19 4 4 — Composto e impresso na — Tipografia Sequeira, Limitada R. José Falcão, 122 — Pôrto
Tratado dos Descobrimentos
BIBLIOTECA HISTÓRICA DE PORTUGAL E BRASIL publicada sob a direcção do VISCONDE DE LAGOA DA ACADEMIA PORTUGUESA DA HISTORIA SÉRIE RÉGIA: — DA VIDA E FEITOS DE EL-REI D. MANUEL, de D. Jerónimo Osório — 2 volumes. — D. TEODÓSIO II, PRÍNCIPE E 7.° DUQUE DE BRAGANÇA, de D. Francisco Manuel de Melo, tradução de Augusto Casimiro. — A RAINHA D. MARIA FRANCISCA DE SABÓIA, de António Álvaro Dória. SÉRIE ULTRAMARINA: I —TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS ANTI- GOS E MODERNOS, de António Galvão. II-III — VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD, de Lavai — Versão portuguesa da edição de 1679, correcta e anotada por Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara. IV —ROTEIRO DA VIAGEM DE VASCO DA GAMA, Fac-simile do códice original, acrescen- tado da versão em grafia actualizada. — HISTÓRIA DA ETIÓPIA, do jesuíta Pêro Paez. — A ÁSIA PORTUGUESA, de Manuel Faria e Sousa. SÉRIE CIMÉLIA: I_ OPÚSCULOS HISTÓRICOS, de Damião de Góis.
<$» ANTONIO GALVÃO TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS TERCEIRA EDICAO Minuciosamente anotada e comen- tada pelo visconde de Lagoa, com a colaboração de Elaine Sanceau. £. 16206 Reprodução diplomática da raríssima edição P RIN C E PS, com versão actualizada por César Pegado, pri- meiro Bibliotecário da Biblioteca Ge- ral da Universidade de Coimbra, e um estudo bio-bibliográfico de Antó- nio Galvão pelo visconde de Lagoa. B. H. SÉRIE ULTRAMARINA N.' I LIVRARIA CIVILIZACAO-EDITORA
DESTA EDIÇÃO FtZ-SE UMA TIRAGEM ESPECIAL DE 200 EXEMPLARES NUMERADOS. EM PAPEL DA COMPANHIA DO PRADO, DE MAIOR FORMATO, RUBRICADOS PELO DIRECTOR DA BIBLIOTECA PROPRIEDADE DA LIVRARIA CIVILIZAÇÃO PÔRTO
'*> TRATADO, mi Que compôs o nobre óc no- tauel capitao AntonioGaIuao,do$ diuerfos Sc defuayrados caminhos, por onde nos tempos paliados a pi- menta ôceípccearia veyoda Indiaátf noflas partes, te afside todosos def cobrimentos antigos & modernos, quefáofeitosateaerademil te qui- nhentos &cincoenta.Com os nomes particularesdaspeflòas qucos fi- zeram : &em que tempos te as fuas alturas,obra ccr tomuy notauelôc copiofa. Foy viíu & examinada pela íanta Inquiííçáo, Impreííaem cafadeloam da Barreira impreF- íor dcl rcy noíío fcnhor,na Rua deia Mamede Rosto da edlç3o princeps, de 1563, do *Tratado dos Descobrimentos»
TRATADO DESCOBRIMENTOS ANTIGOS, E MODERNOS, Feitos até a Era de 1550. com os nomes particulares das pelToasque os fijeraõ: e em que tempos, e as íuas alturas, e dos deívaira- dos caminhos por onde apimenta , c eípeciatia veyo da índia ásnoflaspartes; obra certo muy notável,ecopioía. COMPOSTO PELO FAMOSO ANTONIO GALVAÕ, OFFERECIDO AO EXCELLENT1SSIMO SENHOR DOM LUIZ DE MENEZES Quinto Conde da Ericeira , do Concelho de Sua Mageflade, Co- ronel , e Brigadeiro de Infantaria , VifoRey , e Capitaõ Ge- neral , que foy dos Ellados da Índia , &c. LISBOA OCCIDENTAL, NA OFF1C1NA FERR EIR1 AN A. M. DCC. XXXI. Com todas as licenças necefjarias. Rosto da segunda ediçSo, de 1731, do «Tratado dos Descobrimentos»
Retrato de António Galvão, reproduzido da segunda edição do «Tratado dos Descobrimentos*
Estudo bio-bibliográfico
Dois empreendimentos avultam entre os que revolucionaram, pelas consequências político-eco- nómicas, a Europa e o próprio Mundo. O primeiro sobressai do caminho marítimo da índia e da sua influência no comércio das especiarias; o segundo representa-o o domínio por- tuguês nos arquipélagos de Banda e Maluco, ou seja a extensão directa do trato mercantil às origens dos produtos demandados. Os sucessos que levaram os portugueses à índia e à fundação ali de um império imenso já foram objecto de análise metódica e criteriosa, senão de propaganda adequada; outro tanto não podendo dizer-se dos que os conduziram às ilhas famosas do cravo, da maça e da noz, cujo estudo condigno e divulgação continuam por realizar. São do domínio de quantos se interessam pela história maravilhosa de Portugal os nomes dos obreiros da rota marítima e do império da índia, bem como alguns pormenores capitais de suas vir- tudes, constâncias, triunfos e reveses.
16 ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO iQue sabe, porém, o português medianamente culto da extensão do império aos arquipélagos das especiarias, dos cuidados e dificuldades de que ela foi objecto? Na obra em publicação Grandes e Humildes na Epopeia Portuguesa do Oriente expomos com detalhe as peripécias da navegação Malaca- 'Banda, traçada por António de Abreu e aperfei' çoada por pertinaz observação dos agentes físicos da superfície dos mares, de que não temos notícia concreta, mas que atesta a viagem empreendida por Simão de Abreu, em Maio de 1523, de Ternate a Malaca, pelo Norte das Celebes, estreitos de Basi- Ian e Balabac, costa de Bornéu até à altura do Cabo Datu e estreito de Singapura. Confirma aquela navegação o estudo dedicado pelos portu- gueses aos mares, rotas e regiões que entravam a explorar, com o objectivo económico de libertar o tráfico entre Malaca e as Molucas do inconveniente de longas estadias em Banda, aguardando monção favorável. Na mesma obra e nas biografias de quantos governaram aqueles arquipélagos fertilíssimos e nêles militaram com bravura, expomos as peripé- cias da sua ocupação e sujeição, empresa gigan- tesca em que prima o esforço do navegador, guer- reiro, administrador e colonialista que foi António Galvão, autor do Tratado que ora reedita a Biblio- teca Histórica de Portugal e Brasil. Não é êste o lugar para preencher as lacunas que caracterizam as tentativas, algumas excelentes,
ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO 17 de biografar o homem a quem o culto da equidade e da justiça, mais do que notáveis feitos bélicos, granjeou o título de Apóstolo das Molucas. Tentá-lo-emos em Grandes e Humildes na Epopeia Portuguesa do Oriente, sem prejuízo do esboço que aqui nos propomos traçar do autor da obra reeditada, e da noticia bibliográfica da mesma. * * * António Galvão nasceu do convívio sexual de certa dama, cujo nome desconhecemos, com Duarte Galvão, secretário de D. Afonso V e D. João II, que o fêz do seu Conselho e o mandou por embaixador a Maximiliano, rei dos romanos, qualidade em que também serviu a D. Manuel I, cujo cronista-mor foi, que nêle delegou as negocia- ções com o pontífice Júlio II de uma liga contra o Grão Turco e <5 Soldão do Egipto, e várias embai- xadas às cortes de França, Áustria e Abissínia. Pelo lado paterno, era António Galvão neto de Rui Galvão, escrivão da câmara de D. Afonso V e notário geral do reino, e de sua mulher Branca Gonçalves, havida em Catarina Anes pelo Padre Pedro Gonçalves, cónego da Sé de Lisboa e prior de Santa Maria de Óbidos. O autor da Biblioteca Lusitana atribui à índia a naturalidade de António Galvão, informe que alguns investigadores modernos repudiam por indocumentado, sem consideração de ser também 2
18 ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO falha de prova a presunção, com que argumentam, de coincidir a primeira viagem de Duarte Galvão ao Oriente com a sua embaixada ao Preste João. A probidade de Diogo Barbosa Machado acredita-lhe os dizeres e justifica o patrocínio que persistimos em dispensar à naturalidade indiana de António Galvão até prova documentada da impos- sibilidade de o pai ir à índia antes da embaixada à Abissínia ou de a mãe dar ali à luz um filho conce- bido em Portugal. António Galvão embarcou para o reino em frota que não logramos identificar, afim de rece- ber educação adequada à sua nobre estirpe e à pro- sápia de que justificadamente podia blasonar. Não encontrámos vestígio das datas do seu nascimento e primeira vinda a Portugal, onde, aos 23 de Janeiro de 1522, iniciou na nau Nazaré, da capitania de seu primo D. Pedro de Castro, a carreira marítima e militar que havia de guindá-lo à glória. No decurso da invernada da Nazaré em Moçambique, acedendo D. Pedro de Castro à soli- citação instante dos enviados de Zanzibar e Pemba, resolveu trazer de novo à obediência daqueles régu- los as ilhas de Querima, ao tempo, submetidas ao rei de Mombaça. Para tanto embarcou no batel da sua nau, no esquife de Cristóvão de Sousa e em vários paraus indígenas, cêrca de cem homens, entre êles António Galvão, que muito se distinguiu nas escaramuças travadas com as gentes de Querima e Mombaça,
ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO 19 pondo em debandada, com poucos companheiros, poderosas formações inimigas que acometiam gru- pos isolados de portugueses, libertando Cristóvão de Sousa do aperto em que os mouros o tinham e impedindo a chegada de reforços ao adversário. Conseguido o objectivo de sujeitar as ilhas à soberania de Zanzibar, e perdido, pelo afunda- mento das embarcações que deviam transportá-lo, o rico despojo de duzentos mil cruzados, resolveu D. Pedro de Castro tornar a Moçambique e con- ceder a António Galvão o comando do esquife, que os ferimentos impediam Cristóvão de Sousa de reassumir. Não foi desprovida de incidentes a navegação de regresso, em que Galvão e os seus homens pas- saram assaz de trabalhos, fome e sede, e pelejaram, em grande desproporção numérica, com os íncolas de uma povoação das cercanias, aos quais venceram e compraram os mantimentos de que careciam, tendo Galvão o ensejo de exercer ali, pelo perdão concedido a quem premeditara hostilizá-lo, a polí- tica conciliatória que tanto o celebrizou depois. Em Agosto de 1523, após o desembarque de passageiros e tripulantes, foi a Nazaré, ao tempo em que ainda permanecia fora da barra de Goa, batida por formidável tormenta, que a pôs em pe- rigo iminente de soçobrar, tornando audaciosa lou- cura qualquer tentativa de auxílio. Com a decisão e desprezo do perigo que o caracterizavam, saltou Galvão para o primeiro batel que topou, acompanhado de alguns amigos e
20 ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO criados e de seis ou sete que o haviam sido de seu pai, e aproou resolutamente à nau, a despeito da fúria dos ventos e mares encapelados, surdo às vozes apavoradas que lhe requeriam o desembar- que sob pena de perdição inevitável. Retorquiu o herói que o não movia a salvação de fazenda sua mas sim da de el-rei e da própria nau, propósito de que o não arredariam homens amedrontados nem elementos enfurecidos. Constatando logo que o timoneiro caminhava para terra, compeliu-o, sob ameaça de morte ime- diata, a pôr a proa ao mar, que sulcou em perigo constante de vida. Entrada a nau, a despeito da ressaca violenta, e patente a impossibilidade de salvamento, assen- taram Galvão e D. Pedro de Castro em dar à vela e entrar pela terra dentro, valendo-se da maré cheia. Assim se fêz e assim acabou a Nazaré, sem perder de todo a carga e sem da cidade ousar nin- guém acudir-lhe, com mêdo do mar. A amizade guardada por António Galvão a D. Pedro de Castro salvou este de provável morte, pouco depois, quando ambos se encontravam de passagem em Calecute, a bordo da frota que o governador da índia, D. Duarte de Lemos, levava a Cochim, em viagem de inspecção das fortalezas costeiras. Foi o caso que indo D. Pedro de visita à cidade, na companhia de uns quantos portugueses, os provocaram os mouros, levando a ousadia ao ponto de ferirem alguns, que procuraram alcançar
ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO 21 a fortaleza em precipitada fuga. Neste comenos, António Galvão, que, receoso, acudia, com quatro criados, em busca do amigo, vendo a fúria dos mou- ros armados que rodeavam aquele, fêz-lhes frente e tentou demonstrar com razões o despropósito que os movia, protegendo simultaneamente a retirada de D. Pedro para a fortaleza, por uma rua estreita, não sem que o adversário redobrasse de insolência, batendo nos escudos e brandindo as agomias Perante a temeridade de um hércules mouro que pretendia à fôrça ferir D. Pedro, travaram os portugueses das espadas, não resistindo António Galvão ao desejo de desafiar o atrevido, e a outro que o igualava em petulância, para combate sin- gular, e isto com tanta decisão que o adversário acuou e os portugueses retiraram livremente. Terminada a viagem do governador a Cochim, tornou António Galvão ao reino em uma das naus que zarparam da índia no comêço de 1524. Não lhe consentiram o anseio de glória e espí- rito aventureiro repouso prolongado, e, assim, vemo-lo demandar de novo o Oriente, aos 16 de Maio de 1526, provido da capitania da nau Santa Maria do Espinheiro, da conserva da frota de qua- tro velas com que Francisco de Anhaia deixara o Tejo no dia 8 do mês antecedente. O atraso da partida foi causa de que a Santa Maria do Espinheiro andasse, durante cêrca de quarenta dias, ora na volta do mar, ora na da terra, sem lograr afastar-se da Guiné, para onde a impelia a fôrça das águas que corriam velozmente.
22 ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO E como António Galvão entendia de navega- ção, sugeriu repetidas vezes ao seu piloto a conve- niência de seguir na volta do mar, não obstante os ventos escassos, critério que secundaram os oficiais de um navio vindo da ilha de São-Tomé para Por- tugal, os quais, compenetrados da inutilidade de aconselhar a arribada, demonstraram ao piloto a necessidade de se afastar da terra, navegando como se fôsse seu destino o Cabo de Santo-Agostinho, na costa do Brasil. Com o que, convencido o piloto do seu êrro, pediu desculpa ao capitão e seguiu a navegação requerida. Êste incidente demonstra os conhecimentos náuticos de António Galvão e revela ao mesmo tempo a relutância que sempre manifestou de recor- rer à força ou invocar a disciplina para que suas opiniões prevalecessem sôbre as dos subordinados. Os sucessos desta mesma viagem patenteiam simultàneamente o espírito conciliatório do capitão, como vimos, e a sua intransigência em igual maté- ria, como vamos ver. Reportemo-nos à notícia de Fernão Lopes de Castanheda da navegação empreendida depois da Guiné. Demonstrada a deficiência do piloto, chamou Galvão a si a direcção náutica do navio, em que evidenciou invulgar perícia ao determinar, contra o parecer unânime da maioria dos oficiais, que as julgavam varadas, o momento exacto em que avis- tariam as ilhas de Tristão-da-Cunha.
ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO 23 A passagem do Cabo de Boa-Esperança, atin- gido em Setembro, suscitou novas divergências entre capitão e piloto. Pronunciava-se este pela impossibilidade de alcançar a índia numa época em que já deviam estar ali, ao que aquele retorquiu ordenando a navegação por fora, contra o parecer do primeiro e dos muitos a quem é/e convencera de que corriam para naufrágio certo. E contudo, pormenoriza Castanheda, tendo o piloto os mais da sua parte, determinou de levar a nau a Moçambique, mandando governar para lá, o que sabendo António Galvão mandou logo gover- nar para onde queria, pelo que o piloto lhe encam- pou a nau, e fêz fazer um auto de como lhe o capitão tomava o seu ofício e queria meter a nau no fundo, requerendo-lhe da parte de el-rei que lhe deixasse fazer seu caminho. E como António Galvão visse que o melhor era ir por fora, não quis senão fazer o que lhe parecia bem, e disse que êle mandaria a via. E porque lhe não mudassem a derrota tinha de noite e de dia uma agulha na sua câmara, em que via para onde governavam... E depois que o piloto viu quão bom conselho fôra o de António Galvão em ir por fora, e que esperava de ser mui cedo com a costa da índia, pediu-lhe perdão dos requerimen- tos que lhe fizera, louvando-o do melhor piloto do mundo... A irredutibilidade de Galvão em aceder aos rogos dos seus oficiais e passageiros, que anteviam o naufrágio e a morte no prosseguimento da via- gem, constitui demonstração valiosa da perícia náu-
24 ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO tica do capitão e da confiança que nela depositava, qualidades que todos louvaram ao avistarem Cale- cute, em fins de Outubro, e ao constatarem que a Santa Maria do Espinheiro surgia incólume no meio dos restantes navios da frota de Francisco de Anhaia, fundeados em Cochim. Lavrava então na índia, acirrada, a disputa entre Lopo Vaz de Sampaio e Pedro Mascarenhas para a governança daquele Estado. Lopo Vaz, que por então chegou a Cochim, onde a população se pronunciara pelo competidor, fez muito bom gasalhado a António Galvão e aos demais capitães, e dando-lhes conta de tudo o que era passado por é/e, e, mostrando-lhes os seus papéis e o traslado da carta que el-rei escrevera a Afonso Mexia, em que removera as sucessões velhas e ordenara outras novas, lhes pediu parecer sobre o caso. António Galvão e os companheiros responde- ram que Lopo Vaz era sem dúvida o governador legítimo da índia. Durante a estadia em Cochim, teve Galvão a inesperada notícia de que o P.e Francisco Álvares, vindo da Abissínia, era portador da ossamenta de seu pai, falecido na ilha de Camarão, aos 9 de Junho de 1517, quando demandava, por embaixa- dor do monarca português, a capital do Preste João. Dando largas à piedade filial que era uma das suas nobres virtudes, saiu Galvão a receber em pro- cissão, com todos os clérigos, frades e confrarias da cidade, o despojo fúnebre do progenitor, ao qual
ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO 25 simulou dar sepultura junto do altar-mor, do lado do Evangelho, no mosteiro de Santo António, para iludir a relutância e mau prognóstico que os mari- nheiros tiravam do transporte de ossadas ou cadá- veres. Levou, porém, o caixão secretamente, a coberto da noite, para bordo da sua nau, na qual o trouxe a Lisboa. Carregada a Santa Maria do Espinheiro, zar- pou para Cananor, onde meteu pólvora, gengibre e mantimentos, reunindo-se ali a duas outras naus da frota de Francisco de Anhaia, na entrada de Janeiro de 1527. Aos 18 daquele mês e ano, catorze dias após a partida da Flor da Rosa, da capitania de Tristão Vaz da Veiga, iniciou a Santa Maria do Espinheiro a torna-viagem, no decurso da qual navegou iso- lada, por adornar muito e não lhe consentir o redu- zido andamento a marcha em conjunto com as outras naus, de uma das quais houve vista nos dias dois, três e quatro de Abril. Na noite de Domingo de Páscoa, 21 de Abril, passaram despercebidamente junto à ilha de Santa Helena, onde Galvão deliberara fazer aguada. Êste percalço colocou os tripulantes em gran- des apuros, pela míngua de água, e teria graves resultados se não fôsse pelas chuvas e trovoadas apanhadas no decurso de três dias e noites conse- cutivas, que permitiram a recolha de trinta pipas do apetecido líquido. A navegação prosseguiu sem novidade digna de registo até à altura da ilha Terceira, onde houve-
26 X ram vista de uma nau que recearam fôsse de corsá- rios franceses, e, logo, de uma almadia que andava à deriva com cinco brancos e quatro escravos. Reco- lhidos por António Galvão, declararam ser mari- nheiros das duas naus que se haviam adiantado à Santa Maria do Espinheiro, e terem-se perdido quando tentavam adquirir mantimentos em uma ilha cujo nome desconheciam. Da Terceira, onde tardaram dezoito dias aguardando uma caravela e algumas naus vindas de São-Tomé, Cabo-Verde e Brasil, porque assim determinava o regimento, anunciaram ao rei a breve chegada a Lisboa, cuja barra entraram no dia 24 de Julho. Supomos que António Galvão seguiu logo para Coimbra, a avistar-se com o monarca e seus ministros, ali fugidos à peste que assolava a capital. Ou fôsse pela necessidade de repouso ou por conveniências de natureza privada, ou, ainda, por- que a sua provisão da capitania de nau da índia se restringia a uma viagem de ida e volta, fixou-se Galvão transitoriamente no reino, deixando o comando da Santa Maria do Espinheiro, que de novo partiu para o Oriente, aos 18 de Abril de 1528, na armada de Nuno da Cunha, mas sob a capitania de D. Fernando de Lima. Desconhecemos a actividade de António Gal- vão em Portugal durante o interregno de quási seis anos que vai da chegada, em 24 de Julho de 1527, à primeira semana de Março de 1533, em que lar- gou para a índia, por passageiro da Flor de la Mar,
ESTUDO BIO-BIBLIOGRÁFICO 27 capitânia da frota de D. João Pereira, provido, por mercê régia de 19 de Março de 1532, em justo galardão de serviços transactos, da capitania de Maluco, por um triénio, com o vencimento anual de seiscentos mil reais. A circunstância de Galvão não ter superin- tendência directa na navegação, dispensa-nos de pormenorizar os sucessos da viajem, que, não obs- tante, lhe proporcionou novo ensejo de evidenciar profundos conhecimentos náuticos. Foi o caso que, decidindo D. João Pereira, com o parecer favorável do mestre e do piloto, aguardar amainando, junto ao parcel de Sofala, a chegada dos navios da conserva, opinou António Galvão que pairassem com o traquete para a nau aproar ao mar e resistir às águas que corriam para terra; perigo acentuado pela vizinhança do trópico e iminência de trovoadas. Acatando, contrafeitos, o parecer de Galvão, a que o patrocínio de D. João Pereira deu foros de ordem, persistiram o piloto e o mestre, ao saberem aquêles recolhidos às suas câmaras, em amainar, do que resultou o descair da nau para as restingas, tal como Galvão previra. Ao sentirem as primeiras pancadas que a Flor de la Mar deu com o leme e com a quilha, acor- daram todos em sobressalto, procurando uns a sal- vação de seus haveres, outros a de suas pessoas. Desta confusão, prenúncio de desgraça, a que se associava o próprio capitão, defendendo, de espada desembainhada, o batel, sem cuidar da nau, os
28 ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO livrou a intervenção serena e oportuna de António Galvão, ordenando que içassem o traquete e mano- brassem o leme. A constatação de que aquele se perdera, tor- nou desesperada a situação já crítica, e provocaria o desfalecimento de quantos não tivessem a têm- pera excepcional do nosso herói. Com a calma que nunca o traiu nos lances arriscados de uma vida fértil em perigos e aven- turas, impôs Galvão ao piloto e ao mestre que ces- sassem lágrimas e lamentações, motivo de desânimo para todos, ao mesmo tempo que aconselhava o desvairado capitão a dominar-se e não dar azo a que, julgando-se perdida, arremetesse a multidão ao batel e ali disputasse os lugares a botes de espada e golpes de punhal. Tomadas estas disposições de emergência, a todos animou com o argumento de que a pouca água expelida pela bomba provava que a nau não abrira. Lançou em seguida mão do prumo, e, achando que flutuavam em dez braças, mandou que largassem uma âncora e carregassem os traquetes. A manhã trouxe-lhe a feliz vista das duas naus da conserva, cujos capitães aprovaram o propósito de Galvão de cobrir, sem delongas e sem leme, a reboque do batel, as catorze léguas que os separa- vam de Moçambique. Ali, verificada a dificuldade de reparar a avaria da quilha, pronunciou-se a maioria pelo trasbordo da carga e tripulantes e pelo prosseguimento da viajem, com abandono da Flor de la Mar, que oportunamente seria desmanchada.
ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO 29 Surdo à conveniência de apressar a chegada à índia e zeloso da honra do capitão a quem se propunha injustificado desamparo do navio que lhe fôra confiado, insurgiu-se Galvão altivamente con- tra a proposta indigna e exigiu de D. João Pereira que tirasse a nau a monte ou às marés, que lhe desse o possível fabrico e a levasse depois ao seu destino. E como D. João tinha bem experimentado quão bom conselho era o de António Galvão, tomou êste: e consertada a nau foi-se nela à índia, e quan- tos iam na nau, vendo que António Galvão se em- barcava, se embarcaram também, posto que estavam fora dela, e bem se pode crer que, depois de Nosso Senhor, êle salvou aquela nau duas vezes. Em Goa encontrou António Galvão o gover- nador Nuno da Cunha, que ali invernava, aguar- dando a oportunidade de seguir para Calecute, a firmar pazes com o Samorim. Na impossibilidade de dar-lhe, por carência de vaga, posse imediata da capitania de que estava provido, e desejoso de valer-se logo dos serviços do ilustre mareante, confiou Nuno da Cunha a Galvão o comando de uma fusta, com a qual, pre- sumimos, comparticipou na expedição a Calecute, e, após o regresso a Goa, na que o governador levou a Dio, a pedido do rei de Cambaia, com escala por Chaúl e Baçaim. Sabedor em Dio da irrupção mogor por terras de Cambaia e receoso de que ela se estendesse a Baçaim, despachou Nuno da Cunha para ali a Garcia de Sá com quatrocentos portugueses, em
30 ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO cujo número figurou, para glória das nossas armas, como vamos ver, o intrépido António Galvão. Insensível às súplicas e clamores dos habitan- tes, mas dando ouvido crédulo ao que lhe diziam do poder imenso do exército rnogor, que o recém-che- gado Gaspar Prêto computava em vinte mil cavalei- ros e peões sem conta, cônscio da impossibilidade de obstar a que o primeiro choque se desse em campo aberto e em condições de grande desvanta- gem para a sua hoste diminuta, decidiu Garcia de Sá, incitado por alguns pusilânimes, embarcar, abandonando ao inimigo a cidade que lhe cumpria defender. Eis senão quando troou a voz varonil e desassombrada de António Galvão, gritando ao precipitado comandante: Não me negareis, Senhor, que quando aqui viestes por mando do governador que não sabíeis que os homens que trazíeis não eram mais do que agora são, a respeito dos inimigos que nesse tempo imaginastes muito bem quantos haviam de ser, pois queriam tomar esta terra, a que o governador vos mandava para lhe resistir, e bem sabíeis então que não tínheis onde vos defender senão no campo, e pois vos então não escusastes, podendo-o fazer sem desonra, que o não sabia ninguém, não vos escuseis agora, com ficar desonrado e os portugueses com descrédito, pois é em público. E por suster êste que êles há tantos anos que têm ganhado na índia, será muito serviço de Deus e de el-rei perder as vidas que duram tão pouco, e isto vos requeiro da sua parte que o façais, quanto mais que sem as per-
31 der nos podemos defender com a artilharia e espin- gardaria que temos, que nos defenderão a dianteira, e a traseira o mar, e mais faremos mui asinha uma tranqueira de quanta madeira aqui temos, que com uma cava ficará fortíssima. Dignas palavras que fizeram cair Garcia de Sá prontamente em si e o levaram a afastar quem lhe apontava o caminho da ignomínia, louvando por elas António Galvão e confiando-lhe a construção de metade da tranqueira. Bendito protesto, conclui o historiador ao constatar que ê/e salvou Baçaim, de cujo assédio o inimigo desistiu ao saber os defen- sores apercebidos. Para memória da atitude digna e resoluta que nos conservou uma cidade, sem derramamento de sangue, insistiu Nuno da Cunha, quando em Abril de 1536, terminada a fortificação de Dio, largou dali para Baçaim, em atribuir a Galvão, que a me- recia por muitas vias, a honra de assentar a pri- meira pedra da fortaleza a construir. Pôsto o que, delegou o governador em Garcia de Sá a direcção das obras e regressou a Goa, acompanhado de António Galvão, a quem a glória ia finalmente franquear o caminho das Molucas e da imortalidade. Vejamos, em fugaz relance pelo passado, a situação política e militar que aguardava o novo capitão daquelas ilhas. Surtas na vastidão de um mar povoado de arquipélagos, atóis e ilhéus, isoladas do govêrno da Índia por distância enorme, de navegação difícil
34 ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO a nau Santo Espírito e as desavenças que isso sus- citou com o feitor Rodrigo Rebelo, a eminência de sangrenta revolução de consequências fatais para o prestígio lusitano, os pedidos insistentes de so- corro que o Ataíde enviava a Banda, Malaca e Goa, precipitaram a partida de Galvão para Cochim, onde lhe cumpria abastecer-se do necessário. Ali o aguardava, porém, a má vontade do vedor da Fazenda e a ausência de dinheiro nos cofres públicos, contratempo susceptível de provo- car, em indivíduo de menor arrojo e persistência, o adiamento da posse da capitania — espectativa dos amigos do Ataíde — ou a supressão do pro- pósito de bem servir — ambição de quantos me- dravam no crime, especulando com a miséria alheia. Era felizmente de dura têmpera o ânimo de António Galvão, que optou, resoluto, entre o re- púdio do benefício material e o do interêsse pátrio, pelo do primeiro, renunciou ao recebimento anteci- pado de pingues vencimentos e empregou seus haveres pessoais, que triplicariam investidos em objectos de permuta mercantil, na aquisição, para benefício de el-rei e prestígio próprio, de serras, machados, enxadas, alfaias, ferro e chumbo, bem como de panos de Cambaia, açúcar, conservas, trigo, vinho e azeite de Portugal. Para transporte do que, da luzida gente alis- tada sem recurso aos adiantamentos usuais, e das mulheres requeridas para o plano magnífico de estabelecer em Ternate uma colónia portuguesa
ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO 35 de fixação, fretou à sua custa uma segunda nau, cujo comando deu a Francisco Nunes, e vele- jou de Cochim no dia 8 de Maio de 1536, por capitão também de alguns navios destinados a Malaca. Na cidade opulenta com que o ínclito Albu- querque enriquecera o luso património, cujo pôrto entrou aos 18 de Junho, teve Galvão notícias desa- nimadoras das coisas de Ternate, onde os portu- gueses, acolhidos à fortaleza e hostilizados pelo indígena, se viam no extremo de dar oito mil reis por uma cabra, vinte por um porco, quatro cruzados por uma galinha, cinco por um alqueire de arroz, apertados pela fome, e devorados quantos gatos, cães e ratos lá houvera. Com as infaustas noticias vinha a do sucesso em Talangane da minguada hoste de Francisco de Sousa Alcoforado e Estêvão de Chaves sobre uma esquadra moura de trezentas velas, a das vitórias de Tristão de Ataíde e Francisco de Sousa em Toloco e Tabanga, novas que seriam de bom pres- ságio se as não acompanhasse a da persistência inimiga em recusar a paz. Enojado da sombria perspectiva e tirando dela novas forças, que não desalento, apesar da doença grave que então o acometeu, velejou Galvão, aos 18 de Agosto, de Malaca, em cujo pôrto completara, a expensas suas, o apetrechamento da frota, para Ternate, que alcançou no dia 25 de Outubro, por via de Bornéu. O desembarque teve cunho solene, com pro-
36 ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO cissão e cânticos laudatórios, no meio do entusiasmo de quantos se julgavam, com razão, libertos alfim da miséria em que viviam. Foi, pormenoriza Fernão Lopes de Casta- nheda, o prazer muito grande em todos, dizendo que os fôra remir do captiveiro em que estavam, principalmente em levar tantos mantimentos como levou: E por que êle sabia a necessidade que havia dêles, e a grande valia que tinham, pôs taxa nêles, e para que tivesse mais vigor, e todos soubessem que havia de permanecer, começou logo nos de el-rei que estavam na feitoria, rrçandando que se dessem trinta gantas de arroz, que são oito alquei- res, por quatrocentos e oitenta reis, à razão de ses- senta o alqueire, valendo dantes a cinco cruzados, e a êste preço se pagasse nêle o mantimento e sôldo que fôsse devido às partes, a que ainda deviam a alguns do tempo de António de Brito, e nisto afora el-rei ganhar muito em se desendividar, ganhou muito no emprêgo dêste arroz. E assim mandou que a jarra de sagu se desse a duzentos reis, e um porco três mil reis, e uma cabra dois cruzados, e um cabrito três tostões, um leitão um cruzado, uma gali- nha cinqufenta reis, e assim tudo o mais muito barato para quão caro estava dantes (como disse atrás) e assim em tôdas as outras coisas. E para se melhor executarem as penas desta taxa, fêz um juiz ordi- nário e dois almotacéis, que até então não houvera, e deu-lhes os cinco livros das Ordenações, que levou para isso da índia, que foram os primeiros que se viram naquela terra: e assim levou para o ecle-
ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO 37 siástico as Constituições que o Cardeal D. Afonso, de gloriosa memória, fêz. E vendo a gente quão amigo António Galvão era do bem comum, e quão zeloso da justiça, de cada vez lhe queriam maior bem, e davam mais graças a Deus por lhes dar tal capitão. E depois de ter ordenado o que pertencia ao bom regimento da terra, entendeu em reparar as coisas necessárias para defensão da fortaleza, especialmente na arti- lharia que achou muito danificada, a grossa sem reparos e a miúda sem rabos nem piães, e ainda diziam que falecia a melhor, que Tristão de Ataíde dera aos juncos dos mercadores para segurança do cravo que lhe levavam, nem havia ferreiro para que a consertasse, porque, um que havia, dera-lhe Tris- tão de Ataíde licença para Malaca na monção pas- sada, nem havia pólvora nem carvão para se fazer: e António Galvão fêz tanta diligência, que achou um ferreiro que andava encoberto, a que deu tanto de sua fazenda, que quis usar do ofício, que impor- tava tanto que sem êle não se podia consertar a artilharia, que logo foi consertada e reparada de tudo o necessário: E feita pólvora, e António Gal- vão com os fidalgos e pessoas principais iam ao mato a cortar madeira para os reparos das bombar- das, e lenha para se fazer carvão, e a traziam às costas com imenso trabalho, o que não se pudera fazer se António Galvão não levara a ferramenta que levou da índia para êste mester. A confiança espontânea que as medidas salu- tares de António Galvão atearam nos habitantes de
38 Ternate não foi todavia extensiva aos soberanos revoltados de Maluco, cujas depredações se acen- tuaram por forma a compelir os portugueses ao uso permanente de armas e a alarmes constantes de dia e noite. Porque urgia pôr têrmo a uma situação pre- judicial ao saneamento administrativo que tinha a peito, enviou Galvão o capitão-mor do mar, Gon- çalo Vaz Sernache, por embaixador aos oito régu- los, de Maluco e Papuásia. reunidos em Tidore. As negociações não conduziram à paz defini- tiva, mas a uma trégua que o inimigo traiu, sem razão, a breve trecho. O que levou Galvão, ponderados os inconve- nientes da espantosa desproporção numérica e os que adviriam, esgotadas as provisões trazidas da Índia, das dificuldades insuperáveis que o adver- sário punha ao reabastecimento da fortaleza, a arriscar no campo de batalha, em lance leonino, as vidas que de outro modo a fome ceifaria. Praticado isto em conselho, opinou a maioria que se não levassem tão poucos contra tantos e que melhor seria acolherem-se à fortaleza e solicitar reforços da índia, critério que Galvão contrariou, insistindo na refrega. No triunfo desta opinião, que a prudência con- denava e na responsabilidade tremenda que Galvão assumiu perante os subordinados, a Pátria e a His- tória, vemos a demonstração simultânea da con- fiança do capitão em si próprio, da inutilidade em que tinha o apêlo para o govêrno de Goa e da cer-
ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO 39 teza que o animava de progredirem os escolhos da emprêsa à medida que as privações afectassem o prestígio de quem se propunha pô-la em prática, desanimassem os soldados e incitassem o adver- sário. Os aprestos foram rápidos mas metódicos, como requeriam a determinação do capitão e a sua prudência comprovada. Pormenor digno de reparo, pela especulação a que se prestava quando ao entusiasmo vibrante cumpria suprir a esmagadora desproporção numé- rica, foi a entrega da fortaleza de Ternate, durante a ausência do capitão e em sua sucessão transitória, se perecesse na batalha, ao mesmo Tristão de Ataíde, cujos desmandos e latrocínios haviam pre- cipitado a vinda de Galvão, dêle conhecidos em detalhe. Tem a História amiúde sucessos que mais vale não tentar esclarecer. Debalde diligenciou Fernão Lopes de Casta- nheda, o cronista minucioso dos feitos de António Galvão, em cuja narrativa decalcaram João de Bar- ros e os historiadores de quinhentos suas notícias do Apóstolo das Molucas, por nós fielmente se- guido neste esboço, justificar assim a anomalia: ...e na fortaleza deixou por capitão Tristão de Ataíde, porque não podia ficar outra pessoa mais pertencente para isso, assim por ser tão esforçado, como por ser tio de D. Estêvão da Gama, que estava em Malaca, que o socorreria logo se fôsse caso que António Galvão morresse na batalha, e
40 ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO também folgou de o deixar para que tirasse instru- mentos de seus serviços à sua vontade, e cobrasse a perda que tinha recebido com a guerra, e deixou com êle seus criados e amigos. O arrazoado não procede, integral ou parcial- mente, porquanto nem D. Estêvão da Gama estava em condições de socorrer o tio sem prévio assenti- mento e auxílio do governador Nuno da Cunha, nem nêle o afecto familiar primava sôbre os ditames do dever, como o próprio Galvão verificara ao ser instado a adiar a partida para Maluco, por motivo da doença que o acometera em Malaca e não obs- tante a situação precária em que se encontrava Tristão de Ataíde e os seus insistentes pedidos de socorro. A oportunidade que se lhe oferecia de tirar instrumentos de serviços prestados, dispensa comentários, visto a superintendência de Galvão ser indispensável à veracidade de tais documentos, que o interessado deturparia a talante se pudesse elaborá-los sob sua orientação e autoridade su- prema. A parte final implicaria o reconhecimento de que se proporcionava ao capitão venal e a seus consócios e agentes uma oportunidade derradeira de praticarem crimes e extorsões, se a transigência fósse compatível com a honestidade inconcussa de Galvão. Indemnizar de hipotéticos prejuízos quem, no decurso do seu govêrno, a todos defraudara em proveito próprio, é argumento de que Castanheda usou sem ponderação.
41 Mais vale ao historiador abster-se de explanar o inexplicável, sem abdicar do direito supremo que lhe assiste de interpretar à luz da razão e da análise proba os gestos precipitados, as atitudes inglórias das personagens que estuda. No caso de que tra- tamos, ambos se conjugam para demonstrar que a escolha de Tristão de Ataíde foi vexame escusado para muitos, desespero para outros, sôbre ser demonstração, para íncolas e mouros, de que o novo capitão premiava 05 desmandos do antecessor e de que só o recurso entusiástico às armas os libertaria do verdugo detestado. Provido o necessário, partiu o capitão, com a sua reduzida hoste de quatrocentos homens, dos quais cento e setenta portugueses, para Talangame, onde ancorava a pequena frota que devia transpor- tá-los a Tidore, de duas naus, um navio, um calaluz e vários paraus, comandados respectivamente por Galvão, Gonçalo Vaz Sernache, Francisco de Sousa Alcoforado e Cachil Aeiro, rei de Ternate. Em Talangame romperam inesperadamente as hostilidades cêrca de dois mil mouros, ali embos- cados, os quais foram compelidos a precipitado embarque para Tidore, deixando um prisioneiro que referiu com jactância ser tamanho o poder do ini- migo que mal se lhe podiam contar os componentes dos exércitos, inexpugnáveis as fortificações que o protegiam e firme o seu propósito de tomar vivos a muitos portugueses, para morte afrontosa de Tristão de Ataíde e cúmplices e resgate de Galvão e dos que trouxera da índia.
42 ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO A corroborar os informes do captivo, surgiu, no dia imediato, à vista de Talangame, a esquadra adversária, de passante de trinta mil guerreiros e trezentos navios, que se mantiveram a distância prudente da artilharia portuguesa e não obstaram a que Galvão largasse para Tidore no próprio dia. Feito o reconhecimento parcial da ilha, cujas praias o bárbaro enchia, e disparadas as primeiras bombardas contra a cidade, expediu Galvão um último mensageiro de paz, cujas propostas, sôbre não serem ouvidas, foram motivo de injúria e escár- nio aos portugueses. Posto isto, fundeou a nossa frota junto ao ro- chedo em que assentava a fortaleza, por ser local propício à eficiência dos disparos dos navios e ao seu resguardo dos projécteis inimigos. Ali determinou Galvão, com assentimento da maioria dos que sôbre isso deliberaram, tomar para objectivo directo do ataque a própria cida- dela, que o adversário reputava inexpugnável e não curara portanto de guarnecer e artilhar devi- damente. Rendido o quarto de modorra, quando lhe pareceu frouxa a vigilância, desembarcou Galvão com cento e vinte compatriotas armados de lan- ças e espingardas, que cento e oitenta escravos transportavam, deixando cinquenta portugueses na frota, com instruções para de madrugada fazerem muito alarido de trombetas e tambores, como cum- pria a grande cópia de reforços prestes a saltar em terra. Foi êste ardil coroado de êxito, pois levou
ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO o inimigo a imobilizar forças consideráveis na praia, a fim de impedir o simulado desembarque. Entrementes ordenava Galvão a sua gente em formatura, confiando a vanguarda a Gonçalo Vaz Sernache, Diogo Lopes de Azevedo, Jorge de Brito, António de Teive, D. Fernando de Monrói, Jorge de Ataíde e mais fidalgos, além de António Car- neiro, a quem incumbia a guarda do mouro aprisio- nado em Talangame; o meio reservou-o para si e para o porta-bandeira; Francisco de Sousa Alco- forado, João Freire e outros constituíam a recta- guarda. Galgando lentamente, sem fadiga, ladeiras íngremes e fragosas, se aproximou o pequeno exér- cito, desapercebido, do reduto, do qual o separava escassa meia légua quando o rebate soou e cin- quenta mil indígenas se puseram em pé de guerra. Para evitar tamanho choque em campo aberto e provocar a dispersão do inimigo, entraram os por- tugueses nas florestas densas e matagais espessos que ladeavam o caminho. A simplicidade do plano não lhe afectou a eficiência, pois o adversário, per- dida a vista dos nossos e conhecido o seu número diminuto, entrou a procurá-los por montes e vales, dividido em vários grupos, que denunciavam a apro- ximação por infernal gritaria. Quis o destino, para pôr quiçá à prova a cons- tância lusa e galardoar-lhe o valor, que o primeiro recontro se desse com o rei Cachil Daialo, temível campeão indígena por sua destreza nas armas, perí- cia na guerra e entranhado ódio aos lusitanos.
44 Usando da dissimulação característica daque- les povos, tentou o sátrapa contemporizar até se lhe juntarem os restantes exércitos que debalde procuravam a nossa hoste. António Galvão estava, porém, alerta, e, vendo o tredo propósito, arreme- teu, destemido, ao som das trombetas, do disparo da espingardaria e do grito altivo de Santiago, cujo eco ainda vibra, terrível, em cidades, vales, planícies, quebradas e mares das cinco partes do mundo. Animado do valor e do ressentimento e impon- do-se por modelo à multidão que o seguia, iniciou Cachil o combate heróica e esforçadamente. Pros- trado por várias feridas que sangravam em abun- dância, por duas vezes se ergueu, gritando magní- fico, que nada tinha e arremetendo implacável con- tra os nossos. A valentia dêste bárbaro no campo da refrega, decuplicou-lhe o prestígio e foi — assim estava escrito — a causa fundamental da vitória lusitana. Porque, vendo alfim o ídolo derrubado e ouvin- do-lhe a aflitiva súplica de que o levassem para não lograr o adversário sua cabeça por trofeu, deban- daram os mouros em seguimento do moribundo, chocando com os reforços que acorriam, disper- sando-os frente aos nossos, que assim entraram na fortaleza de roldão com alguns fugitivos desar- mados. Tomado de pânico, não curou o vencido de defender a cidadela, que os portugueses invadiram e pronto incendiaram, antes a abandonou em de-
45 sordenada fuga para os matagais vizinhos, assom- brado da magnitude da derrota, que têm por mila- grosa o religioso, por exagerada o céptico, por banal o historiador familiarizado com os lances sôbre- -humanos da nossa epopéia de além-mar. Destruído o reduto, coube a vez à cidade, que, a breve trecho, era montão enorme de cinzas sem muros, sem habitações, sem baluartes e sem cavas. Domado no campo da honra, recorreu o ini- migo ao da infâmia. Conhecedor do hábito em que Galvão estava de recolher à capitânia para pernoitar, acompa- nhado de poucos homens, ocultou em dissimulada reintrância da costa, a meia légua do embarcadoiro utilizado pelo capitão, uma frota de vinte velas, com regimento de ir sobre o batel e aprisionar o ilustre passageiro. Denunciada a traição, logo Gonçalo Vaz Ser- nache, António de Ataíde, Francisco de Sousa Alcoforado e Gomes de Castro se meteram em dez corcoras, dois bergantins e outras tantas barcaças, que também esconderam junto à costa. Simultã- neamente foi o batel confiado a vinte marinheiros e homens de armas escolhidos, bem municiados e providos de muitas panelas de pólvora adequadas à destruição de navios. Vendo os espias o embarque despreocupado do capitão, deram sinal à frota moura, que logo entrou a perseguir a pequena embarcação, no intuito de rendê-la antes que a armada distante pudesse prestar auxílio.
46 ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO Foi, porém, acolhida pelos disparos dos berços, pelas panelas de pólvora inflamada e pela vista dos navios portugueses emboscados, que lhe corriam céleres no encalço. Espectáculo inesperado, que avivou o terror no bárbaro e o lançou em desordenada fuga, com uma corcora a menos, que os tripulantes abandona- ram. Ao pressentirem a pugna naval, atreveram-se os da terra contra o arraial português, que o tiro certeiro das espingardas lhes não permitiu alcançar. Do duplo insulto tirou Galvão pronta vingança na madrugada seguinte, com o incêndio das aldeias a que se acolheram os mouros, muitos dos quais ali pagaram a audácia com a vida. Recusando-se a admitir que dois centos triun- fassem de dezenas de milhar, convenceu o dos Papuas aos demais régulos a que desembarcassem tôda a gente e ferissem em terra uma batalha decisiva. O que sabido por Galvão, foi de noite sôbre o acampamento inimigo, que houvera de tomar de surprêsa, com grande morticínio, se o entusiasmo e a precipitação não provocassem o ataque extem- porâneo da lusa vanguarda. O adversário deban- dou a tempo mas com pesadas perdas em mortos, feridos e cativos. Dos oito monarcas arrogantes, uns se acolhe- ram às florestas, outros a ocultos vales, outros às ilhas distantes que senhoreavam, maldizendo da insânia de enfrentar o invicto lusitano, blasfemando do próprio Mafamede, porque lha inspirara.
ESTUDO BIO-BIBLIOGRÁFICO 47 A vitória permitiu ao capitão retomar a política conciliatória que preconizava e que se traduziu então no oferecimento de paz honrosa ao régulo humilhado de Tidore. Consistiu aquela na simples entrega de armas e artilharia, na obrigação de não coadjuvar potentado algum contra os portugueses e no compromisso de com êles transaccionar todo o cravo dos seus domínios pelo preço praticado nas lusas feitorias. Espontàneamente se prontificou Galvão, em contra-partida, a reedificar a cidade arrasada, cujas obras iniciou antes do regresso a Ternate, não anuindo porém aos instantes pedidos para que logo reembarcasse Tristão Ataíde para a índia. Ficou el-rei tão contente da arte e brandura de António Galvão a qual parecia ainda sendo maior oposta à aspereza e sequidão de Tristão de Ataíde, que muitas vezes, assim êle como seus irmãos e mandarins, o iam visitar e comer com êle... Tranquilo quanto a Tidore, determinou Gal- vão impor a paz ao rei de Gilolo, que se mantinha em pé de guerra. Dêsse propósito o desviaram a tormenta, com- pelindo a arribada a Talangame, e os subordinados, suplicando o regresso a Ternate, por ser a época azada para as colheitas e para o envio à índia dos respectivos produtos. Vencidos os estranhos, importava triunfar dos compatriotas sem escrúpulos, a começar por Tristão de Ataíde, cuja execranda presença nas Molucas comprometia a paz geral e duradoira.
48 ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO Ao determinar o tardo afastamento do ante- cessor, tinha Galvão quiçá presente a prece do mo- narca de Tidore, de que nem homens, nem escravo nem coisa de Tristão de Ataíde entrasse em suas terras, sob pena de haver por finda a amizade. Que a serem punidos os maus capitães, que Maluco teve, não dariam seus povos e reis causa a guerras e trabalhos. Não consentiu todavia a índole bondosa do capitão o recurso a justificado rigor, e, assim, olvi- dado do que a si devia, ao cargo e aos governados, atropelando o curso da justiça, que lhe cumpria defender, vemo-lo renegar da honestidade compro- vada e contribuir conscientemente para desvirtuar a devassa tirada ao Ataíde. O que, sôbre redo- brar-lhe a insolência, o levou, repudiada a gratidão perante a simples advertência dos excessos prati- cados, e retribuir com ódio e recurso à sedição os favores do desvelado protector. Porque carecia de cravo para carregar as duas reparadas naus que foram da sua capitania e da de Francisco de Sousa na expedição de Tidore, proibiu Galvão, sob severas penas, que é/e se tran- saccionasse com outrem que não o régio feitor. Mas o exemplo do Ataíde alastrara e trazia a todos em tal desmando, que, mal contentes em desa- catar a ordem, atentaram contra a vida de quem lhe zelava o cumprimento. Tomado de paixão mas refreando o incita- mento à violência, valeu-se Galvão da reunião de muitos portugueses, ao sair da missa, para lhes
ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO 49 dizer estas palavras, que reproduzimos de Gaspar Correia: Senhores amigos, eu sou novo nesta terra, e me foi dada a capitania desta fortaleza para nela fazer o serviço de Deus e de el-rei, nosso senhor, o que me parece que não posso fazer senão com muito trabalho, segundo vos acho desmandados e contrários ao serviço de el-rei, que nos faz tantas mercês. O que se assim fizerdes não pode el-rei suster esta fortaleza, gastando o que lhe a terra não rende, porque lhe tomais o cravo que é seu cabedal; e se assim o houverdes de fazer, escusada é esta fortaleza, pois el-rei não tem nela quem lha ajude a suster com tôda a verdade e razão. El-rei deve mandar a Maluco uma armada com outra gente nova, que faça justiças e mortes aos que aqui estão, e assente a terra de novo. Não sei porque sois tão reveses e ingratos a el-rei, nosso senhor, a que vos obrigastes servir por vossos soldos e man- timentos, e folgardes de fazer vosso proveito não lhe fazendo a êle perda. Deixando-lhe fazer suas carregações de seus navios, então vós fazei vossos proveitos, que vo-lo não tolherei, e assim vereis que o faço, e como amigo vos rogo que assim o façais e vendais o cravo ao feitor, que no preço que lhe dais inda ganhais muito do preço com que o comprais. Tende-me por manso, amigo e compadre; nem quei- rais que use da vara da justiça executiva, porque será para mim grande paixão, segundo tenho con- dição de ser bom amigo dos bons. O discurso não aproveitou onde o exemplo
50 falira. Debalde renunciou o capitão, em prol do seu rei, ao cravo que legalmente podia adquirir e ao que lhe ofertara o soberano de Tidore. Tudo foi inútil perante a aliança do desrespeito, do im- pudor e da cobiça. A iminência da sedição, o reflexo que teria no prestígio português, a animosidade latente do monarca de Gilolo, excitam a energia naquele ho- mem incompreensível, que assombra pela intran- sigência e pela indecisão, por assomos leoninos e por timidez revoltante. Incapaz de dominar o latrocínio, tenta opor-se à deserção. Ordena a vinda para junto da forta- leza das naus fundeadas em Talangame e confia no juramento dos réprobos de que lhe respeitariam as ordens e a guarnição. Tristão de Ataíde chama a si a chefia dos re- beldes, e, de armas na mão, insulto na bôca e ingra- tidão no peito, carrega como lhe apraz os navios e larga para a índia, vomitando ameaças a quem tanto o protegera, que ainda lhe sofre inerte a deserção e a afronta. No dia imediato, Dinis de Paiva segue o exem- plo degradante, e parte no junco, a abarrotar de especiarias e desertores. Ê então que o indígena insubmisso de Gilolo e Batjan entra a duvidar do homem que enfrentou, resoluto, o poder esmagador de oito príncipes e sucumbe às sórdidas maquinações de uns quantos celerados. Também o historiador duvida do capitão que
51 se abalança a jogar os magnos interêsses do seu país em pugna desigual e sôbre-humana e hesita em empunhar o cutelo da justiça para reprimir a igno- mínia, o roubo e a revolta. Duvidam os pósteros da bondade descabida que sobreleva ao dever e da humildade excessiva que ultrapassa o decoro. Duvida, finalmente, a razão do herói que não tira fôrça da vitória nem prestígio das façanhas. A guerra não terminara para os senhores de Gilolo e Batjan. Galvão, que, decidido, atacou a coligação de oito monarcas poderosos, sem curar da superiori- dade esmagadora do número e do valor natural das fortificações que o abrigavam, hesita agora em enfrentar, a coberto dos muros de Ternate, uma fracção reduzida dos exércitos que antes derrotara. A tanto o compeliu a pouca gente de que dispunha e a incerteza da sua conduta. No aflitivo transe, surge de novo aquele im- previsto que os religiosos taxam de milagre, os cépticos de acaso, os cronistas lusitanos de bana- lidade. Incarna-o em Tidore um valente receoso de que o inimigo lhe tome a cabeça por trofeu; representa-o agora o desespero de um capitão que dá a vida para salvar a honra, o exemplo para desa- frontar a pátria, o esforço individual para remir a vergonha colectiva. Desiludido do conselho dos que o cercam, pro- cura Galvão na História o paralelo da situação que o aflige, a inspiração das providências a tomar.
52 ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO Acode-lhe à mente, ao evocar a epopéia portuguesa, de que é comparsa, turbilhão infindo de espantosos perigos e soluções brilhantes, inadaptáveis ao caso especial que o oprime. Resolve-o finalmente, mais como campeão de aventura do que como governador de uma fortaleza, chamando a si a responsabilidade integral de quan- tos agravos tivesse o inimigo e propondo-lhe a desafronta em combate singular. O repto é aceite pelos de Gilolo e Batjan, e quem sabe qual a sua repercussão no domínio português de Maluco se o imprevisto não interviesse a tempo, na pessoa do monarca de Tidore. Do fero adversário de antes surge o amigo leal da hora crítica, que a não aproveita para a vingança fácil mas para dar um exemplo magnífico de no- breza e gratidão. Com razões e exemplos, e com a afirmação, quiçá, de solidariedade inconcussa, demonstra o de Tidore a probidade de Galvão, invoca-lhe a gene- rosidade transacta, garante o seu apego à equi- dade e à justiça, e restabelece assim a harmonia desejada. E como António Galvão, escreve João de Bar- ros, era homem tão inteiro em suas cousas, e tinha fama de homem virtuoso, foram as pazes tão avan- tajadas, que não somente os reis se fizeram seus amigos, mas lhe mandaram os portugueses que ti- nham captivos e as armas e artilharia que aos nos- sos tinham tomado; e pela mesma maneira lhes man- dou António Galvão alguns presentes de cousas de
ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO 53 Portugal, em sinal de amizade, a qual êstes reis tão bem guardaram que andando entre aquelas ilhas dos papuas duas naus de castelhanos, os não con- sentiram desembarcar em seus portos e lhes man- daram requerer da parte de António Galvão que se fizesse à fortaleza, que nela seriam providos de todo o necessário. A submissão dos íncolas não aproveitou aos portugueses de Ternate, que pouco depois acolhe- ram em declarada rebeldia a ordem régia de carre- gar o cravo disponível na nau recém-chegada de Jorge Mascarenhas. Em sedicioso alvoroço e gri- taria, clamaram os degenerados do alvará que lhes cerceava os proventos, alegando que morriam nos trabalhos de tantas guerras, de que tão olvidado era el-rei que atribuía a quem nunca pelejara o cravo ganho por suas lanças. De novo recorreu Galvão aos soberanos ilhéus, que lhe arranjaram a mercadoria requerida. As repetidas hostilidades dos subordinados, e o levantamento, logo sufocado, dos íncolas de Moro, não impediram Galvão de dedicar tôda a sua actividade e competência à obra genial que o imortaliza, de pacificação e cristianização do arqui- pélago, de amizade, compreensão, estima e enten- dimento entre portugueses e autóctones. Auxiliado da mão-de-obra indígena, e com satisfação geral, reparou a fortaleza e a feitoria, melhorou o pôr to de Ternate, edificou um seminário, familiarizou os ilhéus com a construção europeia, arbitrou-lhes com justiça e prudência as desavenças e contendas, de-
54 ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO senvolveu e aperfeiçoou a exploração agrícola, inci- tou a pecuária, tornou querida e respeitada a dantes execranda tutela portuguesa, e tão dignamente se houve que o escolheram para reger o reino, convite honroso que declinou, preferindo ao título régio o de Apóstolo das Molucas, que a posteridade res- peita. Teve defeitos, se como tal pode classificar-se a excessiva bondade e tolerância de que usou para com indignos compatriotas, e a audácia feliz com que jogou por vezes interêsses transcendentes, mas tais defeitos ofusca-os o monumento formidando que ergueu, a obra colonizadora que realizou, a campanha humanitária que empreendeu e, até, o abandono que suportou submisso e a ingratidão que, resignado, sofreu. A completo olvido o votaria a maldade de uns e a indiferença de outros, se dêle nos não restasse o Tratado que compôs, dado à publicidade pelo testamenteiro e leal amigo, Francisco de Sousa Tavares, com um prólogo que vincula a memória de António Galvão ao prestígio e reconhecimento da pátria que serviu. São dêle os seguintes períodos, com que rema- tamos a curta biografia: ...Coisa de admiração, o capitão de Maluco, com só a gente ordinária, haver vitória de todos os reis indígenas juntos, que por vezes aconteceu que alguns capitães de Maluco, com muita gente extraordinária, além da sua ordinária, e com todos os reis e senhores de Maluco em seu favor e ajuda,
55 foram sôbre um só rei dêles e vieram de lá com muita quebra... E, além disto, sendo seu pai e quatro irmãos seus todos mortos em serviço de el-rei; e sendo êle já o derradeiro da sua linhagem, e levando consigo dez mil cruzados, de contratos que com partes fêz, e empréstimos e ordenados que lhe pagaram, tudo empregou em Dio, e os gastou, não em jogos, nem em outros maus modos, senão só em trazer muitos reis e inumeráveis povos à nossa santa fé, como em seu tempo fêz, e na guerra, e em conservar Maluco, e em trabalhar e em pôr tôdas as suas forças para que todo o cravo viesse à mão de Sua Alteza, com que Maluco lhe renderia cada ano mais de quinhen- tos mil cruzados, e sendo tudo em grande prejuízo seu, porque fazendo cravo para si, como fize- ram e fazem todos os capitães de Maluco, viria muito rico. Ó grão fraqueza da nossa natureza humana, que vindo êle a Portugal com grande confiança que pelo que tinha feito havia de ser mais provido e honrado que se trouxera cem mil cruzados, se achou mui enganado porque nêle não achou outro favor ou honra senão o dos pobres miseráveis, quero dizer: o do hospital, onde o tiveram dezassete anos, até que nêle morreu, e dêle lhe deram o lençol para o amortalhar, e a confraria da côrte, como a corte- são pobre e desamparado, lhe fêz o enterramento. Deixou dois mil cruzados de dívidas, parte que trouxe da Índia e parte que muitos dos seus amigos lhe emprestaram para se manter no hos-
56 ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO pitai, porque em todos êstes dezassete anos nunca de Sua Alteza, para se remediar, houve um só real... Nem o que muitos dos seus amigos lhe davam, dizendo que se pusesse fora do reino, que de outra maneira não teria vida. Ao qual respondia que nessa parte mais queria ser comparado ao grão Tímocles ateniense que ao excelente romano Corio- lano. O Tratado dos Descobrimentos, que pro- positadamente escolhemos para início da série ultra- marina da nossa biblioteca, contém a súmula das viagens e navegações empreendidas até meados do século xvi, ou seja o relato resumido dos magnos cometimentos que ao mundo proporcionaram o conhecimento de si próprio. Abre com sucinta apreciação das idéias prevalecentes na antiguidade sobre a geografia, o progresso das explorações ter- restres a partir do dilúvio, a fauna de rios e mares, o intercâmbio primitivo dos povos, a que se seguem relatos, alguns de cunho fantasista, do achado da Madeira, Açores e Canárias. Entrando no domínio do que taxaremos de factos incontroversos, descreve as ilhas atlânticas, as explorações do continente africano, promovidas pelo Infante D. Henrique, as viagens e feitos de Afonso de Paiva e Pêro da Covilhã, de Bartolomeu Dias, D. Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, dos Corte Reais, João da Nova, António de Sal-
ESTUDO BIO-BIBLIOGRÁFICO 57 danha, D. Francisco e D. Lourenço de Almeida, Afonso de Albuquerque, Tristão da Cunha, Ma- nuel Teles de Meneses, Diogo Lopes de Sequeira, Duarte Fernandes, Rui Nunes da Cunha, António de Abreu, Francisco Serrão, Fernão Gomes de Lemos, Peres de Andrade, Tomé Pires, João Coelho, D. João da Silveira, D. Rodrigo de Lima, Simão de Abreu, Gomes de Sequeira, Belchior de Sousa Tavares, Fernão Coutinho, Francisco de Castro, António Mota, Francisco Zeimoto, Antó- nio Peixoto, etc.. Refere simultâneamente os empreendimentos terrestres e navais, realizados por espanhóis ou sob os seus auspícios, tais como os de Cristóvão e Diego Colombo, dos Pinções, de Alonso Hojeda, Rodrigo de Bastidas, Diego de Nicuesa, João Dias de Solis, Ponce de Leon, Vasco Nunes de Valboa, Pedro Arias de Avila, Gaspar Morales, Gonçalo de Badajoz, Francisco Hernandez de Cordoba, Cristóvão Morante, Lopo Ochoa, Diego Velasquez, João de Grijalva, Francisco Garai, Hernan Cortez, Francisco de Montijo, Antam de Alaminos, Fernão de Magalhães, Lucas Vasquez de Aillon, Gonçalo de Sandoval, Gil Gonçalvez Davila, Pedro de Alvarado, Rodrigo de Bastidas, Francisco Pizarro, Diego de Almagro, D. Garcia de Loaisa, Sebastião Caboto, Panfilo de Narvaez, Álvaro de Saavedra Ceron, Nuno de Guzman, Sebastião de Benalcacer, Jacques Cartier, Francisco Guilhoa, Pêro de Bal- diva, Gonçalo Pizarro, Rui Lopez de Villalobos, Bernaldo de la Torre, Pedro Hidalgo, etc..
58 ESTUDO BIO-BIBLIOGRÁFICO O Tratado dos Descobrimentos, de António Galvão, é repositório precioso de quanto a audácia humana empreendeu, por terra e mar, até ao ano de 1550, não obstante o laconismo da narrativa e os defeitos que seria estulto negar-lhe, de entre os quais salientaremos a admissão, embora sob reserva, de caber a Colombo, na viagem de 1492, a primazia da navegação por alturas, pretensão condenada pela prioridade indiscutível de Bartolomeu Dias, em 1487, e pelo desconhecimento que daquela nave- gação revelam os grandes erros de latitude cons- tantes do diário de Colombo e da conhecida carta do piloto Juan de la Cosa; o atraso de doze dias com que regista a partida de Vasco da Gama e a navegação costeira que lhe atribui; o êrro conside- rável com que indica a latitude de Moçambique; o informe de que a armada de 1502 constava de deza- nove ou vinte caravelas, quando é certo que contava vinte velas, das quais a maioria eram naus, e repe- tidas inexactidões cuja emenda exige constantes notas. Sem é/e ter-se-iam perdido os pormenores de alguns roteiros, com especialidade nos que visaram os arquipélagos e mares da Oceània. Deficiência da obra é ainda a imprecisão que nela algumas descrições tiram da linguagem por vezes confusa e de frequentes desarmonias grama- ticais. Seja exemplo o desacordo suscitado entre o autor destas linhas e um amigo seu dilecto a pro- pósito da rota de António de Abreu, com funda- mento em interpretações divergentes da notícia de
59 Galvão, explanadas a páginas 381-385 do volume 1." de Grandes e Humildes na Epopeia Portu- guesa do Oriente. São porém defeitos mal discerníveis no con- junto da obra, em parte explicados pelo recurso frequente do autor à memória, e ampliados, por vezes, pelo do leitor à fantasia. Taléo caso da concepção da abertura do istmo de Panamá, recentemente atribuída a Galvão, com manifesto desprezo de seus dizeres e da probidade que nunca desmentiu. A obra de que nos ocupamos foi pela primeira vez dada à estampa pelo impressor João da Bar- reira, em 1563, com o título: Tratado./ Que compôs o nobre & no-/tauel capitão Antonio Galuão, dos/ diuersos ô desuayra- dos caminhos/ por onde nos tempos passados a pi-/menta 6 especearia veyo da índia às/ nossas partes, & assi de todos os des/cobrimentos antigos
60 contendo, as preliminares, o título transcrito da obra, a errata e a dedicatória do testamenteiro de Galvão, Francisco de Sousa Tavares, ao Ilustrís- simo Senhor Dom Johão Dalém Castro, Du/que Daveyro... Começa o texto do Tratado na fl. 1, com a descrição dos Descobrimentos/ em diversos annos & tempos,/ & quê [oram os primeiros/ que nave- garam..,, e termina, na [ôlha 80, com os dizeres: Laus Deo./ A louuor de Deos, & da /gloriosa Vir- gem Maria, se acabou o liuro dos/ descobrimentos das Antilhas & índia./ Imprimio se em casa de Joham da/ Barreira, impressor dei Rey/ nosso Senhor. Aos quinze/ de Dezembro. De mil/
ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO 61 em que tempos, e as suas altúras, e dos deivaira-/ dos caminhos por onde a pimenta, e especiaria veyo da índia/ às nossas partes; obra certo muy notável e copiosa./ Composto pelo famoso Antonio Gal- vão,/ OFFERECIDO AO EXCELLENTISSIMO SENHOR/ dom Luiz/ de Menezes,/ Quinto Conde da Eri- ceira, do Conselho de Sua Magestade, Co-/ronel, e Brigadeiro de Infantaria, Viso Rey, e Capitão Ge-/neral, que foi dos Estados da índia, & c/ (florão decorativo) Lisboa Ocidental,/ na Officina Ferreiriana./ M. DCC.XXXI. Com todas as licenças necessárias. Trata-se de um in folio pequeno, de dezasseis páginas preliminares, inumeradas, e cem de texto, com numeração árabe, contendo, as preliminares, o título acima reproduzido, impresso a vermelho e preto; a dedicatória a D. Luís de Meneses, subs- crita por Miguel Lopes Ferreira, que abrange oito páginas; uma com as licenças do Santo Oficio, Ordinário e Paço, e outra com o retrato de António Galvão e um epigrama. As cem numeradas inse- rem o texto do Tratado, que termina com a inscri- ção Laus Deo./ Em louvor de Deos, e da gloriosa Virgem Maria, se acabou o/ livro dos Descobri- mentos das Antilhas, e índia. Impri-/mio se em casa de João da Barreira, Impressor dei Rey/nosso Senhor aos 15. de Dezembro de 1563, annos./
62 Reimprimiose na Officina Ferreiriana aos/ 17 de Março de 1731. t (segue-se o colofon) Esta edição adquiriu considerável raridade, podendo computar-se em Esc. 500$00, aproxima- damente, o seu valor actual. O Tratado dos Descobrimentos foi objecto de tradução inglesa, anónima, revista pelo geógrafo Ricardo Hakluyt e por ê/e publicada em 1601, com o título Discoveries of the World from their first original unto the year of our Lord 1555 by Antonio Galvano governor of Terna te. Corrected, quoted and published in English by Richard Hakluyt, tra- dução reimpressa em edição bilingue, com o texto português de 1563, pelo vice-almirante Bethune para a Hakluyt Society. Foi dada à publicidade em 1862 e consta de um volume in 8.°, de 242 páginas. Particularidade interessante desta edição são as identificações da versão inglesa, a maioria das quais evidencia invulgar espírito inventivo. Tal é o caso do Estreito Dantreminao e Taguina, de importância capital para o estudo da derrota de Simão de Abreu, de 1523, que o tradu- tor da Sociedade Hakluyt mudou para Treminao e Taquy, resolvendo um problema complicado pelo recurso à invenção de duas ilhas. Trata-se do canal de Entre Mindanao e Basi- lan, ou seja o Estreito deste nome, como demons-
ESTUDO BIO-BIBLIOGRAFICO 63 tramos a pág. 293 do vol. 1de Grandes e Humil- des na Epopeia Portuguesa do Oriente. A terceira edição portuguesa do Tratado famoso de António Galvão é a que agora lançamos no mercado, propositadamente escolhida para iní~ cio da série ultramarina da Biblioteca Histórica de Portugal e Brasil. Visconde de Lagoa.
Tratado dos Descobrimentos reprodução diplomática anotada
TRATADO. Que compôs o nobre & notauel capitão Antonio Galuão, dos diuersos & desuay- rados caminhos, por onde nos tempos pas- sados a pimenta & especearia veyo da índia ás nossas partes, & assi de todos os descobrimentos antigos & modernos, que são feitos ate a era de mil & quinhentos & cincoenta. Com os nomes particulares das pessoas que os fizeram: & em que tempos & as suas alturas, obra cer to muy notauel & copiosa. Foy vista & examinada pela santa Inquisição. Impressa em casa de loam da Barreira impres- sor dei rey nosso Senhor, na Rua de sã Mamede
FRANCISCO DE SOUSA TAUAREZ, AO ILLUS- TRISSIMO SENHOR DOM IOHÃO DALÉM CASTRO, DUQUE DAUEYRO. EYXANDO me Antonio Galuão que deos tem por seu testamenteiro, achey antre outros seus papees este quaderno: & porque sou certo q elle o ordenou pêra o apresentar a vossa illustrissima senhoria, quis ao menos nÍ9to somente comprir 9ua vontade, pois em seu testamento nam tenho comprido nenhfla cousa, nam por minha culpa. Com razam auia este tractado de ser de pessoa Portuguesa, pois he da matéria dos caminhos desuairados, por onde a pimenta & especea- ria veyo nos tempos passados ás nossas partes: & assi de todas as nauegações & descobrimentos antigos & modernos: ambas estas duas cousas os Portugueses tem feito muita auantajem aos passados. Em este tractado com noue ou dez liuros das cousas de Maluco & da índia, que me o Cardeal mandou dar a Damiam de Goes, dizendo que mo satisfaria (que doutra maneyra eu nam lhos podia dar.) Se ocupou este verdadeiro Português contra os infortunados & tristes tempos em que se via (como tudo passou ãte nossos olhos & tempo,) porque entregandolhe a capitania & fortaleza de Maluco cõ todos os Reys
70 ANTÓNIO GALVÃO & senhores de todas as ylhas juntos, & conformes a fazer a guerra aos Portugueses ate os deitar de todo fora da terra, pelejou com todos elles com soo cento & trinta portugueses estando todos jun- tos & fortes em Tidore, & os desbaratou & matou a el rey, & do (*) Ternate prlcipal autor da guerra, & lhes tomou a fortaleza: com a qual vitoria logo se renderam & vieram á obediência e seruiço dei rey nosso seiior. Duas cousas socederam aqui de grande admiraçam: a primeira serem todos os Reys & senho- res de Maluco juntos e conformes contra nos, (cousa q nunca acõteceo nê se cree q possa acõtecer por quã differentes sempre sam antre si.) A segunda o capitam de Maluco com soo a gente ordinária, auer victoria do todos elles jdtos, que per vezes aconteceo que algõs capitães de Maluco com muita gente extra ordinária, alem da sua ordinária, & com todos os Reis & senhores de Maluco em seu fauor e ajuda, foram sobre hum soo Rey delles, & vieram de là cõ muita quebra. Que se pode dizer, C[ tres feitos gran- des se fezeram na índia, digo em calidade (
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 71 importância & de mayor quantidade ouue outros) os quaes sam a tomada de Muar por Manoel falcão, (x) a de Bitam (8) por Pedro mascarenhas, & este de que tratamos, porq todos estes tres feitos parecia impossí- vel auerê os capitães victorias com a gente com que os cometeram: & com a ordem ou modo que todos cuida- uam, por onde a cousa se auia de cometer, assi dos amigos como dos ymmigos: & nam se acabaram por outra nenhíía cousa, se nam porque os capitães os come- teram por lugar & ordem, que nem dos Poitugueses, nem dos mesmos immigos foy nunca cuidado nem pensado. E alem disto sendo seu pay & quatro yrmãos seus todos mortos em seruiço dei Rey: & sendo elle ja o derradeiro de sua linagem, & leuando cõsigo fazenda a Maluco que valia dez mil cruzados, de con- tratos q com partes fez, & emprestemos & ordenados, que lhe pagarão, tudo empregou em Dio: & os gas- tou, nam em jogos, nê em outros maos modos, se nam soo em trazer muitos Reys e innumerauees pouos á nossa sancta fee como em seu tempo fez, & na guerra, & em cõseruar Maluco, & em trabalhar & poer todas suas forças, pera que todo o crauo viesse á mão de S. A. com q Maluco lhe renderia cada ãno mais de (1) Há exagêro da parte de Francisco de Sousa Tavares, porquanto não foi o esforçado Manuel Falcão, que ali perdeu a vida, quem tomou a fortaleza do rio de Muar em 1519, mas sim os seus companheiros, a quem não desanimou a morte do capitão, de entre os quais cumpre destacar Diogo Pacheco, Duarte de Melo e João Fernandes de Santarém. (*) Bintão, ilha do extremo sul da Península Malaia, deno- minada Bintang nas cartas modernas do almirantado inglês.
72 ANTÓNIO GALVAO quinhêtos rail cruzados, & sêdo tudo ê grã pjuyzo seu: porq fazendo crauo psra si, como fizeram & fazem todos os capitães de Maluco, viera muito rico. O gram fraqueza da nossa natureza humana, q vindo elle a Portugal com grão confiança, q pello q tinha feito auia de ser mais fauorecido & honrrado, q se trouxera cem mil cruzados, se achou muy enganado, porq nelle nam achou outro fauor ou honra, se nam o dos pobres miseravees, quero dizer o do Hospital: onde o teueram dezasete annos, ate que nelle morreo, & delle lhe derão o lançol pera o amortalhar: & a confraria da corte como a cortesão pobre & desam- parado lhe fez o enterramento, deixando dous mil cruzados de dividas, parte que trouxe da índia,
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 73 sua estrella era na guerra vècer os Reis immigos com a arte de pelejar & presteza de concluir, & a prudên- cia no conseruar, & ao seu Rey & senhor com muytos seruiços & gram lealdade & paciência, & de qual delias tinha mais contentamento, se nam sabia deter- minar. Pello que vossa illustrissima senhoria pode ver, q este tractado & os outros foram feytos de sos- piros & affiições de animo affligido, q forçadamente contra a parte superior, a inferior lhe auia de dar. Nam querêdo tomar por remedio o que tomaua aquelle gram turco Zizimo (*) filho do gram Maamede, (') q tomou Costantinopla, (8) & morreo em Roma, q se embebedaua por se nam alembrar do grande estado que perdera. Nem o que muitos de seus amigos lhe dauam, dizendo que se posesse fora do Reyno, que doutra maneira nam teria vida: Ao qual respondia (1) Zizimo qu Zizim ou ainda Jem, filho do sultão Maomé II e rival de seu irmão Bajazeto, o futuro Bajazeto II, na sucessão do trono paterno. Para triunfar do irmão, recorreu Zizimo ao auxilio do célebre grão-mestre da Ordem de São João de Jerusalém, Pedro d'Aubusson, que, em 1482, o aprisionou com infame repúdio da lealdade e da honra. Este acto de felonia pagou-o Bajazeto II à razão de 45.000 ducados anuais enquanto durasse o cativeiro do infortunado príncipe. Enclausurado sucessivamente em Rodes e em França, acabou Zizimo por ser entregue ao Papa Alexandre VI, que o teria mandado assassinar, quando já levava treze anos de infor- túnio, a trôco de 300.000 ducados que o sultão lhe pagou. (í) O sultão Maomé II — o conquistador —, que reinou de 1451 a 1481. 1*) Foi Maomé II quem, no ano de 1453, tomou a cidade ao imperador Constantino Paleologo, e não seu filho Zizimo como pode inferir-se do texto de Francisco de Sousa Tavares.
74 ANTÓNIO GALVAO que nesta parte mais queria ser comparado ao gram Timocles (*) Atheniense, que ao excellente Romano Curiolano ('). O que he hum gram exemplo de lealdade Portuguesa, posto que nam sey como o diga: porque tambê o he, que dos leais estam cheos os hospitaes. Pello que com razão este tractado deue ser de vossa illustrissima senhoria fauorecido, & leuar em conta algfls descuidos se os na obra ouuer, que por nam ser neste final corregido & emendado, pello proprio autor pode auer. Cuja & vida estado nosso Senhor prospere. (1) Temfstocles, general e estadista ateniense que viven no século VI antes da era cristã, a cuja sagacidade política deveu Atenas a supremacia naval que lhe assegurou a vitória de Salamina contra a poderosa armada persa de mil e duzentos navios, e a con- sequente liberdade da Grécia. Votado a injusto ostracismo, exilou-se em Argos, de onde o perigo em que tinha a vida o compeliu a fugir para o Epiro e logo para Éfeso, indo finalmente encontrar descanso e protecção no império persa; ali faleceu de doença, sem erguer mão sacrílega contra a pátria ingrata que o repudiara. (*) General romano, de nome Caio ou Cneo Márcio, que se su- põe ter vivido cinco séculos antes de Cristo e descender do imperador Anco Márcio, cujas proezas no assédio e conquista de Corioles lhe valeram o cognome com que passou à posteridade. O orgulho excessivo incompatibilizou-o com o povo romano, no momento em que lhe apresentava a sua candidatura ao consu- lado, desavença que levou o herói da véspera a ligar-se aos inimigos da pátria e a erguer mão sacrílega contra ela. As lágrimas da mãe, da mulher e dos filhos sobrelevaram ao rancor do romano, que pa- gou com a vida o acto generoso de salvar a cidade eterna, impossi- bilitada de resistir. Daqui a preferência de António Galvão pelo ateniense que suportou resignado a ingratidão dos seus e morreu tranquilo, aõbre o romano em quem o ressentimento calou a honra.
DESCOBRIMENTOS EM DIUERSOS ANNOS & TEMPOS, & QUÉ FORAM OS PRIMEIROS QUE NAUEGARAM /^VVERENDO ajdtar algils descobrimentos antiguos & modernos, que por mar & terra sam feytos, cõ suas eras & alturas (como sam duas cousas tã dificultosas) acheyme tam confuso com os autores delles, que determiney desistir do tal proposito. Por- que os Ebreos dizem que da criaçam do mundo ao diluuio ouue .1656. annos. E os setenta interpretes .2242. Sancto Agostinho 2260. & tantos. E assi nas alturas ha muytas differenças: porque nunca se ajun- taram em híla armada de dez pilotos atè cento, que hCls nam estiuessem em hfla altura, & outros em outra 0). Mas por ser emmendado de outros que ho melhor entendam, me despus a fazer isto, ainda Q algils digam que ho mundo foy jaa descubertc & possam (l) Tais divergências entre técnicos aio de difícil explicação. Não obstante o cuidado que D. João de Castro punha nas observa- ções diárias das alturas e no confronto dos seus cálculos com os dos pilotos e marinheiros idóneos, os seus roteiros não deixam, por vezes, de impressionar pelas diferenças que revelam.
76 ANTÓNIO GALVAO allegar pêra isso, que assi como foy pouoado, podia ser frequentado, & nauegado. E mais sendo os homês dsqlla idade de vidas mais compridas, leys, linguoagês, quasi todas hõas. Outros tem disto ho contrairo, Q dizem que nam podia a terra ser toda sabida, & a gente, cõmunicada húa com a outra, porque quãdo fosse se perderia polia malicia & sem justiça dos habitadores delia. E porque os mores descobrimentos & mais com- pridos foram por mar feytos, principalmète em nossos têpos, desejey saber quaes foram os primeiros inuen- tores disto despois do deluuio. Hús escreuem que os Gregos, outros dizê que os Fenícios, outros querem <} os Egípcios, os índios nam consintem nisso. Dizendo <5 elles foram os primeiros que nauegarão, principal- mente os Taybencos f1). A que agora chamamos Chins, & alegam pera isso serem ja senhores da índia, ate ho Cabo de boa esperãça, & a ilha de sam Lourêço (') por ser pouoada delles ao lõgo da praya & os Iaos, Timores, Selebres, Macasares, Malucos, Borneos, Min- danaos, Luçoes, Lequios, lapões, & outras Ilhas que ay muytas & as terras firmes dos Cauchenchinas, Laos, Siamis, Bremas, Pegus, Arracões, ate Bengala: & alem (1) De Tabeng. denominação que conservam algumas cidades da Indochina. (*) Sâo-Lourenço foi um dos nomes da ilha de Madagáscar. Quanto às remotas comunicações do Extremo Oriente com a África Oriental, pretende o antropologista holandês Dr. Dionísio Nyessen remontar a sua origem à idade neolítica, acrescentando terem sido encontradas sementes da flora de Madagáscar num túmulo japonês do século XI.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 77 disto a noua Espanha, Peru, Brazil, Antilhas, & outras cõjuntas a ellas, como se paresce nas feições dos homês molheres, & seus costumes, olhos peqnos, narizes rombos, & outras proporções Q lhe vemos. E chamarè ainda agora a muytas destas ilhas & terras Batochinas (!), Bacochinas, Q querê dizer terras da China. Alem disto os nossos escritores deyxarão escrito q a arca de Noe, se assentara da parte do norte nos mõtes Darmenia, Q está de .xl grãos pera cima & que logo daly fora a Scithia (*) pouoada por ser terra alta, & primeyro das agoas descuberta. E como a prouin- cia de Thaibencos, seja huila das principaes da Tar- taria (se assi he como dizem) bem se mostra serê elles dos mais antiguos pouoadores & nauegadores, pois nelles se acaba aquella terra da parte do leuante, & os mares sam tam bõs de nauegar como os rios des- tas partes por jazerê antre os tropicos onde dias & noytes, não fazem muyta differença, assi na oras como na quentura: por onde nam ha ventos tam destempe- rados que aleuantem as agoas, nem as façam soberbas, & por experiência o vemos nos pequenos barcos em (J nauegauão com hum ramo por masto & vella: & hCL remo na mão com q gouernã, corrê muito mar & costa. (l) Esta designação perdurou até ao século xvn na ilha de Gilolo, nas Molucas, por exemplo. (b Heródoto restringia a Cítia à região compreendida entre os Cárpatos e o Don; o térmo tornou-se, porém, na literatura clás- sica, extensivo a quanto fica a norte do Mar Negro até aos confins da Ásia Boreal, com inclusão da Rússia hodierna.
78 ANTÓNIO GALVAO E assi em híls paos a que chamam Catamarões (*), em se escancham, ou assentam, & vam com outro remando. E querê ainda <} estes Chins fossem senho- res da mor parte da Sithia, & f| nauegassem toda sua costa, que pareçe estar ate setêta grãos da parte do norte. Cornélio Nepote (') referido, assi no lo aproua, onde diz, que Metelo (s) colega de Afrânio (4), estando por cônsul em França, el rey de Sueuia (5) lhe man- dara certos índios, que vierão em hGa nao cõ merca- dorias de sua terra pella parte do norte, aas prayas de Alemanha: & segundo isto deuia ser da China, por estar de vinte, trinta, corenta grãos pera cima, & tê naos • fortes & de pregadura que podiam soffrer mares & terras tam frias e destemperadas como aquellas: que (1) Jangada composta de duas ou três pranchas, amarradas umas às outras, cuja denominação catamaran ou cutmurran o coro- nel Henry Yule e monsenhor Rodolfo Dalgado derivam do tamul Katiu e maram, palavras que significam ligadura e pau. (8) Historiador romano, contemporâneo de Cicero, cujas obras se conhecem apenas de tradição, a quem é atribuída a autoria de uma crónica universal, da de Virit Illuetribus e da Vita Excellentium, de Emílio Probo. (3) Supomos que Antonio Galvão alude a Quinto Sicílio Me- telo Pio Cipião, que em Farsália comandou o centro do exército de Pompeu, foi vencido em Tapso e pôs têrmo à existência ao ser aprisionado por piratas quando fugia de África para Espanha. (*) Lúcio Afrânio, partidário de Pompeu, com quem serviu contra Sertório, Mitrldates e Júlio César, e de quem obteve, entre outras mercês, o govêrno da Gália Cisalpina. (3) Velho e importante ducado germânico; hoje simples pro- víncia bávara, de que Augsburgo é a capital.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 79 as nàos (*) de Cambaya, que também dizem auer mui- tos annos que no mar andam, não parecem pera isso por ser cozeitas de Cairo (8), & os homês de pouco trabalho & vestido. Também os que escaparam do diluuio ficarão tam assombrados q nam ousaram deçer aos baxos. Mèbroth (s), depois delle cento & trinta ãnos fez a torre de Babylonia, com entençã de se saluar nella vindo outra chea. Pello que parece 3 os que mais cedo ao mar chegarão, ora fossem os que hiam ao Leuante & prouincia da China, ora os Q viessem ao Ponente ao fim da Syria aquelles q primeyro ali po- uoassem seriam os c| nauegassem, ho mais deixo aos Scyrios, & Egypcios, Q tiueram grãdes debates 8obrisso: porQ todos (Jrê adquirir a si esta hõra, & eu vir ao põto do (J os nossos ãtepassados deixarã escripto. Aquelles que de antiguidades se prezarão, dizem que no anno de 143 depois do diluuio, viera Tubal (4) (1) Galvão usa o têrmo «nau», néste caso, como sinónimo de navio. (£) Ligadas com a corda chamada cairo, extraída da casca fibrosa do côco, como alguns navios da costa de Coromandel ainda em nossos dias. (S) Ninrod, que edificou, nas margens do Eufrates, não só a tôrre a que Galvão alude, mas a própria cidade da Babilónia, capital da Caldeia. (4) Neto de Noé, a quem êste teria atribuído, no dizer dos santos Agostinho e Isidro, e no de outros cronistas remotos, a mis- são de repovoar a península Hispânica, após o dilúvio. Diz-se que fundou a cidade de Setúbal. Sucedeu-lhe Ibero.
