• FRANCISCO P Y R A R D L A V A L VO L LIVRARIA CIVILIZAÇÃO EDITORA — PÔRTO
  • - 1044 - Tlp. e Enc. Domingo* de Oliveira Campo Môrtlf*» do Pâtrla. 144-A-Pôrh» -T«Mon«. 2412-
  • Viagem de Francisco Pyrard DE LAVAL
  • BIBLIOTECA HISTÓRICA DE PORTUGAL E BRASIL publicada sob a direcção do VISCONDE DE LAGOA DA ACADEMIA PORTUGUESA DA HISTORIA SÉRIE ULTRAMARINA: 1-TRATADO DOS DESCOBRIMENTOS ANTIGOS E MODERNOS, de António Galvão. II-III-VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD, de Lavai — Versão portuguesa, da edição de 1679, correcta e anotada por Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara. -HISTÓRIA DA ETIÓPIA, do jesuíta Pêro Paez. — A ÁSIA PORTUGUESA, de Manuel Faria e Sousa. -ROTEIRO DA VIAGEM DE VASCO DA GAMA, atribuído a Álvaro Velho —reprodução do manus¬ crito em fac-simile, com a versão em linguagem actualizada. SÉRIE CIMÉLIA: I-OPÚSCULOS HISTÓRICOS, de Damião de Góis. SÉRIE RÉGIA: — DA VIDA E FEITOS DE EL-REI D. MANUEL, de D. Jerónimo Osório - 2 volumes.
  • FRANCISCO PYRARD, DE LAVAL CONTENDO A NOTÍCIA DE SUA NAVEGAÇÃO ÀS ÍNDIAS ORIENTAIS, ILHAS DE MALDIVA, MALUCO E AO BRASIL, E OS DIFERENTES PAÍSES (1601 a 1611) COM A DESCRIÇÃO EXACTA DOS COSTUMES, LEIS, USOS, POLÍCIA E GOVERNO; DO TRATO E COMÉRCIO QUE NELES HÁ; DOS ANIMAIS, ÁRVORES, FRUTAS E OUTRAS SINGULARIDA¬ DES QUE ALI SE ENCONTRAM. JOAQUIM HELIODORO DA CUNHA R1VARA VERSÃO PORTUGUESA CORRECTA E ANOTADA POR EDIÇÃO REVISTA E ACTUALIZADA POR A. DE MAGALHÃES BASTO $.161405 II B. H. SÉRIE ULTRAMARINA—N.° III LIVRARIA CIVILIZAÇÃO, EDITORA
  • DESTA EDIÇÃO FÊZ-SE UMA TIRAGEM ESPECIAL DE 100 EXEMPLARES, EM PAPEL DA COMPANHIA DO PRADO, DE MAIOR FORMATO, NUMERADOS E RUBRICADOS : : : pelo director da biblioteca : : : PROPRIEDADE DA LIVRARIA CIVILIZAÇÃO - PÔRTO
  • O TRADUTOR AO LEITOR PORTUGUÊS Ma is tarde do que nós quiséramos, sai a lume êste 2.° Tomo da Viagem de Francisco Pyrard; mas em parte as dificuldades tipográficas de uma oficina acanhada, e em parte o trabalho da tradução, e sobretudo o das Notas, que pareceu oportuno acrescentar, foram as causas involuntárias dêste retardamento. Cremos, porém, que os leitores a todo o tempo rece¬ berão com satisfação a pintura da sociedade portuguesa na índia, naquela época, em que os ecos da conquista nos faziam ainda capacitar de que cabia em nossas fôrças vedar as portas dos mares orientais às nações da Europa; folgarão de conhecer os usos e costumes da vida solda¬ desca dos portugueses; o regimento e polícia de sua navegação, as carreiras do seu comércio e outras muitas noticias, que um homem aparentemente rude soube coligir e relatar com admirável perspicácia e tino, e que debalde se procurarão em historiadores de mais alta nomeada. Até os nossos consanguíneos brasileiros depararão aqui com um retalho de apreciáveis memórias do que era a Terra de Santa Cruz naquelas eras primitivas da sua colonização. Basta, pois, que alguém descubra nas páginas dêstes dois volumes, que assim damos renovados e ataviados à portuguesa, alguma coisa que em outros livros não haja achado, para nós nos havermos por bem pagos dos tra¬ balhos e vigílias que nisso pusemos. Nova-Goa, 10 de Julho de 1862 3. 9Í. da Cunha fftivara
  • CAPÍTULO I CHEGADA A GOA. DESCRIÇÃO DE SEU HOSPITAL E PRISÕES SENDO pois chegado a Goa, cidade principal do Estado dos portugueses na índia, onde reside o vice-rei e o arcebispo, situada em altura de 16 graus da banda do polo ártico, o capitão-mor da armada, parente do arcebispo (que então era vice-rei, porque o outro havia morrido em Malaca (l) ) mandou ordem ao capitão da galé, em que eu estava, para me tirar os ferros dos pés e me enviar à sua presença; mas aquêle capitão lhe respondeu que eu estava tão enfêrmo que me não podia mexer, e que o mais conveniente era levarem-me ao hospital real. 0 meu companheiro também estava enfêrmo por causa de uma úlcera procedida de uma ferida, em que a gangrena havia entrado à falta de curativo; de sorte que esteve em têrmos de morrer. Fomos pois levados ambos àquêle hospital por cafres, que são lá como entre nós os mariolas, porque não se usam lá carretas. Puseram-nos à porta do hospital em uns poiais, à sombra, e aí estivemos bem uma hora, porque os oficiais do hospital estavam jantando. Não podíamos (l) O vice-rei Mattim Aíonso de Castro havia morrido na empresa de Malaca em 3 de Junho de 1607. Durante a sua ausência ficara gover¬ nando o arcebispo D. Fr. Aleixo de Meneses com o título de Governa¬ dor; e com o mesmo titulo e nâo com o de Vice-Rei, sucedeu ao defunto, abertas as chamadas vias de sucessão. Esta distinção não era todavia desconhecida de Pyrard, como se verá no capitulo XXI adiante — N. do T.
  • 1Ó VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD fàcilmente crer que ali era um hospital, porque pela apa¬ rência mais inculcava um grande palácio; e, contudo, por cima da porta estava um letreiro, que dizia: Hospital real, com as armas de Castela e Portugal e uma esfera (l). Finalmente fizeram-nos entrar em uma grande portaria, onde há muitas cadeiras e assentos para os doentes que chegam; e ali esperam que o médico, cirurgião ou boticário os visite, para se saber se verdadeiramente estão enfermos, e de que enfermidade, para os levarem aos lugares que lhes são destinados. Ali pois fomos visitados com outros que lá estavam, e depois nos levaram para cima por uma longa escadaria de pedra; porque todos os doentes ficam em cima, e só os põem em baixo quando são muitos, o que acontece quando chegam as naus de Portugal. Assim que nos foi destinado lugar, o Padre Jesuíta, director da casa, mandou que nos agasalhassem pronta¬ mente, o que foi feito e nos trouxeram dois leitos; porque logo que um doente sai do hospital, levanta-se o seu leito, a que lá chamam esquife, com todo o seu aparelho. De sorte que não há ali mais camas feitas do que doentes. As nossas foram prontamente aparelhadas. Os leitos são torneados, lacreados de lacre ou verniz vermelho, alguns pintados a côres e outros doirados; o assento é formado de liga de algodão; os travesseiros são cheios de algodão, os colchões e cobertas de pano de sêda, ou também de algodão, pintado de tôda a sorte de figuras e côres. Chamam aos colchões Guldrins. Os lençóis são de pano de algodão mui fino e branco. Veio depois um barbeiro que nos rapou todo o cabelo; e, após êle, um servidor com água quente nos lavou todo o corpo, e nos deu calções, camisa lavada, barrete e chine¬ las. Junto de nós pôs uma bilha de barro com água para beber e um vaso de cama, uma toalha e um lenço de assoar, que se mudam de três em três dias. Não nos deram logo de comer, porque é mister esperar a hora ordinária. É de notar que os superiores dêste hospital são por¬ tugueses e os servidores canarins de Goa, ou brâmanes (1) Duvidamos de que as Armas, a aue o autor se refere, fossem de Castela e Portugal, porque nunca se confundiram as duas Coroas de Castela e Portugul, ainda quando recaíam na cabeça do mesmo monarca. E o próprio autor nota esta circunstância em outros lugares. Nem nos monumentos, que nos restam désse tempo em Goa ou em Portugal, se acham promiscuamente unidas as Armas dos dois Reinos. — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 11 cristãos, que dão de comer e servem os doentes com grande esmêro, estando, sempre junto dêles, sem ousar desobedecer-lhes no que é razão. Êstes servidores rece¬ bem seu salário, e os oficiais portugueses andam visitando de vez em quando a todos os enfermos, a ver se lhes falta alguma coisa, ou se se obra contra a sua saúde a qualquer respeito. É pois êste hospital o melhor que na minha opinião há no mundo, ou seja pela beleza do edifício e suas per¬ tenças, porque tudo está mui bem disposto e acomodado; ou seja pela boa ordem e polícia que nêle se guarda, lim¬ peza que aí há, grande cuidado que se tem dos doentes, assistência e consolação de tudo quanto se pode desejar, assim no que toca a médicos, drogas e remédios para res¬ taurar a saúde, e alimentos que se oferecem; como no que diz respeito á consolação espiritual, que a tôda a hora se pode haver. O edifício é mui amplo, jaz à borda do rio e é susten¬ tado pelos reis de Portugal com vinte e cinco mil pardaus (que valem cada um vinte e cinco soldos da nossa moeda [francesa], e lá trinta e dois e meio), não falando nos do¬ nativos e presentes que lhe fazem as pessoas qualificadas; o que é segundo o estado da terra um grande rendimento para êste efeito, visto que os víveres ali são mui baratos e mui bom o tratamento que nêle se dá; porquanto os Jesuí¬ tas, que o administram, mandam buscar até Cambaia e outras partes o trigo e bastecimento que é necessário. É, como digo, governado e administrado pelos Jesuítas, que ali têm um Padre para êste govêrno; os outros oficiais são portugueses, excepto os servidores e escravos, que são índios cristãos. Êste Padre Jesuíta é superior a todos os oficiais, que são de tôdas as sortes como num grande mos¬ teiro, competindo a cada um seu cargo especial; e até o porteiro entra na conta de oficial. Êstes oficiais ralham muito com os doentes e os repreendem quando vêem que fazem o que não devem; mas os servidores não ousariam dizer-lhes coisa alguma. Os escravos fazem todo o ser¬ viço baixo e pesado; e cada dia vão por tôdas as câmaras dos doentes fazer o despejo, varrer e limpar tudo. Há ca¬ sinhas secretas com grandes vasos de louça para as necessi¬ dades dos doentes; e os escravos vazam tudo isso, limpam, lavam e enxugam a roupa, e fazem outros semelhantes serviços no interior do hospital.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD \2 Há médicos, cirurgiões e boticários, barbeiros e san- gradores, que se ocupam só no hospital e são obrigados a visitar duas vezes cada dia os enfermos. O boticário é um dos oficiais e mora no hospital, não assim o médico, nem o cirurgião. Às vezes é tão grande o número dos enfermos, que, quando eu lá estive, chegou a haver até mil e qui¬ nhentos, tudo soldados portugueses; porque ali não se acei¬ tam os indianos, que têm um hospital apartado, que só para êles serve. Há ainda outro hospital, para mulheres, onde só estas são admitidas. Tôda a água que se bebe ali vem de Banguenirn. Duas vezes no dia os servidores trazem grandes vasos dela, de que enchem as bilhas dos doentes e êstes bebem quanta querem. Cada doente tem junto de si a sua mesa, para pôr as coisas do seu uso. Os médicos, boticários e cirurgiões visitam duas ve¬ zes por dia os doentes; às oito horas da manhã e às quatro da tarde; e quando entram, tange-se uma sinêta para advertir a todos, o que igualmente se faz às horas da refeição. Os mestres cirurgiões e sangradores são assistidos de muitos ajudantes para aplicar os unguentos e medicamentos Na hora da visita vêm serventes com grandes braseiros, onde lançam muita cópia de incenso e outros cheiros aromáticos. Há noviços Jesuítas que vão pela cidade pedir e apanhar roupa velha de linho para provimento de fios do hospital, porque a roupa nova não é apta para isto. E com os cirurgiões na visita vão servidores com grandes cêstos cheios de fios e panos aparelhados para uso dos doentes. Os Padres Jesuítas têm tomado êste hospital a seu cargo, o que êles desempenham mui dignamente; e se estivera a cargo de outros, mal poderiam imitá-los, ainda que tivesse dobrado rendimento do que agora tem. Neste hospital há câmaras destinadas para cada enfermidade; e tôda a gente que ali vai é infalivelmente revistada para se saber se leva aos doentes alguma coisa de beber ou de comer, danosa à sua saúde. Também se não entra ali com armas, mas é mister deixá-las à porta. Quem vai ao hospital, a visitar seus amigos, só lá entra desde as oito horas da manhã até às onze; e de tarde, desde as três até às seis. Pode comer com êles, e quando os servidores vêem que um amigo vem visitar algum doente, trazem mais alguma coisa além do que ordinària- mente se dá ao doente. Dão tanto pão quanto se pede.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 13 Os pães são pequenos; e às vezes trazem ao doente três ou quatro, não podendo êle de ordinário comer mais de um; o que seria desperdício se os pães fossem maiores, porque um pão encetado não volta segunda vez. O pão é mui delicado e fabricado pelos padeiros da cidade por arrema¬ tação. Vinho é coisa de que se não fala no hospital. Nunca se apresenta menos de meia galinha, assada ou cozida, ou ainda uma galinha inteira; e se o doente tem necessidade de mais, mais se lhe dá. Não há ali capões. Os doentes são assistidos e tratados com todo o esmêro e delicadeza que dizer se pode. Mudam-lhe tôda a roupa branca de três em três dias; e é ela de algodão mui fino. Pela manhã, às sete horas, serve-se aos doentes passas com pão alvo de trigo e arroz, que vem de Cambaia e Surrate (l); bebem água e não ousariam beber vinho. Às dez horas vem o jantar, conforme ao que o médico tem ordenado e ordinàriamente é galinha cozida ou assada, com doce por sobremesa. Às cinco horas trazem a ceia. Dão-se aos doentes excelentes caldos feitos de diversas sortes de carnes cozidas com Bendés, que é um fruto re¬ frigerante, do tamanho dos nossos pepinos. Estas carnes, ou sejam de carneiro, galinha ou frangão, são bem tempe¬ radas com arroz. Comem carne todos os dias, salvo os que desejam comer ovos e peixe nos dias de abstinência; porque dá-se-lhes o que êles pedem e que não seja proi¬ bido pelo médico. Quando êste vai fazer a visita, é acom¬ panhado de grande número de escreventes. Primeiramente o boticário toma o nome daqueles a quem deve dar alguma coisa do seu ofício e depois o que a cada um há-de dar. Outro tanto fazem o cirurgião, barbeiro e escrivão da cozinha, o qual vai todos os dias ver os doentes, escreve os seus nomes e o que êles desejam comer; e tudo fiel¬ mente lhes é trazido; e não há um só que à hora costumada não tenha a sua ração. Tôda a louça de mesa é de porcelana da China. De¬ pois de jantar, os oficiais portugueses preguntam em voz alta nas câmaras se todos tiverem a sua ração e o mesmo fazem depois de ceia. Todos os doentes são agasalhados àparte, cada um segundo o seu mal, e até os utensílios são separados segundo a sua espécie em quartos aparta- (*) De Cambaia e Surrate vinha o trigo; o arroz vinha do Canará e Malabar. — N. do T.
  • 14 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD dos; e desta maneira tôdas as camas dos doentes estão em um depósito geral enroladas, noutro lugar todos os tra¬ vesseiros, noutro todos os colchões, cobertas, lençóis, camisas e outras roupas do uso do hospital. Há grande provimento de calções, sem o que nunca se deitam a dor¬ mir os portugueses da índia; e êsses calções descem até aos pés, porque tôdas as suas camisas são mui curtas, e não passam do meio da coxa. Há também lugares apar¬ tados para as chinelas, vasos e bacias de diversos usos. As camisas, calções, chapéus, sapatos, ceroulas, capas e roupões, que dão aos que saem curados, tudo também está em separado. De cada uma destas coisas há tão grande cópia que seria impossível tê-las arrumadas, se não estivessem assim apartadas. O mesmo é para os víveres e provimentos, e cada depósito tem um guarda com sua chave, que tudo lança em escrito e dá contas ao escrivão principal, que faz assentos de tudo, incluindo mesmo os doentes, seu nome e o dia que entram e saem. Há um tesoureiro para o dinheiro e de tudo se dá contas ao Padre Jesuíta, que as não dá a ninguém. O escrivão faz assento de todo o ouro e prata, roupa, fato e outras coisas dos doentes, e êsse assento se faz em presença do padre e dos outros oficiais, e de tudo se faz um fardo com seu bilhete e se põe em quartos àparte. Manda-se lavar tôda a roupa suja que trazem os doentes. Os que têm posses dão alguma coisa aos servidores, se é da sua vontade, e de tudo se lhes dá lembrança quando saem. De nada do que pertence aos doentes se usa no hospital, e se o doente morre, tudo é levado à Misericórdia. Se fêz testamento, são os oficiais desta os seus executores; e se não há testamento, guardam o espólio até haver novas dos herdeiros, dispondo a Misericórdia de uma parte da roupa e fato em esmolas a outros pobres. Duas vezes por dia se faz a limpeza dos doentes, assim como de todo o hospital. Há dois Jesuítas que não fazem mais do que ir ali confessar e consolar os enfermos e administrar- -Ihes os sacramentos; e dão-lhes contas de reza. Todos os dias se diz missa no hospital; em suma, nada falta ali do que é necessário. Os doentes estão deitados cada um numa grande cama àparte, separadas umas das outras o espaço de dois pés. A cama compõe-se de vários col¬ chões de algodão e de tafetá, uns sôbre os outros, em lei¬ tos baixos, pintados de tôdas as côres.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 15 As doenças da terra mais comuns são: febres ardentes e disenterias, além das moléstias venéreas, que também são mui ordinárias, mas somente onde há portugueses e não em outra parte da índia. Se os doentes morrem e dei¬ xaram alguma coisa na mão do Padre Jesuíta, isso e o seu fato é entregue aos oficiais da Misericórdia, que é obri¬ gada a fazer-lhes um entêrro honesto, ainda que o defunto não haja, ou não tenha deixado meios para o fazer. Se o doente recobra saúde, como a mim me aconte¬ ceu (graças a Deus), o Padre Jesuíta dá uma andaina com¬ pleta de vestuário a cada um dos que saem do hospital, se disso têm necessidade e um pardau, que vale trinta e dois soldos e meio. E ainda mesmo gente mui rica pre¬ fere entrar no hospital, por aí ser melhor tratada, que em sua casa, como de feito é. Todos os anos saem dêste hospital mais de mil e quinhentos corpos mortos e entra infinito número de doentes. E quando vêm as naus de Portugal chega a ha¬ ver nêle mais de três mil; e o menor número que há é o de trezentos ou quatrocentos. Só os portugueses e cristãos-velhos podem ali ser admitidos e tratados. Verdade é que os judeus passam por portugueses, pôsto que sejam cristãos-novos. Tôda a gente que lá está com os portu¬ gueses e que vai destas partes e lá chamam Homem branco, velhos cristãos, são aceitos no hospital. Não assim as mulheres, que nenhuma lá entra, nem sã nem doente. Os domésticos, sejam homens, mulheres ou crianças, não são aceitos; nem ainda os servidores portugueses. Há para êles outros asilos, se são pobres. No hospital real só se admitem os soldados, que quere dizer, homem não casado. Porém, ainda que não sejam casados, se forem pessoas de família, ou servidores, não são aceitos. Entram nêle muitas vezes possoas nobres, porque isto não é havido por desonra; e êstes hospitais só foram estabelecidos nas cidades da índia para os soldados aventureiros. As vezes são os doentes visitados pelo Arcebispo, Vice-Rei e fidal¬ gos, que dão grandes sômas de dinheiro. E ninguém há que não sinta grande contentamento em ver um lugar tão belo, onde tôdas as câmaras são limpas e brancas como papel; e as galerias bem pintadas com passos da história da sagrada escritura. Há ali duas Igrejas o mais bem paramentadas e enri¬ quecidas que se pode ver. A maior festa, que nelas se
  • 16 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD faz, é a de S. Martinho, dia da dedicação da sua Igreja, porque foi nesse mesmo dia que o baluarte onde fabricaram esta igreja foi tomado aos idólatras pelos portugueses. Nesse dia faz-se em Goa uma procissão geral (l). Todos os portugueses e mestiços que têm alguma doença, ainda que seja secreta, se desejam curar-se e tra- tar-se no decurso do dia naquele hospital, quando os cirur¬ giões ali estão, são livres de o fazer, sem paga ou des¬ pesa alguma. Os doentes, logo que estão curados, são despedidos; contudo, se algum deseja estar por mais algum P) O autor não estava bem informado da origem desta Igreja de S. Martinho. Se abrirmos as Décadas de Diogo do Couto, leremos na Década VI, Livro IV, cap VI, onde trata do grande triunfo, com que o Governador D. João de Castro foi recebido na cidade de Goa depois da vitória de Dio, o seguinte. No principio do capitulo: * — Esteve o Governador em Pangim irés dias, porque chegou aos II de Abril (1547) uma quarta-feira e ao domingo seguinte, que foram 15 do mês, fêz sua entrada. Tinha a cidade mandado fazer no Bazar de Santa Catarina um formoso cais, para nele desembarcar o Governador, por querer entrar por aquela parte; e porque a porta do muro ali era pequena, rasgou- -se-lhe tòda de alto a baixo; e cobriram-sc as paredes de uma parte e de outra de peças de brocados e de veludos de côres etc. — » E no fim do capítulo: «— Naquela parte do muro, que se rompeu para o Governador entrar, mandou êle logo fazer um Altar ao Bemaventurado S. Martinho, em cujo dia houve aquela grande vitóiia (de Dio), com um formoso retᬠbulo de óleo e ordenou com a cidade que todos os dias daquele Bemaven¬ turado Santo, se fizesse uma solene Procissão e se dissesse Missa e houvesse pregação em memória da vitória que Deus Nosso Senhor lhe deu naquele dia; o que se guardou até hoje e deve de guardar sempre, por ser coisa memorável e de louvor de Nosso Senhor, de cuja mão nos vem todos os bens. — » Jacinto Freire de Andrade na Vida de D. João de Castro, parafra¬ seando no Livro 3.° §§ 39 a 41 aquele capitulo de Diogo do Couto, nada diz neste particular, talvez julgando-o sucesso menos digno de seu estilo grandíloquo. O nicho mandado erigir por D. João de Castro foi depois convertido em Capela, a qual ficava tão contígua c mística ao Hospital Real que o nosso autor a toma por parte integrante dele; e sua amplitude era suficiente para lhe merecer o nome de Igreja. O Padre Francisco de Sousa escrevendo o Oriente Conquistado nos últimos anos do século 17.° na Parte I *, Conquista I, Divisáo I, § 37, refere as festas que cm Goa se fizeram pelas novas vitórias de D João de Castro nas terras de Salcete contra o Idalxá; e entre outras coisas diz: « — Em gratificação de tantos benefícios se ordenou uma soleníssima Procissão .Saiu esta pompa da nossa Igreja de S. Paulo e foi parar no lugar por onde se rompeu o muro, quando entrou o Governador triun-
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 17 tempo, basta que diga que ainda se não sente de todo res¬ tabelecido. As febres contínuas são ali curadas pronta¬ mente por meio de sangria, de que fazem uso continuado, enquanto sentem uma ponta de febre. Os índios gentios não usam da sangria. Quanto’ à sífilis não é havida por nota de infâmia, nem parece mal tê-la muitas vezes, an¬ tes fazem disso gala. Curam-na sem suores, com pau de eschine (raiz da china). Esta enfermidade só a há entre fante, porque tornando-se a fechar esta ruptura, ficou da parte de dentro na Sossura do mesmo muro uma Capelinha do glorioso S. Martinho junto do ospital Real, etc. — » Esta passagem do Padre Sousa visivelmente se refere ao nicho primi¬ tivo na muralha e nào à capela mais ampla, ou Igreja, que posteriormente se fabricou c de que nos fala Pyrard. E conquanto esta ainda devesse existir no tempo do Padre Sousa e, segundo plausivelmente se pode con- jecturar, só desaparecesse com o Hospital no século passado, não faça todavia dúvida a pouca atenção, que o Padre Sousa lhe presta, porque o fio da sua narrativa o leva a outros pontos, e néste apenas toca levemente e por in¬ cidente. Na actual Capela de Santa Catarina, edificada junto daquele mesmo lugar, se conserva uma lápide, que pertenceu sem dúvida ao primitivo nicho de S. Martinho. Tem a lápide era relevo a figura do Santo a cavalo, dividindo a capa com um pobre, e por baixo êste letreiro: * — Por esta porta entrou D. João de Castro, defensor da Índia, auando triunfou de Cambaia e todo êste muro lhe foi derrubado. Era e 1547. A. — * A Procissão continuou até ao ano de 1830, saindo da Sé acompa¬ nhada do Senado, Religiosos, Párocos e Irmandades, mas cessou por se haver notado nas contas do Senado que as despesas dela não tinham a formalidade da régia aprovação, (Veja-se no Jornal da Santa Igreja Lusitana do Oriente, n° I ° de 1847, a noticia da visitaçáo de S. Ex.* o Senhor Arcebispo Primaz nas Igrejas das Ilhas de Goa, escrita pelo Rd.° Caetano João Peres). A outra Igreja, de que fala Pyrard, devia ser a capela própria do hospital. Em Dio houve o mesmo pensamento de celebrar a vitória de D. João de Castro com uma Igreja dedicada a S Martinho, como larga¬ mente refere António Gil, morador daquela fortaleza, escrevendo a D. Ál¬ varo de Castro a carta seguinte: « — Senhor Eu, porque ho senhor gouernador e vossa mercc tem feitas tantas merces, como ao mundo he notorio, quis amostrar per obtas os desejos aue tenho de seruir o senhor gouernador e vossa merce. Eu tirey aquy nua esmola, aquy nesta fortaleza, pera fazer hua igreja de Sam Martinho; e postoque ha esmola nam fosse tamta qúe habomdase pera a casa, eu há minha custa ha acabey, porque me parece muita mais rezam, que pois os casados desta terra fizeram Samtiago em memória da gerra, que haquy teue Amtonio da Silueira; de muito mayor calidade foy a que ho senhor gouernador fez, e vossa merce, e dina que nesta terra, honde o senhor deos fez tamta merce, fique memória pera sempre: pola quoal rezam eu fiz esta casa, que hora fiqua feita, e he hua das fresquas casas, 3 II TOl.
  • 18 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD os cristãos e a receiam menos que a febre ou disenteria. Reina ali outra doença que vem subitamente, e lhe chamam Mordechi; a qual vem acompanhada de grande dor de cabeça e vómitos; os doentes gritam muito e a maior parte das vezes morrem. É também aquela gente mui sujeita aos envenenamentos e feitiços, de que vêm a morrer extenuados. À chegada das naus de Portugal, o maior número de enfermidades é de escorbuto e úlceras nos pés que se fizeram nesta terra, e sobelaporta lhe mandey pôr hua campam, e no meyo dela posta as armas do senhor gonernador, cercado com hum letereyro que diz *Esta casa se fez em louuor de nosso senhor e do bemavemturado Samartlnho, porque em seu dia desbaratou o gouer- nador dom Joam de Castro todo o poder dellrey de Cambaya, que tinha cercado esta fortaleza, e no mesmo dia per força darmas lhe tomou a sua nobre cidade e ilha de Dio 1536» E sòbre esta pedra_mandey pôr hua cruz muito fermosa de páo, com dous padrõ?s, cada hu em aua bamda, em riba de cada hu mandey pôr hum pelouro de bazalisquo dos mouros, o grande, que peza eemto e oito arrates cada um, peraque saibam os que vierem a esta terra, que ha gente com que o senhor gouernador pelejou, que heram omês, que pelejauam com esta artilharia, e de hum dos pelouros do quoartao mandey fazer hua pia dagoa bemta, e ho mam- dey pôr demtro na irmida em hum piar muito louçam, onde está: e porque nesta irmida eu cayo em escumunham, se aleuamtar altar, beijarei as mãos de uesa merce mandar hum recado ao padre, que ficou em lugar do bispo em Guoa, pera que dê licença pera se ay dizer misa, porque doutra ma¬ neira nam se fará senam com se niso gastar dinheiro, que será melhor pera algãs hornamentos da casa, quoando omê puder aver. E postoque vosa merce nesta terra tenha muitos seruidores, eu nam deixarey nunqua de fazer lembrança a uosa merce de como sou seu, peraque se desta terra man¬ dar algu serviço, de me fazer tam asynalada merce de se querer pera yso alembrar de mvm. O senhor deos acrecemte os dias de uyda ao senhor gouernador e a uosa merce per longos annos. De Dio oje des dias do mez de Janeyro de 1548 annos «Amtonio Gil» (No sobrescrito) Ao senhor o senhor dom Aluaro de Castro capitam mor do mar da índia, meu senhor «damtonio gil» — Esta carta forma o Documento n.° 41 dos que o Bispo Conde D. Fr. Francisco de S Luis aditou à Vida de D João de Castro na ediçáo da Academia Real das Ciências, Lisboa, 1835. O letrairo pusemo-lo aqui, não exactamente como se acha no documento referido, mas como (salvas as abreviaturas) o lemos no ano de 1859 na própria lápide, que ainda agora se conserva sòbre a porta de outra capelinha mais moderna e já profanada, que serve de corpo de guarda da porta da fortaleza de Dio. Os pelouros e a pia de água benta, de que fala a carta, náo existem na nova capela. Por último observaremos, enquanto ao texto do autor, que a cidade de Goa náo foi tomada pelos portugueses aos idólatras, mas aos mouros ou muçulmanos, que eram os senhores da terra Os idólatras ou gentios, parte ajudaram à emprèsa e os outros só mudaram de dominante. Prova¬ velmente o autor aplicava o nome de idólatras a todos os infiéis do Oriente — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 19 e nas pernas. Quando algum doente tem tomado laxante, ou está fraco, há servidores que lhe assistem para o le¬ vantar e mover. Estes servidores sào índios cristãos mui limpos e asseados, mui compassivos e carinhosos; porque se algum fôsse áspero para com os doentes, seria logo expulso da casa. O sistema de medicina que ali se usa é o mesmo que em Espanha. É grande honra ser médico dêste hospital, e ordinàriamente o é o do vice-rei, que vem de Portugal. O Padre Jesuíta, que tem a superintendência da casa, está nela enquanto apraz à Companhia e o julgam capaz; serve por dois ou três anos, pouco mais ou menos. São os mesmos Jesuítas que enviam ali e mudam freqíien- temente os padres espirituais; mas o Padre Superior do Hospital tem ao mesmo tempo a administração temporal e espiritual e governa sôbre todos. Quanto ao edifício é êle grande e amplo, com muitas galerias, pórticos e jardins de boas ruas, onde os conva¬ lescentes vão tomar ar; porque os mudam de lugar logo que entram em convalescença e ficam todos em separado dos doentes. Em todo o hospital há de noite luzes de lanternas e velas, mas usam mais de lanternas, porque as velas são de cera. As lanternas são feitas de cascas de ostras de que ali se servem em vez de vidraças, nas igrejas e casas de Goa. No meio dêste hospital há um belo e grande pátio calçado, e nêle um grande poço onde às vezes os doentes vão tomar banho. Os portugueses ou mestiços de boas famílias, quando estão doentes e padecem necessidades, são tratados em suas casas pela Misericórdia. Há outros hospitais para os pobres da cidade, onde só são recebidos os índios cris¬ tãos. Na cidade há mais dois hospitais, um para mu¬ lheres e outro para homens; mas ambos fazem um só, sendo sòmente separados enquanto aos sexos. Os portugueses ou mestiços pobres nunca vão mendi¬ gar, mas enviam memoriais às pessoas ricas; e as mulheres vão em palanquim ao palácio do vice-rei, do arcebispo ou dos fidalgos principais, e fazem apresentar os seus re¬ querimentos e memoriais. Em suma, seria impossível dizer tôdas as outras particularidades do interior, e a boa ordem e polícia que se guarda neste admirável hospital. Até se alguém tem por costume purgar-se ou sangrar-se todos os anos, ainda que não esteja doente, vai ali e será recebido durante o
  • 20 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD tempo de sua purgação. Mas tornando ao meu companheiro e a mim, depois que fomos levados e recolhidos no hospital, ao seguinte dia o capitão-mor da armada mandou também para ali ao outro nosso companheiro, pôsto que tôda a sua doença não passava de fadiga, não julgando conve¬ niente metê-lo na prisão só. Fomos entregues todos três ao Padre Jesuíta, com proibição de nos deixar sair sem dar primeiramente conta ao capitão-mor. O padre não ousou declarar-nos que nós estávamos presos sob sua guarda, receoso de nos magoar, e nos consolava em tudo quanto podia, dando-nos o mesmo tratamento que aos mais principais portugueses, se bem que não pareceria bem tratar a uns melhor que a outros, porque a regra é serem todos tratados por igual e sem preferência, assim no que toca aos alimentos, como aos medicamentos e outras coisas, sendo ali cada um servido no lugar que lhe cabe sem diferença de grandes a pequenos. Como nos vimos tão bem tratados, julgávamos estar já em liberdade; de sorte que, passados vinte dias, começando eu a sentir-me melhor, adverti ao padre, dizendo que como eu, graças a Deus, ia melhor, desejava sair com um dos meus companheiros. Mas o padre nos preguntou que pressa tínhamos, e disse que esperássemos que o outro nosso companheiro fôsse curado; o que na verdade botava longe, porque esteve mais de três meses antes que se restabelecesse. Nós, porém, não entendíamos a causa porque o Padre nos falava assim, e era que queria dar antecipadamente conta a quem nos havia pôsto em suas mãos; e ainda porque sabia bem que saindo dali nós não seríamos tão bem tratados; por isso ia sempre dilatando a nossa saída apesar de nossas ins¬ tâncias, filhas do desejo que tínhamos de ver aquela bela cidade, de que ouvíramos contar tantas grandezas. Tendo êle, pois, dado conta ao capitão-mor, no fim de cinco ou seis dias chegaram dois meirinhos com seus peões e o Padre Jesuíta veio a nós, e nos disse: Meus irmãos, levantai-vos; e pois que tendes tão grande desejo de sair desta casa, podeis fazê-lo; acompanhai-me. E nós mui alegres o seguimos, e êle deu a cada um dos dois (porque o outro ficava ainda mui enfêrmo) ceroulas, gibões, capas, sapa¬ tos, chapéu, duas camisas, dois calções novos (êles não usam meias porque as ceroulas chegam até aos pés) com uma moeda de pardau, que vale lá trinta soldos e meio, que fazem vinte e cinco soldos de França. Deu-nos tam-
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 21 bém de almoçar, pôsto que o não queríamos pela pressa que tínhamos de sair. Por fim, tendo-nos lançado a sua bênção, despedimo-nos dêle, agradecendo-lhe todo o bem que nos havia feito. Parecia-me que o padre tinha dó de nós, porque nos consolava quanto podia. Quando, porém, descemos a escada principal, topámos com os dois meirinhos que tinham o mandado na mão, ar¬ mados de alabardas e partazanas, os quais tomaram logo posse de nós e nos levaram consigo, tratando-nos mui às- peramente. O modo de levar os presos é ir diante o mei¬ rinho com a sua vara e detrás os peões, que seguram as duas pontas da corda com que o prêso vai amarrado. Pen¬ sai agora o nosso espanto quando, após uma tão curta ale¬ gria, nos vimos entre as mãos dos diabos dêstes cafres mais negros que carvão. Eis como saí dêste hospital, onde ainda de outra vez estive doente por espaço de quinze dias, e aonde entrei outras muitas a visitar o meu companheiro e outros meus amigos. E por isso quis refe¬ rir particularmente o que ali vi e conheci, sendo eu per¬ suadido que não há outro tal em todo o resto do mundo, Em tôdas as mais cidades dos portugueses há semelhantes hospitais à proporção, e se isso não fôra, padeceriam infi¬ nito aqueles pobres portugueses, visto o grande número dêles naquelas partes, seus poucos meios, e as grandes doenças e enfermidades a que estão sujeitos. Fomos pois assim levados à prisão, a que chamam Salae não sem causa, porque é o lugar o mais sujo e sór¬ dido que há no mundo, segundo o meu parecer (l). Há qua¬ tro prisões gerais em Goa, afora outras particulares. A l.« é a da Santa Inquisição; a 2.° a do arcebispo, próxima à sua residência; a 3.a o Tronco que é junto ao palácio do vice-rei, a maior e principal de tôdas; tem vasto alo¬ jamento para tôda a sorte de presos. Há nela todos os meses uma audiência,geral, a que a maior parte das vezes assiste o vice-rei. E como entre nós a Conciergerie. A 4.a é aquela aonde fomos levados e serve como de auxi- f1) Não foi possível traduzir cate periodo de modo que conservasse a força do original O autor escreve NoUS fusmes donc ainsi menez en la Prlson, qu' ils appellent la SALLE, et non sans cause, car c’ est le lleu le plus ord et salte qui soit au mond, comme je croy — Ê sabido que a palavra francesa sale, aue significa sujo, imundo, tem o mesmo som que sale ou salte, que significa sala. — N. do T,
  • 22 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD liar da antecedente (l). Estas prisões de Goa não são tão cruéis como as de Cochim. A Inquisição e a justiça ecle¬ siástica são coisas separadas. Esta pertence ao arcebispo, que tem poder sôbre todo o clero. Os Jesuítas andam com êle em litígio há longo tempo na Côrte de Roma, porque não querem sôbre si outro superior mais que o Papa e o seu Geral. Os juízes e oficiais da Inquisição são juízes privativos. Todavia o arcebispo não deixa de ter muito poder na Inquisição, mas não toma conhecimento dos ne¬ gócios que a ela tocam; porque os inquisidores têm o seu cargo de el-rei; mas se fizerem o que não devem, é o Ar¬ cebispo que lhes toma conta do seu procedimento. A prisão aonde nos levaram é na cidade, próximo do rio, e chama-se a prisão do vedor da Fazenda, o qual tem a sua casa de morada fora da cidade, também junto ao rio. O meirinho da prisão, ou carcereiro, nos assentou no seu papel à ordem do ouvidor do crime. O carcereiro e sua mulher eram mestiços. O carcereiro tendo-nos pregun- tado quem nós éramos, e sabido que éramos franceses e católicos, disse-nos que não estivéssemos tristes, e que nos não deixaria na Sala com os outros. Esta Sala é onde todos os escravos das galés, e outra gente vil estão jun¬ tos, às vezes duzentos e trezentos, com grande infecção. Não levam para ali os criminosos, salvo se é para depois os levar ao Tronco (*). Está no alvedrio do meirinho da prisão, ou carcereiro, meter tôda a gente indiferente¬ mente nesta Sala; e as pessoas de qualidade dão dinheiro para ficarem em outros lugares apartados, que são dois, um para os gentios e mouros e o outro para os cristãos. O carcereiro não faz êste favor senão por dinheiro, salvo aos estrangeiros como nós, que fomos por êle tratados com muita cortesia e liberdade, a não ser que tínhamos de I1) Cada uma destas prisões tinha seu nome especial: As da Inquisição cbamavam-se Cárceres. As do Bispo ou Arcebispo Aljube. A prisão civil chamava se antigamente Tronco OU Tronquo. A prisão da ribeira, onde o autor f»i levado, chamava-se vulgarmente Sala dos bragas, isto é, sala ou grande prisão dos condenados às galei, ou a trabalhos públicos, que trazem no pé a argola de ferro, chamada braga ou calceta. — N. do T. (B) Parece que o autor quere dizer que não levam para ali os criminosos em processo; porque os sentenciados a galés ou trabalhos per tenciam a esta Sala. — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 23 dormir de envolta com a chusma de escravos e condena¬ dos às galés, que traziam ferros aos pés. Havia na Sala lanternas acesas, e de uma banda estava o aposento do meirinho ou carcereiro, e da outra banda, junto da porta da saída, estava o filho dêle com seus servidores e escra¬ vos de vigia, porque a prisão não é forte. Havia dois sinos nestes dois extremos para por êles se saber se al¬ gum dormia, porque quando o pai tangia o sino, o filho lhe respondia com outras tantas badaladas. De todos ês- tes forçados se fazem duas esquadras para se revezarem na vigilância nocturna e se guardarem a si próprios; e tôda a noite não fazem outra coisa mais que bradar e res¬ ponder a dois e dois. O primeiro brada o mais alto que pode, vigia, vigia, e os que estão nessa hora de sentinela, que são até dez, lhe respondem um após outro; e se tar¬ dassem um pouco, os escravos da prisão viriam logo bater- -lhes. De sorte que fazem tôda a noite a maior algazarra do mundo, o que junto com o grande calor impede tomar o mínimo repouso. Às nove hores da noite, cantam por espaço de uma hora em voz alta, em português, tôda a sua reza e orações. A mulher e as filhas do carcereiro nos tratavam com muitos mimos, e nos davam de comer e de beber sem que êle o soubesse. Os presos são ajudados das esmolas de algumas pes¬ soas de qualidade; e os oficiais ou Irmãos da Misericórdia vão visitar uma vez cada mês a todos os presos; e os pobres que estão no seu rol, assim como as viúvas e órfãos, são sustentados à custa desta Confraria. Aos cristãos velhos dão esmola grossa, e aos novos cristãos ou índios, pequena. O Pai dos cristãos, que é um Padre Jesuíta, também vem a visitar os presos, e dar-lhes esmola, mas não é todos os dias. O regimento de el-rei de Portugal é sustentar todos os prisioneiros de guerra, e estrangeiros; mas os oficiais divertem o dinheiro destinado a isto. Dá-se seis pardaus por mês a cada preso, como os soldados têm de sôldo, o que monta a quási nove libras e quinze soldos da nossa moeda (francesa); e chega para mais do que aqui dez escudos. Fizemos a nossa petição para nos darem o que el-rei mandava dar; e foi dirigida por mão do mei¬ rinho da Sala, que a apresentou ao Vedor da Fazenda, e êste a despachou; mas tudo isto consome excessivo tempo, pelo grande número de oficiais por cujas mãos deve pas¬ sar; de sorte que não pudemos haver o nosso dinheiro se-
  • 24 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARÔ não seis dias antes de sairmos da prisão; e com mêdo que no-lo furtassem demo-lo a guardar à mulher do car¬ cereiro, fazendo com ela concêrto de uma tanga por dia para nos dar de comer a mim e a meu companheiro. Uma tanga vale lá oito soldos e aqui cinco. Tratava-nos ela muito bem; mas quis a nossa desgraça que sendo postos em liberdade passados cinco ou seis dias, como nós lhe pedimos o resto de nosso dinheiro, respondeu-nos que se o queríamos, o fôssemos comer e beber lá dentro; mas o Vedor da Fazenda, sôbre uma simples queixa que lhe fizemos, nos mandou restituir tudo, e sem embargo disso perdemos ainda uma boa parte que lá ficou. Acertou, porém, de se achar ali um capitão castelhano, único que lá vi, que teve dó de nós e do mal que se nos fazia, de sorte que nos disse que nos compensaria da nossa perda, e em sua casa nos daria o dinheiro que faltava na conta. Declarou que era espanhol e não português e se chamava D. Pedro Rodrigues. Regressou a Portugal um ano depois. Passado, porém, um mês depois do que acima digo, um cafre, escravo de um sujeito com que aquêle capitão havia tido uma disputa, deu-lhe por detrás uma grande pancada de bambu, na cabeça; mas êle sem se perturbar nem perder tempo, puxou do seu punhal, matou o cafre e logo se recolheu a uma igreja; pelo que foi per¬ doado no fim de duas horas. Mas por isto, e ainda mais porque os espanhóis não são ali mui bem aceitos, viu-se obrigado a voltar para Espanha. O modo como saímos da prisão foi êste: Depois de ali estarmos quási um mês, veio à prisão aquêle Pai dos cristãos, Jesuíta, chamado Gaspar Alemão (')• A Com¬ panhia de Jesus tem encarregado êste padre de solicitar o livramento e liberdade dos presos cristãos; e para êsse fim vem visitar muitas vezes os presos, para saber se há aí alguns cristãos, ou que se queiram fazer cristãos e solicitar logo do vice-rei, da justiça ou das partes, o que cumpre a seu livramento. Tendo pois êste Padre vindo à prisão, e pelas preguntas que me fêz reconhecido que eu era cristão e francês, disse-me que tivesse paciência e que brevemente seria pôsto em liberdade, e advertindo-me que (*) O autor diz Qaspard Alemand. Não sabemos se haverá exac- tidáo no nome. — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 25 havia ali um Padre Jesuíta, também francês, da cidade de Rouen, chamado Estêvão da Cruz, que estava no Colégio de S. Paulo de Goa, ao qual padre escrevi, e êle veio procurar-me no seguinte dia. Alegrou-se de me ver, con¬ solou-me, favoreceu-me com algum dinheiro e me disse que se empenharia com o seu Superior para que falasse ao Vice-Rei a favor da minha liberdade, como se eu fôsse seu próprio irmão. Êste padre apresentou a sua suplica ao vice-rei, que de nenhuma sorte queria vir em dar um despacho favorável, e a princípio rompeu em grandes ameaças, dizendo que eu incorrera em pena de morte por haver ido àquelas partes contra os decretos do seu rei, e contra os capítulos da paz feita entre os reis de França e Espanha; que não podia pôr-me em liberdade, mas que me enviaria prêso a el-rei de Espanha, para mandar de mim o que fôsse servido. Porém o bom Padre Jesuíta usou de tanta importunidade por espaço de um mês, que afinal fui pôsto em liberdade; e no entretanto não cessava de vir a visi¬ tar-me todos os dias, e me assistia com tudo o que eu havia mister. Depois que saímos da prisão íamos comer e beber com os soldados, ora aqui, ora ali, a casa dos fidalgos, de sorte que nos não custava nada o sustento, porque estᬠvamos no rol dos soldados. Estive, pois, em Goa com os portugueses por espaço de dois anos, recebendo paga de soldado, e indo a várias partes em suas expedições, tanto ao longo da costa do norte até Dio e Cambaia, onde estive e me demorei, como até ao cabo Comorim e ainda até à ilha de Ceilão. Mas antes de passar à descrição de Goa, direi ainda alguma coisa de suas prisões. Tôdas elas são subalternas do Tronco, que é a maior. Por isso, quando estávamos na que disse, foram ali levados prisioneiros árabes, todos homens bravos, bem dispostos e de boa presença, que haviam ficado escravos de el-rei de Portugal. E o caso foi assim. Vindo de Lisboa para Goa um galeão topou com o navio, em que êles iam a Samatra, com muitas ri¬ quezas em ouro e outras mercadorias; o capitão do galeão investiu o navio e tomou-o; e passando êstes árabes ao galeão lançou no navio alguns portugueses para em sua conserva o levarem a Goa. Mas os árabes do navio levan¬ taram-se contra os portugueses e os levaram prisioneiros
  • 26 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD com o navio, de sorte que escreveram a Goa para serem resgatados por troca com os árabes que lá estavam também cativos, como se fêz. Isto mostra que, quando se faz uma prêsa, é mister entregá-la a homens de valor e discrição para a levarem a bom recado. CAPÍTULO II DESCRIÇÃO DA ILHA DE GOA E DE SEUS HABITANTES E DOMINADORES GOA é uma ilha que dependia antigamente do reino de Dealcâo ou Decan (l); tem de circuito quási oito léguas e.há nela sete fortalezas que guardam os paços. É cercada de um rio que vem do dito reino do Dealcâo e vai cair no mar a duas léguas da cidade, passando pelo pé dela. Na embocadura dêste rio há duas fortalezas, uma de cada banda, para impedir a entrada aos navios inimigos. Uma légua acima da entrada do rio há a fortaleza e paço de Pangim, na mesma ilha e na fortaleza está um capitão e governador pôsto pelo Vice-Rei, que manda a li absolutamente; e é mister que todos os navios e embarcações, quaisquer que sejam, venham ali à fala e tomem passe, assim na entrada como na saída. O capitão manda visitar a embarcação e faz pagar um certo direito; e é impossível passar, ou de dia ou de noite, sem seu conhecimento, porque a passagem é mui estreita e próxima da fortaleza e há nesta boa guarda. Nesta ilha os portugueses têm fabricado uma mui bela cidade do mesmo nome da ilha, chamada Goa (8), que tem quási légua e meia de circuito, não contando os arra¬ baldes, e encerra quantidade de fortalezas, igrejas e casas fabricadas a modo de Europa, de mui boa pedra e cober¬ tas de telhas. Há quási cento e dez anos que os portu¬ gueses se senhorearam desta ilha de Goa; e muitas vezes me espantei de como em tão poucos anos os portugueses (*) Dealcâo parece-nos corrupção de Idalcão, coníundindo-sc o rei da terra com a mesma terra. — N. do T. (*) O nome da ilha é Tlssuary; mas comummente chama se Goa, do nome da cidade; acontecendo o inverso do que diz o autor; porque é a ilha que toma o nome da cidade e não a cidade da ilha. — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 27 têm podido levantar tantos e tão soberbos edifícios de igrejas, mosteiros, palácios, fortalezas e outros ao modo da Europa; e outrossim da boa ordem, regimento e polícia que têm estabelecido, e do poder que aí têm adquirido, pois tudo ali se guarda e observa como se fôra na própria Lisboa. Esta cidade é a metrópole de todo o Estado dos portugueses nas índias e a que lhe dá tanto poder, rique¬ zas e celebridade. Tem nela o vice-rei a sua residência e é tratado com unia côrte como se fora o mesmo rei. Após êle vem o arcebispo para o espiritual; segue-se o tribunal da Relação e Inquisição; e além do arcebispo há ainda um bispo particular (‘), de sorte que desta cidade releva tôda a religião e justiça das índias, e tôdas as Ordens religiosas têm aqui os seus superiores. Todos os embarques, quer seja de coisas de guerra, quer de trato e comércio por conta do rei de Espanha, é aqui que se fazem. O bis¬ pado de Goa(4) chega até Moçambique; o de Cochirn Rara o norte vai até perto de Barcelor e Malaca (3); o de ialaca e o de Macau na China, que todos são sufragâneos do arcebispo de Goa. Quanto à multidão de povo é maravilha o grande número que aí vai e vem todos os dias por mar e terra a tratar tôda a casta de negócios. Os reis da índia que têm paz e amizade com os portugueses, quási todos ali têm embaixadores ordinários, e muitas vezes extraordinários, que vão e vêm para entreter a paz, e outro tanto fazem os portugueses da sua parte. E no que toca aos mercadores que continuadamente vão e vêm das partes do Oriente, parece que é todos os dias uma feira de tôda a sorte de fazendas que são objecto de mercancia; porque mesmo daqueles reinos e terras, que não estão de paz com os portu¬ gueses, não deixam de vir a Goa as mercadorias e fazendas por meio de outros mercadores amigos que as lá vão com¬ prar. E ainda por mui inimiga que alguma gente da índia seja dos portugueses, se dêles quisesse tomar passaporte e seguro, poderia vir livremente a suas terras; mas de ordi¬ nário não se querem abaixar e preferem ir a outras partes. I1) Era o Bispe titular, coadjutor do Arcebispo. — N. do T. (*) Aliás arcebispado Vê-se que o autor usou da palavra bispado por diocese. —N. do T. . (3) Aqui faltam infalivelmente palavras no original. O autor devia escrever: e para o sul até Malaca. —N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 28 Tôda a ilha de Goa é muito montanhosa e arenosa; a terra é vermelha como bôlo arménio, e fabrica-se dela mui bela louça, e vasos mui delicados e bonitos como de terra sigilada. Acha-se ainda outro barro muito mais fino e delicado, atirando a cinzento, de que também se fazem vasos, e são tão finos como vidro. A ilha não é muito fértil, não porque o terreno seja mau, mas por respeito das montanhas; porquanto nas terras baixas e vales mais úmi- dos semeam arroz e milho, que dá duas vezes no ano. A terra está ali sempre verdejante, como em tôdas as ou¬ tras ilhas e países que jazem entre os dois trópicos, onde as árvores e ervas estão sempre viçosas. Há grande número de palmares ou hortas de coquei¬ ros plantados mui bastos, mas só se dão nos lugares úmidos e baixos. Daqui vem o maior rendimento dos portugueses de Goa. Cercam-nos de muros, fabricam ali alguma casa e bom jardim, para lhes servir de recreio e a sua família, encanam a água por entre as árvores, e, onde isto não pode ser, tomam o grande trabalho de os fazer regar a braço. Arrendam estas hortas aos canarins de Goa que as cultivam e tiram delas o seu sustento, sendo o seu maior lucro o vinho que fazem das palmeiras, que tem grande consumo. Os portugueses só conservam por sua conta algumas destas hortas para seu divertimento e fazem nelas mui boas ruas e caramanchões, com fontes e grutas. A ilha seria em si muito boa, mas sendo mui cheia de altas montanhas, de grande número de povo e mui pequena, acham-na estéril. Os habitantes mais querem trabalhar e tratar por mar e terra, do que ocupar-se na criação de animais, mesmo porque a ilha é mui cheia de casas e ha¬ bitações. De sorte que a ilha de Goa produz mui pouco de si própria, e todavia tudo ali é barato. Esta ilha é formada por um belo e largo rio que a rodeia, e ainda vai formar outras ilhas povoadas de gente natural e de portugueses. É êste rio assaz profundo, mas os grandes navios, naus e galeões de Portugal, quando chegam, ficam na embocadura, a que chamam barra, e ali são forçados a deter-se, ainda quando ela não está fechada, e depois de descarregados são levados até defronte da ci¬ dade, que dista mais de duas léguas. À entrada desta barra onde os navios estão surtos, ou para sair, ou para entrar, há, como já disse, duas fortalezas,
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 29 que foram feitas contra os holandeses e outros estrangei¬ ros, para os impedir de entrar e surgir neste rio, como os holandeses por vezes têm feito, entrando, queimando e lançando a pique grande cópia de navios que aí estavam; e até tiveram a barra cerrada por dez ou doze dias, de sorte que não podia entrar um só batel em Goa, e êles tomavam em terra água e refrescos. É grande infelicidade para os navegantes chegarem um pouco tarde aos portos formados dêstes rios e barras, porque as acham fechadas, como esta de Goa, a de Cochim e a maior parte das outras da índia, durante o in¬ verno; de sorte que é mister ficar então à mercê de tôdas as injúrias do tempo e dos inimigos, que ordinàriamente ali vêm tomar os navios; porque depois que a barra é assim fechada e entupida de areia, não pode nela entrar nem sair um só batel e é preciso esperar. Donde, antes de saírem de qualquer pôrto é mister determinar-se no que hão-de fazer, e o melhor é invernar nesse mesmo pôrto. Assim os portugueses tem fabricado estas duas fortalezas para guardar a sua barra, dar segurança a seus navios, e impedir que os inimigos se aproximem e venham fazer aguada. Entrando pois neste rio, à mão esquerda, fica a terra de Bardez, que pertence aos portugueses, e há aí uma mui boa fonte de que os navios se provêem de água; e é este sítio assaz baixo, e parece de longe como areia branca. Os portugueses lhe chamam Aguada, e têm ali uma das ditas fortalezas, mui boa e bem guarnecida de artilharia. A terra de Bardez é alta e montanhosa, fronteira à cidade de Goa, corre pela banda do norte, e dessa mesma banda está a fortaleza. A outra fortaleza fica num alto formado por um cabo da dita ilha, e numa ponta de rocha muito alta; é fronteira à primeira. Neste alto há um bom con¬ vento de Capuchos, chamado de Nossa Senhora do Cabo, bem fabricado; e a êle vai o arcebispo passar às vezes cinco e seis dias para recreio. Estas fortalezas são mui necessárias para guardar a entrada do rio, e aquela fonte da Aguada, mas, todavia, não podem totalmente impedir que o inimigo surja na barra; o que, se acontecer, embar¬ gará a entrada aos navios portugueses e os incomodará muito, mas não tanto como antes de as ditas fortalezas serem fabricadas. Há neste rio grande cópia de estacadas que deixam somente certas entradas aos navios nos lugares onde é
  • 30 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD mais fundo; porque em todo êle há quantidade de baixos desde a barra até à cidade, de sorte que com estas esta¬ cas é difícil entrar e sair, salvo passando encostado à for¬ taleza de Pangim, onde a água é mais funda. Está esta fortaleza quási a meio caminho da barra à cidade, de sorte que é mui importante, e o capitáo que ali está manda logo visitar os navios para ver os despachos e saber que mer¬ cadorias trazem; e aqui têm os navios de receber novo despacho, pagando certo direito. Todos os outros des¬ pachos de Goa nada valem sem êste, o que rende muito ao capitão e ao escrivão. Há nesta fortaleza bons aposentos que formam um palácio belo e cómodo, onde os vice-reis, quando chegam de Portugal, vão sempre desembarcar e esperar até fazerem a sua entrada solene, e tomar posse, e o vice-rei que sai vai ali morar até partir (l), porque nunca dois vice-reis residem juntamente na cidade; e logo que o antigo tem feito entrega do Estado ao novo, sai da cidade e não torna a aparecer em acto público, nem se visitam, salvo por fortuito encontro, ainda que sejam bons amigos: tanta é a sua ambição! Êste sítio de Pangim é um dos mais belos e agradáveis de tôda a ilha. Quanto ao rio é mui bom e vem, como disse, de mui longe das terras do Dealcão ou Decan, e abunda muito em peixe. Navega-se por êle em batéis por mais de trinta léguas pelo sertão, e forma quantidade de boas ilhas povoadas de gente natural, assim cristãos como gentios. Goa é defendida ao redor da ilha por sete fortalezas medianamente boas e verdadeiramente não é mister que sejam mui fortes por razão do rio que as guarda. Entre estas sete fortalezas são compreendidas aquelas duas pri¬ meiras, e não se inclui a da cidade, onde está o Vice-Rei, que é à borda do rio, porque, contando esta, são oito for¬ talezas ao todo, sem a de Bardez que defende a fonte (l). Estas fortalezas cercam a ilha e há nelas paróquias e (1) Passou esta fortaleza ou palácio a ser a residência efectiva dos Vice-Reis e Governadores há um século; mas apesar de estarem os aposentos muito melhorados e acrescentados, nào nos parece que mereçam ainda hoje o nome de palácio belo e cômodo, que o autor lhe dá. — N. do T. (*) Esta exclusáo da fortaleza da Aguada do número total das oito, está em manifesta contradiçào com a inclusão da mesma fortaleza nesse número, que o autor acaba de fazer; e também cm contradiçào com os factos, segundo se vai ver pela própria narrativa do autor. Há pois, aqui, lapso, ou seja da escrita original ou seja da imprensa. — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 31 igrejas. Após da do vice-rei segue-se a da Madre de Deus ou de Daugim, onde está a paróquia de S. José e um convento de Capuchos do mesmo nome do forte, com mui belo jardim, onde os vice-reis vão muitas vezes folgar. As outras são: 5. Braz; Santiago, que está a mais de légua e meia da Madre de Deus e entre uma e outra corre um muro, porque no verão é ali o rio muito baixo e com o muro se impede a passagem da terra firme. Adiante desta está a fortaleza de São João Baptista e depois a de Nossa Senhora de Guadalupe. Em tôdas se guarda a mesma regra e polícia, e há prisões para meter os suspeitos, dan¬ do-se todavia aviso ao capitão da cidade. Se algum es¬ cravo que intenta fugir é apanhado, metem-no numa destas prisões e aí fica até ser procurado por seu senhor, que é obrigado a pagar a guarda e despesas. Êste estilo é usado em tôdas as outras terras de portugueses; e há sempre em cada fortaleza um capitão, um escrivão e soldados de guarda, com um sino para sinais. Todos os que saem da ilha para a terra firme a tratar os seus negócios, ou para provimento de víveres e outras coisas necessárias, se são índios e canarins de Goa, quer sejam homens, mulheres ou crianças, é mister que vão a casa do capitão da cidade para receber o seu sêlo ou sinal, o que se faz imprimindo-se-lhe na parte superior dos braços, que trazem nus, o sinete molhado em tinta, e na passagem os que estão à porta, depois de verem o sinal, apagam-no e deixam-nos passar; e em cada um dêstes dois lugares se paga um bazaruco. Quando recolhem tomam o mesmo sinal do capitão da fortaleza; e por êste meio sabem o número de pessoas que entram e saem, porque em tôdas as passagens há escrivães que fazem disso assento. E dêste meio se servem também para descobrir se os que saem são acusados de roubos ou mortes, ou são fugidos das prisões, ou têm cometido algum outro crime. A entrada a ninguém é vedada, isto é, sendo pessoa natural da terra firme; mas se fôr estrangeiro, será prêso. Aos portugueses não é de forma alguma permitido passar à terra firme, salvo tendo sua família em Goa, de mêdo .que não vão servir os reis da índia. É coisa admirável ver a grande multidão que pelos caminhos vai e vem como em procissão. Só os cristãos podem trazer armas. Tôdas as fortalezas são bem guar¬ necidas de artilharia. De noite não se deixam ficar batéis
  • 32 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD da outra banda do rio, mas são todos trazidos para junto das fortalezas. Nenhum infiel, ou seja habitante da terra portuguesa ou outro, traz armas, salvo os que pertencem à comitiva dos embaixadores. Tôdas estas passagens são de grande rendimento, assim pelas mercadorias, como pela quantidade de gente que por elas passa. Os batéis das passagens pagam tributo aos portugueses. Há ainda outras passagens em outras ilhas habitadas de cristãos e infiéis; e por tôdas as ditas fortalezas e passagens há grande quantidade de habitações, conventos, ermidas e capelas. Em tôda esta ilha de Goa, como nas terras circun¬ vizinhas, e mesmo por tôda a índia, chove continuamente durante seis meses, que é o inverno; mas mais abundante¬ mente em Goa que em outras partes; e por isso, todo êste tempo está a cidade enlameada e imunda e os vestidos se sujam muito, mormente os dos mouros e gentios, que são de algodão branco e lhes descem até aos artelhos. Estão postos na necessidade de fazer ali a festa do Corpo de Deus em Fevereiro ou Março, porque na estação em que nós a celebramos chove muito. Dentro da ilha mui próxima da cidade há um mui belo depósito de águas, a que chamam Lagoa e tem mais de uma légua de circuito e é natural; e nas margens desta lagoa há mui belas casas dos fidalgos principais, que as fabricaram para seu recreio com muitos jardins, árvores frutíferas e coqueiros. A terra é boa para os frutos, mas nos lugares úmidos somente. No que respeita aos povos que habitam esta ilha de Goa, são êles de duas sortes; ou naturais ou estrangeiros. Os naturais são brâmanes, canarins e culumbins, todos gentios (l). Os brâmanes por tôda a parte são sempre os mestres e superiores entre os idólatras. Os canarins são de duas sortes: os que se aplicam ao comércio e a mis¬ teres honrados, são tidos em maior estimação que os outros que se dão à pesca ou a serviços mecânicos, como os que remam, os que tiram o suco das palmeiras, a aue chamam sura, ou se ocupam em outras coisas baixas. Há (!) A palavra Canarim está tomada hoje como termo ofensivo, mas sem razão, porque nada mais significa do que natural do Canará; e o território de Goa era antes da conquista portuguesa incluido no Canará. Donde vem que nos primeiros tempos chamávamos Canarins indistinta¬ mente a gentios e a cristãos, como ainda faz o autor; pósto que agora quási exclusivamente se aplica esse nome aos cristãos naturais. — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 33 ainda outros mais inferiores a todos êstes, ocupando-se nos trabalhos mais vis, os quais vivem mui pobremente, sem asseio e como selvagens. Quanto aos estrangeiros há os actuais senhores da ilha, que são os portugueses, os quais deixam morar nela aos antigos habitantes em tôda segurança e franqueza e, segundo a lei, não os podem fazer escravos como aos outros povos, porque alcançaram êste privilégio de el-rei. Os outros estrangeiros são índios que ali moram com permissão dos portugueses e aquêles que não são cristãos pagam tributo por suas pessoas. Cristãos-velhos além dos portugueses há mui Ítoucos castelhanos, mas muitos venesianos e outros ita- ianos, que aí são mui bem aceitos; há também alemães e flamengos, grande número de arménios e alguns ingleses, mas nada de franceses, salvo aquêle Padre Jesuíta, de que já falei; e um loreno e outro valào, que aí vi. Dos povos da índia não cristãos, que são aí em grande número, há banianes de Cambaia e Surrate e brâmanes. Ouvi muitas vezes dizer aos brâmanes de Calecute que a ilha de Goa era dêles, de sorte que por isso são grandes inimigos dos portugueses; e assim os que de entre êles têm honra e brio não querem estar onde governam os portugueses, que os maltratam e desprezam muito; e por esta razão a maior parte foram morar em Calecute, onde estão em maior segurança e liberdade. Mouros ou maometanos há-os ali de todos os lugares da índia e até da Pérsia. Há também muitos chineses e japões. Mas no que toca aos portugueses há entre êles grande diferença de honra; porque os mais estimados são os que vieram de Portugal e lhes chamam portugueses de Portu¬ gal (l); depois vem os que nasceram na índia de pai e mãe portugueses e lhes chamam castiços; os inferiores são os que procedem de pai português e mãe índia ou pelo con¬ trário e lhes chamam mestiços. Mas os que descendem de português e cafre ou negro de África, chamam-lhes mulatos e são havidos por iguais aos mestiços. Estes mestiços têm maior estimação quando o pai ou a mãe é da casta dos brâmanes. No Brasil os que procedem de duas raças diferentes são chamados mamelucos. (l) Portugueses reinóis é a frase adoptada. — N. do T. II rol.
  • 34 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD De escravos há em Goa um número infinito e de tôdas as nações da índia, e fazem dêles grande tráfico. Mandam-nos a Portugal, e a tôdas as partes onde domi¬ nam. Roubam as crianças e escondem-nas, assim gran¬ des como pequenas, cada vez que podem, ainda que sejam de nações amigas e com que estejam de paz, sem embargo de ser defenso fazer tais escravos; mas não deixam por isso de os apanhar às escondidas e vendê-los. CAPÍTULO III DA CIDADE DE GOA, SUAS PRAÇAS, IGREJAS, PALACIOS E OUTROS EDIFÍCIOS TENDO falado da ilha de Goa, passemos agora à cidade, da qual primeiramente direi que não é mui fortificada e quem fôsse senhor da ilha o seria também da ci¬ dade, que não tem fortaleza de substância, mas só é forte pelo número de homens. Porque, conquanto seja cercada de muros, todos são fracos, e à semelhança dos que cá usamos para tapar os jardins. Só é forte da banda do rio. Os antigos muros da cidade eram mais altos e fortes, e tinham boas portas, que já não existem, porque a cidade, tendo crescido mais de duas têrças partes, todo o antigo recinto é agora inútil. Os portugueses não se empenham em a guardar da banda da terra, que diz para o interior da ilha, por razão das passagens bem guardadas em que êles se fiam. A cidade é pois edificada à borda do rio que lhe de¬ mora ao norte; tem de extensão meia légua, com muitas portas, cada uma guardada por um porteiro, que são ho¬ mens cansados, a quem se dá êste cargo em recompensa durante a sua vida. Entre a cidade e a borda do rio há três grandes praças ao longo da água, separadas entre si e fechadas com bons muros, que se continuam com os da cidade e entram muito pelo rio dentro, de sorte que se não pode entrar nelas nem sair senão pelas portas (onde os porteiros apalpam tôda a gente) ou por água, em batéis. A primeira destas praças, que se encontra quando se chega à cidade vindo do mar da banda do ocidente, é a maior e mais rica e lhe chamam a Ribeira Grande (porque êles
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 35 chamam a estas praças ribeiras (l) e dela se entra na cidade por duas portas. É mui bem ordenada e tem alguns terraplenos e tranqueiras com artilharia para defen¬ der o rio. Quem ali governa é o Veador ou Vedor da Fazenda, que tem nela belos e fortes aposentos, nos quais há uma porta do lado da cidade e outra do lado do rio; e só êle tem êste privilégio; e tôdas estas portas ficam fechadas de noite, não por temor do inimigo, mas dos ladrões da cidade. Êste veador é o intendente de todos os negócios da fazenda e de tudo quanto em Goa se faz assim no que toca à guerra e armadas, como a todos os outros negócios, porque é êle a segunda pessoa abaixo do vice-rei. De¬ fronte dos aposentos do veador na mesma praça há uma bela igreja da invocação das Cinco Chagas, bem e rica¬ mente ornada, e nela há dois padres somente. No adro desta igreja há um espaço bem fechado com grades, onde todos os dias o dito veador e mais oficiais de el-rei estão sentados ao redor de uma mesa para despacho de todos os negócios que ocorrem. Porque todos êsses oficiais e principalmente os que têm a cargo os negócios do aperce¬ bimento das armadas, moram ali; e todos os aposentos e edifícios pertencem ao rei e os oficiais moram ali enquanto servem seus cargos. É nesta ribeira ou praça que se bate a moeda, que se funde a artilharia e outras ferragens próprias para os navios das armadas e dos mercadores. E maravilhoso o número de artífices que ali trabalham em tôda a sorte de obras, sem guardar festas nem domingos, dizendo que é (*) Ribeira significa propriamente a margem ou borda dos rios, e ás vezes a do mar. E como nestes sítios se deixam por comodidade gerai certos largos e praças para mercados por abreviatura se chama a essas praças e aos mercados, que nelas há, simplesmente Ribeiras, como por exemplo em Lisboa a Ribeira velha, a Ribeira nova, etc. Por semelhante motivo se aplica ainda o nome de Ribeira a estabelecimentos e oficinas, que por sua natureza devem estar ã borda dos rios ou do mar; assim se diz a Ribeira das naus, o cais da Ribeira, etc, etc Em Goa havia, como mui bem notou o autor, a Ribeira grande ou das naus e a Ribeira das galés. Quando, porém, se nomeava simplesmente a Ribeira, entendia-se a grande ou das naus, a qual, além de conter o arsenal da marinha, com preendia outras oficinas do Estado, e neste sentido dizem os documentos que em tais e tais casos se perderiam os navios para a Ribeira de Sua Majestade; que se pagaria tal multa ou pena de dinheiro para as despesas da Ribeira, que a moeda se lavrava na Ribeira; que na Ribeira se fundia a artilharia, etc., estilo com que o autor estava perfeitamente familiarizado. — N do T
  • 36 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD para serviço de el-rei e cada uma destas oficinas tem um mestre principal a que sôbre o nome do ofício acrescentam a designação de mor, o qual é português e tem só por obri¬ gação mandar aos oficiais da sua arte, como carpinteiros, ferreiros, patrões, calafates, bombardeiros, fundidores e outros, que são índios pela maior parte. Recebem pagamento aos domingos pela manhã e nesse dia trabalham só de tarde. É a mais bela coisa do mundo ver o grande número de navios que aí há, assim no pôrto, como varados em terra. É também ali que se agasalham os elefantes, quando os há em Goa, mas quando eu ali estive não os havia. E é de notar que todos os oficiais mores têm seus lugares deputados para recolher e arrecadar as obras e utensílios próprios de seu ofício; e há outros lugares para os artífices e trabalhadores. Todos êstes aposentos são de abóbada de pedra e bem fabricados por causa dos fogos. O Veador da sua varanda vê de um cabo ao outro tudo o que se faz, assim nesta praça, como no rio e cada noite há pés de castelo que fazem guarda e as sentinelas bradam e respondem umas às outras, tudo isto pelo receio que têm de que se lance fogo aos navios, que são muitos, assim de Portugal como da índia. Êstes homens que fazem guarda são índios ou cristãos e são chamados Naiques. São numerosos e revezam-se todos os dias; e servem para cumprir os mandados do veador, levar os seus recados e outros serviços, como entre nós os sergens ou bedeaux. Todos os artífices são contados duas vezes ao dia e há um contador que lhes faz pagamento e um apontador que os vigia e aponta, de maneira que se lhes desconta todo o tempo que não trabalham. Mas há nisto muitos abusos, pois se o contador e o apontador querem, dão na conta quantos lhes apraz. O pagamento faz-se-lhes em público, salvo sendo soma grossa, que se paga à parte.. É neste mesmo lugar que está a prisão denominada a Sala, onde eu estive e a ela envia o veador tôda a qualidade de pessoas que são da sua obediência. Êste veador tem dois meirinhos e um escrivão. Todos êstes oficiais se concertam mui bem para roubar a gente. Tem o veador uma pequena galeota, das que se chamam man- chuas, mui bem coberta e que el-rei lhe paga para ir e vir aos navios ou a outra qualquer parte por mar e há nela somente oito ou nove homens para a navegar.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 37 O vice-rei tem também uma, e todos os oficiais; o arce¬ bispo mesmo e muitos outros particulares as têm. São mui cómodas, em forma de carroça, só com a diferença de não serem tapadas dos lados. Mas tornando ao veador, não há em Goa ninguém, abaixo do vice-rei, que possa fazer maior bôlsa e roubar tanto como êle. Porque tudo quanto sobeja nos navios que vêm de Portugal e de tôdas as demais partes, assim em mantimentos, como utensílios e outras coisas, tudo isto lhe fica na mão e usa dêle como muito bem lhe apraz, porque 3uando novamente se hão-de prover as armadas, é mister ar-lhes novos mantimentos, munições e utensílios, no que êle pode roubar ainda mais, pois por um sôldo de despesa se põem dois. E o vice-rei e êle se consertam muito bem, porque pouco importa que o vice-rei ordene paga¬ mentos ou mercês por escrito; o veador nada paga se não vê um certo sinal na assinatura, ou sem que o vice-rei lho mande dizer de bôca; e o mesmo faz o tesoureiro. E note-se que, para os pagamentos, é mister que muitos in¬ tervenham, mas para as despesas e suprimentos das arma¬ das, e para tomar conta do que delas sobeja, só toca ao vedor da fazenda. Às duas portas desta praça ou ribeira, os porteiros e guardas, sempre vigilantes, não deixam sair ou entrar pessoa alguma sem a apalparem para ver se leva alguma coisa roubada; e não se fazem ali embarques de coisa al¬ guma, salvo se pertence a el-rei ou aos ditos oficiais. E’ esta praça muito comprida e larga, mas quatro vezes mais comprida que larga, e a largura é de perto de duzen¬ tos passos. Tôda ela está recheada de grandes riquezas pertencentes a el-rei. Dali, caminhando para oriente, vai sair-se perto do Hospital Real da cidade, e entra-se em outra grande praça também fechada, que está entre o dito hospital e a ribeira, e serve somente para desembarcação dos pescadores e para embarcação e desembarcação de tôda a mais quali¬ dade de gente. Chama-se êste sitio o Cais de Santa Ca¬ tarina, e também.Bazar do peixe, porque ali se desem¬ barca e vende. Êste cais é mui cómodo quando chega a armada de Portugal, porque logo que os doentes têm saído em terra, acham-se junto da porta do hospital, cujas pare¬ des fecham a cidade desta banda. Tôdas e quaisquer mercadorias se podem também ali desembarcar, queren-
  • 38 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD do-se, porque as da dita armada não pagam direito algum em Goa. E êste largo como o meio de tôda a cidade; e há também nêle tranqueiras e portas, que se fecham quando se quere. Tôda a borda do rio ao longo da cidade é cheia de lôdo e vasa. Mas quando chegam os navios de Portugal é mara¬ vilha ver o concurso de gente de tôda a sorte, que se apinha neste cais, assim escravos, como outros, cristãos, canarins, cafres e outros «entios, carregadores e mariolas, que lá chamam Boye ('), e servem para levar qualquer fardo pesado que é mister; porque não usam de carrêtas, mas carregam tudo às costas com bambus, que são canas da grossura de uma perna; e é a madeira mais rija e custosa de partir que nunca jamais vi. Para conduzir um barril de vinho de Portugal são quatro dêstes homens com dois bambus, e cada um carrega ao ombro uma ponta do bambu; e assim fazem para outra qualquer coisa. Mas para levar pedra, madeira ou outros.materiais para edifí¬ cios, servem-se de búfalos e bois. Êstes Boyes, quando vão carregados, vão sempre cantando certas canções por preguntas e respostas, e caminham sempre a correr. To¬ das as ruas estão cheias dêstes homens, prontos para todo o serviço, ou seja para levar sombreiros e palanquins, ou outra qualquer coisa que se queira, e acham-se em certas encruzilhadas. Esta praça é, pois, para tôda a gente sem diferença. (*) Escreve aqui Pyrard uma observação quási impossível de verter inteligivelmente em português, e fundada numa equivocação sua. Diz ele .. cafres et autres gentils, qui sont comme crocheteurs et portefaix, qu’ils appellent BOYE, c' est á dlre BOEUF, pour porter quetque pesant faix que ce soit: confundindo assim a palavra Boy, con- cani, com a palavra Boi ou Boy, portuguesa Esta significa, como êle bem diz, na sua língua francesa, Bceuf; mas aquela de origem vernácula da Ín¬ dia, significa simplesmente portador e carregador de palanquim, maxila, sombreiro e coisas semelhantes, e não tem analogia, nem relação alguma de derivação com a palavra Boy portuguesa. A palavra concani declina se assim: Singular 1 Plural Nominativo Boy Nominativo Boy Caso obliquo Boyá Caso obliquo Boyã Os portugueses diziam antigamente com os naturais Boy, tomando o nominativo; mas hoje tem prevalecido entre éles o caso obliquo, e de¬ clinando o a seu modo dizem em todos os casos do singular, Boyá, e em todos os casos do plural, Boyás. — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 39 Mas a outra ribeira ou praça, que se lhe segue, é mui bem fechada tôda ao redor, até muito avante pela água dentro e se chama a Ribeira das galés, porque é o lugar onde estão as galés de Goa, que são do feitio das de Espanha e Itália, mas não há ali mais de três ou quatro. Esta praça é bem construída e provida de tudo quanto é necessário assim para os mestres, oficiais e armamento das ditas galés, como para os forçados, que todos ali estão, excepto alguns que há na prisão da Sala para serviço dela, os quais não saem ao mar senão em caso de grande neces¬ sidade. As portas são guardadas por porteiros e ninguém ali entra sem ter lá negócio. O lugar é mui belo e espa¬ çoso e o vice-rei desce para ela por uma pequena porta do seu palácio, para dali embarcar sem ninguém o ver. A porta desta ribeira é próxima da grande porta da cidade, a qual está logo abaixo do palácio do vice-rei. Tôdas as mercadorias que se embarcam nas naus e navios que vão para Portugal, ali se hão-de embarcar e o vedor da fazenda tem ali uma pequena casa à borda de água, e vai e vem aos ditos navios para ver, tomar conta e registar tudo quanto se embarca. Pagam-se três por cento pelas fazendas que saem de Goa, mas concertando-se com êle, dá-se uma ninharia. Todos os cais são bem construídos e a maior parte tem degraus de pedra. Dali, entrando na cidade, à mão esquerda, estão os armazéns de guerra e bôca, em grandes alojamentos bem edificados e fechados. A porta da cidade dêste lado é a mais bela e magnífica, contígua ao palácio do vice-rei, e na fachada tem pintadas tôdas as guerras dos portu¬ gueses na índia, e no alto da banda de fora há uma bela imagem em vulto de Santa Catarina, tôda dourada (*), pois esta Santa é a padroeira de Goa, porque no dia da sua festa é que os portugueses ficaram senhores desta ilha. Afora estas praças há outras sôbre o rio, que não são fechadas nem guardadas como as precedentes. A pri¬ meira que se segue, entre o rio e o palácio do vice-rei, chama-se Cais da fortaleza do vice-rei. Tem pouco mais ou menos setecentos passos de comprido e duzentos de largo, mui direita, plana e revestida do lado do rio de um (*) A porta era nesse tempo de recente construção, e ainda hoje dura, sendo vulgarmente conhecida pelo nome de Arco dos Vice-Reis. A imagem da Santa é de bronze. — N. do T.
  • 40 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD bom muro com degraus de pedra. É limitada de um lado pelas paredes do palácio do Vice-Rei e muros da cidade, e dos outros pelos das outras praças. Esta praça ou cais, a que chamam Terreiro, serve geralmente para o acesso de todos os navios de mercadores indianos, os quais vêm aportar ali, assim por causa da fortaleza do vice-rei, que está logo defronte, como porque o vice-rei pode ver da sua janela ou varanda tudo o que ali chega e se faz; e está sempre cheia de embarcações e de povo infinito. Há ali um mui belo edifício, do feitio da Praça Real de Paris, pôsto que em mais nada se parece com ela e lhe chamam a Alfândega, onde se depositam e vendem tôda a sorte de grãos por grosso; e não se podem vender nem levar a outra parte, e ali se pagam os direitos. Há também ai outro grande edifício, a que chamam Bangaçal, para onde se descarregam as mercadorias que não são coisas de comer. Pagam ali os direitos e depois podem ser le¬ vadas para casa de cada um. Há ainda outra casa, a que chamam o Pêso, porque nela estão os pesos. E adiante desta há aposentos para os oficiais e rendeiros. Logo que os navios descarregam, passam mais ao largo e saem de diante da fortaleza do vice-rei para dar lugar a que os outros cheguem. No fim dêste cais há uma praça mui grande arredon¬ dada, onde se faz o maior de todos os mercados de Goa no que toca a comestíveis; e lhe chamam o Bazar grande. Todos os dias ali há mercado, porque nunca fazem pro¬ vimento de um dia para o outro e mesmo se vão aviar duas vezes por dia, para o jantar e ceia, sem excepçâo dos domingos e festas, em que não deixa de haver venda de comestíveis. Há muitas outras praças e mercados ou bazares, mas não como êste, ao pé do qual está um belo arrabalde, e nêle a igreja dos Domínicos, mui bem cons¬ truída e ornada, e há também na cidade muitas outras igrejas e paróquias pela maior parte dedicadas a Nossa Senhora. Quanto à fortaleza ou palácio do vice-rei, é mui sumptuosamente fabricado, e defronte dêle há uma grande praça do lado da cidade, a que chamam Terreiro do paço, no qual os fidalgos e os cortesães se juntam, uns a pé e outros em palanquim; porque o vice-rei nunca sai sem que no dia antecedente mande tocar os tambores pela cidade, e com isso avisar tôda a nobreza para vir no ou-
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 41 tro dia pela manhã cedo àquêle lugar a cavalo, e ali espe¬ ram até que o vice-rei saia, todos o melhor paramentados e ordenados que podem. Defronte da porta do palácio do vice-rei há um grande edifício onde se congrega o Parla¬ mento, que êles chamam Câmara Presidiai, e ao primeiro presidente Desembargador Maior (l). É a principal jus¬ tiça das índias para. os portugueses, e as outras justiças são-lhe sujeitas. Êste palácio do vice-rei não é assaz forte para aguentar artilharia da banda da cidade, mas tem bons e cómodos aposentos, e à entrada, à mão direita, acha-se a prisão que chamam Tronco, que faz corpo com o dito palácio, e à esquerda estão os armazéns reais. Êste palácio está provido de tudo quanto é necessário: igrejas, relógios, água, e até o tesouro de el-rei aí está, em parte, porque a outra parte está no convento dos Franciscanos. Tem dois grandes pátios mui belos, e de um se passa ao outro. No primeiro pátio à mão esquerda há uma grande escadaria de pedra, mui larga, e que conduz a uma sala mui espaçosa, na qual estão pintadas tôdas as armadas e navios que têm passado à índia, com seu número, data, nome do capitão, e até os navios que têm padecido nau¬ frágio ali estão retratados. É coisa espantosa ver tantos navios perdidos. Em suma, não há navio vindo de Portu¬ gal, por mais pequeno que seja, que ali não esteja retra¬ tado, e não tenha seu nome escrito. Mais dentro há outra sala maior, que é a verdadeira sala do vice-rei e de tôda a nobreza, e onde se congrega o conselho. Ali estão pin¬ tados ao natural todos os vice-reis que têm vindo à índia, e não entra nela tôda a gente, porque tem guardas. Êste palácio está num alto, e é mui forte da banda do rio, com paredes mui altas, e é a coisa mais vistosa de tôda a cidade. As estrebarias não são no recinto do palácio, mas místicas com êle à mão direita de quem entra. Tem o dito palácio uma saída da parte do rio, mas esta porta não se abre se¬ não quando o vice-rei quere embarcar. A guarda do dito vice-rei é uma companhia de cem homens, todos vestidos de azul, que é a sua libré ordinária, e estão sempre junto (1) Em ambos estes nomes se equivocou Pyrard. O Parlamento e a Relação, e não Câmara Presidiai, nome que não sabemos onde o autor o foi buscar; e o presidente nunca se chamou Desembargador Maior, mas Chanceler. - N. do T.
  • 42 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD de sua pessoa, isto é, à porta do palácio ou aposento onde êle está, e quando caminha os tambores e pífanos tocam. Êstes archeiros trazem alabardas, e são todos portugueses, mas não são em tanta reputação de honra como os que andam nas armadas, e que são voluntários. Além dêstes há porteiros às portas da fortaleza. Saindo dêste palácio para o interior da cidade entra-se na mais formosa rua de Goa, a que chamam Rua direita, 3ue tem mais de mil e quinhentos passos de comprido, e e cada lado é povoada de grande número de ricos lapidá- rios, ourives, banqueiros, e dos mais ricos e melhores mer¬ cadores e artífices de Goa, todos portugueses, italianos ou alemães, e outros ocidentais. Esta rua acaba numa igreja das mais belas e ricas e bem ordenadas da cidade, a qual é tôda dourada por dentro. É a igreja da Santa Misericórdia, dedicada a Nossa Senhora da Serra. Sôbre o portal desta igreja no lugar mais eminente está a figura em vulto de pedra dourada de Afonso de Albuquerque, que tomou a ilha de Goa (l). Junto desta igreja há um Recolhimento para donzelas órfãs nobres, as quais ficam ali até casarem. Os portugueses casados quando vão a viagens também ali deixam as mulheres até voltarem. Também ali há mulheres viúvas, que se querem retirar do mundo; e até ali podem entrar as mulheres arrepen¬ didas (®); e guarda-se ali clausura. Esta grande Rua (!) No tempo de Pyrard a Igreja da Serru servia prcmiscuamente de Capela e Misericórdia; mas depois esta Casa fabricou outra Igreja para seu uso particular, mais sumptuosa e contígua à da Serra Da igreja da Misericórdia existem ainda hoje magníficas ruínas. A da Serra está em pé e serve de cemitério à quási deserta freguesia da Sé. O estilo de arqui- tectura desta Igreja da Serra indica que t la fóra reformada em época poste¬ rior à visita de Pyrard. Conservou, porém, sôbre o frontispicio a estátua de Afonso de Albuquerque até aos nossos dias, em que foi transferida para Pangim, e está num pavilháo, na praça contigua ao quartel de Artilharia. Começou-se éste monumento no tempo do Governador Conde das Antas e concluiu-se no do Governador José Ferreira Pestana. Do Recolhimento da Serra existem ruínas. — N. do T. (*) As mulheres arrependidas entravam no Recolhimento de Santa Maria Madalena Mas como éste Recolhimento era contíguo ao da Serra, das Donzelas, e igualmente administrado pela Misericórdia, foi fácil ao autor confundir ambos os Recolhimentos. O da Madalena tinha também sua Igreia separada; mas talvez a náo tivesse ainda no tempo do autor. Assim ao Recolhimento, como da Igreja, existem hoje ruínas, — N do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 43 direita é também chamada dos leilões, porque se fazem ali, de sorte que todos os dias, excepto nos domingos e festas, desde as seis horas da manhã até meio-dia, está tão cheia de gente que mais não pode ser. A meio caminho do comprimento desta rua está um dos maiores e mais antigos edifícios da cidade, a que chamam Casa da Santa Inquisição, na qual residem todos os oficiais da dita Inqui¬ sição, e se guarda a mesma ordem que na de Portugal, com a diferença que aqui a justiça é ainda mais severa para com os ricos. Na frente desta casa há uma grande praça ou mercado e da outra banda está a casa da gover¬ nança da cidade, mui bem construída, a que chamam a Câmara da Cidade. O palácio da Inquisição é um edifí¬ cio mui amplo, com uma sala mui bela e grande, com frandes escadarias mui compridas e fabricadas de mui oa pedra; e não há casa de rei que tenha uma sala tão bela. Ali perto está a igreja grande chamada a Sé, com seu cemitério. É formada por uma grande e soberba traça e que mui dificilmente se levará ao cabo, pois há cinqtienta anos que foi começada. Contígua a esta, está a Casa do Arcebispo. A do bispo é também ali perto, onde há a prisão eclesiástica. Da outra banda do cemi¬ tério da igreja grande está o convento dos Franciscanos, o mais belo e mais rico do mundo, em cujo claustro está pintada tôda a vida de S. Francisco, em ouro, azul e outras côres. A igreja dêste convento é mui frequentada e está em sítio muito elevado e o grande largo que lhe é adjacente é todo calçado de pedras largas, e sobe-se a êle por grandes degraus. No fim do mesmo largo há uma grande cruz de pedra, mui alta e bem obrada; e dali se desce a uma rua que vai desembocar no Hospital Real, encontrando-se no caminho a capela de Santa Catarina, no lugar por onde foi entrada a cidade, porque aí havia uma porta e um baluarte. Esta capela de Santa Catarina nunca se abre senão no dia da sua festa e sôbre a porta está gravado em letras de ouro o dia e ano em que a cidade foi tomada, e uma das belas cerimónias e soleni¬ dades de Goa é a procissão geral que nesse dia se faz, na qual vai todo o clero e outra gente da cidade em mui boa ordem e magnificência, e levam grande cópia de figuras e mistérios entremeados de músicas, folias e outras coisas ridículas, como entre nós se faria em cavalhadas e
  • 44 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD danças públicas; mas ali é uso em tôdas as suas procissões gerais (1). Subindo dali vai-se direito a uma praça chamada Bazar pequeno, no meio da qual há um lugar elevado da altura de seis pés pouco mais ou menos, todo revestido de muro e chamam aqui o Terreiro dos galos, por respeito das aves e outros comestíveis que aí se vendem (2). Dali caminhando-se para o meio da cidade, topa-se com a igreja do Bom Jesus, dos Jesuítas. Logo depois entra-se na rua dos chapeleiros, mui linda, grande e comprida, que vai dar a uma praça chamada do Pelourinho velho, onde também há mercado e outro sítio elevado e revestido de pedra; e ali próximo está a justiça ordinária de Goa num grande edifício e noutro a polícia, com um belo açougue. A esta praça vão dar seis ou sete ruas. Há também a igreja de S. Tome', grande paróquia e partindo dali e saindo da cidade chega-se a um grande largo chamado Campo de S. Lázaro ou de Santiago, por¬ que faz caminho para a aldeia e forte de Santiago e neste mesmo campo está o Hospital de S. Lázaro, onde se re¬ colhem os leprosos e é edifício belo e bem ordenado. Na igreja dêste hospital há uma capela mui linda dedicada a S. Luís, Rei de França. Havia ali alguns doentes, e a cidade (*) A Capela de Santa Catarina foi fundada pelo governador Jorge Cabral em 1550, e era sem dúvida a mesma que existia no tempo de Py- rard. A que hoje existe no mesmo sítio é de construção mais moderna Lá está, porém, ainda a lápide, a que Pyrard alude, a qual na primitiva capela estava sôbre a porta e na actual está posta ao lado da porta lateral, e diz assim : Aqui neste lugar estava a porta por que entrou o Governador Affonso d'Alboquerque e tomou esta cidade aos Mouros em dia de Santa Catarina anno de 1510 em cujo louvor e memória o Governador Jorge Cabral mandou fazer esta casa anno de 1550 ú custa de S. A. A festa ainda hoje se soleniza, não na forma que se fazia no tempo de Pvrard, mas modificada segundo o estilo moderno. A procissão agora sai da Sé e a ela recolhe, e na Sé se celebra a festa com assistência do Governador, nobreza, clero, corporações e empregados do Estado — Veja se a Nota de pág. 16 dêste tomo — N. do T. (2) Náo nos parece que o nome de Terreiro dos galos venha da origem que o autor indica, mas sim de ser aquéle sitio o em que mais ordinariamente se jogavam os galos, divertimento público muito em voga naqueles tempos Foi proibido por Alvará do Vice Rei Matias de Albu¬ querque de 18 de Maio de 1594 (Arquivo Português Oriental, Fascí¬ culo 3°, Documento n.° 157) mas é de crer que, sem embargo da proi biçáo prevalecesse o uso ainda por largo tempo. — N do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 45 o fundou e o sustenta. Do outro lado e defronte dêle há uma lagoa mui bela, onde há muitas aves aquáticas. Neste campo todos os cavaleiros e fidalgos fazem suas cavalhadas com canas e laranjas, nos dias de S. João e S. Tiago, padroeiros dos portugueses e espanhóis; e ali também os moradores fazem seus alardos. Em outro lugar fora da cidade há uma praça cercada de muros, chamado o Matadouro, onde se matam as rezes; e dessa mesma banda está o lugar das execuções da jus¬ tiça, onde há uma fôrca de quatro pilares e é na distância de um quarto de légua da cidade, onde se vão fazer as execuções. Por razão dos calores são constrangidos a matar as rezes fora da cidade e a enterrar aí a sujidade e o sangue destes animais. Perto do Convento de S. Domin¬ gos há um grande largo ou campo, que só serve para picaria de cavalos. Mas seria coisa infinita dizer por miúdo todos os nomes das ruas, praças, igrejas, conventos, palácios e outras singularidades de Goa, e em geral se pode dizer que tudo ali está bem ordenado. Os banianes e canarins têm suas ruas apartadas e semelhantemente tôda a sorte de mercadores e misteres; como os ourives que têm a sua rua, os lapidários a sua e assim os outros, de maneira que é grande comodidade, quando se há mister de qual¬ quer coisa, saber-se logo a rua onde se encontra. E o que me faz dilatar tanto nas particularidades desta cidade, é que, quem a vê bem, fica sabendo todo o estado dos por¬ tugueses nas índias Orientais. O número das igrejas que nela há é maravilhoso e não há praça, rua ou bêco, onde não haja alguma; e entre outras, apontarei a de Santo Agostinho, cuja obra continua todos os dias, porque o arcebispo é desta Ordem. Está situada no mais alto lugar de tôda a cidade sôbre um monte e na sua vizinhança estão as igrejas de Santo An¬ tónio e S. Roque dos Jesuítas e em outro lugar o Mosteiro das Religiosas de Santa Mónica, a igreja de Nossa Se¬ nhora do Rosário, e o convento de 5. Tomás e outras, de sorte que na cidade, arrabaldes e por tôda a ilha, andam pròximamente por cinquenta entre igrejas e conventos. Entre estas igrejas há quatro dos Jesuítas. A pri¬ meira e principal é da invocação da Conversão de S. Paulo e êste colégio é o principal de tôda a índia Oriental e nêle vi até ao número de dois mil meninos estudantes e mais,
  • 46 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD assim portugueses como índios. Os Jesuítas nada levam aos estudantes pelo ensino. Contígua a êste Colégio há ainda uma mui bela casa dêstes mesmos Padres, chamada o Seminário e têm estudantes pensionistas. A segunda igreja ou colégio, que têm os Jesuítas, está no meio da cidade e é tão belo ou mais que o precedente, cuja igreja tem a invocação do S. Nome de Jesus, é custo¬ samente fabricada, tôda dourada por dentro e ainda não está perfeita, mas trabalha-se em a acabar todos os dias. Vi ali uma cruz tôda de ouro maciço, que os Padres da Companhia de Jesus haviam mandado fazer para dar de presente ao Papa, a qual tinha de comprimento três pés, de largo quatro dedos e de grosso dois dedos, enriquecida com tôda a qualidade de pedras preciosas, bem lavrada, e pesava cem mil escudos ou mais, e foi enviada a Sua Santidade no navio em que eu vim embarcado na torna- -viagem. Esta segunda casa é somente deputada ao serviço do público, a saber: confessar e administrar os sacramentos e para receber no grémio da igreja os infiéis e baptizá-los. E nela que reside o Pai dos Cristãos, que é obrigado a ir todos os dias às prisões a visitar os cristãos e outros que quiserem converter-se à fé católica, solicitar seu livramento e assistir-lhes com esmolas, como para comigo fêz muitas vezes. Há outra casa dos mesmos padres junto desta segunda igreja, que se chama dos Ca- tecúmenos, para catequizar e ensinar os novos cristãos, e nela são sustentados e vestidos até serem instruídos e baptizados, dos quais e de tôda a casa tem cargo o Pai dos cristãos. Num dia da festa da Conversão de S. Paulo, vi sair deste lugar quási mil e quinhentas pessoas naturais da terra, assim homens, como mulheres e crianças, vestidos ao modo dos cristãos, em procissão pelas ruas da cidade, em duas alas, levando cada um seu ramo na mão para se diferençarem dos outros e em sinal de não serem ainda baptizados, e dali foram à precedente igreja e colégio de S. Paulo, onde todos foram baptizados. Antes do baptismo, vi um Padre Jesuíta fazer-lhes um bom sermão sôbre a excelência da religião cristã, e lhes disse que a não deviam abraçar por fôrça e que, se algum dêles aí havia que viesse contra sua vontade, se poderia ir embora e sair logo da igreja; ao que todos responderam a uma voz que eram mui contentes e queriam morrer na fé católica.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 47 Depois de baptizados cada um se recolheu a sua casa, e aos que eram pobres aquêle Padre Jesuíta deu esmola de dinheiro e vestido; o que se repete todos os anos com semelhante pompa e solenidade, afora os que se baptizam diàriamente em particular. Vi também muitas vezes bapti- zar grande número de pessoas na igreja dos Franciscanos, no dia seguinte ao da festa de Natal e chegar o número a oitocentas pessoas. No dia da Conversão de S. Paulo faz-se grande festa e solenidade. O vice-rei acompanhado de tôda a nobreza, chegando ao número de duzentos a trezentos fidalgos a cavalo, bem montados e paramentados, vai à dita igreja e depois da festa janta com os Padres Jesuítas; o que nunca mais faz, tirando neste dia. Todos os estudantes dos Jesuítas ricamente adornados de tôda a sorte de vestidos de sêda, vêm esperá-lo formados em ordem de batalha, uns a cavalo, outros a pé e todos armados, e assim marcham na dianteira do vice-rei, fazendo todo o resto do dia ali muitos jogos e folguedos. A terceira casa e igreja têm a invocação de S. Roque e se chama o Noviciado, porque nela estão os noviços portugueses que aspiram a ser Jesuítas, para se experi¬ mentar se poderão permanecer nesta resolução e guardar a regra. Os naturais da terra nunca são admitidos à Companhia, salvo se procedem de portugueses por pai e mãe; mas podem ordenar-se sacerdotes. As outras religiões aceitam mestiços, mas não índios puros. A quarta casa dos Jesuítas é sita a meia légua fora da cidade; é uma bela casa de recreio, onde há mui lindas fontes, e serve para recrear e restabelecer a saúde dos que estiveram enfermos, mas só sendo da sua Ordem (l). Estes Padres Jesuítas são ali mui numerosos e em tôda a parte da índia onde os portugueses têm entrada, e há-os junto de alguns reis infiéis, onde fazem grande fruto na conversão dos índios à religião cristã, e semelhantemente os religiosos dominicos e franciscanos. Os edifícios destas igrejas e palácios, assim públicos como particulares, são mui sumptuosos e magníficos e feitos por canarins, tanto gentios, como principalmente cristãos. As casas são fabricadas com cal e areia. A cal faz-se de conchas de ostras e outros mariscos; a areia é de t1) Deve ser a quinta de Santa Rosália, em Moulá. — N. do T.
  • 48 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD terra e não do rio. Cobrem as casas de telhas, não usam de vidraças, mas em vez delas servem-se de cascas de ostras mui delgadas e lisas, que encaixilham em grades de madei¬ ra, e deixam passar a luz como se fôsse papel ou chavelho, porque não são transparentes como o vidro. Tiram a pedra de cantaria na ilha, mas a de que fazem colunas e outras obras primorosas, mandam-na vir de Baçaim, onde saem mui compridas e rijas; assemelha-se ao granito e é ainda melhor; e não vi nestas terras de cá colunas de pedra de uma só peça tão grandes e compridas como lá vi. Os edifícios são mui amplos, mas com poucos andares e pintam-nos de encarnado e branco, assim por fora como por dentro. As escadas são mui largas, feitas em parte de pedra e em parte de terra vermelha como bôlo arménio, que lhes serve de cimento. Quási todos têm jardins e quintais, mas não grandes, com poços dentro. Quanto aos arrabaldes da cidade, há sete ou oito mui grandes e todos os seus edifícios, e de todo o resto da ilha, são do mesmo feitio que os da cidade. Todavia, as casas das boticas não são tão magníficas e soberbas como as outras. Usam carrêtas puxadas a búfalos ou bois para conduzir materiais para edifícios, e estas carrêtas não são calçadas de ferro. No que toca às calçadas das ruas da cidades, são feitas de belas pedras largas e andam limpas, isto é, as que são em declive, porque as outras são mui lamacentas. Quando chove, vêem-se regueiros por tôda a cidade e a água corre por canais grandes, profundos, côncavos e calçados, de sorte que no inverno isto faz com que a cidade ande mui limpa em alguns sítios, mas os re¬ gueiros das ruas são tão grandes, que algumas vezes é bem trabalhoso passar de um lado da rua ao outro, donde vem que em muitos lugares há pequenas pontes e passa¬ deiras, porque aliás seria impossível atravessar a rua (l). P) De tudo quanto Pyrard nos descreve neste Capítulo resta: A Ribeira Grande ou Arsenal, pôsto que mui mudado nos edifícios e oficinas, e abarcando maior terreno que no tempo de Pyrard. A porta da cidade, vulgarmente conhecida pelo nome de Arco dos Vice-Reis. Sé e Palácio Arquiepiscopal em bom estado. Convento e Igreja de S. Francisco, tudo reformado posteriormente e hoje em mau estado. Capela de Santa Catarina, reconstruída posteriormente. Igreja de Santo António.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 49 CAPÍTULO IV DOS MERCADOS, ESCRAVOS, MOEDAS, AGUAS E OUTRAS COISAS NOTÁVEIS DE GOA TENDO falado no capítulo precedente das praças da cidade, direi também alguma coisa aqui dos seus mercados. Èstes mercados, no que toca aos manti¬ mentos, há-os todos os dias de trabalho, desde as seis ou sete horas da manhã até ao meio-dia. O mercado principal é em todo o comprimento da grande rua direita, a qual por um extremo toca na Misericórdia e pelo outro no palácio do Vice-Rei. Esta rua é das mais belas e grandes, cheia de tendas de joalheiros, ourives, lapidários, Igreja de N Sr* do Rosário. Convento de Santa Mónica. Casa e Igreja do Bom Jesus. Igreja de N. Sr.a da Serra, reformada (ao que parece) posteriormente A estátua de Afonso de Albuquerque, que estava no frontispício desta Igreja, foi em 1840 transferida a Pangim, onde está debaixo de um pavilhão na Praça, chamada das Sete Janelas, adjacente ao quartel da Artilharia Há ruinas déstes edificios: Fortaleza ou Palácio dos Vice-Reis. Casa da Inquisição (vestígios). Recolhimento da Serra. Casa da Misericórdia e sua Igreja (apartada da da Serra), que é de fundação posterior à viagem de Pyrard. Recolhimento e Igreja das Convertidas ou de Santa Maria Madalena. Convento e Igreja de S. Domingos. Convento e Igreja de Santo Agostinho. Colégio de S Paulo, o velho. Igreja de Santo Tomé (vestígios). Podem ainda assinalar se os lugares do antigo Cais e Bazar de Santa Catarina, Hospital, Ribeira das galés, Alfândega, Armazéns, Bangaçaes, etc. O cais chamado do Arcebispo, e que fica em sitio próximo ao antigo cais de Santa Catarina, é obra moderna. A fôrca, que ainda existe no terreno adjacente a S. Domingo*, parece-nos ser outra diversa da que nos descreve Pyrard. Deliniam-se ainda a Rua Direita, a Praça do Pelourinho velho, a casa do açougue, a Rua de S Paulo que sai ao campo de S Lázaro e outras muitas, onde ainda se conservam calçadas conformes com a descrição do autor. Tudo o mais de que éle fala desapareceu e está um érmo reduzido a palmares ou mato. Náo mencionamos o Convento de S. Caetano, em bom estado, e as ruinas de outros, por serem fundações posteriores ao tempo de Pyrard. - N. do T. 4 II TOI.
  • 50 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD tapeceiros, mercadores de sêdas e outros artífices de coisas ricas. Enquanto dura êste mercado há tal con¬ curso de gente na rua, que mal se pode passar. Não temem a chuva no inverno, nem o calor no verão, por respeito daqueles grandes sombreiros ou chapéus, que cada um traz, e que tem pelo menos seis a sete pés de diâmetro; de sorte que quando aquela multidão está reti¬ nida, todos aqueles sombreiros se tocam entre si, pare¬ cendo um só tôldo inteiriço. Uns três meses antes de eu partir de Goa, foi orde¬ nado que o grande largo que está entre a Casa da Câmara e a Inquisição servisse para se alargar êste mercado, por ser mui pequeno o espaço da rua direita. Chamam a êste mer¬ cado Leilão, como já disse, por se fazerem aí as arrema¬ tações em hasta pública. Ali se acham indiferentemente tôda a sorte de pessoas assim nobres como das outras classes, de tôdas as nações e religiões, para comprar e vender ou encontrar-se com aquêles com quem têm negócios a tra¬ tar; porque êste lugar lhes serve de praça do comércio. Não são os oficias de justiça que ali fazem as arrema¬ tações, mas outras pessoas que particularmente têm êste ofício, de que pagam renda a el-rei; pois não há ofício, ocupação ou mister, por ínfimo que seja, que não tenha seu rendeiro ou contratador da parte de el-rei, que daí tira sempre algum lucro. É pois ali que se faz a venda de todos os móveis, por justiça, ou amigàvelmente, e há muita gente que vende por sua conta sem apregoar, nem afrontar, como se faz nas lojas. Os que têm cargo de vender em hasta pública são chamados pregoeiros, e é mister que dêem boas fianças, pois muitas vezes se lhes deixam na mão grandes e ricas jóias. Nesta praça vê-se tôda a sorte de mercadorias; e, en¬ tre outras, quantidades de escravos, que são ali levados como aqui se faz aos cavalos. Êstes vendedores levam após si grandes ranchos dêles; e depois, para os vender, louvam-nos e gabam-nos, repetindo tôdas as suas prendas, ofícios, fôrça e saúde; e os compradores de tudo isso se informam, interrogam-nos e examinam-nos da cabeça até aos pés curiosamente, assim a machos como a fêmeas. E os mesmos escravos, esperando melhor tratamento com a mudança de senhor, mostram a sua boa disposição e se gabam a si próprios, para mover a vontade dos compra¬ dores. Mas quando os compram, assina-se um certo dia
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 51 fixo até ao qual se pode retratar o ajuste, a fim de que tenham tempo de saber a verdade. Entre os escravos encontram-se ali raparigas e mu¬ lheres mui belas e lindas de todos os países da índia, as quais pela maior parte sabem tanger instrumentos, bordar, coser mui delicamente e fazer tôda a sorte de obras, doces, conservas e outras coisas. Todos êstes escravos são a preço mui diminuto, e os mais caros não valem mais de vinte ou trinta pardaus, moeda que equivale a trinta e dois soldos e seis dinheiros cada uma. As moças donzelas são vendidas por tais, e fazem-nas observar por mulheres, e neste ponto ninguém ousa cometer engano (l). Não têm por pecado ter trato com a escrava, que compraram, em caso que ela não seja casada; mas quando o senhor a casa, não pode mais ter aquele trato desde que deu a sua palavra para o casamento. Entre estas raparigas há algumas mui belas, brancas e gentis, outras trigueiras, morenas e de tôdas as côres. Mas as de que ali gostam mais são as moças Cafres de Moçambique e de outras partes de África, que são de côr negra retinta e têm o cabelo crespo, e lhes chamam Negras de Guiné (2). Uma coisa notável observei entre todos os povos da índia, e é que, nem aos machos nem às fêmeas fede o corpo ou o suor; e pelo contrário os Negros de África, tanto os de cá, como os de lá do cabo de Boa Esperança, exalam tão mau (') Vem aqui a propósito o seguinte documento, que achámos no seu original: «—Diguo eu Bertollameu Pereira, casado, e morador nesta cydade, que he verdade que eu vendi huma mossa minha por nome Briatiz, da casta Coromby, com todas boas manhas, e sam, donzella, e sabe laurar todo lauor damballas fases, e fiell, ha quall mosa ha uemdy ha Senhora Maria Rodrigues, dona viúva, por preso de sesenta xerafins, hos quaes logo me pagou ho dinheiro, e eu sou satisfeito, e lhe emtreguei a dita escraua. e por asym pasar na verdade lhe dei este meu conhecimento asinado prr mym pera sua garda; e eu Jorge Fernandes que este conhecimento fiz a rogo delles, e me asygnei como testemunha. Testemunhas que ao prezentes es- tauão: Antonio Branquo e Pero da Cunha Oje 28 do mez de Julio de 1592 anos — Jorge Fernandes — Berlholameu Pereira. — Mestre Pedro. Do testemunha Antonio Bramquo (uma cruz).» Êste documento confirma em parte a narrativa do autor; e em outra parte a corrige. Assim vemos que o preço dos escravo», chegava a ser superior ao que o autor aponta; e que a gente da terra também se fazia escrava. Veja-se a éste respeito o que o autor disse a pág. 32 dêste tòmo. -N do T. (2) Negro ou negra de Guiné sáo os da banda ocidental de África, os da banda oriental sáo, na tndia, geralmente conhecidos pelo nome de Cafres. — N. do T.
  • 52 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD cheiro, quando têm o corpo quente, que é impossível che¬ gar-nos a êles, e o cheiro que lançam é como o de alhos verdes. Se na índia um homem tem um filho macho de sua es¬ crava, o filho é legitimado, e a escrava posta em liberdade, pôsto que não possa sair do serviço de seu amo sem o con¬ sentimento dêste. O maior rendimento e riqueza da gente de Goa é procedido do trabalho de seus escravos, os quais entregam no fim de cada dia, ou de cada semana, a conta a que são obrigados, e isto afora os mais escravos que os senhores retêm em casa para seu serviço. No dito mercado ainda se vê grande número de outros escravos, que não estão à venda, mas que levam êles mesmos obras de sua mão a vender tais como conservas de frutas e outras coisas; outros vão ali para ganhar di¬ nheiro a levar e carregar para onde se quere quaisquer objectos. As moças adornam-se muito para agradar mais e vender melhor a sua mercadoria; e às vezes são chamadas às casas e se ali se lhes fazem proposições amorosas, de nenhuma sorte se mostram esquivas, antes aceitam logo a trôco de alguma coisa que se lhes dê; e ainda muitas ve¬ zes tratam amores para suas senhoras, a quem servem de medianeiras, sem nunca lhes contradizer a vontade, ou re¬ velar o segrêdo, porque lhes são mui fiéis. E todo o di¬ nheiro que elas podem adquirir por qualquer dêstes meios, devem entregá-lo a seu senhor e senhora, que a isso dão seu consentimento e depois repartem com elas segundo bem lhes parece, mas as escravas não mostram sempre tudo. Tôdas estas mulheres da índia, assim cristãs, como outras, ou mestiças, desejam mais ter trato com um homem da Europa, cristão velho, do que com os índios e ainda em cima lhe dariam dinheiro, havendo-se por mui honra¬ das com isso; porque elas amam muito os homens brancos de cá; e ainda que haja índios mui brancos, não gostam tanto dêles. Vende-se também no mesmo mercado grande número de cavalos, bem arreados pela maior parte; e são da Pér¬ sia e da Arábia, semelhantes aos cavalos de Berberia; e valem quinhentos pardaus, em osso. Em suma, vêem-se ali tôdas as espécies de riquezas das índias e as mais belas jóias que ser pode. Há tam¬ bém ali cambistas, a que chamam Xarafos, que igualmente estão em outros muitos lugares da cidade e têm suas
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 53 boticas nas esquinas das ruas e encruzilhadas, tôdas cobertas de moeda; e pagam disto tributo a el-rei. Tiram grandes lucros, porque ali é necessário ter moeda miúda para ir ao mercado, onde tudo é tanto em conta que mais não pode ser, e nunca se compra senão o que é necessᬠrio para aquela hora e não para todo o dia; de sorte que se anda lá sempre carregado desta moeda, mui grossa e pesada e de pouco valor. Há-a de muitas sortes. A pri¬ meira chama-se Basarucos, dos quais são necessários se¬ tenta e cinco para fazer uma Tanga. Há outros Basarucos velhos, de que são necessários cento e cinco para a Tanga. Abaixo desta moeda há pequenos pedaços de cobre sem cunho algum, a que chamam Arco (*), e são mister duzen¬ tos e quarenta para uma Tanga, que vale cinco soldos dos nossos e lá sete soldos e meio. Desta moeda uma é de ferro e outra de Calaim, metal da China. Quando êstes cambistas têm acumulado muito dinheiro de tôda a sorte de moeda, tornam a cambiá-la com os contratadores e ren¬ deiros, a quem passam a moeda de prata e de ouro batida em Goa, porque os recebedores do Estado não aceitam outra em pagamento. Enquanto aos Larins, que é aquela moeda 'de prata, de que já em outro lugar falei, vêm da Pérsia e de Ormuz e são procurados por tôda a índia, por serem de mui boa prata, útil e própria para tôda a sorte de manufacturas. Êstes cambistas devem achar-se em suas boticas ainda nos domingos e dias santos e não ousariam faltar a cambiar qualquer moeda pelo preço corrente. Pe¬ sam o ouro e a prata. A moeda de prata de Goa é pois a de Pardaus, meios pardaus, Larins e Tangas, as quais valem sete soldos e seis dinheiros, cada uma. Além destas moedas há a que vem de Espanha, a qual tem maior valor em Goa, porque a prata vale ali um têrço mais que em Espanha. A moeda de cobre e de ferro, a que chamam Basarucos, é de pouco valor, como os dinheiros, e mealha. As peças de ouro são Xerafins, aue valem vinte e cinco soldos cada um; Venezeanos e S. Tomés, que valem cinquenta soldos e outras espécies. Não se vê, porém, ali moeda de ouro espanhola, porque o ouro vale ali muito menos que em Espanha. Perto da praça do Leilão, de que falámos, há outra, como também já disse, a que chamam do Pelourinho velho, Ainda hoje existe, mai conhecida pelo nome de Roda,-N. do T.
  • 54 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD na qual há de dia mercado de tôda a sorte de frutas e comestíveis. Mas depois de pôsto o sol, e chegada a noite, e que os meirinhos e oficiais de justiça são recolhi¬ dos, faz-se aí outro mercado, a que chamam Baratilha, em que se vende a mui baixo preço e, como a mêdo, tôda a sorte de trastes roubados, como roupa, armas e outras coisas, de que tôda a praça fica cheia, sem embargo de ser bem grande. E, todavia, ainda que seja noite, os meiri¬ nhos não deixam de passar por ali algumas vezes; e quando os sentem, cada um se retira velozmente; e depois de êles passarem, todos êstes vendilhões voltam a vender as suas mercadorias; e são às vezes em número de quatrocentos ou quinhentos. Nesta praça do Pelourinho velho se acham todos os Sangradores, e quem carece de algum para sangrar os doentes, ali o vai buscar. Todos êstes sangradores são índios cristãos, como igualmente o são todos os cirurgiões e boticários. Enquanto aos barbeiros, pela maior parte não são cristãos, e andam pelas ruas a barbear a todo o mundo, porque a gente comum não põe dificuldade em se fazer rapar no meio da rua; mas os homens de qualidade entram para isso dentro de casa. Êstes barbeiros são mui serviçais e satisfazem-se com pouco. A maior parte dos íeses fazem rapar a barba e o cabelo. ^ No que toca às águas potáveis, de que se usa na Ilha de Goa, é mister considerar que o rio cerca tôda a Ilha, e a maré chega, na enchente e na vasante, até à cidade. Mas há em vários sítios muitas fontes de água boa e excelente para beber, que vem dos rochedos e montanhas, e se junta em regatos que regam a Ilha em muitos lugares; o que é causa de haver tanta cópia de coqueiros, e outras árvores frutíferas. Além disso há poucas casas que não tenham poços, mas nf ' ’ >rque a água dêles não é boa, excepto servem as águas dêstes poços para banhar e lavar o corpo, fazer a cozinha, barre¬ ias e outros usos; pois ali até os homens e mulheres mes¬ tiças lavam as partes recônditas depois de fazerem as suas necessidades, assim como fazem os índios. Há também alguns tanques e reservatórios mui belos e fabricados de pedra. Mas enquanto à água que ordinàriamente se bebe, assim na cidade como nos arrabaldes, a melhor e a mais saudável e leve, segundo o meu parecer, é aquela que se
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 55 vai buscar a um quarto de légua da cidade, onde há uma grande fonte de água bela e clara, chamada Banguenim, que vem dos rochedos. Os portugueses rodearam-na de muros, e a encanaram mui bem; e mais abaixo há grandes reservatórios, onde a maior parte dos homens e mulheres vão lavar a roupa. Chamam a esta gente que lava a roupa Mainatos. Há ainda outros reservatórios para se banhar e lavar o corpo. De sorte que o caminho é mui trilhado e freqtlentado, apesar de ser penoso, por que é mister subir e descer três ou quatro grandes montanhas. Não se vê outra coisa senão gente que vai e vem a esta água, e mesmo às dez horas da noite vão em magotes com suas armas, em camisa e calções, a lavar-se ali. Vende-se esta água pela cidade; os escravos a levahi a tôda a parte em grandes cântaros de barro, cada um dos quais contém dois potes (l), e vendem o cântaro a cinco basarucos, que é quási seis dinheiros. Põem-se com os seus cântaros em certas encruzilhadas, e não andam apregoando pelas ruas. Fazem ajuste com seus senhores sôbre quanto lhes devem dar por dia, além do sustento que tiram de seu trabalho, salvo nos dias de festa e domingos que os senho¬ res lhes dão de comer, e quando estão doentes. Este mesmo estilo guardam os escravos em todos os outros misteres. Os portugueses teriam feito uma boa obra, se fizessem vir as águas desta fonte à cidade por aquedutos e canos, mas dizem que isto assim os enriquece e ocupa os seus escravos; e que os estrangeiros se lograriam desta boa água sem lhes custar coisa alguma; porque há ali mais estrangeiros que habitantes naturais; e por estas razões não têm querido fazer conduzir aquela água para a cidade. Há outra fonte, junto a S. Domingos, muito boa, e que vem de uma montanha, onde há uma bela igreja cha¬ mada de Nossa Senhora do Monte. É esta fonte mui cómoda, e há aí reservatórios para lavagem de roupa; e também levam a sua água a vender à cidade, e por ser mais próxima vendem-na só por três basarucos; mas não é tão boa como a de Banguenim. Além desta há outras águas ao redor da cidade, que muitas vezes fazem passar por água de Banguenim. Quanto à lavagem da roupa, (*) Seaux ou Sceaux, medida francesa. — N. do T.
  • 56 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD faz-se ali com maravilhosa perfeição, e mesmo assim custa mui pouco. Tôda a sua roupa é de algodão mui fino, e de longa duração; e é também mui saUdável, como eu próprio experimentei durante dez anos que dela usei. Os Mainatos lavam mui bem, e ensaboam uma camisa e um par de calções por dois basarucos, e ainda trazem aquelas peças mui bem e engraçadamente dobradas e pre¬ gadas, porque as dobram e pregam quando molhadas, e só depois as deixam enxugar; de sorte que estas dobras e pregas lhe duram longo tempo, e fica parecendo a roupa adamascada e fabricada com aquêles feitios. Usam desta roupa, assim para a mesa, como para a cama, e para ves¬ tir, como, camisas, bacalhaus, lenços de assoar e outras coisas. A maior parte da gente muda de roupa todos os dias. Uma excelente camisa não custa mais que uma tanga ou sete soldos e meio. Dêstes panos de algodão vem a Goa uma quantidade maravilhosa. Mas tornando às águas; a de Banguenim é estimada pela melhor e mais leve; e por isso não se bebe outra no hospital. Os gentios só bebem a água dos poços de suas casas, se êles próprios a não vão buscar a outra parte, porque temem que se lhes lance alguma coisa na água que hão-de beber. Bebem por taças de cobre, feitas em forma de pequenas panelas, e lhe não tocam nunca com a bôca quando bebem, como já disse; o que os portugueses e outros cristãos da índia observam também. Ali todos bebem só água, assim homens como mulheres, rapazes e raparigas; é grande desonra entre êles beber vinho; e se o fizessem lhes seria lançado em rosto como grande injúria. As mulheres nunca o bebem; mas os homens de qualidade bebem um até dois copos ao jantar e ceia, mas sempre pouco e sem água. Êste vinho vem de Portugal; mas os que não têm meios bebem só vinho de passa (*). O de Portugal (!) É infusão de passas de uvas, que ordinariamente vêm de Mas¬ cate, feita em espirito de palmeira fraco. Deixava-se de molho em espirito de palmeira a porção calculada de passas em algum vaso por 3 a 4 dias e depois de bem amassadas, coada a infusão se punha em um barril provido de espirito de palmeira e dêle se usava depois de 6 a 8 meses. Também se ajuntava à infusão referida outra, feita de tâmaras para dar doçura. Jã não está em uso o vinho de passas, mas faz-se outro chamado de borra. Põe se espirito de palmeira do preço de 3 a 3 l/í xerafins em um barril que ser¬ viu de ter vinho da Europa, e conserva-se por 6 a 8 meses, ajuntam-se-lhe borras de outros barris e depois de 6 a 8 meses claribca-se, ajuntando açúcar
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 57 vale a quarenta soldos a canada, que é a nossa pinte (l). E o melhor 'vinho de passa não vale mais que vinte e cinco basarucos ou seis brancos (*) e é bom e forte. O de Portugal é um pouco ácido quando chega a Goa (3). O outro vinho, que é branco e a que chamam Orraca, não vale mais de dez basarucos e é ordinàriamente usado pela gente de baixa condição e pelos escravos, que com êle se embriagam frequentemente; e aproxima-se da águar- dente. Bebem água em vasos feitos do mais belo e fino barro que ver se ,pode e nêles se faz a água extremamente boa e fresca. Estes vasos são esmaltados e ornados com mil sortes de figuras, animais e flores, de côr negra e verme¬ lha; e são tão finos e delicados como vidro; e cada vaso tem a sua tampa. Os de que ordinàriamente se servem são em forma de garrafas de vidro, à excepção de terem a bôca mais larga e o fundo do gargalo mais estreito. Há uma espécie de vasos de barro mui delicados, todos furados de pequenos buracos simétricos e tendo dentro pedrinhas que não podem sair e servem para limpar o vaso. Chamam-lhe Gargoleta; e dela só sai a água a pouco e pouco e ainda que a voltem de bôca para baixo, não cai nem uma gota. Zombam dos que não sabem beber por êstes vasos, como nos acontecia a nós; mas não julgo muito bom êste modo de beber, porque causa ventosidades e por isso há muitos portugueses que o não queimado para dar côr. Êste vinho sendo de muito tempo confunde-se com o branco; mas esfregado na palma da mão conhece-se ser confeição e não o verdadeiro vinho branco de uva Hoje faz-se vinho de espirito fraco de palmeira, de suco de caju, jambolào e outras frutas, tirando-se-lhe o mau cheiro por meio de carvão vegetal.-TV. do T. I1) Segundo a melhor conta a pinte francesa equivale a meia ca¬ nada portuguesa — N. do T. (8) Não podemos bem saber que moeda seja esta, a que o autor chama brancos Houve em Portugal no século XV e ainda no XVI reais brancos, que são os que ainda hoje formam a base da nossa moeda portu¬ guesa. Mas não nos parece que seja a êstes reais brancos que o autor aqui alude: l.° poraue na época em que éle escrevia estava já como obsoleta a denominação de brancos nos reais; 2.° porque os vinte e cinco basarucos valem muito mais que seis dêstes tais reais brancos, de que falámos. Seriam os brancos do autor alguma moeda francesa, aue éle foi buscar para térmo de comparação, assim como ordinàriamente faz com os soldos, dinheiros, etc, franceses? — N. do. T. (3) Seria assim o vinho ordinário; mas o bom vinho não toma acidez. — N. do T.
