposto arranjo pa- ra a segurança de Macau não envolve, nem se i"- tromette com a regular constitucional auctoridad do'Govern) Portuginv., ou oin a sua ordiriu a niinistração di nego'los O seq quii fi u é prover para a defensa 'lo imp a >" to de Macau, contra 03 intentos, (i razão pira se csiiirar da ;.<>•• ter possi-ssõe-1 leile, um "1/ ni ses do Governo Porto .«■ santos que aquolles da náça.. Bru Nós offereeomos a sistencia Governo como aqne a d'uiu ti. do vosso Augusto -I-KI1D, par. interessante possessão de Sua Magestade, agora ameaçada por aquelia Potencia, a qual por actos de tanta atrocidade, violência, e provocante hostilida- de, tem usurpado os territórios Europeus de Sua Magestade e compellido a Real Familia de transfe- rir o seu assento de anctoridade a um distante Jo- gar do domínio de Sua Magestade; o arranjo que eu tenho a honra de apresentar a v. exa., ó propos to sem duvida, em abono de vossa Soberana, e a concorrência de v. exa. é consistentemente obvia com as obrigações urgentes da lealdade, fidelidade e publico zôlo. Por tanto eu estou inteiramente convencido, que v. exa. pontualmente concorrerá na adopção de to- das as medidas que, com assistência do britânico armamento, possam contribuir á segurança das pos- sessões de Sua Magestade na China. Eu tenho a honra do ser com grande considera- ção—Senhor, De V. Exa. humilde e obediente creado—Mints—Forte William, 4 de julho de 1808—Comp.—Thomaz Ilubei Ix>yd. (1). (Continúa) JDliXlLISMQ. Fr ecuiie.D 1ne ha toda '• «l os inter enos iiiterr-- i. trona & vaçào «ta Duas palavras apenas. Na Liberdade de 9 do corrente mez dis- semos que guardaríamos completa reser- va Acerca do assumpto de que nos temos occupado sob a epigraphe—Jornalismo— até que chegasse o dia do julgamento em policia correccional do auctor dos arti- gos diffamatorios publicados no Macaense contra um funocionario respeitável d'es- ta colonia. Assim o fizemos. Iloje, porem, aca- bou essa reserva ; e acabou em resultado d'uui facto tilo repugnante, que nos ve- (1) CollecçSo do tratados de Júdice Biker.
  • A LIBERDADE AGOSTO 30, 18S0 mos obrigados a fazer um grande es- forço para nílo dizermos tudo quanto nos fcuggere a indignaçílo que nos can- sa o procedimento vilis&imo do Maca- ense. Este jornal, que nos seus números 30 e 31 tanto bradou contra nquelles que atiram pedras escondendo a inflo, contra nquelles que nflo teem coragem de assi- gnar os seus escriptos, etc., etc., pare- cendo assim estar arrependido dos Beus passados erros e preparar-se para assu- mir, ainda que tarde, uma attitude fran- ca e nobre, acaba de provar que desco- nhece absolutamente o que. é a Iron- ia jornalística e que nunca soube o que significam as palavras decóro e digni- dade. Para que os leitores fiquem bem ao facto d'esta ridiculissima fnrça, vamos narrar em poucas palavras os aconteci- mentos a que nos estamos referindo, e o Macaense que seja depois amarrado ao pelourinho do desprezo publico para ser nhi devidamente fustigado, como mere- ce. Fôra designado o dia 28 «lo corrente para ter logar o julgamento em policia «a rreccional, mas nflo se levou esta a ef- feito porque, na véspera, appareceu um requerimento do sr. Gabriel mu u oir- er figurar trcs cava- i
  • 4 A UB ER D A DE-AGOSTO 30, 1890 Inconveniente e indecoroso. Queixam-se algumas praças da guarda poli- cial dos inconvenientes que ha em estar a estação policial da rua da Felicidade insta- lada no pavimento inferior d'urn lupanar E queixam-se com justa razão ; porque, 'num prédio, em cujo andar superior se joga o sam e reina grande bulha até alta noite, tor- na-se impossivel a uma pobre praça, que reco- lhe do seu serviço, dispor d'alguns momentos de socego para por meio do somno se refazer do seu cansaço, e adquirir novas forças para o serviço. Bom será que se pense em remover essa estação para outra casa, ou então fazer ac- quisição de todo o prédio, em que ella se acha actualmente, quando se não possa en- contrar outro que melhor preste. Assim como se vê, sobre ser inconveniente, parece-nos até indecoroso. Moeda china. Temos visto já circular 'nesta cidade uma nova moeda china de dez avos, similhante á moeda ingleza do mesmo valor. A nova moeda traz 'numa das faces vá- rios caracteres chinas, e na outra um dragão, em volta do qual se lêem as seguintes pala- vras—QUANG-TUNG PROVINCE—7.2 CAN DA- RKENS. Uma prisão importante. Cerca das 9 horas da noite de 26 do corren- te, foi capturado 'numa estalagem do Bèco dos Coulaus um china, vindo de Cantão, e que alli fôra alojar-se, vestido de mulher. A captura foi effectuada pelo cabo da po- licia secreta, n." 41 da la. companlra, o qual, pelos valiosos serviços que tem prestado, se está tornando credor de merecidos louvores. Desordem c prisão. Pelas 11 horas, pouco mais ou menos, da noite de 25 do corrente, ouviu-se muita api- tada e muito barulho na rua do Bazarinho. Foi o caso. Dois cavalheiros de rabicho questionam com dois dos conductores de jin- rieshas estacionados na rua de S. Lourenço por causa d'uns avos que estes exigem a uiais do que estipula a respectiva tabella. Pala- vra puxa palavra, arremettem contra os dois gentlemen mais de 10 conductores dejinric- 1 shas, e mimoseiam com alguns sopapos <>s po- bres homens, que vão correndo por ahi abaixo até á rua do Bazarinho, pedindo soccorro á policia. E a policia chegou muito a tempo, e por signal que . . . não conseguiu prender ninguém. E só depois é que um dos aggredidos entre- gou á prisão um dos conductores, que fora en- contrado a dormir, ou antes, a tingir que dor- mia, dentro do seu carro, e que se reconheceu ser um dos aggressores. Digam-nos agora se isto é ou não uma pro- va bom clara de que esta cidade está bem po- liciada ! Quanto ao heroe, foi este conduzido da es- tação do Bazarinho ao quartel general, e d'al- li remettido, no dia seguinte, á procuratura. d'onde seguiu viagem para a cadeia publica, com o gozo de 8 dias de licença para alli resi- dir. Mas foi pouco. Desejávamos que alli esti- vessem 80 ou 800 dias, não só este, mas tam- bém todos os conductores d'esses jinrieshas que se vêem estacionados na rua de 8. Lou- renço, contra os quaes se está queixando mui- ta gente ; umas vezes porque se recusam, "contra as disposições do regulamento, a con- duzir nos seus carros os indivíduos que d'el- les precisam ; outras vezes (torque exigem o dobro, o triplo do que está fixado na respecti- va tabella; outras,—e estes casos são mais frequentes—porque provocam e insultam os