80 ANTÓNIO GALVÃO por mar a Eapanha: por onde parece q ja naquelle têpo se nauegaua a nossa Ethiopia. E estes mesmos contam, que depois disto não muyto tempo a Raynha Symiramis (J) fora contra os índios; & naquelle Rio de q elles tomaram ho apellido (*), dera batalha a el rey Escorobatis (8), na qual elle perdera mil nauios: por onde parece que naquellas partes auia muytos, & muytos annos que se nauegauam. No anno de 650 depois do diluuio, ouue hú Rey em Espanha que se chamou Hispalo (4), em cujo tempo diz que foy descuberto ate o Cabo verde, & algQs querem dizer que a ylha de Sam Thome, & Príncipe. E Gonçalo fernandez de Ouiedo que fez as coronicas das Antilhas (5), que neste tempo fossem ylhas ja des- cubertas, & do nome deste Rey se chamassem Espe- ridas: & alega muitas razões pera ysso, & aquelles quarèta dias <} nauegavam do Cabo verde a estas ylhas. Mas outros querem dizer que o mesmo se fazia (1) Imperatriz lendária dos assírios, espôsa de Nino, a quem teria sucedido no trono, que abdicou, após quarenta e dois anos de reinado, em seu filho Ninias. Atribui-lhe a lenda muitas empresas de vulto, guerreiras, administrativas e artísticas, e, por único insucesso, a malograda tentativa de conquistar a índia, (l) O Indo. (S) Stabrobates. (4) Monarca lendário, filho de Hércules, que se diz ter reinado dezassete séculos antes de Cristo e a quem se atribui a fundação de Sevilha. (5) Designação que abrangia, de um modo geral, tódas as ilhas das índias Ocidentais com excepção das Bahamas.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 81 deste cabo â ilha de sam Thome, & Príncipe, q estas sam as Esperidas i1): & nam as Antilhas. E nã se apartam da rezam muyto, poys naqlle têpo & despoys muytos annos se nauegou mais ão longo da terra, que pelo mar Oceano, nê auia altura, nem agulha, nem gête do mar podia ser tam esperta. Segundo a openiam dos q escreueram nam se pode negar que nam ouue muytas terras, ilhas cabos, jsmos, angras, enseadas, que os tempos & as agoas teram gastadas & apartadas húas das outras, assi na Europa, como em Africa, Asia & Noua espanha, Peru, & outras que sam descubertas, & estam occultas pella continua differença que tem a humidade dsgoa, com a sequidam da terra. Diz Platam (*) em os diálogos de Thymeo Eclisio (s), que ouue antigamente no maar (i) Ilhas Hespéridas e Gorgodas era a antiga denominação do arquipélago de Cabo-Verde. Não lhe vinha, porém, como quere Gal- vão, de Híspalo, mas sim de Héspero, filho de Jafet, neto de Noé, ou das suas filhas Egla, Aretusa e Esperetusa, chamadas Hespérides e célebres pelo jardim de pomos de oiro que possuíam na Mauritânia. A identificação de Hlspalo e Héspero, que supomos seriam primos, é, todavia, freqttente nos escritores antigos. (*) Celebérrimo filósofo ateniense, nascido 427 anos antes de Cristo, lídima glória do pensamento grego sob ambos os aspectos ético e metafísico. (3) Série de dez dos diálogos famosos de Platão, em que o autor faz dissertar sôbre vários aspectos dos seus conceitos filosó- ficos diversos indivíduos a que chama Timeu, Sócrates, Górgias, Protágoras, etc. 6
82 ANTÓNIO GALVAO oceano Athlantico 0) grandes ilhas & terras chamadas Athlantides, mayores que Africa & Europa, & que os Reys daquella terra senhorearam muyta parte desta nossa: & cõ grande tormenta se fundio com tudo o que tinha, & ficou tanto lodo & ciscalho (*), que se nam pode por ali nauegar muyto tempo. E assi escre- ueram, que junto da ilha de Calex (®), contra ho estreyto auia húas ilhas que se chamauam Frodisias (4), bem pouoadas, & frequentadas com rauytos jardins, pomares, & ortas, de que ja agora nam temos outra memoria, se nam o que representa a escriptura. A mesma ilha do Calex se affirma ser tamanha que se ajuntaua aa terra de Espanha, & q as ilhas dos Açores era híia ponta das serras da estrella, que se mete no mar na villa de Cintra. E que a serra verde (6) (1) Atlântida. Ilha ou continente de há muito desaparecido, cuja existência se fundamenta naquele dos diálogos do Timeu em que Crítias refere ter o avô ouvido a Sólon, instruído por seu turno na vetusta tradição egípcia, que a luta com os atlantes fôra o mais notável dos feitos atenienses. Abrangia a Atlântida, acrescenta, ter- ritório mais dilatado que a África e a Ásia unidas, o qual «e ligava a outro continente, a que o Mediterrâneo servia de pôrto. Uma for- midável convulsão sísmica submergiu a região imensa, pouco depois da derrota que os seus habitantes sofreram dos atenienses. (8) Cascalho. , (3) Cádis. (4) Supomos que se chamavam Afrodísias, em louvor de Afrodite. (3) Serra marroquina das imediações de Almedina e Safi, provàvelmente o Jebel Hadid, junto à qual D. João de Meneses e Nuno Fernandes de Ataíde desbarataram, em Abril de 1614, os alcaides Fêr e Mequiner
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 83 que se mete nagoa júto da cidade de Saflm (*) em Teracucu ('), que he a própria de Monchim, que (s) do Algarue, & que em estas arrebentam as ilhas do Porto sancto & a Madeira, porque dizem que todas as ilhas tem rayzes na terra firme, por muyto apartadas q estS delia, que doutra maneyra nam se sosteria.■''Outros querem que Despanha a Ceyta se passase por terra & q as ilhas de Cerdenha & Corcega se juntase hQa cõ outra, Cecília com Italia, Negroponte com a Grécia. Assi contam q acharam cascos de naos, ancoras de ferro, nas montanhas de Suissa, muy metidas pella terra, onde parece q núca ouue mar nê agoa salgada. Também dizem que na índia & terra do Malabar q he tamanha & tam pouoada foy ia tudo mar, ate o pè da serra: & q o Cabo de Camorim, & a ilha de Ceilão era tudo hfla cousa, & a ilha de Samatra q fora pegada cõ a terra Malaca, por hOs baixos de Capasia (*), & iúto dela está hfla ylheta q não ha muito q ella & a terra firme tudo era hQa cousa. Ptolomeo em suas taboas põe esta terra de Malaca ao Sul da linha, em tres ou quatro grãos daltura, ficando agora a ponta (1) Safi. (!) A despeito da localização errada que indica, junto de Safl, supomos que Galvão alude à vila de Turocucu ou Turucuz, tomada por D. Francisco de Castro em 1520. (!) A serra de Monchique. (!) Designação que abrangia as ilhas Rupert e outras do Estreito de Malaca.
84 ANTÓNIO GALVAO delia, que se chama Ojentana (l) em hum grão da banda do Norte (como se vee no estreito de Sinca- pura,) onde cada dia passam pera à costa de Syão, & China, onde esta a ilha de Aynão (*), que também dizem £[ foy junta cõ a terra da China q Ptolomeo assenta da parte do Norte muyto alem da linha, ficando agora mais de vinte grãos delia da parte do Norte, de maneira que assi Asia como Europa, ambas agora estam desta banda. Bem podia ser q nos tempos passados, a terra de Malaca & China fossem acabar alè da linha da banda do Sul, como Ptolomeo as pinta, porque pegaria aa ponta da terra Dojentana cõ as ylhas de Bintão (s), Banqua (4), e Salities (5), q ha por ali muitas, & seria a terra toda mociça: & assi a ponta da China, com as ylhas dos Luções, Borneo?, Lequios, Mindanaos, & outras que jazè nesta corda, que também tem por opi- nião aindagora, q a ylha de Samatra foy pegada com o Iaoa («), pello canal de Sunda, & a ylha de Baly ('), (1) A Vjantana das crónicas portuguesas de quinhentos, deno- minada Ujungtanah nas modernas cartas do almirantado inglês. Constitui a extremidade da península malaia. (3) Nâo encontramos explicação para o facto de Galvão alu- dir a uma ilha, pois temos por indubitável que êle se refere ao impé- rio da índia transgangética, denominado do Anam. (3) Ilha da extremidade sul da península Malaia, denominada Bintang nas cartas modernas. (*) A ilha de Bangka ou Banca. (S) As ilhas Selayat, do arquipélago de Linga. («) Java. (7) A ilha de Bali, do arquipélago de Sunda.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 85 Anjane (*), Simbaba (8), Solor, Hogaleao (s), Maulua (*), Vintara (5), Rosolanguim (6), & outras q ha nesta corda & alturas, todas foram pegadas cõ a Iaoa & a terra hõ8, & assi o parece á quê as vee defora, porq aindagora ha nestas partes ylhas tão juntas hilas cõ as outras, q parece tudo hfla cousa, & quê passa per antrellas, vay tocãdo cõ a mão os ramos do aruoredo dhfla banda & outra. E nam ha muyto têpo q ao Leuante das ylhas de Báda se fundiram muitas: & tambê dizê agora q na China se alagaiã mais de sesenta legoas de terra: por onde senão deue auer por muito o q Ptolomeo & outros antigos deixarã escripto, Q tam- bém eu deixo por tornar a meu proposito. Depois do diluuio 800. annos, diz q foy fundada a cidade de Troya pellos Dardanos (7), & Q antes disto traziã das índias â Europa pelo mar Roxo, especiarias, drogas, & outras muitas
86 ANTÓNIO GALVAO máres se nauegauam, pois naquelle tinham tanto comercio ho Leuante com ho Ponête q se traziam estas mercadorias a hO porto q se chama Arsinoé, q querê dizer algíls, q seja aquello q agora dizemos çuez (!) q está em trinta grãos da parte do Norte neste estreyto Arábico. Declarão mais os escriptores, que deste porto darcinoe, Suez (ou como lhe quiserdes chamar) tra- ziam estas mercadorias em carauanas de camelos, asnos, & azemolas, ao mar de leuante, a hGa cidade q está nelle em .xxxii. grãos daltura que se chama Cazõ ('), auerâ por aqui de hQ mar a outro .xxxv. legoas: dâdo a cada grao .xvii. & meyo, como se costumaua: pola torra ser quôte & darea nam andauã se nam de noite, gouernãdose per estrellas, de q tinham conhecimento & por balisas de paos & canas q na terra tinhã metidas. Vêdo q esta estrada nam era tal como elles desejauam, diz q duas vezes ho mudaram. Nouecentos annos pouco mais ou menos despoys do diluuio antes da destroiçam de Troya ouue hQ rey no Egypto q se chamou Sesostres (#), o qual vendo q estes caminhos & diligencias q eram feytas nam escu- sauã muytos custos (4), homS3, bestas, carregas & des- (i) Identificação exacta. (S) Gaza cu Guzeh. (3) O Faraó Ramsés It, a quem alguns historiadores atribuem todos os feitos gloriosos de reinados antecedentes e subsequentes e ainda outros de pura fantasia. (<) Muitos gastos em homens, bestas, cargas, etc.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 87 carregas, determinou fazer híla vala do mar vermelho a ha braço do rio Nilo, q vay ter â cidade de Seroum (*), por onde as naos podessem ir & vir cõ as mercado- rias das índias a Europa, sem serê tiradas, nê descar- regadas ate Italia. E porisso foy este o primeiro rey do Egipto q mãdou fazer carracas (*) grandes pera este caminho, o qual nam teue effeito, porque se ho tiuera flcaua Africa em hda ilha toda dagoa rodeada (*) por não ter mais de vinte legoas este jsmo de terra. Neste meyo tempo dizem que os Gregos fizeram híla armada que chamão dos Argonautas, & hiam por capitães delia Iasom (4) & Alceo (8) hCLs querem que partissem da ilha de Creta, outros da Grécia (8), como (1) Helwan, junto ao Cairo (?) (3) Navios pesados e vagarosos mas de grande porte. (3) Como de facto sucedeu após a abertura do istmo de Suez. Era tradição dos árabes do Mar Vermelho que o Grande Alexandre nutrira projecto idêntico, ao qual Afonso de Albuquerque alude no seguinte trecho da carta endereçada ao rei D. Manuel de Portugal em 4 de Dezembro de 1513: Do cabo do Mar Roxo ao mar de Le- vante é muito curto caminho... a voe doe mouroe é que Alexandre, quando conquietou a terra, quieera romper êete mar no outro... (1) Herói famoso da mitologia grega, neto do deus Poseidon e capitão dos Argonautas. A vingança exercida por sua primeira mulher, a repudiada Medeia, sfibre os filhos de ambos e sôbre a segunda espósa, a corintia Glauce, são o tema de uma das tragé- dias mais famosas de Eurípides. (6) Hércules. (•) Expedição lendária que se dis partida de Iolco, na Tessália. Veja-se o notável estudo que lhe dedicou F. Martins Sarmento, intitulado Os Argonauta». (Pórto, 1887).
88 ANTÓNIO GALVAO quer que seja, foram polo mar Pontico (J) & braço de sam Iorge ao mar Euxino (l), onde se perderá. Iasom tornou a Grécia, Alçeo diz que com tor- menta foy ter a alagoa Meotis (s), onde se desfez de todo, & os que escaparam cõ muito trabalho, atrauessaram por terra ao mar Oceano Dalemanha õde se embarcaram, & pola costa de Xaxonia, Frisia, Holanda, Flandres, Franca, Espanha, Italia, tornaram a Peloponeso, ou Morea, & Grécia, ate a prouincia da Tracia (4), deixando descuberto per costa a mór parte da Europa. Strabon (5) citando Aristonico (®), diz que despois da destruiçã de Troya el Rey Menalao (7) sahio do estreyto & mar do leuante ao Athlantico, & costa de Africa, & Guine, & dobrou ho cabo de Boa esperança I1) O Mar de Mármora. (*) O Mar Negro. (3) O Mar de Taoa, tf) Região cujos limites têm sido objecto de alterações em várias épocas, mas que no caso presente ficava compreendida entre os montes Haemus, ao Norte; os mares de Mármora e Egeu, ao Sul; o Mar Negro a Leste, e o rio Nesto a Ocidente; (3) Estrabão. Celebérrimo geógrafo e historiador do século derradeiro da era pagã, cuja geografia, em dezassete livros, cons- titui o maior monumento que a antiguidade nos legou daquela ciência. (®) Mitógrafo grego, coevo de Estrabão, de cujas obras se conhece apenas a outiva. (7) Rei de Esparta, irmão de Agamémon e marido da célebre Helena, cuja memória se liga intrinsecamente à de Ttóia.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 89 & em certo tempo foy ter á índia (*). Disto se pode tomar aos autores mais estreyta conta. Este mar Mediterrâ- neo, também se chamou Adriático, Egeo, Hercoleo, & outros nomes, segundo as terras, costas & ilhas, que banha ao mar grande Athlantico & costa de Africa. No anno de 1300. despois do diluuio mãdou Sala- mão (a) fazer hila armada no mar do mar roxo que se chamaua Eylara (s), para ir a leuante da índia onde dizem estar aquella jlha & terra a que chamauam Tareis & Offlr (4), & q poseram tres annos neste cami- (0 Desconhecemos o fundamento que teve Galvão para estender à índia a peregrinação de Menelau, circunscrita, nos auto- res antigos que consultámos, aos países dos fenícios, egípcios, libios e erembis. Dos últimos diz o alemão Sebastião Stochamer, que eram populut ferus in finibua Arabie in specubus montium nudus dtgent, á tine opibua (Dictionarium aliud: de propriis nominibus celebriorum virorum, populorum, Regionum, locorum, Insularum, Urbium, oppi- dorú montium, fluvlorfi & pontium: nec non aliorum complurium scitu dignorum nominum ac rerum: collegit & adiecit in studiosae inventutis commodum Sebastianus Stochamerus etc. (Coimbra, 1669). (1) Rei de Israel, filho do rei David e da rainha Batsheba. (*j Elath ou Ailath, no gôlfo oriental do Mar Vermelho. Diz a Bíblia, no capítulo 9.' do livro primeiro dos Reit, que o Rei Salomão fet naus em Eseon-gtbtr, que etlá junto a Elath, à praia do mar Suph, na letra de Edam, e mandou Hirão com aquelas naus a seus servos, marinheiros que sabiam do mar, com os servos de Salomão. E vieram a Ophir e tomaram de lá quatrocentos e vinte talentos de oiro, e o trouxeram ao rei Salomão. (4) Regiões cuja localização se não pode precisar, a última das quais é objecto de identificação com a de Sofala, na costa oriental africana.
90 ANTÓNIO GALVAO nho, de q trouxerã muito ouro, prata, acipre9tes ('), pinho. Poronde (sic) pareça que aquellas terras & jlhas deuiam ser as q agora chamão, Luçoes (4), Lequios (8), & China9, porque nã sabemos lá em outras partes auer prata, aciprestes, pinhos nê nauegaçã de tátos annos. Tambe deyxaram escripto os passados q ouue hCL Rey no Egipto q se chamou Neco (4), q desejou muyto ajuntar ho mar roxo cõ ho rio Nillo (5), & mãdou aos Fenícios que deste estreito de Meca nauegassem ate ho fim do mar Mediterrâneo pera ver se tornauão ao Egipto, elles assi ho flzerão, indo ao sul ao longo da costa & terra de Melinde, Quiloa, Sofala, ate ho cabo de boa esperança, flcandolhe sempre ho sol á mão esquerda. Mas dobrando este cabo, & vendo ho sol â mão direita, espantaranse muyto: cõ tudo fizeram ao Norte seu caminho pella costa da Guiné, & mar Mediterrâneo ate tornar ao Egipto donde partirão, & poserão dous annos neste des- cobrimento, & querem algCLs que fossem os pri- (1) Ciprestes. (2) A ilha de Luzon. (8) O grupo Loo-Choo, ao Sul do Japão. (<) Necho ou Necú II, nasceu 611 anos antes de Cristo e foi filho do Faraó Psametico, a quem sucedeu no trono do Egipto. fã) Continuou as obras iniciadas nésse sentido pelo Faraó Ramsés II — o grande Sesóstris —, as quais foram, por seu turno, adiantadas por Dario Histaspe e concluídas por Ptolomeu Filadelfo.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 91 meyros, que o flzerão, & andassem a costa Dafrica toda em roda (x). No ãno de .590. Antes da encarnação de Christo partio de Espanha híla armada do mercadores Caita» ginèses feita à sua custa, & foy cõtra ho Ocidente por esse mar grande ver se achauã algila terra: diz q forão dar nella. E que he aqlla que agora chamamos Antilhas & noua Espanha que Gonçalo Fernandez de (1) Esta viagem fantasista de circunnavegação é posta em dúvida pela generalidade dos escritores antigos e estaria irreme- diàvelmente condenada se não fôra pelo apoio recente que lhe deram Montesquieu e Rennel, o último dos quais argumenta prolixa- mente a seu favor no estudo que consagrou à geografia de Heródoto. Malte-Biun, que ponderou o assunto, hesita em pronunciar-se. Vivien de Saint Martin, sem negar a possibilidade de tão longa cabotagem, considera-a inverosímil, atendendo a que tamanho empreendimento deixaria vestígios mais positivos do que a vaga referência de Heródoto. Êsses vestígios são, porém, tão escassos que os próprios sacer- dotes egípcios, discreteando com Heródoto àcêrca do Mar Eritreu ou Oceano Índico, inculcavam-no inacessível à navegação, e tanto Eratóstenes como Marino de Tiro declaram não ter encontrado o menor indício da viagem de Neco ou Nechao na biblioteca de Ale- xandria e na cronição fenícia. Eratóstenes (280 A. C.) não conhece nada para além do Cabo Arómata (GuardafuI), que, para êle e para a generalidade dos que professavam a escola alexandrina, representa o limite do mundo austral; Marino, por seu turno, que viveu um século antes de Cristo, supóe que nos confins da Az&nia (Somalilãndía) a costa afri- cana se inflecte para leste a juntar-se à Ásia, fazendo do Eritreu um mar sem comunicação com o Atlântico.
92 ANTÓNIO GALVÃO Ouiedo f1), quer que neste tempo fosse ja descuberta, ainda que Christouão Colom nos deu delia mais vera certeza, & todos os que escreverá como falão em cousa duuidosa & terra não descuberta, logo acodem com esta da noua Espanha. No ano de 520. antes do nacirrSto de Christo di- zem q Cambisis (*) rey da Pérsia tomou ho Egypto, ao qual sucedeo Dario fllho de Ristassis, determinou de dar fim â empresa q elrey Sesostres começara (8), selhe nara fizeram certo q ho mar Erithreo era mais alto q a terra do Egipto & chegando a agoa salgada ao rio Nillo perderse hia esta prouincia á fome & sede, porque delle se rega, & os moradores & gados nã bebé outra agoa pelo que deixou de ãuer fim esta obra. Ainda que hum pouco me aparte do preposito, nam deixarey dir tocãdo, em algilas cousas em que vou falando, por dar repouso a tam largo caminho, Tinhã, os Egypcios, q em sua terra se criaua a gera- p) Gonzalo Fernandez de Oviedo y Valdez, historiador espa- nhol que viveu de 1478 a 1657 e escreveu La general y natural História de la» Índiar, publicada pela primeira vez, em forma de sumário, em Madride, no ano de 1526, e, logo, em Sevilha, em 1635, os primeiros vinte e um livros. A obra completa, composta de cinqiienta livros, só em 1851-1855 foi dada à estampa pela Real Aca- demia de História. (a; Filho de Ciro, e seu sucessor no trono persa, que ocupou, segundo Heródoto, de 529 e 521 antes de Cristo. Conquistou o Egipto no ano de 626 A. C., derrotando Psametico III na batalha de feluta. (3) Vide nota 5, a pág. 90.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 93 çam humana, & que ainda agora naçem nella húa bichos tamanhos como ratos, & se veê muytos meyo torrão, & meyo bicho, ate de todo se despedir da terra: cuydo que sam estes os que quebram os ouos aos lagartos, que ha muytos no rio Nilo, a que tambè chamão Cocodrilho3. E querem ainda q em tempos passados fossem encantados, por onde nam faziam mal a nenhCta pessoa, mas despois de desfazerem sua figura de chumbo, com suas letras Egípcias, tornaram a matar a gente, alimarias, gados, & fazer muyto dâno, principalmente os que saem dagoa,. & se vam pela terra dentro, quo sam muyto mays peçonhêtos que os que ficam no Nilo, que estes pescam da cidade do Oayro pera bayxo, & os comem, & poê as cabeças polo muro. Tambê se escreue que estes lagartos se deytã na area ao longo da ribeira com a boca aberta, & que vem hílas aues brancas, pouco mayores que melroas, & se metem dentro, & comem aquella çugidade q tem antre os dentes, & gengiuas, com q folgam muyto: mas com tudo cerram a boca pera as comerem, o que fariam se a natureza as nam prouera de hú ossinho agudo que tem na cabeça com q os picam no cco da boca, de maneyra que a abrem, & ho passaro se vay embora, mas logo vê outros que acabam de alimpar- lha. Tambê ha nesta ribeira muytos caualos marinhos, e na terra quantidade de cegonhas, q tem guerra com as serpes que ali vê de Ârabia, & matam muytas delias, & assi estas cegonhas, como os bichos que comê os ouos dos lagartos, sam dos Egípcios muyve- nerados.
94 ANTÓNIO GALVAO No anno de 485 antes da encarnaçam de Christo, diz que mandou el rey Xerxes (') a Sataspis seu sobri- nho descobrir a índia, o qual sahio pelo estreito de Gibaltar fora, que estaa em trlta & seys grãos da parte do norte, & passou ho promontorio Dafrica, que he aquelle que agora chamamos Cabo de boa espe- rança (*), que está da parte do sul em trinta & quatro pera cinco grãos daltura. E enfadado de tam gram nauegaçam se tornou, como Bertolameu diaz em nos- sos tempos fez. Antes do Saluador do mundo vindo 440. annos Himeleõ (8), & Annõ (4) seu hirmão, capitães Cartagi- neses, gouernando a Andaluzia, partiram delia cada (1) Xeixes I, rei da Pérsia, filho de Dario Histaspe e de Atossa, sua mulher; reinou de 485 a 464 antes de Cristo. (!) A lição de Heródoto condena o contômo da África por Sataspes, o qual teria dobrado o cabo de Soloeis, cuja identificação não lográmos estabelecer mas que a narrativa localiza perto das colunas de Hércules, navegando depois para o Sul Prosseguindo naquele rumo, desanimou ao cabo de vários meses ante a extensão infinda do mar que avistava, e retrocedeu, dando ao rei a desculpa que o navio estacara e não seguia avante. A explicação não convenceu Xerxes, que ordenou a morte de Sataspes. (S) Himilco ou Himilcon, que se pretende ter partido com a missão definida de explorar o Atlântico e a quem é atribuído o des- cobrimento da Bretanha. (*) De tôdas as navegações cartaginesas, e, de um modo geral, de quantas são atribuídas aos mareantes da antiguidade, só conhecemos um documento de valia que é o Periplua Hannoniua, traduzido por Ramúsio e por D. Pedro Campomanes (Anteguedad marítima de Cartago, con el périplo de su general Hanon) e auten-
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 95 hum com sua armada. Himeleõ contra o norte des- cobrio a costa de Espanha, França, Frandes, ) Tais ruídos no interior da terra nada tfim de extraordinário na Islândia, que é das regiões mais vulcânicas do Mundo.
96 ANTÓNIO GALVAO chama Ecla, he o fogo tam brando que nam queima a estopa, & per outra parte tê tanta força q arde nagoa, & consumea toda. E assi dizem q ha nesta ylha duas fontes, hda como cera derretida í1), & outra que sempre ferue, & toda a cousa q lhe deitam dentro se conuerte em pedra, flcãdo em sua própria figura. Ha mais nesta ilha ussos, raposos, lebres, coruos, fal- cões, & outras aues, & alimarias brauas: & he tanta a erua, q a segão duas vezes, pera q os gados passem: & muitas vezes os tiram delia, porque não arrebêtem de gordura. Hahi muy grandes & disformes pescados, & tanto que põe aos nauegantes medo, & de seus ossos & costas fizeram húa igreja. Nã ahi pão, vinho, azeite, nem de que o fação, alumiam se com o do pescado, porque em toda parte provee a diuina magestade. Ho capitão Anon tomou na mão a costa Dafricá & Guine, & dizem que descobrio as ylhas bem afor- tunadas, que agora chamamos Canarias, & alem delias outras q dizem Dorcadas, Esperias, & as Gorga nas, que se agora chamão do cabo verde: & forão assi ao longo da costa, ate dobrar o cabo de boa esperança: & tomãdo na mão a terra foram ao longo delia, à outro cabo q se chama Aromático, & agora de Guar- dafuy, que está leste hoeste com ho verde em quatorze grãos da parte do norte: & q chegara à costa Darabia q está em dezeseys & dez & sete: & posera cinco ãnos ate tornar a Espanha. Outros querem q nam passasse (1) Temos por sem dúvida que Galvão alude a um dos poços de 16do em ebulição, vulgares na Islândia.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 97 da serra Lioa & q Publio (*) despois delle desco- brisse ate a linha. Mas parece q nam faria tam cõprida nauegaçam pois gastou tanto tempo neste trabalho. Algfls contam agora q os abitadores desta costa do cabo de boa esperãnça sam grandes feiticeiros, encantadores, prin- cipalmête de cobras: & trazem nas tanto a seu mando, que lhes guardam as semõteiras, ortas, poma- res & suas grãjarias, assi de ladrões, como dalimarias: & se vem algds fazer dano cinginse com elle, & tem nos presos & mandão aos filhos chamar seus amos & entreganos: & se agente he muita, ou alimaria pode- rosa cõ que se não atreuem, vamse a casa daquelle com que viuê, & se he de noyte dam tantos Assouios & chirlos, ate q os acordã pera jr defender, o que lhe entregaram. Aluici (8) Cadamosto Italiano, escreue que se achou no descobrimento de Guine no reyno de (>) É éste um dos trechos confusos de Galvão, que não con- seguimos interpretar. A croniçio antiga desconhece qualquer nave- gador célebre de nome Piiblio, sendo absurda a pretensão do tradutor e comentador da edição Hakluyt de que Públio deve inter- pretar-se por povoou ou publicou, no sentido de dar publicidade. Não resistimos à tentação de registar a tradução nefelibática que a Sociedade Hakluyt patrocinou, do teor seguinte: There be othere that eay that he paiecd not btyond Sierra Leona, but peopled il, and ofletivirds ditcouvered at far ai lhe line. Esta espantosa tradução é acompanhada, na edição de 1862, de uma nota que assim corrige a última oração: and that afterrvards he made public the diecoveriee a» far as the line. (*) Alvise Cadamosto, navegador veneziano, de quem Galvão se ocupa mais adiante. 7
ANTÔNIO GALVAO Budimol ('), em casa de Bisborol seu neto: & jazendo na cama ouuio grãdes siluos darredor da casa, a q Bisborol (8) se leuantara da cama & sayra pola porta fora: & quando tornara Cadamosto lhe pergtttara donde vinha, contoulhe como acodira às cobras q o chamaram. O que se nam deue dauer por muyto, porq na índia ha muytas & muy peçonhentas, & trazênas derredor do pescoço, metãnas pelos peytos & saenlhes poios braços fazêlhes som com q bailã, & o mais q lhe mãdà. Assi me disseram algas Portugueses, que por aquella costa do cabo de boa esperança pera çofala, Quiloa, Mellde andaram, que auia certos passaros, a que acodiã os negros a seu chamado & como os viam mudauanse dhQa aruore em outra: & os cafres os seguiam ate q se punham em algaa donde se não mudauam: & em olhando os negros pera cima viam mel & cera, sobiã a tomalo, & ho passaro flcaua ali. Nam me souberam dizer se era isso natural, seho faziam por ter dali mantêça. Tambê aflrmauã q debaixo da terra emformigueiros se achaua muyto mel & cera que as formigas faziam hQ pouco agro. Diziam mais que nesta costa auia grandes pescados que andauâ ho mais do tempo nagoa dereytos, & tinham rostos & naturas de molheres, com que os pescadores se desenfadauã quãdo os tomauam: & se os vendiam dauanlhes juramento se dormiram com ellas, & se ho não fizeram entam lhas com- (1) Budomel, país ao sul dos Jalofos. (*) Bisboror, sobrinho do régulo de Budomel.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS prauam, & doutra maneyra nara lhes dauam por ellas nenhúa cousa. No anuo de 535. antes de Christo, diz que naue- gauam os Espanhões por todo ho maremagno, ate che- garè ás prayas das índias, Arabia, & suas costas, donde leuauam & traziam muytas & diuersas merca- dorias : & andauam nestes tratos
100 & agram, cidade de Babilónia, deixando por capitães darmada Crito (l) & Nearco (2), q despois foy ter cõ elle polo estreito do mar Persyco, & rio Neufrates acima, deixãdo descuberta aqlla terra & costa. Despois disso diz que socedeo por rey do Egipto Tholomeu (8), q algús querem que fosse filho bastardo (1) Onesícrito, navegador e geógrafo grego, citado por Estra- bão no décimo quinto livro da sua geografia. (S) Afamado mareante grego, nascido em Creta cérca de 360 anos antes de Cristo. Foi amigo e companheiro de Alexandre, o Grande, que lhe confiou o comando da frota com que se propunha correr o Hidaspes e o Indo até ao mar. Ao deliberar Alexandre conduzir em pessoa o seu exército a Susa, por terra e através dos desertos da Gedrósia, ordenou a Nearco que levasse a esquadra ao Gôlfo Pérsico. Com éste objectivo, a que deveu celebridade exagerada, largou Nearco, em Outubro do ano 825 A. C., do delta do Indo, em cuja bôca aguardou um mês a monção favorável. Prosseguindo depois, sem dificuldades náuticas, junto a uma costa isenta de baixos, restingaa ou ocultos leixões, alcançou o ponto de destino, sem outro contratempo que não fôsse o de abastecer os navios dos viveres indispensáveis. Depois de curta permanência em Ormuz, seguiu a costa Norte do Gôlfo Pérsico até à embocadura do Eufrates, de onde alcan- çou Susa. O desempenho meritório desta incumbência, em que foi auxi- liado por pilotoa índios e persas, granjeou-lhe outra mais transcen- dente, que consistia na circunnavegação da Península Arábica, da embocadura do Eufrates ao istmo de Sues, projecto abandonado, antes de ter início, pela morte prematura de Alexandre. («) General de Alexandre, a quem, na partilha do seu grande império, coube o Egipto, de que se fêz rei e fundador da dinastia dos Ptolomeus.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 101 de Filipe (') pay de este grãde Alexãdre: ho qual quis imitar a el rey Secostres (*) & a Dario (*) & pera isso mandou fazer hfla caua de cem pes em largo, e trita em alto, & dez ou doze legoas em comprido, ate che- gar ás fontes amargas cõ entençam de leuar esta obra ao mar do rio Nillo, q se chama Peluzio (4), que entra na cidade Damiata: nam ouue effeito seu desejo, por se achar este mar vermelho ser mais alto tres couodos q a terra do Egipto, & espalhandose por ella perderse hia tudo. No anno de .277. Antes da encarnaçã de Christo, socedeo neste reyno Philadelphos (8), & ordenou q viessem as mercadorias da Europa à cidade de Ale- xandria pollo rio Nillo acima, ate outra q se chama a Copto (6): & delia por terra as leuassem a hCt porto que esta em ho mar roxo que se chama Miosormo (7), andasse este caminho de noite, gouernandose pellas estrellas & pilotos que disso tinham conhecimento, & (!) Era oficialmente filho de Lagus e Arsinoé, uma das con- cubinas de Felipe da Macedónia, pai do grande Alexandre (8) Vide nota 5, a pág. 90. (8) Vide nota 6, a pág. 90. (<) Braço mais oriental do rio Nilo, de há muito obstruído pela areia. Na sua foz ergueu-se outrora a cidade de Pelúsio, mais tarde ofuscada pela medieval Damieta, hoje apagada e decaída devido ao progresso de Port-Said. (®) Ptolomeu II, chamado Filadelfos, em quem seu pai, o antigo general de Alexandre, o Grande, abdicou o trono do Egipto no ano 285 antes de Cristo. (6) Coptos, na margem ocidental do Nilo, a nordeste d« Tebas. (') Mios Hormos, hoje Abu-Shaar.
102 ANTÓNIO GALVAO por esta estrada ser proue dagoa a leuauam pera toda a cõpanhia, ate que fizeram poços muy fundos & & (8ic) cisternas, com q se sostem, de maneira q ficou esta estrada mais frequentada. Dizem q por este estreito ser perigoso de baixos, ilhas, Restingas foy este rey Philadelphos com seus exércitos da parte dos Trogoditas í1) & em hum porto q se chama Bereniche (*), mandou que se descarre- gassem as naos que vinhâ da índia por ser lugar mais seguro & podiam chegar sem perigo donde as leuassem a cidade do Copto & dahy a Alexandria (8): polia qual causa foy esta cidade tam prospera, & rica que dizê nam auer naqlle tempo mais na redõdeza. Veyo este trato em tanto crecimento q se escreue render em tempo dei Rey Tholoraeu Aulete (4) pay de Cleópatra (8) sete contos & meyo de ouro:
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 1Q3 ainda naqlla ydade nam auia mais de .xx. naos neste caminho. Mas despois de vir esta prouincia, em poder dos Emperadores de Koma, como eram mais poderosos, ou cobiçosos, em pouco tempo lhes rendeo o tres dobro: & veo em tanto crecimento, que mandauão em cada hum anno aa índia cêto & vinte naos de carrega, partiam de Miosormo (*) meado de Iulho, & tornauam dêtro em ha anno: as mercadorias q leua- uam, dizem q valeriam hum milhão douro & dozentos mil cruzados, & no retorno faziam cento de ha. E a fora isto as Matronas despendiã em cada ha anno muyto infindo dinheiro em pedraria, pulpura, aljofre, bêjoim, encenso, almiscre, ambar, sandalos, aguila, & outros cheiros & brinquinhos, nisto se afflrmam os escritores daqlle tempo. TambS escreue Pinio ('), citando Cornélio Nepote (8) que em seu tempo ouue hum rey no Egipto q se cha- (i) Vide nota 7, a pág. 101. (*) Caio Plínio segundo, cognominado «o velho», que viveu nos anos de 28 a 79 da era cristã e foi autor de numerosos trabalhos, de entre os quais chegaram até nós os trinta e sete livros da Hietó• ria Natural, repositório monumental da sabedoria antiga. (S) Escritor romano, contempoiàneo de Cicero, a quem se atribui a autoria de uma crónica desconhecida da história universal e várias biografias coligidas em De Virut Illuettibu», nas quais se presumem inspiradas as que Emilio Probo publicou em 1471 com o titulo Aemili Probi de Fita Exetllentium.
104 ANTÓNIO GALVAO mou Tholomeu latiro (x), & hQ Edoxo (*) fugindo delle pello golfam Arábico veyo polo mar ao lõgo da costa Dafrica & cabo de boa esperança à ilha de Calex (s), & querê ainda que se vsasse esta nauegaçam naquelle tSpo como agora: pelo qual o filho de Cayo Cesar Augusto (4) andando na Arabia achara neste mar Criteo (8) pedaços de naos da feyçam das Des- panha. Assi contâm q os reys dos Sudianos (8) & príncipe dos Batrianos (7) & outros capitães famosos forã por terra á índia & Sythia (8), & ouuerã vista daqllas (l) Ptolomeu Soter II, cognominado Latiro ou Laturo, filho de Cleópatra III, dita Coce, com quem partilhou temporariamente o trono egípcio, eêrca de 105 anos antes de Cristo. (3) Eudoxo de Cízica, navegador grego a quem se atribui, por ordem de Ptolomeu Euergetes e no quartel derradeiro do segundo século antes da nossa era, o périplo do gôlfo arábico e das costas meridional e ocidental da África, que Plínio e Pompónio Mela dão por terminado nas cercanias de Cádis. (3) Cádis. (<) Augusto ou Caio Júlio César Octaviano não foi filho do grande Caio Júlio César, mas sim seu herdeiro e sobrinho neto, por sua mãi Átia, filha de Júlia, irmã de Júlio César. (6) Eritreu. (6) Habitantes da Sogdiana, região asiática situada no actual Turquestão russo, entre os rios Iaxartes (Sir-Daria) e Oxus (Amu- •Daria). Conquistada por Ciro, rei dos persas, durante a campanha de 645 a 639 a. C., constituiu a província mais avançada, do nor- deste, do vasto império persa. Teve por capital Marakanda, a actual Samarcanda. (?) Habitantes da Bactriana. (8) Vide nota 2, a pág. 77.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 105 prouincias & terras todas ate ho leuante & mares delles da parte do norte, & mercadores & caminhan- tes que se affirmam andarê por aquellas partes. Marco Paulo (') largas cousas escreue delias ainda que o auiam por fabuloso ja agora lhe dão maiscredito (sic) por acharem nomes de terras, cidades, villas, Angras, sitios & alturas conformes a suas escrituras. No anno de .200. antes da encarnaçã de Christo dizem q os Romãos mandarão híía armada a índia côtra ho gram cão de Cathayo (2) & saindo pello estreito de Gibaltar fora, correram ao Noroeste, & defronte do cabo de Finis terra (8) acharam dez ilhas em q auia muyto estanho, & deuião ser aqllas q chamão Cassiteriaes (4) & posto em cincuenta grãos daltura acharam hum estreito por onde forã a loeste a supe- rior índia, & pelejando com ho seftor de Cathayo se (1) Viajante veneziano da segunda metade do século xili, célebre pela narrativa que legou à posteridade das suas peregrina- rdes pela China, Tartária e diversas regiões da índia e da Pérsia, a qual pode reputar-se valioso monumento geográfico da época. (*) Nome por que a China era geralmente designada na Idade Média. Deriva, ao que parece, de Khitai, reino fundado pelos con- quistadores Khitan quando invadiram a China em 907. (3) Também denominado Artabtum prcmontorium. Promon- tório da Espanha, que os antigos consideravam o limite do ocidente da Europa e o término do mundo. Fica na Corunha e conserva o mesmo nome de Finisterra. (4) Ilhas assim denominadas pelos antigos, dada a abundância que lá havia de estanho (cassiteros em grego), geralmente identifi- cadas com as Scily, na costa inglesa. Galvão reporta-se à localização que lhes atribui Estrabão, a ocidente do cabo Finisterra.
106 tornaram à cidade de Roma, se he fabula ou certeza pula como a achey escrita. No anno de cento despois da vinda de Christo ho Emperador Trajano (1) mandou fazer híía armada nos rios Eufrates (*), & Tigres (8) foy por elles as ilhas de Zizara (4), & estreito de Persya, sayram ao mar Oceano da índia, e por aquella costa nauegara alem donde Alexandre chegara, tomara naos que vinham de Ben- gala, de que se enformara daquella terra & por ser velho & cansado & achar nella pouco mantimento se tornara. Despois que os Romãos senhorearam a melhor (1) Marco Úlpio Trajano, imperador romano, nascido naa ime- diações de Sevilha no ano 502 da nossa era e guindado por suaa virtudes e talentos à dignidade imperial, em sucessão de Nerva, Repetidas vitórias levaram-no aos confins do Mundo então conhecido, ao Cáspio, à Cólchida, à Síria, Média, Mesopotâmia Bactriana, Assíria, Babilónia, etc. Desejoso de imitar os desígnios de Alexandre sõbre a índia, preparou com êsse objectivo a frota a que Galvão alude, na qual desceu o Tigre e correu a costa do Gôlfo Pérsico, acabando, porém, por desistir do propósito de visitar a índia. (?) Rio da Turquia Asiática que banha as cidades de Semisat, Bir, Beles, Raca, Ana, Hila, Samora, etc , em cujas margens existi- ram outrora a Babilónia, Nicefória, Circesio, etc. A partir de Corna, onde se lhe juntam o Tigre e outros rios, passa a denomlnar-se Chat-el-Arab. Nasce nos montes da Arménia meridional e desagua no Gôlfo Pérsico. (3) Tigre ou Didjleh. Rio da Turquia asiática que nasce na serra do Tauro, na Arménia, e corre paralelo ao Eufrates, ao qual se junta em Corna, formando o Chat-el-Arab que se lança no Gôlfo Pérsico. (4) ilhas do Gôlfo Pérsico que não conseguimos identificar; talvez as de Siri e Abu Musa.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 107 parte do mundo se fizeram muytos & notaueis des- cobrimentos, mas vieram os Godos, mouros & outros Barbaros & destroirã tudo porq no anno .412. depois da encarnação de Christo tomarão a cidade de Roma, & os Yandalos sayrã de Espanha a conquistar Africa. E no anno de .450. el rey Atilla (*) destroyo muytas cidades Ditalia & começouse a de Venezi, & neste tempo os Francos (2), & Yandalos (8) entrarão em (0 Cognominado o flagelo de Deue. Rei dos Hunos, bárbaros mongóis oriundos da Ásia Central, que invadiram a Europa nos fins do século IV; derrotaram os ostrogodos em 370 e, mais tarde, os hérulos, os lombardos e os suevos. Nos princípios do século v, ocupavam a Europa oriental, do Cáucaso ao Elba. Tiveram como 1.° rei, Rua, a quem sucedeu, em 446, Atila (Bisel, nos poemas cíclicos dos Nibelungo« e Alli nas tradições escandinavas), que, em 451, invadiu a Gália com mais de 500.000 homens, repetindo os horrores praticados em 447 no Oriente. Metz, Trevors, Reims e outras cidades caíram em poder de Átila, até que, Aécio, general romano (do Império do Ocidente) auxiliado pelos visigodos e pelos francos lhe inflige a derrota de Campot Catalan- nicos ou Chalons-eur-Marne (451). Mas isso não impediu que Átila invadisse a Itália no ano seguinte. Destruiu Aquileia, cujos habitan- tes se refugiaram nas lagunas e fundaram a cidade de Veneza. Átila faleceu em 453, na Panónia, para onde se retirara depois da entrevista que tivera, em Pavia, com o papa S. Leão Magno. (*) Povos renanos que por várias vezes invadiram a Gália, estabelecendo se em Tournai e Tréves, correndo o país até ao Loire e acabando por dominá-lo de todo. (S) Povos de origem eslava, que habitaram as costas do Báltico e as margens do Oder. Aliados aos alanos e suevos, invadiram a Gália no ano de 406 e estabeleceram-se na Bética, de onde os expulsaram os visigodos e suevos, depois de vinte e dois anos de ocupação.
108 França. E no anno de .474. se perdeo o Império de Roma & despois disto vieram os Longobardos (*) a Italia no qual tempo andauam os demonios tam soltos pella terra que tomaram â figura de Moyses, os Iudeus enganados foram muytos no mar affogados. E a seita Arriana (*) preualecia. E Merlim (s) em Ingla- terra foi neste tempo. E no anno de .611. (4) foy Mafa- mede & os de sua seita, que tomaram por força Africa & Espanha. Assi que segundo paresce nestas idades todo mundo ardia, por onde dizem q esteue quatrocentos annos tam apagado, & escurecido que nam ousaua nenhum pouo andar dúa parte pera outra, por mar nem terra, tam grande abalo & mudança se fez em tudo q nhíla cousa ficou em seu ser, & estado, assi (1) Lombardos. Povos de origem germânica que habitaram as regiões compreendidas entre o Aler e o Weser e entre êste e o Reno. Sob o comando do seu rei Alboim, invadiram a Itália, que conquis- taram em grande parte, de onde os expulsaram Pepino, o Breve, e seu filho Carlos Magno. (9) Doutrina fundada por um padre de Alexandria, de nome Ario, que contestava a divindade de Jesus e a eternidade do Filho. Condenado nos Concílios de Alexandria e Niceia, o arianismo teve contado grande repercussão no império d« Constantino e nos dos monarcas que se lhe seguiram. (9) Ou Ambrósio, o Feiticeiro. Personagem de relêvo nas len- das do ciclo arturiano, que se supõe nascido na Calcedónia, no século V, e vitimado por um filtro mágico na floresta de Brecheliant. (*) Galvão alude à Invasão de Tarik, que teve lugar em 711 e não um século antes como se lê nas duas primeiras edições do Tratado dot Detcobrimenlot.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 109 Monarchias como reynos, & Seíiorios, relegiões, leis, artes, sciêcias, nauegações escrituras q disso auia, foy tudo queimado, & consumido segundo conta, porque os Godos eram tam cobiçosos da gloria mundana q quiseram começar em si outro nouo mundo & q do passado nã ouuesse nhúa memoria. Os que despois socederam sentindo tamanha perda & pueito como era ho comercio & trato das gentes hilas com as outras, & q nã podiam gastar suas mercadorias, nem auer as alheas sem este meo deter- minaram de buscar maneira como se nam perdesse de todo, & as mercadorias do leuante tornassem ao ponête como sohião. Desesperados de as trazerem pollo mar roxo & rio Nilo, abriram outro caminho, ainda q muito mais comprido & custoso, porque as traziam pelo rio Indo acima: & desembarcadas as passauã por terra & portas Peraponesas (x) à prouin- cia de Batriana & embarcauanas no rio Oxo, que se mete no mar Caspio & yam a hum porto do rio Ram (*), q se chama Sicatrum (8), & por este rio acima q se agora diz Yolga segundo parece as leuauam a cidade de Nobogardia (4j, que he agora do gram Duque de Moscouia, e está da parte do norte em .57. grãos daltura & atrauessauam por terra a prouincia (1) Por um vai dos Montes Parapamlsus, no Afeganistão. (*) Rha. (3) Citracan ou Astracan. (4j Nizhni — Novgorod, situada na confluência dos rios Volga e Oka, célebre pelas feiras anuais a que acorriam mercadores de todas as nações europeias e asiáticas.
110 ANTÓNIO GALVAO de Sarmacia (4) ao rio Tanais (*), q a deuide da Europa, onde embarcauã & por elle abaixo as leuauã a alagoa Meotas (8) & cidade de Caía (4) que antigamente se dezia Theodosia & por ser de Genoeses vinham por ellas as suas galeaças. E dizem que durou este trato ate ho tôpo de Commodita Emperador Armênio que mãdou mudar este caminho ao rio Carius (6), na fim (sic) do qual desembarcauam & atrauessauam ho Reyno de Hiberia q se agora diz Iorgiana (6), & tornauam a embarcar no rio Facis (*): & por elle hião ao mar de Latana (®) & cidade de Trapezôda (9), q está em quorenta & tãtos grãos daltura, onde vinhã por estas mercadorias as (1) Região compreendida entre o Báltico e o Cáapio, ao Norte do Ponto-Euxino. Dividia-se em Sarmácia europeia ou ocidental, entre o Víatula e o Donetz, e asiática ou oriental, desde o Donetz ao Cáspio. (8) O rio Donetz. (3) O mar de Azof. (4) Teodósia ou Caía é o nome que ainda conserva a cidade a que Galvão alude, situada na costa oriental da Crimeia. (5) O rio Kur, na Transcaucásia, que desagua no Mar Cáspio. (6) Jórgia, Ibéria ou Karthli era o nome de um reino do centro da Transcaucásia, limitado pela Cólchida e pela Albânia. A denomi- nação Geórgia é presentemente circunscrita aos distritos de Doushet, Telav, Signah, Gori e Akalzik, com Tiflis por capital. (7) O rio Rion, antigamente denominado Phasis, que desagua em Poti, na costa transcaucasiana do Mar Negro. (8) O Mar Negro. (9) Trebizonda, cidade da Ásia Menor, capital da província do mesmo nome, situada junto ao Mar Negro.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS m naos da Europa, & Africa: & dizê ainda que Nicana (*) determinaua ou tinha ja posto por obra de abrir mais de cento & vinte legoas de terra q ha deste mar Caspio ao Euxinio (*) pêra que podessê yr & vir por agoa as especearias, Drogas, & outras mercadorias que por aqui entam caminhauam, se ho nam matara Tholomeu Carauno ("), por onde nã executou seu generoso pensamento. Assi que perdido este caminho, pellas guerras do grão Turco, a industria humana abrio logo outro a estas mercadorias & a outras que traziam da ilha de Samatra, cidade de Malaca, ilha da Iaoa: a enseada de Bêgala; & pello rio Qâje acima as leuauam á cidade Dagra, donde atrauessauam por terra a outra que estaa no rio índio que se chama Bacar (*), donde hiam pollo Sertam dentro a cidade de Cabor (B), que he a principal dos Mogores (•>: & dahi a gram cidade de Samarcante (7) que estaa na prouincia de Batriana: Batriana: & juntos os mercadores da índia, Pérsia, (>) Nicanor, filho de Parménion e general de Alexandre, o Grande. (*) O Mar Negro. (3) Ptolomeu Cerauno, rei da Macedónia. (3) Ou Bhakkar, no Punjab. (3) Cabul, actual capital do Afeganistão. (*) O império doe mogores foi fundado por Baber, descen- dente do tártaro Tamerlão, que invadiu a índia em 1626. Durante dois séculos foi o Grão Mogor, como é designado nas crónicas por- tuguesas, o principal potentado da índia. (1) Samarcanda ou Samarkand, no actual Turquestão russo.
112 Turquia, que traziam borcados, veludos, chamalotes, escarlatas, Alcatifas, fetros, & outros panos de lám que hiam gastando ate ho Cathayo & gram prouincia da China: donde traziam ouro, prata, pedraria, Aljofre, seda, almiscre, Canfora, aguila, sandalos, & muyto Ruybarbo, & outras cousas que ca tinham valia. Despois disto diz que leuarâo estas mercadorias, drogas e especearias, em naos polo mar Indico ao estreyto Dormuz, & rio Eufratres & Tigres & as desem- barcauam na cidade de Baçora, que estaa em trinta & hum grao ao norte. Dahi hiam por terra aa cidade Dalepo, Damasco, Baruti (x), que estaa da mesma banda em trinta & cinco grãos: donde as vinham tomar as galees de Veneza, que traziam romeiros a casa sancta. No ano de 1353, em tempo do emperador Fede- rico Barba roxa («), diz q foy ter a Lubres («) cidade Dalemanha hila nao cõ certos índios em hõa canoa, que sara nauios de remo, parecense aos tones (4) de Cochim: porê esta canoa deuia de ser da costa da (1) Beirute. I8) Imperador do sacro império romano e um dos maiores monarcas do seu tempo. Viveu de 1123 a 1190 e era filho do duque de Suábia, Frederico de Hohenstaufen, e de sua mulher Judite, filha de Henrique, o Negro, duque de Baviera. Há pois manifesto êrro de Galvão, ou de quem lhe leu o manuscrito, no tocante à data indi- cada de 1363, que deve ser 1153. (') Lubeca ou Lubek? (*) Embarcação asiática.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS H3 Florida bacalhãos (*) & aquella terra, por estar na mesma altura Dalemauha: de que os Tudescos ficaram espantados do tal nauio & gente, por nam saberem donde eram, nem entenderem sua lingoagem, nem terem noticia daquella terra, como agora, porque bem os podia ali leuar ho vento & agoa, como vemos que trazem as almadias de Quiloa, Moçambique, Sofala, a ilha de sancta Ilena que he hum ponto de terra, que estaa naquelle gram mar daquella costa & Cabo de boa esperança tam separada. No ánno de 1300. despoys da vinda de Christo ho gram Soldam do Cayro: mandou q tornassem as espe- ciarias, drogas, mercadorias das índias ao mar Roxo, como em principio acostumauam: somente que desta vez desembarcauam da banda de Arabia, & porto de Iuda (8), as leuauam aa casa de Meca, & as carauanas <} hião a ella em romaria as traziam dõde cada hfl era, por emnobrecer sua terra, principalmente a cidade do Cayro, donde as passauam pela prouincia do Egipto, Libia, Africa, ao reyno de Tunez Tremecem, Fez, Marrocos, Sus, algílas leuauã alem dos montes Atlânticos á cidade de Tungubutum (8), & regno dos (1) Terra doa Bacalhaus foi o nome primitivo dado pelos portugueses à Terra-Nova. (>) Gidá. (S) Tombuctu, pôrto sôbre o Níger que na Idade Média foi grande entrepôsto comercial e ponto onde se cruzavam as caravanas do Sul e do Oriente. Por ali passavam o oiro do Sudão e os produ- tos do Senegal e da Guiné.
114 Ialopsos (*), ate que os Portugueses as trouxeram polo cabo de boa esperãça aa nobre cidade de Lisboa, como se diraa a seu tempo. No anno do 1344. reynando dom Pedro Daragam ho quarto, dizem os coronistas de seu têpo, que lhe pedio ajuda dom Loys de la cerda neto de dom Ioam de la cerda pera ir cõquistar as ilhas Canarias que estam em vintoyto grãos desta mesma banda, por lhe serê dadas polo Papa Clemente .vj. (*) natural de França. E segundo isto já naquelle tempo auia muyta noticia daquellas ilhas por toda Europa, quanto mays ê Espanha, porque tamanhos príncipes nam se auiam de mouer a esta empresa sem muyta certeza (s). Também querê que neste meyo tempo fosse a ilha da Madeira descuberta, que está em trinta & dous grãos, por hum Ingres que se chamaua Ma- (1) O reino dos jalofos estendia-se no sertão africano, entre o Níger e o Gâmbia. (8) Contra as disposições da bula de 15 de Novembro de 1344, que concedia a D. Luís o feudo das Canárias, com o título de Prín- cipe da Fortuna, protestou o rei D. Afonso IV de Portugal, em carta endereçada de Montemor, aos 12 de Fevereiro de 1345, a Cle- mente VI, na qual afirma ter enviado expedições às ditas ilhas, cuja ocupação o impedira de realizar a guerra com Castela. A guerra a que o monarca alude rebentou em fins de 1336, o que leva o insus- peito Major a pronunclar-se, com muita lógica, pela ida de portu- gueses às Canárias antes daquele ano. (8) Parece que os fenícios e os cartagineses, estabelecidos em Cádis, conheceram as Canárias, sendo certo que a notícia delas havida pelos romanos, oitenta anos antes da era cristã, obteve-a Sertório de mareantes lusitanos.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS chim (*), que vindo de Inglaterra pera Espanha com húa molher furtada, forã ter á ilha cõ tormenta, & sorgiram naqlle porto que se agora chama Manchico, de seu nome tomado (®), & pella amiga vir do mar enjoada sayo em terra com algfís da companhia, & a nao cõ tempo se fez á vela, & ella faleceo danojada. Machim q a muyto a maua pera sua sepultura fez hOa ermida do bõ Iesu, & escreueo em hila pedra o nome seu & delia: & a causa q os ali trouxera, & poslha por cabeceira: & ordenou hii barco do tronco de hila aruore, q ali auia muyto grossos & embar- couse nelle com os q tinha, & forã ter à costa Dafrica sem velas, nem remos, Os mouros ouuerã isto por cousa milagrosa, & por tal os apresentaram ao serior da terra, & elle pella mesma causa os mandou a el rey , de Castella. No anno de 1393. reynando em Castela el rey (I) Trata-ie de uma versão romântica, cujo entrecho aeduxiu Valentim Fernandes, António Galvão, Gaspar Frutuoso, Manuel Tomás, D. Francisco Manuel de Melo, e, modernamente, o inglês Henrique Major, únicos escritores que a reprodusem, aliás por forma divergente e com omissão de elementos sérios que a abonem. Encon- tra-se uma versão mais antiga da mesma lenda no manuscrito da Biblioteca Nacional de Madrid, intitulado: «Qual foy o Azo com f] se descobrio a ilha da Madeira escritto por my Fianc* Alcoforado, escudeyro do S' Infte D. Henrique q fuy a tudo presente e fey Desta guisa.» Êste documento foi publicado por João Franco Machado no Arquivo Histórico da Marinha, 1936. (*) Outros pretendem que o nome lhe veio de um pilóto cha- mado Machico, que teria ido ali no reinado de D. Fernando.
116 ANTÓNIO GALVAO dom Enrique .iij. pela enformaçam q Machim desta ilha dera, & a nao de sua cõpanhia, moueu a muytos de França & Castela irê a descobrila & a gram Cana- ria, principalmente Andaluzes Bizcainhos, Lepuzcos (!): leuàdo assaz gente & caualos, mas nã sey se foi isto a sua custa se dei rey: como quer que seja, querem q fossem os primeiros que ouuessem vista das Cana- rias, & saíssem nellas, & captiuassem cento & cincoSta pessoas outros querem q fosse isto no anno de 1405. Segundo os nossos coronistas deyxarã escripto, despoys da encarnaçam de Christo 1411. ou .16. annos (2), no mes de Iulho partio el rey dõ íoam o primeyro de Portugal da cidade de Lisboa, & o prín- cipe dom Duarte, & o ifante dõ Pedro, & dõ Anrique seus filhos, & outros senhores & nobres do reyno pera Africa, & tomaram a gram cidade de Ceyta, que está da parte do norte em trlta & cinco ate seys grãos daltura, que foy húa das principays cousas alargarense os termos Despanha. Vindos de lâ, o ifante dom Anrique desejoso de acrecêtar este reyno, & descobrir outro mildo nouo, se assentou no algarue ao cabo de sà Vicente, donde começou a mandar descobrir a costa de Mauritania, porque naquelle têpo nenhú Português passaua do cabo de Não, q está em .xxix. grãos daltura. E pera p) Galvão alude aos habitantes da província vascongada de Guipúscoa. (S) Supomos que se trata de má leitura do texto de Galvão ou de êrro tipográfico da primeira edição, repetido na segunda, poia que a partida para Ceuta teve lugar em 1415.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS H7 isto se por em effeyto, mandou ho Ifante aparelhar certos nauios: & deo aos capitães por regimento q deste cabo por diante fosse seu descobrimento: elles assi o faziam, ma9 como chegauão a outro q se chama Bojador, nenhúa pessoa ousaua auenturar a vida: de q o Ifante andaua assaz agastado. No anno de 1417. reynando em Castela dom Ioam ho .ij & gouernando sua mây dona Caterina, hum Mossem Rubem de Bracamonte (x) que fora almirante de França, lhe pedira a cõquista das ilhas Canariasr, cõ titolo de rey (8) pera hfl seu parente, q se chamaua Mossem Iam Betancor, & que a raynha lhas dera & ho ajudara. Partio de Seuilha com bôa armada, & querem ainda que a principal causa que a isto ho mouera era descobrir a ilha da Madeyra, queMachim achara: Mas foram ter ás Canarias, leuando consigo hum Frey Mendo pera Bispo delia, concedido pelo Papa Martinho quinto. Saidos em terra ganharam Lançarote, Forte vêtura, Qomevra, & ho Ferro, dõde mandaram a Espanha muytos escrauos, Mel, cera, cãfora, couros, orchiga (8), figos, sangue de dragam ('), & outras mercadorias, em que fizeram bom dinheyro, (1) Robert de Braquemont, almirante francês que foi conse- lheiro e camarista de Carlos VI e serviu depois os reis da Sicilia e de Castela. Dos seus descendentes alguns fixaram-se em Portugal. (') Não nos consta que Jean de Bettencourt recebesse as Canárias com prerrogativas régias. (') Orchita ? Orcina ? (*) Sangue de dragão ou de drago é o nome de uma resina avermelhada, adstringente e medicinal que se extrai da dragoeira.
118 ANTÓNIO GALVAO porq esta armada diz que descobrio a ilha do Porto sancto, assentaram em Lançarote, onde fizeram hum castelo de pedra & barro, cõ que sostiueram o que tinham ganhado. No anno de 1418. Vendo Ioam gonçaluez ho zarco, & Tristam vaz teixeyra, caualeyros da casa do Ifante, os desejos que elle tinha de descobrir teria: & elles de ho seruirem na tal impresa, lhe pediram hum nauio & licença em que foram a este descobrimento, & junto da costa de Africa lhes deu tal tormenta que se nã poderam juntar a ella, & se perderam de todo se os Deos nam socorrera cõ lhes amostrar hda terra & porto a que poseram nome sancto, onde se salua- ram: & estiueram aqui dous annos. No anno de 420. (x) descobriram as ilhas da madeira, & se passaram a ella, onde ainda acharam a hirmida & pedra que con- taua, como Machim ali estiuera. Outros dizem que vendo hum Castelhano (2) os desejos que o Ifante tinha de descobrir nouo mundo, lhe dera conta como (1) Pessoalmente, patrocinamos a data de 1419. A colonização da Madeira, no entanto, parece que só foi iniciada por volta de 1425 conforme afirma o Infante D. Henrique na sua carta de 18 de Se- tembro de 1460: «comecei de povoar a minha ilha da Madeira averá ora trinta e cinco annos, e isso mesmo a do Porto Santo, e deshi proseguindo, a Deserta».... Supomos que Galvão alude, deturpando-o, ao epílogo da lenda do descobrimento da Madeira pelos ingleses, segundo o qual, finados os amantes Roberto Machin e Ana de Arfert, os sobreviven- tes voltaram a embarcar e foram atirados para a costa marroquina, onde o mouro os aprisionou. Ali conheceram um experimentado
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 119 elles acharam a ilha do Porto sancto, & por ser cousa pequena nam faziam delia estima. Que foy causa de mandar la ho Ifante Bertolameu perestrelo, Ioam gonçaluez ho zarco, Tristam vaz teyxeira: & poios sinaes & derrotas que ho Castelhano dera do porto sancto, foram ter a elle, & despoys de ali estar dous annos, no de 420. (*) se passaram á ilha da madeyra,j» onde acharam como Machim ali estiuera. Estando assi Mossem Ioam Betancort na còquista das Canarias (como he dito) dizem que o mataram, & deixara por seu herdeiro hum parente que se cha- maua Mossem Menante (*), & q este as vendera a hum Pero Barba (s) de Seuilha. Outros querê dizer q Mos- pitôto andaluz, de nome João de Morales, a quem pormenorizaram o descobrimento casual que vinham de fazer. Resgatado, pouco depois, da escravidão em que o sultão o tinha, largou Morales para Espanha, sendo porém aprisionado pelo português João Gonçalves, de alcunha — o Zarco — que o conduziu à presença do infante D. Henrique para que lhe relatasse os suces- sos do descobrimento realizado pelos ingleses. (1) Vide nota 1 a pág. 118. (í) Maciot de Bettencourt, a quem seu tio Jean de Bettencourt confiou o govêrno geral das Canárias quando da sua retirada para a Normandia. (s) Dotado de génio despótico e assomadiço, exerceu Maciot tantas violências sObre os indígenas que Sstes apelaram para a rainha D. Catarina de Castela, a qual mandou socorrê los por uma frota da capitania de D. Pedro Barba, senhor de Castro Forte. Impossibilitado de resistir, entregou Maciot as ilhas a Pedro Barba e fêz-se de vela para território português, onde as arrendou ao infante D. Henrique, o que não o impediu de tornar a negociá-las pouco depois com o espanhol conde de Niebla. Pedro Barba, por
120 ANTÓNIO GALVAO sem Ioam Betancort se fosse a França refazer de nouo para esta conquista, & deixara aly hCi sobrinho, & como nunca mays de là viera: vendo ho parente que nam podia sostentar a guerra, vendera as Cana- rias ao Ifante dom Anrique por certa cousa que lhe dera na ilha da Madeira í1). No anno de .424. diz que mandou o Infante fazer hda armada (*) pa cõquista destas ilhas, hia por capi- tam mòr delia dõ Fernando de castro, & como as gentes delias eram belicosas, defenderam bem suas casas. E vendo dom Fernando ho grande gasto q «eu turno, transaccionou as ilhas com Hernan Perez, de Sevilha, que também cedeu os seus direitos ao conde de Niebla. Êste dlspôr das Canárias em benefício de Guilherme de las Casas, que as doou ao genro, Fernão Praza. Entrementes, o proprietário legítimo, Jean de Bettencourt, tes- tava deles a favor de seu irmão Reynaud, Em 1446 cedia o infante D. Henrique a capitania da ilha de Lançarote a Antão Gonçalves, que para lá partia. São descabidos aqui os transes por que as Canárias passaram até serem doadas, em 1455, por Henrique IV de Castela ao conde d« Atouguia. Êste vendeu-as ao Marquês de Meneses, que, por sua vez. as passou a O. Fernando, sobrinho e filho adoptivo do Infante Na- vegador, o qual enviou ali uma armada, em 1466, sob o comando de Diogo da Silva. No interregno, os direitos de Fernão Praza passaram a uma neta que desposara Diogo da Silva, continuando a propriedade das Canárias indecisa até à celebração do Tratado das Alcáçovas. (1) Vide a nota que antecede. Parece que o arrendamento ao infante D. Henrique se circunscreveu à ilha de Lançarote e Implicou a doação de terras na Madeira e o pagamento de 20$0C0 reais por ano. (*) Transportava 2.500 peOes e 120 cavaleiros.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 121 fazia se tornou, & despois ho Infante alargou esta terra à coroa de Castella pellas ajudas q Abetãcor dera. Mas 03 Castelhanos contam isto doutra maneira, que nem os Reys de Portugal nê o Infante dõ Anrri- que as quiseram alargar, atè chegarem a direito diante do Papa Eugénio quarto Venezeano, ho qual vêdo isto deu a cõquista daquelas ilhas por sentença a el Rey dom Ioam de Castella, no anno de trinta & hG, por onde cessou esta contenda das Canarias antre os Reis de Portugal, & Castella í1). Esta3 ilhas das Canarias diz q sara sete & q se chamauã as Beatas ou bem Afortunadas, estão em vintoito grãos da parte do norte, tê o mavor dia de treze oras, & a noite de outras tãtas, estam de Espa- nha duzentas legoas, & da costa de Africa dezasete. Em têpos passados adorauã os ydolos, comiã carne crua, por falta de fogo, nam tinham ferro, semeauã sem nada, laurauã a terra, com cornos de bodes, ác cabras, cada ilha falaua sua lingoagem, casauãse cõ muitas molheres, & primeiro que as conhecessem as dauam aos senhores: tinham outros diuersos custu- mes, agora todos sam da ley de Christo, tem muito trigo, oeuada, açucares, vinho, & hús pássaros q chamã canarios, que em Espanha sam estimados. Na ilha do Ferro nam ha outra agoa senam a que de noite deita (1) A questão das Canárias só foi definitivamente solucionada pelo tratado das Alcáçovas, de 4 de Setembro de 1479, cujo art.° IV estipula que as conquistas desde o Cabo Não até às índias seràe pertença lusitana, ficando as Canárias e Granada para Castela.
122 ANTÓNIO GALVÃO húa aruore, sobre q está húa nuug, desta bebem as gentes, & gados, cousa a todos muy notorio ('). No anno de .1428. (8) diz q foy o Infante dom Pedro a Inglaterra, França, Alemanha à casa sancta, & a outras de aquella bãda, tornou por Italia, esteue em Roma, & Veneza, trouxe de lá hfl Mapamundo q tinha todo o âmbito da terra, & o estreito do Maga- lhães (s) se chamaua, Cola do dragam, o cabo de Boa (1) A história da nuvem é inspirada numa velha lenda que Plínio cita, cuja origem é de atribuir à faculdade que possuem certas árvores de folhagem espêssa e sempre verde de condensar as umldades atmos- féricas. No seu roteiro da viagem de Fernão de Magalhães, refere-se António Pigafeta à nuvem em têrmos semelhantes aos de Galvão. (3) Há manifesta confusão por parte de Antonio Galvão, pois que as viagens do Infante D. Pedro tiveram início em 1419, sendo o ano indicado de 1428 o do seu regresso a Portugal. (3) Galvão limita-se a uma notícia lacónica do planisfério de D. Pedro, sem alusão a qualquer testemunho fidedigno que assinale a ezistíncia do famoso documento. E se considerarmos o informe de que déle se serviu o infante D. Henrique em seus descobrimentos, ;como explicar que noticia tão importante seja omissa nos autores que mais de perto acompanharam e descreveram a obra Infantista ? Por outro lado, sendo a cartografia consequência de viagens e explorações anteriores, i como admitir a existência, em 1428, de um mapa inserindo a quási extremidade da América Austral, ou seja uma região que tardaria quási um século a ser oficialmente descoberta ? Admitamos, todavia, em princípio, a existência do planisfério de D. Pedro. Uma breve análise dos mapas venezianos de fins do século XIV e início do XV leva-nos a salientar o planisfério de São Miguel de Murano, de 1380, como o que tinha maior probabilidade de ser ofertado ao Príncipe das Sete Partidas do Mundo durante as viagens que realizou entre 1419 e 1428. Ramúsio diz, da carta em questão, que nela se continham muitas
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 123 esperança, fronteira de Africa, & q deste padram se ajudara o Infante dom Anrrique em seu descobri- mento, Francisco de sousa tauarez me disse q no anno de .528 ho Infante dom Fernando lhe amostrara húa C«ic) Mapa que se achara no cartorio Dalcobaça que auia mais de cento & vinte annos que era feito, o qual tinha toda nauegaçam da índia, com ho cabo de Boa esperança, como as da gora, se assi he isto, ja coisas singulares não sabidas ainda então, e pelo menos dos antigos, como eram as partes para o antártico, que Ptolomeu e todos os outros cosmógrafos fariam terra incógnita e sem mar; e que neste mapa de Murano, feito havia tantos anos, se via o mar cercando a África; e que se podia navegar para o poente, e que no tempo de Marco Polo se sabia já que aquêle Cabo, se não tinha algum nome, qual depois lhe deram os portugueses por 1500 (ase), chamando-lhe Cabo de Boa-Esperança; e que ali se via perto a ilha de Magastor ou de São-Lourenço e a de Zanribar. A notícia de Ramúsio é corroborada por Azuni que diz haver examinado o planisfério de Murano, onde a ponta da África, repre- sentada em forma de ilha, figurava separada do continente por um grande rio com o nome do diabo. Ora, que a extremidade do continente africano estivesse demar- cada no mapa de 1380 não causa estranheza depois da confecção por Pedro Vesconte, sessenta anos antes, da carta destinada a ilus- trar a tese da comunicação do Atlântico com o Índico, enunciada no Liber Secretorum Fidelium Crucit, de Marino Sanuto. Outro tanto se não verifica com a passagem do Atlântico para o Pacífico, pelo Sul da América, o que nos leva a concluir que, a haver existido, não podia o planisfério ofertado a D. Pedro abran- ger qualquer tróço da América Austral e muito menos o Estreito de Magalhães. A Cola do Dragão, a que Galvão alude, traduz mera especula- ção fantasista.
124 ANTÔNIO GALVAO em tempo passado era tanto como agora, ou mais descuberto. Com todo ho trabalho & gasto que ho Ifante dom Anrique tinha feyto, nunca desistio de seu preposito & descobrimento, & pera isso mandou a elle Gilianes seu criado, q foy ho primeiro que passou ho cabo Bojador, tanto por todos arreceado, & trouxe noua nam ser tã perigoso como se dezia, da outra bãda sayo em terra, & como quem tomaua posse, pos húa Cruz de pao nella por marco: & no anno de .1433. no mes de Agosto faleceo el Rey dom Ioam (»), & aleuan- taram por Rey dom Duarte seu filho. No anno de .434. (8) mãdou ho Ifante dõ Anrrique Afonso gonçaluez baldaya, capitam de hfl nauio, & Gilianes que descobrio o cabo em outro cabo alem delle, saydos em terra conhecerá ser pouoada, & como sabiam q ho Infante desejaua auer delia lingua forà ter a hfla põta sem ver nenhõa cousa, donde se tor- naram, & no anno de .438. faleceo el Rey dom Duarte: & pelo Príncipe dõ Afonso ficar menino gouernou ho Infante dom Pedro seu tio. No anno de .441. mandou ho Infante dom Anrriq dous nauios, capitães delles Nuno tristam & Antam gonçaluez, sairam na costa, & fizeram presa, & che- garam ao cabo Branco, que está em vinte grãos, enfor- mado ho Infante das cousas daquella terra pelos t1) D- João I. Na edição ferreiriana de 1781 houve o cuidado precisar o monarca a que Galvão alude e cometeu-se a gralha ou disparate de identificá-lo com D. João II. (*) Aliáa em 1485.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 125 mouros q estes trouxeram, mandou Fernã lopez daze- uedo dar cõta ao Papa Martinho do que passaua, & como esperaua resultar gram proueito aa sancta Madre igreja, ho Papa lhe concedeo indulgècia & doaçam perpetua, & tudo o mais que pedia aos que uesta empresa falecessem. Despois disto do aDDO de .1443. mandou ho Infante Antam gõçaluez resgatar os escrauos q trouxera, & os mouros derã por elles negros de cabelos reuolto, & algum ouro: donde ficou nome rio douro, & mais acrecentou ho desejo ao descobrimento: & por isso foy logo lá Nuno tristam, & chegou às ilhas Darguim, donde fez presa, & se tornou cõ ella no anno seguinte de .1444. Lançarote moço da camara do Infante Gilia- nes, & outros armaram certos nauios foram por costa atee as ilhas da Garça (*), tomarão perto de dozentas almas, que forã as primeiras que até entam de laa vieram. No anno de .1445. (*) foy por capitam de hum nauio Gonçalo de Sintra escudeiro do Infaate, saidos em terra níia Angra que se agora chama de seu nome, tomaram os mouros com seys ou sete cõpanheiros, foy esta a primeira perda que recebeo Portugal desta Spresa & no anno seguiDte (3j mandou ho Infante tres (1) A Ilha das Garças, na Bala de Arguim. (*) Ou houve aqui gralha tipográfica ou engano de Galvão ou má leitura do original, pois que Gonçalo de Sintra, com sete compa- nheiros, faleceram em princípios de 1444 na ilha de Naar, ao Sul de Arguim, para onde partiram do reino em 1443. (3) Partiram no princípio de 1445.
126 ANTÓNIO GALVAO carauellas, & capitães delias Antã gõçaluez, Diogo Aíod80, Gomez pirez, a que deu regimento que nam entrasse no rio do Ouro: & assStassem pazes, & fizes- sem quantos Christãos podessem: e sem nada disto se tornaram. No anno de .1446. (*) hCl escudeiro dei Rey dõ Afonso q se chamaua Dinis (a) fernandez da cidade de Lixboa, foy a este descobrimento, mais por honra q por proueito: chegou ao rio á Sanaga (s), que está em quinze ou dezaseis grãos daltura da parte do norte, & estrema os mouros dos Ialophos, onde tomou algfls negros: nã côtente disto diz q passou auante, & descobrio o Cabo verde, q está em catorze da mesma parte, & posto sua Cruz de pao nelle tornou cõtente. No anno de .1447. (4) tornou Nuno tristã em hfla carauella & passou o Cabo verde, & rio Grãde (6): & sahio em outro q está além delle em vinte grãos, onde o mataram com dezoito (6) Portugueses, & com quatro ou cinco se tornou ho nauio em saluamento. Contam mais que neste meyo tempo vindo hfla nao de Portu- (1) 1445. (*) Dinis Dias, a quem Galvão chama Dinis Fernandes baseado, em João de Barros. Há manifesta confusão com Álvaro Fernandes, sobrinho de João Gonçalves Zarco, que também foi do Funchal, ao rio Senegal em 1445. (*) Senegal. Dinis Dias ultrapassou o Cabo Verde e desem- barcou na ilha da Palma, actualmente denominada de Gorée. (4) Em 1446. (6) O actual rio Geba. t«) Dezanove.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 127 gueses pelo estreito de Gibaltar fora, lhe dera tal tromêta, q correra a loeste muito mais do q quisera, & forã ter a hQa ilha em q auia sete cidades & falauâ a nossa lingoa & preguntarã se tinham os mouros ajnda accupado (sic) Espanha dõde fogirã pola pdida dei rey dõ Rodrigo. O contra mestre da nao diz q trouxe hila pouca darea & q a vendera a hfl ouriues em Lixboa de q tirara boa cãtidade douro: sabêdo isto ho Infante dõ Pedro que ajnda gouernaua, diz q ho mãdou escreuer na casa do tõbo. E algfls querem q estas terras & ilhas q os Portugueses tocará, sejam aquelas que se agora chamã as Antilhas & noua Espa- nha, & alegam muitas razões pera isso, em que nam falo por nã tomar isto à minha conta, mas com tudo toda a cousa de que nam sabiam dar rezam era dizer, he a noua Espanha. No anno de .1449. (J) el Rey dõ Afonso deu licença ao Infante dõ Anrriq seu tio pa mandar pouoar as ilhas dos Açores q auia dias q erã descubertas ('): & no anno de .458. passou este Rey a Africa, & tomou a villa de Dalcacere, e no de .61. mandou Soeiro (') A primeira carta régia que conhecemos, permitindo a colo- nização dos Açores pelo Infante D. Henrique, é datada de 2 de Julho de 1439. Consta, porém, que nessa data já o Infante lá «mandara lançar ovelhas». (3) Não pode infelizmente precisar se a data do descobrimento dos Açores, que o Globo de Nuremberga, de Martim Behaim, e a carta de Gabriel Valsequa indicam ter sido entre 1426 e 1431. O ano de 1449 indicado por Galvão traduz um trro crasso.
ANTÓNIO GALVAO mendez fidalgo de sua casa fazer o castello Darguim a que deu alcaydaria (*). No anno de .462. (8) vieram a este reyno de Por- tugal tres Ianoeses pessoas nobres, o primeiro delles era Antá de Noly & hd seu jrmão & sobrinho, cada híl em seu nauio, pedirã licêça ao Infante pa des- cobrir as ilhas do Cabo verde a elle lhe aprouue: algúa querem dizer que fossem aquellas que os anti- gos chamaram Gorganas, Esperidas, Orçadas, mas elles lhes poseram nome a Maya, Sanctiago, Sam Felipe, polas verem em seu dia, outros lhe chamão as ilhas Dantão ou Dantonio. Neste mesmo ãno, ou no outro seguinte (s) faleceo este Infante dom Anrique, deixando descuberto do cabo do Não ate a Serra lioa que estaa desta nossa banda, em oyto grãos daltura. No anno de .469. arrendou el rey dom Ioâo, o trato de Guine a Fernam Gomez, que se despois cha- mou da Mina, por cinco annos, a rezã de dozentos mil reas cada hum anno, & q mandasse em cada hum delles descobrir cem legoas alem das descubertas. No (l) Por carta de 26 de Julho de 1464 foi lhe conferida a capi- tanla-mor da fortaleza para si e seus descendentes. (*) É manifesto o anacronismo pois neste mesmo parágrafo alude Galvão à licença para descobrir que António de Noli solicitou do Infante D. Henrique, finado em 1460. Existe, porém, a carta régia de 19 de Setembro de 1462, que se refere is cinco ilhas de Cabo Verde «achadas per Antonio de Nola em vida do Ifante dom Anrique.» (S) Em 1460.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 129 anno seguinte de .470. (') passou este Rey & o prín- cipe dom Ioão seu filho em Africa, & tomarão a villa Dârzilla & a cidade de Tangere se despejou com medo, tèdo muyto custado, paresce que permitio Deos isto por amostrar q os ousados sam delles fauorescidos. No ãno de 1471. mandou Fernam Gomez des- cobrir a costa como se obrigara, & foram a isso, lobão de Santarém & Ioháo (') Descouar, & em cinco grãos daltura acharam a Mina. E no ãno seguinte de 472. (s) de8cobrio Fernão do poo a ilha q se chama como elle, & neste mesmo tempo foram descubertas as ilhas de Sam Thome & prlcipe (4) que estam na linha, & na terra firme o reyno de Benij ate ho cabo de Caterina que estaa da parte do Sul em tres grãos, & o q fez este descobrimento era criado de .S.A. chamauase Siqueira. Muitos querê dizer que neste tempo fossem terras e ilhas descubertas, de que ja nâ ha memoria q sera de Noe ate agora. No anno de 1480. (6) faleceo este magnânimo & esforçado Rey dom Afonso deixando muytas cousas feytas dignas de memoria, & começou logo a Reynar (1) A armada que D. Afonso V levou a Arzila, de trezentos e trinta e oito velas, largou de Restelo aos 15 de Agdsto de 1471. (*) Aliás Piro ou Pedro de Escobar. (9) Não está definitivamente averiguado se a ilha de Fer- nando-Pó, de inicio denominada For mota, foi descoberta em 1471 ou em 1486. (f) Supomos que foi descoberta em Janeiro de 1471. (5) D. Afonso V finou-se no dia 28 de Agôsto de 1481. 9
130 dõ Ioão seu filho, q no anno de oytenta (*) & hum, mandou por Diogo Dazambuja fazer a fortaleza da Mina, & ficou por capitam delia. No anno de 1484. foy mãdado por este Rey dom Iohão a este descobrimêto Diogo cão caualeiro de sua casa: chegado ao rio de Manicõgo, que estaa da parte do Sul, em sete ou oyto grãos daltura, pos nelle Padram de pedra com armas & letras reaes q denun- ciauam que o mãdaua, & o anno & era em q se pose- ram as Cruzes de pao, daqui foram ter ao rio Pico de Capricórnio ('), pondo padrões, onde lhe pareceo ser necessário, tornado a Manicõgo viose cõ el rey delle, & mandou embaixador & homês de credito a este reyno, & no anno seguinte (8) ou no outro despois delle chegou Ioão alonso Daueiro do Reyno de Benij com pimenta de rabo (4), que foy a primeira que se vio nesta terra. No anno de 486. (5) mandou el rey dõ Ioam a este descobrimento Bertholameu diaz caualeiro de sua casa cõ tres vellas, yndo assi ao longo da terra pose- (1) A frota de Diogo de Azambuja partiu do reino em 11 de Dezembro de 1481 ma» só alcançou a Mina aos 19 de Janeiro de 1482. (2) Aliás Trópico de Capricórnio, como muito bem diz o pro- fessor Damião Peres em nota à pág. 557 do vol. ill da História de Portugal, editada em Barcelos. (») Em 1486. (4) A primeira pimenta africana foi de facto trazida a Portu- gal pelos companheiros de João Afonso de Aveiro, mas não por èle, pois que a morte o levou em Benim. (5) Bartolomeu Dias partiu do Tejo nos últimos dias de Julho ou primeiros de Agôsto do ano de 1487.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 131 ram padrões de pedra, & descobrio o cabo de boa esperança & alem delle a te ho rio do Infante (*), q se pode dizer qvia terra da índia, mas nã entrou nella, como Mouses na terra de promissam. No ãno de 487. mãdou el Rey dom Ioã descobrir a índia por terra, foy a isso hCt Pero de couilhã seu criado, & Afõso de Paiua por saberê a lingoa Arabia, partiram no mes de Mayo (*) do mesmo ãno, & na cidade de Nápoles embarcara. Chegaram à ilha de rodes, pousaram em casa dos comendadores Portu- gueses, passaram à cidade Dalexandria, dahi foram ao Cayro, & ao porto do toro (s) em Carauanas, & em Recouas de mouros^ onde embarcará no mar roxo, chegaram à cidade Dadem, onde se apartaram Ioã (*) (sic) de Paiua pera Thiopia, & Pero de couilhã á índia, & foy ter aa cidade de Cananor, Calecut, & tor- nou a Goa, onde embarcou pera Sofalla, costa Dafrica, a ver aquellas Minas cousas tam nomeadas. De Sofala tornou a Moçambique, & aa cidade de Quiloa, Bombaça, Melinde (B), ate a cidade Dadem donde Afonso de paiua se apartara delle, & foy pelo mar roxo â cidade do Cairo, õde ficaram de se ajun- tarem, mas achou noua como ahy falecera, & cartas dei Rey dom Ioam em q mãdaua q se visse cõ o preste Ioã da índia. (1) A Great Fish River das cartas modernas. (*) A 7 de Maio. (8) Tor, no Mar Vermelho. (8) Aliás Afonso. (B) Visitou também Madagáscar, a que os árabes chamavam ilha da Lua.
132 ANTÓNIO GALVAO Vendo Pero de couilham este recado, partio do Cairo ao porto do Toro, (*), & dahi á cidade Dadem onde ja duas vezes estiuera, & tendo noticia de cama- nha (sic) cousa era & quam prospera a cidade Dormuz, determinou dir a vella, & foy ao longo da costa Darabia ao cabo de Resalgate (*) que estaa no Tropico de Cancro (#), & dahi a Ormuz, que estaa situada em vltasete grãos da mesma banda. Enformado do estreito da Pérsia, & daquella terra, se tornou ao mar roxo & passouse ao Reyno do Abexim, que vulgarmête se chama Preste Ioam da india, onde esteue ate ho anno de 520. (4) que ho achou lá o embaixador dõ Rodrigo de Lima. Este Pero de oouilhãa foy o primeiro Por- tuguês que eu sayba q vio as índias & seus mares, & outras cousas a nos muy remotas. No anno de 1490. mandou el Rey a Manicongo com tres nauios Gonçalo de Sousa home fidalgo, tor- nou em sua companhia o embayxador de Manicongo, que Diogo cam trouxera, tendo ja tomado agoa de baptismo & outros que com elle vieram, Gonçalo de Sousa fâleceo no caminho (6) & enlegeram por capitã mor a seu sobrinho Ruy de sousâ, chegado a Mani- congo, fez lhe el Rey muyto gasalhado & baptizouse logo com a mòr parte de sua terra, que foy grande louuor, & honrâ ao reyno de Portugal & sua coroa. (l) Vide nota 3, pág. 181. (!) O cabo Ras-el-Hadd das cartas modernas. (3) Câncer. (1) Aliás em 1621, ano em que a embaixada de D. Rodrigo de Lima alcançou a Abissínia. (5) Em Cabo-Verde.
DESCOBRIMENTOS DAS ANTILHAS & ÍNDIAS POLLOS ESPANHÕES FEYTAS. NJO anno de 1492. estando el Rey dom Fernando de Castella sobre a cidade de Orada, despachou Christouam Colom Italiano, cõ três Nauios ao des- cobrimento da noua Espanha o ql primeiro viera a Portugal a el rey dom Ioão & o nam quis aceitar. Partio da villa de Pálios aos tres dias do mes Dagosto leuando consigo por capitães & pilotos (J) Martin alonso pição, Francisco martlz pição, Vicête anez pição, & Bartholameu Colõ (') seu hirmão, & cèto
134 ANTÓNIO GALVÃO primeiros q nauegassem por alturas (*), nas ilhas Canarias tomarã refresco (•), dahi foram na volta do Sagarço (8): & vendo o mar delle coalhado ficaram espantados, & com grande arreceo chegaram às Anti- lhas a dez (4) dias do mes de Ouctubro. E a primeira ilha que viram se chamaua Greinani (6), sayram em terra, tomaram posse delia, poseram lhe nome sam Saluador (6): despois viram muytas a q chamaram as princesas, por serê as primeiras por elles vistas: mas os da terra lhes chamã os Lucayos (7), ainda q todas (1) £ lamentável que Galvão desconhecesse ajusta prioridade portuguesa na navegação por alturas. (8) Aportaram a Tenerife aos 9 de Agôsto, não para meter mantimentos mas para reparar a avaria do leme da Pinta, que se diz ter sido obra dos seus proprietários, os irmãos Juan e Cristóbal Quintero, com o fim de tornarem a Espanha. (3) Entraram no Mar dos Sargaços em 16 de Setembro, tirando Colombo partido do fenómeno para convencer as tripulações de que estavam perto do objectivo que demandavam. (1) Foi no dia 12 de Outubro que Rodrigo Sánchez de Triana, marinheiro da Finta, avistou a ilha de Guanahani, do grupo das Bahamas, a que deram o nome de São-Salvador. (5) Guanahani. (8) Vide nota seguinte. (1) As ilhas do arquipélago das Lucaias ou das Bahamas. Quais foram as ilhas que Colombo avistou é assunto sôbre que não há acôrdo entre os historiadores da sua viagem. Humbolt, Har- risse, Navarrete e Varnhagen, para não aludir a outros, opinam respec- tivamente pelas ilhas de Gato, Ackling, dos Turcos e Maiaguana, inclinando-nos nós para o critério dos que indicam a de Vatling, mais conforme, parece-nos, com a descrição de Las Casas, que lhe chama dei Triango.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 135 tê nomes separados, & estam da parte do Norte, quasi debaixo do Tropico de Cancro, da parte do Norte de dezeseys grãos ate dezesete, que he a ilha de San- tiago (i). Daqui foram á ilha a que os da terra chamã a Cuba, & os Castelhanos poserã nome Fernandina (') por el rey dõ Fernando, a qual estaa em vlte dous grãos, donde os índios os leuarã á outra que elles chamão Ahyti (l), & os Castelhanos Isabela, em memo- ria da Rainha de Castella: & tãbem a Espanhola (4). Aqui se perdeo a nao capitaina (5), & da madeira delia fizeram húa tranqueira (6), onde deixará trinta & oyto homês (7), & capitam delles Rodrigo darena (®), (!) A Jamaica, que Colombo descobriu no dia 8 de Maio de 1494, quando da sua segunda viagem. É de supor que a referência de Galvão à Jamaica tenda a comparar-lhe a posição à das Lucaias, em cujo arquipélago a localizava, e cuja verdadeira latitude desconhecia. (4) A Fernandina nada tem com a ilha de Cuba e foi a ter- ceira a que Colombo abordou na sua viagem, em seguida à de Caio Rum, a que chamou de Santa Maria de la Concepcion. (s) Haiti. (4) Dado o laconismo com que Galvão descreve esta celebér- rima viagem, importa pormenorizar que Colombo, ao largar de Vatling, aproou à Costa Setentrional de Cuba, onde julgou encontrar a Ásia. No dia 12 de Novembro prosseguiu nos rumos oeste e sul até ao extremo oriental da ilha, que deixou a 5 de Dezembro, avis- tando, no dia imediato, Santo Domingo, no Haiti, que baptizou com o nome de Hispaniola. (5) Na costa Norte de Santo-Domingo. (6) A que chamou de La Navidad. (1) Ou 89 ou 43, segundo outros autores idóneos. (8) Aliás Diego de Arana.