  • 58 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD usam (*). Copos de vidro só têm os que lhe vão de cá ou da Pérsia, mas são muito baços; por isso não os têm em grande estimação e ainda porque tem porcelanas da China em muito boa conta. Mas tornando à ilha e cidade de Goa, é ela como o empório e desembarcadouro de tôda a índia; e maravilho¬ samente bem povoada, porque além dos estrangeiros que aí abundam continuadamente, há portugueses, que são os senhores dela, mestiços, índios cristãos e grande número de outros índios infiéis, maometanos ou gentios, banianes de Cambaia, canarins de Goa, brâmanes e outros seme¬ lhantes, que aí habitam e fazem grande tráfico e mercan¬ cia; e dêstes há muitos ricos com oitenta e cem mil escudos de seu; e são os que trazem as rendas reais de tôda a sorte de mercadorias e nada se pode vender sem o consentimento dêstes rendeiros. Cada uma das classes desta gente tem suas ruas apartadas e nelas suas tendas ou boticas para cada sorte de negócio; porque os portu¬ gueses não exercem alguma arte mecânica, por maior que seja a sua necessidade; mas se dizem fidalgos e vivem à lei da nobreza; e contudo traficam no que bem lhes parece e só êles tem faculdade de menear e ter armas, o que não é permitido aos índios, se não são cristãos. Os homens de qualidade portugueses não andam se¬ não a cavalo; e têm grande número de cavalos, que vêm da Pérsia e da Arábia, os quais são bonitos e bons e se seme¬ lham aos de Espanha, salvo serem mais pequenos. Êstes cavalos são amansados por picadores mui destros, que vêm das terras do Dealcão. Os arreios dêstes cavalos vêm de Bengala, da China e da Pérsia e todos são bordados de sêda, adornados de ouro e prata e pérolas finas. Os estribos são de prata dourada, as rédeas cravejadas de pedras preciosas, e ornadas de campainhas de prata. Quando não andam a cavalo, são conduzidos em liteira, ou palanquim. Quando vão pelas ruas, são acompanhados de pajens a pé, lacaios e moços em grande número, os quais levam armas e vestem a libré da casa. Nunca saem êstes homens sem levarem um escravo com um grande guarda-sol, a que chamam som- breiro, que lhes tapa a cabeça; e aquêles que não têm posses para ter escravos, levam êles mesmos o tal sombreiro. P) Êste espécie de Gargoletas é hoje pouco ou nada usada em Goa. Vinham das terras do Sul. — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 59 As mulheres de qualidade também não saem senão sentadas e conduzidas dentro de um palanquim, que é uma espécie de liteira, levada por quatro escravos, coberta de pano de sêda, ou de couro 0); e são acompanhadas^ de muitas escravas, tôdas mui bem vestidas de panos de sêda; porque a sêda é ali tão comum, que todos os criados se vestem dela; as damas e pessoas qualificadas mais querem usar algum tecido dêstes países da Europa, do que trajar sêdas. Só os portugueses podem ser providos em ofícios e benefícios. Os soldados da guarnição são portugueses. Os mercadores e artífices são todos índios, como já disse, e têm as suas boticas, pagando tributo a el-rei, assim das mercadorias como das boticas. CAPÍTULO V DO GOVÊRNO DE GOA, DO VICE-REI, DE SUA CÔRTE E MAGNIFICÊNCIA A cidade de Goa é governada pelo vice-rei, que tem poder sôbre tôda a índia. De três em três anos el-rei envia um, o qual nunca entra sem o seu pre¬ decessor ter saído; e êste se retira a uma casa des¬ tinada para êsse efeito. Sendo retirado, entra o novo com grande magnificência e triunfo; levantam-lhe muitos arcos triunfais desde o desembarcadouro até à Igreja Catedral, e cada ofício e classe de mercadores fazem o seu em competência uns com os outros. É acompanhado de todo o clero, nobreza, povo, mercadores e artífices até ao seu palácio, com muitas salvas de artilharia, fogos de alegria e outros aparatos. Se acerta de morrer o vice-rei dentro do espaço de três anos, o rei envia outro e, no I1) Os palanquins propriamente ditos não são hoje usados em Goa, pósto que ainda o sejam nas províncias do interior da índia. Usam-se outros transportes da mesma espécie, chamados Machila; de variados feitios, para uma e para duas pessoas. Enquanto à cobertura é a mesma que descreve o autor; devendo advertir-se que a cobertura de pano, ou seja de sêda ou de outra droga, é própria para resguardar do sol no verão; e a cobertura de couro ou pano oleado, serve para resguardar da chuva no inverno. — N. do T.
  • 60 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD entretanto, a cidade nomeia quem sirva (l). Enquanto eu estive em Goa vi quatro providos uns após outros (*)• Aquêle que estava quando saí de Goa chamava-se Rui Lourenço de Távora. O vice-rei é ali obedecido como o próprio rei e tem a mesma autoridade, podendo conceder graças, ou conde¬ nar à morte, excepto aos nobres, a quem chamam Fidal¬ gos; porque êstes, apelando em causa crime ou cível, são mandados a Portugal presos com ferros aos pés. Vi em Goa um soldado, que tendo sido condenado à morte por um homicídio, quando era levado ao suplício a um quarto de légua da cidade, acertou por sua boa fortuna de ser en¬ contrado pelo filho do vice-rei, que já era provido na ca¬ pitania de Ormuz, pôsto que então tivesse de idade dez ou doze anos, o qual averiguando o caso, e lançando-se-lhe aos pés o padecente a pedir graça, preguntou ao seu aio se podia ir pedir isto a seu pai sem o enfadar, e sendo-lhe respondido que sim, foi logo sem detença ao palácio fazer humilde suplica de graça a seu pai, que lha outorgou, con¬ tanto que não fôsse coisa que tocasse ao Estado e serviço de el-rei; e tendo, o vice-rei sabido o que na verdade era, foi mui ledo de ver o bom natural de seu filho; e to¬ dos os que professavam armas lhe deram muitos agrade¬ cimentos; com o que ficou livre o pobre condenado (3). (1) Continuada com ê
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 61 O Vice-Rei não se familiariza com pessoa alguma, nem vai a festas nem a banquetes; sai raras vezes, salvo nos principais dias festivos, ou em outros que lhe apraz. Na véspera do dia em que êle há-de sair, anda-se tocando tambor e trombeta pela cidade, para advertir a fidalguia, como já disse, que se junta vestida de gala e a cavalo de¬ fronte do palácio; e cheguei a ver ali algumas vezes tre¬ zentas e quatrocentas pessoas. Êstes fidalgos vão sober¬ bamente trajados e seus cavalos acobertados de ouro, prata, brocados, pérolas e pedras preciosas. Quando cada um dêles chega, apeia-se, e entrega o cavalo a seus moços de estribeiras, que todos são mouros, isto é, mao¬ metanos de Balagate ou Decào, e são os que tratam dos cavalos. Êstes homens adestram mui bem um cavalo, e não o temem por mais bravo e manhoso que seja, e assim o montam em ôsso, picam-no, e despedem-no a tôda a brida sem nunca caírem. Os seus cavalos são os mais gordos e luzidos que é possível; e para os domar, e pôr mais seguros, chegam-lhes tambores cheios de muitas cam¬ painhas, à semelhança dos nossos tambores biscainhos (l); e para os fazer correr a galope, atam-lhe pequenos balo- tes nas juntas das pernas. Nunca vi cavalos tão velozes como aquêles; vêm pela maior parte da Pérsia, e também da Arábia, e êstes são estimados por melhores. Comem pouco; e dão-lhes feno, mas mais ordinàriamente erva verde; e também lhes dão um certo grão, que se asseme¬ lha a lentilhas. Tratam os cavalos com tanto resguardo, que quando estão na estrebaria os cobrem inteiramente, e até lhes põem uma espécie de colchão para se deitarem; dão-lhes de beber à manjedoura; e prendem-nos pelos pés posteriores, para se não ferirem com coices. Mas tornando aos senhores e fidalgos portugueses: quando se apeiam, aquêles moços da estribeira recebem os cavalos, dos quais têm grande cuidado, trazendo sempre cada um dêles o seu espanejador formado também de cauda de cavalo com cabo de pau para enxotar as moscas, um pano, uma esponja molhada, e um pente num saco, para limpar a escuma e suor do cavalo, bruni-lo e dar-lhe lustro quando é preciso. Usam belos telizes de veludo en¬ carnado, a maior parte dêles com franja, e bordaduras; (*) Tabourlns de Basque, diz o original. — N. do T.
  • 62 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD os mais ricos e estimados são de escarlata; e servem para cobrir os cavalos quando os senhores se apeiam, porque estando montados não põem telizes; nem quando andam pela cidade usam botas ou esporas. Os loros são de sêda, e as fivelas, e outras guarnições, de prata. A cauda do cavalo é atada e coberta de um rabicho formado de anéis e argolas de ouro e prata adornados de pérolas e pedras preciosas. Além dêstes cavalos mandam mui ordinària- mente ir consigo uma liteira ou palanquim; e sempre, ou vão a pé ou a cavalo, o seu sombreiro ou guarda-sol, assim quando faz calor como quando chove. E mesmo quando vão a pé fazem levar após si o seu cavalo e palan¬ quim, e pajens até o número de dez ou doze. Estes pajens não são nobres, mas moços vindos de Portugal, que ainda não têm forças para pegar em armas. Andam todos vestidos de sêda, da libré e côres de seus amos, trazem capas, e só servem para os acompanhar e fazer os seus recados; e não acompanham com os outros servidores. Além dêstes pagens têm seis ou sete grandes cafres de Moçambique, que trazem capa e espada, e lhes servem de lacaios. Trajam de modo diverso dos pajens, mas todavia das côres da casa; e os trazem para sua segu¬ rança, porque êstes cafres mais depressa morrerão, do que deixarão fazer o menor mal a seu senhor, pois são mui animosos, e de noite trazem outras armas como piques e alabardas; chamam-lhes peões ou cafres. Os pajens portugueses nunca vão atrás de seu amo, por maior senhor que seja; e se vão, é a cavalo, como entre nós fazem os gentis-homens após os príncipes e senhores. O vice-rei, que no meu tempo havia em Goa, quando saía, seu filho não ia com êle, mas atrás uns duzentos ou trezentos pas¬ sos, com seus fidalgos e servidores; e ordinàriamente os de maior qualidade, que querem agradar ao vice-rei, acom- panham-lhe os filhos; e os outros vão com êle. Na igreja e nas procissões o vice-rei vai do lado direito, e o arcebispo do esquerdo. O filho do vice-rei vai logo atrás, por ter a capitania de Ormuz, e ser assim a primeira pessoa abaixo do vice-rei; porque quem foi capitão de Ormuz não pode ser na índia outra coisa senão vice-rei. Contudo o vice-rei pessoalmente não é tão dado à magnificência como os fidalgos. Todos os que têm cavalos, ainda que não sejam nobres de linhagem, não deixam de acompanhar o vice-rei; porque ali todos se
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 63 dizem nobres. Quando o vice-rei ou os fidalgos se recolhem a Portugal, vendem todos os seus cavalos aos outros que chegam. Quando um vice-rei chega à índia desembarca em Pangim, como já disse; depois manda avisar da sua che¬ gada com as provisões dos seus poderes, as quais são abertas nas casas da Câmara em presença do antigo vice- -rei, que se aparelha a deixar o pôsto; e os oficiais do novo vice-rei fazem mobilar e arranjar o palácio. Sete ou oito dias depois disto é recebido como rei, e se fazem para êste efeito grossas despesas. O antigo vice-rei vem ao encontro do outro, e lhe faz uma fala, que diz, que lhe entrega na sua mão todo o Estado; e de que modo deva proceder assim com os índios, como com os portugueses, aos quais por sua arrogância é mister ter a rédea teza. Isto feito, retira-se e depois visitam-se pouco, por gran¬ deza. Desde então o vice-rei está fora do cargo e iá se lhe não dá o tratamento de Senhoria, porque na índia só o vice-rei e o arcebispo têm êste tratamento. Aos outros dá-se Vossa Mercê, a aos eclesiásticos Reverência e Paternidade. O novo vice-rei traz consigo todos os ofi¬ ciais da sua casa, e não toma outros, salvo se alguns morreram na viagem. O rei paga salário a todos os ser¬ vidores do vice-rei. Logo que um vice-rei chega, todos os embaixadores dos reis da índia o vão cumprimentar; e êle despede cor¬ reios a todos os reis amigos para confirmar a aliança, os quais lhe enviam embaixadores extraordinários com pre¬ sentes, fazendo com êle como uma nova aliança. No fim de todos, os cristãos da terra (e não os portugueses, que não querem que se saiba o seu número) fazem seu alardo; e têm por capitão um português ou mestiço e são todos obrigados a ter armas, Não se juntam todos em um só dia; mas cada freguesia em seu e é sempre em dia santi¬ ficado. Isto faz-se em presença do vice-rei, no campo de S. Lázaro, ou passam em formatura por diante do pa¬ lácio da fortaleza, estando o vice-rei na sua galeria e o capitão lhe faz uma falta e todos lhe prestam juramento. Os infiéis não fazem alardo, nem lhes é permitido ter ar¬ mas em suas casas. O vice-rei não vai comer a parte alguma, salvo no dia da Conversão de S. Paulo ao Colégio dos Jesuítas, e no dia da Circuncisão à casa do Bom Jesus. É servido
  • 64 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD com aparato real em sua comida e come só; apenas o ar¬ cebispo vai algumas vezes comer com êle ao palácio. Nos dias das festas sobreditas os maiores fidalgos comem com êle à mesa, mas nào em frente dêle, nem do seu prato. As casas principais mandam ao vice-rei muitos manjares delicados e excelentes; mas êle nunca os prova, porque teme muito ser envenenado. Só se fia dos Jesuítas; e até há jesuítas boticários, que ordináriamente lhe dão os re¬ médios; de sorte que êstes padres estão em grande con¬ ceito e crédito para com êle. Enquanto aos ordenados e propinas do vice-rei são pouca coisa em comparação dos grandes lucros que êle pode tirar durante os três anos do seu cargo, que mon¬ tam às vezes a perto de um milhão de ouro (l). O ordenado é de trinta mil cruzados, cada um dos quais vale dois pardaus pouco mais ou menos, o que não chegaria a sua sustentação, se não foram os presentes e outros proveitos, que estão em prática e montam a muito. Logo que chega o vice-rei; os capitães, governadores e oficiais de el-rel o vêm prontamente visitar para obter dêle algum favor, como por exemplo, uma capitania de viagem, dignidade, ou outra coisa semelhante; e e para êsse fim lhe fazem gran¬ des presentes; e mesmo sem êsse intento lhos fazem se¬ gundo o valor e rendimento de suas fortalezas, a menor das quais deixa doze e quinze mil cruzados; porque êles não podem roubar e fazer o seu negócio sem o favor do vice-rei. Todos servem os seus cargos só por três anos e durante êsse tempo é mister que juntem para o resto da sua vida. O vice-rei faz grandes mercês e dá recompensas em cargos, rendas e dinheiro aos que têm bem servido a el- -rei e aos estropeados, viúvas e órfãos; tudo à custa da fazenda real; e dá de sua mão muitos cargos e ofícios. Os que tem feito serviços a el-rei precisam certidão dêle para lhes serem levados em conta e também devem ter a assina¬ tura dos capitães, com quem têm embarcado. Mas o mal está em que o vice-rei tira dinheiro de tôdas estas mercês e ofícios e faz persuadir ao rei que os dá; e para isso des¬ pacha grande quantidade de petições de mercês e o vedor da fazenda e os tesoureiros se entendem com êle, negan- (*) Um milháo de ouro diziam os nassos antigos por milháo de cruzados. O autor serve se da frase vulgar no seu tempo. - N do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 65 do-se a dar o dinheiro e todavia dão conta a el-rei como se o tivessem pago e o mesmo fazem quanto à paga dos soldados, oficiais e marinheiros. O vice-rei dá esmola ordinária duas vezes por semana, e nos dias de festa e domingos em que sai. Esta esmola é só para os índios cristãos pobres, a quem seu esmo¬ ler dá dinheiro no largo do palácio. Se há alguma mu¬ lher viúva de português, mandam-na pôr àparte, e dá-se- -lhe mais que aos outros índios. Quanto aos soldados, marinheiros e outros portugueses pobres, entram na grande sala pintada, que já disse; as mulheres e crianças ficam noutra; e o vice-rei manda ao seu mordomo com o esmoler para lhes dar dinheiro. Chega a dar num só dia duzentos ou trezentos pardaus. Tôdas mulheres e donzelas portuguesas vêm em palanquins cobertos e en¬ tregam suas petições, nas quais declaram a sua suplica, e os fundamentos dela; e no seguinte dia vêm ver se têm tido despacho, ou não: as que estão doentes podem man¬ dar outra pessoa. Esta espécie de esmolas dá-se segundo a qualidade das pessoas. O vice-rei recebe tôdas estas petições, e as despacha em pessoa no dia seguinte; mas de tudo isto tira bem a desforra em dôbro ('). Envia além disso frequentes vezes esmolas às prisões, igrejas, pobres, hospitais e outros lugares pios, e casa muitas donzelas e mulheres viúvas. Ora nos três anos que, assim o vice-rei como os ou¬ tros capitães estão na índia, têm mais cuidado de se enri¬ quecer, do que de guardar e conservar o Estado; e em tão pouco tempo não podem fazer grandes progressos na guerra. Porque no primeiro ano o mais que podem fazer é saber o estado e forma do govêrno, conhecer os povos e enviar armadas. No segundo ano enchem as bolsas, porque não dão nada do seu; e se é mister dar presentes aos reis, se¬ nhores, embaixadores e outras pessoas, isso corre por conta da fazenda real (2). Enquanto aos capitães e fidal- (!) Êste excesso de malícia do autor tem aqui pouca desculpa e é tanto menos cabido, quanto em outros infinitos lugares éle trata com todo o rigor e severidade, que quere, aqueles actos, que verdadeiramente o me¬ recem. — N. do T. (*) Outra malícia do autor, que bem sabia que em parte nenhuma do mundo tais despesas se fazem nem devem fazer à custa particular dos vice-reis ou governadores das províncias. — N. do T. i II TOI.
  • 66 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD gos portugueses, êsses, não recebem outros presentes, senão capitanias de viagens, permissão de certos tráficos, ou privilégios e cargos. Aquêles que não entram nos car¬ gos esperam ser generais, capitães mores, ou seus imedia¬ tos e ter o mando das frotas e armadas de guerra ou mercantes que el-rei envia a diferentes partes. Chegado o terceiro ano o vice-rei vai às vezes visjtar, com uma grossa armada, tôdas as fortalezas da costa da índia, que se estende desde Coulão até Ormuz; mas êle tira grandes lucros desta viagem, assim dos capitães e governadores, como dos outros oficiais e do próprio país; e ainda tôdas as despe¬ sas correm por conta da fazenda real. De sorte que não é maravilha enriquecerem tanto os vices-reis, além de seus servidores e oficiais em número de cinqílenta ou sessenta, que ficam abastados para tôda a sua vida. Se porventura acontece alguma desgraça ao vice-rei, que vem de Portugal, como muitas vezes acerta, o outro não fica com isso pesaroso; como sucedeu no ano antes da minha partida, em que o vice-rei que vinha, e se cha¬ mava o Conde da Feira, morreu na costa da Guiné e seu corpo foi levado a Portugal. Vinha com catorze navios, dos quais só cinco ehegaram a Goa, e o resto perdeu-se e foi tomado pelos holandeses. E é para notar que dos que morrem na índia só os corpos dos vice-reis são levados a Portugal. Quando o vice-rei recolhe a Portugal, escolhe os navios que quere e os faz prover de mantimentos a que chamam Matalotagem, para êle e sua comitiva; e há tempo para isso (l). E quando os portugueses sabem que algum vice-rei, arcebispo, ou grande senhor e capitão se vai embora, cuidam em se meter no seu rol, e obter licença para se irem com êle; porque neste caso todos quantos vão no navio, tirada a gente do mar e oficiais do mesmo navio, que levam e têm a sua matalotagem àparte, são sustentados de graça, ou sejam fidalgos ou soldados. Assim, quando algum grande senhor se apercebe para se embarcar para Portugal, faz meter mantimento para tôda aquela gente, além do que para si há mister. E todavia é preciso grande favor para alguém entrar no rol do vice-rei; porque para uma pessoa se aviar bem de mantimento para a viagem, não dispende menos de duzentos ou trezentos pardaus. (*) Em regra, as monções eram estas: chegavam as naus á Índia em Setembro; e saiam para a Europa em Janeiro. — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 67 É, porém, grande infelicidade para os portugueses da índia haver algum vice-rei agastadiço, colérico ou vicioso, como muitas vezes há, ou seja por sua incontinência com mulheres, ou por outros vícios; porque têm êles tal privi¬ légio, poder e autoridade, que quando desejam uma bela donzela ou mulher, é bem difícil que por dinheiro, amizade ou por fôrça, não logrem o seu intento. Mas de ordinário não carecem de violência, antes as mulheres ficam com isso mui contentes, e se háo por mui honradas e gloriosas; e se elas têm marido, êste é mandado pelo vice-rei a alguma viagem distante (*)• Mas muitas vezes (!) Não será sem curiosidade confrontar êste parágrafo com outro de Diogo do Couto no Soldado Prático, Parte I, pág. 42, onde diz: •que torpezas e fealdades se comettem nas míseras cidades que elles (os Vice Reis ou Governadores) vão visitar? Em se o Governador aposentando em qualquer delias, se não for muito continente, náo faltam curiosos que lhe dem para alvitre, que fuão tem huma filha fermosa; e que fuá traz requerimentos com elle; que he cortezã, e bem disposta; que outra, que tem o seu marido prezo, que he muito bem parecida; e estes alvitres náo os traz por ahi qualquer coitado; mas acontece algumas vezes ser pessoa tào grave, e de tal habito, e estado, que por temor de Deos me callo. A mim me affirmaram que houve Governador, ou Viso Rey, que pedio de rosto a hum homem pobre, que lhe pedia hum officio, huma filha sua, que tinha, mui bem assombrada; a que lhe respondeu o pobre: «Que minha filha náo tem outra cousa de seu mais que ser honrada; e nunca Deos tal queira que eu faça. Ora vede que bofetada esta para hum Governador? e para se náo metter logo Capucho, ou ao menos dar hum bom cazamento para tal filha de tal pay? Não me lembra o que nisso passou; que eu náo me achei naquella cidade, e assim o ouvi contar a pessoas graves; náo quero ficar com restituição de nada. E se o Governador, ou Viso Rey da Índia náo tiver tanto resguardo em si como Alexandre, que náo quiz ver as filhas de Dario, segundo a maldade he grande, ficará rendido, e desbaratada a razào; e o entendimento ficará prostrado aos pés de seus appetites, que he o mais abatido estado que pode ser; porque mayor gloria he vencer hum homem a si proprio, que tomar grandes e poderosas cidades: e se os sol¬ dados virem que o seu capitão se deixa vencer da moça de Capua. como o seu (s/c) Aníbal, também se deixarão esquecer de sua obrigação». Estes dois testemunhos, ambos contemporâneos, e de tào diversa origem, náo deixam de ter grande valor histórico; devendo todavia adver¬ tir se que nem um nem outro autor era inteiramente isento de paixão: Pyrard pela rivalidade de estrangeiro, que êle náo disfarça, e pelo que padeceu em poder dos portugueses; Couto pela pouca aceitação e até per¬ seguições que recebeu de alguns governantes, e outras pessoas poderosas, que ou por inveja de seu talento e aplicações literárias, ou por temor da vera¬ cidade da história, aplicaram tódas as diligências para impedir a criaçào da Tõrre do Tombo da Índia, por ser idéia déle, e a escritura da história, que tomara a cargo. Sôbre isto vejam se as obras do mesmo Di^go do Couto e, além disso, alguns Documentos, que agora pela primeira vez sairam à luz no Fascículo 3 ° do nosso Arquivo Português Oriental. — N■ do T.
  • 68 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD acontece que como tôdas estas riquezas dos vice-reis vêm da pilhagem e do roubo, por isso o mar fica sendo seu herdeiro e perecem miseràvelmente (*). Esta freqiiente mudança dos vice-reis não agrada aos portugueses e à outra gente da índia, nem tampouco a semelhante mudança que há nos capitães das fortalezas e outros oficiais; e para significarem isto, contam que era de uma vez um pobre à porta de uma igreja, com as per¬ nas tôdas cheias de chagas, nas quais pousavam as mos¬ cas em tal quantidade, que fazia grande compaixão; pelo que outro homem se chegou a êle, e, julgando que lhe dava muito gôsto, lhe enxotou tôdas as moscas, com o que o pobre paciente se agastou muito, dizendo que as moscas que êle enxotava já estavam fartas, e o não picavam; mas as que viessem de novo famintas o picariam muito mais. Assim (dizem êles) acontece com os vice-reis, porque os fartos se vão embora e vêm os famintos. Todavia o rei usa destas mudanças por duas razões: a primeira pelo mêdo de algum levantamento, porque os capitães não entram todos ao mesmo tempo, mas agora um e logo outro: a segunda para enriquecer e contentar a seus súbditos, porque para êle não há proveito algum. Estando, pois, os vice-reis ali tão pouco tempo, não podem tomar resolução alguma para se revelarem, porque, como disse, nem todos os go¬ vernadores e capitães das fortalezas entram ao mesmo tempo, mas em diversos, e têm quási tôdas as suas mulhe¬ res, filhos e bens em Portugal. E quando tal coisa pudes¬ sem fazer, seria mister que fôssem bafejados de algum poderoso rei da Europa, que fizesse o mesmo que fazem os reis de Espanha em Portugal; porque se êles não extraí¬ rem as suas mercadorias e fazendas na Europa, tôda a sua índia não lhes valeria nada. Seria também mister que ti¬ vessem socorros de homens, dinheiro, munições, navios e mercadorias da Europa; porquanto a sustentação dêste Estado custa tanto, que só pode caber a um rei poderoso, I1) Diogo do Couto também disse no Soldado Prático, Parte I. pág. 134: «por onde certo que cuido todo o dinheiro da índia he mal ganhado, e que permitte Deos que o diabo o leve por estes canos (prodi¬ galidade e vicios) e por outros.» E aqui ainda os dois autores são levados da sua paixão; pois se fôsse verdadeira a sua explicação, não haveria nau¬ frágios nem mortes da Europa para a tndia, mas só da índia para a Europa; e é inútil provar que promiscuamente os havia numa e noutra viagem. — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 6Ô e que conte dispender nisso mais do que há-de sacar de proveito. Mas há outras coisas que recompensam estas; e são: primeiramente o merecimento geral pela propagação da fé cristã; depois a aliança com todos os mais poderosos reis da índia; e, finalmente, o enriquecer todos os seus povos e reinos, que levemente morreriam de fome sem a índia; e igualmente seriam justiçados muitos mais homens em Por¬ tugal do que agora são, se não foram êstes países remotos, aonde os enviam, degredados, para aí fazerem guerra aos infiéis e servirem ao seu rei por todo o resto da vida. CAPÍTULO VI DO ARCEBISPO DE GOA, INQUISIÇÃO, ECLESIÁSTICOS E CERIMÓNIAS QUE ALI SE OBSERVAM TENDO falado do vice-rei e de seu estado, não será fora de propósito dizer alguma coisa do arcebispo, pri¬ meiro prelado das índias. Aquele que o era quando eu estava em Goa, era da Ordem de Santo Agosti¬ nho, cujo hábito trazia; orçava por cinquenta anos de idade e havia quinze ou dezasseis anos que ocupava o cargo (l). Tinha fama de ser muito caritativo e esmoler. Fêz cons¬ truir e fundou grande número de Conventos e Mosteiros; dá esmolas públicamente a tôda a sorte de pessoas neces¬ sitadas, do mesmo modo que faz o vice-rei, mas dá-as mais frequentemente, porque também sai mais vezes. À mesa é servido do mesmo modo que o vice-rei. Ele mesmo serviu por muito tempo de vice-rei e de arcebispo juntamente. Dá-se-lhe o tratamento de Senhoria, como ao vice-rei. Tem amplos poderes sôbre todo o clero da ín¬ dia e representa o Papa. Come em público, e é servido em pratos cobertos. É costume dos arcebispos fazerem comer à sua mesa, e das mesmas iguarias, a doze pobres, mas assentados em lugar mais baixo que êles; e todavia (1) O arcebispo D. Fr. Aleixo de Meneses nasceu a 25 de Janeiro de 1559, e portanto entrou nos 50 anos quando o autor estava em Goa (1608 a 1610) Por outra parte chegou o arcebispo a Goa em Setembro de 1595, e assim não anda também longe da verdade a conta do autor so¬ bre a duração do seu governo. — N. do T.
  • 70 VIAGEM DE FRANCISCO FYRARD êste, de que falo, os faz comer noutra mesa perto da sua. Ao jantar e à ceia é servido em baixela de,prata, ou de prata dourada, e os pobres em porcelana. Estes pobres não são índios, mas soldados e marinheiros portugueses caídos em necessidade, ou seja por efeito do jôgo, ou por não serem pagos de seus soldos. De sorte que, quando êle está à mesa, abre-se a porta da sala de jantar, e os seus domésticos escolhem e fazem entrar as doze pessoas que bem querem, fc. coisa divertida vê-los em competên¬ cia de quem se sentará primeiro, porque o que uma vez se sentou não torna a levantar-se. Eu comi ali muitas vezes quando não tinha dinheiro; e quando há mais de doze pessoas, as que excedem, esperam na grande sala que o arcebispo acabe de comer, e então se manda a alguns do que sobeja ao levantar da mesa (x). O rendimento dêste prelado é maravilhosamente grande; e êste do meu tempo tinha um mordomo que possuía de seu sessenta mil cruzados, e todos os outros seus oficiais e servidores à proporção. Èstes servidores são chamados criados e pela maior parte vêm de Portugal; os outros são escravos e chamam-lhes cativos. Quanto às esmolas, não são sempre do próprio bolsinho do pre¬ lado, mas todos os anos se lhe entregam grandes somas de dinheiro para êste efeito. Tira grandes presentes e proveitos de todos os outros prelados e eclesiásticos da índia. Tem sua justiça e suas prisões em Goa; e tem direito de inspecçâo sôbre a Inquisição, e por êste respeito tem sua parte na confiscação.dos bens dos que neste tri¬ bunal são condenados (*). Este de que tenho falado é mui curioso de fabricar igrejas e mosteiros e principal- mente um da sua própria Ordem, que êle aumenta e enri¬ quece muito e tem aí feito aposentos separados para êle, (!) Fr. Agostinho de Santa Maria na Vida déste arcebispo, que pôs à frente do seu livro da História da fundaçOo do Real Convento de Santa Mónica da Cidade de Goa, Lisboa 1699, diz a págs. 14: «Todos os dias sentava à sua mesa doze pobres, e lhes mandava dar do mesmo que êle comia, sem distinção alguma; e quando por alguma causa faltava o jantar para êles lhes mandava dar o que se lhe havia preparado para êle, ficando sem comer aquele dia, porque aos seus pobres lhes não faltasse o sustento». A singela narrativa de Pyrard, testemunha destas acções, corrige os enfeites panegíricos do religioso, que escreveu um séculos depois.—N. do T. (*) Não achamos, até agora, documento que prove esta circuns¬ tância. — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 71 onde se recolhe às vezes por dois ou três dias (l). Vai também algumas vezes passar oito dias a fio noutro con¬ vento, chamado de Nossa Senhora do Cabo, que é de Capuchos ou Recoletos à entrada da barra; e vai ali por água na sua Manchua, ou pequena galeota coberta. Quando o vice-rei ou o arcebispo vão assim por mar, são acompanhados de muitas outras Manchuas de fidalgos. Tem também uma música excelente de trombetas, chara¬ melas e outros instrumentos, e por esta guisa todos os fidalgos principais. Quando o arcebispo anda pela rua, vai no seu palanquim, acompanhado de muitas pessoas nobres a cavalo e de dignidades eclesiásticas em palan¬ quim, cada um em seu; atrás vão muitos pajens e lacaios a pé; os servidores portugueses vão a cavalo. Nas gran¬ des solenidades e procissões gerais aparece com aparato pontifical e adiante dêle vai um capelão com uma cruz semelhante àquela que vi na Igreja dos Jesuítas e de que acima falei. No pátio de seus aposentos e defronte dêles há sempre grande número de cavalos e palanquins de fidal¬ gos e outras pessoas, que ali vêm ou a tratar negócios ou a fazer visita. Nunca sai fora de Goa (2) e não faz visitas; deixa isso ao seu bispo de Goa (3). O arcebispo sobredito tinha grande desejo de regres¬ sar a Portugal, mas não ousava fazê-lo, porque é mister que el-rei envie outro que lhe suceda. Contudo, êle havia obtido licença por se ir embora e havia feito todos os apercebimentos de mantimentos e matalotagem para mais de cem pessoas, afora os seus domésticos, que montavam bem a outro tanto número; e são necessários ao menos trezentos pardaus para mantença de um homem da índia a Portugal. Eu e os meus dois companheiros lhe apre¬ sentámos a nossa petição, para que fôsse servido deixar- -nos embarcar na sua nau, o que êle nos concedeu, assim como a outra muita gente. Mas coisa de um mês antes de as naus estarem prestes a partir, determinou ficar (1) Era o Convento de Santo Agostinho. — N. do T. I2) O autor refere-se somente ao tempo que assistiu nesta cidade; mas é certo que êste mefcmo arcebispo D. Fr. Aleixo de Mene.-cs foi visitar as Igrejas do Norte e depois ao Malabar, aonde celebrou o célebre Sinodo de Uiamper; e outros arcebispos foram também em diversas ocasiões visitar as Igrejas da sua Diocese fora de Goa. — N. do T. (3) Seu bispo coadjutor, titular in partibus infidelium. A éste tempo era o bispo de Salé, D. Fr. Domingos da Trindade. — N. do T.
  • 72 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD ainda mais um ano, e de feito eu soube depois que no ano seguinte recolhera a Lisboa a salvamento (')• Quando eu estava ainda na índia ouvi dizer que o rei de Espanha estava raivoso contra êle por causa da morte do rei de Ormuz, que êle mandou queimar em Goa, como adiante direi (*); porquanto todos os portugueses dizem que só êle fôra dêste parecer; querendo o vice-rei, (3) tôda a nobreza e até a Inquisição, salvar o homem; mas o arcebispo trouxe-os à sua opinião com boas pistolas, de que estava munido (4). Pela minha parte eu sempre o achei homem muito de bem e grande esmoler. Mandou-nos dar com que comprássemos camisas e mais vestuário quando estᬠvamos para embarcar. Falava-nos muitas vezes e fazia-nos muito bem, e admirava-se principalmente como sendo nós franceses, pudéramos passar o Cabo da Boa-Esperança, visto que os reis de França e de Espanha eram entre si amigos; e daí tirava por conclusão que todos éramos pira¬ tas e ladrões; opinião que ali era geral sôbre nós, não sendo, segundo êles, tanto de estranhar êste procedimento nos ingleses e holandeses por serem seus inimigos, assim no que tocava ao Estado como na religião. Mas não obstante isto êste arcebispo não dizia, como tôda a outra gente, que devíamos ser enforcados com a licença e passa¬ porte do nosso rei pendurado ao pescoço (5). Há longo tempo que os Jesuítas e êle andam em le- tígio, porque lhe não querem reconhecer superioridade, mas só ao Papa e ao seu Geral; êste processo está pen¬ dente em Roma. O arcebispo quando sai fora faz levar consigo um grande sombreiro; e é para notar que assim o dêle, como o do vice-rei e dos outros grandes senhores, são mui magníficos e cobertos de veludo ou outro pano de sêda; e no inverno de algum bom pano oleado; e o cabo (!) Deu à vela para Portugal no último de Dezembro de 1610 e chegou aos 22 de Junho de 1611. -- N. do T. (*) No fim do Cap XVIII desta 2.* Parte, onde diz que o caso acontecera com um irmão do rei de Ormuz. — N. do T. (3) Não havia vice rei nessa ocasião; e era Governador o próprio Arcebispo. — N do T. (<) Trataremos ainda dêste sucesso no sobredito Cap. XVIII desta 2* Parte.-AT. do T. (5) Note-se contudo o que o autor refere (pág 25 desta 2.* Parte) ter acontecido sóbre a sua liberdade com cate Arcebispo na qualidade de viee-rei [aliás Governador) do Estado — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 73 dêstes sombreiros é de bonito feitio, pintado de azul e dourado. No que toca aos outros prelados, governam-se em seus cargos do mesmo modo que em Espanha. Quanto à Inquisição, é composta de dois eclesiásticos, que são tidos em grande dignidade e respeito, mas um superior ao outro, e se chama inquisidor-mor Ó). A justiça dêste tri¬ bunal é ali muito mais severa que em Portugal, e queimam mui freqiientemente judeus, a que os portugueses chamam cristãos novos. Quando êstes são presos pela justiça do Santo Ofício, todos os seus bens são também confiscados, e não prendem senão os ricos. O rei faz tôdas as des¬ pesas desta justiça, se as partes não têm com quê; mas êles ordinàriamente não as acusam, senão quando sabem que têm juntado grande cabedal. É esta justiça a mais cruel e impiedosa coisa do mundo; porque a menor sus¬ peita, a mais leve palavra, seja de úma criança ou de um escravo que quere ser molesto a seu senhor, fazem logo condenar um homem à pena última; e dá-se ali crédito a qualquer criança por mui pequena que seja, contanto que saiba falar. Ora são acusados de pôr crucifixos nas almo¬ fadas sôbre que se assentam ou ajoelham, ora que açoitam imagens e não comem toucinho; enfim, que guardam ainda secretamente sua antiga lei, sem embargo de fazerem públicamente obras de bons cristãos, e verdadeiramente creio que a maior parte das vezes provam contra êles o que querem, porque não condenam à morte senão os ricos, e aos pobres dão somente alguma penitência. E o que é ainda mais cruel e iníquo é que um homem que quiser mal a outro, por se vingar o acusará dêste crime; e sendo prêso não há amigo que ouse falar por êle, nem visitá-lo, ou procurar por suas coisas, como em semelhante caso acontece aos criminosos de lesa majestade. O povo em geral não ousa falar desta Inquisição, salvo com grande acatamento e respeito, e se pela ventura escapasse alguma palavra que de algum modo lhe tocasse, é mister ir logo logo acusar-se e denunciar-se a si a própria pessoa, se desconfia que alguém a ouviu; porque aliás se outrem a denunciasse, ficaria logo perdida. E’ horrível e espantosa coisa ser alguma vez ali prêso; porque não há nem pro¬ curador, nem advogado que fale pelo pobre encarcerado; E) Aliás Primeiro Inquisidor. — N. do T.
  • 74 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD mas os ministros daquele tribunal são juízes e partes ao mesmo tempo. A forma de proceder na Inquisição de Goa é em tudo semelhante à de Espanha, Itália e Portugal. Há pessoas que ãs vezes estão dois e três anos presas sem saber por¬ quê, e não são visitadas senão pelos oficiais do tribunal; e no lugar em que estão nunca vêem a mais ninguém; e se não têm posses para viver, dá-lhes el-rei o mantimento. Os gentios e mouros indianos, de qualquer religião que sejam, não são sujeitos à Inquisição, salvo se se houverem feito cristãos; mas assim mesmo não são castigados tão rigorosamente como os portugueses ou cristãos-novos vin¬ dos de Portugal, e os outros mais cristãos da Europa. Mas se pela ventura um índio, mouro ou gentio, tiver divertido ou impedido outro, que mostrasse vontade de se fazer cristão, e que isto se provasse contra êle, seria castigado pela Inquisição; como também aquêle que tivesse feito a outro deixar o cristianismo, como mui freqUentes vezes acontece. A causa porque não tratam êstes índios tão rigorosamente é porque entendem que êles não podem ser tão firmes na fé como os cristãos-velhos; e também porque assim se impediria a conversão dos outros: de sorte que se lhes deixam ainda algumas pequenas superstições gen¬ tias, como não comer carne de porco ou de vaca, ou não beber vinho; e igualmente o seu antigo modo de vestir e adornos, assim aos homens como às mulheres cristãs. Ser-me-ia impossível dizer quanto número de pessoas esta Inquisição faz morrer ordinàriamente em Goa; e con¬ tentar-me-ei só com o exemplo de um joalheiro ou lapidário holandês, que ali assistia há mais de vinte e cinco anos, e era casado com uma portuguesa mestiça, de quem tinha uma filha mui linda, prestes a casar, e havia granjeado uns trinta a quarenta mil cruzados de fazenda. Ora dando-se êste homem mal com sua mulher, foi acusado de ter livros da religião protestante, e sendo por isso prêso, sua fazenda foi confiscada, e dela deixaram metade à mulher, e a outra metade ficou à Inquisição. Não sei que mais aconteceu, porque nesse meio tempo me vim embora; mas bem creio que terá sido sentenciado à morte ou ao menos perdido tôda a sua fazenda. Era holandês de nação. Não fizeram outro tanto a um soldado português, que era casado em Portugal e na índia; mas era pobre; e assim só o mandaram na nossa nau prêso para Lisboa; se fôsse rico, não teriam
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 75 tomado o trabalho de o mandar. Tôdas as outras Inquisi¬ ções da índia são subordinadas à de Goa ('). E’ nas festas principais do ano que se fazem as execuções, e nestes autos todos os pobres condenados marcham juntos com camisas breadas e pintadas de chamas de fogo; e a diferença que os que são condenados a pena última têm dos outros, é que as chamas dêstes correm para cima, e as daqe- les correm para baixo. São levados à igreja principal ou Sé, que é mui perto da prisão, e ali assistem à missa e sermão, no qual se lhes fazem grandes admoestações; depois são levados ao Campo de S. Lázaro, e ali os queimam em presença dos outros, que assistem ao auto. Falando agora dos eclesiásticos da índia; há ali grande número de Ordens Religiosas, que tôdas recebem renda de el-rei de Espanha, além daquelas que são mendicantes, e que arranjam grossas esmolas, e a essas mesmas dá el-rei alguma pensão. Os párocos também recebem todos de el-rei as suas ordinárias, e êste cobra os dízimos, que o Papa lhes concedeu; o pé de altar e mais benesses perten¬ cem aos vigários e curas. Todos os eclesiásticos andam vestidos de sarja de algodão, porquanto a lã ali é mui rara e cara, porque vem de Portugal; e o algodão é mui cómodo por razão do calor. Lá não é como cá entre nós, porque tôda a sorte de religiosos ali baptizam, confessam, são curas de almas, e administram todos os sacramentos como os outros sacerdotes seculares, que êles chamam Clérigos. Aceitam para padres aos índios naturais, de qualquer reli¬ gião que procedam, excepto os jesuítas, que não querem senão cristãos nascidos de pai e mãe europeus. Todos os eclesiásticos são mui ricos, e cada um granjeia particular¬ mente para si o que pode; os Jesuítas porém têm tudo em comum; e quando andam de viagem, por onde quer que seja, não levam mais que o seu breviário. Só êles também são os que ensinam a doutrina, e têm colégios naquela terra para tôda a sorte de ciências, e instruem tôda a sorte de crianças, assim índios como portugueses. O seu principal e primeiro colégio de tôda a índia é o de S. Paulo de Goa, onde mandaram fabricar contíguos à sua casa e igreja aposentos para isso, e aí tôdas as classes são mui bem separadas e ordenadas. Os estudantes não (1) Náo havia propriamente outra Inquisição na tndia além da de Goa; mas sim Comissários desta em tôdas as fortalezas dos portugueses.
  • 76 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD entram na casa dos padres, e os mestres não saem de casa para ir às suas classes, nem passam à rua para êsse fim. Fazem ali muitas vezes brincos, e representam comédias, com guerras e batalhas, tanto a pé como a cavalo, e tudo em muito boa ordem, e com vestuário apropriado. Penso que há neste colégio mais de três mil estudantes. Quando vão para o estudo, vão êstes antes de entrar nas aulas ou¬ vir missa à igreja de S. Paulo; e quando saem das aulas todos os de um mesmo bairro caminham juntos, e vão can¬ tando pela rua em alta voz rezas e orações com seu credo; mas só vão assim cantando os meninos menores de quinze anos; porque os de quinze anos para cima não seguem êste estilo. O fim dêste canto é atrair os infiéis à fé. Todos os domingos e dias santos depois do meio-dia os mestres e outros padres Jesuítas para isso ordenados, vão em forma de procissão pela cidade com cruzes e ban¬ deiras, cantando com todos os seus estudantes, que mar¬ cham formados segundo as sua classes, e então cantam todos, grandes e pequenos, e são seguidos de grande número de habitantes, e todos vão à igreja do Bom Jesus, casa professa da Companhia, onde um padre Jesuíta os cate¬ quiza, e tôda a igreja está cheia de bancos para êste efeito. As mulheres também ali vão para ouvir o^catecismo, sem faltarem um só domingo ou dia santo. Êstes padres Je¬ suítas nâo recebem dinheiro dos estudantes. Todos os que em Goa se vão confessar, têm ordem de tomar um bilhete do padre confessor para irem comun¬ gar, o qual bilhete devem entregar antes de serem recebi¬ dos à mesa da comunhão. Êste bilhete é marcado com o nome de Jesus. Ordenaram isto assim por causa dos novos cristãos, que muitas vezes iam à mesa da comu¬ nhão sem se confessarem (l). Todos os portugueses da índia tem também costume de no dia de finados enviar, quanto cada um melhor pode, pão, vinho e outras iguarias sôbre as sepulturas de seus parentes e amigos defuntos; e durante o oficio tôdas as sepulturas se vêm cobertas destas coisas; e depois de o (*) Assim pareceu ao autor; mas era estilo geralmente usado em Portugal, e que se perpetuou até aos nossos dias. Como na quaresma só se comunga por desobriga nas igrejas paroquiais, e nas grandes cidades a maior parte das confissões se faziam nos conventos, tomou se esta precau¬ ção contra os pouco escrupulosos, põsto que cristãos-velhos. — N do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 77 povo sair da igreja, os padres ou religiosos aproveitam para si tudo isto, ficando em obrigação de rogar a Deus pelos finados. Jejuam véspera de Natal, como cá entre nós, e jantam ao meio-dia; mas antes de irem à missa da meia-noite, pela volta das onze horas fazem uma mui boa colação, que equivale a uma ceia, salvo não comerem carne nem peixe, mas de tudo o mais comem e bebem a fartar. As mulheres sobretudo, assim senhoras como servas, dese¬ jam muito esta noite, porque, como vão tôdas à missa, servem-se da devoção para gozar de seus amores. Por tôdas as ruas há nesta noite lanternas. No dia de Natal em tôdas as igrejas se representam os mistérios da Nativi¬ dade, com grande cópia de personagens e animais que falam, como cá os bonifrates; e há grandes rochedos e por baixo dêles homens que fazem mexer e falar estas figu¬ ras como querem; e todos vão ver êstes brincos. Mesmo na maior parte das casas e encruzilhadas das ruas há semelhantes divertimentos; e faz lá nesta estação melhor tempo que cá pelo S. João. Nas ruas, praças e outros lugares da cidade há mesas cobertas de belas toalhas brancas e bem obradas e sôbre elas muitos confeitos doces sêcos e bôlos, a que chamam Rosquilhas, de mil feitios diversos, de que tôda a gente compra para dar mútuamente por consoada; e dura esta espécie de feira até passado dia de Reis. De noite vão pôr grandes letreiros com estas palavras Ano bom, acompanhados de música e instru¬ mentos. Quando chega a festa da Páscoa, tôda a quinta e sexta-feira santas fazem procissões gerais, como é uso em tôdas as terras de el-rei de Espanha, e nas tais procissões vão grande cópia de penitentes de tôdas as qualidades, que se disciplinam e marcham de joelhos com os braços cruzados. Seria impossível representar tôdas as cerimó¬ nias e modos estranhos e supersticiosos que nestes actos observam. Para êstes penitentes há lugares à maneira de hospitais, providos de grande quantidade de vinagres, doces, pão, vinho e outras espécies de refrescos e muitos panos brancos. O vinagre serve para lhes lavar as feri¬ das e o mais para os restaurar comendo e bebendo; e ainda os panos para os limpar e curar. Em tôdas as igrejas azem mui formpsos monumen¬ tos. O interior delas é r camente ornado e armado e o
  • 78 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD pavimento juncado de ervas e flores, com grandes ramos de belas e largas folhas aqui e ali, pela maior parte de palmas; e o mesmo fazem na parte externa, pois nestas ocasiões ao redor das igrejas e ainda nas ruas, que são mui bem varridas, plantam muitas ervas, flores e arbustos. Nos lugares vizinhos às ditas igrejas põem grandes alame¬ das de palmeiras de uma e outra banda; e têm também para uso da igreja grande número de charamelas, cornetas, tambores, rabecas e outros instrumentos. Às portas ven¬ de-se tôda a sorte de comestíveis, enfeites e brincos de crianças. Tôdas as festas começam na véspera ao meio- -dia e acabam no próprio dia ao meio-dia, e passada esta hora não há mais solenidade. Anunciam com cartazes em tôdas as ruas e lugares costumados as festas e as igrejas onde são, com os seus perdões e indulgências. Todos os novos cristãos assim homens como mulhe¬ res trazem ordinàriamente ao pescoço grandes contas de pau, os portugueses e mestiços trazem-nas na mão e nunca cessam, enquanto falam, tratam negócios ou exe¬ cutam outra qualquer acção, de deixar cair os padres- -nossos e ave-marias; não sei o que êles dizem, mas vi muitas vezes que ainda jogando aos dados faziam o mesmo. Têm um costume, que é, quando se eleva o S. Sacramento à missa, levantam todos a mão, como quem aponta para o Sacramento e bradam todos em voz alta duas ou três vezes, Misericórdia, batendo nos peitos. Não usam o pão bento como nós. Quando seus escravos, de um e outro sexo, vão à missa, levam ferros nos pés, ao menos aquêles de que se desconfia que querem fugir. No que toca a seus casamentos o homem nunca vê a noiva senão quando ela vai à igreja, mas não lhe fala. Vai ela mui bem enfeitada à moda de Portugal e coberta de pérolas e pedras preciosas; e se lhe agrada, vai o preten¬ dente ao outro dia com um padre a sua casa e a pede em casamento; depois do que pode continuar a ir vê-la, mas nunca os deixam sós. Casam-se ordinàriamente de tarde e vão em grande solenidade à igreja. A noiva é às vezes acompanhada de oitenta ou cem cavaleiros bem ordenados, porque todos os parentes e amigos de uma e outra parte assistem ao acto. Igualmente é acompanhada de outros tantos,palanquins, em que vão tôdas as parentas e ami¬ gas. E conduzida por duas das suas mais próximas pa¬ rentas e semelhantemente o noivo por dois dos seus até
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 79 ao interior da igreja perante o padre. Estas quatro pessoas são chamadas Compadres e Comadres (l). Terminada a cerimónia da igreja, voltam para casa pela mesma ordem ao som de muitas trombetas, cornetas e ou¬ tros instrumentos, que tangem desde a igreja até a casa; e por onde passam lhes vão lançando muitas flores, águas cheirosas, confeitos e doces sôbre o acompanhamento, o que apanham os servidores. Chegados a casa os noivos com os homens e damas mais próximos parentes e de mais idade entram, e os mancebos ficam na rua, onde recebem os agradecimentos; e no entretanto se recreiam em fazer menear, correr e saltar seus cavalos defronte da casa e se batem com laranjadas e jogam canas uns com outros; estando os noivos e tôda a mais companhia às janelas, que são em forma de galeria, donde assistem a êste pas¬ satempo. Por fim, apeiam-se todos os cavaleiros e entram numa sala baixa, onde se lhes oferece tôda a sorte de fru¬ tas e doces com água deBanguenim; e depois o noivo lhes vem repetir os agradecimentos com tôda a cortesia. Segue-se um banquete a todos os parentes, que não dura muito tempo e concluído êle, cada um se recolhe a suas casas. Nos baptismos usam das mesmas cerimónias e soleni¬ dades que nos casamentos. O padre mergulha três vezes a criança na água benta; e põem ali uma grande salva de prata dourada cheia de rosquilhas, biscoitos, massas e ou¬ tros doces, com um grande círio plantado no meio e uma peça de ouro pegada nêle; e tudo isto é para o pároco, ex- cepto a salva. No dia da festa do orago de um Mosteiro ou Con¬ vento, dão ali grande banquete a muitas pessoas da sua amizade; e o mesmo fazem os párocos e curas nas festas das suas igrejas. Todos os cristãos de Goa, assim portugueses como mestiços e índios, abastados e ricos, vão à igreja com grande pompa e ostentação, acompanhados de seus fami¬ liares, pajens e lacaios bem ordenados. São conduzidos no seu palanquim e todavia não deixam de fazer levar após si seus cavalos e sombreiros; e os pagens levam ca- (*> Ao leitor português é inútil advertir que estas quatro pessoas em relação aos noivos sáo chamadas Padrinhos e Madrinhas, e em relação aos pais dos noivos é que são Compadres e Comadres. — N. do T.
  • 80 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD deiras ou tamboretes bordados, com duas almofadas de veludo. Todos trazem espada à cinta e atrás dêles mar¬ cham todos os seus servidores e escravos, de que os mais ricos têm vinte ou vinte e cinco. Mas nunca vão sem as suas grandes contas na mão e fazem levar um cochim para ajoelharem. Enfim, marcham com a maior soberba do mundo e são tão faustosos que é mister que um dos ser¬ vidores tome água benta para a dar a seu amo ou ama, e isto sendo homens ou rapazes, porque as moças donzelas e as mulheres nunca chegam nem tocam na pia da água benta. As mulheres ricas e nobres vão pouco à igreja, a não ser nos dias das festas principais, e quando vão, aparecem soberbamente vestidas ao modo de Portugal com vestidos pela maior parte de brocado de ouro, de sêda e prata, ornadas de pérolas, pedras preciosas e jóias na cabeça, braços, mãos e cintura; e cobrem-se com um véu do mais fino crepe do mundo, que lhes desce da cabeça até aos pés. O véu das donzelas é de côr e o das donas prêto. Nunca usam meias. Os seus vestidos e saias arrastam pelo chão. As chinelas ou chapins são abertos pela parte superior e só cobrem a ponta do pé, mas são todos bordados a ouro e prata em palheta até abaixo do chapim e por cima cobertos de pérolas e pedras preciosas; e têm uma sola de cortiça de quási meio pé de altura. Quando vão à igreja são levadas em palanquim o mais ricamente paramentado que é possível; tem dentro um grande tapête da Pérsia, que êles chamam alcatifa, e há dêstes alguns que valeriam cá quinhentos escudos; e além disso há duas ou três grandes almofadas de veludo ou brocado de ouro, prata e sêda, uma para a cabeça e outra para os pés; e na igreja estas alfaias são levadas por suas aias ou criadas, que são portuguesas ou mestiças. Se estas damas têm algum filho ou filha pe¬ quena, metem-nos consigo no seu palanquim. As servidoras ou escravas vão atrás a pé e chegam às vezes a ser quinze ou vinte, ricamente vestidas de sêda de tôdas as côres, com um grande crepe fino por cima, a que chamam mantos; mas não se vestem ao modo de Por¬ tugal e usam grandes peças de pano de sêda que lhes servem de saias; e têm também roupinhas de sêda mui fina, a que chamam bajus. Entre estas escravas acham-se mui lindas moças de tôdas as nações da índia. E é para notar que os maridos mandam também acompanhar suas
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 81 mulheres de seus pagens, com um homem ou dois de boa condição, portugueses ou mestiços, para as levar e suster pela mão depois de descerem de seu palanquim, e as mais das vezes chegam a entrar dentro da igreja no palanquim, tanto é o seu receio, de ser vistas na rua. Não trazem máscara, mas andam tôdas tão arrebicadas, que é uma vergonha. E, todavia, não são elas que receiam de ser vistas, mas sim os maridos, que são tão zelosos, que mais não pode ser. Uma das servidoras ou escravas leva a rica alcatifa, outra as duas preciosas almofadas, outra uma cadeira da China bem dourada, outra uma bôlsa de veludo onde está o livro, lenço e outras coisas necessárias, outra uma bela esteira mui fina para pôr por cima da alcatifa, outra finalmente o leque e mais coisas do uso da senhora. Estas damas, como está dito, quando entram na igreja, são levadas pela mão por um ou dois homens, porque não podem andar sós por causa da altura dos seus chapins, que pela maior parte têm meio pé de altura e são abertos por cima. Um dêstes homens dá água benta na mão da senhora e esta vai depois tomar o seu lugar a quarenta ou cinquenta passos de distância, gastando no caminho, pelo menos, um bom quarto de hora, tão grave e pausadamente marcham; e levam na mão umas contas de ouro, pérolas e pedras preciosas. Assim o fazem tôdas, segundo as suas posses e não segundo sua qualidade. Quando levam con¬ sigo seus filhos, fazem-nos ir diante de si. As servidoras e escravas folgam muito de que as suas senhoras não vão à missa, porque então vão elas sós e podem visitar seus namorados, como ordinàriamente fazem; e nisto nunca se descobrem ou acusam umas às outras. Eis aí as coisas mais singulares e notáveis que eu vi em Goa; e seria um nunca acabar, se eu quisesse parti¬ cularizar e dizer pelo miúdo tudo o que aí observei em dois anos que lá me detive; contento-me só de haver tocado geralmente algumas coisas, deixando por elas a julgar do resto. Enquanto às diversas mercadorias que aportam a Goa, de tôdas as partes da índia, falaremos em seu lugar, segundo as regiões donde vêm. De maneira que quem houver estado em Goa, pode asseverar ter visto as maiores singularidades da índia, pois é ela a mais famosa e celebrada cidade pelo tráfico de tô¬ das as nações indianas, que lhe levam tudo quanto as suas 6 II TOI.
  • 82 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD terras podem produzir, assim em mercadorias, como em mantimentos e outras comodidades, que ali há em mui grande abundância; porque aportam ali cada ano mais de mil navios carregados de tudo; o que torna ali os manti¬ mentos mais baratos que em outro algum lugar do mundo, porque o que cá custaria cinqílenta soldos, não vale lá cinco. A maior parte dos víveres, frutos e outros regalos e comodidades lhe vêm do Dealcão. O peixe de mar é ali em tal abundância, que há mais do que é mister, con¬ quanto se coma ali muito mais peixe que carne, porque é aquêle o seu quási único alimento, e sem embargo disso perde-se outro tanto como se come, porque se não pode guardar por mais de vinte e quatro horas, por causa do calor do país, que corrompe logo tôdas as viandas. Não se vê pelas ruas e esquinas outra coisa mais que homens e mulheres que fregem e assam peixe para vender, tudo temperado com os molhos e especiarias necessárias. Acrescentarei ainda que, tendo assistido dois anos em Goa entre os portugueses, é impossível referir e exprimir ( as afrontas, injúrias e opróbrios que padeci. E em ver¬ dade posso dizer sem vaidade que, se durante o tempo de dois anos que ali me detive, eu tivesse o menor vislumbre de esperança de regressar a França, teria sido mais curioso de conhecer e observar as coisas belas e curiosas daquela terra. Mas desde o dia de nosso naufrágio até que saí em terra na Rochela, nunca tive um momento de esperança de minha volta; o que também foi causa de que eu me não aplicasse a ajuntar riquezas, como pudera fazer; porque lá mui pouca coisa basta para sustentação de um homem, pois tudo é a preço vil. Não deixei todavia de observar muitas singularidades no que toca às riquezas e mercado¬ rias.daquelas partes, por haver frequentado na maior parte da índia assim os índios naturais, como os portugueses, com os quais andei para o norte e para o sul, correndo e defendendo as suas costas, e dando guarda aos navios mercantes na ida e na volta. Mas sempre direi que se os portugueses tivessem julgado que me passava só pelo pensamento observar al¬ guma coisa de entre êles, assim da navegação da índia, como outras particularidades de seu Estado e comércio, não me teriam nunca permitido o meu regresso, antes me haveriam dado a morte, ou desterrado como fazem a seus malfeitores: mas eu tive sempre boa cautela de lhes não dar
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 83 a menor suspeita neste particular; estando de sobreaviso à vista de outros exemplos, como foi aquele em que tendo êles apanhado um batel de um navio inglês na costa de Melinde, perto das ilhas de Nicobar (l), e tendo achado dentro dêle um homem de sonda na mão para sondar e reconhecer a costa, o mataram cruelmente, o que não costumavam fazer aos outros estrangeiros. E pôsto que eu confesso ser pouco esperto, ainda lhe dava demonstra¬ ção de o ser menos, por mêdo de lhe dar má opinião dc mim. E até lhes fiz crer que eu não sabia ler nem escrever e que não entendia sua linguagem; e para viver bem com êles me era mister obedecer-lhes em tudo e por tudo, de sorte que se algum dêles me queria ou fazia mal, eu tra¬ tava por todos os meios de fazer a paz com êle e de os ter todos por amigos. Eis como eu passei quási dois anos e meio com êles, sem contar o tempo que levámos na torna-viagem desde Goa até Portugal. Mas para acabar êste capítulo, direi ainda que os in¬ gleses, que estavam em Goa e foram apanhados no rio e barra de Surrate, nos disseram que o navio chamado «Cres¬ cente», nosso almirante, havia, na torna-viagem, surgido na ilha de Santa Helena e que, chegando ali depois dêle um navio inglês, que vinha da índia carregado de riquezas, mas fraco em homens, o «Crescente» intentara surpreendê-lo, porque era melhor navio e não fazia tanta água como êle que estava todo aberto (8), tanto que não pôde chegar a França, como eu depois soube; mas que sendo aquêle in¬ tento descoberto por um rapaz bombardeiro do «Crescente», que era inglês, aquêle navio de noite levou âncoras apres¬ sadamente e nêle foi o bombardeiro que os tinha adver¬ tido; o que foi causa de que os ingleses não ficaram nossos amigos e desprezavam a nossa nação, porque são todos mui soberbos, ao revés dos holandeses. Fui também curioso de preguntar o que era feito do nosso mestre e dos outros nossos onze companheiros que se haviam escapado das ilhas de Maldiva num batel, durante o tempo que ali estávamos naufragados, como atrás disse; (*) Há engano no nome destas ilhas, porque as de Nicobar (Nl- cobard, escreve o autor) são no gôlío de Bengala, e não na costa de Me¬ linde. - N. do T. (2) o autor envergonhou-se de confessar que o que os seus antigos camaradas queriam, principalmente, era roubar as riquezas, de que vinha recheado o navio inglês. — N. do T.
  • 84 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD mas não pude saber outra coisa mais senão que êles ha¬ viam chegado a Coulâo, terra dos portugueses, e que o mestre morrera no hospital do dito Coulão com alguns ou¬ tros, e o resto foram levados presos a Goa, donde uns se haviam embarcado para passar a Portugal e outros eram idos a várias partes nas armadas dos portugueses, e não se sabia o que era feito dêles. CAPÍTULO VII DOS EXERCÍCIOS e jogos dos portugueses, mestiços e OUrROS CRISTÃOS EM GOA; E DE SEUS USOS E MODO DE VIDA, E DE SUAS MULHERES OS exercícios, a que se dão os portugueses, tanto em Goa como nos outros lugares da índia, são, primei¬ ramente, menear armas e montar a cavalo; e nos dias festivos e domingos se ocupam em mil corri¬ das a cavalo, lançando laranjas e ogando canas uns com os outros, estando cada um o me hor apercebido e orde¬ nado que pode. Não passa festividade alguma em que não façam algum brinco a que assiste todo o povo, que ali acode aos ranchos, e a tôdas as cerimónias e solenida¬ des da festa se acrescentam feiras, banquetes e músicas com tôda a sorte de instrumentos, intermeando assim os prazeres com as devoções. Deleitam-se também muito de ir a passeio pelo rio em suas manchuas, feitas em forma de galeotas, onde vão a coberto, com músicas, e assim vão desembarcar a suas fazendas, ou às de seus amigos, onde há casas aprazíveis com jardins e hortas, mui povoa¬ das de palmeiras e grande abundância de reservatórios e regatos de águas claras e frescas; e aí se banham, me¬ rendam e tomam outros refrescos, à sombra. No que respeita a jogos de cartas e de dados e outros de azar, são permitidos, e há casas deputadas para isso, cujos donos pagam tributo a el-rei e ninguém ousaria jo¬ gar em outra parte fora dali sob pena de grossa multa. Os que têm por sua conta estas casas e bancas de jôgo tiram grandes lucros, porque é coisa admirável o grande número de jogadores que ordinàriamente aí se juntam, de que a maior parte até comem, bebem e dormem ali por não terem outra ocupação fora esta. Tudo ali está mui bem
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 85 ordenado nas salas e câmaras, que são belas, claras e bem alcatifadas; e há sempre servidores prestes para servirem os fregueses de tudo o que hão mister. Nunca vi jogadores mais liberais e bizarros do que aquêles, porque os que ganham dão voluntàriamente dinheiro aos que estão de fora do jôgo, isto é, àquêles que se entretêm a ver jogar e querem entrar no jôgo. Chamam a esta bizarria Barato. E não é vergonha aceitar esta dádiva, porque passa mais por um honrado presente, que por esmola. Dão algumas vezes, desta maneira, boas peças de ouro; e bastantes vezes, quando eu não tinha dinheiro, ia vê-los jogar, e mais prontamente mo davam a mim do que aos outros portu¬ gueses e mestiços. A maior parte dos soldados, que não têm dinheiro, vão ordinàriamente a estas casas. Dão tam¬ bém muito aos servidores da casa, e os donos tiram dos jogadores um certo tributo (*). Enquanto jogam, há raparigas, servas e escravas do dono ou dona da casa, que tangem instrumentos e cantam árias para recrear os parceiros, e note-se que, para isto, se buscam as mais belas raparigas que se podem encontrar. Os parceiros jogam jôgo mui forte e sem disputa, por causa da regra e polícia que ali há; e ainda que seja o maior senhor do mundo, cumpre já vá jogar àquelas casas públicas, mas há nelas câmaras particulares segundo a qualidade das pessoas; e nestes jogos despendem-se gran¬ des cabedais. Gostam muito do xadrez e das damas e de todos os outros jogos de tabuleiro. Não usam o jôgo da pela, mas sòmente jogam à bola com a mão (8); e também usam muito do jôgo dos paus e da bola. Há também ali muitos pelotiqueiros, charlatães e farsistas que, para os recrear, lhes mostram serpentes e outros animais raros. Lá, assim os homens como as mulheres, todos aprendem a cantar e tocar instrumentos, mas não usam danças (3). (*) É a este tributo ou retribuição que se dá hoje mais comummente o nome de Barato — N■ do T. (2) O autor escreve — Ils n’ ont point de ieu de paulme, mais seulement ils louènt du ballon auec la main - o que só nos parece que significa que os jogadores de Goa jogavam a pela ou bola (pois que vem a ser a mesma coisa) com a mão e não com palheta, como os fran¬ ceses. — N. do T. (*) Hoje, como é sabido, estão os costumes nesta parte mui troca¬ dos. As damas brancas de Goa raras vezes aprendem a tocar ou a cantar; mas são excessivamente apaixonadas da daoça, principalmente das danças da Europa. — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 86 No que pertence a seu modo de viver em casa, todos, assim homens como mulheres, moços e moças, quando chegam a casa, tiram logo todo o vestuário que julgam sobejo. Os homens ficam só com camisa e calções, que lhes chegam até aos artelhos e são extremamente brancos e finos; tiram também o chapéu e põem um gorro ou cara¬ puça, que é de veludo ou tafetá, em forma de chapéu, e só tem borda de uma banda. As mulheres ficam com as suas roupinhas ou bajus, mais raras e finas que o mais delgado crepe de cá; de sorte que as carnes aparecem por baixo tão bém como se elas nada tivessem sôbre si; e, além disso, deixam ainda o seio mui descoberto, de sorte que se lhes vê tudo até a cintura. Na cabeça nada mais trazem que os cabelos atados e torcidos. Da cintura para baixo, põem um pano de algo¬ dão ou de sêda mui belo, mas não tão transparente e fino como os das roupinhas, porque nada se pode ver através dêle e é como o nosso tafetá. A maior parte dos homens que se querem casar, não se contentam de ver as rapari¬ gas que pretendem em seus vestidos de festa e cerimónia, por haver nêles sobejo artifício; mas para concluir o ajuste auerem-nas ver em casa nos hábitos caseiros que tenho ito, a fim de as contemplar em tôda a sua natural sim¬ plicidade, e ver se elas são bem proporcionadas ou con¬ trafeitas; e também não desejam que elas estejam então arrebicadas, como estão quando saem fora e se enfeitam 0). A ocupação das mulheres não é outra durante todo o dia mais que cantar e tanger instrumentos, e algumas vezes, mas raras, se visitam. Usam também dia e noite mascar Bétele como fazem todos os índios (*). Seus mari¬ dos são muito zelosos; mas elas são tão dadas ao amor e aos prazeres carnais, que apenas acham a menor ocasião, não a deixam perder. E nunca lhes faltam ocasiões e amantes, quando são belas e ricas, e por conseguinte podem ser amadas e da sua parte retribuir o amor; e as servas e escravas estão mui prestes para servir nisso a (1) O autor disse, no capitulo antecedente, que os homens nunca viam as noivas senáo na igreja, nem lhes faiavam; aqui diz o contrário. O que porém, sem dúvida, acontecia, era haver exemplos de uma e outra coisa, segundo as circunstâncias e as pessoas. — N. do T. 6) Hoje está êste uso substituído nas senhoras de Goa pelo do tabaco de fumo. — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 87 suas senhoras, e granjear-lhes algum bom galã, como noutro lugar já disse; mas os maridos as vigiam mui cau¬ telosamente; e quando saem a visitas, enviam com elas algum pajem ou outra pessoa de confiança, para observar as suas acções; mas elas são tão astutas e artificiosas, que quási sempre chegam a lograr seus intentos. Ora tôdas as mulheres da índia usam muito de um certo fruto do tamanho de uma nêspera grande, que se produz não em árvore, mas em uma erva, e é todo verde, redondo, espinhoso por fora, e por dentro cheio de semen¬ tes miúdas. Há-o por quási tôda a índia e em muita abun¬ dância nas ilhas de Maldiva, onde lhe chamam Moetol, isto é, erva dos loucos; e em outros lugares da índia é chamado Dutró. Quando as mulheres querem gozar de seus amores em tôda a segurança, dão a beber a seus maridos dêstes frutos desfeitos em alguma bebida ou caldo, e uma hora depois ficam atordoados e como insensatos, cantando, rindo e fazendo mil momices, porque perdem então todo o conhecimento e juízo, nem sabem o que fazem nem o que se faz em sua presença. E as mulheres aproveitam então a ocasião de dar entrada a quem bem lhes parece e fazer tudo quanto lhes apraz, mesmo em presença dos maridos, que nada podem perceber. Este estado dura cinco ou seis horas, mais ou menos segundo a quantidade da dose. Depois dormem, e quando despertam, persua¬ dem-se que estiveram sempre a dormir, sem se lembrarem de coisa alguma do que fizeram, viram ou ouviram. Quando também os homens querem gozar de uma rapariga ou mulher e o não podem conseguir, fazem-lhe tomar a mesma droga, e quando têm o entendimento tol¬ dado, fazem delas o que querem, sem elas darem por tal. Durante o tempo que naquelas terras estive, aconteceu acharem-se grávidas muitas mulheres sem saberem donde aquilo lhes vinha. Mas quem tomasse grande quantidade dêste fruto, infalivelmente morreria. Quando os soldados e outros homens não podem possuir uma mulher, ganham as suas escravas, que por dinheiro vendem e atraiçoam suas senhoras desta sorte, fazendo-lhes beber desta erva (l). (>) A planta, de que fala o autor, é a bem conhecida Datura Stra- monlum, representada aqui pelos seus dois nomes indianos, Moetol e
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD «8 Verdade é que os escravos são tão maltratados de seus senhores e senhoras, que cruelmente os tiranizam, que não há muito que estranhar se êles se arriscam a tudo para se vingarem. Vi um dia em Goa um escravo de dezóito ou dezanove anos de idade precipitar-se num poço, onde se matou, para evitar a fúria de seu senhor, que corria após êle para o castigar. Mas ainda que em Goa as mulheres sejam muito impudicas e que o clima e os alimentos da terra o favore¬ çam, todavia nem lá, nem nas outras cidades dos portu¬ gueses, há alcouce público, nem é permitido havê-lo, como em Itália e em Espanha; mas encobre-se ali o pecado o melhor que se pode; e todavia não se passam maiores privações do que em outros muitos lugares. Dulró, dos quais o segundo é vulgar ao norte e o primeiro ao sul da Índia. Deriva-se o segundo do sánscristo, onde a mesma planta é chamada Krishna Dhattura, e daí passou às outras línguas de origem sãnscrita, como no Bengali Kala Dalura, no Hindustãni e Guzerate Datura, no Concani Dutoró (sing.) e Dutore (plur.). Foi daqui que passou à língua portu¬ guesa, onde comummente se escreve Dutró, mas alguns com mais correcção etimológica escrevem Dutoró. O outro nome, Moetol, é usado no sul, e o autor o achou nas ilhas de Maldiva. Deriva-se do Tamul Karú Umatat, no telegú Umatie, no malaio Hammatu, próximo do Maldiva Moetol. Daqui veio o português Noz Metella e o francês Metei, para significar as cápsulas desta planta. No curioso livrinho de Mr. Alexander Faulkner, intitulado A Dictto- nary of Commercial Terms, Bombaim, 1856, que principalmente nos serviu de guia na sinonimia, que temos referido, se lê, no artigo Thorn Aple (nome vulgar inglês da Datura) depois da descrição comercial da planta 3ue «para o fim de facilitar roubos e outros intentos criminosos, as sementes esta planta são freqúentemente dadas na Índia, em doces, meramente para estultificar, mas não com desígnio de matar; ainda que não há ai dúvida que para éste último efeito também têm sido usadas*. No território de Goa e províncias adjacentes, há duas espécies de Datura ou Duturó; uma azul, que é rara; e outra branca, que é abundante e brota espontaneamente nos palmares e em terrenos incultos. Os médicos ingleses, que praticam a clinica na Índia, recomendam a raiz, folhas sêcas, cápsulas e sementes da Datura para se fumarem nos casos de asma espasmódica. O povo usa das folhas recentes pisadas com sal para aplicar externamente sóbre qualquer parte dolorosa; e nas dores de garganta usa da cápsula pendurada ao pescoço. Não nos consta de exem¬ plo algum moderno de se fazer em Goa uso desta planta para os fins crimi¬ nosos a que aludem Pyrard e Faulkner. Não se deve confundir a Datura ou Moetol com o Maifol, que assim se chama na Índia a NÓS de Galha, derivando do sãnscrito Mayu- phul, do Guzerate e Hindustãni Majowphal. (Faulkner, artigo Galls.) - N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 89 As mulheres e filhas dos portugueses, mestiças e indianas, banham-se e lavam todos os dias as partes ver¬ gonhosas, como fazem as outras mulheres índias, que não são cristãs. Uma das recreações dos portugueses em Goa, é jun¬ tarem-se às suas portas com cinco ou seis vizinhos assen¬ tados à sombra em belas cadeiras para praticarem; e estão todos em camisa e calções, com muitos escravos ao redor de si, dos quais uns os abanam e lhes enxotam as moscas, outros coçam os pés e mais lugares do corpo e catam os bichos. Assim passam a maior parte do tempo, e saúdam cortêsmente aos que passam, folgando muito que se dete¬ nham para conversar com éles. Quando comem ou quando se levantam e deitam, mandam vir tôda a sua música de escravos, assim machos como fêmeas, para os recrear; e enquanto comem, têm escravos que os abanam e enxotam as moscas de cima dos manjares, porque aliás seria difi¬ cultoso não engolir algumas destas moscas, de que há grande abundância por tôda a índia. O mais ordinário passatempo das mulheres é estar todo o dia às janelas, a que chamam ventanas (*) e são mui belas, grandes e espa¬ çosas, em forma de galerias e sacadas, com gelosias e rótulas mui lindamente pintadas, de sorte que elas podem ver sem serem vistas. CAPÍTULO VIII DOS SOLDADOS PORTUGUESES EM GOA; DE SEU MODO DE VIDA E EMBARQUES; DE SUAS DIVERSAS EXPEDIÇÕES E ORDEM QUE GUARDAM NA GUERRA QUANTO ao seu modo de guerra e milícia cumpre saber que os portugueses têm tido, desde o princí¬ pio, guerra continuada,com os malabares, que são os piratas do mar da índia, e contra outros reis e Íovos indianos, como os arábios, os reis de Samatra, Java, or, que é na terra firme de Malaca, e outros das ilhas da Sonda e da costa e terra firme de tôda a índia. E afora isso desde que os ingleses, holandeses e outros estrangei- (!) O autor supôs ser portuguesa esta palavra castelhana, que nunca teve entrada na língua portuguesa. — N. do T.
  • 90 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD ros tomaram a derrota da navegação da índia, têm por êsse respeito uma nova guerra entre mãos, a qual os tem abatido muito, e pôsto em têrmos de total ruína, de sorte que se têm visto obrigados a reforçar suas armadas. Por¬ que tôda a sua guerra é por mar, e não por terra, onde êles nada têm, conquanto às vezes não deixem de ter guerra com alguns reis particulares da terra firme, que rompem a paz e tréguas ajustadas de parte a parte; e en¬ tão põem em campo exércitos de terra, e mandam vir so¬ corros de suas cidades e fortalezas. Mas as armadas são sempre certas, e armam e apercebem duas cada ano, como já disse. Para a guarda, pois, de tôda a costa da índia desde Goa até Cambaia, e algumas vezes até Ormuz, de uma parte e da outra, até ao Cabo Comorim, para impedir as carreiras dos corsários malabares, apercebem, duas armadas em Goa, e chamam Armada do Norte à que vai até Or¬ muz, e Armada do Sul à outra que vai ao Comorim; e são compostas de cinquenta ou sessenta galeotas, com uma ou duas grandes galés como as de Espanha. Estas armadas saem no mês de Outubro, que é o princípio do verão, que dura seis meses pouco mais ou menos, e é o tempo em que correm os corsários malabares. Para remar em suas galés servem-se de cativos e forçados, e usam da mesma or¬ dem que nós cá usamos. As galeotas são de quinze a vinte bancos de cada lado, e a cada remo não há mais que um homem que não seja forçado nem cativo, mas cana- rins e habitantes de Goa, Bardez e Salcete, e colombins, que são a gente mais baixa e rasteira entre aquêles povos, e êstes todos servem livremente segundo se concertam. Chamam-lhes Lascarias, ao seu patrão Mo- cadão, à galeota portuguesa Navio, e às dos malabares Paraus ou Parós. Além destas duas armadas gerais, fazem-se outras que vão a Malaca, a Sonda, a Moçambique e outras par¬ tes onde é mister, e conforme a seus desenhos; mas estas armadas são compostas de navios redondos, que são como galeões, urcas e naus da índia, com alguma grande ga¬ leota; e vão a socorrer e reforçar suas fortalezas, como a ilha de Ceilão e outros lugares onde êles têm guerra, ou onde são acometidos. Tôdas estas armadas se fazem à custa de el-rei. Saem também galeotas e navios dos outros portos e enseadas dos
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 91 portugueses, que vêm juntar-se àquêles mais possantes, e são bem armados; e todos juntos correm a costa, e entram e surgem em todos os portos, que pertencem a seus ami¬ gos e aliados, assim para refrescar, como para o tráfico, porque com estas armadas vai grande número de navios e galeotas mercantes, a que chamam Navios de Chatins, para os diferençar dos outros, que chamam Navios da Ar¬ mada. Estes navios mercantes andam assim em conserva dos das armadas pelo temor dos corsários, que obstam a que andem sós. fe ainda a maior parte dos soldados que têm posses, não deixam de fazer suas veniagas ao mesmo tempo que servem a el-rei, o que lhes é permitido, e até certo ponto necessário, pelas poucas prêsas e soldos que têm. Os navios de guerra são aparelhados à custa de el-rei, mas os navios de Chatins correm por conta de seus donos ou fretadores; e todavia não deixam de estar sujei¬ tos, e de obedecer em tudo ao general das armadas, a que dão o nome de Capitão-mor. Nas grandes galés podem caber duzentos e trezen¬ tos homens de armas; noutras galeotas grandes, a que chamam Fragatas, cabem cem, e nas pequenas, que são os navios comuns, quási quarenta ou cinquenta. Há ainda outras embarcações mais pequenas, a que chamam Man- chuas, onde cabem quinze ou vinte homens. Quanto aos navios redondos, o número de homens que levam é se¬ gundo a sua grandeza. A sua ordem e modo de embarcar é êste: quando se quere fazer um embarque em Lisboa para a índia, fazem uma leva de soldados por todo o Portugal em cada fregue¬ sia, como cá se faz com os gastadores, e aceitam tôda a sorte de gente de qualquer qualidade e condição que seja, contanto que chegue à idade de nove a dez anos; e a êsses tomam a rol, e ficam tidos e pagos por soldados. Se não se acha quem queira ir de própria vontade, fazem-nos ir por fôrça, sem diferença de idade; e todos são matri¬ culados na Casa da índia de Lisboa, onde dão fiador até embarcarem. Adianta-se-lhes todo o dinheiro da viagem, porque a maior parte são filhos de gente pobre, e têm necessidade de se vestir e armar. A paga é segundo a qualidade das pessoas. O seu modo de contar o dinheiro é por reis, como em Castela por maravedis, que é uma certa moeda que vale dinheiro e meio da nossa e dizem tantos mil reis.
  • 92 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Entre êstes soldados matriculados, há dignidades e aualidades mais honradas umas que outras, e estas prece- ências lhes vêm umas da raça e prosápia, outras de seus serviços e virtudes, e outras ainda do favor; de sorte que recebem paga segundo estas diferenças, uns mais, outros menos. Paga-se-lhes em Lisboa tôda a passagem junta até à índia, e não por meses; e êles não têm necessidade de se aperceber de provimentos para seu uso particular, porque el-rei lhes fornece tudo o de que hão mister de víveres, refrescos e munições de guerra. Aquêles títulos e qualidades adquirem-nos em Portugal, e todavia o vice- -rei não deixa de conferir alguns aos que os merecem ou aos que êle quere favorecer na índia. Os que são nobres de geração, são simplesmente chamados Fidalgos. Há outros que chamam Fidalgos da Casa de El-Rei Nosso Senhor, que são entre êles os mais estimados; outros Moços fidalgos; outros Cavaleiros fidalgos; outros Moços da Câmara e do serviço; outros Escudeiros fidalgos. Os que não têm título nem dignidade, chamam-se pura e sim¬ plesmente Soldados. Prezam mais estas dignidades do que tudo quanto há, porque elas lhes servem para haver cargos e governos com seus competentes proveitos. Além dêstes títulos há outro, que é o de homem honrado, que todos querem ter. O mais que pode receber um soldado, mesmo dos principais, para a passagem de Lisboa a Goa, são cinquenta ou sessenta cruzados. Quando êstes soldados se embarcam nas naus, são repartidos por esquadras ou companhias, para fazerem quarto, ou guarda de noite por turno e não de dia. Êstes soldados alistados, ainda que não tenham títu¬ los nem dignidades, não deixam por isso de se tratar entre si por homens bem nascidos, e se dizer todos nobres, quer sejam ou não de vil condição; e os verdadeiros nobres lho não lèvam a mal, tanto mais que a diferença de sua condição só é sabida entre êles e não dos índios, nem diminue em ponto algum a nobreza dos outros, de que todos anos vêm as listas de Lisboa ao vice-rei; antes estes títulos, que eles se dão entre si, não é senão para persua¬ dir aos índios que êles são todos de bom e ilustre nasci¬ mento, e que não há entre êles raça alguma vil nem mecânica. E por isso não querem que algum português, ou seja soldado ou outro qualquer, faça coisa abjecta e desonesta, nem vá mendigar para viver, mas antes o sus-
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 93 tentam o melhor que podem. De sorte que o maior trata com respeito ao mais pequeno; e prezam infinitamente este nome de português e Portugal, usando do nome de homem branco, e desprezam todos êsses pobres índios, a quem trazem debaixo dos pés. E não ficavam êsses índios ?iouco espantados quando nós lhes dizíamos que êles eram ilhos de mariolas, sapateiros, aguadeiros e outros homens de vis misteres. Ora segundo seus títulos, qualidades e mérito, assim são as recompensas depois de sete anos de serviço. Estas honras e títulos que os soldados se dão entre si, é só depois que têm passado o Cabo da Boa-Esperança, porque é então que êles largam todos os seus modos e costumes e lançam tôdas as suas colheres ao mar. Sendo che¬ gados à índia a qualquer lugar que seja pertencente aos portugueses, são livres de ir para onde bem lhes apraz, sem serem obrigados a coisa alguma, e mesmo não podem ser constrangidos a ir à guerra, salvo se fôr extraordinária; por isso não recebem paga nem sôldo algum. Vão sim comer e beber aos aposentos dêsses quatro grandes senho¬ res, que dão mesas a todos os soldados no inverno, e podem também ir a todos os mosteiros em qualquer tempo do ano; porque na casa daqueles senhores não se dá mesa senão de inverno, quando os soldados estão em terra e as ar¬ madas recolhidas. Hão por melhor dar-lhes de comer, que dinheiro, por¬ que sendo êles mui dados ao jôgo, jogariam tudo imedia¬ tamente. Quanto ao dinheiro que se lhes adianta quando estão para se embarcar, não ousariam deixar de aceitar tudo o que lhes é necessário para a viagem, sob pena de procedimento. Para as duas armadas do norte e sul, adian- tam-se-lhes dois quartéis, que montam ao todo em trinta e seis pardaus; e para as outras armadas, que vão mais longe, adiantam-se-lhes três quartéis; o que não obsta a que, se êles gastam mais tempo nestas viagens, não se¬ jam pagos quando recolhem de mais um quartel. E o vice-rei lho manda também dar às vezes, quando quere gratificar os soldados. Nunca fazem alardo; mas sabem a conta dos seus soldados pelas listas; porque não querem que os índios saibam o seu número, como já disse. Os outros habitantes e soldados cristãos índios naturais os fazem; mas não os mestiços que são como portugueses.
  • 94 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Ainda que a maior parte dêstes soldados sejam envia¬ dos por fôrça, contudo, chegando à índia, são todos livres de ficar nela, ou voltar a Portugal, tendo a sua licença e passaporte do vice-rei, o que êles mui dificilmente obtêm, a não ser por favor, ou mostrando alguma causa legítima. Mas a causa principal porque tão poucos re¬ colhem ao reino, é porque el-rei nem água lhes dá para a torna-viagem, e que é mister ao menos trezentos pardaus para as despesas dela. Os que chegam novamente à índia são chamados Rei- nóis, isto é, homens do reino, e os mais antigos mofam dêles até fazerem uma ou duas, viagens, e terem apren¬ dido os costumes e manhas da índia; e aquêle nome lhes dura até serem chegados outros navios no ano seguinte. Quando vão pela rua e são conhecidos como Reinóis, os rapazes e moços das tendas gritam após êles, e os merca¬ dores indianos folgam muito de os ver, porque mais leve¬ mente se deixam enganar. Para êstes soldados portugueses esperarem recom¬ pensa ou mercê de el-rei, é mister que sirvam lá sete anos, sem contar o ano da partida; e por isso os mestiços, ou nascidos na índia, fazem serviço oito anos. Não basta porém assistir lá, é mister embarcar-se e ir em tôdas as facções de guerra e embarques, que se oferecem e ter disso bons certificados do vice-rei e capitães, os quais se não esquecem de lançar em seus certificados todos os bons serviços que prestaram, para que êles tenham a recom¬ pensa proporcionada, porque se os não podem mostrar, nada recebem. Se querem ser recompensados, é mister também que se recolham a Portugal no fim daquele tempo, senão o seu serviço será perdido: e de feito o perdem às vezes quando por falta de meios não podem ir, porque de¬ vem ali comparecer em pessoa. Mas se morrem no ca¬ minho, suas mulheres e filhos, ou outros herdeiros próxi¬ mos, podem servir-se dos ditos certificados, como êles pró¬ prios o teriam feito. Os que se recolhem antes do dito tempo não têm recompensa alguma, e da mesma sorte os que estando na índia não servem. Há grande número de soldados, que são enviados à índia como degredados por suas malfeitorias, e êsses não ousariam regressar antes de expirado o seu tempo. Man- dam-nos a Ceilão, Moçambique, Malaca e outras fortale¬ zas para defensão delas, e têm sòmente os seus soldos,
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 95 sem esperarem mais recompensa; e a maior parte dêstes casam-se ali e lá ficam tôda a vida. Quanto aos moços que são embarcados e pagos por soldados em Lisboa, quando chegam à índia não são recebidos por tais, se não têm fôrça suficiente para menear tôda a sorte de armas; mas nem por isso lhes falta logo arrumo; porque todos os senhores, capitães e fidalgos os tomam por pajens, ainda que sejam de baixa condição; e não fazem a seu amo ou ama algum serviço vil, mas só os acompanham quando saem fora, e andam mui galhar¬ damente vestidos da libré de seu amo. E há fidalgo que chega a ter doze ou quinze dêstes pajens, os quais não comunicam, nem tratam com os escravos C1). Quando são grandes e fortes para pegar em armas, seu amo lhes dá algum dinheiro para as comprarem e se vestirem, e então se embarcam como os outros, e os sete anos de serviço se lhes começam a contar desde que saem de pajens e seguem a vida soldadesca. Estes soldados são todos isentos e ninguém tem sôbre êles mando senão o vice-rei, salvo quando estão alistados, embarcados e têm recebido sua paga para irem à guerra; porque então os capitães e capitães-mores das armadas os governam durante aquela viagem somente. De sorte que todos os homens, que não são casados e que trazem espada por profissão, se podem dizer soldados, porque só os homens adictos à igrejam não usam espada. Esta palavra soldado significa, pois, um homem que não é casado; e lhes é defeso trazer .capa, para se distinguirem dos casados, que as trazem. Estes casados não podem ser constrangidos a ir à guerra, e quando querem ir a ela, é para êles grande desonra por causa de deixarem suas mulheres; porque lá são havidos em grande honra os casados. Por isso os soldados não desejam que com êles vão embarcados homens casados, porque se acanham de dizer perante êles palavras desonestas, como dizem entre si sem reparo e sem ofenderem o melindre dos outros camaradas; mas um homem casado se daria por mui agra¬ vado de tais palavras. Todavia a necessidade os cons- (1) Em virias provisões e pragmáticas foi limitado o número dos pajens, que devia ter cada capitão e fidalgo; mas pelo testemunho do autor se vê que essas pragmáticas ficaram sem efeito. — N. do T.
  • 96 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD trange às vezes a embarcar-se; mas têm obrigação de levar capa para serem conhecidos por tais. Quanto ao número dêstes soldados, assim portugueses como mestiços, só em Goa vi mais de quatro ou cinco mil, fora os soldados índios, que são inumeráveis; e que toda¬ via não podem igualar-se, nem comer com os portugueses, ainda que sejam cristãos e que homens e mulheres se possam casar e aliar entre si. De sorte que êstes solda¬ dos para obter postos, cargos e honras da república, assim na cidade de Goa, como nas outras fortalezas dos portu¬ gueses é mister que sejam casados ou pelo menos soldados matriculados e pagos por conta de el-rei. A ordem de seus embarques para a guerra é que o vice-rei e seu conselho nomeiam um capitão-mor em cada armada ordinária e extraordinária e depois os capitães para cada embarcação; e mandam dar ao dito capitão-mor e capitães dinheiro para tôdas as despesas. Depois, a som de tambor, se botam pregões pela cidade para avisar todos os que se quiserem alistar para tal e tal parte; e então os capitães têm cuidado de procurar homem honrados e os melhores soldados, e lhes dão gratificações e honras para os atrair e chamar a si. Porque êstes soldados, não sendo obrigados a ninguém, vão-se embarcar com quem bem lhes parece e não permanecem sob sua obediência senão durante a viagem; e enquanto são pagos de seus quartéis. Pelo que pertence aos que têm mando é o vice-rei que lhes dá tudo e a maior parte das vezes por favor; e êstes tais são os mais bem pagos e recompensados, por¬ que têm mais soldos e parte maior das prêsas; e seme¬ lhantemente os que têm cargo dos provimentos de viveres, munições e outras coisas, no que todos tiram seu proveito segundo o seu cargo e segundo o maior ou menor favor que para isso têm. É grande honra e merce ser capitão- -mor e mesmo capitão de um navio, porque tem mando sôbre muitos soldados honrados, que em terra são tanto ou mais do que êle. O veador da fazenda é quem paga aos soldados; mas os marinheiros, chusma e outra gente recebem dos capitães-mores e capitães, que para isso se lhes dá o dinheiro adiantado. Porém, o dinheiro que se paga aos soldados antes do embarque é só para arranjarem vestido, armas e outras coisas necessárias; mas não lhes é mister tratarem de se
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 97 prover de mantimentos, porque são mui bem sustentados à custa de el-rei, no navio, conforme aos lugares. Porque se andam no mar usam o mantimento ordinário do navio, que é arroz com manteiga, açúcar, lentilhas e mangas salgadas e, pela maior parte do tempo, biscoito e não bebem senão água; e comem também peixe salgado com o arroz. Mas quando estão surtos em algum pôrto, como pela maior parte das vezes sucede, dá-se-lhes tôda a sorte de manti¬ mentos, que no tal lugar há, à custa de el-rei. Aquêles, porém, que querem ir morar em terra, sustentam-se à sua própria custa; e no mar cada soldado tem seu prato e comem separadamente. O capitão trata com grande res¬ peito e honra a todos os seus soldados, que são ali havidos em muito maior estimação que cá entre nós; porque o título de soldado, é o mais honroso que se pode ter; e não há homem tão rico e de tão grande qualidade que se julgue desonrado em dar sua filha em casamento a um soldado. Quando um soldado tem recebido a sua paga e quartel para se embarcar, se depois disto se esconde para não ir na armada e o podem apanhar, é punido corporal¬ mente e metido em prisão. Nos navios fazem-se duas cozinhas, a saber: a do capitão e soldados e a dos oficiais do mar e marinheiros. Em cada navio há três ou quatro pajens portugueses, pagos e sustentados como soldados, que só têm por obrigação servir o capitão, tenente e sol¬ dados, e os eclesiásticos que vão a bordo, ou sejam jesuí¬ tas ou de outra religião; porque não há navio onde não vão eclesiásticos. A maior parte tem escravos e criados particulares. Há soldados de grande luzimento e quali¬ dade, e todavia andam todos como os nossos soldados do regimento das Guardas a pé com seu arcabuz, pique, par- tazana, pequenos escudos chineses, arco e flechas. Usam pouco couraças, mas fazem grande estimação das garga¬ lheiras de búfalo e gibões acolchoados, que só são capa¬ zes de resistir aos golpes de espada e às flechas atiradas de longe. Servem-se também de capacetes e chapéus de ferro. Quando estão em terra, trazem calças à maruja, que têm quási dez varas de pano, e são mui amplas e largas em baixo e chegam ao chão; com estas calças não usam meias e é-lhes impossível correr. Mas quando andam embarcados usam calças de outro feitio, que cha¬ mam à francesa, isto é, como há trinta anos era moda em França, e são mui curtas e estreitas. Não trazem também 7 II vol.
  • 98 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD meias nem sapatos, porque dizem que os sapatos lhes impediriam firmar os pés sôbre o navio, ou sôbre o bordo e enxárcia. De noite têm tendas de folhas de palmeira feitas determinadamente para se cobrirem da chuva; e para se deitarem, usam esteiras e chumaços, com tapêtes da Pérsia ou de Cambaia, que são menores; e pela manhã dobram tudo, enfardelam e amarram. Nas embarcações há tão pouco lugar, que dificultosamente se podem os homens, quando estão deitados, estender ao comprido. Tendo falado dos embarques e do seu modo de viver no mar, direi agora alguma coisa da forma e maneira de seu proceder quando estão nas cidades e, principalmente, em Goa; porque quando se recolhem de suas viagens, residem nas cidades que bem lhes apraz; e da mesma sorte vivem os que se não embarcaram. Uns dão ordem à sua vida de um modo e outros de outro. A maior parte travam amizade com moças e mulheres não casadas, a que cha¬ mam solteiras, que quere dizer mulheres de má vida (*), e vivem com elas mui desabusadamente, como se fôssem casados. Estas mulheres se hão por mui honradas quando um homem branco, entende-se da Europa, procura a sua amizade; porque elas o sustentam e tratam o melhor que podem, e lhe lavam e arranjam tôda a roupa. Da sua parte êstes soldados que são seus amigos, como lá dizem, as mantêm e defendem em tudo e até são zelosos delas, como se fôssem suas próprias mulheres; e por elas se ba¬ teriam e matariam mui fàcilmente em duelo. Mas é grande desventura para um soldado, ou outro homem português, travar amizade com estas mulheres públicas, mestiças ou índias, porque poucos são os que saem disso sem risco seu; porque se elas sabem que êles freqlientam outras mulheres ou moças, ou que têm vontade de se casar ou de as deixar por qualquer modo que seja, infalivelmente elas os envenenariam com uma certa droga, que os deixaria durar seis meses, mas que no fim dêste tempo sem falta os matará; e por isso é mister que um homem use de grande finura e dissimulação para as deixar. Porém, os filhos que daqui procedem não são tidos por bastardos, mas herdam de pai e mãe. Quinze dias antes de nós par¬ tirmos de Goa, houve um contra-mestre de uma das três (I) Mulher solteira, por mulher pública, é expressão comum nos documentos portugueses da época do autor. — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 99 naus, que partiram antes da nossa, que foi visitar a amiga de um soldado, o qual entrou em casa nessa ocasião e lhe deu uma cutilada, de sorte que o deixou por morto e se acolheu a uma igreja. Mas a mulher e a criada ficaram mui caladas, e quando veio a justiça não procedeu contra elas, nem contra o soldado que se havia acoutado; o ferido porém foi levado ao hospital, e depois de ser são, vendo que a nau em que havia embarcado tôda a sua fazenda era partida, viu-se obrigado a vir na nossa nau, na qual comprou gasalhado como passageiro sem emprêgo algum. Em suma, estas mulheres são tôdas mui apaixonadas dos homens de cá. Quanto aos soldados que fazem vida com elas, não deixam de se embarcar nas ocasiões como os outros. Os outros que não fazem vida com as ditas mulheres, juntam-se em número de nove ou dez, mais ou menos, e tomam um aposento, que lá são mui baratos; porque um aposento que cá vale doze escudos por mês, não chega lá a valer um. Mobilam êstes aposentos de leitos, mesas e outros utensílios, e têm um escravo ou dois para todos. De ordinário moram em salas térreas por causa do grande calor. Por isso há ali aposentos feitos de propósito, que não são divididos em câmaras, e só servem para alugar aos soldados ou outros forasteiros de poucas posses; con¬ quanto haja casas maiores para alugar como cá. Estes soldados vivem pela maior parte mui mesquinhamente, ao menos aquêles que não têm alguma traça; porque alguns há que têm mulheres casadas ou viúvas, que os mantêm ocultamente; outros alcançam as boas graças dos senhores e fidalgos, que os não deixam padecer necessidades, e outros mercadejam. Os que de todo em todo se vêem desamparados, chegam-se àquêles quatro grandes senho¬ res, de que já falei, que têm mesa posta para todos. Aquêles, porém, que vivem em comum, nunca comem juntos, mas cada um tem a sua ração, e têm nela mais vinho, pão, carne e peixe do que duas pessoas poderiam comer. Os que não querem ir comer a casa, mandam um moço buscar a sua comida e ração, e a comem onde que¬ rem. Em todo o dia estão na sua sala ou à porta assen¬ tados em cadeiras, à sombra e à fresca, em camisa e ceroulas; e ali cantam e tocam guitarra ou outro instru¬ mento. Êste lugar é juncado de folhas verdes e lançam-lhe muita água para se conservar fresco. São mui corteses
  • 100 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD com quem passa pela rua e de mui boa vontade oferecem a casa para que possam, os que passam, entrar, sentar-se, galhofear e praticar com êles. Nunca saem todos juntos pela cidade, mas aos dois e aos três quando muito, porque às vezes não têm mais de três ou quatro vestidos para servir a dez ou doze. E, todavia, quem os vir marchar pela cidade, dirá que são senhores de dez mil libras de renda, porque vão cheios de gravidade e levam junto a si um escravo e um homem que lhes segura um grande som- breiro ou guarda-sol. Há lugares aonde se vão alugar êstes tais homens e servem-se dêles meio-dia por um vintém, que vale seis brancos (l). Andam os soldados, de que falámos, vestidos de sêda o mais soberbamente que se pode imaginar; mas logo que chegam às pousadas, prontamente largam os vestidos e os passam a outros, se querem sair a seu turno. Vagueiam de noite pela cidade, e por via dêles corre-se muito risco de se andar pela rua passadas as oito ou nove horas, apesar de fazerem rondas os meirinhos com seus homens, porque aquêles soldados são mais fortes. Têm um mau costume, e é que nunca acometem um homem só por só, mas pela maior parte das vezes caem sôbre um só homem quatro ou cinco e o matam, seja de dia ou de noite. De noite matam e roubam; e por dinheiro não têm dúvida de ir matar um homem. Eis como os soldados passam sua vida na índia, assim em terra como no mar, uns bem, outros mal, se¬ gundo sua boa ou má sorte. Mas a maior parte dêles, por hm, casam-se e mercadejam; porque uns nãç querem voltar a Portugal por terem muito de que viver na índia; os outros não podem por falta de meios para a torna-viagem. Não lhes é muito custoso viver lá, porque não bebem senão água de Banguenim (2) e um homem acha boa pousada por uma tanga ou cinco soldos por mês; de sorte que com seis brancos ou três soldos por dia, pode ali um homem passar bem e comer com muita abastança. (>) Veja se a nota (*) de pág 57 deste volume. - N. do T. (2) Disse há pouco o autor que na raçáo de cada um havia sempre vinho, que chegava para dois! — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 101 CAPÍTULO IX DO REINO DO DEALCAO, DECAO, OU BALAGATE NA VIZINHANÇA DE GOA MAS porque a ilha de Goa e as terras vizinhas, que ora estão em poder e sob o domínio dos por¬ tugueses, dependiam antigamente do reino do Dealcão ou Decão, de que muitas vezes já temos falado, não será fora de propósito dizer alguma coisa do que, estando em Goa, soube daquelas terras. Há pois cento e dez anos ou pouco mais, que os por¬ tugueses possuem a ilha de Goa (l), para recobrar a qual das suas mãos os reis do Dealcão têm feito tôdas as dili¬ gências e repetidas guerras, que têm podido, chegando a tê-la de cêrco por duas vezes, com dois mui poderosos exércitos, composto cada um de duzentos mil homens e cada cêrco tem durado por nove meses inteiros; e o rei do Dealcão dizia por fanfarrice que para entulhar o rio e dar passagem ao seu exército para a dita ilha, lhe bastavam as alparcas dos seus soldados. E de feito chegou a entrá-la por um lugar por onde achou meio de dar passagem a um trôço de gente, mas foram recebidos valorosamente e rechaçados pelos portugueses. Mas o que mais maravi¬ lhou êste rei, foi a artilharia que os portugueses tinham, que era mui grossa e êle não a tinha. Contudo, tendo reconhecido que a não podia tomar por fôrça e que ao contrário receberia maior proveito e ri¬ queza tratando e comunicando com êles do que se ficasse possuindo Goa; e, pela outra parte, vendo os portugueses que êles não podiam ali permanecer por muito tempo sem a amizade dêste rei, porque todos os mantimentos lhes vi¬ nham de suas terras, fizeram paz entre si com es¬ tas condições: que os portugueses viveriam na ilha que haviam ganhado, segundo suas leis e costumes, sem toda¬ via fazerem por qualquer modo entradas nas terras perten¬ centes ao dito rei; e êste semelhantemente nada intentaria contra a ilha. Outrossim que os índios, não cristãos, que (*) Vê-se daqui e de outra semelhante conta, que fica a pág. 26 dêste volume, que o autor escrevia êste livro na Europa, pelos anos de 1620 e tantos. — N. do T.
  • 102 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD morassem na ilha, dos quais há aí grande número e passam de vinte mil, viveriam sob sua lei livremente, guardando contudo na justiça e polícia as leis dos portugueses e sem poderem ter templos nem pagodes na ilha. Além disso que por cada pessoa masculina, por menor que fôsse, pagariam um pardau a el-rei de Portugal (l). Observam também entre si, que, se acontece que um cristão ou infiel de Goa, por haver cometido algum crime, se acolha na terra do Dealcão, não pode ser pôsto em jus¬ tiça; nem também o que vem do Dealcão para Goa; mas é mui dificultoso escapar de Goa, porque se não pode passar à terra firme sem licença do iuiz, dada por escrito, como já disse, e os passos e fortalezas são vigiadas por guardas; mas mesmo assim não deixam de se escapar mui¬ tos. Há grande número de portugueses e índios cristãos, que moram nas ditas terras do Dealcão, e lá estão de assento e vivem em tôda liberdade, salvo no exercício da sua religião cristã que lá não podem ter, como semelhan¬ temente acontece aos infiéis em Goa. Êste rei do Dealcão domina grande extenção de ter¬ ras, e possui muitos reinos, como Decão, Balagate, Hi- dalcão e outros (*). Eram antigamente diversos reinos possuídos por seus particulares reis; mas pelo decurso dos tempos o rei do Dealcão os subjugou todos e ao presente é mui poderoso e temido; e confina de uma banda com o reino de Bengala e da outra com as terras do Grão Mo- gor (3). Quando eu estava em vésperas de sair de Goa, eram vindas novas de que êste Grão Mogor havia decla¬ rado guerra ao rei do Dealcão, que estava resoluto a espe¬ rá-lo, e dizia-se que esta guerra só era dirigida a abrir ca¬ minho para ir contra o rei de Bengala, o que o rei do Dealcão lho queria impedir. O rei do Dealcão é maome¬ tano, como é uma grande parte do seu povo; o resto é gen- P) Parece o autor referir-se ao tratado celebrado depois do último cerco; mas neste tratado, que é datado de 13 de Dezembro de 1571, não há as condições, a que êle alude. — N do T. . na Nota de pág 26 advertimos como o autor do nome do rei HidalcãO, fêz por corrupção o da terra, Dealcão. E talvez assim dis¬ sesse o vulgo em Goa naquele tempo. Decão e Balagate, é que são os verdadeiros nomes geográficos daquele território, não diversos entre si, mas equivalentes. — N. do T. (3) O mais correcto é dizer que o Decão ou Balagate era antiga¬ mente dividido em diversos senhorios, que o Hidalcáo subjugou, unindo ao seu o território deles. — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 103 tio e idólatra, como os canarins de Goa, os naires e outros índios. Era no meu tempo um príncipe amável e pacífico, não tirano, mas amigo de todos os estrangeiros e dos seus vi¬ zinhos que estilo de paz com êle. O seu poder é tal, que pode pôr em campo duzentos mil homens, como fêz no último cêrco de Goa, que se crê que êle teria finalmente tomado, se não fôra a traição de dois cabos principais do seu exército, aos quais êle depois mandou degolar por êsse respeito. O vice-rei tem sempre um embaixador junto dêste rei com alguns jesuítas, que são por êle bem aceitos, e fazem aí algum fruto, mas secretamente. Em tôdas as suas ter¬ ras há grande número de portugueses, a quem êle permite que morem onde bem quiserem em tôda segurança, mas não com o exercício de sua religião; e semelhantemente há grande número de índios cristãos; mas tudo gente que tem cometido crimes, e que não ousa voltar para entre os Eortugueses; e vivem ali licenciosamente. Da mesma sorte á vassalos do Dealcão em Goa, e em outras partes, que vivem em semelhante liberdade. Enquanto aos portugue¬ ses, que estão junto a êste rei em Decão ou Balagate (l), podem exercitar a sua religião por causa dos jesuítas e do embaixador português que ali há. Êste rei também tem um embaixador ordinário em Goa, onde é mui bem servido e honrado e tem o exercí¬ cio da sua religião nos seus aposentos. Todos os corpos dos infiéis de Goa são levados à terra firme, e queimados em terra do Dealcão e não na ilha (2). Quando êste em¬ baixador anda pela cidade, vai acompanhado de muita gente, assim domésticos seus, como grandes, e mercado¬ res daquele reino. Leva também grande número de sol¬ dados armados, adiante e atrás de si, com arcos, flechas, arcabuzes, piques, espadas e rodelas à chinesa. E pôsto que êle tenha muitos formosos cavalos, é levado em pa¬ lanquim, acompanhado de senhores a cavalo, e manda tam¬ bém ir cavalos à dextra bem acobertados e ajaezados, com muitos pajens, dos quais um lhe leva o abano, outro a bo- (1) O autor queria dizer Vlsapor ou Beijapor, corte do Hidalcão, no Decão ou Balagate. — N. do. T. (2) Provavelmente no mesmo sitio de Naroa de Bicholim, onde ainda hoje são levados - N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 104 ceta de prata cheia de bétele, outro outra boceta com chu- name, que é cal (l), e outros dois com dois frascos ou vasos de prata cheios de água, um para beber e lavar a bôca, e o outro para lavar as partes recônditas quando disso há mister. Também faz levar o seu grande som- breiro, com muitos tambores, flautas, chamarelas e outros instrumentos ao modo da terra; e é assim que marcham sempre todos os embaixadores e grandes senhores daque¬ las partes. Há pouco mais ou menos quarenta anos que o rei do Dealcâo, tendo dois filhos, o mais moço veio fazer-se cris¬ tão a Goa e se baptizou; e depois, sendo morto o pai, pe¬ diu partilhas a seu irmão, que o não quis reconhecer por respeito da religião; sôbre o que pediu socorro ao vice-rei e com êsse socorro fêz guerra ao dito seu irmão mais ve¬ lho, que, parte por constrangimento e parte por conselho de seus grandes, lhe deu enfim em partilha as terras vizi¬ nhas de Goa, a saber: as terras de Bardez e Salcete, que são sitas ao redor da ilha de Goa, de que são separadas só pelos rios, com mais três ou quatro pequenas ilhas. Aquelas duas províncias não são totalmente na terra firme, mas apenas separadas por algumas ribeiras, que fàcilmente se passam a vau. Tudo isto contém quási vinte léguas de território, muito elevado e fértil em tudo, muito comer¬ ciante e povoado da mesma gente que a ilha de Goa. Êste rei cristão, tendo morrido sem filhos, deixou todos os seus bens e terras a el-rei de Portugal, que as possui até agora com êsse título, e nelas têm os portugueses edifi¬ cado fortalezas, igrejas e paróquias, com colégios de Je¬ suítas, que põem ali todos os párocos, de sorte que a fé cristã se propaga ali todos os dias (*)• Tôdas estas terras são o celeiro da ilha de Goa (®). Mas tornando ao rei do Dealcão; tem êle grande número de elefantes, de que às vezes faz presente ao rei I1) Cal em pó para misturar com bétele. — N. do T. (2) Isto refere-se especialmente às terras de Salcete. Quanto às de Bardez estavam entregues aos franciscanos, e a cristandade ali nào era na¬ quele tempo tào florescente como em Salcete. — N. do T. (2) Alude neste parágrafo o autor, mui confusa e inexactamcnte, a Meale, ou Meale-katl, pretendente ao reino de Visapòr, cuja história se pode ver em Diogo do Couto, Déc. V Liv. IX Cap. VIII, IX, X, XI. Liv. X. Cap. I, II, VI, XI; Déc. VII. Liv I, Cap. X, XI; Liv. D. Cap II, VII, VIII, IX, X; Liv. IV. Cap IX. - N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 105 de Espanha, e ficam em Goa para serviço do Estado. Também tem muitos bons cavalos, mas êstes vêm da Pér¬ sia e das terras do Mogor; porque enquanto aos cavalos árabes, são os vice-reis de Goa que lhos dão a êle e lhos mandam novos e serris, e êle lá os manda adestrar, por¬ que não há nação em tôda a índia mais dada à cavalaria; nem os portugueses têm outros picadores e palafreneiros para tratar e adestrar seus cavalos, senão homens desta terra; e mesmo, afora os naires, não há quem melhor que êles saiba governar elefantes. O país cria grande número de tigres, que são muito para temer. A terra é fértil em tudo, porque é regada de grande número de rios e ribeiras. Há também ali serpen¬ tes mui grossas e mui compridas. Os mais finos e melho¬ res diamantes vêm em quantidade do reino de Balagate; e são uma das principais riquezas daquele rei e da terra, porque na índia não se prezam senão os diamantes de Balagate. E ainda que também se acham no Pegú e em outras partes, não são tão estimados, nem de tanto preço. Também se produz ali a sêda e o algodão, de que fazem panos, com que se vestem mui bem, trazendo calças e grandes roupões de sêda e de algodão, com turbantes na cabeça, direitos, altos e ponteagudos, e não redondos como os dos turcos e arábios. Os seus sapatos são à turca, encarnados, dourados e bicudos adiante, descober¬ tos por cima, e assim usam tanto os gentios como os maometanos. É coisa admirável ver tanta gente destas terras entrar cada dia na ilha de Goa, assim homens como mulheres, carregados de tôda a sorte de mantimentos, com cavalgaduras, búfalos, jumentos e outras bêstas de carga; e é o que sustenta Goa. Há pouco mais ou menos quinze anos que havia em Goa um parente mui próximo do rei do Dealcão, mas que não era ainda cristão, e todavia era vindo ali com tenção de se baptizar. Era doutrinado todos os dias, e assim es¬ teve entre os portugueses dois ou três anos naquela espe¬ rança, e desejava mui eficazmente baptizar-se; porque lá não obrigam ninguém a isso. Neste comenos vieram a êle alguns embaídores do Dealcão, que lhe meteram em cabeça que o rei era morto e que a coroa lhe pertencia, como mais próximo parente, dizendo que tinham até pro¬ messa dos principais para isso, se êle quisesse sair donde estava; o que êle fàcilmente acreditou; e ajustou com êles
  • 106 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD de sair secretamente, por não ser descoberto dos portu¬ gueses, que o teriam despersuadido dêsse intento, e aos quais êle havia dado palavra, e dêles havia recebido mui bom gasalhado. De sorte que tanto fizeram, que saiu de Goa em companhia dos tais mensageiros e passaram às terras do Balagate, onde estava o rei. Sendo ali chegado o pobre príncipe, foi mui bem recebido ao princípio, mas guardado com muita vigia; e tendo o rei pôsto êste ne¬ gócio em conselho, foi resoluto que lhe tirassem os olhos, que é o suplício de todos os que aspiram à coroa, ex- cepto o filho primogénito do rei; e assim o usam todos os reis índios e maometanos à imitação do turco e do persa. E isto foi feito por temor que o rei tinha de que êste prín¬ cipe no decurso do tempo não abalasse os portugueses contra êle, como havia feito o outro de que acima falei (l). No próprio tempo em que eu parti de Goa, havia ali de morada um príncipe do Dealcão, parente do rei, e se havia feito cristão e até casado; tem pensão de el-rei, como todos os reis, príncipes e grandes senhores indianos, que se fazem cristãos e se acolhem entre os portugue- zes. Êste príncipe, depois de ser casado cinco ou seis anos com uma bela dama mestiça, enfastiou-se e quis largá-la, na forma do costume dos índios maometanos, que se separam das mulheres quando bem lhes apraz; e pen¬ sando estar ainda na mesma liberdade, pediu ser descasado na igreja, o que lhe não foi concedido. Vendo êle isto, fugiu para terra de mouros, e mandou recado aos portu¬ gueses que não voltaria nunca mais para entre êles, se lhe não desfizessem o casamento; sôbre o que se assentou que mais valia permitir-lhe isto, e deixá-lo casar a seu talante, que dar azo a que renegasse a fé; tanto assim que depois se casou com a filha de um brâmane, com a qual vive pacificamente (*). (!) É a história pouco correcta de Ctlfo kan, filho de Meale-kan, que se pode ver em Diogo do Couto, Déc. X Liv. IV Cap. VII, X e XI. h veja-se também o Archivo Po rtuguez-Oriental, Fascículo 3“ Do¬ cumento 23 — XIV. Isto foi no ano de 1584. — N. do T. (2) Meale-kan teve dois filhos; Cufo kan, de que atrás se falou, e Mahamede-kan, bastardo. Êste Mahamede kan ou Mamede Cão, teve um filho, que é o de que aqui fala o autor com bastante correcção. Chamou-se no baptismo D. João de Meneses e conservou o titulo de Xá, que tomavam as pessoas reais do Industão, em substituição do outro
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 107 Houve também um filho do rei das ilhas de Maldiva, que veio a fazer-se cristão a Cochim, onde se baptizou, como já disse tratando daquelas ilhas, o qual trouxe con¬ sigo sua mulher, e aí foram recebidos com grande honra. Depois quis êste rei obrigar a seus vassalos, que se haviam rebelado a reconhecê-lo, e para êsse efeito foi lá uma armada' de portugueses, que levantaram um forte naquelas ilhas e fizeram ali guerra por espaço de dez anos, de tal sorte que fizeram a maior parte daqueles moradores tributários. Mas, enfim, os portugueses foram traídos e surpreendidos em sua fortaleza, e todos degolados. Desde então não puderam mais ali entrar, mas o rei maometano das ilhas de Maldiva fêz pacto de pagar certa sôma de dinheiro todos os anos àquele rei cristão e a seus filhos e descendentes, com o que ficaram em paz, porque entre êles não habitam cristãos. Vi em Goa o neto dêste rei cristão, que tinha de idade quinze anos, com sua mãe que era portuguesa. Chama-se êle D. Filipe e os portugueses mais antigo titulo de Kan; donde vem dizer-se indiferentemente, Idal-xá ou Idal kan, etc., etc. Além do que dêste descendente do Meale diz Diogo do Couto, (Déc. X, Liv. IV, Cap. XI e o Archivo Portuguez Oriental. Fascículo 3 ° Documentos 59-XV e 76-XLI) acrescentaremos aqui mais êste documento, que está no Livro competente de Registos Gerais, na Secretaria do Governo da Índia, a fl. 177 v. Petição p. João de Meneses Xá que a seu avó Miale Xá, legítimo rei das terras firmes do Balagate, foi dado para sua comedia as terras de Salcete e Bardez, por falecimento do qual Sua Majestade e os Viso-Reis e Governa¬ dores dêste Estado fizeram muitas honras e mercês ao pai dêle, suplicante, e agora a êle o dito Senhor deu mil pardaus de tença para sua sustentação e de sua família, dos quais se lhe não pagam mais que a metade, que estáo quebrados para as rendas Reais, sendo-lhe a dita fazenda devedora de outra metade, e ora tem por noticia que V. S a tem passado uma provisão para se náo pagar nenhuns ordenados, salvo aos capitães dos paços desta cidade: pede a V. S 8 havendo respeito a sua qualidade, e grande família que tem e a sua muita pobreza, e a náo ter outro remédio para a sua sustentação mais que a dita tença, lhe faça mercê mandar ao Tesoureiro do Estado que faça pagamento a êle suplicante no modo que até agora se fêz sem inovação nenhuma, e sem embargo da dita provisão, e de outra qualquer que haja em contrário. E R. Mercê - Despacho Veja-se esta petição na mesa do Govêrno. Goa a 1 de Julho de 1622. O Governador — hajào vista desta petição os Vereadores e mais oficiais da Câmara e adjuntos dela, tendo respeito à qualidade da pessoa do suplicante, e a náo ter outro remédio de sustentação. Goa a 7 de Julho de 1622, O Governador. A Cidade não
  • 108 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD o tratam por Majestade (l) e lhe chamam rei das ilhas de Maldiva, honrando-o e respeitando-o muito. El-rei de Espanha lhe dá uma pensão, e assim a sua mãe. A sua casa é perto do Colégio dos Jesuítas, e aí fui vê-los muitas vezes, e até me rogavam a isso, porque eu tinha estado nas ilhas de Maldiva e êles folgavam muito de ouvir contar as suas coisas. Este rei menino anda em demanda com um seu tio, que vive em Cochim, onde é casado, e a causa da demanda é que o tio também se diz rei das ilhas de Maldiva. Este tio é casado com uma dama mestiça, mui nobre e mui rica, com o que se sustenta mui limpamente, porque êle da sua parte não tem mais que a pensão de el-rei, que é pequena, e ainda mui mal paga a maior parte das vezes. tem dúvida ao suplicante ser satisfeito de seus ordenados visto o que alega, e o que é notório de sua pobreza, e V. S.* mandará o que lhe parecer. Em mesa a 9 de Julho de 622. Pedro Lourenço Bate Vias, Luis d’Abreu, João Simões, Manuel de Morais, António de Magalhães, Mateus Nunes, Diogo Rodrigues, Paulo Martins, Simào Dias. Passe provisão para o suplicante ser pago de sua tença como pede, vista a informação da Cidade, sem embargo da provisão que se passou de suspensão dos orde¬ nados, ordinárias e tenças. Goa a onze de Julho de seiscentos e vinte e dois. O Governador. Provisão. «Fernâo d'Albuquerque &c. Faço saber aos que éste alvará virem, que tendo eu respeito ao que Dom João de Menezes Xá diz na sua petição atraz escrita, e ao que neia alega, e vista a informação dos Vereadores e mais oficiais da Câmara desta cidade, a que mandei dar vista da dita peti¬ ção: Hei por bem, e por éste mando a António Sidráo, Tesoureiro de Sua Majestade, que faça pagamento ao dito Dom João de Menezes Xá de sua tença como até agora se fèz sem inovação nenhuma, e sem embargo da provisão que mandei passar de suspensão dos ordenados, ordinárias e tenças. Notifico-o assim ao Veador da fazenda geral, e ao dito Tesoureiro, e a tôdas as mais pessoas a que pertencer, e lhes mando que assi o cumpram e guardem, e inteiramente façam cumprir e guardar éste alvará como se nêle contém, sem dúvida nem embargo algum. Manuel Leitão o féz em Goa a onze de Julho de mil seiscentos e vinte e dois O Secretário Afonso Rodrigues de Guevara o fèz escrever. O Governador.> N do T. (*) Nisto se enganou o autor. Nem o rei das ilhas de Maldiva, nem outro algum rei do Oriente, era tratado dos portugueses por Majes- tade.-N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 109 CAPÍTULO X VIAGEM DO AUTOR A ILHA DE CEILÃO E DESCRIÇÃO DELA ESTANDO em Goa com os portugueses, embarquei-me por soldado em muitas das suas armadas, que êles aprestaram enquanto ali me detive, dirigidas além da costa, em que está situada Goa, à ilha de Ceilão, a Malaca, Samatra, Java e a outras ilhas da Sonda e às de Maluco. Pois têm êles por costume armar muitos navios e galeotas, que enviam a Malaca e até às ilhas de Maluco, para dar guarda aos navios mercantes; e igualmente acom¬ panhar os que vão mercadejar à China e ao Japão. Por isso descreverei aqui o que observei por tôdas essas par¬ tes, nas quais me dilatei e fiz a guerra. Ceilão é uma ilha muito grande junto da ponta do cabo Comorim; estende-se do meio-dia ao setentrião, e a ponta austral fica fronteira ao cabo Comorim, entre o qual e a ilha não podem passar navios, porque o mar ali é baixo. Avalia-se o seu circuito em trezentas a quatrocentas léguas. É a mais rica ilha que até ora se descobriu, e é cheia de muitas cidades. Alguns índios lhe dão o nome de Tena- sirim, que significa terra das delícias ou paraíso terreal (l)- Não se pode pois exprimir a bondade e fertilidade desta ilha; e principiando pelos frutos, direi que têm um gôsto e sabor tal, que se não acham tão excelentes em tôda a índia; brotam naturalmente nos matos e bosques, e entre êles a canela. Nomeá-los todos seria impossível, mas basta dizer que todos os que se dão nas mais partes da índia, se acham ali mui comummente e em perfeição; de sorte que os índios têm boa razão para tomar esta ilha pelo paraíso terreal. Há também ali certas árvores do género das palmeiras que dão a areca, que se mastiga com o bétele; e há-a em tal abundância, que dali se fornece tôda a índia, fazendo-se dela grande tráfico para tôda a parte em carregações inteiras de navios. f1) Tenaslrlm ou Tenasserim é uma extensa província, que jaz sóbre a costa oriental do gólfo de Bengala. Talvez se desse também êste nome antigamente à ilha de Ceilão. — N. do T.