indivíduos que por aquella rua transitam so- cegadamente. Para tudo isto pedimos providencias a quem competir. Communicados. RRLATORIO. (Conclusão.) L>go que o capitão Rego me deu parto de que não podia coinpvebendcr as contas feitas pelo sargento Santos, |iuz de parte o serviço a que me estava de- dicando na secretaria, e comecei a observar miuda- mente tae» contas ; e só então é que conheci que nem só o sargento Antonio dos Santos era ignoran- te das disposições regulamentares sobre contabili- dade e administração militar, pois a começar pelas mostras tudo estava errado. Mandei immediatnmente reformar as mostras, dando mesmo as normas para as observações, e eon- ferin lo-as depois verba por verba, os créditos e dé- bitos das praças entradas e sabidas, mandei formu- lar as relações de créditos abonados e abatidos, e dos débitos abonados, para servirem de documentos do livro caixa ; e conhecendo que este livro não combinava com algumas verbas descriptas nas ac- tas, e muito menos com o livrete, ,ue já estava atrazado, fiz salvar em actas alguns erros que ia encontrando, tendo posteriormente de resalvar ain- da outros, até que finalmente, vendo que não conseguia fuzer jogar estes livros, resolvi fazer em cadernos separados a escripturaçáo d'elles desde 5 de novembro de 1885, a fim de conhecer d'onde par- tiam os erros. Para isto formulei um balanço em vista dos res- pectivos registos, e conhecendo as importâncias que deviam existir no cofre n'essa data, começou o novo thesoureiro, o alferes Jacome, sob a minha direcção a escripturar um borrão do livrete jogando com o dito balanço e com as actas, e eu principiei as con- tas, conhecendo logo que o saldo de 5 de novembro de 1885 do livro caixa era falso, e que uma das causas da differença do livrete era que na conta de fardamento sómenle havia entradas, e tendo sido entregue na fazenda a quantia de 200:000 reis, bem como tendo sahido alguns créditos, nada estava de- duzido, e os 200:000 reis estavam abatidos ao nu- merário e augmentados ás cédulas. Alem disto havia outros erros, e mesmo verbas que no livro das actas teem uma cifra, no livrete outra, no livro caixa outra, e finalmente outra nas mostras ou requisições de pret das companhias. Não sendo já regular o meu estado de saúde, tendo sido distrahido em commissão para fóra de Dilly, tendo peorado bastante dos meus incommo- de e não tendo ninguém que encarregasse d'este serviço, pois quem me poderia coadjuvar pela sua boa vontade, zelo e aiguma instrucção, era apenas o alferes ajudante Jacome, que não tinha tempo, por ter, alem do serviço diário, o encargo de thesou- reiro do conselho, encarregado de facturas, e a es- cripturaçáo das novas praças no livro de matricula, no registo disciplinar e nas folhas de matricula que tiveram de ser feitas por não as terem as pra- ças nem as respectivas cadernetas que também se lho distribuíram e escripturaram ; por todas estas rasões, eu fiz escripturar do melhor modo que o ponde conseguir o livrete até á data do balanço em que faltei, e reservei-me para continuar a verificação de toda a contabilidade quando o meu estado de saúde o permittisse, o que infelizmente não fiz por ter de regressar a Macau pela junta de saúde, depois de ter ido mudar de ares em Baacau por um mez, e deixei na occasião da minha entrega todo o trabalho feito nas mãos do capitão Rego, meu successor. Tendo-me ordenado verbalmente s. exa. o gover- nador do distrioto que estudasse a questão da ali- mentação das praças nos destacamentos, pois vira, n'umas das suas visitas nos reinos, que ellas tinham apenas arroz c peixe salgado para comer, assim o fiz, e apresentando-lhe também verbalmente o re- sultado, elle o approvou : e tendo a delegação de fa- zenda authorizado a egualar as subvenções das pra- ças destacadas ás das praças promptas, fiz o meu officio circular n.° 91 de 15 d'abril (Documento n.° 3); mas apezar da minha insistência em mon- tar regularmente este serviço, ainda no ultimo mez da minha gerencia houve um commandante de des- tacamento que não cumpriu, e em todos os mezes desde junho não foi possivel conseguir de todos os destacamentos os mappas Z Z parciaes e as contas correntes em forma legal, para servirem de docu- mentos os primeiros á verba mencionada no map- pa Z Z do conselho administrativo. Não tendo em alguns destacamentos sido feito o rancho conforme o ordenado, o conselho adminis- trativo resolveu não lhe mandar as subvenções abonadas, e deliberou que fossem consideradas fun- ; dos de rancho, o que se mencionou na acta e nos j registos respectivos. Em vista do que venho de dizer, devo declarar franca e sinceramente que, quando entreguei o com- mando das companhias, existia tudo no seguinte es- tado : Instrucção. Nulla ou quasi nulla, apezar de todos os dias se empregarem duas horas em explicações que não são < o nprehendidas. Disciplina. Não obstante ter punido com penas regulamen- tares muito mais de metade das praças do contin- gente, a quem appliquei desde 19 de março até 30 d'agosto 134 castigos, clevando-se o numero de dias de prisão a 1.531, e apezar de ter pedido a s. exa. o governador a applicação do máximo castigo (60 dias) para varias praças, a embriaguez, a desordem e a falta de respeito continuam a m.inifcstar-se dia- riamente. Serviço. E' todo irregular, e impossível me parece exercer um certo rigor, pois basta uma parte de doente, sempre justificada pelo facultativo, para que «quel- le que quizer ser rigososo e exigente em materia de serviço, fique perfeitamente manietado. Uniformes. Existiam manufacturados pouco mais ou menos metnda dos necessários, e tinha eu ordenado que se conservassem em arrecadação para se começarem a usar desde o dia que 8. exa. o governador fixasse para esse fim ; mas o capitão Rego, tendo-me sub- stituído quando fui mudar d'ares para Baucau, não só os póz a uzo, mas até ordenou o empréstimo dos que pertenciam ás praças destacadas, ás praças promptas que ainda os não tinham, com o fim de apresentar grande força em parada no desembarque de s. exa. o governador, que recolhia do interior. Tendo feito ver a este official a disposição do art. 15." do regulanento geral para o serviço dos corpos do exercito, este se desculpou dizendo que recebeu para isso ordem do mesmo governador, o que não averiguei por ter de regressar a Macau pelo meu estado de saúde. Armamento e Correame. Em bom estado, mas pouco tractado em conse- quência da ordem de permanecer depositado no material de