136 ANTÓNIO GALVAO pêra aprenderem a lingoa & costumes da terra, donde trouxeram mostras douro, papagayos, & outras cousas q laa auia, & dez índios de que escaparam seys que se ca baptizaram. E pos isto tam grande aluoroço & desejo aos Espanhões q a nado queriã hir a aqlla terra, & na volta vierã pellas ilhas dos Açores (*). E a quatro dias de Março do anno de 493. entraram pella barra de Lisboa (*): de q el rey dom Ioam lhe pesou tanto q teue differença sobre estas terras com ho de Castella. Tanto q Christouã colõ chegou a Castella cõ esta noua, & de como el rey dõ Ioã lhe pesaua dlla, el Rey dõ Fernâdo & dona Isabel, mãdarã logo ao Papa Alexandre sexto: da qual noua elle & todo o pouo ficaram marauilhados, auer terra q os Romãos nam tiuerá noticia, auêdose por seflores da redondeza, Sc. fez logo doaçam delias aos reynos de Lyam & Cas- tella (•), cõ tal cõdiçam q trabalhassê como se a jdola- (!) Aportaram à ilha de Santa-Maria aos 18 de Fevereiro de 1498. (*) Fundeou em Cascais a Nina. (3) Pela bula Inter caetera divinae majestatis beneplácito opero, de 8 de Maio de 1498, que doava aos reis católicos omne» insulas et terras firmas inventas et inveniendas, detectas et detegendas, versus occidentem et mtridiem. Por ser de manifesto favoritismo para a Espanha foi aquela bula substituída, no dia imediato, por outra que estabelecia um meridiano imaginário a cem léguas a ocidente das ilhas dos Açores e Cabo-Verde. A actividade descobridora de por- tugueses e espanhóis circunscrever-se-ia aos hemisférios a oriente e ocidente daquela linha, respectivamente. Mal abafara porém a tiara no sucessor de S. Pedro o arbítrio
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 137 tria desarreigasse, & a nossa sãcta fee multiplicada. Chegada esta reposta tornou logo el rey dõ Fernãdo mãdar Christouam colõ ao descobrimêto, ja Almirante cõ outras honras, merces & insígnias, & derredor das suas armas hila letra q dezia, por Castella & Leõ nouo míldo achou Colõ (*). No anno de 493. aos .25. do mes Doctubro (*), tornou Christouã colõ ás Antilhas, & da barra de Calez tomou sua derrota, leuãdo dezasete vellas (8), & mil & quinhentos homês nellas, & seus hirmãos, Bertholameu colom, & Diogo colom (4), & outros do aventureiro, e, ao estabelecer a partilha, obedeceu Rodrigo Bór- gia ao propósito de beneficiar a pátria em que nascera, em detri- mento de Portugal. Prevendo os reis católicos o partido a tirar do facciosismo de Alexandre VI, incumbiram o vice-rei da Galixa, Lopes de Haro, e o arcebispo D. Gonzalo de Heredia, de arrancar às simpatias do Pon- tífice as bulas Piet fldelium, de 25 de Junho, e Dudum liquidem omnet et lingulas intuíam, de 26 de Setembro, as quais concediam, com desrespeito da partilha de 4 de Maio de 1493, prioridade a Cas- tela nas descobertas e conquistas a ocidente e oriente. Tamanha arbitrariedade levou os dois interessados a abstraírem da intervenção papal e a elaborarem, de mútuo acôrdo, o Tratado de Tordesilhas, de 7 de Junho de 1494, que Júlio II confirmou por bula de 24 de Janeiro de 1606. (1) Ou A Castilla y á León nuevo Mundo dió Colin ou ainda A Castilla y á Aragon nuevo Mundo dió Colón. (*) Aliás de Setembro. (3) Três galeões e catorze caravelas. (<) Bartolomeu Colombo não comparticipou nesta viagem, ao contrário do que diz Galvão.
138 ANTÓNIO GALVAO fidalgos, caualeiros, & letrados (*), & religiosos com calezes, Cruzes, & ricos ornamentos, & grandes pode- res do Papa Alexandre. E aos dez dias chegaram aas Canarias (8): & delias a vinte cinco ou trinta dias ás Antilhas. A primeira ilha que viram estaa em quatorze grãos da parte do Norte leste hoeste com ho cabo Verde, diz que auera delia às Canarias oito centas legoas, poseranlhe nome a Desejada, (s) pelos desejos que leuauã de ver terra, logo viram outras muitas, a que poseram nome as Virgens: ainda que os da terra lhe chamã as Quiribas (4), por ser de homês guerreiros & bõs frecheiros, tiram com erua tã peçonhenta que quem morre delia morde a si mesmo como cão danado. Destas ilhas em outras foram ter à principal delias, a que os da terra chamã Boriquem, & os Cas- telhanos sã Ioão (5), dõde chegarã a Espanhola ou ilha Bela (®) & acharão todos os homês mortos que nella deixaram, por offensas que aos da terra fize- ram (7) aqui, deixou ho Almirante a mayor parte da gète pera pouoala, & seus jrmãos gouernadores (l) Em cujo número se contavam o célebre astrólogo António de Marchena, Alonso Ojeda, Juan de la Cosa, Juan Ponce de Leon, etc. (*) Fundearam junto à Gómera no dia 5 de Outubro. (3) Geralmente demarcada nas cartas hodiernas com o nome de Désirade. Fica nas imediações da ilha de Guadalupe. (3) As Caraíbas ou Pequenas Antilhas. I5) A actual Pôrto-Rico. t6) La Espaflola, avistada a 32 de Noveaabro. (I) No forte de La Navidad.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 139 delia (l), & em barcos em dous nauios foy descobrir a costada da ilha da Cuba, & dahi a Iamaica ('), q se agorá chama Santiago, todas estas ilhas estam de deza- sete ate vinte grãos daltura da parte do norte. E em quanto laa andou ho Almirante, seus jrmãos com os q alv ficaram passaram assaz trabalho & desauêtura por se aleuantar a terra (8) tornou Christouã colõ outra vez a Castella (4) a dar conta a el Rey & á Rainha do que là passara. No anno de 1494 & mes de Ianeiro (8) se aueri- garão as differenças que antre estes dous Reys auia: & foy a isso Ruy de sousa & dõ Ioão seu filho, & o (i) Como esclareci em nota anterior, dos irmãos de Colombo só Diego o acompanhou nesta viagem e foi a êsse que o almirante confiou a presidência do concelho de regência que então nomeou, ao qual pertencia Pedro de Margarit. (í) Colombo partiu para esta exploração aos 24 de Abril de 1494 e aportou à Jamaica em 6 de Maio. Prosseguindo, encontrou os ilhéus denominados Caios Morant, a que chamou Jardin de la Reina, avistando, depois de navegar a sueste, a Evangelista, que recebeu o nome de La Mona. Atacado ali de doença grave, tornou à Izabela, onde chegou aos 29 de Setembro e teve a agradável surpresa de encontrar seu irmão Bartolomeu, recém-vindo de Espanha com três caravelas de reforços. (3) Galvão alude aos acontecimentos que provocaram a con- jura de Bernal Dias de Pisa, a revolta dos indígenas e injustificadas crueldades de Colombo. (*) Colombo largou da Espafíola, de regresso a Castela, no dia 10 de Março de 1496, deixando seu irmão Bartolomeu por adelan- tado da ilha. (5) O Tratado de Tordesilhas, a que Galvão alude, tem a data de 7 de Junho de 1494.
ANTÔNIO GALVAO doctor Ayres Dalmada (*): & da parte de Castela dom Anrique Anriquez, dom Iorge de Cardines (2), & o doctor Maldonado (8), ajuntaram se todos em Torresi- lhas, & partiram ha redondeza de Norte Sul por hum meridiano q está ao ponente das jlhas do Cabo Verde 370. legoas, & que ametade que ficasse ao Leuante fosse de Portugal, & Ocidente de Castella, & o mar & terra pera caminhar fosse a todos igual. No anno seguinte de nouenta & cinco faleceo el Rey dom Ioâo, & começou a reynar dõ Manoel seu primo. No anno de 1496 achandose hum Venezeano por nome Sebastião Gaboto (4) em Inglaterra, & ouuindo noua de tam nouo descobrimento como este era: & vendo em hfla poma como estas jlhas acima ditas estão quasi em hii paralelo & altura, Sc muyto mais perto de sua terra hila a outra, que de Portugal né Castella o amostrou a el Rey dõ Anrrique o septimo (!) Cujo nome figura no tratado como Arias de Almadana. (*) Aliás D. Guterre de Cardenas. (8) O Dr. Rodrigo Maldonado. Outorgaram ainda no tratado, como testemunhas por parte de Portugal, o grande cosmógrafo Duarte Pacheco Pereira, João Soares de Sequeira, Rui de Lemos e Estêvão Vaz; por Castela, Pedro de Léon, Fernando de Torres, Fer- nando de Gamarre e Fernando Álvares de Toledo. (4) Foi João Caboto, e não seu filho Sebastião, que o acom- panhou, quem obteve licença do rei Henrique VII de Inglaterra para ir a descobrir. A exemplo de Colombo, O venezeano pretendia alcan- çar a Ásia pelo Ocidente, presumindo que a viagem seria curta pelos mares boreais. Nos anos de 1497 e 98 achou, ao que parece, parte da costa canadiana e a Terra-Nova, alcançando depois, em obediência ás indicações do português João Fernandes Lavrador, que lá esti- vera, a costa do Lavrador.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 141 de que elle ficou tam satisfeito, que mandou logo armar dous nauios (!), partio na primavera (*) cõ trezétos companheiros, fez seu caminho a Loeste a vista da terra, & quarêta & cinco grãos daltura da parte do norte, forão por ella ate sessenta onde os dias sam de dezoyto horas, & as noytes muy claras & serenas. Auia aqui muyta frialdade & ylhas de neue, que não achauam fundo em setenta, oitenta, cem bra- ças, mas achauã grandes regelos, do que também se arreeeauã. E como daqui por diante tornasse a costa ao leuante, fizerãose na outra volta ao lõgo delia des- cobrindo toda a baya, rio, enseada, pa ver se passaua da outra banda, & foram assi diminuindo naltura ate trinta e oyto grãos, donde se tornaram a Inglaterra. Outros querem dizer, que chegasse á ponta da Florida que estaa em vintacinco grãos. No anno de 1497. (s) tornou el rey dõ Fernando a mandar ás Antilhas Ghristouão Colõ com seys nauios, elle armou dous aa sua custa, mandou seu yrmão diante: partio elle da baya de Calez (4), leuando con- sigo dõ Diogo Colon seu filho. Diz que foy tomar a ylha da Madeira (6), cõ receyo de Franceses, dõde mãdou tres nauios (6), outros querem dizer das Cana- (1) Só temos conhecimento de um — o Matthcrv. (3) Em Maio de 1497. (3) Aliás em 30 de Maio de 1498. (4) Aliás de San Lucar de Barrameda. (fi) Rumou à Gómera, nas Canárias, em cujas imediaçóes apresou um corsário francês, no dia 19 de junho. (3) Da Gómera despachou três caravelas para o Haiti.
142 ANTÓNIO GALVAO rias, como quer que seja, elle & tres foy aa ylha do cabo Verde, & correo ao longo da linha, em que achou grã calmaria & chuueiros. E a primeira terra que viram das Antilhas, foy hfla ylha que estaa em noue grãos daltura da parte do norte, pegada com a terra firme, poserãlhe nome a Trindade: entraram no golfam do Parea (x), & sayrã por húa boca, a q cha- mam do Drago (s), tomaram na mão a costa, & acha- ram tres pontas, a que poseram nome Testigos (9), , & outras pequenas ao longo da praya. Chegaram aa ponta que se chama da Vela, descobriram por costa cento & cincoenta ou dozentas legoas, onde atrauessaram a ylha Espanhola & ouueram vista da que se chama Beata (9). Ha nestas ylhas & terras hQs bichos ou passaros a que chamam Cocoyos, tem quatro estrelas, duas nos (') A quem chamou da Baleia. No interregno, que vai do des- cobrimento da Trindade à entrada no Gôlfo de Pária, avistou o con- tinente sul-americano que supôs ser uma ilha e a que deu o nome de ilha Santa. (s) A Dragon's Mouth das modernas cartas inglesas, (s) Saliências da costa a ocidente de Carúpano. (f) Cubagua. I5) Provàvelmente a Margarita, que Colombo reconheceu. (6) Los Roques. (') Oruba. (8) Curaçau. (9) A ilha Beata, ao sul de Haiti.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 143 olhos, & as outras debaixo das asas, dam claridade como candeas: podem escreuer, ou fiar, cozer, & tecer com ellas, & as leuam pera alumiarem, & se vntam as mãos & rostros com estas estrelas, parece que ardem em fogo. Hay outro Bicho que chamam Nigu (*), salta como pulga, he muyto mais pequeno, mete se antre a vnha & carne, & poem aly emprouiso tanta lendea, que se lhe nam acode logo multiplicam: de maneira que perdem os dedos & ficam aleijados algus a vida. Ha também nestas partes outro bicho do tamanho de hum gato, anda pellas aruores, dependurã se dos ramos pello rabo, & depois que parem hos filhos, tornam se a meter por hum buraco que tem junto da natura: neste antresolho da barriga tem húa mama cõ que ho cria, por onde parece que anda prenhe ate ser de ydade que ha natureza o despede, & vay buscar sua vida (*). Ha nestas jlhas muitos & diuersos pescados, & hum que se não entende se he alimaria se pexe, tem pes & mãos como lagarto, focinho & rabo como galgo, cria se nagoa & na terra pelas aruores, põe ouos como de galinhas, de que se geram, tem a casca del- gada, se os frigem nam se coalham com azeite nem manteiga, senão com agoa: em quanto estes bichos sam pequenos, passam per cima dagoa com tãta pres- teza, que se nam vão ao fundo, mas parece que corre (1) Deve tratar-se da matacanha da África Oriental Portu- guesa, a que os brasileiros chamam bicho de pé. (1) Trata-se de um marsupial semelhante ao gamba das matas brasileiras.
144 ANTÓNIO GALVÃO por terra ate certo tempo, dali por diante andam por baxo dagoa ao longo darea por nam saberê nadar, nem tem pera isso maneira, comem nos no carnal & quaresma. Ha la hum pexe que se chama Monatim, he grande & de coiro, tem a cabeça & rostro de vaca, & tãbê na carne parece muito a ella, tê híls braços junto dos hombros com que nadã o mais de seu comer he erua q nace ao longo dagoa, he muy saboroso, tem hQ as pedras na cabeça q sam proueitosas pera a dor de pedra, & a femea tem tetas nos peitos com q criam os filhos que nacem viuos. Ha outro pescado a q chamã Reuerso pouco mayor de hum palmo, tê espinhos como ouriço cacheiro, crião nos no mar em híl couão, atam nos em hQ cordel comprido, tomã com elles monatls, & outros grandes pescados & trazênos como forões aos coelhos, aqui ha muitas sardinhas, estes bichos pescados se vem em Maluco, & naqllas ylhas, & a gente se parece cõ a da noua Espanha, & assi comem algús la carne humana. No mesmo anno de 497 (') a vinte dias do mes de Iulho, partio Vasco da Gama por mandado dei Rey dom Manoel, de Lisboa pera aa índia com tres vellas (*), hiam por capitães Vasco da Gama, & Paulo da Gama seu hirmão, & Nicolao Coelho, & cêto & vinte (i) A 8 de Julho, segundo o roteiro atribuído a Alvaro Velho. (*) O S. Gabriel, de 120 tonéis; o S. Rafael, de 100, e a cara- vela Bértio, de 50.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 145 homès nellas, hia mais hum nauio cõ mantimento (*), & em treze dias (8) foram ao Cabo verde á ilha de San- tiago a tomar refresco, & dahi foram ao longo da terra (s): & alem do cabo de Boa esperança poserã padrões nella. Chegados a Moçambique, que está em treze grãos da parte de meyo dia, fizeram ahi pouca detença: foram a Mombaçà & a Melinde, el Rey delle lhe deu pilotos, que os poseram na índia, na qual trauessa descobrirão os baixos de Padua ('). No anno de 1498 no mes de Mayo, surgirá na cidade de Calecu & Panane (8), & estiuerà todo ho inuerno (8), & o primeiro de Setembro (') se fizeram a vella, & foram contra ho Norte descobrindo aquela costa atee a ylha Dangediua (8) que está daquella (1) Uma nau de 200 tonéis, adquirida para o fim a um parti- cular de nome Aires Correia, cuja capitania foi confiada a Gonçalo Nunes, criado de Vasco da Gama. (?) Incluindo os da partida e chegada, (8) Carece de fundamento o informe de Galvão. Ao largar de Santiago, Vasco da Garr a não se engolfou logo no pêgo do Oceano: foi demandar a costa africana até encontrar o vento sueste junto à Serra Leoa e só depois amarou, não ao rumo directo do sul mas a descrever um longo arco que quási tangenciou a costa do Brasil; em seguida inflectiu para leste a sua derrota e tornou a encontrar a África na Angra de Santa-Helena, (8) Representados na generalidade das cartas modernas com a designação de Munyal Par. (5) A Ponani das cartas modernas, (8) O inverno da índia, a que aludem as crónicas portuguesas, estende-se de Maio a Agósto e é o período da monção e das chuvas, (7) A 29 de Agósto, segundo o roteiro. I8) Ou Angediva, 10
146 ANTÓNIO GALVAO parte em quinze grãos daltura, onde surgiram na entrada do mes Doctubro í1), partiram de Angediua, & no de Feuereiro (*) do anno de 499. ouueram vista da terra de Africa, acima de Melinde (s) cõtra ho norte tres ou quatro grãos: da hi foram à quella cidade, & delia a Moçambique, & ao cabo de boa Esperança, & tomaram na mão a costa, & vieram as ylhas do Cabo verde, & a cidade de Lisboa na entrada do mes de Setembro (4), & poseram vinte & seis meses neste caminho. No anno de 499. a treze dias do mes de Nouem- bro (5), partiram de Pálios, Vicente Anez piçã & seu sobrinho Aires piçam cõ quatro nauios que armaram a sua custa, pera descobriméto do nouo mfldo, cõ licença dei rey de Castella, & regimêto q nam tocasse no q o almirante Colõ tinha descuberto, pelo q foram as ilhas do Cabo verde & passará a linha da outra parte do sul, & descobrira o cabo de sancto Agosti- nho f| está daquella banda en oyto grãos daltura, & (1) A 23 de Setembro, segundo o roteiro. (3) Aos 3 de Fevereiro, segundo o roteiro. (3) Em Magadozo. (4) A nau de Nicolau Coelho, que se adiantara, entrou o Tejo aos 10 de Julho de 1499 ; Vasco da Gama, compelido a arribar à Terceira por motivo da grave doença que ali lhe vitimou o irmão, só chegou a Lisboa a 29 de Agósto. (3) Nos últimos dias de Novembro, segundo Pedro Mártir d'.\nghiera; no mês de Dezembro e fins do ano de 1499, na lição de Fr. Bartolomé de las Casas; a 13 de Novembro, como quere Fran- cisco Lopes de Gómara; no mês de Dezembro, segundo António Herrera.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 147 escreueram em troncos de aruores & penedos ho nome dei Rey & Raynha com algús delles, & ho anno & dia q ali chegaram, pelejaram cõ hos Brasis, & nam guar- daram nada. Tomaram na raâo ha costa contra ho Ponente, & no Rio Maria, Tambal, captiuaram neste tempo trinta & tantos índios, tomaram ho cabo pri- meiro, Angra de sam Lucas a terra dos Fumos, o rio Maranhõ & o das Mazonas, & rio Doçe & outras par- tes ao longo da costa chegará aa Paria em dez grãos daltura da parte do norte, perderão dous nauios & gente. Poserã naviagem & descobrimento dez meses & meyo í1). No anno de 1500. & entrada de Março (*), partio Pedraluarez Cabral com treze velas, com regimento que se afastasse da costa Dafrica, pera encurtar a (!) O itinerário que Galvão atribui a esta viagem diverge dos de todos os cronistas espanhóis de quinhentos, sendo impossível a identificação de alguns pontos a que alude. O assunto é objecto de estudo erudito e minucioso, a pág. 131 e seguintes da História da Colonização Portuguesa do Brasil, da autoria do professor Duarte Leite, cujas conclusões são do teor seguinte: Vicente Yanez Pinzon não atravessou em 1600 a equinocial, embora se gabasse de tal feito; a descrição que éle fiz da viagem demonstra a fraude. Ê certo que então não visitou o Amazonas; o seu Santa Maria dei mar dulce era o Orinoco, e Santa Maria de la Conso- lación um cabo situado entre os dois rios, porventura o de Orange. Quanto ao Maranhão, que Pedro Mártir dá como descoberto por Vicente Yafíez, opina o Prof Duarte Leite que há confusão com o Esequibo. (*) A 9 de Março.
148 via (*). E tendo hfla nao perdida (8) em sua busca per- doo a derrota, & indo fora delia (8), toparã sinaes da terra, por onde o capitão mòr foy em sua busca tan- tos dias, q os darmada lhe requererão que deixasse aquella profla: mas ao outro dia virão aa costa do Brasil. E mandou o capitam môr hum nauio apalpar se achaua porto, tornou, dizendo, que achaua bom & seguro, & assi lhe poserão o nome (4), & dizem que está da parte do sul em dezasete grãos daltura. Daquy se fizerã à vela na volta do cabo de Boa Esperança & de Melinde, & atrauessarão á outra banda, & no rio de Cochim que se ainda nã sabia, & carregarão de (1) O regimento de Pedro Álvares Cabral, inspirado por Vasco da Gama, determinava que tanto que deer o vento eicaeeo devem hyr na volta do mar até meterem o cabo da bõoa eeperança em leite franco. E dy em deante navegarem eegvndo lhe servir o tempo e mail ganharem porque como forem na dyla parajem nõ lhe myngoará tempo con ajuda de noto eenhor com que cobrem o dito cabo Eper et ta maneira lhe parece que a navegaçam eera maie breve (S) A nau de Vasco de Ataíde. Contràriamente ao que dizem alguns cronistas, não tornou a Portugal, sendo certo que sossobrou por motivo desconhecido. (3) Galvão faz se eco da teoria infundada do descobrimento casual do Brasil, que condenam, além de outros argumentos, as palavras «aeguimoe noteo caminho por êieee maret de longo até topar- moe einaii de terra» com que Pero Vaz de Caminha relata ao rei de Portugal as peripécias da viagem. Se a procura do navio des- garrado ou os temporais desviassem a rota da armada, seria descabido que Caminha se expressasse em têrmos que indicam o prosseguimento de um rumo prèviamente traçado e mantido até i finalidade prevista. (<) Pôrto-Seguro ou Baía-Cabrália.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 149 pimèta. E à tornada Sãcho de Thouar descobrio a cidade de çofala (!). Neste mesmo anno de 500. diz q pedio Gaspar corte real licença a el Rey dom Manoel pera yr des- cobrir a terra Noua. Partio da ilha terceira com dous nauios armados á sua custa, foy àquella clima que está debaixo do norte em cincoêta grãos daltura. He teira que se agora chama de seu nome, tornou a sal- uamento á cidade de Lixboa. Fazendo outra vez este caminho, se perdeo o nauio em que elle hia, & o outro tornou a Portugal (*). Pola qual causa seu yrmão Mi- guel corte real foy em sua busca cõ tres nauios arma- dos á sua custa. Chegados àquella costa, como virão muytas bocas de rios & abras, entrou cada hum pela sua, com regimento que se ajfitasê todos ate vinte dias do mes Dagosto: os dous nauios assi o fizerão. E vendo que não vinha Miguel corte real ao prazo, nem despois algum tempo, se tornará a este Reyno, sem nilca mais delle se saber noua, nem ficar outra memoria, se não chamarse esta terra dos Corte reaes ainda agora. No anno de 1501. & mes de Março, partio Ioáo de noua com quatro velas da cidade de Lixboa, & alem da linha da parte do sul em oyto grãos daltura Des- (1) De Moçambique mandou Pedro Altares Cabral que Sancho de Tovar fôsse a descobrir em Sofala, em substituição de Bartolo- meu Dias, que desaparecera e a quem o regimento régio confiava aquela missão. (*) É infundada a noticia do regresso de um dos navios.
150 ANTÓNIO GALVÃO cubrirã a ilha a que poserão nome da Concepção (*), & forão a Moçambique, & de Melinde atrauessaram a outra banda, tomãdo carrega se tornaram, & dobrado o cabo em dezasete grãos daltura, acharam a ilha a que poseram nome de Santa Elena cousa pequena, mas muito nomeada. Neste mesmo anno de .501. (*) & mes de Mayo (s) partirã tres nauios da cidade de Lixboa por mandado dei Rey dom Manoel, a descobrir ha costa do Brazil, & foram a ver vista das Canarias, & da hi o cabo Verde, tomará refresco em Beziguiche, passada a linha da parte do sul, foram tomar terra no Brazil em cinco grãos daltura, & forã por ella atè trinta e dous (4) (1) Foi êste, de facto, o nome primitivo da ilha, pouco depois mudado para da Ascensão. (*) É a viagem que Américo Vespúcio descreve na sua carta de 4 de Setembro de 1504 ao gonfaloneiro Soderini. (8) A 10 de Maio, segundo Vespúcio. (4) Pretende Vespúcio ter largado do rio São-Francisco, a quarenta léguas do Cabo de SantoAgostinho, navegando por sus- sudoeste, sempre à vista de terra, fazendo muitas escalas e afastan- do-se tanto para Sul que ultrapassou o trópico de Capricórnio, onde o polo Antártico se levanta sôbre o horizonte trinta e dois graus. Teria seguidamente corrido cèrca de 750 léguas de costa, 150 do Cabo de Santo-Agostinho para poente, e 600 para sudoeste. Êstes informas são contraditórios, pois que a atingir Vespúcio os 82* que menciona, estaria nas proximidades do Rio da Prata, e a percorrer 600 léguas, idênticas às 150 que diz medearem entre os Cabos de Sâo-Roque e Santo Agostinho, mal teria ultrapassado o Rio de Sâo-Vicente, cuja latitude é apenas de 28® 30' S. A omissão em Galvão do prosseguimento da viagem para o
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 151 pouco mais ou menos, segundo sua cõta, donde se tornaram no mes de Abril por auer já la frio, & tor- menta, poseram neste descobrimento & viagè quinze mezes, por tornarem a Lixboa na entrada de Setembro. Neste anno ou no seguinte ('), forã ao descobri- sul, presta-se à conjectura de lhe não ser conhecida a relação do florentino ou de lhe negar crédito naquela parte. Acrescenta Vespúcio que, incumbido aos 15 de Fevereiro de 1502, do comando da armada, aproou a les-sueste e tanto navegou naquele rumo que a elevação do polo Antártico sôbre o horizonte era de 62®, verificando, no dia 3 de Abril, que andara cêrca de qui- nhentas léguas les-sueste. Foi então que violenta tempestade atirou a frota para junto de uma terra selvagem, que. Humbolt identifica com a Patagónia, Navarrete com o grupo Trístão-da-Cunha e de Bougainville com as ilhas Falkland ou Maluínas. Com muito acêrto, conclui porém o P.® Aires do Casal que um navio que desferra das costas do Brasil, na latitude de 32», e navega quinhentas léguas a sueste até 52°, não encontra ilha alguma. Aos 7 de Abril, diz Vespúcio, avistaram nova terra, cuja costa percorreram na extensão de vinte léguas; o frio intensís- simo compeliu os a regressar a Portugal, velejando sempre pelo mar alto. No primeiro volume de Fernão de Magalhãee — a lua vida e a tua viagem - expusemos os argumentos que nos levam à conclusão de ser o Cabo de Santa-Marta, do planisfério de Cantino, de 1502, iden- tificável com o Cabo Frio, em 28° lat. S., o ponto mais austral explo- rado na viagem de 1601, a qual pode ter-se estendido a sussudoeste até 82°, sem que isso justifique o critério de Toribio de Medina de que Nunc Argenteum fluvium ptimu» Americui Veepucius entra vil anno 1501. A eventualidade da frota atingir a latitude do Rio da Prata não implica que aquêle rio fôsse reconhecido ou sequer avistado. (>) Saiu de Cádis no dia 18 de Maio de 1499.
152 ANTÓNIO GALVAO mento da ncua Espanha Alonso de hijada ('), & trouxe sua derrota atè reconhecer a prouincia de Sinta (*). E no anno seguinte (8) partio Rodrigo de bastidas (4) de Seuilha, com duas carauellas armadas à sua custa, & ha primeira terra que das Antilhas tomaram, foy htla ylha a que poseram nome Verde, que está junto Daguadalupe contra a terra, & tomada na mão ha volta contra ho Ponente a sancta Martha, & a cabo dauella & ao Rio grande (6), & descobriram ho porto de Zamba (8), hos Coroados, Cartagena, & has ylhas de sam Bernardo de Baru ('), & has areas, foram diante â ilha forte, & a ponta de Caribana (8), que estaa no cabo do golfam de Vraba, vieram hos Farelones (9), que estám da outra banda junto Dariem, & do cabo da villa (10) atee esta enseada a trinta legoas, estaa em noue grãos & meyo daltura. Daqui atrauessaram ha ylha de Zamayca, onde tomaram refresco, & na Espa- nhola deram com hos nauios aa costa pelo gusano que ha muyto, leuaram quarenta marcos douro que (i) Alonso de Ojeda. (S) A pénlnsula de Guajina, a ocidente do Gôlfo de Vene- zuela (?). Na sua viagem de 1499, Afonso de Ojeda descobriu a costa da Venezuela. (S) Em 1601. (4) Levando consigo a Juan de la Cosa e Vasco Nuftez de Balboa. (5) O Rio Madalena. (•) Galerazamba. (l) Ilha Baru. 1®) Punta Arenas. (9) Calos Ratones (?). (W) Cabo da Vela.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 153 por essa terra resgataram, ainda que ha gente da terra he mays guerreira que ha na Noua Espanha, & tiram com erua. No anno de quinhStos & dous, ('), tornou Chris- touam Colom ha quarta vez a este descobrimento com quatro nauios (8) por mandado dei Rey dom Fernando a buscar ho estreyto, que deziam cortar a terra a outra banda (s), leuaua cõsigo dom Fernando seu filho (*): foram ter a ilha Espanhola (8), & de Iamaica. & ao Rio Nheser (8), & ao cabo de Figueira O, & as ylhas dos Gamares (8), & ao porto das fonduras (9): & dahi contra o Leuante ao cabo de Graças a Deos (10), & descobrio a prouincia & Rio Veraga (u), & o Rio (l) Zarpou de Cádis aos 9 de Maio de 1602. (8; La Santiago (capitânia), La Palo», La Vúcaina e La Qal- lego, as trás últimas dos comandos de Bartolomeu Colombo, Barto- lomeu Fieschi e Francisco de Porras. (3) Esta viagem marca, de facto, o inicio das que sucessiva- mente empreendeu a Espanha em demanda de passagem para o outro mar que lhe franqueasse um caminho maiítimo para o Oriente, alheio à zona de influência lusitana. Coube ao português Fernão de Magalhães a realização do acarinhado projecto castelhano. (4) Filho natural, que então contava catorze anos de idade. (3) Santo Domingo. (8) O rio Azua. (7) O cabo Honduras (?) (8) A ilha de Guanaja, denominada Bonaca na generalidade das cartas modernas. (8) Honduras, a que Colombo chamou inicialmente Cazinas. (10) O cabo de Gracias a Dios, que Colombo alcançou a 12 de Setembro. (U) Verágua, onde os ezpedicionários viram vestígios de oiro.
154 ANTÓNIO GALVAO grande, & outros que os da terra chamam Hieura (x). E dahi foy ter ao Rio dos Lagartos, que se agora chama Chegres ('), que tem seu nascimento ao mar do Sul, & sae ao do Norte, passa de Panamaa quarenta legoas (s), & foy aa ylha que pos nome dos Bastimen- tos (4), & ao porto Bello, & a nombre de Dios (8), & ao Rio Francisco, & ao porto do Retrete (8), & ao golfam de Secatiua (7), & aas ylhas de Caparrosa (8), & ao cabo de Marmol (9), que sam dozentas legoas de costa, donde começaram, tornou a ylha de Cuba, & dahi a (1) Hievra ou Yebra foi o nome primitivo do rio Belém, na costa de Ver água. (9) O rio Chagres. (*) Colombo convenceu-se aqui que estava numa península, em cujo lado oposto ficava a Áurea Cheroneso de Ptolomeu, ou seja Malaca. (4) A Provision Island das cartas do almirantado inglês. l#) Nombre de Dios, a nordeste do canal de Panamá, perto da ponta do Pescador. (8) Enseada das proximidades de Provision Island, cuja iden- tificação não podemos precisar. (T) O Gôlfo de Uraba. (8) O Arquipélago das Mulatas (?) (9) Após porfiada busca, encontrámos êste cabo demarcado no mapa dos descobrimentos espanhóis nas Ilhas do mar Caribe e terra firme americana, que acompanha a edição prineepi das Déca- das de Pedro Mártir de Anghiera e foi impresso no ano de 1511, em Alcalá de Henares. Figura ali com O nome el marmol a ocidente e nas imediações de Verágua, o que nos leva á presunção de tratar-se da extremidade oriental da Baía de São-Brás, admitindo, por freqQente, que haja atropélo, por parte de Galvão, da ordem por que a costa foi corrida.
155 Iamaica (*), onde acabou de dar com os quatro (2) □auios a costa por serem ja muy gastados do gusano. No anno de 502 tornou dom Vasco da Gama ja Almirante (s) aa índia, leuou .xix. ou vinte (4) caraue- las (6): partio de Lisboa a .x. de feuereiro, na fim delle surgio no Cabo verde, donde foy a Moçambique, & o primeiro c| desta ilha atrauessou pa índia, & descobrio outra em quatro grãos daltura, a que pos nome a do Almirante, tomou carrega de pimenta & drogas, & deyxou la por guarda da costa da índia cõ cinco vel- las, Vicète sodrè, estes forã os primeiros Portugueses
156 nha a ilha que se chama Dioscorodis, & agora Soco- torà, & o cabo de Guarda foy com aquela terra. No anno de .504. armaram Ioam de cosa, vezinho de sancta Maria dei Puerto (*), & o piloto Rodrigo de bastidas (J), cõ ajuda de Ioam de Ledesma, & outros de Seuilha, com licença dei Rey dom Fernando quatro carauelas, & forã a descobrir a terra noua onde se chama Cartagena, q está em dez grãos & meyo da parte do norte, & diz que acharam aly o capitã Luis da guerra, & juntos todos saltarã na ilha do Codego (s), tomaram nella seis centas pessoas, foram por aquela costa, & entraram do Golfam de Vrába: & na area acharam ouro mesturado cõ ella, & foy o primeiro que se daly trouxe a el Rey dom Fernãdo (4) onde foram á cidade de sam Domingos carregados de escra- uos sem resgate nem mãtimento: porq os da terra nã quiseram contratar com elle lhe fizerã muito dano. E na fim deste anno de 504. faleceo a Raynha dona Isabel de Castella, & em quanto foy viua nã consentio que fossem do descobrimento da noua Esparta, Ara- (') Aliás Puerto de Santa Maria, um dos locais que se lhe dá para naturalidade, em conjunto com Santofla (Santander) e Ordufla (Biscaia). (®) Rodrigo de Bástidas ou Rodrigo Galván de Bástidas náo era pilòto nem sequer homem do mar, mas simples escrivão do bairro de Triana, em Sevilha. A cobiça do oiro e a sêde de aventura improvisaram-no em armador e explorador. Já em Outubro de 1500 largara de Cádis com Juan de la Cosa em viagem idêntica. (®) A ilha de Tierra Bomba (?). (<) O tesoureiro geral Marticuza recebeu 50.000 maravedis do quinto pertencente à coroa.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 157 gões, Cathelões, Valencianos, nem nenhíl9 do patri- mónio dei Rey dom Fernando seu marido, saluo se fosse seu criado, ou por especial mandado, somente Castelhanos, Galegos, Biscaynhos, & os de seu senho- rio que esta terra descobriram. No anno de 505 (*) dia de Nossa Senhora de Março, partio dom Francisco Dalmeyda, Viso Rey da índia com vinte & duas vellas, fez seu caminho na volta do Brazil, como se ja costumaua. Chegado á cidade de Quiloa, assêtou fortaleza (*) capitam delia Pero ferreira (8), & alem de Melinde (4) atrauessou a jlha Dangediua, onde fez capitã Manoel Paçanha (®). Em Cananor edificou outra, deu a capitania a Lou- renço de Brito. Em Cochim (6) o mesmo, & capitam (1) Aos 25 de Março. (2) A que pôs o nome de Santiago. A esta fortaleza se refere D. Francisco de Almeida na carta endereçada ao rei D. Manuel, de Cochim aos 16 de Dezembro de 1505, nos seguintes termos: Fieemos ldor ally huni forteleea q te se podtse ser compraria por anoa de mjnka vida vella Voea alteei por q he tam forte q se etpedara nela elrey de França e tem apousentamento de mujto boas casas pera dua» tamta jemte como ally fica (S) Pero Ferreira Fogaça, filho de Fernão Fogaça. Por alcaide- -mor e feitor ficaram Francisco Ccutinho e Fernão Cotrim. (*) Onde D. Francisco de Almeida não pôde aportar. (5) Que levava do reino a provisão daquele cargo. (•) A primeira fortaleza de Cochim fôra edificada em Setem- bro de 1503 pelos primos Afonso e Francisco de Albuquerque. Foi feita de madeira «por não terem achegas para a fazer de pedra e cal» (Comentários, Parte 1 cap. II). D. Francisco de Almeida reedificou-a depois em pedra, e parece que colocou nela uma placa com inscri- ção comemorativa, pois diz Afonso de Albuquerque, na sua carta
158 dõ Alfonso de Noronha (l). Neste anno fez Pero danhaya a fortaleza de Sofala, de que teue a capi- tania. Na flm deste anno, ou na entrada do outro, man- dom ho Visorey a dom Lourenço seu filho ás jlhas de Maldiua, & com tempo contrairo, arribou às ylhas, a que os antiguos chamaram Tragana, & os mouros Itterubenero, & nos agora Ceilam, onde sahio em terra, & assentou paz com os delia, tornou a Cochim ao longo da costa, deixandoa toda sabida. No meo desta ylha estaa hum pico de pedra muy alto, & hfla pegada de homem, & na sumida delle que dizê ser do nosso padre Adam, quando sobio aos ceos, tem no os os índios em grande veneraçam. No ãno de 506 depois da Raynha dona Isabel falecer ('), veyo el Rey Felipe (8), & a Raynha dona ao rei, datada de 8 de Dezembro de 1513: «Aynda que na estampa de metal do viso Rey, que está pegada em bOa torre, em que se chama o prymeyro fundador da fortaleza de Cochim, me queira tomar o meu, nam chegou aynda a vaydade a mym pera a daly mandar tirar» (pág. 185). (l) Outro êrro de Galvão. D. Afonso de Noronha, filho de D. Fernando de Noronha, só em 1606 largou para o Oriente, provido da capitania da fortaleza que el-rei mandava edificar em Socotorá. Galvão alude a D. Álvaro de Noronha. (*) Finou-se en Medina dei Campo no dia 26 de Novem- bro de 1504. (9) Filipe, o Formoso, rei dos romanos, filho do imperador Maximiliano e de Maria de Borgonha, de quem lhe veio a soberania dos Pafses Baixos. Casou com a filha dos reis católicos, a futura Joana, a louca, que lhe trouxe a coroa de Castela.
159 Ioana sua molher a Espanha (') tomar pose, el rey dom Fernando se foy Aragam por ser seu património: & neste meo anno faleceo elrey Felipe (*), & tornou gouernar Castella el rey dõ Fernando, & deu licença a03 Espanhoes que podessem hir aa terra noua & Antilhas, saluo os Portugueses. E neste mesmo anno & mes de Mayo faleceo Christouau columbo, & socedeo em seu lugar seu filho dom Diogo columbo (3). Neste mesmo anno de 506 & entrada do mes de Março (4), partio Tristam da cunha & Afõso Dalbu- querq pera índia, & .xiiij. vellas (5) ê sua cõpanhia, foy surgir em Bezeguichi (8), pera refrescarem, & antes q chegassem ao cabo de boa esperança ê trinta e sete grãos daltura acharam hílas ylhas, q se agora chamam de Tristam da cunha, onde lhe deu tam grande tormenta, q se espalhou toda a frota. Tristam da cunha & Afonso Dalbuquerque foram ter a Mo- çambiq, Aluoro telez (7), correo tã largo, q foy a terra (i) Desembarcaram na Corunha, em 18 de Abril de 1606. (*) Aos 26 de Setembro de 1606. (R) Entenda-se que sucedeu no mayoratgo que o pai instituíra. (*) Somos de opinião que a partida teve lugar no dia 6 de Abril, pelos motivos expostos em Orandet e Humildes na Epopeia Porlugueta do Oriente, na biografia de Afonso de Albuquerque. (5) Outros autores fidedignos elevam para dezasseis o número de velas desta armada. (8) Bezeguiche. O local onde surgiram foi a ilha da Palma, hoje denominada de Goirée. (7) Álvaro Teles Barreto, filho de Joio Teles, segundo Barros, que comandava a S. Vicente.
160 de Samatra ('), dõde se tornou ao cabo de Guardafui deixando descuberto muytas ylhas, mar, & terra, núca ate aqlle têpo por Portugueses vista. Manoel telez de Meneses (*) também varou por fora daquella gram ylha de sam Lourenço, & correo toda sua costa, foy ter a Moçambique cõ Tristam da cunha, q foy o piimeiro capitam q ali inuernara, & por lhe dizerem q nesta ylha auia muito gengibre, crauo, & prata, tornou a descobrir muita delia pella parte de dentro, & nara achando nada se tornou a Moçambique, donde partiram pera Melinde, correram aqlla costa, sahiram em Braua, & dahi passaram aa ylha de Sacatoraa, onde fizeram fortaleza, capitam delia dom Antonio de Noronha (5). No ãno de 507 no mes Dagosto partio Tristâ da cunha pa índia: & Afõso dalbuqrq q ali ficaua cõ .v. ou .vj. nauios pa guarda da costa & boca daqle estreito, não se contêtando disto se passou Arabia, & corren- (1) Fernão Lopes de Castanheda, Gaspar Correia e Brás de Albuquerque não aludem à ida de Álvaro Teles a Samatra, afir- mando o primeiro que êle foi ter ao Cabo de Guardafui, onde fêz muitas prêsas, com que enriqueceu. Todavia, João de Barros e Simão Ferreira Paez dizem que êle navegou por fora da ilha de São Lou- renço e foi ter à de Samatra, cuidando ser o Cabo de Guardafui. Supomos que houve engano de Galvão ou mi leitura do seu original e que se escreveu Samatra por Socotori. (tj Aliás Manuel Teles Barreto, filho de Afonso Teles Barreto, que capitaneava o navio Rei Pequeno. (S) Aliás D. Afonso de Noronha, irmão do D. António que Galvão menciona erradamente.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 161 doa toda, dobrou o cabo de Rosalgata, qesta no tró- pico de cancro. No anno de quinhentos & noue (*) partio Diogo lopez de Seqyra de Lixboa cõ quatro velas pera ylha de sam Lourêço, andou derredor delia qsi ha anno, & no de noue & mes de Mayo (*) chegou a Cochim, ho Visorey lhe deu mais hum nauio (®). E na entrada do mes de Setembro (4), partio pera Malaca, passou per antre as ylhas de Nicobar (6), & outras muytas: & foy a terra de Samatra ás cidades de Pedir, & Pacem: & per toda essa costa ate a ylha da Poluoreira, & baixos de Capacea (8): & dahi se passaram a Malaca, que está em dous grãos daltura da parte do norte, & por lhe matarem & captiuarem nesta cidade gente (7), se tor- (l) Aliás no dia 5 de Abril de 1508. O ano seguinte, errada- mente indicado por Galvão como o da partida de Lisboa, foi o da largada de Diogo Lopes de Sequeira da índia para Malaca. («) Preferimos a data de 21 de Abril, indicada por Fernão Lopes de Castanheda. (3) Para substituir, supomos, o de Gonçalo de Sousa, incen- diado propositadamente. Nesse navio embarcaram em Cochim ses- senta homens de armas, em cujo número se contavam Fernão de Magalhães e Francisco Serrão. (4J Aos 18 de Agôsto de 1509, segundo Castanheda João de Barros e Damião de Góis indicam respectivamente os dias 28 e 19 do dito mês. (3) Ou Nicouvar, na Baía de Bengala. (#) Ou Capacia. Baixos do Estreito de Malaca, que propende- mos a identificar com as North Sands das cartas modernas. (7) Por desleixo e injustificada boa fé de Diogo Lopes de Se- queira. O sucesso teria assumido proporções catastróficas se não fõra o alerta oportuno de Fernão de Magalhães. 11
162 ANTÓNIO GALVAO nou pêra a índia deixãdo quinhentas legoas des- cubertas. Esta ylha de Samatra he a primeira terra q la sabemos, em q se come carne humana, hflas gentes que viuem nas serras que se chamam Baças (*), dou- ram hos dentes, dizem que a carne dos homès pretos he mais saborosa que a dos brancos:
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS por diãte nam se bate moeda douro, mas corre se ele por mercadoria. No anno de 508 (*) armaram á sua custa (*) com licença dei Rey dom Fernando, Alonso de hijada (8), & Diogo de recusa (<), pera hir pouoar & conquistar a prouincia Doriem («), & descobrir a terra firme, onde se chama Vraba, q poserão nome Castella do ouro. pello q acharam na area ao longo da praya, & foram os primeiros Castelhanos q isto fizeram: porq hum tinha a gouernança de Vraba, & outro de Beraga («). Partio primeiro Alonso de hijada (7), da ylha Espa- nhola, & cidade de Sanctiago cõ quatro (8) nauios & trezêtos soldados (9), deixando o Bacharel Ansiso (10), <1 depois fez hfl liuro deste descobrimêto, pa yr tras elle nQ nauio cõ mantimêtos & monições, & cêto & (l) Ê, de facto, de 9 de Julho de 1508 a Real Cédula que con- cedeu a Ojeda a conquista dos territórios compreendidos entre o Cabo da Vela, para Oeste e Noroeste, até ao Gfllfo de Urabá. A par- tida, porém, só teve lugar em princípios de Novembro de 1509. (*) Trata se de duas expedições distintas que partiram com objectivo idêntico no comêço e fim de Novembro de 1509. (5) Alonso de Ojeda. («) Diego de Nicuesa, opulento mercador estabelecido na Espanhola. (6) Darien. (®j Verágua. (l) Vide nota 3. (8) Aliás três. (9) Entre os quais se contavam os depois famosos Juan de la Cosa, Francisco Pizarro e Diego de Ordaz. (») Martin Fernandez de Enciso, que posteriormente foi notável geógrafo.
ANTÓNIO GALVAO cincoêta Espanhoes. Chegou Alonso de hijada a Car- tagena, onde tomou terra, & os dela lhe matarão & comeram oytenta soldados, de que ficou muyto agastado. Neste mesmo ãno de 508 (x) armou Diogo de Nequisa no porto de Beata sete (®) vellas pera hir a Beraga (8), & leuou nellas perto de oytocentos horoês (4). Chegado a Cartagena, achou ahi Alonso de hijada assaz agastado pello Q lhe socedera (5), sahiram ambos em terra, tomaram vingança, & se foram cada hum a sua gouernança, Diogo de necusa foy descobrindo a costa que he de nombre de Dios aos Roquedos de Dariê, chamou porto de Misas (®) ao rio Pito (7): che- gado a Beraga deu com a armada á costa por os solda- dos perderem esperança de tomarê a Espanhola (8): & ainda £j este ardil de guerra tiuesse despois Fernam cortez, nã foy elle primeyro naquella terra (como (1) Largou da Espanhola em fim de Novembro de 1509. (!) Partiu em três naus e dois bergantins. (!) Vide nota 6, pág. 163. (!) Cêrca de setecentos. (5) Galvão alude à terrível derrota que os íncolas da baía a que Ojeda chamou Calamar, nas imediações do põrto de Cartagena, infligiram aos espanhóis, dos quais pereceram ali Juan de La Cosa e setenta companheiros. (6) O actual gõlfo de San Blas. (7) O rio Viablo (?). (8) Temos por duvidosa a destruição propositada dos navios de Diego de Nicuesa, se bem que saibamos que êle e os companheiros tiveram de aguardar a chegada da frota de Rodrigo de Colmenares para conseguirem abandonar aquelas paragens.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 165 algus tem, & cuidam) Alonso de hijada começou hda fortaleza em Caribana (>) Solar dos Caribas, & foy a primeira villa q os castelhanos em terra firme fizerã, & assi em Nombre de Dios, cidade de nossa senhora dei antiga, & a villa de Vraba, donde deixaram por capitam & teniente Francisco piçarro, q leuou ahi assaz trabalho, (& descobrira despois a de Peru). É assi fizeram outras Q nam nomeo, por que estes capitães nam tiueram tã bom socesso como cuydauâ, & isto abasta a meu proposito. No anno de 509. chegou ho segundo Almirante dom Diogo colom a ylha Espanhola (*) com sua molher (8) & casa, & como era nobre & fidalga, leuou muitas molheres & de boa casta q la casaram, & come- çaram de Castelhanos de encher a terra, porque el Rey dom Fernando tinha dado licença que podessê la yr descobrir, pouoar, todo los pouos de Espanha, por onde aQlla terra foy mais ennobrecida & frequê- tada (') & tambê este Almirante deu ordê como se pouoasse a ilha da Cuba, q he cousa grande & pos (l) Ojeda fundou na margem sul das bôcas do Atrato uma colónia, a que deu o nome de São-Sebastião. A ela alude Galvão. (*) Aportou a Santo-Domingo em Julho de 1509. (S) D. Maria Alvarez de Toledo, sobrinha do duque de Alba. Entre as pessoas de destaque que acompanharam D. Diego Colombo contavam-se seu tio D. Bartolomeu, e o irmão D. Fernando. (*) Destacaremos entre as medidas de fomento devidas a D. Diego Colombo, o incremento dado à cultura da cana sacarina e à exploração das minas de oiro de Cibao, bem como o progresso das construções em pedra, sobretudo na cidade de Santo-Domingo.
166 ANTÔNIO GALVAO nella pera isso por seu adiãtado a Diogo valhasquez que fora com seu pay na armada segCLda. No anno de 511, & mes de Abril partio Afonso dalboquerque da cidade de Cochim pera Malaca & neste mesmo anno, & mes de Iulho forã os Chins de Malaca pera sua terra, & mandou Afonso dalbuquer- que cõ elles a Syão hum Português q se chamaua Duarte fernandez com cartas & recado a el rey dos Muãtais, que agora chamamos sião ao sul, ao lõgo da terra passaram pelo estreito de Sincapura & toma- ram a norte correndo aquella costa de Pãpatane (*), ate a cidade de Cuy, & delia ao Dia ('), q he cabeça deste reyno, que estara ate quatorze grãos daltura. El Rey fez a Duarte fernandez por ser o primeiro Português q vira muita merçe & honra, & mãdou cõ ele embaixadores a Afonso dalbuquerq, atrauessarã pola terra a loeste a cidade de Tanasarim (8) q esta no mar da outra banda em doze grãos, embarcados em dous nauios se vieram ao longo da costa ate a cidade de Malaca, deixando a toda vista, segundo alcançã os que vam por mar ao longo da terra. A gente deste reyno de Syão he gentia, come toda alimaria, bicho, pescado q a terra & agoa produzem, prezã se de trazer cascaueis em suas naturas, a elRey (I) Patane, na península malaia, que importa não confundir com o reino do mesmo nome daa cercanias de Bengala, nem com a cidade também assim denominada, sita em Cambaia. (') Aliás Udiá, Odlá, Ayuthia, Ayodhya ou Yuthia, capital do Silo desde o século Xiv até à sua destruição em meados do século XVII e à transferência da cflrte siamesa para Banguecoque. (3) Tenasserim, ao tempo pertencente ao reino de Pegu.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 167 & religiosos he vedado: & dizem que sam dos mais virtuosos & honestos q ha na redondeza, prezam se muito de castidade & pobreza: em 6ua casa nam criam galinha pomba, nem outra cousa femea. Terá este Reino dozentas & cincoêta legoas em cõprido, & oitenta de largo, afora os q lhe obedecê. Deste soo reyno põe el rey em câpo trinta mil alifantes de guerra, afora os q lhe ficam nas cidades por guarda, tê hú branco em grande estima, & outro ruyuo de olhos q escamecham, como fogo. Ha nestas terras hxl bicho peqno, q se lhe pega na trõba, & os ensanguenta ate q os matáo, tem a concha tã dura, q híl arcabuz o nã passa, & cria nos fíga- dos húa figura de homês ou molheres a q chamã toQta, q he como mêdracola í1), & quê as traz consigo, dizê q nam podê morrer a ferro, & nas cabeças de vacas brauas acharse pedras muy ditosas pera mercadores. Depois de Duarte fernandez hir aos Mantuis, mandou Affonso Dalbuquerque hõ caualeiro q se cha- maua Ruy nunez da cunha (s) cõ cartas & embaixada (1) A Mandrágora, planta da família da batata, que cresce no litoral mediterrâneo e i dotada de propriedades narcóticas e ermé- ticas. Desempenhou papel importante na medicina medieval, tanto pelas qualidades terapêuticas como pelos poderes mágicos que se lhe atribuíam. (2) João de Barros, Fernão Lopes de Castanheda e Brás da Albuquerque guardam absoluto silêncio quanto a esta embaixada, que temos por duvidosa. Não obstante, Gaspar Correia, aludindo nas Lendat da índia a certos pegus encontrados por Afonso de Albuquer- que em Malaca, que lhe solicitaram seguro e licença para tornar ao seu país, escreve: O Governador ditie que não queria que «e par Unem, que eeptranem até tile tomar a cidade, e então com «I/e» mandar itu met- tigeiro a El Rey, porque com tile queria anenlar grande pae e amitade.
168 ANTÓNIO GALVAO ao Rey dos Sequls, q nos chamamos Pegas, foy em híl junco dos da terra ao lõgo delia, a vista do cabo rachado, & dahi à cidade de Perá, & aquS da Iunsa- lfio (*), & outras muytas pouoações q jazem ao longo desta ribeira, por onde ja Duarte fernandez viera, ate a cidade de Tanasarim (*), & de Bartabão (8), que está en quinze grãos da parte do Norte, & á cidade de Pegu em .xvij. Este foy o primeiro Português q trilhou atjle reyno, & deu enformação da terra & de como traziã cascaueis como os Muãtais. Na fim deste anno de 511 mandou Alfonso Dalbu- querque tres nauios (<) ás ilhas de Banda & Maluco: & por capitão mór delles Antonio Dabreu, & hum Francisco serrão: hiam nelles cento & vinte pessoas i,5), por<} nam foram mais velas nê homês ao descobri- mento da noua Espanha com Christouam columbo, nem com Vasco da Qama á índia, porq Maluco depois destes nam he menos em riqueza, nê se deue de ter em menos estima, foram pello estreito de Sabam (6) ao lõgo da ylha de Samatra, & à vista doutras que ficam da mão esquerda contra o Leuante q chamam dos p) A Junk-Ceylon das cartas modernas, na costa ocidental da península malaia. (>) Vide nota 8, pág. 166. (3) Ou Martaban, a leste do delta do Irawadi e do estuário do Sitang. (3) Duas naus e uma caravela latina. (6) Cento e vinte brancos e vinte escravos. (6) O Estreito de Sabang. O Itinerário de António de Abreu é por nós estudado com minúcia a pág. 76-88 e 381-885 de Qrandei e Humildei na Epopeia Porlugueea do Oriente.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 169 Salites (!), ate as ylhas de Palimbão (8), Lusuparam (s), donde atrauessaram pella nobre ylha da Iaoa (4), foram a Leste correndo sua costa, por antre ella & a ylha da madeira (6). A gente desta ylha he mais belicosa, & que menos tem em cõta a vida que se sabe na redondeza, & dizem q as molheres ganham soldo polas armas, & por qualquer cousa se desafiam & matam hús a outros, como se fazê a Mocos (6), & inuentam pelejarem galos cõ naualhas, porq ho principal seu desenfadamento he sanguiolento. Alem desta ylha da Iaoa, vam ao longo doutra q se chama Balle (7), & outra logo (
170 ANTÓNIO GALVAO Simbaba (x), Solor, o Galao (2), Mauluoa (5), Vitara (4), Rosolanguim (5), Arus (®), donde vê os passaros myr- rados, q sam mui estimados pera penachos ('), & outras 3 jazem nesta corda da parte do Sul, em sete ou oito grãos daltura, & tam juntas hCias com as outras, q parece toda híla terra. Auera nesta derrota mais de quinhentas legoas, hos Cosmographos lhes chamaram as Iaoas, ainda que agora tem nome differentes como aqui vedes. Auante destas ylhas dizem que ha outras de gentes mais aluas, que andam vestidas de camisas, gibões, & ceroulas como portugueses, & tem moeda de prata, os q gouernam a republica, trazê nas mãos varas vermelhas, por onde parece que deuem de ser (b A ilha de Sumbawa das cartas modernas. (8) A ilha de Lomblém das cartas modernas. (3) A ilha de Ombai das cartas modernas. (4) A ilha de Weta das cartas modernas. (5) A apreciação simultânea das alusões que a Rosolanguim fasem António Galvão e João de Barros, coloca-nos perante um problema de solução complicada, pois que a identificação, segundo a localização que lhe dá o primeiro, daquela ilha com a Roma ou Rolang, na latitude aproximada de Weta, é incompatível com a de Rosyngain, a cêrca de sete milhas de Banda Lantoir, que categòri- camente lhe atribui Barros. O estudo atento do assunto convencemos de que ambos os cronistas são exactos e que a divergência aparente resulta de ter Galvão confundido os nomes primitivos de Rolang, que a frota alcançou depois de Wetta, e de Rosyngain, onde só mais tarde viria a tocar. (8) As ilhas de Aru ou Aroe. (7) As aves das famílias Paradiíeidae e Epimachidae, vulgar- mente conhecidas pela designação genérica de aves-do-paraíso.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 171 da China, & nam tam somente estes, mas ha por aqui outras de gentes pintadas, que dizem ser dos Chins pouoadas. Antonio Dabreu & os que com elle hiam, tomaram sua derrota contra o norte dhOa ylheta que se chama o Gumuapè (*): porque do mais alto delia corre sem- pre, & de contino ate o mar ribeiras de fogo, cousa muito pera ver. Daqui foram aa ylha de Burro (*), & Damboino, & costearam a costa datjlla q se chama de Muar Damboino, surgiram em hQ porto, q se diz Guli Guli (s), saltaram ém terra, tomaram híia pouoaçam que ali estaua, & acharam nas casas homês mortos dependurados: porque comem carne humana, onde queimaram a nao em que hia Francisco serrão (4) por ser ja velha, & foram ter a banda q estaa em oito grãos da parte do Sul, dõde carregaram de crauo, noz, & maça, & híl junco
172 prara. Dizê q nam muito lõge destas ylhas de Banda ha hOa em (} sená cria senã cobras, & as mais nila coua q tem no meo, hõas grandes & outras peqnas, andão sèpre enroladas, mas nã se deue dauer por muyto, tanto como os da terra, fazêdo disto espãto pois os nossos deixará escrito q junto das ilhas de Mayorca & Menorca auia hiia q se chámaua Eufu- ria (*), 6 q auia muita cãtidade destas bichas, nã as auSdo ê todalas outras ilhas júto cõellas. No ãno de 512 partiram de Banda pera Malaca, & nos baixos de Lusupino ('), se perdeo Francisco Serram cõ o seu junco, donde se tornou a ilha de Mrdanao cõ .ix. ou .x. portugueses (s) q cõele hia, & os reis de Maluco mãdarã por eles estes foram hos primeyros Espanhoes que viram as ylhas do crauo, que jazem da linha contra ho Norte em hum grao, onde estiueram sete ou oyto annos. Antonio Dabreu fez seu caminho pera Malaca, deixando descuberto todo aquelle mar & terra nomeadas. A ylha de Guape em que está nossa fortaleza, q se agora chama Ternate, he das mais altas cousas que no mundo se sabe, deita fogo pello mais alto (4), cousa tam espantosa q se nam sabe la falar em outra. Algõs P) Ofiusa ou Fermentera, no grupo das Baleares, ao Sul de Iviza. (*) Luçapino. (9) Em cujo número figuravam Diogo Lopes, Diogo Cão, Diogo Afonso, Piro Fernandes, Álvaro Costa e Antoneto Siciliano. (4) A ilha de Ternate pode considerar-se como um grande vulcão.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 173 príncipes mouros, & nobres portugueses de altos pen- samètos, cometeram per vezes ver ysto, mas nunca la chegaram: pello que se fazia ainda môr conta, o q Antonio Galuão ouuindo, determinou cometelo, quis deos & nossa senhora fi| lhe deu cima, & da cousa q se mais espantou desta jornada, foy por húa ribeira tam frigidissima, q nam auia pesoa í| podesse ter a mão nella, n6 metela na boca: parece q proueo a natureza ali esta frialdade, como em outras agoas a immensa quôtura: sendo isto debaixo da linha, onde continuadamente o sol reuerbera. Há nestas ylhas de Maluco homès com esporões nos artelhos como galos, disse me elrey de Tidore q na ilha da Batachina (l) os auia cõ rabos
174 ANTÓNIO GALVAO tamanhas conchas, que baptizam nellas: ha no mar pedra viua q nasce & cria como peixe: & faz oal muy boa, & se a tiram fora & eeta ate que morre nuca mais arde. Ha hGa aruore que como o sol se põe enflorece: & caelhe como nace: a hi fruta que dizem que como hfla prenhe a come logo moue, ha hõa erua que segue o sol de maneira que sempre anda cõelle, & he cousa de admiraçam vella. No anno de .511. no mes de Ianeiro tornou Afonso dalboquerque de Malaca pera Goa & se perdeo a nao em q elle hia (>), & outras se partiram de sua compa« nhia, & Simão dandrade & algõs Portugueses foram ter ás ilhas de Maldiua, que sam muitas & cheas de palmeiras, & rasas cõ a agoa, aqui o retiueram ate saberem q ho Gouernador era vindo. Estes forã os primeiros portugueses q aqllas ilhas viram, nas quaes dizem q se criam cocos debaxo dagoa, que sam muy proueitosas contra toda peçonha. Neste anno de 512 (8) partio de Castella Ioam de (1) A célebre Frol de la Mar, perdida ao largo de Samatra, depois de nove anos de serviço aturado no Oriente. (a) Há deplorável confusão por parte de António Galvão, pois a exploração a que alude teve lugar em 1616 e não em 1512, ano em que João Dias de Solis foi de facto incumbido de empreender uma viagem com o objectivo oficial de demarcar os territórios concedi- dos á Espanha pelo Tratado de Tordesilhas, com autoridade para representar o monarca castelhano. Tal viagem não chegou, porém, a realizar-se por motivo da oposição que lhe moveram o rei de Portu- gal e o seu embaixador João Mendes de Vasconcelos.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 175 Soliz (*), natural de Lebrixa (*), piloto mòr (s) Del rey dom Fernando, com sua licença foy descobrir a costa do Brasil, leuou a derrota dos Pições (4). Tomou o cabo de Sancto Agostinho (5), seguio sua via contra o meo dia, costeando a ribeira & terra legoa por legoa, & em .xxxv. grãos daltura achou hfl rio a q os Brasis chamã Paranagaco (') q quer dizer grãde sgoa, vio nellas mostras de prata, & assi lhe pos nome Rio da prata: & dizê ainda q foy mais adiante por lhe pare- cer bê a terra. Tornando a Espanha, deu de tudo a el rey dõ Fernando conta, & pediolhe aqlla gouernança, (1) João Dias de Solis. (i) A nacionalidade portuguesa de João Dias de Solis é ates- tada por Damião de Góis nos seguintes têrmos: por erros que hum piloto Português per nome Jam Diaz Solis cometeo, fugio destes Regnos e se foi a Castela, informe confirmado no trecho da Real Cédula, datada de Madride, 22 de Fevereiro de 1517, que passamos a trans- crever: por parte dei Rey de Portugal nos ha sido fecha rtlacion que Joan Diet de Solis, português vino huyendo a estes reinos de Castilla desde Portugal Solis foi considerado espanhol apenas porque Pedro Mártir de Anghiera lhe chama nebrissensis nas De Novo Orbo Decades, natu- ralidade que na mesma obra contraria ao escrever que João Dias de Sólis se diz nascido em Lebrija mas que deve tratar se de um astu- riano de Oviedo. (8) Sucedeu naquele alto cargo a Américo Vespúcio, em 25 de Março de 1512. (t) Pinzons. (5) Largou de S, Lucar de Barrameda com três navios no dia 8 de Outubro de 1515, rumando a Tenerife, de onde foi demandar o Cabo Frio; à vista da costa do Cabo de São-Roque, fortes correntes atiraram-no para sotavento do Cabo de Santo-Agostinho. (6) O Paraná — Guaçu.
176 ANTÓNIO GALVAO el rey lhe fez merce delia, Armou em Lepe tres nauios, & do âno de 515 & mes de Setêbro (*) tornou a este reino, onde o matará, estes Solizes pições forã grãdes descobridores naqlas partes, ate gastarem nisso vida & fazenda. Neste mesmo âno de 512 Ioam ponso de Liã (') q foy gouernador da ilha de S. Ioã (s), armou dous nauios (4), & foi buscar a ilha Boihuca (6), onde diziã os da terra q estaua híta fonte q sua agoa tornaua os velhos moços, & andou em sua busca seis meses cõ assaz trabalho sem achar dela noua, nê q visse tal cousa, entrou ê Bemini, & descobrio aqlla ponta de terra firme q está em .xxv. grãos da parte do norte dia de pascoa florida, & por ysso lhe pos o tal nome (6), & por lhe parecer q acharia nella ouro, prata, & grãde riqza, a pedio a el rey dõ Fernãdo, q foy causa de sua morte & dano, como muitos na tal empresa tê recebido. No anno de 513 tendo Vasco nunez de Valboa, noua do mar do sul, determinou passar a elle, cõ quanto lhe punham medo da gente da terra, por onde auia de (1) Galvão cometa, como se vê, um absurdo desdobramento da mesma viagem: a que teve inicio em S. Lucar de Barrameda, aos 8 de Outubro de 1516, e terminou no rio da Prata. (8) Juan Ponce de Léon. (Sj Cargo de que D. Diogo Colombo o tirou e em que foi pos- teriormente confirmado por Fernando — o católico —, a pedido Ins- tante dos espanhóis domiciliados na ilha. (') Aliás, três. (5) Ilha fantasista onde era tradicional a existência de uma fonte maravilhosa, cuja água preservava da velhice. (6j A Florida.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 177 fazer este caminho, mas elle como era esforçado & belicoso, cõ esses soldados q tinha q eram dozentos & nouenta (*), determinou de se põer neste perigo: & partio de Doriem dõde estaua. O primeiro de Setêbro leuando algfls índios da terra por guia, atrauessou toda a terra, ora por paz, ora por guerra, & em hd certo senhorio q se chama Careca ('), acharam negros capti- uos de cabeça reuolta, q nflca ate entam se viram, nem se sabe outros ategora em todas aqilas partes da noua Espanha, Castella do ouro, & Peru. Ouue vista Yalboa do mar do Sul a vinte cinco dias do mes, che- gou a elle dia de sam Miguel, & por isso pos aqlle golfam tal nome, embarcouse em certas barcas cõtra võtade de Chipe (s), q era senhor daqla costa, que lhe rogaua que o nã fizesse por ser perigosa, mas elle quis saber o que era & dizer que ho nauegara: tor- nouse assas contente, com muito ouro, prata, aljofre que se lá pescaua, por onde el Rey dom Fernando lhe fez merçe & hõrra (4). Neste anno e mes de Feuereiro (5) partio Afonso (I) Aliás cento e noventa espanhóis e alguns centos de indígenas. (3) Galvão alude ao cacique Torecha, de Cuaracuá, a quem Balboa venceu. (3) O cacique de Chiapes que Balboa derrotou e submeteu. (4) O que não impediu que morresse injusta e afrontosamente no patíbulo de Acla em Janeiro de 1519, gritando com desassombro: Mentira I Mentira I Siempre he eervido al Rey como leal. Foi Vitima do rancor de Pedro Arias Dávila. (3) A 17 ou 18 de Fevereiro de 1513. Presumimos que o dia 7 indicado nos Comentário», traduz êrro tipográfico. 12
178 ANTÓNIO GALVAO dalbuquerq da cidade de Goa pêra Adê & estreito de Mecá, com vinte vellas, chegados áquella cidade, deram lhe cõbate: & passados a diante entraram o estreito, & dizem q viram no çeo hfla Cruz (*), a que todos adoraram: & na ylha de Camaram inuernaram, este foy o primeiro capitam Português que deu enforma- ção daquelle mar & do da Pérsia ('), cousas pelo mundo tam celebradas. Mo anno de .1514. & mes de Mayo, partio de sam Lucas de Barramedo Pedraires dauilla, por mandado dei Rey dom Fernãdo quarto, gouernador de Castella douro (®), que assi poseram nomo a esta prouincia do Dariem, Cartagena, Suraba, & aquella terra que noua- mête se conquistaua, descobria, & senhoreaua, leuou sua molher dona Izabel (4) sete naos (5) mil & quinhê- tos homês (6) nellas, assi fez el Rey a Vasco nunez de valboa adiantado do mar do sul & de toda aquella banda. Na entrada do anno de 515 mandou o Gouernador Pedraires davila a Gaspar de morales cõ cento & cin- (i) Segundo testemunho do próprio Afonso de Albuquerque, uma erue mui clara e reeplandescente ; foi vitta de muilas náot, e muita pente ee ostentou em piolhos e adorou (3) Onde já andara em 1507. (8) Foi nomeado, por real cédula de 27 de Julho de 1513, governador e capitão-general de Castilla dei Oro, em sucessão de Diego de Nicuesa. (4) D. Izabel de Bobadilla. (8) Aliás, dezasete. (8) Entre marinheiros, soldados, funcionários, aventureiros, etc.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 179 quenta homês (x) ao golfão de sam Miguel buscar a ylha de Tararequi (*), Chiapi (s), & Tumugoa (4), Ca- siquas amigos de valboa, lhe derã muitas canoas q sam barcos de remo, com q passaram a ylha das per- loas, o senhor dela lhe defendeo a desembarcaçam, mas Chiapi & Tumaco os concertaram de maneira, que ho capitão da ylha hos leuou a sua casa, & lhe fez bom gasalhado, & tomou agoa de baptismo, pos se nome Pedraires como o Gouernador, & lhe deu pera elle hum cesto de perloas q pesara cem marcos, em que entraua algíías delias como auelãas, & tinham vinte & cinco, & vinte & seis, & trinta quilates, & deuse por esta mil & dozentos castelhanos: esta ylha de Taraquerj (6) está em cinco grãos daltura da parte do norte. Neste mesmo anno de 515 & mes de Março, man- dou o gouernador descobrir terra a Gonçalo de Bada- joz, & deulhe oitenta soldados, partiram de Dariem, & foram a Nombre de Dios (®), onde chegou a elles Luis de mercado cõ cinquSta homês mais q o Gouer- nador mandaua. Em sua ajuda assentará descobrir da (l) Entre os quais se contava Francisco Pizarro. (8) Galvão alude ao cacique Terarique que senhoreava as ilhas das Pérolas, a quem Gaspar Morales impôs o tributo de cem marcos de pérolas. (8) Chiapes. Vide nota 3 pág. 177. (8) O cacique de Tumaco. (8) Galvão alude a uma das ilhas denominadas das Pérolas. Vide nota 2. (8) Fundada por Diego de Nicuesa, junto ao rio Chagres.
180 ANTÔNIO GALVAO parte do Sul, por dizerem q era terra mais rica, toma- ram índios por guias, foram ao longo daquella costa, onde viram escrauos ferrados, como nos acostumamos, depois de passarem assaz terras, & trabalhos, ajuntará muito ouro & quarenta escrauos pera seu seruiço, o Casique palisa (*) deu sobre elles, & tomou lhes tudo. Sabêdo ho gouernador esta noua no mesmo anno de 515 mandou a vingar por seu filho Ioã ayres Dauila, ác descobrir por mar & costa, ho alcayde Gaspar despinola (8), q era passagem muy freqntada do Peru, & Nicaraga (s), daqui forã ao Ponête ao cabo da guerra, q está em pouco mais de seis grãos da parte do norte, & dahi à ponta de Bórica ('), & o cabo bráco (5), q esta 6 oito grãos & meo, descobrirão dozen- tas & cincoenta legoas, segundo elles deziam, & pouoa- ram a cidade de Penama (6). No ãno mesmo de 515 & mes de Mayo mãdou Afõso Dalbuqrq gouernador da índia, da cidade Dor- muz Fernã gomez de lemos cõ embaixada ao Xequis- mael senhor da Pérsia, & dizê q atrauessaram por (1) O cacique Parisa ou Paris. (8) Há equívoco de Galvão quanto à data da partida de Gas- par de Espinosa, que teve lugar em Março de 1519, com trezentos homens. (S) Nicarágua. (<) Punta Burica, no extremo do Gôlfo Dulce. (5) O Cabo Blanco, à entrada do Gôlfo de Nicóia. (®) Fundaram Gaspar de Espinosa e Pedro Árias de Ávila, que se lhe retinira ali, a futura cidade de Nossa-Senhora-da-Assunção de Panamá, no dia 15 de AgAsto de 1619.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 181 ella trezêtas legoas, & q he híla bella França, o Xequismael andaua à caça & pescaria de trutas q habi muitas, & as mais fermosas molheres da redondeza, & assi o aproua ho grande Alexandre quando dezia por ellas que as Persianas eram dor dos olhos. No anno de 516 & cem ãnos depois da tomada de Cepta, gouernando Lopo soarez a índia, despachou por mandado de .S. A. Fernã perez dandrade pa a grâ prouincia da China: partio da cidade de Cochim no mes Dabril, & esteue na ylha de Samatra, & cidade de Pacem, tomando a pimenta, por ser a principal mer- cadoria q na China tem valia, & mandou daqui a el rev dõ Manoel q tambê fosse a Bengala cõ sua carta & recado a hii caualeiro q se chamaua Ioam coelho t1). Este foy o primeiro Português q eu saiba q bebeo agoa do rio Gange. E neste anno de 516 (s) faleceo elrey dõ Fernando de castella. (!) Êste parágrafo confuso de Galvão exige o seguinte escla- recimento : Em Pacém, na Samatra, denominado Pasai na generalidade das cartas hodiernas, perdeu Fernão Peres de Andrade o seu melhor navio, destruído pelo fogo. A impossibilidade de substituí-lo naquela época de monção contrária, levou Peres de Andrade à deliberação de tornar a Malaca e aproveitar o tempo disponlve para cumprir outra incumbência recebida do govêrno metropolitano, que o man- dava explorar parte da costa de Bengala. Com o qual fundamento, escreve João de Barros, pêro nesta sua ida a Bengala ter melhor rece- bido quando lá chegaste, determinou de mandar diante hum João Coelho em a náo do Mouro Oromalle, parente do Oovernador de Chaii- gam, com at cartai (a) A 23 de Janeiro, em Madrigalejo.
182 ANTÓNIO GALVAO No anno de 527 (*) foy Fernã perez ter a cidade de Malaca, & no mes de Iulho (') partio delia pa China cõ oito vellas (s), qtro portuguesas, & as outras ma- layas (4). Chegado aa China (6), como nã pode entrar nella sem embaxada, leuaua ja hila tome pirez (8) pera isso. E partio da cidade de Cantam, onde elles surgirá, foy por terra quatrocentas legoas, que era a cidade de Pequim, onde el rey estaua porque esta prouincia he a mayor que se agora sabe no múdo. Começa deza- noue & .xx. grãos daltura da parte do norte, & diz q acaba perto de cincoôta grãos ê q auera 500 legoas de cõprido, & qrê q tenhã de largo .300. & esteue Fernão (l) Aliás em 1617. (í) Preferimos a data de 17 de Junho. (S) Fernão Lopes de Castanheda e Gaspar Correia reduzem para sete os navios desta frota. Galvão e João de Barros têm, porém, razão ao referir que eram oito a saber: a capitânia Etfera; a Santa Crut, a Santo André e a Santiago, dos comandos respectivos de Simão de Alcáçova, Pero Soares e Jorge Mascarenhas; três juncos, das capitanias de Jorge Botelho, Manuel de Araújo e António Lobo, e um outro navio que Martim Guedes comandava. (4) Armados pelos mercadores malaios Pulate e Curiaraja. (8) Ancoraram em Tamio, na costa noroeste da ilha de Sang- -ch'wan, frequentemente denominada Veniaga pelos cronistas de quinhentos. (#) De Tomé Pires, boticário do príncipe D. Afonso, diz Cas- tanheda que era homem discreto e curioso, desejoso de conhecer muitas drogas que lhe diziam existirem na China. Fôra feitor das drogarias em Cananor, no tempo de Afonso de Albuquerque, que o nomeou, em 1612, contador e vedor das drogarias de Malaca. Escreveu um relato valiosíssimo desta viagem, encontrado pelo erudito cartólogo e Investigador Dr. Armando Cortesão e por êleem vésperas de publicação, com eloqQentes e prolixas anotações.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 183 pêz .xiiij. meses S hfia ylha q se chama DaueDiaga í1), enformandose das cousas daquella terra como lhe el Rey mandaua, por serem muy grãdes & notaueis, & ainda que ja la fora Raphael perestrelo (*), em hum junco de mercadores de Malaca, a Fernam Perez se deue dar a palma deste descobrimento, assi por ser por el Rey mandado, como por descobrir tanto cõ armada. E Thome pirez por terra & Iorge mascare- nhas por mar & costa atè a cidade de Foquiem ('), que esta em 24. grãos daltura. Neste mesmo anno de 517. veyo o emperador dom Carlos a Espanha tomar posse delia (4). No anno mesmo armou Francisco fernãdez de Cordoua, Chris- touam morãte, & Lopo ochea tres nauios à sua custa da ylha da Cuba, leuarã mais hfla barca de Diogo velhasquez que ja gouernaua, q meteo nesta armada, forão tomar terra em Hiucatas (5), em vinte grãos dal- tura, em htla ponta que poseram nome das molheres (6), q foy a primeira em que se viram templos & edeficios de cal & pedra (7). He gSte milhor atauiada que ha em nenhfla outra terra, & cruzes em q os índios adora- (1) Vide nota 5, a pág. 182. (í) Teria estado ali em cativeiro, com trinta portugueses, segundo Gaspar Correia. (') Fuhkien. (<) Desembarcou em Vila-Viçosa, nas Astúrias, aos 13 de Setembro de 1517. (5) IucatSo. (6) Frente à actual ilha de las Mujeres. (7) As ruínas imponentes do Iucatão atestam a civilização Maia, que os espanhóis já encontraram em franca decadência.
184 ANTÓNIO GALVAC uam, & as punham sobre seus defuntos quando fale- ciam, donde parecia que em algum têpo se sentio aly a fe de Christo, por onde algús quiseram dizer q fossê ali as sete cidades (*), andarã derredor delia da parte do norte, que he da mão dereita, dõde se tornaram à ylha Cuba cõ algúas mostras douro & horaês que tomaram, & este foy o começo do descobrimento da noua Espanha. No anno de 518. mandou Lopo soarez dõ Ioam da silueira ás ylhas de Maldiua & Reyno de Bengala, nas ilhas assentou pazes com os moradores delias, & da hi foy a cidade de Chatigam (*), que esta situada na boca do rio Gãje no tropico de Cãcro (s) porque assi este Rio como o Indo que he çem legoas alè da cidade de Dio, & o de Cantam, na China todos desem- barcam (4) num paralelo, mar & terra, & ainda que ja neste tempo tiuesse Fernam perez mandado a Bêgala o Coelho (como he dito) com tudo dom Ioão da sil- ueira deue de leuar a palma deste descobrimento, por hir por capitam mòr, & estar la mais tempo enformã- dose da terra & dos costumes dos principaes delia (s). (1) Refúgio lendário de múltiplos cristãos peninsulares após a invasão árabe. (*) A Chittagong das cartas modernas, a leste do Ganges. (5) Trópico de Câncer. (4) Manifesta gralha tipográfica. O autor decerto escreveu detembocam. (6) Não logrou, porém, o principal objectivo, de fomentar o intercâmbio mercantil, por ter sido reconhecido como autor do apresamento de dois navios de Cambaia, quando se dirigia para Bengala.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 185 No anno de .518. o primeiro dia do mes de Mayo mandou o gouernador Diogo velhasqz que na ilha Cuba estaua, seu sobrinho Ioam de gujaluarez com quatro nauios & dozentos soldados (8) ao descobri- mêto da terra do Hiucatam, & tomaram de caminho a ilha de Cuximel (3>, q esta da parte do norte em deza- noue grãos, & poseram lhe nome santa Cruz, por estarem nella aquelle dia, costearam esta costa à mão esquerda (4) per híia enseada que poseram nome Dascêçam por la entrarem em festa tamanha. Foram ate a fim dela, que esta em dezaseis grãos daltura, donde se tornaram por nam acharem saida: & daquy forã derredor delia a outro rio que poseram nome de Gujaluarez (5), q está em dezasete grãos daltura, & os delia os feriram & maltratará (6), com tudo trouxeram algum ouro, prata, penachos, que sam la muy estimados, & com isto se tornaram aa ylha da Cuba. E no mesmo anno de 518. armou Francisco garai tres nauios na ilha Iaimaca (7) á sua despesa: foy (1) Juan de Grijalva. (8) Em cujo número se contavam Bernal Diaz dei Castillo, Pedro de Alvarado, Francisco Montejo e Juan de Alaminos. (5) A ilha de Cozumel. (8; Navegando da ilha dc Cozumel para a Baía da Assunção, a costa do Iucatão fica ã direita. (5; O rio de Grijalva, em Tabasco. (6) Se houve reacção bélica por parte do indígena, como afirma Galvão, foi suave e de pouca dura, não impedindo as permu- tas mercantis. (1) De que era Governador.
186 ANTÔNIO GALVAO atentar a ponta da Florida (*) q está em vinte cinco grãos da parte do norte, parecendolhes que seria ilha, q naquelle tempo mais folgauão de as descobrirem q terra firme, porq a podiâ milhor conquistar, senhorear, & conuersar: sairam em terra, os delia lhe feriram & mataram muita gête polo q não ousaram pouoala, & foram se ao lõgo da costa ('), chegará ao Rio de Panuco, q sam 500 legoas da põta da Florida, nã nos deixará resgatar, nê conuersar em nenhúa parte: mas antes em Chily lhe ferirá & matarã gSte, & os esfolarã & comerá, & poserã as pelles no templo & sacrifício por memoria de sua valêtia. Cõ tudo tornou la Francisco de Garai, & o ãno segulte mãdou ao emprador pedir a gouernança daquella terra, por lhe parecer rica de ouro & prata. No ãno de 519. em Feuereiro (s) partio Fernã cortez da ylha da Cuba (4), pera terra a q elle pos nome noua Espanha cõ .xj vellas & .550. (6) Etpanhoes P) Francisco de Garay não comparticipou nesta viagem, cujo comando deu ao piloto-cartógrafo Alonso de Pineda. Em 1523 é que foi em pessoa à conquista dos territórios anteriormente vistos por Pineda, mudando porém inesperadamente de rumo e objectivo. (8) As duas expedições promovidas por Francisco de Garay, do comando respectivo de Alonso de Pineda e do próprio Garay, reconheceram com detalhe tôda a costa do Gólfo do México até à Florida. (') Aos 10 de Fevereiro. (*) Da Havana. (5) Quinhentos e cinquenta homens de armas, além de cento e dez marinheiros.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 187 nellas, & a primeira terra q tomará íoy a terra de Coxomil (*), ou .8. cruz, onde logo destruyrã todolos ydolos, poserã cruzes nos altares, & imagás de nossa sflora, a q todos adorauã. Desta ylha tomará a terra firme de Siucatâ na ponta das molheres, ao rio de Tauasco (*), & derã níla cidade q está nelle, q se chama Potochâ (s) cercada de madeira, & as casas de cal & pedra, cubertas de ladrilho: pelejaram cõ grãde aperto, apareceolhes o seftor Santiago encima dfi caualo, q lhes dobrou o esforço, & poseram nome a esta cidade a Vitoria (4), foram os primeiros vassalos q o Emperador teue na noua Espanha. Daqui forã pela costa descobrindo ate onde se chama .S. Ioã dalua (5), dõde dizê q auera de México .60. ou 70. legoas onde estaua elrey Matacumacl (6), & governaua por elle hii seu criado q se chamaua Teu- dall, q lhe fez bõ gasalhado, inda Cj senâ entenderá senâ leuara Fernâ cortez .xx. molheres, & hfia delias q se chamaua Marina (T), era de dêtro daqla terra. (l) Cozumel. (8) Tabasco. (3) A actual Palizada. (1) O nome de Vitória, ou antes, Santa-Maria-da-Vitória, nâo foi dado a qualquer cidade mas aim ao campo de batalha onde Cor- tês venceu os Tabasquenhos e lhes impoz a soberania de Castela. (5) Aliás San Juan de Uluá, o actual ilhéu dos Sacrifícios. (6) Montezuma ou Moteuczoma na língua asteca. (7) Contráriamente ao que pode depreender-se da narrativa de Galvão, a asteca Marina ou Malinche, como a denominavam antes do baptismo, e as suas dezanove jovens companheiras, foram oferecidas a Cortês pelos tabasquenhos quando do triunfo dos cas- telhanos em Santa-Maria-da Vitória.
188 ANTÓNIO GALVAO Forã as primeiras q receberá agoa de batismo na noua Espafia, & dali por diante Marina, & Aguilar (J) serui- ram de lingoa: & logo Thedelim fez a saber a Mate- cuma como a gente Barbuda, q assi chamauam aos castelhanos, era ali aportada, de que lhe pesou muito, por lhe terem dito os seus deoses que os tais homès como aquelles auiam de destruir sua ley, & terra, & senhoreala, & por ysso mandou peças a Fernam cor- tez q valiam vinte mil cruzados, escusando se de se ver com elle. Como sam Iohão dalua nam era porto pera estar a armada, mandou Fernam cortez a Francisco de Montejo, & ao piloto Antam de Laminos em dous bargantls, q descobrissem aquela costa ate topar sitio onde podesem estar sem perigo. Foram ate Panuco q está da parte do norte em .xxij. grãos daltura, dõde se tornaram cõ acordo de passarse a Culuacã (2), q he porto de milhor abrigo. E dada á vella se partiram contra o Ponente, & Cortez por terra com a mais da gente & caualos, & chegaram a húa cidade q se chama Leopolão (3), foy bem recebido. E dahi a outra q se chama Chesuilam (4), & com estes & toda a comarca í1) Jerónimo de Aguilar, espanhol que naufragara anos antes, quando em viagem de Darien para Cuba, a quem os tabasquenhos encarceraram numa jaula de madeira. Liberto por Cortês, Aguilar tornou-se um auxiliar precioso, dados os conhecimentos que tinha da língua maia. (2) Cunduacan. (») Povoação totoneca da proximidade de Cempoalla (?) (4) Quiahuiztlan, povoação totoneca.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 189 assentou liga contra Matecuma í1), & sabendo que as naos eram chegadas, foyse a ellas, & fundou ali hQa villa, a q pos nome Rica de vera cruz (*), donde man- dou ao Emperador presente (s) & seus quintos, & darem lhe conta do que passaua, & como determinaua dhir a México a ver se com Mantacumacim (4), q lhe fizesse merce da gouernãça, & por se nã amotinar agête (5), como ja começaua, deu cos nauios á costa (®). Partio logo Fernam cortez da villa Rica da vera Cruz, deixando nella cento & cincoenta castelha- nos (7), dous caualos, & muitos índios de seruiço, & pouos derredor, seus amigos & aliados. E ello se foy à cidade de Heopolam, que se agora chama Zeopo- lam (8), onde lhe deram noua q andaua pella costa (!) Montezuma, contra quem Cortês não promoveu então liga alguma. (3) Villa Rica de la Vera Cruz, que Cortês fundou em Quinta Feira Santa, 21 de Abril de 151U, depois de simbòllcamente tomar posse do continente em que acabava de desembarcar, em nome dos reis de Castela D. Carlos e sua mãe Joana-a-louca. (3) De que os portadores eram Francisco de Montejo e outros. (*) Montesuma, a quem Galvão tributa diversidade de nomes. (3) A insubordinação teve lugar, sendo dos seus principais objectivos a tomada dos navios e das riquezas ali arrecadadas. Cor- tês reprimiu-a com severidade, não hesitando em mandar enforcar Pedro Escudero e Diego Cermeflo, e cortar os pés ao pilOto Gon- çalo de Umbria. (3) A versão mais divulgada ê a de que os mandou incendiar. Pode porém considerar-se provado que se limitou a inutilizi-los, impossibilitando assim qualquer tentativa de deserção. (7) Sob o comando de Juan Escalante e Pedro de Hircio. (8) Cempoalla.