  • 110 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Os habitantes são gente idólatra, mas de outra sorte diversa dos do Malabar. São de grande estatura, mui negros e feios, mas ágeis e destros; é gente mui dada a seus prazeres e delícias, e também mui pusilânimes c cobardes. Andam nus, homens e mulheres, cobrindo só as partes vergonhosas com ricos panos de sêda. Têm as orelhas furadas com muitos buracos e carregadas de pedras preciosas; trazem grande cópia de anéis nos dedos e cin¬ tos de ouro fino. A sua língua é especial; e o nome da nação é Chingalá. Êstes chingalás são mui próprios para artes mecâni¬ cas e trabalham mui subtil e delicadamente em ouro, prata, ferro e aço, e com bastante perfeição em marfim e outras matérias. Fabricam tôda a sorte de armas, como arca¬ buzes, espadas, piques e rodelas, que são as mais bem feitas e estimadas da índia. Êstes povos são mui bem formados e bons saltadores; e todos trazem os cabelos como os malabares. Nunca julguei que êles fossem tão primorosos em bem fabricar arcabuzes e outras armas, lavradas e brincadas, que são mais belas que as que cá se fazem. É a região mais fértil em frutas que há no mundo, as quais são mui boas e mui excelentes; e todo o país é coberto de árvores de fruto, laranjas doces e azêdas, limões de gôsto mui suave e delicioso, romãs, côcos, ananazes e outras frutas da índia. Carnes de tôdas as qualidades são ali abundantes; o peixe nunca falta. Há milho, mel, canas, açúcar e manteiga em abundância; mas não se cria ali o arroz, que é o principal alimento e lhe vem de Bengala. Mas tôda a canela do mundo só de lá vem e há dela florestas inteiras. Há ambém lá grande número de elefantes, muita quantidade de pedras precio¬ sas, como rubins, jacintos, safiras, topázios, granadas, esmeraldas, olhos-de-gato e outras, as melhores da índia, e por cima de tudo é lá que há a bela e grande pescaria de pérolas mui finas e belas; mas não há diamantes. Os portugueses têm duas fortalezas nesta ilha. A principal é chamada Columbo e a outra pôrto de Gale. São fortes e bem guardadas por soldados, que pela maior parte são criminosos e degredados; e da mesma sorte não mandam ali mulheres senão de má vida. O general Sue ali mandava, quando eu estava em Goa, chamava-se i. Jerónimo de Azevedo, mui bom capitão. O principal
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 111 e maior rei da ilha chama-se Rachll (x), e há nela muitos outros reis. Houve um que foi prêso e levado a Goa há coisa de vinte anos, e depois se fêz cristão e se casou , e recebia uma boa pensão do rei de Espanha para sua sustentação, como têm tôdas as outras pessoas e príncipes que se convertem. Ora êste príncipe, tendo residido longo tempo em Goa, bem amado de todos, houve tanta confiança nêle que por mandado do rei de Espanha, e parecer do Conselho das índias, se julgou conveniente enviá-lo a Ceilão para ter ali mando da mão do rei de Espanha, a fim de que o povo lhe obedecesse de melhor vontade, por ser natural da terra; de sorte que foi metido de posse de tôdas as suas terras; mas não se passaram dois anos que não deixasse o cristianismo e voltasse à sua primeira lei, fazendo guerra aos portugueses; o que mostra quanto tôda esta gente é má e pérfida. Morava êste rei perto do pôrto de Gale; chamava-se D. João e havia sido prêso e todo o seu reino conquistado pelo capitão André Furtado de Mendonça (*). Adoram um dente de bugio, o qual tendo sido tomado pelos portugueses, quizeram resgatá-lo à custa de grossos cabedais, mas os portugueses não lho auiseram restituir, e foi queimado públicamente em Goa (®). Êste rei, tendo-se levantado e renegado a fé cristã, mandou matar todos os portugueses, que se acharam em seus Estados; de sorte que depois, passando os holande¬ ses pela ponta de Gale com três navios e indo ali surgir, e fazer alguma detença, como é seu costume, trataram paz e amizade com êle em tanta confidência de parte a parte, que os holandeses iam a terra em tôda liberdade e segu¬ rança e da mesma sorte os chingalás vinham aos navios dêles; mas neste comenos ideou o rei uma grande perfídia, convidando todos os capitães, os soldados principais e (1) Talvez seja o Raju, como escrevem os nossos autores.—N. do T. (*) Parece nos que esta história é a de D. João Modeliar, que Diogo do Couto devia tratar na sua Década XI, que se perdeu. Vejam se no Fascículo 3 o do Archivo Portuguez-Oriental os documentos n.° 162-XVI, 168 IX, 324 e outros N do T. (3) Êste sucesso do dente de bugio ou de Buda, é mui anterior ao do levantado D. João e passou em tempo do vice rei D Constantino de Bragança, como é bem sabido. — Veja-se Diogo do Couto, Década VII Liv. IX. Cap. XVII.
  • 112 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD homens de qualidade a virem ao seu palácio assistir a um solene banquete, que êle dava a todos os fidalgos da sua côrte. O general holandês assim o acreditou e, na boa fé, foi ao lugar aprazado com sessenta ou setenta dos princi¬ pais dos três navios, que escolheu, e a quem mandou ves¬ tir o mais louçãmente que pôde. Foram ali mui magnifi- camente recebidos ao modo da terra; mas a sobremesa não foi agradável aos pobres holandeses, porque estando à mesa e não pensando senão em recrear-se e encher a bar¬ riga, foram subitamente acometidos e assassinados por homens para isso subornados. A tenção do rei era sur¬ preender ao mesmo tempo todos os navios, mas não o per¬ mitiu Deus assim, e foram salvos, porque três ou quatro marinheiros, que assistiam ao banquete para servir os seus oficiais, se escaparam e correram logo a meter-se nos batéis, indo dar rebate aos navios do que era acontecido; pelo que logo sem dilação alguma cortaram as amarras, lar¬ gando por mão as âncoras, e deram à vela em direitura ao Achém, onde Deus os levou a salvamento, porque todos os seus pilotos haviam sido mortos. Ouvi dizer aos holan¬ deses que êste general era um dos homens mais resolutos e valorosos, que de muito tempo àquela parte saíra de Ho¬ landa e o resto dos seus companheiros não era somenos. Aquêle pérfido rei, que lhe armou êste laço, fazia tudo isto para se congraçar com os portugueses; porque a êstes ouvi dizer que aquilo fôra obra de conselho seu e que êste rei lhes havia prometido entregar aquêles navios, à conta de lhe ficar na sua mão parte das riquezas. O general não ficou logo morto, nem dois ou três dos seus companheiros; mas quando o rei viu, que parte do seu desenho tinha fa¬ lhado, entrou em tal raiva e cólera que lhes mandou vasar os olhos e fazer-lhes outras mil cruezas. Êstes reis de Ceilão são ora amigos, ora inimigos dos portugueses, mudando assim segundo as ocorrências. Os portugueses andam em contínua guerra com êstes insula¬ res, dos quais têm já subjugado grande parte, que têm sob seu domínio e a pouco e pouco vão domando os ou¬ tros; há entre êles muitos convertidos ao cristianismo. A guerra é ali mui difícil aos portugueses, por ser o pais mui coberto e cheio de arvoredo; e assim é mister trazer sempre a fouce ou o machado na mão quando vão à guerra; e os portugueses não são tão ligeiros nem tão destros a marchar por êstes matos, como aquêles insulares, que lhes
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 113 armam mil emboscadas e depois se escapam no mais cer¬ rado do bosque. Os portngueses têm sido aii cercados muitas vezes em suas fortalezas, mas nunca entrados. A guerra entre êles é mui cruel; e quando os portugueses os cativam na guerra, fazem-nos escravos, ou os matam. Eles, porém, não matam os portugueses, mas somente lhes cortam os narizes e assim os mandam embora, porque di¬ zem que não querem que a sua terra seja poluta do sangue estrangeiro, ao menos tanto quanto êles o puderem impedir. Nesta ilha há uma ponta chamada de Gale para a parte do meio-dia, a qual é um cabo, que entra muito ao mar. E direi o que aconteceu a três navios holandeses, que a guardavam, quando encontraram aquêles dois gran¬ des navios, um da Arábia e outro do Guzerate, de que já falei, tratando das ilhas de Maldiva (')• Êstes navios deti- veram-se naquela altura quási três meses, durante o tempo que sopram os ventos de leste, que é aquêle em que os navios da índia recolhem do sul e de Bengala, e tomaram dezasseis ou dezóito navios portugueses; porque, necessà- riamente, tôdas as embarcações que vêm de tôdas as costas e contra-costas de Bengala, Malaca, Sonda, China, Japão e de outras partes, hão-de passar ali e vir avistar esta ponta, como nós fazemos ao Cabo de Boa-Esperança quando vamos para a índia; e da mesma sorte vêm as embarcações tocar nesta ponta para passar a tôda a demais costa da índia, que se entende desde o cabo Comorim até Ormuz. E aquêles que não querem che¬ gar-se a ela, indubitàvelmente se vão enlear nos baixos das ilhas de Maldiva, donde dificultosamente poderão sair-se sem perigo. Estas presas todavia molestavam mais os portugueses do que enriqueciam os holandeses, porque a maior parte destas embarcações não traziam mais que mantimentos para os portos. Verdade é que isto molestava os portu¬ gueses por duas vias, uma pela honra e crédito, que lhes fazia perder para com os reis e povos da índia, e a outra pela necessidade e carestia de mantimentos, que padeciam as povoações dos portos e enseadas, donde eram as ditas embarcações; porque se isto lhes falta um ano, passa-se aí grande fome. Nestes navios só havia alguns merca- (!) Cap. XX da 1.* parte. II TOI.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 114 dores e passageiros que fôssem portugueses, porque todo o resto, assim oficiais como marinheiros, e ainda a maior parte dos mercadores eram índios, gentios, judeus ou maometanos. Os índios cristãos, vestidos à portuguesa, não são havidos por índios, mas por portugueses. Os holandeses faziam guerra mais branda, e melhor gasalhado àquêles verdadeiros índios, que aos portugueses e mesti¬ ços; e todos os navios índios de qualquer lugar que fôssem, não recebiam dêles mau trato, mas antes tôda a oferta de socorro e assistência, como têm feito a muitos que o não pediam. De sorte que os holandeses, ingleses e fran¬ ceses, que êles ali reputam por gente da mesma igualha, são bem aceitos daqueles reis e povos da índia, porque não recebem dêles moléstia alguma. Ora a ordem, que os holandeses guardam quando topam com algum navio, é disparar um tiro de peça, e para logo os outros amainam, porque não têm gana de pelejar, pois são todos mercadores particulares ou mari¬ nheiros e oficiais indianos, aos quais os holandeses não fazem mal. Mas tomam aos portugueses, e tôda a sua fazenda, e também o navio, se pertence a portugueses ou o dão a índios e lançam os portugueses em terra sem lhes fazer mal, e ainda em cima lhes dão dinheiro para se man¬ terem até chegarem a alguma terra da sua gente. Quando encontram navios índios, dão-lhes busca somente para verem se há ali portugueses escondidos, e não os achando, deixam ir livremente os navios sem lhes fazer outra coisa; somente lhes preguntam se são maometanos ou de outra religião, e sendo assim, fazem-nos jurar sôbre o livro da sua lei ou sôbre um biscoito, e são cridos sôbre êste jura¬ mento àcêrca de ser a fazenda dêles ou dos portugueses. E quando no mesmo navio são misturados, uns e outros fazem-lhes o mesmo; pondo de parte e deixando livre as mercadorias dos índios, e tomando as dos portugueses, isto é, a que é propriedade dêles; e pela maior parte das vezes põem fogo ao navio ou o dão aos índios, a quem dão juramento de não restituir aos portugueses o que ali têm deixado; porque se soubessem que êles lhes restituíam alguma coisa, os haveriam por inimigos. É impossível contar os navios que os holandeses têm tomado na índia dêste modo sem golpe de espada; porque são havidos como reis do mar pelos índios e até pelos portugueses, os quais no mesmo ponto em que
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 115 avistam de longe os ditos holandeses, ainda que poucos sejam, não pensam em outra coisa sendo em fugir ou deixar o seu navio com todo o seu recheio, para se salvarem em algum batel. CAPÍTULO XI DE MALACA, SUA DESCRIÇÃO E DO MEMORÁVEL CÊRCO QUE OS HOLANDESES LHE PUSERAM SENDO partidos de Ceilão, fomos a Malaca, que é dis¬ tante de Goa seiscentas léguas, perto da linha equi¬ nocial, a um grau da banda do polo ártico, mui próxima da grande ilha de Samatra e dos reinos de Sião e de Pegú. Os portugueses fabricaram ali uma cidade mui forte, que lhes é de grande importância, por ser como a chave e escala da navegação da China, Japão, Maluco e outras ilhas circunvizinhas da Sonda. De sorte que abaixo do de Ormuz não há capitão que faça maior rendimento que o de Malaca, porque está ali no estreito de Malaca e Samatra, onde é mister que todos os navios venham aportar e pagar os direitos; de sorte que os mesmos na¬ vios portugueses não podem passar, se não têm passaporte e guia do capitão de Malaca, assim para a ida como para a vinda. Esta fortaleza faz grande pejo aos holandeses, ingle¬ ses e franceses; e por essa razão os holandeses têm que¬ rido tomá-la e a cercaram desta sorte. Os holandeses e o rei de Jor se concertaram entre si para lançar os portu¬ gueses de Malaca; e para êsse fim tinham os holandeses treze grandes naus comandadas pelo capitão Cornélio Matalief (*), seu general na índia; de sorte que aos 29 de Abril de 1606 surgiu em frente de Malaca com não menos de 1500 holandeses, que saíram em terra e sitiaram Ma¬ laca, que ficou mui surprêsa, porque o capitão havia rece¬ bido ordem do vice-rei de Goa para mandar quatro navios de guerra dar guarda aos mercantes, que iam de Goa à China e ao Japãõ, de sorte que lhe não haviam ficado na (1) Madalif escreve Pyrard. Nós seguimos a ortografia holandesa - N. do T.
  • 116 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD fortaleza mais de trinta soldados, porque esperava ver chegar a cada momento o vice-rei, segundo o aviso que de Espanha lhe viera no galeão, que sai de Lisboa um mês ou dois antes da armada, e vai em direitura a Ma- laca e não a Goa. Êste galeão é do porte de 700 a 800 toneladas e vai não só para dar avisos, como para carre- Par de mercadorias da China e das ilhas da Sonda. icou, pois, o capitão da fortaleza mui confuso; tanto pela falta de mantimentos, como pela de homens, e porque não tinha tido aviso algum desta emprêsa, nem novas de que os holandeses tivessem tantos navios na índia. A for¬ taleza foi por êles combatida com vinte e cinco peças de artilharia grossa que êles desembarcaram; e eram aju¬ dados, como disse, do rei de Jor e de outros régulos seus vassalos, que tinham a fortaleza cercada da banda da terra com sessenta mil homens; porque é êste um rei poderoso, que domina em todo o sertão e terras de cima de Malaca. Êste cêrco durou por espaço de três meses e dezanove dias. A fortaleza foi bem defendida por um fidalgo português, mui valoroso, chamado André Furtado de Mendonça, que por acaso ali se achou; porque nada mais esperava na índia, senão o pôsto de vice-rei, que logo pouco depois teve (l). Não contava ao todo mais do que 150 homens de peleja, entre portugueses e índios, e por fortuna dos cercados, havia ali então navios mercantes do Japão, com cuja gente é que se perfêz aquêle número de 150 homens para a defensa; e são os japões os melhores soldados de tôda a índia. Sucedeu também muito a ponto para os cercados que o vice-rei de Goa, que então era D. Martim Afonso de Castro, sem saber todavia nada dêste cêrco de Malaca, tinha negociado uma armada, de que êle mesmo era cabo principal. Era esta armada composta de setenta embarca¬ ções e dividida em duas esquadras; galés, galeotas e mais navios de remo a uma banda; e os navios de vela a outra. Reputa-se ser esta a mais bela armadaque os portugueses em tempo algum puseram no mar na índia, porque havia nela perto de quinze mil homens, todos mui bem ordena¬ dos. Saiu de Goa no mês de Maio de 1606, deixando o vice-rei o govêrno de Goa e do norte da índia ao arce- (!) Foi Governador por via de sucessão, como temos visto.—N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 117 bispo daquela cidade D. Fr. Aleixo de Meneses. Um mês depois da saída do vice-rei, as duas esquadras se foram juntar perto de Samatra; pois era seu desenho e intento ir tomá-la e conquistá-la, porque o rei desta ilha dava acolheita aos holandeses. Mas tendo sido valorosamente rechaçado pelo rei do Achém, e tendo então novas dêste cêrco de Malaca, abalou-se de Samatra naquela derrota, pensando supreender aos holandeses em terra e queimar- -lhes os navios; mas não sucedeu assim, porque os ditos holandeses foram avisados por um dos seus feitores, que estava em Samatra, e apressadamente partiu para lhes ir dar êste aviso; e nem isso era mister, porque os holande¬ ses tinham sempre um patacho no mar de vigia, seis a sete léguas ao largo, receosos de serem colhidos de súbito; e no mesmo ponto que êste patacho avisou a armada, foi daqui sem detença aviso à sua gente, que logo se recolheu às naus com tôda a artilharia; e assim levantaram o cêrco aos 19 do mês de Agosto. Mas isto deu motivo a que os holandeses ficassem em má reputação e pouco crédito en¬ tre aquêles reis indianos; porque haviam prometido ao rei de Jor e aos outros que, infalivelmente, tomariam Malaca, e lançariam dela aos portugueses; e, na verdade, foram êles a causa por que todos aquêles reis declararam guerra aos portugueses, sendo de antes mui bons amigos dêles. E o pior é que o capitão Cornélio levantou o cêrco e recolheu a sua gente sem o dar a saber ao rei de Jor, que êle dei¬ xou à mercê dos portugueses e em guerra com êles. Os holandeses, tendo levantado o cêrco, deram à vela, para ir sair ao encontro do vice-rei, e com êle com¬ bateram mui furiosamente por espaço de dois dias. O ca¬ pitão holandês era homem bravo e esforçado, e por tal tido por todos os portugueses e índios, sendo na verdade impossível fazer-se melhor do que êle fez. Viu-se, além de outros perigos, em grande apêrto quando um navio por¬ tuguês o abordou, e segurou com ganchos e arpéus de ferro, de tal sorte que era impossível desenvencilhar-se dêle, e até já lavrava o fogo nos dois navios, que teriam ardido com a gente, se êste general holandês não dissesse ao capitão português que não era de bom cavaleiro dei¬ xar-se queimar assim, e que mais valia separarem-se e largarem-se um ao outro. O capitão português, ao princí¬ pio, não quis assentir, porque lhe era mandado sob pena de morte que se queimasse e perdesse para destruir o ini-
  • 118 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD migo; mas enfim o partido que aceitou foi que os batéis dos holandeses viessem para salvar os seus, e os dos portugueses não viessem; e assim se largaram e foram ambos salvos. Mas depois o capitão português foi dego¬ lado por êste respeito. Pereceu no combate muita gente de parte a parte, mas seis portugueses por um holandês. Finalmente, os holandeses ficaram vitoriosos, sem outra perda mais que a de dois navios, que se queimaram com outros dois do vice-rei; e êste se recolheu logo a Malaca com os navios que pôde salvar, e passado um mês morreu de disenteria. Os holandeses também se retira¬ ram com honra; e, semelhantemente, o rei de Jor e os seus; e destarte Malaca ficou livre e depois disso tem sido mui bem fortificada. Os portugueses perderam ali grande número de esforçados e valorosos capitães e tiveram bas¬ tante perda e desonra nesta facção; porque tôda a sua armada foi desbaratada. Entre os mortos ficaram dois fidal¬ gos irmãos, grandes capitães, um chamado D. Fernando e outro D. Pedro Mascarenhas, com outros dois irmãos seus mais moços. Nunca entre os portugueses houve mortes mais carpidas e o são ainda todos os dias, mais que a do vice-rei, que logo depois morreu de dor e melan¬ colia; e foi coisa admirável que treze navios fizessem tanto efeito. A cidade é a mais rica e mercante de tôda a Índia, após as de Goa e Ormuz, pela grande cópia de mercado¬ rias da China, Japão, Maluco e de tôda a Sonda, que ali abicam; e contudo é ali mui caro o passadio da vida. Os habitantes da terra são homens de boa figura, bem apessoados e proporcionados em sua estatura, que é me¬ diana; e da mesma sorte as mulheres. São de côr morena; e andam nus da cintura para cima, e dela para baixo têm roupas de algodão e de sêda, das quais a que usam pela parte de baixo não passa dos joelhos. Cingem-se de um rico cinto e trazem punhais em riquíssimas bainhas. As mulheres trajam roupas de sêda e têm camisas mui curtas; usam os cabelos compridos e bem toucados com pedras preciosas e muitas flores entrelaçadas. São pela maior parte maometanos; e, todavia, hoje há ali grande número de cristãos. Os padres jesuítas têm ali um mui belo colégio. Os ares dêste país são maus, intemperados e doen¬ tios; de sorte que a própria gente da terra é mais atreita a doenças do que a de outra qualquer parte da índia. Poucos são os estrangeiros que não caem ali enfermos e raro é o
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 119 que não morre e ao menos ficam-lhes bons sinais, porque a uns cai o cabelo e a outros vêm moléstias de pele; o que todavia se entende dos que ali fazem longa residência. Por isso os soldados que lá há, são quási todos como os de Ceilão, isto é, banidos e degredados por seus malefícios. Quanto aos mercadores, é o desejo de grandes ganhos que lhes faz arriscar a vida e, quando de lá voltam, trazem a côr lívida e nunca ali logram saúde. Os povos daquelas regiões são chamados Malaios, assim nas terras de Malaca, como em Samatra; e falam uma língua que é entendida em tôdas as ilhas da Sonda; e esta lingua é só a usada em tôdas aquelas partes, e por isso a mais extensa e a mais útil de tôda a índia. CAPÍTULO XII DAS ILHAS DA SONDA, SAMATRA E JAVA; DAS CIDADES DE BANTAO E TUBAO; ILHAS DE MADURA, BALI, DE MALUCO E BANDA OS portugueses chamam a tôdas as ilhas, que estão além de Malaca, a Sonda, como quem diz as Ilhas do Sul. E debaixo dêste nome são compreendi¬ das Samatra, Java, as ilhas de Maluco e tôdas as outras ilhas particulares daquela costa. Quanto à ilha de Sumatra ('), não me deterei em des¬ crevê-la, porquanto não saí ali em terra, e sòniente pas¬ sei à vista dela. É situada debaixo da linha equino¬ cial, que a corta ao meio e é mui extensa, porque chega ao 5.° grau da banda do norte e ao 6.° da banda do sul, que é quási a mesma altura das ilhas de Maldiva, das quais fica distante seiscentas léguas. Dos habitadores, uns são maometanos, principalmente os que demoram à beira-mar, outros são gentios. São mui dados ao tráfico, e por isso todos os mercadores são ali bem aceitos. Os arábios e outros maometanos frequentam e traficam ali mais que todos os outros; os portugueses também ali vão, mas mui poucos, porque não são amados do rei. Os holandeses (>) Samatra escrevem os nossos antigos. — N. do T.
  • 120 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD tem ali uma feitoria e feitores. A terra é mui rica em pimenta, que é mais grossa que a do Malabar e havida por melhor por todos os índios. Há-a em tanta quantidade, que se podem às vezes carregar trinta navios num só ano. Há ouro, assim nas montanhas, como nas areias dos rios; mas êste ouro é mui baixo e de menor estimação que todo o outro que vem da índia. Batem dêle moeda, onde está de um lado a figura de um pagode e do outro a de uma carroça puxada por elefantes. Esta ilha contém muitos reinos, mas o mais poderoso é o do Achem (l). Quando por ali passei, o rei que então reinava era mui mancebo, e desapossando por fôrça a seu pai, se havia apoderado do reino e lançado o pai em prisão e também a mãe, até com ferros aos pés. Um irmão seu, que êle também havia expelido, lhe fêz guerra, mas agora estão amigos, porque, lhe foram cedidas certas terras, que ficam na distância de quarenta léguas, onde êle mora. Èste rei do Achém é mui amigo dos holandeses, que têm feito ali fabricar muitas casas, e é êste o lugar orde¬ nado para todos os navios de Holanda que estão na índia e onde fazem escala para o comércio, carga e descarga das mercadorias, e têm ali muitos feitores, que meneam grande tráfico; mas êle não quere ouvir falar nos portu¬ gueses, com quem tem guerra mortal. E todavia é coisa estranha que êste rei nunca tenha podido andar de paz com os portugueses, visto que se acomoda com todos os outros estrangeiros. Há, sim, às vezes, ali, alguns merca¬ dores portugueses particulares, mas não recebem favor algum do rei, nem tampouco o vêem. Quando os holandeses começaram a virà índia, tive¬ ram guerra com êste rei, e por essa causa roubaram dois navios da Arábia carregados de especiaria, que baldearam nos seus; mas depois os holandeses e êle fizeram-se bons amigos e êle até enviou seis embaixadores a Holanda, deixando os holandeses ali em reféns alguns dos seus. Êstes embaixadores foram bem recebidos e honrados em Holanda e voltaram ao Achém, mas não todos, porque morreram quatro no caminho e eu vi.um dos outros dois, 3ue na volta foi ter à ilha de Malé. Estes arábios, rouba- os no Achém pelos holandeses, vendo que o rei do Achém (1) O Dachem dizem comummente os nossos documentos e auto¬ res antigos. — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 121 e todos os outros reis maometanos estavam mui bem com os holandeses e eram inimigos mortais dos portugueses, determinaram enviar deputados a Holanda para tratar paz e amizade com os Estados, e pedir satisfação e justiça de sua mercadoria roubada; de sorte que foram mui bem satis¬ feitos e embolsados de sua perda, sem embargo de serem passados sete anos depois que a fazenda lhes havia sido tomada. E desde êste tempo os holandeses têm sempre estado em boa amizade com todos os índios. Mas na verdade, o que ao princípio nos fizera mal e diminuíra muito a reputação dos franceses, ingleses e holandeses naquelas partes, porque na índia nos têm a todos por uma só gente, por verem que todos somos ami¬ gos entre nós e inimigos dos portugueses, foi que se havia levado à Sonda grande quantidade de moedas falsas de quarenta soldos de Espanha, que se fabricavam mesmo nos navios. Os holandeses acusavam disto aos ingleses e os ingleses lançavam a culpa aos outros; mas seja como quer que fôr, os holandeses é que o pagaram bem caro, porque na viagem seguinte foi morto grande número dêles em muitos lugares; e desde então os índios não se fiaram tanto dêles, e correu rumor por tôda a índia de que nós todos éramos embusteiros. Mas tornando ao rei do Achém: os holandeses e êle têm sempre, desde a sua concórdia, permanecido em boa correspondência; e êste rei tem sempre empecido aos por¬ tugueses em tudo quanto tem podido, como igualmente os reis de Jor, Bantão e Java maior. Quem está na índia e nos outros lugares de além do Cabo de Boa-Esperança, quando quere ir a Samatra, diz somente que vai ao Achém; porque esta cidade e pôrto inclui em si todo o nome e a reputação de tôda a ilha; e semelhantemente se diz de Bantão na Java maior; de sorte que se não fala lá senão dêstes dois reis. O rei do Achém tem. muitas vezes pôsto cêrco a Ma- laca, e assim o de Jor. E aquêle mui temido, como bem mostrou quando foi acometido pelo vice-rei D. Martim Afonso de Castro, porque se defendeu tão bem, e ficou ali tão grande número de portugueses, assim mortos por armas como afogados, que o vice-rei não pôde aí fazer senão retirar-se com vergonha e perda; e isto lhe foi ainda de mau agouro, porque depois foi acabar em Malaca, como já disse. Mas também os holandeses, que então es-
  • 122 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD tavam no Achém, serviram grandemente ao rei, ainda que eram poucos; porque deram traça para se fazerem tran¬ queiras e fortificações ao modo de Holanda e de França, com muita artilharia, de que o rei não tem falta; e eu nunca teria acreditado que houvesse tanta artilharia na ín¬ dia como na verdade há. Desde êste combate, em que os holandeses procederam tão bem e com tanta afeição, o rei começou a ter-lhes grande amizade. A ilha de Java 0) está junto de Samatra ao meio-dia, convergindo a leste, separada por um braço de mar assaz estreito, e começa aos 7 graus da banda do sul. É uma mui grande, rica e opulenta ilha, que contém muitos rei¬ nos. O de maior nomeada é o de Bantão, e por isso se aporta ali mais do que em qualquer outra parte. Os ga¬ leões portugueses da viagem de Maluco, nos quais eu ia, detiveram-se naquele pôrto algum tempo, o que me deu ocasião de ver esta terra. Bantão é uma grande cidade mui povoada, situada à borda do mar no extremo de tôda a ilha, e junto do estreito, chamado o estreito da Sonda (o qual deu, segundo o meu parecer, o nome a todo êste mar), e separa a Java de Sa¬ matra, da qual é distante vinte e cinco léguas somente. De uma e outra banda da cidade corre um rio que a banha e rodeia, e vai sair ao mar, sendo mui largo na sua foz, onde tem quatro braças de fundo, mas não é navegável. A cidade é cercada de muros de tejolo, os quais não têm mais de dois pés de grossura. De cem em cem passos há junto ao muro casas mui altas, fabricadas sôbre mastros de navios, que servem à defensão da cidade, assim para atalaias, como para combater de mais alto, e mais em cheio os inimigos, que quiserem investi-la com tiros. As casas são formadas de canas, têm pilares de pau, e são cobertas de palha. Os homens ricos e abonados forram as casas por todos os lados de tapeçaria e cortinados de panos de sêda ou de algodão bem pintados. Há cinco praças mui grandes, onde cada dia se faz mercado de tôda a sorte de mercadorias e mantimentos, que são ali a baixo preço, e por isso se vive lá mui barato. Os frutos e ani¬ mais são em tudo semelhantes aos da índia, de que já tan¬ tas vezes tenho falado, e são aqui também muito em conta. I1) Jaoa escrevem os nossos autores e documentos antigos.—N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 123 A cidade é situada num lugar baixo e alagadiço, por estar entre duas correntes de água; de sorte que a maior parte do inverno o rio se espraia pela cidade, e não se pode an¬ dar pelas ruas senão de batel: as ruas não são calçadas, e por tôda a parte da cidade há muitos coqueiros. Fora do recinto dos muros há grande número de casas para os es¬ trangeiros. Quanto à sua religião, são pela maior parte maome¬ tanos; mas também há grande número de gentios e idó¬ latras. Há na cidade uma grande mesquita, onde se pra¬ tica a lei de Mafamede; os grandes e fidalgos têm cada um templos em suas casas: os doutores lhe vêm da Arábia. A gente da terra é de côr amarelada; vestem-se de roupas de algodão ou de sêda, que cingem ao redor do corpo desde a cintura até abaixo; têm um pequeno tur¬ bante, que dá duas voltas. As suas armas são adagas ou punhais, a que êles chamam cris, com a lâmina ondulada, e são mui perigosos; o cabo é em figura de demónio ou outra que tal mui feia; a bainha é feita de pau e inteiriça. Estas adagas são ricamente guarnecidas de ouro e pedras preciosas; e todos, assim grandes como pequenos, as trazem à cinta, porque lhes seria desonra não as trazer. Quando vão à guerra têm espadas e rodelas, e quantidade de flechas que lançam à mão. São mui obstinados e mui soberbos, mesmo no seu modo de andar, e grandes menti¬ rosos e ladrões. Os homens são muito mandriões, os escravos fazem a maior parte das coisas; os fidalgos e burgueses ricos têm hortas e casas no campo, onde os escravos lavram e cultivam a terra, trazendo os frutos e rendimentos a seus senhores, que ordinàriamente não têm outra ocupação senão estar assentados entre as mulheres, de que cada um tem muitas, a mastigar continuadaniente bétele; e da mesma sorte suas mulheres fazem outro tanto. As escra¬ vas tangem muitos instrumentos ante êles, cantam e batem em bacias melodiosamente, e as mulheres a êste som dan¬ çam umas após outras em presença do marido, fazendo cada uma o melhor que pode, e empenhando-se em lhe agradar, porque aquela que então mais lhe agrada, passa a noite seguinte com êle. Consomem a maior parte do tempo a lavar-se, banhar-se e estar dentro de água, o que torna o rio insalubre, e a sua água má para beber, por causa de tanta gente que ali se lava e se detém. Quanto
  • 124 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD ao mais, as mulheres nobres são assiduamente guardadas por eunucos e castrados, que são em grande número, e os compram para êste efeito. Os leitos são suspensos e os embalam como a gente das ilhas de Maldiva. Esta cidade é frequentada de muito povo, porque se faz ali grande trato e comércio por tôda a sorte de estran¬ geiros, assim cristãos, como índios, tais como arábios, guzerates, malabares, gente de Bengala e de Malaca, que vêm ali procurar principalmente a pimenta, que se dá abundantemente nesta ilha, e não vale ali ordinàriamente mais que a um sôldo cada libra. Vi muitos chineses que estavam ali de assento, fazendo grosso trato; e todos os anos no mês de Janeiro chegam ali nove ou dez grandes navios da China, carregados de fazendas de sêda, roupas de algodão, ouro, porcelana, almíscar e muitas outras qua¬ lidades de mercadorias da sua terra. Estes chineses têm mandado ali fabricar belas casas para se agasalharem até terem feito o seu negócio e estarem ricos; e para o con¬ seguir não há mister, por mais baixo e vil que seja, que êles não exercitem; e no que toca ao modo por que proce¬ dem nesta matéria da mercancia, são semelhantes aos judeus; e depois, quando têm feito o seu negócio, voltam para a China. À sua chegada a Bantam compram escra¬ vas, e quando se vão embora tornam a vendê-las, levando consigo por escravos os filhos que delas têm tido. Obser¬ vam também o costume de não enterrar ali, nem em outra qualquer terra estrangeira, nenhum dos seus defuntos, mas salgados e embalsamados os levam consigo. Os holan¬ deses tem ao presente, nesta cidade, muitas casas, que aí tem mandado fabricar, e também uma feitoria e feitores para meneio de seu tráfico; porque o rei lhes é inclinado e o povo os ama. O rei tem a sua residência na cidade; é mui humano e cortês; tem muitas mulheres, que são guardadas com grande rigor, porque a ninguém é permitido vê-las, nem entrar onde elas estão; e ainda que fôsse seu próprio filho, não poderia ver as suas mulheres, nem entrar onde elas estão sob pena de morte. Quando alguém morre, todos os seus bens são de el-rei; a mulher e os filhos ficam es¬ cravos, salvo se forem casados e tiverem casa apartada da de seu pai, ou que el-rei por meio de algum presente, ou por honrar a memória do pai, lhes deixe a liberdade e te¬ nha feito expedir as competentes provisões.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 125 Há outro grande reino na ilha de Java, cuja cidade principal se chama Tubão, situada à beira-mar, tôda cer¬ cada e fechada de muralhas. É uma cidade mui bela e muito comerciante; e onde a pimenta é mui cara. Enten- de-se que o rei de Tubão é tão poderoso, que se quiser ir à guerra, em vinte e quatro horas pode juntar trinta mil ho¬ mens, assim de pé como de cavalo. Anda sempre acom¬ panhado de grande número dos seus grandes, e tem uma côrte mui luzida. Há ali muitos elefantes e cavalos. Fomos dali à ilha de Madurei, que fica ao norte da Java, pequena, mas fértil em arroz, de que bastece algu¬ mas ilhas vizinhas. Há nela uma pequena cidade mui linda e bem murada, chamada Arosbay. Obedece a um rei par¬ ticular. Os habitadores andam vestidos e armados à java¬ nesa. São resolutos, bons soldados, mas grandes ladrões, assim em terra como no mar. De Madurá levámos âncoras e passámos avante para ir a Maluco. Surgimos ainda na ilha de Bali, onde nos detivemos algum tempo e dali rematámos nossa viagem a Maluco. A ilha de Balli é situada mui perto da Java para a banda do Oriente. É fértil em arroz, abundante em gali¬ nhas e em porcos, mui bons e delicados, e em grande número. Há também lá outras espécies de gado, mas mui sêco e magro. De cavalos há igualmente abundância. Além dos mantimentos, não produz a terra outra mercado¬ ria. Os habitadores são gentios e idólatras, mas sem al¬ guma regra e cerimónia certa; porque uns adoram uma vaca, outros o sol, outros uma pedra; e assim cada um adora o que quere. As mulheres queimam-se quando seus maridos morrem. Os seus vestidos são como os da gente de Bantão; suas armas são também punhais; trazem na mão um pique e uma sarabatana ou buzina de duas braças de comprido e vêm providos de uma aljava cheia de pe¬ quenas flechas, para serem assopradas pelas sarabatanas, o que é mui perigoso para os que andam nus. São mui ini¬ migos dos portugueses e dos mouros. Esta ilha obedece a um rei particular, que ostenta maior magnificência que o de Bantão. As suas guardas trazem piques com ponta de ouro, e êle marcha num carro puxado por dois búfalos brancos. Quanto às ilhas de Maluco, são elas muitas e férteis em especiaria. Eis aqui os nomes das que são somente compreendidas debaixo daquele título: Ternate, Amboino,
  • 126 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Maquiem, Bachdo, Miau, Morigorâo, Gilolo, Catei e 77- dore, e são tôdas como formando uma mesma província mui próximas umas das outras (l). São estéreis de manti¬ mentos, que ali são raros e caros, porque lhe vão de fora, pois não se produz nelas espécie alguma de grão comestível. Fazem farinha de pau de uma árvore, a que chamam sagú, da qual farinha todos aquêles povos fazem bolos e apas, que são mui bons e delicados, sendo frescos. Há alguns coqueiros e bananeiras, muitas laranjeiras e limoeiros e amendoeiras mui grandes, e das amêndoas fazem bolos muito bons com açúcar, que vendem nos bazares, Mas, principalmente, há ali admirável quantidade de cravo, que se não produz em outra alguma parte do mundo, senão nestas ilhas, que estão cobertas destas árvores; e por essa razão são freqiientadas de tôda a sorte de mer¬ cadores estrangeiros, que acodem de tôda a parte do mundo para haver aquela especiaria; assim cristãos, como chineses, índios e arábios. Há também ali papagaios de diversas plumagens e mui bonitos. Os naturais são seme¬ lhantes nos costumes, modo de viver, armas e trajos, aos de Java e Samatra, porque tôdas as gentes destas regiões de Malaca avante, que os portugueses chamam a Sonda, não diferem em nada no rosto, côr, vestido, língua e costumes, como quem é o mesmo povo. A religião é a maometana. São gente mui singela, mas todavia resolutos e mui valentes. Ternate é a ilha principal, e tem bem trinta léguas de circuito; nela se dá mais cravo que nas outras; e é gover¬ nada por um rei particular. Antigamente o rei de Ternate era senhor de tôdas estas ilhas, mas agora cada uma delas tem seu rei apartado. Os holandeses há poucos anos ganharam Amboino e Tidore aos portugueses, e quanto a Ternate, o rei dela, tendo expelido os portugueses da (*) Pyrard é aqui bastante confuso — «As ilhas de Maluco, propria¬ mente falando (diz o autor da Hlstoire de la conquête des Isles Maluques par les Hotlatldois, que serve de aditamento á tradução francesa da histó¬ ria espanhola da conquista das mesmas ilhas escrita por Bartolomeu Leo¬ nardo de Argensola) «As ilhas de Maluco, propriamente falando, não são mais de cinco, a saber, Ternate Tidore, Maquiem, Motir c Bachão. Afora estas cinco, que produzem o cravo, há o também nas de Meau, Ma- rigoram, Cinomo, Cabei e Amboino, que tôdas, com Celebes, Gilolo e outras muitas, são compreendidas debaixo do nome de Maluco, quando se lhe dá uma significação ampla — N do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 127 sua fortaleza, os espanhóis das ilhas Filipinas ou de Ma¬ nilha, lha retomaram, e depois se concertaram entre si. De sorte que hoje os portugueses não têm um grão de cravo à sua disposição, o que os molesta muito e andam sôbre isso em pleito no conselho de el-rei de Espanha contra os espanhóis. Eu somente estive e me dilatei em Ternate; enquanto às outras ilhas, apenas passei à vista da maior parte. Na mesma região há outra ilha, onde eu também es¬ tive, mui célebre por certa qualidade de especiaria; e é a ilha de Banda, distante vinte e quatro léguas de Amboino; mui fértil em noz moscada e massa; e daqui se bastece todo o mundo desta especiaria, porque se não cria em outra parte, salvo algumas árvores que são plantadas por curiosidade, como vi em Goa e outros lugares. Por isso abicam ali muitos mercadores estrangeiros de tôda a parte. Tem rei particular; os naturais são maometanos, ousados e guerreiros; e dos mesmos trajos e costumes que os das outras ilhas e terras circunvizinhas. Seria impossível dizer por miúdo quantas ilhas há neste mar da Sonda ou do Sul, (como lhe chamam os por¬ tugueses) atento o grande número delas, entre grandes e pequenas; o que torna a navegação mui difícil pelos bancos, arrecifes, canais e estreitos que ali se acham; por onde é mister ter bons e experimentados pilotos e ainda das mesmas ilhas, se é possível; e, comtudo isso, não se deixa de muitas vezes encalhar e dar à costa. Acresce que ninguém ousa navegar naqueles mares senão de dia; porque, em chegando a noite, é mister surgir em alguma parte, aliás há risco de naufragar durante a noite; e ainda mesmo de dia não se pode navegar sem se ir sempre de sonda na mão.
  • 128 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD CAPÍTULO XIII DAS COISAS SINGULARES QUE SE EXTRAEM DAS ILHAS DE SAMATRA, JAVA, BORNÉU E DAS FILIPINAS E MANILHA DA CHINA E DO JAPAO E DO TRAFICO, QUE DESTAS PARTES SE FAZ EM GOA AS três principais c maiores destas ilhas, são: Samatra, Java grande e Bornéu, que são as maiores de todo êste oceano abaixo da ilha de São Lourenço. Todos os povos destas ilhas se parecem no génio, modo de viver, feições do corpo e linguagem, com os da terra firme de Malaca, o que me faz conjecturar que elas foram povoadas pelos ma/aios. As demais ilhas são inumeráveis, mui che¬ gadas umas às outras, habitadas em tôda a sua extensão, com mui pequenas diferenças; quási que cada uma tem seu rei especial e algumas mais de um. São férteis em frutos e mercadorias particulares, como especiarias e outras dro- tas, que se não encontram em outras partes; e tirada amatra e Java, que dão tudo, as outras não são abun¬ dantes senão de uma só coisa particular, sendo em tudo o mais estéreis; de sorte que é mister que aquela merca¬ doria, em que abundam, lhes abone para todo o resto; o que é motivo para tôdas as coisas ali serem caras, menos a sua própria mercadoria, que é barata; e ainda daqui >rocede que êstes povos são constrangidos a comunicar e requentar uns com os outros, para se proverem do que hes falta. Em Samatra e Java produzem-se muitas coisas mui ricas e boas; mas a principal fazenda é a pimenta, que ali é mais grossa e melhor que a da costa do Malabar e a razão, segundo eu creio, é por jazerem estas ilhas mais ao oriente e mais perto da linha, o que faz ali a terra mais úmida e orvalhada que a terra firme. Banda dá a massa e a noz moscada. Maluco o cravo. Bornéu a cânfora e o benjoim. E assim as mais, que tôdas dão alguma coisa singular. Falo delas só em geral, porque tôdas são habitadas do mesmo povo e estão quási no mesmo para¬ lelo e clima, com a mesma temperatura ou intemperatura. O ar ali é insalubre; as coisas necessárias para viver mui caras e até pela maior parte das vezes se não acham
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 129 mantimentos por dinheiro, porque como vêm por mar, acontece faltarem. A gente é traidora, pérfida e colérica, de sorte que por um nada não põem dificuldade de matar um homem com seus crises ou punhais, que sempre trazem consigo. Não se mercadeja com êles senão com temor e risco. Os holandeses, portugueses e outros estrangeiros, são obrigados a fiar-se dêles para o tráfico, sem embargo de haverem muitos sido ali espatifados; mas o desejo do ganho faz esquecer tudo. Os portugueses de Malaca têm comissários e feitores em tôdas estas ilhas para o tráfico; e os naturais delas não deixam de ir com seus navios carregados a Malaca, que é o armazém e depósito de tôdas estas mercadorias, cujo comércio é aí maravilhosamente grande ou por comutação de dinheiro ou de outras coisas. Acode a estas ilhas a fazer veniaga com um infinito número de navios gente de tôda a parte desde o Cabo de Boa-Esperança até à China, e ali se encontram mercadores da Abissínia, Arábia, Pérsia, Guzerate, Cambaia, Goa, Malabar, Bengala, China, Japão e de todo o resto da índia. E no tempo presente também ali vão os ingleses e holandeses ao mesmo trato dos excelentes frutos, drogas e flores aromᬠticas e odoríferas, que a terra produz. E quando naquelas partes as flores estão nas árvores em sua fôrça e vigor, é coisa maravilhosa o suave cheiro que exalam e de que o ar fica tão cheio, que o vento o leva a seis e sete léguas ao longe. Mas entre os outros o cravo é o mais precioso fruto e por isso custa mui caro, pois que sôbre êle se chega a perder a vida ou se padecem muitos trabalhos para o alcançar. O que nestas ilhas se importa é o algodão, panos do mesmo, tôda a sorte de roupas e panos de sêda, sêda em rama, arroz, peixe, manteiga, óleos, munições de guerra, armas, dinheiro e outras coisas. Os holandeses e tôdas as outras nações, quando querem ir a estas ilhas, vão pri¬ meiramente à costa do Guzerate, S. Tomé, Masulipatão e Bengala a comprar roupas de algodão, sôbre as quais tiram dobrado proveito, porque ganham primeiramente na fazenda que levam a essas partes, e depois ainda na que delas extraem para as ditas ilhas. Mas se êstes insulares são finos e maus, os chineses o são ainda mais, porque o dinheiro que de tôda a parte é levado a estas ilhas, os chineses lho apanham e o levam à China a trôco de má 9 II Tol
  • 130 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD fazenda, bagatelas e pedras falsas. Os espanhóis e por¬ tugueses dizem outro tanto dos flamengos e franceses que lhes não levam senão bugiarias e quinquilharias, e não extraem de Espanha senão dinheiro, como semelhante¬ mente fazem em França. No que toca às ilhas Filipinas, que são seguidas a estas, não tendo eu estado nelas, direi somente de passa¬ gem o que delas pude saber dos portugueses, que lhes chamam Manilhas, os castelhanos Filipinas e os índios Luçon, por causa da ilha principal, chamada Luçonia. São ainda outras muitas, cada uma das quais tem seu nome particular. Os castelhanos as descobriram e conquista¬ ram, e lhes deram o nome do seu rei (l), e da sua parte os portugueses o de Manilhas, por causa de a cidade ca¬ pital, em que se faz o principal tráfico, ser assim chamada. Jaz a catorze graus para a banda do norte. Os habitado¬ res vieram da China, como também dali vieram os do Ja¬ pão. Os espanhóis as possuem, e têm aí um vice-rei e um bispo, que ambos fazem sua residência na cidade de Manilha, onde a cristandade está muito aumentada. Os espanhóis do México, Nova Espanha e Peru vêm ali pelo mar do sul. Estas ilhas são assaz férteis em mantimentos e frutos, mas não abundantes em riquezas e mercadorias. Há ali muita algália, e daquelas tartarugas, cuja concha é tão procurada na índia, e não se acha em tôda ela senão ali e nas ilhas de Maldiva, e faz-se dela grande tráfico em Cambaia e Guzerate. De sorte que os espanhóis não conservam em seu poder estas ilhas por razão da sua ri¬ queza, mas somente para fomentar o trato e comércio com os chineses, porque não sendo permitido aos estrangeiros ir à terra firme da China, é necessário haver algum outro lugar, que sirva de acolheita e escala às mercadorias que os chineses trazem. E para o mesmo efeito têm os por¬ tugueses a ilha de Macau (2). Ali pois têm os espanhóis um Contratador para a correspondência das mercadorias da China e das índias Orientais, o que faz estas ilhas maravilhosamente ricas; (1) É sabido que as ilhas Filipinas foram descobertas pelo cé lebre português Fernào de Magalhães capitaneando uma armada de Cas¬ tela. - N. do T. (®) Macau propriamente não é ilha, mas península pertencente ã ilha de Anço. — N do T
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 131 mas por outra parte isto dana muito o comércio de Espa¬ nha nas índias Ocidentais, porque as roupas e panos de sêda de Espanha não se extraem ali tanto como era costume antes de aberto êste comércio. Por isso el-rei de Espa¬ nha o quis defender, e não permitir mais que certos na¬ vios, como faz em Goa; mas os chineses protestaram que se isso fôsse avante, êles não queriam mais comércio al¬ gum com os espanhóis, quer no oriente, quer no ocidente, de sorte que el-rei foi constrangido a deixar continuar o tráfico como estava em costume (l). Extrai-se grande Suantidade de dinheiro das índias ocidentais para a China. >s espanhóis das Manilhas não deixam de mercadejar no mar do sul com os portugueses e índios, mas não passam além do cabo e pôrto de Malaca, onde creio que todos os anos abicam mais de trinta ou quarenta navios da China e ilhas Manilhas. Os portugueses e espanhóis se concer¬ tam sofrivelmente em seu tráfico neste mar. Os espanhóis por si sós possuem aquela boa e excelente ilha das de Ma¬ luco, chamada Ternate. Ora sendo a cidade de Goa o lugar onde se faz a carga e descarga das mercadorias de tôdas as partes da índia e de Portugal, segundo os regimentos de el-rei, o vice-rei envia dali todos os anos dois ou três navios à China e Ja¬ pão, dos quais uns vão somente à China e outros a uma e outra parte. Por China entenda-se somente Macau, que é uma ilha e cidade, onde estão os portugueses com por¬ ção de chinas; e é ali a escala e desembarcadouro de tôdas as mercadorias que vêm assim da China, como das outras partes do mundo. Êste trato das índias não é per¬ mitido a todos os portugueses em tôdas as partes; por¬ quanto o da China, Japão, Malaca, Moçambique e Ormuz só é concedido aos navios de el-rei, salvo às vezes que por galardoar algum fidalgo, capitão, ou outro oficial, íhe concede fazer uma viagem mercantil, com um ou dois na¬ vios ao mais; mas esta mercê só se faz por algum serviço assinalado ou a algum fidalgo. Nestes navios vão muitos (i) No Fascículo 3 ° do Archivo Portuguez-Orienlal podem ver-se inumeráveis vezes repetidas as ordens dos reis Filipe 2.° e 3.° defendendo o comércio das Filipinas c Índias ocidentais ida Coroa dc Castela) com as ln- dias Orientais (da Coroa de Portugal), sem embargo dc lhes pertencerem umas e outras. Porém, a mesma repetição destas ordens mostra o pouco efeito delas, e que prevalecia o facto indicado pelo autor. — N do T.
  • 132 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD mercadores particulares para fazer sua veniaga e êstes pagam as despesas dos navios e o frete de suas mercado¬ rias ao dono da viagem e ainda os principais direitos a el-rei, o qual dá sempre estas viagens forras de tudo, menos de alguns direitos particulares que é mister pagar aos rendeiros das alfândegas e pelos cartazes; mas são isentas de muitas alcavalas, que, fora dêstes casos, se pagam de tôdas as mercadorias. E a principal mercadoria que se leva de Goa a Macau é dinheiro, porque na China o dinheiro é mui procurado, e a maior parte do dinheiro que vai da Europa e por via de Ormuz às índias orientais, escoa-se todo para a China; e semelhantemente o que vem das partes do Japão e índias ocidentais pelo mar do sul e ilhas Filipinas ou de Manilha, onde é também escala das mercadorias que vêm das ín¬ dias ocidentais e da China, pelo dito mar do sul, como do Peru, Nova Espanha, México, Chile e outros lugares destas partes; de sorte que se orça que todos os anos entram na China mais de seis ou sete milhões de ouro em moeda, e não deixam sair de lá um tostão, mas derretem tôda esta moeda em barras e todo o seu tesouro é em prata, e não em ouro, que é ali mui frequente e comum. O melhor di¬ nheiro na índia é o que vem da Pérsia por via de Ormuz e é uma moeda comprida, a que chamam Larins, e de que os ourives da índia fazem grande aprêço e tiram grande lucro, porquanto é prata mui pura, limpa, branda, dúctil e boa de obrar. Abaixo dela, a melhor é a do Japão, que é igual¬ mente dúctil; a que vem das índias ocidentais é a mais in¬ ferior, e é dura, áspera e menos apurada que a outra. Quando os navios partem de Goa, vão carregados, além do dinheiro, de diversas fazendas da Europa, como vinhos, panos de lã e entre outros escarlata, tôda a sorte de obras de vidro e cristal, relógios que os chineses pre¬ zam muito, grande qualidade de panos de algodão, pedras preciosas lapidadas e postas em obra, como anéis, cadeias, colares, sinetes, brincos das orelhas e braceletes; porque esta gente da China gosta muito de pérolas, pedras precio¬ sas e jóias de tôdas as qualidades para suas mulheres. Saem de Goa por Outubro e vão a Cochim a tomar as pe¬ dras e especiarias, como pimenta e canela, e deixam ali em trôco as fazendas da Europa, ou da índia da banda do norte. Dali fazem-se na volta de Malaca, porque não podem seguir viagem sem passar a Malaca para tomar pas-
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 133 saporte do capitão da fortaleza, e receber as fazendas das ilhas da Sonda por comutação dos panos de algodão e de outras coisas da índia e da Europa. Os que vão de Goa a Japão podem fazer conta de gas¬ tar na viagem três anos inteiros e não pode ser menos, por razão dos ventos, que êles chamam monções, e reinam por seis meses e mais, como em outra parte disse. Mas não recebem nisso dano, porque às vezes dobram nesta viagem o seu dinheiro e fazendas e outras vezes o tri¬ plicam ou ainda mais. De Malaca vão a Macau e dali ao Japão; e em todos êstes lugares lhes é mister esperar as monções, e no entretanto vão fazendo as suas veniagas, enquanto esperam pelo vento. Largam ali a maior parte da sua fazenda e todo o dinheiro, e carregam novamente os navios de outras fazendas da China, como sêdas e alvaiade (*), que é mui procurado e caro no Japão, onde tôdas as mulheres branqueiam com êle todo o corpo até às pernas. Esta tinta vem da ilha de Bornéu, donde é levada à China, onde a refinam e temperam, e fazem dela grande tráfico e extracção para todo o mundo, mas mais para o Japão do que para outra alguma parte. Levam pois ao Japão tôdas estas fazendas da China, e as que lhes restam das da Europa e índia, que vendem muito bem, e das quais não trazem outro retorno senão dinheiro, que acham ali em boa conta, e voltam a Macau a comutar êste di¬ nheiro por outras fazendas. Fazem longa detença em todos êstes lugares, depois tornam a Malaca, onde é mister que abiquem, e ali fazem nova comutação de fazendas com as de Malaca e ilhas da Sonda. Dali, final¬ mente, recolhem a Goa ou a outra parte donde é o dono do navio. É impossível dizer as grandes riquezas, coisas raras e bonitas, que êstes navios trazem; entre outras há ouro em barras, a que os portugueses chamam pão de ouro, e também vem em folhas e em pó; grande quantidade de trastes de madeira dourada, a saber: tôda a sorte de uten¬ sílios e móveis lacreados, acharoados e dourados com mil belos feitios; tôda a sorte de panos de sêda, muita outra sêda não obrada, grande quantidade de almíscar e algália, grande porção do metal, a que chamam calaim, do qual se faz grande estimação em tôda a índia, e até na Pérsia (!) Pyrard diz que em França se chama BlatlC d'Espagne.—N do T.
  • 134 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD e outras partes. É êste metal duro como prata, e branco como estanho, embranquece mais com o uso; e bate-se moeda dêle em Goa e nas outras terras dos portugueses, e em outras partes da índia, pôsto que raras vezes, porque tôda a sua moeda é de ouro ou prata, e até a cortam em pequeninos para comprar as mercadorias. Fazem também dêste metal todos os seus utensílios e adornos, como cá se faz de prata e de estanho, incluindo anéis e braceletes para mulheres e crianças. Trazem outrossim daquelas partes, muita louça de porcelana, de que usam em tôda a índia, assim os portugueses como os índios. Trazem ainda grande cópia de bocetas, tabuleiros e açafates feitos de certa qualidade de pequenos juncos, cobertos de charão e verniz de tôdas as côres, dourados e brincados. Mas entre outras coisas, grande número de pequenos armários de todos os feitios, feitos ao modo dos de Alemanha, e são a coisa mais linda e mais bem acabada que ver se pode, porque são todos de madeira esquisita, mosqueada e mar¬ chetada de marfim, madre-pérola e pedras preciosas. Em vez de ferro, poem-lhe ouro. A isto chamam os portu¬ gueses escritórios da China. Traz-se também de lá grande quantidade de açúcar, o mais duro, alvo e fino que jamais vi; muita cera e mel; papel o mais branco, fino e delicado do mundo; tôda a sorte de metais, e entre outros muito azougue, que lhes rende muito, pelo levarem a tôdas as partes do mundo, onde há minas de prata, porque êste azougue purifica e refina a prata. Eis o que há do trato de Goa com a China, Japão, Malaca e outras partes. Agora quanto ao que se faz a retalho na ilha de Goa, cumpre notar primeiramente que todo o tráfico ordinário a retalho é ali feito por banianes, canarins e outros estrangeiros, assim gentios como maome¬ tanos, e raras vezes pelos portugueses, mestiços ou índios cristãos. No que toca ao comércio em grosso, êsse faz-se por tôda a gente rica, assim portugueses como cristãos da terra e outros. Tudo ali se vende, quer seja por junto quer pelo miúdo, por meio de corretores jurados, que são gentios, moradores de Goa ou suas vizinhanças. Os cereais, sementes e outros mantimentos, que vêm de fora, descarregam-se na alfândega e aí se vendem e dis¬ tribuem a quem quere, assim para seu provimento, como para vender a retalho na cidade e na ilha. E no mesmo ponto que as ditas mercadorias são descarregadas nesta
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 135 alfândega, os juízes da polícia vêm pôr o preço nelas segundo sua valia, como fazem a tudo que é comestível e mantimento, tanto em grosso como a retalho. E se êstes géneros não são bons e de lei ou sejam cozidos ou crus, são confiscados e dados aos presos e outros cristãos pobres da cidade, e além disso os vendedores são conde¬ nados em multa. Porque é de saber que todos os dias os juízes e oficiais da polícia não fazem outra coisa senão dar varejo a todos os mantimentos; e ninguém ousaria vender coisa alguma sem que a polícia lhe tenha primeira¬ mente pôsto a taxa. Igualmente ninguém ousaria vender por grosso ou por miúdo, seja mantimento ou outra coisa, sem pagar o competente tributo a el-rei; de sorte que em tôda a espécie de mister, ofício ou qualidade de merca¬ doria, por menor que seja, o poder de o exercer ou vender é dado de arrendamento a quem mais oferece em hasta pública. Chamam aos que fazem êste contrato rendeiros; e é necessário para exercer o ofício ou vender a merca¬ doria, ter licença por escrito dêstes rendeiros, que custam segundo o valor do tráfico ou mister. Êstes rendeiros são todos brâmanes, banianes e canarins. É coisa maravilhosa a grande quantidade de gente a vender e a comprar, que se vê em tôda a semana, excepto nos dias santos, em Goa, assim na ilha como na cidade, por razão do grande tráfico e comércio que aí se faz, de sorte que parece que há sempre feira continuada. Os que cá são separadamente especieiros, mercadores de velas, boticários e droguistas, lá estão confundidos numa só ocupação e são sempre brâmanes e não outros, e têm à venda tôda a sorte de drogas, assim para medicamentos como para alimentos; porque excepto vinho, carne, peixe, frutas, ervas e viandas cozidas, vendem tôdas as mais coisas próprias e necessárias à vida humana, quer sejam coisas que respeitam à mantença dos homens e dos cava¬ los, quer sejam as que se aplicam ao curativo das enfer¬ midades; não vendem, porém, panos; e a cada esquina ou encruzilhada há sempre uma ou duas destas boticas. Todos os índios, assim de Goa como de outras par¬ tes, têm um costume assaz estranho e notável, que é, que quando querem fazer algum mercado entre si e são presen¬ tes pessoas que êles não querem que saibam e entendam o seu negócio, nem tampouco que entrem em suspeita, se os virem falar ao ouvido, costumam fazer sinais por baixo
  • 136 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD de suas mantas de sêda ou de algodão, que sempre tra¬ zem, como nós as nossas capas; e tocando as mãos secre¬ tamente, se dão a entender pelos dedos a que preço querem vender ou comprar, sem que as mais pessoas possam saber nem conhecer coisa alguma. Mas tornando às ilhas da Sonda, de Maluco, Filipi¬ nas, Japão e ainda à China, poder-se-ia dizer muito mais destas terras e das coisas excelentes e singulares que delas se extraem; mas contento-me somente com o que levo dito de passagem, deixando o resto aos que são mais capazes e mais curiosos que eu. Tendo, pois, voltado da viagem da Sonda, dilatei-me ainda algum tempo em Goa à espera de ocasião de regres¬ sar à pátria. Mas antes de passar à relação da minha partida da índia, parece-me, pois tenho feito tão particular descrição de Goa e de outros lugares da índia onde es¬ tive, que não devo deixar em silêncio o que, estando entre os portugueses, notei e alcancei com assaz de curio¬ sidade, assim de sua navegação, embarques e tráfico nos diversos lugares da África e da índia, como de muitas outras coisas das terras do Brasil na América, de Angola, Moçambique, Sofala, Çuama, Melinde, Socotorá e outros lugares da costa de África e do resto da costa da índia, desde Ormuz, Cambaia, Surrate, Mogor, Dio e outros, até à China e Japão; e do que me aconteceu de memo¬ rável em todos êstes lugares enquanto estive na índia. É o que referirei brevemente nos capítulos seguintes. CAPÍTULO XIV DA FORMA E FEITIO DOS NAVIOS PORTUGUESES DA CARREIRA DA INDIA; E DA ORDEM E PoLlCIA, QUE A BORDO DÊLES SE GUARDA, ASSIM NA IDA COMO NA TORNA-VIAGEM PRIME1RAMENTE, quantos aos navios de Portugal, par¬ tem todos os anos três ou quatro ao mais, dos a que chamam naus de viagem, e vão para voltar, se é possível. E em caso extraordinário, quando el-rei quere enviar ali alguma armada ou algum viee-rei mais bem acompanhado, ou ainda algum aviso particular, envia outros navios meãos, como galeões de Biscaia, navios franceses, flamengos, ingleses e caravelas; e dêstes nenhum
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 137 volta a Portugal, salvo havendo necessidade de dar algum aviso expressamente e fora das monções ordinárias, por¬ que então despedem uma caravela ou outro navio meão. E, se pela ventura, as naus que partem de Portugal para Goa, não puderem chegar lá a salvamento ou a. outro pôrto da índia, nem por isso deixariam de enviar da índia alguns galeões de Biscaia carregados de pimenta e outras merca¬ dorias, porque êstes galeões são pouco mais ou menos do porte de setecentas a oitocentas toneladas, e são mui pró¬ prios para guerra, bons de vela e melhores que as naus. No que toca a estas naus, são tôdas fabricadas em Lisboa, e não em outra parte, por razão do pôrto que é mui próprio para isso, e mui cómodo para o embarque, e melhor que em outra qualquer parte, assim por causa dos oficiais e intendentes das tais viagens, como pelas merca¬ dorias, utensílios (a que êles chamam aparelho), provimento (a que chamam matalotagem) e outras comodidades e coi¬ sas necessárias (l). Estas naus são ordinàriamente do porte de mil e quinhentas até duas mil toneladas e mais, de sorte que são os maiores navios do mundo, segundo eu pude alcançar, e não podem navegar em menos de dez braças de água. Há sim, na índia, algumas embarcações, mas mui poucas, que vêm da Arábia, Surrate e outros lugares circunvizinhos, que têm perto de mil a mil e duzen¬ tas toneladas, mas nunca são tão boas nem tão fortes como estas naus, porque não lhes metem tanto ferro; e todavia não apodrecem tão azinha, e não são tão fàcilmente fura¬ das do bicho, porque na índia nunca empregam a madeira sem serem passados três ou quatro anos depois de cor¬ tada, com o que fica mais sêca e mais rija; e mesmo (!) Dizer o autor que as naus da carreira da tndia eram tôdas fabri¬ cadas em Lisboa e não em outra parte, náo pode entender se senão em relação às que se fabricavam em Portugal, pois èle mesmo logo abaixo aponta uma destas naus fabricada em Baçaim, e não podia ignorar que já se haviam fabricado outras na tndia, pôsto que na verdade a maior parte delas fõssem fabricadas no Reino. Parece-nos que a primeira vez que lembrou mandar fazer algumas destas naus na tndia, foi no ano de 1585; e depois por muitas vezes se encomendou esta matéria aos vice reis. mas, segundo colhemos dos documentos que temos presentes, com pouco fruto, talvez por falta de cabedal suficiente no tesouro do Estado. São dignos de ver-se a éste propósito, no Fascículo 3 ° do Archivo, Porluguez- Oriental os Documentos. II — III, 23 - VI, 143, 204-XXXI 212,- XIV, 240 - XI, 248-V, 253, 257, 365 - V, e talvez outros.-do T.
  • 138 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD aquela madeira é de sua natureza mais rija e melhor que a nossa. E podem lá esperar todo êste tempo, porque há muita abundância de madeira, e fazem poucos navios, e não a consomem no fogo por razão do calor da terra; mas pelo contrário, em Portugal há pouca madeira e fabricam-se muitos navios, de sorte que se vêem obrigados a empregar madeira ainda verde. Ouvi contar aos portugueses que nunca houve em¬ barcação que fizesse tantas viagens, de Portugal à índia, como uma nau que foi feita em Baçaim, cidade que fica entre Goa e Cambaia; e fêz aquela nau até seis viagens, sendo que as que se fabricam em Portugal não fazem ordi- nàriamente senão duas, e ao muito três, mas a maior parte não fazem mais de uma (')■ Este lugar de Baçaim é na índia comparado a Biscaia na Espanha, porque tôdas as embarcações que na índia se fazem por conta de el-rei, ali se fazem, porque não há terra onde se ache maior far¬ tura de madeira. Verdade é que no reino de Sião e em Martabane se acha ainda mais e melhor, mas são estas terras mais distantes e incómodas. São pois estas grandes naus de quatro cobertas ou andares, em cada uma das quais cabe um homem de pé, por mais alto que seja, sem tocar com a cabeça no teto, e ainda sobram mais de dois pés. A pôpa e a proa so¬ bressaem, ao convés, à altura de três ou quatro homens, de sorte que parecem dois castelos levantados nos dois ex¬ tremos. Podem levar trinta e cinco a quarenta peças de artilharia de bronze, porque êles não usam peças de ferro como nós, e a sua artilharia é do pêso de quatro a cinco mil libras, e a menor de três mil. Além destas não deixa de haver algumas peças mais pequenas, como esperas e pedreiros, que põem nas gáveas, porque estas são tão grandes que lhes cabem dez ou doze homens; e os mastros tão enormes, que não há árvore tão grande e tão grossa que abaste, não só para o grande, mas nem ainda para o de mezena. Por isso, ordinàriamente, todos os seus mas- (!) Conta Diogo do Couto (Déc. VII. Liv. IX Cap. XVII.) que D. Constantino de Bragança, sendo vice-rei da india. mandara fazer em Goa defronte de seus paços uma nau á sua custa, a que pôs nome Chagas, e vulgarmente chamaram Constantina. Esta nau desde o ano de 1561, em que foi acabada, até ao de 1585, em que o vice-rei D. Duarte de Meneses veio nela á Índia, fêz nove ou dez viagens tão prósperas, que nunca lhe aconteceu desastre, antes foi acabar no rio de Lisboa feita cábrea.—N do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 139 tros são enxertados e acrescentados, e cobertos ao redor de chúmeas, que são grossos pedaços de pau embutidos mui exactamente e da espessura que se quere. E êstes pedaços, depois de mui bem ajustados, são estreitamente ligados com cordoalha e cintas de ferro mui apertadas, para que não sejam impedimento a subir e descer a vêrga, que é de grossura proporcional ao mastro, e tem vinte e quatro braças de comprimento. São mister mais de duzen¬ tas pessoas para levar acima uma destas vergas, e sempre com dois cabrestantes mui grossos (l). Não forram as embarcações de chumbo como nós fazemos às nossas; e só o põem na juntas para segurar a estopa; depois cobrem o navio de outra fiada de tábuas de pinho, e outra vez o calafetam, e untam de pez, e por cima de tudo o cobrem de enxofre e cebo. De sorte que são os mais fortes e espessos navios que ver se podem, e causa espanto ver tantas peças grossas de pau ajustadas e tão grande quantidade de ferro liado com elas. E, com tudo isso, o mar os quebra e rompe às vezes mais depressa que a outras embarcações menores, como na verdade conheci por experiência, que quanto maior e mais pesado é um navio, mais se alquebra; ao mesmo tempo que um navio menor se deixa levar sôbre as ondas, o que àquêles não pode suceder por razão do seu pêso e a vaga os açoita e (*) Isto explica a razão por que foi recebido no reino cora tanto al¬ voroço o anúncio de um novo engenho, que fizera um francês, que residia em Goa, para com facilidade se levarem as vergas acima. Sôbre o que es¬ crevia el rei ao vice rei em carta do l.° de Março de 1594 o seguinte: «Por não ser chegada a nau capitaina, em que vem Francisco de Melo, vos não pode ir resposta ao que me escreveis sôbre o engenho que féz um francês que reside na cidade de Goa. para com êle se poderem levar com facili¬ dade as vêrgas das naus, que servem nesta carreira, que por ser coisa que dá tanto trabalho aos que vão nas mesmas naus, vos encomendo que lá fa¬ çais experimentar êste engenho; e achando que é de tanto efeito, o façais trazer em cada uma das naus, que vierem dêsse Estado>. (Archivo Portu- guez-Oriental, Fascículo 3.° Documento 140-XLV1). E ainda em carta de 2 de Janeiro de 1596 diz el-rei: «E assim me escreveu (o vice-rei Matias de Albuquerque) que mandava na nau Chagas um engenho, que naquelas partes se ordenara para com facilidade se poder levar a vêrga grande acima, o qual não chegou a êste reino; encomendo-vos que nas primeiras naus o envieis em mais que em uma só, para se ver o efeito dêle». (Dito Fascí¬ culo, Doc. 204 - XLVI). Porém, o silêncio de Pyrard sôbre um invento tão recente de um seu compatriota na mesma cidade de Goa, ncs persuade que a coisa não foi àvante — N. do T.
  • 140 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD os parte pela continuação da tormenta, que mais depressa lhes quebra os mastros e as vêrgas, do que aos navios meãos, porque quanta mais resistência acha o vento, mais efeito faz. Para isso, porém, é mister que a tormenta seja bem forte, pois um navio pequeno tomará por tormenta o 3ue um dêstes grandes há por bonança, tão custosos são e abalar-se; donde procede que são mui bons de vela com vento à pôpa e nada valem com vento de bolina, isto é, com vento que bate de uma banda ou da outra. Estas embarcações servem só para mercancia e nunca para guerra; e as outras menores, como galeões de Bis¬ caia, urcas de Flandres, caravelas e outros navios fran¬ ceses ficam na índia para fazerem as viagens da China, Japão, Malaca e outras partes da mesma índia; e servem também para guerra ou para levar avisos e acompanhar os vice-reis. Não quere isto dizer que na índia não façam os portugueses outras tão boas embarcações como aquelas; mas as de que falámos envia el-rei para acompanharem as naus e levar gente à índia; e se todos os navios, que lá vão, houvessem de voltar, não haveria quem os mareasse por razão da muita gente que morre nas viagens, aconte¬ cendo às vezes que a de dois navios não abastaria para marear um só na torna-viagem; e ainda acontece não haver assaz mercadoria, isto é, pimenta, para a sua carga, por tal que é mister dilatar-se uma ou duas destas naus para o ano seguinte, e nêsse ano não enviam de Portugal mais de uma ou duas naus acompanhadas de alguns navios meãos. Advirta-se também que os soldados, que estão na índia, não ousariam embarcar-se por marinheiros, nem os marinheiros fazer-se soldados, porquanto os soldados são obrigados a permanecer lá e os marinheiros a voltar, nem êstes ousariam lá ficar; porque ainda que não haja lugar para êles no navio de torna-viagem, esperam por outra ocasião, e no entretanto são pagos todos os meses em Goa, sem que ousem matricular-se entre os soldados; e se isso lhes fôra permitido, não se acharia gente para marear o navio na volta. Os soldados são havidos ali em tanta honra, que mais não pode ser; e, além disso, para soldado aproveita-se tôda a gente, o que não pode ser para mari¬ nheiro, para serem como cumpre, e o mesmo digo dos bombardeiros e outros oficiais. Os soldados têm seis pardaus por mês, os bombardeiros e marinheiros quatro.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 141 Se um marinheiro quere regressar, pode fazê-lo, ainda que no navio não haja lugar vago de sua condição; salvo havendo na índia falta de gente, porque então o fazem dilatar até ao ano seguinte, e no entretanto vai sempre recebendo o seu sôldo. Se voltasse no navio, teria os pagamentos ordinários. Se porém se embarcasse sem ir em praça de marinheiro, seria havido por pessoa estranha e não teria a ração de pão e de água, nem ainda gasalhado, se o não comprasse a alguém; e por esta razão folgam mais em tal caso de esperar um ano e ainda dois, se não têm meios de comprar o gasalhado a outro marinheiro, o que lhes custa de sessenta a oitenta pardaus, e também comprar gasalhado para seus mantimentos e mercadorias, e é o maior dó do mundo ver ali uma pessoa sem gasa¬ lhado; porque não é como nos nossos navios, onde tudo na coberta é comum; pelo contrário, lá não há o mais pequeno cantinho, que não seja dado ou vendido; e ainda os lugares descobertos sôbre o convés. Ao mestre toca dar os gasalhados da pôpa, e ao contra-mestre os de proa. Enquanto aos que ficam entre os dois mastros, isto é, sôbre a tolda a descoberto, dispõe dêles o guardião. Esta ordem e diferenças guardam só nas naus da carreira da índia, porque nas outras viagens usam pouco mais ou menos os nossos estilos. Nos navios medianos observam o mesmo regimento que nas naus, mas os oficiais não têm comparação alguma entre si; porque o mestre de um galeão, que tivesse feito a viagem da índia, dar-se-ia por mui contente se na torna- -viagem para Portugal tivesse o cargo de guardião numa nau; pois êstes marinheiros e oficiais dos navios de menor porte são todos gente apanhada à fôrça, e semelhantemente os marinheiros que ali põem por mestres, contra-mestres, pilotos e outros. E assim esperam poucos lucros, porque os seus navios não regressam nunca, e se êles querem regressar hão mister esperar um ano ou dois, ou vir à sua custa. Mas quando voltam, são recompensados com algum cargo numa nau, mas muito menor que o que tinham no seu galeão; e é mais honra ser marinheiro numa nau, do que contra-mestre num navio meão; de sorte que aquêles cargos se buscam com empenho e se compram, assim pela honra como pelo proveito. Os homens do mar nestas naus não se semelham a outros alguns que eu tenha visto, e nem ainda aos outros
  • 142 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD portugueses, que navegam em outras partes. Porque é certo que todos os homens do mar, andando nêle, são bárbaros, desumanos, incivis, não guardam respeito a pessoa alguma; em suma, são verdadeiros diabos em carne, e em terra são anjos, excepto somente os mari¬ nheiros das naus da carreira da índia, que são corteses e benignos, assim em terra como no mar, e parecem todos homens honrados e bem nascidos, tratando-se todos com grande respeito uns aos outros. Nos marinheiros france¬ ses nunca vi coisa semelhante, como abaixo direi quando dêles falar. Enquanto à ordem que os portugueses guardam nes¬ tas naus durante suas viagens, direi primeiramente que a gente que vai em cada uma delas passa de mil ou mil e duzentos homens, ou pelo menos anda de oitocentos a novecentos, os quais são assim ordenados: Há aí um capitão, que tem mando supremo sôbre todo o navio e gente que nêle vai; depois há o piloto, sota-pilôto, mestre, contra-mestre, guardião, dois trinqueiros, sessenta mari¬ nheiros pouco mais ou menos, setenta grumetes, um mes¬ tre bombardeiro, a que êles chamam condestável, assistido de outros vinte e cinco bombardeiros, mais ou menos, conforme a nau, aos quais todos êle governa abaixo do capitão, e não reconhecem outro superior senão a êle. Êste oficial tem cargo da artilharia e das duas escotas grandes. Há também um capelão e sacerdote do navio, que recebe sôldo, e é obrigado a dizer missa todos os domingos e dias santos, sem todavia conservar hóstia consagrada, porque isso não é permitido no mar. Tem também obrigação de confessar, prègar e fazer tôdas as outras funções e cerimónias eclesiásticas. E ainda que ali vão padres de tôdas as Ordens, não são obrigados a isso, e só o fazem livremente; não recebem sôldo, e vão só como passageiros para a índia, com ordem de não vol¬ tar mais a Portugal. Além disso, há ali um escrivão, que tem poder em tudo, e é despachado por el-rei, e não há nada que toque ao interêsse, assim de el-rei como dos particulares, que êle não escreva; e regista tudo o que entra e sai da embarcação, e é ele quem passa tôdas as cédulas e obrigações que •ali se fazem; porque cumpre advertir que tôdas as cédu¬ las e obrigações que se passam no mar são boas e valio¬ sas entre os portugueses, mas entre os franceses são de
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 143 nenhum valor. Êste escrivão também faz e guarda tôdas as informações e escrituras de justiça em uma espécie de cartório; e quando alguém morre, faz o inventário de todos os bens que a tal pessoa tinha no navio e os faz vender em almoeda a quem mais dá, e o dinheiro que há o dá a juro; e quando chega a Goa ou a Lisboa, entrega o tras¬ lado do inventário aos parentes e herdeiros do defunto, os quais lhe pagam as custas. Tem grande autoridade no na¬ vio, onde nada se passa sem êle dar primeiro seu parecer e consentimento. Todos os mantimentos do navio são dis¬ tribuídos à sua vista e faz assento de tudo, ainda que seja de um quartilho de água. Tem as chaves das escotilhas do navio; e mesmo quando o capitão quere ir abaixo ao porão, é mister que o escrivão o acompanhe sempre, e de outra sorte não poderia lá ir, não obstante representar no navio a el-rei. Êste capitão tem mando sôbretôda agente, assim nos que são obrigados ao navio como nos passageiros, e ainda que ali vá algum fidalgo maior que êle, é mister que lhe obedeça. Todavia, quando quere fazer alguma coisa de importância, toma o voto e conselho de todos os oficiais, fidalgos e mercadores e os faz assinar o auto, para poder a todo o tempo responder. Não pode condenar à morte por crime, mas pode pôr a tormento no navio (a que os franceses chamam passer par sous le navire, e caler) e outros castigos corporais e pendurar por debaixo dos bra¬ ços. No civil pode condenar, até duzentos cruzados sem apelação. Pode também conservar a qualquer homem prêso com ferros aos pés durante tôda a viagem, e em che¬ gando a terra deve entregá-lo à justiça. Abaixo do capitão é o piloto a segunda pessoa do na¬ vio porque o mestre lhe obedece e não faz senão o que êle manda. Não se arreda nunca do seu pôsto à pôpa, atento sempre à sua agulha e à sua bússola; e há um sota-pilòto para o ajudar. O mestre é, depois dêle, quem manda todos os marinheiros, grumetes e outra gente do serviço do navio; e há abaixo dêle um contra-mestre para o ajudar. Todos êstes são nomeados por el-rei. O mestre tem cargo do go¬ verno desde a pôpa até ao mastro grande, que nela é com¬ preendido, assim para amainar as velas, como para todo o mais serviço necessário; e o contra-mestre toma conta desde a proa até ao mastro da mezena, entrando o dito mastro; e faz aqui o mesmo que o mestre na pôpa, o qual para êste
  • 144 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD efeito não lhe pode dar ordem alguma; e cada um dêles permanece dia e noite na sua repartição; e acontece que no espaço de seis meses se não visitam talvez quatro vezes. O contra-mestre tem cuidado de tôda a carga do navio, assim para carregar como para descarregar e outras ocor¬ rências necessárias, tanto no mar como depois de chega¬ rem a terra; mas o mestre nunca se arreda do seu lugar na pôpa. Depois dêstes há um guardião, que tem mando sôbre todos os grumetes e vai alojado com êles de noite e de dia sôbre o convés, que é desde o mastro grande até ao de mezena; e quer chova, quer vente, é mister que estejam sempre ali e apenas,têm alguns couros de boi ou de vaca para se cobrirem. Êste guardião governa nos grumetes, e se ao segundo toque do apito êles não respondem e acodem prontamente, descarrega-lhes grandes golpes de bastão ou de pedaços de cabo; porque êstes grume¬ tes são a gente mais rasteira do navio e inferiores aos ma¬ rinheiros e só servem para lançar os cabos acima, mas não sobem aos mastros, nem passam do convés. Fazem todo o serviço pesado do navio, ajudam como criados aos marinheiros, que lhes batem e os repreendem muito; não podem tampouco menear o leme e não há trabalho al¬ gum, quer fora, quer dentro do navio, que êles não sejam obrigados a fazer, como baldear o navio e dar à bomba; e êste último serviço só a êles pertence, salvo se por algum caso fortuito o navio fizer mais água do que é costume e que seia mister dar à bomba três ou quatro vezes por dia. Os marinheiros são mui respeitados; e há poucos que não saibam ler e escrever, porque isto lhes é neces¬ sário para a arte de navegar. Por esta palavra Marinheiro entende-se o que sabe bem tudo o que toca à navegação; mas poucos são os bons, conquanto todos tenham aquêle nome. Todo o govêrno do navio corre por conta dêles, cada um segundo a sua graduação. Nas naus grandes, que são fortes, tomam um ou dois grumetes para sua ajuda, e são êles quem faz todo o serviço alto, como largar as velas, amainá-las, menear os cabos e outras coisas seme¬ lhantes. Quando cumprem bem sua obrigação, são mui honrados do mestre e do piloto; nunca baldeam o navio, nem dão à bomba, senão quando a necessidade o requere. O guardião não lhes pode dar ordens. De noite são repar¬ tidos em três esquadras; uma fica com o piloto, outra com
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 145 o mestre e outra com o contra-mestre; e da mesma sorte são repartidos com êles os grumetes; e cada um está de vigia quatro horas; e ao leme vai cada homem duas horas. Há também, nestas ditas naus grandes, três bússolas: uma para o piloto que está lá em cima na pôpa; no convés fica outra, e com ela um marinheiro para ouvir as vozes do piloto, porque o que vai em baixo, ao leme, não poderia ouvi-lo, mas êste, que fica no meio, lhe repete a voz do piloto. Há dois marinheiros principais, a que chamam trinqueiros, que têm cuidado da cordoalha e velas, para compor e concertar tudo quando é mister. Há também quatro moços, a que chamam pajens, que não servem para mais do que para chamar a gente ao serviço, e bradam com tôda a fôrça ao pé do mastro grande, e mesmo assim dificultosamente são ouvidos por todos. Chamam a gente assim para vir entrar nos seus quartos de vigia, como para ir para o leme, e para outros serviços particulares; e ser¬ vem também para tratar das luzes, e levar os recados do mestre e outros oficiais; e outrossim quando os bens dos defuntos se arrematam, são êles que servem de pregoeiros. Há um meirinho ou alcaide para executar os manda¬ dos do capitão no que toca às coisas da justiça. As pri¬ sões são ao pé da bomba, e aí metem os malfeitores, ordinàriamente de ferros aos pés; e só êle e mais ninguém ali pode ir. Há outras prisões menores, sôbre o convés, 3ue são certas tábuas com buracos, onde metem os pés o prêso, e depois se fecham com cadeados. Êste alcaide tem também sob sua guarda tôda a pólvora, bala, murrão e armas, que tudo lhe é carregado por conta. Semelhan¬ temente tem cargo do fogo, e ninguém, seja quem fôr, ousaria acender e levar fogo sem êle lho dar por sua pró¬ pria mão. E para êsse fim há de cada banda do navio junto do mastro grande duas grandes cozinhas, a que chamam fogões, e quando o alcaide ali acende o fogo, 3ue é pela volta das oito ou nove horas, há sempre ali uas guardas ou soldados, um a cada um, para tomar conta que ninguém faça algum desatino com o fogo, e tam¬ bém para impedir que alguém o leve para outra parte do navio. E se alguma pessoa há mister de ir ao porão a ver a sua fazenda, se é de confiança, o alcaide lhe acende uma vela, por ordem do capitão, e a mete numa lanterna de lata tôda picada de buraquinhos, fechando-a com um cadeado; e se não é pessoa de confiança, êle mesmo vai 10 II Tol.
  • 146 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD em sua companhia. Tem cuidado de fazer também apagar o fogo pelas quatro horas pouco mais ou menos. Nestas mesmas naus há também muitos artífices necessários, de cada ofício ou mister dois, tais como: cirurgiões (*), carpinteiros, calafates, tanoeiros e outros. A maior parte dos grumetes estão à ordem destes oficiais, cada um em seus lugares; porque todos os oficiais do navio têm o seu grumete; e uns são obrigados a dormir em cima no cesto da gávea, e os outros cada um à sua escota, excepto os quatro que ficam no cêsto da gávea; e quando não estão ocupados nestes serviços, são sujeitos a todo o trabalho como os outros. O mestre, contra-mestre, guardião e mestre bombardeiro têm cada um seu grande apito de prata pendurado ao pescoço com cadeia também de prata, e com êles dão sinal de tudo quanto é mister fazer-se, a saber: o mestre e contra-mestre aos marinheiros, o mestre bombardeiro a todos os bombardeiros e o guar¬ dião a todos os grumetes e aos quatro moços. Há tam¬ bém dois dispenseiros, um para os marinheiros e outro para os soldados; mas nada podem repartir senão em pre¬ sença do escrivão; e êstes dispenseiros são também postos pelo rei. No navio há muitos soldados, fidalgos, merca¬ dores, eclesiásticos e outros passageiros, assim homens como mulheres, de que não falo aqui, por não ser do meu intento. Envia pois el-rei tôdas estas naus armadas, e apare¬ lhadas à custa de sua fazenda e a especial mercadoria que levam é só dinheiro, que o mesmo rei manda para ajuda das despesas do Estado da índia e para a compra da pimenta; de sorte que não vai navio que não leve pelo me¬ nos quarenta ou cinqUenta mil escudos em dinheiro por sua conta, não falando nas mercadorias que pertencem aos passageiros particulares. Êste dinheiro dá lucro, porque na índia vale mais um têrço que em Portugal. Nestes navios vão às vezes embarcados setecentos a oitocentos soldados; o resto são homens de mar, ou passageiros. Mas o que faz que as naus de Portugal ofereçam tão pouca resistência nas ocasiões de combate, é que todos aquêles soldados são filhos de camponeses e outra gente de baixa condição, e apanhados à fôrça desde a idade de (1) Naqueles tempos, e ainda até perto dos nossos dias, a cirurgia era reputada arte mecânica. — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 147 doze anos, de sorte que, não tendo nunca visto guerra, não podem entrar em combate. Os bombardeiros são igualmente pela maior parte artífices, como sapateiros, alfaiates e outros, de modo que não sabem o que é dar um tiro de peça quando é mister; mas não obstante isto, tôda essa gente, ainda que de baixa condição, desde que tem passado o Cabo de Boa-Esperança, como já em outro lugar tocámos, tomam novos nomes e todos se dizem fi¬ dalgos. E o que também os faz resistir tão pouco no com¬ bate, é que os inimigos os tratam benignamente e tudo é de el-rei, de sorte que êles nunca perdem coisa alguma, segundo claramente dizem. Quando pois estas grandes naus devem partir, el-rei as manda bastecer de tôda a sorte de provimentos e re¬ frescos, os quais são para uso de tôda a gente em geral desde Portugal até Goa e não mais. Há um dispenseiro para os soldados, a quem em primeiro lugar se distribui a ração; depois há o dos marinheiros, e dos outros oficiais e pessoas do navio, e todos sem excepção têm cada dia igual ração; a saber, meia canada de vinho e outra de água. A pipa contém trezentas canadas. Pão dá-se-lhes quanto podem comer. Enquanto aos outros mantimentos, como carnes salgadas, uma arroba por mês. A arroba pesa trinta libras (l). Todo o resto lhes é dado na mesma pro¬ porção, como azeite, vinagre, sal, cebolas e peixe. Tudo isto se dá para um mês inteiro; mas o vinho e água dão-se cada dia, e tudo perante o escrivão, que o lança em conta e pelo nome de cada pessoa. Se alguém não bebe vinho, pode vendê-lo a outros, ou guardá-lo e deixá-lo na mão do dispenseiro, que lhe dá conta dêle; e sendo chegados a Goa, ou a qualquer outra parte, podem tomar o vinho que lhes é devido, para fazer dêle o que bem quiserem. Mas o mal que eu acho em tudo isto é que todos os mantimentos se dão crus e cada um é obrigado a fazer cozinhar a sua comida, de sorte que às vezes se vêem mais de oitenta ou cem panelas ao lume ao mesmo tempo; e depois, quando a comida de uns está cozida, põe-se ao fogo a dos outros; e por is$o quando alguns estão doentes, e não podem dar ordem a sua cozinha, são mui mal tratados e alimentados, donde vem morrerem por êsse (*) Aliás trinta e duas, como é sabido. — N. do T.
  • 148 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD respeito muitos. Os franceses e holandeses não têm esta usança, porque têm um cozinheiro para todos e comem a seis e seis em um prato. Mas entre os portugueses o comer e beber é igual para todos em geral. O sobejo de todos êstes víveres e utensílios do navio fica em proveito dos intendentes dos navios que residem em Goa; e quando os navios se aparelham para a torna-viagem, bastecem-nos de novo à custa de el-rei. Os utensílios de todo o navio são carregados ao mestre, e os mantimentos e mercadorias ao escrivão. Os soldados que estão a bordo fazem guarda tôdas as noites, mas não estão sujeitos a outro algum tra¬ balho. Quem tem refrescos no navio vende-os pelo preço que quere, e chegou a vender-se uma galinha por vinte rea- les de quarenta soldos cada um, que fazem quarenta libras Ç). No que pertence ao salário dos oficiais do navio, cumpre notar que ao capitão piloto, mestre e outras pessoas do govêrno dá el-rei certo espaço do navio a cada um, e da mesma maneira aos marinheiros. Os soldados, gru¬ metes, marinheiros, artífices e outros oficiais do navio são pagos por igual, a saber, pela viagem de Portugal a Goa cinqilenta cruzados cada um. O cruzado vale cinquenta soldos. Se as pessoas do govêrno e os marinheiros têm meios de comprar mercadorias, não pagam direitos de certa quantidade delas, cada um segundo a sua qualidade e grau. E por isso os que não têm meios de as compra¬ rem, não tiram grande proveito desta liberdade; enquanto os outros podem ganhar cinco por um. Os que não têm dinheiro, não deixam todavia de as comprar, porque ven¬ dem os seus gasalhados aos passageiros, assim fidalgos, como soldados e mercadores; e há gasalhado que se vende por trezentos cruzados em dinheiro de contado, e com isso compram mercadorias, que el-rei lhes deixa levar no porão; porque el-rei só retém para si duas cobertas do navio, sendo elas ao todo quatro cobertas, fora a pôpa e a proa, que equivalem a mais de uma e meia. Enquanto ao alojamento, os soldados vão alojados debaixo do convés na coberta; e os grumetes em cima a descoberto. Da mesma sorte vão os padres jesuítas, ou outros eclesiásticos, quando os há; menos o capelão da nau, que tem seu alojamento como qualquer outro oficial. Os (!) Moeda francesa. — N, do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 14Ô soldados só têm alojamento quando vão para a índia, mas na torna-viagem não. Os homens de mar têm seus luga¬ res ordenados segundo suas qualidades. Êstes navios são extremamente sujos e infectos, por¬ que a maior parte da gente não toma o trabalho de ir acima para satisfazer as suas necessidades, o que em parte é causa de morrer ali tanta gente. Os espanhóis, franceses, e italianos fazem o mesmo; mas os ingleses e holandeses são mui limpos e asseados. Quem ali vai sem gasalhado certo, vê-se muito opri¬ mido e apoquentado, porque não acha lugar para dormir na coberta, se não paga para ter algum. Da mesma sorte, para pôr os mantimentos e mercadorias é mister comprar gasalhado a alguém; de contrário será obrigado a deixar tudo a descoberto, em risco de se molhar, avariar ou ser roubado; pelo que todos têm necessidade de comprar seus gasalhados à gente do navio, a qual fica com outros luga¬ res, que lhe são reservados. Assim quem quere ir à índia proveitosamente, precisa ter algum cargo no navio; e se el-rei o não dá, é mister comprá-lo a outro, ou a alguma viúva. E os que têm êstes ofícios e cargos do navio, assim os que são dados como os comprados, se o navio não vem a Portugal a salvamento, terão o mesmo ofício e cargo em outro navio que fôr no ano seguinte; e se ainda neste não vem a salvamento, esperam ainda para outra vez, até que chegam a salva¬ mento. Donde vem que todos êstes cargos são mui pro¬ curados e os das viúvas e órfãos mui bem recompensados. Mas quem alcança os tais cargos é mister que tenha fa¬ zenda que levar consigo, porque há um ditado que diz quem nada leva à índia, nada traz. E ainda dizem que a primeira viagem é só para ver, a segunda para aprender, e a terceira para tirar proveito; e assim se em três viagens um homem não enriquece, não deve lá voltar mais. Enquanto à religião católica, é ela guardada a bordo dos navios como em terra, excepto no que toca ao sacra¬ mento, que é inteiramente defeso no mar; mas tôdas as mais cerimónias aí se observam, como missa, vésperas, água benta, procissões; e o mesmo é com as cerimónias da quaresma e festas do ano. Há capelas ornadas de belos painéis, onde cada um vai fazer oração. Quando alguém morre, o mestre dá um toque de apito, para advertir que lhe rezem por alma; mas não se dão tiros de peça, como
  • 150 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD nós fazemos. Para a oração ordinária, tôdas as noites às nove horas, o mestre, a som de apito, chama tôda a gente para rezar um Padre-Nosso e uma Avè-Maria; depois, com outro som de apito, dá sinal a tôda a gente de mar para ir a seus postos e quartos, e cumprir suas obrigações. Ao romper do dia todos os moços do navio cantam uma oração do mar, que é repetida por tôda a gente do navio, cada um em particular, e nesta oração se faz menção do navio, e de todos os seus utensílios, que vão acomodando a cada ponto da Paixão; de sorte que esta oração dura uma boa hora, e a dizem em alta voz. Êstes navios, assim guarnecidos e ordenados, partem de Lisboa no fim de Fevereiro ou princípio de Março, o mais tardar, e não podem surgir em pôrto algum para cá do Cabo, nem têm necessidade disso. E se pela ventura acontecesse algum acidente, que os impedisse de dobrar os Abrolhos, ou passar o Cabo, são obrigados a arribar direitamente a Portugal e perder a viagem. Quando os navios não são assaz fortes para voltar a Portugal, não têm outros portos onde possam arribar senão a Angola, na costa de Guiné, ou no Brasil à Baía de todos os Santos, ou ainda a Pernambuco. Semelhantemente quando podem passar o Cabo felizmente, dali até à índia ou Goa não têm outro pôrto para surgir e refrescar senão Moçambique, onde todavia não vão, salvo na última extremidade e apêrto, e aí se detêm o menos que podem, segundo têm por regimento; e, todavia, chegam às vezes ali tão tarde, 3ue são obrigados a dilatar-se lá muito tempo por causa os ventos contrários e outros acidentes. Os navios que vão a êste pôrto seguem viagem ao mesmo tempo que os que dali voltam a Portugal, a saber, no mês de Junho ou Julho, e chegam à índia ordinàriamente em Setembro ou Outubro, se lhes não sobrevém desastre; e pela maior parte das vezes não vão a Goa, mas a Cochim ou Coulão, o que todavia fazem forçados das correntes do mar que para ali os impelem, ou de calmarias e ventos contrários. Depois de dobrarem o Cabo da Boa-Esperança, vão à terra de Natal, onde de ordinário há grandes tormentas. Esta terra é na costa da Etiópia além do Cabo cento e cinqUenta léguas, pouco mais ou menos. Quando os por¬ tugueses se acham na altura desta terra depois de a ter passado, tomam conselho entre si segundo a estação, para ver se têm assaz de tempo para ir passar entre a ilha de
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 151 S. Lourenço e a terra firme, ou, se é mui tarde, tomar por fora da dita ilha. Porque .para tomar o caminho entre a ilha e a terra firme de África é mister ter passado o Cabo cedo, a saber: até por todo o mês de Julho; mas se é mais tarde, fica-se obrigado a seguir o outro caminho por fora, e em tal caso não têm êles certeza de ir tomar a barra de Goa, mas vão surgir a Cochim, ou às vezes não passam de Coulão, como dissemos. Porém, os outros que têm passado o Cabo cedo, podem fàcilmente passar entre a dita ilha e a África, e vão refrescar-se a Moçambique dez ou doze dias. Os que seguirem êste caminho dema¬ siadamente tarde, não poderão chegar fàcilmente a Goa, por causa das calmas e ventos contrários, que reinam ordinàriamente nesta estação; e assim, pela maior parte das vezes, são obrigados a dilatar-se largo tempo em Moçambique, e só podem chegar a Goa mui tarde, fican¬ do-lhes retardada a viagem para o outro ano. E no que respeita àquêles que têm tomado assim por dentro como por fora da ilha de S. Lourenço sem passar a Moçambique, pode-se ter por certo que hão de correr grandes riscos, e passar grandes moléstias e fadigas, gas¬ tando às vezes nove e dez meses antes de chegar a Goa. Porque tirado Moçambique não há outro pôrto que possam tomar; e os que, quando é mui tarde, o não querem demandar, não podem escapar de ser acometidos da enfer¬ midade do escorbuto, e ainda muitas vezes morrer de sêde. Eu vi, estando em Goa, chegar navios, em que de mil a mil e duzentos homens que eram partidos de Lisboa, não restavam mais de duzentos, e êsses quási todos doentes de escorbuto, que os consumia, de sorte que, depois de chegados, não escapavam. Direi, contudo, de passagem, que entre a ilha de S. Lourenço e a costa da terra firme há bancos ou baixos que são muito para temer, e onde se tem perdido grande cópia de navios portugueses. Chamam a êstes bancos baixos da Judia, e são a cinquenta léguas da dita ilha, e a setenta da terra firme. Começam, indo de cá, aos 23 graus e acabam aos 22 e meio. São parcéis mui teme¬ rosos e perigosos. Mas tornando aos navios portugueses, quando são chegados a Cochim tomam aí sua carga, e não vão a Goa por causa dos ventos contrários e das correntes que os impedem. A carga é feita por ordem do vice-rei, a quem
  • 152 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD avisam logo de sua chegada, e êste de sua parte lhes envia oficiais de el-rei para darem a tudo aviamento; porque em tôdas as cidades da índia há tôda a sorte de oficiais, e a mesma ordem, assim no espiritual como no temporal, que há em Goa. A ordem da navegação dêstes navios portugueses é muito má. Porque ainda que partam de Portugal todos juntos e em conserva, e que levem expressamente por regimento não se afastarem uns dos outros, todavia guar¬ dam mui mal esta ordem, e não tratam de obedecer a seu almirante, que êles chamam capitão-mor; sendo a causa disto que todos os capitães são fidalgos de boa linhagem, que não querem ceder em nada uns aos outros, antes cada um vai como pode, sem se importar se seus companheiros vão ou não na mesma conserva (l), o que é muitas vezes causa de sua perda, porque indo sós podem encon- trar-se com navios holandeses, ou outros inimigos, que os desbaratam e tomam, tanto mais que, como já disse, êles não fazem grande resistência, porque todos os solda¬ dos são gente mesquinha e a maior parte apanhados à força entre a gente do campo e pobres artífices. Os pró¬ prios capitães não tomam muito a peito a sua defesa, pelo pouco interêsse que nisso lhes vai, porque os holandeses lhes dão quartel e não os matam. Só el-rei e alguns mercadores, quer presentes quer ausentes, perdem nisso. Quando êstes navios são tomados ou perdidos, faz a gente (1) Diogo do Couto na Déc. VII. Liv. X, Cap I deixou-nos um notável exemplo destas competências entre D. Constantino de Bragança, quando no ano de 1562 recolhia de vice rei da Índia, e D. Jorge de Sousa. «Foi também nesta companhia (diz Diogo do Couto) D. Jorge de Sousa, capitão mor da armada do ano passado, que tinha ficado na índia com a sua nau «Castelo, que por não abater a sua bandeira a D. Constantino, se desviou logo dèle; mas encontrando se ambos sós em Santa Helena, não quis D. Jorge enrolar a sua bandeira; sòbre o que mandou D. Constantino pôr a sua artilharia em cima, e por ragciras chegar uma nau à outra com tenção de meter a D. Jorge no fundo, ou lhe entrar a nau e o levar prêso na sua até o reino. C tendo tudo prestes, mandou notificar a todos os fidalgos, cavaleiros e oficiais da sua nau que se fôssem para terra sob pena de caso maior, o que todos fizeram logo K D. Jorge mudou o parecer; e tomanJo melhor conselho, abateu a bandeira, e metendo-se no batel da sua nau, se foi ver com D. Constantino, reconciliou se com éle, e dali até o reino o acompanhou sempre, e salvou todos os dias. E chegado a Cas¬ cais, tendo já el-rei aviso do caso por outra nau, que chegou primeiro, por se encontrarem tôdas nas Ilhas Terceiras, o mandou desembarcar prêso para o castelo, onde esteve alguns tempos até lhe perdoarem».—N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 153 dêles entre si um auto da perda de sua fazenda e do ofício que cada um tinha no navio, e no seu regresso são recom¬ pensados de tudo e às vezes em dôbro. E notarei aqui outra vez o que já disse, que todos êstes soldados e gente do mar depois de passar o Cabo, se arrogam títulos de nobreza, aliás seriam grandemente vituperados e desprezados dos outros portugueses que estão na índia, porque se tratam todos entre si com grande respeito e honra desde o maior até ao mais pequeno, e todos se estimam muito, desprezando não somente os índios, mas ainda tôdas as outras nações cristãs da Eu¬ ropa, que êles chamam homens brancos e os índios cha¬ mam Faranqui ou Franki. E se um índio ferir um homem branco, a lei manda que tenha a mão cortada. Eis aí a ordem observada pelos navios portugueses desde o embarque em Lisboa até serem chegados a Goa ou a outro lugar nas índias Orientais. E cumpre notar que em tôdas estas viagens não há senão os pobres sol¬ dados e gente do mar que passem mal e pobremente, por¬ que de ordinário não são pagos de seus soldos. Algumas vezes os vi estarem quatro meses completos sem tocar um real e todavia o rei não deixa de lhes .pagar sempre, de sorte que se pode inferir daqui que a índia não é boa e proveitosa senão aos vice-reis, governadores e outros oficiais de el-rei, mas não ao mesmo rei, nem aos pobres soldados e marinheiros. Até os presentes, que os reis da índia fazem, são todos para o vice-rei; e os que êle lhes faz em retorno são à custa de el-rei seu amo. Mas desde que os estrangeiros, franceses, ingleses e holandeses têm começado a frequentar a índia, êstes vice-reis não tiram tanto proveito como dantes, por se haver perdido a maior parte do seu comércio, e não ousarem os portugue¬ ses navegar com temor de ser tomados dos ingleses e holandeses, como de feito eu tive conhecimento de grande número de navios portugueses que foram tomados ou rou¬ bados de sua fazenda e alguns dêstes, que vinham da China e de outras partes, foram estimados em mais de dois milhões de ouro, afora outros muitos na vinda ou ida de Portugal e de tôdas as partes da índia. Porque tôdas as forças dos portugueses não são capazes de vedar aquêles mares aos holandeses; como também da sua parte os holandeses lhes não podem fazer muito mal em terra firme, em suas cidades e fortalezas, nem levar-lhes vantagem
  • 154 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD na mercancia, salvo um pouco na Sonda, por ser mui desviada das terras e forças dos portugueses. Mas antes de acabar êste capítulo não posso passar em silêncio uma particularidade mui notável, que todos os portugueses dizem ter observado nas suas viagens da Índia, e é que todos os corpos mortos que se lançam ao mar da banda do norte para cá da linha equinocial, não vão ao fundo, mas boiam ao lume de água, tendo sempre a cabeça voltada para o ocidente e os pés para o oriente; e se alguma vez as ondas e os ventos os fazem virar para um ou outro lado, logo incontinenti voltam àquela pri¬ meira situação; mas passada a linha para a banda do sul, dizem que todos os corpos vão ao fundo. Deixo a causa disto à investigação dos mais curiosos naturalistas. Mas nós, os franceses, não temos observado tal coisa, porque a todos os corpos que lançámos ao mar pomos uma pedra ou bala de artilharia amarrada aos pés para os fazer ir ao fundo; porque logo que um homem morre num navio fran¬ cês, envolve-se o corpo num lençol ou coberta com algum pêso para fazer mergulhar, e depois lança-se ao mar a bar¬ lavento e para a mesma banda se atira um tição de fogo; ao mesmo tempo que a sotavento se dispara um tiro de peça; e todos olham dêste lado e não do em que se lançou o corpo. Feito isto o mestre ou patrão adverte em voz alta que se reze pela alma do defunto. Mas os portugue¬ ses não observam êste estilo, como já disse, e o mestre se contenta de dar um toque de apito para advertir que se reze. CAPÍTULO XV DO TRAFICO DOS PORTUGUESES POR TODA A ÍNDIA EM GERAL. E DA ORDEM QUE NISSO GUARDAM O principal tráfico dos portugueses é nas índias orien¬ tais, onde êles não querem consentir que alguma outra nação, nem ainda os espanhóis, vão tratar, e isto é estreitamente defeso por el-rei sob pena de morte. E alcançaram êste privilégio de el-rei de Espa¬ nha, porque o contrário seria a ruína do seu Estado. E assim se vê que depois que os estrangeiros da Europa têm tomado o mesmo caminho e tráfico, isso os molesta grandemente, sobretudo por causa da guerra, em que os
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 155 estrangeiros, ingleses e holandeses, têm muito mais forças e vantagem sôbre êles no mar. Porque os portugueses são a gente mais frouxa na guerra do mar, que há em tôda a cristandade e nessa reputação são tidos, segundo o que eu por mim mesmo pude conhecer. São somente bons pilotos e marinheiros e nada mais, se bem que em suas navegações os seus grumetes e marujos não sejam gente para fadiga e trabalho, mas pelo contrário mui negligentes, preguiçosos e sujos em extremo, de sorte que se deixam to¬ mar e meter no fundo muitas vezes por escusarem trabalho. Mas o outro maior inconveniente é no que toca ao trato e comércio, o qual lhes é actualmente mui impedido, assim pelas presas que em seus navios se fazem, como pela escassez e carestia das mercadorias, porque o grande número de navios mercantes torna as mercadorias mais raras e mais caras para aquêles mesmos que as vão pro¬ curar em competência uns dos outros. E o que antiga¬ mente não custava mais de um sôldo aos portugueses, lhes custa agora quatro e cinco; e ainda aquilo que podem levar a salvamento a Portugal são constrangidos a dá-lo a menor preço do que era costume; e por cima de tudo tem muito mais dificuldade em lhes dar consumo e saída, porque os holandeses dão as mesmas fazendas a preço ainda me¬ nor, por ser o seu tráfico muito mais desimpedido. E assim os portugueses já não traficam na índia senão a mêdo, por causa dos estrangeiros de cá; o que tem excitado um grande desprêzo de sua nação em todos os reis e povos da índia, que aquêles estrangeiros têm tornado mais fortes em artilharia, armas e munições, e até socorrido com homens e navios contra os portugueses, que em verdade se diziam senhores do mar de tôda a índia, porque não tinham então outros alguns competido¬ res além de malabares, que sempre lhes haviam feito a guerra e ainda todos os dias fazem, dando-lhes grande moléstia, mas não impediam a sua grande navegação. Os portugueses diziam a êstes índios que o maior rei da cris¬ tandade era o seu, que tinha por vassalo todos os reis e príncipes cristãos, e que a sua nação era a mais nobre e valorosa de todo o ocidente; o que os índios acredi¬ taram sempre, até que os holandeses lhes mostraram o contrário; e também nós lhes temos dado a entender lá a grandeza e soberania de cada um dos outros reis e prín¬ cipes cristãos.
  • 156 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Ora os portugueses estabeleceram-se ao princípio na índia, em uns lugares por fôrça de armas, e em outros por comércio e amizade e êste tem sido o meio mais seguido, porque por fôrça só tomaram Goa e algumas outras cidades. Têm pois tratado paz e amizade com a maior parte dos reis da índia, chamando-lhes irmãos em armas e aliados dos reis de Portugal, e por êstes tratados se tem concertado com êles nesta forma; que o tráfico das especiarias e outras mercadorias que têm saída nestas partes de cá, seria somente entre êstes reis e os portu¬ gueses e que nenhuma outra nação, inimiga dos portugue¬ ses, seria admitida ao mesmo tráfico; e aquêles reis lhes têm prometido não traficar, nem dar a colheita em suas terras a nenhuma outra nação sem consentimento dos ditos portugueses; e êstes da sua parte lhes têm reciproca- mente prometido extrair tôdas as suas mercadorias a um preço certo, concertado entre êles por cada género de mercadoria, e levar-lhes em retorno das de cá, que lhes são mais necessárias, como dinheiro, roupas e outras coisas mais estimadas entre êles. Têm além disso prome¬ tido aos ditos reis guardar todo o mar daquelas costas de corsários e piratas e defendê-los, de e contra todos os seus inimigos daquelas partes que pudessem acometê-los. Para êste efeito têm sempre apercebidas todos os anos durante o verão, que são seis meses, duas armadas em Goa, uma para ir ao norte e outra ao sul, tudo à custa de el-rei de Portugal, porque lá não se fala senão de el-rei de Portugal e não do de Espanha. Têm outrossim os portugueses feito concêrto com os ditos reis da índia para lhes darem nos lugares mais pró¬ prios e nos portos e enseadas mais acomodadas ao longo da costa das suas terras, assento para aí se aposentarem, morar e comerciar em tôda a segurança de suas pessoas; e para êste efeito têm fabricado aí cidades e fortalezas com belas casas, onde agora são senhores absolutos com o mesmo poder e mando que os próprios reis, que não têm jurisdição alguma nas ditas cidades particulares, nas quais os portugueses cobram todos os direitos, cartazes e im¬ posições, sem darem disso conta alguma aos ditos reis; e assim vivem em grande paz uns com outros sem tentarem empecer-se mutuamente. E se pela ventura êstes reis tivessem alguma contenda com seus vizinhos, os portu¬ gueses, em caso que não tenham tratado paz e amizade
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 157 com os ditos vizinhos, são obrigados a socorrê-los e aju¬ dá-los com homens, armas e dinheiro; e o mesmo lhes têm prometido os ditos reis em semelhante caso. Mas se os reis que assim tiverem guerra entre si, forem uns e outros amigos dos portugueses, então toca aos ditos portugueses proceder de modo que os tragam a boa composição; ou pelo menos se a algum dão ajuda, é mui secretamente, como fazem com o rei de Cochim contra o de Calecute, ao qual entretêm o melhor que podem, mas sempre favo¬ recendo o de Cochim às escondidas; mas o de Calecute não faz caso nem de uns nem de outros. Na forma pois de todos êstes tratados e concertos, os portugueses conseguiram ficar sendo senhores do mar da índia e que nenhuns índios, assim da terra firme como das ilhas, de qualquer região que fôsse, ousassem nave¬ gar, nem fazer viagem alguma, sem ter passaporte seu, o qual dura um só ano; e êstes passaportes, a que cha¬ mam cartazes, levam cláusula de que êles não poderão navegar senão para certas partes ali declaradas, e ainda para essas não poderão levar pimenta, armas e muni¬ ções de guerra, com declaração especial de quantas armas e homens podem levar, e se lhes acharem mais do que é dito no cartaz, tudo é confiscado e julgado boa prêsa, ficando de mais a mais a gente do navio cativa. Também se faz menção no cartaz de que pôrto é o navio. Mas destas limitações são isentos os reis, com quem têm assentado paz e amizade, porque êstes podem enviar certo número de navios onde bem quiserem, com carga de qualquer mercadoria, sem ninguém lhes poder tomar disso conta, e até não são obrigados a tirar cartaz; todavia, tiram-nos para os mercadores das suas terras, de quem ficam como fiadores; o que dá ocasião a que debaixo do seu nome passem muitos com carga de pimenta e outras mercadorias a Arábia, onde todos êstes reis enviam todos os anos grande número de navios carregados de especia¬ rias e outras drogas. Mas há muitos outros reis na índia, que não estão de paz com os portugueses, e nem por isso deixam de navegar e fazer veniaga por tôda a parte onde lhes apraz, sem se importar com os cartazes dos portugueses, a quem em nada temem e, quando se encontram, pelejam deste¬ midamente, cabendo a vitória ao mais possante. Os que assim procedem são todos os da costa da Arábia, do Gu-
  • 158 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD zerate, Pérsia, Malabar e das ilhas de Samatra, Java e outras partes, que não têm temor algum dos portugueses, nem tampouco o têm hoje em dia, os ingleses, holandeses e franceses que vão àquelas mesmas partes. Porquanto dois ou três navios podem navegar e correr em tôda a segurança por tôdas aquelas costas da índia, sem que armada alguma de portugueses ouse investi-los; e até podem ir surgir na própria barra de Goa, onde seis naus holan¬ desas têm tido o atrevimento de lançar âncoras e deter-se perto de três semanas, impedindo totalmente as entradas e saídas de Goa, sem que os portugueses ousassem ir acometê-las. O mesmo se poderia fazer em todos os outros seus portos e cidades; contanto que se esteja ao alcance da artilharia, não há que temer dêles; porque ainda quando fôssem dois ou três navios portugueses con- < tra um holandês, em os holandeses atirando um tiro de peça, êles amainam logo as velas e vêm render-se à dis¬ crição, o que é causa de os holandeses os tratarem beni¬ gnamente. Não o faziam assim no princípio, com o que se deram mal; porque como queriam pôr-se em defensão, os holandeses os maltratavam e matavam; mas agora já não combatem. Note-se, porém, que nestes navios portu¬ gueses não há pela maior parte senão mercadores parti¬ culares ricos, e que têm mulheres e filhos, os quais mais querem perder quanto levam no navio do que a vida. E é esta a razão que êles me têm alegado algumas vezes, quando eu lhes preguntava por isto. Enquanto aos mala- bares, dizem que não enjeitam nunca o combate, em caso de serem dois navios ou galeotas portuguesas contra um navio malabar igual, que levemente irá acometê-los, de sorte que se pode inferir daqui que hoje os portugueses, que deram tanto que falar de si, são os mais frouxos sol¬ dados do mar. Mas tornando ao seu comércio e tráfico da índia, digo que todos os anos saem de Portugal duas, três, quatro naus do porte de duas mil toneladas ou mais, guarnecidas e equipadas de mil a mil e duzentos homens de tôdas as qualidades, como em outro lugar direi mais particular¬ mente, e tudo à custa de el-rei, porque nenhum particular envia nunca navio algum à índia. Mas não há gente tão mal-aventurada em suas viagens, e que navegue tão mal, e em tão grande desordem, como êles próprios con¬ fessam, e não há quem os iguale em desastres no
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 159 mar. Eu mesmo tenho conhecimento de vinte e cinco embarcações, assim naus, com galeões e outros navios grandes, que saíram em três anos sucessivos de Lisboa para Goa, partindo num dêstes anos catorze, e com êles o Conde da Feira, que ia por vice-rei e morreu na viagem na altura da costa de Guiné; e nos dois anos seguintes partiram onze navios; mas posso certificar que dêstes vinte e cinco não voltaram a Portugal mais de quatro; os outros deram à costa, perderam-se e foram ao fundo na índia, fora três ou quatro tomados pelos holande¬ ses; não falando nos outros navios da índia que em grande número se perderam cá e lá. O defeito não está nos navios, que são mui bons, nem nos seus pilotos, que são mui espertos; mas em verdade se pode dizer que como os seus navios são grandes, acham também grandes tormentas; a gente não é para grandes fadigas; e os oficiais, excepto os pilotos, não são mui esper¬ tos nos seus cargos, porque a maior parte dêles, ou para melhor dizer todos, tanto capitães, mestres, contra-mestres, guardiães, como marinheiros, bombardeiros e outros, têm os seus ofícios por favor ou por dinheiro, ou em recom¬ pensa de serviços ou perdas passadas; e às vezes até ês- tes ofícios são dados às viúvas, ou filhos dos que morre¬ ram nas viagens ou em outras partes em serviço de el-rei; e êstes tais os vendem depois a quem querem, sem inves¬ tigar a capacidade ou o mérito das pessoas. Além disso quando el-rei quere enviar armadas extraordinárias e de maiores forças, manda tomar êstes oficiais e outros homens, assim de mar como soldados, em qualquer parte onde os pode achar, ainda que sejam pobres pais de família com mulher e filhos; mas por cima de tudo isto creio que a prin¬ cipal causa, por que suas viagens são tão desastrosas, é pela grande severidade e crueldade de que usam para com todos aquêles pobres escravos e outras gentes e nações, que têm sob seu poder e domínio. E o que de mais a mais causa desordem entre êles é que os capitães, por serem fidalgos, têm grande ambição e competência sôbre qual chegará primeiro para carregar a sua nau também em primeiro lugar, e assim não esperam nunca uns pelos outros, por acontecer a maior parte das vezes que o que chega derradeiro tem de esperar para o ano seguinte, se quer prover-se de pimenta e outras espe¬ ciarias.