guerra. Equipamento. E' composto apenas de muchillas de viveres, as quaes se receberam ultimamente novas de Macau. McNições. Sómente ha munições distribuidas ás praças que es- tão destacadas, de modo que, se uma praça de servi- ço for atacada, só se poderá defender a arma branca. Mobília e Utensílios. Existe só o indispensável, mas muitos objectos precisam ser substituidos e outros concertados. Quartel. E' provisorio, parte coberto de zinco, e pnrte de folha de palmeira, e rodeado por uma pallissa- da ou pagar, o que nunca poude obstar a que as praças sahissem de noite a deshoras. pois o pode- riam facilmente SHltar, ou abrir passagem etn qual- quer parte. Secretaria. Ficou regular, havendo para o commandante uin gabinete regularmente mobilado, uma sala para conselho administrativo, outra para secretaria, e finalmente uma casa grande que serve para arreca- dação geral e casão d'alfaiates, tudo isto devido a concessão feita por s. exa. o governador do dis- trict!», no edifício das repartições, contíguo á secre- taria das obras publicas. Eis pois resumidamente relatado o estado em que encontrei as companhias d'infanterin de Timor, o occorrido durante o tempo do meu commando, e o estado ein que entreguei ao meu successor o capi- tão Adriano Augusto Rego; relatório que faço unicamente para pedir indulgência para os enos que a falta de pratica e de competência me fizessem commetter no desempenho d'aquella commissão. Quartel em Macau 20 de dezembro de 1886. Raphael das Dores. A nnuncios. PELO juizo de direito d'esta comarca e cartório do escrivão, que este escreve, correm editas de 30 dias, a contar da publicação do 2." annuncio no Boletim Official chamando os credores, legatá- rios desconhecidos ou domiciliados fóra da comar- ca, em conformidade do Art. 696 § 4." do Cod. de Proc. Civil, para deduzirem, querendo, no processo de inventario dos beus que ficaram por obito de Maximiano José d'Aquino, residente que foi na colonia de Hongkong, etn que é cabeça de casal seu genro João Caetauo da Cunha. Macau, 20 de agosto de 1890. O escrivão, JCSÉ MARIA da COSTA. Verificado,—SILVA. PELO juizo do direito d'esta comarca e cartório do escrivão abaixo asMgnado correm éditos de 30 dias a contar da publicação do 3.° anuuncio no Boletim Official citando os interessados incertos que se julguem com direito a impugnar a justifica- ção da tuera posse do domínio directo dos prédios n.°* 13 e 15 ua Rua da Casa Forte, n.°' 12 e 14 na Rua do Bazarinho, fregnezia de 8. Lourenço, requerida por José Francisco Franco pelo seu ad- vogado José da Silva paru que na 2a. audiência posterior áquelle praso se apresentem a vêr accu- sar a citação e assiguar o praso para a impugna- ção. Macau, 19 de agosto de 1890. O escrivão, MANOEL MARIA BORRALHO. Verificado,—SILV A. Macau Rua dos prazeres, No. 3
  • SEMANÁRIO POLITICO. NOTICIOSO E LITTER.WUO K' 4-s u* Redacção e Adisiiuistração— Rua dos Prazeres, Ao. 3 À * V AM0 Assi gnattiros; ,Por me/. 50 avos Nmoer» avulso 20 avos Pagamento adeantado MACAU, 6 DE DEZEMBRO DE 1890. Aimujicios: Km pomignez 5 avos por Iflllli Kui clijna , .1 avo por lei(ra Mínimo de percepção $1.00 NI" 21 80YÍ VKREAÇA8. No domingo ultimo realizou-se a eleição camarária desta cidade, sem estrondo nem manifestações partidárias. Tudo correu placidamente. como era de espe- rar, e com o verdadeiro cunho de liber- dade de que sempre devia gosar um povo constitucional. Foram eleitos vereadores para o bien- nio de 1891-1892, os seguintes cavalhei- ros : Antonio José da Fonseca. Antonio Gomes da Silva Telles, Cancio Jorgç, Luiz João Baptista. Maximiano A. dos Remédios. . Nicazio José Simões. Tanto a lista vencedora como a ven- cida continham nomes de pessoas de beiú o liutwMs 'geralmente respeitados 'nesta cidade, e por isso hão nos pronun- «•iáinps neiu por uns nem por outros ; to- davia muito folgamos de ver que não vingou a ideia.da introduzir o elemento ell nez no Leal Senado da Camara, para representar o município desta cidade, não porque nos seja antipathica essa lembrança, mas sim por ser de funestos resultados no. futuro uma tal hinovução. Que os chinas sejam nomeados para fazerem parte de com missões, ainda que fossem munieipaes, para os approximar mais de nós, para noá auxiliarem com a sua boa vontade, actividade e préstimo, concordamos, porque 'nesse caso a no- meação ó do governo que os exonerará dos cargos quando isso convenha ; mas que venh am a representar-nos p<>r elei- ção popular, isso nunca poderemos ap- proval-, porque o caso muda inteiramen- te de figura. Não se destroem preoccupações popu- lares, não se cortam velhos preconceitos, nem se altera o caracter e o modo de vi- ver d'um povo, com a facilidade imagi- nada pelo Macaense. Só com o volver dos annus e depois de muito labutar, se muda o modo de ser d'um povo, princi- palmente quando tein cabeças pensan- tes. Reforme-se pois o que for mais útil aos melhoramentos e benefícios desta ci- dade, mas saiba-se caminhar coin tino pela estrada das reformas, de modo que os melhoramentos sejam effectives e não ephemeros. IRSAXDAQE M MISERICÓRDIA. Recebemos lia dias 'nesta redacção uma circular convidando nos a assistirmos a unia reunião onde se tratará de reesta- belecer a irmandade da Misericórdia de Macau e de nomear uma com missão en- carregada de formular os novos estatutos pelos quaes se ha de reger a irmandade, de futuro. A' primeira vista este con- vite agradou-nos, porque achámos muito acertada a lembrança, e tanto que a apreciamos 110 passado numero d'este semanário, irias relendo-o co.m attenção ficamos perplexos. Qual é a significa- ção d'elle? D'onde partiu a iniciativa pára esta projectada reconstituição da irmandade da Misericórdia ? E' isto um acto official, como parece indical-o a as- signuturá de presidente da commissão administrativa 1 E' simplesmente uma tentativa das pessoas caridosas a quem causa lastima presenciarem o estado de decadência a que, segundo dizem, che- gou a Misericórdia ? Para penetrarmos este niystcrio fomos lêr com toda a attenção ó projecto d'es- tatutoS a que se reffre > :-:ra r.T.ir, é d'esfa leitura resultou hiimcdiatainente páríi nós o convencimento de que nenhuma d'aquellas hypotheses é a verdadeira. O convite não é official, porque, para o ser, precisaria da auctorisação do chefe dacolonia; e este, illustrado como é, e com o são juizõ e rectas intenções que to- dos lhe reconhecem, nunca seria capaz de auotorisar tal projecto que não passa d'nin acervo de disparates. Também não foram de