190 ANTÔNIO GALVAO Francisco de Garai, com quatro nauios pera tomar terra, & per manhas & cilladas ouue delles noue homês, de q soube como Garai fora aa Florida, & tocara o rio Pamuco (»), onde resgatara ouro, cõ tudo leuaua determinado de se assentar, onde se agora chama Alméria. Cortez em Zeopolam (*) fez derribar os ydolos
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 191 tam (!), & dú lugar em outro forã bê recebidos & aga- salhados, ate entrarem em o reyno de Trascalam ('), que tinha guerra com Matacuma. E como presumiam de valentes, pelejaram cõ Fernam Cortez & suas gen- tes (s): & por flm de tudo ficaram amigos & aliados (4) contra os Mexicanos. E assi forã de terra em terra, & pouco em pouco descobrindo ate a cidade de México. El rey de Matacuma como os temia fezlhe bõ gasa- lhado, mâdandoos aposentar & darlhe todo o necessá- rio: estiuerã assi algfls dias cõtentes. Mas como Fernam cortez se arreceasse de os matarem, prendeo a Mata- cuma & leuou a sua casa & o pos a bom recado (5). Desejou Fernam cortez saber camanho (sic) este reyno era contra o ocidente, & o mar que chamam do sul, & as minas douro & prata q nella auia, & os Reys vezinhos que contra aquella parte Matacuma tinha, pera que pedio que lhe dessem algQs índios q sou- bessem dar disso boa conta, elle mandou logo fazer (1) Zacatlan (?) (®) Tlazcala. (®) Foram três os combates que os espanhóis sustentaram com os tiazcaltecas, a 2, 6 e 7 de Setembro de 1519, (*) Aliança que Cortês propôs com receio de que os tiazcal- tecas se unissem aos astecas; demonstra a visão e sagacidade politicas do grande conquistador. (6) Neste eztraordinário golpe de audácia, que Cortês pôs em prática no dia 15 de Novembro para se apossar do império, que não para se precaver contra o perigo de traição, como refere Galvão, comparticiparam os capitães Pedro de Alvarado, Alonso de Avila, Juan Velázquez e Francisco de Lugo, que igualaram, no transe arriscadíssimo, em temerário arrôjo, o destemido capitão.
192 prestes oyto, & Cortez outros tãtos Espanhoes, & de dous em dous foram a quatro prouincias que sam, Zocalam (*), Malinaltepec (•), Tenih (8), Tutipeo (4). Os que foram a Zocalam andará oytêta legoas que ha de México a elle, & os q foram a Malinaltepec, eram sete- centos, viram boa terra, & trouxerão mostras douro, que os naturaes tiram dQ gram rio q passa por ella, tudo isto he da Matacuma. Ténis (6) & Epolo (8) rio acima, & nam obedeqiâo a Matacuma, mas antes tinham com elle guerra, & nam deixará entrar os Mexicanos, & deranlhes mostras douro que no rio tiraram, & mandaram embaixadores a Fernam Cortez cõ presentes, offerecendolhe seu estado & amizade, de que Matacuma nam folgou nada. Os que foram a Tutipec, que está jflto do mar, tambS trouxeram mostras douro, dizendo que a terra era boa pera fazer nella assento. Matacuma mandou logo fazer casas (*) & aposentos pera os Castelhanos esta- rem nellas. PergOtoulhe Fernam Cortez se naquella costa do mar auia portos em que podessem as naos (1) Zacatlan, na província de Puebla (?) (3) Que não conseguimos identificar. (5) Idem. (4) Tuxtepec, ao norte do rio Popaloapan, na província de Uajaca (?) t&) Que não conseguimos identificar. (6) Idem. (?) Êste informe carece de fundamento, sabido como é que Montezuma alojou os espanhóis num antigo palácio, que aqueles fortificaram.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 193 estar seguras, disse que uam sabia, mas que logo per- gíltaria, & amostroulhe hum pano dalgodão todo texido de debuxo, em questaua toda a costa, portos & enseadas, esta obra (x) polia vinda de Pamphilo de Narbais (a) & reuoltas de México. Neste mesmo anno de 1519. a dez de Agosto par- tio Fernam de Magalhães de Seuilha com cinco vel- las (s) pera as ilhas de Maluco, foy costeando a costa do Brazil ate ho Rio da Prata, que era ja descuberto por parte de Castella, da qui por diãte fez o Magalhães seu descobrimento, & chegado a hum rio que pos nome de sam Iuliam que esta em corenta & noue grãos, meteose dentro, onde enuernaram, passaram grande frio polias neues & geadas que auia muitas: os homês daquella terra dizem q sam de grande esta- tura & força, & que tomão outro qualquer pellas per- nas & quebram pello meo como se fosse hQa galinha, mantêse em caça & fruta, poseranlhe nome os Pata- gones, & os Brazis lhe chamão Morcas. ^1) Houve decerto aqui eliminação de texto quando da impres- são em 1563. (í) Pânfilo de Narváez que desembarcou em Vera-Cruz com oitocentos espanhóis, oitenta cavalos e mil índios cubanos e com ordem expressa de Diego de Velázquez para submeter Cortês. No dia 25 de Maio de 1520 feriu-se a primeira batalha fratricida em territóiio mexicano, na qual Cortês obteve assinalada vitória, (8) A Trinidad, que Fernão de Magalhães comandavs em pessoa; a Sanlo Antonio, que tinha por comandante o vedor geral da armada, Juan de Cartagena; a Concepeion, capitaneada por Gaspar de Quesada; a Victoria, de que era capitão o tesoureiro da frota, Luis de Mendoza, e a Santiago, do comando do português João Serrão. 13
194 ANTÓNIO GALVAO No anno de 520. & entrada do mes de Setembro (*), que começa o veram naquella terra, saíram do rio tendo ja hum nauio perdido (2), com os quatro chega- ram ao estreito que chamão do Magalhães, que esta em cincoêta & dous grãos & meo, donde se tornou hila nao (s) pera Castella, de que era capitam & piloto Esteuão gomez do porto Português, com as tres forão seu caminho por hfl grande mar ermo, a q chamará pacifico, sem verê terra nê ilha (4) pouoada ate treze grãos daltura da parte do norte, que fora ter ás ilhas pouoadas, a que poseram nome dos prazeres (8), & dahi ao Archipeligo de são Lazaro (6), & em hila ylha que se diz Sebu (7), & nata (8), foy o Magalhães (1) Aliás em 24 de Agõsto. (*) A Santiago, perdida três léguas ao Sul do rio de Santa Cruz, quando andava em exploração da costa. (3) A .Santo Antonio. (*) Fernão de Magalhães fundeou, no dia 24 de Janeiro de 1521, em 14° 45' de Lat. S. e 188° 48' de Long. W , junto ao Ilhéu de Puca Puca, a que deu o nome de Sio-Paulo; percorridas mais duzentas léguas, deparou-se-lhe, no primeiro de Fevereiro, a Ilha a que chamou dos Tubarões, Identificável com a de Flint e Wostok ou com a Carolina, no grupo Manahique. Ambas eram desabitadas. (5) Trata-se das ilhas de Rota e Guame, do grupo das Maria- nas, as quais não nos consta que se chamassem dos Prazeres, mas sim, e primitivamente, das Velas e, logo, dos Ladrões. (6) Nome com que Fernão de Magalhães baptizou o arquipé- lago das Filipinas. (7J Zebu, (8) Mactan.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 195 morto í1) & sua nao queymada (2) as outras duas (3) forã a Borneo, & dahy a Mldanao (4) & de pedra ê pedra ás ilhas do crauo, deixãdo outras muitas descubertas q nã aponto, por auer muytos escritores deste caminho. Neste mesmo tempo dizem que o Papa liam decimo mandou miser Paulo Sinturiam (B) cõ embaixada ao gram duq Moscouia (6) ho prouocara q enuiasse á índia armada ao longo da costa da Tartaria, tais rezões lhes daua q o mouia a isso se o não estoruara algfls incõuenientes q auia. Neste mesmo anno de .520. em o mes de Feue- (*) Foi d« facto na ilha de Mactan, onde desembarcara para reduzir o régulo à obediência do soberano de Zebu, que o Ínclito Magalhães pereceu no dia 27 de Abril de 1521, pelejando heròica- mente para proteger a retirada dos companheiros. (1) É manifestamente inexacta esta noticia, pois que a capi- tânia Trinidad, impossibilitada, por necessidade urgente de fabrico, de acompanhar a Victoria, quando esta largou de Tidore para a via- gem de regresso a Espanha, acabou, desfeita pelo temporal, em Ternate, depois de várias peripécias que pormenorizamos a págs. 236 do vol. II da nossa obra «Fernão de Magalhães — a tua vida e a sua viagem». Galvão alude à Concépcion que foi queimada em Zebu, por falta de tripulantes, depois da morte de Fernão de Magalhães e da chacina que naquela ilha sofreram os seus companheiros. (S) A Trinidad e a Victoria, (l) Tocaram primeiro em Quipite, na costa ocidental de Min- danáo, e mais tarde em Bornéu. (5) Paulo Centurião. (6) A Basilio III, que reinou de 1505 a 1533 e foi o primeiro dos Grão-duques da Moscóvia que usou o título de Tsar.
196 ANTÓNIO GALVAO reiro (•), partio Diogo lopez de Sequeira gouernador da índia pera o estreito de Meca, leuâdo consigo o embaixador do Preste (*): & dõ Rodrigo de lima que hya tambe com embaixada, chegaram á ilha de Masua, que está da bãda Dafrica da parte do norte em dezasete grãos, poseram os embaixadores em terra com os Por- tugueses que auiãm de ir com elles, ainda q ja la fora Pero de couilhãa, que el Rey dom Ioham ho segundo mandara, mas com tudo Francisco Aluarez nos deu enformaçam daquella terra, pollo que escreueo delia (8). Neste anno de 520 (4) ho lecenceado Vasco de Seilam (5), & outros vezinhos de sam Domingos, arma- ram dous nauios (®) q mandaram ás ilhas dos Lucayos tomar escrauos, & como os nam acharam, passaram à terra firme acima da Florida, onde se chama Chiapa, (1) A 13 de Fevereiro, com uma armada de vinte e quatro velas. (2) O arménio Mateus, ido a Goa com uma carta da rainha Helena da Abissínia para o rei D. Manuel em 1512, e, logo enviado por Afonso de Albuquerque a Portugal. Tornou à índia em 1515, na armada de Lopo Soares de Alber- garia, e ali aguardou até 1520 a repatriação. (3) Na obra intitulada Verdadera informaçam da» terra» do Prette Joam segundo vio e escreueo ho padre Francieco Aluarez capellã dei Rey nosso senhor, impressa pela primeira vez no ano de 1510, e reimpressa em 1889. (<) Se bem que a sociedade datasse de 1520, a expedição a que Galvão alude teve lugar em 1521. (5) Lucas Vizquez de Aillon, ouvidor da audiência de Santo Domingo. (®) Capitaneados por dois espanhóis de apelido Gordillo e Quexos.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 197 & Gualdapè, ou rio Iordão, & cabo de S. Elena ('), (J está da parte do Norte S .32 grãos, os da terra acodi- ram à praya ver os nauios, como quê nunca os vira, os Castelhanos saltaram em terra, onde lhes fizeram bõ gasalhado, & lhes deram de graça o necessário. Foram muitos aas naos convidados, derã âs vellas trouxeram nos por escrauos, & no caminho se foy hua nao ao fundo, os q na outra se escaparam passará cõ trabalho. O Licêceado como la visse ouro, prata, & aljofre, pedio ao Emperador aqla governança, onde tornou a pagar o q devia. Neste tempo sabendo Diogo Vasquez (*), q gouer- naua a Cuba, q Cortez andaua prospero, & pedia a capitania da noua Espanha, q ele tinha por sua, man- dou la hfla armada de dezoito velas, & mil homês (8), & oitenta cauallos nellas, & por capitam mòr Pamphilo de Narbais (4), foyse aa villa Kica da vera Cruz, onde tomou terra, & mandou dizer q o recebessem por gouernador delia (6): prenderam os messageiros, e mandaram nos a Cortez a México. Sabendo isto escre- ueo a Narbais q nam amotinasse a terra que elle tinha (i) Na South Carolina dos actuais Estados Unidos da América, ao Norte de Port-Royal. (S) Diego Velazques. (3) Oitocentos é o número geralmente acatado. (<) Pânfilo de Narvaez. (5) Contràriamente ao que Galvão noticia, Pânfilo de Narvaez não ia provido do govírno dos territórios recém-conquistados, mas encarregado tio sòmente de exigir, ou impor pelas armas, a sub- missão de Cortês a Diego Velazquez.
198 ANTÓNIO GALVÃO descuberta, que se elle tinha prouisam do Emperador, que lhe obedeceria, com isto dizem que lhe mandou sobornar a gente com dinheiro: sahio do México í1), & o prendeo na villa de Sempucol (8), quebrando lhe hum olho. Como Narbais foy preso (8), os de seu exercito se entregaram a Cortez & lhe obedeceram, despachou logo dozêtos Espanhoes ao rio Garai, Ioam vasquez de Liam cõ outros tantos a Cosoalco (4), & hum Cas- telhano com noua de sua victoria a México: mas os índios como ja estauã aleuantados o feriram. Sabêdo Cortez isto, fez alardo, achou mil de pè, & dozentos de caualo, com que foy a México, & achou Pero Dal- uarado, & os que la deixara viuos & sãos, de q teue gram contentamento. Matecuma lhe fez bom gasalhado, cõ tudo os Mexicanos não deixará de lhes fazer a (!) Aliás de Tenochtitláo, que só depois do regresso de Cortês passou a chamar-se México. (1) Cempoalla. (s) Depois do combate ferido em 25 de Maio, com considerá- vel inferioridade de fôrças por parte de Cortês. Contribuiu para a vitória dêste último, a ânsia que tinham os soldados de Narvaez de se passarem para Cortês e comparticiparem na pilhagem do império asteca. Narvaez bateuse valorosamente e o seu cativeiro foi de pouca dura. (4) Coatzacoalcos. Temos estas expedições por duvidosas, pois Cortês, preocupado com a sorte dos companheiros deixados em Tenochtitlán, ou México, que assim foi chamada a partir de então, deu-se pressa em seguir para a capital, que alcançou aos 24 de Ju- nho, com mil e duzentos soldados e oito mil auxiliares tlaxcaltecas. Não fazia aliás sentido que dispersasse e enfraquecesse o seu exér- cito em vésperas dos acontecimentos graves que pressentia.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 199 guerra, & tam crua q lhes mataram seu Rey Mata- cuma (!) de húa pedrada, & aleuantaram outro (s) a elles mais aceito, ate deytarem os Castelhanos da cidade, que nam eram mais jaa de quinhentos & qua- tro de pe, & quarenta de cauallo, & asei desbarata- dos (8) foram a Tascalam (4), dõde os receberão, & se fizeram nouecentos Espanhoes (s), oitenta de cauallo, & dozentos mil índios, amigos & aliados, tornaram a tomar México no mes Dagosto (8), anno de .521. Vêdose Fernam cortez vitorioso & pacifico deter- minou de descobrir pola terra dentro, & pera isso neste anno de .521. em o mes Doutubro, mandou Gonçalo de sondoual com dozentos piães & trinta & cinco de caualo & muytos índios amigos ate Antepee ('), Ca- soalco (8) q se reuelaram, os quaes renderam aquella (1) Montezuma. Se bem que ferido pelas pedradas e flechas dos súbditos, a quem aconselhava, por imposição de Cortês, a sub- missão e obediSncia aos espanhóis, o imperador não faleceu das feridas mas sim da vergonha e desgôsto da sua situação e conduta e do propósito em que se manteve de recusar todo o alimento. (3) Cuitlahuas, irmão de Montezuma, a quem Cortês restituíra imprevidentemente a liberdade. p) Cortês perdeu a maior parte da artilharia e bagagens, quatrocentos espanhóis e milhares de auxiliares tlaxcaltecag. (*) Tlaxcala. (5) Convém esclarecer que era de seiscentos espanhóis e qua- renta cavalos, não contando com mais de dez mil tlaxcaltecas e totonecas, o exército que Cortês levou de novo contra Tenochtitlán ou México, seis meses decorridos sôbre o revés ali sofrido. (8) Em meados de Agôsto. (I) Tochtepec (?) (8) Coatzacoalcos.
200 ANTÔNIO GALVAO terra, & a descobriram & fizeram hõa villa de cento & vinte legoas de México q se chama Medelim, & assi outra do Spiritu sancto, quatro legoas do mar ao longo de hfla ribeira, com as quaes pacificaram por ali tudo. Neste mesmo anno no mes de Dezembro í1) faleceo el rey dom Manoel, & socedeo dom Ioão o terceiro seu filho. No anno de 521 (') partio de Maluco (s) hiia das naos (4) pera Castella, em q o Magalhães fora carre- gada de crauo, capitã & piloto (B) delia Ioam Sebastiam dei cano. Foram tomar mantimento aa ilha de Burro (®) q estaa em vinte quatro grãos daltura da parte do Sul, passaram por antre Vitara (7) & Malua (8), que estam em oyto grãos: & dahi foram a Thimor (9) q estaa em (1) Aos 13 de Dezembro de 1521. (í) Na tarde do dia 21 de Dezembro. (8) Da ilha de Tidore. (*) A Victoria. (5) Não foi João Sebastião Delcano quem pilotou a Victoria na viagem de regresso, mas sim Francisco Albo, pilôto de Sua Alteza e contra-mestre da capitânia Trinidad, da qual transitou para a Victoria após a morte de Fernão de Magalhães. Escreveu um minucioso roteiro náutico da primeira circunnavegação do Mundo. (8) A ilha de Bouro, que alcançaram a 27 de Dezembro de 1521. (7) A ilha ds Weta. (8) A ilha de Ombal. Depois de Bouro fêz a Victoria várias bordadas entre os ilhéu de Manipa, Kelang e Boloan, defrontou o arquipélago de Sonda, nas alturas de Solor e Aduanara, custeou Lomblem e Pantar e arribou em Ombai, onde tardou quinze dias. t9) Onde chegou a 26 de Janeiro de 1522.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 201 onze, ate delle cem legoas, descobriram httas ylhas diante outras debaxo do tropico de Capricórnio. Todas sam pouoadas daqui por diante: nam sey terra que vissem ate o Cabo de boa esperança (') senam algQa ylheta sem gente (2): onde diz que tomaram agoa & lenha. E ao lõgo daquella costa vieram aas ylhas do Cabo verde, & dahi aa cidade de Seuilha, onde foram oom grande aluoroço recebidos, assi pello crauo que traziam, como por darem híia volta ao mundo. No ãno de 522 & mes de Ianeiro, foram ao des- cobrimento de Nocaraga (s), & buscar o estreito que diz que passaua da outra banda, Gil gonçaluez Davila (') em quatro nauios que diz q armara na ylha de Tara- requi (5). Yndo ássi ao longo da terra, sayo em hum Porto que se chama Sam Vicente (6), com cem Espa- nhoes & certos cauallos, entrou pella terra dentro dozentas legoas, Sc trouxe dozentos mil pesos douro, ainda que baxo. Tornado a sam Vicente, achou ahi ho (l) Que dobrou, sem avistá-lo, a 19 de Maio de 1622. (*) Topou, a 18 de Março de 1522, a ilha de Amesterdão. Em demanda de refrescos, arribou, em 9 de Maio, numa costa desabri- gada, perto da Angra de São-Braz, não conseguindo porém o seu objectivo. (8) Nicarágua. (4) Com André Nifio, de quem partira a iniciativa e pedido de capitulação de uma viagem de descobrimento no Mar do Sul até às Molucas. A chefia suprema foi, porém, confiada a Gil González Dávila, ao tempo contador na Espanhola. (5) Aliás no rio de las Balsas. t#j No G61fo de San Lucar, que a partir de então passou a ser conhecido pelo nome Nicoia do cacique da região.
202 ANTÓNIO GALVÃO seu piloto Andre Minho (*), que dezia que chegara ate Teantepè (8), que estaa era dezaseys grãos da parte do Norte, & nauegara trezentas legoãs: dali se tornaram a Penama, onde foram aa ylha Espanhola. Neste mesmo anno de 522 & mes Dabril (8), par- tio (4) a outra nao (5) que com o Magalhães fora da ylha de Tidore, capitam delia Gonçalo gomez despi- nola na volta da noua Espanha (®) por escassear o vento, gouernaram ao Nordeste em trinta & seis grãos O da parte do norte, duas ilhas a que poseram nome de sam Ioam (8), & polo mesmo rumo foram ter a outra em vinte grãos, q se chama a Grega (•), a gente delia como innocente, se veyo meter na nao, & tomaram algfls pera leuar damostra aa noua Espanha. (i) André Niflo. (8) Telmantepe, na costa sul do México. O ponto alcançado por André Nifio foi porém o Gôlfo de Fonseca, não obstante a divergência de cêrca de três graus da sua latitude relativamente à que Galvão indica. ls) Aos 6 de Abril. (4) De Tidore. (5) A Trinidad. (S1 Espinosa planeara a torna-viagem, não pelo Estreito de Magalhães, mas pela demanda do Panamá, para alcançar ràpida- mente terra espanhola (7I Houve decerto gralha tipográfica ou leitura deficiente do manuscrito de Galvão. I8) As ilhas de Warwick e Warren Hastings, alcançadas na primeira semana de Maio, a que Espinosa chamou de S. João e tam- bém de Santo António. (9) A ilha de Agrigan, ao Norte das Marianas.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 203 Forâo quatro meses nesta volta, ate se poerem em quarenta & dous grãos (*), onde viram lobos marinhos, & toninhas, & era a Crima tam fria & destemperada, que se nam podia sostentar nella, pello que tornaram arribar a Maluco (*), com tudo forft os primeiros Espa- nhoes que se poseram daquela banda em tam grande altura: & quando tornaram a Maluco, acharam ja neste anno Antonio de Brito fazendo fortaleza. Neste anno de 522 desejoso ho Cortez ter terras e portos no mar do Sul, pera descobrir por ali a costa da noua Espanha, de que tinha noticia em vida de Matecuma: & tambê lhe parecia que traria por ali as drogas da Maluco, Banda, & especearias da Iaoa com menos trabalho & perigo, mandou la quatro Castelha- nos com suas guias a Thoantepè (8), & a Cotomolam (4), & a outros portos, de que foram bem recebidos, trou- xeram homês que os guiaram a México. Fernam Cor- tez lhes fez bom gasalhado, & deulhes peças que os contentaram. Depois disso mandou la dez pilotos & guias da terra que os leuaram aa prouincia de Tean- tepee *(6), & chicoalco (®), que se agora diz Ioam (l) Assim se lê, de facto, no roteiro desta viagem, atribuído a um pilôto genovês anónimo que nela comparticipou. Temos, porém, por evidente que há um êrro de vinte graus e que foi de cêrca de 22® N. a latitude máxima atingida pela Trinidad. (i) Alcançou de novo Ternate em Outubro de 1522. (S) Tehuantepec. (l) Quahutemallan (?) (5) Tehuantepec. (8) Chilapa (?), Chimalapa (?)
204 ANTÓNIO GALVAO dalua ('). Andaram setenta legoas por mar do Sul & costa, sem acharem porto nem fundo, senam hum Cacique que se chamaua Chuchelaquir, que lhes fez bom gasalhado: & mandou com elles dozêtos caua- leiros com hum presente douro & prata, & doutras cousas que auia na terra, & assi o fezeram os de Toantepe (2), a que Fernam cortez fez assaz honrra: & nam tardou muito que lhe nam mandaram pedir socorro pera contra seus vezinhos que os guerreauam. No anno de mil & quinhentos & vinte & tres, & mes de Março, mandou la ho Cortez em sua ajuda a Pero Daluarado com dozentos soldados, quarenta de cauallo, ao senhor de Toantepee (s), & Catamalam (4), & lhes perguntaram por Cortez, & por os monstruos marinhos que ho anno passado aly chegaram, que eram os Nauios de Gil Gonçaluez Dauila, de que esta- uam muy espantados, & muito mais foram de lhe dizerê que Fernam Cortez os tinha mayores, & lhes debuxaram húa Carraca (8) com mastos, & vellas, & enxárcias, & cavalos, com hum homS armado encima, foy Aluarado bem recebido, começou logo a correr aquellas prouincias & senhorealas: & fez nellas a cidade de Sactiago, & hiia villa q pos nome Segura, & deixou nella gête cõ fe q segurou a terra. (l) De Juan de Grijalva. (s) Tehuantepec. (3) Tehuantepec. (*) Quahutemallan (?) (S) Navio de carga, artilhado, de grandes dimensões.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 205 No anno mesmo de 523. & mes de Mayo mãdou Antonio de Brito, que estaua por capitam de Maluco a Simão Dabreu seu primo a saber ho caminho de Borneo, pera Malaca, ouueram vista das ylhas de Manada (*) Panguensara (8). Foram pollo estreito Dan- treminao (8) & Taguina (*) ás ilhas de sam Miguel, q estam em sete grãos daltura da parte do norte & da hi descorreram a ilha de Borneo, & toda sua costa, ouueram vista da Pedra branca (5), passaram polo estreito de Sincapura, foram ter a cidade de Malaca deixando muytas ilhas, mar, & terra por aly sabidas. Neste mesmo anno de 523. foy Cortez com trezen- tos soldados, & cento & cincoenta de caualo, quatro- centos Mexicanos a Panuco como tinha assentado, assi por descobrir milhor aqlla terra, como por pouoalla, & tomar vingança dos de Guara, que aly mataram & comerá, os de Panuco os não receberam, mas antes se defenderam varonilmente, cõ tudo foram desbaratados & muitos mortos, & conquistaram a terra: & junto de Chili ao longo do Rio, fundou Cortez hfla villa, a que pos nome santo Esteuam dei puerto (6), deyxou nella cem infantes, & trinta de (1) Menado, no extremo Norte das Celebes. (») As ilhas de Likoepang e Bangka. (3) De entre Mindanao. (4) Basilan. (5) O ilhéu das Pedras Brancas, junto da entrada oriental do Estreito de Singapura. (6) Foram baldados todos os esforços que fixemos para identificá-lo.
206 ANTÔNIO GALVAO cauallo, & por Tenente a Pero de Valleijo, custoulhe esta hida setenta & seis mil Castelhanos (*), afora os Espanhoes, & cauallos, & Mexicanos que la ficaram. Neste anno de 523. armou Francisco de Garai noue nauios, & dous bargantins, pera hir a Panuco Sc Rio das palmas (*) por gouernador & adiantado, que lhe o Emperador tinha dado da Florida ate Panuco (8), pello gasto que tinha feyto neste descobrimento, leuou desta vez oito cêtos & cincoenta soldados, Sc cento & quorêta cauallos, Sc algõs Islenos de Iaimaca, onde forneceo a frota de munições de guerra, & foyse a Xaca porto da ylha da Cuba, onde soube q Cortez tinha pouoado a costa de Panuco, & por lhe nam acontecer como a Pamphilo de Narbais, determinou yr fazer com elle algum concerto. Pera isso rogou ao Lecenceado Suaso q fosse a México, & partiram de Xaca (4) cada hum a seu negocio: Suaso correo assaz fortuna, & Garay nam esteue sem algõa. Chegado ao Rio das Palmas (8), surgio ahy dia de Santiago: & mandou por elle acima a Gonçalo de o Campo (6) que tornou, dizêdo que a terra era má Sc despouoada, com tudo Garay desembarcou nella cõ (1) Galvão alude provàvelmente à moeda «reales Castellanos». (>) O rio de las Palmas ou de Soto la Marina. (*) Os poderes que levava Francisco de Garay provinham de Diego Velázquez que não de Carlos V. (4) Ságua. I8) O rio de las Palmas ou de Soto la Marina. (8) Gonçalo de Ocampo.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 207 quatro centos Espanhoes & cauallos, & mandou a Ioam de gujaluarez (*) costear a costa, & elle caminhou por terra pera Panuco & passou hum rio a que pos nome Mõte alto, entrou em hfl lugar despouoado, onde achou muitos Galipauos (*) com que refrescarão, & tomou algõs de Chily com assaz trabalho, e chegaram ao Panuco, mas não acharam mantimento polias guer- ras que o Cortez ay tiueram. Mandou Garai a Gonçalo de o campo a sancto Esteuam dei Puerto a saber se ho receberiam, deram boa reposta, & deitaram lhe cilada, em que prenderam corenta, por dizerem que hiam a vsurpar aquella terra, em que Garay recebeo muita perda, alem de quatro nauios que tinha perdidos, & a gente que lhe fogio em ho Rio de Panuco, & cõ isto temerão a for- tuna de Cortez, que sabendo esta noua, deixou as armadas pera descobrir as figueiras (8), & Chiapa & Tomulam (4), & volueo o rostro a Panuco. Estando nisto Francisco de las casas & Rodrigo dela paz, chegaram a México cõ prouisões, em q o Emperador mandaua a Fernã Cortez a gouernança da noua Espanha (6), & todo o mais q tiuesse conquistado (1) Juan de Grijalva. (2) Provàvelmente a ave denominada peru do mato. (3) Cabo Higueras. (<) Tonalá (?) (6) Por real cédula de 15 de Outubro de 1522, conferiu Car- los V a Cortês os cargos de governador, capitão general e justiça maior dos territórios que conquistara.
208 ate Panuco, polo q mãdou la dinheiro a Diogo de ho campo, & Pero daluarado cõ gôte de pè & caualo, q o Garia (sic) sabêdo tomou por partido meterse nas mãos de Cortez, & hirse a México deixando muito descuberto. Tãbê foy ao descobrimêto neste mesmo anno Gil gon- çaluez dauilla, & pouoarão Gil de Boa vista (*), que estara em catorze grãos daltura da parte do norte, na Sm ou quasi da Baya da Ascensam começou a con- quistar aquela terra pera saber milhor os segredos delia. Neste anno de .523. aos seis dias do mes de De- zêbro (s) partio Pero daluarado da cidade de México por mãdado de Cortez, a cõquista & descobrimêto de Catamalã (8), & Autalã (4) & Chiapa (5), & Chanuco (8), & outros pouos q por ali estauam, leuou .300. solda- dos (7) .140. caualos, & algils senhores Mexicanos cõ gête da terra (8) q os ajudaram, assi na guerra como polo caminho q era cõprido, forã ter a toãtepè (9) & a Chanuco (in) & o mais acima nomeado, & com assaz (i) San Gil de Buena Vista. (9) Partiu em meados de Novembro. (3) Quahutemallan ou Guatemala. (<) Utatlán. (5) É de admitir que Galvão pretenda aludir a Quiche e não a Chiapa. (®) Soconusco (?) (?) Mais de quatrocentos espanhóis. (3) Alguns milhares de soldados e carregadores tlaxcaltecas, astecas e totonecas. (®) Tehuantepec. (10) Vide nota 6.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 209 trabalho & mortos, descobrio & cõquistou tudo, Ode á serras de pedra hume & licor q pareçe azeite muito bõ, & muito bõ êxofre q sê ser refinado fazê poluora dele, ali andaram quatro cêtas legoas, & flzerã húa cidade, q poseram nome Sãtiago de Cautumalam (*), pareceo também a Pero daluarado aquella terra, que pedio delia ha gouernança, & diz que lhe foy dada (*). Nesta era de 524 a oito de Dezembro mandou Cortez a Diogo de Godoy com cem soldados & trinta cauallos, & muitos amigos & aliados dos índios contra a prouincia de Chamola (3), aa villa do Spirito sancto, & a outras terras q estam antre Chiapa & Catumalam, onde Pero Daluarado era chegado, Diogo de Godoi aa villa do Spiritu sancto, & ajuntouse com o capitam delia, & entraram ate Chamolla que he cidade & cabeça daquella prouincia, & tomada pacificouse toda a terra & ficou bem descuberta & sabida. Neste mesmo anno de .524. & mes de Feuereiro, mandou o Cortez a Diogo rangei cõ cento & cincoêta Hespanhoes & muitos Trascaloes (4) & Mexicanos, aos Zapotecas, Nistecas, & a outras prouincias q nã eram bê sabidas & descubertas, tiueram la guerras, mas por fim de tudo desbarataram, & castigaram nos de ma- neira, que nunca mais ajuntaram nê boliram consigo. (1) Santiago de los Caballeros de Guatemala, fundada em Julho de 1524. (*) Foi nomeado adelanlado e capitão general de Guatemala, em Dezembro de 1527, (s) Samala (?) (*) Tlaxcaltecas. 14
210 ANTÔNIO GALVAO Neste mesmo anno de .524. (J) foy Rodrigo de bastidas descobrir, gouernar, e pouoar sancta Marta ('), a que lhe custou a vida por nam deixar aos soldados saquear a terra & destroir a gente delia, se ajuntaram com Pero de villa forte, em q elle confiaua & fazia muyta conta, & ajudou a matalo aas punhaladas jazendo na cama, & depois forã por gouernadores dõ Pedro de lugo (8) & seu filho dõ Luis de lugo, q se ouueram como tiranos cobiçosos, de que socederão muitos males em aquellas partes. E no mesmo anno de .524. (4) despois do lecenceado Lucas de Seilam (5) ter do Emperador a gouernança de Chicora, armou pera ella certos nauios da cidade de sam Domingos, q foy descobrir a terra, & pouoala, ou pagar as injustiças & injurias q em aquellas partes tinham feitas, com o corpo, vida, & fazenda, porque la se perdeo cõ toda armada (6), sem la fazer cousa (1) Galvão adianta esta exploração que só teve lugar no ano seguinte de 1525. (8) A cidade de Santa Marta foi então fundada por Rodrigo de Bástidas. (5) A notícia de Galvão é inexacta, pois que a Rodrigo de Bástidas sucederam no govórno da colónia Rodrigo Palomino, Pedro Vadillo e Garcia de Lerma. D. Pedro de Lugo, ou antes Pedro Fer- nández de Lugo, só em 1536 foi provido do govêrno de Santa Marta. (*) Partiu em Julho de 1623 de Puerto Plata, na costa norte da Espanhola. (6) Lucas Vásquez de Aillon. (6) É inexacto o informe de Galvão, pois que a armada não se perdeu, tendo nela regressado às Antilhas muitos dos companhei- ros de Aillon, após a morte dêste, sob a chefia do seu sucessor Glnés Doncel.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 211 dina de memoria í1), somête verse nela a justiça diuina: & em outras muitas se viram em aquellas partes das Antilhas, índias Portuguesas, pelos roubos, tiranias, & males que se faziam nellas, por onde parece que nunca faltaram Nabuquodonosores (*) que castiguem nossos males, quem sam tantos como vemos, que foram de tantos Castelhanos, Portugueses, como tem hido as Antilhas & índias, ouro, prata, especearias, drogas, aljofre, pedraria, & mercadarias que de la trouxeram, tudo he gastado, consomido sem nenhQ fruito, & algum que quis ter alma, ficou sem vida, & ainda me pareçe que quem se quiser ocupar nesta matéria, não na acabaria na de Matusa- lem dobrado. Neste mesmo anno de quinhêtos & vinte & quatro, mandou Fernão cortez Christouam de Olim (s) cõ húa armada (4) á ilha da Cuba (5) tomar mãtimentos, moni- ções, que Contreiras (8) tinha feitas, & descobrir & pouoar as funduras, & aquellas terras que nam eram (1) Acentuam-se as inexactidões de Galvão, pois que à expe- dição de Aillon cabe o mérito de reconhecer o rio Jordan e a Baía de Santa-Helena, a fundação de San-Miguel, na margem do Gal- dape e visinhança do Cabo Fear, e a exploração da costa das Carolinas. (a) Nabucodonosor, rei de Babilónia, que conquistou Jerusalém e levou os israelitas para o cativeiro. (3) Olid. (4) De seis velas e quatrocentos homens. (3) A expedição dirigia-se ao Gõlfo de Honduras, com escala por Cuba, para meter mantimentos e cavalos. (3) Alonso de Contreras.
212 ANTÔNIO GALVAO ainda bê sabidas, q mâdasse Diogo furtado de Men- doça por mar â costa a buscar o estreito q deziam passar da outra banda, como o Emperador mandaua, & assi enuiou dous nauios de Panuco ate Florida ao mesmo cabo de Catumalam (!) a Penamoa ('), por nam ficar cousa q nam fosse sabida, Christouam de olid chegado à ilha da Cuba, assentou liga com Diogo velhasquez cõtra Cortez, dada á vella, foy desembar- car jflto do porto de caualos (8) em dez grãos da parte do norte, & fez a villa do Triunfo da Cruz, prêdeo Gil gonçaluez, Auila, matoulhe hum sobrinho com os espanhoes q o seguiram ficou soo no ninho, e decra- rou se por imigo de Cortez, que gastou nesta armada trinta mil Castelhanos (4) por lhe fazer boa obra. Sabêdo Fernam cortez isto, na mesma era de vinte & quatro no mes de Abril (5), partio da cidade de México em busca de Christouam de olid, (1) Guatemala. (8) Panamá. É óbvio que se trata de duas expedições diferen- tes, que a redacção confusa de Galvão parece apresentar como uma. (3) Pôrtode-Cavalos ou Pôrto-Cortês, em Honduras. (4) Galvão alude a uma moeda que denomina castelhanos, provàvelmente, a «reales Castellanos». (5) Partiu de Tenochtitlán para o Sul em Outubro de 1524, Galvão confunde a expedição chefiada por Cortês com a antece- dente, enviada por aquêle, sob o comando de Francisco de Las Casas, com o mesmo objectivo de castigar Cristóvão de Olid. O naufrágio desta nas costas de Honduras e o subseqtlente triunfo de Olid sõbre Las Casas, tornaram necessária a presença de Cortês, que ao sair de México ignorava o ulterior sucesso de Las Casas e a morte de Olid.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 213 pera tomar delle vingança, & descobrir a terra & prouincias, que ainda por Espanhoes nam eram vis- tas, leuando trezêtos delles de pè & caualo, & èl rey Catinococim (*) & príncipes de México (s) pera mais pacifico, chegado a villa do Spiritu sancto fez a saber aos senhores de Tauasco & Picalam (s) sua deter- minaçam, & pedir que lhe mandassem guias, elles o fizeram logo & em hCL debuxo deram híl pano dalgodã tecido em q estaua toda a terra q a de xicalã (4) Anico (6), & Neco ('), & Nicaragas (7) com mõtanhas, serras, cam- pinas valias, & ribeiras, cidades, & villas, & mandou a Medelim aparelhar tres nauios cõ mantimêtos, moni- ções & que fossem ao longo da costa. No anno de 524. (8) chegaram á cidade de Zaca* (1) Guatimozin ou Guauhtemoc ou, ainda, Cuahtemoc, filho de Ahuitzotl e lucessor de Montezuma. Foi mais tarde morto pelos espanhóis, sendo a sua memória venerada no México como de herói nacional. Veja-se a nota seguinte. (6) Além dos espanhóis, que eram em número reduzido, com- punham o exército de Cortês, cérca de trinta mil astecas, tlaxcalte- cas e totonecas. Receando-se Cortês, sem fundamento, da fidelidade de tantos indigenas, atribuíu-lhes o propósito de traí-lo para restau- rar Guatimozin no trono dos seus antepassados, e recorreu à cruel- dade escusada de mandar enforcar o inditoso príncipe, o que teve lugar em Inzacanac, em Fevereiro de 1625. (1) Xicalanco. (4) Xicalanco. (5) A Nico. (9) Nacaome, nas Honduras (?) (7) Nicarágua. (9) Em Janeiro de 1525.
214 ANTÓNIO GALVAO naca (*) onde souberam como el Rey Catimococim & Mexicanos se conjurauam contra Cortez & Caste- lhanos, polo q el Rey & algus foram enforcados, donde partiram & chegarão á cidade de Matalam: & des- pois Atiaca (*) cabeça da prouincia, está no meyo de hCLa alagoa: & ja por aqui achauam rastro dos Espa- nhões q buscauam, & forã a Toscolã & Sucelim (s) & outros lugares de Nico (4), & por ser bom porto fez aly húa villa, a que pos nome Ascençam de nossa senhora. Daqui foy Cortez á villa de Truzilho (6), q esta em o porto de Funduras (8), & bê recebido poios Espa- nhoes que ahi estauam, no qual tempo chegou hum nauio que deu noua dos males de México, pelo qual mandou logo Cortez, Gonçalo de sondoual com gête de pee & caualo descobrir terra contra o mar do sul a Cotumalam (7), por ser mais breue caminho, & deixou em Trugilho (8) por capitã à Fernã sayauedra seu primo, elle foise por mar & costa de Siucâtam (9) a Mede- lim & dai a México, onde foy bê recebido auêdo mais de anno & meo que daly era partido, repousou (1) Inzacanac. (2) Que não logramos identificar. (s) Cuja identificação não conseguimos estabelecer. (') Nacaome, nas Honduras (?) (6) Trujillo, cidade que Francisco de Las Casas havia pouco fundara em Honduras. (6) Perto do Cabo Honduras. (7) Guatemala. (8) Vide nota 5. (9) Iucatâo.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 215 dos muitos trabalhos & perigos que auia passado de quinhentas legoas por terras mui fragosas, & delias despouadas, andaram em montanhas muy asperas, ác grandes ribeyras comendo eruas de que muitos fale- çeram. No anno de .1525. (J) partio Francisco piçarro & Diogo dalm8gro de penama ao descobrimento daquel- las terras & prouincias, a que chamam Peru, que estam áquem & alem da linha da parte do sul, a que poseram nome a noua Castela, o gouernador Pedrai- res (s) nam se quis meter na armada, polia roim noua que lhe trouxera seu capitam Franscisco bezerra (8), que nam chegou mais q ao porto de Pinas, que está da parte do Norte. Francisco Piçarro diz que foy diante em htl nauio com cento & quorenta soldados, Almagro tras elle em outro com setenta, deu no Rio de sam Ioam (4), que está em três grãos daqlla banda, onde tomou vinte mil pesos douro. E como nam achassem Francisco piçarro, tornaram em sua busca, que estaua arrepen- (1) Em 1526. (8) Pedrarias. Para que êle nio dificultasse o empreendimento em que estavam empenhados, ofereceram-lhe Pizarro e Almagro um têrço dos proventos, compromisso que repudiaram antes do inicio da viagem, atribuindo a comparticipação de Pedrarias a Hernando de Luque, para recompensa dos vinte mil pesos com que êle finan- ciou a expedição. (8) Supomos que Galvão alude a Juan de Basurto, a quem Pedrarias teria inicialmente confiado a conquista do Peru, mas que morreu no decurso dos preparativos. (8) Na Colômbia.
216 ANTÔNIO GALVAO dido por hum desastre que lhe acontecera: mas com esforço do ouro Dalmagro: foy á ylha de Gorgora (*), & do Galo O, & ao rio do Peru, que está em dous grãos donde tantas & tam grandes prouincias toma- ram apelido. Dahi foram ao Rio de sam Francisco, & ao cabo de Passao (8), onde passaram a linha. Che- gado ao porto que está hum grao da parte do Sul, dõde foram pellos Rios de Chinapãpa (4), Pacta (5), Trubez (6), q esta em quatro ou cinco grãos, donde sou- beram que auia aly muita riqueza delrey Atabaliba O Sc boa terra, q moueo Frãcisco piçarro tornar a Cas- tella a pedir ao Emperador aquella gouernança: & andou mais de tres annos nesta demanda. No mesmo anno de 525. (8) foy enuiado de castella hfla armada de sete vellas, Capitam delias frey Garcia de Loaes (9): pera ás ilhas de Maluco, partiram da cidade de Crunha, atrauessando das ylhas Canareas ao Brasil, dous grãos alem da linha, acharam húa ylha que poseram nome sam Matheus (10), parecia ser (l) Na ilha de Gorgona, na costa da Colômbia, onde Pizarro e seus companheiros permaneceram sete meses. (?) Ilhéu do rio de Esmeraldas. (3) O Cabo Pasado, um pouco ao sul da linha, hoje denomi- nado Cabo de la Vuelta. (?) O rio Bamba. (5) O rio Payta. (6) O rio Tumbez ou Tumbes. (I) Atahuapa, último rei dos incas. (8) Partiu de La Coruila no dia 24 de Julho de 1525. (») Loaysa. (10) Identificável com a ilha de Fernão-de-Noronha»
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 217 ja pouoada por ter larangeyras, & outras aruores de fruyto, acharam rastro de porcos: & galinhas no mato, & nos troncos de todas aruores letras Portu- guesas: que denunciauam auer oytenta & sete annos que aly estiueram (*): alem do estreyto do Magalhães se apartou delles hum nauio de remo que leuauam que chamauam Patax (2), em que hia dom Ioam da recaga ("), foy ter aa costa do Peru, & aa noua Espanha correndo a toda: deu conta a Fernam Cortez do que vira, & como frey Garcia de Loaes era passado aas ylhas do Crauo. Mas de toda esta frota nam chegou a ellas, se nam a nao Capitaina, hindo por Capitam della^ Martim Minguez de carquicena (4), por Loaes, & outros Capitães que lhe soccederam, todos falece- ram. Mas esta soo abastou pera meter toda ha terra em grande reuolta: tam affeyçoados sam os Mouros de Maluco a Castelhanos. No mesmo anno da era de mil & quinhentos & vinte & cinco, partio ho piloto Esteuam Gomez do porto (6) contra a parte do Norte, descobrindo ho estreito de Maluco (8), com quanto por fogir ao Maga- (1) O acatamento desta notícia fantasista de Galvão implicaria o pré-descobrimento de terras americanas pelas frotas henriquinas. (3) O patacho Santiago, (3) O clérigo Juan de Areizaga. (<) Martin Ifiiguez de Carquizano. (3; Entenda-se: — natural do POrto. (6) A capitulação firmada em Março de 1525 com Estêvão Gomes impunha-lhe a obrigação de procurar uma ligação marítima do Atlântico ao Pacífico entre o Norte da Florida e a Terra dos Bacalhaus.
218 ANTÓNIO GALVAO lhães f1) do caminho nam lhe quiseram dar nesta armada de Lois (*) nenhum carrego, mas com tudo nam lhe faltou ho Conde dom Fernando Dandrade, & ho doctor Beltrão (3), & ho mercador Christouam de Sarro (4), que lhe armarão hum galeam pera este descobrimento tam desejado. Partio de Galiza (6), foy tomar ha ylha da Cuba, & a ponta da Florida, naue- gando de dia por nam saber a terra, & ver em toda Baya angra, rio, enseada se passaua a outra banda, diz que chegaram ao cabo raso (6), que estaa da parte do Norte, em quorenta & quatro grãos daltura, donde tornaram á cidade de Crunha carregar descrauos, os que isto ouuiram, cuydando que deziam crauos, man- daram polia posta aa Corte de Castella, pedir aluiçara, que pos grande aluoroço & contentamento principal- mente aos que armaram, chegado o Coxo com a noua carta, foy tal a zombaria q andauam corridos: disso porque gastaram muyto sem nenhum proueito: & Esteuão gomez poz dez meses no caminho. (1) Estêvão Gomes comparticipou na expedição de Fernão de Magalhães, capitaneando a nau Santo António, com a qual desertou a caminho de Espanha quando a frota se encontrava no Estreito e o objectivo do glorioso empreendimento cessara de ser problemático. (8j Frei Garcia de Loaysa. (3) Que não logramos identificar. (3) Cristóvão de Haro. (5) Do pôrto de La Çorufia. (3) O Cabo Raso fica na Argentina. Supomos que Galvão alude ao Cabo Sable, pois sabemos que Estêvão Gomes reconheceu o litoral norte-americano até Conecticut, Nova Iorque e Delaware e que alcançou a Nova-Escócia.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 219 Neste anno de 525. estando dom Iorge de Mene- ses (x) capitam de Maluco, elle dom Garcia anrriquez mandara hQa fusta descobrir contra ho norte, hya por capitã delia Diogo da rocha, & piloto Gomez de sequeira, que depois andou por piloto na carreira da índia, em noue ou dez grãos daltura, acharam htlas ilhas juntas, andaram por antrellas: poseram lhe nome as Ylhas de Gomez de sequeira (*) por ser o primeiro piloto que as descobrio, donde se tornaram aa fortaleza, por derredor da ilha da Batachina (s) do moro. No anno de 526. (4) partio de Seuilha Sebastiã gaboto Venezeano (6), & piloto mòr do Emperador, leuaua quatro vellas pa ás ilhas de Maluco, foram ter a Fernambuco (8), onde esteueram tres meses aguardando por tempo: pera dobrar do cabo de são Agostinho, na baya dos patos: que estaa em á parte do Sul, perderam a (1) Há ôrro evidente de António Galvão, porquanto a viagem de Gomes de Sequeira teve, de facto, lugar em 1526 e D. Jorge de Meneses só chegou a Maluco em meados de 1527. (2) Está por fazer a identificação definitiva da ilha de Gomes de Sequeira, que o almirante Gago Coutinho e o investigador Col- lingridge supõem ser a Austrália e o ilustre cartólogo Dr. Armando Cortesão a ilha de Palau. A quem pretenda aprofundar o assunto, recomendamos a leitura dos trabalhos eruditos que lhe dedicaram Gago Coutinho e Armando Cortesão, publicados respectivamente no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa e na História da Expansão Portuguesa no Mundo. (S) Gilolo. (*) Em Agôsto de 1526. (5) Filho do atrás citado João Caboto. (8) Pernambuco.
220 ANTÓNIO GALVAO nao capitaina. Desesperados de hiiê aas ilhas do Crauo, fizerã híla galeota aly pera entrarê o rio da prata, & sa- ber o que dentro auia, chegado ao rio que se mete nelle sessenta legoas da Barra, deyxaram os nauios da car- rega, & com os menores sobiram pella principal ribeira que os da terra chamam Parama ('), por ser grande agoa. Tendo andado por este rio acima, cêto & vinte legoas í2), fizeram híla fortaleza em que gastará mais de hum anno: despois foram pella mesma ribeira ate a boca doutra, que se diz Paragay (8), & por verem sinais douro & prata, foram tras sua cobiça, & man- dando hum bargantim diante, os da terra lho tomaram, o que sabendo Gaboto se tornou aa fortaleza, reco- lhida a gête q nella deixara, se tornou pello rio abaixo onde as naos ficaram. E dahi a Seuilha no anno de 530. deixando descuberto mais de dozentas legoas por este rio, que dizem ser nauegauel, & nacer de hum lago que se chama Bombo (4), estaa no reyno de Peru em terra fria, & diz que passa poios vales de Xauxa (5). E adiãte se ajuntam a elle os rios de (1) Na língua guarani. (*) Aliás trezentos e cinqUenta. (S) Paraguai. (t) O rio Paraná nasce na confluência do Paranalba com o Grande e recebe os rios Paraguai e Uruguai antes de desaguar no Rio da Prata. (5) Se Xauxa é identificável com Jaúja dos mapas modernos fica muito distante do Rio Paraná e seus afluentes, i O lago que GalvSo denomina Bombo seria o Titlcaca, entre a Bolívia e o Peru, nas ser- ras onde nascem alguns dos rios cuja confluência forma o Amazonas? O rio de S3o Francisco, no entanto, não sai de lago nenhum.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 221 Parço (*), Bulcasbã (*), Cay (s), Poryma (4), Hiucax (5), & outros que a fazem muy grande, & também dizem que deste lago sae ho rio de sam Frascisco. E por isso estes rios sam tamanhos, q as mais das ribeiras q saem de lagos sam mayores que as que nacem de fontes. No anno de 527. partio Pamphilo de Narbaes de sam Lucas de Baramedo, por adiantado da costa, da terra da florida, ate o rio das palmas (8), leuaua cinco nauios,'seis centos soldados, cem caualos, grande soma de bastimentos, armas vestidos, nam pode tomar porto onde desejaua, sahio em terra acerca da Flo- rida (7), com trezentos companheyros, cauallos poucos, mantimentos, mandou nauios aos rios das palmas (8): em cuja demanda se perderam quasy todos, os que escaparam passaram tam grande trabalho: fome, sede, que em híla ylha que se chama Machado Seco (®), onde os Espanhoes se mataram hús aos outros, & (1) Rio fantasista que não logramos identificar. (3) Rio fantasista que não logramos identificar. (S) O Acarahy (?) (*) O Parima (5) Está ainda hoje tão mal conhecido o interior sul-americano, que não admira encontrarmos em Galvão muitos nomes estropiados e inldentificáveis. (6) Narvaéz capitulara com o imperador, no ano anterior à sua viagem, a conquista e govêrno dos territórios compreendidos entre Tampico e o extremo da Florida. (') Na baía de Tampa, que alcançou em Abril de 1528. (8; Mandou-os aguardar em Tampico, ou em lugar azado do rio Panuco, a sua chegada ali por via terrestre. (9) Que não logramos identificar.
222 ANTÔNIO GALVAO dizem que aos da terra asi fizeram. Narbais & os que com elle hiam viram hfis índios com ouro, pregunta- ram lhe donde o tirauam, disseram que em Pala- cham (*), foram em sua busca acharam hum lugar pequeno & terra pobre sem ouro nê prata, auia nella loureiros, & quasi todas aruores, alimarias aues de Espanha, os homês & molheres, altos, forçosos, muy ligeiros, tam grandes corredores que tomauam os vea- dos & corços, & nam cansauam de correr hum dia todo. De Palacham foram á villa de Haute (8), & dahi a (1) Na região da Bala de Apalachee. (2j Seria inútil tentar a identificação dos locais a que seguida- mente alude a fantasia de Galvão ou de quem o informou. Optamos assim pela reprodução sintética dos sucessos capitais desta viagem, que foram os seguintes: Alcançada a Baía de Tampa e determinado Narváez a proceder à exploração terrestre de tôda a região costeira que se estende para Ocidente até ao México, ordenou que cs navios rumassem a Tampico e aguardassem ali, ou em ancoradoiro apro- priado do rio Panuco, a sua chegada. A oposição tenaz que encontrou nos íncolas das cercanias de Apalachee, que não logrou submeter, compeliu o a mudar de intento e a recorrer à via marítima para alcançar Tampico ou correr o trôço de costa que habitavam e defendiam os esforçados Apalachees. A ausência das naus que imprudentemente afastara, na ânsia quiçá de emular Cortês, e a impossibilidade de comunicar com elas, obrigaram os homens de Narváez a improvisar cinco frágeis barca- ças, a que serviram de velame as próprias vestes e de aparelho as crinas torcidas dos cavalos. Carregadas com duzentos sobreviventes, batidas por fortes temporais e pilotadas por leigos, foram as cinco barcaças objecto de sucessivos naufrágios nas costas do Texas, com morte de Narváez e muitos espanhóis, dos quais só oitenta lograram salvar-se na ilha de Matagorda, à entrada da Baia do mesmo nome.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 223 Xama, terra pobre de pouco mantimêto, criam os filhos com regalo, quando morrem fazem por elles gram pranto, pellos velhos nam choram, nam mataram os Castelhanos, nem os comeram por estarem magros, fracos do trabalho: & ma vida que passaram. Man- dauam lhes que curassem os enfermos: que auia aly muytos, & como se vissem na ora da morte pediram a Deos & a sua mãy socorro, foram ouuidos de ma- neira que quantos aas suas mãos vinham todos sarauam, assi aleyjados, como hos de doenças muy incurauees, atee resuscitarem hum morto: & nam era muito se tinham a fee tam ynteyra como ho tempo queria. Dizem que passaram por muitas terras de gente diferêtes em lingoagês, trajos, costumes: mas por hos físicos serem la muyto estimados, & mais estes que auiam por deoses nam lhe faziam nenhum dano: antes lhe dauam dessa pobreza que tinham, foram ter aos lagazes que andam em cabildos com seus gados: como Alarues, & sam tam pobres que comem cobras, lagartos, aranhas, formigas, & todos os bichos, com isto viuem tam contentes que sempre cantam, bailam, & se desenfadam: compram as molheres aos imigos, matam as filhas, pellas nam casarem com elles, passauam por terras que os filhos mamauam dez, doze annos: em outras que casam os homês hfis com outros, & ahi tays pouos que nam choram nem rim: & diz que se o fazem, morrem por isso, andâram os Castelhanos nestes trabalhos: mais de oyto centas legoas: & nam ficaram mais de sete, ou oyto que escaparam, foram ter ao mar do
224 ANTÓNIO GALVAO sul ('), a Sam Miguel de Culuacam, que dizem estar de trinta grãos pera cima. Neste anno de 27. sabêdo Fernam cortez polo petaxo (8), como frei Garcia de loais (s) era passado ás ilhas do crauo, mandou fazer tres nauios (4) prestes para jrem em sua busca: & descobrir aquele caminho da noua Espanha ate Maluco (8), & hia por capitã mor delles Aluaro saauedra, Cerom seu primo pessoa muyto pera isso, partio dia de todos os sanctos (®) de de Siuantaneio C) q se agora chama sam Christouam, (1) Se bem que e6teja por averiguar o destino de alguns dos náufragos que se aventuraram a correr a terra em demanda de gente amiga, repugna-nos admitir a travessia do México, na sua lar- gura máxima, pelos oito a que Galvão alude. £ de supor que houve interpretação deficiente do texto de Galvão e que, confundindo um a com um d, se leu por «mar ao Sul». PressupSe esta hipótese que os companheiros de Narváez foram ter a S. Miguel, junto ao rio Grande, em 26° de latitude. (8) O patacho Santiago, citado na viagem de Frei Garcia de Loaysa. (3) Frei Garcia de Loaysa. (4) As náus Florida, capitânia, Santiago e Sancli Spiritu, dos comandos respectivos de Álvaro de Saavedra Ceron, Luís de Car- denas e Pedro de Fuentes. (5) O regimento determinava que a frota descubrisse o cami- nho marítimo de Nova Espanha às ilhas das Especiarias, procurasse a nau Trinidad, da armada de Fernão de Magalhães, averiguasse dos sucessos da expedição de Frei Garcia de Loaysa, à qual deveria juntar-se, e também dos de Sebastião Caboto, que largara de Sevi- lha no ano anterior. (8) Aliás em 31 de Outubro de 1627. (') Do pôrto de Siguatanejo, na província de Zacátula.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 225 que está em vinte grãos da parte do norte: chegaram às ilhas q o Magalhães pos nome dos prazeres (*): & dahi foram às que Gomez de sequeira descobrira (*), por nam saberem isto lhe poseram nome dos Reys pellas verem aquelle dia, aqui ficaram a Sayauedra dous nauios (3), de que nunca mais ouue noua nem recado, & de ilha em ilha foram ter a de Sarangam (*), onde resgataram dous ou tres Castelhanos (5) por setenta cruzados, da companhia de Loais que se por aly perderam. No anno de 528 & mes de Março chegou Sayaue- dra as ylhas de Maluco, & surgio na cidade (sic) de Gri- lolo (8), contaua como achara o mar limpo & vento a popa & sem tormenta, & que lhe parecia auer dali a noua Espanha mil & quinhentas legoas, & neste tempo era ja falecido o capitã Martim minguez de Carqui- çano 0, & aleuantado por capitam Fernãdo dela torre, que estaua na cidade de Tidore com húa forca feyta, & de crua guerra com dom Iorge de meneses cipitam (1) Vide nota 5, a pág. 194. Avistou estas ilhas no dia 29 de Dezembro de 1527. (2) Vide nota 2, a pág 219. Galvão alude, porém, k Nova-Guiné, (S) É inexacta, em parte, a notícia de Galvão, pois que os res- tantes dois navios da frota se adiantaram na noite de 15 de Dezem- bro, antes de alcançadas as Marianas, não tornando a ser vistos. (4) A ilha de Sarangane, ao sul das Filipinas. (5) Eram dois tripulantes da caravela Santa Ataria dei Parral, da frota de Frei Garcia de Loaysa; foram resgatados por oitenta ducados e uma barra de ferro. (0) Na ilha de Gilolo. (!) Martin Iíliguez de Carquizano. 15
226 ANTÔNIO GALVAO dos Portugueses: & na peleja que teueram a quatro de Mayo, lhe tomou Sayauedra hfla galeota, & matou o capitam delia Fernam baldaya. E no mes de Iulho (!) tornou no seu nauio pera a noua Espanha, & com elle Simão de Brito Patalim, & outros Portugueses (*), & depois de espancarem o mar algfls meses se torna- ram a Tidorè, onde o Patalim foy degolado, & esquar- tejados, & enforcados os que com elle hiam (8). Nesta era de 528. mandou Fernam Cortez dozen- tos soldados, sesenta caualos, & muitos Mexicanos, a descobrir, & pouoar as terras dos Chichimecas, por di- zerem que eram ricas & boas: & partiose pera Castella com grande fausto & dozentos cincoenta marcos douro (1) Em Junho de 1528, com um carregamento de setenta quin- tais de cravo. (*) Entre Cies Bernardim Cordeiro e Fernão Romero, o pri- meiro dos quais ia, como Simão de Brito Patalim, com tredos pro- pósitos; o segundo fóra aprisionado na galeota de Fernando de Baldaia e seguia cativo. (3) Há inexactidão no relato de Galvão, pois que Simão de Brito Patalim, Fernão Romero e outros portugueses, arrependidos do infame propósito, fugiram nas Papuas, no batel do navio de Álvaro Saavedra. Tomaram a volta de Maluco mas foram arrastados por grandes correntes para uns ilhéus, onde a maioria ficou. Simão de Brito Patalim, Fernão Romero e um escravo aventuraram-se seguidamente numa canoa indfgena e alcançaram a costa oriental de Gilolo. Ali foi por éles André de Urdaneta com dez paraua. Conduzidos a Tidore, onde Saavedra arribara, obrigado dos ventos contrários, sentenciou Hernando de la Torre que Simão de Brito fôsse arrastado pela cidade, decapitado e esquartejado, e que Fer- não Romero tivesse morte por enforcamento.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 227 & prata. Chegado a Toledo (*) õde o Emperador estaua, como pessoa grata fez lhe bõ gasalhado & o Marques dei Valle (8) o casou cõ dona Ioana Destuniga (8) filha do cõde de Aguilar: & tornou ho mandar por capitam a noua Espanha. No ànno de .529. & mes de Mayo tornou Sayauedra outravez pera a noua Espanha, & ouue vista de híía costa da parte do Sul (*) em dous grãos daltura, foy em leste ao longo delia mais de quinhêtas legoas, te o fim Dagosto: & segundo o q delia contauam era limpa & de bõs Surgidouros, & a gête da terra preta, & cabelo reuolto: traziã da cinta pera baixo, húas faldas de penas, bem feytas, muyto coradas, com que cobriam suas vergonhas, & os Maluqueses chamã a estes homês os Papuas por serem pretos de cabello frizado, & assi lhe chamam ho Portugueses, pello tomarem delles. Alvaro Sayauedra, como hia ao Sul quatro ou cinco grãos affastado da linha, tornou a buscala, & passado aa outra banda do norte, descobrio híía ylha, a <5 pos nome das Pintadas, per serem homês brancos, (1) Cortês desembarcou em Paios em Maio de 1528, depois de quarenta e um dias de navegação propicia. Dirigiu-se seguidamente a Toledo. (l) Por real cédula de 6 de Julho. Na mesma data foi nomeado capitão general da Nova Espanha e da costa do mar do Sul, com mercê de vinte e três mil vassalos, apanágio de vários palácios e terras, etc. Foi-lhe porém insistentemente negado o vice reinado e govêrno da Nova-Espanha. (3) D. Juana de Zúfilga. (4) Certamente a Nova Guiné.
228 ANTÔNIO GALVAO todos ferrados, & segundo o q parecia, & sinais que dauam, deuiam alli de vir da China, donde sahio hum Parao a elles com grande oufania, acenando que amainassem. Vendo que nam obedecia, tiroulhes com hQa funda, & logo sahio hum golpe de Paraos da ylha a elles, todos fundeyros: & começaram hfla peleja com ho nauio, mais soberba & menos perigosa, que a de Reuena í1): pello que Sayauedra mandou mesurar a vella, & foy esperando sem lhe tirar nem fazer dano, ate que gastaram toda a moniçam que traziam. Ácima desta ylha em dez ou doze grãos daltura, acharam muytas juntas, pequenas & rasas, cheas de palmeiras & verduras: pello (J lhe poseram nome bom Iardim (8), surgiram no meo delias, onde estiueram algQs dias, os habitadores pareciam na feiçam & aluura descenderá da China, & pellos largos tempos que aueria que aly estauam, eram tam Barbaros que nam tinham ley, nem ceyta, nem criauam cousa viua. Vestiam panos brancos que fazia deruas, espantaram se do fogo, porque nunca o viram: comiã por pão cocos, que antes que fossem maduros os cascauã, me- tia nos debaixo darea, & em certos dias os descobriam: & tanto q lhe o sol daua se abriam. Tambê se manti- nha em peyxe cru, q pescauã em Paraos, q faziam de madeira de pinho, q ali vinha ter em certo tempo, (1) Célebre e renhida batalha ferida em 1512 entre espanhóis e italianos e os francêses de Gaston de Foix, que assediavam Ravena. (3) Estas ilhas foram objecto de identificação com as de Hawai. Existe, no entanto, um grupo denominado Lo» Jardine», no mesmo paralelo e muito mais perto das Filipinas.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 229 sem saber donde, & pera fazer a tal obra, era a ferra- menta de cascas damegias (*), briguigões ('), ou hostras. Vendo Sayauedra q ho tempo era mais a seu pro- pósito, se fez á vela na volta da terra & jsmo da cidade de Penama, por nã ser mais q dezasete dez oyto legoas em largo, õde podiâ descarregar o crauo & mercadoria q leuaua, & em carretas hiria per cãpinas .iiij. legoas, ate o rio Lagre (s), que dizê ser nauegauel & desemboca no mar do Norte, jCLto de nõbre de Dios, onde estã naos de Castella, q as podiã leuar a elle em mais breue têpo, & caminho menos perigoso que do cabo de boa esperança: porque de Maluco a Penama sempre vam per antre o Tropico em a linha, mas nunca poderam achar vento nem tempo pera comprir este desejo: pello que se tornarão a Maluco assaz tristes, por Sayauedra ser falecido, do qual diziam que leuaua em proposito de fazer com o Emperador, que mandasse abrir esta terra de Castella do ouro & noua Espanha de mar, a mar, porque se podia fazer por qua- tro lugares, que he do Golfam de sam Miguel a Vraba, em que ha vinte & cinco legoas de trauesa, ou de Penama ao nombre de Dios, que ha dezasete, ou pello Sangra douro de Nicaraga, que começa em hfla ala- goa tres ou quatro legoas da parte do sul, & vay sair a agoa delia ao norte (4), por onde nauegam barcas. (l) Amêijoas. (*) Berbigões. (8) O rio Chagre. (*) O grande lago de Nicarágua comunica com o oceano Atlântico pelo rio navegável de San Juan.
230 ANTÓNIO GALVAO & nauios pequenos. Há outro passo de Tagante pera o rio da Vera Cruz (x): que também se podia abrir estreito, & se se fizesse, nauegar se hia das Canarias a Maluco por baixo do zodiaco clima temperada, & em menos tempo & com menos perigo, que pello cabo de Boa esperança nem estreito do Magalhães nem terra dos corte Reays, ainda que se nella achara estreito ao mar da China, como se ja buscara. Neste anno de .529. achando se Damiam de goes, Português em Frandes ('), depois de correr toda Espanha, desejoso ver mais terra, costumes, trajos, diuersidades de gentes delia, passou a Inglaterra, Escorcia, & esteue nas cortes dos Reys principaes, & senhores daquellas partes: & bem vistas se tornou ao condado de Frãdes, & correo todo em ho ducado de Salandia (s), Olanda, Barbante (4), Geldija (5), Lusam- (x) Galvão alude a uma passagem do Gôlfo de Tehuantupec a Puerto Méjico. Os engenheiros americanos a quem foi confiado em 18Õ0 o projecto do canal, pronunciaram-se por Nicarágua, Panamá, GOlfo de Sio Brás, Baía Caledónia, Darien e Rio Atrato. Os dois primeiros tiveram preferência em 1900, optando-se finalmente por Panamá. É digna de nota a precisão com que o assunto foi apreciado há mais de quatro séculos por Álvaro de Saavedra Ceron e não por António Galvão, como há pouco se propalou em Portugal sem vis- lumbre de fundamento. (*) Flandres. (S) Zelândia. (') Brabante. (5) Gueldres.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 231 burg (*), Lotoringia (a), a Suycia (8), & ao longo do Rio âs cidades de Costancia, Basilea, Argentina (4), Espi- ram (5), Voimatia (6), Maguueya (7), Colonia, & outras de baixa alemanha: donde tornou outra vez a Fran- des, & entrou em França polia Picardia, Normandia, Gasconha, & foy ao ducado de Borbõ (8) Lingado (9), o Dalflnado, & ducado de Saboya, & de Borgonha, Campania. Correo toda a bella França, passou a Italia, esteue no ducado de Milam, Ferrara, & por toda a Lombardia, foy a Veneza, tornou a ribeira de Genoua, & ducado de Florença com toda Toscana, & a cidade de Roma, Romania, & o Reyno de Nápoles, dhíta parte & outra da Marinha. Da hi se passou Alemanha, esteue na cidade de Vima, & outras imperiaes, & no ducado de Sueuia, & de Bauaria, & Archeducado Daustria, Reyno de Boémia, ducado de Morauia, & no Reyno de Vngria: ate os Confinis da Grécia. Passou ao Reyno de Polonia, Sarmatia (10), Brusia (u), & ducado de Liuoni (14), chegou ao gram ducado de Moscouia, donde se tornou (1) Luxemburgo. (*) Lorena. (3) Suiça. (<) Estrasburgo. (&) Spira. (0) Dalmácia (?) (?) Mogúncia. (8) Bourbon Languedoc. (10) Região da Europa oriental. (") Prússia. (18) Livónia.
232 ANTÓNIO GALVAO pella alta Alemanha, & terras de Lantgraue (*), ducado de Xaxonia, & Reino de Dacia, ou Dinamarcha, donde passou Agotia (8), Noruega, andou a mòr parte delia, ate se poer em oytenta grãos daltura, da parte do norte, vio, falou, conuersou com todos os Reis prínci- pes, nobres, pouos de toda a Christandade, em vinte & dou annos q gastou nestes trabalhos, vio, & correo a môr parte de Europa, por sua liure vontade, cousa digna de louuor & memoria, pois deu luz a sua patria, de muitas cousas occultas a ella. No anno mesmo de vinte & noue ou trinta (8), partio Belchior de sousa Tauares da cidade Dormuz pera Baçora, & ylhas de Gizara (4), com certos nauios (5), em que ãdaua darmada, pello estreito da Pérsia, & Rio Tygre, & Eufrates acima, ate onde se ajuntam hum cõ ho outro: & ainda que outros Por- tugueses tiuessem descuberto & nauegado este estreito, nenhum (6) foy tanto pella agoa doce acima, ate aquelle tempo, descobrindo aquella ribeira dfla parte & outra, em q vio cousas que aos Espanhões não eram sabidas. Despois disto nam muyto tempo, veo ter a Ormuz (1) Landgrave. (<) Suécia. (») Em 1529. (*) A ilha de Jazirat, na foz do Eufrates. (5) Com quatro bergantins bem armados, segundo Gaspar Correia. (®) Galvão esquece que António Tenreiro foi, em 1628, de Ormuz a Portuga), por terra, subindo o Eufrates durante qua- renta dias.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 233 Fernam coutinho (*), desejoso de ver mundo, como ja auia tocado Africa, & a índia, determinou de hir a Portu- gal por terra, & ver a môr parte Dasia, Europa, & pera isso diz q foy Arabia Pérsia, & pollo rio Eufrates acima hum mes de caminho, & vio muitos reynos: & senhorios que em nossos tempos nam eram vistos, foi aa cidade de Lepe (J), atrauessou a prouincia da Suria (8): em Da- masco ho prenderam, & diz que esteue na casa Santa de Hierusalem, & na cidade do Cairo, na de Constantinopla, com ho grande Turco,
234 ANTÓNIO GALVAO tornou Francisco Piçarro que em Espanha andaua, sobre a gouernança de Peru, aa cidade de Perama, com ella como desejaua. Trazia consigo quatro irmãos bastardos, Fernando ('), Iohã, Gonçalo Piçarro (*), Francisco martíz dalcantara (8). Nam foram bem rece- bidos de Diogo dalmagro, & seus amigos, por nam fazer delles tanta mençam ao Emperador como deuera (*), nem ho meteo na gouernança & descobri- mento, em q Diogo dalmagro perdeo hum olho, & fez muyto gasto. Mas por fim de tudo se concertaram (8), & Diogo dalmagro lhe deu sete cêtos pesos douro, vitualhas, armas com que se apercebeo pera ho caminho. Partio logo (6) Frãcisco piçarro & seus hirmãos, em dous (7) nauios, cõ os mais soldados (8) & caua- los (9) que poderam, teue ventos contrairos pera chegar a Tumbes (10), como era seu proposito, desem- barcaram no Rio de Peru, foram ao longo da costa, com muyto trabalho, por ser baixa alagadiça de (1) Fernando era filho legitimo. (8) Filhos do mesmo pai e mãe diferente. (3) Filho da mesma mie e de pai diferente. {*) Almagro apenas obtivera da Côrte a fortaleza que se pro- jectava construir em Tumbes. (8) Concertaram-se em Panamá mediante a renúncia de Pi- zarro em benefício de Almagro do cargo de adelanlado; (8) Em Janeiro de 1631. (7) Aliás três. (8) Cento e oitenta e três homens de armas. (9) Vinte e sete cavalos. (K>) No GOlfo de Guaiaquil, na costa do Equador.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 235 muytas ribeiras, onde se algfls afogaram por serem crecidos, chegaram à villa de Cos (*), q he bem pro- uida, onde descansará, auia ahi muyto ouro, & esme- raldas: quebrará delias por ver se eram verdadeiras: daqui mandou Francisco piçarro a Diogo dalmagro mil pesos douro, pera que lhe mandasse gente, caua- los, armas, vitualhas, elle foy seu caminho ao porto velho (8), onde chegou Sebastiam de benalcacere (8) com tudo ho que pediam, que os alegrou muyto. No anno da era de quinhentos & cincoenta & tres (4), vendo Francisco piçarro tam bom socorro, passouse a hda ylharica, que se chama Puna (6), onde foy bê recebido do gouernador dela, mas por lhe fazer offensa, determinou matalo, com quantos leuaua, ouue Piçarro victoria (®), ainda que os índios com feros douro & prata (7). Os prinoipaes desta ylha, man- dauam cortar narizes, braços, membros aos que guar- dauam suas molheres, tam ciosos eram: achou aqui (l) A povoação de Coaque. Antes porém aportara a San Mateo, onde permaneceu algum tempo, aguardando reforços que Almagro ficara de enviar-lbe. (8) O actual Portoviejo, no Equador. (8) Sebastián de Belalcázar ou Benalcázar. (<) Aliás em 1531. (5) A ilha de Puná, onde se lhe juntaram os reforços trazidos por Hernando de Soto. (8) A luta surgiu entre os íncolas de Puná e os de Tumbes e estendeu-se aos espanhóis, em virtude de Pizarro ter patrocinado a causa dos últimos. (7) É evidente que esta frase está incompleta, por êrro tipo- gráfico ou por leitura deficiente do texto de Galvão.
236 ANTÓNIO GALVAO Piçarro mais de seis centos homês presos dei rey Ata- baliba (J), de q soube ter guerra com seu irmão Gas- car (a) mais velho, & nã lhe pesou nada, & por cobrar fama, mãdou os aa cidade de Tumbos (®): mas como se la viram, disseram quê os Barbudos erã & como tomauam tudo por força, mandou la Piçarro tres Caste- lhanos a pedir pazes, foram mortos, & sacrificados, & os sacerdotes que isto faziam diz que chorauam, nam tãto por piedade, como por ser assi costume. Sabendo Frãcisco piçarro isto, passouse á terra firme, pos se sobre a cidade por tomar vingãça da offensa que aos seus fora feyta, estando os immigos de noite descuydados, matou muitos, deram lhe pre- sentes douro, prata, & outras riquezas que auia na terra, ficaram amigos & em Tangara (*), Ribeira de Choya, edificaram híla cidade, a que poseram nome sam Miguel de Tangara (5), q foy a primeira pouoa- çam, de Christãos naquella terra (6) capitam & tenente delia Sebastiam de benalcacere, & mandaram os nauios ao porto de Paeta (7) por ser mais seguro. (1) Atabaliba, Atalmalpa ou Atahualpa e Huáscar eram filhos do rei inca Hayna Capac, que por êles repartiu o império, ao morrer. (*) Huáscar. (S) Tumbes. (á) Tangarará, na costa do Peru, um pouco ao Sul do Gôlfo de Guaiaquil. (5) A cerimónia da fundaçlo teve lugar em 29 de Setembro de 1531. (®) Foi a breve trecho objecto de duas trasladações e ficou definitivamente estabelecida na actual cidade de Piura. (7) Palta, ao Sul de Tangarará.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 237 Neste mesmo anno de 531. (*) foy por gouernador ao Rio Maranho Diogo de sordas (8): cõ tres naos & seis centos soldados, trinta
238 ANTÔNIO GALVAO terá em boca quinze legoas, & muitas ilhas pouoadas, encenso (J) mais crecido que o de Arabia, ouro, pedraria, & que se achara híla esmeralda como húa palma, & diziam os da terra que pella ribeira acima auia rocas, & que faziam aqui vinho de tamaras como marmelos. Nesta era de 531 (8) foy Nuno de Guzmão da cidade de México contra o Norte, descobrir & con- quistar Xalisco (8), Suntelipac (4), Chamelam (»), Ta- nola (e), Quisco ('), Chimola (8), Huluacam (9). E leuou para ysso dozentos & cinquêta caualos (i°) & quinhêtos soldados (") passou por Mexuacão ("), onde ouue muito ouro, dez mil marcos de prata, seys mil índios pera carrega. Descobrio & conquistou muita terra, por nome a de Xalisco noua Galiza, por ser regiam aspera, & de gente esforçada, pouoou Compustella (18), (l) Incenso. (•) Aliás em Dexembro de 1629. (8) A «ctual Jalisco e Sinaloa, (4) Jalisco. (6) Cuináo (?), onde Guzman chegou no dia 21 de Fevereiro de 1530. (6) Tonalá, que Guzman alcançou aos 25 de Março. (1) Cuitzeo (?). (8) Foram baldados os esforços que fizemos para identificá-la. (9) Omitlán (?) (10) Aliás cento e cinqflenta. O1) Aliás trezentos e cinqflenta, entre infantes e cavaleiros. ('8) Michoacan. (13) Santiago de Compostela, que Nuno de Guzman fundou em 1535, entre as províncias de Jalisco e Tepic.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 239 Guadalajara (') por ser natural delia, & has villas do Spirito sancto (*), Sam Miguel de Saluaçam ("), que dizem estar em trinta & quatro grãos daltura da mesma banda do Norte {*). No anno de 532 (5) mandou Fernã cortez Diogo furtado de mendoça a Capuleo (®) cento & vinte legoas de México, onde mãdaua fazer armadas pera descobrir a costa da banda do Sul, como cõ o Empe- rador tinha assentado, achou Diogo furtado dous nauios prestes ('), meteose neles. Foy ao ponente ao porto de Xalisco (8), onde quisera tomar agoa & lenha, Nuno de guzmão mandou defenderlha, passou diante, amotinouselhe algua gête, meteos ê hú dos nauios, êuiouos à noua Espanha, teuerã falta dagoa, sayrâ a tomala na baia das bãdeiras (9), os Iadios os mataram, (1) Inicialmente fundada por Juan de Ofiate, companheiro de Guzman, no dia 3 de Dezembro de 1630, e transferida pouco depois pelo próprio Nuno de Guzman para Tonalá. (?) Espirito Santo de Guadalajara. Foi também o nome dado a um rio das cercanias de Tepic. (3) Ou San Miguel Culiacán, na regiSo do mesmo nome. (4) A penetração de Nuno de Guzman está assinalada pelo lago do seu nome, ao Norte da província de Chihuahua, do México moderno, e pelo monte Gusman's Lookout, no Novo México. (3) Diego Hurtado de Mendoza zarpou de Acapulco no dia 30 de Junho de 1632. (3) Acapulco, na província de Guerrero. (?) O San Miguel e o San Marco», adquiridos por Cortês em Novembro de 1631 a Juan Rodriguez de Villafuerte, no pôrto de Acapulco. (8) Jallsco. t") Entre Jalisco e Terlc.
240 ANTONIO GALVÃO Diogo furtado andou bem dozentos (sic) legoas ao longo da costa, sem fazer cousa que de contar seja ('). No anno de 533. (*) partio Francisco piçarro da cidade de Tumbez pera Xamalca ('), onde prendeo el Rey Tabaliba (4), que prometeo por si muyto ouro, & prata, & pera isso foram a cidade de Cusco, que diz que estaa em dezasete grãos da parte do Sul, cabeça daquelle império, Pero daluarado, & Fernam do souto, descobriram aquella terra & caminho, em que auia dozentas legoas, todas calçadas de pedra, & pontes bem feytas delias, & de jornada em jornada, aposen- tos pera os Inguas (5), que assi chamão la ao Reys & seus exércitos, cousa monstruosa: porq leuariam mais de cem mil homês de guerra, & tudo se nestes paços aposentauam, & tinham mantimento & o neces- sário em abastança, ao costume da China, (como ja disse). Esta gente parece toda dQa costa. Piçarro cõ algús de caualo foy a Pachacoma (6), cem legoas de Caxamalca, descobrio aquella prouincia, & tornado soube como Guascar (7), hirmão de Tabaliba (8), era (1) Hurtado de Mendoza naufragou pouco depois de autorizar o regresso do outro navio e morreu afogado. (8) Aliás em 1531. (3) Cajamarca, na serra dos Andes. (<) Galvão alude ao rei Atahualpa. (3) Incas. (9) Pachacamac, onde Francisco Pizarro não foi então em pessoa mas enviou seu irmão Fernando. (?) Huáscar. (8) Vidé nota 4.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 241 por seu mandado morto, & seu capitam Reyminegsy (J) aleuantado com a cidade de Quito, & Atabaliba depois disto, foy por mandado do Piçarro degolado (a). No anno de 534. Vendo Francisco piçarro estes dous Reys fora do mundo, começouse a estender por seu senhorio, & a fazer nelle forcas, cidades, villas pello ter mais sojecto, & mandou logo Sebastiam de Benalcacer, que por capitam em .8. Miguel de Tan- gara (s) estaua, contra Remuregaia (4) Quito (5), leuou dozentos de pee & oytenta de cauallo, foy descobrindo & conquistando aquellas cento & vinte legoas, que ha dila cidade a outra, contra o leuante ao longo da linha, onde acharam serras neuadas: & tam frias que se enregelauam algúas pessoas. Chegado a Quito: come- çou a pouoalo, & pos lhe nome sam Francisco (6), diz que se da nesta terra muito trigo, ceuada, gados, prantas de Castella, cousa espantosa de que se nam esperaua debaixo da linha. Francisco piçarro (1) Que a generalidade dos cronistas denomina Ruminavi ou Rumifiahui. (í) Foi garrotado na noite de 29 de Agôsto de 1533. (3) S. Miguel de Tangarará. Vidé nota 1. (6) Galvão é inexacto, pois que Sebastian de Belalcázar não saiu de S. Miguel para Quito, a combater Rumifiahui, por ordem de Pizarro, mas sim por determinação pessoal de se assenhorear daquele reino. Pizarro, ao ter conhecimento dos propósitos de Belalcázar, mandou sair de Cuzco contra file uma fôrça do comando de Diego de Almagro, que o trouxe, sem luta, à obediência. San Francisco dei Quito. 16
242 partio logo a cidade de Casco, & achou no caminho aleuantado o capitam Quisquis (x), mas veo a elle hum hirmão de Atabaliba que se chamaua Mango (*), que elle fez Ingua & Rey da terra, com que pacificou grande parte delia. Neste mesmo anno de 534. diz que fez htl Francez chamado laques cartiel, cõ tres galeões (*) a terra dos Cortes Reais, & Golfam quadrado tomaua em quorenta grãos da banda do Norte: foy por ella ate cincoenta & hum por ver se achaua saida á outra banda da China, & trazer delia a França as especearias, & dro- gas das índias: & segundo contauam a terra era abas- tada de mantimentos, casas, & bem pouoada, q auia nella muitas & grandes ribeiras, & que foram por hOa contra o ponente trezentas legoas, poseram lhe nome a Noua França: & como agoa era doçe bem viram que nam atrauessara a outra parte pello que se tornaram (4). Neste anno de .534. ou na entrada de quinhentos (1) O índio Quisquis foi o melhor dos generais de Atahoalpa e o que mais resistiu aos espanhóis. Pereceu às mãos dos próprios soldados. (8) O inca Manco, que se acolheu à protecção dos espanhóis e mais tarde se revoltou ao verificar que lhe davam mero simula- cro de poder. (®) É duvidoso que fóssem mais de dois os navios desta pri- meira expedição de Cartier. (*) Cartier entrou no Gólfo de São Lourenço e logo no Estreito de Belle-Isle. Navegou depois para o Sul e visitou a costa oriental da Terra-Nova.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 243 & triDta & cinco (*) chegou dom Antonio de mendoça à cidade de México, por Visorey da noua Espanha & era ja partido Fernã cortez catar gente pera continuar seu descobrimento, & mandou (*) logo a elle contra ocidente dous nauios (8) que achou acabados, & capi- tães delles Fernam de grijaluarez (*), & Diogo bezerra de mêdoça (6), & pilotos hum Português que se dizia da costa (6), & do outro Fartum Ximenez (7) Biscainho, (1) D. António de Mendoza, filho do conde de Tendilla, foi nomeado, por real cédula de 17 de Abril de 1535, vice-rel e presi- dente da Audiência do México, onde chegou em Outubro do dito ano. Vem a propósito esclarecer que só em 1614, por real cédula de 19 de Julho daquele ano, foram os vice-reis da Nova-Espanha decla- rados presidentes natos da Audiência. A presidência da Audiência não concedia ao vice-rei voto nas coisas da justiça, mas dava-lhe o exclusivo de quanto respeitasse ao govêrno da Nova-Espanha, com recurso facultativo ao conselho dos ouvidores e com inteira liberdade de acatar-lhe ou não os pareceres. (*) Do relato pouco explicito de Galvão pode depreender-se que foi o vice-rei quem ordenou esta viagem. Convém, portanto, esclarecer que ela se deve a Hernan Cortês e foi provocada pela noticia do insucesso de Diego Hurtado de Mendoza e também com o objectivo de socorrer os sobreviventes. (3) O San Lazaro e a Concepcion. (4) Hernando de Grijalva. (3) Conhecemo-lo sòmente por Diego de Becerra. (8) Martin da Costa, que ia por pilôto do San Lazaro, da capi- tania de Grijalva. (7) Fortún Jiménez, que ia por pilôto da Conctpcion, da capi- tania de Becerra.
244 ANTÓNIO GALVAO dadas as vellas (*) foram descobrindo os secretos da- quellas ribeiras, & apartados hum do outro (*), Furta ximenes matou o capitam Bezerra & feriram os de sua valia, & deitados em terra tomou agoa & lenha na Baya de Sancta Cruz (s), onde os índios ho mataram com vinte
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 246 ella os vezinhos de Xauxa (x), por ser melhor tera esta da parte do sul em doze grãos daltura. Neste mesmo anno de cincoenta, edificou a cidade de Tro- gilho (2), ao longo dda ribeira, terra fresca, em oyto grãos da mesma banda, & assi foy feyta a cidade de Santiago, em porto velho & outros muytos ao longo do mar, polia terra dentro: em que se criam muytos caualos, egoas, asnos: azemelas, vacas, porcos, cabras, ouelhas, & outras alimarias, & assi aruores & outras prantas, principalmête romeyras, laranjas, limões, sidras, & outras fruytas agras, vinhas, parreiras, trigo, ceuada, grãos, couues, rabâos, ortaliça, & outras cousas q leuaram Despanha. No mesmo anno da era de mil & quinhentos & vinte cinco, foy Diogo Dalmagra da cidade de Cusco pera aas prouincias de Ariquipa, Chily que estam daly pera cima da parte do Sul: ate trezentos (3) grãos daltura, & neste caminho por ser comprido, descobri- ram muita terra, passaram muyta fome, frio, trabalho, grandes neues, & geadas que ha tantas naquellas partes: que dizem que os Rios nam correm: se nam depois do Sol fora, & alto dia que as derrete, pella qual causa lhe morreram muitos caualos & homês enrregelados. Neste meo tempo chegou Fernam piçarro a cidade dos Reys de Castella & trazia o marquesado (1) Xauxa ou Jauja fica um pouco ao Norte de Lima, nas mon- tanhas do interior. (*) Trujillo. (8) Há evidente êrro de cifra, devendo ler-se trinta graus. Não obstante, Almagro alcançou então, ao que parece, o rio Maule.
246 ANTÔNIO GALVAO de Tuuilhos (*) a seu jrmão Francisco piçarro, & a Diogo dalmagro a gouernança de çem (*) legoas, alê do descuberto a que poseram nome o Nouo reyno de Toledo, foy logo Fernam piçarro pera á cidade de Cusquo, & Ioam de Rada a Chily. Almagro estaua com as prouisões que lhe o Emperador mandaua, ho qual se partio logo de Chily a Cusco pera tomalo, dizendo que lhe pertencia, de que se começou naquella parte a guerra ciuil ('), nam lhe faltaram fomes
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 247 de Oambaya, que era capitam Cojeçofar arrenegado (*). Chegaram á barra daquelle gram Rio no mes de De- zembro: & contaua o mesmo daquella terra & agoa que Quinto Curcio deixou escripto quando o grande Alexandre ali chegara (2). Neste anno de 535 (s) partio Simão Dalcaçoua (4) cõ duas naos de Seuilha (6), dozentos qrêta castelhanos nellas. Hiis dizem q hiam pera a noua Espanha, outros querem dizer fi[ pera Maluco, outros â China, onde ja esteueram com Fernam perez Dandrade (8): como quer q seja foram às Canarias, dahi atrauessaram ao estreito que Magalhães tinha descuberto, sem tocar na terra do Brasil & toda sua costa. Entraram o estreito no mes de Dezembro com tempo contrairo, & frio: diz que lhe requereram os soldados que se tornasse (1) O célebre renegado Coje Sofar — italiano ou granadino — que se evidenciou no cêrco de Dio, onde um pelouro o matou. (8) Gaspar Correia refere que os homens de Vasco Pires de Sampaio ficaram muito impressionados com a enchente da maré que era com grande corrente e macareo.... e coma medonha de ver o marulho e estrondo que fatia (S) Aliás em Setembro de 1634. (4) Denominado Simón de Alcasaba nas crónicas espanholas. Os dizeres peremptórios de Galvão não admitem, porém, dúvida de que se trata do português Simão de Alcáçova que já se notabilizara no Oriente. (5) Aliás de San Lucar de Barrameda. (9; Simão de Alcáçova, que comparticipou na embaixada de Fernão Peres de Andrade à China, em 1617, capitulara com a coroa castelhana, em meados de 1629, a conquista do território posterior- mente concedido a Diego de Almagro, o que lhe valeu a concessão de duzentas léguas no extremo continental, até ao Estreito de Magalhães.