  • 160 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Tudo isto junto é a causa da grande perda de homens, dinheiro, navios e outras coisas na índia pertencentes a el-rei e até mesmo da perda da própria Índia. Porque ao presente o rendimento dela está muito longe de abastar para pagamento e satisfação de todo o seu estado assim no espiritual como no temporal, de sorte que a índia lhe dispende mais do que rende; e é bem certo que se não fôra pela reputação e pelo interêsse da fé católica, como êles dizem, muito tempo há que teriam desamparado tôdas aquelas terras. Há alguns anos propôs el-rei em seu con¬ selho se devia ou não largar a índia, por razão da molés¬ tia e perda que com ela recebia. Os portugueses lhe re¬ presentaram e requereram sôbre isso, que se êle estava resoluto a largar tudo, fôsse servido S. Majestade de lhes deixar a êles a índia com todos os seus próes, que êles ficando todavia por vassalos da sua coroa, manteriam e sustentariam aquêle Estado muito bem; todavia el-rei não aceitou o alvitre e tudo ficou como dantes. No que toca às coisas que os portugueses levam à índia para seu trato, primeiramente el-rei não envia ali senão dinheiro, mas os particulares enviam e levam, além do dinheiro, panos de lã, chapéus, espadas, tôda a sorte de armas e munições de guerra, ou material para elas; também tôda a sorte de quinquilharias destas partes ocidentais, papel, ferro, chumbo, espelhos, frutos secos de tôdas as espécies, peixe salgado, vinhos, queijos de Ho¬ landa, azeite, azeitonas, vinagres e outras coisas seme¬ lhantes, que são lá de grande estimação. Além de tudo isto, levam livros impressos, porque na índia não há imprensa. Panos brancos e de sêda não os levam, por¬ que os há lá em abastança. Tôdas aquelas mercadorias são ali mui procuradas e ganha-se nelas muitas vezes quatro por um, e nos refrescos ganha-se na viagem seis e sete por um. A ordem do govêrno em Goa é que o vice-rei é absoluto em tudo o que toca ao serviço de el-rei, e bem do Estado. E se êle não cumpre bem as obrigações do seu cargo, podem queixar-se dêle a el-rei por escrito, fa¬ zendo menção por capítulos das coisas de que o acusam, e sôbre isso manda el-rei resolver o que há por bem. Por que Goa é regida e administrada como se fôsse a própria Lisboa, como eu já largamente disse atrás, e não há aí espanhóis alguns ou castelhanos, como os portugueses
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 161 lhes chamam; e por isso os portugueses se amam ali muito mais que em Portugal, onde os castelhanos os do¬ minam; mas em Goa são êles só os senhores, e estariam ali muito mais a seu gôsto, se não fôra o temor que agora têm de nós e dos outros europeus. E se não fôra, outrossim, a opinião em que estão de que nós vamos lá só para os espiar e desapossar, folgariam muito mais de nos ter entre si do que aos espanhóis; mas são tão zelosos do seu Estado, que desejaram que ninguém tivera conhe¬ cimento dêle. E quando êles nos vêem lá, dizem-nos mil injúrias e nos fazem mil afrontas pelas ruas; de que não escapávamos nós outros que havíamos partido de França em nossos navios, sem permissão de seu rei, a qual é mister obter, pelo que êles dizem. São um pouco mais benignos com os estrangeiros que partem com êles de Lisboa na armada; e ainda assim não deixam de os mal¬ tratar e andar desconfiados dêles, dizendo que enganaram a el-rei, fazendo-se passar por portugueses. E na verdade nenhum estrangeiro passa com êles à índia senão por grande favor, e ainda os portugueses carecem de licença e passaporte do vice-rei (x), e serem matriculados na Casa da índia. Quando há novas de virem alguns navios ingleses, holandeses ou outros destas partes, lançam logo mão de todos os estrangeiros que estão em suas cidades, e os metem em prisão. Todos os outros estrangeiros, como italianos e todos os de Levante, são bem aceitos entres êles e tratados como os próprios portugueses. Enfim, é tal o seu tráfico, que todos os povos orien¬ tais, desde o Cabo de Boa-Esperança até à China e Japão, vão levar suas mercadorias a Goa, ou os mesmos portu¬ gueses as vão buscar àquelas terras, isto é, às daqueles povos que estão de paz e amizade com êles, como à China (o que se entende só da ilha de Macau), Japão, Malaca, Pegu, Bengala, Ceilão, Comorim e tôda a costa de Malabar, como Coulão, Cochim, Calecute, Cananor, Onor, Mangalor e o resto da costa até Goa; e de Goa a Moçambique, entrando Baçaim, Damão, Chaúl, Dabul, Cambaia, Surrate, Dio e todo o longo da costa até Ormuz, e dali a Arábia, e da Arábia a Moçambique. Tôdas as mercadorias destas terras vêm dar entrada e depositar-se (1) Parece o autor referir-se às armadas em que vinha novo vice-rei, que eram, na verdade, as que traziam mais gente. — N. do T. U II T0l.
  • 162 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD em Goa; mas no que toca à pimenta, essa fica sempre nos depósitos ou celeiros das terras onde se cria, até que as naus de el-rei de Portugal sejam chegadas a Goa; e se não podem tomar a barra de Goa, necessàriamente devem tomar a de Cochim ou Coulâo e não outros portos. E quando vão àquelas duas barras, é porque as correntes e ventos as impelem a isso, e as não deixam subir até Goa. Muitas vezes, porém, ainda que as naus tenham entrado em Goa, algumas delas não deixam de ir a Cochim, depois de haverem descarregado a fazenda que trazem de Portugal. Acontece também muitas vezes que o rei de Cochim não quere dar a sua pimenta senão indo as ditas naus carre¬ gá-la a seus portos; porque os do seu conselho lhe repre¬ sentam que a sua terra ganha nisso, como é bem verdade; porque quando as naus lá vão, há sempre quatrocentas ou quinhentas pessoas de Portugal, recém-chegadas à índia, a maior parte das quais não sabem o que vale a mercadoria e não trazem senão dinheiro e vitualhas das embarcações, o que enriquece grandemente a terra. Mas quando os navios se detêm em Goa, são os portugueses de Cochim que ali vão com canela, e outras mercadorias, que êles obtêm a preço módico, e ainda por comutação de alguma outra mercadoria. E quando as naus são carregadas em Cochim, não voltam a Goa, mas saem logo direitamente no derrota de Portugal, e vão passar à cabeça das ilhas de Maldiva, que é da banda de norte da linha. Finalmente, as armadas e frotas que vêm das partes do sul de Goa, quando têm acabado suas viagens e estão a onze léguas, de Goa na altura de um cabo, chamado Cabo da Rama, e o têm dobrado, disparam tôda a sua artilharia em sinal de contentamento, por estarem a salvo de piratas; e êste cabo faz a separação da costa do Mala- bar e Dealcão. Outro tanto sucede às armadas, que vêm do norte, quando chegam aos Ilhéus Queimados, a doze léguas de Goa, porque também estão livres de perigo.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 163 CAPÍTULO XVI DO TRAFICO NO BRASIL, RIO DA PRATA, ANGOLA, CONGO, S. TOMÉ, MINA E DOS ESCRAVOS DE AFRICA OS portugueses, na sua navegação mercantil para o Brasil, índias ocidentais, Angola e outras partes de àquém do Cabo da Boa-Esperança, não se ser¬ vem de grandes navios, mas só de caravelas, as maiores das quais não excedem o porte de mil e duzentas a mil e trezentas toneladas; ou também usam de navios redondos, que compram aos franceses e flamengos. As caravelas têm velas latinas e são mastreadas de outro modo que os navios redondos, os quais têm velas quadra¬ das e são de maior porte, umas duzentas toneladas. Nestes navios seguem sua derrota para o Brasil e saem de Lisboa carregados de tôda a sorte de mercadorias da Europa, necessárias à vida e comodidade do homem, como panos de linho, de lã e de sêda, vinhos, azeite e outras coisas, que pela maior parte tomam na sua passagem nas iihas Canárias e nas dos Açores e tais são entre outras o vinho, farinha de trigo, carne de vaca salgada, coiros de boi e peixe salgado. O vinho dos Açores é muito mais fraco que os das Canárias e de Espanha; e também o trigo não se pode guardar por muito tempo senão com dificuldade. Tôdas estas mercadorias recebem êles ali em comutação de outras que trazem de Portugal e as levam ao Brasil, onde não se produz nem trigo nem vinho; e por não haver lá sementeira de cereal algum e nem ainda moinhos, é mister levar a farinha já moída de Portugal; acrescendo que o trigo se danaria no mar em uma tão longa navega¬ ção, visto que o que se leva de França a Espanha está sujeito a corromper-se e a botar mau cheiro; de sorte que em Espanha só o povo mesquinho come pão feito dos trigos de França e os ricos comem o da terra, que por isso é mais caro que o outro. Os portugueses, pois, tendo tomado carga de tôdas estas mercadorias, vão-se na volta do Brasil, para sair em terra em algum dos portos daquele país e principalmente no de Pernambuco, que é o lugar onde se faz maior trᬠfico de açúcares e onde se produz maior quantidade de pau do Brasil. Há depois a Baía de Todos-os-Santos e
  • 164 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD outros lugares desta costa (de que mais particularmente falaremos na torna-viagem), onde se faz também o mesmo tráfico, mas não tanto como em Pernambuco. Chega¬ dos ali, e tendo vendido e comutado tôdas as suas mer¬ cadorias, parte por dinheiro e parte por outras mercado¬ rias da terra, regressam sem fazer mais longa viagem, depois de se terem dilatado três ou quatro meses a re¬ colher o seu dinheiro, e fazer as suas compras, as quais se limitam a açúcares e conservas de tôdas as qualidades; porque do pau vermelho, ou do Brasil, não podem tomar a mais pequena quantidade sob pena de morte, e tôda se carrega por conta de el-rei de Espanha, que o tem reser¬ vado a si, como nas índias orientais a pimenta. Quanto à gengibre, é também defesa, porque a grande quantidade dela danaria a venda da sua pimenta; de sorte que nin¬ guém ousará levar outra coisa senão os doces. Tendo assim carregado de açúcares vão-se direitamente a Por¬ tugal; e partem ordinàriamente em Agosto ou Setembro para chegarem em Novembro, porque regularmente gas¬ tam dois meses e meio neste caminho. Tôdas as mercadorias que os portugueses levam, assim dali como de outros países remotos, pagam à entrada de Lisboa trinta por cento; e não podem sair do Brasil sem dar fiança e caução em como vão a Portugal; e tôda a sua mercadoria fica registada. E pôsto que por algum mau tempo, ou outra causa legítima, sejam constrangidos a tomar pôrto em outra parte, ou seja em terras de Espanha ou não, e a pagar ali os direitos por haverem feito descarga das suas mercadorias, não deixarão contudo de pagar os direitos em Portugal, porque é essa a condição dos rendei¬ ros da alfândega. Além disso nenhuns estrangeiros, mas só os portugueses ou espanhóis, ousariam mercadejar nesta terra do Brasil há dez ou doze anos a esta parte. Quando os portugueses não querem voltar do Brasil direitamente a Portugal, mas fazer mais larga viagem, vendem ali uma parte da sua fazenda, a que acham me¬ lhor saída, e tornam a carregar mui bem o seu navio de farinha de Mandioca, que é uma raiz, de que abaixo fala¬ rei; e com esta carga, e com a outra parte da fazenda que trouxeram, tomam a derrota do reino de Angola, que é a leste do Brasil, afastado dêle mil léguas ou mais e possuído pelos portugueses. Jaz a oito graus da linha para o sul, na costa de África, entre a Guiné e o Cabo da Boa-Espe-
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 165 rança. É a mais pobre terra do mundo, e é nela mui caro o sustento da vida, por não produzir mais que alguns fru¬ tos. O que custa dez soldos em França, custará quarenta no Brasil, mas ali cem. O único trato que ali se faz é o de escravos negros, e nem para outra coisa a têm os por¬ tugueses, porque a não ser isso não quereriam ali estar, porquanto a terra não produz mais que alguns frutos e gado, e isso mesmo acanhadamente. Daqui procede que em Espanha não sentenceiam à morte os malfeitores, como se faz em França, mas enviam-nos a estas terras desertas para ali traficarem. A farinha de mandioca, que não custa mais de quarenta soldos o alqueire, que pesa pouco mais ou menos vinte libras no Brasil, vale em Angola às vezes oito francos. E enquanto às mercadorias da Europa, custam ali duas vezes mais caras que no Brasil. Tiram, em comutação de suas mercadorias, escravos, de que ali há tão grande número que mais não pode ser, e passa por certo que é esta uma das maiores e mais certas rendas de el-rei de Espanha em tôdas aquelas costas, porque lhe vêm sem dispêndio ou custo algum. Por cada cabeça de escravo, grande ou pequeno, que dali sai, pagam-se dez cruzados; e quando chegam a outra terra para ser vendi¬ dos, ou ficar nela, pagam ainda trinta por cento do seu valor. Por isso na primeira compra custam pouco mais de nada e no navio só dispendem o mantimento; mas às vezes morre grande número dêles. Quanto à moeda miúda desta terra de Angola, não é mais do que pequenas conchas ou búzios e pequenas peças de pano feito de uma certa planta. Êstes panos são do comprimento de uma vara pouco mais ou menos, con¬ forme o preço, e quando ali vão ao mercado para comprar o que hão mister, não levam outra moeda. Com êste país não dispende nada o rei de Espanha, e tira dêle grandes proveitos. Há ali uma mina de prata, e mesmo os naturais trazem às vezes êste metal; de sorte que os portugueses, assim os daquela banda, como os de Moçambique e de Sofala, querem concertar-se para conquistarem a terra, cada um da sua parte, e assim chegarem ao sítio daquela mina e ganhá-la. Por vinte e cinco soldos de custo tirarão dela quarenta, e a prata é mui boa e pura. A causa por¬ que não vai maior número de navios a Angola, é por ser ali o ar intemperado e malsadio e, além disso, temerem-se da costa de Guiné, que também é mui intemperada e
  • 166 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD cheia de calmas; o que faz ser ali tão grande a carestia do sustento da vida e os escravos tão baratos; mas, quando êstes chegam a outras terras, são mui caros por respeito do risco que nisso se corre. Os que querem voltar dali direitamente a Portugal, saem com carregamento de escravos; mas os que querem fazer mais longa viagem, vão-nos vender ao Rio da Prata, donde tiram muito dinheiro, e dali voltam ainda ao Brasil a tomar nova carga de açúcares e doces, e do Brasil a Portugal. Outros vão direitamente de Angola ao Brasil para vender os seus escravos, porque ali hão mister grande número dêles para servir em seus engenhos de açúcar; porque os da América não são de tão bom trabalho, e não obedecem de tão boa mente como os de Angola e de .Cabo Verde. Mas, pela maior parte das vezes, vão às índias ocidentais, onde os vendem por alto preço. O Rio da Prata jaz a trinta e cinco graus da banda do sul na América, que é a mesma altura, pouco mais ou menos, do Cabo da Boa-Esperança; mas, os que ali vão, fazem-no secretamente e com temor, porquanto o rei de Espanha tem defendido o trato para estas partes, para não ser defraudado nos seus direitos; e todo o dinheiro que se tira por esta via é tão secretamente que se não pode des¬ cobrir, pois a defesa é tão estreita que leva à pena de morte. De sorte que para levarem o dinheiro, atam os sacos cheios dêle às âncoras, e depois de saídos os oficiais de el-rei, levantando as âncoras, o guardam, e assim todo o dinheiro que daquelas partes se tira, é roubando e defrau¬ dando os direitos de el-rei de Espanha. E nem por isso deixam de tirar dali muito, porque todo o dinheiro que corre no Brasil e em Angola de lá vem. Êste Rio da Prata se chama assim porque vem e passa ao pé da montanha de Potosi, de onde se tira a maior parte da prata que vem das índias ocidentais, e ali êstes mercadores vendem mui bem seus escravos, e não extraem senão prata, e depois vão dali tomar nova carga de açú¬ cares ao Brasil. Em tôdas as terras de el-rei de Espanha, especial¬ mente de àquém do Cabo, os escravos são mui procurados; mas isto se entende na América e não na nfrica, porque os moradores do Brasil têm grande necessidade dêles para os seus açúcares, pois há engenho onde trabalham mais de cem, afora os que hão mister para outros trabalhos.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 167 E prezam mais um escravo cafre, isto é, de África, que três do Brasil, que não são tão fortes como os de Angola e Cabo-Verde, e mais depressa se deixarão matar do que obrigá-los a fazer alguma coisa contra sua vontade, e são na verdade gente branda e frouxa. Mas o maior proveito que se tira dos escravos é levando-os às índias ocidentais direitamente, porque são ali mui caros, e em retorno não se tira senão ouro, prata, pérolas finas ou cochonilha. Os portugueses além do tráfico do Congo têm tam¬ bém o de Guiné, de onde extraem marfim, que ali há em grande abundância, com algodões e pimenta longa, a que chamam Malagueta. A gente desta terra é mui sôfrega de coisas de ferro e tôda a sorte de quinquilharia. Na mesma costa jazem as ilhas de S. Tomé, Príncipe e Ano-Bom, onde êles fazem tráfico de gengibre, açúcares, algodão e escravos. Há também ali a Mina, onde há uma fortaleza dêles, e fazem aí grande tráfico de ouro e escravos com a gente da terra. Têm também as ilhas de Cabo-Verde, onde tratam em escravos comutando-os por ferro e outros metais de baixo .preço e quinquilharias, como fazem por tôda a costa de África, na qual, assim de aquém como de além do Cabo, a maior riqueza que há é de escravos, como em Moçambique, Sofala e Mina, onde se acha ouro e marfim. De sorte que é coisa maravilhosa o grande número de escravos que dali se tira todos os anos, e que se levam à América ou a Portugal, sem contar os que ficam na terra a servir os portugueses e os reis daquela costa; e mesmo no sertão, o maior tributo que êstes reis podem ter de seus povos, são escravos. Porque de certo número de filhos o pai e a mãe pagam uma parte a seus reis, os quais os ven¬ dem; e os mesmos pais e mães vendem seus próprios filhos. De sorte que ali faz-se tráfico de gente, como cá de animais. Êstes escravos são havidos pelos mais fortes, robustos, animosos, fiéis e obedientes do mundo, o que os faz prezar tanto. São todos negros. Os portugueses chamam-lhes cafres ('), e aos que procedem de português e cafre, chamam mulatos. Há certos distritos donde os escravos são melhores e mais estimados por seu bom natural. (1) Já na nota (!) de pág. 51 déste vol., advertimos que os portu¬ gueses só chamam cafres aos negros da Aírica Oriental, que por esse res¬ peito se denomina também Cafraria.
  • 168 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Em todos êstes países estrangeiros não há português, por mais pobre que seja, homem ou mulher, que não tenha de seu, dois ou três escravos, que ganham a vida a seu senhor, para quem devem trabalhar um certo tempo cada dia, e além disso sustentar-se de seu ganho. Por isso seria impossível que os portugueses e espanhóis pudessem habitar e granjear tôdas as terras que possuem, se não fôsse pela fôrça e serviço de seus escravos, porquanto a Espanha é de mui pequena extensão e mui pouco povoada em comparação dos grandes territórios que possui e do tráfico que fazem com tanta moléstia e trabalho. Porém, o que os portugueses possuem, assim aquém do cabo em Angola, Guiné e ilhas circunvizinhas, como no Brasil, é de diverso modo do que nas índias orientais. Porque naquelas ditas terras são senhores soberanos da maior parte delas, como os espanhóis nas índias ocidentais, não têm lá competidores alguns, e têm fortalezas nas costas e no sertão, que pela maior parte é seu, e o vão conquistando ainda cada dia. Há ali fidalgos portugueses que têm casas fortes, e fazem lavrar e cultivar as terras e fabricar açúcares, como cá fariam. Junto do rio de S. Vicente, há minas de ouro, que êles tratam de conquis¬ tar, e já tiram delas alguma coisa. Eis porque o Brasil e Angola são de tão grande proveito a el-rei de Espanha e de tão pouco custo e risco, sendo a navegação para estas partes fácil e de pouco perigo. E também êstes países dão saída aos frutos e mercadorias de Espanha, e por isso el-rei não permite que aí se plantem e semeiem aquêles frutos. CAPÍTULO XVII DO TRAFICO EM MOÇAMBIQUE, SOFALA, CUAMA, MELINDE, MOMBAÇA, SOCOTORA E OUTROS LUGARES. DO CÊRCO DE MOÇAMBIQUE E O QUE DÊLE RESULTOU NO que toca ao tráfico de Moçambique, Sofala, Cuama e outros lugares, direi primeiramente de Moçam¬ bique, donde a maior riqueza que se leva a Goa é principalmente em escravos ou cafres, que se transportam a tôda a parte. Vai também muito marfim e ébano, o mais negro e excelente do mundo, e lhe chamam os portugueses Pau de Moçambique e âmbar-gris. É Mo-
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 169 çambique lugar de grande importância a el-rei de Espanha, assim pelos proveitos que dêle tira, como por lhe servir de muito a seus Estados e navegação; porque é uma ilha, fortaleza e pôrto mui próprio para a colheita dos navios que vão de Portugal a Goa, depois de passarem o Cabo, de sorte que os que são perseguidos de tormenta, enfer¬ midade, falta de mantimentos e outras necessidades, se acolhem ali. Pode-se dizer que é uma sentinela e abrigo à entrada das índias, e como uma espécie de albergaria para refresco dos portugueses fatigados de uma larga e penosa navegação, depois de terem andado tão longo tempo por mar sem tomar terra, e passado algumas vezes sete e oito meses por tantos calores, calmas e outras moléstias que há na passagem da linha, e ainda na costa de Guiné, que é mui intemperada e malsadia, e que causa muitas enfermidades de escorbuto e febres pestilenciais, de que muita gente morre. De sorte que nos não devemos espantar que êles folguem de achar algum pôrto para se refrescar, e para isso não têm outro mais próximo que o de Moçambique, por terem por instrução não tomar outro pôrto desde Lisboa até ali em razão de serem seus navios tão grandes, e demandarem tantas braças de água, que não podem achar bons portos mais próximos e do seu senhorio. E se porventura vão tomar outros, é forçados pela tormenta, e pela maior parte das vezes perdem-se nêles ou pelo menos perdem o tempo de sua viagem. É pois para êles grande prazer chegar ali depois de haverem passado e dobrado o Cabo da Boa-Esperança, e aquela perigosa Terra de Natal, por onde nunca se passa sem encontrar tormentas e outros acidentes que desmas¬ treiam os navios, rompem as vergas ou o leme, e às vezes uma e outra coisa juntamente. Por isso, neste lugar tão favorável de Moçambique, el-rei de Espanha tem um hospital e um armazém para provimento das coi¬ sas necessárias às armadas; e é só com esta consideração que êle faz fortificar tão bem e guardar êste lugar pelo proveito que dêle tira nestas coisas. E sem isto seria mui dificultoso fazer a viagem da índia à ida, assim como é cómodo na torna-viagem achar a ilha de Santa Helena. Ora tendo os holandeses percebido quanto êste lugar de Moçambique era proveitoso aos portugueses e quanta moléstia receberiam se o perdessem, determinaram tomar- -lho, e de feito lhe puseram cêrco por duas vezes, três
  • iro VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD meses cada uma, a saber: no ano de 1607 e no ano de 1609. O primeiro cêrco foi de oito grandes naus, mas não puderam tomar a fortaleza, antes perderam ali muita gente. Só chegaram a ser senhores da ilha e da cidade aberta, que queimaram de ambas as vezes. O segundo cêrco foi de treze naus grandes, de que não tiraram melhor resul¬ tado. Da primeira vez tomaram uma nau de Portugal, mui rica, que estava surta defronte da fortaleza, e, depois de a saquearem, queimaram-na. Nesse tempo a fortaleza era fácil de tomar, mas depois têm-na grandemente fortificado, como têm feito a outras fortalezas da índia, desde que viram que os holandeses e outros estrangeiros os vinham desinquietar. Os holandeses perderam ali uma peça grossa, e um navio que naufragou quando se aparelhava para dar à vela, ao sair do pôrto. Aconteceu-lhes ainda outro desastre, e foi que, durante o cêrco, três dos seus homens lhes fugiram para terra, mal contentes, e se recolhe¬ ram na fortaleza dos portugueses, o que magoou muito aos holandeses; porque se não foram êstes três traidores, teriam infalivelmente ganhado a fortaleza, como eu depois soube, aue os de dentro estavam no último extremo, e resolutos a er-se; mas êstes três homens lhes fizeram cobrar ânimo, dando-lhes a entender que os holandeses estavam determi¬ nados a levantar o cêrco por falta de munições, assim de guerra como de bôca, como na verdade era. Disseram tam¬ bém que o motivo que os movera a passar-se aos portugueses era o desejo de se fazerem católicos, e que os holandeses os haviam obrigado a embarcar à fôrça; o que era falso, porque eram três biltres que nada valiam, como eu próprio sei pelos ter visto e tratado depois. Os portugueses fize¬ ram então grande festa por haverem ganhado êstes três homens e sobretudo os jesuítas pensavam ter feito uma grande obra de conversão destes três marotos, que os estavam enganando, porque êles não tinham devoção nem afeição alguma à religião católica; e a causa da sua fugida era não-poderem agiientar a fadiga, porque não prestavam para o trabalho; e julgavam que chegariam a ser alguma coisa entre os portugueses, os quais faziam grande alarde da conversão dêstes três miseráveis. Ora os holandeses vendo-se traídos por êles, que poderiam avisar o ini¬ migo das faltas que padeciam, resolveram-se a levantar o cêrco, e ainda porque temiam a vinda das naus de Por¬ tugal, por se ir chegando o tempo próprio e poderiam
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 171 queimar-lhes os navios; e de feito êles chegaram sete ou oito dias depois de levantado o cêrco. Êstes holandeses, antes de chegar a Moçambique, haviam tomado um navio que vinha de Portugal e tinham ainda presos os homens dêle; e no intento de recobrar os seus três homens, usaram de um expediente, mas cruel e bárbaro. Mandaram propor pacto ao governador, chamado D. Estêvão de Ataíde, que era um bravo e galhardo fidalgo, oferecendo-lhe a restituição de todos os prisioneiros por¬ tugueses, que em seu poder tinham, a troco daqueles três homens, e senão que matariam à sua vista seis dos princi¬ pais prisioneiros. O governador deu em resposta a esta )roposição que os estilos da guerra defendiam restituir íomens que voluntàriamente haviam vindo oferecer-se a servir ao seu rei, nem arriscá-los ao alvedrio de seus ini¬ migos para os mandarem matar, o que tanto montava como ser êle governador o próprio algoz dêsses homens. Que no que tocava aos portugueses que êles lá tinham presos, êsses eram prisioneiros de guerra, e portanto os podiam pôr em resgate, que lhes seriam mui bem pagos; e se os matassem a sangue frio, não era isso acção de leais cava¬ leiros. Andaram um dia inteiro nestes recados sem poder chegar a conclusão alguma. O que vendo os holandeses, tomaram a resolução de matar aquêles seis portugueses, que todos eram homens casados, ricos e dos principais oficiais do navio, como piloto, mestre, etc., e passando avante amarraram-lhes as mãos atrás das costas e os fize¬ ram sair fora das tranqueiras, segurando sempre a ponta das cordas dentro da tranqueira. Êstes pobres homens bra¬ davam por socorro e misericórdia ao governador para o comover à piedade, mas êle contentou-se de exortá-los a morrer com constância, dizendo que não podia restituir os três holandeses, porque Deus e el-rei lho defendiam, pois eram vindos para se converter. Sôbre isto os holandeses mataram aquêles seis homens a tiros de arcabuz à vista dos outros; e logo levantaram o cêrco e se foram à Sonda. Quanto aos três holandeses, foram depois levados a Goa, onde não fi¬ zeram muito caso dêles, mas ao contrário lhes diziam mil injúrias, e nos acompanharam na volta para Portugal. Um dêles vinha na mesma nau, em que eu também vinha (*) . . . (!) Aqui está lacerada a (olha do nosso original, e faltam três regras, que náo podemos suprir. — N. do T.
  • 172 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD um seu companheiro que foi cativado pelos turcos, e que depois veio a Goa por terra, ondes êles felizmente se haviam encontrado. Mas tornando a Moçambique, é uma pequena ilha, no extremo e ponta da qual há uma fortaleza do lado de leste, que defende o pôrto. Esta ilha está dentro de uma grande baía, cheia de arrecifes e baixos, havendo apenas um canal mui estreito e difícil de entrar, por ter arrecifes e baixos de uma e outra banda, de sorte que para o entrar é mister ter pilotos da ilha e assim mesmo ir sempre de sonda na mão. Esta entrada é de travessia, mas com bom piloto e em bom tempo, pode-se entrar com tôda a segurança e achar nela bom undo. Não há pôrto ou enseada em tôda a índia, onde os portugueses tenham perdido tantos navios como nesta baía. Para a entrar é mister ter a proa a oeste e assim fica o norte à direita e o sul à esquerda. Do lado do norte está a terra firme e do lado do sul estão dois ilhéus desertos a par um do outro, na distância de quási uma légua de Moçambique. O mais próximo chama-se Santiago; o outro que mal se vê, por ter o primeiro por de avante, chama-se S. Jorge. Entre a ilha de Moçambique e a terra firme há só meia légua de mar. Do lado do sul tudo são baixos e areias; mas o pôrto é do lado do norte e tem bom fundo. A ilha é mui estreita, não tendo mais de três quartos de légua de comprido e meio quarto de largo. A povoação é dispersa por tôda ela, sem forma de cidade cercada, mas com uma fortaleza mui grande. A terra é de si mui estéril; não tem águas doces, mas somente algumas cisternas e vão buscar a água doce à terra firme em batéis. Há aí cinco ou seis igrejas, capelas e conventos. Os navios podem chegar-se à ilha quanto querem, porque a costa é mui segura e o seu fundo de boa areia; não se pode porém navegar ao redor de tôda a ilha, mas sòmente da parte do norte, por¬ que da do sul só há baixos e rochedos. Esta ilha jaz na costa de Melinde ou Etiópia, quási a dezóito graus da equinocial para o polo antártico e é afas¬ tada de Goa novecentas ou mil léguas e seiscentas a .. . (‘) í1) Aqui há lacuna pela mesma causa dita na Nota de pág. 171. - N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 173 • laranjeiras,, limoeiros, bananeiras e outras árvores de fruto das índias. Há grande cópia de gado, como bois, vacas, carneiros, porcos, cabras e outras espécies, e todos êstes animais são mui baratos e semelhantes aos da ilha de S. Lourenço. No Brasil e em Moçambique a carne de porco é havida pela mais saborosa, delicada e sã de tôdas; e por isso os médicos a recomendam aos doentes e lhes defen¬ dem tôdas as outras. Há também aí muitas galinhas mui boas e delicadas, mas tôdas de penas negras e a carne da mesma côr ou seja crua ou cozida, o que causa estranheza a quem não está costumado a vê-la e comê-la, e parece que a carne foi cozida em alguma droga negra. Antes de os portugueses chegarem à ilha de Moçambique, não era habitada, assim por sua pequenez, como pela falta de água doce; e hoje em dia só é habitada de portugueses, mes¬ tiços e cafres da terra firme, cristãos, pela maior parte escravos dos portugueses. Dos territórios circunvizinhos no continente, uns são amigos, outros inimigos dos portugueses e com êstes têm guerra continuada e mui crua. Os portugueses não têm outra terra na índia, onde seja tão penoso viver e morar, porque é mister que todos os mantimentos lhes venham de Goa e o vice-rei não permite que se levem ali merca¬ dorias de outra parte, salvo alguns barcos dos lugares vizi¬ nhos, que levam algumas pequenas comodidades. Tudo quanto ali se consome vai de fora e todos os anos o vice-rei de Goa envia ali muitos navios carregados de mercadorias da índia e de Portugal, os quais voltam carre¬ gados de escravos, marfim, pau de ébano e quantidade de ouro purificado, que se apanha nos rios. E todavia se não fôra para acolher os navios de Portugal, os portugueses não fariam ali assento, mas êste lugar lhes é de grande necessidade para aquêle fim; e cada dia vão conquistando terra pelo sertão dentro. De Moçambique levam-se a Goa mui belas esteiras, e tôdas as mercadorias que dali se extraem são a mui vil preço. Ser-me-ia mui difícil, e até impossível, discernir tôdas as nações que há desde o Cabo da Boa-Esperança até o Gôlfo Arábico ou Estreito de Meca, porque se lhes dá
  • 174 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD diversos nomes, e todavia tôdas se assemelham entre si, e com os negros de Cabo-Verde ou de Guiné. Os povos, assim de Moçambique como da terra firme circunvizinha, são todos Cafres, pôsto que de diversos reinos e línguas, e fazem crua guerra uns aos outros, matando-se, cativan¬ do-se, comendo-se e vendendo-se por escravos. Não têm fé nem religião; e ninguém se pode fiar dêles, por serem pérfidos e falsários. Andam totalmente nus, sem mesmo cobrirem as partes vergonhosas; são de espírito mui gros¬ seiro e brutal; o seu trabalho é semelhante ao das bêstas; não lhes importa ser escravos, mas até dizem que não nasceram para outra coisa. Os pais e mães vendem seus filhos. Comem de tudo como as bêstas feras. São gente sem ambição, mas vingativos, desdenhosos, traidores e maus. Lançam de si mau cheiro, mormente quando estão quentes. A cento e vinte léguas de Moçambique para o Cabo na mesma costa está o reino de Sofala, onde os portu¬ gueses têm uma espécie de fortaleza, mas de pouca con¬ sequência, a qual está sob o govêrno do capitão de Mo¬ çambique, que ali tem um feitor e um escrivão para tratar e comerciar com a gente da terra. Êste capitão residia ordinàriamente em Sofala, e não em Moçambique, e até o nome do govêrno é de Sofala e não de Moçambique, por ser ali a sua antiga residência, e ser de maior honra aquêle título do que êste. Diz-se mesmo que era de Sofala que Salomão tirava o seu ouro para fabricar o Templo; e há grande aparência de se haver tirado grande quantidade das minas, que são próximas da fortaleza dos portu¬ gueses. O feitor que ali está faz grande comércio dêste metal, que envia a Moçambique; e todo o ouro que os portugueses têm lhes vem do tráfico com os reis e povos daquelas terras; porque os portugueses não entram nem pescam nos rios, mas a gente da terra sòmente. Há ainda feitores em outros lugares fora o de Sofala, assim para o ouro, como para tôdas as outras fazendas. Quási a trinta léguas de Moçambique, entre Sofala e a mesma ilha de Moçambique, há um rio na terra de Cuama, chamado por outro nome o Rio Negro, onde se acha grande quantidade de ouro purificado, limpo e em pó, a que cha¬ mam areia de ouro; e reputa-se êste ouro de Sofala e do Rio de Cuama o mais puro e fino que há em todo o
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 175 mundo. É coisa admirável que nas minas de Sofala e do Monomatapa tudo é ouro fino em pó, e areia de ouro, que não é mister refinar mais. Vi ali um ramalhete de ouro maciço purificado, da grossura de um côvado e ramoso como o coral, que havia sido achado neste estado natural no Rio de Cuama. O que mostra que o ouro está na terra em veios, e que a água tendo minado a terra ficara o ouro na sua forma natural, por ser mais duro. Esta peça de ouro era cuidadosamente guardada, e foi enviada pelo navio em que eu vim embarcado de Goa na torna-viagem para Portugal, de presente à rainha de Espanha. Quando eu parti da índia para regressar à Europa, os cafres vizinhos de Moçambique traziam rija guerra com os portugueses; e o vice-rei que então estava em Goa, quando passara por Moçambique, havia ali deixado um seu sobrinho, e muita gente para fazer a guerra, conquistar e descobrir. Este mancebo recém-chegado, querendo mostrar a sua cava¬ laria, foi com uma armada de galeotas e outros navios ao rio de Cuama no intento de passar mais avante do que até ali o tinham feito outros alguns portugueses; mas lá ficou êle e a maior parte dos seus, e o resto a muito custo pôde salvar-se. O vice-rei com a nova dêste desastre ficou mui penalizado e resolveu vingar-se. Para isso ser¬ viu-se do capitão e governador de Moçambique, aquêle mesmç que ali havia governado durante os dois cercos, e que era um dos mais bravos e denodados fidalgos, de que havia memória entre os portugueses, amigo de Deus e dos homens, mormente dos estrangeiros. Chamava-se D. Es¬ têvão de Ataíde. Tinha ganhado maravilhosa reputação entre os seus naturais e entre os próprios índios, por haver defendido os dois cercos com tão pouca gente como êle tinha, sem embargo de haver sido tomado de súbito. E por isso esperava êle uma extraordinária recompensa de el-rei, tanto mais que os capitães de Moçambique que ali estão três anos, segundo o costume, recolhem ordinà- riamente com o cabedal de cem mil cruzados, pouco mais ou menos, assim das suas ordinárias e tráfico, como de seus latrocínios e outras traças; mas êle por razão da¬ queles dois cercos, em vez de tirar proveito, havia despeso todo o seu próprio cabedal e, à conta disso, fôra continuado mais um ano no govêrno, além dos três anos ordinários.
  • 176 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD O vice-rei resolveu em conselho que era mister cas¬ tigar aquêles cafres, e enviar a êsse fim uma armada, de que deu a capitania-mor a D. Estêvão, como quem era experimentado naquelas regiões, pela longa residência de auatro anos que ali fizera. O intento desta expedição era e ir mui avante pelo rio de Cuama, depois sair em terra e ir conquistar as minas de ouro e prata, que estão entre Angola e Sofala; e os portugueses de Angola tinham aviso para virem a encontrar-se com êles, por terra, num certo lugar indicado, e dali irem todos juntos àquela conquista. Para êste efeito lançou-se bando em Goa, a som de tam¬ bor, para todos os que quisessem ir à emprêsa, a quem se adiantou um ano de suas ordinárias, que são setenta e dois pardaus (cada um dos quais vale trinta e dois soldos e meio). Eu fui mui instado para ir, porque todos os estrangeiros o podem fazer; mas temi que me não dei¬ xassem lá para lhes guardar as minas sem poder tocar nelas. Parte-se de Goa para ir a Moçambique uma só vez no ano, que é por Janeiro, Fevereiro ou Março, mais cedo ou mais tarde, conforme os ventos da monção, a que é mister conformar-se. E para voltar a Goa sai-se de Mo¬ çambique no mês de Agosto ou Setembro. De Goa a Moçambique leva-se tôda a sorte de mercadorias da Europa e da índia, como trigo, arroz, sêda, panos de algodão, especiarias e outras coisas. Mas este comércio não é livre a todos: o vice-rei e o capitão é só quem pode asso¬ ciar-se a quem bem lhes apraz. Este comércio é um dos melhores e mais úteis de tôda a índia, porque se vende pelo que se quere tudo quanto ali se leva, e em retorno tomam-se outras fazendas boas, como acima disse. Na costa de Melinde, os portugueses têm mais uma fortaleza chamada Bombaça ou Mombaça, onde se faz grande tráfico, mas não dão grande aprêço a esta fortaleza por ser de pouca importância. Está entre Moçambique e o estreito de Meca. Ora, à entrada do estreito, junto da costa dos abexins ou do Preste João, a vinte léguas da terra firme, onde está o cabo de Guardafui, há uma mui grande e bela ilha chamada Socotorá. A terra que lhe fica mais próxima é o cabo de Guardafui, o qual entra muito Íielo mar, e faz de. um lado o estreito de Meca, onde é o imite da costa de África e de Melinde. Esta ilha está à entrada do gôlfo, mas um pouco para o Abexim. Tem
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 177 quási cinqUenta léguas de circuito, é bem povoada, e tem um rei particular, que é vassalo do rei Xarife da Arábia. A gente é maometana e mista de abexins e arábios; mas dizem-se arábios, e dêles têm os usos, costumes e lin¬ guagem. A terra é abundante de sêda e frutos, e o povo comerceia em Goa, onde são bem aceitos e mais estimados que os arábios propriamente ditos, os quais não ousam ir lá senão com passaporte, e ainda assim raras vezes. Êstes socotoranos vão fazer suas veniagas por tôda a costa da Arábia, e dali vão a Goa e a outras partes, com passa¬ portes dos portugueses, como os outros índios. Vestem ao modo dos arábios. Levam em retorno mercadorias da índia para a Arábia. A sua ilha produz uma tal quantidade de tâmaras que é maravilha, e levando-as a Goa dão ali cada libra das mais belas e melhores do mundo por dois reais, e nunca, por mais caras que sejam em Goa, vale a libra mais de quatro reais (l). Também exportam muito arroz e mui belas esteiras feitas de folhas de palmeira, afora grande quantidade de incenso, que é tão comum em Goa, que cobrem com êle os navios por fora, como nós cá fazemos com o breu ou pez. Também têm muita cópia de aloés. São gente mui tratável, mas de quem se deve desconfiar. Uma vez surgiram ali dois navios ingleses para refrescar e fazer veniaga, sendo muito bem recebidos, e até estiveram ali nove ou dez dias em boa correspon¬ dência; mas, enfim, o rei ideou armar-lhes uma traição, convidando-os a um banquete, como já de outras vezes tinha feito, para os atrair, e por fim matar e tomar-lhes o navio, segundo me disseram depois os ditos ingleses em Goa. Mas êstes tendo sido avisados não sei como, ou fôsse por simples desconfiança ou de outra sorte, ausen¬ taram-se a tôda a pressa. Esta ilha cria também cavalos, e é mui estimada na índia. E todos os que dela vão comerciar a Goa são arábios. (1) Avaliamos um liará francês em dois reais pouco mais ou menos. — N. do T. 13 II toI.
  • 178 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD CAPÍTULO XVIII DO REINO DE ORMUZ, SUA DESCRIÇÃO E DO CASTIGO DE UM PRÍNCIPE DE ORMUZ EM GOA EM continuação à extremidade da costa da índia está Ormuz, reino mui grande, afastado de Goa quinhentas léguas, em altura de vinte e três graus da equinocial da banda do setentrião, junto da Pérsia, na bôca e sôbre o estreito do mar pérsico, na qual bôca há uma pequena ilha, que não tem mais de três léguas de circuito, chamada Ormuz, e é possuída e dominada pelos portu¬ gueses, que ali mandaram fabricar uma fortaleza boa e bem guardada. Esta ilha é, abaixo de Goa, a mais rica terra e de maior rendimento de quantas possuem os portu¬ gueses na índia, porque é o caminho por onde passam muitas mercadorias e onde tôdas as coisas abundam, principalmente as riquezas da Pérsia, afora as mercadorias da índia, que ali são levadas em grande quantidade para provimento da Pérsia e da Síria e de todos os países de Levante. Tôdas as mercadorias que ali vão são mui boas, porque é a escala e empório de tudo quanto vem da Pérsia, Arábia, Arménia, Turquia, Europa e outros lugares, donde vêm, por terra, em caravanas, e semelhantemente ali vão ter tôdas as da índia. O que de Ormuz vem a Goa são, primeiramente, as pérolas finas, que se pescam naquele estreito e que são, sem competência, as mais belas, mais grossas e mais lu¬ zidias de tôdas as da índia Oriental. Pescam-se lá em grande quantidade e daqui lhes vem o nome de pérolas orientais. Vem também dali grande quantidade de moeda de prata, chamada Lariris, que é a melhor prata do mundo e os Larins se dizem de Ormuz. Extraem-se, também, de Ormuz sêdas da Pérsia, assim em panos como em outras obras. Além disso tapêtes, que nós cá chamámos de Turquia e lá da Pérsia e de Ormuz, que são os mais belos e melhor acabados do mundo. Também cavalos da Arábia, da Pérsia e de Ormuz, os mais lindos e bem ajae¬ zados que é possível ver, pois são todos acobertados de ouro, prata, sêda e pérolas, ao modo da Pérsia e de Or¬ muz e à portuguesa; e êstes cavalos são mui caros e mui estimados em Goa. Tôda a sorte de açúcares, conservas,
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 179 marmeladas, passas ou uvas sêcas da Pérsia e de Ormuz. Tâmaras mui grossas e mui excelentes. Camelões ondea¬ dos da Pérsia e de Ormuz, de tôdas as côres e fabricados da lã daqueles grandes carneiros, que nâo têm a lâ enca¬ rapinhada como os nossos, e da qual fabricam também grande quantidade de gabões ou albornozes, a que os índios chamam Monsaus, e os portugueses Cambolins de Ormuz, que têm listas de quatro dedos de largura, de di¬ ferentes côres. Tôda a gente se serve dêles nas viagens de mar para se cobrir da chuva. É um tecido como pano de linho. Fazem também outros gabões, capas e capotes de fêltro, como os nossos chapéus, o que resiste muito à chuva. Quanto às drogas, assim aromáticas como medicinais e outras, seria árduo especificar tôdas as que vêm de Or¬ muz, aonde têm sido levadas de fora, e semelhantemente dizer tôdas as mercadorias que para ali se levam da índia e da Europa. Basta dizer que é provérbio comum naque¬ las terras, que se o mundo fôsse um ôvo, Ormuz seria a sua gema (l), porque é o melhor sítio do mundo, não por sua fertidade, mas por sua situação cómoda ao tráfico de tôdas as partes do mundo, de onde é mister que as merca¬ dorias e fazendas venham passar ali e pagar tributo aos portugueses, que visitam todos os navios, para ver se levam mercadorias de contrabando e defesas por el-rei. Mas ali os capitães da fortaleza fazem mui bem o seu negócio, porque por dinheiro deixam passar tudo. Por isso êstes capitães não aspiram na índia a outra dignidade, salvo à de vice-reis, e não ocupam outro cargo. Nos três anos daquela capitania ficam maravilhosamente ricos, pelos grandes direitos e imposições que lançam sôbre tôdas as coisas e, para o fazer mais impunemente, dão grandes presentes ao vice-rei. O capitão, que governava em Ormuz quando eu estava em Goa, chamava-se D. Pedro Coutinho, fidalgo português de mui nobre linhagem. Seu I1) Joio de Barros (Década II. Liv II. Cap. II) diz, descrevendo Or¬ muz: com que a cidade é tão viçosa e abastada, que dizem os moradores dela, que o Mundo é um anel, e Ormuz uma pedra preciosa engastada nêle E já antes de João de Barros havia escrito Gaspar Correia (nas Len¬ das da índia) tratando o mesmo assunto: com o qual trato tão grande se fèz esta cidade de Ormuz, que comummente, entre as gentes, a tndia é anel e a pedra Ormuz. — N do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 180 irmão D. Diogo Coutinho havia comprado a capitania de Cochim em vida; e não há na índia outra capitania em vida senão esta, porque não dá ao capitão outro proveito mais que seus ordenados, por razão de haver em Cochim um veador da fazenda como em Goa, que é o intendente geral de tudo quanto pertence a el-rei e muda-se de três em três anos; e assim o capitão não corre com coisa alguma da fazenda real. Mas tornando àquêle capitão de Ormuz, dizia-se en¬ tão que êle se recolhia rico no seu triénio em mais de seis¬ centos mil escudos; e voltou a Portugal na nossa armada. Em Goa ombreava com o vice-rei em dádivas, liberalida¬ des e esmolas, mas não na dignidade e honra. O vice- -rei 0) André Furtado de Mendonça e êle não estavam amigos por esta razão e, além disso, porque o Governador André Furtado tendo-lhe pedido emprestados cinquenta mil pardaus para serviço de el-rei, prometendo pagar-lhos em Portugal ou na índia, onde mais quisesse, êle recusou-se; e replicando o Governador que era para aperceber uma ar¬ mada contra os malabares, respondeu então aquêle capitão que êle era homem para à sua custa aperceber uma armada e capitaneá-la em pessoa por serviço de el-rei, e não para dar o seu dinheiro a outrem. Esta foi a causa, porque recolhendo-se ambos a Portugal, não se embarcaram no mesmo navio; e o governador André Furtado partiu pri¬ meiro com tenção de chegar a Portugal antes do outro, para o malsinar e prevenir-lhe mau recebimento. Quando êstes governadores e capitães se recolhem para o reino, não levam muitas mercadorias grossas, mas somente pérolas, pedras preciosas, âmbar-gris, almíscar, ouro, prata e outras coisas raras e preciosas. Quando eu parti de Goa, o filho do vice-rei Rui Lourenço de Távora, que não tinha de idade mais de doze a treze anos, era já pro¬ vido na capitania de Ormuz e ia entrar nela. Esta ilha quanto ao mais é mui fértil, mas não tem água, e é em tudo semelhante à ilha de Maio na costa de Cabo-Verde, porque tôda é de rochedos de sal e pedra salgada, que serve de sal. Há também ali salitre. Os reis de Ormuz pagam tributo ao rei da Pérsia e estão em paz e amizade com os portugueses. São maometanos como os persas e mandam furar os olhos a seus sucesso- (') Aliás Governador.—N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 181 res, como fazem os do Dealcão. O povo de Ormuz é quási tão negro como os mouros de Etiópia, e não se assemelham em nada aos persas, que são mais brancos. Quando algum homem principal morre em Ormuz, suas mulheres são obrigadas a carpi-lo uma vez por dia durante algumas semanas contínuas; e há ali mulheres a quem se paga para carpir os mortos. Os habitantes usam camisas compridas, cingindo-se com um largo cinto de tafetá como muitos outros índios e todos os arábios. Na cabeça trazem turbantes brancos matizados de muitas côres. Muitos de entre êles trazem anéis no nariz. Falam a língua da Pérsia; e são mui dados a desonestidades e sobretudo a pecados de ruim qualidade. Amam a música e os instrumentos de música. Suas armas são arcos turquescos dourados, cujas cordas são de fina sêda e os arcos fabricados de pau mui forte e bem envernizados ou de ponta de búfalo; e as flechas são de canas douradas, bem feitas; e são mui destros no uso destas armas. Trazem também massas de ferro bem fei¬ tas e tauxiadas de ouro e prata. Há dez ou doze anos, pouco mais ou menos, que um irmão do rei de Ormuz veio a Goa num navio carregado de grandes riquezas, para entre os portugueses se fazer cristão, como dizia, por razão de certa desavença que tinha com seu irmão. Foi recebido dos portugueses com tôdas as honras que foi possível e o aposentaram numa das mais belas casas da cidade. Depois de estar algum tempo em Goa, pediu socorro aos portugueses para haver o que lhe pertencia, com promessa de que, o que assim alcançasse, o daria aos portugueses a trôco de uma pensão. Êste enviaram uma grossa armada ao rei de Ormuz e se concertaram com o rei para que desse a seu irmão certas terras, como de feito deu. Mas aconteceu que o príncipe que estava em Goa, prometendo cada dia fazer-se cristão e não o pondo por obra, cometeu medonhas impudicícias com um mancebo portu¬ guês estudante, pelo qual crime foi condenado pela justiça da Inquisição de Goa a ser queimado; o que foi executado há quatro ou cinco anos, pouco mais ou menos, sem em¬ bargo de êste príncipe, antes de sua execução, se converter e ser baptizado pelos jesuítas; e não obstante mesmo pro¬ meter êle cinco mil escudos para ser relevado da sentença e além disso mandar edificar igrejas em remissão de seu
  • 182 VIAGEM DE FRANCISCO FYRARD pecado. Tôdas estas promessas não demoveram muito aos portugueses, aos quais êle não prometia senão o que êles já possuíam. Além de que êle já de antes havia sido apanhado e repreendido muitas vezes dêste enorme vício, do qual havia prometido abster-se; mas tendo reincidido recebeu por isso o merecido castigo. Quanto ao pobre mancebo português, foi metido numa pipa e lançado ao mar, para evitar o escândalo (*)• (1) Vida do arcebispo D. Fr. Aleixo de M eneses, que precede a Historia da Fundação do Real Convento de Santa Monica da Cidade de Goa, por Fr. Agostinho de Santa Maria (Lisboa, 1699) toca-se èste sucesso pela forma seguinte: cDurante êste governo (quere dizer o govèrno do Estado pelo arce¬ bispo, desde 1606 até 1609) veio o rei de Ormuz a Goa por causa de algu¬ mas dúvidas e demandas que trazia com seu irmão sobre o reino. Assen¬ tou a sua casa naquela cidade e como era muito vicioso e de abomináveis costumes (como são ordinariamente os mouros) conquistou com dádivas a muitos moços nobres e bem parecidos, para usar mal dêles; notou se-lhe esta maldade; féz-se queixa dela ao arcebispo, que mandando tirat uma devassa, resultou dela mandar prender ao rei, e metê lo em a cadeia pública: processou se a causa; foi sentenceado a ser degolado, e que se lhe queimasse o corpo conforme as leis, por ser vassalo do rei de Portugal e cometer o delito nos seus Estados Depois de sentenceado, pediu tóda a Relação e algumas das pessoas mais principais da mesma cidade ao arce¬ bispo se náo executasse a sentença; e que mandasse o rei para Portugal, representando lhe todos que seria uma grande ruína para os reis vizinhos aquela execução. Náo foi dêste parecer o nosso arcebispo, que entendeu que antes éste castigo lhes causaria maior temor Mandou executar a sen¬ tença, e para isso mandou assistir com o rei Religiosos de tôdas as Reli¬ giões ; e foi tão ditoso, que saindo ao teatro para lhe cortarem a cabeça, á vista da fogueira se fèz cristão, e pediu o santo baptismo, que logo se lhe deu; depois de o receber, alegre, ao que se entendeu, de pagar com a vida a pena dos seus delitos, tirou de uma cadeia de ouro, e a deu ao algoz que lhe havia de cortar a cabeça, como cortou, e depois foi queimado o seu corpo. Desta execução (em que o tempo mostrou se havia feito nela grande serviço a Deus e ao rei de Portugal, porque com ela ficaram os reis vizi¬ nhos e tributários mui temerosos, e mais obedientes do que antes eram) se levantaram grandes calúnias contra o nosso Arcebispo. Diziam que man¬ dara matar aquéle rei só por lhe tomar a fazenda, e assim o escreveram ao Rei de Portugal, queixando-se dêle com menos respeito do que mereciam as suas tão ajustadas acçòes E o rei com éstes informes sinistros e queixas mal fundadas, escreveu nas primeiras naus ao arcebi-po estranhando-lhe o que havia obrado; mandando-lhe que tôda a fazenda do rei de Ormuz se pusesse no seu tesouro; e sendo caso que se houvesse repartido e feito dela algumas mercês, que quaisquer pessoas que a tivessem recebido, a tor¬ nassem logo a repot Porém como o arcebispo era tão |prudente, tão de-apegado e tão zeloso da fazenda real. nada havia disposto da fazenda daquele rei, e somente havia mandado satisfazer algumas dividas que a
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 183 CAPÍTULO XIX DOS REINOS DE CAMBAIA, SURRATE, DO GRAO MOGOR, DIU E DO RESTO DA COSTA DA INDIA E MALABAR; E DO REI DE TANOR E SUA PERFlDIA TENDO falado de Ormuz, segue-se passar a Cambaia e Surrate, donde vem o maior e principal tráfico de Goa, e é afastado dela cem léguas para a banda do norte. Êste tráfico é tal que duas ou três vezes no ano vêm trezentos ou quatrocentos navios juntos em con¬ serva, a que chamam cáfilas de Cambaia, e se podem com¬ parar com as caravanas de Alepo. E então em Goa tôda a gente espera estas cáfilas e armadas, como acontece em Espanha com as das índias. E quando elas não chegam a seus devidos tempos, entra-se logo em desconfiança dos holandeses e malabares ou da própria gente de Cambaia, que pela maior parte das vezes as embargam quando estão prestes a partir, como aconteceu no ano em que eu saí de Goa, e muitas outras vezes antes disso; e esteve então a armada prestes por mais de dois meses sem poder sair, de sorte que já todos julgavam a fome iminente. A causa disto foi o descontentamento que o rei ou bachá de Cam¬ baia tinha com o vice-rei da índia, por êste lhe haver recusado certa coisa. E pôsto que êste rei seja vassalo do Grão Mogor, que é o senhor de tôdas estas terras, não deixa todavia de ser ali absoluto em tudo o que não ofende o serviço do Mogor. Quando pois esta armada chega, é maravilhoso o contentamento dos mercadores e de todo o povo; mas raras vezes deixam os corsários malabares de apanhar alguma coisa. Êstes navios ou galeotas vão a remos, e fazenda real devia aos mesmos, que o acusaram e caluniaram, que em virtude da ordem real repuseram com grande sentimento de seu coração (justo castigo da sua maldade) No ano seguinte informado melhor o rei da verdade de todo êste successo, e do bem que néle se houvera o arce¬ bispo, lhe escreveu uma carta, em que lhe dizia fóra mal informado do como havia procedido na execução que tinha feito naquele rei; mas que certificado já da inteireza, com que se houvera, se dava por muito bem ser¬ vido, e lhe fazia mercê de seis mil cruzados pelo trabalho que havia tido» Confrontando esta narrativa com a do autor, vê-se que andam con¬ formes na substância do caso, pósto que difiram em algumas circunstâncias. Veja-se o que já fica dito a págs. 72 déste volume.— N. do T.
  • 184 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD sempre terra terra, e não deixam de adiantar caminho mesmo contra o vento; e todos têm seu sinal e a divisa de seu dono na bandeira, por onde os mercadores, a quem êles pertencem, os conhecem de longe, e então se atiram mui¬ tas bombardadas da cidade, fortalezas e palácio do vice- -rei, defronte do qual vêm surgir, como fazem todos os outros navios, porque é ali a alfândega, e bangaçal e o pêso real. Poucos são os habitantes de Goa, assim cristãos como outros, que não tenham parte nesta armada, ao menos nos navios que são de Goa ou de outros lugares dos portugueses; porque com esta frota vêm muitos navios de Cambaia e de Surrate. Das mercadorias que trazem, a primeira é o anil ou indigo, que é uma tinta azul escura, que só se acha em Cambaia e Surrate, onde vem de todo o país circunvi¬ zinho, e se prepara nestas duas cidades somente. Esta droga é de grande tráfico, e muito procurada, mesmo pelos ingleses e holandeses, e é a principal causa porque êles têm ali feitores, para haverem esta tinta. Além disso trazem muitas pedrarias, não finas, como diamantes e rubis, mas de outras sortes, que êles sabem mui bem obrar e fazer delas muitas peças bonitas. Também muito cristal de rocha, ferro, cobre, alúmen de rocha, grande quantidade de trigo do melhor do mundo, que colhem duas vezes no ano; e dizem que se não fôra por causa dos por¬ tugueses, o não semeariam, porque êles não são costu¬ mados a comer pão. E é por isso que se come o pão em Goa tão barato; porque os mestiços e a maior parte dos portugueses preferem comer arroz, que também se cria em grande abundância em Cambaia, donde o trazem a Goa. Afora isto trazem infinitas qualidades de legumes, como ervilhas, favas, lentilhas e outras de todos os feitios e côres, e até ervilhas da China, que se comem como as outras. Também muitas drogas medicinais, manteigas, óleos de muitas sortes, assim para comer, como cheirosos, e para untar o corpo, sabão branco e negro, açúcares e conservas, papel, cera, mel, muito ópio ou suco de papoula, de que êles fazem grande tráfico e veniaga entre os índios, assim mouros ou maometanos como gentios. Mas a principal riqueza que dali vem é em roupas de sêda, e principalmente de algodão, das quais tôda a gente anda vestida, desde o Cabo da Boa-Esperança até à China, assim homens como mulheres, desde a cabeça
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 185 até aos pés. Fazem obras e panos de algodão, brancos de neve e mui delicados e finos, e também medianos e mais grossos para diversos usos. Fazem ainda outros, pintados com diversas invenções e figuras. Enquanto às obras de sêda, fazem-nas também de todos os feitios, e entre outras sobrecéus e cobertas de cama acolchoadas mui lindamente e bem obradas, a que chamam colchas, e semelhantemente colchões estofados de algodão, pintados e fabricados com muito artifício. Trazem também cami¬ lhas e leitos pintados, e lacreados de tôdas as cores e feitios, com outros utensílios de casa do mesmo modo obrados. Ligas, a que chamam percintas, para fazer o assento de leitos, cadeiras, tamboretes e escabelos; e outros semelhantes tecidos sarjados, feitos de algodão fino e branco. Fazem também camas de algodão em forma de rêde, como as do Brasil, mas não servem para dormir e sim para saírem ao campo, quando querem, levados por quatro homens ou dois, como num palanquim ou liteira; e vão ali muito à sua vontade e assim o usam por tôda a índia. Fazem tapetes ao modo dos da Pérsia e de Ormuz, mas não tão finos, nem tão caros, porque têm o pelo mais grosso e mais comprido, mas com os mesmos feitios; e fazem ainda outros mais pequenos de algodão em tiras de muitas côres. Fabricam outrossim escritórios ao modo dos de Alemanha, marchetados de madre-pérola, marfim, ouro, prata e pedraria, tudo feito com muito primor. Fazem outros pequenos contadores, cofres e caixinhas de tar¬ taruga, que êles tornam tão clara e polida, que não há nada mais lindo, porque estas conchas de tartaruga são lisas de sua natureza. Finalmente, seria nunca acabar se quisesse falar de tôdas as diversidades de obras, quer de ouro, prata, ferro, aço, cobre e outros metais, quer de pedras finas, madei¬ ras esquisitas e outras matérias ricas e singulares, porque tôda aquela gente é esperta e em nada ficam atrás dos de cá, antes pelo contrário creio que êles têm de ordinário o espírito mais vivo que o nosso e a mão tão subtil; e bas¬ ta-lhes ver ou ouvir uma vez alguma coisa para a ficarem sabendo. Todavia, sendo assim gente fina e subtil, não são enganadores, nem fáceis de enganar. E o que é mais estimável em suas obras, é que sendo bem feitas são a baixo preço. Nunca vi génios tão bons e tão corteses como são estes índios, que nada têm de bárbaro e selva-
  • 186 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD gem, como nós pensamos; e até não querem tomar coisa alguma dos costumes e usos dos portugueses. As obras de mecânica aprendem-nas mui bem, sendo todos mui curiosos e desejosos de aprender, de sorte que os portu¬ gueses tomam e aprendem niais dêles, do que êles dos portugueses, os quais quando são recém-chegados a Goa são mui lorpas antes de terem tomado o jeito e modos dos índios. Deve-se pois ter por certo que tôdas estas terras de Cambaia, Surrate e outras do rio Indo e do Grão Mogor, são as melhores e mais férteis de tôda a índia e as 3ue alimentam tôdas as outras com o tráfico e comércio e tôdas as coisas. A sua gente, assim homens como mulheres, é a mais engenhosa que se pode achar. É ali também que portam todos os navios da índia e vive-se lá mais comodamente que em outra qualquer parte. Cambaia é um grande reino, de quem a cidade metro¬ politana e côrte do rei tem o nome (l). Jaz em altura de 23 gaus além da equinocial. O seu gôlfo tem na bôca vinte léguas de largura e a cidade está no fundo do gôlfo. Tem rei particular, vassalo do Grão Mogor, maometano de religião, ainda que a maior parte do povo seja gentio. Cada um vive ali na sua religião, o que é causa de se ver lá gente de tôdas as leis e seitas. Abaixo de Goa não vi na índia uma cidade tão famosa e opulenta como Cambaia, principalmente ao comércio e mercancia. Mas a principal nação e raça que lá há, são os banianes, que são em tal número, que se não fala senão nos banianes de Cambaia e há-os por todos os portos e lugares da índia onde se comerceia, e também os guzerates, que são os maometa¬ nos de Surrate e outras terras. Os banianes guardam o mesmo .modo de viver que os brâmanes, salvo não terem linha. É o povo o mais sabedor nas ciências, que ver se pode, mormente nas matemáticas e astrologia. Além disso, são homens honestos, bem vestidos e mui lhanos no seu trato. Não há no mundo povo mais conhecedor de pérolas e pedraria; e mesmo em Goa os ourives, lapidários e outros oficiais de obras delicadas, são todos banianes e brâmanes de Cambaia, e têm as suas ruas e tendas aparte. A cidade de Cambaia é uma das maiores e mais ricas da costa da índia, onde abicam os mercadores de tôdas (•) Cambayele c o nome por que antigamente era conhecida esta cidade e que os nossos autores lhe dào — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 187 as partes do mundo. A língua de tôdas estas terras, e também de tôdas as outras do Grão Mogor, de Bengala, e outras circunvizinhas, é a língua de Guzerate, que é a principal, mais útil e mais extensa e que se estende em mais diversos lugares que outra alguma da índia (l). Os homens e mulheres de Cambaia, Guzerate e Surrate são de côr um pouco morena, mas mui belos e bem proporcio¬ nados. As mulheres, que cuidam da sua conservação, são tão belas, brancas, formosas e gentis, como as destas partes (2). Mas tendo falado de Cambaia e Surrate, terras per¬ tencentes ao Grão Mogor, parece-me que posso dizer alguma coisa dêste príncipe, segundo o que dêle por lá soube. Este Grão Mogor, que êles chamam Akebar Pachá, isto é, o grande rei soberano, é o mais poderoso rei de tôda a índia, de que eu tenho conhecimento, e contam-se lá coisas maravilhosas de sua grandeza e magnificência. (!) Não duvidámos de que assim fosse no tempo do autor. Hoje, porém, a lingua mais extensa, e que se entende em tôda a península in¬ diana, é a língua Indostana, a que em Goa vulgarmente chamam língua moura. N. do T (*) Destes banianes disse João de Barros na Déc. IV. Liv. V. Cap. I: «Todo êste reino de Guzerate é mui povoado de quatro géneros de gente de povo natural da mesma terra, a que chamam banianes, de duas sortes: uns são bangaçaris, que comem carne e pescado; outros banianes, que não comem coisa que tivesse vida; outros são resbustos, que antigamente eram os nobres daquela terra, também gentios; outros mouros chamados lúteas, que são naturais da terra, convertidos novamente à seita de Mafamede; outros são mouros que vieram de fora, e conquistaram a terra lançando dela os resbustos A gente popular é mui dada ao trabalho, assim da agri¬ cultura, como da mecânica; e nesta parte é táosubril e industriosa, que tém com o trato das obras que fazem enriquecido aquéle reino, porque mais séda e ouro fiado se gasta néle em panos tecidos de diversas sortes, que em tôda a Índia; e a cidade de Patam pode competir em número de teares com as cidades de Florença e Milão De marfim, de madre-pérola, conchas de tartaruga, laqueca, cristal, lacre, verniz, pau prêto, e amarelo e de outras coisas que servem para leitos, cadeiras, vasos e armas de tôda a sorte, só déste reino saiem mais obras que de todo o restante da Índia. E daqui vem ser éle abastado de tôdas as coisas necessárias, porque as que naturaimente, ou artificialmente não tém, lhas trazem os que vém buscar as que éles tém, que são muitas. A gente do povo é naturalmente fraca e cativa de condição, por serem da linhagem baniane, a qual guarda com grande religião a seita de Pitágoras, de não comerem coisa que seja viva. E são tão supers¬ ticiosos na observância déste preceito não matarás que as imundícies que em si criam, as sacodem em parte aue não sejam maltratados Pelo que quando os mouros querem déles haver alguma coisa, trazem-lhes diante um pássaro, ou outro qualquer animal, ainda que seja uma cobra; e
  • 188 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Faz a sua residência em três cidades principalmente; das quais uma se chama Delhi, outra Agrá, e a última, que é a maior de tôdas, e onde êle mais ordinàriamente mora, como capital do seu império, é Lahore, que fica a mais de cento e vinte léguas da costa de Cambaia. Pode pôr em campo trinta mil elefantes, oitenta mil cavalos e duzentos mil homens de pé. A sua guarda ordinária é de dez mil homens; que ocupam sempre o espaço de sete léguas em volta de sua pessoa. Quando alguém vai ou para lhe falar, ou para tratar seus negócios particulares, a primeira guarda que encontra o conduz à outra e assim vai passando de uma a outra, até chegar à cidade, onde é apresentado a quem compete; e é de notar que os da.primeira guarda que acompanham estas pessoas até à segunda, são teúdos de tirar um bilhete para sua descarga em como as apresen¬ taram e assim por diante os outros corpos de guarda, de sorte que desta arte sabem quem vai e vem. fazendo que a querem matar, éles a compram e soltam por nào verem sua morte, e têm que fazem nisto grande serviço a Deus Até uma carreira de formigas se atravessam por um caminho por onde algum baniane vá, ou a pé, ou cavalo, há-de rodear por não passar por cima delas. Por preceito de sua religião não podem ter arma alguma em casa; e é a gente mais delgada, e engenhosa em o negócio do comércio, que quantas temos descoberto, tirando os chins, que nisso e na mecânica levam vantagem a tôdas as na¬ ções do mundo». E Diogo do Couto na Déc. IV. Liv. I Gap VII acrescenta: «Êste reino (de Cambaia) foi sempre povoado de dois géneros de gentios: guze- rates e banianes, todos muito superrticiosos, como em seu lugar se verá, quando falarmos de tôda esta gentilidade da Índia. Os guzerates todos são dados à mecânica, em que se estremaram de todos os do oriente, cujas lou- çainhas já em tempo dos romanos eram muito estimadas, as quais iam ter a éles por via do Mar Roxo, como se vé em Arriano, autor grego, no tratado que féz sóbre aquela navegação, no qual nomeia muitas e diversas sortes de roupas, como são, ganise, monoche, sagmatogene, milochini, que diz serem muito finas e de algodão; pelo que enquanto a nós parece que eram os canequins, bofetás, beirames. sabagagis e outras que se acham escritas nos livros das leis dos romanos, das quais costumavam a pagar grandes direitos; e ainda hoje entre nós, com aquéle reino estar destruído, pelas mudanças que néle houve, a fineza de suas roupas de muitas sorte-, a delicadeza de suas obras sào tidas em mais perfeição que tôdas as da Índia. Os banianes são todos dados à mercancia, em que também precederem a todos por sua grande habilidade, e agudeza, pela qual, e por outras partes que néles se notam, presumem os teólogos cristãos que descendem de algum dos tribus de Israel, que são desaparecidos, e ainda mais o parecem no grande estudo e cuidado que todos põem em enganar os cristãos, como coisa que tém por preceito. Ambas estas nações de gentes são tão fraquíssimas e afeminadas, que não fazem diferença a mulher mais que nas barbas». — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 189 Êstes soldados das guardas são pagos tôdas as se¬ manas. Entende'-se na índia que êste rei é o Grão Tár¬ taro, como lhe êles chamam. Êstes tártaros são os me¬ lhores soldados e os mais fortes, poderosos e destros, que se pode ver. Trazem grossos arcos de ferro, que o mais forte de entre nós teria muita dificuldade em dobrar e es¬ tender por pouco que fôsse. As riquezas dêste príncipe são inestimáveis e têm diversas arrecadações e apartadas para as pérolas, ouro, prata, pedraria e outras coisas pre¬ ciosas. Sendo uma vez vindo um Bachá à sua côrte para dar conta do tributo que lhe trazia, esteve nove meses in¬ teiros à espera de que o oficial, que tinha cargo de o rece¬ ber, tivesse tempo e vagar de o contar, por via do grande número de outros vassalos chegados antes dêle para cum¬ prirem a mesma obrigação. E isto pode dar a conhecer a extensão e riqueza das terras dêste príncipe. É grande amigo dos jesuítas e tem sempre alguns consigo, respeitando-os e honrando-os muito. Nunca se levanta para salidar pessoa alguma que chegue à sua pre¬ sença, salvo a êles, porque quando entram no lugar onde êle está, levanta-se e manda-os sentar. Há padres jesuí¬ tas nas cidades de Lahore, Delhi e Agrá, mas poucos em cada uma delas. Têm fabricado ali igrejas e têm liberdade de prègar e converter tôda a gente, que por sua livre von¬ tade o quiser: e todavia fazem pouco fruto. Donde todos os jesuítas da índia dizem que é mais fácil converter cin- qiienta e ainda cem gentios ou idólatras, que um maome¬ tano. O defunto Grão Mogor el-rei Akebar, que morreu há seis ou sete anos, prometia e dava esperança de se fa¬ zer cristão e só punha uma condição, que era, liberdade para ficar com tôdas as suas mulheres, como a sua lei lhe f>ermite e sôbre esta dificuldade morreu. Seu filho, que he sucedeu, expeliu os Jesuítas e mesmo os outros cris¬ tãos, que tratou duramente, mas fazia assim para se segu¬ rar na posse do reino, porque, passados dois ou três anos, tornou a admitir os cristãos junto a si, como estavam em vida de seu pai. Quando aquêle rei Akebar morreu, tôda a índia ficou confusa e sobressaltada com temor de rompimento de guerra, porque era aquêle rei mui temido e respeitado de todos os outros reis da índia; e pode-se afirmar afoitamente que é senhor dos mais belos e melhores territórios do mundo e dos mais valorosos povos, como são os tártaros e outros
  • 190 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD povos mui ricos e industriosos. Em tôda a índia não se fala do Turco, mas somente do grande Akebar; e quando aquêles mesmos reis, que não são seus vassalos, falam dêle é baixando a cabeça em sinal de acatamento. Tem mui boa correspondência e aliança com o rei da Pérsia e mandam um ao outro presentes e embaixadores. Dá so¬ corro a êste rei da Pérsia ou Sofi, que também chamam o Grão Xá, contra o Turco. Aquêle que agora é o grande Akebar ou Grão Mogor, tinha um filho, que se levantou contra êle, mas sendo apanhado e levado perante ele, não. o mandou matar, mas contentou-se de o reter prêso. É mui amigo dos es¬ trangeiros e tinha junto a si um agente ou embaixador do rei de Inglaterra. Tem êste rei tal ambição, que quando chegam a êle alguns embaixadores, ou outras pessoas, lhes pregunta quem são, e em que qualidade são havidos junto de seus amos, como fêz aos que o Grão Turco lhe enviou; e sendo informado de tudo isso, menospreza-os a êles e a seus amos, e os retém junto a si, dando-lhes ren¬ das, cargos, dignidades e tudo quanto êles podem apete¬ cer, de sorte que os tais embaixadores largam as suas embaixadas, e ficam lá de assento, como fêz o de Inglaterra, segundo o que eu ouvi dizer aos ingleses que havia em Goa. Este príncipe em todos os serviços de mesa e câmara faz-se servir das mais belas donzelas e mulheres que se podem achar (l). (') Akbar ou Equebar (como escrevem os nossos autores) não é denominação comum a todos os reis de Oelhi ou Grao Mogores, como o autor parece julgar; mas o longo e glorioso reinado de Akbar, que durou 51 anos, talvez deu ocasião a que se entendesse vulgarmente na tndia que êste apelido era genérico daqueles potentados No mais dá o autor noticias certas das coisas do Grão Mogor. Akbar morreu em 1605, cinco anos antes de Pyrard sair de Goa O bom acolhimento que nêle acharam sempre os jesuítas de Goa, e as esperanças que chegou a haver da sua conversão, é coisa tratada nos cronistas da Índia, portugueses e estrangeiros, e se pode ver melhor em vários documentos recentemente publicados no Fascículo 3 o do nosso Archivo Portueuez Oriental Pyrard toca aqui sucessos ocorridos nos dois reinados, de Akbar e de Jeangir, seu filho. É certo que contra êste último se levantou seu filho Chusero, que, vencido e prêso, foi perdoado pelo pai. Tornando novamente a levantar se, foi ainda vencido e prêso; e conquanto alcançasse a liberdade no fim de dez anos, foi assassinado por seu irmão Xá Jean, que depois sucedeu ao pai. O caso do chamado embaixador de Inglaterra, que se deixou ficar
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 191 Após Cambaia, Surrate e outras terras do Grão Mogor resta falar de Dio, que é uma ilha, que antigamente depen¬ dia do reino de Cambaia, e é habitada da mesma gente, banianes, brâmanes, gentios e muçulmanos. Quando os portugueses ali foram pela primeira vez, fizeram concertos de paz e amizade para comerciarem com o rei de Cambaia, assim como têm feito com os outros, e o rei lhes permitiu que residissem naquela ilha, onde com o tempo se têm tão bem fortificado, que ficaram senhores absolutos dela, e ora a dominam. Fabricaram aí duas fortalezas (*), e se¬ guraram a cidade com uma boa cêrca de baluartes; o rei de Cambaia pôs-lhe depois cêrco por duas vezes, mas nada conseguiu, e ao presente vivem em boa amizade. no Grão Mogor, e a que o nosso autor rapidamente alude, segundo a in¬ formação que lhe deram em Goa alguns ingleses, é verdadeiro, e passou assim: Em 1608 chegou a Surrate um navio inglês, capitão William Hawkins, para abrir ali relações comerciais à Companhia, que então se acabava de formar. Os portugueses opuseram-se a èste intento, mas o inglês, vencendo tôdas as dificuldades, foi a Agrá, onde chegou a 16 de Abril de 1609, e ai obteve audiência de Jeangir, a quem apresentou uma carta de el-rei de Inglaterra. Hawkins falava turco; e a sua conversação agradou muito ao rei, que o convidou a ir todos os dias ao paço, e lhe preguntava pelas coisas da Europa e das Índias ocidentais Por fim deu positivas ordens para o inglês ser provido de tudo quanto lhe fòsse necessário para as emprêsas comerciais, que pretendia. Jeangir rogou muito instantemente ao capitão Hawkins que ficasse na Índia até êle ter mandado uma embaixada à Europa, assegurando-lhe uma renda de mais de três mil libras cada ano, que andaria, segundo o uso, anexa a um comando de quatrocentos cavalos, e ao govêrno de um distrito, cujas rendas êle recebesse. Hawkins aceitou Além das mercês sobreditas foi também instado para receber uma mulher, e êle julgou desarrozoado rejeitar a oferta, mas pôs por condição que a mulher fôsse cristã, e de feito recebeu a uma donzela arménia, com a qual se deu muito bem, pôsto que depois em Inglaterra não julgassem legal o matri¬ mónio. Por algum tempo foi o capitão Hawkins mui valido de Jeangir, mas a roda da fortuna desandou, e tendo êle em vão tentado restaurá la, largou a côrte do Grão Mogor a 2 de Novembro de 1611, partindo não só sem obter confirmação alguma de privilégios comerciais, mas sem ao menos levar uma carta a seu rei e, por cima de tudo, com o dissabor de ouvir muitas vezes ao primeiro ministro Abdul Hassan que não era próprio da grandeza do imperador Mogor escrever a tão pequeno régulo. (Veja-se History of British índia by Hugh Murray, 1855, Cap VIII, e The English in Western índia by Philip Anderson, 1856, Cap. 1). Tal foi o primeiro recebimento que tiveram no Industáo os actuais dominadores déle. (Veja-se ainda no Cap seguinte). — N do T. (!) Duas fortalezas, diz o autor, referindo se sem dúvida a que, tendo sido completamente arrasada no segundo cêrco a fortaleza primitiva, foi depois tóda re-taurada, e com novo risco, por D. João de Castro; e para isso foi aquéle famoso empenho das barbas na Câmara de Goa. N. do T■
  • 192 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Esta ilha de Dio é mui próxima da terra firme na costa de Cambaia, a vinte léguas da bôca do gôlfo, para a banda do,norte, e a trinta léguas da grande cidade de Cambaia. E de grande nomeada, e de muito rendimento aos portugueses por causa do bom pôrto e enseada que tem, onde os navios estão em muita segurança por respeito das fortificações que os guardam. De maneira que é ali a acolheita e escala de todos os navios que vêm de Cambaia, Surrate, Mar Roxo, Mar Pérsico, Ormuz e outras partes da índia; e os mercadores folgam de aportar ali, assim pela bondade do pôrto, como pela comodidade dos manti¬ mentos, que lá são baratos; e também porque temem entrar neste gôlfo, donde os ventos contrários depois os impedem de sair; mas a principal causa é porque os portugueses os obrigam a ir ali para tirarem dêles os direitos das alfânde¬ gas, e tornar o lugar mais opulento. Isto rende muito ao rei de Espanha. Vão buscar as mercadorias a Cambaia em grande barcos de quinze e vinte toneladas cada um, que vão e vêm carregados. O proveito é dos corsários malabares, porque tomam quantos querem, e só de uma vez, quando eu ali estava, vi tomarem quarenta ou cinqtlenta, o que mui freqilentemente lhes acontece. Esta ilha de Dio é admiràvelmente bela, rica e fértil, e a ela portam navios em mui grande número, o que a faz o mais rico e opulento lugar da índia abaixo de Goa; por¬ que se vive ali mui barato, e com todos os regalos e delí¬ cias que se podem imaginar; e até os soldados da índia ali vão a invernar com grande prazer. Tôdas as nações e religiões estão ali em grande liberdade, mas ainda que os portugueses são os dominantes da terra, está-se ali em maior liberdade de consciência que em Goa, onde não há exercício de outra religião senão da cristã. A terra é abundante de gado, aves e todos os outros comestíveis; e o resto vem da terra firme em grande abundância. O clima é mui bom e sadio, de sorte que êste lugar é de mui grande importância aos portugueses, que por via disso o guardam bem. Desde Cambaia e Dio vai sempre correndo a costa até Goa, e daqui até ao Cabo Comorim; e é pròpriamente a isto que se chama a costa da índia; a qual tem de ex¬ tensão, de Cambaia a Goa, cem léguas, de Goa a Cochim, outras cem, e de Cochim ao Comorim, sessenta, de sorte que tôda esta costa tem duzentas e sessenta léguas. E cum-
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 193 pre saber que nem todo o país, que vai desde a Cabo da Boa-Esperança até à China, se chama propriamente índia, mas só o que fica seguido a esta costa; o resto tem cada um seu nome particular, segundo os lugares. Assim, quando se está em Goa e se quere fazer alguma viagem, diz-se para que parte se quere ir, se para a banda do sul, ou para a banda do norte. A costa do norte corre desde Cambaia até Goa, e a do sul, desde Goa até ao Cabo Comorim; mas quando se está em outra parte e se quere ir para algum lugar que fique entre Cambaia e o Cabo Comorim, diz-se que se vai à costa da índia. Nesta costa, desde Cambaia até Goa, os portugueses não têm mais que três fortalezas, que não são tão fortes, nem tão importantes como as outras. A primeira cidade e fortaleza, que se encontra vindo de Cambaia, é Damão, depois Baçaim e Chaúl. Adiante de Chaúl há outra for¬ taleza chamada Dabul, mas não é do domínio dos portu¬ gueses, e só têm ali um feitor. Tôda esta costa é mui boa, fértil e saudável, e dela vêm grandes riquezas e como¬ didades a Goa e a outras partes. Mas estas três forta¬ lezas, pertencentes aos portugueses, estão todavia à discri¬ ção dos reis vizinhos, que são vassalos do Grão Mogor. Damão bastece Goa de muito arroz. De Baçaim vem tôda a madeira para a fabricação de casas e navios, e a maior parte dêstes se fabricam ali. De Baçaim vem igualmente pedra de cantaria, mui bela e rija como granito; e eu nunca vi colunas e pilares de pedra inteiriça tão grandes, como neste lugar. Tôdas as igrejas e palácios soberbos de Goa são fabricados desta pedra. A cidade e fortaleza de Chaúl é mui diferente das outras duas, porque a terra é extremamente rica e abun¬ dante de tôdas as mercadorias estimadas, que os merca¬ dores de tôdas as partes da índia e do oriente vêm ali buscar. Mas a principal mercadoria consiste em sêdas, que as há ali em tal quantidade, que quási só elas bas- tecem Goa e tôda a índia, e são muito mais belas que as da China; e em Goa são mais prezadas que tôdas as mais as sêdas de Chaul, de que se fazem mui belas roupas, afora grande cópia de roupas de algodão esquisitas, que também ali há. Duas são as cidades de Chaúl, uma dos portugueses, que é mui forte, e onde em tempos passados tiveram grande guerra com o rei vizinho, mas agora estão em boa
  • 194 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD paz. Outra é da gente da terra, e nela se fazem tôdas aquelas manufacturas de sêda, e também muitos cofres, bocetas, estojos, escritórios ao modo da China, mui ricos e bem obrados. Fazem também camas e leitos lacreados de tôdas as côres. O povo é ali mui habilidoso e indus¬ trioso; o rei é maometano, mui .poderoso e temido, e cha- ma-se o Melique de Chaúl. É vassalo de Grão Mogor, como os outros seus vizinhos. Tôda esta costa é mui rica e salubre, com mui bons portos. Vive-se ali mui barato e a maior parte dos habitantes são gentios e idólatras. Este rei tem grande número de elefantes; e quando come manda vir ante si muitas mulheres formosas, que cantam e tan¬ gem instrumentos; e outras tomam uma peça de tafetá de côres, e a rasgam em pedaços tão pequenos que para nada podem servir, e então os que estão presentes leva cada um seu pedaço, e o põe em forma de condecoração. Depois dêstes prazeres, faz el-rei sair tôda a gente e fica em tal contemplação da vaidade e incerteza da vida, que sôbre isso adormece. Todos êstes reis da índia, vizinhos do Mogor, e que lhe não podem resistir, não desestimam de ser seus vassalos, e com isso se hão por mais fortes, e são mais honrados entre os seus vizinhos. Abaixo de Chaúl, para a banda de Goa, há ainda uma boa cidade e pôrto, chamado D abai, onde os portugueses só têm um feitor; e dali vêm muitas comodidades a Goa. Desde Goa até ao Comorim, que é a costa do Mala- bar, há muitas fortalezas, como Onor, que está aos catorze graus do norte, depois Barcelor a treze graus, Mangalor a doze, Cananor a onze, Cranganor a dez; depois Cochim que está a oito graus; e ainda depois Coulâo a sete. E todos êstes lugares são do domínio dos portugueses, que têm nêles fortalezas, e tôda esta costa bastece Goa de pimenta e especiarias. No que toca a Cochim e Calecute já falei atrás assaz largamente. E quando eu parti de Goa para recolher à pátria, um rei vizinho havia pôsto cêrco por terra a uma das fortalezas dos portugueses, os quais aprestavam uma armada para a socorrer; e não sei o que depois sucedeu. Mas antes de concluir êste capítulo direi que quando eu estava na índia houve um grande navio de um dos reis desta costa, que é o de Tanor, o qual navio veio carre¬ gado de arroz às ilhas de Maldiva, quando eu lá estava; e tendo ido o mesmo navio ao Achém a fazer veniaga, e
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 195 travado ali amizade com os holandeses, que tendo em outro tempo surgido em Tanor, haviam já conhecimento daquele rei, foi feito concêrto entre o capitão e principais do navio e os holandeses, que êstes poderiam traficar livre¬ mente em Tanor, onde enviariam dois feitores com fazen¬ das e um presente para o rei no seu navio, o que foi aceito e se embarcaram neste navio dois holandeses com muita fazenda e o presente, que foi bem recebido pelo rei; mas todavia com grande deshonra sua entre todos os outros reis, senhores e mercadores da índia, porque se há por certo que êle mandou dar aviso a Cochim de como êstes dois holandeses ali estavam, e que se os portugueses os viessem requerer, êle lhos entregaria, como malvada e pèrfidamente fêz. Mas por colorar sua traição, e não se desconfiar que êle era o motor dêste negócio, assim por não perder a sua reputação entre os outros reis naires, de cuja casta era, como por temor de ter guerra com os holandeses e seus amigos, encomendou aos de Cochim, que está a vinte léguas dali (porque Tanor é entre Ca- lecute e Cochim), que viessem com poder bastante, para dizer que fôra constrangido pela fôrça. Em suma, êstes holandeses foram assim entregues com sua fazenda, e le¬ vados a Cochim, onde ouvi dizer que foram enforcados depois. O rei de Calecute sempre foi inimigo daquele rei, que segue as partes do de Cochim. Quando os holandeses por ali passam, a desforra que tiram é dar muita surriada de artilharia nas terras dêste rei, porque não puderam mais ter outra satisfação. Eis o que eu pude notar dos diversos países, assim da costa de África como da índia, enquanto andei com os portugueses, que têm de tudo isto mui particular conheci¬ mento por razão do que ali possuem e do trato ordinário que fazem em todo o resto, que não é do seu domínio.
  • 196 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD CAPÍTULO XX MUITAS PRÊSAS DE NAVIOS PORTUGUESES E OUTRAS COISAS SUCEDIDAS NA ÍNDIA, ENQUANTO O AUTOR SE DETEVE EM GOA TENDO voltado a Goa, de minha viagem a Malaca e à Sonda, aii me detive por espaço de seis meses a passar o inverno. Mas antes de referir o meu em¬ barque para Portugal, direi certas coisas notáveis que sucederam na índia enquanto lá estive. Primeiramente farei menção de um recontro que houve entre uns holan¬ deses que vinham à índia, e um grande navio português que vinha de Ormuz para Goa. Fazia grande calmaria, o que foi causa de os holandeses não poderem tão pronta¬ mente entrar êste navio, que êles julgavam já ter na mão, ou pelo menos logo que viesse vento; mas sobrevindo a noite, os portugueses lançaram ao mar dois batéis, onde se salvaram, levando consigo o mais precioso do navio, como ouro, prata em moeda de larins, muitas pérolas orientais e outras riquezas; de sorte que quando os holan¬ deses foram acometer o navio, não acharam resistência alguma, porque todos os portugueses se haviam pôsto em salvo, excepto um mercador velho, a quem êles não quise¬ ram permitir que embarcasse a fazenda que lhe pertencia, e êle, vendo isto, lhes disse que pouco lhe importava morrer, porquanto perdia tôda a sua fazenda. E, assim, mais quis esperar os holandeses, que ficaram mui indigna¬ dos de se verem privados de uma tão boa prêsa, roubaram o resto que havia, e queimaram o navio, em que iam mui¬ tos cavalos da Pérsia e Ormuz, e grande carga de doces, como conservas, tâmaras e passas de uvas, que são como as nossas passas de Damasco, porque as mais excelentes conservas de marmelo, que os portugueses chamam mar¬ melada e nós costignats, vêm da Pérsia e Ormuz. Não se pode avaliar quanto dano tiveram na perda dêste navio, que todavia não foi o único, porque depois dêle muitos outros foram queimados. De outra vez, um grande navio de Cochim pertencente aos portugueses, e carregado de mercadorias de Bengala, donde vinha, foi encontrado por alguns paraus ou galeotas de corsários malabares, que o quiseram acometer, e vendo
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 197 que não eram assaz fortes para o entrar, o deixaram, bem pesarosos de lhes falhar o intento; mas a fortuna dêles e a desdita dos portugueses quis que no caminho encontrassem um navio holandês, a quem salvaram; e deram aviso ao capitão de andar naquelas paragens o tal navio português, oferecendo-se-lhe a mostrar-lhes onde êle estava e ajudar- -lho a tomar, o que o capitão holandês aceitou, e ao primeiro tiro os portugueses se renderam. Os malabares queriam matar tudo, mas os holandeses o atalharam. Depois de dado o primeiro saco pelos malabares, a saber, do fato e mercadorias leves, que vão no convés e e na coberta somente, disseram que pela sua parte não pretendiam mais nada do resto da carga, mas os holande¬ ses lhes replicaram que êles lhes davam o terço de tudo o que aí houvesse; o que assim se fêz; retendo contudo os holandeses o navio, do qual se fêz presente ao rei de Ta- nor. Mas o pior foi que deixaram sete pobres cristãos cativos entre as mãos daqueles malabares, a quem o ca¬ pitão holandês os deu para os pôrem em resgate, ao que êles se obrigaram e contudo mataram um dêles. O capi¬ tão do navio era um dos sete e os malabares trataram a todos com grande crueza. Depois disto houve grande disputa entre dois cabos principais dêstes malabares, por razão de terem os holandeses dado duas peças de artilha¬ ria do mesmo navio a um chamado Marcare, que deve ser a maior pessoa entre aquela gente; mas o capitão das ga¬ lés, disse que isto lhe pertencia a êle e era devido a suas galés, que se haviam arriscado nesta facção, o que os pôs a ambos em grande conflito, e para os apaziguar espera- va-se todos os dias a vinda do rei de Calecute a uma de suas terras. Por via disto aquêles dois cabos andavam pelas ruas mui bem acompanhados e estavam quatro léguas afastados um do outro, com uma cidade entre meio de am¬ bos. Era êste navio o que estava nas ilhas de Maldiva quando nós ali demos à costa. Um ano depois, mais ou menos, antes que nós partís- simos de Goa, foi um navio inglês ao rio de Surrate e Cam¬ baia, a fazer veniaga; e um fidalgo que nêle vinha saiu em terra e foi da parte de el-rei de Inglaterra em forma de em¬ baixador ao Grão Mogor, onde dizem que foi bem rece¬ bido. E porquanto os navios grandes não podem che¬ gar-se às cidades e terra de Cambaia e Surrate, onde êste era vindo para tratar em anil ou índigo, que serve para tin-
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 198 gir os panos de azul, quis a sua desaventura que envias¬ sem a terra dois batéis carregados de mercadorias, com dezassete homens; mas entre a terra e o navio se meteram de permeio muitas galeotas dos portugueses, que foram cortar o passo àquêles dois batéis, os quais estavam tão longe que a artilharia do navio lhes não podia acudir, e assim foram tomados e levados a Goa por D. Fernando da Silva de Meneses, capitão-mor da armada do norte, o qual depois embarcou no mesmo navio, em que eu vim a Por¬ tugal e me fêz muitas galantarias, como adiante direi. Estes dezassete ingleses ficaram presos, e dentro em pouco tempo restavam só seis ou sete, porque o resto morreu. Quanto ao seu navio, levou âncoras logo que êstes homens foram apanhados e foi-se na derrota do Áchém. Haviam partido de Inglaterra dois navios juntamente, um dos quais tinha ido em direitura ao Achém e o outro era êste que veio a Cambaia (‘). Uns seis meses antes do meu embarque outro navio inglês, que também vinha comerciar às índias orientais, estando na costa de Melinde perto de Mombaça, enviou o seu batel às ilhas de Zanzibar a sondar e reconhecer a costa, mas sendo surpreendido pela gente da terra, os por¬ tugueses, que fingiam andar pescando, mataram nove ou dez homens do batel. Vi chegar um dêstes presos a Goa, o qual tinha aspecto de pessoa principal, como de cabo maior. Esteve muito tempo prêso e queriam metê-lo em processo, por ter sido apanhado sondando. Dizia êle que ihe tinham matado um seu primo a sangue frio, e depois lhe haviam pôsto a cabeça na ponta de uma lança, em sinal de troféu. O que o pôs a êle em perigo foi ter sido apanhado com a sonda na mão, que é uma coisa mui arris¬ cada na costa dos portugueses. Enfim, embarcou em uma das naus da mesma viagem em que eu vim. Quatro meses depois o mesmo navio inglês, vindo de Surrate para ir ao Achém (2), estando na altura de (1) Êste é sem dúvida o navio Hector, cujo capitão Hawkins foi ao Grão Mogor por embaixador de el rei de Inglaterra, como jã se disse no Capitulo antecedente. (Veja-se The English in Western índia, pãg. 8 e seguintes).- N. do T. (*) O mesmo navio, diz o autor; mas não sabemos a que navio se refere; pois nem nos parece que possa ser o Hector, nem ainda o outro, que andava na costa de Melinde dois meses antes. — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 199 Chaúl, sessenta léguas ao mar desta costa, que é a das terras do Grão Mogor, que são amigos dos ingleses, foi dar de noite nuns baixos e cachopos, onde naufragou e se perdeu; mas a gente teve tempo de lançar ao mar os seus dois batéis, e nêles se embarcaram perto de oitenta pes¬ soas que eram, com todo o seu dinheiro, e o mais precioso que tinham, e ganharam a terra do Grão Mogor para as bandas de Surrate e Cambaia, onde foram mui bem rece¬ bidos por meio de muito dinheiro que deram; e tomaram a resolução de ir à côrte do Mogor, e dali recolher por terra pela Tartária, o que fizeram, tomando passaportes daquele rei, que também lhes mandou dar dinheiro, cavalos, armas, búfalos e bois para os levar a êles e ao seu fato e provi¬ mentos, e assim partiram. De entre êles houve uns quinze que não quiseram acompanhar os outros; e ali ficaram à espera que Deus lhes deparasse alguma outra ocasião. Havia na côrte do Mogor um padre jesuíta, que se familiarizou com êles, sem embargo de serem protestantes. Era o tempo em que a grande frota, a que chamam cáfila, ia de Surrate e Cambaia para Goa. Ora êstes ingleses tinham muito dinheiro, e aquêle padre jesuíta tanto fêz que alcançou seguro para quatro principais de entre êles poderem ir para Goa, e ali morar e viver sem lhes ser feito nojo algum. Depois, êstes ingleses embarcaram para recolher à Europa numa das naus da nossa viagem. E quando estávamos prestes a partir, chegou um dos outros ingle¬ ses que haviam tomado o caminho por terra, e nos disse que por tôdas as terras do Grão Mogor, que se estendiam muito ao longe, não lhes foi feito mal algum por virtude do passaporte que dêle levavam, e que tomavam língua cada dia mediante bom pagamento; mas que quando foram entrados mui avante na grande Tartária, lhes foi impossível prosseguir seu caminho, porque foram assaltados e desba¬ ratados, de sorte que não ficou a têrça parte dêles, que se viu obrigada a retroceder para o mesmo lugar donde haviam partido; e não se sabe o que depois foi feito dêles. Êstes ingleses, que estavam em Goa, embarcaram-se depois todos connosco (l). (*) Philip Anderson na sua obra The English in Western Índia, págs. 8 e 9, extracta de Pyrard êstes sucessos relativos aos ingleses, mas mui resumida e inexactamente. Entre outras inexactidões, apontaremos uma.
  • 200 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD CAPÍTULO XXI EMBARQUE DO AUTOR EM GOA ESTADO DAS ÍNDIAS NAQUELE TEMPO. PRISÃO DO AUTOR E SbU LIVRAMENTO. CHEGADA DE QUATRO NAUS E OUTRAS COISAS A ÊSTE INTENTO TENDO, pois, passado o inverno em Goa, depois de recolher da Sonda, quando voltou o bom tempo, tomei a resolução de partir e embarcar-me para regressar à pátria. O estado de Goa quando de lá parti, era como se segue. Fazia as vezes de vice-rei o arcebispo, ao qual o vice-rei D. Martim Afonso de Castro, que morreu em Malaca, tinha deixado por governador em sua ausência, e neste cargo governou três anos, porque aquêles que nêle são postos pelos vice-reis ou por eleição, são chamados simplesmente governadores da índia (*), como era êste que todavia tinha o govêrno supremo na ausência do outro, e governou mui avisadamente. Mas os inimigos dos portu¬ gueses, como malabares, holandeses e outros, tomaram maior atrevimento, vendo que somente tinham contra si um eclesiástico, e faziam todos os dias correrias e prêsas até nas barras e portos dos portugueses. Êste arcebispo D. Fr. Aleixo de Meneses não teria governado tanto tempo, se não se estivesse à espera de novo vice-rei vindo de Portugal, e de feito el-rei de Espa¬ nha tendo tido novas da morte do outro, enviava para lhe suceder ao Conde da Feira, o qual (como eu já disse em outro lugar) morreu na costa de Guiné, pelo que houve ajuntamento geral em Goa da nobreza, clero e povo, para Falando destes últimos ingleses, que, dando à costa, se salvaram nos batéis, diz Pyrard: mais ils eurent temps de tirer leurs deux bateaux, et de s'embarquer dedans environ quatrk-vingt qu’ ils estoient &;e Anderson escreve: The crew, twenty four in number, having contrived to reach the shore near Surate & De sorte que do quatre vingt de Pyrard lèz Anderson twenty-four, isto é, de oitenta fez vinte e quatro; com grande discrédito de sua erudição, e com grave perturbação da ordem e sentido da história que a ninguém é dado alterar. N do T. (*) Quando o autor saiu de Goa governava o vice rei Rui Lourenço de Tãvora. Quando éle chegou a Goa é que governava o arcebispo, se¬ gundo éle mesmo jã tem dito em outros lugares, e é conforme com a ver¬ dade. Veja-se a pãg. 9 déste vol. a Nota (>) e pãg 60 a Nota (*).-N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 201 se determinar o que se devia fazer, e foi resoluto que o arcebispo sairia do cargo, e se elegesse André Furtado de Mendonça, o maior e mais famoso capitão que havia entre êles (l). Estava na índia havia trinta anos, e nunca tinha querido governos, mas somente ser capitão-mor das arma¬ das; e era mui liberal para os soldados. Foi pois eleito (2), e recebido com as mesmas cerimónias, com que o são os que vêm de Portugal, e começou a logo a reformar o Estado, e a pôr tudo em boa ordem com provisões suas. Todos os reis da índia folgaram muito de que êle fôsse governador, e lhe enviaram embaixadores e presentes. Aprestou muitas armadas e fortificou muitas fortalezas; em suma, êste fidalgo era amado de Deus, do rei e do povo, e semelhantemente dos capitãos e soldados, mas não da nobreza, porque não era ladrão nem ambicioso e não era afeiçoado a quem roubava a el-rei. Era homem solteiro. Em menos de três meses de govêrno aprestou muitas armadas para enviar a tôda a parte onde era mister e fêz mais que outros em muitos anos. Êste governador tinha um sobrinho chamado D. Diogo de Mendonça, que estava nomeado capitão-mor da armada que se aprestava para o norte, e era um dos quatro fidal¬ gos de que em outro lugar falei, que davam mesas aos soldados pobres neste inverno. Porque de inverno traba¬ lha-se para pôr as armadas de vêrga de alto no princípio do verão. Durante o inverno em Goa, eu e os meus com¬ panheiros íamos comer como os portugueses a casa dêste fidalgo, que nos convidava a isso, e fazia tenção de nos le¬ var consigo à guerra e eu pela minha parte havia prometido ir em sua companhia. Mas o vice-rei tomou a resolu¬ ção de nos mandar meter a todos em prisão com alguns ingleses, que também ali estavam, sob pretexto de que í1) Neste parágrafo comete o autor certas inexactidóes, que cumpre corrigir. O arcebispo D. Fr. Aleixo de Menezes ficou governando o Estado na ausência do vice-rei D. Martim Afonso de Castro, quando na monção de 1606 foi ã empresa de Malaca, onde morreu Pela morte dêste, abertas as vias de sucessão, saiu nomeado governador o mesmo arcebispo, que ficou no govêrno atê ser sabida em Goa a morte do Conde da Feira; e abertas então as novas vias de sucessão a 27 de Maio de 1609. saiu nelas nomeado André Furtado de Mendonça; e não por eleição. Vejam-se a pág. 60 dêste vol. as Notas (•) e (*). — N. do T. (8) Veja-se a Nota antecedente — N. do T.
  • 202 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD nós tínhamos lá ido por espias, e por dar aviso de tudo, e estar próxima a estação em que os holandeses tinham por costume vir surgir na barra de Goa. O mesmo fêz a todos os outros estrangeiros, excepto àquêles que eram vindos à índia nas naus de Portugal. De sorte que foi mister que os padres jesuítas tomassem a seu cargo o nosso livramento e se juntassem quatro ou cinco de entre êles, a saber o pai dos cristãos, chamado o padre Gaspar Alemão, um padre inglês, chamado Tomás Estevão (l), os padres João de Cenes, Lorêno, de Verdun; Nicolau Tri- gaut, Wallon, de Douay, e o bom padre Estêvão da Cruz, francês, de Rouen, os quais todos juntos tanto trabalharam que alcançaram a nossa soltura, depois de havermos es¬ tado presos perto de três semanas. E na verdade êstes bons padres bem desejavam restituir-nos à pátria, pois lhes dávamos lá tanta moléstia e nos assistiram sempre em tudo como a seus próprios irmãos. Mas o que principalmente nos consolou e que causou tristeza e pezar a todo o povo de Goa foi que no fim de três meses de govêrno daquele governador, chegou novo vice-rei, chamado Rui Lourenço de Távora, que achou prestes tudo quanto o outro se havia afadigado a pôr em ordem, e assim foi êle quem tirou tôda a honra e proveito, dando os cargos a quem bem lhe aprouve. Havia partido de Portugal extraordinàriamente antes da armada das naus de viagem, e dilatou-se muito tempo a invernar em Mo¬ çambique à espera de monção. O Estado da índia tinha mandado requerer a el-rei de Espanha que desse o título de vice-rei a André Furtado, o que o rei de boa vontade outorgara, mas o outro era partido de Portugal antes de chegarem a Espanha êstes requerimentos de Goa (2). (*) Êste Padre foi o primeiro inglês que passou à Índia, e o primeiro europeu que reduziu a escrito as regras gramaticais da lingua canarina ou concani A existência e as acçóes dèste homem notável estavam ignoradas, até nós coligirmos as noticias que délr pudemos obter e as publicarmos num artigo especial, que saiu no ArchiVO Universal, jornal de Lisboa, n.° 13, 4 ° vol., Janeiro de 1S61. — N. do T. (*) Não nos parece que houvesse da parte de el-rei muita vontade de nomear vice-rei a André Furtado; pois se assim fôsse, não se pode explicar a razão por que se não deu essa nomeação. Ninguém melhor que el-rei devia saber que sendo êle nomeado Governador nas primeiras vias de sucessão do Conde da Feira, devia estar actualmente de posse do go- vérno da Índia, quando se féz a nomeação de Rui Lourenço de Tãvora. Donde se vê, claramente, que el-rei muito de caso pensado preferiu para o
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 203 Dois meses depois da chegada daquele vice-rei, che¬ garam a Goa quatro grandes naus de viagem, cada uma do porte de duas mi! toneladas pouco mais ou menos, de que era capitão-mor D. Manuel de Meneses. Haviam saído de Lisboa cinco, mas não se sabia o que era feito da outra, por causa das tormentas, de que tinham sido acossados no cabo da Boa-Esperança. Em cada nau se tinham embarcado até mil pessoas, assim soldados como marinheiros, mercadores e fidalgos; e quando chegaram a Goa, não havia mais de trezentas em cada uma, e dessa mesma gente metade estava enfêrma por causa das grandes calmas, fadigas e necessidade de água, que haviam padecido no mar, por terem andado oito meses sem tomar terra. Trouxeram um alvará de el-rei de Espanha defendendo ao vice-rei que permitisse que qualquer francês, holandês ou inglês se detivesse na índia, com ordem de os fazer embarcar para se recolherem à Europa, sob pena de morte, se algum ali houvesse, porquanto não traziam outro intento, salvo espiar e tomar conhecimento da terra. Isto foi causa de que nós suplicássemos àquêles bons padres jesuítas que impetrassem do vice-rei licença de nos em¬ barcarmos para recolher à Europa, e dar-nos de que viver na viagem, porque nem aos próprios portugueses é permi¬ tido embarcar-se sem licença. O que fàcilmente obtive¬ mos, atento o expresso mandado que o vice-rei tivera de el-rei de Espanha para assim o fazer. Mas era mister ter a licença por escrito, e assinada da mão do vice-rei e isto é o que não era fácil de obter; e ainda menos ter os mantimentos. Todavia os capitães de Goa me queriam levar consigo à China e ao Japão e outros a Moçambique e Sofala; mas aquêles bons padres nos aconselharam que regressássemos à pátria e deixássemos aquela gente, que por fim nos pregariam alguma má peça. De sorte que nos levaram ante o vice-rei, a nós, os três franceses, e êle ficou mui espantado de saber quem nós éramos, dizendo que nunca em tempo algum era vindo navio francês às índias orientais; todavia sendo informado do modo como nós tínhamos vindo e da diuturnidade do tempo que ali cargo de vice-rei Rui Lourenço a André Furtado. Talvez, porém, que fôssem de Goa os requerimentos de que fala Pyrard, em abono de André Furtado. — N. do T.
  • 204 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD nos havíamos dilatado, prometeu dar-nos a licença e mantimentos para a viagem, quando esta estivesse prestes. Por espaço de quatro meses se estiveram concer¬ tando as naus, e neste meio tempo se enviou uma armada de galeotas para dar guarda aos navios que eram idos a Cananor, Mangalor, Barcelor e Onor na costa do Malabar ao sul de Goa, a trazerem pimenta para a carga das naus. Porque o rei de Cochim não tinha querido dar a sua pimenta, salvo se lhe enviassem lá as próprias naus a recebê-la. E cumpre observar que só o rei de Espanha pode haver e comprar pimenta; porque os mercadores não podem comprar nem uma libra, e não ousariam navegar um só grão dela; mas em tôdas as outras mercadorias da índia podem os mercadores traficar livremente. Por isso, el-rei reserva em cada uma das naus o lugar de quinhentas tone¬ ladas de pimenta; e o mais é para a fazenda dos merca¬ dores e marinheiros, que não pagam frete, mas somente em Lisboa trinta por cento. Chegados a Goa aquêles dez navios com a pimenta, foram carregadas as naus e prestes para a torna-viagem a Portugal, das quais foi por cabo principal e capitão-mor André Furtado de Men¬ donça, que havia três meses que tinha saído do cargo de governador. Tivemos pois a licença do vice-rei, mas não nos deu mantimentos como nos prometera e somente se ordenava no nosso passaporte aos oficiais do navio que nos deixas¬ sem embarcar a nós, e ao nosso fato e matalotagem, que é o mantimento que cada um leva; e que nos dessem uma ração de biscoito e água, como se dá aos marinheiros. Porque, segundo já disse, el-rei dá tôdas estas comodida¬ des quando se vai para a índia, mas na torna-viagem não dá nada, senão aos oficiais de mar, a saber, biscoito para tôda a viagem e outra coisa não; e isto se faz de caso pensado, com temor de que se se dessem mantimentos na torna-viagem, como se dão à ida, a maior parte da gente se viria embora, e assim são obrigados a ficar na índia. Enquanto pois se carregavam as naus cada um apa¬ relhava a sua matalotagem; mas deve-se notar que quando um vice-rei, arcebispo, ou outro grande senhor passa de Goa a Portugal, todos os soldados pobres, e outros, folgam com isso, porque êstes grandes prometem sustentar um certo número de homens, como cem, por exemplo, mais ou
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 205 menos. Ora o arcebispo de Goa fazia tenção de se embar¬ car em uma das naus, mas depois tomou outro acordo, e ficou ainda em Goa aquêle ano. Mas quando se soube que André Furtado devia recolher-se, cada um se foi a êle para ser pôsto no seu rol, porque êle tinha mandado meter mantimento para perto de duzentas pessoas com os seus servidores. Desconfiava-se que êste fidalgo estava empe¬ çonhado, porque muito tempo havia que estava enfêrmo, e na índia dão-se venenos lentos, e que duram quanto se quere. Fizemos diligência por nos embarcarmos na sua nau, mas não houve meio de o obter, porque o nosso passaporte trazia o nome de outra embarcação; e isso foi a nossa salva¬ ção, pôsto que nesta viagem tenhamos padecido tudo quanto se pode dizer de mal e necessidades. Houve quatro ingleses que se embarcaram com êle, vencendo as maiores dificulda¬ des do mundo. Porque nós estávamos repartidos a quatro e quatro, entre franceses, ingleses e holandeses. Mas aquêles pobres ingleses ficaram bem espantados de lhes serem lançados ferros aos pés no mesmo ponto em que foram embarcados na nau. E ainda todos os estrangeiros que se embarcaram nas outras três naus, que saíram antes de nós, sendo chegados a Lisboa, foram todos metidos em prisão; mas nós fomos mais felizes no meio dos males que padecemos. A nau em que se embarcou André Furtado chamava-se Nossa Senhora da Penha de França, o mesmo nome que tem uma igreja de Lisboa. Foi a primeira que carregou e ficou prestes, e saiu a 26 de Dezembro de 1609. Quando êle partiu, tôda a gente de Goa se carpia.e lastimava, por¬ que havia trinta anos que êle estava na índia, para onde viera mui moço, e onde fizera a guerra mui venturosa¬ mente. Era tão amado do clero, do povo e até dos reis da índia, que todos diziam que nunca houvera vice-rei, nem cabo que fôsse tão grande capitão, tão esforçado, virtuoso e amado, como tinha sido êste Senhor Furtado. Quando êle se foi a embarcar e dar à vela, era a mais bela coisa do mundo ver como todos o iam acompanhar até à barra, e despedir-se dêle em suas manchuas cobertas e feitas em forma de galeota, cheias de tôda a sorte de músicas, refrescos de frutas e presentes. E pôsto que todos mos¬ trassem grande alegria e contentamento, não deixavam todavia de estar tristes e magoados em seus eorações de ver partir êste fidalgo. El-rei de Espanha, desejoso de o
  • 206 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD ver, o mandara chamar (*)• Na despedida prometeu aos moradores de Goa voltar depois de se ter avistado com el-rei (®). Mas não acabou a sua viagem, porque morreu no mar junto das ilhas dos Açores, como eu depois da minha volta soube estando em Espanha. E porque nem tôdas as quatro naus saíram juntas e ao mesmo tempo, por estarem prestes umas primeiro que as outras, foi resoluto que se faria detença na ilha de Santa Helena por espaço de vinte dias, e que passados êles se deixaria uma carta na capela para dar aviso da passagem e partida. A outra nau, chamada Nossa Senhora do Carmo, saiu a 8 de Janeiro de 1610, e nela se embarcou D. Manuel de Menezes, capitão-mor das quatro naus da viagem daquele ano de Portugal à índia. Mas, na torna-viagem, e quando o vice-rei (ou governador) recolhe a Portugal, é êle o capitão-mor da armada. A terceira nau, chamada Nossa Senhora da Piedade, saiu a 15 do dito mês, e nela foi por capitão D. Pedro Coutinho, que saía de capitão de Ormuz. Na mesma nau passou a Portugal o embaixador da Pérsia, que da parte de seu rei ia perante el-rei de Espanha para o incitar a fazer a guerra ao Turco, e levava grandes presentes. Da quarta nau, que é a em que nos mandaram embar¬ car, falarei no capítulo seguinte. CAPÍTULO XXII PARTIDA DE GOA; MODO DOS EMBARQUES; RAÇAO A BORDO; TRATAMENTO DO AUTOR; BICHOS DA INDIA A quarta nau de viagem era chamada Nossa Senhora de Jesus, e nesta nos embarcámos por ordem do vice-rei a 30 de Janeiro. Éramos três franceses e um holandês, que todavia caiu tão gravemente enfêrmo, que se viu obrigado a voltar para terra e ficar em Goa. Havia também (1) O que tinha governado a Índia não podia permanecer nela Esta era a razão por que André Furtado se recolhia, pôsto que Dão se possa duvidar que el rei tivesse desejo de ver o mais famoso capitão da Índia daquela época. — N. do T. (®) André Furtado só podia voltar à Índia como vice-rei, e isso não estava em sua mão promete-Io. — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 207 um flamengo, que passou por grumete, e foi recebendo o sôldo competente. O capitão desta nau chamava-se António Barroso. Embarcámos de noite por causa da maré, o que é mui perigoso por respeito dos ladrões, que então vão esperar os pobres que se vão embarcar com seu fato e mercadorias para os roubar e despojarem, e ainda muitas vezes os aleijam e matam. Estivemos quatro dias a bordo da nau, antes de dar à vela, o que só fizemos a 3 de Fevereiro. E’ coisa admirável como nestas naus, que parecem fortalezas, vai embarcada tanta multidão de gente, e tão grande quantidade de mercadorias. A nossa levava tal carga sôbre o convés, que as mercadorias chegavam a meia altura do mastro; e por fora sôbre os porta-ovéns, que são o ressalto de uma e outra banda, não se via senão mercadorias, mantimentos e ranchos, que são as pequenas cabanas em que os marinheiros e outra gente se metem e as cobrem de peles frescas de bois e vacas; em suma, tudo estava tão empachado, que apenas se podia ali dar um passo. No segundo dia do nosso embarque, estando ainda surtos, e os oficiais da nau em terra, um chamado Manuel Fernandes (que é aquêle que levou uma estocada em Goa, de que ia morrendo, quando foi ver a manceba de um sol¬ dado, como em outro lugar disse (') ), enquanto se traba¬ lhava no arranjo da nau, veio dar-me uma bofetada, dizendo que se nós não queríamos trabalhar, nos lançaria ao mar; e que nós éramos luteranos holandeses. Êste homem tinha na verdade sido maltratado pelos holandeses, como fui informado; e depois, durante a viagem me tratou com muita brandura e civilidade, o que creio que foi depois de saber que nós éramos franceses, pôsto que êles nos abor¬ recem tanto ou mais que a qualquer outra nação. Eu sofri contudo, aquela desatenção com a maior mansidão que me foi possível, temendo que me acontecesse pior, ou que me mandassem desembarcar. Quando o nosso capitão se embarcou, vieram mais de trinta galeotas ou manchuas, ao redor da nossa nau com músicas de tôda a sorte de instrumentos; e as galeotas das armadas davam descargas de arcabuzaria, com salvas de artilharia, e desta forma cada um se despedia de seus (!) A pág. 98 deste volume. - N. do T.
  • 208 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD amigos. Ao mesmo tempo que nós dávamos à vela, saía também a armada que ia à conquista de Cuama entre Sofala e Moçambique. E como se sai da barra de Goa, a doze léguas para o norte, avistam-se umas ilhas áridas, a que pelo seu aspecto os portugueses chamam Ilhéus Queimados, que são rochedos mui perigosos. É a pri¬ meira terra que avistam os navios que vêm de Lisboa para Goa. Ficou detida em Goa uma das quatro naus que vie¬ ram êste ano, porque tendo chegado muito tarde, não coube no tempo concertá-la; e em lugar dela tomou-se outra que havia ficado do ano antecedente. E também não havia pimenta para a sua carga, porque mesmo as outras não tinham para si carga suficiente. Isto redunda em dano dos oficiais do navio, quando chegam muito tarde, porque é mister deterem-se lá um ano, em que nada mais fazem senão despesa; mas por isso são os primeiros que ficam prestes no ano seguinte. Na nossa nau iam ao todo oitocentas pessoas, pouco mais ou menos, entrando os escravos, e quási sessenta mulheres portuguesas e indianas. Iam também dois frades franciscanos, sem licença do arcebispo, nem de seu supe¬ rior, e êstes se haviam embarcado secretamente, e tinham dinheiro para pagar seu gasalhado e comedorias; e até creio que em Goa mesmo o tinham pago ao mestre piloto, que era meeiro na sua matalotagem ou vitualhas. Custa a pas¬ sagem por cada pessoa trezentos pardaus, e é mister pagá- -los adiantados em Goa. Êstes dois frades franciscanos foram presos no Brasil quando nós ali chegámos e enviados a Portugal. À índia vai quem quere, mas não é assim na volta, principalmente para os jesuítas e outros religiosos, se não têm causa legítima. Quando pois estivemos embarcados, ficámos mui es¬ pantados do costume que os portugueses usam em seus navios de Goa a Lisboa, que é não dar à gente do navio senão uma pequena ração de pão e água, como já disse; e nós julgávamos que teríamos uma ração ordinária como em nossos navios; o que nos impediu de fazer o nosso pro¬ vimento, como fàcilmente pudéramos ter feito; e de mais a mais tinham prometido dar-nos mantimentos, de sorte que nos embarcámos desprovidos totalmente dêles além de quatro on cinco dias somente. Como estivemos à vela, no dia seguinte nos apresentámos ao capitão e ao escri¬ vão e lhes mostrámos o nosso passaporte, que já havia-
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 209 mos feito ver na ocasião do embarque aos guardas do navio, que são dois homens postos por el-rei para tomar conta de tudo o que ali entra e sai, assim de homens como de mercadorias. O capitão ficou admirado de saber que nós estávamos no seu navio; porque se pode estar ali cinco e seis meses sem saberem nada uns dos outros; tão gran¬ des são os navios e tanta gente vai nêles; e quando o ca¬ pitão soube de nós que não tínhamos provimento algum de víveres, disse-nos que havíamos sido mui mal avisados em termos aquêle descuido; e ficou mui agastado contra o vice-rei e vedor da fazenda, por ser costume quando al¬ gum se embarca por mandado de el-rei, dar-lhe comedorias à custa do mesmo rei; e chamava-lhes ladrões, porque apesar de tudo não deixariam de lançar em conta a el-rei os nossos mantimentos como se no-los houveram dado; e que se agora nos mandasse dar pão e água seria cercear outro tanto a ração dos marinheiros. Todavia isto lhes fêz ter tanta compaixão de nós que em todo o discurso da via¬ gem foram mui meigos e corteses connosco e foi defendido a todos dizerem-nos ou fazerem-nos alguma coisa desagra¬ dável, o que foi bem observado; mas no que toca ao comer padecemos tudo quanto é possível. E ainda por tão pouco biscoito e água que nos falecia, quis a má ventura que o navio fôsse tão empachado, que era impossível havê-lo para mais de quinze dias a contar do lugar onde estáva¬ mos, de sorte que foram obrigados a tomá-lo emprestado de vários para juntar a nossa ração de um mês, que era pouco mais ou menos trinta libras de biscoito e um barril de água para cada um contendo doze canadas (l); mas o pior era que não tendo nós nm lugar fechado onde guar¬ dássemos êstes provimentos, no-los roubavam de noite, apesar da rigorosa defesa que disso havia sob pena cor¬ poral; e, além disso, quando chovia, não tínhamos meio de os pôr a coberto. Havia ainda uma grande mortificação geral em tôda a nau e era uma espécie de animais semelhantes a besou¬ ros, que êles chamam baratas e que ali há em tal quanti¬ dade, que atormentam e molestam grandemente a todos os que vêm da índia, mas não aos que vão; porque êstes bi¬ chos vêm das índias e quando se matam entre as mãos, lançam o maior fedor do mundo. A nossa nau estava tôda (!) cVingt quatre pintes» — diz o texto original. — N. do T. w II TOI.