certo as pessoas verdadei- ramente piedosas e que se interessam de boa fé pela prosperidade d'aquelle insti- tuto de beneficência e piedade que ap- provaram a redacção d'uris estatutos que mais parecem destinados a uma socieda- de anonyina de respohsabilidadé illimi- tadá para o estabeleci mento d'uma casa de prego, do que a qrn instituto que deve ter por léhiiriá a caridade christã e auxiliar portanto desinteressadamente os desvalidos. Mus sendo assim, de quem partiu a iniciativa? Quem redigiu o curiosíssi- mo projecto d'estatutos ? Isto tem uma historia que por ahi se conta á bócca cheia e que nós vamos reproduzir por ser a explicação que mais nos satisfaz d'este escuro caso. Algumas pessoas verdadeiramente de- votadas á prosperidade da Sta. Casa da Misericórdia, entre as quaes se contava o revdmo. conego Francisco Antonio de Almeida, lembraram-se de que seria mui- to conveniente reconstituir hc/almcnte a irmandade, que h>»je está virtualmente extineta, e chegaram a consultar sobre este projecto a s. exa. o governador da provineia. Constando que s. exa. dissera que achava muito louvável esse propo- siti», nppareceram immediatamonte uns phi la 11 tropos que, som mais tir-te nem guar-tc, se apoderaram da ideia que, em si era effectivãmente muito para louvar, e fizeram persuadir o sr. conego Almeida de que devia convocar uma reunião para esse fim. Os taes philantropos, ardendo em amor do proximo . . . . e das sua* conveniências pessoaes, prestaram-se a redigir a circular para a reunião, o pro- jecto d'estatutos, tudo, e na ausência d'aquelle cavalheiro, qúe fora a Hong- kong tratar dos seus negócios, espalha- ram profusamente a papelada de que elle só 11a volta conheceu o teor. Foi uma partida que acharam muito natural e a que nós, desculpem-nos a caturrice,, chamaremos ura reles abuso de confiança que está pedindo policia correccional. Aecedendo ao convite que recebemos, lá estaremos no domingo para. preseu- cearmos a discussão que deve ser muito curiosa! O peior é se os proprietário» dos hãos.dg penhores se apresentam a reclamar contra vste novo uaiuiiíu quo vem fazer-lhes uinii concorrência peri- : gosa e desleal!! N B.—Depois de estíripto este artigo chegou-nos ás mãos uma circular ein que o sr. conego Fiancisco Antonio de Al- meida diz que a projectada reunião não pode ter togar, por motivo imprevisto. Temos pena, porque perdemos assim o ensejo de conhecermos os áuetõres do celebre projecto de estatutos! Paciên- cia, só se perde uma boa occasiãu da desopilarinos o figado! 0 GRITO DA VIXGAXÇA. Com esta epigraphe publica o jornal À Verdade, de Thornar, no seu 11." 547 de 19 ile outubro, o artigo que em seguida transcrevemos, coin a devida vénia. Durante o período, relativamente lon- go, da sua existência, tem aquelle illus- trado semanário publicado artigos primo- rosos, em que são tratadas com mestria questões da maior importância ; e coiu- quanto nem sempre possamos concordar com a doutrina, é óerto que não recusa- mos a devida homenagem ás suas con- vicções arreigadas e ao denodo com que as defende. Mas 110 artigo a que nos es- tamos referindo, ha para merecer o nos- so applauso, mais que o vigor e a elegân- cia da phrase, a abnegação com que põe de lado a questão partidária, e inflam* inado per vehemente patriotismo offcie- ce um nobre exemplo digno de ser imi- tado. Aos nossos leitores estamos certos agradará a leitura do artigo, e por isso o inserimos 'NESTE EOGaR : "Estamos definitivamente ròiibiidos! ' Os piratas dó século XIX avançam em
  • .2 A LIBERDADE-DEZEMBRO 0, 1890 tom de guerra pelo interior da Africa portugueza! Antes assim. Preferimos a sua hosti- lidade manifesta á sua amisade sempre fementida. Ao menos ficamos sabendo que em to- da a parte onde um inglez pisar o solo portuguez, é um inimigo que temos pela frente, um inimigo que é forçoso correr a tiro como um animal feroz que nos ameaça a existência. Uma força de 800 homens apoiada por alguma cavallaria ingleza invadiu já o nosso districto de Manica, o mais rico d'Africa pelos terrenos auríferos em que abunda, e pela fertilidade do seu solo. As canhoneiras inglezas destinadas ao Zambeze, apoiadas por diversos couraça- dos que lhes guardavam as costas, força- ram as boccas do Zambeze e avançam pelo grande rio africano atravessando territórios que ha tres séculos sáo nos- sos. Não foi Portugal, representado pelos seus poderes constituídos, que pôz de parte o tratado ; foi a rainha d'Inglaterra que rasgou a assignatura do seu chancel- lor, o decantado Salisbury ! E' o roubo á mito armada substituindo as expressões machiavellicas de uma diplomacia astu- ta e refalsada. E' o guante pesado e ferreo da força bruta arremessado acin- temente no prato da balança em que fal- tava a justiça. E' o codigo do direito internacional rasgado á face da Europa, que, immobi- lisada no seu egoísmo complacente, dei- xa que a força e a perfídia suífoquem o direito e a razão. E agora que o feroz bretáo rompendo todos os diques ousou lançar-nos o seu brutal—alea jacta est, que fazer? Eis o problema tremendo que tem a resolver o novo governo, problema de cuja solução depende não só a sorte d'es- te, mas a vida da inonarchiu. Se esta, | abrindo finalmente os olhos, souber, 'nes- te transe angustioso, inspirar-se conve- nientemente por forma a acceitar com dignidade a situação que se lhe apresen- ta, se se sente coin a coragem precisa para luctar com brio á frente do povo portuguez, e levantar o prestigio antigo do nosso nome no littoral africano, pode viver ainda algum tempo, porque o pcvo portuguez, em face do perigo imminente, inspirado exclusivamente pelo sentimen- to da honra e da vingança, esqueceria antigos resentimentos, e sem distinoçáo de partidos correria compacto a luctar a todo o transe, reconquistando o que lhe roubam, ou morrendo honrosamente en- i volto na bandeira gloriosa de outras eras. E não se julgue que por sermos uma na- ção pequena e fraca nos é completamente impossível a lucta em Africa. E' um engano. No continente negro podemos com o prestigio do nosso nome prégar a guerra santa contra as fardas vermelhas e levantar hordas numerosas de gentios aguerridos, que auxiliados poderosamen- te por forças consideráveis do nosso exer- cito em hreve varreriam do solo portu- guez tudo quanto cheirasse a bretáo. A Inglaterra quer a guerra ? Pois faça-se-lhe a guerra. Guerra por todas as formas e feitios, na terra e no mar, porque para luctar com ella todos os meios são lícitos. Coinece-se por