248 ANTÔNIO GALVAO pera fora, meteose em hfl porto da parte do Sul (4) em quarenta & cinco grãos daltura, donde mandou Simão Dalcaçoua o capitã Rodrigo de Hisla com sessenta Cas- telhanos descobrir terra, & elles se amotinaram & o prenderã & tornaram as naos, & mataram Simão Dalca- çoua (8), & poseram capitães offlciaes quem quiseram, no Brasil deram cõ hQa nao á costa, os da terra os come- ram. A outra nao de que era capitão Rodrigo de Hisla, & vinha hum filho de Simão Dalcaçoua, foy ter á cidade de Santiago da ylha Espanhola, & dahi a Seuilha. Neste mesmo anno de 535 (8) partio dõ Pedro de Mendoça de Calez (4) pera o Rio da prata com doze (6) naos, as mayores e melhores que nunca foram aquellas partes (8), leuaua dous mil homês (7), por hir mal desposto tornou se (8), mas faleceo no (1) Nas imediações, supomos, do rio Chubut. (2) De Alcáçova. (*) Em Agôsto de 1535. (<) De Sanlúcar. (3) Parece que eram apenas onze. (8) A fortuna pessoal de D. Pedro de Mendoza e os têrmos magníficos da capitulação com a coroa, permitiram-lhe organizar a sua expedição em condições brilhantes. (1) Aliás oitocentos, na generalidade gente de algo, em cujo número se contavam cêrca de cem alemães, entre éles o futuro cronista da viagem, Ulrich Schmidt. (8) Depois de fundar a míséra povoação de Santa Maria dei Buen Aire, hoje a capital grandiosa da Argentina. O desgôsto de D. Pedro de Mendoza proveio da fome que ali passou com seus companheiros, incessantemente hostilizados pelos belicosos índios Querandiés. D. Pedro embarcou para Espanha em um dos navios da sua armada, em Janeiro de 1537.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 249 caminho (*), & ficou no Rio a mòr parte da gente, q foy por elle dentro descobrindo, conquistando, & pouoando ate chegar ás minas de Patoci ('), & villa da prata: por onde se comunicam os Castelhanos de Peru com os deste Rio, & diz q tem descuberto mais de seis centas legoas com ajuda doutras armadas que foram a este Rio & por elle dentro. Dizem que ano de 536 (8) estando Fernã Cortez em Tagantepee (4), soube como a sua nao era por Nuno de Guzmão tomada, despachou tres nauios (5) que acabados tinha pera Chimalão (8) a onde Guzmáo estaua, & foy se por terra bem acompanhado, & achou a sua nao roubada, & a traues deitada. Chegados os tres nauios que mandara, embarcou se nelles (7) com a mais gente (8) & cauallos (9) que pode, deixando por capitão dos que sobejara Andres de Tapia. Dada a vela foy tomar hfla ponta ho primeiro dia de Mayo, p) Faleceu a bordo, em Julho de 1637, quando procurava arribar aos Açores. (3) Potosi, na Bolívia ocidental. (3) Data muito discutível. Optamos pela de fins de 1634. (4) Tehuantepec. (6) Os navios Sanla Águeda, San Láearo e Santo Tomát, cons- truídos em Tehuantepec. (3) Chametla, em Sinaloa. (7) Embarcou em Chametla no dia 18 de Abril de 1536, segundo se lê na carta de Nuno de Guzman para o Conselho de índias, de 7 de Junho de dito ano. (8) Cento e treze infantes. (9) Quarenta cavaleiros. Sessenta outros ficaram aguardando a chegada de navios para embarcarem.
250 ANTÔNIO GALVAO & por isso lhe pos nome Felipe, & hfla ylheta que ahi está perto Santiago (*). Dahi a tres dias entrou na baya, em que mataram o piloto Furtum ximenes (*), & cha- mou Sancta Cruz (®), sahio em terra mandou ali vir Andres de Tapia por ser bõ porto, & decobrir a terra dentro. Cortez embarcado deu lhe hum tempo, foy ter a dous Rios q se agora chamà sam Pedro & sam Paulo, carregou tanto vento, que se apartaram hús nauios dos outros, & foy hum ter à baya de Sãta Cruz & outro a Gayal, outro encalhou junto de Xalisco, os delle se tornará por terra a México. Fernam Cortez esperou pellos nauios, & vendo que nam pareciam, mandou dar á vella, & entrou o estreyto (4) que se agora chama de Cortez, & mar vermelho (8), cinquenta legoas por elle dStro, ate o Tropico de Cancro, vio húa nao surta, arribou a ella, foy dar em seco, esteue quasi perdido, & fora de todo se lhe a Nao nam socorrera, & pos a sua em terra, & corregela. Ambos se tornaram a comprar em sam Miguel mãtimento, & dahi ao porto de sancta Cruz, onde deixara a gente, a q lhe disseram como dom Antonio de mendoça era chegado a México, o gouernador da noua Espafta, deixou a<3 por capitã da gente Francisco dilhoa (8), foyse a Tagante pa de lá l1) Vide nota 7, a pág. 243. (fy Vide nota 1, a pág. 244. (®) Vide nota 3, a pág. 244. (*) Aliás GOlfo. (5) o Gôlfo de Califórnia, outrora denominado Mar Vermelho e Mar de Cortês. ^®) Francisco de Ulloa.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 251 lhe mandar nauios em q fosse descobrir a costa. Che- gado a Capuleo (*), lhe veo mesageiro do viso rey dõ Antonio, em q lhe daua cõta de como era naqla terra: & tãbe lhe derã ha trelado dúa carta q Francisco piçarro dezia como selhe leuantara Mãgro ingoa (*), & viera sobre a cidade de Cusco cõ cê mil homês de peleja, & lhe matara seu irmã Ioã piçarro, & mais de 400 soldados & o tinha ê grãde aperto, pelo q pedia a todos socorro. Vendo Cortez isto, & a chegada de dõ Antonio de mêdoça, por lhe nã furtar a bêçam dter- minou primeiro mãdar a Maluco descobrir aqle cami- nho ao lõgo da linha, por estarê as ylhas do crauo naqle paralelo, & pa isso mãdou aparelhar dous nauios de mãtimêtos, armas, gêtes, & todo necessário, deu a capitania dúa nao a Fernâ de grijaluarez, & a outra a hú Aluarado homê fidalgo. Forã dereitos a S. Miguel de Tangaraga (8) pera fauorecerê Frãcisco piçarro, & da hi a Maluco ao lõgo da linha como lhe era mandado, & deziam q andariâ mais de mil legoas sê verê terra dhQa parte & outra da linha & en dous grãos do norte, descobrirá hõa ylha q se chama o Acea (4), q parece estar das ilhas do crauo quinhentas legoas (®) pouco mais ou menos a loeste: pera onde hiã ouuerã vista doutra q poserã nome dos pescado- (1) Acapulco. (l) Mango Inca. (s) Tangarara. (4) As ilhas Asia (?) (5) Presumimos que há cifra a mais e que Galvão teria escrito cinquenta.
252 ANTÓNIO GALVAO res (!). Indo assi nesta derrota virá hfla ylha q se chama Haime (*), da parte do sul, outra q se diz Apia, vay logo ver Seri (s): tornados ao norte ê hú grao, surgirá ê outra q se chama Coroa (<). Daqui forã ter a outra debaxo da linha qse diz Meõsfl (6), & day a de Bufu (8) no mesmo paralelo. Todas estas ylhas sam de gêtes pretas, cabelo reuolto, a q os de Maluco chamã Papuas, os mais comê carne humana, grãdes feiticeiros, tâ dados aos diabos q andã antrelles como cõpanheiros, se achã hfl sô matãno as pancadas, ou o afogam, por onde nã sam ousados de andarõ senão dous ou tres jfltos. Ha aq hfla aue (7) do tamanho dhú grou, nã voa nê tê penas pa isso, corre a pé como hfl veado, das penas delles fazê cabellos pa seus ydolos, & assi ha hfla erua q lanando cõ agoa quête qualqr mêbro do corpo, ê põdoa encima lãbãdo cõ allgoa, tirara o sangue todo dfla pessoa, & cõ ella se sangrã. Destas ylhas (1) Identificável com a do mesmo nome ou Rongelab, nas Marshall, se admitirmos, por freqUente, que Galvão trocou a ordem por que as ilhas foram avistadas, mencionando a dos Pescadores depois de Acea. (*) A ilha Aiu ou Yowl (?). (s) A ilha GebI (?); o cabo Selee, junto ao Estreito de Galewo (?). (*) A ilha Bonoa (?) (B) Manipa (?) (®) A ilha de Buru ou Bouro (?) (?) Trata-se certamente de alguma espécie de ema (caiuariui enteuj, semelhante ao avestruz, indígena da Austrália e de determi- nadas ilhas da Insulíndia,
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 253 foram a outras £[ se chamã os Gueles (*), estã 6 hQ grao da parte norte leste oeste cõ a ylha de Ternate em q esta a fortaleza portuguesa. Estes homês sam bassos de cabelo corredio como os Maluqses, estam estas ilhetas 124 ou 125 legoas da ylha de Moro, & esta de Ternate 40 ate 50. donde foram ter ao Moro & ylhas do Crauo, & andaram hflas & outras, sem os da terra lhe deixarem tomar porto, dizendo q se fossem aa fortaleza q achariam o capitã Antonio galuão q o receberia com boa vontade, q eles o nam fariam sem sua licença, por ser pay da patria, que assi lhe camauã: cousa digna de notar, porq os daqlla terra sam afeiçoados a castelhanos q põe por elles vidas, molheres, filhos, & fazendas. No anno de 537 gouernando ha prouincia de Cartagena (2) o LicSceado Ioão de vadilho (s) sahio delia com boa armada, & foram ao porto Duraba, & à cidade de Sam sebastiam de boa vista (4), & dahi ao Rio verde: & por terra caminharam sem caminho nem carreira, ate fim da prouincia do Peru & villa da prata (5), mil & dozêtas legoas desta ribeira. Feito digno de memoria, porq deste Rio ate as montanhas (1) Não logramos identificá-los. (!) Pôrto Atlântico da Colômbia. (3) Juan de Bobadilla. (4) Buena Vista, um pouco para o sul da ilha Oruba, na pro- víncia de Falcon da Venezuela (?) (3) A vila da Prata foi fundada por Pizarro na Bolívia actual, não longe de Potosi.
254 ANTÓNIO GALVAO de Abibi (*) auera quinhentas legoas de terra chãa,
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 255 No anno de 538 (*) sahiram da cidade de México frades Franciscos contra o Norte, pregar aos índios a nossa sancta fee catholica, & o q mais se meteo pella terra, foy frey Marcos de missa (*), q passou por Culuacão (s), & chegou â prouincia de Sibola ('):
256 ANTÓNIO GALVAO vida. E neste de 538 foy começada a guerra ciuil antre Piçarro & Almagro, por onde elle foy desbaratado, & preso, & degolado (x). No mesmo anno de 538 mandou Antonio galuam, q estaua por capitã em Maluco cõtra o norte hCL nauio, & capitã dele Frãcisco de castro, cõ regimêto Q fezesse quantos christãos podesse, por ser dalgõs daqlas partes reqrido pa isso, & o mesmo Antonio galudo ter muitos feitos .s. dos celebres Macasares, Amboynos, Moros Morotax (8), & outras diuersas par- tes. Chegado Francisco de castro á ylha de Mida- nao (8), & outras q descobrio acima delias, tomarã seis Reys agoa de baptismo cõ molheres, filhos, vassalos, & os mais deles mandou Antonio galuã por nome Ioannes, em memoria do terceiro q em Portugal rey* naua, tanto trazia na sua. Os Portugueses & Castelhanos q por estas ylhas andaram, contauam q auia nellas porcos, q alê dos dêtes q tinhã na boca, lhe sayã outros dous pelos focinhos, & outros tâtos por detrás das orelhas, & tinhã de cõprido palmo & meo. E auia hõa aruore q o meo dela q estaua cõtra o oriSte, era muy medici- nal, & cõtra toda peçonha, o outro meo da aruore q estaua cõtra o ponõte he muy peçonhêta, & o fruito daQla bãda o qual he todo como tramosso, & se faz (') Almagro foi vencido na batalha das Salinas, ferida em 6 de Abril de 1588, por Hernando Pizarro, que o aprisionou e fiz executar no dia 8 de Julho seguinte. (1) íncolas da ilha de Morotai, ao Norte de Gilolo? (8) Mindanao.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 257 delle a mais forte peçonha q ha na redõdeza, & aasi se dizia q auia outra aruore q quê comia seu fruto estaua doze oras fora de si, & fazia cousas de homem sem siso, quando tornaua nam daua nenhum acordo disso, & auia híls cangrejos da terra que quê os comia, tambê estaua certas oras da mesma maneira. Assi deziam os da terra que auia ahi hfla pedra q quê se assentaua nela criaua potra (1), os homés destas ylhas douram os dentes, & atrauessam sua natura cõ hQa barra douro ou prata, & nas pontas rebatem hGas rosas, com que ensanguentam húa molher toda. No anno de 539 mãdou Fernã cortez tres nauios (*) a Frãcisco guilhoa (s) pa descobrir a costa de Culua- cam (4) pa cima. Partiram de Capuleo (8) tocaram Santiago de boa esperança (6), entrará no estreito q Cortez descobrira: chegaram por ele acima ate trinta & dous grãos daltura, que he a fim dagoa, poseram (l) Hérnia intestinal. Vide nota 6, a pág. 255. (3) Francisco de Ulloa. Veja-se a nota 6, a pág. 255. (4) Vide nota 3, a pág. 255. (3) Acapulco. (3) Supomos que Galvão alude a Santiago, ou melhor, à Punta Arena, na entrada do Gôlfo da Califórnia. Também é de admitir a identificação déste local com Ipala, ou seja com o pôrto Santiago, demarcado imediatamente ao Sul do Cabo Corrientes, no planisfério de Sebastião Caboto, de 1544. Convém, porém, esclarecer que antes entraram no pôrto de Manzanillo, onde tardaram vinte e sete dias, reparando a Santa Águeda, e, logo, no de Culiacan, para se abriga- rem da tormenta. 17
258 ANTÔNIO GALVAO lhe nome Ancon de sancto Andre (*) por ser em seu dia. Tornaram pa fora ao longo da costa da outra banda, dobrará a põta de Califórnia, & meterá se por antre as ylhás & a terra: foráo ao longo delia ate se poerê em .32. grãos, donde arribaram por vento con- trairo auendo hfi anno q la andauam, dizem q gastou Fernã cortez nestas armadas & descobrimètos dozen- tos mil cruzados, & q desta ponta do engano (*) auera à outra de Liampo da China mil ou mil & dozentas legoas de rota abatida, & q o q descobrio & conquis- tou Fernão Cortez & seus capitães, he de doze grãos ate trinta & dous de Leste oeste, em q auera setecen- tas legoas pella terra dentro, que he mais quente que fria, ainda que ahi serras que dura a neue & geada quasi todo o anno. Hà na noua Espanha muito aruoredo de flores & fructos, diuersos & proueitosos pera muitas cousas, & a mais principal delia se chama aruore metei, ou do mel, não he muy grande nem grossa: prantã na, podã na, concertã na como vinha: diz q tem quarenta folhas de feiçam de telhas & seruem disso, & quando sam tenras fazem conseruas delias, papel flanna como linho fazem delias mãtas, alpargates, esteiras, cintas, (l) A foz do Rio Colorado, no extremo do Gólfo da Califór- nia, como se vê no planisfério de Sebastião Caboto, de 1544. (1) A Ponta de Santo-António, no extremo Norte da Baía de Sebastian Vizcaino, como se verifica do exame do planisfério de Sebastião Caboto, de 1544, onde está demarcada com o nome da c.del engagno.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 259 xaquemas (x): tem estas aruores húas espinhas tâ duras & agudas, q cozem cõ ellas como com souellas, & o tronco dá bõ lume & cinza pera decoada, escauam na ao pee, & agoa q estila he como arrobe se a cozem fica mel, se a purifica, açuquere, se lhe deitam pata- lim, vinho, se a destemperam, vinagre, as pencas (2) assadas & exprimidas sobre chagas ou ferida, sara & encoura, o sumo das espigas & rayzes emburilhadas (5) com sumo de encenso, he bõ contra a peçonha & mordedura de bibora, assi que he mais proueitosa aruore que se la sabe. Há la hfls passarinhos q se chamã Yicincilim (4) sam pequenos, o bico delgado & comprido, mãtem se do rocio, mel, licor de flores, & rosa, tem as penas meudas & de diuersas cores, prezã nas muito pera laurar ouro, morre ou adormece cada ãno: no mes Doutubro posto em hum raminho em lugar abrigado resuscita, ou acorda no mes Dabril depois & que há flores, pello q lhe chamam o resuscitado. Ha cobras q sam como cascaueis quando andã: ha outras q emprenhã pella boca, como dizê da bibora: ha porcos cõ embigos no espinhaço, que matandoos se lho nam cortam fede logo: ha pexes que guincham como porcos & roncam, por onde lhe chamam roncadores. (1) Cilhas. (2) Fôlhas grossas e carnudas. (3) Misturado. (<) Trata-se, supomos, do colibri das florestas americanas — o beijaflor brasileiro. Supérfluo acrescentar que são fantasistas os hábitos que Galvão lhe atribui.
260 ANTÓNIO GALVAO No anno de 538 & 39 (*), depoys de Diogo Dalma- gro degolado, ho marquez Fernam (8) Piçarro nam esteue ocioso, mandou logo Pero de Valdiua (s) com muita gente (4) ao descobrimento & conquista de Chily, foy bem recebido dos da terra, & depois o quiseram matar por enganos (5), & com toda a guerra que teue descobrio muita terra & costa, do mar da banda de Leste ate quarenta & tantos grãos daltura & ouui- ram dizer dos naturaes de Huchãcolma (6), q juntaua dous mil homês de peleja, contra outro rey seu vezi- nho, q traria o mesmo: & Hucham colma tinha hfla ylha & templo cõ dous mil sacerdotes. Dêtro & mais adiante auia amazonas, & a raynha delias se chamaua Ganomilha, q quer dizer ceo douro, donde os Caste- lhanos tomaram auer ali muita riqueza, & assi de htla ylha que se chama de Salamam, também dizem ser muy rica, mas nada disto se vio ategora. Gomez Daluarado foy á prouincia de Ganuco (7), Francisco O Aliás em Janeiro de 1540. (8) Aliás por Francisco Pizarro, que em 1587 obtivera autori- sação secreta para mandar povoar as terras que Alm?gro aban- donasse. (®) Pedro de Valdivia, comprovinciano dos Pizarro. (*) Cento e cinquenta espanhóis e alguns milhares de auxi- liares e carregadores Índios. (5) Foram os espanhóis que planearam matar Valdivia, durante uma curta ausfincia sua de Santiago da la Nueva Estremadura, futura capital do Chile, por êle fundada em Fevereiro de 1541. (®) Aconcagua. (l) Guánuco ou Huánuco, no Peru.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 261 de Chaues aos Conchucos (J) q corriam a Trozilho (*), por serem vezinhos, Pero de Vergara ao Bracamoros que estam ao norte de Quito, Ioam perez de veragar (3) contra os Cachapoyaz (4), Alonso de mercadilho a Mu- lubumbo (6). Fernando & Gonçalo piçarro ao Colao (6) terra sadia & rica douro & prata, Pero de Candia (7) acima de Colao, terra aspera de gente belicosa. Peran- curis (8) também foy descobrir, cõquistar, & pouoar terra, & outros per outra banda se estenderam mays de setecentas legoas com gram presteza. No anno de 540 (9) foy o capitã fernâ alarcao (10) (1) Actualmente, Conchucos é o nome de uma vila na serra a Leste de Trujillo. (!) Trujillo. (') Vargas. (*) Ou Chachapoias, ao Norte do Peru. Importa esclarecer que a expedição mais notável àquela região foi a do capitão Alonso de Alvarado. (5) Não conseguimos identificar esta região. Sabemos porém que a expedição de Alonso de Mercadillo partiu de Huanuco e pene- trou em 1588 até junto dos Mainas, no interior do Amazonas, caben- do-Ihe o mérito de ser a que primeiro visitou a parte central do curso daquele rio. (8) Collao. (l) Tentara sem resultado, em 1588, com Pêro Anxures, devas- sar a selva amazónica junto aos rios Beni e Madre de Dios. (8) Pero Anzures de Camporredondo, que se aproximou, em 1538, da província boliviana de Cochabamba e da região de Mojos. (8) Saiu de Acapulco no dia 9 de Maio de 1540. (18) Hernando de Alárcon.
262 ANTÓNIO GALVAO por mãdado do viso rey dõ Antonio de mSdoça com dous nauios (*) descobrir a costa (*). Estas terras do Brasil & Peru teram de Leste oeste perto de oitocentas legoas pello mais largo, q he do cabo de Sancto Agustinho ao porto de Trozilho: porque estam ambos em hum paralelo em seis grãos daltura, & de comprido mais de nouecentas & cin- coenta, q se contem do Rio Peru ao estreito q ho Magalhães descobrio norte sul dereitas, em que ha húas serras a que chamam os Andes, que apartam o Brasil do império dos Inguas, assi & da maneira que os mõtes Taurus & Imãos (3), o fazem em Asia aos índios dos Sytas, os quaes montes começam em trinta & seis ou trinta & sete grãos daltura, na fim do mar Mediterrâneo, defronte das ylhas de Rodes & Chipre, & vam sempre a leste ate o mar da China, como os montes Atalantes: diuidem em Africa os mouros brancos dos negros de cabello reuolto, começando no mar roxo, vam ao longo de Tropico de Cancro, ate o mar chamado Atalantico. As montanhas dos Andes, sam altas, asperas fra- gosas, & a lugares escaluadas, sem aruores, nê heruas, chouendo (4) & neuando de contino nelas, cõ vêtos & trouoadas, carece tãto de lenha, q fazô fogo de terra (l) O San Pedro e a Santa Catalina. (*) O que principalmente notabiliza esta expedição foi o ensejo que ela proporcionou ao pilôto Domingo dei Castillo para levantar a primeira carta conhecida da costa ocidental do México. O Vide nota 2, pág. 99. (*) Nas vertentes ocidentais dos Andes não chove.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 263 como em Frandes (x). Ha partes nestas serras, & terras de cores diuersas, hila preta, outra branca, vermelha, verde, azul, amarella, & morada, de que fazem tintas sem mais mesturas. Saem das rayzes destas monta- nhas muitas ribeiras pequenas & grandes, principal- mente da parte de Leste, como se parece no rio das Amazonas & Maranho de sam Francisco, da prata, sam Ioam, & outros muitos q ha na terra do Brasil, por ser mais largo q o do Peru & noua Castela. Criam se nesta serra muitos nabos, tramossos, & outras: ahi híia como aypo, dá flor amarela q sara toda chaga podrida, & se a põe em carne saã & limpa come ate o osso, assi q he boa pera o mao & mà pera o bõ. Dizem q ha nestas montanhas, tigres, liões (*), hussos, lobos, gatos, raposos, antas, porcos, veados, guazelas, aues, assi de rapina como destoutras, & as mais sam pretas como debaxo do norte: has mesmas alimarias & aues sam brancas. Ha tambê grandes cobras & tam feras, q passando hum exercito dos Inguas o destruyram, mas dizem q hfla velha as encan- tou de maneira, q ficaram tam mansas <} andão homês caualgados sobre ellas. As terras do Peru q jaze das serras dos Andes, a loeste cõtra a marinha, he em tres partes diuidida, os Andes q sam muy grãdes, & algfls montes q jazem na fralda delles, & 6 campos, valles, q vam ao longo da costa, & alargamse pella terra dentro quinze ou vinte legoas, todas dareaes muy (1) Flandres. (8) Como já observámos, o leio está excluído da fauna ame- ricana.
264 ANTÔNIO GALVAO quentes, frescos de diuersos aruoredos & fruitos, por serem regados: & por debaxo canas, espadanas, jun- cos, heruas, & aruores, q pondo a mão nellas, caelhe a folha: & por antre estas verduras, flores & fres- curas, se crião os homãs e molheres sem casas, & camas, como os gados nos campos: & algõs tem rabos, sam grosseiros, cabellos compridos, nam tem barbas, mas diuersas lingoas. Os q viuem nas fraldas destas mõtanhas dos Andes, antre a frialdade & quentura, sam pela mayor parte tortos, & algds cegos: de marauilha se acham dous homês juntos, q hum delles nam seja torto. Tambfi se dá por estes campos, ainda q darea calidis- simos, muito bõ maiz & batatas, & hdas heruas a q chamam coca (*), q trazê sempre na boca, como na índia o betele, q dizê cj mata a sede & fome. E assi ha outros grãos & rayzes cj la comem, muito trigo, ceuada, milho, vinhos, & outras aruores Despanha q la pran- taram, porq tudo se dá bem naquella terra, por ser regada. Também se semea muito algodam, q de seu natural he branco, vermelho, preto, azul, verde, ama- relo, aleonado, & doutras diuersas cores (®). (1) Galvão alude ao arbusto do Peru, denominado cj ca, cujas fôlhas os indígenas mastigam continuadamente, misturadas com as cinzas da anierina quinoa. Ainda em nossos dias, os guias índios que conduzem viajantes através da cordilheira, se sustentam dias seguidos com coca. (*) Contràriamente ao que Galvão noticia, o algodão sul-ame- ricano, como aliás outro qualquer, carece de ser submetido à acção da tinta para mudar de cflr; os índios, porém, são exímios na arte de tingir por processos rudimentares.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 265 Assi dizem q de Tumbez por diante, não choue, nem trouoeja, nê relampaguea, mais de quinhentas legoas, ás vezes cao algfl orualho, & tarabè querê dizer q de Tumbez a Chili, nam se criem pauas (*), galinhas, nem galos, nem aguias, falcões, açores, gauiães, nem outras aues de rapina auendoas, & toda a outra terra & comarca: mas ahi muitos patos, adês (®), garças, rolas, põbos, perdizes, codornizes, mouchos, petos, roxinoes, & outras aues, hflas como patos sem penas: tem hum veo delgado q as cobre todas: ha butres Q tem guerra com os lobos marinhos, como os acham fora dagoa quebram lhe os olhos aas picadas, por se nam acolherem a ella, assi os matam: diz c| he pera folgar de ver esta caça: cõ as barbas dos lobos alimpam os dentes, por ser bom pera a dor delles. Ha hflas alimarias que os da terra chamã xacos (s), os Castelhanos ouelhas por terem lãas como elles, sam da feiçam de ceruos: tem gibas como camellos, leuam peso de quatro arrobas, os Castelhanos caualgã nellas, quando cansam voluera a cabeça, & deitão híla agoa muy fedorenta (4). Dos Rios da prata & Lima pera cima nam se criam lagartos, cobras, nem bichos peçonhêtos por (1) Pavos, sinónimo de perus. (8) A anas botcha», de Lineu. (?) Os guanacos ou lamas, ainda hoje muito usadas como bSstas de carga na Bolívia e no Peru. São pouco corpulentas mas muito resistentes; sustentam-se com a vegetação rasteira do deserto e podem privar-se de água durante vários dias. (f) Quando irritadas, as lamas expelem uma saliva repugnante.
266 ANTÓNIO GALVAO onde ha muitos & bõs pescados. Na costa de sara Miguel, no mar ahi grâdes pedras de sal cubertas douas. Na põta de sancta Elena (') ha fontes q deitam licor q serue de pez e alcatram (*). Dizem q em Chica (®) ha híla fonte q sua agoa cõuerte a terra em pedra, & o barro penedo. No porto de Trugilho ha húa alagoa dagoa doce, & o fundo de bom sal coalhado. E nos Andes detrás de Xauxa ha hum Rio dagoa doce, & ho fundo de sal branco: assi dizem os da terra que ouue gigãtes nella, cujas estatuas acha- ram em Porto velho, & no de Trugilho grãdes ossos & oauernas cõ dêtes de tres ou quatro dedos em largo. No anno de 540 partio Gonçalo piçarro da cidade de Quito ao descobrimento da canella (4), cousa muito nomeada naquella terra, leuaua dozentos Espanhoes de pè & cauallo, trezentos índios de carrega (6), caminhou ate Quixos que he a derradeira cousa q os Inguas senhoreavam, onde lhe tremeo a terra, & choueo, & relampagueou, tanto que se fundiram sessenta casas: passaram húas serras muy frias & (t) A Ponta de Santa-Helena fica na costa da província de Guaias, no Equador, tendo ali frequentes os jazigos petrolíferos. I*) No Chile. (') Aliás em Abril de 1541. (!) Ou seja da região do Oriente Equatoriano, que Gonzalo Diaz de Pineda visitara superficialmente havia pouco. (5j Galvão omite uma das particularidades desta expedição, que consistiu em fazer-se acompanhar de quatro mil cães. Especial- mente adestrados para perseguir e atacar os índios, os cães pres- taram serviços revelantes, se bem que cruéis, na sujeição dos ínco- las do Peru, México, etc.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 267 neuadas, onde lhe ficaram muitos índios regelados, & elles espantados da gram neue q auia debaixo da linha. Daqui foram a hfla prouincia q se chama Cumaco 0), onde esteuerã dous meses por lhes chouer contino: & ao diante viram aruores de canella q sam grandes, & as folhas como de loureiro, & ellas, & côdea, & rayzes tem tudo sabor de canella, mas o melhor delia he hús capuchos como dalcornoques (*), de que ha gram trato: & segundo parece deue ser canella braua que ha muyta na índia, & ilhas de Iaoa. E neste anno de quarenta foy Fernam Cortez com sua molher pera Castella, & faleceo la de doença (s). Daqui foram à prouincia ou cidade de Coca (4) onde repousaram cinquênta dias. Dahi por diãte cami- nharam ao longo de hfla ribeira muy grande sessenta legoas sem acharem ponte, vao, nem por onde pas- sassem a outra banda, somête acharam o rio de dozentos estádios, onde a agoa fazia tam grande roydo, q parecia q emmouqcia a quõ junto estaua: & nam muyto abaxo diz q acharam hum canal de pedra, talhada de vinte pès em largo, por onde todo o Rio passa, em q fezeram ponte pera a outra banda: dizem ser melhor terra. Foram a hfla que se chama Gema (5), tam pobre que nam comiam se nam frutas & heruas, & hflas como tubaras da terra. Adiante acharam (1) Sumaco. (í) Sobreiros. (3) No dia 2 de Dezembro de 1554. (4) Junto ao rio do mesmo nome, tributário do Napo. (5) Pebas (?).
268 ANTÔNIO GALVÃO gente de razam, que vestiam algodam, onde fezeram hum bargantim breado com rasina, & acharam algúas canoas em q meteram os doentes, & o melhor vestido & peças q leuauã: & deram carrego desta armada a hrãcisco dorilhana (*), & Gõçalo piçarro foy por terra cõ a mais gente ao longo da ribeira, & como era noite recolhiam se aos nauios, & caminhariam assi dozentas legoas segundo lhe parecia. Chegado Piçarro onde esperaua achar o bargan- tim & canoas, & como as nam vio nê nouas delias fi- cou muito agastado por se ver em terra alhea, sem man- timento, vestido, nem cousa algila q ate os cauallos & cães comeram, & a terra pobre, fragosa, caminho com- prido pera tornar á cidade de Quito, & com tudo poseram se a ysso, & no caminho andaram anno & meo (*): & diz q andariam quatrocentas ou quinhen- tas legoas, onde nam acharam sol nem cousa que os podesse confortar, por onde de dozentos que (l) Francisco de Orellana, um dos oficiais de Gonçalo Pizarro. Vem a propósito esclarecer que Orellana, contràrlamente aos dize- res de Galvão, partira de Coca, no bergantim que os espanhóis ali construíram, com destino à confluência dos rios Coca e Napo, onde os indígenas informavam haver abundância de viveres. Alcançado aquêle ponto e saciada a fome nos alimentos que ali encontrou, esqueceu Orellana os seus famintos companheiros e a obediência que devia a Pizarro. Com o pretexto de que não conseguia remon- tar o Napo, correu o Amazonas, que navegou até entrar no Atlân- tico, e seguiu, com escala pelas Antilhas, para Espanha, onde cele- brou com a coroa uma capitulação para a conquista das regiões amazónicas. Ali tornou em 1545, mas faleceu a breve trecho. I2) Desde Abril de 1541 a Junho de 1542.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 269 eram nam tornaram a Quito diz, & estes tam fracos, rotos, & transfigurados, que os nam conheciam. Ori- lhana andaria quinhentas ou seiscentas legoas pello Rio abaxo, vendo diuersas terras & gentes de hfla parte & de outra, & diz q ha Amazonas. Veyo ter a Castela desculpãdose q a agoa o trouxera perforça: a qual se chama o rio Dorilhana, & outros das Ama- zonas pelas auer nesta terra, ou molheres q viuê como elas. No anno de 541 (1) diz q partio dõ Esteuã da gama gouernador da índia pera o estreyto de Meca: foy com toda armada surgir â ylha de Masua (*), & dahi pera cima em nauios de remos (8), costeado a costa do Abexim & Affrica, de pedra ê pedra ate a ylha de SuaquS, q estara 6 .xx. grãos daltura da parte do norte, dahi ao porto Dalcocer (4) q está 6 .xxvij. atrauessou pa a cidade de Toro da parte da ribeira, & ao longo delia foy a Suez, que he a fim do estreito, por onde se tornaram pello mesmo caminho, deixando aquela terra & costa descuberta (6), onde capitam Espanhol nunca chegara: ainda q Lopo Soarez gouer- nador da índia foy à cidade de Iuda (8), & porto de (i) Aliás em 81 de Dezembro de 1540. (3) Maçuá. (S) Foi no pôrto de Mars» Arekiai, vinte e duas léguas acima de Suaquém, que abandonaram os navios de maior tonelagem e se- guiram viagem em catures e fustas. (4) O Kosseir das cartas modernas, no Mar Vermelho. (5) Não apenas descoberta mas integralmente descrita no Roteiro de Ooa até Soee, de D. João de Castro. (6) Em 1517.
270 ANTÔNIO GALVAO Meca, q está da banda Darabia em vinte & tres grãos daltura, & cento e cinquenta legoas da boca do estreito. Atrauessando dom Esteuam Dalcocer (*), pera o Toro, dizem q se achou híía ylha denxofre (8) q foy da mãy de Maíamede, despouoada, & muytos cangre- jos nella q ajudam a natureza: pelo Q sam muy esti- mados, principalmente dos pouco castos. Assi dizem q há neste estreito muitas rosas das q se abrem quando as molheres parem. Ioam Liam (8) escreue na geographia q fez Dafrica (4), q nos montes Atalantes (6) há híía herua que a molher que passa per cima, perde a virgindade. Neste mesmo ano de 541 (6) na cidade dos Reis (7) matou dom Diogo Dalmagro (8) ao Marquez Frãcisco piçarro, & a seu yrmão Francisco míz dalcãtara, & se aleuãtou por gouernador da terra. P) Vide nota 4, pág. 269. (*) Ilha fantasista a que D. Joio de Castro não alude. (.*) Mais conhecido por Leão — o africano — e por Eliberitano. (*) Intitulada Africa« Descripiio, cujo original, em árabe, exis- tiu até ao primeiro ano do século XVII na biblioteca de Vincenzo Pinelli e se considera actualmente perdido. Foi publicada pela pri- meira vez na célebre colecção de João Baptista Ramúzio. (&) Os montes Atlas. (4) No dia 26 de Junho de 1541. (') No seu próprio palácio de Lima. (8) É inexacta a notícia de Galvão, porquanto o velho D. Diego de Almagro, vencido em Salinas, foi mandado executar em 8 de Julho de 1538 por Hernando Pizarro. Quem matou Francisco Pizarro foram os conjurados espanhóis, partidários do filho bastardo de D. Diego de Almagro, sob o comando de Juan de Rada.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 271 Neste mesmo anno de 539 (x) mandou o Viso rey dõ Antonio de mSdoça, por terra à prouincia de Sibolla, Francisco vasquez coronado (*), cõ bõ exercito de Castelhanos & índios. Partiram de México (®), foram a Culuacam (4), dahi a Sibolla, que está em trinta & oito grãos daltura, requereram aos da terra pazes & mantimentos, que leuauam disso falta. Res- ponderam q nam dauã nada a quem hia de guerra: combateram a vila, foy tomada, poseram lhe nome Granada, por o Viso Rey ser natural delia. Achando se hos soldados dos frades (B) enganados, por nam tornarè com as mãos vazias a México, foram de Sibolla á cidade de Suco, donde teueram noua de Xaqueuira (6), onde estaua hum Rey muito rico, q adoraua hQa Cruz douro, & hõa molher de prata, q o ceo senhoreaua. Neste caminho passaram muito traba- lho, perigo, & Rios neuados, & lhe fogiram hOa noite todos os índios, & amanheceram trinta caualos mor- tos. E de Suco foram a Xaquiuira, que segundo sua conta eram dozentas legoas, tudo campina rasa pelada, sem aruore nem pedra. Faziam por ella montes de bostas de vaca, por se nam perderem á tornada: diz (1) Partia em Março de 1540. (l) Francisco Vázquez de Coronado, governador da Nueva G alicia. (3) De Compostela. (*) Culiacán. (5) Vem a propósito esclarecer que acompanhavam esta expe- dição os frades Marcos de Nira, Juan de Padilla, Juan de la Cruz e Luís Úbeda. («) Quibiria (?).
272 que lhe choueo & cahio pedra do tamanho de laranjas, pello que ouue temor & lagrimas. Chegados a Xaqui- uira que dizem estar em quarenta & dous grãos dal- tura (l), acharam ho Rey que buscauam com hfla joya de cobre ao pescoço, q era toda sua riqza, nã viram cruz douro, nê molher de prata, nem quem lhe desse razam da nossa sancta fe catholica. O q contauam desta terra ser pouco pouoada, principalmente na campina, porq os homês & molheres costumam andar por ella com seus gados, q tê muitos, como os alarues: & muda se segundo o tempo & pasto. Diziam q auia ahi húas alimarias do tamanho dazemelas, tinham grandes cornos, & lãa, como car- neyros, & assi lhe chamam os Castelhanos. As vacas sam muitas & muy monstruosas, com grandes cor couas sobre as espaduas, & compridas, barbas pelo espinhaço, & pescoço, sedas como de cauallos (*). Nam ha nesta prouincia trigo, ceuada, milho, mayz, nem fazem pão de nenhaa cousa: das vacas comem, bebem seu sangue, vestem, calçam, a mais da carne crua, ou mal assada aa mingoa de lenha: cortam na cõ facas de pederneyra. As frutas sam nozes, auelãas, huuas, ameixas, pinhões, & amoras. Ahi cães & rafeyros tamanhos, que hum so tem hum touro por brauo que seja. Quando se mudam leuam o fato, filhos, & molheres encima: tambS ha muitos cães no mato brauos em manadas como gados: por muitas cousas passo, por- que a regra q sigo me nam da a mais espaço. (i) Admite-se que tenham alcançado o Kansas, entre 38* e 40°. Galvão alude aos bisões.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 273 No anno de 542 achandose Diogo de freytas no Reyno de Syam na cidade Dodra (») capitam de hfl nauio, lhe fogiram três Portugueses em hfl junco q hia pera a China chamauãse Antonio da mota, Fran- cisco zeimoto, & Antonio pexoto (•). Hindo se cami- nho pa tomar porto na cidade de Liampo, q está em trinta & tãtos grãos daltura, lhe deu tal tormenta aa popa, q os apartou da terra, & em poucos dias ao Leuãte viram hfla ylha em trinta & dous grãos, a q chamam lapões, que parecem ser aquelas Sipangas (*) de que tanto falam as escripturas, & suas riquezas: & assi estas também tem ouro, & muyta prata, & outras riquezas. Neste mesmo anno de 542 mandou dom Antonio de mendoça Viso rey da noua Espanha seus capitães
274 ANTÓNIO GALVAO No anno de 542 em mes Doutubro (x), mãdou o viso rey dõ Antonio ás ylhas de Mindanao, Cebu & Nata (*), õde Magalhães fora morto dúa armada de seis velas (8), qtrocêtos ou quinhêtos soldados nelas, & outros tãtos índios da terra: & por capitam môr Ruy lopez de Yilhalobos (4) seu cunhado, pessoa de muita estima. Partiram do porto do Natal (5), q está em vinte grãos ao norte, vespera de todos os sanctos gouernaram a loeste, & á quarta do Sudoeste em deza- noue grãos, ouueram vista da ylha de sancto Tho- mas (6) q Fernam de gnjaluarez descobrira. Mais a diante em dezasete grãos viram outra, a q poseram nome a Nublada (7). Dahi foram a outra q chamam Roca partida (8). A tres dias de Dezêbro acharam hfls baxos de seis ou sete braças de fundo. A vinte & cinco deste mes viram as ylhas q Diogo da Rocha, & Gomez de Sequeira (9), & Aluaro Sayauedra (10) desco- (l| Zarpou no dia 1 de Novembro de 1642 (2) Mactan. (3) Cinco velas que haviam pertencido à armada de Pedro de Alvarado. (íj Ruy Lopez de Villalobos. (5) Pôrto da província de JalLco, denominado de Navidad, de Ciguatlán e Pôrto Santo, a que Villalobos deu o nome de Puerto de Juan Gallego. l«l San Benedito, no grupo Revilla Gigedo (?). (T| A ilha de Socorro, no grupo Revilla Gigedo (?). (8) A ilha do mesmo nome, no grupo Revilla Gigedo. (9) Vide notas 2, a págs 219 e 226, respectivamente. (10) Alvaro de Saavedra Ceron. Vide descrição de sua viagem a págs. 226.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS brirã, poseram nome dos Reis por a ver0 em seu dia. E ao diante acharam outras em dez grãos, todas em roda (»): & da mesma maneira surgirá nelles, & toma- ram agoa & lenha. Neste mesmo ãno de 542 (*) foy desbaratado em Peru dom Diogo dalmagro (J) por Vaca de Castro (*). No anno de 543 em mes de Ianeiro se fezeram aqui à vella com toda a armada, & ouueram vista dal- gftas ylhas, de q sahiram paraos & calaluzes com gête, & traziam nas mãos cruzes, & os saluaram com bõs dias matalotes, de q ficaram marauilhados por se verem de Castella tam alongados, & homês naquella terra cO cruzes, & saudarê nos em liDgoa Espanhol, & tra- ziam diuisa que pareciam sentirem algua cousa da nossa sancta fe catholica, por nam saberem que auia muytos delia que Francisco de Castro por mandado de Antonio Galuam baptizara, bõs lhes chamam as ylhas das Cruzes, & outros dos matalotes (®). Neste mesmo anno de 543, o primeiro de feuereiro °uue Ruy lopez vista daqlla nobre ilha de Mindanao («), em noue grãos daltura, nam pode dobrala, nem surgir como desejaua, porq os Reys Christâos & pouo delia lho defenderam, por terem dado a obediêcia a Anto- nio galuam, q elles muito estimauam, & nam queriam (!) Carolinas. (1) Aos 6 de Setembro de 1547, na batalha de Chupas. (') Filho bastardo de D Diego Almagro. (*) D. Cristóbal Vaca de Castro. (5) A ilha Lamaliork, nas Carolinas. (') Mindanao.
276 ANTÔNIO GALVAO anojalo cinco ou seis Reys q tinham tomado agoa de baptismo. Vendo Ruy lopez ysto, & o vSto contrairo, foy se ao longo da costa buscar alga abrigo, & em quatro ou cinco grãos daltura acharam htta ylha pequena, a q os da terra chamam Saranguam (*): & tomada perforça, em memoria do Viso rey que os la mandaua, poseramlhe nome Antonio, onde esteueram hum anno, socederam lhe cousas dignas de serem escritas, nam me meto antre ellas por serem mais historias que descobrimento. No mesmo anno de 543 em mes Dagosto (*), man- dou ho Geral Ruy lopez a Bernaldo dela torre em hum nauio (s) á noua Espanha dar conta a dõ Antonio de mSdoça o q la passara. Forã ter aa ylha de Syria (4), Gaonata (5), Bisaya (6), & outras Q ahi muytas em onze & doze grãos da parte do Norte, por onde o Magalhães andara, & Francisco de Castro dera saúde perpetua a muytos que por aly se baptizaram, & hos Castelhanos lhe poseram nome as Filipinas (7), em (1) Uma das Sarangani, ao Sul de Mindanao. (íj Aos 26 de Agôsto de 1643. (5) O San Juan. (4) Samar. (6) Uma das Camotas (?). (6) Uma das Bisaias. (1) É geralmente aceite que as Filipinas foram assim bapti- zadas por Rui Lopez de Villalobos. Cumpre porém advertir que êsse facto é omisso nas relações circunstanciadas que daquela viagem escreveram os companheiros de Villalobos, P. Jerónimo de Santies- teban e Garcia Descalante de Alvarado. Do relato do último depreende-se mesmo que a denominação Filipinas era anterior k estada ali de Villalobos.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 277 memoria do príncipe de Castella. Tomaram manti- mento, agoa, & lenha, & se fezeram à vella: foram algõs dias em Léste vento a popa, ate que lhe foy escasseando, & se poseram porto do Tropico de Cancro: em .xxv. do mes de Setêbro virá hõas ylhas, a q poseram nome Mal abrigo (x). E alê delas desco- brirão as duas yrmãas (8): & mais auante quatro, a q chamará os Balcones ('). A dous Doutubro ouuerã vista da Forfana (4): & alem delia ha híl penedo alto, q deita fogo por cinco partes. Hindo assi em .xvj. grãos daltura setecêtas legoas donde partirá segfldo o q lhes pareciã, por nã acharè têpo arribará as ylhas Felipinas, ouueram vista de seis ou sete, mas nam surgirá nellas: acharam em híl archipelego de ylhas bem pouoadas de gente, q estam em quinze ou dezaseis grãos daltura, aluas, bê des- postas molheres mais formosas & atauiadas q ha naquellas partes, com muitas joyas douro, q era sinal auello na terra. Auia tâbê nauios de remo de quarenta & tres couados ê cõprido, duas braças & mea de largo, & o taboado de .v. dedos ê grosso, & diziã q naue- gauâ nelles pa a China, q se la quisessem hir, q lhes dariam pilotos pera ysso, q nam erão mais q cinco ou seis dias de caminho. (') As ilhas Sulphur dag cartas modernas (?). (s) As ilhas Hillsborough das cartas modernas (?). (•) Aliás los Volcanes, ou seja o grupo vulcânico de Bonin. (4) Existe uma ilha dêste nome no Pacífico do Norte, em cêrca de 26° de latitude e em 140" de longitude Leste. É difícil, porém, conciliar a sua latitude elevada com os dizeres de Galvão, motivo por que temos a identificação por duvidosa.
278 Tambê vierft a elles paraos & calaluzes bê laura- dos & guarnecidos: & os seftores vinha assêtados ê alto, & por baxo certos negros de cabello reuolto, como por estado: pergiltando dõde os ouuerã? Res- põderam q de hflas ylhas. Iunto de Sebuemantam (*) auia muitos, de q se os Castelhanos marauilhauam, porq dali a mais de trezentas legoas, nam auia gentes pretas, por onde parece q nam sam naturaes da Clima, se nam ha os em manchas pella redondeza, como qualqr outra casta: porque assi os ha nas ylhas de Nicober (*) & Andamam, que estam no golfam de Bengala, & dali a quinhentas legoas nam sabemos gentes pretas. Valboa também conta que hindo des- oobrir ho mar da outra banda do Sul, que em híla certa terra que se chama Cauça (8), achou gente preta de cabello frisado, nam os auendo em toda a Noua Espanha, nem em Castella do ouro, nem nas terras do Peru, aque elles chamam Noua Castella. No anno de 544 mandou dom Guterre de Vargas, Bispo de Plazencia, híla armada da cidade de Seui- lha ao estreyto do Magalhães, & diziam q por conse- lho do Viso rey dom Antonio de mêdoça seu cunhado: algús sospeitam se hiriam a Maluco, outros á China, outros qrem dizer q fossem a mais q a descobrirem terra q há do estreito á terra do Peru, da outra banda do Chily: por dizerem q auia la muyto ouro & prata, q cedo os enriqueceria. Mas esta armada dizem q (l) Aliás junto das ilhas de Cebu e Mactan. (*) A ilha de Nicobar. t») La Chorrera (?).
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 279 teue ventura contraíra, porque nam passou á outra banda do estreito senam ha galeão q seguio a costa ao longo da terra sobre a mão dereita, & descobrio toda ate Chirimay (x) a q auera quinhentas legoas, q a outra era ja descuberta por Diogo Dalmagro, & Fran- cisco piçarro, & seus capitães, & gentes em diuersas vezes & segúdo isto tudo he descuberto do estreito de Magalhães ate a linha de htta parte & de outra. No anno de 545 em mes de Ianeyro, chegou Ruy lopez de Vilhalobos geral dos Castelhanos, á ylha do Moro (8) & cidade de Samofo (s): foy bem recebido dos Reis de Geilolo, & Tidore, & gente da terra (4): por Antonio galuam ser ja partido, q deu assaz de trabalho ao capitam dom Jorge de Castro, segúdo parece que lhe socedeo, & aos Portugueses que cõ elle estauam, & muyto gasto à fortaleza. No mesmo ãno de 545 tornou mandar Ruy lopez de Vilhalobos da ylha de Tidore, onde ja estaua da parte do Sul outro nauio pera a Noua Espanha, capi- tam delle Ynhigo ortiz de Roda, piloto Gaspar Rico, (1) Arequipa (?). (*) A ilha de Marotai, ao Norte de Gilolo. V®) Carnaf (t). (<) Segundo Gaspar Correia. Villalobos aportou a Mindanao, onde foi mal recebido dos indígenas, porque tilas genlei erâo nonos amigot (dos portugueses). Os Íncolas queixaram-se a D. Jorge de Castro, que pediu instruções ao Governador da índia, Martim Afonso de Sousa. Este mandou que Fernão de Sousa de Tavares fôsse apri- sionar os espanhóis, o que fie não fee, porque chegando lá, o» caste- lhanos eram já casy iodos mortos... porque na ilha em que estavam morriam todos à fome.
280 ANTÔNIO GALVAO natural Dalmada: foram ter aa costa dos Papuas, correram na toda, & como nam sabiam q por ali andara Sayauedra, adquiriram assi esta honra & des- cobrimêto, por a gente ser preta & de cabelo reuolto, poseram lhe nome noua Guinea, por ser ja perdida a memoria de Sayauedra, q assi faz tudo o que nam alumeá a escriptura. No anno de 545 em mes de Iunho, partio hum junco da cidade de Borneo, em que hia hQ Português que se chamaua Pero fidalgo, arribaram com têpo contrairo, ao norte acharam húa ylha de noue ou dez grãos, ate vinte e dous daltura, a que chamam dos Lucões (x), por assi auerê nome os habitadores delia, pode ter outros, & assi seus portos q indagora nam sabemos. Corre se de Nordeste a Sudoeste: jaz antre Mindanao & a China, diz q foram ao longo delia dozentas & cin- quêta legoas, em q a terra era fresca & bê assombrada, & contam q dam a li dous pesos douro por hum de prata, ainda <} he muy vezinha da terra da China. No anno de 1550 (*) em Inglaterra se fez hfla (1) A ilha de Luzon, nas Filipinas. (*) Foi em Maio de 1553 que esta armada largou, a instâncias de Sebastião Caboto, com o objectivo de demandar a China pelo Nordeste. Levava por capitão-mor e piloto-mor, respectivamente, Sir Hugh Willoughby e Richard Chanceller, cujos nomes Galvão, ou o seu copista, estropia em Richarte Trebuli e Gevelouz. A capitânia naufragou na costa da Lapónia, morrendo tôda a tripulação. Mais feliz, Richard Chanceller alcançou o Mar Branco. Deixando a sua nau em Arcângel, prosseguiu por terra até Moscovo, onde teve bom acolhimento do czar Ivan IV, o terrível, com quem tratou de desenvolver as relações comerciais entre os respectivos países. Regressou depois a Inglaterra.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 281 armada, & segundo parece foy ao norte ao longo da costa de Gotea: & dahi ao Leuante, porq o caminho q fezeram, & altura em q se poseram, aindagora nam ha certeza, somente ver híla carta do gram Duque de Mascouia, em q declaraua q chegara a seu porto híla Nao Dinglaterra, de q era capitam Richarte Trebuli (x), q lhe mandara por hum Ingres q se dizia Geueloux (*), híla carta dei Rey em q lhe pedia q seus vassalos podessem hir & vir, & tratar em sua terra, elle dera saluo conduto & licença. Esta Mascouia segundo sua descripção mostra, de sessenta grãos pera setenta. Os outros nauios nam sey q fim ouueram, somente ser este derradeiro descobrimento a q ate esta era feyto era: & desta terra de Mascouia pera o Leuante vay a Tartaria, & na fim delia aa prouincia da China, q dizem ter hú muro de mais de dozentas legoas (3), antre híla & a outra perto de cincoenta grãos daltura. O que disto tenho alcançado he ser a redõdeza de trezentos & sessenta grãos, segíído sua geometria, a q deram os antiguos dezasete legoas & moa, em q se montam seis mil & trezentas, os modernos põe o grao em .xvj. & dous terços por virem seis mil legoas. Com tudo eu tenho q sam dezasete largas, em q saem o âmbito da terra en seis mil & dozentas. Como
282 ANTÔNIO GALVAO seja toda he descuberta & nauegada de Léste oeste, quasi por onde o sol anda, mas de Sul ao norte ha muita deferença, porq contra elle nam se acha mais descuberto, q ate setenta & sete, ou setenta & oito grãos daltura, em 3 se montam mil & trezêtas & tan- tas legoas. E da parte do Sul ate nouecentas, por ser descuberto cincoêta & dous, ou cincoenta & tres grãos, que o estreito por onde o Magalhães passara, juntas todas fazê em soma duas mil & dozentas, tiradas de seis mil & dozentas, ficam por descobrir quatro mil legoas. L A Y S D E O .
A louuor de Deos, & da gloriosa Virgem Maria, se acabou o liuro dos descobrimentos das Antilhas & índia. Imprimio se em casa de Ioham da Barreira, impressor dei Rey nosso senhor. Aos quinze de Dezembro. De mil & Quinhêtos & sessenta & tres An- nos
Tratado dos Descobrimentos VERSÃO ACTUALIZADA
[DE] FRANCISCO DE SOUSA TAVARES, AO ILUSTRÍSSIMO SENHOR D. JOÀO DE LENCASTRE, DUQUE DE AVEIRO. ^EIXANDO-ME António Galvão, que Deus tem, por seu testamenteiro, achei, entre outros seus papéis, êste caderno; 6, porque sou certo que êle o ordenou para o apresentar a vossa ilustríssima senhoria, quis ao menos nisto sòmente cumprir sua vontade, pois em seu testamento não tenho cumprido nenhuma coisa, não por minha culpa. Com razão havia êste *Tratado* de ser de pessoa portuguesa, pois é da matéria dos caminhos desvairados, por onde a pimenta e especia- ria veio nos tempos passados às nossas partes; e assim de tôdas as navegações e descobrimentos antigos e modernos. Em ambas estas duas coisas os portugueses têm feito muita vantagem aos passados. Em êste «Tratado» com nove ou dez livros das coisas de Maluco e da índia, que o Cardial me man- dou dar a Damião de Góis, dizendo que mo satisfaria (que doutra maneira eu não lhos podia dar), se ocupou êste verdadeiro português contra os infortunados e tristes tempos em que se via (como tudo passou ante nossos olhos e tempo). Porque, entregando-lhe a capi- tania e fortaleza de Maluco, com todos os reis e
288 ANTÓNIO GALVAO senhores de tôdas as ilhas juntos e conformes a fazer guerra aos portugueses, até os deitar de todo fora da terra, pelejou com todos êles com só cento e trinta portugueses, estando todos juntos e fortes em Tidore, e os desbaratou e matou a el-Rei, e ao Ternate, prin- cipal autor da guerra, e lhes tomou a fortaleza. Com a qual vitória logo se renderam e vieram à obediência e serviço de el-Rei nosso senhor. Duas coisas sucederam aqui de grande admiração: a primeira, serem todos os reis e senhores de Maluco juntos e conformes contra nós (coisa que nunca acon- teceu, nem se crê que possa acontecer, por quão dife- rentes sempre são entre si); a segunda, o capitão de Maluco, com só a gente ordinária, haver vitória de todos êles juntos, que por vezes aconteceu que alguns capitães de Maluco, com muita gente extraordinária, além da sua ordinária, e com todos os reis e senhores de Maluco em seu favor e ajuda, foram sôbre um só rei dêles, e vieram de lá com muita quebra. Que se pode dizer, que três feitos grandes se fizeram na índia, digo em qualidade (que de mais importância e de maior quantidade houve outros), os quais são a tomada de Muar por Manuel Falcão, a de Bintão por Pedro Mascarenhas, e este de que tratamos, porque todos estes três feitos parecia impossível haverem os capi- tães vitórias com a gente com que os cometeram, e com a ordem ou modo que todos cuidavam por onde a coisa se havia de cometer, assim dos amigos como dos inimigos. E não se acabaram por outra nenhuma coisa, senão porque os capitães os cometeram por lugar e ordem, que nem dos portugueses, nem dos
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 289 mesmos inimigos, foi nunca cuidado nem pensado. E além disto, sendo seu pai e quatro irmãos seus todos mortos em serviço de el-Rei, e sendo êle já o derradeiro de sua linhagem, e levando consigo fazenda a Maluco que valia dez mil cruzados, de contratos que com partes fêz, e empréstimos e ordenados que lhe pagaram, tudo empregou em Dio, e os gastou não em jogos nem em outros maus modos, senão só em trazer muitos reis e inumeráveis povos à nossa santa fé, como em seu tempo fêz, na guerra, em conservar Maluco, em trabalhar e pôr tôdas suas forças para que todo o cravo viesse à mão de Sua Alteza, com que Maluco lhe renderia cada ano mais de quinhentos mil cruzados, e sendo tudo em grande prejuízo seu, porque fazendo cravo para si, como fizeram e fazem todos os capitães de Maluco, viera muito rico. Oh grão fraqueza da nossa natureza humana, que vindo êle a Portugal com grande confiança de que pelo que tinha feito havia de ser mais favorecido e honrado que se trouxera cem mil cruzados, se achou muito enganado, porque nêle não achou outro favor ou honra, senão o dos pobres miseráveis, quero dizer, o do hospital, onde o tiveram dezassete anos, até que nêle morreu, e dêle lhe deram o lençol para o amor- talhar ; e a confraria da côrte, como a cortesão pobre e desamparado, lhe fêz o enterramento, deixando dois mil cruzados de dívidas, parte que trouxe da índia, e parte que muitos de seus amigos lhe emprestaram para se manter no hospital. Porque em tôdos êstes dezassete anos nunca de Sua Alteza, para se remediar, houve um só real, nem eu dos livros que dei, nem 19
290 para desencarrcgar sua alma. Contudo, assim como com as prosperidades das vitórias nunca se ensober- beceu, assim nem com as adversidades seu grande ânimo se diminuiu nem abaixou, como é boa prova que, com tamanhos e com tão contínuos desprezos como padeceu, nunca até a hora de sua morte deixou de requerer e [de] importunar por um conto de renda cada ano. O que alguns estranhavam, não olhando a que, assim como êle foi extremo no cometer e [no] servir (de maneira que veio ao estado em que se viu), assim o era no que lhe parecia que seus serviços mereciam. Porque não podia ver a qualidade do tempo, senão a de seus serviços, pelo muito que lhe custaram. E dizia que não era nascido [senão] para dizer que sua estrêla era na guerra vencer os reis inimigos com a arte de pelejar, presteza de concluir, prudência no conservar, e ao seu rei e senhor [obedecer] com mui- tos serviços e grande lealdade e paciência; e de qual delas tinha mais contentamento, se não sabia deter- minar. Pelo que vossa ilustríssima senhoria pode ver que êste *Tratado», e os outros, foram feitos de sus- piros e aflições de ânimo afligido que, forçadamente, contra a parte superior a inferior lha havia de dar, não querendo tomar por remédio o que tomava aquêle Grão Turco Zizimo, (filho do grande Maomé [II] que tomou Constantinopla) [qu]e morreu em Roma, e que se embebedava para não se lembrar do grande estado que perdera nem [d]o que muitos de seus amigos lhe davam, dizendo que se pusesse fora do reino, que de outra maneira não teria vida. Aos quais respondia, que nesta parte mais queria ser comparado ao grande
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 291 Temístocles, ateniense, do que ao excelente romano Coriolano. O que é um grande exemplo de lealdade portuguesa, posto que (não sei como o diga) também o é que dos leais estão cheios os hospitais. Pelo que com razão êste
DESCOBRIMENTOS EM DIVERSOS ANOS E TEMPOS, E QUEM FORAM OS PRIMEIROS QUE NAVEGARAM. Querendo ajuntar alguns descobrimentos antigos e modernos, que por mar e terra são feitos, com suas eras e alturas, como são duas coisas tão dificultosas, achei-me tão confuso com os auto- res dêles, que determinei desistir de tal propósito. Porque os hebreus dizem que da criação do mundo ao dilúvio houve 1656 anos, os setenta intérpre- tes 2242, e Santo Agostinho 2260 e tantos. E, assim, nas alturas há muitas diferenças: porque nunca se ajuntaram numa armada de dez a cem pilotos, que não estivessem uns numa altura e outros em outra. Mas, para ser emendado de outros que melhor o entendam, me dispus a fazer isto, ainda que alguns digam que o mundo já foi descoberto, e possam ale- gar para isso que, assim como foi povoado, podia ser freqflentado e navegado; e mais, sendo os homens daquela idade de vidas mais compridas, [e de] leis [e de] linguagens quási tôdas umas. Outros têm disto o [juízo] contrário, [por] que dizem que não podia a terra ser tôda sabida e a gente comunicada uma com
294 ANTÓNIO GALVAO a outra, porque, quando [o] fôsse, se perderia pela malícia e sem justiça dos habitadores dela. E porque os maiores e mais compridos descobri- mentos foram feitos por mar, principalmente em nos- sos tempos, desejei saber quais foram os primeiros inventores disto, depois do dilúvio. Escrevem uns que os gregos, dizem outros que os fenícios, outros querem que os egípcios, [mas os] índios não consentem nisso, dizendo que êles foram os primeiros que navegaram, principalmente os taibencos, aos quais agora chama- mos chins; e alegam para isso serem já senhores da índia até o Cabo da Boa-Esperança e [d]a Ilha de S. Lourenço, por ser povoada dêles ao longo da praia, e [d]os jaus, timores, celebes, macassares, malucos, borneus, mindanaus, luções, léquios, japões, e [de] outras ilhas ([por]que há aí muitas), e das terras fir- mes dos conchinchinas, laus, siamês, bremas, pegus, arracões, até Bengala; e, além disto, [d]a Nova-Espa- nha, Peru, Brasil, Antilhas, e [de] outras conjuntas a elas, como se parece nas feições dos homens [e das] mulheres, e [nos] seus costumes: olhos pequenos, narizes rombos, e outras proporções que lhe vemos. E [por] chamarem ainda agora a muitas destas ilhas, e terras Batochinas, Bocochinas, que querem dizer terras da China. Além disto, os nossos escritores deixaram escrito que a Arca de Noé se assentara da parte do Norte nos montes da Arménia, que está de quarenta graus para cima, e que logo dali fora a Citia povoada, por ser terra alta, e primeiro das águas descoberta. E como a província de Taibencos seja uma das principais da
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 295 Tartária (se é assim como dizem), bem se mostra serem êles dos mais antigos povoadores e navegadores, pois nêles se acaba aquela terra [da Tartária] da parte do Levante, e os mares são [ali] tão bons de navegar como os rios destas partes, por jazerem entre os tró- picos, onde os dias e as noites não fazem muita dife- rença, assim nas horas como na quentura. Por onde não há ventos tão destemperados que levantem as águas nem as façam soberbas, e por experiência o vemos nos pequenos barcos em que navegavam, com um ramo por mastro e vela; e [com] um rêmo na mão com que governam, correm muito mar e costa; e assim em uns paus a que chamam catamarões, em que se escancham ou assentam e vão com outro [pau] remando. E querem ainda que êstes chins fossem senhores da maior parte da Cítia, e que navegassem tôda sua costa, que parece estar até setenta graus da parte norte. Cornélio Nepos, referido, assim no-lo aprova, onde diz que Metelo, colega de Afrânio, estando por cônsul em França, lhe mandara o Rei de Suévia, cer- tos índios, que vieram em uma nau, com mercadorias de sua terra, pela parte do Norte, às praias da Ale- manha ; e, segundo isto, devia ser da China [que vie- ram], por estar de vinte, trinta, quarenta graus para cima, e terem [os seus habitantes] naus fortes e de pregadura que podiam sofrer mares e terras tão frias e destemperadas como aquelas; que as naus de Cam- baia, que também dizem haver muitos anos que no mar andam, não parecem [adequadas] para isso, por serem cosidas de cairo e os homens [que as tripulam] de pouco trabalho e vestido.
296 ANTÓNIO GALVAO Também os que escaparam do dilúvio ficaram tão assombrados que não ousaram descer às [terras] baixas. Membrote, depois dêle cento e trinta anos, fêz a Tôrre de Babilónia, com intenção de se salvar nela, vindo outra cheia. Pelo que parece que os que mais cedo ao mar chegaram, ora fôssem os que iam ao Levante e província da China, ora os que viessem ao Poente, ao fim da Síria, aquêles que primeiro ali povoassem seriam os que navegassem. O mais deixo aos sírios e egípcios, que tiveram grandes debates sôbre isso; porque todos querem adquirir a si esta honra, e eu [quero] vir ao ponto do que os nossos antepassados deixaram escrito. Aquêles que de antiguidades se prezaram, dizem que, no ano de 143 depois do dilúvio, viera Túbal por mar a Espanha; por onde parece que já naquele tempo se navegava a nossa Etiópia. E êstes mesmos contam que, depois disto, não muito tempo, a rainha Semíramis fôra contra os índios; e naquele rio, de que êles tomaram o apelido, dera batalha ao rei Stabrobatis, na qual êle perdera mil navios; por onde parece que naquelas partes havia muitos, e muitos anos que se navegava. No ano de 650 depois do dilúvio, houve um rei em Espanha, que se chamou Hispalo, em cujo tempo [se] diz que foi descoberto até o Cabo Verde, e querem alguns dizer que [até] a própria ilha de S. Tomé e Príncipe. E [pretende] Gonçalo Fernandes de Oviedo, o qual fêz as crónicas das Antilhas, que neste tempo houvesse ilhas já descobertas, e do nome dêste rei se chamassem Hespéridas; e alega muitas razões para
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 297 isso, [das quais] aquêles quarenta dias que navegavam do Cabo Verde a estas ilhas. Mas outros querem dizer que o mesmo se fazia dêste Cabo à ilha de S. Tomé e Príncipe, [por] que estas são as Hespéridas e não as Ántilhas. E não se apartam muito da razão, pois naquele tempo, e muitos anos depois, se navegou mais ao longo da terra do que pelo mar Oceano [Atlântico]; [porque] nem havia altura, nem agulha, nem a gente do mar podia ser tão esperta. Segundo a opinião dos que escreveram, não se pode negar que houve muitas terras, ilhas, cabos, istmos, angras, enseadas, que os tempos e as águas terão gasto e apartado umas das outras, assim na Europa como em África, Ásia, Nova-Espanha, Peru, e [que] outras são descobertas e estão ocultas pela contínua diferença que tem a umidade da água com a sequidão da terra. Diz Platão, em os Diálogos de Timeu Ecli8io, que houve antigamente no mar Oceano Atlântico grandes ilhas e terras chamadas Atlântidas, maiores [do] que África e Europa, e que os reis daquela terra senhorearam muita parte desta nossa; e com grande tormenta se fundiu com tudo o que tinha, e ficou tanto lôdo e cascalho, que se não pôde por ali navegar muito tempo. E também escreveram que, junto da ilha de Cádis, contra o Estreito, havia umas ilhas que se chamavam Afrodísias, bem povoa- das e freqQentadas, com muitos jardins, pomares e hortas, de que já agora não temos outra memória se não o que a escritura representa. [DJa mesma ilha de Cádis se afirma ser tamanha que se juntava à terra de Espanha, e que as ilhas dos
298 Açores era[m] uma ponta das serras da Estrêla, que se mete no mar, na vila de Sintra. E, [aflrma-se tam- bém] que a Serra Verde, que se mete na água, junto da cidade de Safi, em Turococu, é a própria de Mon- chique, do Algarve, e que nestas rebentam as ilhas do Pôrto-Santo e a Madeira, porque dizem que tôdas as ilhas têm as raízes na terra firme, por muito apar- tadas que estejam dela, [por] que de outra maneira não se susteria[m]. Outros querem que de Espanha a Ceuta se passasse por terra, e que as ilhas da Sardenha e de Córsega se juntassem uma com a outra, Sicília com Itália, Negroponte com a Grécia. Contam ainda que acharam cascos de naus e âncoras de ferro nas mon- tanhas da Suíça, muito metidas pela terra, onde parece que nunca houve mar nem água salgada. Dizem também que na índia e [na] terra do Mala- bar. que é tamanha e tão povoada, foi já tudo mar até o pé da Serra; e que o cabo de Comorim e a ilha de Ceilão era tudo a mesma coisa; e [que] a ilha de Sama- tra fôra pegada com a terra Malaca por uns baixos de Capásia, e [que] junto dela está uma ilheta que não há muito que ela e a terra firme tudo era a mesma coisa. Ptolomeu em suas Tábuas põe esta terra de Malaca ao Sul da linha [do Equador] em três ou quatro graus da altura, ficando agora o ponta dela [i. é, da terra de Malaca], que se chama Ujantana, em um grau da banda do Norte (como se vê no estreito de Singapura), [por] onde cada dia [as naus] passam para a costa de Sião e [da] China, onde está a ilha de Ainâo, a qual também dizem que foi junta com a terra da China (que Ptolomeu assenta da parte do Norte, muito além
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 299 da Linha, ficando agora mais de vinte graus dela [i. é, da Linha] da parte do Norte) de maneira que, tanto à Ásia como a Europa, ambas agora estão desta banda [do Norte]. Bem podia ser que, nos tempos passados, as ter- ras de Malaca e China fôssem acabar além da Linha, da banda do Sul, como Ptolomeu as pinta, porque pegaria a ponta da terra de Ujuntana com as ilhas de Bintão, Banca, e Selayat, que há por ali muitas, e seria a terra tôda maciça. [Da mesma forma] a ponta da China, [pegaria] com as ilhas dos luções, bornéus, léquios, mindanaus, e outras que jazem nesta corda, [pois ainda agora] se tem por opinião que a ilha de Samatra foi pegada com a Java pelo canal de Sunda; e a[s] ilha[s] de Bali, Lomboc, Sumbava, Solor, Lom- blim, Ombai, Veta, Rolang, e outras que há nesta corda e alturas, tôdas foram pegadas com a Java e a terra uma. E assim o parece a quem as vê de fora porque, ainda agora, há nestas partes ilhas tão juntas umas com as outras, que parece tudo uma coisa. E quem passa por entre elas vai tocando com a mão os ramos do arvoredo de uma banda e da outra. E não há muito tempo que ao levante das ilhas de Banda se fundiram muitas; e também dizem agora que na China se alagaram mais de sessenta léguas de terra; pelo que se não deve haver por muito [exage- rado] o que Ptolomeu e outros antigos deixaram escrito, que também eu deixo por tornar a meu propósito. Diz[em] que 800 anos depois do dilúvio foi fun- dada a cidade de Tróia pelos dardanos; e que, antes
300 ANTÓNIO GALVAO disto, [se] traziam das índias à Europa, pelo Mar Roxo, especiarias, drogas, e outras muitas e diversas merca- dorias que, naquele tempo, lá havia mais [do] que agora. E se isto foi assim bem se pode dar crédito que havia muito tempo que os mares se navegavam, pois naquêle [tempo] tinha tanto comércio o Levante com o Poente, que se traziam estas mercadorias a um pôrto que se chamava Arsinoé; o qual querem alguns dizer que seja aquêle que agora dizemos Suez, que está em trinta graus da parte do Norte, neste Estreito Arábico. Declaram mais os escritores que, deste pôrto de Arsinoé, Suez (ou como lhe quiserdes chamar) tra- ziam estas mercadorias em caravanas de camelos, asnos e azêmolas, ao Mar do Levante, a uma cidade que está nêle em trinta e dois graus de altura, que se chama Gaza. Haverá por aqui, de um mar a outro, trinta e cinco léguas, dando a cada grau dezas- sete e meia, como se costumava. Por ser a terra quente e de areia, não andavam [os mercadores] senão de noite, governando-se por estrêlas, de que tinham conhecimento, e por balisas de paus e canas que na terra tinham metidas. E diz-se que vendo que esta estrada não era tal como êles desejavam, duas vezes a mudaram. Novecentos anos pouco mais ou menos depois do dilúvio, antes da destruição de Tróia, houve um rei no Egipto, que se chamou Sesóstris, o qual vendo que êstes caminhos e deligências que eram feitos, não escusavam muitos custos, homens, bêstas, carregas e descarregas, determinou fazer uma vala do Mar Ver-
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 301 melho a um braço do rio Nilo, que vai ter à cidade de Seroum, por onde as naus pudessem ir e vir com as mercadorias das índias à Europa, sem serem tira- das nem descarregadas até Itália. E, por isso, foi êste o primeiro rei do Egipto que mandou fazer carracas grandes para êste caminho, o qual não teve efeito porque, se o tivera, ficava a África em uma ilha, tôda rodeada de água, por não ter mais de vinte léguas êste istmo de terra. Dizem que, neste meio tempo, os gregos fizeram uma armada que chamam dos Argonautas, e iam por Capitães dela Jasão e Alceu. Querem uns que partissem da ilha de Creta, outros da Grécia; como quer que seja, foram pelo Mar Pôntico e braço de S. Jorge ao Mar Negro, onde se perderam. Jasão tornou à Grécia, [e] diz[-se] que Alceu, com tormenta, foi ter ao Mar de Tana, onde [o seu navio] se desfez de todo; e os que escaparam com muito trabalho, atravessaram por terra ao mar oceano da Alemanha, onde se embarca- ram, e pela costa da Saxónia, Frísia, Holanda, Flan- dres, França, Espanha, Itália, tornaram a[o] Peloponeso ou Moreia e [à] Grécia, até à província da Trácia, dei- xando descoberto, por costa, a maior parte da Europa. Estrabão, citando Aristonico, diz que, depois da destruição de Tróia, o rei Menelau saiu do Estreito [de Gibraltar] e Mar do Levante, ao Atlântico e costa de África e Guiné; dobrou o Cabo da Boa-Esperança e, em certo tempo, foi ter à índia. Disto se pode tomar aos autores mais estreita conta. Êste Mar Medi- terrâneo também se chamou Adriático, Egeu, Hercúleo e outros nomes, segundo as terras, costas e ilhas
302 ANTÔNIO GALVAO que banha até o mar grande Atlântico e costa de África. No ano de 1300 depois do dilúvio, mandou Salo- mão fazer uma armada no mar do Mar Roxo que se chamava Elath, para ir a levante da índia, onde dizem estar aquela ilha e terra a que chamavam Tárcis e Ofir, e que puseram três anos nêste caminho, donde trouxeram muito ouro, prata, ciprestes [e] pinho. Pelo que parece que aquelas terras e ilhas deviam ser as que agora chamam Luções, Léquios e Chinas, porque não sabemos haver em outras partes de lá, prata, ciprestes, pinhos, nem navegação de tantos anos. Também os passados deixaram escrito que houve um rei no Egipto, chamado Necho, que desejou muito juntar o Mar Roxo com o rio Nilo, e mandou aos fení- cios que navegassem deste estreito de Meca até o fim do Mar Mediterrâneo, para ver se tornavam ao Egipto. Êles assim o fizeram, indo ao Sul, ao longo da costa e terra de Melinde, Quíloa, Sofala, até o Cabo da Boa- -Esperança, ficando-lhe sempre o sol à mão esquerda; mas, dobrando êste Cabo, e vendo o sol à mão direita, espantaram-se muito. Contudo, fizeram ao Norte seu caminho, pela costa da Guiné e Mar Mediterrâneo, até tornar[em] ao Egipto, donde partiram. E puseram dois anos neste descobrimento. Querem alguns que fossem [êles] os primeiros que o fizessem e [que] andassem a costa da África tôda em roda. No ano de 590 antes da Encarnação de Cristo, partiu de Espanha uma armada de mercadores carta- gineses, feita à sua custa, e foi contra o Ocidente, por êste mar grande [Atlântico], ver se achavam alguma
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 303 terra. Dizem que foram dar nela, e que é aquela que agora chamamos Antilhas o Nova-Espanha, que Gon- çalo Fernandes de Oviedo quere que neste tempo fôsse já descoberta, ainda que Cristóvão Colombo nos deu dela mais vera certeza. E todos os que escreve- ram, quando falam em coisa duvidosa e terra não des- coberta, logo acodem com esta da Nova-Espanha. Dizem que no ano de 520 antes do nascimento de Cristo, Cambises, rei da Pérsia, tomou o Egipto, ao qual [Cambises] sucedeu Dario, filho de Ristassis, [que] determinou de dar fim à emprêsa que o Rei Sesóstris começara, [o que levaria a efeito] se lhe não fizessem certo que o Mar Eritreu era mais alto que a terra do Egipto, e [que] chegando a água salgada ao rio Nilo, perder-se-ia esta província à fome e sêde, porque dêle se rega, e os moradores e gados não bebem outra água, pelo que deixou de haver fim esta obra. Ainda que um pouco me aparte do propósito, não deixarei de ir tocando em algumas coisas em que vou falando, por dar repouso a tão largo caminho. Tinham os egípcios [por opinião], que em sua terra se criava a geração humana, e que ainda agora nas- cem nela uns bichos tamanhos como ratos, e [que] se vêem muitos, meio torrão e meio bicho, até de todo se despedirem da terra f1). Cuido que são êstes que quebram os ovos aos lagartos, [de] que há muitos no rio Nilo, a que também chamam crocodilos. E querem (!) Trecho confuso que não logramos interpretar convenien- temente.