  • 210 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD cheia dêles e furam todos os cofres, pipas e outros vasos de pau; o que muitas vezes é causa de se derramar o vi¬ nho e água. Êste bicho come também o biscoito e faznêle grande estrago. O biscoito de que se servem e se fabrica em Goa, é tão alvo como o nosso pão de cabido (l); e para o faze¬ rem tomam o pão mais alvo, cortam-no em quatro fatias e o tornam a meter no forno por duas vezes. Este biscoito é muito gostoso. Tínhamos água, enquanto a houve, tanta como os marinheiros e oficiais da nau; e semelhante¬ mente biscoito; mas no fim de três meses a ração veio a faltar, e às vezes a viagem dura oito e nove meses, mais ou menos. Tudo isto nos fêz padecer muitas amofinações nesta viagem de Goa até à Baía de Todos-os-Santos, onde estivemos seis meses ou perto dêles. Algumas vezes, mas raras, algum homem bemfazejo nos convidava a comer com êle, ou nos mandava alguma coisa. Mas o que é mais raro é o beber, que poucas vezes nos davam, isto é, uma pouca de aguardente, ou vinho de passa. Quanto aos mantimentos, o mal é que são todos salgados, para melhor se conservarem, o que dá maior secura; de sorte que a maior parte das vezes eu não ousava comer por razão da pouca água que tinha por dia, e pelos grandes calores e calmas que fazia. Mas o que ainda torna a água mais escassa é que o principal mantimento é arroz, que é mister cozer em água, o que consome muita. No demais estáva¬ mos medianamente bem, e éramos tratados com assaz de respeito; porque se algum imprudente nos dissesse ou fizesse alguma coisa mal feita, logo sem detença receberia o competente castigo. Logo pois que começámos a navegar, o capitão tomou o nome de todos que estavam na nau; e depois ordenou cabos da guarda, assim de dia como de noite. E de dia principalmente para atalhar que ninguém traga fogo pelo navio, o que é estreitamente defeso, com temor de algum inconveniente; porque no demais a justiça é ali tão rigorosamente observada pelo capitão, que êle pode sem apelação mandar dar tratos; e em causa cível conde¬ nar em cem cruzados definitivamente. (*) Pain de chapitre, que o Dictionaire Universel de Maurice de La Chatre interpreta assim: — Pain qu'on distribuait autrefoís, tous les jours, aux chanoines dans quelques chapitres. — N. do T
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 211 CAPÍTULO XXIII TORNA VIAGEM DO AUTOR; AVISTA SE A ILHA DE DIOGO RODRIGUES; TORMENTA HORRÍVEL; PIEDOSOS ACIDENTES; TERRA DE NATAL; CABO DA BOA-ESPERANÇA; TEMPESTADES E CALMAS NOVE ou dez dias depois de sairmos do pôrto, avistᬠmos três navios à vela que vinham das partes da Arábia e iam para as ilhas de Maldiva, porque estávamos então na altura da cabeça destas ilhas, que é pròximamente a oito graus da linha para a banda do norte. Os portugueses, à vista daqueles navios, tomaram pavor julgando que íôssem holandeses, o que também a nós mesmo dava grande apreensão, por estarmos entre aquela gente, da qual uns diziam que se fôssem holan¬ deses era mister lançarmo-nos ao mar, outros porém com mais piedade diziam que a culpa não era nossa. Os que haviam sido maltratados pelos holandeses e lhes tinham passado pelas mãos, como à maior paríe tinha acontecido, eram os mais fogosos contra nós e dificilmente se podiam aplacar; mas por fim não soubemos que navios eram aquêles; e eu por mim julguei que eram das ilhas de Mal¬ diva e vinham da Arábia ou eram arábios que iam à Sonda, Samatra e Java, com o que os portugueses muito folgaram e nós também. A 15 de Março de 1610, avistámos a ilha de Diogo Rodrigues, que está em altura de vinte graus da linha equi¬ nocial da banda do polo antártico, e quási quarenta léguas apartada da ilha de S. Lourenço para a banda de leste. Avistámo-la ao romper do dia. É deserta. À vista desta ilha tivemos uma mui forte e áspera tormenta, tal que apenas podíamos levar as nossas velas inferiores; o vento era mui contrário e nos impelia com tôda a fôrça para a ilha, de tal sorte que quási que a não podíamos dobrar, o que nos deu grande receio de ali morrermos, segundo parecia, visto serem os mares tão grossos e tormentosos, e o vento tão impetuoso e contrário e nós tão próximos de uma ilha desconhecida, para onde o vento nos impelia. A maior parte dos ovéns, assim do mastro grande como do de avante ou de mezena começavam a romper-se; o que nos punha em grande susto, porque êstes ovéns são os liga-
  • 212 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD gamentos e prisões, que seguram e sustêm o mastro em pé, e sem isso não poderia o mastro permanecer uma hora em pé e firme. Passada a tempestade, que durou o espaço de cinco dias furiosamente, o nosso navio ficou todo aberto; e temendo que ao passar a Terra de Natal e o Cabo da Boa-Esperança sobreviessem outras tormentas, como ordi- nàriamente costuma acontecer nestes lugares, o mestre do navio mandou meter em baixo tôda a artilharia, e também o batel e amarrar o navio com cabos por três parte, a saber: pela pôpa, pelo meio e pela proa. Êstes cabos abarcam o navio todo ao redor pela banda de fora e por baixo da quilha e vêm atar-se depois de duas ou três voltas mui bem ligadas e apertadas com os cabrestantes, de sorte que isto segura e aperta o navio; porque êstes cabos são os a que se amarram as âncoras, com que o navio se segura no surgidouro. Alguns dias depois desta tormenta houve uma dama mestiça da índia, mulher de um fidalgo português, mui bela e de idade de quási trinta anos, que foi acometida de do¬ res de parto, e morreu com a criança e não tiveram outra sepultura senão o mar. Depois disto vi outro piedoso espectáculo de um dos grumetes, que estão de ordinário em cima da gávea do mastro grande, quando fazia grande calma, e que o navio balançava de um lado para o outro, de tal sorte que parecia que se ia virar de baixo para cima, tão grossas eram as vagas, pôsto que não fizesse vento algum; porque aquêle pobre moço caiu inesperada¬ mente de cima abaixo no convés, onde ficou todo partido; e morreu no mesmo instante. Finalmente, ao passar a Terra de Natal não tivemos tormenta alguma, mas só no Cabo da Boa-Esperança, que avistámos a 8 de Abril de 1610. Quando estivemos na altura do Cabo fazia o maior frio do mundo, com muitas neves, gelos e nevoeiros espessos, que nos deram insupor¬ tável fadiga, tanto mais que tendo nós permanecido tão largo tempo na índia, já quási que não sabíamos o que era frio e de mais a mais não tínhamos outro vestido senão de algodão ou de sêda mui leve, sem outra coisa alguma que nos pudesse agasalhar do frio ou da chuva e das ondas, que tão continuadamente e em tão grande abundância nos vinham bater nas costas, que muitas vezes fiquei tão mo¬ lhado como se tivesse saído do fundo do mar; e assim
  • VfAGEM DE FRANCISCO PYRARD 213 tinha de me enxugar com tôda esta frieza no corpo, porque não tinha lugar algum para me pôr a coberto. Mas por outra parte aquecíamos bem a dar à bomba e deitar a água fora do navio e a fazer outros serviços. Aqui padecemos também menos sêde por causa do grande frio e porque a água ao beber-se gelava quási a bôca e dentes, o que nos fêz durar mais a nossa água; mas ser-me-ia impossível contar todos os agastamentos e misérias que padecemos ao passar êste Cabo. Entre outras foi que um dia, estando nós já próximos dêle, tivemos uma tormenta mui áspera e penosa, que nos partiu a nossa vêrga grande de meio a meio, o que nos deu muita lida e trabalho, tanto mais que os portugueses não andam providos de aparelho, materiais e de boa enxárcia e liames, isto é, cordoalha e outros utensílios, como os franceses e holandeses, de sorte que, quando lhes acontece algum acidente em seus navios, ficam bem embaraçados. Durante esta tormenta sobreveio ainda uma grande disputa e bulha, porque tendo-se tomado a resolução de lan¬ çar ao mar tôdas as caixas, fato e mercadorias que estavam de cima, para aliviar o navio e nos salvar do perigo, come¬ çou-se pelas que estavam mais próximas e primeiras que se acharam à mão, o que excitou um tal rumor e tumulto de uns contra os outros, que passaram às pancadas e gol¬ pes de espada, a ponto de que o capitão se viu obrigado a mandar prender muitos e lançar-lhes ferros aos pés. Esta tormenta durou perto de dois meses inteiros, que tanto gastámos a dobrar o cabo, com muitos infortúnios e incon¬ venientes que nos aconteceram. Se desde a hora em que o avistámos nos tivesse continuado o vento favorável por seis horas somente, tê-lo-íamos dobrado felizmente; mas estando tão perto dêle, quis a má ventura que tivéssemos de recuar muito para longe; e assim ficámos até ao último de Maio seguinte sem poder passar por causa destas gran¬ des tormentas e dos ventos contrários, que durante aquêle tempo ali encontrámos. A causa dêste inconveniente foi partirmos de Goa muito tarde, pois o costume é sair sempre no fim de De¬ zembro, ou princípio de Janeiro. E é certo que corremos grande perigo por causa da fúria das tormentas que não havia memória de serem tão grandes e de tão longa dura¬ ção, como dizia um dos nossos pilotos que havia feito mui¬ tas vezes aquela viagem. A nossa vêrga grande partiu-se
  • 214 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD ao meio por duas vezes, as velas romperam-se também mais de trinta vezes, caíram ao mar e afogaram-se três ma¬ rinheiros e dois escravos. O navio foi de tal sorte açou¬ tado do mar e ficou tão aberto, que no resto da viagem não cessaram de trabalhar dia e noite as duas bombas; e ainda assim mal se podia despejar a água que nêle entrava em tal abundância, que não era bastante a esgotá-la tôda a gente do navio, que nisso trabalhava, entrando o capitão. Nesta extremidade, que era sem remédio, o capitão com os fidalgos e mercadores puseram o negócio em conselho e resolveram voltar para a índia, vendo que não podíamos passar o cabo; acrescendo também que é defeso pelo rei de Espanha dilatarem-se nestes mares na diligência de do¬ brar o cabo além de 20 do mês de Maio. Mas os mestres pilotos, marinheiros e outra gente do navio não foram dêste parecer, dizendo que o nosso navio não estava em estado de voltar para trás e tornar a passar por aquela Terra de Natal, onde as tormentas são continuadas; e segundo êste último acordo determinámos esperar e ficar pairando à mercê de Deus. Acresce que é impossível aos navios portu¬ gueses, por sua grandeza, poder portar e surgir no Cabo da Boa-Esperança embora os franceses e os holandeses o possam fazer, por navegarem em navios mais pequenos. Sucedeu-nos ainda outro mui grande inconveniente e foi que estando perto de terra sobreveio calmaria, de sorte que as velas de nada serviam, nem podiam ajudar o navio a amarrar-se. O mar impelia-nos para terra e nos meteu dentro de uma grande enseada, onde chegámos a estar tão perto de terra, que julgávamos não poder já dali sair nem dobrar as duas pontas da enseada e assim não tínhamos outra esperança senão na misericórdia divina e na compai¬ xão da gente da terra. Cada um de nós se aparelhava já para pegar nas suas armas e outras coisas na tenção de ver se ganhava a terra no caso de naufrágio, o que os bár¬ baros, naturais do lugar esperavam na praia com alvoroço, e creio que tôda a composição, que dêles podíamos espe¬ rar, redundaria em sermos comidos por êles, segundo as contas que lhe faziam, a julgarmos por seus modos; e es¬ tava na praia tal multidão dêles que mais não podia ser. Mas neste meio tempo aprouve à bondade divina salvar-nos dêste perigo por meio de um pouco de vento terrenho que se levantou e que nos pôs fora da enseada e assim nos salvou a nós e ao nosso navio.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 215 A passagem dêste cabo é arriscada e perigosa por razão dos ventos, que ordinàriamente ali combatem os navios; e pelas grandes e altas montanhas de rocha viva, que ali se vêem, com grandes pontas e despenhadeiros, que parecem tocar as nuvens com os topes. O primeiro sinal dêste cabo, quando se vem da índia, é verem-se no mar, a trinta ou quarenta léguas dis¬ tante da terra, a maior multidão de lôbos-marinhos, que é possível, os quais marcham em bandos. Vê-se também grande cópia de pássaros brancos como cisnes, com a ponta do rabo e das asas negras, e por isso os portugueses lhes chamam Mangas de veludo. Estes lôbos-marinhos e pássaros são como sentinelas que Deus ali quis pôr, como outrossim as trombas ou juncos, de que já em outro lugar falei. Isto dá grande consolação aos pobres navegantes, porque êstes animais nunca deixam de vir saudar os na¬ vios. E quando se vêem, toma-se logo a sonda e nunca mais se larga enquanto se está à vista do dito cabo. Quando os marinheiros portugueses se sentem próximos dêle, correm logo a aparelhar as suas linhas para a pesca; porque é impossível ver mais peixe do que há neste mar, de tôdas as qualidades e excelente; e, entre outras, há uma espécie a que chamam cavalo, para cuja pesca lançam suas linhas às vezes até oitenta e cem braças de profundidade; e dêstes apanham-se alguns que quatro homens dificultosa¬ mente podem carregar. Este Cabo da Boa-Esperança é chamado o Ledo do mar, por ser êste aqui mui furioso. Este Cabo, pelo menos o das Agulhas, que sai mais ao mar, está a trinta e cinco graus da linha equinocial da banda do polo antártico; e a outra ponta, propriamente chamada o Cabo da Boa-Esperança, está a trinta e quatro e meio. O povo que habita esta costa, e até Moçambique, é mui brutal e grosseiro, bronco quanto pode ser, e sem esperteza alguma, negro e disforme, sem cabelos nem outro algum pêlo na cabeça, e os olhos sempre ramelosos. Cobrem as partes vergonhosas de peles de animais com todo o pêlo; depois cobrem as costas com uma pele inteira, que prendem adiante ao pescoço, deixando os rabos dos animais pendentes, de sorte que de longe se diria que êles têm rabo. As mulheres têm os peitos mui compridos e vestem-se do mesmo modo. Comem carne humana e ani¬ mais crus, entrando intestinos e tripas, sem as lavarem, como fariam os cães. Os homens não têm outras armas
  • 216 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD senão certos dardos agudos com ponta de ferro. Além disso vivem sem lei e sem religião, como bestas feras. Enfim, depois de havermos padecido muitas fadigas no meio de tantas tormentas, prouve a Deus enviar-nos um tão bom vento, que no último dia de Maio de 1610 dobra¬ mos, felizmente, o Cabo e, no seguinte dia, quando nos certificámos de o ter passado, entrámos em esperança de ir a Portugal,e não retroceder para a índia. Porque quando se volta da índia nunca chegam a ter esta esperança sem haver passado o cabo, e antes disso estão sempre arris¬ cados a retroceder;, e semelhantemente acontece aos que vão de Portugal à índia. Naquele dia, pois, em sinal de regozijo, cantou-se uma missa sêca com Te-Deum, em acção de graças a Deus. E no domingo seguinte repre¬ sentou-se uma mui bonita comédia, que se tinha ensaiado e aprendido durante a viagem de Goa até ao cabo, para ser representada quando o houvéssemos passado. O que foi coisa quási impossível e não esperada, porque nunca os navios passam o cabo tão tarde nesta estação quando voltam da índia; e se não viesse aquêle bom vento, teríamos morrido ali sem esperança alguma de, salvação, porque nos era impossível retroceder para a índia, por estar o nosso navio aberto e ser necessário passar a Terra de Natal. Três dias depois, que foi aos 5 de Junho, juntou-se conselho para saber se se devia ir em direitura a Portugal, se havia provimento suficiente de água para o tentar, e se o navio podia aguentar; e, finalmente, depois de muitos pareceres foi resoluto que se arribasse à ilha de Santa- -Helena para refrescar e consertar o navio, porquanto era esta ilha a terra mais próxima; havia vento à pôpa nessa derrota, e apesar de ser afastada do cabo seiscentas lé¬ guas, ficava no caminho. Tomada esta resolução e temendo nós acharmos holandeses naquela ilha, repôs-se em cima tôda a artilharia que se havia metido em baixo, e armou-se o navio. Havia ao todo quarenta peças grossas, de bronze.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 217 CAPÍTULO XXIV ILHA DE SANTA-HELENA; SUA DESCRIÇÃO O QUE A LI NOS SUCEDEU A 25 do mesmo mês de Junho chegámos à ilha de Santa-Helena, onde não achámos outro algum navio, senão somente na capela cartas das outras três naus que tinham passado juntas. Achámos também car¬ tas que deixara uma caravela enviada por el-rei de Espanha, para saber novas nossas, e que tendo perdido a esperança da nossa chegada ali, se havia recolhido. Tendo desembarcado, fiquei muito espantado de ver a capela no estado em que estava, porque quando eu ali passara para a índia, como atrás disse, esta capela estava mui bem ornada de um bom altar e de belas imagens e painéis, e no alto do frontispício tinha uma bela e grande cruz de pedra de cantaria, branca como mármore, e bem fabricada, que os portugueses haviam trazido de Portugal; mas ao tempo da minha torna-viagem tudo havia sido feito pedaços pelos holandeses, que ali passam ordináriamente, em desforra de os portugueses tirarem todos os painéis, imagens, bilhetes e escritos que os ditos holandeses ali tinham deixado, de sorte que uma vez deixaram um bilhete que dizia aos portugueses: «deixai as nossas ima¬ gens e painéis* que nós deixaremos os vossos» mas não o fizeram assim; antes em revindicta uns dos outros tudo tem sido quebrado e destruído, e nem ainda têm poupado a maior parte das árvores. Nós fizemos reformar de novo o altar, e pôr-lhe paramentos; e depois tendo feito aguada, tomado refrescos e consertado o nosso navio o melhor que nos foi possível, no fim de nove dias (l), nos reembarcámos para levar âncoras e dar à vela. Mas antes de sair de Santa-Helena, direi o que pude saber mais particularmente desta ilha na minha volta; por¬ que na nossa primeira passagem não tivemos tanto vagar nem curiosidade de a observar tão bem. Esta ilha está, como já disse, a seiscentas léguas pouco mais ou menos, do Cabo da Boa-Esperança para o ocidente, além da equi- (!) Assim está no original, mas deve ler-se dezanove dias, que é a conta que resulta das datas apontadas pelo autor. — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 218 nocial, quási dezasseis graus. É mui difícil de achar, quando se vai para a índia, e muitos a têm buscado em vão, porque quem vai para o oriente não segue esta der¬ rota, mas só na torna-viagem, de sorte que foi uma grande casualidade havermo-la nós encontrado na nossa primeira Eassagem, e disso se admiravam muito portugueses e olandeses. Esse encontro foi também contra a opinião e pensamento do nosso piloto, porque estando nós mesmo a par dela, o nosso capitão-mor lhe preguntou se êle já ali havia passado alguma vez, e tendo respondido que sim, lhe preguntou então a que pôrto se devia ir surgir; mas não sabendo êle onde estava, acertou de haver ali um moço holandês, seu criado, que soube dar melhor razão dêste negócio, por haver ali de feito estado. Isto pôs então ao nosso capitão-mor em grande desconfiança de que fôra enganado por êste piloto, como depois na ver¬ dade mui bem se descobriu que assim fôra. E todavia aquêle piloto ganhava todos os meses cem escudos de ordenado, mesa franca com o capitão, e todos os dias a sua ração de uma canada de vinho (l) e pão, com seu criado que recebia paga de marinheiro e era também sustentado, além do que êle próprio já havia custado a sustentar durante seis ou sete meses, juntamente com sua mulher, em S. Maló. [O que mostra com quanto resguardo se devem escolher pilotos competentes para uma importante viagem. Mas tornando à ilha de Santa-Helena, o seu pôrto é mui bom e podem chegar-se os navios mui junto de terra e até as naus. Tem esta ilha cinco ou seis léguas de cir¬ cuito; os seus ares são mui bons, as águas mui sàdias e descem das montanhas muitos regatos abundantes que vão entrar no mar. No alto da montanha há grande quantidade de árvores de ébano e de pau rosa. Há ali muitas espé¬ cies de animais, como cabras, vermelhas, pombos bravos, ga outros. Os frutos são limões, ' quantidade. Ao redor, de tôda a ilha pesca-se muitcTpeixe e entre outros uma espécie, que os portugueses chamam cavala, que é da forma dos nossos sargos, o qual se salga avalis, perdizes brancas e inhas da índia, faisões e aranjas e figos em grande I1) Une quarte de vln, escreve Pyrard. Ora uma quarte continha duas pintes, e cada uma destas equivale a mela canada portuguesa; pelo que a quarta i igual a uma canada.-N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 21Ô e seca para servir nas viagens. Há também abundância de enguias do mar e outras muitas espécies. Quando os portugueses chegam a esta ilha, aprestam suas linhas para fazerem uma pesca geral e enquanto uns vão pescar, vão outros à caça nas montanhas e assim não lhes falta carne nem peixe. A carne, porém, não se pode conservar longo tempo no sal, mas é mister comê-la pron¬ tamente e ainda guardá-la das moscas, porque de outra sorte fica logo tôda coberta de bichos. E porque nós não sabíamos isto, tendo deixado postas de carne, para nos servirmos delas no fim de uma ou duas horas, fomos achá-las totalmente cheias de bichos. Quanto ao peixe, êsse guarda-se bem no sal. Tôda a ilha é rodeada de grandes rochedos, em que . o mar bate furiosamente sem cessar; e há concavidades nas quais entrando a água assim com ímpeto, repuxa às vezes para o ar e dura êste repuxo por longo tempo, donde procede que com esta detença e com o bater do sol continuado, se forma sal mui alvo e bom, o qual pôsto que não seja em grande quantidade, é todavia bastante para o uso ordinário. Esta ilha é extremamente pequena, mas de mui grande comodidade para a viagem das índias Orientais e seria mui difícil, quási impossível mesmo, fazê-la, se não houvesse aí a dita ilha. E eu creio que Deus a quis pôr neste lugar, que é quási a meio caminho e no meio do grande oceano, para dar conhecimento da fé a todos aquêles povos índios e mostrar-nos a nós as coisas admi¬ ráveis, que se vêem naquelas regiões tão remotas. E por isso a providência lhe deu a melhor temperatura de ar, de terra e de água, que é possível; que segundo me persuado se não poderá adiar outra tal no resto do mundo, atenta a sua pequenez. Antes de os portugueses irem à índia, não havia nesta ilha gado algum, nem frutos, mas somente algumas águas doces e as árvores que a terra produz naturalmente. A ilha de si é mui sêca, mas chove ali freqilente- mente. As montanhas são mui altas e mui difíceis de subir e se não fôssem as cabras e os porcos, que ali há em grande número e que pisam e trilham os caminhos, seria impossível subi-las e ainda mais descê-las. Vi ali muitas vezes homens tão emaranhados, que bradavam por socorro e, se se lhes não acudisse, não poderiam
  • 220 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD ter dali saído. Faz um calor excessivo nos vales, e no alto das montanhas um frio espantoso por causa dos ven¬ tos frios; de sorte que tínhamos necessidade de pôr-nos abrigados do vento e acender fogo, ainda que então tivés¬ semos o sol quási a prumo sôbre nós. A maior parte das vezes é mister subir de gatinhas e descer de costas escorregando; e sem esta dificuldade não permaneceria ali gado algum, porque todos os navios quando passam toma¬ riam tanto quanto lhes aprouvesse; e agora que ordinària- mente ali vão também os holandeses, êstes extinguiriam tudo, de sorte que hoje só por acaso se acha ali algum fruto, e a maior parte das árvores estão quebradas ou cor¬ tadas; e os navios ao passar, levam os frutos, ainda que estejam em flor, e dizem que antes querem apanhá-los assim, que deixá-los aos holandeses e ingleses, e êstes aos portugueses. Assim esta terra está inteiramente mudada, desde que ali vão outras gentes, além dos portugueses. Era coisa bela e admirável quando ali chegámos, no ano de 1601, em comparação do que achei à torna-viagem, no ano de 1610, por causa da ruína, assim da capela e da cruz, como das árvores e casinhas, de sorte que agora não se pode contar com os frutos da terra. Tinha eu visto que havia uma quantidade prodigiosa de mostarda; agora quási nenhuma. Os portugueses têm costumado deixar ali os seus doentes; e agora os holandeses fazem o mesmo. Dei- xam-se provimentos aos doentes, como biscoito e outras comodidades do navio; e enquanto à carne e peixe, não lhes faltam ali. Os animais estão tão afeitos a isto que, quando vêem chegar os navios, fogem todos para as mon¬ tanhas, e quando sentem que são partidos, voltam para os vales, e entre outros para o da capela, que é o mais belo e vasto; e porque se lhe semeia sempre alguma coisa, vêm ali comer. Os homens que ficam na ilha apanham a caça com esta invenção, que como há ali hortas cercadas de muros, deixam a porta aberta, e depois de os animais estarem dentro, uma pessoa escondida puxa de longe uma corda prêsa na porta e a fecha, e assim apanham quanta caça querem, e soltam o resto. Os doentes ficam ali até virem outros navios que os recebam; e infalivelmente recobram a saúde, tão bons são os ares; e nenhum morre, segundo as informações que colhi. Mas não ousarão dei-
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 221 xar ali mais gente além dos doentes, pelo rei de Espanha o ter defendido expressamente, com temor de que se não fizessem senhores e proprietários da ilha; o que incomo¬ daria muito os pobres navegantes fatigados do mar, que não achariam coisa alguma para se refrescar e restaurar, ou lhe venderiam bem caro o que houvesse, e assim seriam obrigados a deixar ali uma parte dos lucros da sua viagem. Ouvi dizer aos portugueses que uma vez um ermitão havia permanecido ali alguns anos, mas el-rei de Espanha mandou que fôsse recolhido a Portugal, porque fazia um grande tráfico de peles de cabra, que matava em tão grande número, que com o tempo teria destruído tôdas as da ilha. Dizem também que uma vez dois homens e duas mulheres, todos escravos, se escaparam e esconderam nesta ilha, e aí permaneceram largo tempo, sem poder ser descobertos, porque quando viam vir os navios ao longe, iam-se acolher nos lugares mais remotos e inacessíveis; e no discurso do tempo multiplicaram até ao número de vinte e faziam grande destroço, sem que os pudessem apanhar; mas, enfim, foram apanhados; e depois disso não houve mais moradores nesta ilha. Quando ali chegam os navios, tôda a gente vai, uns à caça, outros à pesca, outros a fazer aguada, outros a lavar roupa, colher frutos, ervas, mostarda e outras coisas, cada um para si. Diz-se ali missa todos os dias, e cada um se regala como pode. Todos os que passam escrevem mui gostosamente seus nomes e data de sua passagem, gravando-os na casca das figueiras; o que dura enquanto dura a árvore e as letras crescem até ao comprimento de meio pé. Vêem-se ali nomes escritos dos anos de 1515 e 1520. Houve dois portugueses e dois escravos, com um índio da nossa nau, que tinham feito desenho secretamente de ficar nesta ilha, e até já tinham levado para terra todo o seu fato, e se haviam ido esconder nas montanhas com algum provimento de arcabuzes, munições e linhas de pescar; mas foram descobertos e recolhidos à nau. Partimos, pois, de Santa-Helena, na resolução de ir ao Brasil, aos 14 de Julho do dito ano; e tomando esta derrota tivemos bom vento, que nos levou lá pela graça de Deus; aliás se tivéssemos vento contrário sem dúvida nos perderíamos. Trazíamos o nosso batel a reboque por um cabo, o que é contra os regimentos de el-rei de Espa-
  • 222 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD nha e se não fôra por fazer aguada em Santa-Helena, tê-lo-íamos deixado em Goa; mas o costume é metê-lo no fundo em Santa-Helena, ou rompê-lo, porquanto às vezes o batel é causa da perda do navio, e dá azo aos capitães e principais dos navios de serem poltrões, fiados na espe¬ rança que têm de se salvar nêle, quando virem o navio em perigo. CAPÍTULO XXV PARTIDA DE SANTA-HELENA; ACIDENTE SUCEDIDO AO NAVIO; MERGULHADOR FRANCÊS; CHEGADA AO BRASIL; PERDA DO NAVIO SENDO partidos de Santa-Helena sobreveio-nos um inconveniente, que julgámos seria a nossa perda; porque tendo levado uma das nossas âncoras da banda de terra e querendo levar a outra, quis a má sorte que esta se achasse embaraçada num grosso cabo velho, que estava no fundo do mar desde muito tempo. Este cabo ficara ali dos navios holandeses, segundo se dizia, e fêz escorregar a nossa âncora por êle todo, e todavia nós julgávamos que ela ainda estava amarrada no fundo, o que foi causa do nosso pavor, porque temíamos que o navio estivesse rôto e nos parecia que o não fazer água seria por estarem os rombos cheios de areia; mas o nosso receio era que quando êle saísse ao mar e começasse a trabalhar, os rombos se destapassem e tudo se perdesse. Não podendo pois levar a âncora, com a fôrça que se fazia para a tirar se foi o navio acercando da terra, sem nós darmos fé, até que, estando já mui próximo dela, o capitão reparou nisso, e mandou cortar o cabo a tôda a pressa, largar a âncora por mão e pôr prontamente à vela, o que foi feito sem detença enquanto às velas de mezena e gurupés; mas não pudemos fazer isto tão prestes que no meio tempo o vento, que vinha da banda de terra, não virasse para o mar e nos impelisse para a terra, de sorte que o navio ficou sôbre o costado em pouca água e fundo por espaço de cinco horas, o que nos espantou muito; e crescia a nossa admiração por vermos sair tábuas do fundo do nosso navio da parte de fora, o que nos fazia crer que estávamos perdidos. Contudo o navio foi aliviado das águas doces, que tínhamos tomado na ilha e de outras
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 223 coisas de menor valor; fizemos lançar âncoras mui longe ao mar, para espiar o navio à fôrça de homens e depois de têrmos feito muitas orações a Deus e padecido grandes trabalhos, enfim, por graça do mesmo Senhor, o navio começou a boiar e foi puxado ao mar. Haviam trazido para o pé do mastro grande a imagem de Nossa Senhora de Jesus, cujo nome o navio tinha, e tôda a gente a invocava e lhe rezava. E os frades fran- ciscanos, que iam a bordo, trouxeram também a imagem de S. Francisco e o seu cordão; de sorte que depois de havermos trabalhado muito e aliviado o navio, começámos a recobrar esperança. E houve muitos que disseram ter visto um peixe que não havia deixado o leme, e que, quando foram buscar a imagem e o cordão de S. Fran¬ cisco, logo aquêle peixe se safára, de sorte que muitos acreditaram que isto fôra milagre de S. Francisco, outros diziam que o fôra de Nossa Senhora de Jesus; mas nesta disputa eu creio que isto veio só da mão do Todo-Pode- roso, que nos tinha sob a sua guarda. O que não obstante o navio fazia muita mais água do que era costume o que dava ocasião a duvidar-se se nós devíamos ficar nesta ilha, ou não; e também porque não tinha água doce, nem tonéis para tomar outra. Contudo tendo-nos dilatado ali por espaço de dez dias depois da¬ quele desastre, foi resoluto que nos aventurássemos em ir à Baía de Todos-os-Santos, cidade capital do Brasil, onde tem seu assento o vice-rei português, da qual estávamos afastados quinhentas e cinquenta léguas. Logo que assim foi resoluto, lembrou que não era bom deixar ali uma pequena imagem em vulto do Menino Jesus, que um fidalgo português tinha deixado e doado à capela da ilha; de sorte que todos diziam que a causa do acidente, que nos era acontecido, era que a imagem de Nossa Senhora, que nós levávamos, não queria deixar seu filho após si. Tendo pois deliberado ir buscá-la, foram com a cruz e bandeira, cantando hinos e ladainhas e fi¬ zeram uma procissão ao redor da capela; e depois desta, antes de entrar no navio, fizeram outra procissão em volta dêle no batel; e deixaram somente na dita capela os pai¬ néis de Nossa Senhora e de Santa Helena, com um altar e portas novas, que nós lhe fizemos. Mas tornando ao nosso inconveniente, direi ainda que nos deu assaz de trabalho e foi mister achar um homem
  • 224 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD que soubesse mergulhar bem ; de sorte que o capitão bra¬ dou que se aí houvesse algum que o soubesse e quisesse fazer, lhe daria cem cruzados e uma certidão para haver alguma recompensa de el-rei. Mas não se achava quem tal soubesse, por mais esforço que alguns fizessem pelo con¬ seguir, porque era mister dilatar-se muito debaixo de água, e atravessar por debaixo do navio, a sete ou a oito braças de fundo ou mais e fazia muito frio, porque então o sol es¬ tava no trópico de Câncer, que é o inverno dali. Mas houve um carpinteiro do nosso navio o «Corvo», de Saint Maló, que tinha corrido a mesma fortuna que eu, o qual se arriscou a experimentar, conquanto não julgasse poder levar a coisa avante. O capitão e os principais do navio lhe faziam mui grandes promessas e sôbre isso vendo êle também que se não podia recusar depois de haver dado algumas provas de sua habilidade, foi muitas vezes obser¬ var o navio por baixo a ver se estava rôto; e pôsto que muitas tábuas do fôrro exterior estivessem quebradas e des¬ feitas, das quais até trouxe algumas que só estavam prêsas a um ou dois pregos, julgou que a quilha estava em seu perfeito ser (e é a quilha a mais importante peça do navio), de sorte que todos foram mui ledos de haver achado um tal homem, do qual teriam feito antes muito maior cabedal, se o houveram conhecido. Por derradeiro ficámos persuadidos que Deus nos ha¬ via mandado aquêle infortúnio para atalhar outro maior. Por¬ que se o nosso navio não houvera tocado como tocou, tería¬ mos partido na derrota de Portugal e ido a pique, porque o leme estava despregado, como se conheceu ao observar o navio, porquanto se achou que de nove pregos e gonzos, que o seguram, estavam seis quebrados, ou despregados, e êsses dos mais necessários, de sorte que, à menor tor- menta que nos assaltasse, seríamos perdidos. Êsse leme tinha ficado assim desmantelado por razão das tormentas, que havíamos tido no Cabo da Boa-Esperança. Quando pois se descobriu isto, foi mister desarmá-lo com grande traba¬ lho, o que dificultosamente pudemos fazer com os dois ca¬ brestantes e com tôda a gente do navio, tão pesado era. E por boa fortuna se achou haver no navio muito a ponto gonzos e pregos, porque os portugueses não trazem nem fer¬ reiro, nem serralheiro, como nós fazemos. Quando o leme foi consertado, no fim de seis dias, fêz-se um petitório pelo na¬ vio para se dar alguma coisa ao nosso mergulhador de Saint
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 225 Maló e não se tirou dinheiro algum, mas só mercadorias da índia, como roupas de algodão e canela, que tudo mon¬ tou a doze ou quinze escudos. Mas quando depois estive¬ mos outra vez em perigo no Brasil, foi mister que êle tor¬ nasse a mergulhar para levar cabos ao fundo do mar para rocegar as âncoras e o leme e outros muitos trabalhos, de sorte que o vice-rei lhe deu quinze escudos, e lhe disseram que se êle fôsse a Portugal, teria lá mais de cento e cinqiienta escudos, e que se êle fôsse português, alcançaria mais de trezentos escudos, além de poder obter um cargo em alguma nau da índia. A 8 de Agosto começámos a avistar a terra do Brasil, que é mui branca, e parece como lençóis e toalhas que estão a enxugar, ou antes neve; e por essa razão os portu¬ gueses lhe chamam a Terra dos lençóis. Do lugar donde começámos a avistá-la, era ainda à distância de doze léguas. A 9 do mesmo mês surgimos a quatro léguas pouco mais ou menos fora da entrada daquela baía, na qual não ousámos entrar por não a conhecermos, e o nosso piloto dizer que nunca ali estivera; pelo que enviámos a lancha, guarnecida por sete ou oito homens, a dar aviso ao vice- -rei da nossa chegada e que nos enviasse pilotos para nos guiarem. Enquanto assim estivemos aguardando a volta da lancha, estando surtos, aconteceu por desgraça que a amarra se partiu sendo comida por uma rocha contra a qual roçava no mar, o que foi causa de que o vento que soprava do mar nos ia lançando à costa, e estivemos em grande perigo. O que sendo percebido, e que a nau ia descaindo para a terra, soltaram-se as velas, e assim nos amarámos, à espera da volta da lancha. Vindo a noite, vimos fogos de sinal, que significavam que nos vinham de socorro três caravelas carregadas de refrescos e traziam pilotos para nos guiar; os quais sendo enfim chegados, foi grande o nosso contentamento, tanto mais que havia seis meses inteiros que éramos partidos de Goa, e por essa causa extremamente fatigados do mar. Restavam ainda no navio quinhentas e cinqiienta pessoas, a maior parte das quais estava enfêrma. A 10 do mês, pela manhã, entrámos na baía da banda do norte. Há ali uma mui bela igreja da invocação de Santo António, com grande número de Religiosos, aue sau¬ dámos com descargas da nossa artilharia. A entrada desta II vol. 1»
  • 226 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD baía tem de largura pouco mais ou menos dez léguas; no meio dela há uma pequena ilha de quatro léguas pròxima- mente de circuito, de uma e outra banda da qual podem entrar navios. Nós tomámos da banda do norte, e sendo entrados quási a três léguas dentro, surgimos e saudamos novamente a cidade e o vice-rei a tiros de artilharia; e semelhantemente o vice-rei nos mandou dar uma salva de tôda a sua artilharia e ordenou se fizessem muitos fogos de alegria e artifício. No dia seguinte, 11 do mês, foi resoluto que se che¬ gasse mais o navio para dentro, porque não estávamos ali seguros, assim por causa dos ing eses e holandeses, como pelo risco do tempo. O que fo motivo de levarmos ân¬ coras para nos acercarmos mais da cidade, e estando a nau à vela, o vice-rei, com a nobreza, veio a fazer-nos visita; mas querendo atracar, aconteceu, por má ventura, que a nau tocou num banco de areia, porque esta baía é mui perigosa, por haver nela muitos bancos de areia, o que não pudemos atalhar, pôsto que tivéssemos dois bons pilotos da terra. Vendo nós que não havia meio de salvar o navio, apesar do muito que para isso trabalhámos por espaço de seis horas, assentou-se, para salvar a fazenda e a gente, de cortar o mastro grande. E logo sem detença o vice-rei man¬ dou vir trinta ou quarenta caravelas e outras embarcações nuenas para ao redor da nau, para recolherem a gente e azenda. Sendo assim feito, e as mercadorias pronta¬ mente passadas às caravelas, o navio ficou aliviado, come¬ çou a flutuar, e nós chegámos para debaixo do alcance das artilharias da cidade, que se chama de S. Salvador. Ainda nesta ocasião nos serviu bem o nosso carpinteiro francês. Enviou-se logo a Lisboa uma caravela de aviso a dar conta da nossa chegada e saber o que deveríamos fazer. Enquanto à nau achou-se que já não prestava para nada por razão das grandes fadigas e tormentas que havia sofrido; e por isso foi totalmente descarregada das mercadorias que levava.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 227 CAPÍTULO XXVI DO BRASIL E SUAS SINGULARIDADES, E DO QUE ALI ACONTECEU ENQUANTO O AUTOR LA ESTEVE A Baía de Todos-os-Santos tem de largura cinqUenta ou sessenta léguas, e está situada em altura de treze graus da equinocial da banda do sul. Há nela mui¬ tas ilhotas, entre outras, uma chamada ilha dos fran¬ ceses, porque foram os franceses quem primeiramente des¬ cobriu o Brasil e era ali que êles se recolhiam por sua se¬ gurança e por se livrarem dos cometimentos dos selva¬ gens (l)- Entram nesta baía muitos formosos rios, nave¬ gáveis em batéis e barcos muito pelo sertão dentro, e por êles são conduzidas as comodidades de tôda a espécie àquela terra. A cidade de S. Salvador é um sítio muito alto, no tôpo de uma alta montanha de difícil acesso e que do lado do mar é talhada a pique. Tudo quanto ali se leva ou dali sai, sobe ou desce somente por meio de um certo en¬ genho maravilhoso; e não se usam ali carretas, porque se¬ ria mui difícil e dispendioso, mas por meio daquela máquina custa pouco. Nas fraldas da montanha, em extensão de mais de um quarto de légua, há casas bem fabricadas de uma e outra parte, formando uma bela e grande rua, bem povoada de tôda a sorte de lojas de misteres e artífices. É ali que estão situadas tôdas as tercenas e armazéns de carga e descarga das mercadorias, assim de el-rei como de parti¬ culares. E não se fazem subir à cidade por aquêle enge¬ nho, que disse, as mercadorias, senão à proporção que se distribuem e vendem. Porque para pôr lá em cima uma pipa de vinho custa vinte soldos e outro tanto para a pôr em baixo, de sorte que são quarenta soldos o custo de cada giro; porque quando se leva acima uma pipa ou outra coisa pesada, vem para baixo outra do mesmo pêso ao mesmo tempo e é como os baldes que sobem e descem num poço. (*) Os franceses dizem que o Brasil fôra descoberto pelo seu Vicente Pinson a 20 de Janeiro de 1500, o qual assim antecedera ao português Pe- dralvrez Cabral, que só ali chegou a 24 de Abril do mesmo ano.—AT. do T.
  • 228 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD E esta cidade cercada de muros e bem edificada. E bispado e há nela um colégio de jesuítas, afora os que há nos campos; um convento de franciscanos; um de S. Bento; e um de Nossa Senhora do Carmo; que todos são casas e igrejas bem feitas e bem edificadas. Cada dia se converte ali grande número de pessoas à fé cristã e todavia não são tão firmes na fé como os índios orientais, quando são baptizados, mas ficam sempre assaz volúveis e brutais. Há nesta cidade um hospital, que tem o mesmo regi¬ mento que o de Espanha e de França. Há também uma Misericórdia e uma mui bela igreja catedral ou Sé, onde há um deão e cónegos; mas não há Inquisição, o que é motivo de haver lá tão grande número de cristâos-novos, que são judeus, ou raça de judeus que se fizeram cristãos. Dizia-se então que el-rei de Espanha queria estabelecer ali uma Casa de Inquisição, do que todos êstes judeus estavam mui amedrontados. Enquanto ao mais, os portugueses go¬ vernam-se no Brasil em tudo como em Portugal e não como nas índias orientais. El-rei de Espanha sustenta na cidade de S. Salvador três companhias de infantaria, de cem ho¬ mens cada uma, das quais entra cada dia uma de guarda ao palácio do vice-rei ou governador do Brasil. A costa do Brasil contém quási oitocentas ou novecen- tras léguas. É uma terra mui áspera e bravia, quási tôda coberta de bosques; e até mui perto e em volta das cida¬ des todos êstes bosques são cheios de bugios e monos, que fazem muito dano. A terra produz pouco, e não avonda para sustentar os portugueses; e por isso tôda a sorte de víveres lhe vêm ou de Portugal ou das ilhas dos Açores e Canárias. Assim que se não fôra a grande quantidade de açúcar que se fabrica no Brasil, não have¬ ria meio algum de ali viver. A libra de açúcar não se vende lá por mais de dois soldos e seis dinheiros; e o que nós compramos em França, ou seja de mantimentos ou de coisas de vestir, por cinco soldos, vale no Brasil trinta ou quarenta soldos. A riqueza desta terra é principalmente em açúcares, dos quais, como já disse em outro lugar, os portugueses carregam seus navios. Porque não julgo que haja lugar em todo o mundo, onde se crie açúcar em tanta abun¬ dância como ali. Não se fala em França senão do açúcar da Madeira e da ilha de S. Tomé, mas êste é uma baga¬ tela em comparação do do Brasil, porque na ilha da
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 22Ô Madeira não há mais de sete ou oito engenhos a fazer açúcar, e quatro ou cinco na de S. Tomé. Mas segundo meu próprio conhecimento há, no Brasil, em cento e cin- qílenta léguas de costa, perto de quatrocentos engenhos, e tôda a costa tem bem oitocentas léguas. Todavia o resto da costa não tem tantos como aquelas cento e cin¬ quenta léguas, que se compreendem desde vinte e cinco léguas para cá de Pernambuco, até vinte e cinco léguas para lá da Baía de Todos-os-Santos. Cada um dêstes engenhos ou moinhos rende por ano cem mil arrôbas de açúcar pouco mais ou menos, e a arroba pesa trinta e dois arráteis, e quatro arrôbas fazem um quintal, que pode custar lá quinze francos. Vendem-nos em França êste açúcar por açúcar da Madeira, e é tão bom como êle, mas cá refinam-no e metem-no em fôrma; lá porém é mister par¬ ti-lo e pisá-lo para o meter na caixa, porque aliás estando em pão não se acomodaria na caixa e perder-se-ia mais de metade; e é por esta razão que o refinam depois; mas quem o pudesse trazer em pão, faria muito melhor, porque assim vinha no seu estado natural. Os que o refinam cá, botam-lhe metade de alúmen e cal. O que os portugueses, pois, extraem dêste país, é dinheiro, açúcar, conservas, bálsamo e tabaco, mas não - pau-brasil, que el-rei de Espanha reserva para si, como em outro lugar disse, porque sendo a terra ruim para se habitar, não tira dela rendimento algum; somente os seus rendeiros recolhem todo êste pau e o enviam a estas par¬ tes da Europa. E há-o lá em muita abastança, e ninguém ousaria tratar nèle, porque se fôsse achado num navio pouco ou muito, que não fôsse comprado a el-rei, o navio seria confiscado. Esta terra do Brasil é pois, tão má, que seria impossí¬ vel habitá-la e permanecer aí por muito tempo, se não fôra êste tráfico dos açúcares e do pau; e ainda o açúcar se faz ali com grande fadiga e trabalho. E assim os portu¬ gueses confessam que os franceses a descobriram e habi¬ taram antes dêles, mas que não puderam ali permanecer, porque o país é desagradável e penoso, e lhes dava muita fadiga a êles, que folgam de achar seu comer feito. Mesmo a maior parte dos portugueses, que lá estão, são degredados, falidos ou criminosos. Também quando el-rei de Espanha faz fundar ali alguma cidade, durante sessenta anos não cobra nela direito algum sôbre qual-
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Ô3Ò quer mercadoria que seja, e se venda a retalho na terra. Afora isto, o lugar onde fabricam as suas casas não lhes custa cada, e não pagam dêle nem renda nem fôro. As mercadorias na entrada e na saída não pagam senão três por cento, e tudo o que se cria na terra, assim açúcares como outros frutos, pagam somente o dízimo que el-rei de Espanha alcançou do Papa, porque há ali terras umas ricas e outras pobres, de sorte que haveria assim eclesiásticos uns ricos e outros pobres, ainda que todos tivessem o mesmo cargo; e desta maneira todos êstes eclesiásticos passam igualmente, a saber, cada um segundo o seu grau e cargo, de sorte que nenhum tem motivo de queixa. Nunca vi terra onde o dinheiro seja tão comum, como é nesta do Brasil, e vem do Rio da Prata, que é a quinhen¬ tas léguas desta baía. Não se vê ali moeda miúda, mas sòmente peças de oito, quatro e dois reales e metade destas, que valem cinco soldos; e procuram em Portugal as moedas de cinco soldos e de seis brancos, para as ven¬ der ali por moeda miúda e nisso tiram proveito; porque usam mui pouco outra moeda, afora a de prata. Nesta terra do Brasil os portugueses não têm gente bastante para a povoar e ocupam tôda a costa, onde têm quantidade de cidades, fortalezas e belas casas nobres, até vinte e trinta léguas pelo sertão. Há senhores que possuem grandes territórios e nêles muitos engenhos de açúcar, os quais territórios lhes há dado el-rei de Espanha em recompensa de algum serviço e são erigidos em título de alguma dignidade, como baronia, condado, etc. E êstes senhores dão terras a quem quere ir morar nelas e plantar canas de açúcar, com a condição de mandarem moer estas aos moinhos ou engenhos dos mesmos senhores, pagan¬ do-lhes um tanto. Também dão licença de cortar lenha para o fogo das caldeiras dos engenhos, .pagando-lhes tanto como se a fôssem buscar a outra terra. Êstes colonos edificam alí casas, com jardins e plantações de tôda a sorte de frutos; criam muito gado, aves e outros comestí¬ veis, como cá nas fazendas arrendadas (‘). Plantam arroz, milho grosso e miúdo, raízes de mandioca, batatas e outras semelhantes. Desta maneira o rendimento do Brasil é (■) Metalrles diz o autor; contrato agricola que não tem tèrmo correspondente em português — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 231 mais que suficiente para sustentação de tôdas as guarnições do vice-rei, governadores, capitães, soldados e ministros da justiça; em suma, de tôda a sorte de oficiais de el-rei, sem haver necessidade de enviar dinheiro de Portugal para isso e ainda por cima de tudo el-rei de Espanha tira dali outros muitos proveitos cada ano, assim em pau-brasil, como em outros direitos sôbre os açúcares e outras mer¬ cadorias. Também se faz nêste país grande quantidade de óleo de baleia e especialmente na Baía de Todos-os- -Santos e dêle se faz mui grande tráfico. Assim é êste país o em que se vê mais dinheiro que em outro lugar onde eu tenha estado, e vem todo do Rio da Prata. Os que do Brasil tornam para Portugal, carregam seus navios de açúcares e conservas, assim sêcas como líquidas, tais como de laranjas, limões e outras frutas e principalmente de gengibre verde, do qual há nestas par¬ tes uma maravilhosa abundância; mas é defeso fazê-lo secar e levá-lo assim a Espanha e só pode ser levado em conserva, pelas razões que já em outro lugar disse. Carregam também de tabaco, de que há abundância por tôda a América; e, além de tudo isto, levam grande quanti¬ dade de dinheiro. Depois de haverem estado nove ou dez anos nestas terras, recolhem mui ricos, e há ali, entre outros, muitos cristãos-novos, que são judeus baptizados, que têm de seu o cabedal de sessenta, oitenta e cem mil cruzados e mais; mas êles não fazem grande conta desta gente. Além disso os brasileiros e semelhantemente os por¬ tugueses que ali há, para se manterem (porque o pão é lá mui raro e mui caro e a farinha vai feita de Portugal) fazem certa farinha de uma raiz chamada mandioca, que comem e da qual se alimentam. É gostosa e come-se pisada em migalhas com a carne; parece-se com castanhas piladas. Vivi dela por espaço de seis meses em lugar de pão, assim em terra como no navio no meu regresso, pois não havia a bordo outro biscoito. Esta raiz tem uma estra¬ nha propriedade e é que, comendo-a em pó depois de sêca, é mui sàdia, mas, se pelo contrário a comerem verde, mata. Há-a lá em tão grande quantidade, que se carregam dela navios para levar ao reino de Angola, que é na costa de Guiné, de onde vêm os escravos, que se levam às índias ocidentais. Quanto à carne, a mais comum é a de porco, que é mui boa, e até os médicos a recomendam aos doen¬ tes com preferência à de carneiro, galinha e outras.
  • 232 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Todavia é extremamente cara no Brasil a mantença da vida; pois vale lá a libra de porco dez soldos, a de vaca sete soldos e seis dinheiros, a de carneiro dez sol¬ dos; uma galinha como as nossas vale um escudo. Há muitas galinhas da índia, que vale cada uma dois escudos; um par de ovos cinco soldos; a canada de vinho quarenta soldos. Fazem vinho de cana de açúcar, que é barato, mas só serve aos escravos e naturais da terra. Há muita quantidade de frutas, como laranjas, limões, bananas, côcos e outras. Os portugueses têm belas hortas cheias de boas hor¬ taliças, como alfaces, repolhos, melões, pepinos, rábanos e outras ervas cultivadas. A vinha não produz lá, porque as formigas, que há em grande quantidade, comem o fruto. Dá-se o arroz e o milho, mas só se servem dêste para mantimento dos animais; o que os espanhóis não fazem nas índias ocidentais, porque o misturam com o trigo e fazem dêle pão. Há ali uma boa pesca de baleias e outros peixes; e eu vi muitas vezes matar baleias. Tiram delas azeite em tão grande abundância, que carregam navios. Quanto aos naturais do Brasil, que vivem entre os portu¬ gueses, mantêm-se mais de peixe que de outra coisa; e pouco se ajudam da caça, porque sendo o país cheio de matas e havendo nelas bêstas-feras, não ousam ir ao mato com temor de ser devorados. A terra é mui povoada; os habitantes, de estatura me¬ diana, têm a cabeça grossa, os ombros largos, côr aver¬ melhada. As mulheres são mui bem proporcionadas; tra¬ zem os cabelos compridos e os homens curtos. Não querem ter barbas e as mulheres lhas arrancam. Além disso andam nus como saíram do ventre da mãe; e nus nascem, nus vivem e nus morrem, sem ao menos cobrirem as par¬ tes vergonhosas. Os que servem os portugueses, trazem uma camisa. Não têm nem lã, nem linho, nem sêda; nem tampouco tratam de adquirir algumas destas coisas, por lhes não serem necessárias, atento o seu uso de andar nus. Além disso, tudo entre êles é comum, nem têm terras algumas patrimoniais. Não têm forma alguma de casa¬ mento, mas usam tôda a casta de deshonestidade e são jrincipalmente mui dados à luxúria. Podem ter tantas mu- heres quantas querem e as tomam indiferentemente sem haver respeito ao parentesco; praticando todos os actos
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 233 públicamente e sem vergonha, como se fôssem brutos ani¬ mais. E isto que alcancei àcêrca da gente daquela terra; porque os que vivem junto dos portugueses são mais civi¬ lizados. Não têm templos, nem religião e não adoram Deus algum, nem ídolo. Não mercadejam com pessoa alguma, nem conhecem moeda. São todavia dados à guerra; as suas armas são arcos e flechas; e bastões de pau-brasil feitos em forma de massa, com que se matam e esquarte¬ jam, assando-se e comendo-se uns aos outros, como man¬ jar delicado; e gostam mais da carne da gente branca, que da outra. Ouvi dizer a alguns daqueles, que depois se haviam baptizado, e há dêles grande número convertidos pelos padres jesuítas, que êles tinham comido muitos homens e que o pedaço mais delicado eram os pés e as mãos. Os portugueses não ousam sair da cidade sem armas, com temor de encontrarem êstes selvagens, que andam pelos matos. Êstes povos vivem longo tempo por causa dos bons ares da terra e diz-se que vivem até cento e cinqUenta anos. São por isso mui sàdios e não adoecem fàcilmente; e, se se sentem doentes, êles mesmos se curam tomando o suco de certas ervas, que conhecem ser apropriadas; e não têm médicos nem cirurgiões. Nas terras que ficam em volta desta baía são sujeitos à sífilis, mas não fazem caso dêste mal, porque têm o guaiaco, que prontamente o cura. Há outra moléstia, a que os portugueses chamam Bicho, que causa dor de cabeça e dos membros, ao que, se pronta¬ mente se não acode com remédio, faz-se na via posterior uma úlcera, de que se morre; mas o remédio é, logo que o indivíduo se sente assim, tomar-se um quarto de limão, e meter-se na via até três ou quatro vezes, e com isto cura-se fàcilmente. Criam-se também nos pés uma espécie de bichinhos ou ouções, que engrossam com o tempo e che¬ gam a tomar a grossura da ponta dos dedos, e, se os não tiram, fazem-se grandes úlceras e sobrevém gangrena, e todavia não causa dor alguma. Vi pessoas que haviam perdido os pés; mas o bicho é mui fácil de tirar, e há sinais por onde se conhece; por isso de quatro em quatro dias passam revista aos pés, e tiram-nos. Êstes animais nascem na terra, e pegam-se principalmente aos pés de quem anda descalço, porque êstes ouções saltam como pulgas, e alcançam as pernas das pessoas.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 234 No demais, a coisa que os portugueses fazem mais estimação no Brasil são os escravos da costa de África e das índias orientais, porque não se atrevem a fugir nem a escapar-se, porque a gente da terra os apanharia e os comeria, o que não farão aos da própria terra que, além disso, não são tão aptos para o trabalho como os outros. E coisa mui divertida todos os domingos e dias santos ver ali juntos todos os escravos, homens e mulheres, a dançar e a jogar em público nas praças e ruas, porque naqueles dias não são sujeitos a seus senhores. Mas nada mais direi das singularidades desta terra, assim pelo que já so¬ bre isso tenho dito no capítulo do tráfico dos portugueses nela, como por ser mui conhecida e frequentada dos nossos, que àcêrca dela têm assaz escrito. Só direi que quando nós ali chegámos, todos os por¬ tugueses estavam em grande susto e temor por se dizer que o nosso rei Henrique o Grande aprestava uma armada, a maior parte dos navios da qual se esquipavam em Holanda, para lhes fazer guerra; e o rebate não se limi¬ tava só à Baía de Todos-os-Santos, mas chegava a todos os outros lugares e fortalezas das índias, onde havia vas¬ salos do rei de Espanha; e era coisa admirável a grande estimação que êles faziam do nosso rei, e os grandes lou¬ vores, que lhe davam por seu extremado valor, e outras partes. Mas a nossa má sina quis que no princípio de Setembro chegasse ali uma naveta, partida de Sevilha determinadamente por êsse respeito, que levou a triste e deplorável nova da morte e infeliz caso do nosso bom rei, que Deus perdoe; o que os pôs em segurança, ficando mui sossegados, e até no-lo diziam por modo de mofa, e por nos fazer pirraça; e nós não sabíamos o que sôbre isso devíamos crer nem pensar; mas entre êles havia alguns que davam demonstração de muito sentimento, e os bravos capitães e soldados, e todos os homens de juízo, diziam que era grande pena a perda dêste rei; e que era o mais bravo e valoroso príncipe do mundo. E na verdade os jesuítas, e outros eclesiásticos, em seus sermões e ofícios mandavam fazer oração por êle, e o recomendavam a todo o povo, dizendo que era um rei mui cristão e mui católico. Achei também no Brasil um francês, natural de Nan- tes, chamado Julião Miguel, mercador mui rico e esperto. Estava associado a um português, que tinha, ou por com¬ pra, ou por mercê, obtido licença de pescar baleias, por
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 235 sete anos nesta baía, onde se faz a mais rica pesca de ba¬ leias que há no mundo, de cujo azeite se faz ali mui grande tráfico. Este mercador francês passava por espanhol, e por tal era havido, e era mui bem aceite ao rei de Espa¬ nha, ao qual havia sido enviado como embaixador pelo falecido Monsieur de Mercure no tempo da Liga; e desde então ficou tendo a sua ordinária residência em Bilbau, na Biscaia; e eu julgo que, por ocasião dos bons serviços que havia prestado a êste rei, alcançara esta licença da pesca; porquanto tão longe está isto de ser permitido aos fran¬ ceses, ingleses, holandeses e outros estrangeiros, que até lhes é defeso, sob pena de morte, o navegar naquelas par¬ tes. Faziam, porém, por sua conta êstes dois sócios aquela pesca, que é muito para ver, e de todos os lugares da cidade da banda do mar se disfruta o prazer desta pescaria e apanho das baleias. Um dia entre outros aconteceu que uma destas grandes baleias, vendo que a sua cria estava apanhada, remeteu com tal fúria contra os pescadores e sua barca, que a virou e os lançou ao mar, e salvou assim a cria, e os homens tiveram assaz de trabalho para se sal¬ var. Eu nunca teria acreditado que êste animal tivesse êste bom natural, êste desembaraço e destreza. O pro¬ veito desta pesca só consiste no azeite que dela se tira; porque a carne daquele peixe não se come, salvo quando se apanham alguns pequenos, cuja carne é mui delicada. Para fazer pois esta pesca vêm todos os anos dois navios de Biscaia com alguns biscainhos, que têm fama de ser os primeiros para esta sorte de pesca. Quando nós ali chegámos, um dos dois navios, vindos naquele ano, era partido da baía havia dois meses, e só ali achámos o mais pequeno, em que a maior parte dos homens era de Baiona e de outros lugares das províncias vasconças de França. Travei com êles grande amizade, e freqUentei-os ordinà- riamente. Quanto ao sr. Julião Miguel, era êle domiciliado naquela cidade durante a pesca, e estava ali como um morador natural. Em todos os navios havia um capitão, que coman¬ dava durante a viagem. Ora uma noite, o capitão do navio, que ali ficara, tomou a resolução de levar âncoras, e dar à vela, apesar de não ter mais de meia carga de azeite de baleia. Ausentou-se, pois, secretamente, sem ter guia nem passaporte do vice-rei, o que é coisa contra o regimento, e é punível com confiscação e pena corporal.
  • 236 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD A ocasião disto foi que êie se havia consertado secreta¬ mente com um mercador, que lhe devia vender e entregar grande quantidade de pau vermelho, o que é ali expressa¬ mente defeso, devia ir carregá-lo a duzentas léguas, pouco mais ou menos, da baía para a banda do sul. Mas o vice- -rei tendo tido aviso do caso, mandou logo por terra ordem para tomar o navio, e trazer tôda a gente dêle presa, o que assim se fêz, sendo o navio reconduzido à baía, e o capi¬ tão e os principais metidos em prisão, com ferros aos pés. O navio foi desaparelhado de tôda a sua enxárcia e apa¬ relho, e neste estado ficava quando eu de lá parti. Muitos daqueles presos me deram cartas para eu trazer e fazer entregar a seus parentes e amigos. Achei depois navios de Baiona e de S. João da Luz quando estive em Galiza, cujos homens folgaram muito de ouvir novas dos seus, e de se encarregar das suas cartas. Regalaram-me muito no seu navio, onde dormi uma noite; e foi isto num pôrto de Galiza, chamado Pontevedra. No que toca a Julião Miguel, não foi prêso com os outros, porque se deu por ignorante dos planos do capitão, dizendo que não lhe encomendara nada daquilo. Fêz-nos grandes cortesias e civilidades, e até quando estávamos prestes a embarcar nos fêz presente de alguns mantimentos, como farinha de mandioca, e outras coisas, entre, elas carne de vaca salgada, que vem do Rio da Prata. É im¬ possível ver carne mais gorda, tenra, e mais saborosa que aquela; pois são aquêles bois os mais belos e grandes do mundo; e vêm do Peru. Faz-se grande tráfico dos seus couros, e há tão grande quantidade daqueles animais que pela maior parte das vezes os matam só para lhes aprovei¬ tarem o couro. Salgam aquelas carnes e as cortam em postas assaz largas, mas delgadas e só da grossura de dois dedos ao mais. Quando estão repassadas de sal, sacode-se êste sem as lavar e põem-se assim a secar ao sol; e depois de bem sêcas podem conservar-se largo tempo sem se danificarem, contanto que sejam guardadas em sêco; porque se as deixam molhar, sem as pôr logo e logo a secar ao sol, corrompem-se e enchem-se de bichos. Quando estava nesta baía encontrei ainda um francês, natural de Provença perto de Marselha, que era servidor de um dos maiores senhores daquela terra, a que chama¬ vam Mangue la bote, nome que os negros de Angola lhe haviam dado e quere dizer o valeroso e grande capitão,
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 237 porque havia sido ali vice-rei. Êste senhor tinha feito tão valorosamente a guerra contra os negros, que era dêles mui temido (l). Passava por ter de seu cabedal mais de trezentos mil escudos e tirava grandes rendimentos de muitos engenhos de açúcar que possuía. Êste francês, que estava em sua casa, era músico e tangedor de instru¬ mentos; e servia-lhe para ensinar música a vinte ou trinta escravos, que todos juntos formavam uma consonância de vozes e instrumentos, que tangiam sem cessar. Êste se¬ nhor me rogou e solicitou muito para ficar com êle, e me >rometia cem escudos de salário e boa comida, somente )ara governar certo número de escravos no trabalho. Dizia-me também que dentro de um ano, ao mais tardar, se iria para Portugal, e de feito estava fabricando um mui bom e grande navio do porte de quinhentas toneladas para êsse fim; e andava buscando e recolhendo tôdas as rari¬ dades, assim de animais, como de outras coisas, que podia achar, para fazer delas presente a el-rei de Espanha. Entre outros tinha dois animais dos a que chamam Zebras, de que faço menção no tratado dos animais (8). Eu teria de mui boa vontade aceitado as condições, que êle me ofere¬ cia; mas o mal é que quando se faz algum concêrto com êlese que depois se quere desfazer, êles o não permitem. Ora logo que chegámos à baía e cidade de S. Salva¬ dor, fomos, meus companheiros e eu, procurar o vice-rei e lhe mostrámos o nosso passaporte assinado pelo vice-rei e vedor da fazenda de Goa. Êle, tendo-o visto, nos rece¬ beu com bastante cortesia, e nos disse que viéssemos comer e beber a seu aposento e até dormir se quiséssemos. Êste vice-rei era um fidalgo mui honrado; não tinha mulher consigo, mas sòmente dois filhos, um de idade de vinte e cinco anos e outro de vinte, que eram ambos mui estima¬ dos. O pai chamava-se D. Francisco de Meneses. Du¬ rante o tempo que ali estive, o filho mais velho foi achado I1) Governador devia ser, e não vice-rei. Percorrendo nós, porém, o catálogo dos governadores de Angola daqueles tempos, a nenhum achamos aplicável o sobrenome de Mangue la bole, senáo a João Furtado de Men¬ donça, que governou Angola desde 1594 a 1602. D. Francisco de Almeida, que governou pouco tempo em 1592, íugiu sim para o Brasil, mas náo parece que lhe possa caber o título que Pyrard indica. — N. do T. (2) O autor chama a êste animal Esure, e pela descrição que dá dèle no Tratado dos animais, parece ser a Zebra ou Zevra. Esure ou Esvre, como se acha no livro, provàvelmente é érro de cópia. - N. do T.
  • 238 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD na câmara de uma dama portuguesa e surpreendido pelo marido, que o feriu levemente, mas êle salvou-se; a dama porém levou cinco ou seis golpes de espada, de que toda¬ via não morreu; e nâo sei o que depois aconteceu. Mas nâo quero passar em silêncio o que me aconteceu aqui. Andando eu um dia passeando só pela cidade, ves¬ tido de sêda à portuguesa, ao modo de Goa, que é diferente do dos portugueses de Lisboa e do Brasil, encontrei uma escrava, rapariga negra de Angola, que me disse, sem cerimónia e sem ter conhecimento comigo, que a seguisse sem receio algum, que ela me queria levar a ver um homem honrado, que desejava falar-me. Nisto me detive um pouco a pensar se o deveria fazer ou não e se me fiaria no que ela me dizia; enfim, determinei-me a acompanhá-la, para ver em que isto parava. Ela fez-me dar mil voltas e rodeios por ruas escusas, o que a cada passo me punha em grande temor e quási em resolução de não passar mais avante; mas ela me dava ânimo e tanto fêz, que me levou a um aposento mui belo e grande, bem mobilado e guarne¬ cido, onde não vi mais ninguém senão uma jovem dama portuguesa, que me fêz mui bom gasalhado e me mandou logo aprestar uma mui boa refeição; e vendo que o meu chapéu não era bom, ela com sua própria mão mo tirou da cabeça e me deu outro novo de lã de Espanha com uma bela presilha, fazendo-me prometer que tornaria a visitá-la, e da sua parte prometendo-me que me favoreceria e me da¬ ria gôsto em tudo o que pudesse. Não faltei à promessa e ia visitá-la freqiientemente enquanto lá estive; e ela me fêz uma infinidade de obséquios e favores. Tomei também conhecimento e amizade com outra rapariga portuguesa, natural da cidade do Pôrto, chamada Maria Mena, que era dona de uma casa de pasto, de sorte que me não faltava de comer e de beber, porque mo dava quando eu o queria, sem dizer coisa alguma a seu marido e ainda me dava dinheiro para eu pagar na presença dêle. Chamava-me ela o seu camarada. Em suma, as mulheres ali são muito mais afáveis e mais amigas dos estrangeiros do que os homens. Eu e meus companheiros tivemos, estando ali, um pro¬ cesso contra a dona de uma casa onde nos havíamos alo¬ jado, porque ela nos queria reter o nosso fato; mas por uma simples queixa nossa foi condenada a entregar-nos o fato e nas custas.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 239 Também naquela terra me mostraram os portugueses uma fôrca, onde alguns anos antes haviam sido enforca¬ dos treze franceses. Eram da Rochela e foram tomados com o seu navio. Um dos capitães chamava-se Pain de mil, e o outro Brifaut. Vi lá um inglês, que tinha sido prêso com êles e tinha estado com a corda ao pescoço, já prestes para ser também enforcado com os outros, mas foi salvo porque os franceses clamaram em altas vozes que êle tinha vindo com êles à fôrça e o haviam tomado no mar em um navio inglês. Êste inglês possuía então mais de mil escudos e estava em casa de um fidalgo. CAPÍTULO XXVII SAÍDA DO BRASIL; PERNANBUCO, ILHAS DOS [AÇORES, BER- LENGAS EM PORTUGAL; GRANDE TORMENTA ; ILHAS DE BAIONA; JORNADA A S. TIAGO; REGRESSO DO AUTOR E SUA CHEGADA A FRANÇA ENFIM, tendo estado no Brasil por espaço de dois meses, como andasse lidando por buscar modo de passar a Portugal, aconteceu que três fidalgos portugueses, que me tinham grande afeição, me prometeram dar- -me gasalhados em sua companhia. Estes três fidalgos eram D. Fernando da Silva de Meneses que havia sido como já em outro lugar disse, capitão-mor da armada do norte em Goa, e dois cunhados seus que tinham vindo embarcados no mesmo navio, em que eu também viera e me fizeram durante a viagem muitos bons ofícios. Haviam êles afre- tado uma caravela, para os levar a si, à sua comitiva, fato e mercadorias em direitura a Portugal, a fim de obterem mercês ou recompensas de el-rei de Espanha por seus ser¬ viços na índia, como é costume, e depois tornar-se, por¬ que todos êles eram casados na índia. Estando eu, pois, pôsto em cuidado de buscar alguma boa ocasião de passar à Europa, porque a passagem não custa menos de cem ou cento e vinte libras e porque sendo perdida a nau em que eu viera, não tinha mais que ver com a gente dela, como pelo meu passaporte era obrigado, e cada um tratava de si como melhor podia; neste comenos aquêles honrados fidalgos me ofereceram pagar-me a pas¬ sagem, que montava em dez escudos e, além disso, dar-me
  • 240 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD de comer. Estando pois as coisas assim concertadas, quando a caravela foi prestes, ia eu a embarcar-me com o meu fato; e foi então que o mestre do navio disse que me não havia de levar, porque de outra vez tinha levado um fran¬ cês, que lhe tinha dado mais enfado que tôda a outra gente, e que por essa causa fizera juramento de nunca mais levar outro algum. Sôbre isso, e por meu respeito houve grande disputa entre o vice-almirante (') e êste mestre. Mas o pior foi que era já noite, e o navio estava a desfral¬ dar as velas. O vice-almirante, tomado de cólera, lhe disse que a sua mágoa era que aquêles fidalgos fôssem com êle, pois não podia ir a salvamento; e, finalmente, lhe fêz grandes ameaças para quando porventura tornasse outra vez àquela baía. Mas a recusa dêste mestre foi a minha salvação, porque quando cheguei a Portugal (*), a primeira nova que soube, foi que aquêles três pobres fidalgos haviam sido cativos dos corsários com a sua caravela, e levados a Berberia, do que eu tive extrema mágoa e des¬ prazer, pela grande amizade com que êles me tratavam. Vendo-me pois frustrado por aquêle lado, estava em grande abalo àcêrca da minha tornada, quando, por dita, houve dois flamengos, naturalizados portugueses, que fol¬ garam de se encontrar connosco. Eram associados entre si e tinham uma mui bela urca, feita em Dunquerque, cujas armas tinha, e era do porte de duzentas e cinqlienta tone¬ ladas. Perguntaram-nos se queríamos ir com um dêles, porque o outro ficou em S. Salvador; e nós aceitámos de mui boa vontade a proposição, dizendo que iríamos como qualquer marinheiro sem contudo nos pagarem soldada; e e assim nos dávamos por mui felizes de ir, pôsto que fôsse¬ mos trabalhando de graça, e êles não estavam menos satisfeitos de nos ter achado, porque aproveitavam do serviço de três homens sem dispenderem soldadas. Feito êste concêrto, nos advertiram que tirássemos passaporte e licença do vice-rei por escrito; o que tendo nós feito, embarcámo-nos nesta urca, que ia carregada de açúcares, e bem provida de artilharia e de tôdas as outras sortes de armas e munições. A gente que levava era perto de (•) Talvez o autor queira dizer — vice-rei. — N. do T. (*) O autor não foi a Portugal, como se vê da sua narração, mas à Galiza. Como porém tudo pertencia então ao rei de hspanha, não merece grande censura esta inadvertência. — N. do T.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 241 sessenta pessoas, entrando eu e os meus dois compa¬ nheiros, e saímos desta baía a 7 de Outubro de 1610. Tivemos à saída vento contrário, o que foi causa de andarmos vinte e cinco dias sem poder dobrar o cabo de Santo-Agostinho, que é distante da Baía cem léguas, em altura de oito graus da equinocial para o sul. E a 3 de Novembro dobrámos o dito cabo com grande perigo, por causa dos baixos e bancos de pedra, por junto dos quais passámos. No mesmo dia avistámos a cidade de Pernam¬ buco, que pertence aos portugueses no Brasil; é mui bem edificada e tem mui belas igrejas. Dois dias depois vimos uma caravela, que ia à vela, de que tôda a nossa gente teve grande temor, julgando ser navio de corsários, de sorte que todos pegámos em armas, mas depois conheceu-se que era de portugueses. A 5 de Dezembro tornámos a passar a linha equino¬ cial para a banda do polo ártico. Passei-a dez ou doze vezes durante as minhas viagens. A 25 do dito mês, começámos a ver flutuar a erva, a que os portugueses chamam Sargaço, e se cria no fundo do mar. É um sinal, que se vê continuadamente nestes lugares; o mar está todo coberto dela; e começa aos vinte e um graus e continua até aos trinta. A 5 de Janeiro de 1611, avistámos as ilhas dos Açores, e entre outras, a do Corvo, das Flores e a Terceira, que é a principal, em altura de trinta e nove graus e meio. A 15 de Janeiro, avistámos a terra de Portugal, cha¬ mada as Berlengas, que são distantes de Lisboa oito ou dez léguas para a banda do norte; e foi pela manhã, ao romper do dia. Pensávamos estar ainda na distância de sessenta léguas, porque o vento era do sul e havia grande tormenta. O nosso desenho era de entrar em Lisboa; mas não pudemos por causa do vento contrário; e sôbre isso houve grande disputa entre o capitão e um mercador judeu, que por outro nome se chama em Portugal cristão-novo; por¬ que o navio era uma urca de Flandres do porte de duzen¬ tas e vinte toneladas, como já disse. O capitão era holan¬ dês e residia ordinàriamente em Lisboa e era sócio de outro holandês, a quem pertencia a maior parte da fazenda. O judeu levava também ali mais de cem mil escudos de fazenda, pela maior parte sua; e ia encarregado assim da
  • 242 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD mais quatro ou cinco judeus mercadores. Havia muito tempo que não era chegado um navio tão rico como êste. Finalmente, estando à vista das Berlengas, fazíamos tenção de entrar, não obstante o vento contrário, e íamos sempre bordejando, ora para a terra, ora para o mar. Sôbre isto fomos surprendidos por uma tormenta e mais violenta que era possível, acompanhada de vento contrário. Nós estávamos sôbre a costa; o que nos punha em grande temor; de sorte que o mercador judeu veio dizer ao capi¬ tão, que vista a tempestade e o vento, não havia aparência de poder entrar em Lisboa. O capitão lhe respondeu, que lhe desse êle um têrmo, assinado de sua mão, com promessa de participar em tôdas as despesas, perdas, danos e riscos, que poderiam seguir-se dêste retardamento; quando não, que êle se aguentaria no mar, no que não havia perigo algum; e que ali esperaria até vir a bonança e o vento favorável. 0 mercador disse que êle lhe não dava tal seguro, e que o que queria era que êle, capitão, pusesse a proa nas ilhas de Baiona, que não ficava dali coisa de oitenta léguas. E acabando de dizer isto, pega êle mesmo no leme e põe o navio a sotavento, de sorte que sôbre isso houve grande contenda, com muitas injúrias e palavras mal soantes de parte a parte; mas, enfim, tudo se aplacou e o mercador assinou o têrmo e nós tomámos a derrota das ilhas de Baiona em Galiza; e a isto se juntou que a tempestade era tão furiosa, que só por si ela bas¬ tava para acalmar tôda a sua cólera. Todavia gastámos cinco dias em ir das Berlengas a estas ilhas e durante todo êste tempo estivemos debaixo de uma contínua tempestade, que até ia aumentando cada vez mais. Com isto nos aconteceu outra desaventura, e foi que o nosso navio entrou a fazer água de tal sorte, que era impossível poder vedá-la; e a maior parte do tempo íamos próximos de terra, o que nos dava ainda mais que temer. Um dêstes dias julgámos, pelo que diziam muitos marinheiros, estar defronte da baía e diziam êles que a conheciam muito bem; e isto ia sendo a nossa per¬ dição, porque caminhámos para ela com vento à pôpa e quando chegámos bem perto, conheceu-se que não era ali; de sorte que foi um verdadeiro milagre salvarmo-nos, porque o vento vinha do mar e nós estávamos já tão perto da terra, que tivemos bastante trabalho para nos safar¬ mos dela.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 243 Creio que nesta ocasião se fizeram no navio promes¬ sas no valor de mais de mil e quinhentos escudos; porque o principal mercador fêz uma de oitocentos cruzados, a saber: quatrocentos para casamento de uma órfã, e quatro¬ centos para fazer uma alâmpada e outros utensílios a uma Nossa Senhora, que era perto dali; e com efeito, logo que saiu em terra, foi em busca de uma órfã em quem cumpriu a promessa, e o mesmo fêz com os mordomos da igreja. Muitos outros fizeram da sua parte outro tanto; porque não havia ali quem se não encomendasse ao santo da sua paróquia. Porque é costume dos portugueses ocupar-se antes em fazer promessas aos santos, do que trabalhar por salvar a vida. Enfim, desde Lisboa até estas ilhas por mais de dez vezes nos julgámos perdidos, por causa do mau estado do navio e irmos tão próximos de terra, para a qual o vento do mar nos impelia com tal violência, que rasgava tôdas as nossas velas. Foi êste o maior perigo, em que me achei nos dez anos da minha viagem; e acontece muitas vezes que, depois de muitas viagens longas, trabalhosas e perigosas, vêm os navegantes perder-se no pôrto; como se tem visto suceder a muitos vice-reis, que depois de terem roubado infinitamente na índia, vêm perecer à tornada no pôrto de Lisboa mesmo, êles e tôdas as suas riquezas (l). Estando pois, por derradeiro, a ponto de entrar na baía das ilhas de Baiona, encontrámos um pequeno navio que como nós ia também entrando, à vista do qual todos os nossos portugueses se mostraram temerosos, e julgámos já ser entrados do inimigo, apesar de sermos ao todo perto de cem pessoas; porque são êles gente que não tem afoiteza nem resolução alguma, mas só palavras e vaidade. São bons mercadores e bons marinheiros, e mais nada. Estou certo de que quinze ou vinte franceses nos teriam fàcilmente tomado; e o navio valia mais de quinhentos mil escudos. No dia antecedente, um navio de corsários tinha tomado uma caravela naquele mesmo sítio; e quando nós entrámos, estavam ambos surtos nas ditas ilhas, onde descarregaram esta caravela; mas êles estavam de uma banda e nós passámos da outra, e fomos para perto da cidade. Há três ou quatro pequenas cidades nesta baía. (*) Não quis Pyrard acabar a narração de suas viagens sem no* dar mais alguma amostra de seu espírito malicioso. — N. do T.
  • 244 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Quando, pois, felizmente, desembarcámos a 21 de Janeiro do ano de 1611, lembrei-me da promessa, que na minha prisão, em Goa, havia feito e era, que se Deus me fizesse a graça de me levar algum dia a Espanha, iria em romaria a S. Tiago de Galiza, e isto era o que eu pedia sempre a Deus de todo o meu coração quando ia no mar; e outrossim de ir aportar a qualquer outro lugar, que não fôsse a Lisboa, por contar que indubitàvelmente ali ficaria prêso; e de feito todos os outros estrangeiros, que tinham vindo da índia, haviam sido encarregados aos capitães dos navios da parte do vice-rei de Goa; mas porque o nosso navio se havia perdido na Baía de Todos-os-Santos, o capitão dêle já não era responsável de nós, e assim ficámos em nossa liberdade. Mas sem embargo disso, se nós houvéssemos aportado a Lisboa, não deixaríamos de ficar lá presos; mas aprouve à bondade divina de nos levar a salvamento a estas ilhas de Baiona, onde, logo que sur¬ gimos, achámos muitos navios franceses, que estavam também surtos para fazer sua veniaga; e apenas souberam da nossa chegada, veio tôda a gente dêles ver-nos por admiração; e então soubemos dêles tudo o que era acon¬ tecido em França, donde havia dez anos que não tínhamos sabido novas certas. Tendo nós desembarcado, e depois de havermos tomado alguns dias de folga com êstes franceses, dito adeus e agradecido aos portugueses do nosso navio e principalmente ao capitão, que me gratificou com algum dinheiro, determinei ir cumprir o meu voto, deixando ali os meus dois companheiros, que não quiseram ainda então partir, e que eu não tornei depois a ver; e fui-me só caminho de S. Tiago, que dista dali dez léguas e passei pela cidade de Pontevedra, que é mui bonita. Satisfeita a minha devoção a S. Tiago, fui à Corunha, que é um pôrto de mar na distância de dez léguas, para buscar ali modo de passar a França, e não podendo ali achá-lo, tive por notícia que num pequeno pôrto a duas léguas daquêle lugar havia um pequeno barco da Rochela, do porte de umas trinta e cinco toneladas, carregado de laranjas e prestes a partir. Sem detença me encaminhei ao dito sítio e pedi ao mestre que me levasse de passa¬ gem, o que êle fêz com pronta vontade; e tendo sabido tôdas as minhas aventuras, folgou muito dêste encontro e não me quis levar coisa alguma pela passagem.
  • VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD 245 Não gastámos mais de trinta e seis horas a passar dali à Rochela, onde, graças a Deus, chegámos felizmente a 5 de Fevereiro, e então, louvando a Deus de todo o meu coração, tive por coisa certa poder ver ainda.uma vez a terra de França, que eu tanto havia desejado. Êste mestre do barco em que eu passei, chamava-se João Arnaul e era da ilha de Òleron. Tinha grande contentamento de me haver levado à pátria, e me agasalhou mui lautamente na Rochela, não querendo nunca permitir que eu tomasse outro aposento senão a sua casa, e muito ufano me apre¬ sentou aos principais da cidade, que me consideravam com admiração. Tendo-me ali detido alguns dias, despedi-me dêle e tomei o caminho da terra da minha naturalidade, que é a cidade de Lavai na Bretanha, onde cheguei a 10 de Feve¬ reiro de 1611, do que seja Deus louvado. FIM DA SEGUNDA PARTE E DA VIAGEM
  • ADDENDUM O lugar próprio desta Nota seria em algum dos Capitulos XXI ou XXII déste livro, nos quais o auto rtrata da armada que veio de Poitugal -à índia no ano de 1609, e da que voltou da índia a Portugal na imediata monção. Como, porém, quando se imprimiam aqueles dois Capitulos, ainda não tinhamos visto o curioso Livro da Fazenda e Real Património dos Reinos de Portugal, que deu lugar às reflexões que aqui pomos, por isso só agora podemos apresentá-las. O Livro da Fazenda e Real Património dos Reinos de Portugal foi escrito por Luís de Figueiredo Falcão entre os anos de 1607 e 1614, e impresso últimamente em Lisboa, na Imprensa Nacional, em 1859. Uma das mais curiosas partes déste Livro é a relação das armadas que vieram de Portugal à índia, com a noticia das embarcações que voltaram a salva¬ mento e das que se perderam. Confrontando o Livro de Luis de Figueiredo com a narrativa de Pyrard no particular, que temos dito, da armada de 1609 na vinda e tor¬ nada achámos que sim concordam em parte, mas em outra parte há entre éles, notável variedade E primeiramente concordam em que partiram de Lisboa no ano de 1609 cinco naus, e ch*garam à índia só quatro Quando Pyrard saiu de Goa ainda se não sabia aqui o que era feito da nau que faltava; mas Luís de Figueiredo nos declara que essa nau era a Guadalupe, capitáo Manuel Barreto Rolim, a qual arribou a Angola na vinda, e d»i foi a Lisboa. As que chegaram à índia eram Nossa Senhora da Piedade, em que vinha por capitáo-mor D. Manuel de Meneses; Nossa Senhora de Jesus, capitáo António Barroso, que na torna-viagem se perdeu no Brasil, e era a em que ia embarcado Pyrard; Nossa Senhora da Penha de França, capitáo Ambrósio de Pina; e S Boaventura, capitáo Luis de Bardi Na torna-viagem sairam de Goa quatro naus, a saber: trés das que ■tinham vindo naquele ano e uma que ficara do ano passado; ficando seme¬ lhantemente na índia outra déste ano, que era a nau S Boaventura Nisto concordam, ou nâo se contradizem os dois autores. Mas em outras cir¬ cunstâncias variam entre si. Pyrard nomeia as naus da torna-viagem ■assim: Nossa Senhora da Penha de França, Nossa Senhora da Piedade e Nossa
  • 248 Senhora de Jesus; tódas da armada deste ano Nomeia mais Nossa Senhora do Carmo, que deve ser a que ficara do ano passado. Mas em I.uis de Figueiredo achámos a do ano antecedente deno¬ minada Nossa Senhora de Monserrate. Parece-nos que nesta parte a equi- vocaçáo é de Pyrard, que ouvindo dizer Nossa Senhora de Monserrate se Ersuadiria que diziam Nossa Senhora do Monte do Carmo; cquivocaçáo :il e desculpável num estrangeiro. Se fósse, porem, só nisto a divergência dos dois autores, nào tería¬ mos insistido neste ponto; mas há outras diferenças que importam mais à história. Por um lado diz Luis de Figueiredo que a nau Nossa Senhora de Monserrate, da armada de 1608, em que veio por capitáo Manuel de Frias, recolhera a Lisboa no ano de 1610, indo nela por capitão Gaspar Ferreira, piloto que trouxera no dito ano de 1608 à Índia ao Vice-Rei Rui Lourenço de Távora; e que a nau S Boaventura, da armada de 1609, capitão Luis de Bardi, chegara a Lisboa a 7 de Julho de 1611, morrendo o capitáo do Cabo para lá, e André Furtado que ia nela. Por outra parte Pyrard afirma, como testemunha de vista, que André Furtado embarcara na nau Nossa Senhora da Penha de França, e saíra d« Goa a 26 de Dezembro de 1609. Nesta parte tem o testemunho de Pyrard muito maior valor que o de Luis de Figueiredo, pôsto que também seja autor contemporâneo; e ainda que não fóra o testemunho directo de Pyrard. bastaria reflectir que André Furtado, tendo acabado de governar a Índia, não poderia ficar nela para o ano seguinte. A nau Nossa Senhora da Penha de França chegou a Lisboa a 4 de Julho de 1610, segundo o testemunho de Luis de Figueiredo, e isto explica como Pyrard, depois da sua volta, estando em Espanha, onde desembarcou a 21 de Janeiro de 1611, pôde saber ai da morte de André Furtado, que morrera no mar junto das ilhas dos Açores É pois manifesto o èrro de Luís de Figueiredo quando diz que André Furtado fóra na nau S Boaventura, porque esta nau ficou na Índia aquêle ano; foi na monçáo seguinte, chegando a Lisboa, segundo o mesmo Luís de Figueiredo, a 7 de Julho de 1611. A confrontação dos dois autores ainda nos oferece outras reflexões. Na nau Nossa Senhora da Piedade veio no ano de 1609 por capitão o capi¬ tão-mor da armada D. Manuel de Meneses ; e na torna-viagem diz Pyrard que fóra capitão da dita nau D. Pedro Coutinho, que saia da fortaleza de Ormuz e levava a Pottugal o embaixador da Pérsia. D Manuel de Meneses for na nau Nossa Senhora do Carmo, (que deve ser a Monserrate de Luís de Figuei¬ redo), e adverte bem Pyrard que fóra por simples capitáo daquela nau. porque, quando o Vice-Rei ou Governador recolhia a Pottugal, era êle o capitão-mor da Armada na torna-viagem ; e desta vez o era André Fur¬ tado. Faz-nos porém espécie dizer Luis de Figueiredo que na nau Monser¬ rate { que, como dissemos, deve ser a Senhora do Carmo de Pyrard) fóra por capitáo Gaspar Ferreira, piloto que trouxera à Índia o Vice Rei Rui Lou¬ renço de Távora No meio destas divergências sómente observaremos que, no que toca às naus da torna-viagem dé«teano, nos inclinamos mais a crer o testemunho ocular de Pyrard do que as investigações de Luís de Figuei¬ redo Falcão, pósto que feitas com o maior desejo de acertar na exposição dos factos.
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS SÔBRE A VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD POR P. DUVAL GEÓGRAFO DE EL REI DE FRANÇA (EM 1666) OBSERVAÇÕES SÔBRE A PRIMEIRA PARTE Pág. 15 A FRANÇA, QUE A NATUREZA TEM BANHADO DE DOIS RICOS MARES, E DOTADO DE MUITOS BONS PORTOS E ENSEADAS Os dois mares são o Oceano e o mar Mediterrâneo. O Oceano dá à França o meio de traficar em tôdas as regiões, que éle banha, num e noutro continente; e o mar Mediterrâneo lhe abre o comércio, a que nós chamamos ordinâriamente comércio do Levante. Hoje estamos em vés¬ peras de ver a comunicação déstes dois mares pela junção des rios de Garona e Aude. Além disso, o Oceano e o mar Mediterrâneo servem de defensão à França em algumas das suas províncias; e noutras partes, mon¬ tanhas excessivamente altas, e possantes fortalezas lhe servem de outros tantos baluartes. A França, em consequência desta situação, leva grande
  • 250 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD vantagem a seus vizinhos, e mormente contra a Casa de Áustria, porque pode levemente cortar a comunicação das forças de mar daquela Casa ; e tendo mais de quatrocentas léguas de costa sobre os dois mares, pode fazer-se senhora dèles, e arbitra do tráfico. Havia se julgado até agora que os franceses eram pouco propensos á navegação; mas a experiência tem mostrado o contrário: porque muitas armadas foram postas no mar nos últimos tempos do reinado de Luís xin, e depois, no de Luis xiv, se têm estabelecido em França muitas companhias, a saber, para a Gronenlàndia, para o Canadá, para a Terra-firme l1), e para as Ilhas da América Afora isto tém-se feito estabelecimentos na ilha de Madagáscar, no Bastião de França e em outras partes ; mas as duas companhias das Índias Orientais, e das Índias Ocidentais, novamente formadas, sáo as mais consideráveis De sorte que vamos ver novamente florescer a navegação e comércio, e os france¬ ses não terão mais necessidade de ir buscar emprêgo nos navios das outras nações. É uma das três vantagens que outrora reconheceu António Perez, quando diste ao Rei Henrique, o Grande, que os franceses seriam capazes de conquistar tôda a terra, se pudessem juntar aoseu grande esforço, Roma, o Mar, e o Conselho. Há hoje para os negócios da Marinha o superinten¬ dente dos mares de ponente e de levante, e o General das Galés. Quando tem havido no reino muitos almirantes, o de França tinha a sua jurisdição desde Calais até Saint-Maló, o de Bretanha tinha a sua até ao Raz, o da Gúiena até ao tio de Bidassoa, e o de Levante ao longo das costas do mar Mediterrâneo. Os antigos gauleses souberam servir-se bem destas como¬ didades do mar, porque quando deram ajuda aos cartagineses, lhes fizeram alcançar muitas vantagens ; e os romanos não desbarataram êste» senão quando tiveram os navios gauleses a seu sôldo. Os melhores portos do reino sáo, Calais em Picardia; Dieppe e o Havre de Grace em Normandia; Saint-Maló. Brest. Blavet, por outro nome, Pôrto-Luis, Morbihan, e Nantes em Bretanha; Olonne em Poitou; La Rochelle no país de Aunis; Brouage, e a TremblaJe em Saintonge; Bordéus em Gúiena: la Nouvelle, Agde e Cette em Languedoc; Marselha, Toulon, e outros, em Provença, onde há golfos cm grande número, assim como muitas baias cm Bretanha Podem-se juntar aos portos sobreditos os de Dunquerque, e de Mardik em Flandres, e o de Vendres em Rossilháo. Dáo-se epitetos particulares a alguns déstcs portos; c assim se diz, o Paraíso de Calais, a Bacia do Havre, a Câmara de Brest, etc. Pag. 16 OS PORTUGUESES E ESPANHÓIS TENTAM AVASSALAR POR SI SÓS OS ELEMENTOS... VEDAR OS MARES, ETC. A principio estas duas nações somente foram as que empreenderam as viagens longínquas, e que enviaram colónias às terras remotas; os espa¬ nhóis para o Ocidente, os portugueses para o Oriente. Obtiveram até do Papa Alexandre vi uma doação de tôdas estas terras por conquistar. No ano de 1493 éste Sumo Pontífice, que Sixto v põe na conta dos trés maio- (*) America Central, como na 2.* observação melhor se verá.-N. do T.
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 251 res Papas da Igreja, fèz o regulamento desta doação, pela qual investiu a Fernando, Rei de Aragão e Isabel Rainha de Castela de todas as terras que cies pudessem lazer descobrir ao ocidente de uma linha que se devia lançar imaginàriamente de um polo a outro, cem léguas além das ilhas dos Açores. O que houvesse de ser descoberto ao oriente desta linha devia pertencer ao Rei de Portugal A dificuldade foi quando se chegou à divisão, porque de uma parte os castelhanos queriam começar a contar aquelas cem léguas da mais ocidental dos Açores; e os portugueses pretendiam conta-las da mais oriental, na tenção de ganharem, pelo que assim largavam nos sertões da América, a rica possessão das ilhas de Maluco, que depois foram tres- passadas ao seu Rei pelo Imperador Carlos Quinto por 350$ ducados. As outras nações da Europa não ficaram contentes da liberalidade do Papa Alexandre vi no que toca a êste regulamento; e os franceses, ingleses e holandeses quiseram ter cada uns a sua parte. E porque depois dessas pri¬ meiras conquistas tém havido diversas mud inças na posse de muitos lugares daquelas remotas regiões, parece de algum modo necessário dar aqui noti¬ cia do estado presente das terras, fortalezas, e outros lugares que pertencem aos europeus nas fndias, assim ocidentais como orientais. Os que forem curiosos de lhes ver a posição recorram às cartas, que delas tenho formado. ESTADO PRESENTE DAS TERRAS, FORTALEZAS E OUTROS LUGARES, QUE PERTENCEM AOS EUROPEUS NAS iNDIAS OCIDENTAIS E ORIENTAIS Os franceses têm no Canadá, chamado por outro nome a Nova- -França, Montreal; os Trés-Rios, Qucbec, Tadousac, e outros lugares á borda do rio de S Lourenço Têm também a Acádia; a ilha do Cabo Bretão, com o forte de S. Pedro, donde traficam em Nepigiguit com os selvagens da costa. Na ilha da Terra-Nova, Plaisance, e a Baia do Pequeno Ntort. Pentagoet, S João, o Pòrto-Real, e outras fortalezas do Canadá c da Acádia foram-lhes tomadas pelos ingleses. Nas ilhas Antilhas. S. Cristóvão em parte (a outra parte é dos ingleses) S. Bartolomeu, Sanla-Ctuz, S Martinho, em parte (a outra parte é dos holandeses); Guadalupe, a Desejada, Maria- -galante, os Santos a Marlinica, Santa Luzia, que os ingleses lhes têm usur¬ pado há pouco. Granada, e os Granadinos; a Tartaruga; e algumas colónias na parte ocidental da Ilha Espanhola, por outro nome chamada de S. Domingos. Na terra firme da América meridional, na costa de Guiana, a ilha Caiena, onde há os fortes de S. Miguel de Ceperoux, chamado hoje o Forte Luís, e a colónia de Mahuri O comércio na costa de África nos rios de Senegal e de Gâmbia; em Rufisque perto do Cabo-Verde, e em mui¬ tos lugares da Guiné. O Forte Delfim, e outras fortalezas na ilha de Mada¬ gáscar, chamada hoje a Ilha Delfina As Ilhas de Santa Maria, Bourbon, Diogo Rodrigues, etc. Os espanhóis possuem a maior e melhor parte da América, com grande número de cidades. Na América setentrional, a Nova-Espanha, onde estão as Audiências ou Parlamentos do México, de Guadalajara. e de Guatemala; as ilhas da Cuba, Espanhola (os franceses estáo estabelecidos na parte ocidental dela), Borriquem, etc. E além disto, Santo-Agostinho c S. Mateus na Florida, e uma parte do Novo-México Na América Meridio¬ nal, a Castela-do-Ouro, chamada por outro nome Terra Firme, onde estáo as
  • 252 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Audiências de Panamá e do Novo Reino de Granada, o Peru, onde estão as de Quilo, de Lima, e da Prata; o Chile e o Paraguai, que compreende os países de Tucuman, e da Prata Na costa da África sòbre o Oceano, Lara- che, Mahomera; as ilhas de Salomão no mar do sul; e as ilhas Canárias ao poente de África. Para o oriente têm as ilhas Filipinas, chamadas antiga' mente Manilhas, pela maior parte. Tinham de antes uma parte das ilhas de Maluco, a saber, em Ternato, Gamalama, e Nossa Senhora do Rosário; Tidore, Taroula, Castelo velho, Maricece (?); em Gilolo, Gilolo, Sabugo, Aquilànio, Tolo, em Isiau, e Jafougo ; mas éles abandonaram todos estes lugares, de três ou quatro anos a esta parte. Os portugueses têm tóda a costa do Brasil na América Meridional, e ao longo desta costa as capitanias do Pará, Maranhão, Ceará, Rio Grande, Paraíba, Tamaracá, Pernambuco, Sergipe, Baia de Todos-os-Santos, os Ilhéus, Pôrto-Seguro, Espiiito-Scnto, Rio-de Janeiro e S. Vicente. Junto das bócas do Amazonas, as fortalezas do Esteiro, Córdova e Cogemina; em África, na costa do reino de Marrocos, Mazagáo e Cart-guessem (sic). Alguns fortes na costa da Guiné, do Congo e de Angola, e habitações na ilha de S. Tomé. As ilhas dos Açores ou Terceiras; as da Madeira e Pôrto-Santo; as de Cabo- -Verde, do Príncipe, de Fernando-Pó, de Ano-Bom, etc. Os portugueses foram, por largo tempo, os mais poderosos de entre os europeus nas índias Orientais, mas hoje sàa os holandeses quem possui ali os melhores lugares. Eis o que resta à coroa de Portugal, hm Cafraria, que é a costa de Monomotapa, o castelo de Sofala, a vila de Sena, uma feitoria com um pequeno forte no Cabo das Correntes, e outras casas fottes nas fozes de Cuama e outros rios da costa. Em Zanguebar, que é a costa de Melinde, a cidade e fortaleza de Moçambique, com o forte de S. Marcos; feitorias e alguns pequenos fortes em Angoche e em Quelimane. A fortaleza de Quiloa e uma feitoria cm Monfia. A cidade e a fortaleza de Mombaça; a fortaleza de Melinde, com as povoa¬ ções e feitorias de Pate e Ampasa. O tráfico em tõda a costa de África, desde o cabo da Boa-Esperança até ao Mar Vermelho, na ilha de Socotorá em Adém, em Fartaque, em Bassorá, etc. Na Pérsia, feitorias, e metade das alfândegas na ilha de Barein, e no Congo, o tráfico de Bandel tico (?), no cabo de Jaquete, e outros lugares. Na Índia do Mongol Dio, Damáo com os fortes de S Jerónimo, Sangens, f1). Queime- Mahim, e Tarapor; Baçaim com a ilha de Salcete; o forte de Bandorá, chamado por outro nome Manorá (2); a povoaçáo de Taná fortificada com tiès fortes Seira de Asserim Oguli, aldeia á borda de Ganges: o tráfico em Osgra, em Amedabad, em Cambaia, em Baroche, em Surrate, em Bengala, etc. No Decáo tem Chaúl, com as fortalezas do Morro, Caranjá, e a Aldeia de Mazagáo (3). Goa com suas fortalezas e dependências na terra de Bardez, e ilha de Salcete (4), Na costa da China, Macau. Na ilha de Solor, a povoaçáo e forte de Larantuca. O tráfico na Pérsia, em Golconda, em Arracào, em Pegu em Tanasserim, cm Ligor, Ódia, e outros lugares de Sido, em Camboja no Macassar, na ilha de Timor, etc (t) San! Jean. escreve o autor com visível equivocacio. Os ingleses escrevem Sanjam ou Sunjtm - N. do T. Nio admira que o autor escrevendo era ul tempo, e na Europa, confundisse alguns pontos de pequena importância. Bandorá ó diverso de Manorá Bandorá c na ilha de Salcete, junto ã de Bombaim; Manorá muito mais ao norte no sertão. — N do T. (3/ Outra pequena equivocação A aldeia de Mazagáo c na ilha de Bombaim, e pertencia por consequência ã jurisdição de Baçaim. A equivocação precedeu, sem dúvida, de ser aquele sitio de Mazagão próximo e fronteiro ã ilha de Caranjã. -N. do T. »*) A terra de Salcete, ao sul de Goa, não c ilha; mas devemos desculpar o autor» porque muitos documentos portugueses lhe chamam ilha. - N. do T.
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 253 Os ingleses têm aumentado extraordinariamente os seus Estados de Amética, mormente depois que têm contenda com os holandeses Possuem na América Setentrional a Nova Inglaterra; a Baia da Trindade, Chinchei, e a pequena Plaisance na ilha da Terra-Nova; a Virgínia, e as ilhas Bermudas, Pcntagoet, S. João, Pôrto Real, e outras fortalezas no Canadá, e na Acádia, as quais ganharam aos franceses. A Nova-Holanda, que tomaram aos holandeses em 1664, com a Nova-Amesterdão, e o forte de Orange. Nas ilhas Antilhas, as Barbadas, a saber, a Barbada, a Barbuda, a Enguia [Anguille), S. Cristóvão em parte (a outra parte é dos franceses), Monserrate, das Neves, por outro nome Meuvis, Antigua. Santa Luzia, por usurpação aos franceses; a Dominica, e S. Vicente em parte. A ilha de Santa-Catarina, chamada da Providência; a ilha Jamaica, e a da Trindade. Uma colónia em Suriname, com alguns fortes nas costas da Guiana. Em África Tânger, perto do Estreito, S. Filipe junto do Cabo-Verde, f1) Tagrin, Cormantim, Naschange, Tranguerari, e outros lugares em Guiné. Os holandeses tomaram-lhes Cor- mantin no ano de 1665. Um forte na ilha de Santa-Helena, etc. Madras- patào (Madrasta) na costa de Coromandel e as ilhas de Bombaim, Angediva, e Pouleron (2). Uma casa e aposentos onde têm um Presidente em Surrate, e outra em Bantão. Feitorias em lspaham, em Gombru (Comoráo) onde têm metade da alfândega, em Agra, em Amedabad, em Cambaia, em Barodá, em Baroche, em Surrate, em Dabul; em Pettapoli P), em Masulipa- tão; em Sido, em Camboja, em Tunkim, etc. Os holandeses foram desapossados da sua Nova-Holanda pelos ingleses no ano de 1664, e perderam aí a sua cidade de Manhate, a que tinham chamado Nova-Amesterdão, e o seu forte de Orange. Da mesma sorte perderam nas ilhas Antilhas a de Santo Eustáquio, e mais para o meio- -dia as de Curaçau, e de Tabago. Têm ainda a ilha de Sabá, parte da de S. Maninho, onde há também franceses; a cidade de Coro na Terra-Firme; as colónias de Boiron, de Esquibe, de Brebic, e outras nas costas da Guiana. Em África, Arguim, e Goreia junto do Cabo Verde; o forte de Santo-André no rio de Gámbia, S. Jorge da-Mina ; o forte de Nassau, e o de Cabo Corso, pretendido pelos suecos, em Guiné; muitos fortes no Congo, a povoação na ilha de S Tomé etc. (■*). Junto do Cabo da Boa Esperança, e na Tafel- -bay ou Table bay, dois fortes A leste da ilha de Madagáscar, a ilha Mau- ricia Na costa do Malabar, Onor, Barcelor, Mangalor, Cananor, Cranganor, Cochim, e Coulão. Na costa de Coromandel, Tuticorim, Negapatào, Carical, (f) Provavelmente alguma transitória ocupação da ilha portuguesa deste nome, hoje conhecida pelo de ilha do Fogo. - N. do T. (*) Angediva e Pouleron. F. sabido que a ilha de Bombaim foi cedida por Portugal à Inglaterra pelo tratado de 23 de junho de 1661 ; que o vice-rei António de Melo de Cas¬ tro duvidou cm fazer entrega da ilha aos ingleses, os quais durante a contenda se recolheram na ilha de Angediva, que a esse tempo estava desocupada. Só no ano de 1665 c que se faz a entrega de Bombaim, c os ingleses sairara de Angediva. O autor porem que escrevia em França no ano de 1666 (ao que parece) ainda não estava informado da saida dos ingle¬ ses de Angediva; e assim nomeia entre as suas possessões a Bombaim, pela noticia que tinha do tratado; e a Angediva pelo facto da ocupação. Esta ilha de Angediva pela saida dos ingleses ficou novamente desocupada até que nós nos estabelecemos nela defiaitivamente no ano de 1683 governando o vice-rei Conde de Alvor. Pouleron c sem dúvida o mesmo lugar que os ingleses escrevem Palaverum, e Palave- ram. no actual distrito de Chingleput, ou antes Chegalppatt. na presidência de Madrasta, 11 milhas ao sudoeste desta cidade. Não hã ilha alguma a que caiba este nome - N. do T. (3j Provãvelmente com este nome designa o autor o lugar do Pettab, três milhas ao noroeste de Masulipatão. - N. do T. (*) Alguns lugares ocupados pelos holandeses em Angola e ilha de S. Tome foram depois recobrados pelos portugueses. — N. do T.
  • 254 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Gueldres junto de Palecate; feitorias em Carical, em Polsera I1), e em outros lugares. Na península da índia de além do Ganges, Malaca, com os portos, ilhas, e fortalezas, que dela dependem. Na ilha de Ctiláo, Negttmbo, Columbo, Gale, Baticale, Trinquilemale, Jafanapaiáo e uma for¬ taleza na ilha de Manar. Na ilha de Java, Jacatra, chamada Batávia, e suas dependências. Parte das ilhas de Maluco, a saber em Ternate Tocoma, Taluco, e Malaia; em Molir o pôrto de Nassau; cm Maquiem, Tajaso, Tabilola, Najaquia, per outro nome Nuhaca, e Maurida ; em Bachão Game- duore, e Loboua; em Gilolo Sabou, e Coma ; na ilha de Amboino, Coubela, e Lóvia ; nas ilhas de Banda, Nassau, e Bélgica na de Nera, e Revenge na de Pouleway. Na ilha de Solor o forte Henrique. As ilhas de Savo a Bofou junto a Macassar, um forte na de Timor Parte da Terra Austral, e que têm chamado Nova-Holanda, onde está a Carpentaria, as terras de Arnens, de Wifz, de Endracht, por outro nome da Concórdia, de Edels, de Leuvin, e de Nuitz. Muitas feitorias, a saber, na Pérsia, em Gombru IComoráo), em Ispahan-, nas terras do Mogol em Agrá. em Amedabad, em Cambaia, em Baroche, em Surrate. e Uguli. em Coimbatore, em Daca, em Patna, em Pipilipatan, (2) No Decào (3) em Vingorlá. Em Coromandel. em Nepapatào Em Goleonda, em Goncoldá, em Masuiipatáo, em Palicate, em Dalscheron, em Bincolapatáo. No Pegu, em Avà, em Si ruão. Em Sido, em Ôdia. Na ilha de Samatra, em Ticou, em Priaman, em Indapur, em Cilebar, em Jambi, em Palimbáo, e outros lugares Na ilha de Java em Bantão, em Japará. Nas ilhas Celebes, em Manado, em Macassar. O tráfico na ilha de Socotorá, na costa da Arábia, em Moca, em Adém, e em Fartaque; nas ilhas de Lank (4), em Kesem. e outras proximidades de Ormuz; em Bisnaga, em Orixá, em Arracão ; em Pegu, em Tanasserim ; em Perá; em Jor, em Páo, em Patane ; em Singora ; em Berdelong ; em Ligor; em Tunquim; em Cinchéu, e outras partes da China, etc. fcm Rima, na ilha de Bornéu. E com exclusáo das outras nações pretendem éles o trato na costa oriental de Samatra, no Japão, nas ilhas de Amboino, Bali, e outras. Em Bima na ilha Cambua, etc. Os suecos têm na América Setentrional a Nova-Suécia, onde está Cristina, Gotemburgo, Elsimburgo, etc.; e pretensões sôbre o Cabo Corso em Guiné Os dinamarqueses têm também algumas terras em uma e outra índia. Na América do Noite a Nova Dinamarca. Na Costa de Coromandel Tranquebar. Pág. 17 PARTIMOS DE S. MALÔ COM BOM VENTO DE NORDESTE PARA DAR PRINCIPIO A NOSSA VIAGEM Os dois navios, em um dos quais ia Pyrard, navegavam para as Índias Orientais; e por isso náo é fora de propósito dar aqui as derrotas, que ordinàriamcnte seguem as nações da Europa, que para ali navegam. (!j Parece-nos que c o mesmo lugir que os ingleses escutem Pcllaiura, no actual distrito de Ganjâo, ptesidcncia de Madrasta.-N. do T. «*> Talvez Piptli no actual distrito de Bijnour nas províncias Britânicas do Noroeste. - N. do r. t3) Devia dizer Concáo. -N. do T. («) Lará ? - N. do 7\
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 255 E para não fazer uma observação imperfeita, junto aqui as derrotas das mesmas nações para as Índias Ocidentais. Tais observações serão talvez fastidiosas aos que não buscam nos livros senão aventuras romanescas, ou histórias divertidas; mas eu não as ponho aqui senão para os que fazem da Carta um de seus divertimentos, e que querem conhecer as navegações de longo curso. DERROTAS DOS EUROPEUS PARA AS ÍNDIAS OCIDENTAIS ' Os que navegam no mar Oceano nos ensinam que os ventos, que sopram ordinariamente na zona tórrida, são chamados brisas e ventos gerais, e que estes ventos correm de oriente para ocidente, segundo o movimento de primeiro móvel, que faz também mover o mar da mesma maneira. Os ventos que reinam ordinariamente desde os 30 até aos 40 graus de latitude setentrional, são vendavais de ocidente para oriente. Nos mares próximos dos polos não há ventos regulares. Aos pilotos cumpre escolher as sazões cómodas para sua navegação; conhecer por experiência todos os baixos, e as correntes das paragens ou sities aonde hào-de ir; saber bem a 3ualidade e andadura de seus navios; bem observar o vento que têm, para ar o devido desconto à sua derrota quando a marcam na carta; e final¬ mente ter todo o resguardo com a variação da agulha, a qual, segundo o que se tem conhecido, não é sempre a mesma ne mesmo lugar. Chamamos à América índias Ocidentais, porque muitos de seus habitadores andam ordinariamente semi nus, da mesma maneira que a maior parte dos das Índias Orientais; ou porque dali se extraem mercado¬ rias mui preciosas; ou, enfim, porque se acreditou ser pegada com a Índia da Asia. Os espanhóis são a nação que para ali tem feito maior soma de viagens. A derrota antiga e ordinária era ir primeiramente às ilhas Canárias, a saber, à grande Canária ou à Gomeira, e dali navegar para o sul e sudoeste para aproveitar as monções ou ventos gerais da zona tórrida, que sopram de leste a oeste, e que levavam os navegantes à Desejada ou à Dominica, ou à Guadalupe, ilhas que fazem parte das Antilhas, e que ministram boas águas Enfim a favor dos mesmos ventos navegavam por Ocoa na ilha Espanhola (1), e para outros lugares da sua dependência. Hoje em dia, como tém duas armadas, uma para a Nova-Espanha e outra para a Terra firme, depois de haverem seguido com pouca diferença a mesma derrota, apartam-se na altura das ilhas Antilhas, que vão avistar. A da Nova Espanha vai ganhar o Cabo de Santo-António na parte oci¬ dental da ilha de Cuba, depois de ter passado à vista da ilha de Pôrto-Rico. que lhe fica à parte direita; a cidade de S. Domingos, a ponta Nizau, e o Cabo Tiburon na ilha Espanhola, e depois de haver passado entre as ilhas de Cuba e Jamaica, e avistado à direita a Ilha de Pinos, e o Cabo das Cor¬ rentes Esta armada da Nova Espanha dirige-se era direitura ao pôrto de Vera Cruz por uma corrente setentrional no inverno, e por outra meridio¬ nal no verão. Antigamente aportava a S. João de Ulhoa. Dali os merca¬ dores vão por terra à cidade de Los Angeles, por fim à do México. O pôrto de Vera-Cruz é defendido por uma boa fortaleza que o domina, mas (*) Hoje vulgarmente-S. Domingos. — N. do T.
  • 256 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD a sua melhor defesa são os bancos e rochedos que tem na entrada. Gas¬ tam-se quási três meses na viagem de Espanha a Vera-Cruz. Os navios que vão a Honduras e Guatemala, depois de ter navegado pelo meio-dia da ilha Espanhola, caminham pelo norte da Jamaica até ao Cabo Negrilho na mesma ilha, e dali vão avistar o Cabo Camarão para desembarcar em Trnxilho, ou no pôrto dos Cavalos, ou no gôlfo doce, que são lugares da província das Honduras. Os que vão às Manilhas, depois de haverem chegado à cidade de México, embarcam-se no pótto de Acapulco, e no da Natividade, ambos no mar do sul. O pôrto de Acapulco é grande, abrigado dos ventos, e defendido por uma boa fortaleza. É afastado umas oitenta léguas da cidade de México, que lhe envia as suas mercadorias em récuas de mulas. A armada espanhola da Terra-firme depois de ter passado à vista da Guadalupe ou das outras ilhas vizinhas, toma a derrota para a América Meridional até reconhecer ali os Cabos da Vela e da Aguia, e seguir depois a Cartagena, onde se desembarca para o novo reino de Granada. Os navios destinados para o Peru navegam até Pòrto-Belo, como dantes navegavam para Nome-de-Deus; e ali descarregam as mercadorias da Europa, que são levadas por terra às costas de grandes carneiros, chamados vicuvos, até Panamá, ou vão por um bom espaço de caminho pelo rio de Chagre. Em Panamá embarcam-se estas mercadorias para Lima, ou para Arica, que é o pôrto de mar mais próximo do Potosi, cidade famosa por suas minas, que antigamente foram reputadas as mais ricas do mundo. Na tornada para a Europa, as armadas, assim a da Nova Espanha como a da Terra-firme, saindo de Vera Cruz e de Honduras, de Pôrto-Bclo e de Cartagena, juntam-se tôdas na Havana, na ilha da Cuba, o melhor pôrto das Índias ocidentais, que é mui seguro c defendido por três fortale¬ zas. Dali tomam a derrota pelo canal de Bahama. e depois de terem corrido ao longo da costa da Florida, da Virgínia, e da Nova-França, pas¬ sam ao sul das Terceiras no invetno, e ao norte das mesmas ilhas no veráo, a fim de avistar ou o Cabo Finistcrra, ou o de S. Vicente e depois encami¬ nhar-se ao pôrto de Cadiz, ou ao de Santa Maria, assim como dantes iam ao de San-Lucar. Todos éstes portos são na província de Andaluzia. Em nosso tempo têm às vezes estas armadas ido tomar a Corunha em Galiza e Santander em Biscaia; mas tem sido por evitar o encontro dos ingleses, que andando entáo de guerra com os espanhóis, esperavam estas armadas na sua passagem ordinária. A antiga derrota da tornada era ao sair de Car¬ tagena e de Santa Marta, cidades marítimas da terra firme da América, ir passar a oeste da ilha de S. Domingos, que é a mesma que a Espanhola e a leste das da Jamaica e da Cuba; e depois desembocar de tôdas as Anti¬ lhas pelo canal entre a Mogana e as Caicas, a fim de ganhar o mar largo, e aproveitar aí a comodidade dos ventos de oeste. Os franceses tomam a sua derrota ou para o Canadá, ou para as Antilhas, ou para a Caiena e Terra firme, que lhe está próxima. Se vão ao Ganadá, o seu trajecto é apenas de umas setecentas léguas pelo oceano, e vão passar pelo norte e pelo sul da ilha da Terra Nova, de caminho para o Rio-Grande. Se váo às Antilhas ou à Caiena, tém por costume ir passar à vista das Canárias, e seguir depois a derrota para meio dia até que na zona tórrida achem a comodidade dos ventos de leste, que ali nunca falham. Encontram em seu caminho daqueles peixes voadores, que sào do tamanho de arenques, e nào podem voar senáo em quanto tém as asas molhadas, e acham perpètuamente inimigos mais possantes que éles ou seja no ar ou seja na água Não encontram porém tão grossas serras de água em ponto algum de sua navegação, como as que encontram no mar de Gasconha.
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 257 Podem-se conhecer as derrotas das outras nações da Europa para a América pelas que acima ficam referidas, guardada a proporção das terras, ■que cada uma ocupa. DERROTA DOS EUROPEUS PARA AS ÍNDIAS ORIENTAIS Pelo nome de índias Orientais conhecemos as costas de África e Asia, com tódas as ilhas e penínsulas do nosso hemisfério, que jazem no mar das Índias além do Cabo da Boa-Esperança indo para o oriente. Neste espaço há a Cafraria em parte, o Zanguebar, a ilha Delfina (l); as costas da Arᬠbia e da Pérsia; as do império do Mogol, com as duas penínsulas da Índia ; as da China, as ilhas de Maldiva, Ceilão, da Sunda, de Japão, Filipinas e de Maluco. As diversas nações da Europa, e as diferentes companhias estabe¬ lecidas para o comércio tém avançado ou recuado à proporção de seusinte- résses as linhas dos meridianos que abrangem as terras sobreditas e fabricado por êste respeito Cartas a seu sabor, alargando nelas as regiões que lhes tocam em partilha. Os portugueses no tempo do seu grande estabelecimento nas Índias dividiram tòdas estas costas em sete grandes partes. A 1.‘ era a costa de África ; a 2.* a da Arábia ;a3.*a da Pérsia até ao gólfo de Cambaia; a 4.' a da Índia desde êste gôlfo até ao Cabo Comorim; a 5 * entre éste Cabo e o rio Ganges; a 6.” desde o Ganges até ao Cabo de Singapura o a 7.‘ entre êste Cabo e o de Liampó na China. A maior parte das regiões das Índias Orientais são as mais belas, e mais deliciosas de todo o universo e sem contradição as mais ricas, porquanto as riquezas dos outros lugares do mundo de lá vêm como de sua origem, ou antes, ali vai quem quer ser rico. É por isso que os euro¬ peus em suas navegações têm buscado todos os caminhos imagináveis para lá ir com facilidade; e foi isso o que os portugueses conseguiram felizmente no século passado. Os holandeses tém crescido ali tanto em poder no nosso tempo, que querem ser senhores assim de seus mares como de seus comércios Os ingleses também têm querido haver a sua parte. E os franceses são persuadidos que em nada cedem às outras nações e que têm tódas as qualidades necessárias para tais emprésas; e por isso no ano de 1664 fundaram uma célebre companhia para o comércio das Índias Orientais e el-rei lhes concedeu para ésse fim artigos mui favoráveis. Muitos lugares marítimos da ludia têm nomes portugueses, e alguns nomes holandeses sóbre os que lhes foram dados pelos portugueses. Há também outros que sào chamados dos nomes dos santos, cuja festa se cele¬ brava quando foram descobertos, ou o nome dos principais cabos que comandavam tais emprésas. A natureza das terras onde sáo situados estes lugares, e as coisas que nelas se tém visto, ou alguma outra consideração tém outrossim contribuído para o nome que lhes foi põsto. A lingua portuguesa é usada em quási tódas as costas das índias orientais; e também entre os europeus e indios que nelas traficam; mas quando se torna dessas Índias para a Europa pelos estados do Turco, dei¬ xa-se esta língua em Bagdad para ai se começar a falar o turco, e o franco, ou italiano corrupto. (•) S. Lourenço. ou Madigiseu. - N do T. 17 vol. II
  • 258 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD DERROTA DOS FRANCESES PARA A ILHA DELFINA A saída dos portos de França tomam a derrota quási ao sudoeste até àt altura do Cabo de Finisterra em Espanha. Dali vão no rumo de sul, e pas¬ sam a oeste, e â vista da ilha da Madeira, ou de preferência, a leste da de Pòrto-Santo. Avistam a ilha de Palma, uma das Canárias, passando-lhe dez léguas a oeste pouco mais ou menos. Podem também passar entre Tenerife e a grande Canária, mas então devem evitar com grande cautela o baixo dos selvagens, que fica ao sul de Pòrto-Santo, e dispor as coisas de maneira que o não passem senão de dia. É um agregado de ilhéus que se consideram como um banco porque são pequenos e rodeados de rochedos. Depois vão sempre no rumo do sul, e passam pelo meio do canal que fica entre as ilhas de Cabo-Verde e a terra firme de África, isto é, quási a trinta ou quarenta léguas a leste destas ilhas. Não passam mais próximos da costa de Guiné do que noventa ou cem léguas, porque as correntes do mar os impelem para ela, e porque há ali calmarias importunas. Semelhante¬ mente não se aproximam da costa do Brasil mais do que da costa de Guiné para evitar os Abrolhos, que começam perto da ilha de Santa- ■ Bãrbara, ou de Santa-Catarina, quási a dezoito graus e meio de latitude meridional; porque de outra maneira ver-se-iam obrigados a arribar à Europa. E por essa razáo seguem uma derrota média entre a ilha de Ascensão e a da Trindade, que jazem a vinte graus de latitude meridional. Daqui vào para o- sudeste até ganharem, aos trinta e dois graus da mesma latitude meridional, o- norte das ilnas de Tristào-da-Cunha, das quais se náo acercam, porque ordi¬ náriamente os mares são ali mui grossos Estas ilhas sáo sete em número, e entre elas há uma maior que as outras. Caminhando daqui para les-sudeste' acham-se os sinais do Cabo da Boa-Esperança, que sáo a erva verde, chamada sargaço c trombas, as quais sáo pedaços de canas de três e quatro pés de comprimento e da grossura de um braço, que nadam sôbre as águas com suas raízes. Têm por costume passar a distância do Cabo- das Agulhas, que possam sondar o banco, que está ao meio-dia déle. Dali vào a leste e depois a nordeste para chegar finalmente à ilha Delfina. No caminho sobredito detêm-se às vezes nas ilhas Canárias, ou nas de Cabo-Verde; outras vezes no Cabo-Branco, no Rufisco, nas ilhas dos Ídolos em Tagrin, ou na Baía de Saldanha l1) na Costa da África, segundo a necessidade e as ocorrências. As ilhas dos Ídolos são a nove- graus e meio de latitude setentrional, cobertas de matas, e muito altas. Na grande, que está ao sul, há água doce, frutos e aves; mas náo há que fiar na gente da terra. O melhor pórto das ilhas de Cabo-Verde é- a enseada dos ingleses na ilha de S. Vicente I2) É em forma semi-cir- cular, com vinte e duas braças de fundo e, uma grande rocha à entrada. As altas montanhas da ilha de Santo-Antào lhe servem de abrigo contra- os ventos de oeste e oes-noroeste. A Baia de Saldanha, que tem sete a oito léguas de comprimento sôbre duas ou três de largura, tem bom surgidouro, porque se parece com um lago, e há bom abrigo ao pé de cinco ou seis ilhéus que ali¬ se acham. S Aguada de Saldanha, é o nome português. — N. do T. Ê o Pôrto grande, hoje o mais frequentado daquele arquipélago. -N. do T.