ex- pulsar de Lisboa o ministro inglez, e ac- eitemos francamente a situação. Armemos em corso uma boa parte da nossa marinha mercante e aguardemos as eventualidades. Que podem elles fazer-nos ? Podem boinbardear-nos a capital ? Façainos-lhe saber que se tal ousassem toda a propriedade ingleza seria confisca- da como compensação dos prejuízos. Os súbditos inglezes residentes em Portugal seriam os responsáveis iinmediatos do seu procedimento. Bombardeavam-nos alguns portos coluniaes ? E nós pagar- lhes-hiamos na mesma moeda bombar- deando-lhes portos da Africa ingleza e aprezando-lhes qp, mettendo-lhes a pique no alto mar os seus navios mercantes. Organisemos sem demora as forças militares da Africa, demos-lhe como nú- cleo de resistência alguns regimentos da metrópole, alistein-se batalhões de vo- luntários, e entretanto não será diíficil ao governo, medeante uma compensação territorial rasoavel, procurar um alliado poderoso, d'aquelles perante os quaes a Inglaterra não ousa blazonar de forte. Se tanto fór preciso, cedamos a esse allia- do os nossos direitos ao terrepo que nos pretendem roubar, com a condição de nos ajudar efficazmente a defender o restante. Na çollisão, quando nos fosse absolutamente impossível defender effi- cazmente a nossa bolsa, antes querería- mos dal-a voluntariamente a um amigo que pudesse defendel-a, do que deixar que nol-a roubassem á viva força e im- punemente. Basta já de fraquezas e de subservien- cias vergonhosas. Se o novo governo se sente com coragem para arcar briosa- mente com a situação tremenda que se lhe antolha, que o diga francamente ao paiz, e terá o seu applauso unanime, por- que posta a questão neste campo, seria um crime de lesamação, distrahirem dis- 6enções intestinas as forças vivas da pa- tria, que carece de as virar todas contra os modernos piratas de terra e mar. Se porem, por desgraça nossa, ainda mais uma vez os interesses sagrados da patria vão ser sacrificados a princípios de outra ordem ; então, nllucinado pelo desespero, o povo para não morrer de vez coberto de ignominia, erguer-se-ha por fim para fazer justiça, e defender os seus direitos. Inspirados unicamente pelo sentimen- to patriótico, perante o qual eminudecem para nós quaesquer considerações de in- dole politica, fazemos ardentes votos pa- ra que o novo governo se eolloque á al- tura da situação mostrando-se corajoso e patriótico, por forma a reconquistar as sympathias da Europa e rehabilitar em África o prestigio da nossa bandeira." Noticias diversas. Malas. Espera-se a mala americana, pelo Oceanic, no ilia 10, e a mala ingleza, pelo Sutlej, no dia 8. Fecha na terça-feira, 9, a mala ingleza, pe- lo Mirzapore. —Recebe o correio correspondências : Para os Estreitos e Bombaim, pelo Gwa- lior, até ás 6.30 a. m. do dia 9. Para Nagasaki, Kobe e Yokohama, pelo Ancona, até ás 6.30 a. ui. do dia 11. Anniversarios. Fazem annos : Amanhã, o sr. José Carlos Alcobia, imme- diato do capitão do porto e tenente da arma- da. Em 9, os srs. Jorge Carlos Fernandes e Fi- lomeno da Graça (Hongkong). Em 10, o sr. Belmiro Pereira (Fuchau). Em 11, os srs. Modesto Ozorio (Fuchau) e major A. J. Ruas. Em 12, o sr. Pe. Manuel José Farinha, vi- gário de Sto. Antonio (Lisboa). Baptisado. No dia 30 de novembro foi baptisado ná egreja parochial de S. Lourenço com o nome de Carlos, um filho do sr. Leonel Cardoso e da ara. D. Maria Gloria Salles Cardoso. Serviu de madrinha a sra. D. Carolina Antónia de Gouveia Cabral, e de padrinho o sr. João Albino Ribeiro Cabral. Outro. Amanhã recebe as aguas do baptismo um filhinho do sr. Antonio dos Remedies, escri- vão do hotel Boa Vista. Licença. Ao sr. João Pires Guião conductor das obras publicas do districto de Timor, foram concedidos seis mezes de licença para se resta- belecer no reino. Nomeações. Foi nomeado para exercer interinamente o cargo de conductor auxiliar da secção d'obrus publicas de Timor o sr. alferes Macario Au- gusto Felgueiras Leite. —Em substituição do sr. alferes Leite, foi nomeado ajudante d'ordens de s. exa. o go- vernador, o sr. alferes Thouiaz Alberto de M enezes. —Por proposta do sr. director das obras pu- blicas, foi nomeado conductor interino da di- recção das obras publicas o sr. Fernando Cel- ie de Menezes, desenhador da mesma. —Para o logar do desenhador das obras pu- blicas, deixado pelo sr. Menezes, foi nomeado o sr. tenente Ramiro da Roza. Suicídio. Noticias de Shanghai dizem que na manhã de 27 de novembro ultimo, se suicidou com uni tiro de revolver, o sr. João B. Fonseca, antigo empregado da firma Butterfield and Swire. O fallecido era um cavalheiro bemquisto de toda a communidade portugueza de Shang- hai. Ignora-se o motivo que o levou a pôr termo á sua existência. Si non é vero. O correspondente do Temps em Lisboa re- lata pára aquelle jornal uma visita que fez ao major Serpa Pinto, n'estes termos : " Encontrei-o (o major) no seu gabinete de trabalho, no momento em que sacudia a cin- za do cigarro em cima d'um objecto extrava- gante de que a principio não descobri a forma, collocado como estava, na sombra d'um mo- vei, no soalho. Era um terra-coto, represen- tando John Bull esbarrigando-se, com saccos d oíro nas mãos, a face rubicunda, com o riso contente do homem qne conduz a sua fortuna. John Buli tinha o ventre rasgado e servia de escarradeira ao major. Mal acabava de me sentar quando uma menina, fresca e graciosa, que reconheci ser a filha do major, pela ter visto saltar ao pescoço de seu pae a bordo do Loanda que o trazia de Moçambique, entrou risonha e córada. Trocou algumas palavras com elle, abaixou-se vivamente, tomou o John Buli nas mãos e saiu correndo. Ao vôr que eu não compreendia coisa alguma d'esta sce- na o major, que falia francez muito correcta- mente, deu-me a seguinte explicação : —Este objecto foi-me offerecido u'um thea- tro aonde fui passar a noite. Gomo viu, re- presenta John Buli. Minha filha, veiu pre- venir-me que a sua preceptora de inglez aca- ba de chegar para lhe dar a lição. Como não quer desgostal-a, deixando-lhe vêr este brin- de, pediu-me licença para o esconder . . . provisoriamente. E' caso de dizer como o italiano : Si non é vero é bem trovuto. Processo original. No tribunal civil de Philadelphia corre um singularissimo processo. Trata-se d'unia creança, James Jones, que, começando apenas a fállar, intentou uma ac- ção de 50:000 dollars de perdas e damnos, por intermédio do seu tutor, a uma compa- nhia de tramways por ferimentos recebidos antes de nascer !