304 ANTÔNIO GALVAO ainda que, em tempos passados, fossem encantados, [pelo que] não faziam mal a nenhuma pessoa; mas depois de desfazerem sua figura de chumbo, com suas letras egipcias, tornaram a matar a gente, alimá- rias, gados, e [a] fazer muito dano, principalmente os que saem da água e se vão pela terra dentro, são muito mais peçonhentos [do] que os que ficam no Nilo. Estes pescam [-nos] da cidade do Cairo para baixo, comem [-nos] e põem as cabeças pelo muro. Também se escreve que êstes lagartos se deitam na areia ao longo da ribeira, com a bôca aberta, e que vêm umas aves brancas, pouco maiores que mélroas, e se metem dentro e comem aquela sujidade que têm entre os dentes e as gengivas, com que [êles] folgam muito; mas, contudo, cerram a bôca para as comerem, o que fariam se a natureza as não provera de um ossinho agudo que têm na cabeça, com que os picam no céu da bôca, de maneira que a abrem e o pássaro se vai embora; mas logo vêm outros que acabam de limpar-lha. Também há nesta ribeira mui- tos cavalos-marinhos e na terra quantidade de cego- nhas que têm guerra com as serpentes que ali vêm da Arábia, e matam muitas delas, e assim estas cego- nhas, como os bichos que comem ovos dos lagartos, são dos egípcios muitos venerados. No ano de 485, antes da encarnação de Cristo, diz [-se] que o Rei Xerxes mandou a Sataspis, seu sobrinho, descobrir a índia, o qual saiu pelo estreito de Gibraltar fora, que está em trinta e seis graus da parte do Norte, e passou o promontório de Africa, que é aquêle que agora chamamos Cabo da Boa-Espe-
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 305 rança, que está da parte do Sul em trinta e quatro para trinta e cinco graus de altura. E, enfadado de tão grande navegação, se tornou, como Bartolomeu Dias em nossos tempos fêz. Quatrocentos e quarenta anos antes do Salvador [ter] vindo ao mundo, Himilcon e Hanon, seu irmão, capitães cartagineses, governando a Andaluzia, parti- ram dela cada um com sua armada. Himilcon, contra o Norte, descobriu a costa de Espanha, França, Flan- dres e Alemanha, e querem alguns que a Gótica, e que chegasse à ilha de Tule, na Islândia, que está debaixo do circulo ártico em sessenta e seis graus do Norte; e puseram nisto dois anos na viagem, até che- garem a esta ilha, que tem os dias de Junho de vinte e duas horas e as noites de Dezembro de outro tanto, pelo que é frigidíssima. Parece que bradam e gemem os homens nela, por onde dizem que ali é o Purgató- rio de S. Patrício. Tem esta ilha [da Islândia] três montes, que deitam fogo pelo pé, e em cima estão nevados; e, em um destes, que se chama Eela, é o fogo tão brando [de uma parte], que não queima a estopa, e por outra parte tem tanta força que arde na água, e consome-a tôda. E dizem também que há nesta ilha duas fontes, uma como cera derretida, e outra que sempre ferve, e tôda a coisa que lhe deitam dentro se converte em pedra, ficando era sua própria figura. Há mais nesta ilha ursos, raposas, lebres, corvos, falcões, e outras aves e alimárias bravas; e é tanta a erva que a cegam duas vezes, para que os gados pasçam; e muitas vezes os tiram dela para que não arrebentem de gor- 20
306 ANTÔNIO GALVAO dura. Há aí mui grandes e disformes pescados, e tanto que põem mêdo aos navegantes, e de seus ossos e costas fizeram uma igreja. Não há ai pão, vinho, azeite, nem de que o façam; alumiam-se com o do pescado, porque em tôda a parte provê a divina majestade. O capitão Hanon tomou na mão a costa de África e Guiné, e dizem que descobriu as Ilhas Bem-Afortu- nadas, que agora chamamos Canárias e, além delas, outras que dizem de Órcadas, Hespéridas e as Górgo- das, que agora se chamam de Cabo-Verde; e foi assim ao longo da costa, até dobrar o Cabo da Boa-Espe- rança; e, tomando na mão a terra, foi, ao longo dela, a outro cabo que se chama Aromático, e agora de Guardafui, que está leste-oeste com o [Cabo-]Verde, em catorze graus da parte do Norte, e que chegou à costa da Arábia, que está em dezasseis e dezassete e pusera [neste descobrimento] cinco anos até tornar à Espanha. Querem outros que [êle] não passasse da Serra Leoa e que Públio, depois dêle, descobrisse até a Linha. Mas parece que [êste, i. é, Públio?] não faria tão comprida navegação, pois gastou [tão pouco?] tempo neste trabalho. Contam alguns agora que os habitan- tes desta costa do Cabo da Boa-Esperança são grandes feiticeiros, encantadores, principalmente de cobras; e trazem-nas tanto a seu mando, que lhes guardam as sementeiras, hortas, pomares e suas granjarias, assim de ladrões como de alimárias; e se vêem alguns fazer dano, cingem-se com êle[s], têm-nos presos, mandam os filhos chamar seus amos, e entregam-nos; e se a
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 307 gente é muita, ou alimária poderosa com que se não atrevem, vão-se à casa daquele com que vivem, e, se ó de noite, dão tantos assobios e chilros, até que os acordam para ir defender o que lhes entregaram Alvise Cadamosto, italiano, escreve que se achou no descobrimento da Guiné, no Reino de Budomel, em casa de Bisboror, seu neto; e, jazendo na cama, ouviu grandes silvos em redor da casa, [com os quais] Bis- boror se levantara da cama e saíra pela porta fora; e, quando tornara, [Cadamosto] lhe preguntara donde vinha, contou-lhe como acudira às cobras que o cha- maram. O que se não deve de haver por excessivo, porque na índia há muitas e mui peçonhentas; tra- zem-nas em redor do pescoço e metem-nas pelos peitos; [elas] saem-lhes pelos braços, bailam com o som que lhes fazem, e [fazem] o mais que lhe mandam. Da mesma forma me disseram alguns portugueses que andaram por aquela costa do Cabo da Boa-Espe- rança para Sofala, Quíloa e Melinde, que havia certos pássaros [a cujo chamado] acudiam os negros; e, quando [aquêles] os viam, mudavam-se de uma árvore para outra. Os cafres seguiam-nos até que [êles] se punham em alguma [árvore], donde se não mudavam; e, em olhando os negros para cima, viam mel e cera; subiam a tomá-lo, e o pássaro ficava ali. Não me sou- beram dizer se isso era natural, se o faziam por terefm] dali mantença. Também afirmavam que debaixo da terra, em formigueiros, se achava muito mel e cera, que as formigas faziam um pouco agro. Diziam mais que nesta costa havia grandes pescados que andavam
308 ANTÔNIO GALVAO o mais do tempo na água, direitos, e tinham rostos e naturas de mulheres, com que os pescadores se desen- fadavam quando os tomavam; e, se os vendiam, davam* -lhe juramento se dormiram com elas; e, so o não fizeram, então lhas compravam, e de outra maneira não lhes davam por elas nenhuma coisa. Diz[em] que no ano de 535 antes de Cristo, navegavam os espanhóis por todo o Mare Magnum, até chegarem às praias das índias, Arábia e suas costas, donde levavam e traziam muitas e diversas mercadorias; e andavam nestes tratos, e outros, por diversas partes do mundo, em grandes navios; e indo ao Noroeste [foram] dar em uns canais e baixos que com a crescente do mar se cobriam e com o min- guante apareciam; e achando aí muitos atuns de maravilhosa grandeza, fizeram nêles grandes pesca- rias, por serem os primeiros que até aquêle tempo tinham visto, e [que] por [isso foram] muito estimados. Alexandre Magno, [que], segundo parece pelas idades, viveu 324 anos antes da vinda de Cristo, [e] era, como todos sabemos, natural da Europa, passou a Ásia e África, atravessou a Síria, Arménia, Pérsia e Bactriana, que está da parte do Norte em 44 graus de altura, e que é a maior em que êle se pôs nesta jornada. [Daqui] desceu à índia pelos montes Imaus e vales de Paropamisos, mandou fazer uma armada no rio Indo, e por êle foi sair ao Mar Oceano [Índico] donde se tornou, por terra de Qedrósia, Karamânia, Pérsia, à grande cidade de Babilónia, deixando por capitães da armada Onesicrito e Nearco, a qual depois foi ter com êle pelo estreito do Mar Pérsico e
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 309 [pelo] Eufrates acima, deixando descoberta aquela terra e costa. Depois disso, diz[em] que sucedeu por rei do Egipto Ptolomeu, que alguns querem que fôsse filho bastardo de Filipe, pai dêste grande Alexandre, o qual quis imitar ao rei Sesóstris e a Dario; e para isso, mandou fazer uma cava de cem pés de largo, e trinta em alto, e dez ou doze léguas de comprido, até chegar às fontes amargas, com intenção de levar esta obra ao- mar do rio Nilo, chamado Pelúsio, que entra na cidade de Damieta. Não teve efeito seu desejo, por se achar [que] êste Mar Vermelho era mais alto três côvados que a terra do Egipto e, espalhando-se por ela, per- der-se-ia tudo. No ano de 277 antes da encarnação de Cristo, sucedeu Filadelfos neste reino, [e] ordenou que viessem as mercadorias da Europa à cidade de Alexandria pelo rio Nilo acima, até outra que se chama o Coptos; e dela, por terra, as levassem a um pôrto que está no Mar Roxo, chamado Mios Hormos, [que] andassefm] êste caminho de noite, governan- do-se pelas estrêlas os pilotos que disso tinham conhe- cimento. E por esta estrada ser pobre de água, a leva- vam para tôda a companhia, até que fizeram poços muito fundos, e cisternas, de que se mantêm; [e desta] maneira ficou a mesma estrada mais frequen- tada. Dizem que por êste estreito ser perigoso de bai- xos, ilhas [e] restingas, foi êste rei Filadelfos com seus exércitos, da parte dos trogloditas e, num pôrto chamado Berenice, mandou que se descarregassem
310 ANTÓNIO GALVAO as naus que vinham da índia, por ser lugar mais seguro e poderem chegar sem perigo aonde as levas- sem à cidade do Coptos, e daí a Alexandria. Pelo que foi esta cidade tão próspera e rica, que dizem não haver naquele tempo [outra assim] na redondeza. Veio êste trato em tanto crescimento que se escreve render no tempo do rei Ptolomeu, [o] Auletes, pai de Cleópatra, sete contos e meio de ouro; e ainda naquela idade não havia mais de vinte naus neste caminho. Mas, depois de vir esta província ao poder dos imperadores de Roma, como [êstes] eram mais pode- rosos ou cobiçosos, em pouco tempo lhes rendeu o tresdôbro; e veio em tanto crescimento, que manda- vam em cada ano à índia cento e vinte naus de carrega. Partiram de Mios Hormos, nos meados de Julho, e tornavam dentro em um ano; as mercadorias que levavam, dizem que valeriam um milhão de ouro e duzentos mil cruzados, e, no retôrno, faziam cento de um. E afora isto, as matronas dispendiam em cada ano muito infindo dinheiro em pedraria, púrpura, aljofre, benjoim, incenso, almíscar, âmbar, sândalos, águila, e outros cheiros e brinquinhos, [e] nisto se afirmam os escritores daquele tempo. Também escreve Plínio, citando Cornélio Nepos, que em seu tempo, houve um rei no Egipto que se chamou Ptolomeu, [o] Látiro; e [que] um [navegador chamado] Eudoxo, fugindo dêle pelo Golfo Arábico, veio, por mar, ao longo da costa da África e Cabo da Boa-Esperança, à ilha de Cádis. E querem ainda que se usasse esta navegação naquele tempo como agora;
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 311 pelo que o filho de Caio César Augusto, andando na Arábia, achara neste mar Eritreu pedaços de naus da feição das de Espanha. Contam também que os reis dos sogdianos, os príncipes dos bactrianos, e outros capitães famosos, foram por terra à índia e Cítia, e houveram vista daquelas províncias e de tôdas as terras até o Levante e mares dêles, da parte do Norte, e [dos] mercadores e caminhantes que se afirma andarem por aquelas partes. Marco Polo largas coisas escreve delas; [e] ainda que o haviam por fabuloso, já agora lhe dão mais crédito, por acharem nomes de terras, cidades, vilas, angras, sítios e alturas conformes a suas escri- turas. No ano 200 antes da encarnação de Cristo, dizem que os romanos mandaram uma armada à índia contra o Grãm Cãm de Cataio, [a qual], saindo pelo estreito de Gibraltar fora, correu ao noroeste, e, defronte do Cabo Finisterra, acharam [os mareantes] dez ilhas em que havia muito estanho, que deviam ser aquelas chamadas Cassiteriais; e, postos em cin- qúenta graus de altura, acharam um estreito por onde foram para Leste à índia superior, e, pelejando com o senhor de Cataio, se tornaram à cidade de Roma. Se ó fábula ou certeza, [não sei]: pu-la como a achei escrita. [Dizem que] no ano 100 depois da vinda de Cristo, o Imperador Trajano mandou fazer uma armada nos rios Eufrates e Tigre, [e], indo por êles às ilhas de Zizara e estreito de Pérsia, saíra ao Mar Oceano da índia, navegara por aquela costa além [do
312 ANTÔNIO GALVAO têrmo a que] Alexandre chegara, tomara naus que vinham de Bengala, [pelas quais] se informara daquela terra, e, por [Trajano] ser velho e cansado, e achar nela pouco mantimento, se tornara. Depois que os romanos senhorearam a melhor parte do mundo, se fizeram muitos e notáveis desco- brimentos ; mas vieram os gôdos, mouros e outros bárbaros, e destruíram tudo; porque no ano de 412 depois da encarnação de Cristo, tomaram a cidade de Roma, e os vândalos saíram de Espanha a conquistar a África. E no ano de 450 o rei Átila destruiu muitas cidades de Itália, e começou-se a de Veneza; e, neste tempo, os francos e vândalos entraram em França. E no ano de 474 se perdeu o Império de Roma; e, depois disto, vieram os lombardos à Itália, no qual tempo andavam os demónios tão soltos pela terra que tomaram a figura de Moisés, e os judeus engana- dos foram muitos no mar afogados. E a seita ariana prevalecia. E Merlim [viveu] em Inglaterra neste tempo. E, no ano de 711, [viveram] os da seita de Mafamede que tomaram por fôrça [a] África e [a] Espanha. Assim que, segundo parece, nestas idades todo o mundo ardia, pelo que dizem que esteve quatrocentos anos tão apagado e escurecido que não ousava nenhum povo andar de uma parte para outra, [nem] por mar, nem [por] terra; e que tão grande abalo e mudança se fêz em tudo que nenhuma coisa ficou em seu ser e estado; [de modo que] monarquias como reinos, senhorios, religiões, leis, artes, ciências, navegações, escrituras que disto havia, tudo foi queimado e consumido
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 313 segundo contam, porque os gôdos eram tão cubiçosos da glória mundana que quiseram começar em si outro novo mundo, e que do passado não houvesse nenhuma memória. Os que depois sucederam, sentindo tamanha perda e proveito como era o comércio e trato das gentes umas com as outras, e [vendo] que não podiam gastar suas mercadorias, nem haver as alheias sem este meio, determinaram de buscar maneira como [o comércio] se não perdesse de todo, e as mercadorias do Levante tornassem ao Poente como de costume. Desesperados de as trazerem pelo Mar Roxo e rio Nilo, abriram outro caminho, ainda que muito mais comprido e custoso, porque as traziam pelo rio Indo acima: e, desembarcadas, as passavam por terra e portas Parapamisus à província de Bactriana, embar- cavam-nas no rio Oxo, que se mete no Mar Cáspio, e iam a um pôrto do rio Rha, que se chama Citracam, e por êste rio acima, que agora se diz Volga; leva- vam-nas, segundo parece, à cidade de Novgorod, que é agora do Grâo-Duque de Moscóvia, e está da parte do Norte em 57 graus de altura, atravessavam por terra a província de Sarmácia ao rio Donetz, que a divide da Europa, onde embarcavam, e por êle abaixo as levavam ao Mar de Azof e à cidade de Caía, que antigamente se dizia Teodósia, e por ser de genoveses vinham por elas as suas galeaças. E dizem que durou êste trato até o tempo de Comodita, imperador arménio, que mandou mudar êste caminho [par]a o rio Kur, no Sm do qual desem- barcavam e atravessavam o reino de Ibéria, que agora
314 ANTÔNIO GALVAO se diz Jórgia, e tornavam a embarcar no rio Rion; e por êle iam ao Mar Negro e cidade de Trebizonda, que está em quarenta e tantos graus de altura, onde vinha [m] por estas mercadorias as naus da Europa e África. E dizem ainda que Nicanor determinava ou tinha já pÔ9to por obra de abrir mais de cento e vinte léguas de terra que há dêste mar Cáspio ao Negro, para que pudessem ir e vir, por água, as especiarias, drogas e outras mercadorias que por aqui então cami- nhavam, se o não matara Ptolomeu Cerauno, [pelo que] não executou 9eu generoso pensamento. De modo que, perdido êste caminho pelas guerras do Grão Turco, a indústria humana abriu logo outro a estas mercadorias, e a outras que traziam da Ilha de Samatra, cidade de Malaca, ilha de Java, à enseada de Bengala; e pelo rio Ganges acima as levavam à cidade de Agra, donde atravessavam, por terra, à outra que está no rio Indo, chamada Bacar, donde iam pelo ser- tão dentro à cidade de Cabul, que é a principal dos mogores; e daí à grande cidade de Samarcanda, que está na província de Bactriana; e [iam] juntos os mer- cadores da índia, Pérsia, Turquia, que traziam bro- cados, veludos, chamalotes, escarlates, alcatifas, feltros e outros panos de lã, que iam gastando até [ajo Cataio, e [à] grande província da China, donde traziam ouro, prata, pedraria, aljôfre, sêda, almíscar, cânfora, águila, sândalos, e muito ruibarbo e outras coisas que cá tinham valia. Diz[em] que, depois disto, levaram estas merca- dorias, drogas e especiarias, em naus pelo Mar Índico ao estreito de Ormuz e rio Eufrates e Tigre, e as
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 315 desembarcavam na cidade de Baçorá, que está em trinta e um grau[s] ao Norte. Daí iam por terras às cidades de Alepo, Damasco, Beirute, que estáo da mesma banda, em trinta e cinco graus, donde as vinham tomar as galés de Veneza, que traziam romeiros à Gasa Santa. Diz[em] que, no ano de 1353, em tempo do Impe- rador Frederioo Barba Roxa, fo[ram] ter a Lubeca(?), cidade da Alemanha, certos índios em uma canoa que é [um] navio de remo, [e] se parece aos tones de Cochim. Esta canoa, porém, devia de ser da costa da Florida dos Bacalhaus e [djaquela terra, por estar na mesma altura da Alemanha; do [qual] navio e gentes os tudescos ficaram espantados, por não saberem donde eram, nem entenderem sua linguagem, nem terem notícia daquela terra, como agora [já têm], porque bem os podia ali levar o vento e [a] água, como vemos que trazem as almadias de Quíloa, Mo- çambique, Sofala, à ilha de Santa-Helena, que é um ponto de terra que está naquele grande mar [Atlân- tico] e daquela costa [oriental] e [do] Cabo da Boa- -Esperança tão separada. No ano de 1300 depois da vinda de Cristo, o Grão Soldão do Cairo mandou que tornassem as especiarias, drogas, e mercadorias das índias ao Mar Roxo, como no princípio costumavam [vir]; sòmente que desta vez desembarcavam da banda de Arábia e pôrto de Gidá, levavam-nas à casa de Meca, e as caravanas que iam a ela [i. ó, a Meca], em romaria, as traziam [à terra] donde cada um dêles era, por enobrecê-la, principal- mente à cidade do Cairo, donde as passavam pela
316 ANTÓNIO GALVAO província do Egipto, Líbia, África, ao reino de Tunes, Tremecém, Fez, Marrocos, Suz; levavam algumas além dos montes Atlânticos, à cidade de Tombuctu e reino dos jalofos, até que os português as trouxeram pelo Cabo da Boa-Esperança, à nobre cidade de Lisboa, como a seu tempo se dirá. No ano de 1344, reinando D. Pedro IV de Aragão, dizem os cronistas de seu tempo, que lhe pediu ajuda D. Luís de La Cerda, neto de D. João de La Cerda, para ir conquistar as Ilhas Canárias, que estão em vinte e oito graus desta mesma banda, por lhe serem dadas pelo Papa Clemente VI, natural de França. E, segundo isto, já naquele tempo havia muita notícia daquelas ilhas por tôda a Europa, quanto mais em Espanha, porque tamanhos príncipes não se haviam de mover a esta emprêsa, sem muita certeza. Também querem que neste meio tempo fôsse a ilha da Madeira descoberta, que está em trinta e dois graus, por um inglês que se chamava'Machim, que, vindo da Inglaterra para Espanha com uma mulher furtada, foi ter com tormenta a [essa] ilha, surgiu naquele pôrto que se chama agora Machico, tomado do seu nome e, por a amiga vir do mar enjoada, saiu em terra com alguns da companhia, e a nau com tempo [de feição] se fêz à vela, e ela faleceu de ano- jada. Machim, que muito a amava, para a sua sepul- tura fêz uma ermida, do Bom Jesus, e escreveu numa pedra o seu nome e o dela, a causa que ali os trou- xera, pôs-lha por cabeceira, ordenou um barco do tronco de uma árvore (que os havia ali muito grossos), embarcou-se nêle com os que tinha, e foram ter à
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 317 costa de África, sem velas nem remos. Os mouros houveram isto por coisa milagrosa, e por tal os apre- sentaram ao senhor da terra, e êle, pela mesma causa, os mandou ao rei de Castela. No ano de 1393, reinando em Castela Henrique III, pela informação que Machim e os da sua [nau] dera[m] desta ilha, moveu a muitos de França e Castela, prin- cipalmente andaluzes, biscaínhos e guipuscuanos, irem a descobri-la e a Grã Canária, levando assaz gente e cavalos; mas não sei se foi isto à sua custa, se de el-Rei. Como quer que seja, [pretende-se] que fossem os primeiros que houvessem vista das Canárias, [qu]e saíssem nelas, e cativassem cento e cinqOenta pessoas. Outros querem que fôsse isto no ano de 1405. Segundo os nossos cronistas deixaram escrito, 1411 ou 16 anos depois da encarnação de Cristo, no mês de Julho, partiu el-Rei D. João I de Portugal, da cidade de Lisboa, com o príncipe D. Duarte e o[s] infantes D. Pedro e D. Henrique, seus filhos, e outros senhores e nobres do reino, para [a] África, e toma- ram a grande cidade de Ceuta, que está da parte do Norte em trinta e cinco, até [trinta e] seis graus de altura, [o] que foi uma das priucipais coisas alarga- rem-se os têrmos de Espanha. Vindos de lá, o Infante D. Henrique, desejoso de acrescentar êste reino, e descobrir outro mundo novo, se assentou no Algarve, no Cabo de S. Vicente, donde começou a mandar descobrir a costa de Mauritânia, porque naquele tempo nenhum português passava do Cabo de Não, que está em 29 graus de altura. E para isto se pôr em efeito, mandou o Infante aparelhar
318 ANTÓNIO GALVAO certos navios, e deu aos capitães por regimento que, dêste cabo por diante, o descobrimento íôsse seu; êles assim o faziam, mas, [logo que] chegavam a outro que se chama Bojador, nenhuma pessoa ousava aven- turar a vida, do que o Infante andava assaz agastado. No ano de 1417, reinando em Castela D. João II, e governando sua mãe D. Catarina, um Mossém Robert de Braquemont, que fôra almirante de França, lhe pedira a conquista da ilhas Canárias, com título de rei, para um seu parente, que se chamava Mossém Jean de Bettencourt, e que a rainha lhas dera e o ajudara. Partiu de Sevilha com boa armada, e querem ainda que a principal causa que a isto o movera era descobrir a ilha da Madeira, que Machim achara. Mas foram ter às Canárias, levando consigo um frei Mendo para bispo dela, concedido pelo Papa Martinho V. Saídos em terra, ganharam Lançarote, Forte-Ventura, Gomeira e o Ferro, donde mandaram a Espanha muitos escravos, mel, cêra, cânfora, couros, orchita (?), figos, sangue de dragão, e outras mercadorias, em que fizeram bom dinheiro; e dizem que esta armada des- cobriu a ilha de Pôrto-Santo. Assentaram em Lança- rote, onde fizeram castelo de pedra e barro, com que sustiveram o que tinham ganho. No ano de 1418, vendo João Gonçalves Zarco, e Tristão Vaz Teixeira, cavaleiros da casa do Infante, os desejos que êle tinha de descobrir terra, e êles de o servirem em tal empresa, lhe pediram licença e um navio em que foram a êste descobrimento; e, junto da costa de África, lhes deu tal tormenta que se não puderam juntar a ela, e se perderiam de
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 319 todo, se Deus os não socorrera com lhes mostrar uma terra e pôrto, a que puseram nome Santo, onde se salvaram. E estiveram aqui dois anos. No ano de 420, descobriram as ilhas da Madeira, e se passaram a ela, onde ainda acharam a ermida e pedra que contava como Machim ali estivera. Dizem outros que, vendo um castelhano os desejos que o Infante tinha de descobrir novo mundo, lhe dera conta como êle achara a ilha do Pôrto-Santo, e por ser coisa pequena, não faziam dela estima. O que foi causa de o Infante mandar lá Bartolomeu Perestrelo, João Gon- çalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira; e pelos sinais e derrotas que o castelhano dera de Pôrto-Santo, foram ter a êle e, depois de ali estar [em J dois anos, no de 420, se passaram à ilha da Madeira, onde acharam como Machim ali estivera. Estando assim Mossém Jean de Bettencourt na conquista das Canárias (como ó dito), dizem que o mataram, e que deixara por seu herdeiro um parente que se chamava Mossém Maciot de Bettencourt, e que êste as vendera a um Pedro Barba, de Sevilha. Que- rem outros dizer que Mossém Jean de Bettencourt tivesse ido à França refazer [-se] de novo para esta conquista, [e] deixasse ali um sobrinho; e como nunca mais de lá viesse, vendo o parente que não podia sustentar a guerra, vendera as Canárias ao Infante D. Henrique, por certa coisa que lhe dera na ilha da Madeira. Diz [em] que no ano de 424 mandou o Infante fazer uma armada para conquista destas ilhas; ia por capitão-mor dela D. Fernando de Castro, e, como as
320 ANTÓNIO GALVAO gentes delas eram belicosas, defenderam bem suas casas. E vendo D. Fernando o grande gasto que fazia, se tornou, e, depois, o Infante largou esta terra à coroa de Castela, pelas ajudas que dera a Bettencourt. Mas os castelhanos contam isto de outra maneira: que nem os reis de Portugal, nem o Infante D. Hen- rique, as quiseram largar, até chegarem a direito diante do Papa Eugénio IV, veneziano, o qual, vendo isto, deu a conquista daquelas Ilhas, por sentença, ao rei D. João de Castela, no ano de trinta e um, por onde cessou esta contenda das Canárias entre os reis de Portugal, e [de] Castela. Dizem que são sete estas ilhas das Canárias e que so chamavam as Beatas ou Bem-Afortunadas. Estão em vinte e oito graus da parte do Norte, têm o maior dia de treze horas, e a noite de outras tantas, estão de Espanha duzentas léguas, e da costa de África dezassete. Em tempos passados adoravam [os seus habitantes] os ídolos, comiam carne crua por falta de fogo, não tinham ferro, semeavam sem nada, lavravam a terra com cornos de bodes e cabras, cada ilha falava sua linguagem, casavam-se com muitas mulheres, e, primeiro que as conhecessem, as davam aos senhores. Tinham outros diversos costumes, [e] agora todos são da lei de Cristo. Têm muito trigo, cevada, açúcares, vinho, e uns pássaros que chamam canários, quo em Espanha são estimados. Na Ilha do Ferro não há outra água senão a que de noite deita uma árvore, sôbre que está uma nuvem; desta bebem as gentes e gados, coisa a todos mui notória. Dizfem] que no ano de 1428 foi o Infante D. Pedro
. • , Infante D. Henrique Segando a iluminura do Códice da «Crónica da Guiné», existente na Biblioteca Nacional de Paris. 21
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS a Inglaterra, França, Alemanha, à Casa Santa, e a outras daquela banda; tornou por Itália, esteve em Roma e [emj Veneza, trouxe de lá um Mapa-mundi que tinha todo o âmbito da terra, e [no qual] o Estreito de Magalhães se chamava Cola do Dragão, o Cabo da Boa-Esperança, Fronteira de África, e que dêste padrão se ajudara o Infante D. Henrique em seu descobrimento. Francisco de Sousa Tavares me disse que no ano de 528 o Infante D. Fernando lhe mostrara um mapa que se achara no cartório de Alcobaça, que havia mais de cento e vinte anos que era feito, o qual tinha tôda [a] nevegação da índia com o Cabo da Boa-Esperança, como as [navegações] de agora; se isto é assim, já em tempo passado era descoberto tanto como agora, ou mais. Com todo o trabalho e gasto que o Infante D. Henrique tinha feito, nunca desistiu do seu pro- pósito e descobrimento, e, para isso, mandou a êle Qil Eanes, seu criado, que foi o primeiro que passou o Cabo Bojador, tão receado por todos, [o qual] trouxe nova não ser tão perigoso como se dizia. Saiu em terra da outra banda, e, como quem tomava posse, pôs nela uma cruz de pau por marco. E no ano de 1433, no mês de Agôsto, faleceu el-Rei D. João [I] e levantaram por rei D. Duarte, seu filho. No ano de 434 mandou o Infante D. Henrique a Afonso Gonçalves Baldaia, capitão de um navio, e [em sua companhia a] Gil Eanes, que descobriu o Cabo [Bojador]; em outro cabo além dêste, saídos em terra, conheceram ser povoada, e como sabiam que o Infante desejava haver dela língua, foram ter a uma
324 ANTÔNIO GALVÃO ponta, sem ver nenhuma coisa, donde se tornaram. E no ano de 438 faleceu el-Rei D. Duarte; e, por o príncipe D. Afonso ficar menino, governou o Infante D. Pedro, seu tio. No ano de 441 mandou o Infante D. Henrique dois navios, e por capitães deles a Nuno Tristão e Antão Gonçalves. Saíram na costa, fizeram prêsa, e chegaram ao Cabo Branco, que está em vinte graus. Informado o Infante das coisas daquela terra, pelos mouros que estes trouxeram, mandou Fernão Lopes de Azevedo dar conta ao Papa Martinho do que [se] passava, e como esperava resultar grande proveito à Santa Madre Igreja. O Papa lhe concedeu indulgência e doação perpétua, e tudo o mais que pedia, aos que nesta emprêsa falecessem. Depois disto, no ano de 1443, mandou o Infante Antão Gonçalves resgatar os escravos que trouxera, e os mouros deram por êles negros de cabelos revol- tos, e algum ouro; donde ficou [o] nome de Rio do Ouro, e mais acrescentou o desejo ao descobrimento; e por isso foi logo lá Nuno Tristão, e chegou às ilhas de Arguim, onde fêz prêsa, e se tornou com ela no ano seguinte de 1444. Lançarote, moço da câmara do Infante, Gil Eanes e outros, armaram certos navios, foram por costa até à ilha das Garças, [onde] toma- ram perto de duzentas almas, que foram as primeiras que até então de lá vieram. No ano de 1445 foi por capitão de um navio Gon- çalo de Sintra, escudeiro do Infante; saído em terra, numa angra que agora se chama do seu nome, foi tomado pelos mouros com seis ou sete companheiros.
tratado dos descobrimentos 325 Foi esta a primeira perda que recebeu Portugal desta emprêsa. E, no ano seguinte, mandou o Infante três caravelas, e por capitães delas Antão Gonçalves, Diogo Afonso e Gomes Pires, aos quais deu regi- mento que não entrassem no Rio do Ouro, e assen- tassem pazes, e fizessem quantos cristãos pudessem; e sem nada disto se tornaram. No ano de 1446, um escudeiro de el-Rei D. Afonso [V], que se chamava Dinis Fernandes, da cidade de Lisboa, foi a êste descobrimento, mais por honra que proveito. Chegou ao rio Senegal, que está em quinze ou dezasseis graus de altura, da parte do» Norte, e estrema os mouros dos Jalofos, onde tomou alguns negros. Não contente com isto, dize[m] que passou avante e descobriu o Cabo-Verdo, que está em catorze graus da mesma parte e, posto [nêle] sua cruz de pau, tornou contente. No ano de 1447 tornou Nuno Tristão em uma caravela, e passou o Cabo Verde o Rio Grande, e saiu em outro que está além dôle em vinte graus, onde o mataram com dezóito portugueses; e com quatro ou cinco se tornou o navio em salvamento. Contam mais, que, neste meio tempo, vindo uma nau de portugueses pelo estreito de Gibraltar fora, lhe dera tal tormenta que correra para Leste muito mais do que quisera, e fôra ter a uma ilha em que havia sete cidades e [cujos habitantes] falavam a nossa lín- gua, [onde lhes] preguntaram se os mouros tinham ainda [a] Espanha ocupada, donde [êles] haviam fugido pela perda do rei Rodrigo. Dize[m] que o contra-mestre da nau trouxe uma pouca de areia, e
326 ANTÔNIO GALVAO que a vendera a um ourives em Lisboa, de que tirara boa quantidade de ouro. Sabendo isto o Infante D. Pedro, que ainda governava, dizefm] que o mandou escrever na Casa do Tombo. E querem alguns que estas terras e ilhas que os portugueses tocaram sejam aquelas que agora se chamam as Antilhas e Nova- •Espanha, e alegam muitas razões para isso, em que não falo por não tomar isto à minha conta; mas, contudo, tôda a coisa de que não sabiam dar razão, era dizer: é a Nova-E9panha. No ano de 1449, el-Rei D. Afonso [V] deu licença ao Infante D. Henrique, seu tio, pára mandar povoar as ilhas dos Açores, que havia dias que eram desco- bertas. E no ano de 458, passou êste rei a África, e tomou a vila de Alcácer; e no de 61 mandou Soeiro Mendes, fidalgo de sua casa, fazer o castelo de Arguim, a que deu alcaidaria. No ano de 462 vieram a êste reino de Portugal três genoveses, pessoas nobres: o primeiro dôles era Antão de Noli, e [os outros eram] um seu irmão e um sobrinho, cada um em seu navio. Pediram licença ao Infante para descobrir as ilhas de Cabo-Verde, o que a êle lhe aprouve. Querem alguns dizer que fôssem aquelas que os antigos chamaram Górgonas, Hespéri- das, Orçadas, mas êles lhes puseram nome de Maio, Santiago, S. Filipe, por as verem em seu dia; outros lhe chamam as ilhas de Antão, ou de António. Neste mesmo ano, ou no outro seguinte, faleceu êste Infante D. Henrique, deixando descoberto o Cabo Não até à Serra-Leoa, que está dessa nossa banda em oito graus de altura.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 327 No ano de 469 arrendou el-Rei D. João a Fernão Gomes o trato de Guiné, que depois se chamou da Mina, por cinco anos, à razão de duzentos mil reis cada um ano, e que mandasse em cada um dêles descobrir cem léguas além das descobertas. No ano seguinte, de 470, passou êste rei e o príncipe D. João, seu filho, em África, e tomaram a vilha de Arzila, e a cidade de Tânger, tendo muito custado [anteriormente], se des- pejou com mêdo. Parece que permitiu Deus isto para mostrar que os ousados são dêle favorecidos. No ano de 1471, mandou Fernão Gomes descobrir a costa, como se obrigara; e foram a isso João de Santarém e João de Escobar, e em cinco graus de altura acharam a Mina. E no ano seguinte, de 472, descobriu Fernão do Pó a ilha que se chama como ele. E neste mesmo tempo foram descobertas as ilhas de S. Tomé e Príncipe, que estão na linha [do Equa- dor] ; e na terra firme [foi descoberto] o reino de Benim, até o cabo de [S.u] Catarina, que está da parte do Sul em três graus. E o que fêz êste des- cobrimento era criado de sua alteza, [e] chamava-se Sequeira. Muitos querem dizer que, neste tempo, fôs- sem terras e ilhas descobertas, de que já não há memória, i Que será [das que se descobriram] de Noé até agora? No ano de 1480, faleceu êste magnânimo e esfor- çado rei D. Afonso [V], deixando muitas coisas feitas, dignas de memória. E começou logo a reinar D. João [II], seu filho, que, no ano de oitenta e um, mandou fazer por Diogo de Azambuja a fortaleza da Mina, e ficou por capitão dela.
328 ANTÓNIO GALVAO No ano de 1484, foi mandado por êste rei D. João, a êste descobrimento, Diogo Cão, cavaleiro de sua casa. Chegado ao rio de Manicongo, que está da parte Sul, em sete ou oito graus de altura, pôs nêle padrão de pedra com armas e letras reais, que denunciavam que[m] o mandava, e o ano, e [a] era em que se puse- ram as cruzes de pau. Daqui foram ter ao rio Trópico de Capricórnio, pondo padrões onde lhe pareceu ser necessário. Tornado a Manicongo, viu-se com o rei dêle, e mandou embaixador e homens de crédito a êste reino. E no ano seguinte, ou no outro depois dêle, chegou João Afonso de Aveiro, do reino de Benim, com pimenta de rabo, que foi a primeira que se viu nesta terra. No ano de 486, mandou el-Rei D. João a êste descobrimento, Bartolomeu Dias, cavaleiro de sua casa, com três velas. Indo assim ao longo da terra, pôs padrões de pedra e descobriu o Cabo da Boa- -Esperança, e, [para] além dêle, até o rio do Infante, [de modo] que se pode dizer que viu terra da índia mas não entrou nela, como Moisés na Terra de Pro- missão. No ano de 487, mandou el-Rei D. João descobrir a índia por terra. Foi a isso um Pêro da Covilhã, seu criado, e Afonso de Paiva, por saberem a língua arábia. Partiram no mês de Maio do mesmo ano, e na cidade de Nápoles embarcaram. Chegaram à ilha de Rodes, pousaram em casa dos comendadores portu- gueses, passaram [daqui] à cidade de Alexandria, donde foram ao Cairo e ao pôrto do Tor, em carava- nas e em recovas de mouros, onde embarcaram no
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 329 Mar Roxo [e] chegaram à cidade de Adém, onde se apartaram: Afonso de Paiva [foi] para a Etiópia, e Pêro da Covilhã para a índia, e foi ter à[s] cidade [s] de Cananor [e] Calecute, e tornou a Goa, onde embar- cou para Sofala, [na] costa de África, a ver aquelas minas, coisas tão nomeadas. De Sofala tornou a Moçambique, e à[s] cidade [s] de Quíloa, Mombaça [e] Melinde, até à cidade de Adém, donde Afonso de Paiva se apartara dêle; e foi pelo Mar Roxo à cidade do Cairo, onde ficaram de se ajuntar. Mas achou nova como aí falecera [Afonso de Paiva], e cartas de el-Rei D. João [II] em que man- dava que [êle] se visse com o Preste João da[Sj índia [s]. Vendo Pêro da Covilhã êste recado, partiu do Cairo ao pôrto de Tor, e daí à cidade de Adém, onde já duas vezes estivera; e, tendo noticia de quão grande e quão próspera coisa era a cidade de Ormuz, deter- minou de ir a vê-la. E foi ao longo da costa da Arábia ao Cabo de Rosalgate, que está no Trópico de Câncer, e daí a Ormuz, que está situada em vinte e sete graus da mesma banda. Informado do Estreito da Pérsia e daquela terra, se tornou ao Mar Roxo, e passou-se ao reino do Abexim, que vulgarmente se chama Preste João da[s] índia[s], onde esteve até o ano de 520, [em] que o achou lá o embaixador D. Rodrigo de Lima. Êste Pêro da Covilhã foi o primeiro português, que eu saiba, que viu as índias e seus mares, e outras coisas a nós mui remotas. No ano de 1490, mandou el-Rei [D. João II] Gon- çalo de Sousa, homem fidalgo, a Manicongo, com três
330 ANTÓNIO GALVAO navios; tornou em sua companhia o embaixador de Manicongo, que Diogo Cão trouxera, tendo [êle] e outros que com êle vieram já tomado [aj água de baptismo. Gonçalo de Sousa faleceu no caminho e elegeram por capitão-mor a seu sobrinho Rui de Sousa. Chegado [êste] a Manicongo, fêz-lhe o rei muito gasalhado, e baptisou-se logo com a maior parte [dos] de sua terra, [o] que foi grande louvor e honra ao reino de Portugal e sua coroa.
DESCOBRIMENTOS DAS ANTILHAS E ÍNDIAS, FEITOS PELOS ESPANHÓIS. N° ano de 1492, estando o rei D. Fernando de Castela sôbre a cidade de Granada, despachou Cristóvão Colombo, italiano, com três navios, ao des- cobrimento da Nova-Espanha, o qual primeiro viera a Portugal a el-Rei D. João [H], que o não quis acei- tar. Partiu [Colombo] da vila de Pálios, aos 3 dias do mês de Agosto, levando consigo por capitães e pilotos, Martin Alonso Pinzon, Vicente Yafies Pinzon e Barto- lomeu Colombo, seu irmão, e cento e vinte pessoas. E querem dizer alguns que íôssem os primeiros que navegassem por alturas. Nas ilhas Canárias tomaram refrêsco; daí foram na volta do [Mar dos] Sargaços. E vendo o mar coalhado dêles [i. é, de sargaços], ficaram espantados, e com grande receio chegaram às Antilhas a 10 dias do mês de Outubro. E a pri- meira ilha que viram se chamava Guanalani; saíram em terra, tomaram posse dela, puseram lhe nome S. Salvador. Depois viram muitas a que chamaram as Princesas, por serem as primeiras por êles vistas; mas os da terra lhes chamam as Lucaias, ainda que tôdas tenham nomes separados, e estão da parte do
332 ANTÔNIO GALVAO Norte, quási debaixo do Trópico de Câncer; da parte do Norte, de dezasseis até dezassete graus, [éj que é a ilha de Santiago. Daqui foram à ilha a que os da terra chamam Cuba, e os castelhanos puseram nome Fernandina, por el-Rei D. Fernando, a qual está em vinte e dois graus, donde os índios os levaram à outra [ilha] que êles chamam Haiti, e os castelhanos Isabela, em memó- ria da rainha de Castela, e também Hispaniola. Aqui se perdeu a nau capitaina, e da madeira dela fizeram uma tranqueira, onde deixaram trinta e oito homens, e [por] capitão dêles Diego de Arana, para aprende- rem a língua e [os] costumes da terra, donde trouxe- ram amostras de ouro, papagaios, e outras coisas que lá havia, e dez índios, dos quais escaparam seis, que cá se baptizaram. (E pôs isto tão grande alvorôço e desejo aos espanhóis, que a nado queriam ir àquela terra). E na volta [Colombo e os seus companheiros] vieram pelas ilhas dos Açores. E a 4 dias de Março do ano de 493, entraram pela barra de Lisboa, do que [a] el-Rei D. João [H] lhe pesou tanto que teve dife- rença sôbre estas terras com o de Castela. Tanto que Cristóvão Colombo chegou a Castela, com esta nova, e de como [a] el-Rei D. João lhe pesava dela, o rei D. Fernando e Dona Isabel mandaram logo ao Papa Alexandre VI; da qual nova êle e todo o povo ficaram maravilhados, [isto é], haver terra de que os romanos não tiveram notícia [apesar de] se have- rem por senhores da redondeza. E fêz logo doação delas aos reinos de Leão e Castela, com tal condição que trabalhassem como se a idolatria desarraigasse e
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 335 a nossa santa fé [fôsse] multiplicada. Chegada esta resposta, o rei D. Fernando tornou logo a mandar Cristóvão Colombo ao descobrimento, já almirante, com outras honras, mercês e insígnias, e em redor das suas armas uma letra que dizia: «Por Castela, e Leom, Novo Mundo achou Colom*. No ano de 493, aos 25 do mês de Outubro, tornou Cristóvão Colombo às Antilhas; e da barra de Cádis tomou sua derrota, levando dezassete velas e mil e quinhentos homens nelas, e seus irmãos Bartolomeu Colombo e Diogo Colombo, e outros fidalgos, cavalei- ros, letrados, e religiosos com cálices, cruzes e ricos ornamentos, e grandes poderes do Papa Alexandre. E aos 10 dias chegaram às Canárias; e delas, a vinte e cinco ou trinta dias, às Antilhas. A primeira ilha que viram está em catorze graus da parte do Norte, leste-oeste com o Cabo Verde. Diz[em] que haverá dela às Canárias oitocentas léguas. Puseram-lhe nome A Desejada, pelos desejos que levavam de ver terra. Logo viram outras muitas [ilhas] a que puseram nome as Virgens, ainda que os da terra lhes chamam as Caraíbas, por ser[em] de homens guerreiros e bons frecheiros; [Ajtiram com erva tão peçonhenta que quem morre dela, morde a si mesmo como cão danado. Destas ilhas em outras, foram ter à principal delas, a que os da terra chamam Boriquem, e os cas- telhanos S. João, donde chegaram à Espanhola, ou Ilha Bela, e acharam mortos todos os homens que nela deixaram, por ofensas que aos da terra fizeram. Aqui, deixou o almirante a maior parte da gente, para povoá la, e [a] seus irmãos governadores dela. E embar-
336 ANTÔNIO GALVAO cado em dois navios, foi descobrir a costa da ilha de Cuba, e daí a Jamaica, que agora se chama Santiago. Tôdas estas ilhas estão de dezassete até vinte graus de altura, da parte do Norte. E enquanto lá andou o almirante, seus irmãos passaram assaz trabalho e desa- ventura com os que ali Acaram, por se alevantar a terra. Tornou Cristóvão Colombo outra vez a Castela, a dar conta ao rei e à rainha do que lá passara. No ano de 1494 e mês de Janeiro, averiguaram-se as diferenças que havia entre êstes dois reis. E foi a isso Rui de Sousa e D. João, seu filho, e o Doutor Aires de Almada; e da parte de Castela, D. Henrique Henriques, D. Jorge de Cardena e o Doutor Maldo- nado. Juntaram-se todos em Tordesilhas, e partiram a redondeza Norte-Sul por um meridiano que está 370 léguas ao Poente das ilhas de Cabo-Verde, e [determinaram] que a metade que ficasse ao Levante fôsse de Portugal, e [a] Ocidente, de Castela, e o mar e terra para caminhar, fôsse a todos igual. No ano seguinte de 95, faleceu el-Rei D. João [II], e começou a reinar D. Manuel, seu primo. No ano de 1496, achando-se um veneziano, por nome Sebastião Caboto, em Inglaterra, e ouvindo nova de tão novo descobrimento [i. ó, de Colombo] como êste era, e vendo, em uma poma, como estas ilhas acima ditas estão quási em um paralelo e altura, e muito mais perto de sua terra [da Inglaterra] uma [d]a outra, que de Portugal ou de Castela, o mostrou ao rei Henrique VII, do que êle ficou tão satisfeito que mandou logo armar dois navios. E partiu [Caboto] na primavera com trezentos companheiros, fêz seu
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 337 caminho a Leste, à vista de terra, em quarenta e cinco graus de altura da parte do Norte, [e] foi por ela até sessenta [graus], onde os dias são de dezóito horas, e as noites muito claras e serenas. Havia aqui muitâ frialdade e ilhas de neve, [de] que não achavam fundo em setenta, oitenta, cem braças, mas achavam grandes regelos, do que também se arreceavam. E como daqui por diante tornasse a costa ao Levante, fizeram-se na outra volta, ao longo dela, descobrindo tôda a baía, rio, enseada, para verfem] se passava[m] à outra banda, e foram assim diminuindo na altura até trinta e oito graus, donde se tornaram a Inglaterra. Outros querem dizer que chegasse [m] à ponta da Florida, que está em vinte e cinco graus. No ano de 1497, tornou o rei D. Fernando a mandar Cristóvão Colombo com seis navios às Anti- lhas. Êle armou dois [navios] à sua custa, [e] mandou seu irmão adiante. Partiu da baía de Cádis, levando consigo D. Diogo Colombo, seu filho. Diz [em] que foi tomar a ilha da Madeira, com receio de franceses, donde mandou três navios [ao Haiti]. Outros querem dizer [que os mandou] das Canárias. Como quer que seja, êle com três [navios] foi à[s] ilha [s] de Cabo- -Verde, e correu ao longo da linha [do Equador], em que achou grande calmaria e chuveiros. E a primeira terra que viram das Antilhas foi uma ilha que está em nove graus de altura da parte do Norte, pegada com a terra firme, [à qual] lhe puseram nome a Trin- dade. Entraram no Golfo de Pária, e saíram por uma bôca a que chamam do Dragão, tomaram na mão a costa, e acharam três pontas, a que puseram nome 22
338 ANTÔNIO GALVAO Testigos, e diante [destas] a ilha Cubagua, que é grande pescaria de aljofre, e também dizem que tem fonte de azeite. E mais adiante viram as ilhas Paragry, Roques e Oruba, e o Curaçau, e outras pequenas ao longo da praia. Chegaram à ponta que se chama da Vela, descobriram por costa cento e cinqúenta ou duzentas léguas, onde atravessaram a ilha Espanhola, e houveram vista da que se chama Beata. Há nestas ilhas e terras uns bichos ou pássaros a que chamam cocoios, [os quais] têm quatro estrêlas, duas nos olhos e as outras debaixo das asas, [e] dão claridade como candeias; podem [as pessoas] escrever, fiar, coser e tecer com elas, e levam-[nas] para alu- miar, untam-se as mãos e rostos com estas estrêlas, parece[ndo] que ardem em fogo. Há aí outro bicho que chamam Nigu, salta como pulga, é muito mais pequeno, mete-se entre a unha e carne, e põe ali [de] improviso tanta lêndia que, se náo lhes acodem, logo multiplicam, de maneira que perdem os dedos o ficam aleijados, [e] alguns [perdemj a vida. Há também nes- tas partes outro bicho do tamanho de um gato [que] anda pelas árvores, dependura-se dos ramos pelo rabo, e depois que pare os filhos, [êstes] tornam-se a meter por um buraco que têm junto da natura; neste entresolho da barriga, tem [êsse bicho] uma mama com que os cria, pelo que parece que anda prenhe até [êles] ser [em] de idade [em] que a natureza o[s] despede, e vão buscar sua vida. Há nestas [mesmas] ilhas muitos e diversos pes- cados, e [entre êstes] um que não se entende se é alimária, se peixe: tem pés e mãos como lagarto,
De Retratos, e Elogios dos Varões, e Donas, etc. Lisboa, MDCCCXVII
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 341 focinho e rabo como galgo, cria-se na água, e na terra pelas árvores, põe ovos como de galinhas, de que se gera, [os quais ovos] têm a casca delgada; se os fregem não se coalham com azeite nem manteiga, senão com água. Enquanto êstes bichos são pequenos, passam por cima da água com tanta presteza que não se vão ao fundo, mas parece que correm por terra até certo tempo; dali por diante andam por baixo da água, ao longo da areia, por não saberem nadar, nem têm para isso maneira. Comem-nos no carnal e [na] Quaresma. Há lá [nessas mesmas ilhas] um peixe que se chama Monatim: é grande e de coiro, tem a cabeça e rosto de vaca, e também na carne parece [-se] muito com esta. Tem uns braços junto dos ombros, com que nadam. O mais de seu comer, é erva que nasce ao longo da água. É muito saboroso; tem umas pedras na cabeça que são proveitosas para a dor de pedra, e a fêmea tem têtas nos peitos com que cria os filhos que nascem vivos. Há outro pescado a que chamam Reverso, pouco maior de um palmo, tem espinhos como ouriço cacheiro, criam-nos no mar em um covão, atam-nos em um cordel comprido, tomam com êles monatins, e outros grandes pescados, e tra- zem-nos como furões aos coelhos. Aqui há muitas sardinhas. Êstes bichos pescados se vêem em Maluco e naquelas ilhas. E a gente se parece com a da Nova- -Espanha, e também comem alguns lá carne humana. No mesmo ano de 497, a vinte dias do mês de Julho, partia Vasco da Gama, por mandado de el-Rei D. Manuel, de Lisboa para a índia, com três velas.
342 ANTÓNIO GALVAO Iam por capitães Vasco da Gama, Paulo da Gama, seu irmão, e Nicolau Coelho, com cento e vinte homens nelas. Ia mais um navio com mantimento. E em treze dias foram a Cabo-Verde, à Ilha de San- tiago, a tomar refrêsco, e daí foram ao largo da terra ; e além do Cabo da Boa-Esperança puseram padrões nela. Chegados a Moçambique, que está em treze graus da parte do meio-dia, fizeram aí pouca detença. Foram a Mombaça e a Melinde, o rei dêle [de Melinde] lhe deu pilotos, que os puseram na índia, na qual travessia descobriram os Baixos de Pádua. No ano de 1498, no mês de Maio, surgiram na cidade de Calecute e Panane, e estiveram [aí] todo o inverno. E o primeiro de Setembro se fizeram à vela, e foram contra o Norte, descobrindo aquela costa até a Ilha de Angediva, que está daquela parte em quinze graus de altura, onde surgiram na entrada do mês de Outubro. Partiram de Angediva, e no [mês] de Feve- reiro do ano de 499, houveram vista da terra de África, acima de Melinde contra o Norte, três ou quatro graus; daí foram àquela cidade, e dela a Moçambique, e ao Cabo da Boa-Esperança e, tomando na mão a costa, vieram às ilhas de Cabo-Verde, e à cidade de Lisboa na entrada do mês de Setembro. E puseram vinte e seis meses neste caminho. No ano de 499, a treze dias do mês de Novembro, partiram de Pálios, Vicente Yaftez Pinzou, e seu sobrinho Aires Pinzon, com quatro navios que arma- ram à suâ custa, pára descobrimento do Novo Mundo, com licença do rei de Castela, e regimento [seu] que não tocâssefm] no que o almirante Colombo tinha
AP/tmomm Mi Í7/JA MH PHMW - i/. K1MJS fíWMAf, MwnMHIHRHHHBHi Pedro Alvares Cabral Segundo a gravura existente na Biblioteca Nacional de Madride.
346 ANTÔNIO GALVAO Cochim, que ainda se não sabia, onde carregaram de pimenta. E à tornada, Sancho de Tovar descobriu a cidade de Sofala. Neste mesmo ano de 500, diz[em] que pediu Gaspar Côrte Real licença a el-Rei D. Manuel para ir descobrir a TerraNova. Partiu da ilha Terceira com dois navios, armados à sua custa, foi àquêle clima, que está debaixo do Norte, em cinqQenta graus de altura, e é terra que agora se chama do seu nome. Tornou a salvamento à cidade de Lisboa. Fazendo outra vez êste caminho, se perdeu o navio em que êle ia, e o outro [se] tornou a Portugal. Pela qual causa, seu irmão Miguel Côrte Real foi em sua busca com três navios armados à sua custa. Chegados àquela costa, como viram muitas bôcas de rioB, e abras, entrou cada um pela sua,, com regimento que se ajuntassem todos até vinte dias do mês de Agôsto. Os dois navios assim o fizeram. E vendo que não vinha Miguel Côrte Real ao prazo [marcado] nem algum tempo depois, se tornaram [os dois navios] a êste reino, sem nunca mais dêle se saber nova, nem ficar outra memória, senão charaar-se esta terra dos Côrte Reais, ainda agora. No ano de 1501 e mês de Março, partiu João da Nova com quatro velas da cidade de Lisboa. E além da Linha, da parte do Sul, em oito graus de altura, descobriram a ilha a que puseram o nome da Conceição, e foram a Moçambique. E de Melinde atravessaram à outra banda, [e] tomando cár- rega se tornaram; e, dobrado o Cabo, em dezassete graus de altura, acharam a ilha a que puseram o
Figura do Vespúcio, reproduzida do planiafêrio de WaldteemQller, de 1507. X
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 349 nome de Santa-Helena, coisa pequena, mas muito nomeada. Neste mesmo ano de 501 e mês de Maio, partiram três navios da cidade de Lisboa, por mandado de el-Rei D. Manuel, a descobrir a costa do Brasil, e foram a ver vista das Canárias, e dai [ajo Cabo- -Yerde, e tomaram refrêsco em Beziguiche. Passada a Linha, da parte do Sul, foram tomar terra no Brasil, em cinco graus de altura, e foram por ela até trinta e dois [graus] pouco mais ou menos, segundo se conta, donde se tornaram no mês de Abril, por haver já lá frio e tormenta. Puseram neste descobrimento e viagem quinze meses, por tornarem a Lisboa na entrada de Setembro. Neste ano, ou no seguinte, foram ao descobri- mento da Nova-Espanha Alonso de Ojeda, e trouxe sua derrota até reconhecer a província de Sinta. E no ano seguinte partiu Rodrigo de Bástidas, de Sevilha, com duas caravelas armadas à sua custa; e a primeira terra que das Antilhas tomaram, foi uma ilha a que puseram nome Verde, que está junto da Guadalupe cortra a terra. E tomada na mão a volta oontra o Poente, a Santa Marta, ao Cabo da Vela, e ao rio Madalena, descobriram o pôrto de Galerazamba, os Coroados, Cartagena e as ilhas de S. Bernardo de Baru, e as Areias; foram adiante, à ilha Forte, à Punta Arenas, que está no cabo do Gôlfo de Uraba, vieram aos Farelones, que estão da outra banda, junto [da enseada de] Darien; e do Cabo da Vela até esta enseada há trinta léguas, [pois] está em nove graus e meio de altura. Daqui atravessaram à ilha de
350 ANTÔNIO GALVAO Jamaica, onde tomaram refrêsco, e na Espanhola deram com os navios à costa, pelo gusano, que [aí] há muito. Levaram quarenta marcos de ouro de res- gate nessa terra, ainda que a gente dela seja a mais guerreira que há na Nova-Espanha, e atiram com erva. No ano de 502, tornou Cristóvão Colombo [pel]a quarta vez a êste descobrimento, com quatro navios, por mandado do rei D. Fernando, a buscar o estreito que diziam cortar a terra [de uma] banda à outra. Levava consigo D. Fernando, seu filho, e foi ter à ilha de Santo Domingo, de Jamaica, ao rio Azua, ao Cabo de Figueira, às ilhas dos Gamares, e ao pôrto de Honduras. Daí [foi] contra o Levante ao cabo de Gracias a Dios, descobriu a província e rio Veragua, o Rio Grande e outros que os da terra chamam Hievra. Daí foi ter ao Rio dos Lagartos, que agora se chama Chagres, o qual tem seu nascimento [junto] ao Mar do Sul, sai ao do Norte, passa[ndo] de Panamá quarenta léguas; foi à ilha que pôs nome dos Basti- mentos, ao Pôrto Belo, a Nombre de Dios, ao rio Francisco ao pôrto do Retrete, ao Gôlfo de Uraba, às ilhas de Caparrosa, e ao cabo de Marmol, que são duzentas léguas de costa, [desde o ponto] donde começaram. Tornou à ilha de Cuba, e daí a Jamaica, onde acabou de dar com os quatro navios à costa, por serem já muito gastos do gusano. No ano de 502, tornou Vasco da Gama, já almi- rante, à índia, levando dezanove ou vinte caravelas. Partiu de Lisboa a dez de Fevereiro, no fim dêle surgiu no Cabo Verde, donde foi a Moçambique, [tendo sido] o primeiro que desta ilha atravessou
De Retratos, e Elogios dos Varões, e Donas, ; ele. Lisboa, MDCCCXVII
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 353 para a índia. Descobriu outra em quatro graus de altura, a que pôs nome a do Almirante. [Aí] tomou cárrega de pimenta e drogas, deixando lá, por guarda da costa da índia, com cinco velas, [a] Vicente Sodré. Estes foram os primeiros portugueses que em armada correram a costa da Arábia, a que chamam Feliz, [e que] é tào estéril que se não mantêm os gados e camelos senão de peixe sêco que do mar lhe levam, [sendo êsse peixe] tanto que [até] os gatos o tomam. E no ano seguinte, segundo dizem, descobriu António de Saldanha a ilha que se chama Dioscorodis, e agora Socotorá e, com esta terra, o cabo de Guardafui. No ano de 504, armaram João de Cosa, vizinho de Puerto de Santa Maria, e o piloto Rodrigo de Bástidas, com ajuda de João de Ledesma, e outros de Sevilha, com licença do rei D. Fernando, quatro caravelas, e foram descobrir a Terra-Nova, que se chama Cartagena, que está em dez graus e meio da parte do Norte. E diz [em] que acharam ali o capitão Luís da Guerra, e [que] todos juntos saltaram na ilha do Códego, onde tomaram seiscentas pessoas. Foram por aquela costa, entraram no Gôlfo de Uraba; e na areia acharam ouro misturado com ela, [o qual] foi o primeiro que dali se trouxe ao rei D. Fernando. Daí [de Uraba] foram à cidade de S. Domingos, car- regados de escravos, sem resgate nem mantimento, porque os da terra não quiseram contratar com êle, e lhe fizeram muito dano. E no fim dêste ano de 504 faleoeu a rainha D. Isabel de Castela, e, emquanto foi viva, não consentiu que fôssem ao desoobrimento da Nova-Espanha, aragões, catalães, valencianos, nem 28
354 nenhuns do património do rei D. Fernando, seu ma- rido, salvo se fôsse seu criado, ou por especial man- dado; sòmento castelhanos, galegos, bizcainhos e os de seu senhorio, que esta terra descobriram. No ano de 505, dia de Nossa Senhora de Março, partiu D. Francisco de Almeida, Vice-Rei da índia, com vinte e duas velas. Fêz sou caminho na volta do Brasil, como já se costumava. Chegado à cidade de Quíloa, assentou fortaleza, [deixou por] capitão dela Pero Ferreira, e, além de Melinde, atravessou a ilha de Angediva, onde fêz capitão Manuel Peçanha. Em Cananor edificou outra, o deu a capitania a Lourenço de Brito. Em Cochim [fêz] o mesmo, [deixando por] capitão [dela] D. Álvaro de Noronha. Neste ano fêz Pêro de Anaia a fortaleza de Sofala, dá qual teve a capitania. No fim dêste ano, ou na entrada do outro, man- dou o Vice-Rei a D. Lourenço, seu filho, às ilhas de Maldiva; e, com tempo contrário, arribou às ilhas a que os antigos chamaram Tragana, os mouros Iteru- benero, o nós agora Ceilão, onde saiu em terra e assentou paz com os dela. Tornou a Cochim, ao longo da costa, deixando-a tôda sabida. No meio daquela ilha está ura pico de pedra muito alto, e, na subida dêle, uma pègada de homem, que dizem ser do nosso pai Adão, [a qual ficou dêle] quando subiu aos céus. Têm-na os índios em grande veneração. No ano de 506, depois da rainha D. Isabel falecer, veio o rei Filipe [com] a rainha D. Joana, sua mulher, a Espanha, tomar posse. O rei D. Fernando se foi a Aragão, por ser seu património; e neste meio ano,
Afonso de Albuquerque Segundo a gravura existente na Biblioteca Nacional de Madride.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 357 faleceu o rei Filipe, e tornou a governar Castela o rei D. Fernando, o qual deu licença aos espanhóis, que pudessem ir à Terra-Nova e Antilhas, salvo os portu- gueses. E neste mesmo ano e mês de Maio, faleceu Cristóvão Colombo, e sucedeu em seu lugar seu filho, D. Diogo Colombo. Neste mesmo ano de 506 e entrada do mês de Março, parti[ram] Tristão da Cunha e Afonso de Albu- querque para a índia, com catorze velas em sua companhia; fo[ram] surgir era Bezeguiche, para refres- carem, e, antes que chegassem ao Cabo da Boa-Espe- rança, acharam em trinta e sete graus de altura umas ilhas, as quais agora se chamam de Tristâo-da-Cunha, onde lhes deu tão grande tormenta que se espalhou tôda a frota. Tristão da Cunha e Afonso de Albu- querque foram ter a Moçambique; [e] Álvaro Teles correu tão largo que foi [ter] à terra de Samatra, donde se tornou ao cabo de Guardafui, deixando des- coberto muitas ilhas, mar e terra nunca vistos até aquêle tempo por portugueses. Manuel Teles de Meneses também varou por fora daquela grande ilha de S. Lourenço, correu tôda [a] sua costa, e foi ter a Moçambique com Tristão da Cunha, que foi o primeiro capitão que ali invernara; e por lhe dizerem que nesta ilha havia muito gengi- bre, cravo e prata, tornou a descobrir muita dela [da ilha] pela parte de dentro; e, não achando nada, se tornou a Moçambique, donde partiram para Melinde. Correram aquela costa, saíram em Brava, e daí passa- ram à ilha de Socotorá, onde fizeram fortaleza, [dei- xando por] capitão dela D. António de Noronha.
358 No ano de 507, no mês de Agôsto, partiu Tristão da Cunha para [a] índia; e Afonso de Albuquerque, que ali ficava [em Socotorá] com cinco ou seis navios para guarda da costa e bôca daquele estreito, nâo se contentando disto, se passou à Arábia, e, correndo-a tôda, dobrou o cabo de Rosalgate, que está no Tró- pico de Câncer. No ano de 508, partiu Diogo Lopes de Sequeira de Lisboa, com quatro velas, para a ilha de S. Lou- renço. Andou em redor dela quási um ano e no de nove, e mês de Maio, chegou a Cochim, [onde] o Vice-Rei lhe deu mais um navio. E na entrada do mês de Setembro partiu para Malaca, passou por entre as ilhas de Nicobar e muitas outras, e foi à terra de Samatra, às cidades de Pedir e Pacem, e por tôda essa costa, até à ilha da Polvoreira e baixos de Capacia, e daí se passaram a Malaca, que está em dois graus de altura da parte do Norte, e por lhe matarem e cativarem gente nesta cidade, se tornou para a índia, deixando quinhentas léguas descobertas. Esta ilha de Samatra ó a primeira terra que sabe- mos [que] lá [existe], em que se come carne humana. Umas gentes que vivem nas serras, chamadas Batas, douram os dentes, [e] dizem que a carne dos homens pretos é mais saborosa que a dos brancos, e que as búfalas, vacas e galinhas que há naquelas partes, são de carnes tão pretas como esta tinta [com que escrevo]. Diziam haver aí homens a que chamam dará que dara, que têm rabos como carneiros. Aqui há azeite que tiram de poços. O rei de Pedir me disse que por sua terra corria um rio dêle [i. é, de
Diogo Lopes de Sequeira — 4.° Governador da Índia De Retratos, e Elogios dos Varões, e Donas, eic. Lisboa, MDCCCXVII
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 361 petróleo], [o que] não se deve de haver por muito, pois se acha escrito que na Bactriana há uma fonte de óleo. E também contam haver aqui uma árvore cujo sumo ó [tão] forte peçonha [que], se toca em sangue, logo a pessoa morre; e, bebendo-o, é coisa muito provada contra ela [i. é, contra a peçonha], de modo que dá [ao mesmo tempo] morte e vida. Bate-se aqui moeda de ouro a que chamam dracmas, [a qual] dizem que os romanos trouxeram a esta terra. Parece [que] alguma coisa [há nisso de verdade], porque daqui por diante não se bate moeda de ouro, mas corre êste por mercadoria. No ano de 508, Alonso de Ojeda e Diego de Nicuesa, com licença do rei D. Fernando, armaram à sua custa [certos navios], para ir povoar e conquistar a província [de] Darien, e descobrir a terra firme, onde se chama Uraba, [a] que puseram nome [de] Castela do Ouro, pela [quantidade dêste] que acha- ram na areia, ao longo da praia. E foram [êstes] os primeiros castelhanos que tal fizeram, pelo que um teve a governança de Uraba, e outro de Verágua. Partiu primeiro Alonso de Ojeda [para tomar conta da sua governança], da Ilha Espanhola, e [da] cidade de Santiago, com quatro navios e trezentos soldados, deixando o bacharel Enciso, que depois fêz um livro dêste descobrimento, para ir atrás dêle num navio com mantimentos e munições e cento e cinqOenta espanhóis. Chegou Alonso de Ojeda a Cartagena, onde tomou terra, e os dela lhe mataram e comeram oitenta soldados, do que ficou muito agastado. Neste mesmo ano de 508, armou Diogo de
362 ANTÓNIO GALVAO Nicuesa, no pôrto de Beata, sete velas, para ir a Verágua, e levou nelas perto de oitocentos homens. Chegado a Cartagena, achou aí Alonso de Ojeda assaz agastado pelo que lhe sucedera. Saíram ambos em terra, tomaram vingança, e se foram cada um a sua governança. Diogo de Nicuesa foi descobrindo a costa que vai de Nombre de Diós aos Roquedos de Darien, [e] chamou Pôrto de Misas ao rio Pito. Che- gado a Verágua, deu com a armada à costa, para os soldados perderem esperança de tornarem à Espa- nhola. E ainda que êste ardil de guerra [i. é, a destrui- ção propositada dos navios] tivesse depois Fernando Cortês, não foi êste primeiro naquela terra (como alguns têm e cuidam). Alonso de Ojeda começou uma fortaleza em Caribana, solar dos Caraíbas, e foi [esta] a primeira vila que os castelhanos fizeram em terra firme, e, da mesma forma, em Nombre de Diós, [na] cidade de Nossa Senhora dei Antiga, e [n]a vila de Uraba, onde deixou por capitão e tenente Francisco Pizarro, ([que] descobriu depois a [terra] do Peru), o qual levou aí assaz trabalho. E também fizeram outras [fortalezas], que não nomeio, porque êstes capitães não tiveram tão bom sucesso como cuidavam. E isto basta a meu propósito. No ano de 509, chegou o segundo almirante D. Diogo Colombo à ilha Espanhola, com sua mulher e casa. E como [aquela] era nobre e fidalga, levou muitas mulheres e de boa casta, que lá casaram. E começou a terra a encher-se de castelhanos, porque o rei D. Fernando tinha dado licença que pudessem lá ir descobrir [e] povoar, todos os povos de Espanha,
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 365 pelo que aquela terra foi mais enobrecida e freqden- tada. E também este almirante deu ordem para que se povoasse a ilha de Cuba, que é coisa grande, e pôs nela, para isso, por seu adiantado, a Diogo Valhasques, que fôra com seu pai na segunda armada. No ano de 511, o [no] mês de Abril, partiu Afonso de Albuquerque da cidade de Cochim para Malaca. E neste mesmo ano, e [no] mês de Julho, foram os chins de Malaca para [a] sua terra, e mandou Afonso de Albuquerque com êles, a Sião, um português que se chamava Duarte Fernandes, com cartas e recado ao rei dos Muantais, que agora chamamos Sião do Sul. Ao longo da terra passaram pelo estreito de Singapura, e tomaram a Norte, correndo aquela costa de Patane, até à cidade de Cui, e desta a Udiá, que é cabeça dêste reino, que estará até catorze graus de altura. O rei [dos Muantais], fêz a Duarte Fernandes muita mercê e honra, por ser o primeiro português que vira, e mandou com êle embaixadores a Afonso de Albuquerque, [os quais] atravessaram por terra, [par]a Leste, à cidade de Tenaserim, que está no mar da outra banda, em doze graus. Embarcados em dois navios, se vieram ao longo da costa até à cidade de Malaca, deixando-a tôda vista, segundo [i. é, até onde] alcançam os que vão por mar, ao longo da terra. A gente dêste reino de Sião é gentia, come tôda [a] alimária, bicho e pescado que a terra e água pro- duzem, prezam-se de trazer cascavéis em suas naturas, [o que] ao rei e religiosos ó vedado. Dizem que [êstes] são dos mais virtuosos e honestos que há na redon- deza, [e que] se prezam muito de castidade e pobreza.
366 ANTÓNIO GALVAO Fm sua casa não criam galinha, pomba, nem outra coisa fêmea. Terá este reino duzentas e cinqõenta léguas em comprido, e oitenta de largo, afora os [reinos] que lhe obedecem. Só [dêste] reino põe o rei em campo trinta mil elefantes de guerra, afora os que lhe ficam nas cidades por guarda. Têm um [elefante] branco em grande estima, e outro ruivo, de olhos que escamecham como fogo. Há nestas terras um bicho pequeno que se pega na tromba [dos elefantes] e os ensangúenta até que os mata. Tem a concha tão dura que um arcabuz o não passa; e cria nos fígados uma figura de homens ou mulheres, a que chamam toqueta, que é como mandrágora. E dizem que, quem a traz consigo, não pode morrer a ferro. E [que] nas cabeças de vacas bravas acham pedras mui ditosas para mercadores. Depois de Duarte Fernandes ir aos Muantais, mandou Afonso de Albuquerque um cavaleiro, que se chamava Rui Nunes da Cunhà, com cartas e embaixada ao rei dos Sequins, que nós chamamos Pegus. Foi em um junco dos da terra, ao longo dela, à vista do Cabo Rachado, e daí à cidade de Perá, aquém da Junsalão, e [a] outras muitas povoações que jazem ao longo desta ribeira, por onde já Duarte Fernandes viera, até à cidade de Tenaserim e de Martabão, que está em quinze graus da parte do Norte, e à cidade do Pegu, em dezassete [graus]. Este foi o primeiro português que trilhou aquêle reino, e [que] deu infor- mação da terra, e de como [aí] traziam cascavéis como os muantais. No fim dêste ano de 511, mandou Afonso de
369 Albuquerque, três navios às ilhas de Banda e Maluco, e por capitão-mor dêles, [a] António de Abreu, com um Francisco Serrão. Iam nêles cento e vinte pessoas; e não foram mais velas nem homens ao descobrimento da Nova-Espanha, com Cristóvão Colombo, nem com Vasco da Gama à índia, porque Maluco, depois destas, não é menos em riqueza, nem se deve ter em menos estima. Foram pelo estreito de Sabangue, ao longo da ilha de Samatra, e à vista de outras que ficam da mão esquerda contra o Levante, que chamam dos Salites, até às ilhas de Palimbão e Lusuparão, donde, atraves- sando pela nobre ilha de Java, foram a Leste, cor- rendo sua costa, por entre ela e a ilha de Madura. A gente desta ilha é [aj mais belicosa, e [a] que na redondeza se sabe ter menos em conta a vida. E dizem que as mulheres ganham sôldo pelas armas, e [que] por qualquer coisa se desafiam, e [se] matam uns a [os] outros, quando se fazem amoucos, e [que] inventam pelejarem galos com navalhas, porque o seu principal desenfadamento é sanguiolento. [Para] além desta ilha de Java, vai-se ao longo de outra que se chama Bali, e [de] outra[s] a seguir que se dize[m] Lomboc, Sumbava, Solor, Lomblém, Ombai, Weta, Rosolanguim, Aru, donde vêm os pássaros mirrados, que são muito estimados para penachos, e [de] outras que jazem nesta corda da parte do Sul, em sete ou oito graus de altura, e tão juntas umas com as outras que parece tôda uma terra. Haverá nesta derrota mais de quinhentas léguas. Os cosmó- grafos lhes chamaram as Javas, ainda que agora têm nomes diferentes, como aqui vedes. Avante destas 24
370 ANTÔNIO GALVÃO ilhas dizem que há outras de gentes mais alvas, que andam vestidas de camisas, gibões e ceroulas como portugueses, e têm moeda de prata. Os que governam a república trazem nas mãos varas ver- melhas, por onde parece que devem de ser da China; e não [há por aqui] tão somente estas, mas outras de gentes pintadas, que dizem ser dos chins povoadas. António de Abreu e os que com êle iam, toma- ram sua derrota contra o Norte de uma ilheta que se chama o Gumong Api, porque do mais alto dela corre[m] sempre, e de contínuo, até o mar, ribeiras de fogo, coisa muito para ver. Daqui foram à ilha de Buro, e de Amboíno, costearam a costa daquela que se chama de Muar de Amboíno, surgiram em um pôrto, que se diz Colli Colli, saltaram em terra, tomaram uma povoação que ali estava, e acharam nas casas homens mortos dependurados, porque [os seus habi- tantes] comem carne humana. Aí queimaram a nau em que ia Francisco Serrão, por ser já velha e foram ter à Banda, que está em oito graus da parte do Sul, donde carregaram de cravo, noz, e massa, e[m] um junco que' Francisco Serrão aqui comprara. Dizem que não muito longe destas ilhas de Banda, há uma em que se não cria[m] senão cobras; e as mais [delas] numa cova que [a ilha] tem no meio, umas grandes e outras pequenas, [as quais] andam sempre enroladas. Mas não se deve de haver por muito, tanto como os da terra, que fazem disto espanto, pois os nossos deixaram escrito que, junto das ilhas de Maiorca e Minorca, havia uma que se chamava Ofiusa, em que
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 373 havia muita quantidade destas bichas, não as havendo em tôdas as outras ilhas junto com elas. No ano de 512 partiram [António de Abreu e os seus companheiros], de Banda para Malaca, e, nos baixos de Luçapino, se perdeu Francisco Serrão com o seu junco, donde se tornou à ilha de Mindanau com nove ou dez portugueses que com êle iam; e os reis de Maluco mandaram por êles. Ê9tes foram os pri- meiros hispânicos que viram as ilhas do Cravo, que jazem da Linha contra o Norte em um grau, onde estiveram sete ou oito anos. António de Abreu fêz seu caminho para Malaca, deixando descoberto todo aquêle mar e terra nomeados. A ilha de Guape em que está [a] nossa fortaleza, que agora se chama Ternate, é das mais altas coisas que no mundo se sabe. Deita fogo pelo mais alto, coisa tão espantosa que lá não se sabe falar em outra. Alguns príncipes mouros, e nobres portugueses de altos pensamentos, cometeram por vezes ver isto, mas nunca lá chegaram, pelo que se fazia ainda maior conta [disso]. O que ouvindo António Galvão, deter- minou cometê-lo. Quis Deus e Nossa Senhora que lhe deu cima, e da coisa que mais se espantou desta jor- nada, foi de uma ribeira tão frigidíssima, que não havia pessoa que pudesse ter a mão nela, nem metê-la na bôca. Parece que proveu a natureza ali esta frial- dade, como em outras águas a imensa quentura; sendo isto debaixo da Linha, onde continuadamente o sol reverbera. Há nestas ilhas de Maluco homens com esporões nos artelhos, como galos. Disse-me o rei de Tidore,
374 ANTÓNIO GALVAO que na ilha de Qilolo os havia com rabos; e nas de Amboíno, um bode que deitava leite por uns peitos que tinha entre os companhões. Há lá galinhas peque- nas que põem ovos maiores que [os das] patas, debaixo da terra mais de braça e meia. Há muitas de carne preta, e porcos com cornos, e papagaios muito chocarreiros a que chamam Noris. Há uma ribeira de água tão quente que se pela tudo nela, e [a-pesar disso] cria peixes. Há caranguejos dos matos muito saborosos, e tão forçosos das bôcas que quebram o ferro de uma azagaia. Há outros no mar, velozes e pequenos, que quem os come, morre de improviso. Há umas ostras a que chamam Brás, que têm tama- nhas conchas que baptizam nelas. Há no mar pedra viva que nasce e cria como peixe, e faz cal muito boa; e se a tiram fora, e está até que morre, nunca mais arde. Há uma árvore que, assim que o sol se põe, enfloresce, e cai-lhe [a flor] quando nasce. Há al fruta que dizem que quando uma [mulher] prenhe a come, logo move [o parto]. Há uma erva que segue o sol de maneira que sempre anda com êle, e é coisa de admiração [o] vê-la. No ano de 511, no mês de Janeiro, tornou Afonso de Albuquerque de Malaca para Goa, e se perdeu a nau em que êle ia; e outras se partiram de sua com- panhia, e [destas, a de] Simão de Andrade [que], com alguns portugueses, foi ter às ilhas de Maldiva, que são muitas e cheias de palmeiras, e rasas com a água. Aqui o retiveram até saberem que o governador era vindo. Estes foram os primeiros portugueses que aquelas ilhas viram, nas quais dizem que se criam
Planta de Goa, em fins do século(VI Publicada por Jean Hugues do Llna- chottcn oa relaçío das suas viagem.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 377 côcos debaixo de água, que são muito proveitosos contra tôda a peçonha. Neste ano de 512 partiu de Castela João de Solis, natural de Lebrija, piloto-mor do rei D. Fernando, [que] com sua licença foi descobrir a costa do Brasil, levando a derrota dos Pinzons. Tomou o Cabo de Santo-Agostinho, seguiu sua via contra o Meio Dia, costeando a ribeira e [a] terra légua por légua, e em trinta e cinco graus de altuia achou um rio a que os brasileiros chamam Paraná-Guaçu, que quere dizer grande água. Viu nelas mostras de prata, e assim lhe pôs nome Rio da Prata. E dizem ainda que foi mais adiante, por lhe parecer bem a terra. Tornando a Espanha, deu de tudo conta ao rei D. Fernando, pediu-lhe aquela governança, [e o] rei lhe fêz mercê dela. Armou em Lepe três navios, e no ano de 515 e mês de Setembro, tornou a êste reino, onde o mata- ram. Êstes Solizes [e] Pinzons foram grandes descobri- dores naquelas partes, até gastaram nisso vida e fazenda. Neste mesmo ano de 512, João Ponce de Leon, que foi governador da ilha de S. João, armou dois □avios, e foi buscar a ilha Boihuca, onde diziam os da terra que estava uma fonte, cuja água tornava os velhos moços; e andou em sua busca seis meses com assaz [de] trabalho, sem achar dela nova, e sem que visse tal coisa. Entrou em Bemini, e descobriu aquela ponta de terra firme que está em vinte e cinco graus da parte do Norte, [em] dia de Páscoa florida, e por isso lhe pôs o tal nome [de Florida]. E por lhe pare- cer que acharia nela ouro, prata e grande riqueza, a
378 ANTÔNIO GALVAO pediu ao rei D. Fernando, [o] que foi causa de sua morte e dano, como muitos na tal emprêsa têm recebido. No ano de 513, tendo Vasco Nunes de Valboa, nova do Mar do Sul, determinou passar a êle, com- quanto lhe punham mêdo da gente da terra por onde havia de fazer êste caminho. Mas êle, como era esfor- çado e belicoso, com êsses soldados que tinha, que eram duzentos e noventa, determinou de se meter a êste perigo, parti[ndo] de Darien, onde estava. No pri- meiro de Setembro, levando alguns índios da terra por guia[s], atravessou tôda a terra, ora por paz, ora por guerra, e em um certo senhorio, que se chama Tore- cha, acharam negros cativos, de cabeça revolta, que nunca até entào se viram, nem se sabe [existirem] outros, até agora, em todas aquelas partes da Nova- -Espanha, Castela-do-Ouro e Peru. Houve vista Val- boa do Mar do Sul a vinte e cinco dias do mês, che- gou [a] êle [no] dia de S. Miguel, e, por isso, pôs àquele golfão tal nome. Embarcou-se em certas bar- cas, contra vontade de Chiapes, que era senhor daquela costa, o qual lhe rogava que o não fizesse, por ser perigosa; mas êle quis saber o que era, e dizer que o navegara. Tornou-se assaz contente, com muito ouro, prata, aljofre, que lá se pescava, pelo que o rei D. Fernando lhe fêz mercê e honra. Neste ano e mês de Fevereiro, partiu Afonso de Albuquerque da cidade de Goa para Adém e estreito de Meca, com vinte velas. Chegados àquela cidade, deram-lhe combate; e, passados adiante, entraram o estreito, e dizem que viram no Céu uma cruz, a que
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 381 todos adoraram; e, na ilha de Camarão, invernaram. Êste foi o primeiro capitão português que deu infor- mação daquele mar [Vermelho], e do da Pérsia, coi- sas pelo mundo tão celebradas. No ano de 1514 e mês de Maio, partiu de S. Lucas de Barrameda, Pedr'Aires D'Avila, por mandado do rei D. Fernando IV, [como] governador de Castela Douro, que assim puseram nome a esta província do Darien, Cartagena, Suraba, e àquela terra que nova- mente se conquistava, descobria e senhoreava. Levou sua mulher Dona Isabel, sete naus, [e] mil e quinhen- tos homens nelas. Também o rei fêz adiantado do Mar do Sul e de tôda aquela banda a Vasco Nunes de Valboa. Na entrada do ano de 515, mandou o governador Pedr'Aires D'Avila a Gaspar de Morales, com cento e cinquenta homens, ao Golfão de S. Miguel, buscar a ilha de Terarique. Chiapes e Tumaco, caciques amigos de Valboa, lhe deram muitas canoas, que são barcos de remo, com que passou à ilha das Pérolas [i. é, de Tararique], [cujo] desembarque o senhor dela lhe defendeu. Mas Chiapes e Tumaco concertaram-nos de maneira que o capitão da ilha o levou a sua casa, lhe fêz bom gasalhado, tomou água de baptismo; pôs-se- -lhe nome de Pedr'Aires como o [do] governador, [ao qual mandou] um cêsto de pérolas que pesaria cem marcos, em que entrava[m] algumas delas [grandes] como avelãs, [as quais] tinham vinte e cinco, vinte e seis, e trinta quilates. E deu-se por esta ilha de Tera- rique, [que] está em cinco graus de altura da parte do Norte, mil e duzentos castelhanos.
382 ANTÔNIO GALVAO Neste mesmo ano de 515, e mês de Março, man- dou o governador descobrir terra a Gonçalo de Bada- joz, e deu-lhe oitenta soldados. Partiram de Darien e foram a Nombre de Diós, onde chegou a êles Luís de Mercado, com cinqúenta homens mais, que o gover- nador mandava em sua ajuda. Assentaram descobrir da parte do Sul, por dizerem que era terra mais rica. Tomaram índios por guias, foram ao longo daquela costa, onde viram escravos ferrados, [i. é, marcados a ferro em brasa], como nós costumamos [fazer]. Depois de passarem assaz terras e trabalhos, juntaram muito ouro e quarenta escravos para seu serviço; o cacique Parisa deu sôbre êles e tomou-lhes tudo. Sabendo o governador esta nova, no mesmo ano de 515 mandou a [tomar] vingança [do cacique], seu filho João Aires D'Avila, e [a] descobrir [pelo] alcaide Gaspar de Espinosa, por mar e costa, [aquela terra] que era passagem muito freqúentada do Peru e Nica- rágua. Daqui foram ao Poente, ao cabo da Guerra, que está em pouco mais de seis graus da parte do Norte, e daí à ponta de Bórica, e [a]o cabo Branco, que está em oito graus e meio. Descobriram duzentas e cinqúenta léguas, segundo êles dizem, e povoaram a cidade de Panamá. No mesmo ano de 515 e mês de Maio, mandou Afonso de Albuquerque, governador da índia, da cidade de Ormuz, Fernão Gomes de Lemos com embaixada ao Xeque Ismael, senhor da Pérsia. E dizem que atravessaram por ela [i. é, pela Pérsia] trezentas léguas, e que é uma bela França. O Xeque Ismael andava à caça e pesca de trutas, [de] que há aí muitas.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 385 [Também aí há] as mais formosas mulheres da redon- deza, e assim o aprova o Grande Alexandre quando dizia por elas que as persianas eram dor dos olhos. No ano de 516, e cem anos depois da tomada de Ceuta, governando Lopo Soares a índia, despachou, por mandado de Sua Alteza, Fernando Peres de Andrade para a grande Província da China. Partiu [êste] da cidade de Ccchim, no mês de Abril, e esteve na ilha de Samatra, na Cidade de Pacém, tomando a pimenta, por ser a principal mercadoria que na China tem valia. E mandou daqui [i. é, de Pacém] el-Rei D. Manuel, que também fôsse a Bengala com sua carta e recado, um cavaleiro que se chamava João Coelho. Este foi o primeiro português, que eu saiba, que bebeu água do rio Ganges. E neste ano de 516 faleceu o rei D. Fernando de Castela. No ano de 517, foi Fernão Peres [de Andrade] ter à cidade de Malaca, e no mês de Julho partiu dela para a China, com oito velas, quatro portuguesas, e as outras malaias. Chegado à China, como não podia entrar nela sem embaixada, levava já um Tomé Pires para isso. E partiu [êste] da cidade de Cantão, onde surgiram, foi por terra quatrocentas léguas (porque esta província é a maior que agora [se] sabe no mundo), à cidade de Pequim, onde o rei estava. Começa [a China] em dezanove e vinte graus de altura da parte do Norte, e diz[em] que acaba perto de cinqúenta graus (em que haverá quinhentas léguas de comprido), e querem [ainda] que tenha de largo trezentas [léguas]. E esteve Fernão Peres catorze meses em uma ilha que se chama da Veniaga, infor- 25
386 mando-se das coisas daquela terra, como el-Rei [D. Manuel] lhe mandava, por serem muito grandes e notáveis; e ainda que já lá fôra Rafael Perestrelo, em um junco de mercadores de Malaca, a Fernão Peres se deve dar a palma dêste descobrimento, tanto por ser por el-Rei mandado, como por descobrir tanto [caminho] com armada. ETomé Pires por terra, e Jorge Mascarenhas por mar e costa, [foram] até a cidade de Foquiém, que está em vinte e quatro graus de altura. Neste mesmo ano de 517, veio o Imperador Car- los [V.°] a Espanha, tomar posse dela. No mesmo ano, arm[aram] Francisco Fernandes de Córdova, Cristóvão Morante e Lopo Ochea, três navios à sua custa; [saí- ram] da ilha de Cuba, levaram mais uma barca de Diego Velázquez, que já governava, [e] que [se] meteu nesta armada, foram tomar terra em Iucatâo, [que está] em vinte graus de altura, em uma ponta que puseram nome das Mulheres, que foi a primeira [terra] em que se viram templos e edifícios de cal e pedra. E [a] gente melhor ataviada [do] que a de outra qualquer terra; e [viram] cruzes que os índios adoravam, e punham sôbre seus defuntos quando faleciam, pelo que parecia que em algum tempo se sentiu ali a fé de Cristo, [razão] por que alguns quiseram dizer que fôssem ali as Sete Cidades. Andaram em redor dela da parte do Norte, que ó da mão direita, donde se tornaram à Ilha de Cuba, com algumas amostras de ouro, e homens que tomaram; e êste foi o comêço do descobrimento da Nova-Espanha. No ano de 518 mandou Lopo Soares D. João da Sil- veira, às ilhas de Maldiva e reino de Bengala, [o qual]
De Retratos, e Elogios dos Varões, e Donas, etc. Lisboa, MDCCCXVI1
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 389 nas ilhas assentou pazes com os moradores delas, e daí foi à cidade de Chatigão, que está situada na bôca do rio Ganges, no Trópico de Câncer (porque tanto êste rio, como o Indo, que está cem léguas além da cidade de Dio, e o de Cantáo, na China, todos desem- bocam num paralelo), [por] mar e [por] terra; e ainda que já neste tempo tivesse Fernão Peres mandado a Bengala o Coelho (como é dito), contudo D. João da Silveira deve de levar a palma dêste descobrimento, por ir por capitão-mor e estar lá mais tempo, infor- mando-se da terra e dos costumes dos principais dela. No ano de 518, o primeiro dia do mês de Maio, mandou o governador Diego Velázquez, que estava na ilha [de] Cuba, seu sobrinho João de Grijalva com quatro navios e duzentos soldados ao descobrimento da terra de Iucatáo, e tomaram de caminho a Ilha de Cozumel, que está da parte do Norte, em dezanove graus, e puseram-lhe nome [de] Santa-Cruz, por esta- rem nela aquêle dia. Costearam esta costa à mão esquerda, por uma enseada que puseram nome de Ascensão, por lá entrarem em tamanha festa. Foram até ao fim dela, que está em dezasseis graus de altura, donde se tornaram, por não acharem saída. E daqui foram, rodeando-a, a outro rio, ao qual puseram nome de Grijalva, que está em dezassete graus de altura; e os dela os feriram, e maltrataram. Contudo, trouxeram [de lá] algum ouro, prata, penachos, que são lá muito estimados, e com isto se tornaram à ilha de Cuba. E no mesmo ano de 518, armou Francisco de Garay três navios na ilha Jamaica, a expensas suas.
390 ANTÓNIO GALVAO Foi a tentar a ponta da Florida que está em vinte e cinco graus da parte do Norte, parecendo-lhes que seria ilha, [o] que naquele tempo mais folgavam de descobrir que terra firme, porque a podiam melhor conquistar, senhorear, e conversar. [Os da armada] saíram em terra, os dela lhe[s] feriram e mataram muita gente, pelo que não ousou povoá-la. Foram-se ao longo da costa, chegaram ao rio de Panuco, que são quinhentas léguas da ponta da Florida, não os deixaram resgatar, nem conversar em parte alguma, mas antes em Chily lhe[s] feriram e mataram gente, que esfolaram e comeram, pondo as peles no templo, e[m] sacrifício [e] por memória de sua valentia. Con- tudo, tornou lá Francisco de Garay, e o ano seguinte mandou ao Imperador pedir a governança daquela terra, por lhe parecer rica de ouro e prata. No ano de 519, em Fevereiro, partiu Fernando Cortês da Ilha de Cuba, [para a terra] a que êle pôs nome [de] Nova-Espanha, com onze velas e quinhen- tos e cinqOenta espanhóis nelas; e a primeira terra que [êstes] tomaram foi a terra de Cozumel, ou Santa- -Cruz, onde logo destruíram todos os ídolos, puseram cruzes nos altares, e imagens de Nossa Senhora, a que todos adoravam. Desta ilha tomaram a terra firme de Iucatâo, na Ponta das Mulheres, ao rio de Tabasco, e deram numa cidade que está nêle, cha- mada Potochão, cercada de madeira, com casas de cal e pedra, cobertas de ladrilho. Pelejaram com grande apêrto, aparecendo-lhes o Senhor Santiago em cima de um cavalo, que lhes dobrou o esfôrço, e puseram o nome a esta cidade da Vitória. Foram
Hernan Cortês Kr trato feito na época da con- quista do México. Da colecçio do «Duque dei lofautado».