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 259 DERROTA DA ILHA DELFINA A SURRATE, A MASULIPATÁO, A BENGALA E A BANTAO A derrota do Forte-Delfim para Surrate é esta. Depois de ter avis¬ tado a Ilha Mauricia, passar entre os baixos de Nazaré a oeste do baixo da Saia-de-Malha, a leste do dos Sete-Irmãos, seguindo o rumo de noroeste. Pode-se também ir avistar a Ilha de Diogo-Rodrigues, deixá-la a leste, passar entre os baixos de Garajoz e de S. Brandão, entre a Ilha de Roque- - Pires e o baixo de Pórta-dos-Banhos, e continuar sua derrota. Saindo da baia de Santo-Agostinho pode-se tomar a oeste da ilha, deixar os baixos da Judia à esquerda, e os baixos do Parcel à direita, e ir para nordeste, como fazem os portugueses. Em tõdas estas derrotas é mister haver bons pilotos. As derrotas para Masulipatáo, Bengala, e Bantáo, são tanto mais fáceis quanto não obrigam a passar por entre todos èstes baixos, que temos nomeado. Há de Surrate a Masulipatáo um caminho por terra, que se faz em quarenta jornadas pequenas com bastante facilidade, e por boas terras; por¬ que desde Surrate até às fronteiras de Golconda, é uma região plana, e fértil. Passa-se por Nauapôr, Nossari, Aurengabad junto de Daulatabad, Ambart, Patri, Rajura, Candabar, Udeguir I1), Serbidar, que são nos Estados do Mogol; e depois a Indur, a Golconda, Pangol, Quissorá, e em fim a Masulipatáo, terras do reino de Golconda. O caminho por mar de Surrate a Masulipatão é ao longo da costa da Índia até à altura do Cabo de Comorim, da qual se vai avistar a ponta de Gale na Ilha de Ceilão, e depois de passar ao meio-dia desta ilha, navega-se para o norte. Se se vai a Bengala, ou ao Porto Grande ou Pequeno, vai-se avistar o Cabo Godavery, e depois o das Palmeiras. TORNADA DA ILHA DELFINA A FRANÇA A tornada da Ilha Delfina a França faz-se de outro modo diferente da derrota por onde se vai a ela, por causa dos ventos gerais, que reinam de leste a oeste na zona tórrida, como temos dito. Porque depois de se haver dobrado o Cabo da Boa-Esperança, e estando-se a umas cem léguas a oeste, segue-se o rumo de nor-noroeste até aos dezasseis graus de latitude meridional, de onde se vai direito ao poente a avistar a Ilha de Santa-Helena, na qual se costumam ir refrescar. Os ingleses tem nesta ilha um forte há poucos anos. Da Ilha de Santa-Helena vai-se à Ilha da Ascensão, onde há o regalo da pescaria das tartarugas; e depois caminha-se sempre para noroeste até à altura de França. Nesta tornada quando se está um pouco para cá da linha, deixa-se o Penedo de S. Pedro à esquerda, deixam-se depois as ilhas de Cabo-Verde à direita, e do mesmo modo as Terceiras; e há todo o resguardo com os Abrolhos, que sào ao poente de umas e outras destas ilhas. (*) Eidgctr escrevem os ingleses. - N. do T.
  • 260 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD DERROTA DOS PORTUGUESES PARA GOA Os portugueses vão às Índias Orientais pelo meio-dia do Cabo da Boa-Esperança; e a sua navegação no mar das Índias é regulada por certas sazões e ventos, a que èles chamam monções. Depois de haverem dobrado aquele famoso Cabo, tomam o caminho para Goa por entre a terra firme de África e a Ilha Delfina, a leste ou a oeste dos baixos da Judia. Vão refrescar-se a Moçambique; fazer aguada ao rio da Quitangonha, que lhe fica vizinho para a banda do norte; e saindo de Moçambique vão passar entre as ilhas de Comoro e a de Joáo-Martins; e daqui vão seguindo sem¬ pre para nordeste até ao décimo sexto grau de latitude setentrional, na dis¬ tância de umas cem léguas da Costa-Deserta Enfim tomam o rumo de leste para ir a Goa, onde surgem defronte da fortaleza em seis braças de água, sôbre um fundo de vasa mole. Se passassem a leste da Ilha Delfina, não teriam as correntes do mar tanto à feição como têm, quando lhe pas¬ sam a oeste. DERROTA DE GOA PARA MACAU Quando os portugueses vão de Goa para Macau, caminham ao longo da costa de Malabar até ao Cabo Comorim, depois pelo meio-dia de Ceilão, e de tõdas as ilhas as mais meridionais; e vão passar pelos estreitos, que ficam na vizinhança da Ilha de Bale, e navegam ao longo de Macassar e das Manilhas até Macau. Este caminho é mut trabalhoso, e todavia são obrigados a fazer êstes grandes rodeios, porque os holandeses os impedem de passar pelos estreitos de Malaca e da Sonda; e até muitas vezes os vão esperar nas alturas de Cochim, e da ponta de Gale na costa da Ilha de Ceilão. A navegação de Macau ao Japão é de uns vinte dias. TORNADA DE GOA PARA PORTUGAL Na tornada, saindo de Goa os portugueses metem para o oeste coisa de cento e cinquenta léguas, e depois vém avistar a Costa-Deserta em África, ao longo, e à vista da qual ganham Moçambique; e navegando entre a Ilha Delfina e os baixos da Judia costeiam a Terra de Natal, onde de ordinário as correntes são de nordeste a sudoeste, e onde a navegação é mui perigosa. Depois disso tornam a Portugal pelo Cabo da Boa-Espe¬ rança, seguindo a derrota acima declarada. DERROTA DOS ESPANHÓIS PARA AS MANILHAS Para abreviar uma viagem de tão longo curso, como é a das Índias Orientais, os espanhóis que querem ir ãs Filipinas, a que chamam Mani¬ lhas, vão primeiramente pelo mar do norte em direitura ao México, região da América setentrional. Dali vão embarcar-se ao pórto de Acapulco no mar de sul e na mesma região, para ai se aproveitarem da comodidade doa
  • . OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 261 ventos gerais. Quando tornam das Manilhas para o México, caminham ao longo da costa para se poderem servir dos ventos, que vém da banda da terra firme. Trato mais amplamente desta derrota no artigo das derrotas dos europeus para as Índias Ocidentais. DERROTA DOS HOLANDESES PARA JACATRA, POR OUTRO NOME BATAVIA, NA ILHA DE JAVA, PARA AS ILHAS DE MALUCO, COCH1M E MALACA Os holandeses tomam muitas vezes o caminho das Índias Orientais pelo meio-dia do Cabo da Boa-Esperança, coma fazem os portugueses. Vão também pelos estreitos de Le Maire e de Browers, o primeiro dos quais não tem mais de sete léguas de comprimento, principalmente quando 3uerem ir às ilhas de Maluco e a Batávia. Seguem éste caminho através o mar Pacifico por causa dos ventos e das correntes, que ali acham favorᬠveis navegando assim para o ocidente; e porque de ordinário gastam menos tempo e perdem menos gente que na outra derrota. Quando pelo meio-dia de África vão dobrar o Cabo da Boa-Espe- rança, detém-se muitas vezes na Baía da Mesa, a que chamam Tafcl-bay f1). Esta baia é uma acolheita mui cómoda para os navios, porque podem ai surgir com tôda a segurança em seis ou oito braços de água e ficar abriga¬ dos das tempestades, que são tão frequentes nestas paragens. São além disso os ares ali mui sãos, acha-se tôda a sorte de refrescos, água excelente, e tão acessível, que se faz ali aguada sem trabalho algum. É por estas con¬ siderações que os holandeses ali têm fundado um estabelecimento de há anos a esta parte, não se dando por contentes do uso antigo de deixar ali simplesmente cartas para os seus compatriotas que houvessem de passar. A montanha ou Mesa da baia é avaliada na sua altura em 1350 pés de rei. Os holandeses, que se não detêm na Baia da Mesa, vão muitas vezes ganhar a ilha Maurícia, por outro nome chamada do Cisne, a qual tem muitas montanhas que produzem palmeiras, pau vermelho, pau amarelo e ébano excelente. Esta ilha tem na sua parte meridional um põrto entre os bai¬ xos, no qual podem caber mais de cinquenta grandes navios ao abrigo de um forte ali fabricado no ano de 1640 Dali por entre diversos baixos vão ganhar o canal de Mamale, ou o de Malique para passar a Cochim (*) e nesta última derrota têm as correntes assaz favoráveis. No que toca á derrota para Malaca, quer ali vão da ilha Maurícia, 3uer de Cochim, vão passar pelo canal da ilha de Nicobar, que é ao norte a ilha de Samatra c deixam à esquerda a ilha de Pulo Lada, por outro nome chamada ilha da Pimenta, de quási vinte léguas de circuito. Na torna-viagem para Holanda seguem pouco mais ou menos o mesmo caminho que levam os outros europeus quando tornam das Índias Orientais à sua pátria. (1) Os ingleses escrevem a seu modo - Tablc-bay. - N. do T. [*) Canais de Mamale e de Malique. Estas denominações não se acham nos geó¬ grafos modernos; mas temos por certo que o canal de Mamale è o que fica entre as ilhaa Lacadivas (que nos autores e documentos portugueses antigos são nomeadas de Mamale) o as ilhas de Maldiva; e o Canal de Malique deve ser ou o que passa por entre as ilhas de Maldiva a um e meio grau de latitude setentrional, ou o outro que passa mesmo sòbre o equador - N. do T.
  • 262 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD OUTRAS DERROTAS PARA AS ÍNDIAS ORIENTAIS Os povos que habitam ao longo do mar Mediterrâneo quando que- rem ir às índias Orientais vão por Alezandreta a Alepo e a Bir, onde entram no Euírates para ir a Bagdad e a Bassorá. As vezes tomam o caminho do deserto para ir a estas duas últimas cidades e dali vão a Ispahan, e a Agrá em caravanas; ou então embarcando no Tigris vão ao Congo e a Comorào (*) perto de Ormuz, pelo mar de El-Catif e às índias Orientais pelo oceano. As alfândegas do turco e do persa tiram proveito das mer¬ cadorias que seguem êste caminho. O transporte de Bagdad a Bassorá é cómodo, porque nas barças que andam nesta carreira, às vezes se servem de velas, outras vezes de remos e mais comummente as deixam ir com a corrente, de sorte que caminham igualmente por proa e por pópa. O rio que os árabes daquelas vizi¬ nhanças chamam Chat ou Xat, nome que dão a todos os rios grandes, tem de largura duas milhas, e de fundo ao menos seis braças. É com pouca diferença como o Ródano, mas menos rápido, e mais piscoso; e a sua água, que é um pouco salgada, é todavia boa para beber. Retalha-se este rio em muitos braços, porque a terra ali é baixa e arenosa Na derrota que se faz para a China pelas terras de Levante, é mister Íinhar Alepo pelo fim do mês de Agosto, para se aproveitar em Setembro a comodidade das caravanas, que em Novembro chegam a Bagdad. De Bagdad gastam-se dez dias até Bassorá, e doze de Bassorá a Comoráo, onde quási todos os dias se acha transporte em barças, chamadas tranquins; mas em Janeiro e Fevereiro a monção é ali boa para Surrate, e ordinàriamentes se embarca ali em navios ingleses, ou mouros, que fazem esta viagem em vinte e cinco dias; e avalia-se pouco mais ou menos igual à de Marselha a Alexandreta. Em Surrate toma-se o caminho de terra e gastam-se quarenta peque¬ nas jornadas até Masulipatào, como já disse acima; e isso cérca do mès de Março. De Masulipatào vai-se a Tanasserim por mar; dali a Siào; e de Siào à China em tódas as estações. É éste o caminho que levaram os trés bispos franceses, que há cinco ou seis anos partiram para as Missões da China. Faz-se menção de outro caminho para a China por Candar, Agrá, Patná, Nepal, Patan, etc., e é todo por terra ; mas nào se acha nêle pousada alguma, tem poucas aldeias, grandes desertos, e montanhas temerosas, onde se servem de grandes cabras para levar o fato. Há mesmo algumas destas montanhas tão escarpadas, que para as passar é mister o viandante envol¬ ver-se em tapétes, e pôr-se às costas de certos homens, que os transportam por ésses lugares dificeis (*). Os que habitam nas bordas do Mar Negro, sobem pelo Fazze, ganham o Araxes, o Mar Cárpio, e o Albiamo, donde vão por terra até ao rio Indo, ou até ao Ganges, e éstes rios os conduzem ao oceano. É por essa razào que Nicanor, rei da Sitia, tinha projectado juntar o Ponto-Euxino, (*) Assim escrevem os nossos autores o que os franceses escrevem Gombru e”Gomron e os ingleses Gombroon. — N. do T. (*) Aqui se refere sem dúvida o autor àa maças, ou camilhas de diversos panos, e tecidos, em que os viandantes são conduzidos na mesma forma que nas machilas e palan¬ quins. Veja-se o que disse Pyrard, a pig. 185 deste volume. — N. do T.
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 263 ■que é o Mar Negro, ao Mar Cáspio. Os genoveses ocuparam por largo tempo a cidade de Cafa para manter éjte comércio. Há ainda para os daquelas regiões outro caminho por Trebizonda, ■por Erzerum, e pelo Eufrates, que leva a Bir, e dali, como já dissemos, ao mar das Índias. Os moscovitas aproveitam-se do Volga, do Mar Cáspio, do Albiamo, e do Indo; e para tornarem à sua cidade de Moscovo, sobem pelo Volga, pelo Oca, e pelo Mosca. Tais são os caminhos ordinários, por onde se vai às Índias Orientais, e que tornam hoje aquela regiáo tão célebre, como antigamente a fizeram as expedições militares de Baco e Alexandre Magno. Direi agora aquéles caminhos, que depois têm sido inutilmente pro¬ curados para o mesmo intento. Os franceses empreenderam subir pelo rio de Saguenai no Canadá e pelo mar setentrional que lhe não fica mui afas¬ tado ou pelo Mar Doce, por alguns lagos, pelo estreito de Anien, e pelo de Jesso, passar ao Cataio, à China, e ás Índias Orientais. Os ingleses têm buscado passagem pelo estreito de Davis. Os holandeses têm feito o mesmo pelo de Veigats, e pelo norte da Nova Zembla. Há outros caminhos para passar às mesmas Índias, mas têm sido dei¬ xados em desuso. Os romanos iam a Alexandria, subiam pelo Nilo até Coptos, que hoje é Cana; e por terra iam a Berenice, que é Cossir, onde entravam no mar Roxo, e por éle no oceano. No tempo dos Soldôes do Egito, Suez e Adém eram os armazéns de mercadorias das Índias, que se transportavam ao Cairo e a Alexandria pelo Nilo; então chegavam à Europa as especiarias mais frescas do que hoje chegam, porque os venezianos e genoveses as traziam pelo Mediterrâneo. Vicente le Blanc, de Marselha, diz na sua Relação, que subiu pelo Zambeze, rio de Moaomotapa, e que tendo dali passado ao Nilo, desceu por êste até à sua foz. Se fala verdade, deve ter achado algum outro braço diverso daquele onde há as cataratas •dêste grande rio. . Pág. 19 AVISTAMOS AS ILHAS CANARIAS E PASSAMOS POR ELAS Esta passagem faz-se ordinàriamente entre Tenerife e a grande Caná- ria, se não se vai passar a oeste da de Palma. O primeiro descobrimento destas ilhas foi feito por Bethencourt, fidalgo francês, que tomou o titulo de Rei das Canárias, e facilitou a conquista delas aos espanhóis, a que são sujeitas. O nome de Canárias procede dos Cães, que nestas ilhas havia antigamente, e não das Canas de açúcar, que só foram ali plantadas depois de elas terem aquéle nome. A comum opinião é que elas são as ilhas Fortunadas dos antigos. Seja como fór, produzem excelente vinho, açúcar em quantidade, e passarinhos, que se chamam canários. Contam-se sete, que tódas são isentas de animais venenosos, mas contudo sujeitas a calores excessivos. A principal Canária tem uma cidade e bispado do mesmo nome. A ilha de Ferro é conhecida pela sua árvore, que destila água de que se servem os habitantes ; e pela posição do primeiro meridiano. A de Tenerife é a maior de tódas, com a montanha do Pico, que leva bem três dias a subir-se até ao cume. Esta montanha está sempre coberta de neve, e a gente do mar a reputa a mais alta do mundo. Avista-se de cinquenta .léguas ao longe; serve de farol, quando se navega nos mares próximos ; e
  • 264 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD «Iguns põem ali o primeiro meridiano. A ilha de Teneriíe é tão fértil, que produz todos os anos, segundo se diz, mais de vinte e oito mil tonéis do mais excelente vinho que a terra cria As outras ilhas Canárias são a Gomeira, Palma, Forte-Ventura, e Lancerote. Diz-se que a ilha Inacessível aio poente das Canárias, e que quando se quer lá ir custa indizível tra- o, ao mesmo tempo que às vezes se vai lá ter impensadamente. Dá-se- -lhe também o nome de ilha Encantada, Fortunada, e muitas vezes lhe cha¬ mam a ilha Alcidiana, ou ilha de S Bvrondom. No demais as ilhas Canárias servem muitas vezes de lugar onde as frotas espanholas, que tra¬ zem a prata das Índias Ocidentais, esperam umas pelas outras, e ai recebem ordem determinando o pórto onde devem ir entrar. Pág. 19 A PRINCIPAL É A DE S. NICOLAU, DE QUE TÔDAS AS OUTRAS DEPENDEM, E É A SEDE DO BISPO E DA JUSTIÇA O autor trata aqui das ilhas de Cabo-Verde, mas o que éle diz da ilha- de S. Nicolau, deve entender-se da de Santiago, onde há uma cidade do mesmo nome, capital de tôdas estas ilhas (l). ainda que náo seja a mais popu¬ losa, por causa de seus ares insalubres, nem tampouco é bem fortificada, porque tem sido muitas vezes saqueada por gente do mar, ainda que pouca, em número. Pág. 20 AVISTAMOS A COSTA DE GUINÉ, NA TERRA DE SERRA-LEOA Há em Guiné uma grande montanha ou serra déste nome, assim como ambém um célebre promontório ou cabo, conhecido pelo nome de Tagtin. Os ingleses têm ali hoje uma fortaleza, que lhes foi cedida pelos portu¬ gueses. Pág. 22 ERA A ILHA DE ANO-BOM Recebe-o dos portugueses éstc nome, por a haverem descoberto no primeiro dia do ano. (*) A cidade chamava-sa Ribtira-Crar.de, hoje a capita) é na Vi/a-de-fraie_N, dê T..
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 265 Pág. 26 AVISTAMOS AO ROMPER DA AURORA A ILHA DE SANTA HELENA Esta ilha, que tem quási dezasseis léguas de circuito, é no mar da Etiópia. Não há no mundo ilha, que seja mais afastada da terra firme. Cha¬ mam-lhe a hospedaria do mar, porque há nela água doce em abundância, e os que tornam das Índias Orientais têm por costume vir demandá-la, e refrescar-se nela. É alta e montanhosa com uma costa mui limpa, onde em tôda a parte há bom fundo, de sorte que mesmo perto das rochas há mais de dez braças de água; todavia é mister ter resguardo com as âncoras, que os navios ali têm deixado por várias vezes, quando lá têm estado. Os ingleses acharam esta ilha táo cómoda, que há poucos anos fabricaram ali um forte (*). Pág. 27 CABO DA BOA-ESPERANÇA O Cabo da Boa-Esperança é o mais comprido, mais célebre, e mais perigoso que há no mundo. Ocupa a parte mais meridional da África, e foi assim chamado, quando depois de haver sido dobrado, se teve esperança de passar brevemente às Índias Orientais, o que sucedeu no ano de 1498 (*). Antes disso era chamado o Cabo das Tormentas, por serem mui fre¬ quentes em sua vizinhança. Alguns lhes têm também chamado o Leáo do mar, e outros a Cabeça de África Há sinais que dào a conhecer que se está Eróximo dêle ; e sào, que a cinquenta ou sessenta léguas ao mar, se vê oiar troncos de canas grossas, chamadas trombas; e voar grande quantidade de pássaros brancos com malhas pretas. Os que voltam das IndiasOrientais vêem ali rebanhos de lóbos marinhos parecidos com ursos; nesse tempo lançam continuadamente a sonda. (*) Pareço incrível como os portugueaes deixaram de fazer nesta ilha uma fortaleza- Quando no fim do século XVI começou a ser frequentada das outras nações da Furopa mandou aim El-Rei Filipe II tomar informações á índia sobre se convinha ou não fortifi- car-se a dita ilha, no que havia cm seus conselhos alguma contrariedade de pareceres. E para se resolver o negócio, determinou que o capitão-mor e capitães das naus. que vieram do Reino no ano de 1598. na sua torna-viagem, vissem tôda aquela ilha. e os portos e aguadas que teo», em que se possa surgir, e levassem uma relação deles, e uma planta da ilha, para Sua Majestade ver tudo com o que o Vice-Rei lhe escrevesse sóbre esta matéria. (Arcbiro Portuguez Oriental, Fascículo 3.° Doc. 334) Nada porém se féz nem então, nem depois. A morte de Filipe II no mesmo ano de 1598 foi talvez a causa principal de não ir por diante aquéle pensamento. - N. do T. (*) É sabido que o Cabo foi pela primeira vez dobrado por Bartolomeu Dias na viagem que fez saindo de Lisboa em Setembro de 1486. e recolhendo em Dezembro de 1487. E que a primeira viagem da índia foi feita pela armada de Vasco da Gama, que saiu de Lisboa em Julho de 1497 e recolheu a 1.* nau dela em Julho de 1499. E portanto exacta a data de 1498, que o autor assina i primeira passagem á índia pelo Cabo da Boa- 'Esperança. - N. do T.
  • "266 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Além disso o Cabo da Boa-Esperança é famoso por muitas conside¬ rações, mas particularmente por ser o limite da navegação das Índias Oci¬ dentais e das Índias Orientais, e porque os que vão às Índias Orientais, e os que de lã voltam estão na necessidade de o demandar. A baia que fica a leste do Cabo tem uma bóca de cinco léguas, e todo o seu contorno é de rochas escarpadas até à borda do mar. A terra ali é de ares temperados, e a vivenda deve ser cómoda. Muitos vales vizinhos tém ervas e flores em abundância. Há rios piscosos, e bosques cheios de veados, bois, etc. Os habitadores andam vestidos das peles déstes animais. São mui destros no correr, mas mui sujos no seu comer; e parece, quando falam, que se estão ouvindo galinhas da Índia. Pág. 28 CHAMAM-LHE CABO DAS AGULHAS. PORQUE NA ALTURA DÊLE AS DE MAREAR FICAM FIXAS, E APONTAM DIRECTA- MENTE PARA O NORTE, SEM DECLINAR PARA LESTE NEM PARA OESTE, ETC. Tem-se observado que junto do Cabo a agulha de marear não é "fixa, o que faz julgar que a variação do magnete não é sempre a mesma no mesmo lugar. Sòbre o parcel ou banco que está ao meio-dia do Cabo o mar tem quási setenta ou oitenta braças de fundo. A sonda, pelo que dizem os pilotos, traz dali areia branca fina. Pág. 38 A ILHA DE S. LOURENÇO É MUITO GRANDE, ETC. Nesta página e nas seguintes está a descrição da ilha de Madagáscar, -que os portugueses tém chamado de S. Lourenço. Mas como depois da viagem de Pyrard temos tido muitas relações desta ilha mais amplas que a sua, é aqui lugar de dar aos curiosos o extracto que delas tenho feito. DESCRIÇÃO DA ILHA DELFINA. A ilha Dclfina é situada no Mar Oriental, que chamamos Mar das Índias, e é a maior ilha das que são próximas de África da qual não é afastada mais de cem ou cento e vinte léguas. Não há ilha no mundo, que tenha tão grande extensão, porque tem de comprimento mais de tre¬ zentas e cinquenta das nossas léguas e quási cem de largura. Os indigenas lhe chamam Madecase e Madegascar, os portugueses S. Lourenço, e os fran¬ ceses ilha Delfma. Os antigos conheciam-na pelos nomes de Menuúas, e de Cerne Etiópica. Os seus ares são temperados, o terreno próprio para
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 267 tóda a sorte de grãos e de árvores e faz-se ali facilmente provimento de viveres, porque as águas são excelentes e os frutos deliciosos. As montanhas têm bosques, pastos e plantações de diversas espé¬ cies; e os campos são regados de rios e largos piscosos. A maior parte destes rios vem das altas montanhas que atravessam a ilha de meio-dia ao setentriào, e que provavelmente têm minas de oiro, porquanto se apanham algumas vezes areias de oiro. nas ribeiras que delas descem. Entre os habitadores há pretos e brancos, que quási todos sáo idóla¬ tras, e há lá mui poucos maometanos. As últimas relações desta ilha dizem que os seus primeiros habitadores eram descendentes dos antigos judeus, porque a circuncisão que ali se usa em alguns lugares, não se faz na forma da lei de Mafamede; roas que os ricos não são ali havidos em maior conta que os pobres, e que se guarda sempre a precedência do nascimento; que em alguns distritos da ilha se véem ainda homens selvagens que dei¬ xam crescer a barba e os cabelos, vivem no mais interior dos matos, e andam totalmente nus; que há crocodilos na maior parte dos rios, e na terra ser¬ pentes, que não fazem mal; que há outrossim grande número de bois, que têm uma geba de gordura no cachaço, e que por isso alguém acreditou que êstes bois eram camelos. Herbert diz que se acham ali salamandras, cuja figura se parece com a do camaleão, e que são tão frias que suportam o fogo por tão largo tempo como faria o gêlo, e até o apagam, quando não é muito forte. Marco Polo, de Veneza, faz menção de um pássaro desta ilha, a que êle chama Ruc, e afirma ser semelhante à águia, e tão grande que as penas de suas asas tém mais de doze pés de comprimento; e que tem tanta fôrça que pode levar nas unhas um elefante pelos ares; mas os nossos franceses que têm habitado nesta ilha por dilatado tempo, ainda o não puderam des¬ cobrir. Há nesta ilha grande número de senhores particulares, que tém o nome de Roandrianos, e que continuamente fazem guerras uns aos outros para se apossarem do gado. Os portugueses, ingleses e holandeses ali têm algumas vezes apor¬ tado ; a saber, os portugueses na angra do Galeão, os ingleses na baía de Santo-Agostinho e os holandeses na de Antão-Gil ; mas os franceses depois que ali fabricaram o forte Delfim, tém reconhecido mui particularmente tôda a costa oriental e meridional da ilha, ou por trato e comércio, ou por guerra e têm visitado uma boa parte do interior das terras, das quais toma¬ ram posse em nome de el-rei. E na verdade a ilha Delfina lhes é muito mais cómoda que Moçambique aos portugueses, porque não há calores tão molestos, nem no caminho para ela é necessário passar tantos baixos. Tiram dali arroz, couros, cera, gomas, cristais, aço, cobre, ébano, diversas espécies de madeiras e outras mercadorias. Eis pouco mais ou menos o que se pode dizer da ilha Delfina em geral. Pelo que toca aos particulares da sua costa, está averiguado que tem poucos portos bons, e poucos rios navegáveis, porque a maior parte estão entupidos. A angra Delfina é o lugar que os franceses têm escolhido como mais cómodo para seus desembarques. A entrada dela tem duas léguas
  • 268 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD A pequena ilha de Santa-Clara, que está ã sua entrada, oferece um bom abrigo. No rio Mangafia não podem entrar senão batéis, mas os navios grandes podem surgir com segurança junto da ilha de Santa Luzia, que é o lugar onde os franceses primeiramente habitaram. Manambato «em a foz cheia de rochedos. Fotai e Same só correm para o mar quando há grandes chuvas. Manampani, chamado na sua parte final Manatenga, corre livre¬ mente para o mar, mas tem tantos cachopos nas suas quatro fozes, que ainda se não tentou fazer ali entrar barcos Avibulc, por outro nome o rio de S. Gil, vem das montanhas, onde pelo que se diz, há oiro. Náo tem impedimento na sua desembocadura no mar. Manangart tem sete bocas, mas tódas cheias de rochas, que impe¬ dem a entrada; e além disso ainda que grande, é mais uma torrente que um rio. Matatara, que tira o seu nome de uma província mui fértil, tem duas bôcas, afastadas uma da outra sete léguas. Mangasi é de difícil acesso, mesmo para pequenos barcos por causa dos parcéis; e todavia os franceses tiveram ali antigamente uma residência. Faraon, largo na foz, pode receber alguns barcos. Morombe está quási sempre entupido. Mananzare é assás fundo para embarcações pequenas. Alguns franceses habitaram na sua vizinhança, donde haviam tirado oiro em pó; mas foram ali mortos; e semelhante sorte tém tido depois os que se têm fiado muito nos naturais da terra. Ambaé náo se entupe, e é próprio para barcos. O Pôrto das ameixas tem bom surgidouro para navios. A angra de Galembule não é boa por via dos rochedos, que ai há debaixo de água; contudo acha-se bom abrigo para barcos junto da ilha. Há ali abundância de arroz ao longo da costa. Mananguru tem quatro bôcas, das quais a mais setentrional, cha¬ mada Simiame, é assaz larga, e tem seis ou sete pés de água. Um barco pode subir por êle mais de dez léguas, e acham-se ali pedaços grossos de cristal. A baia de Antào-Gil, é assim chamada do nome de um português que primeiro a descobriu. Entra catorze léguas peia terra dentro, e tem nove léguas de bôca, com muitas aldeias ao longo de suas bordas. Uma ilheta que ali há proporciona boa acolheita aos navios. Os holandeses têm ali portado muitas vezes no intento de traficar com os naturais. A ilha de Santa-Maria a duas léguas da terra firme, tem três léguas de largura, dez ou doze aldeias, e quási seiscentos habitantes além de alguns franceses. É rodeada de rochas, sóbre as quais podem navegar canoas na maré cheia; e há ali belo coral branco e diversas conchas mui estimadas mesmo pelos da Europa. Acha-sc âmbar-gris na costa ocidental. Para além da baia de Antào-Gil a costa corre norte-sul; porém, desde a angra Delfina até esta baia corre su-sudoeste e nor-noroeste. A baia de Vocmaro é neste espaço (*), e o terreno produz artoz em abundância. (1) Isto é. desde a baia de AntáO'Gi! para o norte. — N. do T.
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 269 O Cabo Natal, e o de S. Sebastião formam as duas pontas raais setentrionais da ilha f1). Tôda a costa ocidental é mui pouco conhecida dos franceses. Há nela muitos lugares, que conservam ainda os nomes de alguns portugueses que ali desembarcaram antigamente; e é esta costa fronteira às terras que êles possuem na terra firme de África. Mais adiante há os baixos mui extensos conhecidos pelo nome de Parciis; depois o rio de Mansiatre, e outros; mas nenhum é tào conhecido Somo o de Onglati. Êste rio de Onglaté é por outro nome chamado de canto-Agostinho; julga-se que há oiro na sua vizinhança, mas o ar ali c insalubre. A baia de Santo Agostinho tem uma ilheta na entrada, e quási oito braças de água de profundidade com um bom fundo de areia. Os rochedos cobrem a baia da banda do norte e do sul; só o noroeste, e o oes-noroeste a varejam. Os ingleses surgem muitas vezes nesta baia quando váo a Surrate; a ainda ali se vêem os restos de um forte de terra, fabricado pelos companheiros de Pyrard. Esta acolheita pode servir aos franceses tanto como Moçambique aos portugueses para o tráfico das índias. A angra de Carembola é a que os holandeses chamam o seu cemi¬ tério, por razão de um navio dèles, que ali se perdeu antigamente. Marembuve é rio profundo, e os territórios por onde passa sào cheios de bois bravios. É esta a parte mais meridional da ilha. Os Ampa- tras, que nela habitam, sào gente má, e os navios não podem chegar-se a esta costa sem perigo. Mandrerei ainda que grande, é mais uma torrente que um rio ; e a maior parte do tempo está entupido. Perto do lago de Anhong há salinas, que podem ser melhoradas. Os habitantes têm ali quantidade de algodão e de Palma Christi. A angra dos Galeões é somente própria para barcos e não tem abrigo contra os ventos de sul e de sudeste. É assim chamada dos portugueses, que ali faziam antigamente portar os seus galeões, e que haviam erigido o forte da ilheta perto do rio Panschere, de que ainda se vêem restos. Fanschere não corre ao mar senào quando há grandes chuvas, ou quando a maré é mui alta. A sua água é salgada até uma légua pela terra dentro, salvo quando está desobstruído. Desemboca num lago de uma légua de largura e mui profundo. A terra circunvizinha é mui fértil e cheia de grandes aldeias. Pág. 42 MOÇAMBIQUE Moçambique é o melhor govèrno, e o melhor lugar que os portu¬ gueses tém nestas regiões; porque têm ali uma boa fortaleza na ilha do mesmo nome, a qual tem de comprimento meia légua; e é ali que os seus navios aguardam pela monção própria de suas viagens às índias Orientais. O pórto é ao norte da cidade, e quando se entra néle dei- (i) Náo se acha o nome de Cabo Natal nos geógrafos modernos; dere ser o Cabo Ambro. - N. do T.
  • 270 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD xam se duas pequenas ilhas ã mão esquerda. Os habitantes seriam ali mais numerosos, se os ares não fossem tão insalubres. Pág. 55 ACHÉM NA ILHA DE SAMATRA Samatra é a ilha mais afamada de todo o Oriente por causa da sua grandeza e de suas riquezas, pois tem de comprimento trezentas léguas de França, e de largura setenta, e tem muitas minas de ouro. Está dez léguas afastada da terra firme, e os antigos julgaram que ela era península por razão do grande número de ilhetas que parece que a prendem ao con¬ tinente. Tem cinco ou seis reis, de que o mais conhecido é o do Achém ; os outros tèm a sua residência em Camper, Jambi, Menancabo e Palimbão. De tal sorte se tém mantido em sua ilha, que os europeus ainda ali não puderam ter fortalezas. Há nela uma montanha que lança fogo e chamas da mesma sorte que Monte Gibel na Sicília. A pimenta que se colhe nesta ilha é melhor que a da costa de Malabar, porque a terra ali é mais úmida. Apanha-se ali ouro em grãos e em pequenos pedaços, e isto em covas feitas nos regatos. No sertão da ilha há ainda habitantes bárbaros que não têm dificuldade de comer a carne de seus inimigos crua com sal e pimenta, que sempre trazem consigo para êste efeito. A cidade de Achém é a mais con¬ siderável de tóda a ilha, e já foi maior do que ora é. Está a meia légua do mar, numa grande planície à borda de um rio, tâo largo como a Soma, mas táo baixo que barças meás nào podem entrar néle. Há também ali uma fortaleza à borda déste rio. Pág. 84 DESCRIÇÃO DAS ILHAS DE MALDIVA, SUA SITUAÇAO, ETC. Sendo a descrição destas ilhas a mais curiosa e a mais ampla de tôdas as desta Viagem, nada tenho a acrescentar-lhe. Pág. 176 SANTO-TOMÉ Esta cidade de Santo-Tomé é na costa de Coromandel, ao meio dia da de Meliapor, que alguns confundem com Santo-Tomé. Deriva o seu nome do déste Apóstolo, que ali féz muitos milagres, e prognosticou que homens brancos haviam de vir àquelas regiões; o que se verificou com a
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 271 vinda dos portugueses. A gente da terra diz que aqueles que martirizaram o Santo Apóstolo têm uma perna mais grossa que a outra. A cidade de Santo-Tomé pertence hoje ao rei de Colconda. Pág. 179 PREGUNTOU-ME SE OS FRANCESES ERAM AQUÊLES FRANKl, OU FRANQU1, TAO FALADOS NAS ÍNDIAS O nome de França é tão conhecido nas outras nações, que os europeus que querem ser bem aceitos na Asia todos tomam o de francos. Os turcos mesmo e muitos levantinos chamam geralmente por éste nome a todos os que sabem que professam a religião católica. Os indios orientais tendo conhecido pelos nomes de rumes e de romanos aos mamelucos que vieram em socorro dos reis de Cambaia, chamam francos aos portugueses, egípcios e outros povos ocidentais, por razão dos progressos das armas francesas na Terra-Santa e no Egipto, cuja notícia chegou até èles. Pág. 207 CAMBAIA E SURRATE, ONDE ENTRE ELES SÔ SE METE O RIO Cambaia é na extremidade ou no fundo do seu gòlfo, a mais de vinte e cinco léguas de Surrate, que fica à direita no mesmo gólfo sóbre o rio Tapti. Pág. 217 CONTAVA A TODOS AQUÊLES REIS INDIANOS AS MARA¬ VILHAS DA GRANDEZA E MAGNIFICÊNCIA DA HOLANDA DESCRIÇÃO DA HOLANDA. Chamamos Holanda às Províncias Unidas, porque a Holanda é de entre elas a Província mais rica e mais povoada. Cada Província é uma república, tôdas juntas formam um todo a que chamamos os Estados Gerais das Províncias Unidas dos Países Baixos. A Majestade déste Estado reside nos Senhores dos Estados Gerais que tém o titulo de Altos e Poderosos Senhores; mas a autoridade absoluta sóbre as coisas reservadas à causa de aliança pertence aos Estados Provinciais. O sêlo dos Estados Gerais é um Leão, que segura um feixe de sete flechas mui estreitamente ligadas; e todavia estas Províncias não são sempre tão bem unidas, que se não semelhem algumas vezes a um corpo com muitas cabeças, das
  • 272 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD quais umas querem levar para um lado, em quanto as outras o puxam para outro lado. Não há Estado que tenha maior número de fortalezas e que seja melhor defendido pela natureza do que este, porque além delas tem o mar e muitos rios, a saber, o Mosa, o Vahal, e o Issel, que o defendem, e lhe dão meios de prover de peixe as regiões vizinhas. Alem das Provindas Unidas, os Estados Gerais têm muitas ddades em Flandres, no Brabante, no Licge e em Alemanha sôbre o Reno; e estas ddades, que são extraordinàriamente fortes, lhes dão meio de levantar Í-andes contribuições. Tem cm Flandres a Ecluse, Middelburg, Ardem- urg, o Sas de Gand, Axel e Hulst, Bergopzom, Breda, Bois le Duc, Grave e o castelo de Rovestein no Brabante; esta última praça é do Duque de Neuburg; Dalem, Rolduce Fauquemont em Limburgo, Maestricht no Liege; e em Alemanha sôbre o Reno Wesel, Reez, Emerik e Orsoy no Ducado de Cleves pertencente ao Eleitor de Brandeburgo, e Rhimberg que é do Arce¬ bispo de Colónia. Do lado de Vestfália tem guarnição na cidade de Embden e nos fortes de Eideler e Leer Ort. Tem ainda ocupado Borkelo pertencente ao bispo de Munster. Por isso muitos príncipes vizinhos têm pretensões sôbre os holandeses; e até a Ordem de Malta tem exigido dêles com grande instância a restituição de suas Comendas, para a qual tem empregado a mediação de el-rei de França. Há também duas companhias de mercadores, uma para as Índias Orientais e outra para as Ocidentais. A primeira destas companhias tem chegado a ser tão possante, que parece hoje uma República, à qual prestam vassalagem mais léguas de território do que há geiras de terra em tôda a Holanda. Tem mais de quatorze ou quinze mil homens de guerra, e um grande número de navios a seu serviço, no que andam ocupados ordinària- mente mais de oitenta mil homens. Há já longo tempo que ela tinha mais de vinte fortalezas consideráveis e outras tantas feitorias nas Índias; de que dou em outra parte a relação. Os holandeses não se contentam com o levante e com o poente ; vão também às partes do norte, onde tém tomado assento no Spigelberg, e junto do estreito de Veigats; navegam outrossim para o sul da Nova- -Zelândia, na Nova-Holanda e na terra de Nuits, onde há pouco têm descoberto terras de vasta extensão, sem todavia poderem até agora haver se com os naturais, nem por fòrça nem por brandura. De sorte que se pode dizer dos holandeses que não são menos poderosos no mar que na terra. E com efeito têm muitas vezes desbara¬ tado as frotas espanholas, tido mão nos ingleses que pretendem ser os soberanos do mar; e o número de seus navios é tão grande que há quem diga que só eles à sua parte tém tantos como todo o resto da Europa. Têm com que armar mais de mil navios, não obstante não produzir a sua terra nem madeiras, nem as outras coisas necessárias a êste intento. Ao princi¬ pio só limitavam os seus planos à pesca e ao tráfico costeiro; hoje porém abarcam o mais rico comércio que se faz por mar e querem até tratar de igual a igual com a potência, cujos vassalos foram. É além disso em Holanda que tem chegado a mor excelência o modo de fazer cercos e fortificações; e guarda-se ali tâo boa ordem na guerra que os habitantes se têm enriquecido com ela, ao mesmo tempo que nos outros paises os empobrece. Nota-se ainda que durante as suas guerras têm pagado maiores contribuições, e de melhor vontade, que quando estavam sob o dominio do rei de Espanha, e averiguou-se que só no ano de 1605 pagaram atê sete milhões de oiro. Entre as Províncias Unidas há quatro para Ocidente, Holanda
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 273 Zelândia, Utreque e Gueldres; e quatro para Oriente, Zutphen, Ovcr-Issel ou Translsalane, Frísia e Groningue. Os que contam só sete, fazem uma só de Gueldres, e Zutphen. Nas assembéias estas províncias dão seu voto nesta ordem: Gueldres e Zutphen primeiro, e depois Holanda, Zelândia, Utreque, Frisia, Over-Issel, Groningue e as Omelandes É para notar que é mister que tódas estas províncias consintam nas resoluções que se tomam em suas assembleias, nas quais se não segue a pluralidade de votos. A província de Holanda propriamente dita é uma grande peninsula, que se mantém contra os assaltos do mar por meio de seus diques, aos quais se faz, dia e noite, uma vigilante guarda, e onde se despende tanto que muitas vezes um pé de terra quadrado custa ali mais de cem escudos. E esta província um verdadeiro lago gelado no inverno, e um pântano per¬ pétuo no verão Diz-se também que a terra ali é ôca, e que treme como se boiasse na ãgua. Por outro lado os prados são ali tão bons, que se criam vacas que dão trés grandes celhas de leite por dia. Suas armas e o seu comércio a tornam famosa em tódas as partes do mundo, e a pescaria dos arenques, que se faz pelos seus navios chamados Búsios, é mui conside¬ rável. Só ela paga mais contribuições que tódas as outras províncias jun¬ tas; porque por cada cem libras ela entra com cinquenta e sete e meia. O grande número de seus navios faz confessar que ela tem mais casas no mar que em terra; e um espanhol afirmava uma vez com chiste que ali choviam navios. Cada morador tem ali o seu barco, e o seu batel; e quando viaja por terra, leva ordinàriamente um grande varapau ao ombro para o ajudar a sair dos lugares onde poderá atolar-se. É costume ali andar sóbre o gélo com patins, e antigamente barcos à vela, que tinham um ferro por baixo, andavam muitas vezes dez léguas numa hora. Aboliu-se já o pernicioso costume que havia na terra de brigarem a golpes de faca. Não há pais no mundo de semelhante extensão, que seja tão rico, tão forte e tão povoado, e onde haja tão belas cidades; porque sendo estas cidades novas, são quási tódas edificadas regularmente, e as pessoas que as têm fundado têm tido melhores engenheiros e arquitectos do que tinham seus predecessores. Cul¬ tiva-se ali excelentemente a pintura, a gravura, as manufacturas de tódas as sortes, e particularmentc as de panos de lá e outros tecidos. Os que dizem que os Paises Baixos são o anel da Europa, dizem também que a Holanda é a sua pedra. É verdade que há ali trés coisas, que molestam muito os habitantes, a saber: os ventos do norte, as chuvas diuturnas, e os nevoeiros cerrados. Os estados provinciais da Holanda são qualificados de nobres e •mui poderosos senhores Muitos julgam que na Holanda só há mercadores, mas enganam-se; porque há ali muitas familias ilustres entre as quais os Brederodes são mui nobres, os Vassenaer mui antigos, e os Egmons mui ricos. A nobreza é a primeira que vota, pòsto que não tenha mais que um voto; dezoito cidades tém cada uma o seu, com a soberania comum sancionada por uma aliança. Entre as suas cidades há seis principais, que se chamam grandes e são, Dort, ou Dordrecht, Harlemo, Del), Leiden, Amesterdào e Goude. Dort é lugar onde se bate a moeda. Tem o primeiro voto, por ser aquela onde os condes de Holanda e seus súbditos se davam reciproca- mente juramento. Os seus magistrados tém o privilégio de trazer consigo guardas, o que se não pratica nas outras cidades da província. No ano de 1421, de cidade que era na terra firme tornou-se em ilha por uma espantosa cheia do mar, que submergiu mais de dez mil pessoas e setenta e duas aldeias, de que se vém ainda os tristes sinais em pontas de tórres. Harlemo inventou a imprensa, cujos caracteres foram roubados por um criado, e levados a Mogúncia [Mayence], que se arroga tôda a glória da 11 II Tol.
  • 274 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD invenção. Seus navios tiveram em outro tempo a honra da tomada de Damieta no Egipto, achando meio de romper a cadeia de ferro que lhe fechava o pôrto. O duque de Alba, tendo tomado esta cidade, mandou fazer nela execuções tão cruéis, que há quem derive dali o provérbio, com que se descreve uma grande desordem - fazer Arlem I1); e porque êste mesmo duque se gabava de ter mandado matar mais de dezoito mil pes¬ soas pela mão do algoz, ficou em Holanda o costume de chamar duque de Alba a um homem cruel. Harlemo tem obreiros que fabricam panos, os mais finos e os mais brancos de tôda a província, e nota-se que uma vez se lhes meteu em cabeça abandonar o seu oficio para se fazerem mercadores de túlipas. Delf é lugar da sepultura dos príncipes de Orange. Lcidcn é o ôlho, ou segundo outros o jardim da Holanda, por causa da limpeza de suas ruas, e da beleza de suas casas, e é igualmente célebre por sua antiguidade, por suas belas impressões de livros, por vir ali acabar o Reno em areias onde se tem inútilmente trabalhado por se fazer um põrto de mar; e finalmente pelo completo destroço de um exército espanhol, no século passado, para o que os holandeses romperam todos os diques da vizinhança. Desta cidade era o alfaiate que, por seu mal, se fêz rei dos anabaptistas em Munster. Amesterdáo corre parelhas com as melhores cidades do mundo. Por meio do grande número de seus navios, e da comodidade que tem para os esquipar, faz hoje a maior parte do comércio que antes se fazia em Antuér¬ pia (Ànverj), Sevilha e Lisboa. Ela só paga tanta contribuição como tôdas as outras cidades da província juntas. Poderia com justo titulo ser cha¬ mada o mercado e tenda universal das raridades, tão cheia está de diversas mercadorias. Encerra tanto ouro e prata que se afirma haver algumas vezes mais de duas mil e quinhentas toneladas de ouro no seu banco. A des¬ pesa para a construção da sua casa da Câmara (Hoste! de Vi lie) foi prodigiosa. Goude tem a vantagem de estar assente em sítio onde as águas são correntes, e onde os seus habitantes respiram bom ar. Roterdáo, o arsenal do país, c a pátria de Erasmo, um dos homens mais sábios do seu tempo, é a mais considerável das doze cidades, a que chamam pequenas. Edam é notável por seus excelentes queijos, que têm a côdea ver¬ melha; e por uma sereia, que se achou na sua vizinhança no ano de 1430. A Haia, residência do Conselho dos Estados Gerais, não é mais que uma aldeia, mas é a povoação a melhor edificada e mais deliciosa que há na Europa. A vila de Losdunen, que lhe fica próxima, ê conhecida pelo parto de trezentos e sessenta e quatro filhos, que ai teve em outro tempo, segundo se diz, uma condessa de Holanda. Alcmaer é a melhor cidade da Holanda do Norte. Guitremberg, nos confins do Brabante, é famosa pela pescaria dos salmões. La Brille e Texel são dois afamados portos de mar; êste para o seten- triáo, para onde os habitantes figuram a cauda do leáo holandês, e aquéle para o meio-dia. A Zelândia foi a primeira que se pôs em liberdade, e a última que consentiu na paz com a Espanha. Quando se comparam os Estados (1) Daqui se deriva também sem dúvida o rifão português, de estilo familiar—fazer arlia, ou arrelia, isto é, fazer uma maldade com premeditarão. — N. do T.
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 275 Gerais com um navio, diz-se que a Zelândia é o batel. Ê formada de oito ilhas principais, quatro das quais são grandes. A de Valchcrem é a mais bela de todos os Países Baixos, com as cidades de Middelburg e Flessingue, ambas fortes. Middelburg, capital da província, é lugar onde no ano de 1609 se achou o uso dos óculos de ver ao longe. A pequena ilha de Duvi- land é conhecida na história do ano de 1575 pela ousada passagem dos espa¬ nhóis através do mar. A cidade de Utreque é habitada da maior parte da nobreza do pais. Há mais de cinquenta e seis cidades, ás quais se pode ir de Utreque por canal em menos de um dia. A Gueldres tem quatro distritos, dos quais o que fica à parte do meio-dia pertence aos espanhóis, que no ano de 1627 trabalharam inutil¬ mente por.fazer vir o Reno à cidade de Gueldres, e dali entrar no Mosa, a fim de tirar às Províncias Unidas o comércio da Alemanha. Nimmegue, capital da Gueldres holandesa, e o forte de Schenk, chave de todo o país, estão no distrito da Betuve, lugar onde habitavam os antigos batavos. A cidade de Zutphen tem o mesmo nome da província. A Over-lssel, por outro nome Trans-isalane, é assim chamada da sua situação além do Issel, que se comunica com o Reno por meio de um canal, que Druso ali fêz antigamente. Tem as cidades de Deventer e Coe- vorden, o mais regular pentágono que se tem fabricado. A Frísia cria bons e fortes cavalos. Teve em diversos tempos prínci¬ pes, duques, e reis, que residiam em Staveren. Os seus habitantes defen- deram-se galhardamente contra os romanos cm tempo de Tibétio e de Nero. Leuvarden tem o parlamento (tribunal), e o almirantado da província. Esta última prerrogativa compete também a Amesterdào, a Horne, e a Roterdáo em Holanda No ano de 1569 só esta província perdeu mais de vinte mil de seus habitantes por efeito de uma chuva diluviai, que veio na véspera do dia de Todos os Santos, e que se estendeu às pro¬ víncias vizinhas. Scheling é uma ilha na costa da Frísia, onde se caça por um modo divertido cães marinhos; porque os homens que os querem apa¬ nhar se disfarçam em palhaços, e com mil momices atraem insensivel¬ mente para o meio da ilha éstes pobres animais, que ficam encantados de os ver, c no entretanto se armam as rêdes, que os impedem de tornar para o mar. A Groninguc tem pastos, e aí se fazem as turfas, que servem para combustível. Tem poucas cidades além da do mesmo nome, cuja burgue¬ sia procede vigorosamente na defensão de seus privilégios. Bate-se ali moeda, que serve também na Frísia. Pag. 219 A MASUL1PATAO OU BENGALA, ETC. Mazul-Patan é uma cidade marítima do reino de Goleonda; não é cercada de muros; as ruas são estreitas e as casas baixas; mas é forte de seu assento, num lugar pantanoso, onde há uma ponte de quinhentos passos. O seu pòrto fica a meia légua da cidade; é cómodo para tóda a sorte de navios e por isso a maior parte das nações da Europa tem ali
  • 276 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD seus feitores. A gente da terra faz um grande comércio de panos pintados e outras obras de algodão tão delicadamente trabalhadas e com tão vivas córes, que se estimam mais que as de sêda. Bengala é a cidade capital de um reino do mesmo nome em terras -do Mogol. Alguns dizem que o seu nome é Chatigão. Êste pais é afa¬ mado pela temperatura de seus ares, pela fertilidade de seu solo, pela abundância do seu arroz, de que a maior parte das Índias se provê, por suas belas canas ou rolas, por suas sedas, e por seu excelente pau de Calamba, o mais raro e o mais odorífero do mundo. Dá também o seu nome ao maior e ao mais famoso gôlfo da Asia. Os habitantes de Bengala são extraordinàriamente ladinos; e os criados que ali se tomam tém fama de ser mui maus homens. Pág. 249 QUANTO AO GANGES, OS INDIANOS O HAO POR SAGRADO Os indianos dizem que a água dêste rio os santifica, ou bebendo-a, ou seja lavando-se nela e por isso vão em romaria aos lugares onde ela passa e os Mogoles a fazem levar sempre consigo. É para ver às vezes quatro ou cinco mil indianos em volta do Ganges, no qual vão lançar ouro e prata. Além disto, éste rio era em outro tempo célebre por seu ouro, como é hoje por esta água, a qual é mui leve. Pág. ibid. ABAIXO DÊLE (GANGES) É O RIO INDO, QUE CORRE POR SURRATE E CAMBAIA Há érro neste artigo e mui considerável, porque o rio Indo e sua •foz são para cá do trópico de Câncer, e o gôlfo de Cambaia, perto do qual está Cambaia é Surrate e de lá, isto é, ao meio-dia do mesmo trópico de Câncer; de sorte que há diferença bem mais de cento e vinte léguas. Isto se confirma pelas últimas relações, que daqueles lugares têm sido feitas e pelas cartas mais modernas. Além disso o Indo, a que a gente da terra chama Panjab, por causa de cinco rios que se juntam na parte superior do seu curso, é navegável desde Laor até ao Sinde. Alexandre Magno féz descer par êle os seus navios até ao Oceano, cujo fluxo e refluxo causou grande admiração aos pilotos déste conquistador, porque era coisa de que éles não tinham conhecimento. Pág. 274 TODO O PAlS QUE CORRE DESDE BARCELOR ATÉ AO CABO COMORIM SE CHAMA MALABAR O Malabar, de que se tem falado em muitos lugares desta viagem, c um país baixo com uma costa assaz agradável e habitada por gente, que
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 277 são piratas de ofício. Sopra sóbre esta costa certo vento no inverno que move por tal sorte o mar vizinho, que arroja quantidade de areias à entrada dos portos, de maneira que então mesmo pequenos barcos não podem ali entrar; e no verão outro vento contrário àquele corre com tanta fôrça que torna a levar a areia e deixa livre a navegação. O grande número de rios que há no Malabar, faz ali inútil o ser¬ viço dos cavalos, principalmente na guerra Por outra parte os rios adu¬ bam extremamente a terra, criam crocodilos, cuja carne é boa para comer e servem para transporte dos mantimentos e mercadorias, que são especia¬ rias de muitas qualidades. Os malabares passam bem todo um dia sem comer, tomando dois grãos de uma massa, a que chamam Ânfião e que lhes vem de Cambaia,- mas são obrigados a continuar a comer esta droga, porque se uma vez a deixarem, não poderão viver quatro dias, ainda que usassem de outros alimentos. Os filhos não sucedem ali a seus pais; são os filhos das irmãs que herdam, por serem com certeza do seu sangue I1). As mulheres quei¬ mam-se depois da morte de seus maridos, para mostrar que lhes têm tanto amor, que lhes não querem sobreviver. Há poucos anos que duzentas destas mulheres se queimaram depois da morte do Naique de Maduré, que é um pequeno Estado vizinho do Malabar; mas desde certo tempo para cá esta lei tem sido moderada em favor das viúvas (2). Calecute é uma cidade mercantil, onde os portugueses primeiramente aportaram, se bem que com menos favorável sucesso do que em Cochim, onde èles obtiveram licença para fazer uma fortaleza, que foi a primeira que tiveram nas Índias Orientais. Esta fortaleza foi-lhes tomada pelos holandeses no ano de 1662. O príncipe de Calecute chama-se o Samorim; pretende cobrar tributo de todos os reis do Malabar, mas muitos se têm isentado de lho pagar. Além dêste príncipe há no país os reis de Ccmanor, de Tanor, de Cranganor, de Cochim, de Coulão, de Travancor, e outros dez ou doze de menos conta; mas os lugares de que têm os títulos são hoje, Gla maior parte, dos europeus, ao menos as cidades de baixo que são à ira-mar, porque quási tôdas estas cidades são duplas. Tamul c o nome de uma lingua particular que ali há; e além da lingua Malaia há outras a que chamam a Bagadana e a Grandónica (3). Cochim, que é quási igual a Goa na grandeza, paga tributo aos holandeses, que ali têm uma fortaleza, como dissemos. O seu pôrto é perigoso, por causa dos rochedos e cachopos que tem na entrada. Coulão já foi mais rica e mais povoada do que agora é, porque che¬ gou a ter mais de cem mil habitantes. O Samorim prezava-a por causa do seu assento, do seu pôrto e da sua fidelidade. Depois, tendo as areias do mar entupido o seu pôrto, Goa e Cochim lhe tiraram todo o comércio. Onor tem pimenta mui pesada, e arroz préto, que é melhor que o branco. (*) Isto acontece na casta dos Naires. - N. do T. (2) A queima das mulheres de algumas castas indus na fogueira, que consome o cadáver dos maridos nio está ainda hoje totalmente extinta na Índia, apesar dos esforços, para isso empregados, nos tempos antigos pelos portugueses, e nos modernos pelos iogleses. -N. do T. (3) Por aqui se vé quão pouco eram conhecidas então na Europa as linguas desta parte da Índia. -N. do T.
  • 278 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Pág. 332 DÊSTES MESMOS MALABARES HA ALGUNS, QUE SAO CORSÁRIOS E PIRATAS Há em diversas partes do mundo muitos povos, que vivem por êste modo, ou outro semelhante. Os Iroqueses no Canadá, os Chichimecos no México; os Caraíbas na Guiana; os Araucos no Chili; os Quirandis no Paraguai; os Mouros e o» Árabes na África; os Giacos ou Galas no Mono- motapa; os Drusos no Monte Líbano; oj Alarves e os Beduínos na Arábia; os Curdos nos confins da Turquia e da Pérsia; os Abecassas na Geórgia; os Culis e os Resbutos nas índias Orientais; os que chamamos Boémios e Egípcios em França; os Bandidos em Itália; os Cosacos em Polónia e no Mar Negro; os pequenos Tártaros nas fronteiras da Polónia e de Moscóvia; os Uscoques e os Morlacos na Dalmácia; os Arnautas na Grécia; os Maino- tas na Moreia; os Cimeriatas no Epiro; os montanheses a que chamam Mosse-Troupcs e Clanes em Escócia; os Thories em Irlanda; os Sfaciotas em Cândia; e antigamente os Assassinos e os Sarracenos em Suria ; os Drilas na Asia Menor: os Bandoleiros nos Pirenéus. OBSERVAÇÕES SÔBRE A SEGUNDA PARTE. Pág. 21 NOS VIMOS ENTRE AS MAOS DOS DIABOS DÊSTES CAFRES MA IS NEGROS QUE CARVAO A região que tem o nome de Cafraria é a mais meridional de tôda a África, ao longo do mar da Etiópia, com uma extensão de costas de quási mil e duzentas léguas. É cheia de montanhas, sujeita a grandes frios, e dividida por muitos régulos, que pela maior parte pagam tributo ao Imperador do Monomotapa. O de Sofala paga-o também a elrei de Por¬ tugal, que tem guarnição na fortaleza déste mesmo nome, situada à borda de um rio largo de uma légua, onde se resgata quantidade de ouro das minas que há no sertão. Êste ouro é o melhor do mundo, e o de cá parece um pouco de cobre à vista déle. Pela maior parte das vezes apa¬ nha-se nos rios com rédes depois das chuvas. Diz-se com alguma verosi¬ milhança que Salomão daqui mandava ir o que empregava nos seus belos edificios. A costa da Cafraria é baixa e cheia de arvoredo; mas a terra ali produz flores de um cheiro agradável, e as árvores são de uma bela aparência.
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 279 Três grandes rios vâo sair ao mar das Índias pela Cafraria, e todos três são conhecidos na sua origem pelo nome de Zambeze. O mais setentrional é chamado Cuama; o do meio do Espírito Santo, e o mais meridional dos Infantes Os Cafres vivem sem lei, como o seu nome testifica. Tomam grande prazer na pesca do peixe, a que chamam peixe-mulher, porque se parece com uma sereia, e os refresca quando se aproximam dèle. Mui¬ tos dêles têm a destreza de roubar com os pés, e o fazem enquanto olham para a gente fixamente como para a divertir. Bastecem muitas vezes de seu gado aos navegantes que ali aportam, mas êstes agora pren¬ dem os bois a grossos paus, e encerram os carneiros antes de os pagar, porque os cafres tinham por costume de os tornar a recolher a seu poder por meio de certo assobio, que lhes é particular. Pode-se dizer dêles, ao ver a sua còr, que se assemelham aos nossos limpa-chaminés. Além disso têm a cabeça grande, o nariz chato, ou porque lho calcam de propósito desde a infância, ou porque quando são meninos as mães os trazem continuadamente às costas; seja como fõr, passa por beleza entre êles. Têm também os cabelos mui crespos, os beiços excessiva¬ mente grossos, o espinhaço agudo, e os quadris largos, de sorte que são a coisa mais medonha que ver se pode; e por isso não nos devemos admirar de Pyrard lhes chamar: - «os diabos dêstes cafres». Pág. 34 DESCRIÇÃO DA CIDADE DE GOA Esta descrição de Goa sendo mui ampla, nada tenho a acrescentar àcêrca desta cidade, senão que é uma das mais belas da Índia, residência do vice-rei português, e o arsenal da coroa de Portugal para as Índias Orientais. A ilha de Goa faz a separação da costa do norte, e da costa do sul na península da Índia de aquém do Ganges. Os que ali chegam espe¬ ram em duas pequenas ilhas, que estão a cinco léguas da cidade, que lhes cheguem pilotos para os meter ordináriamente no porto de Mormugáo (1). Goa é muito grande, e seria ainda mais povoada de que ora é, se os exces¬ sivos calores não fizessem morrer ali tanta gente. O seu hospital é havido pelo mais belo, mais rico, e melhor servido que o do Espirito Santo de Roma, e que a Enfermaria de Malta. Pág. 101 DO REINO DO DEALCAO, DECAO, OU BALAGATE, ETC. Este Estado compreende três reinos principais; o de Decão, onde está a cidade de Visapor, residência do rei, a qual tem bem cinco léguas (*) Relere-se o autor aos ilhéus da S. Jorge ao sul da Coa. Os navios entram em 'Mormugáo só no inverno; no tempo da boa monção entram no outro porto do norte, cha¬ mado da Aguada. — N. da T.
  • 280 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD de circuito; o de Balagate, cuja capitai é Bider; e o Concão, de que é- capital Goa. Não é vizinho do reino de Bengala, como se diz na pág. 102, mas confina com o reino de Golconda, através do qual é mister passar-se para chegar ao de Bengala, que hoje pertence ao Grão Mogol, como temos- dito. O rei do Decâo chama-se Idaicáo, ou antes Idal-xá. Presentemente já tem artilharia grossa, e entre outras peças, tem uma cujo calibre leva> balas que pesam bem oitocentas libras l1). Na relação da viagem de Man- deslo, feita nesta região do Decào no ano de 1638, há um roteiro ou itine¬ rário mui exacto de Goa a Visapor, e outro de Visapor a Goa; e pôsto que eu tenha feito dèle uma Carta particular, muitos folgarão de ver aqui um extracto. (!) Pareceria isto exageração se não lêssemos no East índia Gazetteer por Walter Hamilton. London, 1815, artigo Beejapoor. o seguinte: «Ainda ali permanecem algumas «enormes bombardas, que correspondem a magnitude da fortaleza. Diz~se que só foram «deixadas ali doze, dentre as quais as três maiores tem as dimensões seguintes: l.a bom- «barda malabar. Diâmetro na culatra 4 pês e cinco polegadas; comprimento da culatra até «à bóca 21 pés e cinco polegadas; circunferência dos munhòes quatro pés e sete polegadas; «diâmetro da bóca, quatro pês e três polegadas; dito do calibre ou vão da bóca um pé e «nove polegadas. — A 2* é uma bombarda de bronze fundida por Aurengzebe para come- «morar a conquista de Bejapor. Tem de diâmetro da culatra quatro pés e dez polegadas e «meia; dito na bóca, quatro pés e oito polegadas; dito do calibre ou vão da bóca, dois pés «e quatro polegadas; comprimeoto catorze pés e uma polegada; circunferência no meio «três pés e sete polegadas.-A 3.* é ckamada a Extravagante [bigb-flyer), e mede em extensão «trinta pés e trés polegadas e meia; circunferência na culatra, nove pés e duas polegadas; «circunferência na cornija, medida na parte mais estreita, seis pés; diâmetro do calibre ou «vão da bóca um pé e uma polegada - A primeira e a última destas trés bombardas são «construidas de barras de ferro, apertadas com arcos; não assentam sóbre reparos, mas • jazem sóbre toros de pau. — A peça de bronze é fixada no seu centro sóbre um imenso «ferro que se firma no chão, e abarca os munhóes da peça em forma de argola móvel, «ficando a culatra sóbre um toro de pau assente numa grossa parede, de sorte que não pode • recuar. O ealibre desta peça requer uma bala de ferro do péso de 2646 libras». O autor refere'$e ou a I.1 ou à 3a destas bombardas; porque a 2a além de ser fabricada mais modernamente por Aurengzebe, excede ainda o calibre indicado pelo mesmo autor. Mas esta é justamente a mais célebre, e por isso daremos aqui a sua descrição como- a achámos em dois escritores modernos mui curiosos investigadores das coisas indianas. Edward Thornton no seu Gazetteer of tbe tenitories under the govemment of tbe East-índia Com- pany, and of tbe native States on the continent of India. London, 1857, artigo Beejapoor, diz • seguinte: «Entre as várias maravilhas desta arruinada capital do extinto reino de Beejapoor, «não é a menos digna de ser notada a vasta bombarda chamada Malik-i-Maidan, ou o Rei •da planície, uma das maiores peças de artilharia de bronze que há no mundo. Tem na • bóca quatro pés e oito polegadas de diâmetro, o calibre ou vão da bóca tem dois pés e • quatro polegadas, o comprimento quási quinze pés, o péso quarenta toneladas. A sua • transportaçâo a Inglaterra foi sugerida pelo govérno de Bombaim; mas como a despesa • necessária para ser levada até ã beira-mar foi avaliada em 30$ rupias (30$ cruzados), as «autoridades da metrópole exprimiram a opinião de que o objecto não era de importância «suficiente para justificar aquela despesa». Edward B. Eastwich no seu Handbook for Índia, London, 1859, livro que faz parte da colecçáo de Murray, quando descreve a cidade de Bijapur, pág. 377, diz o seguinte: •Entra-se na cidade por uma pequena porta, feita por Gokla, que transformou a porta «Makkah em um Kacberi. e tesouro, que ainda serve. A primeira coisa que merece menção «junto da porta Makkah é a celebrada bombarda chamada o Molik-i-Maidan. ou Monarca •da planície, que se diz ser a maior peça de artilharia de bronze que há no mundo. Está «montada numa tòrre redonda, chamada a Burj-i-sharzab, ou a Tôrre do Leão, por ser ornada «com duas cabeças de leão de pedra. A seguinte inscrição, que fica à mão direita de quem • sobe â tórre indica a sua data. «Durante o reinado do vitorioso rei Ali Adil Xá. a quem «por favor de Murtaza (Ali) Deus concedeu uma brilhante vitóiia, éste bastião foi feito em «cinco meses firme como uma montanha, pelos venturosos esforços de Majlis Xá. No qual «tempo um anjo, em júbilo, deu a data do ano. dizendo que o bastião Sharzah era seu igual. «Acabado de escrever no ano de Hégira 1079 (de Cristo 1668;.» Esta celebrada peça é feita • de bronze, tão macio, que admite mui fino polimento. Quando se lhe bate soa como um «sino. As suas dimensões são as seguintes: diâmetro na culatra, quatro pés e dez polegadas ; «na bóca cinco pés e duas polegadas ; diâmetro no calibre ou vão da bóca dois pés e quatro «polegadas e meia; do ouvido trés quartos de polegada; comprimento catorze pés e trés «polegadas. Tem as seguintes inscrições. «Náo hi Deus senão Deus, e nenhum fora éle*. Abul« Ghazi Nizam Xá, rei servo da raça do apóstolo (Muhamed) e da casa de Deus, 956,
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 281 ROTEIRO DE GOA A VISAPOR, E DE VISAPOR A DABUL, E DE DABUL A GOA POR MAR Partindo de Goa passa-se o rio da Madre de Dçus, que parece ser o do Mandovi (1); passa-se depois às terras de Bardez pelas aldeias de Dica- parli e Danda a Ambi, à Herpoli, (2) a Ambolim, (AmbolUc) a Herenckassi sõbre um pequeno rio do mesmo nome que desce das montanhas do Bala- gate; a Berouli, a Verserée, a Outor, a Berapor, a Matoura, a Calingra, a Cangir, a Bari, a Vorri, a Atrouvad, a Badarali (Beeduralte) pequena cidade, a Kcrvues (Korrulcc f), a Skoeoeri, a Raibag (Raibag ou Raccbag), cidade. Encontra-se depois a cidade de Gottevi sõbre o pequeno rio de Cugni, Coesi (Koorchec), Omgar, o rio de Corstene 'Krishtna ou Khrisna) que atravessa todo o Decáo, Einatour, Katerna IKatra) Tangli (Tangree), Erari; passa-se depois a Atoni (Hutnee), a Bardgie a Agger; depois às cidades de Talsenghe (Tulsung), de Homouvar (Homva), e de Ticota {Ttkoich), e finalmente a Visa- por (Beejapoor). No roteiro que se segue de Visapor a Dabul, caminha-se para ponente, e vai-se* primeiramente a Atoni (Hutnee) pelos mesmos lugares que acabámos de dizer, e depois a Agelee, à cidade de Areq, a Berce, a «Muhamed Bin Hasan Rúmi o fez». «Xá Alamgir Gazi, o asilo da religião, que satisfez as «pretençóes do justo, tomou posse do reino, e conquistou Bijapur. Com a data da conquista «veio a boa fortuna e disse seja subjugado o monarca da planicie.- No 30.° ano do seu «exaltado reinado.— Ano da Hégira 1097». Esta última inscrição comemora a vitória dc «Auraugzib. A bôca é obrada cm forma dc boca de dragão. Esta peça era considerada «com supersticiosa reverencia por todos os habitantes de Bijapur, e até há pouco tempo os «indus a adoravam untando-a com azeite e cinabre. Falando da magnificência de seus «antigos reis, o povo conta, por admiração, que esta peça era conduzida diante déles nas «ocasiões solenes. Correm entre os naturais as mais absurdas históiias dos temiveis efeitos «produzidos pelo seu fogo. Dizem que muitos edificios foram arrazados só pelo abalo que • ela dava; e muitas damas caiam doentes de susto. Hã um pequeno tanque junto dela «pela parte detrás, no qual «e diz que o bombardeiro, depois dc botar fogo ao rastilho era «obrigado a mergulhar a cabeça para escapar á morte que aliás seria certa por causa do «tremendo estouro. O ridiculo carácter destas lendas foi manifesto a 5 de Janeiro de 1829, «quando por ordem do Rajá de Satará, a peça foi carregada com oitenta libras de pólvora «grossa e disparada. Muitos habitantes sairam da cidade cheios de terror quando ouviram «que se tratava de dar fogo à peça; mas a explosão, pósto que estrepitosa, nada teve de «muito extraordinário, e totalmente iludiu a expectação das gentes.» Semelhante á 1 .* e 3.* descritas por Walter Hamilton é outra bombarda que per¬ tenceu também ao Idalcáo, e ficou na fortaleza dc Benastarim, que nós chamamos de S. Tiago na ilha de Goa, e hoje se guarda no arsenal desta cidade. Falando desta fortaleza de S. Tiago diz o Marquês de Pombal nas Instruções que em nome de el-rei D. José deu ao Governador e capitão-general da índia em 1774, que há na dita fortaleza dezasseis peças, e uma delas do género de canhão de disforme grandeza. E anotando éste lugar diz o Secretário Cláudio Lagrange Monteiro de Barbuda. «Mas ainda estava assestado em 1839, sóbre os «restos dc um Baluarte desta Fortaleza, provavelmente construído pelos Mouros, ésse canhão «de não tão disforme grandeza, como dizem as Instruções, c que pelo Barão de Candal foi «mandado recolher no Arsenal, a fim de ser aqui inaugurado como trofeu, o que se exe- • cutoa em 1810.- É verdadeiramente um pedreiro do comprimento de dezasseis palmos e • meio, e de catorze polegadas e trés linhas de calibre, construído de ferro e em barras dc uma • polegada de largo, convenientemente reforçadas. - Alguns escritores lhe dão o nome de Mou- • risca, talvez por ser obra de Mouros». - N. do T. (!) Não há dúvida que é o do Mandovi, no passo chamado de Daugim, onde está ainda hoje o extinto Convento da invocação da Madre de Deus, que foi casa capitular da Província de Franciscanos Reformados da mesma denominação. - N. do T. (*) Da Madre de Deus não se passa ás terras de Bardez, mas ás de Bicholim, onde se não acham todavia os lugares nomeados pele autor. — A maior parte dos nomes déste Roteiro estão por tal sorte alterados no texto que é mui difícil, e em alguns impossível, achar- -lhes os correspondentes nos mapas e geógrafos modernos. Pó-los-emos pois como os achᬠmos no texto, e acrescentaremos em parêntese os seus correspondentes que nos foi pos¬ sível achar, segundo a mais usual ortografia inglesa. - N. do T.
  • 282 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Mirsiec (Mkucsal), cidade e fortaleza, a Epour, à cidade de Graen (Ghalwarf) lôbre o rio de Corstene (Krishtna); a Toncq, a Astacca, à cidade de Asta, a Ballouva, às cidades de Oerea, e de Isselampor (Islampoor), a Taflet, a Casscgan (Kasegaon), à cidade de Calliar, a Guloure. a Vinge, a Qualam- por, a Dombo, à cidade de Tamba, (Tamb) a Morei, a Supera, a Beloure, a Veradpatan, à cidade de Heleuvake donde se passa o rio de Coina, (Quina) o maior do pais, a Guttamata, a Poli, a Camburlei, a Chipolone (Chiploon), e depois embarca-se no rio Choyhber (Wasisptet) por onde se caminham dezasseis léguas por água até Dabul. No que toca à costa, jaz norte sul Chaúl, cidade e fortaleza, com um pôrto de mar, fica na parte setentrional; seguem-se a Enseada de Péro Soares, na qual está Kelsi, e mais avante em terra o lugar de Danda num alto (Danda Rajapoor), Sifardan (Srevurdhun) o Rio do Mar Saviíree?),) Galanci (Kclscc), a cidade de Dabul no rio de Haleuvache (Wasishtec), Zan- guizara, por outro nome Cinguiçar, pequeno pôrto (1), a Enseada dos Brâmanes, na qual vai entrar o rio do Betei, que faz a separação do Decão e Concão (*); a cidade e pôrto de Ceitapour (Sbeevapoor em Ratnagueri ?), as de Rajapour (Rajapoor), e de Carapatan (Kareeputun) no rio de Heren- ckassi (Hunvee), Vingurlá numa pequena enseada do mesmo nome; e final¬ mente Goa e suas dependências. Pág. 109 CEILÃO Ê UMA ILHA MUITO GRANDE, ETC. A ilha de Ceiláo, segundo dizem os seus naturais, foi em outro tempo muito maior do que hoje é, porque de quatrocentas milhas de circuito foi reduzida a trezentas. Comparam-na a uma pérola, e muitos crêm que ela é a Taprobana dos antigos. Seus ares sáo os mais puros e sãos de tódas as Índias e por essa razão alguns lhe chamam terra das delicias e dizem que fica no lugar onde era o paraíso terreal, do que o Pico de Adào, aonde os sacerdotes pagãos vão em romaria, dá testemunho e bem assim as montanhas de cristal, as matas de canela e os rios de pedras preciosas, que tôdas ali há, menos diamantes. E, na verdade, a canela que ali se colhe é com certeza a melhor do mundo. Apanha-se ali excelente marfim e a pescaria das pérolas se faz na sua vizinhança na costa da ilha de Manar. Há tanto arroz na ilha que se dá lá aos cavalos em lugar de aveia. O Pico de Adão atrás mencionado é uma alta montanha escarpada. A fábula diz que Adào ali nascera, e jaz enterrado, e que o lago de água salgada que se acha no seu cume é o depósito das lágrimas que Eva derra¬ mou durante cem anos pela morte de seu filho Abel. Os habitantes de Ceilão sáo de diversas religiões, destros e bem apessoados, mas negros e feios As suas fórças militares consistem em (0 Aqui é que nos parece haver não só confusão ortográfica, mas total engano. Este nome não pode ser outro senão o que nós escrevíamos Sanguicer, que c o que hoje chamam os ingleses Sadashigoor; o qual é ao sul de Goa, e não ao norte, como auui se póe, - N. do T. (*) Parece ser o Rio Sbastret. — N. do T.
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 283 elefantes, que passara pelos raais corajosos e mais dóceis de tôda a Índia, de onde vem chamarem-lhes nobres. Tiveram em outro tempo um bugio branco em tal veneração, que tendo êste bugio caído em poder dos portugueses, o rei de Pegu ofereceu, póato que inutilmente, trezentos mil escudos por seu resgate (*). Os Banianes que põem no número de suas falsas divindades a Ramo, um de seus heróis, dizem entre outras tontices, que êste querendo passar a esta ilha, todos os peixes de concha se juntaram na superfície do mar para lhe formar uma ponte. O estreito de Manar não tem mais largura que o alcance de um tiro de mosquete, por razão de muitas ilhetas que ali se formam cada dia pelas pedras que ali se lançam para se poder chegar mais perto de um pagode ou templo dos idólatras, que estã na terra firme da Costa da Pes¬ caria. Só as pequenas embarcações podem passar êste estreito. Um espaço de mar tão abreviado faz crer que a ilha foi em outro tempo pegada à terra firme da qual é hoje afastada dez ou doze léguas. Por último, os portugueses não possuem já ali hoje coisa alguma, são os holandeses que ocupam a maior parte dos lugares marítimos, como temos dito. Há muitos reinos nesta ilha, a saber, Cândia, as Sete Corlas, Ceitavaca, Gale, Columbo, Chilau, Jafanapatáo, Trinquile- male, Baticalou e Jala. A melhor cidade é Cândia no interior da ilha. Pág. 110 OS PORTUGUESES TÊM DUAS FORTALEZAS NESTA ILHA. A PRINCIPAL É CHAMADA COLUMBO, E A OUTRA PÔRTO DE GALE Êstes dois lugares de Columbo e Gale são presentemente dos holandeses, que igualmente possuem Negumbo, Baticalou, Trinquilemale, Jafanapatão e uma fortaleza na ilha de Manar. Pág. 115 DESCRIÇÃO DE MALACA Malaca é como o centro das Índias orientais, onde se pode aguardar pelos ventos propícios à navegação, ainda que as avenidas dêste lugar sejam perigosos, por razão de muitas ilhetas e cachopos que ai ná. Podem entrar no seu rio barcos, mas os navios grandes surgem entre as duas ilhas que há na barra. A cidade deve a sua origem a pescadores de Pegu, Siáo e Bengala, que ali ficaram de assento há uns cento e trinta (l) O autor refcre-se confusamente ã bem sabida história do dente do bugio, ou de Buda, como outros dizem, apanhado por D. Constantino de Bragança em Jafanapatão. - Veja-se a Nota (1) da pág. 106 deste volume. — N. do T.
  • 284 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD anos, e que formaram não só uma cidade, mas uma nova língua, que é hoje recebida em muitos lugares da índia. Os portugueses haviam dei¬ tado voz de que os ares eram ali insalubres, para tirar às outras nações o desejo de se estabelecerem naquele sitio. Ê hoje dominada pelos holandeses. Pag. 122 A ILHA DE JAVA ESTA JUNTO DE SAMATRA Esta ilha tem muitos régulos, quási tantos quantas as cidades, mas o conhecimento deles nos é mui pouco necessário Há entre outros os de Japará, Tubam, Jortam, Panaruam.Panarucam e Palambuam. A maior parte dêles são pagãos e alguns maometanos, e quási todos reconhecem o grande Materan, ou Imperador de Materan, a quem antigamente pertenceu a soberania de tóda a ilha Pescam-sc na costa de Java ostras, algumas das quais pesam bem trezentas libras. A ilha produz canas tão grossas, que uma só delas basta às vezes para fazer um batel. Também dá excelente calambá, que é pau de aloés; sal, que se produz junto de Jortam; ouro e pimenta em quanti¬ dade. A sua costa meridional não é ainda conhecida. É esta ilha uma das maiores da Asia e por causa da sua abun¬ dância alguns lhe chamam o epílogo do mundo A sua cidade de Bantão jaz ao pé de uma colina cercada de dois ribeiros e cortada por um terceiro. O seu pôrto é o maior e o mais frequentado que há em tódas as ilhas da Sonda, porque ali se acha tóda a sorte de especiarias, pedra¬ rias e outras fazendas da tndia. Alguns espanhóis chamam a Bantão a goela do oriente. Jacatrá ou Batávia é a residência do Conselho da Companhia Holandesa das Índias Orientais desde o ano de 1619. Tem uma boa fortaleza de quatro baluartes regulares, meias-luas e outras obras. Está situada numa baía, que por ser amparada de algumas ilhas da parte do mar, forma o mais belo surgidouro que há em tóda a tndia. Jortam é, abaixo dèste, um dos melhores portos e mais frequentados. Pág. 125 QUANTO AS ILHAS DE MALUCO Há cinco ilhas assim chamadas, que estão como à frente de outras muitas maiores, que delas tiram o nome. São pequenas e insalubres em virtude de seu assento junto da linha equinocial. Têm alguns reis, mas os holandeses ocupam a melhor parte por meio de suas fortalezas. Antes de serem descobertas pelos europeus, o Imperador Carlos Quinto as mandou descobrir por Magalhães, seguindo a derrota do poente. Depois foram entregues aos portugueses, que as pretenderam por terem ido a elas pelo oriente. Depois disso, o govêrno delas foi anexo ao das Manilhas, ficando o seu comércio aos portugueses. Há alguns anos a esta parte os espanhóis sairam delas.
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 285 Transpoita-se dali noz moscada, gengibre e principalmente cravo. Tcrnate è a ilha mais considerável das cinco; tem oito léguas de circuito e uma montanha que lança fogo. As outras são Tidore, que é a maior' Motir, Maquiem e Bachão. Os malucos são bons soldados, e ordinária¬ mente seguem a religião maometana. Além dos reis de Tcrnate, de Tidore e de Bachão, há outros muitos nas ilhas Cclcbes e de Gilolo. O de Macassar nas Celebes tem há pouco tempo a esta parte feito fortificar extraordinariamente a sua cidade e dá livre entrada em seus portos aos navios estrangeiros. No ano de 1661 fêz um tratado com a Companhia Holandesa das tndias Orientais e deixou o partido dos portugueses. As terras dêste príncipe tem mui bons ares, mas os calores ali são insupor¬ táveis durante o dia. Em outro tempo, a gente de Macassar comia carne humana ; e por isso os reis das Ilhas de Maluco e outros vizinhos envia¬ vam ali os seus malfeitores. Celebes, fértil em arroz, e a Terra dos Papuas produzem ouro, âmbar-gris e aves do paraíso. Pág. 127 NA MESMA REGIÃO HA OUTRA ILHA, ONDE EU TAMBÉM ESTIVB, MUI CÉLEBRE POR CERTA QUALIDADE DE ESPE¬ CIARIA; E É A ILHA DE BANDA, DISTANTE VINTE E QUATRO LÉGUAS DE AMBOÍNO Banda é uma ilha ao meio-dia das de Maluco, e a leste das de Amboíno, com outras cinco ou seis ilhas na sua vizinhança, às quais ela dá o nome. É a única ilha do mundo que produz noz moscada e massa. Tem um vulaáo, ou montanha que vomita chamas; e no ano de 1615 a artilharia que havia na ilha foi danificada pelas emanações do vulcão. Os holandeses fabricaram na de Nera os fortes de Nassau e da Bélgica, onde o põrto é tâo bom que os navios se chegam até um tiro de mosquete da terra, e se põem ao abrigo da artilharia da fortaleza em nove ou dez braças de água. Amboíno, ilha fértil em cravo, jaz igualmente ao meio dia das de Maluco. Dá o nome a algumas outras ilhas que há na vizinhança. Foi tomada no ano de 1603 aos portugueses pelos holandeses, que nela têm muitas fortalezas, entre outras a de Combelai; Vitória, cujos baluar¬ tes são revestidos de pedra com sessenta peças de artilharia e uma guar¬ nição de seiscentos homens; a de Hitou, a de Lovio, etc. É o melhor estabelecimento, abaixo do de Batávia. Além disso, tem feito concerto com os naturais da ilha, de sorte que êstes se obrigaram a nào receber outra nação, senão a êlcs. Ao poente da cidade capital, que é Isou, há uma baia de seis léguas, a qual forma um surgidouro onde os navios estão abrigados de todos os ventos.
  • 286 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Pág. 130 NO QUE TOCA AS ILHAS FILIPINAS, ETC, El-rei de Espanha Filipe II deu o seu nome a estas ilhas, que sáo em número de quarenta ou cinquenta, não (alando senão das maiores, porque, se metermos na conta tôdas as pequenas, achar-se-ão mais de onze mil. São mui férteis, e apanha-se ali ouro, com que os habitantes pagam os seu tributos. O Conselho de Castela propôs muitas vezes que se abandonassem, por causa da mui grande despesa das guarnições; mas porque elas (acilitam o comércio com a China e ilhas de Maluco, Soa Majestade Católica tem querido conserva las. A gente natural da terra é valorosa e ainda se mantém livre em muitos lugares. Luçon, por outro nome Nova-Castela é a maior destas ilhas, que às vezes são também chamadas do nome da cidade de Manilha, sede do governador e de um arcebispo. Esta cidade é pequena, mas bonita, e bem fortificada ao longo de um rio navegável por barcos. Por dois lados é cercada dêste rio e pelo terceiro fica o mar; de sorte que não pode ser minada. Além dos espanhóis e indies tem mais de vinte mil chineses. É, por cima de tudo, o empório de um dos mais ricos comércios que se fazem no mundo. Cavile, a duas léguas da cidade, é o surgidouro principal, abrigado dos grandes ventos e defendido por dois fortes de madeira. A baia de Manilha tem quarenta léguas de circuito e há nela a comodidade de fabricar grandes galeões, mas é açoutada dos ventos do norte e o seu fundo c mau, e a entrada dificultosa. Mindanau foi submetida há alguns anos. Paragoia e algumas outras obedecem a seus reis particulares. A de Tendaia tem particularmente o nome de Filipina, por haver sido a primeira que foi descoberta Zebu e Matão sáo conhecidas, aquela por ser a que foi abordada por Magalhães no ano de 1520, esta por sua morte. Foi nesta ocasião que se deu pela primeira vez a volta à roda do mundo no navio dêste capitão, que passara ao serviço de el-rei de Castela, porque o de Portu¬ gal lhe havia recusado o acrescentamento de meio ducado por mês em sua moradia. Os espanhóis que navegam para as Filipinas, como não vão pelo nosso hemisfério, mas pelo México e pelo mar do sul, compreendem estas ilhas bem como as de Maluco nos limites das suas Índias Ociden¬ tais, as quais êles estendem até Malaca. Pág. 136 MAS TORNANDO AS ILHAS DA SONDA, DE MALUCO, FILIPINAS, JAPAO E AINDA A CHINA, PODER-SE-IA DIZER MUITO MAIS DESTAS TERRAS, ETC. Resta-nos fazer algumas observações sóbre a China e Japão. A China tem recebido quàsi tantos nomes como tem tido famí¬ lias reais. Sempre passou por um dos mais consideráveis reinos do
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 287 mundo, por causa da sua grandeza, das suas riquezas, da beleza de suas cidades e do grande número de seus habitantes, cuja polidez e máximas têm sido estimadas de muitos europeus. Diz se que a imprensa, a manufactura das sêdas, as cadeiras, a artilharia c a pólvora foram ali usadas primeiro que na Europa Além do que é necessário à vida do homem e de muitas delicias, a China produz as mais preciosas merca¬ dorias do Oriente, e parece que a natureza repartiu a cada uma de suas províncias algum dom particular. Os que ali têm residido confessam que tudo quanto há de belo e se acha disperso no resto do mundo, está acumulado na China, e que ate há ali quantidade de coisas que debalde se procurariam noutra parte. É esta rcgiào de figura quási quadrada, e tão povoada que algumas vezes se tem contado nela mais de sessenta milhões de pessoas, entrando somente as que podem ser tributadas. Os portugueses, quando ao princípio entraram neste reino, preguntavam se as chinesas davam à luz nove ou dez filhos de cada vez. Os seus rios são tâo cobertos de embarcações, que se julga que só néles há tantas como em todos os outros rios do mundo. O rendimento anual do seu rei tem sido avaliado em cento e cinquenta milhões de ouro e segundo outros em quatrocentos milhões de ducados. Os chineses zombam de nossas cartas geográficas, que põem o seu reino numa das extremidades do mundo, e dizem que êles estão no meio (os judeus pretenderam a mesma coisa para Jerusalém, os gregos para Delfos, e os mouros para Granada). Dizem também que èles tém dois olhos, a gente da Europa um só, e os outros povos nenhum. Têm composto a sua história, que nos foi transmitida pelo Padre Martini, Jesuíta, e é reputada por tanto mais fiel, quanto só diz respeito a seu próprio pais, e só foi escrita para éles Sáo tão ciosos do segtêdo de sua política e de outros seus negócios, que para os ter ocultos, não dão voluntàriamente entrada nas suas terras aos estrangeiros. O grande muro, ou antes tran¬ queira de mais de quatrocentas léguas, que mandaram fazer, é obra que tem tido mais fama que efeito, poraue os tártaros têm muitas vezes inva¬ dido a China não obstante aquela defensão. Os que têm dito que a China se podia comparar tôda a uma grande cidade por causa da multidão da sua gente, tém também dito que era mister um muro daquela extensão para ser proporcionado à grandeza de uma tal cidade, mas não é ctível que nesta fortificação haja pedras da altura de sete toezas, e da largura de cinco, como dizem os chineses. Se houvermos de acreditar esta mesma história, as hostilidades dos tártaros têm-se ali repetido há quatro mil anos; e até os cavalos chineses não podem suportar a vista dos da Tartária. Nestes anos últimos tém havido estranhas revoluções no reino; porque os rebeldes pas¬ saram a ser senhores, e excepto nalgumas ilhas e províncias do meio-dia, que têm permanecido na obediência dos chineses, os tártaros tém conquis¬ tado todo o pais em menos de sete anos, e isto depois do ano de 1649; a vida soldadesca não é ali a mais estimada; e como os letrados tém primazia sôbre os que seguem a vida das armas, o Estado não tem subsistido senão por sua política, e por seus numerosos exércitos, e não pela valentia de seus povos. Os principais oficiais são ali chamados mandarins. A pre¬ guiça é ali punida pelas leis politicas, e trata-se por criminosos aos gene¬ rais dos exércitos que não são bem sucedidos em suas emprêsas. O paga¬ nismo é ali geralmente recebido e contudo a virtude é lá tida em grande estimação. O público é mais rico em proporção do que o são os parti¬ culares. Tôda a China é dividida em dezasseis províncias, cada uma das quais vale mais que grandes reinos. Dez ficam ao meio-dia, a saber: Yunnam, Quansi, Cantam, Fuquiem, Chequiam, Nanquim, Kiamsi, Huquam,
  • 288 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Suscuem e Quicheu. As seis da patte de setentrião são: Chensi, Chansi, Honam, Chantung, Pequim e Lexotung Estas seis províncias sao as que muitos chamam Cathaio, ao mesmo tempo que dão o nome de Mangi às províncias meridionais. O Japão compreende principalmente três grandes ilhas. Niphon, Ximo e Xioco (') Niphon, segundo alguns autores, é separada da terra de Yeso por um braço de mar de dez léguas pouco mais ou menos; outros dizem que é pegada com ela, mas que por causa da dificuldade dos caminhos os japoneses preferem ir ali por mar (*). Tôdas estas ilhas têm ares temperados, são abundantes de arroz, pérolas e minas de prata, a qual é mui estimada. As pérolas são sim grossas, mas excessivamente avermelhadas. Acha se ali uma árvore mui extraordinária, porque tem a qualidade de secar quando a regam, e para a alimentar é mister pôr na cova junto ao tronco limalha de ferro com areia bem sèca; e para fazer reverdecer os seus ramos, é necessário pregá-los com um prego. Os japoneses sâo idólatras e bons soldados. Nào obstante as perigos do mar vizinho, têm algumas vezes tomado a Ilha de Corai junto da China. Tém a mais feliz memória do mundo, e uma língua muito abundante, porque para cada coisa tém muitos nomes, uns significativos de desprézo, outros de honra; uns usados pelos príncipes, outros pelo povo. Tém também usos e costumes totalmente contrários aos nossos Bebem a água um pouco quente, e dão por razáo disso que a água fria aperta o corpo, provoca a tosse, e as enfermidades do estômago, e a água quente con¬ serva o calor natural, relaxa os canais, e aplaca mais fàcilmente a sêde. Dào aos doentes poções mui doces e de bom cheiro. Nunca sangram, porque querem poupar o sangue como a carroça da vida. Estimam os dentes negros pelos mais belos. Montam a cavalo do lado direito. Saúdam com uma sacudidela de pés, etc. Para ter audiência do rei do Japão que se chama Cubo ou César, é necessário gastar o tempo de três anos em preparativos, e o festim dura bem três meses. Havia-se feito algum progresso na propagaçào da fé; porque no ano de 1596 contavam se naquele reino mais de seiscentos mil cristãos; mas do ano de 1614 para cá tém sido furiosamente perseguidos, e ninguém ousa a professar ali o cristianismo senão às escondidas. No ano de 1636, os padres jesuítas, os espanhóis e os portugueses foram expulsos dali e os holandeses ficaram sós com a liberdade de comércio, porque quando ali chegam o que mais apertadamente defendem aos seus é falar em coisas de religião. Há no [apào muitos Tonos ou príncipes particulares, a maior parte dos quais imitam o seu poder ao recinto de uma só cidade. Ê geralmente ali rece¬ bido o costume de quando um déstes Tonos perde os seus Estados, os súbditos dêle perderem igualmente os seus bens. A cidade capital é Meaco, que se diz ser de noventa mil fogos; Yedo uma fortaleza real, e Sacay um pórto de mar. No ano de 1658 houve em Yedo um incên¬ dio que causou a perda de mais de quarenta e oito milhões de ouro. Os espanhóis fazem a sua navegação ao longo das ilhas do Japáo quando tornam das de Maluco e das Filipinas ao México e ao Peru. SNipbon, Kiousiou e Silkokf, escrevem os ingleses. - N. do T. Hoje está averiguado que a ilha de Sipbon é separada da de Yeso pelo estreito chamado de Sangar, cujas costas, de uma e outra banda, estão perfeitamente exploradas, e descritas nas cartas geográficas. - N. do T.
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 289 Pág. 164 REINO DE ANGOLA Este reino é às vezes compreendido no de Congo em África, como também Caeongo, Malembo, etc , mas estes nào reconhecem por sobe¬ rano ao rei do Congo, como faziam antigamente. O rei de Angola toma o titulo de Soba. A gente da terra gosta tanto da carne de cão, que criam rebanhos destes animais, c um só cão estando gordo é às vezes vendido entre êlcs por mais de cem escudos. Não tem aquela gente coisa alguma recomendável senão a destreza no atirar setas, no que são excelentes, porque atiram bem uma dúzia de flechas ao ar antes que a primeira caia em terra. Dizem que o sol é um homem, a lua uma mulher, e as estrelas os filhos dêste homem e desta mulher. Pág. 166 O RIO DA PRATA Este rio no seu princípio tem o nome de Paraguai; e depois de se lhe juntar o Paraná, correm as suas águas por mais de sessenta léguas sem mistura alguma. É mui pouco fundo, pòsto que na sua bóca tenha sessenta ou oitenta léguas de largura, e dez na maior paite do seu curso. Depois de ter formado muitas ilhas, c a maior catarata do mundo, con¬ serva a doçura de suas águas mais de quarenta léguas pelo mar dentro. Pode contribuir muito a lazer o comércio de um a outro mar. Pág. 176 NA COSTA DE MELINDE, OS PORTUGUESES TÊM MAIS UMA FORTALtZA CHAMADA MOMBAÇA Esta costa de Mclinde é ao oriente da Etiópia, no mar das Índias, da banda de cá e de lá do equador. Chama-se-lhc muitas vezes Zan- guebar, e é a que os antigos chamavam Barberia. Ê cheia de arvoredo e de pântanos, e por isso os ares ali são maus. Os naturais da terra reco¬ nhecem diversos soberanos; dão-se ao comércio da mesma sorte que os árabes e maometanos que há entre êles. A parte que fica ao meio-dia é a que principalmente tem o nome de Zanguebar, e há nela os pequenos reinos de Moçambique, de Quíloa, de Mombaça, e de Melinde. A parte que fica ao setentriào é chamada Aycn e às vezes Nova-Arábia, e com¬ preende os Estados de Brava, Magadoxo, Adea e Adel. Mombaça é numa ilha, e sôbre rocha. Os portugueses vão ali muitas vezes invernar, por- 1» 11 TOl.
  • 290 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD que os mantimentos são aii abundantes e baratos. A entrada do pôrtcv é tão estreita, e tão cheia de recifes, que em muitos lugares há apenas a passagem de um navio. Pág. 176 UMA MUI GRANDE E BELA ILHA CHAMADA SOCOTORA A ilha de Socotorá tem de comprimento vinte e cinco léguas, e de largura dez; obedece a um rei da Arábia. Tem um bom pôrto, e baías ou enseadas mui cómodas perto dêle, onde se pode surgir com segu¬ rança, mesmo perto dos rochedos. Pode-se aí invernar mais comoda¬ mente que em Moçambique ou Mombaça, porque os ares são mais sadios, e tem uma barra sem perigo algum na entrada. Há ali pescaria excelente, e gado em grande quantidade Tem boa água perto de uma enseada chamada Caláncia (1), mas o ribeiro que a fornece é de difícil acesso, porque a gente da terra o tem oculto para se aproveitar dèle. Pág. 178 DO REINO DE ORMUZ, E SUA DESCRIÇÃO Há grande mudança em Ormuz, que agora pertence aos persas, Foi o rei Xa-Abas que a tomou no ano de 1622 com ajuda dos ingleses, e depois de haver mandado arrasar a fortaleza, transferiu o comércio dela a Cemorào [Gamrou), que fêz chamar do seu próprio nome Bandcl- -Abassi. Os portugueses perderam nesta fortaleza o valor de seis ou sete milhões. A terra da ilha de Ormuz é tôda sal, e nào produz uma fêvera de erva. A ilha náo tem uma gota de água doce, e tôda vem carretada de fora; e por isso os portugueses quando a senhoreavam tinham feito um forte na ilha de Kasem para ter esta comodidade. O calor é ali às vezes tão grande que os habitantes dormem em tinas cheias de água. A bela situação de Ormuz tinha feito dizer que se o mundo fósse um anel, Ormuz seria o seu diamante. Comorão (Gamrou ou Gombru) que cresceu com as ruinas desta pobre cidade, está entre duas fortalezas que defendem a entrada do seu pôrto, onde se tem fabricado um reduto quadrado, defendido por quatro peças de artilharia. O pôrto é cómodo, porque se surge ali em tôda segurança a cinco ou seis braças de água. Tôdas as nações que comerceiam no mar das tndias, excepto os portugueses, levam ali mercadorias, e tiram veludos, tafetás, sédas cruas, e outras fazendas da Pérsia. Os ingleses tém ali metade dos direitos, e a liberdade de exportar alguns cavalos. C) Colomab, escrevem os ingleses. - N. do T
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 291 Pág. 186 A CIDADE DE CAMBAIA Cambaia era chamada o Cairo das Índias por causa da sua gran¬ deza, que é de duas Icguas de circuito, por causa de seu grande comér¬ cio, e por causa da fertilidade de sua terra, que produz entre outras coisas, algodão, anil, ópio, e ágatas, de que há uma mina em Baroche. Mas desde as perdas dos portugueses nas Índias Orientais, está mui decaida. O seu pôrto é muito mau porque, põsto que na marc-cheia haja ali mais de sete braças de água, contudo o refluxo deixa os navios em sêco num fundo misto de areia e vasa. Surrate é uma das cidades da Asia que faz mais comércio, ainda que a chegada ali seja perigosa, e as casas sejam baixas e cobertas de fôlhas de palmeiras. O seu rio é salgado pela maré, mas tào baixo na sua foz, que é a quatro léguas abaixo da cidade, que apenas pode suportar barcos de setenta e oitenta toneladas, e é forçado a descarregar as mercadorias em Sohali. O pôrto de Surrate corre de nordeste sudoeste; tem sete braças na maré-cheia, e só cinco na vasante, e então a maior parte dos bancos ficam descobertos. O fundo é de areia, e está-se ali ao abrigo de todos os ventos, excepto dos de sudoeste. Os ingleses têm ali o seu principal comércio das Índias Orientais, Há uns seis anos que esta cidade foi saqueada por um rebelde do Mogol, e avaliou-se a perda que houve nessa ocasião em mais de trinta milhões. Pág. 187 êste grão mogor Este príncipe, que se chama Mogor, ou Mogol, é soberano de um imenso império, que compreende a maior parte da terra firme da Índia. Tira a sua origem de uma tribo do mesmo nome que há em Giagatay; tem por tributários muitos reinos indianos, e passa por ser o mais rico príncipe do mundo em pedras preciosas, porque além das de sua coroa tem as de muitos príncipes seus vizinhos, cujos predecessores tinham tido por longo tempo a curiosidade de as guardar boas. É além disso herdeiro das pedrarias dos grandes da sua côrte; e igualmente herdeiro universal daqueles a quem dá tenças ; e tôdas as casas por diante das quais passa, lhe devem um presente. As terras pertencem-lhe; e a sua vontade serve de lei na decisão dos negócios de seus súbditos. Cada dia se lhe mostra alguma parte de seus tesouros, umas vezes os seus elefantes, outras vezes as suas pedrarias, noutro dia outra coisa; e ordi- nàriamente não vé cada coisa senão uma vez no ano ; porque todo o seu tesouro está dividido em tantas partes quantos sáo os dias do ano. Um dos templos do seu Estado tem o pavimento e o teto cobertos de lâminas de ouro puro. No palácio de Agrá, que é a cidade onde reside a côrte, há duas tórres cobertas de lâminas de ouro, um trono com quatro leões de prata vermelha dourada, engastado de pedras preciosas,
  • 292 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD e aqueles leões sustentam um dossel de ouro macisso. Diz-se também que há neste palácio dois alqueires de carbúnculos, cinco alqueires de esmeraldas, doze alqueires de outras várias pedras preciosas ; mil e duzen¬ tos alfanges com bainhas de ouro cobertas das mais preciosas pedras. Diz-se que o tesouro de Xá-Choram (Xá jehan ?), um de seus predeces¬ sores, era de mais de mil e quinhentos milhões de escudos. O Mogol, em caso de necessidade, pode armar duzentos mil cavalos, quinhentos mil homens de pé, e mais de dois mil elefantes. Passam de quarenta os reinos que lhe reconhecem vassalagem, e éstes reinos quási todos tiram os nomes das suas cidades capitais. Além disto, há alguns Estados pequenos, cujos senhores chamados Rajás ou Ranes, sào de raça mui antiga, e se mantém cm fortalezas, e cm montanhas inacessíveis. O maior mal que éles fazem é fazer entradas e roubos sôbre os súbditos do Mogol. O Mogol guarda boa correspondência com o Turco, prevale- cendo se do grande número de seus vassalos, da grandeza de suas rique¬ zas, e da extensào do seu império; mas o Persa leva-lhe vantagem em armas, cm cavalos, e em soldados aguerridos. Pág. 192 ESTA ILHA DE DIO É MUI PRÓXIMA DA TERRA FIRME Tem o comprimento de uma légua e a largura de quatro tiros de mosquete É separada da terra firme por um canal tão estreito, que se passa sôbre uma ponte de pedra (*), e o seu pôrto pode fechar-se com uma cadeia de ferro e a entrada dèle fica debaixo da artilharia de duas fortalezas que defendem a cidade (2). Os portugueses têm tido muitas vezes contenda com os reis do país por ocasião da fortaleza de Dio, a 3uai éles têm sempre gloriosamente defendido, particularmente nos anos e 1539 e 154(5. O Mogol viu com extremo descontentamento o esta¬ belecimento dos portugueses nas costas dos seus Estados (3), e como de tôdas as partes das Índias Orientais se navegava a Dio por causa da sua vantajosa situação e que tudo ali abundava, fez diligência por atrair os mercadores ao Cinde c a Surrate. Diz-se que um soldado português foi tão valoroso na defensão desta fortaleza, que faltando lhe pelouros, arrancou os dentes queixais para carregar o seu mosquete. (t) O esteiro ou canal que divide a ilha de terra firme, passa-so a vau em alguns lugares, mas não há ponte alguma. - N. do T. (*) Tóda a cidade é cingida de excelente fortificarão de baluartes, etc., mas na extre¬ midade oriental há a grande fortaleza ou castelo, que se continua e liga com aquelas forti¬ ficações da cidade. A isto chama o autor duas fortalezas; sendo na verdade uma só. tóda ligada e unida. - N. do T. (3) Quando os portugueses se estabeleceram em Dio, ainda o Mogol náo era senhor de Cambaia. O autor, porém, fala do tempo em que este reino passou ao dominio de Mogol. — N. do T.
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 293 Pág. 227 DO BRASIL E SUAS SINGULARIDADES O Brasil, pais da América, foi chamado Terra-dc-Santa-Cruz, quando primeiramente foi descoberto em nome de el-rei de Portugal, o que sucedeu na ano de 1501. Estende-se para o setentriâo e para oriente ao longo do mar do norte, onde há uma grande rocha debaixo de água, cujas aberturas formam muitos bons portos. Os seus limites para o poente nào sào conhecidos; os que tem para o meio-dia variam segundo a vontade dos castelhanos e portugueses, porque uns e outros explicam a seu modo o regulamento do ano de 1493; e como nâo vieram ainda a concerto, os portugueses tomam por Brasil tudo o que se estende desde o rio Maranhão (*) até ao da Prata e os espanhóis o limitam à capitania de S. Vicente. Pôsto que o Brasil esteja na zona tórrida, todavia o seu ar é tem¬ perado e as suas águas as melhores do mundo; por isso os naturais vivem muitas vezes até cento e cinquenta anos. Andam pela maior parte nus; gostam da dança para lhes dissipar a melancolia, e tém a destreza de passar rios ajudando-se de um cèsto e de uma corda. Alguns dos que comem seus inimigos náo querem deixá-los baptizar antes de os matarem, porque entáo dizem que lhes não acham a carne táo delicada. Náo pronunciam trés letras do nosso alfabeto, a saber, /, 1 e r, e diz-se que a razáo é porque nào tem nem fé, nem Ui, nem rei. Além do pau-brasil há neste pais âmbar, bálsamo, tabaco, óleo de baleia, gado, doces e sobretudo açúcar em quantidade, que se fabrica em máquinas de grande preço, a que chamam engenhos. Entre as sortes de açúcar que há, o de caníi ou candi tira o nome de Cantão e nào da sua candura ou branquidáo, nem tampouco da ilha de Cândia. A vizinhança do rio da Prata dá também aos portugueses a comodidade de receberem quantidade de prata do Peru Há no Brasil animais, árvores, frutos e raízes, que se náo veem em outra parte. O animal chamado preguiça é de uma tal constituição que gasta bem dois dias inteiros em subir a uma árvore e outro tanto tempo em descer. As serpentes, cobras e sapos nâo têm ali peçonha e por isto servem de mantimento aos naturais. Os campos sào aplicados para os açúcares, as montanhas para os arvo¬ redos, os vales para os tabacos, para os frutos e para a mandioca, que é uma espécie de raiz, de que se faz farinha. A costa do Brasil é dividida em catorze capitanias, que sào hoje tôdas dos poitugucscs. Os franceses tiveram algumas antigamenfe e os holandeses perderam em nosso tempo o que ali haviam conquistado, sendo totalmente expulsos no ano de 1655. A guerra que êlcs cntào tinham com Inglaterra nào lhes permitiu acudir ali com socorro e além disso as colónias portuguesas estavam ali melhor estabelecidas que as suas. Contudo, no ano de 1662, os portugueses fizeram com êles um tratado para os ressarcir, a fim de os não terem por inimigos ao mesmo tempo que tém a defender-se dos espanhóis. As cidades que (*) Os estrangeiros chamam rio Maranhão ao no Amazonas, que desemboca no Pará e não na província a que nós chamamos Maranhão. - N. do T
  • 294 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD há no Brasil não têm pela maior parte mais de cem, ou cento e vinte casas. Entre as capitanias, Tamaracá é a mais pequena e a mais antiga. Pernambuco é reputada um paraíso terreal por causa da beleza de seu ter¬ reno. A Baia de Todos-os-Santos tem a cidade de S. Salvador, capital do pais e residência do governador. Foi tomada no ano de 1624 pelos holandeses, que fizeram ali tão grande saque, que cada um de seus solda¬ dos teve à sua parte mais de quinze mil escudos, mas esta fortuna foi causa de sua retirada e a sua retirada deu lugar aos espanhóis de reto¬ mar a cidade. Os padres jesuítas perderam ali um crucifixo de preço inestimável. A capitania do Rio-dc Janeiro que os selvagens chamam Ganabarà, tem um mui bom pòrto para surgidouro de navios; o seu rio nos lugares que ê navegável entra bem doze léguas pela terra dentro e tem sete a oito de largura Tem algumas ilhas, numa das quais, no ano de 1555, em tempo de Henrique II, Villegagnon fèz fabricar um forte, a que chamou Coligny. Também se tinha dado o nome de França Antár¬ tica ao país circunvizinho. No ano de 1658 achou-se uma mina de prata nesta capitania. A de S. Vicente tem minas de ouro e prata. Podem-se ver nas cartas os nomes dos outros lugares. Os principais povos do Brasil sâo os Tupinambas, os Margajaa, os Tapuias e outros que diferem em costumes e em línguas e que de ordinário se distinguem pelos diversos modos de cabelos que usam. O seu número era maior antes da chegada dos portugueses, mas muitos Tupinambas, por conservar a sua liberdade, atravessaram grandes desertos e foram tomar assento junto do rio Maranhão. Os Tapuias sáo mais difíceis de amansar que os naturais que habitam aldeias. Estas aldeias não têm mais de cinco ou seis casas, mas muito compridas e capazes de conter quinhentas ou seiscentas pessoas e algumas vezes mil e duzentas ou mil e quinhentas. A maior parte dos selvagens do Brasil têm-se até agora tâo bem defendido, que náo obstante as guerras que entre si fazem, têm todavia impedido os europeus de fazer grandes progressos no interior de suas terras e até muitas vezes têm destruído estabeleci¬ mentos e engenhos de açúcar que éstes tinham fabricado. Pág. 241 AVISTAMOS AS ILHAS DOS AÇORES Estas ilhas sáo chamadas Terceiras tirando o nome daquela que particularmente é chamada Terceira. O grande número de aves de rapina chamadas Açores, que ali há, lhes deu éste nome; e igualmente têm o de Flamengas, porque foram descobertas por um Flamengo. Chamam-se Altas em comparação das Canárias, talvez porque sâo mais setentrionais. Os portugueses, que as senhoreiam, tiram dali trigos, vinhos, pastel, couros e outros géneros. Sete sâo as principais, sem contar as do Corvo e Flores, onde muitos têm pòsto o primeiro meridiano. Angra, cidade capital e sede de um bispo é na Terceira. As outras ilhas são, a Gra¬ ciosa, S. Jorge, Faial, Pico, S. Miguel e Santa-Mana.
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 295 Pag. 241 AVISTAMOS A TERRA DE PORTUGAL DESCRIÇÃO DE PORTUGAL Portugal é um reino à borda do Oceano na parte ocidental de Espanha onde antigamente era a Lusitânia. Tem de existência mais de quinhentos e vinte anos; e D. Afonso vi, que hoje ali reina, é o seu 22.° rei, contando os três Filipes reis de Espanha. Funda o seu direito na aclamação de seu pai D. João IV e no casamento de seu bisavô D. João Duque de Bragança, com D. Catarina, filha de D. Duarte, infante de Portugal, o qual morreu no ano de 1540 e era irmão de D. Maria, mulher de Alexandre, duque de Parma. Os reis de França têm algum direito sóbre êste reino por via de Roberto de Bolonha, filho de Matilde de Bolonha, mulher de Afonso III, 3ue a repudiou depois de ser rei. Catarina de Médicis suscitou «ste ireito, mas foi-lhe respondido que tal direito estava obsoleto, O nome de Portugal c provàvelmente derivado do de Pórto e de Cale pequena povoação próxima do Pórto. O comprimento do reino ê de quási cento e vinte léguas e na largura tem vinte e cinco ou trinta, e em partes cinquenta. A sua situação e a experiência de seus habitantes nas coisas da navegação deram lugar a seus príncipes de se fazerem obe¬ decer nas quatro partes do mundo, onde contam por vassalos muitos reis, com a comodidade de fazer vir à Europa as mais raras e as mais preciosas mercadorias do Oriente. As suas conquistas chegaram a esten¬ der-se a mais de cinco mil léguas de costa e todos os lugares por êles ocupados eram à beira-mar, porque o seu intento foi sempre assenho¬ rear-se só do comércio. Há alguns anos a esta parte que não têm podido tirar dêle o proveito costumado, por causa das guerras e dos grossos presídios que têm sido obrigados a sustentar nas conquistas, o que os moveu a dar uma parte delas aos ingleses (1). As províncias de Portugal têm cada uma suas comodidades parti¬ culares. Produzem entre outras coisas limões e excelentes laranjas. Têm algumas minas, porque os gregos e romanos vinham buscar a Portugal o ouro, que os portugueses vão buscar às Índias. São tão povoadas, mor- mente à beira-mar, que se contam no reino mais de seiscentas cidades e vilas privilegiadas e mais de quatro mil paróquias. Só é ali recebida a religião católica romana e os da raça judaica foram obrigados a bapti- zarem-se. Há três arcebispados: Lisboa, Braga e Évora; e dez bispados. Os arcebispados de Lisboa e Évora têm bem cada um duzentas mil libras de renda. Há Inquisições em Lisboa, Coimbra e Évora, e Relações [Parlemens) em Lisboa e Pórto. Vinte e sete povoações têm distritos, a que chamam comarcas e almoxarifados. (1) O autor sabia certamente que as conquistas cedidas por Portugal aos ingleses eram somente Tânger em África, e a Ilha de Bombaim na Índia; mas era tio palpável a nacionais e estrangeiros que estas cessões e principalmente a segunda haviam de trazer após •i a perda de outras muitas conquistas, que o autor insensivelmente se exprime como se fóra cedida uma grande parte das mesmas conquistas. - N. do T.
  • 296 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD A Ordem de Cristo, cuja casa capitular c em Tomar, é a mais considerável de tôdas. Os reis são os seus grão-Mestres e desta Ordem dependem tôdas as conquistas ultramarinas Os cavaleiros dela usam a cruz vermelha, no meio branca; ao mesmo tempo que os de Avis a usam verde e os de S. Tiago roxa. Esta última Ordem tem a sua casa capitular em Palmeia, junto de Setúbal. Diz-se que as rendas do reino, sem contar as da índia, passam de dez milhões de libras; e que el rei D. Sebastião despendeu uma vez um milhão de ouro só pelos arreios de um cavalo. Ê certo que os adornos da maior parte das damas da Europa não são mais que o refugo dos das de Portugal. Foi no ano de 1640 que o reino se tirou da obediência do rei de Espanha; e um dos principais motivos foi a permissão que Sua Majes¬ tade Católica dava a outras gentes, além dos portugueses, de traficar nas Índias Orientais. Admira-se nesta revolução o grande segredo que foi guardado entre mais de duzentas pessoas, e por espaço de mais de um ano. Outra causa considerável da revolução foi o tributo do quinto, que foi imposto no reino no ano de 1636, pelo qual se mandava cobrar cinco por cento sóbre tôdas as rendas e mercadorias I1). Há seis províncias, que são outros tantos governos gerais. Entre Douro e Minho, Trás-os-Montes, Beira, Estremadura, Alentejo e Algarve. A de Entre Douro e Minho é a mais deliciosa, e tão povoada, que no espaço de dezoito léguas de comprimento e doze de largura tem mais de cento e trinta mosteiros bem rendosos, mil quatrocentas e sessenta paróquias, quinze mil fontes de água corrente, duzentos poços de pedra, e seis portos de mar. Alguns lhe chamam também as delicias e medula das Fspanhas. Porto, cidade de quatro mil fogos, faz grande comércio. Braga è famosa pela celebração de muitos Concílios e pela pretensão do seu arcebispo a intitular-se Primaz das Espanhas. Trás-os-Montes tem minas. Há nela a cidade de Bragança, capital de um ducado de quarenta mil cruzados de renda, e que compreende bem cinquenta vilas e outras terras, que fazem do Duque de Bragança três vezes Marquês, sete vezes Conde e muitas vezes Senhor. Os Duques dêste titulo, que estão hoje de posse da Coroa, costumavam residir em Vila-Viçosa e tinham a prerrogativa sóbre os Grandes de Espanha de se poder sentar em público debaixo do dossel real dos reis Católicos. A Beira é fértil cm centeio, milho, frutas e castanhas. A sua cidade principal, Coimbra, em outro tempo côrte de Afonso, primeiro rei de Portugal, é célebre pela sua Universidade e por seu bispado, que se diz ter mais de cento e cinquenta mil libras de renda A Estremadura, que é diversa da de Castela, produz vinho, azeite, sal e mel, que as abelhas formam das flores dos limoeiros e roseiras. A sua cidade principal, Lisboa, è a capital de todo o reino, c uma das mais belas, mais ricas, maiores e melhor povoadas da Europa. Tem mais de trinta mil casas e um admirável pôtto, com a comodidade do fluxo e refluxo da maré Faz particularmente o tráfico das Índias Orientais. A povoação de Belém, que fica próxima, é o mausoléu, ou lugar da sepultura de muitos reis de Portugal. Santarém tem tanta cópia de olivais nos seus arredores, que os habitantes se gabam de poder fazer um rio de azeite do tamanho do Tejo. Setúbal, é bem assente, bem edificada, e mui mercantil, por causa do seu pôrto, que é o melhor de (<) O autor confunde um pouco levemente o quinto com cinco por cento. - N. do T
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 297 todo o reino, e tem de comprimento trinta milhas, e de largura três. As suas salinas e pescaria, pelo que dizem os portugueses, dão maior rendimento ao seu rei do que todo o Aragâo a el-rei de Espanha. O Alentejo é reputado o celeiro de Portugal, por causa dos seus trigos. A sua cidade principal, Évora, pretende o primeiro lugar abaixo de Lisboa No ano de 1663 os portugueses alcançaram ali uma célebre vitória. Eivas é conhecida por seus excelentes azeites e pelos cercos que tem sustentado com feliz êxito contra os castelhanos. Ourique é o lugar da famosa batalha, que no ano de 1139 deu a coroa ao primeiro rei de Portugal. Era Afonso, que venceu cinco reis mouros e que em memória disso pôs no seu escudo, que era de prata, cinco escudetes de azul em forma de cruz. cada escudete com cinco dinheiros de prata postos em aspa, os quais representam os trinta dinheiros, por que Nosso Senhor foi vendido, contando-se duas vezes o do meio. O Algarve ainda que pequeno na extensão, tem o titulo de reino. Foi retinido à coroa pelo casamento de Afonso ui com Beatriz de Cas¬ tela (1). Produz figos, azeitonas, amêndoas e vinhos mui estimados. O próprio nome de Algarve em língua mourisca quere dizer campo fértil. Pág. 242 TOMAMOS A DERROTA DAS ILHAS DE BAIONA EM GALIZA, ETC. A Galiza é uma d»s grandes províncias que a Espanha tem à borda do oceano, na qual há muitos bons portos; mas para bem a conhecer parece de algum modo necessário tratar em geral da Espanha, cuja parte é Galiza. DESCRIÇÃO DE ESPANHA A Espanha é uma grande península, do comprimento de duzentas léguas, e outras tantas de largura, entre o 9o e o 24° grau de longitude e entre 35° graus ê meio e 43° e meio de latitude setentrional. Esta península jaz ao longo do mar Oceano e do mar Mediterrâneo. Para o oriente avizinha com a França por espaço de cento e vinte léguas, ficando entre meio os montes Pirenéus. Seria de figura quadrada se lhe tirassem a Catalunha. Além do nome de Espanha, teve também os de Ibéria. Hespéria, e de Mus-Arábia Muitas causas a fazem pouco habitada: a sua esterilidade, as suas montanhas, a pouca fecundidade de suas mulheres, o extermínio dos mouros, que em número de mais de oitocentos mil foram obrigados a sair dela no ano de 1510 e finalmente o grande número de pessoas que se envia às colónias e às guerras externas Dai vem que nunca se chegou a ver mais de sete mil espanhóis naturais em exército algum. Reina ali mais calor que frio; e as províncias sitas ao oriente e meio-dia são melhores que as outras. As montanhas sem árvores, onde há rochedos continuados, são chamadas na lingua do país Serras. Fal¬ tam ali cereais, mas colhem-se os mais fortes vinhos, os mais deliciosos frutos, e os mais doces azeites da Europa. O ouro e a prata que ali se (U A anexação do Algarve foi por conquista, e náo por dote de casamento como alguns autores tem dito. - N. do T.