  • A LIBERDADE—DEZEMBRO (5. 1890 3 A 23 de novembro de 1888, lady Mary Jo- lies, que estava prestes a ser mãe do queixo- so, ia li'um tramway que abalroou com outro vthiculo em Richmonustreet. O choque foi tão violento, pretende o tutor dacreança, que esta ficou gravemente ferida. " A espinha dorsal, o dorso e o systema nervoso da creança, diz o tutor no seu reque- rimento, foram de tal forma affectad >8, que está sujeita a angustias intoleráveis. Alem de que, soffreu grandes estragos, em conse- quência do enfraquecimento e do desaranjo quasi permanente dos systemas physico e ner- voso." O tribunal ainda não annuuciou a sua sen- tença. Que pandigos! A uma malta de mendigos de Malaga cou- be o premio de 14:1)00 pesetas no segundo sorteio da loteria de agosto. Mas o mais curioso éjo que revela um jornal mulagueno,?d'onde tiramos a noticia. Esses mendigos era aleijados, cegos, tolhidos, estro- piados, etc. Logo que souberam do premio, foi como se se produzisse um milagre : todos ficaram sãos como uns pêros ! Os tratantes pertenciam á classe dos explo- radores da compaixão publica. Eram estro- piados fingidos. Submarino portuguez. A' cerca d'esta importante e poderosa ma- china de guerra, teem dado alguns collcgas indicações mais ou menos vagas. Sabemos de boa fonte, que o ministério da inaiinha pediu os planos e a competente me- moria descriptive d'este barco, afim de serem devidamente examinados. Oxalá encontre incentivos para em breve entrar no campo da pratica e não vá tudo agora ficar só em estu- dos. O torpedeiro, é devido ao trabalho do estu- dioso primeiro tenente Fonte Pereira de Mel- lo, tern a forma cyliudrica terminando ante- riormente per um cóne, e as suas dimensões são.—comprimento 20 metros, diâmetros 3,5 metros e tem do deslocamento proximamente 120 metros cúbicos. Externamente, visto de frente, dá a ideia d'uni projéctil ; tem dois helyces ; o seu mo- tor é a electricidade, sendo tripulado por dois homens. O seu armamento, consta de quatro torpe- dos dirigíveis, do systema Nordeufeldt e dois tubos para o lançamento de torpedos White- head. O barco pode permanecer debaixo d'agua durante muitas noras, tendo communicação directa com o exterior e achando-se fundeado, torna-se n'estas circumstancias um magnifico posto d'observação, d'onde com toda a segu- rança se pode operar a occultas e portanto fa- zer a melhor cilada n'uma area, cujo raio an- da por 2:500 metros. Os torpedos do systhema Nordeufeldt são de grandes dimensões, teem uma enorme car- ga explosiva t são dirigidos de dentro do tor- pedeiro. Por aqui se pode fazer uma pequena ideia, da acção moral que incutirá a certeza da exis- tência de elementos d'estes, na defeza d'um porto. O Czar. O czar é o mais rico proprietário do mun- do ; só a sua parte possue mais terras que todos os lords inglezês reunidos, ou que todos os milionários americanos. Uma só das suas propriedades mede 50 milhões de hectares, isto é, quasi a superfície da Franca. Aqui está quem enriquecessem trabalhar e sem entrar em syndicates. Milagres da humanidade explorada. Esponja plionographo O phonographo, ao que parece não é uma in- venção tão moderna como se julga. 'Num numero do Courrier veritable, de abril de 1832, lê-se a seguinte noticia : " O capitão Vosterloch voltou da sua via- gem ás terras austraes. Refere-nos, entre outras coisas, que tendo passado um estreito abaixo do de Magalhães, desembarcou 'num paiz onde a natureza fornece aos homens cer- tas esponjas, que teem a propriedade de con- servarem o som e a voz articulada. De sorte que, quando elles querem transmittir algumas palavras ou conferenciar de longe, faliam de perto a algumas das mencionadas esponjas e enviam-nas aos seus amigos, que fazem de- pois sair as palavras lá conservadas, fi- cando a saber por este admirável meio, tudo o que os seus amigos desejam." Admirável, se for verdade. As fortunas dos presidentes americanos. A cifra das fortunas deixadas depois de mortos, por todos os presidentes que teem go- vernado a republica dos Estados Unidos é a seguinte : O primeiro presidente, Washington, falle- cidoem 1799, deixou 800:000 dollars, (o dol- lar vale 900 reis.) John Adanax deixou 75:000 dollars. Thomaz Jaffersou falleceu tão pobre, que se o Congresso não lhe tivesse comprado a bi- bliotheca por 20:000 dollars teria morrido cri- vado de dividas. Madison deixou 150:000 dollars. Monroe morreu pobre, e os parentes tive- ram de ootisar-se para lhe fazer enterro. John Quincy Adams, deixou 85:000 dol- lars. Andrew Jakson, 80:000 dollars. Van Burem, 400:000 dollars. Pock, 150:000 dollars. Taylo, somina egual. Eilmore, deixou 200:000 dollars. Pierce, 50:000 dollars. Buchanan, 200:000 dollars. Abranham Lincoln, assassinado em 1865. 75:000 dollars. E finalmente, Johnson, dos últimos presi- dentes, 50:000 dollars. Como se sabe, o general Ulysses Grant, que foi duas vezes presidente dos Estados Unidos e que chegou a reunir pelo comruer- cio uma considerável fortuna, morreu pobre e lallido. A viuva pôde depois conseguir uma fortuna, calculada em mais de dois milhões de dollars, coin o producto da publicação das Memorias do seu marido. Nunca nenhuma obra litteraria produziu um capital tão avultado ao seu proprietário. E' certo que houve 'nisso como que uma ho- menagem á memoria do illustre morto e uma contribuição popular á família desvalida do maior homem da republica 'nestes últimos tempos. Grant tinha nascido em Pointe- Pleassant, (listado do Ohio), em 27 de abril de 1822, e falleceu em julho de 1885. Unia flor maravilhosa. No isthmo de Eehnantepec descubriu-se uma flor maravilhosa que tem a particularida- de de mudar a côr durante o dia. Pela ma- nhã é branca, ao meio dia vermelha, e á noite azul. Só ao meio dia exliala algum perfume. A exploração «lo petrolco. A industria do petroleo toma dia a dia maior desenvolvimento. A avaliar pelas ul- timas estatiscas, a producção actual por anno é aproximadamente de 90 milhões de hectoli- tros. A metade é fornecida pelos Estados Uni- dos. A região caspiana de Betzon produziu pou- co mais ou menos 10 milhões e meio de hecto- litros, tendo de fechar-se muitos poços, por- que os meios de extracção de que se dispunha não eram bastante aperfeiçoados para se po- der continuar a exploração. A Galitzia dá cerca d'uin milhão e meio de hectolitros ; o Canadá pouco mais d um mi- lhão e a Birmania 315:000. Estes dois últimos paizes conteem jazigos d'uma grande riqueza, cuja exploração prin- cipiou ha pouco. Quando os meios de trans- porte forem melhorados, o trafico ha de assu- mir uma grande importância. O numero tres. O numero tres tem desempenhado um im- portante papel na vida de Bismarck. Ora vejamos : As armas da família do grande chanceller teem a divisa In trinitate robur ; em todas