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 393 os primeiros vassalos que o Imperador teve na Nova-Espanha. Daqui foram pela costa, descobrindo até onde sé chama S. João de Alva, (donde dizem que haverá sessenta ou setenta léguas do México), onde estava o rei Montezuma, e governava por êle um seu criado que se chamava Teudalim, o qual lhe fêz bom gasa- lhado, apesar de que se não entenderiam, se Fernando Cortês não levasse vinte mulheres, uma das quaia chamava Marina, que era de dentro daquela terra. Foram as primeiras que receberam água de baptismo na Nova-Espanha, e dali por diante Marina e Aguilar serviram de língua. E logo Teudalim fêz saber a Mon- tezuma como a gente barbuda (que assim chamavam aos castelhanos), era ali aportada, do que lhe pesou muito, por lhe terem dito os seus deuses que tais homens como aquêles haviam de destruir sua lei e terra, e senhoreá-la; e, por isso, mandou peças a Fernando Cortês, que valiam vinte mil cruzados, escusando-se de se ver com êle. Como S. João de Alva não era pôrto para estar a armada, mandou Fernando Cortês a Francisco de Montejo e ao piloto Antão de Laminos, em dois ber- gantis, que descobrissem aquela costa até topar sítio onde pudessem estar sem perigo. Foram até Panuoo, que está da parte do Norte em vinte e dois graus de altura, donde se tornaram com acôr^o de passar-se a Cunduacan, que é pôrto de melhor abrigo. E dada à vela, se partiram contra o Poente, e Cortês por terra com a mais da gente e cavalos; chegaram a uma cidade que se chama Heopolão, [onde] foi bem rece-
394 bido; e daí a outra que se chama Quiahuiztlan. Com êstes, e [com] tôda a comarca, assentou liga contra Montezuma; e sabendo que as naus eram chegadas, foi-se a elas, e fundou ali uma vila a que pôs nome Rica de Vera Cruz, donde mandou ao Imperador [um] presente, e seus quintos, [com emissários] a darem- ■lhe conta do que se passava, e como determinava de ir ao México a ver-se com Montezuma, [para] que lhe fizesse mercê da governança. E por se não amotinar a gente, como já começava, deu com os navios à costa. Partiu logo Fernando Cortês da Vila Rica de Vera Cruz, deixando nela cento e cinqfienta castelha- nos, dois cavalos, muitos índios de serviço, e, em redor povos amigos e aliados. E êle se foi à cidade de Heopolão, que agora se chama Cempoala, onde lhe deram nova que andava pela costa Francisco de Garay, com quatro navios, para tomar terra; e por manhas e ciladas houve dêles nove homens, de que soube como Garay fôra à Florida, e tooara o rio Panuco, onde resgatara ouro. Com tudo [isto], levava determinado de se assentar onde agora se chama Alméria. Cortês, em Cempoala, [depois de] fazer derribar os ídolos e os sepulcros dos senhores, que também reverenciavam como a deuses, e [de] adorar ao Senhor de tudo, partiu para [o] México a dezasseis de Agôsto, [e] caminhando três jornadas, sem guias, chegou à oidade de Colopão e [a] outra mais adiante que se chama Sepochimaco, onde foi bem recebido [dos naturais] [qu]e se ofereceram [para] levá-lo ao México, por o Montezuma ter assim mandado.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 397 Passadas umas serras de três léguas, em que havia árvores com mil parreiras de uvas, e além das quais era a terra chá, por ser a primeira terra [que viam] lhe puseram nome Nombre de Diós. No fundo da serra se aposentaram numa vila que se chama Tenixuacâo, e dali andaram três dias por terra des- povoada, e foram ter a outra serra muito fria e nevada, e pousaram em uma vila que se diz Zacotão, e de um lugar em outro foram bem recebidos e aga- salhados, até entrarem no reino de Tlaxcala, que tinha guerra com Montezuma. E como [os dêste reino] presumiam de valentes, pelejaram com Fernando Cor- tês e suas gentes, e, por fim de tudo, ficaram amigos, e aliados contra os mexicanos. E assim foram de terra em terra, e [de] pouco em pouco descobrindo até à cidade do México. O rei Montezuma, como os temia, fêz-lhe bom gasalhado, mandando-os aposentar, e dar-lhe todo o necessário. Estiveram assim alguns dias contentes. Mas como Fernando Cortês se receasse de ser morto, prendeu a Montezuma, levou-o a sua casa, e pô-lo a bom recato. Desejou Fernando Cortês saber [de que] tamanho era êste reino contra o Ocidente, e [contra] o Mar que chamam do Sul, quais as minas de ouro e prata que nêle havia, e os reis vizinhos que contra aquela parte Montezuma tinha, para [o] que [lhe] pediu lhe desse alguns índios que soubessem dar disso boa conta. Êle mandou logo fazer prestes oito, e Cortês outros tantos espanhóis, e de dois em dois, foram a quatro províncias que sáo: Zacatlan, Malinaltepec, Tenih, Tutipec. Os que foram a Zacatlan andaram
398 [as] oitenta léguas que há do México a êle [i. é, a Zacatlan], e os que foram a Malinaltepec, [que] eram setecentas [léguas], viram boa terra, e trouxeram amos- tras de ouro, que os naturais tiram de um grande rio que passa por ela; [e] tudo isto é de Montezuma. [Em] Tenih, e pelo rio acima, não obedeciam a Montezuma, mas antes tinham com êle guerra, não deixaram entrar os mexicanos, deram-lhes amostras de ouro que no rio tiraram, e mandaram embaixado- res a Fernando Cortês com presentes, oferecendo-lhe seu Estado e amizade, do que Montezuma não folgou nada. Os que foram a Tutipec, que está junto do mar, também trouxeram amostras de ouro, dizendo que a terra era boa para fazer nela assento. Montezuma mandou logo fazer casas e aposentos para os caste- lhanos estarem nelas. Preguntou-lhe Fernando Cortês se naquela costa do mar havia portos em que pudessem as naus estar seguras; disse [Montezuma] que não sabia, mas que logo preguntaria, e mostrou- •lhe um pano de algodão todo tecido de debuxo, em que estava tôda a costa, portos e enseadas. Esta obra [perdeu-se?] pela vinda de Pânfllo de Narváez e revoltas do México. Neste mesmo ano de 1519, a dez de Agôsto, partiu Fernão de Magalhães, de Sevilha, com cinco velas, para as ilhas de Maluco; foi costeando a costa do Brasil até o rio da Prata, que era já descoberto por parte de Castela, [e] daqui por diante fêz o Maga- lhães seu descobrimento. Chegado a um rio [a] que pôs nome de S. Julião, que está em quarenta e nove graus, meteu-se dentro, onde invernou, passando
Fernão de Magalhães
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 401 grande frio, pelas muitas neves e geadas que [ai] havia. Os homens daquela terra dizem que são de grande estatura e fôrça, e que, [se] tomam outro qualquer pelas pernas, o quebram pelo meio como se fôsse uma galinha. Mantêm-se de caça e fruta. Puseram-lhe[s] [o] nome de Patagones, e os brasilei- ros lhe [8] chamam Morcas No ano de 520, e entrada do mês de Setembro, [em] que começa o verão naquela terra, saíram do rio [8. Julião], tendo já um navio perdido. Com os qua- tro, chegaram ao estreito que chamam de Magalhães, o qual está em cinqúenta e dois graus e meio, donde se tornou uma nau para Castela, de que era capitão e pilôto Estêvão Gomes, do Pôrto, português. Com as [outras] três, foram seu caminho por um grande mar ermo, a que chamaram Pacífico, sem verem terra nem ilha povoada, até treze graus de altura da parte do Norte, [em] que fora[m] ter às ilhas povoadas, a que puseram nome dos Prazeres, e daí ao arquipélago de S. Lázaro. E em uma ilha que se diz Zebu ou Mactan, foi o Magalhães morto, e [a] sua nau queimada. As outras duas foram a Bornéu, e daí a Mindanau, e, de pedra em pedra, às ilhas do Cravo, deixando outras muitas descobertas, que não aponto, por haver muitos escritores dêste caminho. Neste mesmo tempo dizem que o Papa Leão X mandou Misser Paulo Centurião com embaixada ao Grão Duque [de] Moscóvia, a provocá-lo que enviasse à índia [uma] armada, ao longo da costa da Tartária. Tais razões lhe dava que o movera a isso, se o não estorvara alguns inconvenientes que havia. 26
402 ANTÓNIO GALVAO Neste mesmo ano de 520, em o mês de Fevereiro, partiu Diogo Lopes de Sequeira, governador da índia, para o estreito de Meca, levando consigo o embaixa- dor do Preste, [e com êle] D. Rodrigo de Lima, que ia também com embaixada. Chegaram à ilha de Maçuá, que está da banda da África, da parte do Norte, em dezassete graus. Puseram [i. é, os da armadaj os embaixadores em terra com os portugueses que haviam de ir com êles, ainda que já lá fôra Pêro da CovilhS, que el-Rei D. Joào II mandara. Mas, contudo, Fran- cisco Álvares nos deu informação daquela terra, pelo que escreveu dela. Neste ano de 520, o licenciado Vázquez de Aillon e outros vizinhos de S. Domingos, armaram dois navios que mandaram às ilhas dos Lucaios tomar escravos; e como os não acharam, passaram à terra firme, acima da Florida, onde se chama Chiapes, e Gualdapé, ou rio Jordão, e [ao] cabo de Santa-Helena que está da parte do Norte, em trinta e dois graus. Os da terra acudiram à praia [a] ver os navios, como quem nunca os vira. Os castelhanos saltaram em terra, onde lhes fizeram bom gasalhado, e lhes deram de graça o necessário. Foram muitos às naus convidados, deram às velas, trouxeram-nos por escravos, e no caminho se foi uma nau ao fundo. Os que na outra escaparam, passaram com trabalho. O licenciado, como lá visse ouro, prata e aljofre, pediu ao Imperador aquela governança, aonde tornou [parja pagar [ao Imperador?] o que devia. Neste tempo, sabendo Diego Velasquez, que governava Cuba, que Cortês andava próspero, e pedia
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 403 a capitania da Nova-Espanha, que êle tinha por sua, mandou lá uma armada de dezóito velas, mil homens e oitenta cavalos, e por capitão-mor Pânfilo de Nar- vaez, o qual foi à Vila Rica de Vera Cruz, onde tomou terra, e mandou dizer [aos seus habitantes] que o recebessem [a êle Diego Velasquez] por governador dela. [Êstes] prenderam os mensageiros, e mandaram- -nos a Cortês, ao México, [o qual], sabendo isto, escreveu a Narvaez que náo amotinasse a terra que êle tinha descoberto, [pois] que se êle tinha provisão do Imperador, que lhe obedeceria. Dizem que com isto lhe mandou subornar a gente com dinheiro. Saiu [Cortês] do México, e o prendeu [i. é, a Narvaez] na Vila de Cempoalla, quebrando-lhe um ôlho. Depois que Narvaez foi prêso, os de seu exército se entregaram a Cortês, e lhe obedeceram. Despachou [êste] logo duzentos espanhóis ao rio Garai, [a] João Vasques de Lião, com outros tantos a Coatzacoalcos, e um castelhano, com nova de sua vitória, ao México; mas os índios, como já estavam alevantados, o feriram [i. é, ao castelhano]. Sabendo Cortês isto, fêz alardo, achou mil de pé e duzentos de cavalo, com que foi ao México, e [aí] achou Pêro de Alvarado, e os que lá dei- xara, vivos e sãos, de que teve grande contentamento. Montezuma lhe fêz bom gasalhado; contudo, os mexi- canos não deixaram de lhes fazer guerra, e tão crua, que lhes mataram seu rei Montezuma, de uma pedrada, e alevantaram outro a êles mais aceito, até deitarem os castelhanos [fora] da cidade, os quais não eram mais já de quinhentos e quatro de pé, e quarenta de cavalo. E, assim desbaratados, foram a Tlascala, onde
404 os receberam; e [aí] se fizeram [i. é, se juntaram] novecentos espanhóis, [com] oitenta de cavalo, e du- zentos mil índios, amigos e aliados. Tornaram a tomar México, no mês de Agôsto, [no] ano de 521. Vendo-se Fernando Cortês vitorioso e pacífico, determinou de descobrir pela terra dentro; e, para isso, neste ano de 521, em o mês de Outubro, mandou Gonçalo de Sandoval com duzentos peões, e trinta e cinco de cavalo, e muitos índios amigos, até Tochte- pec (?), [e] Coatzacoalcos, que se tinham rebelado. Renderam aquela terra, descobriram-na, e fizeram uma vila a cento e vinte léguas do México, que se chama Medelim, e também outra [chamada] do Espí- rito Santo, [a] quatro léguas do mar, ao longo de uma ribeira, com as quais pacificaram por ali tudo. Neste mesmo ano, no mês de Dezembro, faleceu el-Rei D. Manuel, e sucedeu D. João III, seu filho. No ano de 521, partiu de Maluco para Castela, uma das naus em que o Magalhães fôra, carregada de cravo, [indo por] capitão e pilôto dela, João Sebas- tião dei Cano. Foram tomar mantimento à ilha de Bouro, que está em vinte e quatro graus de altura da parte Sul. Passaram por entre Veta e Ombai, as quais estão em oito graus, e daí foram a Timor, que está em onze [graus, e] além dêle, cem léguas, descobri- ram ilhas, umas antes e outras debaixo do Trópico de Capricórnio. Tôdas são povoadas daqui por diante. Não sei [de] terra que vissem até o Cabo da Boa-Es- perança, senão uma ilheta sem gente, onde diz[em] que tomaram água e lenha. E [seguindo] ao longo daquela costa, vieram às ilhas de Cabo-Verde, e daí
Pretensas armai de Sebastito dei Cano, aluaivaa à primeira viajem de circunnavegafto do globo.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 407 à cidade de Sevilha, onde foram recebidos com grande alvorôço, tanto pelo cravo que traziam como por darem uma volta ao Mundo. No ano de 622, e mês de Janeiro, foram ao des- cobrimento de Nicarágua, e a buscar o estreito que diz [em] que passava à outra banda; [foi] Gil Gonzá- lez Dávila, em quatro navios, que, [segundo se] diz armara na ilha de Tararequi. Indo assim ao longo da terra, saiu em um pôrto que se chama S. Vicente, com cem espanhóis e certos cavalos. Entrou pela terra dentro duzentas léguas, e trouxe duzentos mil pesos de ouro, ainda que baixo. Tornado a S. Vicente, achou ai o seu pilôto André Nifio, que dizia que chegara até Telmantepe, que está em dezasseis graus da parte do Norte, e navegara trezentas léguas. Dali se torna- ram a Panamá, donde foram à ilha Espanhola. Neste mesmo ano de 522, e mês de Abril, partiu a outra nau que com o Magalhães fôra, da ilha de Tidore, [e por] capitão dela Gonçalo Gomez de Espi- nosa; [e], na volta da Nova-Espanha, por escassear o vento, governaram ao Nordeste, em trinta e seis graus da parte do Norte, [e viram] duas ilhas a que puse- ram nome de S. João, e, [seguindo] pelo mesmo rumo, foram ter a outra em vinte graus, que se chama a Grega; a gente dela, como inocente, se veio meter na nau, [dos quais] tomaram alguns para levar de amos- tra à Nova-Espanha. Andaram quatro meses nesta volta, até alcançarem quarenta e dois graus, onde viram lôbos marinhos e toninhas. E era o clima tão frio e destemperado que se não podia [m] sustentar nêle, pelo que tornaram a arribar a Maluco. Contudo,
408 ANTÓNIO GALVÃO foram os primeiros espanhóis que se puseram daquela banda, em tão grande altura; e quando tornaram a Maluco acharam já neste ano António de Brito fazendo fortaleza. Neste ano de 522, desejoso o Cortês, [de] ter ter- ras e portos no Mar do Sul, para descobrir por ali a costa da Nova-Espanha, de que tinha notícia em vida de Montezuma, e também [porque] lhe parecia que traria por ali as drogas de Maluco, Banda, e [as] espe- ciarias de Java, com menos trabalho e perigo, mandou lá quatro castelhanos com seus guias a Tehuantepec e a Guatemala, e a outros portos, de que foram bem recebidos, [e donde] trouxeram homens que os guiaram ao México. Fernando Cortês lhes fêz bom gasalhado, e deu-lhes peças que os oontentaram. Depois disto mandou lá dez pilotos, e guias da terra, que os leva- ram à Província de Tehuantepec e Chicoalco, que agora se diz Juan de Grijalva. Andaram setenta léguas pelo Mar do Sul e [pela] costa, sem acharem pôrto nem fundo, senão um cacique que se chamava Chu- chelaquir, que lhe fêz bom gasalhado, e mandou com êles duzentos cavaleiros, com um presente de ouro e prata, e de outras coisas que havia na terra; e assi o fizeram os de Tehuantepec, aos quais Fernando Cortês fêz assaz honra. E não tardou muito que lhe não mandassem pedir socorro contra seus vizinhos, que os guerreavam. No ano de mil e quinhentos e vinte e três, e mês de Março, mandou lá o Cortês em sua ajuda a Pêro de Alvarado, com duzentos soldados e quarenta de cavalo, ao senhor de Tehuantepec e Guatemala; e [os
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 409 desta terra] lhes preguntaram por Cortês, e pelos monstros marinhos que o ano passado ali [haviam] chegado, que eram os navios de Gil Gonzalez Dávila, de que estavam muito espantados, e muito o mais [o] foram do lhe dizerem que Fernando Cortês os tinha maiores. Debuxaram-lhes uma carraca com mastros, velas, enxárcias e cavalos, com um homem armado em cima. Foi Alvarado bem recebido, [e] começou logo a correr aquelas províncias e [a] senhoreá-las; e fêz nelas a cidade de Santiago, e uma vila [a] que pôs nome [de] Segura, deixando nela gente, com que se segurou a terra. No mesmo ano de 523, e mês de Maio, mandou António de Brito, que estava por capitão de Maluco, a Simão de Abreu, seu primo, a saber o caminho de Bornêu para Malaca. Houve vista das ilhas de Menado [e] Panguensara. Foram pelo estreito de entre Minda- nau e Taguina, às ilhas de S. Miguel, que estão em sete graus de altura, da parte do Norte. E daí discor- reram à ilha de Bornêu, e, [rodeando] tôda [a] sua costa, houveram vista da Pedra Branca, passaram pelo estreito de Singapura, [e] foram ter à cidade de Malaca, deixando muitas ilhas, mar e terra por ali sabidas. Neste mesmo ano de 523, foi Cortês com trezentos soldados, e cento e cinqQenta de cavalo [e] quatro- centos mexicanos, a Panuco, como tinha assentado, tanto por descobrir melhor aquela terra, como por povoá-la, e tomar vingança dos de Guara, que ali mataram e comeram [os espanhóis]. Os de Panuco não os receberam, mas antes se defenderam varonilmente;
410 contudo, foram desbaratados, e muitos mortos, e con- quistada a terra. E junto de Chile, ao longo do rio, fundou Cortês uma vila, a que pôs nome Santo Estê- vão dei Puerto, deixando nela cem infantes, e trinta de cavalo, e por tenente a Pero de Valleijo. Custou- -lhe esta ida setenta e seis mil castelhanos, afora os espanhóis, cavalos e mexicanos que lá ficaram. Neste ano de 523, armou Francisco de Garay nove navios e dois bergantins, para ir a Panuco e rio das Palmas por governador e adiantado [da terra] que o Imperador lhe tinha dado da Florida até Panuco; [e], pelo gasto que tinha feito neste desco- brimento, levou desta vez oitocentos e cinqQenta sol- dados, e cento e quarenta cavalos, e alguns ilhéus de Jamaica, onde forneceu a frota de munições de guerra; e foi se a Xaca, pôrto da ilha de Cuba, onde soube que Cortês tinha povoado a costa de Panuco; e para lhe não acontecer como a Pânfilo de Narvaez, deter- minou ir fazer com êle algum concêrto. Para isso rogou [Francisco de Garay] ao licenciado Suáso que fôsse ao México. E partiram de Xaca cada um a seu negócio: Suaso correu assaz fortuna, e Garay não esteve sem alguma. Chegado ao rio das Palmas, surgiu ai [no] dia de Santiago; e mandou por êle acima a Gonçalo de Ocampo, que tornou dizendo que a terra era má e despovoada. Contudo, Garay desembarcou nela com quatrocentos espanhóis e cavalos, e mandou a João de Grijalva costear a costa, e êle caminhou por terra para Panuco, passou um rio a que pôs nome Monte Alto, entrou em um lugar despovoado, onde achou
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 411 muitos perus do mato com que [os seus] refrescaram, e tomou alguns [Daturais] de Ghili, com assaz trabalho, e chegou ao Panuco, mas não achou mantimento pelas guerras que o Cortês aí tivera. Mandou Garay, a Gonçalo de Ocampo a Santo Este- vão dei Puerto, a saber se o receberiam; deram [-lhe] boa resposta, e [depois] deitaram-lhe cilada, era que prenderam quarenta, por [lhes] dizerem que [os espanhóis] iam a usurpar aquela terra, com que Garay recebeu muita perda, além de quatro navios que tinha [já] perdidos, com a gente que lhe fugira no rio de Panuco. E com isto [Garay] temeu a for- tuna de Cortês que, sabendo esta nova, deixou as armadas para descobrir [o Cabo] das Figueiras, Chiapa e Tonalá (?), e volveu o rosto a Panuco. Estando nisto, Francisco de Las Casas e Rodrigo de La Paz chegaram ao México, com provisões em que o Imperador mandava a Fernando Cortês a gover- nança da Nova-Espanha, e tudo o mais que tivesse conquistado atê Panuco. Pelo que [Cortês] mandou lá dinheiro a Diogo de Ocampo, e [a] Pêro de Alva- rado com gente de pé e [de] cavalo, o que Garay sabendo, tomou por partido meter-se nas mãos de Cortês, e ir-se ao México, deixando muito descoberto. Também foi ao descobrimento, neste mesmo ano, Gil Gonçalves Dávila, e povoou Gil de Boa-Vista, que estará em catorze graus de altura da parte do Norte. No fim ou quási da baía da Ascensão, começou a conquis- tar aquela terra para saber melhor os segredos dela. Neste ano de 523, aos seis dias do mês de Dezem- bro, partiu Pêro de Alvarado da cidade do México,
412 ANTÓNIO GALVAO por mandado de Cortês, à conquista e descobrimento de Guatemala, Utatlan, Chiapa, Ghanuco, e outros povos que por ali estavam, levando trezentos soldados, cento e quarenta cavalos, e alguns senhores mexi- canos com gente da terra, que os ajudaram, assim na guerra como pelo caminho, que era comprido. Foram ter a Tehuantepec e a Chanuco, e ao mais acima nomeado; e, com assaz [de] trabalho e mortos, descobriu e conquistou tudo. Há aí serras de pedra ume, e licor que parece azeite muito bom, e muito bom enxôfre que, sem ser refinado, fazem pólvora dêle. Ali andaram quatrocentas léguas, e fizeram uma cidade [a] que puseram [o] nome [de] Santiago de Guatemala; e pareceu a Pêro de Alvarado táo bem aquela terra, que pediu dela a governança, o diz[em] que lhe foi dada. Nesta era de 524, a oito de Dezembro, mandou Cortês a Diogo de Godoy com cem soldados e trinta cavalos, e muitos amigos e aliados dos índios, contra a Província de Chamola, à vila do Espírito Santo, e e outras terras que estão entre Chiapa e Guatemala, onde Pêro de Alvarado era chegado. [E] Diogo de Godoy [chegado] à vila do Espírito Santo, juntou-se oom o capitão dela, e entraram até Chamola, que ó cidade e cabeça daquela Província, e, [uma vez] tomada, pacificou-se tôda a terra, e ficou bem des- coberta e sabida. Neste mesmo ano de 524, e mês de Fevereiro, mandou o Cortês a Diogo Rangel com cento e cin- qúenta espanhóis e muitos tlascaltecas e mexioanos, aos Zapotecas, Nistecas e a outras províncias que não
De , de O. Dapper, Amesterdão, 1673.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 415 eram bem sabidas e descobertas. Tiveram lá guerras, mas, por fim de tudo, desbarataram e castigaram-nos de [tal] maneira, que nunca mais [se] ajuntaram nem buliram consigo. Neste mesmo ano de 524, foi Rodrigo de Bástidas descobrir, governar e povoar Santa-Marta, o que lhe custou a vida. Por não deixar os soldados saquear a terra e destruir a gente dela, [êstes] ajuntaram-se com Pêro de Vila Forte, em que êle confiava e fazia muita conta, e [que] ajudou a matá-lo às punhaladas, jazendo [Bástidas] na cama. Depois foram por gover- nadores D. Pedro de Lugo, e seu filho D. Luís de Lugo, que se houveram como tiranos cobiçosos, de que sucederam muitos males em aquelas partes. E no mesmo ano de 524, depois do licenciado Lucas de Aillon ter do Imperador a governança de Chicora, armou para ela certos navios da cidade de 8. Domingos, [com os quais] foi descobrir a terra e povoá-la, ou [antes] pagar as injustiças e injúrias que em aquelas partes tinha feito, com o corpo, vida, e fazenda, porque lá se perdeu com tôda a armada, sem lá fazer coisa digna de memória, sòmente ver-se nela a justiça divina. E em outras muitas [ocasiões] se viu [a mesma justiça] em aquelas partes das Anti- lhas e índias Portuguesas, pelos roubos, tiranias e males que se faziam nelas, por onde parece que nunca faltaram Nabucodonosores que castiguem nossos males, os quais são tantos como vemos. aQue foi [feito] de tantos castelhanos e portugueses que têm ido às Antilhas e índias, [do] ouro, prata, especiarias, drogas, aljofre, pedraria e mercadorias que de lá
416 ANTÓNIO GALVAO trouxeram? Tudo ó gasto [e] consumido sem nenhum fruto; e algum que quis ter alma, ficou sem vida. E ainda me parece que quem se quiser ocupar nesta matéria, não a acabaria na [vida] de Matusalém dobrada. Neste mesmo ano de quinhentos e vinte e quatro, mandou Fernando Cortês [a] Cristóvão de Olid com uma armada à ilha de Cuba, tomar mantimentos [e] munições que Contreras tinha feito, [i. é, prepa- rado] e [a] descobrir e povoar as Honduras e aque- las terras que não eram ainda bem sabidas; [e determinou] que [Olid] mandasse [a] Diego Hur- tado de Mendoza, por mar, [ao longo da] costa, a buscar o estreito que diziam passar da outra banda, como o Imperador mandava; e também en- viou [i. é, Fernando Cortês], dois navios de Panuco até Florida, ao mesmo cabo de Guatemala, [e] a Panamá, por não ficar coisa que não fôsse sabida. Cristóvão de Olid, chegado à ilha de Cuba, assentou liga com Diego Velázquez contra Cortês; dado à vela, [Cristóvão de Olid] foi desembarcar junto do Pôrto- -de-Cavalos, em dez graus da parte do Norte, e fêz a vila do Triunfo da Cruz, prendeu Gil Gonçalves Davila, matou-lhe um sobrinho, com os espanhóis que o seguiram, ficou só no ninho, e declarou-se por ini- migo de Cortês. [Cristóvão de Olid] gastou nesta armada trinta mil castelhanos, por lhe fazer boa obra, [i. é, para que esta alcançasse êxito]. Sabendo Fernando Cortês isto, na mesma era de *24, no mês de Abril, partiu da cidade de Méxioo em busca de Cristóvão de Olid, para tomar dêle vingança,
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 417 e descobrir a terra e províncias que ainda por espa- nhóis não eram vistas, levando trezentos dêles de pé e [de] cavalo, [acompanhado] do rei Guatimozim e dos príncipes do México para [se mostrar] mais pací- fico. Chegado à vila do Espírito-Santo, fêz saber aos senhores de Tavasco e Xicalanco sua determinação, e [mandou] pedir que lhe mandassem guias. Eles o fize- ram logo, e em um pano de algodão tecido deram um debuxo em que estava tôda a terra que há de Xica- lanco a Nico, Necaome (?) e Nicarágua, com monta- nhas, serras, campinas, vales, ribeiras, cidades e vilas. [Cortês] mandou a Medelim aparelhar três navios com mantimentos, munições, e que fôssem ao longo da costa. No ano de 524, chegaram à cidade de Inzacanaca, onde souberam como o rei Guatimozim e [os] mexica- nos se conjuravam contra Cortês e castelhanos, pelo que o rei e alguns foram enforcados. Dali partiram e chegaram à cidade de Matalão, e, depois, a Tiaca, cabeça da província, [a qual] está no meio de uma lagoa, e já por aqui achavam rasto dos espanhóis que buscavam. E foram a Toscolam e Sucelim, e [a] outros lugares de Necaome (?) e, por ser bom pôrto, fêz ali uma vila, a que pôs nome Ascensão de Nossa Senhora. Daqui foi Cortês à vila de Trujillo, que está no pôrto de Honduras, e [foi] bem recebido pelos espa- nhóis que aí estavam. No qual tempo chegou um navio, que deu nova dos males do México, pelo qual man- dou logo Coi tés [a] Gonçalo de Sandoval, com gente de pé e [de] cavalo, [a] descobrir terra contra o Mar do Sul, a Guatemala, por ser mais breve caminho, 27
418 ANTONIO GALVAO e deixou em Trujillo, por capitão, a Fernão Saave- dra, seu primo. Foi-se por mar e costa de Iucatão a Medelim, e daí ao México, onde foi bem recebido, havendo mais de ano e meio que dali era partido. Repousou dos muitos trabalhos e perigos que havia passado, das quinhentas léguas [percorridas] por terras mui fragosas, e [parte] delas despovoadas. Ándaram em montanhas mui ásperas, e [por] grandes ribeiras, comendo ervas, de que muitos faleceram. No ano de 1525, parti[ram] Francisco Pizarro e Diego de Almagro, de Panamá, ao descobrimento daquelas terras e províncias a que chamam Peru, [e] que estão aquém e além da Linha, da parte do Sul, a que puseram o nome a Nova-Castela. O governador Pedrarias não se quis meter na armada, pela ruim nova que lhe trouxera seu capitão Francisco Bezerra, que não chegou mais que ao pôrto de Pinas, que está da parte do Norte. Francisco Pizarro diz que foi adiante, em um navio, com cento e quarenta soldados; Almagro [indo] atrás dele, em outro, com setenta, deu no rio de S. João, que está em três graus daquela banda, onde tomou vinte mil pesos de ouro. E como não achasse Francisco Pizarro, tornou em sua busca, [e ao encon- trá-lo, viu] que estava arrependido por um desastre que lhe acontecera. Mas, com esforço do ouro de Almagro, foi à ilha de Qorgona, e do Galo, e ao rio de Peru, que está em dois graus, donde tantas e tão grandes províncias tomaram apelido. Daí foi ao rio de S. Francisco, e ao cabo de Pasado, onde passou a Linha. Chegado ao pôrto que está um grau da parte
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 419 do Sul, foi pelos rios de Bamba, Payta, Tumbez, que estão em quatro ou ciuco graus, onde soube que havia ali muita riqueza do rei Âtahuapa, e boa terra, [o] que moveu Francisco Pizarro [a] tornar a Castela, a pedir ao Imperador aquela governança; e andou mais de três anos nesta demanda. No mesmo ano de 525, foi enviada de Castela uma armada de sete velas, [e por] capitão dela Frei Garcia de Loaysa, para as ilhas de Maluco. Partiram da cidade de Corunha, atravessando das ilhas Canárias ao Brasil; [e] dois graus além da Linha, acharam uma ilha [a] que puseram nome S. Mateus, [e que] pare- cia ser já povoada, por ter laranjeiras e outras árvo- res de fruto. [Aí] acharam rasto de porcos, e [viram] galinhas no mato, e, nos troncos de tôdas [as] árvo- res, letras portuguesas que denunciavam haver oitenta e sete anos que ali estiveram. Além do Estreito de Magalhães, se apartou dêles um navio de rêmo que levavam, chamado patacho, em que ia D. Juan de Areizaga, [o qual] foi ter à costa do Peru, e à Nova- -Espanha correndo-a tôda. Deu conta a Fernando Cortês do que vira, e como Frei Garcia de Loaysa era passado às ilhas do Cravo. Mas de tôda esta frota não chegou a elas senão a nau capitaina, indo por capitão dela Martin Ihiguez de Carquizano, por Loaysa, e outros capitães que lhe sucederam, todos [terem] falecido. Mas esta só bastou para meter tôda a terra em grande revolta, tão afeiçoados são os mouros de Maluco a castelhanos. No mesmo ano da era de 1525, partiu o pilôto Estêvão Gomes do Pôrto contra a parte do Norte,
420 ANTÔNIO GALVÃO descobrindo o estreito de Maluco, conquanto, por [ter] fugido ao Magalhães o caminho, não lhe quiseram dar nesta armada de Loaysa nenhum cárrego; mas, con- tudo, não lhe faltaram o conde D. Fernando de Andrade e o doutor Beltrão e o mercador Cristóvão de Haro, que lhe armaram um galeão para êste des- cobrimento tão desejado. Partiu da Galiza, foi tomar a ilha de Cuba, e a ponta da Florida, navegando de dia por não saber a terra, e vendo em tôda a baía, angra, rio e enseada, se passava à outra banda. Dizfem] que chegou ao Cabo Raso, que está da parte do Norte, em quarenta e quatro graus de altura, donde tornou à cidade de Corunha, carrega [do] de escravos. Os que isto ouviram, cuidando que diziam cravos, mandaram pela posta, à côrte de Castela, pedir alvíçaras, [o] que pôs grande alvorôço e conten- tamento principalmente nos que armaram. Chegado o Coxo com a nova carta, foi tal a zombaria, que andavam corridos disso, porque gastaram muito sem nenhum proveito. E Estêvão Gomes pôs dez meses no caminho. Neste ano de 525, estando D. Jorge de Meneses, [por] capitão de Maluco, êle e D. Garcia Henriques mandaram uma fusta descobrir contra o Norte. Ia por capitão dela Diogo da Rocha, e [por] pilôto Gomes de Sequeira, que, depois, andou por pilôto na carreira da índia. Em nove ou dez graus de altura, acharam umas ilhas juntas, [e] andaram por entre elas. Puse- ram-lhe [o] nome [de] as ilhas de Gomes de Sequeira, por ser o primeiro pilôto que as descobriu, donde se tornaram à fortaleza, rodeando a ilha de Gilolo [e a] do Moro.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 421 No ano de 526. partiu de Sevilha Sebastião Caboto, veneziano, pilôto-mor do Imperador. Levava quatro velas para as ilhas de Maluco; foi ter a Pernambuco, onde esteve três mêses aguardando por tempo, para dobrar o Cabo de Santo-Agostinho. Na baía dos Patos, que está em a parte do Sul, perdeu a nau capitaina. Desesperado de ir às ilhas do Cravo, fêz uma galeota ali para entrar o rio da Prata e saber o que dentro havia. Chegado ao rio que se mete nêle sessenta léguas da barra, deixou os navios de cárrega, e, com os menores, subiu pela principal ribeira, que os da terra chamam Paraná, por ser grande água. Tendo andado por êste rio acima cento e vinte léguas, fêz uma fortaleza em que gastou mais de um ano; depois foi pela mesma ribeira até à bôca de outra, que se diz Paraguai, e, por ver sinais de ouro e prata, foi atrás [de] sua cobiça; e, mandando um bergantim adiante, os da terra lho tomaram. O que sabendo Caboto, se tornou à fortaleza, [e,] recolhida a gente que nela deixara, se tornou pelo rio abaixo, onde as naus ficaram. E daí a Sevilha, no ano de 530, deixando descoberto mais de duzentas léguas por êste rio, que dizem ser navegável, e nascer de um lago que se chama Bombo, [que] está no reino de Peru, em terra fria, e diz[em] que passa pelos vales de Xauxa. E adiante se juntam a êle os rios de Parço, Bulcasbão, Acarahi (?), Parima, Hiucax, e outros que o fazem muito grande; e também dizem que dêste lago sai o rio de S. Francisco. E por isso êstes rios são tamanhos, que as mais das ribeiras que saem de lagos são maiores que as que nascem de fontes.
422 ANTÓNIO GALVAO No ano de 527, partiu Pânfllo de Narváez, de S. Lucas de Barrameda, por adiantado da costa da terra da Florida até o rio das Palmas. Levava cinco navios, seiscentos soldados, cem cavalos, grande soma de abastecimentos, armas, vestidos, [e, como] não pôde tomar pôrto onde desejava, saiu em terra, pró- ximo da Florida, com trezentos companheiros, poucos cavalos e mantimentos, [e] mandou [os] navios aos rios das Palmas. Em cuja demanda se perderam quási todos, [e] os que escaparam passaram tão grande trabalho, fome, [e] sêde, que, em uma ilha que se chama Machado Sêco, os espanhóis se mataram uns aos outros, e dizem que aos da terra fizeram o mesmo. Narváez e os que com ôle iam viram uns índios com ouro; preguntaram-lhes donde o tiravam, [e êles] disseram [-lhe] que em Apalache. Foram em sua busca, acharam um lugar pequeno e terra pobre, sem ouro nem prata, [e] havia nela loureiros e quási tôdas [as] árvores, alimárias, [e] aves de Es- panha. Os homens e mulheres [eram] altos, forçosos mui ligeiros [e] tão grandes corredores que tomavam veados e corças, e não cansavam de correr um dia todo. De Apalache foram à vila de Haute, e daí a Xama, terra pobre, de pouco mantimento, [onde] criam os filhos com regalo, [e] quando [êles] morrem fazem por êles grande pranto. Pelos velhos não choram. Não mataram os castelhanos, nem os comeram por estarem magros [e] fracos do trabalho e má vida que passaram. Mandavam-lhes que curassem os enfermos, [dej que havia ali muitos. E, como [os espanhóis] se vissem na hora da morte, pediram a Deus e sua Mãe
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 423 socorro, [e] foram ouvidos de maneira que, quantos às suas mftos vinham, todos saravam, assim aleijados como os de doenças mui incuráveis, até ressuscitarem um morto. E não era muito [que isto fizessem] se tinham a fé tão inteira como o tempo queria. Dizem que passaram por muitas terras de gentes diferentes em linguagens, trajos e costumes; mas, por os físicos serem lá mui estimados, e [ainda] mais êstes, que haviam por deuses, não lhe faziam nenhum dano, antes lhes davam dessa pobreza que tinham. Foram ter aos lagazes, que andam em cabildas com seus gados, como alarves, e são tão pobres que comem cobras, lagartos, aranhas, formigas e todos os bichos, [e] com isto vivem tão contentes, que sempre cantam, bailam e se desenfadam. Compram as mulheres aos inimigos, matam as filhas, para as não casarem com êles. Passaram por terras [em] que os filhos mamavam dez [ej doze anos [e] em outras que casam os homens uns com outros. E há aí tais povos que não choram nem riem, e dizfem] que, se o fazem, morrem por isso. Andaram os castelhanos nestes trabalhos mais de oitocentas léguas, e não ficaram mais de sete ou oito que escaparam. Foram ter ao Mar do Sul, a S. Miguel de Culiacan, que dizem estar de trinta graus para cima. Neste ano de 27, sabendo Fernando Cortês pelo patacho, como Frei Garcia de Loyasa era passado às ilhas do Cravo, mandou fazer três navios prestes para irem em sua busca, e descobrir aquêle caminho da Nova Espanha até Maluco. E ia por capitão-mor dêles, Álvaro Saavedra Cerom, seu primo, pessoa
424 ANTONIO GALVAO muito para isso. Partiu [em] dia de Todos os Santos, de Siguatanejo, que agora se chama S. Cristóvão, que está em vinte graus da parte do Norte. Chegaram às ilhas que o Magalhães pôs nome dos Prazeres, e daí foram às que Gomes de Sequeira descobrira. Por não saberem isto, lhe puseram nome dos Reis, por as verem naquele dia. Aqui ficaram dois navios, a Saave- dra, de que nunca mais houve nova nem recado; e, de ilha em ilha, foram ter à de Sarangan, onde resga- taram dois ou três castelhanos por setenta cruzados, da companhia de Loaysa, que se por ali perderam. No ano de 528, e mês do Março, chegou Saave- dra às ilhas de Maluco, e surgiu na cidade de Gilolo. Contava como achara o mar limpo, vento à pôpa e sem tormenta, e que lhe parecia haver dali à Nova- •Espanha mil e quinhentas léguas. E neste tempo era já falecido o capitão Martin Ifliguez de Carquizano, e alevantado por capitão Fernando de La Torre, que estava na cidade de Tidore, com uma forca feita, e de crua guerra com D. Jorge de Meneses, capitão dos portugueses; e na peleja que tiveram, a quatro de Maio, lhe tomou Saavedra uma galeota, e matou o capitão dela, Fernão Baldaia. E no mês de Julho, tor- nou no seu navio para a Nova-Espanha, e com êle Simão de Brito Patalim, e outros portugueses, e, depois de espancarem o mar alguns meses, se torna- ram a Tidore, onde o Patalim foi degolado, e esquar- tejados e enforcados os que com êle iam. Nesta era de 528, mandou Fernando Cortês duzen- tos soldados, sessenta cavalos, e muitos mexicanos, a descobrir e povoar as terras dos Chichimecas, por
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 427 dizerem que eram ricas e boas. E partiu-se para Cas- tela com grande fausto, e duzentos e cinqQenta marcos de ouro e prata. Chegado a Toledo, onde o Imperador estava, (este,] como pessoa grata, fêz-lhe bom gasa- lhado, e o Marquês dei Valle o casou com D. Juana de Zúfiiga, filha do conde de Aguilar, e tornou o a mandar por capitão à Nova-Espanha. No ano de 529, e mês de Maio, tornou Saavedra outra vez para a Nova-Espanha, e houve vista de uma costa da parte do Sul, em dois graus de altura. Foi em Leste ao longo dela, mais de quinhentas léguas, até o fim de Agôsto; e, segundo o que dela contavam, era limpa, de bons surgidouros, e a gente da terra, preta e [de] cabelo revolto. Traziam da cinta para baixo umas fraldas de penas, bem feitas, muito cora- das, com que cobriam suas vergonhas; 6 os malu- queses chamam a êstes homens os papuas, por serem pretos de cabelo frisado, e assim lhe chamam os por- tugueses, por o tomarem dêles. Álvaro Saavedra, como ia ao Sul, quatro ou cinco graus afastado da Linha, tornou a buscá-la, e, passado à outra banda do Norte, descobriu uma ilha, a que pôs nome das Pintadas, por serem homens brancos, todos ferrados, [i. é, marcados a ferro] e, segundo o que parecia e sinais que davam, deviam de vir ali da China. Dai saiu um parau a êles com grande ufania, acenando que amainassem. Vendo que não obedeciam, átirou-lhes com uma funda, e logo saiu um golpe de paraus da ilha a êles [i. é, espanhóis], todos fundeiros. E começaram uma peleja com o navio, mais soberba e menos perigosa que a de Ravena; peio que Saave-
428 dra mandou mesurar a vela, e foi esperando sem lhe[s] atirar nem fazer dano, até que gastaram tôda a munição que traziam. Ácima desta ilha, em dez ou doze graus de altura, acharam muitas [ilhas] juntas, pequenas e rasas, cheias de palmeiras e verduras, pelo que lhe[s] puseram nome Bom Jardim. Surgiram no meio delas, e aí esti- veram alguns dias. Os [seus] habitantes pareciam na feição e alvura descenderem da China; e, pelos largos tempos que haveria que ali estavam, eram tão bárba- ros que não tinham lei, nem seita, nem criavam coisa viva. Vestiam panos brancos que faziam de ervas, espantaram-se do fogo, porque nunca o viram; comiam côcos por pão, pois antes que fôssem maduros os [des]cascavam, metiam-nos debaixo da areia, em dias certos os descobriam, e, tanto que o sol lhe[s] dáva, se abriam. Também se mantinham de peixe crú, que pescavam em paraus que faziam de madeira de pinho, que ali vinha ter em certo tempo, sem [se] saber donde. E, para fazer a tal obra, era a ferramenta de cascas de amêijoas, berbigões, ou ôstras. Vendo Saavedra que o tempo era mais a seu propó- sito, se fêz à vela na volta da terra e istmo da cidade de Panamá, por não ser mais que dezassete [a] dezóito léguas em largo, onde podia descarregar o cravo e mercadoria que levava, [a qual] iria em carretas, por campinas, quatro léguas, até o rio Chagre, que dizem ser navegável, e [que] desemboca no Mar do Norte, junto de Nombre de Diós, onde estão naus de Castela, que as podia [m] levar a êle [ao Panamá] em mais breve tempo, e caminho menos perigoso que [o] do
429 Cabo da Boa-Esperança, porque de Maluco a Panamá sempre vão por entre o Trópico, na Linha. Mas nunca puderam achar vento nem tempo para cumprir êste desejo, pelo que se tornaram a Maluco assaz tristes, por Saavedra ser falecido. Do qual diziam que levava em propósito de fazer com que o Imperador man- dasse abrir esta terra de Castela do Ouro e Nova- -Espanha de mar a mar, porque [isso] se podia fazer por quatro lugares, que são: do Gôlfo de S. Miguel a Uraba, em que há vinte e cinco léguas de travessa; de Panamá ao Nombre de Diós, [em] que há dezas- sete; pelo Sangradouro de Nicarágua, que começa em uma lagoa, três ou quatro léguas, da parte do Sul, e vai sair a água dela ao Norte, por onde nave- gam barcas e navios pequenos; e de Tagante para o rio da Vera Cruz, [em que] há outro passo, que tam- bém se podia abrir [em] estreito; e se se fizesse, navegar-se-ia das Canárias a Maluco, por baixo do Zodíaco, [com] clima temperado, e em menos tempo, e com menos perigo, que pelo Cabo da Boa-Espe- rança, pelo estreito de Magalhães, [ou pela terra dos Côrte Reais, ainda que nesta se achara estreito ao mar da China, como já se buscara. Neste ano de 529, achando-se Damião de Góis, português, em Flandres, depois de correr tôda a Espanha, desejoso [de] ver mais terra, costumes, tra- jos [e] diversidades de gentes dela, passou à Ingla- terra, Escócia, e esteve nas côrtes dos principais reis e senhores daquelas partes, e, [depois de] bem vistas, se tornou ao condado de Flandres, e correu tudo no ducado da Zelândia, Holanda, Brabante, Gueldres,
430 Luxemburgo, Lorena, Suiça, [foi] ao longo do rio [Reno, e] às cidades de Constança, Basilea, Estras- burgo, Spira, Weimar, Mogúncia, Colónia, e outras da baixa Alemanha, donde tornou outra vez a Flandres, e entrou em França pela Picardia, Normandia, Gasco- nha,-foi ao ducado de Bourbon, Languedoc, [a]o Delflnado, ducado de Sabóia, de Borgonha [e] Cham- panhe. Correu tôda a bela França, passou à Itália, esteve no ducado de Milão, Ferrara e por tôda a Lom- bardia ; foi a Veneza, tornou à ribeira de Génova, [percorreuj o ducado de Florença com tôda [a] Tos- cana, [foi] à cidade de Roma, Romanha, e [a]o reino de Nápoles, de uma parte e outra da marinha [i. é, da costa]. Daí se passou à Alemanha, esteve na cidade de Ulma, e outras imperiais, no ducado de Suévia, de Bavária, arquiducado da Áustria, reino de Boémia, ducado de Morávia, no reino da Hungria, até os con- fins da Grécia. Passou ao reino da Polónia, Sarmácia, Prússia, e ducado de Livónia; chegou ao grão-ducado de Moscóvia, donde se tornou, pela alta Alemanha e terras de Landgrave, [ao] ducado de Saxónia e reino de Dácia ou Dinamarca, donde passou à Suécia, Noruega, andou a maior parte dela até se pôr em oitenta graus de altura, da parte do Norte, viu, falou conversou com todos os reis, príncipes, nobres, [e] povos de tôda a cristandade. Em vinte e dois anos que gastou nestes trabalhos, viu e correu a maior parte da Europa por sua livre vontade, coisa digna de louvor e memória, pois deu luz à sua pátria de muitas coisas ocultas a ela.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 431 No mesmo ano de 29 ou 30, partiu Belchior de Sousa Tavares da cidade de Ormuz para Baçorá e ilhas de Jazirat, com certos navios, em que andava de armada, pelo estreito da Pérsia e rio Tigre e Eufrates acima, até onde se juntam um com o outro; e ainda que outros portugueses tivessem descoberto e navegado êste estreito, nenhum foi tanto pela água doce acima, até àquele tempo, descobrindo aquela ribeira de uma parte e outra, em que viu coisas que aos espanhóis não eram sabidas. Não muito tempo depois disto, veio ter a Ormuz Fernão Coutinho, desejoso de ver mundo; [e] como já havia tocado [a] África e a índia, determinou de ir a Portugal por terra, e ver a maior parte da Ásia, [e da] Europa. E para isso dize[m] que foi [a] Arábia, Pérsia, e pelo rio Eufrates acima, [emj um mês de caminho; e viu muitos reinos e senhorios que em nossos tempos não eram vistos. Foi à cidade de Alepo, atravessou a província da Síria, em Damasco o pren- deram, e diz[em] que esteve na Casa Santa de Jeru- salém, na cidade do Cairo, na de Constantinopla com o Grão-Turco, e, depois de vista sua côrte e a maior parte da sua terra, foi ter à cidade de Veneza. E vistas [a] Itália, França [e] Espanha, veio ter à cidade de Lisboa. De modo que êle e Damião de Góis, foram em nossos tempos os mais nobres por- tugueses e os que mais províncias e terras viram por suas livres vontades, [oj que é afinal de nobre pensamento. [Por isso], quis aqui com os mais descobridores e navegadores que tenho apontados, declarar.
432 ANTÔNIO GALVAO No mesmo ano de 530, pouco mais ou menos, tornou Francisco Pizarro, que em Espanha andava sôbre a governança de Peru, à cidade de Panamá, com ela [i. é, com a governança,] como desejava. Trazia consigo quatro irmãos bastardos: Fernando, João, Gonçalo Pizarro, Francisco Martins de Alcân- tara. Não foram bem recebidos de Diego de Alma- gro e [de] seus amigos, por [Pizarro] não fazer dêles tanta menção ao Imperador como devera, nem [êste] o ter metido nã governança e descobrimento, em que Diego de Almagro perdera um ôlho e fizera muito gasto. Mas, por fim de tudo, se concertaram, e Diego de Almagro lhe deu setecentos pesos de ouro, vitualhas [e] armas, com que [Pizarro] se apercebeu para o caminho. Partiu logo Francisco Pizarro e seus irmãos em dois navios, com os mais soldados e cavalos que puderam; teve ventos contrários para chegar a Tum- bes, como era seu propósito; desembarcaram no rio de Peru; foram ao longo da costa, com muito traba- lho, por ser baixa, alagadiça, de muitas ribeiras, onde alguns se afogaram, por serem [as ribeiras] crescidas. Chegaram à vila de Coaque, que é bem provida, onde descansaram. Havia aí muito ouro e esmeraldas, [e] quebraram [algumas] delas para ver[em] se eram verdadeiras. Daqui mandou Francisco Pizarro a Diego de Almagro mil pesos de ouro, para quo lhe man- dasse gente, cavalos, armas, vitualhas; [e] êle foi seu caminho ao Portoviejo, onde chegou Sebastián de Benalcázar, com tudo o que pediam, [o] que os alegrou muito.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 433 No ano da era de 531, vendo Francisco Pizarro tão bom socorro, passou-se a uma ilheta, que se chama Puná, onde foi bem recebido do governador dela; mas, por [Pizarro] lhe fazer ofensa, determinou matá-lo com quantos levava. Houve Pizarro vitória, ainda que os índios [combatessem] com ferros, [i. e, armaduras?] de ouro e prata. Os principais desta ilha, mandavam cortar narizes, braços e membros aos que guardavam suas mulheres, tão ciosos eram. Achou aqui Pizarro mais de seiscentos homens presos do rei Atabaliba, de quem soube ter guerra com seu irmão Huáscar, mais velho, e não lhe pesou nada. E, para [que aquêles] cobrassem fama, mandou-os à cidade de Tumbes [onde estava Huáscar]; mas, assim que se lá viram, disseram quem os barbudos eram, e como tomavam tudo por fôrça. Mandou lá Pizarro três castelhanos a pedir pazes; foram mortos e sacri- ficados, e os sacerdotes que isto faziam, diz[em] que choravam, não tanto por piedade como por ser assim costume. Sabendo Francisco Pizarro isto, passou-se à terra firme, avançou sobre a cidade, para tomar vingança da ofensa que aos seus fôra feita; [e], estando os inimigos de noite descuidados, matou muitos. Deram- -lhe presentes de ouro, prata e outras riquezas que havia na terra, e ficaram amigos. E em Tangarará, ribeira de Choia, edificaram uma cidade a que puse- ram nome S. Miguel-de-Tangarará, que foi a primeira povoação de cristãos naquela terra, [ficando por] capitão e tenente dela Sebastián de Benalcázar. E man- daram os navios ao pôrto da Paita, por ser mais seguro. 28
434 ANTÔNIO GALVÃO Neste mesmo ano de 531, foi por governador do Rio Maranhão, Diego de Ordaz, com três naus e seis- centos soldados, trinta e seis cavalos, [mas] faleceu no caminho, por onde não teve seu desejo efeito. Depois foi lá mandado Jerónimo Hortal, com cento e trinta companheiros. Não chegou ao rio, povoou S. Miguel de Nevery e outros lugares. Foi também a êste rio Maranhão um fidalgo português, que se cha- mava Aires da Cunha, [o qual] levou dez navios, novecentos portugueses, cento e trinta cavalos. Fêz grandefs] gastofs] que perderam os que armaram; e o que mais perdeu nisso foi João de Barros, feitor da Casa da índia, que, por ser nobre e de condição larga, pagou por Aires da Cunha e outros que lá fale- ceram, com piedade das mulheres e filhos que lhe[s] ficaram. E dizem que êste rio está em três graus da parte do Sul, em que terá em bôca quinze léguas, e muitas ilhas povoadas. [Dizem que há aí] incenso mais crescido que o da Arábia, ouro, pedraria, e que se achara uma esmeralda como uma palma. E diziam os da terra que pela ribeira acima havia rochas, e que faziam aqui vinho de tâmaras [grandes] como mar- melos. Nesta era de 531, foi Nuno de Gusmão, da cidade do México contra o Norte, descobrir e conquistar Jalisco, Sinaloa, Cuináo (?), Tonalá, Cuitzeo (?), Chi- mola, Omillán (?). E levou para isso duzentos e cin- quenta cavalos e quinhentos soldados; passou por Michoacan, onde houve muito ouro, dez mil marcos de prata, seis mil índios para cárrega. Descobriu e conquistou muita terra, pós nome à de Jalisco, Nova-
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 435 -Galiza, por ser região áspera e de gente esforçada, povoou Compostela, Guadalajara, por ser natural dela, e as vilas do Espírito-Santo, S. Miguel-de-Salva- ção, que dizem estar em trinta graus de altura, da mesma banda do Norte. No ano de 532, mandou Fernando Cortês [a] Diego Hurtado de Mendoza a Acapulco, cento e vinte léguas do México, onde mandava fazer armadas para descobrir a costa da banda do Sul, como com o Impe- rador tinha assentado. Achou Diego Hurtado dois navios prestes, [e] meteu-se nêles. Foi ao Poente, ao pôrto de Jalisco, onde quisera tomar água e lenha. Nuno de Gusmão mandou defender-lha; passou adiante, amotinou-se-lhe alguma gente, meteu-os em um dos na- vios, [e] enviou-os à Nova-E9panha. Tiveram falta de água, saíram a tomá-la na baía das Bandeiras, [e] os índios os mataram. Diego Hurtado andou bem duzen- tas léguas ao longo da costa, sem fazer coisa que de contar seja. No ano de 533, partiu Francisco Pizarro da cidade de Tumbes para Cajamarca, onde prendeu o rei Atahualpa, que prometeu por si muito ouro e prata, e, para isso, foram à cidade de Cusco, que diz [em] que está em dezassete graus da parte do Sul, [i. é] oabeça daquele Império. Pêro de Alvarado e Fernão do Souto descobriram aquela terra e caminho, em que h8via duzentas léguas, tôdas calçadas de pedra, e pon- tes bem feitas dela; e, de jornada em jornada, [foram ter a uns] aposentos para os incas (que assim chamam lá aos reis e seus exércitos) [e que eram] coisa mons- truosa, porque levariam mais de cem mil homens de
436 ANTÓNIO GALVAO guerra; e todos nestes paços se aposentavam, e tinham mantimento e o necessário em abastança, ao costume da China (como já disse). Esta gente parece tôda de uma costa. Pizarro, com alguns de cavalo, foi a Pacha- camac, [a] cem léguas de Cachamalca, descobriu aquela província, e, tornado, soube como Huáscar, irmão de Atahualpa, era por seu mandado morto, e seu capitão Ruminavi alevantado com a cidade de Quito. E Ata- baliba, depois disto, foi por mandado do Pizarro degolado. No ano de 534, vendo Francisco Pizarro êstes dois reis fora do mundo, começou-se a estender por seu senhorio, e fazer nêle forcas, cidades, vilas, para [o] ter mais sujeito; e mandou logo Sebastião de Benalcázar, que estava por capitão em S. Miguel-de- -Tangarará, contra Ruminavi, e [contra] Quito. Levou duzentos de pé e oitenta de cavalo; foi descobrindo e conquistando aquelas cento e vinte léguas que há de uma cidade a outra, contra o Levante, ao longo da Linha, onde acharam serras nevadas e tão frias que se enregelavam algumas pessoas. Chegado a Quito, começou a povoá-lo, e pôs-lhe nome S. Francisco dei Quito. Diz [em] que se dá nesta terra muito trigo, cevada, gados, plantas de Castela, coisa espantosa que se não esperava debaixo da Linha. Francisco Pizarro partiu logo à cidade de Cuzco, e achou no caminho ale- vantado o capitão Quisquis; mas veio a êle um irmão de Atahualpa, que se chamava Manco, que êle fêz inca e rei da terra, com que pacificou grande parte dela. Neste mesmo ano de 534, diz[em] que um francês chamado Jacques Cartier, com três galeões, se fêz à
Pintura apresentada por um cacique mexicano ao Vice-Rei D. António de Mendoza, na qual refere o que pagavam a S. M. pelas minas de Tzintzantzan, Do Arq. Oen. de México.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 439 terra dos Côrte-Reais e Golfo Quadrado [que] tomava em quarenta graus da banda do Norte; foi por ela até cinqúenta e um, para ver se achava saída à outra banda da China, e [a possibilidade de] trazer dela a França as especiarias e drogas das índias. E, segundo contavam, a terra era abastadada de mantimentos, casas, e bem povoada, pois havia nelas muitas e gran- des ribeiras. E [acrescentavam] que foram por uma [terra] contra o Poente trezentas léguas, [e] puseram- -lhe nome a Nova-França; e como [a] água era doce, bem viram que não atravessava à outra parte, pelo que se tornaram. Neste ano de 534, ou na entrada de 535, chegou D. António de Mendoza à cidade do México, por vice- -rei da Nova-Espanha. E era já partido Fernando Cortês, [a] catar gente para continuar seu descobri- mento; e mandou logo a êle contra [o] Ocidente dois navios que achou acabados, e [por] capitães dêles Hernando de Grijalva e Diego Becerra de Mendoza, e, [por] pilotos, um português que se dizia [Martim] da Costa, e o outro, Fortún Jiménez, biscainho. Dadas as velas, foram descobrindo os segredos daquelas ribeiras, e, apartados um do outro, Fortún Jiménez matou o capitão Becerra, e feriram os de sua valia; e, deitados em terra, tomou água e lenha na baía de Santa Cruz, onde os índios o mataram com vinte e tantos companheiros. E dois marinheiros foram no batel a Jalisco, e disseram a Nuno de Guzman como [tinham] achado mostras de pérolas. Meteu-se [êste] no navio, [e] foi buscá-las. Descobriu por esta costa mais de cento e cinqúenta léguas. Hernando de Gri-
440 jalva diz[em] que andou trezentas sem ver terra, senão uma ilha a que pôs nome S. Tomás por a descobrir em tal dia, e que estava em dezanove graus de altura. No ano de 535, fundou Francisco Pizarro a cidade dos Reis, na ribeira de Lima, passou a ela os vizinhos de Xauxa, por ser melhor terra. Está da parte do Sul, em doze graus de altura. Neste mesmo ano de cinqúenta, edificou a cidade de Trujillo, fto longo de uma ribeira, terra fresca, em oito graus da mesma banda; e assim foi feita a cidade de Santiago, em Portoviejo, e outras muitas ao longo do mar, pela terra dentro, em que se criam muitos cavalos, éguas, asnos, azémolas, vacas, porcos, cabras, ovelhas e outras alimárias; e também árvores e outras plantas, principalmente romãs, laranjas, limões, cidras e outras frutas agras, vinhas, parreiras, trigo, cevada, grãos, couves, rába- nos, hortaliças, e outras coisas que levaram de Espanha. No mesmo ano da era de 1535, foi Diego de Almagro da cidade de Cuzco para as províncias de Ariquipa [e] Ohily, que estão dali para cima da parte do Sul, até trinta graus de altura; e neste caminho, por ser comprido, descobriram muita terra, passaram muita fome, frio, trabalho, grandes neves e geadas, que há tantas naquelas partes, que dizem que os rios não correm senão depois do sol fora e alto dia, [em] que as derrete, pela qual causa lhe morreram muitos cavalos e homens enregelados. Neste meio tempo, chegou Fernando Pizarro à cidade dos Reis de Cas- tela, e trazia o marquesado de Atanillos a seu irmão Francisco Pizarro, e a Diego de Almagro a gover-
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 441 nança de cem léguas, além do descoberto, a que puseram nome o Novo Reino de Toledo. Foi logo Fernando Pizarro para a cidade de Cuzco, e Juan de Rada a Chily. Almagro estava com as provisões que o Imperador lhe mandava, o qual se partiu logo dq Chily a Cuzco para tomá lo, dizendo que lhe perten- cia, do que se começou naquela parte a guerra civil. Não lhe faltaram fomes e frios, como à ida, até come- rem os cavalos, que haviam quatro meses que lhe morreram quando por ali passaram, e diz[em] que estavam tão frescos, como se então os [tivessem] matado. No mesmo ano de 535, fazendo Nuno da Cunha, governador da índia, a fortaleza da cidade de Dio, mandou uma armada ao rio Indo, que estará dela noventa ou cem léguas contra o Norte, debaixo do Trópico de Câncer; e era capitão dela Vasco Pires de Sampaio. E assim ia outra armada do Badur, rei de Cambaia, [de] que era capitão Coje Sofar, renegado. Chegou [Vasco Pires.de Sampaio] à barra daquele grande rio no mês de Dezembro. E contava daquela terra e água, o mesmo que Quinto Cúrcio deixou escrito quando o grande Alexandre ali chegara. Neste ano de 535, partiu Simão de Alcáçova, com duas naus, de Sevilha, [e] duzentos e quarenta caste- lhanos nelas. Uns dizem que iam para a Nova-Espa- nha, outros querem dizer que para Maluco, outros à China, onde já tinha estado [Alcáçova] com Fernão Peres de Andrade. Como quer que seja, foram às Canárias, daí atravessaram ao estreito que Magalhães tinha descoberto, sem tocar na terra do Brasil e tôda
442 ANTÔNIO GALVAO sua costa. Entraram o estreito no mês de Dezembro, com tempo contrário e frio; [e] diz[em] que lhe reque- reram os soldados que se tornasse para fora. Meteu-se em um pôrto da parte do Sul, em quarenta e cinco graus de altura, donde mandou Simão de Alcáçova o capitão Rodrigo de Isla com sessenta castelhanos [a] descobrir terra; e êles se amotinaram, o prenderam e tornaram às naus, e mataram Simão de Alcáçova, e puseram [por] capitães [e] oficiais quem quiseram. No Brasil deram com uma nau à costa, [e] os dâ terra os comeram. A outra nau, de que era capitão Rodrigo de Isla, onde vinha um filho de Simão de Alcáçova, foi ter à cidade de Santiago da Ilha Espanhola, e daí a Sevilha. Neste mesmo ano de 535, partiu D. Pedro de Mendoza, de Sanlúcar, para o rio da Prata, com doze naus, as maiores [e] melhores que nunca foram àque- las partes. Levava dois mil homens; por ir mal dis- posto, tornou-se, mas faleceu no caminho, e ficou no rio a maior parte da gente, que foi por êle dentro, descobrindo, conquistando e povoando, até chegar às minas de Potosi e [à] vila da Prata, por onde se comunicam os castelhanos do Peru com os dêste rio. E diz[em] que tem descoberto mais de seiscentas léguas com a ajuda de outras armadas que foram a êste rio, e por êle dentro. Dizem que [no] ano de 536, estando Fernando Cortês em Tehuantepec, soube como a sua nau era por Nuno de Guzman tomada. Despachou três navios que acabados tinha, para Chametla, onde Guzman estava; e foi-se por terra, bem acompanhado, e achou
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 443 á sua nau roubada e deitada de través. Chegados os três navios que mandara, embarcou-se nêles com fa] mais gente e cavalos que pôde, deixando por capitão dos que sobejaram Andres de Tapia. Dada à vela, foi tomar uma ponta o primeiro dia de Maio, e por isso lhe pôs nome [dej Filipe, e [a] uma ilheta que aí está perto, Santiago. Daí a três dias entrou na baía em que mataram o pilôto Fortún Jimenez, e [a qual] chamou [de] Santa Cruz; saiu em terra, [e], por ser bom pôrto, mandou ali vir Andres de Tapia, a des- cobrir a terra dentro. Cortês, embarcado, deu-lhe um [mau] tempo, foi ter a dois rios que agora se chamam S. Pedro e S. Paulo, [e] carregou tanto [o] vento que se apartaram uns navios dos outros: um foi ter à baía de Santa Cruz, outro a Gayal, e [o] outro encalhou junto de Jalisco, [e] os dêle se tornaram por terra ao México. Fernando Cortês esperou pelos uavios, e vendo que não apareciam, mandou dar à vela, e entrou o estreito que agora se chama de Cortês e Mar Verme- lho, cinqúenta léguas por êle dentro, atê o Trópico de Câncer; viu uma nau surta, arribou a ela, foi dar em sêco, esteve quási perdido, e fôra[-o] de todo, se a nau lhe não socorrera, e pôs a sua em terra a cor- regê-la. Ambos se tornaram a comprar mantimento em S. Miguel, e daí [foram] ao pôrto de Santa-Cruz, onde deixara a gente; aqui lhe disseram como D. An- tónio de Mendoza era chegado ao México. O gover- nador da Nova-Espanha deixou aqui por capitão da gente [a] Francisco de Ulloa, [e] foi-se a Tagante, para de lá lhe mandar navios em que fôsse descobrir a costa. Chegado a Acapulco, lhe veio mensageiro do
444 ANTÔNIO GALVAO vice-rei D. António, em que lhe dava conta de como era naquela terra. E também lhe deram um treslado de uma carta [em] que Francisco Pizarro dizia como se lhe levantara Mango Inca, e viera sôbre a cidade de Cuzco com cem mil homens de peleja, e lhe matara seu irmão João Pizarro e mais de quatrocentos sol- dados, e o tinha em grande apêrto, pelo que pedia a todos socorro. Vendo Cortês isto, e a chegada de D. António de Mendoza, para [que êste] lhe não furtasse a bênção, determinou primeiro mandar a Maluco descobrir aquêle caminho ao longo da Linha, por estarem as ilhas do Cravo naquele paralelo; e para isso mandou aparelhar dois navios de manti- mentos, armas, gente, e todo [o] necessário. Deu a capitania de uma nau a Hernando de Grijalva, e a outra a um Alvarado, homem fidalgo. Foram direitos a S. Miguel-de-Tangarara, para favorecerem Francisco Pizarro, e daí a Maluco ao longo da Linha, como lhe era mandado; e diziam que andariam mais de mil léguas sem verem terra de uma parte e outra da Linha. E em dois graus do Norte, descobriram uma ilha que se chama Asia (?), que parece estar das ilhas do Cravo quinhentas léguas pouco mais ou menos, a Leste. Para onde iam, houveram vista de outra, [a] que puseram nome dos Pescadores. Indo assim nesta derrota, viram uma ilha que se chama Aiu (?) da parte do Sul, outra que se diz Apia, [donde foram] logo ver Gebi (?). Tornados ao Norte, em um grau, surgiram em outra que se chama Bonoa (?). Daqui foram ter a outra debaixo da Linha, que se diz Manipa (?), e dai à de Buru, no mesmo paralelo.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 445 Tôdas estas ilhas são de gentes pretas, cabelo revolto, a que os de Maluco chamam papuas; os mais [dêles] comem carne humana, [são] grandes feiticeiros, tão dados aos diabos, que [são forçados a] andarem entre êles [i. é, juntos] como companheiros, pois se acham um só, matam-no às pancadas, ou o afogam, por onde não são ousados de andarem senão dois ou três juntos. Há aqui uma ave do tamanho de um grou; não voa nem tem penas para isso; corre a pé como um veado, [e] das penas dela fazem cabelos para seus ídolos. E também há uma erva, que, lavando [uma pessoa] com água quente qualquer membro do corpo, em a pondo por cima, [e] lambendo com a língua, tirarão o sangue todo de uma pessoa, e com ela se sangram. Destas ilhas foram a outras que se chamam os Gueles, [que] estão em um grau da parte do Norte, Leste-Oeste com a ilha de Ternate, em que está a fortaleza portuguesa. Êstes homens são baços, de cabelo corredio como os maluqueses. Estão estas ilhetas cento e vinte e quatro ou cento e vinte e cinco léguas da ilha de Moro, e esta de Ternate quarenta até cinqúenta. Daqui foram [Grijalva e Alvarado] ter ao Moro e ilhas do Cravo, e andaram umas e outras, sem os da terra lhe[s] deixarem tomar pôrto, dizendo que se fôssem à fortaleza, que [aí] achariam o capitão António Galvão, que os receberia com boa vontade, que êles o não fariam sem sua licença, por ser [Gal- vão] Pai da Pátria, que assim lhe chamavam; coisa digna de notar, porque os daquela terra são afeiçoa- dos a castelhanos, que põem por êles vidas, mulheres, filhos e fazendas.
446 ANTÔNIO GALVAO No ano de 537, governando a província de Carta- gena o licenciado Juan de Bobadilla, saiu dela com boa armada, e foram ao pôrto de Uraba, e à cidade de S. Sebastião de Boa Vista, e daí ao Rio Verde; e por terra caminharam, sem caminho nem carreira, até [o] fim da província do Peru e Vila da Prata, mil e duzentas léguas desta ribeira. Feito digno de memória, porque dêste rio até às montanhas dos Andes, haverá quinhentas léguas de terra chã e campina, bosques, vales espêssos, muitos arvoredos, rios que descem da serra por onde iam, por falta de estrada e carreira, para [o] que é mister guias certos. Estas montanhas dos Andes, diz[em] que terão vinte léguas de largo, [e que] se hão-de atravessar no mês de Janeiro, Fevereiro, Março, Abril, porque daí por diante chove tanto, que vão as ribeiras cres- cidas, e não se pode caminhar por elas. Há também muitos leões, tigres, ursos, onças, grandes gatos, cobras e outras feras diversas. Nestas montanhas há também muitos porcos, veados, corças, gazelas, lebres, coelhos, e outras muitas caças: perdizes, codornizes, pombos, rôlas e outras aves de diversas castas. E nos rios tantos pescados que, com os paus, os matavam; e levando cães [e] rêdes, diz[em] que se poderia man- ter um exército com desenfadamento. Assim contavam das muitas províncias, reinos, senhorios que atraves- saram, e [das] diversas gentes, linguagens e trajos que viram, [dos] muitos trabalhos e perigos que passaram, até chegarem à Vila da Prata e [ao] mar, da outra banda. E foi o maior descobrimento que ainda se viu por terra em tão breve tempo;
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 449 [pois] que, se não fôra no nosso, tivera duvidoso crédito. No ano de 538 (*), saíram da cidade do México fra- des franciscanos contra o Norte, [a] pregar aos índios a nossa santa fé católica; e o que mais se meteu pela terra foi Fr. Marcos de Niza, que passou por Culiacan e chegou à província de Cibola. E dizia haver nela Sete Cidades, de que contava maravilhas; e quanto mais ia adiante, tanto mais achava terra rica de ouro, prata, pedraria e gados de lã mui fina. Era tanta a fama desta terra e riqueza, que se desavieram o vice-rei D. António de Mendoza e Fernando Cortês sôbre mandar a ela; pelo que se passou Cortês a Castela no ano de 540, e acabou lá sua vida. E neste de 538, foi começada a guerra civil entre Pizarro e Almagro, por onde êste foi desbaratado, prêso e degolado. No mesmo ano de 538, mandou António Galvão, que estava por capitão em Maluco, contra o Norte um navio, e [por] capitão dêle Francisco de Castro, com regimento que fizesse quantos cristãos pudesse, por ser de alguns daquelas partes requerido para isso, e o mesmo António Galvão ter feito [muitos] cristãos, a saber: dos célebres macassares, amboínos, mouros de Moratai, e de outras diversas partes. Chegado Fran- cisco de Castro à ilha de Mindanau e [aj outras que descobriu acima dela, tomaram seis reis [a] água do baptismo, com mulheres, filhos, [e] vassalos, e, [a]os mais dêles, mandou António Galvão pôr nome [de] (I) Vide págs. 265, nota 1. 29
450 ANTÓNIO GALVAO João, em memória do terceiro que em Portugal rei- nava, tanto [o] trazia na sua [memória]. Os portugueses e castelhanos que por estas ilhas andaram, contavam que havia nelas porcos, que além dos dentes que tinham na bôca, lhe saíam outros dois pelos focinhos, e outros tantos por detrás das orelhas, e tinham de comprimento palmo e meio. E havia uma árvore [em] que o meio dela, estava contra o Oriente, era mui medicinal e contra tôda peçonha; o outro meio da árvore, que estava contra o Poente, é mui peçonhento, bem [como] o fruto daquela banda, o qual é todo como o tremoço, e se faz dêle a mais forte peçonha que há na redondeza. E também se dizia que havia outra árvore que, quem comia seu fruto, estava doze horas fora de si e fazia coisas de homem sem siso; quando tornava, não dava nenhum acôrdo disso. E havia uns caranguejos da terra que, quem os comia, também estava certas horas da mesma maneira. Também diziam os da terra que havia aí uma pedra que quem se assentava nela criava pôtra. Os homens destas ilhas douram os den- tes e atravessam sua natura com uma barra de curo ou prata, e nas pontas rematam umas rosetas com que ensanguentam uma mulher tôda. No ano de 539, mandou Fernando Cortês três navios a Francisco de Ulloa, para descobrir a costa de Culiacan para cima. Partiram de Acapulco, toca- ram Santiago-da-Boa-Esperança, entraram no estreito que Cortês descobrira, chegaram por êle acima até trinta e dois graus de altura, que é o fim da água, puseram-lhe nome Ancon de Santo André, por ser
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 451 em seu dia. Tomaram para fora ao loDgo da costa, da outra banda, dobraram a ponta dà Califórnia e meteram-se por entre as ilhas e a terra; foram ao longo dela, até se porem em trinta e dois graus, onde arribaram por vento contrário, havendo um ano que lá andavam. Dizem que gastou Fernando Cortês nes- tas armadas e descobrimentos duzentos mil cruzados, e que desta Ponta de Santo-António haverá à outra do Liampó da China, mil ou mil duzentas léguas de rota batida; e que o que descobriu e conquistou Fer- nando Cortês e seus capitães, é de doze graus até trinta e dois de Leste-Oeste, em que haverá setecen- tas léguas pela terra dentro, que é mais quente que fria, ainda que há aí serras [em] que a neve e geada dura[m] quási todo o ano. Há na Nova-Espanha muito arvoredo de flores e frutos diversos e proveitosos para muitas coisas, e a mais principal dela se chama árvore metei, ou do mel. Não é muito grande nem grossa, plantam-na, podam-na, consertam-na como vinha, [e] diz[em] que tem quarenta fôlhas da feição de telhas, [as quais] servem disso. E quando são tenras conservam[-nas], fazem delas papel, flam-nas como linho, fazem delas mantas, alpar- gatas, esteiras, cintas [e] cilhas. Têm estas árvores umas espinhas tão duras e agudas que cosem com elas como com sovelas, e o tronco dá bom lume e cinza para decoada. Escavam-na ao pé, e a água que estila é como arrobe: se a cozem, fica mel; se a purificam, açúcar; se lhe deitam patalim, vinho; se a destempe- ram, vinagre. As pencas, assadas e espremidas sôbre chagas ou feridafs], sara[m] e encoura[m]. O sumo
452 ANTÔNIO GALVAO das espigas e raízes, misturadas com sumo de incenso, é bom contra a peçonha e mordedura de víbora. De modo que é a mais proveitosa árvore que lá se conhece. Há lá uns passarinhos que se chamam Vioincilim; sâo pequenos, [têm] o bico delgado e comprido, man- têm-se do rocio, mel, licor de flôres e [de] rosa[s]; têm as pernas miúdas e de diversas côres, presam-nas muito para lavrar ouro. Morre ou adormece cada ano; no mês de Outubro, pôsto em um raminho, em lugar abrigado, ressuscita ou acorda no mês de Abril seguinte, [em] que há flôres, pelo que lhe chamam o ressuscitado. Há cobras que são como cascavéis quando andam; há outras que emprenham pela boca, como dizem da víbora; há porcos com umbigos no espi- nhaço, os quais matando-os, se lhofs] não cortam, fede[m] logo. Há peixes que guincham como porcos, e roncam, por onde lhe[s] chamam roncadores. No ano de 588 e 39, depois de Diego de Almagro degolado, o marquês Francisco Pizarro não esteve ocioso: mandou logo Pedro de Valdivia com muita gente ao descobrimento e conquista de Chile. Foi bem recebido dos da terra, e depois o quiseram matar por enganos, e, com tôda a guerra que teve, descobriu muita terra e costa do mar da banda de Leste até quarenta e tantos graus de altura. E ouviram dizer dos naturais de Aooncágua, que juntava dois mil homens de peleja contra outro rei seu vizinho, que traria o mesmo. E Aconcágua tinha uma ilha e templo com dois mil sacerdotes. Dentro, e mais adiante, havia amazonas, e a rainha delaB se chamava Ganomilha,
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 453 que quere dizer Céu de Ouro, donde os Castelhanos concluíram haver ali muita riqueza, bem como de uma ilha que se chama de Salomão, [que] também dizem ser muito rica, mas nada disto se viu até agora. Gomez de Alvarado foi à província de Guánuco, Francisco de Chaves aos Conchucos, que corriam a Trujillo, por serem vizinhos, Pero de Vergara ao Bra- camoros que está ao norte de Quito, Juan Perez de Vargas contra os Cachapoias, Alonso de Mercadillo a Mulubumbo, Fernando e Gonçalo Pizarro ao Collao, terra sadia e rica de ouro, prata, [e] Pero de Candia, acima de Collao, terra áspera [e] de gente belicosa. Pero Anzures [de Camporredondo] também foi des- cobrir, conquistar e povoar terra, e outros, por outra banda, se estenderam mais de setecentas léguas, com grande presteza. No ano de 540, foi o capitão Hernando de Alarcon por mandado do vice-rei D. António de Mendoza, com dois navios, descobrir a costa. Estas terras do Brasil e Peru terão de Leste-Oeste perto de oitocentas léguas pelo mais largo, que ó do cabo de Santo-Agostinho ao pôrto de Trujillo, porque estão ambos em um paralelo, em seis graus de altura, e de comprido mais de novecentas e cinqúenta [léguas] em linha recta [de] Norte [aj Sul, que se contam do Rio Peru ao estreito que o Magalhães descobriu, em que há umas serras a que chamam os Andes, que apartam o Brasil do Império dos Incas, da mesma forma que os montes Taurus e Imaus o fazem na Ásia aos índios dos Citas. Os quais montes começam em trinta e seis ou trinta e sete graus de altura, no
454 ANTÓNIO GALVAO fim do Mar Mediterrâneo, defronte das ilhas de Rodes e Chipre, e vão sempre a Leste até o mar da China, como os montes Atlantes [que] dividem em África os mouros brancos dos negros de cabelo revolto, [e que,] começando no Mar Roxo, vão ao longo do Trópico de Câncer até o mar chamado Atlântico. As montanhas dos Andes são altas, ásperas, fra- gosas. e de onde em onde escalvadas, sem árvores, nem ervas, chovendo e nevando de contínuo nelas, com ventos e trovoadas. Carecem tanto de lenha que fazem fogo de terra como em Flandres. Há partes nestas serras com terras de côres diversas: uma preta, outra branca, vermelha, verde, azul, amarela e morada, de que fazem tintas, sem mais misturas. Saem das raízes destas montanhas muitas ribeiras pequenas e grandes, principalmente da parte de Leste, como se mostra nos rio[s] das Amazonas e Maranhão, de S. Francisco, da Prata, [de] S. João, e [de] outros muitos que há na terra do Brasil, por ser [em os Andes] mais largo [s desta banda] que da do Peru e Nova-Castela. Criam-se nesta serra muitos nabos, tremoços e outras [plantas]. Há aí uma como aipo, [que] dá flor amarela [e] que sara tôda [a] chaga podrida; e se a põem em carne sã e limpa, come até o osso: de modo que é boa para o mau, e má para o bom. Dizem que há nestas montanhas, tigres, leões, ursos, lôbos, gatos, raposas, antas, porcos, veados, gazelas, aves de rapina e outras. E a maior parte delas são [ali] pretas, como debaixo do Norte as mes- mas alimárias e aves são brancas. Há também grandes cobras, e tão feras que, passando um exército dos
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 455 incas, o destruíram; mas dizem que uma velha as encantou de maneira que ficaram tão mansas, que andam homens cavalgados sobre elas. A terra do Peru, que jaz das serras dos Andes, a Leste, contra a [costa] marítima, é em três partes dividida: os Andes, que são muito grandes, e alguns montes que jazem nas faldas dêles, e campos [e] vales, que vão ao longo da costa, e alargam se pela terra dentro quinze ou vinte léguas, tôdas de areais muito quentes [com lugares] frescos de diversos arvoredos e frutos, por serem regados, e, [que têm] por baixo, canas, espadanas, juncos, ervas e árvores, que, pondo a mão nelas, cai-lhe[s] a fôlha; e, por entro estas verduras, flores e frescuras, se criam os homens e mulheres, sem casas e camas, como os gados nos campos; e alguns [homens] têm rabos, são grosseiros, [de] cabelos compridos, não têm barbas, mas [falam] diversas línguas. Os que vivem nas faldas destas montanhas dos Andes, entre a frialdade e [a] quentura, são pela maior parte tortos, e alguns cegos. De maravilha se acham dois homens juntos que um dêles não seja torto. Tam- bém se dá por êstes campos, ainda que de areia, calidíssimos, muito bom mais e batatas, e umas ervas a que chamam coca [e] que trazem sempre na bôca, como na índia o bétele, que dizem que mata a sêde e [a] fome. E também há outros grãos e raízes que lá comem, muito trigo, cevada, milho, vinhos e outras árvores de Espanha que lá plantaram, porque tudo se dá bem naquela terra, por ser regada. Também se semeia muito algodão, que de seu natural é branco,
456 ANTÓNIO GALVAO vermelho, prêto, azul, verde, amarelo, aleonado, e de outras diversas cores. Dizem também que de Tumbez por diante mais de quinhentas léguas não chove, nem troveja, nem relampagea; às vezes cai algum orvalho. E também querem dizer que de Tumbez a Chile, não se criam perus, galinhas, nem galos, nem águias, falcões, aço- res, gaviões, nem outras aves de rapina, havendo-as em tôda a outra terra e comarca; mas há aí muitos patos, adéns, garças, rôlas, pombos, perdizes, codor- nizes, mochos, petos, rouxinóis e outras aves; umas, como patos, sem penas, têm um véu delgado que as cobre tôdas. Há abutres que têm guerra com os lôbos marinhos; assim que os acham fora da água, quebram- -lhe os olhos às picadas para se não acolherem a ela, [e] assim os matam. Diz[em] que é para folgar ver[em] esta caça. Com as barbas dos lôbos limpam os dentes, por ser[em] boas para a dor dêles. Há umas alimárias que os da terra chamam xacos, [e] os castelhanos ovelhas por terem lãs como elas. São da feição de cervos; têm gibas como [os] camelos, levam pêso de quatro arrobas; os castelhanos cavalgam nelas, [e] quando cansam, volvem a cabeça e deitam uma água muito fedorenta. Dos rios da Prata e Lima para cima não se criam lagartos, cobras, nem bichos peçonhentos, razão por que há muitos e bons pescados. Na costa de S. Miguel, no mar, há grandes pedras de sal cobertas de ovas. Na Ponta de Santa-Helena, há fontes que deitam licor que serve de pez e alcatrão. Dizem que em Chile há uma fonte cuja água converte a terra em pedra, e o
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 457 barro [em] penedo. No pôrto de Trujillo há uma lagoa de água doce, e o fundo de bom sal ooalhado. E nos Andes, detrás de Xauxa, há um rio de água doce, e o fundo de sal branco. Também dizem os da terra que houve gigantes nela, oujas estátuas acharam em Por- toviejo, e no de Trujillo [encontraram] grandes ossos e cavernas com dentes de três ou quatro dedos em largo. No ano de 540, partiu Gonçalo Pizarro da cidade de Quito ao descobrimento da canela, coisa muito nomeada naquela terra. Levava duzentos espanhóis de pé e cavalo, trezentos índios de cárrega; caminhou até Quixos, que é a derradeira coisa que os incas senhoreavam, onde lhe tremeu a terra, choveu e relampagueou tanto, que se fundiram sessenta casas. Passaram umas serras muito frias e nevadas, onde lhe[s] ficaram muitos índios regelados, e êles espan- tados da grande neve que havia debaixo da Linha. Daqui foram a uma província que se chama Sumaco, onde estiveram dois meses, por lhes chover [de] con- tínuo. E, ao adiante, viram árvores de canela, que são grandes e [têm] as fôlhas como de loureiro; e elas, a côdea e [as] raízes, tem tudo sabor de canela; mas o melhor dela são uns capuchos como dalcornoques, de que há grande trato. E, segundo parece, deve ser canela brava, [de] que há muita na índia e [nas] ilhas de Java. E neste ano de 40, foi Fernando Cortês com sua mulher para Castela, e faleoeu lá de doença. Daqui foram à província ou cidade de Coca, onde repousaram cinqíienta dias. Daí por diante caminha- ram ao longo de uma ribeira muito grande sessenta
458 léguas, sem acharem ponte, [nem] vau, nem por onde passassem à outra banda. Sòmente acharam o rio de duzentos estádios, onde a água fazia tão grande ruído que parecia que emouquecia a quem junto estava. E não muito abaixo, diz[em] que acharam um canal de pedra talhada, de vinte pés em largo, por onde todo o rio passa, em que fizeram ponte para a outra banda. Dizem ser melhor terra. Foram a uma que se chama Pebas (?), tão pobre que não comiam senão frutas e ervas, e umas como túbaras da terra. Adiante, acha- ram gente de razão, que vestiam algodão, onde fize- ram um bergantim breado com resina, e acharam algumas canoas em que meteram os doentes e o me- lhor vestido e peças que levavam. E deram cárrego desta armada a Francisco de Orellana, e Gonçalo Pizarro foi por terra com a mais gente ao longo da ribeira; e, como era noite, recolhiam-se aos navios, e caminhariam assim duzentas léguas, segundo lhe parecia. Chegado Pizarro onde esperava achar o bergantim e canoas, como não as viu, nem [houve] novas delas, ficou muito agastado por se ver em terra alheia, sem mantimento, vestido, nem coisa alguma, [de modo] que até os cavalos e cães comeram. A terra [era] pobre, fragosa; [o] caminho comprido para tornar à cidade de Quito; e, contudo, puseram-se a isso, e, no cami- nho, andaram ano e meio. E diz[em] que andariam quatrocentas ou quinhentas léguas, onde não acharam sol, nem coisa que os pudesse confortar, por onde, de duzentos que eram, não tornaram a Quito dez, e êstes tão fracos, rotos e transfigurados, que os não conhe-
DOM JOÃO IV VIGEREI DE CASTRO, DA ÍNDIA . De Retratos. e Elogios dos Varões, e Donas, etc. Lisboa, MDCCCXV1I
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 461 ciam. Orellana andaria quinhentas ou seiscentas léguas pelo rio abaixo, vendo diversas terras e gentes de uma parte e de outra, e dizfem] que há [aíj amazonas. Veio ter a Castela, desculpando-se que a água o trou- xera por fôrça; à qual [água] chamam [uns] o rio de Orellana, e outros de Amazonas, por havê-las nesta terra, ou mulheres que vivem como elas. No ano de 541, diz[em] que partiu D. Estêvão da Gama, governador da índia, para o estreito de Meca. Foi com tôda [a] armada surgir à ilha de Maçuá, e daí para cima em navios de remos costeando a costa do Abexim e África, de pedra em pedra, até à ilha de Suaquém, que estará em vinte graus de altura da parte do Norte, daí ao pôrto de Alcocer, que está em vinte e sete [graus]. Atravessou para a cidade de Toro, da parte da ribeira, e ao longo dela foi a Suez, que é o fim do estreito, por onde se tornaram pelo mesmo caminho, deixando aquela terra e costa des- coberta, onde capitão espanhol nunca chegara, ainda que Lopo Soares, governador da índia, foi à cidade de Judá e pôrto de Meca, que está da banda da Arábia, em vinte e três graus de altura e cento e cin- quenta léguas da bôca do estreito. Atravessando D. Estêvão, de Alcocer para Toro, dizem que se achou uma ilha de enxôfre que foi da mãe de Mafamede, despovoada, e muitos caranguejos nela que ajudam a natureza, pelo que são muito esti- mados, principalmente dos pouco castos. Dizem tam- bém que há neste estreito muitas rosas, das que se abrem quando as mulheres parem. João Leão escreve na Geografia que fêz da África, que nos montes Atlan-
462 ANTÔNIO GALVAO tes há uma erva que [faz] perder a virgindade à mulher que passa por cima. Neste mesmo ano de 541, na Cidade dos Reis, matou D. Diego de Almagro ao marquês Francisco Pizarro e a seu irmão Francisco Martins de Alcântara, e se levantou por governador da terra. Neste mesmo ano de 539, mandou o vioe-rei D. António de Mendoza, por terra, à província de Cibola, [a] Francisco Vazquez de Coronado, com bom exército de castelhanos e índios. Partiram de México, foram a Culiacan, daí a Cibola, que está em trinta e oito graus de altura, [e] requereram aos da terra pazes e mantimentos, que levavam disâo falta. Responderam que não davam nada a quem ia de guerra; combate- ram a vila, [esta] foi tomada, [e] puseram-lhe [o] nome [de] Granada, por o vice-rei ser natural dela. Achando-se os soldados enganados pelos frades, para não tornarem com as mãos vasias ao México, foram de Cibola à cidade de Suco, donde tiveram nova de Xaquevira, onde estava um rei muito rico que adorava uma cruz de ouro, e uma mulher de prata, que senhoreava o Céu. Neste caminho passaram muito trabalho, perigo, rios nevados, e lhe[s] fugiram uma noite todos os índios, e amanheceram trinta cavalos mortos. E de Suco foram a Quibiria (?), que, segundo sua conta, eram duzentas léguas, tudo cam- pina rasa [e] pelada, sem árvore nem pedra. Faziam por ela montes de bostas de vaca, para se não perde- rem à tornada. Diz[em] que lhe[s] choveu e caiu pedra do tamanho de laranjas, pelo que houve [ram] temor e lágrimas. Chegados a Quibiria (?), que dizem estar
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 463 em quarenta o dois graus de altura, acharam o rei que buscavam, com uma jóia de cobre ao pescoço, que era tôda [a] sua riqueza. Não viram cruz de ouro, nem mulher de prata, nem quem lhe[s] desse razão da nossa santa fé católica. Contavam desta terra ser pouco povoada, princi- palmente na campina, porque os homens e mulheres costumam andar por ela com seus gados, que têm muitos, como os alarves; e mudam-se segundo o tempo e pasto. Diziam que havia aí umas alimárias do tamanho de azémolas, [que] tinham grandes cornos e lã como carneiros, e assim lhe chamam os castelha- nos. As vacas são muitas e mui monstruosas, com grandes corcovas sôbre as espáduas, e compridas barbas pelo espinhaço e pescoço, [e] sêdas como de cavalos. Não há nesta província trigo, cevada, milho, mais, nem fazem pão de nenhuma coisa. Das vacas comem a mais da carne crua ou mal assada, à míngua de lenha, cortam-na com facas de pederneira, bebem seu sangue, vestem [e] calçam. As frutas são nozes, avelãs, uvas, ameixas, pinhões e amoras. Há aí cães e rafeiros tamanhos que um só sustenta um touro, por bravo que seja. Quando se mudam, levam o fato, filhos e mulheres em cima [dêsses cães]. Também há muitos cães bravos no mato, em manadas, como gados. Por muitas coisas passo, porque a regra que sigo não me dá espaço a mais. No ano de 542, achando-se Diogo de Freitas no reino de Sião, na cidade de Udiá, [por] capitão de um navio, lhe fugiram três portugueses em um junco que ia para a China: chamavam-se António da Mota,
464 ANTÔNIO GALVÃO Francisco Zeimoto e António Peixoto. Indo-se [de] caminho para tomar pôrto na cidade de Liampó, que está em trinta e tantos graus de altura, lhe [s] deu tal tormenta à popa que os apartou da terra, e em poucos dias, ao Levante, viram uma ilhà em trinta e dois graus, a que chamam os Japões, que parecem ser aquelas Cipangas e suas riquezas, de que tanto falam as Escrituras. E assim estas também têm ouro, e muita prata, e outras riquezas. Neste mesmo ano de 542, mandou D. António de Mendoza, vice-rei da Nova-Espanha, seus capitães e pilotos, descobrir a costa do Cabo dei Engaflo, para cima, donde os de Cortês tinham chegado. Foram até as Serras Nevadas, que dizem estar em quarenta e cinco graus da parte do Norte, onde viram naus com mercadorias, que traziam nas proas, por divisas, alcatruzes e outros pássaros de ouro e prata, que pareciam ser dos japões ou chinas, e diziam que havia pouco mais de trinta dias de navegação à sua terra. No ano de 542, em mês de Outubro, mandou o vice-rei D. António às ilhas de Mindanau, Cebu e Mactan, onde Magalhães fóra morto, uma armada de seis velas, [com] quatrocentos ou quinhentos soldados nelas, e outros tantos índios da terra, e, por capitâo- •mor, Ruy Lopes de Villalobos, seu cunhado, pessoa de muita estima. Partiram do pôrto de Navidad, que está em vinte graus ao Norte, véspera de Todos-os- •Santos, governaram a Leste e à quarta de Sudoeste; em dezanove graus houveram vista da ilha de S. Tomás, que Hernando Grijalva descobrira. Mais adiante, em
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 465 dezassete graus, viram outra, a que puseram nome a Nublada. Daí foram a outra que chamam Roca-Partida. A três dias de Dezembro, acharam uns baixos de seis ou sete braças de fundo. A vinte e cinco dêste mês viram as ilhas que Diogo da Rocha e Gomes de Sequeira e Álvaro Saavedra [Ceron] descobriram; puseram [-lhes] nome dos Reis, por a verem em seu dia. E, ao diante, acharam outras em dez graus, tôdas em roda; e, da mesma maneira, surgiram nelas, e tomaram água e lenha. Neste mesmo ano de 542, foi desbaratado em Peru, D. Diego de Almagro, por [D. Cristóbal] Vaca de Castro. No ano de 543, em mês de Janeiro, se fizeram aqui à vela com tôda a armada, e houveram vista de algumas ilhas, de que saíram paraus e calaluzes com gente; e traziam nas mãos cruzes, e os salvaram com bons-dias, matalotes/, de que ficaram maravilhados por se vèrem de Castela tão alongados e [por verem] homens naquela terra com cruzes, e saudarem-nos em língua espanhol[a]. E traziam divisa, [i. é, sinal] que pareciam sentir alguma coisa da nossa santa fé cató- lica, [e os espanhóis quedaram maravilhados] por não saberem que havia muitos dela que Francisco de Castro, por mandado de António Galvão, bapti- zara. Uns lhe chamam as Ilhas das Cruzes, e outros dos Matalotes. Neste mesmo ano de 543, o primeiro de Fevereiro, houve Ruy Lopez [de Villalobos] vista daquela nobre ilha de Mindanau, em nove graus de altura. Não pôde dobrá-la, nem surgir como desejava, porque os reis cristãos e povo dela lho defenderam, por terem dado so /
466 ANTÓNIO GALVAO a obediência a António Galvão, que êles muito esti- mavam, e não queriam anojá-lo cinco ou seis reis que tinham tomado água de baptismo. Vendo Ruy Lopez isto, e o vento contrário, foi-se ao longo da costa buscar algum abrigo, e em quatro ou cinco graus de altura acharam uma ilha pequena, a que os da terra chamam Sarangani. E, tomada por fôrça, em memória do vice-rei que os lá mandava, [D. António de Men- doza] puseram-lhe o nome António, onde estiveram um ano. Sucederam-lhe[s] coisas dignas de serem escritas, fmas] não me meto nelas, por serem mais histórias que descobrimento. No mesmo ano de 543, em mês de Agôsto, man- dou o geral Ruy Lopez a Bernardo de la Torre, em um navio, à Nova-Espanha, dar conta a D. António de Mendoza [d]o que lá passara. Foram ter à ilha de Samar, Gaonata, Bisaya e outras, que há aí muitas em onze e doze graus da parte do Norte, por onde o Magalhães andara, e Francisco de Castro dera saúde perpétua a muitos que por ali se baptizaram. E os castelhanos lhe[s] puseram nome as Filipinas, em memória do Príncipe de Castela. Tomaram mantimento, água e lenha, e se fizeram à vela; foram alguns dias em Leste, vento a pôpa, até que lhe foi escasseando, e se puseram perto do Trópico de Câncer. Em vinte e cinco do mês de Setembro viram umas ilhas, a que puseram nome Mal Abrigo. E além delas, descobriram as Duas Irmãs; e mais avante, quatro, a que chama- ram Los Volcanes. A dois de Outubro, houveram vista da Forfana; e, além dela, há um penedo alto que deita fogo por cinco partes.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 467 Indo assim em dezasseis graus de altura, setecen- tas léguas donde partiram (segundo o que lhes pare- oia), por nfio acharem tempo, arribaram às Filipinas, houveram vista de seis ou sete, mas nâo surgiram nelas. Acharam em um arquipélago de ilhas bem povoadas de gente, que estão em quinze ou dezasseis graus de altura, alvas [e] bem dispostas, [as] mulheres mais formosas e ataviadas que há naquelas partes, com muitas jóias de ouro, que era sinal havê-lo na terra. Havia também navios de remo, de quarenta e três côvados em comprido, duas braças e meia de largo, e o tabuado de cinco dedos em grosso. E diziam que navegavam nêles para a Chioa, [acrescentando] que, se lá quisessem ir, lhes dariam pilotos para isso, que não eram mais [do] que cinco ou seis dias de oaminho. Também vieram a êles paraus e calaluzes bem lavrados e guarnecidos; e os senhores vinham assen- tados em alto, e por baixo certos negros de cabelo revolto, como por estado, [i. ó, por séquito]. Pregun- tando[-lhes] donde os houveram, responderam que de umas ilhas. Junto de Sebu e Mactan, havia muitos, de que os castelhanos se maravilharam, porque dali a mais [de] trezentas léguas não havia gentes pretas, pelo que parece que não são naturais dêsse clima, senão havia-os em manchas pela redondeza, como qualquer outra casta. Porque também os há nas ilhas de Nicobar e Andamão, que estão no Golfo de Ben- gala, e dali a quinhentas léguas, não sabemos [de] gentes pretas. Valboa conta que, indo descobrir o mar da outra banda do Sul, em uma certa terra que
468 se chama Cauça, achou gente preta de cabelo frisado, não os havendo em tôda a Nova-Espanha nem em Castela do Ouro, nem nas terras do Peru, a que êles chamam Nova-Castela. No ano de 544, mandou D. Guterre de Vargas, bispo de Placência, uma armada da cidade de Sevi- lha ao Estreito de Magalhães, e diziam que [o fizera] por conselho do vice-rei D. António de Mendoza, seu cunhado. Alguns suspeitam se iriam a Maluco, outros à China, outros querem dizer que [não] fôssem a mais [do] que a descobrir [a] terra que há do Estreito à terra do Peru, da outra banda do Chile, por dize- rem que havia lá muito ouro e prata, que cedo os enriqueceria. Mas esta armada dizem que teve ven- tura contrária, porque não passou à outra banda do estreito senão um galeão que seguiu a co6ta ao longo da terra sôbre a mão direita, e descobriu tôda até Arequipa (?), a qual haverá quinhentas léguas; que a outra era já descoberta por Diego de Almagro, Francisco Pizarro e seus capitães e gentes, em diver- sas vezes; e, segundo isto, tudo é descoberto do Es- treito de Magalhães até à Linha, de uma parte e de outra. No ano de 545, em mês de Janeiro, chegou Ruy Lopez de Villalobos, geral dos Castelhanos, à ilha Marotai e cidade de Carnaf (?). Foi bem recebido dos reis de Gilolo e Tidore e gente da terra, por António Galvão ser já partido, [o] que deu assaz de trabalho ao capitão D. Jorge de Castro, segundo parece que lhe sucedeu, e aos portugueses que com êle estavam, e muito gasto à fortaleza.