  • 298 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD leva da América é bastante para fazer acudir a Espanha tôdas as outras comodidades da vida. No ano de 1618, foi verificado que desde o pri¬ meiro descobrimento dèste Novo Mundo por Colombo se havia tirado dêle raais de mil e quinhentos e trinta c seis milhões de ouro, e no ano de 1645 achou se que os reis de Espanha haviam tido à sua parte qua¬ renta milhões de ouro só em barras de prata e ouro, afora os outros direitos recebidos de diversas mercadorias. Estas somas são imensas, mas não têm talvez enriquecido a Espanha na mesma proporção que as coló¬ nias enviadas para colher aquelas riquezas a têm enfraquecido. Por outra parte a necessidade de adquirir mercadorias estrangeiras esgota a melhor parte dêstes tesouros. Isto fèz dizer ao rei Henrique, o Grande, que as pistolas dos espanhóis indicavam entre éles as suas riquezas, mas que sendo levadas a outra parte manifestavam a sua pobreza Há em Espanha minas de cobre, de azougue, de chumbo, de ferro, e de sal; as de ouro e prata têm sido poupadas desde que começou a haver a comodidade das da América. Reputam-se geralmente os cavalos desta região, e os de Andaluzia por superiores a todos os mais; mas nem por isso deixa de se viajar ali em mulas, e em jumentos por causa da aspereza das montanhas. Não há principe no mundo que tenha tão grandes Estados como o rei de Espanha, de sorte que com justa razão se pode dizer o maior senhor de terras do universo. É verdade que êstes Estados se acham dispersos na Europa, América, África e Ásia. Alguns de seus prede¬ cessores se têm gloriado de que o sol nunca se põe nas suas terras, e que a extensão de seus domínios não se podia medir senão pelo curso dêste astro. Em algumas cartas que os reis da Pérsia lhes escreveram no século passado, dizem:-do rei que tem o tol por chapéu — Entre outros títulos toma o rei de Espanha particularmente o de Católico desde Fer¬ nando v, e o de rei das Espanhas, mas êste último só há pouco tempo. Seriam necessárias muitas páginas para os conter todos. Eis os de que usa o rei Filipe IV na carta de poderes que deu no ano de 1659 a D. Luis de Haro para tratar da paz:-«D. Filipe, por graça de Deus, Rei «de Castela, de Leão, de Aragáo, das Duas Sicilias, de Jerusalém, de «Portugal, de Navarra, de Granada, de Toledo, de Valência, de Galiza, «de Maiorca, de Sevilha, de Sardenha, de Córdova, de Córsega, de «Múrcia, de Jaen, dos Algarves, de Algeciras, de Gibraltar, das ilhas «Canárias, das Índias Orientais e Ocidentais, das Ilhas e Terra firme do «Mar Oceano, Arquiduque de Áustria, Duque de Borgonha, de Brabante, «e de Milão, Conde de Habsbourg, de Flandres, de Tirol, e de Barce- «lona, Senhor de Biscaia, e de Malinas, etc •. A principal Ordem de Cavalaria em Espanha é a do Tosão; as outras são as de Santiago, de Calatrava, de Alcântara, e de Montesa. Os reis de Espanha tèm tomado para si os grão-mestrados destas Ordens sob o nome de Administradores perpétuos. Há, além disso, mais de oitenta Grandes de Espanha, que são pouco mais ou menos como os Duques e Pares em França; mas esta dignidade, como anda anexa a senhorio de terras, passa a fêmeas. O rei de Espanha tem três sortes de guardas: valóes, alemães e borgonheses. Os espanhóis reputam as artes por coisa desonrosa, e por isso a maior parte dos seus artifices são franceses. Prezam mais a guerra, na qual fazem muito bom serviço, principalmente na infantaria. Sempre têm conservado a reputação de ser fiéis a seus príncipes, e de não reve¬ lar voluntàriamente o seu segrédo. Marcham lentamente a qualquer conquista, mas de ordinário guardam bem o que ganham. São tardios em determinar-se, mas corajosos em prosseguir na sua determinação, não
  • OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS 299 lhes metendo mêdo as dificuldades que recrescem. São muito previstos, e nunca perdem nem a paciência, nem a esperança, pôsto que a sua len¬ tidão lhes faça muitas vezes perder boas ocasiões. Alguns de entre êles têm a vaidade de dizer que o seu pais provê o mundo de generais para os exércitos, que Deus talava a Moisés no Monte Sinai em língua cas¬ telhana, e que o Senhor do universo deve nascer espanhol. Não se acham livros espanhóis mais antigos que os do ano de 1260; e antes disso as leis eram ali escritas em latim. A Espanha foi sujeita a estrangeiros durante longo tempo. Os celtas, os ródios, os fenícios, os cartagineses, os romanos, os vândalos, os suevos, os godos c os mouros, dominaram ou sobre tòda ela, ou sôbre alguma das suas partes. A sua primeira divisão foi em duas partes; uma de aquém e outra de além do Ebro, que então limitava os aominios de Roma e de Cartago; porque ao depois o que os romanos chamaram Espanha ulterior somente compreendia a Bctica e a Lusitânia. Numa e noutra os romanos tinham estabelecido catorze Conventos jurídicos ou distritos judiciários. Na decadência da dominação dos mou¬ ros formaram-se ali cinco reinos: Leão com Castela, Aragào, Navarra, Portugal e Granada. Depois disso todo o país ficou debaixo do domí¬ nio dos reis de Castela, Portugal e Aragáo; e é principalmente por éstes trés títulos que o rei de Espanha tem possuído todos os seus grandes Estados, nos quais há hoje oito vice-reinados. Desde Pelágio a Castela tem recaído dez vezes em fêmea. No ano de 1640 Portugal aclamou rei ao Duque de Bragança. Os principais rios de Espanha são, o Douro, mui piscoso, o Tejo afamado por suas areias de ouro, o Guadiana que se diz sumir-se por debaixo do chão, o Guadalquivir o mais profundo, e o Ebro famoso por seu nome. Todos têm suas origens em Castela, mas não são tão nave¬ gáveis como os de França. O Guadiana deu motivo aos espanhóis para dizerem que êles têm na sua terra a mais rica ponte do mundo, porque, sôbre ela pascem de ordinário mais de dez mil carneiros, e pode passar um grosso exército em batalha. Parece que os antigos puseram mui advertidamente a êste rio o nome de Anas, porque entra e sai da terra assim como um pato entra e sai da água. AÍguns modernos dizem que são as montanhas que ocultam êste rio; outros asseveram que são as san¬ grias, que se lhe faz para rega dos campos, que são mui pouco férteis, mas c certo que isto acontece junto de suas origens, e não junto a Mérida, como o indicam algumas cartas antigas. Seja como fór, é isto uma das trés maravilhas de Espanha, e as outras duas são, uma cidade cingida de fogo com muros de seixos, que é Madride; e uma ponte sôbre a qual corre água, que c o aqueduto de Segóvia. Algumas cidades déste Estado têm certos apelidos por excelên¬ cia, como: Sevilha a mercante, Granada a grande, Valença a bela, Barce¬ lona a rica, Saragoça a contente, Valhadolide a gentil, Toledo a antiga e Madride a real. Há em Espanha oito arcebispados, e quarenta e oito bispados. Os arcebispados são : Toledo, Burgos, Compostela, Sevilha, Granada, Valên¬ cia, Saragoça e Tarragona O rei Recaredo t introduziu ali a religião católica romana, a qual é hoje a única recebida; e há ali a Inquisição contra as outras crenças Todavia há em Toledo algumas igrejas, onde se segue o rito mus-arábico, que é o que guardavam os cristãos que viviam entre os árabes. Muitos portos de mar são de grande consideração, como a Passa¬ gem de Santo André, Corunha, Cádis, Cartagena, Alicante, etc.
  • 300 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Contam-se em Espanha quinze grandes partes, que quási tõdas tiveram título de reino no tempo dos mouros. Destas são cinco da banda do Oceano, a saber: Biscaia, Astúrias, Galiza, Portugal, Andaluzia-, cinco da banda do mar Mediterrâneo, a saber: Granada, Múrcia, Valência, Cata- unha, e as ilhas de Maiorca e Minorca-, e outras cinco no interior do país, que são: Aragào, Navarra, as duas Castclas c Leào. A Biscaia tem matas que lhe dão meios de fabricar mais navios que todas as outras províncias de Espanha. Tem também tão grande quantidade de minas, e de forjas de ferro, que é às vezes chamada a Defensão de Castela. É separada da França pelo pequeno rio Bidassoa, que forma uma ilheta célebre em nosso tempo peia paz que ai se con¬ cluiu no ano do 1659 entre as coroas de França e Espanha. Os biscai- nhos, que são os antigos cântabros, se gloriam de nunca haverem sido subjugados. A terra, assim como a do reino de Navarra, é bem cultivada, porque não há ali nem talha (capitação), dizimo nem direitos de entrada. As Astúrias criam cavalos, que são estimados por sua fôrça. Ser¬ viu de abrigo aos reis godos, e é ainda o titulo do príncipe de Espa¬ nha, cujos irmãos segundos são chamados infantes, e isto desde o reinado de D. João I A Galiza é mais populosa que fértil. A Andaluzia é tão bela e tão abundante de trigo, vinho e azeite, que passa por ser o celeiro e a adegi do reino. O reino de Granada era muito mais rico e mais povoado no tempo dos seus últimos reis mouros, que o perderam no ano de 1491; e era também mais fértil, porque os mouros tinham mil invenções para regar as terras fazendo nelas regueiros e valas, pelas quais faziam vir as águas dos grandes reservatórios que formavam nas montanhas próximas da Serra Nevada. O seu assento e a disposição de seus lugares concorda com aquela que Júlio César descreve nos seus comentários. O reino de Múrcia é chamado o Jardim de Espanha, por causa dos seus excelentes frutos O reino de Valência é a mais agradável região de tóda a Espanha. A Catalunha produz vinho, azeite, cereais e frutos em quantidade. A vizinhança dos Pirenéus lhe fornece mármore mui fino, jaspe e lapis- -lazúli. Os que fazem de Espanha a cabeça dos Estados do rei Católico dizem que a Catalunha é uma de suas orelhas, e Portugal a outra. Contam-se nela dez cidades, dezassete viguerias (julgados), ou grandes baliados, e mais de cem cidades muradas, que têm sido muitas vezes tomadas e retomadas durante as últimas guerras. As ilhas de Maiorca e Minorca são as antigas Baleares. O Aragào è um pais cheio de montanhas. A Navarra consiste em seis meirinhados ou governos, dos quais o que é aquém dos Pirenéus ficou pertencendo à França. Basta ver-se a árvore de geração para se conhecerem os direitos de Sua Majestade Cris¬ tianíssima sôbre éste reino de Navarra, o qual foi usurpado a seus pre¬ decessores no ano de 1512 pouco mais ou menos, sem outro fundamento mais do que a conveniência e a fôrça. A Castela tira o seu nome de um castelo, cuja figura se vé no primeiro quartel das armas do rei de Espanha. O reino de Leão é o primeiro que os cristãos fundaram depois da invasão dos mouros. FIM DAS OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS
  • TRADUÇÃO E DESCRIÇÃO dos animais, Arvores e frutos das ÍNDIAS ORIENTAIS OBSERVADO POR FRANCISCO PYRARD Ainda que muitos tenham escrito amplamente da natureza, forma, e aparência de grande número de animais a nós desconhecidos, e das árvores, e frutos das índias Orientais, todavia, tendo-os eu visto, conhecido e meneado tão particularmente, como de feito o fiz durante tão longo tempo e até vivido deles, julguei ser obrigação minha pôr em escritura o que uma tão longa experiência me ensinou, certo de que talvez ninguém até agora lhes tenha tão particularmente observado a natureza. CAPÍTULO I DOS ELEFANTES E DOS TIGRES O elefante é o maior de todos os animais, e que tem mais instinto e conhecimento; de sorte que se pode dizer que tem algum uso de razão, além de ser infinitamente proveitoso e serviçal ao homem. Se alguém quere montar em cima déle, é éste animal tão submisso, obediente e bem ensinado a favorecer a comodidade do homem, segundo a qualidade da pessoa que déle se quere servir, que agachando-se éle mesmo dá ajuda com a tromba a quem quere montar nêle. Sôbre tudo folga éste animal de ser louvado e amimado, e por éste meio se humilha; sendo todavia tão grande a sua fórça que quási se não pode conhecer senão pela experiência. Vi um levantar com os dentes duas peças de artilharia de bronze, ligadas e amarradas entre si com cordas, cada uma das quais pesava mil arráteis; e não só as levantou, mas andou com
  • 302 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD elas por espaço de quinhentos passos. Também vi um elefante puxar navios e galeras piara terra, ou pô-las a flutuar no mar. É uma coisa admirável a natureza dêstes elefantes, que são tão obedientes que fazem tudo quanto se lhes manda, contanto que sejam tratados com mimo. Em tòda a região do Malabar e mesmo no reino do Dealcào ou Decáo notei que só os Naires domam e ensinam este animal; e vi em Calecute rapazinhos Naires estar sempre junto dos elefantes pequenos, amimá-los, levá-los de uma banda para a outra, e de algum modo costumarem-se com êles, e só os Naires os governam, lhes dão de comer, e os conduzem pela cidade, ou por qualquer outra parte onde é mister; porque ninguém mais o poderia conseguir, nem ousaria chegar-se a éstes animais. Quando um ele¬ fante é conduzido pelo seu Naire, não há nada tão manso, e tão tratável; faz tudo o que lhe mandam; recebe bem tôdas as pessoas que lhe mostram; recebe tôda a sorte de pessoas para o montar, estende a tromba, da qual se serve como de mão, e os ajuda a montar; e se é uma criança, levanta-a com a mesma tromba, e a põe sóbre si. Se porém não está ali o Naire, não há ninguém tão ousado que se lhe chegue, porque o elefante mataria a quem o tentasse. Tem sóbre o nariz uma grande tromba mui comprida, que é como uma manga de couro, e que meneia para um e outro lado e lhe serve de mão para levar o comer à bòca, ou para fazer qualquer outra coisa; além disso é tão rija que toma com ela um homem e o levanta a tal altura, que ao caia se faz em pedaços; e assim são justiçados os malfeitores em Calecute. E disse¬ ram-me que havia um em Goa há pouco tempo, que matou muitas pessoas desta maneira quando ia pela cidade, ainda tendo condutor, e com efeito vi muitos dos quais ninguém se podia aproximar apesar de terem o seu Naire, por serem de natureza mais bravia. Quando os levam à guerra, prende-se-lhe na tromba uma espada, com a qual cortam tudo quanto encontram. Vi muitos a quem tinham feito isto por divertimento, e meneavam a espada para um e outro lado bem furiosamente. Estes animais não comem carne, nem ainda quando são do mato, mas vivem somente de ramos e folhas de árvores que quebram com a tromba, e mastigam paus muito grossos Os que são domésticos, são mimosos no seu mantimento, e é mister dar-lhes arroz bem cozido e tempe¬ rado com manteiga e açúcar, que se lhes oferece em bolas grossas e conso¬ mem bem cem libras de arroz por dia; e além disso é preciso dar-lhes folhas de árvores, principalmente de figueira brava, para refrescarem. É por esta razão que me persuado que só os reis os possuem por custarem tanto a manter; e a magnificência e poder dos reis daquelas terras mostra-se em sus¬ tentar muitos; porque èste animal lhes é mui útil mesmo na guerra. Vi muitos em casa do rei de Calecute. O rei de Bengala tem dez mil, e o Grão Mogor, por outro nome chamado Akbar, que quere dizer o grande rei, sus¬ tenta até o número de trés mil I1), segundo eu soube de muitos indios e árabes que estiveram em sua côrte. Ê além disso coisa muito notável que éste animal náo cobre nunca a fêmea, se é visto por alguém. Há quem diga que náo tem juntas nas pernas, e que se não podem deitar, mas é falso; porque se dobram e se deitam como querem. Nada mais direi, porque muitos autores têm escrito assaz destes animais. (V Esta número esta escrito no original francês em ligam mor-3.000, mas parace- -nos pelo sentido que deveria ser trinta mil - 30.000. - S. do T.
  • TRATADO DOS ANIMAIS, ÁRVORES, ETC. 303 No que toca ao rinoceronte, como nunca vi nenhum, e só déles ouvi falar, nada também direi. Enquanto aos tigres há grande quantidade déles na índia, e são ali mais comuns do que cá os lobos. É um animal mui furioso, mui cruel, que nào foge dos homens, se nào estão em grande número, antes pelo contrário busca-os e acomete-os para os devorar. De sorte que tóda a gente traz armas para se defender déles, e apesar disso acham-se todos os dias muitos homens devorados por êles. Os reis aprazem-se muito em ir à caça destes tigres, para os devastar, e livrar deles o pobre povo, acrescendo a isto que assim conhecem e experimentam a afouteza e ardidez da sua nobreza. Os Naires náo fazem outra coisa mais do que ir a esta caça, e a maior parte os combatem com espada e rodela (o que náo é sem risco, porque o animal é ousado e furioso) e. depois de os matarem, levam-nos ante o rei em grande honra e triunfo. Vi muitos Naires que assim levavam os tigres mortos, e nào poucos de entre êles iam bem feridos. Êstes tigres sâo da altura de um rafeiro, mais compridos, com a cabeça grossa, semelhante à do gato. A pele é mui bonita ; tôda malhada de branco, prêto e ruivo. CAPÍTULO II DOS CROCODILOS E TARTARUGAS Há grande quantidade de crocodilos nos rios da ilha de S. Lourenço, da costa de Bengala, e das terras do Malabar. Vivem na água doce, sáo mui grandes, cobertos de escamas, e por isso dificeis de matar; mas têm o ventre brando, e fácil de penetrar. Exalam cheiro de almíscar, o que expe¬ rimentamos nos que matamos na ilha de S. Lourenço, porque logo que eram feridos todo o ar ficava embalsamado como de almiscar, e até a costa lançava o mesmo cheiro. Quem os tem comido diz que a sua carne é mui saborosa e boa. Eu nunca a provei. A goela é guarnecida de dentes mui agudos, e os de baixo passam e atravessam a maxila superior, que é tôda cheia de buracos nos lugares onde passam êstes dentes, e é esta a que se move. As tartarugas andam à tona de água para se aquecerem ao sol, e há-as táo grandes que só a concha bastaria para cobrir uma choupana ou casa pobre, e cabem-lhe em cima dez pessoas e mais, assentadas. Há grande quantidade delas nas ilhas de Maldiva, e ali se vêm muitas ilhetas que nào sáo habitadas de outros animais senào destas grandes tartarugas, que as cobrem totalmente. Quando nós chegámos às ilhas de Maldiva, apanhámos uma que tinha quinhentos ou seiscentos ovos do tamanho de gemas de ovos de galinha; a qual cozemos em água do mar, e a comemos, e disso vivemos três ou quatro dias quarenta pessoas que nós éramos, por nào têrmos outra coisa alguma que comer. A carne é mui gorda e saborosa como a de vitela; mas como a comíamos sem pão, nem outro tempéro, muitos dos nossos caíram doentes, e eu em particular estive muito mal, vomitando sem cessar até lançar sangue. A gente daquelas ilhas serve-se das conchas para fazer rodelas, e diversos móveis e trastes. Nas ilhas de Maldiva há outra espécie mais pequena, que todavia tem três ou quatro pés de diâmetro. A concha é escura, atirando parte para negra e parte para vermelha, mui lisa, brilhante, e táo admiràvelmente disposta que é coisa extremamente bela vê-la depois de pulida. Essa é a razão por que ela é tão procurada de todos os índios, reis, grandes senho-
  • 304 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD res, e pessoas ricas, priocipalmente de Cambaia e Surrate, que dela fazem cofres e caixinhas guarnecidas de ouro e prata, braceletes e outros orna¬ mentos e móveis. Esta espécie não se cria senão nas ilhas de Maldiva e Filipinas, ou Manilhas, e é uma das boas mercadorias que dali se extrai. É coisa admirável a natureza e duração da vida deste animal; porque aquéles insulares quando as apanham chegam-nas ao fogo e depois tiram-lhes a concha; e sendo assim tirada e separada a concha do corpo do animal, tornam a lançar a tartaruga no mar ainda viva e lá se lhe renova e refaz outra concha, e c defeso matá-las. Além disso aquela gente não come nunca espécie alguma de tartaruga, porque dizem êles que é um animal que tem muita conformidade e semelhança com o homem. CAPÍTULO III DOS PEIXES DO MAR ÍNDICO, E ESPECIALMENTE DAS ILHAS DE MALDIVA O mar que está debaixo da zona tórrida tem peixes estranhos e mui diferentes dos dos nossos mares. Mas entre outros é coisa maravilhosa cer¬ tos peixes que comem e devoram os homens. Nas ilhas de Maldiva há muitos desta qualidade, porque como o mar é baixo, agregam-se ali em grande quantidade. Este peixe é mui grande, de nove a dez pés de com¬ primento, grossura á proporção que excede o braçado de um homem ; nào tem escamas, mas é coberto de uma espécie de couro de cór denegrida, branco na barriga, mas todavia sem a dureza e espessura do da baleia. A cabeça é redonda, alta, e mui larga, guarnecida de quantidade de grandes dentes agudos. Os habitantes das ilhas de Maldiva sào mui incomodados déste animal, porque os vêm devorar quando andam pescando, ou se banham; c o menos que faz é decepar-lhes os braços ou as pernas. Vê-se ali grande número de pessoas, de que umas sào estropeadas de uma perna, outras de um braço, outras de uma mâo, outras feridas em outra parte do corpo pela mordedura de tais peixes. Vi muita gente naquelas ilhas de Maldiva assim maltratada; e vi até apanhar alguns destes peixes, e achar-se- -lhes no ventre membros inteiros de homens. Estes desastres acontecem todos os dias, porque de ordinário aquela gente banha-se e lava-se no mar. Uma vez estive quási a ser devorado por êstes peixes ao passar de uma para outra ilha por um trajecto bem pequeno. Os naturais me afirmavam que estes peixes, andando em bandos, têm acometido muitas vezes batéis e bar¬ quinhos de pescadores, virado os barcos e devorado os homens. Isto nào aconteceu enquanto eu ali estive, mas todavia todos mo asseveraram como coisa certa. Dizem que Deus lhes envia tais animais para os punir de seus pecados; e chamam a êstes animais Paimones. Há também outros peixes mais pequenos, chamados pelos portu¬ gueses tubarões, os quais têm a cabeça larga e redonda, a goela mui grande, e muitas ordens de dentes; sáo cobertos de couro sem escama como os precedentes, e também comem carne humana, c devoram ou estropiam os que nadam, ou se banham no mar. Acham-se em todos aquéles mares, e acompanham às vezes os navios à espera de prêsa, e até comem as cami¬ sas ou lençóis que se botam de mólho no mar. É coisa admirável haver sempre ao redor déles outros pequenos peixes, que tém a pele negra, e
  • TRATADO DOS ANIMAIS, ÁRVORES, ETC. 305 áspera na barriga, e por èste lugar mais áspero se agarram ao tubaráo, e êle assim os não pode devorar. As ilhas de Maldiva sáo mais cheias de peixes de diversas sortes do que outro algum lugar do mundo. Os habitantes gostam muito de peixe, e náo comem senão os melhores e mais delicados, desprezando os outros. Há ali um peixe pequeno, do tamanho de um pé, pouco mais ou menos, de forma quadrada, coberto de uma concha inteiriça, táo dura que é mister machado para a quebrar, tendo só a ponta do rabo móvel para lhe servir de leme: e a concha é de cór amarelada, salpicada de estrelas pretas; pelo que nlguns lhe chamam peixe estrelado. E o mais saboroso que ser pode: tem a carne branca, rija, sem espinha alguma; e dir-se-á que é carne de -galinha, de boa que é. Também há lá raias infinitamente grandes, de seis c sete pés de largura, mas os naturais náo fazem estimação alguma delas, nem as comem nunca, por terem éste peixe na conta de ruim; ainda que eu, tendo-o comido, o achei tão bom como os seus semelhantes de cá. Mas éles, como já disse, sáo táo gulosos, e delicados, e têm uma quantidade táo admirável de peixes, que se náo dignam de comer a maior parte dos que sáo seme¬ lhantes aos nossos, e que cá se comem, dizendo que os não acham suficien¬ temente bons. Somente esfolam estas grandes raias, e da pele sêca e bem estendida fazem tambores, e náo se servem de outros Há ali quantidade de peixes que tém concha dura; caranguejos de -tôdas as espécies, mui grandes, de que vi muitos, cuja concha brilhava com diversas córes mui agradáveis á vista. Dêstes caranguejos há uma espécie, como aquela a que os marinheiros chamam crabe, que abunda nas ilhas de Maldiva, mas de estranha grandeza, qqe andam no mar e em terra, onde fazem grandes cavernas para se recolher. Vi alguns dêstes, cujas garras eram mais grossas que os dois' punhos Há ilhas que são tódas cheias dèles, e dào moléstia e incómodo aos habitantes, porque mui freqúentemente os -ferem, agarrando-se lhe aos pés, e por esta razão em munas ilhas ninguém ousará andar de noite, que é quando todos andam por fora, e enchem tudo; e a mim me aconteceu ser assim ferido dèles andando de noite. Estes povos recebem também incómodo de outra sorte de peixe grande todo coberto de pontas duras como espinhas, do comprimento de quatro dedos, sem haver lugar algum do peixe onde as não haja Quando vào à pesca acontece muitas vezes àquela gente porem-lhes os pés em cima, ao passar junto dèles; entáo se introduzem nos pés aquêles espinhos, que passam por ser venenosos. O mar daquelas partes é cheio de cobras ou serpentes do mar, que mordem a quem encontram. Quanto aos peixes voadores, acham-se em tóda a parte debaixo da zona tórrida, e principalmcnte junto da linha equi¬ nocial. Além daqueles que vi no mar à ida, vi também muitos nas ilhas de Maldiva. Havendo falado dèles na relação da minha viagem, náo repe¬ tirei aqui o que lá escrevi. Por último fiquei admirado de ver tantas sortes de diversos peixes, -que nos sáo desconhecidos, grandes e pequenos de rodos os feitios, alguns dos quais sáo enriquecidos de belas córes, outros brilhantes como se fossem cobertos de ouro; em suma de táo grande diversidade, que só fica lugar para a admiração, e para reconhecer que as maravilhas de nosso criador se -manifestam mais no mar que em qualquer outra parte de suas obras. 20 II TOl.
  • 30G VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD CAPÍTULO IV DOS PAPAGAIOS, E DE UM PÁSSARO ADMIRÁVEL QUE SE CRIA NA CHINA Tòda a Índia, África, Brasil e ilhas de sua dependência são cheias,, entre outras muitas sortes de pássaros, de papagaios em grande número, e de todos os feitios. Uns tèra a plumagem cinzenta e roxa, e destes há os na Ilha de S Lourenço: sáo bons para comer, e têm o mesmo gôsto que os pombos torcazes; e deles comemos muitos quando estivemos naquela ilha. Os maiores papagaios verdes que trazem a França vem de Guiné, Cabo Verde e do Brasil. Os das Índias sáo verdes e mais pequenos, mas mui lindos e falam muito bem. Há os lá muito grandes todos brancos. Também se acham papagaios pequenos, que náo sáo maiores que pardais. No Brasil há-os todos vermelhos, ou todos amarelos e de outras diversas cores somente; todos poiém sáo aqui muito maiores que os de outras partes. Quanto âs garças sáo abundantes no mar e véem-se em grande quantidade na zona tórrida. Estando eu nas ilhas de Maldiva achou-se ali um pássaro que veio ter a uma delas, de prodigiosa forma e grandeza. È da altura de tiês pés, o corpo tão grosso que ura homem o náo poderia abarcar; a plumagem tòda branca como de cisne, os pés palmados como das aves nadadoras, o pescoço do comprimento de meia braça, o bico do comprimento de meia vara, tendo na parte superior uma espécie de unha curva e na parte inferior é mais largo que na de cima e tem pendente um grande papo mui amplo, de côr amarela dourada, semelhante a pergaminho. O rei muito admirado e sem saber donde poderia ter vindo éste animal e qual era a sua natureza, preguntava o a todos os que vinham de fora e ninguém lhe dava resolução;, até que chegaram certos estrangeiros que lhe disseram que aquéle animai era particular da China e só lá se criava; que os chineses se serviam déle para apanhar peixe, porque anda por água com os outros pássaros dos rios e por muito longo tempo. Apanha peixe industriosamente e com éle enche a grande bòlsa ou saco, que lhe pende por baixo do bico e é táo espaçoso e amplo que lhe cabem muitos peixes de tamanho de dois pés cada um. O que tendo o rei ouvido, ficou mui espantado de como era possível que éste pássaro tivesse vindo assim só da China, que fica distante mais de mil c duzentas léguas Quis pois ver por si a experiência, e fazia algumas vezes apertar o pescoço do pássaro, deixando lhe só a abertura suficiente para respirar, a fim de que náo engulisse o peixe; mas trouxesse o saco cheio, que é éste o artificio de que usam os chineses. Vi o assim andar muito tempo no mar c recolher cheio de peixe. Dilatava-se muito no mar, chegando a ficar lá um dia, o que me féz crer que náo era impossível que éle tivesse vindo da China, porque folga de andar no mar e ai se detém por largo tempo e apanha peixe para se manter; além de que foi-me asseverado por uma infinidade de indios de desvairadas partes que éste animal só se cria na China, Quando cheguei ao Brasil vi ali dois animais mui raros. Eram da forma, altura e proporção de uma mula pequena e todavia náo é uma espé¬ cie de mula, mas um animal diverso, que propaga e produz a sua espécie.
  • TRATADO DOS ANIMAIS, ÁRVORES, ETC. 307 A pele era admiravelmente bela, macia e brilhante como veludo, o pêlo semelhantemente curto, e o que c miis estranho é ser composta de listas extremamente brancas e extremamente pretas, tão proporcionada' mente que até às orelhas, ponta da cauda e outras extremidades, nada havia que notar nesta figura tão bem compassada, que apenas a arte humana poderia fazer coisa semelhante. É além disso um animal mui bravio e que nunca se amansa completamentc. Os do mato são extre¬ mamente ferozes, comem e devoram os homens. Chamam-lhe no pais onde sc criam zebras (•). Criam-se em Angola na África, donde os haviam levado ao Brasil, para os dar de presente a el rei de Espanha; e tendo sido apanhados mui pequenos, estavam um pouco mansos; e todavia só o homem que tratava déles se atrevia a chegar-se-lhe ao pé; e até pouco antes de cu ali chegar, um que por descuido se soltou matou um palafreneiro e té-lo ia devorado se lho não tirassem dos dentes. E ainda o homem que os tratava me mostrou sinais de éles o haverem mordido em várias partes, apesar de estarem presos com prisão muito curta. Certamente é a pele de animal mais linda que ver se pode. CAPÍTULO V DA PIMENTA E DA GENGIBRE; DA MASSA E NOZ MOSCADA; DO CRAVO E DA CANELA A pimenta cria se abundantemente em Cochirn, Crlecute, Cananor, Barcelor e por tôda a costa de Malabar. Extraem-na dali só os portugueses e ninguém mais ousaria comprá-la nestas regiões. Há-a também em grande cópia na ilha de Samatra e em Java, onde os arábios e todos os outios indios, e de alguns anos para cá os holandeses, ingleses e todos os que ali navegam contra vontade do rei de Espanha, a tomam e fazem dela Rrovimento. É mais grossa e mais pesada que a do Malabar, mas os indios ic dáo mais estimação, pósto que os portugueses gabam a sua, que dizem que tem mais fórça. Há-a de trés espécies; preta, branca e longa. A longa cria-se em Bengala, no Brasil e em Guiné. Mas a pimenta preta e a branca sào da mesma forma e provém de uma planta ou árvore, que é semelhante á hera e se planta ao pé de outra árvore; quando vai crescendo enrosca-se e vai subindo até às mais altas pontas da árvore, como se fósse a videira, lúpulo, hera ou qualquer outra planta trepadeira. A sua fôlha é semelhante à da laranjeira. O fruto dá-se em pequenos cachos alongados, mui semelhantes a groselhas vermelhas. A princípio é verde, perto de amadurar faz-sc vermelho e quando seca fica negro. Colhe-se nos meses de Dezembro e Janeiro. Quanto à gengibre é mais comum que a pimenta, e cria-se em tôda a Índia, e mesmo no Brasil, e na Ilha de S. Lourenço. Náo estive em lugar algum da Índia onde não visse gengibre. O rei de Espanha defende extrair se grande quantidade, porque se a levassem em abundância, isso lhe estorvaria a venda da sua pimenta, porque muita gente se contentaria com (*) I* na Nota (*) da pig. 237 deite volume advertimos que no originai francca la escreve Eiurr. provavelmente por corrupclo de 7-tbrr. ou Zevra. - N. do T.
  • 308 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD aquela especiaria. É uma raiz que se cria na terra, como a do lirio. Os índios fazem dela grande quantidade de conservas A noz moscada e a massa só se dão na Ilha de Banda, que é distante vinte e quatro léguas das de Maluco; e há a ali em tão grande quantidade que basta ao provimento de todo o mundo. A noz moscada amadurece três vezes no ano, a saber: em Abril, Agosto e Dezembro. A de Abril c a melhor. A árvore semelha se pouco mais ou menos ao pessegueiro; o fruto é coberto de uma casca ou pele mui espessa, que se abre depois de madura como uma noz, saindo a noz moscada com outra casca, que é a massa, de cõr vermelha. Secando separa-se a massa, e fica cór de laranja, e é droga de grande virtude para fortificar e aquentar o estômago, expelir as ventosidades, e fazer digerir os alimentos. O cravo só se produz nas ilhas de Maluco; as suas folhas semelham-se ás do loureiro; o pau da árvore, e as folhas têm, com pouca diferença, o mesmo gósto do fruto. Ao redor da árvore nào nasce erva alguma, porque as raizes sào táo quentes, que absorvem tóda a umidade. Tem se feito experiência de que pondo um saco de cravo sôbre um vaso cheio de água, esta se consome e diminui, sem todavia o cravo se danar. A flor do cravo quando abre é branca, depois faz-se amarela, e por fim vermelha. É entào que o cravo se produz na flor, e que o seu cheiro é mais forte e melhor, e na verdade é o mais suave e mais admirável cheiro que se pode imaginar. Quando as flores estão na sua fôrça, dir-se-ia que o ar está todo embalsamado do seu aroma Estando maduro cai o cravo no chào; apertam-no, e molham no na água do mar; depois secam-no em caniços por debaixo dos quais se põe fogo, que lança fumo, com o qual fica o cravo neg.-o, sendo dantes mui vermelho. A canela só se produz na Ilha de Ceiláo, onde se acha em tão grande abundância, que a maior parte da terra está coberta dela, como cá de mato ordinário. A árvore é como a oliveira, e a fólha como a do loureiro; dá uma flor branca, e um fruto de feitio da azeitona madura. Tem duas cascas; a ptimeira nada vale, a segunda é a verdadeira canela, que fendem na árvore, e ali a deixam secar; depois de estar seca tiram na, e náo deixa por isso de se criar outra no fim de dois ou tiês meses, sem que a árvore receba dano. Esta árvore produz se comummente sem ser plantada; e há ali táo grande quantidade de canela, que a libra náo vale mais de seis dinheiros. CAPÍTULO VI DO ANIL OU ÍNDIGO, DO ALMÍSCAR, AMBAR-GRIS, BENJOIM, SANDALO E PAU DE ALOÉS O anil, por outro nome chamado índigo, somente se produz no reino de Cambaia e Surrate. É uma erva que cresce como o alecrim, e procede de semente. Quando a colhem põem-na a secar, e tornam a molhá la muitas vezes, e outras tantas a fazem novamente secar, até tomar cór azul. Pazem dela grande estimação para a tinturaria, e é uma das melhores mer- cadotias da Índia. O ámbar-gris procede do mar, e principalmente na zona tórrida. Vi muita quantidade déle nas ilhas de Maldiva, onde se acha á beira-mar.
  • TRATADO DOS ANIMAIS, ÁRVORES, ETC. 309 Ninguém nos países onde eu tenho estado sabe verdadeiramente de onde vem esta droga, e como se cria; só se sabe bem que vem do mar. O almíscar vem só da China. Procede de um pequeno animal do tamanho de um gato Para lhe tirar o almíscar matam ê.-te animal, e o esmagam inteiramente dentro da pele, na qual o deixam apodrecer; e depois de podre fazem da mesma pele pequenas bolsas, que enchem da carne cortada em pedaços muitos, e assim a vendem. Os chineses fazem disto grande tiáfico, e o sofisticam e misturam, como a tudo quanto lhes sai das mãos; de sorte que se não encontra puro e natural. Algálias há-as por tóda a Índia em grande quantidade. O benjoim procede, como as outras gomas, de uma ãtvore muito alta; e é uma goma mui aromática. Dá-se principal mente em Malaca e em Samatra. O sândalo branco é uma árvore que se ctia na Índia, e há-o em grande quantidade na Ilha de S. Lourenço, e também o sândalo vermelho. Os índios servem-se déle para esfregar o corpo, e lhe dar bom cheiro, e refrescar a pele quando têm calor. A árvore náo dá fruto algum. Há duas soites de pau de aloés na tndia; um que é chamado pelos indios calamba, e outro a que chamam garoá. Os índios servem-se deste pau para esfregar o corpo e fazer pci fumes. CAPÍTULO VII DOS TAMARINDOS, CANAFlSTULA E M1RABOLANOS Há por tóda a índia grande quantidade de tamarindos, cujas árvores sá o do tamanho de pereiras, e tém fruto semelhante à vagem da fava, do qual os índios se servem para deitar na comida como tempero; e o pau serve de lenha para o lume. É também mui laxativo. A árvor.e da canafistula é semelhante à pereira, mas tem a fòlha mais comprida, e dá uma flor amarela de bom cheiro. Floresce no mês de Setembro; depois produz vagens compridas de cór verde, mas quando amadurecem, ficam pretas. Os indios não têm êste fruto em estimação alguma Estas árvores nascem espontáneamente, sem ser semeadas, nem cultivadas Quando a canafistula é madura, que é no mês de Janeiro, cai, e nesse tempo aquela gente foge de comer a carne dos animais, como vacas, carneiros, e outros, porque causa fluxo de ventre e disenterias, em virtude da canafistula que é laxante, e aquêlcs animais comem quando a acham caida no chão. A terra do Dealcáo é cheia desta planta; junto a Goa só vi uma. Na Índia acham-se mirabolanos, que são árvores como ameixieiras, de que há grande quantidade em Cochim e em Calecute. O fruto asse¬ melha-se às ameixas. É um fruto mui delicado, de que se faz grande quantidade de conservas e doces.
  • 310 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD CAPÍTULO VIII da Arvore triste, do ébano, do bétele e da Arvore do algodAo A árvore que se dá nas índias Orientais, e lá chamam tiiste, é assim chamada porque não floresce nunca senáo de noite. Quando o sol se põe náo se veem nela flores algumas; e todavia meia hora depois do sol pósto, esta árvore fica tóda florida, e apenas o sol lança novamente os seus raios, caem-lhe as flores, sem lhe ficar alguma. E do tamanho da pereira. A fõlha assemelha-se à do loureiro quando é um pouco cortada. A semente serve para lançar na comida; e a água que se expreme destas flores serve para remédio contra a moléstia dos olhos. A árvore do cbano é do tamanho da oliveira, tem a íòlha do feitio da do salgueiro, e dá uma flor branca semelhinte à rosa. O pau é mui duro. Há muito em Moçambique, e é o melhor. Há também grande quantidade na ilha de Santa Helena, mas náo tão bom, por ser cheio de nós. O bétele é uma planta que se põe ao pé das outras árvores, sòbre as quais trepa como a hera; a fõlha é do tamanho da da tanchagem. Há esta planta em grande abundância nas índias Orientais, e principalmente nas ilhas de Maldiva, porque a gente dali tóda a cultiva mui curiosamente. Os índios usam muito desta planta, e todos mascam a sua fõlha quási con- tinuadamente, mbturando-a com uma pouca de cal, e com o fruto a que chamam areca, para lhe diminuir o amargor. Dizem que é boa para a saúde, e que náo viveriam sem ela, porque esta fõlha é mui quente, e ajuda a digestão; e por isso a mastigam a tóda a hora, e a tèm na bó;a, excepto quando dormem. E na verdade o gósto é bom, tem bom cheiro, e dá bom hálito; e pósto que seja quente, todavia refresca a bóca, sacia a sêde, e impede de beber continuadamente, como seria mister pelo grande calor. Depois de lhe chuparem o suco, lança-se fora a massa. Usei desta droga o tempo que estive naquelas partes, e dei-me muito bem com ela Con¬ serva de tal sorte a saúde dos dentes que nunca vi ali pessoa alguma que padecesse déles, ou que tivesse perdido um só É verdade que tinge de vermelho os dentes e a bòca que parece coral, mas lá háo isto por formo¬ sura, e o tèm em tanta honra que se alguém entrar cm uma casa. e náo lhe oferecerem bctele, o receberá por afronta e desonra; de sorte que se alguns amigos se encontram no caminho por honra e regalo oferecem entre si bétele. Em suma, cm tódas as festas, banquetes e folias éesta a primeira e a mais estimada parte dos regalos. A árvore que dá o algodão cresce em altura como as nossas roseiras, a fõlha é como a do bordo, a flor como botões de rosa, e caindo a flor aquele botão abre se e deita o algodão, no qual há semente que se semeia e planta em viveiros, e assim se reproduz continuadamente o algodão, do qual os indios se servem para tecer seus panos, e náo tém outros, nem de linho, nem de cânhamo, como nós cá temos Nem éles tèm éstes nossos tecidos em estimação alguma à vista da delicadeza daqueles panos de algodão. Há também outra espécie de algodão que procede de uma árvore maior que a precedente, e é como um freixo, a qual produz certas vagens cheias de algodão, que por ser mui fino, náo serve senáo para encher col¬ chões e travesseiros da cama.
  • TRATADO DOS ANIMAIS, ÁRVORES, ETC. 311 CAPÍTULO IX DAS BANANAS E ANANASES A bananeira é uma árvore d: altura de nove ou dez pés, mui comum nas Índias, maravilhosa, e tenra como talo de couve, e tão grossa como a coxa de um homem, coberta de diversas cascas umas sóbre as outras, como as cebolas, as quais sendo tiradas, fica o âmago da grossura de um braço, e éste âmago serve para se comer; as folhas são de comprimento de vara e meia, e de largura de meia vara. O* Índios gentios servem se das folhas como de toalha e pratos onde com:m, e náo serv-m a éste uso mais qur uma só vez. O fruto é mui delicado e precioso; dá-se ordinariamente às crianças como papa; e cada árvore náo produz fruto mais que uma vez, e depois cortam-na para rebentar novamente, e cad-i um destes rebentões produz fruto todos os anos uma vez. Há muita quantidade destas árvores. O fruto dá-se em cachos, em cada um dos quais chega a haver duzentos frutos; e cada fruto é da grossura de um braço e comprimento de um pé (*); é mui bom e saboroso, e acha-se em iodas as estações ; ao princípio é verde, depois faz se amarelo, e então é que está maduro. Nas ilhas de Maldiva há grandes hortas tòdas cheias destas árvores. O ananás dá se cm uma planta muito rasteira, que nunca passa da altura de três ou quatro pés, e por baixo rebenta em forma de mouta; as folhas são estreitas e compridas, picantes e desvairadas. O fruto seme¬ lha-se a uma alcachofra, ou antes a uma pinha, salvo ser um pouco maior. Quando está maduro é amarelo, e por dentro é mui tenro, e mui bom para comer. No alto do fruto tem um ramo de folhas, o qual sendo plan¬ tado, produz outros frutos Pode estar quinze dias colhido sem se danar, por causa da sua grande umidade, que o conserva Cortando-se éste fruto com faca, e deixando se esta por limpar, fica tôda ferrugenta numa noite; tão quente e penetrante é o suco do fruto Todavia alguns indios fazem déle vinho, que é como a cidra da nossa terra, mas melhor, mais forte e mais quente. CAPÍTULO X DOS DURlOES, RAMBUTÔES, JACAS E MANGAS A árvore dos duriàes semelha-se propriamente na grandeza a uma pereira ; o seu fruto é do tamanho de um meláo, e os indios estimam-no muito por ser um dos mais saborosos e melhores da Índia. Quem náo está costumado a éle náo o acha bom ; e tem o mesmo cheiro que as cebo¬ las de cá, mas o gôsto é muito mais excelente. (I) Hi bananal desde i grossura de um dedo de homem alé i do braço de ■um* criança de colo. Enquanto ao comprimento rara será a que chega a ter um pê. - N. do T.
  • 312 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Os rambutões são frutos cobertos de uma casca espinhosa como a castanha; têm a cór vermelha, o fruto interior é do tamanho de uma noz, provido de um núcleo semelhante a uma amêndoa e de igual gósto; sôbre a qual há uma carne ou polpa, que se desfaz na bòcacom um gósto mui agradável. É mui estimado na India. As jacas dáo-se numa árvore da altura de um castanheiro, e sáo do tamanho de abóboras. Prende ao grosso da árvore, e náo à ponta dos ramos, e vergônteas, como todos os outros frutos. Dir-se-ia de longe que sáo abóboras amarradas ã árvore. A parte externa é como a de pinha, e de cór amarela. Estando maduro tem o gósto e sabor mui doce, mas afora isso mui laxativo. Dentro do fruto em vez de amêndoa ou pevides, acha-se grande quantidade de castanhas tào boas e saborosas como as de França ; e estas castanhas, ao contráiio da natureza do frulo, apertam o ventre. De sorte que depois de se comer o fruto, para atalhar a que éle faça mal, basta comer uma destas castanhas, crua e náo cozida As mangas produzem-se cm árvores que sáo da altura das nogueiras de cá, pòsto que as folhas sejam mais pequenas e mais estreitas. O fruto ê da forma de ameixas da grossura de um punho Há dentro um caroço que náo se péla completamente Estando maduras sáo amarelas, e mui boas, e há as em grande quantidade na índia, pôsto que náo nas ilhas de Maldiva. Quando ainda estáo verdes salgam-nas como nós cá fazemos ás azeitonas, para durarem por todo o ano; porque éste fruto, assim como as jacas, rambutões, e ananases, dáo-se numa certa estaçáo, e náo durante todo o ano, como as bananas e uma infinidade de outros. CAPÍTULO XI de muitas Arvores e plantas que se criam nas ilhas DE MALDIVA As ilhas de Maldiva sáo mui férteis em tòda a sorte de frutos, e afora parte daqueles que acima tenho descrito, e ali se dáo, há muitos outros, de alguns dos quais farei aqui especial mençáo, por serem mui diferentes do feitio dos que nós cá temos, por haver usado déles, e pelos ter observado mais particularmente nas ilhas de Maldiva que em outra parte, sem contudo querer afirmar que alguns déles se náo dêem em outra parte da Índia, ou que eu os haja visto só ali. Primeiramente muito me espantou, e achei grandemente notável a natureza de uma espécie de raiz particular às ilhas de Maldiva, e da qual usam muito na comida, temperando-a delicadamente. Cresce até à grossura da coxa de um homem, semeam na e cultivam na ; e o que é maravilhoso é cortarem apenas a raiz em muitos pedaços mui pequenos, e assim a semeiam, de modo que se náo reproduz por semente, mas por éstes pedaços da raiz; coisa mui estranha e contrária à natureza das outras plantas. Há muitas espécies de árvores, umas que dáo fruto, e outras somente flor. Entre as que sáo fruto sáo o coqueiro, bananeira, romeira, limoeiro e laranjeira. De outras árvores menos conhecidas, e que dáo fruto, eis as que notei.
  • TRATADO DOS ANIMAIS, ÁRVORES, ETC. 313 Uma é aquela a que na sua língua chamam Moranguegasts (*). É uma árvore mui grande, com ramos mui abertos, íòlhas redondas e mui peque¬ nas, e o fruto é ã maneira de longas vagens de favas. Estas folhas e fruto servem para a comida, e sáo mui saborosos. Há outra chamada Concri I2). que é uma árvore mui grande, e de ramos mui compridos; as folhas sáo redondas e tèm pequenos pinhões; o fruto é como ameixas pequenas, e de gósto mui delicioso É mui estimado nas ilhas de Maldiva, e mesmo em Goa. Esta árvore frutifica em todo o tempo, e à semelhança das laranjeiras vc se nela ao mesmo tempo flor, fruto limpo, algum meio maduro, e outro maduro. A papaia é um fruto que se dá numa árvore de altura meá, que tem¬ as folhas mui semelhantes às da figueira O fruto nasce como os cócos, não aderente aos ramos como nas outras árvores, mas sai do alto do tronco da árvore ao pé da divisão dos ramos. É éste fruto ptòpriamente do feitio de um figo, mas muito maior, e de tamanho de um mcláo; por dentro semelha-se a meláo, tendo as talhadas assinaladas na pele; as sementes na mesma disposição das do meláo; e o gósto muito semelhante. Quando está verde servem-se déle como de abóbora para meter na comida. Os portugueses têm algumas destas árvores nas suas hortas, e hão o fruto por mui delicioso Há outra árvore, cuja natureza é estranha: chama se ambu, e se assemelha a um Mttlier (3). cujo fruto se aproxima do feitio das ameixas brancas, e é mui delicado e saboroso (4), mas tem um caroço do tamanho de uma amêndoa ou avelá, o qual também é de bom gósto, mas faz pertur¬ bar o espírito por pouco que déle se coma, e se se comesse muito, causaria estranhos acidentes de doença, e chegaria a matar; do que eu posso dar bom testemunho, porque tendo acontecido no principio da minha estada nas ilhas de Maldiva, padecendo necessidade, comer dêste fiuto, fiquei com o espirito perturbado por espaço de vinte e quatro horas. Há uma átvore, a que chamam abegasts que produz um fruto que se deixa comer aos passáros, mas aprovt itam-se as raizes dela para a tinturaria, e dáo uma bela côr encarnada; e todavia para se tirarem as raizes não é mister cortar a árvore, mas vào lhas cortando ora de um lado, ora do outro, sem que por isso a árvore receba dano. O macaqueió é uma bela árvore, mui alta e grande, e de mui pro¬ veito. As suas raízes estào fora da terra, são compridas, grossas, belas, lisas, e só prendem na terra por uma extremidade como se a árvore ficasse suspensa sóbre estacas, e sóbre arcadas, porque entre umas e outras há espaço vào. Quando estas árvores estáo unidas umas às outras, cerram-lhes estas raizes. c deixam só quatro em cada árvore para a suster, a qual por isso não recebe dano, mas lança logo outras. A flor é do comprimento de um pé, grossa, branca, e dobrada, e dá cheiro excelente O fruto é do tamanho de uma abóbora, redondo, tem a pele um pouco dura, e dividida por quadra¬ dos em bocados que penetram até ao âmago, do feitio de uma pinha, mas (t) Este nome anda visivelmente aportuguesado em Goa onde se diz morangueiro. Também se chama a esta árvore Muxingo. Ê a Myrabulanus Myrepsica do nosso botânico Manuel Galvão da Silva; e se pode ver nas suas Observações sóbre a História Natural de Goa, que nós acabamos de dar à luz em Goa neste ano de 1862. - N. do T. (-■ Congnare, escreve o autor; mas não pode deixar de ser a árvore que em Goa ae chama Concri e ao Iruto Concram. - N. do T. t3) Assim está no original francês; nio pudemos, porém, achar o nome corres¬ pondente em português - N. do T. i*l Parece ser o jambo branco. - N do T. v3) Ou antes Ogost, e também se diz Sapanga. — N. do T.
  • 314 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD com a diferença de que éstes quadrados são do próprio fruto, que é exce¬ lente. Tem a côr muito encarnada; a maior parte do fruto não se come; por dentro é cheio de pinhões, que são infinitamente saborosos, e melhores que os de cá As folhas são compridas de vara e meia, e largas de um palmo; dividem-se em duas peles, sóbre as quais se escreve com tinta como em pergaminho. A madeira não tem préstimo algum, porque é tôda úmida, porosa e cheia de filamentos Há nas ilhas de Maldiva grande abundância de uma árvore, a que os portugueses chamam Figueira da índia, que tem a folha como a nogueira, dando um pequeno fruro que para nada mais serve do que tirar-se dele, depois de torrado, um óleo negro, com que untam e pintam de negro os navios em vez de péz e sebo O que c admirável na natureza desta árvore € que os ramos, depois de haverem crescido a grande altura, lançam de si uma pequena raiz, que naturalmente se curva e vai entrar na terra, donde se produzem outras semelhantes árvores, e assim até ao infinito; de sorte que depres
  • TRATADO DOS ANIMAIS, ÁRVORES, ETC. 315 CAPÍTULO XII DESCRIÇÃO MUI PARTICULAR D\ ARVORE ADMIRÁVEL QUE DA OS COCOS, A QUAL SÔ POR SI PRODUZ TÔDAS AS COMODIDADES E COISAS NECESSÁRIAS A VIDA DO HOMEM Em tóda a Índia não há árvore que sirva tanto em tudo para a susten¬ tarão e comodidade do homem, como aquela que produz os côcos. Os portugueses lhe chamam palmtira, e ao fruto côcos Cs naturais das ilhas de Maldiva chamam-lhe roul, e ao fruto cari. Os do Malabar ttngua, e os Guzerates narquilly. Náo se dá senào nos países que ficam entre os dois trópicos, porque esta árvore requer só lugares quentes e úmidos, e todavia não se cria em tóda a zona tórrida, mas só em certos lugares, onde nasce táo naturalmente e sem cultura, que é coisa admirável; e principal¬ mente nas ilhas de Maldiva, onde a há cm maior abundância que em tôdo o resto do mundo. Produz se aqui em tal quantidade que a gente da terra é obrigada a cortá-la para fazer lugar às suas casas e edifícios, e ordinàriamente náo deixam estas árvores mui próximas das casas, assim porque frequentemente caem de per si mesmas com o vento, o que derruba as casas e mata a gente; como porque os seus frutos que também caem todos os dias cm grande quantidade por causa dos ratos, matam muitas vezes a gente, náo só porque a árvore é alta, mas porque o mesmo fruto é pesado. Vi alguns que em verdes tinham tal grossura que pesavam bem dez libras: e os ratos só buscam os verdes, porque os sêcos sáo mui duros de roer. Além disso éstes animais o que principalmente desejam é beber a água que êste fruto encerra; e tém a indústria de fazer um buraco 11a parte superior, para que a água se náo derrame, e fazem éste buraco da sua mesma grossura para poderem entrar dentro a comer e a beber; e quando o fruto não tem já dentro substância alguma, dana-se e cai, de sorte que nas ilhas desertas a terra é tóda coberta déle; mas nos lugares habitados a gente tem cuidado de o apanhar quando está séco para fazer fogo, que é melhor que o de qualquer outra lenha Recebe aquela gente grande prejuízo da destruição e ruína que fazem éstes ratos; e ainda mais aquéles morcegos, de que falei, e que são mui grandes, os quais causam dano assim nesta árvore, como cm tódas as suas vasilhas de vinho, que rompem e quebram, porque gostam muito de beber o vinho, e ordinariamente o derramam. É também aquela gente atormentada das formigas que há em tódas aquelas ilhas, c que fazem o seu ninho ao pé destas árvores, com o que descarnam as raizes da terra, e a árvore cai. Esta árvore é mais alta náo só que alguma outra destas partes mas também de tóda a índia; e a sua altura é pouco mais ou menos de vinte toezas. E tóda direita, sem ramos até acima, e náo é grossa ein proporção, mais mui delgada; contudo é mais grossa para o pé e vai sempre diminuindo em grossura até ao alto, e nunca vi nenhuma que fósse tóda da mesma grossura ainda que seja privada de ramos até ao alto Náo tem grandes raizes. o que é causa de ser pouco firme, e de o vento forte derrubar algumas, que às vezes caem, como disse, sôbre as casas, em cujas ruinas fica a gente que está nelas, porque sáo baixas e pouco fottes para resistir a táo grande péso. A casca da árvore é branca; o tronco mui brando e cheio
  • 316 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD de filamentos. A madeira serve para a fabricação de casas, e contudo só metade da árvore se pode aproveitar para êste mister; isto é, a parte inferior junto ao pé. que é mais grossa, porque o resto é só medula, e é mui tenra. A parte mais inferior de todas, que vai desde a raiz da árvore até altura de três pés, que é a maior grossura, cortam-na em separado, e depois de vasada fazem dela vasilhas para conservar mel, para conter água, ou outras semelhantes coisas do uso doméstico. Serve também a madeira da palmeira para fazer embarcações, e há as tódas formadas dela, sem entrar outra madeira, nem pedaço algum de ferro. Os ramos sáo todos na parte superior, e mais alta da árvore, em forma de ramalhete; sáo mui longos, chatos e sempre rectos. De cada lado dos ramos estáo dispostas as folhas com igualdade umas perto das outras, tendo entre si a distância de um dedo pouco mais ou menos. As folhas sáo do comprimento de meia braça, e mais, acabam em ponta, têm a largura de dois dedos de cada banda, porque sáo divididas em duas pelo meio; onde há um lenho mui delgado, mas mui duro, que sustém as fólhas. Sáo de còr branca quando o ramo nasce, depois fazem-se verdes, e estando sécas sáo pardas O fruto nunca nasce nos ramos, mas só sòbre o tronco da árvore ao pé dos ramos, e vem em cachos, cada um dos quais prende á árvore por um pé da grossura de um braço, mui longo e mui duro; e déste pé só estão pendentes os còcos, até ao número de cinquenta ou sessenta ordinà- riamente, e ás vezes mais. E o que é mais admirável é que todos os meses a árvore produz um ramo de còcos, de sorte que ài vezes está carregada de quinze ou vinte cachos, uns com còcos maduros, outros com meio maduros, e outros que apenas começam a abotoar, segundo a ordem do seu nasci¬ mento; c amadurecem perfeitamente em seis meses Assim durante todo o ano há fruto maduro, e tôda a est :çáo lhe é própria. Esta árvore demanda lugares baixos, úmidos, aquáticos, pantanosos e arenosos. E por isso é que ela se dá tào bem nas ilhas de Maldiva, que sáo terras baixas, e onde no fundo de trés ou quatro pés se acha água, que dá a grande frescura e nutrição destas árvores. Pelo contrário na terra firme é com grande trabalho que se cria esta árvore, e é mister encanar a água, ou fazer regar a planta á mào por escravos, pela manhá e á tarde. Para plantar esta árvore é necessário tomar o fruto sóbre a mesma árvore quando êle está bem maduro naturalmente, mas nào de mais, por¬ que estando maduro de mais e mui séco, a água que tem dentro também estará séca ; e é a água só que se converte em gérmen, e náo o miolo, e é mister que o fruto seja com a sua casca inteira metido na terra úmida, e fique bem enterrado E se fór enterrado sem a casca exterior será impos¬ sível que a árvore brote, porque a terra fará apodrecer a casca interior antes que o gérmen e a raiz se desenvolvam, e a árvore saia à supeificie da terra. Aos seis ou sete anos dá fruto Quem quere utilizar se da substância déste fruto, toca com os dedos ou com outra coisa na casca, c por ai pode julgar em que estado éle está: se está duro ou mole, maduro ou verde. Se está bem maduro a água flutua e chocalha no interior, mas quando ainda náo está maduro ou só o começa a estar, a água náo chocalha h à proporção que vai amadurecendo, vai sempre a água secando se, até de todo desaparecer, e então o miolo torna-se séco e duro, e náo deita leite, mas só óleo pela expressão, e despega-se da casca por si mesmo, e, em vez de branco como até ali era no interior, fica còr de chumbo, e na sua parte superior da mesma còr parda como a casca. As árvores que nas ilhas de Maldiva sáo pióximas da cérca do palᬠcio real, náo se sobe senão de noite, sendo defeso subir a elas de dia, por-
  • TRATADO DOS ANIMAIS, ÁRVORES, ETC. 317 ■que se devassaria delas o interior do recinto por não ter muros tão altos como estas árvores. E ainda os que se ocupam em colher o fruto destas árvores, que êles chamam ravery, não ousariam subir a elas de dia em lugar onde possam ver o interior da cerca de qualquer casa por mais pobre que seja, sem primeiramente gritarem três vezes em voz alta antes de subi' rem a elas. Isto se usa assim por causa das mulheres que se banham e lavam nuas em seus tanques, e junto aos poços dentro do recinto de suas habitações. Guarda se isto mui estreitamente entre eles. É coisa admirável ver as comodidades que se tiram desta árvore, de que não há pedaço ou parcela que não tenha alguma serventia. Os ramos fendem se em dois, e com êles se cobrem as casas e fazem sebes mui fortes e bem feitas, com que cercam as casas e hortas ; afora uma infinidade de outras aplicações, que seria inútil referir aqui. Com as folhas cobrem-se as casas, sobrepondo-as umas nas outras, e segurando-as com diversas fiadas de cordel postas longitudinalmente; e náo se cobrem as casas de outra matéria; e isto resiste muito bem à água, de que náo passa uma gota; mas é mister renovar esta cobertura de três em três anos. Quando a fòlha está ainda verde, servem se dela como de papel para escrever cartas e outras missivas, versos e canções, e as dobram com muita graça, o que se faz com facas e ponteiros de ferro. Também quando as folhas estáo sécas as fendem em tiras, de que fazem tecidos e entrançados em forma de esteira mui lindamente obrados; e destas esteiras cosidas umas nas outras se fazem velas de navios tão grandes como se quer, e por tódas as ilhas de Maldiva náo se servem de outras velas. Destas mesmas esteiras se servem em forma de alcatifas comuns para se sentarem no cháo, segundo seu costume, e por tóda a costa de Malabar náo há outras esteiias, porque náo há lá verdadeiro junco como em Cael (*), e nas ilhas de Maldiva se fazem desta mesma matéria outras esteiras melhores e mais bonitas. Das mesmas fòlhas inteiras aquéles povos fazem e tecem mui convenientemente alcofas, cabazes e mil outras obras, como nós fazemos cá de vimes e sal- gueitos; e semelhantemente fazem chapéus de sol, e da cabeça, mui lindos, que se usam para tapar a chuva, e eu me servi lá sempre dêles. Em suma, destas fòlhas quando são novas e brancas fazem mil sortes de obras, e formam delas pássaros, peixes, e todos os outros animais, como cá se faz de pano de linho apropriadamente apeifeiçoado. Quando querem fazer um presente de flores, frutos, bétele, ou outra coisa, metem no numa espécie de condcça feita destas fòlhas com muita perfeição; e quando hão de tirar o que está dentro, cortam a condeça, e abrem na com uma faca, e depois de tirado o que ela contém lançam na fora. O pequeno lenho que cone pelo meio da fòlha, depois de séco fica mui duro, de sorte que fazem déle vassouras, e náo usara de outras. Esta mesma varinha serve para fazer cofres e baús, tecendo umas nas outras, e ficam mui fortes, e podem fechar-se à chave. Fazem também desta matéria cabos de armas, como pequenos chuços, azagaias, e outras semelhantes Ligam uns aos outros éstes pauzi¬ nhos, que náo sào mais grossos que a ponta de uma agulheta, e tèm o com¬ primento de meia braça, e os vào juntando até à grossura que querem. Este lenho pela sua parte mais grossa, que é no pé da fòlha, é da grossura que disse, e dali vai sempre diminuindo até à ponta, que náo é mais grossa que um pequeno alfinete; e ajeitam ê'tes pauzinhos táo bem que formam dêles um bastão todo igual, sem ser nem mais fraco, nem mais grosso num (I) Sara Xa«i?-N. á» T.
  • 318 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD lugar que noutros; e depois de bem ligado o cobrem de um verniz que cies rem de tódas as córes, com mil figuras e feitios a seu gôsto; e chamam a estes bastões Zaconte Estes bastões são da grossura de uma polegada, mui rijos c fortes, e todavia dobram-se, mas não se quebram. Fazem nos tão grossos e tão compridos quanto querem; e também fabricam assim arcos. Nao se servem de outros alfinetes em tudo quanto é mister, e os aparam e aguçam com facas Quanto ao côco, quando está com tóda a sua casca inteira c da grossura da cabeça de um homem. A casca é por fora amarela quando está madura, e da espessura de três a quatro dedos. Esta casca decompõe-se em fila¬ mentos, de que se faz cordoalha. Para ésse efeito, descasca se o fruto estando verde como nós fatiamos às nossas nozes e separando aquela casca da outra mais interior, põem-na a curtir no mar, coberta de areia. Depois de assim ter estado por espaço de três semanas, tiram na, e batem na com malhos de pau, como nó» cá fazemos ao linho, e ao cânhamo; easiim tiram os filamentos separados, cxpócm-nos ao sol, e depois os torcem e entrançam Íara fazer cordas, das quais se servem em tudo, e não há outras em tóda a adia. Esta mesma casca estando réca serve para calafetar os navios. E desta mesma corda fazem o morrão para os arcabuzes, que conserva mui bem o fogo, e faz bom carvão, melhor que o do nosso ; mas para fazerem êste morrão não se servem do fio preparado para as cordas, mas é mister que a casca se seque com o fruto, e se não colha verde, nem seja curtida, ou massada como a outra, c os filamentos sejam fiados e torcidos com tóda a borra. Tem então a cór da casca de carvalho, com que se curtem os couros; e a borra que há entre êstes filamentos é como serradura de madeira. Nas casas, corpos de guarda, e em outros lugares usam desta casca sèca para conservar o fogo, o qual na verdade se conserva ali muito bem; e com uma pequena faisca que lhe toque pega-lhe logo o fogo, e nunca se extinguirá cm quanto durar a menor parcela desta matéria. Depois de terem feito o morrão fervem no com cinza, como nós cá fazemos, e depois dobram-no, e fazem déle grossas meadas em forma de ró!o, deixando no centro um buraco ou anel da grossura do braço, e nêle as enfiam quando levam seus arcabuzes. Nunca cortam êste morrão, mas vão no desdobrando à proporção que se vai queimando, como nós cá fazemos ao rôlo de cera Náo usam de outro morrào nestas ilhas, e cm todo o resto da índia. Fazem também morrão de algodão nos lugares onde éste é comum, c o côco raro. A noz sendo separada da casca filamentosa é ainda tamanha que às vezes lhe cabe dentro da sua própria casca interna, depois de vazia e limpa, uma canada. ou uma canada c meia de água, ou outro qualquer líquido. Há as também menores, de diversas grandezas, e as mais peque¬ nas sào do tamanho de uma laranja. A casca interior é mui dura, e da grossura de dois tostões, ou mais. Os indios servem-se dela para fazer escudelas, púcaros, medidas de meia canada, e outros utensílios, como colheres e coisas semelhantes do uso doméstico. Além disso fazem desta casca carvão de ferreiro, e náo usam de outro. Dentro desta casca há um miolo, ou massa branca, mui espéssa e rija, a qual é saborosa como amêndoas, mui boa, e da qual usam por muitos modos. Primeiramente os indios comem-na como nós comemos pão com tódas as outras viandas, seja carne seja peixe. Além disso (•) Sem dúvida o fogo, e aio o carvio. - N. do T.
  • TRATADO DOS ANIMAIS, ÁRVORES, ETC. 319 desta massa branca tiram um leite que é tão doce como o leite ordinᬠrio quando tem açúcar, ou antes como leite de amêndoas. Para tirar éste leite ralam o miolo, e o reduzem a farinha, depois apertam-no, e expremem-no, e assim fazem correr o leite, que passam por uma peneira. Êste leite é mui laxativo quando se toma com mel ou açúcar, e se bebe em jejum. Não usam de outro purgante. Fazem óleo deste mesmo leite, porque, cozendo-o, converte-se e condensa-se em óleo, o qual é mui bom para frigir, e não se servem de outro, nem mesmo para temperar a comida, ou deitar em seus molhos, como igualmcnte para as luzes. O que não é somente usado nas ilhas de Maldiva, mas em tóda a Índia Oriental; a até os portugueses se não servem de outro azeite. E tamhcm mui bom para as feridas e chagas, e é a prin¬ cipal receita nas ilhas de Maldiva; e eu com éle me curei. E igual¬ mente remédio eficaz contra a sarna, a qual faz secar e desaparecer poucos dias depois de se untarem com éle. Os médicos e cirurgiões que há entre os portugueses, servem se déle nos remédios e unguentos, ainda que possam ter o azeite de Espanha, eo hão por mais medicinal, e muito bom para certas enfermidades. Este óleo sendo guardado por trés meses pouco mais ou menos, endurece, e congela-se em forma de manteiga mui branca, ainda que o óleo s
  • 320 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD éste licor em lugar de vinho, porque não ousariam beber outro, mas não se pode guardar, sem azedar, mais de vinte e quatro horas Pode se tirar de cada ramo ordinariamente umacanada por dia e hã alguns de onde se tiram duas ou três canadas e mais, e cada ramo continua a destilar sem interrupção por espaço de seis meses Para receber éste liquido pren¬ dem uma panela feita tamb-m de palmeira (*) ao pé do ramo ou cacho cortado de sorte que lhe não de o vento. Com éste liquido fazem mel e açúcar (a). Recolhendo uma certa porção põe-no ao fogo, e o fazem ferver com certas pedras brancas e claras que há no mar. lendo fervido certo tempo converte se em mel, tão excelente como o nosso, ou ainda como o melhor xarope, que se pode achar, amarelo côr de cera e fazem-no ralo ou espesso como querem. Deste mel forma-se também açúcar, fazendo-o coser com outras pedrinhas e deixando-o secar; e fica bom açúcar branco oll cãndi, de que fazem grande tráfico e o levam a Cael (3j e Ceilão; mas é>te açúcar nao é tão branco como o de cana; mas há sítios onde sai mais branco que cm outros. Quando déste liquido se não quer fazer mel nem açúcar pòem-no ao fogo e fazem déle mui boa água-ardente, a que chamam Orraca. e é tão forte como a que nós cá temos. Os portugueses usam de uma bebida formada desta orraca, mas juntando-lhe passas de uvas, que vêm da Pérsia e metem na num pipo de trinta ou trinta e cinco libras, pouco mais ou menos, depois mexem tudo com um pau até ficar vermelho e doce. Chamam a isto vinfco de passa, e os portugueses não bebem de outro, porque é mui bom e a baixo preço. As pessoas principais usam às vezes do vinho de Espanha, que naquela terra é mui caro. Se se quer fazer vinagre deixa se azedar aquele líquido da palmeira por dez ou doze dias; e é tão foite como o melhor vinagre que nós cá temos. Pode-se numa mesma árvore ter ao mesmo tempo fruto e vinho. Mas verdadeiramente o truto entáo náo é tão bom, nem em tanta abun¬ dância. Por isso nas ilhas de Maldiva, onde há tantas destas árvores, apartam e destinam algumas somente para tirar delas vinho e náo pode ter cada uma mais de dois ou três cortes por onde destile o liquido. Todavia náo deixa de se recolher vinho de uma árvore que também dá fruto, mas é em pequena quantidade Tem esta árvore ainda outro préstimo e é que no alto dela há um talo tenro de dois ou trés pés de comprimento, que é bom para se comer e é doce como amêndoa e cu o comi muitas vezes. Quando as árvores se cortam para dar lugar á fabricação de casas, cortam logo éste talo, o que nunca se faz noutra ocasião É também coisa mui admirável que quando os côcos estão maduros e secos, se se põem em lugar úmido, ou na terra por espaço de trés sema¬ nas ou um més, a água que há dentro do côco forma-se numa espécie de pomo que é pela parte de cima de cór amarela e por dentro branco, tenro e doce quanto ser pode, e desfaz-se na bóca. Os gulosos e curiosos da terra usam disto muitas vezes como de manjar mui delicado e dá-se muito -às crianças. Este pomo é o gérmen do côco, que brotaria c produziria (') Ou de berro. - N. do T. (*) Jagia se chama esta espécie de melaço. - N. d® T. (3) Xael >-N. do T.
  • TRATADO DOS ANIMAIS, ÁRVORES, ETC. 321 outra árvore, se lhe dessem tempo, porque o miolo que está dentro da casca interior, como já disse, de nada serve na geraçáo da palmeira, mas somente esta água que está no centro é a que lhe fornece a substância. O resto do cóco apodrece e para nada serve. Fazem ainda outra sorte de mercadoria do cóco, que se espalha por tôda a tndia, e é mui cara, a que chamam Copra (1). Para isto tomam o miolo do cóco, partem-no ao meio, e o põem a secar ao sol. com o que seca e encolhe muito, e se guarda pelo tempo que se quer. Metem-no em sacos, e o expedem a tóda a parte; tem mui bom gósto, e servem se déle nos seus molhos c sopa. Exporta-se muito para a Arábia. O óleo que daqui se tira é muito melhor, e guarda se por mais largo tempo que o que se tira dos frutos frescos. Tinge-se de piéto com uma tinta feita da serradura da madeira da palmeira, que lançam de mólho em água, e lhe misturam mel da mesma árvore, e a deixam ao sol por muitos dias. Esta tinta é muito preta, e muito boa. Do pé dos frutos fazem pincéis para pintarem seus batéis, galés, templos e casas, que pintam inteiramente, mas nunca fazem figuras de homens, como já disse. Vi freqúentemente nas ilhas de Maldiva fazer infinito número de navios de porte de cem ou cento e vinte toneladas todos desta madeira, sem entrar nêles ferro algum, ou outro pau, ou utensílio que nào proviesse desta árvore. Até as âncoras são fabricadas desta mesma matéria; são mui boas e mui cómodas, e formadas de um pau da mesma árvore, pôsto de través, que éles vasam e depois enchem todo de pedras, e o tapam muito bem, a fim de tornar a âncora mais pesada, e ficar mais segura em qualquer parte. As tábuas do navio são présas com cavilhas que se ligam e cosem umas às outras com cordas fabricadas dos filamentos do fiuto. Além disso, quando éstes navios são inteiramente acabados, armados, e esquipados da madeira e do fruto desta árvore, carregam-nos com merca¬ dorias que também procedem da mesma árvore, como cordoalha, esteiras, velas dc folhas de palmeira, doces, óleo, vinho, açúcar, e outras coisas produzidas inteiramente desta árvore. Estes navios váo assim carregados e esquipados em tudo dos produtos desta árvore entrando até os provimentos de bebida e comida, ou à Arábia, que dista oitocentas ou novecentas léguas, ou a costa do Malabar, a Cambaia, Samatra, e outros lugares. Duram tais navios quatro ou cinco anos, fazendo muitas e longas viagens, contanto que os váo consertando e reparando. Para fazer os seus tambores vasa aquela gente um tronco desta árvore até o deixarem bem delgado, depois quando apanham o peixe que nós chamamos raia, e que éles nunca comem, esfolam-no e com a pele cobrem os ditos tambores. Estas raias sào as maiores que ver se podem. Usam também dèste pau como o mais próprio para pulir e açacalar ou as suas armas, ou tóda a soite de utensílios de uso doméstico, assim de ferro como dc cobre. Servem se também da porcelana pisada com azeite para esfregar limpar, e pulir suas armas e outros utensílios. Por derradeiro, direi ainda que há duas espécies de coqueiros, uma cujo fruto recente é doce e tenro como uma maçá, e o da outra náo. Mas os que assim sáo tenros e doces são mui raros e tidos em grande esti¬ mação; poiém, depois de maduros não sào táo bons como os outros. (V O autor escreve supparra; ma» suppana ou suppari è formada de areca, e náo de cóco. O miolo de cò.o coitado e séco ao sol chimaoc cobrem, curssi, ou mais vulgar- mente copra. - N. do T. 21 II vd.
  • 322 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Dibtei-me na descrição desta árvore, por ser uma da maiores mara¬ vilhas da índia ; e eu ter habitado cinco anos nas ilhas de Maldiva, cuja principal riqueza, mantença, e comodidades consistem nela, e a gente ali lhe sabe melhor aproveitar a substância e fabricar dela diversos mimos e regalos mais delicadamente que em alguma outra parte da índia. E em verdade não só tenho visto tudo isto muitas vezes, mas ainda comi e sus¬ tentei me ordináriamente destas árvores, e o que mais é. possui eu mesmo grande número delas, e das melhores, donde fazia extrair tòdas as comodi¬ dades que tenho dito. Por isso julguei que teria cabimento descrever e explicar particularmente o que uma tao longa e cetta experiência me havia ensinado. FIM DO TRATADO DOS ANIMAIS, ARVORES. ETC.
  • AVISOS AOS QUE QUISEREM EMPREENDER A VIAGEM das Índias orientais DA ORDEM E POLICIA QUE OS FRANCESES GUARDAM EM SUA NAVEGAÇAO. DOS GRANDES ERROS E DESORDENS QUE ELES NISSO COMETEM, COM SEUS EXEMPLOS, E UMA ADVERTÊNCIA PARA OS EVITAR por FRANCISCO PYRARD Porque releva e é mister aos que querem empreender a viagem das índias Orientais saber em que tempo e estação devem partir, seja na ida, ou na tornada, e de que coisas devam prover-se, e como devem dirigir-se para evitar os acidentes que de hora em hora sobrevém, como eu muitas vezes experimentei, direi sobre tudo isso algumas palavras de passagem, para servirem de conclusão à minha viagem ; e tocarei um pouco nas desor¬ dens e pouca policia que há na nossa navegação, e no meio de as remediar. Direi pois, em primeiro lugar, que os viajantes devem sòbre todas as coisas cuidar em partir a tempo próprio, a fim de passar com felicidade o Cabo da Boa Esperança, e a terra de Natal, onde os ventos e as tempestades são mui frequentes, e mui perigosas, ptincipalmente quando se passam contra-monção. É também necessário escolher bons e experimentados pilotos, e que tenham feito e praticado a viagem por muitas vezes ; e é bem certo que se nós houvéramos tido um bom piloto, teríamos levado ao cabo a nossa via¬ gem felizmente. Devem-se escolher bons navios, que tenham já aguentado o mar, e leito algumas viagens, porque um navio novo, que ainda não está experi¬ mentado no mar, se ihe acontecer qualquer acidente numa longa viagem, não se lhe pode dar remédio Além disso, para fazer uma viagem Dem ordenada, devem ir pelo menos quatro ou cinco navios em conserva, um
  • 324 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD dos quais só sirva para levar mantimentos, utensílios náuticos, e outro apa¬ relho e material próprio para reparar os demais navios quando disso hajam mister ; distribuindo se acertadamente os homens e os provimentos quando chegar a sua vez, e abandonando-se o navio depois que ficar vazio. Para isto seria o mais adequado um pequeno patacho, porque c sobremaneira próptio para se chegar a terra, e ir a descobrir. Não acho que seja conveniente forrar os navios de chumbo, como nós havíamos feito ao nosso. Porque, conquanto isto possa servir contra o bicho, e atalhar que fure o navio, todasia ficam assim os navios mui pesados. E os portugueses não se servem do chumbo senão nas juntas e união das tábuas. A lólha de lata me parece mui boa para este oficio. É também mister fazer provimento de água doce muito mais que de vinhos, porque o calor é tão forte, que os vinhos mais acrescentam a sêdc que a saciam ; todavia deve havê los, e também aguardente, para se beber nas proximidades do Cabo da Boa Esperança, que é sitio frio ; e igualmente para se guardarem para a torna viagem, quando se chega às alturas de Espanha e de França. Mas éstes vinhos devem ser de Espanha, porque os de França não se podem guardar debaixo da zona tórrida. O que nós levámos e«tragou-se logo que chegámos à linha. £ ainda necessário levar velas decêra, porque as de sêbo derretem-se. Deve-se levar provimento de azeite de oliveira para a comida, porque é coisa mui sadia no mar, e além disso mui prestável para tempero e molhos : e semelhantemente é necessário ter azeite de côco para as luzes. Sobretudo é necessário poupar os refrescos e provimentos, porque sendo a viagem longa e dificil, sobrevêm muitos acidentes e enfermidades, e entre outras a do escorbuto O que foi experimentado por muitos dos nossos, que em três ou quatro meses de viagem tinham, sem con¬ sideração, comido e dissipado tudo; e depois sobrevindo-lhes algumas enfer¬ midades náo tinham nada para seu alivio, o que foi causa de morrerem muitos que náo podiam comer dos mantimentos do navio, que consistiam em carnes salgadas, biscoito e peixe salgado. Mas entre outras coisas deve-se estar advertido das enfermidades que sobrevêm ordinàriamente nesta viagem ; como é aquela que é mui fre¬ quente na zona tóriida, c é uma das mais cruéis e penosas, que é possí¬ vel vere sentir; o que eu sei pela haver experimentado duas vezes, uma na ida quando chegámos à ilha de Sáo-Lourcnço, e outra estando em Goa, onde me acometeu na casa cm que me agasalhava, que era a de D. Diogo Furtado de Mendonça. Esta enfermidade é uma grande dor de estômago que só dá de noite, mas de um modo táo estranho, que quasi que se não pode respirar, e náo faz o paciente outra coisa mais que revolver-se e atormen¬ tar-se por causa das incríveis dores que sente Isto acontece ordinàriamente perto da linha onde bá os maiores e mais violentos calores, e todavia pro¬ cede de frio, porque o calor excessivo do dia atrai, e faz exalar todo o talor natural do corpo, e sobrevindo a noite fica-se tão frouxo e táo aba¬ tido, que se não sente o frio da noite, e adormece-se insensivelmente ao se¬ reno, de sorte que com a frescura corre o frio todo à bôca do estômago, que por êsse respeito fica inchado e com dores. Este mal dura às vezes vinte c quatro horas; mas náo deixa de repetir trés ou quatro dias depois; e náo obedece a outro remédio senào ao calor, como beber bom vinho de Espanha ou das Canárias, aguardente, água de canela, c outras coisas quentes. Para a gente se preservar déste mal é mister conservar se quente e bem coberta de noite, e sobretudo fugir de dormir ao sereno e ar da noite. É também mister ligar a cabeça e as pernas com ligaduras bem apertadas e quentes, e igualmente o estômago; para o que se devem usar faixas largas
  • AVISOS PARA A VIAGEM DAS ÍNDIAS 325 á medida do estômago acolchoadas e estofadas de algodão, com muitos pi» cheirosos. E é coisa estranha que nos lugares mais quentes fiquem os corpos mais frios e privados de calor. No que toca a outra enfermidade chamada pelos holandeses tscor- buto, e pelos portugueses mal das gengivas e a que nós os franceses chama¬ mos mal de terra, nao sei porquê, pi-is ela acomete no mar, e cura se em terra ; é uma enfermidade mui comum nas longas viagens, e contagiosa, mesmo pela aproximação, ou por se receber o hálito dos enfermos. Procede ordinariamente das grandes delongas da viagem e demora no mar sem to¬ mar terra, e também pela falta de a gente se lavar, limpar e mudar de roupa e vestidos, e do ar marino, e água do mar, corrupção da água doce e dos mantimentos ; de se lavar em água do mar, sem depois disso se la¬ var em água doce ; além disso do frio, e de dormir ao sereno da noite ; tais sào as causas do mal. Os que sáo feridos dela ficam inchados como hidrópicos; a incha- çào é dura como pau, principalmente nas coxas c pernas, faces e pes¬ coço, e todas estas partes se cobrem de sangue pisado de côr livida e- de chumbo; e são como tumores e contusões que tornam os músculos e os nervos inteiriçados e tolhidos. Além disso, as gengivas ficam ulce¬ radas, negtas, e mui volumosas; os dentes abalados e deslocados, ficando mui mal seguros, e até pela maior parte caem. Acresce a isto um hálito tào fétido e infecto, que ninguém se pode aproximar do enférmo, e sente-se o mau oheiro de um extremo do navio ao outro. Náo se perde o apetite, mas o incómodo dos dentes é tal que náo se pode comer, salvo coisas liquidas, que entáo poucas há nos navios ; e todavia lica-se tão esfaimado e táo ávido que parece que nem todos os víveres do mundo bastam para saciar a fome. Enfim, há mais incómodo que dor, a qual propriamente só se sente na bôca e nas gengivas, e muitas vezes morre se a falar, a beber, e a comer, sem se sentir a morte. Outrossim torna-se o doente táo imper¬ tinente e rabugento, que tudo lhe desagrada. Alguns morrem em poucos dias, outros duram mais tempo. Tomam a côr pálida e amarelada; e quando o mal está em coméço, as coxas e as pernai cobrem-se de pequenas pústulas como mordeduras d; pulgas, que é o sangue pisado que sai pelos poros da pele ; e as gengivas começam a alterar-ae e a ulcerar-se. Sáo também sujeitos a sincopes, desmaios, c desfalecimento de nervos. Quando estávamos na ilha de Sào-Lourenço, morreram desta doença trés ou quatro dos nossos, e abrindo-se-lhes a cabeça, achou-se lhes todo o cérebro negro, alterado e podre. Os pulmões ficam secos, e engelha¬ dos como peigaminho que se chegou ao fogo O figado e baço engros¬ sam desmesuradamente, e fazem-se negros, e ficam cobertos de apostemas cheias de matéria a mais fétida do mundo. Quando se tem esta doença nunca se cura, nem cerra chaga alguma, antes se tornam gangrenadas e pútridas. Quando se anda embarcado,- e que esta enfermidade acomete, por mais remédios que se usem, tudo é debalde, e não há outro senáo sair em terra em alguma parte se se pode, a fim de se ter refrescos de águas doces e frutos, sem o que nunca se pode sarar, faça-se o que se fizer. 6 coisa terrível ver os grossos pedaços de carne podre que c mister cortar das gengivas. Tais sáo as enfermidades a que principalmente se está sujeito du¬ rante esta viagem, e de que é mister estar bem advertido, para as pre¬ venir, ou curar o melhor que possa ser. Mas sobretudo antes de par¬ tir é necessário fazer provimento de sumo de laranjas e de limões, par» evitar esta moléstia do escorbuto, porque náo há coisa mais eficaz para
  • 326 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD lhe resistir que os refrescos de terra, que consistem em águas frescas, laranjas, e limões, como muitas vezes experimentei. Além disso é mister ser sóbrio assim no comer como no beber; e quando se chega a algumas ilhas onde se podem haver carnes frescas, não é bom come las em grande quantidade, nem ainda as frutas. Também não se deve dormir muito, porque o muito dormir faz mal, piincipalmente sendo de dia. De nais disso, como já disse, deve-se partir em boa hora e estação a saber, no principio de Março, porque se não se parte a éste tempo, acham-se calmas sóbre a linha equinocial, e correntes de água na costa de Guiné, que causam a perda da viagem, como a nós nos aconteceu, porque, não tendo partido senão a 18 de Maio, isso foi causa de ficarmos retardados nas alturas de Guiné mais de quatro meses em consequência de ventos contrários, E se houvéramos partido mais cedo, teriamos parsado mui asinha ; além de que a costa de Guiné é doentia c intemperada, e por isso é mister que os que vão à Índia tenham resguardo de se não deixar abater na costa de Guiné, porque é o lugar mais doentio do mundo, donde mui dificultosa¬ mente se podem safar por causa das calmas. Do mesmo modo junto do Cabo da Boa Esperança acham se ordináriamente grandes tormentas c ventos contrários. Semelhantemente deve-sc estar advertido que quando se vai para a Índia não se deve nunca tomar terra para cá do Cabo da Boa-Espetança, mas na torna-viagem tem-se por costume somente ir tomar terra à ilha de Santa- -Helena. Na mesma torna-viagem é mister partir no fim de Dezembro, ou prin¬ cipio de Janeiro, para evitar os mesmos perigos, porque é necessário passar o Cabo da Boa-Esperança no principio de Maio ou antes, se puder ser. E porque nós não partimos de Goa senão no último de Janeiro, estivemos quási perdidos, e andámos dois meses à vista do Cabo sem o podermos dobrar, c incessantemente atormentados de ventos contrários. Será bom também levar sacerdote para o exercício da nossa reli¬ gião, e para assistir e consolar os enfermos, e administrar-lhes os Sacra¬ mentos da Igreja. Passo agora ao que diz respeito à ordem e policia da nossa navegação, e aos grandes erros que nela se cometem, como na minha viagem conheci, e dos meios de os remediar. Quando partimos de França levámos dois navios, um dos quais era a almirante, e o outro a vice-almirante. O capitão-mor de ambos ia na almi¬ rante, c o seu tenente general comandava o outro, porque o capitão-mor levava consigo no seu navio o seu tenente particular; c o tenente gene¬ ral tinha também consigo outro tenente particular; de sorte que cada navio tinha o seu capitão, seu tenente, com um pilôto, um sota-pilòto, um mestre, um contra-mestre, um mercador, um segundo mercador, um escrivão, dois cirurgiões, dois dispenseiros, dois cozinheiros postos pelo capitão e dois criados principais. Havia também um mestre bombardeiro assistido de cinco ou seis bombardeiros. Eis as pessoas do govérno, e os oficiais de um navio francês. O capitão tem mando absoluto em tudo, e o primeiro mercador tem poder sóbre as mercadorias e coisas de comércio somente, porque o segundo não é mais que seu ajudante, e para ficar em seu lugar se porventura o pri¬ meiro vem a morrer. Por isso de cada ofício há sempre dois, o que avisada¬ mente assim foi ordenado para na falta de um suprir o outro; o que se faz sem aumentar o ordenado, mas só por honra; porque os ordenados não levantam nem diminuem nunca; e se um homem morrer no primeiro dia
  • AVISOS PARA A VIAGEM DAS ÍNDIAS 327 •de seu embarque os seus herdeiros serão pagos por todo o decurso da via¬ gem. Na nossa viagem os ordenados eram por mês, e antes de partir paga¬ vam se a cada um três meses adiantados; e montavam èstes ordenados a metade mais de que costumam pagar à sua gente de mar os outros estran¬ geiros, ingleses ou holandeses, que guardam em seus navios a mesma ordem que nós. O capitão tem pois mando sôbre tudo, e o feitor ou primeiro mer¬ cador tem a seu cargo as mercadorias, e abaixo de si um escrivão, que anda ao modo da gente do mar, e é pòsto pelo dono dos navios, como igual¬ mente o são os outros oficiais; mas êstc escrivão não tem tanta autoridade e poder como os dos navios portugueses; somente assenta as merca¬ dorias que entram c saem do navio para veniaga, e não tem outra obri¬ gação No que toca ao piloto, não tem mando senão sómente nas coisas da navegação, e não é tão respeitado como os pilotos portugueses. O mestre governa sôbre tôda a gente de mar. e tem cargo do navio, e de todos os utensílios e mantimentos, o que todavia eu acho muito mal feito, pelo que observei, porquanto èle se conluia com os dispenseiros. Ora o mestre e contra-mestre trabalham como qualquer marinheiro. Há também dois criados principais, que o capitão e o mestre escolhem, e são entre todos os mais capazes e melhores marinheiros São encarregados de tomar conta da cordoalha, velas, aparelho e outras coisas do navio, c são éles que cortame talham estas peças quando é mister ; e são os primeiros abaixo de mestre e contra-mestre entre a gente de mar, e mui necessários. Têm mando sóbre todos os marinheiros principais, c moços do navio, aos quais só éles podem dar castigos de açoites. Quanto aos cirurgiões e boticários, são aplicados somente aos deveres do seu cargo, e não entram na conta de homens do mar, como os outros ofi- cios. Porque entre nós não é como entre os portugueses, onde tóda a outra sorte de gente, como bombardeiros, dispenseiros, cozinheiros, tanoeiros, car¬ pinteiros, ferreiros, cosedores de velas, e outros mais, entram na conta de marinheiros, e fazem o mesmo serviço que éles. Porque tirado o capitão e o seu tenente, o feitor, escrivão e cirurgiões, todo o resto vigia de noite por seu turno, e trabalha como os outros, ainda que sejam gente muito limpa ; e vi muitos filhos de casas nobres, que iam sómentc por seu prazer, e não venciam soldada alguma, c todavia eram sujeitos ao mesmo trabalho c fadiga que os outros. Enquanto aos dispenseiros são dois para se ajudarem, porquanto velam de noite, e dão de quatro em quatro dias pão, vinho, e água a cada pessoa, começando pelo capitão, e acabando no moço ou pajem, e a todos por igual, a saber, a cada um três libras de biscoito para quatro dias, uma canada de vinho de Espanha, e três canadas de água somente. Os outros manti¬ mentos são cozinhados pelos cozinheiros para tóda a gente, e depois os dis¬ penseiros os distribuem igual mente nos pratos, e cada prato é para seis pes¬ soas, cada uma das quais leva o seu biscoito c bebida. A mesa do capitão há sempre alguma coisa de extraordinário e melhor; e com êle comem mais de seis pessoas, porque todos os homens honrados e de qualidade têm ali lugar. O mestre não come à mesa do capitão, nem tampouco o pilóto. Escolhem se seis pessoas de igual condição para comerem juntas. Eis aqui como nós vivíamos nos nossos navios; mas o que eu entre outras coisas achava que faltava ali era que os donos dos navios devem pôr um superintendente para os mantimentos, o qual não estivesse à mercê do capitão nem do mestre, porque êstes punham os dispenseiros que muito bem queriam, homens de mau govérno, e que não ousavam negar-lhes nada do ■que éles pediam, com temor de ser tirados dos seus cargos. Isto foi causa de
  • 328 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD que os nossos mantimentos foram logo comidos e consumidos, e recresciam todos os dias mil insolências e disputas nesta matéria. Um dia depois do embarque o capitão e o mestre chamam tòda a gente do navio para arranjar a camaradagem, que é pó los a dois e dois, começando pelo capitão e tenente, até aos mais ínfimos moço» c não se lhes dã outro nome senão o de marinheiros. Hsta camarada¬ gem tem por fim ajudarem se e assistirem-se como irmãos, segundo se costuma n» mar, e se tem por obrigação. Também se divide tòda a gente do mar em duas partes, a uma das quais governa o mestre, e outra o- contra-mestre, para se revezarem Porque quando uma patte dorme a outra vela e trabalha por espaço de quatro ou cinco horas. Nos nossos navios franceses não há diferença nas classes dos marinheiros, como há entre os portugueses, e são todos iguais, e posto que haja alguns mais antigos e mais capazes que os outros, não se distinguem pelos nomes e qualidades, mas só em receberem maiores soldadas. Além disso, direi ainda livremente uma coisa, que já em outro lugar toquei, posto que não seja honrosa aos franceses, mas só pelos advertir pata que se corrijam, e lhe ponham cóbro; e é, que nunca vi marinheiros tão maus e viciosos como os nossos, porque 11a nossa viagem a maior parte dos oficiais c marinheiros eram de Saint Maló e quási todos parentes; e não obstante isso não havia de ordinário outra coisa senão brigas e disputas entre èles; e nunca vi que dois homens mostrassem entre si benevolência, amizade, nem respeito. Ninguém queria obedecer a quem governava. Afora isso, o que eu acho ainda pior era serem os maiores praguejadores e blasfemadores do nome de Deus que ver-se podia; de sorte que me não admiro de que a nossa viagem fósse tão mal sucedida, á vista das grandes ofensas que se cometiam todos os dias nos nossos navios; porque a maior parte dos homens eram ébrios e comilões o mais possível, e teriam comido e bebido todos os mantimentos num só dia, se lho consentissem, sem lhes importar nada do futuro. De sorte que todos os refrescos que se levavam para os particulares, e para acudir nas doenças e necessidades, estavam consumidos antes de passarmos a linha, e quando depoit adoeciam, não tinham já com que refrescar se senão com os mantimentos ordinários do navio, como os que gozavam saúde. São também pela maior parte a gente menos devota que há; não guar¬ dam a quaresma, nem os dias de jejum, e roubam o comer e o beber uns aos outros. E na verdade confesso francamente que antes queria tratar com a gente mais bárbara do mundo, do que com éles ; e vi-os muitas vezes no mais forte da tormenta pór-se a praguejar e blasfemar com maior fórça. No demais sáo bons soldados e marinheiros, e mais capazes do que tôias as outras nações das mais altas emprêsas do mundo; mas não querem obedecer, nâo podem padecer qualquer privação de bôca nem sofrer correcção. Tódas estas coisas me fizeram desde o principio ter má opiniáo do resultado da nossa viagem; e acresce que dilatámos muito a nossa partida, porque em vez de nos embarcarmos por todo o mês de Fevereiro, como tínhamos determinado, a grande custo o pudemos fazer no fim de Maio, o que foi grande érro; mas um dos principais e mais nocivos foi a nossa grande delonga depois de térmos dobrado o Cabo da Boa- -Esperança. Outro érro foi igualmente tomarmos por fora da ilha de Sáo Lourenço, cuja causa foi que nos entretivemos de mais com os navios holandeses, e tínhamos bonança, deixando ir os navios á sua vontade, com a maior parte das velas ferradas, mas os holandeses mais finos que nós, seguiam sempre a sua derrota para a costa de África, e nós iamos atrás
  • AVISOS PARA A VIAGEM DAS ÍNDIAS 329 deles, e nesses três ou quatro dias cada um se esmerava em melhor se banquetear (o que entra cm pontos de brio dos capitães) ao som de trombetas, e de muitas sortes de instrumentos, e surriadas de artilharia, e era o navio onde se havia dado o banquete o que disparava tóda a sua artilharia quando cada um se recolhia a bordo do seu navio e se despedia. Os holandeses nos disseram que eram éles os que nós viramos na costa de Guiné nas alturas de Serra-Leoa h, na verdade, cumpre confessar que eles são mais dignos de fazer esta viagem que nós ; porque os fran¬ ceses são mais mimosos, menos sofredores de fadiga, e não poupam os provimentos como éles, que, pôsto que comam muito, guardam bem êsses poucos refrescos que levam para quando encontram seus amigos, ou quando estão doentes; os nossos, porém, enquanto tém refrescos não querem comer das vitualhas do navio. Os holandeses também passam sem vinho, e não bebem senão água Os que nós encontrámos não tinham mais de uma canada de vinho cada quinze dias, e nós tínhamos quatro. O seu biscoito era todo negro, e o nosso como pão de cabido. Nesta costa da Etiópia véem-se tóda a noite quantidade de fogos no cume das altas montanhas. Mas não quero deixar de observar, de passagem, que os navios indo de conserva, ou encontrando-se no mar a tal distância, que não possam falar de uns para outros de viva voz,suprem esta falta por meio de trombetas, e assim se fazem ouvir com o som dêstes instrumentos tão bem como com própria voz humana. E isto se observa sómente entre os navios franceses, ingleses e holandeses. Mas, tornando ás desordens acontecidas na noisa viagem, o que me dava pior presságio, como disse, eram as grandes ofensas que se cometiam diariamente entre nós; o serviço de Deus náo era ali de modo algum observado, como vi que se observa entre os outros estrangeiros, assim portugueses, como ingleses e holandeses, até entre os índios, que são muito mais observantes de sua lei que nós da nossa. Náo havia, outrossim, etntre nós senão bulhas, até mesmo entre os principais, como entre o capitão e o primeiro mercador, que bateram um no outro, e estiveram mais de seis meses sem se falar nem comer juntos; e se não fòra a tormenta que nos sobreveio na terra de Natal e que os féz pensar em suas consciências, creio que se náo falariam mais em tóda a viagem. E ainda entendo que não fizeram as pazes com receio da morte, da qual todos nos vimos bem perto, e náo fazíamos mais que pedir perdão a Deus e ao mundo, e tratar de esgotar a água do navio chegando a estar quatro dias e quatro noites sem velas, sem leme, e sem mastros; mas o que foi causa de suas pazes foi que depois de pas¬ sada a tormenta, tomou se conselho e votos sôbre o que era mister fazer-se, e a que parte se iria refrescar e reparar o navio. E como o mercador náo queeia vir nisso, os outros oficiais tomaram um atestado de tóda a gente para fazer o seu relatório depois de acabada a viagem aos directores da companhia, dizendo que uma contenda particular náo devia prejudicar ao interésse geral, nem impedi-los de cumprir o dever de seus cargos. E esta foi a causa de sua reconciliação. O principio desta briga foi por causa do lugar de uma caixa. Porque o irmão do capitão, achando um lugar vago, pós ali a sua caixa sem outra formalidade, e do mesmo lugar havia dois dias que fóra- tirada a caixa do mercador, creio que pelo motivo de causar impedi¬ mento á cana do leme. Veio então o meicador tirar aquela caixa, e de sua autoridade absoluta repor ali a sua; pelo que disseram um a outro palavras pesadas, e depois vieram ás mãos, e a muito custo o« separaram. Estávamos então surtos na ilha de Ano-Bom; e o nosso capi-
  • 330 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD tão enviou logo a nossa galeota a bordo de Crescente, a dar aviso a Monsieur de la Bardelière do que era passado, pedindo lhe que viesse quietar a bulha, o que êle fêz; e tendo sabido as razões de parte a parte, tomando conselho sòbre o caso de todos os principais dos dois navios, mandou trazer a corrente, o que ouvindo o mercador, foi-se logo â sua câmara, e tomou a sua pistola que armou e escorvou muito às caladas. Sendo trazida a corrente mandou o capitão-mor que cie fosse amarrado ao pé do mastro grande, que é o lugar ordinário onde se prendem os malfeitores, depois de lhe ter primeiramente dado uma grande repreensão por haver ousado ofender o seu capitao; mas quando o quiseram prender, correu a buscar a sua pistola engatilhada, protestando que mata¬ ria o primeiro que lhe pusesse mão. Com isto agastado o capitão-mor, não queria partir dali sem que ele ficasse preso, mas o nosso capitão que era homem manso e benigno, pòsto que fósse o ofendido, suplicou êle mesmo ao capitão-mor que lhe perdoasse, e o mesmo fizeram todos os dos dois navios. O capitão-mor anuiu a esta suplica; e contudo o mer¬ cador não fez apróco algum disso, porque era o mais soberbo e orgulhoso homem que nunca vi, e o mais vingativo e brigão com todos. Mas, tornando ao meu fio, era grande piedade ver tantas bulhas, e ouvir proferir tantas blasfémias, exercer tantas vinganças e roubos, como se faziam entre nós. Muitas vezes por vingança botavam de noite ao mar o fato uns dos outros, e cortavam as cordas que seguravam as cami¬ sas e outras roupas. Em suma, não havia espécie de maldade e traves¬ sura que não cometessem. Quando algum caía doente, zombavam dêle com tõda a desumanidade do mundo; ficavam contentes quando algum morria, e em vez de lhe rezar por alma diziam que era mais uma ração que se poupava nos mantimentos Maldiziam até a viagem, e a todos os que a tinham empreendido, de sorte que, não havendo ali nem regra nem policia, nem temor de Deus, desesperei totalmcnte do bom sucesso da nossa empresa. E se é licito conjecturar alguma coisa funesta pelos dias, direi que tomei nota de partir de Saint Maló uma sexta feira; em semelhante dia parti de Goa, das ilhas de Maldiva, de Santa-Helena, e do Brasil, e nenhuma das minhas viagens foi feliz, como tenho dito. Enfim, enquanto ao meu particular, experimentei que sendo esta viagem a primeira que fiz por mar, estreei-me muito maí por encontrar homens tão bárbaros, tão incivis, e desumanos: porque entre todos os do navio Corvo, a cujo bordo eu ia, não conheci um só que fósse meigo e cortês, e que prezasse a honra por pouco que fósse, salvo o nosso capitão chamado Du Cios Neuf, que era, condestable de Saint-Maló, porque era pessoa de bons costumes, mui sábio principalmente nas matemáticas, e em tudo o que diz respeito ao conhecimento do globo e da carta náutica; de sorte que ninguém diria que era maloinol1); pelo que não era próprio para fazer esta viagem, e era a primeira que fazia Era homem letrado, e tinha mais ar de cortesão que de outra coisa. Em suma, era mui brando e mui tímido para capitão, e os de Saint-Maló, que se conhecem todos, e por isso se estimam menos, não faziam caso algum de seus mandados; porque nenhum ■de nossos capitães tinha poder de cl Rei, nem do tribunal do Parlamento para administrar justiça; e por isso cada um fazia o que queria. Além disso era de uma compleição melancólica; e assaz delicada e fraca, de sorte que não sendo para grandes fadigas, não tinha as qualidades requisitas a um soldado, •e a um navegador. O que deve servir de advertência aos que querem ft) Dí sorte quil nt sentoii aucunemcit lon Maíouin. diz o original N do T.
  • AVISOS PARA A VIAGEM DAS ÍNDIAS 331 empreender grandes viagens, para escolher bera os homens segundo suas qualidades e condições; porque é mister que os cabeças e os principaisde tais empresas tenham boas condições e bons costumes; e eu conheci como, pelo mau governo e direcção da nossa, nos veio todo o mal. É também mister que o capitão seja homem de autoridade, e bem nascido, e que entenda da esfera e da carta da navegação: outrossim que seja soldado, e que suporte íãcilmente a fadigi. e sobretudo que tenha poder absoluto sôbre os que estão a seu cargo, e ate de os condenar ã morte. Por¬ que se é da mesma terra, e debaixo nascimento, não lhe tem respeito; e se êle intenta fazer se respeitar à fòrça, há perigo de algum levantamento Além disso, é mister que éle escolha homens dis partes requisitas; e sobretudo que não sejam dados ao vinho, motins, nem bulhas; porque basta um só bulhento no navio para perturbar tudo Depois deve pôr por dispenseiros homens fiéis. Não deve ralhar com a sua gente senão o menos que puder ser, e prin- cipalmentc com os que tem algum cargo. Gratifique aos que procedem bem, e com mais preferência aos bons marinheiros que aos bons solda¬ dos. Vi que por uma bofetada que o mestre deu a um bombardeiro fla¬ mengo, tramaram uma conjuração, sendo chegados a Samatra, de fazer um rastilho de pólvora com um longo morrão para botarem fógo a tôda a pólvora do navio, e êles salvarem-se, como depois nos confessaram estando nós naufragados nas ilhas de Maldiva. E ainda não obstante havermos sido aqui todos presos, disseram o mais mal de nós que pude¬ ram ao rei das ilhas, e que éramos todos ladrões e corsários, e que os havíamos trazido a êles por fôrça ; o que todavia não teve resultado, porque a gente das ilhas de Maldiva não nos podia tratar por isso pior do que o fizeram Isto mostra como o desespéro de um só homem é capaz, às vezes, de perder uma comunidade inteira Por cima de tudo nunca é de mais a estimação e recompensa que se der a um bom marinheiro, porque se encontram poucos. Acham-se muitos remolgos (*) que só servem para puxar os cabos, mas marinheiros são aqué- les que aparelham e fazem a manobra de ura navio e vão sempre nas gáveas; e um bom marinheiro pode salvar um navio mais depressa que um bom soldado. Enfim, é mister que um capitão ponha desde o principio boa ordem no seu navio e tenha sobtetudo cuidado de se fazerem orações a Deus, para o que deve levar padres, como já dissemos, e fazê-los respeitar, porque a gente do mar não trata com respeito e honra a alguém senão sendo a isso obrigada. Faça também castigar rigorosamente os roubos, e principalmente quando são de coisas de comer e beber, que é em que se exercem grandes ladroeiras. Eis aqui, em poucas palavras, as desordens e inconvenientes que ordi¬ náriamente acontecem entre nós, e que são causas de tôdas as nossas emprê- sas serein tão mal sucedidas; ao que se pode dar remédio fácilmente pelos meios que tenho exposto, e que podem servir muito aos que de ora avante quiserem empreender tais viagens. FIM DOS AVISOS PARA A VIAGEM DAS ÍNDIAS ORIENTAIS (*) Com este vocábulo de uso Umiliar pareceu nos que lios aproximávamos do sentido do autor, já que o não pudemos verter exactamente. file diz Halle borbim. que hoje escrevem Hale boubines. - N. do T.
  • DISCURSO SÔBRE AS VIAGENS AS REGIÕES REMOTAS E DO APERCEBIMENTO NECESSÁRIO PARA AS EMPREENDER ÚTILMENTE E FORMAR DELAS RELAÇÕES EXACTAS Por M. N. N. Os que visitam as regiões mais remotas e menos conhecidas sem outro intento mais que o de observar ali curiosamente por si mesmos, ou aprender da gente da terra tudo o que depende da natureza dela, e o natu¬ ral, modo de vida, policia, costumes, usos e indústria dos seus habitantes, fazem, na verdade, mui bom serviço ao público comunicando, por meio de suas relações aos que não saem da pátria, o fruto e a satisfação de seus tra¬ balhos. E seria de algum modo justo que os soberanos ajudassem ou recompensassem os que se arriscam a estas viagens. Mas sem diminuir as obrigações que se lhes devem, acrescentar-se-iam ainda mais, se para viajar com mais prazer e utilidade para os outros e para si próprios, tomassem mais cuidado, do que ordinàriaraente fazem, de se aperceber de tudo quanto é necessário, e de não se esquecer de coisa alguma que mereça ser sabida, e certificar-se tanto quanto é possivel da verdade do que escrevem. Poucas relações há onde se náo ache que seus autores têm deixado, por negligência ou por incapacidade, de observar, ou informar-se de diver¬ sas coisas notáveis; porque a maior parte dêles empreendem estas viagens com o espirito mal instruído dos diversos conhecimentos que seria mister ter adquirido de antemáo; e além disso, cada um segundo o seu génio, aplica a sua curiosidade somente àquilo que maior impressào lhe causa, náo fazendo caso do resto. O político instrui se particularmcnte do govérnoe da ordem do Estado; o geógrafo observa a situação dos lugares; o historia¬ dor informa-se do que se tem passado de mais notável; o naturalista das plantas e dos animais; o que é inclinado à medicina atende ao que diz respeito a esta ciência; o mercador aplica o seu espirito ao que é bom para o negócio; e o amador das artes ao que neste ramo se pratica. Ora
  • 334 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD o verdadeiro génio do viajante deve ser universal e reunir tôdas estas dife¬ rentes propensões na sua, a fim de se instruir igualmente de tudo o que o merece, qualquer que seja a ordem de coisas a que pertença. Acha-se também nas relações que, nas coisas mais notáveis de que elas tratam, a qualidade da informação de que depende o grau de crédito que se lhe deve dar, não vem exactamentc assinalada; de sorte que se não sabe que fé mereçam. Portanto os que empreendem viajar, se não querem cometer as mesmas faltas, que éles por cetto tém notado em seus predecessores, devem estabelecer regras e leis imutáveis, que constantemente sigam, e ter sempre diante dos olhos o plano de uma viagem empreendida com todo e apercebimento requisito e melhor executada; e igualmente a idéia e resenha de tudo o que entra no conhecimento perfeito de um pais, para formar déle uma relação capaz de dar plena satisfação, o que é fãcil a qualquer pessoa, por pouco que lhe aplique a reflexão. Todavia tentar- se á de lhe delinear aqui alguns traços. DO APERCEBIMENTO NECESSÁRIO PARA VIAJAR UTIL¬ MENTE NAS MAIS REMOTAS REGIÕES Supõe-se que se tem dado providência à despesa que é mister fazer-se; às cautelas que se devem tomar para não arriscar o viajante o seu dinheiro no caminho e não lhe faltar nos diversos lugares; ás comodidades que neles se podem prevenir; ás correspondências necessárias; e a tôdas as mais coisas semelhantes. Somente de passagem se advertirá neste ponto duas coisas. Uma é prover-se de muito mais dinheiro do que parece necessário, porque mais vale que sobre, do que seja tão escasso que obrigue antes a regular pela bõlsa a detença que se há de fazer em cada lugar, do que pelo tempo que fór necessário para se instruir bem das coisas. E náo só se deve atender à necessidade, mas também a que é mister fazer certas libera¬ lidades a propósito, porque os presentes, que tornam os homens oficiosos em todos os paises, facilitam muito o descobrimento do que se busca; e por ésse respeito muitas vezes o tempo e a detença abreviada compensam bem as despesas. A outra é fazer conta de gastar muito mais tempo do que também se julga necessário, a fim de náo ver a maior parte das coisas de corrida, ou de náo deixar de ver as que o merecem. Uma terceira advertência se pode juntar a estas, porque é mui des¬ prezada, e diz respeito de mais perto á pessoa do viajante, e é saber-se éste tratar a si mesmo das enfermidades e acidentes que mais se deve recear nas viagens, das febres malignas, das feridas e quedas, a que poucos via¬ jantes escapam, passando por climas tào contrários a seu temperamento e caminhando sempre com algum perigo; por isso devem ir providos contra éstes males de alguns excelentes remédios, os mais simplices e de mais pronto efeito, e que possam ser preparados em tòda a parte, se o viajante os não leva consigo, ou lhe vém a faltar. Além da necessidade que o mesmo viajante pode ter destes remédios, é ainda mui útil poder acudir com éles às pessoas em cuja companhia se acha, as quais assim ficam totalmente rendidas a bem servi lo. Supõe-se ainda que os que viajam tém assaz de experiência do mundo
  • DISCURSO SOBRE AS VIAGENS, ETC. 335 para procederem bem: que tem assaz de moderação natural ou adquirida para saber-se amoldar ás circunstâncias tanto quanto é necessário aos que todos os dias tratam com gentes novas e de tòda a sorte de génios; que tém ou por natureza ou por arte o dom de se fazer logo bem-querer e estimar daqueles com que se encontram; que são precautos e circuns- pectos e aparelhados para os mais desastrosos acidentes, conservando o tino no meio da surpicsa; que tém experimentado o seu vigor e firmeza em alguns perigos, ou ao menos que se sentem com ânimo bastante para não desmaiar néles. Tais são as partes do espirito mais necessárias para viajar felizmente. O apercebimento porém, de que falámos, tem por objecto as coisas que se requerem da parte do espirito, para o viajante se instruir perfeita- mente do que há num pais, que é o fim que se propõe quem empreende as viagens. O desenho destas longas viagens como se náo forma e se náo executa de ordinário arrebatadamente, dá também espaço para se fazerem com tempo éstes provimentos do espirito, se já náo estáo feitos de antemão ; e merecem bem alguns meses de aplicação, que para isso são necessários. 1. Deve-se pois de antemão ter da esfera, da geografia e da histó¬ ria natural mais algum conhecimento do que o que um homem bem criado e que tem cultivado um pouco o seu espirito, ordinariamente náo ignora nestas matérias; mas mui particularmente e a fundo nas do pais que se vai visitar tudo o que os antigos e modernos ácérca déle ensinam, para o bem verificar, confirmar ou rectificar. Ter lido exactamente tõdas as relações que houver do mesmo pais, boas ou más; saber o que os historiadores referem ter-se ali passado antigamente de mais memo¬ rável e levar consigo os competentes exttactos destes autores. 2. Para se ajudar déstes conhecimentos e juntar-lhe outros novos e melhores, é mister saber servir-se do astrolábio, para tomar as alturas e da bússola para marcar bem a situação dos lugares entre si e o cami¬ nho que se tem seguido; prover-se déstes instrumentos exactos, bem feitos e cómodos, e da melhor carta geográfica do pais que se tiver feito. 3. Saber tirar a planta de um sitio campestre c de uma cidade; e designar sofiivclmente tudo o que um sitio campestre contém, como igualmente plantas, animais e máquinas; e para èste efeito saber servir-se dos instrumentos mais cómodos e mais simplices que nisso se empregam, do compasso de proporção, quadrante e outros; e até saber formá-los em caso de necessidade; e sobretudo riscar uma carta geográfica bem exacta do país por onde se tem passado. Além disso, para estender a vista mais ao longe e descobrir lugares de que muitas vezes se náo pode aproximar o viajante, náo devem esquecer bons óculos de ver ao longe. Convirá mesmo levar os melhores vidros de telescópio, qualquer que seja a distân¬ cia que é'es alcancem, porque basta armar-lhe os tubos, para observar a lua e os outros planetas, quando se chegi próximo à linha, de onde se poderá talvez descobrir mais alguma coisa, ou mais distintamente do que desta nossa regiào. 4. Prover se de alguns livros de geografia antiga e moderna, como Estrabáo Varénio, com uma ou duas das melhores relações do país que se vai ver, as quais indiquem ao menos diversas coisas, que talvez náo lembrasse averiguar nos lugares por onde se transita. Tirar das efemérides para os anos destinados à viagem o tempo des eclipses da lua, que se podem observar dos lugares onde se houver de estar, para lhes achar a lon¬ gitude exacta ; levar a história natural de Plínio, e um dos melhores livros de plantas em ponto pequeno, das quais é mister ter algum conheci-
  • 336 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD mento além do comum, como igualmente das diversas artes, entre as quais pode ser mui útil a de saber fazer ensaios das matérias minerais que se podem encontrar na viagem. 5. Ter adquirido algum conhecimento da lingua do pais onde se vai, ou daquela que ai é entendida pela maior parte da gente; cultiva la quando para lá se caminha pelo auxilio dos livros, ou de alguém que a entenda, se por acaso se pode encontrar, ou por qualquer outro modo; pois a vantagem que daqui resulta não se pode assaz estimar. 6 Se não se tém tódas estas luzes e conhecimentos, deve-se pro¬ curar de os suprir, associando-se a alguém que os possua, e se essa pessoa é dócil, razoável e própria para com ela se travar amizade, além do auxilio que se ganha em tódas as ocasiões, e do prazer e consolação de uma tal companhia, fica-se infinitamente melhor instruído de tódas as coisas pelas luzes que mútuamente se dào um ao outro os companheiros de viagem. O QUE EM UMA VIAGEM SE DEVE FAZER E OBSERVAR MELHOR DO QUE SE COSTUMA Em quási tódas as coisas cada um sabe assaz o que deve fazer em geral; mas esta ciência é curta quando se passa ao particular. Por esta razao náo se tocará aqui senão nos pontos, em que mais falham os viajantes. 1. Porque eles ordinàriamente esquecem ou desprezam diversas coisas dignas de ser averiguadas nas ocasiões oportunas. E para ter igualmente presentes a seu espirito em todo o tempo, ou em qualquer parte em que se achem os diferentes objectos, a que por boa razáo, senão fôr por génio, devem estender a sua curiosidade, é mister ter dêles um sumário, l udo o que merece ser sabido de um país e de seus habitantes, se reduz aos capítulos seguintes. A natureza do país que compreende o clima, sua situação e extensão, temperatura, disposição em montanhas, colinas, planícies, rios, etc.; qualidade de terra fértil, estéril, etc.; o que produz de minerais, plantas, árvores frutíferas, cereais e animais de tódas as espécies. Os homens acrescentam a isto a cultura, e a habitação em cidades, vilas e aldeias. Ao natural dos homens que o habitam, seu temperamento, disposição do corpo, saúde, enfermidades, idade a que chegam, génio, inclinações. A vida privada, segundo as diferentes condições da gente das cidades, do campo, dos ricos, e dos pobres, seus mantimentos, vestidos, habitação, móveis, casamentos, modo de viver com as mulheres, educação dos filhos, costumes, convivência, brincos e divertimentos, aplicações ordinárias, artes, comércio com todos os povos vizinhos ou remotos, moedas, pesos, medidas, ciências. Ao govêrno; o soberano, sua casa, côrte, forças do Estado, rendas, milícia, alianças, interésses, oficiais de policia e de justiça. A história, o que é antigo e moderno, as revoluções e outros sucessos notáveis; mórmente o estado actual das coisas públicas. À religião, a sua introdução, autores, diversidade, alterações, e mudanças, estado presente, seus ministros De tantas matérias, de que o viajante deve tomar conhecimento, só dele depende aprender alguma coisa em tôda a parte, e de tóda a sorte de .gente, se se aplicar a isso como cumpre.