as caricaturas Bismarck apparece com tres cabellos no meio da careca : tem tres filhos Herbert, Guilherme, e Mari ; tres proprieda- des—a de Friedrichsruhe, a de Varzim e a de Schoenhauren ; tomou parte em tres guerras e assignou tres tratados de paz ; combinou a entrevista de tres imperadores e fez a trípli- ce alliança ; luctou com tres partidos políti- cos—o conservador, o nacional, liberal e o ul- trauiontano ; e serviu tres imperadores. Marinha tie guerra. Reuniu no dia 27 de outubro, em Lisboa, sob a presidência do respectivo ministro, a commissão encarregada de dar parecer sob a acquisição de navios, ficando decidido que se apresasse a coustrucção de navios para o ser- viço colonial. Communicados. Macau 3 de dezembro de 1890. AS PILHÉRIAS DO "MACAENSE." Sr Redactor, Este semanário traz no sen numero 48 um variado e gracioso aranzel, em que pretende criticar uma votação feita pelo conselho do governo, como tribunal de seguuda instancia, em dois processos de execução fiscal ; e para fmzar bem o seu arrazoado, cita o artigo 182 do regu- lamento da contabilidade de 31 d'agosto de 1881, que para o caso de que trata com tanta garrulice, não deixa de ser uma verdadeira e primorosa bota bem envernisada ; e termina o seu bem elabo- rado articulado por um riso fatal, isto é, um riso de morte, se por ventura é verdade, como diz, terem-lhe rebentado as carótidas, o que na realidade nos cau- sa profunda magua. Ordinariamente acontecem destes ou outros desastres ao homem jactancioso, porque tendo-se em superior conta, e formando de si colossal opinião, ri dos outros por ter a certeza de ser mais ap- plaud ido do que se vertesse lagrimas. Ria pois á vontade e não deixe esmo- recer essa sua grande jocosidade, meu caro Macaense. Continue, por quem é e não desanime, sim 1 Ponha essa prima- vera abdominal em movimento, e mãos á obra para desenvolver por todos os modos possíveis esse excel lente e agra- dável riso, de modo que não fiquem sem quinhão nessa agradável pandega amena, os ascendentes e descendentes, o tótó e o bichana, e outros bicharocos domésti- cos. Que todos se riam sem que todavia lhes rebentem as carótidas, são os nossos sinceros votos para satisfação nossa e de todos que teem o prazer de o conhecer e admirar. Assim conseguirá, pois, os fins patrió- ticos, e a intuição clara dos bemaventa- rados para mais propicia se tornar a sua adpravel clientela, d'onde precalçará em barda. O que porem nos resta pedir-lhe, é que nunca perca da sua obsequiosa lem- brança os vogues do conselho do gover- no, e que os honre sempre com alguma demonstração do seu aprimorado e apre- ciável aífecto, que elles promettem nun- ca mais peccar commettendo o erro de contrarial-o na sua sapientissima opi- nião. E quem se atreverá rnais a contrariar a voz de tão fuliginoso oráculo 11 Não nos devemos também furtar á obrigação de pedir-lhe o lavor de os aconselhar sempre que poder e quizer, e de os conservar sempre debaixo do seu poderoso auxilio, para os attender nas suas humildes supplicas. Acceite, pois, meu caro Macaense, os aífectuosos agradecimentos, á falta d'ou- tros mais proprios, e creia que as suas problemáticas graças obrigarão sempre á perpetua amisade que lhe consagra o seu obsequioso servo, Desembargador.
  • 4 A L11> Kit D A D K—D HEZ MBR 0 0, 1890 V ariedades. MEMORIA SOBRE A DESTRUIÇÃO DOS 1' I RATAS DA CHINA, I)K QUE ERA CHEFE O CELEBRE CAM-PA V SÀt'1 g O DESEMBARQUE DOS IKGLEZES NA CIDADE DE MACAO. (Continuado do numero antecedente.) Desenganado o magnânimo Alcoforado, de que não conseguia a entrega dos piratas por caminiio amigável, começou a butolos em todos os lugares onde podia aleançalos. Os conimandantes dos nos- sos navios estavão ja tão práticos nos Cannes das ilhas da China, que os ladrões apenas lhes escapa- rão nos pequenos rios, que as nossas embarcações não podião entrar. Catíi-pau-sai teve a arte de en- treter a esquadra portugueza com umas poucas em- barcações, em quanto adestrava a sua gente no exercício da artilharia tomando por mestres os Americanos ingleses, que tinha apresionado. Em fevereiro dê 1810 julgou-se em estado de poder aniquilar a esquadra Macaence. Pairava esta pró- xima da ilha de Lnntáo, quando começarão a apa- recer os piratas alinhados em divisões, com tanta certeza e perecia na manobra, como Mazaredo a vista do almirante Gervis. Nesta occasião foi o nosso invicto Alcoforado superior aos generaes an- tigos e modernos. Dugiiay-Trouin e Nelson não tizerão tanto. Só Diniz pode pintar heroismo simi- lhanlc, quando cauta. A fiel ave, que arma vigilante O grão furor a Jove, Quando sobre os mortaes os raios chove A dextra coruscante, Tão rnpida ao rebanho temeroso Não cala, a garra abrindo, das estrcllas, Como o varão famoso Sobre as iinmensas velas Cahc de grande ira armado Treçando denodado A fera espada, e torna cm seu estrago O azul oceano em roxo lago. (*) Considcre-sc um lago de sete léguas do diâmetro, retalhado de ilhas e escolhos, onde apenas galerno encrespava a superfície das aguas. A esquadra portugueza, constando de seis navios mercantes do porte de quatrocentas a cem toneladas, guarnecidos com cem Portuguezes, e seiscentos e trinta Asiáti- cos. A esquadra inimiga de trezentas embarca- ções, vindo de barlavento empavezada, com 1500 peças de artilharia, e vinte mil homens aguerridos, ccmmnudados por chefe valoroso e desesperado. Neste momento o famoso Alcoforado, treçando de- nodado a fera espada, se julga sutficicnte para ani- quilar o poder do inimigo. Eis dos grandes feitos que elevavào o poeta a entoar na trombeta épica : , • . Canto o peito Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedecerão ; Cesso tudo quanto a Musa antiga canta, Que outro valor mais alto se alcvanta. (t) O signal dado pelo chefe Portugucz foi sentelha eléctrica, (pie ferio o coração de seus companheiros, largando a cada ura a mesma porção de fogo que continha. Dirigirão se os nossos á vanguarda das columnas inimigas, sem fazer fogo ; e desprezando 0 dos contrários até chegarem a tiro de espingarda. Quando estava quase as mãos, uma descarga de metralha, punha o navio pirata que a soffria em desordem, quando o não punha em fugida. Al- guns inajs destimidos passavão para sotu-vento, com destino de nos rrietter entre dois fogos, de que iis nossos não podião livrar se, nem o pertendiam fazer por quererem lançar o estrago por todos os lados. O logo e o fumo mal os deixavam ver as nossas embarcações cercadas das suas. Cada co- lumns inimiga foi formando circulo ã roda de um navio portugnez. Este plano de Cam-pau-sai, foi concertado pelo nosso invicto Alcoforado. O astuto e bravo pirata asSfiiitav.n, que dividindo os nossos navios poderia tiuilos; c o chefe da esquadra Macaence, sa- ■ -lo ijtiê tililiíi Marte eiq