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 469 No mesmo ano de 545, Ruy Lopez de Villalobos, da ilha de Tidore onde já estava, tornou [a] mandar da parte do Sul outro navio para a Nova-E9panha, [indo por] capitão dele Yfiigo Ortiz de Roda, [e por] pilôto Gaspar Rico, natural de Almada. Foram ter à costa dos papuas, correram-na tôda, e como não sabiam que por ali andara Saavedra, adquiriram assim esta honra e descobrimento. Por a gente ser preta e de cabelo revolto, puseram-lhe nome Nova- -Guiné, por ser já perdida a memória de Saavedra, que assim sucede [a] tudo o que a escritura não alumia. No ano de 545, em mês de Junho, partiu um junco da cidade de Bornéu, em que ia um português que se chamava Pêro Fidalgo. Arribaram, com tempo contrário, ao Norte, acharam uma ilha de nove ou dez graus, até vinte e dois de altura, a que chamam dos Luções, por assim haverem nomes os habitantes dela. Pode ter outros, bem como seus portos, que ainda agora não sabemos. Corre-se de Nordeste a Sudoeste; jaz entre Mindanau e a China. Diz[em] que foram ao longo dela duzentas e cinqúenta légua 8, em que a terra era fresca e bem assom- brada, e contam que dão ali dois pesos de ouro por um de prata, ainda que é muito vizinha da terra da China. No ano de 1550, em Inglaterra se fêz uma armada, e, segundo parece, foi ao Norte, ao longo da costa de Gótia, e dai ao Levante, porque d [o] caminho que fizeram, e [da] altura em que se puseram, ainda agora não há certeza. Sòmente há uma cárta do grão-duque
470 de Moscóvia, em que declarava que chegara a seu pôrto uma nau de Inglaterra, de que era capitão Richard Chanceller, que lhe mandara, por um inglês que se dizia Willoughby, uma carta do Rei, em que lhe pedia que [os] seus vassalos pudessem ir e vir e tratarem em sua terra, [para o que] êle dera salvo conduto e licença. Esta Moscóvia, segundo sua descri- ção mostra, [está] de sessenta graus para setenta. Outros navios não sei que fim houveram, sòmente [sei] ser êste [o] derradeiro descobrimento que até esta era era feito. E desta terra de Moscóvia para o Levante, vai [-se] a Tartária, e, no fim dela, à província da China, que dizem ter um muro de mais de duzentas léguas entre uma e a outra, [i. é, entre a Tartária e a China], [que está em] perto de cinqtlenta graus de altura. O que disto tenho alcançado, é ser a redondeza [da terra], de trezentos e sessenta graus, segundo sua geometria; à qual deram os antigos dezassete léguas e meia [por grau], o que monta a seis mil e trezentas; os modernos põem o grau em dezasseis e dois terços, por virem [a] seis mil léguas. Contudo, eu tenho que são dezessete [léguas] largas, com o que sai o âmbito da terra em seis mil e duzentas [léguas]. Como quer que seja, tôda é descoberta e navegada de Leste-Oeste, quási por onde o sol anda; mas de Sul ao Norte há muita diferença, porque contra êle não se acha mais descoberto [do] que até setenta e sete ou setenta e oito graus de altura, o que monta a mil e trezentas e tantas léguas. E da parte do Sul [há] até novecentas [descobertas], por ser descoberto [até] cinqilenta e
TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS 471 dois ou cinqúenta e três graus, que [ó] o estreito por onde o Magalhães passara. Juntas tôdas, fazem, em soma, duas mil e duzentas, tiradas de seis mil e duzentas. Ficam por descobrir quatro mil léguas. LAUS D E O.
Em louvor de Deus e da gloriosa Virgem Maria, se acabou o livro dos Descobrimentos das Antilhas e índia. Imprimiu-se em casa de João da Barreira, impressor de el-Rei nosso senhor. Aos quinze de Dezembro de mil e quinhentos e sessenta e três anos.
índice das Gravuras
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Rosto da edição Princeps, de 1563 do iTtalado dos Des- cobrimentos' ............ 1 Rosto da segunda edição, de 1731, do «Tratado dos Des- cobrimentos» 9 Retrato de António Galvão, reproduzido da segunda edição do t Trata do dos Descobrimentos 11 Infante D. Henrique 321 Cristóvão Colombo 333 Vasco da Gama 339 Pedro Álvares Cabral 343 Américo Vespúcio 347 D. Francisco de Almeida 861 Afonso de Albuquerque 355 Diogo Lopes de Sequeira 359 Mallea : . . . 363 A Ilha de Solor 367 O lado oriental da Ilha de Ternate. ...... 371 Planta de Goa, em fins do século XVi 375 Vasco Nunes de Valboa 381 Fortaleza de Ormuz. 383 Lopo Soares de Albergaria 387 Hernán Cortês Cêrco da cidade do México. ........ Fernão de Magalhães . 899 Pretensas armas de Sebastião dei Cano 405 Francisco Pizarro 413 Galé de combate 425 Pintura de um cacique mexicano ....... 437 Ilha de Machian ou Maquian 447 D. João de Castro 459 Diploma assinado pelo Vice Rei e Governador da Nova- •Espanha, D. António de Mendoza 469
índice Onomástico Por DR. ABEL ALMEIDA E SOUSA
Abibl—vide Andei. Abissínia—17, 24,182, 196. Abreu, António-16, 67, 68, 168, 171, 172. Abreu, Simão —16, 67, 62, 205. Abrigo, Mal - vide Sulphur, ilhas. Abu-Shaar ou Mios Hormos, pôrto -101, 108. Acapulco ou Capuleo, pôrto — 289, 251, 267, 261. Ackling, ilha —134. Acea—vide Ásia (?), ilha. Aconcagua ou Huchancolma, re- gião chilena-260. Açores, arquipélago—66, 67, 82, 127,186, 249. Adão-158- Adém, cidade —131, 182, 178. Adriático, mar, ou Mediterrâneo, Egeu ou Hercúleo—89. Aduanara, ilha-200. Aécio, general—107. Aeiro, Cachil-41. Afeganistão—99, 109. Afonso, D., Cardeal-87. Afonso, D., príncipe—182,185. Afonso, Diogo—126, 172. Afonso IV, D.—114. Afonso V, D.—17, 124, 126, 127, 129. Afortunadas-vide Beatas e Ca- nárias, ilhas. Afrânio, Lúcio—78. África-76, 81, 82, 87, 88, 89, 91, 94, 96, 99, 104, 107, 108, 111, 118, 116, 116. 118, 121, 128, 127, 128, 129, 131, 148, 146, 147, 196, 283, 262, 269, 270. Afrodísias, ilhas—82. Afrodite - 82. Agamémon— 88. Agostinho, Santo—75, 79. Agostinho, Santo, cabo — 21, 146, 150, 175, 219, 262. Agrão, cidade da Babilónia— 111. Agrigan, ou Grega, ilha—202. Águeda, Santa, nau — 249, 266, 257. Aguilar, coDde de—227. Aguilar, Jerónimo —188. Ahuitzotl—213. Ailath ou Elath, (no Mar Verme- lho)-89. Aillon, Lucas Vazquez-67, 196, 210, 211. Ainão, ilha—84. Aire, Santa Maria dei Buen, capi- tal da Argentina-248. Aiu (?) ou Haime, ilha—252. Akalzik, distrito da Geórgia— 110. Alaminos, Antão de—67, 188. Alaminos, Juan de—185. Alarcon, Hernando—261. Alba, duque de—166. Albânia—110. Albergaria, Lopo Soares de— 181, 184, 196. Albo, Francisco—200. Alboim—108. Albuquerque, Afonso de—85, 67, 31
484 ÍNDICE ONOMÁSTICO Azua, rio ou rio Neser—158. Azuni -123. Babelmândebe, estreito 1 entrada do Mar Vermelho -102. Babilónia—79, 100, 106, 211. Baber—111. Bacalhaus,Terra dos - vide Terra Nova. Baçaim, cidade indiana—181. Bacar ou Bhakkar, cidade do Punjabe —111. Baçorá, cidade—112, 282. Bacochinas — vide Botochinas, Gilolo (ilhas1). Bactriana ou Batuana, região asiática—99,104,106,109,111, 162, 163. Badajoz, Gonçalo de-67, 179. Badur ou Badu, rei de Cambaia -246. Bahamas, ilhas Lucaias-80,185, 196. Bala — Cabrália — vide Pôrto — Seguro. Bajazeto, filho de Maomé II—73. Balabac, estreito de—16. Balboa, Vasco Nufiez de — 152, 177, 178, 179. Balcones, ilhas — vide Volcanes. Baldaia, Afonso Gonçalves—124, Baldaia, Fernando-226. Baldiva, Pêro de-67. Baleares, ilhas —172. Baleia, gôlfo da — vide Pária (gôlfo de). Bali ou Balle, ilha-84, 169, 171. Balochistão, região do Irão -99. Balsas, rio-201. Báltico, mar—107, 110. Bamba, rio ou Chinapampa-216. Banca, Bangka, Banqua, Pan- guensara ou Likoepang, ilha - 84, 169, 205. Banda, arquipélago — 15, 16, 84, 85, 168, 172, 203. Badajoz, Gonçalo de-67, 179. Bandeiras, bala das-239. Bangka—vide Banca. Bangu«coque, cidade—166. Barba, Pedro -119. Barba-Roxa, Frederico —112. Barcelos—130. Barrameda, San Lucar de—141, 176, 176, 178, 221, 247. Barreira, João da—69,60,61, 283. Barreto, Afonso Teles—160. Barreto, Álvaro Teles—159. Barreto, Manuel Teles—160. Barros, Henrique da Gama - 60. Barros, João de-39, 52, 126,159, 160, 161, 167, 170, 171, 181, 182, 237. Bartabio ou Martabão, cidade -168. Baru, ilha de—162. Basilan, estreito—16, 62, 205. Basileia, cidade - 231. Basilio III, grão duque de Mos- cóvia —195. Bástidas, Rodrigo Galvan das— 67, 152, 166,210. Bastimentos, ilha dos — ou Pro- vision Istand-154. Basurto, Juan de—216. Batian - 51, 52 Batochina—vide Gilolo. Batsheba, mãe de Salomão—89. Baviera, ducado da—231. Baviera, duque da—112. Beatas, ilhas - 124, 142. Beatas, pôrto—164. Behaim, Martlm —127. Beirute, cidade—112, 117. Bela ou Espanhola, ilha—188. Belém, rio ou Hievra, Yebra — 154, 155. Beles, cidade —106. Belo, pôrto -154. Belle-Isle, estreito—242. Beltrão, Doutor—218. Bemini—176. Benalcácer ou Benalcazar, Se- bastião - 67,293, 235, 236, 241. Benedito. San—vide Los Inocen- tes, ilhéus. Bengala—76, 106, 111, 161, 166, 181, 184. 278. Beni, rio- -261. Benim, reino de—129, 180. Beraga—vide Verágua. Berenice, pôrto—102. Berenice, mulher de Ptolomeu Filadelfo-102. Berredo, Bernardo Pereira de — 237. Bérrio, caravela—144, Bethume— 62. Bética - 62, 107.
ÍNDICE ONOMÁSTICO 485 Bettencourt, Jean—117, 119,120, 121. Bettencourt, Macict—119. Bezerra, Diogo—vide Mendonça - 213, 244 Bezerra, Francisco — vide Ba- surto, Juan de —215. Bezigulche -150, 159. Bhakkar—vide Bacar. Bíblia-89 Bintão ou Bintang—71, 84. Bir, cidade -106. Bisaia, ilhas - 276. Bisboror- 98. Biscaia—156. Blanco, cabo—vide Branco. Blas, San (gAlfo) ou pdrto de Misas —164 Boa-Esperança, Cabo da — 23, 88, 94, 96, 97, 98, 104, 113, 1i4,122,123,146.148.159,201, 229 230. Bobadilha, D. Isabel de —178. Bobadilha, Juan de—253, 254. Bóemia, reino da -231. Bolhuca, ilha imaginária — 170, 176. Bojador, cabo—117, 124. Bolívia 220, 249, 253, 264, 266. Boloan, ilhéu -200. Bomba, Tierra de (ilha), ou Co- dego—166. Bombo, lago—vide Titicaca. Bonaca. ilha - vide Guanaja. Bonin, ilha—277. Bonoa (?) ou Coroa, ilha - 252. Bórgia, Rodrigo de—137. Borgonha, ducado de—231. Borgonha, Maria (mulher do Im- perador Maximiliano)—168. Boriquem — vide Pôrto-Rico, (S João de). Bornéu, cidade—280 Bornéu, ilha-16, 36, 84,195,205, 280. Botelho, Jorge—172,182. Bougainville - 95. Bougainville, ilha—151. Bourbon, ducado de—231. Bouro, ilha de ou Burro, Buro, ou Boroe—171, 200. Brabante ou Barbante—230. Bracamoros—261. Brancas, Pedras (ilhéu)—206. Branco, cabo ou Blanco— 124, 180. Branco, mar - 280. Brandão, Diogo-171. Braquemont, Robert de—117. Brás, S. (Bala de)—154, 201. Brás, S. (GOlfo de)—230. Brasil—22, 26, 63, 147, 148, 150, 161, 167, 176, 193, 248, 262, 263. Brava —160. Bremas—76. Bretanha—94. Boroe—Vide Bouro. Brito, António de - 36, 203, 205. Brito, Jorge de—43. Brito, Lourenço de—157. Bross, Maggs 60 Brúsia, reino da—vide Prússia. Budomel ou Budlmol, país dos jalofos - 98. Buenos-Aires -248. Bufu, ilhas de — ou de Buru ou Bouro - 252. Bulcasbam, rio-221. Bu-ica, Punta - 180. Buro—vide Bouro. Buru, ilha-vide Bufu. Burro, ilha de - vide Bouro. Caballeros, Santiago de Los — 209. Caboto, João - 140, 219. Caboto, Sebastião—67,140, 219, 220, 224, 267 , 268, 280. Cabral, Pedro Álvares—66, 147, 148, 149. Cabul —111. Cadamosto, Alvise—97, 98. Cádis ou Calex — 82, 104, 114, 137, 151, 153, 156, 248. Cafa ou Teodósia, cidade da Cri- meia— 110. Cairo-79, 87, 93, 118, 181, 132, 233. Cajamarca, Caxamalca ou Xa- malca (Andes) -240. Calamar, baía —164. Caldeia -79. Calecute - 24, 39, 181, Caledónia, baia—280. Cales, barra de—187, 141. Calez, ilha ou Cádis—82. Califórnia - 273.
486 ÍNDICE ONOMÁSTICO Califórnia, gôlfo do Mar Verme- lho ou Mar de Cortez — 250, •267, 258. Califórnia, pôrto da—268. Calpulalpan f?>, cidade — ou Colopan - 190. Camarão, ilha - 24. 178. Cambaia—34, 79, 166, 184, 247. Cambaia, rei de—29. Cambises - 92 Caminha, Pero Vaz de-148. Camorim, cabo—83. Camotas (?) ou Gamotas, ilhas— 276. Campânia, ducado da—231. Campomanes, D. Pedro de-94. Campo, Medina dei—168. Camporredondo-vide Anzures, Pêro-26, 261. Cananor—25, 181, 167, 182. Canárias, ilhas-56, 96, 114, 116, 117, 119, 120, 121, 134, 138, 141, 150, 216, 230, 247. Câncer, trópico de — 132, 185, 184, 246, 250. 262. Candia, Pêro de-261. Cantão, cidade —182, 184, 273. Cantino, planisfério de-151. Cão, Diogo- 180, 132, 172. Capac, Hayna (rei Inca) - 236. Capásia — vide Sands, North (baixos)-161. Caparrosa, ilhas—vide Mulatas; Arquipélago. Capricórnio, trópico de — 130, 150, 201. Capuleo—vide Acapulco. Caraíbas-vide Antilhas, Peque- nas. Cardenas, D. Guterre —140. Cardenas, Luis - 224. Cardines, D. Jorge—vide Carde- nas, Guterre. Careca, vide Torecha-177. Caribanas, ponta—vide Arenas, Punta — Caribe, mar—164. Carius, vide Kur, rio Carlos V - 183, 189, 206,207, 244, Carlos VI-117. Carmânia ou Karamania (Tur- questão)—99. Carmona, Tomás de-155. Carnaf (?) ou Samofo, cidade — 279. Carneiro, António - 48. Carolinas, ilhas — 194, 211, 275. Carolina, South-194, 197. Cárpatos—77. Carqulzano, Martim liiiguez de -217, 225. Cartagena, Juan de—198 Cartagena, pôrto-162, 156, 164, 253. Cartagena, província—177, 178. Cartago - 94. Cartier, Jacques - 67, 242, Carópano-142. Casal, P.® Aires—151. Casas, Fr. Bartolomeu de las — 146. Casas, Francisco de las - 207, 212, 214. Casas, Guilherme de las—120, 133, 134. Cascais—136. Casiquas—179. Casoalco—vide Cozoalco. Cáspio, mar—106, 110. Cassiteriais — vide Scily, ilhas. Cassitérides- 105. Castanheda, Fernão Lopes de — 22, 23, 36, 39, 40, 160, 161, 167, 182. Castela—114, 115, 116, 117, 120, 121, 133, 136, 137, 139, 140, 141, 146, 158, 159, 174, 175, 181, 182, 187, 189, 193, 194, 200, 215, 218, 226, 229, 241, 244, 246, 267, 269, 275, 277. Castela, Nova-216, 246, 248. 26», 278. Castela, reis de — 189, 218, 244, 246. Castela do Ouro—163, 178, 278. Castila, Nueva — Vide Castela, Nova. Castillo, Bernal Diaz dei — 186. Castillo, Domingo dei-262. Castro, D. Cristobal Vaca de — 276 Castro, D. Fernando de - 120. Castro, Francisco de — 67, 83, 256, 276, 276 Castro, Gomes de—45. Castro, D. João de—76, 102, 269, 270.
ÍNDICE ONOMÁSTICO 487 Castro, D.Jorge de—279. Castro, D. Pedro de—18, 19, 20, 21. Catalaúnicos, Campos -107. Catalina, Santa (navio)-262 Catarina, Santa (Cabo de) - 129. Catarina, D. (Rainha de Castela) -117, 119. Cathayo-vide China. Catimococim — vide Guatimozin ou Guauhtemoc ou Cuahte- moc. Catumalão—vide Guatemala. Cauça—vide La Chorrera. Cáucaso - 97, 99, 107. Cautumalan, Santiago de—vide Caballeros, Santiago de. Caxinas—vide Honduras. Cay—vide Acarahy. Cazon—vide Gaza e Guzeh. Cebu, ilha de—274, 278. Ceilão, ilha de—83, 158. Celebes, ilhas-16, 205. Cempoalha, Heopolão ou Zeo- polão -188, 189, 190, 198. Centuriío, Paulo-195. Cerâo, ilha de —171. Cerauno—vide Ptolomeu. Cermeflo, Diego—189. Cerne ou Herne, ilha de-95. Ceron, Álvaro de Saavedra—57, 224, 225, 226, 227, 228, 229, 230, 274, 280. César, Júlio —78, 102, 104. Chachapoias, no Peru—261. Chagres, Chagre, Chegre ou La- gre, rio —154, 179, 229 Chalons-8'ir-Marne, batalha de — 107. Chamelan—vide Cuinão (?). Chametla ou Chimalão—249. Chamola—vide Samala (?). Chanceller, Richard -280. Chanuco—vide Sonocusco. Chat-el-arab —106. Chatlgão, governador de—vide Chittago. Chaúl—29. Chaves, Estêvão de - 35. Chaves, Francisco de—260. Chegres, rio—vide Chagres. Cheronegro, Áurea — vide Ma- laca. Chesuilão —vide Quiactlan. Chiapa -196, 207, 208, 209. Chiapes, ilha de—177, 179. Chiapi—179. Chica - 266. Chicoalco—503. Chicora - 210. Chihuahua, província mexicana -239. Chilapa—vide Chicoalco. Chili -186, 205, 207, 246, 246, 260, 265, 266, 278. Chimalão—vide Chametla. Chimalapa-vide Chicoalco. Chimola -209, 238. China—77, 79, 84, 85, 105, 112, 171, 181, 182, 184, 228, 280, 240, 242, 247, 258, 262, 278, 277, 278, 280, 281. China, Mar da-230, 262. Chinapampa—vide Bamba, rio. Chinas, ilhas—90. Chincha—vide Tumbes (?). Chipre - 262. Chirimay—vide Arequipa. Chittagong ou Chatigão, gover- nador-181, 184 Choia, ribeira de - 236. Chorreca, La—278. Ch'úanchow - 278. Chubut, rio—248. Chuchelaquir, cacique—204. Chupas, batalha de - 276. Cibola, região do Novo-México -256. Cibao —165 Cícero-78, 103. Cidades, Sete—vide Quni. Cignatelán —274. Cipango ou Slpangas,ilhas—278, Cipião, Quinto Sicilio Metelo Pio -78. Clrcesio, cidade—106. Ciro -87, 92,104. Cítia - 77, 78. Citracan—vide Astracan. Clzica, vide Eadoxo de - 104. Clemente VI, papa —114. Cleópatra III—a Coce—104. Cleópatra VI -102, Coaque ou Cós -236. Coatzacoalcos ou Cosoalco —198, 199. Coca, cidade - 267. Coca, rio—267, 268.
48a ÍNDICE ONOMÁSTICO Cochabamba, província boliviana -261. Cochim -21, 24, 84. 85,112,148, 167, 158, 161. 166, 160, 181. Cocoios, ilhas—142 Codcgo, ilha—vide Bomba,Tierra Coelho, João-57. 181, 184. Coelho, Nicolau-144, 146. Coimbra - 26, 89. Coimbra. Univeisidade de-60. Colau-261. Cólchida -106, 110. Colliogridge-219. Colmenares, Rodrigo de—164. ColOmbia—215, 216, 263. Colombo, Bartolomeu - 133, 187, 189, 153, 165. Colombo. Cristóvão — 57, 68, 92, 133, 134, 186, 186, 137, 139, 140, 146, 153, 154, 169, 166, 168. Colombo, Diego — 67, 137, 139, 141, 169, 165, 176 Colombo, Fernando—165. Colónia, cidade—231. Colopan—vide Calpulalpan (?). Colorado, rio-268. Compostela, Santiago de -238, 271. Conceição - vide Ascensão, ilha da, Concepcion, nau-198, 196, 248. Concepcion, Santa Maria de la — ou ilha Fernandina—185, Conchucos- 261. Conecticut, região norte-ameri- cana- 218. Consolación, Santa Maria de (cabo de)—147. Constância, cidade- 281. Constantino Paleólogo - 78. Constantinopla—78, 233. Contreras, Alonso de-211, Coptos, cidade—101, 102, Coraceo—vide Curaçau. Cordeiro, Bernardim- 226. Cordoba. Franciaco Hernandez de-67, 183. Coriolano, Caio ou Cneu Márcio 66, 74. Corioles, cidade—74. Coma—106. Coroa—vide Bonoa, ilha. Coroados -152, Coromandel—79. Coronado, Francisco Vasques de -255, 271. Correia, Aires- 146. Correia, Gaspar. - 49, 160, 166, 167, 169, 182, 188, 232, 247, 279. Corrientes, cabo das—257. Córsega, ilha—83. Cortesão, Armando — 171, 182, 219. Cortez, Fernando-164, 186, 187, 188, 189, 190, 191, 192, 193, 197, 198, 199, 202, 208, 204, 205, 206, 207, 208, 209, 211, 212, 213, 214, 216, 217, 222, 224, 226, 227, 239, 243, 249, 250, 261, 255, 257, 258, 267, 278. Cortez, Mar de—vide Califórnia, gOlfo da. Cortez, P6rto — vide Pôrto de Cavalos Corunha, - 159, 216, 218. Cós - vide Coaque. Cosa, Juan de la-68, 138, 162, 166, 168, 164. Costa, Álvaro - 172. Costa, Martin da- 248. Cotomaião ou Catamalan, Qua- hutemallan —vide Guatemala. Cotrim, Fernão - 167. Coutinho, Fernão—67. 288. Coutinho, Francisco—167. Coutinho, Gago - 219. Covilhã, Pêro da-66, 131, 132, 196. Cozoalco ou Coatzacoalco—198, 199. Cuximel—vide Cozumel. Cozumel, Coxomil ou Cuximel, ilha - 185, 187. Cravo, ilhas do — 172, 217, 220, 224 253 Creta, ilha - 87, 100. Criteo, mar-vide Eritreu. Crimeia -110. Cristo—80, 81, 91, 9?, 94,99,100, 101, 106, 106, 118, 116, 121, 184. Cltias-82. Crocodilos, rio dos—vide Nilo. Cruz, Juan de la-270. Cruz, Santa (nau)—182.
ÍNDICE ONOMÁSTICO 489 Cruzes, ilha das - vide Lamalioik. Cuahtemoc, Guatimozin, Guauh- temoc, Catimococim—213,214. Cuaracuá- 177 Cuba, ilha de- 135, 189, 164, 165, 183, 184, 185, 186, 188, 197, •206, 211, 212, 218 Cubagua, ilha de- 142. Cuinão (?) - 238 Cuitzeo 1?) - 238 Cuitlahvas, irmã ) de Montezuma -199. Culiacan, Culuacan. Cunducan - 188, 255 257, 271. Culiacan, S, Miguel de- 224, 239. Culuacan - vide Culiacan. Cumaco—vide Sumaco. Cunduacan—vide Culiacan. Cunha, Aires da—237. Cunha, Nuno da—26, 29, 31, 40, 283, 246. Cunha, Rui Nunes da-57, 167. Cunha, Tristão da—16, 57, 91, 159, 160. Cunha, Tristão da (ilhas)-22, 57, 161, 159. Curaçau, ilha — 142. Cúrcio, Quinto- 247. Curiaraja- 182. Cusco ou Cuzco, cidade- 240, 241, 242, 245. Cuximel—vide Cozoalco. Cuy, cidade - 166. Cuzco—vide Cusco. Dácia-vide Dinamarca. Daialo, Cachil (régulo) - 43, >0. Dalgado, Rudolfo - 78. Dalmácia (?) ou Vormatia ou Volmatia - vide Weimar. Damasco—112, 123. Damieta- 101. Dardània, reino da—85. Dardanos, filho de zeus 86. Darien- 162, 163, 164, 177, 178, 179, 188, 230. Dario Hiataspe- 90, 92, 94, 101. Datu, cabo de—16. David, rei-89. Davila, Gil Gonçalves - 67, 201, ■204, 208. Delaware-218. Delcano, João Sebastião- 200. Delfinado- 231. Descalante, Garcia—276. Desertas, ilhas 118. Desirade, ilha - 138. Destuniga, D. Joana - vide Zu- niga. Dia, cidade-vide Udiá. Dias, Bartolomeu— 56,58, 94,130, 149, 155. Dias, Dinis- 126. Dias, Lopo-155. Didjleh —vide Tigre. Dinamarca ou Dacia- 232. Dio, cidade- 29, 81, 55, 71, 184, 246, 247. Dionísio, Ptolomeu Neus - vide Ptolomeu Ncus — lOí. Dioscorodis—156. Dios, Graças a(cabo) - 153. Dios, Madre de-rio 261. Dios, Nombre de- 165, 179, 190, 229. Doce, rio- 147. Dodra, cidade—vide Udiá. Domingo, S., ilha do Haiti, Espa- nhola- 135, 188, 142, 152,158, 163, 164, 165, 196, 201, 202, 248 Domingos, S (cidade de) - 166, 210. Don—77. Doncel, Ginés- 210. Donetc ouTanais, no-110. Doushet— 110. Dragão, cabo. vide Magalhães, estreito de, Diago vide Drago's Mouth. Dragori's Mouth — 142. Duarte, D. (rei de Portugal)- 116, 124 Dulce, gôlfo—180. Duraba. pOrto 253. Eanes, Gil-124, li5. Ecla-96. Eclísio-vide Timeu- 81. Edam-89- Efeso—74. Egeu, mar - 88, 89. Egipto -17, 86, 87, 90, 92, 100, 101, 103, 118. Egla-81. Elath, Ailath ou Mar Vermelho Elba, ilha—107. Elcano, João Sebastião de—200. Electra - 85.
490 ÍNDICE ONOMÁSTICO Eliberitano—vide Leão, João. Enciso, Martim Fernandez de -163. Engano, cabo dei—273. Epiro - 74 Epolo —192 Equador—233 234, 235, 266. Eratóstenes - 91. Ericeira, Conde de - vide Mene- ses, D. Luis de Eritreu, Mar-91, 92. 104. Escalante, Juan 189. Escobar, Pedro—129. Escócia—230. Escócia, Nova-218. Escorobates - vide Estabrobates. Escudero, Pedro -189. Eseon, Gebir-89. Esequibo —147. Esfera, nau -182. Esmeraldas, rio das-216. Espanha-68, 80, 82, 83, 88, 91, 95, 96. 104. 105, 107, 108, 114, 115, 116, 117, 119, 121, 127, 133, 134, 136, 139, 144, 153, 159, 165, 168, 174, 175, 177, 183, 195, 197, 218, 222, 224, 229, 230, 213, 234, 239, 245. 248, 264, 268. Espanha, Nova-77, 81, 91, 92, 127, 144, 152, 153, 156, 158, 177, 184, 186, 187, 188, 197, 202, 203. 207, 217, 224 226, 226, 227, 228, 239, 243, 247, I 250, 268, 263, 278, 276, 278, ! 279. Espanhola, ilha—vide Domingos. Espafiola ou ilha de Bella -188. Esparta, rei de-88. Especiarias, ilha das-224. Esperetusa—81. Espinheiro, Santa Maria do (nau) T 21, 24, 25, 26 Espinosa, Gaspar de—180. Espinosa, Gonçalo Gomes de— 202. Espírito Santo (nau)-34. Estabrobates-80. Estrabão - 88, 100, 105. Estrasburgo — 231. Estreia, serra da-82. Estremadura, Santiago de la Nueva—260. Etiópia—80, 131. Etzel—vide Átila. Eudoxo de Cizica-104. Eufrates, rio-79, 100, 106, 112, 232, 233 Eufúria — vide Ofíusa ou Fer- mentera. Eugénio IV, papa -121. Eurípedes-87. Europa-15, 81, 82, 84, 85, 87.88 99, 101, 105, 107, 110, 111, 114, 232 233. Euxino— vide Mar Negro. Evangelista, ilha—vide Mona. Facis, rio Fasis-vide Rion. Falcão, Manuel-71. Falcon, província de Venezuela -253. Falkland ou Maluinas, ilhas —151. Farelones—vide Caios Ratones (?)—162 Farsália—78 Fasis, rio-vide Rion. Fear, Cabo-211. Fermentera ou Ofiusa ou Eu- fúria—172 Fernambuco—vide Pernambuco. Fernandes, Alvaro—126 Fernandes, António-165. Fernandes, Dinis-126. I Fernandes, Duarte-67, 166, 167, 168 Fernandes, Gil -155. Fernandes, Pêro-172 Fernandes, Valentim —115. Fernandina, ilha ouConcepcion (Santa Maria de)-135, Fernando I, D (Rei de Portugal) —115. Fernando. D. (Sobrinho do In- fante D Henrique)—120, 123. Fernando, D. (Rei de Aragão e Castela)-133, 187, 141, 158, 166, 157, 159, 163, 176, 176, 177, 178, 181. Fernando, D. (filho natural de Cristóvão Colombo) -153. Fernando IV—178. Fernando-Pó, ilha de-ou For- mosa-129. Ferrara, ducado de-231. Ferreira, Miguel Lopes - 61. Ferro, ilha do-117, 121. Fêz-8>, 113 Fidalgo, Pêro—280.
ÍNDICE ONOMÁSTICO 491 Fieschi, Bartolomeu—153. Figueiras, cabo das —vide Higue- ra*, Honduras. Filadelfo—vide Ptolomeu II. Filipe, S. (ilha de)-128 Filipe, S. (punta de)-250. Filipe, S. Macedónia—101. Filipe o Formoso (filho de Maxi- miliano)—168, 159. Filipinas, Arquipélago das—194, 225,228, 276, 277, 280 Finisterra, cabo -105. Flandres-88, 95, 280, 231, 263. Flint, ilha ou dos Tubarões—194. Florença, ducado - 231. Florida—112, 141, 176, 186, 190, 196,206,211.217,218,221,224. Florida, nau-224. Fogaça, Fernão—157. Fogaça, Pêro Ferreira—167. Foix, Gaston de—228. Fonseca, gôlfo de—202. Fonseca, Vicente da —32 Forfana, ilha—277. Fortal, Hieronimo—237. Forte, Castro—119. Forte, Pero de Vila - 210. França-17. 73, 78. 88, 95, 114, 116, 117, 120, 122, 167, 158, 181, 231, 233, 242 França, Nova—242. Francisco, S. (rio de)- 160, 154, 216, 220, 221, 263. Freire, João-48. Freitas, Diogo de - 273. Frísia—88. Frio, cabo, Cabo de Santa Marta 151, 175. Fuentes, Pedro de 224. Fuhkheim ou Foquiem, cidade -183. Fumos, Terra dos—147. Funchal—126 Funduras—vids Honduras. Gabriel, S. (navio) -144. Galao - vide Lomblem-170. Galdape, rio—211. Galerazamba ou Zamba, põrto— 162. Gallego, Juan-274. Galewo, estreito - 252. Gália-78. 107. Galícia, Nueva (governador de) -238, 255, 271. Galiza—137, 218. Galiza, Nova - 238. Gallega La (nau)—153. Galo, ilha do-216. Galvão, António — 16-48, 51-64, 58 63. 69, 70, 74,78.79,81,88, 84,85, 89, 96,97,105,106,108, 110, 112, 115, 116, 118, 122, 124, 126, 127. 128, 134, 136, 137, 189, 145, 147, 148, 150, 154, 168, 160, 161, 162, 164, 165, 169. 170, 173, 174, 176, 177, 179, 180, 181, 182. 185, 187, 189, 191, 195, 196, 197, 202, 206, 208, 210, 211, 212, 215, 216, 217, 218, 219, 220, 221, 222, 224, 225, 226, 230, 232, 235, 237, 240, 241, 243, 247, 251, 252, 253, 254, 256, 257, 259, 264, 266, 268, 270, 272, 273, 276, 277. 279, 280. Galvão, Duarte-17, 18. Galvão, Rui—17. Gama. D. Estêvão da-39, 40, 155, 269, 270. Gama, Paulo da—144. Gama, Vasco da — 66, 68, 144, 145, 146, 148 164, 166, 168. Gamares—vide Guanaja ou Bo- naca. Gamarre, Fernando—140. Gâmbia, rio—144. Ganges, rio—111, 181, 184. Ganomilha, rainha-260. Ganuco—vide Guánuco. Garay, Francisco - 57, 185, 186 190, 206, 207. Garay, rio —198, 207. Garças, ilha das-125. Gareas, Ilhas das -125. Gasconha- 281. Gato, ilha do—134 Gayal-250. Gaza ou Guzeh 86. Geba, rio—126. Gebi—vide Seri. Gedrósia - 99, 100. Geldija, ducado de — vide Guel- dres. Gema—vide Pebas (?). Génova, ribeira de - 231. Geórgia—111. Geveloux — vide Hugh Wil- loughby.
492 Gibraltar ou Colunaa de Hér- cules - 94. 105, 127. Gidá— vide Judá. Gigedo, Revila (lihas de) - 274. Gilolo ou Batochinas, ilhas - 47, 50. 62, 77, 178, 219, 225, 256, 279. Gilolo, cidade—225. 226. Gilolo, reis de - 50, 279. Gizara—vide Jazirat. Glauce—87. Glória, Santa (pôrto)-165. Goa —19, 29, 3l, 34. 38, 102, 131, 174. 178, 196, 269 Godoy, Diogo de—209. Góis, Damião de-69, 161, 175, 280, 238. Gomara, Francisco Lopez de — 117,146. Gomeira—117. Gómera-138, 141. Gomes, Estêvão—194, 217, 218. Gomes, Fernão —128. 129. Gonçalves, Antão—120, 124, 126 126. ' Gonçalves, Branca—17. Gonçalves, P.e Pedro-17. Gordillo—196. Gorée, ilha, ou da Palma-126, Górgias-81. Gorgodas-vide ilhas de Cabo Verde. Gorgonas - vide ilhas da Maia. Gori—110. Gosselin - 95. Gótia - 95. Gótia - Suécia —281. Gorrée-169. Gracias a Dios -153. Grada, cidade—183, Granada—121, 271. Grande, rio, ou Geba -126. Grande, Rio - ou da Madalena — 162, 220, 224. Grécia - 74, 83, 87, 88, 281. Grega, ilha—vide Agrigan. Grijalva, Hernando — 243, 244, 261, 274. Grijalva. Juan de-57, 185, 208, 204, 207. ... Gromalle—181. Guadalajara—289. Guadalupe, ilha de-188, 162. Guaiaquil, cidade, 233, 234. Guaiaquil, gôlío - 236. Guaias, no Equador- 266. Guajina ou Sintra, península — 152. Gualdape —vide Jordão, rio. Guknahani ou ilha de S. Salva- dor—184. Guanaja-vide Bonaca—163. Guame ou ilha dos Prazeres — 194. ; Guánuco, Ganuco ou Huanuco 260. Guape, ilha-172. Guara - 205. Guarda, cabo da -156. Guardafui ou Arómata, cabo da - 91. 96, 156. 160. Guascar - vide Huascar. Guatemala ou Quahutemalla— 203, 204, 208, 209, 212, 214. Guatimozim ou Guauhtemoc — 213. Gué, cabo de - 96. Guedes. Martim —182. Gueldres ou Geldija, ducado de -230, 281. Guelles, ilhas - 253. Guerra, cabo —180 Guerra, Luís da-156. Guerrero—239. Gullhoa, Francisco — 57. Guiné — 21,88, 90,96,97,113,128. Guiné, Nova - 22, 225, 227, 280. Guli-Guli—vide Kolli Kolli, pOrto Gumuape—vide Ai Gumond. Guipúscoa—116. Gusman's. Lookout (montes do Novo México - 239. Guzeh—vide Gaza Guzman, Nuno de 57, 288, 289, 244, 249. Hadid, Jebel-82. Haemus, montes-88. Haime, ilha-vide Aiu ou Yowl. Haiti, Espanhola, Isabela, arqui- pélago-185, 141, 142. Hakluyt, Richard - 69, 97. Hanon-94, 95, 96. Haro, Cristóvão de—218. Haro, Lopez de—187. Harrisse—134. Hastings, Harren (ilhas) ou de S. João—202.
493 Haute, vila de - 222, Havana, ilha—186. Hawai, ilhas—ou Bom Jardim, Los Jardines - 228. Helena, Santa (Angra de)—145, 266. Helena, S. cabo de—197. Helena, baía—211. Helena, ilha de Santa-25, 113, 150. Helena, mulher de Menelau—88. Helena, rainha da Abissínia— 1%. Helwan - 87. Henares - vide Alcalá de. Henrique, D. Infante — 56, 115, 116, 118, 119, 120, 121, 122, 123, 124, 125, 127, 128. Henrique III de Castela-116. Henrique IV de Castela—120. Henrique VII de Inglaterra-140. Henrique o Negro - 112. Henriques, D Garcia-219. Henriques, Henrique -140. Heopolã ou ZeopolSo-vide Cem- poalha. Hércules, ou Alceu—80, 87, 94. Herculeu, mar — vide Egeu e Adriático. Herédia, D. Gonzalo-137. Herne ou Cerne, ilha—95. Heródoto—77, 91, 92, 94. Herrera, António—146. Heruma-vide Oruba—142. Hespero—81 Hespérides—80, 81, 96, 128. Hespersoes, ilhas - vide ilhas de Cabo Verde. . Hidalgo, Pedro—67. Hidaspes—100. Hievra ou Yebra — vide Belém. Higueras. cabo, ou das Figuei- ras-207. Hijada, Alonso de ou de Ojeda -152. Hila- 106. Hillsborough (?), ilhas ou das Duas Irmãs. Himeieu - 94. Himilco ou Himilcon—94, 95. Hirão—89. Hircio, Pedro de—189. Hisla, Rodrigo de—248. Hislada—96. Híspalo-80, 81. Hispânica, península—79. Híspantola ou Espanhola—vide S. Domingo, ilha. Histaspe - vide Dario. Hiucax-221. Hogaleao—vide Lomblim— Hohestsufen, Frederico—112. Hojeda, Alonso-57. Holanda-88, 230, 231. Honduras, gôlfo—210, 211, 212, 218, 214 Honduras, cabo das —158. Hortal, Jerónimo de - 237. Huáscar, Gaspar, Guascar—236. Huanuco — vide Guánuco—261. Huluacan ou Omillan. Huchancolma—vide Aconcágua Humbolt- 134, 136, 151. Hungria - 231. Iaxartes, rio—104. Ibéria-110. Ibero -79. Iland, Provision (ilha)—154. Imaus de Ptolomeu —99. índia-15, 20, 23, 24, 26, 29, 32, 69, 60, 61, 69, 70, 72, 76, 80, 84. 85, 87, 88, 8», 94. 98, 99, 102, 106, 111, 113, 121, 123, 124, 131, 133, 144, 146, 150, 164, 155, 167, 169, 160, 161, 162, 168, 180, 181, 195, 196, 211, 219, 233, 237, 242, 246, 264, 267, 269, 279. índias Portuguesas—211. Índico, Oceano-91, 106, 128. Indo, rio -80, 99, 100, 109, 111, 184, 246. Indochina - 70. Infante, Rio do ou Great Fish — River—131. Inglaterra-108, 116, 122, 138, 140, 141, 230, 280, 281. Inocentes—vide San Benedito e S. Tomás, ilnéus - 244, 274. Insulíndia - 262. Inzacanac, cidade—218, 214. Iolco - 87. Iorque, Nova—218. Ipala, pôrto —257. Irão-99. Irawadi—168. Irmãs, Duas (ilhas)—vide Hills- borough.
494 índice onomástico Isabel a Católica, mulher de D Fernando rei de Aragão e Castela - 136, 156, 158, 178, 238. Isabela, ilha-135, 139. Isidro Islândia Santo—79, 95, 96. Islândia - 95, 96. Ismael, xeque da Pérsia- 180. Itália—83, 87, 88, 106, 107, 108, 122, 231,238. Iterubenero vide Ceilão — 158. Iucatão— 183, 185, 187, 214. Iunc—Ceylon ou Iunsulão. Iunsolão—vide Iunk—Ceylon — 168. Ivan IV, csar— 280. Iviza - 172. afet 81. alisco—vide Xalisco. alofos, reino dos 114. amaica, ilha 135, 139, 152, 153, 155, 185, 206. apão, 90 ardim, Bom (ilhas)-ou Hawai, asão—67, 88 áúja (?) ou Xauxa (vale de)— 220 245. Java ou Jaoa — 11. 84, 85, 111, 169, 170, 203, 267. jazirat, ilha de ou Gizarat-282. em—vide Zfzimo. Jerusalém—211, 233. Jerusalém, ordem de S. João de —73. Jesus—108, 115. Jimenez, Fortum- 243 Joana, a Louca-168, 159, 189, 244 João I, D.-124. João II, D. - 17, 124. 128, 129, 130, 131, 183, 136, 140 196. João II de Castela- 117, 121. João III, D.-200, 256. João.S. (ilhas)—ou Pôrto-Rico— 138, 176. João, S. ilhas—vide Warwick. João, S. navio 276. João. S. rio (ColOmbia) — 216, 268, 276. João, Preste-18, 24, 131, 132. 196. Jordão, rio ou Gualdape—197, 211. Jorge, S. rio—88. Jórgia ou Geórgia—110, Judá, cidade—113, 269. Judite, mulher de Frederico Ho- henstaufen 112. úlia, irmã de Júlio César—104. ullão, S. (rio) - 198. úlio II, papa-17. unk-ceylon ou Iusalão. tangean-171. Kansas - 272. Karamftnia ou Carmânia, (Tur- quia)—99. Karthly- 110 Kelang, ilha—200. Keneh—102, Khitai—105. Khitan—105. Kolli Kolli, pôrto ou Gull Guli— 171. Konieh, (Turquia)—99. Kosseir ou Alcocer, pôrto —269, 270. Kur, rio-110. Lançarote- 125. Lançarote, ilha —117, 118 120, 125. Lacerda, D. João de — 114. Lacerda, D. Luís de - 114. Ladrões, ilha—vide Prazeres — 194. Lagartos, rio dos - 154. Lagoa, visconde de - 63. Lagus 101. Languedoc- 281. Lantgrave on Landgrave- 232. Lantoir, Banda -170. Lapónia, costa de—280. Latana, Mar de — vide Negro (Mar)—110. Laturo ou Latiro—vide Ptolo- meu Soter 11—104. Lavrador—140 Lavrador^ João Fernandes—140. Lázaro, S. -aiquipélago das Fi- lipinas 194. Lázaro, San (nau) - 243, 249. Leão, João (o Eliberitano) - 270. Leão X, papa - 195 Leão Magno, S.(papa)—107. Leão, Reino de - 136, 187. Lebrija ou Lebrixa - 175. Ledesma, João de - 166. Leite, Duarte de 20, 147. Lemos, D. Duarte de - 20.
ÍNDICE ONOMÁSTICO 49Õ Lemos, Fernão Gomes de — 57, 180. Lemos, Rui - 140. Lencastre, D. João de— 69. Leon, serra-97, 128, 145. Leon, Juan Ponce de-57, 138, 176 Leon, Pedro de—140. Leopolão —188. Lepe (?) vide Alepo, cidade. Lequios (?) ou Loo-choo, ilha— 84, 90. Lerma, Garcia de—210. Liampó, cidade - 258, 273. Líbia- 118. Likoepang ou Panguensara — 205. Lima, rio - 265. Lima, cidade—244, 245, 270. Lima, D. Fernando de—26. Lima, D. Rodrigo de - 67, 132, Lineu— 265. Linga, arquipélago de—84, 169. Lingado ou Languedoc—231. Lisboa-25, 26, 116, 126, 127, 136, 144. 146, 149, 151, 233. Llvónia 231. Loaysa, Fr. Garcia de-67, 216, 217, 218, 224, 225 Lôbo, António—182. Loire, rio—107. Lois - vide Loaysa. Lombardia - 231. Lomblém ou Galao— 170. Lomblim—85, 200. Lomboc, ilha ou Anjano — 85, 169. Lookout, Gusman's (monte do Novo-México)- 239. Lopes, Diogo - 172. 4 Lopes, Rui — vide Villalobos. Lorena 231. Lotarlngia- 231. Lourenço, S. (golfo de)—242. Lourenço, S. (ilha de) — vide Madagascar. Lua, ilha da vide Madagascar. Lubrk (?), Lubeca ou Lubres— 112. Lucaias ou Bahamas, arquipé- lago das-134, 185, 196. Lucar, S (gôlfo)-201. Lucas, S. (Angra de)—147. Luclpara, ilhéu—169. Luções—vide Luzon, ilha. Luçapino- 172. Lugo, D. Luis de- 210. Lugo, D. Pedro Fernandes de— 210. Luque, Hernando—215. Luxemburgo—231. Luzon, ilha de - 84, 90, 280. Maamede —vide Maomé. Macedónia - 101. Machado, Diego Barbosa - 18. Machado, João Franco— 115. Machico - 115. Machim,"Roberto—114, 115,116, 117, 118, 119. Maciot—vide Bettencourt (Ma- ciot de) Mactan, ilha ou Nata- 194, 274, 278. Maçuáj ilha-196, 269. Madagascar, ilha de — ou de S. Lourenço — 76, 122, 131, 160, 161. Madalena, rio-ou Grande, Rio. Madeira, ilha de—66, 58,83, 114, 115, 117, 118, 120, 141. Madeira ou Madura, ilha perto de Java—169. Madoera ou Madura—vide Ma- dura ou Madeira. Madrid- 92, 116, 175. Madrigalejo 181. Madura, Madeira ou Madoera, ilha perto de Java - 169. Mafamede— 46, 108, 270. Magadoxo- 146 Magalhães, estreito de- 123,194, 202 230, 247, 262, 278, 279. Magalhães, Fernão de — 32, 35, 57, 122. 161. 153, 161,193,194, 195, 200, 202, 217, 218, 225, 262, 274, 276, 282. Magastor, ilha-vide Madagas- car. Maguveja—vide Mogúncia. Maia, ou ilha das Górgonas—128. Maiaguana, ilha— 134. Mainas- 261. Maiorca, ilha —172, 261. Major, Henrique—95, 114, 115. Malabar - 83. Malaca—16, 34, 35, 87, 39, 40, 83, 84.111,154. 161, 166.167,172, 174, 181, 182, 183, '205.
496 ÍNDICE ONOMÁSTICO Malaca, estreito de-88, 161. Malaia, península— 71, 84. Maldivas, ilhas —174, 184. Maldonado, Rodrigo—140. Malinaltepec—192 Malinche ou Marina—187, 188. Malte-Brun—91. Malua ou Mauluoa —vide Ombai. Maluco ou Molucus, ilhaa -15,16, 17, 27, 81, 32, 38, 39, 40, 47, 48, 49, 62, 54, 56, 69, 70. 71, 72, 77, 144, 168, 172, 178, 193, 200, 201, 203, 205, 216, 217, 219, 224, 225, 226, 229, 230, 247, 251, 252, 256, 278. Maluco, estreito de-217. Maluinas, ilhas, ou Falkland — 151. Mamede, S. (rua de)—59. Mampa, ilhéus de—200 Manahique, ilha—172, 194. Manada - vide Menado. Manco, (ínca)—242, 261. Manicongo, rio—130. Manicongo -132. Manipa (?) ou Meonsum — 200, 262 Manuel I, D. - 17, 74, 87,140, 144, 149, 150, 157, 181, 196, 200. Manzanillo, pôrto ou Santiago— Maomé 11-73. Mar. Flor de la-26, 27, 28, 174. Maracanda — vide Samarcando. Maranhão—237 Maranhão, rio—147, 257, 268. Marchena, António de—188,174. Márcio, Aneo-74. Márcio, Cneu—74, Marcos San (navio) -239. Margarit, Pedro de - 189. Margarita, ilha ou Peragry—142. Maria, ilha—136, Maria, rio—14. Maria, Puerto de Santa—156 Maria, Santa (navio) ou Mariga- lante—138. Maria, Virgem -60. Marianas, ilhas—194, 202, 225. Marigalante—vide Maria, Santa. Marina ou Malinche — 187, 188. Marina, Soto la (rio) — ou rio das Palmas-206. Marino de Tiro—91. Marinha—231. Mármara, mar da—ou Pôntlco— 88. Marmol, cabo de—154 Marotai, ilha ou Moro—279. Marrocos -118. Marta, Santa (cabo)—161,152. Marshall, Uhas-252 Marta, Santa (cidade)—2t0. Martaban ou Bartaban—168. Marticusa—156. Martin, Vivien de Saint—91. Martinho V, papa-117, 126. Mártir, Pedro—vide Anghiera— 133. Mascarenhas, Jorge—58,182,188. Mascarenhas, Jorge (nau). Mascarenhas, Pedro de — 24, 71. Matacumaci — vide Montezuma. Matagorda, baia—222. Matagorda, ilha-222 Matalão, cidade-214. Mateus, S. (ilha)—vide Noronha (Fernão). Mateus, arménio—196. Mateo, San - 235. Matheo (navio)—140. Mathew (navio)—141. Matusalem-211. Maule, rio—245. Mauluoa ou Malua—vide Ombai. Mauritânia—81, 116 Maximiliano, rei dos Romanos— 17, 168. Meca—90, 118, 178, 270 Meca, estreito de...178, 196,269. Medeia—87. Medelin—200, 218, 214, 215. Medina, Turíbio de—151. Mediterrâneo, mar—82, 89, 90, 262. Mejico, Puerto —230. Melinde, 90, 98, 131, 146, 146, 148, 160, 167, 160. Melo, D. Duarte de—71. Melo, D. Francisco Manuel de — 116. Memante, Mossem—vide Betten- court, Maciot—119. Membroth —vide Ninrod. Menado -205. Mendonça—vide Mendoza. Mendo, Fr.—117.
ÍNDICE ONOMÁSTICO 497 Mendoza, D. António—243, 260, 251, 256, 262, 271, 274, 276, 278. Mendoza, Diego Hurtado de— 212, 239, 240, 243. Mendoza, Luis—193. Mendoza, D. Pedro de - 248. Menelau—88, 89. Meneses, D. Joio de—82. Meneses, D. Jorge de-32, 219, 225. Meneses, D. Luis de—61. Meneses, Manuel Teles de—57, 160. Meneses, Marquês de—120. Meonsum, ilha - vide Manipa. Meotas, lagoa — vide Azof ou Mar da Mármara. Mequinez-82 Mercadillo, Alonso de—261. Mercado, Luis de—179. Merlim-vide Ambrósio. Mesopotàmia-106 Mexia, Afonso-24. México ouTenochtillan -187,189, 190, 191, 192, 193, 197, 198, 199, 260, 202, 203, 206, 207, 208, 212, 213, 214, 222, 224, 238, 239, 243, 250, 255, 262, 266, 270, 271. México, gôlfo do-186. México, Novo-239,255. Mexuacào ou Michoacan-238. Miguel, São (cidade)-211, 250. Miguel, São (oosta de)-236. Miguel, S. (gôlfo)-229. Miguel, São (ilhas)-205. Miguel, São (navio)-239. Miguel, São (dia de)-177. Milão, ducado de-231. Mina-128, 129, 130. Mindanau, ilha-62,195, 205,256, 274, 275, 276, 280. Minho, André-vide Nuno. Minorca, ilha-172. Miosormo-vide Mios Hornos. Misas, pôrto de - vide S. Blas (gôlfo). Missas, Fr. Marcos de-vide Niza. Mitrídates-78. Mocambique-18, 19, 23, 28, 58, 113, 131, 145, 146, 149, 150, 155, 159, 160. Mogor, Grào-111. Mogúncia-231. Moisés-108, 131. Mombaça-18, 145, 233. Mona, ilha-139. Monatim, peixe-144. Monchique-83. Monrói, D. Fernando de-43. Monte-Alto, rio-207. Montemor-114. Montezuma, Makacumacim, Mo- teuczoma ou Matacuma (rei do México)-187,188, 189, 190, 191, 192, 198, 199, 203, 213. Montijo, Francisco de - 57, 188, 189. Morales, Gaspar-57, 178, 179. Morales, de João-119. Morant, Caios (ilheus)-vide Jar- dim de la Reina. Morante Cristóvão-57,183 Morávia, ducado de-231. Moreia-88. Moro, 53, 253, 279. Morotai, ilha-256, 279. Moscóvia, grão ducado de-109, 195, 231, 281 Moscovo-280, 281. Mota, António-57, 273. Mouth, Dragon's-142. Muar, rio-71. Mujeres, ilha das-183, 187. Mulubumbo-261. Murano, S. Miguel de-122, 123. Musa, Abu (ilha)—106. Naar, ilha de—125. Nabucodono8or-211. Não, cabo-116, 121, 128. Napo, rio-267, 268. Nápoles-131, 231. Narvaez, Pânfilo de-57,197,198, 206, 221, 222, 224. Nata, ilha—vide Mactan. Natal, pôrto-vide Natividad. Navidad, Natal, Ciguatlan ou Porto Santo ou Puerto de Joan Gallego-274. Navidad, forte-138. Navidad, navio-135. Navarrete -134, 151. Nazaré, nau-18,19, 20. Nearco—100. Necaome ou Neco—213, 214. Neco, Necu, ou Necau, (faraó)- 90, 91. 32
498 ÍNDICE ONOMÁSTICO Neco-vide Nacaome-213, 214. Negro, mar-77, 88, 110, 111. Negroponto-83. Neiva, Banda-171 Nepos, Cornélio 78,103. Nepote-vide Nepos. Nerva-106 Nesto, rio-88. Nevada, Serra (Califórnia)-273. Nevery, S. Miguel-237. Nheser, rio-ou rio Azua—153. Nicanor-111. Nicarágua-180. 201, 213, 230. Nicarágua, lago-229. Nicefória-106 Niceia, concilio de-108. Nico-213 Nicobar ou Nicouvar, ilhas-161, 278. Nicoia, pórto—ou S. Vicente- 201. Nicuesa, Diego de-57, 163, 164, 178, 179. * Niebla, conde de-119,120. Niger-113, 114, Nilo, rio de, ou dos Crocodilos - 87, 90, 92, 93, 101, 102. Nina, (navio)-133, 136. Nnias-80. Nino-80. Nino, André-201, 202. Nino, Pedro Alonso-133. Ninrod-79. Niza, Fr. Marcos de—255, 271. Nizhni-Novgorod—109. Nobogardia-vide Nizhni-Novgo- rod. Noé-77, 79, 61, 129. Nola ou Noli, António-128. Normandia-119, 231. Noronha, D. Alvaro de-118 Noronha, D. António de-160. Noronha, D. Fernando de-158 Noronha, Fernão (ilhas de)-ou ilha de S Mateus-216. Noruega—233 Nova, João da-56. 57, 149. Nova-Castela-246 Nova-Espanha—243. Nova, Terra-vide Terra Nova. Nublada, ilha ou Ilha do Socorro -274. Nunes, Francisco-35. Nunes, Gençalo-145. Nyessen, Dr. Dionísio-76. Óbidos, Santa Maria de-17. Ocampo, Diogo de-208. Ocampo, Gonçalo de-206, 207. Ochoa, Lopo-57, 183. Octaviano, Caio Júlio César-104. Oder-107. Ofir-89. Ofiusa ou Fermentara, ilha- 172. Ojeda, Alonso de-138, 152, 163. 164, 165. Ojentana-vide Ujungtanah-84. Oka, rio-109. Olid, Cristóvão de-211, 212. Olim-vide Olid. Ombai, Maulua ou Malua, ilha -85,170, 200. Omitlan - vide Huluacan -238. Onate, Juan-239. One8ícrito-100. Orange, cabo-147. Orçadas ou ilhas deS.Filipe-128. Ordaz, Diego ou Diogo Sordas- 163, 237. Ordusta-156. Orellana, Francisco de-268, 269. Orinoco, rio, ou Santa Maria dei Mar Dulce-147. Ormuz-100, 112, 132, 180, 232. Oruba, ilha-142, 253. Ouro, Rio do-95,126. Oviedo-vide Valdez, Gonzalo Fernandez de Oviedo y. Oviedo, cidade-175. Oxus-vide Amu Daria. Pacem, cidade-161,181. Pacífico, Oceano - 123, 217, 277. Pachacoma ou Pachamac-24o. Pacheco, Diogo-71. Pacta ou Paita, rio-216. Padilha, Juan-271. Pádua-vide Munyal Par. Paeta, Porto ou Paita-236. Pais, Simão Ferreira-160. Paises-Baíxos-158 Paiva, Afonso de-56,131. Paiva, Dinis—50 Palachan-vide Apalache, baía- 222. Palau, ilha-219. Palembang ou Palembão-169. Paleólogo, Constantino-73. Palizada eu Potochã, cidade-187.
ÍNDICE ONOMÁSTICO 499 Palmas, cabo das-95. Palma, ilha da-vide Goré-126. Palmas, rio de las ou rio Soto de la Marina-206, 207, 221. Palomino, Rodrigo de—210. Paios-133, 146 Paios (navio)—146, 227. Pamuco ou Panuco—190, 212. Panamá—59, 154, 180, 202, 212, 215, 220, 229, 230, 233, 234. Panane ou Ponani—145. Panguensara — vide Likoepang. Panónia-107. Pantar—200 Panuco, rio-186, 188, 190, 207, 221, 222. Panuco-205, 206, 208, 212. Papuas, rei de-70. Papuásia-38. Par, Munial (baixos) ou Pádua -145. Paragry ou Margarita-142. Paraguai, rio-220. Parama ou Paraná, rio-220,234. Paraná ou Parama, rio. Paranagaco ou Paraná-Guaçu -175. Paranaíba, rio-220. Parço, rio-221. Paria, gôlfo de-ou Baleia-142, 147. Paris-133. Parima, rio, ou Porima-221. Paris ou Parisa, cacique —180. Parmenion-111. Parnasso, Monte-99. Paropamisus, vale de-ou Paro- ponteos-99,109. Parral, Santa Maria dei (Cara- vela)-225 Partida, Roca-274. Pasai ou Pacem-161, 181. Passao ou Passado, cabo-vide Vuelta-216. Patagónla-151. Patalim, Rui de Brito-171. Patalim, Simão de Brito-226. Patos, baia dos-219. Patrício, S., Purgatório de-95. Paulo, Marco-105, 123. Paulo, S., rio de-250. Paulo, S. 194. Pavia-107 Payta-vide Pacta. Paz, pôrto de-vide Santa-Oruz -244. Paz, Rodrigo de la-207. Pebas ou Gema-267. Peçanha, Manuel-157, Pedir, cidade-161. Pedir, rei de-162. Pedrarias -215. Pedro, S. (navio)-Í62. Pedro, S. (rio)—250. Pedro, D.-Infante (irmão de D. Henrique)-116, 122, 123, 124, 127. Pegu-166, 168. Peixoto, António—57, 273. Peloponeso-88. Pelusa, batalha de—92. Pelúsio, cidade—101. Pemba-18. Pepino-o- Breve—108. Pequim-182. Perá, cidade-168. Pereira, Duarte Pacheco-140. Pereira, Gonçalo-32. Pereira, D. João-27, 29. Peres, Damiáo-130. Perez, Hernan-120, 183. Perestrelo, Rafael-183. Pernambuco-219. Pérsia-92, 94, 99, 105, 106, 111, 132, 155, 178, 180, 232, 233. Pérsico, mar-100, 106. Pérsico, gôlfo-100. Peru-77, 81, 106, 177, 180, 215, 216 217, 220, 233, 234, 236, 244, 249, 253, 254, 260, 261, 262, 263, 264, 265, 266, 275, 278. Peru, lio-234, 262, 216. Pescador, ponta do-154. Picalão-vide Xicalanco. Piçâo-vide Pinzon. Picardia-231. Pigafeta, António-122. Pineda, Alonso de-186. Pineda, Gonzalo Diaz de—266. Pinelli, Vincenzo-273. Pinta, (navio)—133, 134. Pintadas, ilhas-227. Pinto, Fernão Mendea-273. Pinzon, Aire8-146. Pinzon, Francisco Martins-133. Pinzon, Martim Afonso-133.
500 ÍNDICE ONOMÁSTICO Pinzon, Vicente Yanez-133,146, 147. Pires, Tomé-57, 182, 183. Peres, Gomes-126. Pite, rio-vide Viablo. Pisa, Bernal Dias de - (?) 139 Pizarro, Fernando-234, 240, 245, 245, 256, 260, 261, 270. Pizarro, Francisco-57, 163, 165, 179, 215, 216, 233, 234, 235, 236, 240, 241, 244, 245, 246, 251, 252, 253, 256, 260, 270, 279. Pizarro, Gonçalo-57, 234, 261, 266, 268 Pizarro, João-234, 251. Piura, cidade-vide Tangarará, S. Miguel-236, 241. Plazenza, Bispo de-278. Plata, Puerto da-210. Platão-81. Plínio-103, 104, 122. Polo-vide Paulo-Marco Polónia-231. Pompónio Mela-104. Polvoreira, ilha-161. Pompeu-78. Ponani-145. Ponto-Euxino-vide Mar Negro. Pôntico, mar-vide mar da Már- mara-88. Popaloapan, rio-192. Porras, Francisco de-153. Pôrto-Said-101. Pórto de Cavalos-212. Pôrto Cortez-212. Pôrto-Rico, ilha do-138. Pôrto-Santo, ilha-118, 119. Pôrto-Santo - vide Natividade - 274. Pôrto-Seguro - ou Baía- Cabrália -148. Pôrto-Viejo (no Equador)-235. Portugal -15,18, 22,26,34, 63, 72, 117, 121, 122, 125, 128, 130, 132, 133, 137, 140, 148, 149, 151, 174, 175, 196, 230, 232, 233, 256. Poseidon-87. Poti, costa do mar Negro-110. Potochã, cidade-ou Palizada- 187. Poteei—253. Potosi, minas de, ou Patoci — 249. Praza, Fernão—120. Prata, rio da-150, 151, 175, 176, 193, 220, 248, 263, 265. Prata, vila da—249, 253. Prazeres, ilha dos (ou da Rota Guane, Velas e Ladrões) - 194, 225. Preste-João—132, 196. Preto, Gaspar—30. Príncipe, ilha do-80, 81, 129. Probo, Emílio-78, 103. Protágoras-81. Prússia-231. Psamético, Faraó-90. Psamético III-92. Ptolomeu, Geógrafo-83, 84, 85, 123, 154. Ptolomeu, Imaus de-ou Monte Parnasso-99. Ptolomeu II, o Filadelfo - 90, 101, 102. Ptolomeu, general de Alexandre -100. Ptolomeu Cerauno-111. Ptolomeu Euergetes-104. Ptolomeu Neus Dionísio-o Au- letes-102. Ptolomeu Soter II, Laturo ou Latero-lo4. Públio-97. Puca-Puca, ilhéu-S. Paulo-194. Puebla, província-192. Puerto (S.«° Estêvão dei) - 205, 207. Pulate-182. Puna, ilha-235. Punjab-111. Quahutemalla-vide Guatemala. Quatemellan (?) ou Catamalão ou Cotomalâo-203, 204. Quechos-196. Querandies-248. Querima-18. Quesada, Gaspar de—193. Quiahuizllan-vide Chesuitão. Quiche-208- Quíloa-90, 99, 113, 157. Quintero, Cristobal-134. Quintero, Juan-134. Quipite-195. Quiribas-vide Caraíbas ou pe- quenas Antilhas.
ÍNDICE ONOMÁSTICO 501 Quibiria (?)—Ola Xaqueviva-271, 272. Quisco-vide Cútzeo-238. Quisquis, general de Atahualpa —242. Quito, cidade-233, 261, 266, 268, 269. Quito, San Francisco dei-241. Quixó-226. Quni-255. Raca-106. Rachado, cabo-168. Rada, João de-246, 279. Rafael, S.
502 ÍNDICE ONOMÁSTICO Salomão, rei hebreu—89, 90, Salvação, S. Miguel da ou Culia- can-239. Salvador, s. ou ilha de Guana- hani-134. Samala (?) eu Chamola—209. Samar, ilha-ou Síria-276. Samarcanda ou Markanda ou Samarcante-104, 111. Samatra, ilhaf—83, 84, 111, 160, 161, 162, 168, 174. Samatrácia—85. Samofo-ou Carnaf-279. Samorim-29. Samova-106 Sampaio, Lopo Vaz d6-24. Sampaio, Vasco Pires de-246,247. Sandoval, Gonçalo de 57, 199, 214. Sands, North ou Capácia-161. Sangch'wan, ilha ou ilha Veniaga -182. Sangradoiro-229. Sanlucar-ou Lucar-248. Santa, ilha-142. Santa-Cruz, baía-244, 250 Santa-Cruz, ilhaouCozumel-185, 187. Santa-Cruz, ilha ou Paz-250. Santa-Cruz, nau-182. Santa-Cruz, Pôrto-244, 250. Santa-Cruz, rio-194. Santarém, João Fernandes de- 71, 129. Santiago, cidade-204, 244, 248. Santiago, ilha (Cabo Verde)-128, 134, 145, 146. Santiago, ilha-250. Santiago, navio-153, 182, 193, 194, 217, 224. Santiago, pôrto de-244, 257, Santiesteban, P. Jerónimo de- 276. Santo-Espírito (vila)-200, 209, 213, 239. Santo, Espirito, região de Gua- dalajara-239. Santo, Espírito-200 Santo, Espirito (rio)-239. Santofia-ou Santander—156. Sanuto, Marino-123. Saragoça-237. Sarangane, Sarangão ou ilha de António-225, 276. Sardenha-83. Sargaços, mar dos-134. Sarmáeia-110, 231. Sarmento, Francisco Martins -87. Sarro, Cristóvão de-vide Haro. Sataspes-94. Saxónia ou Xaxónia-88. Sohmidt, Ulrich-248 Scily-105 Scitia ou Citia-104 Sebastião, S.-165. Sebastião, S. (nas margens do rio Atrato)-165. Sebuemantão, ilhas-278 Secativa-vide Uraba, gôlfo de -154. Seco, Machado, ilha-221. Seilão, Vasco de-vide Aillon, Lucas Vasques de-196, 210. Selayat ou Salities, ilha do arq. Linga-84, 169. Selee, Cabo-252. Semíramis -80. Semisat-106. Senegal ou Sanaga-113, 126. Sepochimacho, cidade-190. Sequeira, Diogo Lopes de-57, 161,196, 274. Sequeira, Gomes de-57, 129, 219, 274. Sequeira, Gomes de (ilhas)-219. Sequeira, João Soares de-140. Seri, ilha ou Gebi-252. Sernache, Gonçalo Vae-38, 41, 43, 45. Seroum-videHelwan,oidade-87. Serrão, Francisco-57, 161, 168, 171,172. Serrão, João-193. Sertório-78, 114. Sesóstris-vide Ramsés II. Setúbal-79. Sevilha-80, 92,106,117,119,152, 156, 193, 201, 220, 224, 247, 248, 278. Sião-166, 273 Sibolla-271. Sicatrum-vide Astracan. Sicília—83, 117, 172. Siciliano Antoneto-172. Signah-110. Sigualane, porto-ou Sivantaneio -224, 225.
ÍNDICE ONOMÁSTICO 503 Siguatanejo ou S. Cristóvão-224. Silva, Diogo da—120. Silveira, D. João da-57,184. Simbaba-vide Sumbaiva. Simiramis-80. Sinaloa ou Jalisco-238, 249, 255, Singapura, estreito de-16, 84, 85, 166, 205. Sinta-vide Guajina-152. Sintra-82. Sintra, Gonçalo de-125. Sir-Daria-ou Iaxartes-104 Siri-106. Síria-79, 99, 106, 233. Sitia-104. Síria ou Samar, ilha-276. Siucatão-vide Iucatâo. Sitangrio-168 Sivantaneio-vide Siguantanejo. Soares, Lopo-269, 181,184. Soares, Pêro-182. Socorro, ilha do-ou de S. Tomás -244, 274. Socotorá-156,158, 160. Sócrates-81. Soderini-150. Sodré, Brás-155. Sodré, Ylcente-155. Sofala-27, 89, 90, 98, 113, 131, 149, 158. Sofar, Coge—247. Sogdiana-104. Soloeis, cabo-94. Soles, Francisco Dias de-57. Solis, João Dias de-157,174,175. Solon-82. Solor-85, 170, 200. Somalilândia-vide Azania-91. Sonousco-208 Sordas, Diogo de-237. Soter 11-vide Ptolomeu Soter II -104 Soto, Hernando de—235, 240. Spiritu, Sancti-(nau)-224. Sousa, Cristóvão de-18,19. Sousa, Francisco de -35, 48. Sousa, Gonçalo de -132,161. Sousa, D. João de-132, 139, 161. Sousa, Martim Afonso de-279. Sousa, Rui de-132, 133, 139. Spira-231. Stabrobotes-vide Estabrobates. Stochamer, Sebastiào-89. Suábia, duque de-vide Hohens- taufen, Frederico de. Suaquém, ilha de-269. Suaso-206. Sucelim-214. Suco-cidade-271. Sudão-113. Suécia-232. Suévia-78, 231. Suez-ou Arsino e-86, 87, 100, 102, 269. Suf, mar de-89. Suíça-83, 231. Sulphur, ilhas-ou de Mal Abrigo 277. Sumaco-267. Sumbawa, ilha ou Simbaba-85, 170. Sunda, arquipélago-84, 200. Suntelipac-vide Jalisco-238. Surabe-178. Suria-vide Síria. Sus-113. Susa-lOO. Suse, rio-95. Tabalida-vide Atahulpa. Tabanga-38. Tabangane-35, 41, 42, 43, 47, 50, 51. Tabasco ou Tavasco-185, 187, 213. Tabeng ou Tabencos—76. Tagante-230, 231, 250. Taguina-vide Taguy. Taguy-62, 205. Talangame-41, 42, 43, 50. Talangane-35. Tamão, ilha-182. Tambal-147. Tamelão-111. Tampam, baía de-221, 222. Tampico-221, 222. Tana, Mar de-8S. Tanais ou Tenassarim ou Donetz -110. Tangarará, S. Miguel ou Piura- 236, 241, 251. Tanger-129. Tanola ou Tonalá-238. Tapia, Andres de-249, 250. Tapso-78. Taquy, ou Taguina ou Basilan, ilha-62, 205. Tararequi, cacique.
504 ÍNDICE ONOMÁSTICO Tarariqui, ilha. (Ilha das Pérolas) -179, 201. Tarigue-108. Tareis-89. Tartária-77, 105, 195, 281. Tascalan ou Tlaxcala ou Tras- calão-191, 199. Tauro, Serra-106, 262. Tavares, Belchior de Sousa-57, -57, 232. Tavares. Fernão de Sousa-279. Tavares, Francisco de Sousa-54, 60, 69, 70, 71, 73, 123. Tebas-101. Teixeira, Tristão Vaz-118, 119. Teive, António de-43. Tejo, rio-21, 130. Telar, distrito de Geórgia-110. Teles, João-159. Telmantep ou Teantepe ou Te- huantepec-202, 203, 204, 208, 230, 249. Temístocles-74. Tenasserim-ou Tanascarim, cidade-166, 168. Tendalim-187. Tendilla-243. Tenerife-134, 175. Tenih-192. Tenis-192. Tenixuacáo-190. Tenechtitlán-198, 199, 212. Tenreiro, António-232. Teodósia ou Gafa-110 Tepic-238, 239. Terceira, iIha-25, 26. Teríc-231, 239. Ternate, ilha de-16, 34, 35. Ternate, rei de-38, 47, 51, 53, 70, 172, 253. Terra-Nova-113, 140, 149, 242. Tessália-87. Testigos-142. Texas-222. Tian-Shan - 99. Tidore, ilha-38, 41, 42, 47, 48, 50, 51, 52, 70, 173, 195. Tierra Bomba-156. Tiflis, (capital da Géorgia)-110. Tigre, rio-106, 112, 232. Timeu-81. 82. Timor-200. Timocles-vide Temístocles. Tiro, Marino de-91. Titicaca, ou Bombo, lago-220. Toantepe-vide Tehun. Tochetepec-vide Teantepe -199. Toledo-227, 246. Toledo, Fernando Alvarez de- 140. Toledo, D. Maria Alvarez de— 165. Toloco - 35. Tomás, S. (ilha de) — vide de S. Benedito-249, 274. Tomás, nau-255. Tomás, Manuel-115. Tombuctu, pôrto-113. Tomé, S. (ilha)-22, 26, 80, 81, 129 Tomulão, ou Tonalá-207. Tonalá-207, 239. Tor, pôrto ou Toro-181,132, 269, 270. Tordesilhas, Tratado de - 137, 139 140, 174. Torecha ou Careca-177. Toro-vide Tor. Torre, Bernaldo de la-57, 276. Tórre, Fernando da - 140, 225, 226. Toscalã-214- Toscana-231. Tourn ai-107. Tovar, Sancho de-149. Tragana ou Ceilão-158. Trácia-88 Trajano, Marco Olpio-106. Transcaucásia-110 Trascalão ou Tascalãn-191, 199. Trebizonda, cidade-100, 110. Trebuli-280, 281 Treminau, estreito-62. Três-Pontas, cabo das-95. Troves—107. Trevors, cidade-107. Triana, bairro de-156. Triana, Rodrigo Sanches de-134. Triango, ilha-ls4. Trinidad, ilha da-142. Trinidad, nau- 193, 195, 200, 202, 203, 224, 225. Tristão, Nuno-124, 126. Tróia-85, £6, 88. Trubezou Tumbez-vide Tumbes, rio-216. Truvillos, marquesado de-vide Atanillos -246.
ÍNDICE ONOMÁSTICO 505 Truzilho ou Trugilho, cidade - 214, 245. Truzilho, porto-261, 262, 266. Túbal-79. Tubarões, ilha dos-194. Tule, ilha de-95, ou Thili. Tumaco, cacique-179. Tumbes-216, 233, 234, 285, 236, 240, 246, 265. Tumugoa-vide Tumaco. Tumumpuella —vide Quito Guaiaquil-233. Tunis-Tremecem-113. Turcos, ilha dos-134. Turocucu ou Turucuz, vila de- 83. Turquestão Russo-104, 111. Turquia-99, 106, 112. Tuxtepec on Tutepec-192. Uajaca (?)—192. Ubeda, Luis -271. Udiá-273. Ujantana ou Ulunatanah (Ma- laca)-84. Ulma, cidade-231. Ulhoa ou Ulloa, Francisco de- 250, 255, 257. Uluá, San Juan de-187. Umbria, Gonçalo de-189. Uraba-163, 165. Uraba, golfão ou Secativa, gòlfo de-152, 154, 156, 163, 165, 229 Urdaneta, André de-226. Utatlan ou Autta-208. Vadillo, João - vide Bobadilla, Juan-213, 253. Vadillo, Pero-210. Valboa, Vasco Nunes de-67, 176, 278. Valdez, Gonçalo Fernandez de Oviedo-92, 133. Valdiva, Pero de ou de Pedro Valdivia-260. Valle, Marquês del-227. Valleijo, Pero-206. Valsequa, Gabriel-127. Vargas, Guterre de-27t. Vargas, João Peres de — vide Verágar-261. Varivene, fortaleza de—246. Varnhagen-184. Vasconcelos, João Mendes de— 174. Vasconcelos, Lopo Mendes de- 155 Vasques Joáo-191,198. Vasques, Diogo ou Diego Velaz- ques-57, 166, 183, 185, 193, 197, 205, 212. Vatling, ilha-134, 135. Vaz, Estêvão-140. Veiga, Tristão Vaz da (nau)-25. Vela, cabo da ou Vila-142, 152, 163. Velas, ilha das-Vida ilha dos Prazeres. Velaszquez-vide Vasques. Velho, Alvaro-144. Velho, Porto-266. Veneza-107, 112, 122, 231, 233. Venezuela, Falcão de-253. Venezuela-152, 253, 254. Veniaga, ilha-182, 183. Ventura, Forte-117. Vera-Cruz, rio-230. Vera-Cruz-193. Vera-Cruz, Vila Ricade-189,187. Verágua-163, 164. Verágua, rio-153, 154, 164. Veragar, ou Vargas, João Pe- res de—261. Verde, ilha (Antilhas)-152. Verde, Cabo, ilhas de ou Gór- godas-26, 89, 81, 89, 96,126, 128, 132, 136, 138, 140, 142, 145, 146, 150, 155, 201. Verde, rio-253. Verde, Serra-82, 83. Vergara, Pero de-261. Vermelho, mar ou Roxo - 85, 87, 89, 102, 113, 269. Vesconte, Pedro-123. Vespúcio, Américo-150,151,175. Viablo, rio ou rio Peto-164. Vicente, S. Cabo de-116. Vicente S. (porto)—vide Nicóia. Vicente, S. (rio)-150. Viçosa, Vila (Astúrias)-183. Victoria, nau-193, 195, 200. Victoria, Santa Maria da—187. Villalobos, Rui Lopes de-57, 274, 275, 276, 279. Villafuerte, Juan Rodriguez-239' Vintara ou Welta—85. Virgens, ilhas—138. Viscaína, nau—153. Vista, Buena-253.
506 ÍNDICE ONOMÁSTICO Vista, San Gil de Buena-208. Vista, S. Sebastião da Boa - vide Vista, Buóna. Vistula, rio-110. Vizcaino, Sebastian (Baia)-258. Voimatia-vide Dalmácia. Volga, rio-109. Vuelta, cabo-216. Warren, ilha-202. Warwíck, ilha ou ilhas de S. João -202. Weimar—231. Weser, rio-108. Wetla-85. Wetta-videVintara-85,170,200. Willoughby, Hug-280, 281. Wostock, ilha-ou ilha dos Tuba- rões-194. Xaoa, porto de ou de Ságua-206. Xalisco ou Jalisco-238, 239, 244, 250, 274. Xalmiento, Cristobal-133. Xama-223, Xamalca ou Cajamarca, Caxa- malca—240. Xaquiviva ou Quibiria-271, 272. Xauxa ou Jauja, vale-220, 245, 266. Xaxonia ou Saxónia, Xequismael-180, 181. Xerxes 1-94. Xicalanco ou Xicalão, Piealào- 213. Ximenes, Furtum-244, 250. Yanez, S. Vicente-147. Yebra ou Hievra-vide Belém, rio-154. Yule, Henry—78. Zacanaca, cidade-ou Inzacanaca -213, 214. Zacalão. Zacotão ou Zacatlan (?) —191, 192 Zacátula-524. Zamba ou Galerazamba-152. Zanzibar-18, 19 123. Zarco, João Gonçalves-118, 119, 126. Zebri, ilha-194, 195. Zebu-194, 195, 274, 278 Zeimoto, Cipango-273. Zeimoto, Francisco-57, 273. Zelândia ou Salândia-230. Zeopolão ou Cempoalha - 189, 190. Zeus-85. Zízara, ilhas de ou Siri (?)-Abu Muça (?)—106. Zizimo ou Zizim ou Jem-73. Zocalam —192. Zuniga, D. Juana ou Destuniga -227.
índice das Matérias Estado bio-bibliográfico i 1 Francisco de Sousa Tauarez, ao Illustrissimo Senhor Dom Iohão Dalém Castro, Duque Daueyro • • • • • Descobrimentos em diuersos annos & tempos, & que foram os primeiros que nauegaram . . » • • ' • Descobrimentos das Antilhas & índias pollos Espanhoes feytaa Versão actualizada: fDel Francisco de Sousa Tavares, ao Ilustríssimo Senhor D. João de Lencastre, Duque de Aveiro. . . . . *>< Descobrimentos em diversos anos e tempos, e quem foram os primeiros que navegaram. . . . • • • • „ Descobrimentos das Antilhas e índias, feitos pelos Espanhóis 331 índice das Gravuras índice Onomástico
18 12 9 1 6 12 ie 19 15 8 5 19 4 5 13 1 ERRATAS ONDE SE LÊ .. .no dizer dos santos Agostinho e Isidro de Batriana : Batriana : do Golfam de Vrába: Mo anno de .1514. ale delle cem legoas, quem sam tantos Franscisco bezerra, pera dobrar do cabo Iorge de meneses cipitam por nome a de Xalisco Dizem que ano de 536 & decobrir a terra assi lhe camauã: alcatram (3). a Quito dis, & estes Cipango Zeimoto. LEIA-SE Isidoro de Batriara: tio Golfam de Vrába No anno de .1514. ali delle cem legoas, que sam tantos Francisco bezerra, pera dobrar ho cabo Iorge de meneses capitam pos nome a de Xalisco Dizem que no ano de 586 & descobrir a terra assi lhe chamauâ alcatram. <») 540 (3) a Quito dta, & estes Cipango. Zeimoto,
J §C| [B E Ib(ÍJÍ B vV Biblioteca Histórica DE PORTUGAL À w á publicada sob a direcção do VISCONDE DE LAGOA DA ACADEMIA fOKTUCUEJA DA HISTORIA a 7. y V" #z Mk Á PROPRIEDADE DA LIVRARIA CIVILIZAÇÃO /t "ê - m