  • DISCURSO SÕBRE AS VIAGENS, ETC. 337 2. Porque as coisas se aprendem ou pela observação própria, que é .a via mais segura e satisfatória, ou pela relação de cutrem, deve o viajante, •tanto quanto lhe fôr possivel, preferir a primeira, e riáo poupar nisso nem tempo, nem trabalho, nem despesa; e reportar-se sôbre o que nao pode saber por si cabalmente aos que por sua profissão têm mais conhecimento da matéria; por exemplo da gente do campo que deve averiguar o que toca à colheita dos frutos, e cereais, e de que modo isso se faz, assim como •sôbre os animais bravios e domésticos; dos médicos e droguistas o que res¬ peita às drogas; dos que pertencem à côrte, ou nela tém vivido, ou que estão ou tém estado nos cargos da paz e da guerra, o que tocar ao governo assim no tempo passado como no presente; dos mercadores o que se extrai do pais ou a ele vem de fora, etc, notando a qualidade das pessoas, se foram conformes ou discrepantes nas suas relações, etc , p ira não assentar sôbre esta informação senão uma crença proporcionada à confiança que nelas se pode ter. 3. É mister ter muito resguardo nesta3 informações para não formar idéias falsas das coisas por má versão de intérpretes ignorantes, ou pelo pouco conhecimento que se tem da lingua, mas sobretudo pela propensão que há-de julgar os costumes estrangeiros pelos nossos, o que trás após si muitos erros, que se evitarão tomando informação de muitas pessoas bem conhecedoras da mesma coisa, se se lhes sabem fazer as preguntas para perfeito esclarecimento da matéria, e se só depois disso se faz a compara¬ rão com o que entre nós se lhe assemelha. Se se podem receber memórias escritas de quem é capaz de as dar tais, não se devem omitir, porque serão de proveito mais cedo ou mais tarde, quando se encontrar um melhor intér¬ prete, ou se tiver aprendido melhor a lingua. 4. Como todos os dias, todos os lugires, e tôda a gente com quem se trata instruem o viajante que é atento e esperto, deve éle todos os dias sem falência encher o seu diário, porque estando ainda então à vista como presente, e a memória bem fresca, nada fica em esquecimento nem se omite circunstância alguma importante, como ordinàriamente acontece se há qualquer dilação no assentar no diário; e disto se deve fazer uma lei inviolável. 5. Êste diário, sendo como o tesouro do viajante, deve excluir dèle as bagatelas que o avolumem inutilmente, e só assentar o que o merece, e seja notável e instrutivo. 6. Por isso mesmo que é o seu tesouro não deve o viajante haver nada por mais precioso que o seu diário; epara o salvar dos riscos que corre, é mister que o tenha duplicado, ou mesmo triplicado, para ter sem¬ pre uma cópia consigo, outra na sua bagagem, e poder, de tempo em tempo, deixar uma terceira em mãos boas e seguras. 7. Entrando agora na enumeração do que o viajante deve mais particularmen'e observar ou averiguar além do que se costuma, como o provam as relações, que correm no público, é mister que do pais que se percorre, à proporção que se vai caminhando, se note a natureza e quali¬ dade, até onde a vista se pode estender à direita e à esquerda; se é plano ou montanhoso; coberto de arvoredos ou raso; cultivado e habitado, ou inculto e deserto etc , de sorte que se possa fazer uma idéia particular dele, para ajudar a qual deve riscar uma carta do seu caminho, guardando bem as distâncias e situações dos lugares que ficam à direita e â esquerda, tais como se oferecem à vista; e esta mesma carta pode servir de carta geral do pais, juntando-lhe as partes que éle não viu, determinando a mais exacta situação e extensão delas, segundo a relaçáo uniforme de muitas pessoas. Os nomes dos paises e dos lugares, que os naturais vulgarmente usam, lan¬ cem-se escrupulosamente no diário como éles os pronunciam. 72 II rol.
  • 338 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Sóbre éstc ponto deve-se ter advertência de observar, com tóJa a exactidão possível, a hora dos eclipses da lua que houver, para saber preci¬ samente a longitude do pais e a distância a que fica do nosso (onde o mesmo eclipse não deixará de ter sido observado) pela diferença da hora da observação. É também bom observar a declinação da agulha magnética. Se se extraiem minerais ou metais em alguma parte, não se deve deixar de ir a êsses lugares, e averiguar bem por si, ou inquirir dos outros, tudo o que pode dar algum conhecimento de sua geração, e das práticas que ser¬ vem para os apurar, e saber se elas são mais industriosas, fáceis, e pro¬ veitosas que as nossas. Se se encontrarem destas matérias, de que por igno¬ rância ou por outro respeito se não faça caso nos próprios lugares, experimentá-Ias, pois o descobrimento delas pode ser útil a quem o faz, ou a quem souber aproveitar-se da noticia. Observar as árvores, e animais que nos são comuns, notando as suas diferenças dos nossos em certas coisas, melhor do que se faz ordi¬ nariamente; e outrossim as espécies das árvores silvestres, a qualidade e beleza da madeira etc., as plantas medicinais, e até os mais pequenos insectos. 8. Enquanto ao povo indagar se é são e vigoroso, e de longa vida, se é isento de alguma das nossas enfermidades, se as têm particulares, e de que remédios se serve proveitosamente naquelas que nos são comuns. O tempêro dos manjares e bebidas dos ricos e pobres; o modo particular das edificações, seus materiais, e disposição, os móveis das casas, modo de conversar no estilo sério e no estilo jocoso. 9. Se há aí alguma arte mais excelente, ver trabalhar os melhores mestres dela onde élcs são mais estimados; notar se a excelência das obras vem da indústria ou da bondade da matéria-prima, e descobrir as delica¬ dezas e os segredos da arte, se possível fór, para os trazer à pátria. 10. De que obras ou matérias do país se faz negócio fora dêle, e Ítara que partes; e o que os estrangeiros ali levam de fora; o pêso, quilate, orma e nome das moedas que ali correm, das quais cumpre referir as diversas espécies, partieularmente o valor proporcional da prata com o ouro, e o preço dos outros metais; as medidas e pesos exactamcnte referidos aos nossos mais comuns 11. Aprender até aonde puder a língua e escrita do pais. Se ai não houver gramática e dicionário, compô-los; se há livros, saber do que tratam e quais são os mais estimados; adquirir alguns, c fazer traduzir por um bom intérprete os seus lugares mais notáveis, para dar a conhecer o génio e o espirito da nação. 12. Se algumas ciências ali são cultivadas, instruir se nelas por via dos que as professam com maior aplauso; e não se contentar, como tém feito os que até agora têm viajado na Pcrsia e nas Índias, de notar que há ai médicos e astrólogos, e que os mercadores fazem suas contas de um modo incomparavelmente mais fácil e mais pronto que o nosso, sem terem tido a curiosidade de saber os princípios da sua medicina, nem da sua (irática na cura das enfermidades, ou quais os seus melhores remédios, os undamentos da sua astrologia c suas regras; se é a mesma que a dos árabes ou diferente etc. e sem ter aprendido o seu método de contar. 13. Na história do país, tanto quanto se pode saber até ao estado presente, distinguindo bem o certo do duvidoso por meio dos livros, se os há, da tradição comum e das relações particulares. 14. De religião, saber ao certo quais são os próprios sentimentos da gente e não se fiar somente no que se pode conjecturar ou pensar
  • DISCURSO SOBRE AS VIAGENS, ETC. 339 por comparação com a nossa, porque destarte se acha o viajante, de ordinário, mui distante da verdade. DAS RELAÇÕES Um diário exacto, onde nada se omitiu daquilo que o viajante deve ver por si mesmo, ou saber dos outros, contém os materiais suficientes de uma Relaçáo exacta e completa, mas desvairados. E porque a boa razáo e o uso tem feito conservar nas Relações a forma do diário, mas mais vaga e mais extensa, como mais agradável, porquanto parece ao leitor que vai viajando com o autor, que lhe serve de guia, não é mui dificil de arranjar a Relaçáo, sendo apenas mister apanhar de diversos lugares do diário tudo o que pertence a cada assunto, desprezando o que é de pouca importância, e pô-lo na ordem mais natural, e no lugar em que fica mais a jeito, o que depende da primeira ocasiáo própria que o curso da viagem oferece, para se enfiar tudo na narraçáo, como se de uma só vez se houvera aprendido tudo quanto nessa matéria se sabe. A advertência que nisto há a fazer é que náo seja o viajante tào escrupuloso da história que ponha na Relaçáo todos os menores casos que lhe têm sucedido, e por esta razáo se lhe aconselhou que os banisse até do seu diário, porquanto o leitor não se importa com essas bagatelas, e só se lhe deve dar conta dos acidentes notáveis e instrutivos. Concluindo, observaremos que se deve determinar bem que milhas ou léguas cxactas se entendem, quando se marcam as distâncias e a gran¬ deza das cidades, segundo a diferença comum que dá delas uma ideia certa, podendo-se pouco mais ou menos, por exemplo, fazer as grandes de seis milhas ao menos, as meãs maiores de três milhas, e as pequenas menores; explicar as medidas e pesos que se empregam, nos lugares onde se acertar de falar nêles, e o valor das moedas. E porque se faz freqúentemente mcnçào destas coisas numa Relaçáo, bom é pór-lhe logo no princípio uma advertência separada, que possa ser logo manifesta ao leitor. FIM DO DISCURSO SÔBRE VIAGENS
  • DESCRIÇÃO EXACTA DA COSTA DE ÁFRICA A parte de África que corre desde o Estreito de Gibraltar até ao Cabo Branco, no mar oceano, é uma costa que vulgar e erroneamente se chame Barbaria, mas que todavia o não é, porque a verdadeira Barbaria é no mar Mediterrâneo, e c a costa que começa em Tripoli, e segue a Tunes e Argel até ao Estreito; mas a costa que diz sôbre o mar oceano desde o dito Estreito até ao dito Cabo Branco, é verdadeiramente a costa da Mau- ritânia, e assim se deve chamar por ser a costa dos mouros. Esta costa e região de Mauritánia abrange très reinos: Fêz, Marrocos c Suz. Féz tem por capital uma cidade do mesmo nome de Fêz, e por pôrto de mac Tetuão que é um pouco dentro do estreito, Tânger, Arzila e Ceuta, Larache, Mamora, Salé, Fudela. Tânger é hoje dos ingleses; Ceuta e Mamora, de el Rei de Espanha; e as outras praças, de mouros. O reino de Marrocos tem por capital a cidade do mesmo nome de Marrocos, e por portos dc mar Azamor, Mazagão, Houladila e Safim; Mazagão é do rei de Portugal; o mais, dos mouros. O reino de Suz tem muitas cidades no Sertão, o que os outros não têm, porque um tem só Féz c outro Marrocos, a trinta ou quarenta léguas do Sertão, mas este reino de Suz tem ali a capital Tarudan, e além dela Tagaunest, Onfroy e Eleng, e por portos do mar Mogador, Santa-Cruz e Messa. Os mouros chamam a estas praças pelos mesmos nomes, salvo Safim, que chamam Açajjy, e Santa-Cruz que chamam Agades. Éstes três reinos tinham cada um antigamente o seu rei; e houve dois, a saber: o de Féz, cujo nome não sei, e o de Marrocos chamado Muley Hamct, que foi na batalha que eles ganharam contra o rei dc Portugal, D. Sebastião, para as partes de Ceuta e Larache Estes reis reinaram enquanto foram assaz poderosos para repelir a gente da campina que é dividida em tribos. O chefe ou ancião da tribo, que é quem a governa, tem o titulo de Xeque, ou Capitão ; habitam cm tendas, e por aduares, sendo cada aduar a reunião de quarenta ou cinquenta tendas dispostas cm círculo; os rebanhos ficam no meio: e uma tribo tem trinta, quarenta e até cinquenta aduares, mais ou menos, segundo o número de gente que contém.
  • 342 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD Êstes reis eram obrigados a sair muitas vezes em campo com exér¬ cito, se queriam ser pagos da garama ou imposição a que cada tribo era obri¬ gada, e ainda assim dificultosamente cobravam seu pagamento, porque êstes arábios emalavam as bagagens, e se passavam a outras terras, e mesmo resistiam, se se sentiam com fôrças. Tribo havia que era teúda de pôr em campo até dez e quinze mil cavalos; e tendo-se congregado muitas tribos passaram a dar saltos e come¬ timentos, mòrmente para as bandas de Féz e de Suz, onde há mais de cinquenta anos já nào há reis, e sâo êstes reinos possuídos pelos maiorais de tribos árabes, que muitas vezes váo pelejar com os mouros da beira-mar. E presentemente êste reino de Féz é possuído por muitos chefes de tribo arábios e espccialmente por Xeque Bembouker, e por Xeque Guei- lhan, dos quais o primeiro estancia para as partes de Mamora, Salé e Fudcla ou Fedála, e o segundo para as partes de Tetuáo, Tânger e Arzila, onde tem feito a sua principal fortaleza. Os mouros de Salé foram reforçados dos mauriscos expulsos de Espanha, que vieram no ano de 1600, e passando ao longo da dita costa da Mauritánia, particularmente se recolheram àquela cidade de Salé em grande número, assim andaluzes, como granadinos, como também Hornaibtros; e se erigiram em república e em divá. Os mouros permaneceram na grande cidade que se chama Salé velha, e os ditos mouriscos fizeram assento na cidade nova, que se chama Rieval. Meteram guarnição na fortaleza, e fizeram-se corsários por se vingarem dos cristãos, o que durou por trinta ou quarenta anos, chegando a ter no mar até trinta navios de corso; mas isto cessou desde a guerra que tiveram com Bembouker, a quem puseram sítio. Agora há novas que estáo de paz. Pelo que pertence à costa de Tetuáo e Tânger, sabe-se como Xeque Gueilhan ou Cidy Gueilhan (porque umas vezes lhe chamam Xeque, que quere dizer Capitão e outras vezes Cidy, que vale tanto como Senhor) anda freqúentemente brigando com os ingleses, a quem de uma vez matou por surprêsa quinhentos homens. O rei Muley Hamet depois de haver ganhado a batalha contra D. Sebastião, rei de Portugal, reinou até ao ano de 1600 em paz, tendo redu¬ zido os arábios a lhe irem fazer o pagamento da garama a Malhorca, onde todos os cristãos, a saber, franceses, ingleses e holandeses traficam. Depois da sua morte os seus parentes tiveram guerras entre si, de sorte que em seis semanas se viram em Marrocos três reis expelindo-se um ao outro, isto é, Muley Jaccb hlmançor, Muley Bucsson e Muley Buffecs. Depois dêles veio Muley Zidan, que tendo-se apoderado do reino reinou até sua morte, que veio a ser no ano de 1630 pouco mais ou menos. Teve muito trabalho em resistir aos arábios, que algumas vezes o constrange¬ ram a sair de Marrocos, e fugir para Safim ; todavia reinou com certa quietação até 1630. Depois déle foi rei seu filho mais velho Muley Abdemeleck, que não reinou mais de três anos, e foi morto por um renegado francês. Era mui cruel. Muley Elvualecq, seu irmáo, que era branco, procedente de uma mourisca espanhola, reinou após ele. Era afável e amado; reinou dez ou onze anos. Seguiu-se no reinado seu irmáo mais moço Muley Hamet Xeque, o qual sendo todo entregue a seus araotes, os arábios da campina, da mais prin¬ cipal tribo que ali há, chamada dos Chibavetes, se levantaram contra êle, e se apoderaram de Marrocos e da bela casa ou serralho, chamado Cebroé, e ali mataram ao dito rei Muley Hamet Xeque, último filhodo dito Muley Zidan. E o chefe da dita tribo dos Chibavetes, chamado Cromelhunte, se apoderou
  • DESCRIÇÃO DA COSTA DE ÁFRICA 343 do reino, há coisa dc dois ou três anos somente, e é quem hoje reina em Marrocos na qualidade de tirano. É senhor do pôrto de Houla- clila; pôs sítio a Saiim, mas náo tem podido tomá-la, ao menos não há novas disso. O reino de Suz não tem andado em menor desordem ; há cinquenta anos a esta parte que ali duram as guerras civis: contudo, um príncipe do pais chamado Cidy Aley, tendo prevalecido, reinou trinta anos. Tinha a sua resi¬ dência em Ileng, e morreu não há mais de oito a dez anos. Deixou vinte e dois filhos, e alguns irmãos, que todos andam cm guerra uns com os outros, e dominam cm diversos lugares, um em Thearundem, outro em Onfrey, outro em Tanganor, ouiro em Ileng; c um dos irmãos do defunto é senhor da fortalrza de Agades ou Santa Cruz; c os outros finalmente percorrem a campina. Não tem havido cônsules neste pais, senão somente em Salé e em Tetuáo, desde que Salc foi crecta em república ou divã; e à sombra de Salé foi recebido um em Tetuáo sem oposição de Xeque Gueilhan, nem de Xeque Bembouker. Muitos se apresentaram a Muley Zidan para exercer éste cargo; entre outros, um chamado De Mas em 1617, outro chamado Fate em 1619, e em 1622 Maret, que não foi aceito, porque o rei não quis tolerar que alguém, além dêle, impusesse algum tributo nas suas terras, o que éle declarou a Monsieur de Razilly em 1623. Em Suz nunca se apresentou ninguém por Cônsul, porquanto as guerras são causa de não haver quem vá a êste reino. Alguns barcos de Pro- vença váo negociar a Tetuáo e a Salé, onde náo há mercadores franceses nem tampouco em Safim e Houladila; e se os há, é para fazer seu negócio a bordo. Em Santa Cruz há uma casa francesa. A cidade de Marrocos é, pelo menos, do tamanho de Paris, não metendo em conta os arrabaldes ; mas é mui vasta, e tem dentro muito espaço vazio. É situada numa planície, a sete ou oito léguas aquém das montanhas, que se chamam o Atlas, das quais parece estar-se mui próximo quando se está em Marrocos, porque estão bem à vista, e se distin¬ guem os seus cumes cobertos de neve em tòdas as estações; todavia há, pelo menos, sete a oito léguas do pé destas montanhas até à dita cidade de Marrocos Destas montanhas descem muitas ribeiras pequenas de bela e boa água, que primeiramente vem regar um jardim, que se chama Mecera pequeno, c ai formam um grande lago mui bonito, que tem bem mil pés quadrados. Esta água passa depois a outro jardim maior, chamado EI Abessera, que é cheio dc ruas dc laranjeiras, limoeiros, palmeiras de tâma¬ ras, oliveiras, amendoeiras, figueiras e romeiras, entremeadas de aibustos de jasmim e outras flores cheirosas. Dêstes dois jardins, que sáo públicos e de uso comum, esta água passa ao belo palácio do rei, chamado Elbedeh, onde se diz (porque náo entrei néle) que forma quatro lagos, abaixo dos quais há quatro jardins, o tôpo de cujis árvores toca ao rés da borda dos ditos lagos, de sorte que éstes jardins estào em baixo, e os ditos lagos em cima, bem compassados, ficando um jardim entre dois lagos, e um lago entre dois jardins. Os reis de Marrocos dáo ordinàriamente suas audiências debaixo do grande portal déste palácio, assim como se faz em Constantinopla. Alguns reis tém havido, que depois de ter feito recolher as mulheres em seu serralho por sua camareira-mor, que se chama Lanssi Ramcna, tém dado audiência dentro do palácio a alguns embaixadores, mas mui raras ▼ezes, em uma longa sala, cuja abóbada e paredes sáo cobertas de fino ouro da grossura de um ducado, além da qual sala há outros muitos
  • 344 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD brios aposentos, segundo nos contavam os eunucos guardas do dito palᬠcio, e as mulheres judias que ali entravam a levar os provimentos. Contígua a esta casa há outra, que se chama o Michouard, onde residem os Elchats ou renegados, que acompanham o rei quando sai. Há também outra casa que se chama das Bachas, isto é, casa do dízimo, e a esta casa sáo obrigados os mercadores cristáos a acudir com tôdas as suas mercadorias, e aí o Lumina Sultão, ou tesoureiro de ei rei, ia receber o direito Lehetel, isto é, o direito legitimo, convém a saber, de cada dez far¬ dos de fazenda iguais um, e assim no demais. Há ainda outras casas con¬ tíguas, onde moram os alcaides eunucos, e outros oficiais, e ainda um jar¬ dim comum, no qual há uma caverna de leões, e tudo isto num grande recinto murado, chamado Aiiá Scba (’), como em Paris o Louvre. Junto a esta cèrca há uma grande mesquita, do comprimento de cem passos, e sóbre esta mesquita uma tórre quadrada, da qual sai pela parte superior um grosso varão de ferro, em que estão enfiadas ttés bolas de ouro; a primeira mui grossa, a outra de cima menor, e a outra mais de cima ainda menor, as quais bolas de ouro, principalmente a de baixo, e a mais grossa, estão amolgadas de muitos pelouros de mosquete que lhe foram atirados, e ainda em algumas partes passadas de meio a meio ; porque não são maciças, mas sómente da grossura de um dedo; do que tendo me eu admirado, c preguntado a mouros velhos o motivo por que se haviam atirado êstes tiros de mosquete me responderam que haviam sido os solda¬ dos de Jacob Elmançor quando tomaram a cidade que os haviam atirado; c preguntando cu ainda porque não tinham êles levado aquelas bolas, disse¬ ram que o não haviam ousado a fazer por serem sagradas. No extremo desta mesquita há uma sala em forma de capela, que é onde são sepultados os reis de Marrocos, e nela os Cristãos entravam livremente, acompanhados do porteiro, eai vi muitos monumentos que não subiam a maior altura que dois ou tiês pés somente acima do chão. Esta sala é de abóbada, a qual e as paredes sáo cobertas de mosaico côncavo, cujas concavidades sáo douradas de fino ouro da grossura de um ducado. A quinhentos passos déste lugar há um grande recinto murado, do tamanho de Magny, o qual é a judaria, onde há muitos Judeus, que têm sinagoga e boas casas. Tem só uma potta, que se fecha à noite, e se abre pela manhã, debaixo da vigilância de um especial encarregado. A cinquenta passos dali há uma grande casa, ou, por melhor dizer, prisão, que se chama Segena, que é onde estão os pobres cativos cristãos, e donde saem pela manhã para ir ao trabalho, e ficam encerrados à noite. A mil passos dali há um grande recinto de casas, chamado a Alfândega, e é onde assistem os mercadores cristáos, na qual cada nação tinha os seus aposentos quando ali assistiam; e esta casa era também sujeita a ser fechada à noite, e aberta pela manhã, para o que havia um porteito, que disso tinha cargo. Há também neste bairro uma grande mesquita, que tem uma ampla tórre, a qual se diz ser semelhante a outra que há em Sevilha em Espanha, e fabricada pelo mesmo arquitecto. Não entrei nesta tórre, mas asseveraram-me que quatro cavaleiros a par podem subir até ao mais alto dela, e ainda uma carroça o pode fazer. Perto dali há uma grande cèrca onde está a prisão dos Albauros, (*) Será Alcaseba?- N. do T.
  • DESCRIÇÃO DA COSTA DE ÁFRICA 345 c junto dela muitas casinhas, onde metiam os mercadores cristãos e judeus, que o tinham merecido. Em tôda esta grande cidade não há todavia mais de dois juízes ; um Cady, que é o juiz do cível, e um Ilaquin, que é o juiz do crime. O Cady sentado à porta de sua casa, ou dentro do seu pátio dá audiência às pattcs verbalmente, as quais logo julga, e manda dar à cxccuçào a sua sen¬ tença verbal, porque náo tem cscriváo, mas há junto deles citáirios, que sáo uma espécie de meirinhos, que vào dar à execução o mandado, ou meter na cadeia o condenado. E porque alguém se poderá admirar da facilidade com que qualquer pessoa faz comparecer perante aquele juiz a outra parte sem citação nem intimação, cumpre saber que quando uma pessoa tem apregoado na rua a outra pessoa com as palavras Agi sei chera, isto c, vem à justiça, é mister que esta vá logo sem detença, porque aliás correria risco de ser apedrejado pelo povo, que náo acha coisa alguma mais razoável do que comparecer em justiça. Quanto ao Ilaquin ou juiz do crime, tem diante da sua casa uma grande praça onde há pranchas, e paus arvorados, no alto dos quais há ganchos de ferro, em que se espetam os que sáo condenados a éste suplicio. Agarram num homem pelos pés, ou pelos ombros, e lançam-no sobre éstes ganchos, e seja qual fõr o lugar por onde fique p:éso, assim o deixam até morrer, de sotte que é melhor para o padecente ficar cravado pelo lugar mais mortal. Èste Ilaquin tem também em sua casa espadas cm cabides, para cottar as cabeças, e bordões para bastonar os menos criminosos. E como êle tem ordinariamente muito que fazer, e a cidade é grande, há um seu tenente, que está numa tenda peito de Valcaseba (1), o qual da sua parte exerce a mesma jurisdição. Esta cidade é mui grande, mas as suas ruas, e a aparência das casas náo sáo melhores que as das nossas vilas. Tem algumas casas bonitas; mas a maior parte náo tèm mais que um, ou dois andares ao muito. As ruas náo sáo calçadas, e por isso são lamacentas quando chove, e cheias de pó no verão. Desde Abril até Outubro náo há ali chuvas, mas grande calor de dia, e grande orvalho de noite. Os mouros sáo mui ciumentos e náo imaginam que possa haver mulher honesta, e por isso náo vào uns às casas dos outros sem ai estar o dono delas, e éste ter mandado recolher suas mulheres. Deixámos as águas das montanhas no palácio do rei, chamado Redel. Dali estas águas vào regar e prover a dita cidade em muitos luga¬ res, c depois, saindo dela entre as duas portas chamadas do Cany e de Duqucla, juntam-se e formam um rio, mas vadeávcl, que corre para oci¬ dente a entrar no mar entre Mogador e Safim. Êste ric chama-se o Tausit. Antes de sair de Marrocos náo cai mal falar de algumas acções de Muley Zidan, que ali reinava quando eu lá estive. Houve um dia grande briga entre os cativos franceses da Segana, entre os quais havia grande número de provençais e de rochelcses. Aquêles faziam as suas devoções a um canto da Segana, onde havia uma capela, c alguns padres também cativos lhes diziam ali missa: no extremo oposto estavam os outros, que faziam as suas devoções a seu modo em seus cubículos. Os provençais amotinados foram perturbar os rochelcses, sóbre o que houve tanto barulho que o alcaide se viu obrigado a dar conta a Muley Zidan, que mandou lhe levassem dois de cada parte, o que foi feito ; c logo os merca- (>} Alcasebat-N. do T.
  • 346 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD dores franceses correram a cie para interceder cada um pelo seu partido; mas o rei, depois de ouvir as partes, e saber que a briga era sõbre pontos de religião, mandou dar a cada um cinquenta açoutes de bastão nas náde¬ gas, e pôs defesa que nenhum mais se metesse com os outros, sob pena de morte, querendo que cada um exercitasse a sua religião, já que éle para isso lhes dava permissão. No ano de 1622 veio a Marrocos um embaixador dos Senhores Estados, um Estribeiro do Príncipe de Orange, e um discipulo de Mou- sieur Erpénio, Professor de línguas orientais c estrangeiras em Leyde, todos com presentes, que foram mui agradáveis ao rei Muley Zidan, mas princi¬ palmente o do dito Senhor Erpénio, que era um Atlas, e um Novo Testa¬ mento cm arábigo. Foi-nos contado pelos eunucos que aquele rei não cessava de ler no Novo Testamento E como êste embaixador se ia enfa¬ dando de lhe não darem despacho, foi aconselhado que apresentasse ao rei um requerimento, o qual foi frito pelo discipulo do dito Erpénio, chamado -Gólio, em letra e língua arábiga, e em estilo cristão. O rei ficou maravi¬ lhado da beleza déste requerimento, assim pela letra e linguagem como pelo estilo extraordinário, e não conhecido naquela terra. Convocou os Tabires, ou escrivães, e lhes mostrou o requerimento, que êles admiraram ; e chamando o embaixador, preguntou-lhe quem havia feito o requeri¬ mento; o embaixador respondeu que era o senhor Gólio, discipulo do Senhor Erpénio. O rei quis vê lo c falou lhe em arábigo; o discipulo res¬ pondeu, em espanhol, que entendia muito bem tudo o que S. M. dizia, mas que lhe não podia responder na mesma lingua pelo não ajudar a gar¬ ganta, porque é mister falar tanto com a garganta como com a língua; o que o dito rei, que entendia muito bem o espanhol, achou mui bem dito, e concedendo o que se pedia no requerimento, mandou dar despacho e avia¬ mento ao dito embaixador para sua tornada; e hoje o dito senhor Gólio está em Leyde professor das linguas orientais em lugar do dito Senhor Erpénio. Em 1623, Monsieur de Razilly, sendo chegado ao pôrto de Safim com três navios de cl-rei, féz saber que vinha da parte de Sua Majestade. Muley Zidan lhe enviou dar as boas vindas, e lhe escreveu que podia sair em terra com mais vinte companheiros. M de Razilly julgando que a carta continha o que cie havia pedido, desembarcou com quarenta pessoas, três ■frades capuchos, e muitos fidalgos, levando algumas rabecas e trombetas. Doisdias depois mandou o rei prender a todos, e metê los na cadeia, excepto ao Senhor de Razilly, e aos trés frades capuchos, chamados Pedro d'Alençon, Miguel de Vesins, e Rodolfo, c escreveu ao dito Senhor de Razilly para vir a encontrá-lo no seu almoada ou exército; o que èle féz, e ai se queixou de que os seus homens houvessem sidos presos contra o seguro que éle lhe havia dado por sua carta. Muley Zidan lhe disse que lesse bem a carta, e veria que èle nada lhe havia prometido, e que se Cidefrro que da sua -parte enviara, havia dito outra coisa, que o desmentia ; que, em subs¬ tância o que éle queria era cobrar os seus móveis e a sua biblioteca, que um provençal lhe havia levado furtada, e que os espanhóis lhe haviam tomado, e depois levado ao Escurial. Disse que havia ali frades de Santo Agostinho, ao qual éles chamam Cidy Bclabech, e que pretendem morrera para as paites de Marrocos Declarou que desejava que o Senhor de Razilly fôsse a França, e trabalhasse por lhe haver aquéles frades pelo vali¬ mento do Rei. Monsieur de Razilly lhe prometeu fazer o que pudesse; mas pediu-lhe para levar os frades capuchos. Mulley Zidan lhe concedeu um, contanto que os mercadores lhe prometessem e se obrigassem a apre¬ sentá-lo dentro de seis meses. Os mercadores vieram cm ser fiadores
  • DESCRIÇÃO DA COSTA DE ÁFRICA 347 debaixo da cláusula que se éle não tornasse até ao prazo dos seis meses, ficariam desencarregados por uma soma de dinheiro, que se fixou em seis¬ centos ducados de ouro. Muley Zidan disse que os mercadores tinham razão. Monsieur de Razilly veio a França, e nada conseguiu, de sorte que não tendo voltado a Marrocos, os mercadores pagaram a soma estipulada, de que Muley Zidan lhes deu quitação, a qual, sendo levada ao Padre Joseph, este lhes mandou restituir a soma que a dita quitação acusava. Falámos das duas portas de Marrocos, uma chamada do Cany, e outra de Duquela. A palavra do Cany quer dizer da carreira ou mercado dos cavalos, porque fora desta porta há um campo onde os mouros e os arábios compram cavalos e se exercitam na carreira; a outra porta tira o nome da província a que está fronteira. A província de Duquela fica ao norte, assim como a de Dará a leste. Enquanto a Tufilet, a cujos habitan¬ tes chamam Tufilely, ouvi falar dela como de província dependente do reino de Fêz, e jaz entre Fêz e o mar Mediterrâneo; mas nunca ouvi cha¬ mar-lhe reino; todavia talvez lho chamem à imitação e exemplo de Argel e Bugia, que também se chamam reinos. Podem-se assim chamar as pro¬ víncias reinos na banda do mar Mediterrâneo, mas não em Mauritánia. Nunca estive na cidade de Féz, mas ouvi dizer a pessoas que estiveram em Marrocos e em Féz, que esta era tão bonita como Mar¬ rocos, e que Marrocos era maior; mas que Féz era melhor edificada, e as suas casas se semelhavam às de Espanha. Náo sei que território possui Xeque Gueilhan, mas sei bem que domina no pais que corre desde Tetuão até à sua fortaleza de Arzila; e não há mais de dois ou três anos que se apoderou de Tetuão por assalto, a tempo em que dois barcos de Marselha estavam no rio, os quais vendo vir um exército de vinte mil homens julgaram que estavam perdidos; ficaram porém mui espantados quando Gueilhan lhes enviou dizer que nada temessem, e que queria conservar o comércio Tomada a cidade, os barcos fizeram ali o seu negócio. Esta cidade está a trés léguas do mar ou da barra, e tem um pequeno rio por onde os barcos que demandam pouca água sobem com custo Ê verdade que Larache pertence ao Rei de Espanha e igualmente Ceuta desde a última revolu¬ ção do reino de Portugal, porque o Governador dela permanece na obediência de Espanha. Tânger nada valeria sem o pôrto que os ingleses aí fazem por meio de um molhe, que lhes há de custar grossas quantias. Náo se devem fiar em Gueilhan, porque quando éle os quiser enganar mandará comandar as suas tropas por outro Xeque e dirá que não é a sua tribo, mas outra tribo de arábios, a que tiver feito o mal. Monsieur o Cavaleiro Chclindeley, primeiro estribeiro da Rainha de Inglaterra e que agora tem tornado a Tânger, me disse há pouco que o Vice-almirante Lawson, o Governador de Tânger e um Enge¬ nheiro haviam uma vez estado em conferência numa tenda no meio de dois exércitos, o de Gueilhan composto de vinte mil cavalos e o déles que náo passava de mil homens; e dizendo-lhe eu que êles haviam cometido um grande èrro, conveio nisso e disse que bem o haviam conhecido depois; e que o dito Gueilhan os havia obrigado a prome¬ ter-lhe de o irem a visitar â sua fortaleza de Arzila, mas que só lá foi o Engenheiro a levar as escusas dos outros, e que se todos trés lá hou¬ veram ido, nenhum de lá tornaria. Em Ceuta e em Larache náo há pôrto senão para barcos; mas o pôrto de Mamora é mui bom e todavia cl-rei de Espanha náo se serre déle, e náo tira dali proveito algum.
  • 348 VIAGEM DE FRANCISCO PYRARD- Salé é uma enseada com barra, onde podem entrar navios de duzen¬ tas toneladas em boa conjunção e com auxilio de pilotos. Em Fudela podia se fazer, srgundo dizem, um pórto por haver ali uma lingua de terra que sai ao mar, mas não tem nem povoação, nem for¬ taleza, c a que há é a três léguas acima de Salé. Azamor é um pequeno pórto para barcos, e mau; e não há ali senão somente pescadores. Mazagáo que fica acima, a dez ou doze léguas do Cabo de Cau- sin, é uma pequena cidade bem murada, e guarnecida de artilharia, em cuja fortificação não assistem ordinariamente mais de dois ou trés mise¬ ráveis portugueses de guarnição, que muitas vezes não tém pão; c, toda¬ via, têm resistido a muitos milhares de mouros carábios, que não tendo uso de peças de campanha, de pedreiros e de escaladas, são incapazes de tomar cidades muradas, mormente quando cias tém artilharia; mas, por outra parte, a guarnição não deve sair a campo, porque os mouros e arᬠbio», grandes cavaleiros, e muito numerosos, são destros cm emboscadas c em cortar a retirada. Acima de Mazagáo está a Houladila, pequeno pórto para barcos ou navios mcáos, e tendo na entrada um penedo que a torna difícil. Não há ali mais que uma fortaleza e aldeia. Não estive em tòda esta costa desde o estreito até ao dito lugar de Houladila; e o que dela digo é fiado no que ouvi em conversação com os que ali haviam estado, e o que aprendi pelas cartas. Quando estive cm Safim, estive também no dito Cabo Causin, e dali passei a Safim. Safim é uma cidade situada num alto, bem murada e provida de artilharia, fundada em 1540 pelos portugueses, segundo consta do letreiro que está na tórre maior do castelo de cima. Não tem pórto, mas somente uma enseada, boa de verão, e má no inverno. Mogador é um pórto pequeno abrigado por um ilhéu, e onde podem entrar navios de duzentas ou trezentas toneladas. Agades ou Santa-Cruz é uma baia ou enseada sofrível; a fortaleza é numa ponta de terra mui alta, e a povoação tem tão poucos cristãos, que só os há nalgumas casas que estão ao pé da fortaleza. Messa é uma enseada que nada vale, e aonde só se vai quando Agades e Melissa estão cm guerra: fora disso *odo o negócio se faz na enseada de Santa-Cruz ou Agades. Sendo voltado a Safim preguntei algumas vezes a velhos que haviam entrado na batalha dos trés Reis, de que falei atrás, o que julgavam que fóra feito de el-rei D. Sebastião de Portugal. Disseram-me que não tendo sido achado entre os mortos, julgava se firmemente que havia ficado incógnito entre os cativos; c no ano de 1619 correu rumor de que o dito D. Sebastião, depois de muitos anos de cativeiro, se havia salvado para as partes de Argel c Tunes; mas os mercadores espanhóis diziam que era um impostor que tomara o nome de D. Sebastião, mas que o não era, e que como tal havia sido tratado; o que dava assunto a grande debate entre os mercadores de diversas nações que estavam em Safim e cm Marrocos, querendo uns que fósse D. Sebastião, e outros que não. Quanto ao negócio déste país, é quási semelhante desde Tetuáo até Santa-Cruz e Messa, salvo ser o tráfico maior nuns lugares que em outros. O que ali se leva de fora é ferro, panos, tóda a sorte de rou¬ pas, papel, quinquilharias, fazendas de capelista, especiarias e drogas de tintas; e o que se extrai é ouro, cera, couros, penas de avestruz, e amên¬ doas, gomas, alcaparras e outras fazendas. Resta dizer alguma coisa da religião dos mouros, e de sua
  • DESCRIÇÃO DA COSTA DE ÁFRICA 349 maneira de fazer oração. São, como todos sabem, maometanos; mas têm pelo menos uma dúzia de santos que invocam; acima de todos põem Mahamct, aue assim chamam ao seu profeta, e não Mahomet. Quando querem fazer o seu Sala, ou oração, lavam os pés e as pernas ate ao joelho, e as mãos e braços até aos cotovelos, depcis assentam-se em terra, com o rosto para o oriente, tendo umas contas na mão, depois invocam o seu Cidy Mahamet, suplicando lhe que interceda por éles, depois Cidy Belabech, que éles dizem ser Santo Agostinho; e assim outros muitos; e a cada um se prostram por terra, tocando com a cabeça no chão tantas vezes quantos são os santos que invocam, e enquanto pas¬ sam tódas as contas. Metem até entre os seus santos a Nosso Senhor, sob o nome de Cidy Nayssa, que éles confessam ser um grande Santo. E quando nós lhes perguntávamos de quem êle nascera, respondiam que da Maricm, Virgem Maria; e quando nós mais lhes preguntávamos como éle fóra concebido no ventre da Virgem, respondiam que do sòpro de Deus ; ao que, replicando-lhe nós que pelo sópro de Deus se devia en¬ tender o Espirito de Deus; c que, por consequência, Nosso Senhor, sendo nascido da Virgem, concebido do Espirito Santo, era certo que era com o Padre e com o Espirito Santo, Deus, e um só Deus eternamente bem-aventurado, não o podiam, nem queriam compreender, e nos refu¬ tavam com injúrias. F I M
  • = í N D I C E = DA SEGUNDA PARTE Pági. CAPITULO I. Chegada a Goa. Descrição de seu hospital e prisõe . 9 CAPITULO II. Descrição da ilha de Goa e de seus habitantes e dominadores.. ... 26 CAPÍTULO III. Da cidade de Goa, suas praças, igrejas, palᬠcios e outros edifícios . 34 CAPITULO IV. Dos mercados, escravos, moedas, águas e outras coisas notáveis de G . 49 CAPITULO V. Do Governo de Goa, do vice-rei, de sua côtte e magnificência. 59 CAPÍTULO VI. Do arcebispo dê Goa, inquisição, eclesiásticos e cerimónias que ali se observam 69 CAPlTULO VII. Dos exercícios e jogos dos portugueses, mes¬ tiços c outros cristãos cm Goa ; e de seus usos e modo de vida, e de suas mulheres. 84 CAPlTULO VIII. Dos soldados portugueses em Goa; de seu modo de vida e embarques; de suas diversas expedições e ordem que guardam na guerra. . 89 CAPlTULO IX. Do reino do Dcalcáo, Decáo, ou Balagate na vizinhança de G a. 101 CAPlTULO X. Viagem do autor à ilha de Ceilão e descrição dela 109 CAPlTULO XI. De Malaca, sua descrição e do memorável cérco que os holandeses lhe puseram... —.. ... 115 CAPlTULO XII. Das ilhas de Sonda, Samatra e Java; das cidades de Bantáo e Tubão; ilhas de Madura, Bali, de Maluco e Banda.. ... _ . 119 CAPlTULO XIII. Das coisas singulares que se extraem das ilhas de Samatra, Java, Bornéu e das Filipinas e Manilha. Da China e do Japão e do tráfico, que destas partes se faz cm Goa . „. ... .. _. ._ 128 CAPlTULO XIV. Da forma e feitio dos navios portugueses da carreira da índia; e da ordem e policia, que a bordo deles se guarda, assim na ida como na torna-viagem . ... ... 136 CAPlTULO XV. Do tráfico dos portugueses por tôda a índia em geral, e da ordem que nisso guardam... ... . 154 CAPlTULO XVI. Do tráfico no Brasil, Rio da Prata, Angola, Congo, S. Tomé, Mina e dos escravos de África . 163 CAPlTULO XVII. Do tráfico em Moçambique, Sofala, Cuama, Melinde, Mombaça, Socotorá e outros lugares. Do cérco de Moçambique e o que déle resultou. ... 168
  • Pag». CAPlTULO XVIII. Do reino de Ormuz, sua descrição e do castigo de um príncipe de Ormuz em Goa ... ... ... 173 CAPlTULO XIX. Dos reinos de Cambaia. Surrate, do Grão Mogor, Dio e do resto da costa da índia e Malabar ; e do rei de Tanor e sua perfídia ... ... 183 CAPlTULO XX. Muitas présas de navios portugueses e outras coisas sucedidas na índia, enquanto o autor se deteve em Goa - . 196 CAPÍTULO XXI. Embarque do autor em Goa; estado das índias naquele tempo. Prisão do autor e seu livramento, chegada de quatro naus e outras coisas a êste intento 200 CAPlTULO XXII. Partida de Goa; modo dos embarques; A ração a bordo ; tratamento do autor; bichos da Índia 206 CAPlTULO XXIII. Tqrna-viagem do autor; avista-se a ilha de Diogo Rodrigues; tormenta horrível; piedosos acidentes; Terra de Natal; Cabo da Boa-Esperança; tempestades e calmas.. . . 211 CAPlTULO XXIV. Ilha de Santa-Helena; sua descrição; o que ali nos sucedeu 217 CAPlTULO XXV. Partida de Santa-Helena; acidente sucedido ao navio; mergulhador francês; chegada ao Brasil; perda do navio . .. CAPlTULO XXVI. Do Brasil e suas singularidades, e do que ali aconteceu enquanto o autor lá esteve ... 227 CAPlTULO XXVII. Saida do Brasil; Pernambuco, ilhas dos Açores, Berlengas em Portugal; grande tormenta; ilhas de Baiona ; jornada a S. Tiago; regresso do autor e sua chegada a França _ ... 239 ADDENDUM . - ... 247 OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS sóbre a viagem de Francisco Pyrard por P. Duval, geógrafo de el rei de França ._ _ 249 OBERVAÇÔES fôbre a segunda parte ... ..- ... 278 TRATADO E DESCRIÇÃO dos animais, árvores e frutos das Índias Orientais, observado por Francisco Pyrard ... ... 301 CAPlTULO I Dos elefantes e dos tigres... 301 CAPlTULO II. Dos crocodilos e tartarugas... „ ... ... ... 303 CAPlTULO III. Dos peixes do mar Indico, e especialmente das ilhas de Maldiva ^ .. ... 304 -CAPlTULO IV. Dos papagaios e de um pássaro admirável que se cria na China . _ ... 306
  • Pigs. CAPlTULO V. Da pimenta e do gengibre; da massa e noz moscada; do cravo e da canela. 3i;7 CAPlTULO VI Do anil ou inJigo, do almíscar, ambar-gris, benjoim, sândalo e pau de aloés. 3» 8 CAPlTULO VII. Dos tamarindos, canafistula e mirabolanos 309 CAPlTULO VIII. Da árvore triste, do ébano, do bétele, c da árvore do algodão. „ 310 CAPlTULO IX. Das bananas e ananazes . 311 CAPITULO X. Dos duriões, rambutòes, jacas e mangas . ... 311 CAPÍTULO XI De muitas árvores e plantas que se criam nas ilhas de M ldiva. 312 CAPlTULO XII Descriçáo mui particular da árvore admirᬠvel que dá os còcos, a qual só por si produz todas as como¬ didades e coisas necessárias à vida do homem . 315 AVISOS aos que quiserem empreender a viagem das Índias Orientai». Da ordem e policia que os franceses guardam em sua navegação. Dos grandes erros e desordens que éles nisso cometem, com seus exemplos, e uma advertência para os evitar, por Francisco Pyrard . 323 DISCURSO sòbre as viagens às regiões remotas e do apercebi¬ mento necessário para as empreender útilmente e formar delas relações exactas, por M. N. . 333 DESCRIÇÃO EXACTA da Costa de África. 341 23 II »oi.
  • ÍNDICE ONOMÁSTICO Abdemeleck Muley 11-342. Abel II-282. Abessera, El-11-343. Abissínia-11-129, 176. Abreu, Luis de-II-108 Abrolhos I 26, 27-11 150, 258, 259. Acádia-II-251, 253 Açaffy-vide Saníim. Acapulco, põrto de-II-256, 260. Achém-I-34, 55, 72, 103, 135, 189, 207, 211, 212, 216, 217, 221, 224 II-112, 120, 121, 122, 194, 198, 270. Achém, rei do-I-34, 181, 207, 210, 211, 216, 219, 221, 226 11-117, 120, 121, 122, 270. Açores, arquipélago dos-II-152, 163, 206, 228, 241, 248, 251, 252, 256, 259 294 Adão, Pico de-II-282. Addu, atollon-I-8, 89. Addu, canal-I-92. Adea-11 289. Adel-II 289. Adém-11 252, 254 Adém, suldão de-II 263. Adu matis, atollon-I-89, 222. Afonso I, D -II 296, 297. Afonso III, D. II 295, 297. Afonso VI, D.-II-295, Africa-I-11, 12, 27, 30, 42, 51, 71 174 II51, 136, 151, 164, 166, 167, 176, 195, 234, 251, 252, 253, 257, 258. 260, 261, 265, 266, 269, 278, 289, 295, 298, 306, 307, 328. Agades-vide. Santa Cruz. Agde-II-250. AgeleeII-281 Agger II 281. Agrã-II-188, 189, 191, 253, 254, 262, 291. Aguada, põrto da 11-279. Aguia, cabo da-II-256. Agulhas, cabo das-1 28, 34-11-215, 258, 266 Akbar-vide Grão-Mogor. Alba, Duque de-II-274. Albiamo-II-262, 263. Albuquerque, Afonso dc-11-42, 44, 49. Albuquerque, Fernão de-II-108. Albuquerque, Matias de-II 44, 139. Alcântara, Ordem de-11-298. Alcaseba-vide Valcaseba. Alcidiana, ilha-vide Inacessível, ilha. Alemaer-11-274. Alemanha 11-134, 185,272,275. Alemão, Gaspar-II-24, 202. Alençon, Pedro de-II-346. Alentejo 11-296, 297. Alepo-II-183, 262, Alexandre VI. Papa II 250, 251. Alexandre, Duque de Parma-II- -295 Alexandreta II 262. Alexandria-II-263. Aley, Cidy-II 343. Algarve-II 296, 297. Alicante-11-299. Almeida, D. Francisco de-II-237. Alvor, Conde de-II 253. Amazonas, rio-II-252, 293, 294. Ambaó, rio-11-268. Ambart-11 259. Ambi-11-281.
  • 356 ÍNDICE ONOMÁSTICO Amboino, ilha de-II-125, 126, 127, 254, 285. Ambolim-H-281. Ambro, cabo-II-269. Amedabad-II-252, 253, 254 Ameixas, põrto das-II-268. América-I-11 87-IU31, 132, 136, 163, 166, 167, 191, 231, 232, 250, 251, 252, 253, 254,255, 256, 257, 261, 264, 266, 272, 286, 298. América Central-II-250, 251, 253, 255, 256. América, ilhas da-11-250. Amesterdàe-Il 273, 274, 275. Ampasa-II 252. Anas, rio-vide Guadiana, rio. Andaluzia-11-256, 298, 300. Anderson, Philip 11-191, 199, 200. Aodrade, Jacinto Freire de-II-16. Angediva, ilha II-253. Angeles Los-II 255. Angoche II-252. Angola-Il-136, 150, 163, 164, 165, 166, 167, 168, 176, 231, 237, 238, 247, 252, 253, 289, 307. Angola, rei dc-vide Soba. Anhong, lago-II 269. Angra do Heroismo-Il-294. Anicn, estreito de-II-263. Ano Bom, ilha de-l-7, 22. 24, 25, 29, 43, 44 II 167, 252, 264,329. Antão-Gil, baia de 11 267, 268. Antas, Conde das 11 42. Antigua, ilha 11-253. Antilhas, ilhas 11-251,253, 255,256. Antuérpia-II 271. Aquilânio-11-252. Arábia-I 12, 98, 112, 136, 137, 169, 174, 176, 190, 201. 206, 207, 208, 2C9, 211, 215, 222, 223, 226, 229, 239, 254, 297, 331, 334-11-52, 58.61, 113, 120, 123, 129, 137, 157, 161, 177, 178, 211, 254. 257, 278. 321. Arábia, rei Xarife da-II-177, 290. Arábico, gõlfo II-173. Aragio Il-;97, 299, 300. Aragáo, rei de-11 299. Araxes, rio-II-262 Ardemburg 11-272. Areq-II-281 Argel-II 341, 347, 348. Argensola, Bartolomeu Leonardo de-11-126 Arguim, ilha de II 253. Ariatollon, atollon I 88. Arica, põrto de-11 256. Ariol, rei 1-259, 262. Arménia-II-178. Arnaul, João-11 245. Arnens 11-254. Arosbay-II-125. Arracáo II 252, 254 Arracáo, rei de 1-243. Arriano II-18S. Arzila-11 341, 342. 347. Ascensão, ilha de II 258. 259. Asia II 255, 257, 271, 276, 284, 291, 298 Asia Menor II 278. Asserim Oguli, serra de-11-252. Asta 11-282. Astacca II 282. Astúrias-11-300. Astúrias, príncipe das-II 300. Atacuru, Aly Pandio-1-60, 61, 62, 67. Ataide, D. Estêvão de 11-171, 175, 176. Atlântico, Oceano-11-249, 252, 255t 295, 297, 300, 341. Atlas, ilhas-vide Açores, arquipé¬ lago dos. Atlas, montes-II 343. Atoni-II-281. Atrouvad-11-281. Aude, rio-11-249. A unis II 250. Auraugzib-II 281. Aurengabad 11-259. A urengzr be-11- 280. Áustria, Casa de 11-250. Avá-II-254. Avibule, ric-vide São Gíl, rio de.. Avis, Ordem de-Il-296. Axel-11 272. Ayen-11 289. Azamor 11-341, 348. Azevedo, D. Jerónimo de II 110. Baçaim-1148, 137, 138, 161, 193, 252. Bacháo, ilha de-11-126, 254, 285. Bachão, rei da ilha de-II 285. Baco II 263 Badará 1-251, 255, 256, 257, 258, 259, 260, 294, 330, 333.
  • ÍNDICE ONOMÁSTICO 357 Badará. rei de I 257, 258. 275. Badarali-II-281. Badcl Abassi-vide Xá-Abas. Bagdad II 257,262 Bahama, canal de-II 256. Baiona II 235. 236, 242, 243, 244, 297. Balagate-II-61, 102. 103, 105, 106, 107, 279, 280, 281. Bali, ilha de II 125, 254, 260. Bali, rei da ilha de-II 125 Ballouva-ll 282 Banda, ilha de II 127, 128, 254, 285, 308. Banda, rei da ilha de II-1.7 Bandcl rico II 252 Bandorá, forte de-11-252 Bandos, ilha dc I 77-80-198. Bangalor I 176. Bar.guenim-11-12, 55, 56,79, 100 Bantáo l 212,-11 121. 122, 124, 125, 253, 254. 259, 285 Bantão, rei de II-121-124 Barbada, ilha 11-253 Barbaria 1 46, 211-11 52, 240, 289, 341. Barbuda, Cláudio Lsgrangc Mon¬ teiro de-11-281. Barbuda, ilha II 253 Barcelona -II 2*9. Barcelor l 176, 255, 274 II 27, 194, 204, 253, 276, 307. Bardeliere, senhor de la 1-16, 17, 18, 23, 28. 29, 30, 34, 35, 40, 41, 42, 43, 44, 48, 49, 60,216- -II 33'». Bardez-II 29, 30, 90, 104, 107, 252, 281. Bardgie-II-28!. Bjrdi, Luís de 11-247, 248. Baregare I 255. Bartin, ilha de-II-252 Bari 11-281. Baroche-11-252, 253, 254, 291. Barodá-11 253 Barros, Joáo de I 76, 84 85, 93, 94, 95, 249, 256, 275, 287, 289, 301- -II 179 -187 Barroso, António-H-207, 247 Bassorá II 252. 262 Batávia-II 254, 261, 284, 285 Baticale-11-254. 283. Beatriz de Castela, D.-Il 297 Beeduralee-vide Badarali. Beijapor-II-103, 280, 281. Beira II 296 Belabcch, Cidy vide Agostinho, Santo Belém 11-296 Bélgica, forte-H 254, 285. Beloure II 282. Bembouker, Xeque II 342, 343. Benastarim, forte de-vide Santiago, forte de. Bengala-I 71, 94. 162, 164, 168, 169, 176, 177, 191, 196, 219, 222, 236. 240, 242, 243, 244, 246, 247, 248, 249. 326 II-5S. 83, 102, 109, 1K>, 113, 124, 129, 161, 187, 196, 252, 259, 275, 276, 280, 283, 303, 307. Bengala, rei de I 242, 243, 246, 247, 248. 303. Berapor II 281. Betberia-vide Barbaria. Berce II 281. Berdelong II 254 Berenice-11-263 Bergopzon-11 272. Beilengas, arquipélago das-H-241, 242. Bermudas, ilhas 11-253. Berouli 11-281 Betei, rio do 11—82 Bethcncourt II- 263. Bética-11-299. Betuve 11 275 Biafra, golfo de I 7. Bicholim 11-281 Bidassoa, rio de II 250, 300. Bider-II 230 Bignon, Jerónimo 1-13. 22. Bijapor-vide Beijapor. Bijnour II 254. Bilbau 11-235. Bima II 254 Bincolapatáo-H-254 Bir II 262, 263 Biron, Marechal de 1-216 Biscaia II 136, 137, 138, 140, 235, 256, 300. Bisnaga II 254. Blanc, Vicente le 11-263 Boa-Esperança, cabo da I 20, 26, 27, 28, 48. 216, 262, 299 II 51, 72, 93, 113, 121, 129, 147, 150, 151, 153, 161, 163, 164, 166, 167, 168, 169 173, 174, 184,
  • 358 ÍNDICE ONOMÁSTICO 193, 203, 212, 213, 214, 215, 216, 224, 245, 252, 253. 257, 258, 259, 260, 261, 265, 266, 323, 324, 326, 328. Boa-Vista, ilha da 1 19. Boiron II 253. Bois le-Duc II 272. Bolonha, Matilde delI-295. Bolonha, Roberto de 11-295. Bombaim, ilha de 1-275-11-252, 253, 280, 295. Bordéus-11-250. Borkelo II 272 Bornéu, ilha de 11-128, 133, 254 Borriquém, ilha de-11 251. Bote, Mangue la-II 236, 237. Boton 11-254. Bourbon, ilha 11-251. Brabante II 272. 274 Braga-II 295. 296. Bragança 11-296. Bragança, D Constantino de II- 111, 138, 152, 283 Bragança, Duques de 11-296. 299. Brâmanes, enseada dos-II 282. Branco, António lI 51. Branco, cabo-II-258, 341 Brandeburgo, eleitor de 11-272. Brasil-I 19, 26, 27, 282, 336 II 7, 136, 150, 163, 164, 165, 166, 167, 173, 185, 208, 221, 223, 225, 227, 228, 229, 230, 231, 232, 234, 237, 238, 239, 241, 247, 252, 258, 293, 294, 306, 307, 330. Brasil, Vice-rci do-II 226, 228, 230, 235, 236, 237, 240 Brava, ilha 1-19 II 289. Brebique-II 253. BredaII-272. Brederodes II 273. Brest II 250. Bretanha II-245, 250. Brifaut II 239. Brille, La II 274 Brouage II-250. Browers, estreito dc-II-261. Bubu, CanSoé-I-191. Butsson, Muley II 342. Buffecs, MuIey-342 Bugia II 347 Burgos-II 299. Cabeça de África vide Boa Espe¬ rança, cabo da Cabeça das ilhas-vide Tilla du mati* Attolon Cabei, ilha de-II-126 Cabo Bretão, ilha do II 251. Cabo-Verde, ilhas de-I-19 II 167, 252, 258, 259, 264 Cabral, Jorge II 44. Cabral, Pedro Alvares II 227. Caca, Mus
  • ÍNDICE ONOMÁSTICO 359 Cambua, ilha -11-254. Camburlei-II 282. Cam ler-1-28 Camper-II 270. Cana-II 263 Canadá-11-250, 251, 253, 256, 263, 278. Cananor-18, 176, 206, 212, 241, 250, 251, 252, 255, 275, 330, 331, 333, 334, 335 1M61, 194, 204, 253, 277, 307 Cananor, rei de-I-212, 239, 240, 241, 262, 275, 331, 333, 334 Cananor, rei naire de-1 331, 334. Canará-II-13, 32 Canária, ilha-11-255. 258, 263. Canárias, ilhas-1-19, 11-163, 228, 252, 255, 256, 258, 263, 264, 294, 324. Canárias, rei das ilhas-II 263. Candabar-II-259. Candal, Barão dc-II 281. Candar-11 262. Cândia, ilha de II 278, 283, 293. Candu, canal-I-182. Cangir- II 281 Canharoro-1-256, 333. Cantão-11-287, 293 Cantáo, rio de-1-248 Cany 11-345, 347. Capitão do navio «Corvo»-vide Grout, Francisco. Capitão-mor do navio «Crescente- vide Bardeliere, senhor de la. Capocate, rio-1-256. Caranja, forte de - II 252. Caranjã, ilha de-II 252. Carapatan- II 282 Carembola, angra de-Il-269. Carie tl - II 253. 254. Caridu, canal-1-92 Carlos v, imperador-11-251, 284. Carnate, rio-I 275. Carpentária, golfo de-11 254. Cartagena-11-256, 299. Caitago-11 298 Cart guessem -11-252. Cascais II 152. Cáspio, mar-II-262, 263. Cassegan-11-282. Castela-11-91, 299, 3C0. Castela, rei de-11-299 "Castela do Ouro-vide América Central. Castelo-Velho, ilha de-II-252. Castro, D. Álvaro de-11-17. Castro, António de Melo de-11- -253. Castro, D João de-11-16, 17, 18, 191. Castro, D Martim Afonso de-I- -278-II-9, 116, 12', 2C0, 201. Cata, Hussen-1-199. Cata, Mohamede-1 191. Cataio-II 263, 288 Catalunha. II 297, 3C0 Catarina, D -II 295 Catei, ilha de-II-126. Causin, cabo-11-348. Cavalos, pôrto dos-II-256. Cavite-II-286. Ceará-11-252 Cebrcé-11-342 Ceiláo, ilha de 8, 93, 147, 176, 189, 197, 207, 221, 223, 239, 241, 327-11-25, 90, 94, 109, 111, 115, 119, 161, 254, 257, 259, 26), 282, 283, 308, 320. Ceiláo, rei da ilha de-I-222-11. 111, 112. Ceitapour-11-282. Ceitavaca-11-283. Celebes, ilha de-11-126, 254, 285. Cenes, João de-11-202. Ceperoux, forte de-vide Luis, forte. Cerne Etiópica-vide Madagáscar, ilha de Cesar-vide Japão, imperador do César, Júlio-1I-3C0, Cette-11-250. Ceudu, ilha de 1-94. Ceuta-II-341, 347. Ceuta, governador de-II 347. Chfgre, rio-11-256. Chalé-I-176. 256, 301, 316, 317. Chalé, rei dc-I-274, 316. Chaligam-1-242. Chamy-I-207 Chandragiri, rio-I-275. Chansi-11-288. Chantung-II-288. Chatigáo-II-276. Chatigão, pôrto de-I 8. Chatigáo, régulo de-I-247. Chaúl 1-176 11-161, 193, 199, 252, 282. Chaúl, rei de-I-243-II-193, 194.
  • 360 ÍNDICE ONOMÁSTICO Chegalppalt 11-253 Chelindeley, Senhor o Cavaleiro- II 347 Chensi-11 283 Chequiam 11-287. Chilau 11-283 Chile-ll 132, 252. 278 China-I-135. 139, 168, 170. 190, 207, 232. 244. 243, 262-11 13, 27, 53, 58, 81, 109, 113, 115, 116, 118, 124, 129, 130, 13!, 132, 133, 134, 136, 140, 153, 161. 184, 193, 194, 203, 252, 254. 257. 262, 263, 285, 287, 288, 3C6, 309. China, imperador da-11-287. Chinchet II 253. C:.inchéu II 254. Chingalá II-110. Chingleput vide Chegalppalt. Chiploon-vide Chipolone. Chipolone-11 282. Chomambá 1-251, 255, 256, 257, 267, 333. Choyhber, rio 11-282. Chusero II-190. Cidefero-II-346. Cilebar-11-254. Cinde-11-292. Cinguiçar- vide Sadashigoor. Cinomo, ilha de-II 126 Cisne, ilha do vide Mauricia, ilha Cleves, Ducado dc-11-272. Cios neuf, senhor de-vide Grout, Francisco. Cochim-I 8, 71, 73, 78. 84. 85, 96, 102, 175, 176, 177, 181, 182, 183, 184, 189, 191, 193, 198, 218, 2.9, 223, 225, 241, 247, 252, 255, 256, 275, 279, 296, 304, 313, 314, 315, 317, 318, 319, 320, 323, 324, 325, 326, 327, 328, 329, 330, 333-11 22, 27, 29, 107, 108, 132, 150, 151, 161, 162, 180, 192, 194, 195, 196, 253, 260, 261, 277, 307, 3C9. Cochim. capitão ou governador de -1-319, 328 Cochim, rei de 1-222, 223, 275 278, 279, 293, 296, 323, 324, 325, 326-11-157, 162, 204. Cochim, rio de-1-324, 326. Coesi-I-281. Coevordcn II 275 Cogemina, forte de-11-252. Coimbatore-11-254. Coimbra II 295, 296. Coina, rio 11-282 Coligny, forte-II 294. Collo madus, Atollon I 88. Colombo, Cristóvão II 298. Colónia, Bispo de-II 272. Colosseah-vide Calãncia. Colômbia 11-252. Columbo II 110, 254, 283. Coma II 254. Comboiai, iiha de II 285. Comorão II 253, 254, 262, 290. Comoiim, cabo I 84, 221. 274, 275, 327-II 25,90, 109. 113, 161,192, 193, 194, 257, 259, 260, 276. Comoro, ilhas do 1 7, 42, 45 II- 260. Compostela, Santiago de-I-231. Concao-11-254, 282. Concórdia-II 254. Congo II !67, 252, 253, 262, 289. Congo, rei do II 289 Constantinopla-II 343. Coptos vide Cana. Corai, ilha-II 288. Cóidova, foitc de 11-252. Coriare I 255. Cormantim-11-253. Coro II 253 Coromandel I 94 II 253, 254, 270. Correia, Gaspar-II 179 Correntes, cabo das 11-252, 255. Corso, cabo 11-254 Corso, forte de cabo II 253. Corstene, rio de 11-281,282. Corunha II 244, 2->6, 299. Corvo, ilha do II 241, 294. Cossir-vide Berenice Costa Deserta-II 260. Costé, Marcare i 255, 258, 259, 260. Costé, rei de Marcaré 1-259, 260, 267, 263, 313. Coubela 11 254. Coulão 173, 84, 176 II 66. 84, 150, 151, 161, 162, 194, 253, 277. Coulão, rei de-1-275, Couleche-vide Coulete. Coulete-I 255, 263. Coutinho, D. Diogo-II-180.
  • ÍNDICE ONOMÁSTICO 3G1 Coutinho, D. Pedro-11-179, 206, 248. Couto, Diogo do-I-182, 204, 211, 25', 255. 261, 264, 266. 275, 282, 289, 301-11 16, 67, 68, 104, 106, 107, 111, 138, 152, 188. Cranganor-II-194, 253, 277. Cranganor, rio de-1-256. Cristina-11-254. Cristo, Fr Manuel de-1-328, 329, 330, 336. Cristo, Ordem de -11-296. Cromelhunto-11-342. Cruz, Estevão da-II 25. 202. Cuama-II-136, 168, 174, 208. ■Cuama, rio de-vide Negro, rio. Cuba, ilha de-11-251, 255, 256. Cubo-vide, Japão, imperador do. Cudu, ilha de-1-94. ■Cufo kan-11-106. Cugni, rio de-11-281. Cunha, Pêro da-U-51. Cunhale, rei-1255, 260, 261,262, 263, 264, 265, 266, 267, 318. Cunhale, Mestar-I-251, 264. Cunhale, rio de-I-255. -Cunhale, Terra do-vide Costc, Marcare. Curaçau, ilha de-II-253. Curu, Maomc Bode ta-1-185. Dabul-II-161, 193, 194, 253, 281, 282. Daca- II-254. Dalém -U 272. Dalmácia-11-278. Dalscheron - II 254. Damão-II 161. 193, 252. Damasco-II-196. Damieta-11 274. Danda Rojapoor-II-281, 282. Daugim-11-281. Daulatabad-II 259. Davis, estreito de- II 263. Dealcào-vide Idalxá. Decão- II 61 101, 102, 103, 252, 254, 279, 280, 281, 282. Decão, rei do- vide Idalxá. Delf-11-273, 274. Del ti m, forte-H-251. 259, 267. Delfina, angra-11-267, 268. Delâna, ilha - vide Madagáscar, ilha de. Delfos- II 287. Delhi-1-275-II-188, 189, 190. Desejada, ilha II-251, 255, Deventer- II-275. Dias, Bartolomeu-II-265. Dias, Simáo-lI-108. Dicaparli- II 281. Dieppe-II-250. Dio, forte da ilha de-Il-292. Dio, ilha de-1 303, 327-11-16, 17, 18, 25, 136, 161, 191, 192, 252, 292 Diogo Rodrigues, ilha de-I-48, 49- 11-211, 251, 259. Divanduru, ilhas de-I-24l, 331. Doce, mar-11-263. Dombe, Marfim-1-218, 321. Dombo-II-282. Dominica, ilha 11-253, 255. Dordrecht-11 273. Dort-II 273 Douro, rio II-299. Druso II 275. Duarte, infante de Portugal, D.-II- 295. Dunquerque-II 240, 250. Duquela-11 345, 347. Duveland, ilha de-II-275. Eastwich, Edward, B -II 280. Ebro, rio-II-298. Ecluse II 272. Edam-Il-274. Edels II 254. Egipto 11-271, 274 Egipto, suldáo do-H-263. Egmons-II-273. Eidgeer 11-259 Eideler, forte de-II-272. Einatour II 281. H-Catif. mar de-II 262. Eleng II 341. tlinançor, Muley Jacob 11-342,344. Elsimburgo-II-254. Eivas 11-297. Elvualecq, Muley-II 342. Embden 11-272. Emerik II 272 Encantada, ilha-vide Inacessível, ilha Endracht- vide Concórdia. Enguia, ilha-11-253. Entre Douro e Minho-Il-296. Epiro II 278. Epour-II 282. Erari-II-281. 24 II T0l.
  • 362 ÍNDICE ONOMÁSTICO ErasmoTI-274. Erpénio, senhor-II 346. Erzerum-II-263. Escócia-ll-278. EscuriaI-11-346. Espanha 1 24. 212, 302, 327 II-19, 24, 39, 53, 53, 73, 74, 88, 90, 116, 121, 130, 131, 138, 163, 164, 165, 168, 183, 202, 206, 228, 231, 238, 2J4. 248, 256, 258, 274, 295, 296, 297, 298, 299, 300, 3! 9, 320, 324, 327, 342, 344, 347. Espanha, rainha dc-II-175. Espanha, rei de-1-24, 266, 325-11- 25, 27. 68, 72, 75, 77, 104, 105, 107, 108, 111, 127, 131, 154, 156, 164, 165, 166, 168, 169, 192, 200, 202, 203, 204, 205, 214, 217, 221, 222, 228, 229, 230, 231, 234, 235, 237, 239, 240, 272, 286, 295, 297, 298, 300, 307, 341, 347. Espanhola, ilha-vide São-Domin¬ gos, ilha de. Espirito Santo II-252. Espirito Santo, Hospital do-II-279. Espirito Santo, rio do-11-279. Esquibe II 253. Esteiro, forte-11-252. Estêvão, Tomás-II-202. Estremadura-II 296. Etiópia-I-12, 29, 45, 222, 228-11- 150, 172, 181, 289, 329 Etiópia, mar da-II 265, 278. Eufrates, rio-II 262. 263. Europa-1-69, 71. 87. 95, 146, 203, 204, 244, 246, 252, 277, 299-11- 7, 26, 27, 52. 56, 59, 66, 68, 74, 85, 98, 101, 132, 133, 153, 154, 163, 165, 175, 176, 178, 179, 191, 199, 203, 229, 239, 251, 252, 254, 256, 257, 258, 263, 265, 268, 272, 273, 274, 275, 287, 295, 296, 297, 298, Eva-11-282. Évora -11-295, 297. Faial, ilha do-11-294. Falcão, Luis de Figueiredo-11-247, 248. Fanschere, rio-II 269. Faraon, rio-11-268. Faitaque-II-252, 254. Fate-II-343. Faulkner, Alexander-II 88. Fauquemonfll 272. Fazze • 11-262. Fedala-vide Fudela. Feira, Conde da-vide Forjaz, D. João Pereira. Fernandes, Jorge- II-51. Fernandes. Dr. Josc Augusto Fra¬ goso-1-10. Fetnandes, Manuel-11-207. Fernando, rei de Aragào-II-251. Fernando V-Il 298. Fernando Pó, ilha de-1-24. Ferrcira, Manuel-11-248. Ferro, ilha do-II 263. Fêz-11-341, 342, 347. Filipe II, rei-11-265. Filipe IV, rei-II 298 Filipina, ilha-II-286. Filipinas, ilhas-I 178-IM27. 130, 131, 132, 136, 252, 256, 257, 260, 261, 284, 286, 288, 304. Filipinas, Bispo das ilhas-1M30. Filipinas, Vice rei das ilhas-II 130; Finisterra, cabo de-1-217-II 256, 258. Flandres-I 35, 46 11-140, 241,250,. 272. Flessingue- II-275. Florença-11-187. Flores, ilha das-II 241, 294. Florida-11-251, 256. Fogo, ilha do-1-19-11-253. Ford, le -1 34. Forjaz, D. João Pereira-11-60, 66* 159, 200, 201, 202. Formosa, baia-1-29. Forte-Ventura, ilha-11-264. Fortunada, ilha vide Inacessível», ilha. Fortunadas, ilhas-vide Canárias, ilhas. Fotai, rio-II-268. França-1-12, 15. 17, 35, 69, 71, 84, 180, 210, 211, 216, 217, 219, 239, 243, 250, 271, 313, 336 II- 20, 82, 83, 97, 122, 130, 133, 161, 163, 165, 228, 229, 235. 244, 245, 249, 250, 253, 258, 259, 270, 271, 278, 297, 298, 299, 300, 306, 312, 324, 326,. 346, 347. França Antártica-lI-294. França, bastião da-II-250.
  • ÍNDICE ONOMÁSTICO França, rei de-1-167, 179, ISO, 216, 251-11-25, 72, 257, 267, 272, 295, 330. Franceses, ilha dos-11-227. Frias, Manuel-II-248. Frisia-11-273, 275. Fudela-II 341, 342, 348. Fuquiem-II-287. Furtado, João-1-315. Gale-II-110, 111, 254. 283. Gale, ponta de-1-207, 241, 327- 11-113, 259, 260. Galeão, angra do-II 267, 269. Galembule, angra de-11-268. Galiza-11-236, 240, 242, 256,297, 300. Gama, D. Luis da-1 262, 264. Gama, Vasco da-11-265. Gamalana, ilha-11-252. Gàmbia, rio de-11-251, 253. Game, ilha de-1 184. Gameduore-11-254. Gamrou-vide Comorão. Ganabará-vide Rio-de-Janciro. Ganges, rio-1248, 249, 252, 254, 257, 262, 276, 279. Ganjáo-II 254. Garajoz, baixos de-II-259. Garcia, João -1 248. Garona, rio-II 249. Gasconha, mar de-11-256. Gazi, Xá Alamgir-11-281. Gcórgia-11 278 Ghalwar-vide Graen. Giagatay-11-291. Gibel, monte-Il 271. Gibraltar, estreito de-11-341. Gil, António-II 17, 18 Gilolo, ilha de-11-126, 252, 254, 286. Goa, ilha de-1 8, 11, 12, 54, 73, 78, 158, 175, 181, 182, 191,219, 239, 240, 243, 245, 246, 247, 249, 256, 262, 263, 264, 265, 266, 277, 278, 282, 316, 320, 323, 324, 327, 328, 329, 330, 333,335, 336 II-9, 10, 16, 17, 18, 19, 21, 22, 25, 26, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 33, 34, 35, 36, 37, 38, 39, 40, 42, 43, 44, 50, 52, 53, 54, 56, 57, 58, 59, 60, 62, 66, 69, 70, 71, 74, 75, 76. 79, 81, 82, 83, 84, 85. 86, 88, 89, 90, 92, 96, 98, 101, 102, 103, 363 105, 106, 107, 109, 110, 111, 115, 116, 118, 127, 129, 131, 132, 133, 134, 135, 136, 137, 138, 139, 140, 143, 147, 148, 150, 151, 152, 153, 156, 158, 159, 160, 161, 162, 108, 169, 171, 172, 173, 175, 176, 177, 178, 179, 180, 181, 182. 183, 184, 186, 187, 190, 191, 192, 193, 194, 196, 197, 198, 199, 200, 201, 202, 203, 204, 205, 206, 207, 208, 210, 213, 216, 222, 225, 237, 238, 239, 244, 247, 248, 252, 260, 277, 279, 280, 281, 282, 300, 309, 313, 314, 324, 326, 330. Godavery, cabo-lI-259. Gokla-11-280. Golconda-II-252, 254, 259, 275, 280. Golconda, rei de-II-271. Gólio-II-346. Gombroon—vide Comorão. Gombru-vide Comorão. Gomeira, ilha-II-255, 264. Goreia-II-253. Gotemburgo-II-254. Gottevi-II-281. Goude-II-273, 274. Gouveia, André de-I-219. Graciosa, ilha da-II-294. Gracn-II-282. Granada-II 256, 287, 299, 300. Granada, ilha de-11-251. Granadinos, ilhéus -11-251, Grào-Mogor-1-207, 243, 280-11- 183, 186, 187, 189, 190, 191, 193, 194, 197, 198, 199, 280, 291, 292, 302. Grão-Turco — vide Turquia, sul¬ tão da. Grão-Xá-vide Pérsia, sultão da. Grave-II 272. Grécia-II-278. Gronelândia-II-250. Groningue-II-273, 275. Grout, Francisco-I-16, 18, 22, 24. Guadalajara-II-251. Guadalquivir, rio-II-299. Guadalupe, ilha de —11-251, 255, 256. Guadiana, rio-II-299. Guardafui, cabo de-11-176. Guatemala-II-251, 256.
  • 364 ÍNDICE ONOMÁSTICO Gueilhan, Cidy-vide Gueilhan Xeque. Gueilhan Xeque-II-342. 343, 347. Gueldres-11-254, 273, 275. Guevara, Afonso Rodrigues de-II- -108. Guiana-II-251, 253, 278. Gúiena-11-250. Guinc-I-20, 22, 27, 28. 47-11 51, 66, 150, 159, 164, 165, 167,168, 169, 174, 200, 231, 251, 252, 253, 254, 258, 264, 300, 307, 326, 329. Guise, Monsieur de-1321. Guitremberg -11-274. Guloure-11-282. Guradu, ilha de-I-188, 189, 190, 191, 238 Guttamata -11-282. Guzerate-1-106, 176, 212,217,222, 280, 282, 285-11-113, 129, 130, 158, 187, 315. Haia—11 274. Haleuvache, rio de-H-282. Hamed, Custy-1-251, 259, 260, 266. Hamet, Muley-II 341, 342 Hamilton, YValter-I-76 11 280,281. Harlemo-11-273, 274. Haro, D Luis de-11-298. Hassan, Abdul-11-191. Havana II 256. Havre de Grace-II-250. Hawkins, capitão William-II-191, 198. Heleuvake-II 282. Henriqu-, o Grande, rei-Il-234, 250, 298. Henrique II-11-294. Henrique, forte-II-254. Herbcrt-11 267. Herenckassi-lI-281. Herenckassi, rio-11-281, 282. Herpoli-II-281. Hespéria-vide Espanha. Hidalcào-vide Idalxá. Hilário, Padre-I 3l3, 318. Hitou. ilha - II 285. Holanda -1-34,217-U-112.120,121, 122, 160, 234; 261, 271, 272, 273, 274, 275. Holanda, condes de-II-273. Homouvar-II 281. Honam-11-288. Honladila—II-34I, 342, 343, 348. Honduras-11-256. Honwa-vide Homouvar. Home-II 275. Hulst-11-272. Hunvee, rio de-vide Herenckassi rio de. Huquam-II 287. Hutnee-II 281. Ibéria—11 297. Idalcão-vide Idalxá Idalxá—II 16, 26, 30, 58, 82, 101, 102, 103, 104, 105, 106, 107, 162, 181, 279, 280, 281, 302, 309. Ídolos, ilhas dos-II-258. Ilaquim-II-345. Ileng-11-343. Inacessível, ilha-II-264. Indapur-H-254. India-I-7,8. 12, 13,24, 26,27, 29, 33, 34, 37, 38, 40, 44, 45, 46, 49, 51, 61, 66, 71, 75, 76, 78. 87, 100, 102, 103, 117, 140, 144, 147, 150, 153, 174, 175, 176, 177, 178, 179, 182, 184, 189, 190, 191, 197, 200, 207, 211, 212, 217, 226, 232, 241, 242, 243, 244, 245, 246, 247, 248, 249, 260, 264, 265, 272, 273, 275, 276, 277, 278, 281, 282, 296, 301, 302, 303, 304, 306, 307, 319, 322, 323, 344, 326, 327, 328, 331, 332, 334, 335- -II 7, 9, 14, 15, 17, 18, 27, 29, 32, 33. 34, 36, 39, 41, 45, 47, 51, 52, 56, 58, 59, 62, 63, 65, 66, 67, 68, 69, 70, 71, 72, 74, 75, 76.80, 81,82, 83, 84, 87, 88, 89, 90, 91, 92, 93,94, 95, 100, 105, 109. 110, 111, 113, 114, 115, 116, 118, 119, 120, 121, 122, 129, 130, 131, 132, 133, 134, 136, 137, 138, 140, 141, 142, 146, 149, 150, 152, 153, 154, 155, 156, 157, 158, 159, 160, 161, 162, 164, 168, 169, 170, 172, 173, 175, 176, 177. 178, 179, 180, 183, 185, 186, 187, 188, 189, 190, 193, 194, 195, 196, 198, 200, 201, 20Z 203, 204, 205, 206, 208, 209. 212, 214, 215, 216, 217, 218, 219, 225, 228, 232, 234, 239,
  • ÍNDICE ONOMÁSTICO 365 243, 244, 247, 248, 250. 251, 252, 254, 255, 257, 259, 260, 261, 262, 263, 265, 265, 269, 271, 272, 276, 277, 278, 279, 282, 283, 285, 286, 291, 292, 295, 296, 300, 303, 306, 307. 308, 309, 310, 311, 312, 315, 318, 319, 321, 322, 323, 326, 338 Índia, arcebispo da—II 9, 15, 17, 19, 21, 22. 27, 29, 36, 43, 49, 60, 63, 64, 69, 70, 71, 72, 117, 182, 183, 2C0, 201, 204, 205, 208. India, Casa da - II-161. índia, Vice rei da-I-181, 246, 262, 301, 320, 323, 327, 328 11-9, 15, 19, 21, 24, 25, 26, 27, 30, 31. 35, 37, 39, 40, 41, 47, 49, 59, 60, 61, 62, 63, 64, 65, 66, 67, 68, 69, 71, 72. 92, 93, 94, 95, 96, 103, 104, 1(5, 107, 115, 116, 117, 118, 131, 136, 139, 140, 151, 153, 160, 161, 173, 175, 176, 179, 180, 183, 184, 200, 201, 202, 203, 204, 205, 206, 209, 223, 225, 237, 243, 244, 265, 279 Índias, mar das-11-266, 289, 290. Índias Ocidentais - vide América, índico, Oceano-II 304. Indo, rio-I-249-11-186, 262, 263, 276. Indo-China-1-177. Indur-11 259. Industão II-191. Infantes, rio dos-II-279. Inglaterra—I 211, 217-11 190, 198, 253, 280, 293. Inglaterra, rainha de-I-216 II 347. Inglaterra, rei da-II-190, 191, 197, 198. Irlanda-II 278 Isabel, rainha de Castcla-II-251. Isiau-II-252. Islampor-vide Isselampor. Isou-11-285. Ispaham-11 253, 254, 262. Issel, rio-II-272, 275. Isselampor-11-282 Itadu, ilha de-I 222 Itália-II 39, 74, 88. 278. Itapere, angra-II 267. Jacatra—vide Batávia. jafanapatão-II- 254, 283. Jafougo-II-252. Jala-II-283. Jamaica, ilha—11-253, 255, 256. Jambi-11 254-270. Japão, ilha do-I-299-11-109, 113, 115, 116, 118, 129, 130, 131, 132, 133, 134, 136, 140, 161, 203, 254, 257, 260, 286, 288. Japão, imperador do-II 288. Japará-Il-254. Japará, regulo de-II 285. Jaqucte, cabo de-II-252. Java, ilha de-1-8, 135,212-11-109, 119, 121, 122, 125, 126 128, 158, 211, 254, 261, 285, 307. Java, rei da ilha de-I 226-11-89, 121. Jean, Xá-II-190. Jeangir-vide Grão Mogor. Jerusalém-II-287. Jesso, estreito de—11-263. João, D.—vide Ceilão, rei da ilha de. João I, D. (rei de Espanha) II—300. João IV, D.—11-295. João, Duque de Bragança, D.-II- -295. João-Martins, ilha de—II 260. João, Preste - II-176. Jor-II 254. Jor, rei de-Il 89, 115, 116, 117, 118, 121. Jortam—II 284. Jortam, régulo de —II-284. José I, rei D.-II-281. Joseph, Padre-II 347. Judia, baixos da-11151,259, 260. Kasegaon- vide Cassegam. Katerna—11-281. Katra —vide Katerna. Kelsee—vide Calância. Kelsi-II-282. Kervues-11-281, Kesem-II 254, 290. Kiamsi-11-287. Kionsion-vide Ximo, ilha de. Koorchee-vide Coesi. Korrulee-vide Kervues. Krishina, rio de-vide Corstene, rio de. Khrisna, rio de-vide Corstene, rio de. Laboua-II-254. Lacadiva, ilhas de-I 174 II 261.
  • 366 ÍNDICE ONOMÁSTICO Lahore-II 188, 189. Lancerote, ilha —II 264. Languedoc—11-250. Laor-11276. Lará -11-254. Larache-11-252, 341, 347. Larantuca, forte de-II-252. Larck, ilhas de—II 254. Laval-I 7, 16, 17, 30 II 245 Lawson, Vice Almirante-11-347. Leão-II-299, 300. Leão do mar-vide Boa-Esperança, cabo da. Leer Ort, forte de-II 272. Leiden-II-273, 274. Leitão, Manuel-11-108 Lençóis, Terra dos-II-225. Leuvarden-II 275. Leuvin-11-254 Lexotung-II-288. Leyde-II-346. Liampó, cabo de-II-257. Libano, monte-II-278. Liege-II-272. Ligor-II-252, 254. Lima-11 252, 256. Limburgo-II-272. Linha, (Equador)-I 8. Lisboa-I 264 11-25, 27, 72, 74, 91, 92, 95, 116, 137, 143, 150, 151, 153, 159, 160, 161, 163, 164, 169, 202, 203, 204, 205, 208, 226, 238, 241, 242, 243, 244, 247, 248, 265, 274, 295, 296. Losdunen-11-274. Louvre-11-344. Lóvia, ilha de-11 254, 285. Lucena, Padrc-1 85, 182. Luçon, ilha de-vide Filipinas, ilhas. Luçonia-II 130. Luísxill (rei de França)-II 250. Luis XIV (rei de França) -11-250. Luís, forte-11-251, Luis, pórto-lI-250. Lumina, sultão-11-344. Lusitânia-11-295, 299. Macassar-11 252, 254, 260. Macassar, rei de-11-285. Macau-11-27, 130, 131, 132, 133, 161, 252, 260. Maconnodu, ilheta de-1-70, 73. Madagáscar, ilha de-I 7, 8, 29, 30, 33, 35, 38, 41, 42. 43, 46, 48, 102, 128 0-151, 173,211, 250, 251, 253, 257, 258, 259, 260, 266, 267, 303, 306, 307, 309, 324, 325, 328. Madeira, ilha da-II-228, 229, 252, 258, 319. Madraspatão-vide Madrasta. Madrasta.II 253,254. Madre de Deus, rio da-vide Man- dovi, rio. Madride-11-299. Madura, ilha de-II-125. Madure, Naique de-11-277. Maestricht-11-272. Magadoxo-11-289. Magalhães, António de-II-108, Magalhães, Fernão de-11-130, 284, 286. Magno, Alexandre-11-263, 276. Mahamet- II 349. Mahomcra -11-252. Mahomet-vide Mahamet Mahuri-11 251. Maim, rio de-1-255 Maio, ilha de-I 19-11 180 Maiorca. ilha de-11-300, 342. Maire, estreito de le -11-261. Malabar-172, 84, 96, 153. 176, 199, 212, 241, 243, 251, 252, 253, 254, 255, 261, 270, 274, 275, 276, 285, 287, 289, 303, 304, 307, 308, 323, 325, 326, 329, 330, 331 II-13, 71, 110, 120, 128, 129, 158, 161, 162, 194, 204, 253, 260, 270, 276. 277, 302, 303, 307, 315, 317, 321. Malabar, rei de-1-251, 252, 253, 331. Malaca-I-106,219, 278, 279-II 9,27, 89, 90, 94, 109, 113, 115, 116, 117, 118, 119, 121, 124, 126, 128, 129, 131, 132, 133, 134, 140, 161, 196, 200, 201, 254, 260, 261, 283, 286, 309. Malaia- II-254. Malailli-1-43, 44. Malailli, Rei da ilha de-I-43, 44. Maldiva, ilhas de 1-7, 8, 37, 38, 42, 46, 49, 53, 61, 74, 76, 79, 84, 89, 92, 93, 94, 99, 100, 106, 117, 119, 121, 147, 148, 149, 153, 156, 157, 161, 164, 163, 170, 174, 175, 176, 177, 178, 179, 182, 184, 185, 188, 193,
  • ÍNDICE ONOMÁSTICO 367 196, 197, 201, 206, 208, 209, 212, 217, 218, 219, 221, 222, 226, 229, 230, 239, 240, 242, 249, 254, 258, 259, 294, 295, 296, 300, 307, 321, 326, 331, 334 II 83, 87,88, 108, 113, 119, 124, 130, 162, 194, 197, 211, 257, 261, 270, 303, 304, 305, 306, 308, 310, 311, 312, 313, 314, 315, 316, 317, 319, 320, 321, 322, 330, 331. Maldiva, príncipe herdeiro das ilhas de-1-199, 201, 202, 203, 206, 215, 234, 235. Maldiva, rainha principal das ilhas de-1-54, 162, 194, 196, 201, 203, 204, 205, 206, 209, 216, 229, 236, 239, 240. Maldiva, rei das ilhas de-I 52, 54, 55, 57, 58, 60, 62, 63, 64, 67, 68, 70, 71, 72, 73, 74, 75, 76, 77, 79, 80, 81, 82, 83, 85, 94, 96, 97, 102, 103, 104, 107, 111, 112, 113, 114, 116, 117, 118, 119, 120, 121, 122, 124, 126, 129, 130, 134, 135, 136, 138. 141, 148, 149, 150, 155, 156, 157, 153, 159, 160, 161, 162, 163, 164, 165, 166, 167, 168, 169, 170, 171, 172, 173, 174, 175, 179, 180, 181, 182, 184, 185, 186, 187, 189, 190, 193, 194, 195, 196, 198, 199, 200, 201, 202, 203, 204, 205, 2C6, 209, 210, 211, 212, 213, 214, 215, 216, 218, 219, 220, 221, 222, 223, 224, 226, 227, 228, 229, 230, 231, 232, 233, 234, 235, 236, 237, 238, 239, 240, 241, 242, 258, 25911 107, 331, Maldiva, Rei cristão das ilhas de - 1-54, 78, 158, 181, 184, 191, 219,11-107, 108 Malé, Atollon-I-88. Malé, ilha de-1-54, 55, 68. 70, 71, 73, 76, 77, 78. 79, 82, 92, 102, 103, 104, 105, 107, 111, 113, 116, 122, 126, 135, 138, 155, 157, 158, 166, 163, 171, 177, 181, 182, 183, 184, 185, 186, 188, 195, 193, 201, 204, 209, 210, 211, 212, 213, 214, 218, 222. 224, 232, 233, 234, 237, 238-11 120. Malembo-11-289. Malicute, ilha de-I-240, 241. Malique, canal de-11-261. Maios madu, Atollon 1-88, 92. Malta, Enfermaria de-II-279. Maluco, ilhas de-1-243, 336 11-109, 115, 118, 119, 122, 125, 126, 128, 131, 136, 251, 252, 254, 257, 261, 284, 285, 286, 288, 308. Mamale, canal de-vide Malique, canal de Mamede-Cào-11-106 Mamora-II 341, 342, 347. Manado-II 254. Manambato, rio-11-268. Manampani, rio-11-268. Manangare, rio-11-268. Mananguru, rio-11-268. Mananzare, rio-11-268. Manar, estreito de-11-283. Manar, ilha de-II 254, 282, 283. Manatenga, rio-H-269. Manderei, rio-II 269. Mandovi, rio-11-281. Mangafia, rio-11-268. Mangalor-1206-11-161, 194, 204, 253. Mangasi, rio - II 268. Mangi-11 288. Manhate-vide Nova-Amesterdáo. Maniassa-1-271, 314, 315. Manilha, baía de-II 286. Manilha, ilhas de-vide Filipinas, ilhas. Manorá, forte-II 252. Mansiatre, rio de-II-269. Maquiem, ilha de-II-126, 254, 285. Mar, rio do-vide Savitree, rio. Maranhão-11 252, 293. Maranhão, rio-vide Amazonas, rio Marcare-II 197. Marcare, Cunhale-vide Cunhale, rei Mardik II 250. Marembuve, rio-11-269. Maret-II 343. Maria, D.-II 295. Maria, Frei Agostinho de Santa H- 70, 182. Maria-Galante, ilha de-II 251. Maria, Virgem-11 349. Maricece, ilha-11-252. Mariem-vide Maria, Virgem.
  • 368 ÍNDICE ONOMÁSTICO Marrocos 11-252, 341, 342, 343, 345, 346, 348. Marrocos, rei de-11-343, 344, 345, 346. Marselha 1-321-11-236, 250, 262, 263, 347 Martabane-I 191-11-138. Martim, Padre-11-287. Martinica, ilha da-II 251. Martins, Paulo-11-108. Mas, De-11-343 Mascarenhas, D Fernando-11-118. Mascarenhas, D. Pedro-H 118. Mascate- II 56. Maspillaspury, ilha de-1-204, 209. Masulipatão-1-168. 176,219, 223- II-129, 253, 254, 259, 262, 275. Matalief, capitão Cornélio-II 115, 117. Matão, ilha de-H-286. Matatara-II-268. Materan, imperador de-11-284. Matoura- II 281. Mauricia-II 254. Mauricia, ilha-11-253, 259, 261. Mauricio, Conde-I-271. Mauritânia-ll 341, 342, 347. Mayence-vide Mcgúncia. Mazagão-11-252, 341, 348 Mazagáo, aldeia de-II 252. Mazul-Patan-vide Masulipatão. Meaco-11-288. Meale Kan-JI-104, 106, 107. Meca-198, 120, 136, 2C6, 249, 297. Meca, estreito de-11-173, 176. Mecera-11-343 Medieis, D. Catarina de-11-293. Medinatalnaby-1-98. Mediterrâneo, mar-11-249, 250, 262, 263, 297, 300, 341, 347. Meliapor-11 270. Melinde-1-29, 222-11-83, 136,172, 176, 198, 252, 289. Melinde, forte de-11-252. Mclique-vide Chaúl, rei de. Meiissa-H 348. Melo, Francisco de-11-139. Mena, Maria-11-238. Menancabo-11-270. Mendonça, Andrc Furtado de-I- 264, 265-11-60, 111, 116, 180, 201, 202, 203, 204, 205, 206, 248. Mendonça, D Diogo Furtado de¬ li-201, 324 Mendonça, João Furtado de-II 237i Meneses, D. Duarte de-II-138. Meneses, D Fernando da Silva de -II 198, 230 Meneses, D. Francisco de-vide^ Brasil, Vice-rei do. Meneses, D. Francisco de-vide Cochim, capitão ou governa¬ dor de. Meneses, D. Frei Aleixo de-vide- lndia, arcebispo da. Meneses, D. Henrique de - 1 301. Meneses, D João de-vide Xá, D. João de Meneses Meneses, D. Manuel de — II 203,. 206, 247, 248. Menutias, ilha - vide Madagáscar,, ilha Mercure, Monsieur de —11-235. Mérida -11-299. Mesa, baia da —II-253, 261. Mcssa,—11-341, 348. Meuvis, ilha-vide Neves, ilha das. México - 11-130, 132, 251, 255, 256, 260, 261, 278, 286, 288. Mhuesal — vide Mirsiec. Miau, ilha de-II-126. Middelburg - II 272, 275. Miguel, Julião-11-234, 235, 236: Mil, Pain de-II-239. Milão-11-187. Milla due madue, Atollon —1-88. Mindanau, ilha de-11-286. Minorca, ilha de -11-300. Mirsiec-11-282. Misdué, ilha de —1-185, 186. Moca-II 254. Moçambique — 11-252, 269, 289, 29), 310. Moçambique, governador da ilha de-vide Ataide, D. Estêvão de. Moçambique, ilha de—1-42, 43, 46, 319-II 27, 51, 62, 90, 94, 131, 136, 150, 151, 161, 165, 167, 168, 169, 170, 171, 172, 173, 174, 175, 176, 202, 203, 2<’8, 215, 260, 267, 269, Modeliar, D. João-II-111. Mogador-11-341, 345, 348. Mogana-II 256. Mogol-1-207, 244,-11-105, 254, 257, 259, 276.
  • ÍNDICE ONOMÁSTICO 3G9 Mogúncia —11-273. Moisés-II-298. Moluca, Atollon-I-88. Mombaça-11-176, 198, 252, 289, 290. Moníia-11-252 Monomatapa-II-173, 252, 263, 278. Monomatapa, imperador do-Il- 278. Monserrate, ilha-11-253. Montesa, ordem de-11-298. Montreal-11-251. Morais, Manuel de-II-108. Morbihan-11-250. Morcia-11-278. Morei-11-282. Morgor-I-190-11-136. Morgor, sultão de-1-181. Morigorão, ilha de-11-126. Mormugão—11-279. Morombe, rio-II 268. Morro, forte de-II 252. Mosa, rio -II 272, 275. Mosca-II 263. Moscovo-II 263, 278. Motangué-1-250, 251, 255, 256, 258, 264, 272, 316, 330, 333. Motangué, rei de-I 250, 251,275. Motir, ilha de-II-126, 254, 285. Moulá-II-47. Muçá, Cuti—1-262, 265. Munster-II 274. Munster, bispo de—11-272. Múrcia-II 300. Murray, Hugh-IM91, 280, Mus-Arábia-vide Espanha. Nafaquia-vide Nahaca. Nahaca-II-254. Nanquim-II 287. Nantes-II 234, 250. Naroa de Bicholim-II-103. Naschange- 11-253 Nassau, forte de-II-253, 254, 286. Natal-I 29, 30,7911 150, 169, 212, 214, 216, 260, 323, 329. Natal, cabo-vide Ambro, cabo. Natividade, põito de-II-256. Nauapor-11-259. Navarra-II-299, 300. Nayssa, Cidy-vide Nosso Senhor. Negapatào-II-253, 254. Negrilho, cabo-11-256. Negro, mar-II-262, 263, 278. Negro, rio-II-174, 175, 176, 252, 279. Negumbo-II-254, 283. Nepal -II 262 Nepigiguit -11-251. Nera, ilha de-11 254, 285. Nero-11 275. Neuburg, duque de-II-272. Neuf, Du CIos-II-330. Nevada. Serra-II 300 Neves, ilha das-II-253. Nicanor II 262. Nicobar, ilhas de -II-83, 261. Nillandus, Atollon-I-88, 185. Nilo, rio-II-263. Nimmegue - II 275. Niphon, ilha—II 288. Nizau, ponta-II 255. Nome de Deus-II-256. Normandia — 11-2)0. Nossa Senhora do Rosário, ilha de-II-252. Nossari-II 259. Nosso Senhor-11-349. Nouvelle, La-II 250. Nova-Amesterdào-11-253. Nova-Arábia-11-289. Nova-Dinamarca-II-254. Nova-Castela-vide Filipinas, ilhas. Nova-Espanha - II-130, 132, 251, 255, 256. Nova-França —vide Canadá. Nova-Granada-vide Colúmbia. Nova-Holanda-II 253, 254, 272. Nova Inglaterra -11-253. Nova Suécia II-254. Nova-Zelàndia-II-272. Nova-Zembla- II 263. Novo-México-II-251. Nuitz-11-254, 272. Nunes, Mateus-II-108. Oca—11-263. Ocidente-II-250, Ccoa-11-255. Odia-II 252, 254. Cerca-11-282. Oleron, ilha de-II-245. Olonne-11-250. Omgar—11-281. Onfroy—11-341, 343. Onglaté, rio de-vide Santo Agos¬ tinho, rio de. Onor-I-176-11-161, 194, 204, 253, 277.
  • 370 ÍNDICE ONOMÁSTICO Orange, forte de-II-253. Orange, príncipes de-II-274, 346. Oriente-1-II, 16, 179, 197, 254, 311 11-18,27, 108,125,250,270, 287, 295. Orixa-lI-254. Ormuz, ilha de-I 264, 307-11 53. 60, 62, 66, 90, 113, 115, 118, 131, 132, 136, 161, 178, 179, 180, 181, 183, 185, 192, 196, 206, 254, 262, 290. Ormuz, rei da ilha de-Il-72, 180, 181, 182. 183. Orsoy-II-272. Osgra-11-252. Ourique-II-297. Outor-II 281. Over Isscl-vide Trans-Isalane. Pachá, Akebar-vide Grão Mogor. Pacífico, Oceano-II 261, 276, Padypolo, Atollon -1 88. Paindué, ilha de-I-56, 58, 60, 61, 63, 64, 67. 68, 69, 82, 233. Paindué, senhor da ilha de vide Atacuru, Aly Pandio Palambuam, régulo de-II-254. Palaveram, ilha-11-253. Palecate-II-254 Palimbão-II 254, 270 Paliporto-I 256. Palma, ilha de-11-258. 263, 264. Palmeiras, cabo das-II 259. Palmeia-II 296. Panamá-II 252, 256. Panane-I-296, 301, 304, 307, 313. Panane, rio de-I 256 Panaruam, régulo de-II-284 Panarucam, régulo de-II 284. Pangim-II-I6, 42, 49, 63. Pangol-11-259. Panjab, rio-vide Indo, rio. Pão-11-254. Papa -II-22, 46, 69, 72. 75, 230. Papuas, terra dos-II-286. Pará-11-252, 293. Paragoia, ilha-II 286. Paraguai-II 252, 278, 289. Paraíba-11-252. Paraná-11-289. Paranor-I 256. Paranorá-1-256. Parcel, baixos do-II-259, 269. Paris-II-343, 344. Patam-II 187, 262. Patane-11-254. Pate-11-252. Patna-11-254, 262. Patn-II 259. Paulo, D -1-219. Pedrosa, Pedro de-1-328. Pegu-II-105, 115, 161, 252, 254, 283. Pegu, rei do-11-283. Pelágio -11-299. Pentagoet-11-251, 253. Pepin, Tomás-1-23. Pequeno Niort, baía do-11-251. Pequim-11-288. Perá-II 254. Pereira, Bartolomcu-II-51. Peres, R Caetano Joáo- II-17. Perez, António-11-250 Pernambuco-II 163, 164,229,241, 252, 294. Péro-Soares, enseada de-II-282. Pérsia-1-12, 190, 208-11-33, 52, 53, 58, 61. 80, 98, 105, 129, 132, 133, 158, 178, 179, 181, 185, 196, 206, 252, 254, 257, 278, 290, 298, 320, 338. Pérsia, embaixador da-11-248. Pérsia, sultão da-1-181-11-180, 190, 206, 292. Pérsico, mar-II-192. Peru-11-130, 132, 236, 252, 256, 288. 293. Pescaria, costa da -11-283 Pestana, governador José Ferreira- II 42 Pettah-11-253. Pettapoli vide Pettah. Pico, ilha do-II-294. Pico, montanha do-11-263. Pimenta, ilha da- II 261. Pina, Ambrósio de-11 247, 250. Pinos, ilha de-II 255. Pinson, Vicente-*11 227. Pinto, Fernão Mcndes-I-11. Pipeli-11-254. Pipilipatan-11-254. Pirenéus, montes-II-278, 297, 300. Pitágoras-1281-11 187. Plaisance-11-251, 253. Plinio- II 335. Poecaca -1 212. Poitou - II-250 Poli-II 282. Pollasura-11-254
  • ÍNDICE ONOMÁSTICO 371 PoIIuoys, ilha de-I 221, 254. Polo, Marco-II-267. Polónia-11-278. Polsera-vide Pollasura. Pombal, Marquês de-II 281. Pontevedra-11-236, 244. Ponto-Euxino-vide Negro, mar. Põrto- II 238, 295, 296. Põrto-dos-Banhos, baixo de-II- 259. Põrto-Belo-II-256 Põrto Grande-II 258, 259. Põrto-Pequeno - II-2.59. Põrto Real 11-251, 253. Pòrto-Rico, ilha de-II 255. Pòrto-Santo, ilha do-11-252, 258 Põrto- Seguro -11-252. Portugal-I-19, 78. 175, 190. 246, 264, 326, 327-11 10, 15, 18. 19, 24, 28, 30, 33. 34, 36, 37, 38, 39, 43, 56. 57, 60, 62, 63, 66, 68, 69, 70, 71, 72, 73, 74. 75, 76, 78. 80, 83, 84, 91, 92, 93, 94, 100, 131, 136, 137, 138, 140, 141, 142, 146, 147, 148, 149, 150, 152, 153, 155, 158, 159, 161, 162, 163, 164, 166, 167, 169, 170, 171, 173, 175, 180, 182, 196. 198, 201, 202, 204, 206, 208, 216, 217, 221, 224, 225, 228, 230, 231, 237, 239, 240, 241, 247, 243, 253, 260, 279, 286, 295, 296, 297, 299, 300. Portugal, rei de-I-184, 264. 271, 302, 327, 332-11-11, 22, 23,25, 33, 35, 36, 37, 41, 50, 53, 59, 60, 63, 64. 65, 66, 68, 69, 71, 73, 74, 84, 90. 91, 92, 94, 96, 97, 102, 104, 106, 107, 131, 132, 135, 136, 133, 139, 140, 142, 143, 146, 147, 148, 149, 152, 153, 154, 156, 158, 160. 161, 162, 171, 175, 179, 180, 182, 183, 201, 2<:6, 209, 224, 231, 251, 278, 293, 297, 299, 341, 347. Potosi, montanha de-II-166, 256. Pouleron, ilha —vide Palaveram, ilha. Prata. Rio da-II-I66, 230, 231, 236, 252, 289, 293. Priaman-11 254. Príncipe, ilha do-II-167, 252. Provença-II-236, 250. 343. Providência, ilha-vide Santa Cata¬ rina, ilha de. Ptolomcu-1-249. Puá Molluca, Atollon-I-89. Pudepatão, rio de-I 255. Pudiangaré-I 256. Puladu, ilha de-1-53, 54, 55, 56, 57, 61. 62, 63, 64, 67, 68, 72, 73, 194. Puladu, senhor da ilha de-vide Quilage, Ibrahim c Puladu. Pulisdus, Atollon-I 88, 92. Pulisdu, canal de-1-92. Pulo Lada, ilha de-vide Pimenta, ilha da. Pyrard, Francisco—1-7, 8. 11, 12, 13, 93. 182, 204, 249, 255, 256, 260, 266, 289-II- 9, 17, 38, 41, 42, 44, 48, 49, 66, 70, 83, 115, 126, 133, 139, 190, 199, 200, 203, 218, 237, 243, 247, 248, 255, 262, 266, 269, 279, 323. Qualampor-II-282. Quansi- 11-287. Quebec-II-251. Queimados, ilhéus—11-163, 208. Quelimane-II-252. Quelme-Mahim, forte de-II 252. Quicheu - II 288. Quiçoré vide Tiracole. Quilagué, Assan-1-185. Quilague, Ibrahim e Puladu-1-54, 64, Quilague-Manaye-1-188. Quilagué, Misdué-I 185. Quiloa-11-289. Quíloa, forte de-II-252. Quina, rio-vide Coina, rio. Quissorá II-259. Quitangonha, rio da-II-260. Quito-11-252. Rachil, rei-vide Ceilão, rei da ilha de. Radia, rei Ali-vide Cananor, rei de. Raeebag vide Raibag. Raibag-11-281. Rajá, Aly-vide Cananor, rei de. Rajapour-II 282. Rajú-vide Ceilão, rei da ilha de. Rajura-II 259. Rama 11-283. Rama, cabo da-11-162.
  • 372 ÍNDICE ONOMÁSTICO Ramena, Laussi -11-343. Raz, bico do • 11-250. Razilly, senhor-II 343, 346, 347. Recarcdo I, rei-11-299. Redel-11-345. Reez-11-272. Reno, rio-11-272, 274, 275. Revenge -11-254. Rhimbcrg-11-272. Ribeira-Grande-11-264 Rieval-11-342. Rima- II-254 Rio-Grande-11-252, 256. Rio-de-Janeiro-11 252, 294. Rivara, cons ro Joaq.m Heliodoro da Cunha-1-9, 10. Rochela- I-219-II 82, 239, 244, 245, 250. Ródano, rio-11-262. Rodolfo -11-346. Rodrigues, Diogo-II-108. Rodrigues, Maria-1151. Rodrigues, Simão 1-191. Rodrigues, D. Pedro-II 24. Rolduc-11-272. Rolim, Manuel Barreto-11-247. Roma-11-250, 279, 298. Roque-Pires, ilha de-II-259. Rossilhâo- II 250. Roterdão-II-274, 275. Rouen-II 25. Rovenstein, castelo de-II-272. Roxo, mar-II-188, 192, 263. Rufisque-11-251, 253. Rumi, Muhamed Bin Hasan-11- 281. Sabá, ilha de 11-253. Sabou 11-254 Sabugo-11 252. Sacay II-288. Safim-II 341, 342, 343, 345, 346, 348. Saguenai, tio-II-263. Saia-de-Malha, baixo da-II-259. Saint Maló I 16. 17, 24, 29. 36, 48, 63, 79 11-218, 224, 225, 250, 254, 328, 330. Saintonge 11-250. Sal, ilha do-I 19. Sal, rio do I 255. Salcete, ilha de-11 16, 90. 104, 107, 252. Saldanha, aguada do-II 258. Saldanha, Aires de-I-264. Salé 11-341, 342, 343, 348. Salé, bispo de-vide Trindade, D. Frei Domingos da. Salomão-II 174, 278. Salomão, ilhas de-H 252. Samatra, ilha de 1-8. 55, 60, 72, 103, 106, 135, 176, 178, 181, 189, 190, 207, 216, 217, 243, 328II 25, 109, 115, 117, 119, 121, 122, 126, 128, 158, 211, 254, 261, 270, 284, 307, 309, 321, 331. Samatra, rei da ilha de-Il-89, 117, 119. Samc, rio-II-268. Samorim-1-251, 255. 257, 258, 259, 261, 262, 263, 264, 265, 266, 267, 269, 270, 272, 273, 274, 275, 277, 278, 279, 282. 283, 288, 289, 293, 295, 296, 297, 298, 299, 302, 303, 304, 305, 306, 307, 308, 309, 310, 311, 312, 313, 314. 315, 316, 317, 318, 324, 326-11-157, 195, 197, 277, 302. Sangar, estreito de-II-288. Sangcns, forte de 11-252. Sanguicer vide Sadashigoor. Santa-Bárbara, ilha de-II-258. Santa-Catarina, ilha-II-253, 258. Santa-Clara, ilha de 11-268. Santa-Cruz II 341, 343, 348. Santa-Cruz, iiha de-II 251. Santa Cruz, Terras de-vide Brasil. Santa-Helena, ilha de-1 7, 25, 26, 1183, 152, 169, 206, 216, 217, 218, 219, 220, 221, 222, 253, 250, 265, 310, 326, 330. Santa-Luzia, ilha de 1-19 II 251, 253, 268 Santa-Maria II-256, 268. Santa-Maria, ilha de-11-251, 294. Santa-Marta 11-256. Santander 11-256. Santaicm-Il-296. Santiago de Compostela-II-244, 299. Santiago, forte de-II 281. Santiago, ilha de-I-19 II 172, 264. Santiago, Ordem de-11 296, 298. Santo-/Vgostinho-II-346, 349. Santo-Agostinho, baia de-I 33-II- 241, 251, 259, 267, 269. Santo-Agostinho, cabo de-II 241_
  • índice onomástico 373 Santo-Agostinho, rio de-II-269. Santo-André, forte de-II 253. Santo-André, passagem de-II-299. Santo-Antão, ilha de-I 1911-238. Santo-António, cabo de-II-255. Santo-Eusláquio, ilha de-II 253. Santo-Tomé (CoromandeI) II-270, 271. Santo Tome (Meliapor)-II-270. Santos, ilha dos-II-251. Sáo-Bartolomeu, ilha de-II-251. Sào-Borodon, ilha de vide Inaces¬ sível, ilha. São-Brandão, baixo de-II-259. São-Cristóvão, ilha de-II 251, 253. Sáo-Domingos-Il-255, 256. São*Domingos, ilha de-II-251, 255, 256. São Filipe, ilha de-vide Fogo, ilha do. São Gil, rio de 11-269. São Jerónimo, forte de-II-252. São Joào-11 251, 253. São-Joáo-de-Luz-II 236. Sáo-Joáo-de-Ulhoa II-255. Sào-Jorge, ilha de II 172. 294. São-Jorge, ilhéus de 11-279. Sáo-|orge-da-Mina 11-167, 253. Sào-Lourenco, ilha de-vide Mada¬ gáscar, ilha de. São-Lourenço, rio de-II 251. São-Lucar-de-Barrameda-II 256. São-Luís, Bispo Conde D. Frei Francisco de-II-18. São-Marcos, forte de II 252. São-Martinho, ilha de II 251, 253. Sáo-Mateus 11-251 Sáo-Migucl, forte de-II 251. São-Miguel, ilha de II 294. Sào-Nicolau, ilha de-1 19-11-264. Sáo-Pedro, forte de-II-251. Sáo-Pedro, penedo de 11-259. São-Salvador II 226, 227, 228, 237, 240, 294. São-Sebastião, cabo de-II-269. São Tomé, ilha de 1-168,176 II 129, 167, 228, 229, 252, 253. São-Vicente II-252, 293, 294. Sáo-Vicente, cabo de-II-256. Sào-Vicente, ilha de-I-19-II-253, 258. São-Vicente, rio de-11-168. Saragoça-ll 299. Sardinhas, baía das-I-28. Sas de Gand-II-272. Satará, Rajá 11-281. Savetree, rio-II-282. Savo, ilhas de-II-254. Scheling, ilha-II 275. Schenk, forte de-II 275. Sebastião, D.-II-296, 341,342, 348. Segana-11 345. Segó via-11-299. Sena-II-252. Sena, rio-1 39. Senegal, rio 11-251. Serbidar-II-259. Sergipe-11 252. Serra Leôa I 20-11 264, 329. Sete-Corlas-II-285 Sete-Irmàos, baixo de-II 259. Setúbal-II 296. Sevilha-II-234, 274, 299, 344. Shastree, rio II 282. Shcevapoor vide Ceitapour. Siáo-II-115, 138, 252, 253, 254, 262, 283. Sicília, ilha -11-270. Sidrão, António-II-108. Sifardan 11-282. Silkokf, ilha-vide Xioco, ilha de. Silva, Luís da-1-263. Silva, Manuel Galvão da-II 313, 314. Silveira, António da-II-17. Simiame baia-II-268. Simões, Joào-II-108. Sinai, monte-II 298. Sinde-II 276. Singapura, cabo de-II 257. Singora-II 254. Sina-H 178. Sirião—11-254. Sixto V, Papa-II-250. Skoeoeri -11-281. Soba-II 289. Socotorá, ilha de-H-136, 176, 177, 252, 254, 29U. Socotorá, rei da ilha de-II-177. Sofala-11-136, 165, 167, 168, 174, 175, 176, 203, 208, 252 Sofala, imperador de 11-278. Sofi-vide Pérsia, sultão da. Sohali-II 291. Solor, ilha de-II-252, 254. Soma, rio -II-270. Sonda, arquipélago da — I-190, 207, 208, 219, 243, 244, 336-11 89
  • 374 ÍNDICE ONOMÁSTICO 90. 109, 113. 115. 116, 118, 119, 121. 126, 133, 136. 154, 171. 196, 200, 211, 260, 284, 286. Sonda, estreito da-II 122. Sonda, mar da-II-127. Sousa, Padre Francisco de—II-16, 17. Sousa, D. Jorge-II-152. Sphilbcrt-I 28. Spigelberg-II 272. Srevurdhun-vide Sifardan. Staveren-11-275. Suadu, Atollon-1-82, 83, 89, 106, 182, 184. 188, 201, 233. Suadu, canal-I 92. Sul, ilhas do-vide Sonda, arquipé¬ lago da. Sumatra, ilha de—vide Samatra, ilha de. Sunda, ilha da-11-257. Supera-II 282. Suria-Il-278. Sutiname-II 253. Surrate-I-176, 207, 210, 211, 212, 249, 280—11 13, 33, 83, 136, 137, 161, 183, 184, 186, 187, 191, 192, 197, 198, 199, 200. 252, 253, 254, 259, 262. 269, 271, 276, 291, 292, 304, 308. Surrate, rio de-II-197. Suscucm—II 288. Suz-II 341, 342, 343. Tabago, ilha de-II-253. Tabiola-II 254. Tablc-bay-vide Mesa, baia da. Tacuru, Caffin-I 204. Tacuru, Parenae-1-189. Tadousac-II 251. Tafaso-11-254. Taflet-II-282. Tagaunest-11-341. Tagrin, cabo-Il-253, 258. Taisenghe-II 281. Taluco-II-254 Tamaracá-H 252, 294. Tamba —11-282. Tambiranc-1-266. Taná-II-252. Tanasserim-11-252, 254, 262. Tanganor-II-343. Tânger-II 253, 295, 341, 342, 347. Tânger, governador de-11-347. Tangli-11-281. Tangree-vide Tangli. Tanor-1-176, 198. 256, 317, 316- II 194, 195, 277. Tanor, rei de-1-198, 199, 275, 317- 11-195, 197. Taprobana, ilha da-vide Ceilão, ilha de. Tapti, rio-11-271. Tarapor, forte dc-11-252. Taroula, ilha-11-252. Tarragona-II 299. Tartâria-11-199, 237. Tartaruga, ilha-11-251. Tarudan-H 341. Tausit, rio-II-345. Távora, Cristóvão de-11-60. Távora, Rui Lourenço de-11-60, 180, 200, 202, 203, 248. Tejo, rio-11-138, 296, 299. Tekotch-vide Ticota. Tenasirim-11-109. Tendaia-vide Filipina, ilha. Tenerife, ilha de-11-258, 263, 264. Terceira, ilha-II-241, 294. Terceiras, ilhas-vide Açores, arqui¬ pélago dos. Ternate, ilha de-11 125, 126, 127, 131, 252, 254, 285. Ternate, rei da ilha de-11-126, 285. Terra Austral-11-254. Terra-firme-vide América Central. Terra Nova, ilha da-11-251, 253, 256. Terra-Santa-II 271. Tetuâo-11-341, 342, 343, 347, 348. Texel - II 274 Thearundcm II 343. Ihornton. Edward-11-280. Tibério-II 275. Tiburon, cabo-II 255. Ticota-II 281. Ticou, ilhas-II 254. Tidore, ilha de-Il-126, 252, 285. Tidore, rei da ilha de-II-285. Tigris, rio-II 262. Tilla du matis, Atollon-I-S8. Timor, ilha dc-II-252, 254. Tiracole-1-255. Tissuary, ilha de-vide Goa, ilha de. Tocoma-II-254. Todos os Santos, baia de-II-150, 163, 210, 223, 227, 229, 231, 234, 244, 252, 294.
  • índice onomástico 375 Toledo-II 299. Tolo-II-252. Tomar-II 296 Toncq-II 282. Tosão, Ordem do-II 298. Toulon-II-250 Tranguerari -11-253. Tranquebar-11-254. Trans-Isalane - II 273, 275. Trás-os Montes—11-296. Travancor-11 277. Trebizonda-11 263. Tremapatão, ilhéu de—I 255. Tremblade-II 250. Trcs-Rios-II-251. Trigaut, Nicolau-11-202 Trindade, baia da - II 253. Trindade, D. Frei Domingos da- II 71. Trindade, ilha da-II-253, 258. Trinquilemale-11 254, 283. Trípolí - II 341. Tristáo-da Cunha, ilhas de-II 258. Truxilho-II 256. Tubão-II-125. Tubáo, rei de-II 125, 284. Tucuman- II 252. Tucuru, Mohamed Ranabandey- 1-55. Tucuru, Rana Banduy-I-240. Tufilely-vide Tufilet. Tufilct —11-347. Tulsung -vide Taisenghe. Tunes-II 341, 348. Tunkim-ll 253, 254. Turquia-11-178, 278. Turquia, sultão da - I-181-11-190, 257, 292. Tuticorim-II 253. Uadu, AtolIon-videSuadu, Atol- lon. Udeguir-vide Eidgcer. Uguli-11 254. Ustimé, ilha de-I-240. Utreque-II 273, 275. Vahaf, tio—II 272. Vai, P. du-I 12, 13. Valcaseba-H 345. Valcherem, ilha de-II-275. Valência—II-299, 300. Valhadolide- II-299. Varénio, Estrabão-II-335. Vassenaer -11-273. Vaypin, ilha de-I-324. Veigats, estreito de-II 263, 272. V*la, cabo da II 256. Vendres 11250. Veneza-I 44 11267. Vera-Cruz -II-255. 256. Veradpatan—II 282. Verde, cabo-11-166, 167, 174, 180, 251, 253, 258, 306. Vermelho, mar—I 87-11-252. Verserée- II 281. Vesins, Miguel dc-II-346 Ve.-tfália-II 272. Vias, Pedro Lourenço Bate-H-108. Vila-da Praia-II 264. Vila-Viçosa-II 296. Villegagnon-11-294. Vingorlã II 254, 282. Vingue-Il-282. Virgínia 11-253, 256. Visapor-II-103, 104, 279, 281. Vitória, ilha-II 285. Vitré-I 16. 34, 80. Voemaro, baía de-II 268. Volga, rio-11-263. Vorri-lI-231. Wasishtee - vide Haleuvache, rio de. Wasisptee-II 282. Wesel-II 272. Witz-Il-254. Xá-Abas- II 290. Xá, Abu! Ghazi Nizam-II 280. Xá, Ali Adil-11-280. Xá Chroram- II 292. Xá-Jchan-vide Xá Choram. Xá, D. João de Meneses-II-106, 107, 108. Xá, Miale-II 107. Xael-vidc Cael. Xeque, Muley Hamet-II-342. Ximo, ilha de-II 288. Xioco, ilha de-II-288. Yedo, forte de- II 288. Yeso -11-288. Yumam-11 287. Zambeze, rio-II 263, 279. Zangue bar-II-252, 257, 289. Zanguizara-vide Sadashigoor. Zanzibar, ilhas de-11-198. Zebu, ilha 11-286. Zelândia-1-28, 218-11-273, 274, 275. Zidan, Muley-II 342, 343, 345, 347. Zutphen-II 273, 275.
  • 4 Êsre Índice foi organizado por JOÀO PERRY DA CAMARA
  • Biblioteca | pHistóricaS Â DE PORTUGAL V i E BRASIlI publicada sob a direcção do VISCONDE DE LAGOA DA ACADEMIA fORTUCUESA DA HISTORIA PROPRIEDADE DA LIVRARIA CIWLIZAÇAO
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