cada uni de seus com- panheiros, quiz dar a todos occasião para mostra- rem seu poder. Ficarão desta maneira os navios linrtiiguezes 110 centro de cada circulo dos piratas, ias os r(ni<>s despedidos do centro levavâo á cir- 1 nnif- rcticia o estrago, o horror, e n morte. As liallas da circtimferencia, raras vezes aeertavâo lio ponto central : correndo a corda do circulo, ião *t Ode XXXIV, antístrofe 3. (t) Camões. Canto I, Est. III. empregar-se muitas vezes em seus mesmos compa- nheiros. Todos os commaudantes Portuguezes ga- nharão gloria immortal nesta batalha ; mas lia aca- sos na guerra, que fazem uns mais distinetos do que os outros. O naviojeommandado pelo Senhor Miranda, es- tando na maior, força do combate, eneolhou em es- colho. Cum-pau-sai, a quem nada escapava, vendo o navio encalhado^ êonsidefoti-ò eirí desordem ; mandou carregar inaiyr força • sobre die, a verse podia principiar por destruilo. Alas o sr. Miranda vendo-se perdido, carregado de um lado pela força de Marte, c do oirtro pelo tridénte de Nêptuno, re- solveu ficar engolfado nos abvsrtios, ou debellar tão poderosos inimigos.Mandou de repente tomar ás vélas, e desprezando Neptuno, vibrou a espada con- tra Marte : acerescia ao valor a desesperação, ulti- mo sentimento da alma grande. Neste instante ficarão os outros navios portugue- zes mais ulliviudos do pezo inimigo ; por tercin os piratas carregado com maior força sobrs o navio do Senhor Miranda. Porem este, polido toda a gente da marcação ás batarias, c diffuiidindo em toda a equipagem a sua intrepidez, fez taes estragos nos inimigos, que ja não tinliào. valor de se aproxima- rem delle. Salvo assim dos furores de Marte, de- pressa se arrancou do tridente de Neptuno. Em quanto assim procedia Miranda, fazia o nos- so Caruxa prodígios espantosos. Deparou-lhe tão- bem o acaso no seu circulo o láo do gagode (5). Assim que o impávido Luzilano avistou o deposito da mentira, desprezou todos os perigos. Virou so- bre elle ; e em quanto não o lançou lio abysmo, não descançou. Os bonzos e os seus Ídolos forão submergidos nas aguas. Esta catástrofe cobrio os corações de todos aquelles supersticiosos de nuvem negra e horrível. Quando virão os seus deuzes aboiando nas ondas, perderão o animo : apenas ti Verão forças para largar todas as vélas ; e por en- tre Syrtes forão refugiar-se na bocca do rjo de Iliang-san. Não lia cores assás vivas para pintar sua confu- são 11a fugida. Os nossos cantarão victoria ; e 111- cailçaveis na distruição dos inimigos, não deixarão de pcrseguilos. Porem fo estrago, que os navios portuguezes tinlião soffrido nos cubos e velame, os impedia de aleançulos antes de chegarem a Iliang- san. Dirigio-se Alcoforado para a bocca da bailia, onde clles tinlião entrado, e a)li formou uma linha com a esquadra Macaence de sorte, que só poderão sair delia para entregar-.se. Ainda que os nossos navios não podião chegar á esquadra inimiga, por nao terem agua para navegar ; comttido davão-lhe grande ineommodo, não deixan- do entrnr-lhes mantimentos. Cam-pau-sai, vendo o perigo iniminente, resolveu capitular. Mas uma das primeiras condições era ficar o conselheiro Ar- riaga fiador dos imperiaes por tudo o que fosse re- lativo á sua entrega : e que só trataria com os mandarins, estando o mesmo presente. Logo que Alcoforado participou esta noticia 110 governa de Mação, este o fez saber ao de Cantão, o ao impera- dor. Vierão imniediatamente os mandarins Chu e Pom, tractar com o governo de Ma cão da maneira como Cum-pau-sai devia capitular. ( Continua) •NUM; CONVENTO. Como a agua embutida gruta Gota a gota filtra e cai, Sem saber quem isso escuta O que lá por dentro vai: Como ao longe incerta e baça Numa igreja alveja n luz, Que da lumpada esvoaça E a vidraça reproduz : Mal te vi, moira encantada ! Mas á luz dos olhos tens Murcha a lampada sagrada Dum altar do nosso Deus. Alai te ouvi, mas as suaves Melodias, que te ouvi, São mais doces que as das aves l)a aldeia onde nasci ! Quem teve, bella captiva Coração de te ileixar Aqui enterrada viva, Sein amor, sem luz, sem ar! Era cego e surdo, juro, O miserável algoz, Que não viu olhar tão puro, Não ouviu tão pura voz ! Eu não tendo a faculdade D 'arrasar esta prisão, Sacrifico a liberdade Por tão doce escravidão ! . . . J. de Deus. ANEDOCTAS. Um camponio analphabcto pede para lhe lerem uma carta il'nm compadre. —Compadre e amigo. — Bom. —Remetto-lhe . . . —Melhor. —Uma borracha . . . —Optimo. —Para que m'a mande cheia de vinho. —Raios o partam ! • • No tribunal : —Para que nega o crime, se duas testc111iiiih.1t affirmam que o viram praticar? —Duas testemunhas ? que é isso 'num paiz que tem quatro milhões de habitantes ? » * •- Entre casados : Ali! meu querido! Sinto tanto prazer em estar comtigo, como se tu não fosses meu marido ! • • * Professor: Oh seu bruto, você escreve pistola com cloi» "II" ?, O alumno sereamente : —E' porque esta tinha dois canos. • * —Diga-me, menino ? ! qual é o primeiro sacra- mento da egreja ? A creança não responde. —Pense bem ! ó aqnelle que as crennças rece- bem pouco depois de nascidas, ministrado pelo pa- dre, em presença do padrinho c madrinha. —O baptismo ! —Perfeitamente! E o segundo sacramento ? w que se ministra ás creanças pouco depois de bapti- sitdas, que nome tem ? A creança, depois de pensar um momento : —A vacina ! ■ it i~i 1 TTT TIT i "I"* Annuncios. PELO juizo de direito d'esta comarca e cartório do escrivão que este escreve correm éditos «Io JO dias, a contar da segunda publicação do respe- ctivo annuncio no Boletim official chamando os cre- dores e legatários desconhecidos ou domiciliados fora da comarca, na conformidade do artigo 609* §4.° do Cod. do Proo. Civil, para deduzirem, que- rendo, no processodo inventario dos liens que fica- rani por obito de Januario Antonio dos Remcdios, . residente que foi n'esta cidade, em que é cabeça do casal sua viuva Carmelina Maria Xavier do» Remédios. Macau 1 de dezembro de 1890. O escrivão, JOÃO CARLOS ROCIIA D'ASSUAIPÇÃO. Verificado,—SILVA. PARA ALUGAR OU VENDER 0 PRÉDIO No. 35 na Rua de Sm. Paulo, recentemente cons- truído, com excedentes accommoda- ções, lindo jardim e bom quintal. Trata-se na Redacção da Liberdade. Macau 28 de novembro de 1890. FAZENDA NOVAS RECENTEMENTE IMPORTADAS DE LONDllBS PELO VAPOR GLEN GA Rli 1 E ACHAM-SE A VENDA NA ANTIGA K ACREDI- TADA I.OJA DO CASSAM MOOSA. GRANDE sortimento de fazendas novas e de bom gosto para cavalheiros e senhoras, consta de ELAN ELLA branca e de còres FAZENDA DE LÃ para vestidos MEIAS curtas e compridas LISTO ES de nova moda CINTURÕES para senhoras SAPATOS K BOTINS ELEFANTE (paninho) CASIMIRA BUTÕES, ETC., ETC. Macau, 4 de outubro de 1890. Macho ■ Rua dot- Prazeres, No. 3
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